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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/atom10full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearch/1.1/" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" gd:etag="W/&quot;D0EDR3k8cSp7ImA9WhRaE0U.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304</id><updated>2012-02-16T06:47:56.779-03:00</updated><category term="Intervenção" /><category term="Miniconto" /><category term="Conto" /><category term="Convite" /><title>Estórias Pacatas</title><subtitle type="html">Contos e minicontos de Ronaldo Brito Roque</subtitle><link rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/posts/default" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/" /><link rel="next" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false&amp;v=2" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>46</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/EstriasPacatas" /><feedburner:info uri="estriaspacatas" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><entry gd:etag="W/&quot;D0EHQ38_fip7ImA9WhRVFEg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-6059822665342709341</id><published>2012-01-13T08:46:00.003-03:00</published><updated>2012-01-13T08:53:52.146-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-01-13T08:53:52.146-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Quando os ET´s chegaram, eu estava dormindo</title><content type="html">&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Quando os ET´s chegaram, eu estava dormindo. Meu pai me acordou aos berros.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — Vem logo, filho! Vai começar a transmissão ao vivo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — Me deixa quieto, pai. Quero domir — respondi, morrendo de sono. — Amanhã eu vejo os melhores momentos no jornal da tarde.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — Você está louco, rapaz? Você não quer acompanhar o evento histórico mais importante do milênio?! O que você vai dizer aos seus filhos? Que preferiu ficar dormindo na noite em que os ET´s desceram na Terra!?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — Fecha a porta da sala, por favor — liquidei o assunto e voltei a dormir. Meu pai nunca me entendeu, mas eu não achava a menor graça em ver uma coisa que já fora prevista e anunciada mil vezes, que todo mundo já sabia como ia acontecer, que já fora até ensaiada pelas autoridades e representantes das nações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Os ET´s tinham montado uma base na lua, e vinham trocando informações com a Terra havia décadas. Já sabíamos tudo sobre eles: de onde vinham, o que comiam, como viviam. Centenas de imagens já haviam circulado nos jornais e na internet. Nossos linguistas já tinham até aprendido a ler e escrever no idioma deles. Eu sabia que naquela noite não ia acontecer nada de extraordinário. Só o imprevisto pode ser extraordinário. O que já foi devidamente previsto e planejado, quando vem a acontecer, é apenas o fluxo natural dos fatos, é desinteressante, é banal.   &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Além disso, eu era adolescente e só pensava em sexo. Já tinha me informado sobre os ET´s, e as fêmeas eram feias demais para despertar meu interesse. Os ET´s são uns bichos esquisitos, meio parecidos com caranguejos, só que ficam de pé e são quase do nosso tamanho. Eles têm exo-esqueleto, pernas e braços finos, olhos sem pupila. Simplesmente não dá para se interessar por uma fêmea assim. Se tivesse alguma ET tipo a Mística dos X-Men, ou pelo menos que nem a índia do Avatar... mas aquelas caranguejas, francamente! Elas  não tinham nada que lembrasse nem vagamente um peito ou uma bunda.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; No dia seguinte, a TV confirmou tudo que eu esperava. Os ET´s chegaram numa boa, foram recebidos pelos líderes das nações. Eles conversavam conosco por meio de aparelhinhos que emitiam frases em nossos idiomas. Alguns desceram na Europa, outros nos Estados Unidos, outros na China. Naquela época eu já não gostava dos comunistas e preferia que eles tivessem descido no Japão ou na Coréia do Sul. Mas eles quiseram descer na China também, fazer o quê. O fato é que aquela noite em particular não teve repercussão nenhuma na minha vida. Só anos mais tarde eu viveria algo mais diretamente relacionado aos ET´s. Eu estava na faculdade, havia tempo que eles estavam entre nós, mas ainda não tinham personalidade jurídica. Ou seja: não podiam votar, não podiam comprar imóveis, não podiam processar nem ser processados por ninguém. Como era de se esperar, os juristas e estadistas se dividiam basicamente em dois lados. Uns achavam que os ET´s tinham demonstrado inteligência mais que suficiente para lidar com processos e tribunais, portanto mereciam personalidades jurídicas. Outros alegavam que era um risco conceder personalidade júridica aos ET´s. Se eles fizessem alguma besteira, e fossem processados, podiam simplesmente sumir para seu planeta e não cumprir a pena determinada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Claro que eu fiquei com o primeiro grupo, mas não por entender alguma coisa de justiça ou por ter refletido demoradamente sobre o assunto; o grupo “ET Legal Já” era simplesmente o único que fazia passeatas maneiras, com internveções em centros urbanos, caminhadas, chous de roque e essas coisa toda. Eu era um jovem calouro, precisava participar de alguma passeata, mostrar aos meus amigos que eu tinha ideais, talvez até conhecer uma garota engajada, ousada, liberal... Os ET´s me davam a oportunidade de fazer isso tudo.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Nos outros países, menos na China – aqueles comunistas desgraçados! – os jovens cederam rapidamente ao intenso desejo de imitar, e começaram a fazer as mesmas coisas que a gente: passeatas, vídeos no Youtube, intervenções coletivas. Com toda essa pressão, não demorou para que os ET´s ganhassem suas personalidades jurídicas e pudessem comprar imóveis, fundar empresas, fazer tudo que um ser humano fazia. Nosso eslôgan era bem claro: humanidade é inteligência; se os ET´s são inteligentes, também são humanos. A mídia nos apoiou, os liberais e esquerdistas do mundo todo nos apoiaram. Mas, sem dúvida, o que nos causou mais espanto foi que até o papa ficou do nosso lado. Ele alegava que os ET´s tinham alma, e por isso precisavam conhecer o evangelho. Muitos ficaram revoltados com essa posição da igreja. Receber o apoio do papa na luta por uma causa, qualquer que fosse, parecia envergonhar imensamente os liberais. Mas o papa perseverou na ideia de pregar o evangelho aos ET´s, e fez várias reuniões com eles no Vaticano. Todos ficaram decepcionados quando viram os ET´s assistiando à missa, confessando-se e recebendo a comunhão. Chegaram a questionar a inteligência dos ET´s, alguns intelectuais retiraram seu apoio, mas acabou não dando em nada. Já estávamos acostumados com eles; não iríamos expulsá-los da Terra só porque haviam se tornado católicos. Diziam até que eles tinham ensinado coisas incríveis aos nossos cientistas, tipo substituir órgãos de humanos pelos de animais, obter energia elétrica da ionosfera e coisas desse tipo. Outros denunciavam que os ET´s não tinham ensinado nada daquilo, nossos cientistas é que já haviam descoberto essas coisas, e o mito de que elas vinham dos ET´s apenas facilitou a obtenção de financiamento para as pesquisas. Qual a verdade nisso tudo claro que eu nunca vou saber. Mas nem por isso deixei de ir às passeatas; vociferei os eslôgans em voga, dei meu depoimento aos repórteres. Disse que os ET´s mereciam o direito de procurar nossa justiça, que havia chegado o momento de estender o direito de cidadania a qualquer ser que pudesse ler e compreender nossas leis. Entrei para a história da minha faculdade, tal era minha obediência e meu talento para a repetição. Gosto de pensar que os ET´s me viram de suas naves – àquela altura já na órbita da Terra – e admiraram silenciosamente minha coragem e meu senso de justiça. Mas, infelizmente, nunca conversei com um ET. Pouquíssimas pessoas são autorizadas a isso. Nunca entendi porque eles quiseram manter essa distância. Nem depois de tantas passeatas e manifestações de simpatia, nenhum deles apareceu para tomar uma cerveja com a gente. Acho que essa sempre foi nossa maior decepção.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Depois que eu me formei, acompanhei o caso apenas pelos jornais, como todo mundo. Assim que tiveram suas personalidades jurídicas, os ET´s começaram a criar empresas. Parece que eles tinham muito ouro e diamantes, que traziam não sei de que planeta longínquo, e logo fundaram bancos internacionais que transformaram nossos grandes banqueiros em meros oficebóis. Depois eles compraram mineradoras, e o preço do aço ficou absurdo. É por isso que hoje em dia quase ninguém tem carro. Não tem nada a ver com ecologia, como pensam os idiotas. Simplesmente ficou impossível ter um carro depois que os ET´s passaram a exportar nosso aço para outros planetas. Eu lembro que os equipamentos eletrônicos também eram bem comuns na minha adolescência. Eu tinha um leptope e um celular, passava o dia trocando mensagens com meus amigos. Mas, depois que os ET´s começaram a explorar nosso silício, a coisa mudou. Hoje só grandes empresas podem ter um computador; e há quem diga que essas empresas pertencem aos ET´s. Agora estão falando que a água é que vai encarecer, e que vamos ter que deixar esse hábito ultrapassado de tomar banho. Não dá para saber se é verdade ou apenas boato. A mídia ficou um caos depois que eles começaram a controlar as transmissões via satélite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; Mas o pior disso tudo foi o que eu ouvi outro dia. Eu estava conversando com um jovem, de uns dezesseis anos, e ele disse que a minha geração que é culpada dessa situação, que essa pobreza toda começou quando concedemos personalidade jurídica aos ET´s. Na hora eu não soube o que responder, depois é que me caiu a ficha: esse moleque não passa de um idiota, preconceituoso, retrógrado! O que ele queria que fizéssemos!? Que negássemos aos ET´s o direito de trabalhar e viver dignamente no nosso planeta? Será que ele pensa que o planeta é dele?! É por isso que eu evito conversar com os jovens, eles andam com umas ideias que... francamente! Não sei de onde tiram essa loucura, da televisão sei que não é.  &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; O problema é que aquela frase ficou repercutindo na minha cabeça. “Nossa pobreza começou quando concedemos personalidade jurídica, nossa pobreza começou...” Cheguei a perder noites de sono por causa disso. Ah, meu Deus, que moleque cretino, que falta de visão! Se ele tivesse vivido tudo que eu vivi, se ele tivesse ido às passeatas, sentido aquela euforia, aquele sentimento de coragem, de união. Se ele visse as mulheres que eu beijei nos chous pelos direitos dos ET´s... Ele é apenas um pobre coitado, nem deve ter namorada. A geração dele não fez um milésimo do que fez a minha. Definitivamente, é melhor esquecer tudo que ele falou, e voltar a dormir em paz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 150%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6059822665342709341?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HlK1OqULUYwtEHz7oBH0hoTrh-M/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/HlK1OqULUYwtEHz7oBH0hoTrh-M/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Quando eu acordei, a mulher que eu não amava já tinha levantado e se vestido. Ela perguntou se eu tinha resolvido passar o dia na cama. Era sua piada do mês: acordava antes de mim, e perguntava se eu ia passar o dia na cama. Levantei, tomei banho, e fui ler os jornais do dia anterior. Quando ela passou pela sala, perguntou, pela milésima vez, por que eu estava lendo os jornais do dia anterior. Até hoje ela não entendeu que o jornaleiro só passa depois que eu saio para o trabalho. Na sequencia, me pediu para pagar a conta da TV a cabo. Perguntei se ela não tinha deixado em débito automático.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Ela alegou que não tem paciência para fazer o cadastro no saite. Desde que um cara do &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;telemarketing&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt; a convenceu a instalar a TV a cabo, ela vem tentando jogar essa conta para cima de mim. Mais uma vez eu disse: “Claro, amor, pode deixar”, e mais uma vez esqueci de levar a fatura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;No caminho para o trabalho, fiquei me perguntando por que me casei com a mulher que eu não amava. Sempre que volto a essa pergunta, lembro basicamente de duas cenas, e as duas não têm nada a ver com ela. Uma é minha mãe no hospital, dias antes de morrer de linfoma. Ela me chamou, nervosa, como se precisasse dizer algo urgente; me puxou para perto dela, e falou: “Meu filho, eu perguntei ao médico. Você não tem que se preocupar, essa doença não é genética.” Só anos mais tarde descobri que ela havia mentido. Mas continuo achando aquela fala de uma beleza extraordinária. Acho que foi o único momento original na vida da minha mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;A outra cena é minha primeira namorada ao lado de um sujeito, numa mesa do Supersteak. Entrei por acaso, e vi os dois juntos, sem que eles me notassem. Ela estava passando a mão na nuca dele, com um olhar serenamente fascinado, como deve ser o olhar de uma mulher apaixonada. Não consigo lembrar de uma única vez que ela tenha me olhado daquele jeito. Nenhuma mulher, que eu saiba, jamais me olhou daquele jeito. E, como sempre, cheguei ao trabalho antes de encontrar minha resposta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Tudo estava indo bem na empresa. Ensinei uma estagiária a copiar os balanços do mês anterior, e mudar apenas alguns números. Ela já consegue fazer isso sem me consultar, a garota tem futuro. Um pouco antes do almoço, quando acessei aquele saite pornô, lembrei que havia uns quatro dias que eu não transava. A mulher que eu não amava já nem se preocupava em inventar boas desculpas; alegava mero cansaço ou dor de cabeça. Liguei para a Josilene, perguntei se ela queria almoçar naquele restaurante perto da rua Henfil Soares. Ela sabe o que essa pergunta significa, e disse que não ia dar, porque tinha que aproveitar a hora do almoço para passar no banco. Eu falei, entre a brincadeira e a seriedade, que, se ela não topasse, eu não ia ajudá-la a fazer a auditoria trimestral que a nova presidência está exigindo. Ela tossiu, riu de nervosa, e disse que de repente ganharíamos tempo se almoçássemos já no próprio motel.