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	<title>Manual do Executivo Ingênuo</title>
	
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		<title>A única coisa que conta é a sua obra. O resto é vento. [O último post do Manual do Executivo Ingênuo]</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/27/a-unica-coisa-que-conta-e-a-sua-obra-o-resto-e-vento-o-ultimo-post-do-manual-do-executivo-ingenuo/</link>
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		<pubDate>Mon, 27 Jun 2011 21:49:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Manual do Executivo Ingênuo]]></category>

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		<description><![CDATA[Olha, se esta fosse a última chance que eu tivesse de dizer algo a você, talvez fosse isto o que eu lhe diria: Não é o celular que você tem, nem com quem você anda, nem quantas músicas esquisitas você &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/27/a-unica-coisa-que-conta-e-a-sua-obra-o-resto-e-vento-o-ultimo-post-do-manual-do-executivo-ingenuo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217731" class="wp-caption alignleft" style="width: 205px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/neverforget.jpg"><img class="size-medium wp-image-217731" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/neverforget-195x300.jpg" alt="" width="195" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Foram 391 posts e 1 781 comentários que eu jamais esquecerei. Muito obrigado, Exame!</p></div>
<p>Olha, se esta fosse a última chance que eu tivesse de dizer algo a você, talvez fosse isto o que eu lhe diria:</p>
<p>Não é o celular que você tem, nem com quem você anda, nem quantas músicas esquisitas você tem no seu iPod, nem se tem carro da firma ou não. Não é o tablet que você exibe na reunião, nem os nomes que conseguiu contrabandear para dentro da sua agenda, nem com quem você consegue almoçar, nem se está pagando as prestações de uma casa no campo ou na praia. Não é o tênis que você comprou naquele outlet em Miami, nem os gestos charmosos que foi aprendendo ao longo da vida, nem a sua calça Diesel (que talvez diga mais sobre as suas fragilidades do que de quanto você é esperto e bem sucedido). Não é o carro que você dirige, nem o número de amigos que você arregimentou no Facebook, nem a velocidade com a qual você adapta o seu linguajar aos termos e à prosódia que entram e saem de moda.</p>
<p>Não é nada disso, meu irmão. Não é nada disso, minha irmã.</p>
<p>O que conta, no final das contas, a única taxa de sucesso que vale na carreira, o que define você, o que o absolverá ou o condenará de modo sumário diante de qualquer corte, a começar pela sua própria consciência, onde quer que ela more, na hora de julgar a sua trajetória profissional, é uma coisa só: a sua obra. Aquilo que você construiu. Aquilo que você pode, sem sombra de dúvida e sem qualquer risco de estar afanando algo que não lhe pertence, chamar de seu. Os projetos que você bolou e fez virar, os resultados que você erigiu, aquilo que você criou e que vai lhe suplantar no tempo, como uma daquelas marcas indeléveis que tem o poder de contar histórias.</p>
<p>Mas uma obra é mais do que isso. É também as pessoas que você conquistou. É também os afetos que você angariou, o respeito, as boas lembranças, a torcida a seu favor, o que algumas pessoas chamam de reputação, o modo, enfim, como você será lembrado pelos outros &#8211; ou pelo menos entre aqueles que importam. Isto é uma obra &#8211; os seus feitos e o seu efeito nas pessoas. As paredes que você levantou e as admirações que você arregimentou &#8211; ambas as coisas são feitas de rocha sólida. Isso é o que ninguém jamais poderá lhe sonegar. Isso é o que nunca poderão roubar de você, por mais que queiram.</p>
<p>O resto, meu amigo e minha amiga ingênuos, acredite, é vento. O resto é só espuma. O resto é pó.</p>
<p>***</p>
<p>Foram 391 posts, contando este, deste o dia 8 de dezembro de 2008. Foram 1 781 comentários. Talvez você se lembre do que escrevi no post de estreia, aqui no Manual, que se chamava exatamente <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2008/12/08/135445/">Talvez Você Se Lembre</a>: &#8220;Minha missão é trazer para cá reflexões, insights, questões, provocações sobre essa vida que nos cabe viver como executivos, como empreendedores, como profissionais que fazem o capitalismo brasileiro versão 2009/2010. Somos uma turma que trabalha 12 horas por dia, perde mais quatro no trânsito, atua num mercado competitivo, em constante ebulição. Estamos no segundo casamento (no mínimo), temos dois celulares (no mínimo), vivemos culpados por ficar pouco tempo com os filhos, tentamos fazer academia para não criar barriga nem infartar cedo demais.&#8221;</p>
<p>Fiquei feliz e com uma sensação de dever cumprido ao reler agora esse statement inicial. Acho que chegamos lá, juntos, você e eu. Inventamos uma voz diferente no jornalismo de negócios brasileiro. Aqui, admitimos dúvidas e tentamos elaborar sobre elas. Aqui confessamos derrotas e tentamos extrair delas algum aprendizado. Aqui admitimos que não somos tão perfeitos quanto nossa foto no LinkedIn ou quanto o texto assertivo do nosso CV tentam fazer crer. Criamos um lugar para depor as máscaras, as armaduras, e falar de verdade sobre as alegrias e as tristezas, sobre as tragédias, as comédias e os dramas da vida real. O Manual do Executivo Ingênuo, por isso tudo, se tornou uma comunidade regida pela sinceridade. Não é um lugar só para certezas e conquistas &#8211; é um canto digital que construímos para comportar a totalidade daquilo que somos, mesmo quando não alcançamos compreender direito as sensações que aqui e ali nos arrebatam.</p>
<p>Agora é hora de partir. Principalmente porque a temática do Manual se expandiu organicamente para fora do mundo corporativo e das questões eminentemente ligadas à carreira e à vida nas grandes empresas. Não foi algo que eu planejei &#8211; mas que aconteceu ao natural, ao sabor das pautas que iam aparecendo e sendo saudadas ou apupadas por você.</p>
<p>Quero agradecer imensamente à Exame e à Abril por mais esse período em que fui acolhido e bem tratado. Obrigado pela confiança e pela paciência. Obrigado, Claudia Vassallo. Obrigado, Sandra Carvalho. Obrigado à Renatinha, ao Pilão, ao Elvis, ao Serginho Teixeira, ao João Sandrini, a todos os profissionais que de alguma maneira ajudaram o Manual do Executivo a acontecer ao longo desses 31 meses de convivência feliz.</p>
<p>O arquivo do Manual continuará vivo aqui nesse endereço &#8211; e você continuará encontrando aqui em Exame.com todos os demais blogs que enchem esse espaço de inteligência e relevância. Aos que quiserem continuar me acompanhando: basta acessar a partir de hoje o <a href="http://www.manualdeingenuidades.com.br">Manual de Ingenuidades</a>, novo nome do blog (que já amplia um pouco o seu escopo, percebeu?) Adoraria encontrar você por lá. Seria uma honra. E uma alegria.</p>
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		<title>Como trabalhar com gente que tem falta de ar ao pronunciar esse verbo?</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/20/como-trabalhar-com-gente-que-tem-falta-de-ar-ao-pronunciar-esse-verbo/</link>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 21:53:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carreira]]></category>

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		<description><![CDATA[O mercado de trabalho é uma fonte inesgotável de boas pautas para um blogueiro. E de ótimos personagens para um escritor. Qualquer mercado, suponho eu &#8211; basta haver gente que a riqueza literária está garantida. Mas falo com convicção do &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/20/como-trabalhar-com-gente-que-tem-falta-de-ar-ao-pronunciar-esse-verbo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217671" class="wp-caption alignleft" style="width: 184px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/fotoapresentacaoeufora.jpg"><img class="size-full wp-image-217671 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/fotoapresentacaoeufora.jpg" alt="" width="174" height="111" /></a><p class="wp-caption-text">O logo e o slogan desta empresa de cosméticos (que existe de verdade) oferecem ótima ironia para ilustrar esse post sobre a turma do mormaço, da roda presa, do &quot;eu fora&quot;...</p></div>
<p>O mercado de trabalho é uma fonte inesgotável de boas pautas para um blogueiro. E de ótimos personagens para um escritor. Qualquer mercado, suponho eu &#8211; basta haver gente que a riqueza literária está garantida. Mas falo com convicção do meu mercado, que conheço bem. Onde a fauna é exuberante.</p>
<p>Esses dias cruzei com mais uma dessas meninas. Se elas se conhecessem, talvez se organizassem ao redor de uma confraria. (Ou então vai ver que se conhecem e se odeiam. Sei lá.) Trata-se de um tipo de gente altamente enganadora. Deliberadamente desonesta. Que age assim porque considera que esse é o jeito certo de agir no mundo profissional. São do mal &#8211; embora nem sempre saibam disso com todas as letras. Eis o ponto: elas operam no Lado Sombrio da Força não por perversão. Mas por preguiça. Por lassidão. Por burrice.</p>
<p>É assim: diante dos chefes, patrões e clientes, assumem uma postura mimimamente aceitável. (Nem sempre conseguem. Ali mesmo, com frequência, já dão pistas de como operam. Muitos superiores preferem não enxergar. Pior para eles.) Mas quando quando elas viram as costas, para tratar com subordinados, fornecedores e parceiros, aí sim, mostram sua verdadeira cara. É gente que faz de tudo para não trabalhar. Então não assumem responsabilidades. Fogem de prazos. Fazem de tudo para não ter compromissos na agenda. Tem alergia a follow ups. Negligenciam tarefas e deadlines o mais que podem. Seu objetivo na vida e na carreira é esse: trabalhar o menos possível. Não carregar nada sobre os ombros, em momento algum. Seu foco não é jamais obter algum resultado. Sua missão é se esconder, se esquivar, não estar nunca na posição de serem cobradas. Jamais, em hipótese alguma, puxam algum problema para a sua conta e tentam resolvê-lo. Nem como favor à empresa nem como regozijo pessoal. Vivem para rebater pedidos, repassar demandas, espanar o que vier pela frente ou de cima para os lados e para baixo.<span id="more-217661"></span></p>
<p>É claro que com essa postura vão sobrevivendo. Se escudando nos outros, se escondendo no banheiro, se enfiando embaixo da mesa e nas frestas da parede, como seres invertebrados. É claro também que não constroem nada de concreto e de real agindo assim. Se desperdiçam. Vivem de se ausentar, de se poupar, de não entregar e de não se entregar. Então não angariam nada de valor às suas carreiras. No curto prazo, vão disfarçando isso. Como uma máscara a mais. No longo prazo, estarão mortas. De inanição do próprio talento. De frigidez profissional. De suicídio do potencial que tiveram um dia. Ou seja: de tanto se pouparem, aí mesmo é sumirão do mapa, pela política de esvaziamento total que se autoimpuseram.</p>
<p>O duro é que no longo prazo estaremos todos mortos, não? Inclusive os bons e justos, os esforçados e os solidários. Mas essa é outra história.</p>
<p>Falo em meninas porque conheço umas três ou quatro que chegam a ser caricaturais nessas características. Mas é claro que deve haver meninos da mesma estirpe. Que talvez disfarcem um pouco melhor. Ou então vai ver que esse descompromisso e essa miopia são vícios que acossam as mulheres com mais facilidade &#8211; porque talvez os homens ainda sejam mais cobrados por ter farinha no saco, mesmo que seja pouca, mesmo que esteja um pouco empelotada. Para os homens a farinha tem que estar lá. Eles não podem apelar com a mesma facilidade para uma crise de choro ou para a própria beleza física ou então suplicar paciência por pertencerem a um suposto sexo frágil de modo a resolver as suas paradas numa hora de aperto.</p>
<p>Esses dias, quando me dei conta, estava numa reunião com uma delas. Lindo ver como se desviava dos itens em aberto. A culpa jamais seria dela, pelo que quer que viesse a acontecer. E com que energia saía da aparente apatia para espernear quando algum daqueles itens aparentava se encaminhar para pouso em seu colo! E por mimetizar tão bem todos os vícios da empresa tão rápido (ela era novinha, estava recém começando), e por reproduzir tão bem as piores práticas de mercado sendo ainda tão jovem, eu soube que ela iria longe naquele ambiente, e faria uma longa carreira por ali. Não pelo que fizesse de bom e de diferente. Mas exatamente pelo que perpetrava de mal intencionado e de igual.</p>
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		<title>Carta de um pai a uma diretora de escola</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/17/carta-de-um-pai-a-uma-diretora-de-escola/</link>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 12:52:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Eis a carta que enviei esses dias à diretora da boa escola onde meus filhos estudam: Tomo a liberdade de lhe escrever para expressar e registrar um desagrado que me ocorreu nos últimos dias. Meus filhos estudam em sua escola desde quando &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/17/carta-de-um-pai-a-uma-diretora-de-escola/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217611" class="wp-caption alignleft" style="width: 210px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/uniforme.jpg"><img class="size-full wp-image-217611" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/uniforme.jpg" alt="" width="200" height="299" /></a><p class="wp-caption-text">Isto faz algum sentido? (Ou: deixai as crianças expressarem suas individualidades, celebrarem suas diferenças, serem mais do que gado num rebanho de iguais.)</p></div>
<p>Eis a carta que enviei esses dias à diretora da boa escola onde meus filhos estudam:</p>
<p>Tomo a liberdade de lhe escrever para expressar e registrar um desagrado que me ocorreu nos últimos dias.</p>
<p>Meus filhos estudam em sua escola desde quando tinham três anos.</p>
<p>Temos sido muito felizes aí - quase todos os professores de nossos filhos foram ótimos, nunca houve maiores problemas em termos conceituais ou de estilo relacionados à pedagogia e à educação das crianças, e ambos tem se desenvolvido bastante, social e intelectualmente.</p>
<p>Entendemos desde o início que o colégio adota uniformes.</p>
<p>E naturalmente nos adequamos a esta regra.</p>
<p>Compreendemos como uniformes todos os itens obrigatórios que estão à venda na loja da escola &#8211; agasalhos, calças, casacos, pulôveres, camisetas, saias, calções, toucas de natação, sungas e maiôs.</p>
<p>Compreendemos como itens de vestuário que não fazem parte do uniforme aqueles que não são obrigatórios e que não estão à venda na loja da escola &#8211; tênis, meias, cuecas, calcinhas, prendedores de cabelos, sobretudos, luvas, bonés.</p>
<p>Enquanto que os itens de uniforme cumprem a sua função, qualquer que seja ela, os itens que não são uniforme também cumprem um papel muito importante &#8211; o de exercitar as diferenças, as individualidades, as expressões e preferências pessoais de cada um.<span id="more-217601"></span></p>
<p>As roupas são, entre outras coisas, um sistema poderoso de comunicação e de manifestação individual. Isto não é novidade e já vem sendo estudado pela semiótica desde os anos 50, a partir da obra seminal do semiólogo francês Roland Barthes, cuja leitura recomendo.</p>
<p>Nós estamos tratando aqui, afinal de contas, do desenvolvimento e da construção de indivíduos. Portanto, cada pequeno gesto que tomamos, cada pequena regra ou constrangimento que inventamos e impomos às crianças, tem consequências diretas e práticas na vida daquelas pessoinhas. A senhora compreende isso muito melhor do que eu.</p>
<p>Ocorre que minha filha gosta de usar saias e não gosta de usar calças &#8211; para desespero da avó materna, diga-se, que é uma feminista clássica. Trata-se de um gosto dela, que ela desenvolveu de forma autônoma e independente. Para proteção de suas pernas, seja do frio ou do atrito, compramos meias calças para ela. Ela escolhe meias calças coloridas, divertidas, lúdicas. Por iniciativa própria. E isso virou um estilo próprio. Uma expressão da sua individualidade. Uma marca pessoal. Um manifesto individual sobre quem ela é, sobre o que ela gosta, sobre o seu humor e o seu estilo como ser humano. Suas meias, portanto, são mais do que meias. São uma parte importante dela, um jeito próprio dela de dialogar com o mundo e de se relacionar com as demais pessoas.</p>
<p>Agora somos surpreendidos com a notícia que, depois de mais de dois anos, as meias de nossa filha estão sumariamente banidas, proibidas, proscritas do ambiente do colégio.</p>
<p>A meu ver, isto não está certo.</p>
<p>E também não faz sentido, não agrega em nada.</p>
<p>Sobretudo, perceba que não há meias calças à venda na loja da escola. Portanto, este item não pode e não deve ser considerado obrigatório. O colégio só pode exigir como uniforme os itens que vestuário que oferece em sua loja.</p>
<p>Gostaria de lhe propor essa pequena reflexão.</p>
<p>E também de lhe rogar essa pequena flexibilixação.</p>
<p>Um abraço e ótimo fim de semana!</p>
<p> ***</p>
<p>Duas semanas depois a resposta me foi dada pessoalmente. Basicamente, o uniforme de inverno para as meninas é a calça de abrigo. Por isso não há meias calças à venda na loja da escola. Aquelas que quiserem usar saia tem que buscar meias calças que, embora não sejam parte do uniforme, respeitem as cores da escola &#8211; branco ou azul marinho sólidos. A indidualidade da minha filha poderia ser exercida de outra forma e em outros lugares.</p>
<p>E você, meu amigo e minha amiga ingênuos, o que acha disso?</p>
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		</item>
		<item>
		<title>O começo do fim do emprego doméstico no Brasil</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/15/o-comeco-do-fim-do-emprego-domestico-no-brasil/</link>
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		<pubDate>Wed, 15 Jun 2011 15:30:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Direitos trabalhistas para os trabalhadores domésticos? Ora, é claro que sim. Demorou. Por que já não fizemos isso há 70 anos, quando Getúlio progulmou a CLT? Pagar FGTS e horas extras, e respeitar uma jornada semanal de 44 horas para &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/15/o-comeco-do-fim-do-emprego-domestico-no-brasil/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217571" class="wp-caption alignleft" style="width: 193px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/domestica.jpg"><img class="size-medium wp-image-217571" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/domestica-183x300.jpg" alt="" width="183" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Ninguém é de ferro!</p></div>
<p>Direitos trabalhistas para os trabalhadores domésticos? Ora, é claro que sim. Demorou. Por que já não fizemos isso há 70 anos, quando Getúlio progulmou a CLT? Pagar FGTS e horas extras, e respeitar uma jornada semanal de 44 horas para quem limpa meu banheiro e lava minhas cuecas? Óbvio que sim. Por que não? Ou melhor: como não? O que difere domésticas e babás dos demais trabalhadores brasileiros senão uma legislação perniciosa que discrimina quem trabalha em domicílio alheio, com todo o preconceito, a grande má fé, a renitente e insidiosa anti noblesse obligue que nos define culturamente? (A nossa herança, que nós relutamos em rejeitar, vem das relações entre casa grande e senzala. E estão aí, ainda hoje, vivíssimas, infelizmente.)</p>
<p>Hoje, no Brasil, trabalhadores domésticos tem direito apenas ao pagamento do INSS (o patrão paga 12%, eles 8%) e a ter carteira assinada. Não há férias estabelecidas e muitas vezes as próprias folgas seguem modelos ridículos &#8211; um dia por semana ou um fim de semana a cada quinzena são padrões de mercado. Ainda assim, apenas 15% dos mais de 7 milhões de trabalhadores domésticos brasileiros gozam desses direitos mínimos. O resto da turma que rema nas galés nem sequer tem direito à assistência médica do SUS ou à aposentadoria oficial. Labutam em regime de semiescravatura. Gente desprovida, deserdada, dependente.<span id="more-217561"></span></p>
<p>Dito de outro jeito: 85% dos patrões e das madames brasileiros, que adoram usar logotipos enormes em bolsas e cintos de grife, que se sentem mal quando não trocam de carro a cada três anos, que gastam num fim de semana o que pagam a sua doméstica no mês, esses mesmos pilares da nossa sociedade, que precisam fazer uma viagem internacional por ano para continuar vivendo, são incapazes de oficializar seus funcionários e de pagar a previdência social dessas pessoas que trabalham dentro de suas casas. Tratam-nas como se pertencessem a uma casta subumana, situada na hierarquia das coisas mais ou menos entre um utensílio doméstico e um animal de estimação.<br />
 <br />
Qualquer argumento contrário a que os direitos trabalhistas sejam finalmente pagos aos trabalhadores domésticos brasileiros se assemelha ao discurso dos escravagistas à época da abolição. &#8220;Olha, vai ficar carro, vou ter que demitir&#8221;. A discussão se a legislação trabalhista ajuda ou trabalha à geração e à manutenção de empregos no Brasil, se é moderna ou arcaica, se é inteligente ou burra, é uma outra discussão. O ponto aqui é a isonomia. Tratar iguais como iguais. Não excluir ninguém dos direitos estabelecidos para todos.<br />
 <br />
Espero ansioso por essa resolução da Organização Internacional do Trabalho e pela implementação disso aqui nos trópicos. Imagino que venha a se tratar do começo do fim do emprego doméstico como o conhecemos hoje, como uma instituição brasileira. O que é ótimo. Mais um laço que cortamos com nosso passado feudal e coronelista. A nossa classe média, é claro, vai precisar se reciclar, se modernizar &#8211; e começar a tratar da lugar onde mora e dos seus próprios pertences de modo mais parecido com aquilo que acontece em qualquer país civilizado do mundo. E, pode crer, sempre que tivermos a oportunidade de ficar mais parecidos com americanos, japoneses, franceses, alemães, suecos, devemos agarrá-la. Do lado de lá da tábua de passar, os nossos trabalhadores braçais &#8211; especialmente as mulheres &#8211; também terão que se qualificar mais. O fogão e o tanque alheios não oferecerão mais a guarida que oferecem hoje. Viva.</p>
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		<title>Um antídoto contra a grande modorra do casamento</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 22:09:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem foi um dia de coisas bem simples. Mas também um dia bem especial. Achei que valia a pena dividir isso com você, meu amigo e minha amiga ingênuos. A beleza dos pequenos eventos é algo a ser celebrado. Ontem &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/13/um-antidoto-contra-a-grande-modorra-do-casamento/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217521" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/risoto.jpg"><img class="size-medium wp-image-217521" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/risoto-300x202.jpg" alt="" width="300" height="202" /></a><p class="wp-caption-text">Que tal sair um pouquinho da sua zona de conforto - ou seria melhor dizer zona da preguiça?</p></div>
