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	<title>Eduardo Graça</title>
	
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	<description>Jornalista Brasileiro em NYC</description>
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		<title>Set Visit: American Pie</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Apr 2012 14:56:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;O coração da gente bate mais forte&#8221;, conta ator sobre volta à franquia &#8220;American Pie&#8221; Eduardo Graça Do UOL, em Atlanta Faz um calor de 40 graus na cidadezinha de... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/04/set-visit-american-pie/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>&#8220;O coração da gente bate mais forte&#8221;, conta ator sobre volta à franquia &#8220;American Pie&#8221;</strong></p>
<p>Eduardo Graça<br />
Do UOL, em Atlanta</p>
<p>Faz um calor de 40 graus na cidadezinha de Monroe, um subúrbio de Atlanta, na Geórgia, no coração do Sul dos Estados Unidos. E Eddie Kay Thomas, o Finch, não para de reclamar. Do frio. &#8220;É que nas cenas internas a produção liga aparelhos de ar-condicionado gigantescos e não consigo parar de tremer. Em seguida, filmamos as externas e é um calor do cão, com a umidade beirando os 100%. É duro!&#8221;, diz o ator de 31 anos, em dúvida se coloca ou não um casaquinho esportivo, antes de respirar fundo por um segundo, olhar para os lados e recriar uma daquelas expressões meio de enfado, meio de sabichão de plantão, típicas de seu personagem no universo de &#8220;American Pie&#8221;. &#8220;Desculpe, você percebeu que viajei para outro planeta, né? É que simplesmente não é possível não se ter um &#8216;déja vu&#8217;, sabe? Vários sets do primeiro filme foram reconstruídos, você viu? A casa do Jim, a do Stiffler, onde as festas todas rolavam, o colégio. Faz o coração da gente bater mais forte&#8221;, diz o ator de 31 anos.</p>
<p>Quando a reportagem do UOL baixou em um dos principais sets de filmagem de &#8220;American Pie: o Reencontro&#8221;, os meninos que em 1999 (com &#8220;American Pie – A Primeira Vez É Inesquecível&#8221;) reinventaram a comédia teen no assumido tributo a clássicos da pilantragem adolescente de Hollywood (&#8220;O Clube dos Cafajestes&#8221;, com John Belushi; &#8220;Almôndegas&#8221;, com Bill Murray e, acima de todos, a seqüência interminável iniciada em &#8220;Porky&#8217;s – a Casa do Amor e do Riso&#8221;, são influências óbvias dos diretores Paul e Chris Weitz) com uma pitada do sarcasmo angustiado de John Hughes (pense em &#8220;Clubes do Cinco&#8221;, mas especialmente &#8220;Curtindo a Vida Adoidado&#8221;) estão se preparando para filmar uma das cenas derradeiras do novo filme. É a despedida da gangue, no diner Dog Years, localizado na fictícia East Great Falls, depois de uma série de acontecimentos hilários gerados pela reunião de ex-alunos promovida pela escola, mote do &#8220;Reencontro&#8221;. Lá estão Jim (Jason Biggs), Stiffler (Sean William Scott), Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Ian Nicholas) e, claro, o Finch de Kay Thomas. Todos mais velhos, não necessariamente mais sábios, mas com recordações doces sobre o verão em que decidiram estabelecer o pacto de perder a virgindade na noite de formatura da escola.</p>
<p>&#8220;Ah, mas você pode atestar que nós mudamos muito&#8221;, diz Jason Biggs, quase sério, para continuar, em uma sonora gargalhada: &#8220;No primeiro filme tínhamos 17, 18, 20 anos, e agíamos no set como se tivéssemos dez. Agora somos trintões, mas agimos como se tivéssemos oito!, é outra coisa&#8221;, diz. As brincadeiras durante as filmagens, revela Kay Thomas, passam por chutes-surpresa nos testículos dos amigos e invencionices que quase sempre giram em torno da flatulência alheia. Quando o repórter pergunta qual seria a forma de distração preferida do elenco feminino, que mais uma vez inclui a Michelle de Alyson Hannigan, a Vicky de Tara Reid e a Heather de Mena Suvari, Kay Thomas é rápido no gatilho: &#8220;Mas eu estava falando delas!&#8221;, diz, gerando mais uma explosão de riso.</p>
<p>Suvari também parece achar graça de tudo. No intervalo para o almoço são seus os sons mais altos de contentamento ao ouvir as tiradas dos colegas de trabalho. &#8220;A primeira vez que sentamos novamente para ler os textos rimos muito e fomos pegando o ritmo rapidamente. Na mesa do almoço o nível foi baixando tão rapidamente&#8230; mas não me assusto mais. Tenho três irmãos, sei como é quando um bando de marmanjo se junta, me divirto horrores&#8221;, diz. No filme, a mais conservadora e doce Heather finalmente mostra suas garras ao se reencontrar com Oz e a nova namorada do agora apresentador de programa esportivo na Califórnia.</p>
<p>Chris Klein, 33, passa a impressão de ser o único do grupo a trazer as técnicas do &#8216;method acting&#8217; para o set do verão americano. Ele conversa com o repórter com as interlocuções e pausas típicas das figuras mais caricatas do mundo esportivo ianque. &#8220;O que Jason quis dizer com nosso comportamento juvenil é que somos, no fim, um bando de meninos que se conhece desde criança. &#8220;American Pie: o Reencontro&#8221; é fundamentalmente isso. E hoje nos permitimos ser um pouco mais moleques no set, já que na vida real somos adultos mais ou menos respeitáveis&#8221;, diz.</p>
<p>O primeiro jantar da trupe na Geórgia, um estado conservador, foi em um restaurante nas redondezas de Monroe. Na mesa ao lado, um grupo exclusivamente feminino celebrava a despedida de solteira e, obviamente, as meninas se animaram com a presença, ao lado, do pessoal de &#8220;American Pie&#8221;. Quem narra, com direito a fotos em seu celular para comprovar a veracidade da história, é Jason Biggs: &#8220;A sobremesa chegou e era um pênis gigante de chocolate, negro. É verdade! Olha aqui! E eu comi aquele pênis! Eu comi! Olha eu comendo! E foi muito bom! Foi provavelmente um dos melhores pênis que eu provei na vida! Você prestou atenção aos detalhes? Olhe as veias de caramelo! É um artista este cara que fez a torta!&#8221;, diz.</p>
<p>Naquela que já é a mais famosa cena de &#8220;Reencontro&#8221; Biggs, famoso por transar com uma torta de maçã no primeiro filme da série, agora mostra como veio ao mundo, de frente e de trás. &#8220;Sim, meu pênis teve um papel maior do que o normal no filme. Ele terá seu próprio trailer, fiz um contrato especialmente para ele e tudo. Fiz seguro também, porque você nunca sabe. Para você ter uma ideia, aquele pênis da festa é tao similar ao meu, em tamanho, que pedi para o artista para criar um dublê para mim. Ficou ótimo!&#8221;, diz, com a cara mais lavada do mundo.</p>
<p>Além do primeiro filme, um surpreendente estouro de bilheteria nos quatro cantos do planeta, a turma voltou a se encontrar em &#8220;American Pie 2&#8243; em 2001 e &#8220;American Pie: O Casamento&#8221;, em 2003. Depois vieram apropriações da marca com elencos diferentes, boa parte dos filmes indo direto para DVD. &#8220;Vi alguns. A sensação era estranha. Alguns até tinham coisas engraçadas, um tinha uma cena de uma avó pegando um neto se masturbando. Hilário!&#8221;, diz Kaye Thomas. Biggs lembra que Hollywood é mesmo uma senhora montanha. Altos e baixos, filosofa, são premissas do cinema americano. &#8220;Nestes 12 anos fiz filmes terríveis, outros melhores. Não me arrependo de nada, aprendi muito. E &#8216;American Pie&#8217; é uma benção em minha vida. Depois do terceiro filme eu dizia, &#8216;quero fazer coisas melhores e maiores&#8217;, uma coisa bem idiota, mas, olha, eu volto sempre ao Jim. Sempre. E, claro, paga-se muito bem, não vou mentir&#8221;, diz.</p>
<p><strong>Segredos</strong></p>
<p>Um dos segredos da forma de &#8220;American Pie&#8221; voltar a dar caldo está na cozinha do filme. A produção é assinada por Biggs e Williams Scott e os diretores, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg (de &#8220;Madrugada Muito Louca&#8221;) são fãs ardorosos da série. &#8220;Eu os conheci no set de &#8220;Madrugada Muito Louca&#8221; e eles me adoravam, de graça, apenas por eu ser do elenco de &#8220;American Pie&#8221;. Eles dizem que o sonho deles era dirigir um filme com todos nós! Aqui no set é hilário, eles ficam apontando e rindo: olha lá o Jim! E o Stiffler! E a escola! Assim, sabe, admirados de estarem vivendo o sonho! Eles nos lembram o tempo todo o quanto nós também amamos o original&#8221;, diz Kaye Thomas.</p>
<p>&#8220;Hayden e eu somos amigos da escola e nossa amizade se formou em torno dos filmes que gostávamos. Mais tarde, quando começávamos a tatear em Hollywood, vimos o trailer de &#8216;American Pie&#8217; e pensamos: &#8216;É isso! É o que queremos fazer um dia!&#8217;&#8221;, diz Hurwitz. O amigo continua, de bate-pronto: &#8220;Quando começamos a pensar em filmar, era um deserto só. Não havia uma comédia adolescente com censura para adultos desde os anos 80. Aí apareceram os irmãos Farrelly, nós fizemos nossas coisas, e agora voltamos onde tudo começou&#8221;, diz, nos poucos minutos livres antes de voltar a filmar a cena-chave do filme que, aliás, deixa um gostinho de quero mais.</p>