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Quando eu passava na Henfil Soares, entrei no motel mais barato mesmo. Já estou como minha mulher, nem me preocupo em inventar boas desculpas. A Josilene, como sempre, arrasou. Quando estamos juntos, fico pensando que ela ganharia uma nota se fosse garota de programa. A cama é sem dúvida seu território natural. Mas a vida é injusta, e ela ainda vai passar muitos anos acreditando que pode ser contadora. Depois nós pedimos o almoço, e pela primeira vez reparei que ela come de forma desengonçada, mastiga de boca aberta, pega o frango com as mãos. Fiquei pensando que a mulher que eu não amava podia não ser boa de cama, mas pelo menos era mais delicada na hora de comer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Deixei a Josilene no banco, e voltei ao escritório me sentindo ótimo. Sei lá, sempre me sinto feliz depois do sexo. Pensei até em ligar para a mulher que eu não amava, e dizer alguma coisa romântica. Mas achei que seria injustiça com a Josilene; afinal, ela é que tinha me dado aquela alegria toda. Mesmo assim decidi ligar, e falei que eu tinha visto uns &lt;i&gt;merlots&lt;/i&gt; na promoção, e a gente podia tomar com uma pitsa ou coisa assim. Ela perguntou: “Pitsa de novo, amor?” Depois falou: “E aquela conta? Esqueceu de novo, amor?”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;Por fim nem levei o &lt;i&gt;merlot&lt;/i&gt;, tomei uma cerveja mesmo. A mulher que eu não amava não comeu nada. Disse que estava de regime. Quando fomos nos deitar, notei que ela tinha vestido a camisola transparente, e aquilo me preocupou. Pensei que eu já tinha me divertido bastante durante a tarde, e talvez não tivesse mais energia para ela. Mas depois fiquei passando a mão na camisola, e senti que uma ereção começou a se insinuar. Fiquei muito feliz por ter uma segunda ereção no mesmo dia, e comecei a beijar a mulher que eu não amava tão calorosamente que ela pode até ter pensado que eu a amava. Fiz aquela brincadeira com a calcinha que até hoje eu não sei se ela detesta ou apenas finge detestar. E logo fizemos um amor candente, arrojado. Ela parecia perplexa com minha súbita excitação, tanto quanto eu. Pensei que depois ela ia reclamar do meu suor, e pedir que eu tomasse banho. Mas ela apenas ficou deitada no meu peito, me fazendo carinho, e por um instante me senti um pouco mal por não amá-la. Felizmente eu estava cansado demais para ficar pensando no assunto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, serif; font-size: 10pt; line-height: 115%;"&gt;No dia seguinte, quando acordei, ela já estava vestida. “Vai passar o dia na cama?”, ela perguntou. Tentei sorrir. Mais tarde fui para a sala e aguardei que ela fizesse a pergunta sobre os jornais. Ela a fez, e não esqueceu de mencionar a conta da TV a cabo. Entrei no carro com a pergunta estalando na cabeça, quase falei em voz alta: “Afinal, por que me casei com a mulher que eu não amava?” Depois liguei o rádio, e segui para o trabalho. Acho que estou começando a entender que, no fundo, eu nunca quis saber.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-8980402380213424255?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Ele ficou chocado quando fez a descoberta. Estava na cama, o corpo nu recebia uma brisa suave de maio. A namorada tinha ido ao banheiro, não gostava de ficar com sêmen entre as pernas. Quando voltou, deitou a cabeça sobre o peito dele, disse as palavras carinhosas que costumava dizer nessas horas. Falou sobre casamento, sobre a felicidade de ter encontrado a pessoa certa. Ele se perguntava se devia lhe contar a novidade — a coisa acabava de se revelar, clara e serena como um reflexo de lua. Mas sua namorada era muito bonita, ele temia perdê-la. E o pior é que ela se culparia por tudo. Buscaria o motivo nalguma parte do seu corpo, na barriga, nas mínimas estrias, na cor do cabelo — talvez no estranho cheiro de rosas queimadas que ela exalava principalmente depois do sexo. Ela era mulher, não podia evitar o prazer misterioso da culpa. E por isso mesmo ele resolveu se calar. Não queria correr o risco de torná-la infeliz como uma divorciada. Se nunca mais pensasse no assunto, talvez a revelação passasse despercebida. Talvez desistisse de se mostrar, e bateria em outra porta, como essas pessoas que vêm pedir para campanhas de caridade. E, de fato, protegido pela rotina, Paulo conseguiu esquecer o assunto. Sua namorada não percebeu, e ele nunca disse a ela, nem a ninguém, que não gostava de sexo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-2616485993838841289?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/1fu7bYD_nkiGi0Ac3GjWQF2P2TQ/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/1fu7bYD_nkiGi0Ac3GjWQF2P2TQ/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/utkNecjbwKY" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/2616485993838841289/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/11/ele-nunca-disse-ninguem.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/2616485993838841289?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/2616485993838841289?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/utkNecjbwKY/ele-nunca-disse-ninguem.html" title="Ele nunca disse a ninguém" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/11/ele-nunca-disse-ninguem.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkIDRnc7fCp7ImA9WhdaGUk.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-4079784640922149164</id><published>2011-10-30T01:22:00.002-03:00</published><updated>2011-10-30T01:22:57.904-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-30T01:22:57.904-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Canção erótica de segunda-feira</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia eu me abri com um amigo, e ele disse que sou obcecado por seios. Não acho que isso seja verdade. Não gosto de seios em geral, mas apenas dos seios lindos. E não tenho a menor necessidade de sair por aí atrás de várias mulheres para ver e tocar milhares de peitos anônimos. Acho que me bastariam os seios de uma esposa, se ela entendesse e aceitasse minha necessidade de venerá-los. Eu quero apenas uma mulher compreensiva, compassiva, silenciosa — e com seios lindos. Não me parece que isso seja uma obsessão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Numa manhã como esta, ela poderia me levar até a porta, e se despedir de uma maneira especial. Encostando-se na parede, abriria levemente a blusa, e me deixaria ver por um momento a beleza recôndita do seu busto maduro. O volume seria macio e consistente; os mamilos, não muito escuros, se destacariam na pele homogênea, suavemente vibrante. Eu me aproximaria devagar, e os tocaria delicadamente, ora com as costas das mãos, esboçando uma carícia, ora contornando o volume com os dedos, intuindo por trás da carne morna a pulsação oscilante e aflita do coração feminino. Se nesse momento uníssemos os rostos, ela confirmaria pelo tato a sinceridade do meu deleite. Talvez arriscássemos algumas palavras, mas eu logo resgataria o silêncio, aumentando a pressão do toque, causando uma tensão branda, que ela chegaria a sentir como um sutilíssimo princípio de dor. Se ela deixasse escapar um suspiro longo e doce, quase obsceno, aposto que depois se envergonharia, temendo que eu o tomasse por fingimento ou exagero sentimental. Mas eu lhe confortaria com um olhar aliado, e ela se recomporia sem dificuldade, despedindo-se em seguida, carinhosamente, como uma mãe dedicada, que sabe estar transformando um menino em homem. Duvido que, depois de um momento desses, eu ainda me recusasse a ser feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas agora que pensei sobre isso, me ocorreu que a saudade daqueles seios talvez me paralisasse o trabalho. Sou um homem fraco, e admito a possibilidade de lançar o olhar sobre minhas colegas, buscando o sucedâneo do busto que teria deixado em casa. Então pode ser que eu descobrisse uma mulher mais jovem, que escondesse por trás da blusa a promessa de uma delícia semelhante à dos meus jogos domésticos. Meus olhos treinados não teriam dificuldade em expressar o convite indecoroso. E assim como nos sonhos sabemos exatamente o que alguém está pensando, ela compreenderia meus planos secretos com uma precisão e uma rapidez absurdas. Um sorriso e um aceno silenciosos expressariam seu consentimento, e lhe bastariam alguns minutos para pensar numa desculpa que justificasse sua ida ao almoxarifado. Eu chegaria em seguida, logrando disfarçar a aflição; ao contrário dela, que soltaria os cabelos e os sacudiria ligeiramente, repetindo um gesto que teria aprendido nas telenovelas. Sua juventude justificaria esses arroubos, e eu não seria louco de reclamar com alguém que me compreendesse tão completamente. Um botão depois do outro, ela me revelaria o viço da sua pele, e eu me surpreenderia ao descobrir que aqueles gestos delicados não seriam exclusividade da minha mulher. Talvez por isso eu me desculpasse por sucumbir tão imediatamente a um prazer que também deveria sentir apenas com ela. Em seguida viria o toque, a leve pressão, o acolhimento. Ela recostaria a cabeça no meu peito, e seus cabelos perfumados me provariam que o abraço não seria mera alucinação. Porém, quando eu me afastasse, olharia covardemente para baixo, para que algo ficasse incompleto, e justificasse nossa retomada no dia seguinte, assim como no próximo, e também no posterior, até que nosso encontro acabasse por se tornar um ritual diário. Eu nunca entenderia por que ela se virava de costas para abotoar a blusa, mas quando ela se voltasse para mim, eu captaria a mensagem silenciosa no seu olhar, intimando-me a sair antes dela, para evitar suspeitas. Porém, depois de voltarmos a nossas mesas, ela permaneceria tão discreta e dissimulada que eu me sentiria torturado, e quase desejaria revelar nosso segredo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A partir desse dia, acho que uma pequena confusão se instalaria na minha vida: eu tocaria os seios da minha mulher pensando nos da outra; e os seios da outra, pensando nos da minha mulher. Esse intercâmbio teria a vantagem de instalar uma familiaridade reconfortante no ritual do escritório, ao passo que temperaria com certa ousadia o ritual doméstico. Seria como se eu vivesse cada encontro duas vezes, e meu prazer dobraria de intensidade, sem que cada uma das mulheres precisasse repetir um único dos seus gestos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Para que nada perturbasse minha felicidade, eu me privaria de filhos, porque sei que eles atentam gravemente contra o contorno e a consistência dos seios maternos. E, se algum dia eu encontrasse aquele amigo, aposto que ele me cobriria de perguntas indiscretas. Mas eu não diria uma única palavra sobre meus rituais secretos; sei que ele é o tipo de homem que não sabe distinguir entre um sonho e uma obsessão. Mas eu sei muito bem; e sei que elas também saberão. Elas serão compreensivas, compassivas, silenciosas, e terão seios lindos. Definitivamente lindos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="western"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-4079784640922149164?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/DTInRMOkfndaHyFIm-dZUtdzrYs/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/DTInRMOkfndaHyFIm-dZUtdzrYs/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/ZaIZFZnTSYU" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/4079784640922149164/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/10/cancao-erotica-de-segunda-feira_30.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/4079784640922149164?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/4079784640922149164?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/ZaIZFZnTSYU/cancao-erotica-de-segunda-feira_30.html" title="Canção erótica de segunda-feira" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/10/cancao-erotica-de-segunda-feira_30.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEEHQ345eSp7ImA9WhdaFUU.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-2148903756805817392</id><published>2011-10-25T20:50:00.000-03:00</published><updated>2011-10-25T20:50:32.021-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-25T20:50:32.021-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Convite" /><title>Quero todo mundo lá!</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-SGpgDENf6Cg/TqdLPrRCvII/AAAAAAAAATk/nF7BMSJmugc/s1600/convite-meiaspalavras.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/-SGpgDENf6Cg/TqdLPrRCvII/AAAAAAAAATk/nF7BMSJmugc/s320/convite-meiaspalavras.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-2148903756805817392?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/aTY7PLitF8_3H297cF37zLj-FJw/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/aTY7PLitF8_3H297cF37zLj-FJw/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/aTY7PLitF8_3H297cF37zLj-FJw/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/aTY7PLitF8_3H297cF37zLj-FJw/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/lTMLmOLRCnI" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/2148903756805817392/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/10/quero-todo-mundo-la.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/2148903756805817392?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/2148903756805817392?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/lTMLmOLRCnI/quero-todo-mundo-la.html" title="Quero todo mundo lá!" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/-SGpgDENf6Cg/TqdLPrRCvII/AAAAAAAAATk/nF7BMSJmugc/s72-c/convite-meiaspalavras.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/10/quero-todo-mundo-la.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkYCQnw5fyp7ImA9WhdaGU4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-7957255396438471982</id><published>2011-09-12T12:52:00.005-03:00</published><updated>2011-10-29T20:16:03.227-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-29T20:16:03.227-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Intervenção" /><title>Amor sobre rodas</title><content type="html">&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Intervenção de Ronaldo Brito Roque&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;em conto de Guilherme Preger&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O que me fascinou em Nina não foi a juventude macia de sua pele ou a candura de seu rosto branco. Acho que me apaixonei por ela na primeira vez que a vi chegar de motocicleta, de vestido e salto alto. Também estava de capacete, mas antes de ver seu rosto eu já estava caído por ela. Era algo completamente inusitado ver uma mulher que, ao dirigir uma moto, não abria mão da sua maneira própria de se vestir e de ser. Aliás, Nina andava de moto de forma tão natural, que o veículo parecia fazer parte de sua personalidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fiquei encantado com a facilidade e a tranquilidade do início de nosso namoro. Embora ela fosse vinte anos mais nova, e espiritualmente muito diferente, nos demos bem desde o começo. Nina era uma moça leve, de corpo e alma, e me transmitia essa leveza. Ela só se impacientava dentro de um automóvel. Eu tinha, é claro, um carro, mas Nina não suportava andar de carona em meio ao trânsito da cidade. Reclamava muito quando ficávamos engarrafados. Ela chegou a sugerir que eu tirasse carteira de motociclista, mas fui radicalmente contra, antes por pânico que por desejo de contrariá-la. Aliás, nunca fui uma pessoa teimosa ou orgulhosa, tampouco Nina, e isto era algo que tínhamos em comum.