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	<title>Eduardo Graça</title>
	
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	<description>Jornalista Brasileiro em NYC</description>
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		<title>Gui Mohallem – “Ensaio sobre a loucura”; “Coney Island”, “Welcome Home”…</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 15:13:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[A coluna da semana, no Segundo Caderno, d&#8217;O GLOBO, sobre a minha descoberta da obra de Gui Mohallem, um dos artistas contemporâneos brasileiros que mais me tocam no momento. As... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/11/gui-mohallem-ensaio-sobre-a-loucura-coney-island-welcome-home/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna da semana, no Segundo Caderno, d&#8217;O GLOBO, sobre a minha descoberta da obra de Gui Mohallem, um dos artistas contemporâneos brasileiros que mais me tocam no momento. As duas fotos no post são da série &#8220;Welcome Home&#8221;, do Mohallem:</p>
<p><strong>Gente Quer Casa<br />
</strong></p>
<p>O encontro se deu por obra de uma amiga em comum, a jornalista Teté Ribeiro, editora da revista “Serafina”, da Folha de S.Paulo, de modo deliciosamente imperativo: “Você tem que conhecer o Gui Mohallem”. Ela já não morava mais em Nova York, ele viera inaugurar sua primeira individual na cidade, nunca fui doido de negar ordem da ruiva querida, e nos encontramos há três outonos nos jardins da Cadman Plaza, a meio caminho de minha então pequenina casa de dois séculos, no distrito histórico de Cobble Hill, e da galeria, no contemporâneo bairro de Dumbo, onde as fotos de seu “Ensaio para a loucura” seriam apresentadas. O que eu não sabia é que a exposição do Brooklyn era, também, a primeira individual do mineiro de Itajubá.</p>
<p>Bandeirante delicado, investigador inquieto, Mohallem buscava ampliar os limites do retrato ao incorporar à imagem escolhida em parceria com os indivíduos (“insanos”) eleitos frases por eles produzidas, quase sempre penetrantes, girando em torno do amor, do sexo, da morte, oferecendo uma incômoda ponte para o incauto observador. Frente ao seu primeiro trabalho, e apesar da dimensão miúda das telas da galeria localizada a poucos passos do East River, senti-me menos voyeur e mais participante da experiência da loucura das vidas ali expostas pelo artista.</p>
<p>Entre uma e outra mordida no éclair do vizinho bistrô francês Almondine, Mohallem, sempre atento, revelou-me que havia se enfronhado no mundo das celebrações de liberação amorosa retratadas pelo cineasta John Cameron Mitchell (de “Hedwig – rock, amor e traição” e “Reencontrando a felicidade”) em seu segundo longa-metragem, “Shortbus”. Fizera fotos no elevador do prédio, localizado ali mesmo no Dumbo, que conduzia alguns dos personagens mais interessantes da noite underground nova-iorquina a uma das festas mais concorridas do momento, ávidos por uma celebração da cidade teimosamente insone, ainda que dopada pela orgia do dinheiro fácil, já em ritmo de marcha lenta no outro lado da ponte de Manhattan.</p>
<p>Foi no universo do ‘Shortbus” que o fotógrafo descobriu o movimento setentista dos Radical Faeries. Pegou um avião, baixou num bosque no meio do Tennessee, e clicou, mais uma vez com a aquiescência de seus personagens, a celebração de um ritual pagão na América Profunda, no seio do fundamentalismo cristão ianque. Ao contrário da série dedicada à loucura, as imagens de “Welcome home” invadiram minha retina de forma violenta. As vi pela primeira vez em São Paulo, na Galeria Emma Thomas, no início do ano, em uma exposição que revelava meninos, meninas, meninos-meninas, meninas-meninos, vestidos, nus, sós, acompanhados, ao mesmo tempo propondo uma conversa sobre a ditadura do gênero e a insinuação de que, homem, mulher, criança, passamos a vida à procura de casa(s).</p>
<p>De volta a NY, Mohallem está ansioso para apresentar a seus colegas do Éden mundano escondido no sul dos EUA as 50 fotos que irão ilustrar seu livro sobre o lar (re)encontrado na improbabilidade dos cafundós do Tennessee. Se na “loucura” nos reconhecíamos, espectadores, entre inquietos e maravilhados, em espelhos mais ou menos disfarçados de nós mesmos, é ele, o artista, quem surge, cabeça erguida, braços abertos, nos dando a mão, no verde dominante de “Welcome home”. Se seu primeiro esforço examinava com alguma crueza um viés específico da pessoa, o trabalho mais recente é escancaradamente humanista. Curiosamente, as imagens de inclusão, a ausência de liderança, o ideário pós-anarquista das “fadas radicais”, tão caros a Mohallem, estão hoje também presentes em praças variadas das grandes cidades americanas, nas noites das grandes fogueiras de outono compartilhadas por homens, mulheres, crianças, acéfalos organizacionalmente, mas felizes ao se perceberem diferentes ‘de tudo isso que está aí’, no batuque dos “Ocupem Wall Street”.</p>
<p>Mas não me surpreendo quando o artista revela que suas obras de maior apelo comercial seguem sendo as de uma terceira série, dedicada à solidão, gerada em dias passados, a sós, no limite oriental do Brooklyn, na vastidão acinzentada de Coney Island. Durante o dia um bairro singularíssimo na geografia humana de Nova York, habitado democraticamente por imigrantes europeus, de origem russa e ucraniana, e moradores negros e de origem latino-americana, à noite um parque de diversões depauperado, lembrete de uma cidade há muito invisível, existente apenas na visão privilegiada dos olhos brasileiros de Mohallem, sonhando exotismos, tal qual nos versos do poeta maior. Algumas imagens da série de Coney Island foram parar na coleção de uma família de conhecidos banqueiros brasileiros. É o fotógrafo, com sua pequena e precisa obra, revelando também a sensibilidade estética das elites no vaivém nada harmônico entre a solidão e a comunhão. Teté Ribeiro é quem estava certa: eu tinha que conhecer o Gui Mohallem.</p>
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		<title>Os alienados antenados e a estética da invasão</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 15:33:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[Coluna de hoje no Segundo Caderno do GLOBO, sobre os meninos da praça e sua vocação cultural. Você já ouviu falar dos Poetas Ocupantes? Aqui, ó: Coluna Pelo Mundo-NY Eduardo... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/os-alienados-antenados-e-a-estetica-da-invasao/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coluna de hoje no <strong>Segundo Caderno</strong> do GLOBO, sobre os meninos da praça e sua vocação cultural. Você já ouviu falar dos Poetas Ocupantes? Aqui, ó:</p>
<p>Coluna Pelo Mundo-NY<br />
Eduardo Graça</p>
<p><strong>Na Praça da Liberdade, com os meninos</strong></p>
<p>Não se passa hoje por Nova York sem ouvir o batuque constante que vem da Praça Zuccotti, o espaço de cerca de 3 mil metros quadrados localizado na extremidade sul da ilha de Manhattan, entre a Broadway e a rua Liberty, ao lado de onde ficava uma das entradas para as torres gêmeas do Wolrd Trade Center. Os organizadores do Ocupem Wall Street, movimento que desde o dia 17 de setembro reúne milhares de pessoas nas proximidades do Distrito Financeiro em protesto contra o aumento da desigualdade social nos EUA e a desregulamentação do setor financeiro, rebatizaram o local de Praça da Liberdade, seu nome original até 2006.</p>
<p>Tomada majoritariamente por jovens estudantes e recém-formados, a Praça da Liberdade é uma experiência de democracia direta (tudo é decidido em concorridas assembleias gerais) com aspirações comportamentais e culturais. Criticados à direita por ‘defenderem uma guerra de classes, jogando a população contra os mais ricos’ e à esquerda por ‘exigirem o impossível, sem apresentarem propostas concretas para a substituição de ‘tudo isso que está aí’, os meninos do ‘Ocupem Wall Street’ são os alienados mais antenados com a realidade que tive o prazer de conhecer.</p>
<p>Uma “cruz vermelha e negra” trata dos primeiros socorros, com medicamentos doados por simpatizantes espalhados pelo país. Os “facilitadores da mídia” cuidam da máquina de propaganda popular que transformou a ocupação em fenômeno nacional. O ‘espaço do conforto’ oferece casacos, calças e meias para enfrentar o frio que começa a chegar, cobertores para a noite, guarda-chuvas, além de micro-tendas e colchões infláveis de camping, fundamentais para as novas levas de jovens que chegam a cada dia. Gente que viaja até vinte horas de ônibus para ouvir o barulhinho bom da praça.</p>
<p>A ‘cozinha popular’ chama atenção, e não é exagero dizer que hoje um dos locais mais inusitados para se comer ao ar livre em Nova York é a Zuccotti. O restaurante funciona a partir de doações de fazendeiros, proprietários de restaurantes e donas de casa. A comida é oferecida em um gigantesco bufê e é rica em legumes, cereais, carne, verduras e frutas. A distribuição é gratuita e pede-se apenas uma contribuição para quem quiser experimentar as guloseimas criadas por aprendizes de chefs e cozinheiros amadores.</p>