<p>Haverá mais um &#8220;American Pie&#8221;? &#8220;Não sabemos ainda, mas posso garantir que os filmes acompanham o rumo da minha vida. No primeiro, estava me formando no colégio. No segundo, minha universidade foi Hollywood, vivendo em Los Angeles. No terceiro, me casando. E agora, eu e minha mulher (a atriz Jenny Mollen) estamos conversando sobre termos um filho, exatamente como o Jim e a Michelle, que são pais em &#8216;Reencontro&#8217;. Sempre há este paralelo&#8221;, diz Biggs, lançando o desafio para roteiristas de plantão interessados em passear mais uma vez pelas ruas de East Great Falls.</p>
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		<title>Curta: My Neighborhood, de Julia Bacha</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Apr 2012 14:47:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[Histórias de uma resistência pacífica no Festival de Tribeca Mostra exibe curta de Julia Bacha sobre a ocupação de Israel na Palestina Eduardo Graça, de Nova York, Especial para O... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/04/curta-my-neighborhood-de-julia-bacha/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Histórias de uma resistência pacífica no Festival de Tribeca</strong></p>
<p><em>Mostra exibe curta de Julia Bacha sobre a ocupação de Israel na Palestina</em></p>
<p>Eduardo Graça, de Nova York, Especial para O GLOBO </p>
<p>Uma das atrações, a partir de hoje, do Tribeca Film Festival, o documentário &#8220;My neighbourhood&#8221; (&#8220;Meu bairro&#8221;) é o mais novo resultado do interesse da diretora e produtora Julia Bacha (em parceria com Rebekah Wingert-Jabi) pelo Oriente Médio: a possibilidade de um movimento pacífico de resistência contra abusos cometidos pelo Estado nos territórios ocupados por Israel na Palestina. O curta, de 25 minutos, se passa em Sheikh Jarrah, no coração de Jerusalém Oriental, onde moradores palestinos são expulsos de suas casas, ocupadas por colonos judeus. Na pré-estreia para convidados, terça-feira, no Paley Center for Media, a apresentação ficou a cargo da rainha Noor, da Jordânia, país de importância estratégica no xadrez político da região.</p>
<p>— A comparação mais imediata com o que aconteceu com as famílias de Sheikh Jarrah é o Pinheirinho, em São José dos Campos — diz Julia, em uma tentativa, incentivada pelo repórter, de se estabelecer um paralelo entre o que se vê na tela — o desespero do menino Mohammed el Kurd, cuja família é despejada da casa em que vive desde os anos 1950, mobília jogada na rua, sem a possibilidade de receber guarida de um sistema de Justiça inexistente — e a realidade brasileira.</p>
<p>Outro paralelo imperfeito é o estabelecimento das UPPs nas comunidades cariocas. Mas é justamente na quebra da invisibilidade dos &#8220;bairros palestinos&#8221; — com a ação de jovens israelenses como Zvi Benninga, um estudante de Medicina revoltado com o avanço dos colonos ultraortodoxos sobre os enclaves palestinos de Jerusalém — que o filme ganha sua razão de ser. Benninga e sua irmã, descendentes de sobreviventes do Holocausto, iniciam uma série de manifestações que, em determinado momento, recebem a adesão até mesmo de uma parente do primeiro-ministro conservador Benjamin Netanyahu.</p>
<p>Em seu premiado longa &#8220;Budrus&#8221; (2009), a vencedora do prêmio Faz Diferença de O GLOBO deste ano na categoria Mundo contou a história dos moradores da aldeia de cerca de 1.500 habitantes decididos a resistir sem o uso de violência à tentativa do governo israelense de criar uma barreira física que cortaria a cidade ao meio. O lugarejo se tornou o improvável cenário para uma coalizão de palestinos e israelenses progressistas. Nos últimos três anos, o filme foi passado em escolas e universidades nos territórios administrados pela Autoridade Palestina e em Israel, gerando a discussão que é o núcleo de &#8220;My neighbourhood&#8221;.</p>
<p>— A nova esquerda israelense nasceu em Budrus. Não sabemos qual será sua dimensão nem seu papel futuro na política local. Mas sua presença, agora, é tangível, e de âmbito nacional — diz Julia. — &#8220;My neighbourhood&#8221; investiga as possibilidades de resistência não violenta à ocupação em um grande centro urbano. E o formato é proposital. O curta, de acesso fácil à população local, já tem distribuição garantida no mundo árabe, nos EUA e em Israel.</p>
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		<title>Kaftwerk no MoMA</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Apr 2012 20:54:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[Na capa do Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO de hoje, minhas impressões sobre a instalação musical do Kraftwerk no MoMA: Música de Museu Avô da eletrônica, o Kraftwerk recebe do MoMA... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/04/kaftwerk-no-moma/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na capa do Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO de hoje, minhas impressões sobre a instalação musical do Kraftwerk no MoMA:</p>
<p><strong>Música de Museu</strong></p>
<p><em>Avô da eletrônica, o Kraftwerk recebe do MoMA de NY o tratamento dado a medalhões das artes plásticas, ao apresentar, durante uma semana, seu repertório completo no prestigioso átrio</em></p>
<p>Eduardo Graça, Especial para O GLOBO</p>
<p>NOVA YORK &#8211; Kraftwerk é música de museu, e a afirmativa não é anacronismo gratuito. A banda que melhor soube prever o futuro do pop apresentou, por uma semana, seu repertório completo no átrio do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Criadores do synth-pop e avôs da eletrônica, eles se tornaram o primeiro grupo de música popular a receber de uma instituição artística de prestígio planetário o tratamento dado a medalhões das artes plásticas em mostras definitivas. &#8220;Retrospectiva 12345678&#8243; se tornou o evento da primavera, com os ingressos mais disputados da atual temporada cultural da cidade.</p>
<p>Para a derradeira apresentação, na noite de terça-feira, cambistas vendiam por US$ 500 entradas que, em fevereiro, a US$ 25, esgotaram-se em menos de uma semana. Além da possibilidade de revisitar clássicos como &#8220;Autobahn&#8221; e &#8220;Trans-Europe Express&#8221;, o curador Klaus Biesenbach, diretor do PS1, espaço de arte contemporânea do MoMA, providenciou um luxuoso acompanhamento visual em 3-D. O público, 450 felizardos por noite, foi convidado a se imaginar no mitológico estúdio Kling Klang &#8211; localizado na parte industrial de Düsseldorf, na Alemanha, onde a banda gravou seus oito trabalhos principais, entre 1974 e 2003 &#8211; enquanto se deliciava com uma pequena rave em um dos mais nobres endereços de Manhattan.</p>
<p>&#8220;A ideia é que você esteja no MoMA, junto com o artista, fazendo arte&#8221;, afirmou Biesenbach ao anunciar a retrospectiva. Se não chegou a tanto, o público de terça-feira dançou por duas horas, ensaiou coreografias, brincou com os datados óculos 3D de cartolina branca e ocupou, para desespero dos seguranças, as passarelas do terceiro e do quarto andares, com vista privilegiada para o átrio. Uma das principais novidades da expansão do museu, idealizada pelo japonês Yoshio Ta$. O espaço, com pé-direito de 33,5 metros, nunca foi ocupado de maneira tão plena. Um DJ do Brooklyn definiu a noite como &#8220;uma grande instalação artístico-musical&#8221;:</p>
<p>- Vi o espetáculo da boca do palco, depois fui para a lateral, na esquina da lojinha do segundo andar, e, por fim, observei tudo de cima, nas passarelas. A única coisa que não fiz foi deixar o gravador de meu celular desligado. Esta música, quero guardar para sempre &#8211; contou, imaginando usar um dia um sample dos alemães, como já fizeram, com mais ou menos sucesso, gente como Afrika Bambaataa, Big Audio Dynamite, Devo, Depeche Mode, Fatboy Slim, Chemical Brothers, DJ Shadow, Jay-Z, LCD Soundsystem e Fergie, entre muitos outros.</p>
<p>A primeira parte da instalação musical de terça-feira foi dedicada a &#8220;Tour de France&#8221;, as 12 faixas do disco apresentadas na íntegra sob a batuta do ciclista Ralf Hütter, 65 anos, o único remanescente da formação original do Kraftwerk. Ele dividiu o palco com o careca Henning Schmitz, 59, o grisalho Fritz Hilpert, 55, e o louro Stefan Pfaffe, 32. Desde o primeiro som os quatro foram acompanhados por sombras em tamanho gigante de si mesmos, projetadas na tela.</p>
<p>Os efeitos gráficos as transformavam em fantasmas sacolejantes, contrapostas aos corpos robóticos e quase mudos dos músicos de carne e osso. Além dos poucos efeitos vocais e de imagem criados pelos quatro &#8220;operadores&#8221; (como preferem ser chamados) a partir dos enormes consoles localizados à frente dos artistas, o público recebeu um &#8220;até breve&#8221; de Hütter ao fim da maratona eletrônica. E só. O resto foi música.</p>
