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A circularidade está-nos nos ossos, fruto do desenvolvimento e maturidade num planeta de um sistema unisolar cuja órbita regular e previsível (calculável, inclusive) nos encanta com ideais de tradição, permanência e rotina - algo a que o universo é totalmente alheio. Enfiados neste pequeno e frágil oásis, vivemos na ilusão de que o futuro é infinito e o passado se resume a uma lenta caminhada para este presente glorioso. Não foi há muitos séculos que se encarava esta narrativa como uma queda de glória, com pouco ou nenhum pensamento virado para o dia de amanhã: o Renascimento inspirava-se nos modelos clássicos para minimizar todos os feitos culturais da grande noite da Idade Média, que nem foi tão média nem tão escura assim. </P><P>Não foi há muito tempo que um evento tão singelo e óbvio como a junção periódica dos amantes do Fantástico para celebrar a inclinação (natural ou anti-natural, decidam por vós) temática colectivamente era um anseio de terras distantes, apenas possível para quem vivesse nas Américas ou entre os Bretões. Ser-se entusiasta português da Ficção Científica (género predominante nos anos 80) era viver-se em isolamento, aparte os grupos de bairro que se fossem juntando para trocar livros. Uma solidão só quebrada pela peregrinação à livraria e ao filme ocasional, acompanhada das respectivas críticas (ainda presentes) nos jornais. Não existia sequer a noção de autor de FC português, antes da aventureira iniciativa da Editorial Caminho ter começado a dar-lhe corpo, identidade e um sopro de vida. </P><P>Agora temos tudo isto. Temos autores e entusiastas, grupos e reuniões, debates e opiniões, e regularidade. Regularidade, acima de tudo. Provou-se que é possível fazer - e bem - encontros de Fantástico em português e em Portugal. Respondeu-se à justa crítica do excesso de centralização na capital e repetiu-se no Porto. Desmultiplicou-se em temas e abordagens. E acima de tudo, promoveu-se a inclusividade, o que expôs o panorama fantástico luso como um prisma complexo de intenções diferenciadas - nas quais, é óbvio, não faltarão as confusas ou imberbes - com permanente conluio entre quem se encontra mais no centro do discurso e quem está na periferia. Este efeito conjunto tem ajudado a edificar o que não se conseguiu nas primeiras tentativas da década de 90: uma narrativa do género com evidências de que existe, desenvolve-se, aprende com o passado e quer melhorar. É importante honrar o que se tem, por ser importante e frágil. Não temos assim tanto que nos seja permitido abrir mão. Não há muitos grupos e encontros regulares distribuidos pelo país. Não há muitas editoras dedicadas exclusivamente ao Fantástico. A grande crise que se avizinha - a crise da fé numa semi-imposta irmandade europeia - vai ser particularmente dura para nós, e não me refiro à óbvia questão financeira: há-de ser uma crise de orgulho, auto-confiança e valor intrínseco da nossa cultura. Se sempre abracei a FC, foi por se posicionar numa perspectiva superior à mesquinhez irredutível do presente e conseguir descrever a ondulação das montanhas - olhar para o processo da História e para a imensidão do universo e relativizar a individualidade do minuto no contexto do eterno. Não há motivos para comprometermos isto.</P><P>Chegados a este período do ano, algo acontece no mundo do Fantástico na Europa Ocidental, talvez comparável à <i>rentré mainstream</i>. Acontece em Espanha e França e Inglaterra. Acontecerá noutros países, sem dúvida, se me dignar a procurá-los na internet. Na possibilidade de um ano, é entre Setembro e Dezembro que as festividades (literárias) se acumulam. Em Portugal, começámos cedo, desta vez, em finais de Setembro, com a participação portuguesa na <A href="http://www.clockworkportugal.com/">EuroSteamCon</A>, o primeiro (pseudo) congresso (pseudo) europeu de vaporpunk - um agradável sucesso de boa disposição e ambiente. Mas é com o aproximar dos finais de Novembro, que dois acontecimentos em sucessão imediata irão marcar o género - o <A href="http://forumfantastico.wordpress.com/">Fórum Fantástico</A>, na sua sétima edição, e o colóquio <A href="http://mensageirosdasestrelas.jimdo.com/">Mensageiros das Estrelas</A>, na segunda edição. Longe de se esgotarem, complementam-se, pois se o primeiro é informal e sintético, o segundo é académico e discursivo. Nada mal para um país de reduzida produção literária e quase inexistente audio-visual...</P><P>Além dos habituais painéis e <EM>papers </EM>apresentados em cada um dos congressos, uma nota particular o facto de que ambos, pela primeira vez, se fazerem acompanhar por edições próprias, concebidas pelos respectivos organizadores: o primeiro número da revista <EM>Trëma</EM>, do Rogério Ribeiro e João Campos e a antologia <EM>Mensageiros das Estrelas</EM>, de Octávio dos Santos, Adelaide Serras e Duarte Patarra. Mais uma prova da maturidade dos eventos e consciência de que a melhor forma de vincar uma mensagem é deixá-la escrita.</P><P>Em termos de presenças internacionais, os nomes a reter são Dan Wells (autor de <EM>Não Sou um Serial Killer</EM>), Jonathan Stroud e Adam Roberts. Wells irá também participar numa sessão da oficina de escrita do Fantástico a inaugurar durante o Fórum. Em termos dos lançamentos que acompanham estes eventos, destaque para o primeiro número da revista <EM>Lusitânia</EM>, que tem por árdua missão definir/encontrar «uma literatura especulativa genuinamente portuguesa», e para a mega-antologia <i>Lisboa no Ano 2000: Antologia Assombrosa sobre uma Cidade que Nunca Existiu</i>, concebida e organizada por João Barreiros, sobre um Portugal retro-futurista que, com mais ou menos tropeções na História, bem podia ter acontecido... E também se falarão de fantasmas, de heróis de fantasia (haverá outros?), de banda desenhada e animação... Fiquem-se com os <A href="http://forumfantastico.wordpress.com/2012/11/15/programa-forum-fantastico-2012/">programas</A> <A href="http://mensageirosdasestrelas.jimdo.com/program-2012/">respectivos</A> e devidas notas para uma melhor informação que estas mínimas palavras. </P><P>E apareçam, sobretudo! (Bem, o sobretudo é opcional...)</P><P align=center> </P><P align=center><IMG alt="Fórum Fantástico" src="https://lh4.googleusercontent.com/-Ret_GT9SeQ0/UKVpDCeJ5TI/AAAAAAAAHPY/Ea_IrYenqrM/s531/ff2012.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Mensageiros das Estrelas" src="https://lh6.googleusercontent.com/-O7MyUxyHNco/UKVpFo5Zk7I/AAAAAAAAHPs/NPESF-xL8hc/s531/mde2.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Capa da antologia comemorativa do evento" src="https://lh5.googleusercontent.com/-_9y55s8Sx7o/UKVp39_pegI/AAAAAAAAHP8/EOb99cwp-vk/s531/MdE_capa1.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Capa da Trëma" src="https://lh5.googleusercontent.com/-KhzwdZpB7yQ/UKVpD6wT8sI/AAAAAAAAHPc/f6ZUWrfnETU/s531/trema_01.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Capa da revista Lusitânia" src="https://lh5.googleusercontent.com/-JUmuvU7L5Dg/UKX5A9b_oQI/AAAAAAAAHQM/OUJu52gaouQ/s531/lusin1.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Capa da antologia" src="https://lh3.googleusercontent.com/-wD1jUjX51BM/UKYIa9OEsYI/AAAAAAAAHQc/uhFVX_LSEVc/s531/lisboa-no-ano-2000.jpg"> </P> <P align=center><IMG alt="Cartaz da iniciativa Oficina de Escrita Fantástica" src="https://lh3.googleusercontent.com/-qOcK8V8YxwI/UKVpFBsp66I/AAAAAAAAHPk/khel2WKBy0U/s530/trema_workshop_poster.jpg"> </P><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=BvwLl-xNEik:LqjYHnc02f8:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=BvwLl-xNEik:LqjYHnc02f8:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/BvwLl-xNEik" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1353384155</feedburner:origLink></item><item><title>Clássicos da FC Portuguesa.</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/9cdo-lcUMgs/1344880897</link> <pubDate>Mon, 13 Aug 2012 22:00:48 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Crítica</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1344880897</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Clássicos da FC Portuguesa.</b> Primeira parte.<P>TERRESTRES E ESTRANHOS é uma obra bizarra no panorama da Ficção Científica (FC) publicada em território lusitano. Datando de 1 de Junho de 1968 (primeira e única edição, pelo que se conseguiu apurar), consiste numa recolha de contos de autores estrangeiros e portugueses, com coordenação e notas de Robert Silverberg e Lima Rodrigues. Esta invulgar colaboração entre um conceituado autor norte-americano e um autor de novelas policiárias nacional explica-se rapidamente na ficha técnica, em que surge, como título da edição original, <EM>Earthmen and Strangers</EM>, com <EM>copyright </EM>exclusivo de Robert Silverberg no ano de 1966.</P><P>Uma breve consulta ao site bibliográfico <EM>Internet Speculative Fiction Database</EM> confirma a referência, tendo existido uma (primeira) edição desta obra em Setembro de 1966 pela editora Duell, Sloan and Pearce, seguida por uma segunda em 1967 e uma terceira em 1968 (além de outras posteriores que não entram no âmbito desta avaliação). Embora se desconheça qual a edição específica que teve por base a construção da versão portuguesa, entre as três indicadas houve igualdade de conteúdo, quer a nível de textos incluidos quer na ordenação dos mesmos. Observar a ordem é pertinente, pois verifica-se que o coordenador português, além de incluir textos nacionais entre os traduzidos, tomou a iniciativa de alterar a ordenação preconizada por Silverberg.</P><P>O livro é apresentado como o primeiro número da <EM>Antologia Panorama Antecipação</EM>, pertencente à editora Galeria Panorama, que desde 1967 vinha publicando, com razoável regularidade (contam-se quase vinte obras entre esse ano e o final de 1968) romances de FC de autores estrangeiros na <EM>Série Antecipação</EM>. Inaugura-se assim uma nova colecção para a editora que, supostamente, se destina a antologias de géneros variados – a respectiva apresentação na nota de abertura refere que «esta é a primeira “Antologia Panorama”. Começámos esta série pela “Antecipação”.»</P><P>Não se pode afirmar que o formato antologia seja invulgar ou surpreendente, ainda que praticado com bastante raridade pelos editores portugueses nas colecções identificáveis como sendo de FC. Efectivamente, uma das primeiras antologias assim apresentada surge tardiamente, apenas em 1965, tratando-se de <EM>De Júlio Verne aos Astronautas - Os Melhores Contos de Ficção Científica</EM>, que Lima de Freitas organizou para comemorar o 100.º número da que se prenunciava como a colecção de FC mais duradoura de Portugal, a Argonauta da editora Livros do Brasil. O formato não parece ter agradado aos directores de colecção, pois só dezenove anos mais tarde é que a Argonauta reincidirá nele, com <EM>Mensagens do Futuro</EM>, primeira parte de <EM>The Future in Question</EM>, organizada por Isaac Asimov, Martin Greenberg e Joseph Olander – no entanto, parece ter motivado os outros editores, pois, além de a Galeria Panorama lhe dedicar aquela nova colecção (que infelizmente irá durar apenas quatro números), outros livros surgem no mercado durante os seis anos seguintes, nomeadamente os da Distribuidora de Publicações (com títulos tão genéricos como, por exemplo, <EM>10 Grandes Histórias de Ficção Científica</EM>, organizada por Groff Conklin, em 1968), da Expressão e Cultura (<EM>Às Portas da Fantasia</EM>, organizada por Kurt Singer em 1969) e a Portugal Press (<EM>Best-Seller de Ficção Científica</EM>, organizada por Roussado Pinto em 1972). Na ausência de informação sobre volume de vendas e sobre as decisões editoriais que teriam motivado esta tendência, apenas podemos especular que as antologias seriam uma forma simples de apresentar, como se de mostruário se tratasse, vários autores com diferentes abordagens sobre um tema ou sobre o género, procurando alcançar o interesse de um leque de leitores mais vasto. Também não será displiscente fazer um paralelo com a situação actual e propor como argumento que, se a mentalidade dos leitores se manteve constante, esta diversidade contribuiu para o afastamento do mercado, e não para o inverso.