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas não houve jeito, e para o bom desenrolar de nosso relacionamento, comecei a andar na garupa da sua motocicleta. Ela tinha um capacete extra, que pertencera ao ex-namorado, mas me recusei a usá-lo. Comprei meu próprio capacete e lá ia eu, sentado na garupa, agarrado à minha namorada. Aliás, muito agarrado. Eu sentia simplesmente pavor. Nina, no entanto, era excelente motociclista e passeava pelo trânsito não exatamente com prudência, mas com extrema desenvoltura, como se só tivesse feito isso a vida inteira. Cortava os carros, como um surfista corta uma onda, e esta é certamente a melhor imagem que encontro para descrevê-la dirigindo. Nina simplesmente navegava no caótico trânsito da cidade, sem nunca demonstrar preocupação. Ela dizia que um anjo da guarda a protegia, pois nunca se acidentara, e eu me abraçava a ela para que pudéssemos caber juntos de baixo de sua asa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Em breve, já pegávamos as estradas para viagens maiores e comecei a sentir certo prazer em viajar exposto ao vento ou a chuva, deslizando pelo asfalto quente, veloz e voluptuosamente pelas curvas do campo ou da serra. Meu medo foi se dissolvendo lentamente, e nosso relacionamento ia, por assim dizer, a favor do vento. Sempre me questionei da razão de Nina, tendo tantos amigos motoqueiros, ter se aproximado justamente por um homem que tivera tanto medo de motocicleta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Talvez porque Nina quisesse dar a mim, na moto, a emoção e o prazer que certas mulheres dão aos homens na cama. Apesar de ser solta e desinibida sobre a motocicleta, na cama ela era tímida, contida, eu diria até passiva. O amor era bom, mas… apenas isto: bom.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Porém não era nada que afetasse realmente nosso relacionamento. Uma coisa, no entanto, começou a me inquietar. Eu comecei a me sentir um pouco constrangido quando encontrava amigos que me viam na garupa da moto, firmemente agarrado a Nina. Eu sei que é bobagem. Não sou um homem machista. Nunca fiz o gênero de machão com qualquer uma de minhas namoradas. Além do mais, Nina era uma moça muito bonita que envaideceria qualquer homem. Mas eu não me sentia bem, quando chegávamos a um lugar onde estavam os meus ou seus amigos, e nos viam estacionar a motocicleta comigo, seguro a ela como um menino medroso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Certa vez, quando Nina cortou um carro no trânsito, da maneira natural e desenvolta como sempre fazia, mas tirando um fino de distância entre nossas pernas e a lataria, reclamei com ela. Foi, então, que ocorreu nossa primeira briga. A partir deste episódio desagradável, curiosamente meu velho medo de motocicleta retornou e passei a insistir que fôssemos de carro ou de táxi, quando saíamos juntos à noite. De dia, quando andávamos, eu, como sempre na garupa, ia ficando desesperado com as barbaridades de Nina no trânsito, movimentos temerários que ela fazia com a máquina, e eu não havia reparado antes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Finalmente, quando nossa relação não ia bem, resolvemos fazer mais uma viagem de fim de semana para a serra, num chalé extremamente charmoso que havíamos curtido juntos ao pé da montanha. Foi a nossa última viagem de motocicleta. Fiquei inteiramente arrepiado quando Nina fez uma curva em que a moto quase andou na horizontal. Cheguei a sentir o calor do asfalto no meu ombro. Pedi que ela parasse para eu que pudesse respirar; fiquei sem fôlego. Em seguida, preferi pegar um ônibus e retornei à cidade, enquanto Nina descia a estrada na sua moto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando cheguei em casa, fiquei pensando que eu tinha exagerado. Afinal, ela já havia me provado que era uma ótima motociclista. Durante aqueles anos, eu nunca a tinha visto sequer esbarrar num retrovisor. Tive que admitir que foi burrice minha. E quando o telefone começou a tocar, senti um princípio de esperança. Talvez Nina quisesse reatar. Talvez pudéssemos resolver tudo apenas indo cada um no seu veículo. A solução era muito simples, não havia motivo para terminar. Mas não era Nina, era a secretária de um hospital. Nina tinha sofrido um acidente e estava em coma. Eles estavam ligando para todos os números do seu celular. O meu foi simplesmente o primeiro que atendeu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fui correndo para o hospital. Providenciei uma transferência para a ala particular, inteiramente por minha conta. Ela tinha fraturado vários ossos, e havia indício de uma lesão na coluna. O médico disse que ela poderia sair do coma, mas fatalmente haveria seqüelas. Eu estava tão chocado que não sabia o que dizer. Só depois de alguns dias, minha cabeça voltou a funcionar, e fiquei estarrecido quando me peguei pensando que pelo menos ela ia concordar comigo. Ela ia finalmente largar aquela maldita motocicleta. De repente percebi o quanto eu era mesquinho, egoísta, controlador. Tive uma forte crise de culpa, e fiz uma promessa intimamente secreta.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Se Nina saísse do coma, eu compraria outra moto para ela. Ainda que ela não quisesse mais ficar comigo; ainda que ela me odiasse para sempre. Nina jamais seria completa sem uma moto, e eu sabia disso melhor que ninguém. Dormi mais tranqüilo naquela noite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Nos dias seguintes fiquei pensando como Nina reagiria se soubesse da minha promessa. Certamente ficaria contente, talvez chegasse a me admirar. Eu cuidaria dela e pagaria a fisioterapia. Ela se encantaria com essa demonstração de amor, e provavelmente me amaria de volta. A brutalidade daquele acidente talvez servisse para nos unir muito mais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Infelizmente as coisas não foram assim tão simples. De fato Nina acordou, num dia em que sua mãe foi visitá-la. A velha falou sem pudor as frases que a muito custo eu tinha conseguido segurar: “Eu não te disse? Não falei que essa moto ia te trazer desgraça?!” Ao ouvir essas palavras, Nina recobrou imediatamente os sentidos, e deu um tapa na cara de sua mãe. Certamente foi o tapa mais feliz que a velha já ganhou; porém nos dias seguintes, ela descobriu que essa felicidade não era completa. O corpo de Nina não se recuperou por inteiro. A lesão na coluna não cicatrizou corretamente, impedindo que ela voltasse a andar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando recordo aquela época, vejo que eu me adaptei até muito facilmente. Decidi não contar à Nina sobre a promessa que eu tinha feito. Deduzi que quanto mais ela pensasse em moto mais ficaria triste. Em vez disso pedi que ela me deixasse lhe pagar a cadeira de rodas. Para minha surpresa, ela não quis uma motorizada. Alegou que sua nova vida exigiria braços fortes, e era melhor se habituar. Paguei também uma reforma no seu apartamento. Fui cuidando dela, e, como eu esperava, acabamos por reatar. Um dia eu brinquei que ela ficaria até mais bonita de ombros largos. Ela me bateu, falou que eu não fazia ideia de como ela estava sofrendo. Depois me agarrou, me beijou, pediu desculpas exageradas. Disse que nunca teria como me agradecer. Eu falei que um beijo já estava bom, e estava mesmo. Mas ela quis me mostrar que sua boca podia muito mais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Foi muito difícil admitir que eu estava feliz. Mas Nina estava a meu lado, o sexo estava ótimo, tudo corria bem. Não havia a loucura da moto, não havia mais o medo constante de perdê-la. Apesar de ter conquistado certa independência, ela ainda precisava muito de mim, inclusive financeiramente, porque a pensão que ela passou a receber era irrisória. Percebi que no passado eu havia me iludido. Eu me recusava a admitir, mas a independência, a liberdade e a segurança de Nina, no fundo sempre tinham me incomodado. Agora eu era necessário em sua vida. Quando eu empurrava sua cadeira, me sentia seguro, generoso, espiritualmente elevado. Passamos a freqüentar parques calmos e sossegados. Passávamos horas nos beijando e curtindo o entardecer. Era o namoro dos meus sonhos, eu estava serenamente feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Até que Nina começou a ficar horas na internet. Entrou em comunidades de cadeirantes, conheceu outras pessoas com as mesmas dificuldades que ela. Eles planejavam manifestações coletivas, lutavam pela aprovação de certas leis (leis que obrigavam os prédios públicos a ter rampas e coisas do tipo). Trocavam informações sobre hotéis que tinham apartamentos para deficientes. E o pior: reuniam-se quinzenalmente num bar de Botafogo, cujo dono também era cadeirante. Minha insegurança voltou rapidamente. Comecei a temer que Nina talvez estivesse procurando um homem com o mesmo histórico que ela. Alguém que padecesse as mesmas dores, enfrentasse os mesmos problemas. Talvez ela se sentisse mais compreendida por um homem assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Meu temor me levou a freqüentar as manifestações com ela, a vociferar contra a falta de políticas públicas para deficientes, e a ficar sempre ao lado dela nas reuniões no bar de Botafogo. Consegui convencê-la a instalar um GPS na sua cadeira. Assim, a qualquer momento, eu poderia saber onde ela estava. Claro que isso era para sua segurança. Tudo que eu queria era protegê-la, eu não suportaria se houvesse outro acidente que limitasse ainda mais seus movimentos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia estávamos vendo um filme na sala, e tomando um vinhozinho — um fim de semana bem romântico como eu gostava — e de repente Nina me perguntou se eu sabia o que era &lt;i&gt;hardcore sitting&lt;/i&gt;. A palavra hardcore me lembrava certos vídeos que eu via no trabalho, mas eu não fazia ideia do que podia ser um &lt;i&gt;hardcore sitting&lt;/i&gt;. Seria um filme pornô feito por cadeirantes? Cheguei a ter um calafrio. Será que um pervertido tinha convidado Nina a fazer algum filme doentio com mulheres em cadeiras de rodas?! “Não amor, não faço ideia do que seja isso!”, respondi, tremendamente ansioso, louco para saber do que se tratava. Ela pegou o leptope e começou a me mostrar alguns vídeos. Disse que o &lt;i&gt;hardcore sitting&lt;/i&gt; já era comum nos Estados Unidos e estava crescendo vertiginosamente no Brasil. Quando vi aquelas loucuras nem acreditei. Não era o que eu tinha pensado, mas era seguramente algo que aniquilaria minha paz. Cadeirantes faziam manobras radicais em pistas de esqueite e outras maluquices. Intuí imediatamente que Nina se juntaria a eles, e certamente faria aquelas manobras com a mesma leveza e naturalidade com que um dia pilotara sua moto. Me senti traído, não por Nina, mas pelo destino. O mundo novamente me tomava Nina, me tirava a tranqüilidade e a segurança que eu levara tanto tempo para encontrar. Passei alguns dias deprimido, de mal com o mundo. Me senti humilhado pelo deus no qual sempre tentei não acreditar. Mas ao mesmo tempo eu sabia que Nina precisava daquela aventura. Ela parecia ter nascido para adejar, para flutuar sobre alguma coisa móvel. A mera gravidade de alguma forma a ofendia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Então recordei minha promessa secreta, e entendi que estava na hora de renová-la. Eu tinha jurado que, se Nina melhorasse, eu mesmo lhe daria outra moto. Agora ela estava prestes a melhorar. Não do jeito que eu tinha imaginado, mas ela ia conseguir retomar sua leveza, sua paixão pelo risco e pela velocidade. Comecei a pesquisar na internet, e descobri que havia cadeiras mais seguras para essas manobras, com rodas inclinadas e aro de titânio. Não demorei a perceber que eu precisava encomendar uma. Alguns dias depois pude fazer uma surpresa para Nina. Seus olhos úmidos confirmaram que eu estava certo. Um nova harmonia começava a se instalar entre nós. Uma harmonia que incluía o movimento e o risco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Hoje vibro quando vejo suas manobras. Nina já apareceu em vários programas de televisão, o grupo que ela dirige tem patrocínio do estado, para orientar e motivar outros cadeirantes. Nunca deixei de acompanhá-la, dando todo o apoio e incentivo que ela merece. Nina reconquistou sua leveza, sua audácia, sua parceria com o risco. E acho que eu finalmente entendi qual é meu lugar na sua vida. Ela vai continuar flutuando, vai ser um permanente desafio contra a gravidade. E eu vou estar logo abaixo, protengendo-a do chão que a persegue incessantemente. Eu quero acertar onde o anjo dela falhou. Eu vou estar entre o chão e ela, como ela está, para mim, a um passo do céu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-7957255396438471982?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7SwnWQr8ubHJzr31AHo1JOsvU84/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7SwnWQr8ubHJzr31AHo1JOsvU84/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7SwnWQr8ubHJzr31AHo1JOsvU84/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/7SwnWQr8ubHJzr31AHo1JOsvU84/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/-behzZP__10" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/7957255396438471982/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/09/amor-sobre-rodas.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7957255396438471982?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7957255396438471982?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/-behzZP__10/amor-sobre-rodas.html" title="Amor sobre rodas" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/09/amor-sobre-rodas.