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	<title>Cosmicídio Atômico</title>
	
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	<description>Um blog que talvez seja de pequenas reflexões sobre política, filosofia, arte e X-Men. Vamos ver.</description>
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		<title>Elemento-Marx</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Mar 2012 04:41:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A maioria dos hipotéticos leitores do blog deve conhecer um pouco da história de O Senhor dos Anéis. Aquela coisa de Sauron não poder morrer enquanto o Anel não fosse destruído, mas morrer imediatamente com a destruição deste. O que quase ninguém deve saber é que o Tolkien não limitou essa idéia ao Anel e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A maioria dos hipotéticos leitores do blog deve conhecer um pouco da história de O Senhor dos Anéis. Aquela coisa de Sauron não poder morrer enquanto o Anel não fosse destruído, mas morrer imediatamente com a destruição deste. O que quase ninguém deve saber é que o Tolkien não limitou essa idéia ao Anel e Sauron, mas explorou a ideia na última fase de elaboração dos textos que compunham o Silmarillion. Tolkien era um cara engraçado, que escrevia estudos e ensaios sobre a sua própria obra, para ele mesmo ler e refletir. E foi num desses que explorou a ligação entre o Anel do Sauron com Morgoth, o primeiro e maior Senhor do Escuro a quem Sauron servia, o anjo caído das histórias tolkienianas.</p>
<p>O ensaio, chamado Melkor Morgoth (pois é, acho que tinha me enganado) defende que o Morgoth teria sido o primeiro a fundir sua essência com algo material, mas, diferentemente de Sauron, Morgoth não preparou nenhum objeto para tal. Quando Sauron criou o seu Anel, o seu propósito era o de controlar os anéis élficos, e por meio desses controlar os próprios elfos. A motivação principal de Sauron sempre foi o controle, mas a motivação de Morgoth era muito menos limitada. O que Morgoth queria fundamentalmente era escarnecer da obra de Deus, perventendo, destruindo e mutilando tudo o que fosse possível. Por Morgoth estar assim interessado em tudo o que existe e querer interferir com toda a existência, quis ele dar feição sua a tudo. Não porque quisesse elas para si, mas principalmente porque queria desnaturá-las, tirar daqueles que as tinham criado. Portanto, diferente de Sauron, que quis tanto ter um instrumento de controle que acabou por ficar essencialmente ligado a ele, Morgoth quis tanto entorpecer a existência que deu a todas coisas um pouco de si mesmo. Tolkien diz que Morgoth teria infundido em cada coisa um pouco de sua própria existência, algo que Tolkien chamou de elemento-Morgoth. Tudo no mundo mundano teria um pouco de Morgoth, uma espécie de água no chope universal. E pior, assim como Sauron só pode ser reduzido à impotência com o fim do Anel, o mesmo ocorre com Morgoth, só que no caso o anel de Morgoth é o próprio planeta. O mal teria, assim, se tornado insuperável dentro desse mundo, e seu fim só poderia acontecer com a ruína de todo o planeta.</p>
<p>Qualquer hipotético leitor do blog sabe que Marx tem a tendência de morrer mais ou menos uma vez por década. Mas, de uma forma ou de outra, ele acaba reaparecendo. Cada nova transformação no mundo do capital evoca Marx, e em cada nova aparição parece que ele nunca partiu realmente, só esteve no máximo em uma espécie de latência, pronto a aflorar novamente ao primeiro sinal de tempestade. Algo como uma água no chope liberal. Parece que, de tanto querer apreender as entranhas do capitalismo, Marx acabou se ligado a ele profundamente, e ficaram entrelaçados em seus destinos. Para se livrar de Marx o mundo do capital terá que se livrar de si mesmo. O capitalismo é o elemento-Marx.</p>
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		<title>Escrito num trem (ou avião, não lembro mais).</title>
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		<comments>http://diasmartins.net/ivan/2011/10/escrito-num-trem/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 31 Oct 2011 12:30:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dialética]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Marx]]></category>

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		<description><![CDATA[.
O conceito de História (A Ideologia Alemã):
A história é o modo de autoprodução humana = Transição da natureza, do modo externo e subsumido de ser, para a autodeterminação.
Ponto culminante : autodeterminação da autodeterminação: História enquanto tal: comunismo.
O momento da história (propriamente dita) é o da História Mundial.