<p>Na expressão cunhada por Biesenbach, compatriota de Hütter e fundador do Instituto de Arte Contemporânea de Berlim, o som do Kraftwerk é uma &#8220;pintura musical&#8221; criada a partir de sugestões melódicas, vocábulos oriundos de diversas raízes linguísticas, ritmos robóticos e o uso originalíssimo de sintetizadores vocais. No MoMA, tal pintura se traduziu em trilha sonora de um indisfarçado saudosismo pela modernidade. Faixas dos outros discos do Kraftwerk &#8211; &#8220;Autobahn&#8221; (1974), &#8220;Radio-Activity&#8221; (1975), &#8220;Trans-Europe Express&#8221; (1977), &#8220;The Man-Machine&#8221; (1978), &#8220;Computer world&#8221; (1981), &#8220;Electric Café/Techno pop&#8221; (1986) e &#8220;The mix&#8221; (1991) &#8211; foram apresentadas na ordem e levaram o público a expressões de êxtase que contrastavam com a fleuma dos músicos. Um Fusca cinza apareceu na tela que tomou forma de um gigantesco videogame a guiar o público por uma estrada em &#8220;Autobahn&#8221;. À viagem por campos e parques industriais seguiram-se o trem de &#8220;Trans-Europe Express&#8221;, em que as únicas luzes estão nas cabines dos vagões, o sol negro do gerador nuclear de &#8220;Radio-Activity&#8221; e as notas musicais em tamanho gigante que voavam sobre a plateia em &#8220;Techno pop&#8221;.</p>
<p>KGB, Hiroshima, robôs, o bate-estaca industrial, arcaicos computadores pessoais. O mundo ocidental do século passado atravessou a passarela no museu das grandes novidades da &#8220;Retrospectiva 12345678&#8243;. A vanguarda que ele um dia representou é hoje o lugar-comum da música popular. Enquanto o novo disco, prometido para este ano, não sai do alto-forno de Kling Klang, quem passar por Nova York até maio ainda pode aproveitar os oito vídeos selecionados por Biesenbach em exposição no PS1, no Queens. É música de museu, no melhor dos sentidos.</p>
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		<title>Coluna da Semana: Alabama Shakes e Dr.John</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Apr 2012 20:55:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[A coluna da semana, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO, foi sobre a nova banda Alabama Shakes e a volta do maravilhoso Dr.John, recalibrado por Dan Auerbach, dos Black Keys. Segue... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/04/coluna-da-semana-alabama-shakes-e-dr-john/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna da semana, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO, foi sobre a nova banda Alabama Shakes e a volta do maravilhoso Dr.John, recalibrado por Dan Auerbach, dos Black Keys. Segue o texto, escrito depois de uma noite inesquecível no palco alternativo do Webster Hall, no Village:</p>
<p>PELO MUNDO<br />
Eduardo Graça, de Nova York</p>
<p><strong>Vozes do Sul ocupando a noite da cidade</strong></p>
<p>A primeira reação é fechar os olhos e imaginar que Janis Joplin voltou do paraíso e baixou de supetão anteontem no palco alternativo do Webster Hall. Mas a miragem é fácil demais e injusta com Brittany Howard. Oriunda da minúscula Athens, localizada no estado mais atrasado dos EUA, o Alabama, ela foi a sensação do recente festival South by Southwest, eleita pelos críticos a mais nova salvação do rock. Aos 23 anos, ela trabalhou até setembro – quando o Alabama Shakes, sua banda, lançou o primeiro EP &#8211;  como carteira. Gordinha, esta mulata americana é sim a tal. Segura, não parece carregar o peso da redenção de um gênero caduco sobre os ombros. Com o show de quarta-feira no palco maior do Bowery Ballroom esgotado há semanas, a apresentação de última hora de terça-feira, organizada pela MTV (que passou o evento ao vivo em sua página eletrônica) virou local de peregrinação para os devotos da música popular de raiz. E Brittany e seus meninos, adotados por Jack White, para quem vão abrir os shows da turnê do novo disco do ex-White Stripes, fizeram a galera cool até ensaiar passinhos de rockabilly no fundo da caixa de sapatos da casa do East Village.</p>
<p>Cabelo encaracolado, óculos de aros grossos vermelhos, uma blusa preta com estampa florida de vovó, Bittany domou o ‘Studio’, um espaço que lembra o Teatro Rival, já na segunda música, “Hold On”, em que fala de si mesma na terceira pessoa. Sem qualquer traço de pedantismo. E empunhando sua guitarra com impressionante segurança. Sim, ela também sola. E bem. </p>
<p>Os ‘Shakes’– Heath Frogg na guitarra e Zac “Mahogany” Cockrell no baixo, amigos de Brittany do tempo da escola pública de Athens, desde os 13 anos; mais o batera Steve Johnson, que trabalhava na única loja de discos da cidade e contrabandeava gravações de Otis Redding, Led Zeppelin, Sharon Jones, Etta James e, claro, dona Janis, para os amigos – parecem um Kings of Leon do primeiro disco, rapidíssimos (nove das 11 das músicas de “Boys &#038; Girls”, o primeiro LP da banda, não ultrapassa os quatro minutos), diretos, com um grau de urgência que casa perfeitamente com o estado das mentes, corações e bolsos da América Profunda. Mas o alcance vocal – em momentos mais tristes ela deixa a Janis de lado e encontra um falsetto da lavra de um Al Green – e o swing de Brittany, acrescidos do auxílio luxuoso de Benjamin ‘Styrofoam’ (em bom português, isopor)’ Jones, um mago dos teclados, nos remetem a outras texturas, ao soul de Otis Redding, à malícia de Etta James, ao desespero de Tina Turner.</p>
<p>“Eu posso contar uma história para vocês? Esta música trata de uma amizade perdida. Éramos muito grudados, eu e ele, durante toda a infância. Mas, na adolescência, ele me abandonou. E ainda dói”, confessa Brittany, antes de entoar a faixa que dá titulo ao trabalho de estreia da banda. Abandonos, provocações, reportagens sobre a vida dura nos grotões americanos seguem show afora. Em “Hold On”, ela pede benção e celebra a teimosia dos fortes: “Deus abençoe meu coração/abençoe minha alma também/Jamais pensei/que chegaria viva aos 22 anos”. Mas também provoca o público em “You Ain’t Alone”, revirando os olhos, o pescoço suado, ao perguntar, senhora da resposta: “Você quer ser meu bem? Quer?”. Ao fim da apresentação um marmanjo berrou com vontade: “Eu gosto da música de vocês!”. Exato.</p>
<p>*** </p>
<p>Do outro lado da cidade, no pomposo palco da Brooklyn Academy of Music (BAM) o veterano Dr.John se reinventa lindamente pelas mãos de Dan Auerbach. Exatamente como Jack White, o guitarrista e vocalista dos Black Keys se exilou em Nashville, onde montou um estúdio de primeira e também celebra as raízes da música popular local (country, Americana, blues, soul, R&#038;B) aproveitando a facilidade de se recrutar músicos locais para tocar nos mais diversos projetos. Foi lá que, sob a batuta de Danger Mouse, ele gerou seu projeto solo, o bom “Keep it Hid”. Mas sua tacada de mestre foi resgatar o veterano mago vodu de Nova Orleans, arregimentar os meninos do Antibalas (banda afrobeat do Brooklyn que toca este mês no Abril Pro Rock e em São Paulo) e acoplar as vozes das McCrary Sisters para lançar um dos discos mais interessantes do ano: “Locked Down”.</p>
<p>O retorno triunfal de Malcolm John Rebennack Jr. a Nova York se deu em três sessões com três apresentações cada. Na última semana de março, um tributo a Louis Armstrong, com as presenças ilustres dos Blind Boys of Alabama, Roy Hargrove, Rickie Lee Jones e Arturo Sandoval. Na semana passada ele se dedicou exclusivamente ao disco novo, uma apoteose com direito à caveira de vodu estrategicamente instalada em um dos pianos e dancinha no palco do vovô de 71 anos, entre solos de Auerbach. O terceiro, hoje, é uma celebração do R&#038;B de New Orleans, com a presença da Dirty Dozen Brass Band, Nicholas Payton e de Irma Thomas, ao lado da banda roqueira amealhada por Auerbach. E a reinvenção retrô é, curiosamente, o que há de mais pulsante na cena pop nova-iorquina nesta muy agradável primavera.</p>
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		<title>Adeuses e Beijos</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Mar 2012 14:06:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[A coluna da semana, no GLOBO de hoje, é sobre a exposição da soturna Francesca Woodman e a volta de &#8220;Mad Men&#8221;, um dos melhores seriados jamais feitos cujo cenário... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/03/adeuses-e-beijos/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna da semana, no GLOBO de hoje, é sobre a exposição da soturna Francesca Woodman e a volta de &#8220;Mad Men&#8221;, um dos melhores seriados jamais feitos cujo cenário é Nova York, embalada pela música francesa &#8220;Zou Bisou Bisou&#8221;. Ó só:</p>
<p><strong>Adeuses e Beijos</strong></p>
<p>Que mistérios tem Francesca? As 120 fotografias apresentadas no anexo do quarto andar do Guggenheim não respondem à pergunta. Os seis filmes inéditos recentemente descobertos nos arquivos da Rhode Island School of Design (RISD), destaques da maior retrospectiva dedicada à fotógrafa, até a primeira quinzena de junho no museu do Upper East Side, também não oferecem muitas pistas. Mas a investigação revela-se tão necessária quanto recompensadora.</p>
<p>Francesca Woodman (1958-1981) se jogou do topo de um prédio de Nova York pouco tempo antes de completar 23 anos. Filha de artistas radicados em Boulder, no Colorado, um dos principais centros da contracultura americana, ela logo se viu dona de uma percepção e sensibilidade únicas. Suas experimentações com a imagem a levaram para a RISD – a alma mater de gente como David Byrne, Jenny Holzer e Seth MacFarlane – e foi curioso zanzar pelas salas do Guggenheim com meu companheiro, outro produto da universidade mais prestigiada do mundo do design gráfico ianque, que reconhecia, em sorrisos cúmplices, os lugares – a sala de taxidermia, o laboratório, o quarto de pintura de modelos-vivos – escolhidos pela artista para inserir seu corpo (ou parte dele) em autoretratos em preto e branco de sabor gótico, capazes de transportar o visitante para um mundo onírico, ao mesmo tempo erótico e puritano, espécie de portal entre o entorno comunitário hippie do meio-oeste americano e a tradição romeira da mais reclusa Nova Inglaterra.</p>