<p>Ontem foi um dia de coisas bem simples. Mas também um dia bem especial. Achei que valia a pena dividir isso com você, meu amigo e minha amiga ingênuos. A beleza dos pequenos eventos é algo a ser celebrado.</p>
<p>Ontem foi Dia dos Namorados. Uma data comercial, é claro. Mas a gente se autossugestiona numa boa para as coisas que são legais, não? Ontem não perdemos, minha mulher e eu, a oportunidade de parar um minutinho com a louca cavalgada de sermos pai e mãe, de prover e de poupar, de cuidar e de torcer, e nos dedicamos por alguns minutos a sublinhar, à meia luz, o fato de que ainda somos e queremos continuar sendo namorados. E manter o élã num casal é difícil pacas. A gente se apaixona e casa. E casar, ironicamente, é o caminho mais curto para aniquilar aquela paixão. O casamento é uma forma de associação humana das menos afeitas ao cultivo do tesão, do carinho e do beijo na boca. O matrimônio é uma instituição dedicada ao extermínio da libido dos cônjuges. Então a gente tem que aproveitar cada chance que pinta para regar essa florzinha que plantamos lá atrás &#8211; no nosso caso, há mais de dez anos. Senão ela morre. O tempo de casamento vai construindo entre a gente um latifúndio coberto de grama. Grama até mesmo viçosa e bonita, às vezes. Mas grama. Flores, especialmente as mais coloridas e perfumadas, não costumam sobreviver nesse capinzal.<span id="more-217511"></span></p>
<p>Normalmente, iríamos a um restaurante bacana. Domingo à noite, no entanto, a nossa logística não permite esse luxo. Uma opção seria simplesmente desistir de comemorar. E fazer daquela uma noite de domingo qualquer: colocar as crianças cedo na cama, contar uma história para elas, pegar alguma coisa na cozinha, fazer uma boquinha junto na cama, à frente da TV, ler algumas páginas de algum livro, dormir abraçadinho. Resolvi fazer diferente. Fui para cozinha. É fácil pedir para o outro quebrar a rotina, esperar que o outro rompa com a monotonia. Duro é tomar a iniciativa você mesmo. Sair da sua zona de conforto &#8211; ou de preguiça. E assumir que você também tem contribuição relevante a dar na hora de tirar os panos quentes de cima da relação. Foi o que fiz. Ou tentei fazer. E em verdade lhe digo: foi muito legal e muito divertido.</p>
<p>Decidi fazer um risoto. Faço dois ou três pratos apenas. Faço-os muito bem, modéstia à parte. Mas só sei tocar essas poucas partituras. E risoto decididamente não é algo que estivesse em meu repertório. Peguei <a href="http://receitasdowessel.blogspot.com/2009/06/risoto-de-shitake.html">uma receita do István Wessel</a> &#8211; instigado por outra que ele havia dado no rádio naquela semana &#8211; e fui às compras no domingo pela manhã, com meus filhos. (Dificilmente há um programa melhor para a manhã de domingo. Exceto, talvez, farra na padoca.) Risoto de funghi, foi a minha escolha &#8211; minha mulher adora cogumelos. Os baixinhos curtiram muito me ajudar a comprar os ingredientes &#8211; estão aprendendo a ler e adoraram conferir a lista várias vezes para mim. E foram uma ajuda imprescindível depois também, à tardinha, na hora de preparar o jantar. Eles leram o modo de fazer, me ajudaram a mexer o arroz arbório na panela, tudo isso enquanto jantavam seu queijo quente e seu copão de leite morno com chocolate, produções clássicas do papai. Sabe um daqueles programas inesquecíveis? Pois é. (Ao menos para mim. Tomara que para eles também.)</p>
<p>Curiosamente, foi a primeira vez que cozinhei com receita. E foi legal. Deu supercerto e não foi chato &#8211; sempre cozinhei minhas coisas de modo meio caótico e intuitivo e achava que receitas eram amarras. (Que bom que não cozinhei com meu umbigo, porque risoto, de onde eu venho, é um arroz com galinha desfiada e ervilha, empapado num molho avermelhado.) Bom, mas não é sobre nada disso que quero escrever. Quero dizer, na verdade, apenas, que vale muito a pena dar um cavalinho de pau de vez em quando e mudar um tantinho o rumo das coisas. Compre uma cueca nova mais ousada, depile o sovaco, compre flores. Faça isso pelo outro. Mas, sobretudo, faça isso por você mesmo.</p>
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		<title>Quando a falta de capricho é uma patologia</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/07/quando-a-falta-de-capricho-e-uma-patologia/</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Jun 2011 21:08:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem gente que toma seu tempo para fazer as coisas. São pessoas que fazem o que tem que fazer com capricho, com gosto, com atenção e desvelo. É gente que desfaz a mala em hotel. Que se instala no quarto &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/07/quando-a-falta-de-capricho-e-uma-patologia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217481" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/preguiçoso.jpg"><img class="size-medium wp-image-217481" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/preguiçoso-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Não é só preguiça. É uma indolência que lhe joga para baixo, que lhe isola, que lhe aliena</p></div>
<p>Tem gente que toma seu tempo para fazer as coisas. São pessoas que fazem o que tem que fazer com capricho, com gosto, com atenção e desvelo. É gente que desfaz a mala em hotel. Que se instala no quarto e o customiza a ponto de realmente se sentir em casa. Mesmo que só vá ficar hospedado um par de dias. Essas pessoas imprimem seu jeito aos ambientes em que estão. Ensolaram as situações, transformam as experiências em passagens bacanas, agradáveis, macias, inesquecíveis. Basicamente, por investirem um pouquinho mais de tempo e energia, extraem muito mais prazer das pequenas e grandes coisas da vida.</p>
<p>Tem um cara na academia de bairro meio fuleira onde eu treino boxe (escolhi exatamente por isso, porque meu professor é boxeador de verdade, tem nariz quebrado e tudo, e eu fico me imaginando um pouco como o Rocky Balboa quando ele foi treinar naquela academia de fuleira em Los Angeles, onde o Apolo The Creed jhavia começado a carreira), bem, tem um cara que transforma o banheiro da academia numa suíte de hotel cinco estrelas quando vai se trocar. Abre suas roupas, demora no banho, faz a barba, se perfuma. Eu não sou assim. Quase nunca tomo banho fora de casa, levo o mínimo de apetrechos possível para onde quer que eu vá, nem gosto muito de encostar em nada quando estou lugares públicos. Faço o que tenho que fazer e vou embora. Não relaxo. Não me misturo. Não me sinto em casa.<span id="more-217471"></span></p>
<p>Quando cheguei ao Japão para o meu MBA, morei primeiro num dormitório muito bacana da Universidade. Meu vizinho francês transformara seu quarto num pedaço da França. Espalhou fotos, postais, pôsteres, objetos pessoais. O quarto era ele, era dele, não pertencia ao dormitório. O quarto dele cheirava bem, tinha música boa, tinha comida boa. Era um lar. Eu, em nome de ser prático, ou de manter meu distanciamento daquilo, ou de expressar a saudade cavalar que eu estava sentindo da minha mulher e das minhas referências naquele momento, mal desfiz a mala. Ocupei o menos possível os armários, prateleiras e guardarroupas. Era como eu estivesse me resguardando daquele lugar. Sentia uma preguiça paralisante na hora de transformar aquele quarto num ambiente mais gostoso, de transformar aquela experiência num tempo mais bem vivido. Como era de se esperar, meu quarto era frio, sem graça, anódino, triste, sem nenhum charme. O que me fazia gostar ainda menos dele, a investir ainda menos nele, num círculo vicioso bem esquisito e pouco producente. Aquele quarto, e minha relação com ele, diz muito sobre quem eu era e sobre quem eu talvez ainda seja em boa medida.</p>
<p>Sou um tipo de gente que opera sempre pelo provisório. Como se não quisesse interagir com o ambiente, como se não quisesse alterar nada ao redor, como se não quisesse deixar marca, como se quisesse sumir, ser invisível, não deixar pegadas nem digitais. Quase como um desejo de morte ou de inexistência. Certamente, um sentimento de não relação. Ou uma espécie de busca de paz pela via da irrelevância, do esconderijo. Sou um tipo de gente que está sempre com a cabeça adiante, sofrendo de ansiedade e perdendo a beleza do agora. Que não investe no hoje porque ele está passando. E, assim, chega de modo sempre pedestre ao amanhã &#8211; presença ausente que tanto incomoda, que tanto cataliza, que tanto impressiona. Eu adoro, por exemplo, jardins bem cuidados. Mas não movo uma palha para cuidar dos jardins que estão hoje sob minha jurisdição. Tenho curtido flores cada vez mais &#8211; só que flores demandam algo que eu não tenho. Ou que até aqui não tive. Paciência. Denodo. Entrega. Sobretudo, falta de capricho. De disposição para investir na estética do que me cerca. Sou caprichoso, cuidadoso, meticuloso e exigente para uma série de coisas. Me doo incondicionalmente para uma série de projetos. Mas para o embelezamento do que está ao meu redor, não. Uma inanição pavorosa toma conta de mim nessa hora.</p>
<p>A ausência desse cuidado com as pequenas coisas resulta em fealdade. Em aridez e sorumbatismo. No que o meu avô chamaria, talvez, de relaxamento ou de preguiça &#8211; no que fazia uma crítica moral. Recentemente dirigi muitos quilômetros por muitos lugares no interior da França. Toda casa tem, no mínimo, uma frondosa roseira na frente. Fora as floreiras, os jardins, os canteiros. É um país florido, colorido, bonito. Porque as pessoas que moram lá querem que seja assim. Porque gostam disso e investem nisso. Quem cruzar o Rio Grande do Sul pela região dos alemães e dos italianos, na metade norte do Estado, também encontrará um capricho muito grande com as casas (pintadas quase todo ano), com os quintais, com os pátios. Trata-se de um cuidado que, de modo geral, nós, os bugres, os pêlos duros, não temos. Devíamos cuidar melhor de nós mesmos e do que está a nossa volta. Mas não jogo o problema para o coletivo, não. Assumo aqui essa deficiência como um traço, inclusive psicológico, meu. Pessoal, individual. Algo que já está mais do que na hora de corrigir.</p>
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		<title>Com todo amor e carinho…</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jun 2011 23:48:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8230;segue meu Top 10 dos Beatles para você. While My Guitar Gently Weeps Something In My Life For No One Because Eleanor Rigby Here Comes The Sun The Fool On The Hill She Is Leaving Home Nowhere Man Obras primas. &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/05/com-todo-amor-e-carinho/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217431" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/beatles.jpg"><img class="size-medium wp-image-217431" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/beatles-300x213.jpg" alt="" width="300" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;There are places I remember/All my life, though some have changed/Some forever not for better...&quot;</p></div>
<p>&#8230;segue meu Top 10 dos Beatles para você.</p>
<p>While My Guitar Gently Weeps</p>
<p>Something</p>
<p>In My Life</p>
<p>For No One</p>
<p>Because</p>
<p>Eleanor Rigby</p>
<p>Here Comes The Sun</p>
<p>The Fool On The Hill</p>
<p>She Is Leaving Home</p>
<p>Nowhere Man</p>
<p>Obras primas. As grandes baladas, as imensas melodias, as composições mais maduras, sinceras, introspectivas, inexcedíveis - e tristes, talvez &#8211; dos Fab Four. Todas estão à sua disposição no You Tube. Acho que essa lista é a melhor coisa que eu poderia recomendar a alguém, qualquer pessoa, nessa semana friorenta que se avizinha. (Ou em qualquer outro momento do ano e da vida, para falar a verdade.)</p>
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		<title>Você deveria ter o direito de fumar maconha?</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/02/voce-deveria-ter-o-direito-de-fumar-maconha/</link>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 11:22:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma enquete que está no ar no MSN, com quase 44 000 respostas até o momento, pergunta o seguinte: &#8220;Você é a favor da descriminalização da maconha no Brasil?&#8221; Com 21 014 votos, ou 49% das preferências, a posição que &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/06/02/voce-deveria-ter-o-direito-de-fumar-maconha/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217381" class="wp-caption alignleft" style="width: 467px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/thc4.jpg"><img class="size-full wp-image-217381 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/06/thc4.jpg" alt="" width="457" height="596" /></a><p class="wp-caption-text">A revista argentina THC clama por lá por um direito que nós insistimos em negar por aqui</p></div>
<p>Uma enquete que está no ar no <a href="http://br.msn.com/?ar=1">MSN</a>, com quase 44 000 respostas até o momento, pergunta o seguinte: &#8220;Você é a favor da descriminalização da maconha no Brasil?&#8221; Com 21 014 votos, ou 49% das preferências, a posição que predomina até aqui na enquete é esta: &#8220;Não, aumentará o consumo dessa e de outras drogas nocivas à saúde&#8221;. Em seguida, com 32 % dos votos, ou 14 064 cliques a favor, vem a seguinte resposta: &#8220;Sim, enfraquece tráfico, movimenta economia e ajuda viciados a parar.&#8221; E, por fim, vem os indecisos, com 19% dos votos, que clicaram 8 403 vezes na opção: &#8220;Não sei, mas está na hora de haver uma discussão aberta na sociedade&#8221;.</p>
<p>Acho o resultado um bocado supreendente. (Você sabe, eu sou um ingênuo.) Então metade de nós ainda acredita da política atual de repressão às drogas? Uau. Então ainda acreditamos que tudo bem encher a cara de uísque, cerveja ou cachaça, mas fumar um baseado, de jeito nenhum? Puxa. Aí lembrei de um artigo que escrevi para a Exame quando ainda estava no Japão, em 1997. Não tenho mais a versão original do texto, batucado em algum PC de algum laboratório da <a href="http://www.kyoto-u.ac.jp/en">KyoDai</a>. Mas a versão editada, conforme foi publicada na revista, naquela grande Exame dos anos 90 que eu tive a felicidade de frequentar, segue abaixo. (Ainda estou bastante em linha com a argumentação daquele menino de 26 anos.) Era um tempo em que eu recebia a revista por Correio e quase desmaiava de contentamento ao ver meu nome impresso assim na melhor revista de negócios ao Sul do Equador: &#8220;Por Adriano Silva, de Kyoto&#8221;.<span id="more-217371"></span></p>
<p>As drogas constituem uma das discussões mais inflamadas que o mundo democrático terá que vencer no futuro próximo. O desafio que as drogas impõem e as políticas que têm se apresentado para enfrentá-lo, combinados, funcionam como uma bomba-relógio cuja contagem regressiva não está longe de acabar. Até hoje a maioria das sociedades enfiou a cabeça na terra ao tratar da questão. Em pouco tempo, no entanto, não haverá mais espaço para posturas de avestruz.</p>
<p>A questão das drogas precisa, inicialmente, ser dividida em duas: o tráfico e o consumo. O consumo não é necessariamente, ou não deveria ser, um problema. Quando se transforma em um, o problema é pessoal, de ordem médica. O tráfico é um problema sob todos os pontos de vista. E um problema coletivo, de ordem legal. O consumo não constitui, ou não deveria constituir, crime. O tráfico é o crime propriamente dito.</p>
<p>Analisemos em primeiro lugar a questão do consumo. Há basicamente duas maneiras de utilizar drogas. A primeira ocorre quando o sujeito sabe gerenciar o próprio consumo. O usuário escolhe que substâncias consumir, em que quantidade e o momento de fazê-lo. As drogas, nesse caso, servem ao usuário, que é movido pelo desejo. A outra maneira ocorre quando o sujeito não consegue gerenciar o consumo. Nesse caso, o usuário perde o controle da situação. Usa todo tipo de substância, em quantidades cada vez maiores e em intervalos de tempo cada vez menores, não raro numa seqüência em direção às drogas mais pesadas. O usuário não é mais soberano: ele serve às drogas, movido pela necessidade.</p>
<p>As sociedades costumam se relacionar com as drogas em uma clima obscurantista. Em boa medida, os fantasmas que habitam esse quarto da casa que ninguém quer abrir são alimentados pelo modo como o assunto aparece para a opinião pública. Periodicamente, matérias de dependentes em estado terminal ou de ressurrectos das chamas do vício aparecem sob trilha sonora grave ou diagramação sombria. De fato, há casos terríveis. Centenas de pessoas são absolutamente inábeis em gerenciar o próprio consumo de drogas. O outro lado da questão, no entanto, não é mostrado: há milhares de usuários que conseguem se relacionar com as drogas de um modo equilibrado. Pessoas a quem as substâncias entorpecentes não alteram a vida, seja no campo pessoal, profissional ou afetivo.<br />
 <br />
Por conta dessa realidade em que o todo é retratado por uma parte, o cidadão médio fica com a impressão de que não há alternativa para o abismo. E acaba tirando conclusões e erigindo crenças baseadas em visões ignorantes e superficiais. Uma das primeiras inflexões que devem ser feitas se quisermos jogar alguma luz sobre o tema é a assunção de que o consumo de drogas é, em essência, uma questão de foro íntimo. O que um sujeito faz consigo mesmo no recato de sua vida privada não diz respeito a mais ninguém. Portanto, a decisão sobre o uso ou não de drogas cabe ao indivíduo. Não é assunto para o juízo da coletividade — pelo menos até o momento em que o usuário, por conta das drogas que utiliza, cause danos a outras pessoas. Montados nessa premissa, perceberemos que o uso de drogas só se tornará um problema se o usuário não souber gerenciar o próprio consumo. E aí o problema será pessoal, não coletivo.</p>
<p>O mesmo raciocínio se aplica ao uso de carros. Dirigir um automóvel é uma experiência aprazível para quem o faz controladamente. Contudo, é uma das maneiras mais fáceis de perder a vida ou a integridade física para aqueles que não conseguem gerenciar a tentação da velocidade, do poder, que emerge quando se está atrás de um volante. E aqui há um agravante. O sujeito que não gerencia o uso do seu carro geralmente destrói outras vidas, não apenas a dele. O raciocínio se aplica ainda ao ato corriqueiro e insuspeito de comer. Consumir alimentos pode ser um suplício para quem não consegue gerenciar a ingestão de comida e a transforma ou em uma forma de prazer única e fora de controle ou em um descompressor para carências e insatisfações. Os casos de bulimia são apenas o extremo patológico desse comportamento. Há muitos estágios intermediários em que a incapacidade de gerenciamento transforma a vida do usuário, veja só, de comida em um martírio cotidiano.</p>
<p>Obviamente, não se proíbe a todas as pessoas de comer pelo fato de algumas delas não conseguirem gerenciar o próprio consumo. O excesso de peso abrevia a vida de muita gente e o consumo descontrolado de alimentos leva a cortantes processos de culpa, desespero e baixa auto-estima que podem mesmo conduzir ao suicído ou a vidas vegetativas. Pessoas que já não saem de casa, prostradas em frente à TV, fazendo uma refeição diária non-stop, são casos a cada dia mais comuns nos Estados Unidos. Apesar disso, a indústria de doces, por exemplo, continua operando. É que, a despeito dos desvios, há uma maioria que obtém grande satisfação consumindo chocolates e sorvetes moderadamente. A solução para os casos de excesso é dada por terapeutas, endocrinologistas, psicólogos. Enfim, trata-se de um problema pessoal, de ordem médica, resolvido individualmente. Da mesma forma, as centenas de sujeitos, boa parte deles jovens, que matam e morrem diariamente em conseqüência de não saberem gerenciar o uso de um automóvel não determinam que milhões de outros usuários não possam ter suas vidas facilitadas pela indústria automobilística e seus produtos. </p>
<p>Na mesma linha de raciocínio, não faz sentido esconjurar o consumo de drogas, banindo-o extensivamente, com base no argumento de que há usuários que arruinam sua vida. Como no caso dos alimentos ou dos automóveis, o que leva à ruína é a incapacidade de gerenciar o consumo, não o consumo em si. O problema é pessoal, está mais para exceção do que para regra, e deve, portanto, ser tratado no varejo, pelos indivíduos, e não no atacado, pela coletividade.</p>
<p>Um outro corte analítico é imprescindível para abordar o tema: drogas proibidas e drogas liberadas. Droga é uma palavra cujo significado deve incluir todas as substâncias entorpecentes que alteram de alguma forma o estado de consciência que consideramos normal. Evidentemente, há uma categorização que põe ordem nesse balaio de gatos. A categorização pode ser feita sob vários parâmetros, como grau de dependência produzida ou danos ao organismo do usuário. Ela evita que se tome uma espoleta por um projétil calibre 45 e vice-versa.</p>
<p>Proibição ou liberação são as duas posições possíveis diante do consumo de drogas. A proibição é uma postura conservadora baseada em argumentos morais. Essa corrente de pensamento admite tolher liberdades individuais para impor ao indivíduo a expectativa de comportamento social médio da comunidade. Combina com sociedades autoritárias. A liberação é uma postura liberal baseada no princípio de que liberdades individuais são inalienáveis em uma sociedade democrática. Especialmente o direito ao consumo e à autodeterminação. Para essa corrente de pensamento, que combina com sociedades abertas, a coletividade não pode interferir na vida privada de um indivíduo, exceto se ele apresentar um quadro de insanidade mental que o torne irresponsável por seus atos ou se ele constranger os direitos de terceiros.</p>
<p>Desses dois pontos de vista, emergem duas possibilidades de ação relativas ao consumo de drogas. A primeira seria alçar o indivíduo à posição de decidir sobre o próprio uso, ou não, de substâncias entorpecentes. Ao cidadão seria dada a liberdade de escolher e cobrada a responsabilidade de gerenciar o uso de drogas. Nesse caso, seria lógico liberar o consumo das drogas hoje proibidas. A outra possibilidade seria a coletividade chamar para si a jurisdição sobre o tema e proibir à mão grande o uso de drogas, privando o indivíduo do direito de optar. Nesse caso, seria necessário proibir também as drogas hoje liberadas. Afinal, o motor dessa política é o banimento das substâncias entorpecentes do convívio social. Não faria sentido proibir algumas e permitir outras.</p>
<p>Considere, por exemplo, um sujeito que ingere toda noite meia garrafa de uísque e duas de cerveja. Embora triste e lamentável, o caso desse cidadão não constitui motivo para a polícia invadir sua casa, confiscar sua adega e constranger seus direitos civis. Agora considere um outro sujeito que não bebe. Em vez das garrafas de uísque sobre a geladeira e das caixas de cerveja na área de serviço, ele mantém 10 gramas de cocaína no armário do banheiro. E consome vários gramas por semana. Triste e lamentável. Mas também aqui a sociedade não deveria ter o direito de interferir em sua vida. Não há justificativa alguma para a polícia ser indulgente com o primeiro sujeito e entrar na casa do segundo, confiscando a substância entorpecente e constrangendo sua liberdade individual. Afinal, o que faz do álcool uma droga menos perigosa do que a cocaína? Até que ponto as duas substâncias não se equivalem em dependência ou em danos causados ao usuário? </p>
