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	<title>Bom pra burro</title>
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		<title>A preconceituosa mão de Deus</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 13:40:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Você é uma pessoa religiosa?&#8221;, ele me perguntou sem muita enrolação. &#8220;Não&#8221;, respondi seco. &#8220;Entendo&#8221;, ele disse enquanto acendia um cigarro, &#8220;mas acredita em Deus?&#8221; &#8220;Isso depende&#8230; o que Ele está alegando?&#8221; &#8220;Rá, rá!&#8221; Assim, pensei ter conquistado a simpatia &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2010/04/a-preconceituosa-mao-de-deus/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Você é uma pessoa religiosa?&#8221;, ele me perguntou sem muita enrolação. &#8220;Não&#8221;, respondi seco. &#8220;Entendo&#8221;, ele disse enquanto acendia um cigarro, &#8220;mas acredita em Deus?&#8221; &#8220;Isso depende&#8230; o que Ele está alegando?&#8221; &#8220;Rá, rá!&#8221; Assim, pensei ter conquistado a simpatia do advogado. &#8220;Você sabe que minha filha é católica.&#8221; &#8220;Sei.&#8221; &#8220;E como fica essa sua flexibilidade religiosa no relacionamento.&#8221; &#8220;Confesso que nunca parei pra pensar nisso.&#8221; &#8220;Maria Clara perdeu a mãe faz pouco tempo.&#8221; &#8220;Ela me contou.&#8221; &#8220;As circunstâncias foram&#8230; sinistras&#8221;, ele disse olhando para a parede atrás de mim. Até onde eu sabia, o corpo da mãe de Maria Clara tinha sido encontrado dentro do box do banheiro com o chuveiro ainda ligado, ela estava com os dois globos oculares desprendidos do rosto e toda cagada. Se não fosse a carta de despedida, qualquer um apostaria num homicídio bizarro. A autópsia acusou overdose de triazolam. &#8220;Eu soube, sinto muito.&#8221; &#8220;Tudo bem, só quero que você entenda a importância que Maria Clara tem pra mim.&#8221; &#8220;Eu sei, afinal, também sou pai.&#8221; Ele riu como se eu estivesse brincando. &#8220;Como é?&#8221; &#8220;Maria Clara não disse?&#8221; &#8220;Você é pai?&#8221; &#8220;Olha, foi um erro&#8230; coisa do passado.&#8221; &#8220;Você acha que seu filho foi um erro?&#8221; &#8220;Veja bem, Seu Paulo, eu era jovem.&#8221; Ele franziu a testa. &#8220;Quantos anos você tem?&#8221; &#8220;Trinta e quatro.&#8221; &#8220;Trinta e quatro!? Por Deus, você tá maluco? Minha filha é uma criança!&#8221; &#8220;Seu Paulo, ela me parece bem madura.&#8221; &#8220;Ela tem dezesseis anos, seu infeliz!&#8221; &#8220;Eu sei, mas ela tem uma cabeça bastante desenvolvida para idade.&#8221; &#8220;Que diabos um cara de trinta e quatro anos faria num relacionamento com uma menina de dezesseis?&#8221; &#8220;Como assim?&#8221; &#8220;Vocês nem iam ter o que conversar.&#8221; &#8220;O senhor está subestimando a inteligência da sua filha; além disso, um relacionamento não é feito só de conversas.&#8221; &#8220;Isso é o que me preocupa.&#8221; &#8220;Por favor, Seu Paulo, sua filha não é nenhuma santinha.&#8221; &#8220;Ah, isso você sabe bem, né?&#8221; &#8220;Eu ainda não, mas é só perguntar pra o pessoal do teatro com quem ela anda.&#8221; &#8220;Rá, você tá insinuando o quê?&#8221; &#8220;Sua filha já foi iniciada, Seu Paulo.&#8221; Pra minha surpresa, ele não rebateu. Sentou, arrumou o cabelo (que em seu alvoroço saíra do lugar) e disse: &#8220;Eu sei&#8230; mas ainda assim a diferença de idade é muito grande.&#8221; &#8220;Isso pode ser extremamente benéfico para o relacionamento. Depois de tudo o que Maria Clara passou, talvez ela esteja precisando exatamente de alguém mais maduro.&#8221; Ele me olhou nos olhos. &#8220;Pelo amor de Deus, usem preservativo.&#8221; &#8220;Quanto a isso não precisa se preocupar&#8230; o uso do preservativo já se tornou natural pra mim.&#8221; Ele olhou confuso, ficou um instante em silêncio e perguntou: &#8220;Medo de colocar outro filho no mundo?&#8221; &#8220;Não é isso. Faz oito anos que sou soro positivo.&#8221; Naquele momento, Seu Paulo deve ter clamado por Deus com muita força, pois uma mão gigante arrebentou o teto da casa, me segurou como uma bolinha de tênis e me arremessou em direção à constelação de Orion. No outro dia acharam meu corpo na beira da estrada com os globos oculares desprendidos da face e todo cagado.</p>
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		<title>O câncer dos outros</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 18:09:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Por exemplo&#8221;, respondi, &#8220;ontem mesmo eu estava lendo um conto de Arthur Bradford sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.&#8221; No entanto, Elisa já não me ouvia mais e &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/12/o-cancer-dos-outros/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Por exemplo&#8221;, respondi, &#8220;ontem mesmo eu estava lendo um conto de <a title="Arthur Bradford" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Bradford" target="_blank">Arthur Bradford</a> sobre um cara que só notou no segundo encontro que a sua atual ficante não tinha um dos braços.&#8221; No entanto, Elisa já não me ouvia mais e só chorava. No dia anterior tivemos uma conversa séria depois do jantar com os pais dela onde me foi revelado que a doença que a afligia era câncer. Hoje tomei café e quando Elisa mencionou o câncer, fiquei extremamente surpreso. Foi uma surpresa genuína, como se ela realmente não tivesse me contado sobre seu estado no dia anterior. Não sei o que deu em mim, eu simplesmente havia esquecido da conversa, do sofrimento, do câncer. Agora Elisa acha que eu nunca presto atenção no que ela diz. &#8220;Não exagere&#8221;, pedi, &#8220;foi um lapso, acabei de acordar.&#8221; &#8220;Não se tem lapsos com esse tipo de coisa, Pacífico, você simplesmente provou que está cagando toneladas para mim, fica cada vez mais claro que a única coisa que importa na sua vida é você mesmo.&#8221; Não posso deixar de admitir que parte dessa assertiva estava absolutamente correta. No caso, a parte em que sou acusado de me sentir o centro do universo. Por exemplo, uma vez li <a title="Cardoso, egocêntrico" href="http://www.contraditorium.com/2009/11/11/egocentrismo-sim-egoismo-nao/" target="_blank">num blog</a> que a diferença entre uma pessoa egocêntrica e uma idiota é que o egocêntrico acha que o mundo gira ao seu redor e o idiota acha que as outras pessoas pensam o mesmo. Nesse sentido, não sou idiota, pois permito pacificamente que as pessoas tenham suas crenças, por mais risíveis que sejam. &#8220;É melhor eu ir&#8221;, por fim, ela disse. Resolvi não impedir. Mais tarde senti fome e achei que seria uma boa idéia jantar na casa de Elisa. Quando bati na porta demoraram para abrir e, mesmo assim, quando abriram foi pela metade. &#8220;O que houve?&#8221;, perguntei para a minha sogra, que olhava pelo vão entreaberto. &#8220;Pacífico, é melhor você ir.