</P><P>O formato antologia, contudo, permitiria ao editor português apresentar uma inovação na nossa literatura de FC, que era a da contemplar a inclusão de autores portugueses, transformando e enriquecendo a edição original. É interessante referir que aconteceu precisamente no ano anterior a publicação da <EM>Antologia do Conto Fantástico Português</EM>, de Fernando Ribeiro de Mello, uma compilação abrangente que consegue reunir debaixo da mesma capa autores de várias épocas, como Álvaro de Carvalhal, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Teófilo Braga, Raul Brandão, Natália Correia, Ana Hatherly, entre outros, e que, não obstante as respectivas obras se situarem em temáticas <EM>mainstream</EM>, fizeram suficientes incursões no Fantástico para Mello permitir-se delinear uma proposta de tradição. Se esta obra contribuiu para a ideia de uma antologia de FC mista (nacional-estrangeira), desconhecemos, embora em ambas encontremos a presença de Natália Correia e Dórdio Guimarães. Será razoável supor que, na perspectiva do editor, se trataria de uma aposta segura, pois os leitores comprariam primeiro pela familiaridade e garantia de qualidade dos autores estrangeiros e depois pela curiosidade em conhecer o material português. </P><P><EM>Terrestres e Estranhos</EM> contém então a seguinte sequência de textos e respectivos autores, com indicação do título original dos contos estrangeiros: Nota (Editor – presumivelmente Lima Rodrigues), Prefácio (<EM>Introduction </EM>- Robert Silverberg), Falsos Deuses (<EM>Lower Than Angels </EM>- Algis Budrys), Fora do Sol (<EM>Out of the Sun </EM>- Arthur C. Clarke), Estação Exterior (<EM>Stranger Station </EM>- Damon Knight), A Criatura (Dórdio Guimarães), Demónio Amigo (<EM>Dear Devil </EM>- Eric Frank Russel), A Nova Idade da Terra (Fernando Saldanha), Tormenta Providencial (<EM>Blind Lightning </EM>- Harlan Ellison), Destruição (Hélia), Abutres Altruístas (<EM>The Gentle Vultures </EM>- Isaac Asimov), Os Dois Marcianos (Lima Rodrigues), O Homem que Não Quis Viajar (Luís Campos), Fumos Siderais (Manuela Montenegro), Barbo (Natália Correia), Ciclo Vital (<EM>Life Cycle </EM>- Poul Anderson), A Melhor Atitude (<EM>The Best Policy </EM>- Randall Garrett), Alaree (<EM>Alaree </EM>- Robert Silverberg). A tradução é de Eduardo Saló. Não existe autoria da ilustração nem concepção da capa, que reproduz um conjunto de luzes desfocadas sem qualquer identificação com um género em particular nas quais se sobrepõe título, lista dos autores e os nomes dos coordenadores. Na contracapa, o livro é apresentado da seguinte forma: «Que estranhas experiências emocionais aguardarão os primeiros homens que se virem perante criaturas diferentes? A Ficção Científica procura responder a essas interrogações.»</P><P>Procurámos focar-nos, nesta análise, exclusivamente na apreciação dos contos portugueses. Não podemos, contudo, deixar de destacar dois pormenores curiosos sobre as alterações impostas à obra tal como pensada por Silverberg.</P><P>O primeiro, já mencionado, refere-se à re-ordenação dos contos estrangeiros por Lima Rodrigues, em que a ordenação original de Russell, Garrett, Silverberg, Anderson, Asimov, Knight, Budrys, Ellison e Clarke se tornou em Budrys, Clarke, Knight, Russel, Ellison, Asimov, Anderson, Garrett e Silverberg. É possível que, com a presença do material português, o editor se tenha apercebido de temas ou tendências que permitiriam agrupamentos de contos; contudo, se foi essa a razão, não há qualquer explicação nem identificação explicita (por exemplo, por meio de secções temáticas) no livro.</P><P>O segundo esclarece a falta de envolvimento (e consentimento) do editor estrangeiro. Conforme Silverberg nos confidenciou quando inquirido, «I received a copy of TERRESTRES E ESTRANHOS a long time ago and of course I noticed that some Portuguese stories had been added to my original anthology. The Portuguese publisher never asked my permission to do this, but I thought it was an interesting thing to do and did not make any objection to it. (Since I can't read Portuguese except in the most limited way, I had no idea whether the extra stories were good ones, but I hoped they were.) I know of no other occasion when one of my anthologies was expanded in this way by a European publisher.»</P><P>O livro abre com uma nota assinada por «Galeria Panorama». Presume-se que obviamente a autoria pertença a Lima Rodrigues, inclusive por que na ficha técnica a direcção da colecção consta como sua. Nesta, explica-se que, além do livro representar a primeira «Antologia Panorama», a intenção é de abordar vários temas, sendo «Terrestres e Estranhos» o primeiro. Esta intenção é reforçada no final, numa clara manifestação de postura editorial em que o formato antologia serve como mostruário e percurso pela diversidade da FC. Por «estranho», explica-se que será «um ser oriundo de qualquer parte, de outro ou outros mundos» com quem se imagine estar «frente a frente».</P><P>Outra postura editorial é a inclusão dos autores portugueses, cuja presença prometia ser recorrente: «Sete [histórias] são [de] autores nacionais, o que, por si só, constituirá surpresa para muitos que nos lêem. Acontece, porém, que contrariamente ao que é habitual no nosso meio, desta vez não são apresentados escondidos sob pseudónimo estrangeiro mas pelo seu próprio nome de baptismo. A cada um o que lhe pertence. Assim mesmo. Será que o pseudónimo estrangeiro melhoraria a qualidade ou o mérito dos trabalhos apresentados? Melhoraria as vendas? Decerto. Mas nem só de pão vive o homem. [...] E, sempre que possível, os autores nacionais aqui estarão, numa afirmação viva de que “também existimos”». Subjacente à afirmação de Rodrigues, está uma noção de legitimidade de certos géneros (como o policial, a FC e o <EM>western</EM>) que, pertencendo a uma ficção popular (vulgo, <EM>pulp fiction</EM>) importada do mundo anglo-saxónico, tinha dificuldades em afirmar-se quando escrita por autores nacionais e situada em territórios portugueses, recorrendo-se para tal à invenção de pseudónimos estrangeiros para enganar o leitor. Lê-se nesta intenção uma vontade de recuperar territórios não demarcados e assumir a capacidade lusitana de escrever estes géneros. Neste caso, ficou-se pelo caso único deste livro, pois autores portugueses não voltaram a figurar nos três volumes subsequentes da colecção.</P><P>O prefácio de Silverberg serve para contextualizar um pouco melhor a problemática do alienígena na FC e porque é importante abordar a relação humano/não-humano. Não se aventura além da explicação básica nem menciona textos fundamentais do género, resumindo-se à alusão sucinta da <EM>Guerra dos Mundos </EM>de H. G. Wells.</P><P>Estamos assim prontos a entrar no livro, e mais especificamente, nas contribuições portuguesas.</P><P>A primeira trata-se de <STRONG>A Criatura</STRONG>, de Dórdio Guimarães, autor mais conhecido pela sua actividade na poesia e jornalismo, e por ter sido casado com Natália Correia. Rodrigues apresenta deste modo o conto: «Em "A Criatura" dá-nos Dórdio Guimarães uma amostra do poder criador da sua fértil imaginação. As estranhas personagens que nos apresenta falam uma linguagem de ânsia e desespero, esperança e frustração. A sua. criatura — tão febrilmente esperada como a personificação de um Deus em perfeição humana — mais não era que uma amálgama disforme de caracteres, como composição feita com pedaços de todos os seres vivos que pululam por este planeta chamado terra. Tremendo o assombro, terrível a desilusão. Um mundo onde não vale a pena a existência até mesmo para um ser com poderes quase ilimitados: a Criatura.»</P><P>Nesta história, dois homens aguardam na berma de um desfiladeiro, junto a um ulmeiro, onde, segundo o mais jovem, «o melhor de nós vai eclodir». Este ser é explicado pelo homem mais velho (nenhum deles é identificado por nomes) como sendo obra sua: «Todos os segredos da vida inteligente me deram a sabedoria. Reuni numa mesma escala todas as maiores virtualidades das várias e diversificadas espécies que povoam este nosso velho planeta. De entre milhares de milhões de categorias obtive a síntese e produzi o embrião do ser primeiro e final. Um a um, todos esses dons sensoriais e psíquicos elevados a uma expressão híper, consegui enfim ordenar e fazer caber numa só criatura. Este sucesso será o fruto da sementeira da grande criação.» </P><P>Guimarães não faz qualquer tentativa de enquadramento científico, mantendo a descrição numa evanescência místico-filosófica com laivos poéticos, aos quais o uso de termos menos vulgares não contribui para a clareza exigida pela linguagem da FC. Atente-se, por exemplo, na descrição da criatura quando eclode do interior da árvore: «Os olhos abertos como radares eram uma subtil combinação dos de mosca, facetados, e disseminando múltiplas perspectivas, como os do felino, diamantinos e diafragmáticos; torvas e pétreas faces e o pescoço de um rútilo vegetal; o cristal do corpo, protegia-se de uma carapuça multicolor, típica do crustáceo; as pernas robustas como tentáculos, de coxas ventosas e rótulas flexíveis como escamadas barbatanas; um  tórax esquisito, respirando a compasso, quer por pulmões dilatando as simiescas narinas, quer por guelras absorvendo a chuva miúda das nuvens tardias e opacas do inverno precoce que mutava as alturas. O colosso cresceu um austo e agitou nervosamente as espáduas de bisonte revestidas de asas carne-metálicas e de espigões vertebrais. Um sangue vulcânico latejava-lhe as têmporas de potentes fluxos.»</P><P>Perante a visão de uma criatura tão perfeita, ambos os homens unem-se «num amplexo e apesar das idades diferentes sentiram o apelo biológico em corrente uníssona ambicionar demais», o que talvez possa ser interpretado como um desejo homossexual velado, algo sem dúvida ainda subversivo para a época em questão. A narrativa depressa se perde, contudo, pois antes de o leitor conseguir descobrir os poderes da criatura (da qual inferem que até o sol sente medo, por se deslocar subitamente no céu) ou a capacidade de elevar ou destruir a espécie humana, eis que é instigada a animar-se pelos dois homens, com o seguinte resultado imediato:</P><BLOCKQUOTE> <P>Falou em língua humana, através da boca de águia, voz líquefe de fêmea e  magníficas palavras como se a própria  Terra, voluptuosamente as  vibrasse: </P> <P> — Ávida é a vida. Eis o belo horrível. O desejo sinto... em.  muitíssimo tamanho. Ó este coração que dentro de mim pulsa em todo o lado. Não  posso... Morro de Amor!</P> <P>E desfez-se em partículas e ultra-sons num clarão cem mil vezes mais  luminoso do que o Sol, que ribombou o tempo. </P></BLOCKQUOTE><P> A narrativa termina com os dois homens em pranto.</P><P> </P><P>(Actualizado a 14 Agosto)</P><P>Em <STRONG>A Nova Idade da Terra</STRONG>, Fernando Saldanha conjectura que o Estranho está entre nós e se manifesta, discretamente, apenas aos iniciados – muito particularmente, por intermédio de palestras em que as descobertas são sustentadas por equações extremamente complexas. De acordo com o protagonista, o Professor Santos Paulo, ao defrontar-se com a terceira ocorrência, «qualquer cérebro humano, até mesmo a mais aperfeiçoada máquina electrónica, levaria dezenas de anos a concluir aquela operação...» Mais bizarro, na sua opinião, é a inclusão, no decurso das palestras, ao lado das ditas equações, da seguinte frase em caracteres chineses, que o Professor consegue decifrar graças aos anos que passou em Macau: «NÃO É A PRIMAVERA QUE VEM TER CONVOSCO — SOIS VÓS QUE IDES TER COM A PRIMAVERA!». Com uma singular perspicácia, o uso de «convosco – sois vós» e não «connosco – somos nós» imediatamente o faz desconfiar que não se encontra perante a presença de seres humanos...</P><P>Longe de nos ser explicada a importância das equações e se estariam no cerne de desenvolvimentos científicos capazes de alterar o futuro da espécie, somos conduzidos na senda do Professor, que procura chegar cedo à próxima palestra enquanto o quadro ainda está em branco para assistir pessoalmente ao acto da escrita da equação pelo orador. Trata-se de Rogério Santos, escritor policial, cuja presença numa conferência de matemática não é explicada mas que começa a discorrer sobre as idades da Terra, revelando que estamos a atingir a nona e última das idades, a Cósmica: </P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr>  <P>— Como vêem — continuou o orador, falando agora de costas para o quadro — o   Homem atingiu a sua derradeira idade. Não há dúvida que passa a ser tremenda a   responsabilidade humana. Há que encarar muito seriamente o problema da   evolução espiritual, que deve progredir a par das conquistas da técnica, sem o   que se corre o risco de uma hecatombe grave, de efeitos imprevisíveis. O   destino das civilizações está traçado astralmente e pode conceber-se com uma   simples operação. No caso da Terra, temos a seguinte:—e assim falando começou   a fazer rapidamente uma equação na mesma linha daquelas que tanto tinham   desnorteado o professor Santos Paulo.</P></BLOCKQUOTE><P> Esta revelação é suficiente para o Professor abordar a colega Maria Lena, que o acompanhou na investigação, e incitá-la a telefonar para a polícia. A senhora assim pretende fazer mas depara-se com o corpo inanimado do próprio orador na sala contígua, ao mesmo tempo que este continua a debitar a sua palestra. Incitado pelos gritos de Maria Lena, o Professor acorre à sala e descobre um papel no bolso do conferencista com o seguinte texto:</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr>  <P>«Sabíamos que tudo isto sucederia, pois a nossa civilização está milénios   adiantada em relação à Terra e podemos ver o futuro, como os terrestres vêem   um programa de televisão.