<p>Tomemos um exemplo de cores mais brandas. Em vez daquele alcoólatra, consideremos um sujeito que montou um bar em sua casa para tomar um bom vinho nas sextas à noite com a namorada ou um aperitivo antes do almoço de domingo com os amigos. Certamente, a ação da polícia sobre esse bon vivant seria ainda mais deslocada. Afinal, ele sabe gerenciar o próprio consumo. Por outro lado, ao contrário daquele cocainômano, consideremos o sujeito que nas sextas-feiras à noite troca uma garrafa de Merlot por alguns gramas de maconha. Um baseado. Tal qual o bon vivant, esse usuário sabe gerenciar o consumo. Por que a sociedade permite ao primeiro os prazeres que decidiu obter alterando seu estado de consciência com uma bebida alcoólica francesa enquanto relega ao segundo, que decidiu obter prazeres similares com uma erva boliviana, coturnos na porta e revólveres na cabeça?</p>
<p>Simplesmente parece não haver lógica no fato de os 12,5% de teor alcoólico em um vinho serem socialmente aceitos e a maconha ser execrada. Ou no fato de perseguirmos a maconha e tolerarmos as substâncias presentes nos cigarros convencionais, indutoras — segundo muitos estudos — de cânceres, tumores e disfunções cardíacas. Da mesma forma, não há lógica no fato de os 40% de álcool presentes em uma vodca serem promovidos em anúncios de televisão e a cocaína ser um tabu a ponto de ninguém lembrar que ela era vendida em farmácias no início do século.<br />
 Enfim, chegamos ao tráfico. No tráfico, as drogas encontram o crime. A análise o define como um problema, por qualquer ângulo que se olhe. O que fazer a respeito? Comecemos por um exercício de imaginação. Considere um cenário onde o seu filho decide experimentar uma droga. Você é contra, claro. Mas as drogas têm seu consumo liberado no país — uma pouca-vergonha, do seu ponto de vista. Elas estão na faixa de produtos fiscalizados de perto pelo governo, como os medicamentos e os agrotóxicos. Seu filho vai à farmácia e compra a substância que lhe causa curiosidade. A droga vem bem embalada, com o nome do fabricante, país de origem, prazo de validade e selo de controle de qualidade do Ministério da Saúde. Seu filho, como qualquer outra pessoa, tem uma cota de compra mensal permitida por lei. Ao adquirir a droga, seu nome é registrado nos computadores do Ministério da Saúde, que terá assim um mapa preciso do consumo de entorpecentes, leves e pesados, no país e talvez venha a lhe telefonar dentro de alguns dias para obter informações mais detalhadas sobre o usuário. “Seu filho está precisando de assistência médica? Psicológica? Seu comportamento tem mudado? Passe um bom dia, senhor.”</p>
<p>Quem banca esse atendimento primoroso? Um imposto estratosférico embutido no produto. Considere: 1 quilo de heroína custa 6 500 dólares no atacado, na Turquia. Ele chega aos traficantes da Alemanha por 35 000 dólares (acréscimo de 438,46%) e ao atacado nos Estados Unidos por 75 000 dólares (acréscimo de 1 053,84%). Considerando que os preços de varejo embutirão ainda o lucro dos traficantes, pode-se dobrar esses números como uma estimativa do que pagará o consumidor final. Isto é, uma mercadoria legal seria extremamente competitiva mesmo com um imposto, digamos, de 500%, que a um só tempo mantivesse a demanda sob rédea curta e sustentasse uma máquina inteligente e eficaz de controle do uso de drogas no país.</p>
<p>Agora considere outro cenário. Seu filho decide experimentar uma droga. Você é contra, claro. Ou seria, se soubesse. As drogas têm seu consumo proibido no país, como você acha correto e justo. Seu filho, obviamente, não discute a questão com você. Simplesmente rouba o carro numa noite qualquer e sobe o morro. Ou mete-se em zonas da cidade onde nem a polícia gosta de ir. Encontra o traficante. Isto é, estabelece contato pessoal com a escória. E compra a droga ao preço ditado pelo criminoso. O produto que recebe é vil: há talco, cal, areia, farinha, pó de vidro; ou esterco, grama, cinzas, enfim, uma infinidade de imundícies destinada a avolumar o estoque do traficante e assim gerar mais vendas. Muitas dessas adulterações causam mais problemas ao usuário do que a droga em si. Mas se houver prejuízos ao seu filho você não terá a quem recorrer.</p>
<p>Em primeiro lugar, você não sabe quem é o responsável por aquele produto. Depois, é impossível saber que adulterações foram feitas e quem as realizou. Pior de tudo: você terá que ficar em silêncio porque a lei que você ajuda a sustentar no país considera seu filho tão fora-da-lei quanto a rede criminosa que lhe vendeu aquela mercadoria abjeta.</p>
<p>No primeiro cenário, seu filho experimenta a droga no seu próprio quarto, dentro de casa, ao alcance da sua supervisão (ainda que contrariado). E ele não se envolve com nenhum submundo, com ninguém mais perigoso que uma balconista de farmácia. No outro cenário, seu filho experimenta a droga sem você ter a mínima idéia do que está acontecendo. E, para tanto, conhece ambientes hediondos, trava contato com indivíduos torpes. Considerando que você não ocupe a posição de surdo-mudo em relação às drogas por opção, e que o silêncio e a vista embaçada não sejam sua estratégia para enfrentar o problema, é hora de rever posições longamente tidas como inquestionáveis.</p>
<p>Uma dessas verdades fossilizadas é que a repressão é o melhor método para a sociedade enfrentar o tráfico. Os Estados Unidos são o grande sustentáculo desse ponto de vista. Os americanos o passaram adiante, mundo afora, como o fizeram com a Coca-Cola e o McDonald’s. Os adeptos da repressão defendem que o tráfico deve ser combatido meramente com operações policiais e militares. É isso que tem acontecido ao longo das últimas décadas. Contraditoriamente, nesse período o tráfico floresceu como nenhum outro negócio no mundo. Alguma coisa está errada. Que o tráfico precisa ser eliminado, não há dúvida. Mas é provável que tenhamos que rever o plano, porque a tática da repressão pura e simples está de joelhos diante do poderio do tráfico. Enfim, a questão é: como ser eficiente nesse combate?</p>
<p>O tráfico, entendido como a produção, a comercialização e o transporte de drogas, é um negócio muito poderoso para ser mantido à margem da lei — como querem os que defendem a proibição incondicional do consumo de drogas. A indústria das drogas, aliás, só é tão poderosa porque vive à margem da lei. A repressão comandada pelos Estados Unidos, e apoiada virtualmente por todos os países, oprime a oferta e aumenta os riscos do negócio. Resultado? Vimos no exemplo da heroína turca que chega aos traficantes americanos 1 000% mais cara: preços irreais e lucros inefáveis, para regozijo dos traficantes. A repressão isolada, portanto, não faz muito além de empurrar o negócio das drogas cada vez mais para longe da lei, da luz do dia, da jurisdição dos estados nacionais.</p>
<p>E é lá, na escuridão da noite, no vazio legal, no vácuo do poder público, que o tráfico viceja. Cria sua própria lei, diversifica suas atividades ilegais, nutre vários outros ramos do crime com o excedente de seus lucros, escraviza populações trabalhadoras, afunda economias, compra políticos, terras, policiais, vidas. De um certo ponto de vista, ninguém lucra tanto com a proibição do consumo de drogas quanto o tráfico. A ilegalidade alimenta sua alma, infla seu bolso, revigora seu poder.</p>
<p>Ao lado desse tratamento equivocado que se dá à oferta (tráfico), há a questão da demanda (consumo). A repressão ao consumo é uma quimera. Tomemos o exemplo do Japão, uma sociedade virtualmente imune às drogas proibidas. Não há vestígios de pós, ervas ou barbitúricos de qualquer espécie na vida cotidiana japonesa.</p>
<p>É uma sociedade mais saudável e feliz por isso? A resposta é facilmente encontrada em qualquer rua, de qualquer centro urbano do país, entre as 10 da noite e o horário do último trem, pouco depois da meia-noite. Executivos ainda vestindo seu ternos de 500 dólares saem dos restaurantes túmidos de cerveja e saquê, a ponto de não andarem em linha reta ou de não acharem o caminho de casa. Regurgitam em sua passagem pelas calçadas. Essa triste via-crúcis é obra de muitos no Japão. A ausência das drogas que assombram nossas vidas no Ocidente não impede que os japoneses sintam algum tipo de frustração, necessidade ou renúncia para o qual beber é uma válvula de escape. O governo faz os ônibus e trens encerrarem cedo seus serviços. E joga pesado na taxação do álcool. Mas a demanda continua lá, fulgurante.</p>
<p>Se tivermos como objetivo instaurar no Brasil uma política eficiente no tocante às drogas, é necessário termos claras duas coisas. Com relação à oferta, é preciso reprimir o tráfico como medida complementar à oficialização do negócio. É preciso legalizar essa indústria, de modo a trazê-la para a luz do dia, onde possa ser fiscalizada como qualquer outra cujos produtos são controlados. Isso iria minguar dramaticamente a margem de lucro dos cartéis e em conseqüência esvaziar seu poder econômico e político.</p>
<p>Um dos resultados práticos seria o retorno das favelas do Rio, por exemplo, à esfera da municipalidade. Hoje, como se sabe, há um poder paralelo que cresce de modo assustador na capital fluminense. O tráfico de drogas, nesse cenário, terminaria seus dias como um problema ordinário de contrabando, a exemplo do que enfrentam outras indústrias. Com relação à demanda, é impossível mantermos a ilusão positivista de que o ser humano não vá recorrer a fugas da realidade aqui e acolá. O que o ser humano busca nas drogas, ou na religião, ou nas jornadas de trabalho dos workaholics, não é questão que possa ter resposta provida por governos ou pela coletividade. A questão das drogas insere-se aí.</p>
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		<title>O tremendo azar sexual da minha geração</title>
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		<pubDate>Mon, 30 May 2011 20:50:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu deixei de ser criança aos 12 anos. Marco essa passagem nesse ano especificamente porque foi quando meus hormônios mudaram de cor, cheiro, forma e tamanho. Fui à minha primeira festinha ainda com 10, e de calção, achando que aquilo &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/05/30/o-tremendo-azar-sexual-da-minha-geracao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217331" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/anos80.jpg"><img class="size-full wp-image-217331" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/anos80.jpg" alt="" width="320" height="206" /></a><p class="wp-caption-text">Os anos 80 constituem um dos períodos mais sexualmente reprimidos do século 20</p></div>
<p>Eu deixei de ser criança aos 12 anos. Marco essa passagem nesse ano especificamente porque foi quando meus hormônios mudaram de cor, cheiro, forma e tamanho. Fui à minha primeira festinha ainda com 10, e de calção, achando que aquilo valia a pena só pelos brigadeiros, porque de resto preferia ainda correr lá fora com os moleques a ficar trancafiado dentro daquela sala à meia luz com um monte de meninas. Com 11, no ano seguinte, as festinhas &#8211; a gente chamava de &#8220;reunião dançante&#8221; lá no Sul &#8211; se tornaram uma constante e eu passei a vestir calças jeans, a melhor camisa disponível e até a arriscar um perfuminho. Mas foi somente com 12 que eu descobri a masturbação. E com ela me iniciei nas fantasias, redescobri meu próprio corpo e, em paralelo, as meninas ganharam um novo significado em minha vida. <span id="more-217321"></span></p>
<p>É incrível que meu pobre e incauto pênis tenha sobrevivido à exagerada manipulação &#8211; ainda, suponho, bastante desajeitada &#8211; daquele primeiro ano de lascívia. Bem, diz o ditado que o que não nos mata nos engrandece. E assim foi. Esses dias percebi que entre a inauguração desse intenso supino íntimo e a minha primeira relação sexual se passaram quase quatro anos. Nesse interregno, em que os hormônios lhe bombardeiam e você não consegue se livrar daquela ideia fixa, molhada, peludinha e perfumada que lhe toma a cabeça de assalto, o menino quase perde a razão. A ansiedade da estreia versus o ritmo puxado dos treinos enlouquece o sujeito. A primeira vez, portanto, vem como alívio, antes de mais nada. Vem como um antitérmico que faz a febre baixar. Em seguida, uma certa decepção se instala &#8211; mas então era só isso? Aí o sujeito vive a sua segunda vez, geralmente mais serena. E é como se, aí sim, perdesse de fato a virgindade. E começasse então a descobrir o sexo, do jeito certo, com a pessoa certa etc.</p>
<p>A minha primeira vez aconteceu no mês de meu aniversário de 16 anos, na praia, dentro de uma barraca abafada, em um camping. Eis o que é relevante dizer &#8211; me iniciei sexualmente no verão de 1987. No começo do segundo tempo da década de 80. A tempo de viver o meu desabrochar sexual em tempos de Aids, de medo de abrir as pernas, de pavor de arriar as calças, de completo terror imposto pelo vírus HIV. Os anos 80, e eu localizaria isso melhor no tempo entre 1982 e 1995, constituem um dos períodos mais sexualmente reprimidos do século 20. Foram mais de 10 anos vitorianos, em que você reprimia o tesão em nome da manutenção da sua saúde e da sua vida, em que você desconfiava de todo mundo. Pintos, vulvas, bundas &#8211; e até beijos salivados &#8211; todos eram suspeitos, todos carregavam uma tarja de possível hospedeiro do Mal do Século. Foi, enfim, uma década fria, contrita, enfiada &#8211; sem trocadilho &#8211; entre uma geração solta (a dos meninos e meninas que voltaram a se pegar a valer na segunda metade dos anos 90 e não pararam mais) e uma geração louca (a dos anos 70, em que, como contava Cazuza, você ia para a cama com um bando de gente desconhecida e acabava se apresentando às pessoas lá mesmo, sobre o colchão, entre uma lambida e um gemido).</p>
<p>Então gente que, como eu, produziu suas melhores enzimas naqueles anos de secura geral e agastamento coletivo, olha tanto para trás (sem trocadilho!) quanto para frente com uma certa inveja. As gerações anterior e posterior à minha viveram com menos culpa, introjetaram menos medo, tiveram seus orgasmos com muito menos grilos. Enfim: a turma com mais de 50 e a turma com menos de 30 parecem ter trepado muito mais e melhor do que nós que, apesar dessa condição meio <em>castrati</em>, continuamos idolatrando os anos 80 e cantando <em>Bizarre Love Triangle</em> com os olhos úmidos de melancolia e, talvez, de modo bastante justificado, autocomiseração.</p>
<p><em>* Versão integral do artigo publicado este mês na Revista Alfa (capa do Neymar!), da Editora Abril, a convite do meu amigo Kiko Nogueira e sob a edição auspiciosa de Ronaldo Bressane. Compra lá e lê que no papel fica bonito par caramba.</em></p>
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		<title>Sobre ateus, crentes e agnósticos</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 12:11:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho tido conversas ótimas sobre Deus e sobre a origem de tudo, puxadas pelos meus filhos. Ambos tem 5 anos e meio. E estão muito interessados nesses temas &#8211; por iniciativa própria. Gostam de bater uns papos comigo a respeito. &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/05/26/sobre-ateus-crentes-e-agnosticos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217301" class="wp-caption alignleft" style="width: 249px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/agnostico.jpg"><img class="size-full wp-image-217301" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/agnostico.jpg" alt="" width="239" height="154" /></a><p class="wp-caption-text">A vida e a morte seriam muito mais divertidas se Deus tivesse mesmo nos criado - e se a tese de que fomos nós que criamos Deus estivesse errada</p></div>
<p>Tenho tido conversas ótimas sobre Deus e sobre a origem de tudo, puxadas pelos meus filhos. Ambos tem 5 anos e meio. E estão muito interessados nesses temas &#8211; por iniciativa própria. Gostam de bater uns papos comigo a respeito. &#8220;Como nasceu o ser humano?&#8221;, &#8220;O que havia antes dos dinossauros?&#8221;, &#8220;Qual o primeiro bicho do planeta? Como ele surgiu?&#8221;, &#8220;Fantasma existe de verdade?&#8221; etc. Nossos colóquios se dão especialmente no carro, de madrugada, enquanto os levo para a escola. Eles fazem as perguntas certas, de modo espontâneo, e isso é bonito de ver. Às vezes gostam de tergiversar deliberadamente e aí tudo termina em piadinhas que eles criam e em risadas gostosas &#8211; o que é um jeito ainda melhor de começar o meu dia.</p>
<p>Tenho tentado ser pedagógico, educador em minhas respostas. Tenho minhas crenças e minhas dúvidas mas não uso essa oportunidade para impô-las nem para sugeri-las como o único modo de responder às perguntas que eles fazem. Opinião de pai tem peso &#8211; ou para ser seguida à risca ou para ser rechaçada sumariamente, sem muito titubeio. (E opinião de mãe, na idade deles, é uma lei pétrea.) Então primeiro ofereço a versão enciclopédica da resposta. Normalmente, começo dizendo que &#8220;isso ninguém sabe ao certo, não há uma resposta única, há pessoas acreditando em coisas diferentes&#8221;. E aí apresento as principais visões que existem sobre o tema. Se me perguntam o que eu acho, especificamente, aí sim declaro minha opinião. Frisando que é apenas a minha. Meu filho já declarou que não acredita em Deus porque viajou de avião e não viu ninguém sentado no céu. &#8220;Eu só acredito em anjinhos&#8221;, diz ele. (Eu também, meu anjinho, cada vez mais acredito só em vocês.)<span id="more-217291"></span></p>
<p>Um dia talvez falemos de jeito mais aberto e franco sobre esses mistérios todos. Bebericando juntos alguma coisa. Aí eles perceberão quão poucas convicções eu tenho a respeito dessas grandes questões. O que me faz agnóstico. E cada vez mais agnóstico. (É provável que até que possamos tomar um trago juntos eu já não tenha mais convicção alguma nos bolsos&#8230;) Eis como me defino: o crente crê que existe. O ateu também crê &#8211; a sua crença é que não existe. Assim como o crente não pode provar que existe, e por isso precisa de Fé, o ateu também não pode provar que não existe, o que também requer, pasme, Fé da parte dele. O agnóstico simplesmente não crê. Não tem Fé alguma, nem na existência nem na não existência. E diante da impossibilidade de responder de forma definitiva a uma determinada questão, não descarta nenhuma possibilidade de resposta.</p>
<p>Sou agnóstico, não creio, não tenho Fé &#8211; mas confesso que gostaria de estar errado. Dou o benefício da dúvida a tudo, claro. E intimamente, tenho dois sentimentos dialogando comigo: de um lado, tendo a acreditar que não existe nada e que é tudo mentira, mas, de outro, torço sinceramente para que tudo seja verdade e para que tudo exista. Do ponto de vista literário, pense comigo, a vida, e especialmente a morte, seriam muito mais divertidas se Deus tivesse mesmo nos criado &#8211; e se a tese de que fomos nós que criamos Deus estivesse errada.</p>
<p>Nos meus dias mais descrentes, no entanto, penso que Deus é uma produção humana, e que ele foi criado por nós, à nossa imagem e semelhança, entre outras coisas, como um remédio contra a ansiedade. É insuportável para o Homo sapiens, desde sempre, conviver com a ideia de que não há controle possível sobre a vida, sobre o mundo, sobre as coisas, sobre o seu próprio destino. Deus é uma tentativa de estabelecer um fluxo, uma ordem, uma lógica, um sentido, um caminho certo, uma predestinação. Deus é uma explicação, é uma resposta. É um calmante, é um farol, é uma bússola nessa bruta escuridão, nesse desamparo do homem perdido num pontinho ínfimo no universo, nessa imensa ignorância que temos sobre quase tudo, sobre nós mesmos. A hipótese de o acaso, a oportunidade e a necessidade terem definido tudo que existe, sem uma intenção, sem a orquestração de uma inteligência superior, é aterradora, é desesperadora. Nos reduziria a sermos meramente carbono, átomos, moléculas organizados por sorte de um jeito que nos possibilitou ser quem somos. Então somos apenas uma outra versão da matéria que forma qualquer outra coisa? Então qualquer coisa pode acontecer? Então não há propósito em nossa existência, não somos especiais, não somos filhos de Deus, somos apenas um acidente químico? E a morte? Então vamos mesmo dar em nada, sem consecução alguma, como uma grama que seca que é tragada de volta à terra de onde ela brotou, sem qualquer consequência ou significado especial, num ciclo natural que simplesmente acaba? Precisamos acreditar que não é assim. Nos meus dias mais descrentes, é isso que enxergo: tivemos que inventar Deus para nos confortar. Precisamos dele para nos pautar na vida e para nos salvar da morte.</p>
<p>Mas, repito, torço para estar errado.</p>
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		<title>Viva a metade cheia do copo!</title>
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		<pubDate>Tue, 24 May 2011 12:45:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carreira]]></category>

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		<description><![CDATA[Você sente medo de vez em quando? Ondas de cagaço, de paúra, de insegurança &#8211; ao olhar para o futuro, ao olhar em volta, ao olhar para você mesmo? Sente o coração apertar, a mente pesar, as mãos ficarem frias? &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/05/24/viva-a-metade-cheia-do-copo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217251" class="wp-caption alignleft" style="width: 255px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/metadecopo.jpg"><img class="size-full wp-image-217251 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/metadecopo.jpg" alt="" width="245" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">A vida é boa, gente. A questão é conseguirmos manter dentro de nós mesmos um frescor equivalente àquele com que a vida ao redor nos brinda.</p></div>
<p>Você sente medo de vez em quando? Ondas de cagaço, de paúra, de insegurança &#8211; ao olhar para o futuro, ao olhar em volta, ao olhar para você mesmo? Sente o coração apertar, a mente pesar, as mãos ficarem frias? Eu também.</p>
<p>Poderia declarar que isso é simplesmente humano &#8211; embora nenhum humano goste de admiti-lo, nem em público nem para si mesmo. Poderia alegar que medo é só a velha ansiedade em ação. Também poderia dizer que o medo é um amigo (desde que você não se deixe paralisar por ele), uma sensação que tem o poder de livrar a sua cara de muitas frias. Mas não é sobre nada disso que quero falar.</p>
<p>Eis o tenho a dizer: sentir medo, meu amigo e minha amiga ingênuos, antes que tudo, não é vergonha para ninguém. Só pode ser corajoso quem sente medo. Sem medo não existe coragem. Assim como não existe glória sem adversidade. Assim como não existe superação sem obstáculo. Por favor, não alimente os seus medos. Mas também não tenha medo de senti-los. O medo é um convite a que você cresça, avance, pule da cama ou do sofá com sangue no olho e beba a vida como ela gosta de ser bebida &#8211; como um copo perfeito da bebida que você mais gosta.<span id="more-217241"></span></p>
<p>Neste momento, estou diante de outro recomeço em minha vida. De mais uma troca de pele. Um momento bem propício a que os medos &#8211; os velhos e os novos &#8211; aflorem. Um momento de inevitável ansiedade. Em que as dúvidas e o sentimento de instabilidade aparecem com mais força. E em que também as certezas &#8211; as velhas e as novas &#8211; voltam a piscar no radar, dizendo a você &#8220;ei, eu sou a sua verdade, você sabe disso, então me assume de uma vez, pô&#8221;.</p>
