<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707</id><updated>2024-10-06T22:26:15.716-07:00</updated><category term="Crônicas de Balaio"/><category term="Histórias que vou catando por aí"/><category term="Poemas no Balaio"/><category term="Quem disse que criança não gosta de ganhar livro de presente?"/><title type='text'>BALAIO DA KARE</title><subtitle type='html'>[pensamentos e ideias que viraram palavras]</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default?max-results=10&amp;redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default?start-index=11&amp;max-results=10&amp;redirect=false'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>63</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>10</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-1819899826473393431</id><published>2015-05-10T15:45:00.002-07:00</published><updated>2015-05-10T15:45:15.946-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>O encontro</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Esta crônica foi escrita&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;em agosto de 2011 e mostra um pouco o meu encantamento com esta pessoa maravilhosa, de nome estranho e simplicidade tibetana. Infelizmente, há alguns dias eles nos deixou e foi pintar o além com suas cores fortes e traços de cabra da peste. Uma forma de declarar meu amor a esse ser humano de altíssimo quilate. Pra todos que, como eu, estão sentindo sua falta, meus sentimentos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Desci do carro e, do outro lado da rua, olhei a casa 197, logo em frente. Vestida de amarelo bem velho e muito cansado tinha portões de ferro, que tentavam bravamente parecer brancos. Seria ali mesmo? Aquela modéstia não condizia com minha imaginação bem adubada do que seria sua casoficina. Com apenas cinco passos atravesso a rua, desviando de poças d’água da chuvinha daquela madrugada. A cada passo a brisa vinda do mar recém amanhecido me acariciava. Nem assim aliviava a tensão. O muro baixinho e a grade de ferro me deixavam ver um homem grande sentado a uma mesa improvisada, rabiscando. Mesmo de longe dava para ver a pequena varanda da casa transformada em um arremedo de ateliê.&amp;nbsp; “Deve ser ele” – pensei. Estava bem no meio da rua quando senti vontade de dar meia volta volver, mas as pernas continuaram obedecendo ao comando de atravessar. Seguimos. Na noite anterior eu não tinha dormido direito, só ensaiando como me comportaria diante dele, o que diria, sobre o que falaria para não parecer idiota. Inútil. Além de dormir mal agora estava ali sem a menor condição de grandes elaborações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTS4nSNFJIUlp4BjXFlbjlbIifTbnOr4Ug-MPycEVvDNEJVhyE20whWv-70l0XxjMNRpmatPbaMsQj7Z8gbAvcpov87gt8XeES9wTMFgePiqqh5_pttUnrmDP7oV8sJXLDFMe8_9bnkUK4/s1600/608.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;240&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTS4nSNFJIUlp4BjXFlbjlbIifTbnOr4Ug-MPycEVvDNEJVhyE20whWv-70l0XxjMNRpmatPbaMsQj7Z8gbAvcpov87gt8XeES9wTMFgePiqqh5_pttUnrmDP7oV8sJXLDFMe8_9bnkUK4/s320/608.JPG&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nem bem pisei na calçada, ele percebeu que eu me aproximava e levantou-se devagar. &amp;nbsp;Procurou a chave do cadeado que mantinha a grade fechada, mas não achou. Entrou em casa, depois de acenar para que eu esperasse, enquanto eu dizia bom dia do jeito mais polido que consegui. Acho que ele nem ouviu. Foi aí que saiu com um chaveiro na mão, abotoando a camisa de estampa grande e colorida, já comentando que - a Flora, minha neta, sempre esconde a chave. Mas é sem querer, sabe? Eu ainda aguardava antes do primeiro portão, mesmo que esse estivesse entreaberto. Pela cara, ele só deveria ter sido fechado nos primeiros anos de sua juventude, o que parecia ter sido há muitos anos atrás. Contornei a parte fixa ao chão por um ferrolho e entrei. Do lado esquerdo, o murinho terminava na parede da casa vizinha onde estava pintada, bem grande, uma cara de sol e outros motivos do litoral sertanejo. Parei, reverentemente, e deixei que as figuras me olhassem. Como em Jericó, o sol parou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEga3xuwSgubVzfDeVvhX2yT7AldQ7zcsMljCBAaw_786HkhKtGPsFsdqyTk_WcR6apXkZ5S_dtlE7hyaBYObYsL1RFASJCoASZZ9EtQPfK0YU6nbDvlONhWNyrKEd33lk0Z_ElplvSjDwN2/s1600/627.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEga3xuwSgubVzfDeVvhX2yT7AldQ7zcsMljCBAaw_786HkhKtGPsFsdqyTk_WcR6apXkZ5S_dtlE7hyaBYObYsL1RFASJCoASZZ9EtQPfK0YU6nbDvlONhWNyrKEd33lk0Z_ElplvSjDwN2/s320/627.JPG&quot; width=&quot;240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anos atrás, eu tinha visto suas pinturas em uma livraria de Fortaleza e fiquei encantada, perplexa, extasiada, absolutamente tocada por suas formas tão nordestinas e suas cores. Ah... suas cores!! Desejei um quadro seu. Sim, desejei um quadro, mas na verdade o que eu queria era a pintura, o desenho, o traço, a vida de seus quadros, sua arte!! Desejei tê-lo como mestre, como professor. Até consegui seu telefone, mas depois perdemos o contato e todas essas memórias e desejos foram parar no meu reino perdido do Beleléo. Mas agora eu estava ali em sua casa, diante do artista! É bem verdade que o homem parecia um pouco cansado de carregar para lá e para cá, sem muitos cuidados, talvez mais que meia dúzia de décadas. Em Jericó o sol parou por 24 horas. Para mim, ele piscou. O sol da parede amarela piscou o olho e eu acordei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– O senhor deve ser o Audifax.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Eu sou o Audifax, mas não o senhor – sorrimos, nos cumprimentamos com um abraço e ele me ofereceu um tamborete com o assento de couro para eu sentar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Bom, eu, é... eu queria lhe dizer que para mim é um sonho estar aqui com o senhor, quer dizer, com você. – Encabulado, ele sorriu baixando a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Eu soube que era você, desde a hora em que o carro parou ali na frente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Começamos a conversar como se já tivéssemos intimidade, tão grande era a identidade de nossas idéias. Depois, foi logo me mostrando os rascunhos que tinha feito e refeito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Já comecei e recomecei umas três vezes, mas não estou convencido. Precisa ter uma continuidade, sabe? Mas assim que eu terminar a publicação do meu último livro vou me dedicar ao teu e terminar sem parar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;De vez em quando, eu parava de ouvir sua voz, que ia ficando cada vez mais distante e sentia como se estivesse flutuando. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Em flashes eu relembrava o encantamento da primeira vez em que vi suas pinturas. Relembrava também o dia em que a história, que agora estava ali para ser ilustrada por ele, me visitou e se escreveu no meu caderno. Agora já não sentia ansiedade, me sentia anestesiada. Um dia eu sonhei em ter um quadro seu e agora estava ali discutindo sobre sua ilustração para meu primeiro livro infantil. Só podia ser sonho!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Você aceita um café? – de novo acordei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Quero sim. Eu adoro café!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A entrada era pela sala, onde se viam muralhas de livros espalhadas por toda parte e nas paredes, quadros. Muitos. Tantos que as paredes pareciam colchas de retalhos. E que belos retalhos. Com dois passos entrei na sala. Quis tirar as sandálias, quis cobrir a cabeça, quis me ajoelhar. “Calma Aninha, é apenas uma sala”. O corredor que dava na cozinha era todinho tatuado de gravuras e pinturas. E na cozinha, mais livros e mais pinturas. Sua esposa nos serviu bolo e café, água e conversa. Depois, voltamos para a varanda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; font-family: Verdana, sans-serif; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsuoRsPjobGZEzytn1sTL7LWQWUcC3AX7BdDf608I1yQqtSuN-LPn768BwsGT40l24ixr7IHsA0Aj6CtItJS5e_LBG9D3Mcq4-EhDfsaH1iLgSsE2U-TRI-J-zYWIAhwDBIxps_nD-EbbW/s1600/616.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsuoRsPjobGZEzytn1sTL7LWQWUcC3AX7BdDf608I1yQqtSuN-LPn768BwsGT40l24ixr7IHsA0Aj6CtItJS5e_LBG9D3Mcq4-EhDfsaH1iLgSsE2U-TRI-J-zYWIAhwDBIxps_nD-EbbW/s320/616.JPG&quot; width=&quot;240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Sabe que na hora que te vi eu já achei que a gente iria se dá bem? Meu santo bateu com o teu. Vai ser ótimo fazer esse trabalho. Agora sai!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Depois de falarmos sobre a ilustração do meu texto, ele começou a me mostrar seus livros e outros trabalhos de ilustração. Contou que estava um tempo sem pintar quadros, mas que pretendia voltar o quanto antes. Tomei coragem e perguntei se ele não toparia me ensinar a desenhar e pintar. Ele sorriu e me sugeriu que o imitasse.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Foi assim que eu aprendi. Imitando. Quando me dei conta, tinha o meu estilo, o meu traço e as minhas cores. Esses livros aqui, eu separei pra ti. Ah, e aquela editora lá, não é boa não. Vou te apresentar a um amigo que está começando agora, mas é um cara decente e competente. Aquele outro, eu andei me estressando com ele. Promete e não cumpre, o material nunca sai do jeito que você espera, enfim. Aliás, como tu estás de tempo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Tenho o dia inteiro livre.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;– Pois pronto. Tu esperas aqui que eu vou ligar para ver se o Flávio pode nos atender. Espera aí.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;font-family: Verdana, sans-serif;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Novamente, me afundei nos meus pensamentos. Só subi, quando estava quase sem ar. Me sentia tão grata e tão agraciada. Ao sairmos olhei novamente para o enorme sol e me despedi com uma simpática piscadinha de olho. Hoje, algumas semanas depois, recebi por e-mail as primeiras ilustrações do livro e diante do computador, novamente experimentei aquela ansiedade, aquele encantamento do nosso primeiro encontro. Dias atrás, depois de ter lançado o livro em São Paulo e de férias em Fortaleza, voltei à sua casa numa visita de surpresa. Mas a surpresa maior foi minha. A casa agora está vestida de azul e no lugar do sol há peixes nadando pelas paredes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/1819899826473393431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2015/05/o-encontro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/1819899826473393431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/1819899826473393431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2015/05/o-encontro.html' title='O encontro'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTS4nSNFJIUlp4BjXFlbjlbIifTbnOr4Ug-MPycEVvDNEJVhyE20whWv-70l0XxjMNRpmatPbaMsQj7Z8gbAvcpov87gt8XeES9wTMFgePiqqh5_pttUnrmDP7oV8sJXLDFMe8_9bnkUK4/s72-c/608.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-6738951139578190314</id><published>2015-03-07T14:43:00.002-08:00</published><updated>2015-03-07T14:50:44.228-08:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Caminho da anta </title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%;&quot;&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Arial, sans-serif; font-size: 13.5pt;&quot;&gt;Pois é...
finalmente, o 2015 chegou também ao Balaio!! Desejando que o seu 2015 continue
iluminando e abrindo um novo t&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;api&#39;i&#39;rapé a cada dia. Boa leitura!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Arial, sans-serif; font-size: 13.5pt;&quot;&gt;Faz tanto
tempo eu li, em um dos textos do Rubem Alves, não me lembro exatamente em qual,
que o único mecanismo de defesa da anta era correr para o seu velho e bom
caminho. A proteção viria pelo fato de que em um dado trecho a passagem era
apertada o suficiente para passar apenas a anta, deixando para trás o eventual
predador que estivesse com as garras e presas encravadas em sua carne.
