%3Fxml version="1.0" encoding="UTF-8"%3F>
- A Pedra Ainda Espera Dar Flor – Dispersos 1891-1930, de Raul Brandão (Quetzal), por Pedro Mexia
- Cenas da Vida de Aldeia, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
- Manucure, de Rosalina Marshall (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
- Escolhas de Maria João Cantinho

O livro que Joana Pereira Bastos, jornalista do Expresso, escreveu sobre o sofrimento dos presos políticos em Portugal, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, é lançado esta tarde.
]]>atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando
***
CALOTES SUSPENSAS
numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte
***
NA SENSAÇÃO DE ESTAR POLINDO AS MINHAS UNHAS
sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição
que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio
***
DAS BANCADAS
muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière
[in Manucure, Companhia das Ilhas, 2013]
]]>
Logo à tarde, a política americana invade as Amoreiras.
]]>[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler, Dezembro de 2012]
]]>Em frente à estátua do presidente Lincoln, um rapaz fotografa a namorada com o iPad. Sorriem os dois, muito. O brilho do ecrã fere a penumbra do memorial. A felicidade alheia, mesmo a falsa, perturba-me. Há demasiado espaço aqui, um vazio que esmaga o visitante, como se não bastasse a brancura imaculada do mármore, o gigantismo da figura, a dizer-nos que somos minúsculos, desprezíveis, indignos do que os heróis do passado nos legaram. No cadeirão, com os braços pousados, Lincoln contempla, por entre as colunas, o imenso plano de água que se estende à sua frente. Nuvens reflectidas, pessoas como formigas ao longo do lago rectangular, na distância o obelisco. Saio para a luz do meio-dia. Ponho a mão em concha à frente dos olhos. É tarde demais para o que vim aqui fazer, sei-o bem. Alguém procura finalmente o bosque que devia ter procurado no tempo certo, mas o tempo certo passou e agora só restam as cinzas do incêndio.
[Início do conto Dupont Circle, a minha contribuição para o antologia Contos Capitais, editada no início deste mês pela Parsifal]
]]>
Diário da Queda
Autor: Michel Laub
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 193
ISBN: 978-989-671-149-8
Ano de publicação: 2013
Ao quinto romance, Michel Laub, um gaúcho nascido em Porto Alegre (1973), ascendeu à primeira linha da ficção brasileira contemporânea. Além do reconhecimento crítico, Diário da Queda ganhou os prémios Bravo e Brasília de Literatura, tendo sido finalista de mais uns quantos. Laub fez ainda parte da selecção de 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos escolhidos pela revista Granta, em Outubro de 2012. É sabido que as consagrações súbitas reflectem por vezes um certo exagero, mas neste caso há pouca margem de risco. A segurança estilística e a maturidade narrativa reveladas neste Diário da Queda são como o algodão: não enganam.
Habilmente estruturado em capítulos muito curtos, fragmentos que se vão encaixando como peças de um puzzle montado em várias partes (e vários tempos) na cabeça do leitor, este romance é um palimpsesto das memórias de três homens: o narrador, o seu pai e o seu avô. Em comum, eles têm a experiência de trazer aos ombros o peso da herança judaica. O avô é um sobrevivente de Auschwitz que chegou ao Brasil finda a II Grande Guerra, «num daqueles navios apinhados», decidido a começar do zero sem olhar para trás, de tal forma que nunca se referirá à passagem pelo campo de extermínio, onde morreram todos os seus familiares e amigos. Mas o silêncio sobre o horror não significa uma abolição do horror. Muitos anos depois, suicidar-se-á, como aconteceu, tarde na vida, a tantos outros sobreviventes do Holocausto. O pai do narrador, com 14 anos na altura, fica traumatizado com esta morte violenta, que o empurra de súbito para a vida adulta (começa a trabalhar nos negócios da família) e para um discurso obsessivo sobre a ameaçada condição judaica e os perigos do anti-semitismo. Um discurso contra o qual o filho se há-de revoltar, quando se apercebe que a realidade de Auschwitz, por terrível que seja, é uma abstracção que colide com a realidade do que ele próprio está a viver.
Chegamos assim à cena central do romance, um acto de cobardia que marcará a existência do protagonista. Na escola judaica, há um rapaz, João, vítima sistemática de bullying. Por ser o único aluno pobre, o único não judeu, enterram-no na areia, humilham-no, chamam-lhe nomes. Ao comemorar os seus 13 anos, faz uma espécie de Bar Mitzvah, em que os colegas o atiram 13 vezes ao ar, como é da tradição. Só que na última vez deixam-no cair de costas, desamparado. É esta a «queda» de que fala o título, um acto de maldade que podia ter sido fatal e que deixa marcas no narrador. Arrependido e consciente da fina linha que separa as vítimas dos opressores, torna-se amigo de João, um gesto que acabará por não redimir nem um nem o outro.
Antes de se matar, o avô encheu cadernos com «letra miúda» em que fala do mundo ideal, de como «ele deveria ser», ignorando a realidade. Ao descobrir que tem Alzheimer, o pai fixa o passado, tão frágil como a memória que se desmorona. O narrador cruza essas duas vidas com a sua, narrando a superação do alcoolismo, antes da chegada de uma quarta geração. Auschwitz é a ferida original, essa «espécie de prova da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares». O livro que o neto do sobrevivente escreve, para se compreender melhor e saber de onde vem e para onde vai, é a tentativa de refutar essa inviabilidade.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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Já nas bancas.
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Occupy
Autor: Noam Chomsky
Título original: Occupy
Tradução: Maria Afonso
Editora: Antígona
N.º de páginas: 114
ISBN: 978-972-608-232-3
Ano de publicação: 2013
No final de 2011, o activismo anti-capitalista instalou-se na rua, primeiro em Wall Street, depois em dezenas de cidades pelo mundo fora. Um dos intelectuais que deu a cara pelo movimento Occupy foi Noam Chomsky, o linguista famoso pelas suas críticas à política externa americana. Neste livro de protesto, reúnem-se alguns dos seus discursos e diálogos mantidos com os manifestantes, o que explica o carácter generalista e pouco aprofundado das intervenções.
Em seu entender, até à década de 70 do século passado havia a sensação de que era sempre possível «dar a volta por cima» (mesmo nos momentos mais duros, como a Grande Depressão dos anos 30), mas o que veio depois, com a desregulação dos mercados e a canibalização da esfera económica pela financeira, não permite qualquer esperança. Os empregos que se perdem já não se recuperam, o proletariado deu lugar ao «precariado», e a concentração de riqueza numa ínfima minoria (1% da população, ou menos ainda) instaura um círculo vicioso de que é difícil sair: os mais ricos influenciam o poder político (financiando os partidos) e o poder político aprova legislação que os beneficia, acelerando o «processo circular» que transforma o fosso da desigualdade social num abismo.
Para Chomsky, o movimento Occupy, com os seus «inúmeros pequenos gestos de anónimos» (como diria Howard Zinn), foi a primeira grande reacção popular a este «retrocesso histórico». Uma reacção prontamente reprimida, mas que conseguiu transmitir a sua mensagem no espaço mediático, levando à discussão pública de temas até então ignorados. Para crescer, precisa agora de se integrar em estruturas comunitárias, articulando-se com as «redes à nossa volta».
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro ao Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em deus
por mim
enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi
que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio –
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como texto
e sacro
***
ATRAVESSANDO A RUA COM A PAIXÃO DE SÃO TOMÉ
creio na transmigração das pedras, na remissão
dos deitados na comunhão das bestas, nas lâminas
largas, creio na cordial puta que venha e conclua
de mãos humanas este pedaço da terra, porque virão
torpes virão rodas fiando à própria flor a hora disso
ser conforme, e o pólex e o médio hão-de ser gémeos
onde nos tocamos por superstição, aí beberemos dos animais
a espuma das bocas, a rasteira lepra do que é escuro e cresce
nos poços, e uma valsa urinosa brilhará de olhos à suma
olímpica onde miúdos baptizamos apólidas por este
apontamento médico, entrevados a sério: enfocinhar
pelos halls das festas, constituir um estado de feras à classe
onde tudo isto morre, tudo isto pó, tudo vindo simulando
verdades de uma coisa, uma luz só acesa
nos mais secretos mundos
***
ESCURO
contra a noite a palavra que cairá sobre
os homens de pulsos envolvidos em sangue
isto é o coração onde lhes chego pela garganta
arranco-os da terra à força bruta de braços
contra o medo a escuridão para induzir suave
uma ideia de céu contra o próprio céu agora
que a figura da noite não cabe na forma
de a dizermos rapidamente
virão em mim dançando a erudição do seu uso
com plumas e riquezas à boca do cais, fugiremos
reis da cruel justeza do silêncio tão maior
nos aterros que nos coiceiam em rituais de manada
iremos assim cheios só de viver, meditando palácios
no momento de cair
***
SEM TÍTULO
deus por cima
o grande abandono
[in Groto Sato, Mariposa Azual, 2012]
]]>Alice – Agora posso fazer o roll?
Eu – O roll?
Alice – Sim, aquela coisa em que o rei anda duas casas para o lado e a torre lhe passa por cima.
Eu – Ah, o roque.
Alice – Isso.
Eu – Mas olha que é roque, não é rock.
O Concerto Interior – evocações de um poeta
Autor: António Osório
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-0-79320-1
Ano de publicação: 2012
Em 2008, António Osório publicou um livro (Vozes Íntimas, Assírio & Alvim) sobre os amigos e artistas que mais admirou: António Sérgio, Cristovam Pavia, Sebastião da Gama, Mário Botas, entre outros. O Concerto Interior vem completar essa primeira incursão memorialística, direccionando desta vez as «evocações» do poeta para a esfera familiar. Trata-se, no fundo, de uma «breve autobiografia» heterodoxa, escrita ao «correr da vida». Heterodoxa porque não segue quaisquer regras quanto à delimitação de grandes temas ou à ordem cronológica dos factos. Osório alterna capítulos descritivos com reconstruções líricas, vai e vem no tempo, recorre a uma simples mudança de parágrafo para passar da intimidade ao espaço público, do particular ao geral – e vice-versa. Quase a chegar aos 80 anos, o poeta-advogado procura afastar a «velhice funesta». Por isso convoca as «fundas alegrias» e deixa as más vivências «à porta do Inferno». Na sua estrutura fragmentária, o livro é atravessado pela «luz fraterna» que sempre iluminou os versos deste autor e deu título, com a força de uma divisa, à reunião da poesia completa (Assírio & Alvim, 2009).
António Osório começa por recordar a infância na região de Setúbal, o «espanto pela natureza», a estima por quem trabalhava a terra, fixado mais tarde em poemas à senhora que amassava o pão ou ao carroceiro José da Vaca («um dente único, / trémulo de gaguez»), septuagenário que escolhia para o rapazinho de oito anos os melhores cachos do seu pequeno vinhedo. Esta é uma escrita da gratidão, do reconhecimento às pessoas que lhe foram abrindo, vida fora, caminhos e portas. No centro da vasta galeria, como num altar, pairam as figuras da mãe e do pai. A mãe florentina e «lutadora» que conseguiu fazer chegar aos familiares italianos, durante a II Guerra Mundial, carne e manteiga dentro de latas de conservas. A mãe que aplicava preceitos estritos de um curso de puericultura e lhe leu, quando ele ficou de cama por causa de uns «gânglios» potencialmente fatais, os grandes clássicos: primeiro a Ilíada e a Odisseia; depois a Divina Comédia, em italiano. Aliás, a mãe nunca lhe falou em português, instaurando nele um bilinguismo que lhe seria útil mais tarde, tanto no campo literário como no profissional. Menos impositivo, discreto e delicado, o pai representava o «amor telúrico» e o apego à cultura portuguesa. Para compensar a influência de Dante, dizia em voz alta, «com um acento melancólico e sofrido», Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha.
Além destes pilares, de cujo amor ele foi o «fiel da balança», Osório evoca outras figuras de «doçura» e generosidade. A tia Egeria que o levou a ver pela mão, com três anos, a Porta del Paradiso de Ghiberti. O Dr. Heliodoro Caldeira, apoio essencial no início do seu percurso na advocacia. O caseiro doente, internado em São José, a quem um dia levou laranjas como se comungasse do corpo de Cristo. Ou a poeta Maria Valupi, amiga íntima de Cecília Meireles, que tinha «sempre razão na sua ternura». Numa elegia, António Osório escreveu sobre esta mulher excepcional, que para ele era a tia Dulce: «Antiquários / por onde caminha, / cornaca / de outras casas, / móveis que respiraram / seus donos, lanternas / de carruagens ainda / com suor a cavalo, / lucernas de azeite extinto, / espelhos de Veneza / que devolvem / o estanho das imagens, / rostos puídos». Os «rostos puídos» ganham nitidez na prosa, mas é a poesia que os decifra, tornando «mais clara» a sua condição. Como nos versos finais do poema dedicado a Maria Emília, companheira durante seis anos de namoro e 52 de casamento, depois da sua morte em 2011: «Covas abertas / na terra espessa e dolorosa. / Não te queria aí – sai, / meu Amor, regressa.»
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>[in Diário da Queda, de Michel Laub, Tinta da China, 2013]
]]>A propósito do lançamento por cá do livro Occupy, editado pela Antígona.
]]>1 de Abril: Elena Poniatowska (México)
15 de Abril: Luis Sepúlveda (Chile)
29 de Abril: Antonio Skármeta (Chile)
13 de Maio: Mario Vargas Llosa (Peru)
27 de Maio: Alfredo Bryce Echenique (Peru)
3 de Junho: Ariel Dorfman (Argentina/Chile)
17 de Junho: Isabel Allende (Chile)
1 de Julho: Quino (Argentina)
15 de Julho: Carlos Fuentes (México)
2 de Setembro: Mario Benedetti (Uruguai)
23 de Setembro: Juan Villoro (México)
7 de Outubro: Rigoberta Menchú (Guatemala)
21 de Outubro: Eduardo Galeano (Uruguai)
Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.