<p>Desta vez eu resolvi fazer valer os meus 40 anos. Vou lidar com tudo isso de outro modo. É que até certo ponto você pode, sim, escolher como reagir diante das situações. Um novo começo é também motivo de muita alegria, de frescor, de leveza. Quem nunca sentiu aquela enorme sensação de alívio ao deixar um emprego ou um casamento &#8211; mesmo como todas as mortalhas que eventos assim empurram para cima da gente? Um novo começo é também um momento de esperança, de pegar um cardápio novinho em folha para escolher qual será a próxima refeição. Essa riqueza de possibilidades e de oportunidades é uma brisa gostosa lambendo os cabelos da gente.</p>
<p>Então a vida é boa, gente. A questão é conseguirmos manter dentro de nós mesmos, internamente, um frescor equivalente àquele com que a vida ao redor nos brinda. A questão é não envelhecermos antes do próprio ambiente que nos cerca. Não é difícil. Mas é preciso querer que seja assim. E é preciso romper com a ideia de que o sofrimento é a única saída, é destino certo. Não é. Não precisa ser.</p>
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		<title>Bilhete ao meu amigo que deu certo na vida</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 19:31:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Cara, como é bom te ver bem. Eu gosto de me sentir bem com o sucesso dos amigos. Tenho lido que isso é um sinal de quem tem caráter &#8211; a capacidade de ficar contente com o êxito alheio. Então &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/05/03/bilhete-ao-meu-amigo-que-deu-certo-na-vida/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217211" class="wp-caption alignleft" style="width: 427px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/pepe.jpg"><img class="size-full wp-image-217211 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/05/pepe.jpg" alt="" width="417" height="458" /></a><p class="wp-caption-text">Você, sem se apressar, sem correr ostensivamente atrás de nada nem de ninguém, sempre conseguiu conquistar no tempo certo (o seu timing) tudo aquilo que queria. Eu lhe admiro muito por isso, brother</p></div>
<p>Cara, como é bom te ver bem. Eu gosto de me sentir bem com o sucesso dos amigos. Tenho lido que isso é um sinal de quem tem caráter &#8211; a capacidade de ficar contente com o êxito alheio. Então vai ver que eu tenho algum caráter. Ao menos no que se refere ao que sinto ao lhe ver vencendo na vida. Acompanho sua trajetória há mais de dez anos. E torço por você. Sei que você partiu lá de atrás. E foi vindo em direção à classe média, em direção ao padrão de vida que almejava ter. Você sempre admirou a mim e a outros caras em quem talvez mirasse quando começou sua caminhada. No entanto, isso nunca se transformou em inveja, em cobiça, em qualquer emoção negativa. Nunca me senti ameaçado por você.  Nunca senti que você quisesse o que era meu, ou que desejasse que eu deixasse de ter alguma coisa que você não tinha, ou que você tivesse a sensação de que eu precisaria perder para você ganhar. Mesmo quando eu já estava dentro de um sedan bacana da firma e você ainda rodava numa moto de baixa cilindrada &#8211; que era sua ferramenta de trabalho, inclusive. Então acho que, na verdade, por tudo isso, quem tem caráter nessa história mesmo é você. Porque se é grande você olhar com simpatia para um outro cara que está atrás na estrada, e torcer genuinamente por ele, como eu fiz por você, é maior ainda manter a compostura e o amor diante de um cara que está à sua frente, como você fez por mim.<span id="more-217201"></span></p>
<p>Admiro suas conquistas. Especialmente porque você nunca foi um tipo afoito. Você, ao contrário, é um dos caras mais tranquilos que eu conheço. É como se você sempre tivesse sabido que ia chegar lá. E como se sempre tivesse sacado que não é sábio querer acelerar as coisas, atropelar os processos, andar mais rápido do que as próprias pernas. Você é um pouco &#8211; não me entenda mal! &#8211; como o Pepe Le Pew, aquele personagem de Hanna Barbera que era apaixonado por uma gatinha, e que, sem jamais correr ostensivamente atrás dela, sempre conseguia chegar antes nos lugares em que precisava estar. De alguma maneira, você sempre soube que injetar doses cavalares de ansiedade na vida só torna as conquistas, quando elas acontecem, insípidas. E você, me parece, é um cara que sabe sorver a vida. Aproveitar o momento. Mesmo que sejam momentos duros. Eu já tive que lhe pagar um lanche no McDonald&#8217;s, lembra? Você teve que vender coisas suas para pagar as mensalidades em atraso na faculdade, lembra? Não se envergonhe disso. Essas são marcas indeléveis do seu belo voo, da sua vitória, do tanto que você avançou. É assim que começa o seu DE/PARA. E acho que definir o quão bem sucedida é uma vida, nada melhor do que analisar o DE/PARA. De onde você saiu e até onde você conseguiu chegar. Não importa muito onde estão localizados esses dois pontos. Importa a distância que há entre eles.</p>
<p>Admiro, por fim, o conforto que você angariou para si mesmo e para a sua família. É bonito de ver os tijolinhos se montando em sua bela parede. Mas admiro, acima de tudo, a dignidade que você construiu em torno de si. Dignidade. Talvez esse seja o único parâmetro que realmente importa na vida. Conquistá-la. E jamais, nunca, em hipótese alguma se perder dela. A partir de agora, meu amigo, você tem uma reputação a zelar. A partir de agora, meu irmão querido, você tem muito a perder. E isso é ótimo. Parabéns, garoto.</p>
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		<title>O dia em que eu chorei em público</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 15:07:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Infância]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje faz uma semana da Festa de 25 anos da minha Turma de adolescência. Foram trinta e seis horas, um bar, dois restaurantes e uma baladaça inesquecíveis. O tempo é mesmo implacável: ainda estamos nos recuperando da comemoração e a &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/29/o-dia-em-que-eu-chorei-em-publico/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_217131" class="wp-caption alignleft" style="width: 514px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/CilonPulseira.jpg"><img class="size-full wp-image-217131  " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/CilonPulseira.jpg" alt="" width="504" height="378" /></a><p class="wp-caption-text">A gente continua andando, olhando para a frente, como deve ser, só que com um pedaço enorme do coração enterrado lá atrás, once upon a time, somewhere in past...</p></div>
<p>Hoje faz uma semana da Festa de 25 anos da minha Turma de adolescência. Foram trinta e seis horas, um bar, dois restaurantes e uma baladaça inesquecíveis. O tempo é mesmo implacável: ainda estamos nos recuperando da comemoração e a própria comemoração já faz aniversário. Ela também já virou passado &#8211; exatamente como tudo que ela se dedicava a celebrar. Passou. Virou memória.</p>
<p>Às vezes eu dava dois passos para trás, saía da cena, e ficava olhando a Festa meio que de fora, por alguns momentos. Ficava observando a Turma em movimento espontâneo &#8211; os abraços, os reencontros, os instantes de histeria coletiva, os olhares, as trocas silenciosas, os amassos e estrangulamentos amorosos, os pequenos e os grandes filmes acontecendo à minha frente. Em determinado momento, eu estava ali, encostado no balcão do bar, capturando aquilo tudo pela última vez. Já eram quase cinco horas da manhã. A Festa estava acabando. Mais da metade das pessoas já tinha ido embora. Então alguns amigos do núcleo duro da Turma começaram a se despedir. E aquela sensação de fim me pegou de frente, em cheio. E quando eu vi, estava chorando em cena aberta. A iminência da despedida inevitável &#8211; que deixava tanta coisa para trás, outra vez &#8211; me fulminou. Então chorei ali, escorado na parede, encolhido no meu canto.<span id="more-217121"></span></p>
<p>Uma amiga me vê, em meio ao breu, limpando as lágrimas, talvez ainda soluçando um pouco, e me pergunta: &#8220;De novo?&#8221; Era uma referência a 2006 &#8211; a nossa última Festa, quando havíamos comemorado nossos 20 anos. Mas lá eu não havia chorado. Tinha ligado para algumas pessoas depois da Festa. Angustiado com aquela tristeza, com aquela melancolia, com aquela saudade que me sufocava &#8211; e que gerou <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/26/sobre-sentir-saudade-2006/">o que vocês já leram</a>. Mas lá eu não havia chorado &#8211; não na frente deles. (Chorei um bocado no colo da minha mulher, mais tarde.) Eu na verdade choro muito pouco &#8211; muito menos do que gostaria ou deveria. Mas foi legal minha amiga não ter entrado na minha melancolia e, ao contrário, ter me dado um toque para eu sair dela e voltar ao presente. (Ela me confessaria, mais tarde, que desabou meia semana depois da Festa. Viva, não sou só eu!) Não que eu tenha conseguido muito seguir o seu conselho. Porque isso significaria também sair de mim mesmo, de dentro dos meus jeitos de sentir as coisas e de funcionar. E isso é uma coisa difícil de fazer. Mas é bacana, quando algo lhe doi, perceber que a outra pessoa nas mesmas condições aquilo não doi tanto. Você relativiza a própria dor, ao invés de solenizá-la, de sacralizá-la, de colocá-la no pedestal &#8211; que é a minha tendência natural.</p>
<p>Então esse meu choro na Festa de 25 anos, sexta passada, foi inusitado. E um bocado libertador. Me surpreendi comigo mesmo por ter chorado na frente de todo mundo &#8211; ainda que poucos tenham visto. Mas aquelas lágrimas despudoradas foram um elemento bacana em minha catarse. Passei a primeira parte da vida acelerando &#8211; agora eu quero achar o ritmo certo. Passei a primeira parte da vida controlando as emoções &#8211; agora quero ser autêntico. Passei os primeiros 40 anos sendo racional e responsável e consequente e preocupado &#8211; quero temperar os outros 40 com mais espontaneidade, com mais desejo, com mais paixão, com menos ansiedade. Eu tenho orgulho do amor adolescente que nutro pelos meus amigos da adolescência. Eu tenho orgulho dessa conexão misteriosa que nos une até hoje. Então curti ter colocado isso para fora daquele jeito inédito para mim.</p>
<p>Brincar de ter 15 anos de novo quando se tem 40 é complicado. É duro voltar no tempo tendo ficado claro a você, talvez pela primeira vez de modo inequívoco, que o tempo à frente fica a cada dia mais curto. Celebrar a juventude, o viço, o começo da vida, os verdes anos, quando se está envelhecendo de verdade, é perigoso. (&#8220;Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer&#8221;, como canta Arnaldo Antunes em sua excelente <a href="http://www.youtube.com/watch?v=pp-EkY98Xe4">Envelhecer</a>). E que tal manter a compostura e o senso do ridículo, se afastar da pieguice, preservar uma distância segura em relação às próprias emoções, se agarrar à justa medida das coisas? Não me interessa. E que tal ter uma visão clara de que o passado passou e de que só o presente conta, e ficar numa boa diante do fato de que estamos em aceleração centrífuga, em veloz dispersão, em permanente clima de despedida? Até gostaria, mas não sou eu. (Sim, nós somos aqueles pontinhos em eterna diáspora. Só que teimamos em olhar para trás. Decidimos, sei lá por que, continuar sorrindo uns para os outros e para o que temos em comum &#8211; ainda que sejam apenas lembranças. Eternizá-las talvez seja um jeito de nos eternizarmos também&#8230;) E que tal passar por tudo isso ileso? Ótimo, só que não é para mim. Gostaria de estar sempre com a mente e o coração no aqui e agora, e de não me despegar do hoje. Mas eu volta e meia agarro o passado pela mão. E a gente não sente saudade do outro exatamente no presente. O que a gente sente é saudade do outro &#8211; e, insisto, de nós mesmos &#8211; no passado. Isso é maluco.</p>
<p>De todo modo, mesmo entre aqueles da Turma mais imunes à nostalgia, entre aqueles menos melancólicos, não há ninguém que tenha ficado alegre nesta volta para casa, não há ninguém que esteja apenas espocando fogos, sem ao menos uma pontinha funda de tristeza &#8211; apesar de todos sermos apaixonados por nossos filhos, cônjuges e animais de estimação (não necessariamente nesta ordem), apesar de todos sermos apaixonados por nossos trabalhos, por nossas casas, por nossas conquistas. Apesar de tudo isso, acho que é a cada cinco anos que nós lembramos do que é realmente ser arrebatado por uma paixão. Talvez porque nós tenhamos a sorte, e ao mesmo tempo a sina, de termos encontrado alguns de nossos melhores amigos, alguns de nossos amigos para sempre, não na faculdade, não no trabalho, não em outra época ou em outro lugar &#8211; mas aos 15 anos, logo em nossa estreia na vida. Fácil, né? A gente continua andando, olhando para a frente, como deve ser, só que com um pedaço enorme do coração enterrado lá atrás, <em>once upon a time, somewhere in past&#8230;</em></p>
<p>Eu sei que se nos reencontramos no presente, construímos novas relações. E o passado vira só uma referência leve e bacana. Talvez até haja algum sofrimento por você constatar a distância atual de um amigo querido que acabou de reencontrar. Nada que a vida real não justifique e não absorva com facilidade. (Especialmente quando é tão evidente que todos nós vivemos vidas muito mais bacanas do que vivíamos à época. Todos estamos muito melhores e mais felizes.) Eu sei também que se nos reencontramos no passado, e se o cultuamos de todas as formas possíveis numa imersão coletiva, que é exatamente o que fazemos, damos de cara com uma bruta sensação de perda. Que é quase de morte. Um sentimento de luto mesmo. De quem morre de amor por pessoas e situações e lugares que não existem mais. Mas saber não é poder. E para nós, na Turma, de modo geral, o orgasmo, como numa confirmação etimológica, é sempre seguido de uma pequena morte. A euforia está sempre a um passo do banzo.</p>
<p>Para escapar a esse turbilhão, só se não tivéssemos esse amor bizarro que nos une. Para não sofrer com a hora de dizer tchau, só se não nos reecontrássemos. Para não celebrarmos nosso passado, só não sentíssemos nada por ele. E isso nenhum de nós quer. Amar à distância, no espaço e no tempo, doi. Mas deixar de amar não é uma possibilidade. Tem um lance engraçado: é tanta coisa boa fluindo a cada cinco anos nesses encontros da Turma que chega a ser irreal. As relações ficam perfeitas, ideais, de um jeito que só pode existir mesmo naquele clima de sonho e de exceção. Por isso mesmo talvez não devamos nos encontrar com muito mais frequência. Nem ficar por muito mais tempo. Senão o encanto se quebra. E o presente mata o passado.</p>
<p>E já que estou todo esgarçado aqui &#8211; só para variar um pouquinho&#8230; -, confesso que chorei no aeroporto também, em Porto Alegre, antes de voltar para a casa. Na mesa de um restaurante, à frente dos meus pais e de um filé com fritas com guaraná zero. E quer saber? Isso foi muito bacana para a minha relação com eles. Tão poucas vezes na vida, depois que eu desci do seu colo, ofereci a eles a chance de me acolherem. Ali, eu precisava dos meus pais. E acho que é sempre bom para um pai e uma mãe sentirem que estão sendo necessários a um filho adulto. As boas energias da Turma respingavam para fora do seu ambiente e propiciavam momentos bonitos fora dali também. Da mesma foram, a tristeza pelas despedidas extrapolava o espaço da Turma e me fazia enxergar a provisoriedade de tudo &#8211; inclusive dos meus velhos e da minha relação com eles. Há mais de 20 anos não moramos na mesma cidade. E isso nunca me pareceu tanto como um desperdício de tempo precioso quanto naqueles minutos ali, à espera de mais um voo que me levaria para longe.</p>
<p>A gente é escravo do que vive. A gente é cativo das experiências que tem. Tem pessoas que se cruzam pela vida, às vezes de modo quase fortuito, e se afetam para sempre. Mais raro é isso acontecer em grupo &#8211; nosso caso bendito. Então a alegria de nossos reencontros implica sempre a dor das novas despedidas. Especialmente quando há sentimentos que continuam os mesmos. Tem amores que nos fundam. E que estão conosco mesmo sem estarem próximos. E que permanecem vivos ainda que estejamos longe, vivendo outras coisas, nos transformando em outras pessoas, vivendo outros amores, outras vidas. Tem paixões que vão nos acompanhar para sempre. E que requerem não mais do que um átimo para reacender. Quer enlouquecer? Pense em ao menos um plano B, uma realidade alternativa que pudesse ter estabelecido uma outra estrada ligando a adolescência à sua vida atual. Um grande amor que ficou no tempo à espera de ser vivido em toda a sua intensidade. Uma grande amizade que a vida minimizou. Quem saiu fica pensando em como seria ter ficado. Quem ficou fica pensando em como seria ter saído. Quem manteve o que tinha fica imaginando como seria ter jogado tudo para o alto &#8211; e vice versa.</p>
<p>A nossa Festa, marcando a vida a cada cinco anos, embute em si essa crueldade: ela aumenta a sensação de vertigem, de velocidade, de que estamos passando muito rápido pela vida. Nos despedimos agora, na Festa de 2011, para nos reencontrarmos daqui a cinco anos, quando todos teremos mais ou menos 45. Quando já estaremos morrendo de saudade de quem éramos em 2011. Esse rito que instauramos marca de modo hostil o avanço inexorável do tempo. Quanto tempo ainda teremos para celebrar o que fomos? Alguém que perca por qualquer motivo uma das Festas fica 10 anos longe. Teremos ainda alegria e energia suficientes para nos reenontrarmos quando tivermos 50? Nossa Festa ainda fará sentido aos 60? (Daqui a três Festas teremos 60!) E se a Festa deixar de existir, e se a Turma enfim se dispersar para sempre, de modo defintivo, o que faremos com todas as nossas lembranças, laços, promessas, conexões, memórias, cumplicidades, recordações? Marcando de cinco em cinco a vida fica terrivelmente curta. Em 60 meses acontece muita coisa. Mas ainda assim é pouco, é exíguo. A régua afetiva que a nossa Festa estabelece explicita isso. Quanto tempo ainda falta para que a cada nova despedida comecemos a nos perguntar de verdade quantas mais ainda teremos pela frente? Aí não choraremos apenas por tudo que passou &#8211; mas também pelo muito pouco que ainda há pela frente.</p>
<p>Ou então tudo isso é apenas uma covardia minha. Eu me sinto muito querido na Turma. Essa é também uma atração irresistível para quase todos nós &#8211; a Turma é um lugar seguro, onde temos lugar certo, onde somos amados, onde estamos entre amigos, onde a temperatura e a pressão são controladas. (Ainda que essas condições só possam ser garantidas por alguns dias, antes de a rotina se instalar&#8230;) Ali somos bonitos, somos charmosos, somos eternamente jovens, temos brilho. Somos reconhecidos, somos acolhidos, somos festejados. Temos algo em comum, curtimos aquela sensação gostosa de pertencimento. Não tem como não ser ótimo chafurdar nessa banheira quente. Ou então, repito, tudo isso é apenas covardia minha. Não gosto de sentir de dor, me apavoro com a angústia, sofro com a falta, com o fim. E o primeiro aperto no peito me faz ganir para a lua como um cachorro velho em crise de meia idade, cheio de autocomiseração. Ou então é apenas que eu não vivi ainda uma perda fundamental, como a de um pai ou de uma mãe, e portanto não experimentei ainda o que é deixar de fato um pedaço pelo caminho. E, assim, sem parâmetro, transformo em hipérbole a primeira falta de ar causada pela ausência, pela distância e pela saudade que sinto disso tudo.</p>
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		<title>Sobre sentir saudade (2006)</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Apr 2011 12:37:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Infância]]></category>

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		<description><![CDATA[  A nostalgia é um veneno quente que transforma eventos felizes em memórias tristes Eu tenho uma turma de amigos muito especial, diferente de qualquer coisa que já tenha visto acontecer por aí. E nós nos entregamos a um exercício igualmente &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/26/sobre-sentir-saudade-2006/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><em> </em><em>
<dl>
<dt><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/LogoFesta96.jpg"><img class="size-full wp-image-217021  " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/LogoFesta96.jpg" alt="" width="396" height="518" /></a></dt>
<dd>A nostalgia é um veneno quente que transforma eventos felizes em memórias tristes</dd>
</dl>
<p></em></div>
<p>Eu tenho uma turma de amigos muito especial, diferente de qualquer coisa que já tenha visto acontecer por aí. E nós nos entregamos a um exercício igualmente raro: a cada 5 anos nos encontramos para uma grande balada em Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul, a cidade em que todos morávamos quando nos cruzamos na vida, quando viramos adultos e éramos os donos do mundo, quando o futuro era nosso e uma conexão mágica, meio com jeito de Hollywood se estabeleceu entre nós, para não desaparecer jamais. (Pense, na época, num filme teen<em> dos anos oitenta, com espírito eufórico, como </em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0091042/"><em><span style="color: #0000ff">Curtindo a Vida Adoidado</span></em></a><em>, ou então, hoje, numa comédia romântica com gente de meia idade se reencontrando, em que tudo dá certo, em que a emoção aflora, e em que você sai do cinema leve e enlevado). </em> </p>
<p> <em>Nós estabelecemos o ano de 1986 como marco para contar o tempo da nossa amizade. Acho que fui eu mesmo que criei quase sem querer - referência explícita ao </em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=O8EWJZ-DkfM"><em><span style="color: #0000ff">Legião</span></em></a><em> &#8211; esse meme, num texto nostálgico que escrevi e enviei por carta para uma dúzia ou mais de amigos da Turma, ainda no finzinho dos anos 80. Eu fui talvez o primeiro a sair de Santa Maria para encarar a vida, ainda aos 17, e me via debaixo de um tempo bastante duro em Porto Alegre, na faculdade, me ambientando na cidade nova e morrendo de vontade de voltar para a minha passárgada, para a minha gente, que ainda estava por lá. Aprendia ali, pela primeira vez, quem sabe, que não há volta possível. Que só se vive para a frente. E que não é possível ser Ferris Bueller para sempre. Em breve quase todos os amigos também zarpariam dali em diáspora, para cair na vida, para ganhar a vida, uma diáspora que ainda não acabou, e nem vai acabar nunca. Você está sempre em movimento. E as pessoas que você ama também. Você já não é o mesmo de ontem, e muito menos o mesmo da semana passada. E elas também não. Nós somos todos pontos em movimento. Nos cruzamos por determinado tempo. E depois nos afastamos para sempre. E quando por ventura voltamos a nos aproximar, antes de nos afastarmos de novo, nós já somos outras pessoas. Talvez a graça do reencontro, por tudo isso, deva ser mesmo redescobrir, reinventar, renovar &#8211; e trazer a relação sempre para o presente. Isto é saudável e constroi. Ao invés de recuperar, resgatar, desenterrar &#8211; tentando dar as mãos e voltar ao passado. Este é um exercício de sofrimento &#8211; porque o passado não existe mais. De qualquer modo, meu texto, aquele desabafo de saudade &#8211; que grafafa pela primeira vez, quero crer, a Turma com T maiúsculo - circulou entre a galera. E os dois memes pegaram. Podia ser 1987. Mas assumimos 1986 - talvez, de fato, o ano mais charmoso das nossas adolescências &#8211; como o nosso marco zero. E, desde então, somos a Turma. Com T maiúsculo. Ponto.</em></p>
