<?xml version="1.0" encoding="windows-1252"?><rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"><channel><title>Efeitos Secund�rios</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632</link> <description>Exposi��o Prolongada � Fic��o Cient�fica - um blog de Lu�s Filipe Silva</description> <pubDate>Sat, 04 Apr 2026 05:27:14 +0000</pubDate> <generator>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/feed.cgi</generator> <language>pt</language><item><title>Se o cavalo n�o se desprende da corda</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1774185351</link> <pubDate>Sun, 22 Mar 2026 17:14:55 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Sociedade</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1774185351</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Se o cavalo n�o se desprende da corda</b> que n�o est� atada a parte alguma, questionemos primeiro a interpreta��o imediata de que num sistema capitalista estamos presos pelas nossas pr�prias convic��es - questionemos efetivamente esta lam�ria de pregui�oso racioc�nio como se qualquer sistema social, mais ou menos sustentado na propriedade privada das coisas, n�o funcione � base de convic��es, como se estas n�o fossem reais cordas que atamos uns aos outros para n�o cairmos no abismo da incerteza - questionemos se subjacente a esta ilustra��o n�o estar� outra pergunta mais certeira, al�m daquela que ainda poder�amos colocar, com legitimidade, se o cavalo foi enganado ou se se deixou enganar, se apenas n�o quer ver - questionemos se o grande problema n�o estar� na falta de alternativas - questionemos para onde iria e o que faria o cavalo que se libertasse da corda e simplesmente denunciasse a imbecilidade da sua condi��o - questionemos quem o acompanharia, quem reconheceria a sua sensatez, como se alimentaria, com quem procriaria, quem sentiria a sua falta ao morrer - questionemos se a decis�o de nos encaminharmos para o emprego todos os dias e vibrarmos com as vit�rias de clubes que n�o retribuem � sociedade todo o amor que esta lhes d�, e nos indignarmos com minud�ncias, n�o se trata apenas do encolher de ombros, de seguir os outros, da falta de vis�o colectiva em criar melhores circunst�ncias de existir.<p><blockquote>Furthermore, the workers learn that the ends of the cables connected to the factory cameras exist in a void. This makes them question what kind of system they actually work for. At the film�s end, the workers� roles in the system are questioned again when Zait realizes that the end of a rope tied around the neck of a weak horse in the factory area is not connected to anything. Even though the horse is not tied up, it cannot escape. <b>�zg�r �al&#305;&#351;kan, �Retro dystopia in Turkish cinema�, in Science Fiction Film and Television 16.1-2, Liverpool, 2023, p.130.</b></blockquote><p>]]></content:encoded> </item><item><title>Tempos houve em que fui mais exigente</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1772975587</link> <pubDate>Sun, 08 Mar 2026 16:47:11 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category></category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1772975587</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Tempos houve em que fui mais exigente</b> que diplom�tico. Este n�o seria o ditado que o presente mim faria sobre aquela �poca, sobre o que se tinha e o que era poss�vel. Mas aqui por sua parte o des�nimo da falta das condi��es iniciais, do terreno que faltava cavar e encher de sementes, mas que come�ou a ter campas. E porque n�o seria tal des�nimo t�o leg�timo quanto o acreditar? Porque (resposta) isso conduziu ao desistir, ao afastamento. Baixar os bra�os de quem esperava ter merecido outro presente, com sabor a futuro, no m�nimo. Agora que este futuro sabe a passado, apetece-me reescrever aquilo que foi, por muito que entenda a desist�ncia. H� no entanto que fazer as seguintes repara��es: que aquele Agosto foi um m�s complicado, feito de cansa�os e mudan�as - de emprego, de casa, de vida. Que aquele ano confirmava o fim da fic��o cient�fica portuguesa na qual se investira uma d�cada e muitos sonhos: do projecto Caminho e do projecto Simetria e do projeto Cascais - e todo o tanto esfor�o feito! Sem este triunvirato, o futuro voltava a ser bafiento. Depois deste texto, surgiriam a �Eventos�, o compromisso com o digital, a tentativa da cole��o Devir, formas de sobreviver. Os saltos acontece quando caem as pontes. Fica aqui uma fotografia do que ter� grassado as p�ginas da <i>Paradoxo</i>, essa outra revista da qual s� restam ru�nas. Ressalva: n�o se pense que n�o ressurgir�o textos assim.<blockquote><p align="center"><b>A Festa de Baco</b></p>Numa procura (desesperada?) de inspira��o para este artigo, encontro num dicion�rio de sin�nimos (o �nico tipo de dicion�rios que, por v�rias raz�es, se encontra neste momento ao meu dispor) as palavras que podem acompanhar de bra�o dado, em conversa, o termo mais precioso <i>Tert�lia</i>; s�o elas: assembleia, cavaco, embriaguez. Passando por cima da terrivelmente �bvia conota��o pol�tica, o termo mais interessante � sem d�vida o �ltimo. Embriaguez - efectuando uma re-interpreta��o sem�ntica sobre o passado, olhando para tr�s em perspectiva, considerando a cena em que o grupo se encontra reunido e a c�mara, imersa na ac��o, come�a a abrir o plano, a afastar-se, a separar-se do acontecimento, tornando-se em reflex�o e futuro, mostrando que o narrador �, afinal, mais velho do que nos tinham feito crer, que � tudo mem�ria e saudade, que a banda sonora se ergue acima das vozes e fala do outrora em lamentos de violino - perd�o, a frase j� vai longa. O que pretendo dizer � que, pensando bem no assunto, embriaguez � uma defini��o t�o mordaz quanto certeira, e consegue aquele efeito que os ingleses t�o bem definem de <i>hits too close to home</i>.<p />Considerem: estamos no final do mil�nio. Esquecendo as tretas dos convencionismos acad�micos, � no ano 2000 que o futuro acontece, sendo 31 de Dezembro de 1999 a data final de um s�culo que viu parir a dita civiliza��o-como-hoje-a-conhecemos. No 31 de Dezembro de 2999 (se ainda existir esta conven��o para datas, o que duvido muito), tudo ser� diferente, de uma forma que nem 10 gramas de �cido lis�rgico puro conseguem fazer adivinhar. Neste final de mil�nio, vivemos para o vazio. Situamo-nos eternamente numa praia, � beira de �gua; a tarde est� a cair, e a mar� a encher: apressamo-nos a construir os nossos castelos de areia. Ficam sempre incompletos, tamanha � a nossa pressa. S�o t�o imponentes e magn�ficos, e no entanto, vejam como tombam ante a m�nima brisa; como se encolhem perante o beijo suave das ondas. Nesta analogia veraneante, o mar � obviamente o tempo: ub�quo, teimoso, deixando apenas a descoberto os primeiros quil�metros da sua infinita extens�o. E n�s, no final deste s�culo, somos insectos assustados com o cair da noite, bichinhos que aprenderam finalmente como funciona o mecanismo do pr�prio corpo (e se aperceberam que as ervinhas dos curandeiros afinal n�o faziam l� muito efeito�), que se convenceram de que podem mudar o processo do mundo que os faz nascer e os faz morrer; estes insectos renegaram a religi�o, o sagrado, o filos�fico, a paci�ncia, a doutrina, a antiguidade, a heran�a, o exemplo do passado - tudo pela promessa de serem imortais atrav�s da tecnologia. Porqu� perder tempo com poesias se a pr�xima hora passada em laborat�rio nos aproxima mais um pouco do Grande Objectivo? � tudo terrificamente l�gico em termos evolutivos. E eis onde isto nos trouxe:<p />H� uns meses atr�s, os olhos do mundo foram colocados no c�u, para receberem a gl�ria do grande sol negro - uma forma po�tica representar um eclipse. Durou pouco mais de duas horas, como devia durar, considerando a velocidade de rota��o da Terra a par com a da Lua, num exemplo rotineiro do consider�vel profissionalismo com que as leis naturais prometem e cumprem.  A par disso, houve milhares de p�ginas de textos repetidos, ma�udos e intermin�veis sobre o assunto, dezenas de horas de transmiss�o televisiva e via internet, relatando, a cada instante, que a Lua estava de facto, sim, Mike!, a atravessar o globo, sim, e havia nuvens, sim, e agora como se encontra?, um grau para a direita, continua a atravessar o sol, que belo, falemos agora com esta senhora, xim, extou a gostar muito, tenho � medo que os raiox xolares ponham a arder aqui a florexta, que esta coixa do eclipxe � um perigo!, obrigado, voltemos ao est�dio, como est� o sol?, cada vez mais pequeno, est� conosco um especialista da Universidade, Dr. Blindfold, diga-nos, doutor, como se sente neste grande dia?, bem, meu caro Steve, se algo neste momento explodisse no outro lado da Lua e a afastasse para sempre da Terra, aposto que voc�s iriam acompanh�-la, em directo e sem interrup��es, durante os vinte anos em que demoraria a atravessar o sistema solar.