<?xml version='1.0' encoding='utf-8' ?>

<rss version='2.0' xmlns:lj='http://www.livejournal.org/rss/lj/1.0/'>
<channel>
  <title>Diário da Borda d&amp;#39;Água</title>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/</link>
  <description>Diário da Borda d&amp;#39;Água - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Tue, 02 Nov 2021 14:06:02 GMT</lastBuildDate>
  <generator>LiveJournal / SAPO Blogs</generator>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/utilitarismo-social-54437</guid>
  <pubDate>Tue, 02 Nov 2021 13:54:00 GMT</pubDate>
  <title>utilitarismo social</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/utilitarismo-social-54437</link>
  <description>&lt;p&gt;Valorizamos muito o simbolismo das palavras e seguimos as suas tendências. Dizemos partilhar, experiência, liberdade (adoramos, adoramos, adoramos). Mas, continuamos a confundi-las com outras ferramentas sociais. Por exemplo, já quase não sabemos distinguir entre partilha e vaidade; já não sabemos discernir a vaidade da partilha quando alguém nos seduz ou quando tentamos seduzir. Imagino a solidão e o sofrimento de quem só conhece o símbolo das palavras e a utilidade dos gestos. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/utilitarismo-social-54437</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/e-dreams-53859</guid>
  <pubDate>Tue, 26 Nov 2019 13:41:00 GMT</pubDate>
  <title>e-dreams</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/e-dreams-53859</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando começámos a poder viajar, fomos ver os lugares de que toda a gente falava. Lembro-me que em Londres entrámos no Harrods deslumbrados e acreditámos que os países desenvolvidos se mediam pelo tamanho das suas lojas. As montras, cá fora, exibiam-se e apeteciam. Já nem olhámos para a porta dos museus, que tédio. Antes de irem ao Louvre, os meus vizinhos de baixo levaram as filhas à Disney, porque - dizem - a felicidade das crianças é que é importante e isso, como se sabe, vem em forma de orelhas do rato Mickey ou num pijama da Minnie dentro de um saquinho da loja do parque e com o recibo comprovativo de dois dias de felicidade eterna. E depois, claro, já não houve tempo para muito mais. Na escola, perguntaram à mais nova se sabia que rio passava por Paris e a miúda respondeu que era o rio de chocolate, que foi o único que ela viu. As crianças, agora, coitadinhas, não sabem nada. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/e-dreams-53859</comments>
  <lj:replycount>1</lj:replycount>
  <category>ensaio</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/53696.html</guid>
  <pubDate>Tue, 15 Oct 2019 14:55:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/53696.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As raparigas já lhes chamam os &lt;em&gt;pichas-murchas&lt;/em&gt;. Não é original. É verdade que a falta de noção é uma das suas mais notáveis características. É uma espécie de falta de propriocepção, mas do ridículo. Houve um tempo em que tiveram relevância e dinheiro. Depois, quando o capitalismo subsituiu a elite a que pertenciam por outra mais adaptável aos famigerados novos desafios, que surgem sempre com intervalos de dez anos para dar a ilusão da inesgotabilidade da modernidade, refugiaram-se nas diferentes formas da decadência e da vergonha. Agora, uns divorciados, outros viúvos, sentam-se na esplanada a fingir que estão a aproveitar a reforma quando, na verdade, estão apenas sozinhos. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/53696.html</comments>
  <lj:replycount>4</lj:replycount>
  <category>personagens</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-reflexo-e-a-obediencia-do-cao-de-53407</guid>
  <pubDate>Wed, 28 Aug 2019 09:30:00 GMT</pubDate>
  <title>o reflexo e a obediência do cão de pavlov </title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-reflexo-e-a-obediencia-do-cao-de-53407</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Fui alertado para o facto de a tarefa ser impossível, logo após ter anunciado o meu desejo de a executar. Não vais conseguir - diziam -, há demasiadas distrações. E se as havia... Sempre que me preparava para a iniciar, novo ruído, nova interrupção, um constrangimento qualquer. Mesas que mudavam de sítio, uma intervenção elétrica, um teste, uma festa. &quot;Estás a ver? Não vais conseguir.&quot; Quando pedi sossego, o tom indignado e os olhares reprovadores reagiram. Depois, o desconforto hostil concentrou-se na própria tarefa. Já não era o facto de ser impossível, era ser má e era eu estar obcecado por ela. Às distrações chamavam urgências e à tarefa o trabalho que devíamos estar a fazer, mas que não podemos por causa de todas as urgências. Finalmente, para que pudesse executar a tarefa, chegou à mesa um conjunto de documentos para preencher e que se acumularam com o tempo. Um dia, também eu esquecerei a tarefa e, sempre que alguém a tentar desenterrar, serei o constrangimento obediente.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-reflexo-e-a-obediencia-do-cao-de-53407</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ficção</category>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/cantaloupe-53167</guid>