<p>Steve Jobs ficaria orgulhoso se pudesse observar as ferramentas mais disputadas na praça: os computadores, em sua maioria da Apple, e os iPhones, utilizados para registrar cores, vozes e centenas de faixas de protesto, para mandá-las adiante utilizando as redes sociais, assumidamente inspirados pelos militantes da chamada Primavera Árabe e dos que ocuparam as ruas da Espanha e da Grécia este ano. </p>
<p>O “Ocupem Wall Street” criou uma plataforma midiática própria para fortalecer sua narrativa. A divulgação ajudou a aumentar o apoio ao grupo, com sindicatos e religiosos das mais diversas denominações batendo ponto no local. A página do grupo na internet, a www.occupywallst.org, oferece imagens 24 horas da praça, mostrando o que acontece no local em tempo real, além de um canal de chat e um fórum de discussões. Páginas no Facebook se multiplicam. Dois enormes geradores garantem o funcionamento em tempo total de computadores, câmeras e celulares. </p>
<p>A edição das imagens é feita no próprio local, por profissionais voluntários do mundo da televisão, e uma das imagens mais fortes é a do trabalho criado por Alex Mallis e Luly Henderson, que mostra um jovem, bandeira azul-vemelha-e-branca nas mãos gritando “pelo direito da liberdade de se expressar nas ruas de Nova York” enquanto um policial assiste à passagem andante da democracia de cabeça baixa, sem qualquer tique repressor. </p>
<p>Um departamento legal, resultante da generosidade de advogados-militantes, foi criado para ajudar na defesa dos manifestantes detidos pela polícia em passeatas. No momento em que escrevia a coluna, os meninos haviam pego o metrô rumo ao Upper East Side para protestarem em frente às mansões de Rupert Murdoch, dos irmãos Koch e do CEO do Chase Manhattan Bank, na “Marcha contra os Bilionários”.</p>
<p>Ainda não é possível saber se uma estética nascerá dos movimentos populares, espalhados por todos os EUA, iniciados pelo “Ocupem Wall Street”. Na Zuccotti, há placas anunciando shows gratuitos de neo-punk, canções de protesto cunhadas no calor da hora, em que o velho violão e a gaita folk se unem harmonicamente com o batuque africano, aulas espontâneas de dança ao nascer do sol, e um grupo de ‘poetas ocupantes’. Todas as sextas-feiras, na noite anterior às grandes marchas de sábado, os ‘poetas da liberdade’ ocupam a ‘esquina da poesia’ e apresentam suas obras em leituras que, dada a concorrência, não podem passar de três minutos. Os temas giram em torno da esperança, da luta, dos sonhos dos meninos da praça. Para quem vem a trabalho ou a passeio neste outono, a Nova York que pulsa de modo incessante bate em ritmo mais acelerado na Praça da Liberdade.</p>
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		<title>Mais um finde com os meninos da praça</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 23:04:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[CARTA CAPITAL]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora, para o site da Carta Capital, no ar hoje, meu registro do fim de semana com o pessoal do &#8220;Ocupem Wall Street&#8221;. Texto e fotos meus. Política:Domingo na praça... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/mais-um-finde-com-os-meninos-da-praca/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agora, para o site da Carta Capital, no ar hoje, meu registro do fim de semana com o pessoal do &#8220;Ocupem Wall Street&#8221;. Texto e fotos meus.</p>
<p><strong>Política:</strong><strong>Domingo na praça em Wall Street</strong><br />
Eduardo Graça, de Nova York, para a Carta Capital</p>
<p>Parece uma enorme contradição. Mas o McDonald’s e o Burger King localizados nas imediações da praça Zuccotti, no Distrito Financeiro de Nova York, ficam apinhados o dia todo. Os quase mil manifestantes que ocupam a área localizada a poucos blocos de Wall Street e se identificam como críticos ferrenhos das grandes corporações não estão se alimentando no QG inimigo.</p>
<p>Mas a concentração humana na praça, quatro semanas depois da dúzia de pioneiros anunciar que só sairia da propriedade da Brookfield (uma das maiores empresas do setor imobiliário dos EUA) quando o setor financeiro pagasse a conta pelo débâcle financeiro da maior economia do planeta, gerou a única prova clara da desorganização do “Ocupem Wall Street”: a falta de banheiros para atender às quase dez mil pessoas – nas estimativas dos organizadores – que circulam pelo local, localizado ao lado do terreno em que ficavam as torres gêmeas do World Trade Center.</p>
<p>“Mas este é o único porém. Confesso que estava preocupada em dormir no meio de Manhattan, na rua, mas a experiência está sendo sensacional. O silêncio é absoluto depois das dez da noite e assim que acordamos fazemos meditação e ioga. Este é, de longe, o exercício democrático mais saudável de que participei”, disse Elizabeth Albrecht, 29 anos, que acaba de se formar em Psicologia na Universidade da Virgínia e chegou à praça na sexta-feira com um grupo de militantes disposto a aprender com a experiência do “Ocupem Wall Street” a fim de bisá-lo já esta semana em Richmond, a capital do estado sulista.</p>
<p>Seu companheiro Darrick Gregory, 23 anos, recém-graduado em Geografia pela mesma universidade, conta que o grupo já conta com 300 participantes e já se chegou a um consenso sobre o local a ser ocupado na cidade. “Anunciaremos no dia da ocupação. E vamos unir nossas vozes a causas locais, como o combate ao projeto de lei que pretende dificultar a possibilidade de aborto em clínicas públicas em todo o estado. Aprendemos aqui que nossa força vem do fato de não termos um objetivo específico, sonhamos alto, queremos mudar o funcionamento da democracia americana. O que nos alimenta é o nosso descontentamento e uma exigência, a de que nossa voz seja de fato ouvida”, diz, calmo, feliz da vida com o calor de verão em pleno outubro, como se os céus conspirassem para ajudar os moradores de rua mais barulhentos da cidade.</p>
<p><strong>&#8216;Se não há lista de demandas, basta olhar em volta para perceber que a praça é uma cidade em miniatura&#8217;</strong></p>
<p>A organização do “Ocupem Wall Street” segue jogando por terra os argumentos dos setores de esquerda incomodados com a ausência de lideranças e de uma plataforma mais definida para o movimento. Se não há lista de demandas, basta olhar em volta para perceber que a praça é uma cidade em miniatura, onde o ideário hippie se encontra com as mídias sociais características da geração Steve Jobs. No centro da praça há uma cozinha comunitária, um sucesso de administração e bom gosto. A água é reciclada. Há uma livraria comunitária, com títulos que vão do gibi do Batman, a biografia recém-lançada do teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan (1911-1980), clássicos das ciências sociais e políticas e livros de ficção da moda.</p>
<p>Na extremidade setentrional da Zuccotti, um telão mostra o site oficial do movimento e o número de pessoas, também via Facebook e Twitter, que se declaram simpatizante do “Ocupem Wall Street”. Até o momento em que esta reportagem era fechada, 440 mil pessoas dos quatro cantos do planeta afirmavam concordar com a “real democracia, a luta pela justiça social e um fim à corrupção”.</p>
<p>Na manhã do domingo em que a reportagem da <strong>Carta Capital</strong> passeou pela rebatizada “praça da liberdade” o filósofo esloveno Slavoj Zizek dava uma palestra para a multidão que o ouvia em um quase-silêncio quebrado por gritos excitados e murmúrios de aprovação. Zizek participou da assembléia-geral do “Ocupem Wall Street”, que acontece diariamente, sem o uso de microfones. A voz do professor-visitante da Universidade Colúmbia foi repetida em coro pelos moradores da praça, com alguma dose de emoção. Camiseta vermelha, barba longa, o acadêmico agradou: “Eles nos dizem que somos sonhadores. Não somos sonhadores! Estamos acordando de um sonho que está se transformando em um pesadelo. Nós não estamos destruindo nada. Somos apenas testemunhas da destruição autofágica do sistema. Todos conhecem a imagem clássica dos quadrinhos, do carrinho à beira do precipício. Nós somos as pessoas dizendo a Wall Street: êi, olhem para baixo!”, discursou, recebendo uma saraivada de palmas e gritos entusiasmados da plateia.</p>
<p>Celebridades outras já passaram pela praça desde que a repressão policial – com quase 700 manifestantes presos em uma marcha na Ponte do Brooklyn no fim de semana passado – colocou o “Ocupem Wall Street” na pauta do dia dos EUA. Susan Sarandon e Michael Moore circularam, com sucesso, pela área. E a líder da minoria governista na Casa dos Representantes – equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil -, Nancy Pelosi, saiu em defesa do grupo no domingo, em entrevista a Christiane Amanpour, em seu programa semanal de entrevistas na rede ABC, afirmando ser justa a sensação de insatisfação dos manifestantes, que “tem uma mensagem bem clara: é preciso mudar o que está aí”.</p>