O conceito de Capital (A crítica da Economia Política):
O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1><span style="color: #ffffff;">.</span></h1>
<h1>O conceito de História (A Ideologia Alemã):</h1>
<p>A história é o modo de autoprodução humana = Transição da natureza, do modo externo e subsumido de ser, para a autodeterminação.</p>
<p>Ponto culminante : autodeterminação da autodeterminação: História enquanto tal: comunismo.</p>
<p>O momento da história (propriamente dita) é o da História Mundial.</p>
<h1>O conceito de Capital (A crítica da Economia Política):</h1>
<p>O capital como a entidade e subjetividade do capitalismo. Homologia entre cada capital e o capital social total. Cada parte atualiza o todo (isto é, naquilo que o define, a sua abstração).</p>
<p>Indiferença em relação à matéria, tudo é mercantilizável, tudo é capital potencial.</p>
<p>Toda atividade, <strong>na sua conexão social</strong>, se torna valor: o valor é a conexão social, o modo do intercâmbio geral, modo da sociabilidade, (tornada, produzida) como pressuposto do capital: o processo de constituição do valor é o processo de pressuposição do capital. A circulação (conexão dos atos de troca), assim como a acumulação primitiva, são os momentos interno e externo desse processo.  Processos que passam um no outro, mas não cessam.</p>
<p>O capital é, assim, tanto o modo de existência quanto a forma que a ele se impõe e a ele subsume (a auto-divisão e o dilaceramento íntimo a que o jovem Marx alude). <strong>Capital, portanto, é a história</strong>, o modo como a conexão social se dá, na temporalidade de uma transição capitalista incessante, bem como na temporalidade cíclica da reprodução do modo de produção: Momentos que se penetram, como transição que se reproduz em ciclos assimétricos, e como reprodução ampliada que progride o nível das relações capitalistas e torna insuficientes ou ultrapassadas as relações capitalistas, na sucessão dos seus ciclos.</p>
<h1>Ponto de chegada (A Ideologia, o Manifesto e a Crítica da Economia Política).</h1>
<p>O capitalismo se inaugura como constituição da história mundial. Seu berço é o primeiro nível do mercado mundial. Um espaço que se dá em níveis é próprio e fundamental a um processo social que se dá em níveis e momentos. (Níveis e momentos autodeterminados, que derivam de seu próprio conceito &#8212; Derivam, não, constituem.</p>
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		<title>Revisionismo contra Chico Buarque</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 07:09:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Uns amigos no twitter discutiam sobre os novos alvos da onda revisionista, neo-con ou neo-renegada, agora em cima do pobre do Chico Buarque. Eu já havia esbarrado com uma coluna do imbecil do Artur Xexéo publicando uma espécie de errata em cima do uso de um trabalho italiano sobre o Chico para justificar a idéia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uns amigos no twitter discutiam sobre os novos alvos da onda revisionista, neo-con ou neo-renegada, agora em cima do pobre do Chico Buarque. Eu já havia esbarrado com uma coluna do imbecil do Artur Xexéo publicando uma espécie de errata em cima do uso de um trabalho italiano sobre o Chico para justificar a idéia de que a imagem de resistente do Chico teria nascido como jogada de marketing da sua gravadora italiana. Xexéo citava um historiador da UFF, que por sua vez supostamente citava um pesquisador italiano, que escreveu com manifesta indignação quanto ao uso de sua obra para os fins revisionistas. Mas não tinha tido acesso ao texto do próprio brasileiro. Agora, via meus amigos twitteiros, eu tive. Recomendo a leitura:</p>
<p><a href="http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/Quando_a_versao_e_mais_interessante_do_que_o_fato_-_A_Construcao_do_mito_Chico_Buarque.pdf">http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/Quando_a_versao_e_mais_interessante_do_que_o_fato_-_A_Construcao_do_mito_Chico_Buarque.pdf</a></p>
<p>Não me recordo, agora, pelo menos, em plena madrugada, de ter lido um texto de história tão ruim quanto essa peça. Digo com sinceridade. É tão ruim que é difícil de comentar, porque se é óbvio que o texto tem uma clara linha subjetiva, isto é, tem um eixo de motivação, objetivamente o texto não tem linha argumentativa alguma. Os supostos argumentos se acumulam sem nem vislumbre de conexão, formando um misto de crítica moralista com propósito revisionista desmistificador, desencantador. Pior, nem mesmo é cínico o texto, é pura e simplesmente estúpido. Pior, os supostos argumentos, além de não serem argumentos para nada como um argumento central, são, em sua maioria, simples <em>non sequitur</em>, um após o outro.</p>
<p>O que o texto quer questionar é a suposta unanimidade do compositor, que estaria ligada a uma espécie de nicho cultural que o autor teria ocupado através da imagem a ele se ligou de o &#8220;resistente ideal&#8221; à Ditadura Militar. Os supostos argumentos, entretanto, não se dão quanto a esta linha, mas como que se focam em cada um desses pontos isoladamente. Assim, por exemplo, se questiona desde se o Chico deveria ser tão unânime não sendo tão reconhecido internacionalmente quanto Tom jobim ou não vendendo tantos discos quanto Roberto Carlos, até se a imagem de resistente ideal é justa em relação a alguém que não manteve uma posição de rejeição absoluta em relação à Rede Globo, passando por se o cantor, devendo seu sucesso inicial às aspirações de identidade nacional da burguesia e da classe média alta, não teria se elitizado depois, cantando então para as mesmas classes. (Num exemplo, Chico é culpado tanto de ter composto <em>Bom Tempo</em>, música alienada dos tempos tensos de 68, quanto de não ter assumido a mesma música, não a incluindo em seus discos, apesar de sua beleza.) O ecletismo da &#8220;crítica&#8221; é um tanto desconcertante&#8230;</p>
