<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843</id><updated>2014-09-17T06:39:37.796-03:00</updated><title type='text'>Cata Ossos</title><subtitle type='html'>Uma antologia de lendas urbanas de Ribeirão Preto.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>47</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-8873756314689109552</id><published>2014-09-09T03:02:00.004-03:00</published><updated>2014-09-09T03:02:43.754-03:00</updated><title type='text'>A Loira Desconhecida</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;De  tempos em tempos nas cidades mais interioranas, acontece de aparecer o  cadáver de uma mulher jovem, loira, não identificada, morta de maneira  violenta, e que acaba sendo sepultada nas quadras gerais dos cemitérios,  sem quem ninguém reclame o cadáver.&lt;br /&gt;E claro, o crime jamais é solucionado pelas autoridades competentes.&lt;br /&gt;Ribeirão Preto teve a sua participação nesse mistério que assola a imaginação através do Tempo.&lt;br /&gt;Ao final da década de 1980 uma mulher foi encontrada próxima às margens do Rio Pardo em situação conforme descrita.&lt;br /&gt;O  detalhe era o relógio de ouro no pulso esquerdo da morta, uma joia  delicada e que aparece com muito destaque nas fotos apensadas ao  inquérito policial.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Os mistérios que percorrem as Noites do Tempo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: comic sans ms,sans-serif;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;HOEnZb&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #888888;&quot;&gt;&lt;br clear=&quot;all&quot; /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/8873756314689109552/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/09/a-loira-desconhecida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8873756314689109552'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8873756314689109552'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/09/a-loira-desconhecida.html' title='A Loira Desconhecida'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-4713051630552836970</id><published>2014-05-28T10:44:00.001-03:00</published><updated>2014-05-28T10:44:12.083-03:00</updated><title type='text'>A Fábrica de Nuvens</title><content type='html'>&lt;b&gt;Ao final da tarde ele aparecia na esquina. Entre as sombras do crepúsculo entre as paredes antigas.  A sua buzina tocada por um fole era inconfundível.  O carrinho envidraçado, azul, fazia a sua presença na rua de paralelepípedos, coberta de folhas, nas calçadas rachadas de priscas eras, nas mansardas ocupadas por várias gerações.  A luz que vazava pela vidraças coloridas do carrinho de algodão doce era propiciada por um lampião a querosene. Via-se ao longe reflexos vermelhos, azuis, amarelos, laranjas.  E havia o cheiro do algodão doce que exalava na brisa ao crepúsculo.  Os meninos das redondezas aproximavam-se trazendo nas mãos tostões para adquirirem o doce mágico.  Através dos vidros coloridos era possível ver o toque do mago que criava nuvens brancas ao pressionar pedais de bicicleta e fazer girar um fuso dentro de uma bacia de alumínio. Algo incompreensível, sobrenatural. Do movimento dos pés do mago, um homem velho, muito velho, com ralos cabelos brancos, um óculos de armação de ouro, sustentando na ponta do nariz lentes de incrível espessura, vinham maravilhosas, doces e fantasmagóricas nuvens.  O mago das nuvens brancas jamais verificava o valor ou a validade das moedas que as crianças lhe entregavam.  Era algo atemporal essa sua atitude quanto ao dinheiro. As moedas poderiam ser qualquer época, mas a nuvem jamais deixava de ser entregue ao ávido freguês.   Em alguma oportunidade fui levado a imaginar que, ao passar pela rua ao final do dia, o mago já havia ganho o dinheiro suficiente de sua subsistência, e aquelas poucas peças de nuvens retiradas do horizonte infinito não iriam fazer falta em seu orçamento. Ideias de criança ficar a imaginar coisas esdrúxulas.  E nos desvãos entre o último raio de sol e a primeira estrela no céu, o carrinho de algodão doce conduzido pelo mago de cabelo branco descia e rua para outras paragens, com as cores dos vidros coloridos vistas ainda ao longe, e o cheiro de nuvem espalhado pelo ar.  E assim foi, por entre os verões, por entre os invernos, nos dias de férias, dos dias frios, nos dias quentes, nos dias de chuva, nos dias de aniversário, nos dias de mortes, naqueles dias definitivamente perdidos no Tempo.  Mas tudo aquilo que acontece sobre o mundo tem uma razão. Mesmo que não consigamos entender qual é.  De uma feita voltando certo dia em hora mais tardia da visita a um primo que se encontrava acamado, em um início de noite frio, com um vento seco e empoeirado soprando à socapa, querendo disfarçar o prenúncio de chuva anunciada ao limite do crepúsculo, avistei o carrinho de algodão doce vindo pela rua deserta, espalhando a sua luz colorida, o seu cheiro de nuvem doce. Entre as folhas secas agitadas pelo vento ao ribombar do primeiro trovão o velho parou sob uma árvore frondosa que projetava uma sombra intensa na rua e nas paredes. A minha astúcia de menino aconselhou-me a ficar quieto entre as luzes cambiantes sob o início do temporal.   Daquela sombra intensa provocada pela árvore agitada começaram a surgir meninos e meninas, um grande grupo de crianças, que caminhavam de forma silenciosa, etérea, envolvendo todos o carrinho, com as suas pequenas mãos estendidas depositando moedinhas na mão do fabricante de nuvens, que as entregava, translúcidas, refletindo as cores dos vidros, para cada um, sendo que em seguida iam afastando-se, tênues em sua consistência, tal como as nuvens de açúcar.  Logo em seguida copiosa chuva desabou sobre o mundo, lavando o cheiro do doce, apagando os vidros coloridos.  Cheguei com atraso em casa, todo molhado, levei uma bronca da mãe, tomei um banho e depois de uma sopa fui dormir.&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/4713051630552836970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/05/a-fabrica-de-nuvens.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4713051630552836970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4713051630552836970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/05/a-fabrica-de-nuvens.html' title='A Fábrica de Nuvens'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-2036102790107966796</id><published>2014-04-25T17:16:00.004-03:00</published><updated>2014-04-25T17:16:42.549-03:00</updated><title type='text'>O Homem do Martelinho</title><content type='html'>&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Nariz adunco, pele morena, chapéu de feltro com a aba caída, calça cáqui, camisa clara. Jamais soubemos o seu nome.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A tiracolo uma caixa de madeira envernizada, pendurada através de uma correia de couro.&lt;br /&gt;Por dentro a caixa era revestida de folha de flandres.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Ao pedido de  algum moleque com algumas moedas na mão, o Homem do Martelinho parava na  calçada, desdobrava os pés da caixa, apoiava-a no chão, e logo em  seguida a abria.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O que acontecia em seguida era pura Magia!&lt;br /&gt;Primeiro o cheiro e depois as cores dos doces acondicionados dentro da Caixa Mágica!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Doces &quot;quebra queixo&quot; com as cores evanescentes de Auroras e Crepúsculos.&lt;br /&gt;Um amarelo cambiante, um rosa crepuscular, um branco pálido de cálidas nuvens prenunciadoras de chuvas vindouras.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O cigano, como  o chamávamos, observava a quantia de dinheiro na mão do menino,  perguntava qual o sabor de sonho desejado, sendo o sonho amarelo  abacaxi, o sonho rosa morango, o sonho branco coco, e partia o doce,  usando um cinzel brilhante e um pequeno martelo com cabo de madeira -  pam, pam, pam - e em pouco tempo o freguês era dono de um mais pedaços  de sonhos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A entrega do doce, seguro por um pedaço de papel de pão, como era chamado, completava o ritual.&lt;br /&gt;Quando  todos eram servidos, o homem partia para outra freguesia, que poderia  ser na outra rua, ou em outro mundo, não sabíamos mas imaginávamos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O Homem do Martelinho não aparecia todos os dias.&lt;br /&gt;Também  usou de qualquer artifício para chamar a atenção de sua presença tal  como apitos, ou a repetição monótona anunciando qual produto era  vendido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Quando dava  vontade de comer os doces coloridos, era somente sair para a rua, e lá  estava o Homem parado na esquina da Travessa Tangará.&lt;br /&gt;Em qualquer dia do ano, com qualquer tempo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Muitos anos  mais tarde, quando ao recordar dos tempos de antanho, alguém na conversa  reparou que o Homem do Martelinho aparecia somente ao crepúsculo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Talvez fosse o momento que sobrava em sua faina diária passar por aquela rua naquela hora de já findo o dia.&lt;br /&gt;Naqueles  distantes anos, quando as esquinas da vida são muitas e o Vórtice do  Tempo levou muitos amigos e recordações, e chuvas e ventos, invernos,  primaveras, verões e outonos, no momento em que grande parte da Vida já  se esvaiu para um refluxo sem retorno, as cores, os odores o sabor dos  doces entremeiam os sonhos e a realidade pungente de se estar por aqui,  quando tantos e tantos já se foram.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Em uma tarde  fria de junho, estando a caminhar lentamente pela rua da minha distante  infância, observando as casas antigas, a maioria delas remodeladas,  muitas demolidas em cujos terrenos foram abrigadas outras construções,  visualizei por um instante somente, através das cores que compunham o  crepúsculo, o Homem do Martelinho envolto por uma luz tênue a cortar o  doce, no mais absoluto silêncio, e entregando-o a um menino diáfano como  ele em sua aparência, até que um ruído urbano desfez a cena etérea.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Havia somente a  rua mal cuidada, as casas, algumas soturnas, e uma brisa fria, trazendo  poeira junto com a voragem do Tempo, que não para. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/2036102790107966796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/04/o-homem-do-martelinho.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2036102790107966796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2036102790107966796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/04/o-homem-do-martelinho.html' title='O Homem do Martelinho'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-663475125470470439</id><published>2014-03-20T18:31:00.003-03:00</published><updated>2014-03-20T18:31:34.917-03:00</updated><title type='text'>O Dia de São José</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A cheia da goiaba, com as chuvas marcando o início do Outono, caiam com estrépito sobre os telhados antigos e quintais antigos, sobre os pomares, naquelas ruas silenciosas de paralelepípedos do bairro, muitas ainda sem calçamento, enchendo o rio, criando poças, abreviando o dia, fazendo com que as lâmpadas elétricas e os lampiões fossem acesos, e revigorando as plantas, entre elas as goiabeiras as quais nos dias seguintes tornavam-se pródigas em frutos maduros.&lt;br /&gt;Em um desses dias no passado distante, durante uma conversa amena ao final da tarde com o meu velho amigo G_, a chuva começou a cair, intensa.&lt;br /&gt;O dia escureceu com celeridade, um vento frio soprou de longe, vindo lá dos lados do Sul, e o barulho da chuva torrencial abafou todos os demais ruídos da fábrica de refrigerantes, do maquinário resfolegante movido com o vapor da caldeira.&lt;br /&gt;O resfriamento brusco do ar fez com que a fumaça da chaminé exalasse fumaça branca.&lt;br /&gt;Nada podíamos fazer no momento a não ser esperar a passagem do temporal.&lt;br /&gt;Naquele ano a chuva foi especialmente intensa.&lt;br /&gt;A tempestade havia começado no meio da tarde, e ao anoitecer mantinha a mesma intensidade.&lt;br /&gt;Lá nos fundos, o rio, não mais contido pelas margens, já dominava com suas águas os alicerces do primeiros prédios e chegava próximo as fundações da grande fornalha e sua caldeira.&lt;br /&gt;Tomamos mais uma xícara de café.&lt;br /&gt;Lá na fábrica alguns funcionários abrigavam-se sob o telhado da varanda esperando uma chance de poderem ir embora.&lt;br /&gt;Nesse momento, nos entremeios de um trovão e outro, o meu amigo contou uma história de priscas eras sobre a touceira de flores de São José.&lt;br /&gt;Antes da construção do barracão rosa, como era chamado um dos prédios da fábrica havia um grande canteiro de flores de São José.&lt;br /&gt;Uma parte dessas plantas foram removidas para dar lugar as fundações do prédio, mas as plantas remanescentes continuaram a vicejar, e nos anos seguintes retornaram ao esplendor original.&lt;br /&gt;Dizia o meu amigo que nas noites do dia de São José, por um fenômeno não compreendido, essas flores exalavam na noite escura uma luminescência encantadora e sinistra.&lt;br /&gt;A primeira vez foi notada pelo guarda noturno que reportou o fato ao G_ no dia seguinte.&lt;br /&gt;Como era próprio do meu amigo uma memória especialmente ativa, gravou ele o fato e, no ano seguinte buscou observar o acontecido.&lt;br /&gt;Nada aconteceu. Nos anos seguintes também não.&lt;br /&gt;O fenômeno da noite de São José resvalou para aquele espaço reservado aos tidos e acontecidos das lendas e dos fatos insólitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram os anos até a tarde em questão onde esperávamos que a chuva amenizasse para que todos pudessem ir embora após a faina diária.&lt;br /&gt;A chuva finalmente amainou. Os funcionários da fábrica despediram-se.&lt;br /&gt;Entre a chuva fina e o chão molhado acendemos as luzes dos barracões para a noite.&lt;br /&gt;O rio produzia um som intenso, grave, com suas águas a descerem com velocidade para os campos ao longe.&lt;br /&gt;Um telefonema entreteve G_ por mais algum tempo.&lt;br /&gt;Noite. Ao longe o ribombar de trovões no horizonte.&lt;br /&gt;Por aqui, o barulho do rio, o gotejar da água dos velhos telhados, a luz da fornalha que amainava.&lt;br /&gt;Preparando o veículo para irmos embora, notei um brilho tênue espalhado sobre as plantas e o chão encharcado do pátio lá no limite do terreno, próximo ao muro de taipa. Não haviam luzes elétricas naquele barracão de sucatas.&lt;br /&gt;Ato contínuo chamei pelo meu amigo.&lt;br /&gt;Com alguma apreensão caminhamos até o lugar do evento. Não era possível ser fogo pois a chuva intensa que caíra havia molhado todo o mato e a lenha da caldeira, impedindo qualquer tipo de combustão.&lt;br /&gt;Rente a parede do barracão rosa, e por uma grande extensão do terreno onde vicejavam as flores de São José, havia uma luz que oscilava entre o azul e o lilás, fraca, porém suficiente para projetar sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato constatado há muitos anos atrás repetia-se aos nossos olhos de uma maneira mágica, intensa, estranha.&lt;br /&gt;Olhamos para aquela luz que se espraiava agora por todo o terreno dos fundos e escoava, como se fosse um plasma em direção ao rio, juntando-se a água que corria e gradativamente foi diminuindo de intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em alguns minutos o lugar estava novamente às escuras, e as poças refletiam apenas as luzes distantes das instalações da fábrica de refrigerantes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/663475125470470439/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-dia-de-sao-jose_20.