***
METAMORFOSES DA CASA
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
***
CANTE JONDO
A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.
***
DESPEDIDA
Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.
[in Ostinato Rigore, Assírio & Alvim, 2013]
]]>
Amuleto
Autor: Roberto Bolaño
Título original: Amuleto
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-989-722-088-3
Ano de publicação: 2013
Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Compreendem-se melhor se lidos em conjunto. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena nocturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com «um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo».
Tal como fizera em Estrela Distante (versão ampliada da história do poeta-aviador Ramírez Hoffman, contada no último capítulo de A Literatura Nazi nas Américas), Bolaño recupera e desenvolve em Amuleto um dos 52 testemunhos que compõem a parte central do romance Os Detectives Selvagens. Ou seja, a história de Auxilio Lacouture, uma uruguaia que ficou fechada quase duas semanas, sem comer, numa casa de banho do quarto andar da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autónoma do México, em Setembro de 1968, quando o exército e a polícia anti-motim invadiram o campus, esmagando à força a contestação estudantil. Auxilio, figura alta e magra, «versão feminina do Quixote», conta como chegou à capital em data incerta e explica o seu estranho modo de vida, os trabalhos ocasionais (dactilografia, traduções), as limpezas voluntárias em casa de dois poetas espanhóis exilados e os encontros boémios em cafés com os escritores mais novos entre os novos. Ela lê o que eles escrevem, incentiva-os, discute. E talvez por isso se auto-intitule «mãe da poesia mexicana».
A felicidade desta vida simples suspende-se durante a reclusão na casa de banho, um acto de resistência com o seu quê de martírio. Encostada aos mosaicos onde o luar se reflecte, Lacouture cria mentalmente um «túnel do tempo», em que este deixa de ser linear e se estica («como a pele de uma mulher adormecida na sala de operações de um cirurgião plástico»), depois desdobra-se «como um sonho», parte-se, fragmenta-se (ou então abdica do seu continuum, que «sofre um arrepio»). Misturam-se assim acontecimentos passados e futuros, factos reais e imaginados, devaneios e profecias – todo um delírio onírico que Bolaño transforma num fascinante labirinto de memórias. Nas páginas finais, Auxilio vê, num pesadelo, os «fantasmas» de «uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados», caminhando «inevitavelmente» para o abismo. Eles eram utópicos. Eles cantavam. Bolaño sabe isso, sabe muito bem, porque esteve nessa multidão. Mesmo depois de engolida pela História, lembra-nos, o seu canto «continuou no ar». E esse canto é «o nosso amuleto».
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>Um livro-jogo de Delphine Chedru, editado pela Orfeu Negro.
]]>«(…) We all live in the land of invented languages, and they matter as much now, though perhaps differently, as they did in the seventeenth century. You may not have heard of Paul Frommer, but you probably remember Na’vi, the language he invented for James Cameron’s Avatar (2009). You may be blissfully unaware of the Language Creation Society and David J. Peterson, yet not ignorant of Dothraki, the language Peterson developed for HBO’s Game of Thrones, from kernels of it planted in George R. R. Martin’s series of epic fantasy novels, A Song of Fire and Ice (1991–2011). Israelis speak a revitalized language, that is to say, partly invented rather than historical, namely, Modern Hebrew. Hawaiian is also a revitalized or reconstructed language; it is an emblem of Hawaiian heritage, and just one of many such revitalized languages around the world.
Inventing a language is arduous, and no one attempts it without a serious purpose or aspiration. As Suzanne Romaine, one of the world’s leading linguists, argues in From Elvish to Klingon: Exploring Invented Languages, “A similarity of purpose and motivation drives inventors of all new languages, whether in the real or fictional world. The perceived need for them arises from dissatisfaction with the current linguistic state of affairs. Recognition that language can be used for promoting or changing the social, cultural, and political order leads to conscious intervention and manipulation of the form of language, its status, and its uses.” The quality of that dissatisfaction, however, and the language in which it’s reflexively expressed, is particular to the case. We are probably all dissatisfied to some extent with the language we’re given. The question is, What do our responses say about the human condition?»
O texto completo de Michael Adams, na revista Humanities, pode ser lido aqui.
]]>
Bem Dita Crise!
Autor: António Jorge Gonçalves
Editora: Documenta
N.º de páginas: 118
ISBN: 978-989-8618-01-6
Ano de publicação: 2012
Um Cavaco Silva ligeiramente curvado estende a sua língua pelo chão como uma passadeira vermelha para José Eduardo dos Santos pisar (título: «a importância da língua portuguesa»). O Papa Bento XVI carrega uma cruz em forma de pénis. A meio do segundo mandato, George W. Bush utiliza uma carta do presidente iraniano, Ahmadinejad, como papel higiénico. O Dalai Lama transfigura-se num panda, animal raro, preso em gaiola made in China. A lentidão da ONU no Líbano materializa-se na imagem de um capacete azul condenado a ser casca de caracol. Os cartoons que António Jorge Gonçalves vem publicando no suplemento Inimigo Público há uma década (começou em 2003) são quase todos assim: intensos, provocadores, ácidos, rudes, desbragados, politicamente incorrectos e capazes de sabotar, com requintes de malvadez, a lógica informativa que é servida todos os dias nos telejornais.
Os desenhos de AJG não servem para fazer rir. Servem para fazer pensar. Se há riso, é um riso nervoso, de quem se sabe à mercê de forças demasiado violentas e incontroláveis. Num meio tão ameaçado como a imprensa portuguesa, louve-se tamanho desassombro. Diz o autor, num texto muito lúcido que acompanha a sequência de trabalhos e comenta a sua génese: «Os jornais morrem todos os dias: um cartoon de imprensa tem apenas uns segundos de vida, morrendo com o virar da folha. Esta volatilidade é frustrante quando julgo ter feito um bom desenho, mas também é uma bênção quando estou desinspirado.» Tudo menos voláteis, os trabalhos de António Jorge Gonçalves raramente precisam de bênçãos e ganham até novos sentidos com o passar do tempo. Não haverá talvez maior glória ao alcance de um cartoonista.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>[in Enciclopédia da Estória Universal - Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2013]
]]>
Hoje, dia 24, a poesia volta a invadir o CCB. São muitas as iniciativas: debates, exposições, homenagens (a Ruy Belo), ateliers, concertos, maratonas de leitura, uma Feira do Livro. À semelhança do que aconteceu o ano passado, eu lerei poemas na sessão “De Viva Voz” (apresentada por Beatriz Batarda), na Sala Luís de Freitas Branco, a partir das 16h45. A programação completa, aqui.
]]>[Excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990; roubado ao Rui Almeida, que o partilhou no Facebook]
]]>
De mim já nem se lembra
Autor: Luiz Ruffato
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-671-132-0
Ano de publicação: 2012
Em De mim já nem se lembra, um relato de cariz autobiográfico, Luiz Ruffato começa por narrar um regresso à casa da família em Cataguases, a cidade de Minas Gerais onde nasceu em 1961. Os pais continuavam a fazer o que sempre fizeram: ele pipoqueiro («revirava os recônditos da cidade vendendo caramujos, caramelos e rosquinhas-amanteigadas»), ela lavadeira («mãos queimadas de água-sanitária»), ambos analfabetos. Apesar de o pai ter sido diagnosticado, 25 anos antes, com uma tuberculose que deveria levá-lo em seis meses, mas não levou, é a mãe que se está a apagar com um cancro: «a morte a contatara antes e desesperada minha mãe procurava agarrar-se ao cordame invisível que nos move e ele desfazia-se podre em suas mãos suadas». Melancólico, lírico, este intróito funciona como «explicação necessária» para a secção epistolar do livro. Após a morte da mãe, Luiz organiza os seus «parcos haveres» e encontra, debaixo da cama, uma pequena caixa rectangular de madeira. Lá dentro, intacto, a progenitora «abrigara seu coração esfrangalhado», na forma de um maço de 50 cartas, «cuidadosamente enfeixadas com barbante». São essas 50 cartas, enviadas pelo filho mais velho, de 1971 a 1978, desde que partira para São Paulo à procura de uma vida melhor até às vésperas do fatal acidente de viação, que o narrador revela, na íntegra e em ordem cronológica.
No seu jeito linear, «relatando ninharias, reclamando novidades», as cartas são quase banais. José Célio descreve as agruras de quem chega da província à grande cidade; dá conta do trabalho numa fábrica em Diadema; aflora sem grandes detalhes os seus namoros, solidões, tristezas; assume o desenraizamento («não sou de lugar nenhum»); e os complexos de inferioridade («lá no fundo eu continuo um pé-rapado, um zé-ninguém, com medo de tudo e de todos»). Mas por trás desta vida dura, sempre em esforço, desenha-se um retrato do Brasil da época: o crescimento urbano, os relacionamentos sociais, o futebol, a situação política («a gente vive debaixo de uma ditadura que prende e mata trabalhadores, que a única coisa que querem é mudar a situação injusta do país»). Verdadeiras ou ficcionadas, não importa: as cartas são verosímeis. Mostram um rapaz normal que morreu cedo demais, abrindo na família «uma chaga nunca mais cicatrizada». A beleza do livro está toda na forma delicadíssima como Ruffato se aproxima do tal «cordame invisível que nos move» e desse irmão que «permanece com 26 anos, ardendo inexoravelmente em minhas lembranças».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]
]]>
]]>Fotografia de uma personagem
de ti inseparável: nela pesa
essa parede a arder que sem querer ao
procurar ainda ver-te
vi, já não corpo deitado
somente a luz informe da passagem
***
5
Tornara-se perfeita a coincidência:
sobre a mesa puseras os braços e subia
o teu olhar; ameaçavas mas eras
o ser ameaçado, por um tiro talvez;
nesse momento não podias
nem mesmo suspeitar de como era tão breve
a personagem
de que não te separaras
***
13
Os mortos estão
mortos? Onde existe o seu
tempo de vivos? Há dias em que
o traço desses dias
morre infinitamente e todavia o filme
de actos findos
continua a passar numa tela vazia
***
33
Eu vivi nesses anos mas não sei
o que foi por exemplo ter vivido
em mil novecentos e setenta e sete
embora lembre bem a face e o
movimento de cada actor
no palco de cimento,
e o que fora de cena era a alegria
e a dor da minha noite e do meu dia
[in Fogo, Assírio & Alvim, 2013]
]]>
O Grupo Porto Editora escolheu o Dia Internacional da Poesia para anunciar que a Assírio & Alvim, depois de Eugénio de Andrade, vai também passar a editar a obra poética completa de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os primeiros títulos a recuperar, ainda este ano, são Poesia (1944), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954) e Mar Novo (1958). Recorde-se que em 2012 a Porto Editora já assegurara os direitos para reeditar a obra em prosa de Sophia.
]]>Longa vida, então, à Parsifal. Que publique muitos e bons livros. Cá estaremos para os ler.
]]>Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.
Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.
Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.
Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.
O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.
Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.
Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.
No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.
Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.
No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.
Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.
Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.
Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.
O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.
A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».
Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:
nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.
De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.
Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.
Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar».
José Luiz Tavares
]]>[in Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov, trad. de Telma Costa, Relógio d'Água, 2013]
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É Assim Que a Perdes
Autor: Junot Díaz
Título original: This is How You Lose Her
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 153
ISBN: 978-989-641-299-9
Ano de publicação: 2013
Junot Díaz apresentou-nos pela primeira vez a figura de Yunior no seu livro de estreia, escrito num inglês vibrátil, contaminado por palavras espanholas e pelo calão dos subúrbios de New Jersey. Drown (1996) forma um conjunto de contos interligados que alterna vinhetas sobre as dificuldades de integração dos imigrantes caribenhos nos EUA com episódios da infância miserável na República Dominicana (inesquecíveis, as duas histórias sobre um rapaz que usa uma máscara de couro, para esconder o rosto devorado por um porco). Yunior foi depois o narrador do segundo livro – o extraordinário romance A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (Porto Editora, 2009), vencedor do Pulitzer de Ficção – e volta a ser a personagem principal de É Assim Que a Perdes, um volume de contos com uma estrutura semelhante à de Drown. Ou seja, cada texto funciona por si mesmo, mas também faz parte de um mosaico cronologicamente fluido dos vários momentos essenciais da vida de Yunior, que pode perfeitamente ser um alter ego de Díaz, tendo em conta as muitas coincidências biográficas (além da origem comum, ambos estudaram na Universidade de Rutgers, são escritores e dão aulas em Boston).
Em Invierno, um dos melhores contos do livro, Díaz descreve, com uma subtileza feita de silêncios, o desamparo daqueles que se vêem subitamente transplantados para outro país, diametralmente oposto ao que conheciam. Após anos a trabalhar nos Estados Unidos, onde arranjou uma amante, o pai de Yunior consegue finalmente mandar vir a família: mulher e dois filhos. Eles passam a viver num bairro ainda em construção, junto a um aterro de lixo, sempre fechados em casa por causa do frio. O pai é um estranho que impõe as suas regras. Quando percebe que o cabelo demasiado «africano» do filho mais novo não cede aos tratamentos de um barbeiro porto-riquenho, manda cortá-lo rente. Na belíssima cena final, em que a mãe desobedece ao jugo paterno e sai com os filhos durante uma tempestade de gelo, Yunior tira o gorro, «só para sentir os flocos de neve a caírem dispersamente na minha cabeça dura, rapada».
Díaz chega a ser genial neste tipo de detalhes, que resumem tudo numa frase ou numa expressão. Lemos «Grandes nuvens brancas paradas no céu, gente a lavar carros com mangueiras, música na rua» e não é preciso mais para imaginarmos um bairro latino. Depois de o amante sair, uma mulher vê que no lavatório «os pêlos da barba dele estremecem sobre gotas de água, agulhas de bússola». De regresso à ilha para visitar a família, uma dominicana pousa os presentes sobre os joelhos, «como se levasse ali os ossos de um santo». Quem a observa esta última imagem é Yunior, que viaja no mesmo avião, a tentar desesperadamente reconciliar-se com uma namorada. Ele avisa logo que «se isto fosse outro tipo de história», falaria de Santo Domingo, do mar com «aparência de prata rasgada» e da rua onde nasceu, ainda indecisa sobre «se quer ser um bairro-de-lata ou não». Nada disso acontece porque o «tipo de história» que Yunior nos pretende contar gira praticamente em torno de um único tema: a sua infidelidade compulsiva.
