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	<description>Contos e crônicas de terror e suspense.</description>
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		<title>O Curandeiro.</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Feb 2013 18:16:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Estava ansioso na sala de espera da clínica. Depois de meses sentindo aquelas dores de cabeça terríveis, a tomografia finalmente mostraria o que havia de errado comigo. O médico, que me acompanhava há anos, pareceu muito preocupado com os sintomas e com o breve exame clínico que fizera durante a consulta. Mas, ao indicar a realização da tomografia, disse que esta seria a “palavra final” sobre o assunto. A atendente chamou o meu nome e pulei da cadeira instantaneamente, como se minhas pernas fossem duas molas tensionadas ao máximo. Apanhei o exame com as mãos trêmulas e fui logo abrindo o envelope. Fiquei ainda mais nervoso, pois não conseguia entender nada do que via. A clínica não fornecia laudos e apenas o médico poderia interpretar as imagens. Telefonei para a secretária do Dr. Paulo e implorei por um “encaixe” em qualquer horário o mais rápido possível. Depois de algum tempo ouvindo minhas súplicas sobre a gravidade da situação, ela marcou para o mesmo dia após o último paciente. Agora, sentado diante do médico que exprimia uma careta preocupada e olhava detalhadamente meu exame sem mesmo dar um suspiro, pude perceber que os resultados realmente estavam longe de serem [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/09/amor-imenso/"     class="crp_title">Amor Imenso</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/jon_lezinsky_leper_arrested.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="jon_lezinsky_leper_arrested" border="0" alt="O Curandeiro - Contos Ancestrais" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/jon_lezinsky_leper_arrested_thumb.jpg" width="247" height="357" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">Estava ansioso na sala de espera da clínica. Depois de meses sentindo aquelas dores de cabeça terríveis, a tomografia finalmente mostraria o que havia de errado comigo. O médico, que me acompanhava há anos, pareceu muito preocupado com os sintomas e com o breve exame clínico que fizera durante a consulta. Mas, ao indicar a realização da tomografia, disse que esta seria a “palavra final” sobre o assunto.</p>
<p align="justify">A atendente chamou o meu nome e pulei da cadeira instantaneamente, como se minhas pernas fossem duas molas tensionadas ao máximo. Apanhei o exame com as mãos trêmulas e fui logo abrindo o envelope. Fiquei ainda mais nervoso, pois não conseguia entender nada do que via. A clínica não fornecia laudos e apenas o médico poderia interpretar as imagens.</p>
<p align="justify">Telefonei para a secretária do Dr. Paulo e implorei por um “encaixe” em qualquer horário o mais rápido possível. Depois de algum tempo ouvindo minhas súplicas sobre a gravidade da situação, ela marcou para o mesmo dia após o último paciente.</p>
<p align="justify">Agora, sentado diante do médico que exprimia uma careta preocupada e olhava detalhadamente meu exame sem mesmo dar um suspiro, pude perceber que os resultados realmente estavam longe de serem agradáveis.</p>
<p align="justify">O Dr. Paulo deixou o exame cair sobre a mesa. Revisou mais algumas anotações da minha ficha médica. Levantou o rosto, me encarando por alguns segundos com um olhar sombrio e preocupado, e falou em um tom solene:</p>
<p align="justify">- Infelizmente as notícias não são nada boas: Você tem um tumor inoperável numa região profunda do cérebro.</p>
<p align="justify">Chocado, perguntei com a voz trêmula e me esforçando para segurar as lágrimas que ameaçavam brotar de meus olhos: &#8211; Quanto tempo, doutor?</p>
<p align="justify">O Dr. Paulo fez um breve discurso sobre possíveis tratamentos capazes de prolongar muito a minha vida e tentou evitar ao máximo uma resposta direta. Mas, insisti e acabei colocando-o contra a parede: &#8211; Com o tratamento adequado&#8230; de um a dois anos em boas condições&#8230; e mais alguns meses ou um ano, no máximo, com comprometimento crescente da sua qualidade de vida. Agora&#8230; sem tratamento&#8230; acho que uns seis meses, na melhor das hipóteses.</p>
<p align="justify">Saí do consultório parecendo estar bêbado. Meu estômago dava voltas. Me sentia tonto e minhas pernas fraquejavam a cada passo. Não consegui sequer chegar até a esquina. Agarrei um poste e comecei a vomitar.</p>
<p align="justify">Devo ter ficado ali, vomitando agarrado ao poste, por um tempo que pareceu uma eternidade. As pessoas me olhavam e seguiam seus caminhos anonimamente. Mas, tudo parecia se mover em câmera lenta. Eu me sentia pequeno, fraco e desprotegido e tudo a minha volta era enorme e ameaçador.</p>
<p align="justify">Cheguei em casa já bem tarde, sem lembrar direito como fiz isso. Desabei no sofá da sala e permaneci ali, no escuro, a noite toda. Apenas quando o sol lançava seus primeiros raios dourados, anunciando o novo dia, me dei conta de que tinha uma decisão crucial a ser tomada: Prolongar minha vida com tratamentos que iriam minando minha qualidade de vida dia após dia ou viver o mais intensamente possível esses poucos meses que me restavam.</p>
<p align="justify">Bastou o sol sair e o telefone começou a tocar. Pensei em não atender, mas quando vi o número que chamava no Bina, percebi que se tratava de alguém com quem eu precisava muito falar: Minha amada Ana. </p>
<p align="justify">Contei o que havia acontecido e notei seu choro contido, enquanto ela tentava me tranquilizar, dizendo que encontraríamos uma saída. Desligou falando que me amava e viria me ver ainda naquela manhã.</p>
<p align="justify">Algumas horas depois ela chegava. Eu ainda estava jogado no sofá. Não possuía nenhuma energia para me levantar e fazer qualquer coisa. Ficamos ali, abraçados em silêncio, por um tempo sem medida. Tudo o que eu queria era estar com ela.</p>
<p align="justify">Em determinado momento, Ana se voltou para mim e disse que havia contado a sua mãe todo o drama por qual passávamos. A velha, que não gostava muito de mim, se compadeceu e acabou indicando um curandeiro muito conhecido. O único problema era sua localização: O tal curandeiro morava numa ilha distante do litoral vários dias de viagem de barco. </p>
<p align="justify">Segundo a mãe de Ana, muitas amigas dela ficaram completamente curadas de doenças graves &#8211; até de casos terminais &#8211; com um simples toque das mãos do tal curandeiro. Havia todo um círculo de proteção em torno dele e seus auxiliares jamais permitiam que deixasse a ilha. Ainda, segundo as amigas da minha sogra, o tal curandeiro era muito doente (pois, parecia absorver as doenças dos outros) e tinha de ser carregado numa espécie de maca durante as consultas.</p>
<p align="justify">Sempre fui um cético assumido e jamais acreditei em Deus e nessas baboseiras supersticiosas em que muitos acreditam. Mas, quando a ciência vira as costas para você, dizendo que seu tempo de vida não passará de seis meses, certas coisas mudam de perspectiva fazendo você redefinir o que acha realmente importante. Não é que se trate de hipocrisia. Mas, acho que o instinto de sobrevivência &#8211; algum resquício do animal que todos carregamos conosco – fala mais alto e nos impele a tentar de tudo para nos mantermos vivos.</p>
<p align="justify">Dei férias coletivas para todos os funcionários e fechei o escritório. Deixei meu irmão com instruções de como proceder, caso eu não voltasse, e alertei meu advogado. Deixei absolutamente tudo para trás sem pensar duas vezes. Foi imbuído desse espírito de entrega total a um objetivo que fomos procurar uma das amigas da minha sogra para obter maiores informações sobre o curandeiro. </p>
<p align="justify">Chegando lá, conversamos por um longo período e Dna. Marília – era esse o seu nome – nos mostrou fotos, livros e relatos de centenas de pessoas tratadas pelo tal curandeiro. Até programas de televisão foram gravados sobre ele, com a participação de cientistas do mundo todo vindo estudar suas curas milagrosas e aparentemente verídicas. Afinal, em mais de cinquenta anos de atividade da entidade que mantinha a “clínica” do curandeiro, ninguém havia encontrado nenhum caso de fraude. Todas as curas eram corroboradas por farta documentação médica – inclusive de profissionais de renome – atestando o “antes e o depois” de seus pacientes. Depoimentos gravados e todo tipo de provas forenses. Deixei a casa de Dna. Marília resolvido a ir visitar o tal curandeiro. Mesmo que a viagem fosse extremamente cansativa, eu não tinha mais nada a perder. </p>
<p align="justify">Tomamos o primeiro voo para o sul do país, até a cidade onde uma embarcação nos levaria a tal ilha. Tudo correu bem durante a primeira parte da viagem. Mas, ao ver o pequeno barco de madeira caindo aos pedaços e sem qualquer conforto que se aproximava para atracar e nos levar até a ilha; pensei em desistir.</p>
<p align="justify">Ana sorriu diante de meus temores e me fez entrar naquela verdadeira ratoeira. O “capitão” informou que aquele era o único barco disponível para a viagem, pois os outros dois (maiores e em melhores condições) já haviam partido lotados. Como tudo fora arranjado “em cima da hora”, ficou difícil conseguir algo melhor dentro do curto espaço de tempo disponível.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/ilha.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="ilha" border="0" alt="A ilha do curandeiro" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/ilha_thumb.jpg" width="346" height="260" /></a></p>
<p align="justify">Enquanto nos dizia isso, ia explicando a rota e mostrando um mapa com três ilhas assinaladas. Teríamos que navegar durante todo aquele dia, aportar na primeira ilha – a umas 10 milhas da costa – partir na manhã seguinte para a próxima escala, onde pernoitaríamos, e só no início da tarde do segundo dia chegaríamos ao nosso destino. Ao finalizar a explanação, o “capitão” disse com um ar misterioso (que eu podia jurar ser proposital) que de tempos em tempos alguns barcos se perdiam naquelas águas e poucas embarcações aportam naquela ilha tão distante. Se não fosse pelos doentes e seus acompanhantes, ninguém iria até lá. Aquelas águas são traiçoeiras. Além disso, desde que esse curandeiro se instalou por lá, se contam “histórias estranhas” sobre os costumes daquela gente.</p>
<p align="justify">Mal saímos do porto e nem bem passamos do quebra-mar e ondas altas faziam aquela ratoeira subir e descer como se estivéssemos sentados numa montanha russa. O barquinho avançou mar adentro, aumentando a velocidade para vencer as ondas cada vez maiores. Cumprimos a rota e, depois de dormir em acomodações nada luxuosas por duas noites, chegamos a tal ilha.</p>
<p align="justify">Desembarcamos e subimos por um caminho de pedras que levava ao sopé de uma pequena colina coberta de árvores e jardins floridos. A atmosfera era leve: pessoas andavam por toda parte, sorrindo e conversando animadamente em grupos; pássaros coloridos voavam livremente e se juntavam a confusão das gaivotas que assaltavam os barcos que atracavam no pequeno cais; algumas pessoas vestiam trajes brancos imaculados e orientavam a multidão de doentes e acompanhantes que vagava pelo lugar. Dava para perceber nitidamente a diferença entre os que já haviam estado com o curandeiro e os que ainda não haviam o encontrado. Nos primeiros, os rostos eram alegres, os sorrisos muito mais largos e expansivos, além de terem uma aura despreocupada e feliz. Já os outros, traziam nos rostos o peso de seu sofrimento e das auguras por que passavam. Andavam amparados pelos acompanhantes e mal conseguiam caminhar colina acima. Para esses, cadeiras de rodas eram trazidas pelos homens vestidos naquelas roupas brancas e toda a ajuda lhes era prestada.</p>
<p align="justify">Chegando ao alto da pequena colina, se podia ver um vale verde e pouco extenso que se estendia até o outro lado da ilha. Era possível avistar a praia oposta ao nosso local de desembarque e perceber, de imediato, toda a beleza do cenário a nossa volta: era de tirar o fôlego.</p>
<p align="justify">No centro do vale havia um complexo de construções dispostas em círculos concêntricos. Bem no centro, via-se uma pequena casinha de onde uma enorme fila se iniciava e serpenteava até o sopé da colina. Literalmente centenas e centenas de pessoas aguardavam o momento de serem atendidas. Pelo tamanho daquela fila, seria simplesmente impossível que o curandeiro nos atendesse naquele mesmo dia.</p>
<p align="justify">E&#8230; assim foi. A noite chegou e a fila não andou um único centímetro. Só de pensar que passaríamos a noite ali, sem comer nada e sem ter um lugar decente para dormir, já me causava uma angústia fora do comum. Comecei a pensar que deveria estar ficando louco ao ter aceitado embarcar naquela aventura.</p>
<p align="justify">Lá “pelas tantas”, um grupo de homens (sempre vestidos de branco) passou distribuindo uma deliciosa sopa de frutos do mar com legumes e alguns pedaços de pão. Mais algumas horas se passaram e outro grupo montou barracas numeradas, distribuindo senhas para cada pessoa na fila; desta forma, cada um poderia dormir com um mínimo de conforto sem se preocupar em perder o seu lugar na fila.</p>
<p align="justify">Minha cabeça doía tanto&#8230; mas, depois de tomar os fortes remédios que o Dr. Paulo receitara, praticamente desmaiei de exaustão. Foi um sono sem sonhos e mergulhado na escuridão. Quando abri meus olhos novamente, percebi que o sol já ia alto e Ana não estava ao meu lado na barraca. Levantei e examinei o relógio. Já eram quase dezoito horas. Havia dormido mais de doze horas e ainda me sentia completamente exausto.</p>
<p align="justify">Outra coisa que percebi foi o sumiço da enorme fila de pessoas que aguardava o curandeiro. Que coisa estranha! Todos já haviam sido atendidos? Ana desaparecera e eu fora deixado ali; sozinho e sem nenhuma explicação?</p>
<p align="justify">Minha cabeça latejava e sentia vontade de vomitar. Estava ficando nervoso e comecei a gritar por Ana, na esperança dela estar apenas admirando a paisagem ali perto. Avancei alguns metros em direção ao círculo de construções mais externo (no centro do vale) e percebi que uma figura vestida de branco saía do interior de uma das casas e caminhava em minha direção carregando algo.</p>
<p align="justify">Ao se aproximar, o homem abriu um largo sorriso, me entregou um copo com água fresca e perguntou se eu estava me sentindo melhor. Fui o mais “seco” possível sem ser mal educado. Estava irritado por ter sido deixado sozinho e por talvez ser obrigado a passar mais uma noite naquela ilha perdida no meio do oceano.</p>
<p align="justify">O homem pareceu ler meus pensamentos. Deu um sorriso ainda mais brilhante e disse, numa voz cheia de respeito e calma: &#8211; Já vamos atendê-lo irmão. Como o seu caso é o mais grave de todos; o mestre preferiu dar uma atenção especial a você e lhe prestar uma consulta exclusiva. </p>