Particularmente, do alto da minha sapiência de sapiens sapiens, eu não diria
que esta é uma boa estratégia de sobrevivência. Mas considerando o fato de que
essa espécie só está ameaçada de extinção por causa da caça pelos sapiens e do
desmatamento, talvez a estratégia não seja, assim, de todo ruim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Arial, sans-serif; font-size: 13.5pt;&quot;&gt;Pois foi
depois que me mudei, recentemente, que essa história voltou às lembranças.
Dentro da casa nova senti exatamente o que deve sentir uma anta em
reabilitação, que é deixada numa floresta estranha. Não havia caminhos
conhecidos que me fizessem sentir familiaridade ou proteção. Voltar para aquela
floresta, ao final do dia, implicava sempre negociações. A casa não me acolhia.
Não tinha jeito. Na verdade, o espaço novo oferecia uma resistência danada à
minha entrada. Eu desejava um caminhozinho que fosse. Mas não apareceu nenhuma
anta salvadora para me ajudar. Isso só começou a mudar quando passei a receber
na minha nova floresta as pessoas mais queridas: as escritoras das tardes
alegres de terça-feira, as bruxas amáveis dos diálogos com as deusas, as
Azevedas, os Martins a Eva. Elas foram amansando o espaço e ele, aos
pouquinhos, cedia. Passava a ser familiar, se mostrava familiar. Quase sorria
pra mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Arial, sans-serif; font-size: 13.5pt;&quot;&gt;O mais
engraçado, foi perceber que quando o espaço me acolheu eu fui lá e mexi nele de
novo! Mudei uma mesa de lugar, reorganizei um dos quartos, mexi nas plantas,
inutilizei armadores, planejei novos, pendurei outros quadros. Só que dessa
vez, ele me aguentou. Nem reclamou nem nada. Parece que agora somos já
parceiros. Ou como diz a Bel, meu anjo da guarda, finalmente, chegou. É como se
todos os caminhos ali dentro já fossem meus, conhecidos ou não, trilhados ou
não. Todos caminhos da Anna. Aliás, os índios Aikewára conhecem ainda outro
caminho da anta, Tapi&#39;i&#39;rapé. No céu deles, há uma constelação, Anta do Norte,
que surge ao anoitecer na segunda quinzena de setembro, no lado Leste e caminha
pela Via Láctea. Para eles a Via Láctea é o caminho da anta, Tapi&#39;i&#39;rapé. E que
caminho! Essa constelação indica uma estação de transição entre o frio e o
calor para os índios do sul do Brasil e entre a seca e a chuva para os índios
do norte do Brasil.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;margin: 0cm 0cm 0.0001pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;line-height: 18.0pt; margin-bottom: .0001pt; margin: 0cm; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Arial, sans-serif; font-size: 13.5pt;&quot;&gt;Um caminho
da anta que não representa nem só o familiar, nem só a mesmice, e sim o
movimento, a transição, a mudança. Talvez seja isso que faça a presença das
pessoas amadas no novo espaço. Seus passos, seus corpos se deslocam fazendo o
ar dançar, fazendo o espaço bailar numa dança de vida. Aí as pegadas ficam como
pontos reluzentes e o chão vira um céu onde brilha um Tapi&#39;i&#39;rapé só meu, só
nosso. Não leio mais Rubem Alves. Ele ficou um pouco repetitivo pra mim. Mas
talvez todo autor fique repetitivo quando se dedica a defender uma ideia, uma
hipótese. Talvez, até os grandes autores tenham o seu caminho da anta.&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;



&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;



&lt;u1:p&gt;&lt;/u1:p&gt;





&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/6738951139578190314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2015/03/caminho-da-anta.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/6738951139578190314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/6738951139578190314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2015/03/caminho-da-anta.html' title='Caminho da anta '/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-2027114608060835373</id><published>2014-11-16T14:34:00.001-08:00</published><updated>2014-11-16T14:34:42.132-08:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Luz de verdade ou estrela de mentira?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;Para embalar o soninho do domingo e começar bem a semana, uma &lt;span style=&quot;color: #8e7cc3;&quot;&gt;&lt;b&gt;Cronicazinha de Balaio&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;. Depois me diga: você conhece alguma Berenice assim? Boa leitura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; — Alô. Oi Demerval, tudo bem?
Tá certo. Mas eu ligo lá? Tá bom. Obrigada viu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Que bom, capaz que a Clara já leu os contos e quer me dizer
o que achou. Será que ela gostou? Ai ai ai e criança fala mesmo, não tá nem aí
pra paçoca. Aff! nunca pensei que fosse ficar tão ansiosa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Oi Demerval, é o 34, não é? Liguei e ninguém atende.
Ah, deve ser. Bom, vou esperar, então. Boa noite querido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Desliguei o interfone e fui me ocupar com as pequenas
tarefas de quem acabava de chegar em casa, depois de passar boa parte do sábado
lá na EACH. Só não conseguia parar de pensar no que teria achado a Clara, minha
mais nova avaliadora de textos. Tomei banho, comi um sanduíche de queijo com
uma deliciosa taça de vinho e me pus, preguiçosamente, em frente a televisão. A
sensação era de dever cumprido e de euforia pela possibilidade de conversar
sobre o novo conto com uma leitora de 10 anos. Conforme a taça era esvaziada, o
dia de trabalho ia se apagando e o desejo de saber sobre o texto tomava novos
contornos e novos tons. Mas nada do interfone tocar. O que tocou foi a
campainha – será que ela? Mas a mãe deveria interfonar antes, nera? Hummm já
não gostei dessa invasão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Quem é? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;— Berenice! – quê?! Ah não, que que essa moça tá fazendo
aqui? Você não vai convidar pra entrar, vai? Não eu não quero, mas... Mas nada!
Anna Karenina. Você não a chamou, ela não avisou que vinha, nada de
educaçãozinha proforma. Mas, mas, que merda! Eu quase não conheço ninguém nesse
prédio. E vai continuar sem conhecer. Imagina se todo mundo aqui é assim? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Boa noite. Como vai?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;— Oi meu amor, tudo bem. Vim trazer uma comida, que eu
não sei se você gosta, mas minha mãe faz tão bem que você vai adorar, tenho
certeza – não recebe. Agradece e diz que não pode aceitar por causa.... por
causa da tua religião! Fala que tu é judia! É isso. Tá louca? A moça vem aqui
com toda gentileza e eu...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Ah muito obrigada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Você não vai olhar o que é?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Ah, devo? Ééééé... achei que.... deixa pra lá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;— É dobradinha, menina! Ouvi ontem você dizer que é do
Ceará. Como certeza você adora. Vocês chamam de panelada, não é? Minha mãe
também é cearense – eu te falei pra não aceitar. Só falta agora ela se convidar
pra comer contigo. Vai ser lindo tu passando mal só porque não sabe dizer não.
Coisa mais idiota. Não, ela não vai ser louca de fazer isso. Hã? Não duvido de
nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Você gosta não gosta?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Na verdade não, quer dizer, não muito, mas sua mãe deve
cozinhar muito bem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;— Cozinha mesmo. Mas que linda sua casa. Nossa, ela
parece bem maior que a minha! – tá vendo esse é o primeiro passo pra se
convidar pra entrar. Fala logo que você tá ocupada. Sim, bem ocupada, com a
televisão ligada e uma taça de vinho no braço do sofá. Ela vai sacar que é
mentira. Anna Karenina, Anna Ka re ni na, a mentira foi feita para ser usada
nessas ocasiões meu bem. Você ainda não aprendeu?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Ah... muito obrigada. Eu gostei de como ficou. É, pois
é, eu tirei um dos quartos. Não, não conheço sua casa, não – se você não cortar
essa conversa agora, ela vai cruzar a soleira e aí fodeu! Não arreda um
milímetro!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu segurava o depósito plástico, ainda bem quente,
exalando o cheiro típico de panelada, sem me mover. Já a moça, coitada - quer
dizer, coitada de mim - se esgueirava tentando se livrar da minha imagem e espiar
a casa. Ainda bem que as luzes não estavam todas acesas, então não dava pra
discernir muitos detalhes. Só que o calor da comida começava a incomodar e eu
precisava colocar aquilo na bancada – não faça isso! Mas está me queimado! Uma
queimadurinha de nada, não vai fazer mal nenhum. Como não? Aguenta, aguenta
senão tu vai te arrepender. Inventa qualquer desculpe, mas fecha essa porta!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;— Outra hora você vai lá em casa. Ah e o Reinon gostou
muito do livro que você deu pra ele. Ele adorou! Eu também.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Que bom... ele é seu filho... Fico contente. Pode
deixar que outra hora eu passo lá sim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Você colocou aquecedor ou chuveiro elétrico?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Ãh? Que? como assim? Ah... coloquei aquecedor. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — A gente colocou chuveiro. Você tá gostando?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — De quê? Ah claro, tô, tô sim – eu disse não disse? mas
eu te disse, eu te disse – Ô Berenice, querida, muito obrigada pela visita, mas
eu acabei de chegar do trabalho ainda tenho que fazer umas tarefas e não quero
dormir tarde. Se você me dá licença eu vou indo, quer dizer, vou ficando –
hummmm até que enfim aprendeu a mentir, heim! E não é que você mente bem,
filhinha! Até eu tô achando que a gente vai ter que trabalhar ainda hoje!