<p>O alvo é minar (&#8220;relativizar&#8221;, ele diz) o status da unanimidade, enquanto que a aparência de argumento seria, por um lado, a construção da imagem de resistente, que, quer pelo próprio compositor, quer pela mídia ou pela sua audiência, já contém em si algo de desabonador (provavelmente pela suposição de romantização, artificialidade, falta de honestidade ou, pior, de humildade &#8211; todas críticas morais), e de outro lado, a suposta injustiça da imagem de resistente. E essa espécie de culpabilização não exatamente confessada que o artigo tenta construir tem uma limitação pode ser chamada de estrutural: praticamente todas as citações e dados que o autor utiliza para relativizar a imagem de resistente do cantor são retiradas de entrevistas do próprio Chico, dadas nos variados momentos em que a imagem do resistente estaria se construindo e disponibilizadas pelo próprio em seu site. E são, na sua maioria, entrevistas com o propósito manifesto de relaxar esta imagem mesma. O que sobra, parece, é que a maior culpa, e isto é de insinuado especialmente quando o historiador aborda o surgimento de <em>Construção</em>, do próprio Chico em ter formado em torno de si a imagem de resistente foi ter composto músicas, peças, livros, dado entrevistas e criado subterfúgios para se exprimir contra o Regime Militar. O maior pecado de Chico foi ter sido resistente&#8230;</p>
<p>De resto, há ainda simples má-fé do pesquisador. Por exemplo, um dos pontos (meio que) centrais do artigo é relativizar a perseguição que o cantor sofreu pela ditadura. Assim, a passagem de Chico pela polícia política é ironizada através do exagero da mídia italiana, ressaltando que, <em>ao contrário de Gil e Caetano</em>, Chico só teria sido convocado a prestar depoimento. Só esquece ele de informar que a &#8220;convocação&#8221; se deu pelos homens do DOPS visitando de madrugada a casa do compositor e levando-o para um interrogatório de várias horas. (Omite ainda outras passagens de Chico pela polícia, nos anos 70.) Também se esforçar para recusar o caráter de exílio voluntário ao tempo que Chico passou na Itália, embora citando os grandes problemas financeiros que o compositor passou por lá. Parece, para o articulista, que Chico foi a Itália brincar de passar perrengue, enquanto podia muito bem ter ficado pelas terras brasileiras. Também omite, na recepção carnavalesca do retorno de Chico da Itália, que esta recepção, longe de indicar uma distensão do ambiente político, foi armada pelo próprio Chico com o propósito de visibilizar sua presença e protegê-lo de uma possível perseguição.</p>
<p>Queria fazer uma seleçãozinha de melhores momentos, mas o PDF não me deixa copiar os trechos. Mas é especialmente divertido ver como o autor levanta certos argumentos e arrola uma citação como justificativa em seguida, com o porém de a citação não conter nem traço do que supostamente deveria justificar. Exemplo, o autor jura que a questão do Chico com a Globo se devia mais a tal diretor autoritário e para isso, em dois momentos distintos, se utiliza de duas citações, em que em ambas não só o Chico levanta outros motivos para sua desavença com a emissora com em nenhuma delas há sequer menção ao suposto diretor.</p>
<p>Enfim, não é história, é um tipo de jornalismo bizarramente mal-feito.</p>
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		<title>Três teses transitórias</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 15:02:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Marx]]></category>

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		<description><![CDATA[1) Todo pressuposto pressupõe uma pressuposição.
2) Toda pressuposição põe um pressuposto.
3) A realização de um pressuposto é a realização de uma pressuposição.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1) Todo pressuposto pressupõe uma pressuposição.</p>
<p>2) Toda pressuposição põe um pressuposto.</p>
<p>3) A realização de um pressuposto é a realização de uma pressuposição.</p>
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		<title>O novo do Chico.</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 02:28:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Ganhei de aniversário o novo disco do Chico Buarque (Chico) e desde então tenho escutado ele algumas vezes por dia. Agora há pouco foi a primeira vez que escutei acompanhando todas as letras, que vem encartadas, aliás, como deveriam todas as letras do Chico, sempre. Venho passar minhas impressões.
A primeira coisa que se nota no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ganhei de aniversário o novo disco do Chico Buarque (<em>Chico</em>) e desde então tenho escutado ele algumas vezes por dia. Agora há pouco foi a primeira vez que escutei acompanhando todas as letras, que vem encartadas, aliás, como deveriam todas as letras do Chico, sempre. Venho passar minhas impressões.</p>
<p>A primeira coisa que se nota no disco, facilmente, é o quão diferente ele é do penúltimo disco, <em>Carioca</em> de 2006. Esse, que muitos dizem não gostar, é na verdade muito bom, e já escutei algumas centenas de vezes. Mas era um disco que levava ao extremo uma tendência já presente desde o final dos anos oitenta no autor, a da música feita como por quem olha da janela. Poesia de cronista, dizem, com várias camadas de distância em relação ao que fala. Coisas por vezes vivíssimas, ou muito elaboradas, mas todas, ou quase todas, na mesma toada.</p>