<p><em>O maluco é que não somos uma turma de formatura. Não éramos todos colegas em uma mesma classe. Não pertencíamos sequer a um único colégio &#8211; embora a gente dê ao nome da Turma o complemento &#8221;do Cilon&#8221;, em referência à escola, Cilon Rosa, em que a maioria de nós estudava. A Turma é, antes que tudo, um ajuntamento geracional. Éramos a Turma da cidade. Uma horda brilhante, gerada por combustão espontânea, por acaso e necessidade, de modo orgânico e invencível, na piscina do clube, nos salões dos bailes de debutantes, nos catálogos de brotos, nas festinhas de garagem. O que somos, então? Um coletivo de meninos e meninas que conviveram mais ou menos entre 1985 e 1989, no auge do rock nacional (o que nos empurrou ainda mais na direção desse sentimento de geração e de pertencimento ao grupo), que se encontravam todo dia, e em várias noites, todo fim de semana, em inúmeras junções, saraus, matinês, audições, mingaus, praias, jantares (ainda que fosse um <a href="http://inventariodereceitas.blogspot.com/2009/01/o-xis-gacho.html">xis galinha salada</a> com coca), tertúlias, chocolates quentes com pipoca e baladas. Éramos mais de 40. As melhores festas começavam quando chegávamos e terminavam quando íamos embora. Éramos charmosos, os donos do pedaço e sabíamos disso. Ou ao menos era assim que nos víamos. Andávamos sempre juntos &#8211; beijando na boca, perdidamente apaixonados, terrivelmente descornados, brigando, reatando, paquerando, selando amizades para a vida toda, desvendando o sexo, descobrindo o amor, tendo filhos precocentemente, experimentando as primeiras drogas, formando casais que estão juntos até hoje, sofrendo juntos as dores das primeiras experiências de morte, desabrochando para a vida juntos, marchando juntos por aquela ponte trepidante que leva da puberdade à vida adulta. Juntos. Juntos. Sempre juntos.</em> </p>
<p><em>A primeira festa de reencontro da Turma foi em 1996. Comemorávamos os nossos 10 anos. Numa festa relativamente pequena, na casa espaçosa de um dos nossos amigos queridos &#8211; onde costumávamos fazer algumas de nossas junções juvenis dez anos antes. Tínhamos todos ali mais ou menos 25 anos e estávamos em começo de carreira, na batalha, recém formados ou formandos. Eu enviei uma VHS do Japão, onde cursava meu MBA, com um depoimento para a Festa &#8211; a gente grafa com F maiúsculo também. Uma amiga querida ligou de Aracaju, onde começava sua trajetória profissional, e falou com todo mundo. Foi bem bacana. E vimos que era bom.</em> </p>
<p><em>Em 2001 nos encontramos de novo &#8211; 15 anos de Turma. Estávamos todos virando a casa dos 30. E já deslanchando na vida. Alugamos um lugar. Com DJ, salão decorado, cerveja gelada &#8211; e até champanhe, para quem se dispusesse. E todos os caminhos possíveis, por via aérea ou terrestre, de carro ou de ônibus ou de camelo &#8211; <a href="http://www.youtube.com/watch?v=6ktq7rKRji4">ops, de novo!</a> -, nos conduziram às dezenas para Santa Maria. Éramos uns 60 convivas. Todo mundo ainda jovem, subindo a ladeira em direção ao auge. Todo mundo feliz por estar junto. E por constatar o quanto ainda estava vivo aquilo que nos unia.</em> </p>
<p><em>Em 2006, eu tinha 35. E éramos mais de 80. Eu tinha acabado de virar pai. E, ao contrário de 2001, viajei sem minha mulher para comemorar os 20 anos da Turma. Então mergulhei no meu próprio passado sem nenhum fio que pudesse me prender à vida atual. Mergulhei fundo no sonho, nas lembranças mitificadas, edulcoradas, editadas daquela que foi uma das melhores e mais doces épocas de minha vida (e de quem não haveria de ser?). Dançávamos as músicas da época, víamos tudo com lentes que nos permitiam recuperar as visões que tínhamos na época. E foi muito duro voltar da fantasia à realidade. O tempo ali dentro daquele salão era outro. Tínhamos passado uma madrugada em delírio, em outra dimensão, num limbo de tempo e espaço, no deslumbramento de poder voltar a ter 15 anos por algumas horas. O retorno à superfície foi muito difícil. Aquela experiência significava reviver por algumas horas uma juventude passada e, portanto, perdida. E saborear emoções muito fortes, já vividas, mesclando-as a sentimentos novos. Significava, de alguma forma, criar um turbilhão de sensações, mexer com sentimentos antigos, reabrir algumas gavetas há muito tempo fechadas, algumas mal arrumadas, e então tentar brincar com isso tudo sem se machucar. Para logo em seguida, tão logo o sol raiasse, perder tudo de novo, ver todo mundo sumindo na curva, indo embora, cada um para um lado, cada um na sua estrada, voltando a ser quase um estranho, todo mundo disperso mundo afora outra vez.</em> </p>
<p><em>A ressaca emocional daquela viagem no tempo, e dentro de mim mesmo, e das minhas emoções, e das minhas lembranças adolescentes, nem todas elas bem resolvidas e bem assentadas, foi terrível. Foi muito doído me despedir outra vez daquelas pessoas. Me separar dos meus amigos queridos mais uma vez. Dor de perda mesmo. Inclusive porque eu também me despedia ali de mim mesmo, em certo sentido. Eu havia voltado por um instante a ter todas as possbilidades do mundo &#8211; e então tinha que seguir sendo apenas quem eu era, apenas aquilo que eu havia escolhido ser. Aquela situação nos convidava a ver tudo que poderíamos ter sido e não fomos &#8211; porque decidimos nos tornar outra coisa. Ou apenas uma coisa, entre tantos sonhos que havíamos sonhado, tantas janelas que um dia haviam estado abertas para nós. Aquela situação nos deixava ver que estávamos passando rapidamente pela vida, ficando velhos. Então era uma saudade não apenas do que fomos &#8211; mas também do que nunca chegamos a ser, dos caminhos que não foi possível trilhar. Uma parte de mim morria ali. Uma vez mais. Sem apelação. E a própria Festa, que celebrava uma lembrança maravilhosa, virava imediatamente uma outra recordação inesquecível a latejar no peito. Eis o que é a nostalgia - um veneno quente que transforma eventos alegres em memórias tristes. Vivíamos ao mesmo tempo, no intervalo de poucas horas, a euforia do reencontro e a depressão da nova despedida. </em> </p>
<p><em>À medida que ia me recuperando daquele chacoalhão, que me assustava pelo seu poder de mexer comigo, me debrucei a refletir sobre aquele aperto no peito, sobre aquele nó na garganta, sobre os mecanismos que haviam gerado aquele tsunami &#8211; em mim, destacadamente, mas não apenas em mim, com certeza. Me dediquei, enfim, a tentar entender a saudade. A gênese e o alcance da nostalgia. As raízes e o funcionamento da melancolia. As razões e os efeitos do apego ao passado, dessa enorme tristeza ligada à contemplação do que já passou. Joguei o holofote e o microscópio sobre este </em><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/02/07/o-gene-macambuzio/"><em><span style="color: #0000ff">gene macambúzio</span> </em></a><em>que existe em mim. Dois anos mais tarde, no começo de 2008, dei o texto por encerrado. (Nunca um ensaio me tomou tanto tempo para nascer. Eu evitava o texto. Porque ele me impunha uma reflexão lenta e dolorosa.) Eu o publiquei na revista Vida Simples. E agora o apresento agora a você, na versão integral &#8211; e levemente revista.<span id="more-216971"></span></em> </p>
<p>Sou nostálgico desde que me lembro. Tenho esse hábito de cultuar o passado há muito tempo. Com nove anos chorei de saudade do ano em que tinha sete. Foi minha primeira crise de nostalgia. Percebo agora, e somente agora, enquanto escrevo, que o objeto daquela saudade precoce coincide com o último ano em que meus pais viveram sob o mesmo teto. Não lembro daquela saudade ter sido especificamente de ver meus pais juntos ou de enxergar a gente como uma família tradicional. Mas vai saber. </p>
<p>Desde aquela época é assim: tudo o que passa me dói muito. Uma dor funda, cálida, quase gostosa de sentir. Mas que tira o ar também. Minha saudade não emerge apenas dos momentos bons. Qualquer passagem que tenha marcado minha trajetória, e que viva em mim como lembrança, tem o potencial de gerar um sofrimento nostálgico. </p>
<p>Há coisas como uma música, um cheiro, um filme, um paladar que podem me arrastar para bem longe. Ou então coisas que não existem mais, exceto como registro afetivo: a memória de uma pessoa que se foi, a lembrança de alguma coisa que eu tive, de um jeito de ver o mundo que foi meu um dia, do frescor perdido de um amigo que envelheceu. Sofro por não ter mais esses momentos, por eles terem passado. Sofro por não poder mais vivê-los, por tê-los deixado para trás, por ter me perdido deles no tempo. </p>
<p>A dor da saudade é um evento físico. Um sofrimento pontiagudo que arrocha o peito, fecha a garganta, impõe uma bruta vontade de chorar. A dor da saudade é solitária, é uma implosão lenta &#8211; não é possível pedir socorro nem contar com ajuda externa. Ela acontece na sua relação com as suas memórias. Então só você mesmo pode lhe salvar. A saudade traz em si um outro escárnio: não há remédio para ela. E lamentar não adianta: não é possível voltar no tempo. A saudade é um desejo que, quanto mais fundo, mais impossível é de realizar. É um jeito que o tempo tem de nos dizer que ele é uma via de mão única e que as perdas que ele decreta são irreversíveis. </p>
<p>Às vezes sinto nostalgia do que estou vivendo hoje. Projeto a saudade que vou sentir amanhã do que está acontecendo agora. E já começo a sofrer. Não quero ser o último a morrer porque não suportaria o peso de tantas lembranças boas, e a dor funda da falta que sentiria das pessoas que amo. A minha capacidade melancólica chega a esse ponto. Ao menos, ela me impele a tentar viver ao máximo o presente. Porque a pior saudade é a daquelas coisas que você não viveu. A pior nostalgia é a daquelas coisas que você não fez. Aí o sentimento de impotência cresce, a sensação de que não é possível voltar fica mais insuportável. Ainda assim, já passou pela minha cabeça a seguinte questão: não seria melhor viver menos intensamente, como estratégia para ter menos coisas do que sentir saudade no futuro? Eis a estratégia absurda: anestesiar o presente como forma de não gerar as boas lembranças que vão lhe doer lá adiante. Perceba: a nostalgia é também uma forma de covardia. </p>
<p>Mas a saudade não é exatamente um desejo de voltar. A nostalgia não é a contrapartida de uma sensação de que a vida era melhor antes. A saudade, portanto, não é uma tentativa simples de instaurar o passado em detrimento do presente. A nostalgia é, antes, um jeito de tentar se agarrar em alguma coisa que suavize a queda livre. </p>
<p>Admiro as pessoas que esquecem. Que não se apegam às coisas, pessoas e épocas com que cruzam pela vida. Elas não sentem saudade. Vivem o presente. E não compreendem a nostalgia. Às vezes eu gostaria de esquecer com mais facilidade. De amar menos o passado, de carregar com mais leveza tudo que vivi. Será que elas valorizam menos o que lhes aconteceu? Será que elas não sentem saudade porque não viveram intensamente, porque de fato não tem grande coisa a lembrar? </p>
<p>Minha saudade é causada pela diáspora. São os amigos fundamentais que você teve um dia, que você amou tanto, e que hoje nem sabe por onde andam, o que fazem, quem são. E que você nunca mais verá. Saudade é esse sentimento cortante de perda, de desagregação, de desconexão, de amputação das coisas que lhe são mais caras. Aquele seu amigo não existe mais. Mesmo que você o reencontre, ele é outro. E você também. A antiga conexão jamais poderá ser refeita. </p>
<p>Saudade é o irmão que você amava e que se foi para nunca mais voltar. É a memória do seu pai morto ficando a cada dia mais distante, mais difusa, menos real. Ou a certeza de que cada dia a mais que passa é um dia a menos para você aproveitar com sua mãe, que ainda é viva. E que mesmo que você vivesse cada segundo que resta a ela, ainda assim não seria suficiente. Porque ela vai lhe deixar em breve &#8211; muito antes do que você gostaria. Saudade é o desejo de poder abraçar de novo a sua avó, e lhe dar um beijo e sentir outra vez a maciez dos seus cabelos. Saudade é a dor sem chance de solução de todas essas impossibilidades. Saudável é ainda olhar para o seu filho, e para a ampulheta implacável que paira sobre a sua cabeça como uma nuvenzinha negra, e ver quão curta é a convivência que vocês terão. Quão precário, insuficiente é o tempo de que dispomos. Você, como seus pais, e como todas as pessoas que lhe são caras, também está cruzando o céu em alta velocidade, para sumir daqui a pouco ali no horizonte. </p>
<p>Minha saudade é também o desejo, igualmente irrealizável, de voltar a ser aquele menino que via o mundo com doçura e cor, ao lado do irmão, em cima do colo da tia, de mãos dadas com o avô. Saudade não é só a falta dos outros. É a falta da gente mesmo, do que fomos, dos grandes momentos por que passamos. É o vazio deixado por um tempo que não existe mais, quando várias portas que se fecharam com o passar dos anos ainda estavam abertas para a gente. </p>
<p>Minha saudade também implica medo. Porque o amor ao passado é o amor a um tempo dominado, conhecido. Enquanto o presente implica riscos, desafios e exige esforço, e o futuro é um espaço disforme com tudo por construir, o passado é um refúgio sereno e controlado. Especialmente porque a memória costuma edulcorar tudo. Mesmo as lembranças que não são tão boas ganham, com o tempo, um belo incremento de sabor e harmonia. O que os nostálgicos cultuam são geralmente visões idealizadas do que passou. Então a nostalgia é também um pedido de asilo, um refúgio acovardado para não precisar ir adiante sozinho, para não ter que enfrentar as incertezas e a impermanência de tudo.   </p>
<p>Minha saudade é vertigem, é mudança. É perceber que não é possível congelar nenhum momento no tempo. Tudo está passando. Eu, você, nossos pais, nossos filhos. Tudo está em trânsito acelerado. Saudade é tentar trancafiar perto da gente aquilo que amamos, é tentar interromper os fluxos para eternizar numa fotografia aquilo que nos faz falta. Saudade é essa tremenda vontade de estar junto, de ficar junto, de ficar mais, de parar o tempo para que a gente não precise se separar nunca. </p>
<p>Minha nostalgia vem da perplexidade diante da velocidade dessas perdas. Da extrema fugacidade do tempo. E da visão de mim mesmo como uma existência que está se esvaindo rápido demais. Minha melancolia parte do fato de que estou passando de modo inestancável pela vida. Minha geração, minhas referências, meus amigos, minha família, meus ídolos &#8212; tudo que me forma está cruzando aceleradamente pelo tempo. E tudo vai desaparecer no final &#8211; que fica logo ali depois da esquina &#8211; sem deixar vestígio. Eu e todas as coisas que me importam vamos virar ausência. Vazio. Nada. </p>
<p>Minha saudade é uma reação desesperada a esse fluxo inexorável em direção ao esquecimento. À medida que a gente avança na vida, vai deixando um rastro de emoções para trás. São as marcas que deixamos pelo caminho – e que o tempo se ocupa de apagar sem demora. Há situações fundamentais, que definiram quem eu sou hoje, que já não têm condições de acontecer, de se repetir. O apego ao passado é também o desejo de continuar vivo, de estender a vida, de não deixá-la correr tão impunemente para o fim. É um jeito de dizer: “pára, dá meia-volta, eu quero descer, ficar um pouco mais, voltar atrás, viver de novo”. </p>
<p>Minha nostalgia é uma tentativa de imortalizar as grandes passagens da vida num culto de amor elíptico, movido pelo desejo irracional de reviver incontáveis vezes aqueles momentos incrustados na memória. A saudade é uma tentativa de brecar esse movimento irrefreável que nos une a todos. E que, paradoxalmente, nos afasta uns dos outros. Estamos todos na mesma marcha inapelável. Passamos uns pelos outros num piscar de olhos. No momento seguinte, já somos outros. E aquele contato, aquela troca, está condenado a jamais acontecer de novo. Estamos numa estrada com mil cruzamentos – e sem nenhum acostamento. Não é possível parar. A idéia de trancafiar nossos amores numa curva do caminho, de modo a garantir a sua eternização, só cabe como ilusão dentro do coração da gente. </p>
<p>Esse é o desespero, para os nostálgicos. Cada recordação querida surge, gera uma faísca, dura um átimo e vai embora para sempre. E cada uma dessas perdas nos lembra de que é exatamente isso o que está acontecendo conosco. Que a própria vida é isso &#8211; &#8220;a gente chega, conta uma história e vai embora&#8221;, na definição genial de Oscar Niemeyer. E que a angústia que você sente diante das lembranças será tão particular que você não conseguirá dividi-la com ninguém. A saudade será sempre uma dor confinada dentro de você. Um sofrimento pessoal e intransferível. Que a gente carrega como sina.</p>
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		<title>Feliz Páscoa!</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 15:09:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Nesta Páscoa, não pense em trabalho, não pense em dinheiro, não pense em negócios, não pense no faturamento, não pense na troca de emprego. Não pense no aumento que você tem que negar ou pedir, nem na meta que não deu &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/20/feliz-pascoa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216951" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/páscoa.jpg"><img class="size-full wp-image-216951" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/páscoa.jpg" alt="" width="400" height="256" /></a><p class="wp-caption-text">Agora desligue o computador, desligue a mente, ligue o coração, ligue a genitália, e tenha um grande feriado!</p></div>
<p>Nesta Páscoa, não pense em trabalho, não pense em dinheiro, não pense em negócios, não pense no faturamento, não pense na troca de emprego. Não pense no aumento que você tem que negar ou pedir, nem na meta que não deu para bater, nem naquilo que ficou engasgado na sua garganta na última reunião, nem naquela groselha que você teve que ouvir do seu chefe. Não pense em contas a pagar ou receber, nem na empresa que você sonha abrir, nem naquele empreendimento do qual você deseja se livrar. Não pense na proposta de emprego que não veio, nem na promoção que não vem nunca, nem no fato de que vai ter que demitir diretos seus até o fim do ano, nem no fato de que poderá ser demitido até o final do ano, nem no tempo assustadoramente curto que lhe separa da sua aposentadoria e em tudo que você tem medo de não conseguir realizar até lá.<span id="more-216941"></span></p>
<p>Nesta Páscoa, meu amigo e minha amiga ingênuos, viaje. Seja pegando a estrada ou um avião. Seja ficando em casa e pegando só uns DVDs que você adora e quer rever - ou então que você quer muito saborear e ainda não teve tempo. Nesta Páscoa, saboreie. Saia de você. Dê-se um tempo. Permita-se ser feliz sem as cascas, as personas, as imposturas, as máscaras. Segunda feira que vem já está ali na frente, à sua espera. Ela estará aqui, de prontidão, no mesmo lugar, quando você voltar. Então curta. Ao máximo. Seja indulgente consigo mesmo. Adoce-se com seus chocolates preferidos. (O meu é de leite, crocante, com aqueles crispies de arroz.) Construa ótimos momentos &#8211; sozinho ou em família. Escute só música boa, só canções que você gosta, que se elevem. Separe um bom livro. E deixe-se mergulhar nele com calma e jeito. Há quanto tempo você não lê em paz? Durma. O quanto quiser, a hora que quiser. Coma bem, beba bem, trate-se bem. Nesta Páscoa, faça muito sexo. Se possível, bem acompanhado. Gaste-se nesse quesito. Lembra como é fazer amor? Aproveite. Muito.</p>
<p>Tenha, enfim, uma ótima Páscoa. Primeiro, porque você merece. Segundo, porque é feriado e esse tempo é seu, só seu. Não o negocie barato, não o troque por pouca coisa. Terceiro, porque, desculpe lembrá-lo &#8211; mas esse feriado tem a ver com isso também - ninguém sabe, nem eu nem você, quantas Páscoas mais teremos a oportunidade de desfrutar. Então desfrute. Foque nisso. E em mais nada.</p>
<p>Até semana que vem. Um beijo.</p>
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		<title>Por que tanta gente ruim vai mais longe na carreira do que gente boazinha?</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Apr 2011 20:58:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Você conhece o tipo. Ele já foi avisado diversas vezes de que precisa melhorar alguns aspectos na sua conduta profissional. Ou é um cara que não responde aos emails com  agilidade. Ou que não dá feedback condizentemente a seus funcionários. &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/18/por-que-tanta-gente-ruim-vai-mais-longe-na-carreira-do-que-gente-boazinha/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216911" class="wp-caption alignleft" style="width: 522px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/darthmaul.jpg"><img class="size-full wp-image-216911 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/darthmaul.jpg" alt="" width="512" height="464" /></a><p class="wp-caption-text">Se você for muito bom em algo muito importante para a empresa, ela lhe permitirá ser muito mau em outros aspectos à sua escolha...</p></div>
<p>Você conhece o tipo. Ele já foi avisado diversas vezes de que precisa melhorar alguns aspectos na sua conduta profissional. Ou é um cara que não responde aos emails com  agilidade. Ou que não dá feedback condizentemente a seus funcionários. Ou que tem uma postura meio insubordinada, de permanente desafio aos chefes. Ou então é um cara que se atrasa de modo contumaz em seus compromissos. Ou que faz tudo do seu jeito, à revelia dos outros, assumindo muitas vezes posições inegociáveis dentro do escritório. Ou que é brutal no tratamento dos subordinados. Ou que&#8230;, bem, você pode pensar num bocado de coisas para cobrir essas reticências.<span id="more-216901"></span></p>
<p>Apesar de tudo isso, e de essas deficiências serem notórias e públicas, você já percebeu que o sujeito está muito longe de ser demitido. Ou mesmo de ser advertido mais seriamente. Como pode? Você que é tão menos cheio de arestas patina na carreira e o sujeito, cheio de espinhos, não para de avançar. Quer saber, só aqui entre nós? Provavelmente ele será promovido, com suas idiossincrasias, antes de você, que é todo certinho, que tem o perfil do funcionário que seu chefe pediu a deus. Mas por que &#8211; meu deus?</p>
<p>A verdade é que o sujeito que é recorrentemente negligente em determinado aspecto da sua conduta só sobrevive, só pode continuar vivo na carreira, se for muito bom, mas bom demais, em algum outro aspecto. (A outra hipótese é que ele conhece algum podre, é amante de alguém importante, tem, enfim, as costas esquentadas por algum fator não profissional. Mas não é disso que estou falando) O ponto aqui é que o sujeito só pode se dar ao luxo de ser ruim num aspecto se ele for estupendo em outra função que a companhia considere mais importante. É daí que vem a autoconfiança quase suicida de sujeitos assim, que, ao contrário de você, não estão nem aí para seus eventuais defeitos ou para as críticas que recebem. Afinal, eles já perceberam que suas virtudes parecem compensar todas as arestas, aos olhos da empresa. Ou o cara vende muito bem. Ou tem ideias sensacionais. Ou é um exímio cortador de custos. Ou é querido pelos clientes. Ou tem grande entrada junto aos investidores. Ou é um grande negociador junto aos credores.</p>