Hahahahaha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Claro, claro. Outra hora eu volto. Mas essa flor é de
verdade ou é de mentira?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — É de verdade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Posso ver?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Qual? ah... essa é de mentira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Logo vi. Mas parece de verdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;— É né? Pois é Berenice... eu realmente queria entrar.
Muito obrigada pela visita e pela panelada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Depois você me diz o que achou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Pode deixar. Boa noite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Linda essa flor. Depois você me diz onde comprou? Vou
querer uma igual!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;— Boa noite. Digo, digo sim. Vou procurar o cartão,
porque agora eu não faço ideia de onde está. Tchau. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Tchau meu bem. Linda sua casa. Mas parece de verdade
essa flor. Tem certeza que ...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Tenho. Absoluta. Boa noite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; — Boa – meu deus, que mulher chata! Nunca menti tanto em
tão pouco tempo. E ainda vou ter que dá um jeito nessa panelada, heim? Aff!
Minha vontade era rebolar no mato com depósito e tudo! Ah não, experimenta!
Experimenta você! Ai Anna Karenina, tem horas que tu é tão antipática! que eu nem
sei como eu te aguento. Eu é que não sei como EU te aguento. Pois eu sei. Sem
essa Anninha aqui, meu bem, você não teria escapado nem da diarreia do primeiro
ano de vida. Engraçadinha! Diarreia é o que eu vou ter se comer isso aqui... não,
não vai ser agora que eu vou gostar de panelada. Experimenta, experimenta! Como
você é besta! Então pronto vamos fazer um brinde!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Troquei o refil da taça e fui pra minivrandinha assistir
o entardecer. No céu, já dava pra ver dois ou três pontinhos brilhantes. Seriam
de verdade ou de mentira? Que importa? Algum deles até poderia já nem existir e
sua luz ainda viajando. Seria uma luz de verdade ou uma estrela de mentira.
Ainda prefiro uma luz de verdade, embora em algum momento se possa fazer uso de
uma estrela de mentira. Mas com parcimônia, claro! – ah não, não é possível que
seja essa moça de novo!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Alô. Oi Clara! Já? Não, não. Desocupadíssima. Quando?
Perfeito. Tô indo aí agora!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,sans-serif; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/2027114608060835373/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/11/luz-de-verdade-ou-estrela-de-mentira.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/2027114608060835373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/2027114608060835373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/11/luz-de-verdade-ou-estrela-de-mentira.html' title='Luz de verdade ou estrela de mentira?'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-802376105961588581</id><published>2014-09-21T15:40:00.004-07:00</published><updated>2014-09-21T15:41:20.370-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Horizontes</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;Depois de muitas semana sem novidades, o Balaio apresenta a crônica de uma mudança: Horizontes. Boa leitura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;Desde maio acompanhei a
reforma para que ficasse tudo do nosso jeito, meu e das minhas possibilidades,
ou seria da minha limitação financeira? Tanto faz. Tudo numa sequência pensada
e repetida por cada um que me prestava serviço. Primeiro você põe o gesso, que
pose vir com a colocação do piso frio. Depois, o piso de madeira, a primeira
demão de pintura, a montagem dos móveis e a pintura final. Ah, e antes de tudo
isso, as adequações das tomadas e interruptores. Sim, e adequações também da
minha ignorância completa de que um apartamento novo é entregue faltando muitos
ajustes. Finos e grossos. Tudo pronto e era a hora de mudar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;Contratei uma
transportadora, que me ajudaria também na arrumação. Mesmo assim, uns dois
meses antes comecei a arrumar caixas e mais caixas com os objetos mais
queridos: livros, máscaras e pequenos souvenires das viagens. E foi aí que a
mudança começou. A cada caixa fechada e identificada a casa passava a ser menos
minha. Era mesmo uma desfiguração. Comprei um rolo gigante de plástico bolha e
comecei a catar as caixas deixadas nas esquinas, pelos comerciantes do bairro,
nos dias de coleta de lixo. Arrumar meus livros, carinhosamente, nas caixas,
era divertido e acabava servindo para me desligar dos problemas da EACH. A
decisão mais demorada foi a de escolher uma das transportadoras. Feito isto,
estava tudo certo. Até já tinha conferido, uns dias antes, a faxina no ap novo.
E na segunda, antes da data marcada, liguei pra transportadora e confirmei a
contratação. Estava tudo no lugar. Ou quase tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;Uma amiga tinha me dito que
se eu precisasse ela dormiria lá em casa para me ajudar com as últimas tarefas
e estar comigo na hora da mudança. Só que ela não deu conta de terminar um
trabalho e me deixou na mão. Aí tive que decidir o que deixaria de limpar e de
arrumar na noite anterior e passar pro dia seguinte, mesmo. Não tinha outro
jeito. Enquanto eu tentava não me desorganizar por causa da ajuda que não
viria, o telefone tocou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Alô. Boa noite. Sim, é ela. Como vai? Tudo. Sim, está
tudo certo, mas conversei com vocês hoje à tarde. Como não? Qual é a sua
transportadora? Ahhh não querido, eu contratei a Horizonte. Não, não contratei
a de vocês, não. Como assim? Nãããão, o que você tem é um pedido de orçamento.
Não uma confirmação. Bem, então, foi bom você ligar para confirmar. Cancele,
por favor. Por que não? O senhor pode ligar para eles e desmarcar, certo? – a
conversa parecia surreal. Enquanto o moço de outra transportadora me dizia que
eu tinha contratado o serviço dele e que àquela altura do campeonato não era
possível desmarcar, porque os rapazes estavam em outra viagem e os telefones
estavam fora de área, e que aquilo teria um custo e blá, blá, blá, eu ia me
aperreando de um jeito... – Pois está bem, seu Joaquim. O senhor me manda os
e-mails em que eu contrato o serviço e se isso aconteceu eu arco com esse
custo, está bem? Boa noite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pensei
que não teria sono para gastar naquela noite e que poderia me dedicar à limpeza
e arrumação, só que não. Estava exausta. Mas foi inevitável pensar que se eu
poderia ter contratado duas transportadoras, também poderia ter contratado
três. Valha-me deus! E se amanhã aparecerem dois caminhões na rua, minha nossa
senhora! Essa possibilidade existia mesmo, porque o primeiro orçamento foi
feito por um site e como eu estava tendo que resolver 7.452 problemas ao mesmo
tempo, não seria muito difícil que eu tivesse contratado duas transportadoras. Enfim,
peguei no sono. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Já no
dia seguinte, acordei antes do despertador e me organizei para estar pronta
quando a campainha tocasse. E antes mesmo de me levantar já ouvi quando o
caminhão chegou e os rapazes que desceram dele ficaram conversando na calçada
em frente de casa. Gelei junto com o pensamento de que aquele poderia não ser o
caminhão que eu tinha contratado. “Qual era mesmo o nome da empresa? Ação,
Aline, não, Anninha, Horizonte, mulher. Ah, é mesmo. Horizonte. Horizonte.” Fui
na pontinha dos pés até o quarto da frente espiar pelas frestas da janela pra
ver se era o caminhão da Horizonte. Ufa! Nossa senhora! como é bom sentir
alívio. Agora eu entendo um doido lá te Russas que vivia puxando os cabelos só
pra sentir o alívio de parar. Nunca o horizonte visto pela minha janela tinha
sido tão lindo. Tudo bem, tudo bem, mas isso não era garantia de que outro
caminhão não viria. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bom, mas
pelo menos o contratado estava lá. Pouco depois eu ouvia a campainha tocar e
quatro homens desconhecidos entraram na minha casa. Essa foi a maior
experiência de administração que eu já vivi. O bom é que já tinha muitas caixas
prontas para eles se divertirem. Os móveis maiores que podiam já ser arrumados
no caminhão iam sendo cobertos e deslocados. Nunca vi pessoas com tanta força,
como aqueles caras. O seu Raimundo foi encarregado de arrumar meus utensílios
de cozinha e ele era incrivelmente delicado com as taças. O Donizete era o mais
forte e aperreado do juízo. Deus me livre! A loucura de tantas perguntas e
demandas até me fazia esquecer da possibilidade de outra transportadora
aparecer. Foi aí que a campainha tocou de novo. Será que eram Marília e Bianca?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não, não
era. Outro desconhecido diante do meu portão e no horizonte atrás dele, um
caminhãozinho de mudanças. “Me lasquei.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Dona Ana? Eu sou da Transporte Ação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Como você se chama?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Marcelo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Bom dia Marcelo. Querido, deve estar havendo alguma
confusão, mas eu confirmei com outra empresa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Mas a moça do escritório disse que estava tudo certo.