  <pubDate>Wed, 15 May 2019 11:00:00 GMT</pubDate>
  <title>cantaloupe </title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/cantaloupe-53167</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sonhei acordado com a Foz do Douro, com o passeio longo da Montevideu à Avenida Brasil, a nortada ligeira, o sol atlântico e o mar. Há um ritmo do mar na Praia da Luz que me recorda a Ilha de Cantaloupe, onde tudo sabe a fresco e o calor convoca uma preguiça civilizada. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/cantaloupe-53167</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ficção</category>
  <category>viagens</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52767.html</guid>
  <pubDate>Wed, 02 Jan 2019 10:26:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52767.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Começámos o ano a cantar e a tocar, numa grande festa em casa da Ana Luísa, que nos recebeu com generosidade e carinho. E, embora não seja um entusiasta do ritual de passagem de ano, é agradável ver o sorriso de estranhos que se cumprimentam, como um sinal de esperança, de que é possível ser amável com o semelhante. Na mesa com o banquete já não cabia mais nada e havia vinho para mais duas festas. Havia um certo cheiro no ar, de ócio. Não há nada melhor na vida do que o cheiro do ócio. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;______________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sempre que descubro músicos mais obscuros, sinto uma imensa injustiça e apetece-me desatar a fazer telefonemas e obrigar as pessoas a viver aquilo comigo, naquele momento, com aquela pele e aquele nervo todo que vinham das guitarras do Ricardo Quinteira, das vozes da Sara Alhinho e da Aixa Figini e do cada vez mais invulgar sax soprano do Diogo Picão. Tenho demasiada dificuldade em me manter como um mero espectador das coisas que acontecem assim, na vida. Parece-me sempre algo egoísta.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;______________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;É tudo muito bonito, mas ainda só passaram umas vinte e quatro horas e já discuti no trânsito. Fico sempre fascinado com a capacidade que as pessoas têm de constranger a vida dos outros e dar cabo deste otimismo a que nos vamos obrigando suavemente no início do ano. Tinha resolvido discutir menos com o mundo. Lá se foram os planos. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52767.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52665.html</guid>
  <pubDate>Tue, 18 Dec 2018 14:37:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52665.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O inverno, este ano, está a aparecer aos bocados, como num puzzle. Hoje, chegou a chuva, à hora do almoço. Quando cheguei ao gabinete ainda não estava cá ninguém. Por isso, fiquei a observar a rua da janela: os carros com os faróis ligados, iluminando a chuva oblíqua, atravessando lentamente a rua, quase a medo; as pessoas a fugir como que de uma catástrofe; tudo o resto - as árvores, o passeio, os carros estacionados, as cadeiras e as mesas da esplanada do Aracuá - imóvel e indiferente. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;________________________________&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Creio que a melancolia da chuva está relacionada com a reconstrução da imagem em movimento. Quando observamos a rua, sem a informação do som, usamos a imaginação para preencher o que está em falta e, então, transformamos a ideia da imagem em algo íntimo, como se fosse uma criação nossa. E, manipulada, a ideia torna-se confortável mas, ainda assim, apenas uma memória. Com o som, sem a imagem em movimento, a mesma coisa. É a memória dos sentidos, mesmo que seja por nós ficcionada ou sugerida por outro elemento externo: a literatura, o cinema, a música. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52665.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ensaio</category>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52353.html</guid>