<p />Sente-se uma enorme necessidade de comunicar e utilizar os brinquedos que invent�mos, e t�o pouco para dizer! A ra�a humana est� finalmente a descobrir que a  fat�dica lei dos 90% tamb�m se aplica a si: 90% dos seres humanos s�o banais, ap�ticos e completamente desinteressados, limitando-se a contribuir para a diversidade gen�tica, e pouco mais. N�o merecem nenhum dos incont�veis segundos do Big Show Sic nem uma homepage no Geocities. O vazio do pensamento tem de ser preenchido com ru�do, pois o volume da m�sica continua muito baixo (e no meio desta enorme verborreia com que vos estou a ma�ar, n�o cumpro o meu objectivo inicial, embora me tenha aproximado um pouco mais da Verdade).<p />E a Verdade � que a embriaguez �, afinal, o estado natural do ser humano. Refiro-me ao sentido mais lato e existencialista poss�vel. Como dizia Koichi Tohei no livro Aikido in Daily Life, �As nossas vidas s�o uma parte da vida do universal. Se n�s percebermos que a nossa vida vem do universal e que viemos existir neste mundo, devemos ent�o perguntar-nos a n�s mesmos por que � que o universal nos deu vida. Em japon�s, usamos a frase <i>suisei-mushi</i>, que significa ter nascido embriagado e morrer enquanto ainda se est� a sonhar, para descrever o estado de ter nascido sem compreender o significado disso e morrer sem ter chegado a compreend�-lo� (n�o li o livro original; esta cita��o foi retirada literalmente da edi��o portuguesa de <i>Time Storm</i>, do Gordon R. Dickson). O Oriente sempre soube desta li��o, o Ocidente � que fingiu que n�o percebia. O despertar est� na inf�ncia, quando somos colocados, virgens e inocentezinhos, na cruel gaiola do mundo humano. Tudo � novidade. Tudo � descoberta e algum sofrimento. � medida que o tempo avan�a, as oportunidades encerram-se. Come�amos a pensar de mais, e como dizia o Fernando (o Pessoa), distrac��o � igual ao pensamento vezes responsabilidades ao quadrado. Sentimos que os dias se tornaram em colec��es de pormenores mesquinhos e ef�meros, e que nada faz sentido - at� ao momento em que nos deparamos perante o Grande Nada� Se a vida fosse um livro, tinha sido escrito pelo Harold Robbins. Se fosse uma novela, est�vamos no momento em que a Regina Duarte, tendo vivido no meio de uma favela durante os seus primeiros trinta anos, descobria que era, afinal, vocacionada para dirigir uma revista de moda para executivas.<p>	A �nica solu��o � a embriaguez. Embriaguez em todas as suas etapas. A noitada com os amigos: vertigem, tontura, felicidade, loucura. Ou: o fundo do copo num bar a cheirar a azedo: olhos raiados de sangue, h�lito podre, vergonha de encarar a fam�lia. Ou: as m�os que tremem pela manh�: comanda agora todas as ac��es, est� acima da individualidade ou do orgulho. Ou: o estado anterior ao coma: o momento de gl�ria em que o indiv�duo percebe ter atingido, ap�s tanto e tanto esfor�o, o extremo da surdez espiritual em rela��o a tudo o que o rodeia, atingiu o limite, j� n�o vai poder voltar atr�s. Nesse momento, surge o primeiro sorriso de genu�na felicidade: � Robert de Niro a mirar-nos na cena final de <i>Era Uma Vez na Am�rica</i>�<p>J� n�o nos deslocamos l� por causa do vinho. Falo, obviamente, da fic��o cient�fica. Esse vinho costumava estar presente nos jantares de outrora, que terminaram algures numa transversal da Avenida da Rep�blica, no saudoso m�s de Janeiro de 1996, antes de Cascais se intrometer. O vinho corria pelas gargantas, fazia crescer, dourava as noites. Agora, vamos l� apenas para beber, e n�o interessa muito o qu�. � verdade que percorremos um longo e dif�cil caminho. � tamb�m verdade que estamos cada vez mais b�bados, quase a perder a consci�ncia.<p>�L� refere-se, obviamente, �quela Associa��o que nasceu da necessidade de uma promessa de gl�ria que nunca chegou a ser cumprida, mas pela qual ainda se luta. Alguns dos sonhos que a pautavam: a uni�o de v�rios clubes e f�s dispersos pelo pa�s; as iniciativas de publica��o; o malogrado Almanak, um nome que surge das profundezas do tempo; as entrevistas; a consagra��o dos nomes; o despertar, dif�cil mas conseguido, da FC falada em portugu�s, sem legendas. Resultados?<p>O Terrarium foi um <i>major flop</i>. A Editorial Caminho ainda n�o encontrou uma raz�o nova para acrescentar � familiar lista que tenta explicar a actual situa��o do mercado livreiro, mas insiste corajosamente nos mesmos motivos. Ningu�m falou do bel�ssimo livro do Daniel. Ningu�m quer dar dinheiro para os Encontros. O Pavilh�o do Dram�tico vai ser derrubado. Nas sess�es de escrita criativa, ningu�m acaba por escrever nada. O livro do Causo anda aos pontap�s, ca�do nos honrosos e bolorentos cantos das livrarias, geralmente em exemplares isolados. O Jo�o nunca mais criticou no P�blico. O Lu�s Filipe Silva promete que escreve e n�o escreve. A C�u tamb�m n�o. Se n�o fosse o destemido Macedo, a FC j� tinha morrido neste pa�s.<p>Mas tamb�m � verdade que: ningu�m l�. Ningu�m compra livros. Ningu�m quer saber, perceber ou interessar-se por autores, temas, discuss�es ou ideias novas. Os 90% vieram todos passar f�rias alargadas neste pa�s. Escrevemos para o nada, existimos para o nada - est� patente estas palavras, que deviam elogiar mas est�o a sair-me com o acre gosto da ironia. Acontece que o bafo sabe-me a vinho podre, pobre, daquele que � vendido nas tabernas prolet�rias.<p>AS TERT�LIAS! Pe�o desculpa, quase me ia esquecendo. As sextas � noite, em que nos reunimos em fam�lia. Interessantes e animadas. Uma excelente iniciativa. Recomendo sempre que posso aos amigos, embora eles nunca queiram ir. Devem ser continuadas, refor�adas e cada vez mais animadas. Pronto. Posso ir-me embora?<p>Mais?<p>O que vou dizer mais? Que o c�u � azul?<p>Sim, o c�u � azul, julgo que estamos a ficar cansados de falar para n�s pr�prios e de rodarmos � mesa, julgo que dev�amos escrever as apresenta��es e edit�-las em livro.<p>Algo menos �bvio? Devia retirar uma brilhante conclus�o deste discurso intermin�vel?<p>Vou ter ent�o de recorrer � FC, e apresentar um presente alternativo.<p>Nesse presente alternativo, a Simetria estende-se a in�meras partes do pa�s, ligada a clubes e s�cios cujas iniciativas apoia e divulga. Os Segundos Encontros foram um grande sucesso, de tal forma que o financiamento passou a ser privado, e acordou-se um protocolo com uma institui��o banc�ria nacional. A Associa��o ocupa uma loja t�rrea numa praceta discreta mas acolhedora, que � frequentada por entusiastas fan�ticos, que v�o jogar Magic, ver um filme novo ou ler o �ltimo livro que entrou na biblioteca. H� sempre f�s e s�cios nos espa�os de lazer da loja, a discutir e � espera, ansiosos, que surja um dos escritores portugueses. S�o f�s muito jovens, que se entusiasmam facilmente, mas � agrad�vel sentir tanto interesse e carinho pelas palavras que muito custou aos autores colocar no papel. Sorvem as palavras destes como se fossem ensinamentos. Conhecem bem a FC, pelo que � preciso ter-se muita aten��o para n�o incorrer em erro e provocar discuss�es. Ante tamanha expectativa, os autores sentem uma responsabilidade adicional sobre as costas. T�m mais cuidado quando escrevem. Escrevem, pois sabem que ser�o lidos. As paredes da loja onde reside a Simetria est�o cobertas de pe�as de arte feitas pelos f�s: o mapa da Inglaterra alternativa do T�rcio, a partitura da sonata de cristal, um gr�fico ostentando o ciclo de matura��o e reprodu��o dos vulpis, uma gravura dos samaritanos que habitavam no quarto planeta, a representa��o da festa dion�sica do Pal�cio dos Prazeres, a fam�lia dos Marretas (em bonecos) armada com artilharia pesada, e a capa do �ltimo livro da Maria de C�u - o terceiro volume da saga dos vampiros.<p>Esta Simetria arde ainda numa lareira que se vai apagando, nas brasas de carv�o que ainda aquecem mas j� n�o cortam o frio da noite� (met�fora pirosa! Vou recome�ar o par�grafo) Nesta realidade em que vivemos, o dono est� ca�do no sof�. A garrafa pende-lhe das m�os. Cheira a vomitado, e saliva escorre-lhe lentamente pelos cantos da boca. Est� t�o b�bado que n�o percebe que deixou a porta aberta, e a chuva torrencial entra pela casa dentro, estraga os quadros, mancha as paredes. Dos l�bios, sai-lhe uma cantilena. Pelo menos, est� contente. Fala � vez, como outrora falou nos jantares. Discute consigo mesmo, embora agora seja mais formal, haja uma secret�ria a separ�-lo dos ouvintes e o jantar j� esteja no est�mago. Tamb�m est� mais bem documentado e organizado. Ningu�m o ouve, mas est� contente. Foi a Aveiro. Publicou uns livros. Falou com malta estrangeira. Aconteceu.<p>As tert�lias s�o sextas-feiras � noite bem passadas. Na companhia dos amigos. A discutir temas interessantes. A re-afirmar a raz�o de ser do nosso grupo e da Associa��o. N�o se constroem mundos. N�o se derrubam paradigmas. N�o se vencem batalhas.<p>� tudo o que tenho a dizer sobre as tert�lias.