<p>Francesca teve sua obra redescoberta na segunda metade dos anos 80 e, como escreve Ken Johnson na crítica publicada na capa do caderno semanal de “Artes Plásticas” do ‘New York Times’ é difícil, até mesmo para o crítico experimentado, não sair da mostra ruminando, um tanto quanto inocente, que a artista talvez fosse uma alma pura demais para este mundo malvado. As fotografias produzidas na casa semiabandonada em Providence, cidade cara ao coração deste escriba, em que ela vivia nos tempos de universidade, com sua quase-metamorfose em um espectro, um corpo prestes a desaparecer, tratam da urgência da vida de modo seco, belo e exato. </p>
<p>O que pulsa em “Francesca Woodman” é a história contada pela artista nas imagens redescobertas depois de sua morte por curadores e professores de arte de diversas universidades americanas. Narcisa às avessas, a jovem se expõe, 30 anos após o suicídio, no anexo do Gugg, e nos deixa um imenso ponto de interrogação, uma vontade de saber o que mais ela teria produzido, com o que teria experimentado, por qual caminhos seguiria. </p>
<p>***<br />
Zou. Bisou. Bisou. Foi o que ficou do primeiro capítulo da quinta temporada de “Mad Men – Inventando verdades”, uma maratona deliciosa de duas horas que promoveu o reencontro de Don Draper &#038; cia. com os da poltrona aqui dos EUA. Depois de uma secura de um ano e cinco meses, a série que gira em torno do mundo das agências de publicidade da Avenida Madison, em Manhattan, nos anos 1960, avançou pela época conturbada da luta pelos direitos civis dos negros americanos com uma deliciosa apresentação, nada privê, de Megan, a ex-secretária e atual senhora Draper, sussurrando “Zou bisou bisou”, quase sem sotaque, na festa-surpresa dos 40 anos do personagem vivido por Jon Hamm. Que, como se pode esperar, não sabia onde enfiar a cara.</p>
<p>O episódio bateu o recorde de público da série – 3,5 milhões de espectadores – e gerou uma fita-banana ianque em torno da canção, favorita do criador da série por conta da interpretação – bem mais boa-moça, diga-se de passagem – de Sophia Loren na comédia “The Millionairess” (“A Milionária”), com Peter Sellers. Mas a canção, ao contrário do que pensara Matt Weiner, o idealizador de “Mad Men”, fora gravada originalmente, e com sucesso, por Gillian Hills, nascida no Egito, neta de poeta polonês e promessa de nova Brigitte Bardot que estreou com a música em 1960, quando tinha 16 anos. Encontrada por jornalistas americanos em Londres, ela se disse surpresa com a regravação, revelou que adora as aventuras de Joan e Peggy (dus das melhoras personagens da série) e fez uma aposta (certeira) de que a nova versão era certamente “mais picante” do que a sua. </p>
<p>Uma espécie de pré-“Di dooh dah”, sucesso uma década depois na voz de Jane Birkin, “Zou bisou bisou” voltou às paradas francesas em 1961, em versão da israelense Maya Casabianca, por sua vez, nascida no Marrcos. E nesta volta ao mundo em beijinhos franceses sem fim a gravação chegou, na segunda-feira, à primeira posição na lista das mais baixadas no iTunes americano. Na voz da atriz Jessica Pare, a Megan de Don Draper, que já ganhou o seu presente de aniversário: por conta dos pedidos, uma edição do ‘single’ redivivo vende como água para os fãs mais ardorosos no site da série.</p>
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		<title>Entrevista: Jon Lee Anderson – “Che”</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Mar 2012 14:56:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Valor]]></category>

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		<description><![CDATA[O Futuro da Ilha Na reforma econômica e geopolítica, a Cuba dos Castro abre espaço à presença do Brasil CAPA A imagem de Cuba é parte da memória que acompanha... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/03/entrevista-jon-lee-anderson-che/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O Futuro da Ilha</strong></p>
<p>Na reforma econômica e geopolítica, a Cuba dos Castro abre espaço à presença do Brasil</p>
<p><strong>CAPA</strong></p>
<p>A imagem de Cuba é parte da memória que acompanha a realidade cubana em transformação &#8211; com perspectivas que reservam espaço à presença do Brasil, diz Jon Lee Anderson. Por <strong>Eduardo Graça</strong>, para o Valor, de Nova York</p>
<p><strong>DEPOIS DO GUERRILHEIRO</strong></p>
<p>Aquela que para muitos é a biografia definitiva de Ernesto Che Guevara (1928-1967) acaba de retornar às livrarias brasileiras em edição revista e ampliada pelo jornalista Jon Lee Anderson, um dos principais nomes da &#8220;The New Yorker&#8221;. Quarenta e cinco anos depois da morte de Che, abatido por soldados do exército boliviano e agentes da CIA quando comandava a quixotesca implantação de um foco guerrilheiro na região meridional da Bolívia, parece lógico entender que a América Latina vive hoje uma realidade muito mais saudável do que a da época em que a linha-dura militar começava a tomar conta do continente. Mas a percepção do autor de &#8220;Che Guevara: Uma Biografia&#8221; é um tanto mais elaborada.</p>
<p>Em entrevista ao Valor, Anderson (também autor de &#8220;A Queda de Bagdá&#8221;, outro livro festejado pela crítica) pondera que, se milhões de pessoas deixaram a pobreza e entraram na classe média nos últimos anos em países como o Brasil ou o México, é igualmente verdade que a região viu um acréscimo em igual dimensão da corrupção na vida pública, da violência urbana e da falta de instituições cívicas com real representatividade. Crises de identidade nacional em certos países, diz Anderson, também chegaram a um ponto sufocante, com suas bússolas econômicas e sociais voltadas para Miami. No entanto, se cruzasse o continente em sua motocicleta, o jovem estudante de medicina retratado no filme de Walter Salles se depararia com uma América Latina não apenas mais americanizada, mas a ponto de se abrasileirar cada vez mais. &#8220;O dinamismo, a energia, a capacidade de adaptação brasileira em substituição ao catecismo de Washington é um dos fenômenos mais interessantes de se observar hoje na América Latina&#8221;.</p>
<p><strong>&#8220;O socialismo em armas de Che foi substituído por algo diferente (&#8230;), uma revolta criminal endêmica nas classes mais baixas&#8221; </strong></p>
<p>Se repressão, ataque aos direitos e liberdades civis, exílio, censura e tortura já não são mais a moeda da vez na América Latina pós-Che, Anderson, que passeia com desenvoltura pela Havana dos Castro e a Caracas de Chávez, acompanha o presente com atenção cada vez maior ao Brasil. Há oito verões ele passa uma temporada por ano no país e em 2009, um ano após a implantação das primeiras unidades de polícia pacificadoras (UPPs) em comunidades cariocas, escreveu uma reportagem de fôlego sobre as gangues que ainda controlam boa parte do espaço físico da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Na conversa com o Valor, Anderson traça um paralelo entre a falta de punição das autoridades responsáveis pelas sevícias praticadas contra presos políticos na época da ditadura e a proliferação de milícias que controlam bairros com mão de ferro em bolsões de pobreza espalhados Brasil afora. &#8220;Não é coincidência os dois países mais violentos da região terem se tornado sociedades sociopatas, regidas por um pacto de amnésia em que os assassinos do passado são autorizados a estabelecer os termos da nova ordem democrática&#8221;, afirma Anderson. &#8220;Os compromissos de esquecimento, na linha do Pacto de Moncloa, na Espanha franquista, foram infelizmente exportados para a América Latina, e sou moralmente e filosoficamente contrário a eles.&#8221;</p>
<p>O jornalista americano de 55 anos conversou com o Valor sobre uma Venezuela sem Hugo Chávez, as mudanças radicais a serem enfrentadas por Cuba nos próximos anos e o papel que o Brasil poderá representar em Havana, o estabelecimento da Comissão da Verdade no Brasil e a convivência da liberdade de expressão e da imprensa livre com governos mais próximos do bolivarianismo chavista.</p>
<p>Leia os principais trechos da conversa:</p>
<p><strong>Valor</strong>: Che consideraria a América Latina em melhor situação do que há 45 anos?<br />
Jon Lee Anderson: Não. Ele era um marxista dogmático. Aos 83 anos, Che provavelmente seria incapaz de afirmar que a ideologia pela qual viveu, pela qual muitos de seus amigos deram a vida, fracassou. Certamente, viveria em Cuba e olharia com alguma esperança, exatamente como Fidel, para os que este chama de &#8220;jovem geração&#8221;: Hugo Chávez, Evo Morales. Ele os veria como novos representantes de uma proposta de mudança radical no continente. Che ainda seria o profeta da revolução. Mas estamos falando de um cenário fantasioso. O Che real deixou Cuba. E ele saiu de Havana, em parte, por conta de seu desencantamento com o que acontecia na ilha. Esse mal-estar ele levou para o túmulo.</p>
