<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647</id><updated>2026-09-28T02:57:41.672-03:00</updated><category term="religião"/><category term="astronomia"/><category term="ciência"/><category term="história"/><category term="filosofia"/><category term="saúde"/><category term="ficção científica"/><category term="literatura"/><category term="física"/><category term="astrobiologia"/><category term="ceticismo"/><category term="jornalismo"/><category term="espaço"/><category term="política"/><category term="psicologia"/><category term="nasa"/><category term="matemática"/><category 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perfeitos</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP4yNExHEiHUw_ER3pv7B6o71Fcf60z8y3PpTAuxiXH9i4NnGxp0kjVW_C77IvEXwsAH2YXcT4hU3KlRTxgrYTU-i79ghgYNB89idxvmhwlgh8UOYbeBKNtW6bQHpGlFTINVs7xXGgWbNn/s1600/Voldemort.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;602&quot; data-original-width=&quot;940&quot; height=&quot;408&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP4yNExHEiHUw_ER3pv7B6o71Fcf60z8y3PpTAuxiXH9i4NnGxp0kjVW_C77IvEXwsAH2YXcT4hU3KlRTxgrYTU-i79ghgYNB89idxvmhwlgh8UOYbeBKNtW6bQHpGlFTINVs7xXGgWbNn/s640/Voldemort.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span id=&quot;goog_835966687&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;goog_835966688&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
Oi, gente? Tudo bem aí? Faz tempo que não visito o blog, eu sei. Quase todo o material que ando produzindo sobre ciência tem saído na &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/&quot;&gt;Revista Questão de Ciência&lt;/a&gt;, então a área aqui ficou meio redundante, mas o que tenho pra dizer hoje é estritamente pessoal, sem ligação com nenhuma instituição, empresa, etc. Então, blog pessoal é o canal adequado. Vamos lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lá se vão uns 25 anos, fui editor de política de um jornal no interior do estado de São Paulo. Um de meus poucos e pequenos orgulhos profissionais foi a cobertura que fiz de uma CPI sobre o achaque de empresários de coleta de lixo por agentes públicos, e que acabou pondo fim à vida política de uma figura que... bom, deixa pra lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A parte interessante, e didática, desse momento obscuro de minha carreira é que, de repente -- ou, ao menos, para mim foi bem de repente -- a administração municipal da época, tucana, passou a me tratar como inimigo. E, por tabela, ao jornal como um todo. Repórteres de Cidades (gente que mantém contato constante com o poder público pra informar o leitor sobre, por exemplo, mudanças no trânsito, horário de posto de saúde, urbanização de favelas) começaram a ser sistematicamente boicotados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, o grupo político que dava apoio ao prefeito da época resolveu lançar seu próprio jornal, que basicamente falava bem da prefeitura e mal do veículo em que eu trabalhava. Aqueles eram, talvez, tempos mais gentis, e nunca fui atacado publicamente pelo nome, mas de repente eu e meus colegas de redação éramos &lt;i&gt;aquela juventude petista&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ponto a que quero chegar é que &lt;i&gt;a cobertura nunca foi petista&lt;/i&gt;. Eu sei. Eu estava lá. Eu&lt;i&gt; era &lt;/i&gt;a cobertura. O jornal era pequeno e pobre: tudo que saía sobre política era ideia minha, executada por mim. Eu saía correndo das sessões da Câmara Municipal, de bloquinho na mão, desenhando a página na cabeça (este texto vai no alto, este abaixo, a foto no meio...) e pra chegar ofegante na redação, escrever feito um louco e baixar tudo pra gráfica. Eu. Sozinho. No máximo, com o fotógrafo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;E eu só estava tentando fazer o melhor trabalho possível, dentro das minhas circunstâncias, com o pouco de talento que me cabia&lt;/i&gt;. Não estava tentando sabotar a administração. Não estava tentando pôr o PT no poder. Não estava manipulando os preços dos imóveis nos vetores de crescimento urbano. Estava usando meu treinamento de quatro anos de faculdade para &lt;i&gt;apurar, selecionar, editar e publicar informações de interesse público&lt;/i&gt;. Que é a definição técnica mais básica de &quot;jornalismo&quot;, assim como a de engenharia civil é &quot;fazer coisas que parem em pé&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Óbvio que quase ninguém na administração municipal acreditava nisso. Se a prefeitura estivesse fazendo um trabalho decente, eu &lt;i&gt;diria&lt;/i&gt; isso (a secretaria de Saúde e o serviço de habitação eram muito bons, e eu &lt;i&gt;dizia&lt;/i&gt; isso).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fim, o boicote da prefeitura aos outros setores do jornal ficou tão grave que acabei escrevendo uma espécie de carta-manifesto-editorial a respeito da situação. Nele, ao me referir às repetidas acusações quanto à minha suposta &quot;agenda partidária&quot;, escrevi que era muito triste ver como pessoas cujos horizontes pessoais são intrinsecamente mesquinhos -- sinecuras, propinas, joguinhos de poder, etc. -- parecem ser incapazes de imaginar que os outros podem realmente apenas estar fazendo um trabalho honesto. A régua da mesquinharia não mede nada além de si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aí fui trabalhar com ciência e comunicação de ciência e achei que tinha deixado esse mundinho escroto de s&lt;i&gt;econd-guessing&lt;/i&gt; e de gente que sempre esperar o pior de todos para trás. Não tinha, de vez, mas a intensidade com certeza é bem menor. Ou era.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porque na última semana me senti de volta ao círculo tragicômico de intrigas da boa e velha assessoria de imprensa do Paço Municipal, &lt;i&gt;circa&lt;/i&gt; 1994. Só que com o sinal invertido: hordas petistas-psolistas-&lt;i&gt;whatever&lt;/i&gt; de repente disparando acusações delirantes de conspiracionismo direitista&amp;nbsp; contra um texto que, embora não de minha autoria, eu já havia lido e relido seguidas vezes, conhecia bem -- e que, sabia, não tinha nada disso -- somadas a ataques pessoais a um dos autores (só um, mulher).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não vou discutir aqui se o texto continha erros, se poderia ter sido melhor escrito, ter tornado alguns pontos mais claros, etc. Em princípio, todo texto sempre poderia ser melhor ou mais claro. Pressupor o contrário é dizer que existe uma comunicação perfeita, que há um emissor capaz de sempre dizer o que quer com acurácia plena, do melhor jeito possível e com as palavras exatas, escolhidas de modo impecável e postas nos lugares mais precisos. Isto é perfeição, e perfeição não existe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meu ponto é que a presunção de malícia foi imediata, e desencadeou uma onda de ofensas de baixo calão extraída do mais puro léxico olavista, somada a insinuações difamatórias e caluniosas de todo o tipo, e alegremente seguida pelo &lt;i&gt;bandwagon -- &lt;/i&gt;no caso específico, esquerdista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, mais velho e menos tonto (mais sábio?) reconheço que, à régua da mesquinharia, soma-se outro fator -- a &lt;i&gt;presunção do monopólio das boas intenções&lt;/i&gt;. É assim: uma pessoa, ou grupo, acha que todo mundo só faz o que faz pra ganhar dinheiro, sexo, fama ou poder. &lt;i&gt;Todo mundo, menos aquela pessoa ou grupo&lt;/i&gt;. Eles, não. Eles fazem pelo Amor, pelas Criancinhas e pela Humanidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É muito fácil achar que essa presunção é uma marca distintiva das esquerdas, mas isso seria incorreto. Ela anda por toda parte. O empresário que acha que bolsa-família é &quot;coisa de vagabundo&quot; está nessa, por exemplo. E a união da régua da mesquinharia ao monopólio das boas intenções cria o monstro das redes sociais, o &lt;i&gt;mesquinho perfeito, &lt;/i&gt;o cara que lê o mundo pela lente baixa da vantagem, mas que se acredita um puro altruísta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &lt;i&gt;mesquinho perfeito&lt;/i&gt; é um tipo ideal: todos nós o encarnamos, de vez em quando. Quando a mesquinharia se apossa de várias pessoas e elas reagem em turba, no entanto, o fenômeno é assustador. As únicas formas de evitá-lo é manter uma boa dose de humildade interpretativa à mão e, ora bolas, exercitar aquele velho princípio-base da civilização, a presunção da inocência. Porque a alternativa, damas e cavalheiros, é o caos.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/2013164491481620195/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2019/04/a-vitoria-dos-mesquinhos-perfeitos.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2013164491481620195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2013164491481620195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2019/04/a-vitoria-dos-mesquinhos-perfeitos.html' title='A vitória dos mesquinhos perfeitos'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP4yNExHEiHUw_ER3pv7B6o71Fcf60z8y3PpTAuxiXH9i4NnGxp0kjVW_C77IvEXwsAH2YXcT4hU3KlRTxgrYTU-i79ghgYNB89idxvmhwlgh8UOYbeBKNtW6bQHpGlFTINVs7xXGgWbNn/s72-c/Voldemort.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-6730866141367207483</id><published>2018-11-24T17:45:00.001-02:00</published><updated>2018-11-24T17:53:09.004-02:00</updated><title type='text'>Tem alguém aí?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiD1nAAI4vlHwJDyhrCy-jGgQ7FjrBq2G7LhKOaNeyolSmHjzZWniI5KRsCcUx4BB9RsT7-t_ebEmuyt9qmx21pIgqtW6Cg9MwSFcOlOyxx179whUpOyJQR_ldjq9CXwX6iBhJ-AdGQymwn/s1600/LANCAMENTO.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;437&quot; data-original-width=&quot;922&quot; height=&quot;302&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiD1nAAI4vlHwJDyhrCy-jGgQ7FjrBq2G7LhKOaNeyolSmHjzZWniI5KRsCcUx4BB9RsT7-t_ebEmuyt9qmx21pIgqtW6Cg9MwSFcOlOyxx179whUpOyJQR_ldjq9CXwX6iBhJ-AdGQymwn/s640/LANCAMENTO.png&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pergunta é séria. Gente, faz um mês que não atualizo o blog! Mas foi por um bom motivo: estava trabalhando, com amigos, para o lançamento do&lt;a href=&quot;https://institutoquestaodeciencia.com.br/&quot;&gt; Instituto Questão de Ciência&lt;/a&gt; -- a foto acima é uma das cenas do evento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de agora provavelmente será muito mais fácil encontrar material meu na revista do instituto -- &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/&quot;&gt;pela qual, aliás, sou responsável&lt;/a&gt; -- do que neste espaço. Convido a todos a conhecer o projeto, ler os textos, etc. Sou suspeitíssimo para dizer, claro, mas há muita coisa boa lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além dos textos de minha autoria, há uma densa &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/dossie-questao/2018/11/18/cancer-crueldade-das-falsas-promessas&quot;&gt;reportagem de Ruth Helena Bellinghini&lt;/a&gt; sobre falsas curas do câncer que levanta uma questão espinhosa e fundamental: o paciente desesperado pode até ter o direito de tentar tudo, mas o que dá a alguém o direito de oferecer ilusões aos desesperados?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também colaboram os biólogos &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2018/11/13/por-que-tanta-implicancia-com-pseudociencias&quot;&gt;Beny Spira&lt;/a&gt;,&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/questionador-questionado/2018/11/13/como-sabemos-que-transgenicos-sao-seguros&quot;&gt;Natalia Pasternak&lt;/a&gt; e&lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/questao-nerd/2018/11/13/o-preco-da-imortalidade&quot;&gt; Luiz Gustavo de Almeida&lt;/a&gt;, o físico &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2018/11/13/mentira-das-terapias-quanticas&quot;&gt;Marcelo Yamashita&lt;/a&gt;, o paleontólogo &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2018/11/18/apanhando-pela-divulgacao-cientifica&quot;&gt;Pirula&lt;/a&gt; e, em participação mais que especial, o médico &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/dossie-questao/2018/11/15/lista-da-oms-incluira-bobagens-inaceitaveis-da-medicina-tradicional&quot;&gt;Edzard Ernst&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para quem acompanha minha carreira como ficcionista, no mesmo período em que organizávamos o Questão de Ciência, saíram duas antologias,&lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/As-Melhores-Hist%C3%B3rias-Brasileiras-Horror/dp/8575327097/ref=sr_1_3?ie=UTF8&amp;amp;qid=1543087940&amp;amp;sr=8-3&amp;amp;keywords=cesar+silva&quot;&gt; &lt;i&gt;As Melhores Histórias Brasileiras de Horror&lt;/i&gt;&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Fractais-tropicais-melhor-Cient%C3%ADfica-Brasileira/dp/8550407631/ref=sr_1_1?s=books&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;qid=1543088074&amp;amp;sr=1-1&amp;amp;keywords=fractais+tropicais&quot;&gt;&lt;i&gt;Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, ambas contendo contos meus. Pelo jeito, virei clássico da literatura enquanto estava ocupado demais para perceber.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então, desculpem eu ter andado meio sumido. Mas, ao que tudo indica, vou continuar desaparecido -- ao menos, neste espaço. Mas acompanhem a &lt;a href=&quot;http://revistaquestaodeciencia.com.br/&quot;&gt;Questão de Ciência&lt;/a&gt; que estarei picando&amp;nbsp; cartão por lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/6730866141367207483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/11/tem-alguem-ai.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6730866141367207483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6730866141367207483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/11/tem-alguem-ai.html' title='Tem alguém aí?'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiD1nAAI4vlHwJDyhrCy-jGgQ7FjrBq2G7LhKOaNeyolSmHjzZWniI5KRsCcUx4BB9RsT7-t_ebEmuyt9qmx21pIgqtW6Cg9MwSFcOlOyxx179whUpOyJQR_ldjq9CXwX6iBhJ-AdGQymwn/s72-c/LANCAMENTO.png" height="72" width="72"/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3354389824157228986</id><published>2018-10-25T09:29:00.000-03:00</published><updated>2018-10-25T09:32:07.391-03:00</updated><title type='text'>Instituto Questão de Ciência</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4YS8f6sjR3ojig2_K6SASQbdd6f92wiyQ2sQOoRakfLvSXLc0pdYhF2e7WWayM1kFsuw7QvtL8LNyMqZcoohCCDv5gyUjPoKjR0wB6OEcvFzzfEHfNzalRNObxeZGGP4g4s7DoHgiGQ6q/s1600/QdC.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;388&quot; data-original-width=&quot;465&quot; height=&quot;534&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4YS8f6sjR3ojig2_K6SASQbdd6f92wiyQ2sQOoRakfLvSXLc0pdYhF2e7WWayM1kFsuw7QvtL8LNyMqZcoohCCDv5gyUjPoKjR0wB6OEcvFzzfEHfNzalRNObxeZGGP4g4s7DoHgiGQ6q/s640/QdC.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Agora que o gato proverbial está proverbialmente fora do proverbial saco, posso contar aqui no blog -- e para os amigos que só me ouviam dizer, de modo um tanto quanto misterioso, que eu estava &quot;enrolado com uns projetos&quot; -- que na segunda quinzena de novembro acontece o lançamento oficial do Instituto Questão de Ciência, em cuja organização estou envolvido, sobre o qual há &lt;a href=&quot;https://www.facebook.com/institutoquestaodeciencia/posts/1955504634516841?__xts__%5B0%5D=68.ARD6U3Wv4hlLUW8KmbiVb_QnU7CtYcZEvq36BviHJtMkckhw6MZcwpOAxmaYDIH7FgHErA4xSbHCOLiDdgV-GBm4z8Ix6bxlyNQ1apXgjFlT-bGIBrpaNyLysly_1Z9VDnre6vW4UYd6pEc8Ums_P_81IQrxMWYGkGJ5dZrQc8CgLTaez1_SLc_8u5NT9LBIQmaPI1jkJMWF278t62OnBZ8&amp;amp;__tn__=-R&quot;&gt;um press-release&lt;/a&gt; publicado no Facebook, onde também se encontra o&lt;a href=&quot;https://www.facebook.com/events/320134705236783/&quot;&gt; convite para a abertura oficial&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas você está agora no meu blog, não no Facebook, então provavelmente gostaria de ler algo sobre minha perspectiva pessoal a respeito do que está acontecendo. Vamos lá, então.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Comecei a trabalhar com jornalismo para internet em 1996. Falei sobre isso na &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=UA5ooCt9kp8&quot;&gt;minha palestra TEDx&lt;/a&gt; do ano passado, mas acho que jamais serei capaz de expressar direito meu estado de absoluta estupefação com o universo online quando o encontrei pela primeira vez como jornalista -- jornalista encarregado de entender, organizar e explicar a bagaça toda para o público &quot;leigo&quot;, que via a rede como uma mídia nova, difícil, capciosa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda era a época da internet baseada em sites e páginas web, não em redes de mensagens instantâneas ou redes sociais; onde o motor de busca mais popular, o Yahoo!, ainda se valia de selecionadores humanos de conteúdo (fui um deles!), e não de algoritmos para dirigir as pessoas a seus destinos online. Ainda assim, o volume de informação, sem filtro, sem hierarquização de credibilidade era esmagador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lembro-me de encontrar online, por exemplo, os papéis do &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Majestic_12&quot;&gt;Projeto Majestic 12&lt;/a&gt; -- a grande conspiração em que o presidente americano Harry Truman (ou era o Eisenhower?) concordava em permitir que extraterrestres abduzissem cidadãos americanos, em troca de tecnologia alienígena. Eram páginas e páginas datilografadas e escaneadas, com &lt;i&gt;assinaturas visíveis de autoridades&lt;/i&gt;. WOW!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como eu era jovem, mas não completamente sem noção, a segunda coisa que me ocorreu (a primeira era que eu tinha um furo de reportagem de proporções cósmicas nas mãos) foi que, se isso fosse verdade, deveria ter saído na capa do &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt;. Pesquisando um pouco mais a fundo, descobri o&lt;a href=&quot;https://www.csicop.org/&quot;&gt; CSICOP&lt;/a&gt; -- Comitê para Investigação Cética de Alegações do Paranormal -- organização americana que, exatamente, investigava e esclarecia questões assim (Majestic-12 é uma fraude, se alguém ficou na dúvida).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há mais de duas décadas, então, que o trabalho da CSICOP (hoje o grupo usa uma sigla mais enxuta, &lt;i&gt;CSI&lt;/i&gt;), me fascina. Esse fascínio, somado à dura constatação de que o jornalismo irresponsável, preguiçoso, burro ou burocrático é uma das principais fontes de desinformação sobre ciência e saúde no mundo -- algo que me ofende de um modo muito pessoal --, acabou me lançando numa carreira paralela da qual saíram &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/LIVRO-ASTROLOGIA-c%C3%A9ticos-curiosos-indecisos-ebook/dp/B017BTZ6VA?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;crid=1NPZFF7NE2Q1H&amp;amp;keywords=carlos+orsi&amp;amp;qid=1540469390&amp;amp;s=STRING%28kindle-human-store-name%29&amp;amp;sprefix=carlos+orsi%2Caps%2C309&amp;amp;sr=1-3&amp;amp;ref=sr_1_3&quot;&gt;três livros de divulgação científica&lt;/a&gt;, uma &lt;a href=&quot;https://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/&quot;&gt;coluna&lt;/a&gt; -- &quot;descontinuada&quot;, como se diz no jargão -- na revista Galileu, algumas &lt;a href=&quot;https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/fosfoetanolamina-ocaso-que-envergonhou-a-ciencia-brasileira-d5wnxh6h28oop2z9b3xsg6v3w/&quot;&gt;reportagens&lt;/a&gt; complexas e, claro, &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com/2017/07/homeopatia-evidencia-e-importancia-do.html&quot;&gt;este blog&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para mim, portanto, o Instituto Questão de Ciência representa uma forma de canalizar as energias que eu vinha dispersando nessas atividades todas, agora de modo mais focado e produtivo. É muito recompensador levantar a cabeça e ver que aquele problema que parecia ser um incômodo meramente pessoal &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com/2018/07/epistemologias-alternativas-e-saude.html&quot;&gt;também chama a atenção de outras pessoas&lt;/a&gt;, que também se mostram dispostas a fazer algo a respeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se você gosta do trabalho que faço aqui no blog, é mais do que provável que a missão do IQC seja também de seu interesse. O Instituto deve ampliar sua pegada no mundo digital em breve, e aviso das novidades por aqui. Fiquem ligados!</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3354389824157228986/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/instituto-questao-de-ciencia.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3354389824157228986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3354389824157228986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/instituto-questao-de-ciencia.html' title='Instituto Questão de Ciência'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4YS8f6sjR3ojig2_K6SASQbdd6f92wiyQ2sQOoRakfLvSXLc0pdYhF2e7WWayM1kFsuw7QvtL8LNyMqZcoohCCDv5gyUjPoKjR0wB6OEcvFzzfEHfNzalRNObxeZGGP4g4s7DoHgiGQ6q/s72-c/QdC.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-7528084403765821441</id><published>2018-10-16T08:07:00.000-03:00</published><updated>2018-10-16T08:07:01.435-03:00</updated><title type='text'>Livro interativo!</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgMkBOxrEEPzNRZNsJ3z0_2beOGGdBQ-twO6ZIBbwj53Bs0c4A3VUH0Wd5ehPgRD-HPl_WrtXurZcdhCfd-jHQVWxvFDolh31klBsnpIVGztFCglZz04YzoOrtNmuOOFnLc8UnnynKKJ4K2/s1600/Gratus.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;542&quot; data-original-width=&quot;869&quot; height=&quot;398&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgMkBOxrEEPzNRZNsJ3z0_2beOGGdBQ-twO6ZIBbwj53Bs0c4A3VUH0Wd5ehPgRD-HPl_WrtXurZcdhCfd-jHQVWxvFDolh31klBsnpIVGztFCglZz04YzoOrtNmuOOFnLc8UnnynKKJ4K2/s640/Gratus.png&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tanta coisa acontecendo na vida do jornalista de meia-idade que a gente esquece de anunciar as boas notícias. Então, com algum atraso, aí vai: já está disponível, para Apple e Android, &lt;a href=&quot;https://www.storymax.me/gratus.html?&quot;&gt;O Mistério do Sr. Gratus&lt;/a&gt;, um conto interativo de ficção científica de mina autoria e magistralmente ilustrado, animado e sonorizado pela &lt;a href=&quot;https://www.storymax.me/&quot;&gt;StoryMax&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objetivo desse livro virtual é divertir crianças e jovens -- eu chutaria aí de uns 9 aos 13 anos -- , ao mesmo tempo, passar alguns conceitos sobre ecologia, evolução e saúde. A revisão técnica do trabalho foi feita pela pesquisadora Natalia Pasternak Taschner, da USP, que dirige no Brasil o festival Pint of Science.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este trabalho mult&lt;span id=&quot;goog_449623092&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/&quot;&gt;&lt;/a&gt;&lt;span id=&quot;goog_449623093&quot;&gt;&lt;/span&gt;imídia acaba sendo meu primeiro conto original publicado em português nos últimos anos, e minha segunda incursão no universo infanto-juvenil, depois do romance space-opera &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/N%C3%B4made-Uma-aventura-no-espa%C3%A7o-ebook/dp/B07575LJQV?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=n%C3%B4mades+carlos+orsi&amp;amp;qid=1539687334&amp;amp;sr=8-1-fkmrnull&amp;amp;ref=sr_1_fkmrnull_1&quot;&gt;Nômade&lt;/a&gt;, que saiu lá em 2010.