<p>Estou a ser pessimista ou redutor? Ofensivo? Espero bem que n�o. Porque considero que os escritores de FC portugueses ainda t�m muito para dizer. N�o creio que as tert�lias sejam o nosso maior feito, e muito menos o �ltimo. O grande feito foi termos resistido at� aqui, apesar de tudo. N�o precisamos de Associa��es nem de Cascais para continuar a sonhar. A FC vai seguir adiante, e talvez a portuguesa lhe v� atr�s. Quem sabe se n�o surge do nada o tal ilustre desconhecido?<p>Seja como e quando for, sei que iremos a cantar, de bra�os dados e voz possante, trope�ando ao longo do caminho, b�bados que nem cachos. Cantaremos a plenos pulm�es, mesmo que ningu�m perceba o que dizemos e se afaste por causa do h�lito; iremos tr�pegos mas felizes, amparando-nos mutuamente, e se n�o caus�mos impacto, bolas, ao menos fizemos barulho!<p>Deixo-vos com esta imagem, que espero que seja suficientemente positiva. Afinal, temos uma grande tradi��o cultural de bebedeira. <i>It�s the only way to go</i>, como poderia ter dito o Fernando.E tudo aquilo em que acreditamos resume-se � garrafinha prateada que se coloca no bolso do casaco, junto ao cora��o, enchida pela manh� com os nossos sonhos e a sensa��o de que chegou finalmente a nossa vez, e da qual vamos bebendo ao longo do dia para aliviar um bocadinho cada hora que passa. N�o se deixem enganar pelo tom melanc�lico: Nicolas Cage, quando Morreu em Las Vegas, estava feliz.<p><p align="right">Agosto de 1999</blockquote><p>]]></content:encoded> </item><item><title>Aquilo que realmente interessa,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1768062474</link> <pubDate>Sat, 10 Jan 2026 19:12:37 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category></category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1768062474</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Aquilo que realmente interessa,</b> e nada nada nada mais.<p align="center"><video  width="500px" height="500px" playinline controls><source src="/images/18172485652337600.mp4"            type="video/mp4">Navegador incompat�vel com v�deo.</video></p>Oxal� assim fosse.]]></content:encoded> </item><item><title>Dos Ant�podas, coment�rios sagazes.</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1768061216</link> <pubDate>Sat, 10 Jan 2026 19:05:45 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category></category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1768061216</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Dos Ant�podas, coment�rios sagazes.</b> Pref�cio de Damien Broderick a <i>Centaurus - The Best of Australian Science Fiction</i>, 1999. Negrito meu. <blockquote><br/><i>No Australian employing the multiple tongues of science fiction has written so well out of his native experience as Linebarger [Cordwainer Smith] did from several visits. Nor is it sufficient to retort that the genre is, after all, <b>an instrument for amplifying American accents</b>. It is that, but <b>more deeply</b> it's a transducer of the technological experience: the myth of the man/transistor interface. <b>Our aspirations are linked ineluctably with the machine</b>, with what the machine has done to and for us and our world. We all press our mouths to the grease-nipple; for us, pity and terror are newly shaped, and <b>can benefit from new means of expresson</b>.</i></blockquote><p> ]]></content:encoded> </item><item><title>E como n�o h� uma sem duas,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1746488512</link> <pubDate>Tue, 06 May 2025 03:41:01 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Conto</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1746488512</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>E como n�o h� uma sem duas,</b> embora tr�s fosse a conta certa, outra interrup��o se imp�e para novo an�ncio: que �Ionesco � Solta�, um conto velhinho que recebeu <i>makeover</i> e nova vida, se encontra na segunda edi��o da <b>Pacto</b>, uma revista que est� a dar que falar (e que tem um grafismo invej�vel), iniciativa de um <a href="https://www.mlvieira.com/about-3">jovem grupo coimbrense</a>.<p></p><p align="center"><img border="0" src="/images/pacto2.jpg" width="170" height="253"></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Uma breve interrup��o</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1741391327</link> <pubDate>Sat, 08 Mar 2025 02:41:31 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Lan�amentos</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1741391327</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Uma breve interrup��o</b> no sil�ncio para informar que j� se encontra dispon�vel <i>D�zia</i>, a edi��o comemorativa dos doze anos da Editorial Diverg�ncia, e que cont�m o meu �As Varia��es Eucari�ticas�, texto em parte inspirado n'<i>Os Sonhos de Einstein</i> de Alan Lightman. Como sempre, recomendo o livro pelos outros onze contos dos colegas de antologia.<p><p align="center"><img border="0" src="/images/duzia.jpg" width="170" height="253"></p>]]></content:encoded> </item><item><title>A cr�tica, quer profissional quer amadora,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1736153409</link> <pubDate>Mon, 06 Jan 2025 11:39:36 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1736153409</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>A cr�tica, quer profissional quer amadora,</b> tende a concordar com a opini�o de que <a href="https://www.wook.pt/livro/o-deus-da-floresta-liz-moore/30875353?a_aid=66dc999f97f22" target="_blank">O Deus da Floresta</a> (<i>The God in the Woods</i>), de Liz Moore, � um livro arrebatador, pois n�o se consegue parar de ler. E de facto, foi uma das minhas leituras mais agrad�veis de 2024, s� terminada nos primeiros dias do novo ano (sendo assim, a que lista de melhores do ano pertencer�?...). Insere-se inequivocamente no g�nero policial, no sentido em que h� um suposto crime (na pr�tica, um desaparecimento com suspeita de homic�dio), ocorrido nas primeiras p�ginas do livro, que replica outro desaparecimento ocorrido uma d�cada antes, nas mesmas circunst�ncias, com a mesma fam�lia.<p>Com uma dimens�o invulgar para este tipo de livros - mais de 500 p�ginas na edi��o portuguesa da Asa, tradu��o repartida entre Ana Falc�o Bastos e Cl�udia Brito  -, � marcado por um estilo simples (sem floreados lingu�sticos, nem situa��es abstractas, e um[a] narrador[a] relativamente neutro[a]), embora assente fortemente na t�cnica do <i>flashback</i>, bem como do uso de diferentes pontos de vista (alternamos entre as personagens de cap�tulo em cap�tulo), para ir empurrando o enredo.<p>�, garantidamente, a tens�o criada por esta multiplicidade de vozes (mas n�o diversidade - a voz narrativa sobrep�e-se a todas, harmonizando posturas, dialecto e timbres) que serve de base ao �mpeto narrativo - aliado ao uso de cap�tulos curtos, interrompidos num momento inconclusivo, como quem est� � beira de um fim de caminho, e tendo chegado at� aqui, � obrigado a saltar. <p> V�-se que a autora tem consci�ncia desta complexidade, pois intitula cada cap�tulo com o nome do personagem que o protagoniza, e tamb�m com a indica��o da cronologia completa (ou seja, de todos os momentos temporais abordados pela hist�ria). A t�cnica pode n�o resultar como se pretende para todos os leitores - n�o nos parece, contudo, que o livro sobreviva sem ela, e felizmente a autora, ou quem a assessorou literariamente, teve consci�ncia disso. <p>No final de contas, desvendado o mist�rio (um desfecho que alguns apontaram como insatisfat�rio para a expectativa criada, e que parcialmente � tamb�m a nossa sensa��o), o romance, como tantos outros deste g�nero, vai afundar-se na estante, tendo cumprido a sua fun��o. � o grande problema do g�nero policial, a de n�o criar por norma obras memor�veis, e que s� poucos autores, ao longo da Hist�ria, conseguiram ultrapassar - pela subvers�o do expect�vel, pelo protagonista ou simplesmente, em certos livros, pela situa��o narrativa em an�lise. Mas sobre essa problem�tica, havemos de falar noutra ocasi�o.</p><p align="center"><a href="https://www.wook.pt/livro/o-deus-da-floresta-liz-moore/30875353?a_aid=66dc999f97f22" target="_blank"><img border="0" src="/images/df.jpg" width="170" height="253" alt="Ir para a Livraria"></a></p>]]></content:encoded> </item><item><title>� quase uma obriga��o</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1729377093</link> <pubDate>Sun, 20 Oct 2024 02:21:26 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1729377093</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>� quase uma obriga��o</b> explicar � partida que <a href="https://www.wook.pt/livro/cinder-marissa-meyer/29401889?a_aid=66dc999f97f22" target="_blank">Cinder</a> se trata de uma interpreta��o "moderna" da conhecida hist�ria da Gata Borralheira (Cinderela noutras paragens). A autora, Marissa Meyer, n�o s� admite abertamente a inspira��o como a usa como for�a vital da narrativa, enchendo-a de piscadelas de olho (h� pr�ncipes e reis, h� rainhas m�s, h� sapatinhos - ou um p� inteiro, neste caso - que representam a legitimidade). Mas n�o se fica pelo �bvio, e � neste ponto que o "moderna" se apresenta, com aspas e tudo.