  <pubDate>Tue, 22 May 2018 22:11:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52353.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Hoje de manhã recebi a notícia da morte do JB. Teve uma vida dramática e o final não foi menos trágico. Afogou-se num rancor que o levou para longe de todos e perdeu as capacidades essenciais. A notícia chegou-me por &lt;em&gt;sms&lt;/em&gt;, que é uma forma ingrata de nos apanhar desprevenidos. Mais tarde, uma notificação do &lt;em&gt;Público&lt;/em&gt; no telemóvel anunciava a morte de Júlio Pomar. E é assim que agora ficamos a saber da morte, por notificação. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;______________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Para evitar as declarações sentimentalistas duvidosas na televisão, fui ler alguns excertos de Textos e Variações. Pomar tinha uma escrita muito semelhante à pintura: um traço fino e poético, uma procura do real, um olhar sobre o mundo e sobre a cultura do mundo. Fechei os olhos e relembrei o desenho que ocupa toda a parede interior do Museu do Neo-Realismo, onde se ergue, imponente, um camponês que nos obriga a olhá-lo de baixo para cima. Em mais nenhum ponto do museu conseguimos ver a imagem integral, só cá de baixo. Mas não o devemos apenas à curadoria. Devemo-lo, sobretudo, a essa ideia que tantas vezes debateu com Lima de Freitas, Cunhal ou Redol de que a arte também tem de representar as preocupações reais do homem comum e não, apenas, as aspirações metafísicas do artista. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;______________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há uma certa espiritualidade nas coincidências. Hoje, enquanto ajudava MS a montar a sua instalação da próxima exposição, deparei-me com uma impressão onde estva inscrito o nome de Pomar e de um dos seus livros. Creio que ao lado também se via, sobreposta, uma das suas pinturas. As coincidências têm a capacidade de nos demonstrar como a relação que temos com as coisas consegue ser tão singular.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52353.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52202.html</guid>
  <pubDate>Wed, 09 May 2018 14:50:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52202.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A comunidade sente-se mais feliz em festa. O inverno foi longo e, com ele, os mal-entendidos, os desentendimentos, a reclusão, o ressentimento. Ao primeiro sinal de festa, a vila respira de alívio, sorri, diz bom dia, brinda, embriaga-se. À noite, a tradicional pancadaria. Foi um bom regresso.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;_____________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Aproxima-se mais uma mudança nas exposições temporárias do Museu. É preciso desmontar, devolver, arrumar, para que logo se desenhe um novo prolongamento da sua vida. Sinto sempre uma imensa melancolia no dia da desmontagem. A efemeridade das exposições obriga-nos a aceitar o irrepetível. Digamos que é como um fim de dia. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;_____________________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Regressei à banda sonora de &quot;I Am Sam&quot;, que devolve o espanto poético à música dos Beatles. A poesia ganha sempre novas vidas quando as palavras recuperam a força ou quando a ganham pela primeira vez. Vem-me à memória, assim de repente, a forma ainda bem mais hesitante com que Ben Harper diz &quot;I think, er, no, I mean, er, yes/ But it&apos;s all wrong/ That is I think I disagree&quot;. Mas é melhor ter cuidado com estas heterodoxias. Os dias não estão de feição à discórdia. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/52202.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51740.html</guid>
  <pubDate>Thu, 03 May 2018 22:22:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51740.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há dias deceparam duas árvores - amoreiras, creio - num dos largos mais antigos da vila. Os meus conterrâneos lá mostraram o seu desagrado, reivindicando o seu património, evocando dias felizes. Hoje, passei por lá e o cenário é crucinante. Habituei-me, contudo, às mudanças, porque o tempo e a distância são crueis com a memória da paisagem. Quando nos ausentamos por longas temporadas, tudo se transforma: no homem outrora altivo vemos agora os sinais da decadência do corpo; na casa que habitámos e onde nunca mais entraremos, vivem estranhos; amigos que deixaram de se falar; a calçada do caminho para a escola é substituída por cimento; os cafés fecharam ou mudaram de proprietário; as velhas casas de piso térreo deram lugar a novos prédios; as árvores morreram. Por vezes, basta uma ausência de dias para que tudo mude, sem nos pedir licença. É a vida própria da civilização a imitar a natureza. E, embora o ressentimento seja legítimo, de nada vale guardarmos rancor à inevitável transformação no mundo, pois dela também somos cúmplices.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51740.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>memória</category>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51519.html</guid>