<BR>Somos da Nebulosa a que Vocês chamam da Cabeleira   de Berenice.</P>  <P>Precisámos fazer uma revelação urgente à Terra. A Idade Cósmica é   perigosissima e as civilizações que entram nela tanto podem progredir como   regressar e até extinguirem-se por completo.</P>  <P>Viemos avisá-los.  Tenham cuidado.</P>  <P>O caminho a seguir é o da evolução espiritual, vertical e autêntica. Leiam   com atenção o conceito em chinês que por quatro vezes, com esta, inserimos no   quadro da sala de conferências.</P>  <P>Evitem o pânico. Isto que fazemos é espantosamente fácil para nós.</P>  <P>O corpo deste homem está como que vazio, mas todas as células estão vivas e   sãs. Servimo-nos da sua personalidade para nos dar aparência humana, A nossa   seria horrível para vós. Ele voltará a si logo que partamos.</P>  <P>Adeus! Felicidades!»</P></BLOCKQUOTE><P> O conto termina, logo a seguir, inconclusivo, não assumindo a hipótese colocada por si mesmo.</P><P><STRONG>Destruição </STRONG>é o conto português seguinte. Tem autoria de Hélia, que Lima Rodrigues explica tratar-se de Maria Brito de Sousa, e sobre a qual tece comentários laudatórios («[...] poderia ser, se para tal pudesse dedicar o tempo necessário, a Agatha Christie portuguesa.») antes de terminar com uma nota de desalento sobre o próprio texto que se propõe apresentar («[...]Não é de modo algum o seu melhor, mas raramente um coordenador de trabalhos deste género consegue o melhor de cada autor e nós não somos infelizmente excepção.»). </P><P>Neste micro-conto (duas páginas) a protagonista, certo dia em que acorda tardiamente, descobre que as cores de tudo o que a rodeia mudaram drasticamente. «A mobília que antes era castanha apresentava nm estranho tom dourado. Era belo mas chocante. O tapete era de um branco cintilante e as paredes metalizadas. A própria roupa da cama mudara de branca para negra.» A violência cromática fá-la desconfiar que enlouquecera e decide visitar um médico de imediato, mas a visão da sua própria aparência no espelho, com «pele azul, dum tom forte e profundo» trava-a, deixando-se ficar em casa, desesperada. Eventualmente, a fome impele-a a alimentar-se, descobrindo que este acto também se tornara estranho. </P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr>  <P>[...] Dirigi-me para a cozinha. Lá, também tudo se transformara. Evitei   pensar. A cabeça estalava de febre. Abri o frigorifico e tirei um bife e   batatas já fritas. O bife estava negro e as batatas lilazes. Dominando a   repugnância, comi vagarosamente. Os alimentos tinham um sabor diferente, não   deixando apesar disso de serem saborosos. Tive sede e fui buscar água, que   agora era de um azul-túrpido. Era também um pouco adocicada.</P></BLOCKQUOTE><P> Ao ligar finalmente a telefonia, descobre que o fenómeno é mundial, o que afasta a ideia de loucura e a deixa mais descansada. No entanto, uma força psíquica invade-lhe a mente, forçando-a a cantar uma lengalenga numa língua desconhecida, caminhar até à janela, abri-la, passar além do parapeito. Vários corpos estão tombados por terra. E também ela, sem obter resposta à interrogação que lança a esta vontade, salta do décimo-sétimo andar.<BR></P><P><STRONG>(Actualização - 11 Setembro)</STRONG></P><P>Em «Os Dois Marcianos», conto que o próprio organizador lusitano escolheu para se fazer representar (opção editorial bastante comum na FC, tendo inclusivamente Silverberg exercido-a na obra original - não obstante haver uma certa legitimidade questionável no acto de os organizadores se escolherem a si mesmos a que os criticos não são totalmente insensíveis), encontramos um caçador que, atravessando os montes em busca de aves, acompanhado da cadela perdigueira, se depara com um encontro inesperado.</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>O meu susto não advinha propriamente de ver surgir um vulto à minha frente,  mas tão somente do vulto que tinha surgido: vestia um fato espacial, com a  cabeça metida numa esfera de vidro ou matéria plástica transparente. O seu  rosto era o de um homem adulto com corpo de criança.</P></BLOCKQUOTE><P>Este ser, que rapidamente se mostra acompanhado por um companheiro com trajes idênticos, aborda o protagonista com bastante pragmatismo.</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>— Terrestre — pronunciou um deles.— Estamos aqui em missão pacífica.<BR>—  Pois —acrescentou o outro.<BR>— Não viemos de Marte com outras intenções que  não fossem as de estabelecer relações de paz e amizade com a Terra —  prosseguiu o que falara primeiro.</P></BLOCKQUOTE><P>As ditas relações consistem num interrogatório imediato sobre as intenções dos humanos na área da conquista espacial. O nosso protagonista, fazendo uso de um juízo mundano, pensa que aqueles seres não passam de meras crianças entretidas numa brincadeira e oferece respostas a condizer. Mas como estranha a insistência, em breve se cansa e, virando-lhes costas, regressa junto do grupo que o acompanhava. O encontro nada deve ter significado para os supostos marcianos, pois não tentam sequer segui-lo nem impedi-lo de divulgar a presença deles.</P><P>De novo reunido com os restantes caçadores, fica a saber que um deles jura ter avistado um disco voador pousar no eucaliptal mais próximo, o que dá aos companheiros a natural desculpa para gozar com ele. O protagonista relaciona de imediato o evento com a sua experiência (afinal os miúdos não eram miúdos coisa nenhuma...), e informa que, por sua vez, tinha encontrado os marcianos. A única consequência deste acto é de, também ele, se tornar alvo de chacota.</P><P>O conto termina assim; indiferente às consequências de tais encontros e aos possíveis actos seguintes, quer dos extraterrestres quer dos humanos; ignorante da reacção do grupo perante a insistência dos amigos, que naturalmente acabaria por despertar alguma curiosidade em descobrir evidências físicas; imperturbável inclusive perante o enorme potencial satírico de um enredo em que o dito protagonista, pensando tratar-se de um jogo infantil, inventaria que a Terra acumulava há décadas e em pleno segredo uma força bélica destinada a destruir o planeta vermelho, enriquecendo a sua ficção com tal maestria que não só os alienígenas acreditariam como regressariam a casa para alertar os seus... descobrindo-se subtilmente o motivo, nunca percebido pela Humanidade, pelo qual os marcianos de Wells nos atacaram!</P><P>Rodrigues mostra-se imune às possibilidades destas variantes narrativas. Não é à toa que nos avisa na nota biográfica introdutória que o conto representava a sua estreia no género fantástico – rematando com a devida auto-crítica:</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>Não espere, porém, quem conhece Lima Rodrigues o seu «final de choque» no  conto que se lhe oferece seguir. Como primeira experiência num novo género,  houve da parte do autor a preocupação de uma busca de novos motivos de  interesse forte. O que só lhe fica bem, e constitui mérito inegável a juntar a  mais outros tantos.</P></BLOCKQUOTE><P>Como bem nos tinha avisado a nota biográfica do conto precedente, um coordenador de trabalhos deste tipo está sempre à mercê dos seus autores.</P><P>Segue o único autor, do leque escolhido, que poderemos enquadrar na designação pulp, quer pelo trabalho entretanto efectuado (de acordo com a nota biográfica, teria já escrito vários romances, contos e argumentos para filmes) quer pelo trabalho futuro no género policial português que realizaria ao lado de Roussado Pinto. Em 1968 já utilizava o pseudónimo Frank Gold (desde Madrugada Depois da Morte) pelo qual viria a ser melhor conhecido, mas é com o nome de baptismo – Luís de Campos – que assina o conto «O Homem Que Não Quis Viajar».</P><P>O tema do Estranho traduz-se também nesta história pelo encontro com o Alienígena. </P><P>Deparamo-nos com o sr. Pitkin ao volante de um Buick de 56 numa fria noite do Novo México. Através de uma agradável economia narrativa, Pitkin é-nos retratado como um homem comum cujos sonhos de estabelecer negócio e família o trouxeram desde a terra natal de Albuquerque – sonhos que o acumular de dívidas e constante fracasso tornaram num pesadelo vivo. Pitkin encontra-se, quando o encontramos, à beira do desespero. Como tantos outros que terminam numa situação financeira equivalente, já não podia recorrer a mais ajudas de estranhos, e ainda tinha uma família para alimentar. Suicidar-se e deixar que o dinheiro do seguro ajudem a esposa e filha a recomeçar a vida começa a parecer-lhe uma solução razoável.</P><P>Usando do devido sentido de timing dramático, a condução é interrompida por um clarão na estrada, seguido do aparecimento de um vulto humano deformado. Tal como o protagonista do conto anterior, Pitkin supõe tratar-se de um homem envergando um fato especial, talvez pertencente a uma equipa científica. </P><P>Como é natural, a estranheza começa a impôr-se aos poucos, à qual o protagonista reage com a devida incredulidade.</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>Pilkin já não sabia que pensar. Como leitor apaixonado de ficção  científica, uma ideia que quase não ousava aceitar havia-lhe já passado pelo  cérebro. E ali permanecera, aliás. Muito bem, ironisou para si. isto é um  marciano e tu vais ser desintegrado, companheiro. E assim ficaste com os teus  problemas resolvidos.</P></BLOCKQUOTE><P>Não obstante o reparo sobre o absurdo da situação, o conto, sendo breve, é forçado a avançar. Estabelece-se rapidamente contacto e o ser esclarece à partida que provém de algures nas estrelas. Deixamos uma nota para o problema inerente da comunicação (o ser fala o mesmo idioma do protagonista), do qual o autor está ciente e que é assim explicado:</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>— Muito bem... E onde aprendeu a falar inglês? Na Universidade de  Albuquerque?<BR>— Clique... não falo inglês... compreendo e respondo...  dispositivo electrónico...<BR>(...)<BR>—Oiça — inquiriu pouco adiante. — Esse  esquema para falar a nossa língua... Como é?<BR>—... Emissor-receptor  electrónico... Nossos cientistas codificaram vossa língua... clique. Ondas  sonoras constituem programa para emissão resposta.</P></BLOCKQUOTE><P>Não sendo de modo algum uma hipótese inovadora na FC, é refrescante descobrir que Luís de Campos demonstra o devido respeito com o elevado cepticismo inerente aos leitores do género e se preocupa em amansá-lo com explicações razoáveis dentro do contexto narrativo. O mecanismo da viagem interestelar é alvo de uma abordagem semelhante:</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>— (...) E como se deslocam no espaço? <BR>Clique.<BR>— Velocidade luz.  Transmissão instantânea.<BR>O extensor direito (deve ser o termo correcto,  pensou Pitkin) ergueu à altura do tablier a caixa de aspecto complicado, ao  mesmo tempo que o outro indicava uma fiada de interruptores.<BR>—  Progressão-futuro... Retrocesso-passado...<BR>— Quer dizer — completou Pitkin  excitado — funciona como máquina do espaço, e máquina do tempo  também?<BR>Clique.<BR>— Sim... máquina do tempo... nome primitivo...  Descoberta segunda década... Agora aperfeiçoada...<BR>— Ah, bem — exclamou  Calvin Pitkin. E concluiu: — Evidentemente.</P></BLOCKQUOTE><P>Para seu desprimor, o conto soçobra visivelmente a partir deste momento, pois o extraterrestre, cuja pretensão é reunir-se aos companheiros investigadores espalhados pelos EUA, ajuizou mal a capacidade do velho automóvel e a disponibilidade do condutor – ao invés de encetar viagem, o protagonista prefere levá-lo para sua casa. Aqui, trocam informações sobre o planeta de cada um, enquanto Pitkin vai, aos poucos, regressando ao estado anterior de cisma sobre a resolução do seu infortúnio, que é o mesmo que dizer, encaminhando o leitor de volta ao enredo principal do conto. Resolução essa que parece, literalmente, ter caído dos céus.</P><BLOCKQUOTE style="MARGIN-RIGHT: 0px" dir=ltr> <P>Na realidade, desde o início que a ideia de Pitkin não saíra da pequena  caixa do tempo. «Progressão no futuro»... «Retrocesso no passado». Tão fácil  como isso. Numa fracção de segundo. Uma viagem no tempo, a justificar uma vida  inteira. E agora ele, Pitkin, sabia que podia também habilitar-se. Assim o  estranho admitira. (…) Um terrestre não poderia voltar, visto que o regresso  exigia uma radiação de comprimento de onda tal que só poderia ser emitida da  Estação do Espaço. E nunca os conterrâneos do seu hóspede permitiriam uma  inconveniência de tal ordem. (...)<BR>— Amy... não pode ir, pois não? Nem  Kathy. <BR>Clique.<BR>— Não... Calvinpitkin sozinho.<BR></P></BLOCKQUOTE><P>A solução está à vista, e é cobarde. Voltar atrás no tempo, deixar mulher e filha desamparadas mas salvar-se a si mesmo. Recomeçar a vida. Cobarde até na rejeição do suícidio, que admite não se capaz de realizar. Uma escolha irresistível para um homem desesperado.</P><P>Mas recordam-se do título da história?</P><P>«O Homem Que Não Quis Viajar»...