<p> Cinder � orf�, maltratada pela m�e de acolhimento que serve tamb�m como sua dona... porque Cinder � ciborgue. Algures no seu passado, e ligado com a perda dos pais, Cinder foi vitima de um acidente aparatoso que lhe destruiu parte do corpo, e para a salvarem, os m�dicos implantaram-lhe substitutos cibern�ticos. Este procedimento m�dico milagroso aparentemente tornou-se an�tema neste mundo, retirando o estatuto de pessoa jur�dica aut�noma a todos os transformados. Uma injusti�a sist�mica que dialoga com as preocupa��es actuais e contribuem para que a resist�ncia individual de Cinder seja tamb�m contra o sistema.<p>A poss�vel leitura pol�tica � distra�da pelo necess�rio conflito que op�e a Terra � Lua, cujos habitantes vivem em col�nias artificiais sob a ditadura de uma rainha ambiciosa. Apesar de mais populosa e cheia de recursos, a Terra est� contudo em desvantagem, pois os lunares adquiriram geneticamente uma forma de controlo mental sobre os outros. Al�m disso, a Terra est� assolada por uma peste impar�vel, � qual os lunares est�o estranhamente imunes. Assim que entra em cena, Cinder nem sequer tem tempo para um mon�logo interior, pois o romance atira-a de imediato no turbilh�o do enredo, atacando-lhe a irm� preferida com a doen�a e revirando-lhe a exist�ncia, desagrad�vel mas est�vel, e colocando-a no caminho de personagens que v�o desconfiar da sua verdadeira origem.<p>O livro � muito divertido e movimentado, embora peque por ser o primeiro de quatro, pois queremos continuar a seguir o rumo de Cinder. Recomenda-se sem reservas, e aguardamos ansiosamente pelos pr�ximos volumes da Kathartika.<p><p align="center"><img border="0" src="/images/cinder.jpg" width="200" height="288"></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Comparar os dois v�deos seguintes,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1728128852</link> <pubDate>Sat, 05 Oct 2024 15:44:46 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1728128852</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Comparar os dois v�deos seguintes,</b> em que se toca a composi��o <i>Water Walk</i> de John Cage (e ouvir a descri��o categ�rica do t�tulo: �It's about water and I walk�, que encosta a um canto tanta sobranceria criativa) - compar�-los, dizia eu, no tempo, no local, na forma de apresenta��o, na receptividade, e apreciar a dist�ncia que esta obra percorreu, aquilo que ensinou, a forma como transformou e se transformou no mundo, o respeito conquistado, �, para mim, um exemplo objetivo e inquestion�vel de verdadeiro sucesso art�stico.<p><p align="center"><iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/gXOIkT1-QWY?si=fVBwAEvKGA-ZWFyR" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p><p align="center"><iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/8vdFesRSfuk?si=fegp8QflWmOpT7jt" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Uma das sess�es mais aguardadas,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1727652863</link> <pubDate>Mon, 30 Sep 2024 03:27:33 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Eventos</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1727652863</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Uma das sess�es mais aguardadas,</b> e permanentes, do F�rum Fant�stico fala sobre recomenda��es de livros - porque de livros se formou o evento, originalmente, h� dezenove anos (ou vinte, contando com a edi��o zero na FLUL), e de livros se sust�m muito ainda (aos quais se vieram entretanto juntar outras express�es art�sticas, demonstrando que o fant�stico em l�ngua portuguesa � multifacetado e cada vez mais se mexe). Nesta sess�o, tr�s palestrantes digladiam-se simpaticamente numa mostra sucessiva de obras que amea�am as carteiras dos presentes. Este ano contou com a presen�a de Cristina Alves, Jo�o Campos e Artur Coelho, e as lista de cada podem - e devem - ser consultadas <a href="https://osrascunhos.com/">aqui</a>, <a href="https://sobreiromecanico.tumblr.com/post/762542355307954176/f%C3%B3rum-fant%C3%A1stico-2024-sugest%C3%B5es-de-leitura">aqui</a> e <a href="https://intergalacticrobot.blogspot.com/2024/09/forum-fantastico-2024-as-escolhas-do-ano.html">aqui</a>. ]]></content:encoded> </item><item><title>Muito se fala</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1727649531</link> <pubDate>Mon, 30 Sep 2024 02:37:31 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Sociedade</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1727649531</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Muito se fala</b> sobre o contar de hist�rias. Que � uma arte. Que s� alguns conseguem. Que foi assim que a literatura come�ou, a contar hist�rias � noite, em redor da fogueira. O que � estranho, porque n�o � depois o que se vangloria na dita alta literatura. Os nobeis n�o s�o page-turners. O Saramago n�o era famoso pelos epis�dios de suspense. Borges n�o tem uma merecida fama pelos enredos surpreendentes. Estes fazem reflex�es, retratos de �poca. Coisas que nunca se dir�o do Martin, por muito que este convide � reflex�o e seja obrigado a descrever um mundo e uma �poca inventados. Nele, a hist�ria prevalece, e ofusca tudo o resto. Dizemos isto � boca cheia, sem pensar muito no assunto. N�o faz tudo parte afinal da hist�ria? O que distingue uma coisa da outra? A hist�ria usa verbos, a reflex�o adv�rbios? Uma tem mais di�logos, a outra mais par�grafos? O passar do tempo vai contra o momento de pausa? Uma vende, a outra nem por isso? Uma coisa � certa: h� um truque. � preciso saber fazer. Pessoa nunca contou uma hist�ria decente. As livrarias e o youtube est�o cheios de ensinamentos sobre estruturas e abordagens. A jornada do her�i, os 7 passos, os 11 passos. Protagonista, antagonista, avan�ar, recuar. Boy gets the girl. Girl get the job (at Prada). Dito assim, convida ao bocejo. E contudo, as hist�rias movimentam multid�es e estas milh�es. Procuramos ainda hoje as fogueiras. E - pasme-se! - nem sempre � para assistir ao pr�ximo auto-de-f� virtual.]]></content:encoded> </item><item><title>Temos esta mania</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1725199184</link> <pubDate>Sun, 01 Sep 2024 17:00:43 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category></category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1725199184</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Temos esta mania</b> de marcar recorr�ncias no calend�rio, pois n�o h� maior ang�stia que a de n�o se poder regressar ao onde por onde pass�mos, n�o obstante o facto de existirmos num universo que isso nos nega categoricamente (pois avan�amos em torno do sol que avan�a em torno do centro gal�ctico que avan�a por esse v�cuo fora, e at� o pr�prio v�cuo se expande - e daqui, a constata��o de que aquele local, aquela coordenada, nos escorre pelos dedos como todos os segundos de todas as horas). Mas � desta mania que se aviva a mem�ria e se criam (artificiais) linhas narrativas entre o que fomos (e deix�mos de ser) e o que (um dia) seremos. O �ltimo dia de Agosto assinala aparentemente esta esp�cie em extin��o que se chama weblog, que em portuga se pode verter em rumina��es verborreicas, talvez n�o t�o nutritivas quanto outras rumina��es mas sem d�vida mais sadias do que as chispalhadas das redes sociais. E como h� que saudar estas discretas celebra��es, segue aqui o nosso erguer de champanhe, de um blogue (termo aportugamentacizado) que entretanto se tornou (suspeitamos) um servi�o de inutilidade social, a quem ainda por aqui resiste:</p><p>Um viva a <a href="https://lampadamagica.blogspot.com/2024/08/wbd.html" target="_blank">outros</a> que teimam ainda, e um aguardar pelas prometidas novidades.</p><p>Outro viva a quem <a href="https://sobreiromecanico.tumblr.com/" target="_blank">fazia falta</a> e discretamente regressou, com a sua vis�o indispens�vel.</p><p>Um terceiro brinde a quem <a href="http://mundofantasmo.blogspot.com/2024/08/5097-traduzir-e-perder-3182024.html" target="_blank">n�o desanimou</a>, demonstrando a potencialidade desta plataforma para perpetuar o formato cr�nica, outrora imprescind�vel nos jornais (e tanto que estes perderam).</p><p>Um quarto louvor �s <a href="http://mensagensdohiperespaco.blogspot.com/2024/08/lancamento-materia-dos-sonhos-e-medos.html" target="_blank">not�cias al�m-Atl�ntico</a>, outro dos blogues imprescind�veis do nosso burgo.