  <pubDate>Tue, 01 May 2018 21:00:00 GMT</pubDate>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51519.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Estou hesitante em considerar uma abordagem passivo-agressiva de um ativista anti-tauromaquia como ofensa ou ingenuidade. Dizem-me os amigos que é uma coisa da idade, mas não consigo desligar o botão da ofensa. E não falo da ofensa simples, mas de uma ofensa generalizada à liberdade dos indivíduos. Estive quase a pregar-lhe dois bananos nos cornos. Vontade, essa, não me faltou. Mas contive-me, com o estoicismo que preside a esta minha nova consciência pacifista, à qual não posso deixar de capitular. Houve tempos, claro, em que não hesitaria em pregar no estafermo arrogante dois valentes socos, aos quais não teria reação. Seria simples: uma chapada de mão aberta na fonte, seguida de um gancho, com o propósito de lhe partir a cana do nariz ou, caso falhasse, rebentar-lhe o queixo. Não o fiz. Virei costas e segui, em marcha solene pelo Dia do Trabalhador. Mas por que raio há-de esta gente aproveitar dias de celebração para reivindicar o seu ódio aos outros? Com tantos inimigos que temos, escolhem sempre os mais desprotegidos para condenar. Enfim, é o drama habitual da cultura dos outros. De resto, foi um bom dia. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/51519.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/os-dias-comuns-51233</guid>
  <pubDate>Mon, 30 Apr 2018 12:15:00 GMT</pubDate>
  <title>os dias comuns</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/os-dias-comuns-51233</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tenho pensado em deixar de fumar, mas depois de ler uma referência de Zizek sobre &lt;em&gt;A Consciência de Zeno&lt;/em&gt;, de Italo Svevo, fiquei irritado com esses juízos de coragem e liberdade e prometi não voltar ao assunto, convicto que estou das limitações a que me sujeito por existir. Aliás, os meus dramas sobre liberdade começam logo pelo facto de querer estar noutro lugar, que não este. Por exemplo, decidi que quero viver no Maine, mais precisamente em New England, mas sei que não passa de um sonho. Não vou deixar de dormir por causa disso e, para já, admito a possibilidade de ficar aqui para sempre (um horror!).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;_______________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ontem estivemos em casa do T.N.. A R. foi mordida pelo cão logo à chegada e toda a nossa confiança no mundo ficou mais cautelosa. Isto levou-me a pensar na relação que temos com os bichos. Estamos demasiado convencidos de que a domesticação é um instrumento absoluto de controlo ou de manipulação e não de relação de dependência ou de poder, como, verdadeiramente, o é. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Entretanto, usámos o grelhador pela primeira vez, este ano. Voltei a ficar nostálgico, o que é uma maçada. Tenho memórias daquela vila, o que significa que há uma ligação entre essa época e hoje que foi quebrada. E se calhar a nostalgia é isso mesmo: a incapacidade que tivemos de manter a vida como ela era.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;_______________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Reparei que deixei de ser convidado para aniversários ou outros eventos sociais. A vida na borda d&apos;água afastou-me. Mas fico a pensar se deixei, de facto, de ser convidado, ou se essas festas deixaram de se realizar. Seja o problema meu ou dos outros, é sempre caso de preocupação. Alguma coisa não está como seria desejável.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;_______________________&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tenho andado a ler os diários de José Gomes Ferreira, &lt;em&gt;Dias Comuns&lt;/em&gt;, que me têm custado uma fortuna. Fiquei espantado com o preço dos livros, este ano. Não creio que seja possível cultivar o acesso à cultura com estes valores. Dezassete euros, o último volume. Também uma coletânea de poemas do Philip Larkin, da Faber &amp; Faber, custou-me mais de quinze euros. Preciso de roupa e assim é difícil. Por isso, decidi voltar a escrever no registo de diário, para que depois possa ler qualquer coisa de graça. Não sei se me tolerarei como crítico, mas é ao que estamos sujeitos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/os-dias-comuns-51233</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/quem-te-quebrou-o-encanto-nunca-te-amou-51107</guid>
  <pubDate>Wed, 18 Apr 2018 10:07:00 GMT</pubDate>
  <title>quem te quebrou o encanto nunca te amou</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/quem-te-quebrou-o-encanto-nunca-te-amou-51107</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;São as fotografias antigas dos amigos que não conheci em novos que me inspiram, agora, a nostalgia. Sinto saudades pela sua juventude, pela alegria nos seus olhos, no riso, na intimidade dos gestos com outros que desconheço. Nas fotografias dessa juventude é sempre primavera ou verão. Ouve-se a música a respirar e há uma imensa luz. É então que me lembro da minha pele ao sol no recreio da escola e do cheiro das hormonas. A música nunca era triste. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/quem-te-quebrou-o-encanto-nunca-te-amou-51107</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>memória</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/nostalgia-50735</guid>