<p><strong>Valor</strong>: O cenário sócio-econômico e político do continente mudou muito de lá para cá. A maioria dos países se democratizou e nunca a região esteve governada por tantos partidos de esquerda&#8230;<br />
Anderson: As mudanças são inegáveis. A partir dos anos 1980, com a redemocratização, ditadores foram destratados publicamente, como Pinochet. Outros foram condenados à prisão perpétua, como Videla. Mas o socialismo em armas de Che foi substituído por algo diferente, cujo nome exato me foge. O mais próximo seria uma &#8220;revolta criminal endêmica nas classes mais baixas&#8221; do continente. Os pobres deixaram de ser cooptados para grandes revoluções e passaram a se armar em gangues urbanas. De certo modo, a América Latina continua sendo um continente frustrante, em certos aspectos até pior do que o que era no fim dos anos 1960. Houve uma mudança radical e furiosa da vida pública na região. Mas se muitas pessoas entraram na classe média em países como o Brasil ou o México, houve um aumento em igual dimensão de corrupção na vida pública, de violência urbana, de carência de instituições cívicas com representatividade de fato, até mesmo de falta de identidade nacional em certos países, cujo centro nervoso, hoje, é Miami. Também houve um inegável declínio intelectual. Há pontos positivos e negativos no continente neste quase meio século de transformações desde a morte de Che, mas não consigo vê-lo erguendo a bandeira branca do &#8216;livre-mercado&#8217; e admitindo os benefícios do grande consenso capitalista.</p>
<p><strong>Valor</strong>: No epílogo da nova edição de &#8220;Che&#8221;, o senhor trata do hibridismo político-econômico entre Cuba e Venezuela, com o regime chavista, em suas palavras, &#8220;salvando a revolução&#8221;. Chávez chegou tarde demais para os irmãos Castro?<br />
<strong><br />
&#8220;O experimento chavista deve entrar em crise profunda nos próximos anos e não há garantia de continuidade de parceria com Havana&#8221;</strong></p>
<p>Anderson: Sim. Quando Fidel abraçou Chávez, no fim dos anos 1990, a sensação era mais ou menos a de &#8220;onde você estava nos anos 1960, quando tanto precisávamos de um parceiro como a Venezuela bolivariana&#8221;? Castro finalmente contava com um país, nas redondezas, que estenderia o ideário cubano para o continente, seria um santuário para o regime e o sustentaria economicamente. Mas Chávez chegou 30 anos atrasado, para os Castro e para ele mesmo. Há uns dois anos eu perguntei a Chávez: &#8220;Mas, presidente, por que sua conversão ao socialismo se deu tão tardiamente, já quando a ideologia era deixada para trás?&#8221; E ele me respondeu assim: &#8220;Li &#8216;Os Miseráveis&#8217;, de Victor Hugo, que abriu meus olhos. Depois, encontrei Fidel, que é maravilhoso e é como se fosse meu pai&#8221;. Ora, Chávez é como um menino que descobriu algo novo. Fidel lhe ofereceu a visão de mundo que ele tanto buscava. E Cuba, nos anos Bush, conseguiu com ele o oxigênio de que precisava. Há, hoje, cerca de 40 mil cubanos trabalhando na Venezuela, mandando dinheiro para casa. Ainda precisamos comprovar isso historicamente, mas Chávez possivelmente possibilitou a extensão do experimento cubano, na ilha e no continente.</p>
<p><strong>Valor:</strong> Poderá haver chavismo sem Chávez?<br />
Anderson: Não há substituto para Hugo Chávez. Os nomes mais óbvios carecem de carisma. Diosdato Cabello, presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), não é nem propriamente uma figura de esquerda, é um pragmático centrista. Com todas as suas falhas, Chávez é uma figura extremamente simpática. Muita gente odeia sua ideologia, mas não consegue odiar o político. Graças ao carisma, sua visão e uma grande dose de impetuosidade, ele transformou a América Latina nas últimas décadas. Mas, ao mesmo tempo, essa personificação do poder leva a dificuldades na sucessão. O experimento chavista deve entrar em uma crise profunda nos próximos anos e não há garantia de uma continuidade de parceria com Havana. Pela primeira vez, desde que Chávez chegou ao poder, a oposição parece estar organizada. Podemos estar entrando num daqueles ciclos de mudanças inevitáveis, que podem começar com a morte de Chávez.</p>
<p><strong>Valor:</strong> Qual o futuro do regime dos Castro em uma realidade sem Chávez?<br />
Anderson: O eventual desaparecimento de Chávez resultará provavelmente em um momento de crise intensa para Cuba. Aumentará o ritmo de mudanças econômicas, com tentativas de concessões ao mercado sem aumento de liberdade política. A tensão interna vai aumentar. E, com o fim do apoio econômico venezuelano, voltará o temor de um aumento radical do empobrecimento na ilha. Isso já aconteceu antes, como quando os soviéticos desapareceram. Só que havia Fidel para usar a puxada de tapete como retórica de resistência. Não sei se Raúl tem a mesma capacidade de Fidel. Cuba nunca diversificou sua economia, algo que Che tentou fazer nos anos 1960, à frente do Ministério da Indústria. Mas ele perdeu aquela batalha com os soviéticos e Cuba se tornou, de fato, um estado vassalo da URSS. O que há hoje, na ilha, além de turismo e das propriedades em que os cubanos vivem?</p>
<p><strong>Valor</strong>: A presidente Dilma Rousseff esteve em Cuba recentemente e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está financiando a maior obra no país desde a revolução de 59, a transformação do porto de Mariel. Com as mudanças geopolíticas na região, o Brasil pode se tornar um parceiro econômico mais importante para Havana?<br />
Anderson: Sim. Dilma é uma pragmática, que não parece estar inserida em uma cruzada pelos direitos humanos na ilha. Parece mais interessada em construir portos e usinas hidrelétricas do que em ajudar a blogueira Yoani Sánchez a sair de Cuba. Não usou seu peso político para conseguir uma concessão dos Castro para a visita de Sánchez ao Brasil, por exemplo. Esse é o estilo Dilma que, quem sabe, poderá no futuro trazer até resultados mais efetivos de mudança na ilha. Mas, economicamente, essa mudança já se deu com Lula. Lula teve falhas graves em sua política externa, como na relação com Teerã, mas foi ele quem fez o restante do mundo finalmente perceber que o Brasil era uma voz importante no tabuleiro mundial e que veio para ficar. A falta de visão de Washington tem ajudado o Brasil a se tornar um líder regional de fato, o que é outra mudança gigantesca em relação à região dos tempos de Che. Vimos isso no Haiti, nas negociações com Cuba, em Honduras.</p>
<p><strong>Valor</strong>: O modelo político-econômico brasileiro, especialmente com o programa Bolsa Família, tornou-se para muitos analistas uma opção clara, na região, ao bolivarianismo de Chávez&#8230;<br />
Anderson: Exato. Vejo hoje, na Venezuela, um olhar mais atento ao modelo lulista em um cenário pós-Chávez, especialmente no que diz respeito ao Bolsa Família. A Venezuela está começando a implantar algo similar. O modelo brasileiro não é certamente o cubano, tampouco o americano, mas tem aspectos dos dois. E, voltando ao tópico inicial, justamente por essa característica híbrida, a entrada mais forte do Brasil no tabuleiro cubano pode ser mais efetiva no sentido de modificar de fato a ilha. Os Estados Unidos se fecharam no tudo ou nada, na resposta catastrófica, de negação completa, em relação à Cuba dos Castro. O Brasil está se tornando o caminho mais natural. O protagonismo brasileiro na região, aliás, pode ser visto em diversas áreas. Basta pensar na ida de pacientes latino-americanos para hospitais do país e não mais apenas para os dos Estados Unidos. O dinamismo, a energia, a capacidade de adaptação brasileira em substituição ao catecismo de Washington é um dos fenômenos mais interessantes de se observar hoje na América Latina.</p>
<p><strong>Valor</strong>: O senhor acredita, então, que o Brasil poderá ser o líder regional da América Latina?<br />
Anderson: Sim. É o que parece já estar acontecendo. Passei a conhecer o Brasil a fundo nos últimos sete, oito anos, quando visitei, todos os anos, o seu país. O dinamismo, a criatividade, me impressionam, claro. Mas o mais importante é que a América hispânica pela primeira vez se vê de fato conectada com o Brasil. Nunca antes vi um movimento tão claro de aproximação com o Brasil. As pessoas querem aprender português, querem trabalhar no Rio e em São Paulo. O Brasil não parece mais estar em outro continente.</p>
<p><strong>Valor</strong>: Houve alguma mudança no papel dos Estados Unidos na região, com Obama?<br />