<p>Pois bem, este disco joga a janela fora completamente. Algo que eu realmente não previa, julgava que essa tendência só se consolidaria cada vez mais. O disco é incrivelmente homogêneo, mas não por uma unidade de perspectiva, como os últimos. É um disco claramente marcado por um acontecimento fora de lugar, que parece ter colocado o Chico de volta em terrenos pelos quais já não andava há tempos. É, aberta e desavergonhadamente, aquilo que todas as redações de caderno cultural anunciam: um disco sobre o seu novo namoro.</p>
<p>É deveras divertido ver essa aparição e como o Chico explora essa situação no mínimo curiosa. Desde a primeira música , <em>Querido Diário</em>, o autor apresenta a sua situação esquisita de ser um velho, já começando a ter suas preocupações nebulosas da velhice, surpreendido pela paixão fora de hora. A situação é o clima envolvente do disco todo, a da alegria jovial em meio à penumbra. O resultado é um disco extremamente leve, generoso, de um bem inesperadamente recuperado, para além da terra das expectativas declinantes.</p>
<p>O disco, porém, não é monotemático. Mas a abordagem bem-humorada se expande para outras faixas que também abordam o amor, como <em>Rubato</em>, música que se rouba a ela mesma, ou chegam mesmo à divertida investida nas conexões caóticas da memória que vai perdendo o trilho, Barafunda, numa versão leve do mesmo tópico do seu último romance, <em>Leite Derramado</em>.</p>
<p>Além disso, o disco chega a outros pontos. Há a encarnação, em parceria com Ivan Lins, na composição, e com Wilson das Neves, na execução, do freqüentador da gafieira confiante no seu taco. A tiração de onda, no entanto, não me atraiu muito, já foi usada algumas vezes. Há, também, ainda outra encarnação, em outra parceria, dessa vez com João Bosco, em <em>Sinhá</em>. Desta vez Chico é um escravo no suplício, enredado num destino que concentra nele mais fardos do que pode resistir. É um dos pontos altos do disco.</p>
<p>A bela <em>Nina</em> é talvez o mais próximo que o disco chega dos imediatamente anteriores, com uma espécie de relacionamento hipotético, investigado pela tela do computador. E o único momento de aperto no coração fica na singela <em>Sem Você 2</em>, poema do espírito que se resigna.</p>
<p>Esta última permite ainda ilustrar outro fato notável do disco. Mais do que qualquer outro do qual possa me lembrar, as letras deste são bastante independentes da música, quase que como escritas para um livro de poesias. Exemplificando, com a letra da supracitada:</p>
<blockquote>
<p style="padding-left: 30px;">Sem você</p>
<p style="padding-left: 30px;">É o fim do show</p>
<p style="padding-left: 30px;">Tudo está claro, é tudo tão real</p>
<p style="padding-left: 30px;">As suas músicas você levou</p>
<p style="padding-left: 30px;">Mas não faz mal.</p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">Sem você</p>
<p style="padding-left: 30px;">Dei pra falar a sós</p>
<p style="padding-left: 30px;">Se me pergunto onde ela está, com quem</p>
<p style="padding-left: 30px;">Respondo trêmulo, levanto a voz</p>
<p style="padding-left: 30px;">Mas tudo bem.</p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">Pois sem você</p>
<p style="padding-left: 30px;">O tempo é todo meu</p>
<p style="padding-left: 30px;">Posso até ver o futebol</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ir ao museu, ou não</p>
<p style="padding-left: 30px;">Passo o domingo olhando o mar</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ondas que vêm</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ondas que vão.</p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">Sem você</p>
<p style="padding-left: 30px;">É um silêncio tal</p>
<p style="padding-left: 30px;">Que ouço uma nuvem</p>
<p style="padding-left: 30px;">A vagar no céu</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ou uma lágrima a cair no chão</p>
<p style="padding-left: 30px;">Mas não tem nada, não.</p>
</blockquote>
<p style="padding-left: 30px;">
<p>Enfim, é um ótimo disco, que se aloja no seu ouvido e vai se acomodando. Uma prova incrível de vitalidade e de mudança de rumos. É o Chico dizendo: &#8220;Mas eu não quebro, não, porque sou macio&#8221;.</p>
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		<item>
		<title>Do túnel do tempo (mais exatamente, da época dos embates na lista do CAHis)</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2011 02:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Marx]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, procurando por um contato do mestrado da UERJ, me encontro, sabe-se lá por que, com uma longa troca de e-mails ocorrido na lista de e-mails do Centro Acadêmico de História há uns dois anos e meio, quando ainda era comum a galera da Direita bater ponto lá para dizer que o movimento era todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje, procurando por um contato do mestrado da UERJ, me encontro, sabe-se lá por que, com uma longa troca de e-mails ocorrido na lista de e-mails do Centro Acadêmico de História há uns dois anos e meio, quando ainda era comum a galera da Direita bater ponto lá para dizer que o movimento era todo vanguardista, autoritário, etc. Na falta de teóricos, eles apelavam para Olavo de Carvalho ou, o preferido do momento, o George Orwell do 1984. A onda era dizer que o marxismo era, por essência, autoritário, totalitário e, claro, uma fraude intelectual, como toda a dialética. A discussão em questão era com o mais imbecil dessa turma, um tal de Filipe Fonseca, que ninguém sabia quem era. Mas uma mensagem em especial que respondi a ele me agradou, agora que li, em alguns pontos. O principal é que estava naquela época bem mais ativo politicamente, atuando no CAHis, e por isso estava mais atento a algumas questões que agora não tenho pensado tanto. Por isso, decidi reproduzir o e-mail abaixo, só tenho que contextualizá-lo um pouco. Não valeria a pena postar toda a seqüência de e-mails, e na verdade nunca reproduziria os argumentos daquele rapaz idiota num espaço meu. Só é necessário dizer que os e-mails anteriores rodaram entre pequenos e descontextualizados fragmentos do Manifesto Comunista sobre a violência revolucionária. Bom, no mais, posto também como lembrança desse período absurdamente importante na minha vida que foi essa atuação no CAHis, que passei do lado de amigos que, hoje, estão lidando com a crise de final de faculdade.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Filipe,</p>