  <pubDate>Wed, 01 Mar 2017 13:41:00 GMT</pubDate>
  <title>nostalgia</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/nostalgia-50735</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não somos conservadores só porque temos aversão à mudança mas, sobretudo, por nostalgia. À medida que os anos vão passando, ficamos com a sensação de que algo ficou incompleto, que a felicidade é um pretérito imperfeito e que cada passo dado nos afasta do que poderia ter sido. Mas a nostalgia é uma desilusão. Porque a única coisa que nos transporta para o passado, para além da memória inventada, seletiva, são os objetos. Porém, os objetos são insatisfatórios e só nos recordam que a felicidade é efémera. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/nostalgia-50735</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ensaio</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/subsidios-para-um-lexico-republicano-50475</guid>
  <pubDate>Wed, 01 Feb 2017 14:30:00 GMT</pubDate>
  <title>subsídios para um léxico republicano</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/subsidios-para-um-lexico-republicano-50475</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O debate sobre o mérito de um regicídio é antigo e parece perpetuar-se sempre que a história nos bate à porta. Porém, a própria designação implica que matar o rei seja diferente de matar um indivíduo comum. Implica, por isso, que o rei é supra-humano e que o seu assassinato merece uma designação própria. Se, por um lado, há uma desumanização do monarca e uma relativização do homicídio, por outro lado, há uma legitimação da sua superioridade divina. Não se pode, porém, ignorar que as motivações políticas que levam a um homicídio de um rei são diferentes das que levam à tragédia de um conflito subjetivo - o homicídio comum. Assim, parece mais adequado designar o homicídio com motivações políticas de politicídio. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/subsidios-para-um-lexico-republicano-50475</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ensaio</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/assassino-em-microconto-50426</guid>
  <pubDate>Tue, 31 Jan 2017 09:59:00 GMT</pubDate>
  <title>assassino em microconto</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/assassino-em-microconto-50426</link>
  <description>&lt;p&gt;Todos achavam que era um flâneur, até lhe verem o sangue nas mãos.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/assassino-em-microconto-50426</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ficção</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/carta-a-deus-50094</guid>
  <pubDate>Tue, 17 Jan 2017 19:15:00 GMT</pubDate>
  <title>carta a deus</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/carta-a-deus-50094</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Tenho tentado recuperar a minha relação com deus. Após um período de agnosticismo radical e outras tarefas domésticas, pareceu-me prudente começar a pensar nas hipóteses que o desconhecido nos coloca. É um pouco como tentar reatar relações com amigos que fomos perdendo ao longo da vida. O que custa é a iniciativa. Não me recordando, ao certo, de como rezar, decidi escrever-lhe. Ao início, pareceu-me uma ideia patética, tendo em conta a sua omnisciência, omnipresença, omnipotência e &lt;em&gt;tutti quanti. &lt;/em&gt;Foi aqui que começaram os embaraços. Apesar das dificuldades em encontrar morada certa, o importante, para já, era escrever. Como nos dirigimos a deus, após tamanha ausência? A relação perde-se, a cumplicidade desaparece e aquilo que era uma conversa &lt;em&gt;tu cá tu lá&lt;/em&gt;, torna-se num confrangimento um pouco infantil. Poderia optar pelo modelo formalista ensinado nas melhores escolas de comunicação e secretariado &quot;Exmo Sr.&quot;. Pareceu-me excessivo. Tentei, então, algo menos impessoal: &quot;Boa tarde,&quot;. Não, demasiado temporal. Vamos, então, para uma abordagem descontraída: &quot;Caro Deus&quot;. Algo de materialista fez-me recuar. Talvez se fosse mais pragmático, a coisa funcionasse: &quot;Deus&quot;. Sim, não restam dúvidas. &quot;Deus, no seguimento da nossa última conversa, venho por este meio informar que estou disponível para chegar a acordo sobre a forma mais adequada de nos entendermos. Creio (e com isto já estou a fazer cedências) que é chegada a altura de redefinir o plano previamente estabelecido para a minha vida, cujos recentes resultados não foram ao encontro das expectativas por mim legitimamente adquiridas, aquando da minha última conversa com o Sr. Padre Almerindo. Sem mais assunto, fico a aguardar &lt;em&gt;feedback&lt;/em&gt;, despedindo-me com cordialidade. Atenciosamente, Eu.&quot; Dobrei o papel, enfiei-o no email e enviei para um dos contactos disponibilizados pelo sítio oficial do Vaticano. À noite, deitado, fiquei a olhar para o tecto do quarto, com a angústia que se sente ao pensar na correspondência perdida. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/carta-a-deus-50094</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ficção</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/a-espera-49872</guid>