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escrever &quot;juvenis&quot; sempre me assusta um pouco. Uma coisa que me esforço conscientemente em fazer é evitar ao máximo situações de violência (o que deve surpreender quem conhece minha&lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Campo-outros-contos-fic%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica-ebook/dp/B00EO30UL8?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=carlos+orsi+campo+total&amp;amp;qid=1539687527&amp;amp;s=STRING%28kindle-human-store-name%29&amp;amp;sr=1-2&amp;amp;ref=sr_1_2&quot;&gt; ficção para a adultos&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pode ser bobagem minha, mas acho que uma coisa é fantasiar com resoluções na porrada quando já se é maduro o suficiente para saber que elas, na prática, não funcionam; outra é encontrá-las ainda jovem e ficar coma impressão de que podem funcionar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Gratus&quot; tem duas protagonistas femininas, a menina Amanda e sua gata Magdalena. A história tem diversas opções de fio de enredo, e desfechos diversos. Essa também é minha segunda experiência com narração interativa -- a primeira foi uma aventura-solo inspirada em &lt;i&gt;Call of Cthulhu&lt;/i&gt; que saiu numa revista de RPG (nunca me lembro se &lt;i&gt;Dragão Brasil&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;Só Aventuras&lt;/i&gt;), lá do outro lado do milênio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então, é isso aí. &quot;Gratus&quot; está na área. Se você (ou seu filho, neto, sobrinho, ou filha, neta, sobrinha) quiser desvendar seu mistério, o app é grátis!</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/7528084403765821441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/livro-interativo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7528084403765821441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7528084403765821441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/livro-interativo.html' title='Livro interativo!'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgMkBOxrEEPzNRZNsJ3z0_2beOGGdBQ-twO6ZIBbwj53Bs0c4A3VUH0Wd5ehPgRD-HPl_WrtXurZcdhCfd-jHQVWxvFDolh31klBsnpIVGztFCglZz04YzoOrtNmuOOFnLc8UnnynKKJ4K2/s72-c/Gratus.png" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3874156761502778580</id><published>2018-10-04T16:58:00.003-03:00</published><updated>2018-10-04T17:04:26.946-03:00</updated><title type='text'>Falta rigor nas Humanidades... só nelas?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHx6OC__Uq96py_JiFul7kZkDIWP-zNQKd8MiamsrK4NYkcLx5hHAhKTuuFTSbG9ubH2i83gs70aUfTD9_ZOgwMuVG1QZFPbH_LQaoFJaCEtfEWkPstVoRx1pFPsjvK4Xi20VHyaFojbhO/s1600/ladytramp.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1051&quot; data-original-width=&quot;1400&quot; height=&quot;480&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHx6OC__Uq96py_JiFul7kZkDIWP-zNQKd8MiamsrK4NYkcLx5hHAhKTuuFTSbG9ubH2i83gs70aUfTD9_ZOgwMuVG1QZFPbH_LQaoFJaCEtfEWkPstVoRx1pFPsjvK4Xi20VHyaFojbhO/s640/ladytramp.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Se você se interessa por ciência, o assunto provavelmente chamou sua atenção: ontem, um grupo de três pesquisadores dos Estados Unidos revelou ter feito publicar, em periódicos respeitados da área de Humanidades,&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;https://areomagazine.com/2018/10/02/academic-grievance-studies-and-the-corruption-of-scholarship/&quot;&gt;sete artigos totalmente idiotas&lt;/a&gt; -- incluindo um trecho de um manifesto nazista (nada menos que do livro &lt;i&gt;Mein Kampf,&lt;/i&gt; de Adolf Hitler!) com a linguagem alterada para soar feminista. Um dos artigos, sobre o caráter machista e homofóbico do&lt;a href=&quot;https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0966369X.2018.1475346?journalCode=cgpc20&quot;&gt; coito entre cães em praças públicas&lt;/a&gt; (sim, você leu certo) chegou a ganhar um prêmio acadêmico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao todo, os autores da fraude (que eles descrevem como um experimento etnográfico) produziram vinte artigos cretinos, sete dos quais foram aceitos para publicação, seis rejeitados e sete devolvidos para correções e revisões. Entre os devolvidos, há um que defende a inclusão da astrologia como ciência legítima, num novo paradigma &quot;feminista&quot; de pesquisa astronômica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As reações à pegadinha foram variadas, como mostra, por exemplo, esta reportagem do&lt;i&gt; &lt;a href=&quot;https://www.chronicle.com/article/Sokal-Squared-Is-Huge/244714&quot;&gt;Chronicle of Higher Education&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;. O mesmo &lt;i&gt;Chronicle&lt;/i&gt; lembra que dois dos autores do &quot;experimento etnográfico&quot; já haviam pegado o mundinho das Humanidades de calças curtas antes, com o chiste do &lt;a href=&quot;https://www.chronicle.com/article/What-the-Conceptual/240344&quot;&gt;Pênis Conceitual&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não se trata de um ataque às Humanidades em geral, é importante ressaltar, mas a um recorte específico: o dos estudos de gênero e identitários, que o trio de &quot;etnógrafos&quot; chama de &quot;&lt;i&gt;grievance studies&lt;/i&gt;&quot;, ou &quot;estudos de ressentimento&quot;, um setor da academia que, segundo a hipótese testada por eles, parece disposto a levar a sério qualquer bobagem que pareça &quot;empoderar&quot; minorias ou criticar grupos vistos como de elite, ou privilegiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Os freios e contrapesos céticos que deveriam caracterizar o processo acadêmico foram substituídos por uma brisa contínua de viés de confirmação, que sopra a literatura dos estudos de ressentimento cada vez mais para fora do curso&quot;, escrevem os autores, em sua justificativa-manifesto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fraude desta semana vem sendo comparada ao&lt;a href=&quot;http://www.physics.nyu.edu/sokal/weinberg.html&quot;&gt; experimento conduzido por Alan Sokal&lt;/a&gt; nos anos 90. Sokal, um físico inconformado com a forma estúpida e exorbitante com que conceitos da física e da matemática vinham sendo apropriados por filósofos e sociólogos pós-modernos, produziu um &lt;i&gt;paper &lt;/i&gt;deliberadamente sem sentido, que conseguiu publicar num periódico então respeitado, &lt;i&gt;Social Text&lt;/i&gt;. Os três etnógrafos consideram que a metodologia e os processos dos&amp;nbsp;&lt;i&gt;grievance studies &lt;/i&gt;são herdeiros diretos da tradição pós-moderna que tanto incomodava Sokal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se esta recente etnografia parcial das Humanidades mostrou que o controle de qualidade científico-acadêmico nessas áreas ainda deixa um bocado a desejar, tantos e tantos anos depois do vexame Sokal, de lá para cá muita pesquisa foi feita sugerindo que o fenômeno não é exclusivo das ciências &quot;moles&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há mais de uma década, John Ioannidis publicou&lt;a href=&quot;https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.0020124&quot;&gt; seu famoso artigo&lt;/a&gt; sobre a provável inutilidade de boa parte da pesquisa pré-clínica, em que drogas e tratamentos são testados em culturas de laboratório ou animais. Em 2012, foi publicado um levantamento que sugere que &lt;a href=&quot;https://www.nature.com/articles/483531a&quot;&gt;a maior parte dos estudos&lt;/a&gt; sobre &quot;coisas que podem curar câncer&quot; tem tão baixa qualidade que representa &lt;a href=&quot;http://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2017/01/12/curcumin-will-waste-your-time&quot;&gt;pura perda de tempo&lt;/a&gt;. E nem vou falar de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Data_dredging&quot;&gt;p-hacking&lt;/a&gt; e outras modalidades de conduta antiética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afinal, em que a publicação de besteira altissonante sob a forma de &lt;i&gt;grievance studies&lt;/i&gt; difere da publicação de resultados irreprodutíveis na pesquisa biomédica? Há alguma diferença?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Começando pelas semelhanças: nos dois casos, a poluição da literatura científica por entulho sem valor é causada por pressão social e expectativas institucionais. O denominador comum é a corrida de obstáculos em que a carreira acadêmica muitas vezes se vê transformada, com &lt;i&gt;checkpoints&lt;/i&gt; quantitativo-burocráticos descolados de qualquer senso real de qualidade: mais importante do que ter algo a dizer é falar o jargão da tribo, seja ele feito e citações de Foucault ou barras de erro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra é o impacto desse tipo de estudo mal feito na consciência popular. Não importa quantas vezes se explique que curcumina não é uma panaceia, ou que o sexo dos cães não é uma ferramenta de perpetuação do patriarcado (ao menos, não entre seres humanos). Uma vez que uma dessas ideias capture a imaginação popular (ou seja adotada por alguém com alguma coisa para vender), o diabinho está solto e não há como prendê-lo de volta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E quanto às diferenças?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A principal talvez seja a possibilidade de confronto com a realidade. Técnicas estatísticas podem ser usadas para verificar a confiabilidade das conclusões de um estudo sobre saúde ou nutrição (foi assim que um famoso trabalho sobre &lt;a href=&quot;https://www.vox.com/science-and-health/2018/6/20/17464906/mediterranean-diet-science-health-predimed&quot;&gt;dieta mediterrânea caiu em desgraça&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No caso dos &lt;i&gt;grievance studies&lt;/i&gt;, no entanto, na maioria das vezes o único &lt;i&gt;reality check&lt;/i&gt; tem de vir do senso crítico do revisor, do editor e, em última instância, do leitor. Mas se todos estão &quot;vendidos&quot; na mesma ideologia e confinados na mesma bolha, aí fica bem difícil.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3874156761502778580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/falta-rigor-nas-humanidades-so-nelas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3874156761502778580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3874156761502778580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/10/falta-rigor-nas-humanidades-so-nelas.html' title='Falta rigor nas Humanidades... só nelas?'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHx6OC__Uq96py_JiFul7kZkDIWP-zNQKd8MiamsrK4NYkcLx5hHAhKTuuFTSbG9ubH2i83gs70aUfTD9_ZOgwMuVG1QZFPbH_LQaoFJaCEtfEWkPstVoRx1pFPsjvK4Xi20VHyaFojbhO/s72-c/ladytramp.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-2044845896923649680</id><published>2018-09-17T22:35:00.002-03:00</published><updated>2018-09-18T12:33:11.724-03:00</updated><title type='text'>Uma verdade milenar sobre astrologia</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv9onSNYSSN9UnvkRhChltblEumGV9HhxScCtpa-cKSPpcGLHZ88W56ykTp9aualNDdSVBwI3xVV19xi4Dftlejif98zoSibAhcJwyjJqbPZsMb5VRQbQP2EchQTHAM7u-Xu8LRcpiwvUd/s1600/Creation_of_Sun_and_Moon_Michelangelo_c1511.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;406&quot; data-original-width=&quot;550&quot; height=&quot;472&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv9onSNYSSN9UnvkRhChltblEumGV9HhxScCtpa-cKSPpcGLHZ88W56ykTp9aualNDdSVBwI3xVV19xi4Dftlejif98zoSibAhcJwyjJqbPZsMb5VRQbQP2EchQTHAM7u-Xu8LRcpiwvUd/s640/Creation_of_Sun_and_Moon_Michelangelo_c1511.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem algumas verdades milenares que se perdem na poeira do tempo, e precisam ser redescobertas a cada geração. Uma das mais preciosas é a de que astrologia é bobagem. Defensores da prática adoram dizer que têm uma tradição imemorial que só passou a ser atacada por causa do materialismo reducionista do mundo moderno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nada mais falso: em todas as eras, diversas das mentes mais argutas se pronunciaram contra o patente absurdo da hipótese astrológica -- de que a posição dos astros na hora do nascimento determina, ou influencia, a personalidade e o destino dos seres humanos. O que o &quot;materialismo reducionista&quot; dos tempos modernos fez foi produzir instrumentos para mensurar &lt;i&gt;o tamanho&lt;/i&gt; do absurdo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 50 AEC, mesma época em que os irredutíveis gauleses da aldeia fictícia de Asterix se insurgiam contra os romanos, o orador romano Cícero produziu o discurso &lt;i&gt;Sobre a Adivinhação&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;De Divinatione&lt;/i&gt;), onde argumenta longamente contra a astrologia. Um trecho: &quot;O fato de que homens nascidos no mesmo instante são diversos em caráter, carreira e destino deixa muito claro que a hora de nascimento nada tem a ver com a determinação do rumo da vida&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século 15, o filósofo renascentista Pico della Mirandola compôs não um, mas 12 volumes de refutações da astrologia, incluindo as considerações de que astrólogos discordam entre si, de que previsões só se cumprem por acaso,e da ausência de base física para os efeitos pretendidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Fast-forward&lt;/i&gt; para 1948, o psicólogo Bertram Forer demonstra que textos vagos e genéricos, porém lisonjeiros, são lidos como altamente precisos por pessoas que acreditam que esses textos foram compostos especialmente para elas. Os textos usados por Forer, em sua clássica demonstração, haviam sido retirados de manuais astrológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um pouco mais à frente, em 1971, a revista francesa&amp;nbsp;&lt;i&gt;Ici-Paris &lt;/i&gt;ofereceu a seus leitores interpretações personalizadas de seus mapas astrais individuais. Os leitores reagiram fascinados, afirmando que a precisão das leituras era maior do que 90%. No entanto, todos eles haviam recebido exatamente a mesma interpretação -- a da carta astral de um notório serial-killer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já neste século, uma &lt;a href=&quot;https://astrologiaexperimental.files.wordpress.com/2014/05/voasastrology.pdf&quot;&gt;análise estatística das datas de nascimento&lt;/a&gt; de milhões de casais do Reino Unido, coligidas no censo britânico, falhou em encontrar qualquer tipo de relação de &quot;compatibilidade&quot; (ou incompatibilidade) entre signos astrológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim, astrologia é bobagem. Fato dado ao conhecimento público, pelo menos, desde 50 AEC, e confirmado e refinado diversas vezes desde então.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas esse conhecimento milenar se perde facilmente, até mesmo quando, como no caso do estudo britânico, é do presente milênio. Como assinante que vive no interior paulista, tenho o inenarrável privilégio de ser poupado de receber a Revista da Folha aos domingos, o que me trouxe o alento de não ler a propaganda gratuita -- desculpe, &quot;matéria de comportamento&quot; -- da astrologia publicada ali, pelo menos até o momento em que alguns amigos houveram por bem &lt;a href=&quot;https://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2018/09/1981574-jovens-deixam-profissoes-para-seguir-carreira-na-astrologia-e-brilham-nas-redes-sociais.shtml?cmpid=compw&quot;&gt;compartilhar o link&lt;/a&gt; pelo WhatsApp.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pauta, uma reciclagem de assunto tratado tempos atrás pela mídia internacional, explora o sucesso renovado da arte astrológica entre os ditos &lt;i&gt;millennials, &lt;/i&gt;a garotada descolada que acha que ser rebelde e salvar o mundo significa passar creme fixador na barba, vestir camisa xadrez e abrir hamburgueria gourmet.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fenômeno em si tem diversos precedentes históricos, como a onda &lt;i&gt;New Age&lt;/i&gt; dos anos 70-90, e a pauta, mesmo se derivativa (algo comum na mídia brasileira: uma boa pista sobre o que estará na capa da &lt;i&gt;Veja&lt;/i&gt; da semana que vem, por exemplo, é o que esteve na capa da &lt;i&gt;Time&lt;/i&gt; da semana retrasada), não é ruim.&amp;nbsp; A execução, no entanto, é problemática (para dizer o mínimo).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para quem chegou agora ao blog: sou autor de algo chamado &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/LIVRO-ASTROLOGIA-c%C3%A9ticos-curiosos-indecisos-ebook/dp/B017BTZ6VA&quot;&gt;&lt;i&gt;O Livro da Astrologia&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, um apanhado histórico-científico-psicológico sobre a prática. Já &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2013/12/debate-sobre-astrologia-video.html&quot;&gt;debati o assunto&lt;/a&gt; com a presidente da Associação Brasileira de Astrologia, Vera Facciollo, ouvida na propaganda, ops, reportagem da revista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também já escrevi um &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2017/04/astrologia-financeira-o-ceus.html&quot;&gt;breve comentário&lt;/a&gt; sobre astrologia financeira, outro ponto que o texto da RFSP leva mais a sério do que merece. E para não dizer que tenho algo pessoal contra o Grupo Folha, já colaborei com o UOL em&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2018/07/20/clique-ciencia-por-que-cientistas-dizem-que-a-astrologia-nao-funciona.htm&quot;&gt;um artigo sobre astrologia&lt;/a&gt;, onde fiz o que a peça publicitária, desculpe, reportagem, não fez: ouvi um psicólogo especializado em vieses cognitivos e pseudociências.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A astrologia é um fenômeno social e psicológico complexo, mas isso não é exatamente desculpa para que pessoas que têm o dever profissional de informar o público finjam que existe alguma verdade por trás da prática, ou de seus princípios. Sacrifícios humanos para propiciar os deuses também eram fenômenos sociais e psicológicos complexos, mas acho que ninguém lamenta o fato de terem sido abandonados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E como sabemos que não existe verdade nenhuma por trás da prática ou de seus princípios? A resposta é longa (escrevi um livro inteiro sobre o assunto, lembre-se), mas tenho um artigo a respeito &lt;a href=&quot;https://motherboard.vice.com/pt_br/article/d7damk/o-que-a-ciencia-diz-sobre-a-relacao-entre-signos-zodiacais-e-sua-personalidade&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, para quem estiver curioso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Falando em artigos, há mais de 30 anos o pesquisador australiano Geoffrey Dean publicou o monumental&amp;nbsp;&lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.csicop.org/si/show/does_astrology_need_to_be_true_a_thirty-year_update&quot;&gt;Does Astrology Need to Be True?&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, em que analisa um dado crucial -- a astrologia precisa &lt;i&gt;ser verdade&lt;/i&gt; para &lt;i&gt;funcionar&lt;/i&gt;?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ser verdade é, ora bolas, &lt;i&gt;ser verdade&lt;/i&gt;: a posição dos astros no céu na hora do nascimento determina (ou, vá lá, sinaliza) a personalidade e o destino de uma pessoa? &lt;i&gt;Funcionar&lt;/i&gt; é parecer dar aos aderentes da prática os benefícios que dizem extrair dela, como &lt;i&gt;insights&lt;/i&gt;&amp;nbsp;sobre a própria personalidade, dicas de comportamento, conforto psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A resposta é, fundamentalmente, não. Uma pessoa pode se sentir beneficiada pela leitura de um mapa astral mesmo se o mapa astral for (como é) um amontoado de bobagens, ou destinado a outra pessoa totalmente diferente, como no caso do experimento da &lt;i&gt;Ici-Paris&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ilusão pessoal de validade da astrologia é explicada pelo &lt;a href=&quot;http://brazil.skepdic.com/forer.html&quot;&gt;Efeito Forer&lt;/a&gt;, que descrevi rapidamente lá no começo, e por outros mecanismos semelhantes. Explicação rápida: a leitura do mapa é uma atividade &lt;i&gt;projetiva&lt;/i&gt;, como a interpretação de borrões de tinta. Cada um vê ali o que quer ver, e tira as lições que gostaria de tirar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algo mais parecido com uma reportagem, e menos com um publieditorial, teria mencionado alguma coisa assim, ao menos para quebrar a tediosa repetição de depoimentos exultantes de gente ou ingênua, ou que ganha dinheiro com o negócio.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/2044845896923649680/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/09/uma-verdade-milenar-sobre-astrologia.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2044845896923649680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2044845896923649680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/09/uma-verdade-milenar-sobre-astrologia.html' title='Uma verdade milenar sobre astrologia'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv9onSNYSSN9UnvkRhChltblEumGV9HhxScCtpa-cKSPpcGLHZ88W56ykTp9aualNDdSVBwI3xVV19xi4Dftlejif98zoSibAhcJwyjJqbPZsMb5VRQbQP2EchQTHAM7u-Xu8LRcpiwvUd/s72-c/Creation_of_Sun_and_Moon_Michelangelo_c1511.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-1387119365784620408</id><published>2018-08-20T11:04:00.000-03:00</published><updated>2018-08-20T11:04:37.840-03:00</updated><title type='text'>Ceticismo, pensamento crítico e &quot;tone trolls&quot;</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWdX5jGalSGa-_4tl_L728udunCiwog6Hlhs2qqKFPZnwmWmYCc2GXCo62XvEO6XmxA95l63QMJdLB7znbYx1bmHUyBXmH9oGZ8P2aAPoaMS9htTtGaZ_x6WQHxfuxfluXGNoDEI-Rske8/s1600/troll.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;630&quot; data-original-width=&quot;1200&quot; height=&quot;336&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWdX5jGalSGa-_4tl_L728udunCiwog6Hlhs2qqKFPZnwmWmYCc2GXCo62XvEO6XmxA95l63QMJdLB7znbYx1bmHUyBXmH9oGZ8P2aAPoaMS9htTtGaZ_x6WQHxfuxfluXGNoDEI-Rske8/s640/troll.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Encontrei a expressão &quot;tone troll&quot; (literalmente, &quot;troll de tom&quot;), pela primeira vez, há quase dez anos, em meio às reações da comunidade cética/racionalista internacional à palestra &lt;a href=&quot;https://vimeo.com/13704095&quot;&gt;Don&#39;t Be a Dick&lt;/a&gt; (&quot;Não Seja Babaca&quot;), do astrônomo e divulgador de ciência americano Phil Plait. Plait, que em seu site &lt;a href=&quot;http://www.badastronomy.com/index.html&quot;&gt;Bad Astronomy&lt;/a&gt; analisa à exaustão bobagens como as teorias da conspiração em torno do Projeto Apollo, sugeria na palestra que divulgadores de ciência, principalmente nas trincheiras do movimento cético/laicista, evitassem tratar os oponentes como idiotas. As pessoas raramente mudam &amp;nbsp;de ideia quando são xingadas, ponderava ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Plait foi rapidamente acusado de ser um &quot;tone troll&quot;. Definição: alguém que, embora &lt;i&gt;concorde com a substância&lt;/i&gt; do que você diz, se dá ao trabalho de vir a público criticá-lo pela&lt;i&gt; forma como você diz&lt;/i&gt;. &quot;Astrologia não faz sentido, homeopatia é uma bobagem, certo, concordo, mas por que você não respeita os sentimentos das pessoas?