<p>Vou tentar mostrar como uma concepção tal de como o  pensamento se dá vai contra os seus próprios objetivos. Se o pensamento  for íntimo, ele só pode lidar com o mundo como algo de externo,  representando-o a si. Uma vez que você apreende coisas ao longo da vida,  essa representação sempre muda. Sua <em>visão do mundo</em> sempre está a  mudar, e mais na medida do seu próprio movimento do que, ao que se pode  perceber, do movimento do mundo nele mesmo. Pior, é impossível separar  nessa representação o que é dado da percepção e o que é inferência sua,  própria. Todo ato de inferência é um estupro da percepção pura,  entretanto, sem inferência é impossível identificar a chuva como  fenômeno, e não como multidão de pingos em suas próprias identidades.  Então não simplesmente tudo o que você tem do mundo é um vislumbre  incerto, como necessariamente deturpado. Toda e qualquer certeza só  poderiam achar-se na idealidade pura. Todo julgamento sobre a realidade  nunca pode ser justo ou certo, somente autocoerente. Toda verdade é  precária, necessariamente precária, como na epistemologia de Popper. O  mundo é incognoscível. Este é o pensamento íntimo, tomado à sério.</p>
<p>Esta não é a concepção marxiana, entretanto. Marx é um realista, mas  um que pensa através da dialética de Hegel. Para ele, o pensamento não é  íntimo, mas mundial. Lida com os dados da experiência como abstrações  de um todo sempre concreto, e seu objetivo é recuperar num movimento de  idéias articuladas esta multidão de expressões isoladas, para acompanhar  o movimento real que as expressa. A realidade não é incognoscível, mas  sempre em conhecimento. Mas, justamente, a sua posição no processo real  não pode ser anulada. Mas mais que isso, é o processo real que não pode  ser deixado de lado. A inconsistência logo se apresenta, quando um  pensamento abstrato busca entender o mundo. Por isso as filosofias  abstratas se refugiam além do mundo, onde há uma certeza puramente  lógica.</p>
<p>Mas há, entretanto, um nível raso de pensamento onde a  inconsistência nem chega a se mostrar, que é o nível do senso comum, que  é o nível do liberalismo. O liberalismo supõe o mundo já pressuposto,  cada coisa como isolada e isolada em seu direito. O mundo como meio  externo é o mundo das coisas que realizam coisas por si, movidas por  sabe-se lá que impulso misterioso, íntimo. Nada se explica no  liberalismo, é só um sistema moral que diz que o direito das coisas está  onde o próprio liberalismo as localiza e que tem uma única solução para  todos os problemas que este mundo liberal apresenta: este mundo precisa  ser mais liberal. Nada é, ao mesmo tempo, mais empírico e utópico que o  liberalismo.</p>
<p>Mas, claro, você não é um liberal puro. É um conservador <em>hardcore</em>, para o qual mesmo a moral liberal não é suficiente, certo? Quando você se refere a <em>uma</em> moral sempre existente, não importa em que sociedade, você não está  falando da moral liberal que é natural, mas tem que ser protegida. Esta  moral a que você se refere é a moral inumana, uma moral universal em  toda a acepção da palavra. Seu único referente é Deus (e no singular).  Dentro dessa perspectiva, de fato, qualquer coisa que não tenha esta  moral como parâmetro é relativismo moral. Isto tem um nome em filosofia:  tautologia. É o mesmo que dizer &#8216;verde é verde&#8217;.</p>
<p>Não foi esta moral que permitiu a Marx escever, falar, existir. Foi a  incompletude desta moral. Se todos os homens partilhassem do mesmo  código moral, de fato Marx não teria a quem falar. A sociedade de Marx  possibilitou a crítica porque era uma sociedade crítica, uma sociedade em  crise. E justamente por estar em crise que suas instâncias de proteção,  fundamentalmente os estados, o exilaram uma dúzia de vezes, fecharam  seus jornais, etc. A crise garantiu tanto a repressão quanto o público.  Porque a sociedade é múltipla, não una sob uma lei moral divina. Nem é o  estado sob propósito liberal que a preserva assim. É por isso que Marx  aposta na revolução. A revolução é socialista não porque segue um  direcionamento ideal, mas porque é um movimento de expansão da  socialização, da expansão do espaço comum que ultrapasse a segmentação  não dos indivíduos, mas do que torna uns indivíduos donos da vida  produtiva de outros, que é o capital, a propriedade privada tornada  viva. Uma revolução que ele não está propondo, mas buscando ajudar a  existir, que pré-existe no movimento operário que está vendo nascer.</p>