&#8221; &#8220;Fala sério que ela ainda está com raiva.&#8221; &#8220;Não é isso, Pacífico, é melhor mesmo que você vá embora.&#8221; &#8220;Assim do nada?&#8221; Então ouvi o pai de Elisa gritar para esposa algo tipo &#8220;Peloamordedeusmulhervenhameajudar!&#8221; &#8220;O Seu Pedro está bem?&#8221; &#8220;Vai embora, Pacífico!&#8221;, ela disse enquanto batia a porta. Puxei o celular e liguei para Elisa. Tocou e até deu pra ouvir o toque vindo do lado de dentro da casa. Ninguém atendeu. Encostei o ouvido na porta e pude ouvir o pai de Elisa falando alto e voz da sua mãe numa espécie de clamor. Me pareceu claro que se tratava de uma crise familiar. Talvez descobriram que Elisa estava trocando uns carinhos íntimos com a empregada. Quando Elisa me contou isso nem fiquei brabo. Tem coisas que devemos simplesmente ver pelo lado positivo. Por exemplo, certa vez li um artigo numa revista de sala de espera de dentista que dizia que a porcentagem de mulheres que chegam ao orgasmo se relacionando com outras mulheres é muito maior que a porcentagem de mulheres que gozam com homens — em números relativos, claro. Saber de Elisa e Madalena tirou uma grande responsabilidade das minhas costas. Havia também a possibilidade dos pais dela terem achado os baseados e as 30 gramas de cocaina que trouxemos da última viagem que fizemos para o litoral. Nesse caso, acho que Seu Pedro e Dona Clara tem mais é que dar uns tapas na filha mesmo. E com gosto. Daqueles que deixam a vítima desorientada. Porra burra não esconder o bagulho direito. Se um dia eu achasse maconha e cocaina nas coisas do meu filho, eu levaria ele pra delegacia — mesmo se eu fosse viciado nessas mesmas substâncias. Posso ser drogado, mas pelo menos cumpriria a função de pai. Resolvi bater na porta de novo. Ninguém atendeu. Experimentei abrir e vi que Dona Clara esquecera de tranca-la. Bom pra mim, pensei enquanto entrava. Lá dentro me dei conta que meu sogro havia parado de falar alto, mas pude ouvir a mãe de Elisa rezando. A voz vinha do corredor. &#8220;Dona Clara, por deus, o que houve, diabos?&#8221; Ela, sentada na frente da porta fechada do quarto de Elisa, só rezava e chorava. Pude ver também que um cabo de madeira (provavelmente de vassoura) estava encaixado entre a parede do corredor e a porta do quarto de Elisa, impedindo que esta fosse aberta. Da outra extremidade vi meu sogro se aproximando com uma chave-inglesa em uma das mãos e na outra não havia nada, já que a mão não estava lá. &#8220;Porra, o que aconteceu aqui?&#8221;, gritei, &#8220;Cadê sua mão, caralho?&#8221; &#8220;Vá embora, Pacífico!&#8221; &#8220;Vou ligar pra polícia&#8221;, eu disse puxando o celular, mas Seu Pedro deu um golpe na minha mão e disse que não! e que se eu fizesse isso iam levar Elisa embora. Enquanto ele falava, de repente achei que as coisas ficaram em silêncio. &#8220;Veja&#8221;, disse Dona Clara, &#8220;ela parou de arranhar a porta.&#8221; Assim que ela terminou a frase, ouvimos um estrondo seguido de um som de vidro quebrando. &#8220;Ela pulou pela janela!&#8221;, gritou meu sogro puxando a madeira que segurava a porta. O peso da minha sogra fez com que a porta abrisse. No quarto, a primeira coisa que vi foi o corpo de Madalena banhado de sangue. A janela, por sua vez, realmente havia sido arrombada. Ouvimos um grunhido. Nós três olhamos para trás ao mesmo tempo. Era Elisa — mas parecia mais um bolo fecal fantasiado de Elisa. &#8220;Ela arrudiou a casa&#8221;, disse Seu Pedro como numa epifania. &#8220;Elisa, o que houve?&#8221;, eu perguntei, mas a criatura não respondeu, ela simplesmente pulou em cima da minha sogra. Seu Pedro tentou segura-la, mas foi arremessado contra o armário e lá ficou desacordado. Eu preferi não impedir Elisa e esperei. Quando ela se levantou, parte do corpo de Dona Clara já não estava mais lá. Eu sabia que agora era a minha vez e simplesmente fechei os olhos. Aí, mesmo com os olhos fechados, vi que uma luz forte surgira. Era uma luz roxa. Fui abrindo os olhos e vi Elisa olhando fixamente para essa luz que vinha do alto, fora da janela. De repente, uma voz bem grave disse &#8220;Calma, meu amor, está tudo bem, respire fundo e pense no mar, tente sentir o cheiro daquela colônia que você gosta, fique em paz, feche os olhos e aproveite.&#8221; Aí Elisa começou a flutuar em direção à luz roxa e à voz que foi lentamente se afastando enquanto solfejava uma melodia em ré menor — e eu sei que era em ré menor porque toco violão. Em pouco tempo a luz se apagou. Eu estava tão sobrecarregado com os últimos acontecimentos, que havia esquecido do motivo principal que me levou à casa de Elisa: a fome. Fui até a cozinha, abri um pacote de Passatempo, telefonei pra polícia e enquanto os policiais não chegavam, fiquei tomando Coca Zero e tentando pensar em como eu explicaria o ocorrido para as autoridades. Da cozinha, pude ver que Seu Pedro estava acordando no quarto e, de relance, vi que a calcinha que Madalena estava usando quando foi atacada era branca e com uma ilustração do Bob Esponja. Tive uma pequena ereção, mas tentei desviar o pensamento. Estar com o pênis ereto quando a polícia chegasse só ia complicar as coisas.</p>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 13:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Durante os preparativos para a formatura de medicina de um primo, ele chegou para mim e disse &#8220;Sabia que tem um designer gráfico na cidade cujo nome é igual ao seu?&#8221; A cidade a qual ele se referia era aquela &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/12/como-um-tema-padrao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante os preparativos para a formatura de medicina de um primo, ele chegou para mim e disse &#8220;Sabia que tem um designer gráfico na cidade cujo nome é igual ao seu?&#8221; A cidade a qual ele se referia era aquela que eu residia na época, Aracaju; e o nome era Bruno Barros, que, até então, era como eu assinava meus trabalhos de design. Lembro que fiquei extremamente incomodado com a idéia de que numa pequena cidade como Aracaju havia um outro profissional do design que atendia pelo meu nome. Sério, estatisticamente falando, qual seria a real probabilidade disso? Então, por um tempo, voltei a assinar os meus trabalhos como B.O.B., iniciais do meu nome completo. Aos oito anos de idade eu desenhava um novo super-herói criado por mim (como o Capitão Linguiça, por exemplo) e prontamente assinava B.O.B. no canto do papel A4. Com o passar dos anos, as pessoas aprenderam a me chamar de Bob, mesmo que na assinatura eu escrevesse B.O.B. com pontos e tudo. Já no fim da adolescencia e trabalhando profissionalmente, passei a achar prudente usar uma assinatura menos jardim de infância e optei por fazer uso por extenso do meu nome, suprimindo apenas o do meio, Oliveira. Ficou, pois, Bruno Barros por alguns anos, até que eu tomei conhecimento do concorrente de mesmo nome por meio do meu primo. Então, como disse, voltei a adotar B.O.B. mesmo que a contragosto e tomado por rancor. Sim, eu poderia muito bem ter confrontado cara a cara meu algoz. &#8220;Quem diabos você pensa que é pra assinar por aí com meu nome?