&quot; Essas é a essência do &quot;tone troll&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Debates acalorados entre &quot;tone trolls&quot; e suas vítimas -- essencialmente, debates sobre &lt;i&gt;forma e etiqueta&lt;/i&gt; entre pessoas que concordam quanto ao &lt;i&gt;conteúdo e à ética&lt;/i&gt; -- consomem uma energia fantástica. Gente que nunca moveu um dedo para estimular a vacinação infantil ou condenar o uso de horóscopos por departamentos de RH de repente se põe a escrever textões intermináveis, condenado quem faz isso de modo mais abrasivo. No caso específico de Phil Plait, a acusação me parece infundada, mas mais sobre isso adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão da trollagem de tom me voltou à mente por causa da recente reação de alguns comunicadores de ciência à série de tuítes do &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/channel/UCdGpd0gNn38UKwoncZd9rmA&quot;&gt;Pirula&lt;/a&gt; sobre &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/LIVRO-ASTROLOGIA-c%C3%A9ticos-curiosos-indecisos-ebook/dp/B017BTZ6VA&quot;&gt;astrologia&lt;/a&gt;. Como sói acontecer no Twitter, as coisas volta e meia entram numa escalada um tanto quanto grotesca, desproporcional à causa, e neste caso logo surgiram críticas e acusações quanto ao tom usado pelo divulgador para criticar o negócio dos horóscopos e mapas astrais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reação à trollagem de tom também pode ser desproporcional, aliás; há um temor difuso de que apelos ao &quot;respeito pelos sentimentos&quot; sejam apenas o início de um declive escorregadio que leva a leis contra blasfêmia e a intelectuais supostamente sofisticados que &lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/news/people/salman-rushdie-iranian-state-media-renew-fatwa-on-satanic-verses-author-with-600000-bounty-a6887141.html&quot;&gt;apoiam a fatwa contra Salman Rushdie&lt;/a&gt;. Sei muito bem como é esse medo: vivo com ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão de se encontrar o tom na divulgação científica de matriz cética é, certamente, importante. Quem comunica algo nessa área está tentando causar um impacto cognitivo (mudar crenças) ou comportamental (não compre isso, não dê dinheiro para aquilo). Questões de censura à parte, há pesquisas que indicam que as pessoas tendem a rejeitar informações que conflitam com seu senso de identidade, por exemplo (&lt;a href=&quot;http://science.sciencemag.org/content/354/6310/286&quot;&gt;aqui &lt;/a&gt;e &lt;a href=&quot;https://quillette.com/2018/05/29/communicating-science-era-post-truth/&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas pesquisas costumam ser interpretadas como indicando que é necessário moldar a mensagem de modo a preservar a integridade das identidades socais: é preciso dizer às pessoas que você pode ser cristão e aceitar a teoria da evolução, pode ser um fundamentalista do livre mercado a aceitar que existe um aquecimento global antropogênico, ser a favor da reforma agrária e aceitar que &lt;a href=&quot;https://revistagalileu.globo.com/blogs/olhar-cetico/noticia/2015/05/transgenicos-esta-provado-que-estes-alimentos-causam-autismo-ou-cancer.html&quot;&gt;transgênicos não causam câncer ou autismo&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso faz com que muitas críticas comumente classificadas como &quot;trollagem de tom&quot; tenham sentido (e aí incluo, por exemplo, a palestra de Plait). Mas, primeiro, é preciso notar que a conciliação entre fato e identidade tem limites: &quot;você pode ser um terraplanista e aceitar que a Terra é redonda&quot; soa bizarro, para dizer o mínimo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo, públicos diferentes requerem mensagens de moldes diferentes -- e é aí, creio, que &quot;abrasivos&quot; e &quot;respeitadores&quot; se encontram no mesmo erro: parafraseando o Eclesiastes, existe um tempo para passar a mão na cabeça e existe um tempo para meter o pé no peito. A sabedoria está em distinguir qual a estratégia mais adequada para qual público, em qual momento. No entanto, os dois campos parecem achar que sua estratégia favorita é primeiro e único Santo Graal da Comunicação. E isso não existe: em sua palestra, Plait pergunta, à audiência, se alguém ali já havia mudado de ideia depois de ser chamado de idiota, e algumas pessoas levantam a mão. Não muitas, mas algumas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A autocrítica sobre o tom das mensagens de comunicação científica é importante, mas também é importante que essa autocrítica seja específica: o tom &lt;i&gt;desta&lt;/i&gt; mensagem, frente a &lt;i&gt;este&lt;/i&gt; público, é adequado ou não? Se não for assim, vira só trollagem.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/1387119365784620408/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/08/ceticismo-pensamento-critico-e-tone.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1387119365784620408'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1387119365784620408'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/08/ceticismo-pensamento-critico-e-tone.html' title='Ceticismo, pensamento crítico e &quot;tone trolls&quot;'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWdX5jGalSGa-_4tl_L728udunCiwog6Hlhs2qqKFPZnwmWmYCc2GXCo62XvEO6XmxA95l63QMJdLB7znbYx1bmHUyBXmH9oGZ8P2aAPoaMS9htTtGaZ_x6WQHxfuxfluXGNoDEI-Rske8/s72-c/troll.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3713532963305883796</id><published>2018-08-03T08:18:00.003-03:00</published><updated>2018-10-12T09:34:01.454-03:00</updated><title type='text'>Uma modesta proposta: astrologia no SUS</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW_VszLozT29Kchvh6ek0c46iFw6qTGu1wFhL4fw5rWZuW96StvpfGnUE1ucmL0XufVhRdIPjtOZNnt6gmIIR-uMEpOibUI1BLdyjb6VfAxloghAcGMivb3gtBaUz17EjK5kZD_sqIh1XL/s1600/AstroMan.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;640&quot; data-original-width=&quot;404&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW_VszLozT29Kchvh6ek0c46iFw6qTGu1wFhL4fw5rWZuW96StvpfGnUE1ucmL0XufVhRdIPjtOZNnt6gmIIR-uMEpOibUI1BLdyjb6VfAxloghAcGMivb3gtBaUz17EjK5kZD_sqIh1XL/s640/AstroMan.jpg&quot; width=&quot;404&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
Passando os olhos pela&lt;a href=&quot;https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-as-terapias-alternativas-adotadas-pelo-sus-sao-um-perigo-a-sua-saude-2becoc831fzva4c25hj641yb9&quot;&gt; ampla relação&lt;/a&gt; de Práticas Alternativas e Complementares (PICs) abraçadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e incluídas no &lt;a href=&quot;https://www.facebook.com/events/2143455399218886/&quot;&gt;II Workshop de PICs&lt;/a&gt; a ser realizado Centro de Práticas Esportivas da USP, o popular Cepê, deparei-me com uma curiosa omissão: a astrologia. Como um sistema integrativo que contempla ayurveda, homeopatia, medicina tradicional chinesa, antroposofia e acupuntura ignora uma das mais venerandas tradições curativas do Ocidente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para quem se escandaliza com a sugestão, afirmo que não existe nada -- absolutamente nada -- que se possa dizer a favor das PICs atualmente em uso que também não se possa afirmar, e com vantagem, sobre a arte da interpretação de cartas astrais e elaboração de horóscopos. Eu sei, até porque &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/LIVRO-ASTROLOGIA-c%C3%A9ticos-curiosos-indecisos-ebook/dp/B017BTZ6VA?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=livro+da+astrologia&amp;amp;qid=1533291140&amp;amp;sr=8-1&amp;amp;ref=sr_1_1&quot;&gt;escrevi um livro sobre o assunto&lt;/a&gt;. Senão, vejamos:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Tradição milenar&lt;/b&gt;: praticamente todas as PICs são bebês recém-nascidos se comparadas à astrologia, que remonta à antiga civilização mesopotâmica. Essas foram os caras que inventaram a linguagem escrita! Como é que poderiam estar errados?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEixo0LcRy3C9MTjsaoC7mbE44KskiKtsD7Nn_qFAOPvZhBrk33WIUK_Edy4QSVe75U-wA-YY1hEXuybs5LiLk9ZMLtdSa2kJQy13y5X671Fk46AgzNN4A0F9n5hOVw8Q1DM-4RORxcDKQMK/s1600/MacroMan.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;640&quot; data-original-width=&quot;486&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEixo0LcRy3C9MTjsaoC7mbE44KskiKtsD7Nn_qFAOPvZhBrk33WIUK_Edy4QSVe75U-wA-YY1hEXuybs5LiLk9ZMLtdSa2kJQy13y5X671Fk46AgzNN4A0F9n5hOVw8Q1DM-4RORxcDKQMK/s320/MacroMan.jpg&quot; width=&quot;243&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;b&gt;Uso estabelecido&lt;/b&gt;: toda a medicina da Idade Média e do Renascimento era baseada em interpretações astrológicas. A imagem que abre esta publicação, o &quot;homem astrológico&quot;, vem de um manual medieval e aponta as constelações que afetam as diferentes partes do corpo humano. E é muito mais bem desenhado do que as cartas de meridianos chineses que a gente vê por aí.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Gênios usavam&lt;/b&gt;: pessoal enche a boca pra falar de Rudolph Steiner,&amp;nbsp;Samuel Hahnemann ou Deepak Chopra, mas a astrologia médica foi defendida por gente como Giordano Bruno e Santo Tomás de Aquino. Nem tem comparação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Caráter holístico&lt;/b&gt;: ao contrário da perversa medicina contemporânea, que vê o ser humano como uma máquina desmontável, feita de peças que podem ser manipuladas ou substituídas, a astrologia encara o homem (e a mulher, claro) como um todo indivisível e um modelo em escala do Universo -- como esta outra ilustração astrológica, representando a relação entre o macrocosmo universal e o microcosmo humano, deixa bem claro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Energias muito, muito sutis, sutis pra caramba&lt;/b&gt;: ainda diferentemente da ciência reducionista e materialista do homem moderno, que busca limitar o humano ao material, a astrologia reconhece a existência de forças sutis que afetam o homem (e a mulher, claro) num plano para além da matéria. Uma força que emana de planetas e estrelas para guiar nossos destinos é, além disso, muito menos reducionista que o chi ou a bioenergia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Publicações acadêmicas&lt;/b&gt;: muitos defensores de PICs como a homeopatia gostam de lembrar que existem artigos acadêmicos e dados que apoiam suas propostas. Bem, a astrologia também! A prática já foi tema de artigos na &lt;i&gt;Nature &lt;/i&gt;(&lt;a href=&quot;https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00224545.1978.9924119&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.nature.com/articles/447528a&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;)&lt;i&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;e no &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00224545.1978.9924119&quot;&gt;Journal of Social Psychology&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;.&amp;nbsp;Um dos maiores psicólogos do século 20, &lt;a href=&quot;http://oaks.nvg.org/eysenck.html&quot;&gt;Hans Eysenk&lt;/a&gt;, também se debruçou sobre o tema. E o periódico &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;http://www.correlationjournal.com/&quot;&gt;Correlation&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, dedicado a publicar papers que, em sua maioria, apoiam o funcionamento da astrologia, circula há décadas no Reino Unido. A questão aqui não é a &lt;i&gt;qualidade&lt;/i&gt; das publicações, mas o mero fato de que existem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Pacientes satisfeitos&lt;/b&gt;: depoimentos de pacientes são, claro, a maior linha de defesa das PICs. Mas poucas práticas tradicionais podem apelar para um número tão grande de depoimentos de clientes satisfeitos quanto a astrologia, dos milhões de leitores de horóscopos diários da atualidade a praticamente toda a população europeia de quatrocentos a setecentos anos atrás. Se você fosse ao médico em 1300 e &amp;nbsp;saísse se sentindo melhor, é óbvio que tinha de ser por causa da perícia astrológica do doutor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pelo exposto acima, então, fica claro que não faz sentido manter a astrologia fora do SUS. Ou será que o que não faz sentido, mesmo, é manter as outras PICs lá dentro?</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3713532963305883796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/08/uma-modesta-proposta-astrologia-no-sus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3713532963305883796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3713532963305883796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/08/uma-modesta-proposta-astrologia-no-sus.html' title='Uma modesta proposta: astrologia no SUS'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW_VszLozT29Kchvh6ek0c46iFw6qTGu1wFhL4fw5rWZuW96StvpfGnUE1ucmL0XufVhRdIPjtOZNnt6gmIIR-uMEpOibUI1BLdyjb6VfAxloghAcGMivb3gtBaUz17EjK5kZD_sqIh1XL/s72-c/AstroMan.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-4625642587140487317</id><published>2018-07-20T10:19:00.002-03:00</published><updated>2018-07-20T10:55:53.608-03:00</updated><title type='text'>Epistemologias &quot;alternativas&quot; e saúde</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjWfnQviUoePoddEuyora3okWIWkAYCBvXGUT_dnmZRdMxoWSLFPU8wsXhPCjNbfzqos_W20ErDU59Lc6YfDK3jWFr3MIUOkGpTUpFDMTb-r9mLLMb_SNbccLAh2A0R506iiDuo8Tz3q_yc/s1600/clive.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;345&quot; data-original-width=&quot;500&quot; height=&quot;440&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjWfnQviUoePoddEuyora3okWIWkAYCBvXGUT_dnmZRdMxoWSLFPU8wsXhPCjNbfzqos_W20ErDU59Lc6YfDK3jWFr3MIUOkGpTUpFDMTb-r9mLLMb_SNbccLAh2A0R506iiDuo8Tz3q_yc/s640/clive.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A recente publicação, em &lt;b&gt;O Estado de S. Paulo&lt;/b&gt;, de &lt;a href=&quot;https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-sus-contra-a-ciencia,70002404535&quot;&gt;um artigo&lt;/a&gt; apontando a incoerência da introdução de práticas ditas &quot;alternativas&quot; -- isto é, carentes de base científica -- no Sistema Único de Saúde (SUS) provocou uma previsível maré de objeções, a maioria das quais, quando analisadas, acaba se enquadrando em um de três campos: &quot;ei, mas nós &lt;i&gt;temos&lt;/i&gt; base científica&quot;; &quot;terapias &lt;i&gt;com base científica&lt;/i&gt; também não são isso tudo&quot;;&amp;nbsp; &quot;&lt;i&gt;base científica&lt;/i&gt; é um critério ruim, porque se fecha a epistemologias alternativas&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da primeira objeção já tratei algumas vezes (por exemplo, &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2018/03/variedades-da-experiencia-placeba.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;&amp;nbsp;e &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2017/07/homeopatia-evidencia-e-importancia-do.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;), então vou deixá-la de lado, desta vez. Da segunda, diga-se que confunde critério &lt;i&gt;necessário&lt;/i&gt; com &lt;i&gt;suficiente&lt;/i&gt;. Não é porque nem todo mundo que tem duas pernas consegue correr os 100 metros em menos de dez segundos que ter duas pernas deixa de ser uma vantagem considerável para quem se dispõe disputar os 100 metros rasos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do mesmo modo, não é porque nem toda terapia que passa pelos testes científicos recomendados funciona bem que passar por esses testes deixa de ser um indicador precioso de quais terapias merecem ser levadas a sério (e, mais crucialmente, merecem entrar na disputa por verbas públicas escassas). E, enfim, essas questões de &lt;i&gt;suficiência&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;necessidade&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;merecimento&lt;/i&gt; me trazem ao ponto das tais epistemologias alternativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acho que já contei essa história antes, mas a primeira vez que entrevistei um professor de faculdade de Medicina que também era homeopata -- mais de 25 anos e 30 quilos atrás -- ele se queixou do &quot;imperialismo metodológico&quot; da ciência tradicional. Esse foi meu primeiro contato, ainda que indireto, com a ideia que, depois, viria a conhecer como &quot;epistemologia alternativa&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Epistemologia&quot; é o estudo da construção do conhecimento: como sabemos que sabemos aquilo que sabemos?&amp;nbsp; O ponto crucial é que os supostos efeitos benéficos de coisas como homeopatia, acupuntura, reiki e quetais tendem a desaparecer quando se realizam testes científicos; e quanto melhor a qualidade do teste, mais próximo de zero fica o efeito observado. A ideia, então, é que a &quot;epistemologia&quot; codificada nesses testes seria inadequada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É como se um jogador de futebol que sempre leva cartão vermelho, quando o árbitro da partida é honesto, chegasse à conclusão de que o problema não são suas entradas violentas, são as regras do futebol. A &quot;epistemologia&quot; dos bons árbitros impede que nosso craque brilhe, então ele parte em busca de regras alternativas que valorizem seu talento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Será que isso faz sentido? As regras do futebol são largamente arbitrárias, mas as do conhecimento científico, até onde sabemos, não. As leis da física, afinal, são as mesmas, não importa se você está jogando futebol &lt;i&gt;association&lt;/i&gt; ou rúgbi. Mas vamos ver isso um pouco mais a fundo.&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
Em termos, digamos, sociais -- quando o &quot;conhecimento&quot; em questão não é uma coisa que está só na minha cabeça, mas algo que desejo comunicar ao mundo e que, espero, vai afetar o comportamento de outros primatas da tribo -- é interessante pensar em termos de &quot;direitos epistêmicos&quot;: o que me dá o direito de &lt;i&gt;esperar que alguém leve a sério&lt;/i&gt; o que estou dizendo?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Talvez eu diga as coisas com muita convicção. Talvez eu tenha lido aquilo num livro escrito por tribos nômades do Oriente Médio, 2500 anos atrás. Talvez eu tenha lido aquilo num livro escrito por um alemão excêntrico, 200 anos atrás. Talvez minha convicção nasça de uma forte experiência pessoal. Talvez eu tenha testemunhas e seguidores fanáticos prontos para jurar que estou dizendo a verdade. Talvez eu tenha uma tradição milenar ao meu lado? Ou, talvez, apenas talvez, eu tenha os resultados de testes bem conduzidos, submetidos à crítica dos especialistas e a rigorosa análise estatística?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhuma das razões apresentadas no parágrafo acima é perfeita ou elimina de vez os riscos trazidos pela falibilidade humana. Mas apenas a última -- que exemplifica a &quot;epistemologia tradicional&quot; e o &quot;imperialismo metodológico&quot; de que alguns tanto se queixam -- &lt;i&gt;se preocupa com esses riscos e os leva em conta.&lt;/i&gt;&amp;nbsp;Todas as outras pressupõem algum tipo de infalibilidade intrínseca: seja do Livro, do Fundador, do Guru, da Massa, do Ego, da Tradição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos de saúde humana, a questão do direito epistêmico é especialmente crucial. O que &lt;i&gt;me permite afirmar a alguém que está sofrendo&lt;/i&gt; que eu sei como reduzir ou eliminar seu sofrimento? Salvar sua vida? Reduzir a dor, salvar vidas, são promessas tremendas. Não devem ser feitas sem base, em bases insuficientes ou desnecessariamente precárias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quem invoca &quot;epistemologias alternativas&quot; está fazendo exatamente isso. Numa nota final, é interessante notar que essas mesmas pessoas tendem a acusar seus críticos de arrogância e falta de ética. Como se pôr experiências particulares, e intuições pessoais e tradições paroquiais acima do melhor conhecimento científico disponível já não fosse arrogante o suficiente. Como se fazer promessas sem base, &lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/news/health/cancer-treatment-patients-acupuncture-herbal-medicine-homeopathy-death-rate-higher-a8454791.html&quot;&gt;promover desinformação que põe vidas em risco&lt;/a&gt; e consumir recursos públicos com fantasmagorias não fosse antiético.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/4625642587140487317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/07/epistemologias-alternativas-e-saude.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/4625642587140487317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/4625642587140487317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/07/epistemologias-alternativas-e-saude.html' title='Epistemologias &quot;alternativas&quot; e saúde'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjWfnQviUoePoddEuyora3okWIWkAYCBvXGUT_dnmZRdMxoWSLFPU8wsXhPCjNbfzqos_W20ErDU59Lc6YfDK3jWFr3MIUOkGpTUpFDMTb-r9mLLMb_SNbccLAh2A0R506iiDuo8Tz3q_yc/s72-c/clive.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-511184484928242991</id><published>2018-07-05T17:11:00.001-03:00</published><updated>2018-07-05T17:46:08.134-03:00</updated><title type='text'>O algoritmo na cabeça das pessoas</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTpg9FdAtxdhFmN-t95PpWK5YlSaBhuLV7pwF0drIgJ02IJsdpgiXUTbN7XkM6Yc1Z_cX5D1ZcsAJ7bJb1apqBUrwHAQSntb5zkiN8XeL0yiwIEJ33igPcJnMEf8JYLbsHR6srbyIwlQxE/s1600/Evil_Clown.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1600&quot; data-original-width=&quot;1067&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTpg9FdAtxdhFmN-t95PpWK5YlSaBhuLV7pwF0drIgJ02IJsdpgiXUTbN7XkM6Yc1Z_cX5D1ZcsAJ7bJb1apqBUrwHAQSntb5zkiN8XeL0yiwIEJ33igPcJnMEf8JYLbsHR6srbyIwlQxE/s640/Evil_Clown.jpg&quot; width=&quot;426&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