<p>Você condena o marxismo, pois ele assinou milhões de pessoas. Mas  você esquece que não foi o marxismo, como um poltergeist, que executou  essas pessoas. Foram estados, em sua maioria, que se declaravam  marxistas e que se buscavam marxistas. E este foi o seu erro, e seu  crime. Pois ao buscar adequar suas sociedades às idéias em uma doutrina,  trataram o mundo como meio externo, o reificaram e criaram uma  pragmática pretensamente revolucionária. Abstracionalizaram a violência e  a utilizaram como meio, como instrumento, mesmo quando estados não  foram os protagonistas. Isto porém, para alguém que busque um  entendimento marxista do mundo, não ocorre por uma inclinação mórbida de  uma linha de pensamento, mas porque não existe movimento que faça do  mundo tábula rasa. Assim como o capitalismo se expandiu e se expande por  uma infinidade de determinações não-capitalistas, estes homens e  estados que buscaram o socialismo o fizeram num mundo não-socialista,  marcado por determinações capitalistas e pré-capitalistas. Um mundo onde  a reificação reina, ou estruturas de poder autocráticas. Modos de ação  pré-existentes capturaram enormemente as soluções àqueles problemas que  se mostravam mais urgentes. Paredões, por exemplo, não são mais que  atualizações socialistas da justiça militar precedente, nos quadros de  movimentos muitas vezes militarizados. Assim como, também, o movimento  operário contemporâneo a Marx não tirou seus modelos de ação do nada,  bebendo no repertório revolucionário (não simplesmente popular, mas  também burguês) que os precedeu. A construção de uma pragmática  revolucionária somente facilitou estas capturas. Claro, novas formas  surgiram,  e, dependendo do caso, foram as mais determinantes. Em outros  casos, prevaleceram em geral as mais próximas às pré-existentes. Falam  em socialismo realmente existente, em regimes socialistas, mas o  socialismo não é um regime, muito menos um modelo de regime. As formas  socialistas da União Soviética não são as mesmas de Cuba, por exemplo, e  isso na comparação de dois socialismos estatais. Um entendimento do  tipo se revela ridículo se se comparam as formas da Albânia com às dos  estudantes europeus nos movimentos do final da década de 60, começo da  de 70. A multiplicidade é inevitável porque se tratam de movimentos que  reunem muitas realidades próprias cada uma. Estudar cada vírgula de cada  escrito de cada marxista vivo ou morto nunca poderá resolver as razões  de ser diferentes de cada um destes movimentos.</p>
<p>E é justamente por serem movimentos é que não há uma herança  marxista, de vitórias ou crimes, que se imponha aos que hoje se buscam  socialistas. Há uma memória que deve ser subordinada à luta, não para  ser instrumentalizada, mas para que reflitamos sobre as dificuldades e  problemas que cada movimento de resistência ao capitalismo já enfrentou.  Por isso é que o fato de Stalin ser um dirigente socialista não põe em  xeque o socialismo, porque este não é um messianismo, mas um movimento  de crítica.</p>
<p>Quanto aos recortes do Manifesto que você selecionou, comprovam o  que eu disse. A violência é parte de um movimento de crítica, está em  movimento. É violência literal, sem sombra de dúvida, e eu nunca o  neguei. É violência que se dá nos corpos, contra as estruturas que se  escudam nestes corpos. Nem sempre é morte, mas sem dúvida não a exclui.  E?</p>
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		<title>Sobre “Uma criatura dócil” de Dostoiévski</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Jan 2011 18:27:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Terminei agora, nesse instante, de ler muito rapidamente, em uma madrugada e um final de manhã, essa pequena novela de Dostoiévski, que é tão admirável quanto qualquer outra obra do autor (que eu tenha lido, claro). Como me acostumei recentemente, li também o breve posfácio acrescido na edição da Cosac Naify e a orelha, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Terminei agora, nesse instante, de ler muito rapidamente, em uma madrugada e um final de manhã, essa pequena novela de Dostoiévski, que é tão admirável quanto qualquer outra obra do autor (que eu tenha lido, claro). Como me acostumei recentemente, li também o breve posfácio acrescido na edição da Cosac Naify e a orelha, que comentam a estrutura e temática do livro. Sempre evitei ler essas notas sobre obras, pois além de em geral discordar bastante da maioria, me sinto invadido de qualquer maneira em minha apreciação da obra. Para piorar, o tom que a crítica literária costuma assumir muitas vezes me parece cínico, antes inteligente que estético. Porém, como disse, passei a ler esses posfácios, com certo esforço de estômago, mas também para confronto com as minhas próprias impressões, que não se beneficiam sendo isoladas. E, por fim, desenvolvi também um respeito salutar pelas interpretações, afinal às vezes bastante sinceras, e, mesmo, até inspiradas.</p>
<p>Enfim, acima de qualquer outro motivo, passei a desenvolver o pensamento especialmente pela discordância, hábito antigo, reforçado pelo estudo e pela política. Estender esse hábito a impressões estéticas passou por buscar desfetichizar a minha própria relação com a arte. Dessa maneira, e para pôr fim ao falatório, retomo o ponto das notas sobre <em>Uma criatura dócil</em>. A crítica presente na dita edição vê na história um estudo sobre a opressão, sobre o poder tirânico de um homem definitivamente mesquinho sobre a moça dócil e do prazer vil da dominação. Vê, também, como não poderia deixar de ver, o trágico dessa relação, o desencontro e descompasso entre as criaturas e o desastre como fim inevitável do esquema. O protagonista é um homem “do subsolo”, isto é, uma alma consumida por uma torpeza de caráter, por um emaranhado de tendências conflituosas e inquietantes, de baixa potência, mas profundamente enraizadas, como que naturalmente as mais próprias ao homem (ou a alguns homens, talvez os mais civilizados), se fosse possível a ele mesmo se deparar face a face com este abismo, muito mais insidioso que arrebatador, e