&#8221;, eu perguntaria encostando o dedo no seu tórax magro. &#8220;Mas, mas, mas Bruno Barros é o meu nome também&#8221;, ele diria. &#8220;Era!&#8221;, eu responderia seco. Ah, mas esse confronto seria tão desgastante e na época bateu uma preguiça enorme de levar esse embate à cabo. Pouco tempo depois de retomar o B.O.B., vim morar no Rio de Janeiro a fim de dar início a uma carreira acadêmica paralela à de mercado. De início, fiquei tranquilo em poder retomar meu Bruno Barros e as memórias da duplicata aracajuana começaram a sumir como resfriado em dia de sol. No entanto, para a minha completa estupefação, descobri recentemente que temos um outro Bruno Barros designer gráfico residindo e atuando no Rio de Janeiro. Isso mesmo, um terceiro Bruno Barros atuando na área de design. Esse tem até <a title="Bruno Barros carioca" href="http://www.brunobarros.com/" target="_blank">site com portfolio</a> e segundo <a title="A idade da duplicata" href="http://www.brunobarros.com/BrunoBarros_curriculo.pdf" target="_blank">seu currículo</a> é mais velho que eu, o que me coloca numa posição de submissão angustiante, já que o Sr Tempo o legitima. Ferido, mas sem ânimo para me desgastar demais com o duro golpe, logo decidi me redimir com o Oliveira e retoma-lo à assinatura por meio de abreviação, que ficou Bruno O. Barros. Será, portanto, apenas a fragilidade desse O. que me separa dessas duplicatas? Quem são, afinal, esses outros Bruno Barros? Por que diabos são todos designers? A sensação que dá é a de que eu sou um avatar padrão, desses prontos quando você cria uma conta num site ou num fórum qualquer; ou pior, que eu sou um daqueles temas padrões que o Google oferece quando você cria um blog no <a title="Blogger" href="http://www.blogger.com/" target="_blank">Blogger</a>. A fim de terminar minha vida longe dessas cópias, preciso focar na sequência inimitável, no bom e velho B.O.B., seja por extenso ou assim, por redução. Basta de Bruno Barros! Nunca se sabe quando um desses vai aparecer para te oferecer serviços de design. Fica a certeza, porém, de que B.O.B. só há um, pelo menos até a próxima má notícia.</p>
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		<title>Medo, meda e zumbis</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Oct 2009 01:40:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje é chique ter medo. Para ser mais preciso, é essencialmente classe-média. Ter medo é reforçar a presença do inimigo, seja este um político liberal, um preto pobre que cruza a rua ou um novo vírus cujo único remédio eficaz &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/10/medo-meda-e-zumbis/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é chique ter medo. Para ser mais preciso, é <a title="Classe Média Way of Life" href="http://classemediawayoflife.blogspot.com/2009/09/dica-027-ter-medo.html" target="_blank"><em>essencialmente</em> classe-média</a>. Ter medo é reforçar a presença do inimigo, seja este um político liberal, um preto pobre que cruza a rua ou um novo vírus cujo único remédio eficaz é encontrado exclusivamente em hospitais públicos. Hoje, medo é combustível; dá um propósito, uma direção à vida das pessoas. Sem medo, imagine só, o que fariam? Ó liberdade lancinante que ninguém quer é essa a de ser invulnerável ao medo. Sim, o medo vicia. Uniformiza. Acomoda. E as pessoas têm medo de tudo. De um lado, é medo de errar, de ser tolo, de envergonhar-se; do outro, é medo de ser roubado, estuprado e queimado vivo na viela de um bairro pobre, onde estão eles, os inimigos. É tanto medo que o próprio significado que preenche a palavra medo se esvaziou. Hoje, há quem tenha medo como se respira. Virou parte do que a pessoa é. E é aí que complica, se as pessoas viraram medo e o medo pôs-se a ser as pessoas, onde fica aquele medo inocente, aquele que não é vício, o medo do filme de monstro, o medo da altura, por exemplo? Esse já não é mais medo, é outra coisa. O genitor da palavra, Medus — filho de Ares e Afrodite e irmão de Terror —, partiu-se em dois. Um é o Medus médio, covarde e que ainda atende pelo nome de medo; o outro é o Medus duplicado, pulsante, real, é o meda.</p>
<p>O meda é o que sobrou de digno do medo. É o meda que devemos levar no bolso para onde quer que vamos. É ele que nos faz discernir a diferença entre passear de trem-fantasma e jogar-se do quinto andar. O medo, por sua vez, só merece desprezo. Na maioria absoluta dos casos, o medo é maior que o perigo que lhe motiva a existência. Na prática, a sensação de insegurança sempre é maior que a violência em si. É mais inteligente sentir meda de zumbi que medo de ser roubado, pois é o medo que, de fato, lhe come o cérebro. Minha mãe costuma dizer que minha avó costumava dizer que quem tem medo se enterra vivo. Mas agora que o medo virou ópio e o meda uma fagulha da razão, vou além e afirmo: Quem tem medo se enterra vivo e quem tem meda pega uma doze de cano curto e abre caminho na maré de mortos-vivos até a cidade mais próxima.</p>
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		<title>&#8220;Lê a Bíblia e perde a fé.&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 02:33:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acreditar em Deus e achar que ele tem alguma coisa a ver com a Bíblia é associá-lo a uma série de genocídios em massa, estupros e outros tipos de perversões. O número de pessoas assassinadas por Deus no Velho Testamento &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/10/le-a-biblia-e-perde-a-fe/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acreditar em Deus e achar que ele tem alguma coisa a ver com a Bíblia é associá-lo a uma série de genocídios em massa, estupros e outros tipos de perversões. <a title="Gráfico" href="http://www.wired.com/table_of_malcontents/2007/04/old_testament_m/" target="_blank">O número de pessoas assassinadas por Deus no Velho Testamento</a> é de causar inveja a muito <a title="Dr Evil" href="http://www.solarnavigator.net/films_movies_actors/film_images/Austin_Powers_Mike_Myers_as_Dr_Evil.jpg" target="_blank">super-vilão</a> por aí, e não podemos ignorar que muitas dessas pessoas eram inocentes. Aí eu fico me perguntando, como diabos alguém ainda diz que a Bíblia pode servir como fonte de moralidade para alguma coisa? Por que há quem justifique suas escolhas dizendo que &#8220;a Bíblia manda&#8221;?</p>
