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	<title>Contos e Folhetins</title>
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	<description>por Ildeu G. de Araújo</description>
	<lastBuildDate>Fri, 11 Jul 2014 13:34:09 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Paixão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Jul 2014 13:34:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Paixão &#8211; s.f. Movimento violento, impetuoso, do ser para o que ele deseja. / Atração muito viva que se sente por alguma coisa. / Objeto dessa afeição. / Predisposição para ou contra. / Arrebatamento, cólera. / Amor, afeição muito forte&#8230; (Aurélio on line)   Quando o jogo acabou, fez-se silêncio. Depois, aplausos. O Mineirão inteiro, de pé, aos prantos, cantou o hino. Era vinte e sete de novembro de dois mil e cinco. O Atlético estava rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro.   Milton entrou no apartamento cabisbaixo. Nancy estava vendo televisão na sala. Ele lhe deu o beijo protocolar e foi para o quarto. Ela foi atrás. − Está com fome? Mamãe e o Fred almoçaram aqui. Mamãe trouxe um prato delicioso: galopé. Milton levantou-se, deu uma bofetada na esposa e saiu sem dizer nada. Nancy ficou paralisada, olhando para a porta fechada. Nos quatro anos de namoro e nos dois de casados nunca o tinha visto daquele jeito. Já tinham brigado, discutido, mas bater nela era uma coisa que jamais esperou dele. O espanto foi sendo substituído pela raiva. &#8220;Se ele pensa que pode me bater está muito enganado.&#8221; Sentia uma intensa dor, não no rosto, mas no coração, na alma. Jantou as sobras do galopé. Olhou sem enxergar para a tevê por horas. Quando o Fantástico começou, ela, já um pouco apreensiva com a falta de notícias do marido, quis ligar para alguém, mas desistiu,]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;"><em><strong>Paixão &#8211; s.f. Movimento violento, impetuoso, do ser para o que ele deseja. / Atração muito viva que se sente por alguma coisa. / Objeto dessa afeição. / Predisposição para ou contra. / Arrebatamento, cólera. / Amor, afeição muito forte&#8230; (Aurélio on line)</strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;"><em><strong> </strong></em></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Quando o jogo acabou, fez-se silêncio. Depois, aplausos. O Mineirão inteiro, de pé, aos prantos, cantou o hino. Era vinte e sete de novembro de dois mil e cinco. O Atlético estava rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Milton entrou no apartamento cabisbaixo. Nancy estava vendo televisão na sala. Ele lhe deu o beijo protocolar e foi para o quarto. Ela foi atrás.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Está com fome? Mamãe e o Fred almoçaram aqui. Mamãe trouxe um prato delicioso: galopé.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Milton levantou-se, deu uma bofetada na esposa e saiu sem dizer nada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Nancy ficou paralisada, olhando para a porta fechada. Nos quatro anos de namoro e nos dois de casados nunca o tinha visto daquele jeito. Já tinham brigado, discutido, mas bater nela era uma coisa que jamais esperou dele. O espanto foi sendo substituído pela raiva. &#8220;Se ele pensa que pode me bater está muito enganado.&#8221; Sentia uma intensa dor, não no rosto, mas no coração, na alma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Jantou as sobras do galopé. Olhou sem enxergar para a tevê por horas. Quando o Fantástico começou, ela, já um pouco apreensiva com a falta de notícias do marido, quis ligar para alguém, mas desistiu, não saberia o que dizer sem tornar público o problema. Decidiu aguardar. Tomou um banho demorado. &#8220;E se ele não voltar?&#8221; Nancy ligou para sua mãe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Aconteceu uma coisa horrível, mamãe! Eu e o Milton brigamos − as lágrimas de agonia, que ela tinha segurado, se soltaram de uma vez.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Dona Leonor morava perto, veio socorrer a filha.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Por que vocês brigaram?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Ele me bateu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Te bateu? O Milton? </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Me deu uma bofetada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Assim, sem razão, por nada?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Por nada, mamãe, eu lhe ofereci galopé, ele me bateu e saiu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Ô minha filha, ele devia estar transtornado com a derrota do Atlético.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− A senhora vai ficar do lado dele?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Galopé, Galo&#8230;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Meu Deus, não tinha pensado nisso. O Galo foi rebaixado, deu no Fantástico.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Ficaram em silêncio.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Sei que o Milton é doido pelo Galo, mas chegar a esse ponto, me bater!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Milton saiu de casa com o coração pesado. Dirigiu a esmo dominado pela fúria. Via e revia, de forma obsessiva, a cena da mulher lhe oferecendo galopé. Ouvia a voz dela, ora com fingida naturalidade, ora com ironia e com sarcasmo. Era inevitável a gozação dos colegas cruzeirenses, mas não esperava isso da própria esposa. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Uma buzinada estridente o trouxe à realidade. Percebeu que estava chegando a Igarapé. Dirigira a esmo e pegara o caminho familiar. Parou no acostamento e ficou olhando a serra, mais imaginando que vendo sua silhueta imersa na escuridão da noite. Sua mente estava vazia. Ouviu então o estalar de uma bofetada. &#8220;Eu bati nela! O que deu em mim, como fui capaz de fazer isso?&#8221;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Retornou a BH. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Milton chegou sério, deu um ligeiro &#8220;boa noite&#8221; para a sogra e tentou beijar a mulher. Ela se esquivou.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Devo-lhe desculpas. Estou envergonhado pelo que fiz, me perdoe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Vocês precisam conversar − disse dona Leonor, se retirando.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Nancy o encarou com raiva.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Você acha que basta um &#8220;me perdoe&#8221; e está tudo resolvido? Você me bateu!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Eu daria tudo para não ter feito aquilo. Estava transtornado. Não esperava, jamais, que você me gozasse, indiferente ao meu sofrimento.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">O semblante de Nancy se suavizou um pouco.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Eu não queria te gozar, não percebi, não tive a intenção.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Sério? O galopé foi pura coincidência? Você é sonsa ou muito desligada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Eu sou sonsa, sou desligada e você é um descontrolado. E se eu estivesse te gozando? Isso é motivo para me bater?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">− Nada é motivo para te bater. Você tem razão, eu perdi o controle, desatinei. Você não pode imaginar a tristeza que foi o fim do jogo, Nancy. Todo mundo chorando. Eu passei no bar e virei uma, duas garrafas de cerveja. Não quero me justificar, mas eu estava fora de controle. Queria chegar em casa, queria que você me abraçasse, me pusesse no colo. Queria chorar em seus braços até dormir.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Nancy segurou as mãos de Milton. Acariciou-lhe os cabelos. Beijou ternamente seus olhos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: medium;">Quando Miltinho fez três meses o Galo foi campeão brasileiro da série b e retornou à elite do futebol brasileiro. No almoço comemorativo foi servido galopé.</span></p>
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		<title>DEMÔNIOS NÃO TÊM TALENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jun 2014 17:21:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Cláudio vagava sem destino pela cidade. Percebeu que estava perto do hospital. Sem nada para fazer resolveu visitar seu sogro. A enfermeira advertiu: − Seu Gil está muito agitado hoje. − Pode deixar, vou com calma. Abriu a porta e entrou, cautelosamente, Gil batia furiosamente no teclado de seu laptop: − Esta porcaria não acende. − Deixe-me ver, Seu Gil, quem sabe eu consigo. − Fique longe! Ninguém mexe no meu computador. − Sou eu, Seu Gil, Cláudio. Depois da doença, Gil ficou agressivo com a maioria de seus parentes, Cláudio era uma das poucas exceções. − Ah, é você. Veja se consegue ligar esta porcaria de computador. − Onde está o carregador da bateria? Gil deu um tapa na cabeça, olhou para Cláudio com um sorriso, abriu a gaveta da mesa, apanhou a peça e ligou o laptop. − O que o senhor anda escrevendo? − Umas bobagens, lembranças fugidias. Acho que vou chamar de &#8220;Memórias de um Desmemoriado&#8221;. − Posso ver? − Você pode. Você sabe valorizar um bom texto. − Gil estava naquela fase do Alzheimer em que momentos de lucidez se alternam com o caos da demência. Cláudio passeou pelos arquivos e ficou triste com a confusão, a falta de sentido das informações que o sogro ia salvando no laptop, reflexo de sua memória, sem nexo, fragmentada. &#8220;Que fim melancólico para um grande escritor, autor das novelas de maior sucesso da televisão. A memória é a]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Cláudio vagava sem destino pela cidade. Percebeu que estava perto do hospital. Sem nada para fazer resolveu visitar seu sogro. A enfermeira advertiu:</p>
