<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827</id><updated>2026-07-04T00:07:07.355-07:00</updated><title type='text'>CONTOS DO MAR</title><subtitle type='html'>&quot;Não há literatura sem memória. A pátria de todo escritor é a infância&quot; Milton Hatoum</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>37</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-5703162634369324214</id><published>2012-09-18T17:15:00.001-07:00</published><updated>2012-09-18T17:15:11.290-07:00</updated><title type='text'>Pescaria</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTjsdKDwpDpIpUnVQFCGnMbtUAauRHiS6dV1waw7AjxHLFfcCQpdQXl_ExwFN1gbPlTTqfRnyHHKXPCQ2WOhZFwAS-y4NImrmb58SJFnl4P7YuPcRpPW8KIISvzXpwgzd9s92M8b1M4C0/s1600/camamu04%5B1%5D.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;240&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTjsdKDwpDpIpUnVQFCGnMbtUAauRHiS6dV1waw7AjxHLFfcCQpdQXl_ExwFN1gbPlTTqfRnyHHKXPCQ2WOhZFwAS-y4NImrmb58SJFnl4P7YuPcRpPW8KIISvzXpwgzd9s92M8b1M4C0/s320/camamu04%5B1%5D.jpg&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
João do Velho recostou-se na popa da canoa. Puxou o chapéu de palha e cobriu o rosto. O encontro que teve com José Reis, dias atrás, quando descia a ladeira do porto rumo à pescaria, veio-lhe atanazar o juízo. “Maldição.”&lt;br /&gt;
— Então, homem, de novo na casa de Rita? — João do Velho perguntou.&lt;br /&gt;
— Aproveitei que Terêncio viajou — José Reis respondeu.&lt;br /&gt;
— Mulher casada, homem. Tome cuidado.&lt;br /&gt;
Um pássaro piou, escondido no mato.&lt;br /&gt;
— Cruz credo! Cheguei arrepiar — disse João do Velho.&lt;br /&gt;
— Foi um bacurau. Há muitos entocados nos buracos.&lt;br /&gt;
— Ave agourenta...&lt;br /&gt;
— Não se impressione com essas coisas...&lt;br /&gt;
— Tome cuidado com Terêncio. Mas por que logo Rita, homem?&lt;br /&gt;
— E o coração tem tino para escolher, João? Uma porta se abre, o sangue bate, &amp;nbsp;o Diabo vem, arruma a cama e &amp;nbsp;está feita a tragédia.&lt;br /&gt;
— Não bote o Diabo no meio. Ele não tem culpa.&lt;br /&gt;
Chegaram ao porto. O céu ainda escuro. Os insetos noturnos cricrilavam. Vultos de aves sobrevoavam o manguezal. Maré enchente e o rio puxando com força. João do Velho desamarrou a canoa, presa num tronco afincado na lama do rio, jogou o remo e o samburá dentro da embarcação e a empurrou para a correnteza, que a arrastou. João do Velho ficou parado na beira do rio, assistindo a canoa se afastar.&lt;br /&gt;
— O que foi, João do Velho? Assustado?&lt;br /&gt;
— É que essa história pode acabar mal?&lt;br /&gt;
— Eu sei. Mas que posso fazer? Rita quer mais do que eu? A canoa está indo embora.&lt;br /&gt;
— Repito, mulher casada; mulher de Terêncio.&lt;br /&gt;
Entrou no rio. A água gelada pinicou as canelas do homem. Alcançou a canoa e &amp;nbsp;trouxe-a, puxando por uma corda presa à proa. Repetiu:&lt;br /&gt;
— Ouça o que lhe digo: é casada.&lt;br /&gt;
— Eu sei de tudo isso, mas na hora perco a razão. Rita chega e me arrasta; quando vejo, já aconteceu. Foi ela quem me abriu a porta. E sou lá de ferro, João! Um trocinho &amp;nbsp;dizendo “me coma” e o sujeito fazer beiço, recusar. Não mesmo. Qualquer um se atiraria de cabeça nesse abismo. Moça viçosa, João, cheia de ternura no olhar, mas que resplandece um fogo de dentro... Que homem se aguentaria? Só mesmo o Zezinho, que é afeminado e não gosta de mulher. Mas eu, eu caio é dentro. O diabo é que Terêncio, ao que me parece, começa a desconfiar.&lt;br /&gt;
— Bem, já vou. O rio está puxando com força; e remar contra a maré não é fácil. Até logo, &amp;nbsp;José Reis.&lt;br /&gt;
— Até logo, João. Boa pescaria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
***&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um puxão no nervo o despertou. Abriu os olhos e inúmeras réstias de luz penetraram pelos furinhos do chapéu, magoando-lhe os olhos. Forte pressão na linha disse-lhe que um peixe acabara de morder o anzol. Ergueu-se depressa. Procurou sentir na pegada da linha o tamanho do peixe.&lt;br /&gt;
— É uma arraia grande, José Reis — ele disse orgulhoso, como se o amigo estivesse presente. — Tá vendo, homem? Tá vendo?&lt;br /&gt;
O peixe &amp;nbsp;puxava muito e com força.&lt;br /&gt;
— Agora é só lhe dar linha. Isto é que é pescar. Vem, branquinha, vem.&lt;br /&gt;
Com a linha chegando ao fim, o pescador içou a poita e deixou a canoa livre, assim a pressão seria menor, evitando uma quebra desnecessária.&lt;br /&gt;
— Logo ela se cansa, José Reis. Em breve estará se debatendo aqui dentro da canoa. Sinta como é grande, sinta — e passa a linha para a outra mão — É mesmo enorme. Talvez a maior que já pegamos. Deve ter outras... Uma, apenas uma e tá bom, homem...&lt;br /&gt;
Longe o mar do canal se estendia prateado. E a garça que o sobrevoava, no bater das asas, era livre e leve.&lt;br /&gt;
A proa da canoa apontava o bico para os lados da Ponta de Caeira. Do outro lado do canal, a península de Maraú, um braço verde entre o &amp;nbsp;Oceano Atlântico e o mar da baía de Camamu. Na costa, o mar revolto.&lt;br /&gt;
“Lá tu não vai, canoinha. Lá no mar da Costa, só as caçoeiras.”&lt;br /&gt;
Aos poucos os puxões do peixe foram enfraquecendo.&lt;br /&gt;
— Agora é só ir puxando devagarinho. Com jeito. Com arte. Veja, José Reis, veja, a mocinha se entrega. A mocinha do mar não resistiu às minhas investidas e vem comer aqui na minha mão. Veja, olhe só que linda.&lt;br /&gt;
A arraia estendeu-se no chão da canoa. Seus olhinhos mudos fitavam João do Velho. Logo procurou água e não encontrou. Debateu-se. Debateu-se até cansar. Até cansar. E descansou imóvel, aberta, deitada na frente do pescador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
***&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/5703162634369324214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/09/pescaria.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/5703162634369324214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/5703162634369324214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/09/pescaria.html' title='Pescaria'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTjsdKDwpDpIpUnVQFCGnMbtUAauRHiS6dV1waw7AjxHLFfcCQpdQXl_ExwFN1gbPlTTqfRnyHHKXPCQ2WOhZFwAS-y4NImrmb58SJFnl4P7YuPcRpPW8KIISvzXpwgzd9s92M8b1M4C0/s72-c/camamu04%5B1%5D.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-3043924121016248236</id><published>2012-08-03T16:26:00.001-07:00</published><updated>2012-08-03T16:26:10.620-07:00</updated><title type='text'>O sofrimento de Sônia</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Quem soube da morte de
Janaína e tinha consideração por ela e pela família, veio transmitir seus
sentimentos. Alguns vieram por curiosidade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Seu Edgar chegou e disse, um
ar condoído:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Meus sentimentos eternos,
dona Marízia e seu João.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Depois foi a vez de Olica
falar:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— É isso mesmo: a única
certeza da vida é a morte. O resto, o resto é breu...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Donga se aproximou do corpo
de Janaína, olhou-a de alto a baixo, suspirou e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— É, meus amigos, a perda é
grande. Mas Deus sabe o que faz. Se ele quis ela para Ele... quem somos nós,
hem, quem somos nós? Tão novinha... Mesmo morta, conseva uma viçosidade... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Logo todos mantiveram-se quietos. Adotaram feições piedosas e nos seus olhos já havia prenúncio de
lágrimas. É que a mãe da morta surgiu de repente. Mas calma, como se em transe.
Todos queriam compartilhar a dor, sofrendo com ela. Todos chorosos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Aproximou-se do corpo da
filha. Inclinou-se e a beijou demorado no rosto. Quanta dor nessa paz. Quanta
diferença de quando se atracaram, quando Janaína estava em crise. Sua menina
não queria dizer aquelas palavras malditas. Ela estava doente. Sim. Sua
santinha estava possuída por... A mulher teve um sobressalto e seu corpo pesou
sobre a cama de molas, que emitiu um gemido assustador. Ergueu-se. E todos puderam
ver a dor da mãe que perde um filho. As faces&amp;nbsp;
encharcadas de lágrimas e a marca da dor estampada no semblante. Mesmo
desnorteada, a mãe acariciou o rostinho da filha, e, sem tirar os olhos dela,
perguntou a seu João do Velho:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Seu João, o senhor se recorda
que Marcolino de Caboquinha roubou o rádio da finada Zulmira?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Lembro. Claro que me
lembro. Quem não se lembra disso? Ele roubou o&amp;nbsp;
rádio da velha, que era cega, e foi vender em Tapuia. Mas que
importância tem isso agora?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Donga se lembrou do fato e completou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Foi até o Zé de Celso de
dona Antonina com seu Dagoberto quem comprou o rádio roubado. Não foi isso
mesmo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Foi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;&amp;nbsp;Pinga-Fogo, curiosa, quis saber:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Então?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;—Então me diga, seu João: se
Marcolino de Caboquinha, que é um ladrão, tivesse consciência da culpa e
quisesse se punir e tivesse que cortar um órgão do corpo, que órgão ele teria
de cortar?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— A mão ladrona, claro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Olica&amp;nbsp; disse mais:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Ou as duas, se forem
cúmplices uma da outra. Mas por que essas perguntas, dona Sônia? O desgraçado
não tem consciência não, por isso nunca haverá punição para ele. Continua é se
apossando das coisas alheias. Ladronagem é herança de sangue. O pai dele e o
pai do pai dele roubavam. O menino herdou esse bem maldito..., ou será esse maldito bem?... sei lá como dizer isso... Tudo da vida de cada um está no sangue...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Pois bem, seu João. E se
alguém, por maldade, injuriar ou caluniar um outro alguém, e, com consciência
de culpa quiser se punir, que órgão do corpo esse alguém cortaria?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Oxe, mas que pergunta? A
língua, claro. Mas não estou entendendo onde a senhora quer chegar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— E se um homem tirar uma
moça de casa, lhe fizer mal e não assumir nenhum compromisso com essa moça e,
sendo pego em consciência de culpa, hein, que órgão do corpo esse homem, ele
mesmo, teria de cortar fora?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Donga se adiantou e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Essa eu respondo. Ele
teria de cortar a... ui, só de pensar dói.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;João do Velho reclamou com
ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Ora, dona Sônia, mas que
pergunta mas sem cabimento!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Vamos, responda, seu João.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Vou responder nada! Eu
respeito a senhora e...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Preste bem atenção, seu
João do Velho, eu, esta mulher que o senhor está vendo aqui, esta mulher não
merece respeito nenhum. Entendeu? Respeito nenhum. Eu sou uma mulher que foi
enrabada pelo Cão. Uma mulher que não merece viver, e... mas isto seria um
prêmio e não um castigo... O senhor percebe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Mas o que é isso, dona
Sônia?! “Meu Deus, ela está louca.” Vamos, pare com isso. A senhora sempre foi
moça de boa família. Casou-se com homem sério. É mulher respeitosa. Como alguém
poderia imaginar uma coisa dessas da senhora? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Vendo que seu João do Velho
não ia responder a pergunta, ela mesma respondeu:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Cortaria o membro fora,
seu João. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Seu João sabia que dona
Sônia não estava boa da cabeça, mesmo assim ele a respeitava, e por isso achou
melhor se afastar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Antes de seu João sair, ela
virou-se, afastando-se da filha, pegou o braço do homem e perguntou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Mas e eu, seu João, vamos,
me responda, que órgão do corpo eu posso arrancar fora, hein? Sei o mal que
fiz, mas não sei exatamente onde a fonte do mal se encontra em mim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Todos os presentes calados.
Janaína, agora, iluminada pela luz de uma vela, esboçava leve sorriso. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;Sônia soltou o braço de seu
João do Velho e saiu num caminhar pesado pelo corredor comprido e escuro. Ela
apertava a cabeça com as mãos, como se quisesse esmagá-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
Continuação de O Pescador de Almas.&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/3043924121016248236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/08/o-sofrimento-de-sonia.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/3043924121016248236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/3043924121016248236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/08/o-sofrimento-de-sonia.html' title='O sofrimento de Sônia'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-7998388261127218535</id><published>2012-07-28T03:53:00.000-07:00</published><updated>2012-07-28T04:02:12.128-07:00</updated><title type='text'>Criaturas do deus</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB64Hv3r91YXfhPvyoXEt1OvFh8TpkYWHXdkNunaUBMIaNZHBDVhaxF53s41mGZfcd9v9ZI6AAIhCjNTF7Fka9-SgwKzmck4wS9WbkYgmDwfor9BwhP0GHtGcsIo6X_C4u5NcLQYExY50/s1600/igreja+de+barcelos+do+sul+foto+antiga.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB64Hv3r91YXfhPvyoXEt1OvFh8TpkYWHXdkNunaUBMIaNZHBDVhaxF53s41mGZfcd9v9ZI6AAIhCjNTF7Fka9-SgwKzmck4wS9WbkYgmDwfor9BwhP0GHtGcsIo6X_C4u5NcLQYExY50/s320/igreja+de+barcelos+do+sul+foto+antiga.jpg&quot; width=&quot;225&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Dona Benedita vinha
chegando. Olzinha havia se sentado em um tamborete ao lado de Janaína. Do outro
lado da cama uma vela acesa. O ar empestado do cheiro da vela trouxe à
lembrança o ambiente da igreja de Nossa Senhora das Candeias. A imagem que
vinha à mente não era logo a de Janaína despida se oferecendo aos santos. Havia
uma ordem no pensamento que preparava a cena. Primeiro era a igreja cheia, todo
mundo com calor. Padre Ângelo realizando o ofício divino em latim. Ninguém
entendia o que ele dizia. Agora, ali no quarto, os olhos fixos no corpo de
Janaína, ninguém nem mesmo ouvia no pensamento a voz do padre. Algo maior e
mais importante punha a voz do padre muda na imaginação. A visão era forte.
Via-se a feição horrorizada do padre; via-se o corpo moreno e viçoso de
Janaína; via-se sua carinha de anjo; via-se tudo de acordo com a presença de
Janaína, ela era o centro, ela era como Nossa Senhora lá no altar. Mas ninguém
via Nossa Senhora não. Esta já estava salva. Ou perdida, segundo dona Benedita.
O que todos olhavam era Janaína nua. Ela que representava tão bem a Virgem
Maria. Agora, nos olhos de todos, ela era a Virgem Janaína, a pecadora, a
perdida. E a visão de todos estava atrapalhada. Viam Janaína viva e nua, de pé
na igreja, e logo, arregalando os olhos, viam Janaína bem na sua frente,
vestida e estirada na cama, morta. Olica, que vira Janaína na igreja e a via
agora, não sabia o que estava lhe acontecendo, pois pegou-se excitado,
desejando o corpo de Janaína. Envergonhado e com a mão na frente do membro, ele
saiu do quarto. Seu Edgar foi atrás. E Donga continuou mais um pouco. Havia
algo que ele não conseguia entender. Falou baixinho:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— A vida é destrambelhada.