Uma atrás de outra, vamos conhecendo as muitas namoradas traídas e a forma como Yunior não consegue lidar com elas. Ao perdê-las, quase sempre por incompetência emocional (um misto de insensibilidade e desleixo), é ele que se perde, pondo em causa a imagem que faz de si mesmo: um tipo «fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom». Quando uma das ex lhe envia, encadernados, os e-mails e fotos que provam as suas traições, dizendo que são «material para o teu próximo livro», ele espanta-se com a «vastidão» da sua «desonestidade» e vê-se finalmente como é: «um cobarde e um cagarolas do caralho». O «próximo livro» – pessoal, doloroso – talvez seja este que lemos. E nunca relatos sobre as ruínas da paixão amorosa foram tão honestos, tão brutais, tão no osso, tão na pele.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>Bela voz, grande mulher, enorme escritora. «Words do not live in dictionaries; they live in the mind.»
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Obra Poética – Vol. 1
Autor: Jorge Luis Borges
Tradução: Fernando Pinto do Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-989-722-071-5
Ano de publicação: 2012
Quando em 1923 escreveu o seu primeiro livro de poesia, pouco depois do regresso à Buenos Aires natal, após longa permanência na Europa, Jorge Luis Borges ainda não era o escritor que viria a ser: o Borges das grandes especulações metafísicas, dos labirintos reais e imaginários, das fantasias eruditas, da literatura enquanto matéria que se alimenta da sua condição livresca. Em vez disso, temos alguém que canta uma cidade mítica, deambulando pelas ruas, pelos cemitérios, pelos pátios, entrevendo grandeza obscura, porque decadente, na paisagem urbana, limitada por arrabaldes onde o perigo espreita, antes da pampa e sua desmesura. Ao voltar a Fervor de Buenos Aires em 1969 (versão agora reeditada pela Quetzal no volume 1 da Obra Poética, a que se juntam os dois livros seguintes: Lua Defronte, de 1925, e Caderno San Martín, de 1929), Borges mitigou «excessos barrocos» mas admitiu que «aquele rapaz» de 1923 já era «essencialmente» o «senhor que neste momento se resigna ou corrige».
Os dois primeiros versos do livro não podiam ser mais explícitos: «As ruas de Buenos Aires / são já as minhas entranhas.» Borges ama a sua cidade visceralmente: respira-a, sonha-a, evoca-a com o corpo tímido (uma carnalidade feita de palavras e metáforas: «A tua ausência cerca-me / como a corda à garganta. / O mar ao que se afunda»). O tom é elegíaco. O poeta lembra os antepassados, exalta uma rosa, fixa os ritmos da natureza e os cambiantes da luz (lentos entardeceres, crepúsculos, a alba). Aqui e ali, irrompe o sentimento amoroso, mas quase sempre condenado: «Em ti mora o prazer / tal como a crueldade nas espadas». Surgem também, antecipando temas recorrentes no futuro, a «suspeita geral e confusa / do enigma do Tempo», aproximações ao mistério da morte, ao «silêncio que habita nos espelhos», ao «medo unânime da sombra». No prólogo, Borges é categórico: «Para mim, Fervor de Buenos Aires prenuncia tudo o que faria depois.» Talvez haja menos exagero nesta frase do que parece à primeira vista.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]
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Durante o dia de hoje, das dez da manhã à meia-noite, no Pequeno Auditório do CCB, o actor António Fonseca vai recitar de cor o texto integral d’ Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões. Trazer assim uma epopeia inteira dentro da cabeça: eis um acto de grande coragem intelectual. Eu tentarei assistir aos cantos IX e X, lá mais para a noitinha.
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O grupo de jograis U…Tópico gravou recentemente um precioso audiolivro dedicado a Agostinho da Silva. São dois CD’s: no primeiro, ouvimos uma intervenção oral do filósofo no Martinho da Arcada (a 14 de Outubro de 1988, num encontro alusivo ao aniversário de Álvaro de Campos); no segundo, textos do mestre, muito bem lidos pelos jograis.
Até ao fim do mês, o grupo vai fazer três apresentações públicas, com leituras, deste audiolivro: a 19 de Março, na FNAC Vasco da Gama (18h30); a 23 de Março, na FNAC Chiado (16h00); e a 26 de Março, na FNAC Colombo (18h30). Não percam.
[in Amuleto, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2013]
]]>Vídeo sobre a Biblioteca Nacional do Qatar, um projecto arquitectónico de Rem Koolhaas, o autor da portuense Casa da Música.
]]>«(I haven’t played chess in years, by the way, but there was a time in my early twenties when I became immersed in it, too. It is without question the most obsessive, most mentally damaging game invented by man. After a while, I found myself dreaming about chess moves in my sleep—and decided that I had to stop playing or else go mad.)»
Não diria «mentally damaging», mas lá obsessivo é. E eu, que redescobri recentemente os prazeres e angústias do xadrez online, sei-o bem.
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Tão Longo Amor Tão Curta a Vida
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-23-4994-9
Ano de publicação: 2013
Logo no ínicio de Tão Longo Amor Tão Curta a Vida, sexto romance de Helder Macedo, assistimos a um curioso pacto ficcional. Na casa de um narrador que em tudo se confunde com o autor do livro, aparece, muito aflito, um embaixador português. Em Londres para participar num think tank sobre a «exportação da democracia para os povos oprimidos», num mundo pós-Kadhafi, Victor Marques da Costa (VMC) conta uma «história meio complicada de amores antigos e de sequestros recentes». Os primeiros dizem respeito ao envolvimento com uma cantora de ópera, Lenia Nachtigal, alemã filha de uma agente da Stasi, ainda no tempo da RDA, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim. Já o sequestro teria acontecido dias antes, em circunstâncias pouco claras, sobre as quais o embaixador, que apresenta vestígios de sangue na camisa, não parece muito disposto a fazer luz.
Na verdade, dizendo-se admirador da obra romanesca do seu anfitrião, VMC oferece-se ostensivamente como personagem, agarrando-se à ideia de que a função dos escritores é «libertar as personagens», concedendo-lhes «o livre-arbítrio que não têm». A quem o acolhe tarde na noite, com oferta de guarida e roupa lavada, ele está disposto a entregar o papel de criador «fantasmático da sua vida», mas rapidamente surgem dúvidas sobre a verdadeira natureza da história. Ao recapitular episódios em tempos distintos, vai emergindo uma narrativa confusa e «inconclusiva», feita de elipses, áreas de sombra, espaços por preencher. «Como se tudo o que me contou, e que tanto podia ser verdade como mentira ou, mais provavelmente, uma mistura das duas coisas, (…) fosse só o prelúdio de uma história ainda por contar de que eu pudesse ser o autor. Ou a cópia de um original ainda por escrever.»
Em tempos, a principal distracção de VMC consistira em inventar geografias imaginárias, desenhando mapas «com países que não havia». E é essa também a arte do ficcionista: inventar a possibilidade do que talvez nunca aconteceu. Ao descobrir um suposto crime no lugar onde o embaixador garante ter sido sequestrado (um apartamento na rua em que Freud morou), o escritor sente que tem um princípio e um fim, a que falta a história «escondida no meio». Tenta então torná-la «mais verosímil porque totalmente fictícia», criando uma rede densa de «coexistências aleatórias» e «correspondências significativas» entre personagens (por exemplo, desdobrando Lenia em duas mulheres quase simétricas: a alemã, que entretanto perdeu a voz; e uma brasileira, outra face da mesma moeda).
Tortuosa, labiríntica, com vários pontos de fuga (aqui «não há círculos fechados mas espirais»), a história imaginada pelo narrador vai abrindo espaços para «uma mentira alternativa que pode ser verdade». Ao materializar-se na escrita, porém, desilude VMC, para quem o texto é um «exemplo perfeito de como não contar uma história». O narrador assume então que a sua «abordagem» representa «um virar às avessas das expectativas narrativas habituais», uma espécie de sabotagem deliberada. Ele não quer ter o papel do tradicional autor omnisciente, «o que funciona como se soubesse tudo sobre as suas personagens», porque essa pose de demiurgo não lhe assenta. Vinca por isso o seu estatuto ambíguo, acumulando no relato «improbabilidades, inconsistências, falsas conexões», paradoxos e oxímoros.
Tão Longo Amor Tão Curta a Vida é uma ficção inteligentíssima sobre as possibilidades e os limites da ficção. Helder Macedo diverte-se, divertindo-nos, ao criar uma estrutura complexa mas cristalina, onde o thriller psicológico coexiste com citações eruditas (das óperas de Verdi a Shakespeare, da mitologia grega à Origem do Mundo, de Courbet). Não será «um livro como deve ser, daqueles que têm princípio meio e fim, à inglesa», como o que lê a mulher do narrador. Felizmente, dizemos nós.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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Numa rua esconsa, perpendicular a High Holborn, bem no centro de Londres, fica a sede da A. M. Heath & Company, a agência literária que representa Hilary Mantel, neste momento a estrela maior das letras britânicas, depois de ter obtido dois prémios Man Booker com os seus romances históricos sobre Thomas Cromwell: Wolf Hall e Bring Up the Bodies (o primeiro já publicado em Portugal pela Civilização; o segundo com saída prevista para esta Primavera na mesma editora). Foi num sofá azul e desconfortável, junto a um janelão por onde entrava a luz cinza de uma tarde invernosa, que conversámos com a escritora, sempre cordial e aparentemente ainda capaz de falar com paixão sobre o que a move na paisagem literária, mesmo depois de toda a sobrecarga mediática a que tem sido sujeita nos últimos anos. A dois metros, Gerald, marido e secretário, esperou mais de uma hora, lendo uma revista.
Durante muito tempo, apesar dos elogios da crítica, os seus livros raramente chegavam à shortlist dos principais prémios literários. Ao vencer o Man Booker Prize com Wolf Hall, em 2009, essa tendência inverteu-se. Agora, com o segundo romance sobre Thomas Cromwell, Bring Up the Bodies, não só ganhou outra vez o Booker (feito inédito para um autor britânico) como juntou-lhe o importante Costa Award, entre outros. A que se deve esta mudança?
Para ser franca, não sei. Admito que o facto de escrever sobre o reinado de Henrique VIII, um período da História que continua a fascinar os ingleses (e não só), possa ter contribuído para a mudança. O certo é que eu era o exemplo da escritora que nunca ganha nada e de repente transformei-me no tipo de autor que colecciona prémios. Houve até um crítico que se mostrou aborrecido com a atribuição do primeiro Booker, porque me considerava o seu pequeno segredo. Na verdade, eu só posso sorrir com tudo isto, na medida em que sou a mesma pessoa, a mesmíssima escritora. A única diferença é que de repente me tornei visível.
Não deixa de ser curioso que a consagração tenha chegado com livros de ficção histórica, precisamente o género em que deu os primeiros passos literários.
É verdade. Quando comecei a escrever, via-me como uma escritora de romances históricos. Como nunca fui boa a construir enredos, deixava que a História se encarregasse dessa parte. Gosto muito de procurar os factos reais, de consultar os documentos, procurando os buracos, os hiatos, os intervalos em que não se sabe o que aconteceu, abrindo espaços para a invenção, para a criatividade do ficcionista. Aos vinte e tal anos, eu andava fascinada com a Revolução Francesa e queria muito ler um bom romance sobre o assunto. Não o encontrando em lado nenhum, decidi escrevê-lo eu mesma.
Eis uma regra de ouro para um romancista: escrever o livro que gostaria de ler.
Exacto! Os romances que encontrava sobre a Revolução Francesa, em inglês, eram todos sobre a rainha e os aristocratas, enquanto eu queria saber coisas sobre os revolucionários. As suas histórias eram melhores, mais fortes, mais humanas. Supunha que outros leitores deviam sentir o mesmo que eu. Mas naqueles dias, finais da década de 70, a ficção histórica gozava de tão má reputação que não consegui sequer que o romance fosse lido, quanto mais publicado. Optei então por deixá-lo na gaveta, onde ficou vários anos, enquanto ia escrevendo romances contemporâneos, todos muito diferentes uns dos outros. Curiosamente, foi enquanto trabalhava em A Place of Greater Safety que tive a ideia de abordar a figura de Thomas Cromwell.
Wolf Hall podia ter sido o segundo romance?
Podia. Depois da Revolução Francesa, viriam os Tudor. Mas ainda bem que isso não aconteceu.
Porquê? Teria sido demasiado cedo?
Sim. Começar um livro é sempre um passo na escuridão, uma questão de fé. E para cada livro há um tempo certo. Felizmente, acho que soube esperar.
Quando é que compreendeu que chegara o momento do regresso à ficção histórica, quase trinta anos depois?
Digo-lhe uma coisa: o momento podia nunca ter chegado. Eu fui adiando, adiando, adiando. Até que, por volta de 2004, apercebi-me que se aproximava uma efeméride importante em 2009: os 500 anos da subida ao trono de Henrique VIII. Era inevitável que o mundo cultural britânico se virasse para a evocação do rei. Henrique VIII estaria em todo o lado: na imprensa, nos museus, nas livrarias. Se havia um tempo para escrever o livro sobre Cromwell, era aquele. Ou aproveitava a ocasião, ou mais valia esquecer o assunto.
Foi um bom antídoto para a procrastinação?
Sem dúvida. Na altura, assinei contrato para dois livros. O sobre Thomas Cromwell e um romance contemporâneo, passado em África. Comecei pelo de temática africana, mas ao fim de poucas semanas tinha os nervos em frangalhos, pesadelos, um sentimento de angústia permanente. O livro estava a dar cabo de mim por ser tão colado à minha experiência pessoal. Um amigo disse-me: aceita-se que fiques assim quando terminas um livro, não quando começas. Decidi por isso interromper o projecto e experimentar escrever o primeiro capítulo do livro de Cromwell, a ver no que dava. E o que aconteceu foi um estado de felicidade instantânea. Um daqueles momentos mágicos, em que sentimos as luzes a acenderem-se.