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/663475125470470439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/663475125470470439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-dia-de-sao-jose_20.html' title='O Dia de São José'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-8699500982171969806</id><published>2014-03-13T15:01:00.004-03:00</published><updated>2014-03-14T12:02:26.227-03:00</updated><title type='text'>O Berrador</title><content type='html'>&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;É provável que um ou outro leitor já tenha escutado, na calada da noite, um berro naquele som que não pode ser atribuído a algum cachorro, gato, ou qualquer outro animal noturno que vagueie nas sombras. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O som surge de súbito, ecoa pelos fundos dos quintais e desaparece no horizonte, de forma diáfana, e que não permite a localização de sua origem. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Existem pela cidade, em que pese todo o modernismo, resquícios de lugares antigos, mansardas decrépitas nas quais nem as lâmpadas halógenas conseguem expandir luz. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Ribeirão Preto tem lugares assim. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Às margens das antigas ferrovias, no entorno da extinta Cerâmica São Luiz, lá pelos fundos de onde existiram por muitos anos o Frigorífico Morandi, o Matadouro Municipal, a fábrica da Douradinha, o Frigorífico Marchesi e outras tantas instalações por aqueles arredores, os quais conservam&amp;nbsp;a Egrégora dos anos passados de muita história sob as luzes tênues vindas de lâmpadas em postes de madeira e de lampiões a querosene. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Em determinados momentos ao crepúsculo é possível ser percebido por um ou outro indivíduo mais sensível a atividade febril que havia naquele local e que foi esmaecendo aos poucos, dando lugar a um abandono e ruínas as quais contudo conservaram a magia esplendorosa daqueles tempos áureos. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Entre as matas conservadas às margens do rio, animais que se imaginam somente nas matas distantes acorrem àqueles lugares como refúgio a poucas quadras do centro da cidade. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Se for observado com atenção, esses espaços na verdade constituem uma ilha, pois é necessário atravessar a a ponte da rotatória ou a ponte da Via Norte para ter acesso ao local. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Essa ilha tem mantido a energia dos locais de imolação que foram os três frigoríficos do local, bem como de uma série de crimes de morte que se desenrolaram naquele espaço.&amp;nbsp; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Em algumas oportunidades nas quais desloquei-me por ali a passeio e em visita a amigos que moravam nas imediações, naqueles momentos em que o dia ainda não&amp;nbsp;é noite e a noite ainda tem resquícios do dia, ouvi um som surdo, monocórdio, intenso, cujo eco repercutiu naquelas paredes antigas, no entorno da moderna avenida, entre a cantaria corroída e os telhados decrépitos dos antigos prédios, testemunhas de uma época que o vórtice dos anos não conseguiu ainda apagar de todo. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Pela frente a Rua Industrial, ao lado o mato e as árvores grandes às margens do rio, com o crepúsculo a desenhar longas sombras. Esse lamento, uma mistura de angústia e medo parece exalar da alma daquele lugar secular de histórias de vitórias e derrotas.&lt;br /&gt;Esses berros que ribombam e se afastam na distância pelas margens do rio são, para o meu entendimento e de alguns moradores daquele lugar, dos quais um e outro trabalhou nas indústrias e nas ferrovias nos tempo antigos, um&amp;nbsp; estertor daqueles que por lá estiveram e que não irão retornar jamais.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/8699500982171969806/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-berrador.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8699500982171969806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8699500982171969806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-berrador.html' title='O Berrador'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-28314849982580760</id><published>2014-03-08T18:40:00.003-03:00</published><updated>2014-03-12T07:17:49.881-03:00</updated><title type='text'>Luzes nas Noites de Ribeirão Preto</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Há relatos, desde muito tempo, sobre pontos de luz avistados nos ermos,  em ruas desertas, em casas que sabidamente pelas lendas, são tidas como  sendo assombradas.&lt;br /&gt;Há na obra do poeta irlandês Yeats, citações sobre esse fenômeno. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ribeirão&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Preto&lt;/span&gt; também tem seus relatos.&lt;br /&gt;Nos  descampados aonde localizava-se o Cemitério dos Lazarentos, nos locais  aonde funcionaram por muitos anos abatedouros de animais, desde o  primeiro a ser construído ainda no final do Século XIX, o antigo  Matadouro Municipal, e também em ruas do centro da cidade, aonde em  tempos pretéritos existiram cemitérios. O poeta Yeats refere-se a esses pontos de luz intensa como sendo a  manifestação dos homens abatidos nos campos de batalha em sua terra  natal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Aqui entre nós, o folclore com suas lendas afirmam que esses  fenômenos de luz ocorrem em locais mal assombrados, aonde ocorreram  violências, sofrimentos,&amp;nbsp; crimes de sangue e matança de animais. &lt;br /&gt;Os locais que relatos populares, hoje perdidos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;nas&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;noites&lt;/span&gt; dos Tempos apontam, possuem essa sina.&lt;br /&gt;Houve  uma casa nos Campos Eliseos a qual durante duas gerações esteve  abandonada, a qual&amp;nbsp; os transeuntes, em horas tardias, várias vezes  relataram observar por entre as vidraças empoeiradas, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;luzes&lt;/span&gt; vagando no interior dessa casa. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;Anos mais tarde, depois de muito abandono, com mato no quintal e no  jardim, vidraças partidas, madeiramento podre e todos os demais  estigmas de casa não habitada, os pedreiros que demoliam um antigo fogão  à lenha descobriram em seu interior uma ossada.&lt;br /&gt;Mistério oculto pelo Tempo.&lt;br /&gt;Não ficou-se sabendo quem era o indivíduo morto, e nem ao menos quem o enclausurou naquele local.&lt;br /&gt;Naqueles tempos os contratos eram de boca sendo portanto raros os registros escritos.&lt;br /&gt;Com os muitos anos passados e a casa passando para domínio público,  sendo arrematada em leilão, quem pretendeu ocupá-la realizou a nefasta  descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas para corroborar as crendices.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aqueles que, imbuidos de poesia e sentimentos, em &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;noites&lt;/span&gt; tranquilas e escuras, ao aventurar-se em caminhar podem, nos lugares  citados, ou em outros pontos, divisarem, resplandescentes, esses mágicos  pontos de luz, sejam lá o que forem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/28314849982580760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/luzes-nas-noites-de-ribeirao-preto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/28314849982580760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/28314849982580760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/luzes-nas-noites-de-ribeirao-preto.html' title='Luzes nas Noites de Ribeirão Preto'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-4516073007570996222</id><published>2014-03-08T18:39:00.001-03:00</published><updated>2014-03-12T07:18:41.371-03:00</updated><title type='text'>O Cervo Branco</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;O&lt;/span&gt; texto deve ser célere, leve, tênue, como as visagens que pretende retratar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Fazenda Monte Alegre, aonde hoje situa-se &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; Campus da USP, pertenia ao fazendeiro Francisco Schimdt.&lt;br /&gt;A sede do atual Museu do Café era a casa principal da fazenda.&lt;br /&gt;Tempos do café.&lt;br /&gt;Muito dinheiro circulando, muita riqueza acumulada pela elite produtora dessa &quot;commodity&quot;.&lt;br /&gt;E as lendas de ouro guardado.&lt;span class=&quot;il&quot;&gt; O&lt;/span&gt; ouro do coronel.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;As lendas começaram a ser murmuradas a boca pequena pouco tempo após a sua morte nos anos de 1920.&lt;br /&gt;Mais de um vigia noturno, mais de um notívago vem referindo-se através das décadas quanto a apariçã&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; de um &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;cervo&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;branco&lt;/span&gt;,  de olhos vermelhos, que caminha placidamente pelos vetustos jardins que  existem naquele local, e desaparece quando chega ao coreto.&lt;br /&gt;E nas noites que evolam, perdidas nas épocas, mesmo nesse tempo de  lâmpadas eletrônicas e computadores, há as noites em que a visagem  aparece, rápida, tênue, semi-luminosa, caminha pelos jardins e  desaparece.&lt;br /&gt;Sempre na Hora Neutra da madrugada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/4516073007570996222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-cervo-branco.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4516073007570996222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4516073007570996222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-cervo-branco.html' title='O Cervo Branco'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-1988499537404501304</id><published>2014-03-08T18:38:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:18:48.056-03:00</updated><title type='text'>Miúcha e o Seu Tempo. Visita na Noite.</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Chamava-se &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mi&lt;/span&gt;ú&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;cha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Uma Basset. De pelagem marrom.&lt;br /&gt;Viveu em um &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;tempo&lt;/span&gt; encantado.&lt;br /&gt;Em um lugar encantado.&lt;br /&gt;De muitas árvores, em um grande quintal,&lt;br /&gt;daqueles quintais das casas antigas, aonde não se limitava espaço.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;il&quot; style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Mi&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;ú&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;cha&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;e&lt;/span&gt; todas as estrepolias de cachorro saudável.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Correr atrás de bolinhas, perseguir gatos, a fugir dos banhos, glutona, &lt;br /&gt;dormindo estirada ao sol, nos dias de preguiça, a enconder-se, aflita, dos raios &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;e&lt;/span&gt; trovões nos dias sombrios de chua de frio.&lt;br /&gt;Uma variedade da latidos a exprimir o que lhe ia na alma(?), espantando os pássaros &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;e&lt;/span&gt; recebendo as reprimendas de costume.&lt;br /&gt;A sua maneira de receber aqueles que com ela participavam das brincadeiras, entre os &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;seus&lt;/span&gt; latidos agudos de alegria. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;E&lt;/span&gt; todo um cabedal de anos, uns bons, outros nem tanto,&lt;br /&gt;como acontece em todas vidas.&lt;br /&gt;Aquela vida, representada pela areia a&lt;br /&gt;escorrer pela ampulheta do &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Tempo&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Um dia a areia para de escorrer. &lt;br /&gt;Para de escorrer para todo o mundo.&lt;br /&gt;Em um distante agosto, parou para a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mi&lt;/span&gt;ú&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;cha&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;Silêncio no quintal antigo, sob as jaboticabeiras.&lt;br /&gt;Silêncio calado no peito daqueles que a conheciam &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;e&lt;/span&gt; cuidavam.&lt;br /&gt;Silêncio sob a luz baça que iluminava, entre as sombras, os cantos escondidos do imenso quintal.&lt;br /&gt;Passaram-se os dias. Muitos dias. &lt;br /&gt;Dias que transformam-se em semanas, meses.&lt;br /&gt;Em uma noite, alguns dos antigos personagens daqueles dias&lt;br /&gt;Já diluídos no &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Tempo&lt;/span&gt;, dirigiram-se até o quintal para inventariar alguns objetos.&lt;br /&gt;Adentraram por um portão lateral.&lt;br /&gt;A luz do quintal não acendeu.&lt;br /&gt;Escuro.&lt;br /&gt;A casa, agora vazia, pois em uma ocorrência de situações havia sido fechada pela antiga proprietária.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Luz  apagada, com uma pernumbra provocada pelo quarto crescente da Lua  derramando-se sobre as folhagens, sobre as imensas jaboticabeiras  paradas, espreitando no ar frio. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;E&lt;/span&gt;, de um instante, todos os quatro presentes ouviram, em espanto, os latidos que a cachorra &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mi&lt;/span&gt;ú&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;cha&lt;/span&gt; dava, quando recebia visitas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/1988499537404501304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/miucha-e-o-seu-tempo-visita-na-noite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1988499537404501304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1988499537404501304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/miucha-e-o-seu-tempo-visita-na-noite.html' title='Miúcha e o Seu Tempo. Visita na Noite.'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-8411722172324422099</id><published>2014-03-08T18:36:00.002-03:00</published><updated>2014-03-20T18:33:25.719-03:00</updated><title type='text'>Ariel, O Mágico</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Eu &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; conheci criança. Quase uma criança de colo. Negro. Filho da Cicera.&lt;br /&gt;  No inverno vinha &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt; com uma blusa de flanela somente com &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; primeiro botã&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; abotoado. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;O&lt;/span&gt; primeiro de cima. Às vezes vinha com manha. Às vezes vinha calmo.