<p>− Seu Gil está muito agitado hoje.</p>
<p>− Pode deixar, vou com calma.</p>
<p>Abriu a porta e entrou, cautelosamente, Gil batia furiosamente no teclado de seu laptop:</p>
<p>− Esta porcaria não acende.</p>
<p>− Deixe-me ver, Seu Gil, quem sabe eu consigo.</p>
<p>− Fique longe! Ninguém mexe no meu computador.</p>
<p>− Sou eu, Seu Gil, Cláudio.</p>
<p>Depois da doença, Gil ficou agressivo com a maioria de seus parentes, Cláudio era uma das poucas exceções.</p>
<p>− Ah, é você. Veja se consegue ligar esta porcaria de computador.</p>
<p>− Onde está o carregador da bateria?</p>
<p>Gil deu um tapa na cabeça, olhou para Cláudio com um sorriso, abriu a gaveta da mesa, apanhou a peça e ligou o laptop.</p>
<p>− O que o senhor anda escrevendo?</p>
<p>− Umas bobagens, lembranças fugidias. Acho que vou chamar de &#8220;Memórias de um Desmemoriado&#8221;.</p>
<p>− Posso ver?</p>
<p>− Você pode. Você sabe valorizar um bom texto. − Gil estava naquela fase do Alzheimer em que momentos de lucidez se alternam com o caos da demência.</p>
<p>Cláudio passeou pelos arquivos e ficou triste com a confusão, a falta de sentido das informações que o sogro ia salvando no laptop, reflexo de sua memória, sem nexo, fragmentada. &#8220;Que fim melancólico para um grande escritor, autor das novelas de maior sucesso da televisão. A memória é a mina de um escritor, é lá que ele vai buscar a matéria prima para sua obra.&#8221; Ficou pensando no vazio da própria mina, após haver revelado algumas pepitas tão promissoras.</p>
<p>Gil havia se deitado e dormia. Cláudio estava para desligar o computador, quando viu um arquivo com o nome de &#8220;feito.docx&#8221;. Passou as próximas duas horas lendo uma das mais fascinantes histórias que havia conhecido. Com medo de que Gil destruísse aquele tesouro com um comando desastroso, ele salvou o arquivo na nuvem. Saiu silenciosamente.</p>
<p>Em casa, Cláudio acessou o arquivo e leu novamente o texto do sogro. Era uma bela história de amor, abrangendo trinta anos da vida de um casal. O enredo era vinculado a fatos históricos daquele período, o que lhe dava autenticidade e vigor. Os personagens bem construídos pareciam ganhar vida própria. Daria uma excelente minissérie. Só faltava o final.</p>
<p align="center">***</p>
<p>− Como vai, Cláudio, o que você tem feito?</p>
<p>− Ando escrevendo, Haroldo − mentiu Cláudio. Haroldo era um colega de faculdade que se deu bem como produtor de televisão.</p>
<p>− Se você tem uma história de época, pode me interessar. Estou num apuro feio, pois apostei no Wellington para escrever uma minissérie e ele fracassou redondamente. A sinopse era ótima, mas o texto final uma porcaria.</p>
<p>O coração de Cláudio disparou. A novela do sogro atendia aos requisitos apresentados pelo Haroldo. Os demônios se lançaram, sem tréguas, sobre a alma do frustrado escritor.</p>
<p>− Que coincidência, Haroldo, acho que posso lhe tirar dessa enrascada. Vou lhe mandar a sinopse de um dos meus trabalhos.</p>
<p>− Nada de sinopse, preciso de um texto pronto. As gravações começam em quatro semanas.</p>
<p>− Você é um cara de sorte. Tenho uma novelinha quase pronta.</p>
<p>Naquela mesma tarde os dois se encontraram. Haroldo adorou a história.</p>
<p>− E o final, quando você me entrega?</p>
<p>− Em duas semanas.</p>
<p>− Nada disso, você tem cinco dias.</p>
<p>Cláudio gastou os próximos três dias tentando escrever o capítulo final de &#8220;Um Amor do Século XX&#8221;. Os demônios não têm talento, as Musas se abstiveram, não queriam ser cúmplices. Voltou ao hospital em busca de socorro.</p>
<p>− Como vai, sogrão?</p>
<p>Gil estava alheio, olhando para o nada, através da janela. Cláudio ligou o laptop e deu uma varredura completa nos arquivos. Encontrou um com o nome de &#8220;feitofim.docx&#8221;. Ao tentar abri-lo o sistema lhe solicitou uma senha.</p>
<p>− Seu Gil, o que tem de tão valioso nesse arquivo feitofim.docx?</p>
<p>− Cogito ergo sum.</p>
<p>− O senhor protegeu o arquivo com uma senha. Qual é a senha?</p>
<p>− Dubito, ergo cogito, ergo sum.</p>
<p>− O senhor está muito filosófico. O que significa &#8220;Dubito, ergo cogito, ergo sum&#8221;?</p>
<p>− Je pense, donc je suis.</p>
<p>Cláudio se lembrou das lições de francês e digitou como senha: &#8220;Descartes&#8221;. O arquivo não abriu. Tentou &#8220;René&#8221;, &#8220;Renédescartes&#8221;, &#8220;René_Descartes&#8221;. Fracasso.</p>
<p>− A senha, Seu Gil. Qual é a senha?</p>
<p>Gil começou a cantar uma música gregoriana.</p>
<p>Cláudio voltou para casa desanimado. Passou a noite tentando escrever o capítulo final da minissérie. Levou o resultado de seu esforço para o Haroldo.</p>
<p>− Que porcaria, Cláudio. Nem parece ser do mesmo autor que escreveu este texto maravilhoso.</p>
<p>− A inspiração vem quando ela quer, Haroldo. Preciso de mais alguns dias. Estou muito estressado.</p>
<p>− Sinto muito, cara, mas eu trabalho com prazos. Dou-lhe mais dois dias.</p>
<p>De volta ao hospital, Cláudio levou uma lata de doce de leite, a iguaria preferida do sogro. Quando Gil tentou agarrar a lata, Cláudio a reteve:</p>
<p>− Primeiro a senha do arquivo &#8220;feitofim.docx&#8221;.</p>
<p>− Jota ó um nove três zero.</p>
<p>Cláudio digitou jo1930. Nada.</p>
<p>Depois de tentar todas as variações com letras maiúsculas e minúsculas, ele desistiu.</p>
<p>De madrugada o hospital comunicou a morte de Gil. A tristeza de Cláudio enterneceu sua esposa.</p>
<p>− Agora entendo por que papai foi amável com você até o fim. Você foi um verdadeiro filho para ele.</p>
<p>− Você não sabe o que está dizendo − disse Cláudio, esquivando-se do abraço da esposa.</p>
<p>Um padre chegou para realizar as exéquias do ex-colega de seminário. Cláudio lhe disse que Gil, nos dias anteriores repetia seguidamente: &#8220;jo1930&#8221;</p>
<p>− &#8220;Jo 19,30&#8221; é um versículo do Evangelho de João: &#8216;Ele tomou o vinagre e disse: &#8220;Tudo está consumado.&#8221; E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.&#8217;</p>
<p>− Obrigado, padre, parece que ele estava prevendo o seu fim.</p>
<p>Assim que teve oportunidade, Cláudio correu para o computador e tentou todas as variações da expressão &#8220;Tudo está consumado&#8221; e fracassou sempre. Foi ao hospital buscar os pertences do sogro. Entre eles havia uma bíblia em latim.</p>
<p>Cláudio digitou: Consummatum est.</p>
<p>A minisérie &#8220;Um Amor do Século XX&#8221;, de Gil Cardoso, foi um retumbante sucesso. Cláudio se tornou o administrador das obras do sogro.</p>
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		<title>SOL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 May 2014 14:48:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Estava casado com Cleonice há 15 anos. Nossa vida transcorria numa normalidade que me agradava, pois sou uma pessoa tranquila, um tanto convencional; pelo menos, naquela época, achava que era. A objetividade de Cleonice combinava com meu temperamento e os dias se sucediam numa confortável monotonia. A decisão de ir a Buenos Aires obedeceu a razões práticas: eu tinha um negócio a tratar na cidade, a estada seria paga pela empresa, a única despesa seria a passagem para minha esposa. Ir a um espetáculo de tango é uma obrigação para todo turista em primeira viagem à capital portenha. Olhei, com má vontade, o ambiente pretensamente luxuoso e sem dúvida decadente. Ocupamos uma mesa de pista, pedimos um espumante e aguardamos o início do espetáculo conversando amenidades. Aos primeiros acordes do bandoneon, uma luz, vinda não se sabe de onde, refletiu no drapeado das cortinas, conferindo-lhe um tom bordeaux e alargando o espaço, como se as paredes recuassem. A plateia desapareceu, estava sozinho num imenso salão. Sol, emergiu do fundo da pista de dança e caminhou na minha direção, num passo ondulante que alternava uma perna vestida de negro e outra, muito alva, inteiramente desvelada pelo rasgo de sua saia. Ela olhou-me como nenhuma mulher jamais me olhou, nem antes nem depois daquele momento mágico. Um olhar de desejo, de ternura e de entrega. Com um gesto me atraiu para seus braços. Sem qualquer possibilidade de resistir, mergulhei no abismo daquele]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Estava casado com Cleonice há 15 anos. Nossa vida transcorria numa normalidade que me agradava, pois sou uma pessoa tranquila, um tanto convencional; pelo menos, naquela época, achava que era. A objetividade de Cleonice combinava com meu temperamento e os dias se sucediam numa confortável monotonia. A decisão de ir a Buenos Aires obedeceu a razões práticas: eu tinha um negócio a tratar na cidade, a estada seria paga pela empresa, a única despesa seria a passagem para minha esposa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Ir a um espetáculo de tango é uma obrigação para todo turista em primeira viagem à capital portenha. Olhei, com má vontade, o ambiente pretensamente luxuoso e sem dúvida decadente. Ocupamos uma mesa de pista, pedimos um espumante e aguardamos o início do espetáculo conversando amenidades.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Aos primeiros acordes do bandoneon, uma luz, vinda não se sabe de onde, refletiu no drapeado das cortinas, conferindo-lhe um tom bordeaux e alargando o espaço, como se as paredes recuassem. A plateia desapareceu, estava sozinho num imenso salão. Sol, emergiu do fundo da pista de dança e caminhou na minha direção, num passo ondulante que alternava uma perna vestida de negro e outra, muito alva, inteiramente desvelada pelo rasgo de sua saia. Ela olhou-me como nenhuma mulher jamais me olhou, nem antes nem depois daquele momento mágico. Um olhar de desejo, de ternura e de entrega. Com um gesto me atraiu para seus braços. Sem qualquer possibilidade de resistir, mergulhei no abismo daquele convite e evoluímos pelo salão numa coreografia rebuscada que nossos corpos conheciam desde a criação do mundo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Dançamos durante horas, envolvidos pela melodia apaixonante dos violinos e bandoneons. Nossos corpos pulsavam em sintonia com o ritmo passional do tango, numa exaltação de desejo e de prazer. Éramos o único par no salão, os outros casais formavam uma roda, contemplando nossas evoluções. Aos poucos foram aderindo à dança, até que o salão ficou repleto. Sol levou-me para seu camarim, olhou-me no fundo dos olhos e disse com sua voz rouca: − Por que demoraste tanto? Venho aqui todos os dias à tua procura. − Hoje você me encontrou − beijei sua boca rubra, primeiro como quem prova uma fruta exótica, depois com a intensidade de uma paixão avassaladora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Ficamos dias e noites num idílio sem trégua, a vida suspensa, envoltos na única realidade de um desejo sem medida seguido de um arrebatador prazer que reacendia um desejo maior ainda.