<p align="justify">Seguimos pelo caminho de pedras até a pequena casinha no centro das construções. No interior, havia apenas um catre ladeado por homens imaculadamente vestidos de branco e sem um único pelo corporal (nem cílios eles possuíam). O salão tinha ventiladores no teto e nos cantos, responsáveis por uma suave brisa que amenizava o calor. Dezenas de cadeiras estavam dispostas diante do catre como se estivessem prestes a serem ocupadas por ávidos estudantes universitários. Pouco atrás do catre, uma porta fechada levava, provavelmente, a um recinto reservado ou a uma saída do lugar. Havia um leve odor de rosas pairando no ar e, no canto oposto ao do catre, uma fonte jorrava água fazendo um barulho agradavelmente reconfortante. Não havia janelas e nem qualquer objeto que fizesse supor a qual religião aquele curandeiro e seus discípulos eram vinculados.</p>
<p align="justify">Um ruído, vindo da porta atrás do catre, me arrebatou das especulações que minha mente insistia em fazer. A porta se abriu e Ana saiu dela sorrindo. Correu para o meu lado sem dizer nada. Simplesmente me olhou com os olhos repletos de ternura e sorriu, apertando meu braço num gesto de apoio e encorajamento.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/liteira-t18924.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="liteira-t18924" border="0" alt="liteira - o curandeiro" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/02/liteira-t18924_thumb.jpg" width="353" height="251" /></a></p>
<p align="justify">Dois homens fortes, também vestidos de branco e usando máscaras cobrindo o nariz, saíram pela porta aberta. Carregavam algo pesado nos ombros. Conforme andavam em direção ao catre, pude perceber que traziam uma pequena liteira coberta por panos finos (do tipo usado em mosquiteiros). Atrás deles, vinham mais dois homens fortes completando o séquito necessário para carregar a liteira. Mais atrás, ainda vinha um grupo com mais homens entoando mantras e cânticos que eu nunca tinha ouvido.</p>
<p align="justify">Fiz menção de perguntar a Ana o significado daquilo, mas ela levou seu dedo aos lábios, naquele sinal universal de silêncio. Fiquei ali parado. Apenas observando o estranho cortejo, enquanto avançava lenta e cuidadosamente pelos poucos metros entre o catre a porta.</p>
<p align="justify">Os homens pousaram a pequena liteira sobre o catre e removeram as traves que serviam de apoio para que a carregassem. Os que ladeavam o catre (antes da liteira chegar) rodearam o objeto e removeram os panos que cobriam o pequeno espaço reservado ao seu ocupante com tanta cerimônia que pareciam estar diante do próprio Deus.</p>
<p align="justify">Nesse momento, fiquei estarrecido com o que vi:</p>
<p align="justify">No interior da liteira, um homem jazia completamente coberto de feridas e pústulas horríveis. Suas lesões vertiam constantemente um líquido amarelado e fétido que abafou quase imediatamente o leve odor de rosas que perfumara o ambiente anteriormente. O ar, antes leve e energético, ficou pesado e carregado de pestilência. A pobre figura, devorada por alguma doença terrível, sequer podia falar. Ela erguia seus olhos para um dos homens que fazia parte do cortejo que a acompanhava e este se movia rapidamente, com uma solicitude a toda prova, para satisfazer os “pedidos” da martirizada criatura.</p>
<p align="justify">Minha cabeça começou a latejar ainda mais forte e a dor agora era insuportável. Busquei nos bolsos os remédios receitados pelo Dr. Paulo e eles haviam sumido. Olhei assustado e suplicante para Ana; mas ela apenas sorria e apertava ainda mais o meu braço. Aquele fedor inacreditável, exalado pelo pobre homem, tomava conta do lugar e me sufocava como uma enorme mão de ferro. Fiquei tonto e senti vontade de vomitar. Minhas pernas começaram a tremer e, ao pensar que iria desmaiar, o homem que atendia as vontades do doente se aproximou de mim e disse:</p>
<p align="justify">- O mestre vai consultá-lo agora.</p>
<p align="justify">O olhar que lancei para ele deve ter parecido o de alguém completamente louco e prestes a se lançar dali em uma correria sem direção. Ele agarrou o meu braço com uma força sobre-humana e me conduziu até a frente do catre.</p>
<p align="justify">A proximidade com aquela figura repugnante e completamente desfigurada era terrível. Seus olhos exprimiam um sofrimento atroz e, quando tentava balbuciar algo inteligível, tudo o que saía de sua boca eram gorgolejos sem sentido e um cheiro pútrido.</p>
<p align="justify">O pobre homem esticou seu braço coberto de pústulas e estendeu suas mãos, deformadas pelas feridas enormes que recobriam sua pele, tocando meu braço. Nenhuma palavra foi trocada. Nenhum mantra recitado. Nenhuma prece proferida. Não se ouviu um único som, além dos produzidos pelos meus protestos e pelos estertores da pobre criatura&#8230; o próprio tempo parecia ter parado&#8230;</p>
<p align="justify">O curandeiro deu um grito lancinante e uma golfada de sangue enegrecido jorrou de sua boca, encharcando os leves panos que o cobriam. Os homens responsáveis por sua guarda o cercaram. Enquanto parte deles voltava a recitar os tais mantras, outra parte cuidava de seu corpo, enfaixando a pele consumida pela doença e cobrindo seu rosto com um pequeno lenço colorido com inscrições que não pude decifrar.</p>
<p align="justify">O choque da inesperada e repentina morte do curandeiro quase impediu que eu sentisse algo totalmente estranho que acontecia comigo naquele mesmo instante: pela primeira vez em meses, a minha dor de cabeça desaparecera completamente. Eu instintivamente soube que estava curado.</p>
<p align="justify">Saí da construção cambaleando. Não porque estivesse fraco ou tonto. Mas, porque estava bêbado de alegria. Parei a poucos metros da porta do salão e ergui meu rosto para o céu. O sol, que ainda brilhava quase na linha do horizonte, banhou minha face com um calor reconfortante e me encheu com uma sensação de bem-estar nunca antes sentida. Olhei a minha volta e todas as coisas estavam diferentes: as cores eram mais vivas e brilhantes. Eu podia sentir os pássaros voando livres e a pressão do vento em suas asas. Cada inseto do ambiente parecia estar conectado a mim, me enviando mensagens sensoriais das mais inacreditáveis. De repente, minha percepção do mundo havia mudado totalmente, ficando incrivelmente rica.</p>
<p align="justify">Mergulhado nessas sensações nem percebi que Ana e o homem que compreendia e atendia aos desejos do curandeiro estavam bem atrás de mim. Ana chorava convulsivamente e escondia seu rosto com as mãos, como se pretendesse se esconder de algo. Ela caiu de joelhos chorando ainda mais alto e eu, preocupado, me curvei para ampará-la e abraçá-la buscando uma explicação para toda aquela tristeza.</p>
<p align="justify">Antes que eu a alcançasse, aquele homem agarrou meu braço com uma mão de ferro e me ergueu com uma facilidade tremenda. Olhando diretamente em meus olhos; ele falou com uma voz solene e profunda, como se revelasse um segredo ancestral:</p>
<p align="justify">- Nosso antigo mestre chegou ao fim de sua jornada. Foi profetizado desde o primeiro curandeiro a herdar seu poder diretamente do Espírito Divino que aquele responsável pelo último suspiro de um curandeiro e pela sua libertação de toda dor e sofrimento, advindos do peso de sua missão sagrada de cura, assumiria o seu lugar como receptáculo para os males que afligem os seres humanos e infestam o mundo. Assim, é a missão sagrada dos escolhidos pelo Espírito Divino. Como nossos mestres, aqui permanecerem até esgotarem a capacidade de absorver os males dos outros e deixarem suas existências terrenas. Antes de seus espíritos se libertarem da carne pútrida que lhes aprisiona, entregam seu poder e seu dom divino ao próximo escolhido que usará a dádiva herdada de seu antecessor em prol dos flagelados por doenças do corpo e da alma até o fim dos tempos. Para isso; muitos vieram antes de você e muitos outros virão depois de você.</p>
<p align="justify">Tentei protestar, mas nenhum som saiu de minha garganta. Eu me debatia, mas as mãos daquele homem eram como tenazes poderosas e me imobilizaram. O grupo de homens, que havia trazido o curandeiro para o catre, veio até onde estávamos acompanhados de outro grupo que me arrancou as roupas e me vestiu com uma túnica branca tecida finamente. Fui posto na liteira e, a partir daí, não conseguia me mexer e nem falar. Minha mente estava perfeitamente ativa e corria freneticamente em busca de um plano de salvação ou de uma saída daquela situação dantesca. Porém, meu corpo jazia inerte e impenetrável aos comandos emanados de meu cérebro. Enquanto isso, a liteira era erguida e movida de volta para o interior da construção, ao mesmo tempo em que cânticos eram entoados pelos homens que a carregavam.</p>
<p align="justify">Da última vez que via Ana, dois brutamontes a carregavam pelos braços em direção ao cais. O homem que me agarrara e agora caminhava ao lado da liteira onde eu estava, olhou para mim e, parecendo ler meus pensamentos, explicou que o barco no qual Ana voltaria para o continente jamais chegaria ao seu destino. Nossos parentes e amigos achariam que havíamos nos perdido no mar. Mas, apesar disso, eu não precisava me preocupar. Ana estaria com Espírito Divino e me aguardaria numa próxima vida abençoada. Minha missão estava apenas começando e ele estaria ao meu lado para interpretar meus pensamentos e conduzir minhas ações. Além disso, amanhã haveria uma longa fila de doentes nos quais eu poderia exercitar o meu dom e cumprir minha missão de atender e curar os que precisam. </p>
<p>&#160;</p>
<p align="center">**********</p>
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		<title>A C&#225;psula do Tempo.</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Jan 2013 16:18:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Todos os canais de televisão estavam transmitindo o evento em cadeia mundial. Depois de uma guerra sangrenta e genocida, que quase levou a extinção de toda a população do planeta e durou cinquenta anos; uma paz necessária e reparadora se estabeleceu e se firmou no último século. Por isso mesmo, aquela cerimônia era tão importante. Do fim das hostilidades surgiu um governo unificado que definiu a liberdade total de culto religioso, o banimento das fronteiras entre nações, dos governos não alinhados com o “status quo” reinante e de qualquer forma de cultura monetária. Qualquer violação a esses princípios era punida com a morte em julgamentos sumários e públicos. O que no início se achou ser muito radical, com o passar do tempo se mostrou correto. Desde o último julgamento e a última execução, há mais de oitenta anos, não foi registrada uma única violação. Décadas de violência deram lugar a uma paz que já perdurava por um século. Quando as guerras acabaram e o governo planetário foi criado, todas as facções envolvidas foram chamadas para uma grande assembleia mundial e, em comemoração, foi lançada uma cápsula do tempo contendo presentes e declarações de autoridades da época para serem [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
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<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/01/chris_achilleos_thecabalII.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="chris_achilleos_thecabalII" border="0" alt="Blog Contos Ancestrais - A Cápsula do Tempo" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2013/01/chris_achilleos_thecabalII_thumb.jpg" width="279" height="395" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">Todos os canais de televisão estavam transmitindo o evento em cadeia mundial. Depois de uma guerra sangrenta e genocida, que quase levou a extinção de toda a população do planeta e durou cinquenta anos; uma paz necessária e reparadora se estabeleceu e se firmou no último século. Por isso mesmo, aquela cerimônia era tão importante.</p>
<p align="justify">Do fim das hostilidades surgiu um governo unificado que definiu a liberdade total de culto religioso, o banimento das fronteiras entre nações, dos governos não alinhados com o “status quo” reinante e de qualquer forma de cultura monetária. Qualquer violação a esses princípios era punida com a morte em julgamentos sumários e públicos.</p>
<p align="justify">O que no início se achou ser muito radical, com o passar do tempo se mostrou correto. Desde o último julgamento e a última execução, há mais de oitenta anos, não foi registrada uma única violação. Décadas de violência deram lugar a uma paz que já perdurava por um século.</p>
<p align="justify">Quando as guerras acabaram e o governo planetário foi criado, todas as facções envolvidas foram chamadas para uma grande assembleia mundial e, em comemoração, foi lançada uma cápsula do tempo contendo presentes e declarações de autoridades da época para serem abertas cento e cinquenta anos depois. Seria o testemunho dos anseios e aspirações dos primeiros habitantes da aliança mundial em face de um futuro de possível paz e prosperidade.</p>
<p align="justify">Um grande anfiteatro foi construído no local de descanso da capsula do tempo. A cerimônia reuniria as maiores autoridades políticas e religiosas do planeta. Delegados da Assembleia Unida estariam sentados diante de um alto e imponente palco, seguidos por fileiras de crianças vestidas de branco – cada uma representando um ano de paz – e, por fim, um número enorme de convidados ilustres e desconhecidos que se acotovelariam por todos os cantos da enorme construção.</p>
<p align="justify">Todas as emissoras de TV e Rádio transmitiriam a cerimônia ao vivo, cobrindo todo o planeta em uma cadeia global. Um grande feriado foi promulgado para que absolutamente todos pudessem comparecer ou assistir de casa as festividades.</p>
<p align="justify">Tanta reverência para a abertura da cápsula do tempo se justificava pela enorme tragédia que foram aqueles anos de guerra e genocídio. Bilhões morreram em massacres sem sentido promovidos por facções políticas e religiosas que tentavam controlar pequenos feudos territoriais ou mananciais de água. A carnificina envolveu o uso de armas radioativas, químicas e biológicas. Mesmo hoje, quase dois séculos depois de bombardeadas, áreas enormes da superfície do planeta ainda estavam privadas de qualquer forma de vida. Mesmo as mais resistentes bactérias e os vírus mais mortais sucumbiam aos altos índices de contaminação nessas regiões. A cápsula do tempo e seu conteúdo de esperanças e sonhos representavam um olhar num passado que nos envergonhava e que deveríamos conhecer muito bem para jamais repeti-lo. Justamente por isso as autoridades faziam questão de que cada cidadão visse ou comparecesse a cerimônia de abertura da cápsula.</p>