&lt;br /&gt;E nisso, muitos anos passaram. Todos foram de crianças para os adultos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A Cicera? A nossa amiga Cicera morreu em um momento do caminho. Deixou &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt; de olhos tristes, de inteligência fina, de dedos rápidos. Um &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;mágico&lt;/span&gt;! Um &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;mágico&lt;/span&gt; como Michael Jackson, um gênio do entretenimento, um gênio dos sonhos. Um gênio da liberdade, da alma solta, ao vento, como &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; vento, ou como as folhas secas levadas por ele, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; Vento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;  Levitava em minha sala, fazia moedas atravessarem a mesa sólida de  madeira. Fazia objetos aparecerem nos mais inusitados lugares. Trazia  pombas, coelhos, cambaxirras nas mangas. Divertia as crianças. Espantava  os adultos.    &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, livre como &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; pensamento, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, livre como vento. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;. Uma das cinco grandes luas de Urano. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, nome de anjo. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, quase um anjo caído.&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel,&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mágico,&lt;/span&gt; passou vários anos pelas nossas vidas, até mesmo após a morte de sua mãe.   &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, amigo; por vezes penso, que aqueles distantes dias já pertencem a uma outra vida.&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, que se projetou no Tempo, na magia do Tempo, e foi a contento, acompanhando um circo, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mágico&lt;/span&gt; do Circo, de estrepolias inocentes, de doce magia, entre pipocas e algodã&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; doce colorido, de truques magníficos, sobrenaturais.&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Ariel&lt;/span&gt;, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;o&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mágico&lt;/span&gt; dos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Mágicos&lt;/span&gt;, tocado pelo Anjo, tocado pela Inteligência, tocado pela Magia de ser ele mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/8411722172324422099/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/ariel-o-magico.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8411722172324422099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/8411722172324422099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/ariel-o-magico.html' title='Ariel, O Mágico'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-4414704328010442277</id><published>2014-03-08T18:34:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:19:12.739-03:00</updated><title type='text'>Ventos de Agosto</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Há reclamos gerais, mas soam inócuos. A Natureza segue o seu caminho, indiferente ao mais hiperativo de seus filhos, o homem. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Agosto&lt;/span&gt;, em nossa região, sempre foi mês de frio, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;vento&lt;/span&gt; e seca. Assim serão os agostos.&lt;br /&gt;Até onde poderemos lembrar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Mês do Folclore, mês da lendas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Nesse dia, 16 de &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;agosto&lt;/span&gt;, em 1983, ao sair para a rua, havia geada sobre a grama, sobre os veículos.&lt;br /&gt; Nesse dia, l6 de &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;agosto&lt;/span&gt;, o Sr. Gino Baldoni Alpes, criador do elixir da felicidade, a Douradinha, completa aniversário.&lt;br /&gt;Nesses dias de &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;agosto&lt;/span&gt;, nos redemoinhos, nos pastos secos das queimadas, é possível ouvir o Saci Pererê, com o seu agudo assobio ... Alguém duvida?&lt;br /&gt;  Esse é o tempo de &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;agosto&lt;/span&gt;, de frio, seca e &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;vento&lt;/span&gt; ... e o que mais virá, nos mistérios das lendas, tão esquecidas e  desprezadas nesses tempos de então, quando toda a sensibilidade e a  poesia esvaem-se por entre as sombras do esquecimento.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/4414704328010442277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/ventos-de-agosto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4414704328010442277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4414704328010442277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/ventos-de-agosto.html' title='Ventos de Agosto'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-1541121188442866492</id><published>2014-03-08T18:31:00.003-03:00</published><updated>2014-03-12T07:19:21.625-03:00</updated><title type='text'>Reinaldinho</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;1963. O ano era 1963.&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Reinaldinho&lt;/span&gt; tinha quatro anos.&lt;br /&gt;Um garoto loiro, miúdo.&lt;br /&gt;A sua mãe era, como se dizia na época, uma mulher da vida.&lt;br /&gt;Mas era mãe. Contudo mãe ausente.&lt;br /&gt;Não foram poucas as noites em que a mesma deixava o menino só em casa e saia para a noite. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Reinaldinho&lt;/span&gt; era uma criança triste. Via-se alegria em seu rosto infantil quando, nos finais das tardes, pedalava o seu velocípede pelas calçadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;E  foi através de sua crescente dificuldade em impulsionar o brinquedo que  evidenciou-se os sintomas da doença que o estava acometendo.&lt;br /&gt;Mas, passou-se mais algum tempo para que a mãe notasse. &lt;br /&gt;E o ruído característico do brinquedo pelas calçadas continuou. &lt;br /&gt;Mais fraco, mais cadenciado, conforme o ritmo da impulsão que Ronaldinho aplicava aos pedais.&lt;br /&gt;Por um dia, dois, três, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Reinaldinho&lt;/span&gt; não apareceu ao final da tarde, para o seu costumeiro passeio.&lt;br /&gt;As outras mulheres indagaram a mãe, em uma oportunidade que se fez, da ausência do menino.&lt;br /&gt;Ele referiu que o garoto estava doente, com uma infecção na época tratada como &quot;reumatismo infeccioso&quot;.&lt;br /&gt;Entre o diagnóstico e o passamento, correu o espaço de alguns dias.&lt;br /&gt;Um  enterro simples, triste, de poucas pessoas, sob um céu de chumbo, de  garoa fria, em um hoje distante junho, de outra época, de outras modas,  de outros valores, de outros sentimentos.&lt;br /&gt;Em uma quadra geral no Cemitério da Saudade.&lt;br /&gt;É esse fim que projeta o indivíduo para a Eternidade.&lt;br /&gt;A vida é um lapso, mas morre-se para todo o sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se décadas.&lt;br /&gt;As pessoas mudam, morrem, casas são construídas, casas são demolidas.&lt;br /&gt;A um constante e inútil movimento chamado de progresso.&lt;br /&gt;Muda-se a aparência, mas não se muda da essência.&lt;br /&gt;Os lugares são sempre os mesmos em suas energias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cemitério também mudou.&lt;br /&gt;Não existem mais as quadras gerais, com os sepultamentos na terra.&lt;br /&gt;Tudo foi revirado e transformado.&lt;br /&gt;Nada mais restou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No  entanto, por muito tempo, os antigos moradores da vizinhança do finado,  ouviam nas tardes frias e silenciosas, no início da noite, entre a brisa  e as folhas soltas ao vento, entre os murmúrios dos dias passados, o  ruído do velocípede do &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Reinaldinho&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/1541121188442866492/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/reinaldinho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1541121188442866492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1541121188442866492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/reinaldinho.html' title='Reinaldinho'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-5100994937645820512</id><published>2014-03-08T18:30:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:19:32.307-03:00</updated><title type='text'>A Loira do Banheiro</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;As lendas são histórias populares, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; senso comum, nas quais em que pese não terem comprovação científica, inundam o imaginário popular.&lt;br /&gt;Mas, estamos a divagar.&lt;br /&gt;Não há explicações para o que não pode ser explicado.&lt;br /&gt;Com a urbanização, as cidades, tal como nos campos de antanho, passou a ter as suas lendas. &lt;br /&gt;Urbanas. Não menos interessantes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Os fatos relacionados com uma jovem &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;loira&lt;/span&gt;, que, de tempos em tempos assombra os &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiros&lt;/span&gt; femininos das escolas são muito conhecidos.&lt;br /&gt;Em Ribeirão Preto essa lenda iniciou-se ainda em meados da década de 1950 e permanece até hoje.&lt;br /&gt;O porque de existir, como todas as lendas, foge de nossa possibilidade de compreensão.&lt;br /&gt;Mas a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;loira&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiro&lt;/span&gt; existe, e, de tempos em tempos, assombra os &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiros&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Femininos.&lt;br /&gt;Não há relatos da aparição em &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiros&lt;/span&gt; masculinos. Claro, pois ela, a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Loira&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Banheiro&lt;/span&gt;, é uma dama!&lt;br /&gt;No mês de Maio &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; distante ano de 1974, algo aconteceu por aqui.&lt;br /&gt;Tal  como aqueles fenômenos sazonais, os quais foram estudados com maestria  por Charles Fort, que aparecem em alguma época e depois esvaem-se no  Tempo, permanecendo na lembrança daqueles que o conheceram e que dão um  colorido de medo nas narrativas, nos casos contados na boca da noite, a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Loira&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Banheiro&lt;/span&gt; visitou uma escola.&lt;br /&gt;Uma escola pública, tradicional em Ribeirão Preto, como eram tradicionais as coisas antigas.&lt;br /&gt;Hoje  tudo banalizou-se, tudo caminhou para um enfado, uma falta total de  sensibilidade e poesia, matéria prima necessária para criarem-se  fantasmas.&lt;br /&gt;Mas esse fantasma, a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Loira&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Banheiro&lt;/span&gt;, frequentou com tal assiduidade as dependências da escola em questão, que as meninas passaram a recusar-se a utilizar o &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiro&lt;/span&gt;,  havendo vários casos de desmaios e histeria generalizada entre elas,  que a direção da escola suspendeu as aulas por vários dias.&lt;br /&gt;Não houve aulas no período noturno por algum tempo.&lt;br /&gt;Haviam relatos sobre uma luz cambiante divizada através das janelas daquele recinto condenado.&lt;br /&gt;Nas turmas das séries diurnas havia também um frenesi, um medo mal dissimulado.&lt;br /&gt;Entreva-se no &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiro&lt;/span&gt; somente em grupos.&lt;br /&gt;Em  um certo dia, mais frio e muito nublado, vários alunos afirmaram terem  visto uma luz baça, de tom verde, a esvair-se por sob as portas de um &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;dos&lt;/span&gt; sanitários.&lt;br /&gt;Havia medo nos alunos. Havia medo entre os professores e funcionários.&lt;br /&gt;Havia a ausência de uma explicação.&lt;br /&gt;Mas, os dias foram passando, e como acontece nesses casos, o fenômeno vai de desernegizando, outros fatos ocuparam seu lugar.&lt;br /&gt;Tal  como quando se obtém uma graça, o motivo pelo qual solicitou-se,  dissolve-se no cotidiano de cada dia, com as preces vagando eternamente  pelo éter, até o momento no qual sejam novamente necessárias.&lt;br /&gt;Assim aconteceu. O temor, o receio atávico, o medo ancestral foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nossa Ribeirão Preto, essa aparição foi relacionada a uma jovem que morreu aos 18 anos, em 1953.&lt;br /&gt;Após essas ocorrências, o túmulo da família aonde essa jovem encontra-se sepultada, foi local de peregrinação.&lt;br /&gt;Curiosos e crédulos estiveram por lá. Retirou-se da lápide a foto da jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos passam, atropelam-se as recordações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No  outro dia ouvi as observações de uma menina, muito jovem ainda, dizendo  que, de vez em quando, sente uma presença, como se alguém mais  estivesse no &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiro&lt;/span&gt; da escola.Não um outro colega, se me entendem.&lt;br /&gt;Há sempre em resquício de medo. &lt;br /&gt;Há sempre uma sombra, há sempre em reflexo mal divisado no espelho.&lt;br /&gt;Mas isso é somente uma lenda.&lt;br /&gt;Um lenitivo para o tédio das horas vazias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia o zelador da escola comentou que havia esquecido de apagar a luz &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;banheiro&lt;/span&gt; feminino. &lt;br /&gt;Mas ele estava muito cansado da labuta diária para sair de sua casa, abrir uma série de portas e acionar o interruptor.&lt;br /&gt;De mais a mais, comentou, não saber se era a lâmpada daquele recinto em questão que estava acesa. &lt;br /&gt;Afinal, a luz que escoava por entre a folhagem &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; jardim entorno, vista por seus olhos cansados,&amp;nbsp; era de um tom verde.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/5100994937645820512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-loira-do-banheiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5100994937645820512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5100994937645820512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-loira-do-banheiro.html' title='A Loira do Banheiro'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-5590309890123086021</id><published>2014-03-08T18:28:00.005-03:00</published><updated>2014-03-12T07:19:42.225-03:00</updated><title type='text'>Walpurgis em Ribeirão Preto</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Crianças desaparecem.&lt;br /&gt;Por vezes jamais são encontradas.&lt;br /&gt;A passagem do Tempo as levam para o esquecimento.&lt;br /&gt;Nos registros da cidade, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; anos intercalados, foram registrados o desaparecimento &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; várias crianças pequenas.&lt;br /&gt; Comentava-se o fato por um período, as autoridades agiam, mas o resultado era pífio.&lt;br /&gt;Entre os anos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; 1890 até 1932, noticiou-se o desaparecimento &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; vinte e três crianças.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Jamais foram encontradas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Após o ano &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; 1932 houveram outros desaparecimentos, mas &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; intervalos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; anos maiores.