Como pode, meu Deus, como pode? Tanta formosura desperdiçada, jogada fora, para
servir de banquete aos vermes... A vida é um desatino. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Resolveu que ia comer Ana
Rita, a mulher de seu amigo Terêncio, que andava se arreganhando para ele. Não
era nenhuma beldade, nem moça e nem santa, mas que, por ser casada e por ter um
rabo, de certa forma era proibida. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— O desejo é forte no
pecado. Deus e Terêncio que me perdoem. Vou pecar. Sou humano.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;E saiu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Foi nessa hora que Olzinha
atinou para a vida. Pois ela não estava pensando em Janaína nua na igreja em
relação com o corpo estirado na cama, não. Ela pensava em Janaína sim. Mas elas
estavam tomando banho no rio. Janaína tão linda com o biquíni que Olzinha lhe
dera. Sorrindo tão cheia de vida. E agora, morta. Começou a chorar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Dona Benedita, que ainda
vinha chegando, viu o estado da filha e disse, sentida:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— Ô, minha filhinha, eu
disse para me esperar. Tenho um lencinho aqui no porta-seios, tome, enxugue as
lágrimas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— A vida é errada, minha
mãe. A vida é errada. Seu Euclides, que é velho e está com o corpo imprestável,
não morre. Já minha amiga Jana, que era jovem e bonita... ah, minha mãe, olhe
só o que aconteceu com ela... Me diga, me diga se esta merda de vida tem
sentido...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— Ô, minha filha, não diga
blasfêmia. Deus está ouvindo... São os desígnios do Pai. Ele é onipotente, Ele
sabe o que faz... Ele é onipresente, hum, hum... Você precisa ler o livro
sagrado. E tire a merda da boca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;— Será, minha mãe? Será que
esse Deus sabe o que faz?... Ele deve tá é dando risada da gente...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;o:p&gt;&amp;nbsp;Continuação de O Pescador de Almas.&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/7998388261127218535/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/07/dona-benedita-vinhachegando.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7998388261127218535'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7998388261127218535'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/07/dona-benedita-vinhachegando.html' title='Criaturas do deus'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB64Hv3r91YXfhPvyoXEt1OvFh8TpkYWHXdkNunaUBMIaNZHBDVhaxF53s41mGZfcd9v9ZI6AAIhCjNTF7Fka9-SgwKzmck4wS9WbkYgmDwfor9BwhP0GHtGcsIo6X_C4u5NcLQYExY50/s72-c/igreja+de+barcelos+do+sul+foto+antiga.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-1524602425109175838</id><published>2012-07-27T19:51:00.000-07:00</published><updated>2012-07-27T19:51:05.733-07:00</updated><title type='text'>Pescadores</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
***&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;Chegaram ao bar de Preto. Lá estavam pescadores falando mentiras, contando vantagens, soltando palavrões, falando putaria, enfim, praticando a verdadeira filosofia da vida. Entre eles estava Terêncio. Encontrava-se sóbrio. Juarez não tinha opinião e repetia todas as asneiras que ouvia. Djalma escorava-se no balcão e todos juravam que cairia caso arriscasse um passo. Isso se repetia todos os dias. Preto não bebia e não fumava, caso contrário, imprudentemente beberia e comeria ele mesmo o seu ganha pão.&lt;br /&gt;
Enfim, havia outros pescadores que, como os já citados, ocupam um plano secundário na história.&lt;br /&gt;
Mas Terêncio parecia não se dar conta disso. Tentou dar um ar nobre à sua postura de homem rude. O que desejaria o molambo? Sabemos o caso de sua mulher com José Reis. Mas os outros que bebiam no bar de Preto pareciam desconhecer a traição de Rita. Abriria então este homem a boca? Difamaria a mulher, jogando-a na boca do povo? Não. Claro que não faria tal asneira. E ele próprio, não conta? Claro que conta. Não gostaria de ser apontado na rua:&lt;br /&gt;
— Olhe, lá vai Terêncio, o corno.&lt;br /&gt;
Outro:&lt;br /&gt;
— Veja, senhor Emanuel, &amp;nbsp;lá vai Terêncio, o chifrudo, passar a noite na roça.&lt;br /&gt;
É verdade. Terêncio ultimamente vinha com essa ideia de dormir na roça. E tudo por causa das formigas, que lhe acabavam a plantação. De noite ele as seguia até ao formigueiro. Botava a mangueira na boca do formigueiro e bombava a formicida lá dentro do buraco. Não devia se esquecer de fechar a boca do buraco, para impedir que entrasse ar, desse modo elas morreriam. Mas sempre depois aparecia mais e mais formigas, cada qual com seu ar patriótico carregando a bandeirinha verde. Então as idas de Terêncio à roça estavam explicadas. Claro que estavam. O que não se explicava era como podia um homem abandonar sua mulher e ir meter-se com formigas em noites de frio. Não estava ele, dessa forma, abrindo a porta ao imponderável? Claro que estava. Mas este é um jogo armado em tabuleiro escuro.&lt;br /&gt;
Terêncio, vestido de nobre em espírito rude, foi até a mesa onde estavam João do Velho e José Reis. Disse:&lt;br /&gt;
— Boa tarde, seu João; boa tarde, José Reis. Posso me sentar um pouco aqui com vocês?&lt;br /&gt;
João do Velho se adiantou e disse:&lt;br /&gt;
— Claro, Terêncio. Nem precisa perguntar. Vamos, puxe o tamborete e se sente.&lt;br /&gt;
Encobriu o pensamento que o levava a aproximar-se dos dois com:&lt;br /&gt;
— A pescaria hoje foi boa, não foi João do Velho?&lt;br /&gt;
— Não posso reclamar. Só uma arraiazinha, mas que me deu um trabalho...&lt;br /&gt;
— É João do Velho, pescaria boa é assim, quando o pescador usa a experiência aliada à inteligência. Não é não?&lt;br /&gt;
— Inteligência e experiência, que nada! Dei foi sorte.&lt;br /&gt;
— Você, além de sábio, é modesto, João, por isso todo mundo gosta de você.&lt;br /&gt;
Terêncio, dirigindo-se a José Reis, pergunta:&lt;br /&gt;
— E você, José Reis, também pegou alguma arraia?&lt;br /&gt;
— Não. Peguei foi tainha de bomba. Explodi todas elas. Não tenho experiência, nem inteligência e, quer saber, Terêncio, nem paciência. E mais, exploda-se quem não gosta de mim.&lt;br /&gt;
Terêncio fez que não entendeu o tom arrogante de José Reis. Continuou:&lt;br /&gt;
— É, há quem goste de fazer da vida uma aventura, não se importando com o estrago que cause.&lt;br /&gt;
— Oxe! Tá me repreendendo, Terêncio?&lt;br /&gt;
— De forma alguma. Aliás, quer saber? Tô lhe repreendendo sim. Não é certo um sujeito estragar um bem que não é seu, e...&lt;br /&gt;
— E o quê, Terêncio? O que é que você vai fazer?&lt;br /&gt;
João do Velho procurou desviar o rumo e a temperatura da conversa:&lt;br /&gt;
— Parem vocês dois com esta conversa que não leva a nada.&lt;br /&gt;
José Reis, já esquentado, queria mais era que tudo fervesse.&lt;br /&gt;
— Com certeza que levará à porra de algum lugar, sim, João do Velho. Conversa de mulher e homem, sempre dois comem. E conversa de homem com homem, sempre um some.&lt;br /&gt;
João do Velho riu do amigo, que saiu com esse dito vagabundo.&lt;br /&gt;
— Vamos ver quem vai sumir, José Reis. Vamos ver. Fique aí segurando sua bomba... — Terêncio disse em tom de ameaça. Levantou-se e saiu do bar.&lt;br /&gt;
José Reis fez menção de avançar no pescoço do desgraçado. João do Velho o conteve, dizendo:&lt;br /&gt;
— Calma, homem, calma. — e pediu: — Preto! Manda uma gelada!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
***&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;
Capítulo do livro João do Velho&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/1524602425109175838/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/07/pescadores_5939.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/1524602425109175838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/1524602425109175838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/07/pescadores_5939.html' title='Pescadores'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-2346022553100256390</id><published>2012-06-04T05:05:00.001-07:00</published><updated>2012-06-04T05:17:12.006-07:00</updated><title type='text'>Janaína enfeitiçada</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVvy182gblq61AZ9k-mOaUZnGQfv6YCsemvzC97f-oAFa5Jv5kE99CUyBKp0A5EiBkHqAjZVR3VQk-OHDLKgWq1qC9Dhq9mLgZyOge2lF2CMvSBZFZtJZ4IUWdI3QC4Ba2CaGDDkPew5g/s1600/Bom+Jesus+da+Cana+Verde.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVvy182gblq61AZ9k-mOaUZnGQfv6YCsemvzC97f-oAFa5Jv5kE99CUyBKp0A5EiBkHqAjZVR3VQk-OHDLKgWq1qC9Dhq9mLgZyOge2lF2CMvSBZFZtJZ4IUWdI3QC4Ba2CaGDDkPew5g/s320/Bom+Jesus+da+Cana+Verde.jpg&quot; width=&quot;240&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Janaína acompanhava o cortejo
descalça. Os cabelos compridos caíam-lhe por sobre o rosto. Quem apreciava a
procissão das janelas, perguntava-se:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Quem é aquela vestida de Virgem
Maria? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 27.0pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;E respondia-se:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Será Damiana de Tuninho? Ora,
mas o que digo, Damiana de Tuninho saiu de casa com Zé Pedro. Mas, então, quem
será? Ei, Miguel de Rola, aquela vestida de Virgem Maria, quem é?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;É Janaína de Sônia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;A mulher da janela, então,
muito orgulhosa pela santa, que estava bem representada, dizia:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Ah, isto sim é que é o
correto, moça virgem, donzela, pura, que nem a Virgem Maria... Meu lenço, cadê,
cadê meu lenço, diabo, olhe os olhos vertendo água de novo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Seu
João de Eleutério seguia a procissão de joelhos e chamava a atenção de todos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Foi promessa que ele fez, foi?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Então você não sabe? Prometeu
que, se ficasse bom do reumatismo que lhe enferrujava os ossos, andava toda a
procissão de joelhos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;E pra que santo ele fez a
promessa?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Bem, aí é que a coisa
complica, pois se Janaína é santa, isso lá eu não sei não... mas o resultado é
que ele ficou bom. Não cansa de encher a boca e dizer: “Foi a Virgem Janaína
que me curou”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;* * *&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Já era noite quando a procissão
chegou à igreja. Os foguetes subiam rasgando o céu, e brilhavam, e estouravam,
e crianças corriam a pegar suas flechas, e nova subida, novo relâmpago, nova
trovoada. Seu Dudu maltratava a matraca, e bate, bate, bate, bate. O sino badalava
aturdido, e vinha gente, e entupia a igreja, e fazia calor, e mulheres gordas
se abanavam com as mãos e davam pequenos soprinhos. Os santos, quietos,
iluminados pelas velas e pelos olhos dos devotos, ouviam conversas: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Santo Inácio só sai do nicho
quando ele quer. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Quem tem filho morto, quando
vê a face de Nosso Senhor Morto no caixão, chora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Bom Jesus dos Passos mete
medo nas crianças com aqueles cabelos compridos e com aquele vestido lilás e
com aquela posição acorcundada. Minha avó tinha medo, minha mãe tinha medo, eu
tive medo, meu filho mais novo tem medo, acho até que minha bisavó e também a
mãe dela, as duas tinham medo. É um medo antigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Essa igreja, essa mesma,
quando foi construída, isso lá pelos idos de mil seiscentos e tanto, foi construída
com a frente voltada para o mar, mas, dias depois, o povo ficou abismado, a
igreja estava com a frente voltada para o vilarejo. O povo respeitou a vontade
da santa, deixou a igreja com a frente voltada para o vilarejo, essa mesma, lá
pelos idos de mil seiscentos e tanto...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— E Nossa Senhora das Candeias,
olhe como está bonita... Aquele cordão de ouro foi finada Rosa de Queno que
deixou para a santa, é de ouro puro. Será que alguém é capaz de roubar? Cruz
credo, me deixe me benzer que isso é pecado... Mas, só de imaginar alguém
surrupiando o cordão de ouro de Nossa Senhora das Candeias, já posso ver a mão
do infeliz ficando durinha, não só uma, mas a outra também, pois a outra mão
foi cúmplice, se ainda batesse na mão ladrona e disesse: “Pare! Que roubar é
pecado! Ainda mais roubar a uma santa... é pecado!” Mas não, foi cúmplice, não
ouviu o que diz o livro sagrado: “Não deixe que sua mão...” Será a esquerda ou
a direita? Pois, sim, sim, ouçamos o que diz a bíblia: “Não deixe que sua mão
direita saiba o que faz sua mão esquerda”. Porém, não há cúmplice inocente,
ora, o que digo, se é cúmplice, claro que não é inocente. Não apenas a outra
mão, a cúmplice, ficará dura, mas também as pernas, os olhos, todo o corpo,
aliás, melhor, para todos os efeitos, a alma, também a alma, está ficará dura.
Veja o caso de...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Feche a matraca! Aí vem padre
Ângelo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 27.0pt; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 27.0pt; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;* * *&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;O assistente do padre anda para
lá e para cá embalançando um incensador, logo o ar fica impregnado de fumaça.
As velas queimam nos castiçais e suas chamas de um ouro antigo banham as faces
dos santos e deixam entrever os detalhes, também dourados, do altar barroco. O
rapaz que viera de Maraú para tocar o harmônio, acompanha a Ave Maria que as
moças treinadas por Pureza cantam. O povo dentro da igreja faz silêncio, mas,
mesmo com todo o velado respeito à missa rezada em latim pelo padre, ainda
assim se ouve um murmurinho abafado. Faz calor e algumas mulheres já ensaiam
passar mal, pois se abanam com as mãos e bufam pequenos sopros de ar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Sobre uma cadeira de espaldar,
sentada ao lado esquerdo do padre, está Janaína. Tem a cabeça curvada, os
cabelos negros, longos e encorpados caídos para a frente, tapando-lhe o rosto.
Um longo vestido branco descai-lhe sobre o corpo. As mãos, as mantêm cruzadas
sobre o ventre. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;O padre começa o sermão, com
seu sotaque italiano, falando das graças de Deus.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Janaína está quieta sentadinha
na cadeira, as mãos cruzadas sobre o ventre, o rostinho inocente escondido nos
cabelos. Ouve o padre falar no ciclo da vida. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Na cabeça de Janaína, dentro do
seu corpo, no âmago de sua vida, começa a se formar um turbilhão. Uma coisa
negra que vem lá do fundo irrompendo, rasgando, tomando conta de toda sua alma.
Não pode ser o espírito divino. O espírito divino viria lá do alto, em forma de
luz, e não essa lama fétida que brota das profundezas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Ouve padre Ângelo maldizer as
coisas pecaminosas, ameaçando-as com a mão pesada de Deus. Janaína escondeu um
risinho cínico no canto dos lábios. Ninguém viu, e, se visse, ninguém
acreditaria que fosse um riso de desdém, de pouco caso, de disfarçada chincana.
Todos acreditariam fosse uma graça de felicidade, uma luz enviada pela Virgem
Maria nos lábios daquela que lhe representava tão bem. Janaína descruza as mãos
do ventre e as leva até as coxas, ergue um pouco a cabeça, jogando-a lentamente
para trás, estufa o peito e, no exato momento em que o padre louva a Deus e
toda a plateia sente a presença Dele, Janaína, executando um movimento
delicado, ergue-se lentamente e, com o sorriso mais doce do mundo estampado na
boca e nos olhos, mira o teto da igreja e, após um curto espaço de tempo, volve
o olhar em direção ao padre, molha os lábios com a língua e num movimento
autômato, dá um passo à frente e mira as pessoas dentro da igreja. Todos
reparam nela. Supõem que seja uma cena teatral, um número ensaiado por Pureza,
um incremento a mais na festa de Nossa Senhora das Candeias. O povo está
emocionado. Padre Ângelo olha desconfiado. Que novidade será essa? A igreja
silencia. No ar ouve-se apenas a música do harmônio tocado pelo rapaz que viera
de Maraú. E a música é envolvente. E a plateia estática, atenta, esperando um
desfecho. De repente as mulheres gritam, tapam os olhos, os homens arregalá-os
para cima de Janaína. Padre Ângelo se benze enquanto guarda nos olhos a linda
imagem de Janaína. Alguém grita lá do meio do povo:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;É o Diabo! Ela está com o Diabo
no corpo!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 27.0pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;E logo todos o imitam:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;É o Diabo! Ela está com o Diabo
no corpo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Janaína parece não ouvir.
Vira-se para o lado de Bom Jesus da Cana Verde e, num gesto de ofertamento,
abre os braços e descamba a cabeça para trás, como se fosse uma mulher
oferecendo-se a um homem. O Bom Jesus da Cana Verde tem a feição resignada de
quem sofre. Gotas de sangue pingam da coroa de espinhos colocada sobre sua
cabeça. A moça oferta-se e ele com aquela feiçãozinha pra cima dela, como quem
diz: “Eu te perdoo, minha filha”. O povo indignado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;É o Diabo! Ela está com o Diabo
no corpo!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Padre Ângelo não sabe o que
fazer. Pureza tem que tomar uma providência. O vestido da Virgem Maria caído no
chão. Pureza corre a pegá-lo. Janaína agora oferta-se a santo Inácio. O santo
resiste bem, tem os olhos pregados num livro santo que tem nas mãos e não deita
o olhar para cima de Janaína. Faz que não é com ele, que aquela obscenidade não
lhe diz respeito. O outro padre que dê um jeito. Bom Jesus da Cana Verde, que é
Jesus, não fez nada, então é ele que ia fazer. Não fez nada, ficou foi lá
grudado no seu nicho, pois de lá ele só saía quando bem entendesse. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Pureza volta correndo e
Janaína, agora dando as costas à multidão que se mantinha estupefata na igreja,
abre os braços mais uma vez e oferta-se à Nossa senhora das Candeias. O povo
agora já não vê nada. Pureza cobriu a menina, sim, pois ela estava
completamente nua, e a arrastou para a sacristia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;* * *&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Todos contaram depois:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Janaína estava com o Diabo no
corpo. Ficou nuazinha na frente de, primeiro na frente de Bom Jesus da Cana
Verde e, depois, na frente de santo Inácio. Até para Nossa Senhora das Candeias
ela se amostrou. Onde já se viu isso? Em que mundo nós estamos? Janaína com
aqueles peitos... aquela cara de santa... aquelas nádegas... Você viu os peitos
dela, viu? E a cara, você viu que cara? Dos lados branquinha, e no meio aquela
floresta negra... Ai que pecado... Cruz credo! Deus que me livre de pensar
esses pecados... Ai que eu não aguento... com licença que vou ali...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Mas ela não podia mesmo fazer
aquilo... e logo vestida de Virgem Maria... Sei não, viu... acho que Janaína
vai ser queimada no inferno...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Ela já foi castigada... então
você não viu as lapeadas no corpo dela... Foi Bom Jesus da Cana Verde que
lapeou o corpo dela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Pior que foi mesmo! Primeiro
foi ela lá, nuazinha... aquele corpo todo... e depois os olhos de Bom Jesus da
Cana Verde marcou o corpo dela... a mesma coisa como um animal é marcado, a
ferro e fogo. Deus, sim, Deus, porque Bom Jesus da Cana Verde é Deus, Deus
marcou o corpo dela, como se ela fosse uma besta... Mas foi assim, rapaz, na
horinha, ficou nua, Deus pá, chicoteou ela... Eu é que nem quero pensar mais
nisso... Deus castiga... Pior é que é difícil afastar o corpo nu de Janaína de
dentro da cabeça... até parece que grudou no pensamento...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Esses pensamento é assim
mesmo, gruda na cabeça. Tem que tomar muito banho e lavar o corpo com bastante
sabão pra sair.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Oxente! Você ta doido? Doido
e burro. Onde já se viu limpar o pensamento com água e sabão?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Ignorante e burro é você,
pois outro dia eu ouvi seu Zé de Noite alertar:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;— Se a alma e o coração sujos
estão, dê ao corpo água e sabão. Se o lado de fora limpo está, no lado de
dentro fica a impressão. Não é reza e não é nada, mas, para quem não sabe
rezar, eis aí uma boa oração.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;(de O Pescador de Almas)&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/2346022553100256390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/06/janaina-enfeiticada.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2346022553100256390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2346022553100256390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/06/janaina-enfeiticada.html' title='Janaína enfeitiçada'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVvy182gblq61AZ9k-mOaUZnGQfv6YCsemvzC97f-oAFa5Jv5kE99CUyBKp0A5EiBkHqAjZVR3VQk-OHDLKgWq1qC9Dhq9mLgZyOge2lF2CMvSBZFZtJZ4IUWdI3QC4Ba2CaGDDkPew5g/s72-c/Bom+Jesus+da+Cana+Verde.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-2502849035872466042</id><published>2012-06-02T14:08:00.000-07:00</published><updated>2012-06-02T14:08:23.713-07:00</updated><title type='text'>Sr. Centelhas</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKNYk4O3zRonIMLH-EyckFjgO25w0eGYd0gOc0-OIXmcOxdqvw4btZIjEYAHVGwQCXxx_rO25dHN5RqopS7-6uEwCoKuew0xi4iXHa4vLv-6HElN0uyDDDPyL5vZwiOa44_9cE9pHjYT8/s1600/homem+no+espelho.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKNYk4O3zRonIMLH-EyckFjgO25w0eGYd0gOc0-OIXmcOxdqvw4btZIjEYAHVGwQCXxx_rO25dHN5RqopS7-6uEwCoKuew0xi4iXHa4vLv-6HElN0uyDDDPyL5vZwiOa44_9cE9pHjYT8/s1600/homem+no+espelho.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;SR.
CENTELHAS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;I&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;O sono que tive não foi reparador, ao contrário,
levantei-me bem cedo, quando não havia sol e as luzes dos postes ainda se
encontravam acesas. Não pude compreender como dormira tanto, sim, pois desde às
sete horas do dia anterior que eu dormia. No entanto, tinha o corpo quebrado,
como se acabasse de chegar em casa de madrugada, voltando de uma festa, onde
minhas energias tivessem se exaurido. Apesar do cansaço e do mal-estar, seria
impossível deitar e dormir de novo. Portanto, decidido, fui ao banheiro e lavei
apenas o rosto. Fazia frio, condição pouco estimulante para banho. Escovei os
dentes e, enquanto fazia isso, olhava meu rosto num pequeno espelho quadrado de
bordas alaranjadas, pendurado na parede, logo acima da pia. Vi um rosto sem expressão,
marcado por olheiras escuras e um olhar apagado.&amp;nbsp; “Deus do céu! assustei-me. Mas que aparência
horrível! Como pode alguém se apresentar com essa cara?” Fiquei uns dez minutos
olhando aquela expressão apática, até que meus olhos mergulharam-se uns nos
outros e, como se uma nuvem pairasse entre mim e o espelho, ofuscando tudo,
subitamente não vi mais meu rosto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Ouvi batidas na porta. Agora podia ver mais uma vez
meu rosto no espelho, meu nariz, e meus olhos assombreados por profundas
olheiras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Enquanto atravessava a sala, olhei o relógio e me
censurei por ainda não ter saído. E, mesmo sabendo ser toda minha a culpa por
ainda estar ali no quarto, recriminei quem batia à porta com tanta insistência,
cuja presença só me aborreceria ainda mais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;“Era só o que faltava! Sempre é assim. E agora não
pode ser diferente.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;Teria sido bom
recompor-me, enfiar-me me algum estado de espírito que mostrasse realmente quem
eu era. Mas nem pensei isso, tão rápido abri a porta e, quando vi, tinha em
minha frente um raio de moça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Com uma bandeja apoiada na mão esquerda e a direita
erguida ainda em posição de bater, a moça não pôde controlar o impulso do murro
que já dava na porta e, desajeitada, teve o corpo lançado à frente,
esbarrando-o no meu. O murro passou-me zunindo na orelha esquerda. A bandeja,
suspensa por uma reação automática dos músculos do braço, foi lançada para
trás, o que provocou certo estardalhaço ao cair no chão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Parados. Ficamos assim, assustados, um olhando a cara
do outro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;“Que lindos e grandes olhos castanhos! Que boca! Que
testa! E os cabelos! Ah, nada disso, testa pequena e bem feita; olhos realmente
castanhos, mas não grandes, profundos, cansados, porém com intenso brilho e
força, sob eles enormes olheiras enegrecidas, as quais contrastavam com a pele
alva. Faltou o quê? Ah, a boca, não era carnuda, nem tampouco fina, regular,
diria, não obstante rosada, de lábios firmes e, permita-me um deleite:
frutinhas frescas. Os cabelos? Não sei, desalinhados...; nariz graciosamente
arrebitado e, a respiração... bufos de égua em trote, bafejos expelidos de
vulcão: um gozo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;E fala! (Que pena! Afastou-se um pouco de mim. percebe
como eu estava um cretino?) vamos aos cumprimentos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Bom dia, senhor, vim trazer o café. Nádia. Meu nome
é Nádia – e estendeu-me a pequena mão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;– Centelhas – apertei a sua com firmeza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;– Ai – gemeu, franzindo o cenho e o nariz, apertando
os olhos e elevando um pouco o lábios superior.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Uma rosa vermelha,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;com suas múltiplas reentrâncias, ensaiando,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;no sofrer do nascimento,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;o desabrochar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;(Agora era o lado poeta). Dois dentes destacavam-se
bem no meio de outros que se seguiam perfilados. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;“Que boca! Que fome de beijá-la!”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Contive-me, aspirando fundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Antes de falar outra coisa, limitei-me a olhar as
horas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Queira me desculpar, senhor, devia ter vindo mais
cedo, mas minha mãe, ela sofre de asma, passou muito mal essa noite, e a
farmácia não abre antes das oito, especialmente nos dias de hoje abre ainda
mais tarde, como se não fosse possível a alguém ficar acometido por algum mal
justamente por hoje ser o dia que é. Tive que esperar abrir, comprar o remédio
e voltar correndo em casa e medicar minha mãe, só aí então pude vir ao hotel e
preparar o café dos hóspedes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Você já serviu os outros hóspedes? perguntei-lhe,
muito sério.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Oh, não, senhor, vim trazer primeiro o seu café. O
senhor é novo por aqui e nem me conhece, não sabe que tenho uma mãe doente. Os
outros hóspedes são todos conhecidos, eles vão entender se me atrasar.