<p>O “Ocupem Wall Street”, que já se espalhou por dezenas de cidades do país – além dos jovens de Richmond, passaram o fim de semana na praça manifestantes de Washington, Portland, no Oregon, Los Angeles, Austin e Boston, dispostos a aprender com os nova-iorquinos como incrementar as mobilizações populares – poderia funcionar como pressão popular para a aprovação do plano recém-anunciado pelo governo Obama de investir 447 bilhões de dólares a fim de criar empregos no país (a taxa de desemprego segue na casa dos 9%), financiado por um aumento de taxas entre os mais ricos da nação.</p>
<p>A mensagem central do “Ocupem Wall Street”, presente em todas as marchas do grupo, é de representatividade óbvia – “somos os 99% que pagam impostos” – e de oposição ao abono de pagamento de impostos aos que ganham mais de 250 mil dólares, política fiscal criada no governo Bush II com o objetivo de esquentar a economia do país.</p>
<p>“Hoje é meu primeiro dia aqui, e estou muito bem impressionado. Vou voltar todos os dias. A matemática é simples: precisamos parar de financiar o almoço de 200 dólares do pessoal de Wall Street. Eles precisam pagar mais, a desigualdade social não pode crescer ainda mais no governo Obama!”, disse Brian Crosby, 30 anos, cozinheiro de um restaurante da cidade e crítico da semântica neoliberal, que, em sua visão, humaniza as corporações e valoriza os consumidores em detrimento dos cidadãos.</p>
<p>“Quem tem dinheiro, pode, quem não tem, vem pra praça. O problema é que cada vez mais aumenta o número dos lesados pela democracia americana. Nós só vamos crescer, você vai ver!”, promete Joe Fionda, 27 anos, relaxado na “praça do povo”, literalmente, segundo o bem-humorado nova-iorquino, “de frente para o crime”.</p>
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		<title>Os meninos da praça: abaixo Wall Street</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Oct 2011 15:15:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Valor Economico]]></category>

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		<description><![CDATA[Capa do caderno EU&#038;Fim de Semana, do Valor Econômico, que chegou hoje às bancas, minha reportagem sobre o Ocuppy Wall Street, há três semanas fazendo um barulhinho bom de ouvir... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/os-meninos-da-praca-abaixo-wall-street/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Capa do caderno <strong>EU&#038;Fim de Semana</strong>, do Valor Econômico, que chegou hoje às bancas, minha reportagem sobre o Ocuppy Wall Street, há três semanas fazendo um barulhinho bom de ouvir aqui em Nova York. Segue o texto:</p>
<p><strong>Na praça, contra tudo</strong><br />
Por Eduardo Graça | Para o Valor, de Nova York</p>
<p>Eles são estudantes, desempregados, ex-militares, funcionários públicos, professores, sindicalistas, marxistas, punks, ambientalistas, artistas, anarquistas, militantes de carteirinha dos movimento negro e dos grupos que lutam pelos direitos dos homossexuais. Mas também são Susan Sarandon, Noam Chomsky, Michael Moore e Joseph Stiglitz, algumas das vozes célebres na salada política denominada &#8220;Ocupem Wall Street&#8221;, que tomou conta do parque Zuccotti, localizado a meio caminho entre Wall Street e o Ground Zero, no distrito financeiro de Manhattan, ao lado de um dos grandes templos do consumo da cidade de Nova York, favorito de nove entre dez turistas brasileiros, a loja de departamentos Century 21.</p>
<p>No acampamento montado há pouco mais de três semanas no local, onde os manifestantes se amontoam em colchões improvisados e se protegem da tradicional chuva fria de outono com lonas coloridas, essa federação de interesses tem ao menos um objetivo claro: ver o sistema financeiro pagar pela crise econômica financeira que levou a maior economia do planeta a índices de pobreza e desigualdade social similares aos da Grande Depressão.</p>
<p>&#8220;Ainda não podemos sequer afirmar se tratar de uma federação. Eles são cidadãos comuns que perceberam não fazer mais parte da engrenagem da sociedade americana&#8221;, diz o sociólogo Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU), que acaba de lançar &#8220;White Riot&#8221;, um conjunto de ensaios sobre a cultura punk da virada dos anos 1980 nos Estados Unidos e a transformação do niilismo anárquico em uma negação mais ou menos consciente da ordem capitalista. Para ele, a retórica usada é de esquerda, mas o mais fascinante é a ausência das formas de protesto da esquerda tradicional, já que não há demandas definidas ou uma organização verticalizada. &#8220;Há quem veja nisso sinais de desesperança no poder de ação dos meninos da praça. É um equívoco. O que se dá em Manhattan, hoje, é o nascimento de um novo tipo de movimento social, multivocal, sem ícones, conectado.&#8221;</p>
<p>Se nos anos 1960 o crítico literário Lionell Trilling descreveu a onda de protestos nos EUA como o &#8220;modernismo nas ruas&#8221;, o que se vê em Wall Street, observa Duncombe, é o começo da &#8220;internet nas ruas&#8221;. &#8220;De certa forma, eles são filhos dos militantes antiglobalização dos anos 1990, quando se percebia um grande &#8216;não&#8217; e milhares de &#8216;sim&#8217; nas faixas, gritos de ordem e objetivos dos militantes.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ocupem Wall Street, desocupem a Palestina!&#8221;, &#8220;Nós somos os 99% que pagam impostos, junte-se a nós!&#8221;, &#8220;Quando a injustiça impera, resistir é nosso dever&#8221; [Thomas Jefferson], &#8220;Vocês viram a Primavera Árabe, venham conhecer o Outono Americano&#8221; e &#8220;Bem-vindos aos Estados Soviéticos da América&#8221; foram algumas das mensagens espalhadas pela praça nos três dias em que o Valor acompanhou a atividade de militantes que chegaram dos quatro cantos do país. No artigo sobre o tema mais comentado da semana, &#8220;Os banqueiros e os revolucionários&#8221;, o colunista do &#8220;New York Times&#8221; Nicholas Kristof diz que, depois de passar o ano cobrindo levantes populares do Cairo ao Marrocos, precisou apenas pegar o metrô para conferir o novo &#8220;campo revolucionário&#8221; urbano do planeta: a praça Zuccotti.</p>
<p>&#8220;Muita gente chiou depois que postei no twitter que a Zuccotti me lembrava a praça Tahir, no Egito. Claro, não há balas disparadas ao redor e ninguém pretende demover ditadores do poder. Mas ali está a mesma juventude alienada, a mesma vontade de usar as mídias sociais para recrutar mais participantes e, principalmente, há também um sensação de insatisfação entre os jovens com um sistema político e econômico que os manifestantes consideram corrupto, falido e venal&#8221;, escreve Kristof.</p>
<p>Os paralelos com a Primavera Árabe são cultivados pelos militantes, mas eles também se inspiraram nos protestos recentes na Espanha e na Grécia, cujo parentesco, especialmente no campo das ideias, parece mais direto. &#8220;Vim para cá porque não acredito mais no processo que a elite chama de democrático. Não tenho dinheiro para pagar a universidade, não consigo arrumar emprego e minha única alternativa, fora da praça, é ir para a Flórida, onde moram meus tios, e me alistar como fuzileiro naval. A democracia, o mundo das possibilidades, das escolhas, é tudo uma falácia&#8221;, lamentava Eric Suarez, 25 anos, que trocou a casa dos pais em Jersey City, onde se apertava em um quartinho desde que foi mandado embora da loja em que trabalhava, por um colchão no meio do distrito financeiro de Nova York.</p>
<p>A desilusão com o processo democrático também foi o combustível que levou Season Poll, 22, a encarar 18 horas de ônibus para deixar os cafundós do Ohio e se instalar no acampamento de Wall Street. &#8220;Essa gente precisa pagar pelo que fez. Somos a maioria da população e só vamos sair daqui quando os bancos passarem a ser regulamentados, tiverem de prestar satisfação aos cidadãos comuns. Daqui ninguém me tira!&#8221;, disse, a voz desafiadora, o cabelo negro liso jogado para o lado e um pedido sutil de privacidade, pois começara a ler um livro há poucos minutos.</p>
<p>A praça, no fim de tarde chuvosa de segunda-feira, é um organismo vivo, com muita gente lendo romances, gibis e livros de filosofia e sociologia com igual interesse, todos adquiridos de forma gratuita na biblioteca popular instalada na extremidade noroeste do acampamento. Ao centro fica a cozinha comunitária, com muitas frutas e verduras, mas sucesso mesmo faz a pizza de um estabelecimento local, que, simpático às massas, criou a &#8220;OccuPie special&#8217;. Detalhe: qualquer simpatizante, do mundo todo, pode fazer o pedido online, pagar com cartão de crédito, e mandar entregar na praça. A quantidade de alimentos é tamanha, mesmo para as cerca de 500 pessoas presentes de forma integral no local (no domingo, mais de 3 mil circulavam pela praça e boa parte dos manifestantes vivem em Nova York e voltam para casa todos os dias), que os organizadores criaram um sistema de distribuição para os desabrigados da parte sul da ilha de Manhattan. Como Nova York acaba de anunciar que 20% de sua população vive abaixo da linha de pobreza, a ajuda é mais do que bem-vinda.</p>