</p><p>Entr�mos em passo de corrida acelerado no decair de mais um ver�o, que ser� em breve o final de mais um ano. Ao envelhecermos, o tempo acelera, ora bem. Os presentes ventos frescos n�o querem obedecer aos ditames do aquecimento global (estar� avariado? Ou ser� pela falta de garantia que nos livraremos de um infernal destino?). No Porto, <a href="https://feiradolivro.porto.pt/">apregoam-se livros</a>, ide compr�-los. Por aqui, uma chamada ao filme <i>Furiosa</i>, que muitos detestaram (sinal de que levam demasiado a s�rio o que, j� na sua �poca, tinha ar de adapta��o de banda desenhada p�s-apocal�ptica, sem paradoxalmente esta existir). Porque ia � cautela (e ir � cautela n�o � a mais saud�vel sauda��o a uma obra de arte), entranhou-se-me � for�a, e porque se me entranhou � for�a, criou respeito. Foi um regressar ao <i>Mad Max 3</i>, no sentido em que a hist�ria est� muito consciente da sua pr�pria mitologia, a que anteriormente criara (cada filme tem uma abordagem narrativa distinta, o que torna esta saga muito apelativa para a an�lise cr�tica), e portanto, permite-se exagerar, simplificar, distorcer, contradizer, escudar-se da perfei��o - e sendo uma hist�ria-de-origem, evitar um final em absoluto. Afinal, nunca se entendeu porque � a gasolina mais procurada do que a �gua, em paisagem ermas.</p><p>E por falar nestas, fiquemo-nos com vis�es de outras, que <a href="https://pluralistic.net/2024/01/09/astrobezzle/#send-robots-instead" target="_blank">possivelmente jamais habitaremos</a>, embora a FC continue a crer que sim (esta iludida Humanidade!), n�o esquecendo que tamb�m aqui � domingo, quinze minutos no passado.</p><p align="center"><iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/L3CHvi7iCM8?si=851h_ZVSukhzvP_T" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>]]></content:encoded> </item><item><title>O sil�ncio do blogue</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1722079342</link> <pubDate>Sat, 27 Jul 2024 15:21:26 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1722079342</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>O sil�ncio do blogue</b> � o sil�ncio da FC. N�o que FC seja tudo o que existe, mas uma casa tem entrada pela porta e arejamento pelas janelas. N�o que a vida seja uma casa, ainda que tenha, de algum modo, paredes e quartos, dos quais surge uma certa compartimentaliza��o - palavra assaz demorada - � mistura da pr�pria mistura, e entre os quais se salta com a facilidade - tamb�m dita inevitabilidade - do passar do tempo. Em casa, tudo comporta uma fun��o, inclusive decorativa, e daqui talvez decorra a perfeita analogia com a vida. Falta equiparar o telhado, que na casa protege, mas na vida, talvez oculte: a vis�o do c�u, de altos objetivos, pois sem nada para ver no cimo, os olhos caem inevitavelmente para o soalho, ali ficando. O telhado � assim in�spito � vida no longo prazo, que no curto, sob si se abriga. Mas n�o ser� a pr�pria casa in�spita tamb�m, com as suas paredes e delimita��es? Esta quest�o conduz a outra, mais reveladora: se retirarmos as paredes, e pusermos a cobaia em pleno campo aberto, n�o ir� esta agir como se as paredes ainda existissem, dobrando esquinas invis�veis e usando uma pequena fatia de espa�o para entrar e sair da cerca que n�o h�? Pode a cobaia contrariar h�bitos entranhados e adoptar outros? Claro que sim, acontece quando se tem fome e frio. O corpo pede quando a mente teme. Fome de ler, mas n�o h� FC. Ou FC da boa, da antiga. Ou h� muito de muita coisa outra. O demais � por vezes excessivo. N�o pela escolha, mas porque entope e h� que escoar. E depois, � disso que se fala. Sem se saber muito falar, mas fala-se. Um certo queixar de barriga cheia, tamb�m cheia de gases, mais inchada que nutrida. Outra houve, em tempos, uma FC que resolve problemas e se desfaz de obst�culos. Obst�culos, h�-os em todo o lado e conv�m ir em frente, mesmo que se pisem calos, s� para se ir. Agora n�o se vai, questiona-se, e ningu�m decide. Falou-se, calou-se o sil�ncio, mas sem haver FC, na verdade, nada se disse.]]></content:encoded> </item><item><title>Manifesto a desfavor</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1708211212</link> <pubDate>Sun, 18 Feb 2024 02:03:15 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1708211212</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Manifesto a desfavor</b> dos manifestos.<p>N�o � liberdade para dizer que sim!<p>N�o � ditadura das manh�s! Queremos dias que comecem � hora do ch�, ou terminem antes de almo�o; dias feitos apenas de tardes e crep�sculos. Queremos janelas entaipadas e luzes acesas at� o sol ir bem no alto, e saudar com um �bom dia� quem apare�a a meio do ser�o para o pequeno-almo�o. Porque h�-de a meia-noite estar condenada a acontecer em plena escurid�o? Que venha �s tr�s da tarde, se lhe aprouver!<p>N�o � pris�o do espectro que submete as cores � sua ordem! Que se torne verde cor prim�ria, e que se fa�a do azul, o primeiro da sequ�ncia � ou ent�o o �ltimo �, e se ponha no centro o violeta, para lhe dar oportunidade de brilhar.<p>Pela emancipa��o das notas musicais! Fa�a-se cada uma, livre e solta, desligada das pautas e divorciada das escalas, senhora do seu destino, sem que a considerem um passo interm�dio entre outras duas quaisquer.<p>Contra a hierarquia das letras, que dita quem se pode agrupar e quem jamais se junta! Torne-se o �J� vogal, ande o �T� de m�os dadas com o �F� e o �Z�, ponha-se a mai�scula no final da frase em vez de no come�o. E contra a exclus�o dos acentos e sinais de pontua��o! Que sejam considerados membros de pleno direito dos alfabetos, uma vez que contribuem em igual medida para a legibilidade dos textos.<p>Contra a tirania das capas que oprimem o miolo dos livros! Porque se afirmam representantes, mesmo que mintam; porque se adiantam ao texto e prometem o que nunca consentiram as respectivas palavras; porque s�o descart�veis e mudam de edi��o para edi��o, ou at� pulam para outro livro, com a infidelidade que se lhes conhece; porque se apropriam do prest�gio do f�lio e se pavoneiam � apenas elas � em todos os an�ncios e montras.<p>Fa�am-se porta-vozes as folhas em branco, e secund�rios, os t�tulos!<p>Fa�am-se livros s� de notas de rodap�, aut�nomas e independentes, como h� muito merecem! E em nenhuma parte destes livros se inscrevam nem se relembrem os dominadores excertos de base que a elas remetem.<p>N�o � subservi�ncia dos afluentes, esses fluxos menosprezados impedidos de ascender a outra categoria, como se existissem para o mero enriquecimento dos rios em que desaguam!<p>Contra a ditadura vertical das escadas! Porque h�-de ser a horizontalidade apan�gio dos passeios? Porque negar aos degraus a ondula��o da vida, que, sim, sobe e desce, mas tamb�m recua e caminha em c�rculos? E se o universo � tridimensional, porque equacionar as subidas com sin�nimos de �xito (e tamb�m li��es de queda), enquanto as descidas s�o a temida via para os infernos?<p>N�o � insist�ncia dos caminhos em determinar destinos! Que seja de quem caminha a decis�o de por onde ir.<p> Contra as curvas, por imporem desvios aos prop�sitos rectos e confundirem os sentidos! Por obrigarem a seguir para os lados, e por vezes retroceder, quem s� pretende avan�ar. E nesta l�gica, contra as rectas tamb�m, pela sua entediante e banal previsibilidade que n�o encerra mist�rios nem desafia o esp�rito humano!<p>Contra o ir antes do voltar! Que tenhamos por op��o chegar sem nunca termos partido.<p>N�o �s consequ�ncias! Sem estas cr�ticas sentenciosas, todos os actos seriam puros, inocentes, ing�nuos ou inspiradores.<p>A favor da transitoriedade dos nomes pessoais! Porque manter o nosso nome � um nome imposto por outros, antes de se dominar sequer o dom da fala � ao longo de uma vida que, por defini��o, n�o � imut�vel? Varie o nome ao sabor das etapas da vida, dos gostos, humores, ideias, ou das simples horas do dia.<p>N�o aos guarda-chuvas, �s galochas e sobretudos! N�o �s sand�lias e aos fatos de banho! N�o �s camisolas e �s saias e �s cal�as! N�o � roupa em geral, que se intromete na conversa entre o corpo e a natureza de onde nasceu.<p>Em defesa do desfecho desgarrado, da conclus�o finalmente solta dos argumentos, do final sem in�cio! Que possam mostrar o seu valor, saindo da sombra de tudo o que os precede e que nem sempre lhes faz jus.<p>Contra a exclus�o do que se omite! Porque no pouco est� o todo, e no pequeno est� o grande, tal como est� no pequeno e em tudo de interm�dio, e que, n�o sendo dito e considerado, sedent�rio se torna, e logo esquecido, e logo incompleto.<p>E por fim, n�o a tudo o que atr�s foi dito! Que venha o fim das imposi��es e o descasar dos �tomos e a explora��o infinita do individual, na consagrado mistura a livre palavras novo que alcan�ar um das sentido consiga mundo para justo verdadeiramente!]]></content:encoded> </item><item><title>Ler � um acto solid�rio.</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1692542835</link> <pubDate>Sun, 20 Aug 2023 18:46:26 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1692542835</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Ler � um acto solid�rio.</b> <p><p align="center"><iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/_guKhYVr5vA" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Assim em Fran�a como...</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1691406011</link> <pubDate>Mon, 07 Aug 2023 14:58:46 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1691406011</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Assim em Fran�a como...