Acontece, às vezes, de eu nem precisar me explicar ou pedir desculpa pelo
atraso, eles, muito cônscios que estão do estado de minha pobre mãezinha,
simplesmente sorriem muito docilmente, como se me confortassem por ter uma vida
difícil. Nessas horas me sinto feliz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;A moça me deixou desarmado. Usou um argumento estranho
para me deslocar. “Diabos! Eu só queria recriminá-la, como faz um verdadeiro
chefe.” Então, muito ligeiro e docilmente, perguntei-lhe se podia esperar um
pouco, enquanto eu via uma coisa lá dentro. Na pressa com que tomei a decisão,
bati a porta na sua cara e, rápido, corri até ao banheiro e parei em frente ao
espelho. Tentei lembrar uma cara que fiz um dia, quando eu nem notei que Vera,
minha ex-namorada, me olhava. Só depois que eu a vi, foi que ela disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&amp;nbsp; Você estava
com uma cara tão boa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Boa como? perguntei-lhe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Ah! Você parecia estar livre dos problemas do mundo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Depois que Vera me disse isso, assim que pude corri ao
espelho e tentei decorar aquela cara. Julguei que fosse uma cara simpática.
Mas, dias depois, como eu insistisse em usá-la continuamente, a cara virou
máscara, uma caricatura de mim. E, o efeito desastroso de usar uma máscara foi,
um dia, Vera vir muito dolorosamente me dizer das suas dores de cólica e eu,
inocente, mostrar-lhe uma cara simpática.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você parece
um bobo com essa cara, disse ela na sua dor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;A partir daí fiquei incerto se devia ou não usar
aquela cara simpática. E não foi só isso, de certa forma a máscara grudou na
minha memória, e de vez em quando ela vinha, insistente, querendo cobrir minha
cara natural, que é a triste. Passei a ter outra personalidade, uma intrusa,
uma indesejável.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;E agora, ali no quarto do hotel, tentava lembrar com a
máxima fidelidade aquela cara simpática, mesmo com a forte suspeita de que, tão
logo eu a usasse, sobreviria a esse ato um grande e avassalador mal-estar.
Peguei-a e vesti-a. Voltei correndo à sala e abri a porta. A moça não estava
mais lá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Aproximei-me da amurada do corredor e ouvi uma voz de
homem gritando com alguém, lá embaixo. Desci para ver o que estava acontecendo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— É mesmo impossível se tolerar coisas desse tipo,
gritava senhor Moreiras, o proprietário do hotel, com a moça do café. E
continuou: não se pode dar um dedo, a mão, e logo nos tomam o braço, o corpo,
tudo, tudo; confundem tudo, liberdade com permissividade, cordialidade com
amizade. E agora, e agora, mocinha, é capaz de ver a situação real? Olhe para
mim. O que vê? Um liberal? Um amigo? Um cordial? Vamos, diga, o que vê? Ah, não
diz nada! Pois bem, quem cala consente. E é justamente aí que está a burrice,
poderia responder: “não, senhor, a melhor resposta é aquela que não se dá.” Mas
fica calada, sem argumento, nem ao menos pôde me responder: “não, senhor, a
melhor resposta é aquela que não se dá,” Hum.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&amp;nbsp; Mas foi
justamente o que fiz, senhor? disse a mocinha, muito recolhida em si.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Quê?! Mas como ousa desafiar-me? Ah! logo vi,
pertence àqueles tipos dissimulados! Espera que afrouxemos o laço e nos dá o
bote.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Aproximei-me dos dois. Senhor Moreiras sorriu. A moça
do café procurou recompor-se rápido e também sorriu. Fiquei tão envolvido com
os gritos de senhor Moreiras que esqueci a máscara simpática. Portava agora tão
somente a cara da alma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;– Vê, senhor... senhor..., dirigia-se ele a mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Centelhas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Veja bem, senhor Centelhas, bonito nome, esta é
Nádia, a moça do café. Repare bem, repare bem, se não o acordamos mais cedo é
porque hoje é domingo; dorme-se até mais tarde aos domingos. O senhor dormiu
bem? Ah, vê-se que dormiu, olhe só que cara esperta! Um passeio pela baía vai
lhe fazer muito bem. Os manguezais são lindos, dizem, eu não acho, mas já que
dizem, são realmente muito lindos. Tenho um barco a motor, eu mesmo posso
levá-lo, seria um prazer. O senhor tem fome? Quer provar um pedaço de
requeijão? Vou pegar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;O homem se apressou em ir pegar o requeijão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;A sós com Nádia, perguntei-lhe se aquele dia era
realmente domingo. Ela respondeu:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Oh, sim, hoje é realmente domingo. Poucos
estabelecimentos estão abertos. Por isso esse silêncio. Não há o que se fazer
domingo neste lugar. O senhor gostaria de passear pela baía?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Oh, não, respondi, imitando-a na fala e no gesto
expressivo que colocava no rosto quando falava assim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Ah, o senhor está me imitando, reclamou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Nádia era de uma docilidade incrível. Via-a como uma
filha amada. Ao refletir em mim tal pensamento, fui tocado por tamanha
felicidade que me senti incapaz de sentir ódio. Sorri para ela. E o olhar que
ela me retribuiu tocou tão fundo meu coração que quase deixei cair uma lágrima.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Oh, não
queiram os senhores imaginar o que aconteceu logo mais, à noite!...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;II&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: center; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Fechando a porta e virando-me para o interior do
quarto, não estranhei a escuridão. Abri a janela, que, como tanto me disseram a
boa Nádia e senhor Moreiras, dava para o rio Acarai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Abri-a e vi as luzes dos postes acesas. Já era noite.
Não me assustei com o avançado da hora.&amp;nbsp;
Acostumara-me a sofrer esses lapsos de tempo. Às vezes as lacunas eram
breves, uma hora, um minuto até, constantemente um segundo, porém só muito
raramente se alargavam tanto. De certa forma isso faz parte do processo de
ruminação ao qual me submeto: enquanto rumino, o lado de fora se me abstrai,
dele perco o sentido. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Para que tudo
isso? Para quê? — pergunte-me, leitor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Uma outra pergunta faço agora: serei mesmo eu, por
vontade própria, que me submeto a essa digestão mental? A resposta é: não sei.
Uma outra vez, quando dispuser de tempo, entregar-me-ei a esta análise. Mas,
por ora, deixe-me lavar a alma (é um pensamento: sempre que sinto a alma suja,
tomo demorados banhos; saio melhor de sob o chuveiro, a limpeza do corpo de fora
reflete no de dentro) portanto, o que me faltava naquele momento era um banho.
Ir-me-ia a ele e esquecer-me-ia do rio, de Nádia, de Vera e...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Segurando ambos os lados do meu pescoço com as mãos,
enfiava-me Vera sua língua até a garganta.&amp;nbsp;
Assim a senti, porém ela, depois, disse daquele modo não fora. Muito
pelo contrário, apenas percorria com a sua língua o céu e toda a base de minha
boca. Mais, enquanto o fazia, também ela, e não só eu, dava um pouco de si,
pois espargia, como se fosse uma passaroca alimentando seu filhote ao bico, boa
quantidade de saliva em minha boca, e, mais, sentira, durante bom tempo fiquei
a sugá-la, como se a quisesse secar. Portanto não havia sido ela e sim eu quem
me excedera naquele beijo. Bem quis ela fazer-me acreditar nisso. Mas, fosse
como fosse, já era tarde, eu a tinha magoado, não só por jogá-la de encontro à
prateleira do outro lado, na parede, também sim por ter-me mostrado
espiritualmente grosso, o que ela não tolerava. Fosse violento por causas
externas, porém com as causas do coração... &lt;i&gt;ah,
meu bom amigo, &lt;/i&gt;disse-me ela, &lt;i&gt;com
estas há de ser o homem e também a mulher delicados. Excessivamente delicados. &lt;/i&gt;E
saiu batendo a porta, um gesto, digamos, extremamente grosso... no entanto
perdoável, não só por ser conseqüência de um erro meu, mas sim por ser, de
certa forma, uma grosseria alheia aos nossos sentimentos. Ficasse a situação
por esse patamar, tudo ia bem. Mas, como agravante da grosseria, estávamos em
casa de seus pais. E eles, pai e irmão de Vera, diferentes da porta que não
tem ouvidos, pois quem os têm são as paredes, rápidos do quarto acudiram ao
estatelar do corpo da filha na prateleira, e fizeram-se presentes na sala.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Ora, mas tudo por causa de um beijo mal dado! Ou
seria um beijo maldado? — pergunte-me.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Fique sem saber a resposta. E, se quiser, fique
remoendo, remoendo, remoendo... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Que importância tem esse questionamento, se já estavam
as feras com suas garras enfiadas no meu sofrido pescoço?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Fale! Fale, homem mau! O que fez com minha filha? —
disse o pai de um lado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Ah! Hum! Ah! Hum! Hummm! — urrou o irmão do outro,
um adolescente: perdoe-lhe a irascibilidade. Mas o fato é que ambos cravavam
suas unhas na minha jugular, o que me deixou sufocado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Fale! Vamos,
fale, desgraçado — repetia o pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Bem gostaria de falar-lhes. Mas, como podia?
Apertavam-me tanto o pescoço!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Parem! Parem! —
irrompeu Vera, gritando, na sala.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Imediatamente obedeceram. Largaram-me,
recompuseram-se, sentaram-se no sofá e alargaram os olhos e os ouvidos,
ansiosos por ver e ouvir o que tínhamos a dizer. Foi ela quem disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Não briguem vocês por uma coisa tola! Senhor
Centelhas não me fez nenhum mal, ao contrário, é ele um homem bom. Quer-me bem,
é verdade, mas... descontrolou-se, foi isso, faltou-lhe o ar da delicadeza e...
&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— O ar da delicadeza?! — perguntou desconfiado o pai —
Diga-me cá, filhinha, mas que raio de eufemismo é esse que nunca ouvi. A que
diabo de grosseria ele suaviza?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Ora, meu pai — começou ela, ganhando tempo — apenas
quero dizer que... bem, faltar o ar da delicadeza é a mesma coisa que...
pensando bem... é abrandar a intensidade de um beijo mal dado. Pronto, é isso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Eu, jogado num canto, há tempo pedia:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Água! Água, por
favor — mas quem me ouvia?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Água não há! Vá buscar em Minas! Minas não há! Ora,
contenha-se! Então te sufoca um beijo e não água? — disse Vera, irritada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— O quê? O que disse, minha flor? — perguntou curioso
o pai, o irmão já distante, pensava em tal e tal coisa — Então quer dizer —
continuou o pai — que se sufocou este traste com um beijo? Vou rir, ora se vou
— E escancarou a boca para que nela se instaurasse um sorriso animal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Animal! Animal! Isto é o que és — disse gritando ao
pai de minha noiva. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Para quê? Ai, malditas palavras foram aquelas! Todos
na casa silenciaram de repente, o pai, minha gatinha de olhos verdes, e até o
irmão, um grandessíssimo distraído, todos perderam a boca, só a porta da rua
gemeu para que uma senhora gorda entrasse. Eis que porta fala!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Acabei-me em compras — disse ela; não a porta, a mãe
de Vera.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;O encorpado da voz e a obesidade do corpo da mulher
foram chupados. Não só eles, mas também as paredes, os móveis, o tempo e todo o
espaço em redor. Realmente a porta rangeu e alguém entrou. Naquele momento
estava eu à janela da pousada, no meu quarto, perdido a olhar o rio. Quanto
tempo fiquei naquela abstração, remoendo uma cena vivida com Vera? Não sei. E,
se não fosse o gemido da porta cortando esse elo, decerto a cena continuaria
por mais horas e horas. Virei-me em direção ao limiar e ainda pude ouvir a moça
dizendo: (a voz chegou-me misturada à da mãe de Vera, e eu ainda sob o efeito
daquele momento).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Trouxe-lhe nova refeição, senhor Centelhas — disse
Nádia em pé, parada no vão da porta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Gorda! Gorda!
Isto é o que és! — gritei-lhe, irado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 35.25pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Assustou-se a mocinha, e com razão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Gorda, eu?!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Mais uma vez aqueles olhos... Podia agora vê-la
melhor, em outro plano e... ora, constatei atônito: Nádia não passava de uma
criança. Quantos anos? Doze, treze, se muito, quinze. Ao pé da escada não a
vira pequena, talvez por ter-se portado como felina. Escondera-lhe o real
tamanho a valentia. Mas dessa vez, ali em minha frente, plantada de pé, muito
bonitinha e ereta dentro de um traje branco que talvez lhe tenha forçado a
vestir senhor Moreiras, e portando-se como vítima de um mundo cruel, oh,
senhor, como a quis tomá-la ao colo, beija-la tanto e pô-la a dormir! Velaria o
seu sono como se eu fosse um deus, um pai protetor...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Gorda, eu?! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Oh, não! Não! &lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;ES&quot; style=&quot;font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: ES;&quot;&gt;Perdoe-me a estupidez! &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Encontrava-me perdido em... Ora, mas veja que minhas
palavras foram mesmo muito estúpidas, és tão magrinha...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 53.25pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.25pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLists]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Magrinha, eu?!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;margin-left: 35.25pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Logo percebi o quanto difícil é agradar as mulheres. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Furibunda, de um coice Nádia fechou a porta. E entrou
no quarto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— É inacreditável como as pessoas são cegas! — disse
ela, enquanto caminhava até a mesinha de centro. Depositou a bandeja sobre
esta, erigiu-se sobre si e muito ereta falou: —&amp;nbsp;
Extremistas! Assim são os adolescentes. Extremistas! — “Ora, meu Deus”
pensei, “com quem será que se rebela meu pobre bebê? Decerto um namorado, e,
não tendo com quem se abrir, vem, assim, introduzindo dessa forma o assunto, e
comigo! Obrigado, Senhor, por esta graça. Eis a oportunidade de orienta-la, não
com a extremada firmeza dos pais, mas assim assim uma meio moderada conversa de
amigo, porém nunca frouxa demais. Eis que vou orientá-la”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Filhinha... — nem bem abri o bico, rápida
interpelou-me:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— É inadmissível! Inadmissível! — falava com os lábios
cerrados e os olhos muito acesos, fula de raiva — Quem pensa que és, para
assim, logo de chofre, emitir opinião destorcida a meu respeito?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Só aí então foi que liguei o pronome ao verbo e vi que
se referia a mim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Encarava-me direto nos olhos. Sempre fui tímido,
baixei os meus. Para quê? Para quê? Tinha de ser firme e encara-la até
obriga-la a baixar os seus, dobrá-la, remoê-la, remoê-la... depois.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Há, há, há, há, há! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Ria-se de mim, a cretina. Com certeza adivinhou minha
fraqueza em tempo de criança, quando, muito facilmente, qualquer garotinha
fitando-me bem no fundo dos olhos me fazia baixar os meus. Naquele tempo era só
uma brincadeira e, ainda assim, causava-me os maiores estragos.&amp;nbsp; Mas não daria a Nádia o gostinho da vitória,
não cederia um dedo, nenhuma concessão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Esta bravata interior eu erguia, e, enquanto a elevava
além do chão, subi tanto em meus propósitos de vencê-la que, não tendo mais
onde pôr os pés, inevitavelmente as pernas fraquejaram e — impossível não
dobrá-las — junto com elas foram os olhos lamber o chão, e toda a cara, mas, se
havia ainda um pouco de hombridade em mim — decerto que há em todos os fracotes
— socorreu-me ela. Não importa o brilho que ela tenha, umas socorrem seus donos
com altivez, com elegância e classe; outras... um ratinho, mesmo um ratinho
traz dentro de si um algo de nobre... saber recuar, disfarçar, distrair e meter
a hombridade pelo buraco, eis aí a mínima condição humana.&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por isso pensei em me desculpar, dizer-lhe
que era mesmo muito bem feitinha de corpo e mesmo muito difícil saber se magra
ou gorda.&amp;nbsp; Porém não o fiz, o que me
pareceu ainda pior.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nádia, cansada de me tripudiar,
sentou-se em frente à mesinha de centro e começou a servir o café.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Bem, ponderei, já é alguma coisa
colocar o meu café, de certa forma dobra-se, está sendo servil.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Esperei que terminasse de servir e se retirasse, mas,
quem disse! Com a mais descarada elegância do mundo pôs-se a emitir risinhos
oculares que, em tudo, já evidenciava o deboche e a superioridade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Ato contínuo, levou a xícara aos lábios e ficou a me
olhar por sob os olhos, como se espreitasse uma reação de minha parte, como se
previsse, a cínica, que a qualquer momento eu chegaria ao meu limite e
explodiria. Hi, hi, hi, hi, hi, ri-me por dentro, este gostinho eu não lhe
daria. De fato, não dei. O que fiz? Dei-lhe as costas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Feito um rato chiei e enfiei a cara no buraco. Nenhuma
outra foi a resposta. Depois remastiguei esse meu comportamento. Havia, não sei
de que modo, uma certa ligação entre o roedor e o ruminante, como se fossem
eles parentes bem próximos, como se o ato de ruminar e o de roer fossem um só.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Da janela olhei para fora. O ar fresco e na rua poucas
pessoas. A ponte que se encompridava indo de encontro ao rio, levava em suas
bordas duas fileiras de postes com lâmpadas que clareavam muito mal. O reflexo
da luz bronzeada brilhava na água escura do Acaraí. Na extremidade da ponte um
homem tomava ar, ou talvez só pensasse, gastasse tempo, poluísse a natureza...
virou-se. Ora, veja, senhor Moreiras! Então se dava ele a esses passatempos...
Seria também um ruminante? Logo vi que não, pois bastou me ver à janela e bateu
&lt;st1:personname productid=&quot;em retirada. Um&quot; w:st=&quot;on&quot;&gt;em retirada. Um&lt;/st1:personname&gt;
verdadeiro ruminante não teria essa reação. Um homem, e ainda mais à noite,
sim, pois a noite pertence mais aos sentidos do que à razão, a noite com suas
penumbras, seus semitons, todo a sua característica barroca, à noite o homem
viaja, não para fora, mas para dentro de si, ainda mais se a noite for fresca e
se sob ela houver uma ponte e um rio para nele se desaguar... Um verdadeiro
ruminante não veria um outro à janela, nem ninguém, nem nada. Apenas
desaguaria, desaguaria...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Eu sei essas coisas porque sou um homem muito
inteligente; outros nem se dão conta de que são ruminantes, (estes se
assemelham ao boi e ao matadouro tanto se lhes faz ir ou não).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Água! Água, por favor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;— Água não há! Vá buscar em Minas! Minas não há! Ora,
contenha-se! Então te sufoca um beijo e não água? — disse Vera, irritada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Fiquei muito tempo plantado à janela, remastigava um
episódio de minha vida com Vera. Depois, após ouvir o apito de um barco na
ponte, pisquei rápido e, hi, hi, o rato ressurgiu, lembrando-me de que Nádia
tomava o meu café, abancada no meu sofá, em minha sala. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;De uma virada repentina e violenta, mandei o rato aos
infernos. Ah, como é bom sentir-se valente! Senhor de si! Dono da situação! Mesmo
que seja por um segundo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyText&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.25pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Bem se vê o tempo em que estive fora! Voltei à janela
e constatei que na rua não se via um pé de gente. A ponte deserta. Silenciosa.
Ao longe, o som de buzina de carro. E, de novo, o silêncio. Dentro do quarto, o
ressonar de Nádia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/2502849035872466042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/06/sr-centelhas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2502849035872466042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2502849035872466042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/06/sr-centelhas.html' title='Sr. Centelhas'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKNYk4O3zRonIMLH-EyckFjgO25w0eGYd0gOc0-OIXmcOxdqvw4btZIjEYAHVGwQCXxx_rO25dHN5RqopS7-6uEwCoKuew0xi4iXHa4vLv-6HElN0uyDDDPyL5vZwiOa44_9cE9pHjYT8/s72-c/homem+no+espelho.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-1799125565938025250</id><published>2012-05-14T20:04:00.001-07:00</published><updated>2012-05-14T20:04:30.533-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Não é sempre, mas às vezes levo sustos enormes. É como um
rio que a gente navega, navega, mergulha nele, afoga-se nele, e nem se dá conta
de que o rio é o curso de sua vida. Tenho essa impressão quando concluo algum
texto, às vezes. O engraçado é que há um disfarce medonho, um terreno e tempo
distantes, personagens nunca antes vistas ou sabidas, como se tudo isso
pertencesse ao alheio, ao que não nos diz respeito. E o susto que tomo é este:
saber que nada do que escrevo é alheio, o susto é saber que tudo o que escrevo
diz respeito a mim, mesmo que distante, estranho, escuro, inconcebível,
metamorfoseado em dragão ou em sereia, eu sou a fonte, eu sou o rio que
deságua, para o abismo, para o fim, para o nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/1799125565938025250/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/nao-e-sempre-mas-as-vezes-levo-sustos_14.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/1799125565938025250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/1799125565938025250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/nao-e-sempre-mas-as-vezes-levo-sustos_14.html' title=''/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-7442002018646989785</id><published>2012-05-14T20:02:00.002-07:00</published><updated>2012-05-14T20:02:50.358-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Capítulo de algo maior, ou menor. Sei lá.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
A luz do sol apareceu vermelha, rasgando o céu, lá por trás
da península de Maraú. A ilha da Gerumana era uma sombra se elevando sobre o
mar do canal. O ar ainda frio. Logo o sol desceria queimando tudo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Teófilo ouviu um estrondo, vindo lá das bandas da Ponta de
Caieira. Imaginou que fosse Raimundo Reis matando os peixes. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
“Um desperdício. Uma maldade com a natureza. O desgraçado
ainda vai se dar mal. O certo é pescar de linha, de rede de arrasto; o certo é
usar a malha certa na rede, para não pegar os peixes pequeninos, que não servem
para comer. É certo usar bomba? Milhares de ovas perdidas. O homem é burro.