<p>As empresas fazem facilmente essa troca &#8211; ficam com as vantagens que o sujeito oferece e engolem os aspectos menos brilhantes que ele por ventura carregue consigo. Numa palavra: esse cara vai se eternizar na companhia, tem muito mais chances de fazê-lo do que você. E não porque ele seja em maior medida do que você um funcionário que a alta direção pediu a deus, mas precisamente porque ele é o funcionário que a turma do andar de cima pediu ao diabo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O que fazer quando você não sabe o que fazer?</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/15/o-que-fazer-quando-voce-nao-sabe-o-que-fazer/</link>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2011 18:36:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carreira]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebo no meu email a seguinte mensagem: &#8220;Adriano, &#8220;Sou leitor assiduo de seu blog na Exame. E gostaria de um conselho. Tenho 32 anos e sempre tive como meta ter um negócio próprio. Acontece que não consigo ver nenhum negócio &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/15/o-que-fazer-quando-voce-nao-sabe-o-que-fazer/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216851" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/paraondeir.jpg"><img class="size-full wp-image-216851 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/paraondeir.jpg" alt="" width="400" height="212" /></a><p class="wp-caption-text">A resposta não está nas placas. Procure pela direção a seguir dentro de você.</p></div>
<p>Recebo no meu email a seguinte mensagem:</p>
<p>&#8220;Adriano,</p>
<p>&#8220;Sou leitor assiduo de seu blog na Exame. E gostaria de um conselho. Tenho 32 anos e sempre tive como meta ter um negócio próprio. Acontece que não consigo ver nenhum negócio que me desperte a paixão ou o sentimento de que este é ou será o &#8216;negócio da minha vida&#8217;.  Por isso, até hoje não tive coragem para deixar o emprego onde estou, que não é lá essas coisas, mas por enquanto está me servindo. O que eu faço?&#8221;<span id="more-216841"></span></p>
<p>Caro companheiro de ingenuidade,</p>
<p>É inevitável arrolar aqui aquela frase do escritor Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas: &#8220;Quando não se sabe para onde vai, qualquer caminho serve.&#8221; Que é uma ideia cunhada anteriormente por Sêneca, pensador romano: &#8220;Vento algum é favorável para quem não sabe aonde quer ir&#8221;. Antes de pensar em seguir como executivo ou empreender, antes de decidir sobre ter uma empresa ou ter um emprego, você precisa descobrir o que quer fazer da vida. Sacar o que lhe encanta, o que lhe faz feliz, que atividade é aquela que lhe faz acordar contente segunda de manhã, ansioso para retomar o trabalho. Isso implica descobrir quem você, do que você é feito. Parece óbvio mas não é. Ao contrário: trata-se de um dos mais difíceis exercícios que alguém pode se impor &#8211; o do autoconhecimento. Mas é um dos mais necessários também.</p>
<p>E essa não será a hora de olhar para fora, para o mercado. Mas &#8211; o inverso disso &#8211; para dentro de você. Será a hora de perguntar para as suas gônadas, para a sua libido, o que lhe dá tesão. Um bom exercício é mapear que atividades você faria de graça, sem ganhar nada por isso, só pela paixão, só pelo gosto. Essas atividades, sejam elas quais forem, tem grandes chances de lhe oferecer a carreira dos seus sonhos.</p>
<p>Empreender não é, em si, melhor nem pior do que ser executivo. A carreira numa corporação não vai lhe fazer, per se, nem mais nem menos feliz do que o trabalho à frente do seus próprio negócio. Claro que há diferenças importantes na dinâmica dessas duas formas de trabalhar e ganhar dinheiro &#8211; e você poderá se amoldar mais facilmente a uma ou outra alternativa. Mas, no fundo, o que importa mesmo é o que você quer fazer, o que lhe apraz, o que lhe dá prazer e o que vai lhe trazer realização profissional. Entenda que empresariar é apenas mais um meio possível para você construir um dia a dia de felicidade profissional &#8211; não é um fim. O fim é acordar todo dia contente por ser quem você é e fazer o que você faz.</p>
<p>Ótimo findi procê. Seja feliz.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Isto tudo sou eu – pequeno autorretrato à moda de Francis Bacon e Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 11:25:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[Gostaria de dizer que sou um vencedor. Não sou. Perdi tanto. Tantas vezes experimentei a rejeição das meninas por quem me apaixonei. E rastejei. E me humilhei. E lancei mão da chantagem emocional e da autopiedade pública como armas bem &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/12/isto-tudo-sou-eu-pequeno-autorretrato-a-moda-de-francis-bacon-e-fernando-pessoa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216821" class="wp-caption alignleft" style="width: 390px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/francisbacon.jpg"><img class="size-full wp-image-216821" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/francisbacon.jpg" alt="" width="380" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Eu adoro os retratos de Francis Bacon. A começar pelos autorretratos, como esse. Não dá para eleger como quadro a pendurar na sala. Mas também não dá para esconder uma lucidez desse tamanho no fundo do armário.</p></div>
<p>Gostaria de dizer que sou um vencedor.<br />
Não sou. Perdi tanto.<br />
Tantas vezes experimentei a rejeição das meninas por quem me apaixonei.<br />
E rastejei. E me humilhei. E lancei mão da chantagem emocional e da autopiedade pública como armas bem calculadas.<br />
Já tentei de tudo. Tantas vezes. Em vão.<br />
Tantas vezes não fui o melhor, terminei atrás, saí de cena mais cedo. Não fui o mais charmoso, aquele por quem as pessoas torciam, o vencedor.<br />
Tantas vezes não fui o filho que meus pais desejavam.<br />
Tantas vezes me olhei no espelho e não enxerguei alguém me agradasse o bastante. Sequer minimamente.<br />
Tantas vezes não mereci &#8211; não era meu o direito divino, o direito de nascença, o merecimento conquistado pela via do mérito.<br />
Tantas vezes fui esquerdo, canhestro, gauche. O habitante do acostamento, o amante da contramão, o joãzinho do passo errado.<br />
Tantas vezes fui o bode na sala. E fui o ser errático, chato, sorumbático, patético.<br />
Tantas vezes servi de alívio cômico para os outros.<br />
Tantas vezes tive asco de mim.<span id="more-216811"></span></p>
<p>Gostaria de dizer então que sou um lutador.<br />
Mas também não sou isso. Não gosto de briga. Fujo de conflito.<br />
Tantas vezes desisti, entreguei os pontos. Abandonei o time, deixei os outros &#8211; meus companheiros &#8211; na mão.<br />
Tantas vezes virei as costas e fechei os ouvidos para não escutar.<br />
Tantas vezes me escondi quando deveria ter mostrado a que vim e dado a cara a tapa.<br />
Tantas vezes tinha o dever de enfrentar e fugi como um rato. Ou me escondi e esperei o tempo melhorar &#8211; por inércia ou por ação dos outros.<br />
Tantas vezes fui oportunista e só pensei em mim.<br />
Tantas vezes passei a bucha, a pica, a merda adiante, e me eximi de toda e qualquer responsabilidade.<br />
Tantas vezes fingi que não era comigo.<br />
Tantas vezes fui pusilânime, melífluo, invertebrado, batráquio.</p>
<p>Gostaria de dizer ao menos que sou corajoso.<br />
Que não saio por aí procurando enfrentamentos com um diabo da tasmânia de desenho animado, rodopiando seu apetite insaciável mundo afora, mas que ao menos, quando confrontado, reajo condizentemente.<br />
Mas não é assim. Fui tantas vezes covarde. Tantas vezes senti medo.<br />
Tantas vezes minha ausência de coragem física e de coragem intelectual me paralisaram. Me tornaram afásico. E agudizaram meus aspectos ridículos &#8211; que não são poucos.<br />
Tantas vezes sequer consegui defender a mim mesmo. Quanto mais àqueles que me cabia defender&#8230;<br />
Tantas vezes enguli o que queria dizer e desisti do gesto que queria ter feito.<br />
Tantas vezes me arrependi do que me arrisquei a dizer, da atitude que tomei num arroubo, contrariando meus instintos.<br />
Tantas vezes quis voltar a ser criança para não precisar decidir mais nada por mim, para existir para sempre na zona de conforto, para transferir aos outros minhas responsabilidades.</p>
<p>Gostaria de dizer, por fim, que minha trajetória é impoluta.<br />
Que ao menos eu trago as mãos e a consciência limpas.<br />
Mas, que diabos, há passagens de que me arrependo. Há coisas que eu faria diferente. Há pessoas que eu trataria de outra forma.<br />
Tantas vezes não fui leal.<br />
Tantas vezes não fui justo.<br />
Tantas vezes não fui correto.<br />
Tantas vezes traí. E sem remorso.<br />
E tantas vezes sabia exatamente o que estava fazendo em cada uma dessas circunstâncias.</p>
<p>Isto tudo sou eu.<br />
Nada que um texto charmoso como esse possa eximir.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A morte de um empregado e o nascimento de um empreendedor</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/08/a-morte-de-um-empregado-e-o-nascimento-de-um-empreendedor/</link>
		<comments>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/08/a-morte-de-um-empregado-e-o-nascimento-de-um-empreendedor/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 08 Apr 2011 18:38:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Carreira]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebo no meu email a seguinte mensagem:   &#8220;Adriano,   &#8220;Tenho 25 anos e hoje tenho certa convicção e segurança do que pretendo ser em minha vida: um empresário.   &#8220;Venho me preparado para ser empreendedor há um ano e &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/08/a-morte-de-um-empregado-e-o-nascimento-de-um-empreendedor/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216761" class="wp-caption alignleft" style="width: 192px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/empreendedor.jpg"><img class="size-full wp-image-216761 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/empreendedor.jpg" alt="" width="182" height="143" /></a><p class="wp-caption-text">Às vezes sair da zona de conforto, dar um passo à frente, ter a coragem de fazer diferente, do seu jeito, acreditando no seu sonho, é só o que basta para ser muito, muito feliz na carreira e na vida.</p></div>
<p>Recebo no meu email a seguinte mensagem:<br />
 <br />
&#8220;Adriano,<br />
 <br />
&#8220;Tenho 25 anos e hoje tenho certa convicção e segurança do que pretendo ser em minha vida: um empresário.<br />
 <br />
&#8220;Venho me preparado para ser empreendedor há um ano e meio. Desde que tive segurança e maturidade para compreender o que isso significa, venho me capacitando, juntando dinheiro e estruturando um business plan. Nesse mesmo período de formação empreendedora minha posição como funcionário de uma grande corporação vem definhando e meu rendimento medíocre foi ficando mais evidente em razão da falta de perspectiva e de desejo de seguir uma carreira como executiva.<br />
 <br />
&#8220;Depois de juntar dinheiro para uma liquidez de 15 meses e terminar meu business plan não sabia se esse era o momento de pedir demissão do emprego e cair na estrada empreendedora. Vieram as dúvidas e incertezas e o conforto de um salário e a ilusão da estabilidade me amarraram onde estou.<br />
 <br />
&#8220;A decisão de sair do emprego já havia sido adiada umas duas vezes e a minha última meta era sair em meados de junho desse ano, pois achava que estaria mais preparado e estruturado. Ocorre que esse momento ideal para sair nunca chegava. Já tinha o dinheiro necessário e o plano de negócios. Mas comecei a me colocar metas no emprego com a finalidade de postergar a decisão de sair. Bem, do que me adianta estar preparado somente aos 40 anos de idade se esse certamente não é o timing que eu desejo? <span id="more-216751"></span><br />
 <br />
&#8220;Como mencionei, desde a minha descoberta empreendedora, meu comprometimento e motivação para o trabalho vem definhando a ponto de ontem minha diretora me chamar para conversar e dizer tudo aquilo que eu já sabia: que estou acomodado, que estou tendo um rendimento medíocre e que não estou sendo mais útil ao departamento que trabalho e me sugeriu mudar de área internamente.<br />
 <br />
&#8220;Só que nenhuma posição em qualquer empresa me agrada e motiva. Nenhum salário do mundo me faria trocar por meus planos empreendedores. Acho que quebrar a zona de conforto de um bom emprego é difícil. Nenhuma circunstância empreendedora me daria a total confiança que esperava para ter coragem de sair.<br />
 <br />
&#8220;Então, com todas as dúvidas e certezas, e depois da conversa com minha diretora resolvi que hoje era o dia de matar o empregado para deixar que nasça o empreendedor. Acho que adiei essa situação o máximo que pude e o que passar daqui irá me expor como um mau profissional dentro da organização que trabalho.<br />
 <br />
&#8220;Não sei de muita coisa: se estou pronto, se vai dar certo, se estou fazendo a coisa certa na hora certa, mas tenho certeza que o quanto antes eu buscar o que desejo, mais rápido virão as recompensas. Por isso resolvi me atirar no desconhecido e encarar o desconforto de frente.<br />
 <br />
&#8220;E escrevo pra você porque gostaria de sua sincera opinião, pois seus textos tem me motivado e acompanhado nessa trajetória empreendedora.&#8221;</p>
<p>Meu caro empreendedor,</p>
<p>(Antes que tudo: transformei o título do seu email no título deste post. Obrigado e parabéns!)</p>
<p>Bem vindo. Vida longa e própera a você no mundo do trabalho e dos negócios. Imagino que a esta altura você já tenha dado o salto. Então aproveito para lhe desejar muita sorte e muita saúde, muito tino e perserverança. A coragem você tem. Já teve. Agora é acelerar, pisar fundo. Sem esquecer de curtir a viagem.</p>
<p>O começo será difícil. Não se engane. Se ter um negócio fosse coisa fácil, todo mundo seria seu próprio patrão. Então prepare seu espírito para mares revoltos. E também para mares de calmaria. Uma hora sua embarcação encaixa no vai e vém desse grande oceano que é o mercado. E se não encaixar, você pode trocar de barco. E se você, lá na frente, cansado de guerra, quiser retroceder, não haverá demérito algum nisso. Bastará colocar de novo uma gravata, recauchutar o Curriculum e batalhar um emprego. Sua experiência no empreendimento contará muitos pontos a seu favor. Então considere que o jogo que você está jogando já está de certa forma ganho. Não há muita chance de você perder &#8211; o máximo que pode lhe acontecer é ter de recomeçar do ponto em que se encontrava antes de empreender. Isso não é exatamente um prejuízo. Mas mesmo que você o considere desta forma, saiba que todos os demais prejuízos estarão grandemente sob controle.</p>
<p>Você tem apenas 25 anos. Essa é uma grande vantagem &#8211; que, às vezes, é preciso que se diga, também pode jogar um pouquinho contra. Mas o fato é que você tem muito tempo para aprender &#8211; inclusive com os próprios erros. Basta que você faça um trato consigo mesmo &#8211; aprender sempre que errar. Crescer com cada erro. De todo modo, para errar menos, sugiro que você se cerque de alguns bons conselheiros. De preferência outros empreendedores que já tenham vivido as situações pelas quais você vai passar. Não é feio ter tutores. Adote alguns.</p>
<p>E, acima de tudo, escolha muito, muito bem os seus sócios. Sócio não precisa ser amigo. Mas você precisa confiar. Você tem que admirar, se sentir bem com ele. Sócio também tem que aportar &#8211; capital, trabalho, contatos, conhecimento, ferramental, o que seja. Sócio que não traz nada para o negócio vira peso morto. Sócio também tem que ter competências complementares às suas &#8211; se associar a alguém bom nas mesmas coisas que você fragiliza a empresa &#8211; os dois atuarão, às vezes de modo conflitante, no mesmo lado, e deixarão o outro lado desguarnecido. Não esqueça ainda de fazer um bom contrato social &#8211; que proteja a empresa e os próprios sócios em caso de conflito ou de fim do negócio.</p>
<p>De resto, não esqueça: divirta-se. É o que lhe desejo. Muito trabalho, muita realização, muitos bons cases construídos e muito dinheiro no bolso. Boa sorte em tudo!</p>
]]></content:encoded>
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		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A hora certa de colocar os filhos para fora de casa</title>
		<link>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/04/a-hora-certa-de-colocar-os-filhos-para-fora-de-casa/</link>
		<comments>http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/04/a-hora-certa-de-colocar-os-filhos-para-fora-de-casa/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 04 Apr 2011 15:21:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/?p=216671</guid>
		<description><![CDATA[  A criação dos filhos guarda muitos mistérios. Tirando aquelas convicções essenciais, que chamamos de valores, e que tentamos depurar e passar adiante, há cada vez menos verdades inquestionáveis. Tudo é relativizável, tudo pode ser discutido. A certeza de que &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/04/04/a-hora-certa-de-colocar-os-filhos-para-fora-de-casa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<div id="attachment_216731" class="wp-caption alignleft" style="width: 260px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/bolha.jpg"><img class="size-full wp-image-216731" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/04/bolha.jpg" alt="" width="250" height="261" /></a><p class="wp-caption-text">Estamos criando uma geração de filhos mimados, desenvolvidos dentro de uma bolha de ultraproteção que os afasta do mundo real e os torna menos aptos, menos capazes, menos prontos para viverem suas próprias vidas de modo independente.</p></div>
<p>A criação dos filhos guarda muitos mistérios. Tirando aquelas convicções essenciais, que chamamos de valores, e que tentamos depurar e passar adiante, há cada vez menos verdades inquestionáveis. Tudo é relativizável, tudo pode ser discutido. A certeza de que você está agindo certo como pai parece ser uma condição cada vez fluida e fugaz. Ou seja: estamos sempre no escuro, sempre tateando, tentando fazer o melhor, com a esperança de não estarmos errando muito. É comum que tentemos não repetir os erros em que julgamos que nossos pais incorreram conosco. E acabamos impondo a nossos pimpolhos os nossos próprios equívocos, em patadas originais, em absurdos novinhos em folha.<br />
 <br />
Os pais, então, de modo geral, estão na defensiva. Há um bocado de sentimento de culpa na parada &#8211; pelo tempo sempre exíguo que a maioria de nós dedica à família, pelo medo de causarmos danos permanentes aos rebentos, semelhantes àqueles de que imaginamos ter sido vítimas, pelas crianças que vão sendo educadas um bocado à nossa revelia pela babá ou pela avó, pelo sentimento que temos de que precisamos ser superpais e resolver já e por completo a vida de nossos filhos &#8211; dinheiro para o lanche, para a balada, para a universidade, para a viagem ao exterior, para a aposentadoria (deles!). O medo que temos de não darmos a nossos filhos muito mais do que recebemos de nossos pais nos consome &#8211; e aí esquecemos que aquilo que recebemos pode muito bem ter sido mais do que suficiente para termos nos transformado nesses herois radiantes, infalíveis e estressados que somos.<span id="more-216671"></span><br />
 <br />
Como resultado, é possível que estejamos, ainda que com a melhor das boas intenções, criando uma geração de filhos mimados, desenvolvidos dentro de uma bolha de ultraproteção que os afasta perigosamente do mundo real, e que portanto os torna menos aptos, menos capazes, menos prontos para viverem suas próprias vidas de modo autônomo e independente. É possível que você, nesse momento mesmo em que me lê, esteja cultivando no quarto ao lado um indivíduo relativamente incapaz, que terá grandes dificuldades de encarar o mundo, de reagir às adversidades, de ser feliz, de atingir seus objetivos &#8211; sozinho &#8211; na vida. E sabe por quê? Porque você atuou mais do que deveria, não deixou espaço para que seu filho aprendesse a crescer à revelia de você.<br />
 <br />
Já é hora de revelar: eu tenho um casal de gêmeos de 5 anos. E essa dosagem entre deixá-los enfrentar obstáculos e poupá-los das sombras da existência, esse ponto justo e exato entre protegê-los de tudo que é ruim nessa vida e simplesmente deixá-los viver e aprender e cair e levantar por sua própria conta, é um dos fantasmas que mais me assombram em minha atuação de pai. Essa questão se expressa em um momento importante que eu viverei com eles mais adiante e que você talvez já esteja vivendo ou já tenha vivido: a hora de deixar claro que eles precisam sair da sua casa. Para o seu bem. Mas principalmente para o bem deles. Há pouco, na Espanha, saiu uma pesquisa considerando que na média as pessoas só estão assumindo atitudes adultas por lá depois dos 30. Uma das características dessa nova geração de adolescentes eternos, de imaturos crônicos, é o retardo na saída da casa dos pais.<br />
 <br />
É importante pontuar também: eu saí da casa da minha mãe aos 22 anos, um ano depois que me formei. No meu caso, premido pela necessidade. Eu estava dormindo na sala do seu quarto-e-sala e não havia mais condições de ser feliz naquelas condições. Donde me acossa sempre a ideia de que tirar totalmente a necessidade da vida dos seus filhos pode estagná-los ao invés de empurrá-los para frente ou para cima. Vejo um número considerável de gente da minha geração que, 20 anos depois, continua morando com os pais &#8211; ou quase. A responsabilidade por isso será sempre delas. Não pode, depois de tanto tempo, ainda ser imputada aos pais. Mas talvez um quarto confortável, com banheiro, TV, computador &#8211; fora a comida e a roupa lavada &#8211; tenha sua contribuição a dar a esse marasmo, a essa apatia, a essa relativa covardia em relação a cair de verdade na vida adulta, pagar suas contas, começar de baixo, ralar seu caminho escada acima. Eu saí para ter a minha própria casa quando estava no meu primeiro emprego, sem poder contar financeiramente com meus pais. Ganhava pouco. Mas tinha meu canto. A vida é como ela se apresenta a nós. E é preciso vivê-la, sempre, todo dia, desde cedo, do jeito que ela vier. Não dá para se esconder. Nem mesmo na terna barra da saia da mâmis, nem mesmo no cálido colo do pápis.<br />
 <br />
E eu, o que farei? Pretendo negociar com meus filhos a saída deles de casa para viverem suas vidas tão logo se formem e agarrem seu primeiro emprego. Anote aí e me cobre daqui a 20 anos.</p>
<p><em>* Versão integral do artigo publicado este mês na Revista Alfa, da Editora Abril, a convite do meu amigo Kiko Nogueira e sob a edição auspiciosa de Ronaldo Bressane.</em></p>