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Calibri;"><span style="color: #000000; font-size: medium;">Uma tarde acordei sozinho num aposento vazio. Sol ocultara-se. Chamei por ela, gritei</span><span style="color: #000000; font-size: medium;">  </span><span style="color: #000000; font-size: medium;">seu nome, revirei as gavetas. Sentei-me na cama, que conservava as marcas da nossa paixão, ainda aturdido com aquela loucura, quando bateram na porta. − És o Sr. Pedro Faria? − Respondi sim com um gesto. O policial afastou-se deixando Cleonice se aproximar − vista a roupa, querido, vamos para casa. </span><span style="color: #000000; font-size: medium;">  </span></span></p>
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		<title>PERSONAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Apr 2014 18:13:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quando entrei nesta sala pela primeira vez, estava em pouco intimidado. Quem eu encontraria? Seriam pessoas cultas, já acostumadas a escrever? Seriam jovens talentosos e arrogantes que desdenhariam o engatinhar de um velho nos caminhos da literatura? O despojamento do ambiente me tranquilizou. Fui me sentindo em casa e acolhido pelos futuros colegas, bem semelhantes a mim no desejo e na pouca experiência com as letras. Passados três anos, esta sala é minha casa. Aqui destampo a minha caixa de pandora e liberto meus fantasmas. Estava começando a apresentar meu novo texto para os colegas e Ricardo, nosso instrutor da oficina de contos, quando elas invadiram a sala: − Finalmente o encontramos, seu patife, percorremos a cidade inteira à sua procura. − Disse a mais velha, me encarando com fúria. − O que você está fazendo conosco é imperdoável. − Disse, com mágoa, a mais jovem, uma linda moça de 22 a 25 anos. Ricardo, com sua calma habitual, se levantou e foi até elas: − Senhoras, por favor, acalmem-se. Estamos trabalhando. As senhoras não podem entrar aqui deste jeito. Se quiserem conversar com o Afonso, esperem, na sala ao lado, ele terminar de apresentar seu trabalho. − Mas é exatamente isto que queremos impedir; ele não pode apresentar este monstruoso texto. Se vocês ouvirem o que ele escreveu, tudo estará perdido, o texto já não pertencerá somente a ele. Pertencerá a todos vocês e nosso destino estará selado. −]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando entrei nesta sala pela primeira vez, estava em pouco intimidado. Quem eu encontraria? Seriam pessoas cultas, já acostumadas a escrever? Seriam jovens talentosos e arrogantes que desdenhariam o engatinhar de um velho nos caminhos da literatura? O despojamento do ambiente me tranquilizou. Fui me sentindo em casa e acolhido pelos futuros colegas, bem semelhantes a mim no desejo e na pouca experiência com as letras. Passados três anos, esta sala é minha casa. Aqui destampo a minha caixa de pandora e liberto meus fantasmas.</p>
<p>Estava começando a apresentar meu novo texto para os colegas e Ricardo, nosso instrutor da oficina de contos, quando elas invadiram a sala:</p>
<p>− Finalmente o encontramos, seu patife, percorremos a cidade inteira à sua procura. − Disse a mais velha, me encarando com fúria.</p>
<p>− O que você está fazendo conosco é imperdoável. − Disse, com mágoa, a mais jovem, uma linda moça de 22 a 25 anos.</p>
<p>Ricardo, com sua calma habitual, se levantou e foi até elas:</p>
<p>− Senhoras, por favor, acalmem-se. Estamos trabalhando. As senhoras não podem entrar aqui deste jeito. Se quiserem conversar com o Afonso, esperem, na sala ao lado, ele terminar de apresentar seu trabalho.</p>
<p>− Mas é exatamente isto que queremos impedir; ele não pode apresentar este monstruoso texto. Se vocês ouvirem o que ele escreveu, tudo estará perdido, o texto já não pertencerá somente a ele. Pertencerá a todos vocês e nosso destino estará selado.</p>
<p>− Não estou entendendo, quem são vocês afinal? − Perguntou Ricardo.</p>
<p>− Eu sou Clotilde e ela é a Mirtes.</p>
<p>Todos olharam para mim. Era a coisa mais louca que jamais me acontecera. A perplexidade me deixou mudo.</p>
<p>− Não seja cínico − disse Clotilde, a mais velha, − você sabe quem somos melhor que nós mesmas.</p>
<p>− Clotilde e Mirtes são as personagens do meu novo conto, este que trouxe para os trabalhos de hoje.</p>
<p>− Isto é uma impostura, vocês leram o conto do Afonso e armaram este teatro − disse Luiz, um dos colegas de oficina − ou foi você que produziu esta farsa, Afonso?</p>
<p>− Não, pessoal, não armei nada. Posso garantir que ninguém leu o texto. Eu passei o dia em casa, escrevendo-o, imprimi e vim direto para cá.</p>
<p>− Estamos diante de um fato inusitado − Ricardo ponderou − vamos admitir, como hipótese de trabalho, que o Afonso seja um Pirandello tupiniquim e que nossas belas amigas, Clotilde e Mirtes, sejam duas personagens à procura de um autor. Por favor, sentem-se e nos contem o que está acontecendo.</p>
<p>− É muito desagradável não ter um passado. De repente sou uma mulher de 45, 46 anos: − Cotilde se dirigiu a Ricardo, − ele poderia ser mais preciso! Nem minha idade ele definiu! Você, como professor, deveria ensinar isto a ele. − Prosseguiu: − Estou grávida, aos 45 ou 46 anos − olhou-me, furiosa,  − tenho um trabalho de parto horroroso: parto normal, de cócoras, pois ele me fez &#8220;alternativa&#8221;. Fico sabendo que o filho não é meu, alugara minha barriga: a dondoca da Mirtes queria um filho, mas não queria estragar sua carreira de modelo. Aí o desgraçado me dá um furioso instinto maternal. O filho é meu! Ninguém vai tomar o meu filho!</p>
<p>Após um breve silêncio Mirtes interveio:</p>
<p>− Eu entendo a sua dor, Clotilde. Mas eu preciso desesperadamente desse filho. Você é uma mulher realizada, é uma lutadora. Venceu todas as batalhas. Minha vida é um vazio. Quando minha beleza acabar, não restará nada.</p>
<p>− Que batalhas eu venci? Onde você leu isto? − atalhou Clotilde.</p>
<p>− Está nas entrelinhas.</p>
<p>Clotilde bufou furiosa.</p>
<p>− Nem um palavrão eu posso gritar. Ele me fez assim, elegante, superior, abafando em meu peito um turbilhão de emoções. Esta sonsa sabe ler nas entrelinhas, faz de sua fragilidade uma arma para manipular os outros.</p>
<p>Mirtes começou a chorar. Disse, virando-se para mim:</p>
<p>− O que me magoa mais é você me desejar tanto e me amar tão pouco. Fez-me bela e vazia. A ela você deu personalidade, força, coragem. Eu desfilo pelas passarelas esta beleza frívola e passageira que temo perder a cada momento de minha vida.</p>
<p>− Vida? Quem disse que nós temos vida? Somos esboços de personagens de um conto mal escrito por escritor iniciante, de uns setenta a oitenta anos, que vive na periferia do mundo. Seremos conhecidas por uma meia dúzia de leitores da família dele ou de seu círculo de amigos.</p>
<p>Fiquei confuso e triste por causar tanto sofrimento. Recolhi as cópias do famigerado conto que havia distribuído entre os colegas, com a intenção de destruí-las. Ricardo me impediu:</p>
<p>− Não faça isso, Afonso. Você pode não ter um grande conto ainda − enfatizou ainda, − mas tem duas personagens interessantes e − acrescentou sorrindo − bastante vivas. Não as abandone. Hoje vamos ficar por aqui.</p>
<p>Enquanto pegava minha pasta e arrumava meus papeis, Clotilde e Mirtes desapareceram. Deixei os colegas se despedindo de Ricardo e comentando sobre a aula; desci apressadamente temendo defrontar-me com elas na portaria do edifício. Não havia sinal delas. Tomei, aliviado, um taxi de volta para casa, elas estavam sentadas no banco de trás.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/04/masc5.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-7002 aligncenter" alt="masc5" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/04/masc5.jpg" width="307" height="173" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/04/masc5.jpg 307w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/04/masc5-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 307px) 100vw, 307px" /></a></p>
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		<title>O SALTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Apr 2014 15:30:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Então DH saltou. A murada, do outro lado, custava a chegar&#8230; *** Saiu cedo de casa. Copa das Confederações. Dia do jogo Brasil X Uruguai. Feriado. Passou no EPA, onde Dalila trabalhava como supervisora. − Você vai na manifestação, DH? − Sei não. Detesto aglomeração, me dá pânico. − É importante, môr! A gente tem que participar, senão as coisas não consertam. Dalila mudou sua vida. Ele nunca tinha pensado em comunidade, política, manifestação. Só pensava em futebol e zoar com a turma nos fins de semana. Dalila era ligadona nesse negócio de grupo de jovens. Estava juntando dinheiro para ir ao Rio ver o Papa. Ficou com ela uma, duas, três vezes e não desgrudou mais. Namoro firme. Pensando até em casar. − Vai, môr! De noite a gente se vê. Cuidado, hein! Não entra no meio do bolo. Pegou o 5523 na direção da Praça Sete. No fundo do ônibus, os pagodeiros do Conjunto Habitacional faziam um som bonito. Encontrou duas enfermeiras do posto de saúde discutindo com uma senhora: − Se vocês vão trabalhar só 30 horas por semana, a gente não vai ser atendida nunca. − A Prefeitura tem que contratar mais gente. Você não acha, DH? Ele sorriu, mas ficou calado, pensando nas 44 horas de labuta pesada que fazia. Passou pela roleta e tropeçou numa caixa de isopor: − Você não perde tempo, hein Chiquinho? − A turma vai ficar com sede depois da]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Então DH saltou. A murada, do outro lado, custava a chegar&#8230;</p>