Raimundo Reis também é meu amigo mas é burro. Que mal fiz a Deus para ter um
amigo burro? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Acendeu outro cigarro e tomou rumo contrário ao som da
explosão. Não queria ouvir os estrondos. Foi para longe, para um lugar onde
pudesse apoitar sua canoa, preparar sua isca e esperar que o peixe graúdo
viesse morder o seu anzol. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
“É diferente. É muito diferente. Pesca-se o necessário; não
há matança desordenada. Diabo! O fim não justifica o meio.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Imaginou Raimundo Reis catando as tainhas da superfície. O
samburá do infeliz devia estar entornando peixe, mas não lhe era suficiente, o
pescador sabia que lá no fundo estavam as tainhas gordas, por isso mergulharia
e iria buscá-las. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
O sol se escondeu atrás de grossas nuvens, lá onde a
península descamba para o oceano. Nuvens negras, volumosas. O mar do Canal
escureceu e a paisagem mudou. Desenhou-se um quadro de chuva. Teófilo percebeu
que tudo ficou quieto. Julgou que fosse a explosão da bomba a causa de tanto
silêncio. Deve ter assustado as garças e os savacus. Um bando de periquitos e
todo o estardalhaço que fizeram, quando cruzaram o Canal, se ouvia agora longe,
quase como uma ilusão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Teófilo apurou o ouvido, na tentativa de ouvir a voz de
algum outro pescador. Por aquelas bandas era comum um pedaço de voz vir bater
nos ouvidos. O vento trazia e levava, num bater de asas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
“O tempo virou! Nenhum som. Nada. Ora, o mar está para
peixe.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Lançou a linha ao mar e esperou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
“Que mais se pode fazer nessa vida?”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/7442002018646989785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/capitulo-de-algo-maior-ou-menor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7442002018646989785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7442002018646989785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/capitulo-de-algo-maior-ou-menor.html' title=''/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-299436663554823713</id><published>2012-05-14T20:00:00.000-07:00</published><updated>2012-05-14T20:00:51.478-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Fragmento de &quot;uma coisa&quot; que estou escrevendo;
tomara que vingue.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Eugênia, depois que percebeu que o marido havia saído,
levantou-se, pois não estava com sono. Pegou o candeeiro pendurado em uma viga
da casa e o colocou sobre a mesa, assim poderia ler o Almanaque Capivarol,
exemplar que lhe dera seu João Celi, quando ela fora à vila comprar remédio
para cólica. Era a única coisa que tinha para ler naquela casa. Havia uns casos
e piadas engraçados na revista. Já os lera todos, mesmo assim sentia certo
prazer em voltar à leitura, como se fosse a primeira vez. Sabia tudo de cor,
mas havia um engenho na leitora que fazia com que a cada nova leitura brotasse
da história algo novo. Ou como se a pessoa que estava lendo já fosse outra.
Assim Eugênia se pôs a folhear a revistinha. E parou num caso conhecido. Ao
terminar a leitura, estava emocionada, como se todos os problemas do seu mundo
real tivessem deixado de existir. Naquele momento, só ela e a leitura. Desviou
os olhos do almanaque e olhou a parede à sua frente. Agora uma outra história,
também já vivida e repetida por Eugênia, saltou dos seus olhos e foi se
desenrolar na parede. Ela era a espectadora. A luz amarela e trêmula do
candeeiro projetando e dando movimento às imagens na parede. Era uma história.
E era uma história triste. A história de um amor proibido. O filme parou de
repente. Eugênia apagou o candeeiro com um sopro forte e as imagens
evadiram-se. O cenário do mundo escureceu. Bobinha! A história não para nunca.
Ela é filha do tempo. Ela continua, mesmo no silêncio, mesmo na escuridão...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/299436663554823713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/fragmento-de-uma-coisa-que-estou_14.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/299436663554823713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/299436663554823713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/05/fragmento-de-uma-coisa-que-estou_14.html' title=''/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-3137326226982182593</id><published>2012-04-01T15:26:00.000-07:00</published><updated>2012-04-01T15:32:24.174-07:00</updated><title type='text'>Anjinho</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;A
igreja agora é bonita. Limpa, por fora. Dá gosto olhá-la de longe,
destacando-se na Praça da Matriz. De perto, então, apura-se o olfato e ainda se
sente o cheiro da tinta fresca entrando pelas narinas e pelos olhos,
enebriando, deixando o povo tonto. Toda renovada, ela que é tão antiga. Suas
torres, braços incansáveis, erguem-se aos céus, clamando a Deus os inúmeros
pedidos. Maria Dasdolores de Vulpian, rogou a Nossa Senhora que curasse seu
filho Anjinho do puxamento que o maltratava desde que nasceu. Até mesmo ela,
que nunca adentrara aquele sagrado santuário, recebeu uma dose do santo
remédio, o restante da cura viria por merecimento. O menino, rosado nas
aparências, pareceu-lhe sarado. Acendeu duas velas pequenas e ficaram
acertadas, ela e a santa. O asmático, alheio ao acerto de comadres, continuou
fazendo suas necessidades no terreno da igreja, lá nos fundos, ao lado da
sacristia, onde dormia, num esquife, o Nosso Senhor Morto. Arriava o calção,
agachava-se e deixava no terreno a sua obra sagrada. E isso era sempre de
tardinha, antes de seu João Grande se dirigir à usina e botar o gerador para
funcionar. A figura enorme do homem, figura que faz jus à alcunha, aterrorizava
o menino. Por isso, sempre que Anjinho suspeitava a aparição de seu João Grande,
arrancava folhinha de mato e limpava-se às carreiras. E às carreiras saía do
beco do motor, gritando:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
A vara! A vara!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Nesse
momento, ele já não tinha mais medo de seu João Grande. Agora, o que sentia,
era emoção. No canto da sala de sua casa, lá estava a vara comprida e flexível
de araticum. Pegava-a com mãos nervosas e saía correndo. Postava-se no oitão da
igreja e, com a vara à frente, aguardava. Logo chegavam os outros meninos, uns
com varas, outros com pedras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Vulpian,
que então fumava encostado à porta de seu bar, disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Olhe, Dasdolores, lá estão os malvados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mal Vulpian acabou de falar e de dentro do bar, que também era sua casa, saiu seu
filho Anjinho com uma vara comprida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Epa! Epa! Mocinho! Onde pensa que vai?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
O menino parou, manso. A feição, de anjo remelento. A respiração e os olhos,
fiapos de nuvem. Os cabelos, louros, escorridos. As faces, sujas. E as mãos, determinadas,
segurando a vara. Continuou parado. Não era o menino que estava parado. Tudo
estava parado fazia tempo naquele lugar. Desde a fundação da Aldeia, que
chamaram de Aldeia da Purificação, com a chegada dos jesuítas da Companhia de
Jesus, no ano de 1654, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os santos
encarnados vieram, plantaram coisas e se foram. Deixaram em seu lugar imagens
de barro, sacralíssimas. Deixaram a construção imponente, plantada no meio da Praça
da Matriz. Em redor, casinhas penitentes, ajoelhadas, diante da grande Casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Oxe! O que foi isso?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Uma
imagem nos passou de repente diante dos olhos. Chegou-nos como se fosse a
lembrança adormecida e fresca do furúnculo que o menino acabou de espremer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Pare de mexer no furunco, menino; vai magoar a ferida, gritou-lhe o pai. Olhe
só para isso, Dasdolores, o carnegão de fora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ora!
Mas o menino nem percebeu que mexia na ferida. Olhou o dedo sujo de sangue
pustulento e de outras imundícies e rápido limpou a sujeira no calção. Saiu
correndo, gritando:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
A vara! A vara!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Diabo de menino! resmungou o pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
E não pode se cansar, Vulpian, disse a mãe. Mas é menino, e menino precisa de
brincar. O coitadinho... Deus tenha piedade... Meu anjinho...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Juntou-se
a outros meninos, que aguardavam seu João Grande ligar o motor.&amp;nbsp; Essa expectativa só aumentava a emoção. As
mãos envolviam as varas de araticum com força. As pedras sonhavam um destino
certeiro. Jajá de tio Wilson disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Vou acertar o Diabo em cheio. Vamos seu João, liga logo esse bicho, gritava de
longe da usina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Até
Zezinho de finada Linda de Epitácio, que só andava doente e nem aguentava dar
uma carreira, nessa hora arrotava:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Vou acertar dois de vez.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Só
Anjinho não dizia nada. Mas todos podiam ver nos seus olhos a bravura reluzir. O
motivo vinha de longa data, funcionava como rito de passagem dos meninos,
consagração a Deus e renúncia ao... Deus me livre, pois não digo esse nome. É
que também eu fui menino de lá. Os pais nem reclamavam.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
É bom que se mate esses bichos; filhos do Diabo – os homens crescidos tinham
coragem de dizer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não
demorou muito e logo se ouviu o ronco da máquina. As luzes dos postes de
madeira se acenderam. Mas ninguém viu a luz, nem ouviu a Ave Maria que começou
a tocar no rádio, no bar de Olica. Nenhum dos meninos fez o sinal da cruz. Anjinho,
preparado, disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
As varas! Aí vêm eles!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E
logo a legião de diabinhos se atirou rua afora e ganhou o beco da igreja.&amp;nbsp; Formavam uma nuvem preta, assombrosa, davam
pequenos gritinhos e batiam as asas desordenadas. Chegaram rápidos, num
sobrevoo rente à cabeça dos meninos, e logo sumiram. As varas e pedras também mexeram-se
rápidas.&amp;nbsp; Umas cortaram o ar ligeiro e
nada encontraram; já outras, certeiras, atingiram o alvo em cheio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cinco
morcegos no chão. Uns parados; outros ainda se debatendo, emitindo&amp;nbsp; gritinhos estridentes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anjinho
chegou perto de um e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Cara de rato. Rato, vira morcego! Rato vira morcego e foge tritritri avoando. Jajá,
morcego se desvira em rato?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Jajá,
que tinha resposta para tudo, respondeu, enraivecido:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Ele vai virar é diabo morto!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Levantou
o pé e desceu-o com toda a força sobre a cabeça do bichinho. Depois ficou
girando o pé, esfregando a cara do coitado no barro da rua. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
É assim que eu me vingo, filho de Satanás!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anjinho
achou o que Jajá fez muito errado. Deixou o morcego imprestável . Pois morcego
morto não serve para nada. Por isso ele olhou rápido para os outros que estavam
espalhados pelo chão. Viu um se arrastando, tentando fugir. Rápido, gritou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Não mate, Jajá! Esse é meu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Oxe, e vou lá matar! Já tive o meu; quero é ver se morcego se desvira em rato.
É todo seu. Pronto, já vi que não desvira. Pode matar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Vou matar depressa não, respondeu Anjinho, olhos fixos no bicho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Ora! E vai matar como?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O
menino não respondeu. Mas tudo já estava preparado: o tronco da bananeira no
fundo do quintal de sua casa, as brochas que arrancou de uma tábua velha, e
agora o morcego, que era o que estava faltando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Jajá,
não tendo mais o que fazer, provocou: &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Se desvira em rato nada!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então
Anjinho, que saiu com essa novidade, explicou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Desvira, sim; ele, deve, estar, é, com, vergonha. Fiiuuu. Ou, então, ainda, é,
novo; tem que, ser, morcego, velho... Fiiiuuu. Largata, não, vira, bor-bor-bor-bo-leta?
E...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Mas borboleta não desvira em lagarta, desvira, miadinho de gato? E não é &lt;i&gt;largata&lt;/i&gt;, é “lagarta”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E
Jajá deu uma carreira rua abaixo, à procura de praticar maldade com outros
bichos indefesos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anjinho
pegou o morcego, que ainda se debatia, e levou-o para sua casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entrou
com o bicho meio escondido, para que seus pais não vissem. Sabia que iriam
reclamar. Pais, quando grandes, reclamam de tudo. O menininho nem pode levar um
bicho para casa. Tem que ser assim, escondido. Será que pais adultos pensam
que&amp;nbsp; meninos são bestas? Tadinhos... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O
menino entrou foi na arte natural da sonsidão. No fundo do quintal colocou o
bicho sobre uma folha grande de cacaueiro. Olhou o tronco da bananeira.
Lisinho. Pegou as brochas, que deixara escondidas no porão de um de seus
barquinhos de cortiça, e pronto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Foi
difícil segurar a asa direita e a brocha ao mesmo tempo em que segurava a asa
esquerda. Mas conseguiu enfiar a primeira brocha. A segunda foi mais fácil. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Pronto. Aí está você, pássaro do diabo, Anjinho praguejou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ficou
parado em frente ao morcego. De asas abertas, pregado no tronco da bananeira, o
bichinho imóvel, a cabeça ainda firme, querendo reagir, como se pretendesse
soltar-se do resto do corpo. Deu um gritinho de sofrimento. O menino se
arrepiou. É que a escuridão descera, e o menino, tão entretido com o morcego,
nem percebera. Mas a escuridão agora vem lhe dizer que mete medo. Que o
quintal, ali pelos cantos, sob as folhas, e logo mais por todos os escuros, o
ambiente agora é dela. Que ele deve entrar em casa, sair do quintal correndo,
antes que ela o prenda nas suas asas negras. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O
menino olhou para trás, rápido, como se tivesse levado uma cutucada de alguém,
ou de alguma coisa. Mas nada viu, ou viu apenas o grande vulto que crescia por
todos os cantos, e em redor de si.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Medroso,
deu uma carreira e entrou em casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Maria
Dasdolores e Vulpian mais outros filhos, que não interessa nominar nem
quantificar,&amp;nbsp; já estavam à mesa. Anjinho
entrou correndo e foi se sentando no seu tamborete. A mãe foi até o fogão de
lenha, pegou a chaleira que estava sobre a trempe e derramou o café na caneca
do menino. Deu-lhe um bolachão e ele começou a comer. Depois que Anjinho
terminou de tomar o café, ficou na mesa ouvindo a conversa dos pais. Mas não
acompanhava nada do que eles diziam. Apenas algumas palavras febris lhe
chegavam desmaiadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Puxamento.
Coitadinho. Na venda de seu... Piorando. Xarope de... Caro. Come, meu filho,
disse a mãe, pasando a mão na cabeça loura do filho. Vai ficar bom, disse o pai,
agarrando-se no invisível.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;O pensamento de Anjinho
estava mais voltado para o morcego pregado na bananeira. Pensou que talvez ele
já tivesse morrido. Ou se desvirado em rato. Concluiu que, se ele tivesse se
desvirado, já não estava mais lá. Se ao menos ele pudesse vê-lo. Mas o quintal
tão escuro! Espiou pela janela, mas não viu nada. Até colocou o fifó na direção
da touceira de bananeiras, viu um vulto atravessar o clarão do fifó e se
embrenhar por trás das folhas, fechou a janela rápido e foi dormir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Logo
toda a casa entraria em sono profundo. O dia começava bem cedinho, com o céu
ainda escuro, mas enfeitado de estrelas. A mãe cuidava de tudo. Acendia o fogão
para fazer o café. Acordava os meninos para irem à escola. Depois que os
despachava, intercalava os afazeres domésticos com ajudar o marido no bar. Os
meninos chegavam da escola, almoçavam e iam brincar, ou então tomavam banho no
rio, ou judiavam os catendes, ou matavam murunhanha, ou não faziam nada, apenas
paravam alerdados, espiando o tempo passar se arrastando, na rua. Os dias eram
longos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A
mãe acendeu a lamparina no quarto dos meninos. Deixou a chama bem baixinha,
para economizar gás. Rezou o Pai Nosso com eles, deu um beijo em cada um e
saiu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Logo
todos dormiam. Menos Anjinho, que não conseguia desgrudar o pensamento do
morcego pregado no tronco da bananeira. Os irmãos todos enrolados em cobertores
franciscanos grossos e macios. O silêncio doía nos ouvidos. Um som ensurdecedor
que vinha não se sabe de onde. Se ao menos ele pudesse dormir logo. Mas não, tem
de ficar pensando no bicho pregado na cruz. Bicho pregado na cruz? Nessa hora o
menino avistou o Nosso Senhor pregado na cruz. Ele bem à sua frente, na parede
do quarto. A luz da lamparina sem alumiar bem. Luz confusa. Luz que mistura o
claro com o escuro, numa dança enebriante. As horas entontecidas, deixando a
noção do tempo lassa. É de deixar a vista maluca. Umas visões. O Nosso Senhor
pregado na cruz&amp;nbsp; se mexendo. Talvez ele ainda
esteja vivo, e sofrendo. Isso é maldade. O menino já arrependido, pede perdão a
Nosso Senhor, pois não devia ter feito aquela ruindade.&amp;nbsp; Que animal é mamífero e voa? Ouve a professora
perguntar, na escola. Ninguém soube responder. Então ela disse que galinha era
animal ovíparo; e o cabrito, herbívoro. E o morcego? O morcego é o quê? ela
perguntou. Anjinho se adiantou e respondeu:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Sanguífero, ele respondeu. Sanguífero! Sanguífero! ele grita bem alto agora, mas
o som morre-lhe no peito asmático.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;A professora não achou graça. Disse que a
resposta estava errada. Botou o menino de castigo. Agora ele já sabe que
morcego é mamífero, e voa. Mas que castigo! Que mal ele fez para ficar pregado.
Ele tem a cabeça pendida para o lado. Ele já deve estar mesmo morto. Mas se
está se mexendo? Morto é morto. Morto não é vivo. Mesmo assim o que é morto dá
medo. Ele é tão magro. É de hoje que Ele morreu... Esse era homem e virou anjo.
E o anjo se desvirou em homem no terceiro dia. E o outro, vai se desvirar em
quê? Quando?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Veio
a noite alta e o menino lá, acordado. Até fez força para dormir. Mas visões
assustadoras afugentaram-lhe o sono. Começou a sentir medo. Ora, mas medo de
quê? Só por que matou um bichinho maldito? Estaria ele com medo de ser castigado
por esse Deus pregado na cruz? Ele nem está olhando. Mas o menino de vez em
quando levanta um pouco a beira do cobertor e gruda os olhos no Jesus
crucificado. Ele tem uma luz em seu redor. É a luz da lamparina que ilumina mal
o quarto. Antes estivesse tudo escuro, assim não viria o olho de Deus, que tudo
vê, mesmo sem estar olhando. Ou seria coisa da cabeça da criança? Crianças têm
esses medos aprendidos, que apreendem-nas, prendem-nas na pior prisão, aquela
que é construída dentro de cada um. Para onde quer que se vá, a prisão interior
o acompanha, não há liberdade do lado de fora. Meus Deus, não há liberdade! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Disseram-lhe que Deus
castiga menino mau. E ele agora é um menino muito mau. Quem mandou matar o
morcego? E Jajá? Estaria ele acordado nesse momento, com medo de ser castigado
por Deus? Ou será que ele dorme, sem culpa, sem nada? Jajá ao menos é corajo e
não pensa essas coisas. Mas Anjinho, não. Anjinho nem deve ter tanto medo. O
que ele tem mais nesse momento é culpa, remorso por ter matado o morceguinho,
que também é uma criatura de Deus. Anjinho uma vez disse que o Diabo, até o
Diabo, é uma criatura filho de Deus. Que tudo que existe no mundo é criação de
Deus. Mas nunca soube dizer a ninguém quem criou Deus. Na aula de catecismo, o padre
perguntava:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Quem é Deus?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E
Anjinho, mais os outros meninos, respondia:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Deus é o criador de todas as coisas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
De que é feito Deus?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Deus é feito do nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então
pronto. Tudo estava explicado. Mas um dia Anjinho, relutante, perguntou ao padre
se Deus era o pai do Diabo. O santo homem quase teve um troço. Arrancou o
menino da cadeira puxando-lhe as orelhas, deu-lhe doze bolos e o colocou de
castigo, de braços abertos por meia hora no pátio da escola, para que todos que
passassem vissem o grande maldito que é esse menino. Desgraçado! Maldito! Não
dá raiva mesmo? Ele ficou lá, meia hora e mais um pouquinho, feito um Cristo
chorão. Bem feito!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Morre,
desgraçado, morre! Pássaro negro, filho das trevas. E cravou-lhe mais outra
brocha na asa esquerda.”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Engole o choro! Engole o choro! Disse a professora – ou terá sido o padre? -, &amp;nbsp;&amp;nbsp;apontando-lhe o dedo na cara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Um
pecador o Anjinho, um pecador. Não lembra o que ele fez com o morcego? Deixou-o
crucificado no tronco da bananeira. Até parecia que tinha raiva do mundo. O que
os outros meninos não entendiam era o que Anjinho dizia, rangendo os dentes,
quando fazia uma maldade:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
É assim que me vingo, filho do Cão!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E
foi pensando essas coisas que Anjinho, num momento de descuido, nem sentiu a noite
soprar-lhe nas vistas e nas narinas um ventinho de sono. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; -
Fiiiuuu! expirou profundo. E fechou os olhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;A criança continuará
sonhando mistérios...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/3137326226982182593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/04/anjinho.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/3137326226982182593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/3137326226982182593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/04/anjinho.html' title='Anjinho'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-932756997466272579</id><published>2012-03-24T17:16:00.001-07:00</published><updated>2012-03-24T17:16:25.042-07:00</updated><title type='text'>Lindóia à janela</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqr9Ny1JNI1Bap6iDBmkT-H8VEIOYqqFaVGGpW_jO70oKOFArg0wFjzOk2WFcXnrhyuwbpWOr2HEN5LLzZcwnXaCDRLSspR2zeCh9tv4dc_hf732wFtcdUQA9a9CW-AR6ZnCSr7pUSeEQ/s1600/Mo%C3%A7a+a+Janela+-+OSP+-+20+x+25cm+-+2007+-+G.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqr9Ny1JNI1Bap6iDBmkT-H8VEIOYqqFaVGGpW_jO70oKOFArg0wFjzOk2WFcXnrhyuwbpWOr2HEN5LLzZcwnXaCDRLSspR2zeCh9tv4dc_hf732wFtcdUQA9a9CW-AR6ZnCSr7pUSeEQ/s320/Mo%C3%A7a+a+Janela+-+OSP+-+20+x+25cm+-+2007+-+G.jpg&quot; width=&quot;237&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;A tarde foi caindo devagar em Aldeia da
Purificação. Os cigarrões no fundo do quintal silenciaram de vez. Até parecia
que tinham combinado a hora de parar. O escuro veio escorrendo do céu e logo
foi se espalhando no ar, penetrando nos recantos. Ouviu-se o motor da usina. A
luz amarela e fraca dos postes de madeira se acendeu. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lindóia, triste, não sentiu vontade
de sair. Também, ir para aonde? Da janela de sua casa, ela olhou a rua. Do
outro lado, na praça, o bar de Manuel de Olindina aberto. Como fazia todos os
dias, sempre no mesmo horário, ele punha a radiola para tocar um de seus velhos
discos. E ela era obrigada a ouvir aquilo. O bar vazio. Mais logo é que
chegavam os que bebiam pinga. A música avisava-os de que Manuel de Olindina já
tomara seu café e que agora o bar estava aberto. Eram os mesmo de sempre. Um
vinha gastar o pouco que ganhara com a venda do peixe; outro, o que conseguira
com o serviço de pegar água na fonte. Seu João Celi não bebia, não fumava e nem
se parecia com os poucos que se consumiam no bar. O que o atraía ali naquele
bar era Rita, a mulher de Manuel de Olindina. Puxava conversa com ela, cheio de
bons princípios, pois chegava com uma conversa de moral, de respeito aos
santos, do que se devia e do que não se devia fazer. E ela acreditava, ou
fingia acreditar que ele era um homem bom. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - A senhora é uma mulher boa, dona
Rita. – ele dizia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ficava falando essas coisas
agradáveis. E ela o colocava como exemplo de bom marido, sim, pois o santinho
era casado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− Santinho? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Isso mesmo. Fingia tão bem que até ele
mesmo acreditava que era verdade as coisas que pregava. Mas, ao chegar em casa,
entocando-se no banheiro, ou mesmo na rua, em um lugar escondido qualquer,
aliviava-se pensando nela. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− Ora, mas isso não é errado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;É verdade, isso não é errado. Todo
mundo, de uma forma ou de outra, acaba fazendo isso. Essa é a história que
ninguém conta. O que se contava dela, da mulher de Olindina, era outra coisa.