<p align="justify">Na hora marcada, como esperado, o anfiteatro estava entupido de gente. Autoridades, crianças, lideranças religiosas e sociais, gente do povo e uma infinidade de representantes das mais variadas entidades vieram. Coros religiosos e seculares se revezavam em apresentações embaladas pelas orquestras sinfônicas de várias cidades; poetas e artistas se apresentavam para a multidão ansiosa e feliz; contadores de histórias narravam a busca pela paz e a vida dos pioneiros da pacificação e máquinas voadoras desenhavam formas e mensagens no éter.</p>
<p align="justify">Depois de uma longa espera, finalmente chegou o momento da abertura da cápsula. O Secretário Geral da Assembleia Unida fez um longo e inspirado discurso e, com um gesto repleto de solenidade, entregou as chaves que abriam o mecanismo do lacre da cápsula a duas crianças vestidas em trajes típicos de suas regiões.</p>
<p align="justify">Elas introduziram as chaves no mecanismo do lacre e um som metálico alto ecoou pelo anfiteatro lotado. Duas enormes engrenagens começaram a girar e uma pesada porta de aço, com mais de meio metro de espessura, se abriu revelando um sarcófago de ouro com diversas imagens e inscrições em sua superfície: Era a Cápsula do Tempo.</p>
<p align="justify">Uma máquina percorreu o palco e ergueu o sarcófago, depositando-o gentilmente diante do púlpito onde estava o Secretário Geral. Neste momento, um sacerdote de cada religião professada no planeta se aproximou e tocou o sarcófago com suas relíquias mais sagradas.</p>
<p align="justify">A audiência permanecia em um silêncio respeitoso e atento; tão profundo que cada um dos presentes parecia estar em animação suspensa. Mais uma vez, um ruído metálico percorreu o anfiteatro e a tampa do sarcófago se abriu mansamente. Todos prenderam a respiração e se levantaram numa tentativa infrutífera de vislumbrarem o seu interior. Um sussurro de curiosidade começou a circular pelo ambiente e foi crescendo até se transformar num vozerio que pedia insistentemente para que o Secretário Geral desse logo início a divulgação do conteúdo do sarcófago.</p>
<p align="justify">Sorrindo e gesticulando para que todos se sentassem, o Secretário Geral pediu calma a plateia. Num gesto pomposo ordenou que uma linda jovem, vestida ricamente, entrasse no palco e se postasse ao seu lado. Ele a apresentou para a multidão impaciente – era sua filha – e solicitou que apanhasse o primeiro volume no interior do sarcófago.</p>
<p align="justify">A jovem, como se fizesse parte de uma trupe de mágicos de circo, abaixou-se e apanhou uma pequena caixa dourada do interior do sarcófago. Com gestos exagerados ela a exibiu para a audiência e a sacudiu no ar como se a caixa fosse o único objeto dentro da cápsula do tempo.</p>
<p align="justify">Adornada com duas pombas brancas lindamente entalhadas em madrepérola, com enormes rubis no lugar dos olhos, a caixa era coberta de inscrições antigas de uma das facções religiosas que acabou sendo exterminada durante os longos anos de guerra. Era uma verdadeira obra de arte antiga e, certamente, teria seu lugar reservado no grande museu da cápsula do tempo após a cerimônia. Era um trabalho artesanal magistral.</p>
<p align="justify">A jovem entregou a caixa ao Secretário Geral que fez mais um pequeno discurso sobre os sonhos de paz e harmonia de nossos ancestrais e das vitórias proporcionadas pelos longos anos em que a paz realmente se consolidou.</p>
<p align="justify">Enquanto terminava a frase, num gesto rápido, ele abriu o trinco que prendia a tampa da caixa e a removeu. Um pequeno pergaminho pulou de seu interior e o Secretário Geral esforçou-se para lê-lo. Diante de seu fracasso, uma trupe de assessores cercou o púlpito tentando decifrar o conteúdo do pergaminho. A multidão clamava pedindo a revelação do texto e a atenção do planeta inteiro se concentrou naquele pequeno rolo embolorado.</p>
<p align="justify">A plateia não percebeu &#8211; muito menos os agentes e autoridades que ali estavam – mas, quem assistia pela televisão viu nitidamente quando os rubis que representavam os olhos das pombas brancas emitiram um estranho brilho avermelhado. Sem qualquer outro aviso, um estampido surdo foi ouvido e as telas de TV foram tomadas por uma luz branca tão intensa que foi impossível encará-las diretamente.</p>
<p align="justify">Até hoje ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Os fatos apurados posteriormente, pelas unidades militares de emergência mobilizadas para prestar socorro, é que houve uma enorme explosão termonuclear que vaporizou não só o anfiteatro &#8211; e todas as pessoas que ali estavam &#8211; como toda a cidade. Quase oito milhões de vidas foram ceifadas instantaneamente.</p>
<p align="justify">Habitantes de uma cidade vizinha relataram que a luz gerada pela explosão do artefato foi tão intensa que, mesmo há quilômetros do local da explosão, não puderam manter os olhos abertos.</p>
<p align="justify">Nos meses seguintes a tragédia houve uma frenética troca de acusações e ameaças. Diversos atentados foram realizados pelas facções que juravam vingança e vomitavam ódio. O número de prisões com execuções sumárias, baseadas na lei de intolerância, explodiu.</p>
<p align="justify">Rapidamente a Assembleia Unida perdeu o controle sobre a população civil e as forças armadas. As antigas facções políticas e religiosas se reagruparam e começaram a combater umas as outras, mergulhando o planeta numa nova guerra em larga escala.</p>
<p align="justify">Hoje, pouco mais de dois anos depois da tragédia, enquanto as tropas da Facção do Norte invadem e destroem o que restou da minha outrora linda cidade, esperamos nos esgotos e nos túneis do metrô pela ajuda prometida por nossos aliados. A perspectiva é terrível e o extermínio total é quase certo. Ninguém sabe se nosso pedido de socorro chegou a capital deles ou mesmo se há alguém vivo lá para recebê-lo. </p>
<p align="justify">Não se pode mais andar pela superfície do planeta sem roupas ou veículos especiais e as comunicações de longo alcance deixaram de existir. Exatamente por isso resolvemos escrever cartas e colocá-las em diversas cápsulas do tempo &#8211; espalhadas pelos mesmos esgotos e túneis em que nos abrigamos &#8211; contando tudo o que aconteceu. </p>
<p align="justify">Elas serão enterradas com nossas preces para que as futuras gerações encontrem pelo menos uma delas e ao saberem de nossos erros os corrijam ou, pelo menos, conheçam nossos sonhos e anseios de paz.</p>
<p align="justify">Se lembrem de nós…</p>
<p align="center">***********</p>
 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Um Novo Ano Chega.</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Dec 2012 07:10:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Mais uma vez, estamos diante de um novo ciclo que se inicia. Novas oportunidades, novos planos, novos sonhos, novas realizações e novos desafios. Mas, para que tudo isso possa estar ao alcance de nossas mãos, precisamos ter a sabedoria e a força para ousar fazer nosso universo mudar e o destino sorrir para nós. Um grande poeta (Robert Frost) disse uma vez que a liberdade está na audácia. Ouvi essa pequena frase, pela primeira vez, ainda adolescente ao assistir a um filme sobre o resgate de um dos pais da bomba atômica de um campo de prisioneiros nazista até então inexpugnável. O nome do filme era: “A Fuga dos Homens Pássaros”. Uma história tão incrível que se imaginaria fantasiosa, mas tão permeada de audácia que a realidade foi superior a qualquer imaginação (o resgate se dá por um planador construído no sótão do alojamento e ejetado com o auxílio da banheira do comandante do campo). E é assim que devemos encarar o novo ano. Deixar nossos medos de lado e ousar: Ousarmos evoluir ainda mais. Ousarmos sonhar ainda mais. Ousarmos realizar ainda mais. Ousarmos planejar ainda mais. Ousarmos criar ainda mais. Ousarmos ser ainda mais felizes. Pois, somente [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
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<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/59069_Papel-de-Parede-Reino-Magico_1024x768.jpg"><img style="border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px;padding-top: 0px" title="59069_Papel-de-Parede-Reino-Magico_1024x768" border="0" alt="Feliz Ano Novo - Blog contos Ancestrais" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/59069_Papel-de-Parede-Reino-Magico_1024x768_thumb.jpg" width="396" height="298" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">Mais uma vez, estamos diante de um novo ciclo que se inicia. Novas oportunidades, novos planos, novos sonhos, novas realizações e novos desafios.</p>
<p align="justify">Mas, para que tudo isso possa estar ao alcance de nossas mãos, precisamos ter a sabedoria e a força para ousar fazer nosso universo mudar e o destino sorrir para nós.</p>
<p align="justify">Um grande poeta (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Frost" target="_blank">Robert Frost</a>) disse uma vez que a liberdade está na audácia. Ouvi essa pequena frase, pela primeira vez, ainda adolescente ao assistir a um filme sobre o resgate de um dos pais da bomba atômica de um campo de prisioneiros nazista até então inexpugnável. O nome do filme era: “<a href="http://www.interfilmes.com/filme_21678_A.Fuga.dos.Homens.Passaros" target="_blank">A Fuga dos Homens Pássaros</a>”. Uma história tão incrível que se imaginaria fantasiosa, mas tão permeada de audácia que a realidade foi superior a qualquer imaginação (o resgate se dá por um planador construído no sótão do alojamento e ejetado com o auxílio da banheira do comandante do campo).</p>
<p align="justify">E é assim que devemos encarar o novo ano. Deixar nossos medos de lado e ousar:</p>
<p align="justify">Ousarmos evoluir ainda mais. </p>
<p align="justify">Ousarmos sonhar ainda mais.</p>
<p align="justify">Ousarmos realizar ainda mais.</p>
<p align="justify">Ousarmos planejar ainda mais.</p>
<p align="justify">Ousarmos criar ainda mais.</p>
<p align="justify">Ousarmos ser ainda mais felizes.</p>
<p align="justify">Pois, somente ousando mais e mais é que seremos realmente livres e realizados.</p>
<p align="justify">E tudo está logo ali, ao nosso alcance&#8230;</p>
<p align="center"><font color="#ff0000" size="5"><strong></strong></font></p>
<p align="center"><font color="#ff0000" size="5"><strong>Feliz 2013!</strong></font></p>
<p align="center"><font size="4">A. Maximus</font></p>
<p align="center"><font size="3">**********</font></p>
 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&#199;A.</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Dec 2012 14:03:51 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Há mais de dois mil anos, um homem nasceu numa pequena aldeia em um pequeno país dominado e invadido por um gigantesco e poderoso Império. Sua vida e suas palavras se tornaram mensagens tão poderosas que sobreviveram a tudo que o tempo foi capaz de lançar contra elas. No Natal, honramos seu nascimento e novamente festejamos o renascimento da esperança que ele nos trouxe. A possibilidade de uma vida nova e plena em um mundo cheio de crueldades e dominado pela ganância e pelo mal. O mais espetacular de tudo em seu nascimento e em sua trajetória em nosso planeta, não foi o fato dele ser o Filho de Deus. Foi a sua determinação em ser como nós, sujeito as mesmas tentações, os mesmos erros, as mesmas dúvidas, os mesmos prazeres e as mesmas frustrações. Sua vida, sua pregação e seus exemplos nos mostraram que é fácil viver em um mundo melhor e mais justo; basta amar ao seu próximo como gostaríamos de ser amados. Assim, sem qualquer necessidade de poderes divinos, ele provou que era possível mudar o mundo sendo apenas humano. Ele mostrou que tudo estava ao nosso alcance, bastaria que desejássemos. Aquele homem cheio de [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/um-novo-ano-chega/"     class="crp_title">Um Novo Ano Chega.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/AB20564.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="AB20564" border="0" alt="Feliz Natal" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/AB20564_thumb.jpg" width="419" height="320" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">Há mais de dois mil anos, um homem nasceu numa pequena aldeia em um pequeno país dominado e invadido por um gigantesco e poderoso Império. Sua vida e suas palavras se tornaram mensagens tão poderosas que sobreviveram a tudo que o tempo foi capaz de lançar contra elas.</p>
<p align="justify">No Natal, honramos seu nascimento e novamente festejamos o renascimento da esperança que ele nos trouxe. A possibilidade de uma vida nova e plena em um mundo cheio de crueldades e dominado pela ganância e pelo mal.</p>
<p align="justify">O mais espetacular de tudo em seu nascimento e em sua trajetória em nosso planeta, não foi o fato dele ser o Filho de Deus. Foi a sua determinação em ser como nós, sujeito as mesmas tentações, os mesmos erros, as mesmas dúvidas, os mesmos prazeres e as mesmas frustrações.</p>
<p align="justify">Sua vida, sua pregação e seus exemplos nos mostraram que é fácil viver em um mundo melhor e mais justo; basta amar ao seu próximo como gostaríamos de ser amados. Assim, sem qualquer necessidade de poderes divinos, ele provou que era possível mudar o mundo sendo apenas humano. Ele mostrou que tudo estava ao nosso alcance, bastaria que desejássemos. </p>
<p align="justify">Aquele homem cheio de dúvidas, esperanças, medos, defeitos e emoções; tinha algo muito maior do que tudo isso dentro de si: Amor.</p>
<p align="justify">O amor puro de alguém que é capaz de amar sem pedir nada em troca e de abençoar até aqueles que o caluniam, o humilham e o matam. E ele fez tudo isso estendendo a todos nós esse mesmo sentimento.</p>
<p align="justify">Se ele foi capaz de fazer tudo isso, sendo apenas um homem; porque para nós seria impossível fazer o mesmo?</p>
<p align="justify">Essa é a mensagem mais poderosa daquele pequeno bebê, nascido num pequeno país dominado por um gigantesco e poderoso Império.</p>
<p align="center"><font color="#ff0000" size="5">Feliz Natal!</font></p>
<p align="center"><font color="#000000" size="2">Arthurius Maximus</font></p>
<p align="center"><font color="#000000" size="2"></font></p>
<p align="center"><font color="#000000" size="2">**********</font></p>