O Brasil é &lt;a href=&quot;https://www.statista.com/statistics/291540/mobile-internet-user-whatsapp/&quot;&gt;um dos cinco países que mais usa WhatsApp&lt;/a&gt;, e linchamentos motivados pela internet &lt;a href=&quot;http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2017/01/acusados-de-linchar-dona-de-casa-apos-boato-na-web-sao-condenados.html&quot;&gt;não são novidade&lt;/a&gt; por aqui, mas a imprensa nacional meio que vem ignorando a grande polêmica que cerca o aplicativo no mundo de língua inglesa -- a saber, a onda de linchamentos, na Índia, estimulada por boatos divulgados nessa rede. Jornais britânicos (&lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/news/village-lynch-five-men-india-child-kidnap-rumours-whatsapp-india-maharashtra-a8426541.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/whatsapp-india-killings-latest-update-explained-app-fake-hoax-rumours-a8428746.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; e&lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/whatsapp-latest-update-new-india-lynchings-attacks-fake-messages-a8430361.html?amp&amp;amp;__twitter_impression=true&quot;&gt; aqui&lt;/a&gt;) e americanos (&lt;a href=&quot;https://www.washingtonpost.com/world/asia_pacific/as-mob-lynchings-fueled-by-whatsapp-sweep-india-authorities-struggle-to-combat-fake-news/2018/07/02/683a1578-7bba-11e8-ac4e-421ef7165923_story.html?utm_term=.5873a50587f5&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;) vêm cobrindo o assunto com atenção. E por um bom motivo: a tragédia indiana abre um novo capítulo no debate sobre &quot;fake news&quot;, seus impactos e modos de ação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitas das notícias publicadas falam de apelos das autoridades para que a rede, de alguma forma, coíba a circulação de boatos. Isso me parece fazer tanto sentido quanto pedir para as fábricas de motocicleta que façam algo para coibir o uso desses veículos em assaltos na saída de caixas eletrônicos, ou que as operadoras de telefonia façam algo para combater os trotes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afinal, diferente do Facebook, que &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/technology/2018/jan/12/why-facebooks-news-feed-changing-how-will-affect-you&quot;&gt;aplica uma série de filtros e algoritmos&lt;/a&gt; ao conteúdo postado, e que &lt;a href=&quot;http://www.sciencemag.org/news/2015/05/facebook-keeping-you-political-bubble&quot;&gt;cria &quot;bolhas&quot; de audiência&lt;/a&gt; com fins publicitários, o WhatsApp é neutro: ele mostra o que as pessoas põem nele, na ordem em que põem, e pronto. As &quot;bolhas&quot; do Zap são as que as próprias pessoas escolhem: família, amigos, colegas de trabalho. Não há um &quot;algoritmo&quot; para culpar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ou melhor, há: o algoritmo que habita a cabeça das pessoas -- a minha, a sua, a de todo mundo. Vivemos numa era populista, em que não é de bom tom sugerir que o cidadão comum, pacato trabalhador de bem, pai (ou mãe) de família, seja algo menos do que perfeito. Se há algo errado no mundo, a responsabilidade tem de estar em outro lugar. A crise de fake news homicidas no WhatsApp, no entanto, sugere algo diverso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cérebro humano contém uma série de atalhos que nos permitem formar opiniões e tomar decisões sem precisar pensar a fundo nos assuntos sobre os quais estamos opinando ou agindo. É uma questão de eficiência: se esses atalhos, mesmo conduzindo ao erro de tempos em tempos, forem bons o suficiente -- ou, ao menos, melhores do que ficar parado ponderando os prós e contras de fugir de um estouro de manada de elefantes -- eles serão preservados ao longo da evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desses atalhos é o da conformidade: ele nos estimula a concordar com a opinião predominante no grupo humano em que estamos inseridos. Sendo o &lt;i&gt;Homo sapiens&lt;/i&gt; um animal que existe em sociedade, muito do nosso aparato mental se desenvolveu no sentido de facilitar a relação com os demais membros da espécie: você não precisa ser o melhor caçador da tribo, se for simpático o bastante para que o caçador vá com a sua cara e tope dividir a gazela.Ser membro da igreja dominante é mais vantajoso, do ponto de vista social, do que ser o ateu da aldeia -- ou o herege.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois fatores importantes na modulação da conformidade são a proximidade e a credibilidade: pessoas que, por alguma razão, sentem-se próximas -- seja por laços familiares, culturais, de classe, etc. -- tendem a confiar -- acreditar -- mais umas nas outras do que em quem está distante, e a apresentar conformidades convergentes. Traduzindo isso para o mundo da boataria de redes sociais, é mais &lt;i&gt;fácil&lt;/i&gt; e&amp;nbsp;&lt;i&gt;natural&lt;/i&gt;&amp;nbsp;levar a sério o boato que chega com a chancela do celular da sua prima do que o desmentido que vem da nota oficial do governo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só que, na ecologia das fake news, o &quot;fácil&quot; e o &quot;natural&quot; são os vetores, as armas do inimigo. Não estou dizendo que é para parar de confiar nos amigos e nos parentes -- empreste dinheiro para o seu sobrinho abrir lá a pizzaria dele, por que não? -- mas pense duas vezes antes de passar adiante o que o namorado da sua tia põe no WhatsApp da família. Não é porque a fonte &lt;i&gt;imediata&lt;/i&gt; da informação é, geralmente, confiável que a fonte &lt;i&gt;original&lt;/i&gt; também era.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estudiosos de folclore e de histerias coletivas conhecem alguns fatores que aparecem com frequência em ondas de pânico moral. Um&lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/books/2015/aug/10/richard-beck-we-believe-the-children&quot;&gt; gatilho comum é o do &quot;perigo para as crianças&quot;&lt;/a&gt;. Seja o&lt;a href=&quot;https://www.npr.org/sections/health-shots/2018/02/23/588356360/plastic-additive-bpa-not-much-of-a-threat-government-study-finds&quot;&gt; plástico da mamadeira&lt;/a&gt;, a &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2017/04/baleia-ou-barriga.html&quot;&gt;baleia azul&lt;/a&gt;, a &lt;a href=&quot;https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14681811.2015.1022893?journalCode=csed20&quot;&gt;erotização das menininhas&lt;/a&gt;&amp;nbsp;ou&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;https://www.chicagoreader.com/chicago/urban-legends-who-saw-homey-the-clown/Content?oid=923500&quot;&gt;os palhaços da van&lt;/a&gt;, há algo de visceralmente assustador nas ameaças à infância. Se a ameaça envolve sequestro -- a separação forçada dos pais -- a execução sumária dos supostos responsáveis é uma forte possibilidade. De fato, os linchamentos na Índia (e no Brasil) foram motivados dessa forma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então, se uma pessoa que você confia lhe diz que um estranho de hábitos esquisitos está de olho nos seus filhos -- bem, seguro morreu de velho, certo? Esse era o poder da &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Blood_libel&quot;&gt;calúnia de sangue&lt;/a&gt; da Idade Média, e é o poder do pânico de WhatsApp, hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É improvável que uma solução tecnológica, política ou burocrática surja para esse problema. Se houver solução possível, ela terá de passar por um processo complicado de reeducação cognitiva -- de realfabetização midiática. E afetiva: temos de nos convencer de que gostar de uma pessoa, ou respeitá-la, não nos obriga a acreditar em tudo o que ela diz.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/511184484928242991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/07/o-algoritmo-na-cabeca-as-pessoas.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/511184484928242991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/511184484928242991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/07/o-algoritmo-na-cabeca-as-pessoas.html' title='O algoritmo na cabeça das pessoas'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTpg9FdAtxdhFmN-t95PpWK5YlSaBhuLV7pwF0drIgJ02IJsdpgiXUTbN7XkM6Yc1Z_cX5D1ZcsAJ7bJb1apqBUrwHAQSntb5zkiN8XeL0yiwIEJ33igPcJnMEf8JYLbsHR6srbyIwlQxE/s72-c/Evil_Clown.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-2174022908718986547</id><published>2018-06-28T13:45:00.000-03:00</published><updated>2018-06-28T13:45:01.175-03:00</updated><title type='text'>Notícias falsas: mais complicado do que parece</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNlQBO1aMb5uYHxpbRIExJ11CeeqqAZ0HEFGo6t_choXIGK2TDoT33gghfkefqi-QvhUvBLkcL-yFmGU6kasY2cNJiDK9Gzg0U_LNJXCJLYFz6SKjM8DHQ3Ts9WVEaa4bsOHWBRMx0W40-/s1600/daily+star.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;350&quot; data-original-width=&quot;500&quot; height=&quot;448&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNlQBO1aMb5uYHxpbRIExJ11CeeqqAZ0HEFGo6t_choXIGK2TDoT33gghfkefqi-QvhUvBLkcL-yFmGU6kasY2cNJiDK9Gzg0U_LNJXCJLYFz6SKjM8DHQ3Ts9WVEaa4bsOHWBRMx0W40-/s640/daily+star.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma capacidade fantástica do ser humano é de pegar o que poderia ser um debate rico, complexo e produtivo e imediatamente reduzi-lo a meia-dúzia de clichês rasteiros. A questão das notícias falsas/fake news, por exemplo, que poderia ter dado margem a uma discussão séria sobre meios de comunicação, uso de fontes e credibilidade, virou basicamente uma estratégia de marketing da mídia corporativa -- &quot;confie em nós&quot;, dizem os jornalões, as grandes redes de TV e rádio em suas campanhas de conscientização sobre fake news -- &quot;e tudo vai ficar bem&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas aí a gente se lembra de que o Estadão &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2017/04/baleia-ou-barriga.html&quot;&gt;engoliu a lorota do Jogo da Baleia Azul&lt;/a&gt; com isca, anzol e linha; que a Folha de S. Paulo endossou &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2016/09/119-o-dia-em-que-folha-pulou-no-tubarao.html&quot;&gt;teorias de conspiração malucas&lt;/a&gt; sobre o 11 de setembro; que a CBN fez um programa &lt;a href=&quot;http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/164821/o-que-e-ayurveda-e-como-pratica-pode-ser-aliada-me.htm&quot;&gt;cantando os loas da &quot;medicina&quot; ayurvédica&lt;/a&gt;; que a febre nacional da fosfoetanolamina &lt;a href=&quot;http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/08/pesquisador-acredita-que-substancia-desenvolvida-na-usp-cura-o-cancer.html&quot;&gt;começou com uma reportagem&lt;/a&gt; de afiliada da Globo,&amp;nbsp;&amp;nbsp;e é compreensível que fiquemos desconfiados e desconsolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão torna-se ainda mais complexa porque a grande mídia corporativa não está de todo errada: jornalismo sério custa dinheiro, e a qualidade média, técnica e ética, do material produzido pelas grandes empresas do ramo é bem maior do que seus detratores, à direita e à esquerda, querem fazer crer. Para cada lorota maluca que sai sobre saúde ou ciência, há dezenas de outras matérias bem apuradas e escritas, produzidas por profissionais diligentes e conscienciosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguém poderia até me acusar de &lt;i&gt;cherry picking&lt;/i&gt; -- de ter escolhido os exemplos acima a dedo, só para causar má impressão, ocultando o bom trabalho feito, rotineiramente, pela maior parte dos jornalistas brasileiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema é que os exemplos citados são, a meu ver, sintomas de vícios &lt;i&gt;sistemáticos&lt;/i&gt; do meio jornalístico, vícios que, se não forem corrigidos, podem acabar destruindo até mesmo a credibilidade das campanhas por mais respeito à credibilidade. E me preocupa que o sequestro da questão das notícias falsas pelos departamentos de marketing tenha instaurado um senso de complacência no meio: a partir do momento em que você se vê como o herói que trava o Bom Combate, a autocrítica, um exercício nunca exatamente agradável,&amp;nbsp; deixa, de fato, de ser bem-vinda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Falei em &quot;vícios sistemáticos&quot;. Quais seriam eles? Cito quatro, que na verdade podem ser vistos como aspectos de um mesmo problema mais abrangente (e, daí, sistêmico):&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Leniência com o meramente declaratório&lt;/b&gt;: tratar como notícia não um fato apurado e confirmado, mas algo que alguém diz que é um fato. Não que declarações não possam ser, em si, notícias, mas a imprensa brasileira adotou uma postura quase letárgica diante de acusações ou alegações bombásticas feitas por autoridades, celebridades e outras figuras públicas, reproduzindo-as de modo quase automático e acrítico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Esconder-se na barra da saia da autoridade&lt;/b&gt;: quando a leniência com o declaratório leva à publicação de bobagens, em vez de reconhecer a falha do modelo, corre-se para a barra da saia da autoridade: &quot;ah, mas foi o delegado quem disse&quot;; &quot;ah, mas foi o professor quem disse&quot;; &quot;ah, mas o documento dizia&quot;; &quot;não foi o jornal que errou, reproduzimos fielmente o que o entrevistado disse&quot;. Essa manobra, ao mesmo tempo em que terceiriza a responsabilidade de checar os próprios fatos para a fonte, confere a ela credibilidade intrínseca de ter &quot;saído no jornal&quot;. Foi esse ponto cego que&lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_McCarthy&quot;&gt; lançou o senador Joseph McCarthy à fama&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Personagismo&lt;/b&gt;: todo jornalismo busca ser, em alguma medida, dramático, e nada é mais dramático que a palavra e a luta de um indivíduo. Daí, a queda do jornalismo por personagens -- o atleta, a mãe desesperada, o pai amoroso, a grande empresária. O problema é que casos individuais podem não ser representativos, e geralmente carregam uma força retórica desproporcional. O leitor que encontra uma longa entrevista com um médico que acha que vacinas são perigosas pode não obter o esclarecimento necessário a partir do parágrafo solitário que diz que os pontos de vista expressados são &quot;controversos&quot; ou &quot;não refletem a recomendação da maioria dos médicos&quot;. &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Controversismo&lt;/b&gt;: controvérsias reais -- questões que estão realmente em aberto, sobre as quais os melhores estudiosos não chegam a um acordo -- &amp;nbsp;existem, mas muitas vezes o discurso jornalístico assume a forma de &quot;esse cara diz isso, aquele cara diz aquilo, quem poderá saber quem está certo?&quot; simplesmente porque é mais fácil e menos arriscado do que levantar os fatos e reconhecer que um lado é mais certo que o outro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dado curioso é o de que os serviços de checagem de fatos geralmente atacam esses problemas, principalmente apontando erros e contradições em conteúdo declaratório. Mas essas checagens são band-aids -- cobrem feridas abertas. Por que o autor da declaração não foi contestado na matéria original? De todas as pessoas que viram a declaração errada, quantas terão acesso à coluna de checagem?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também é importante notar que os vícios que cito acima podem ser vistos como perversões de preocupações legítimas -- em evitar arrogância, em fugir de simplificações exageradas, em demonstrar relevância, em dar voz a todas as partes interessadas na questão que está sendo abordada. Mas mecanismos criados para a defesa de princípios não podem se converter em fins em si mesmos, nem se transformar em pretexto para trabalhos que podem até ser tecnicamente impecáveis mas que, no fim, passam informação falsa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este é o outro front, aparentemente esquecido, da guerra pela credibilidade jornalística e contra as &lt;i&gt;fake news.&lt;/i&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/2174022908718986547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/noticias-falsas-mais-complicado-do-que.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2174022908718986547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/2174022908718986547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/noticias-falsas-mais-complicado-do-que.html' title='Notícias falsas: mais complicado do que parece'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNlQBO1aMb5uYHxpbRIExJ11CeeqqAZ0HEFGo6t_choXIGK2TDoT33gghfkefqi-QvhUvBLkcL-yFmGU6kasY2cNJiDK9Gzg0U_LNJXCJLYFz6SKjM8DHQ3Ts9WVEaa4bsOHWBRMx0W40-/s72-c/daily+star.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-7215517995162323118</id><published>2018-06-22T09:53:00.000-03:00</published><updated>2018-06-22T11:12:03.794-03:00</updated><title type='text'>Fé, longevidade, burrificação</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhoujtTodOZRBLJMc7pt6X0hZKAqrbJ9hSaQA0qbAJLH15KAz0FhPpFCRVo-LfGl2ZwXxwAeHsRls307YNB1D0753KDHAKfLXJOGee5tsmQOozV0aSsBFDyVEr0aHV4fUW3gC9Idpwuf22g/s1600/campus.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;307&quot; data-original-width=&quot;307&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhoujtTodOZRBLJMc7pt6X0hZKAqrbJ9hSaQA0qbAJLH15KAz0FhPpFCRVo-LfGl2ZwXxwAeHsRls307YNB1D0753KDHAKfLXJOGee5tsmQOozV0aSsBFDyVEr0aHV4fUW3gC9Idpwuf22g/s640/campus.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Semana retrasada tive uma pequena maratona de eventos acadêmicos sobre divulgação científica -- aparentemente, hoje em dia não é de bom-tom, no meio universitário, realizar um seminário, sobre o que quer que seja, sem incluir pelo menos uma mesa redonda tratando do tema, o que parece indicar uma certa angústia, que precisa ser melhor explorada (e explicada). Mas, enfim: em quase todos os eventos do tipo, costuma recorrer uma questão que assume diversas formas, mas que pode ser exemplificada pelo trocadilho &quot;como simplificar sem burrificar&quot;?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro, muitas vezes a pergunta embute um quê de arrogância -- o subtexto sendo, &quot;esse negócio que eu estudo é complicado demais, a plebe ignara nunca vai entender&quot; -- mas há inúmeras situações em que a preocupação é legítima e real, principalmente quando a informação vai passar por um filtro midiático: isto é, vai ser reinterpretada &amp;nbsp;e &quot;re-embalada&quot; com base nos critérios usuais de novidade, alcance, capacidade de atrair e segurar atenção, de entreter, etc., que regem a comunicação de massa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um caso recente, e bastante didático, é o do estudo &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.baldwinmway.com/publications&quot;&gt;Does Religion Stave off the Grave? Religious Affiliation in One’s Obituary and Longevity&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, de pesquisadores da Universidade de Ohio, &amp;nbsp;que acabou caindo no jornalismo popular como &lt;a href=&quot;https://extra.globo.com/noticias/rio/pesquisa-sugere-que-quem-tem-fe-vive-mais-22796337.html&quot;&gt;Pesquisa Sugere que Quem Tem Fé Vive Mais&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O título jornalístico já começa descaracterizando o estudo: ele não diz respeito à &quot;fé&quot; individual, mas ao envolvimento em atividades religiosas. O que ele conclui é que as pessoas cuja religião é citada no obituário, no geral, morrem em idade mais avançada que as que não apresentam citação do tipo: isso significa não necessariamente que a pessoa tinha &quot;fé&quot;, mas sim que era reconhecida -- por quem fez o obituário -- como membro de uma comunidade religiosa. A tradução para o &quot;jornalistês&quot;, neste caso, representou uma simplificação que &quot;burrificou&quot; o resultado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E isso por várias razões, além da óbvia descrita acima. Uma delas é que, assim como a maioria dos trabalhos que buscam ligar religiosidade a longevidade/saúde, o estudo é capaz apenas de apontar uma correlação, e não a forma da suposta relação de causa e efeito. Os próprios autores reconhecem isso, escrevendo que &quot;é impossível desembaraçar a direção do efeito: se o envolvimento religioso aumenta a longevidade ou se pessoas saudáveis tendem a ser mais religiosas&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;Como mais de um crítico dessa modalidade de pesquisa já apontou, ser saudável é um pré-requisito para que alguém seja visto como um membro ativo e praticante de uma igreja: gente doente não está no culto, está acamada em casa, ou internada no hospital. A suspeita de que o envolvimento religioso é sintoma, e não causa, de boa disposição e saúde, na população estudada, ganha reforço em outro achado da pesquisa, que vê parte do suposto efeito positivo da religião mediado por outros fatores que dependem de corpo são, como a prática do voluntariado e envolvimento comunitário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, como um amigo apontou, há dados internacionais que vão na direção oposta dessa alegada ligação entre fé e vida longa:&lt;a href=&quot;https://www.telegraph.co.uk/travel/maps-and-graphics/most-religious-countries-in-the-world/&quot;&gt;&amp;nbsp;a maioria dos 20 países de população mais religiosa do mundo&lt;/a&gt; está entre &lt;a href=&quot;http://apps.who.int/gho/data/node.main.HALE?lang=en&quot;&gt;os de menor expectativa de vida&lt;/a&gt;. Na verdade, um excelzinho básico cruzando dados de religiosidade e expectativa de vida, numa amostra dos 40 países mais e menos religiosos do mundo, indica uma correlação negativa de 86% entre esses dois fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A versão &quot;burrificada&quot; aqui seria assumir um elo causal indo diretamente da religião para a baixa expectativa de vida, e ignorar hipóteses alternativas -- por exemplo, a de que o desespero (um país com expectativa de vida de 50 e poucos anos certamente está em situação desesperadora) empurra as pessoas para a religião. No mínimo, no entanto, o dado internacional indica que a situação detectada no estudo divulgado pode ser bem específica da realidade sócio-econômica-cultural dos Estados Unidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aliás, a descoberta mais interessante do estudo de Ohio, e que não parece ter sido muito discutida &amp;nbsp;na mídia, é a do efeito da cultura prevalente no meio para a longevidade de pessoas seculares ou religiosas. Como os autores pegaram obituários de diversas cidades dos EUA, eles aproveitaram para ver como o clima cultural de cada lugar afeta a longevidade, e viram que, nos municípios onde prevalece um clima mais aberto e liberal, &lt;i&gt;a vantagem de longevidade das pessoas religiosas desaparece&lt;/i&gt;. O efeito mais pronunciado visto foi o de que &lt;i&gt;pessoas sem religião morrem mais cedo em cidades religiosas e conservadoras&lt;/i&gt;. O que me soa um bocado sinistro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os autores apontam que esse resultado ligando a &quot;personalidade&quot; das cidades à longevidade dos diferentes grupos ainda é exploratório, e requer confirmação. </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/7215517995162323118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/fe-longevidade-burrificacao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7215517995162323118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7215517995162323118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/fe-longevidade-burrificacao.html' title='Fé, longevidade, burrificação'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhoujtTodOZRBLJMc7pt6X0hZKAqrbJ9hSaQA0qbAJLH15KAz0FhPpFCRVo-LfGl2ZwXxwAeHsRls307YNB1D0753KDHAKfLXJOGee5tsmQOozV0aSsBFDyVEr0aHV4fUW3gC9Idpwuf22g/s72-c/campus.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-8635794603778900453</id><published>2018-06-19T10:15:00.000-03:00</published><updated>2018-06-19T10:15:11.544-03:00</updated><title type='text'>As ondas da ficção científica nacional</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2rwW9LDE5Ma1xqvS0Pg6RGRhrXLam8D_w_c5ysH1z4v0k7c72ZnCTjKHT_VAruUPvNIcLqbIUGjWbwflH9i59ocGBDb4AIJ5ulwQkPZrBkVsVAadyfHD5Ai50yGh1upj3XYuIp52MLqZf/s1600/Capa+FT+2.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;575&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;228&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2rwW9LDE5Ma1xqvS0Pg6RGRhrXLam8D_w_c5ysH1z4v0k7c72ZnCTjKHT_VAruUPvNIcLqbIUGjWbwflH9i59ocGBDb4AIJ5ulwQkPZrBkVsVAadyfHD5Ai50yGh1upj3XYuIp52MLqZf/s640/Capa+FT+2.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre 1989 e 2013, mais ou menos, escrevi muita ficção científica: às vezes, chegava a produzir um conto por mês. Como, de acordo com as leis da probabilidade, quem &amp;nbsp;atira muito na direção do alvo tende a acabar acertando de vez em quando, parte desse material prestou um pouco -- o suficiente para que eu ganhasse dois Prêmios Argos e, agora, tivesse um conto incluído no livro &lt;i&gt;Fractais Tropicais -- Os Melhor da Ficção Científica Brasileira&lt;/i&gt;, organizado por Nelson de Oliveira, e que deve ser lançado no próximo semestre pela SESI Editora (estudei da 1ª à 8ª série num SESI, a propósito; fico imaginando que minhas professoras de então achariam disso).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O escopo de &lt;i&gt;Fractais Tropicais&lt;/i&gt; é, para dizer o mínimo, ambicioso: cobre 30 autores e um período de cerca de 70 anos, de Jerônymo Monteiro (o primeiro escritor brasileiro a se dedicar seriamente à produção de ficção científica, ativo a partir do final da década de 30 do século passado) a Cristina Lasaitis, jovem autora que estreou já neste século.