Que ela era boa, isso ninguém contestava. Seu João Celi que o dissesse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Boa. Boa demais essa mulher – ele
dizia com os olhos lambidos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O que se propagava era que seu João
Celi tivera um caso com ela. Mas o caso só caiu na boca do povo depois que ele
foi morar na cidade dos pés juntos. Foi Sebastião de Caboquinha quem espalhou o
fato. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− Como ele soube isso? – pergunta-me
você.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;Quem sabe! Sebastião de Caboquinha,
desentendendo-se com Manuel de Olindina porque este não quis lhe vender cachaça
fiado, fez cara de ameaça e, vingativo, espalhou:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Seu João Celi comeu Rita de Manuel
de Olindina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Pronto que a desgraça está feita.”
– pensa você.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Que nada! Olindina era homem de sangue
fraco. Nem espumar, espumou. Quis racionalizar um caso que era mais para
porrada, para peixeirada. Nem foi capaz de atocaiar Sebastião de Caboquinha em
qualquer esquina. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− Por quê? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Porque era um frouxo. Sabe que providência
o corno tomou? Prometa que não vai rir. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;−
Vou rir nada!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; − Vou levar o caso para a justiça! −
o abestalhado ameaçou Sebastião. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; − Ha, ha, ha, ha, ha!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Você disse que não ia rir. Mas não
foi só você quem se escangalhou de rir assim. Sebastião riu assim. Todos rimos
assim. Até mesmo Lindóia, que tinha o ar triste naquela noite, ali, sozinha,
olhando o bar de Olindina, até ela começou a rir gostoso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Rita dando para o defunto... Rita,
mulher fogosa...&amp;nbsp; Ai, ai... E seu João
Celi? Como é que vão prender ele, se ele está morto? Hum, esse Manuel de
Olindina é mesmo um idiota...” – ela ficou pensando.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Está rindo de que, Lindóia? –
perguntou Manuele, que tinha acabado de chegar de Maraú naquele instante, na
lancha toque-toque de Tuninho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Oi, Manu. Veio ver sua vó Lalá,
foi?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Vim ver ela, sim; e você, tá boa?
Ah, deve estar, tá rindo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Tô boa, sim; não estou rindo de
nada não; estava só me lembrando de um caso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Ah, bom. Então já vou, ufa, essa
ladeira do porto mata qualquer cristão. Até logo, Linda.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Até, Manu.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Manuele desceu a rua deserta.
Lindóia voltou a seus pensamentos, e de novo começou a rir. E nem foi nada, só
a lembrança de um caso que, por assim dizer, estava morto. Mas, bastou lembrar,
reviver a história, para que seu João Celi, que estava morto, de um salto
começasse a reescrever sua história de amor com Rita. A história, assim, não
morre, continua pulsando, e continuará enquanto houver quem a conte e reconte.
Mesmo com aparência de morta, ela sempre será viva na memória do povo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Esse seu João Celi, viu... –
Lindóia pensou alto, se rindo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: x-small;&quot;&gt;Moça à janela. Imagem de Claudio Gonçalves - www.cpousada.com.br&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/932756997466272579/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/03/lindoia-janela.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/932756997466272579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/932756997466272579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/03/lindoia-janela.html' title='Lindóia à janela'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqr9Ny1JNI1Bap6iDBmkT-H8VEIOYqqFaVGGpW_jO70oKOFArg0wFjzOk2WFcXnrhyuwbpWOr2HEN5LLzZcwnXaCDRLSspR2zeCh9tv4dc_hf732wFtcdUQA9a9CW-AR6ZnCSr7pUSeEQ/s72-c/Mo%C3%A7a+a+Janela+-+OSP+-+20+x+25cm+-+2007+-+G.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-781587012331352007</id><published>2012-02-29T14:32:00.000-08:00</published><updated>2012-02-29T14:32:53.990-08:00</updated><title type='text'>A propósito de uma história</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9owz2fOHOyB2l6_FJJksRfjOKy44rlOjdOgEOlnuY7b1zSfTfcawN5krPV9scGhgG13dTHeOr4-ajyyBh3ifmuEg9XYEDZLfl9iVm5diIcqnAcAdmiNdAUWoCzcjVFOEXU5cui3_yxbQ/s1600/capa+pescador.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9owz2fOHOyB2l6_FJJksRfjOKy44rlOjdOgEOlnuY7b1zSfTfcawN5krPV9scGhgG13dTHeOr4-ajyyBh3ifmuEg9XYEDZLfl9iVm5diIcqnAcAdmiNdAUWoCzcjVFOEXU5cui3_yxbQ/s320/capa+pescador.jpg&quot; width=&quot;207&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Uma história se passou na minha infância e até hoje a trago como
verossímil na memória. É a história do pescador de almas. Poderia não dizer
assim, já, de cara, de que se trata, deveria esconder as unhas, os dentes, a
malícia do bicho, até que... vamos à história.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Eu era menino e brincava na grama, lembro-me bem a cor e o cheiro desse
dia. Talvez tivesse cinco ou seis anos. Não. É certo, contava nove. A certeza
vem de uma bermuda azul, presente de meu pai. Não lembra que fazia anos e que
eram nove? Não lembra o dia verde e o cheiro de chuva? Que um pescador passou
com remo e samburá nas costas? Outro pescador, e outro, e... passaram seis,
lembra? Lembra que um deles era seu Vivaldo? Não lembra? Aquele alto de pele
queimada de sol, chapéu de abas largas; o que passou primeiro, com remo e
samburá nas costas. Lembra? Ah, bom. Pois não se esqueça: este homem é a
réplica do Diabo. Ah, não sabia&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;MsoCommentReference&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 8pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;que o Diabo tem réplicas? Pois fique! O Diabo tem réplicas e as têm muitas. Um
mascarado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Os pescadores passaram. Uma senhora branca, de cabelos brancos, nariz
firme e testa pequena, apareceu na janela de minha casa. Chamou-me.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Vem cá, meu filho! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Eu, como queria ficar brincando, fiz corpo mole.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Ah, mãe...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;E ela, firme como sempre fora, agora ordenava, porém tinha na voz certo melaço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Vamos, vem que não vais te arrepender.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— O que é? É doce, mãe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Fui correndo. Chegando em casa, na sala, vi meu pai de pé, a mão direita
nas costas, sorria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Vamos, vem cá, menino.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Aproximei-me e ele, rápido, estendeu-me a mão que estava escondida e
apresentou-me um embrulho. Eu não soube que fazer. Tinha certo acanhamento em
presença de meu pai. Estanquei abobalhado à sua frente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Como é? Não queres o presente? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Temeroso — temia por respeito — recebi-o de sua mão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Como se diz? — perguntou-me minha mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Obrigado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Obrigado, meu pai — completou ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Obrigado, meu pai — repeti.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Dá um abraço em papai — mandou minha mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Abracei meu pai, abri o embrulho e vi, veja você também, não é bonita
minha bermuda azul?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Anos depois soube por minha mãe que a bermuda tinha sido um presente pela
passagem de meu aniversário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Fazia quantos anos, minha mãe?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Respondeu-me nove. Ah, mas isso já faz tanto tempo, apenas conto para
dar-te prova de minha idade na ocasião do Diabo. Vamos a ele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;Aproveitemos que ele pesca para
construir-lhe uma casa. É preciso ter casa. Não se vexe, esta é simples, e, com
sua ajuda... —, obedece à arquitetura local: quatro toras fincadas, uma em cada
ponta do quadrado, varas dispostas na vertical e horizontal, atadas com cipó,
buracos tapados com barro batido, varas estendidas sobre a construção, piaçaba
estendida sobre as varas e pronto, eis aí a casa de seu Vivaldo. Limpemos pés e
mãos, todo o corpo, aliás, e entremos de vez.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Oxente, entramos na casa errada! Mas a história é assim mesmo:
constrói-se em cima do tempo e do espaço. Nem sempre certo é o tempo, nem
sempre bem demarcado é o espaço. Por isso entramos na casa do tempo errada. Ou,
quem sabe o erro é um acerto? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;A casa fica na Rua do Campo, pertence à família dos Policarpo, o tempo é
que é um tanto incerto, 1965, 1970... 1973! A data certa vem da derrubada do
casarão; aquele em ruína, lá perto da Praça da Matriz. Lembra? Foi em 1973.
Houve coincidência de nossa entrada na casa com o fato.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Pois nessa casa mora uma moça. Ei-la sentada a coser um vestidinho. Vai
casar-se, o seu nome é Sônia, 20 anos, boa moça, prendada... vai casar-se com
Vivaldo, o pescador. O acerto — eis o erro — do casório já foi comunicado a
todos. E todos estamos felizes pela união de Sônia e Vivaldo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Epa! Essa última frase quem disse foi o padre. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoBodyTextIndent3&quot;&gt;
Casados, vão morar na Praça da Matriz. A casa
parece a Sônia um mondrongo, mas, como o olho se acostuma rápido com o que vê,
com o tempo vai gostando.&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— É a casa do meu amado! É a casa nossa! A casa dos meus sonhos! Ah, como
sou feliz!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;É, Sônia amava mesmo o marido. Mas vamos aos fatos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Passaram-se cinco anos e nada de Sônia engravidar. Engravidar é preciso,
viver não é preciso — paráfrase vagabunda! — Mas o que é a história se não se
pare? Se não se pare, morre-se em si, morre-se a história. Sônia é o útero
conceptível desta história. Cinco anos, cinco anos e nada. O jeito foi recorrer
a um pai de santo. Ora, mas não foi por causa da infertilidade! Então não sabes
que ela perdia o marido? Para a Clotilde, uma sirigaita, intrusa na história,
simples ponta, sem crédito; então a deixemos aqui, morta e enterrada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Havia o padre como conselheiro matrimonial. Mas não era isso o que Sônia
queria. Queria era prender o marido às amarras de seu coração, um feitiço
forte, que mandasse a outra para longe, que a deixasse na pele e no osso,
que... enfim, que a matasse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Vê como a história não conhece tempo? E não já enterramos a outra?...
Continuemos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;O pai de santo conversou com o Coisa e, ambas as partes estando
acordadas, fez-se o pacto. Daí a nove meses nasce a menina. É forte, é bonita,
é morena; é a cara do pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— É uma menina mulher! Bonita como o diabo! Vai se chamar Janaína — diz,
cheio de orgulho, Vivaldo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Nascida a menina, o pai de santo visita Sônia e lembra-lhe do contrato,
da cláusula.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Ora, mas que cláusula, painho?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— A menina, Sônia, a menina é o preço. Depois pode ter outros filhos, mas
esta... esta não lhe pertence, sabe&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;de que falo... é o preço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Sacrificar a menina? — pergunte-me, leitor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;— Sacrificar a menina?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Isso mesmo. A menina nasceu de uma conjunção entre Sônia e o Diabo. As
vias de transe, ou, se quiseres ser moderno, vias da transa, aconteceram em
ritual satânico, onde a mulher, deitada e completamente nua, recebeu o falo
espiritual. Ouviram-se os gritos do gozo. Deram-na por louca. O pai de santo e
curandeiro a tratou com banhos de folhas e rezas. Dias depois estava boa e
prenhe. Podia ter muitos filhos. O casamento estava a salvo. A história pode
continuar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Aqui bem cabe um fim, mas a história é fértil, continuemos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Que a história também dá lá seus pulinhos, todo o mundo sabe, por isso,
pulemos onze anos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Eta pulo mal dado desgraçado! Não, tudo bem, caímos em tempo e lugar
certos. Uma menina que pulava a cancela foi que... Vamos à história.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt;&quot;&gt;Que venha Janaína.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;hr align=&quot;left&quot; class=&quot;msocomoff&quot; size=&quot;1&quot; width=&quot;33%&quot; /&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div class=&quot;msocomtxt&quot; id=&quot;_com_1&quot; language=&quot;JavaScript&quot;&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoCommentText&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/781587012331352007/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/proposito-de-uma-historia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/781587012331352007'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/781587012331352007'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/proposito-de-uma-historia.html' title='A propósito de uma história'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9owz2fOHOyB2l6_FJJksRfjOKy44rlOjdOgEOlnuY7b1zSfTfcawN5krPV9scGhgG13dTHeOr4-ajyyBh3ifmuEg9XYEDZLfl9iVm5diIcqnAcAdmiNdAUWoCzcjVFOEXU5cui3_yxbQ/s72-c/capa+pescador.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-5171173137470985856</id><published>2012-02-21T19:01:00.000-08:00</published><updated>2012-02-21T19:06:51.033-08:00</updated><title type='text'>Olhar mortiço de sedução</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiOKAwxP8gcHSENlYZ7xw9egeRR5y74gTuxjPl7ik7OlCCcZx8dxKQPMJ_L2adg5EqbUs7l6z9OpUyoamrc3_nlRGOEd_O-vBh1x-i9OMmPYS9G_n-jCfgn7ZcNeH8WapZaxhqJOgYy3uo/s1600/guriantan.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;240&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiOKAwxP8gcHSENlYZ7xw9egeRR5y74gTuxjPl7ik7OlCCcZx8dxKQPMJ_L2adg5EqbUs7l6z9OpUyoamrc3_nlRGOEd_O-vBh1x-i9OMmPYS9G_n-jCfgn7ZcNeH8WapZaxhqJOgYy3uo/s320/guriantan.jpg&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%; text-indent: 27pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%; text-indent: 27pt;&quot;&gt;Romildo passou e falou com
Janaína, na praça. Ela derramou um olhar mortiço de sedução pra cima dele. O
besta não percebeu. Com uma visgueira na mão, ele disse que ia pegar um
guriantan que tinha visto no pé de capiá, no quintal de dona Carmelita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font-size: 7pt; line-height: normal;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Eu te dou ele de presente pra você,
Janaína.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Ela, que já ia lá adiante,
virou-se e foi esparramando pelo chão, até alcançar os olhos de Romildo, um
olhar grudento. Tão grudento como aquela visgueira que ele tinha na mão. O
corpo do moço buliu. O coração disparou. Ele deu uma carreira. No mato esqueceu
o passarinho. Escondido numa touceira de bananeiras, invocou o feitiço da alma
de Janaína. Arriou o calção, fechou os olhos e mandou sua alma lambuzar-se com
a alma daquela diaba. Um fogo subiu-lhe por todo o corpo. Eram as formigas de
fogo e as formigas caçarema atiçando fogo no corpo dele. Gozou, aliviou-se.
Livrou-se das formigas e foi ver se ainda pegava o guriantan que cantava no pé
de capiá, no fundo do quintal de dona Carmelita. Chamou-se de sortista, o
bichinho ainda estava lá, e mais bonito, mais colorido, azulado nas costas, o
peito amarelo, e trinava forte. Mansinho, pareceu-lhe. Subiu na cerca e trepou
numa galha do pé de capiá, sem fazer barulho, sorrateiramente como ele sabia se
mover no mato. Pensou em Janaína. Ela ia gostar do presente. Um presente de
amor. E o guriantan ia cantar todo dia de manhã cedo e o canto dele ia entrar
no ouvidinho dela, no pensamento, e ela ia pensar que era um sonho colorido.
Sonhava com Romildo e arriava de novo aquele olhar meloso. Acordaria pensando
nele e descobria que o amava. O guriantan, agora pulou para a outra galha. Romildo,
sabe-se lá por que diabos, resolveu que ia pegar o pássaro de mão. Contaria a
Janaína como foi e ela ia ficar garbosa do feito. Não era gabação não. Romildo
tinha mesmo jeito para pegar passarinho. Tinha dias que ia pro mato e voltava
com japiranga, sabiá, até sanhaço; os beija-flores chegavam mortos, de
badogada; e os sanhaços, estes não sobreviviam em gaiola. Os nicos eram
engraçados. Pegava-os todos, passarinhos e outros bichos, no manzuá. Os
coitadinhos entravam pelo buraco e não encontravam a saída. Mais um pouco e Romildo
botava a mão no guriantan. Bateu um vento. A árvore fez que ia cair. Romildo se
segurou. A galha embalançou. O passarinho avoou. Pousou, na ponta de uma
galhinha, fina, lá Romildo não ia. “Eu vou”, disse ele. O vento ficou por ali.
As outras árvores, quietas ele as deixou. Rondava o pé de capiá. O guriantan
abriu as asinhas eufóricas, afinou o bico e cantou forte. Romildo se encantou.