<p>Basta uma pesquisa informal com familiares, amigos e conhecidos para atestar que a popularidade da Bíblia não é das maiores. Quase ninguém a lê. E das pessoas que o fazem, podemos identificar duas diferentes categorias de leitores: a) crentes (no sentido lato da palavra) que se apegam às passagens clássicas, geralmente do Novo Testamento; b) estudiosos, curiosos e críticos dispostos a encarar uma leitura analítica do livro. Essa segunda categoria, por sua vez, comporta uma variedade de tipos, desde a adolescente em crise existencial após ter sido <a title="Ôba!" href="http://www.instablogsimages.com/images/2008/09/16/lesbian_kiss_NFGfQ_19278.jpg" target="_blank">acariciada por sua melhor amiga</a> depois daquela noite regada à vinho, até o ateu que dedica sua vida a buscar <a title="Melhor Bíblia do mundo" href="http://skepticsannotatedbible.com/" target="_blank">contradições nos textos</a> e o pastor mal intencionado que estuda o <a title="Satanás!" href="http://maloqueiroesofredor.files.wordpress.com/2009/08/capaistoe.jpg" target="_blank">melhor método</a> de manipular seu público.</p>
<p>Semana passada, José Saramago — o meu <a title="Melhor que Deus" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bezerro_de_ouro" target="_blank">bezerro de ouro</a> — <a title="Esquerda.Net" href="http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=13853&amp;Itemid=28" target="_blank">disse</a> que &#8220;a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.&#8221; Dentro dessa lógica e levando em conta que a Bíblia é o livro de cabeceira de todo e qualquer cristão, o físico <a title="Weinberg" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Steven_Weinberg" target="_blank">Steven Weinberg</a> conclui tal reflexão afirmando que &#8220;a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos pessoas boas fazendo coisas boas e pessoas ruins fazendo coisas ruins. Mas, para que as pessoas boas façam coisas ruins, é preciso a religião.&#8221; Ambos homens são vencedores do prêmio Nobel, cada um na sua competência. Ambos identificam que a moralidade contida na Bíblia causa muito mais mal do que bem. E ambos acreditam que basta ler a Bíblia para se dar conta de que há algo muito errado ali. Nas palavras de Saramago, &#8220;lê a Bíblia e perde a fé.&#8221;</p>
<p>Eu sei que nesse exato momento tem alguém lendo esse texto e dizendo &#8220;como é idiota o autor desse site, todo mundo sabe que não devemos interpretar a Bíblia ao pé-da-letra, há muita alegoria e simbologia entre os livros bíblicos.&#8221; Sem dúvida, essa é a maior desculpa dada pelos religiosos que vêem a Bíblia como representante da palavra de Deus. É uma desculpa que, na verdade, subverte o famoso dizer de que Deus escreve certo em linhas tortas; se a Bíblia for mesmo alegórica, temos um Deus que escreve torto em linhas certas. Além disso, quais são os critérios que determinam o que é literal e o que é alegórico na Bíblia? Quem decide o que deve ser seguido literalmente e o que deve ser reinterpretado? A Igreja? O Governo? O pastor da esquina? Seu professor de religião? A resposta é simples: já que Deus foi preguiçoso e enigmático o suficiente para não deixar um manualzinho ensinando como ler seu bagunçado e enfadonho livro, quem acaba decidindo o que é alegórico e o que é literal é a conveniência de quem lê. Os homofóbicos, por exemplo, interpretam literalmente que Deus vê o homossexualismo como uma abominação (<a title="Ser viado é abominável?" href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/lv/18" target="_blank">Levítico, capítulo 18, versículo 22</a>), mas interpretam metaforicamente que Ló tenha feito sexo e engravidado suas duas filhas (<a title="Ló come as filhas!" href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/19" target="_blank">Gênesis, capítulo 19, versículos 30 ao 38</a>).</p>
<p>Portanto, a Bíblia acaba sendo interpretada como convém ao leitor — o que é extremamente perigoso. E se se você não lê a Bíblia, uma outra pessoa vai interpretá-la por você — o que é mais perigoso ainda! Eu estou convencido de que, de modo geral, a moral bíblica é porca e destrutiva. E é uma pena que o superestimado Jesus manche a sua imagem ao confirmar e apoiar os ensinamentos sanguinários do Velho Testamento (<a title="&quot;Tudo bem o que Eu fiz no passado...&quot;" href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5" target="_blank">Mateus, capítulo 5, versículo 17</a>). É muito comum que as pessoas citem as melhores passagens de Jesus e que interpretem essas passagens literalmente. Já as passagens onde Jesus revela-se tão vingativo quanto seu Pai, acabam sendo deixadas de lado e interpretadas como alegorias (<a title="Agora é alegoria, né..." href="http://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5" target="_blank">Mateus, capítulo 5, versículo 27 ao 32</a>). No entanto, seria no mínimo estranho que, em seu Sermão da Montanha, Jesus misturasse orientações objetivas com alegorias aterrorizantes sem qualquer critério. Para alguém que falava tão bem, tratar-se-ia de uma estratégia retórica paupérrima.</p>
<p>Pra quem sabe inglês, recomendo a leitura online da <a title="Em inglês..." href="http://skepticsannotatedbible.com/" target="_blank">Skeptic&#8217;s Annotated Bible</a>, cujo site promove debates interessantes entre cientistas e cristãos em torno de questões controversas da Bíblia. No Brasil, temos a <a title="Em português..." href="http://www.bibliadocetico.net/" target="_blank">Bíblia do Cético Comentada</a>, que é bastante incompleta, mas é uma solução para os monoglotas.</p>
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		<title>Entre a língua e o palato</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 20:51:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?&#8221;, ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/10/entre-a-lingua-e-o-palato/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?&#8221;, ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo essas bobagens só porque em alguma noite mal dormida ligou no Discovery Channel e viu algum pseudo-documentário que, por completa falta de competência intelectual do autor, trouxe tamanha bobagem como dado. É, fiquei calado, não queria deixar que aquela irritação invasora me tomasse o momento de glória, afinal, estávamos juntos novamente, acabáramos de reatar laços partidos a lágrimas. Por um lado, diante do perdão que fora-me concedido havia pouco, não custar-me-ia tanto calar após a verbalização do factóide idiota; por outro, minha cabeça borbulhava de respostas a dar-lhe — a maioria delas grosseira, admito. Olhei para ela e, talvez por causa do brilho no seu olhar, achei que o silêncio ficou incômodo. Ela devia estar esperando uma resposta, algum simulacro de surpresa ou — pior — algo inteligente. Sorri amarelo. Eu poderia, ali mesmo, presenteá-la com a resposta que seus olhos frajolas pareciam me pedir. Sim, eu poderia dizer &#8220;É mesmo, princesa? Onde você viu isso? Nossa, esse documentário parece bem legal, hein? Poxa, um terço é muito, hein? Que desperdício, não?&#8221;, ou algo com o mesmo efeito. Desse modo eu lhe concederia aquela sensação que temos quando sabemos que acabamos de falar algo esperto. Quem sabe até, diante desse meu ato de ternura e caridade, ela viesse a me oferecer um bônus: não só estaríamos juntos de novo como passaríamos a noite fazendo amor. No entanto, olhando por outro lado, dar-lhe tal resposta faria de mim uma paródia, uma cópia tosca de mim mesmo. Seria como misturar minhas fezes num copo com leite, depositar seu conteúdo dentro da minha boca e nunca engolir. Passar a vida com aquela mistura indigesta descansando entre minha língua e meu palato. Não, eu não poderia me sujeitar a tamanha baixaria. Por isso, olhei pra ela e comecei: &#8220;Olha, eu tenho tanta coisa pra te dizer agora que po—&#8221; Então tudo ficou preto. Foi assim que tive o meu primeiro derrame.</p>