Já tinha a investigação feita?
Andava a ler sobre o assunto há uns dois anos, mas ainda tinha muito que investigar. Por isso fiz só o capítulo inicial, que de certo modo está fora da História, porque a infância de Cromwell não é mencionada nas crónicas. Sabe-se pouco sobre essa fase da sua vida, o que me deu muita liberdade. Wolf Hall começa com Cromwell em criança, caído no chão, espancado pelo pai, pensando que está a momentos de morrer. Então levanta-se, afasta-se, segue o seu caminho e reinventa-se. Sai do país, deixa para trás a sua religião, a família, a língua materna, e começa a jornada da sua vida. É o tipo de história que sempre me atraiu.
Como é que chegou a um estilo a que toda a gente reconhece uma grande clareza e precisão, reflectindo o tom da época mas sem forçar a nota?
Tem parcialmente a ver com a escolha de certas palavras, mas sobretudo com o ritmo. É essencial que o leitor não se esqueça que estamos a falar de outro tempo, por isso lanço aqui e ali uma palavra pouco usual, algum vocabulário quinhentista, mas sem exagerar. Não quero que o leitor sinta necessidade de pousar o livro para ir ao dicionário.
Leu autores da época para compreender e apreender esses ritmos?
Sim. Os documentos da época eram quase sempre escritos num registo muito solene, júridico, estereotipadamente oficial. Não se aprende grande coisa por aí. Mas há uma fonte contemporânea maravilhosa: a biografia do Cardeal Wolsey (mentor de Cromwell), feita por um dos seus discípulos, George Cavendish, que escrevia como um romancista. É um livro essencial. Li-o e reli-o, até incorporar os seus ritmos na minha prosa. Mas foi um processo lento. Levei alguns anos a entrar naquele mundo.
E agora tornou-se fácil imaginar como eram as coisas há quase cinco séculos?
Agora sinto-me em casa. Fecho os olhos e o que ouço? Badaladas do sino da igreja, um relâmpago, nada mais sonoro do que isto. A não ser que esteja num campo de batalha, onde ressoam os tiros de canhão. Os nossos sentidos vão-se moldando ao que escrevemos.
O terceiro livro vai ser mais fácil ou mais difícil do que os outros?
Mais difícil. Porque terá de integrar os dois primeiros. Chamar-se-á O Espelho e a Luz porque iluminará, espero, tudo o que foi contado antes. Aborda o processo da História. O passado atrás de nós vai mudando, não é estático. Para Cromwell, é também sobre os trabalhos da memória.
No fim de Bring Up the Bodies ele dá a entender isso, quando diz que durante o dia só pensa no futuro, mas à noite é assediado pelas recordações do passado.
É nessa altura que entram em cena os mortos. E o número de mortos vai aumentando. Os fantasmas dos que lhe foram próximos.
Já sabe como fechar a trilogia?
Sei para onde ela se dirige, mas há ainda muita coisa pelo meio por resolver. Sinto neste momento uma pressão enorme para avançar com o terceiro volume o mais rápido possível. Mas tentarei resistir. Não me posso dar ao luxo de não fazer isto bem. Até porque este projeto é o centro da minha vida de escritora.
O seu opus magnum?
Absolutamente. Em certo sentido, eu estou na posição de Cromwell. As expectativas são muito altas. Tenho tudo a perder. Por isso estou determinada a não ter pressa, a não me precipitar. O terceiro livro está lá fora, algures, e eu tenho de ser capaz de lhe dar uma forma.
Alguma estimativa para o tempo de que necessita?
Estou a apontar para 18 meses, dois anos. Gostava de o publicar em 2015.
Como é viver há oito anos com Cromwell?
Tenho uma espécie de ecrã duplo na minha cabeça, sabe. Um para a vida real, outro para a ficção que estou a escrever. Mesmo quando vou às compras ou arrumo a casa, a história dos Tudors não se interrompe na minha mente. O livro está sempre a trabalhar. E não é um processo de sentido único. Não é só o escritor que trabalha o livro. O livro também altera o escritor. Quando acaba, não se é o mesmo.
No seu caso, acha que se tornou uma pessoa melhor?
Não em termos morais (risos). Mas acho que sou uma pessoa mais forte, isso sim.
De que traços da personalidade de Cromwell se sente mais próxima? E de quais mais se afasta?
O que mais nos aproxima é a ambição. Quando era criança, eu queria ser alguém. Não necessariamente uma escritora. Mas queria conseguir algo e afastar-me do meu meio de origem. Queria cumprir o meu potencial. Nesse aspecto, identifico-me muito com Cromwell. Não me identifico com a capacidade que ele tinha de ignorar as opiniões alheias. Como outros escritores, não consigo distanciar-me do que as pessoas dizem, pensam, ou sentem. Se alguém ao meu lado se queixa de dores de cabeça, em menos de meia hora fico com uma enxaqueca. Cromwell, não. Era invulnerável. Usava uma armadura, escondia-se atrás dela.
Inveja essa capacidade?
Oh, sim! A vida seria tão mais fácil se eu tivesse a pele dura como ele.
[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>[in É Assim Que a Perdes, de Junot Díaz, trad. de José Miguel Silva, Relógio d'Água, 2013]
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O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-0-04412-9
Ano de publicação: 2012
Numa peça teatral publicada em 2012, Não Há Vozes Não Há Prantos (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), Mário de Carvalho explica que a sua comédia palaciana decorre «numa cidade indeterminada de um tempo indeterminado». Na verdade, a atmosfera e os diálogos remetem-nos para os últimos dias do império romano. As duas extraordinárias novelas com que o escritor se estreia no catálogo da Porto Editora, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, seguem a mesma linha de indeterminação geográfica e histórica. Situadas num imaginário grão-ducado – provavelmente na Europa Central (a ver pelos nomes e apelidos), mas com acesso ao mar – tanto colocam em cena burgueses e aristocratas como anarquistas, prontos a fazer explodir tudo em nome das ideias da Revolução Francesa, ainda latentes «no fundo das almas, como palhetas de ouro, ocultas por águas lamosas». Não há datas, mas pelo modo como as pessoas falam e se deslocam, em diligências e veleiros, erraremos pouco se situarmos as histórias no início ou meados do século XIX.
O Varandim decorre em Svidânia, cidade em polvorosa com a perspectiva de assistir à execução, por enforcamento, dos autores de um atentado contra o grão-duque. Mário de Carvalho consegue trazer à liça dezenas de personagens, numa prosa barroca, vertiginosa, em que se sucedem as cenas de acção, ao serviço de um enredo complicadíssimo. No centro da novela está Zoltan Tremlich, o único habitante a quem o castigo não interessa (é contra a pena de morte), mas que tem a sorte, ou o azar, de ver o patíbulo instalado nas traseiras do seu palacete. O varandim de onde melhor se avistam as forcas passa a ser «um dom do céu», cobiçado por toda a gente e pretexto para divertidíssimos exercícios de hipocrisia social. À medida que a trama se estende e retorce, o mérito maior do narrador está na ágil transição entre planos e numa soberba arte digressiva, que tanto lhe permite fixar detalhadamente a imagem de uma gata a defender o seu território como analisar a rapidez com que uma notícia se espalha na cidade. Há sobretudo uma adequação perfeita entre o modo de narrar e o seu objecto. Veja-se, por exemplo, como é descrito o tédio de um julgamento que se prolonga mais do que o previsto: «Audiência sobre audiência. Testemunhas e peritos. Labrostes e loquazes. Requerimentos e protestos. Becas e togas. Indicadores e polegares. Desmaios e soneira.»
Ocaso em Carvangel prolonga as tensões entre classes sociais, mas numa cidade defendida por um imenso canhão, num istmo, junto a uma cratera. Palco de intrigas e massacres, Carvangel é um lugar bizarro, onde ninguém se decide sobre coisa nenhuma e toda a gente delega responsabilidades, enquanto se aguarda a chegada de um navio salvador, o Maria Speranza, como quem espera por Godot. Semelhantes na desmesura narrativa e no enorme rol de personagens, as duas novelas seguem caminhos opostos. Enquanto O Varandim se vai fechando cada vez mais, Ocaso em Carvangel termina na mais completa das aberturas, em mar alto, sem rumo, em busca de uma ilusão de liberdade que nunca há-de cumprir-se.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]
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Já nas bancas.
]]>
Ou de como O Livro do Ano pode aparecer logo em Março.
]]>Dum cesto de flores carrega a púrpura.
Da noite o ar rouco.
***
CHAFARIZ
Peixinhos da cinta aos pés
Num chafariz até ao umbigo.
E vermelhinhos
Nadam na sua doçura para o aquário cristalino. E tanto faz
Se depois são enxugados com pano cardinalício
Ou cinza de incensário.
***
IMOLAÇÃO
A perdiz ao dar voltas em círculos sacudidos,
A cair lançada para dentro das
Penas coloreadas, enceguece
A glaseada mão do caçador.
***
MINA SAN JOSÉ
Rezo pelos mineiros chilenos.
As almas soltando labaredas de El Greco.
Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum
órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro.
Estes mineiros extraem Deus.
[in Pesa um Boi na Minha Língua, Afrontamento, 2013]
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Em Parte Incerta
Autora: Gillian Flynn
Título original: Gone Girl
Tradução: Fernanda Oliveira
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 515
ISBN: 978-972-25-2557-2
Ano de publicação: 2013
Há livros que têm a capacidade de nos sequestrar durante horas seguidas, às vezes durante dias a fio, livros tão eficazes que tornam a leitura compulsiva e dão sentido ao adjectivo inglês unputdownable («impossível de pousar, de largar»). Foi o caso, há uns anos, dos romances da trilogia ‘Millennium’, de Stieg Larsson. É também o caso de Em Parte Incerta, o thriller psicológico que se tornou um fenómeno de vendas e de crítica nos EUA, em 2012. Gillian Flynn, como Larsson, consegue criar personagens fortíssimas e colocá-las em situações extremas, com abundância de surpresas e volte-faces. Se o objecto de Larsson são as disfunções das sociedades modernas, o de Flynn é o casamento enquanto campo de batalha sem tréguas, quando a ilusão da felicidade conjugal se esfuma. A uni-los, o domínio absoluto das técnicas narrativas, usadas com uma inteligência e sofisticação que os resgata, enquanto autores, do vasto pântano do mainstream comercial.
Nick e Amy são um casal de jornalistas desempregados. Conheceram-se em Nova Iorque, tinham uma «casa de pedra» em Brooklyn, ele escrevia sobre cultura popular em revistas, ela inventava questionários de personalidade para «pasquins de mulheres». Entretanto, o «tempo em que as pessoas liam coisas em papel» chegou ao fim, com o colapso gradual da imprensa. Sem trabalho, decidem mudar-se para Cartago do Norte, no Missouri, junto ao Mississípi, a cidade de «perdedores conformados» onde Nick cresceu. As últimas poupanças de Amy financiam um bar que o marido gere com a sua irmã gémea. Desterrada e medíocre, a vida dos Dunne parece entrar, de vez, num plano descendente. Aos poucos, Amy fica «zangada», «irritadiça», «amarga». Uma metamorfose que paralisa o marido: «A minha mulher já não é a minha mulher, mas um nó de arame farpado a desafiar-me para o desfazer, e eu não estou à altura da tarefa, com os meus dedos grossos, desajeitados e nervosos. Dedos de campónio. Dedos não treinados no trabalho complexo e perigoso de resolver o enigma Amy.»
O «enigma Amy» ganha outro sentido na manhã do quinto aniversário de casados, quando ela desaparece de repente, sem deixar rasto. Na casa há vestígios de luta e a polícia começa a montar o cerco ao marido, o suspeito mais óbvio. A primeira parte do livro alterna entre dois planos: o relato de Nick sobre os interrogatórios a que é sujeito, o andamento das operações de busca, o vampirismo dos media; e um conjunto de entradas do diário de Amy, que contam retroactivamente a história do casal, do entusiasmo quase pueril dos primeiros anos, às fissuras, sombras e ressentimentos que minam a relação. Em pano de fundo, assistimos aos efeitos da crise económica que destruiu a indústria e o comércio da cidade, imagens de uma América ferida e decadente, pouco vistas na ficção contemporânea. Exemplo: o centro comercial abandonado, cenário «pós-cometa, pós-zombie, pós-humanidade», com «rastos lamacentos de carrinhos de compras» no chão em tempos branco, lojas saqueadas, fontes secas, uma mancha circular a marcar «o sítio onde o carrossel estivera outrora».
Na segunda parte do livro, descobrimos finalmente o que aconteceu a Amy, mas do seu destino não se falará aqui – para evitar os spoilers, essa kryptonite dos thrillers. A moral desta história sem moral nenhuma – tão negro, obsessivo e doentio se revela o desencanto dos seus protagonistas – talvez se resuma na ideia de que as pessoas podem querer muito acreditar que se conhecem umas às outras, mas na verdade nunca se conhecem. Quase no fim, surge uma referência à tira de Möbius, oportuna porque representa na perfeição este inferno conjugal em que parece haver dois lados quando há só um, aquele em que Nick e Amy se completam «da forma mais sórdida e desagradável possível».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>]]>Vem Miguel Relvas conduzindo aos ziguezagues o seu Mercedes banhado a ouro e sai do carro com o seu diploma na mão. Chegando ao batel infernal, diz:
RELVAS – Hou da barca!
DIABO – Ó poderoso Doutor Relvas, que forma é essa de conduzir?
RELVAS – Tirei a carta de scooter e deram-me equivalência. Esta barca onde vai hora?
DIABO – Pera um sítio onde não hai contribuintes para roubar!
RELVAS – Pois olha, não sei do que falais. Quantas aulas eu ouvi, nom me hão elas de prestar.