  <pubDate>Tue, 17 Jan 2017 19:14:00 GMT</pubDate>
  <title>à espera </title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/a-espera-49872</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A partir de agora, fazemos o luto no Natal. Os anos vão passando, a nossa gente vai morrendo. A tragédia é inevitável. Ficaremos sozinhos, enrolados nos copos da consoada, a agonizar na casa de estranhos. E o advento, agora, será outro. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/a-espera-49872</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/luta-de-classes-49602</guid>
  <pubDate>Fri, 16 Dec 2016 10:07:00 GMT</pubDate>
  <title>luta de classes</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/luta-de-classes-49602</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Obcecada com a sua própria urbanidade, interrompe a conversa muito desdenhosa com um acontecimento cultural na província. Esclarecida sobre a dimensão do evento, não deixa escapar um ar surpreendido, ao mesmo tempo desconfiado. Fora de Lisboa? Deve ser péssimo! O ar blasé mantém-se ao longo do jantar, com mais um ou dois comentários despectivos, entre relatos de idas a espectáculos interessantíssimos, onde estava toda a gente, e observações de profundidade duvidosa sobre a vida social de um ou outro autor. Ergo o punho e grito por revolução. É preciso esganar os lisboetas. E a burguesia, claro. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/luta-de-classes-49602</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>personagens</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/non-fiction-49172</guid>
  <pubDate>Tue, 22 Nov 2016 15:30:00 GMT</pubDate>
  <title>non-fiction</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/non-fiction-49172</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Prometeram que não iria chover. Olho para o céu e reparo que, depois do nevoeiro, surgem algumas nuvens com intenções duvidosas. Volto a entrar com as pernas geladas e regresso à secretária. O algoritmo das redes sociais sugere-me dois livros de Karl Ove Knausgaard, cuja imagem me é familiar. Lembra-me, de certo modo, aquela curiosidade com o tipo que, a certa altura, nos cruzamos com frequência nas mais distintas circunstâncias, mas que nunca chegamos a conhecer. A curiosidade transforma-se num assédio involuntário, por vezes em ressentimento. O que faz um estranho no domínio latente da minha esfera cognitiva? A pergunta é tão idiota quanto a sensação de invasão. Vou, então, pesquisar sobre Knausgaard. A Wikipédia dá-me alguns dados biográficos, prémios literários que lhe foram atribuídos e uma descrição das polémicas provocadas pela obra do norueguês. Sugere-me, também, uma entrevista feita por James Wood para a New Yorker em 2014. Aceito a sugestão. Ao longo da entrevista, o crítico demonstra alguma admiração pela coragem do escritor. Coragem. Chama coragem à exposição. Os livros de Karl Ove Knausgaard são autobiográficos, numa batalha que tenta derrubar o tédio da ficção. Conheço a reflexão. Ainda assim, fico sem saber muito mais, restando-me a inevitável leitura que adiarei até encerrar outra dezena de preconceitos idênticos. Acho que vou reler Os Filhos da Droga ou a Bíblia.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/non-fiction-49172</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>biblioteca</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/aforismo-da-exposicao-48709</guid>
  <pubDate>Fri, 14 Oct 2016 08:56:00 GMT</pubDate>
  <title>aforismo da exposição</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/aforismo-da-exposicao-48709</link>
  <description>&lt;p&gt;Não há injustiça maior do que não nos podermos defender do silêncio dos outros.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/aforismo-da-exposicao-48709</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>aforismos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-tempo-de-dummy-48422</guid>
  <pubDate>Wed, 12 Oct 2016 13:55:00 GMT</pubDate>