<p align="center">***</p>
<p>Saiu cedo de casa. Copa das Confederações. Dia do jogo Brasil X Uruguai. Feriado. Passou no EPA, onde Dalila trabalhava como supervisora.</p>
<p>− Você vai na manifestação, DH?</p>
<p>− Sei não. Detesto aglomeração, me dá pânico.</p>
<p>− É importante, môr! A gente tem que participar, senão as coisas não consertam.</p>
<p>Dalila mudou sua vida. Ele nunca tinha pensado em comunidade, política, manifestação. Só pensava em futebol e zoar com a turma nos fins de semana. Dalila era ligadona nesse negócio de grupo de jovens. Estava juntando dinheiro para ir ao Rio ver o Papa. Ficou com ela uma, duas, três vezes e não desgrudou mais. Namoro firme. Pensando até em casar.</p>
<p>− Vai, môr! De noite a gente se vê. Cuidado, hein! Não entra no meio do bolo.</p>
<p>Pegou o 5523 na direção da Praça Sete. No fundo do ônibus, os pagodeiros do Conjunto Habitacional faziam um som bonito. Encontrou duas enfermeiras do posto de saúde discutindo com uma senhora:</p>
<p>− Se vocês vão trabalhar só 30 horas por semana, a gente não vai ser atendida nunca.</p>
<p>− A Prefeitura tem que contratar mais gente. Você não acha, DH?</p>
<p>Ele sorriu, mas ficou calado, pensando nas 44 horas de labuta pesada que fazia. Passou pela roleta e tropeçou numa caixa de isopor:</p>
<p>− Você não perde tempo, hein Chiquinho?</p>
<p>− A turma vai ficar com sede depois da passeata.</p>
<p>A Praça Sete estava ficando cheia, o seu ônibus foi o último que conseguiu passar, atrás dele uma avalanche de sem-terra, com suas bandeiras e camisetas vermelhas, bloqueou a praça. DH preferiu descer mais à frente, na Av. Amazonas: “Não fica no meio do bolo”, a voz de Dalila repetia na sua cabeça. Mas a Praça Sete parecia um ímã a atraí-lo e ele foi se deixando levar. Parecia uma festa. Gente de todo tipo, de todas as idades, até crianças pequenas. Viu os pagodeiros do Conjunto se unindo a músicos de outro bairro. As enfermeiras lhe deram o braço, uma de cada lado, e o levaram para onde estavam suas colegas.</p>
<p>− Mas eu sou metalúrgico − ele protestou.</p>
<p>− Metalúrgico é enfermeiro de máquina.</p>
<p>Acompanhou-as, em cortejo, até a Rodoviária. Desvencilhou-se delas ao ver o Chiquinho, que lhe vendeu um latão de Skol.</p>
<p>Parou no passeio e ficou vendo a procissão passar: a turma do PCdoB, defensores dos direitos dos animais, o pessoal do PSTU e do PCR, professores e muitos outros. Passou uma turma protestando contra a Copa das Confederações. Ele entrou no bloco e perguntou a um rapaz, que liderava o grupo, por que ele era contra o futebol.</p>
<p>− Não sou contra o futebol, cara, sou contra o governo gastar uma fábula de dinheiro para promover a FIFA e uma corja de jogadores milionários e encher os cofres da Rede Globo. Se você gosta tanto de futebol, por que não está no Mineirão?</p>
<p>DH ficou calado. Voltou para as margens da manifestação. Viu passar cartazes e faixas reclamando da qualidade do ensino, do atendimento na saúde, da corrupção dos políticos. “É muita coisa errada. Será que adianta protestar?” Dalila soprou de novo em seu ouvido: “A gente tem que participar, senão as coisas não consertam.”</p>
<p>Dalila era demais. Como isso foi acontecer com ele: conhecer uma moça como a Dalila, a morena mais linda que existe, com uma cabeça e um coração &#8230; Ela não existe&#8230;</p>
<p>− E me ama.</p>
<p>− Falando sozinho, cara? Pega aí, me ajuda a carregar esta faixa.</p>
<p>&#8220;Queremos saúde e educação qualidade FIFA&#8221;</p>
<p>DH concordava com a faixa, entretanto o que mais o revoltava era não poder assistir ao jogo. “Eles expulsaram os pobres do Mineirão, só bacana pode pagar o ingresso.”</p>
<p>Envolveu-se com a onda da passeata. Gritou palavras de ordem, cantou as musiquinhas. Ficou alegre, estava se divertindo. Quando viu, estava no meio do bolo, em cima do viaduto da Abrahão Caram, na pista que leva ao Mineirão e a polícia jogando gás. A multidão o espremendo. Subiu na murada. Do outro lado a pista vazia. O grande vão entre as duas pistas. O pânico.</p>
<p>DH saltou&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>bem querer &#8211; capítulo IX</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Apr 2014 15:37:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ − Oscar, Oscar, por onde você andou, meu querido? − Pelo vale das sombras, mas fui resgatado por uma deusa ruiva, de seios firmes e redondos, longas e elásticas pernas, braços ternos e acolhedores e um sorriso milagroso que afasta todo mal. − Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Viva o Oscar! − Obrigado, meu bem. Não sei por que celebrar meu aniversário, se a cada ano estou mais decadente. − Que isso, querido, você está ótimo. Os cabelos brancos lhe dão um charme irresistível. − Estou velho, careca e decepcionado com o povo brasileiro. Preferir o Fernando Henrique no lugar do Lula! − O FHC é de esquerda também, foi contra a ditadura. Foi exilado. − Que exilado! Ficou passeando em Paris, lecionando na Sorbonne, − disse Oscar, com desdém. − A eleição do Lula seria o coroamento de todos esses anos de luta, sacrifício, sofrimento. − Você está desistindo? Que é do Dom Quixote que queria conquistar o mundo? − Levou muita porretada das pás dos moinhos de vento. − Eu era da UDN, você me converteu, hoje sou do PT e não vou desistir − disse Marlene, com entusiasmo. − Lula vai ganhar em 1998, você vai ver. − Uma empresária no Partido dos trabalhadores! Só mesmo o Lula para conseguir essa façanha. − Só mesmo você, meu amor, com sua generosidade, sua integridade, sua coragem, poderia abrir meus olhos para]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-6901 aligncenter" alt="bemquerer capa" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg" width="714" height="1010" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa-212x300.jpg 212w" sizes="(max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/04/bemquerer-capa-capIX.jpg"><img decoding="async" class=" wp-image-6986 aligncenter" alt="bemquerer capa capIX" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/04/bemquerer-capa-capIX.jpg" width="713" height="494" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/04/bemquerer-capa-capIX.jpg 792w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/04/bemquerer-capa-capIX-300x207.jpg 300w" sizes="(max-width: 713px) 100vw, 713px" /></a></p>
<p> <span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Oscar, Oscar, por onde você andou, meu querido?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Pelo vale das sombras, mas fui resgatado por uma deusa ruiva, de seios firmes e redondos, longas e elásticas pernas, braços ternos e acolhedores e um sorriso milagroso que afasta todo mal. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Viva o Oscar!</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Obrigado, meu bem. Não sei por que celebrar meu aniversário, se a cada ano estou mais decadente.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Que isso, querido, você está ótimo. Os cabelos brancos lhe dão um charme irresistível.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Estou velho, careca e decepcionado com o povo brasileiro. Preferir o Fernando Henrique no lugar do Lula!</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− O FHC é de esquerda também, foi contra a ditadura. Foi exilado.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Que exilado! Ficou passeando em Paris, lecionando na Sorbonne, − disse Oscar, com desdém. − A eleição do Lula seria o coroamento de todos esses anos de luta, sacrifício, sofrimento.</span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você está desistindo? Que é do Dom Quixote que queria conquistar o mundo?</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Levou muita porretada das pás dos moinhos de vento.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Eu era da UDN, você me converteu, hoje sou do PT e não vou desistir − disse Marlene, com entusiasmo. − Lula vai ganhar em 1998, você vai ver.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Uma empresária no Partido dos trabalhadores! Só mesmo o Lula para conseguir essa façanha.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Só mesmo você, meu amor, com sua generosidade, sua integridade, sua coragem, poderia abrir meus olhos para enxergar além dos meus interesses.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar fitou sua mulher com imenso afeto. A emoção roubou suas palavras.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Chega de política, hoje quero você alegre, animado! A partir de hoje você é sexy. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Sexagenário. Em alguns momentos de minha vida duvidei que chegasse aos sessenta anos.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">−Você vai adorar o presente que vou lhe dar − disse Marlene,</span><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;"> num largo sorriso.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Se é o que eu estou pensando, este jantar é uma perda de tempo. − Oscar ameaçou se levantar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Não seja apressado, curta seu canard a l&#8217;orange, e seu Veuve Clicquot. Escute, o piano está tocando &#8220;Fascinação&#8221;! Saboreie este prelúdio. Afinal, estamos no Copacabana Palace.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você me arrastou para este antro da burguesia. Aliás, você está em casa. &#8220;Empresária destaque do setor supermercadista&#8221; − retrucou Oscar, provocador.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Mas a comida está saborosa e o champanhe é um sonho, confesse! Vamos desfrutar do que construímos, nós merecemos. &#8220;Pobres, sempre os tereis convosco.&#8221; </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Cuidado, Marlene, ao usar as palavras de Jesus fora do contexto. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Não seja tão sério, meu amor. Relaxe, brinque um pouco. Acho que vou pedir outro Veuve Clicquot para deixar você no ponto.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Negativo, quero estar em condições de &#8220;saborear&#8221; o meu presente.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene dispensou a sobremesa. Mesmo naquela noite especial, ela não descuidava da silhueta. Então os dois deram-se os braços e subiram para o quarto.</span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">FIM</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>bem querer &#8211; capítulo VIII</title>