 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/um-novo-ano-chega/"     class="crp_title">Um Novo Ano Chega.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>Mem&#243;rias.</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Dec 2012 17:02:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Sentados aqui, diante dessa mesa cheia de gostosuras e cercados por pessoas que tanto amamos fica difícil lembrar os problemas e das dificuldades que enfrentamos nesses vinte e cinco anos de casamento. Olhando para a minha esposa &#8211; ainda bela mesmo com o passar do tempo &#8211; vem a minha mente a lembrança dos acontecimentos extraordinários que pareceram se alinhar para que nossa união se confirmasse naquele, agora longínquo, dia de verão a tantos anos. Na época, eu era recém-formado e minha esposa ainda não havia completado os estudos. Lutávamos contra enormes dificuldades financeiras, próprias de quem está iniciando a vida, mas não nos abatíamos. Nosso único objetivo era formarmos uma família feliz e próspera através de nosso amor. Foi uma época especialmente dura para nós, porque trabalhávamos muito (ela ainda estudava e trabalhava) e restava muito pouco tempo para nos vermos durante a semana. A única coisa que nos impulsionava era a certeza de que todo aquele sacrifício daria frutos num futuro próximo e se converteria em estabilidade, bonança e tranquilidade. A duras penas juntamos dinheiro e compramos todos os itens para montar nossa casa. Ao mesmo tempo, resolvemos fazer uma festa de casamento para reunir nossos [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/Renoir.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="Renoir" border="0" alt="memórias" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/12/Renoir_thumb.jpg" width="369" height="278" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">Sentados aqui, diante dessa mesa cheia de gostosuras e cercados por pessoas que tanto amamos fica difícil lembrar os problemas e das dificuldades que enfrentamos nesses vinte e cinco anos de casamento.</p>
<p align="justify">Olhando para a minha esposa &#8211; ainda bela mesmo com o passar do tempo &#8211; vem a minha mente a lembrança dos acontecimentos extraordinários que pareceram se alinhar para que nossa união se confirmasse naquele, agora longínquo, dia de verão a tantos anos.</p>
<p align="justify">Na época, eu era recém-formado e minha esposa ainda não havia completado os estudos. Lutávamos contra enormes dificuldades financeiras, próprias de quem está iniciando a vida, mas não nos abatíamos. Nosso único objetivo era formarmos uma família feliz e próspera através de nosso amor.</p>
<p align="justify">Foi uma época especialmente dura para nós, porque trabalhávamos muito (ela ainda estudava e trabalhava) e restava muito pouco tempo para nos vermos durante a semana. A única coisa que nos impulsionava era a certeza de que todo aquele sacrifício daria frutos num futuro próximo e se converteria em estabilidade, bonança e tranquilidade.</p>
<p align="justify">A duras penas juntamos dinheiro e compramos todos os itens para montar nossa casa. Ao mesmo tempo, resolvemos fazer uma festa de casamento para reunir nossos amigos e partilhar com eles toda a nossa felicidade. Mas, um item particularmente difícil de conseguir foram as alianças de casamento. Como eu fazia questão absoluta de que fossem alianças de ouro e joias realmente preciosas &#8211; capazes de representar todo o esplendor de nosso amor &#8211; já sabia que não custariam barato.</p>
<p align="justify">Por isso, economizamos durante dois anos para conseguir o valor necessário para a confecção das alianças. Como queríamos algo único e especial, contratamos um ourives famoso, morador da nossa cidade, para fazer as alianças de acordo com um desenho imaginado por nós. Seria uma peça especial e única.</p>
<p align="justify">“Seu” Joaquim – era o nome do ourives – um homem forte, meio bonachão e ourives de renome internacional, já trabalhara para grifes famosas e se aposentara há cerca de cinco anos. Cansado de não fazer nada, acabou abrindo uma pequena joalheria no bairro para dar vazão a sua criatividade e ensinar sua técnica refinada para quem quisesse aprender. Ao ver nosso desenho ficou animadíssimo com o projeto.</p>
<p align="justify">O prazo para a confecção das alianças era apertado – praticamente ficariam prontas na véspera do casamento – como demoramos muito para juntar o dinheiro necessário ficou difícil conseguir um prazo mais dilatado. Mas, “Seu” Joaquim garantiu que tudo estaria pronto a tempo. Se fosse preciso, trabalharia em tempo integral nas peças.</p>
<p align="justify">Lembro como saímos da pequena joalheria do velho Joaquim radiantes. Estávamos felizes e o Universo estava do nosso lado. Tudo era felicidade e todas as dificuldades eram meros degraus a serem galgados com alegria e esperança.</p>
<p align="justify">Mas, toda essa alegria e esperança se desvaneceram na semana que antecedia o nosso grande dia. A notícia de uma explosão de gás, na joalheria do “Seu” Joaquim, e de um enorme incêndio subsequente que vitimou o alegre e vigoroso senhor e dois de seus aprendizes, manchou de terror e dor nossos preparativos e nossas almas.</p>
<p align="justify">Mais do que a perda irreparável das nossas alianças e de todo o trabalho despendido para juntar o dinheiro para fazê-las, ficamos muito tristes pela morte do bondoso e talentoso velhinho. Assim que ficamos sabendo do acontecido, corremos até a casa onde a família de “Seu” Joaquim vivia para abraçarmos seus filhos e a viúva – uma mulher de aparência decidida e jovial – cujo semblante refletia toda a dor da enorme perda que se abatera sobre ela.</p>
<p align="justify">De tão generosa, mesmo esmagada pela dor, a mulher ainda mostrou preocupação com nossas alianças e fez menção de se desculpar pelo contratempo e devolver nosso dinheiro. Tranquilizamos a viúva e fizemos questão de mostrar que nossa única preocupação era com ela e com sua família. O gesto de desprendimento nos mostrou se tratar de uma mulher altiva e nobre. Ela se mostrou tão preocupada conosco e nos comoveu de tal forma que acabamos ficando amigos da família. Mesmo após sua morte, muitos anos depois, seus filhos e netos passaram a frequentar nossa casa. Mesmo naquele exato momento; lá estavam eles, ao redor de nossa mesa, comemorando conosco a nossa felicidade pelos vinte e cinco anos de união. </p>
<p align="justify">Depois da morte de “Seu” Joaquim, tomamos a decisão de manter a data do casamento e usar alianças baratas, compradas numa joalheria qualquer. Além de não haver mais tempo para confeccionar novas alianças como queríamos, também não havia mais dinheiro para fazê-lo. Depois, quando tudo se assentasse, faríamos nossas alianças como sempre quiséramos.</p>
<p align="justify">O dia do nosso casamento nasceu radiante e com uma leve brisa fresca. Nem parecia verão. Se eu acreditasse em presságios, diria que aquele só podia ser ótimo. Estava fazendo a barba e me preparando para tomar um belo banho, quando o telefone tocou. Era minha noiva nervosa, pedindo que eu fosse para a casa dela imediatamente. Argumentei que “dava azar” ver a noiva antes do casamento, mas ela insistiu tanto e como começou a chorar; acabei desligando e indo apressado para lá.</p>
<p align="justify">Quando cheguei, notei de imediato que a casa estava cheia. Gente que eu nem conhecia se acotovelava pelos cômodos com um olhar estranho. Muitos estavam com os olhos inchados de tanto chorar e ficavam me olhando como se eu fosse “um ser de outro planeta”. Fui até o quarto da minha futura esposa e, sentados na cama, estavam ela e seus pais. Minha amada chorava tão copiosamente que soluçava sem parar. Não conseguia sequer pronunciar uma palavra. Quando me viu parado na porta, olhando a cena sem entender o que estava acontecendo; olhou diretamente nos meus olhos e – chorando convulsivamente – esticou o braço me mostrando a mão que segurava uma pequena caixa.</p>
<p align="justify">Desconfiado, peguei a caixa e dei uma olhada antes de abri-la: Não havia nenhum adesivo, fita ou marca que denunciasse uma empresa de entregas ou os Correios. Nenhuma palavra se ouvia na casa toda. Todos me olhavam e seguiam cada movimento meu, enquanto eu abria a pequena caixa. Em seu interior, duas alianças exatamente iguais àquelas que desenháramos e pedíramos para o “Seu” Joaquim fazer. Junto das alianças, um pequeno cartão de ouro trazia gravado: “Muito obrigado por apoiarem minha família, vocês serão felizes por muitos e muitos anos”.</p>
<p align="justify">Lembro que, naquele momento, nenhuma explicação de fez necessária. Ninguém vira alguém deixar a caixinha na mesa de presentes na sala. Ninguém estranho entrara na casa, a família do “Seu Joaquim” – mesmo convidada – compreensivelmente não viria ao casamento e nem estivera por ali e ninguém entregara nenhuma encomenda o dia todo. A única resposta era que algo fantástico acontecera naquela manhã e que um velho e talentoso joalheiro havia cumprido seu último trabalho mesmo estando num lugar bem diferente e distante do nosso.</p>
<p align="justify">Naquele dia eu tive a certeza de que nossa vida juntos seria abençoada.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
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 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>O Suicida</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Oct 2012 10:42:44 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#160; Vou contar algo que me aconteceu quando atravessava um dos piores momentos da minha vida. Os fracassos, as dores, as desilusões e tudo o que sofri em meus anos de luta para galgar uma vida melhor para mim e para minha família; me levaram ao limite da loucura e a tentar um ato do qual não teria como me arrepender se forças, além da minha compreensão, não tivessem agido para me alertar das terríveis consequências. Leiam com atenção porque essa é a minha história e ela pode mudar a sua vida. Em determinada fase da minha existência, olhei para os caminhos que percorri e percebi que minha vida era um enorme e terrível fracasso: O casamento com a namoradinha de infância azedando logo depois que os negócios começaram a ir de mal a pior. A falência seguida de um exército de credores famintos e insistentes que me ligavam e batiam em minha porta todos os dias. Um divórcio complicado e uma ex-mulher que não parava de reclamar e de pedir um dinheiro que não existia. Filhos que não ligavam a mínima para mim e só mostravam interesse quando queriam alguma coisa para si mesmos. Ser obrigado a trabalhar como [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/09/amor-imenso/"     class="crp_title">Amor Imenso</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;" align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/drogas/" rel="attachment wp-att-234"><img class="aligncenter size-medium wp-image-234" title="Suicida" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/10/drogas-221x300.jpg" alt="" width="221" height="300" /></a></p>
<p align="justify">Vou contar algo que me aconteceu quando atravessava um dos piores momentos da minha vida. Os fracassos, as dores, as desilusões e tudo o que sofri em meus anos de luta para galgar uma vida melhor para mim e para minha família; me levaram ao limite da loucura e a tentar um ato do qual não teria como me arrepender se forças, além da minha compreensão, não tivessem agido para me alertar das terríveis consequências. Leiam com atenção porque essa é a minha história e ela pode mudar a sua vida.</p>
<p align="justify">Em determinada fase da minha existência, olhei para os caminhos que percorri e percebi que minha vida era um enorme e terrível fracasso: O casamento com a namoradinha de infância azedando logo depois que os negócios começaram a ir de mal a pior. A falência seguida de um exército de credores famintos e insistentes que me ligavam e batiam em minha porta todos os dias. Um divórcio complicado e uma ex-mulher que não parava de reclamar e de pedir um dinheiro que não existia. Filhos que não ligavam a mínima para mim e só mostravam interesse quando queriam alguma coisa para si mesmos. Ser obrigado a trabalhar como empregado numa das empresas que já haviam sido minhas e, como se não bastasse, ter de aceitar uma função subalterna para sobreviver e ainda ser demitido, pouco tempo depois, sob o sorriso irônico e debochado do novo dono. E, como se já não bastasse, Deus ainda mandara naquela derradeira manhã a gota d&#8217;água que transbordou o copo: Meu médico dissera que eu estava com câncer.</p>
<p align="justify">Exatamente por isso, tomei a resolução de dar cabo da minha vida naquele mesmo dia, ao sair do consultório médico. E, para “sair por cima” resolvi ir até a cobertura do novo arranha-céu inaugurado na cidade e me esconder por lá até que todos tivessem ido embora. Depois, subiria até a cobertura e mergulharia para a eternidade assim que o sol raiasse, iluminando meu último voo diante de um mundo que me ignorou aqueles anos todos.</p>
<p align="justify">Enquanto esperava a hora de agir, imaginava as manchetes e a cobertura dada pela imprensa. Logo pela manhã, diante da visão de um homem tentando se atirar do alto do prédio mais novo e mais badalado da cidade, todos os meios de comunicação apareceriam e o tumulto causado pelos populares na calçada seria enorme. Pelo menos, no fim, eles iam me notar.</p>
<p align="justify">Subi até o topo do prédio e olhei a cidade que ainda dormia. Era uma visão que poderia alegrar alguns corações românticos. Afinal, a lua e as estrelas estavam brilhando com força renovada num céu límpido e profundo. Uma leve brisa soprava do mar e trazia o seu frescor salgado e aquele perfume tão gostoso, capaz de embalar o sono de qualquer pessoa numa noite quente como aquela. Mas, meu coração estava destroçado, farto e eu não conseguia dormir há várias noites.</p>
<p align="justify">Mas, naquela época eu ainda pensava que sabia qual seria o meu destino: Eu jamais veria de novo qualquer encanto ou magia romântica em nada que tocasse. Tudo o que me esperava dali para frente eram a vergonha, a humilhação, a dor e o sofrimento de ser um fracassado.</p>
<p align="justify">Lembro de pular a pequena grade de proteção e me sentar no beiral do enorme prédio. Meus pés ficaram balançando no vazio, como uma criança que senta numa cadeira alta demais. Surpreendentemente, pela primeira vez em muito tempo, eu quase podia sentir alguma paz de espírito. Naquele momento, compreendi que tomar a decisão de me matar foi a coisa mais acertada que já fizera em toda a minha droga de vida.</p>
<p align="justify">Ainda faltavam algumas horas para o amanhecer e o momento da verdade chegaria em breve. Logo, logo todos os que deveriam me amar veriam o resultado do seu desprezo e do seu descaso. Ficariam cheios de remorsos e se surpreenderiam com a minha vingança final ao descobrirem que nem o meu seguro de vida receberiam. Ora, qual seguradora pagaria por um suicida? Me lembro de sorrir ao me divertir com o pensamento de voltar em espírito e ver a cara deles quando souberem que até isso eu tirara deles. Se eu pudesse lhes falar; diria: “Que deem duro como eu tive de dar e que trabalhem para viver, bando de encostados”.</p>
<p align="justify">Sentado ali, podia sentir meu corpo finalmente se rendendo ao cansaço e a toda adrenalina daquele dia longo e de notícias tão ruins. A brisa suave e fresca, os sons da noite e todos aqueles sentimentos se uniram para me fazer permitir relaxar lentamente e me deixar mergulhar, sem sentir, num sono profundo.</p>
<p align="justify">Enquanto um torpor me invadia, pude sentir a cabeça pender pesadamente para frente e, na tentativa de me manter acordado, me desequilibrei e cai pelo beiral do prédio. Podia ver o chão se aproximando em uma velocidade vertiginosa mesmo na escuridão da noite. O vento zumbia em meus ouvidos e parecia querer arrancar minha pele. Num instante, pude perceber que nada mais adiantava e fechei os olhos para esperar o impacto final&#8230;</p>