  <title>o tempo de dummy</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-tempo-de-dummy-48422</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;À janela do edifício, um homem observa a chuva num pequeno espasmo de melancolia. Pergunto-me sobre o que pensará. Eu sei no que penso quando o faço, quando chegam as primeiras chuvas do outono: regresso ao lugar onde fui feliz. Numa imediata associação de ideias, recordo-me das tardes no café, dos pés encharcados e gelados, dos casacões, do cheiro dos paniques e do carioca de limão, das conversas sobre as coisas importantes da vida. De um lado, um estuda Análise de Matemática II, do outro a Teoria Geral do Direito. No som de fundo ouve-se &lt;em&gt;Sour Times&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Roads&lt;/em&gt;. Regresso ao tempo de &lt;em&gt;Dummy&lt;/em&gt;, de onde nunca deveríamos ter saído. &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-tempo-de-dummy-48422</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>memória</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-ribeiro-48243</guid>
  <pubDate>Tue, 13 Sep 2016 15:42:00 GMT</pubDate>
  <title>o ribeiro</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-ribeiro-48243</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Durante aquela idade em que não somos nem carne nem peixe e em que a tendência para a inconsciência é maior do que o habitual, descobrimos um ribeiro dentro do bairro. Havia, aliás, alguns ribeiros que desapareciam com a nova construção que ali começou a crescer, para nossa infinita tristeza. Alguns deles serviam os campos, mas este servia sobretudo um tanque de lavadeiras. Descia a encosta, passava por debaixo de uma pequena ponte de betão inacabada e terminava no tanque onde, por regra, passávamos as tardes de domingo, a ver as cores que nele se formavam. Era raro ser sempre a mesma. O cheiro do sabão confundia-se com outros odores mais duvidosos. Por vezes, ficava-se com a sensação de estar perante um esgoto aberto.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;As casas em volta, nesse lado do bairro, formavam pequenas ilhas de construções clandestinas, onde viviam famílias de seis ou oito pessoas e onde existiu durante muitos anos uma panificação sobre a qual recaía o mito das caganitas de rato no produto final. O ribeiro atravessava a encosta que dividia as casas, como se fosse a Veneza dos pobres. Dentro das que conheci, o mobiliário não tinha um estilo uniforme e, para disfarçar a falta de luz, era feito de madeiras claras e frágeis e as prateleiras estavam sempre despidas. Os quartos eram divididos entre os membros da família, estando o espaço mais reservado destinado ao chefe de família e à mulher. Os miúdos partilhavam o quarto com os avós e, por vezes, nalguns casos, a sala acabava por servir duas funções. As cozinhas eram pequenas e as casas de banho interiores recentes e igualmente exíguas. A fossa que servia as casas também era partilhada e mais tarde até surgiu, sem se saber bem como, uma antena parabólica onde durante as férias tentávamos ver pornografia na RTL.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Certo dia, apercebemo-nos de que a água do ribeiro não morria ali e continuava por um cano. Intrigados, decidimos tentar seguir o curso da água e acabámos por descobrir um furo no campo do Sr. António - o nosso maior rival. Para escapar aos chumbos da espingarda com que habitualmente nos recebia, trepámos por um muro mais discreto para ir à chinchada e acabámos por cair num charco de lama e estrume que não parecia secar. Do outro lado do muro, uma linha de água suja parecia ser o que restava do ribeiro que saía do tanque. Nunca mais roubámos ameixas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O Ribeiro da Maínça foi durante a minha infância e pré-adolescência a minha imagem íntima da miséria escondida. Quando deixei o bairro, nunca mais lá voltei. Mas às vezes, nos primeiros dias da Primavera, ainda lhe sinto o cheiro e a resignação. Depois das últimas urbanizações que tentaram fazer do meu bairro da infância uma zona mais urbana e sofisticada, a encosta por onde passava o ribeiro desapareceu da vista dos demais. Por vezes, quando me lembro dos rapazes, penso no quanto a vida nos sorria enquanto estávamos juntos, à procura da felicidade.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/o-ribeiro-48243</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>memória</category>
  <category>ficção</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/instantaneo-47453</guid>
  <pubDate>Wed, 07 Sep 2016 14:20:00 GMT</pubDate>