		<link>http://www.contosefolhetins.com.br/folhetins/bem-querer-capitulo-viii/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Mar 2014 12:22:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160; Partia o coração de Oscar lembrar-se dos sofrimentos de Marlene. &#62;&#62;&#62; Marlene, desde a partida do marido para se esconder na fazenda do tio Juquita, estava desassossegada. A combinação era que ele telefonaria quando chegasse a Corinto. − Fique calma, com essa confusão as ligações telefônicas não devem funcionar direito − dona Zezé tentava consolar a filha. − Ele foi preso, mamãe, alguma coisa me diz que apanharam o Oscar antes de ele embarcar ou na estrada. − Ele vai dar notícia, vamos esperar. Oscar não apareceu na fazenda. Uma semana depois do combinado, tio Juquita foi a Corinto e telefonou para seu irmão. Seu Manoel, com a ajuda de seus amigos do Rotary Club, conseguiu a informação de que seu genro estava preso nas dependências do Departamento de Ordem Pública e Social. Tentou por todos os meios uma autorização para visitá-lo, mas foi impossível. Um amigo, com contatos no DOPS, garantiu que ele estava bem, mas não podia receber visita. Somente depois de obter essas informações é que seu Manoel deu a notícia à mulher e à filha. − Pelo menos ele está vivo e sabemos onde está. − Ele está sendo torturado, mamãe. Vou lá ao DOPS, tenho de vê-lo. Faço um escândalo se me impedirem. − Aí você vai presa também. − Eu prefiro estar com ele na cadeia do que aqui fora, sabendo que eles o estão maltratando. Seu Manoel ponderou que qualquer atitude intempestiva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6901 aligncenter" alt="bemquerer capa" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg" width="714" height="1010" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Partia o coração de Oscar lembrar-se dos sofrimentos de Marlene.</strong></p>
<p align="center">&gt;&gt;&gt;</p>
<p style="text-align: center;" align="center"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVIII.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6972 aligncenter" alt="bemquerer capa capVIII" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVIII.jpg" width="714" height="481" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVIII.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVIII-300x202.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>Marlene, desde a partida do marido para se esconder na fazenda do tio Juquita, estava desassossegada. A combinação era que ele telefonaria quando chegasse a Corinto.</p>
<p>− Fique calma, com essa confusão as ligações telefônicas não devem funcionar direito − dona Zezé tentava consolar a filha.</p>
<p>− Ele foi preso, mamãe, alguma coisa me diz que apanharam o Oscar antes de ele embarcar ou na estrada.</p>
<p>− Ele vai dar notícia, vamos esperar.</p>
<p>Oscar não apareceu na fazenda. Uma semana depois do combinado, tio Juquita foi a Corinto e telefonou para seu irmão. Seu Manoel, com a ajuda de seus amigos do Rotary Club, conseguiu a informação de que seu genro estava preso nas dependências do Departamento de Ordem Pública e Social. Tentou por todos os meios uma autorização para visitá-lo, mas foi impossível. Um amigo, com contatos no DOPS, garantiu que ele estava bem, mas não podia receber visita. Somente depois de obter essas informações é que seu Manoel deu a notícia à mulher e à filha.</p>
<p>− Pelo menos ele está vivo e sabemos onde está.</p>
<p>− Ele está sendo torturado, mamãe. Vou lá ao DOPS, tenho de vê-lo. Faço um escândalo se me impedirem.</p>
<p>− Aí você vai presa também.</p>
<p>− Eu prefiro estar com ele na cadeia do que aqui fora, sabendo que eles o estão maltratando.</p>
<p>Seu Manoel ponderou que qualquer atitude intempestiva poderia prejudicar a situação de Oscar.</p>
<p>− Vamos rezar minha filha, Deus vai proteger seu marido.</p>
<p>Foram à igreja de São Judas Tadeu onde Marlene fez a promessa de ajudar na construção do santuário, acendeu uma vela, rezou e voltou mais aliviada para casa.</p>
<p>Foi um tempo de aflição e sofrimento. Marlene pensava no marido o dia todo. Acordava esperando que ele lhe levasse um cafezinho na cama, como fazia todos os dias. A ausência do aroma lhe lembrava que ele devia estar numa cela fria, talvez ferido, sozinho e abandonado. Chorava desconsolada, verificava se a vela diante da imagem de São Judas continuava acesa e rezava até se sentir consolada.</p>
<p>Foi várias vezes ao DOPS, mas era impedida de chegar à portaria por policiais grosseiros. Um dia foi abordada por um policial, surpreendentemente cortês, que lhe perguntou o motivo de sua presença naquele local.</p>
<p>− Meu esposo está preso aqui. Oscar Pereira Lino. Preciso ter notícias dele.</p>
<p>− Ah, o Oscar do Sindieletro! Qual é sua graça, minha senhora?</p>
<p>− Marlene Silveira Lino. O senhor conhece o Oscar? Ele está bem?</p>
<p>− Hoje cedo ele estava muito bem disposto, dona Marlene.</p>
<p>O coração de Marlene disparou.</p>
<p>− Posso vê-lo?</p>
<p>− Infelizmente ele está incomunicável, mas eu posso levar um bilhete da senhora para ele.</p>
<p>Marlene tirou da bolsa um envelope e passou para o detetive.</p>
<p>− Me procure na Gruta Metrópole, às sete da noite, talvez eu consiga trazer uma resposta para a senhora.</p>
<p>− Eu estarei lá. Um bom dia para o senhor.</p>
<p>− Não quer saber o meu nome?</p>
<p>− Quero, qual é?</p>
<p>− Detetive Barbosa, seu criado, mas pode me chamar de Barbosinha.</p>
<p>− Até logo, seu Barbosa.</p>
<p>− Uma questão de segurança, não conte nada a ninguém. Estou me arriscando muito.</p>
<p>Marlene chegou à casa dos seus pais e dona Zezé notou que havia alguma coisa no ar.</p>
<p>− O que está acontecendo, minha filha?</p>
<p>− Nada, mamãe. Estive no DOPS, mas não consegui nem pisar no passeio, está tudo interditado.</p>
<p>− Você está diferente, me conta, teve alguma notícia?</p>
<p>− Não, mamãe, é cisma da senhora. Estou com fome. Tem almoço?</p>
<p>− Que novidade, tem quinze dias que é uma luta fazer você comer alguma coisa.</p>
<p>Após o almoço, dona Zezé viu a filha olhando o catálogo telefônico, anotando alguma coisa no bloco de recados e colocando na bolsa. Depois, ela foi para sua casa, dizendo que ia dormir um pouco.</p>
<p>Dona Zezé examinou o bloco e conseguiu ver a marca da anotação da filha: &#8220;Gruta Metrópole, Rua da Bahia, 1052&#8221;.</p>
<p>Marlene passou a tarde tentando resolver um dilema angustiante: ir ou não ir ao encontro com o detetive. Não lhe passara despercebido seu olhar guloso a lhe percorrer o corpo da cabeça aos pés. Mas era a primeira oportunidade de receber alguma notícia concreta de Oscar. Rezou para Nossa Senhora das Graças, que ela tantas vezes coroara, na matriz da sua paróquia. Às dezoito horas, colocou um vestido bonito, mas discreto, e seguiu para o encontro.</p>
<p>Sua entrada no restaurante provocou um frisson. Sua beleza ruiva sempre despertara a admiração das pessoas. Avistou o detetive Barbosa numa mesa próxima da entrada, olhou discretamente em sua direção e continuou em frente, ocupando uma mesa mais ao fundo. Barbosinha estava jantando com alguns colegas. Eles olhavam para a mesa de Marlene e riam ruidosamente.</p>
<p>Marlene estava com as faces rubras de constrangimento. Seu desejo era sair correndo daquele lugar. Sentiu em seu ombro um toque familiar.</p>
<p>− Papai, o que o senhor está fazendo aqui?</p>
<p>− Eu que lhe pergunto, minha filha.</p>
<p>Marlene olhou instintivamente para a mesa onde estava o detetive.</p>
<p>− Quem são aqueles homens, Marlene?</p>
<p>− É o detetive Barbosa que prometeu me trazer notícias do Oscar.</p>
<p>− Oscar foi transferido para uma prisão do exército em Juiz de Fora, há três dias.</p>
<p align="center">&gt;&gt;&gt;</p>
<p><strong>Marlene sempre teve fé em si mesma e em Deus.</strong></p>