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar alguma ordem ao conjunto, o organizador seguiu a tradicional periodização da ficção científica nacional em &quot;ondas&quot;: após o pioneirismo de Monteiro, a &quot;primeira onda&quot; se articula, nos anos 60, em torno do editor baiano Gumercindo Rocha Dórea; a segunda, nos anos 80-90, em torno de fanzines e, depois, da edição brasileira da &lt;i&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/i&gt;; e a terceira, atual, impulsionada principalmente pela Editora Draco, de Erick Santos, e pelas mídias online.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada &quot;onda&quot; representa um momento de efervescência em termos de produção e publicação, e um senso de otimismo, de que &quot;agora a coisa vai&quot; -- de que escrever ficção científica no Brasil é uma escolha estética, literária e (quiçá) comercial viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Costumo brincar que, em vez de &quot;ondas&quot;, esses períodos deveriam ser chamados de eras geológicas: porque minha impressão é de que cada nova &quot;onda&quot; surge depois que anterior foi destruída por um cataclismo, soterrada e esquecida. Cada nova que geração contempla a paisagem da ficção científica brasileira e não vê alicerces deixados por quem passou lá antes, bases sobre as quais construir, mas apenas terra arrasada ou solo virgem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso foi, certamente, verdade na transição da primeira onda para a segunda: porque não houve transição, mas um corte abrupto e um hiato. A segunda onda não deu continuidade à primeira, mas a redescobriu -- e não há continuidade clara entre elas. Entre a segunda e a terceira talvez se possa falar em transição, mas para mim não está muito claro se o que eu e meus colegas escrevemos ou escrevíamos tem algum valor, ou significa algo, para quem começou dez, vinte anos depois de nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que se deve, em parte, ao fato de que a ficção científica é um gênero midiático e de forte penetração estrangeira. Um sujeito pode resolver ser escritor porque se impressionou com Graciliano Ramos, mas provavelmente não vai resolver ser escritor &lt;i&gt;de ficção científica&lt;/i&gt; porque leu Carlos Orsi, mas sim porque leu gibis das Marvel ou assistiu a &lt;i&gt;Star Wars&lt;/i&gt;. Ou, se sua paixão pelo gênero veio mesmo pela via da literatura, ela foi quase com certeza inspirada por Philip K. Dick, Isaac Asimov ou Ursula K. Le Guin., não por Jerônymo Monteiro, Octavio Aragão ou Bráulio Tavares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E essa iniciação via autores estrangeiros tem menos a ver com qualidade (mais sobre isso depois) do que com disponibilidade: ainda é muito mais fácil, nas livrarias, encontrar textos de ficção científica traduzidos para o português do que originais lusófonos. Essa baixa disponibilidade relativa é uma das causas, e também consequência, de um efeito que atinge a ficção científica brasileira e que deixa muita gente perplexa: a &lt;i&gt;invisibilidade&lt;/i&gt;. É uma literatura que existe mas (quase) ninguém nota.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muita saliva, cerveja e cafezinho já foram gastos debatendo as causas dessa &quot;invisibilidade&quot;, mas a explicação costuma virar em torno de dois focos, o da qualidade e o da cegueira institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quem argumenta pela via da qualidade responsabiliza diretamente a produção: vocês escrevem mal, escrevem bobagem, é claro que ninguém nota. Quem argumenta pela via da cegueira institucional culpa a recepção: basicamente, o sistema literário brasileiro -- imprensa especializada, academia, grandes editoras -- não sabe o que fazer, como classificar, como vender, a ficção científica nacional; ela não cabe nos escaninhos mentais predefinidos das faculdades de Letras, dos departamentos editoriais, dos cadernos de cultura. Então, finge-se que ela &amp;nbsp;não existe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema do argumento de qualidade é que ele traz, como corolário, o pressuposto de que a literatura que se faz notar, então, é aquela que tem qualidade. O que é um evidente despropósito. Um sistema literário crítico-editorial que leva a sério os romances de Jô Soares, dedica páginas inteiras às opiniões de Paulo Coelho ou entra em raptos de êxtase diante de um &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Gimmick&quot;&gt;&lt;i&gt;gimmick&lt;/i&gt;&lt;/a&gt; tão primário quanto &quot;autoficção&quot; não tem desculpa para ignorar a produção de Tavares ou Lasaitis, para ficar em dois casos especialmente emblemáticos. &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que nos deixa com a hipótese da cegueira institucional. Trabalhos como&amp;nbsp;&lt;i&gt;Fractais Tropicais &lt;/i&gt;são tentativas de curá-la. Houve esforços anteriores, vários, mas talvez nenhum de tamanho escopo. O fato de o organizador, Nelson de Oliveira, ser um &lt;i&gt;insider&lt;/i&gt; do sistema também ajuda. Principalmente pelo pessoal da chamada Terceira Onda, espero que funcione. E que agora, realmente, a coisa vá.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/8635794603778900453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/as-ondas-da-ficcao-cientifica-nacional.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/8635794603778900453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/8635794603778900453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/as-ondas-da-ficcao-cientifica-nacional.html' title='As ondas da ficção científica nacional'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2rwW9LDE5Ma1xqvS0Pg6RGRhrXLam8D_w_c5ysH1z4v0k7c72ZnCTjKHT_VAruUPvNIcLqbIUGjWbwflH9i59ocGBDb4AIJ5ulwQkPZrBkVsVAadyfHD5Ai50yGh1upj3XYuIp52MLqZf/s72-c/Capa+FT+2.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-1379205795091025113</id><published>2018-06-14T08:41:00.000-03:00</published><updated>2018-06-14T08:41:02.691-03:00</updated><title type='text'>Mundo e Copa em banho-maria</title><content type='html'>Os mesmos jornais que, no início da semana, noticiavam que a população brasileira estava cagando e andando para a Copa do Mundo da Rússia, hoje não falam de outra coisa -- a ponto de não ter sobrado espaço, nas capas da &lt;i&gt;Folha&lt;/i&gt; e do &lt;i&gt;Estado&lt;/i&gt;, para a verdadeira notícia mais importante da semana: a aceleração do degelo antártico e sua dramática contribuição para a elevação do nível dos mares. O efeito acumulado nas últimas décadas aparece no gráfico abaixo, publicado pela revista &lt;i&gt;Nature&lt;/i&gt;, periódico que nesta semana traz uma série de artigos sobre o estado da Antártida:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpyAhRFE_538t6weKslXgtpwYepq-sX0yquxwIOdtdo-uY9Fk2GbeF4Gn4muiSoncN7qyczsIqp_flGuudg59EG_8JvouqKWpYIxptN9YoLxKEVs4D13Dj8Z_HyfNDvAIGlOgC52ula5UN/s1600/ANTARTIC.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;456&quot; data-original-width=&quot;832&quot; height=&quot;350&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpyAhRFE_538t6weKslXgtpwYepq-sX0yquxwIOdtdo-uY9Fk2GbeF4Gn4muiSoncN7qyczsIqp_flGuudg59EG_8JvouqKWpYIxptN9YoLxKEVs4D13Dj8Z_HyfNDvAIGlOgC52ula5UN/s640/ANTARTIC.png&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Brasil, especialmente a costa brasileira, é bastante sensível ao que acontece na Antártida Ocidental (a parte esquerda do mapa acima). A ponta de terra mais proeminente ali, a Península Antártica, quase encosta na América do Sul, e era por ali que ficava a base brasileira Comandante Ferraz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A&lt;i&gt; Folha de São Paulo&lt;/i&gt;, que publicou recentemente &lt;a href=&quot;https://arte.folha.uol.com.br/ciencia/2018/crise-do-clima/litoral-paulista/no-litoral-de-sp-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-buscam-protecao-contra-ressacas-mais-frequentes/&quot;&gt;boas reportagens&lt;/a&gt; sobre o impacto do aumento do nível do mar no litoral paulista, perdeu a oportunidade de explorar o nexo entre o que dizem os estudos na &lt;i&gt;Nature&lt;/i&gt; e o que seus repórteres viram nas praias do Estado, limitando-se a reproduzir um texto do &lt;i&gt;New York Times&lt;/i&gt; sobre o degelo antártico. Porque, né, povo tá ocupado com a Copa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Estritamente falando, talvez o derretimento atual da Antártida tenha pouco, ou nada, a ver com a presente crise de erosão no litoral -- a expansão da água do mar por causa das temperaturas elevadas, e a maior disponibilidade de energia nos oceanos, talvez esteja mais relacionada ao problema, agora, do que a perda de gelo antártico, mas seria legal alguém contar isso pra gente, né não?)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYiCTGc1VuqU7ITUNWJoOyu3kV4BOLMC5H-5CG-ZYYiJqy0suaGuzsNUIPTi8ZwTkrHZTE1iqFzkNOOzQF0HS5BdHxs-B9EDOF_y8M2i0pi8c01yowxs64TalqbF57N2rPzxVKU3MWKknH/s1600/15_creditIanJoughinYES-1024x680.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;680&quot; data-original-width=&quot;1024&quot; height=&quot;424&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYiCTGc1VuqU7ITUNWJoOyu3kV4BOLMC5H-5CG-ZYYiJqy0suaGuzsNUIPTi8ZwTkrHZTE1iqFzkNOOzQF0HS5BdHxs-B9EDOF_y8M2i0pi8c01yowxs64TalqbF57N2rPzxVKU3MWKknH/s640/15_creditIanJoughinYES-1024x680.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aos números: de acordo com dados de satélite, de 1992 a 2017, a taxa de derretimento da massa de gelo que recobre a Antártida Ocidental subiu de 53 bilhões de toneladas ao ano para 159 bilhões, um aumento de três vezes. Só na Península Antártica, essa elevação foi de 7 bilhões ton./ano para 33 bilhões ton./ano. Isso, meninos e meninas, é quase cinco vezes mais. O impacto disso no nível médios global dos oceanos foi de uma elevação de 8 milímetros. A Antártida contém gelo suficiente para causar uma alta de quase 60 metros no nível dos mares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Infelizmente, parecemos estar a caminho de uma perda substancial da massa de gelo nas próximas décadas, com consequências de longo prazo para elevação do nível do mar&quot;, disse, em nota, o glaciologista britânico Martin Siegert, do Imperial College London. &quot;Se não estávamos ainda atentos aos perigos trazidos pela mudança climática, este deve ser um enorme sinal de alerta. A menos que reduzamos nossas emissões de CO2 na próxima década, e atinjamos uma economia de zero carbono nas próximas poucas décadas, estaremos amarrados a mudanças globais substantivas&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Siegert é coautor de de outro artigo na mesma edição da&amp;nbsp;&lt;i&gt;Nature, &lt;/i&gt;em que&amp;nbsp;projeta cenários para o estado da Antártida em 2070 com base em dois diferentes pontos de partida -- a humanidade toma juízo, ou não. No cenário &quot;sem juízo&quot;, a perda do gelo, que hoje descansa sobre o continente antártico, para o mar passa de 20%, gerando custos globais da ordem de trilhões de dólares.O colapso ecológico no continente, causado por fatores como o maior acesso de espécies invasoras e mudanças na química das águas, é trágico: esqueça os pinguins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no cenário &quot;com juízo&quot;, &amp;nbsp;a perda da massa de gelo fica em &quot;apenas&quot; 12%, gerando uma contribuição para a elevação do nível do mar de 6 centímetros (ante cerca de meio metro no cenário anterior). Nesta versão, ainda é possível que tenhamos pinguins no fim do século.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outra notícia relevante que o pessoal estava ocupado demais comentando a Copa que ainda nem começou para dar, os Estados Unidos registraram &lt;a href=&quot;https://www.washingtonpost.com/amphtml/news/capital-weather-gang/wp/2018/06/12/the-u-s-just-observed-its-warmest-3-4-and-5-year-spans-on-record/?utm_term=.dc389acb7da1&amp;amp;__twitter_impression=true&amp;amp;noredirect=on&quot;&gt;uma série de novos recordes de calor&lt;/a&gt;. Segundo a NOAA, o último quinquênio -- período de cinco anos -- foi o mais quente da série histórica para 48 dos 50 Estados da União.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/1379205795091025113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/mundo-e-copa-em-banho-maria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1379205795091025113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1379205795091025113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/06/mundo-e-copa-em-banho-maria.html' title='Mundo e Copa em banho-maria'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpyAhRFE_538t6weKslXgtpwYepq-sX0yquxwIOdtdo-uY9Fk2GbeF4Gn4muiSoncN7qyczsIqp_flGuudg59EG_8JvouqKWpYIxptN9YoLxKEVs4D13Dj8Z_HyfNDvAIGlOgC52ula5UN/s72-c/ANTARTIC.png" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-7188205046909362813</id><published>2018-05-28T13:32:00.003-03:00</published><updated>2018-05-28T13:32:55.867-03:00</updated><title type='text'>Aniversário da Ciência?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj37OzHdVHZuAX1tvagxUQ8t0bUZikosQFMzNLj1HEPk5kBNP6LISARuRW9U4zdNXLK8I14dxY6HSFdrXBymjshLOKB8WnsiETIPYcDoZGQ2vym-YknO1RM8DBjqFnNLGcq0JGiZS0hTGc8/s1600/eclipse.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;554&quot; data-original-width=&quot;985&quot; height=&quot;358&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj37OzHdVHZuAX1tvagxUQ8t0bUZikosQFMzNLj1HEPk5kBNP6LISARuRW9U4zdNXLK8I14dxY6HSFdrXBymjshLOKB8WnsiETIPYcDoZGQ2vym-YknO1RM8DBjqFnNLGcq0JGiZS0hTGc8/s640/eclipse.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dizem que Isaac Asimov certa vez disse (não consegui confirmar isso nas fontes primárias) que o dia 28 de maio deveria ser celebrado como o Aniversário da Ciência. Isso porque, segundo algumas fontes do mundo antigo (Heródoto é o mais citado, mas também há &lt;a href=&quot;http://adsbit.harvard.edu/cgi-bin/nph-iarticle_query?1994JHA....25..275P&amp;amp;defaultprint=YES&amp;amp;filetype=.pdf&quot;&gt;Diógenes Laércio&lt;/a&gt; e outros), este dia marca a dramática confirmação da primeira &quot;previsão científica&quot; &amp;nbsp;registrada na história: a de um eclipse solar, ocorrido em 28 de maio de 585 AEC e que teria sido previsto por Tales de Mileto. Tales (624-546 AEC) é muitas vezes citado como o &quot;primeiro cientista&quot;, por ter proposto explicações para fenômenos naturais sem apelar para a linguagem da religião e do mito -- usando apenas a natureza para falar da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, no entanto, diversas razões para duvidar de que a previsão do eclipse por Tales tenha mesmo ocorrido -- e, se ocorreu, que tenha sido realmente baseada em algo semelhante a princípios científicos, e não pura sorte. Se sorte foi mesmo o caso, Tales, além de primeiro cientista, também foi a primeira vítima de um Erro Tipo I, ou falso positivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há um bom apanhado do argumento cético a respeito &lt;a href=&quot;http://www.jstor.org/stable/284125?read-now=1&amp;amp;loggedin=true&amp;amp;seq=9#page_scan_tab_contents&quot;&gt;neste artigo&lt;/a&gt;, mas resumindo: as pessoas só se deram conta de que eclipses solares são causados pela sombra da Lua séculos depois de Tales ter vivido, e a hipótese de que ele teria deduzido uma espécie de ritmo dos eclipses a partir do estudo de anotações astrológicas da Babilônia força bem a barra. Além disso, Heródoto diz que Tales previu &lt;i&gt;o ano&lt;/i&gt; do eclipse -- o que não faz muito sentido: qualquer método razoável para prever eclipses fornece a data completa, ou pelo menos uma aproximação bem melhor do que uma faixa de 365 dias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Defensores da realidade da previsão apontam que diversos autores antigos citam esse feito de Tales, incluindo um discípulo de Aristóteles, e que não era assim tão pouco plausível que o filósofo tivesse acesso a registros que lhe permitissem pressupor uma certa periodicidade na ocorrência de eclipses, ainda que com margens de erro enormes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também se especula que talvez o eclipse previsto por Tales fosse outro, não o de 28 de maio de 585 AEC. Este foi um eclipse que ficou famoso por ter interrompido uma guerra na Ásia Menor. Não é impossível que as memórias dos dois eclipses históricos, o que acabou com a guerra e o que confirmou a sabedoria de Tales, tenham se fundido numa lembrança comum, à medida que as narrativas eram repassadas à frente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fim, a história do Aniversário da Ciência ganha mais contornos de mito do que de ciência, situação que não deixa de conter uma curiosa ironia. Mas mitos são valiosos, especialmente quando não os levamos ao pé da letra e nos concentramos em seu caráter simbólico: e este símbolo -- o homem postado na aurora do conhecimento, tentando explicar e prever a natureza com as palavras e os meios da natureza -- continua tão poderoso hoje quanto era há quase 3 mil anos.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/7188205046909362813/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/aniversario-da-ciencia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7188205046909362813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/7188205046909362813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/aniversario-da-ciencia.html' title='Aniversário da Ciência?'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj37OzHdVHZuAX1tvagxUQ8t0bUZikosQFMzNLj1HEPk5kBNP6LISARuRW9U4zdNXLK8I14dxY6HSFdrXBymjshLOKB8WnsiETIPYcDoZGQ2vym-YknO1RM8DBjqFnNLGcq0JGiZS0hTGc8/s72-c/eclipse.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-6872636566988562630</id><published>2018-05-22T08:19:00.001-03:00</published><updated>2018-05-22T08:19:16.264-03:00</updated><title type='text'>Cuba cura câncer?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBe3OBjwSdO1ZJfchHXNDMNUFebeIYhFGlO8qeY8l_w29hs6oY6uvfXYskYykzjmqSihyYTaSgASlUD_FX8-OsavJsfmt8WR8P61PT9c1vcsxOmXhnv6MSHmJ_UV9FX232O3_DaWKAA3Q6/s1600/Cigars25.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;672&quot; data-original-width=&quot;962&quot; height=&quot;446&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBe3OBjwSdO1ZJfchHXNDMNUFebeIYhFGlO8qeY8l_w29hs6oY6uvfXYskYykzjmqSihyYTaSgASlUD_FX8-OsavJsfmt8WR8P61PT9c1vcsxOmXhnv6MSHmJ_UV9FX232O3_DaWKAA3Q6/s640/Cigars25.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pior tipo de &lt;i&gt;fake news&lt;/i&gt; não é a que mente de modo descarado, mas a que usa um base verdadeira como pedra angular para um castelo de falsidades. A mentira pura e simples pode ser pura e simplesmente negada; o edifício fajuto erguido sobre a base verdadeira requer cuidado especial, já que qualquer tentativa de demoli-lo às pressas torna a pessoa que tenta produzir o esclarecimento vulnerável à acusação de estar negando uma verdade -- aquela, pequenininha, ali no alicerce.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caso em tela: um amigo me envia, pelo Facebook, link para um texto online que afirma que Cuba tem uma vacina milagrosa que cura câncer de pulmão, que já beneficiou milhares de pessoas, mas que &lt;i&gt;a maligna indústria farmacêutica capitalista não quer que você saiba disso&lt;/i&gt;. É o típico caso de alegação que aperta todos os botões emocionais certos: para o ideólogo de direita é, &lt;i&gt;obviamente&lt;/i&gt;, uma mentira comunista; para o de esquerda, é, &lt;i&gt;obviamente&lt;/i&gt;, uma prova da cupidez capitalista, da ineficiência do mercado, um claro triunfo &lt;i&gt;de la revolución&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meio à festa ideológica, a verdade, claro, é só um detalhe. Mas enfim: qual a verdade?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A verdade é que o Centro de Imunologia Molecular (CIM) de Havana, Cuba, realmente desenvolveu uma forma de imunoterapia -- uma terapia que funciona recrutando o sistema imunológico: daí o nome &quot;vacina&quot;, porque é assim que as vacinas comuns funcionam -- e que parece ser útil para o tratamento de um tipo específico de câncer de pulmão. Ênfase no &lt;i&gt;parece&lt;/i&gt;. Não é verdade que &quot;milhares de pessoas&quot; já foram curadas pelo tratamento. Milhares de pessoas -- de quatro a cinco mil -- foram &lt;i&gt;submetidas&lt;/i&gt; a ele, o que é uma grande diferença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das coisas mais difíceis do mundo é determinar se algo faz bem ou mal para a saúde humana. A gente muitas vezes não nota essa dificuldade, porque estamos acostumados a pensar em casos extremos, onde o efeito é grande, óbvio e imediato, como ser atropelado ou tomar uma garrafa de veneno (faz mal) ou dar vitamina C pra alguém com escorbuto (faz bem).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema é que a maioria &amp;nbsp;dos produtos, substâncias, procedimentos, etc., tem efeitos muito menores, que se confundem facilmente com o &quot;ruído de fundo&quot;: estou me sentindo mais bem disposto hoje porque tomei um multivitamínico, ou porque está um dia lindo e fui pedalando para o trabalho? Ou só porque está um dia lindo? Ou porque o multivitamínico me trouxe conforto emocional (e portanto qualquer outra pílula colorida teria tido o mesmo efeito)? As endorfinas do exercício proporcionado pela bicicleta têm algo a ver com isso?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim. Para separar o efeito específico do ruído de fundo (e, até mesmo, determinar se existe mesmo algum efeito específico) a humanidade criou o triunfo lógico-empírico-filosófico conhecido como &lt;a href=&quot;http://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/find-a-clinical-trial/what-clinical-trials-are/phases-of-clinical-trials&quot;&gt;teste clínico&lt;/a&gt;. E a vacina do CIM está agora começando a passar por esses testes,&lt;a href=&quot;http://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/find-a-clinical-trial/what-clinical-trials-are/phases-of-clinical-trials&quot;&gt; nos Estados Unidos, em parceria com uma empresa americana&lt;/a&gt;. Pois é, os capitalistas escrotos malditos que querem ficar ricos às custas da dor e do sofrimento da humanidade estão colaborando com os comunistas cubanos escrotos que querem escravizar o mundo livre, e juntos vêm fazendo estudos científicos para ver se a vacina é boa mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Testes prévios já foram realizados em Cuba, mas os resultados, embora interessantes, não indicam a descoberta de uma cura mágica: &lt;a href=&quot;https://www.pbs.org/newshour/show/cuban-lung-cancer-drug-giving-u-s-patients-hope&quot;&gt;há informação&lt;/a&gt; de que o ganho em termos de tempo de vida é pequeno -- meses -- e de que 20% dos pacientes vacinados não viveram mais do que os dos grupos de controle. Também há a possibilidade de que o câncer acabe se adaptando à vacina, o que a tornaria inútil no longo prazo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas todas essas são questões que precisam ser respondidas com ciência, não ideologia -- e muito menos com alarmismo paranoico ou promessas milagrosas.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/6872636566988562630/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/cuba-cura-cancer.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6872636566988562630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6872636566988562630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/cuba-cura-cancer.html' title='Cuba cura câncer?'