que, entretanto, exige uma enorme coragem e esforço para dele escapar. (Esta, entretanto, é só a imagem que eu mesmo tenho do subsolo, que pode ser bastante distinta para a crítica.) De fato, é evidente a ligação desta novela com<em> Memórias do Subsolo</em>, escrita doze anos antes. Em ambos há o longo monólogo e a verborragia, em ambos o protagonista é uma criatura profundamente afundada neste subsolo. As diferenças, entretanto, são muitas. Enquanto em <em>Memórias</em> o personagem discursa e tagarela, retirando prazer da apresentação mais abjeta que pode de si mesmo enquanto é relativamente conciso na contraparte narrativa de seu relato, a parte verdadeiramente trágica, que fecha seu destino àquele homem doente que se apresenta, em <em>Uma criatura dócil </em>o penhorista não tem idéia clara nem de seu próprio caráter, nem do lhe aconteceu. Este busca apreender a sua própria história, em aberto desespero incessante de perguntas que nenhuma resposta poderia resolver. Em <em>Memórias</em> o desespero é o do próprio leitor, ao ver emergir o subsolo, a doença.</p>
<p>A crítica, porém, decifra o que escapou ao protagonista, tanto sua história, de lógica mercantil e “pendular”, quanto seu caráter, “tirânico”. A moça se torna objeto do agiota, que de fato a todo momento disputa o domínio na relação com a criatura infantil. A questão, entretanto, me parece residir no caráter dos sonhos do agiota. Ele sonha em ser decifrado, ou melhor, em que a moça encontre nele o caráter nobre que a sua vida inteira pareceu negar. Na pureza daquela está a sua esperança. Entretanto, esta esperança é uma iniqüidade a mais na natureza do agiota, um apetite por obter algo de valioso, reconhecimento por outro e para si mesmo, que afaste as suspeitas sobre seu próprio valor e ainda lhe garanta a devoção completa da sua esposa, ou se trata de outra coisa? Para mim a tragédia consiste justamente nessa esperança. Ao planejar para eles um desfecho absoluto, um amor completo, sem fracionamento, o penhorista só pode se apresentar como um enigma, e sua resposta, que a pureza juvenil da moça, natural, gratuita, reconheça a nobreza experimentada, obtida de alguma maneira obscura na vida do agiota, talvez na aversão que tem pelo ridículo, pela severidade que se impôs, ou talvez ainda pelo próprio desafio que lança silenciosamente à jovem, em que o reconhecimento do seu valor que anseia encontrar nos olhos da jovem testa também a capacidade da jovem de fazer passar a sua docilidade do estado pueril,  natural, para uma docilidade sublime, resistente. A relação dos dois, então, mobiliza todas as tendências iníquas do agiota, num jogo de poder exercido pelo silêncio raramente pontuado, que mede  o desenvolvimento dos planos do agiota, buscando sempre decifrar os sinais da própria jovem, imersa, entretanto, num silêncio muito mais completo. Só a quebra do silêncio, enfim, revela a distância insondável entre a fantasia do agiota e a realidade, seja esta qual for. A tentativa desesperada, entretanto, de implodir a distância entre os conjuges só poderá dar fecho ao desastre do agiota.</p>
<p>Apesar da brevidade da história, com certeza ela abarca muitos aspectos a serem avaliados e interpretados. Não pretendo de maneira alguma realizar uma interpretação exaustiva, mas só marcar um ponto bem específico, que considero que a interpretação contida nas notas da edição da Cosac Naify não privilegia. O que salta aos meus olhos em <em>Uma criatura dócil</em> é ver mais uma vez a vaidade como uma tragédia, nascendo o orgulho da consciência de seus defeitos e tendências mais desprezíveis e, mais importante, da consciência de sua própria fraqueza em superar essas tendências, da covardia rematada em pusilanimidade. Não é, porém, uma conclusão moralista. Dostoiévski não se aproxima da corrupção com tema ou objeto, nem investiga suas causas, ou a denuncia. Trata, antes, do horror que é a sublimação (ela mesma necessariamente fracassada) de uma vida mutilada. É, assim, uma apresentação desse horror, e um combate em seus próprios termos com ele. Sem ser uma prescrição ética, o autor não deixa de colocar em cena as suas próprias armas, um entendimento agudo para percorrer as linhas do acontecimento trágico e a insistência, não sem riscos, em fazer emergir o problema ético: a enorme coragem exigida para fazer do intenso conflito dos movimentos psíquicos uma dinâmica de si, de, assim, tomar responsabilidade da sua própria vida.  Coragem e esforço, labor, que é a coragem desdobrada na vivência do tempo.</p>
<p><em>Uma criatura dócil</em> traça de forma negativa (provavelmente a única forma que pode ser apresentada como definitiva – tal como se definitiva) esta luta, no fracasso em ter-se consigo sua própria definição, numa fuga para frente, para um outro que só pode ao mesmo tempo ser e não ser cultivado para a tarefa de apresentar para o agiota a sua própria verdade. Fracasso e embate se desenvolvem no mesmo trilho, ambos, ocorrendo, não podendo porém colidir, até que os caminhos se fechem, o que só pode se dar de fora. Enfim, a apresentação de Dostoiévski prima pela extrema concretude de sua construção, da apreensão de uma questão em sua implicação efetiva. Afinal de contas, é simplesmente uma obra admirável.</p>
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		<title>Aí</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 00:15:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Seus olhos, fechados?
Podem estar, nesse momento
Em que tudo parece estar acontecendo?
Mas não aqui, lá fora,
Onde as coisas se insinuam
E andam espreitando,
Embora todos saibam que estão por aí
Ainda se escondem,
Se subtraem à atenção,
Ofuscam-se, dissimulam-se
E gemem.
.