<p align="center">(Continua no próximo capítulo)</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>bem querer &#8211; capítulo VII</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Mar 2014 14:04:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160; Oscar deixou Marlene dominar seu devaneio. A energia dela curou suas feridas. &#62;&#62;&#62;  Marlene reinou no baile de formatura da turma de administradores de 1968. A Orquestra tocou &#8220;Fascinação&#8221;. Ela caminhou na direção de Oscar que havia permanecido sentado ao lado dos sogros desde o início da festa. Os casais se afastaram, deixando o salão só para eles. Oscar relutou em se levantar, alquebrado por quatro anos de prisão; somente comparecera ao baile por que Marlene se negou a ir sem ele. Ela permaneceu diante dele, com os braços estendidos num convite. Por fim ele se levantou, sob os aplausos dos presentes e tomou-a nos braços. − Eu te adoro, minha querida. − Só se adora a Deus. − Você é minha deusa de cabelos de fogo. − Você me conquistou quando me ofereceu essa música na barraquinha. − Continuo fascinado por você até hoje. *** Oscar ficara na prisão, quatro anos, sem que fosse processado formalmente. Com a promulgação da constituição de 1967, o regime resolveu regularizar a situação dos presos políticos. Oscar foi julgado, e, como não houvesse nenhuma prova contra ele, foi absolvido. Sua libertação, entretanto, só aconteceu em agosto de 1968. Nunca contou nada do que havia sofrido na prisão, mas as marcas eram visíveis. Havia perdido o entusiasmo, o fogo que alimentava sua vida. Após a promulgação do AI-5, foi detido para interrogatório e libertado em seguida, por não verem nele qualquer perigo. Marlene,]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6901 aligncenter" alt="bemquerer capa" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg" width="714" height="1010" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong><span style="color: #000000; font-size: medium;">Oscar deixou Marlene dominar seu devaneio. A energia dela curou suas feridas.</span></strong></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">&gt;&gt;&gt; </span></p>
<p style="text-align: center;" align="center"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVII.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6956 aligncenter" alt="bemquerer capa capVII" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVII.jpg" width="718" height="489" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVII.jpg 798w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capVII-300x204.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 718px) 100vw, 718px" /></a></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene reinou no baile de formatura da turma de administradores de 1968. A Orquestra tocou &#8220;Fascinação&#8221;. Ela caminhou na direção de Oscar que havia permanecido sentado ao lado dos sogros desde o início da festa. Os casais se afastaram, deixando o salão só para eles. Oscar relutou em se levantar, alquebrado por quatro anos de prisão; somente comparecera ao baile por que Marlene se negou a ir sem ele. Ela permaneceu diante dele, com os braços estendidos num convite. Por fim ele se levantou, sob os aplausos dos presentes e tomou-a nos braços.</span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Eu te adoro, minha querida.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Só se adora a Deus.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você é minha deusa de cabelos de fogo.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você me conquistou quando me ofereceu essa música na barraquinha.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Continuo fascinado por você até hoje.</span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">***</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar ficara na prisão, quatro anos, sem que fosse processado formalmente. Com a promulgação da constituição de 1967, o regime resolveu regularizar a situação dos presos políticos. Oscar foi julgado, e, como não houvesse nenhuma prova contra ele, foi absolvido. Sua libertação, entretanto, só aconteceu em agosto de 1968. Nunca contou nada do que havia sofrido na prisão, mas as marcas eram visíveis. Havia perdido o entusiasmo, o fogo que alimentava sua vida.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Após a promulgação do AI-5, foi detido para interrogatório e libertado em seguida, por não verem nele qualquer perigo. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene, ao contrário, era uma fonte de energia. Havia sido brilhante em seu curso. Dez anos mais velha que seus colegas, liderou a turma da primeira aula até a formatura. Foi uma esposa de preso político combativa e dedicada, lutou o tempo todo para que ele tivesse um tratamento pelo menos humano. Deu-lhe toda a assistência que as circunstâncias permitiram. Ao ser libertado, Oscar teve sua dedicação em tempo integral. Foram dois anos de cuidados constantes. Ela tentava, com seu carinho, tirá-lo da letargia que tomara conta dele.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Quando Oscar começou a reagir, os dois foram trabalhar na empresa de seu Manoel, que agora contava com duas filiais, uma no Barreiro e outra em Santa Efigênia. Oscar cuidava da manutenção das instalações e Marlene assumiu a coordenação do abastecimento. Em pouco tempo, seu espírito empreendedor eclodiu, e o pai, maravilhado com seu talento, foi transferindo para ela a direção da empresa.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Estudando o desenvolvimento das redes de supermercados Serv-Bem, Pag-Pouco e Merci, que surgiram em Belo Horizonte a partir de 1958, ela criou a rede “Supermercados do Mané”, uma brincadeira-homenagem a seu pai. Seu Manoel lhe entregou a direção de todos os seus negócios e foi para a Europa realizar um antigo sonho de dona Zezé.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Os empreendimentos de Marlene prosperaram nos anos do milagre econômico, mas o que a fazia feliz era o amor entre ela e Oscar, que aumentava, milagrosamente, com o tempo.</span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você demorou, minha rainha.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Uma reunião que não acabava, até que eu pus todo mundo pra fora e vim correndo ver o meu bem − Marlene se jogou nos braços de Oscar e o beijou com paixão.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Casei-me com uma feiticeira. Lá fora ela é &#8220;a empresária&#8221;, passa aquela porta e se transforma na minha namorada.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Sua namorada está precisando de um banho, de ficar linda de morrer, porque hoje é dia de comemoração.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Esqueci alguma coisa? Seu aniversário foi no mês passado, o aniversário do nosso casamento é daqui a três meses.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Está faltando a data mais importante da minha vida. O que aconteceu três meses antes do nosso casamento?</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Não me lembro.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você me seduziu, Dom Juan.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Nada disso, você me seduziu.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Eu disse: Não, Oscar! Não, Oscar!</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Mas não retirou minha mão do seu seio. Não parou de me beijar e cravou as unhas nas minhas costas.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− E rasguei sua camisa novinha. Você é um mentiroso, Oscar. Nunca vi essa camisa rasgada.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Tive que jogar fora, ela ficou imprestável.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Aonde você vai me levar esta noite?</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Você é quem manda, Marlene.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Nunca fui a um motel.</span></span></span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">***</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">No dia dez de fevereiro de 1980 foi fundado o Partido dos Trabalhadores, aproveitando a abertura política de 1979. O PT representou, para muitas pessoas que desejavam um país mais justo e mais humano, uma esperança concreta. Nascido das bases, alimentado pela luta contra a ditadura, foi gerado no seio do povo. Oscar filiou-se ao PT e participou de suas atividades desde que foi reconhecido como partido político, em fevereiro de 1982. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene ficou apreensiva. O presidente da república ainda era um general e muitos duvidavam da &#8220;abertura lenta, gradual e segura&#8221; promovida pelos militares. Entretanto, ao ver de novo o brilho nos olhos de Oscar, ela se alegrou. O caminho foi longo: luta pelas diretas já, a eleição e morte de Tancredo Neves, o governo de Sarney (um trânsfuga da ditadura) e finalmente a eleição direta de 1989 com Luiz Inácio Lula da Silva, a grande estrela do PT, como candidato.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar se empenhou na campanha com todo seu coração. Ainda tinha prestígio entre os eletricitários, visitou cada unidade da CEMIG. Participou de comícios, corpo a corpo nas ruas, vendeu botons e bandeirinhas.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene ajudou no financiamento da campanha e, unida à Associação dos Dirigentes Cristãos, participou ativamente da campanha. Ainda não foi dessa vez. Collor venceu as eleições no segundo turno.</span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Esse filhote da ditadura não devia governar. Não tem estofo, não tem apoio, é uma farsa.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Mas ele ganhou a eleição, Oscar.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− A rede Globo torceu o debate. A história do aborto foi um golpe sujo.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Calibri;"><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;">− Daqui a cinco anos nós vamos à forra, meu bem.</span></span></span></p>
<p><span style="font-size: medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Calibri;">Em vinte e nove de setembro de 1992 é votado o </span><em>impeachment de </em><span style="font-family: Calibri;">Collor. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene foi escolhida a &#8220;empresária destaque do setor supermercadista de 1994&#8221;.</span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">&lt;&lt;&lt; </span></p>