&lt;br /&gt; Quem atentou para o fato da sequência &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; desaparecimentos foi o meu amigo G-.&lt;br /&gt;Mas isso muitos anos depois &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; todo o acontecido.&lt;br /&gt;Atentou o meu velho e bom amigo para um detalhe que as crianças, todas entre 1890 e 1932, desapareceram&amp;nbsp; nos dias finais do mês &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; abril.&lt;br /&gt; Até 1932.&lt;br /&gt;Conversávamos sobre isso &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; seu  escritório na velha fábrica. As nossas confabulações ocorriam quase  sempre ao final do dia, quando as sombras cambiantes começavam a  ressaltar a pernumbra anunciando a noite próxima.&lt;br /&gt; É um momento do dia &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; que acentua-se um silêncio que provém &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; outros lugares, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; outras crenças, e que para nós é quando os anjos recolhem-se das fainas do dia.&lt;br /&gt;E a conversa correu amena, como &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; outras oportunidades, entre uma xícara &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; café e outra.&lt;br /&gt;E o assunto havia começado porque o dia era 30 &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; Abril, e as recordações fluiram para o meu amigo após muitas décadas, como se os fatos haviam desenrolado-se no dia anterior.&lt;br /&gt;Veja - disse-me - a noite &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; 30 &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; Abril para 1 &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; Maio é a noite &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Walpurgis&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;É uma noite temida na Europa. &lt;br /&gt;Talvez tenhamos esse medo atávico por causa &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; nossas origens.&lt;br /&gt;Mas lá, na Velha Terra, toma-se um cuidado especial com as crianças pequenas.&lt;br /&gt;Nessa noite comemora-se o início da Primavera, e nos rituais cujas origens perdem-se na Noite dos Tempos, a realização &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; sacrifícios eram comuns.&lt;br /&gt;Coisas antigas que perdem o sentido nesse mundo &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; lâmpadas eletrônicas, computadores, internet, contudo artefatos os  quais pouco efeito tem sobre a noite e as criaturas e lendas que  caminham nas bordas do Tempo.&lt;br /&gt;É possível observar que, nesses dias desaparecem crianças pequenas que não são mais encontradas.&lt;br /&gt;Há períodos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; calmaria, e por vezes passam-se anos sem nenhuma ocorrência, mas, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; outros, esses desaparecimentos acontecem.&lt;br /&gt;Dizendo isso, o meu amigo G- levantou-se &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; sua cadeira e foi até um armário antigo, objeto n o qual poucas vezes eu havia visto com a porta aberta. &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;De&lt;/span&gt; lá, o meu amigo retirou uma pasta muito velha, e que continha uma quantidade &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; recortes &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; jornais.&lt;br /&gt;Alinhnado-se pelas datas do cabeçalho, foi possível reler as notícias &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; anos e anos no passado.&lt;br /&gt;E aquilo que o meu velho amigo havia dito era uma constatação.&lt;br /&gt;Nas notícias, muitas com a gramática pretérita, estampadas nos papéis amarelados e frageis, foi possível conhecer uma série &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; desaparecimentos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; datas próximas ao dia 30 &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; Abril.&lt;br /&gt;Eram surpreendentes! O meu velho amigo, com a sua sensibilidade ímpar havia colecionado uma sequência incrível &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; fatos os quais não haviam despertado a atenção &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; ninguém. &lt;br /&gt;Algumas datas estavam anotadas &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; sua caligrafia cursiva &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; finas folhas &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; papel &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; seda. &lt;br /&gt;Explicou-me que, quando &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; um dado momento, através da leitura &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; periódicos notou a sequência, ano após ano, do desaparecimento &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; crianças, dirigiu-se a sede do jornal, nauseou exemplares &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; muitos anos passados, e, na impossibilidade &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; possuir uma cópia dos mesmos, realizou as anotações.&lt;br /&gt;Era assombroso!&lt;br /&gt;Fatos semelhantes &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; seus contornos, afastados por muitos anos no tempo.&lt;br /&gt;Mais uma xícara &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; café e acendemos a luminária sobre a mesa antiga &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; tampo riscado pelos anos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; uso constante.&lt;br /&gt;As notícias fluiam como uma sênie mágica e repelente.&lt;br /&gt;Somente a mente lúcida e atenta do meu amigo poderia ter notado essa sequência estranha &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; fatos.&lt;br /&gt;E o mesmo jamais havia comentado com outro indivíduo, a não ser naquela presente oportunidade.&lt;br /&gt;Lá fora a noite era feita.&lt;br /&gt;A luz da luminária que vazava pela porta, desenhava um retângulo amarelo no pátio.&lt;br /&gt;Para todos os lados, escuridão.&lt;br /&gt;Apenas um ou outro pirilampo mostrava a sua luz verde contra a noite.&lt;br /&gt;Um lasvio &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;de&lt;/span&gt; sabor amargo percorria a boca, conforme os olhos tomavam conhecimento daqueles fatos insólitos, perdidos no Passado.&lt;br /&gt;A leitura e a nossa conversa avançou por mais alguns minutos.&lt;br /&gt;O relógio mostrava o adiantado da hora.&lt;br /&gt;Pouco depois o guarda noturno chegou, e ajudei-o a acender as lâmpadas do pátio e dos prédios lá no fundo.&lt;br /&gt;Ao acender a lâmpada da caldeira, soprava um brisa fria a qual contrastava com o calor que ainda emanava da fornalha.&lt;br /&gt;Naquele momento pensei ouvir um breve lamento soturno entre o farfalhar das folhas dos mamoeiros localizados logo ali na horta.&lt;br /&gt;Imaginação solta. &lt;br /&gt;A conversa havia sido muito envolvente.&lt;br /&gt;Recolhemos as nossas coisas, despedimo-nos do guarda e embarcamos no automóvel.&lt;br /&gt;Estavamos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; silêncio.&lt;br /&gt;Mas penso que o meu amigo meditava algo semelhante ao que me passava pela cabeça naquele momento.&lt;br /&gt;Algos fatos, alguns segredos devem ficar aonde estão, lá, bem guardados, &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;em&lt;/span&gt; uma esquina qualquer do Passado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/5590309890123086021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/walpurgis-em-ribeirao-preto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5590309890123086021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5590309890123086021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/walpurgis-em-ribeirao-preto.html' title='Walpurgis em Ribeirão Preto'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-1151028616346067832</id><published>2014-03-08T18:27:00.003-03:00</published><updated>2014-03-12T07:19:54.178-03:00</updated><title type='text'>A Casa do Tião Macalé</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Acordei de um sono intranquilo, ainda com os ecos &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; sonho incabado ecoando nos ouvidos.&lt;br /&gt;Em algum lugar da vizinhança realizava-se uma festa.&lt;br /&gt;O ruí&lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; surdo de cantorias era acompanhado de estouros. Estouros fracos mas audíveis.&lt;br /&gt;Verifiquei as horas.&lt;br /&gt;Passava um pouco da uma da manhã.&lt;br /&gt;Levantei e dirigi-me até o quarto &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;dos&lt;/span&gt; fundos.&lt;br /&gt;A noite estava tranquila, sem vento, e o calor &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;dos&lt;/span&gt; últimos dias ainda refratava nos telhados escuros.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Ouvi outros estouros. Cheguei a conclusão que deveria ser balões e que  tudo fazia parte das comemorações na festa que avançava pela madrugada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Olhei pela janela na direção oposta.&lt;br /&gt;As &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;casas&lt;/span&gt; eram silhuetas escuras na noite sem luar.&lt;br /&gt;Destacando-se mais alta, a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;casa&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Tião&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Macalé&lt;/span&gt; na rua abaixo.&lt;br /&gt;É um sobrado, e o &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Macalé&lt;/span&gt; que é artista plástico renomado, deu a sua residência um aspecto singular.&lt;br /&gt;Na parte superior foram usados diversos tipos de materiais e diversos tipos de cobertura. &lt;br /&gt;Observada à luz &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; dia, a &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;casa&lt;/span&gt; tem um aspecto e cores bem diferentes das demais &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; entorno.&lt;br /&gt;Reflete a verve criadora &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; seu morador.&lt;br /&gt;Mas, naquele instante, outra coisa chamou-me a atenção na noite escura.&lt;br /&gt;Uma miríade de pequenas luzes coloridas percorria toda a parede &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; sobrado distante, uma corrente de luzes coloridas, infinitas, como se  centenas de pirilampos subissem e descessem pelas paredes. Se houvessem  pirilampos com outras cores além &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; verde.&lt;br /&gt;Foi uma onde incrível de luz intensa, fenômeno que durou alguns segundos, para logo em seguida desaparecerem.&lt;br /&gt;Recortada contra a escuridão, ficou apenas uma janela fracamente iluminada, na parte mais alta da &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;casa&lt;/span&gt;, como se tivesse sido deixada acesa uma vela.&lt;br /&gt;Essa mesma luz oscilou por alguns instantes e finalmente também  apagou-se, permanecendo tudo nas trevas que envolviam a noite tépida.&lt;br /&gt;Permaneci por mais algum tempo observando, mas as luzes não tornaram a aparecer.&lt;br /&gt;Como para o conhecimento humano deparam-se mais mistérios &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; que soluções, registro mais esse fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O famoso escritor inglês Edward Bulwer-Lytton e seu conto A &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;Casa&lt;/span&gt; e o Cérebro, publicado em 1859, descreve efeito semelhante.&lt;br /&gt;Na noite em questão, 16 de setembro, tive a oportunidade de observar a plástica da ocorrência na obra literária &lt;span class=&quot;il&quot;&gt;do&lt;/span&gt; citado autor.&lt;br /&gt;Luzes intensas e coloridas nas noites escuras podem ser transmigrações de espíritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, realmente, a noite continuou agitada entre um despertar brusco e ecos ainda a ribombar na noite.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/1151028616346067832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-casa-do-tiao-macale.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1151028616346067832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/1151028616346067832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-casa-do-tiao-macale.html' title='A Casa do Tião Macalé'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-7054724973649244352</id><published>2014-03-08T07:37:00.001-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:04.970-03:00</updated><title type='text'>Uma Carta para o Dr. Edwar</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_725&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_723&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_722&quot;&gt;Aquela manhã de junho estava fria e chuvosa.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_729&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_727&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_726&quot;&gt;No  trajeto que o Dr. Edwar fazia até a delegacia, ela passava por sob as  grandes árvores da praça, as quais gotejavam a umidade acumulada.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_733&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_731&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_730&quot;&gt;Naquela hora não havia ninguém no entorno. Nem os costumeiros andarilhos embriagados.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_737&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_735&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_734&quot;&gt;A luz tênue das últimas luminárias refletia-se nas poças.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_741&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_739&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_738&quot;&gt;Aqueles  momentos de silêncio e apatia de um dia frio encontravam um homem  simples, de rotinas, caminhando para o seu local de serviço, talvez algo  disposto pois o clima ameno depois de vários dias de calor era algo bem  vindo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O  Dr. Edwar entrou no prédio da repartição, uma casa antiga, adaptada  para ser uma delegacia, de um grande bairro da cidade, mas de qualquer  forma pacata em suas ocorrências. Uma desavença ocasional de casais,  alguma discussão de vizinhos, um pequeno furto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_745&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_743&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_742&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_749&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_747&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_746&quot;&gt;À entrada cumprimentou o funcionário que encerraria o seu plantão logo mais, e dirigiu-se para a sua sala.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_753&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_751&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_750&quot;&gt;Estava  fria. Acendeu a luminária, uma peça antiga de cristal, que fazia parte  do acervo da casa. Algumas lâmpadas fracas brilharam, acentuando ainda  mais as sombras fugídias nos cantos das paredes entre os arquivos. Ao  correr a cortina, entrou um pouco mais de luz, mostrando a praça, do  outro lado da rua.