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBe3OBjwSdO1ZJfchHXNDMNUFebeIYhFGlO8qeY8l_w29hs6oY6uvfXYskYykzjmqSihyYTaSgASlUD_FX8-OsavJsfmt8WR8P61PT9c1vcsxOmXhnv6MSHmJ_UV9FX232O3_DaWKAA3Q6/s72-c/Cigars25.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-1776027748920188984</id><published>2018-05-17T11:27:00.000-03:00</published><updated>2018-05-17T11:27:05.010-03:00</updated><title type='text'>Jornada dupla no Pint of Science! </title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg14W2JH7sTdmQDR3sC1OX-j_n-lcUzNWE8Etc_aWK0qj68PSldzyx-0t9anElLJHl6riV_GVs9pCAbC-kcPudW3TlorVg-cegqGQDi8buVxIjeJ70SIGPL5Zo8x1oiOy8Uy484E36-3fGW/s1600/PINT_IMG_1599.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;480&quot; data-original-width=&quot;640&quot; height=&quot;480&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg14W2JH7sTdmQDR3sC1OX-j_n-lcUzNWE8Etc_aWK0qj68PSldzyx-0t9anElLJHl6riV_GVs9pCAbC-kcPudW3TlorVg-cegqGQDi8buVxIjeJ70SIGPL5Zo8x1oiOy8Uy484E36-3fGW/s640/PINT_IMG_1599.JPG&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ano, participei duas vezes do festival&lt;a href=&quot;https://pintofscience.com.br/&quot;&gt; Pint of Science&lt;/a&gt;, em Campinas e São Paulo, falando no interior sobre &lt;i&gt;fake news&lt;/i&gt; e, na capital, sobre&lt;i&gt; fale news&lt;/i&gt; e jornalismo de saúde (esta última participação apareceu de última hora). Esses eventos ao vivo sempre me deixam com a impressão de que fui menos claro e coerente do que deveria, em parte porque certamente me comunico melhor por escrito, em parte porque provavelmente sou mesmo meio incoerente e obscuro, ainda mais com três chopes na cabeça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então, para quem assistiu e talvez tenha ficado curioso, já discorri mais longamente (e, espero, com maior propriedade e coerência) sobre os assuntos de que falei no &lt;i&gt;Pint&lt;/i&gt; nestes textos, sobre notícias falsas (&lt;a href=&quot;http://www.comciencia.br/noticia-falsa-e-inadequacao-das-midias-em-lidar-com-ela-nao-sao-novidade-novidade-e-saturacao-de-fake-news/&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com/2018/03/noticias-falsas-culpa-sua-nao-do-robo.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;&amp;nbsp;e &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=UA5ooCt9kp8&quot;&gt;neste vídeo&lt;/a&gt;) e cobertura de saúde (&lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com.br/2018/05/faz-sentido-noticiar-pesquisa-pre.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com.br/2017/11/trevas-no-coracao-do-jornalismo-de-bem.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; e, de modo indireto, &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com.br/2018/04/fosfo-terapias-alternativas-e-maldicao.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;). Felizmente, minhas duas participações no festival não foram solo, e os colegas Angela Pimenta (em Campinas) e &amp;nbsp;Ruth Helena Bellinghini,&amp;nbsp;Álvaro Pereira Júnior e Lúcia Helena de Oliveira (em São Paulo) seguraram a onda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um assunto de que tratamos ao final do evento em São Paulo foi a questão do &quot;outro lado&quot; no jornalismo de ciência/saúde. Como a note já estava chegando ao fim, não deu para ir muito fundo no tema, e por causa disso eu gostaria de sistematizar alguma coisa a respeito. O instituto de &quot;outro lado&quot; -- a busca pela opinião discordante ou divergente, quase uma cláusula pétrea da ética jornalística -- traz vantagens e riscos para o jornalismo em geral, e o científico, em particular. Queria terminar isto aqui propondo a seguinte lista:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vantagens:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Humildade:&lt;/b&gt; o repórter pode ter certeza absoluta de que está na linha certa, de que tem todos os fatos, de que o eixo narrativo da matéria é esse... até que uma conversa com uma fonte dissonante vira tudo de ponta cabeça. Pode acontecer, acontece e sem a busca pelo &quot;outro lado&quot; dificilmente aconteceria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Cortesia:&lt;/b&gt; se a matéria está caminhando no sentido de deixar alguém em situação embaraçosa, é educado ouvir o que a pessoa tem a dizer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Completude:&lt;/b&gt; dificilmente se consegue uma história bem amarrada, sem pontas soltas ou indefinições desnecessárias, sem a voz de todos os (ou do maior número possível dos) envolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Credibilidade:&lt;/b&gt; é mais fácil o público levar a sério uma narrativa em que todas as partes envolvidas têm a oportunidade se manifestar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Riscos:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Falsa equivalência:&lt;/b&gt;&amp;nbsp;um relatório do&lt;a href=&quot;http://www.ipcc.ch/&quot;&gt; IPCC&lt;/a&gt; ou uma &lt;a href=&quot;http://www.cochranelibrary.com/cochrane-database-of-systematic-reviews/&quot;&gt;revisão Cochrane&lt;/a&gt;&amp;nbsp;têm mais credibilidade do que a opinião de um professor isolado ou de um instituto de fundo de quintal. A aplicação burocrática do princípio do &quot;outro lado&quot; traz o risco de não deixar isso claro. No caso da ciência, isso é ainda mais grave porque, em geral, a opinião que merece mais peso surge por meio de vozes institucionais (estudos, relatórios), enquanto que as dissidências são... pessoas. E a palavra de uma &quot;face humana&quot; sempre soa mais simpática ao leitor/espectador do que a voz impessoal de um órgão oficial qualquer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Falsa controvérsia:&lt;/b&gt; existe uma ampla literatura (começando por &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Merchants-Doubt-Handful-Scientists-Obscured/dp/1608193942&quot;&gt;&lt;i&gt;Merchants of Doubt&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, mas indo além) sobre as estratégias de relações públicas de defensores do indefensável, em criar a aparência de dúvida ou controvérsia científica onde nenhuma existe: transformar um simulacro de controvérsia científica em uma controvérsia social real. A relação entre tabaco e câncer foi o caso mais famoso, mas há outros, como o &quot;debate&quot; evolução/criação. A busca mecânica pelo &quot;outro lado&quot; muitas vezes faz com que o jornalista se torne, inadvertidamente, cúmplice desse processo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Lavar as mãos:&lt;/b&gt; &amp;nbsp;é relativamente simples construir uma narrativa na base do &quot;ele disse, ela disse&quot; e deixar por isso o mesmo -- o leitor, atarantado e a ver navios, que decida quem tem a melhor versão dos fatos, &quot;ele&quot; ou &quot;ela&quot;. Às vezes isso pode ser até inevitável, mas &quot;ouvir o outro lado&quot; não deveria substituir o trabalho de investigação e o dever de apresentar a melhor versão da verdade disponível até a hora do fechamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Ponto cego:&lt;/b&gt;&amp;nbsp; este é, de certa forma, o inverso do risco da &quot;falsa controvérsia&quot;, quando se presume que um assunto, na verdade altamente duvidoso, não requer contestação. De &quot;milagres&quot; reconhecidos pelo Vaticano à mais recente &quot;cura da celulite&quot;, a relação é imensa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todo jornalista, no fim, tem um &quot;outroladômetro&quot; que o ajuda a intuir quando é útil ou necessário procurar a divergência. Ninguém sai por aí ouvindo terraplanistas cada vez que a Nasa lança um foguete, e ninguém (espero) divulgaria um estudo dizendo que goiabada-cascão cura câncer, sem pedir a um pesquisador independente que avaliasse o trabalho antes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O princípio de ouvir todas as partes legítimas envolvidas numa controvérsia real é sólido, mas em ciência, especialmente, a tarefa de detectar quais as partes legítimas e quais as controvérsias reais pode desafiar a intuição fundada no senso-comum.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/1776027748920188984/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/jornada-dupla-no-pint-of-science.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1776027748920188984'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/1776027748920188984'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/jornada-dupla-no-pint-of-science.html' title='Jornada dupla no Pint of Science! '/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg14W2JH7sTdmQDR3sC1OX-j_n-lcUzNWE8Etc_aWK0qj68PSldzyx-0t9anElLJHl6riV_GVs9pCAbC-kcPudW3TlorVg-cegqGQDi8buVxIjeJ70SIGPL5Zo8x1oiOy8Uy484E36-3fGW/s72-c/PINT_IMG_1599.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-6593647101313116320</id><published>2018-05-11T14:02:00.001-03:00</published><updated>2018-05-11T14:02:35.195-03:00</updated><title type='text'>Faz sentido noticiar pesquisa pré-clínica?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhLFLvkJ21VFORM-UStNKijw4lm6KQZ8GEZuU6_bauSOZQpBZGhwCkr6eKKQoWuUZuiLmLrCJp3JFMYAOdC9kw2Hh0WAFNStnwJfQtN36PS7HoLt5D7Ua4C_JbUM1MJCfRT46jRUqRxo-7H/s1600/printnews.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;900&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;360&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhLFLvkJ21VFORM-UStNKijw4lm6KQZ8GEZuU6_bauSOZQpBZGhwCkr6eKKQoWuUZuiLmLrCJp3JFMYAOdC9kw2Hh0WAFNStnwJfQtN36PS7HoLt5D7Ua4C_JbUM1MJCfRT46jRUqRxo-7H/s640/printnews.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há mais ou menos um mês, assisti em São Paulo a uma apresentação do pesquisador Samuel Cohen, do Centro Médico da Universidade de Nebraska, sobre a crise de reprodutibilidade nas ciências. O que isso quer dizer?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ideia é que, se a ciência se pretende produtora de conhecimento com validade universal -- e, por isso, tem em seus métodos uma forma de acesso ao conhecimento superior às alternativas (revelação divina, interpretação de sonhos, tradição familiar, etc) -- então seus resultados têm de ser &lt;i&gt;reprodutíveis&lt;/i&gt;: a mesma equação que descreve a trajetória de uma maçã jogada para o alto aqui deve descrever a trajetória de uma maçã jogada para o alto na China. As leis da termodinâmica que regem o motor do meu carro (se eu tivesse um carro) regem o motor do jipe lunar. &amp;nbsp;E assim por diante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Falei em motores. Além de seu papel epistemológico, a reprodutibilidade é, no fim, a grande fiadora da tecnologia. Se os resultados da física quântica, por mais malucos que sejam, não fossem reprodutíveis, o monitor em que você está lendo este artigo não funcionaria. A própria civilização industrial só é possível porque os mesmos princípios científicos, aplicados da mesma forma, produzem os mesmos resultados. Então, &lt;i&gt;voilà&lt;/i&gt;: produção em massa. &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro, à medida que o objeto de estudo vai se tornando mais complexo, a reprodutibilidade vai ficando cada vez mais dependente do contexto. Um remédio para pressão arterial que funciona na maioria dos casos pode não funcionar para mim (esta é uma triste verdade, aliás).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda assim, o princípio geral não muda: dentro de um contexto e sob condições adequadamente especificadas, todo resultado científico deve ser reprodutível. Se eu digo que uma droga para hipertensão funciona para pacientes homens obesos que a tomam em jejum e de ponta cabeça, então todo obeso do sexo masculino de ponta cabeça e barriga vazia deve se beneficiar dela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bom, o professor Cohen falou em &quot;crise de reprodutibilidade&quot;. O que ele queria dizer? Sua apresentação coligiu dados de uma série de fontes (&lt;a href=&quot;https://www.nature.com/articles/nrd3439-c1&quot;&gt;esta aqui,&lt;/a&gt; por exemplo) para apontar a seguinte conclusão: de 50% a 70% dos resultados positivos publicados de testes pré-clínicos -- aqueles realizados em células ou animais de laboratório -- são irreprodutíveis. Em português claro, são &lt;i&gt;inúteis&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele menciona ainda um artigo de opinião publicado na &lt;i&gt;Lancet&lt;/i&gt; em 2009 que concluía que 85% dos recursos aplicados em pesquisa pré-clinica acabam em &lt;a href=&quot;https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(09)60329-9/fulltext&quot;&gt;&quot;desperdício&quot;&lt;/a&gt;, por conta de &lt;a href=&quot;https://blogs.bmj.com/bmj/2016/01/14/paul-glasziou-and-iain-chalmers-is-85-of-health-research-really-wasted/&quot;&gt;vícios no processo&lt;/a&gt; de planejamento, execução e publicação dos estudos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cohen faz a importante ressalva de que os testes clínicos -- realizados em seres humanos, e que são o último estágio para a aprovação de uma droga ou tratamento -- são muito mais confiáveis do que isso, já que obedecem a padrões de qualidade bem mais estritos e sofrem pesada supervisão. Também custam muito mais. O problema não é que o tratamento aprovado, aquele que sai pela abertura menor do funil, não merece confiança: é que a boca de entrada do funil é grande demais e aceita muito do que que não devia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já escrevi em outras oportunidades sobre a questão da armadilha dos falsos positivos na pesquisa científica, então me limito a deixar um link &lt;a href=&quot;https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/carlos-orsi/midia-marketing-e-avalanche-de-testes-cientificos-falsos-positivos&quot;&gt;para um dos meus artigos mais completos&lt;/a&gt; sobre o assunto. Também já tratei desse &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com.br/2018/04/fosfo-terapias-alternativas-e-maldicao.html&quot;&gt;problema da ciência frente às pseudociências&lt;/a&gt;, em outro texto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que eu queria mesmo levantar nesta postagem diz respeito à responsabilidade dos jornalistas de ciência nesse contexto: afinal, vale a pena produzir matérias sobre resultados pré-clínicos? Dizer a nossos leitores/espectadores/ouvintes que a substância A ou B cura (ou causa) câncer (digamos) em camundongos realmente significa algo, ou estamos apenas preenchendo espaço vazio com conversa fiada, excitando medos ou esperanças falsos? Esse tipo de comunicação pode ter grandes efeitos de longo prazo, como a paranoia em torno de &lt;a href=&quot;https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3109/07388551.2015.1130684?journalCode=ibty20&quot;&gt;transgênicos&lt;/a&gt; ou do &lt;a href=&quot;http://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/causes-of-cancer/cancer-controversies/plastic-bottles-and-cling-film&quot;&gt;bisfenol A&lt;/a&gt;, por exemplo, comprova.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Faz muito tempo que não tenho mais a responsabilidade de decidir o que sai ou não sai em algum órgão de imprensa, mas me parece que já passou da hora de a profissão voltar a exercitar com mais afinco uma prerrogativa fundamental que ficou meio de lado desde a popularização da internet, com seu espaço infinito e seu gosto por &lt;i&gt;hype&lt;/i&gt;: a de decidir não publicar.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/6593647101313116320/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/faz-sentido-noticiar-pesquisa-pre.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6593647101313116320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/6593647101313116320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/faz-sentido-noticiar-pesquisa-pre.html' title='Faz sentido noticiar pesquisa pré-clínica?'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhLFLvkJ21VFORM-UStNKijw4lm6KQZ8GEZuU6_bauSOZQpBZGhwCkr6eKKQoWuUZuiLmLrCJp3JFMYAOdC9kw2Hh0WAFNStnwJfQtN36PS7HoLt5D7Ua4C_JbUM1MJCfRT46jRUqRxo-7H/s72-c/printnews.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-531177339504186120</id><published>2018-05-09T11:26:00.003-03:00</published><updated>2018-05-09T11:26:58.969-03:00</updated><title type='text'>Capas reveladas!</title><content type='html'>Depois de um primeiro semestre em que contos meus foram publicados duas vezes em revistas no exterior -- em janeiro na &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Mystery-Weekly-Magazine-January-English-ebook/dp/B078PHHMGP&quot;&gt;&lt;i&gt;Mystery Weekly&lt;/i&gt; &lt;/a&gt;e agora, em maio, na &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;http://www.elleryqueenmysterymagazine.com/&quot;&gt;Ellery Queen&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; -- a segunda metade do ano, aparentemente, será dos livros. Nas últimas semanas foram reveladas as capas de duas antologias de que participo, e as datas previstas de publicação: agosto e setembro deste ano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seguindo a ordem cronológica, então, começamos pela edição internacional de &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.amazon.com/dp/B07CYLVQT4/ref=sr_1_3?s=digital-text&amp;amp;ie=UTF8&amp;amp;qid=1525872875&amp;amp;sr=1-3&amp;amp;keywords=solarpunk&quot;&gt;Solapunk&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVWwz5cCJrC1auvYV1aYUt35dhTIYtqx1CzwqcEdXTTd7ECv_JJsH78_wc_gIurppODTZnpImlLYiUTsGNmUxdaYouMbgRu3dtf11CVUhNGreRsixI_Zqwd452DBWcRDMgj7bIhFlAwk90/s1600/solarpunk.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;776&quot; data-original-width=&quot;513&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVWwz5cCJrC1auvYV1aYUt35dhTIYtqx1CzwqcEdXTTd7ECv_JJsH78_wc_gIurppODTZnpImlLYiUTsGNmUxdaYouMbgRu3dtf11CVUhNGreRsixI_Zqwd452DBWcRDMgj7bIhFlAwk90/s640/solarpunk.png&quot; width=&quot;422&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Trata-se da tradução para o inglês da &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Solarpunk-Hist%C3%B3rias-ecol%C3%B3gicas-fant%C3%A1sticas-sustent%C3%A1vel-ebook/dp/B00AVWEPLC?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=solarpunk&amp;amp;qid=1525874810&amp;amp;sr=8-1&amp;amp;ref=sr_1_1&quot;&gt;&lt;i&gt;Solarpunk&lt;/i&gt;&lt;/a&gt; originalmente publicada aqui no Brasil pela &lt;a href=&quot;https://editoradraco.com/&quot;&gt;Editora Draco&lt;/a&gt;. O livro original é de 2012 e, até onde se sabe, representou a primeira antologia do mundo a reunir escritores para especular sobre como seria um futuro movido a energias sustentáveis. Num caso clássico de &quot;Efeito Tom Jobim&quot;, tanto o pioneirismo quanto a ousadia foram reconhecidos lá fora, e seguem largamente ignorados aqui no Brasil. Meu conto, &lt;i&gt;Soylent Green is People!&lt;/i&gt;, é um mistério de assassinato. Gosto muito do enredo e da solução do conto, mas se o reescrevesse hoje, provavelmente o faria com um protagonista diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E agora o lançamento de setembro, a &lt;a href=&quot;http://www.darkmoonbooks.com/world_of_horror.html&quot;&gt;&lt;i&gt;World of Horror&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJKTgmBmPn5eZq4TOUmw0pV8WJkBwnGhdBkZsrKT674Q3TPY7EPwf1bqoayOr9_ebGaAqjjAb9Fc8nsUbq84Xpnb91z5Oz89q4-x9GXk7u_13kXoUHMghb4azRe8ppxRyPfyQeUhLh-rin/s1600/worldofhorror.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;700&quot; data-original-width=&quot;471&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJKTgmBmPn5eZq4TOUmw0pV8WJkBwnGhdBkZsrKT674Q3TPY7EPwf1bqoayOr9_ebGaAqjjAb9Fc8nsUbq84Xpnb91z5Oz89q4-x9GXk7u_13kXoUHMghb4azRe8ppxRyPfyQeUhLh-rin/s640/worldofhorror.png&quot; width=&quot;430&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Esta antologia é um projeto do editor&amp;nbsp;&amp;nbsp;Eric J. Guignard, e reúne histórias de terror de todos os continentes, exceto a Antártida. Ásia, Europa e África aparecem várias vezes, mas o único conto sul-americano é o meu &lt;i&gt;The White Monkey, &lt;/i&gt;um caso de assombração inspirado em M.R. James mas transplantado para o Centro-Oeste brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns anos atrás, dei a mim mesmo a meta de publicar pelo menos uma história no mercado internacional a cada ano. Com exceção de &lt;i&gt;Solarpunk&lt;/i&gt;, cuja tradução para o inglês nada teve a ver comigo (não tive nenhum envolvimento no processo de venda do livro para o mercado externo -- apenas fiquei olhando, fascinado, enquanto as coisas aconteciam), as outras três publicações de 2018 se encaixam direitinho nos termos da minha meta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que significa que tive muita sorte. Ou que talvez tenha de revisar a meta para o futuro.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/531177339504186120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/capas-reveladas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/531177339504186120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/531177339504186120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/05/capas-reveladas.html' title='Capas reveladas!'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjVWwz5cCJrC1auvYV1aYUt35dhTIYtqx1CzwqcEdXTTd7ECv_JJsH78_wc_gIurppODTZnpImlLYiUTsGNmUxdaYouMbgRu3dtf11CVUhNGreRsixI_Zqwd452DBWcRDMgj7bIhFlAwk90/s72-c/solarpunk.png" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-5922924555996275112</id><published>2018-04-27T15:00:00.000-03:00</published><updated>2018-04-27T15:00:09.701-03:00</updated><title type='text'>Psicologia aplicada à pseudociência</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxVwckyqqVCRM1shX1jxKmrU3FekPrTuxLTpqs3gPz54uBHoQxz4aPWfRSmjKiPMhjBnIJQpvFcQnAmaJEs3dPptDuibXK9MBVN807PxOskS1bYQcvbYZdjtO0z0dc5ew5tBBGKoB7GCva/s1600/Ronaldo_Pilati.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1600&quot; data-original-width=&quot;901&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxVwckyqqVCRM1shX1jxKmrU3FekPrTuxLTpqs3gPz54uBHoQxz4aPWfRSmjKiPMhjBnIJQpvFcQnAmaJEs3dPptDuibXK9MBVN807PxOskS1bYQcvbYZdjtO0z0dc5ew5tBBGKoB7GCva/s640/Ronaldo_Pilati.JPG&quot; width=&quot;360&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
A bibliografia brasileira crítica sobre pseudociências é criminosamente escassa. Para cada dúzia de livros prometendo a cura quântica das hemorroidas ou a fórmula secreta da neurociência para pegar mulher e ganhar na loteria, saem -- um? dois? -- títulos tentando explicar que as coisas não são bem assim. Quase sempre, são traduções, como dos livros de &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/C%C3%A9rebro-Cren%C3%A7a-Michael-Shermer/dp/8585985321?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=shermer&amp;amp;qid=1524848405&amp;amp;sr=8-1&amp;amp;ref=sr_1_1&quot;&gt;Michael Shermer&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Truque-ou-Tratamento-Simon-Sigh/dp/8501085626?keywords=truque+ou+tratamento&amp;amp;qid=1524848480&amp;amp;sr=1-1-catcorr&amp;amp;ref=sr_1_1&quot;&gt;Edzard Ernst&lt;/a&gt; ou&lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Ci%C3%AAncia-Picareta-Ben-Goldacre/dp/8520010636?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=ci%C3%AAncia+picareta&amp;amp;qid=1524848574&amp;amp;sr=1-1-fkmrnull&amp;amp;ref=sr_1_fkmrnull_1&quot;&gt; Ben Goldacre&lt;/a&gt;. Quando um cientista brasileiro, portanto, decide separar parte de seu tempo para fazer algo a respeito do Febeapá (pseudo)científico em que vivemos, é hora de soltar rojão.&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