</P><P>A esposa encontra o marido em csaa – sozinho, pois o conto desinteressa-se sumariamente do alienígena e nem sequer explica que destino terá tido. Apenas lhe interessa que o homem escolheu ficar. E como as boas acções têm de ser recompensadas antes da palavra «fim», a esposa revela trazer boas notícias: o crédito foi afinal aprovado pelo banco, dando a Pitkin a hipótese tão ansiada para sair da crise pessoal.<BR>Depois da promessa colocada pela primeira metade do texto, este desenlace apressado, fora do contexto de Ficção Científica entretanto estabelecido, surge como desmerecedor e frustrante. No entanto, não deixa de ser invulgar, visto que não se encontrarão muitos enredos (dentro do género, ou não) em que a tentação da viagem temporal termine numa rejeição sumária. </P><P>Se efectivamente o autor detinha uma familiariade básica com o género, como demonstrado nos indícios acima apontados, é razoável supor que estivesse ciente da estranheza do final, e logo, que o tivesse escolhido precisamente pela estranheza, enquanto comentário velado aos enredos habituais do género. Mesmo se considerarmos que a escolha possa ter sido ajudada por um imperativo editorial de cumprir determinado limite de palavras (as contribuições portuguesas têm, na maioria, uma dimensão aproximada entre si), não é displiscente ler no conto um cunho de originalidade – contraproducente, sem dúvida, por ter afastado a história de uma conclusão assente nos princípios da FC, além de bastante discreto na sua formulação. </P><P>Mas basta aliarmos esta percepção a evidências de unidade temática (o problema financeiro do protagonista) e de decisão moral/emocional com desfecho inesperado – em suma, identificar alguns dos principais pilares de qualquer narrativa –, para podermos destacar o conto como uma das poucas contribuições lusitanas do livro que entende o funcionamento da narrativa curta na Ficção Científica.<BR></P><P><EM>(O artigo encontra-se em curso e apresenta-se em versão preliminar, sem inclusão das referências bibliográficas. Informações complementares são bem-vindas. Futuras actualizações serão feitas sobre este próprio texto.)</EM></P><div class="feedflare">
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De que trata verdadeiramente,  não vos posso dizer - aqui. Direi noutro sítio. Talvez num forum público sobre  agricultura. Talvez numa carta à direcção do jornal diário. Talvez num  comentário relativamente a uma crítica literária. Talvez escondida numa  crónica sobre relacionamentos e sentimentos amorosos. Talvez num poema com o  qual contribua para uma colectânea de vários autores publicada em regime  colectivo. Vocês não saberão, mas têm toda a oportunidade para descobrir. Têm  tanto acesso a este mundo de informação inesgotável quanto eu. Basta saber  onde procurar. </P> <P>E escusam de utilizar motores de pesquisa. Ou motores de significância. Ou  de estilo de escrita. Conheço bem os mecanismos de análise. Não vos vou  facilitar a vida. </P> <P>Não: se quiserem saber realmente do que se trata, têm de me saber seguir.  </P> <P>Porque as conspirações que por aqui andam são reais. </P> <P>Eis a nossa heroína: recém-chegada à casa dos trinta, de estatura média,  olhos ligeiramente afastados e um nariz um pouco pronunciado de mais para o  seu gosto, cabelo forte, castanho, ondulado nas pontas, e uma figura  esquálida, com peito pequeno e costelas saídas. É ligeiramente nervosa e  conhecida pelos maneirismos bruscos, que são menos uma questão de feitio que  produto dos inibidores de menstruação e de desejo sexual cujo uso recorrente  esconde de todos. Sente-se confortável com roupas simples, discretas,  normalmente blusas de cores neutras e calças a condizer, feitas exclusivamente  de fibras artificiais. Evita seguir a moda das saias curtas, de novo na berra,  por detestar a forma pontiaguda das canelas. Também não se sente confortável  em exibir a pele branca que, por deficiência de melanina, assume um tom  amarelado e doentio sempre que toma pílulas bronzeadoras. Passa a maior parte  do tempo com o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, mais por conveniência do  trabalho diário do que por gosto, mas depois durante o seu fim-de-semana não  lhe apetece fazer grandes penteados e prende-o da mesma forma. Usa  ocasionalmente óculos interactivos, mas como a maior parte dos dados de que  necessita é de índole textual, prefere as lentes de contacto - assim aproveita  para ir alternando a cor dos olhos enquanto se mantém informada. Vive num  pequeno habitáculo de duas divisões, partilhando as áreas comuns de higiene e  lazer com onze outros condóminos do andar, mas tem a sorte de as janelas  apresentarem um cenário real - a da movimentada Rue Briotte - e não um  electrónico ou pior ainda, o páteo interior. Quanto à alimentação, é rigorosa  em comer somente produtos processados: não tem a mínima confiança na qualidade  dos produtos naturais nem das condições em que teriam sido produzidos, e só  procura a segurança dos enlatados submetidos a rigorosos processos de  qualidade.</P> <P>Encontramo-la a caminho do emprego. Imaginem um plano picado sobre Bruges,  passando pela Basílica e pelos poucos prédios históricos, atravessando a  imensa urbe de cubos habitacionais espelhados que cobrem a zona do porto onde  ela reside, mergulhando de súbito num dos canais imundos da cidade que a urbe  por cima utiliza como forma de despejo ilegal, penetrando no tubo por onde  acelera um metropolitano aquático sem condutor. A nossa heroína - chamemos-lhe  Adrienne, por conveniência - prendeu-se a uma das correias suspensas do tecto  e dormita em pé, encostada a um varão. Nisto não é diferente dos tantos outros  passageiros que a acompanham àquela hora. Não está habituada a erguer-se tão  cedo nem a viajar para tão longe. Normalmente meia hora de transporte é o  suficiente para a colocar na zona costeira de Antuérpia. Mas hoje foi  convocada para Brighton. Algo importante requer a presença dela. Como recebeu  a convocação apenas umas horas antes, não fez quaisquer preparativos para a  estadia. Apenas leva consigo o cartão pessoal com o historial médico, como  segurança, pois nem sempre aqueles destacamentos especiais - embora cuidassem  normalmente de alojamento, vestuário e alimentação - estão devidamente  informados.</P> <P>E contudo, não lhe facilitavam transportes especiais, considerando que o  pneumático subaquático era mais seguro e discreto que quaisquer movimentações  aéreas na zona dos fortes e perigosos ciclones do canal da Mancha. De facto,  em pouco tempo já está em alto mar, as janelas tinham-se transformado em ecrãs  noticiosos e a impressão nos tímpanos derivada do mergulho em profundidade  acorda-a por instantes. Abrindo os olhos, vê piscar no canto inferior direito  do campo de visão um quadrado laranja que lhe indica uma mensagem, por ler, em  memória. Mas ao aceder ao conteúdo, percebe que é um despacho de correio  confidencial com documentos que tem de conhecer antes da reunião, mas que por  virtude da falta de comunicações debaixo de água não está disponível. Ela  sorri (as pequenas vitórias profissionais são a única coisa que a torna  mesmo feliz) e volta à terra dos sonhos.</P> <P>Por sua vez perturbada: encontrava-se a flutuar novamente, encerrada numa  pequena bolha acolchoada, a sensação de alguém a respirar nas suas costas mas  que não via quando se virava e rodopiava no ar; tentava atingir as paredes,  mas quanto mais se mexia mais permanecia onde se encontrava, no centro da  bolha, como uma mosca presa numa teia invisível; depois a luz a mudar, o  observador invisível a aproximar-se, uma zona da parede a abrir-se em forma de  íris negra, escura, a revelar uma passagem vazia, redonda, infinda; ela a  encarar aterrada, a abertura; nos ouvidos o insuportável batuque do coração,  cada vez mais alto; ela consciente do terror em que estava, a afundar-se nele,  não conseguindo desviar os olhos, mover-se, antecipando o segundo em que o ser  do outro lado se mostraria, a confirmação de que o monstro existia, e vinha no  seu encalce; e então, a abertura e a passagem deixavam de sê-lo, o que estava  em redor mexia-se, destacava-se da parede como um camaleão, e ela percebia que  afinal estivera a encarar um esfíncter, talvez um olho, um olho que a  observava, não uma passagem mas o prenúncio do sofrimento; e ela ali presa,  naquele espaço fechado e minúsculo, sem poder fugir, a ver o seu pior pesadelo  consubstanciar-se em forma e vontade diante de si.</P> <P>Acorda aos gritos. Os outros passageiros encaram-na com absoluto espanto,  antes de se mostrarem aborrecidos e indignados por terem sido, também  eles, despertados dos seus mundos de sonho privados, aparentemente mais  pacíficos. Ela vira-se contra a janela, envergonhadíssima, e desprende-se da  correia, para que o corpo fique em constante desequilíbrio e não possa  adormecer de novo.</P> <P>Tantas vezes aquele sonho. Sempre o mesmo. Sempre idêntico fim. O que  significa? Que mensagem inconsciente o espírito lhe tenta passar?</P> <P>Porque se recusa a falar do assunto ao médico?</P> <P>Adrienne chega finalmente à estação terminal ao largo da costa de  Inglaterra, e é despejada para um conjunto de átrios abobadados com tectos de  diamante por onde se discernem as águas profundas do canal, iluminadas por  potentes holofotes para compensar a inexistência de luz solar e captar a fauna  subaquática, mantida num delicado equilíbrio de curiosidade luminosa e repulsa  pelos feixes de ultrassons que afastam os bichos mais volumosos ou  perigosos para a estrutura. Um extenso espaço comercial acompanha-a à saída,  cheio de lojas voláteis que alteram o tipo de mercadoria e a natureza da venda  de hora para hora, consoante o fluxo de passageiros e visitantes que o  atravessam. O ruído próprio de um espaço tão amplo é profissionalmente abafado  por milhares de fiapos dependurados do tecto, quais lianas, que formam uma  cortina onde se projectam as notícias de um canal britânico. Enquanto aguarda  o elevador para a superfície, concentra-se nas imagens e nas informações das  legendas, habituando o cérebro à língua inglesa. Uma explosão num dos postos  fronteiriços da Muralha Europeia do mar negro marca as notícias da hora.  Aparentemente foi uma manifestação da guerrilha anti-extraterrestres, visando  impedir a exportação de tecido semi-inteligente para os países árabes. Embora  as notícias sejam vagas sobre o assunto, Adrienne conhece as causas que  levaram a tais protestos, pois já observou a forte reação do contacto deste  tipo de tecido (fabricado com tecnologia Spiertvick’kap) com os produtos  utilizados na região (quase todos influenciados por tecnologia Irristkitck) e  imagina os danos que provocarão na pele de que os use... conhecendo a história  da região, não é de admirar que pensem que o efeito foi propositado e que  resultou de uma tentativa de ataque terrorista subtil da Europa às suas  populações. Conhecendo, por outro lado, a história dos extra-terrestres, e  como engraçavam pouco uns com os outros, não é de admirar que isso seja  verdade. O Próximo Oriente sofreu um duro golpe aquando da escassez do  petróleo e da resultante e esperada indiferença do resto do mundo perante a  região, subitamente tornada numa África um pouco mais sofisticada mas  igualmente corrupta e pobre, e queriam - com a ajuda dos novos amigos do  espaço - recuperar algum do poder do passado. </P> <P>O transporte aguarda-a. A discreta e pequena sigla HSO (Home Security  Office) quase se perde na estrutura negra do barco unipessoal, mas o ar  austero é inconfundível. O condutor saúda-a com a mão retesada contra a testa,  e ela não quer corrigi-lo, dizer-lhe que é civil. Senta-se na cabina e  aproveita a curta viagem para descarregar a mensagem e ler o anexo. </P> <P>O que descobre desperta-a com mais eficiência do que uma injecção de  cafeína pura nas veias. </P></BLOCKQUOTE><P><BR></P><div class="feedflare">