</b> Negrito meu. �Il n'est donc pas exag�r� de dire que, globalement, les traductions de l'anglo-am�ricain font vivre les collections de science-fiction des �diteurs fran�ais et que la <b>publication d'auteurs fran�ais est largement au prix de celle des auteurs am�ricains</b>.� (Gouanvic, 1994).]]></content:encoded> </item><item><title>Quando Waters se p�e a balir</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1679244159</link> <pubDate>Sun, 19 Mar 2023 20:16:26 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1679244159</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Quando Waters se p�e a balir</b> durante os acordes de abertura de �Sheep� (<i>Animals</i>), a t�o �bvia associa��o com os despojados da sociedade que nem requer explica��o, confesso que me encolhi de constrangimento. Se por um lado, � admir�vel que um artista defenda as suas met�foras ao extremo, por outro, estando o magn�fico ecr� suspenso repleto de ovelhas voadoras, aconselha-se um pouco de subtileza para ajudar � digest�o. Que vida foi a tua, cantor, que te faz imitar um ruminante diante de milhares de espectadores em plena terceira idade? Bem, e depois surgiu o bal�o em forma desse animal a rodopiar sobre a plateia, dando uma volta completa ao recinto, e eis-nos mergulhados em pleno imagin�rio pinkfloydiano.<p>As legendas esclarecem que o �lbum foi concebido em homenagem a Orwell. De facto, as refer�ncias aos porcos, aos c�es e �s ovelhas abundam, e ajudar� ao entendimento algum contacto pr�vio com o <i>Triunfo dos Porcos</i>. Ouvi com interesse particular, por ser a primeira vez que retornava �s composi��es desde que <a alt="Livro" href="https://www.wook.pt/livro/o-triunfo-dos-porcos-george-orwell/24763120">traduzira o livro para a Livros do Corvo</a> (publicado durante o frenesi que se seguiu � entrada das obras em dom�nio p�blico), e queria aperceber-me se a minha reac��o mudara. Mas Waters optou pelas pe�as mais sinf�nicas, e a mensagem esbateu-se. Considero <i>Animals</i> a segunda obra menos marcante da pentalogia final (ap�s <i>The Final Cut</i>), e sobreviveu principalmente pela imagem ic�nica do porco sobrevoando a central el�ctrica de Battersea. Sinto agora a falta de um tema dedicado ao cavalo Maci�o.<p>Que temas pol�ticos fa�am parte do arsenal de Waters n�o espantar� ningu�m. Por outro lado, que a sua abordagem seja superficial e demag�gica, com fortes inclina��es esquerdistas, � talvez o mais apropriado a um roqueiro: se Bono e Waters e Geldorf tivessem realmente um pendor estadista, fariam com�cios e n�o espect�culos. Ainda assim, n�o se lhes pode censurar os idealismos, porque tamb�m os tivemos, quando �ramos jovens e a m�sica representava um estado de gra�a, uma forma de imortalidade perene, a que desaparece com o retorno do sil�ncio. N�o mud�mos o mundo como sonhado, pois este pesa e h� (espanto!) quem empurre do lado contr�rio. N�s evolu�mos para vers�es c�nicas e desencantadas - ou desconfiadas das cren�as -, mas as can��es da nossa adolesc�ncia cristalizaram no tempo, obrigando os seus criadores a uma eterna rebeldia que, com a repeti��o, se mecaniza e nega a espontaneidade de nascen�a. Aquilo que <i>This is not a drill</i> nos oferece � uma reinterpreta��o - uma mudan�a subtil da mensagem de algumas m�sicas, ins�lita e inesperada por, precisamente, as modernizar, e neste processo, dar-lhes barbas e cabelos brancos, traz�-las novamente para a nossa beira.<p>A mudan�a come�a a sentir-se logo ao in�cio, quando Waters se senta ao piano colocado em palco e, exibido em grande plano pelas v�rias c�maras dispostas ao longo do per�metro sob o controlo magistral da regie, apresenta a sua proposta da noite: estamos todos juntos num bar. O que h� num bar? Um espa�o intimista em que nos podemos sentar, tomar um copo, conhecer pessoas e conversar. Falta-nos muito conversar, afirma aquele que, no in�cio do espect�culo imp�s com veem�ncia, a quem discordasse das suas opini�es pol�ticas, que �bazasse� do recinto (�fuck off to the bar�, para ser mais exacto. Roger says �fuck� a lot). E depois apresenta a primeira parte de uma pe�a nova, composta �durante o Covid�, que integrar� um futuro �lbum. � Waters vintage, com as habituais diatribes sobre a insensibilidade da guerra (�napalm com cornflakes�), a viol�ncia policial (com v�rios exemplos retirados da imprensa, ainda que limitados ao mundo ocidental, porque s� n�s � que somos maus), e a explora��o pelos ricos (evocando o epis�dio dos Water Protectors em Standing Rock)... mas o tom tornou-se quase resignado, em vez da den�ncia irada; qual s�ntese de si mesmo, nos temas e at� nos acordes e na estrutura, cujo encerramento ilustra um posf�cio, ou �ndice, do muito que j� se disse. Eis um <i>homem com uma miss�o</i>, como diriam os seus conterr�neos.<p>Mas entretanto chega-nos a viragem ins�lita. Waters faz de Syd Barret o Mois�s do seu percurso musical - foi ele quem lhe afastou as �guas da d�vida, embora nunca visse a terra prometida -, e usa o ecr� multim�dia para conversar conosco, contando uma hist�ria de origem, a de dois amigos com um grande sonho. E termina: �When you lose someone you love, it does serve to remind you: this is not a drill.� A m�sica �, obviamente, <i>Wish You Were Here</i>.<p>Estamos assim perante um Waters contemplativo, sens�vel... manso? � dif�cil relaxarmos na presen�a de um urso, mesmo quando n�o ruge. Ausentes dos rol de fotografias, mem�rias, agradecimentos e men��es, ficaram David, Nick e Rick, como se Pink Floyd fosse um sonho breve.<p>N�o obstante, a percep��o crescente � que estamos perante um espect�culo muito menos agreste e revoltado que o anterior, <i>Us + Them</i> - este, sim, menos rock que com�cio, excessivo e inclusive desagrad�vel... t�o desagrad�vel que quase recusei repetir a experi�ncia (e n�o fosse a idade avan�ada do artista, talvez optasse por ficar em casa). Imagino que Waters n�o ficou insens�vel �s reac��es intempestuosas que ent�o despoletou, ou algu�m pr�ximo lhe bichanou ao ouvido que devia mudar de tom, que pensasse no legado, e ningu�m atura velhos rabugentos. L� tentar� abordar o tema da Ucr�nia - parecia mortinho por faz�-lo -, mas a mera cr�tica � NATO, perto do final, rapidamente o convence de que os portugueses n�o v�o naquelas cantigas, e volta logo ao report�rio para n�o estragar a magia da noite (n�o sei o que ter� acontecido no espect�culo seguinte).<p>A cenografia � absolutamente espantosa, com um palco no meio do recinto, completamente cercado por p�blico, em forma de cruz, sobre o qual pende um ecr� cont�nuo de igual formato. Neste, <i>close-ups</i> em tempo real dos v�rios membros misturam-se com uma sequ�ncia de imagens em que se completa e reinventa o tema das m�sicas. Se �Bravery of Being Out of Range� � Waters igual a si mesmo, conotando os presidentes americanos de recente data como criminosos de guerra, mas omitindo qualquer refer�ncia ao actual carniceiro dos Urais, j� a nova vers�o de �Us + Them� torna-se um espantoso hino � diversidade, ao encher o ecr� de pessoas: rostos humanos. Desaparecem, a seguir, e d�o lugar ao tri�ngulo prism�tico de <i>Dark Side of the Moon</i>, que enche o recinto do ch�o ao tecto, meia d�zia de prismas de um lado ao outro do palco. Sobre o ecr� negro, surge um tra�o que o vai queimando como um <i>laser</i>, e que a seguir se transmuta: � agora batimento card�aco, a seguir, muda de cor, duplica e triplica, forma um arco-�ris, e por fim, desdobra-se em padr�o xadrez multicolorido, no qual reaparecem os rostos. Uma evidente, e po�tica, express�o de uni�o na diferen�a. O espectro da ra�a humana. E no entanto, canta-se �Brain Damage/Eclipse�, h� muito criada sob outro espectro, mensagem de aliena��o e loucura. Est�o a gozar conosco? Mesmo na d�vida, as palmas s�o inevit�veis.<p>Retoma o triste �The bar�. Explica demoradamente de que �roubou� dois versos a uma can��o de Bob Dylan, e dedica-o � esposa. Ficamos tamb�m a saber que o irm�o mais velho faleceu no in�cio do ano - e quando surge a fotografia da fam�lia, vemo-lo como o sobrevivente final daquele pequeno n�cleo, aquele que acabaria sozinho. Canta novamente sobre o epis�dio marcante da sua raiva, e consegue ser ainda mais pessoal do que anteriormente. O irm�o chegou a conhecer o pai. �I was mercifully spared / Of the moments that they shared / 'cause I was only five months old when Daddy died�. O ecr� cobre-se de fumo, apaga-se, tamb�m o cantor morreu.<p>Termina-se �outside the wall�. Tal como o melhor �lbum de sempre - mas este, o muro final, � intranspon�vel. Resta apenas o legado, a mem�ria, e a insist�ncia da den�ncia. �Some stagger and fall, after all it's not easy�. Pois, mas como reconheceste atr�s, �it's so easy to get lost, isn't it?�.<p>Bem, regressaste, Roger. Mesmo se for por pouco tempo, e n�o por completo, ao menos uma parte de ti regressou. J� t�nhamos saudades, artista.