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEIGSXs4fCp7ImA9WhdbEkQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-6559005065218791225</id><published>2011-08-21T21:20:00.006-03:00</published><updated>2011-10-10T21:22:08.534-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-10T21:22:08.534-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Cinderela às avessas</title><content type="html">&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando os críticos atacavam as peças dela, mamãe confiscava o Segundo Caderno antes de passar o jornal a papai. Com reles catorze anos, eu sabia que aquela&amp;nbsp;censura era desnecessária. O velho jamais leria o caderno de cultura, se ela não o ordenasse explicitamente. O teatro e os romances simplesmente não existiam para ele, assim como as coisas designadas por “commodities”, “derivativos” e “auditoria” eram completamente estranhas para mim e mamãe. As pessoas vivem em mundos pessoais, separados por oceanos ou abismos. Pode acontecer que esses mundos se encontrem e interpenetrem, mas apenas pela ação do acaso, nunca pela vontade de seus habitantes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu começava a me dar conta disso quando o acaso quis que o mundo de papai esbarrasse no nosso. Tivemos de nos mudar da casa da Gávea para um apartamento modesto no Leblon. Não fiquei chateado, achei que a proximidade da praia me faria bem. Mamãe é que parece ter se perturbado, pois, junto com Neosaldina passou a comprar caixas de Clonazepan. Mas os críticos lhe davam outras preocupações, e talvez por isso ela não se empenhasse quando papai tentava nos explicar o que era a “armadilha do biodísel”. Também eu tinha meus problemas — &amp;nbsp;o mar havia me apresentado às mulheres e ao surfe — e mais uma vez achei que as explicações de papai poderiam esperar. Pensei o mesmo quando ele passou a falar em “concordata”, “sinergia” e “concorrencial”, palavras que eu nem sabia se eram da língua portuguesa. Só fui perceber o que significavam&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;quando o velho noticiou que não poderia mais produzir as peças de mamãe.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um novo mundo começou a surgir diante dela: roupas brancas e folgadas, saladas e sucos de cenoura, palavras impronunciáveis em sânscrito. Ela o chamava de “ioga”. Eu, de “chatice”. A mudança não me agradava. Entre o pessoal do teatro pelo menos eu encontrava algumas garotas ousadas e liberais.&amp;nbsp;Os iogues não aprovavam o álcool nem a camisinha, e isso dificultava minhas aventuras adolescentes. Só então considerei que eu precisava do meu próprio mundo. Um lugar não tão sombrio e exagerado como o palco, mas não tão insonso e repetitivo como os novos mantras da minha mãe. Acho que eu teria me aproximado do meu pai, se ele já não estivesse encontrando uma outra pátria, habitada por mulheres de branco, que lhe traziam seringas e urinóis. Os médicos lhe mostravam fotos negras nas quais uma pequena mancha amarela podia se chamar “morte”. Eu já era quase um adulto e enfrentava com bravura as visitas de domingo, quando ele me ensinava seu novo vocabulário. Pancreatite, insuficiência renal, linfoma — cada semana eu aprendia uma palavra. Cheguei a pensar que eu queria ser médico, tal era minha vontade de possuir um idioma que eu pudesse compreender e manejar. Mas minha mãe me explicou o que significava “plantão”, e concluí que minha ambição lingüística podia esperar. Não suspeitei que o mundo de papai ainda me revelaria surpresas – era bem maior que meu cérebro de moleque podia imaginar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando os médicos lhe deram uma data mais precisa, ele pediu que o levássemos para o Ocean Empire. Recriminei minha mãe, por não ter me contado que tínhamos um navio. Na verdade, não tínhamos, como papai fez questão de explicar. Ele era dono de vinte por cento das cotas de uma operadora de cruzeiros. Isso agora significava o direito a morrer no mar. A idéia me fascinou por seu inesperado romantismo. Me agradava descobrir que no coração do velho também havia espaço para a poesia, não apenas para prazos e cifras. Foi no navio que ele me apresentou a certos papéis que viriam a garantir meu sustento. Imóveis, cotas, participação nos lucros, tudo isso são textos que levam nosso nome. A propriedade é uma filha menor dos símbolos, pelo menos isso eu aprendi, nas tardes úmidas e intermináveis daquele gigantesco navio. Quando aportamos em Punta del Este, sua dor havia me contaminado, e talvez por isso eu não tenha destinado ao cassino as cifras que o direito de família iria me garantir. Mesmo sem saber, papai exercia uma influência positiva sobre minha moral.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Antes de chegarmos a Buenos Aires, sua lucidez oscilou. Tomando-me por um amigo de juventude, pediu perdão por ter flertado com uma tal de Heloísa — mas garantiu não ser pai de Murilo. Confessou que havia financiado a carreira política de Abelardo Lisboa (entendi por que os esquerdistas o odiavam), revelou que certo campo de futebol em Duque de Caxias tinha sido construído para calar os sindicalistas sobre uma questão com o fundo de garantia em 1989. Nada daquilo fazia sentido para mim, mas fiquei contente em ser parte do seu mundo por alguns minutos. Perdoei-lhe os excessos com Heloísa, elogiei a negociação com o sindicato, concordei que Abelardo Lisboa era um traidor desprezível, infame, imperdoável. Consegui evitar que ele visse meus olhos úmidos. Era triste e bonito começar a amá-lo a apenas alguns dias de sua morte.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Na volta para o Rio ele estava mais leve. Recordou certos automóveis do seu tempo, falou de uma mulher de olhos glaciais que o levara ao êxtase apenas com um beijo (não era mamãe), e do seu velho pai, que depois de sofrer a falência do Diário Carioca, fê-lo jurar que jamais compraria um jornal. Nesse momento pareceu perceber que estava diante do filho, e, subitamente, pediu que os enfermeiros se retirassem. Tentou me explicar por que eu tinha que vender a Quadraxur antes mesmo de sua missa de sétimo dia. Me fez anotar o nome de um advogado que tinha contato com um desembargador federal. Explicou (sem sucesso) o que era a estratégia da gestão compartilhada. Depois se exaltou um pouco, e chegou a se erguer ligeiramente da cama para dizer:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Podem achar que fui um homem negligente, mas não poderão falar que o deixei desamparado. Este caminho, meu filho, eu deixo para você. Pelo menos isto vai ficar depois da minha partida!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Falou “caminho” apontando para o chão, e não entendi se ele se referia ao navio, às informações que acabava de me dar ou ao mar, que jazia perene sob nossos pés. Também não tive tempo para perguntar, pois logo seu pulmão titubeou, e tive de chamar a enfermeira. Ela, por sua vez, chamou o médico que apenas me olhou fixamente, tentando me transmitir que seria mais fácil se eu entendesse tudo através do silêncio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No velório julguei ver uma senhora de olhos glaciais que talvez tivesse despertado êxtases em jovens românticos. Pensei, por alguns minutos, que deve ter sido bom viver num tempo em que beijos tinham força suficiente para fixar uma lembrança. Depois me dei conta de que aquele pensamento pertencia a meu pai. Foi a última vez que o mundo dele passou pelo meu. Logo eu estaria de volta às danceterias, às canções vulgares e mulheres fáceis. Fui vendendo um a um os bens que tinha herdado. Fui vivendo uma a uma as farsas que o cinema tinha traçado para moleques como eu. Aluguei o subsolo de um prédio comercial em Ipanema e fundei um inferninho que a polícia federal demorou apenas dois meses para interditar. Produzi um ridículo filme sobre uma prostituta no divã, que não fez sucesso nem entre jovens onanistas. Acho que só não perdi nos cavalos, porque os filmes em que se perdia em cavalos não eram do meu tempo. Mas o golpe mais duro veio no dia que fui renovar o seguro do carro. Quando um sujeito não pode pagar o seguro de um BMW é porque está realmente na pior. A circunstância me fez recordar que eu não havia mexido nas cotas da operadora de cruzeiros. Antes mesmo de conseguir pronunciar o nome da empresa, eu conheci um sujeito que conhecia um cara que tinha certa ligação com um advogado que já tinha trabalhado para um estaleiro que poderia estar interessado na compra. Depois de quatro jantares, seis reuniões, e alguns milhares de reais gastos em consultoria, foi marcada a data na qual eu assinaria os papéis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Por coincidência um dos transatlânticos que a empresa operava estava ancorado no Rio. Um sujeito da operadora me conseguiu um cartão de visitante, e pude lamentar a venda silenciosamente, enquanto bebericava na piscina. Mais tarde, quando fui para o cassino, eu não pretendia jogar, apenas assistir. A desventura dos outros me ajudaria a esquecer a minha. Se acabei apostando um pouco, foi por culpa da bebida; se perdi muito, foi por culpa minha. Eu podia ter parado antes. Quando subi para o deque, me deparei com vazio do céu noturno, e lembrei as palavras inusitadas que meu pai dissera antes de morrer: “Este caminho, meu filho, eu deixo para você. Pelo menos isto vai ficar depois da minha partida.” O tal caminho, naquele momento, era tão obscuro quanto a cor do mar. Me perguntei quanto tempo eu levaria para esquecer aquilo tudo: a morte do meu velho, a venda das cotas, o fim inesperado de uma vida pretensiosa e inútil. É um pequeno truque que aprendi com uma ex-namorada: quando algo me perturba, me pergunto quanto tempo vou demorar para esquecê-lo. Estava perto de uma resposta, quando me surpreendi com a presença de uma mulher. O sobressalto me fez reparar primeiro nos pés descalços, depois no vestido sofisticado, e por fim no rosto altivo, delicado, suavemente impressionante. Ela havia tirado os sapatos — certamente se acabara de dançar — mas o ar de cansaço não comprometia seu porte seguro e distante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A gentileza, não a pretensão, me levou a puxar assunto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você também gosta de navios?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Amo as estrelas — respondeu, sem me voltar os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Percebi que ela podia estar olhando o céu, não o mar. À nossa frente, os dois se tocavam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você vai fazer um cruzeiro só para olhar as estrelas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Não é a mesma coisa olhá-las do continente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Alguns pontinhos nervosos tremelicavam no horizonte. Não me contentei com eles, e arrisquei um olhar para cima. Descobri que, durante toda a vida, tinham me negado uma revelação. Ninguém me contara o quão assombroso e definitivo pode ser um céu estrelado. Olhei para a mulher, e quis fazer uma pergunta que eu mesmo não sabia qual era, mas sabia que ela teria a resposta. Sem perceber que me atendia, ela disse:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Antigamente não havia GPS. Os marinheiros se guiavam pelas estrelas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Como você sabe dessas coisas? Você trabalha neste navio?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Meu pai era da marinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A resposta não atenuava meu absurdo sentimento de opressão. Eu não podia deixar de invejar as pessoas que tinham conquistado um alfabeto e uma pátria. Como defesa desesperada, pensei em dizer que eu tinha vinte por cento daquele navio. Talvez isso me desse um pequeno lugar no país que ela acabava de me revelar. Talvez me permitisse mais alguns minutos daquela noite sagrada. Mas essa lembrança só fez aumentar meu sentimento de culpa. No dia seguinte eu mesmo assinaria os papéis que me condenariam definitivamente ao desterro. Sem uma justificativa para dar, sem nada que pudesse alegar em minha defesa, murmurei apenas:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Meu pai morreu no mar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fiquei algum tempo aguardando uma palavra de conforto. Eu precisava entrar no mundo dela, nem que fosse pela piedade. Para não itimidá-la, desviei os olhos, e os fixei nos pontinhos brilhantes que eu havia descoberto. Sua imobilidade contrastava com o barulho das ondas, que me confortava, como uma carícia gigantesca e invisível. Me assustei com o pensamento de que o mar podia ser mesmo um ótimo lugar para morrer. Foi talvez buscando esquecê-lo que voltei os olhos para a proa, à procura da mulher. Junto à faixa cor de rosa, que ascendia do mar, notei sua ausência. Como uma cinderela às avessas, ela entrava no meu mundo descalça e partia ao amanhecer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas sua fuga me deixava presságios. O teatro e o mar, no passado, eram pontes que me levavam às mulheres. Agora uma mulher ausente me apontava o mar e as estrelas. O sol, que machucou minhas retinas, me surpreendeu pensando no futuro. Eu ainda era dono de vinte por cento da operadora; acreditei que a companhia não me negaria um emprego. Em vez de vendê-las, decidi que usaria as cotas para obter um cargo naquele navio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia eu reencontraria a cinderela, e teria um distintivo para anunciar antes do meu nome: gerente, coordenador, supervisor. Certamente haveria alguma patente que me daria coragem para falar de mim mesmo, e não mais no cansativo adeus de meu pai. Apoiado nessa idéia, liguei para o advogado e comuniquei o cancelamento da transação. Ele falou sobre tribunais e indenizações. Achei que isso me vetaria o emprego na operadora. Na entrevista com um dos gerentes, descobri que o obstáculo era outro. O homem não pôde conter a decepção quando percebeu que eu não sabia sequer o que era um espelho de popa. Também gaguejei ao tentar explicar o que seria um calado. Foi o bastante para que ele se despedisse me indicando um curso básico de náutica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas isso seria muito pouco para a ambição juvenil que eu acabava de descobrir. Eu queria algo que chegasse mais perto de uma lenda. Um empréstimo de mamãe — ela largara o teatro e fazia inveja nas amigas, administrando uma franquia de produtos naturais — me permitiu partir para a insuspeitada Finlândia. O destino não era uma fuga aleatória como pode parecer. O país é um dos únicos do mundo onde se fabricam transatlânticos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Foi lá que descobri um curso superior de mecânica náutica. Cinco anos bastariam para concluí-lo, mas não me recriminei por precisar de sete. A aspereza do finlandês exigia paciência. Além disso, fui o único aluno a levar a sério a geometria de Gauss. Só depois de realmente aprendê-la pude