Foi com enorme alegria, então, que recebi o livro &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Ci%C3%AAncia-Pseudoci%C3%AAncia-Acreditamos-Queremos-Acreditar/dp/8552000555?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=Ci%C3%AAncia+e+Pseudoci%C3%AAncia&amp;amp;qid=1524849016&amp;amp;sr=1-1&amp;amp;ref=sr_1_1&quot;&gt;&lt;i&gt;Ciência e Pseudociência&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, de Ronaldo Pilati, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Vou confessar logo de cara que tenho algumas críticas: acho que o autor, nos capítulos introdutórios, poderia ter tratado a questão do falsificacionismo popperiano de maneira um pouco mais clara; e que foi muito caridoso com os envolvidos no caso da &quot;pílula do câncer&quot;. Também, num dado momento, Pilati escorrega e usa&amp;nbsp;&lt;i&gt;scramjet, &lt;/i&gt;denominação&amp;nbsp;de&lt;i&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;um tipo de motor supersônico, para se referir a &quot;&lt;i&gt;chemtrail&quot;, &lt;/i&gt;nome dado por teóricos da conspiração aos rastros de vapor deixados por aviões.&amp;nbsp;Mas isso tudo é detalhe.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMkm-P4wjDG9uQIV9Oj3Upo2WiGpSWsH8YZqsUUYPFzsniyIe_ecHTJVjuz46aRgXNqQzRb718hRJIjuZxUijlkPzLqd6-OKEHl6L7R2fpg5xp9baGFrIbWWOCvP0r-s9LmlR5UXuE91yT/s1600/paulo_lee.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;640&quot; data-original-width=&quot;480&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMkm-P4wjDG9uQIV9Oj3Upo2WiGpSWsH8YZqsUUYPFzsniyIe_ecHTJVjuz46aRgXNqQzRb718hRJIjuZxUijlkPzLqd6-OKEHl6L7R2fpg5xp9baGFrIbWWOCvP0r-s9LmlR5UXuE91yT/s320/paulo_lee.JPG&quot; width=&quot;240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;O fato relevante, senhoras e senhores, é que temos aqui um livro de autoria de um psicólogo brasileiro que explica, de forma sucinta, a questão dos vieses cognitivos e atalhos heurísticos, aponta as fragilidades da razão humana e conceptualiza a prática da ciência como um exercício árduo e contínuo de correção desses vieses; que aponta o caráter pseudocientífico da psicanálise e a pertinência da &lt;a href=&quot;http://www.physics.nyu.edu/sokal/weinberg.html&quot;&gt;&quot;fraude de Sokal&quot;&lt;/a&gt; sem hesitar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
Não é pouca coisa, ainda mais num meio acadêmico, como o das Humanidades, em que o sorrisinho de escárnio ignorante do relativismo pós-moderno nunca está muito longe.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
O título do livro de Pilati me fez lembrar de &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;https://www.estantevirtual.com.br/livros/paulo-lee/ciencias-versus-pseudociencias/2777464390&quot;&gt;Ciências versus Pseudociências&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, de Paulo Lee, publicado em 2003, ou seja, há 15 anos, e me trouxe uma sensação de &lt;i&gt;loop&lt;/i&gt; temporal. Os livros têm tanto diferenças quanto semelhanças -- o foco conceitual de Pilati é a Psicologia, enquanto Lee vai mais fundo na filosofia da ciência -- mas é inegável que ambos foram escritos em resposta ao &lt;i&gt;mesmo&lt;/i&gt; problema, a incompreensão pública de como a ciência funciona e a vulnerabilidade que isso traz aos indivíduos e à sociedade. &amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
Entre uma obra e outra o problema não diminuiu: se algo mudou, foi porque ele se tornou ainda mais urgente.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/5922924555996275112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/psicologia-aplicada-pseudociencia.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/5922924555996275112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/5922924555996275112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/psicologia-aplicada-pseudociencia.html' title='Psicologia aplicada à pseudociência'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxVwckyqqVCRM1shX1jxKmrU3FekPrTuxLTpqs3gPz54uBHoQxz4aPWfRSmjKiPMhjBnIJQpvFcQnAmaJEs3dPptDuibXK9MBVN807PxOskS1bYQcvbYZdjtO0z0dc5ew5tBBGKoB7GCva/s72-c/Ronaldo_Pilati.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-8087959376740151127</id><published>2018-04-26T15:21:00.001-03:00</published><updated>2018-04-26T15:21:19.692-03:00</updated><title type='text'>Explicando o impossível na ficção</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTOXu2kZg0eLw-v_bzXRXsD7O_BY4i8h9XGqc6GkvJqoGHSSQqDdhO1yVeDfobY1UUOZ5hoXvxShm0yVAdqkTAL40vVb0EVD9h-QJ-KRNgIHwnfqouEKXLc2NNH86cRsC911ToK_J9nUnN/s1600/EQMMmayjune.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;433&quot; data-original-width=&quot;305&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTOXu2kZg0eLw-v_bzXRXsD7O_BY4i8h9XGqc6GkvJqoGHSSQqDdhO1yVeDfobY1UUOZ5hoXvxShm0yVAdqkTAL40vVb0EVD9h-QJ-KRNgIHwnfqouEKXLc2NNH86cRsC911ToK_J9nUnN/s640/EQMMmayjune.png&quot; width=&quot;450&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saiu! Já tinha anunciado isso nas redes sociais, mas para os amigos que só seguem o blog, isto pode (ainda) ser novidade: meu conto &lt;i&gt;The Glass Floor&lt;/i&gt; está na mais recente edição da americana &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;http://www.elleryqueenmysterymagazine.com/&quot;&gt;Ellery Queen&#39;s Mystery Magazine&lt;/a&gt;&amp;nbsp;(EQMM)&lt;/i&gt;, disponível para compra online, em ebook ou papel. E esta é uma história que tem uma história. Ei-la.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tenho o hábito irritante de me interessar por mais coisas do que consigo fazer direito. Dois desses &lt;i&gt;hobbies&lt;/i&gt; negligenciados são mágica (um dia, muito tempo atrás, eu fazia uns truques até passáveis com cartas) e xadrez (sou consistentemente derrotado pelo meu telefone celular, que só joga em modo &quot;iniciante&quot;). Para minha felicidade, no entanto, certo dia descobri um nicho literário que oferece estímulo e prazer muito semelhantes aos do xadrez e da mágica: a história de crime impossível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &quot;crime impossível&quot; prototípico é o assassinato cometido num quarto trancado por dentro, ou a vítima de homicídio à queima-roupa encontrada na areia da praia (ou num monte de neve) e sem pegadas ao redor. Originalmente uma modalidade anglo-americana por excelência -- exercitada, por exemplo, por luminares como&lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/John_Dickson_Carr&quot;&gt; John Dickson Carr&lt;/a&gt; ou &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_D._Hoch&quot;&gt;Edward D. Hoch &lt;/a&gt;-- , com a ascensão em popularidade do mistério de caráter mais social e psicológico, a modalidade acabou migrando para outras plagas. Hoje, os maiores virtuoses do gênero são o japonês&lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Soji_Shimada&quot;&gt; Soji Shimada&lt;/a&gt; e o francês &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Halter&quot;&gt;Paul Halter&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiw3qiUJmZtIQm25JfRAFYfEX1KD2AL5L1jJWNG7dQNrESy0Mmk9jTEj0rbslU3BE2YXFhMphwNBlR6e3ixqhs5HqOjZrVXArYMA0a2Wu4xvQqYRZPTfzFIYzPnkoT4ag_yNZNVHFL8bSAz/s1600/mysterweelyjanuary.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;340&quot; data-original-width=&quot;254&quot; height=&quot;400&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiw3qiUJmZtIQm25JfRAFYfEX1KD2AL5L1jJWNG7dQNrESy0Mmk9jTEj0rbslU3BE2YXFhMphwNBlR6e3ixqhs5HqOjZrVXArYMA0a2Wu4xvQqYRZPTfzFIYzPnkoT4ag_yNZNVHFL8bSAz/s400/mysterweelyjanuary.png&quot; width=&quot;298&quot; /&gt;&lt;/a&gt;Como um truque de mágica, um crime impossível depende crucialmente do controle do tempo e do ponto de vista; como um bom jogo de xadrez, sua construção deve parecer, ao mesmo tempo, inevitável e surpreendente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da admiração veio o desejo de testar a mão no gênero, e depois de anos de esforços mais ou menos bem-sucedidos, a maioria ainda no campo da ficção científica (os mais masoquistas podem conferir um deles &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/aventura-crian%C3%A7a-perdida-Carlos-Orsi-ebook/dp/B00ARKEZUO?keywords=crian%C3%A7a+perdida+carlos+orsi&amp;amp;qid=1524763501&amp;amp;sr=8-1-fkmrnull&amp;amp;ref=sr_1_fkmrnull_1&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;) e de &lt;a href=&quot;https://carlosorsi.blogspot.com.br/2018/02/on-writing.html&quot;&gt;minha desilusão com o mercado editorial&lt;/a&gt; brasileiro, comecei a mirar o mercado de língua inglesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi mais de meia década de rejeição atrás de rejeição, várias vezes ao ano, mas há uns dois anos alguma coisa clicou: primeiro consegui vender um par de histórias para a canadense &lt;a href=&quot;http://www.mysteryweekly.com/&quot;&gt;&lt;i&gt;Mystery Weekly&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, sendo a segunda (&lt;i&gt;The Adventure of the Dead Frog&lt;/i&gt;) um mistério meio humorístico de crime impossível, e por fim a &lt;i&gt;EQMM&lt;/i&gt; houve por bem adquirir &lt;i&gt;The Glass Floor&lt;/i&gt;, um crime impossível bem mais sério e &quot;brilhante&quot; (cof, cof, isso quem diz&lt;a href=&quot;http://www.elleryqueenmysterymagazine.com/authors-corner/authors-in-this-issue/&quot;&gt; é a editora, não eu&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Curiosamente (e não tenho a menor explicação para isso), &lt;i&gt;The Glass Floor&lt;/i&gt; é talvez uma das coisas mais &lt;i&gt;brasileiras&lt;/i&gt; que já escrevi: não só o conto se passa no Brasil, como parte da tensão entre os personagens se deve ao fato de serem filhos da ditadura -- homens que, quando crianças, viram adultos tendo de fugir do país, ou simplesmente desaparecendo. Ah! E também tem um cassino. Outra coisa que sempre quis incluir num conto, como ponto do enredo, foi jogo de azar. Desta vez, deu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também ainda neste ano deve sair a antologia &lt;i&gt;&lt;a href=&quot;http://ericjguignard.blogspot.com.br/2017/11/announcing-new-anthology-world-of-horror.html&quot;&gt;A World of Horror&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, que reúne contos de terror de autores de diversas partes do mundo, da África do Sul à Ucrânia. O único autor sul-americano presente sou eu. Falando nisso, faz tempo que não escrevo terror, fantasia ou ficção científica: mistério (prefiro essa designação a &quot;policial&quot;, mas até aí é só idiossincrasia minha) é o meu gênero da vez, e o crime impossível, o foco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por quê? Não sei. Em parte, talvez, fadiga -- lido com os chamados &quot;gêneros fantásticos&quot; pelo menos desde 1990, afinal. Mas transições do fantástico para o mistério, ou vice-versa, não são inéditas: para ficar num exemplo notável,&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Anthony_Boucher&quot;&gt;Anthony Boucher&lt;/a&gt;, o editor de ficção científica que revelou Philip K. Dick, também foi um dos mais importantes editores e críticos de mistério do século passado. Então, a conexão existe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por alguma razão obscura, imagino que meu apego ao crime impossível e ao&lt;a href=&quot;https://somethingisgoingtohappen.net/2018/02/07/from-noir-to-golden-age-by-carlos-orsi/&quot;&gt; conto de mistério clássico&lt;/a&gt; (onde o leitor recebe todas as informações a que o detetive tem acesso) tem algo a ver com minha paixão inicial pela ficção científica. Em ambos os casos, afinal, há uma expectativa de ordem racional por trás do fantástico e do absurdo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/8087959376740151127/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/explicando-o-impossivel-na-ficcao.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/8087959376740151127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/8087959376740151127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/explicando-o-impossivel-na-ficcao.html' title='Explicando o impossível na ficção'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiTOXu2kZg0eLw-v_bzXRXsD7O_BY4i8h9XGqc6GkvJqoGHSSQqDdhO1yVeDfobY1UUOZ5hoXvxShm0yVAdqkTAL40vVb0EVD9h-QJ-KRNgIHwnfqouEKXLc2NNH86cRsC911ToK_J9nUnN/s72-c/EQMMmayjune.png" height="72" width="72"/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3173210685461292996</id><published>2018-04-17T09:34:00.002-03:00</published><updated>2018-04-17T17:57:54.891-03:00</updated><title type='text'>Divulgação científica: agenda cheia em maio</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyQ9OsfM6FokP6w-Dh7c7v1fRKbw_j6AYtFhTrfHcMw5XcZFyuXQ_rnsv48zJECAinnU3k2nyjkz54x71bX-OiiIw116Y2ppyv4Y5RgFOIfloH6WDj50Qz75LPVytRoqKO90LwfDujPNdW/s1600/pop-sci-sep-1917-cover.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;446&quot; data-original-width=&quot;300&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyQ9OsfM6FokP6w-Dh7c7v1fRKbw_j6AYtFhTrfHcMw5XcZFyuXQ_rnsv48zJECAinnU3k2nyjkz54x71bX-OiiIw116Y2ppyv4Y5RgFOIfloH6WDj50Qz75LPVytRoqKO90LwfDujPNdW/s640/pop-sci-sep-1917-cover.jpg&quot; width=&quot;430&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Divulgação científica&quot; é uma daquelas expressões -- como &quot;democracia&quot; ou &quot;justiça&quot; -- que todo mundo concorda que se refere a algo essencial, mas cuja natureza exata tende a ser alvo de intensa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há que se distinguir divulgação de educação, há que se decidir se a prioridade é divulgar conteúdos ou modos de pensar, há que se tomar cuidado para que a divulgação &quot;WOW!&quot; (pássaros lindos, estrelas fantásticas, gênios excêntricos) não sufoque a divulgação &quot;de combate&quot; (crítica a charlatanismos e raciocínios tortos, denúncia de fraudes, esclarecimentos sobre saúde ou meio ambiente).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há que se pensar no público: na academia e no microcosmo das bolhas online, principalmente, é muito fácil cair na ilusão de que se está fazendo divulgação científica quando, na verdade, seu público é sempre aquela meia dúzia de fãs de Carl Sagan que são as pessoas que &lt;i&gt;menos&lt;/i&gt; precisam ouvir o que você está dizendo (não é improvável que a carapuça sirva para este blog, inclusive). Na outra ponta, a da mídia de massa, é muito fácil usar a desculpa do &quot;necessário apelo popular&quot; para vender vacuidades, simplificações imbecilizantes e estereótipos fáceis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito dessas e de outras mazelas e sutilezas, no entanto, o mês de maio terá uma agenda cheia de iniciativas que visam a aproximar a ciência dos não-cientistas. No fim da primeira semana haverá, no Museu do Amanhã do Rio de Janeiro, a &lt;a href=&quot;http://www.abc.org.br/?Reuniao-Magna-2018&quot;&gt;Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências&lt;/a&gt;, &amp;nbsp;com o tema &quot;Imaginando o Futuro&quot; e o objetivo de&amp;nbsp;&quot;abordar os avanços tecnológicos em curso, as perspectivas da ciência para as diversas áreas e seus possíveis impactos na sociedade&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Logo em seguida, também no Rio, acontece a &lt;a href=&quot;http://piaui.folha.uol.com.br/comecou-venda-de-ingressos/&quot;&gt;Maratona Piauí Serrapilheira&lt;/a&gt;, apresentada como&amp;nbsp;&quot;um encontro cujas pautas de conversas e discussões sejam pesquisas científicas brasileiras de destaque, que provocam otimismo e cujas possibilidade de aplicação dos resultados são de médio e curto prazo&quot;. Cinco cientistas brasileiros conversarão com jornalistas e com o público sobre seus trabalhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E imediatamente após a maratona, em mais de 50 cidades do Brasil teremos o &lt;a href=&quot;https://pintofscience.com.br/&quot;&gt;Pint of Science 2018&lt;/a&gt;, em que cientistas e agregados (como eu, que estarei na &lt;a href=&quot;http://pintofscience.com.br/events/campinas&quot;&gt;programação de Campinas&lt;/a&gt;) irão a bares para conversar com as pessoas sobre temas científicos e de relevância social -- minha palestra será sobre o fenômeno das &quot;fake news&quot;, assunto de que já tratei, por exemplo, &lt;a href=&quot;http://www.comciencia.br/noticia-falsa-e-inadequacao-das-midias-em-lidar-com-ela-nao-sao-novidade-novidade-e-saturacao-de-fake-news/&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=UA5ooCt9kp8&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com.br/2018/03/noticias-falsas-culpa-sua-nao-do-robo.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;. Logo após o Pint -- na mesma semana, de fato -- haverá a celebração do&lt;a href=&quot;https://www.lightday.org/events&quot;&gt; Dia Mundial da Luz da Unesco&lt;/a&gt;, com eventos no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;&lt;u&gt;ÚLTIMA HORA:&lt;/u&gt;&lt;/b&gt; Mais para o fim do mês, o Weizmann Brasil promove o evento &lt;a href=&quot;http://amigosdoweizmann.org.br/stage/proximos-eventos/&quot;&gt;Scientists of Tomorrow,&lt;/a&gt;&amp;nbsp;em que três jovens pesquisadores apresentarão seus trabalhos para o público.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existe uma velha piada sobre meteorologia que diz assim: &quot;Todo mundo fala o tempo todo sobre o clima, mas ninguém faz nada para que ele melhore&quot;. Até algum tempo atrás, uma alma cínica poderia adaptar o chiste, substituindo &quot;clima&quot; por &quot;divulgação científica&quot;, e tornar a frase menos engraçada, mas não menos verdadeira, principalmente no que diz respeito à academia e ao mundo das grandes empresas. Isso parece estar mudando. Vamos esperar que mude mais.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3173210685461292996/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/divulgacao-cientifica-agenda-cheia-em.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3173210685461292996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3173210685461292996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/divulgacao-cientifica-agenda-cheia-em.html' title='Divulgação científica: agenda cheia em maio'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyQ9OsfM6FokP6w-Dh7c7v1fRKbw_j6AYtFhTrfHcMw5XcZFyuXQ_rnsv48zJECAinnU3k2nyjkz54x71bX-OiiIw116Y2ppyv4Y5RgFOIfloH6WDj50Qz75LPVytRoqKO90LwfDujPNdW/s72-c/pop-sci-sep-1917-cover.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-5137746780707159623</id><published>2018-04-12T09:53:00.001-03:00</published><updated>2018-04-12T09:53:24.060-03:00</updated><title type='text'>Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos</title><content type='html'>Se você, como eu, sofre de uma curiosidade patológica a respeito do que borbulha e fermenta na franja lunática da pseudociência -- clones ciborgues templários de Jesus e conspirações urdidas por demônios lovecraftianos do espaço, coisas perto das quais até homeopatia parece razoável -- uma boa ideia é &lt;a href=&quot;http://www.jasoncolavito.com/skeptical-xenoarchaeologist-newsletter.html&quot;&gt;assinar a newsletter&lt;/a&gt; de Jason Colativo, um antropólogo americano &amp;nbsp;que construiu uma carreira correndo atrás das besteiras que o History Channel empurra para seus telespectadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesta semana, Colavito chama atenção para &amp;nbsp;uma pequena indústria que vem sendo criada, tendo como alvo o público evangélico de língua inglesa, para vincular &lt;a href=&quot;http://carlosorsi.blogspot.com.br/2017/05/centenario-de-fatima-consideracoes.html&quot;&gt;as aparições de Fátima&lt;/a&gt; a demônios e extraterrestres. A escolha de &amp;nbsp;nicho tem lá sua lógica: dizer que os milagres da religião dos outros é, na verdade, ilusão demoníaca representa uma estratégia antiga, mas bem-sucedida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para os leitores que não tiveram o duvidoso benefício de uma educação católica (e nem leram meu &lt;a href=&quot;https://www.amazon.com.br/Livro-dos-Milagres-Carlos-Orsi/dp/8588782898?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;amp;keywords=livro+dos+milagres&amp;amp;qid=1523534222&amp;amp;sr=8-3&amp;amp;ref=sr_1_3&quot;&gt;&lt;i&gt;Livro dos Milagres&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;): entre maio e outubro de 1917, três crianças de Fátima, em Portugal, alegaram ter tido encontros com Maria, a mãe de Jesus. O último desses encontros foi acompanhado por uma multidão, parte da qual afirmou ter visto algo estranho acontecer com o Sol, possivelmente um parélio ou halo solar, mas reinterpretado pelos filtros mentais da expectativa, devoção e excitação coletiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim: a &quot;nova&quot; ideia descarta tanto as hipóteses de efeito meteorológico, temperado por histeria de massa, quanto a de a aparição ser mesmo a alma de uma judia morta há 2.000 anos, e as substitui por uma conspiração entre espíritos &quot;do mal&quot; &lt;i&gt;e&lt;/i&gt; visitantes de outro planeta. Alguém, ao que parece, anda precisando afiar a Navalha de Occam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E por que estou gastando o meu tempo, e o seu, com isso? Porque parte da evidência mobilizada pelos teóricos da conspiração &amp;nbsp;é realmente interessante -- só não do jeito que eles pensam. Por exemplo, é apresentada esta nota, publicada num jornal português alguns dias antes da primeira suposta &quot;manifestação&quot; de Maria:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJSORZVJag2csQxQsS6LXxIai3tIF2TKMf3oOMTJmvnjnG2FKU7CKAKAWnEd8ARn9Umy5j8T-VOn7oBgM2JxSXtsNPsn4VPK_3Fmd0ooKFHA5Gc2Dk_5Ak-K-aA9YZbFP5PRcdtkKpi_ol/s1600/FATIMA_ESPIRITISMO.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;316&quot; data-original-width=&quot;286&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJSORZVJag2csQxQsS6LXxIai3tIF2TKMf3oOMTJmvnjnG2FKU7CKAKAWnEd8ARn9Umy5j8T-VOn7oBgM2JxSXtsNPsn4VPK_3Fmd0ooKFHA5Gc2Dk_5Ak-K-aA9YZbFP5PRcdtkKpi_ol/s640/FATIMA_ESPIRITISMO.png&quot; width=&quot;579&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Esse anúncio não comprova, como querem os propositores da conjuração inferno-espacial, que as &quot;Forças do Mal&quot; já preparavam o terreno para as aparições, e sim que as agruras e incertezas produzidas pela Primeira Guerra Mundial (então em curso, e da qual tropas portuguesas tomavam parte) estavam se fazendo sentir -- &quot;sendo trabalhadas&quot; talvez seja a expressão atual -- de modo diverso dentro das diversas mitologias para as quais as pessoas se voltavam em busca de segurança emocional e consolo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Portugal vivia, ainda, o período da Primeira República, &amp;nbsp;onde a ideologia do governo era fortemente anticatólica. Nesse clima, não é surpreendente nem a eclosão de alternativas supostamente &quot;racionalistas&quot; à religião até então dominante (diversas correntes espiritualistas gostam, afinal, de se considerar &quot;científicas&quot;), nem o recrudescimento do misticismo católico, apoiado em mitos e histórias de perseguições e martírios passados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas, claro, toda essa psicologia de pastel e sociologia de botequim é suspeita demais. A melhor explicação tem de ser: alienígenas e demônios! &quot;Quando a entidade apareceu para as crianças, as pessoas ouviram um zumbido como o de uma colmeia. Esse som já foi descrito em encontros com óvnis. O que criou esse zumbido e por que o mesmo som é ouvido quando as pessoas têm contato com óvnis?