<p align="center"><iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/RSBClxK3WOw?controls=0" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>]]></content:encoded> </item><item><title>Se o pecado que podemos cometer com a grande literatura</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1676825105</link> <pubDate>Sun, 19 Feb 2023 19:41:33 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category></category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1676825105</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Se o pecado que podemos cometer com a grande literatura</b> � de ignor�-la, quando surge, a sua virtude - ou inef�vel milagre - � o de conseguir renascer, qual semente que aguarda no solo gelado pelos raios anunciantes do Estio. Mas <i>Stoner</i> teve de esperar primeiro pela transposi��o da barreira da linguagem de modo a ressurgir em for�a, como merecia. Seria o outro lado da cerca menos in�spito? Que ir�nico uma obra americana que trata da paix�o pelos livros e pelo conhecimento ter de receber da velha Europa o reconhecimento devido pela sua maestria. Porque � de paix�es que este livro trata. O momento em que <i>Stoner</i> se apercebe do amor pela literatura � de uma beleza singular, descrita com precis�o e pragmatismo. Tivessem os romances de cordel igual maturidade emocional... mas quem sabe se podemos sentir por um ser humano, algu�m que se mexe, reclama, tem mar�s, padece de humores, muda com as esta��es, tanta intensidade de sentimento como a que nos desperta um texto escrito? Objecto talvez inanimado, im�vel, constante, mas tamb�m, que nunca se cala, que ressuscita ante a mais simples leitura, reagindo ao espa�o e ao tempo com o mesmo fervor dos seus pares mais recentes, qual solu��o qu�mica exposta ao ar. Afinal, � eterno e n�o sabia. Haver� maior amor que o sentido pelas infinitas possibilidades dos par�grafos? <i>Stoner</i> mostra-nos que n�o. Banal foi a sua vida - excepto nos livros, e � com um livro que a dele termina, um livro nas m�os, sempre um livro nas m�os, a capa que se fecha, �ltima p�gina lida, um suspiro ausente. Na sua mundanidade, alcan�ou a gl�ria. Deixando o personagem uma discreta marca, na forma de um par de obras de juventude, ligeiramente elogiadas, embora vincadamente ignoradas - contudo, quem sabe o que lhes acontecer� depois do final, na sequela que, espera-se, jamais se fa�a? Quem sabe que p�s-vida ter�o, ainda que a vida dos livros s� termine quando queimado o �ltimo exemplar? Devia <i>Stoner</i> ter sido um protagonista mais exigente, ambicioso, aventureiro? Acontece que a alma condiciona as nossas escolhas, e os caminhos que trilhamos s�o os da voz do narrador da nossa vida. Ele optou pelo enredo conhecido, porque quis descobrir o pr�ximo cap�tulo, n�o desistir a meio. E depois, terminou, como todas as hist�rias. Como todos n�s. Obrigado, John Williams, por apontares t�o factualmente, mas de forma perfeita, aquilo que nos une. Nunca saber�s que <i>Stoner</i> foi a tua Katherine. Mas ela voltou para n�s. Sim, ela voltou.<p align="center"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/QVvDv5M6Jl-NK6eAMvdCwaMyi3kfaBPZybC-3HaVtFHSwyOKMc2SzbxJMAnSXAfFcmUh2okIapb7D08gisl2TPqsC6wIpNIoCNNi3vtUapwcepnLYSV-O9CaizrINh8p9g8rOMI934iyVJfi9Dd_cty2ycRNb3oXXvf1TzNk3294ss7g8M5-pbRCy7BwXm4Ai9KE9fS1EtycW-aSQqCRTAFJU9iLZF3pPvj32GarVsjjWajpNTG_plD1VKmcMyKx4sMVv0zQy99lw9x1C3BNADEN_5mIuWn6twonmbFEtSdXiRTChmQXuZUT1CeI2nT0dqP1zQ87dm2ka9gARdmjcUEZN-zmAzUzNV-Ej3o1WSS1mfOsl8pfKG6Zhkv4pZcELi02zl5pCr370LRg5hIryi6XXrT5vLdX8eKfmWHKpmgULGe3lPjvu2It0M6hwOdaCJT-NBebnlwLtOuD3cSgwVy7F14By2iR52T-xjC9V3FzXPLI0HiBklLu8rZrEd3gv3nbJWKnm4l8TDqQsPwnNfUlvF5P-lC_uYvRwMfkpUKjnnFe6U9oBVuSr7ymslqjExd_eG9814mrDoG3WY8cX3VbaXmvGiKGCodE08AFmT8JwJ5IGNUdN2naIf9cN0dM6mJhvptYgCCPJa4PGyf9GeSs3RlvtCoTT79chzFkn7CG7ihLRAS1zWpqbYszRdilX0_ZYtiLAm_zHRuM5PQ3hK3Q3LTiy165oFxibjUDiLHhdSVYXvEjBnH3_AObozq8nWDYSioozkKVLIJTfVtePTWX9St2d2J5FHvWtDg_qj_39K26189QHOXR9W-QVwwmrVHIZFWdkKyq5BBENhzP5iAPZ8TgDLRjQ1WmQbRUQD2ien6Vs7JgG6H7LivUxuEyfNhTNQANYJ_QXJh0Zh19_JARONTlUxs3VZyCsD5-JiZHNw=w177-h284-no?authuser=0" alt="capa do livro"></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Para que serve o �C�none�?</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1676222877</link> <pubDate>Sun, 12 Feb 2023 20:24:23 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1676222877</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Para que serve o �C�none�?</b> N�o, n�o questiono a necessidade de haver obras c�lebres, porque todos precisamos de refer�ncias, de pontos de encontro, nem que seja para melhor nos desentendermos, mas, sim: para que serve a edi��o da Tinta da China, assim denominada? E porque motivo (que n�o o provocativo para chamar a aten��o e ganhar uns cobres - falo de motivos <i>liter�rios</i> leg�timos) teve este t�tulo? Se a pr�pria introdu��o avisa que �(...) n�o vale a pena procurar nele o c�none da literatura portuguesa�, n�o seria mais apropriado cham�-lo �N�o o C�none�? Mas, se o �, porque � o nome que lhe deram, ser� esse fantasmag�rico c�none o dos autores de quem aqui se fala, ou os autores que aqui daqueles falam? E quem os escolheu, a uns e a outros? Menos claro: a quem se destina o livro? Para leitores que deviam conhecer, � partida, todos os autores aqui debatidos? N�o ter� sido para descobri-los que, precisamente, esse leitor ter� adquirido o livro? E porque motivo somos lan�ados, em certos epis�dios, no meio da selva, em contra-insurrei��es de guerrilha antes de conhecermos sequer os lados e os ideais? Afinal, havia guerra? A import�ncia de Herculano � medida pelo que Te�filo pensava dele? E porque h�-de ser Te�filo uma autoridade nessa mat�ria? N�o conv�m perceber, primeiramente, quem foi Herculano - o que comia, o que vestia, se arrotava ap�s a ceia? Que document�rio ignor�mos, que podcast nos passou ao lado? Ficaram-se as orienta��es editoriais pelo caminho? N�o merecia o Jorge de Sena melhor sorte - uma primeira introdu��o � sua obra e preocupa��es, antes de ouvirmos as suas lamenta��es pela presumida falta de reconhecimento em vida? E defend�-lo com excertos dos seus textos, que o artigo sobre Espanca, apesar de resvalar para igual pecado, ao menos aplica como reden��o? Sejamos justos: porque n�o usar textos de todos estes autores, junt�-los no palco, conceber um livro  polif�nico, apaixonado, em que cada qual defende, como sabe e pode, o seu talh�o? Faz sequer sentido discutir as indiferen�as coevas de obras que sobreviveram � morte do autor, sabendo que de outras, talvez ent�o populares, n�o se fala? (Fernando Namora, anyone?) Se quaisquer discuss�es sobre c�nones pretendem criar mais perguntas do que respostas, eram estas as perguntas que queriam despertar? E para concluir, podemos, por favor, ter um livro apenas com artigos do Miguel Tamen, dos poucos que, aqui, brilharam como p�rolas - infelizmente breves - de equilibrismo entre sabedoria e sensatez, articulando perguntas dif�ceis e essenciais sobre a literatura, e alguns dos seus atletas, com a leveza aparente de que s� os mestres s�o capazes?<p align="center"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/HenIvgQts3lAfjL45hhAw8ZkeJb54QR1G6o1ftvOD9Qk_xaJDF0_nMXE7RGfxq8Z9MSK21lRXT9NQikn528RXfOM8ih0lDjPoPZwB_0mMPHtZa9zqiCwf3dDyvwvPS-pgtEFEASeMLEYvvoVhu9HjaNw0ekJzHmYQZLrJxevejzKHXcrUH1pKMMNKLNGq6471q0wX85TFDyyj3ISFC3B18lei8LUlXNByNTXRuaTM1qlXzPnKv7B7UFlErIsmN0GGMFax0c9_CfrmubK0cV5VVX52QkqFLZ9o81P-OzzAwfmGlMkXKESV0YJK0Vy8kGV3RQoLB9XSzxnFoM7UDGFl0cwJxTG8Wda9vKedXO5LTjSM4drx2TEf8QX63V5pdco7ITQjpMEAuCgWg0ZQcw1M0lY39gm2vRQvzdMdc1GBVwtjpat3YzSt04evauUsgWGxaFxg0qcrs8Is1phx7qiTtDoFJNG5lfwmuZq0Y-VivUTZfU35UFwNdNuVF1ey183-ZwzokqEc2QMMpmK9BqnHykH5Jde6ki4_DULh7f-5BoYYlW2o9w7jY_rj2j5fx_n0W9AhY7zXhgCbk1YWNar75JCzX6LDPhNPfSFbFCc7kLG8tQOBa7gUlvdT2pCWChlg-NqG8PPKkTxuleQiQ4KjDFKFfW2GiUfVx0yDZ_6YARcVuCGTfmceoXoTPLmyAG7La2DrPNhSLJRuwcFna5Uhc7b7LszeO-3ZbG_2WIIluZKWGQkpjG-qm-iowEszx4SH48GoSArgVM8oMSw8p2aUYBpK-6LNaOspt8F1hS2t-SdCuV8TnKFovSLMatFU54peoxK-eq137DRMEr6gGh2mp_D8vsCKOpHJPJ1ATj-SCtINZK_c2gFOna4Eruis3e6EP7SQ7RA1UXqN3CL1F_MqB_i0mcjWST0wprrwplz5RiBjg=w196-h300-no?authuser=0" alt="capa do livro"></p>]]></content:encoded> </item><item><title>Eis a primeira resenha</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1674950700</link> <pubDate>Sun, 29 Jan 2023 03:03:08 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1674950700</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Eis a primeira resenha</b> do ano, numa leitura que n�o despertaria interesse, se n�o tivesse escutado uma palestra do autor no �ltimo festival de FC em  Avil�s. Obra e criador s�o dois seres irmanados, mas n�o realmente g�meos, sendo a primeira fruto de um necess�rio compromisso entre vontade e capacidade, uma negocia��o de caminhos, e o segundo moldado por tudo o que se lhe imp�e, como a sociedade, a condi��o humana, a vida. E contudo, ditadores e outros quejandos sempre tenham procurado calar a obra pelo amaldi�oamento de quem a fez, com a habitual justifica��o de uma pureza do pensamento (t�cnicas apropriadas entretanto pelas pol�cias colectivas dos supostos bons costumes, e de quem lhes