Anderson: Se há alguma política para a América Latina no governo Obama, eu não vi. Obviamente, os governos Obama e Bush são muito diferentes. Bush estabeleceu algumas relações pessoais, com presidentes como o próprio Lula, mas sempre esteve desinteressado do que acontecia ao sul do rio Grande. Teve, porém, a virtude de deixar Chávez mais ou menos em paz e acabou sendo um facilitador da ascensão da esquerda no continente. Obama recebeu essa herança maldita e o foco de sua política externa está a milhares de quilômetros dos vizinhos do sul. Ele acabou se concentrando em estabelecer parcerias com o Brasil, o México, o Chile e a Colômbia. Mas é só isso &#8211; o reconhecimento da emergência de líderes regionais com quem Washington possa cada vez mais contar, a fim de contrabalançar seu declínio relativo. A falta de atenção de Obama para com a América Latina pode ser representada pela maneira como Washington reagiu ao episódio de Honduras. Os Estados Unidos ofereceram a visão de que poderiam, sim, aceitar um golpe de Estado na região. Foi interessante ver o Brasil agir como defensor do presidente deposto, entrando na seara continental, justamente como os Estados Unidos se acostumaram a fazer, sem oposição. Vi o discurso de Obama e pensei: &#8220;Como é que ele não afirma peremptoriamente ser contra o golpe?&#8221; Talvez a grande mudança da era Obama foi a de os Estados Unidos decidirem não ter mais uma ação &#8216;consular&#8217; na região. Não esperamos mais que o continente nos siga cegamente e resolva suas pendengas em Washington. Esta é outra enorme mudança.</p>
<p><strong>Valor</strong>: A imprensa local foi especialmente crítica da longa permanência de Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, vista como uma perigosa tomada de partido na briga entre um presidente de inspiração chavista e uma oposição conservadora. Meios de comunicação sul-americanos, aliás, se mostram frequentemente críticos de outros governos esquerdistas da região, como os de Rafael Correa, no Equador, e de Cristina Kirchner, na Argentina, acusados de promover, como Chávez, um ataque incessante à imprensa livre. Como vê essas questões?<br />
Anderson: Trabalho para a &#8220;New Yorker&#8221;, ninguém me censura e, obviamente, o cerceamento da imprensa na América Latina me preocupa. Não gosto do populismo de líderes que acreditam ser possível manejar a democracia de seus gabinetes. Em geral, desconfio de qualquer regulamentação da mídia em países democráticos, ainda que com o histórico de reacionarismo dos grupos de mídia na América Latina. Na Argentina e na Venezuela, especificamente, a situação não é saudável, porque é extremamente polarizada. Em outros países da região houve uma adaptação melhor aos novos tempos.</p>
<p><strong>Valor</strong>: O senhor crê que a criação da Comissão da Verdade possa ser um passo necessário para a consolidação da democracia no Brasil?<br />
Anderson: Os compromissos de esquecimento, na linha do Pacto de Moncloa, na Espanha franquista, foram infelizmente exportados para a América Latina, e sou moralmente e filosoficamente contrário a eles. São modelos que não permitiram às sociedades civis de países como o Brasil entender seu passado, curar-se de um tipo de sociopatia que continuou impune, absorvida pela sociedade. Na Espanha, depois de 70 anos, não se conseguia sequer olhar para o que aconteceu nos anos de horror. No Chile, Pinochet usou o modelo franquista para tentar manter-se no poder após o sufocamento da ditadura. No Brasil, a repressão foi bem menos exponencial do que na maioria de seus vizinhos, mas nem por isso menos traumática para os que a sofreram e para a sociedade.</p>
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		<title>Dançando no Whitney e nas ruas da América Profunda</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Mar 2012 17:23:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A coluna de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO: Dançando no Whitney e nas ruas da América Profunda Um dos símbolos do declínio industrial norte-americano, Braddock é uma cidadezinha localizada... // <a href="http://www.eduardograca.com/2012/03/dancando-no-whitney-e-nas-ruas-da-america-profunda/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO:<br />
<strong><br />
Dançando no Whitney e nas ruas da América Profunda</strong></p>
<p>Um dos símbolos do declínio industrial norte-americano, Braddock é uma cidadezinha localizada no extremo oeste da Pensilvânia, em um subúrbio de Pittsburgh, hoje menos lembrada como um dos pioneiros pólos siderúrgicos do país do que como o cenário de “Martin”, o cult-trash de George Romero, o mago do terror, filmado em 1976, quando, por lá, as vacas já eram magras. Pois através da lente de LaToya Ruby Frazier a acinzentada Braddock tomou o centro da mais concisa e pungente das quatro Bienais de Arte do Whitney Museum vistas por este escriba.</p>
<p>LaToya Ruby teve a ideia para a série de 12 imagens apresentadas em seqüência no terceiro andar do Whitney no ano passado, quando a Levi’s seguiu o rastro de Romero e usou a decadência da cidade como pano de fundo para seu novo comercial, batizado de ‘nova fronteira’. A pobreza é estilizada, casas abandonadas surgem com cores descascadas, uma voz ao fundo afirma que ‘há muito tempo as coisas ficaram feias por aqui e as pessoas se entristeceram’. O clima de conto de fadas – do abandono virando ‘hip’, do drama se tornando atraente através do realismo estilizado &#8211; segue com uma imagem de um jovem negro à frente de um teatro abandonado. No palco, uma imagem pintada da Estátua da Liberdade, em preto e branco. Todos os personagens, claro, usam a calça jeans de vocês sabem quem. </p>
<p>LaToya é uma bela negra de 30 anos e desde a adolescência retrata de forma documental (mas com um olhar para o detalhe que a levou a ser comparada a Diane Arbus) os arredores de sua cidade-natal. Ela nunca usa cores. A denúncia de suas imagens ultrapassa o comentário econômico – ela também mira sua lente para o fato de as cidades perdidas do chamado Rust Belt (curiosamente, uma das regiões que deve decidir as eleições presidenciais de novembro, com grande população operária) serem as mais tóxicas dos EUA, com um grande número de casos de câncer terminais em idosos. Para ela, a ‘transformação da classe trabalhadora americana em matéria-prima para consumo’ é ainda mais gritante quando se leva em conta que a Levi’s faria um investimento de fato transformador na região se levasse uma de suas fábricas têxteis para uma área carente de empregos, serviços e atenção.</p>
<p>Sua revolta gerou a performance em que, através de coreografias metodicamente ensaiadas com a artista Liz Magic Laser, ela acabava por rasgar o jeans em uma calçada do SoHo onde a Levi’s abriu no no verão passado um ‘workshop’ de fotografia. Ao lado, uma das imagens-símbolo da campanha, em que um negro segura um bebê branco pelas mãos enquanto se lê “o trabalho de todos é igualmente importante’. “É uma propaganda insidiosa, especialmente quando se sabe que, historicamente, a indústria de Braddock não queria empregados negros”, diz.</p>
<p>O impacto do ativismo artístico de LaToya não diminui em nada ao sair das ruas do SoHo e migrar para o salão nobre do Whitney. Na mesma época em que o comercial era filmado em Braddock o único hospital da região voltado para idosos estava sendo fechado pela universidade local, privada. “Campanha para o Hospital de Braddock (Salve nossa Clínica Comunitária)” reúne comentários dos moradores da cidade afetados por mais uma representação de abandono inscritas sobre imagens da campanha da Levi’s na cidade. Ao lado, imagens de sua própria avó, na série “Homebody”, mostram uma casa deteriorada, uma vida próxima do fim sem suporte além do núcleo familiar. Assim como a avó, a mãe de LaToya e a própria fotógrafa sofreram com doenças crônicas por conta da exposição à poluição de Braddock. Seu trabalho político leva o visitante a refletir sobre a fetichização da cada vez mais presente pobreza ianque.</p>
<p>***<br />
A Bienal de Artes fica em cartaz até o dia 27 de maio e já é um sucesso de público. No domingo, a fila de entrada dobrava o quarteirão da rua 75, mas a concorrência nas longas salas do museu não perturbam o visitante mais paciente. Uma boa surpresa fica no mezanino do último andar, localizado atrás das grandes instalações e esculturas dos quais as minhas favoritas são o ‘Circo’ de Alexander Calder e a ‘Fonte’ de Len Lye (obra não-indicada, avisa a curadoria, por conta de seus movimentos e flashes de luzes, para os de coração mais fraco). Meio que escondida, a instalação de Lucy Raven, em torno da composição “Dance Y’rself Clean”, do LCD Soundsystem, é uma deliciosa conversa prática sobre os processos de digitalização na música e no cinema. Se você der sorte, pode apreciar uma apresentação da artista no piano localizado à direita da instalação. E ouvir o petardo do disco de James Murphy, “This is Happening”, em ritmo de ragtime. Quem já ouviu fica com uma baita vontade de sair dançando pelas escadas do Whitney.</p>
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		<title>Gui Mohallem – “Ensaio sobre a loucura”; “Coney Island”, “Welcome Home”…</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 15:13:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna da semana, no Segundo Caderno, d&#8217;O GLOBO, sobre a minha descoberta da obra de Gui Mohallem, um dos artistas contemporâneos brasileiros que mais me tocam no momento. As duas fotos no post são da série &#8220;Welcome Home&#8221;, do Mohallem:</p>
<p><strong>Gente Quer Casa<br />
</strong></p>