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_757&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_755&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_754&quot;&gt;Agora, um ou outro transeunte apressava-se sob a chuva que se intensificava.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_761&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_759&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_758&quot;&gt;Não havia nenhuma ocorrência urgente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_765&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_763&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_762&quot;&gt;Sobre a mesa acumulava-se um volume de de correspondências dos dias anteriores.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_769&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_767&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_766&quot;&gt;O Dr. Edwar pediu que lhe trouxessem uma xícara de café e começou a verificar os envelopes.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_773&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_771&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_770&quot;&gt;A maior parte eram documentos oficiais. Algumas propagandas também faziam parte do volume. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;Outras  provinham de entidades que solicitavam algum tipo de auxílio, uma da  igreja, comunicando da quermesse, e ainda uma carta em um envelope  pardo, de tamanho ofício, sem remetente.&lt;br /&gt;O  endereçamento estava escrito em letra de forma com as letras achuriadas  com tinta de outra cor, com o objetivo de dificultar uma uma possível  identificação.&lt;br /&gt;As autoridades policiais recebem muitas cartas anônimas. Seria essa mais uma. Há sempre uma curiosidade em relação a esse tipo de correspondência.&lt;br /&gt;O Dr. Edwar bebericou um pouco do café, e abriu a carta.&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_777&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_775&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_774&quot;&gt;Haviam duas laudas datilografadas, em papel comum, e a tinta da fita de impressão da máquina estava bastante fraca.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_781&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_779&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_778&quot;&gt;Haviam algumas palavras corrigidas à tinta, não havia data na cabeçalho e também nenhum nome, nenhuma assinatura. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_785&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_783&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_782&quot;&gt;Observando o envelope, foi possível constatar que a carta havia sido postada na cidade mesmo, na agência do correio da avenida.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_789&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_787&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_786&quot;&gt;Após esse exame, o delegado passou a ler o texto, o qual dizia, resumidamente, o seguinte:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_793&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_791&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_790&quot;&gt;&quot;...  há muitos anos que eu não vinha para Ribeirão Preto. A cidade cresceu  muito em relação aos anos de 1950. Existem lugares que nem ao menos os  reconheci. Foram abertas novas ruas, outras foram pavimentadas, outra  ainda estão no completo abandono que sempre as caracterizou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_797&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_795&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_794&quot;&gt;Ribeirão Preto sempre foi mesmo uma cidade de contrastes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_801&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_799&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_798&quot;&gt;Caminhei  por vários bairros, passei pelas antigas estações ferroviárias, vi que a  central nem existe mais. Ouvi também que pretendem resolver a questão  centenária das enchentes, com o alargamento do leito do rio, o que,  penso, irá sacrificar as palmeiras e outras árvores majestosas,&amp;nbsp;  plantadas desde o começo do século. Sinais dos tempos ... Também  observei que a cerâmica das sete chaminés não está mais ativa, bem como  as demais indústrias que deram o nome aquela rua que termina na fábrica&amp;nbsp;  de refrigerantes. Ouvi também da vizinhança que o dono da fábrica, o  Senhor G_ ainda é vivo, bem avançado na idade. No mais escombros. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_805&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_803&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_802&quot;&gt;E  mais escombros ainda, quando observei que o antigo Matadouro Municipal  foi demolido, o por sobre os restos edifício há uma via pública.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;Restaram  somente alguns muros de arrimo de separavam os animais para o abate do  leito da ferrovia. De qualquer forma, a situação é interessante.&lt;br /&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_809&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_807&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_806&quot;&gt;Os  nove indivíduos que por ali sepultei, entre os escombros e a cantária,  gentes de somenos que perambulavam pelos arredores, prostitutas e  notívagos, jamais serão encontrados ...&quot;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_813&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_811&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_810&quot;&gt;O Dr. Edwar leu as últimas linhas entre um austo de espanto e incredulidade. Bebericou mais um gole de café, já frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_817&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_815&quot;&gt;&lt;span id=&quot;yui_3_14_0_1_1394274990747_814&quot;&gt;Lá  fora, no horizonte, ribombou um trovão, e a chuva ganhou intensidade,  enevoando a vista da praça, e tornando baça a luz de um ou outro veículo  que passava.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/7054724973649244352/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/uma-carta-para-o-dr-edwar_8.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/7054724973649244352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/7054724973649244352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/uma-carta-para-o-dr-edwar_8.html' title='Uma Carta para o Dr. Edwar'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-3001070728041895560</id><published>2014-03-08T07:36:00.001-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:17.955-03:00</updated><title type='text'>O Coral das Sombras Diáfanas</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Os espaços urbanos mudaram.&lt;br /&gt;No lugar de antigos prédios, de terrenos  baldios, surgiram, com o passar dos anos, outras construções e os  terrenos foram ocupados.&lt;br /&gt;É assim que funcionam as cidades.&lt;br /&gt;Contudo alguns edíficios foram preservados.&lt;br /&gt;Alguns públicos, outros não, a manutenção desse conjunto arquitetônico mantém um liame de ligação entre o Presente e o Passado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Esses edifícios, concebidos com outros materiais, com outras técnicas destacam-se, hoje, das construções do entorno.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Possuem uma aparência vetusta, como um objeto que virou uma esquina do  Tempo, e por vezes mostram-se apartados do atual momento histórico.&lt;br /&gt;Refletem uma egrégora de outras ideias, outros indivíduos, outros valores.&lt;br /&gt;Penetram na linha do Tempo sublimes, inabaláveis, enfrentando as intermpéries. Repositários da História.&lt;br /&gt;Pelo fato de não terem sido demolidos, criam uma força sublime que nos  faz acreditar estarem fadados ao um Futuro muito mais distante daqueles  todos que os veem e os frequentam. São mágicos. Por vezes, soturnos. Em  suas fundações de tijolos de barro cru, sustentando a estrutura de  grossas paredes, entre as vigas de madeira, os pisos, os antigos  encanamentos, a fiação elétrica, as sucessivas pinturas da paredes,  repousam a História de inúmeros fatos, bons ou não, que compoem a marca  dos indivíduos e suas criações no mundo.&lt;br /&gt;Alguns desses edifícios parecem exalar uma vida própria, como se fossem  organismos imensos, desafiando as épocas, os valores, os homens.&lt;br /&gt;Viram  lendas. São assombrados. O Passado percorre as suas salas, os seus  corredor5es. Os seus cantos escuros. Goteja dos telhados em dias de  chuva. Está impregnado no lodo das paredes e das calçadas de tijolos,  contornando os antigos canteiros de flores. Alguns tem quintais com  pomares. Árvores que estão lá há muitas décadas. Algumas ainda produzem  frutos. Outras morreram, e os galhos finos, secos, são testemunhos dos  tempos aureos.&lt;br /&gt;A arquitetura reflete o momento histórico em que foi criada.&lt;br /&gt;A exuberância é a prova do poder econômico.&lt;br /&gt;Mas tanto as construções mais ricas quanto as mais humildes, se permanecem passam a ter uma aura.&lt;br /&gt;Os  espíritos antigos, em algum momento, apossam-se do lugar. É um refúgio,  ainda inespugnável, do avanço das mentalidades que não pautam pelos  sentimentos, pela poesia.&lt;br /&gt;Em Ribeirão Preto foram preservados alguns lugares assim.&lt;br /&gt;Na antiga  escola pública do centro permanecem algumas características mesmo sob a  insensibilidade de todos os que percorrem os seus espaços. Os homens  passam, as ideias ficam. &lt;br /&gt;Caminhar pela noite deserta e calma era aquilo que Mário apreciava fazer.&lt;br /&gt;Em  uma noite mais escura e mais fria do que as demais, quando realizava  uma calma e distraída reflexão, entre passos lentos, observando as  nuvens encobrirem o céu de estrelas, e percebendo a brisa fria que  agitava as árvores, Mário viu-se defronte ao prédio da escola, silhueta  recortada contra o fundo esbranquiçado de nuvens agitadas. &lt;br /&gt;As árvores na rua projetavam sombras escuras, impedindo a iluminação  pública de atingir alguns recessos, envolvendo tudo em pernumbra. E a  pernumbra faz imaginar coisas.&lt;br /&gt;No momento em que apreciava a fachada  insone do prédio antigo, pareceu haver, projetando-se das janelas do  andar superior, uma fosforecência que contrastava com a escuridão. O que  era aquilo? Tarde da noite, quase na Hora Neutra da Madrugada, luzes em  um prédio público, uma escola?&lt;br /&gt;Logo em seguida, por entre o som das folhas agitadas agora por uma brisa mais forte, mais fria, Mário passou a ouvir vozes.&lt;br /&gt;Vozes  a cantar! Um coral, executando uma peça de canto, tênue, como a  luminescência que escoava das janelas, mas bem perceptível entre a brisa  e as sombras esvoaçantes na noite fria.&lt;br /&gt;Um leve temor atávico instalou-se em sua consciência. Aquele temor  diante de coisas desconhecidas. Continuou a caminhar, observando o  prédio, as luzes tênues, o canto, de muitas vozes que ecoavam e sumiam,  levado pelo vento.&lt;br /&gt;Passou defronte o prédio, e mais um pouco encontrava-se na&amp;nbsp; outra esquina.&lt;br /&gt;As  luzes tornaram-se bem fracas, confundindo-se com a iluminação pública,  as vozes, suaves, foram mais e mais atenuadas entre as rajadas do vento,  agora forte o suficiente para prenunciarem uma chuva próxima.&lt;br /&gt;Mais célere, Mário afastou-se dali.&lt;br /&gt;A chuva começou a precipitar-se.  Chuva fria, transudando a Passado, a lembranças antigas. De outros  tempos, da infância, de alguma história ouvida e não bem compreendida.&lt;br /&gt;O  Tempo passa. Inexorável. O cotidiano, a necessidade de permanecer  existindo leva para algum canto da mente as lembranças mais doces, mais  impressionantes.&lt;br /&gt;Mário, por diversos motivos não caminhou mais pelas noites.&lt;br /&gt;Talvez por receio, talvez por querer manter uma lembrança e uma incerteza sobre aquilo que testemunhou. Uma manifestação mágica do Contínuo Espaço Tempo, ou uma ilusão.&lt;br /&gt;O prédio mantem-se lá, depositário de inúmeras energias e manifestações  através de cada época, de cada momento que capturou e de vez em quando,  por mecanismos que não compreendemos, devolve-os ao mundo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/3001070728041895560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-coral-das-sombras-diafanas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/3001070728041895560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/3001070728041895560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-coral-das-sombras-diafanas.html' title='O Coral das Sombras Diáfanas'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-426385236376121392</id><published>2014-03-08T07:34:00.003-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:29.536-03:00</updated><title type='text'>A Procissão Fantasmática</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Daniel sentou-se na varanda defronte a casa.&lt;br /&gt;Dali podia enxergar&amp;nbsp; toda a extensão da rua.&lt;br /&gt;Manteve as luzes apagadas. &lt;br /&gt;A noite estava fria, como frias são as noites de junho.&lt;br /&gt;Do ponto onde estava podia observar também&amp;nbsp; a Lua, no minguante, a Oeste.&lt;br /&gt;Era dia da Procissão de Santo Antonio.&lt;br /&gt;Daniel havia por anos seguidos acompanhado o andor.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Mas nos últimos tempos, a saúde debilitada veio a impedi-lo de lá estar naquele ano.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A procissão seguia o mesmo trajeto há décadas. &lt;br /&gt;Passava defronte a sua porta.&lt;br /&gt;Naquele ano decidiu que realizaria o seu ato de Fé em Santo Antonio festejando-o quando o andor passasse por sua porta.&lt;br /&gt;Entre a pernumbra, somente quebrada pela luz da rua, e o silêncio do entorno, Daniel instalado &lt;br /&gt;em sua poltrona, adormeceu.&lt;br /&gt;Não  sabia quanto tempo havia passado quando, acordando em um sobressalto  viu a luz tênue das velas do andor, bem como centenas de outros pontos  de luz.&lt;br /&gt;Era a procissão.&lt;br /&gt;Por entre a brisa da noite fria, Daniel observou que o cortejo aproximava-se no mais absoluto silêncio.&lt;br /&gt;Os cachorros da vizinhança estavam quietos. Nenhum latido cortava o ar fino.&lt;br /&gt;E também, interessante, as chamas das velas não oscilavam.&lt;br /&gt;Daniel concentrou-se em suas orações, e a multidão, com suas velas, seus  capuzes, suas sandálias, o andor, com o santo sobejamente iluminado,  entre flores brancas, foram passando, silenciosos, etéreos, preenchendo  todo o espaço da rua, das calçadas, sob as copas das árvores, dentro da  noite. Mágica.&lt;br /&gt;Envolto em pensamentos e preces, não soube depois Daniel dizer qual o intervalo que ficou a meditar.&lt;br /&gt;Acordou uma segunda vez.&lt;br /&gt;Estava no mesmo lugar, sentado em sua poltrona.&lt;br /&gt;Havia passado um grande intervalo de tempo, pois a vela votiva no canto da varanda estava prestes a apagar.&lt;br /&gt;Bruxuleava a sua chama, lançando sombras tremeluzentes de si e dos objetos na varanda.&lt;br /&gt;O grande vaso de samambaia produzia sombras recortadas na parede.&lt;br /&gt;O frio na noite havia acentuado. O silêncio era envolvente.&lt;br /&gt;Não havia mais nenhum sinal da procissão que havia descido a rua e virado em uma esquina.&lt;br /&gt;Esquina do Tempo.&lt;br /&gt;Daniel recolheu-se.&lt;br /&gt;E  durante os sonhos da noite sonhou com uma procissão, profusamente  iluminada, em uma noite deserta de outras vidas, e que as sombras dos  participantes desenhavam sombras oscilantes nas paredes das casas pelas  ruas em que passavam.