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Contudo, mesmo estando a Guerra Fria na infância, já se desconfiava quem nem a Primavera sairia vitoriosa do espectro do inverno atómico, ou não fossem ainda recentes as duas cicatrizes do Japão, pelo que não se dirá de todo displiscente que Bradbury, ao deixar-se cativar pelo poema, se tenha focado no espaço íntimo do lar e nas consequências imediatas de tal catástrofe, rejeitando a hipótese mais mais poética de Teasdale que o Paraíso renasceria sobre a Terra.<P>Na década em que foi publicado, «There Will Come Soft Rains» representa um conto invulgar na Ficção Científica corrente: negativo onde os seus conterrâneos têm sido, até então, habitualmente positivos e crentes na inteligência da espécie humana; melancólico, no meio de narrativas firmes e declarativas; vazio de actores, uma vez que a sua substância consiste precisamente neste vazio, e contudo, mais forte por esse motivo; decorrendo como um longo e lento <i>travelling</i> panorâmico, demonstrando que há formas de unir a linguagem do cinema com a da literatura para alcançar uma sinergia única. Se não contribuiu directamente para a escolha de Bradbury enquanto argumentista de Houston, alguns anos depois, sem dúvida que não terá prejudicado. É um conto conciso e contido na sua forma, imune à passagem do tempo, como a boa Literatura - e neste caso, como em muitos, a Literatura reconheceu de imediato um dos Seus, sendo publicado na digna <EM>Collier's</EM> e não num dos muitos veículos da <EM>pulp fiction</EM>, no meio do entulho pueril ocasionalmente pontilhado por textos merecedores de imortalidade.</P><P>No conto, mecanismos subitamente tornados obsoletos continuam a cumprir rituais pré-programados para uma plateia vazia, sem a qual a sua função se tornou inútil e logo desapareceu a razão de existirem. O fogo surge como elemento redentor, acto de misericórdia, libertando-os de uma eternidade vazia de propósito. Se o autor, em idade avançada, começou a mostrar-se como ludita simpático e inócuo, foi talvez porque se viu obrigado a tornar a mensagem explícita para as novas gerações pouco habituadas a frases longas e <EM>nuances</EM> narrativas, pois já desde o início o aviso lá se encontrava. Ai da Humanidade, tanto se deixou deslumbrar pela tecnologia resultante do seu engenho que acabou por esta sendo extinta! Que melhor conto de fadas admonitório na era da tecnofantasia?</P><P>A reputação de Bradbury precedeu-o, em mim, antes da ficção. Houve um tempo em que Asimov, Heinlein e Blish transbordavam dos beirais das livrarias, mas Bradbury era presença rara - a Europa-América só o incluiu numa das colecções de FC em 2002, e se a Argonauta já lhe tinha traduzido as principais obras, fê-lo antes do meu encontro com ela, pelo que esses exemplares já não habitavam as livrarias de subúrbio que frequentava. No entanto, era muito mencionado pelos outros autores, ombrava com Asimov e Clarke enquanto um dos três grandes. Era imensa a minha curiosidade. Descobri-o finalmente a meio da década de 80, num volume da colecção Espaço da Verbo (apenas 5 magros números, mas lá dentro, tão repletos de possibilidades!) e, sim, precisamente com este conto. Este conto subtil, económico, inteligente, irónico, poético, melancólico, perfeito. E para minha sorte, estava traduzido com gosto. «Soft rains» ficaram para sempre as «chuvas mansas» no meu imaginário, incapacitando-me de atribuir laivos de qualidade às alternativas «chuvas suaves» ou «chuvas brandas» com que tradutores de outras edições as baptizariam. E como ler é estar vivo, estar consciente da vida, também o momento ficou, essa tarde de Primavera, na sala apertada de uma pequeníssima biblioteca de Junta de Freguesia, com o sol a entrar-me pelas costas e um par de colegas de escola que arrastara comigo para ler FC. Esse resultado de uma escolha ao acaso, volume de uma colecção que desconhecia. O momento permanece como uma história que se conta, pois ignoro o que aconteceu antes dele e o que terá acontecido a seguir - a não ser a decisão de regressar à biblioteca, tornar-me sócio, trazer livros emprestados, procurar reencontrar tal perfeição. Ser leitor é isto, misturar a vida com os livros a ponto de se tornarem indistintos.</P><P>Mas a perfeição tem um preço, se é com ela que se começa. Fatidicamente, Bradbury demorou a reerguer-se tão alto. <EM>As Crónicas Marcianas </EM>trouxeram a estranheza de um autor que renegava o discurso límpido e racional da física, que preferia equiparar foguetões a gafanhotos e descolagens ao verão no campo do que descrever a engenharia que os fabricara. Além de ser um não-romance, uma sequência de vinhetas coladas cujo sentido errava e que se afastava da imagem tradicional da FC. Era aquela afinal a grande obra prometida? Como a proverbial bebida, estranhei e só mais tarde viria a entranhar a abordagem poética. Era primeiro preciso entender que Bradbury nunca foi pessoa de romances, e a seguir, que não escrevia Ficção Científica. Clarke, o matemático mistico - Asimov, o racional dedutivo - Heinlein, todo ele WASP e libertário e republicanóide - crescendo numa época que privilegiava a narrativa curta e movimentada contra longa e meditativa e poética, tinham no entanto um pendor para a verosimilhança científica, e apreciavam tecnologia. Bradbury era humanista onde estes eram tecnocratas, era bucólico onde estes eram urbanos. Se o seu nome não fosse pronunciado na mesma exalação na companhia daqueles senhores, jamais as minhas expectativas teriam ficado defraudadas. Nunca fui muito compreensivo com quem não partilha o fascínio pelo funcionamento íntimo do Real. Bradbury tornou-se, então, um autor que era preciso deslocar, reposicionar - algo que não era fácil quando obras como <EM>A Cidade Fantástica </EM>(<EM>Dandelion Wine</EM>), um pequeno hino à infância que nada tinha de FC e verdadeiramente pouco de Fantasia, roubavam os poucos espaços anuais de publicação nas colecções dedicadas da época. Não foi senão mais tarde - dizia - que entendi Bradbury como talvez o primeiro, sem dúvida um dos poucos, realistas mágicos do género, alguém que apenas lhe escuta e repete a simbologia e através dela espelha um entendimento fiel e inovador das crenças e dos temores de quem lê. Sim, os foguetões eram gafanhotos de metal porque esta era a sua verdadeira natureza.</P><P>Mas que não fique a ideia errada: Bradbury continuou a chamar-me do fundo das prateleiras, ou não fosse dele o grande hino à importância da literatura que foi <EM>Fahrenheit 451 </EM>(o qual aguarda a tradução corajosa em <EM>233 Centígrados</EM>), em versão livro e filme. Estava-se no rescaldo de certas ditaduras, e noutras enfiados nelas até ao pescoço. E também dele a ideia de salvar Thomas Wolfe - um dos melhores prosadores americanos de sempre - das garras da tuberculose para terminar a sua obra.</P><P>Para mim, Bradbury voltaria a erguer-se com «All Summer in a Day», outro dos seus contos breves sobre a capacidade das crianças em sofrer e encantar-se com igual intensidade. Evoquei-o, recentemente, no artigo «Rosebud» dedicado aos livros da vida. Na sua simplicidade e pequenez, continua poderoso como um murro na alma. Assim, como os grandes escritores. </P><P>Abençoados os que descobrem, pela primeira vez, Ray Bradbury. Que encantadora jornada os espera.<BR></P><div class="feedflare">
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<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=Qvdx5bjBPTU:bWw645fyJOY:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=Qvdx5bjBPTU:bWw645fyJOY:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
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Não gostou de perceber que, entre os participantes, se incluia um dignatário dos Cabeça-de-Abóbora, da extirpe que, diziam os corredores, tinha estado envolvida no conjunto de projectos de bio-manipulação humana que tinham dado para o torto, sido expostos internacionalmente e derrubado o governo de então. Não gostou de descobrir que a reunião era à porta fechada. E muito em particular, não gostou de ter de esperar na sala de visitas, por muito luxuosamente decorada que estivesse com tapeçarias antigas oferecidas por embaixadores e representantes de Estado e equipada com poltronas confortáveis e ligação à internetdois, juntamente com um acólito do referido dignatário. </P><P>Embora informada sobre a natureza daqueles seres, Sandra assustou-se ao entrar na sala silenciosa, ainda envolta na sensação de despeito pela sua pessoa e pela sua função, e sentir, antes de ver, a presença de algo estranho, volumoso e calado nas suas costas. Foi uma reacção puramente animal: deu meia-volta, soltou um grito, pulou para trás. O acólito limitou-se a mirá-la – se é que estaria a mirá-la – com dois globos oculares empalados no cimo de gavinhas curtas e uma completa ausência de expressão na caricatura de rosto. Estava agachado no canto da sala, as extensas patas recolhidas debaixo do corpo como um louva-a-deus em repouso, a pele lisa e brilhante, sem quaisquer marcas nem pêlos, e de aspecto duro como se feita de queratina. No que passava por focinho, apenas havia uma abertura no fim das queixadas, um opérculo que mantinha fechado. Não produzia qualquer movimento, nem o da respiração que trairia qualquer animal humano daquele porte. Perante uma cor uniforme e uma ausência de traços distintos – cicatrizes, padrões de cores, manchas –, passaria por uma estátua amarela de um artista criativo que se tivesse inspirado na anatomia dos insectos. Sandra recompôs-se, algo envergonhada, embora isso nada significasse para as espécies extraterrestres, em particular para o membro de uma tão servil como aquela, passou as mãos pelo cabelo, inclinou a cabeça, disse Bom dia!, e ainda se sentiu mais parva quando não recebeu resposta. Alguns acólitos eram perfeitamente funcionais e autónomos, como o Mr. Jeeves da Wilhelmina, outros demonstravam a dependência e inteligência de canídeos. Este parecia pertencer ao segundo grupo. </P><P>Os minutos passaram devagar. Sandra não se considerava especialista em contacto extraterrestre – já contactara com vários ao longo dos anos, e sabia que era preciso ter um certo tipo de espírito, uma certa obsessão pelo assunto, e narinas fortes. Mas conhecia o suficiente da História recente para reconhecer indícios de problemas potenciais. Foi com alguma ansiedade que aguardou nos confortáveis assentos da sala, embora tivesse ligado o computador para aproveitar o tempo perdido; acompanhada por um par de cafés <EM>latte</EM> extra-fortes, mergulhou nas actualidades do dia e nos email que aguardavam a sua intervenção. </P><P>Cinquenta e cinco minutos depois da hora combinada as portas do gabinete abriram-se. Sandra fechou a tampa do portátil, ergueu-se, ajeitou a saia. Apenas sairam três elementos de dentro. Um deles era o Ministro de Defesa Nacional, um homem de estatura diminuta, cabeça enterrada nos ombros e um porte largo, quadrático, que conseguira o cargo por intermédio da família, detentora de grande parte da central de energia de fusão nuclear instalada na antiga localidade de Peniche – um dos inúmeros complexos desenvolvidos a partir da sabedoria oferecida, sem contrapartidas e em sinal de boa-fé, pelos extraterrestres, à espécie humana, a qual tinha sido apropriada imediatamente por um conjunto de investidores oportunistas e usada para os tornar escandalosamente ricos. O seguinte era o Secretário de Estado para Comunicação e Imagem, um jovem de aparência imaculada e ar empreendedor, que transpirava a ambição por todos os poros. Seguiu-se-lhes um Conselheiro para Contactos Inter-Espécies, um homem franzino e calado, mas de olhar atento, atitude própria daquela estirpe de profissionais cuja principal função era servir de intermediários para os extraterrestres em assuntos que envolvessem avultadas comissões de ambas as partes. E por fim, o Cabeça de Abóbora. </P><P>Cheirou-lhe a presença antes de o ver. Era um odor a lodo, a matéria putrefacta, que comunicava directamente aos instintos da espécie. Para Sandra era mais uma forma de os Cabeças de Abóbora – que se tinham tornado em mestres da biologia terrestre em poucos anos – incomodarem os anfitriões do planeta. Havia quem não conseguisse controlar as náuseas e necessitasse de medicação constante se pretendesse seguir as lucrativas carreiras de contacto alienígena. Para Sandra, o odor não se conseguia comparar às sensações que lhe provocava a visão de um daqueles seres. </P><P>E agora antevia já a cabeça redonda, grotesca, de um deles, famosa em todo o mundo e distintivo da alcunha que os acompanhava; o sorriso rasgado, perturbador, feroz. A pele de queratina reluzente e húmida, de aspecto peganhento e sujo. As mandíbulas em enervante movimento permanente. As presas destacadas em várias fileiras de dentes, cada qual com funções distintas de rasgar ou triturar alimentos. Depois o corpo alongado de lagarta, coberto de placas de verde enjôo, semelhantes às das asas das moscas. As pequenas patas articuladas, às dezenas, que o faziam progredir lentamente e de forma insinuosa, quase sensual. Um ser volumoso, quase da altura de um ser humano e duas a três vezes tão extenso. Os humanos ficaram de lado a aguardar que o corpo emergisse completamente do gabinete. O Presidente aguardaria do lado de dentro. Tudo tinha de parar ante a presença deles. Inclusive as portas do palácio onde residia agora o governo tinham sido alargadas, reconfigurando e estragando em grande parte a estética do edifício, para acomodar tais convidados. </P><P>O acólito reagiu com espantosa rapidez, colocando-se de pé sobre as patas dianteiras, que à semelhança das girafas, eram maiores que as traseiras, elevando-lhe o pequeno corpo alongado. A superfície luzidia era, afinal, uma capa que recolheu contra o corpo, dobrando os segmentos de queratina no que pareciam ser tendões internos. As patas bateram contra o soalho liso de forma sonora, como se calçasse sapatos de porcelana, deixando marcas visíveis que, pensou Sandra, iriam custar dinheiro aos cofres do Estado a remover. Acercou-se do dono, apoiou-se sobre as patas traseiras, lançou as dianteiras sobre o