<p>Abra-se um parêntese para sublinhar a multiplicidade de cores, rostos e idades circulando pela praça. Há manifestantes de todas as idades (embora a maioria seja jovem e caucasiana), gêneros e etnias e, apesar de todas as críticas &#8211; especialmente de setores liberais &#8211; relacionadas ao caráter oba-oba do &#8220;Ocupem Wall Street!&#8221;, o que impressiona o visitante em um primeiro momento é justamente o caráter sistemático do grupo, que conta com assistência jurídica gratuita para os que acabam presos por ocupar as ruas da cidade e mantém uma agenda mais ou menos rígida, constituída de uma marcha diária pela cidade e assembleias-gerais intensas, inspiradas em movimentos pacíficos de protesto. A maior delas até o fechamento desta reportagem acabou gerando a prisão de 700 manifestantes na ponte do Brooklyn, no fim de semana passado. Na quarta-feira, sindicalistas das principais federações de trabalhadores do país prometeram engrossar a marcha dos meninos da praça, que pretende fazer um barulho enorme na prefeitura, localizada no limite entre o distrito financeiro e o chamado City Hall.</p>
<p>&#8220;Não é irônico isso?&#8221;, pergunta o estudante da Escola de Negócios da Universidade Baruch &#8211; sem reconhecer ser ele mesmo uma ironia andante &#8211; Brandon Klein, 21 anos, que vive no Queens: &#8220;Os republicanos acharam que levariam a democracia para o mundo árabe invadindo o Iraque. A ironia é que foi o mundo árabe que nos deu uma lição de democracia e, posso garantir, estamos aprendendo rápido&#8221;. Alto, magro, usando um casaco fino, passando frio no começo da noite de outono com temperaturas de 12 graus, Klein conta que só conseguiu uma bolsa na faculdade depois que sua mãe, enfermeira, perdeu o emprego. &#8220;Agora ela faz uns bicos para manter a casa, mas pelo menos consegui a bolsa porque pude provar ser uma pessoa pobre&#8221;, diz.</p>
<p>São esses meninos que começam a tirar o sono da elite financeira ianque. A principal estrela da cobertura de economia do &#8220;New York Times&#8221;, o colunista Andrew Ross Sorkin, autor do best-seller &#8220;Too Big To Fail: The Inside Story of How Wall Street and Washington Fought to Save the Financial System &#8211; and Themselves&#8221;, uma das mais completas crônicas do desmoronamento da economia americana nos anos Bush, escreveu, na terça-feira, que vem recebendo seguidos telefonemas de preocupados figurões do setor financeiro. &#8220;Um CEO me perguntou se havia algum risco para sua segurança física&#8221;, revelou.</p>
<p>Sorkin lembra que a maioria dos bancos de investimento está localizada hoje em Midtown, nas imediações da Park Avenue, muitas quadras ao norte da praça Zuccotti, mas o simbolismo da ocupação, frisa, foi bem maior do que eventuais peculiaridades geográficas. &#8220;Disse aos executivos que a mensagem desses meninos é clara &#8211; eles querem que Wall Street e as corporações americanas paguem o que devem pela crise financeira e o aumento da desigualdade social do país. E se a economia continuar o ciclo negativo por mais tempo, poderemos evoluir para algo mais próximo de uma desobediência civil em massa&#8221;, diz um dos jornalistas que mais conhece as entranhas do sistema financeiro americano.</p>
<p>A semente do populismo niilista-esquerdista (como vem sendo chamado por parte da academia) se espalhou pelos quatro cantos dos Estados Unidos. Já há grupos denominados &#8220;Ocupem Wall Street&#8221; reunidos na bandeira &#8220;Ocupem Juntos&#8221; em Washington, Boston, Chicago, Los Angeles, Baltimore, Mineápolis, Memphis e Seattle, mas também em localidades menos óbvias, como Hilo, no Havaí, e McAllen, no Texas. Na capital federal, o grupo planeja ocupar em breve uma praça nas imediações da Casa Branca.</p>
<p>&#8220;Se esse crescimento seguir nos próximos meses, os meninos vão forçar o presidente a se mover para a esquerda, exatamente como Franklin Roosevelt fez durante o New Deal&#8221;, prevê Duncombe. Nesse aspecto, o &#8216;Ocupem Wall Street&#8217; se assemelha ao &#8216;Tea Party&#8217;, que jogou o Partido Republicano ainda mais para a direita. &#8220;Mas existe uma grande diferença entre os dois. O Tea Party se tornou uma ala da oposição, abrigando as elites conservadoras. Os meninos da praça Zuccotti também são críticos do Partido Democrata e não querem a proximidade com os figurões do partido. Esse aspecto pode torná-los pouco eficazes em um primeiro momento, mas também aumenta seu poder de influência ao questionarem o sistema político, e não apenas um ator específico do bipartidarismo característico da moderna democracia americana.&#8221;</p>
<p>Dias atrás, o ex-governador de Nova York e cacique democrata David Paterson foi dar seu apoio aos manifestantes, mas foi recebido com frieza, ao contrário da festa que se fez em torno de Michael Moore. O documentarista exigiu que sua entrevista exclusiva ao canal de notícias 24h MSNBC sobre o &#8220;Ocupem Wall Street&#8221; acontecesse in loco. Com o barulho dos manifestantes ao fundo, ele disparou: &#8220;Basta! Este é o começo da revolta. A gente se encheu. Acabou! Este é o resultado óbvio de um país que jogou 46 milhões de pessoas na pobreza, e isso vai acontecer, de forma não-violenta, no país todo, nos próximos dias. E sabe por que não vai ter agressão? É por que há milhares de pessoas como nós, e apenas umas poucas centenas do outro lado!&#8221;, disparou.</p>
<p>Com uma nota de dólar na boca, afirmando que a democracia americana não tem mais voz, tolhida pelo domínio das corporações e dos lobistas, o ex-bibliotecário Robert James Carlson, 25 anos, concorda com o diretor de &#8220;Capitalism: a Love Story&#8221;: &#8220;Estou acampado há oito dias e isso aqui só faz crescer. Está começando a ficar apertado, mas é sinal de nossa força, de nossa tenacidade. Não consigo emprego, não tenho dinheiro para voltar para a universidade, não sei mais o que fazer. O que restou de minha criatividade, de meu desejo, eu trouxe para cá. Além de me reenergizar, sinto que estou de fato fazendo algo para mudar o meu país. Meu único porém é não ter saído às ruas antes. Por que demorei tanto?&#8221;.</p>
<p>A sensação de raiva que impera na praça é, enfatiza Kristof, mais do que compreensível: &#8220;É enervante ver banqueiros que foram salvos da bancarrota pelos contribuintes agora reclamar de eventuais regulamentações pensadas justamente como uma proteção contra eventuais quebradeiras do setor. E é muito importante o fato de os manifestantes destacarem o aumento da desigualdade social: alguém acha que é certo 1% da população dos Estados Unidos possuir mais capital do que o conjunto dos 90% menos favorecidos economicamente?&#8221;.</p>
<p>Duncombe lembra que os mesmos liberais, rápidos em torcer o nariz para os manifestantes antiglobalização, seguem desconfiados de um movimento já responsável, em sua curta existência, por caminhadas tão hilárias quanto memoráveis, como o ataque dos zumbis banqueiros na ponte do Brooklyn ou a polêmica marcha de topless que deixou a sisuda polícia nova-iorquina desconcertada. A bem da verdade, apesar das prisões, a relação entre os dois grupos segue no limite do cordial, com os representantes da lei trazendo cookies para o café da manhã dos meninos que, por sua vez, retribuem com um chocolate quente caprichado no fim do dia, quando o frio vem.</p>
<p>O interesse de Duncombe pelas táticas de protesto pouco convencionais fazem sentido. Ele foi um destacado ativista dos &#8220;Bilionários com Bush&#8221;, grupo que se vestia como Tio Patinhas para mostrar qual parcela da sociedade americana, em sua visão, se beneficiaria mais com a reeleição, em 2004, do ex-governador do Texas. Ele discorda dos que veem nos meninos da praça inocentes úteis. &#8220;Mas é exatamente o oposto! Eles são ultrarrealistas. Por que fazer uma lista de demandas quando elas serão solenemente ignoradas? Por que levantar uma bandeira partidária, se isso significa a limitação de possibilidades, a ossificação do movimento? Não, estas são características dos protestos políticos do passado. O que estamos vislumbrando na praça Zuccotti, na Europa e no mundo islâmico, é o futuro, o surgimento de algo novo, que ainda precisa de tempo para desenvolver um vocabulário político próprio, uma estrutura específica.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ouso dizer que o impacto do &#8216;Ocupem Wall Street&#8217; será ainda maior do que o dos movimentos esquerdistas dos anos 1930 e 60&#8243;, imagina o professor da Universidade de Nova York. &#8220;Um observador menos perspicaz pode se prender à moda punk e às tatuagens dos meninos da praça, mas há um diferencial importante: eles estão mais próximos do interesse da maioria dos americanos do que os radicais da contracultura. Os neorradicais estão tratando de temas que impactam a imensa maioria da sociedade: a instabilidade econômica e o sentimento de apatia frente ao sistema político. Há uma clara verdade na tecla, por eles batida a todo momento, de que &#8216;representamos aqui os outros 99%&#8217; da população, completamente alijados do poder. É isso!&#8221;, diz Duncombe, como quem matasse uma charada.</p>