&quot;, pergunta,retoricamente, o &lt;a href=&quot;https://lamarzulli.wordpress.com/2018/04/04/fatima-2-we-have-what-may-be-the-smoking-gun/&quot;&gt;texto promocional do DVD&lt;/a&gt; que apresenta a teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Colavito, em seu comentário, lembra que previsões e visões místicas sobre a guerra abundavam na imprensa europeia. Basta ver como previsões e pronunciamentos místicos sobre o destino do Brasil hoje abundam em grupos de WhatsApp para ter uma pálida ideia do fenômeno. Olhando para o passado com o que já sabemos no presente, é fácil selecionar instâncias aparentemente sugestivas, como esta aqui:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiGkZYgX5BhYmXMutZ26oq-LAzKRYhI4aeBQMZZDzU-OmjMwV2lVNvJrItDsiywEcfmWbgmvVReFXpAns37Os9OGI1ONBVIdOmLQBkznGhsG_i_rvOh4AbZdmgjMpCJ0phphEQSvz8F6KgF/s1600/fatima-espiritismo_135917.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;246&quot; data-original-width=&quot;233&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiGkZYgX5BhYmXMutZ26oq-LAzKRYhI4aeBQMZZDzU-OmjMwV2lVNvJrItDsiywEcfmWbgmvVReFXpAns37Os9OGI1ONBVIdOmLQBkznGhsG_i_rvOh4AbZdmgjMpCJ0phphEQSvz8F6KgF/s1600/fatima-espiritismo_135917.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde o numeral &quot;13597&quot; pode talvez (ou talvez não) aludir ao dia 13 de maio de 1917, data da primeira suposta aparição de Fátima. O que teóricos de conspiração, em geral, fazem é juntar algumas peças de quebra-cabeça -- incluindo fatos reais -- e depois recortá-las para que se encaixem como esperam, e formem a figura que querem ver. Se houver público pagante, melhor ainda.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/5137746780707159623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/demonios-e-ets-em-fatima-erros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/5137746780707159623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/5137746780707159623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/demonios-e-ets-em-fatima-erros.html' title='Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJSORZVJag2csQxQsS6LXxIai3tIF2TKMf3oOMTJmvnjnG2FKU7CKAKAWnEd8ARn9Umy5j8T-VOn7oBgM2JxSXtsNPsn4VPK_3Fmd0ooKFHA5Gc2Dk_5Ak-K-aA9YZbFP5PRcdtkKpi_ol/s72-c/FATIMA_ESPIRITISMO.png" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3081703182514201689</id><published>2018-04-05T10:59:00.000-03:00</published><updated>2018-04-05T13:26:56.469-03:00</updated><title type='text'>&quot;Fosfo&quot;, terapias alternativas e a maldição do falso positivo</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8mZjshlJNe6ccc5TaK2KpntGMjb-bkfXPnG7oQZAwyRlDOE5-ZpFx17SpeJOOQSPXRwwbj3UClJC05wMFvVdlcYGuB6gnP_xkZNmLNW7UYOsdfoj-owdd2Ggd9T3_jNYkG8_WD4JOATWd/s1600/Alchemist_1050x700.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;700&quot; data-original-width=&quot;1050&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8mZjshlJNe6ccc5TaK2KpntGMjb-bkfXPnG7oQZAwyRlDOE5-ZpFx17SpeJOOQSPXRwwbj3UClJC05wMFvVdlcYGuB6gnP_xkZNmLNW7UYOsdfoj-owdd2Ggd9T3_jNYkG8_WD4JOATWd/s640/Alchemist_1050x700.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fosfoetanolamina sintética volta ao noticiário (&lt;a href=&quot;https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2018/04/04/cpi-de-sp-aponta-falhas-em-teste-da-pilula-do-cancer-e-pede-nova-pesquisa.htm&quot;&gt;aqui &lt;/a&gt;e &lt;a href=&quot;https://gauchazh.clicrbs.com.br/grupo-de-investigacao/noticia/2018/01/suplemento-vendido-como-fosfoetanolamina-nao-contem-o-composto-aponta-laudo-cjbzd92wg003701psyjmuuxla.html&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;), poucas semanas depois de o Ministério da Saúde produzir manchetes com sua decisão descerebrada de ampliar a oferta de &quot;práticas alternativas e complementares&quot;. Já escrevi mais do que o suficiente (&lt;a href=&quot;http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/fosfoetanolamina-ocaso-que-envergonhou-a-ciencia-brasileira-d5wnxh6h28oop2z9b3xsg6v3w&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/ciencia-desmascara-pilula-do-cancer-em-73-testes-apenas-1-deu-positivo-5afcxlf9gqouo4eqnggf1akx0&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;http://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-as-terapias-alternativas-adotadas-pelo-sus-sao-um-perigo-a-sua-saude-2becoc831fzva4c25hj641yb9&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;), imagino, sobre esses dois casos específicos, e então achei que seria hora de tratar do fenômeno mais geral: o fato de tantas pessoas se encantarem com, converterem-se em verdadeiros paladinos de, supostas terapias que não só não funcionam, como ainda por cima podem ser perigosas ou, até mesmo, letais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E não se trata apenas do que gosto de chamar de &quot;Efeito Franklin&quot;, que acontece quando uma pessoa, tendo sido enganada, passa a defender fervorosamente quem a enganou, só para não ter de dar o braço a torcer (tirei o nome da frase atribuída a Benjamin Franklin, &quot;só quem mente mais do que um charlatão são suas vítimas&quot;). Há algo muito mais profundo aí.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante milhares de anos, a medicina ocidental seguiu uma visão terapêutica segundo a qual a doença era causada pelo desequilíbrio dos &quot;humores&quot;, substâncias corporais como sangue, fleuma e bile. Estratégias de reequilíbrio envolviam sangrias, purgantes e eméticos. Esses &quot;tratamentos&quot; tinham o efeito de desidratar o paciente, deixá-lo mais fraco, estressado e, não raro, envenená-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existe, até mesmo, uma erva que, por mais de 20 séculos, foi recomendada para problemas renais; hoje em dia, sabe-se que se trata de uma&amp;nbsp;&lt;a href=&quot;https://www.sciencealert.com/a-commonly-used-herbal-remedy-causes-kidney-cancer-in-up-to-10-percent-of-the-population&quot;&gt;causadora de câncer&lt;/a&gt;. Ainda assim, durante milênios, os médicos acreditavam que produziam benefícios com suas sangrias e gororobas e os pacientes, que eram curados. Como tanta gente pôde estar tão enganada por tanto tempo?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A resposta é uma confluência de fatores que se somam para produzir o fenômeno que dá título a esta postagem, a &quot;maldição do falso positivo&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro fator é um senso excessivamente inclusivo de causalidade. O ser humano -- na verdade, boa parte da vida animal no planeta Terra -- sofre de uma atração fatal por relações de causa e efeito. Tão fatal, de fato, que muitas vezes falha em distinguir as reais das espúrias. Para ficar num velho clichê, é, no geral, mais &quot;barato&quot; sair correndo sempre que a moita balança -- porque pode haver um tigre ali -- do que ficar esperando e ver se a causa do balançar é mesmo um grande felino faminto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos humanos, esse problema costuma aparecer sob a forma da falácia &lt;i&gt;post hoc&lt;/i&gt;: se um evento significativo se segue a outro, então o anterior é tomado como causa do posterior: foi a sangria que me curou, &amp;nbsp;foi a cueca vestida do avesso que me fez passar na prova, foi a &quot;fosfo&quot; que me salvou do câncer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dado importante é que a falácia não precisa ser articulada para se manifestar. Você não precisa pensar i&lt;i&gt;sto, então aquilo&lt;/i&gt;. Suas glândulas podem fazer isso por você. O cão que saliva ao ouvir uma sineta (porque, um dia, o som da sineta veio acompanhado de um bife) e o ser humano que sente a dor no joelho diminuir ao tomar uma pílula branca de farinha (porque, um dia, uma pílula branca de analgésico ajudou a reduzir a dor) não estão&amp;nbsp;&lt;i&gt;raciocinando&lt;/i&gt;&amp;nbsp;falaciosamente em termos de causa e efeito, mas apenas reagindo a um condicionamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O apetite por padrões causais tem forte apelo afetivo, e deita raízes profundas no inconsciente.Outra faceta disso é a intuição de que o tratamento que funcionou foi sempre o &lt;i&gt;último&lt;/i&gt;. Uma pessoa que tome um banho de lama depois de um curso de quimioterapia, por exemplo, tenderá, talvez, a atribuir uma eventual remissão do câncer à lama, não à medicina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O segundo componente da maldição do falso positivo é o que chamo de &lt;i&gt;viés de sobrevivência&lt;/i&gt;. Trata-se da simples constatação, velha conhecida de sacerdotes, curandeiros e médicos, de que só os sobreviventes voltam para contar a história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entrar numa capela de ex-votos abarrotada, onde os fiéis que alcançaram suas graças deixam oferendas, pode parecer aquele tipo de imagem que vale por mil palavras. Isto, até a hora em que você imagina qual o número total de orações dirigidas ao espírito do lugar -- e qual é a proporção delas que esses ex-votos representam, exatamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da mesma forma, é o paciente &quot;curado&quot; que retorna, lágrimas de alegria nos olhos, para abraçar e agradecer o terapeuta. Que fala maravilhas a respeito da ayurveda e da homeopatia para os amigos. Que escreve comentários no Facebook mandando o jornalista cético &quot;estudar mais antes de falar merda&quot;, etc. Aqueles que saem da terapia tão ruins, ou pior, do que entraram, no geral, ficam quietos ou se limitam a resmungar pelos cantos. É rara a figura que sai por aí se gabando das preces que &lt;i&gt;não foram&lt;/i&gt; atendidas. E, como já dizia o título daquele filme dos Piratas do Caribe, &lt;i&gt;Dead men tell no tales, &lt;/i&gt;&quot;mortos não delatam&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro fator, que age junto ao segundo, é a &lt;i&gt;variabilidade natural da saúde/doença&lt;/i&gt;. O estado de saúde de uma pessoa oscila naturalmente: um dia você acorda melhor, um dia pior; gripes leve s e resfriados passam por conta própria; hematomas desaparecem; ressacas passam; dores crônicas se acentuam e depois diminuem; etc.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se você está se sentindo mal hoje, há uma boa chance estatística de que vá estar melhor amanhã, ou depois, mesmo que não faça nada. Mas se você tomar um uísque, um passe de reiki ou uma vitamina C agora, talvez venha a atribuir essa melhora ao drinque (ou à vitamina, ou ao passe, ou a tudo).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos esses fatores conspiraram, durante milênios -- e, no mundo das &quot;práticas complementares&quot;, ainda conspiram -- para fazer com que muita terapia inútil ou perigosa se passasse por coisa boa. É por isso que o apelo à antiguidade (&quot;esta técnica é usada nas Índia há 6 mil anos! não pode estar errada!&quot;) não quer dizer nada. E é por isso que surgiram os protocolos de testes pré-clínicos e clínicos, criados para filtrar os vários vieses citados acima. Os mesmos testes em que as &quot;alternativas&quot; não passam (se passassem, deixariam de ser &quot;alternativas&quot;). Mas, e esses testes: eles nos salvam, de vez, da maldição do falso positivo?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porque o moderno sistema acadêmico/industrial de produção de conhecimento na área médica, encarregado de aplicar e avaliar esses testes, tem seus próprios vieses, &lt;i&gt;que também têm o efeito cumulativo de produzir falsos positivos&lt;/i&gt;. Esta postagem já está ficando um pouco longa demais, então vou citar três deles: o viés de produtividade, o viés de publicação (ou &quot;efeito gaveta&quot;, para os íntimos) e a &lt;i&gt;relutância em replicar&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Viés de produtividade&lt;/i&gt; é o fato de que o sistema de incentivos do mundo da pesquisa (promoções, prestígio, verbas) premia quem publica muitos estudos. Esse sistema, além de gerar distorções próprias, é ainda distorcido pelo &lt;i&gt;viés de publicação&lt;/i&gt;, a constatação de que os periódicos preferem publicar resultados positivos: você dificilmente verá uma manchete com o título &quot;Estudo comprova que azeitona preta não cura o câncer&quot;, por exemplo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso quer dizer que, em havendo dois estudos -- ambos, à primeira vista, igualmente válidos -- um dizendo que azeitona preta &lt;i&gt;cura&lt;/i&gt; o câncer o outro, que &lt;i&gt;não cura&lt;/i&gt;, o primeiro será publicado e o segundo ficará engavetado. Isso sobrecarrega a literatura científica com resultados positivos, alguns dos quais serão falsos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa deformação, por sua vez, é agravada pela &lt;i&gt;relutância em replicar&lt;/i&gt;: em tese, todo resultado científico deve ser passível de reprodução. E reproduções ajudam a determinar se o resultado original é realmente válido (questões de fraude e erro à parte, sempre há a possibilidade de o fenômeno detectado ter acontecido por acaso, e não pelas razões alegadas pelos pesquisadores originais: numa replicação, é improvável que o mesmo acaso se manifeste outra vez). Mas replicações não são &lt;i&gt;sexy&lt;/i&gt;: cientistas ganham prêmios por descobertas originais, não por refazer o trabalho dos outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há estimativas da taxa de falsos positivos que assombra a literatura científica em geral, e a médica em particular, com alguns trabalhos sugerindo que &lt;a href=&quot;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5750014/&quot;&gt;um mínimo de 30% das descobertas&lt;/a&gt; são, na verdade, &lt;a href=&quot;https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4448847/&quot;&gt;falsos positivos&lt;/a&gt;. O que é bem melhor do que os prováveis 100% nas terapias alternativas, mas ainda assim algo que deveria conter o entusiasmo de gente que adora manchetes que terminam com &quot;diz estudo&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A presença renitente de falsos positivos talvez revele algo verdadeiramente positivo sobre nós: quando se trata de amenizar o sofrimento humano, nosso impulso é &quot;tentar algo&quot;, mesmo que esse &quot;algo&quot; não tenha muito (ou nada) a recomendá-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas trata-se de uma daquelas tristes situações em que bons sentimentos tendem a produzir maus resultados, ao alimentar ilusões (tanto de pacientes quanto de terapeutas que, assoberbados pelo viés de sobrevivência, passam a confiar nos próprios &quot;poderes&quot;), ao consumir recursos de modo ineficiente e, no limite, destruir vidas e prestigiar charlatões.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3081703182514201689/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/fosfo-terapias-alternativas-e-maldicao.html#comment-form' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3081703182514201689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3081703182514201689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/04/fosfo-terapias-alternativas-e-maldicao.html' title='&quot;Fosfo&quot;, terapias alternativas e a maldição do falso positivo'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8mZjshlJNe6ccc5TaK2KpntGMjb-bkfXPnG7oQZAwyRlDOE5-ZpFx17SpeJOOQSPXRwwbj3UClJC05wMFvVdlcYGuB6gnP_xkZNmLNW7UYOsdfoj-owdd2Ggd9T3_jNYkG8_WD4JOATWd/s72-c/Alchemist_1050x700.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4555105387167852647.post-3859021108654229242</id><published>2018-03-23T09:48:00.001-03:00</published><updated>2018-03-23T09:58:58.631-03:00</updated><title type='text'>Pseudociências, cristais, jornalismo</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh1HXHbes_X0DBISuD0-Cc8Y1ZAlKZUwn6bmIZbjM_TUytNJhhRPlr9e75TookB7sH8XAW4NnQIws5PC_4SWEq-XZyz_N3o-4WKu_74Qf9gbB8wBekHfXxtefr5NQdq2JPsEsNQXtqYRIdn/s1600/TheDarkCrystal-SacredChamber.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;239&quot; data-original-width=&quot;550&quot; height=&quot;276&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh1HXHbes_X0DBISuD0-Cc8Y1ZAlKZUwn6bmIZbjM_TUytNJhhRPlr9e75TookB7sH8XAW4NnQIws5PC_4SWEq-XZyz_N3o-4WKu_74Qf9gbB8wBekHfXxtefr5NQdq2JPsEsNQXtqYRIdn/s640/TheDarkCrystal-SacredChamber.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seu divertidíssimo livro sobre a história da medicina e das terapias &quot;integrativas e complementares&quot;, &lt;i&gt;Suckers&lt;/i&gt;, a jornalista britânica de saúde Rose Shapiro aponta uma distinção simples -- e categórica -- entre a ciência médica e as diversas tradições culturais em que terapeutas alternativos buscam (ou dizem buscar) inspiração: enquanto a ciência foi descobrindo inúmeras causas para as doenças (vírus, bactérias, genética, contaminantes ambientais, estilos de vida, etc.), os integrativos costumam se agarrar a uma monocausa, uma causa única para todo mal: desequilíbrio. Desarmonia. Desalinhamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seja do &lt;i&gt;chi&lt;/i&gt;, do &lt;i&gt;prana&lt;/i&gt;, do &lt;i&gt;yin&lt;/i&gt; ou do &lt;i&gt;yang&lt;/i&gt;, da coluna vertebral, da dieta ou de algo genérico como &quot;as vibrações&quot;, sempre há uma coisa fora da ordem que, se recolocada no devido lugar, traz a cura. Mesmo se reconhecem a existência de causas imediatas para a doença -- um parasita, uma infecção, uma mutação -- esses terapeutas tendem a pressupor que o agente só conseguiu atacar o paciente porque seu &quot;campo energético&quot; já havia sido previamente &quot;desequilibrado&quot;. Um corolário dessa doutrina da causa única é a da cura única, a panaceia: o ritual, a dieta ou o suco que reequilibra as energias deve ser capaz de curar &lt;i&gt;qualquer coisa&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa ideia de energias desequilibradas extrai seu apelo de diversas fontes. A primeira talvez seja a antiguidade histórica: não só diversos sistemas de proto-medicina realmente se valiam do conceito, como ele se encaixa bem com intuições arraigadas que ligam a doença à culpa, ao pecado, à impureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reequilibrar energias é apenas um código moderno para purificar-se, fazer as pazes com os espíritos; dietas estritas ou exóticas são as novas penitências. Além disso, &quot;restaurar a harmonia&quot; é algo que tem um forte apelo para o principal grupo de consumidores dessas terapias, os chamados &quot;saudáveis porém preocupados&quot;, gente que confunde crise existencial ou &lt;i&gt;spleen&lt;/i&gt; romântico com doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E para pôr a cereja no bolo temos, é claro, nossa amiga, a grande mídia. Da edição de março da revista &lt;i&gt;Marie Claire, &lt;/i&gt;que alguém, um dia, me disse que era uma revista feminina que tratava de temas sérios, escrita para mulheres adultas e inteligentes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjUA-o4Vbxn-1BmsaYzDwAssYpTykElRw5wcjwkOv8Q1h2IDmoW1KfLd96TkPvDSCwvfALMZzVnZL-hMsi1fO9GjzJWjTOrqjYmjC01Q5EfhaQ2PgvhpajthKoxZRr6_MGm650_H2LK_Jse/s1600/REIKI_CRISTAIS_MARIE_GRIFO.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;727&quot; data-original-width=&quot;968&quot; height=&quot;480&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjUA-o4Vbxn-1BmsaYzDwAssYpTykElRw5wcjwkOv8Q1h2IDmoW1KfLd96TkPvDSCwvfALMZzVnZL-hMsi1fO9GjzJWjTOrqjYmjC01Q5EfhaQ2PgvhpajthKoxZRr6_MGm650_H2LK_Jse/s640/REIKI_CRISTAIS_MARIE_GRIFO.png&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tenho uma coleção razoável de livros sobre superstições e pseudociências, incluindo três grossos volumes de testes estatísticos de astrologia, mas um que jamais pensei que fosse ter de citar é &lt;i&gt;Crystal Power -- The Ultimate Placebo Effect&lt;/i&gt;, do professor universitário americano Lawrence E. Jerome. Publicado originalmente em 1989, não me parece que a obra tenha tido mais de uma edição. Mas, enfim, o mundo é uma caixinha de surpresas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período acima, além de me fazer refletir, pela enésima vez, sobre a má-fé com que o jornalismo usa declarações entre aspas -- o jornalista sempre pode alegar que quem disse a bobagem foi a fonte, não ele, e que sua obrigação é reproduzir a fala da fonte com o máximo de fidelidade, convenientemente omitindo que sua &lt;i&gt;maior&lt;/i&gt;&amp;nbsp;obrigação é contar a verdade aos leitores -- ilustra bem o princípio de que tamanho do texto necessário para esclarecer uma bobagem é uma função exponencial do tamanho do texto usado para dizê-la.&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh_3k_ES-kPqpXhR-KlrbdoX-Ok560ujdN9SEVukVztRb8lTSa3ZWgBMZjjdypzxsCFZSWLdd0tobi1q5QSbTHnyM8h4PGscQZ0FwTYM1f5rApXuX2eSEvXL1jqNkAydItuCd7tNvR_qfF/s1600/REIKI_CRYSTAL_POWER.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;640&quot; data-original-width=&quot;450&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh_3k_ES-kPqpXhR-KlrbdoX-Ok560ujdN9SEVukVztRb8lTSa3ZWgBMZjjdypzxsCFZSWLdd0tobi1q5QSbTHnyM8h4PGscQZ0FwTYM1f5rApXuX2eSEvXL1jqNkAydItuCd7tNvR_qfF/s320/REIKI_CRYSTAL_POWER.jpg&quot; width=&quot;225&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos lá: a energia de que a pessoa está falando, aí, é elétrica ou mecânica. Tem de ser, se a referência é o uso de quartzo em equipamentos eletrônicos. Cristais de quartzo têm propriedades piezoelétricas: eles produzem um campo eletromagnético quando deformados, e sofrem deformação quando submetidos um campo eletromagnético. Isso faz com que sejam úteis para sintonizar rádios, televisores (o modo de vibração natural do cristal filtra a frequência desejada) e em fones de ouvido (o sinal elétrico faz o cristal vibrar, reproduzindo o som). Cristais de quartzo também são usados como osciladores em relógios, computadores e celulares. E o quartzo é um &lt;i&gt;transdutor&lt;/i&gt; (transforma uma tipo de energia em outro) não um &lt;i&gt;condutor&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O corpo humano, é claro, não tem nada a ver com isso. Osciladores de quartzo são usados em marca-passos, mas esses são cristais especialmente selecionados, inseridos num contexto tecnológico, dentro de um dispositivo que é implantado cirurgicamente no paciente após recomendação específica. Não é uma pedra genérica moída para esfregar na pele. O que o texto da revista faz é o que se chama, tecnicamente, de &lt;i&gt;equivocação&lt;/i&gt;: usar a mesma palavra com dois sentidos diferentes, sem avisar o leitor da mudança. No sentido (1), &quot;celulares, chips, relógios&quot;, energia é uma quantidade física; no (2), &quot;corpo humano&quot;, é uma metáfora para... sei lá. Bem-estar? &amp;nbsp;Não sei se a equivocação é fruto de ignorância ou desonestidade, mas tenho cá meu palpite.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se a mídia tradicional quer mesmo ser levada a sério quando se erige em paladina na luta contra as falsas notícias (mentiras disfarçadas de jornalismo), deveria se preocupar mais em não veicular notícias falsas (jornalismo que propaga mentiras). Só dizendo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://carlosorsi.blogspot.com/feeds/3859021108654229242/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/03/pseudociencias-cristais-jornalismo.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3859021108654229242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4555105387167852647/posts/default/3859021108654229242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://carlosorsi.blogspot.com/2018/03/pseudociencias-cristais-jornalismo.html' title='Pseudociências, cristais, jornalismo'/><author><name>carlos orsi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08991876880142494023</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh1HXHbes_X0DBISuD0-Cc8Y1ZAlKZUwn6bmIZbjM_TUytNJhhRPlr9e75TookB7sH8XAW4NnQIws5PC_4SWEq-XZyz_N3o-4WKu_74Qf9gbB8wBekHfXxtefr5NQdq2JPsEsNQXtqYRIdn/s72-c/TheDarkCrystal-SacredChamber.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>3</thr:total></entry></feed>