entender por que era desnecessária. Mas o curso me fazia bem. Eu começava a dominar o alfabeto pelo qual o mar me anunciaria suas fortunas e tormentas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Às vezes prestava atenção a uma ou outra mulher finlandesa. A gesticulação vulgar, o hábito da bebida, a dança falsamente erótica me lembravam as brasileiras. Mas nunca deixei que o prazer que elas me davam na cama ofuscasse a lembrança da sublime cinderela. O abstrato conto de fadas pairava seguro acima da turbulência inevitável da minha juventude. Na formatura, meus colegas não entendiam por que eu não partilhava do seu entusiasmo. O que para eles era uma conquista, para mim era apenas um primeiro passo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;De volta ao Brasil, não esperei uma semana para comparecer à operadora. Bastaram-me alguns meses para me tornar supervisor de embarcações. Era, sem dúvida, o passaporte para a nação que eu sonhara, mas eu ainda não me julgava pronto para reencontrar minha heroína. Ficaria acanhado se tivesse de revelar que, por trás daquela patente pomposa, estava a atividade banal de verificar se salmões e alcachofras tinham chegado à cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando meu cruzeiro voltou para o mediterrâneo, eu podia ter escolhido outro. A companhia tinha vários no Brasil. Mas nenhum pedaço de terra me inspirava saudade. Meus pés haviam se acostumado a um piso oscilante; meus olhos, a um horizonte vazio, sem formas. Comecei a conhecer meu navio como um cego conhece a própria casa, como um cão conhece o dono. Se cambaleássemos ao sair da costa, eu podia dizer, pelo barulho do motor, qual dos cilindros precisava de manutenção. Logo ganhei autorização para supervisionar os pistões, e acesso à sala de controle. Durante as férias adquiri, num antiquário de Santos, um astrolábio ainda em condições de uso. Não contei a ninguém, mas, se a mesa de GPS falhasse, eu poderia fazer os cálculos e ditar nossa direção. A tripulação logo começou a me consultar a respeito de tudo. Certa autoridade informal passou a envolver minha pessoa. Alguns anos mais tarde, quando me tornei capitão, não foi nada mais que uma vivência interna que ganhou um nome e um número no meu contracheque.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Foi quando comecei uma campanha tácita para trazer meu navio de volta ao Brasil. Houve uma pequena dificuldade chamada Procuradoria Especial da Marinha, logo compensada por facilidade chamada Transferência Bancária Internacional. A natureza da operação não me permite falar em detalhes, mas garanto que foi bem sucedida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu mesmo não sabia por que ansiava tanto por voltar à costa brasileira. Mas nas noites em que eu caminhava a esmo pelo deque foi ficando claro como me sentia em casa. Nenhum céu cintila como o dos trópicos, nenhum mar é tão aconchegante e sereno. Próximo a Punta Del Este, eu recordava incessantemente a figura de meu velho pai. Se seu fantasma visitasse uma das minhas vigílias, eu poderia dizer que havia finalmente descoberto o caminho que ele havia me deixado. Acima de mim, a ciranda brilhante que ditava meu destino; abaixo, o mar perene que me sustentava a rota. Entre eles, os cilindros incessantes de um transatlântico. Senti que eu tinha encontrado algo que ia permanecer também depois da minha morte. Algo maior e mais durável que uma vida.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois dessas conclusões, acreditei que encontrar a Cinderela seria mera questão de tempo. Ela adorava navios. Mais cedo ou mais tarde, eu vislumbraria seu porte altivo se destacando na agitação do cassino, ou talvez silenciosamente conformado à solenidade do baile de gala.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Uma noite eu bebericava lentamente no salão de gastronomia, quando vi uma mulher se sentar a uma das mesas e tirar os sapatos. Tinha as faces coradas, não sei se pela bebida ou pela agitação da dança; sei que reconheci imediatamente o rosto polido da minha noite mítica. Os traços do tempo o haviam completado, sem lhe tirar o mínimo de encanto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Consegui disfarçar a agonia quando puxei assunto. As respostas confirmaram laconicamente meu pressentimento. Não era seu primeiro cruzeiro, seu pai fora da marinha, ela adorava as estrelas. Em pouco tempo, encontrei oportunidade para usar a primeira pessoa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Não é engraçado... — comecei, sem convicção. — Meu pai não entendia nada de náutica, mas me deixou parte de uma operadora de cruzeiros. Um dia antes de me desfazer completamente da herança, eu conheci uma mulher que realmente gostava do mar. — Eu temia chegar rápido demais ao ponto crucial. Meus olhos pediam um mínimo de incentivo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Continue — ela disse, confirmando nossa sintonia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E como eu queria continuar. Queria falar da minha juventude oscilante, do teatro ao inferninho de Ipanema; descrever as noites brancas da Finlândia; confessar os dias em que o aquecedor estragado me mostrava o quanto fora insensato abandonar os trópicos. Depois eu narraria o entardecer deslumbrante do mediterrâneo, meu namoro comprometido e silencioso com meu navio, nosso balanço ritmado da Itália à Turquia, onde fui aprendendo a interpretar seus sussurros e a manejar meu caprichoso astrolábio. Eu ansiava, em suma, demonstrar que me tornara digno de habitar o mundo que ela mesma havia me apontado da proa de um transatlântico. Por isso a intromissão de uma figura masculina, alta, sorridente, chegou quase a me ferir. O brilho nos meus olhos deve ter se extinguido quando a ouvi tratá-lo por “amor”. Ou talvez quando reparei na aliança na mão esquerda. Foi com indiferença que me apresentei como comandante. Foi com desdém que a ouvi manifestar surpresa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Só uso a farda nas noites de gala — justifiquei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Antes de se despedir, ela calçou tão vagarosamente os sapatos que senti que no fundo tinha entendido minimamente o que se passava. Seu adeus tinha a delicadeza e o encanto do nosso primeiro encontro. Como as constelações, minha vida voltava ao mesmo lugar, mas algo invisível tinha mudado. Algo que não me deixava sentir a despedida com a emoção estéril do luto. Quando olhei pela janela, a vasta mancha negra que me envolvia pareceu fazer sentido. O mar tinha se tornado o idioma no qual eu lia e escrevia meu destino; a pátria espiritual que eu tinha buscado no teatro agitadiço dos homens. Recordei uma noite de tempestade, perto de Palermo, quando uma onda modestamente rude já bastaria para me estilhaçar na cordilheira. Mas ele me resguardara delicadamente na costa, me ensinara a pressentir e confiar no seu amor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Não posso dizer que o tenha compreendido inteiramente, e que seu temperamento obscuro tenha deixado de me surpreender.&amp;nbsp;Mas me conforto na estranha intuição de que ele compreende a mim. Ele, que os poetas&amp;nbsp;chamaram de espelho das estrelas, sustenta a rota que eu acredito determinar. A morte do meu pai e a despedida da cinderela talvez tenham sido apenas os primeiros passos no encontro com essa imensidão soberba e indefinida, na qual todos vêem o mar, e eu enxergo agora, sem sombra de dúvida, meu princípio de eternidade.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6559005065218791225?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/F3JTxkWRze-GwqT3o8-UznUhLIs/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/F3JTxkWRze-GwqT3o8-UznUhLIs/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/F3JTxkWRze-GwqT3o8-UznUhLIs/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/F3JTxkWRze-GwqT3o8-UznUhLIs/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/PUUHPcfRlUk" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/6559005065218791225/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/08/cinderela-as-avessas_5343.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6559005065218791225?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6559005065218791225?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/PUUHPcfRlUk/cinderela-as-avessas_5343.html" title="Cinderela às avessas" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/08/cinderela-as-avessas_5343.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEEBQXY8eyp7ImA9WhdUF0U.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-7745544254184876400</id><published>2011-08-14T18:26:00.013-03:00</published><updated>2011-10-04T23:44:10.873-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-04T23:44:10.873-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>O melhor, o pior e o médio</title><content type="html">&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 25px;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 25px;"&gt;A mulher quis uma mesa no segundo andar porque achou que estaria mais calmo. Na verdade estava mais agitado. No verão, todos preferiam o segundo andar porque as sacadas deixavam o ambiente mais fresco. Para o homem não fazia diferença, desde que o lugar não tivesse televisão. Não gostava de comer ao som das notícias trágicas de um telejornal, ou dos diálogos vulgares de uma novela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Assim que se acomodaram, o garçom se aproximou e lhes entregou o cardápio. O homem quase não acreditou no que lia. Mostrou à esposa, que também ficou intrigada. Mas, quando perguntaram ao garçom, ele confirmou o que ambos haviam lido.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Explicou que a casa tinha mudado de dono, e o&lt;i&gt; menu&lt;/i&gt; fora renovando recentemente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — É até meio cômico — disse o homem, um pouco desconsertado. Depois se voltou para a mulher, com uma cara interrogativa, como se perguntasse: “E agora, o que pediremos?” Ela suspirou, e leu o &lt;i&gt;menu&lt;/i&gt; novamente.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Na seção de pratos havia apenas três opções:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0.42cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
1. O Melhor&lt;br /&gt;
2. O Médio&lt;br /&gt;
3. O Pior&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Logo abaixo vinha a sugestão do &lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;chef&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;: “O Melhor”.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Sem pensar muito, a mulher levantou os olhos e respondeu:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Vamos pedir o Médio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O marido, ainda indeciso, fez uma pequena objeção.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Você não prefere experimentar o Melhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Amor, não vamos arriscar. A casa mudou de dono, não sabemos como está a cozinha. Vamos pedir o Médio, outro dia pedimos o Melhor.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O homem acabou por concordar. Pediram um Médio para dois.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Na mesa ao lado, outro casal acabava de se acomodar. Agora era a mulher que estranhava o cardápio, e o mostrava ao marido, indagando se não seria algum tipo de brincadeira. O homem também estranhou, e perguntou se ela queria tentar outro restaurante. A mulher alegou que isso já seria exagero. Não queria passar pela vergonha de se levantar e sair da mesa, diante de todos. Por fim, conformou-se à situação, e disse ao marido para pedir o Médio. Erguendo o cardápio, ele expressou uma ligeira contrariedade:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Amor, o Pior está com um preço razoável. Hoje não é nenhuma comemoração, por que não pedimos o Pior?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Querido, você está falando sério? — Ela se sentia mal em ter de explicar algo tão óbvio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Se fosse para pedir o Pior, eu ficava em casa e esquentava o almoço. Se saímos de casa, vamos pedir pelo menos o Médio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O marido concordou. Não era todo dia que comiam fora.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; E todos iam chegando e encontrando algum motivo para pedir o Médio. Não queriam o Pior, mas, por alguma razão, não se sentiam dignos do Melhor. Não era tanto pelo preço, era a audácia daquele nome, que para alguns soava exagerado, para outros, até repulsivo. O Médio sempre acabava parecendo a melhor opção. &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Mas um homem que chegou mais tarde, também acompanhado, pareceu não se importar com esse protocolo. Depois de manusear rapidamente o cardápio, pediu o Melhor. O garçom, acostumado a ouvir outra coisa, não compreendeu de imediato. Reclinou-se ligeiramente e perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Como disse, senhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O homem repetiu claramente — O Melhor, por favor — e como falasse um pouco mais alto, foi ouvido nas mesas mais próximas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O garçom anotou o pedido vagarosamente, depois acrescentou num tom ligeiramente teatral: — Perfeitamente, senhor. Temos o Melhor — como se quisesse se fazer ouvir também nas outras mesas. Em seguida se voltou para a mulher, e perguntou delicadamente:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — E para a senhora?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ela sorriu, quase não logrando controlar o nervosismo. Olhava para seu companheiro, tentando lhe transmitir a dificuldade que enfrentava. O homem, parecendo não perceber o problema, perguntou com naturalidade:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Você não vai querer o Melhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Visivelmente constrangida, a mulher não sabia o que responder. Queria recusar o Melhor, mas não diante do garçom. Seu desespero aumentou quando percebeu que as pessoas das mesas mais próximas estavam atentas ao que dizia. Seus olhares oblíquos pareciam ansiar que ela pedisse o Médio, e desse fim àquela hesitação.