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		<title>Empreendedorismo</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2010 09:56:38 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Saul Neves de Jesus &#8211; Professor Catedrático de Psicologia da Universidade do Algarve<br />
Joana Vieira dos Santos &#8211; Assistente e Doutoranda em Psicologia das Organizações da Universidade do Algarve</p>
<p>Na semana em que decorre em Portugal, e em mais de uma centena de países, a Semana Global do Empreendedorismo (15 a 21 de Novembro), eis que encontrámos o mote para a troca de algumas ideias e opiniões com todos aqueles que partilham a paixão pelo desafio.<br />
A popularidade que o constructo empreendedorismo apresenta conduz a que, por vezes, seja apelidado como um bálsamo que soluciona todos os problemas. Provavelmente, porque o fenómeno do empreendedorismo tem sido desprovido de um modelo conceptual integrador que o explique (Shane &#038; Venkataraman, 2000). Contudo, a riqueza do seu conteúdo merece-nos algumas considerações. </p>
<p>O termo empreendedor (entrepreneur) surgiu na França, por volta dos séculos XVII ou XVIII, com o objectivo de designar aquelas pessoas que estimulavam o progresso económico, através de novas e melhores formas de actuação. Também na língua inglesa, em 1725, o economista irlandês Richard Cantillon utilizou a expressão entrepreneur para caracterizar aquele tipo de indivíduos que assume riscos. Só no século XX, este conceito começou a ser utilizado com maior frequência. Por exemplo, em 1921, o norte-americano Frank Knight afirmou que aquilo que distingue o empreendedor é a sua capacidade de lidar com a incerteza. Actualmente, é um dos conceitos mais utilizados em Psicologia das Organizações. De acordo com Shane e Venkataraman (2000), a definição mais consensual encara o empreendedorismo como a tentativa de criar valor, através da descoberta e exploração de novas oportunidades de negócio, mesmo em situações de crise ou de incerteza.<br />
A situação actual em que, muitos espanhóis estão a deixar de vir a Portugal por, entre outros factores associados à crise económica, terem que pagar o facto de se deslocarem nas SCUT, revela-se um desafio para alguns hotéis do norte do país, pois estão a pagar o valor das SCUT aos clientes. Este é um bom exemplo de empreendedorismo, em que é aproveitada a crise e transformado um problema numa oportunidade de negócio, não só para manter os próprios clientes, mas para retirar clientes à concorrência.</p>
<p>Embora sendo considerada por todos como uma atitude fundamental na actualidade, o campo de estudo do empreendedorismo revela alguma fragmentação tanto teórica, como prática. Têm emergido diversas perspectivas, colocando a tónica na pessoa (e.g. Psicologia), no processo e/ou na organização (e.g. Gestão) (Cunningham &#038; Lischeron, 1991; Leiria, Palma, &#038; Cunha, 2006). Contudo, mais do que a polarização em rivalidades estéreis, uma atitude empreendedora conjuga a motivação com a criatividade, pelo que o esforço e a inovação são componentes essenciais para o sucesso, em qualquer domínio de actividade nos nossos dias.<br />
Por exemplo, antes Mark Zuckerberg desenvolver, em 2004, num dormitório de Harvard, uma rede de partilha de perfis através da qual os estudantes da universidade podiam conhecer-se melhor, ninguém diria que esta rede social poderia chegar aos mais de meio milhão de utilizadores em todo o mundo, levando a que alguns considerem o “Facebook” como o “terceiro país” mais numeroso do planeta, a seguir à China e à India. Para este jovem, actualmente com apenas 26 anos, muitas empresas ficam presas às normas e às convenções, não promovendo a inovação.</p>
<p>Actualmente, ninguém questionará que Mark Elliot Zuckerberg é um empreendedor norte-americano. No entanto, será que o seria, caso a sua área de estudos se centrasse nas ciências humanas e não na programação? Acreditamos, e defendemos, que o empreendedorismo é um tema actual, não apenas nas engenharias e tecnologias, ou na gestão, mas também nas ciências humanas e sociais. O empreendedorismo deve ser considerado um campo de estudo multidisciplinar, no entanto, cada disciplina apresenta uma visão própria da temática (Sexton &#038; Landström, 2000).<br />
Numa era em que proliferam as referências ao Capital Intelectual das empresas, o foco está nas pessoas, ou seja, centra-se na dimensão humana. Este fenómeno é visível, nomeadamente, através da popularidade do termo activos humanos, em detrimento de funcionários. </p>
<p>O mercado alberga constantes mudanças, socioculturais e tecnológicas, as quais fazem repensar hábitos e atitudes, pelo que a procura centra-se em profissionais com coragem para arriscar e para ultrapassar os seus próprios limites. O futuro é cheio de incertezas, por isso, é preciso potenciar as competências pessoais e profissionais, estimular a criatividade e melhorar as capacidades de comunicação. A diferenciação pode passar pela capacidade (ou habilidade) para incorporar outros princípios, mudar de paradigmas. Conquista-se a autonomia profissional quando se é perseverante, determinado, criativo, inovador e focalizado. Este é o perfil do profissional que, através da troca de informações e de conhecimentos, poderá fazer parte do cenário das organizações aprendentes, das organizações do futuro. Essas qualidades ajudam a vencer a competitividade dos tempos modernos. </p>