<p><strong><span style="color: #000000; font-size: medium;">Marlene era uma ganhadora, enquanto ele estava destinado a ter seus sonhos impedidos pelo desenrolar da história. Mas ela também tivera seus maus momentos, por compartilhar sua vida com ele.</span></strong></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">(Continua no próximo capítulo)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>bem querer &#8211; capítulo VI</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Mar 2014 17:54:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160; O devaneio levou Oscar para um tempo de muita esperança, muita luta e que resultou em muito sofrimento. &#62;&#62;&#62;  − Desse jeito vai ser difícil eu engravidar, só se for por obra do Espírito Santo. Você ficou dez dias no Rio, Oscar, sem mandar ao menos um telegrama! − Venha cá, meu bem, vamos tirar o atraso. − Ah, não! Primeiro você vai tomar um banho e comer alguma coisa. − Então vem comigo, preciso lhe contar. O comício foi lindo, tinha umas duzentas mil pessoas. O discurso do Brizola foi arrasador. Ver o Prestes sendo ovacionado, foi demais; eu chorei feito uma criança. Oscar saiu do chuveiro, envolveu a mulher com seus braços e beijou seus lábios com paixão. − Agora eu vou ter que tomar banho, você me molhou toda. − O Arraes falou bem como nunca. Sou fã do Arraes, ele é mais pé-no-chão que o Brizola, mais autêntico. Agora, o discurso do Jango foi uma apoteose. Quando ele anunciou a desapropriação das terras ao lado das ferrovias e rodovias, o mundo veio abaixo. As reformas estavam acontecendo! Anote essa data, Marlene: 13 de março de 1964. Eu vi a História sendo escrita! − Está bem, meu Che Guevara − disse Marlene se enxugando, − vou preparar um mexido para você. Quando a comida ficou pronta, Marlene chamou pelo marido. Ele não respondeu. Encontrou-o no quarto, ferrado no sono. Ela ficou olhando seu homem com um]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6901 aligncenter" alt="bemquerer capa" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg" width="714" height="1010" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong><span style="color: #000000; font-size: medium;">O devaneio levou Oscar para um tempo de muita esperança, muita luta e que resultou em muito sofrimento.</span></strong></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">&gt;&gt;&gt; </span></p>
<p style="text-align: center;" align="center"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-CAPVI.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6947 aligncenter" alt="bemquerer capa CAPVI" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-CAPVI.jpg" width="712" height="485" /></a></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Desse jeito vai ser difícil eu engravidar, só se for por obra do Espírito Santo. Você ficou dez dias no Rio, Oscar, sem mandar ao menos um telegrama!</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Venha cá, meu bem, vamos tirar o atraso.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Ah, não! Primeiro você vai tomar um banho e comer alguma coisa.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Então vem comigo, preciso lhe contar. O comício foi lindo, tinha umas duzentas mil pessoas. O discurso do Brizola foi arrasador. Ver o Prestes sendo ovacionado, foi demais; eu chorei feito uma criança.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar saiu do chuveiro, envolveu a mulher com seus braços e beijou seus lábios com paixão.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Agora eu vou ter que tomar banho, você me molhou toda.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− O Arraes falou bem como nunca. Sou fã do Arraes, ele é mais pé-no-chão que o Brizola, mais autêntico. Agora, o discurso do Jango foi uma apoteose. Quando ele anunciou a desapropriação das terras ao lado das ferrovias e rodovias, o mundo veio abaixo. As reformas estavam acontecendo! Anote essa data, Marlene: 13 de março de 1964. Eu vi a História sendo escrita!</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Está bem, meu Che Guevara − disse Marlene se enxugando, − vou preparar um mexido para você.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Quando a comida ficou pronta, Marlene chamou pelo marido. Ele não respondeu. Encontrou-o no quarto, ferrado no sono. Ela ficou olhando seu homem com um misto de ternura e decepção, levantou os olhos e viu, no espelho do guarda-roupa, uma mulher no esplendor de seus trinta anos. Passou a mão pelo seu ventre: reto, liso, ocioso, estéril.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar acordou tarde. Marlene estava lendo o jornal.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Estou com medo, Oscar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Medo de que, meu anjo?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Vai haver reação. Eles não vão perder seus privilégios e ficar quietos.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− O que eles podem fazer? É a força do povo! A força avassaladora da História!</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− A TFP já marcou uma passeata em São Paulo para amanhã.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Esses almofadinhas não têm colhões para enfrentar o proletariado.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Pode haver uma guerra civil. E você, como diretor de sindicato, vai estar envolvido.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Eles vão afinar. O esquema militar do governo está bem articulado. Ninguém vai enfrentar o exército. A reforma agrária é um decreto do Presidente. E, para dizer a verdade, é tímida, são somente as terras perto das ferrovias e das rodovias federais.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene entregou o jornal ao marido e foi cuidar do almoço. Oscar leu as notícias do Comício da Central do Brasil.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− O almoço está pronto, Oscar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar entrou na cozinha sorrindo. Abraçou a mulher por trás e ficou olhando as panelas fumegantes por cima dos seus ombros.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você me saiu uma boa cozinheira.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Mulher de proleta tem que se virar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Deixe-me ver estas mãozinhas. Que horror, suas unhas estão um lixo − disse com voz afetada, − que mãos lindas, fortes, mãos de quem trabalha, mãos de uma dona de casa.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Gostaria que fossem as mãos de uma mãe de família.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Sentaram-se à mesa e começaram a almoçar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Podemos adotar uma criança.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você também já desistiu? − Marlene olhou Oscar nos olhos.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Então você desistiu?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Foi castigo, Oscar. Ninguém foge da justiça de Deus.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Justiça de Deus! Castigo! O que é isso, Marlene?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Nós não devíamos ter feito aquilo. Podíamos ter esperado o casamento.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Ora, Marlene, nós só nos casamos porque você cismou que estava grávida.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Então você só se casou comigo porque eu fingi que estava grávida? − disse Marlene magoada.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Eu não quis dizer isso, meu bem. Casei-me com você porque te amo. Mas nós poderíamos ter esperado eu me formar e a nossa vida seria bem diferente.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você me seduziu, Oscar, esqueceu? Eu pedi para você parar.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− É, me pediu para parar com a voz sumida, os olhos revirados, a língua enrolada com a minha e as unhas cravadas em minhas costas. Até rasgou minha camisa. E era uma camisa novinha.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Minha língua não estava enrolada com a sua, estava quietinha! − Marlene começou a rir. − Você é impossível. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">A sesta foi deliciosa.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Os acontecimentos se precipitaram. &#8220;Eles&#8221; reagiram, conforme Marlene havia previsto. Forças políticas e econômicas; ameaça de intervenção americana; o medo do comunismo. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu quinhentas mil pessoas em São Paulo. Em 31 de março de 1964, tropas do exército saíram de Minas, com o apoio da polícia de Magalhães Pinto. </span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">No dia seguinte, Oscar chegou em casa à noitinha; estava exausto, mas ainda com esperança.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Ô, Oscar, você me mata de aflição. Você sumiu. Dois dias sem dar notícias.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Desculpe, meu bem. Não deu. Foi uma loucura de reuniões e reuniões.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Pra que, Oscar? Não vai adiantar nada. Você tem é que ficar quieto, se esconder.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Vai ter resistência, Marlene. Não podemos entregar os pontos assim, sem fazer nada. O Jango foi para o Rio Grande, tem o apoio do terceiro exército.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Dois de abril de 1964: Ranieri Mazilli assume a Presidência interinamente e João Goulart se exila no Uruguai.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">No dia três, Oscar não se levantou da cama. Preocupada, Marlene foi acordá-lo.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você está sentindo alguma coisa, meu bem?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Estou com uma vontade enorme de morrer, Marlene, de sumir no mundo. Se não fosse você, não sei o que faria.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Marlene passou a mão nos cabelos dele e beijou carinhosamente sua testa.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Estou preocupada com você. Papai disse para você passar uns tempos na fazenda do tio Juquita, lá em Corinto.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você vai comigo?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Não, Oscar, estou pensando em entrar para o cursinho. Quero fazer vestibular no final do ano, já que não posso ter filhos. Você concorda?</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">− Você não precisa de minha autorização.</span></p>