Ela não ligou pra senhora ontem?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Não, não ligou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Depois
dessa conversa rápida ele se afastou para entrar em contato com o pessoal do
escritório. Fechei o portão decidida a não me estressar com aquilo: eu pagaria
o que fosse preciso e não me sentiria culpada. Era preciso entender que em meio
a tantas decisões e escolhas, era possível, muito possível cometer enganos. De
novo me lembrei do doido lá de Russas. Levei a mão direita até a nuca, deslizei
os dedos pelo cabelo e puxei de levinho, depois um pouco mais forte. E aí senti
o alívio do doido. Mal pude responder as últimas demandas dos meus ajudantes e
já era chamada pela campainha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lá fora,
o mesmo rapaz de antes e agora também um homem mais velho e uma moça. Eram os
envolvidos na mudança e a moça da arrumação. Ah, e a moça do escritório, pelo
telefone, porque eu pedi que ligassem para ela, já que a cópia do e-mail que me
apresentavam não dava indício nenhum de que eu tinha contratado o serviço
deles. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Bom dia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Olhe eu tenho como comprovar que a senhora contratou o
serviço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Bom dia querida. Veja, pelo e-mail que me apresentam
aqui, não tem não.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Ou a senhora arca com essa despesa, ou eu vou acioná-la
na justiça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Olhe querida, não me ameasse porque aí sou eu que posso
colocar você na justiça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Eu não estou ameaçando, mas a senhora vai ter que
assumir esse gasto, porque a blá, blá, blá, blá....&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por um
instante eu me desliguei daquela conversa. Puxei de novo meu cabelo, bem de
levinho e voltei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Está bem, eu vou decidir o que faço. Bom dia pra
senhora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Devolvi
o telefone para o rapaz e me dirigi ao senhor mais velho, que depois eu soube
era pai dele. Ele muito gentilmente me explicou que vieram de muito longe e que
ficariam muito gratos se eu pudesse pagar a gasolina. Que deveria ter havido
algum engano e que isso e aquilo. A moça também foi muito solícita. Aí acordamos
o que seria dividir o prejuízo e assim, fizemos. Depois que eles foram embora
já era mais de 9 da manhã e eu pensei que talvez nenhuma outra transportadora
fosse mesmo aparecer. De novo o alívio. Lá dentro, a casa ia deixando de ser
casa e passava a ser só casca. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;— Quem aceita um café? – perguntei só por perguntar,
porque o café era mesmo pra mim. Precisava me acalmar para não perder energia
com aquela confusão. Inutilmente tentei encontrar um lugar onde não houvesse um
desconhecido para tomar meu café em prece. Tudo bem. Tomei mesmo assim. Logo
depois as meninas chegaram e eu pude me sentir mais segura para empreender
aquele trabalho de Hércules. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Graças a
arrumação tão antecipada dos livros, às 11 e meia já estávamos a caminho da
nova morada. Tão estranho sair de um bairro querido. Os sentimentos eram muitos
e confusos. Até vergonha eu sentia por estar me mudando. Pode um negócio
desses? Tempos depois, lá estávamos nós descarregando os móveis, as caixas, as
malas, os objetos, tudo, na casa nova. À noite, quando as meninas foram embora,
muitas caixas já estavam esvaziadas, muitos livros na estante, louças no
armário e o espírito exausto, porém contente. Diante da mini sacadinha, um
lindo botão amarelo, que subia lentamente pelo céu, me dava as boas-vindas. Boas-vindas
à casa nova, boas vindas ao novo horizonte.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/802376105961588581/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/09/horizontes.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/802376105961588581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/802376105961588581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/09/horizontes.html' title='Horizontes'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-5677306141172838205</id><published>2014-07-08T11:39:00.003-07:00</published><updated>2014-07-08T11:39:21.326-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Creme Nivea</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Em época de Copa do Mundo a gente fica, sempre que pode, longe do computador. Mas hoje, pra comemorar a semifinal mais uma &lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;Crônica de Balaio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;! &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; No dia
seguinte ao aniversário da Dona Rosa, a casa da tia Tota estava cheia. Eu e
minha mãe, três das Antoninas e a Ionele e o Lúcio. E o Lúcio é uma das muitas
exceções àquela máxima que diz que mulher fala mais que homem. Até a Ionele,
que fala pelos calcanhares, precisa pegar senha pra falar, quando ele está.
Pois naquela manhã não foi diferente. Quando me levantei estavam todos ao redor
da mesa. Umas já tinham desjejuado, outras estavam terminando e o Lúcio falando,
contando, dizendo, explicando. Ai ele foi até o quarto tinha dormido e voltou
com uma sacola. Cada vez que a mão saía da embalagem trazia consigo um
pacotinho colorido brilhante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Esse é
um presente ótimo! – ele se elogiava – Barato e útil! E igual, que é pra
ninguém brigar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu dei
risada com a cena e apesar de ter sido a última a ganhar, fui a primeira a
abrir a lembrancinha. Era uma lata azul de creme Nivea. Ligeiro como quem
rouba, aquela lembrança me trouxe outras: férias de julho... viagem em família
para Juazeiro do Norte... casa do Marcos. Mal chegamos e meu pai logo inventou
um desculpa para sair de casa: fazer um mercantil para colaborar com nosso
anfitrião. E fomos eu, painho e Marcos. A cidade era muito maior que Russas.
Tantas lojas, tantas casas. Eram tantas as paisagens novas, que só percebi que
não tinha mais unha pra roer quando doeu o dedo. Pois é, eu tinha voltado a
roer unha e começava a sentir umas dores de cabeço inexplicáveis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Tinha
hora que os dedos ficavam tão ressecados que era necessário umedecê-los, aqui
que fosse com saliva. Minhas mãos, que já completavam 11 anos, tinham voltado a
habitar mais minha boca do que o resto do mundo. Até acho que vem dessa época
minha loucura por hidratante para as mãos. Mas a saliva engana. De cara, ela
umedece, para logo em seguida ressecar. O alívio só vinha quando eu usava os
cremes de minha mãe. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando
chegamos no supermercado, eu me separei do bando e fui passear sozinha entre as
gôndolas. Sempre gostei da arrumação dos produtos nas prateleiras. Paro na
sessão de higiene pessoal, hipnotizada pelo mar azul dos produtos Nivea. Mas
fui capturada especialmente pelas latinhas de hidratante. Tão lindas e
pequenas, tão adequadas ao bolso de uma menina com mãos ressecadas. A primeira
reação àquele desejo foi pegar uma e abrir. Mas não tive coragem de usar. Foi
exatamente nesse momento que me surpreendi com meu pensamento de que eu poderia
pegar aquela latinha. Tive tanta vergonha, que senti minhas bochechas mornas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fechei a
latinha contra mim mesma e a devolvi para a prateleira. Até pensei que
estivesse livre da tentação. O problema é que eu não consegui esboçar nenhum
movimento que me tirasse dali. “Já sei! Vou pedir pro painho! Esquece. Ele não
vai nunca comprar isso. Mas eu vou pedir e insistir tanto, que... Não vai
adiantar nada. É melhor pegar logo.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Contra a
vontade de metade de mim, procurei meu pai. Ele já se encaminhava para o caixa.
Talvez se eu colocasse no carrinho sem eles ver, desse certo. Fiz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — O que
é isso, Anninha? – não respondi, apenas mostrei – Não, disso nós não precisamos.
Devolva lá vamos embora. “Como não precisamos? Eu preciso e muito! Que que eu
te disse? Eu te disse, não disse? ”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Caminhei
desoladamente lenta até a prateleira, decidida a devolver a desgraça da lata.
Com movimentos automáticos coloquei e tirei a lata da prateleira um sem número
de vezes. “Ah, anda logo, bota isso no bolso! Ninguém tá vendo e ninguém vai
saber. Mas... mas se o painho descobrir? E quem vai contar? Eeeeu que não vou.”
Enfiei a latinha no bolso da bermuda e vi milhões de olhos nas prateleiras, no
teto, no chão, em todo lugar. Os de Deus só apareceram depois.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando
cheguei ao caixa, meu pai já passava os últimos produtos. Passei por trás dele
sem nem olhar para a moçado caixa. Vai que ela tinha a visão além do alcance?!
Com a mão disfarçando o volume redondinho no bolso, entrei logo no carro e
fiquei quieta. Mas só por fora. Porque por dentro eu sentia uma Amazônia de
sentimentos: culpa, euforia, satisfação, orgulho, medo, tudo! À noite quando fomos
dormir dei um jeito de ficar com a latinha nas mãos. Ali a empolgação já tinha
passado e eu me corroía pela frustração de não poder contar pra ninguém,
mostrar pra ninguém, compartilhar com ninguém! De que tinha adiantado? É,
realmente o crime não compensa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Vixe
menina! Pra onde tu foi, heim?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Eita
Lúcio, tão longe que tu nem imagina. Essa lata de Nivea me levou pra uma visita
que fizemos a um primo, em Juazeiro. Lembra mãe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; — Lembro
sim. Aliás, lembro também que tu andava pra cima e pra baixo com uma latinha de
Nivea. Quem foi que te deu?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/5677306141172838205/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/07/creme-nivea.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/5677306141172838205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/5677306141172838205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/07/creme-nivea.html' title='Creme Nivea'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-7860558141560806913</id><published>2014-05-06T18:26:00.002-07:00</published><updated>2014-05-06T18:28:22.869-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Antônia, Tota, Toty</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Mais uma &lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;Crônica de&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; Família para encher o &lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;Balaio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; de delicadeza e ternura. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O ano
era o de 1937. Isso mesmo. O ano em que Getúlio Vargas outorgou a nova
Constituição, implantando a ditadura do Estado Novo. Também foi nesse ano que a
rádio Tupy entrou no ar e Orlando Silva gravou Carinhoso, de Pixinguinha e João
de Barro &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;-&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;
“meu coração, não sei porque, bate feliz quando te ver...” Ainda naquele 37 foi
inventada a caneta esferográfica, pelo húngaro Ladislao Biro e a primeira
fotocopiadora foi patenteada nos EUA. Muitos ganhos. Mas foi este mesmo ano que
o Brasil perdeu Noel Rosa. Pois é. O país perdia um ícone na música e eu
ganhava uma tia. Quer dizer, ganhar não ganhei, porque ali eu ainda nem era.
Mas que foi um ganho foi. No dia 22 de setembro de 1937 nascia Antônia
Teixeira, que jamais seria chamada pelo nome de batismo e sim por uma apelido,
que depois eu soube, é destinado aos Antônios e Antônias: Tota. Ou no caso dela,
Toty. É assim que ela assina seus quadros e textos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não foi
por caso que comecei a conversa com dados históricos. Tem tudo a ver com ela,
que ainda muito moça se formou professora na Escola Normal em Crateús e por
anos a fio ensinou Estudos Sociais. Começou ensinando na Escola da Dona Rosa
Morais, prima legítima de sua mãe e sua alfabetizadora. Depois foi professora
no Colégio Pio XII, cujo proprietário era o tio Zezé, que antes era o Monsenhor
Bonfim e depois foi o companheiro cansado da tia Joaninha. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Nascer no ano de implantação
do Estado Novo foi só uma tolice da História. A Toty sempre demonstrou ter
liberdade e independência. Tanto, que casou tarde e com um homem mais novo que
ela, o que era bem incomum naquele tempo. Acho que minha tia sempre teve a
liberdade do artista e a elegância do esteta. E por causa dessa história toda
ela é sempre requisitada para escrever os discursos, as cartas, as falas bem
articuladas, com a medida certa de emoção, que tanto enobrecem a invenção de
Biro. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Agora em outubro, a cidade
comemorou o centenário de Dona Rosa Morais. Claro que a Toty não só participou
da comissão organizadora, como preparou lembranças delicadas, dedicou-lhe um
texto, como inevitavelmente seria, e junto com outros ex-alunos ainda cantou na
lá frente. Dos nove ex-alunos, que vi lá no palco, um terço era de Azevedas:
Toty, Joaninha e Madalena. Todas organizadoras, cada uma no seu reino. E ela, a
Toty, é a senhora das pequenas coisas, dos detalhes e da mansidão. Também é a
desenhista oficial das árvores genealógicas. A primeira, ela fez, se não me
engano, na comemoração das Bodas de Diamante dos meus avós. Fez treze. Uma para
cada filho e outra pro vovô e a vovó. Dá para imaginar quantos nomes precisavam
caber numa árvore de doze galhos? Mas com a letra dela coube! E a ideia foi
sendo sofisticada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;A última versão da árvore
ela preparou para entregar a cada irmão durante a celebração dos cem anos de
nascimento de seu pai. E não foi desenho não. Cada irmão recebeu um galho e uma
caixa de papelão bem bonita, com a foto dos pais sobre a tampa e sua própria no
verso. Dentro, vinham pequeninas molduras 3 x 4, feitas de biscuit com a foto
de cada um daquele galho. E o tronco, sobre a mesa bem arrumada, só esperando os
galhos revividos carregados de fotistórias penduradinhas. Aí cada filho, em
ordem alfabética de nascimento ia incluindo seu galho. O mais divertido era
ouvir os “agora tu Zé, agora a Joaninha, é tu Socorro, cadê a Madalena? é a vez
dela...” Foi uma festa tão linda, que os olhos todos ficaram sorrindo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Quando crianças era na casa
dela que ficávamos com minha mãe durante as férias em Crateús. A casa, as
roupas, o universo dela inspiravam a elegância e a atmosfera da artista, que eu
imaginava. O desenho de sua casinha com tantas plantas, baixinha, aconchegante,
me dava sempre a sensação de estar entrando num mundo de outro mundo. Ainda
hoje eu tenho um não sei quê de excitação com o veludo e o dourado. Quando ela
começou a reforma nessa casa, foi morar na casa da Coronel Jiló, onde morou com
sua avó durante a infância. Não só ela, mas cada um que ia completando seus
sete aninhos, saída do Curral Velho, que ficava a uns 20 quilômetros da cidade,
e ia morar com a Mainha, para estudar. Era assim que eles chamavam a avó.