DIABO – Ha Ha Ha. Oh estudioso sandeu, achas-te digno de um diploma comprado nos chineses ao fim de três aulas?
RELVAS – Um senhor de tal marca não há de merecer este diploma!
DIABO – Senhores doutores como tu, tenho eu cá muitos.
Miguel Relvas, indignado com a conversa, dirige-se ao batel divinal.
RELVAS – Oh meu santo salvador, que barca tão bela, porque nom hei dir eu nela?
ANJO – Esta barca pertence ao Céu, nom a irás privatizar!
RELVAS – Tanto eu estudei, que nesta barca eu entrarei.
ANJO – Tu aqui não entrarás, contribuintes cortaste, dinheiro roubaste e um curso mal tiraste.
Relvas, sem alternativa, volta à barca do Diabo.
RELVAS – Pois vejo que não tenho alternativa. Nesta barca eu irei. Tanto roubei, tanto cortei, não cuidei que para o inferno fosse.
DIABO – Bem vindo ao teu lar, muitos da tua laia já cá tenho e muitos mais virão. Entra, entra, ó poderoso senhor doutor magistrado Relvas. Pegarás num remo e remarás com a força e vontade com que roubaste aos que afincadamente trabalharam.
Gonçalo, Filipe e Carolina
Turma 9.º D
Escola EB23 Dra. Maria Alice Gouveia
Coimbra
A Palavra do Mudo
Autor: Julio Ramón Ribeyro
Título original: La Palabra del Mudo
Selecção e tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-972-9-7228-66
Ano de publicação: 2012
Julio Ramón Ribeyro (1929-1994), um dos mais notáveis escritores peruanos do século XX, foi revelado aos leitores portugueses em 2011 com a edição, pela Ahab, das suas magníficas Prosas Apátridas, um «catálogo de enigmas» composto por duas centenas de fragmentos que «não se ajustam cabalmente a nenhum género». Agora, a Ahab introduz-nos aos celebrados contos de Ribeyro, numa antologia em dois volumes intitulada A Palavra do Mudo.
O primeiro volume abre com o excerto de uma carta de Ribeyro ao seu editor em que o contista assume escrever sobre «aqueles que estão privados da palavra, os marginalizados, os esquecidos, os condenados a uma existência anónima e sem voz». Dito assim, parece um projecto de cariz quase neo-realista. A leitura, porém, rapidamente desfaz o equívoco. As personagens de Ribeyro não têm voz porque estão mergulhadas nas suas limitações humanas, mais do que sociais ou políticas. São figuras quase sempre patéticas, sujeitas ao fracasso e à humilhação, seja por via do aproveitamento que outros fazem da sua boa-vontade (o Arístides de Uma Aventura Nocturna, enganado ao ponto de sentir «uma vergonha sem precedentes, como se um cão lhe tivesse urinado em cima»), seja pela apoteose do trabalho enquanto lugar de asfixia burocrática que sobra sempre para os mesmos (o Aníbal de Espumante na Cave), seja ainda pela incapacidade pessoal de lidar com as oportunidades que a vida oferece (os delírios de procrastinação de Matias em O professor substituto).
Entre as dez histórias restantes, há textos mais longos de perfeito recorte clássico (Silvio no Roseiral, Tia Clementina), mas sobretudo várias parábolas sobre a memória que persiste, para o bem ou para o mal, nos objectos comuns do quotidiano: um espelho onde coincidem os reflexos de várias gerações (O armário, os velhos e a morte); um livro em branco que amaldiçoa quem o possui; um pisa-papéis que atravessa o abismo entre leitor e escritor; uma caneta de tinta permanente que transforma um filho no pai morto (Página de um diário). Ou ainda a biblioteca que se desfaz literalmente: «assim, o que numa época fora fonte de luz e de prazer, era agora excremento, caducidade» (O pó do saber). Ou esses milhares de cigarros fumados por Ribeyro ao longo da vida, heróis de uma extraordinária autobiografia nicotínica – Só para fumadores – feita de sacrifícios, estratagemas, episódios rocambolescos, persistência, desespero (o momento em que vendeu todos os seus livros para comprar tabaco) e muita ironia.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]
]]>[in Tão Longo Amor Tão Curta a Vida, de Helder Macedo, Presença, 2013]
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50 Poemas
Autor: Tomas Tranströmer
Tradução: Alexandre Pastor
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-989-641-304-0
Ano de publicação: 2012
Poeta canónico na Escandinávia, traduzido em dezenas de línguas e eterno candidato ao Nobel, Tomas Tranströmer recebeu finalmente, em 2011, o mais importante dos prémios literários. Em Portugal, do grande escritor sueco havia apenas alguns textos incluídos em antologias de poesia nórdica e uns quantos poemas traduzidos na internet. Foi preciso quase um ano para que se colmatasse esta lacuna, com a publicação, pela Relógio d’Água, destes 50 Poemas, traduzidos por Alexandre Pastor.
O livro ilustra quase meio século de produção poética, com textos retirados de 12 livros, sem ordem cronológica. Muito presente está um dos aspectos mais destacados da obra de Tranströmer: a forma como descreve a paisagem e os elementos naturais. Abundam as florestas, as manifestações do Inverno, os cenários de neve e ventania. O poeta é capaz de ler uma borrasca de olhos fechados, de discernir os mínimos sinais do degelo, mas também se pode sentir subitamente «desmascarado pelo esplendor do verão». Agreste, misteriosa, a natureza fascina mas tem um carácter indecifrável – e por isso há lugares ermos que se transformam «numa esfinge».
Quase sempre com uma estrutura simples, reduzida ao essencial, partindo de uma situação do quotidiano, os poemas como que se acendem pela deflagração de imagens fortíssimas. Tranströmer revela uma absoluta mestria no uso dos paradoxos («uma bebida efervescente num copo vazio», o «altifalante que emite silêncio», o «livro que só pode ser lido nas trevas») e sobretudo das metáforas. Certo barco é comparado a «um alaúde enorme sem cordas». Um outro, visto do céu, assemelha-se a um «caroço de azeitona cuspido para o oceano», com uma esteira que é «pálida cicatriz». Há ainda uma «megacidade» crescendo como «uma galáxia em espiral», carruagens do metro que são «catacumbas itinerantes», e colunas de uma igreja a servir de «talas de gesso / à volta do braço partido da fé».
Tranströmer é um poeta muitíssimo atento às mais pequenas vibrações do mundo sensível: a luz que bate num rosto adormecido, tornando mais vívido o sonho que agita os olhos sob as pálpebras; o ruído urbano que atravessa as paredes de uma catedral e invade o súbito silêncio do órgão. As «bonitas sobras da experiência» que dão origem ao poema estão em todo o lado. Podem assumir a forma de um pássaro – um cuco empoleirado no vidoeiro ou o canto do rouxinol, «sonoro e áspero, a afiar a gadanha pálida da abóbada celeste». Pode ser um comboio que se deteve «no meio da campina» às duas da madrugada. Podem ser objectos artísticos: um quinteto de Schubert, uma tela de Turner, um personagem de Gogol, um baixo-relevo do século XVI representando um judeu português explorador no Benim, um retrato de mulher estrangulado por uma moldura dourada.
Muitas das reflexões de Tranströmer revelam um pendor metafísico: o poeta senta-se à «mesa oscilante da humanidade» e aprende que «cada ser humano é uma porta entreaberta / que conduz a um quarto para todos». Com a idade, «encurralado num canto», diminuem as surpresas mas também a capacidade de «carregar» o peso do que «acontece». Pressente-se então, de forma cada vez mais explícita, a sombra da morte, esse destino que todos fingimos ignorar: «Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta / e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida, / e a vida continua. O fato, porém, esse / é cosido em silêncio.» No fundo, esta poesia aspira a mostrar-nos uma imagem abstracta do mundo, sabendo que «a imagem abstracta do mundo é tão impossível de dar como fazer o desenho de uma tempestade».
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]
]]>1. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. No eléctrico, à mesa de um café, numa esquina qualquer, alguém desdobrou as folhas enormes do Diário de Notícias. E leu. No topo da primeira página, os caracteres góticos do cabeçalho, o preço (1$50), o número da edição (38.068), o nome do director (Fernando Fragoso) e o anúncio das máquinas de costura Vigorelli («as melhores do mundo»). Na segunda página, alguns avisos: a Joalharia Mergulhão lembra aos seus Exmos. Clientes (com maiúscula) que passa a encerrar aos sábados de tarde; enquanto o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram, em combate na Guiné, um soldado e um primeiro-cabo. Há também muita publicidade a espectáculos: no cinema Vox, O Mensageiro, de Joseph Losey, vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, está há nove semanas em cartaz; o Teatro Villaret acolhe Tartufo, com Raul Solnado no papel principal, às 21 e às 23 horas; e quem não gostar de Molière pode sempre ir ao Capitólio, onde José Viana encabeça o elenco da revista Ora Bolas P’ró Pagode. Na secção cultural, Natércia Freire escreve sobre Fernanda Botelho, João Gaspar Simões sobre Fernando Namora e João Bigotte Chorão sobre Maria Eulália de Macedo. Do folhetim Um Gesto de Amor, escrito por Daniel Gray, publica-se o 28.º capítulo. Mas é lá mais para diante, nos anúncios das últimas páginas, que está um retrato do país. Lado a lado, a grande empresa de urbanização que procura um topógrafo para trabalhar no Algarve e o particular que vende palha. Os andares de duas a três assoalhadas (a partir de 260 contos) e a requisição de um ardina para distribuir jornais ao domicílio. Repito: alguém leu isto tudo, numa esquina qualquer, à mesa de um café, no eléctrico. Talvez a meio da manhã, no exacto instante em que nasceu uma criança, milhares de quilómetros para norte. Ou no momento preciso em que foi lançada uma sonda da NASA, rumo a Júpiter e mais além.
2. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. Em Cabo Kennedy, depois de vários adiamentos por causa do mau tempo, a sonda Pioneer-10 é enviada para o Espaço no topo de um foguetão Atlas Centauro. Custou 68 milhões de dólares, mede três metros (se contarmos com as antenas), pesa 270 quilos e carrega 11 instrumentos científicos. Pela primeira vez, um objecto fabricado pelo Homem aponta para um destino mais longínquo do que Marte. Os cientistas, apesar de temerem que a Cintura de Asteróides seja intransponível, sonham com a chegada da Pioneer-10 a Júpiter. Se sobreviver, a frágil estrutura que viaja a 44.579 kms/h poderá enviar informações preciosas sobre os limites exteriores do sistema solar. Há mesmo quem ponha a hipótese de um eventual contacto com extraterrestres. Presa à chapa da sonda, uma placa de alumínio com banho de ouro, concebida por Carl Sagan, mostra um homem (a mão direita levantada em sinal de boa vontade) e uma mulher, cujas formas correspondem a uma média computorizada da compleição física da espécie humana. A escala é conferida pelo desenho da própria sonda, ao lado daquele casal que faz lembrar Adão e Eva. No canto superior esquerdo, a representação de um átomo de Hidrogénio, o elemento mais comum no Universo, prova que conhecemos a matéria das estrelas. E os vários símbolos dispostos na base do esquema, representando o Sol e os planetas que giram à sua volta, explicam de onde partiu esta «casca de noz». A placa é o nosso espelho. É uma súmula, um gesto de aproximação, a primeira palavra de um diálogo. É também um mapa a indicar o caminho até este canto do cosmos onde existe vida, inteligência, civilização. Compreensivelmente, nada se diz sobre a outra face dos seres humanos: a cupidez, o ódio, a barbárie. Afinal, se os extraterrestres alguma vez descobrirem a sonda, não vamos querer assustá-los, pois não? A verdade é que ninguém espera uma resposta. O tempo de vida previsto para a missão é muito curto. Três anos, na melhor das hipóteses.
3. Foi há precisamente 30 anos. A dois de Março. A minha mãe está deitada, a barriga enorme, o suor, as contracções. Na sala, vários alunos tomam notas. O médico-obstetra, talvez o mais conceituado da Maternidade de Port Royal, em Paris, decidiu fazer do parto uma aula. Porque este não é um caso simples – a cabeça do bebé, muito grande, tem dificuldade em sair. É demasiado estreito, o corpo da mulher. E por isso sofrem. Os dois. Aida contrai os músculos, uma e outra vez, e outra ainda, sente o filho dentro de si, o movimento dele, o esforço dele. A dor cresce como um incêndio, alastra, concentra-se num ponto, reflui e depois regressa. A dor. Cada vez mais intensa. A dor. De olhos fechados, Aida pensa só no filho que vem aí, através da carne. E ao pensar nele a dor fica como que suspensa. Já não importa. Tal como não importa o que ficou para trás. A estupidez de uma injecção que retardou o nascimento até de manhã, para que médico e alunos pudessem aparecer de camisa lavada e pequeno-almoço tomado a horas. A travessia da noite, olhos postos na lua. A espera longa, longa, longa, sem líquido amniótico, o feto em risco de sufocar. A rudeza das enfermeiras. Tudo isso já não interessa. Aida pensa no filho, os músculos contraídos, uma e outra vez, e outra ainda. A respiração ofegante. O suor na testa. O grito. O seu grito. Depois um outro, mais ténue. O grito do filho. O meu grito. Eu, tão pequeno. Ali, sobre a barriga exausta. Espreitando entre os seios, Aida vê a cabeça ainda achatada do filho, onde já desponta uma espiral de cabelo, um caracol. E antes de o levarem, antes de me levarem, sente os batimentos daquele coração pequenino, tão perto do seu.