<p>O encontro se deu por obra de uma amiga em comum, a jornalista Teté Ribeiro, editora da revista “Serafina”, da Folha de S.Paulo, de modo deliciosamente imperativo: “Você tem que conhecer o Gui Mohallem”. Ela já não morava mais em Nova York, ele viera inaugurar sua primeira individual na cidade, nunca fui doido de negar ordem da ruiva querida, e nos encontramos há três outonos nos jardins da Cadman Plaza, a meio caminho de minha então pequenina casa de dois séculos, no distrito histórico de Cobble Hill, e da galeria, no contemporâneo bairro de Dumbo, onde as fotos de seu “Ensaio para a loucura” seriam apresentadas. O que eu não sabia é que a exposição do Brooklyn era, também, a primeira individual do mineiro de Itajubá.</p>
<p>Bandeirante delicado, investigador inquieto, Mohallem buscava ampliar os limites do retrato ao incorporar à imagem escolhida em parceria com os indivíduos (“insanos”) eleitos frases por eles produzidas, quase sempre penetrantes, girando em torno do amor, do sexo, da morte, oferecendo uma incômoda ponte para o incauto observador. Frente ao seu primeiro trabalho, e apesar da dimensão miúda das telas da galeria localizada a poucos passos do East River, senti-me menos voyeur e mais participante da experiência da loucura das vidas ali expostas pelo artista.</p>
<p>Entre uma e outra mordida no éclair do vizinho bistrô francês Almondine, Mohallem, sempre atento, revelou-me que havia se enfronhado no mundo das celebrações de liberação amorosa retratadas pelo cineasta John Cameron Mitchell (de “Hedwig – rock, amor e traição” e “Reencontrando a felicidade”) em seu segundo longa-metragem, “Shortbus”. Fizera fotos no elevador do prédio, localizado ali mesmo no Dumbo, que conduzia alguns dos personagens mais interessantes da noite underground nova-iorquina a uma das festas mais concorridas do momento, ávidos por uma celebração da cidade teimosamente insone, ainda que dopada pela orgia do dinheiro fácil, já em ritmo de marcha lenta no outro lado da ponte de Manhattan.</p>
<p>Foi no universo do ‘Shortbus” que o fotógrafo descobriu o movimento setentista dos Radical Faeries. Pegou um avião, baixou num bosque no meio do Tennessee, e clicou, mais uma vez com a aquiescência de seus personagens, a celebração de um ritual pagão na América Profunda, no seio do fundamentalismo cristão ianque. Ao contrário da série dedicada à loucura, as imagens de “Welcome home” invadiram minha retina de forma violenta. As vi pela primeira vez em São Paulo, na Galeria Emma Thomas, no início do ano, em uma exposição que revelava meninos, meninas, meninos-meninas, meninas-meninos, vestidos, nus, sós, acompanhados, ao mesmo tempo propondo uma conversa sobre a ditadura do gênero e a insinuação de que, homem, mulher, criança, passamos a vida à procura de casa(s).</p>
<p>De volta a NY, Mohallem está ansioso para apresentar a seus colegas do Éden mundano escondido no sul dos EUA as 50 fotos que irão ilustrar seu livro sobre o lar (re)encontrado na improbabilidade dos cafundós do Tennessee. Se na “loucura” nos reconhecíamos, espectadores, entre inquietos e maravilhados, em espelhos mais ou menos disfarçados de nós mesmos, é ele, o artista, quem surge, cabeça erguida, braços abertos, nos dando a mão, no verde dominante de “Welcome home”. Se seu primeiro esforço examinava com alguma crueza um viés específico da pessoa, o trabalho mais recente é escancaradamente humanista. Curiosamente, as imagens de inclusão, a ausência de liderança, o ideário pós-anarquista das “fadas radicais”, tão caros a Mohallem, estão hoje também presentes em praças variadas das grandes cidades americanas, nas noites das grandes fogueiras de outono compartilhadas por homens, mulheres, crianças, acéfalos organizacionalmente, mas felizes ao se perceberem diferentes ‘de tudo isso que está aí’, no batuque dos “Ocupem Wall Street”.</p>
<p>Mas não me surpreendo quando o artista revela que suas obras de maior apelo comercial seguem sendo as de uma terceira série, dedicada à solidão, gerada em dias passados, a sós, no limite oriental do Brooklyn, na vastidão acinzentada de Coney Island. Durante o dia um bairro singularíssimo na geografia humana de Nova York, habitado democraticamente por imigrantes europeus, de origem russa e ucraniana, e moradores negros e de origem latino-americana, à noite um parque de diversões depauperado, lembrete de uma cidade há muito invisível, existente apenas na visão privilegiada dos olhos brasileiros de Mohallem, sonhando exotismos, tal qual nos versos do poeta maior. Algumas imagens da série de Coney Island foram parar na coleção de uma família de conhecidos banqueiros brasileiros. É o fotógrafo, com sua pequena e precisa obra, revelando também a sensibilidade estética das elites no vaivém nada harmônico entre a solidão e a comunhão. Teté Ribeiro é quem estava certa: eu tinha que conhecer o Gui Mohallem.</p>
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		<title>Os alienados antenados e a estética da invasão</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 15:33:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Coluna de hoje no Segundo Caderno do GLOBO, sobre os meninos da praça e sua vocação cultural. Você já ouviu falar dos Poetas Ocupantes? Aqui, ó: Coluna Pelo Mundo-NY Eduardo... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/os-alienados-antenados-e-a-estetica-da-invasao/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coluna de hoje no <strong>Segundo Caderno</strong> do GLOBO, sobre os meninos da praça e sua vocação cultural. Você já ouviu falar dos Poetas Ocupantes? Aqui, ó:</p>
<p>Coluna Pelo Mundo-NY<br />
Eduardo Graça</p>
<p><strong>Na Praça da Liberdade, com os meninos</strong></p>
<p>Não se passa hoje por Nova York sem ouvir o batuque constante que vem da Praça Zuccotti, o espaço de cerca de 3 mil metros quadrados localizado na extremidade sul da ilha de Manhattan, entre a Broadway e a rua Liberty, ao lado de onde ficava uma das entradas para as torres gêmeas do Wolrd Trade Center. Os organizadores do Ocupem Wall Street, movimento que desde o dia 17 de setembro reúne milhares de pessoas nas proximidades do Distrito Financeiro em protesto contra o aumento da desigualdade social nos EUA e a desregulamentação do setor financeiro, rebatizaram o local de Praça da Liberdade, seu nome original até 2006.</p>
<p>Tomada majoritariamente por jovens estudantes e recém-formados, a Praça da Liberdade é uma experiência de democracia direta (tudo é decidido em concorridas assembleias gerais) com aspirações comportamentais e culturais. Criticados à direita por ‘defenderem uma guerra de classes, jogando a população contra os mais ricos’ e à esquerda por ‘exigirem o impossível, sem apresentarem propostas concretas para a substituição de ‘tudo isso que está aí’, os meninos do ‘Ocupem Wall Street’ são os alienados mais antenados com a realidade que tive o prazer de conhecer.</p>
<p>Uma “cruz vermelha e negra” trata dos primeiros socorros, com medicamentos doados por simpatizantes espalhados pelo país. Os “facilitadores da mídia” cuidam da máquina de propaganda popular que transformou a ocupação em fenômeno nacional. O ‘espaço do conforto’ oferece casacos, calças e meias para enfrentar o frio que começa a chegar, cobertores para a noite, guarda-chuvas, além de micro-tendas e colchões infláveis de camping, fundamentais para as novas levas de jovens que chegam a cada dia. Gente que viaja até vinte horas de ônibus para ouvir o barulhinho bom da praça.</p>
<p>A ‘cozinha popular’ chama atenção, e não é exagero dizer que hoje um dos locais mais inusitados para se comer ao ar livre em Nova York é a Zuccotti. O restaurante funciona a partir de doações de fazendeiros, proprietários de restaurantes e donas de casa. A comida é oferecida em um gigantesco bufê e é rica em legumes, cereais, carne, verduras e frutas. A distribuição é gratuita e pede-se apenas uma contribuição para quem quiser experimentar as guloseimas criadas por aprendizes de chefs e cozinheiros amadores.</p>
<p>Steve Jobs ficaria orgulhoso se pudesse observar as ferramentas mais disputadas na praça: os computadores, em sua maioria da Apple, e os iPhones, utilizados para registrar cores, vozes e centenas de faixas de protesto, para mandá-las adiante utilizando as redes sociais, assumidamente inspirados pelos militantes da chamada Primavera Árabe e dos que ocuparam as ruas da Espanha e da Grécia este ano. </p>
<p>O “Ocupem Wall Street” criou uma plataforma midiática própria para fortalecer sua narrativa. A divulgação ajudou a aumentar o apoio ao grupo, com sindicatos e religiosos das mais diversas denominações batendo ponto no local. A página do grupo na internet, a www.occupywallst.org, oferece imagens 24 horas da praça, mostrando o que acontece no local em tempo real, além de um canal de chat e um fórum de discussões. Páginas no Facebook se multiplicam. Dois enormes geradores garantem o funcionamento em tempo total de computadores, câmeras e celulares. </p>
<p>A edição das imagens é feita no próprio local, por profissionais voluntários do mundo da televisão, e uma das imagens mais fortes é a do trabalho criado por Alex Mallis e Luly Henderson, que mostra um jovem, bandeira azul-vemelha-e-branca nas mãos gritando “pelo direito da liberdade de se expressar nas ruas de Nova York” enquanto um policial assiste à passagem andante da democracia de cabeça baixa, sem qualquer tique repressor. </p>