&lt;br /&gt;Silêncio absoluto. Não ouvia-se nem o murmúrio das orações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasceu o novo dia.&lt;br /&gt;Lembranças noturnas.&lt;br /&gt;Divagações através das orações na Fé e nos Mistérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto  isso o rádio na cozinha noticiava que a procissão da noite anterior,  depois de décadas, havia percorrido um outro trajeto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/426385236376121392/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-procissao-fantasmatica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/426385236376121392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/426385236376121392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-procissao-fantasmatica.html' title='A Procissão Fantasmática'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-7014166978819266845</id><published>2014-03-08T07:33:00.000-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:38.983-03:00</updated><title type='text'>O Mistério da Catacumba</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Há situações recorrentes.&lt;br /&gt;Algumas, indubitávelmente, envolvem sofrimento humano.&lt;br /&gt;Temos exemplos interessantes na literatura.&lt;br /&gt;Em  &quot;O Barril de Amontilatto&quot; de Poe, &quot;A Nova Catacumba&quot; de Doyle, e em  &quot;Venha ver o por-do-sol&quot; da Lygia, há um crime, e o autor, e algoz,  ficou impune.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O túmulo, uma capela, foi erguido no final do Século XIX.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Imponente. Todo de pedra.&lt;br /&gt;Um  pequeno adro, cercado por pesada grade de ferro e um portão de duas  folhas dava acesso, através de uma estreia calçada até o pórtico,  elevado alguns degraus do piso.&lt;br /&gt;Esse pórtico, também de ferro&amp;nbsp;  trabalhado, com vidros coloridos de azul, vermelho, verde, bem como  janelas ogivais a grande altura, também revestidas de vidros coloridos,  que em determinadas horas, no final da tarde, projetava uma miríade de  cores sobre uma pesada tampa de ferro no piso, a qual dava acesso à  catacumba.&lt;br /&gt;O espaço interno da capela era decorado com um pequeno altar de mármore, na parede oposta a porta de de entrada.&lt;br /&gt;Somente isso.&lt;br /&gt;Quando  da visita do pessoal do Patrimônio Histórico, sobre esse pequeno altar,  desprovido de qualquer imagem, haviam resquícios de velas, de há muito  tempo ali colocadas&amp;nbsp; em castiçais de prata, com o brilho esmaecido pelo  zinabre.&lt;br /&gt;Havia também fragmentos de flores sob muita poeira, colocadas em um vaso Murano, denotando a passagem de muitos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O  senhor Cláudio, construtor que há muitos anos exercia as suas funções  no grande e antigo cemitério foi quem providenciou a abertura das  fechaduras enferrujadas. &lt;br /&gt;Naquele recinto não pisava uma pessoa desde os anos de 1940.&lt;br /&gt;O sepultamento de uma criança havia ocorrido naquele local ainda em 1897, conforme informava o epitáfio.&lt;br /&gt;Durante muito tempo, um pai dedicado havia levado flores e oferecido velas em devoção.&lt;br /&gt;Mas de há muito, naqueles distantes anos do início da década citada que  ele também havia partido, sendo sepultado em outro local do cemitério.&lt;br /&gt;Agora,  o antigo túmulo de pedra, uma preciosidade arquitetônica, estava sendo  vistoriado com o objetivo de transformá-lo em patrimônio tombado. &lt;br /&gt;Com o auxílio do senhor Cláudio e mais dois homens, a pesada tampa  de ferro no chão, que dava acesso à catacumba, por estar bastante  enferrujada oferecia grande resistência para girar em suas dobradiças.&lt;br /&gt;Com  o uso de pesadas alavancas de ferro, finalmente ela cedeu e girou,  provocando um ruído agudo e desagradável, que transudou a lugares  abandonados.&lt;br /&gt;Sob a tampa havia uma sequência de degraus que desapareciam sob o piso, em uma profunda escuridão.&lt;br /&gt;O pessoal estava preparado, e uma possante lanterna de LEDs foi acionada.&lt;br /&gt;A luz azulada, fria, percorreu os degraus e as paredes úmidas debelando as sombras.&lt;br /&gt;Um lance de quinze degraus levou ao piso inferior, onde no centro da  área havia um pequena cripta de mármore em cujo interior, sabemos,  estava a criança, há mais de um século.&lt;br /&gt;A luz intensa percorreu todo o  cômodo até deparar, para o espanto manifestado por todos os membros da  equipe do Patrimônio Histórico, e também&amp;nbsp; ao construtor e aos seus  auxiliares, com o corpo mumificado estirado no chão empoeirado.&lt;br /&gt;As vestes demonstravam ser de uma mulher, na moda em voga de várias décadas passadas.&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, providências foram tomadas pelas autoridades.&lt;br /&gt;Um sepultamento provisório foi realizado.&lt;br /&gt;Relatou  o meu amigo, o senhor Cláudio que, muito tempo depois, e até o momento  no qual o mesmo contava-me os fatos, não ter sido aquela senhora ainda  identificada. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/7014166978819266845/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-misterio-da-catacumba.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/7014166978819266845'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/7014166978819266845'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-misterio-da-catacumba.html' title='O Mistério da Catacumba'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-2076337980905512742</id><published>2014-03-08T07:29:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:48.338-03:00</updated><title type='text'>Os Fantasmas Passeiam Na Tarde</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Ameaçou chuva,&lt;br /&gt;E choveu.&lt;br /&gt;A tarde ficou escura,&lt;br /&gt;Daquelas tardes em que a chuva&lt;br /&gt;Bate com intensidade nas vidraças.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Um pouco antes de anoitecer -&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;E os fantasmas saem mais cedo&lt;br /&gt;Para passear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fantasmas que pertencem&lt;br /&gt;A um tempo antigo, passado,&lt;br /&gt;Em seus gestos e conversas,&lt;br /&gt;Em sua aura ancestral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a chuva caindo intensa,&lt;br /&gt;As recordações povoam &lt;br /&gt;Os cômodos escuros e desertos da casa,&lt;br /&gt;Onde uma goteira ou outra molha o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, com essas goteiras e o som da chuva,&lt;br /&gt;Entre o murmúrio da água correndo célere&lt;br /&gt;Pelos quintais, buscando para além dos canteiros,&lt;br /&gt;Buscando para além das guias, as quais levam&lt;br /&gt;As águas para o rio,&lt;br /&gt;Atente bem, e poderá ouvir o som que fazem&lt;br /&gt;As almas, &lt;br /&gt;Conversando conversas antigas,&lt;br /&gt;De coisas, épocas e gentes&lt;br /&gt;Que já se foram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde, escurecida pela chuva,&lt;br /&gt;Faz a noite chegar mais cedo,&lt;br /&gt;E os fantasmas saem para passear,&lt;br /&gt;Nas alamedas tranquilas, silenciosas, molhadas,&lt;br /&gt;Das recordações&lt;br /&gt;Dos Tempos atrás.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/2076337980905512742/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/os-fantasmas-passeiam-na-tarde.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2076337980905512742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2076337980905512742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/os-fantasmas-passeiam-na-tarde.html' title='Os Fantasmas Passeiam Na Tarde'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-4108122909095313268</id><published>2014-03-08T07:28:00.000-03:00</published><updated>2014-03-12T07:20:59.771-03:00</updated><title type='text'>Henrique, O Bêbado Alegórico</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Por três décadas Henrique vagou, bêbado, pela ruas do bairro antigo.&lt;br /&gt;Uma referência.&lt;br /&gt;Lá na esquina do Henrique.&lt;br /&gt;Lá no boteco do Henrique.&lt;br /&gt;Aonde, por anos, tomava a primeira dose do dia.&lt;br /&gt;Depois de muitos anos, o dono do boteco, o Senhor João, morreu.&lt;br /&gt;Henrique perdeu o grande amigo das talagadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Tempos românticos, mais suaves, quando havia ainda cuidados com o sereno.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;As noites eram frias.&lt;br /&gt;Luzes fracas, cálidas, nas noites mal iluminadas, sem luar.&lt;br /&gt;Melhores, quando a Lua cheia brilhava e tornava as ruas de paralelepípedos prateadas.&lt;br /&gt;E emprestava um brilho sobrenatural as plantas nos quintais, nos jardins.&lt;br /&gt;Henrique foi de todos esses lugares, por tanto tempo.&lt;br /&gt;Entoava, às  vezes sóbrio, a maior parte do dia nem tanto,uma estrofe&amp;nbsp; da célebre  canção popular, do Nelson Gonçalves, &quot; ... a deusa da minha rua ...&quot;&lt;br /&gt;Era outra marca do Henrique.&lt;br /&gt;Nas tardes de sol, entre as sombras projetadas pelas árvores nas  calçadas, e mesmo nas horas mais tardias, entre o frio, ouvia-se &quot; ... a  deusa da minha rua ...&quot;.&lt;br /&gt;Talvez Henrique, o Bêbado Alegórico, em algum momento de sua vida tivesse amado alguma mulher.&lt;br /&gt;Talvez partisse daí, como em muitos outros casos, uma desilusão que o  tivesse levado a abandonar a casa que vivia em conforme com a sua velha  mãe, e o emprego no armazém do Círculo Operário, e passado a viver pelas  ruas, dependendo da caridade dos velhos moradores do bairro, que lhe  forneciam alguma roupa, alimento, um banho esporádio e uns trocados para  a bebida.&lt;br /&gt;E assim foi.&lt;br /&gt;De uma década para outra, o Henrique, envelhecendo na  rua, as gerações passando, o bairro, mesmo que lentamente,  modificando-se, mudanças, nascimentos, mortes, e o Henrique entoando  &quot;... a deusa da minha rua ...&quot; com sua voz rouca de bêbado, cujo timbre  refratava nas paredes das casas nas ruas estreitas das travessas, nas  ruas largas e pela avenida e chegava aos ouvidos de todos os que o  conheciam. &lt;br /&gt;Muitos e muitos anos de abandono material.&lt;br /&gt;Talvez um imenso abandono espiritual do qual não podemos sequer imaginar a extensão.&lt;br /&gt;Chuvas,  verões, invernos, natais, aniversários, felicidade, tristezas,&amp;nbsp; dores,  sofrimento da carne, tudo que um dia tem seu término. &lt;br /&gt;Para o Henrique foi no Outono. De 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando encontrado, já havia horas que não estava mais aqui.&lt;br /&gt;Sem parentes, sem nenhum elo familiar que fosse conhecido.&lt;br /&gt;Indigente. &lt;br /&gt;Quadra Onze.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Tempo não cessa de caminhar, levando tudo para as sombras da Eternidade. &lt;br /&gt;Contudo, há quem diga, ao caminhar pelas ruas desertas e tranquilas  do bairro antigo, principalmente os retardatários, terem ouvido, muito  baixo, muito distante, talvez lá no quarteirão seguinte, a entonação  cadênciada, de uma voz ébria, cantando, entre a brisa e as folhas secas,  e mesmo nas noites de chuva, &quot; ... a deusa da minha rua ...&quot;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/4108122909095313268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/henrique-o-bebado-alegorico.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4108122909095313268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/4108122909095313268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/henrique-o-bebado-alegorico.html' title='Henrique, O Bêbado Alegórico'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-5008452146324716010</id><published>2014-03-08T07:27:00.001-03:00</published><updated>2014-03-12T07:21:11.463-03:00</updated><title type='text'>Outono Vermelho</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Os antigos chamavam aqueles dias de Outono Vermelho. Uma vez a cada l3, l5 anos, o Outono começava frio e com muita chuva. Nos poentes depois de chuvas intensas, o céu apresentava-se em tons de vermelho escuro, sombrio, por causa das nuvens pesadas defronte ao Sol, daí o nome. Era característico, diferente de outros crepúsculos, e ocorriam sempre ao final de março, início de abril. Outono Vermelho. Era o indicativo de que alguma coisa não ia bem.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Algo sempre acontecia. Animais de criação encontrados mortos, galinhas, porcos,&lt;br /&gt;ovelhas ... ovos chocos, leite talhado, vacas doentes. As chamas das&lt;br /&gt;velas e dos lampiões não iluminavam direito - ficavam azuis, mortiças.&lt;br /&gt;Gravou-se a marca. Outono Vermelho.&lt;br /&gt;Alguns dos cidadãos mais velhos haviam passado, em suas vidas, por&lt;br /&gt;quatro ou cinco outonos vermelhos. Lembravam-se dos tempos mais&lt;br /&gt;antigos ainda, onde os pais e antes deles os ávos, descreviam esses&lt;br /&gt;dias estranhos. Lembravam também que, naqueles dias, duas semanas no&lt;br /&gt;máximo, sempre morriam mais pessoas. Era mais frio, era mais chuvoso,&lt;br /&gt;talvez até por causa disso.&lt;br /&gt;Foi quando passei a frequentar a Universidade de -, para dar&lt;br /&gt;continuidade aos minhas pesquisas sobre folclore, que tomei&lt;br /&gt;conhecimento dessa lenda que persistia na região desde há muito, entre&lt;br /&gt;os mais antigos moradores.&lt;br /&gt;O Sr. - e a Sra. - na casa de quem hospedei-me, pretendendo ficar por&lt;br /&gt;algum tempo, enquanto durassem as aulas, foram quem informaram-me os&lt;br /&gt;detalhes mais profundos dessa lenda que percorria as ruas da pequena&lt;br /&gt;cidade.&lt;br /&gt;Haviam prenúncios de que aquele &amp;nbsp;Outono poderia ser um Outono&lt;br /&gt;Vermelho. O ultimo havia ocorrido há l6 anos, e naquela última&lt;br /&gt;oportunidade além dos animais e das mortes naturais, começou-se a&lt;br /&gt;aventar-se que haviam outras pessoas mortas, de morte não tanto&lt;br /&gt;naturais.&lt;br /&gt;Março passou entre chuvas e dias de sol, como são os meses de março.&lt;br /&gt;Mas, por volta do dia 22 daquele mês, o tempo fechou sobremaneira, e&lt;br /&gt;no dia 23 começou a chover, intensamente, e havia frio, muito frio,&lt;br /&gt;atípico para aquele mes.&lt;br /&gt;Os mais antigos falavam com preocupação no Outono Vermelho. As águas&lt;br /&gt;caiam, ininterruptamente, de um céu cor de chumbo, e havia frio, muito&lt;br /&gt;frio, nas ruas encharcadas, nos terrenos baixios inundados, no pequeno&lt;br /&gt;rio, agora com águas revoltas, escuras, trazendo galhos e outros&lt;br /&gt;destroços das terras mais altas, nas árvores seculares cobertas de&lt;br /&gt;musgo, nas ruas desertas, mal iluminadas, que levavam do campus até o&lt;br /&gt;centro da pequena cidade. Não se viam cães ou gatos nas ruas. O&lt;br /&gt;comércio fechava cedo. Nenhum transeunte era visto a caminhar após as&lt;br /&gt;seis horas da tarde.&lt;br /&gt;Nos dias seguintes foi se acentuando esse estado de coisas, e os&lt;br /&gt;antigos disseram - valha-nos!, pois e um Outono Vermelho!&lt;br /&gt;Após cinco dias de chuvas ininterruptas, houve uma tarde mais clara,&lt;br /&gt;aonde o céu vermelho de nuvens, ao crepúsculo, prenunciava mais chuva&lt;br /&gt;durante a noite. Era mesmo um Outono Vermelho.&lt;br /&gt;A boca pequena, começou-se a ouvir os relatos de animais mortos, de&lt;br /&gt;ovos talhados, apesar de existirem muitas casas com lâmpadas&lt;br /&gt;elétricas, muitas ainda usavam lampiões e velas, e o fenômeno da luz&lt;br /&gt;azul repetia-se.