Pensou em Janaína. O passarinho, ali, pertinho. Lançou a mão, o passarinho,
rápido, avoou. Voou para longe no vazio, assoprado pelo vento que o levou. E Romildo,
não achando nada no vazio, desequilibrou-se e de lá do alto seu corpo
despencou. Ainda ouviu o badalar dos sinos da igreja de Nossa Senhora das
Candeias chamando o povo para a procissão. Ainda ouviu, na queda, o farfalhar
agoniado das folhas do pé de capiá. E o último som que ouviu foi o do próprio
corpo caindo veloz, cravando-se nas estacas da cerca. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Na igreja, o sino badalava, e
não havia cortejo nenhum para a alma de Romildo, que já ia longe, travada, para
nunca mais...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;No mato um bacurau piou...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Trecho de O Pescador de Almas&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Foto de Roberto Harrop - Guriatã ou Gaturamo verdadeiro (Euphonia violacea) - retirada do Flickr&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/5171173137470985856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/olhar-mortico-de-seducao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/5171173137470985856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/5171173137470985856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/olhar-mortico-de-seducao.html' title='Olhar mortiço de sedução'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiOKAwxP8gcHSENlYZ7xw9egeRR5y74gTuxjPl7ik7OlCCcZx8dxKQPMJ_L2adg5EqbUs7l6z9OpUyoamrc3_nlRGOEd_O-vBh1x-i9OMmPYS9G_n-jCfgn7ZcNeH8WapZaxhqJOgYy3uo/s72-c/guriantan.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-4699492094835348015</id><published>2012-02-15T19:26:00.002-08:00</published><updated>2012-02-15T19:32:09.947-08:00</updated><title type='text'>Natureza</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEilbYQ8hCutNsoKHWcJHrrBQ7Qr1xVV0PwipU3M1NzbS_d7H0P2SqfWumYhHZOp5L3Onvh7k5ts7OU4TT4cz7uHAUFvbuTHJDDLOMFCLeoyh0juPxtOxJz8q7tOIyWFULFgb7PJGwhvJTg/s1600/Foto+para+A+Viagem+de+Adelice.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;238&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEilbYQ8hCutNsoKHWcJHrrBQ7Qr1xVV0PwipU3M1NzbS_d7H0P2SqfWumYhHZOp5L3Onvh7k5ts7OU4TT4cz7uHAUFvbuTHJDDLOMFCLeoyh0juPxtOxJz8q7tOIyWFULFgb7PJGwhvJTg/s320/Foto+para+A+Viagem+de+Adelice.jpg&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Abriu os olhos com o cantar do galo num terreiro
distante. O negrume da noite ainda se escondia sob as folhas das gameleiras e
dos cacaueiros. No céu brilhava a estrela d’alva. Na rua um vozeirão de homem
convocava para a pescaria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font: normal normal normal 7pt/normal &#39;Times New Roman&#39;;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Ei Lapinha, acorde, tá na hora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; margin-left: 45.0pt; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 45.0pt; text-align: justify; text-indent: -18.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;—&lt;span style=&quot;font: normal normal normal 7pt/normal &#39;Times New Roman&#39;;&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Babo, ei, Babo, vambora, rapaz,
tá na hora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;No mesmo horário vinha João do
barco avisando quem fosse viajar para Camamu que estava na hora de acordar. A
maioria já estava com o café tomado e com a &lt;i&gt;bagage&lt;/i&gt; pronta. João do barco
só chamava uma vez. Chamava e descia para o porto. Muitas vezes o rio estava
seco e os viajantes tinham de andar até a boca do rio, na coroa, onde o barco
estava ancorado. Se o rio estivesse um pouquinho mais cheio, mas não tão cheio
que o barco pudesse entrar ou não suficientemente seco para que os passageiros
pudessem seguir a pé, os viajantes tomavam uma canoa emprestada ou então
pegavam carona com algum pescador que estivesse saindo e iam até o barco. As
mulheres iam acocoradas no fundo da canoa. Os meninos já maiorzinhos
equilibravam-se de pé. O remador ia atrás, na popa, também de pé. E fincava o
remo na areia do fundo do rio e empurrava, a canoa avançava desequilibrando-se
um pouquinho e as mulheres faziam &lt;i&gt;ui&lt;/i&gt;, os meninos davam um risinho
fazendo pouco do susto que as mulheres levavam. Os maruins atacavam a pele. Os
sururus na lama do mangue estalavam. Os aratus e os caranguejos espiavam com
seus olhos compridos. E o cheiro do mangue e do mar era tão forte! Era a
natureza em todo a sua vitalidade. E o corpo do remador também era forte.
E sua pele era da cor da lama do mangue. O remador era uma extensão da água do
rio e da lama do mangue. A água do rio era salgada e inundava o ar com seu
cheiro forte de maresia. Assim também era o homem, do seu corpo transpirava um
suor salgado e o cheiro que saía junto era cheiro de mar, de sal, de lama. O
homem fazia parte daquela natureza. E ambos, homem e natureza, conviviam
harmonicamente, interpenetrando-se, confundindo-se, fundindo-se um no outro. O
homem feito de mar e lama ia na popa, e do seu rosto negro espiavam dois olhos
brancos... uma garça piou assustadiça e &lt;i&gt;avoou&lt;/i&gt; no céu...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;O homem feito de mar e lama
apoitou a canoa do lado do barco. Os passageiros, os homens com jeito, as
mulheres desajeitadas, transpuseram-se para a embarcação que os levaria a
Camamu. O homem da canoa puxa a poita, dá um empurrão no bojo do barco e a
canoa se afasta disparada. Já vai lá longe, beirando o mangue, confundindo-se,
fundindo-se, sumindo-se... só se vê um céu azul emborcado no mar, e um
manguezal verdejante a perder-se de vista... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;* * *&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;João do barco gira a manivela
do motor e o barco treme nervoso. O eco seco da máquina bate no mangue e o tá
tá tá tá tá ressalta, ressoa, é o atabaque da mata, tá tá tá tá tá. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;No espelho trepidante do mar
avoa uma garça... lá no profundo das águas, perto do céu azul...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Trecho de O Pescador de Almas&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/4699492094835348015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/natureza.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4699492094835348015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4699492094835348015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/natureza.html' title='Natureza'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEilbYQ8hCutNsoKHWcJHrrBQ7Qr1xVV0PwipU3M1NzbS_d7H0P2SqfWumYhHZOp5L3Onvh7k5ts7OU4TT4cz7uHAUFvbuTHJDDLOMFCLeoyh0juPxtOxJz8q7tOIyWFULFgb7PJGwhvJTg/s72-c/Foto+para+A+Viagem+de+Adelice.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-8066236347362073554</id><published>2012-02-15T19:00:00.000-08:00</published><updated>2012-02-15T19:37:34.609-08:00</updated><title type='text'>Cântico de Verônica</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgUchkxy58V-jM6h4ewvWIOYqL-dZaFIbJW11Y97DM4gHQ7_FbzJpQKt3T3-SR7poQDVIoGNteQ9aIx1nZo3zGFgnXPUTN7J1T00vbG5Jq0dLUF45LVJtMcaLerVwUiooMir5nVPdmucY/s1600/veronica.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;214&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgUchkxy58V-jM6h4ewvWIOYqL-dZaFIbJW11Y97DM4gHQ7_FbzJpQKt3T3-SR7poQDVIoGNteQ9aIx1nZo3zGFgnXPUTN7J1T00vbG5Jq0dLUF45LVJtMcaLerVwUiooMir5nVPdmucY/s320/veronica.JPG&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Na porta da professora Izabel
havia uma mesinha enfeitada do lado de fora. Por um momento a procissão parou.
Adelina subiu em uma cadeira e, com o sudário com que Verônica enxugou o rosto
de Cristo nas mãos, ela entoou um hino em latim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;i&gt;“O vos omnes, &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;i&gt;qui transitis per viam,&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;EN-US&quot;&gt;attendite et videte,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;EN-US&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;EN-US&quot;&gt;si est dolor sicut
dolor meus”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;EN-US&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span lang=&quot;EN-US&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Era o hino de Verônica. À
medida que cantava, ora sungava o pano com as pontas dos dedos, devagar; e ora
o abria totalmente, e todos podiam ver o rosto de Cristo estampado &lt;st1:personname productid=&quot;em vermelho. Seu Dudu&quot; w:st=&quot;on&quot;&gt;em vermelho. Seu Dudu&lt;/st1:personname&gt;
batia a matraca, Adelina descia muito emocionada da cadeira e a procissão
continuava. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;Agora era a vez de Adelina
subir na cadeira e cantar o hino de Verônica na porta de dona Anita. E as
palavras lamentosas diziam:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;“Ó
vós todos &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;que
passais pelo caminho,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&amp;nbsp;parai e vede &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; line-height: 150%;&quot;&gt;se
há dor igual à minha dor.”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Trecho de O Pescador de Almas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/8066236347362073554/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/cantico-de-veronica.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8066236347362073554'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8066236347362073554'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/cantico-de-veronica.html' title='Cântico de Verônica'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgUchkxy58V-jM6h4ewvWIOYqL-dZaFIbJW11Y97DM4gHQ7_FbzJpQKt3T3-SR7poQDVIoGNteQ9aIx1nZo3zGFgnXPUTN7J1T00vbG5Jq0dLUF45LVJtMcaLerVwUiooMir5nVPdmucY/s72-c/veronica.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-6517544173136782883</id><published>2012-02-15T18:33:00.000-08:00</published><updated>2012-02-15T18:33:32.352-08:00</updated><title type='text'>Igreja</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7fCbcTUSyEGwHeJc3XXhIC9uFOq-cexNNDD0wdxHnCZ2tXQj5nsoeFGiQPkgJv9UCa_j-pwEM2go236HOKQAddKuo_KhRf_Fr0RYxYw_06bEJzo8vqzBqq5gdGOXa4FW3byrVrvMQd44/s1600/igreja+de+barcelos.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;240&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7fCbcTUSyEGwHeJc3XXhIC9uFOq-cexNNDD0wdxHnCZ2tXQj5nsoeFGiQPkgJv9UCa_j-pwEM2go236HOKQAddKuo_KhRf_Fr0RYxYw_06bEJzo8vqzBqq5gdGOXa4FW3byrVrvMQd44/s320/igreja+de+barcelos.jpg&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12.0pt; letter-spacing: 1.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;— Essa igreja, essa mesma,
quando foi construída, isso lá pelos idos de mil seiscentos e tanto, foi
construída com a frente voltada para o mar, mas, dias depois, o povo ficou
abismado, a igreja estava com a frente voltada para o vilarejo. O povo
respeitou a vontade da santa, deixou a igreja com a frente voltada para o
vilarejo, essa mesma, lá pelos idos de mil seiscentos e tanto...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12.0pt; letter-spacing: 1.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;letter-spacing: 1pt; line-height: 150%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Trecho de O Pescador de Almas&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/6517544173136782883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/igreja.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/6517544173136782883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/6517544173136782883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/igreja.html' title='Igreja'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7fCbcTUSyEGwHeJc3XXhIC9uFOq-cexNNDD0wdxHnCZ2tXQj5nsoeFGiQPkgJv9UCa_j-pwEM2go236HOKQAddKuo_KhRf_Fr0RYxYw_06bEJzo8vqzBqq5gdGOXa4FW3byrVrvMQd44/s72-c/igreja+de+barcelos.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-4406394947928205750</id><published>2012-02-15T18:27:00.000-08:00</published><updated>2012-02-15T18:27:49.064-08:00</updated><title type='text'>Os passos do medo: uma herança cultural</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0DThcB51z5aVOOlzauYKO5g6eAN816LtYfJNVVo81oz8VRwHbWTB0l_nLQG7_6i4io1m9lngdxupYZ29Bl8CsA3OXpwtXr4wXuHxnm8_pwWUx3fi5RXdiZ6R91bqHjkh981A4cAC310c/s1600/senhor+dos+passos.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0DThcB51z5aVOOlzauYKO5g6eAN816LtYfJNVVo81oz8VRwHbWTB0l_nLQG7_6i4io1m9lngdxupYZ29Bl8CsA3OXpwtXr4wXuHxnm8_pwWUx3fi5RXdiZ6R91bqHjkh981A4cAC310c/s320/senhor+dos+passos.jpg&quot; width=&quot;236&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span lang=&quot;PT&quot; style=&quot;font-size: 12.0pt; letter-spacing: 1.0pt; line-height: 150%; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-font-weight: bold;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%; text-indent: 27pt;&quot;&gt;— Bom Jesus dos Passos mete
medo nas crianças com aqueles cabelos compridos e com aquele vestido lilás e
com aquela posição acorcundada. Minha avó tinha medo, minha mãe tinha medo, eu
tive medo, meu filho mais novo tem medo, acho até que minha bisavó e também a
mãe dela, as duas tinham medo. É um medo antigo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 12pt; letter-spacing: 1pt; line-height: 150%; text-indent: 27pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;Padro&quot; style=&quot;line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 27.0pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1pt; line-height: 150%; text-indent: 27pt;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Trecho de O Pescador de Almas&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/4406394947928205750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/os-passos-do-medo-uma-heranca-cultural.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4406394947928205750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4406394947928205750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/02/os-passos-do-medo-uma-heranca-cultural.html' title='Os passos do medo: uma herança cultural'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0DThcB51z5aVOOlzauYKO5g6eAN816LtYfJNVVo81oz8VRwHbWTB0l_nLQG7_6i4io1m9lngdxupYZ29Bl8CsA3OXpwtXr4wXuHxnm8_pwWUx3fi5RXdiZ6R91bqHjkh981A4cAC310c/s72-c/senhor+dos+passos.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-2716883022210460179</id><published>2012-01-22T01:42:00.000-08:00</published><updated>2012-01-22T01:42:27.273-08:00</updated><title type='text'>Caipora</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlaWPQqDXpegyXhvtdM1_IXitTYdt5GULZzbviMl3HFq20g-iM5tODa98cyycHVkiIxnhHx_5yn63i1UOvQk-DY_tQ1GLoZ3pdvzv9jjHIqVYoLhctSCsJVZq5WwjVkNBeYf342NZQPss/s1600/Slide4.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;240&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlaWPQqDXpegyXhvtdM1_IXitTYdt5GULZzbviMl3HFq20g-iM5tODa98cyycHVkiIxnhHx_5yn63i1UOvQk-DY_tQ1GLoZ3pdvzv9jjHIqVYoLhctSCsJVZq5WwjVkNBeYf342NZQPss/s320/Slide4.JPG&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 16px; line-height: 18px; text-align: -webkit-auto; text-indent: 0px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 16px; line-height: 18px; text-align: -webkit-auto; text-indent: 0px;&quot;&gt;Deram seis horas. Há pouco ainda se ouvia o canto altissonante dos cigarrões, mas o som da orquestra foi baixando, baixando, e logo o silêncio. A tarde caminhava ao encontro da noite. A luz esmaecida do dia estendia-se preguiçosa na praça e nas duas ruas de Aldeia da Purificação. Mas a escuridão já se prenunciava nos cantos. Abria-se a porta escura do quarto e logo ela ia escapando pelo corredor. Fechava-se a porta do quintal e logo um manto negro formava-se na cozinha. Os candeeiros estavam a postos pendurados nos portais, ou sobre cômodas e armários, ou na mão de alguém que o levará com cuidado, para não apagar. Todo o lugar é silêncio e sombra.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Olhe lá para baixo, nessa rua, e veja
alguém. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Está vendo? Não vê nada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Rua comprida. Lá embaixo, quem tem
imaginação, verá corpos escuros atravessando a rua, saindo do beco de seu
Edson. Mas não são ninguém. São só confusão dos olhos. Esses vultos escuros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;É capaz de ouvir uns sons, uns &lt;i&gt;bu, bu, bu,&lt;/i&gt; que não se sabe de onde vêm?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Esses sons vêm do fundo do quintal da
casa de Linderzer Moreno, que já morreu faz tempo. Morreram todos. Enquanto ele
toma café com a mulher e a filha, que é fraca do juízo, ouve-se no fundo do
quintal os &lt;i&gt;bu, bu, bu&lt;/i&gt;,&amp;nbsp; que são os pios do bacurau. Quando o agouro
da ave se prolonga, o pai chega à janela e, batendo com o facão na pedra, diz:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;- Toma fumo, caipora!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− A ave silencia, intimidada com a voz
grossa de Linderzer Moreno, voz que fica ecoando, vagando perdida. Até hoje. A
voz ameaçadora do homem assusta mais que os &lt;i&gt;bu,
bu, bu&lt;/i&gt;, daquela ave, que ele julga ser a caipora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;− Ora, paremos com esse discurso
abestalhado de caipora, que aqui não há lugar para isso! – você me diz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Tudo bem, mas não se esqueça: o povo
acredita. E essa é uma realidade mais dura do que pedra. Não é coisa que se
desfaça com um sopro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Vamos, apure o ouvido; vê se ouve.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;- Bu,
bu, bu!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;- Toma fumo, caipora!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;Estas palavras repercutirão no juízo do
povo, até o fim dos dias, de geração a geração. É uma praga.&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;- &lt;i&gt;Bu,
bu, bu!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt;&quot;&gt;- Toma fumo, caipora!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center; text-indent: 35.45pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;letter-spacing: 1px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;line-height: 18px;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/2716883022210460179/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/01/caipora.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2716883022210460179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/2716883022210460179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2012/01/caipora.html' title='Caipora'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlaWPQqDXpegyXhvtdM1_IXitTYdt5GULZzbviMl3HFq20g-iM5tODa98cyycHVkiIxnhHx_5yn63i1UOvQk-DY_tQ1GLoZ3pdvzv9jjHIqVYoLhctSCsJVZq5WwjVkNBeYf342NZQPss/s72-c/Slide4.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-8200483228848087002</id><published>2011-10-05T18:20:00.000-07:00</published><updated>2011-10-05T18:20:05.226-07:00</updated><title type='text'>A ÚLTIMA CEIA</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Olho minha
mulher sentada à mesa. É Natal. Ceamos. Posso olhá-la à vontade, até certo
ponto. Cronometro na cabeça o limite do meu olhar. Às vezes, propositalmente,
ultrapasso essa barreira cronológica, só para ouvir seus xingamentos, só para
sentir no meu coração apaixonado todo o ódio que ela nutre por mim. Ela bate na
mesa com sua mão firme, que antes, isto bem antes, me acarinhava. Agora bate.
Mas não me fere. Cada vez que a provoco é para que saiamos da inércia em que
nossa vida se enfiou. Grita comigo. Minha linda mulherzinha esbraveja comigo e
um pouco da comida da sua boca salta e bate no meu rosto, na minha boca. Abaixo
a cabeça. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Homem
submisso. Fracote. Molambo – sei que ela diz essas coisas de mim. Mas o que ela
nem ninguém percebem é que, ao me abaixar, submisso, o meu amor se nutre um
pouco da vida dela. A língua lenta lambe o lábio e recolhe o alimento
triturado, amassado, salivado pela sua boca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Quer mais
frango? – ela perguntou outro dia. Quando? Olhe como o tempo é engraçado! Faz
tanto tempo. Já se passaram tantos Natais. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Quer mais
frango? Vamos, queira, vou servir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Posso pegar
uma coxa? – pergunto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Animal.
Animal. Não pode ver comida. Tudo para se amostrar. Quando vê gente fica assim
– ela diz, nervosa, e, sem modos e sem paciência, enfia com raiva um garfo
enorme na coxa do frango, na maior coxa, na mais gorda coxa, e atira-a dentro
do meu prato, respingando óleo na minha roupa branca de festa, manchando-a. Não
reclamo, não lhe digo nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Porco. Animal.
Não pode ver comida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Sorrio. Não
repare, ela sempre foi assim estourada. Veja como me ama: agora mesmo acabou de
derramar no meu prato um pouco de carne que sobrou. Ninguém quis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Como
“ninguém.” Então há mais alguém além de mim e ela? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Nossa! Como a
mesa está cheia! Filhos, genros, noras. E netinhos tão lindos! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Vem cá para o
vô, vem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Vô não –
responde o menino, emburrado – Vô não – e me chuta a canela ferida, e dói, e
sinto que sangra, mas não digo nada, ninguém pode perceber, estragaria o
momento, não seria higiênico. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;O sangue,
misturado ao pus da ferida, gruda na calça. É uma ferida antiga que não sara.
Já pensou, mostrasse o magoado sangrando e aí mesmo é que ela, com razão, me
chamaria de porco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Sorrio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Ah, zanguei –
faço uma cara engraçada, de condoído, para o meu netinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Macaco feio –
ele me chama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Todos sorriem.
Veja como foi engraçado e como todos se acabam no riso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Posso pegar
outra coxa? – pergunto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Não! Já vou
tirar a mesa – e rápida raspa a tigela, os pratos, toda a comida da mesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;No
corredorzinho, indo à cozinha, olho seu corpo de moça, cinturinha delgada,
nádegas volumosas, os cabelos compridos... Aspiro o rastro de alfazema que ela
deixa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Pare de
farejar a comida – ela diz, virando-se para mim, gritando, quase soltando,
saltando a dentadura da boca, quase caindo de tonta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Calma, minha
mãe. Calma – ouço a voz dela, num outro canto – E o senhor, meu pai, pare de
aborrecer minha mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Ora, minha
filha, não fiz nada – respondo, agora percebendo minha filha já de pé,
segurando a mãe para não deixá-la cair. Tão parecidas!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Num outro canto,
ouço cochichos, sibilos, cicios.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Internar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Onde? Como?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Mas quem vai
querer o traste?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Agüentemos
mais um pouco. Logo emborca, embarca mesmo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Vaso ruim não
quebra, minha filha – diz alguém com voz cínica, bêbada e esganiçada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Não fale assim
dele. É meu pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Viro-me para
ele, o cretino do meu genro e...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Imbecil!
Imbecil! Imbecil!&lt;span&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;E três batidas
firmes na mesa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Minha voz saiu
clara, mas todos insistem em dizer que, de tão bêbado, nem consigo falar. Deve
ser o maldito bolo crescendo na minha boca que me obstrui a voz. E, agora,
todos me condenam e chegam ao consenso de que é melhor internar. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– E rápido.
Amanhã mesmo. Amanhã mesmo, logo cedo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Cochichos.
Sibilos. Cicios.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Daqui a pouco a
festa acaba e todos vão embora. Festa de que mesmo? Ah, Natal. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– É tarde. Vocês
dormem aqui. Arranja-se lugar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Eu tenho pena.
Não passa de um doente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Então,
interna-se. Não há outro remédio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Durmam no meu
quarto, que é grande. Já está dormindo. Bebeu demais...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Quê? A festa
já acabou? – pergunto-me – Para aonde foram todos? E este silêncio... O maldito
relógio. Não consigo ver as horas. A catarata anuviou tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;– Meu bem. Meu
bem – digo alto, isto algum dia. Dúvidas. Pensamentos. Fantasmas que me
assustam – Xô! Xô! Quê? Internar? Levanto-me. Upa, upa, quase caio. Internar?
Ora, mas quem eles pensam que são? Separar, separar assim, cruelmente, duas
vidas que Deus... E o que Deus uniu o homem não separe. É um mandamento. Um
mandamento. Um... Para sempre juntos, para sempre.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Dirijo-me
ao quarto dela. O meu fica um pouco mais lá no fundo do corredor. Casa grande...