Quando a tia Tota morou lá, pela segunda vez, o sobrado, que durante o ano era
o quarto do Tino, virava um albergue nas férias! Mas diferente de um albergue,
lá o dia começava igual para todo mundo, que estivesse hospedado, e bem cedinho.
&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;O sol ainda limpava a remela
dos olhos e lá ia a tia Tota subindo a escada de madeira, seguida pelos sons
dos próprios passos, com uma bandeja carregada de copos da Tupeware cheinhos de
leite com nescau. Ela nos acordava com aquela voz mansa e entregava o copo. A
nós cabia tomar o leite no gute gute, praticamente dormindo. Limpávamos o
bigode de leite com a borda do copo e nos deitávamos de novo. Sua marca
registrada. Duvido que haja um primo ou prima que não lembre disso! Mas ruim
mesmo era pro coitado do Júnior, hoje seu genro, que quando namorava a Jô e se
hospedava por lá, tinha que tomar o bendito desjejum sem suportar leite. Mas isso
ele só confessou outro dia. Essa é a Dona Toty, que nem a mais avançada
fotocopiadora vai conseguir reproduzir! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Conhecedora do mundo através
dos livros, só há pouco tempo teve a oportunidade de desbravá-lo com suas
próprias pernas. Foi depois que a vovó decidiu que já estava na hora de
encontrar meu avô, que as Azevedas resolveram ganhar esse mundão de meu Deus e
começaram a fazer viagens, muito simples para alguns, mas para nós, épicas! E
foi na primeira viagem delas para a Europa que ela ganhou o título de MC Toty. Sendo
ela a senhora das coisas meticulosas, precisas e cuidadosas não poderia jamais
ser a senhora da ligeireza. Isso fica pra Socorro ou pra Madalena. E foi aí que
durante os passeios em Lisboa, sempre se estava a esperar por ela. De certo,
encantada com tudo aquilo que via. Eu faria o mesmo: me demoraria diante da
mais simples visão do velho mundo. Claro que isso virou motivo de chacota entre
as irmãs. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Cadê a Toty? – perguntava
uma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Ah, a mata capim deve tá
examinando a... – respondia a Socorro aperreada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— E Toty, heim, cadê? –
perguntava outra.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Ah, a mata capim... já
viu! – respondia a Socorro gesticulando com se imitasse a lentidão da irmã. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;O MC vem de mata capim que é
tudo que se demora tempo suficiente num lugar a ponto de matar o capim sob seus
pés. Aí o Brenno que é gaiato que só cunhou o novo apelido moderno pra tia: MC
Toty. Isso virou a razão das melhores rinchadeiras entre elas. Sim, porque se
há uma habilidade que é de todas é a risada. Como elas se divertem quando estão
todas juntas. Pois é, mas a Toty não é só esse anjo de candura, não.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Nessa colheita de histórias
sobre a família da minha mãe fiquei sabendo de uma espetacular. Foi a mainha
que me contou. Era uma época do ano de festividades religiosas e meus avós
tinham ido à quermesse no Santo Antônio, um vilarejo mais ou menos perto da
fazenda. Elas, que têm apenas um ano e oito meses de diferença, tinham ficado em
casa com os irmãos. Aquele tempo o maior cuidava do menor, não importando o
quão pequeno fosse o maior. Acredito que minha mãe tivesse seis e ela quatro ou
cinco anos. O que minha mãe me disse foi que como ela, Vilanir, era a mais
velha e portanto, tinha cuidado da irmã, ganhou de presente a boneca de
celulose que meus avós deviam ter ganhado nas brincadeiras da quermesse. Pois a
Toty, num ato de fúria infantil, não teve dúvida e jogou a pobre boneca no
fogão a lenha. A mainha conta que numa lambida só o fogo levou a bonequinha. Aí
deve ter sido aquele chororô e briga. Mas isso eu só imagino porque ela não
contou nada. E o melhor é que a própria Toty não se lembra do episódio. Mas tem
nada não, tem a Vilanir pra contar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Trebuchet MS&#39;, sans-serif; font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Hoje
elas devem se encontrar mais tarde lá em Crateús, pela triste ocasião do
velório da Marizinha, que foi criada junto com elas. Vão começar tristes e vão
chorar, como de costume, mas sempre terminarão dando risadas das histórias das
quais irão se lembrar para manter viva a memória da amiga. A Dona Toty, com
certeza, está preparando alguma homenagem. Porque ela é assim: a senhora da
generosidade que há nos pequenos gestos de carinho. A senhora por quem meu
coração vai sempre bater feliz e meus olhos sorrir quando a encontrar. E eu sei
porque.&lt;/span&gt;&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/7860558141560806913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/05/antonia-tota-toty.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/7860558141560806913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/7860558141560806913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/05/antonia-tota-toty.html' title='Antônia, Tota, Toty'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-7264404946103636075</id><published>2014-04-04T06:49:00.000-07:00</published><updated>2014-04-04T06:49:25.991-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Trinta e cinco centímetros de rio</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Bom dia, bom dia! Essa não demorou tanto, não é? Então, vou direto ao assunto. Boa leitura de mais uma &lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;Crônica de Balaio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando eu nasci, minha mãe já era
costureira. Já vivia mexendo com panos, e como dizia o tio Lisboa, “coisa mais
estranha, essa que tua mãe faz. Ora, por quê&lt;b&gt;?&lt;/b&gt;, porque ela pega um pedação de pano inteirinho, aí pinica,
pinica, pinica e depois sai costurando tudo de novo! A gente pisca tem um pano,
pisca, ai um monte de retalhos, pisca de novo, vê uma blusa. Coisa mais
estranha, essa que tua mãe faz.” Pensando assim, pode até ser. Mas é linda a arte
da costura e eu me divertia demais com os instrumentos de trabalho da mainha.
Os botões eram os meus favoritos. Não será que toda criança gosta de brincar
com botões? E a cada visita da tia Lourdes, ou de qualquer outra freguesa, o
ritual era o mesmo: pegar os cortes de tecido, elogiar ou falar mal do gosto da
freguesa com a freguesa, olhar os modelos, debater, opinar e logo em seguida
tirar as medidas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aquilo pra mim era um mistério.
Porque algumas medidas eram redondas: cintura, quadril e busto; outras eram
retas: largura dos ombros, comprimento da saia, altura da pala, tamanho das
mangas, mas todas, sem exceção, eram tomadas com sua trena e viravam
centímetros, invariavelmente. Ela tinha um chamego com aquela trena. Quer
dizer, ela tinha um chamego com todas as suas ferramentas de costura ou
qualquer outra. Sim, porque lá em casa quem consertava os eletrodomésticos,
fazia os pequenos reparos, desentupia, pintava e bordava era a mainha. Mas a
trena, não sei se por sua versatilidade, era usada por outros moradores da
casa, que não raro, ou melhor, frequentemente, para não dizer sempre, a
deixavam em qualquer outro lugar que não a gavetinha da máquina. A mainha
ficava possessa, como ela mesma dizia. Quando a encontrava, dobrava em quatro e
surrava a coitada da mesa, que não tinha culpa nenhuma no cartório. Só se ouvia
era aquele estalo seco, que ia de taaá a tiii, dependendo de quanto da trena
pegava na mesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A trena realmente era uma
versatilidade em pessoa, quer dizer, em objeto. Era também com ela que a mainha
registrava o nosso avanço vertical, o que viria a se repetir naquela típica
quarta-feira de outono, se é que há outono na Caatinga cearense. Mamãe tinha
ido à rua comprar uns aviamentos para as últimas costuras e chegava com uma
trena nova, bem linda. De um lado, toda amarelinha com números e marcações em
preto, e do outro pedacinhos alternados e iguais em branco e vermelho, com umas
chapinhas de metal arrematando as pontas. Ela devia estar ansiosa para usar
logo a trena. Tanto, que mal entrou dentro de casa, chamou logo os três. A
sequência, claro, era a de costume: Anna, Júnior e Ney. Sempre era uma
diversão, só que naquele dia foi especial. Eu nunca me senti tão mais alta que
meus irmãos. Trinta e cinco centímetros a mais! E a mainha ainda me mostrou na
trena nova o que significavam 35 cm. Trinta e cinco novos centímetros, que não
saíram mais da minha cabeça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como eu era grande! Dali em diante
passei a olhar o mundo a partir dos meus 35 cm a mais. Peguei escondida a trena
velha e saí com ela no bolso do calção feito com o retalho de uma saia da tia
Lourdes. Mesmo enroladinha e bem apertada, parecia que eu carregava uma lata no
bolso. Primeira parada, o quintal. Mas no caminho, encontrei o Hafles e foi
inevitável. Quarenta centímetro de cachorro sem rabo. Depois o Túlio: 25 cm de
gato sem rabo. Eles não me deixavam esticá-los pela orelha e pelo rabo para ter
uma medida mais exata. Que droga!, mas tudo bem, eu não entendia mesmo porque
eles tinham que ter rabo&lt;b&gt;?&lt;/b&gt;. Quando
cheguei no quintal, aí o desafio era ainda melhor: medir as árvores. Foi
preciso fazer malabarismos, aliás, todos inúteis, para ter uma medida ainda que
aproximada delas. A única que consegui fazer bem feita foi a dos caules. Foi
uma euforia, quando percebi que tinha entendido como as medidas redondas viravam
centímetros! Corri até meu quarto e voltei com um bloquinho e um lápis. Ora,
era preciso anotar tudinho como a mamãe fazia. Depois fui meditar sobre os
números e comparar aos meus novos 35 cm. Estava conseguindo medir até as
nuvens! É bem verdade que eu tinha que ser muito rápida, mas conseguia me
virar. Nada escapava à minha super trena. Nada. E eu estava realmente
determinada a medir o mundo e todo mundo. Quando a trena não podia aparecer em
público, eu tirava a medida em palmos e depois os fazia caminhar sobre ela para
então saber o tamanho do objeto medido. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Medir a natureza fazia com que eu me
sentisse A cientista. Certamente o que eu pudesse avaliar com minha trena
estaria ao meu alcance, ou ao alcance da minha compreensão. E tudo,
absolutamente tudo podia ser medido por aquele instrumento mágico. Eu estava
bem segura disso. Não por acaso, ela ia comigo pra tudo que era lado. Colégio,
igreja, rua, sítio, mercearia, todo canto. Um dia, fiquei chateadíssima porque
choveu e, como eu estava gripada, minha mãe não me deixou tomar banho com os
meninos. Perdi a chance de medir a chuva. Até anotei no bloquinho: chuva, dois
pontos. Quando percebi que aquela chuva não seria mesmo medida, circulei um
espaço depois dos dois pontos para destacar bem que ali viria uma medida. Ai o
tempo passou, eu fiquei boa e a vida novamente desafiaria minha capacidade
medidística. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Naquela altura do ano, o rio já
estava mais baixo e suas águas mais tranquilas e limpas. Quando o painho disse que,
no sábado, íamos passar o dia no rio, foi um alvoroço! Fiquei só imaginando
tudo de novidade que teria pra medir. Vixemaria, minha lista de medidas iria
crescer demais! Logo chegou o sábado e nós chegamos ao rio. Nem bem desci do
carro já estava procurando as novas figurinhas que ampliariam meu álbum.