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		<title>Do que é feito o preconceito</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Mar 2011 18:38:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216591" class="wp-caption alignleft" style="width: 302px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/preconceito.jpg"><img class="size-full wp-image-216591" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/preconceito.jpg" alt="" width="292" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Em matéria de preconceito e de discriminação, são as intenções, muito mais do que os resultados concretos, que definem os canalhas</p></div>
<p>A raiz do preconceito é sempre o ódio à diferença. O que significa sempre a presunção de que o certo é você. De que você é o centro do mundo e de que todo mundo tem que girar ao seu redor. De que você é a medida perfeita, o modelo de eficiência, a solução sublime, a suprema criatura, o parâmetro inexcedível diante do qual os outros são definidos &#8211; se são bons ou maus, grandes ou pequenos, bonitos ou feios.</p>
<p>Preconceito tem a ver sempre com o medo em relação a quem é diferente. Porque quem faz de modo distinto &#8211; quem não é igual a nós, quem envereda pelo caminho de outro jeito &#8211; sempre nos expõe. Sempre nos questiona. Tomamos isso como provocação &#8211; como pode esse cara não ser meu espelho, não pensar como eu, ter na verdade ideias e atitudes totalmente diferentes da minha? (E se as ideias e atitudes dele forem melhores, mais charmosas, mais divertidas e inteligentes? Como eu fico?) Quem é esse cara que nos coloca em risco ao nos oferecer contraste, ao realizar outras escolhas, ao tomar outro caminho? É preciso matar esse sujeito logo, na raiz. É preciso cortar-lhe as asas, castrá-lo.<span id="more-216581"></span></p>
<p>Se todos nos forem semelhantes, não há o risco de estarmos errados. Ao menos não individualmente. Então o preconceito é, antes que tudo, uma força de coesão. Ele busca, ao atacar as diferenças, deixar todo mundo preso na faixa do meio, na temperatura média, na &#8220;normalidade&#8221;, na mediocridade, na viscosidade da grande geleia geral, no senso comum, do lado da maioria burra, sem jamais ousar chamar a atenção, nem acima nem abaixo, nem mais à esquerda nem mais à direita, sem destoar um tiquinho, sem permitir uma grama sequer de originalidade, de individualidade, de, enfim, diferença.</p>
<p>Quanto mais sentimento de aldeia houver, quanto mais estreito for o horizonte, quanto mais agirmos como clã, maior será o preconceito, mais atacados serão os diferentes, mais o sentimento de &#8220;média&#8221; será valorizado. Ao contrário, quando maior for o cosmopolitismo, maior será a tolerância com a diferença, mais interessantes e atraentes soarão os outros jeitos de fazer, mais o novo será valorizado, mais as liberdades e dessemelhanças individuais serão festejadas e acolhidos.</p>
<p>É assim: se a simples existência do outro, florescendo fora do seu raio de controle, faz com que você se sinta agredido ou constrangido, você busca aniquilá-lo. E mesmo que engula a insuportável diferença que o outro lhe impõe, você odeia aquela fonte de sofrimento com todas as suas forças. Se você é seguro de si, é adepto da teoria do viva e deixe viver, se não é dado ao controle alheio nem precisa que o pelotão todo marche no seu ritmo, para onde você deseja ir, para se sentir bem o suficiente para sair da cadeira, você simplesmente tolera &#8211; e talvez até se divirta com &#8211; a diferença.</p>
<p>Antes de terminar: a discriminação é também um exercício de poder, de engrandecimento hostil de si mesmo diante do outro, que está sempre numa posição supostamente inferior. Quanto mais clara ficar posição mais frágil do outro, mais o seu privilégio brilhará. E de que vale um privilégio que você não pode esfregar na cara dos outros? Portanto, a discriminação carrega um bocado de covardia também. Você acredita que tem uma vantagem e a usa com crueldade, perversamente. Você só dorme feliz à noite se sentir que humilhou alguém durante o dia. Mesmo que a vantagem só exista na sua cabeça e mesmo que você não reúna condições de humilhar quem quer que seja. Não importa. Importa a intenção. E são as intenções, muito mais do que os resultados concretos, que definem os canalhas.</p>
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		<title>Sobre FDPs</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2011 16:44:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216561" class="wp-caption alignleft" style="width: 460px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/fdp.jpg"><img class="size-full wp-image-216561" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/fdp.jpg" alt="" width="450" height="299" /></a><p class="wp-caption-text">O FDP consciente é apenas um FDP. O FDP que não sabe disso é, além de tudo e antes que tudo, um doente.</p></div>
<p>Vem cá, conta só para mim, aqui ao pé do ouvido, que ninguém nos ouça: você é correto por convicção, porque os seus princípios assim demandam, ou simplesmente por medo de ser pego? Eis a pergunta que lhe faço: se não houvesse lei, você ainda assim se manteria reto e digno? Se ninguém estivesse olhando, você ainda assim agiria corretamente? Se você tivessse a certeza da impunidade, ainda assim você se manteria longe do crime e da contravenção? Ser bom para você é uma decisão estrutural, inegociável, que está na base do seu alicerce, ou uma opção de momento, uma decisão conjuntural, que vem inclusive com etiqueta de preço? Que tipo de contas você presta a si mesmo? Quanto vale a sua retidão? Que valor você dá mesmo à sua consciência?<span id="more-216551"></span></p>
<p>Eu proponho essa reflexão a você que é um bom pai (ou mãe) de família, um bom chefe, um bom funcionário, um bom sócio, um bom filho, um bom irmão, um bom vizinho, um bom amigo, um bom parceiro de pelada, de tênis ou carteado no clube, de musculação ou spinning na academia. Proponho essa reflexão a você que paga seus impostos direitinho, que é incapaz de matar um inseto a sangue frio, que não faz mal às plantas, que não cospe no chão, que não fecha ninguém no trânsito, que junta o cocô do cachorro da calçada, que tem dificuldade de reagir mesmo nas ocasiões em que deveria se impor. Estou falando com você que não gosta de brigar e que perde um monte de contendas por WO, que entrega um monte de coisas que deveriam ser suas por desistência, que nunca bateu nos filhos nem ameaçou fisicamente a sua mulher, que prefere comédias românticas a filmes violentos. Estou falando com você que tem dificuldade para demitir, para recusar ofertas pouco atraentes, para dizer não, para dizer não quero, e que costuma deitar a cabeça a noite no travesseiro sem ter uma mísera grama de culpa ou de remorso a lhe azucrinar o sono. Estou falando com você que se sente perfeitamente em dia consigo mesmo, que olha para as próprias mãos e não vê qualquer sinal de sangue ou traço de um instrumento de tortura, e que vive a vida sem enxergar nada de desabonador na própria conduta.</p>
<p>Eis o que lhe pergunto: do que é feita essa sua satisfação? Você gosta genuinamente de respeitar os outros, de ser solidário, de ser justo, de ser bacana, de ser legal &#8211; ou você só está fingindo, para você mesmo e para os outros? Você age do jeito certo porque é do bem, genuinamente, porque essa é a ética que lhe funda, porque esse é o ethos que lhe conduz, porque você tem um contrato moral inquebrantável consigo mesmo, porque reflete com equilíbrio sobre as decisões que irá tomar e porque se cobra internamente pela justiça dos seus atos e resoluções &#8211; ou simplesmente porque em algumas situações lhe convém ser bacana e posar como amigo das crianças e dos pássaros, deixando de sê-lo ao menor sinal de que não lhe é mais interessante agir dessa forma?</p>
<p>O FDP consciente é apenas um FDP. O FDP que não sabe disso é, além de tudo e antes que tudo, um doente.</p>
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		<title>Sobre gente interesseira – incluindo você mesmo</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Mar 2011 22:47:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É verdade. Todo mundo que veio até você queria alguma coisa que você tinha. Todo mundo que se aproximou de você nesse tempo todo queria tirar alguma coisa de você. É a mais pura verdade. Sua mulher, seu amigo, seu &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/22/sobre-gente-interesseira-incluindo-voce-mesmo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216511" class="wp-caption alignleft" style="width: 610px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Interesseira.jpg"><img class="size-full wp-image-216511" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Interesseira.jpg" alt="" width="600" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Está se sentindo vítima dos interesses das pessoas que lhe cercam? Não esqueça que você também cerca um monte de pessoas movido pelos interesses que tem nelas...</p></div>
<p>É verdade. Todo mundo que veio até você queria alguma coisa que você tinha. Todo mundo que se aproximou de você nesse tempo todo queria tirar alguma coisa de você. É a mais pura verdade. Sua mulher, seu amigo, seu sócio, seu chefe. Ninguém se aproximou de você sem ter interesse em algo que era seu. Na medida exata em que ninguém se aproxima de alguém por quem não tem interesse. Se alguém não nutre qualquer interesse por você, aos olhos dessa pessoa você é desinteressante. E então ela não lhe procura, ela não se aproxima, você simplesmente não entra no radar dela. Pior para você. O problema, portanto, não é quando querem o que é seu &#8211; mas quando não querem.<span id="more-216501"></span></p>
<p>Anote aí: ao entrar na lista de desejos das pessoas, você não está necessariamente sendo vítima de gente interesseira. Não é líquido e certo que por trás de cada rosto amigo se esconda uma pilhagem prestes a acontecer, um interesse escuso de locupletação armando o bote, uma intenção latente de lhe vilipendiar. Tudo isso pode rolar &#8211; mas também pode estar muito longe de vir a ocorrer. Quando lhe chamam para um emprego, querem o seu talento. E vão extrair mais valia, a maior possível, sobre as suas competências. Não tenha dúvida. Quando lhe chamam para uma sociedade, olham para o aporte que você vai fazer e do qual a sociedade se ressente &#8211; seja capital, seja contatos, seja experiência, seja capacidade de trabalho. Quando casam com você, querem com avidez algo que você pode oferecer &#8211; segurança, companhia, sexo bom, herança ou pensão, posição social, carinho e afeição.</p>
<p>Da mesma forma, um amigo pode estar de olho em algum conhecimento seu, em aprender algo com você, nem que seja um mero jeito de ser que você carregue com graça vida afora. Assim como talvez seja simplesmente agradável estar perto de você e esse prazer pessoal e egoísta, que sequer leva em consideração a reciprocidade, possa ser o mecanismo que põe gente ao seu redor. Em suma: as borboletas que saracoteiam bela e coloridamente à sua volta estão lá, sempre, por uma razão. Não se iluda: elas estão atrás do seu néctar, seja ele qual for. E esse, perceba, não é um problema. Você não está sendo abusado, passado para trás, enganado, roubado em suas virtudes, em seu manancial de boas características. O problema é exatamente o contrário: não ter a capacidade de atrair borboletas.</p>
<p>Eis o ponto: pare de se sentir vítima do interesse alheio. Ninguém está lhe sacaneando &#8211; até que você permita que alguém lhe sacaneie. Se você não tivesse essa casquinha a oferecer, saiba que não teria mulher, nem amigo, nem negócio nem carreira. E mais: saiba que você provavelmente também se moveu até as pessoas que lhe cercam com a mesma intenção de obter delas algo que lhe interessava. Você também as aceitou, ou as abordou, oferecendo alguma coisa e levando delas algo em troca &#8211; a casquinha que você tira. Relações desinteressadas? Hmmm, me parece que o desinteresse leva mais cedo ou mais tarde à ausência de relação. O importante é ter claro os interesses que estão em jogo, saber o que você quer e por que querem você, e então manter esse jogo sempre equilibrado e justo e claro.</p>
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		<title>No trabalho, você é um suicida ou apenas um masoquista?</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 11:59:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalho]]></category>
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		<description><![CDATA[Tem gente que arranca os cabelos, tem gente que lacera as próprias cutículas, tem gente que come meleca de nariz. Tudo isso é ansiedade. É falta de jeito para lidar com a impermanência das coisas, com a instabilidade de tudo, &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/17/216431/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216441" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/estresse.jpg"><img class="size-full wp-image-216441 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/estresse.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Há quantas horas você está acordada? Por que está fazendo isso consigo mesma? Vá dormir. E pare de autoflagelar. Isto não atrairá o amor de ninguém. Apenas afastará as pessoas.</p></div>
<p>Tem gente que arranca os cabelos, tem gente que lacera as próprias cutículas, tem gente que come meleca de nariz. Tudo isso é ansiedade. É falta de jeito para lidar com a impermanência das coisas, com a instabilidade de tudo, com a grande insegurança que é viver.</p>
<p>Tem gente que se corta com gilete, tem gente que se bate e se machuca de verdade, tem gente que simplesmente não gosta de si. Tudo isso é impulso autodestrutivo, é o thanatos do sujeito operando contra ele mesmo.</p>
<p>No trabalho, esse tipo de comportamento também existe. Tem gente que chama o tapa, que se expõe de graça, que se mostra muito menos inteligente do que realmente é, deliberadamente, clamando pelo achincalhe, com o objetivo obsceno de apanhar mesmo &#8211; esses são os masoquistas corporativos.<span id="more-216431"></span></p>
<p>E tem aqueles que sequer precisam dos outros para obter os hematomas e as feridas que tanto apreciam. Esses são os suicidas corporativos. De modo geral, usam o trabalho como tribalium, como ferramenta de tortura. E se atiram à faina com espírito kamikaze. Adoram longas, excruciantes jornadas, adoram virar noites e dias, adoram pular na frente do caminhão desgovernado (mesmo que não haja ninguém a ser salvo na rua), adoram perceber nos olhos das pessoas ao redor os olhares de surpresa, de dó, de indignação, de prazer íntimo e perverso com o seu sofrimento.</p>
<p>Os suicidas não necessariamente posam de vítimas &#8211; mas apreciam muito quando as outras pessoas os colocam nessa posição. Tentam, talvez, atrair, assim, o amor alheio, a admiração, a consternação, a atenção dos outros. Eu até acho que eles são vítimas, sim &#8211; só que de si mesmos. De modo geral, no entanto, os suicidas agem do mesmo modo como, imagino, o Charlie Sheen se relaciona com a bebida: com um certo orgulho do próprio vício, com a negação de que estão errados, de que estão se destruindo, de que só fazem afastar os outros.</p>
<p>Os suicidas se justificam, para os outros e principalmente para si mesmos, dizendo que os projetos são difíceis, que a agenda está um horror, que o cliente ou o chefe demanda muito, que os colaboradores de que dispõem são idiotas, que o computador não funciona, que a conexão é péssima, que as condições são precárias. Mentira. O problema fundamental está dentro deles. Crie as condições ideais de trabalho e ainda assim eles darão um jeito de sacar um alfinetezinho do bolso para se espetar com gosto nas horas vagas. Eles costumam jogar tudo, absolutamente tudo, no curto prazo. Queimam todo o óleo no primeiro quilômetro. São velocistas irracionais, não dosam, não estão planejados para durar muito &#8211; porque no fundo não querem durar muito.</p>
<p>Depois desses exercícios atrozes de energia mal dosada, de velocidade inócua, desses tours de forces desinteligentes, dessas loucas cavalgadas, os suicidas perdem totalmente a energia, o tesão e o interessante. Normalmente se deprimem. Aí, ou permanecem no emprego, como vegetais anestesiados, como cínicos que já não acreditam em nada nem obtém qualquer prazer com o que fazem. Pronto &#8211; o suicídio está consumado. Ou então trocam de emprego &#8211; às vezes dentro da mesma empresa &#8211; e começam tudo de novo. E renascem na próxima vida &#8211; tão suicidas quanto na encarnação anterior.</p>
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		<item>
		<title>Você já fez 40 anos? Então faça!</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Mar 2011 14:02:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[40 anos]]></category>
		<category><![CDATA[crise de meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[quarentão]]></category>
		<category><![CDATA[segunda metade da vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho ótimas notícias aqui do segundo tempo da vida. Acho que os 40 são isso, antes que tudo: a sensação de que o primeiro tempo acabou e de que você já está jogando a etapa complementar. O sentimento que decorre &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/15/voce-ja-fez-40-anos-entao-faca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216392" class="wp-caption alignleft" style="width: 378px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/quarentao.jpg"><img class="size-full wp-image-216392" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/quarentao.jpg" alt="" width="368" height="426" /></a><p class="wp-caption-text">Empresto o escudo deste glorioso clube para ilustrar esse meu humilde post sobre a boa sensação que me abraça ao ter virado a casa dos 40.</p></div>
<p>Tenho ótimas notícias aqui do segundo tempo da vida. Acho que os 40 são isso, antes que tudo: a sensação de que o primeiro tempo acabou e de que você já está jogando a etapa complementar. O sentimento que decorre daí é bom &#8211; ao contrário que eu esperava e do que possa parecer para quem olha de fora. Parece inacreditável, mas mudei algumas coisas meio que automaticamente ao completar 40. E para melhor. E ao natural, sem forçar nada. A primeira delas é um senso maior de foco. Amanheci quarentão com mais facilidade do que jamais tive para me livrar de coisas desimportantes. Sempre fui de buscar a essência das coisas &#8211; só que agora isso acontece na prática, de verdade, bem mais do que apenas no discurso e na intenção. A gente quando é mais jovem perde muito tempo com distrações, com esforços inúteis, com brigas inglórias, com preocupações inócuas, com bobagens, com jornadas cretinas, com loucas cavalgadas, com imensos sumidouros de energia que não constroem nada nem levam a lugar algum.  <span id="more-216382"></span></p>
<p>Ter mais foco é um reflexo direto &#8211; e positivo, benfazejo &#8211; da compreensão quarentona de que o tempo de fato é curto. Aos 40 percebemos na carne, inequivocamente, que não vamos viver para sempre. Isso deixa de ser apenas uma ideia romântica e vira uma verdade. Fica claríssimo que o tempo é o bem mais precioso que temos. Há vários clichês como esse, prenhes de verdade, que vão batendo continência diante da gente depois dos 40. Viva todo dia como se ele fosse o último, carpe diem etc. Com mais foco, você fica menos ansioso. Joga fora aquilo que não interessa com menos culpa, com menos nervosismo, sem aquela sensação de que pode estar jogando fora ouro junto com a terra. Aos 40, você fica mais seguro quanto a sua capacidade de não confundir ouro com terra. Ou então a gente saca também que um pouco de confusão aqui e ali faz parte da vida &#8211; e, de novo, fica menos ansioso com isso, passa a conviver melhor com os erros, com os equívocos: a gente aprende e aceita que perder também faz parte das estatísticas da vida.</p>
<p>Os 40 trazem decadência física. É um fato. A pele do rosto começa a pesar e a sua cara começa a mudar por conta disso. A pele não tem mais a mesma elasticidade nem o mesmo viço. Seus cabelos começar a rarear e a embranquecer, seus músculos começam a arriar, você começa a murchar &#8211; dizem que na velocidade de um quilo de massa muscular ao ano, se você não se cuidar. Mas esse é o ponto: você começa a se cuidar aos 40. O peito cai e você começa a fazer aquele supino que nunca suportou. Para não perder o fôlego na pelada ou no sexo (não necessariamente nesta ordem), passa a encarar com paciência a esteira das lamentações ergométricas. Para que a bunda não desabe, e para que o tríceps não comece a balouçar, abraça uma sessão de spinning ou uma aula de boxe. Tem gente que acha que isso tudo é crise de meia idade. Eu acho que é o contrário: trata-se do renascimento da meia idade. Você termina a década dos 30 mortinho da silva. De tanta porrada, de tanto crescimento. Precisa de renovação, precisa trocar de pele. Apagadas as velhinhas, ops, as velinhas dos 40, é o momento da volta revigorada, de uniforme fresco, do intervalo para o segundo tempo. Você volta a campo descansado da primeira batalha, reidratado, mais disposto, com outro tipo de combustível. E adentra as quatro linhas disposto a jogar bonito, a dar espetáculo e a se divertir com ele. Não quer mais apenas o resultado. Você já conhece os atalhos e deixa a bola correr, não fica mais tão focado na marcação nem em reter a bola a todo custo. Você sabe o que é bom. Você sabe do que gosta e o que lhe realiza. Então você vai se livrando do que é supérfluo. Para navegar mais leve pelo tanto de vida que ainda lhe resta.</p>
<p>O amadurecimento dos 40 significa desistir de tudo aquilo que não tem chance de dar certo nem de fazê-lo feliz &#8211; parodiando a música dos Titãs. Essa clareza maior de objetivos, de direcionamento e de ritmo para a marcha implica inevitavelmente o fechamento de algumas alternativas, o encerramento de alguns sonhos. Só que a sensação advinda disso, para a minha própria surpresa, é muito menos de angústia ou de perda do que de alívio &#8211; pela redução voluntária de tantas possibilidades, de tantas expectativas, de tantas pressões autoimpostas.</p>
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		<title>O terremoto no Japão e o que eu tenho a ver com isso</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Mar 2011 14:36:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Japão]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 17 de janeiro de 1995, 12 dias antes de eu completar 24 anos, estava em Florianópolis, na casa da família minha namorada, na praia de Canto Grande, no sul da Ilha. Acordamos e durante o café da manhã, se &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/11/o-terremoto-no-japao-e-o-que-eu-tenho-a-ver-com-isso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216341" class="wp-caption alignleft" style="width: 490px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Terremoto.jpg"><img class="size-full wp-image-216341  " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Terremoto.jpg" alt="" width="480" height="320" /></a><p class="wp-caption-text">Japs, I love you. Fosse outro país, levaria anos para se reerguer. Vocês, felizmente, tiram isso de letra.</p></div>