&lt;br /&gt;Durante aqueles dias, as pessoas evitavam falar-se ao encontrarem-se&lt;br /&gt;nas ruas, em suas atividades rotineiras, ass vendas eram poucas, não&lt;br /&gt;armaram a feira naquela primeira semana.&lt;br /&gt;Saindo sempre muito cedo para dirigir-me à Biblioteca, encontrava&lt;br /&gt;sempre as ruas vazias, nas primeiras horas da manhã e à tarde, quando&lt;br /&gt;voltava da Universidade.&lt;br /&gt;Passaram-se vários dias, quando correu a notícia de que mais uma&lt;br /&gt;mulher, a primeira desse Outono Vermelho, havia sido encontrada morta,&lt;br /&gt;em uma estrada deserta nos limites do campus. A polícia esteve por lá,&lt;br /&gt;perguntou para uns e outros, no intuíto de esclarecer alguma coisa e&lt;br /&gt;partiu. Ficaram o frio, a chuva e o mêdo.&lt;br /&gt;Nova tarde fria de chuva, frio, água empoçada, luzes azuis, animais mortos.&lt;br /&gt;No dia seguinte, procurei nos arquivos da biblioteca da Universidade,&lt;br /&gt;jornais de épocas passadas que noticiassem ocorrências semelhantes a&lt;br /&gt;que estavámos vivendo.&lt;br /&gt;Nos jornais de há muito tempo, editado na cidade grande há vários&lt;br /&gt;quilometros de distância desta em que eu encontrava-me, noticiava-se&lt;br /&gt;que, em períodos regulares, naquela pequena cidade, cujas atividades&lt;br /&gt;econômicas giravam em torno da agricultura e de atender aos alunos e&lt;br /&gt;docentes da universidade ali perto, foram cometidos crimes horríveis e&lt;br /&gt;não solucionados, nos quais foram mortas mulheres, &amp;nbsp;no intervalo de 76&lt;br /&gt;anos.&lt;br /&gt;Contudo, até então, apenas duas eram conhecidas na cidade e na&lt;br /&gt;Universidade. As demais eram estranhas, foram enterradas no pequeno&lt;br /&gt;cemitério local, ninguém jamais reclamou &amp;nbsp;corpo algum. Nenhum crime&lt;br /&gt;até então havia sido solucionado. O mistério do Outono Vermelho&lt;br /&gt;perspassa gerações. E ao tempo e ao esquecimento são levados os fatos&lt;br /&gt;e as vítimas.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;Presenciei um, com uma morte estranha, um corpo mutilido de uma&lt;br /&gt;mulher, que não era daquela comunidade e também não frequentava a&lt;br /&gt;Universidade local.&lt;br /&gt;Dias depois, doze no total, o dia amanheceu límpido, fresco, não&lt;br /&gt;choveu mais, não formaram-se nuvens vermelhas no ocaso, não se falou&lt;br /&gt;mais no Outono Vermelho.&lt;br /&gt;AS pessoas voltaram a sair nas ruas, o comércio funcionava até o&lt;br /&gt;início a noite, os animais domésticos pararam de morrer, os gatos e os&lt;br /&gt;cães vadios voltaram para as ruas, ficavam perlambulando pela praça,&lt;br /&gt;entre os desocupados de sempre.&lt;br /&gt;Em junho daquele ano terminei os meus créditos. Fui embora, defendi a&lt;br /&gt;minha tese sobre folclore, e comecei a lecionar em uma outra&lt;br /&gt;Universidade bem distante daquela, na pequena cidade.&lt;br /&gt;No outro dia, ao marcar um compromisso na agenda, percebi que estava&lt;br /&gt;avançado já o &amp;nbsp;mes de março.&lt;br /&gt;Ao olhar pela janela, verifiquei que o céu estava escuro, ameaçando chuva.&lt;br /&gt;Lembrei-me do ocorrido há treze anos passados.&lt;br /&gt;É possível que esteja próximo um Outono Vermelho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/5008452146324716010/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/outono-vermelho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5008452146324716010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/5008452146324716010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/outono-vermelho.html' title='Outono Vermelho'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-9109890943341521147</id><published>2014-03-08T07:25:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:21:24.168-03:00</updated><title type='text'>A Casa Soturna</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A casa permaneceu fechada, abandonada em seu vazio por quase meio século.&lt;br /&gt;Construída  na época aurea no início do século XX, com o passamento de seu  proprietário original, e depois por uma sucessão de herdeiros, viu-se  sem ninguém a ocupá-la ainda ao final dos anos de 1930.&lt;br /&gt;E assim permaneceu, com a sua aparência soturna de coisas antigas,  abandonadas, com os seus muros altos, a sua pesada grade de ferro  ornamentando a frente junto ao passeio, os seus vitrais de muitas cores,  o seu imenso quintal onde árvores e arbustos tomaram conta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Nos primeiros tempos havia um advogado que administrava o espólio, o  qual mantinha uma ou outra lâmpada acesa para afastar o ar de abandono  que a envolvia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;A luz brilhava por entre pedras coloridas de uma  luminária turca de fino lavor, instalada no alpendre. Alpendre esse  guarnecido de uma pesada porta de ferro fundido, a qual abria-se em duas  folhas para o interior, uma sala imensa, com o piso revestido de  madeira.&lt;br /&gt;Dali avistava-se o sopé da escada com balaustras ricamente lavradas em madeira de lei.&lt;br /&gt;Mais  além, nos fundos sombreados de outros comodos, via-se a cerâmica do  piso, disposta em forma de lajotas pretas e brancas, no formato do  xadrez.&lt;br /&gt;Mas, um dia esse advogado também partiu, consolidando o completo  abandono. Árvores enormes no quintal, anos e anos de folhas não  recolhidas, o mato crescendo livre, os gatos vadios entrando em seu  interior por um ou outro vidro partido, uma era imensa que cresceu sem  controle tomava conta das paredes em dois ângulos da casa e parte do  telhado do sobrado.&lt;br /&gt;Até que em um determinado dia, por instâncias de um distante parente,  começou um grupo de trabalho a providenciar reformas na casa.&lt;br /&gt;No  quintal, como costumava acontecer, havia uma construção apartada do  resto da casa, a qual servia de dormitório para os empregados, e uma  área de tanques de lavagem de roupas e um banheiro. Havia mais um cômodo  escada acima.&lt;br /&gt;Quando os operários começaram a remover o piso do quarto de dormir no  térreo, em um ângulo da parede oposto a porta, encontraram, enterrada,  uma pesada caixa de madeira com a tampa lavrada. Um trinco, guarnecido  por pesado cadeado, quase que totalmente corroido pela ferrugem, e que  cedeu a pressão de uma ferramenta, permitiu a abertura da tampa.&lt;br /&gt;Houve um espanto, uma surpresa geral com o conteúdo da caixa.&lt;br /&gt;Havia  um esqueleto, um pequeno esqueleto, provavelmente de uma criança, cujas  vestimentas emboloradas e descoloridas pelo tempo levaram a crer  tratar-se de uma menina.&lt;br /&gt;A vinda das autoridades, da imprensa, dos curiosos em geral, as  conversas generalizadas sobre o fato, as investigações posteriores,  pouco puderam esclarecer.&lt;br /&gt;A aparência dos restos denotavam denotava  que os mesmos estavam ali por várias décadas, o que era confirmado pelos  fragmentos das roupas e do calçado que calçava os pés. Restava ainda  uma fivela presa ao mesmo, em uma moda utilizada nos anos de 1920.&lt;br /&gt;O mistério de aquilo tudo, no mínimo sessenta anos depois da ocorrência  do fato, levou as autoridades investigarem antigos arquivos de pessoas  desaparecidas, mas nada foi conclusivo.&lt;br /&gt;Que habitava a casa, naqueles  distantes anos, era a viúva do construtor, e um filho, um intectual e  poeta, morto ainda nos anos de 1930.&lt;br /&gt;Ter uma resposta para esse antigo drama era algo que escapava da compreensão e da possibilidade de um esclarecimento.&lt;br /&gt;A  caixa de madeira foi incinerada, lá mesmo no quintal, e os restos, após  passarem de um setor de perícia para outro, foi finalmente sepultado em  uma das gavetas gerais do grande cemitério da cidade.&lt;br /&gt;O corpo permaneceu por lá durante alguns anos, mas como não houve  renovação para a permanência no local, foi mais uma vez exumado e  perdeu-se entre tantos outros no ossário.&lt;br /&gt;A casa recebeu as reformas  naqueles idos dos anos de 1980, foi utilizada por algum tempo como  escritório e depois voltou ao abandono das coisas antigas, mortas.&lt;br /&gt;Encontra-se hoje bem descaractizada em sua aparência original, e ainda abandonada.&lt;br /&gt;Soube que, de tempos em tempos, um herdeiro quita os impostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um  dia, ao examinar um acervo doado para uma biblioteca da cidade,  deparei-me com uma vasta coleção de livros, coleção essa a qual abrangia  livros de romance, de poesia, de Filosofia, de ciências naturais, de  direito, de medicina, de curiosidades.&lt;br /&gt;A biblioteca certamente de um intelectual, de um pesquisador.&lt;br /&gt;Nenhum dos volumes era posterior aos anos de 1920.&lt;br /&gt;Alguns deles de indubitável valor, devendo pois serem incorporados ao acervo da biblioteca pública.&lt;br /&gt;Entre os inúmeros documentos, havia um pequeno livro encapado em couro,  cujo material encontrava-se bem danificado pelo tempo e pela umidade.&lt;br /&gt;Ao abri-lo, um surpresa!&lt;br /&gt;O livro era todo manuscrito.&lt;br /&gt;As  letras lá gravadas há oitenta anos ou mais compunham poesias e prosa  que a leitura lembrava o estilo de Villiers de L&#39;isle-Adam. Muitas  páginas estavam borradas e danificadas pelo tempo e pela má conservação.&lt;br /&gt;Mas daquilo que era possível apurar, haviam relatos absurdamente  fantásticos nos quais havia crime, tortura, sofrimento mental, lirismo.  Furtei-me a comunicar naquele momento o encontro do manuscrito. O meu  desejo de conhecer melhor aquilo que lá estava relatado fez-me por um  momento abandonar escrupulos.&lt;br /&gt;Naquela noite, em minha escrivaninha, sob a luz de uma luminária bem  focada, passei a tomar conhecimento dos escritos de uma pessoa, um  homem, de inegável talento, de uma mente ági, inteligente, sofredora e  terrível.&lt;br /&gt;As linhas foram revelando uma mente superior mas eivada de uma sordidez medieval.&lt;br /&gt;Um homem inteligente, limitado pelas conveções e valores de seu tempo,  desejando conhecer mais e mais, contudo limitado por vezes por limites  materiais e por falta de iniciativa, daquela iniciativa que considera os  riscos.&lt;br /&gt;Cansado, envolvido pelo tédio de uma época histórica posterior a uma  guerra, porque as guerras de uma forma ou de outra provocam revisões nos  valores, desejava o homem ter, por entre a vulgaridade reinante, o  desejo de eter para si um segredo, um segredo inconfessável, um segredo  no qual encerrasse não amor ou ódio, nem ao menos vingança, mas um  segredo que encerrasse remorso.&lt;br /&gt;E para obter esse remorso, resolveu imolar um inocente.&lt;br /&gt;Escolher uma criatura totalmente totalmente fora de seu mundo, de seus valores, da sociedade decrépita que o envolvia.&lt;br /&gt;Resolveu matar uma criança!&lt;br /&gt;Essa ideia amadureceu em sua mente durante muito tempo.&lt;br /&gt;Avaliou os riscos, a possibilidade de ser descoberto, de ser apanhado.&lt;br /&gt;Gozava de um espaço decadente, mas muito amplo.&lt;br /&gt;Retirava-se de casa e voltava sem despertar a atenção de parentes ou de serviçais.&lt;br /&gt;No seu recanto havia um portão que abria-se para uma rua, além da entrada principal.&lt;br /&gt;Tudo isso estava minuciosamente relatado, como uma confissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em  um determinado final de dia, escuro e chuvoso, quando a sua mente  fervilhava entre o tédio, cada vez mais intenso, o qual algumas vezes  havia feito o mesmo a utilizar de uma droga comum de sua época, o ópio,  ao aproximar-se de casa, viu caminhando pela rua molhada, ainda sem  pavimentação, uma criança, uma menina, loira, miuda.&lt;br /&gt;Algo em sua mente cedeu.&lt;br /&gt;Aproximou-se da criança, oculto que estavam  na rua deserta, entre as sombras das grandes árvores que por ali  existiam, agarrou-a rapidamente, sentindo o seu corpo magro, leve,  evitou que gritasse em vista da agressão súbita, imobilizou-a, levou-a  para o quarto nos fundos da casa, cloroformizou-a e depois a  estrangulou. Não a violou. Após o ato, colocou o corpo em uma pesada  caixa de madeira na qual guardava pertences, abriu, no ângulo de uma das  paredes do quarto, sob um pesado armário que arrastou, um buraco no  piso onde depositou a caixa.&lt;br /&gt;Reconstuiu o piso, recolocou o armário no lugar.&lt;br /&gt;Regozijou-se de seu segredo.&lt;br /&gt;Durante os dias seguintes procurou por notícias sobre o fato de uma menina desaparecida.&lt;br /&gt;Passaram-se os dias, os meses, e ninguém tocou no assunto de uma criança desaparecida.&lt;br /&gt;Naquela época de pouca ou nenhuma iluminação pública, as noites eram mais escuras.&lt;br /&gt;Vagou  durante muito tempo pelas ruas escuras, pelas noites gélidas, nas  noites cálidas de verão esperando ouvir algo sobre o feito, mesmo que  fosse um murmúrio trazido pelo vento.&lt;br /&gt;Nada! &lt;br /&gt;Jamais ouviu coisa alguma.&lt;br /&gt;Era possível&amp;nbsp; perceber o seu  desalento, porque, sem notícias sobre o feito, como haver o remorso de  haver feito alguém sofrer uma perda?&lt;br /&gt;Era como se nada houvesse acontecido!&lt;br /&gt;Desespero!&lt;br /&gt;Uma outra ação? &lt;br /&gt;Não, de forma alguma, pois ele não era um criminoso vulgar, um malfeitor da pior espécie!&lt;br /&gt;Mais  algum tempo, e a resistência para não abrir a cova e verificar se havia  mesmo feito aquilo que agora a sua mente duvidava haver realizado.&lt;br /&gt;Havia um segredo, mas não havia o menor remorso!&lt;br /&gt;Tempos das águas, tempo do frio, tempo do calor.&lt;br /&gt;E um dia a constatação de que a tuberculose, a doença dos poetas o havia acometido.&lt;br /&gt;Sentença de morte anunciada! &lt;br /&gt;Aquelas palavras, pelo que foi possível perceber, foram gravadas  pouco antes do desenlace, quando nenhum outro cuidado humano poderia  salvá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro manuscrito, bem como o nome do seu autor, e de  sua vítima inocente repousam tranquilamente no fundo do rio que corta a  cidade. &lt;br /&gt;Em paz descansam!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/9109890943341521147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-casa-soturna.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/9109890943341521147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/9109890943341521147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/a-casa-soturna.html' title='A Casa Soturna'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-303657472864868373</id><published>2014-03-08T07:23:00.000-03:00</published><updated>2014-03-12T07:21:34.319-03:00</updated><title type='text'>O Sapateiro Romeo</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;O pé de ferro. A mesa baixa com as divisões para os diversos tipos de pregos e tachinhas.&lt;br /&gt;O pequeno barracão coberto de zinco, com um dos ângulos apoiado no velho cajueiro.&lt;br /&gt;Na iluminação, um grande lampião a querosene.&lt;br /&gt;Para as horas escuras do início do dia.&lt;br /&gt;Para as horas escuras ao cair da noite.&lt;br /&gt;Assim trabalhava Romeo, o sapateiro.&lt;br /&gt;No seu avental de couro, as marcas das décadas de trabalho duro, de tintas, de cortes, de manchas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Em um tempo no qual o sapato era luxo, reformá-los era forçoso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Assim passaram os anos e as gerações.&lt;br /&gt;No bairro antigo, nos quarteirões do entorno, Romeo fez com que milhares de calçados voltassem a ser utéis.&lt;br /&gt;Tempos difíceis. Mantimentos comprados por quilo no empório da esquina.&lt;br /&gt;Verdadeiras vitrines do Passado.&lt;br /&gt;Mas, quando a sola furava e o salto desgastava, o Sapateiro Romeo dava uma solução.