Pedras, plantas rasteiras, restos de madeira, casa de caramujo, tudo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Anninha,
minha filha, não vem pra água não? Tá uma delícia de quartel! O que é tu tá
fazendo? – gelei quando pensei que minha fosse brigar por causa da fita métrica
– Bem que eu senti falta dela... – reagi com um sorrisozinho amareeelo... e sem
querer contrariá-la parei com minhas medidas e fui pra água. Estava mesmo
divina! Eu, meus irmãos e água brincando. Pulei, nadei, mergulhei, corri e num
estalo de pensamento senti de novo aquela sensação de euforia. E se embaixo
d’água as coisas tivessem outras medidas? Não resisti. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Sai da água e fui buscar minha trena. Por um segundo, pensei
se ela resistiria a um banho de rio. Mas a resposta veio com ela já mergulhada
em minhas mãos. Tentei inutilmente ficar parada na correnteza fazendo de minhas
pernas um motor. Além da visão ficar estranhamente turva embaixo d’água, nãos
seria possível confiar naquelas medidas tomadas assim de tão mal jeito. Emergi.
Com os olhos ardendo de tanto ficarem abertos na água, fiquei parada só
escutando o barulho que o rio fazia quando passava por mim. Eram palavras bonitas
com bê, éle, às vezes xis e as vogais quase todas. Uma música linda de morrer. As
mãos ainda estavam embaixo d’água quando as separei com o polegar da mão esquerda
no 1 e o da mão direita no 35. Ai a pergunta: quanto rio será que cabe em 35
cm? Fiquei de pé deixando as mãos ainda mergulhadas. Não, assim não dava pra
medir o rio. Soltei o 1 e sacudi as mãos e a trena como se quisesse secá-las.
Sei lá eu pra quê. Voltei a segurar a ponta do 1 com a mão esquerda e deslizei
a direita desde o 10 até o 35 e pousei a trena sobre a água. Mais perguntas foi
o que resultou: pra que lado fica o 1? O 35 segue a correnteza? Devo medir de
lado ou no comprido? Essa é uma medida reta ou é das redondas? Faço um círculo
com a trena e vejo quanto rio passa dentro dela. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Nenhuma das respostas me agradava e eu fui ficando
impaciente. Puxa vida, isso nunca tinha acontecido! Como assim, eu não sabia
medir 35 cm de rio? Acho que quem mede rio mede fora. Não, não, quem mede rio
deve ter um medidor de rio. Ou talvez, mede a areia em baixo d’água, ou das
margens. Mas quem disse que a areia do fundo é rio? Fui ficando ainda mais
irritada com aquelas respostas e perguntas que não me diziam nada. Será que eu
pergunto à mainha? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Maaaaaãe!
como é que a gente mede rio? – ela riu e eu achei que não viria uma reposta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Ah
Anninha, minha filha, medir um rio... cada um mede o rio como pode, como sabe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Mas eu não
seeeei.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Então
inveeeente! – eu adorava quando minha mãe me dizia pra inventar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O jeito foi me tranquilizar e ficar
puxando a trena pela água. Eu, trena e água brincando, enquanto eu inventava um
jeito de medir 35 cm de rio. Foi aí que num descuido a trena nadou da minha mão
e se enfiou na correnteza mundo afora. Uma mão quis tentar pegá-la, mas a outra
não. Um olho quis ficar triste, mas o outro não. E eu fiquei ali paradinha,
esperando que alguma ideia me salvasse daquele desolamento. A trena dançou num
redemoinho e depois seguiu faceira seu caminho, quer dizer, seu aguinho. Me
diverti com a ideia de aguinho. E como as ideias são magnéticas, uma chama a
outra, e além de tudo elas não gostam de ficar sozinhas, logo veio aquela que
me disse que pra medir um rio é preciso nadar com ele. Então estava explicado,
minha trena estava medindo o rio. Pena que essa medida eu não poderia anotar no
meu bloquinho. Daquele rio em diante, passei a conviver com uma ideia que só
veio com meus novos 35 cm: parece que na vida há medidas que não podem ser
registradas e medições que não podem ser controladas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Minha mãe, que quando eu nasci já
era costureira, observou aquilo tudo com a atenção de quem descobre o direito e
o avesso de um corte de anarruga. Na semana seguinte, ela voltou à rua. Chegou
em casa, tomou seu banho e depois do almoço, sentou-se à máquina para continuar
o serviço do dia anterior. Mas nada de se ouvir aquele barulho, tão familiar,
da máquina juntando pedaços.&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Filhaaa!
Venha cá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;— Senhora –
sem dizer nada, ela me entregou uma trouxinha de tricoline com estampa de
gatinhos amarrada com uma fita linda – Taqui pra você continuar fazendo suas
medidas – agradeci com um abraço e um beijo e voltei pro dever de casa, já
mirabolando as próximas medidas. Ligeirinho começou-se a ouvir a máquina. Não
sei que onomatopeia escrever, para descrever bem o barulho da máquina de
costura da minha mãe. Então é melhor não tentar. Melhor é deixar que no
pontilhado das próximas linhas, se escute o barulho da costura -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Será que era possível medir o barulho daquele estranho ofício de minha mãe?&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/7264404946103636075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/04/trinta-e-cinco-centimetros-de-rio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/7264404946103636075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/7264404946103636075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/04/trinta-e-cinco-centimetros-de-rio.html' title='Trinta e cinco centímetros de rio'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-8868343015247714659</id><published>2014-03-30T16:38:00.000-07:00</published><updated>2014-03-30T16:52:08.255-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Quem escreve o que?</title><content type='html'>&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;Queridas leitoras e leitores, mais uma &lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;Crônica de Balaio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;, aliás que acabou de sair do forno. Boa leitura para começar bem a semana.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nunca
pensei em escrever sobre escrever, mas a última crônica da Neila foi
inspiradora. Mesmo assim ainda havia o problema: escrever o que sobre escrever?
Ai volta aquela hipnose da página em branco, da tela em branco, da mente em
branco. Nessas horas, me levanto, faço um café, ou um chá, saio do campo de
visão da página. Tento me livrar dela e arejar o quarto das ideias, pra ver se
elas resolvem aparecer. E olha que em geral funciona, viu? Já sei! Que tal
escrever sobre como eu escrevo? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Uau&lt;span style=&quot;line-height: 107%;&quot;&gt;!&lt;/span&gt;
que grande ideia. Imagina como vai legal pras pessoas ouvirem essa crônica. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Isso é
uma ironia, ou ...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Meu deus, é claro que é uma ironia! O que pode interessar
à pessoas no modo como tu escreve? É muita empáfia, heim!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É mesmo
né? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— É. Aproveita que tá no começo e muda de tema. Já!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;Será? Mas sobre o que eu escrevo?
&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Sobre o que você gosta de escrever?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Na
verdade, sobre qualquer assunto. Tanto gosto de pesquisar para desenvolver bem
um tema, como gosto de inventar uma situação. Mas isso eu até que tenho
explorado pouco nas minhas crônicas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— O que, a invenção?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Unrum.