<p>Em 17 de janeiro de 1995, 12 dias antes de eu completar 24 anos, estava em Florianópolis, na casa da família minha namorada, na praia de Canto Grande, no sul da Ilha. Acordamos e durante o café da manhã, se bem me lembro, ficamos sabendo do terremoto de Kobe. O tremor atingiu 7,2 pontos na escala Richter. Está registrado na <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/K%C5%8Dbe">Wikipedia</a>: &#8220;O abalo que durou apenas 20 segundos vitimou 4 571 pessoas, deixou dois desaparecidos, 14 678 feridos e um grande saldo de destruição: 67 421 moradias, das quais 6 965 totalmente consumidas pelo fogo, principalmente em áreas onde se concentravam antigas casas de madeira, o que reduziu a elegante cidade portuária a meras pilhas de escombros e pedregulhos.&#8221;<span id="more-216331"></span>Nada menos que 222 127 refugiados foram recebidos em milhares de abrigos. O terremoto ficou conhecido como &#8220;Great Hanshin Earthquake&#8221; e, de novo conforme registrado na <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Great_Hanshin_earthquake">Wikipedia</a>: &#8220;esse foi o pior terremoto no Japão desde o &#8216;Great Kanto Earthquake&#8217;, em 1923, que ceifou 140 000 vidas. O terremoto de Kobe causou estragos no valor aproximado de 10 trilhões de ienes [mais ou menos 100 bilhões de dólares], aproximadamente 2,5% do PIB do Japão à época. Para mim, mas mais ainda para minha família, havia uma preocupação extra em relação ao desastre &#8211; dali a dois meses, no início de abril, eu embarcaria rumo ao Japão para um período de três anos de estudos. Eu tinha ganho uma bolsa do governo japonês para fazer o meu MBA na Universidade de Kyoto, cidade distante apenas 63 Km de Kobe &#8211; ou seja, eu estava indo me sentar praticamente no olho do terremoto.</p>
<p>Hoje de manhã ouço na rádio que durante esta madrugada &#8211; às 2h46, horário de Brasília &#8211; um terremoto de 8,9 graus na escala Richter sacudiu de novo o Japão. O maior terremoto da história japonesa e um dos mais violentos já vividos pelo planeta. Chego na academia, subo na esteira e começo a ver as imagens impressionantes do tsunami que varreu a região da cidade de Sendai, na costa nordeste do Japão. O tremor aconteceu no Oceano Pacífico, a 130 Km da costa, e a uma profundidade de 24 000 metros. E eu pensando um monte de coisas, ali, correndo na academia. Saudade do Japão. Carinho por aquela gente. Gratidão por tudo que o Japão me proporcionou. E por tudo que a minha experiência japonesa trouxe para mim. Constato o quanto os japoneses são fortes, organizados. O quanto souberam focar no trabalho e olhar para a frente, ao longo de sua história, ao invés de sentarem à beira da estrada, sentindo pena de si mesmos, diante das várias adversidades que tiveram e tem. Lembro dos tremores &#8211; jishin &#8211; que vivi por lá. Uns três ou quatro. Todos leves, quase divertidos, como uma pequena montanha russa que passasse pelo meio do seu dia. Dura segundos, vem de um lado, cruza por você e vai embora por outro. Uma espécie de Taz sísmico.</p>
<p>Olha, o Japão não é santo &#8211; chineses e coreanos (e principalmente suas mulheres) que viveram a primeira metade do século passado que o digam. Mas desde a década de 50 os japoneses se reinventaram. E construíram um dos países mais simpáticos e sensacionais do mundo. Eu sinto muito, Nihon. Aishiteiru yo.</p>
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		<title>A importância do onanismo no mundo dos negócios</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Mar 2011 11:15:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[negócios]]></category>

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		<description><![CDATA[Há situações na vida em que você só poderá contar com você mesmo. Claro que é muito bom ter alguém, poder contar com alguém. Infelizmente, porém, quase tudo o que é bom nessa vida ou é raro ou é caro &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/10/a-importancia-do-onanismo-no-mundo-dos-negocios/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216301" class="wp-caption alignleft" style="width: 502px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/insensatos.jpg"><img class="size-full wp-image-216301" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/insensatos.jpg" alt="" width="492" height="620" /></a><p class="wp-caption-text">Há que ter um pouco de Onan para sobreviver na Nau dos Insensatos - ou para desistir dela</p></div>
<p>Há situações na vida em que você só poderá contar com você mesmo. Claro que é muito bom ter alguém, poder contar com alguém. Infelizmente, porém, quase tudo o que é bom nessa vida ou é raro ou é caro ou é ambos. E nesse quesito não é diferente: é difícil encontrar alguém para ombrear o cotidiano com você, para dividir a barra do dia a dia. Não estou falando especificamente em matrimônio, nesse momento, mas você pode jogá-lo nessa conta também. Estou falando aqui de negócios, de sociedade, do chamado casamento sem sexo. No mundo do empreendimento, o sócio é o sujeito que está do seu lado de verdade, que lhe dá o conforto da presença e da solidariedade nos dias em que o sol não sai. Ele lhe dá apoio. E você o reenergiza quando é no tanque dele que o combustível está faltando.<span id="more-216291"></span></p>
<p>Há, no entanto, quem ache que essa presença, que esse conforto, que essa figura com quem trocar e com quem dividir, simplesmente não vale a pena. São os caras que decidem ir sozinhos, e se lançam na aventura do empresariado cuidando apenas do próprio nariz, sem ter ninguém do lado. Consideram que ter sócio é um peso, um atrapalho, um problema a mais. Na paralela, há também aqueles que, mesmo com sócios, se veem muitas vezes sozinhos. Miseravelmente solitários. Ou porque os sócios já não aportam mais nada. Ou porque os sócios já não se entendem e a única coisa que passam a dividir é desconfiança, amargura e ressentimento. O conforto vira urticária, a solidariedade vira rancor e o apoio vira traição. Todos perdem &#8211; a começar pelo negócio em si.</p>
<p>Assim como o cavaleiro solitário, o cara que atua sozinho, esse empreendedor que se encontra na situação de acordar um dia pela manhã dormindo com o inimigo (às vezes mais de um), precisa desenvolver a capacidade de se bastar. Se é bom ter alguém, poder contar com alguém, não se pode depender disso para ir adiante. Às vezes, como Onan, temos que nos bastar, temos que nos resolver sozinhos. É preciso conviver bem com a certeza de que no fundo só podemos contar incondicionalmente e confiar cegamente em nós mesmos. Precisamos encontrar recursos em nós próprios que nos permitam continuar navegando no rumo certo, com ou sem ajuda alheia. Especialmente naqueles períodos de baixa, de turbulência, de horizonte enuviado. Quando você desenvolve esse grau de autoconfiança e de autossuficiência, tudo fica mais claro e mais justo. Seja continuar remando na Nau dos Insensatos, seja a perspectiva de recomeçar em carreira solo, seja a hipótese de terminar um relacionamento e começar outro.</p>
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		<title>O diploma de que mais me orgulho</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Mar 2011 18:48:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Infância]]></category>

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		<description><![CDATA[De todos os diplomas que obtive ao longo da vida, é possível que nenhum me encha tanto de orgulho quanto este. Oito dias antes de completar 14 anos, eu conquistava o terceiro lugar no campeonato de futebol de botão do &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/03/o-diploma-de-que-mais-me-orgulho/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De todos os diplomas que obtive ao longo da vida, é possível que nenhum me encha tanto de orgulho quanto este.</p>
<p>Oito dias antes de completar 14 anos, eu conquistava o terceiro lugar no campeonato de futebol de botão do prédio onde morava.</p>
<p>No Estrelão da Xalingo (isso equivale a agradecer à Antárctica pelas Brahmas enviadas&#8230;) que eu tinha, com o time de botões plásticos baratos comprados naqueles armarinhos de bugigangas que quase nem existem mais. Provavelmente entrei em campo com o time do Inter.</p>
<p>Saudade do Mano, do Juliano, do Rodrigo e do Dudu &#8211; que caprichou nesse diploma, feito em papel vegetal.</p>
<p>Ótimo Carnaval a todos!</p>
<p>Rosebud!</p>
<p><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/DiplomaFutBotao0001.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-216261" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/DiplomaFutBotao0001-e1299177702653-1024x678.jpg" alt="" width="640" height="423" /></a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tchau, Scliar</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Mar 2011 22:10:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[escrever]]></category>
		<category><![CDATA[escritor]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro de contos]]></category>
		<category><![CDATA[luis fernando verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[moacyr scliar]]></category>
		<category><![CDATA[o filho que não vos ama]]></category>
		<category><![CDATA[prêmio ufrgs de literatura]]></category>
		<category><![CDATA[toda decadência]]></category>
		<category><![CDATA[troféu moacyr scliar]]></category>
		<category><![CDATA[zero hora]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho uma história com Moacyr Scliar, o escritor gaúcho que morreu no último domingo, poucos dias antes de completar 74 anos. Corria o ano de 1990, eu tinha 19 anos e estava no meio da faculdade. Fazia Comunicação, com habilitação em &#8230; <a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/2011/03/02/216201/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216211" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Scliar.jpg"><img class="size-medium wp-image-216211" src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/03/Scliar-300x207.jpg" alt="" width="300" height="207" /></a><p class="wp-caption-text">Moacyr Scliar, ainda um cinquentão, há quase 20 anos, e eu, recebendo dele o Prêmio UFRGS de Literatura - Troféu Moacyr Scliar</p></div>
<p>Tenho uma história com Moacyr Scliar, o escritor gaúcho que morreu no último domingo, poucos dias antes de completar 74 anos.<br /> <br />Corria o ano de 1990, eu tinha 19 anos e estava no meio da faculdade. Fazia Comunicação, com habilitação em Publicidade e Propaganda, na UFRGS. Depois que me formei, voltei e cursei alguns semestres de Jornalismo também. A faculdade foi um momento árduo para mim. Socialmente, falando. Emocionalmente, também. Eu estava fora de algumas turmas que queria frequentar (felizmente a roda de amigos que me acolheu era sensacional), distante de algumas meninas que queria namorar, estava pobre, sem privacidade, não tinha um quarto nem dormia numa cama. Havia trocado de cidade e de turma. Não tinha orgulho da casa onde morava nem da falta de dinheiro para qualquer coisa que não fosse o pão e o leite &#8211; minha dieta básica naqueles anos duros. Minha autoestima desmoronou um bocado e, misturada ao tanto de soberba que quem tem 19 anos e estuda Comunicação costuma apresentar, me transformava numa espécie de ET. Ao mesmo tempo que sonhava com o Olimpo, não tinha bem noção da minha estatura, da minha aparência, das minhas reais possbilidades no mundo &#8211; hostil e atraente &#8211; que eu frequentava. Imagino que fosse, por tudo isso, um cara travadão, meio frágil, sem humor, encucado, austero. E, ao mesmo tempo, aparecido. Entende?<br /> <span id="more-216201"></span><br />Foi mais ou menos por essa época, e mais ou menos com essas motivações, que eu comecei a escrever de verdade, em ritmo, digamos, profissional. Ou com fluência amadora -talvez dizer assim seja mais preciso. Até os 17, eu tinha facilidade para escrever, colocava bem minhas ideias no papel, ganhava nota 10 em composição e pronto. A partir do segundo ano da faculdade, lá pelos 18, mais ou menos, à medida que eu ia me encaramujando, que o mundo ia se fechando asperamente à minha volta (na realidade ou só na minha percepção, não importa), fui começando a escrever de modo mais sistemático. Era um encontro comigo mesmo. Uma conversa íntima. Era um jeito de exprimir aquele turbilhão incômodo que havia se apossado de mim &#8211; OK, desde que virei adolescente, lá pelos 12 ou 13, que tinha virado um menino meio insatisfeito e meio inseguro, com grilos. (Nada que não seja comum a quase todo mundo, creio eu.) Mas ali, na cidade nova, naquele processo de virar adulto, a vida tinha ficado realmente dura. Tinha adquirido os contornos de um açoite. (Curioso como essa sensação de peso e derrota e solidão durou até o primeiro emprego, mais ou menos.)<br /> <br />Um ano depois, em 1990, apareceu na UFRGS um concurso literário. O Prêmio UFRGS de Literatura &#8211; Troféu Moacyr Scliar. Não era um concurso de contos &#8211; era um concurso para um livro de contos inteiro e acabado. Aí eu abri a minha gaveta e vi que talvez houvesse um livro ali dentro. Me dediquei a selecionar e reescrever aqueles textos com um afinco exemplar &#8211; eu devo admitir para mim mesmo que tenho uma capacidade de trabalho cavalar quando me dedico de verdade a um projeto que me preencha o coração e me faça sentido à mente. Me atirei à faina de extrair um livro daquela gaveta como um flagelado famélico se atira a um prato de comida. Escrevi algumas coisas novas e revisei aqueles textos todos num verdadeiro tour de force literário. Quero crer que emergi dali um escritor. É isso: virei escritor ao me propor a escrever aquele livro. Poderia ter virado algumas outras coisas, fossem outras as oportunidades a que eu tivesse me dedicado. Mas, com os bons e velhos 99% de transpiração e 1% de inspiração, me tornei um profissional das letras, e transformei uma das possibilidades que estavam desenhadas dentro de mim numa realidade, num compromisso, num caminho e numa promessa &#8211; minha para o mundo, minha para mim mesmo.<br /> <br />Meu livro &#8211; O Filho Que Não Vos Ama, nome de um dos contos &#8211; acabou levando o Prêmio. Ganhei a publicação do livro e um valor equivalente a uma passagem de ida e volta para o Rio &#8211; gaúchos, mesmo os acadêmicos e os literatos, são fascinados pelo Rio! O livro, por sugestão da comissão julgadora, foi subtraído de um conto &#8211; por ser gongórico, tautológico &#8211; e ganhou o nome de outro conto: <a href="http://www.estantevirtual.com.br/titanic/Adriano-Silva-Toda-Decadencia-14889749">Toda Decadência</a>. Ganhei também a chance de apertar a mão de Moacyr Scliar no evento de entrega do Prêmio. Scliar gozava, entre algumas correntes literárias gaúchas, do apelido de &#8220;PFL da Literatura&#8221;. Os anos 80 ainda não tinham acabado direito e certas dicotomias políticas estavam ainda muito presentes. Eu mesmo me filiava totalmente a Luís Fernando Verissimo, cuja obra até aquele momento eu já havia lido várias vezes, como meu Norte, como meu mentor, como meu mestre. (Um pouco como aquele garoto que namora a menina há anos sem ela saber disso&#8230;) E não lia Scliar. Achava chato, quadrado, sem sal. Então eu estabeleci essa oposição &#8211; Verissimo, o gênio pop de esquerda, e Scliar, o cronista chato e conservador. Ambos tinham colunas no jornal Zero Hora e eram amigos.<br /> <br />Muitos anos depois, comprei, já morando em São Paulo, e já perto dos 30, o livro <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?isbn=8571645000&amp;sid=201687911322439590237067">Contos Reunidos</a>, lançado pela Cia. das Letras, com vários dos melhores textos de Moacyr Scliar. E adorei. Li com gosto, quase assustado com a qualidade daquela escrita. Redescobri &#8211; ou descobri pela primeira vez, sem o preconceito juvenil &#8211; a ironia, a sucintez, o absurdo, o fantástico, a simpática despretensão da literatura de Scliar. Um livro delicioso. Cuja leitura venho aqui recomendar a todos. Tardiamente, talvez. Leiam Scliar, lembrem de Scliar.</p>
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		<title>Pequeno manifesto contra essa mania de correr</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Feb 2011 17:55:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adriano Silva</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_216111" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/02/running.jpg"><img class="size-medium wp-image-216111 " src="http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/manual-do-executivo-ingenuo/files/2011/02/running-300x239.jpg" alt="" width="300" height="239" /></a><p class="wp-caption-text">Aonde você vai? Está correndo do quê? Dos seus amigos? Saiba que a arte de suar sozinho será sempre menor do que a de suar acompanhado</p></div>
<p>Os anos 80 começaram cheios de esperança. A década de 60 tinha sido onírica. O mundo havia vivido um sonho de mudança, de avanços sociais, de rejuvenescimento das atitudes e das expectativas, de novas utopias, de poder jovem assumindo a ponta. E o crescimento econômico do pós guerra ainda permitia a todos imaginar que a prosperidade, o progresso e a modernidade seriam uma constante dali para a frente. Apesar das desigualdades bem marcadas nos grotões miseráveis do mundo, das ditaduras pululando no Terceiro Mundo e da Guerra Fria no seu auge.</p>
<p>Aí veio a década de 70, uma enorme ressaca &#8211; a economia mundial andava depressiva com a crise do petróleo e com a recessão americana, a inocência do sonho sessentista se estilhaçava em longas carreiras de cocaína e outros quetais. Sobrava só a ameaça atômica para nos fazer companhia. O mundo não suportaria outra década de tristeza, decadência física e desesperança. Só nos restava inventar uma década menos pesada, mais para cima. Essa esperança de que os anos 80 fossem representar uma renascença, uma virada de jogo, está muito bem expressa em algumas músicas da época, como <a href="http://www.dailymotion.com/video/x2brbf_village-peple-ready-for-the-80s_music">nesta faixa do Village People </a>ou como no astral que perpassa todo o filme <a href="http://www.youtube.com/watch?v=nTJHjuhCYos">Fama</a>, de Alan Parker. Aqui no Brasil, em faixas como <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tJSrcNDQUWs">Clarear</a>, do Roupa Nova, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=WLGyrsHe0eg">Realce</a>, de Gilberto Gil, e <a href="http://www.youtube.com/watch?v=MDkU8dYHCwk&amp;feature=fvst">Tempos Modernos</a>, de Lulu Santos.</p>
<p>A grande ordem à época era começar a cura do mundo pela saração do corpo, exorcizando os excessos da década que se encerrava ali a partir de uma vida mais saudável, de um respeito maior ao próprio organismo &#8211; que viraria culto logo em seguida, com o surgimento da Geração Saúde. O vegetarianismo e a alimentação balanceada, as academias de ginástica, o jogging (também conhecido como Cooper!), os esportes ao livre ganhando espaço na vida cotidiana, os exercícios matinais mandando as noitadas desregradas para a cova &#8211; tudo conspirava para uma saudabilização geral da vida. Nos Estados Unidos, Olivia Newton-Jonh espelhava essa tendência com seu hit mundial, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tAoDJcFU6iY">Physical</a>. Jane Fonda estourava nas telas de TV e nas recém lançadas fitas de video em VHS <a href="http://www.youtube.com/watch?v=UwCin4vmIGw&amp;playnext=1&amp;list=PL384A1AE37A03F31A">com suas polainas e maiôs de lycra</a>. Aqui no Brasil, Rita Lee sintetizava essa mudança de atitude em <a href="http://www.youtube.com/watch?v=PSU5TXvduUA">Saúde</a>. E Marcos Valle, compositor de Bossa Nova, corrente musical embalada, entre outras coisas, a carregamentos industriais de uísque, chope e cigarro, no coração cheio de excessos da noite carioca, atacava de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-h-dKW2PX6c&amp;feature=related">Estrelar</a>, mandando todo mundo correr, esticar e malhar &#8211; a nova gíria que surgia ali. Instituía-se o sanduíche natural. Revogava-se o filé chautebriand mal passado com fritas e com aquele zoiudo duplo estatelado em cima.<span id="more-216101"></span></p>
<p>Isso tudo desembocou em fisiculturismo, aeróbica, indústria do diet, do light e do zero, explosão da cultura de academia, esteiras e bicicletas ergométricas, namoro com a macrobiótica, informações nutricionais e de calorias expressas em todo tipo de alimento, invasão dos sucos e das saladas, caça aos tabagistas, desprezo aos sedentários. Como resultado, temos hoje um bocado de gente comendo, respirando e transando melhor &#8211; ainda que com um bocado de bursites e outras tendinites adquiridas pelo caminho, o que não lhes torna necessariamente mais saudáveis, apenas mais bem condicionados fisicamente. Conto isso tudo porque vivemos de uns cinco anos para cá uma nova onda. Que acertou em cheio o coração da minha geração, essa turma que nasceu mais ou menos entre 1965 e 1975 e que, portanto, tem hoje entre 35 e 45 anos. Trata-se da corrida. Não é mais jogging, nem Cooper &#8211; agora é treino. Agora é meia maratona, é prova de 10K aqui, 5K acolá ou 20K mais adiante &#8211; K sendo não mais um sinônimo financeiro anglo saxão para expressar 1 000 unidades de algum dinheiro mas um equivalente charmoso de Kilômetro, só que sem o &#8220;m&#8221; na contração. Eis o que gostaria de dizer: acho que o mundo fica pior com tanta gente correndo. Eis os meus porquês.</p>
<p>Tenho alguns amigos que desistiram da pelada semanal porque simplesmente trocaram o futebol pela corrida. Onde antes davam risada e confraternizavam com seus companheiros de gramado, entre dribles, cabeceios e coices na bola (e às vezes nas canelas dos compadres), numa agradável atividade noturna, pós escritório, relaxante, hoje correm sozinhos às seis da manhã, num jogo meio tenso em que são seus próprios adversários, olhando para o relógio e contabilizando tudo depois num aplicativo do Facebook. Não tem mais a cervejinha no bar depois da peleja, celebrando grandes e maus momentos. Não tem mais o churrasco de fim de semestre, para falar bobagem e voltar a ter 15 anos por algumas horas. Não tem mais aquela confraternização bonita no vestiário depois do jogo &#8211; cada um com seu sabonete, é claro. Eles se isolaram. Agora se divertem &#8211; ou se estressam &#8211; sozinhos. Abriram mão da socialização, trocaram um esporte coletivo, que integra, por outro que é individual e que isola. Enfim, são caras que viraram ex-jogadores por conta própria, de modo voluntário. Gente boa que viciou em descarga de endorfina. E que enfrenta a meia idade em busca de superação &#8211; não de gozo. Eu, na boa, já mandei o sarrafo do salto em altura às favas. Quero me divertir um pouco enquanto ainda posso.</p>
<p>Tenho amigos que desisitiram de tocar com a banda sábado de manhã porque tinham que treinar. Que montam a agenda de viagens com a família somente depois que definem as provas de que vão participar. Que saem mais cedo de festas porque tem que acordar cedo para correr no dia seguinte. Caras bacanas, essenciais, a quem a mania de correr deixou menos sociais. Tenho saudade deles. De quando corriam menos retos e eficientes, menos tocados pelo relógio e pelos movimentos repetitivos e padronizados. Tenho saudade de quando ziguezagueavam mais, brincavam mais, pareciam mais soltos e mais criativos em suas atividades esportivas. Sinto saudade da ginga, da informalidade, do improviso, da espontaneidade. Enfim, sinto saudade de quando eram de algum modo mais próximos da gente. E, se não for exagero dizê-lo, de quando eram menos rígidos e mais macios. Culpo a corrida por isso, inevitavelmente. Até onde enxergo, ela está adquirindo hoje um potencial tão alienante nas relações quanto a cocaína nos anos 70.</p>
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