<p>Segundo Leite (2000), nas qualidades pessoais de um empreendedor destacam-se: a iniciativa; a visão; a coragem; a determinação; a capacidade para tomar decisões; a atitude de respeito humano; e a capacidade de organização. Enquanto, para Lumpkin e Dess (1996) as cinco dimensões que constituem a orientação empreendedora são: a autonomia, a inovação, a propensão para o risco, a proactividade e a agressividade competitiva. Naturalmente, a condição da natureza humana não garante que todos tenhamos o mesmo traço ou perfil empreendedor, pelo que esta é uma atitude que pode e deve ser ensinada. A educação deve permitir: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver; aprender a ser. Só assim os profissionais poderão enfrentar a globalização com responsabilidade, competência e autonomia.</p>
<p>A maioria das pessoas, desde que estimulada, pode desenvolver habilidades empreendedoras. Seria conveniente o desenvolvimento desta atitude no ensino universitário, não só em relação ao futuro, na perspectiva da concretização de um projecto profissional, mas também em relação à concretização de um projecto vocacional no curso frequentado. É importante educar para o empreendedorismo, mas também é fundamental criar condições ou oportunidades para a concretização dessa atitude com sucesso; senão a frustração e a inibição serão maiores no futuro.</p>
<p>A título ilustrativo, com o empreendedorismo pode acontecer aquilo que a investigação em Psicologia tem revelado em relação às expectativas de eficácia. É importante desenvolver estas expectativas nos sujeitos para acreditarem em si mesmos e na sua capacidade para concretizar os seus objectivos. Mas são fundamentais as realizações comportamentais, isto é, ser bem sucedido no alcance dos objectivos, pelo que, se porventura não consegue alcançá-los, o sujeito diminui de forma evidente as suas expectativas de sucesso em relação a situações futuras, podendo ficar inibido e preferir não arriscar. Da mesma forma, é fundamental ter sucesso na implementação da atitude empreendedora, ter uma perspectiva de instrumentalidade, uma adequada relação entre objectivos-fim e objectivos-meio, sabendo, por exemplo, como criar e montar uma empresa ou um negócio. Nesse sentido, no nosso país foram criadas muitas empresas na última década, com uma maior facilitação no processo de criação de empresas e do acesso ao crédito bancário. No entanto, a conjectura actual de crise, com inúmeras falências e insucesso por parte de jovens com habilitações e conhecimentos e com uma atitude empreendedora, pode levar à perda de confiança por parte de toda uma geração, ficando inibida a atitude empreendedora que foi treinada e incentivada. Este é um bom exemplo de como a dimensão psicológica e a dimensão económica interagem e se inter-influenciam. Não obstante o empreendedorismo traduzir a percepção de um período difícil como uma oportunidade e um desafio, será que a nova geração de jovens empreendedores se sente motivada e confiante para arriscar no presente e num futuro próximo? Será que vai ser necessário esperar por uma nova geração também treinada para ser empreendedora, mas sem o estigma de insucessos anteriores, para que essa atitude empreendedora se manifeste no investimento e na recuperação económica?<br />
Na verdade, se o empreendedorismo é “a arte de fazer acontecer, com motivação e criatividade” (Menezes, 2007, 72), então a mudança pode e deve começar a partir de cada um de nós, porque cada um de nós, independente do contexto, tem a capacidade para inovar!</p>
<p>Referências<br />
Cunningham, B., &#038; Lischeron, J. (1991). Defining Entrepreneurship. Journal of Small Business Management, 29, 1, 45-61.<br />
Leite, E. (2000). O fenómeno do empreendedorismo: criando riquezas. Recife: Edições Bagaço.<br />
Leiria, A. C.; Palma, P. J., &#038; Cunha, M. P. (2006). O Contrato psicológico em organizações empreendedoras: Perspectivas do empreendedor e da equipa. Comportamento Organizacional e Gestão, 12, 1, 67-94.<br />
Lumpkin, G. T. &#038; Dess, G. (1996). Clarifying the entrepreneurial oriental construct and linking it to performance. Academy of Management Review, 21, 1 135-172.<br />
Menezes, R. (2007). Empreendedorismo é a arte de fazer acontecer com motivação e qualidade. Locus Científico, I, IV, 72-78.<br />
Sexton, D., &#038; Landstrom, H. (2000). The Blackwell Handbook of Entrepreneurship. Maldon, MA. Blackwell Publishing<br />
Shane, S., &#038; Venkataraman, S. (2000). The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, 25, 1, 217-226.</p>
<p>15 de Novembro de 2010</p>
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