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		<title>Tom, por Nelson</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 12:38:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[Saiu hoje no Segundo Caderno, d&#8217;O GLOBO, meu texto sobre o lançamento mundial de &#8220;A música segundo Tom Jobim&#8221;, o documentário de Nelson Pereira dos Santos, apresentado no domingo como... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/10/tom-por-nelson/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Saiu hoje no Segundo Caderno, d&#8217;O GLOBO, meu texto sobre o lançamento mundial de &#8220;A música segundo Tom Jobim&#8221;, o documentário de Nelson Pereira dos Santos, apresentado no domingo como atração de luxo do Festival de Cinema de Nova York. Aqui, ó:</p>
<p><strong>Imagens raras traçam caminho de Tom</strong></p>
<p><em>Documentário de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim que estreou anteontem em Nova York é exercício de edição</em></p>
<p>Eduardo Graça, Especial para O GLOBO, de Nova York</p>
<p>&#8220;A música segundo Tom Jobim&#8221; faz jus ao título com exatidão. O documentário de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, cuja estreia foi anteontem, no Festival de Cinema de Nova York, não oferece uma faala sequer entre a sucessão de imagens &#8211; algumas jamais vistas na tela grande &#8211; preenchidas pelo som de Antônio Carlos Brasileiro (1927 &#8211; 1994).</p>
<p>Não há informação sobre quem está cantando qual música em tal ano. Pois a ausência de referências acabou criando um jogo lúdico para uma plateia curiosa, que ficou até o fim dos créditos se delicianso com comentários como &#8220;eu não te disse que aquele era o Oscar Peterson?&#8221; e &#8220;olha lá o Henri Salvador!&#8221;. O filme estreia no Brasil em janeiro.</p>
<p>A ausência de informação básica foi um antídoto usado pelo diretor de &#8220;Vidas secas&#8221; para se afastar do modelo documental televisivo, hoje mais comum nas salas de cinema. Deu certo. O filme começa com uma sequência de imagens raras do Rio pré-Aterro, da segunda metade dos anos 1950, com o Museu de Arte Moderno (MAM) sendo erguido, e a câmera conduzindo o espectador pelo aeroporto Santos Dumont, passando pela Candelária, a Enseada de Botafogo, o Túnel Novo sem o Rio Sul nas imediações, e uma Copacabana com bonde, pronta para abrigar o surgimento da Bossa Nova. Só pelo embarque no túnel do tempo, com a melodia de &#8220;Garota de Ipanema&#8221; ao fundo, já valia a projeção. Mas há mais.</p>
<p>Dentre as imagens de &#8220;A Música segundo Tom Jobim&#8221; &#8211; um dos dois documentários sobre o músico a ser concluído neste ano pelo diretor de &#8220;Como era gostoso o meu francês&#8221; &#8211; estão a de Elizeth Cardoso cantando &#8220;Eu não existo sem você&#8221;, acompanhada por um jovem João Gilberto, na época de &#8220;Canção do amor demais&#8221;, considerado o marco inicial da Bossa Nova. Dizzy Gillespie explode suas bochechas em &#8220;Chega de saudade&#8221;. SAmmy Davis Jr. improvisa &#8220;Desafinado&#8221;. Frank Sinatra, cigarro em mãos, canta &#8220;Corcovado&#8221; com Tom. Há ainda uma sequência kitsch de versões de &#8220;Garota de Ipanema&#8221;, passando por um programa de auditório japonês, o surfe da Califórnia e a Itália. Também há uma Maysa de muito perto, já marcada pela vida, quase atravessando a câmera, imperando silêncio pela primeira vez na plateia com &#8220;Por causa de você&#8221;. E até Judy Garland &#8211; em imagem encontrada por Dora Jobim (neta de Tom) no YouTube &#8211; surge, cantando &#8220;Insensatez&#8221;.</p>
<p>Essencialmente um exercício de edição, o filme transformou os diretores e a roteirista Miúcha Buarque de Holanda (que aparece ao lado do compositor, entoando o &#8220;Samba do Avião&#8221;, no antológico show do Canecão) em VJs de YouTube imaginário, garimpando imagens raras seguindo uma ordem mais ou menos cronológica, permeada pelas capas dos discos mais importantes de Tom e passagens emblemáticas de sua vida e carreira (como na montagem de &#8220;Orfeu da Caonceição&#8221;, ao lado de Niemeyer na Brasília em construção, no Carnegie Hall na noite de gala da Bossa Nova) até o fim apoteótico, com &#8220;Saudade do Brasil&#8221; sobreposta às imagens do desfile da Mangueira de 1992, cujo samba-enredo pedia: &#8220;Quero me perder na fantasia/que invade os peomas de Jobim&#8221;.</p>
<p>- Estou muito feliz e orgulhoso de apresentar o filme em Nova York, a cidade que acolheu tão bem Tom e onde ele pôde mostrar sua arte com todo esplendor, disse Nelson Pereira, antes da projeção. Emocionado, ele não ficou até o fim da segunda sessão. Não viu, portanto, a saída do público, que assoviava tons jobinianos. Teria ficado feliz.
<a href='http://www.eduardograca.com/2011/10/tom-por-nelson/tomjobim-1/' title='tomjobim-1'><img width="242" height="208" src="http://www.eduardograca.com/wp-content/uploads/2011/10/tomjobim-1.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="tomjobim-1" title="tomjobim-1" /></a>
<a href='http://www.eduardograca.com/2011/10/tom-por-nelson/tomjobim2/' title='tomjobim2'><img width="240" height="159" src="http://www.eduardograca.com/wp-content/uploads/2011/10/tomjobim2.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="tomjobim2" title="tomjobim2" /></a>
<a href='http://www.eduardograca.com/2011/10/tom-por-nelson/cultura_filmes-10/' title='Cultura_Filmes'><img width="250" height="150" src="http://www.eduardograca.com/wp-content/uploads/2011/10/Cultura_Filmes.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Cultura_Filmes" title="Cultura_Filmes" /></a>
</p>
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		<title>As Cidades Imaginárias do Rock</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 15:16:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[A coluna da semana, no Segundo Caderno d&#8217;OGLOBO, é sobre duas cantoras de primeira, uma delas atração da noite de hoje do Rock In Rio: PELO MUNDO Eduardo Graça, de... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/09/as-cidades-imaginarias-do-rock/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna da semana, no Segundo Caderno d&#8217;OGLOBO, é sobre duas cantoras de primeira, uma delas atração da noite de hoje do Rock In Rio:</p>
<p>PELO MUNDO<br />
Eduardo Graça, de Nova York</p>
<p><strong>Janelle, Del Rey e as cidades imaginárias do rock</strong></p>
<p>Subia a rua State em disparada, feliz com o fim do calorão que já durava quatro meses. Quanto mais me aproximava da avenida Flatbush, mais aumentava o volume do baticum. A sensação, do lado de lá do sinal que dá para a avenida Lafayette, nas imediações do imenso estacionamento em frente à sede do grupo de dança Mark Morris e da Academia de Música do Brooklyn, era a de que um batalhão de soldados se dirigia, veloz, rumo à Ponte de Manhattan. Do outro lado da rua, a miragem felizmente se transformava em realidade mais prazerosa ao som dos gritos: Janelle! Janelle! Janeeeeeelle!</p>
<p>Lá se vão quatro anos e não esqueci detalhe algum da tarde em que descobri a voz, os movimentos, o estilo retrô e a simpatia absoluta de Janelle Monáe, um dos acertos da turma responsável pela escalação do Rock in Rio, versão 2011. Se você vai hoje até os confins da Zona Oeste para ver o Stevie Wonder, chegue mais cedo. O show na feirinha de cultura africana do bairro de Fort Greene não tinha nada da opulência do palco principal da Cidade do Rock. Mas a energia de dona Janelle, traduzida na ferveção da pista, na bateção de pés em alta velocidade, inclusive os de seu padrinho Big Boi, do Outkast, todo feliz na boca do palco, me ganhou para sempre.</p>
<p>Foi naquela ocasião que ouvi pela primeira vez “Violet stars happy hunting!!!” e “Many moons”. Corri à J&#038;R no dia seguinte para comprar o primeiro EP daquela moça que parecia o Prince, com seus terninhos finos, o cabelo a la garçonne e o apreço por narrativas de sabor futurista, que não combinavam imediatamente com o visual passadista. Janelle contou na ocasião que começara a criar uma trilha sonora informal – e atemporal – para o clássico “Metropolis”, de Fritz Lang. Cabeçérrimo. Mas o sotaque do Sul, o palco mambembe, o público majoritariamente negro, a pausa no meio do espetáculo para uma interpretação doída de “Smile”, de Charles Chaplin, as vocalistas de apoio vestidas como se estivessem saindo da noite de amadores do teatro Apollo, do outro lado da cidade, cada detalhe, suavizava virtuais aspirações intelectuais.</p>
<p>Barack Obama ainda não havia sido eleito, a crise havia começado a dar sinal de vida, a enorme ressaca do governo Bush II pesava o ar, e a menina de 22 anos olhava para um futuro distante, imaginando-se como uma andróide do distante ano de 2719, ao mesmo tempo em que fazia a poeira levantar do chão da feirinha. Boquiaberto por poucos minutos, antes de cair na folia com entusiasmo, nem vi que por ali também sassaricava, animado, Sean “Diddy” Combs. </p>