dorso deste, e começou a aspergi-lo com uma substância branca e viscosa. </P><P>Os dignatários humanos perderam de imediato o ar de contentamento ao observar o espectáculo insólito e ficaram a olhar com imenso espanto; o Ministro da Defesa, inclusive, teve de afastar-se para não ser igualmente banhado. </P><P>Enquanto este procedimento decorria, o Cabeça de Abóbora pareceu reparar em Sandra, e inclinou a cabeça na direcção dela. Ela devolveu o cumprimento, por não saber mais o que dizer. Não se lembrava de ler nos comunicados internos nenhuma menção ao ritual. </P><P>O Cabela de Abóbora, à semelhança da maioria das espécies terrestres, tinha um par de olhos de cada lado da cabeça para triangulação das distâncias, o que muito havia deliciado os cientistas. Fixou-os nela, dois globos negros que absorviam a luz e se assemelhavam a miras automáticas. As gavinhas dianteiras, situadas logo abaixo da cabeça, que, pela aparência frágil não serviriam nem para locomoção nem para manipulação (tudo nos Cabeças de Abóbora era um enigma), mostraram a sua utilidade, teclando agilmente na superfície da caixa de voz pendurada ao equivalente de pescoço. </P><P>- Dra. Sandra, é um prazer revê-la – a voz surgiu neutra e mecânica, embora fluída, igual a todas as vozes de todos os outros Cabeças de Abóbora. – Peço desculpa por esta necessidade terapêutica, mas a minha pele ressente-se desta vossa estação do ano. A nossa atmosfera é muito mais húmida e quente que a vossa. </P><P>Sandra engoliu a custo a bílis que lhe subia pelo esófago, apertou as mãos atrás das costas, ciente de que o extraterrestre tudo observava e registava, e mostrou o seu melhor sorriso. </P><P>- Caro Dignatário, o prazer é todo meu. Que seja grande a sua prole, que seja fértil o seu ninho, que seja longa a sua herança. </P><P>Isto, claro, era também uma ofensa velada, pois as quatro manípulas que sobressaíam intactas do ventre indicava que ainda não tivera uma ninhada que considerasse merecedora. </P><P>- Folgo que os preparativos para a conferência avancem com todas as medidas adequadas. Somos seres caprichosos, nós, os extra-sistema. De exigências difíceis e complicados rituais de negociação. Saúdo o seu espírito de sacrifício em comandar as operações, doutora. Na minha espécie quem conduzisse tal papel saberia que o preço da falha seria a extinção de si mesmo e da sua linha genética. Por tais actos traçamos a fronteira do aceitável na nossa espécie. </P><P>- O senhor dignatário não se preocupe, que temos formas de punir igualmente severas – pelo canto do olho observou o Presidente, que, emergido do Gabinete, encarava com extrema perplexidade a mistura conversa/massagem. </P><P>- Decerto que a vossa espécie se comportará devidamente onde a nossa ousaria pisar – a massa pesada do extraterrestre avançou para a porta, o fedor da presença avivado pelo cheiro adocicado do gel que agora o cobria e lhe dava brilho. O acólito acompanhou-o de lado em posição submissa. E só depois é que os representantes humanos se atreveram a sair. </P><P>- Doutora Mirza, faça o favor de entrar – indicou o Presidente, regressando ao gabinete, onde os empregados tinham já acabado de voltar a arrumar os sofás e cadeiras que a presença do extraterrestre obrigara a colocar de lado. O espaço cheirava fortemente a perfume, forma de afastar o resultado de horas de presença de um Cabeça-de-Abóbora. Infelizmente, para Sandra, não se tornava menos enjoativo. O Presidente sentou-se na secretária, e embora não assumisse de imediato um ar formal, indicou subtilmente que pretendia ir directamente ao assunto. – Lamento imenso tê-la feito esperar, mas marcaram-me esta reunião importante à última hora, sabe como isto é... infelizmente, tenho uma conferência de imprensa daqui a quinze minutos, pelo que teremos de despachar a nossa. Para minha infelicidade, pois a doutora sabe quanto prezo a sua presença. </P><P>Claro que ela sabia. Tanto prezava que a inundara de flores pelo aniversário e a convidara repetidamente para jantar. Habituada à reacção dos homens ante a sua figura (as comparações que fotógrafos e realizadores lhe faziam com uma jovem Padma Lakshmi&nbsp; nos seus tempos áureos não eram exagero, e teria entrado em Bollywood se tivesse desejado), estava também habituada a cortar quaisquer esperanças logo de início, o que fizera no caso do Presidente. Este reagira da forma como também o faria muitos dos homens, iniciando uma ostracização subtil que resultara no convite para organizar a mais importante conferência inter-espécies de sempre. Um presente envenenado. </P><P>Sim, ela bem sabia o quanto ele prezava a sua presença. </P><P>- Não tem importância. Podemos acelerar a discussão. Contudo, depreendo que o senhor Presidente tenha informações cruciais a transmitir-me. </P><P>- Como assim? </P><P>- Bem, acabo de ver os dois principais responsáveis pela segurança do país e o senhor Presidente reunirem-se à porta fechada com um dignatário dos Spiertvick'kap... é natural supor que a discussão possa ter importância para a conferência que se avizinha. </P><P>O Presidente abriu a boca num sorriso de dentes imaculados e luzidios. O sorriso profissional de um político: charmoso, fácil e traiçoeiro. Mecanismo de defesa natural quando se sentia encostado à parede. </P><P>- Mera troca de informação inter-espécies, no bom interesse do país. Não tem impacto no seu trabalho, doutora Sandra. Não precisa de preocupar-se. </P><P>- Muito bem – agora que ele mostrara que o assunto era confidencial, mais curiosa se sentia. Teria de usar meios menos oficiais e directos. Abriu a pasta e retirou um molhe de folhas agrafadas. – Este é o ponto de situação do projecto. Resumidamente, encontramo-nos cerca de duas semanas atrasados face ao objectivo inicial, a nível da reconversão da secção lateral esquerda da estação orbital para a instalação do auditório comum. Aconteceram problemas durante a instalação, nomeadamente uma erupção solar inesperada que tornou perigosa a permanência dos construtores no espaço e a demora de alguns dias, devido a tempestades no local de lançamento, no envio de novas equipas. </P><P>- Não foi possível utilizar robôs? Não quero que a data da conferência seja adiada por motivos imputáveis a nós. </P><P>- Estabelecemos prontamente uma forma de compensar o atraso... – disse Sandra. – O que estamos a fazer... </P><P>- Sim, os detalhes não me interessam, doutora. Preciso que me garanta isso. Algum dos outros extra-planetas pode usar isso como desculpa, e lá se vai esta presidência... </P><P>- O senhor Presidente é então da opinão de que não há perigo de os Spiertvick'kap se ausentarem? </P><P>Ele recostou-se no cadeirão, ajeitando o fato e compondo o cabelo. </P><P>- Sou dessa opinião, sim. Sempre se manifestaram muito disponíveis para ajudar-nos. Para estabelecer contacto com os representantes das outras espécies. A doutora não concorda? </P><P>- Concordo, senhor Presidente. Concordo em excesso, diria mesmo. A prestabilidade tem sido sentida pela minha equipa em todos os níveis. Na sugestão de equilíbrio ambiental em órbita para proporcionar a melhor mistura de gases atmosféricos e disseminação de calor para todos os participantes. Na revisão dos espaços privados de cada espécie, porque aparentemente os Spleen sofrem alterações significativas em ambientes de gravidade-zero e os Angst possivelmente enviarão um representante capaz de sobreviver no vácuo. Nos temas que devem ser abordados e no protocolo mais adequado a todos. Inclusive no treino, com simulações, dos humanos que irão moderar os debates. Temos aprendido mais neste período sobre a forma de interagir das várias espécies do que nos últimos anos. </P><P>- Então isso só pode ser bom, não lhe parece? – Soltou de novo aquele sorriso desarmante. Era um homem bem parecido. Não fosse a arrogância natural, e a incapacidade de poder confiar nele, e Sandra não teria tido pejo em aceitar os convites lançados. – Ainda a conferência não aconteceu e já estamos a colher frutos... </P><P>- Se nas três décadas de convívio inter-espécies houve algo que aprendemos rapidamente sobre os Cabeça-de-Abóbora, é que são mais avarentos que o Tio Patinhas. E que sabem fazer-se pagar pelo que oferecem. Esta manifestação de generosidade... </P><P>- Não duvido que venham a lucrar com o evento. Doutora Sandra, sei bem que vamos apenas fazer de almofada para suavizar o embate dos titãs. Eles precisam de negociar uns com os outros, questões de território, trocas comerciais, uso de recursos, seja lá o que for. Por sinal, também nós precisamos. Talvez os Spleen estejam mesmo a extrair sem custos as últimas reservas de petróleo. Talvez os Angst nos disponibilizem as minas da América do Sul. A nossa civilização precisa de recuperar o acesso que costumava ver às riquezas do planeta. Temos de conseguir ajudar-nos uns aos outros. Temos de criar elos e dependências mútuas. Caso contrário voltamos a existir isoladamente no planeta, e a única forma de tomar o que precisamos é pela força, como acontecia antigamente. E isso não beneficia ninguém. </P><P>Esticava os braços e avançava no assento, mostrando unidos os dedos das duas mãos num aperto evidentemente coreografado. Sandra lembrava-se de algumas destas palavras como fazendo parte da argumentação que usara junto do Parlamento para convencer os deputados a largar os cordões da bolsa pública e financiar a reconversão da plataforma espacial. Ocorreu-lhe então algo, pela primeira vez (castigando-se interiormente por não ter desconfiado antes), que o ganho pessoal do Presidente poderia não ser apenas o prestígio político, como pensara, nem se calhar as discretas oferendas financeiras do costume, mas algo mais profundo, mais intimamente ligado aos verdadeiros motivos dos Spiertvick'kap. Afinal, todos os Presidentes têm um preço. </P><P>Ele voltou a recostar-se. </P><P>- E quanto aos outros extra-planeta, doutora Sandra, não se encontra preocupada? Os contactos com os Spleen e os Angst estão a decorrer em conformidade? A presença deles está garantida? </P><P>- Os Spleen irão. Têm-nos inclusive enviado com alguma regularidade adornos supostamente religiosos para cobrirmos os espaços de convívio a bordo. Tivemos de avaliá-los para efeitos de segurança, e descobrimos que todos os adornos possuem uma fonte de energia interna e transmitem continuamente informação codificada em ondas curtas. Os Spiertvick'kap dizem-nos que são terços de orações, nós cremos que sejam câmaras e retransmissões espiões. </P><P>- Bem, era de esperar... Desde que não os coloquem onde ouçam o que não devem... E os Angst? </P><P>- Apenas conseguimos falar com humanos... pessoas. Pessoas que se apresentam como porta-vozes do colectivo. Mas que asseguram a presença da espécie e não requerem sequer acomodações especiais. </P><P>- E como podemos ter certeza do que afirmam ser? </P><P>&nbsp;- Os Spiertvick'kap indicaram que os Angst costumam recorrer a elementos... «convertidos» da espécie com quem contactam... Sugeriram-nos estarmos atentos a alguns indícios subtis. Reacções fisiológicas, termos utilizados, esse tipo de coisas. Passaram no teste. Os porta-vozes foram sempre diferentes, durante os vários contactos, mas mostravam ter um conhecimento total e detalhado das reuniões anteriores. Como se partilhassem uma única mente... Como se não tivessem vontade ou personalidade própria... – estremeceu involuntariamente ante a lembrança. </P><P>- Fico contente, doutora Sandra, que tudo esteja a decorrer na conformidade. Tenho mesmo de ir. Damos por encerrado...? </P><P>- Senhor Presidente, continuamos a receber aquelas mensagens – disse apressadamente, levantando-se em acompanhamento do homem do outro lado da secretária. – Agora ameaçam rebentar a estação espacial se não recuarmos. Foi efectuado algum progresso na captura destes...? </P><P>- Não se preocupe, estou a acompanhar o assunto. A investigação está a correr bem. Ainda hoje o Ministro da Segurança Interna me assegurou que os culpados já foram identificados e que alguém está infiltrado no meio para os deter. </P><P>- Oh. Não tinha sido informada do assunto. </P><P>- Não leu o relatório? Possivelmente estará acima do seu nível de segurança. </P><P>- Senhor Presidente, como deve entender, é importante para o meu desempenho saber que não haverá... </P><P>- Mantenha a segurança apertada e os controlos invioláveis. Do resto tratamos nós – o Presidente dera a volta à secretária, dirigia-se à porta. – Fazemos assim: vou dar uma palavrinha ao General Saraiva para que a contacte. Informalmente. </P><P>- Fico muito agradecida, senhor Presidente. </P><P>- Ouça, doutora Sandra – parou com a mão sobre a maçaneta da porta, e adoptou um tom de voz mais amável, fitando-a nos olhos. – Quero que saiba que estou muito satisfeito com o seu trabalho. Apenas ouço falar bem de si. Tem mantido as operações discretas e sem sobressaltos no orçamento. Tem sido incansável na resolução dos problemas. Quero que saiba que não se encontra sozinha. Quero que sinta que tem o apoio deste Executivo. </P><P>Sandra sorriu, involuntariamente. </P><P>- Senhor Presidente, agradeço imenso, não precisa de... </P><P>- Não, quero mesmo que sinta o nosso apoio. A doutora merece, o projecto merece. Fazemos assim: agora que estamos na fase final, vou pedir a um colaborador meu de longa data, muito experiente na gestão de projectos complexos, para dar um saltinho a órbita e colocar-se à sua disposição. Use-o como bem entender. Sem custos adicionais para o projecto. Considere-o uma oferta minha. Adeus, doutora Sandra. Marcamos um nova reunião daqui a duas semanas? Veja a minha agenda com a senhora Clotilde. </P><P>E foi assim que no espaço de dois segundos o político profissional passava de carneiro a lobo, e Sandra se via a braços com o espiãozinho directo do Presidente a espreitar-lhe por cima do ombro. </P><P>Não pode evitar retesar-se como se uma corrente eléctrica fortíssima a tivesse percorrido. Não pode evitar a manifesta dureza das mãos que agarravam a mala, dos músculos do pescoço contraído, dos lábios amargamente fechados, do braço que teve de forçar a estender-se e cumprimentar aquele homem. Não pode evitar o brilho de desapontamento e humilhação nos olhos. Mas o que a atormentaria mais tarde, quando se deitou finalmente nessa noite, era o pensamento de que o beicinho lhe tremera, ligeira mas visivelmente, como uma criança assustada. Dando essa vitória a ele, cuja única resposta foi mostrar os dentes, e era como se no mundo dela não houvesse mais que aquele sorriso, aquela certeza de que seria devorada, mastigada e cuspida por uma vontade tão subtil e tão doce que não seria capaz de fugir-lhe. </P></BLOCKQUOTE><div class="feedflare">