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		<title>Nas entrelinhas</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 04:32:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Um Cavaleiro Mascarado sem tomate e com muita maionese.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Coca Zero.&#8221; Quando a garçonete saiu, cheguei mais perto. &#8220;Você viu que quando nós chegamos tinha uma pessoa na máquina de tickets do estacionamento?&#8221; &#8220;Vi&#8221;, ela respondeu colocando &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/10/nas-entrelinhas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Um Cavaleiro Mascarado sem tomate e com muita maionese.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Coca Zero.&#8221; Quando a garçonete saiu, cheguei mais perto. &#8220;Você viu que quando nós chegamos tinha uma pessoa na máquina de tickets do estacionamento?&#8221; &#8220;Vi&#8221;, ela respondeu colocando parte do cabelo para trás da orelha enquanto mexia em alguma coisa na bolsa. &#8220;Fico puto com isso.&#8221; &#8220;Isso o quê?&#8221; &#8220;Essas pessoas que ficam ajudando a tirar o ticket da máquina. Simplesmente não faz sentido. Pense comigo. Se os donos do shopping fazem uma reunião de doze horas sobre como cortar os custos do estabelecimento e decidem colocar umas máquinas de ticket de estacionamento exatamente para não ter que pagar alguém para ficar numa cabine anotando placas e entregando recibos enquanto assiste reprise de novela numa televisãozinha de quatro polegadas em preto e branco, por que diabos pagariam um intermediário entre a máquina e o motorista?&#8221; &#8220;A máquina podia estar quebrada&#8221;, ela disse com desdém. &#8220;Não pareceu quebrada pra mim. O cara foi lá, apertou o botão, pegou o ticket e me entregou. Eu mesmo poderia ter feito isso, entende? Me senti roubado.&#8221; &#8220;Tá doido, o cara tava só sendo gentil.&#8221; &#8220;Gentil? Faz-me rir, Gabriela.&#8221; &#8220;Caralho, você sabe que eu fico puta quando você usa ênclise!&#8221;, ela disse apontando. &#8220;Gabi, não precisamos brigar por isso, mas fica parecendo que você está discordando de mim só por discordar.&#8221; &#8220;Você está se apegando a algo que não lhe diz respeito.&#8221; &#8220;Não? Era o meu dedo que deveria ter apertado aquele botão. Se na saída tiver alguém—&#8221; &#8220;Oi&#8221;, disse Samuel que acabara de chegar com Ayala — a razão pela qual tivemos que vir ao shopping. &#8220;Essa daqui é a Ayala.&#8221; &#8220;Oi, Ayala&#8221;, eu disse. &#8220;Prazer, sou Gabriela.&#8221; &#8220;Prazer&#8221;, Ayala respondeu. Então, a econômica e precisa escolha de palavras de Ayala fez com que eu refletisse sobre a quem estas foram direcionadas, e o resultado dessa reflexão (ainda que parcial) me causou um princípio de cólera, já que pareceu-me claro que Ayala, aquela que revelarei nas próximas linhas ser a noiva de Samuel, dirigia-se unicamente à Gabriela, o que indicaria uma clara antipatia por mim, afinal, aos meus ouvidos ela dissera exatamente o seguinte: &#8220;Boa tarde, Gabriela, é um enorme prazer conhecer-te, o Samuel falou muito bem de ti, histórias cheias de deleite, e não sei se estás a notar, mas conscientemente ignoro a presença pútrida dessa asquerosa figura ao seu lado cujo nome faço questão de não recordar.&#8221; Desde cedo aprendi que temos que ler as entrelinhas, era assim que minha mãe dizia, filho, ela repetia, as pessoas nunca dizem as coisas por completo, mas pela metade, e mais da metade do prazer de dialogar com as pessoas é tentar adivinhar o que elas estão querendo dizer de verdade. Obrigado, mãe! Então Samuel puxou a cadeira para Ayala sentar, ela sentou e só depois ele o fez. Gabriela olhou para mim com um meio-olhar, o que significa que ela disse exatamente assim: &#8220;Quem dera que você fosse um companheiro gentil o suficiente para me puxar a cadeira mesmo numa lanchonete de quinta categoria como essa que você insiste em me trazer, nojento.&#8221; Engoli seco e me curvei até o encosto da cadeira a fim de manter uma distância segura naquele ambiente hostil. &#8220;E aí, vamos pedir o quê?&#8221; &#8220;Na verdade, já pedimos.&#8221; &#8220;Já?&#8221;, repondeu Samuel. &#8220;É que vocês acabaram demorando&#8221;, disse Gabriela. &#8220;Certo&#8221;, Samuel disse puxando o cardápio. Ayala não esboçou nenhum tipo de reação, como se esperasse que Samuel escolhesse a comida por ela, mas aí Samuel entregou-lhe o cardápio e disse que hoje ela escolheria. Ayala olhou para o livreto por alguns segundos, uns doze ou treze, e disse &#8220;Esse.&#8221; A garçonete, que já estava ali novamente, quis confirmar, &#8220;Dois Cavaleiros Mascarados?&#8221; &#8220;Isso.&#8221; &#8220;E pra beber?&#8221; &#8220;Água mineral.&#8221; &#8220;Duas?&#8221; &#8220;Isso.&#8221; A garçonete saiu e eu não me contive: &#8220;Quando vocês chegaram havia alguém ajudando a entregar os tickets de estacionamento?&#8221; &#8220;Não lembro.&#8221; &#8220;Não lembra?&#8221; &#8220;Não&#8230;&#8221;, ele respondeu virando para Ayala como se perguntasse se ela conseguia lembrar de algo. É claro que ela conseguia, mas diante do asco que sentia por mim, jamais responderia. Portanto, calou-se. &#8220;Pô, você acabou de chegar&#8221;, eu disse. &#8220;Mas é que nós viemos de ônibus.&#8221; &#8220;Sei, mas não viu nada?&#8221; &#8220;Para com isso&#8230;&#8221;, disse Gabriela tentando ser delicada. Nesse mesmo momento a garçonete chegou com os nossos pedidos. Na verdade, só o meu e o de Gabriela. Quando a funcionária do recinto colocou-os sobre a mesa, fui desembrulhar o meu Ancião Necromancer sem picles, mas Gabriela inventou de dizer &#8220;Vamos esperar o deles chegarem.&#8221; &#8220;Não precisa&#8221;, respondeu Samuel com toda a razão do mundo. &#8220;Precisa?&#8221;, perguntei para Gabriela. &#8220;Precisa.&#8221; A palavra saiu tão compacta que achei mais seguro esperar mesmo a contragosto. &#8220;Ayala&#8221;, disse Samuel, &#8220;mostra aí pra eles.&#8221; Ela sorriu e levantou uma das mãos. Por um instante achei que ela fosse me dar dedo e mandar eu me foder, mas aí Gabriela soltou um gritinho do meu lado, meu coração acelerou de susto e Samuel disse &#8220;Estamos noivos!