<p align="justify">Senti milhares de facas cortando minha carne e pude jurar ter ouvido cada osso do meu corpo quebrar. Uma onda sufocante de dor envolveu cada fibra do meu corpo como se fosse uma enorme e esmagadora mão de ferro. Uma escuridão absoluta se seguiu e&#8230; desmaiei.</p>
<p align="justify">Não sei ao certo por quanto tempo permaneci sem sentidos. Quando acordei ainda estava escuro. Acho que foi a dor enorme a responsável por me levar de volta à realidade. Tentei me levantar, mas minhas pernas doíam demais. Tentei apalpá-las e percebi que estavam dobradas em ângulos impossíveis. Estavam quebradas.</p>
<p align="justify">Comecei a me arrastar e, mesmo quase perdendo os sentidos novamente por causa da dor, reparei que o chão sob meu corpo estava diferente&#8230; ao invés de uma calçada ou do duro asfalto da rua, eu sentia uma lama viscosa e mal cheirosa. Meu corpo escorregava por ela e sentia minhas mãos agarrarem detritos e outras coisas indefiníveis escondidas naquele lamaçal.</p>
<p align="justify">Tentei olhar em volta. Mas, as luzes da rua, dos carros, das lojas ou mesmo da lua e das estrelas tão brilhantes há poucos momentos; simplesmente não existiam mais. Tudo parecia mergulhado na mais profunda escuridão. Não havia o murmurinho da multidão assustada, nada de gritos de horror e de lamúria, não haviam ordens ditas a plenos pulmões pelos policiais e não havia ninguém para me auxiliar. Tudo o que parecia haver era só eu e minha enorme dor.</p>
<p align="justify">Continuei me arrastando com dificuldade e, a cada novo esforço, a dor se renovava e vinha em ondas cada vez mais intensas. Parei de tentar me mexer e reuni minhas forças para gritar o mais alto que pudesse. Talvez alguém ouvisse e viesse me ajudar.</p>
<p align="justify">Devo ter ficado gritando ali por horas. Ninguém veio. Estava sozinho.</p>
<p align="justify">O desespero tomou conta de mim e tentei inutilmente me levantar mais uma vez. Tudo que consegui foi enfiar a cara ainda mais na lama fétida e vomitar de dor. Fiquei ali&#8230; deitado na lama e no vômito sem saber onde estava&#8230; sozinho como nunca estive em minha vida e cercado pelo mais absoluto e profundo nada. Comecei a chorar.</p>
<p align="justify">Aquela era a derrota final. Nem mesmo dar cabo de minha vida eu consegui. E, para piorar devia ter caído em um vão da construção ou em uma parte do prédio ainda fechada ao público. Morreria ali: de fome, de sede ou dos meus ferimentos: de forma lenta e agonizante.</p>
<p align="justify">Tentei ficar o mais imóvel possível e cruzei os braços sob a cabeça para tentar retirar meu rosto da lama. O fedor terrível, o frio e aquela maldita dor haviam me vencido. Desisti de me mover e resolvi ficar ali&#8230; esperando o fim.</p>
<p align="justify">Lembrei de minha infância. Um tempo mais simples, feliz e repleto de boas lembranças. Lembrei da minha mãe&#8230; do meu pai&#8230; e da alegria das reuniões familiares em volta da mesa farta no domingo. Lembrei também dos conselhos do velho padre Joaquim, amigo chegado da família, que era figurinha fácil lá em casa. Um verdadeiro homem santo, se é que podia haver alguém digno de ser chamado assim. Resignado com o meu destino, fiz uma prece silenciosa agradecendo a Deus por aqueles últimos pensamentos reconfortantes naquele enorme inferno de dor, trevas e abandono.</p>
<p align="justify">Foi nesse momento que uma voz, vinda do passado distante, chamou minha atenção. Fiz mais um esforço e tentei olhar ao redor e conseguir distinguir sua origem. Não obtive sucesso. Achei que estava enlouquecendo. Mas, fechando os olhos, senti nitidamente o toque suave de uma mão pousando sobre a minha testa. Meus ouvidos vibraram novamente com aquela voz doce e carregada de amor que tanto ouvira quando criança. Cheio de medo e certo de que mais uma vez me depararia com a tenebrosa escuridão; abri meus olhos mais uma vez e&#8230; ajoelhado ao meu lado, percebi um vulto que se debruçava sobre mim, acariciando e limpando meu rosto enquanto murmurava uma canção infantil. Mesmo achando inacreditável, reconheci o vulto de imediato: era minha mãe.</p>
<p align="justify">Eu devia estar delirando, ficando louco pela dor ou estava próximo da morte. Minha mãe morrera quando eu ainda era criança e pouco me lembrava dela. Mas, como se pudesse ler meus pensamentos, notei um sorriso iluminando o seu rosto e ela me disse baixinho: “Não tenha medo. Depois de hoje você terá uma nova vida. O mal será vencido e você renascerá”. Ela se curvou, beijando meu rosto e, quando senti o toque suave e aconchegante dos seus lábios amorosos&#8230; uma luz poderosa invadiu aquelas trevas absolutas e me cegou completamente.</p>
<p align="justify">Foi nesse exato ponto que acordei ainda no alto do prédio. No mesmo lugar em que havia me recostado e adormecido, sem perceber, e de onde pensei ter caído. A luz cegante era o sol, já alto no horizonte, com seus raios me aquecendo gostosamente com um calor alegre e cheio de vida. Uma brisa amena envolvia meu corpo e me reconfortava; me fazendo sentir agradecido apenas por estar ali. O céu explodia num azul luminoso e imaculadamente limpo. Até mesmo o ar poluído da cidade me pareceu carregado de uma leveza e de um frescor que eu nunca notara.</p>
<p align="justify">Olhando a cidade sob os meus pés naquele dia radiante, percebi que tudo não passara de um pesadelo terrível e medonho. Toda angústia e amargura que sentira no dia anterior haviam se desvanecido levadas pelos raios do sol. Desisti de dar fim a minha vida e me preparei para descer do beiral para a cobertura do prédio. Estiquei meu braço e agarrei um suporte que me permitiria saltar sobre a grade de proteção para o interior da cobertura do prédio.</p>
<p align="justify">Então notei algo que mudaria minha vida e a minha forma de encarar a espiritualidade para sempre: Minhas mãos estavam completamente sujas com uma grossa e mal cheirosa lama.</p>
<p style="text-align: center;" align="center">**********</p>
 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/09/amor-imenso/"     class="crp_title">Amor Imenso</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>O Frade e o Dem&#244;nio.</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Oct 2012 16:07:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Em uma pequena aldeia europeia, situada nos alpes franceses, há a mais alta concentração de pessoas com mais de cem anos do planeta e quase não se registram mortes por doenças ou acidentes. A população local diz que tudo isso está ligado a uma lenda muito antiga (dizem que da época da Peste Negra na Idade Média) cujos fatos são negados veementemente pela Igreja (ou assim Ela afirma) e ignorados por quase todos os turistas que visitam aquele lindo e pacato aglomerado de construções encravadas numa das mais lindas paisagens que você pode esperar ver. Os mais moradores da pequena aldeia, ouviram a história (que eles juram ser verdadeira) de seus pais e avós que, por sua vez, a ouviram de seus próprios ancestrais e dos mais ilustres anciãos da aldeia alpina. A narrativa, que mais tarde se tornaria lenda, tem início pelos idos de 1.349 quando toda a França estava tomada pelo flagelo da Peste Negra e a morte ceifava tantas vidas que o maior cirurgião da época, Guy de Chauliac (médico do Papa Clemente VI), deixou um relato impressionante dos acontecimentos: “A grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia se apresentou [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/natal-vida-renascimento-e-esperana/"     class="crp_title">NATAL, VIDA, RENASCIMENTO E ESPERAN&Ccedil;A.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/10/igreja-medieval-velha-thumb9755612.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="igreja-medieval-velha-thumb9755612" border="0" alt="Contos Ancestrais - A Capela do Frade e o Demônio" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/10/igreja-medieval-velha-thumb9755612_thumb.jpg" width="217" height="321" /></a></p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Em uma pequena aldeia europeia, situada nos alpes franceses, há a mais alta concentração de pessoas com mais de cem anos do planeta e quase não se registram mortes por doenças ou acidentes. A população local diz que tudo isso está ligado a uma lenda muito antiga (dizem que da época da Peste Negra na Idade Média) cujos fatos são negados veementemente pela Igreja (ou assim Ela afirma) e ignorados por quase todos os turistas que visitam aquele lindo e pacato aglomerado de construções encravadas numa das mais lindas paisagens que você pode esperar ver.</p>
<p align="justify">Os mais moradores da pequena aldeia, ouviram a história (que eles juram ser verdadeira) de seus pais e avós que, por sua vez, a ouviram de seus próprios ancestrais e dos mais ilustres anciãos da aldeia alpina.</p>
<p align="justify">A narrativa, que mais tarde se tornaria lenda, tem início pelos idos de 1.349 quando toda a França estava tomada pelo flagelo da Peste Negra e a morte ceifava tantas vidas que o maior cirurgião da época, Guy de Chauliac (médico do Papa Clemente VI), deixou um relato impressionante dos acontecimentos: “A grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia se apresentou de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em três dias; decorrido esse tempo manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam em cinco dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a caridade desaparecera por completo. Não se sabia qual a causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus haviam envenenado o mundo e por isso os mataram”.</p>
<p align="justify">Dizem os anciãos que nesta época a pequena capela terminara de ser construída pelos monges beneditinos que migraram da Itália e resolveram se estabelecer ali para fundar um monastério. Mas, infelizmente com o avanço da epidemia de peste que assolava o local, a maioria deles morreu durante a construção ou logo depois da conclusão das obras. A capela, que daria origem ao monastério, jamais deixou de ser uma singela capela de pedra e madeira; parecendo destinada a permanecer fechada e abandonada por falta de monges ou padres que aceitassem a indicação para levar conforto e luz aquela comunidade sofrida.</p>
<p align="justify">Durante meses, o único habitante da pequena capela era um menino franzino e imundo, que absolutamente nenhum aldeão conhecia ou reivindicava como parente. Mesmo diante de tantas mortes e de tanto desespero, a figura do estranho menino &#8211; saído de lugar nenhum &#8211; era motivo de discussões, fofocas e maledicências entre os aldeões. Isso, é claro, entre um ou outro lamento, imprecação ou blasfêmia gritada por eles enquanto morriam devorados pela peste.</p>
<p align="justify">Em pouco tempo, a figura do menino na capela passou a ser vista como algo sobrenatural e envolto em mistério. Os poucos que ousaram se aproximar dele, mesmo para oferecer carinho, comida e atenção; rapidamente adoeciam e morriam padecendo dos mais horríveis efeitos da praga.</p>
<p align="justify">Quando grande parte da população já havia sido dizimada pela peste; uma figura encurvada, baixa, com a pele levemente macilenta e mancando de uma perna chegou às portas da pequena aldeia, vindo do vale logo abaixo. </p>
<p align="justify">Era noite; uma noite escura e fria como os braços da morte. O vento soprava violentamente, vindo do coração dos alpes, e feria os que se aventuravam longe de algum abrigo aquecido como se fosse um açoite gelado e impiedoso. Os que ainda viviam naquele lugar maldito nem notaram sua chegada. Apenas os três condenados obrigados a trabalhar dia e noite, desocupando as casas dos mortos removendo os cadáveres que se amontoavam nas habitações, o viram chegar e se instalar na pequena capela. </p>
<p align="justify">Por isso mesmo, quase todos se surpreenderam quando a manhã chegou e se depararam com aquele homem de aparência tão insignificante e doentia varrendo o interior da pequena capela, enquanto era observado com evidente curiosidade e contrariedade pelo menino.</p>
<p align="justify">O velho coxo se aproximou dos aldeões e os convidou, com um sorriso cativante, a entrar na capela:</p>
<p align="justify">- Venham meus filhos. Venham rezar para que Deus nos livre do Flagelo Negro. A Casa de Deus está aberta para todos; basta que entrem, se acomodem, se arrependam de seus pecados e renunciem ao mal.</p>
<p align="justify">A pequena multidão que já se aglomerava às portas da capela fez menção de entrar, mas se deteve ao receber um olhar zangado do menino. Do meio daquela gente toda, uma voz anônima gritou quase como se suplicasse por socorro:</p>
<p align="justify">- Quem és tu velho? Como chegastes aqui? Se veio de Deus expulsa esse fedelho maldito para que possamos entrar.</p>
<p align="justify">O frade respondeu, com o mesmo sorriso cativante:</p>
<p align="justify">- Meu nome é Irmão Darius. Sou um frater franciscano vindo dos arredores de Assis. Meus superiores relutaram em me entregar este posto. Só quando revelei ser a ordem de um anjo, vindo até mim num sonho, eles deixaram que eu viesse &#8211; Diante do silêncio de todos, continuou &#8211; Quanto a expulsar alguém da capela&#8230; sinto não poder fazer isso. Todos são bem-vindos na Casa de Deus. Seja quem for e venha de onde vier.</p>
<p align="justify">A turba continuou vociferando e xingando o pobre garoto, enquanto se afastavam recusando-se cruzar o limiar da entrada e a pisar no interior da capela.</p>
<p align="justify">O velho frade simplesmente sorriu e deu de ombros. Continuou varrendo o chão e limpando os bancos da capela como se nada tivesse acontecido. Em dado momento, aproximou-se do menino e perguntou-lhe se estava com fome. O garoto fez que sim com a cabeça e, sem dizer uma única palavra de agradecimento, esticou os braços para apanhar o naco de pão e de queijo que o frade retirara de um pequeno farnel repousado num banco próximo.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/10/jon_lezinsky_boy_of_bone_inside.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="jon_lezinsky_boy_of_bone_inside" border="0" alt="Contos Ancestrais - O Frade e o Demônio" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/10/jon_lezinsky_boy_of_bone_inside_thumb.jpg" width="231" height="334" /></a></p>
<p align="justify">Em silêncio, ambos comiam e se encaravam como se fossem oponentes se estudando antes do combate. O velho frade, ao contrário do menino, mantinha seu semblante sereno e seus lábios levemente apertados em um sorriso amistoso e cheio de uma compaixão sincera. Em dado momento, o velho resolveu falar direta e sinceramente ao menino:</p>
<p align="justify">- Sei quem tu és é e o que fazes aqui. Mas, não tenha medo. Fui mandado para te ajudar.</p>
<p align="justify">O menino continuou comendo em silêncio.</p>