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Vou querer o Médio! — ela disse bruscamente, olhando severa para o parceiro. Depois, como se precisasse se justificar, acrescentou:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Não estou com apetite para o Melhor. Talvez outro dia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O garçom, mais aliviado, despediu-se com tranqüilidade — Pois não, senhora. O Médio, perfeitamente — e se dirigiu à cozinha. &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; A mulher ficou olhando de soslaio para o homem, como se tentasse lhe transmitir que ele cometera uma grave indelicadeza. Pedira o Melhor para si, e a deixara a cargo do Médio. Isso não era justo com ela, que procurava fazer de tudo para lhe agradar. Tinha certeza que devia repreendê-lo, para que o erro não se repetisse, mas não sabia como abordar o assunto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Enquanto ela pensava, certa ansiedade aumentava nas pessoas em redor. Todos estavam um tanto indignados com o atrevimento daquele homem, mas não sabiam exatamente o que comentar. Pressentiam que não seriam justos se o criticassem apenas por ter pedido o Melhor. Afinal, era um prato previsto no cardápio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; De repente os olhos da mulher faiscaram de júbilo, pois ela encontrou finalmente uma saída. Dirigindo-se ao parceiro, com o nariz ligeiramente erguido, começou o ataque.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não precisava ter falado tão alto. As pessoas ouviram.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não falei “tão” alto. Falei apenas um pouco mais alto. O garçom não estava me entendendo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Você sabe que falou mais alto. Não precisava disso. Você quer mostrar a todos que prefere o Melhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O homem percebeu que havia alguma coisa errada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Do que você está falando? Não quero mostrar nada a ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — É mesmo? Pelo tom que você usou, me pareceu outra coisa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ele se calou por um instante, e olhou atentamente para a parceira. Não eram casados. Havia pouco tempo que estavam saindo. Começou a pensar que talvez não fosse a mulher certa para ele.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Nas outras mesas, o homem ia se tornando o assunto principal. As mulheres o censuravam gravemente, pois não achavam de bom tom pedir o Melhor, muito menos daquela forma, fazendo que todos ouvissem. Os homens concordavam prontamente com suas esposas — sim, ele cometera uma indelicadeza, sem dúvida — mas alguns pensavam intimamente em voltar sozinhos ao restaurante, justamente para experimentar o Melhor. Não cometeriam o erro de o pedir explicitamente, apenas o indicariam com o dedo, e o garçom compreenderia a necessidade de discrição. Ficaram felizes por pensar numa solução tão engenhosa. Eram, sem dúvida, homens de uma astúcia fora do comum, e agora acreditavam realmente merecer o Melhor. E quanto mais se satisfaziam com essa conclusão, mais concordavam com suas mulheres: — Sim, que homem indelicado, o Médio basta para qualquer um...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Na cozinha se passava uma inquietação ainda maior. O gerente estava sabendo do acontecido, e fora se certificar com o cozinheiro. Estava tenso e um pouco angustiado, não sabia exatamente como se expressar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Então, um cliente pediu o Melhor, não foi?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sim, já estou sabendo — disse o cozinheiro, tranquilamente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Você sabe como fazer?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sei, sim. Fiz esse prato muitas vezes no curso de gastronomia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O gerente não se sentiu muito bem com essa resposta. Achou que o homem não precisava fazer lembrar que havia feito um curso superior.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Olha, eu sei que você tem um diploma, não precisa falar disso o tempo todo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não estou falando disso, apenas respondi sua pergunta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Você está me entendendo errado — o gerente resolveu usar de sua grande complacência. —&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Não estou questionando sua capacidade. Apenas achei que... bem, como o prato não é muito pedido, talvez você não lembrasse como fazer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Obrigado pela consideração, mas sei como fazer. Não se preocupe.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O cozinheiro agia com tranqüilidade, e já tinha começado a preparar o prato. O gerente ficou perambulando pela cozinha, fingiu verificar os ingredientes, abriu o armário, arrumou alguma coisa no escorredor, depois se voltou abruptamente para o colega, e desabafou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Olha, se você quiser, podemos dizer que hoje não temos o Melhor. Podemos inventar que falta algum ingrediente, sei lá. Não precisa se matar para fazer o Melhor. Sei como seu trabalho é duro, não vá se esgoelar para satisfazer um almofadinha.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O cozinheiro não entendeu bem a razão daquela proposta. Mas, de fato, o Melhor dava mais trabalho, e, se o próprio gerente estava dizendo que não precisava fazê-lo, talvez ele devesse desistir.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Ficou algum tempo pensando nessa possibilidade, mas também especulou que aquilo podia ser um teste de confiança. Talvez o gerente quisesse medir o quanto ele estava disposto a se dedicar ao trabalho. Depois de hesitar alguns segundos, ele falou, ainda desconfiado: — De fato, acho que não temos alcachofras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Mas calhou que o gerente tinha acabado de ver as alcachofras no armário e, por reflexo, respondeu: — Elas estão ali!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Houve um breve constrangimento. Nenhum deles sabia o que dizer, até que o gerente abriu um largo sorriso, e anunciou: — Já sei! Vamos dizer que estamos apenas com um estagiário na cozinha, e ele ainda não sabe fazer o Melhor.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O cozinheiro a princípio concordou, mas de repente percebeu que a idéia não lhe era favorável.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Se alguém descobrisse a farsa, a culpa recairia toda sobre ele, pois aquela justificativa não comprometia em nada os outros empregados. De súbito segurou seu superior pelo braço, e lhe pediu que esperasse. O gerente o olhou com enorme reprovação. Sem saber o que fazer, o cozinheiro despistou, cabisbaixo: — Diga... diga apenas que vai demorar. O Melhor demora mais para fazer, não é tão fácil quanto o Médio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O homem aprumou o paletó, olhou com certo desprezo para o cozinheiro e concordou com um aceno de cabeça. Subiu as escadas para dar a notícia ao cliente. Quando chegou à mesa, notou que a mulher não estava. Obviamente não fez comentário sobre isso, apenas justificou a demora do prato. O cliente pareceu não se importar, e aproveitou para pedir um aperitivo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Enquanto isso sua parceira tinha ido ao banheiro e fazia uma ligação pelo celular. Ela ainda não tinha formado uma idéia precisa sobre o que estava acontecendo, e sentiu a necessidade urgente de consultar uma amiga. Do outro lado da linha, uma voz atendeu sonolenta. A mulher explicou demoradamente a situação. Descreveu em detalhes o restaurante e o homem com quem estava, depois finalmente tomou coragem para contar o momento mais humilhante.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Aí ele fechou o cardápio, pediu o Melhor para ele e o Médio para mim! Fez isso com a maior naturalidade, como se eu simplesmente não merecesse o Melhor!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não é possível! Você está falando sério, querida?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Nunca falei tão sério, amiga! Dá para acreditar? Eu, que já tolerei oito anos de casada, nunca pensei que voltaria a passar por essas coisas!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Mas ele pediu mesmo o Melhor para ele e o Médio para você? Assim, sem mais nem menos?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Ai, amiga, o pior não foi isso! O pior é que ele falou em voz alta, praticamente gritou: 'O Melhor para mim, e o Médio para ela!' Não acreditei! Até agora não acredito. Por que isso está acontecendo logo comigo?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Olha, querida, você vai me desculpar, mas sabe o que está parecendo?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Ai, pode falar, amiga. A essa altura, já posso ouvir qualquer coisa. Pode ser totalmente sincera, estou preparada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Eu ia dizer que está até parecendo que ele é... é... você sabe: um arrogante! Eu não queria falar, mas você mesma disse para eu ser sincera.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — O quê!? Ah, meu Deus! Eu estava suspeitando, amiga, mas não queria ir tão longe. Você acha mesmo?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sem dúvida! Qualquer homem deixaria você escolher. Ele não apenas pediu o Melhor para ele, mas ainda fez questão de decidir por você! Isso é sério, acho que você sabe perfeitamente que isso é arrogância.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sei, amiga, claro que sei! Ah, meu Deus, o que eu vou fazer?! Olha, acho que essa é a última noite que saímos juntos. Ele me parecia um cara tão legal, tão educado... mas agora, isso?! Não sei se posso tolerar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Eu entendo, querida, eu entendo. Já passei por situações parecidas. Olha, não quero te desanimar, mas homens assim querem ser tratados como reis. Não têm humildade nenhuma, sentem-se como se o mundo lhes pertencesse. Deus me livre! Se eu fosse você, pelo menos dava um tempo. &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Agora ela estava arrependida. Queria desabafar com alguém, mas não pretendia ir tão longe. Sabia que o homem era gentil e não passara dos limites outras vezes. Seria precipitado terminar com ele.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Pois é, amiga. Vou pensar. Realmente, já fui casada por oito anos. Não quero ter que agüentar outro capitão, ha, ha, ha! — Ela riu, tentando suavizar as acusações que acabava de fazer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; A amiga concordou sem acréscimos, e deu a entender que precisava se deitar por causa de um compromisso no dia seguinte. Na verdade não tinha compromisso nenhum, apenas ficara desapontada ao perceber, pelo tom da mulher, que nada iria acontecer. No máximo em dois dias ela já teria esquecido aquela noite.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; E, de fato, ela a teria esquecido em dois minutos, não fossem os olhares atentos dos garçons quando ela voltava para o segundo andar. A mulher sentiu que eles a examinavam meticulosamente, e no íntimo deviam estar pensando que o homem que pedira o Melhor não fora tão exigente na hora de escolher uma namorada. Um dos empregados não se contentou em apenas considerar essa idéia, mas sentiu que um pensamento tão sagaz precisava ser comunicado a alguém. Correu para a cozinha e foi logo dizendo ao cozinheiro:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sabe esse homem que pediu o melhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Sim.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — A mulher que está com ele nem é assim tão bonita...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — É mesmo?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Parece que ele não quis o melhor na hora de escolher a mulher! Ha, ha, ha!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Hum... sei, sei como é.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — E tem mais! Ele nem está bem vestido. Eu conheço aquela camisa de uma loja de departamento. Não é cara. Eu poderia comprar uma, se quisesse. Não compro, você sabe por quê.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Por quê?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Ora, como assim, por quê? Você sabe perfeitamente. Não quero ficar esbanjando por aí. Eu tenho bom senso!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Ah, sim, foi o que pensei.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O garçom viu que não estava fazendo muito sucesso, e ficou um pouco envergonhado. Mas não queria sair dali sem falar no que realmente lhe importava. Aproximou-se do cozinheiro, tocou de leve seu ombro, e disse com gravidade:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Olha, você não vai fazer o Melhor, vai? O gerente mesmo disse que não precisa se esforçar. Basta fazer o Médio, e pôr umas alcaparras assim por cima. Pronto! O homem não vai notar a diferença, pode ficar despreocupado. E veja bem: não sou eu quem está dizendo, o próprio gerente falou isso, pode confiar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O cozinheiro não suportava mais a situação.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Tudo bem, tudo bem! Não vou fazer o Melhor, vou fazer o Médio e coloco umas alcaparras por cima, está bem assim? Umas alcaparras e pronto! Afinal, ninguém vai perceber...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Eu sabia, eu sabia! Você é dos nossos, sabia que você não iria nos decepcionar. — Sua alegria era sincera. — Vou dar uma subida, ver se alguém está querendo alguma coisa. Já volto para buscar o Médio com alcaparras. Vou falar com o gerente, tenho certeza que ele vai adorar a notícia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; E depois, com tapinhas nas costas, acrescentou: — Eu sabia, meu jovem. Sabia que podíamos contar com você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O garçom deixou a cozinha, e o jovem se viu finalmente sozinho. Respirou, deixou cair os ombros, sentiu-se estranhamente derrotado. Não compreendia a razão de tanto alvoroço, sabia apenas que estava jogando fora sua primeira oportunidade de fazer o Melhor. E com tanta contrariedade, talvez fosse a última. No curso de gastronomia, não o haviam preparado aquela situação: fazer o Melhor não era apenas uma questão técnica; era preciso estar disposto a enfrentar a reprovação de todos. Estava prestes a se valer das alcaparras, e entregar mesmo o Médio como se fosse o Melhor. Mas alguma coisa dentro dele se recusava a acatar aquela decisão. Entre estar de acordo com todos e consigo mesmo às vezes é difícil decidir. Por isso, ainda desorientado, ele abriu a lata de alcachofras, pegou um dos corações, e o colocou sobre um prato vazio. Sem saber direito o que fazia, perguntou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — E então? Você é uma alcachofra. Você é parte deste problema. O que tem a dizer?