É... tenho escrito sobre personagens da minha família, memórias de infância, &lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/null&quot; name=&quot;_GoBack&quot;&gt;&lt;/a&gt;sobre algum assunto específico que dê vontade. Aí essa
semana eu quis voltar um pouco pros temas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— E escolheu logo um que não te dá um tema concreto? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas dá
um conflito..., que você nem imagina! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Então, pronto. Desenvolva!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Era o
que eu queria. Mas não consigo pensar e nada suficientemente legal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Ah para com isso, Anna Karenina. Começa. Escreva e deixe
comigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como
assim “deixe comigo”? Eu não posso simplesmente sair escrevendo por aí, quer
dizer, por aqui, qualquer coisa! Vixe... tá vendo? Escrevi “coisa”. Viu como se
eu não pensar o negócio desanda e fica sem pé nem cabeça?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Sabe qual é o problema? É que tu pensa demais e escreve de
menos. Se tu usasse metade do tempo que gasta pensando, pra escrever, tenho
certeza que em todas as aulas teria um texto. Já teria dominado melhor a
crônica e quem sabe estaria escrevendo as histórias infantis. Ou tu já esqueceu
que o que tu queria era escrever pra criança?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não,
claro que não! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Então, tá esperando o que?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como
assim? Tô esperando... esperando o Gílson dizer que já posso escrever contos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— E se ele não disser nunca?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ai,
você faz cada pergunta!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Pois é, faço mesmo. Aliás, não foi tu que disse uma vez
que pra escrever uma crônica era preciso descobrir quem tu é, pra poder ser tu
mesma? Pois pronto. É por isso que eu pergunto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pra eu
descobrir quem eu sou?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Ahhhh... meu deus... Sim e não. Sim, se tu te referes a
quem és escrevendo. Gostou da conjugação? Responda sem falar. E não, se tu te
referes a quem és em todo o resto. Claro que eu não tenho a menor dúvida de que
essas dimensões se misturam. Mas essa mistura não me interessa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como
não te interessa?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Simples assim: não me interessa. O que realmente me
interessa é o teu texto. Por isso é que eu digo pra tu parar de pensar tanto e
escrever, escrever, escrever. Comece que eu dou conta do resto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas
você não acha que tá muito independente, não?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Agora deu, pois se essa é minha natureza, queridinha. Vai
dizer que tu nunca prestou atenção que os textos mais legais são aqueles que se
escrevem sozinhos? Não sem trabalho. Mas quase sozinhos...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hum.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Hum o que, besta? Não tem coragem de admitir?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas eu
que tenho as ideias, eu que penso como entrar e sair de um conflito! Não você. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Tu que pensa!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eu que
penso mesmo! Se eu quiser, paro agora com essa conversa fiada e dou outro rumo!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Ah é&lt;span style=&quot;line-height: 107%;&quot;&gt;?&lt;/span&gt;
quero ver. Tente sair dessa. Mas cuidado! Cuidado pra não perder o fio, pra não
deslizar na concepção e deixar o leitor feito besta se sentindo enganado.
Vamos, quero ver. Me dá só um exemplo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ahhhhhh...
eu poderia... acorda de um sonho. Pronto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Ui! Ainda bem que tu não gosta de lugar comum, né? Imagina
se gostasse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pior
que é mesmo, né? Hum... e se acabasse a tinta da caneta, ou a bateria do
notebook? Aí eu não poderia continuar nesse palavrório.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— É... nem nesse e em nenhum outro. Teu texto ia terminar
antes do fim! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E
se..........................&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— E se nada, menina! Para de pensar e escreve. Escreve. O
texto concreto é o escrito, não o que fica boiando nessa cabecinha...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sem
adjetivos ofensivos, tá bem? Seja boazinha, vá?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Desculpa... tudo bem, tudo bem vou colaborar. Afinal, eu
sou a maior interessada que você escreva bem e se divirta escrevendo. Porque se
uma coisa eu não sou é penico, minha filha. Lembra que um tempo atrás tu quase
via o desenho do teu texto? Lembra? Tu tava usando as palavras, os sinais, a
língua do teu jeito. Aquele sim era o teu texto. E cadê? Onde se perdeu? Que
uma pista? No pensamento, no pensar demais. Parece que vocês quando pensam demais
substituem o fazer pelo pensar e sentem que já fizeram e na realidade não fizeram
nada! Pensar demais te faz fazer de menos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas eu
queria escrever história infantil!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Escreve ora! Escreve crônica e história infantil. Melhor,
escreve as duas em uma! Inventa crônicas em que tu tenha que te colocar como
criança!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; É... eu
andei tentando, mas é muito difícil, dá muito trabalho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Dá muito trabalho porque além de trabalhar o texto tu
perde energia pensando demais. Quando chega no texto já tá cansada mesmo. Mas
diz aí, que mais?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah, já
disse, gosto de escrever sobre minha família, minhas origens. Sobre as coisas
da minha terra. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Aí é que tá. Se tu parar de enrolar e escrever tu não vai
escrever sobre a tua origem, tu vai escrever com a tua origem. Tu não vai escrever
sobre a tua família, a tua terra. Tu vai escrever com a tua terra. Percebe como
é completamente diferente? E quando se escreve com a essência o texto fica
interessante. Alguém já disse que pra falar com o mundo é preciso escrever
sobre sua aldeia. Eu substituiria o sobre pelo com. É isso. Tu precisa só
enfrentar o conflito natural da escrita: o verbo. Então, para de pensar e vai
escrever.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas...
mas...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;— Não tem mais nem menos. Vá escrever. Aliás, outro texto,
porque esse aqui eu dou por encerrado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif; font-size: large;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: large;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/8868343015247714659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/03/quem-escreve-o-que.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/8868343015247714659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/8868343015247714659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/03/quem-escreve-o-que.html' title='Quem escreve o que?'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-967749262813615326</id><published>2014-02-17T15:04:00.002-08:00</published><updated>2014-03-30T16:44:34.640-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>De gêmeos</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Mais uma&amp;nbsp;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;color: #674ea7;&quot;&gt;crônica de balaio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&amp;nbsp;para divertir e começar bem a semana. Boa leitura!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Amanhã é aniversário dos meus irmãos. Sim, eles são
gêmeos. Não, não. São muito, na verdade, totalmente diferentes. Gêmeos bi
vitelinos. Acho que isso foi uma das primeiras palavras do jargão biomédico que
eu aprendi. Claro, e sempre foi muito necessário, pelo menos para mim, porque
meus irmãos nunca, em momento nenhum, nem mesmo dentro do útero de nossa mãe,
se pareceram. Um é loiro dos olhos verdes e o outro é moreno dos olhos azuis. É,
e os danados são lindos! E amanhã eles completam 38 aninhos. Meus irmãozinhos
mais novos! Hoje isso já não faz muita diferença, mas já fez. Então vamos ao
início. Entre o meu nascimento e o deles, mamãe perdeu um filho que nasceu e
logo morreu. Não pude avaliar muito o estrago que isso causou em nós,
principalmente em meus pais, mas posso imaginar. Num daqueles dias encontrei
minha mãe chorando e disse a ela pra não se preocupar que o papai do céu
mandaria outro. E mandou mesmo. Mandou dois!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Dose
dupla de cuidado, fraudas, sapatinhos, roupinhas e leite. Tanto, que eles
precisaram de uma ama de leite. Painho conta que ele secava as fraudas no ferro
de passar, porque não dava tempo enxugarem sozinhas, porque pra completar eles
nasceram num janeiro de bom inverno. E quem nasce num inverno bom no sertão já
nasce abençoado pela natureza. Outro dia uma amiga perguntou à mamãe como tinha
sido criar dois de uma vez com mais uma pequena e ela disse assim, depois de
suspirar profundamente: minha filha... eu venci. E deve mesmo ter sido uma
vitória. Porque só sabe o que são gêmeos, quem convive com eles. Eu coitadinha,
tive que assumir meu papel de irmã mais velha muito, muito cedo. De manhãzinha,
a mamãe colocava a dupla em seus respectivos carrinhos xadrez na calçada para
pegar sol. E quem é que ficava cuidando deles? A irmãzinha aqui. Pobre criança!
Já aos três aninhos eu me lastimava reclamando que aqueles meninos só me davam
trabalho!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Uma vez,
enquanto eu pastorava aqueles dois ratinhos miúdos, nascidos de 8 meses, fiquei
curiosa com aquelas bolinhas de cores diferentes. Não, não, as bolinhas a que
me refiro eram os olhos! Por sorte o papai chegou antes que meu indicador
curioso provocasse qualquer dano mais sério. Eles nem choraram! E olha que o
Ney era chorão. Todo dia depois do almoço, a mamãe nos botava pra descansar. Na
verdade o descanso era pra ela, porque nós descansávamos praticamente
obrigados. Nessa época ainda morávamos na casa velha. A porta do nosso quarto
dava para a sala de jantar onde ficava a televisão e a máquina de costura da
mainha. Eu acordava e ia pra sala. O Júnior acordava e ia pra sala. O Ney, bom,
ele acordava caminhava até o portal do quarto, colocava a cabeça olhando pra sala
e chorava. Ninguém entendia porquê! Aí a mamãe chamava ele pacientemente: venha
cá meu manteiga derretida...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diz a lenda
que ele era manhoso porque durante o parto quebrou o braço. E foi mesmo. Saiu
da sala de parto já com o braço no gesso. Mas parece que ele gostou foi muito
da ideia porque depois quebrou o outro braço e as duas clavículas. Nas fotos de
criança, de tempos em tempos lá está o Ney com gesso. Ele era o preferido da
tia Lourdes. E o Dudu da tia Artemis. Dudu era como o Ney chamava o Júnior. O
Ney falou primeiro, andou primeiro, nadou primeiro, andou de bicicleta primeiro,
mas quem nasceu primeiro foi o Júnior. E talvez por isso, por ser o irmão mais
velho, ele sempre foi mais cuidadoso com os ossos. Em compensação no dia em que
ele quebrou o primeiro e único, deu tanto trabalho... Outro dia da nossa
infância, numa daquelas viagens que o papai e a mamãe faziam até Fortaleza para
fazer o mercantil, nós passamos o maior medo com uma chuva de trovão. Não, não
ficávamos sozinhos, mas a mamãe era nossa coragem. Quando ela chegou, o Júnior
correu, agarrou em sua perna e começou a bater nela chorando e dizendo que
estava feliz porque ela tinha voltado e que estava com muita saudade. Isso
devia ser o jeito dele de exercer a responsabilidade de irmão mais velho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Às vezes
eu fico pensando que gêmeos devem ser pessoas menos propensas à solidão. Não
parece? Afinal eles foram gerados juntos, nasceram juntos, cresceram juntos.
Eles não sabem o que é um dia de vida sem um irmão. Por outro lado, a perda de
um irmão gêmeo deve ser sentida duas vezes. Mas essa hora vai demorar. E eu, graças
a Deus, fiquei bem pouco tempo sem eles. Só que por causa deles, quando criança
eu sonhava em ser adotada só pra ter uma irmã gêmea em algum lugar. Olha que
loucura! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Gêmeos também devem ser
pessoas que se incomodam muito pouco, ou quase nada quando chegam numa festa e
encontram alguém vestido igual. Eles devem pensar que é só mais um irmão. Afinal,
estão acostumadíssimos a ter ao lado um outro ser vestindo um modelo igual de
cor diferente ou pior ainda, nada diferente. A mamãe, que sempre foi uma mulher
sábia, variava uma coisa ou outra e mesmo sem saber do meu desejo de ser gêmea
também, me incluía de alguma forma, compondo modelitos para trios. Mas isso eu
só vejo hoje. Era importante me sentir parte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E a vida
foi ficando mais divertida pra mim quando passamos a brincar os três juntos.