<p align="justify">- Você acha que punir ou atormentar essa pobre gente supersticiosa e ignorante vai representar alguma vitória para você? Sua incapacidade de compreender que o mal causado aqui, apenas aumenta ainda mais sua angústia e seu desespero e jamais lhe permitirá sentir qualquer satisfação ou amenizará a dor que sente – continuou o velho como se falasse com uma criança birrenta – por estar preso às trevas que tanto odeia. Arrependa-se, fale comigo e se liberte da escuridão de uma vez por todas. Nosso Pai te espera de braços abertos há muito tempo.</p>
<p align="justify">Por um instante o menino continuou impassível. Mas, numa explosão de raiva, ele olhou diretamente para o velho frade. Seus olhos estavam dilatados e avermelhados, transparecendo uma fúria ancestral imprópria a uma criança tão jovem. Sua voz soou grave, poderosa e encheu a capela com um misto de raiva incontida, desejo assassino e o mais puro desdém:</p>
<p align="justify">- Quem pensa que és, velho? Me toma por um reles maldito que se curva diante de seus encantos recitados e de sua baboseira cristã? Tu apodrecerá e sucumbirá a peste, como todos os outros, enquanto eu me alimento de sua dor e de suas blasfêmias inúteis. Não conseguirá me destruir e nem me devolver ao Abismo. Eu estava aqui antes do seu Mestre escravo e ainda estarei neste mundo muito tempo depois dele ter sido esquecido.</p>
<p align="justify">O velho frade manteve o sorriso e, com tranquilidade e fé inabaláveis, sussurrou junto ao ouvido do menino:</p>
<p align="justify">- Sei muito bem quem és criatura. Tu és o Terceiro dos Três. O Príncipe dos Demônios. O senhor das Moscas e da Pestilência – e, para surpresa do “menino”, sentenciou gravemente – Tu és Belzebu, o que se curva apenas diante de Lúcifer e de Satan.</p>
<p align="justify">Tendo sido exposto em sua verdadeira identidade, mostrou-se surpreso ao ouvir seu nome proferido pelo frade – “Como sabes o meu nome sem que me obrigues a revelá-lo? O que és tu velho? Acaso és um Sentinela (*), posto no mundo por aquele a quem chamam Jesus &#8211; o seu mestre escravo &#8211; para nos caçar implacavelmente? Vieste mesmo tentar me destruir e atormentar? Mesmo podendo perceber em ti “A Luz dos Justos” não és investido com o poder do Sentinela. Tua real identidade me escapa. Iguala as vantagens e revela-te, de uma vez por todas, espírito luminoso que me persegue” &#8211; Falou quase atropelando as palavras e refletindo uma profunda irritação.</p>
<p align="justify">O frade não se conteve e riu gostosamente, diante do medo exalado por criatura tão poderosa. Quase sem fôlego; abraçou o demônio ainda na forma do menino e, rindo a valer, pediu que ele se acalmasse: “Não. Nada tenho a ver com um Sentinela. Não vim aqui perseguir-te. Vim apenas conversar contigo; ouvir teus lamentos; tuas dores e oferecer o refrigério que buscas. Estou aqui porque a Casa do Pai é feita para o pródigo; para o pecador; para o imundo e para aquele que cansou de praticar o mal. Estou aqui por você irmão”.</p>
<p align="justify">O demônio emitiu um rosnado e depois, completamente transtornado, uma série de maldições que o frade foi incapaz de entender; deu as costas ao velho e resmungou mais irado ainda: “Como te atreves a chamar-me de irmão, reles criatura de carne? Tu serás pó muito antes de eu libertar essa aldeia ou me curvar a tua vontade ou a do escravo a quem chamas de mestre”.</p>
<p align="justify">Do lado de fora da pequena capela, os gritos, os urros, as maldições e o enorme barulho que vinha do interior da construção – além de um fedor indescritível &#8211; podiam ser ouvidos e sentidos por toda a aldeia. Esquecendo-se de seus sofrimentos por algum tempo, os aldeões se acotovelavam diante da capela e dispensavam sua total atenção ao estranho diálogo que se desenrolava no interior do prédio. Sentados no chão, empoleirados em galhos, de pé na rua ou ajoelhados e unidos numa prece fervorosa, prestavam máxima atenção a cena inusitada e pediam a Deus que os livrassem daquele mal e libertasse o povo da pestilência e daquele demônio tão poderoso.</p>
<p align="justify">Conta a lenda que aquela estranha e decisiva conversa se estendeu pela manhã; invadiu a tarde e ultrapassou a noite chegando até a madrugada. O poderoso demônio e o frágil frade franciscano duelando filosoficamente numa batalha entre o bem e o mal como nunca havia sido visto ou sabido antes. Em dado momento, pouco antes do raiar do sol, todos puderam ouvir o velho frade dizer:</p>
<p align="justify">- Nosso amado Pai me enviou para oferecer-te a paz e um lugar no Paraíso. Basta que renegue o mal e se arrependa. A mim foi dada a autoridade de mostrar-te um caminho para a luz e de mim tens a esperar apenas uma palavra amiga, compaixão e a amizade pura. Seja qual for a tua escolha neste momento; saibas que aqui sempre terás um refúgio e um abrigo. Velarei por teu retorno e pelo teu arrependimento. Assim como aqueles que virão depois de mim e te aguardarão de braços abertos, com os corações repletos de perdão e a promessa de paz garantida. Lembra-te de que é para seres como tu que a Palavra foi dita.</p>
<p align="justify">O demônio, ainda habitando o corpo do menino, dirigiu-se ao velho frade em um tom comedido e cheio de respeito genuíno:</p>
<p align="justify">- Velho; se houvessem mais homens como ti, nós estaríamos nos curvando a vontade dAquele que nos baniu do Paraíso por nossos crimes. Tu és justo e bom. A Luz resplandece em ti com poder além do imaginado. Mas, nada fiz de que me arrependa e nada tenho de que me envergonhar. Sou o que sou e construo a obra para a qual fui comandado – e ainda falando com o velho frade, mas erguendo-se e se voltando para a multidão que assistia a tudo, completou – Como resposta a tua bondade, a tua fé e a tua gentileza comigo, de hoje em diante esta aldeia estará livre da pestilência e da morte prematura. Nem eu, nem meus irmãos voltaremos a pisar nesta terra enquanto o sol bilhar e a lua percorrer o horizonte.</p>
<p align="justify">Dizendo isso, assumiu sua verdadeira forma grotesca; curvou-se em direção ao frade e sussurrou algo em seus ouvidos para, em seguida, desaparecer no ar tão misteriosamente quanto surgiu.</p>
<p align="justify">Imediatamente, todos os que estavam doentes ficaram curados. As dores, os lamentos, as blasfêmias e as feridas pútridas foram silenciados e curados. Um suave perfume de rosas tomou conta da pequena capela onde o velho ainda estava sentado em um banco. Um sorriso iluminava seu rosto e lágrimas rolavam por sua face. Os aldeões invadiram aquele solo, agora santificado, e perguntaram ao velho frade o que o demônio sussurrara em seus ouvidos.</p>
<p align="justify">Chorando copiosamente, o frade franciscano voltou-se para os que o interrogavam e respondeu:</p>
<p align="justify">- Ele disse que um dia, quem sabe, talvez fizesse o que eu lhe pedira.</p>
<p align="justify">Desde aquele dia, ninguém mais adoeceu ou morreu antes de seu tempo, naquela fria aldeia perdida no meio dos Alpes Franceses.</p>
<p align="center">**********</p>
<p align="justify">(*) Entenda a quem o demônio se referia, lendo o conto “<a href="http://contosancestrais.com.br/2007/08/o-13%C2%BA-discipulo-a-primeira-sentinela/" target="_blank">O 13º Discípulo – A Primeira Sentinela</a>”. </p>
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		<title>Amor Imenso</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Sep 2012 15:47:57 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[&#160; Um facho de luz do sol penetrou no quarto escuro e banhou seu rosto anunciando que a manhã chegara. Esfregou os olhos e, ainda sonolento, olhou cheio de ternura para o corpo magnífico da mulher ainda dormindo a seu lado, respirando profunda e tranquilamente, completamente saciada e feliz. Para ela, eles haviam se conhecido na noite anterior. Mas, secretamente, ele sabia que vinha espionando-a há meses. Seguindo seus passos e admirando cada um dos seus movimentos. Aprendeu seus gostos e paixões; enxergou seus desejos e aspirações e sondou todos os seus desejos mais profundos ao analisar cuidadosamente sua correspondência, sua casa, seu local de trabalho e – até mesmo – seu lixo. Decidira que a amava desde a primeira vez que a vira, naquele dia, na fila do banco. Alguns olhares rápidos trocados, um sorriso meio sem graça e um “obrigado” por uma informação prestada foram suficientes para despertar nele uma emoção há muito esquecida. Decidira naquele exato momento: ela seria sua. Aparecer “de repente” no barzinho que ela frequentava às sextas-feiras e sentar-se bem ao lado da mesa cativa, ocupada juntamente com os amigos dela, foi o golpe de mestre para provocar a memória da bela jovem e [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/09/EVB-03.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="EVB-03" border="0" alt="Amor Imenso - Blog Contos Ancestrais" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/09/EVB-03_thumb.jpg" width="339" height="238" /></a></p>
<p align="justify">Um facho de luz do sol penetrou no quarto escuro e banhou seu rosto anunciando que a manhã chegara. Esfregou os olhos e, ainda sonolento, olhou cheio de ternura para o corpo magnífico da mulher ainda dormindo a seu lado, respirando profunda e tranquilamente, completamente saciada e feliz.</p>
<p align="justify">Para ela, eles haviam se conhecido na noite anterior. Mas, secretamente, ele sabia que vinha espionando-a há meses. Seguindo seus passos e admirando cada um dos seus movimentos. Aprendeu seus gostos e paixões; enxergou seus desejos e aspirações e sondou todos os seus desejos mais profundos ao analisar cuidadosamente sua correspondência, sua casa, seu local de trabalho e – até mesmo – seu lixo.</p>
<p align="justify">Decidira que a amava desde a primeira vez que a vira, naquele dia, na fila do banco. Alguns olhares rápidos trocados, um sorriso meio sem graça e um “obrigado” por uma informação prestada foram suficientes para despertar nele uma emoção há muito esquecida. Decidira naquele exato momento: ela seria sua.</p>
<p align="justify">Aparecer “de repente” no barzinho que ela frequentava às sextas-feiras e sentar-se bem ao lado da mesa cativa, ocupada juntamente com os amigos dela, foi o golpe de mestre para provocar a memória da bela jovem e fazê-la olhar seguidas vezes para ele; permitindo, assim, que puxasse conversa e acabasse convidando-a para sair.</p>
<p align="justify">A esticada na boate; o passeio pela praia em plena madrugada; os beijos embalados pelo som das ondas e sob a luz do luar; as palavras corretas sussurradas em seu ouvido, acabaram fazendo com que os dois fossem parar no apartamento dele. Agora, sentado na poltrona, admirando o corpo escultural daquela mulher fantástica banhado pelo delicado facho de luz solar que se movia pelo quarto, pensava numa forma de expressar todo o seu imenso amor por ela.</p>
<p align="justify">Tremendo de excitação; aproximou-se da cama, tocando o colo macio e branco com suas mãos trêmulas e sequiosas pela sensação de tocar tão bela pele. Deslizou a mão delicadamente pelos seios empinados e firmes. Deteve-se por alguns momentos, contornando os mamilos endurecidos e rosados, beijando-os delicadamente. Deixou sua mão brincar mais um pouco naqueles seios maravilhosos e depois a fez descer pela barriga até o púbis.</p>
<p align="justify">Ela, despertada pelo toque quente dos lábios dele em seus mamilos, abriu os olhos e sorriu ternamente, enquanto estendia os braços para acariciá-lo. Com atrevimento, ele deslizou a mão por sua intimidade penetrando-a; fazendo com que ela gemesse de prazer e fechasse os olhos.</p>
<p align="justify">O homem, com a respiração acelerada e envolvido pelo prazer que a cena lhe proporcionava, rapidamente inclinou-se sobre ela tapando-lhe a boca. A mão que, poucos momentos antes, explorara seu corpo e sua intimidade causando arrepios de prazer e contentamento, movia-se com rapidez inigualável e buscava um pequeno objeto brilhante que jazia sob os lençóis.</p>
<p align="justify">Impassível, a nesga de luz solar que outrora iluminara o corpo esguio e magnífico, agora fazia algo na mão dele brilhar de forma aterrorizante aos olhos da bela jovem. Sem conseguir gritar; ela se debatia tentando se libertar sem sucesso; conseguindo apenas fechar os olhos quando ele aproximou a mão que segurava o objeto brilhante do seu ventre e uma dor atroz se irradiou daquele ponto, tomando conta de todo o seu ser.</p>
<p align="justify">Ela chorava, gemia de dor e tudo que podia ver eram os olhos dele. Os mesmos olhos que antes estavam carregados de amor e ternura, agora estavam arregalados. Vermelhos e injetados de sangue e ódio. Seu rosto, contorcido numa carantonha, resplandecia a loucura que lhe tomara conta da alma. A última visão da mulher, antes de desfalecer completamente, foi aquele homem se curvando sobre o seu ventre aberto e sorrindo com um contentamento enlouquecido.</p>
<p align="justify">Saciado mais uma vez, ele olhava para o corpo da mulher sentado em sua poltrona favorita. Em suas mãos, agora trazia o tão ansiado troféu que guardaria como lembrança daquela mulher a qual amara tão intensamente.</p>
<p align="justify">Pelo menos, até que a sorte ou o destino lhe trouxessem a próxima.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
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 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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		<title>O Templ&#225;rio</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Aug 2012 02:04:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Arthurius Maximus]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; &#160; Deitado em seus aposentos, localizados bem próximos a base da muralha, olhava fixamente para o teto de pedra finamente decorado com afrescos retratando os santos martirizados rodeados por arabescos complexamente desenhados e com cores berrantes. Desde sua infância, quando ouvia as histórias contadas pelos mais velhos ao narrarem os feitos heroicos deles e de seus companheiros de batalha, desejava estar ali. Comandar aquela guarnição era o ápice de uma carreira militar firmemente assentada no sacrifício, na devoção, na coragem, na destreza em combate – provada em muitas batalhas &#8211; e na fé religiosa inabalável. Como o comandante mais novo de todo o contingente templário, algo o assustava mais do que qualquer combate: justamente essa sua fé inabalável, que o trouxera até ali, se esmaecia a cada dia em que mergulhava naquela carnificina sem sentido e na coleção de mentiras na qual se transformara aquela Cruzada. Mesmo tendo jurado obediência aos desígnios de seus superiores e do Papa, não podia deixar de se perguntar se o Cristo se aprazia realmente com aqueles massacres e com toda a fúria e ódio que ele presenciara. Somente ali, no silêncio e na penumbra de seu quarto, podia se permitir duvidar de sua [&#8230;]<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-frade-e-o-demnio/"     class="crp_title">O Frade e o Dem&ocirc;nio.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/09/amor-imenso/"     class="crp_title">Amor Imenso</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></description>