<p>Pois foi via P.Diddy que a menina nascida no Kansas e fruto da cena musical da Geórgia finalmente recebeu a oportunidade de mostrar a que veio. “The archandroid”, lançado no ano passado, é de uma originalidade sem tamanho. Janelle fez um disco conceitual na era dos singles digitais e é dona de uma voz poderosa, motównica, mas sem deixar o movimento em segundo plano jamais. Já se disse que ela tem o desespero de Michael Jackson no palco. Se ela fizer apenas um terço do que vi naquela tarde de fim de verão no Brooklyn, o ingresso desta quinta-feira já terá valido a pena.</p>
<p>***</p>
<p>Se você não vai encarar, nem por um decreto, as filas quilométricas, o transporte confuso e as mãos grandes dentro e fora da Cidade do Rock, use a noite de hoje para descobrir uma nova maravilha urbana de Nova York. Lana del Rey tem nome de vedete do teatro de revista, lábios de Angelina Jolie, cozinha hip-hop e um compacto simples matador. De um lado, “Video games”, do outro “Blue jeans”. A letra da primeira faixa, sofrida – “alguém me disse que você só gosta das meninas más, é verdade?” – lembra Amy Winehouse, os arranjos passeiam pelas baladas de Adele, mas há algo de country, do pop branco do fim dos anos 1950, que transporta o espectador para uma cidade imaginária, um passado que jamais existiu.</p>
<p>Espectador, sim. É que Del Rey (cujo nome real é Lizzy Grant, menina criada no norte do estado de Nova York, em um vilarejo na entrada das belas montanhas Adirondacks) se tornou conhecida por seus vídeos, disponíveis no YouTube, com uma estética próxima a dos documentários do britânico Adam Curtis, com muitas imagens de arquivo e a sensação de que se está vendo uma colagem de um álbum de fotos da linda chanteuse. A capa do EP não é simples acessório: lá está Del Rey, camiseta azul, longas madeixas castanhas avermelhadas, encarando o fotógrafo com a intensidade de quem já passou por poucas e boas.</p>
<p>Del Rey se apresenta, sem qualquer falsa modéstia, e com algum humor, como a ‘versão gangster de Nancy Sinatra’. “Vídeo Games”, remixado por Mover Shaker, apareceu na lista dos DJs mais badalados da mais recente Fashion Week de NY. E o “Guardian” cunhou o epíteto “Lolita Pop” para aquela cujo primeiro disco seria “uma promessa de Pet Sounds para a geração Kate Perry”. Vai por mim: você ainda vai ouvir falar muito de Lana del Rey, quiçá uma das atrações mais interessantes do Rock In Rio de 2013.</p>
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		<title>Cinema Gastronômico em Williamsburg</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Sep 2011 15:28:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[A coluna de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;O Globo, é sobre o Nitehawk, o primeiro cine-gastronômico de NY, a módicos US$ 11/entrada. E os quitutes são do chef Saul Bolton.... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/09/cinema-gastronomico-em-williamsburg/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A coluna de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;<strong>O Globo</strong>, é sobre o Nitehawk, o primeiro cine-gastronômico de NY, a módicos US$ 11/entrada. E os quitutes são do chef Saul Bolton. Aprovado:</p>
<p><strong>Cinema Gastronômico</strong></p>
<p>O clássico programa filme-jantar também é uma instituição por aqui. Em Williamsburg, a pedida da vez é o Nitehawk, o primeiro cinema-restaurante de Nova York, com um atrativo fundamental em tempos de recessão: o preço da entrada, os mesmos US$ 11 cobrados em qualquer multiplex  de Manhattan. Minha escolha em um sábado pré-11 de Setembro, sem metrô e com uma atmosfera ligeiramente carregada do lado de cá do East River, foi “The future”, o novo esforço de Miranda July, </p>
<p>O barato do Nitehawk é que ele se apropriou do conceito do cinema vip – incipiente em Nova York, mas já presente em São Paulo, por exemplo, nas salas do Iguatemi e no Cinépolis Alphaville – e o adaptou para os barbudos de Williamsburg. O primeiro andar é um bar transado, com drinquinhos inspirados por clássicos do cinema independente. O eleito pelos meus vizinhos foi o Amores Perros, com tequila El Jimador, limão siciliano, grapefruit, agave e uma pitada generosa de sal do mar com chipotle. Por conta da legislação municipal, as bebidas alcoólicas não entram com o público no escurinho do cinema. Talvez o grande porém do Nitehawk seja a necessidade de se chegar ao menos meia hora antes do início do filme, para que a cozinha tenha tempo de preparar os quitutes da noite. Apressadinhos passam fome ou ficam restritos aos dois tipos de pipoca gourmet, a salgada (deliciosa, com queijo parmesão reggiano, limão e manteiga de alho) e a doce, coberta por caramelo inglês.</p>
<p>A cozinha, que fica no primeiro andar, nos fundos do bar, ao lado da Sala 3 (sim, o serviço, ali, é mais rápido do que o das outras duas salas), é uma maravilha. Quem a comanda é Saul Bolton, chefe do primeiro restaurante do Brooklyn a receber uma estrela do guia Michelin. Pode-se dizer que o Nitehawk é sua terceira casa no distrito mais populoso de Nova York. E o cardápio é original, no meio do caminho da sisudez do “Saul”, um dos melhores endereços culinários de BoCoCa (acrônimo para os bairros da moda Boerum Hill, Cobble Hill e Carroll Gardens) e das experimentações do “The Vanderbilt”, um oásis em Prospect Heights, a localização emergente a meio caminho do Prospect Park.</p>
<p>Comecei com as empanadas de queijo, recheadas por um mix de cotija com mussarela e cheddar, com salsa verde orgânica, um auxílio luxuoso mas não obrigatório, já que a massa, embora crocante, desmancha na boca do faminto cinéfilo. O filme já na metade, apertei o botão luminoso abaixo da mesinha de madeira localizada em frente à poltrona para informar que era hora de devorar o sanduíche de filé marinado com kimchi (preparado de repolho coreano, um favorito dos nova-iorquinos), ligeiramente apimentado. Um sucesso, e tudo por U$ 18. O cine-restaurante também já é famoso pelo hambúrguer de primeira, os arancini caseiros (bolinhas fritas de arroz com maçã caramelizada, bacon defumado e queijo cheddar), os tamales (mal-comparando, a pamonha mexicana) de cogumelos com chile poblano e a salada de melancia com jicama e hortelã.</p>
<p><strong>Garçons atenciosos, treinados para não atrapalharem a visão do público durante a projeção</strong></p>
<p>Para além das comidinhas de primeira, o cinema gastronômico vale pelo custo-benefício do espaço generoso das poltronas – não há o risco de se ouvir o vizinho ao lado cochichando sobre a trama ou, mais importante, de se levar um chute no encosto da cadeira – e da decisão de se tratar cada filme de modo artesanal. Além de um menu de especiais exclusivos (no caso de “The Future”, o extra era um sundae de mamão), os trailers são todos escolhidos a dedo. No sábado, vimos uma série de curtas independentes, pequenas estripulias de John C. Reiley e Steve Buscemi, uma cena do filme de Miranda July apresentada pela diretora-roteirista-atriz, como se estivéssemos de fato em casa, curtindo um DVD, além de trechos dos filmes que sucederão “The Future” na sala 3, entre eles o ótimo “Drive”, com Ryan Gosling.</p>
<p>Os garçons são atenciosos, treinados para não atrapalhar a visão do público, o cardápio foi preparado especialmente para facilitar a vida do espectador, já que se come no escuro (use as mãos!), e não há obrigatoriedade de se jantar na casa, embora a tentação seja grande. Uma outra experiência parecida na cidade – o reRun Gastropub, em Dumbo, também no Brooklyn – é mais um bar com uma tela do que um cinema com cardápio incrementado.</p>
<p>No Nitehawk, que fica na avenida Metropolitan, entre Berry e Whyte,  a poucos passos da estação Bedford do metrô L, as salas de 60 lugares dão menos a sensação de que se está em um videoclube improvisado e mais a de se ter alugado, por uma noite, um teatro VIP para se deliciar com um filme especial em grande estilo. A tela é maior do que a maioria das encontradas nos cinemas de arte da cidade. E, nunca é demais enfatizar, por US$ 11 a entrada! Em comparação, uma seção no Cinépolis Vip de São Paulo não sai, nos fins de semana, por menos de R$ 54. </p>
<p>Mas não vou mentir: com tantas atrações além da tela, Miranda July e seu irregular “The Future” acabou ficando em segundo plano em uma noite de múltiplos prazeres sensoriais. Para um turista zanzando pela cidade, interessado em se adiantar na agenda cinematográfica experimentando guloseimas de primeira, o Nitehwak é um achado. Vá.</p>
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		<title>11 de Setembro: a delicada pena de Lorrie Moore</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2011 16:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Valor Economico]]></category>

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		<description><![CDATA[Para a edição especial sobre o 11 de Setembro do Eu&#038;Fim de Semana, do Valor Econômico, a partir de hoje nas bancas brasileiras, conversei com a escritora Lorrie Moore, autora... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/09/11-de-setembro-a-delicada-pena-de-lorrie-moore/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para a edição especial sobre o 11 de Setembro do Eu&#038;Fim de Semana, do Valor Econômico, a partir de hoje nas bancas brasileiras, conversei com a escritora Lorrie Moore, autora do belíssimo &#8220;Ao Pé da Escada&#8221;, finalmente traduzido para o português do Brasil, este mês nas prateleiras via editora Record. O texto segue abaixo:</p>