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Feche a porta. Não precisamos de testemunhas — cochichou a alcachofra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Só então ele notou que a porta que dava para o corredor estava aberta. Não se sentiu louco ou infeliz por poder ouvir uma alcachofra, mas extremamente grato. Era sem dúvida um poder bem interessante para um cozinheiro. Fechou rapidamente a porta, e se voltou, ansioso, para ouvi-la.  Quase não acreditou no que ela disse:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não me olhe assim. Não espere muita coisa de mim. Você sabe que a decisão é inteiramente sua.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ele nunca havia conhecido uma alcachofra tão lúcida. Sentiu que era alguém em quem podia confiar. &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Mas e o gerente? Ele não vai me demitir, se eu fizer o Melhor?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Não exagere. Ele vai demorar no máximo uma semana para esquecer o assunto. Além do mais, você sabe que para ele não faz diferença, desde que o cliente pague a conta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; A alcachofra tinha toda a razão, e agora o cozinheiro estava mais seguro que nunca. Ele intuía que, depois que fizesse o Melhor, pisaria na cozinha de forma diferente. Cada vez que abrisse uma lata, cada vez que acendesse o forno, cada vez que cortasse uma verdura e o cheiro fresco lhe excitasse as narinas, ele saberia merecer aquela cozinha, como os lobos merecem a noite e os pássaros merecem a generosidade do vento. Com essa convicção serena, ele foi ao fríser, pegou os cogumelos marinados, baixou o forno e picou o estragão. Antes de completar, voltou-se para a alcachofra, e foi sincero com ela, como ela tinha sido com ele.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Tomei minha decisão. Vou ter que parti-la em duas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; — Meu amigo, acredite: desde que entrei naquela vidro de óleo de girassol, não tenho esperado por outra coisa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ele acenou com a cabeça, ficou contente por ser chamado de amigo naquele momento crucial. Cortou a alcachofra com o coração tranqüilo e feliz. Em poucos minutos, chamou o garçom e anunciou: — O Melhor está pronto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O empregado, terrivelmente contrariado, não ousou fazer sequer um comentário. Percebeu imediatamente que estava diante de um poder maior e mais estável que o dele próprio. Pegou o Melhor, pegou o Médio, que já estava pronto, e os levou ao segundo andar. Passou o resto da noite em silêncio. Mesmo que quisesse dizer alguma coisa, não saberia se expressar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 25px;"&gt;No andar de cima, o cliente chegou a fechar os olhos ao mastigar. Estava surpreso. Quando pedira o Melhor, ele mesmo não acreditava que experimentaria algo tão delicioso. A mulher mastigava com raiva o seu Médio e, vendo o prazer do parceiro, não hesitou em interrompê-lo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; line-height: 25px;"&gt;— Não vai me dar uma provinha?&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
O homem era generoso e compôs uma garfada para a mulher. Depois de mastigar rapidamente, ela declarou:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;— Amor, é quase igual ao Médio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ele provou o Médio e objetou: — Não tem comparação, é muito diferente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Ela fez questão de enfatizar: — É praticamente igual! &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Vendo que não havia solução, o homem fingiu concordar, enquanto intimamente decidia terminar com aquela mulher. Não havia afinidade entre os dois, e ele intuía que isso não ia resultar num casamento feliz. No mesmo momento a mulher pensava que não lamentaria se aquele homem deixasse de procurá-la. Ele parecia realmente acreditar na diferença entre o melhor e o médio, e isso não podia ser um bom sinal. Não contaram esses pensamentos um ao outro, mas foi de fato a última vez que se viram.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Na cozinha, o jovem &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;chef&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; nem imaginava a separação que tinha causado. Mas estava mais seguro que nunca de saber a diferença entre o melhor e o médio. Uma diferença que agora estaria inscrita na sua própria história de vida, para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 160%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-7745544254184876400?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Vd0JMM-iuBgWhNb8vY-pobX72oM/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Vd0JMM-iuBgWhNb8vY-pobX72oM/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Vd0JMM-iuBgWhNb8vY-pobX72oM/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/Vd0JMM-iuBgWhNb8vY-pobX72oM/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/g5_KnxX7SO4" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/7745544254184876400/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/08/o-melhor-o-pior-e-o-medio.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7745544254184876400?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7745544254184876400?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/g5_KnxX7SO4/o-melhor-o-pior-e-o-medio.html" title="O melhor, o pior e o médio" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/08/o-melhor-o-pior-e-o-medio.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DU8NQXo8cSp7ImA9WhdXGUQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-8953591647956639930</id><published>2011-06-21T15:17:00.011-03:00</published><updated>2011-09-02T18:11:30.479-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-09-02T18:11:30.479-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Hoje ela não pensou em sexo</title><content type="html">&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="font-weight: normal; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;No metrô, quando ia para o estúdio, ela notou que um sujeito não parava de encará-la, e ficou morrendo de medo de estar sendo reconhecida. Pensou novamente em passar a andar de peruca e óculos escuros. O problema é que odiava peruca desde que soubera que em São Paulo havia assalto de cabelo. Perambular por aí coberta por cabelos roubados certamente daria azar, e azar era tudo que ela não queria agora que estava quase conseguindo comprar um apartamento nos Jardins. Talvez fosse melhor ir de táxi, mas sairia caro no fim do mês, e ela teria de economizar em roupa ou comida, o que seria um tremendo sacrifício. Agora que se acostumara a um almoço decente, não queria voltar a viver de esfirras e sanduíches.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="font-weight: normal; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;O sujeito mal encarado saltou depois de algumas estações, e ela ficou mais tranqüila.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Voltou a pensar na decoração do apartamento que estava prestes a comprar. Gostava muito de cozinha americana, mas o sofá devia ficar com cheiro de gordura, e seria horrível ver televisão ou descansar ou fazer as unhas sentindo cheiro de gordura. E quando sua mãe a visitasse, provavelmente diria algo como “por que você não põe uma divisória nessa cozinha?” ou “por que você não troca o estofamento do sofá? Está fedendo!” Com isso concluiu que uma cozinha separada era melhor. Se a sala fosse grande, ela poderia colocar uma mesa, e serviria o jantar ali, quando recebesse as amigas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Só voltou a pensar no problema do reconhecimento quando entrou no estúdio, e um dos técnicos a cumprimento pelo nome artístico. Decidiu que ia perguntar ao Lucélio se não dava para mandar um motorista buscá-la e levá-la em casa. Alegaria que precisava de privacidade, estava sendo a toda hora reconhecida pelos fãs, que a cobriam de convites indecorosos. (Era mentira; mesmo depois de quatro anos fazendo filme, ela fora reconhecida uma única vez, por um sujeito tão tímido que não ousaria sequer chamá-la para um café com leite.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Quando a maquiadora começou a passar o rímel, ela pensou duas coisas: para quê tanto capricho na maquiagem, se os homens só iam prestar atenção no sexo? E por que a maquiadora a tratava com tanta frieza? Afinal, quem pagaria o salário dela, se não fossem as atrizes?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Na cena de sexo oral, ela fechou os olhos e lembrou de um sofá lindo que vira na Style Decor, por apenas três prestações de quinhentos e poucos. O estofado era de um azul tão suave que dava até um pouco de sono. Era tudo que ela queria para sua sala, estava cansada de viver cercada de tanto vermelho. Quando o ator gozou em seu rosto, ela ficou se perguntando quanto custaria uma boa banheira. Depois de dançar, o que ela mais gostava era um bom banho quente. Teria uma banheira em casa, nem que precisasse fazer filme por mais dez anos!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;No intervalo, o direitor parecia de ótimo humor. Pediu pitsa para todo mundo, fez uns comentários engraçados com a maquiadora, falando que ia abrir uma linha de filmes com gordinhas. Ela riu deliciosamente, e achou que era um bom momento para falar no lance do motorista. Estava enganada. Quando ela falou a palavra “motorista”, Lucélio a fulminou com os olhos, depois perguntou:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;“sabia que eles exigem previdência? No fim das contas sai mais caro que um ator!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;”&amp;nbsp;Ela não estava segura de saber o que era previdência, e apenas riu, tentando disfarçar a decepção. &lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Na cena de dupla penetração, houve um momento em que ela olhou para o teto e reparou pela primeira vez que no estúdio havia sancas de gesso. Sua mente disparou automaticamente algumas perguntas: "será que é muito caro? Mais quanto tempo de trabalho?" Daí ela lembrou que não queria trabalhar depois dos trinta; precisaria de um tempo para ter filhos. Tentou fazer mentalmente algumas contas para estimar quanto ganharia até lá, mas não conseguiu. Quando voltou a si, um dos caras já estava gozando, e ela pensou: "Meu Deus, foi muito rápido, o Lucélio vai querer gravar de novo." Mas o Lucélio não falou nada, e ela ficou aliviada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;No metrô, de volta para casa, ela usou a calculadora do celular, e fez as contas sem dificuldade. Até os trinta, daria para pagar o apartamento, e talvez ainda sobrasse para um &lt;i&gt;smart&lt;/i&gt;. Ser reconhecida de vez em quando era um preço que valia a pena pagar. Depois dos trinta, ela pretendia largar a carreira, e se dedicar de verdade a encontrar um marido; de preferência de olhos azuis, com um corpo bem cuidado, e um apartamento um pouco maior que o dela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Traditional Arabic', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Entrou no seu conjugado bastante cansada, mas ainda deu tempo de mandar um email para aquela amiga que vendia cosméticos. O esfoliante estava acabando, e ela precisava encomendar mais um. Depois tomou um banho rápido, sem lavar os cabelos, e foi se deitar. Não demorou a dormir; estava exausta.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;Hoje foi apenas mais um dia em que ela pensou em sexo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Traditional Arabic', serif; font-size: large;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-8953591647956639930?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cWtz-axszxDEto0vHySNRtB802g/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cWtz-axszxDEto0vHySNRtB802g/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cWtz-axszxDEto0vHySNRtB802g/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cWtz-axszxDEto0vHySNRtB802g/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/001aoovVm3E" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/8953591647956639930/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/06/hoje-ela-nao-pensou-em-sexo.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/8953591647956639930?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/8953591647956639930?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/001aoovVm3E/hoje-ela-nao-pensou-em-sexo.html" title="Hoje ela não pensou em sexo" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/06/hoje-ela-nao-pensou-em-sexo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0EGRHs-eip7ImA9WhdVE0U.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-5897171339079804956</id><published>2011-05-24T17:23:00.006-03:00</published><updated>2011-09-18T19:40:25.552-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-09-18T19:40:25.552-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>A Banda Conceitual</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Uma vez a Suzana insistiu tanto que acabei por levá-la numa reunião da banda. Foi um erro. Ela não entendeu nosso conceito; não parava de perguntar onde estavam os instrumentos, quem fazia o vocal, quem tocava guitarra, essa coisa toda. O pior é que justamente naquele dia íamos discutir a questão do sampler. A avó do Renato tinha dado uma grana para ele, e a gente tinha que decidir se compraria um sampler ou um Macbook. Se fosse um Macbook, a galera teria que inteirar uma parte. Mas a Suzana ficou fazendo pergunta, dando palpite, falando tanto que a gente acabou tendo que marcar outra reunião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Na semana seguinte, aí sim, conseguimos discutir com calma. Decidimos que o Macbook era melhor. Além de editar as músicas, a gente teria acesso à internet e poderia tentar vender por esses saites que comercializam mp3. O Rafael falou sobre a possibilidade de levantar uma grana por meio de um saite de financiamento coletivo. Ninguém sabia o que era aquilo; ficamos de pesquisar melhor e discutir o assunto em outra reunião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando encontrei a Suzana, ela veio com aquela enxurrada de perguntas. Queria saber se a gente tinha ensaiado, que música a gente tinha tocado, se a gente compunha alguma coisa. Mais uma vez tentei explicar que a gente não fazia ensaios, mas reuniões. Ela ficou me olhando com uma cara esquisita, acho que ainda não foi dessa vez que ela entendeu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Na outra reunião, o Murilo apresentou uma idéia para uma letra de música. Discutimos bastante, e decidimos que aquela letra não combinaria com o estilo da banda. Falaria de amor de uma forma melosa, insistente, muito puxada para o brega. Eu argumentei, e acho que todos concordaram, que poderíamos até falar de amor, mas de uma forma que deixasse claro que não acreditávamos nele. Amor sincero era coisa para um roque vulgar, decididamente ultrapassado. Nosso estilo se aproximava mais do amor irônico. Lucas disse que não entendeu, provocando o riso geral. Estamos acostumados com o Lucas, ele nunca entende nada que a gente fala. Aliás ele mesmo já percebeu isso,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;e está parando de ir nas reuniões.