  <title>instantâneo</title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/instantaneo-47453</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Rasga-se a tela presa na janela com o vento e um pequeno barco de porcelana cai e quebra-se no chão e as mulheres na secretaria falam falam falam falam falam de tudo o que interessa e não interessa seja de casa do trabalho da televisão a entrar dentro de casa e os operários aproveitam a corrente de ar que interrompeu a vaga de calor e paz no mundo mas logo regressam à obra de berbequim ligado intercalando ou em simultâneo com o toque dos telefones &quot;está lá? só um momentinho que eu vou ver se ela ainda está na casa de banho&quot; um sítio outrora privado mas que agora passa a informação transmitida a desconhecido como se as desculpas as razões os motivos as palavras a verdade fossem assim tão necessárias na conta corrente dos dias que vão passando assim com todo este ruído e com os termómetros a marcar trinta de mínima e quarenta de máxima em portugal continental e na madeira e em todo o lado menos nos açores onde ainda resta um bocadinho de civilidade de silêncio de natureza de vida porra!&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/instantaneo-47453</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>ficção</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/espiao-acidental-47198</guid>
  <pubDate>Thu, 01 Sep 2016 09:51:00 GMT</pubDate>
  <title>espião acidental </title>
  <author>jorge c.</author>
  <link>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/espiao-acidental-47198</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O início nunca é claro. Desta vez, chegava a um terreno com uma casa semi-abandonada. Sabia da morte de um amigo do meu pai. De seguida, um outro era assassinado e depois um terceiro. A polícia chega e admito reconhecer um padrão. Talvez saiba quem é o assassino.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Por esta altura surge uma ex-namorada que passeia serena com uma capa vermelha de burel. Os olhos verdes condizem com as cores do outono. Conversamos um pouco e fazemos as pazes de desencontros demasiado passados. Nada mais.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Apanho um autocarro melancólico que atravessa o bairro da minha infância e recebo uma chamada. Um 96 que não se encontra registado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Estou?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Uma voz ensonada do outro lado responde como se eu a conseguisse reconhecer:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Então a malta diz que tu andas todo maluco e passas a vida a escrever cenas estranhas?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Qual malta?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- O pessoal da faculdade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Eh pá, já tentei explicar mil vezes... Mas quem é que está a falar?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Insisto na pergunta várias vezes e explico que perdi os contactos. Lanço uns nomes de amigos mais próximos com quem o contacto tem sido cada vez mais escasso. Do outro lado, o tipo liga a aparelhagem e ouve-se &lt;em&gt;Welcome to the Jungle&lt;/em&gt;. &quot;Está lá, está lá&quot; e nada. Depois &lt;em&gt;Night Train&lt;/em&gt;. &quot;Estou? Estou?&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- É o Axl, meu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Axl? Mas tu estás cá?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Era o Axl Rose, amigo de longa data a dar a boa nova. Lá fui ter ao bar dele, naquele mesmo bairro, lembrando um pouco o Cais na Ribeira do Porto. Ao balcão, fomos pondo a conversa em dia. Desafiou-me para o ajudar aí com uns negócios. Nada de especial. Mas, primeiro, tinha de confirmar que ia à passagem de ano. Oitenta euros - duas pessoas. Confirmei-me imediatamente e disse que ia falar com a tal ex-namorada confiante de que haveria ali uma aproximação. Desabafei ali um bocadinho com o meu amigalhaço. Saí do bar e pelo caminho segurava no telefone hesitando na &lt;em&gt;sms&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sem saber porquê encontro uns tipos mais velhotes acompanhados por um sujeito com ar de carteirista. Ficamos os dois a conversar sobre língua portuguesa mas entretanto passa a mulher do Presidente da Câmara e eu tenho de me ir embora para me encontrar de novo com o Axl.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Estamos três no elevador. O terceiro já não sei quem é, mas de repente fui eu que o levei até lá. O contacto era meu. Vamos para a Penthouse. Pelo que me apercebo, envolve putas. Não me faltava mais nada. Aquilo já não me parecia uma coisa assim tão simples como ele a pintara. Lá chegados, avançamos pelo corredor. Três jovens semi-nuas abrem três portas diferentes e sorriem com um ar atrevidote. De repente, tiros de metralhadora por todo o lado, o cliente é assassinado por uns tipos que o Axl revela serem russos. Quando este amigo da onça me contou que lhes devia dinheiro e tinha de fazer favores, o despertador começou a tocar. Como sabia que eu conhecia toda a gente... E pronto, o gato começou a miar e acordei definitivamente.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há alguns anos que não me lembrava tão nitidamente de um sonho.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://diariodabordadagua.blogs.sapo.pt/espiao-acidental-47198</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>quotidiano</category>
</item>
</channel>
</rss>