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<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/08/templario_color.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="templario_color" border="0" alt="Contos Ancestrais - o Templário" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/08/templario_color_thumb.jpg" width="265" height="320" /></a></p>
<p align="justify">Deitado em seus aposentos, localizados bem próximos a base da muralha, olhava fixamente para o teto de pedra finamente decorado com afrescos retratando os santos martirizados rodeados por arabescos complexamente desenhados e com cores berrantes. Desde sua infância, quando ouvia as histórias contadas pelos mais velhos ao narrarem os feitos heroicos deles e de seus companheiros de batalha, desejava estar ali. </p>
<p align="justify">Comandar aquela guarnição era o ápice de uma carreira militar firmemente assentada no sacrifício, na devoção, na coragem, na destreza em combate – provada em muitas batalhas &#8211; e na fé religiosa inabalável. Como o comandante mais novo de todo o contingente templário, algo o assustava mais do que qualquer combate: justamente essa sua fé inabalável, que o trouxera até ali, se esmaecia a cada dia em que mergulhava naquela carnificina sem sentido e na coleção de mentiras na qual se transformara aquela Cruzada.</p>
<p align="justify">Mesmo tendo jurado obediência aos desígnios de seus superiores e do Papa, não podia deixar de se perguntar se o Cristo se aprazia realmente com aqueles massacres e com toda a fúria e ódio que ele presenciara. Somente ali, no silêncio e na penumbra de seu quarto, podia se permitir duvidar de sua fé, de sua honra e de suas habilidades como guerreiro e líder. Mas, mesmo sendo o mais vitorioso de todos os combatentes templários, imaginava quais os motivos reais estariam por trás de tantas mortes e tanta dor. No fundo de seu coração, a ideia de poder ter sua alma condenada ao fogo do inferno por um capricho de outros o atormentava cada vez mais frequentemente.</p>
<p align="justify">Tudo o que ele ouvira enquanto treinava para estar ali, as histórias de heroísmo e abnegação e a moralidade inabalável de seus superiores haviam se convertido em um monte de mentiras. As violências, os massacres, a falta de respeito com os derrotados e com os mortos e a selvageria incivilizada constantemente atribuída aos sarracenos nunca foi provada em batalha. Muito pelo contrário, toda a violência sem sentido, as violações dos princípios morais da guerra e os massacres mais hediondos eram cometidos sempre pelos Cruzados. Como dizer então que eles estavam ali cumprindo a vontade de Deus?</p>
<p align="justify">Perdido nesses pensamentos, que lhe garantiriam uma morte lenta e torturante se viessem à tona, nem percebeu o alvoroço que começava a se formar no pátio da fortaleza. Absorto em seus próprios problemas e consumido pela culpa, o guerreiro honrado e poderoso sentia-se derrotado e acovardado pela culpa e pelas incertezas. Sua consciência atormentava sua alma e os pensamentos sombrios há muito não permitiam que descansasse em paz como devia.</p>
<p align="justify">De repente, um enorme estrondo seguido por um tremor tão intenso que fez toda a grossa muralha parecer oscilar por um instante percorreu cada canto da fortaleza e despertou o guerreiro de sua letargia. Uma confusão crescente, recheada de gritos, do som de armas se enfrentando e de urros de dor; levou ao jovem comandante a inequívoca mensagem de que uma nova batalha se iniciava. Vestiu sua armadura, com a ajuda de seu fiel servo, e abandonou seus aposentos indo em direção ao pátio da fortaleza.</p>
<p align="justify">Chegando lá, percebeu num simples relance que a batalha já estava perdida. O estrondo ouvido e o tremor sentido nada mais eram do que o fruto do trabalho dos sapadores sarracenos. Usando as mesmas técnicas que ele vira em outras batalhas, os soldados haviam solapado – sem que ninguém desse conta disso – as fundações de parte da muralha e causado o seu desabamento. Pelo enorme buraco formado, uma horda de sarracenos invadiu a fortaleza como uma onda humana sem fim.</p>
<p align="justify">De onde estava, o guerreiro sabia que a pequena guarnição estava condenada e seria subjugada em pouco tempo. Chamou seus servos e ordenou-lhes que abandonassem a fortaleza pelo túnel cavado atrás da pequena capela e levassem com eles os feridos e os que mais quisessem. Olhou em volta, enquanto subia no cavalo, feliz por finalmente seu sofrimento terminar (em breve estaria diante de Deus e saberia se seus atos eram verdadeiramente honrados ou não). Com uma oração, partiu a galope para o meio da confusão mortal que já tomava conta do pátio da fortaleza.</p>
<p align="justify">Saltou sobre as frágeis barricadas erguidas pelos seus companheiros combatente a pé e afundou num enorme mar de homens irados, lanças, espadas e escudos que se enfrentavam ferozmente. Desaparecendo no caos da batalha, seu cavalo foi mortalmente atingido por uma lança sarracena e o derrubou da cela. Combatendo desmontado, aos poucos fez abrir uma clareira havia mergulhado na horda sarracena, por trás das barricadas seus comandados assistiam com um misto de terror, orgulho e admiração a destreza em combate do líder fazendo cair por terra os corpos agonizantes e destroçados de seus inimigos. Mesmo com toda confusão do calor do combate, os defensores sentiam uma certa paz de espírito ao se defrontarem com a morte certa sabendo que seu comandante mostrava-se tão obstinado quanto heroico.</p>
<p align="justify">Num determinado momento, ouviu-se um grito tão alto que sobrepujou todo aquele ruído de metal se chocando; urros de dor dos feridos e moribundos e o som agourento dos lamentos dos covardes. Parte da horda sarracena recuou e postou-se em fileiras a frente do enorme buraco feito na muralha.</p>
<p align="justify">Corpos mutilados, de ambos os lados, jaziam em toda parte, formando montes de carne, entranhas e ossos expostos que exalavam aquele terrível cheio de sangue e do conteúdos das tripas rasgadas dos feridos. De pé, bem no centro de um desses montes, o cavaleiro templário fincou o pé no chão enlameado pela mistura de pó, sangue e dejetos. Ofegante, olhou a sua volta. As barricadas, já rompidas, estavam repletas de corpos e uma pequena fração da sua guarnição estava encurralada pouco atrás de onde ele estava. Simplesmente não imaginava por quais motivos o ataque sarraceno se detivera. A vitória era clara e definitiva.</p>
<p align="justify">Foi quando ele ergueu os olhos para a figura imponente, trajada com a riqueza de um nobre e montada em um cavalo tão negro que parecia exibir um brilho azulado como uma leve aura mágica. Parado a poucos metros dele, o homem no cavalo sorriu e cumprimentou o jovem templário – usando palavras que ele podia compreender &#8211; pela sua destreza em combate e pela sua enorme coragem. Falava com uma sinceridade cativante e uma serenidade própria dos homens que já viveram muito e aprenderam mais ainda com a dureza da vida. Perguntou seu nome e o jovem templário respondeu sem baixar seu escudo e sua espada. O nobre sarraceno, sorriu mais uma vez – como um pai faria diante de um filho querido – e gritou, anunciado o nome do jovem, para que todos pudessem ouvir.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/08/Cavaleiro_Templario.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="Cavaleiro_Templario" border="0" alt="Contos Ancestrais - O Templário - conto" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/08/Cavaleiro_Templario_thumb.jpg" width="260" height="346" /></a></p>
<p align="justify">Um murmurinho percorreu a multidão de sarracenos. Olhares assustados e admirados eram trocados, ao mesmo tempo que gritos de guerra e evocações a Alá estouravam aqui e ali. Acuados num canto do pátio, o pequeno grupo de cruzados sobreviventes, não conseguia compreender o que estava acontecendo e já imaginavam se seriam queimados vivos ou torturados até a morte pela horda que gritava enfurecida e se agitava cada vez mais. </p>
<p align="justify">O nobre ergueu sua mão e todas as vozes se calaram ao mesmo tempo. Um silencio respeitoso tomou conta da velha fortaleza e só a voz grave e potente dele era ouvida: “Sua honra, sabedoria, humildade e respeito aos vencidos é conhecida de seus inimigos. Sua queda em combate seria uma grande honraria para mim ou qualquer um de meus homens. Mas, em respeito a tudo em que acredito e ao seu comportamento, sempre magnânimo, com meus irmãos derrotados por você; eu permitirei que deixe a fortaleza com vida, juntamente com o que restou dos seus soldados. Basta, para isso, que derrote meu campeão em um combate justo”.</p>
<p align="justify">O jovem templário, ofegante e coberto de sangue, sabia que talvez não tivesse mais forças para combater um soldado descansado e bem treinado. Mas, como aquela era a única chance de seus homens e dele mesmo; aceitou o desafio do nobre. Gritou, o mais alto que pode, que estava pronto.</p>
<p align="justify">A horda sarracena gritou em uníssono e começou a bater nos escudos enlouquecida pela antevisão do espetáculo. De trás das fileiras, que agora cercavam todo o interior da fortaleza e se tornaram quase num aglomerado compacto de corpos, escudos e espadas, surgiu um enorme sarraceno com a pele coberta por cicatrizes, braços extremamente fortes e pernas que pareciam dois pilares de construção.</p>
<p align="justify">Em seus olhos o templário podia ver o ódio inflamado e o desdém que o inimigo sentia. Sem se acovardar, postou-se em posição de combate e chamou o seu oponente enfurecido para a luta.</p>
<p align="justify">A espada do campeão sarraceno brilhou no ar e encheu todo o lugar com o um som metálico ao encontrar a do templário que aparou o golpe. Os urros e gemidos de ambos os combatentes eram os únicos sons ouvidos naquela cena, além do bater do aço e o encontrar de escudos.</p>
<p align="justify">O combate se prolongou por vários minutos e ambos já mostravam sinais de cansaço. O jovem templário estava em pior estado e sentia, cada vez mais, a dureza e a força dos golpes de seu oponente. Uma dor terrível percorria seu corpo e reverberava em cada fibra muscular como um enorme tambor. Sua cabeça pulsava, como se fosse prensada por dezenas de tenazes. Seus olhos eram encobertos pelo suor e sua visão ficava embaçada pelo enorme esforço de defender-se dos golpes constantes e arrasadores.</p>
<p align="justify">Num deslize do jovem templário, provocado pelo cansaço do combate e pelas dores atrozes, a espada sarracena atingiu-lhe o braço, sobre a cota de malha, derrubando-o. O sangue corria pelo ferimento aberto e seu braço pendia inutilizado. Agora, o fim estava próximo – pensou o templário – sem poder usar o escudo, seria questão de pouco tempo até o golpe fatal.</p>
<p align="justify">Diante da plateia que assistia a tudo com a respiração contida, metade delirante e metade estarrecida, o sarraceno acertou um golpe de sorte que fez a espada do jovem templário voar para longe. No mesmo instante, um único pensamento surgiu na mente do jovem guerreiro: “é o fim”. Exaurido pelo combate, ferido gravemente e sangrando muito; caiu de joelhos e ergueu a cabeça para aguardar o golpe final.</p>
<p align="justify">O campeão sarraceno aproximou-se &#8211; embalado pelos gritos vitoriosos da horda enlouquecida &#8211; ergueu sua espada e, com toda força, desferiu um golpe mortal visando o pescoço do jovem templário. A lâmina reluziu ao sol; desceu velozmente e – diante da multidão incrédula – parou no ar a poucos milímetros da garganta do templário caído. O sarraceno, sem compreender o ocorrido, colocou toda a sua força na lâmina pressionando-a contra a garganta do jovem e, mesmo assim, a espada não fazia mais, golpe após golpe, do que deter-se antes de tocar o homem.</p>
<p align="justify">Aos gritos de feitiçaria e confusos pelo ocorrido, dois outros soldados sarracenos atiraram flechas em direção ao corpo do guerreiro ferido. O nobre, ao perceber o ocorrido e furioso pelo comportamento desonroso dos seus, fez um gesto e ambos foram mortos imediatamente por seus próprios colegas. Simultaneamente, as flechas atiradas contra o jovem ajoelhado naquele pátio interromperam seu voo como se fossem detidas por mãos invisíveis.</p>
<p align="justify">Os sarracenos recuaram assustados e, sem saber o que estava acontecendo, ficaram aguardando as ordens do nobre. Este, com os olhos marejados pelas lágrimas desceu de seu magnífico cavalo e, aproximou-se do guerreiro ainda caído. Carinhosamente, abraçou o jovem, o ergueu do chão e colocou as rédeas do magnífico cavalo em suas mãos. Ao se voltar para partir, o nobre disse: “Eu sou Salah al-Din Yusuf ibn Ayub. Vocês me conhecem como Saladino. Aquilo que presenciamos aqui hoje é mostra de que Alá protege o justo, o misericordioso e o honrado. Se Ele não deseja a sua morte, quem sou eu para ir contra a Sua vontade. Vá em paz, irmão, e que Alá guie seus dias e olhe pelo seu regresso ao lar e para junto dos que ama”. Dizendo isso, deu as costas para o jovem incrédulo e, montano em outro cavalo, retirou-se rapidamente com toda a horda sarracena.</p>
<p align="justify">Os soldados correram para ajudar o jovem templário e o colocaram junto a sombra de uma enorme tamareira. Ao removerem seu elmo, perceberam que ele chorava. Sua mente era tomada por pensamentos conflitantes que o tragavam para um redemoinho de emoções. Deus salvou a sua vida e, no mesmo golpe, mostrou que os homens – mesmo quando rezam para um Deus diferente – podem ser justos, bons, e honrados.</p>
<p align="justify">Ainda havia esperança para sua alma e, imediatamente percebeu que jamais esqueceria daquele nobre sarraceno que trouxera a luz de volta a sua vida e a paz a sua alma.</p>
<p align="center">**********</p>
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		<title>A CHAVE DO TEMPO.</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 15:19:10 +0000</pubDate>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/15.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="15" border="0" alt="Blog Contos Ancestrais - A Chave do Tempo" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/15_thumb.jpg" width="355" height="355" /></a></p>
<p>&#160;</p>
<p align="justify">A empresa, conhecida por empregar os maiores cérebros do país, gozava de localização privilegiada e de uma sede maravilhosamente construída em um complexo industrial especialmente destinado a empresas de alta tecnologia. Por trás das enormes janelas de vidro e das grandiosas portas duplas de bronze e vidro, que separavam o lobby de granito polido da rua por onde caminhavam os reles mortais, a decoração suntuosa escondia laboratórios equipados com o que havia de mais moderno em tecnologia e homens tão dedicados aos seus projetos que pouco ou nunca deixavam as dependências da empresa.</p>