<p>Um departamento legal, resultante da generosidade de advogados-militantes, foi criado para ajudar na defesa dos manifestantes detidos pela polícia em passeatas. No momento em que escrevia a coluna, os meninos haviam pego o metrô rumo ao Upper East Side para protestarem em frente às mansões de Rupert Murdoch, dos irmãos Koch e do CEO do Chase Manhattan Bank, na “Marcha contra os Bilionários”.</p>
<p>Ainda não é possível saber se uma estética nascerá dos movimentos populares, espalhados por todos os EUA, iniciados pelo “Ocupem Wall Street”. Na Zuccotti, há placas anunciando shows gratuitos de neo-punk, canções de protesto cunhadas no calor da hora, em que o velho violão e a gaita folk se unem harmonicamente com o batuque africano, aulas espontâneas de dança ao nascer do sol, e um grupo de ‘poetas ocupantes’. Todas as sextas-feiras, na noite anterior às grandes marchas de sábado, os ‘poetas da liberdade’ ocupam a ‘esquina da poesia’ e apresentam suas obras em leituras que, dada a concorrência, não podem passar de três minutos. Os temas giram em torno da esperança, da luta, dos sonhos dos meninos da praça. Para quem vem a trabalho ou a passeio neste outono, a Nova York que pulsa de modo incessante bate em ritmo mais acelerado na Praça da Liberdade.</p>
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		<title>Mais um finde com os meninos da praça</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 23:04:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[CARTA CAPITAL]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora, para o site da Carta Capital, no ar hoje, meu registro do fim de semana com o pessoal do &#8220;Ocupem Wall Street&#8221;. Texto e fotos meus. Política:Domingo na praça... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/mais-um-finde-com-os-meninos-da-praca/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agora, para o site da Carta Capital, no ar hoje, meu registro do fim de semana com o pessoal do &#8220;Ocupem Wall Street&#8221;. Texto e fotos meus.</p>
<p><strong>Política:</strong><strong>Domingo na praça em Wall Street</strong><br />
Eduardo Graça, de Nova York, para a Carta Capital</p>
<p>Parece uma enorme contradição. Mas o McDonald’s e o Burger King localizados nas imediações da praça Zuccotti, no Distrito Financeiro de Nova York, ficam apinhados o dia todo. Os quase mil manifestantes que ocupam a área localizada a poucos blocos de Wall Street e se identificam como críticos ferrenhos das grandes corporações não estão se alimentando no QG inimigo.</p>
<p>Mas a concentração humana na praça, quatro semanas depois da dúzia de pioneiros anunciar que só sairia da propriedade da Brookfield (uma das maiores empresas do setor imobiliário dos EUA) quando o setor financeiro pagasse a conta pelo débâcle financeiro da maior economia do planeta, gerou a única prova clara da desorganização do “Ocupem Wall Street”: a falta de banheiros para atender às quase dez mil pessoas – nas estimativas dos organizadores – que circulam pelo local, localizado ao lado do terreno em que ficavam as torres gêmeas do World Trade Center.</p>
<p>“Mas este é o único porém. Confesso que estava preocupada em dormir no meio de Manhattan, na rua, mas a experiência está sendo sensacional. O silêncio é absoluto depois das dez da noite e assim que acordamos fazemos meditação e ioga. Este é, de longe, o exercício democrático mais saudável de que participei”, disse Elizabeth Albrecht, 29 anos, que acaba de se formar em Psicologia na Universidade da Virgínia e chegou à praça na sexta-feira com um grupo de militantes disposto a aprender com a experiência do “Ocupem Wall Street” a fim de bisá-lo já esta semana em Richmond, a capital do estado sulista.</p>
<p>Seu companheiro Darrick Gregory, 23 anos, recém-graduado em Geografia pela mesma universidade, conta que o grupo já conta com 300 participantes e já se chegou a um consenso sobre o local a ser ocupado na cidade. “Anunciaremos no dia da ocupação. E vamos unir nossas vozes a causas locais, como o combate ao projeto de lei que pretende dificultar a possibilidade de aborto em clínicas públicas em todo o estado. Aprendemos aqui que nossa força vem do fato de não termos um objetivo específico, sonhamos alto, queremos mudar o funcionamento da democracia americana. O que nos alimenta é o nosso descontentamento e uma exigência, a de que nossa voz seja de fato ouvida”, diz, calmo, feliz da vida com o calor de verão em pleno outubro, como se os céus conspirassem para ajudar os moradores de rua mais barulhentos da cidade.</p>
<p><strong>&#8216;Se não há lista de demandas, basta olhar em volta para perceber que a praça é uma cidade em miniatura&#8217;</strong></p>
<p>A organização do “Ocupem Wall Street” segue jogando por terra os argumentos dos setores de esquerda incomodados com a ausência de lideranças e de uma plataforma mais definida para o movimento. Se não há lista de demandas, basta olhar em volta para perceber que a praça é uma cidade em miniatura, onde o ideário hippie se encontra com as mídias sociais características da geração Steve Jobs. No centro da praça há uma cozinha comunitária, um sucesso de administração e bom gosto. A água é reciclada. Há uma livraria comunitária, com títulos que vão do gibi do Batman, a biografia recém-lançada do teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan (1911-1980), clássicos das ciências sociais e políticas e livros de ficção da moda.</p>
<p>Na extremidade setentrional da Zuccotti, um telão mostra o site oficial do movimento e o número de pessoas, também via Facebook e Twitter, que se declaram simpatizante do “Ocupem Wall Street”. Até o momento em que esta reportagem era fechada, 440 mil pessoas dos quatro cantos do planeta afirmavam concordar com a “real democracia, a luta pela justiça social e um fim à corrupção”.</p>
<p>Na manhã do domingo em que a reportagem da <strong>Carta Capital</strong> passeou pela rebatizada “praça da liberdade” o filósofo esloveno Slavoj Zizek dava uma palestra para a multidão que o ouvia em um quase-silêncio quebrado por gritos excitados e murmúrios de aprovação. Zizek participou da assembléia-geral do “Ocupem Wall Street”, que acontece diariamente, sem o uso de microfones. A voz do professor-visitante da Universidade Colúmbia foi repetida em coro pelos moradores da praça, com alguma dose de emoção. Camiseta vermelha, barba longa, o acadêmico agradou: “Eles nos dizem que somos sonhadores. Não somos sonhadores! Estamos acordando de um sonho que está se transformando em um pesadelo. Nós não estamos destruindo nada. Somos apenas testemunhas da destruição autofágica do sistema. Todos conhecem a imagem clássica dos quadrinhos, do carrinho à beira do precipício. Nós somos as pessoas dizendo a Wall Street: êi, olhem para baixo!”, discursou, recebendo uma saraivada de palmas e gritos entusiasmados da plateia.</p>
<p>Celebridades outras já passaram pela praça desde que a repressão policial – com quase 700 manifestantes presos em uma marcha na Ponte do Brooklyn no fim de semana passado – colocou o “Ocupem Wall Street” na pauta do dia dos EUA. Susan Sarandon e Michael Moore circularam, com sucesso, pela área. E a líder da minoria governista na Casa dos Representantes – equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil -, Nancy Pelosi, saiu em defesa do grupo no domingo, em entrevista a Christiane Amanpour, em seu programa semanal de entrevistas na rede ABC, afirmando ser justa a sensação de insatisfação dos manifestantes, que “tem uma mensagem bem clara: é preciso mudar o que está aí”.</p>
<p>O “Ocupem Wall Street”, que já se espalhou por dezenas de cidades do país – além dos jovens de Richmond, passaram o fim de semana na praça manifestantes de Washington, Portland, no Oregon, Los Angeles, Austin e Boston, dispostos a aprender com os nova-iorquinos como incrementar as mobilizações populares – poderia funcionar como pressão popular para a aprovação do plano recém-anunciado pelo governo Obama de investir 447 bilhões de dólares a fim de criar empregos no país (a taxa de desemprego segue na casa dos 9%), financiado por um aumento de taxas entre os mais ricos da nação.</p>
<p>A mensagem central do “Ocupem Wall Street”, presente em todas as marchas do grupo, é de representatividade óbvia – “somos os 99% que pagam impostos” – e de oposição ao abono de pagamento de impostos aos que ganham mais de 250 mil dólares, política fiscal criada no governo Bush II com o objetivo de esquentar a economia do país.</p>
<p>“Hoje é meu primeiro dia aqui, e estou muito bem impressionado. Vou voltar todos os dias. A matemática é simples: precisamos parar de financiar o almoço de 200 dólares do pessoal de Wall Street. Eles precisam pagar mais, a desigualdade social não pode crescer ainda mais no governo Obama!”, disse Brian Crosby, 30 anos, cozinheiro de um restaurante da cidade e crítico da semântica neoliberal, que, em sua visão, humaniza as corporações e valoriza os consumidores em detrimento dos cidadãos.</p>
<p>“Quem tem dinheiro, pode, quem não tem, vem pra praça. O problema é que cada vez mais aumenta o número dos lesados pela democracia americana. Nós só vamos crescer, você vai ver!”, promete Joe Fionda, 27 anos, relaxado na “praça do povo”, literalmente, segundo o bem-humorado nova-iorquino, “de frente para o crime”.</p>
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