&#8221; Gabriela ficou muito, muito, muito feliz com a novidade, fez questão de se levantar, abraçar os dois e insistiu que eu fizesse o mesmo. E eu insisti que não precisava e dei dois tapinhas nas costas de Samuel. Eles passaram uns quatro minutos conversando sobre como o pedido foi feito até que, finalmente, vi a garçonete se aproximando com o lanche dos dois. No entanto, nesse mesmo momento, Ayala diz que precisa ir ali rapidinho, se levanta, passa pela garçonete e entra no corredor que leva ao banheiro. Quando a garçonete deixou o sanduíche deles na mesa, segurei meu Ancião Necromancer e dei um gole na Coca Zero. &#8220;Pô, espera ela chegar do banheiro!&#8221; &#8220;Mas por quê? O lanche deles já está aqui.&#8221; Samuel, conciliador como sempre, disse, &#8220;Podem comer, sério mesmo, eu espero.&#8221; &#8220;Tá vendo?&#8221;, eu disse, &#8220;Ele espera.&#8221; &#8220;Caralho, deixa de ser mal educado e espera a menina chegar&#8230; se fosse o contrário ela esperaria!&#8221; Então senti a cólera. Foi muito rápido. Como um ácido que corrói de dentro pra fora, respondi: &#8220;Foda-se, porra! Esperaria o cacete! Até parece que você não notou que ela planejou esse circo! A garota chega aqui, não me cumprimenta, fica me olhando com nojo e deve me achar um retardado infeliz que se masturba todos os dias olhando catálogos de lingerie da Duloren; certamente estamos lidando com alguém que seria capaz de tirar minha vida se tivesse alguma arma em punho; alguém que finge não lembrar do filho da puta da máquina de tickets e decide, convenientemente, ir ao banheiro assim que vê a garçonete se aproximando com a comida! Como é que essa víbora cuja pátria-mãe é o quinto dos infernos faria o mesmo por mim? Como?&#8221; Gabriela parecia não estar esperando uma reação desse tipo e, como se as palavras estivessem entaladas em sua garganta, ficou calada. Samuel simplesmente levantou-se, no caminho encontrou Ayala voltando do banheiro, segurou-a pelo braço e saiu da lanchonete. Virei para Gabriela e perguntei, &#8220;Posso comer meu Ancião Necromancer em paz agora?&#8221; Gabriela acenou que sim, desembrulhou seu Cavaleiro Mascarado, fez cara feia, levantou o braço, a garçonete se aproximou e ela disse, &#8220;Veio com tomate, porra.&#8221;</p>
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		<title>Da boca ao reto</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 22:35:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;E aê, beleza?&#8221;, Edivan disse abrindo a porta. &#8220;Tranqüilo&#8221;, respondi sem dar bola para o caráter genérico da resposta. Entrei de mãos dadas com Eloísa como se não tivéssemos acabado de ter uma discussão daquelas que fica maior do que é. Disse oi para as pessoas que haviam chegado e sentei num sofá que, se não me engano, era novo. &#8220;Esse sofá é novo?&#8221;, perguntei, mas Edivan não ouviu e foi pra cozinha. Eloísa saiu para conversar com Alexia, que estava usando um vestido mais curto do que minha fidelidade gostaria. &#8220;Porra, tá gata pra caralho&#8221;, a voz de Hélio disse. Olhei para o lado e era ele mesmo. Para fingir ter problemas em adjetivar positivamente a capacidade que mulheres que não a minha possuem em me atrair sexualmente, olhei encantado pela curvatura incorrigível que o vestido de Alexia fazia assim que chegava ao seu fim, perto da bunda, e não disse nada. Depois de um tempo peguei uma lata de cerveja na geladeira e quando fechei a porta, Hélio perguntou como andava o livro. Supus que ele estivesse me provocando e não me dei o trabalho de explicar que não tratava-se de um livro, mas simplesmente de uma história escrita num documento digital sem maiores intenções de um dia ver os horizontes steampunk de uma gráfica. &#8220;Tá indo.&#8221; &#8220;É isso que a maioria diz.&#8221; Bebi um gole da cerveja e senti uma gota de suor escorrer pela têmpora esquerda enquanto eu me segurava para não lhe perguntar que caralho ele quis dizer com aquilo. Nesse mesmo instante, Alexia e uma outra mulher que até então não conhecia, se aproximaram. &#8220;É você que é o escritor?&#8221;, perguntou a desconhecida. Dei outro gole. &#8220;Na verdade, não, mas eu escrevo. Tenho o hábito de varrer a casa também, mas isso não faz de mim um faxineiro.&#8221; &#8220;Será que não?&#8221; &#8220;Não&#8221;, respondi seco. Minha tolerância para perguntas circulares nunca foi algo que eu usasse para definir como traço de personalidade num daqueles pingue pongues aos quais jornalistas pouco criativos submetem seus entrevistados em colunas de 1/4 de página de jornal. De repente, Alexia disse que havia terminado de ler o esboço que eu a enviara por e-mail. &#8220;O que você achou?&#8221; &#8220;Achei que você deveria colocar as vírgulas dentro das aspas.&#8221; &#8220;Nos diálogos?&#8221; &#8220;É. Acho estranho que você faça o contrário do que se faz.&#8221; &#8220;Que eu saiba não existe um padrão.&#8221; &#8220;Eu sei que é facultativo, mas a maioria coloca a vírgula dentro.&#8221; &#8220;Bom, eu vejo as aspas como demarcadores daquilo que foi realmente verbalizado e, nesse sentido, sendo a vírgula um elemento essencialmente não-fonético, acho que faz mais sentido colocá-la do lado de fora das aspas, pontuando uma pausa que nada tem a ver com o que foi dito pelo personagem&#8221;, respondi seguro. &#8220;E por que você coloca o ponto final dentro das aspas?&#8221; Confesso que nesse momento fui pego de surpresa. No entanto, simulando ter uma resposta pronta, disse rápido que era uma questão estética. Depois da sétima lata de cerveja, quis ir ao banheiro. No caminho cruzei com Eloísa, que conversava com Edivan e a esposa — uma mulher de meia-idade com próteses nos seios belíssimamente projetadas. Dei um beijo do pescoço de Eloísa, que retribuiu com um afago e virei à esquerda no fim do corredor. A porta do banheiro estava fechada. Supus que havia alguém lá dentro e esperei. Algo em torno de quatro a seis minutos se passaram e o usuário do ambiente íntimo ainda não havia dado fim aos seus afazeres fisiológicos; desse modo, presumi que o indivíduo estivesse defecando ou desmaiado. Com toda a impaciência que uma bexiga cheia pode provocar nos ânimos de um homem de boa índole, bati com força na porta do banheiro e perguntei se ia demorar. Ninguém respondeu. Logo atrás de mim havia um lance de escadas que levava ao segundo piso da casa, constituído, acredito, por três quartos e pelo menos dois banheiros vazios. Sei que nesses momentos a boa etiqueta orientaria o bom homem a não subir tais escadas, já que essa atitude poderia ser interpretada como invasiva pelo anfitrião. &#8220;Porra, eu já cedo a casa pra fazer a festa e ainda vem neguinho cagar no banheiro que eu e minha esposa tomamos banho todos os dias!