<p><strong>Outros sentidos para a violência, com toque delicado</strong><br />
Eduardo Graça<br />
Para o Valor, de Nova York </p>
<p>Dono de um dos melhores textos do caderno de artes e espetáculos do “Los Angeles Times”, Reed Johnson escreveu no início do mês um artigo sobre como a cultura popular americana lidou, em uma década de intensa produção, com um evento que “tirou a vida de quase 3 mil pessoas num espaço de tempo equivalente à duração média de um longa-metragem”. Para Johnson, as obras de maior ressonância foram as que fugiram da pura descrição do maior ataque terrorista da história dos Estados Unidos, encontrando novos significados para o 11 de Setembro de modo sutil, na vida de criaturas reais ou fictícias. </p>
<p>É o caso da narradora e protagonista de “Ao Pé da Escada”, de Lorrie Moore, lançado com toda a pompa nos Estados Unidos em 2009, que agora chega às livrarias brasileiras, pela editora Record. “Sabe que me surpreendi com as referências ao 11 de Setembro que apareceram o tempo todo nas discussões em torno do livro? Estava interessada nos oito meses que se seguiram aos atentados. Queria escrever sobre a confiança passiva, insana, que os americanos passaram a ter no governo imediatamente depois dos atentados”, disse a escritora em entrevista ao <strong>Valor</strong>. Nas semanas que se seguiram à queda das torres gêmeas, o então presidente George W. Bush chegou a ter 90% de aprovação popular, de acordo com pesquisas de opinião. </p>
<p>Escritor mais festejado da literatura contemporânea americana, Jonathan Lethem escreveu para o suplemento de livros do “New York Times” um texto deslumbrado sobre “Ao Pé da Escada”. Para o autor de “A Fortaleza da Solidão”, Lorrie consegue fazer que o leitor reflita sobre o 11 de Setembro e suas sequelas com tamanha delicadeza que se contrapõe ao tratamento dado “a essa página ainda não encerrada da vida americana, muitas vezes tratada por artistas como se estivessem usando um taco de críquete para fazer uma cirurgia do coração”. Primeiro escritor vivo a ganhar a capa da “Time” em uma década, Lethem escreveu ainda que Lorrie é a “escritora americana mais irresistível do momento”.</p>
<p>“Ele é um escritor talentoso e cerebral, mas se me conhecesse pessoalmente não escreveria isso. Fico matutando o que exatamente ele quis dizer ao qualificar meu trabalho de ‘irresistível’ ”, reage com humor a contista e romancista de 54 anos, cabeça de um dos laboratórios de criação literária mais disputados do país, o da Universidade de Wisconsin-Madison. “Ao Pé da Escada” é narrado pela jovem Tassie Keltjin, filha de um casal luterano-judaico do Meio-Oeste americano, estudante universitária e dublê de babá, e trata das modificações em sua vida no outono de 2001.</p>
<p>Suas relações com o irmão mais novo, com o casal Edward e Sarah — às voltas com um burocrático e doloroso processo de adoção de uma criança —, e até com seu primeiro amor, Reynaldo, que finge ser brasileiro para conquistar a atenção da protagonista, traçam uma história de amadurecimento forçado de uma jovem da América profunda, enquanto seu país se vê igualmente forçado a reinventar-se. </p>
<p>“Creio que nações, como seres humanos, estão sempre amadurecendo. A memória, no entanto, é curta, e sofremos com as constantes bravatas e a falta de cuidado de nossos líderes”, diz a escritora. Lorrie, que cresceu no Estado de Nova York e trabalhou como assistente de advogados no sistema judiciário em Manhattan, antes de se tornar conhecida com seus contos publicados na “Paris Review” e na “New Yorker ”, vê a distância geográfica como um aspecto positivo de sua caracterização do cotidiano americano pós-11 de Setembro. “O Meio-Oeste é o grande celeiro de soldados para as Forças Armadas desde a Guerra Civil. Basta um passeio pelo cemitério militar de Vicksburg, à beira do Mississippi, para ver que ainda é assim”, diz.</p>
<p>Um dos fantasmas enfrentados pela protagonista de “Ao Pé da Escada” é o racismo. O bebê adotado por Sarah e Edward é descendente de negros, exatamente como o adolescente adotado na vida real pela escritora. Lorrie diz que o 11 de Setembro potencializou discussões sobre assuntos fundamentais para a sociedade americana, incluindo a xenofobia e o racismo. Em uma entrevista, ela chegou a dizer que o tema central de seu primeiro romance em 11 anos é o ódio. “O racismo sempre fez parte da sociedade americana, e, embora tenham ocorrido muitos avanços, ainda há muito a fazer. O 11 de Setembro expandiu, a meu ver, os preconceitos raciais que já estavam presentes no país”, diz.</p>
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		<title>Epidemias do Crack – nos EUA e no Brasil</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Sep 2011 19:43:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[CARTA CAPITAL]]></category>

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		<description><![CDATA[A Carta Capital colocou hoje no site da revista reportagem minha sobre a epidemia do crack nos EUA nos anos 90, em que procuro mostrar, com a ajuda de dois... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/09/duas-epidemias-do-crack-nos-eua-e-no-brasil/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Carta Capital colocou hoje no site da revista reportagem minha sobre a epidemia do crack nos EUA nos anos 90, em que procuro mostrar, com a ajuda de dois especialistas, um brasileiro e um americano, as semelhanças e diferenças com a atual explosão do uso da droga no Brasil do século XXI. O texto também está nas revistas Carta Fundamental e Carta na Escola.</p>
<p>Aqui:</p>
<p><strong>Não foi tão diferente assim</strong><br />
Eduardo Graça, de Nova York</p>
<p>Há um natural fascínio da sociedade americana pela explosão do consumo do crack no Brasil, onde o número de usuários beira os 600 mil, segundo estimativas do governo federal. A epidemia do fim dos anos 80 deixou cicatrizes nos Estados Unidos e não é mero acaso a sequência de reportagens sobre a multiplicação de cracolândias em publicações como o Los Angeles Times e o Miami Herald. A partir de 1984, juntamente com o aumento do consumo da droga, houve um crescimento sensível de crimes violentos especialmente em grandes centros urbanos como Nova York, Los Angeles, Washington, Filadélfia, Baltimore, São Francisco, Boston e Seattle. A experiência gera na mídia ianque certa preocupação: até que ponto a exportação do fenômeno à maior economia latino-americana, três décadas depois, pode aumentar os riscos de segurança para turistas interessados em conferir a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016?</p>
<p>A crescente apreensão da droga em território nacional é considerada uma conexão direta entre as duas epidemias. Os números impressionam: pela primeira vez na história o Brasil ultrapassou os EUA. Só na cidade de São Paulo aumentou, entre 2006 e 2009, de 595 para 1.635 quilos por ano. No Rio de Janeiro, no mesmo período, as apreensões quintuplicaram, de 546 para 2.597. “Exatamente como nos Estados Unidos, a partir do segundo governo Reagan, as autoridades brasileiras vêm anunciando um aumento até cinco vezes maior na apreensão de crack”, aponta o sociólogo Jeffrey A. Butts, diretor do Centro de Pesquisas do Colégio John Jay de Justiça Criminal, parte da Universidade da Cidade de Nova York, respeitada instituição na área do estudo de políticas públicas dos EUA.</p>
<p>Para o antropólogo Osvaldo Fernandez, professor-visitante, até o ano passado da Escola de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia, em Nova York, o aumento expressivo do uso de crack no Brasil está diretamente relacionado a uma geração que, em resposta ao HIV, trocou produtos à base de coca injetados na veia para o cheirado (cocaína) e o fumado (crack). Como esse último é mais barato, o mercado popularizou-se e atingiu as camadas mais miseráveis da sociedade brasileira. “O crack passou a ser usado como um estimulante que retira a sensação de fome de amplos segmentos do proletariado dos grandes centros urbanos”, explica o hoje professor da Universidade do Estado da Bahia, autor da tese de doutorado Coca Light? Usos do Corpo, Rituais de Consumo e Carreiras de Usuários de Cocaína em São Paulo.</p>
<p>O estigma social do crack também é destacado por Jeffrey Butts, que critica o que classifica ser uma tendência da mídia brasileira de transformar a droga na vilã da história. O mesmo erro, segundo o sociólogo, foi cometido pelos EUA: “Ainda tratamos o problema sob o ponto de vista criminal. Começamos agora a abordar o tema de uma maneira mais, digamos assim, europeia, como caso de Saúde Pública. Mas em momentos de pânico, como no dos surtos epidêmicos, continuamos caindo na tentação de enfrentá-lo do ponto de vista criminal, o que só piora o cenário”.</p>
<p><strong>Internação compulsória</strong><br />