Apanhamos juntos também. O Ney era quem tinha as piores ideias. Já eu e o
Júnior executávamos. Um dia a brincadeira era enterrar o Ney. Vivo, claro! E
como o objetivo não era mata-lo tínhamos que criar um jeito dele ficar respirando
embaixo daquela milanesa de terra. Foi também nesse dia que apanhamos os três
de colher de pau. Eu a primeira, como de costume, depois o Júnior e por último
o manteiga derretida. A sequência era sempre: Anna, Júnior e Ney!!! O Júnior
não chorava nunca, o Ney começava antes mesmo de levar a primeira palmada. E
eu, se o Júnior não chorava, eu não podia nunca dar o braço a torcer! Sim
porque o Ney não mobilizava muito meu espírito ruim, não. Mas o Júnior... Implicávamos
sempre um com o outro. Como a gente brigava! Certamente porque somos muito
parecidos e nos irritava olhar pro outro e ver um espelho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas a
mamãe não se apresentava só para os atos punitivos, não. Ela nos deixava nadar
na montanha de roupa suja esperando que a dona Lúcia chegasse para buscar a
trouxa, nos fazia ajudá-la a lavar área lá de trás botando sabão no chão, onde
escorregávamos de barriga, de costas, de todo jeito. Depois ninguém reclamasse
dos arranhões incontáveis. E ela também pregava suas peças na gente! Quantas
vezes elas não nos deixou, os três abestadinhos, sentados no sofá com um dos
dedos indicadores no umbigo? Pra quê? Essa invenção dela parecia mais uma
garrafada dessas que se encontra nas feiras nordestinas, que serve pra tudo,
sabe? Pois é. O dedo no umbigo servia para engrossar e fazer a chuva demorar,
já que não podíamos tomar banho nos primeiros pingos, e para fazer a televisão
voltar ao ar, quando o que aparecia na tela era aquele chiadinho clássico das
TVs analógicas. Ê dona Vilanir... quanta sabedoria, não?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A rua
era nosso domínio, o quintal um reino, as idas de bicicleta à escola uma
jornada de heróis. E na escola era legal ser a irmão dos gêmeos. Quando eles
estavam na alfabetização, eu já me sentia uma grande irmã mais velha. Na mesma
manhã fui buscar o Ney na diretoria e salvar o Júnior. A ida à diretoria
especificamente por aquela razão me dava uma sensação de... como é?
autoridade... não, respeito. Isso. Caminhei até a sala da Irmã da Graça me
sentindo RESPEITÁVEL. Foi ótimo. Minutos depois sou convocada a atravessar o
colégio para salvar o Júnior que apanhava de um menino bem maior que ele.
Famoso aquele peste. Batia em todo mundo, mas no meu irmão, não. Encharcada com
a boa sensação de respeitável, me entreguei à tarefa. Enquanto a
respeitabilidade começava a se transformar em uma pequena arrogância e
caminhava pisando duro o chão. Aí veio a vida e eu pisei na areia que recobria
o terreno até as salas da alfabetização, que ficavam mais afastas. Tinha
chovido muito e a areia de rio incha com o excesso de água, mas parece estar
encharcada. Pisei com o pé direito e ele afundou tanto, que veio areia até a
metade da canela. Como isso poderia acontecer a uma irmã mais velha tão
respeitável? Sofri com aquilo. Mas segui determinada e quebrar o menino ao
meio, ainda mais agora que estava furiosa com as meias e os kichutes ensopados.
Argumentos e movimentos agressivos, que definitivamente iriam amedrontá-lo e
nunca mais ele iria se meter com os irmão da Anna Karenina, eram ensaiados
minuciosamente na minha cabeça. Quem me conhece deve estar pensando: como ela
mudou! Não mudei nada. Cheguei, tirei meu irmão de perto dele, não encostei a
mão no maldito do menino e só perguntei se o Júnior tinha se machucado. Falei
pro desgraçado não fazer mais aquilo e o ameacei com a Irmã da Graça. Que
vergonha... pois é. Mas ainda hoje eu viro aquele bicho se mexem com os gêmeos.
A gente pode se matar, mas ninguém abra a boca pra falar mal deles. Só eu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ahhh...
quantas lembranças tão boas que nos aproximam tanto e me fazem sentir uma
gratidão enorme porque amanhã, quer dizer hoje eles completam 38 aninhos. O que
teria sido deles sem a minha proteção? Eles tiveram muita sorte. Mas eu também,
e em dobro! Faz uns anos que tenho a sensação de que ter irmão é muito bom!
Então, que vivamos juntos muitos anos mais e ai de quem inventar de furar a
fila na hora da morte, heim! Dessa prerrogativa de primogênita eu não abro mão!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; line-height: 107%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;blogger-post-footer&quot;&gt;RSS&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://balaiodakare.blogspot.com/feeds/967749262813615326/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/02/de-gemeos.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/967749262813615326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1869446240369185707/posts/default/967749262813615326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://balaiodakare.blogspot.com/2014/02/de-gemeos.html' title='De gêmeos'/><author><name>Balaio da Kare</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11789111507300489878</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQJa9QtZVhmOHPBuf7FCXUzLze7QUKlEFGX_RzZiEofmnftrzDDMAUs4MS0KUOpwAtqyrfno4awH0s1rwTc6P0uaGWJQOIIOVvMWsJojwV3Wj9IgQpFwVPzs3cl_VqIWg/s220/DSC01471.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1869446240369185707.post-4205421476849570035</id><published>2013-12-15T14:26:00.000-08:00</published><updated>2013-12-15T14:27:15.591-08:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Crônicas de Balaio"/><title type='text'>Comunicafé</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Querido leitor, querida leitora, mais uma &lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;color: #8e7cc3;&quot;&gt;Crônica de Balaio&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; para ser lida com uma deliciosa xícara de café. Para ser lida como uma pausa, como um respiro na correria dos dias. Boa leitura!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Viver num mundo tecnológico e cheio de soluções complicadas
para problemas simples, talvez esconda as enormes revoluções que representaram
invenções, que para os dias de hoje, são muito simples. E de todas as
tecnologias as mais abundantes são as da comunicação. Inúmeras formas, meios,
códigos, linguagens para facilitar, favorecer, permitir, ampliar a comunicação
entre as pessoas. E o que acontece? As pessoas consomem a tecnologia e se esquecem
de se comunicar. Pois é. Fico imaginando como não deve ter sido impressionante,
para nossos ancestrais, sentar ao redor de uma fogueira e perceber que a carne
fica diferente depois que passa pelo fogo. Deve ter rolado um comentário aqui e
outro ali, com certeza. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas de
todos esses devaneios tem alguns que me capturam mais. Por exemplo: como deve
ter sido a primeira vez que Kaldi, um pastor de cabras na Etiópia ou no Iêmen, percebeu
que seus animais ficavam mais lépidos depois de comer as frutinhas vermelhas de
um arbusto que crescia nas montanhas? Daí a ele mesmo experimentar e mais,
torrar as sementes, moê-las e banhar aquele pó com água quente, deve ter
passado sabe-se lá quanto tempo. E por que alguém quis fazer isso? Que invenção
maravilhosa! Ao longo de todo esse caminho, essa experiência deve ter dado
muito o que falar. A começar pelo cheiro exalado durante todo o processo. Depois,
os efeitos daquela bebida, tão simples, sobre a rapidez do pensar e a atenção,
certamente colaboraram para que essa invenção se espalhasse por todo o mundo. E
alguém vai me dizer que isso não foi uma revolução? Imagina!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Hoje se conhece cerca de 25
espécies de café, das quais só algumas são cultivadas comercialmente, mas a
original continua sendo a preferida para a bebida. Onde quer que tenham
crescido as primeiras plantas só começaram a navegar cerca de 1000 anos antes
das caravelas aportarem nas praias do novo mundo. Fico imaginando quem teriam
sido os egípcios, os gregos e os romanos se tivessem conhecido o café. Nem dá
para imaginar.&amp;nbsp; A primeira loja de café
foi aberta no Cairo em 1550 e as primeiras cafeterias chegaram em Londres e
Paris lá pelos 1650. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Aqui no Brasil, a chegada do café
está envolta em histórias extravagantes, embora haja informações em comum: o
ano de 1727 e a figura de Francisco de Melo Palheta. Conta a história que Palheta
foi até Caiena para agradecer ao governador D’Orvilliers, depois de ter
recebido muitas gentilezas durante sua missão militar na fronteira. Para
impressionar a realeza, comprou roupa nova e um chapéu bordado de um
comerciante francês. Ai, todo trabalhado na elegância, foi recebido no palácio
pela esposa do governador, Madame D’Orvilliers, com quem compartilhou, pela
primeira vez, a experiência de beber um xícara de café. Conta a lenda que a
comunicação que rolou entre os dois foi tão fácil, diversificada e ampla, que
Palheta voltou para o Brasil com uma carga preciosa. Além do punhado de
sementes, colocadas no bolso da calça, por Madame D’Orvilliers, durante um
passeio pelo cafezal do palácio, Palheta trouxe consigo cinco mudinhas daquele
ouro, numa época em que a venda de plantas produtivas era reguladíssima. Ê
Brasil!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Trebuchet MS, sans-serif;&quot;&gt;Não tenho dúvidas de que se os líderes
de países, reinos e povos se detivessem a tomar uma xícara de café antes das
negociações mais difíceis, não teríamos perdido tempo, vidas e história em
guerras intermináveis e sangrentas. Acho que a comunicação não precisa de mais
tecnologia. Precisa sim, de mesa com toalha de algodão, um pequeno vaso com
flores e duas xícaras de café arábica. De preferência orgânico, plantado à
sombra, colhido no seu tempo, torrado e moído com ternura e passado no coador.
Os italianos que me desculpem, mas o expresso só é minha opção nos lugares onde
o café é feito na hora. Na hora que abriram o estabelecimento. De verdade, eu
prefiro o café de coador. Aliás, adoro os cafés bebidos depois do almoço na
casa de qualquer um dos Azevedos, principalmente quando é feito pela tia Tota.
Para mim, café é sinônimo de pausa, de um tempo para mim, para pensar fora do
esquadro. O café é a desculpa para tudo o que pode acontecer enquanto se está
esperando a xícara com aquela fumacinha cheirosa, é o espaço no tempo para a
comunicação fluir quente, doce ou amarga mas invariavelmente gostosa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
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