&#8221;, esbravejaria com justiça qualquer um, embora o que eu queira fazer seja mijar, não cagar. Resolvi esperar mais um pouco e uns outros três ou quatro minutos se passaram. Desesperado por já não estar conseguindo mais segurar o vulcão em minhas calças, voltei para compartilhar meu sofrimento com Eloísa, mas ela não estava mais do outro lado do corredor. Através de uma das janelas, a vi do lado de fora da casa rindo de alguma coisa que provavelmente uma das sete pessoas ao seu redor havia acabado de contar. Se eu não estivesse com micro-jatos de urina sendo disparados pelo meu pênis, provavelmente ficaria curioso em saber o que era tão engraçado. Voltei para a frente do banheiro, que continuava ocupado. Senti meu corpo ficar dormente. Por um momento achei que a urina estivesse começando a sair por todos os poros do meu corpo. Fiquei enojado de mim mesmo e pus-me a subir as escadas. Sem conseguir coordenar qualquer tipo de pensamento elaborado, abri a primeira porta que vi assim que cheguei no segundo piso e fui tomado por uma cena que só consigo descrever hoje porque a dureza por trás da sua realidade parece ter desbotado com os anos. No quarto, que depois descobri ser a suíte em que Edivan dormia com sua esposa de meia-idade, vi duas figuras em cima da cama numa posição que, na época, considerei pouco usual. A amiga desconhecida de Alexia encontrava-se nua, deitada de frente para a porta e, por sua vez, Alexia, em pé na cama, também nua e com as pernas abertas em cima da amiga, desferia vigorosos jatos de urina em direção ao orifício que daria inicio ao aparelho digestivo da companheira. No impulso, mijei nas calças, pedi desculpa e fechei a porta. Da cozinha, liguei para Eloísa e disse que eu havia me urinado sem querer. Inicialmente ela riu, mas depois ficou nervosa porque tivemos que sair da festa, já que eu recusei a bermuda que Edivan propôs a me emprestar. Quando eu contei para Eloísa a bizarrice que havia presenciado, ela deu um sorriso de canto de boca e beijou meu pescoço. Temeroso, optei por nunca mais tocar no assunto. Terminei de escrever o livro e, de fato, nunca chegou a ser publicado já que mostrei-me irredutível às sugestões dos editores que implicavam com a maneira em que posiciono minha vírgula.</p>
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		<title>Juliana Alves é negra e capa da Playboy!</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 13:40:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tese]]></category>
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		<description><![CDATA[Juliana Alves, a única ex-BBB que deu certo mesmo (se você considerar que Grazi não sabe mesmo atuar), vai ser a capa da Playboy desse mês e até agora não vi nenhum portal de notícias alertando para o seguinte fato: &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/10/juliana-alves-e-negra-e-capa-da-playboy/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a title="Juliana Alves" href="http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL1321503-9798,00-VEJA+A+CAPA+DA+REVISTA+PLAYBOY+DE+JULIANA+ALVES.html" target="_blank">Juliana Alves</a>, a única ex-BBB que deu certo <em>mesmo</em> (se você considerar que Grazi não sabe <em>mesmo</em> atuar), vai ser a capa da Playboy desse mês e até agora não vi nenhum portal de notícias alertando para o seguinte fato: ela é negra. Eu gostaria de poder dizer que esse silêncio calculado é um mistério, mas não dá, eu tenho uma hipótese que pode explicá-lo.</p>
<p>Antes de mais nada, muitos devem se perguntar, &#8220;Mas para que diabos noticiar que ela é negra?&#8221; A resposta simples é que num país em que a Playboy tem 56 anos de existência, e quase 700 números lançados, essa é a segunda vez que uma mulher negra será capa da revista. A primeira foi em 1996, com <a title="Isabel Filardis" href="http://baixeplayboygratis.blogspot.com/2008/07/playboy-isabel-fillardis-pedido.html" target="_blank">Isabel Filardis</a>. Ou seja, é um número no mínimo pavoroso para um país em que parte expressiva da população é efetivamente negra. &#8220;Mas ressaltar esse fato não é uma forma velada de racismo?&#8221; Não! Falar sobre racismo <em>não</em> é racismo. Essa noção de que não devemos falar certas coisas, pois se o fizéssemos estaríamos sendo racistas é a forma mais eficiente de contribuir com o <a title="Obrigado, Alex de Castro!" href="http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/06/o_problema_do_brasil_e_a_falta_de_confli/" target="_blank">racismo silencioso</a> que existe no Brasil — afinal, <a title="Obrigado de novo, Alex." href="http://www.interney.net/blogs/lll/2009/09/15/sem_a_ds/" target="_blank">sem discussão sobre as cotas, como saberíamos quem é racista?</a></p>
<p>Infelizmente, esse racismo é difundido como um não-racismo por figurões da grande mídia brasileira. Esse é o caso de Ali Kamel e seu livro <a title="Não??" href="http://www.submarino.com.br/produto/1/1654423/nao+somos+racistas/?franq=136855" target="_blank">Não somos racistas</a>. Kamel é, simplesmente, o diretor-chefe da Central de Jornalismo da Rede Globo (é tanto poder que aposto que ele tem o seu próprio <a title="Mini-mim" href="http://2.bp.blogspot.com/_ZhnSNnaqq-g/R5Z-B8RGQtI/AAAAAAAAAHM/rq7V1bb083c/s400/mini_me.jpg" target="_blank">mini-mim</a>) e em seu popular livro traz um <a title="OK, chega de citar Alex!" href="http://www.interney.net/blogs/lll/2009/03/31/o_pior_racismo_e_o_do_negro_contra_o_neg/" target="_blank">discurso</a> que só reforça a noção de que somos uma nação igualitária, sem raças e que falar em racismo é, em si, racista. Ah, tá bom, vamos ficar calados então e esperar que a desigualdade brutal que se enxerga a olho nu se resolva por conta própria. Por seleção natural, talvez.</p>
<p>E enquanto ninguém tem coragem de falar que Juliana Alves é a segunda negra a ser capa de uma revista masculina mensal que existe desde 1975, terminemos esse post com <a title="Até tu, Brutus?" href="http://farm4.static.flickr.com/3127/3099447182_9d6129aff3_o.jpg" target="_blank">uma ironia suprema</a>.</p>
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		<title>O hímen e a sexualidade de Nossa Senhora</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 20:18:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno O. Barros</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tese]]></category>
		<category><![CDATA[blasfêmia]]></category>
		<category><![CDATA[Jesus]]></category>
		<category><![CDATA[Maria]]></category>
		<category><![CDATA[virgindade]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, dia 30 de Setembro, celebramos 4 anos da publicação dos cartuns de Maomé num jornal dinamarquês que ninguém sabia que existia até então. O mundo religioso resmungou numa celeuma sem fim durante meses, até que a Dinamarca pedisse desculpa &#8230; <a href="http://www.bompraburro.com.br/2009/09/o-himen-e-a-sexualidade-de-nossa-senhora/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, dia 30 de Setembro, celebramos 4 anos da publicação dos cartuns de Maomé num jornal dinamarquês que ninguém sabia que existia até então. O mundo religioso resmungou numa celeuma sem fim durante meses, até que a Dinamarca pedisse desculpa pelo &#8220;erro&#8221;. Faz 4 anos, portanto, que o dia de hoje é oficialmente chamado de <a title="Dia Internacional da Blasfêmia no Facebook" href="http://www.facebook.com/pages/Blasphemy-Day-International/143655943748" target="_blank">Dia Internacional da Blasfêmia</a>. Pelo menos — como os negros, mulheres, índios e árvores — ganhamos um dia oficial. Um dia que serve para nos lembrar que a religião (seja ela qual for) não merece mais respeito que qualquer outro tipo de crença. Em outras palavras, Jesus Cristo merece tanto respeito quanto Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa ou o Lobisomem. Crença é crença e nenhuma é melhor que a outra. Se é aceitável falarmos determinadas coisas a respeito da existência de seres extraterrestres, também o é a respeito do Jesus bíblico.</p>