<p><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">Oscar foi preso na Estação Rodoviária, quando tentava embarcar para Corinto.</span></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">&lt;&lt;&lt; </span></p>
<p><strong><span style="color: #000000; font-size: medium;">Oscar preferia pular as páginas da memória que viriam. Vendo Marlene através da taça, sua figura cresceu em sua lembrança e em seu coração.</span></strong></p>
<p align="center"><span style="color: #000000; font-family: Calibri; font-size: medium;">(Continua no próximo capítulo)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>bem querer &#8211; capítulo V</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ildeu Geraldo de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Mar 2014 22:43:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160; Oscar sorriu, em seu devaneio. Marlene estava mesmo ansiosa por um filho. &#62;&#62;&#62; Passaram-se muitas luas. Os exames eram cada vez mais especializados, realizados em Belo Horizonte e depois em São Paulo. Oscar também se submeteu aos exames, mas com ele os resultados eram normais. Marlene recusava obstinadamente o diagnóstico de esterilidade. Oscar precisou de seu certificado de reservista para apresentar na Cemig. Revirou suas gavetas sem êxito. Resolveu olhar numa das gavetas reservadas à Marlene. A gaveta estava cheia de saquinhos de pano com uma rosa vermelha seca dentro. Quando Marlene voltou de sua visita diária à sua mãe, ele perguntou: − Para que são as rosas secas que estão na gaveta de sua penteadeira? − O que você foi xeretar na minha penteadeira? − Não acho meu certificado de reservista, tenho que apresentá-lo amanhã no serviço. − Vou pegar para você. Está numa das caixas que veio da casa de seus pais e que você não arrumou até hoje. A história das rosas vermelhas ficou sem explicação. Dona Zezé foi com seu Manoel assistir a inauguração de Brasília e voltou de lá empolgada com a nova capital. − Brasília sim, é uma cidade maravilhosa. O JK cumpriu sua promessa: cinquenta anos em cinco. − Mas a inflação está a vinte e cinco por cento. Adivinha quem vai pagar a conta: os empresários. − Acho que é o povo, seu Manoel. No final das contas, é sempre o]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6901 aligncenter" alt="bemquerer capa" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg" width="714" height="1010" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/02/bemquerer-capa-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Oscar sorriu, em seu devaneio. Marlene estava mesmo ansiosa por um filho.</strong></p>
<p align="center">&gt;&gt;&gt;</p>
<p style="text-align: center;" align="center"><a href="/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capV.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-6936 aligncenter" alt="bemquerer capa capV" src="http://www.contosefolhetins.com.br/wp/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capV.jpg" width="714" height="481" srcset="http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capV.jpg 793w, http://www.temp.contosefolhetins.com.br/wp-content/uploads/2014/03/bemquerer-capa-capV-300x202.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px" /></a></p>
<p>Passaram-se muitas luas. Os exames eram cada vez mais especializados, realizados em Belo Horizonte e depois em São Paulo. Oscar também se submeteu aos exames, mas com ele os resultados eram normais. Marlene recusava obstinadamente o diagnóstico de esterilidade.</p>
<p>Oscar precisou de seu certificado de reservista para apresentar na Cemig. Revirou suas gavetas sem êxito. Resolveu olhar numa das gavetas reservadas à Marlene. A gaveta estava cheia de saquinhos de pano com uma rosa vermelha seca dentro. Quando Marlene voltou de sua visita diária à sua mãe, ele perguntou:</p>
<p>− Para que são as rosas secas que estão na gaveta de sua penteadeira?</p>
<p>− O que você foi xeretar na minha penteadeira?</p>
<p>− Não acho meu certificado de reservista, tenho que apresentá-lo amanhã no serviço.</p>
<p>− Vou pegar para você. Está numa das caixas que veio da casa de seus pais e que você não arrumou até hoje.</p>
<p>A história das rosas vermelhas ficou sem explicação.</p>
<p>Dona Zezé foi com seu Manoel assistir a inauguração de Brasília e voltou de lá empolgada com a nova capital.</p>
<p>− Brasília sim, é uma cidade maravilhosa. O JK cumpriu sua promessa: cinquenta anos em cinco.</p>
<p>− Mas a inflação está a vinte e cinco por cento. Adivinha quem vai pagar a conta: os empresários.</p>
<p>− Acho que é o povo, seu Manoel. No final das contas, é sempre o povo quem paga − retrucou Oscar.</p>
<p>− Vamos parar com política. Trouxe para vocês as imagens de São Cosme e São Damião, um par de sapatinhos e uma vela dourada.</p>
<p>− Que sapatinhos lindos, mamãe.</p>
<p>− Está acontecendo alguma coisa que não estou sabendo? Vou ser pai, Marlene?</p>
<p>− Se vocês fizerem a simpatia direitinho, você será pai em breve − respondeu dona Zezé no lugar da filha, − tem que ser na lua cheia.</p>
<p>Na primeira noite de lua cheia, Marlene e Oscar se ajoelharam diante das imagens e da vela dourada, devidamente acesa, rezaram três ave-marias, deitaram-se e se amaram até a vela se consumir.</p>
<p>Com a lua nova veio a frustrante menstruação.</p>
<p>Oscar foi indicado pelos colegas para a CIPA &#8211; Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Começaram suas divergências com a chefia da Empresa. Ele exigia providências para a prevenção de acidentes. A chefia sempre atribuía os acidentes a atos inseguros dos trabalhadores. A CIPA, que sempre fora um órgão sem atuação, que existia apenas para cumprir a lei, passou a analisar cada acidente e a apontar as responsabilidades da Empresa.</p>
<p>Oscar passou a ser hostilizado pela chefia. Não podia ser demitido, devido à imunidade legal, que protegia os cipistas, mas foi sendo preterido nos treinamentos e nas promoções, apesar de ser considerado um dos melhores técnicos.</p>
<p>O assunto apareceu num dos almoços dominicais na casa dos pais de Marlene e, pela primeira vez, houve uma discussão entre o genro e o sogro. Quando se despediram, seu Manoel disse, em tom conciliador:</p>
<p>− Desculpe-me por meter a colher na sua vida; não gosto de vê-lo prejudicado em sua carreira por causa do seu idealismo.</p>
<p>− Eu é que tenho que me desculpar, seu Manoel, se fui indelicado com o senhor. É que todo mundo fica me dizendo que eu vou me prejudicar, mas eu tenho responsabilidades. É a segurança dos colegas que está em jogo.</p>
<p>Marlene não disse nada no retorno para casa. Ficava preocupada, mas admirava a integridade do marido e o apoiava. O silêncio de Oscar denunciava um conflito interno. Ele não queria se prejudicar e, principalmente não queria prejudicar Marlene, mas começava a ter consciência da oposição de interesses entre os trabalhadores e os patrões, daquilo que o pessoal do sindicato chamava de luta de classes.</p>
<p>− Me convidaram para participar da chapa do sindicato.</p>
<p>− Você aceitou?</p>
<p>− Não ia aceitar sem falar com você, Marlene!</p>
<p>− Você quer ser sindicalista?</p>
<p>− Não sei, Marlene, nunca me meti em política, mas tenho visto tanta coisa errada. Apesar da CEMIG ser uma empresa estatal, a mentalidade da direção é patronal. Na época dos acordos salariais eles jogam pesado. Imagina o que acontece nas empresas privadas, que são dirigidas pensando apenas no lucro? Temos que trabalhar muito para tomar o Sindieletro das mãos dos pelegos, que são sustentados pela direção da Companhia. Aí poderemos endurecer o jogo e conquistar mais vantagens para os trabalhadores.</p>
<p>− Eu te apoio, meu querido, qualquer que seja sua decisão.</p>
<p>− Este é o amor da minha vida!</p>
<p>Por insistência de Marlene, foram ao cinema, ver &#8220;Gigi&#8221;, que havia ganhado o &#8220;Oscar&#8221; em 1958 e que somente agora era exibido em Belo Horizonte. Vendo a expressão sonhadora no rosto da esposa, Oscar alfinetou.</p>
<p>− Eu não me daria a essa Gigi!</p>
<p>− Mas ela ganhou o &#8220;Oscar&#8221; e com muito mérito − retrucou Marlene.</p>
<p>− Dos indicados, eu acho &#8220;Acorrentados&#8221; muito melhor; um drama humano e não dessa historinha de mocinhas românticas.</p>
<p>− Sou mocinha romântica e ganho meu Oscar todos os dias − disse Marlene agarrando o braço do marido e pousando a cabeça em seu ombro.</p>
<p>Naquele ano de 1960, Jânio Quadros foi eleito presidente da república, prometendo varrer todos os problemas do Brasil.</p>
<p>Dona Zezé presenteou a filha com uma enorme reprodução da tela &#8220;Anunciação a Maria&#8221;, de Leonardo da Vinci.</p>
<p>− Sua madrinha trouxe de Roma. O quadro foi benzido pelo papa João XXIII. Coloque acima da cabeceira de sua cama. Toda noite, antes de deitar, você e o Oscar devem rezar o terço ou, pelo menos uma dezena.</p>
<p>− Toda noite, mamãe?</p>
<p>− Pelo menos naquelas em que vocês estiverem mais entusiasmados.</p>
<p align="center">&lt;&lt;&lt;</p>
<p>&#8220;<strong>A vida é mesmo estranha&#8221;, pensou Oscar, ele e Marlene tiveram suas vidas alteradas por causa de uma falsa gravidez, agora desejavam ardentemente um filho que não conseguiam gerar. A UDN lutou anos para eleger um presidente da república, agora embarcava na aventura de apoiar Jânio Quadros. &#8220;Em que isso vai dar?&#8221;</strong></p>
<p align="center">(Continua no próximo capítulo.)</p>
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