4. Passaram 30 anos. Dentro de um Diário de Notícias muito diferente, na página nove do suplemento com nome de código genético, narram-se factos ocorridos num mesmo dia: 2/3/1972. Seria fácil estabelecer ligações entre o nascimento de uma criança e a viagem de uma sonda até aos confins do universo. A criança que acaba de nascer não sabe nada, parte para o desconhecido, para a incerteza. À sua maneira, ela também é uma sonda – só que avança no tempo, enquanto a outra avança no espaço. Ocorre-me a ideia de unir os dois rumos, de filosofar sobre o destino de um homem versus o destino do Homem. Mas não vou por aí, embora a coincidência me perturbe. E a perturbação acentua-se porque a sonda, o primeiro objecto construído por humanos a sair do sistema solar, resistiu muito mais do que estava previsto. Ainda hoje, cinco anos após o encerramento oficial da missão, ela mantém-se «viva» e em contacto com a Terra, apesar da distância inimaginável (mais de 10.000 milhões de quilómetros) e das 22 horas que os sinais de rádio levam a chegar ao nosso planeta. Ainda hoje, continua a afastar-se, em direcção a uma estrela vermelha, da constelação do Touro, que alcançará (se não se desfizer pelo caminho) dentro de dois milhões de anos. A Pioneer-10 passou por Marte quando eu ainda mamava (três meses), por Júpiter quando eu ainda pedia colo (ano e meio), por Saturno quando andava na pré-primária (quatro anos) e abandonou o sistema solar quando comecei a escrever poemas (16 anos). Onde estará quando nascer o meu primeiro filho? E quando eu morrer?
[Texto publicado no suplemento DNA do Diário de Notícias, a 2 de Março de 2002]
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Concerto ao Vivo
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 66
ISBN: 978-989-8150-36-3
Ano de publicação: 2012
Quase em simultâneo, foram publicados dois livros de poesia que gravitam em torno da ideia de amor fraternal. Na sequência 42 canções entre 2 Portas (segunda parte do volume De Amore, Assírio & Alvim), Armando Silva Carvalho cria um delicado «ofício de treva» para a irmã Genovena, canto doloroso de quem já nada sabe «soprar sobre / as palavras» e se mostra incapaz de «burilar o luto». Por seu lado, Rosa Alice Branco dedica Concerto ao Vivo (&Etc) «ao meu irmão João», cuja ausência cria nos poemas uma espécie de «futuro póstumo», nascido da certeza de que alguém saiu «antes da hora».
Embora omnipresente nestes versos, o espaço deixado vazio é uma realidade implícita, intuída através de subtis elipses («Pensei que ia ser assim. Tu a fugires / e a mãe inquieta até chegares / com o tropel de asneiras / que te seguiam como um cão. // Mas era um cão vadio / que não sabe a volta»). A morte dissolve a ordem das coisas, alisa os vincos do tempo e acende o passado («Agora somos todos pequenos»), obrigando a escrever «para trás». Surgem então as experiências comuns de quem cresce vigiado pelo rigor familiar, as cumplicidades e embirrações, memórias límpidas do riso atirado à água (voltando «sempre / em ondas circulares»), retratos fugidios de uma tristeza inclinada.
Na grande «extensão do amor» cabem outras figuras, como a avó e a mãe, sobretudo esta, retratada como alguém que se entregava completamente, apesar da rigidez e de um «ar distante», o rosto sempre «coberto por uma neblina / que me deixava perdida / como se um temporal tivesse furado / o cerco das árvores». Ao rememorar, Rosa Alice Branco refaz o mundo da infância e da adolescência em ambiente rural, com raparigas a irem buscar água à fonte e uma carnalidade que toca os corpos quando a «primavera rebenta pelas costuras», mas sabe que nenhuma imagem a conseguirá ajudar. Porque estes poemas elegíacos procuram o que não pode ser encontrado: «Agora que tirei o tempo / dos avessos, tenho tudo por dizer (…) E confesso que quando / venho à tona dou comigo a perguntar // porque não aprendeste a ficar cá».
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]
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***
O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
***
a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.
***
o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
[in Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, 2013]
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1. Vejam a alegria desta mulher. Tentem compreender a alegria desta mulher. Chama-se Hilary Mantel. Aos 60 anos, rosto redondo, corpo enorme sob a túnica, não pertence ao grupo das escritoras que aliam, ao talento da escrita, os tão apreciados good looks. Ela não quer saber dos good looks para nada. Ela não é um rosto que se fotografa, em pose. Ela é uma escritora que escreve. Ponto. Creio aliás que a sua alegria ao receber o Man Booker Prize deste ano, pelo romance Bring Up the Bodies, não teve a ver com aquilo que todos os jornais destacaram: o ser a primeira mulher e o primeiro autor britânico a ganhar duas vezes o cobiçado prémio (os anteriores foram o australiano Peter Carey e o sul-africano Coetzee), ainda por cima no intervalo mais curto (apenas três anos depois de Wolf Hall). Nem teve a ver com o prémio de 50 mil libras, quase 62 mil euros, ou com o mais que previsível acréscimo exponencial de vendas deste livro e, por arrasto, dos anteriores. Quando agradeceu a distinção, no palco do Guildhall, em Londres, Mantel disse: «Esperas vinte anos para vencer o Booker e depois vêm logo dois de seguida.» Dois que até podem vir a ser três, quando for publicado o volume final da sua trilogia sobre Thomas Cromwell e o tempo dos Tudor, The Mirror and the Light, sobre o qual já se fazem todo o tipo de apostas. Agora que se tornou quase consensual, uma espécie de Mrs. Booker a pairar, soberana, etérea, sobre o mundo das letras inglesas («Não creio ter lido nos últimos tempos nenhum outro autor anglófono que controle tão completamente a linguagem para conseguir o que pretende fazer», resumiu Sir Peter Stothard, presidente do júri do Man Booker, além de editor do The Times Literary Supplement), agora que se instalou no trono do establishment, o que se deve sublinhar é a primeira parte da sua frase: «Esperas vinte anos…» Foi longo o caminho. Um caminho com travessias do deserto e zonas de sombra que a escritora evidentemente não esqueceu.
2. No final dos anos 70, Mantel entregou-se à escrita da sua primeira narrativa, um romance histórico de 800 páginas sobre a Revolução Francesa (A Place of Greater Safety), obra que foi recusada e só viu a luz muito mais tarde, em 1992. Enquanto o escrevia, aconteceu algumas vezes enganar-se ao datar os cheques: em vez de 1978, escrevia 1798. Era a História a impor-se na sua vida, mesmo se literariamente acabou a circular por outros lados, mudando de estilo e género de livro para livro, até se fixar novamente, em 2009, na ficção histórica, seguindo os passos do maquiavélico conselheiro do rei Henrique VIII.
3. Antes de chegar aos trinta anos, quando vivia no Botswana com o marido, geólogo, Hilary descobriu por si mesma, lendo livros de Medicina e fazendo autodiagnóstico, a explicação para o seu estado de constante sofrimento: uma doença chamada endometriose. As células do útero migram para outras partes do corpo e provocavam hemorragias. Operada em Inglaterra, na mesma altura em que A Place of Greater Safety era recusado, saiu do hospital sem ovários, sem útero, desfeito o desejo de ser mãe. Depois, ganhou peso devido a um tratamento hormonal intenso, a forma do corpo que nunca mais perdeu. No seu lugar, muita gente colapsaria. Mantel seguiu em frente, reinventou-se, atravessou o deserto, esperou o que teve de esperar. «Agora levanta-te», a primeira frase de Wolf Hall, é talvez um dos mandamentos da sua vida.
4. No começo do livro que lhe deu o primeiro Booker, o protagonista, Thomas Cromwell, ainda criança, está a ser espancado pelo pai. Pontapés, murros, sangue por todo o lado. Antes de perder os sentidos, deitado por terra, ele sente uma espécie de movimento, o «chão nojento» a tornar-se líquido como o Tamisa. O resto do romance é extraordinário, mas bastaram-me aquelas páginas iniciais para saber que descobrira uma grande escritora. Dois Bookers depois, ela sabe que muitos partilharam esta descoberta. Será essa, mais do que a glória efémera, a razão da sua alegria.
[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler, Novembro de 2012]
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Baixo-Relevo
Autora: R. Lino
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 37
ISBN: 978-989-8592-19-4
Ano de publicação: 2013
R. Lino (n. 1952) é uma autora mais do que bissexta. Depois de alguns livros publicados na década de 80, e da significativa inclusão numa célebre antologia organizada por Al Berto, Rui Baião e Paulo da Costa Domingos (Sião, Frenesi, 1987), houve um hiato que durou até 2012, quando : Predação :/ Urânia, Nós e as Musas surgiu em edição de autor. Baixo-Relevo, oitavo título da colecção de poesia da micro-editora açoriana de Carlos Alberto Machado, é um livrinho que se escora nas «paredes da memória». Iniciado em 1984, foi «posto em sossego» e lentamente acrescentado ao longo de quase três décadas, «como um pequeno felino paciente no quotidiano da sua ‘impublicação’».
A demora conferiu aos poemas uma espécie de serenidade ontológica, a da sobrevivência ao passar do tempo, o mais implacável dos crivos (já o dizia Horácio). Esta é uma poesia discreta, esquiva, felina no modo como segue «o movimento dos pássaros» e das coisas, próxima do «silêncio das palavras» rasgado pelos «ossos da voz», atenta aos «leves acasos que acenam», mas também ansiosa por se misturar com «essas terras de aluvião» em que confluem todas as escritas do passado, de Li Po e Bashô a Camões, Sá de Miranda ou Kavafys.
Alguns poemas inclinam-se para «os que querem ver ainda / nesta vida outro fervor», enquanto as «réguas de assomo e segredo» procuram o que talvez não se possa medir: «não só a um país / e ao que fica por dizer / pelos gostos pertencemos / mas só esta é essa língua // em que estamos a tecê-los: / mar, medo, aquele jogo / guerra, glória e aviões / império, tratos d’água // bons e maus, risos / e as alegrias que eu vi / quando em cheio lhe acertavam / todas as horas da fantasia».
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
]]>[in O Verão de 2012, de Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013]
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Para quem está ressacado das Correntes, isto até que parece uma boa ideia.
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Voltaremos, como sempre, em 2014.
]]>Imagens desta tarde, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, durante o encerramento das Correntes d’Escritas, um acontecimento cultural que Hélia comparou à ágora grega, acrescentando que «não pode acabar», nem que seja preciso «fazer a revolução aqui».
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Da esquerda para a direita: Possidónio Cachapa, Jaime Rocha, Cristina Carvalho, Onésimo Teutónio de Almeida (moderador), Andréa Del Fuego, João Tordo e Joel Neto.
]]>Murmuras
Só o que não se sabe é poesia
e eu vejo-te à janela,
observando o movimento das coisas
na rua Duvivier, seu lento desfile,
sua prodigiosa vertigem, sua incerta glória,
uma miríade de coisas simples e pequenas
que desembocam numa grandeza cósmica,
coisas que se agitam, que se inflamam,
que brilham, coisas já matéria verbal
a aninhar-se no poema ainda no limbo,
esse novelo crescendo algures no
labirinto das circunvoluções cerebrais,
acendendo-se na tua consciência durante
o simples acto de olhar a rua, o poema
à espera de encontrar quem não saiba
o suficiente para o escrever, para o dizer.
Estás à janela, com o poema
expandindo-se dentro da cabeça,
poema silencioso, pés de lã, a erguer-se
do nada para uma espécie diferente
de silêncio, o som áspero das palavras
agora no papel, andaimes de tinta, carena
de um navio invisível mas que flutua
e avança leitor adentro, com os porões
carregados da melancolia que julgavas
só tua, mas que cedes agora ao
estranho comércio da poesia,
esse tráfico de ouro e pólvora,
brilho e deflagração.
Estás à janela, a cabeleira branca
reflectida no vidro, consciente
de cada um dos teus ossos,
e sobre os telhados do Rio de Janeiro
o céu que escurece é o de São Luiz
do Maranhão, paira no ar o cheiro
das bananas apodrecendo na tua infância,
a sombra das mil faces da miséria, a violência
venenosa do jasmim, o passado inteiro
com a sua carga ora sublime, ora abjecta,
e tudo isso cai no buraco do poema ainda
por existir, ainda buscando a sua forma
mas já em aproximação brusca
a quem um dia o lerá, compreendendo
ou não todos os sinais, a ordem
dentro da desordem, as asas da mosca
pousada no parapeito e a espiral
da mais longínqua das galáxias.
A rua Duvivier, não a conheço.
Fica numa cidade, o Rio de Janeiro,
onde nunca estive. Por isso, o teu
prédio, a tua janela, assumem na minha
imaginação uma forma que nasce
dos prédios todos de que me lembro
(prédios que não ficam na rua Duvivier)
e de todas as janelas que não são janelas
de prédios que fiquem na rua Duvivier.
É imaginária a janela em que te imagino,
no alto de um prédio também ele imaginário,
mas reais ambos, janela e prédio, porque
és tu e a tua cabeleira branca que se
reflectem no vidro enquanto o poema
ganha forma no labirinto das minhas
circunvoluções cerebrais.
Agora sou eu que murmuro:
Só o que não se sabe é poesia.
Não há poucos poetas porque
saibamos pouco. Há poucos
poetas porque sabemos demais.
Escrever é levantar uma cerca,
arame farpado na planície:
para cá da cerca, as nossas certezas;
para lá da cerca, o que desconhecemos.
Se tivermos sorte, o poema vem ter
connosco quando insones,
sonâmbulos, abrimos o portão
sem fazer barulho e nos perdemos lá
fora, nessa noite que escurece sobre
a nossa ignorância, sobre o Rio,
sobre a verdadeira rua Duvivier
e sobre a que imagino, sobre ti
e sobre mim, perdidos os dois
no reflexo da janela que não há.
[Poema escrito anteontem à noite, na Póvoa de Varzim, e lido ontem à tarde, na mesa 3 das Correntes d'Escritas]
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]]>FICA O NÃO DITO POR DITO
o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco
ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra
o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer
mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?
mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?
por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo
por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal
se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve
(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)
mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria
e
se dito não fosse
jamais se saberia
por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)
mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia
então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?