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</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/RFBvZQiAVT8" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1339095017</feedburner:origLink></item><item><title>Uma Lembrança Vívida</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/upKjIsy7oPo/1337066981</link> <pubDate>Tue, 15 May 2012 11:29:01 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Crítica</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1337066981</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Uma Lembrança Vívida</b> de Angela Carter <A href="http://www.lrb.co.uk/v34/n09/rosemary-hill/hairy-fairies">esconde esta perspicaz observação</A>:<BLOCKQUOTE>  <P>Once she’d chosen to dispense with most of the apparatus of what she called   «real novels» of the sort in which «people drink tea and commit adultery»,   narrative was what remained: the beating, often bloody heart of her argument.   It was the simplest of strategies, a return to the storytelling of childhood   and to oral traditions that began «before there was such a thing even as   writing», but in the later 20th century it was also something of a high-wire   act, risking bathos on the one side, forced extravaganza on the other.</P></BLOCKQUOTE><P>Ou não afirmasse Carter que «our lives are all about our childhoods», algo que não precisa de explicação e nem de consentimento.</P><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=upKjIsy7oPo:35Gf5z2hF4Y:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=upKjIsy7oPo:35Gf5z2hF4Y:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/upKjIsy7oPo" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1337066981</feedburner:origLink></item><item><title>Uma Sensação de Desalento</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/7rkD4GCBEdw/1337000715</link> <pubDate>Mon, 14 May 2012 17:04:18 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1337000715</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Uma Sensação de Desalento</b> Há Mais de 40 Anos, ou, Então, Como Agora:<BLOCKQUOTE><P>Infelizmente, o acanhado meio editorial do nosso país não permite grandes esperanças de profissionalização e os escritores, ou nascem em berço de ouro e podem dedicar-se inteiramente à sua vocação ou não têm essa sorte e são obrigados a um labor quotidiano após o qual, ou não têm tempo ou qualquer vontade, qualquer réstea de inspiração, se perdeu nessas horas de  trabalho-sobrevivência. Daí, resulta necessariamente uma produção  incerta - em qualidade,  não em quantidade, entenda-se.</P></BLOCKQUOTE><P>Da introdução do organizador Lima Rodrigues ao conto «Destruição» de Hélia (Maria Helena Sotto Baptista Brito de Sousa), na antologia <EM>Terrestres e Estranhos </EM>(1968). </P><P>Contra-argumento apenas neste ponto: a incerteza da produção implica a inexistência de prazos, e logo de público, e por conseguinte de uma vivência diária, obcecada, com o discurso literário. É tão difícil, nestas circunstâncias, atingir a qualidade como a quantidade. Mas eis um debate interessante para futuras ocasiões.</P><P>(PS - o editor termina a referida introdução com o seguinte apontamento, o qual não deixa de ser desconfortável no contexto em que se insere: «É de suspense e terror o conto "Destruição" que dela apresentamos; e curto, como Hélia gosta. Não é de modo algum o seu melhor, mas raramente um coordenador de trabalhos deste género consegue o melhor de cada autor e nós não somos, infelizmente, excepção.»)</P><P><B>ACTUALIZAÇÃO 16-05-2012:</B> O referido conto pode ser encontrado <a href="http://policiariodebolso.blogspot.pt/2012/05/caleidoscopio-133.html">aqui</a>.</P><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=7rkD4GCBEdw:zm27erLzL3Y:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=7rkD4GCBEdw:zm27erLzL3Y:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/7rkD4GCBEdw" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1337000715</feedburner:origLink></item><item><title>Já Se Encontra Disponível</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/eVzKby22BPM/1336828774</link> <pubDate>Sat, 12 May 2012 17:18:45 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Cultura</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1336828774</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Já Se Encontra Disponível</b> para <A href="http://www.saidadeemergencia.com/produto/outros/revista-bang-o-202437/revista-bang-no12-ebook/">leitura o número 12 da revista <EM>Bang!</EM></A>, que contém o meu texto sobre os livros de todas as vidas, «Rosebud», que é o engano de si mesmo. Destaque para os textos de Macedo, Soares e Seixas. Destaque também para o conto de Peter Watts, que seria um trabalho de excelência literária se tivesse usado o conto de Campbell como referência ao invés do filme de Carpenter. <P>Deixo uma errata: as legendas das capas dos livros na página 71 deveriam ser, para os <EM>Sonhos de Einstein</EM>: «Não passamos de um sonho do Tempo», para o <EM>Blade Runner</EM>: «Vi raios-c a brilhar no escuro junto ao portão de Tanhauser». E já agora, uma subtil revisão no verso de Cummings (p. 70): «(pois deus ama raparigas e o amanhã e a terra)».</P><P align=center><img src="https://lh5.googleusercontent.com/-8R6fcyHknCs/T6BnOUawWvI/AAAAAAAABl4/W3MU1LO3E18/s533/Bang+12.jpg" alt=""></P><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=eVzKby22BPM:JNeddPp0ot0:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=eVzKby22BPM:JNeddPp0ot0:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/eVzKby22BPM" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1336828774</feedburner:origLink></item><item><title>Revista Internacional</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/5RLVXIMnJZg/1334706798</link> <pubDate>Wed, 18 Apr 2012 03:52:08 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Internacional</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1334706798</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Revista Internacional</b> procura artigos sobre cinema e FC no mundo. Transcrevo o pedido tal qual recebido, sem tradução, uma vez que os artigos deverão seguir em inglês.<BLOCKQUOTE> <P><EM><A href="http://liverpool.metapress.com/content/121631/">Science  Fiction Film and Television</A></EM> is seeking articles for a special issue  in on world sf cinema and television.</P> <P>Although excluding the US from discussions of world cinema and television  creates a problematic opposition(ality), we are seeking critical work on sf  from other national/transnational, and especially non-Anglophone, contexts,  both historical and contemporary.</P> <P>We are particularly, but not exclusively, interested in work which  introduces and/or offers fresh insights into specific national  cinemas/televisions, or which reconceptualises sf by relativising US/First  Cinema variants as culturally-specific approaches rather than generic norms,  or which addresses the following:</P> <UL>  <LI>globalisation</LI>  <LI>transnationalism</LI>  <LI>imperialism, neo-imperialism, post-imperialism</LI>  <LI>colonialism, decolonisation, neo-colonialism, post-colonialism</LI>  <LI>sf from the Third World/Developing World/Global South</LI>  <LI>indigenous, Fourth World and Fourth Cinema sf</LI>  <LI>the subaltern</LI>  <LI>nationhood, national identity, regional identity</LI>  <LI>race, ethnicity, gender, sexuality</LI>  <LI>global networks, informational black holes</LI>  <LI>borders, borderlands</LI>  <LI>homelands, migrations, diasporas</LI>  <LI>national, international or transnational contexts of production,   distribution or consumption</LI>  <LI>specific production cycles</LI></UL> <P>Submissions should be made via our website at <A  href="http://mc.manuscriptcentral.com/lup-sfftv">http://mc.manuscriptcentral.com/lup-sfftv</A>.</P> <P>Any queries should be directed to the editors, Mark Bould (mark.bould AT  gmail.com) and Sherryl Vint (sherryl.vint AT gmail.com).</P> <P>The deadline for submission to this special issue is September 1 2013.</P></BLOCKQUOTE><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=5RLVXIMnJZg:-U-Zai8hK6U:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=5RLVXIMnJZg:-U-Zai8hK6U:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/5RLVXIMnJZg" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1334706798</feedburner:origLink></item><item><title>Uma Passagem A Correr</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/QN6cyZ1Rp3Y/1334215121</link> <pubDate>Thu, 12 Apr 2012 11:17:56 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Crítica</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1334215121</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Uma Passagem A Correr</b> para dar nota que aceitei o amável convite do blogue «A Casa do Alfaiate» para ser bloguer convidado do mês, colaborando com um <A href="http://acasadoalfaiate.blogspot.pt/2012/04/assuntos-de-escrita-curtas-historias-e.html">texto sobre escrita de género e respectivas oportunidades</A>. Vão e fiquem por lá para descobrir a riqueza de textos de uma veterana do DN Jovem, esse espaço de tertúlia que tanto contribuiu para a actual geração de autores portugueses.<div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=QN6cyZ1Rp3Y:OBivxJ1i5f0:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=QN6cyZ1Rp3Y:OBivxJ1i5f0:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/QN6cyZ1Rp3Y" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1334215121</feedburner:origLink></item><item><title>The Fact Is</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/A-5s-FY1zr8/1333708167</link> <pubDate>Fri, 06 Apr 2012 14:28:49 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Destaques</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1333708167</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>The Fact Is</b> we're all just a bunch of ink-sniffers.<P align=center><object width="526" height="374"><param name="movie" value="http://video.ted.com/assets/player/swf/EmbedPlayer.swf"></param><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowScriptAccess" value="always"/><param name="wmode" value="transparent"></param><param name="bgColor" value="#ffffff"></param><param name="flashvars" value="vu=http://video.ted.com/talk/stream/2012/Blank/ChipKidd_2012-320k.mp4&su=http://images.ted.com/images/ted/tedindex/embed-posters/ChipKidd_2012-embed.jpg&vw=512&vh=288&ap=0&ti=1410&lang=&introDuration=15330&adDuration=4000&postAdDuration=830&adKeys=talk=chip_kidd_designing_books_is_no_laughing_matter_ok_it_i;year=2012;theme=master_storytellers;theme=presentation_innovation;theme=art_unusual;event=TED2012;tag=creativity;tag=design;tag=humor;tag=literature;&preAdTag=tconf.ted/embed;tile=1;sz=512x288;" /><embed src="http://video.ted.com/assets/player/swf/EmbedPlayer.swf" pluginspace="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" bgColor="#ffffff" width="526" height="374" allowFullScreen="true" allowScriptAccess="always" flashvars="vu=http://video.ted.com/talk/stream/2012/Blank/ChipKidd_2012-320k.mp4&su=http://images.ted.com/images/ted/tedindex/embed-posters/ChipKidd_2012-embed.jpg&vw=512&vh=288&ap=0&ti=1410&lang=&introDuration=15330&adDuration=4000&postAdDuration=830&adKeys=talk=chip_kidd_designing_books_is_no_laughing_matter_ok_it_i;year=2012;theme=master_storytellers;theme=presentation_innovation;theme=art_unusual;event=TED2012;tag=creativity;tag=design;tag=humor;tag=literature;&preAdTag=tconf.ted/embed;tile=1;sz=512x288;"></embed></object></P><div class="feedflare">