<p>Então, passeando entre <a title="Portal Ateu" href="http://www.portalateu.com/2009/09/30/30-de-setembro-dia-internacional-da-blasfemia/" target="_blank">blogs </a>que estão homenageando o dia de hoje, dei de cara com uma <a title="Psss, não conte pra ninguém!" href="http://farm4.static.flickr.com/3462/3305399941_8d2ed33940_o.gif" target="_blank">imagem hilária</a>, mas que me fez refletir verdadeiramente sobre o assunto. Maria supostamente teria dado à luz Jesus, que na verdade nunca foi seu filho, já que Jesus é filho unicamente de Deus e Maria teria sido nada mais que o meio pelo qual Deus colocou Jesus na Terra; ou seja, uma tipo de <a title="Barriga de aluguel" href="http://www.youtube.com/watch?v=Edgl1uLWzuA" target="_blank">barriga de aluguel</a> que tornou-se mãe adotiva. É engraçado pensarmos na possibilidade de Deus ter precisado de Maria para tal, já que o Senhor tinha o poder de transformar barro em homem e costela em mulher sem precisar barriga alguma, e talvez tenha sido a dificuldade de explicar isso que levou a tradição cristã a elevar a figura de Maria a algo muito maior que seu papel nos evangelhos (bastante limitado) e supor que Deus escolheu conceber Jesus como um ser humano comum a fim de dar um significado ambíguo à sua existência (já que de comum Jesus não tinha nada; não é qualquer um que ressuscita os mortos) e depositar um fardo calculado ou profético nas costas de uma determinada Maria. De qualquer modo, não fujamos do tema. Não é a figura mítica de Jesus que questiono aqui (farei isso em outras ocasiões), mas a virgindade de Maria. E pra mostrar que esse é o tema central do post, vou até mudar de parágrafo.</p>
<p>Primeiro, é importante lembrarmos que tem muita gente por aí que se diz cristã, mas que relativiza a virgindade de Maria e esquece que fazer isso é questionar um dos pontos-chave do que faz Jesus ser especial: ele é filho de Deus, e só de Deus, e a maior prova material disso é que ele nasceu de uma mulher virgem. Eu não entendo cristãos do tipo &#8220;Tanto faz se Maria era virgem, não importa como Jesus nasceu&#8221;, quando, na verdade, o nascimento de Jesus é um dos pontos centrais do seu personagem. Para você acreditar em Jesus, é necessário acreditar na concepção virginal, caso contrário, você não acredita em Jesus, mas apenas num homem chamado Jesus que nasceu no Oriente Médio em algum momento entre 6 a.C. e 6 d.C., que profetizou algumas coisas bacanas, foi preso por formação de quadrilha e morto pelo exército romano. E só. O Jesus bíblico é outro. É o Jesus que dá origem à designação &#8220;cristão&#8221;, o Jesus que nasceu de uma virgem. &#8220;Tá certo, tá certo&#8221;, diz o cristão contemporâneo, &#8220;você me convenceu que Maria era virgem quando Jesus nasceu&#8230; mas ela pode ter perdido a virgindade depois, afinal ela era casada.&#8221; E eu respondo: Errado! A não ser que você <em>não</em> aceite Maria como a grande santa da Igreja Católica, ela morreu virgem e foi levada aos céus de corpo e alma. Inclusive, o fato de ter morrido virgem foi uma das características que conferiram à Maria o título de santa mãe de todas as santas. Ela, para o cristianismo, nasceu e morreu virgem. Virgem mesmo. Com selinho e tudo.</p>
<p>Acabamos, portanto, de entrar numa questão interessante. O que é virgindade? Maria era considerada virgem quando teve Jesus, mas essa era apenas uma virgindade médica? Afinal, tecnicamente falando, a mulher só perde a virgindade com o rompimento do hímen e por muitos e muitos anos essa foi a noção de virgindade corrente na sociedade. Não há muito tempo, os homens precisavam ver o sangue escorrendo da vagina da mulher na noite de núpcias. O sangue matava aquela pulga atrás da orelha, era a prova de que sua mulher era imaculada, que não havia sido tocada por mais ninguém. Aí eu fico me perguntando, os homens não pensavam por nenhum momento &#8220;Será que ela já chupou uma rola?&#8221; Segundo o grande Bill Clinton, sexo oral não é sexo e pronto. <a title="Liberal, Libertário, Libertino" href="http://www.interney.net/blogs/lll/" target="_blank">Alex de Castro</a>, por outro lado, costuma relativizar a questão: lamber uma mulher de cima a baixo, sem penetrar nada, é sexo? Chupar o dedão do pé da sua companheira durante horas é sexo? Sexo anal é sexo? Afinal, o que é sexo para quem prega a virgindade de Maria? Na verdade, a pergunta é circular: o que é virgindade para quem prega a virgindade de Maria? É a virgindade médica, a do hímen, ou é a virgindade do dedão chupado?</p>
<p>Se, em algum momento, o carpinteiro José tivesse masturbado-a fazendo uso das mãos , ela ainda poderia conceber Jesus? E se algum amigo de José penetrasse-a no ânus enquanto ela fazia sexo oral no noivo, isso a desqualificaria como barriga de aluguel do filho do Senhor? São questões complexas. Ou devemos supor que Maria não tinha sexualidade, que ela não tinha desejos, que ela nunca se imaginou fazendo sexo com dois caras ou, pelo menos, com o seu marido fazendo sexo oral nela numa daquelas noites quentes do Oriente Médio? Se Maria não tinha sexualidade, não é de se estranhar que o personagem José suma logo após as primeiras páginas de cada um dos quatro evangelhos não-apócrifos.</p>
<p>O mais interessante é que se considerarmos que o cristianismo supõe uma Maria assexuada e tecnicamente virgem, fica difícil entender como o hímen manteve-se intacto mesmo após o nascimento do pequeno Jesus. Seria fisicamente impossível que Jesus atravessasse o hímen da mãe sem rompê-lo. &#8220;Mas para o Senhor, não há limites&#8221;, um cristão qualquer diria. A questão, porém, é que se Deus teria <em>conscientemente</em> submetido Jesus a um nascimento comum, porque diabos ele faria uso de seus grandes poderes para preservar o hímen de Maria? Imagine só, no momento em que Maria estava parindo, Deus tinha que fazer com que o corpo de Jesus ultrapassasse magicamente o hímen da mãe, sem feri-lo. Sim, parece uma tarefa fácil para o Deus bíblico, mas, ao mesmo tempo, soa contraditório ao seu suposto desejo de que Jesus passasse por tudo aquilo que um ser humano comum passaria.</p>
<p>Essas são questões pelas quais todos os cristão deveriam refletir antes de rezar pela Virgem antes de dormir.</p>
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