Faz anos que nos separamos. Mas estamos juntos. Repare bem: juntos. É um
paradoxo, eu sei, mas o teto ainda é o mesmo. Habitamos o mesmo espaço,
partilhamos tantas coisas de anos: o cheiro dela, a voz, o andar, antes lépido
e fagueiro, hoje arrastado. É esse som. É esse cheiro de alfazema. Os gritos e
os desarranjos. E foi principalmente o ronco que, tantas noites, passo a passo
pelo corredor, levou-me ao quarto dela, e lá, quietinho, no escuro, ouvia-o com
prazer. De certa forma, esses pequenos detalhes preenchem minha vida, sem os
quais não vivo. A faca. E o que Deus uniu, o homem não separe. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;A
porta aberta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;–
Venha, venha por aqui. Escuro, mas o tato já sabe o caminho. Cuidado, o pé da
cama. Aqui. Aqui, um momento, paremos. Ouça:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;–
Ronc! Ronc! Ronc!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;– É o
ronco dela. Aqui os pés. Aqui a barriga. Aqui a cabeça. E aqui, mais embaixo, o
coração. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Ergo
a cabeça e as mãos para o céu escuro do quarto e desço de vez, uma, duas, três
vezes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;– Meu
amor! Meu amor! Meu amor!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;***&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O
escuro do quarto não me deixa ver o corpo. Sinto-o. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;O
corpo meio curvado, feito criança no útero. Sangue. Criança no útero, abortada.
A boca travou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;–
Não, não faça birra. Birra é uma palavra do meu tempo, quer dizer “teimosia.” &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;Os
lábios ainda mornos, viçosos e carnudos... Ainda como antes. Sinto-os com os
meus. O gosto de sangue na boca. Beijo de sangue...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;– Ela
apagou – digo por fim, com a certeza de quem desperta de um sonho tenebroso.
Acendo a luz e vejo dois corpos na cama. &lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;No mesmo instante, minha mulher abre a porta
do quarto, olha a cama e vê o corpo ensangüentado. Leva as mãos à boca e
arregala os olhos. Um grito de pavor ecoa por toda a casa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;line-height: normal; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/8200483228848087002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/10/ultima-ceia_05.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8200483228848087002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8200483228848087002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/10/ultima-ceia_05.html' title='A ÚLTIMA CEIA'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-4692812801652174933</id><published>2011-07-10T09:12:00.000-07:00</published><updated>2011-07-10T12:03:42.648-07:00</updated><title type='text'>A olho-de-boi</title><content type='html'>&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgkulpb1UgMgBF54ns-pJoxD-7foCCzd8aBu-U6uHDeyYTL-tK-6Jj1AmDUjHq906JWExjvj1S9c1xLTbdXWER1qhoMypWyUPAmso94nHw426Hre87Av1DQ-rI9SaZfYQiFZUKyBtqhPCw/s1600/gude+olho+de+boi+1.jpg&quot; onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot;&gt;&lt;img style=&quot;display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 194px; height: 259px;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgkulpb1UgMgBF54ns-pJoxD-7foCCzd8aBu-U6uHDeyYTL-tK-6Jj1AmDUjHq906JWExjvj1S9c1xLTbdXWER1qhoMypWyUPAmso94nHw426Hre87Av1DQ-rI9SaZfYQiFZUKyBtqhPCw/s320/gude+olho+de+boi+1.jpg&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5627757843885287938&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Levei surra de meu pai por causa de meu irmão. A dor das cinturadas esvaiu-se no tempo; ficou o exemplo e o amor. Isto se deu quando éramos crianças, na época em que até a mentira, engenho de todos nós, elaborou-se natural e inocente, mas já mentira, completa em seus elementos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Minha primeira mentira foi gerada de manhã, quando eu, meu irmão mais outros meninos jogávamos gude no meio da rua. Rua de terra, grama dos lados, própria à brincadeira. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Meu irmão batia-se no jogo com Moa, seu arqui-inimigo em todos os sentidos. Ganhasse quem ganhasse, a vitória seria saboreada com requintes supremos. Perdesse quem perdesse, acabava-se o sentido da vida. Vencer, vencer, era só o que perseguiam. Para tanto, montavam estratégias, ora cheias de valentias, em outros momentos, cautelosas, a bolinha que era atirada um pouco mais distante, a bolinha que se camuflava sob um montinho de grama, uma folha que a encobria; eram muitas as barricadas levantadas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Eles estavam nesse embate, quando surgiu meu pai no alto da rua. Meu irmão estava prestes a ganhar o saquinho de gudes de Moa. Avistou meu pai longe, segurou a respiração, controlou-se.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Olhe quem vem lá em cima, disse Moa, com o intuito de fazer meu irmão fugir da jogada, abandonar o jogo, desmoralizar-se perante todos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Mas o quê?! Meu irmão ser chamado de corrão, de galinha choca! Nada. Calmamente ele pôs a língua fora da boca, virada para um dos lados, mordeu-a, ajeitou a gude entre o polegar e o indicador e lançou-a. Certeira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Vamos mais uma, provocou Moa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Aposto todas as minhas gudes contra a sua olho-de-boi, respondeu meu irmão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Só se for aqui e agora, respondeu Moa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Agora, sim; mas não aqui, vamos ao campinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Moa queria recuperar as gudes e, principalmente, a honra. E sua olho de boi era-lhe muito cara. A olho de boi de Moa era linda. Eu queria tanto ganhar uma olho de boi.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Então vamos logo. E todos rumaram para o campinho. Mas antes meu irmão, que já vira meu pai descendo a rua, talvez impensadamente, coitado, pediu-me que ficasse ali e o aguardasse, e, caso perguntasse se eu o havia visto, respondesse que não, que ele não estava ali, jogando com os outros meninos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Meu pai não suportava jogo. Logo iria perceber que suportava muito menos a mentira. Claro que houve uma prévia preparando o terreno para essa Senhora. Olhava a casa velha à minha frente. Eu, que nunca percebera seus detalhes já em decomposição, achei-lhe até certa poesia. O olhar triste dela, de senhora cansada, seu corpinho, que do barro foi gerada, logo ao barro retornaria. Que vida, meu Deus! Que vida!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Cadê seu irmão? Foi logo perguntando meu pai.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Que susto! Foi um susto fingido, mas confesso que o senti de&lt;span style=&quot;mso-spacerun:yes&quot;&gt;  &lt;/span&gt;verdade. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Ele não estava aqui não, pai, respondi-lhe, calmo. Ainda perguntei-lhe do bezerro Crioulo, cuja mãe morrera durante o parto. O olho dele é bem azul, não é, pai? Até parece uma gude olho-de-... Mas o senhor não pode dar mandioca a ele, pois é ainda muito novinho, não é pai? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Seu irmão não estava aqui? perguntou-me de novo, dando-me última chance de salvação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Não, pai. Posso ajudar o senhor na roça, pai? emendei logo, na tentativa de despistá-lo do assunto em pauta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Pegou-me rápido pelo braço, segurou-me firme, e tirou o cinto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Mentiroso! Toma, toma, para aprender a não mentir mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Deu-me pedagógicas cinturadas e, calmamente retomando o curso da vida, soltou-me, recolocou o cinturão no lugar, e, assobiando, como era do seu hábito, desceu o resto da rua, rumo à roça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Chorando e com o coração aos pulos, não tendo em quem descontar as cinturadas recebidas, avistei uma boa pedra no chão, peguei-a e a atirei na casinha simpática que estava morrendo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Ora, tinha que descarregar meu ódio em alguém! Hoje lhe encobre a cova belo prédio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Ao chegar em casa, já lá estava meu irmão. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Tomei uma sura por sua causa. Menti para pai, dizendo que você não estava lá na rua jogando gude.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;Meu irmão calmamente levou a mão ao bolso e retirou a gude olho-de-boi que ganhara de Moa. Colocou-a entre mim e ele, segurando-a entre os dedos, e me disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify;text-indent:35.45pt&quot;&gt;- Tome, é sua; mas não é um prêmio pela mentira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/4692812801652174933/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/07/olho-de-boi.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4692812801652174933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/4692812801652174933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/07/olho-de-boi.html' title='A olho-de-boi'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgkulpb1UgMgBF54ns-pJoxD-7foCCzd8aBu-U6uHDeyYTL-tK-6Jj1AmDUjHq906JWExjvj1S9c1xLTbdXWER1qhoMypWyUPAmso94nHw426Hre87Av1DQ-rI9SaZfYQiFZUKyBtqhPCw/s72-c/gude+olho+de+boi+1.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-3464882147810766289</id><published>2011-04-09T20:11:00.000-07:00</published><updated>2011-04-15T16:15:50.548-07:00</updated><title type='text'>Fotos do lançamento do livro O PESCADOR DE ALMAS</title><content type='html'>&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5593795373579551810&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5u7hh2gwCua36gdbGvQyzoO6N6b3fPJafRnHA6iFOiUm7mzUYZczIFK6tmfK6NYvW2_u94xc4FDqoF3k4cTBH5q0bYZMOe5DOEse62Pp6TH3kddRhl35-ULHmtqHKr6cM90y0dHF0UxE/s320/100_2192.JPG&quot; /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqrbg_VNwDdPPx3EI2xFg_IGrbwSs6F76Ygp5poIqfv_NekK2z7UFsV7Jn0Rw9ULlIPHXhSIubhh-fEJ8kNQKl3NQ91XRtW57ESZVfPdFxlnI5L0APFiNvCeSqOmuh8ky3gybS7WL83p0/s1600/100_2188.JPG&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5593794454200245298&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqrbg_VNwDdPPx3EI2xFg_IGrbwSs6F76Ygp5poIqfv_NekK2z7UFsV7Jn0Rw9ULlIPHXhSIubhh-fEJ8kNQKl3NQ91XRtW57ESZVfPdFxlnI5L0APFiNvCeSqOmuh8ky3gybS7WL83p0/s320/100_2188.JPG&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhl1rhp-S1ZiX7IjuBu904oxZ4EXWgfZAKtBafim331lfMKR6Zge6zUUmhsHdGpKjVjHd_PJ-6ihcQ6jD4OuB6gKJtt09uofkU5rwbzeJdXyIljgRhy3mWnKmdsDTULnSH7lzwR8ViXiZY/s1600/100_2161.JPG&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5593793474113509554&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhl1rhp-S1ZiX7IjuBu904oxZ4EXWgfZAKtBafim331lfMKR6Zge6zUUmhsHdGpKjVjHd_PJ-6ihcQ6jD4OuB6gKJtt09uofkU5rwbzeJdXyIljgRhy3mWnKmdsDTULnSH7lzwR8ViXiZY/s320/100_2161.JPG&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgXbYZqIRviFM6j72-CuKXm_oQMBE5PPRwgCsvFSSad6oVyT4Efc3U9pdyxjWOM1T92QPKdKJn18hi0175Dr_swXir9A8S14R3i-h-wXStDy7fPKJb2Vl9H_0jrrYNYFaWcIqQ0lHLqCiQ/s1600/100_2102.JPG&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; 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Ela começa com uma introdução, “A propósito de uma história”, quando o autor orienta o leitor a respeito do que irá narrar, situando o episódio, falando com quem está lendo, enfim, iludindo, jogando suas páginas no universo da ficção, para, então, dar lugar a ela: “Que venha Janaína”.&lt;br /&gt;A diafaneidade do narrador-personagem é proporcional à opacidade do personagem-narrador, que se insinua, diz ter sido criança nos tempos do narrado. Tal particularidade resulta em momentos saborosos e frequentes no início da novela, quando o autor interrompe o tecido ficcional para desculpar-se ou explicar-se, sem deixar de ser o narrador realista, que deve se abster de sentenciar ações e personagens.&lt;br /&gt;Nota-se que o personagem criado pelo escritor para narrar, quase nem se constitui como personagem, apenas serve para perscrutar a proveniência das causas, rechear hiatos da trama. A condição de quase-personagem tem reprodução nesta espécie de narrador, que parece não desejar a onisciência, mas também não conseguiria contar tudo que precisa, sendo um censor parcial. Situação interessante e, de novo, criadora de mais ilusão.&lt;br /&gt;Se tudo parece invenção — “Memória é invenção”, já bem disse José Saramago —, é uma mentira no molde das narrativas sublimes e excelsas, pois que esta narrativa tem uma percepção muito verossímil, calcada em fato, porque a verdade, para os que povoam a novela, se conclui sem dúvidas. Sim, Janaína é fruto de um pacto que será cobrado em algum momento, mas antes ela viverá esta história, ela terá sua primeira experiência sexual, detonadora de embates na frágil alma da menina que representará a mãe imaculada de Jesus.&lt;br /&gt;O que ocorre em qualquer arte, ocorre na arte literária: trata-se da formação do homem artista, a qual escolta e escora o incremento estético da arte em questão. É, pois, sua percepção e vivência da “comédia humana, grotesca e sublime”, que fornece a orquestração temática para a obra madura. Por exemplo, neste O pescador de almas, as cenas em torno de Janaína compõem o cenário e a própria história, muitas vezes com toques especiais de humor, tais como o lugar onde as mulheres se banham, quando é preciso perguntar de antemão quem está ali, se homem, ou mulher.&lt;br /&gt;Não faltam surpresas, as descrições são muito benfeitas e os diálogos chamam a atenção. Alguma cena atinge razoável voltagem lírica, apesar de não haver tendência poética neste autor. Impressionante é sua pratica da veia descritiva — vale atentar para a descrição do Bebe-Água. Mas, há também uma notável argúcia na caracterização do drama humano, o contato com a dor, com a luta pela sobrevivência do pescador e com a morte, aprofundados pela percepção. Flamarion Silva tem o dom de lançar os personagens aos abismos da alma, desde então sua paisagem de escolha para o desenvolvimento do melhor de sua ficção.&lt;br /&gt;Voz ficcional possante, de corte realista e viés fantástico, pelo menos para os jamais adentraram certas crenças, para olhos estrangeiros. Voz que vem da experiência espessa da vida, particularizada e refletida, compondo o perfil do escritor.&lt;br /&gt;O primeiro livro afirmou o escritor, o segundo livro de Flamarion Silva confirma o potencial do autor de O rato do capitão.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/6941394788609425315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/03/o-pescador-de-almas.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/6941394788609425315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/6941394788609425315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2011/03/o-pescador-de-almas.html' title='O pescador de almas'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-7438141304786249081</id><published>2010-12-01T19:12:00.000-08:00</published><updated>2010-12-01T19:16:37.198-08:00</updated><title type='text'>Porquinho</title><content type='html'>&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjebTUGzbX-Bilhx-QZaT2Jk04f9FhwzyguKuTd9PsRFJpG1WNEXuKkrFmRNNmEU4KCng4bN20xUhA8-YoH9Z0YMBiO2LnJ19rTtOprHQyN6T81bIQs86w4QqTy3qLA4sOTMVgnek3Y6f8/s1600/porquinho.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 214px;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjebTUGzbX-Bilhx-QZaT2Jk04f9FhwzyguKuTd9PsRFJpG1WNEXuKkrFmRNNmEU4KCng4bN20xUhA8-YoH9Z0YMBiO2LnJ19rTtOprHQyN6T81bIQs86w4QqTy3qLA4sOTMVgnek3Y6f8/s320/porquinho.jpg&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot;id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5545918122136704354&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Anjinho despertou com o rinchado de porco. Uma correria no lado de fora da casa, no fundo do quintal. Decerto o pai perseguia um dos porcos que fugira do chiqueiro. Era bom que ele se levantasse logo da cama e fosse ver o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;- Mas é tão cedo! A réstia de sol ainda nem entrou pela telha de vidro. Tudo escuro. Um frio. &lt;br /&gt;Cedo, mas, como o sono fora embora de vez, tomou coragem e se levantou.&lt;br /&gt; A mãe estava na cozinha, sentada num banquinho, escamando uns peixes miúdos. Ele parou no batente que levava do corredor à cozinha e ficou observando a mãe, sem ser visto. Achou engraçada a calma dela. Pegava um peixinho com leveza, escamava-o, cortava a cabeça fora, tirava as barbatanas e o rabo, dava um corte de alto a baixo na barriga, abria-o e tirava as tripas, e, com delicadeza punha-o no cocho com água. Pegava outro peixe e repetia tudo, igualzinho. E os peixes eram muitos. Tinha que os tratar e salgá-los, para depois colocá-los no sol. Assim os peixes ficavam conservados e poderiam ser comidos mais tarde. &lt;br /&gt;- Bença mãe.&lt;br /&gt;- Deus lhe dê sorte.&lt;br /&gt;A mãe se levantou, lavou as mãos em uma gamela e foi até o fogão de lenha. O fogo já estava apagado. A mãe providenciou umas felpas e o reacendeu. O fogão tinha uma chapa de ferro onde se abriam duas bocas. Em uma das bocas estava a chaleira com café, na outra, uma panela com água. Logo a mãe abanava o fogo. Pouco depois as achas ardiam.&lt;br /&gt;- Tome aqui a água morna. Lave o rosto e escove os dentes.&lt;br /&gt;O menino subiu no pilão encostado à janela do quintal e começou a lavar a cara e a escovar os dentes, quando viu, no quintal, certa movimentação. Ficou curioso e disse à mãe que ia ali e voltava já.&lt;br /&gt;- Ali, onde, mocinho? &lt;br /&gt;- Pai tá ali no quintal. Vou ajudar ele.&lt;br /&gt;- Venha tomar seu café.&lt;br /&gt;- Mais logo eu venho.&lt;br /&gt;Desceu a escada de pedras correndo e logo estava lá. &lt;br /&gt;Anjinho gostava de ajudar o pai. Queria tanto que o pai gostasse dele. Mas o homem era duro. Um tipo difícil que não ouvia ninguém. O menino ia a casa pegar uma bacia que o pai pedia. Ia pegar uma faca que o pai esquecia. Ia levar um recado. Ia dizer à mãe que o pai disse para fazer isso e aquilo. E o diabo do traste nem se comovia. Fazer o que, senhor?&lt;br /&gt;Logo o menino voltou correndo.&lt;br /&gt;- Pai pediu a peixeira, mãe.&lt;br /&gt;- Qual das duas.&lt;br /&gt;- A grandona que tem bainha.&lt;br /&gt;Anjinho fazia tudo correndo. Talvez tivesse medo de que o pai o chamasse de lerdo e lhe desse um carão na frente dos outros.&lt;br /&gt;- Agora vá buscar uns baldes de água e encha este caldeirão aqui.&lt;br /&gt;Ele ia correndo e voltava rápido. Logo o grande vasilhame estava cheio.&lt;br /&gt;- O fogo? Vai pegar fogo, rápido. Parece que é lerdo!&lt;br /&gt;Ia correndo e retornava voando.&lt;br /&gt;- Aqui o fosco, pai.&lt;br /&gt;- O machado. Cadê o machado que você não trouxe? Vai, vai buscar, rápido!&lt;br /&gt; E lá ia Anjinho fazer tudo o que o pai mandava.&lt;br /&gt;De repente, o menino levou um susto. Ele viu que Porquinho, seu Porquinho de estimação, estava preso pelo pescoço no tronco de uma bananeira nanica.  &lt;br /&gt;Ele aproximou-se mais do pai e o cutucou, morrendo de medo que o pai reclamasse.&lt;br /&gt;- Pai, pai, Porquinho tá preso.&lt;br /&gt;- Vai pra casa, menino!&lt;br /&gt;O pai não sabia que aquele era o Porquinho do menino. O pai não sabia. Nem sabia que o nome dele era Porquinho. Talvez nem soubesse o nome do menino.&lt;br /&gt;- Faça isso, menino! Vai buscar isso, menino! Pare com isso, menino! Quer apanhar, menino?