d� ouvidos e autoridade). Que a associa��o com ditaduras tenha sido t�o imediata revela, talvez, o cancro �bvio que assombra a Utopia descrita em <i>Ceifador</i>. Tradu��o de uma s�rie juvenil (por moda, dizemos agora jovem-adulto, mas o que � este, realmente, sen�o um adulto pleno que ainda n�o se cansou de o ser?) em que os seres humanos vivem para sempre, por obra e gra�a de uma medicina milagrosa que tudo repara (cair de um arranha-c�us � t�o irrelevante quanto fazer um golpe no dedo, e at� se desperta com mem�rias intactas!), arriscando, portanto, esgotar os recursos da Terra e encher o planeta de membros desta esp�cie teimosa. A solu��o para o excesso populacional? Ora, � tornar as pessoas volunt�rias � for�a no jogo da extin��o pessoal - por outras, palavras, mat�-las. Entra em cena uma casta de assassinos que dita o fim dessa medicina milagrosa capaz de recuperar o corpo, nas v�timas por si escolhidas. Agindo sob um sistema de quotas, esta premissa faria as del�cias de qualquer assassino em s�rie - ou n�o, talvez a obriga��o transformasse um <i>hobby</i> em trabalho, tirando-lhe o gosto... Os praticantes dessa Ordem chamam-se Ceifadores, e a pr�tica da ceifa, uma colheita - op��es de tradu��o adequadas e que ficam na mem�ria. A Hist�ria atribuiu-lhes imunidade praticamente total, pois matar ceifadores � pun�vel com uma colheita imediata, a n�o ser que estes se suicidem. Mas at� isto acontecer, s�o obrigados a ir matando sem piedade.<p><p>O que dizer desta premissa? Para come�ar, � uma interpreta��o curiosa, e bastante c�nica, dos futurismos juvenis que se multiplicaram nas �ltimas d�cadas, apresentando-nos o que LeGuin chamaria de utopia amb�gua: a perfei��o com odor f�tido. � um futuro particularmente s�dico, e possivelmente traumatizante, pois a morte de um amigo ou familiar, se causada por m�o humana e escolha deliberada (em vez de ser uma caracter�stica inevit�vel da vida), deixaria marcas na sociedade - ali�s, o pavor de quem se cruza com um Ceifador � repetidamente descrito. Estamos perante um custo obrigat�rio sem contrapartida imediata, apenas uma abstracta promessa de efici�ncia, tal como o pagamento de um imposto... sendo o causador da morte conhecido, caminhando impune e em liberdade, e capaz de vingan�a se contrariado. Um pre�o demasiado alto - parece-me - para a aceita��o de uma exist�ncia imortal, criando elites que a negam. � de admirar que n�o se ergam vozes dissidentes (ou ficou a revolta relegada para os pr�ximos epis�dios?).</p><p>O enredo centra-se na educa��o de dois jovens escolhidos para aprenderem estas artes, uma vez que se ingressa nas fileiras por convite e m�rito; ambos ter�o de sobreviver �s prova��es daquela vida e engolirem a mentira - que colher � um acto humano e justo - que sustenta a sociedade. Eis a consequ�ncia �bvia: a actividade atrairia psicopatas, que aqui se retratam como sendo os Ceifeiros que colhem vidas alheias com prazer e para ganhar poder e fortuna - e o fazem tamb�m de forma colectiva, em espa�os p�blicos, como forma de espect�culo. Perversamente, o livro faz-nos crer que este acto � menos humano que a elimina��o do indiv�duo isolado, como se esta escolha n�o se entenda mais pessoal. E tanto mais perverso �, que as mortes acontecem de forma brutal, com dano f�sico, em vez da pac�fica eutan�sia adoptada em <i>Soylent Green</i>.</p><p>� imposs�vel concluir a leitura sem sentir um gosto amargo, n�o obstante a simplicidade da escrita que faz passar p�ginas com facilidade. Shusterman sabe o que faz, sendo este o primeiro de uma trilogia. Numa era em que tanto se fala de sa�de mental, esperemos que os habitantes deste mundo encontrem paz de esp�rito.</p><p align="center"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/BDfd7F6-9qh_WqtlRLPv6a-EpnDN7uOWj8Gf1dwPrZPFCsBoICL1P95Cd7JOUbzq0rkpKhCQrKOa08EjY69ZsxzEQRDgmkLq2GxWrX8DWpuJaHogdLdgodOByWUHAe1C09NwduOB-KoIxvyNkGbXGvyJ4iU2-nX0w1CK5nE6IzzNk7L_9DoQcuourCTlpuJiIByKlAj74Jns8VqThyVR_42PUJeb9l5eX0DIRhmjolAdL_Slcg0N7nsPY7nSyEQhzcKgNqEUwHlvYUqwj-T4eQPkiFC6DNfW5vTYGr2C_QIb4spM1HwfjN6U7WhtV1V26zrXcPkY-5x4Qs6QWJdGapRbtYPDHz4DJZ7vkCSQJ6iR-UY81utItYqsjykg7h6UUOfDaayaClHocBJId0dsb2wHyLaPJxf9zfQKHu8NDyk40UPDlY1AqsZ7ygbE5NBWnDleERrAXz_AiSrVWgPv_GuWpO3zX3XY73BS5L-IoP84HwgkC8Ip5J3ZkFbS3QG7d2Usg86U40LwlqYl71ptmflsDc9wp-GmrCcRo61HI6YdgEZpL7pnVRel9p7NanFsstqmJB2cRjNSl_H6yBg11RHUANkzD7zdJVWtOEUMBzgUVfGgOPF23EeQkS83wRanA801H3NEyWJj-o72Pg6hYsR-lnHJeQMNjjEfr9BGdNQwk7ENAT8RoUpphoPHqSuN81rpR4Are61OA9u31NxBRb0Yh0qpBN5tg4OmNB3iUSHACN100Nr84HNDpqqfNoxYlSEBwgIhEVRnQHErs7LKOooOOOWECGLP6rueKMUBwEJ51WvID3B3JWzHticyr3KzNGmTiGqAiBOQVY6gSikpOPh_TIN7fBh81k9cudNk_aw-Bq25k3tM6WdO8QZ1VxcNecrzZr03RuGLQEE2dzw-H41EoUmLQA3sRz5FtdNVSRyEIN0MJg=w446-h675-no?authuser=0"> ]]></content:encoded> </item><item><title>Ap�s o final da grava��o,</title> <link>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1673865403</link> <pubDate>Mon, 16 Jan 2023 13:27:23 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cr�tica</category> <guid>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1673865403</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Ap�s o final da grava��o,</b> em curta mas amena cavaqueira, l� acabei por perguntar ao Brian Jay Jones se ele teria omitido alguma passagem controversa da vida do Lucas, uma vez que o sujeito em causa era t�o �bem comportadinho�. Aparentemente, o tema mais vincado da personalidade em quest�o � precisamente o controlo, a necessidade de estar ao leme, o que, para um autor, n�o � minimamente pol�mico, mas a norma. Tamb�m aqui a necessidade, para o bi�grafo, de manter o interesse, quer o da sua pesquisa quer o da leitura alheia. O primeiro filme da <i>Guerra das Estrelas</i> - ou <i>Guerras Estelares</i>, se quisermos traduzir � letra - teve um desenvolvimento ca�tico, mas se o resultado acabou por ser revolucion�rio foi sem d�vida tamb�m pela conjuga��o dos talentos de outros, um dos quais a pr�pria esposa, Marcia, experiente em montar os filmes de Scorcese e, segundo o livro, tendo feito v�rios contributos essenciais (a morte de Obi-Wan, o conflito final, a navega��o pela trincheira da Estrela da Morte) que deliciaram plateias mundiais no ano impossivelmente distante de 1978 (e que merecia ser biografada por m�rito pr�prio). J� disse e repito: o primeiro epis�dio � um grande filme com uma p�ssima hist�ria - e ainda assim, toca uma s�rie de acordes emocionais b�sicos que deixaria o seu charme num rapaz de oito anos. Por muito que agora saiba relativizar o fen�meno, a verdade � que cada novo filme da saga (e s� deixei passar o <i>Imp�rio</i>, que vi depois do <i>Regresso</i>, e n�o fiquei impressionado) definia a vanguarda dos efeitos especiais. A obra em quest�o apresenta Lucas visto de fora, uma vez que o pr�prio negou acesso directo ao bi�grafo e, portanto, tornou o projecto �n�o autorizado�, com o seu qu� de intimidat�rio, pois aborda um multimilion�rio em vida que tem um particular gosto por controlar tudo (este coment�rio estar� na entrevista). No entanto, � uma pena que n�o se tenha podido abrir a cortina, e entender as influ�ncias principais do primeiro filme (h� quem alegue um decalque de Kurosawa, o que, por mim, me parece uma influ�ncia excelente para uma <i>space opera</i>). De entre as curiosidades reveladas (que Harrison Ford podia ter seguido uma carreira de carpinteiro, por exemplo), espantou-me descobrir que o principal segredo do enredo - o Darth Vader ser pai do Luke - n�o constava das ideias iniciais, uma vez que, para mim, e para o meu pai, que me levou � estreia, a rela��o adivinhava-se � dist�ncia, por ser t�o �bvia naquele tipo de filmes (sim, percebi-o naquela idade). O livro � agrad�vel de ler, e quando entra nos cap�tulos dedicados aos filmes, ganha ritmo - o pr�prio Brian admitiu que estruturou o texto com truques de fic��o, para manter o interesse. E para todos os efeitos, � um fen�meno do nosso tempo.<p align="center"><img src="https://lh3.googleusercontent.com/xgY04S9cXA1qZ-Jm33kcNDRXOJn8Ea9ddPquXjgW_XsXuzCgJYZ1UnphrJkXbAmO_7AgGmmjY0qSNxSkB9q9X_ZIfI2gy_pVUnuA-W0iuRYA9z7SFY-xmoacUHRGJeHg-RhDd1rkZIZ6tikJji1Oh3gpieJfvtZYuAJq3F95l5_nC7dqqMsWi2pvbqMim7V0sXo0RJH5g9U6zD5fivHoTIBOoYM8ceLdAAjzNhpeiWFPQnDH_NfrzyL-wpFqGcLshOcNvBhDr9rUzTyukz8v7fWqzsvpViQxlED3p37xnx-nuX5Ct9DFRS6HgXVK9u4sAFxU21aPU0BPa11Jkg-IoXcQVwdgkREaaXaMsa4XjaRH8RnXgLB0RLbm3gNWPNTap7tNgR5HZOcIAXocLTlwRG7vc31211j5XN6BPuYrvfZ1LQJjOFfWh4iCUAAbV67Bjz_kbbI1-PCuuXcDX9dfMw_UfNvSRY7yJjQQedQZlgM6f2VsvyormE_YiUXXCJsjEgc4ZARxUpid4rUeBnIZ-4mS3Xu0noQn1MGoJt3HOtNg-3rI0sy0_-fasKB42oLLG6767brUwYJk4OaWPnV5lbh6--v5AUDazdDv-Y8TFifm2QEpW9guGiawAxorLEx9bWqNUdkASPlcZuoDIcJZ3GN8o7U2tDuftaBy2aGNHWV4VpaDOABDY-N6uVrrAqPSPHNStYGTi0yn1jf8Xvdzxr2qv5WYcrigvTtQGHxGXlVPz5ADY004r4FPPQqvaw4OrI5EAAEjwEmyVi8_CeVD2bwzIO0Az1BuRg1iPSnWlRl_Ma9t5NUNdyleaucc6N9EG6JLQRpXKNo97KArthdJOXbDibXlYXKjIETHj-NjgBt6lA2zHUZ-I1TNTOOF7XRMc5aAHRqg7hu3CuxFq97CVOCkNZembQ1GZbkymhUGFsJ7TQ=w400-h575-no?authuser=0" alt="Capa do livro">]]></content:encoded> </item></channel></rss>