é que só o que não se sabe é poesia
assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite
Como não podia deixar de ser, o Jornal de Notícias pede hoje desculpa aos seus leitores pela absurda notícia falsa a que se agarrou obstinadamente durante quase uma semana, segundo a qual Manuel António Pina teria vencido o Prémio Casino da Póvoa, antes mesmo da reunião do júri. Só agora, quando a realidade desmentiu a conjectura de uma fonte supostamente «da maior credibilidade» e que «parecia lidar com informação muito restrita», veio finalmente o autor da notícia assumir que errou. Compreende-se que proteja a sua fonte, mesmo se a fonte não o protegeu a ele, expondo-o ao embaraço de uma humilhação pública. Mas há algo que não se compreende: como é que um jornalista aceita a informação de uma fonte e não a confirma? Neste caso, bastaria telefonar à organização das Correntes d’Escritas e averiguar quando é que o júri se reuniria. Porque nunca pode haver fuga de informação sem informação, nem se pode anunciar antecipadamente o que ainda não aconteceu. Depois de publicar a sua notícia no sábado e de ler o desmentido no domingo (explicitando que o júri só se reuniria na quarta-feira), porque insistiu o jornalista na dica de uma fonte que estava visivelmente equivocada? Só ele o poderá dizer. O problema é que a insistência implicou uma natural suspeita sobre a idoneidade do júri e a lisura dos seus procedimentos. Uma suspeita tão grave e insidiosa como infundada.
Fica bem a Agostinho Santos dar a cara pelo seu erro, pela sua má conduta profissional, e pedir desculpa aos leitores do Jornal de Notícias. Antes, porém, devia pedir desculpa a quem mais lesou com todo este caricato e infeliz episódio: o júri do prémio, do qual fiz parte com muita honra e prazer, a organização das Correntes d’Escritas, e o próprio Manuel António Pina, que merece todas as homenagens menos esta.
Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.
33.
De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.
Hélia Correia
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Hélia Correia, pelo livro A Terceira Miséria (Relógio d’Água). O júri decidiu por maioria.
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Maria dos Canos Serrados
Autor: Ricardo Adolfo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 218
ISBN: 978-989-672-157-2
Ano de publicação: 2013
Quase no fim de Maria dos Canos Serrados, a protagonista dá finalmente sentido ao título, quando espalha chumbo com uma caçadeira Baikal, arma potentíssima e de coice valente, mas tão maneirinha que cabe inteira na mala de contrafacção (Louise Vittone). A violência, porém, começa por ser verbal: «Velhinho, Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.» O livro abre assim e nunca mais volta atrás. Com as cartas em cima da mesa, pelo menos os leitores já sabem ao que vão.
O «velhinho» é o amante de Maria, um gigolô mulato que «faz» turistas flácidas em Armação de Pêra. Ausente, negligente, sempre mais preocupado com o meio-irmão, Jesus, do que com a sua «dama», a ele se dirigem as dezenas de mensagens (chamar-lhes cartas talvez seja um exagero) que compõem este muito irónico romance epistolar, uma narrativa tão alucinante e alucinada que faz figura de corpo estranho na pacatez da ficção literária portuguesa.
Ali para os lados da Linha de Sintra, consome-se muito «chocolate» (do que se fuma), muitos «tirinhos» de cocaína e smarties (pastilhas de todo o tipo, das anfetaminas aos speeds). Um dos cenários principais em que a acção decorre é um Bar e Salão de Fogo instalado num terceiro andar de um prédio de habitação, em Rio de Mouro, onde se pode disparar à vontade entre dois copos. Neste submundo, circulam marginais, raparigas que vão para bares de alterne em Espanha, malta que anda de autocarro no «IC» mas também actualiza o perfil no «Face», aproveitando o tempo livre do desemprego (porque «o único trabalho que há praí é o de procurar o trabalho que não há»).
Em paralelo com a crise afectiva de Maria, assistimos à crise maior, económica, laboral. Ela trabalha numa empresa à beira da falência, das que já não pagam a ninguém. No palco da tragicomédia, sucedem-se uma «doutora» aldrabona, um sindicalista que não é melhor do que a «doutora» aldrabona e se arma em «grande líder», além dos vários credores (com a Segurança Social à cabeça). Ocupações e greves estão longe de resolver o assunto para os mais fracos e os salários em atraso, que é impossível cobrar a bem, acabam por ser cobrados a mal. Eis a imagem, extremada, em traço grosso, de um país insolvente.
O que torna singular a obra de Ricardo Adolfo é a linguagem: corruptelas, pontapés na gramática, palavras que se fundem umas com as outras, neologismos («orgasmar», «vacabra»). Enfim, a oralidade suburbana em todo o seu esplendor. Encontramos igualmente alguns ecos da Crónica dos Bons Malandros, mas em versão mais áspera, mais suja, mais violentamente explícita e explicitamente violenta, talvez até com genes cinematográficos de Quentin Tarantino (atente-se na cena em que há cinco armas de fogo versus duas navalhas). Mas se os gatunos no livro de Mário Zambujal queriam roubar jóias na Fundação Gulbenkian, agora o objecto do roubo são milhares de cartões pré-pagos com chamadas telefónicas. Sinal dos tempos.
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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Publicado há muitos anos pela Dom Quixote, José Eduardo Agualusa acaba de transferir-se da LeYa para o grupo Bertrand/Círculo (parte do universo Porto Editora). O seu novo romance, A Vida no Céu, aparecerá em Junho na Quetzal, chancela que lhe reeditará, ainda em 2013, o romance Um Estranho em Goa.
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No sábado, o Hotel ROSA ET AL (Rua do Rosário n.º 233, Porto), acolhe a partir das 17h00 uma apresentação do romance Trás-os-Montes, de Tiago Patrício (Gradiva), a que se seguirão «leituras e conversas com chá e bolinhos», além de uma pré-apresentação do livro O Estado de Nova Iorque, escrito por T. Patrício durante a residência literária que fez na Ledig House, no Outono de 2012.
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Passageiro do Fim do Dia
Autor: Rubens Figueiredo
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-989-724-053-9
Ano de publicação: 2013
A ideia de que a literatura «empenhada» tem geralmente limitações estéticas serve de álibi perfeito para que muitos escritores contemporâneos se afastem de qualquer tipo de questionamento da realidade política e social do seu tempo. Assim, verificamos que as populações mais desfavorecidas estão praticamente ausentes do campo literário. Se os marginais ainda mantêm uma certa aura romântica (traficantes, assassinos e proxenetas dão sempre boas personagens), os pobres que são apenas pobres, com vidas banais, explorados no trabalho ou vítimas do desemprego, só raramente aparecem nos romances do século XXI, mesmo com esta crise inaudita que tende a multiplicar-lhes o número e a perpetuar a sua condição. Louve-se, por isso, o desassombro de Rubens Figueiredo, um escritor carioca que não hesitou em escrever uma narrativa que revela as chagas sociais do Brasil de hoje, sem filtros nem simplificações panfletárias, apenas mostrando as coisas como elas são.
Passageiro do Fim do Dia acompanha, durante quase 200 páginas, o trajecto que o protagonista, Pedro, faz de autocarro («ônibus») do centro de uma grande cidade até ao bairro degradado e periférico onde mora a namorada, Rosane. Fechado num espaço claustrofóbico, ele quer isolar-se do que o rodeia, ouvindo rádio e lendo um volume sobre a passagem de Charles Darwin pelo Brasil, trazido nessa tarde da loja de livros em segunda mão que abriu com um amigo advogado. A sua intenção é «não ver, não entender e até não sentir», mas acontece precisamente o contrário. Além de observar com minúcia os companheiros de viagem – cada vez mais enervados, à medida que se sucedem os atrasos e os engarrafamentos, bem como notícias incertas sobre perturbações da ordem pública no fim da linha, capazes de levar a alterações no itinerário –, ele mergulha num labiríntico e caleidoscópio fluxo de consciência que é a própria matéria do romance.
A caminho do mal afamado bairro do Tirol, um «caos de brutalidades», arquétipo do inferno urbanístico das periferias (a que não falta sequer a imagem de fogueiras em cada esquina, «uma energia extraída do lixo, dos restos, daquilo que ninguém quer ou precisa»), Pedro deambula pelas extensões da memória, recapitulando os principais passos da sua vida, tendo como centro gravitacional o acidente em que um cavalo da polícia lhe esmagou a articulação do tornozelo. Sem capítulos, o livro avança num encadeamento contínuo e funciona por acumulação: de histórias, de detalhes, de tensões. Os episódios narrados vão nascendo uns dos outros, emendando-se, completando-se, formando como que uma teia (bem urdida, sem descontinuidades) que se expande e alarga a compreensão de Pedro sobre si mesmo, mas também sobre a vida de Rosane e dos seus vizinhos: pessoas habituadas ao fracasso, com marcas no corpo (cicatrizes, queimaduras, doenças) a servir de mapa dos abusos e humilhações a que foram sujeitos.
Na sua leitura intermitente, Pedro descobre os apontamentos que Darwin fixou, há 150 anos, sobre a paisagem que se avista da janela do autocarro. Onde agora se vêem fábricas desactivadas, favelas, morros despidos e aterros sanitários, o criador da teoria da evolução ainda encontrou uma natureza luxuriante. Entre outros registos, o cientista inglês descreve a forma como uma vespa (Pepsis) ataca e mata uma aranha (Lycosa), história sem outra moral que não seja o triunfo do mais forte. E aqui teme-se que Rubens Figueiredo ceda à tentação das analogias darwinistas aplicadas à sociologia, o que felizmente não acontece, até porque o próprio Darwin dá conta de uma outra observação, em que é a aranha a capturar uma vespa, enrolando-a num casulo e injectando-lhe veneno, tornando menos clara a fronteira entre quem é «tirano» e quem é «vítima».
O relato da viagem interrompe-se antes do fim (faltam quinze minutos para chegar, diz o motorista na última linha do texto), não sabemos por isso o que acontece a Pedro e a Rosane, nem é necessário sabermos. Nós já estamos no bairro do Tirol, no coração da miséria. E foi um grande escritor que nos levou até lá.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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Mais logo, vai haver tiroteio verbal em Alcântara.
]]>1. A tua pessoa;
2. A tua pessoa nunca estar cá;
3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgamos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.
Por mais que tentemos, não conseguimos perceber porque é que continuas em Armação a fazer turistas por vinte e cinco euros, em vez de estares aqui a cumprir o teu dever com a cabeça entalada no meio das nossas pernas.
Vamos abrir outra garrafa e cheirar o que ainda aí houver, para clarear as ideias. Esperamos que não tenhas tomado tudo, como fazes sempre. E essa é a outra coisa que nos deixa ainda mais fodidas. Nós às vezes também fumamos os restos do chocolate ou damos o último tirinho. Mas sentimo-nos mal. Sabemos que não o devíamos fazer. Tu não. Tu nem pensas nisso. Quando vês uma carreirinha de sobra, se for preciso até vais para a cozinha só para não teres de a dividir, como aconteceu no mês passado.
qué que tás a fazer?
tava a cheirar o restinho
vieste cheirar e não me chamaste?
era o meu resto
e não podias dividir?
já tínhamos dividido, tu ficaste com quase tudo e sobrou meia linha pra mim
metade dessa meia dava na boa pra mim
tu fizeste as outras três cavia
isso foi antes
era só um tirinho, nem deu pra nada
deu pra ti, podia ter dado pra mim
mas tu já tinhas dado, dama
tu não me dames
amanhã há mais, prometo, era só uma miséria
é bom caja, pobre
não me chames pobre
preto
mulato, se fosse preto matava-me.»
[in Maria dos Canos Serrados, de Ricardo Adolfo, Alfaguara, 2013]
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Chega amanhã às bancas.
Sendo o último número dirigido por João Pombeiro, um jornalista que soube manter a qualidade da revista e fazê-la chegar a novos públicos (através da secção 15/25, do Festival Ler, etc.), quero deixar aqui um elogio do seu trabalho, discreto mas de uma honestidade, cuidado e entrega exemplares.
Sete generais angolanos estendem a sua sanha silenciadora a Portugal e tentam calar, com a ameaça do tribunal, uma das melhores editoras portuguesas, só porque esta publicou, num país politicamente livre, um livro incómodo para o regime de José Eduardo dos Santos. Numa altura em que grande parte da imprensa portuguesa está a ficar nas mãos de investidores de Angola, talvez fosse bom abrirmos os olhos para os perigos que se levantam no horizonte.
]]>[in Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel, Fourth Estate, 2012]
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É já na sexta-feira, no Chiado, à tardinha.
]]>O António é um meu amigo admirado, não só porque eu o admiro como porque ele também se admira, isto é, espanta-se amiúde. A amizade é uma admiração, e desenvolvendo mais a atenção a estes sentidos presentes das palavras nem precisamos de ter tantas, embora às vezes também seja bom termos uma reserva para variarmos e a mesma coisa passar a ser nova, o que também tem a ver com este livro. A nossa – amizade, admiração – nem precisou até agora de ser longa, mas um dia vai ser. Comecei a conhecer o Livro, e o António também, um através do outro, porque quem o conhece lembra sempre que tantas das suas elocuções são dizeres do livro, tantas também dizeres de outros livros. “A memória é uma surpresa na realidade.”