<p align="justify">Em um desses laboratórios, no quinto subsolo do prédio, o dia prosseguia dentro do planejado. No pequeno cômodo, três homens trabalhavam desenvolvendo um protótipo de uso militar, altamente secreto, capaz de destruir equipamentos, redes de comunicação e de energia do inimigo através de pulsos eletromagnéticos.</p>
<p align="justify">O chefe do laboratório, um físico Prêmio Nobel e com anos de experiência em projetos daquele tipo, operava os controles do protótipo. Ao seu lado, a poucos metros à direita, um jovem assistente monitorava os resultados através dos equipamentos que cuspiam centenas de dados e gráficos. Do outro lado da sala, um terceiro cientista controlava os níveis de energia consumidos pelo protótipo, possíveis descargas de radiação emitidas ou qualquer outro problema com o experimento.</p>
<p align="justify">Perto do meio dia, os três homens se preparavam para iniciar mais uma bateria de testes. O ambiente descontraído era fruto de anos de convivência e da confiança mútua na competência de todos. Eram amigos de longa data e suas famílias sempre se encontravam nos poucos momentos de relaxamento fora do laboratório.</p>
<p align="justify">Aquele seria o último experimento do dia. Depois, iriam almoçar e consumir o resto da tarde (e possivelmente boa parte da noite) esmiuçando os relatórios e dados obtidos com os testes do dia. O prazo para conclusão do projeto estava chegando ao fim e eles precisavam terminar tudo o mais rápido possível.</p>
<p align="justify">Acionaram o protótipo exatamente às 11:55hs. Um zumbido leve e monótono tomou conta da sala e uma leve luminosidade pairava sobre o equipamento. No painel de instrumentos, os ponteiros e mostradores pulavam, giravam e se mexiam &#8211; cuspindo uma montanha de dados que o assistente acompanhava com atenção total &#8211; tudo estava indo como planejado.</p>
<p align="justify">De repente, o jovem assistente que controlava os dados ergue a cabeça e olha intrigado para o outro lado da sala. Algo estranho acontecia na parede diretamente atrás do seu colega. Instintivamente, ele sinalizou para que o experimento fosse suspenso. O protótipo foi desligado e todos se voltaram para a parede. Os azulejos que a revestiam pareciam velhos e gastos, embora todos soubessem que o laboratório passara por uma reforma completa há poucos meses.</p>
<p align="justify">Resolveram reiniciar o experimento e atribuíram a tensão do dia, a uma distração geral ou mesmo a uma possível má qualidade do material usado na reforma a impressão do colega. O protótipo foi acionado novamente e quase instantaneamente os olhos do jovem assistente se fixaram na parede&#8230; Enquanto seus colegas prestavam total atenção ao desempenho do protótipo, ele percebeu claramente que os azulejos voltaram ao brilho inicial e pareciam recém colocados. </p>
<p align="justify">Num instante tudo sumiu e, ao mesmo tempo, cessaram o zumbido e a luminosidade na sala. O protótipo havia sido desligado.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/26.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="26" border="0" alt="Contos Ancestrais - A Chave do Tempo" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/26_thumb.jpg" width="402" height="302" /></a></p>
<p align="justify">Sem que os colegas dessem conta, o jovem assistente se levantou e andou até a parede do outro lado da sala, a examinando cuidadosamente. Os rejuntes do revestimento que forrava a parede, próximos ao chão, estavam cobertos por uma camada de limo e o esmalte dos azulejos aparentava estar gasto como se fossem muito velhos. Como era possível? </p>
<p align="justify">E pior, enquanto ele tocava os azulejos, eles simplesmente se desprendiam da parede e viravam pó em poucos segundos. Era como se ficassem cada vez mais velhos rapidamente. Além disso, uma mancha escura tomava corpo nos rejuntes e crescia do chão para o centro da superfície de forma acelerada. Um exame mais próximo constatou que se tratava de mofo.</p>
<p align="justify">Sem compreender o que ocorria, chamou a atenção dos colegas que correram para verificar a parede. O cimento e todo o revestimento se esfarelavam e caíam num processo de deterioração tão acelerada que parecia sobrenatural. O mofo também crescia rápido demais e de forma antinatural.</p>
<p align="justify">Olharam-se espantados e resolveram ligar o protótipo mais uma vez, monitorando possíveis descargas radioativas direcionadas para aquela parede. Imediatamente ao acionarem o equipamento voltaram para observar a parede. Tudo voltara ao normal&#8230; Nada de mofo&#8230; Nada de azulejos rachados, gastos ou mesmo pulverizados. A parede reluzia como nova. Não havia sinais de radiação de nenhum tipo e eles não conseguiam entender o que acontecia.</p>
<p align="justify">Depois de algumas horas, desligaram o protótipo e o que viram mudou tudo&#8230;</p>
<p align="justify">A parede parecia fazer parte de uma velha construção e caía aos pedaços. Era possível ver as ferragens das colunas e vigas e não havia mais sinal algum do revestimento. Como se isso não bastasse todo o laboratório estava mudado. Por toda parte, se viam apenas sinais de corrosão e degeneração. Tudo parecia ser muito velho e gasto. Do piso ao teto, absolutamente tudo estava corroído, destruído ou se desfazendo.</p>
<p align="justify">Um grito de horror cortou a sala e todos olharam para o chefe do laboratório. Ele estava horrivelmente velho. Sua aparência era de um homem de mais de cem anos. Os olhos esbugalhados e a boca escancara, sem nenhum dente, exprimiam terror e surpresa quase indescritíveis. Antes que os outros pudessem fazer ou dizer algo, o corpo do velho cientista foi ao solo e desfez-se em pó. O pânico tomou conta do pequeno laboratório quando eles perceberam que eles mesmos envelheciam se forma acelerada.</p>
<p align="justify">O jovem assistente, usando todas as forças que lhe estavam, acionou o protótipo e juntamente com o leve zumbido e a luz bruxuleante emitidos pelo aparelho, tudo voltou ao normal na pequena sala. Mas, o chefe estava morto.</p>
<p align="justify">Perceberam, então, que o aparelho havia provocado algum tipo de distúrbio temporal e contaminara a realidade. Sua desativação, fazia o tempo acelerar rapidamente de forma descontrolada. Restava agora comunicar a direção da empresa, reunir os dados e buscar uma forma de resolver o problema.</p>
<p align="justify">Estavam tão absortos no enigma que nem perceberam a confusão e a correria que se passava fora do laboratório. Um segurança irrompeu pela porta e o barulho dos alarmes que soavam nos corredores invadiu a sala. O segurança, ao berros, ordenava que todos deviam abandonar o prédio imediatamente. Algo inexplicável estava acontecendo e várias pessoas relataram mortes estranhas nas diversas dependências da empresa. Acreditavam que algum agente químico ou biológico havia escapo de algum laboratório nos andares inferiores e ordenaram evacuação total.</p>
<p align="justify">Os dois cientistas se olharam e sabiam muito bem o que estava acontecendo. Contudo, ninguém podia deixar o prédio. Quem deixasse o campo de ação do protótipo teria uma morte instantânea e horrível. Sem pensar duas vezes, o assistente pressionou o botão vermelho que ficava sob uma caixa plástica no painel de instrumentos e um alarme, ainda mais alto do que o anterior ecoou por todos os corredores do prédio. O edifício fora lacrado com todos em seu interior.</p>
<p align="justify">Deixaram o laboratório e convocaram uma reunião de emergência com a administração. Revelaram o acontecido e as possíveis consequências de deixar o prédio. Solicitaram que as autoridades militares fossem comunicadas e que toda a área do complexo, ao redor da empresa, fosse fechada. Um comunicado aos demais funcionários foi expedido e todos os cientistas do prédio se debruçaram sob o problema em busca de uma solução que permitisse salvar a todos.</p>
<p align="justify">Meses de trabalho intenso e exaustivo de centenas de cientistas das mais variadas áreas haviam se passado sem nenhuma perspectiva de resolver o problema. A cada dia, mais e mais funcionários do prédio tentavam fugir das instalações em busca de suas famílias e de suas vidas &#8211; no agora mundo exterior &#8211; mas, o resultado dessas fugas era sempre o mesmo: qualquer ruptura em janelas, paredes ou mesmo a abertura de portas para o exterior causavam uma enorme rajada de vento e o escapista era reduzido a pó quase imediatamente. Por pouco todo o prédio não era destruído até que as portas de contenção isolassem o cômodo violado. Tudo o que sobrava eram roupas esfarrapadas, metais corroídos e uma sala que parecia ter sido construída há centenas de anos. </p>
<p align="justify">Exaustos e derrotados pelas limitações claras impostas pelas instalações, os cientistas chegaram à conclusão de que seria impossível chegar a um termo adequado para a situação. A única chance de impedir que o desastre se espalhasse para o mundo exterior seria enviar os dados e relatórios das pesquisas para os laboratórios militares (mais bem equipados). Mas, como fazer isso? Qualquer tentativa de enviar documentos para o fora do prédio resultaria em destruição imediata dos objetos.</p>
<p align="justify">Debruçando-se sobre suas pesquisas a única conclusão a que todos chegaram fez descer sobre a equipe uma sensação enorme de desespero: A única forma era o protótipo acompanhar os dados. Desta forma, a “bolha” de proteção seguiria os preciosos arquivos e elementos das pesquisas realizadas até agora e garantiria sua integridade e utilização pelos militares. Todos sabiam, é claro, que a retirada do protótipo do prédio condenaria todos ali a uma morte imediata.</p>
<p align="justify">Se reuniram e concentraram toda a sua sabedoria no encontro de uma alternativa ao suicídio coletivo. Mas, já sabiam que ela não existia. Decidiram, portanto, que um deles vestiria o novo traje pressurizado – recém desenvolvido para os cosmonautas – e, através de uma adaptação na mochila do tarje conduziria o protótipo, sob escolta, até a base militar mais próxima. </p>
<p align="justify">O escolhido para a tarefa foi o jovem assistente.</p>
<p align="justify"><a href="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/28.jpg"><img style="background-image: none; border-bottom: 0px; border-left: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; float: none; margin-left: auto; border-top: 0px; margin-right: auto; border-right: 0px; padding-top: 0px" title="28" border="0" alt="Contos Ancestrais - A Chave do Tempo" src="http://contosancestrais.com.br/wp-content/uploads/2012/01/28_thumb.jpg" width="372" height="300" /></a></p>
<p align="justify">Sendo o mais jovem de todos eles teria mais tempo de vida, caso algo desse errado, e como havia participado de todo o desenvolvimento do protótipo, era o único capacitado para dar mais velocidade a interpretação dos dados e a possibilidade de encontrar uma possível solução antes que o problema se espalhasse pelo planeta. A decisão era unânime: nada mais era possível.</p>
<p align="justify">Os preparativos foram feitos, todos os funcionários puderam falar com seus familiares – mas foi-lhes proibido mencionar o que aconteceria – depois, se reuniram no saguão do prédio – junto as enormes portas de bronze e vidro (agora lacradas) que davam para a rua tomada por viaturas militares e vigiada de todos os ângulos.</p>
<p align="justify">O jovem assistente desceu as escadas que ligavam o mezanino ao saguão, acompanhado por dois cientistas que o ajudavam a carregar o protótipo e as duas maletas elaboradas com os novos compostos plásticos recém desenvolvidos para viagens espaciais e que deveriam resistir aos efeitos da transição de tempo quando as portas fossem abertas.</p>
<p align="justify">Trocaram olhares por um instante e um novo alarme soou para avisar sobre a liberação dos lacres na enorme porta de bronze do saguão. Na rua, os militares recuaram e se abrigaram a uma distância que parecia segura (uma vez que ninguém sabia o que poderia acontecer). O jovem assistente podia ouvir atrás de si, enquanto caminhava lentamente para as portas, o choro e os soluços dos que ficaram. Ninguém via seu rosto, mas as lágrimas desciam por sua face embaçando o visor do traje, ele tentava caminhar o mais rápido possível sem olhar para trás. Tudo o que desejava era acabar logo com aquilo.</p>
<p align="justify">Chegou diante das portas e os dois seguranças que as ladeavam as abriram&#8230; No mesmo instante uma enorme rajada de vento invadiu o saguão do prédio e os seguranças foram reduzidos a pó quase de imediato. O choro e os soluços silenciaram. O jovem assistente reiniciou sua penosa caminhada, agora totalmente sozinho, para fora do prédio. Enquanto passava pelas enormes portas – que perderam o brilho de outrora e apresentavam-se esverdeadas e repletas de placas corroídas até a dissolução – lançou um olhar para o saguão&#8230; Estava vazio. As lindas paredes de mármore o chão de granito polido, agora eram uma mera lembrança. Tudo estava em frangalhos e destruído. O dispositivo ainda funcionava protegendo-o dos efeitos danosos da aceleração temporal.</p>
<p align="justify">Já do lado de fora, foi recebido pelos militares com extrema cautela. Ninguém ousara se aproximar dele e fora orientado pelo rádio a colocar os dados em um veículo blindado, especialmente criado para combate em ambientes radioativos, estacionado diante do prédio. Ele mesmo deveria guiá-lo até a base – usando o mapa e o GPS no interior do veículo – e ao chegar lá receberia novas orientações.</p>
<p align="justify">O jovem assistente deu a partida no estranho veículo e acelerou&#8230; Tudo o que pode ver, após alguns minutos, pelas câmeras do blindado foi uma enorme explosão que deve ter arrasado todo o complexo onde o prédio da empresa estava localizado. Eles nem se preocuparam em contar os mortos, já estavam encobrindo tudo. Enquanto dirigia; pensava como os militares já tinham tudo planejado e se perguntou: O que fariam com ele? </p>
<p align="justify">Mas, agora, apenas uma coisa era importante: solucionar aquele mistério e impedir a destruição do planeta. Só isso salvaria os que amava e toda a raça humana do aniquilamento. </p>
<p align="justify">Uma certeza, no entanto, lhe martelava a cabeça&#8230; Ele nunca mais seria visto.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="center">**********</p>
 ESN 67369-080201-590828-38<div class="crp_related"><h3>Related Posts:</h3><ul><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/02/o-curandeiro/"     class="crp_title">O Curandeiro.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2013/01/a-cpsula-do-tempo/"     class="crp_title">A C&aacute;psula do Tempo.</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/08/o-templrio/"     class="crp_title">O Templ&aacute;rio</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/10/o-suicida/"     class="crp_title">O Suicida</a></li><li><a href="http://contosancestrais.com.br/2012/12/memrias/"     class="crp_title">Mem&oacute;rias.</a></li></ul><div style="clear:both"></div></div>]]></content:encoded>
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