&lt;br /&gt;Reparava. Com carinho. &lt;br /&gt;Com a dedicação daqueles que sabiam o quanto era difícil ter.&lt;br /&gt;Então a necessidade era manter.&lt;br /&gt;Por anos e anos, sob aquele pequeno barracão o martelo, o pé de ferro, as lâminas afiadas para a profissão serviram a todos.&lt;br /&gt;Um trabalho mágico de reconstituir um objeto usado.&lt;br /&gt;Na luz tênue ao final do dia, o ritmo do martelo pregados em um sola, dava o tom do Angelus que tocava na rádio local.&lt;br /&gt;Diziam os antigos, que naquele horário, os anjos estavam voltando para o  regalo de Deus, aonde passavam a noite, cansados de tanta labuta com a  meninada travessa.&lt;br /&gt;Nos dias bem marcados de chuva, nos dias quentes  de verão, de pipas no céu, nos dias frios, curtos, onde o lampião era  acionado mais cedo, emprestando ao ar, juntamente com as colas e tintas,  um odor único de trabalho artesanal em andamento.&lt;br /&gt;De quando em quando, um sapato de algum membro da família era levado para reparos.&lt;br /&gt;Juntava-se a muitos outros que lá estavam.&lt;br /&gt;Um  tempo em que os quintais eram amplos, que as ruas mal iluminadas  recebiam o auxílio do lampião do Sapateiro Romeo, muitas vezes até horas  adiantadas na noite.&lt;br /&gt;Por vezes, entre os folguedos da distante infância, era ouvido o toc,  toc, toc, do martelo acertando um calçado, apoiado no pé de ferro.&lt;br /&gt;Coisas  insignificantes as quais, depois de muitos anos, sendo colocadas  perante a Eternidade do Ontem, adquirem um valor incrível, pois esse  trabalho, como outros que eram desenvolvidos, de forma artesanal, nos  fundos dos quintais, nas casas humildes, nas esquinas, emprestavam uma  confortante sensação de realidade.&lt;br /&gt;Tudo estava em seu lugar. O sapateiro, o leiteiro, o empório da esquina,  a escola, a farmácia, a padaria,&amp;nbsp; a Igreja, o cemitério mais além.&lt;br /&gt;Havia  um espaço delimitado, seguro, onde todos podiam ir e vir, tanto durante  o dia, como na mais fechada noite sem luar, com temor somente em  relação aos fantasmas, fantasmas passados os quais nem muito  perturbavam.&lt;br /&gt;Mas os anos correm, e gastam as solas dos sapatos, os quais, de vez em  quando, passavam por uma reforma geral feita pelo Sapateiro Romeo.&lt;br /&gt;Tudo se acaba. Tudo se esvai. &lt;br /&gt;Ao  virar uma esquina, aonde o cenário muda, tal como provém a Ciência  explicar as curvas da luz, ao encontrar corpos estelares em seu caminho.&lt;br /&gt;Tudo se esvai. &lt;br /&gt;Na velocida fabulosa da luz, que vagando pelos confins do Infinito, quando volta para casa, encontra tudo mudado.&lt;br /&gt;Pessoas se foram. E também os valores que elas representavam.&lt;br /&gt;Instituições esfacelam-se dando lugar para outros valores.&lt;br /&gt;Uma casa foi demolida. Outra construída em seu lugar.&lt;br /&gt;Árvores são plantadas. Outras morrem.&lt;br /&gt;E,  nesses tempos no qual os lampiões a querosene foram substítuidos por  lâmpadas eletrônicas, tornando as noites mais claras e livres dos  fantasmas, que agora vagam nos dias &lt;br /&gt;do passado, a cadência das brincadeiras, as correrias noturnas, o som, toc, toc, do martelo do sapateiro estão em outro lugar.&lt;br /&gt;Mas, sempre sobra algo.&lt;br /&gt;Há um tudo um miasma que impregna os lugares, procurando mostrar que ainda há um resquício dessa egregóra pretérita.&lt;br /&gt;Para aqueles que ainda vagam pelas ruas desertas, nas horas calmas, já  avançando para a madrugada, quando a Lua Nova está fixa, baça, no  horizonte de Oeste, é possível perceber as atividades dos moleques, com  aquela sensação tênue que nos traz uma fotografia em sépia, o som do  martelo sobre a sola no pé de ferro, na luz tênue do lampião, adensando  as sombras no quintal antigo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/303657472864868373/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-sapateiro-romeo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/303657472864868373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/303657472864868373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-sapateiro-romeo.html' title='O Sapateiro Romeo'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-2259632893704391128</id><published>2014-03-08T07:21:00.002-03:00</published><updated>2014-03-12T07:21:44.925-03:00</updated><title type='text'>O Monstro do Assobio</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Sons na noite.&lt;br /&gt;Não os provocados pelo gatos, essas criaturas que tem um pé em cada mundo.&lt;br /&gt;Não os provocados pelas folhas secas levadas pela brisa noturna.&lt;br /&gt;Não os provocados pelo madeiramento da casa, acomodando-se.&lt;br /&gt;Nem tampouco a água nos canos. Ou a descarga.&lt;br /&gt;Ou ainda alguma coisa que deslocou-se no porão das casas mais antigas. Não.&lt;br /&gt;É alguma coisa diferente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;As crianças sabem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Alguns adultos também.&lt;br /&gt;São as lendas dos bichos papões que povoam o imaginário do homem desde tempos imemoriais.&lt;br /&gt;Lembranças atávicas, inconsciente coletivo, como diz Jung.&lt;br /&gt;A associação desses sons da noite, inexplicáveis povoam os sonhos das crianças e dos adultos mais sensíveis.&lt;br /&gt;Mas, o que provoca esses sons?&lt;br /&gt;Sabidamente é a atividade de alguma coisa que se movimenta pela noite. No escuro. Nas noites de luar.&lt;br /&gt;Nas noites que não tem luar.&lt;br /&gt;Adquirem esses sons uma umidade pegajosa quando chove.&lt;br /&gt;Adquirem uma plasticidade nervosa nas noites frias e secas.&lt;br /&gt;As criança, recolhidas na noite imensa que cobre todo o mundo, sentem.&lt;br /&gt;No  silêncio tenso das horas mortas, algo anda pelas ruas, pelos jardins,  pelos quintais. Algo chega até a veneziana, algo toca nos vidros,  movimentado-os tenuamente nos caixilhos.&lt;br /&gt;Os caes ficam quietos. Os gatos, esses de há muito foram para outros lugares.&lt;br /&gt;No decorrer do Tempo, inumeras criaturas de sonhos passaram a povoar o imaginário popular.&lt;br /&gt;Algumas são muito antigas, como o Versipélio de Roma.&lt;br /&gt;Outros atravessam a Idade Média, como as Bruxas.&lt;br /&gt;Outros  ainda nascem no folclore como a Maria Bambá, e outros ainda aparecem  nos tempos modernos, nas cidades, como as Lendas Urbanas. &lt;br /&gt;Entre esses últimos, nascido nas sombras das ruas desertas e mal  iluminadas nos bairros antigos, entre terrenos baldios e mansardas  abandonadas, surgiu esse outro personagem de sonhos.&lt;br /&gt;O Mostro do Assobio.&lt;br /&gt;No  silêncio da noite, por vezes ouve-se um assovio fino, melódico,  variando as oitvas,&amp;nbsp; cujo som por vezes está muito perto, por vezes  parece soprar de distâncias infinitas, que transpoem o Tempo, em espaço  estelares.&lt;br /&gt;Não é possível, nunca, dizer exatamente de onde provem esse assobio, ocorrendo sempre em horas tardias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia findou-se mais cedo.&lt;br /&gt;Chovia. Há vários dias.&lt;br /&gt;Quando  isso ocorre, fica no ar aquele presságio de frio úmido, e a umidade  escorre pelos muros antigos, acentua-se o silêncio, uma névoa fina cobre  as ruas, as casas, os espaços, deixando tudo com uma aparência de  sépia.&lt;br /&gt;Entorno das lâmpadas da iluminação pública forma-se um halo o que parece amortecer ainda mais a intensidade da luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As meninas C_ e L_ encontravam-se no alpendre da casa antiga.&lt;br /&gt;Essa casa havia sido construida acima do nível da rua secular.&lt;br /&gt;A visão do ponto onde estavam era muito boa em relação a via, vários metros abaixo.&lt;br /&gt;A  casa possuia um bosque ao fundo, e todas as demais casas do entorno  eram envolvidas pela vegetação luxuriante, a qual aumentava muito a  umidade, o frio e tornava mais tênue os sons da noite.&lt;br /&gt;A casa estava quieta em seus movimentos domésticos.&lt;br /&gt;Luzes apagadas, e  toda a atividade naquele momento consistia na contemplação da rua  molhada, refletindo as luzes fracas da rua, e de uma ou outra casa na  vizinhança.&lt;br /&gt;Em um dado instante, quando a bruma evolava baixa, lenta, pegajosa, o som agudo de um assobio varou a noite de cores esmaecidas.&lt;br /&gt;As jovens mais ficaram tensas, amedrontadas, pois de algum tempo circulava a existência da lenda urbana do Monstro do Assobio. &lt;br /&gt;Essa visagem acompanhou-as pela infância. &lt;br /&gt;Como para alguns adultos  e&amp;nbsp; crianças, há um momento na vida, um instante sublime em que as  figuras de sonho assumem forma e aparência física.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que viram  do outro lado da rua, entre as sombras e bruma, foi uma forma, tal como  um cone cinza, opaco, de dois metros de altura, cuja base não tocava o  chão.&lt;br /&gt;Sobre um cone, à guiza de cabeça, havia uma esfera, lisa, da mesma cor do cone.&lt;br /&gt;Estendia-se  dessa cabeça algo como um nariz, no formato que lembrou,  grosseiramente, uma clarinete, o qual era acionado em suas notas, por  dedos longos e finos como gravetos que partiam&amp;nbsp; de braços, também muito  longos e finos presos ao cone cinza.&lt;br /&gt;Essa visagem durou alguns segundos e depois amalgamou-se nas sombras intensas projetadas pelas árvores.&lt;br /&gt;O som repetiu-se, agudo, e desfez-se como soi acontecer nas imagens oníricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado mais alguns instantes, as meninas levantaram-se e entraram em casa.&lt;br /&gt;Tudo parece menos grave sob a luz elétrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;Mas, em suas almas  ficou, perene, a impressão de haverem assistido a uma manifestação de  uma lenda urbana, que percorre as ruas vazias e soturnas.&amp;nbsp; Uma  manifestação do sobrenatural.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/2259632893704391128/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-monstro-do-assobio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2259632893704391128'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/2259632893704391128'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/o-monstro-do-assobio.html' title='O Monstro do Assobio'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1746796995475133843.post-428051313724682795</id><published>2014-03-08T07:20:00.004-03:00</published><updated>2014-03-12T07:22:04.674-03:00</updated><title type='text'>Faixa do Cidadão, Canal 5</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Atento, atento, Estação Etrúria, PX-...&lt;br /&gt;O sinal viaja pelo espaço, em busca de uma antena receptora.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Informa a Ciência que as ondas de rádio geradas pela Natureza ou pela tecnologia do homem, propagam-se pelo Espaço.&lt;br /&gt;Essa é a base científica que fundamenta os rádiotelescópios.&lt;br /&gt;Antenas  gigantescas levam pelo éter sinais de rádio que partem de possantes  transmissores em busca das regiões interditas do cosmo, procurando  sensibilizar outras culturas que possam existir para além do nosso  sistema solar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Diz também a Ciência que, essas ondas podem refletir  em distâncias einstenianas, e, devido as particularidades descritas na  Lei da Relatividade, voltarem para os pontos de onde foram originadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Após um longo espaço de tempo aqui na Terra.&lt;br /&gt;Distâncias impensáveis. Medidas a ano-luzes.&lt;br /&gt;Uma relatividade criada pela grande velocidade das ondas hertzianas.&lt;br /&gt;Velocidade da luz.&lt;br /&gt;Velocidade que curva o espaço, criando um atalho por entre as galáxias.&lt;br /&gt;Tudo isso passa a acontecer quando se pressiona o botão do microfone.&lt;br /&gt;Espaços intergaláticos.&lt;br /&gt;Imensidões inimagináveis.&lt;br /&gt;Ondas que se propagam na velocidade da Luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atento! Atento! Estação Etrúria, PX-...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sinais de rádio dentro da noite, transformando-se em som no alto falante.&lt;br /&gt;Uma rotina.&lt;br /&gt;Uma rotina que desencadeia fenômenos eletromagnéticos que podem prosperar para muito além do mundo conhecido.&lt;br /&gt;Que podem prosperar para muito além de todas as vidas, em um Universo longíquo, atemporal, longe de todas as eras.&lt;br /&gt;A humanidade passou a propagar ondas de rádio pelo atmosfera exterior e  pelo Universo de incontáveis estrelas há pouco mais de um século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Estação Etrúria estava todos os dias no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avançou por toda a década de 1980 e parte da década de 1990.&lt;br /&gt;Diariamente. &lt;br /&gt;Junto com milhares de outras fontes emissoras,  propagava os sinais pelos cantos do mundo, e, segundo a Física, para  muito além desse mundo e de outros, insondáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A utilização de rádio nas comunicações locais e para outros pontos distante no planeta era comum.&lt;br /&gt;Com uma boa propagação, devido a fenômenos magnéticos que ocorrem na Ionosfera, os sinais iam para o outro lado do planeta.&lt;br /&gt;Quando as ondas não eram refratadas, encontravam o caminho do Infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nascimento do meu filho E_, foi comunicado através da fonia no Canal 5, o combinado era o Canal 5.&lt;br /&gt;Era uma noite de muita chuva em Outubro de 198_.&lt;br /&gt;Muitas outras notícias vieram pelo Canal 5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vários anos se passaram.&lt;br /&gt;Um dia a Estação Etrúria saiu do ar para nunca mais.&lt;br /&gt;Daquelas situações sem retorno, que ficam aos cuidados da Eternidade. &lt;br /&gt;Vários outros anos correram nos calendários da Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma  noite, manuseando um velho equipamento transcepetor de rádio, vim a  conectá-lo na fonte de energia e uma antena precária, instalada no  beiral da casa, e sintonizei o aparelho no Canal 5.&lt;br /&gt;As horas já se faziam tardias, o silêncio na casa, na rua, naquele pedaço de mundo era intenso.&lt;br /&gt;Luzes  indicativas acenderam no pequeno painel do rádio, e o ruído  característico de estática encheu a calma silenciosa do momento. &lt;br /&gt;Continuei com outros afazeres, organizando alguns livros, ao som constante do rádio, com variações na intensidade da estática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em  um dado momento, interrompendo o crepitar constante das ondas  eletromagnéticas que viajavam pelo espaço em busca da minha antena, o  som que predominou, uma voz cava, vindo de incontáveis descortinares de  anos e distâncias cósmicas,&amp;nbsp; contudo intensa e viva, sobrepujou os  demais ruídos e exclamou: &lt;br /&gt;Atento! Atento! Estação Etrúria!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.cataossos.com/feeds/428051313724682795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/faixa-do-cidadao-canal-5.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/428051313724682795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1746796995475133843/posts/default/428051313724682795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.cataossos.com/2014/03/faixa-do-cidadao-canal-5.html' title='Faixa do Cidadão, Canal 5'/><author><name>Aristides Marchetti Filho</name><uri>https://plus.google.com/117945897795883850710</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-6UxFi0FR4b8/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/sak-EGmYjws/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>