As coisas lá fora
E você dentro, mas não aqui
Não onde eu possa ter certeza que seus olhos estão abertos
E que seus ouvidos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Seus olhos, fechados?</p>
<p>Podem estar, nesse momento</p>
<p>Em que tudo parece estar acontecendo?</p>
<p>Mas não aqui, lá fora,</p>
<p>Onde as coisas se insinuam</p>
<p>E andam espreitando,</p>
<p>Embora todos saibam que estão por aí</p>
<p>Ainda se escondem,</p>
<p>Se subtraem à atenção,</p>
<p>Ofuscam-se, dissimulam-se</p>
<p>E gemem.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>As coisas lá fora</p>
<p>E você dentro, mas não aqui</p>
<p>Não onde eu possa ter certeza que seus olhos estão abertos</p>
<p>E que seus ouvidos captam os gemidos</p>
<p>E que as silhuetas das coisas que espreitam se desenham na sua mente,</p>
<p>Sem saber se você espera a sua vinda</p>
<p>Ou talvez a minha, se imagina se te imagino desprecavida.</p>
<p><span style="color: #ffffff;"> .</span></p>
<p>Mas se imagina, para onde eu poderia levá-la,</p>
<p>Que lugar poderia ser este, que eu não conheço,</p>
<p>Mas você talvez sim, se você imagina,</p>
<p>A minha vinda, a nossa fuga, nosso refúgio,</p>
<p>Em algum lugar que eu desconheço.</p>
<p>Será que você imagina que eu viria, mesmo sem ter para onde levá-la,</p>
<p>Que teria para mim que você pensava em mim</p>
<p>Que eu viria para o resgate, esperando a sugestão do refúgio,</p>
<p>Pensada nesse momento mesmo por você.</p>
<p><span style="color: #ffffff;"> .</span></p>
<p>Agora, seus olhos fechados, pensativos,</p>
<p>Imaginam a fuga, a rota, o esconderijo,</p>
<p>O momento da partida, da minha chegada</p>
<p>Enquanto você ainda busca o destino,</p>
<p>Com olhos fechados para conter a expectativa,</p>
<p>Com olhos fechados que não veriam a minha chegada.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Com olhos fechados, focados no caminho,</p>
<p>Nos perigos de nós trânsfugas,</p>
<p>Testando a segurança do esconderijo,</p>
<p>Com olhos serrados, pensativos,</p>
<p>Talvez acordados, talvez dormindo,</p>
<p>Entre imagens recordadas, projetadas, retidas,</p>
<p><span style="color: #ffffff;"> .</span></p>
<p>Contidas nos olhos, nos olhos cegados</p>
<p>Para a chegada das coisas que espreitam</p>
<p>Enquanto penso se é já a hora de te resgatar</p>
<p>Ou se, agora mesmo, já é tarde demais.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
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		<item>
		<title>Primeiro de Maio</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Oct 2010 21:53:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[

Primeiro de Maio
Primeiro de Maio



Chico e Milton


Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="cabecalho">
<div>
<h1 id="identificador_musica"><a href="http://www.megaupload.com/?d=HRSTG146">Primeiro de Maio</a></h1>
<h1>Primeiro de Maio</h1>
</div>
<h2></h2>
<h2></h2>
<h2><span style="color: #000000;">Chico e Milton</span></h2>
</div>
<div id="div_letra">
<p>Hoje a cidade está parada<br />
E ele apressa a caminhada<br />
Pra acordar a namorada logo ali<br />
E vai sorrindo, vai aflito<br />
Pra mostrar, cheio de si<br />
Que hoje ele é senhor das suas mãos<br />
E das ferramentas</p>
<p>Quando a sirene não apita<br />
Ela acorda mais bonita<br />
Sua pele é sua chita, seu fustão<br />
E, bem ou mal, é seu veludo<br />
É o tafetá que Deus lhe deu<br />
E é vendito o fruto do suor<br />
Do trabalho que é só seu</p>
<p>Hoje eles hão de consagrar<br />
O dia inteiro pra se amar tanto<br />
Ele, o artesão<br />
Faz dentro dela a sua oficina<br />
E ela, a tecelã<br />
Vai fiar nas malhar do seu ventre<br />
O homem de amanhã</p>
</div>
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		<item>
		<title>Cora Coralina</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Oct 2010 14:49:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ivan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Me deparei agora com um poema lindo da Cora Coralina. Conhecem ela? É uma poetisa goiana, descoberta já bem velha, e que não se chama Cora. Mais informações, vejam na wikipédia.
Semente e Fruto


Um dia, houve,
Eu era jovem, cheia de sonhos.
Rica de imensa pobreza
que me limitava
entre oito mulheres  que me governavam.
E eu parti em busca do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Me deparei agora com um poema lindo da Cora Coralina. Conhecem ela? É uma poetisa goiana, descoberta já bem velha, e que não se chama Cora. Mais informações, vejam na wikipédia.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Semente e Fruto</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Um dia, houve,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Eu era jovem, cheia de sonhos.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Rica de imensa pobreza</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>que me limitava</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>entre oito mulheres  que me governavam.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E eu parti em busca do meu destino.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Ninguém me estendeu a mão. Ninguém me ajudou e todos me jogaram pedras.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Despojada. Apedrejada.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Sozinha e perdida nos caminhos incertos da vida.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E fui caminhando, caminhando&#8230;</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E me nasceram filhos.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E foram eles, frágeis e pequeninos,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>carecendo de cuidados,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>crescendo devagarinho.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E foram eles a rocha onde me amparei,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>anteparo à tormenta que viera sobre mim.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Foram eles, na sua fragilidade infante,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>poste e alicerce, paredes e cobertura,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>segurança de um lar</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>que o vento da insânia</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>ameaçava desabar.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Filhos, pequeninos e frágeis&#8230;</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>eu os carregava, eu os alimentava?</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Não. Foram eles que me carregaram,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>que me alimentaram.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Foram correntes, amarras, embasamentos.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Foram fortes demais. Construíram a minha resistência.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Filhos, fostes pão e água no meu deserto.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Sombra na minha solidão.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Refúgio do meu nada.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Removi pedras, quebrei as arestas da vida e plantei roseiras.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Fostes, para mim, semente e fruto.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Na vossa inconsciência infantil.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Fostes unidade e agregação.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Crescestes numa escola de luta e trabalho,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>depois, cada qual se foi ao seu melhor destino,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E a velha mãe sozinha</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>devia ainda um exemplo</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>de trabalho e de coragem.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Minha última dívida de gratidão</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>aos filhos.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Fiz a caminhada de retorno às raízes ancestrais.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Voltei às origens da minha vida,</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>escrevi o &#8220;Cântico da Volta&#8221;.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;">
<p style="padding-left: 30px;"><em>Assim devia ser.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>Fiz um nome bonito de doceira, glória maior.</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>E nas pedras rudes do meu berço</em></p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>gravei poemas.<br />
</em></p>
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