Quando, pois, o António me convidou para apresentar este livro enchi-me de orgulho e de miaúfa, porque o que aqui temos não é nada fácil de articular. Quis preparar-me e fazer toda a justiça que me permite a minha qualidade de professora de literatura e fiz o que faria qualquer académica que se preze, mergulhando no que podia ser o filão da poética do Poppe, tentando traçar-lhe um percurso, e até fases, começando pelo primeiro livro publicado – ao que ele me adiantou trabalho, dizendo que, sendo um livro onde já desde logo houve a sobreposição do desenho ao poema, como não podia deixar de ser no seu espírito plástico, o fizera também para treinar a mão, procurando que o guiassem as palavras que amava ou que o desatinavam em escritos dos outros. Posto isto, ainda que não achasse a ligação toda com Juan Abad, tipógrafo tornado dramaturgo a escrever zarzuelas em plena revolução das Filipinas no final do século XIX (falha de ligação que provavelmente é só despiste meu, mas se calhar está nos versos finais de “Um alfaiate traça na manga o corte / eu olho por dentro uma velha maneira de falar com a morte”), optei pela leviandade de passar por cima de tantos anos de estudo de teoria literária em favor da crítica impressionista que me levasse pelo coração à ponte entre Torre de Juan Abad e o Livro da Luz. E escrevi isto:
Todos os meios sentidos dão à luz. O A. escreve a ler,
escreve o Helder, escreve o Quevedo, escreve o Auden,
escreve o Pau-Chi, escreve a sorte de zarzuelas e castelos
inundando Juan Abad, e desenha montanhas moldes de
inversas cúpulas e escreve e repete e ouve o Cintra
e desenha o Belo e o escuro, o Belo ainda estava lá
no escuro, cada sentido com vários meios, e o sexto,
a luz e o seio, sentido sabor de sabedoria com gosto,
verso de saber que é verso do saber, anagrama de servo,
“de coral em vértebra / uma existência livre de vontade”.
Então o António vai a ver e traça sobre o que viu, cola
o rosto no verso, a imagem na imagem sobe às letras coradas,
a escrita no carvão e na água, a pintura com os tímpanos,
a fotografia do rosto devém caracter-Fonte de muitos membros,
uma cauda a varrer um útero aberto como grandes olhos.
Concretamente sobre o livro em apreço, e pretendendo voltar aos carris da crítica literária, digo que quis estruturar a que se segue sobre quatro palavras de significantes concatenados, roubando ao Poppe a técnica da mnemónica:
Rasura / Satura / Sutura / Sutra
O António Poppe é um rapaz, além de lido e lindo, formado em Belas-Artes pelo School of the Art Institute of Chicago. Será tentador, talvez, à primeira vista, relacionar o seu trabalho de risco com uma certa onda da rasura que terá emergido nas artes plásticas por este nosso pós-modernismo tardio adentro, com o beneplácito de Derrida e sequazes, da desconstrução, extinção e marca ou traço da tradição fragmentada e desmembrada. As pistas da citação e elisão artísticas tornam-se, porém, enganosas. Possivelmente, para a brasa da sardinha dos filósofos do pós-moderno, seria mais pertinente chamar aqui a dobra deleuziana, a pli que vai da inflexão à inclusão, e a que eu acho que o António, quando ainda lhe agrada o barroco, pisca o olho em versos como “árvore de letras e vento / plica e explica”. Mas já o António, se rasura não risca, dobra, e a dobra que é dele e não do Deleuze tende à sutura, que com mais uma dobra se torna em sutra, texto condensado para melhor se memorizar, o que também se aplica ao António, mas não o explica. Ou então sutra, escrito num livro de folhas de palmeira cozidas por um fio, que sempre parece tecer mais sentido com “árvore de folhas e vento”. Cosida pela mão, a sutura não fecha, nem sequer completamente cicatriza, tem poros, “de mão dada à pele”. Aliás, o António uma vez ensinou-me uma coisa de deixar esbugalhada boa parte da poesia portuguesa: resistir a procurar o fecho do poema, guardar-lhe a vocação de abrir.
Venho com esta conversa da rasura, porque estive Quarta-feira passada no lançamento de um livro onde se falou muito da técnica da rasura, tratando-se no caso de um livro de meu companheiro de investigação, José Duarte, que se meteu a riscar nada mais do que a Moby Dick, deixando apenas umas palavras aqui e ali, escolhidas no entanto por serem fortemente significantes, e que permitiram tornar o catrapázio de Melville num livro de poemas de 88 páginas, com um resultado singular e em muitos casos bastante pungente. Introduzi a rasura da poesia no Google (uma outra técnica, que gostava de dominar tanto como o Manso) e descobri que neste momento, no Illinois, estado fronteiro ao Michigan da Chicago onde o Poppe cursou, uma senhora chamada Julie Judkins está a dar workshops de poemas de rasura sob o título “Uma Poesia da Ausência”, e que, na Wikipedia: “Erasure poetry is a form of found poetry created by erasing words from an existing text”. Foi daí que concluí também que a poesia do Poppe não é uma poesia da rasura, pois não só não pretende limitar as suas palavras dentro das escolhas lexicais de textos anteriores, como a sua sutura não se satura de esgotamento. Sobretudo, pouca poesia será tanto de presença como a sua, de palavras que se nos apresentam e pairam ainda, simultaneamente circundadas e livres, de contextos anteriores. Tanto há para ler num verso como “Aconteceu a corda” – incitação ao despertar, à vibração, à fibra do coração, corações ao alto, o nosso coração está em Deus, livre tradução, sursum corda. Onde quer que o António tenha andado para achar os caminhos de um verso como “Aconteceu a corda”, e onde quer que tenha lido e visto e decorado, o risco dele, neste livro, a corda que cora e se espalha sobre o escrito, não é sobre o dado ou encontrado nos outros, mas sobre o que dá também, verso chegado a si, entrado no poema. O risco entra, pois, no poema, não o oblitera.
Aconteceu a corda, corações ao alto. O coração do António até pode estar no nada como estar em Deus, mas não está quieto, não tomemos este como um livro de plácida contemplação, contemplação nele é comunhão ativa, tantas vezes é tensão e, todas as vezes, a tensão (atenção!). No livro estão os mestres e os irmãos, os companheiros de viagem e os outros da paisagem, o pai e a filha, a cora, a mãe, o mundo, os seus fundos. Não apaga, sobrepõe, e o que está em cima é deferente para com o que está em baixo, não procura exatamente precedência, embora se preocupe de algum modo com o primário, forte força telúrica e dos elementos que se achem expostos, a nossos sentidos todos atentos. Nada mais errado, parece-me, do que ver no seu gesto desconstrução, senão assimilação, dirigida, lá está ela, por essa atenção que aprendeu na experiência e nos mestres do Oriente e do deserto (é pela duna que se inicia, ou se pode ver numa das leituras iniciar este livro, e a duna está distante dos aterros e dos buracos negros), experiência e mestres do Oriente e do deserto, perto da fonte da luz, a quem presta homenagem em vários degraus deste livro, seja por referências, colagens, desenhos ou fotos, além de – não esquecer – a proximidade mântrica da voz. Já a ouviremos, espero.
Há uns poucos dias, a generosidade do António presenteou-me com um caderno, “Memória Artesanal”, que veio dos anos da primeira idade adulta, escrito com uma caneta de tinta dourada, mais perto do abstrato da luz do que da matéria de cor corada que no Livro da Luz chega a tocar e não raro faz canto. Mas a memória surpreende na realidade e em “memória artesanal” encontrei já pedaços de versões do livro, com certo estrondo, medita e se dilata, mnemónicas, “uterina sábia colmeia tímpano anatomia prima”. São de mil plateias os degraus que dimanam do livro, os livros que a ele emanam. No meu, um brinde extra-texto, papel vegetal numerado, desdobrando-se da colagem, caneta preta, cópia em castelhano, calígrafo e palavras em esferográfica no verso da foto de Ramana Maharshi. Googlo e traduzo. “Nascido em 1879, no seio de uma família brâmane falante de Tamil, Ramana Maharshi parte em 1896, aos dezasseis anos e após a morte do pai, numa longa viagem e experiência de se acordar (self-awakening) para a montanha sagrada de Arunachala, onde permaneceu no cultivo do desapego além de todos os limites até à sua morte, em 1950. Sentar-se um tempo na sua santa presença era submergir na paz total. A forma mais pura do seu ensinamento era o poderoso silêncio que da sua presença irradiava, aplacando todos os espíritos que com ele se sintonizavam. Aquiescia no ensinamento verbal somente para benefício daqueles que não podiam compreender o seu silêncio.” Pessoalmente, sentar-me na presença do António é acolher o silêncio, mas sentar-me na presença das suas folhas, pranchas do traço e do risco que se iluminam, é acolher também todos os mil e mil ensinamentos, ensinamentos que se podem procurar através de bites de Google, mas que eu chego a crer também que de profecias tratam, não só verbais como visuais, vocais, tácteis. É possível que se encaminhem para o silêncio e para a brancura, mas para mim tendo a ver mais do que o branco que absorve todo o palimpsesto. Sinestesia multimediática, é uma luz de muito coração e muita cor. Se o António quisesse riscar a branco se calhar tinha usado líquido corretor. Mas eu pelo menos não creio que haja aqui outro apagamento senão o de si, a iluminura é africana e no poema entra-se a vermelho, letras coradas que só substituem na medida em que adicionam: “trouxeram-me aquela que soma e cora (….) / trouxeram-me aquela que soma o nada / derramá-lo-ás estima / ó conciliante.” Ou seja, com tudo isto o que eu quero dizer, é que, não necessariamente em paz com a história, mas já acima e contrariando qualquer asfixia ou saturação ou obsolescência ou sentimento rasteiro de crise e esgotamento que não pode fazer mais do que esta moinha em que vivemos, e que nos desgasta sempre muito mais do que a tentamos desgastar, este livro (humildemente entrado, lembre-se, na segunda fase de poeta, a de profeta) não tem pejo de tudo absorver e se encher, para que tudo se solte e abra, e se apresente novo, com uma graça afinal não tão difícil neste Solstício. E com tudo isto, também, não falei da voz, e de este livro ser para ser ouvido, sobretudo pelo Poppe, que sabe de cor e de cora as suas versões passadas e saberá as versões futuras, consoante se lhe apresentam. Palavras coradas. Obrigada e força, António Poppe.
Margarida Vale de Gato»
[Texto lido na apresentação de Livro da Luz, de António Poppe (Edições Documenta), a 21 de Dezembro de 2012]
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A Lebre de Olhos de Âmbar – Uma Herança Escondida
Autor: Edmund De Waal
Título original: The Hare with Amber Eyes – A Hidden Inheritance
Tradução: Maria Lúcia Lima
Editora: Sextante
N.º de páginas: 321
ISBN: 978-972-0-07171-2
Ano de publicação: 2012
Professor de Cerâmica na Universidade de Westminster, Edmund De Waal (n. 1964) é conhecido pelo carácter minimalista das suas peças quase indistinguíveis umas das outras («fileiras de vasos de porcelana céladon cinzento-azulado»). Se alguma dessa contenção formal passou para a escrita de A Lebre de Olhos de Âmbar, o seu extraordinário ensaio de memórias familiares, não é menos certo que estilisticamente o escritor está mais próximo da inventividade e assimetria dos netsuke, os minúsculos objectos decorativos japoneses do século XIX que recebeu em herança, do que da regularidade austera do seu trabalho de oleiro.
Quando, após a morte de um tio-avô, lhe vieram parar às mãos os 264 netsuke, primorosas miniaturas esculpidas em marfim ou madeira, representando as cenas mais díspares (uma serpente enroscada sobre uma folha de lótus; um monge adormecido sobre a escudela das esmolas; crianças a brincar com um elmo de samurai; a brancura insólita de uma lebre com olhos de âmbar), De Waal sentiu o peso do passado a cair-lhe sobre os ombros. Um dia, ao meter uma das peças no bolso, rolando-a entre os dedos, deu-se conta de que queria realmente saber como aquele «objeto tão suave e tão rijo, tão fácil de perder», sobrevivera durante um século e meio. «Deve haver uma maneira de reconstituir a sua história. Ser dono deste netsuke – herdeiro de toda a coleção – implica uma responsabilidade para com ele e para com os seus anteriores proprietários.»
Para honrar essa responsabilidade, lançou-se numa longa pesquisa sobre o percurso completo da colecção, a partir do momento em que entrou na posse da família, ao ser comprada em Paris, na década de 1870, por Charles Ephrussi, um primo do seu bisavô. Este parente, de que pouco sabia, é a porta de entrada para o labirinto da memória. Atrás deste dandy que encomendava quadros a Degas e Renoir, um janota que inspirou Marcel Proust na criação da figura de Swann, vêm os restantes Ephrussi, uma família de judeus que dominou o comércio de cereais e foi das mais ricas da Europa – antes de entrar em declínio, uma queda iniciada com o fim do Império Austro-Húngaro e concluída com a subida ao poder dos nazis. Durante dois anos, De Waal vagabundeou pelo locais onde os seus antepassados habitaram (Paris, Viena, Odessa, Tóquio), procurando o fio à meada do caminho seguido pelos netsuke na sua vitrina de vidro (com um espelho que os multiplicava até ao infinito), e descobrindo os detalhes das vidas de quem, noutros tempos, admirou as minúsculas «esculturas tácteis» vindas do Oriente.
«Não são só as coisas que têm histórias», escreve o autor. «As histórias também são uma espécie de coisas. As histórias e os objetos partilham algo, uma pátina.» É essa pátina que emerge das deambulações pelo passado, em arquivos, detendo-se em fotografias de primos do séc. XIX e em «envelopes no fundo de gavetas com os seus poucos e tristes aerogramas». A investigação, porém, nunca se fecha. Este não é um livro redondo. Quanto mais respostas consegue, mais perguntas o investigador tem para fazer. Por isso hesita muito («A realidade continua a escapar-me das mãos»; «Não consigo avançar»; «Sinto-me perdido»), duvida dos resultados que vai obtendo, recusa simbolismos e simplificações: «Sei que os meus antepassados eram judeus e assombrosamente ricos, mas não estou disposto a entrar no ramo das sagas a sépia com mais uma elegíaca narrativa da perda da Mitteleuropa. (…) Seria o género de história que se escreve sozinha, penso comigo. Alguns episódios saudosistas engastados uns nos outros, umas páginas sobre o Expresso do Oriente, claro, umas deambulações por Praga ou outro sítio igualmente fotogénico, com imagens dos salões de baile da Belle Époque tiradas do Google. Sim, daria um bonito livro nostálgico. E anémico.» Ora anémico este livro não é. Pelo contrário, todo ele vibra.
Empolgante e honesta, afectiva e rigorosa, escrita numa prosa belíssima, «A Lebre de Olhos de Âmbar» oferece-nos a admirável biografia de uma família, vista pelo prisma dos objectos que foi deixando para trás.
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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