Tanto Butts quanto Fernandez refutam a ideia de tratamento forçado de consumidores de crack implantada no município do Rio de Janeiro desde maio. “Há uma valorização exagerada do fetichismo do produto e um desaparecimento do sujeito, ao excluí-lo do controle de seus desejos, suas práticas, sua autonomia frente ao crack, na linha do que Marx definiu como reificação”, ressalta Fernandez.</p>
<p>Para Butts, que viveu a transformação de Nova York na virada dos anos 90, o programa carioca tem um forte teor de limpeza das ruas: “Quando violência e consumo de drogas se unem, a opinião pública tende a esquecer os direitos dos indivíduos e as liberdades civis e se volta para a polícia e o governo. Adoraria que pudéssemos lidar com os problemas relacionados ao consumo de drogas como fazemos com as bebidas alcoólicas, que, aliás, são muito mais prejudiciais para o organismo do que o crack e a cocaína”, provoca.</p>
<p>No entanto, a realidade dos que vivem nas ruas é terrível. Uma pesquisa da USP revelou que um terço dos consumidores de crack morre por conta da violência em um período de cinco anos. Números que, segundo Butts, devem ser olhados com cuidado. “Não foi o uso das drogas que causou a morte dessas pessoas, mas a legislação voltada para o seu consumo. É uma diferença importante. Se eles pudessem entrar em um centro de distribuição mantido pelo governo, por exemplo, para receber doses não letais, não estariam expostos à violência. As leis antidrogas matam mais que as drogas”, ataca Butts, autor de dois livros sobre o tema e que iniciou a carreira como conselheiro especial em casos relacionados ao consumo de álcool e drogas por jovens no estado do Oregon.</p>
<p>O sociólogo norte-americano também enfatiza o fato de o crack e a cocaína serem drogas ruins, no sentido de que o efeito de euforia gerado pelo consumo dos produtos passar muito rapidamente. “Nos dois casos, o usuário precisa consumir mais e mais. Cocainômanos usam a droga em seus apartamentos, pobres fumam crack nas ruas.” Segundo Butts, a política de criminalização e tratamento forçado, do ponto de vista sociológico e farmacológico, vai na direção errada e afeta desproporcionalmente os usuários mais pobres. Hoje, estima-se que uma pedra de crack seja comprada por algo como 5 reais nas ruas das principais cidades do Brasil. Isso aumenta o número de transações comerciais de um produto ilegal. “Quanto mais transações, mais risco para a violência e possessão de armas”, pontua.</p>
<p>Tais questões relacionadas hoje ao consumo de crack no Brasil não são tão diferentes das enfrentadas pelos EUA. Mas o caminho para o fim da epidemia americana, lembram os especialistas, deu-se tanto pelo aumento de fiscalização nas fronteiras do país – a ONU estima a redução, desde 2006, em até 80% na entrada do produto em solo americano – quanto por uma campanha de conscientização da sociedade civil. “Houve uma geração que viveu na pele a epidemia e eles mudaram suas atitudes diante do crack. Por outro lado, investiu-se pesado, por aqui, em algo similar ao que se fez com relação ao vírus HIV: celebridades informando os riscos gerados pelo comportamento de quem consome drogas como o crack. A publicidade negativa do uso das drogas teve sua importância nessa redução do consumo, muito mais do que a ameaça de pessoas com prisão e/ou tratamentos forçados”, afirma Jeffrey Butts.</p>
<p>p.s: o crédito da imagem principal é de Brenda Ann Kenneally.</p>
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		<title>Histórias Cruzadas</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 18:17:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[O GLOBO]]></category>

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		<description><![CDATA[Coluna PELO MUNDO de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO, sobre o filme-sensação dos EUA no momento e as relações entre patrões e empregadas domésticas, aqui e aí no Brasil:... // <a href="http://www.eduardograca.com/2011/09/historias-cruzadas/" class="read-more">Read More</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coluna PELO MUNDO de hoje, no Segundo Caderno d&#8217;O GLOBO, sobre o filme-sensação dos EUA no momento e as relações entre patrões e empregadas domésticas, aqui e aí no Brasil:</p>
<p>Um dia depois da passagem assim-assado do furacão irene, Nova York acordou preguiçosa, pouco interessada em voltar ao seu habitual corre-corre. Metrô funcionando à meia-boca, linhas de ônibus alteradas, abracei feliz minha faceta andarilho e percorri, a pé, o trajeto de Williamsburg, no Brooklyn, até a rua 54, no coração de Manhattan. Lá fica o Ziegfeld, considerado por muitos o melhor cinema destas bandas, e o destaque da programação esta semana é o filme mais discutido do verão americano, “Histórias cruzadas”, que chega ao Brasil em fevereiro. </p>
<p>A sessão das 17h15 estava cheia. E estamos falando de 1.100 lugares, ocupados por espectadores interessados em um filme sem grandes medalhões de Hollywood, imagens criadas por computador, tecnologia 3D ou super-heróis escalados para salvar a civilização ocidental. Mas o ti-ti-ti depois dos créditos girou invariavelmente em torno da mesma questão: é possível se emocionar com a adaptação do best-seller de Kathryn Stockett sobre as relações de um grupo de empregadas domésticas negras do Mississipi dos anos 60 com suas patroas brancas e, ao mesmo tempo, se incomodar com a desonestidade histórica de uma narrativa recheada de clichês e estereótipos, dando aos personagens brancos, no microcosmo de uma cidade-símbolo do segregacionismo sulista, a primazia de conduzir um dos movimentos sociais mais ricos da história americana?  </p>
<p>Quem matou melhor a charada foi o colunista Mark Harris, da “Entertainment Weekly”. Para ele, a cena mais significativa do drama que há duas semanas permanece no topo da lista dos mais vistos nos EUA é aquela em que uma dúzia de empregadas do gueto negro da cidade de Jackson se reúne na casa de Aibileen, vivida de modo magistral por Viola Davis, e decide dividir suas histórias de terror com Skeeter, a jornalista branca e idealista encarnada por Emma Stone, empenhada em escrever um livro denunciando os abusos cometidos contra as trabalhadoras, a fim de revelar as entranhas do racismo americano. </p>
<p>O encontro, crucial para a trama, dá o que pensar, menos pelo ato de coragem, incitado pela patroa liberal, e mais pela realidade nua e crua ali exposta: onde se escondiam atrizes tão talentosas como Octavia Spencer, Aunjanue Ellis, Roslyn Ruff e Tarra Riggs, que preenchem por poucos minutos a gigantesca tela do Ziegfeld com tamanha intensidade? Viola Davis, a razão de ser do filme, é um monstro. Uma das pérolas do teatro nova-iorquino, ela ficou conhecida do grande público pela senhora Miller de “Dúvida”, quando transformou uma participação de oito minutos em veículo para uma merecida indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. E por que a gigantesca Cicely Tyson não tem um grande papel em Hollywood desde “Tomates verdes fritos”, há vinte distantes verões? </p>
<p>Subitamente “Histórias cruzadas” deixa de ser uma equivocada peça de época para tratar, ainda que sem querer, da desigualdade de oportunidades para profissionais negros na terra de Barack Obama. Harris termina o texto com uma provocação: “Se você se incomoda com este desequilíbrio, vá ver o filme logo. E se, por qualquer razão, este fato não o perturbe, pegue correndo a primeira sessão no cinema mais próximo de sua casa”. Touché!</p>
<p>No “Times”, a socióloga Patricia A. Turner, da Universidade da Califórnia, sublinha a perversidade mais incômoda do filme do diretor e roteirista Tate Taylor: o estabelecimento de uma linha divisória entre “brancos maus, racistas” e os “bons, não-preconceituosos”. O simplismo do blockbuster coloca em um mesmo patamar a vergonha moral das donas de casa intimadas a representar determinado papel social, como a mãe de Skeeter, e o tratamento desumano sofrido pelas negras em tempo integral. Pat Turner reconhece que seus pais ficariam satisfeitos com a melhoria da condição social dos afro-americanos desde os anos retratados por “Histórias cruzadas”, quando, ao lado da mãe, empregada doméstica e negra, decorava os discursos de um certo Martin Luther King Jr. na acanhada tevê de casa. Mas também enfatiza que eles não gostariam de ver aqueles tempos tão difíceis e transformadores pintados a cal de forma tão escancarada.</p>
<p>Não consegui evitar um sorriso de reconhecimento quando Aibileen respondeu para Skeeter, positivamente, em outra cena impactante, sobre a inevitabilidade de seu destino profissional. A avó fora escrava doméstica, a mãe trabalhara na casa da mesma família vida afora. Em criança, convivi com mulheres negras tratadas “como se da família fossem”, agraciadas com um lugar à mesa nas refeições, um quartinho nos fundos, uma vida sexual nula e a certeza de que se dedicariam aos “familiares” até o fim da vida. No momento em que uma inédita transferência de renda modifica sensivelmente a relação entre patrões e empregadas nos grandes centros urbanos brasileiros, “Histórias cruzadas” pode servir, com seus equívocos gritantes e belas atuações, como curioso objeto de reflexão sobre mudanças sociais tão profundas em nossa sociedade.</p>
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