<a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=A-5s-FY1zr8:HQ5oDorIxAc:yIl2AUoC8zA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=yIl2AUoC8zA" border="0"></img></a> <a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?a=A-5s-FY1zr8:HQ5oDorIxAc:7Q72WNTAKBA"><img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/EfeitosSecundarios?d=7Q72WNTAKBA" border="0"></img></a>
</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EfeitosSecundarios/~4/A-5s-FY1zr8" height="1" width="1"/>]]></content:encoded> <feedburner:origLink>http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1333708167</feedburner:origLink></item><item><title>Vamos Tornar A Coisa Clara</title> <link>http://feedproxy.google.com/~r/EfeitosSecundarios/~3/7HAkT2-1i9U/1331716369</link> <pubDate>Wed, 14 Mar 2012 13:12:12 +0000</pubDate> <dc:creator>LFS</dc:creator> <category>Crítica</category> <guid isPermaLink="false">http://www.tecnofantasia.com/cgi-bin/tfmaint.cgi/01/00/B1055070632/1331716369</guid> <content:encoded><![CDATA[<b>Vamos Tornar A Coisa Clara</b> desde a primeira frase, para evitar leituras apressadas e dúbias: não detesto histórias de zombies. Como qualquer elemento do fantástico, o fenómeno do morto que não fica quieto e se arrasta pela eternidade dentro em busca de algo muito específico (braaains!) tem a sua utilidade, desde o comentário social à paródia. Mas também, como acontece com qualquer outro elemento, uma dose sã de aplicação contida e razoável não faz mal nenhum à literatura, e&nbsp;inclusive é capaz de fazer muito bem.<P>Num lado do espectro, encontram-se antologias como <EM>The Living Dead</EM>, organizada por John Joseph Adams, cuja gorda dimensão permite incluir histórias dos mais variados tipos, desde as mais clássicas de horror às de cariz intimista, desde aquelas em que os autores procuraram justificar cientificamente o aparecimento dos zombies (explicações que normalmente se revelam patéticas ou absurdas, um pouco à moda das origens dos poderes dos super-heróis) às que utilizam o fenómeno do morto-vivo como encarnação de memórias desconfortáveis e testemunhas de um passado vergonhoso. Já anteriormente aludi, neste espaço, a uma história em concreto («Death and Suffrage»), na qual as vítimas de assassinato à mão armada se erguem do chão em época de eleições e se reunem, silenciosas, em torno das urnas, forçando os cidadãos americanos a confrontarem pessoalmente os resultados da crença da liberdade do porte de armas e a votarem com&nbsp;mais clareza no candidato correcto&nbsp;- exemplo da literatura fantástica na sua melhor função de critica social pela visualização da sociedade futura ou imaginada que, com as nossas acções e inacções, ajudamos a edificar. Contudo, estas histórias são raras, e mesmo a antologia, para o mais entusiasta de ficção sobre zombies, acabará (estou certo) por constituir um excesso, qual refeição em que todos os pratos, simplesmente, chegam demasiado cheios.&nbsp;A verdade é simples: a utilização&nbsp;do zombie&nbsp;é limitada, e&nbsp;para conhecer um espectro que mistura&nbsp;textos clássicos, recomenda-se <EM>Zombies! Zombies! Zombies!</EM> de Otto Penzler, cujo título demonstra perfeitamente que os admiradores não conseguem levar este artifício literário demasiado a sério.</P><P>E contudo, no outro lado do espectro, impera a seriedade. Uma seriedade forçada, complicada, por vezes difícil de digerir. Não encaro a seriedade com leveza, até porque é imprescindível para o efeito sufocante das histórias de terror, categoria em que se enquadram a maioria dos exemplos desta zona do espectro. Contra o terror, contudo, ergue-se a lógica, como reacção imediata de sobrevivência, em busca de soluções e caminhos para escapar ao destino eminente. E é aqui que a suspensão da descrença começa a soçobrar. Culpa dos autores, que não são coerentes e contradizem as próprias premissas que se esforçaram tanto para consolidar.</P><P>Assim, em <EM>Guerra Mundial Z</EM>, o efeito de colagem jornalística que Max Brooks vai, com alguma destreza construindo, perde-se aquando do ataque dos zombies a Nova-Iorque e respectiva defesa pelos militares. Existe uma sequência fulcral, na qual são lançados jactos de lança-chamas, os corpos meio-vivos começam a arder, e <EM>ainda assim os zombies avançam</EM>! A sério? Esqueceram-se da lição básica de anatomia - que um esqueleto não se mantém em pé a não ser pela força dos tendões e pela robustez dos músculos, os quais seriam rapidamente consumidos pelas chamas -&nbsp; e ainda assim, caminham? Depois de o autor ter gasto uma centena de páginas a explicar elaboradamente a disseminação do suposto «vírus zombieficante» (uma hipótese razoável no contexto literário), lembrou-se de repente que o fogo era uma forma eficiente de ataque e (ups!) toca de lançar uma explicação apressada? Para incluir a cena obrigatória de uma Manhattan cheia de mortos-vivos rastejantes que ficaria tão bem num filme, imagino...</P><P>Sem pensar nos modos como um zombie funcionaria (os impulsos eléctricos cerebrais preconizados pelo <EM>Walking Dead </EM>não bastam, pois existe toda a parafernália do sistema nervoso central e secundário que fornece energia aos órgãos, faz o zombie ver as presas, cheirar o doce aroma da carninha fresca e ir a correr - a correr! - atrás dela; sem contar no facto de, de repente, um morto-vivo apresentar dentadas tão aguçadas que são capazes de dilacerar um ser humano em poucos minutos), mesmo o mais lesto, feroz e implacável das estirpes zombíficas cairia perante o uso de granadas, bombas ou outras formas de dilacerar orgãos. É muito, muito difícil crer numa eventual queda da sociedade moderna por graça do apocalipse zombie. E contudo, as obras actuais deste subgénero tratam o apocalipse zombie, não só como uma inevitabilidade cujos pormenores são tão parecidos de obra para obra que demonstram já fazer parte de um&nbsp;inconsciente literário, à moda dos impérios galácticos e das viagens transluminais do passado, como utilizam uma prosa cuidada e intimista, que em nada se conjuga com a relativa imbecilidade da premissa (estou a pensar no caso muito particular de <EM>Zone One</EM>). O que era meramente divertido e funcionava neste contexto tornou-se num artefacto bizarro, que pouco contribui para a maturidade do género. É um pouco como ver um grupo de adultos a filosofar sobre a <EM>gravitas </EM>dos brinquedos infantis: tem-se vontade de dizer «não é para isso que servem».</P><P>Uma epidemia que transformasse seres humanos em zombies seria debilitante. Os doentes, mesmo demonstrando picos de actividade, em breve perderiam as forças, por falta de alimento. A perda gradual de membros, estrutura óssea e terminações nervosas acabaria por desfazê-los. Seria fácil fugir deles, mesmo para uma criança de quatro anos. Como só reagem a estímulos e não planeiam nem pensam, deixar-se-iam capturar sem problemas. Um mero animal de estimação é mais inteligente do que eles. Não metem medo algum.</P><P>Estão a ver o que acontece quando se aplica a lógica? Estraga tudo.</P><P>Talvez a melhor forma de demonstrar seja com uma ficção apressada.</P><BLOCKQUOTE> <P>Os miúdos estavam novamente a espicaçar os zombies.</P> <P>- Manel, Joaquim, parem com isso! – berrou a mãe através da janela aberta.  – Ainda acordam o vosso pai!</P> <P>Mas era tarde de mais. Tobias entrou cozinha adentro, a cofiar a barba e  com olhos ainda inchados de sono. Percebeu-lhe no olhar: os miúdos não se iam  safar a umas boas palmadas.</P> <P>- Que porra de algazarra é esta?</P> <P>- Estão outra vez metidos nas gaiolas. Desde que trouxeste o gordo que não  os largam.</P> <P>- Não o trouxe para andarem a brincar com ele. Deixa-me tratar do assunto –  espetou a cabeça pela porta. – Manel, Quim, aqui, já! Se não largam os  zombies, tranco-vos lá dentro com eles.</P> <P>A ameaça devia ter resultado, pois surgiram duas figuras pequenas, muito  animadas, a correr pelo quintal. Cada uma trazia uma cana pousada no ombro, na  ponta da qual se afixava um anzol com um pedaço de carne fresca espetado.  Agora, foi a vez da mãe ficar irritada.</P> <P>- Mas isto é carne da boa! Quem é que vos mandou ir à despensa? Já vos  disse que só lhes damos restos – tirou a cana a um deles e tentou dar-lhe uma  palmada no rabo, mas passou apenas de raspão. O miúdo soltou uma gargalhada e  pulou para cima da cadeira, querendo chegar à cesta com fatias de bolo. O  irmão imitou-o. – Nem pensem nisso! O jantar está quase feito. Nada de comer  doces.</P> <P>- Ah, mãe!... – queixou-se o Manel. – Estou cheio de fome!</P> <P>- Mais fica para o jantar. Agora, vai lavar as mãos, andaste a mexer... – e  parou, ao olhar com mais atenção para o pulso do miúdo. – O que é isto?</P> <P>Ele tentou esconder mas ela foi rápida e agarrou-o, puxando a manga da  blusa para cima. Dois rasgões vermelhos estendiam-se até meio do braço.</P> <P>- Não foi nada, foi um que me agarrou. Nem sequer dói.</P> <P>O pai surgiu por trás e deu-lhe uma palmada na cabeça que lhe levantou  cabelo.</P> <P>- Não sabes ter cuidado? Não vos ensinei já a alimentar os fedorentos? – E  depois virou-se para o irmão dele, mais velho, e deu-lhe também uma palmada. –  E tu, não te disse para tomares conta do teu irmão?</P> <P>Amuados por que tinham apanhado por igual conta, fizeram beicinho e  baixaram a cabeça. </P> <P>A mãe tinha já ido buscar água oxigenada e desinfectante.</P> <P>- Aqueles bichos são porcos, só mexem em coisas mortas – disse ela,  começando a limpar as feridas do Manel. Quando este soltou um queixume,  sacudiu-lhe a mão. – Não te mexas. Estás cheio de sorte por já teres levado as  vacinas. Se não, ias acabar como eles.</P> <P>- A professora disse que só uma em cem pessoas é que fica doente – adiantou  o Joaquim.</P> <P>- A vossa professora diz muita coisa – comentou a mãe. – Mas o avô foi dos  primeiros a ser apanhado.</P> <P>- O avô estava paralítico na cama, mãe.</P> <P>O pai esticou o pescoço para ver a ferida do pequeno.</P> <P>- Isso não é nada! No meu tempo, quando andavam à solta e nos apanhavam a  jeito, eram capazes de nos arrancar os dedos à dentada!</P> <P>- Mas, pai, eles estão todos desdentados, como é que faziam isso? –  perguntou o Joaquim, em tom de desafio.</P> <P>- Ah, mas ainda tinham dentes. Dentes cortantes e aguçados que saíam das  gengivas e se enterravam na pele. Pareciam facas.</P> <P>- A professora disse que eles metiam mais pena que medo. Até um bebé corre  mais depressa que um zombie.</P> <P>- Ah, sim? Então e isto? – e arregaçou a manga, expondo a habitual cicatriz  profunda junto ao ombro.</P> <P>- A mãe disse que apanhaste uma bebedeira no dia do casamento e caiste pela  escada...</P> <P>- Isso são modos de falar com o teu pai? – cortou a mãe. Virou-se para o  marido: - E tu, vai despachar-te, que não estás a assustá-los. Faz-se  tarde.</P> <P>Antes de sair para o quintal, o pai virou-se para o Joaquim e arreganhou os  dentes.</P> <P>- Grande e aguçados. Foi um fedorento inchado, caiu em cima de mim. Quase  me arrancava o braço...</P> <P>A mulher atirou-lhe com o algodão usado e os miúdos riram-se.</P> <P>Lá fora, Tobias perdeu não mais que dez minutos a laçar três dos fedorentos  e a atá-los à carroça. Eram os que mantinham uma fisionomia mais intacta – aos  dois restantes, faltavam pedaços do torso e boa parte dos braços. Teria de se  ver livre deles, o cheiro já se tornara insuportável e eram inúteis como  bestas de carga. Quanto aos restantes, seguiam o caminho normal da  degeneração, perdendo olhos, lábios e dedos à medida que o tempo e os insectos  se iam aproveitando da carne que restava.</P> <P>Tobias entrou em casa e voltou passado algum tempo com o farnel. Os zombies  aguardavam pacientemente, até serem perturbados por algum estímulo – como era  hábito, perdidos para o mundo e para a vida. Neste caso, bastava um pano  ensopado em sangue fresco de galinha para os fazer andar, que se pensava numa  vara e se agitava diante deles. Acordava-os, soltavam gemidos de dentro de  pulmões que não passavam de sacos inúteis de pó, e lá conseguiam arrastar a  carroça na ânsia da fome.</P> <P>Como mão-de-obra não se destacavam pela flexibilidade, mas Tobias  preferia-os aos animais, particularmente agora, perante tantas leis de  protecção e o custo de obter uma boa besta de carga com todas as vacinas em  dia e papéis sanitários aprovados. Os zombies eram baratos de manter e não  davam problemas. Se não fossem eles , Tobias não tinha forma de manter a terra  lavrada a tempo. Alugar um tractor estava acima das possibilidades e a  cooperativa não queria ajudá-lo. </P> <P>Mas um dia até os zombies acabariam por gastar-se e desaparecer. Era um  pensamento aterrador para uma noite tão escura, e Tobias afastou-o de  imediato.<BR></P></BLOCKQUOTE><P>&nbsp;</P><div class="feedflare">
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