&lt;br /&gt;O pai olhou o menino e o mandou ir para casa. &lt;br /&gt;Anjinho era um menino obediente. Obediente até demais. Diabo de menino obediente! Para que tanta obediência? Foi andando para casa, triste. Nessa hora, como se ouvisse um sopro de voz distante, ele parou. Olhou na direção onde seu pai  e seu Porquinho estavam, e viu. Viu mas ficou parado, sem ação. Se não fosse a providência, que lhe colocou uma formiga de fogo sob o pé descalço, e esta não o ferroasse de jeito, até hoje estaria lá, parado. Rápido, pulou atrás de uma touceira de bananeira.&lt;br /&gt;Porquinho, amarrado num tronco, imóvel. O pai levantou o machado e desceu-o com toda a fúria sobre a cabeça do bichinho. Bateu com as costas do machado bem na cabeça. Imediatamente, em meio à tontice do animal, o pai, já com a  peixeira em punho, enterrou-a toda na garganta. Segurou-a um pouco enfiada, torceu-a e logo a retirou. Anjinho viu o sangue do seu amiguinho jorrar dentro da bacia.&lt;br /&gt;- Pra não esperdiçar o sangue do bicho, que é bom. &lt;br /&gt;Tudo parou, o menino não ouviu mais nada. Apenas sentiu no seu pesadelo a  grande impotência. Porquinho  não se debatia mais. Rápido o pai o pôs no grande caldeirão de água escaldante. &lt;br /&gt;O homem gritou para a mulher:&lt;br /&gt;- Pronto. Agora é só pelar o bicho. Cortar o bicho. Arrancar as vísceras do bicho. Separar as partes do bicho. E comer a carne boa do bicho.&lt;br /&gt;Anjinho, caído no chão, entre as folhas secas de bananeira, não sentiu as picadas das formigas de fogo, que já avançavam, tomando todo o seu corpo. Ele apenas soluçava baixinho, e dizia o nome do seu amigo:&lt;br /&gt;- Porquinho! Meu Porquinho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foto de Baby Diana, retirada do Flickr.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/7438141304786249081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/12/porquinho.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7438141304786249081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7438141304786249081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/12/porquinho.html' title='Porquinho'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjebTUGzbX-Bilhx-QZaT2Jk04f9FhwzyguKuTd9PsRFJpG1WNEXuKkrFmRNNmEU4KCng4bN20xUhA8-YoH9Z0YMBiO2LnJ19rTtOprHQyN6T81bIQs86w4QqTy3qLA4sOTMVgnek3Y6f8/s72-c/porquinho.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-7982064229239100962</id><published>2010-11-19T11:03:00.000-08:00</published><updated>2010-11-19T15:59:39.302-08:00</updated><title type='text'>Educação sentimental</title><content type='html'>&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFmJFB89Vq565UKWtZoaFjpnspY3jO0VyQA09rN3Wu8FcYl1HsXRqojkh11zuEpgtCJThNgJPksWSDsTv5gvIiFHic-KeMJjMruPk21hTE0ntkDIymJ5nS0cQ_I7SiEViEt-whglli7zE/s1600/escrita%255B1%255D.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 276px;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFmJFB89Vq565UKWtZoaFjpnspY3jO0VyQA09rN3Wu8FcYl1HsXRqojkh11zuEpgtCJThNgJPksWSDsTv5gvIiFHic-KeMJjMruPk21hTE0ntkDIymJ5nS0cQ_I7SiEViEt-whglli7zE/s320/escrita%255B1%255D.jpg&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot;id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5541340188476487410&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;         Naquele ano de 1973, a história registrou a morte de Pequeno. Morreu sem que se soubesse bem a causa. Umas dores surgiram do nada, intensificaram-se e o levaram. Dona Rosa chorou a perda do marido, alimentando o hábito milenar. Suponho tenha sido também o hábito o que a levou à cova, a fazer companhia ao marido, meses após a morte deste. Os filhos do casal sofreram, a ponto de um deles, a Mirinha, intentar contra a própria vida, pretendendo atirar-se no buraco onde jazia sua progenitora.&lt;br /&gt; - Não faça isso, Mirinha – aconselhavam-na os mais lúcidos – Tem a vida pela frente. Filhos a cuidar. Marido. Enfim, uma vida.&lt;br /&gt; Cedeu às súplicas e não se matou. Atitude acertada, pois logo estava às voltas com Sinézio, seu marido, que se enrabichou por uma menina da Rua do Campo. O desejo de matar rapidamente tomou outra feição e outro rumo. Mirinha deu a andar armada de faca.&lt;br /&gt; - Vou retalhar aquela vagabunda!&lt;br /&gt; Mas não é este o rumo que quero dar a esta história. Triângulo amoroso em romance é motivo vulgar. Vamos à morte de Pequeno.&lt;br /&gt; Pequeno morreu, é fato. Otaviano fez-lhe o caixão. Seis tábuas compradas na venda de seu João Celi, mais tecido roxo para forrar o caixão pelo lado de fora, cambraia branca para a parte interna, pregos duas e meia por dez, alças, uns emblemas prateados: crucifixos, estrelas, anjos e... Basta! Morre com luxo quem pode. As coisas estão pela hora da morte. E mais essa de certidão de óbito! A cachaça, sim, é necessária.&lt;br /&gt; O enterro foi marcado para o dia seguinte, pela manhã. &lt;br /&gt; Uma dúzia de alunos estaria em aula nesse turno. Como é de se supor, todos os alunos, em sinal de respeito e para prestar exéquias ao morto, deviam estar presentes no cemitério.&lt;br /&gt; Mas deixe estar que um dos alunos, o Hércules, justamente nesse dia resolveu ficar em casa e dormir até mais tarde. Ou teria ele fugido de uma lição que não estudou? Quem sabe não era dia de sabatina. Pensassem o que quisessem, o fato é que ele não compareceu nem à aula nem ao enterro.&lt;br /&gt; Com a professora Beatriz dia de sabatina era qualquer dia. E a enterro todos eram obrigados a estar presentes. Será possível que todos não sabiam disso?&lt;br /&gt; A falta de Hércules foi visível. Bastou a professora percorrer as carteiras com os olhos e logo percebeu o faltante. Caderneta à mão, iniciou a chamada. &lt;br /&gt; Ficou registrada a falta do senhor Hércules. &lt;br /&gt; Pulemos o resto do dia: a liberação dos alunos mais cedo para irem ao enterro, as lágrimas e os ais pungentes de Mirinha, que, neste ponto, queria se matar. Coisa do passado. Pulemos até os pensamentos que a professora Beatriz dedicou a seu pupilo. Ele era já um rapaz, claro, e se dava muito bem com a professora. Mas o que ela não podia mesmo era deixar de dar o exemplo. Além do mais, ele merece o castigo, se só anda com a Neirinha para cima e para baixo, metidos nos becos. Lambisgoia oferecida. Ele bem poderia dedicar seu tempo ao estudo. Moço bonito... A professora o considera muito. Mas, como já foi dito, a falta é imperdoável. Ele que a aguardasse amanhã.&lt;br /&gt; Como os amanhãs no tempo literário não obedecem a calendário,  eis que aquele tão esperado amanhã se tornou um presente. Dolorido para o rapaz.&lt;br /&gt; Bem cedinho, como não era do costume da professora, ela chegou à escola. Mas no caminho não teve pressa. Deu bons dias simpáticos aos madrugadores. Conjecturou de si para si que Aldeia da Purificação era um atraso e que continuaria um atraso, tão pouco havia progredido a cidade. &lt;br /&gt; - Cidade! Hum! – questionou o status do lugar. – Isto aqui não passa mesmo de uma aldeia, velha desde sua origem, parada no tempo colonial. Onde já se viu coisa parecida: meninos fazendo necessidades e limpando-se com folhas de mato e tocos de pau. Um atraso. Nem água encanada, nem luz elétrica. Diabo de lugar!&lt;br /&gt; Zangou-se a professora, mas logo desfez o cenho contrariado e acalmou as ideias.&lt;br /&gt; “Mas o clima é bom. A água é natural, da fonte. Todos me consideram e respeitam. Aqui eu sou “a professora”. O título tem peso. Uma inteligência considerável. A palavra final. A mão que educa. Estou acima. Posso olhá-los de cima. Pobres miseráveis. Ignorantes de pai e mãe, e avós maternos e paternos, e de toda a ancestralidade. Calma, Beatriz. Calma”.&lt;br /&gt; - Bom dia, dona Flor. Como vai senhor Dudu? Melhorzinho do furúnculo?&lt;br /&gt; - Bom dia, senhor Bernardo. Não me esqueci do corte de tecido. Ontem mesmo pedi a meu marido que fosse pegar, mas parece que ele não me ouviu. Não, não se preocupe, o José Fernandes é bom menino, só precisa estudar mais, decorar as perguntas. Ontem mesmo foi necessário dar-lhe seis bolos. Imagine o senhor que o ano finda e não conseguiu decorar o que é o rio Amazonas...&lt;br /&gt; - Pode bater professora, pode bater. Aumente os bolo para doze... &lt;br /&gt; Até logo, senhor Bernardo.&lt;br /&gt; Vê-se que os pensamentos da professora eram e são fortes, impõem-se até mesmo sobre a mão deste pobre contador de histórias. Não era minha intenção expor esses detalhes, há pouco o disse, mas o que é um escrevinhador senão um títere na mão das personagens? Saliento que a professora Beatriz existe na carne e no osso, e na feição melancólica que lhe baixa quando se dirige a... &lt;br /&gt; - Eu o proíbo de contar! Proíbo-o!&lt;br /&gt; Bem se vê que a professora Beatriz não é dessas que se deixam conduzir, e...&lt;br /&gt; - Conte os fatos na pele, na casca, da porta para fora de casa. Que tem o povo de saber da poeira sob o tapete? &lt;br /&gt; Ora, ora, ora, que ideias são essas, senhora? Tudo bem, pulemos o que não deve ser dito. Títere, hum...&lt;br /&gt; Os primeiros alunos começaram a chegar. Uns vinham correndo, brincando de triscou pegou. E chegavam suados. A professora fazia uma cara de nojo ao ver os meninos. “Mas que porcos!”. Outros vinham na leseira, conversando com árvores e lagartos. Paulo Afonso  é este que acabou de chegar, veio a cavalo, pois o Bebe-Água, onde morava, é longe. Quando o pai o colocou na Escola Ruy Barbosa, o rapazinho não sabia o que era um “A”. Logo era o mais sabido. Decorava tudo direitinho, não comia uma vírgula. Bebeu o rio Amazonas desde a sua nascente, nos Andes, até onde desagua, no Atlântico. Era o orgulho da professora. Menino esforçado. Vinha montado a cavalo, fizesse sol ou chuva. Não faltava. A professora, e logo todos do lugar, tinha-o como bom exemplo. Criou fama, pronto. Os patos e perus que seu Antônio, seu pai, presenteava a professora, ajudavam no progresso do menino. Jajá recepcionou Paulo Afonso assim que a professora Beatriz o apresentou à turma. &lt;br /&gt; - Vou quebrar sua cara lá fora!&lt;br /&gt; - Senhor Wellington, vá ao quadro negro e escreva a palavra “nucleinarsenovanolformiocoestriquinolglicosfosforado” cinquenta vezes. &lt;br /&gt; E lá se ia Jajá passar toda a manhã enrolando no quadro negro. &lt;br /&gt; Mas a professora, no quadro que nos interessa, chegou à escola e esperou os alunos na porta, barrando a entrada, pois só poderiam entrar depois que eles lhe dessem beijinhos. &lt;br /&gt; Novidade, isso. E o povo pensando que a professora Beatriz era má. Má nada! Tão carinhosa com os alunos. Imagine: beijinhos no rosto. Até Jajá, que a odiava tanto, ficou feliz com o beijo e não lavou o rosto aquele dia. Passava a mão, como se para sentir os lábios macios e úmidos da querida professora Beatriz. Fez coisas erradas pensando nela. Descobriu que quanto mais pecaminoso o ato, mais prazeroso ele fica. &lt;br /&gt; Hércules surgiu na rua da escola. Nesse momento o coração da professora deu um...&lt;br /&gt; - Não diga! Não diga! Eu o proíbo!&lt;br /&gt; Diabo! E eu lá sei fazer história de silêncio! Desse jeito é melhor não contar nada. Bem, só nos resta irmos aos fatos, pois fatos são só fatos...&lt;br /&gt; O rapaz chegou e logo se surpreendeu ao ver a professora com o braço esquerdo cruzando a porta.&lt;br /&gt; - Bom dia, professora. Posso entrar?&lt;br /&gt; Ela nem lhe disse nada, simplesmente suspirou fundo, ofertou-lhe o rosto para ser beijado, e em seguida beijou as faces do mocinho.&lt;br /&gt; Preferiria que Beatriz fosse uma Ema, uma Ana, uma Luísa; mas não, é Beatriz, Beatriz, Beatriz. Esse negócio de triângulo amoroso ser motivo vulgar é coisa dela. &lt;br /&gt; - Só o estava esperando. Vamos entrar.&lt;br /&gt; Entraram. A professora fechou a porta. E começou sua aula.&lt;br /&gt; - Como todos sabem, senhor Pequeno faleceu ontem. Em sinal de respeito, encerramos as atividades escolares mais cedo e fomos lhe prestar as últimas homenagens. Todos estávamos presentes. Todos. Todos, exceto o senhor, senhor Hércules.&lt;br /&gt; Cruz  credo! Eu é que não queria estar no lugar do rapazinho. A professora virou outra. Aquela doçura que há pouco se desmanchava com os alunos, virou o Diabo. Fuzilava o rapaz com os olhos e lhe apontava o dedo duro.&lt;br /&gt; - Venha até aqui!&lt;br /&gt; O rapaz levantou-se da carteira e caminhou até a mestra. Ela abriu a gaveta de sua carteira e de dentro retirou a palmatória pesada. A palmatória especial, feita de pau-ferro. &lt;br /&gt; - Dê-me sua mão.&lt;br /&gt; O rapaz lha estendeu e aguardou, tremendo (esse “lha” é um lapso, resquício do tempo colonial).&lt;br /&gt; A professora segurou firme a mão do rapaz e, erguendo a palmatória, desceu-a uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes na mão esquerda, que ardia. &lt;br /&gt; - Agora me mostre a outra.&lt;br /&gt; O rapaz mantinha a mão direita atrás das costas, fechada, represando a dor que a outra estava sentindo. Bem poderia, naquela predisposição, socar a professora. Ora, mas que ideia avançada. Quem sabe num futuro próximo... Desarmou-a e estendeu-lha. A professora retomou a contagem:&lt;br /&gt; - E sete, e oito e nove, e dez, e onze, e doze. Uma dúzia! Uma dúzia, para o senhor aprender a nunca mais faltar a enterro de ninguém. Ouviu? Então, por que o senhor faltou ao enterro de senhor Pequeno?&lt;br /&gt;- Foi pai... pai que não deixou. Minha família não se... minha família não se dá com a dele.&lt;br /&gt;- Está bem. Agora pode ir se sentar.&lt;br /&gt; Não vai chorar não, rapaz?&lt;br /&gt; - Vá se ferrar, seu porra!&lt;br /&gt; Vê? A professora está certa. Não respeitam mais ninguém... nem colegas, nem professores, nem mesmo quem lhes bota no mundo... São esses novos, velhos tempos...&lt;br /&gt; A professora, depois desse episódio, ela se...&lt;br /&gt; - Não se atreva! Eu o proíbo!</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/7982064229239100962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/11/educacao-sentimental.html#comment-form' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7982064229239100962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/7982064229239100962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/11/educacao-sentimental.html' title='Educação sentimental'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFmJFB89Vq565UKWtZoaFjpnspY3jO0VyQA09rN3Wu8FcYl1HsXRqojkh11zuEpgtCJThNgJPksWSDsTv5gvIiFHic-KeMJjMruPk21hTE0ntkDIymJ5nS0cQ_I7SiEViEt-whglli7zE/s72-c/escrita%255B1%255D.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-417421179844635827.post-8181550337443424819</id><published>2010-10-14T11:15:00.000-07:00</published><updated>2010-10-15T21:45:56.961-07:00</updated><title type='text'>O bêbado e a cruz</title><content type='html'>&lt;a onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot; href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhRCqcWSxmGBP74mJgr4Ix95mdex4mEC8YnnJKO98-UJPlqlGRAkxCec2jUVj2whqMTHqpfYGs8UpYqGsj4c1pDKpQlba3hKf_5nTfpyNtNkv7vJkqEt5Tkq61JH5kO7pR4A5hdRxqoHHE/s1600/ATgAAAA1wNdLlovRf0KBN3t3v3fL-MzS4Mceq-5loM6VXmMdn_9LqbIMq90NcmXlBLwuMs1OSTmjtp7l33K84ioak_v1AJtU9VBWt6ip6lhUHgCK9RLyXO98pWSn4g%5B1%5D.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhRCqcWSxmGBP74mJgr4Ix95mdex4mEC8YnnJKO98-UJPlqlGRAkxCec2jUVj2whqMTHqpfYGs8UpYqGsj4c1pDKpQlba3hKf_5nTfpyNtNkv7vJkqEt5Tkq61JH5kO7pR4A5hdRxqoHHE/s320/ATgAAAA1wNdLlovRf0KBN3t3v3fL-MzS4Mceq-5loM6VXmMdn_9LqbIMq90NcmXlBLwuMs1OSTmjtp7l33K84ioak_v1AJtU9VBWt6ip6lhUHgCK9RLyXO98pWSn4g%5B1%5D.jpg&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot;id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5527969023584885746&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Os homens se reuniam no passeio da Igreja de Nossa Senhora das Candeias, para conversar. Conversa trivial e confusa. Mas o assunto parecia já bem definido: Jonzinho, o bêbado, tinha de ir ao cemitério e trazer uma cruz.&lt;br /&gt;– Vai, então vai, quero ver se é homem mesmo, provocou Zé Galo.    &lt;br /&gt;– Vou sim. Quer ver eu ir agora? Quer apostar?&lt;br /&gt;– Se você for ao cemitério e trouxer a cruz que está fincada na cova do finado José Barcelos, ganha pinga. Mas, olhe lá hein, traz mesmo, porque se vier de mãos vazias, leva cascudo.&lt;br /&gt;– Um copo cheinho de Pitu? – Jonzinho mediu a cláusula.&lt;br /&gt;– Pitu, Saborosa, Camarão, a seu gosto, mas traga a cruz. E então, vai agora?&lt;br /&gt;– Vou, claro que vou, porque  meu nome é João da Silva dos Santos, filho de Artur Oliveira dos Santos e de Altamira da Silva dos Santos. Vou, e vou trazer a cruz do finado Adinoel Malta...&lt;br /&gt;– A de seu José Barcelos, consertou Zé Galo.&lt;br /&gt;– ... porque o meu nome é Jonzinho, filho de... &lt;br /&gt;– Tá, tá, vai logo.&lt;br /&gt;– Por que não serve a cruz do finado Adinoel Malta? – quis saber Jonzinho. &lt;br /&gt;Zé Galo respondeu:&lt;br /&gt;– Morto fresco. Recente. Não sabe que quando uma pessoa morre, demora pra acordar no mundo dos mortos e que depois de acordado assusta-se com os outros mortos e tenta fugir de lá através da cruz? Seu Adinoel Malta, fresquinho, ainda não acordou no mundo dos mortos. Seu José Barcelos, não, este sim, agarra-se à cruz, pra fugir de lá. Ah, e mais, dizem, e eu acredito, o espírito possui o primeiro que arranca a cruz. Por isso esse medo de bulir em cova e cruz de defunto morto; mas, como você é corajoso...&lt;br /&gt;– Bem, então, sendo assim, mereço logo a metade da pinga. O serviço não é pra qualquer um.   Trabalho para macho! &lt;br /&gt;– Nada de metade agora. Vai, traz a cruz e tem um copo cheinho. Não se gaba que é homem? Que não tem medo de nada? Que entra no Cemitério Velho, dá risada e provoca finada Detinha? Sorte sua, morta fresca, fosse morta viva no mundo dos mortos...&lt;br /&gt;– Vou, vou, porque sou filho de... e... o meu nome é... – sumiu na escuridão.&lt;br /&gt;– Ele vai mesmo? Responda, Zé Galo: essa história que você contou é verdadeira mesmo? quis saber Noquinho, amedrontado.&lt;br /&gt;– E se Jonzinho for mesmo e na hora der um troço de medo e ficar grudado na cruz?  perguntou Nonga.&lt;br /&gt;– Vai nada, garantiu Zé Galo, vai é pra casa dormir. Um frouxo. Nem pela cachaça se arrisca tanto. Bem, até amanhã, mamãe Avani não dorme enquanto não chego.&lt;br /&gt;– Até amanhã, disse Nonga, retirando-se.&lt;br /&gt;– Até amanhã, responderam todos, e bateram para suas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passava da meia-noite quando um vulto cruzou a passos trôpegos a Praça Dois de Fevereiro e ganhou a Rua Wenceslau Guimarães. Parou na Praça da Matriz, em frente à Igreja.   O vulto era Jonzinho, trazia a cruz do finado José Barcelos.&lt;br /&gt;– E é dele mesmo! disse dona Juca no outro dia, verificando a cruz um tanto indignada com a profanação. &lt;br /&gt;A certeza vinha da xilogravura. Dona Juca havia mandado gravar o nome do marido na cruz: José Barcelos de Oliveira.&lt;br /&gt;Zé Galo, quando soube da coragem de Jonzinho, fez questão de pagar a cachaça. Mas, olhe só a novidade, Jonzinho deixou de beber, não assim por um tempo, de vez mesmo. Já o Zé Galo ficou assombrado por não poder pagar a aposta.  Dever não lhe parecia boa coisa, ainda mais num caso assim, onde havia morto no meio. Sem falar que o defunto não tolerava bebida. Desse dia em diante, Zé Galo passou a andar assombrado.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/feeds/8181550337443424819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/10/o-bebado-e-cruz.html#comment-form' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8181550337443424819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/417421179844635827/posts/default/8181550337443424819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://flamarionsilva.blogspot.com/2010/10/o-bebado-e-cruz.html' title='O bêbado e a cruz'/><author><name>Flamarion Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07027661841159129325</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiwJcfEiEu8gNTCeMOzsk4EjqdPNOVC62Xk_YB57enZuZsQiwOkbGC2Ht7AAFDBI_sJFU7zTcnZt3gZLBBvQJjkvc1DkjZDqRh4ZF_qNw42wS7mQNo50PCsbcYJ1mhtPo/s220/100_6495.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhRCqcWSxmGBP74mJgr4Ix95mdex4mEC8YnnJKO98-UJPlqlGRAkxCec2jUVj2whqMTHqpfYGs8UpYqGsj4c1pDKpQlba3hKf_5nTfpyNtNkv7vJkqEt5Tkq61JH5kO7pR4A5hdRxqoHHE/s72-c/ATgAAAA1wNdLlovRf0KBN3t3v3fL-MzS4Mceq-5loM6VXmMdn_9LqbIMq90NcmXlBLwuMs1OSTmjtp7l33K84ioak_v1AJtU9VBWt6ip6lhUHgCK9RLyXO98pWSn4g%5B1%5D.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>16</thr:total></entry></feed>