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas a idéia de amor irônico me deixou empolgado, e cheguei até a comentar com a Suzana. Falei que a gente estava avançando bastante, estávamos a ponto de definir um conceito que ia nortear a criação das letras. Ela perguntou: “Mas como era a letra, afinal?” E de repente eu enxerguei&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;que não adiantava falar daquelas coisas com ela. Minha namorada não sabia o que era um conceito, não entendia a importância de debater, deixar as definições bem claras, traçar os limites virtuais que iam delimitar o padrão estético da banda. Ela nem devia saber o que era assessoria de imprensa. E nem valia a pena explicar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fui parando de conversar com ela, fomos ficando cada vez mais distantes. Até que um dia aconteceu uma coisa engraçada. O Rafael levou a namorada dele, e ela fez exatamente as mesmas perguntas que a Suzana. Queria saber onde estava a guitarra, que cantava,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;quem tocava o quê. A gente ficou só se olhando e rindo por dentro, pensando que namorada é tudo igual. Lembrei da Suzana com certa ternura, e pensei até em compor uma música para ela. Seria uma seqüência a princípio meio tensa, com acordes de quinta aumentada, levantando certo suspense. Depois a quinta iria para a sétima, dando um clima mais suave, lembrando vagamente uma canção de amor, mas um amor complexo, com muita dúvida e indecisão. E talvez a música terminasse assim, num clima de coisa inacabada, que ainda vai se definir; ou então eu tentaria encaixar tudo na dominante e passaria uma idéia de final feliz. Essa última parte eu podia decidir com a banda, em outra reunião. Fiz rapidamente um esboço e fui correndo ligar para a Suzana. Foi ingenuidade minha. Ela ficou pedindo: “Canta um pedaço, canta um pedaço para mim.” Eu perguntei: “Você não entende? Eu estou criando um conceito que vai nortear o encadeamento de acordes.” Acho que ela ficou meio nervosa, porque respondeu num tom quase uma oitava acima: “Tudo bem, eu vou confessar. Eu não entendo nada do que você fala sobre música!” Eu já sabia que ela não entendia, mas ouvir isso dela, naquele tom, foi uma experiência chocante. Eu tinha achado que um, de alguma forma misteriosa e inesperada, ela acabaria me compreendendo. Agora vejo que isso era ilusão; era um sonho infantil, simplório como uma canção de amor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Por isso tenho pensado em terminar. Não tem sentido passar a vida com uma pessoa que não entende meus conceitos. Só que eu não quero tomar essa decisão sozinho. O pessoal da banda certamente passa pelo mesmo problema. A gente viu isso claramente quando a namorada do Rafael esteve lá. Quero discutir essa questão com eles, temos que encontrar uma linha clara: se vamos ou não vamos ter namorada; se vamos falar da banda para elas. Esse é um tema importante, sinto que ele vai ocupar várias reuniões.&amp;nbsp;Mal posso esperar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-5897171339079804956?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9ACWQ25gav0j29utFi9icdQ6fjo/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9ACWQ25gav0j29utFi9icdQ6fjo/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9ACWQ25gav0j29utFi9icdQ6fjo/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9ACWQ25gav0j29utFi9icdQ6fjo/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/jHIayXqBBg0" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/5897171339079804956/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/05/nossa-banda.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/5897171339079804956?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/5897171339079804956?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/jHIayXqBBg0/nossa-banda.html" title="A Banda Conceitual" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/05/nossa-banda.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A04EQ3s4fSp7ImA9WhZaGE4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-4211425695638882769</id><published>2011-03-18T21:55:00.008-03:00</published><updated>2011-07-05T01:25:02.535-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-05T01:25:02.535-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>El Beso Lagarto</title><content type="html">&lt;div style="margin-bottom: 0cm; text-align: left;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="border-collapse: collapse; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;Um dia a gente estava tomando café no Gustosità, e ele me perguntou por que todos os meus personagens ficavam em hotéis. Não era verdade, nem todos. Mas eu fiquei encantada de saber que ele lia meus contos e tinha notado aquele detalhe recorrente. Só que meu prazer durou pouco, porque em seguida ele falou: “Eu sei por quê. É porque você odeia arrumar a casa. As mulheres que não gostam de arrumar a casa têm essa fantasia de viver em hotéis.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;É exatamente isso que não suporto nele. Tudo bem que ele é gentil, inteligente; tem bom gosto para leitura, observa detalhes que passam despercebidos para a maioria das pessoas; mas às vezes ele vem com uma psicanálise torta, esquadrinhando as atitudes dos outros, tirando conclusões precipitadas, julgando todo mundo. É difícil tolerar. Claro que eu odeio arrumar a casa, mas quem é que gosta? E o que isso tem a ver com meus personagens ficarem em hotéis?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;Quando eu ainda era casada com o Júlio, ele ia sempre lá em casa; o idiota do Júlio nunca percebeu que ele dava em cima de mim. Um dia ele me perguntou quem tinha escolhido aquela estante, e eu falei: “Foi o Júlio”. Depois ele perguntou a mesma coisa sobre o sofá, a mesa de centro, o quadro da ninfa esfaqueada, a luminária, a cortina, e eu já nem estava respondendo quando ele sentenciou: “Não sinto sua presença nesse apartamento”. Aquilo me deu um ódio tão grande que eu quase contei para o Júlio que ele dava em cima de mim. Afinal, o que ele queria dizer? Que eu não tinha comprado nossos móveis? Claro que não comprei móvel nenhum. Nesses oito anos praticamente só eu que paguei o aluguel! De onde eu ia tirar dinheiro para gastar na decoração?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;Mas o problema é que eu não tinha certeza se ele dava em cima de mim. Ele falava umas coisas, tipo “Você é muito bonita”, “Você devia escrever mais”, “Você e o Júlio deviam ir no suingue; é uma experiência enriquecedora, pode renovar o casamento”. Talvez ele não estivesse me cantando, eu é que deduzi errado. Ao contrário dele, não sou boa em detalhes; comigo é tudo oito ou oitenta, gosto das coisas bem claras, não suporto nada dito por meias palavras. Ele é que curte esses jogos mentais; ele vai conversando com uma pessoa e tangenciando certos assuntos, fazendo perguntas dúbias; quando o sujeito percebe, já revelou coisas que não fala nem para o espelho. Eu acho que ele daria um tremendo escritor, mas não sou louca de falar isso para ninguém. Se ele começasse a escrever, e fizesse algum sucesso, ficaria ainda mais metido; eu não ia suportar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;Quando ele voltou de Bogotá, e me deu aquele exemplar da Nota Latina, achei que era isso que tinha acontecido. Achei que ele tinha escrito alguma coisa e publicado por lá. Daí eu li o título de um conto, “El Beso Lagarto”, e me deu aquele frio na barriga. Depois li algumas linhas, e simplesmente não acreditei: “Se está investigando cómo los lagartos pueden regenerar los miembros y órganos lesionados. Son incluso capaces de regenerar partes de su cerebro y la espina dorsal.” Era o meu conto, e estava em espanhol! Abracei-o com força, e tive até que tirar os óculos para esfregar os olhos, porque começaram a marejar. Será que ele tinha pagado alguém para traduzir? Será que ele tinha contato com editores da Colômbia? Eu estava tão feliz que teria dado um selinho nele, se não estívessemos bem na frente do Júlio. Mas logo depois, o canalha sentou no sofá, e começou a contar como as garotas de programa de Bogotá eram lindas, altas, com seios enormes. O Júlio ficou rindo, e o estimulando a falar mais e mais bobagem. Eu fiquei com tanto ódio que só conseguia pensar: “Por que esse desgraçado não morre?!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;Depois que eu me separei nós nos afastamos, porque ele era muito amigo do Júlio. Uma noite eu estava mexendo nas minhas quinquilharias, e achei aquele exemplar da Nota Latina. Pensei em ligar para ele, depois desisti. No dia seguinte, pensei a mesma coisa, mas também consegui desistir. Só fui ligar uns quatro dias depois, e claro que me arrependi. Ele me falou que estava súper feliz, porque tinha finalmente encontrado uma amiga que topava ir no suingue com ele. Depois perguntou se eu continuava escrevendo, e me pediu para lhe mandar alguma coisa por email. Senti saudade do tempo que ele entrava no blogue e comentava meus contos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse; font-family: Cambria, serif;"&gt;&amp;nbsp;Senti saudade do tempo que eu fantasiava que ele era apaixonado por mim, e não me cantava por causa do Júlio. Pensei em escrever sobre isso, e até esbocei algumas linhas, depois me toquei que ele ia sacar tudo. Se ele xeretasse lá no blogue, ia perceber facilmente que eu estava falando dele. Rasguei o rascunho, decidi que eu nunca ia escrever sobre ele, e que nunca ninguém saberia que um dia eu gostei daquele traste. Depois jurei esquecê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;E acho que foi naquela mesma semana que eu comecei a freqüentar o suingue. Tenho vindo toda quarta, na noite de casados e solteiras. Claro que nunca transei com ninguém! Eu só quero encontrar aquele desgraçado, olhar nos olhos dele, e ter certeza que ele nunca gostou de mim. Quero ver a cara que ele vai fazer quando me vir aqui no suingue. Depois disso, aí, sim, talvez eu até transe com alguém; mas só para fazer ciúme naquele cretino.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Cambria, serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="border-collapse: collapse;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="border-collapse: collapse; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.3cm;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-4211425695638882769?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/75n67yRm7XurdIxy0gJSNlv3oss/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/75n67yRm7XurdIxy0gJSNlv3oss/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando eu estava passando perto da Parmê, vi um cartaz com uma foto de fetuccine, e tive uma forte impressão de que eu estava com vontade de comer — mas muito forte mesmo, como se fosse fome. Entrei e pedi um fetuccine com filé de frango, pensando em comer só metade. Mas foi só eu lembrar como tem gente passando fome, que não tive coragem de deixar sobra no prato. Matei tudo, e já ia pedir a conta quando notei que eles agora estão servindo musse de manga. Eu nunca tinha comido, e resolvi experimentar. Ia pedir com um café expresso, mas o garçom falou que a máquina de café estava estragada, então acabei pedindo com um &lt;i&gt;milkshake&lt;/i&gt; pequeno de chocolate. Não sei por quê, chocolate me lembra café. Consigo substituir um pelo outro, na maior facilidade. O que nunca consegui é passar mais de um dia sem um dos dois. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois eu estava voltando para casa, e resolvi passar no Empório Árabe, para levar um pouco de &lt;i&gt;homus&lt;/i&gt; e beringela defumada. Adivinha quem eu encontrei lá? Isso o mesmo, o Beto, o Marcos Flávio, a Irene, o pessoal estava todo lá. Tive que sentar para tomar uma cervejinha com eles. E a cerveja me abriu o apetite, e resolvi experimentar os tais quibes de coalhada que todo mundo está comentando desde que o Empório foi inaugurado. Meus amigos adoraram, e até aproveitaram para me apresentar ao patê de azeitona preta, que também é muito comentado, só que eu já não achei grande coisa. Mas claro que comi, para não fazer desfeita; por isso cheguei em casa sem fome nenhuma, e fui logo falando para minha mulher que eu não ia jantar. Ela me olhou com uma cara tão esquisita, que parecia que eu estava cometendo um crime.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você está louco, amor? Claro que não vamos jantar. Hoje é o primeiro dia do Festival Gastronômico da Zona Sul. Vamos agora para o Folle Plat, eles já devem estar começando a servir alguma coisa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Enquanto eu tomava um banho rápido, percebi nitidamente que já não cabia mais nada no meu estômago. Ah, mas meu estômago não ia fazer aquilo comigo! Era um festival anual, eu não podia perder um evento daqueles por causa do capricho de um dos meus órgãos. Saí do banheiro e fui direto em cima de dois antiácidos. Quando minha mulher perguntou o que eu estava fazendo,&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;claro que não falei nada sobre meu encontro com o pessoal no Empório. Eu conheço minha mulher, ela ia falar que eu esqueci do festival, que eu não ligava para os programas dela, que eu passava mais tempo com meus amigos que com ela... enfim, essas picuinhas de mulher.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No Folle Plat estavam servindo umas torradinhas com &lt;i&gt;foie gras&lt;/i&gt;, e eu fiquei indignado, porque aquilo não era coisa de festival! &lt;i&gt;Foie gras&lt;/i&gt; eu já como quase todo dia. Comentei com a Jussara, mas ela ponderou: — Você não notou, amor? Esse é com raiz forte, é completamente diferente. Realmente eu não tinha notado. Depois veio um ravióli de pato que, esse sim, eu nunca tinha provado, e estava delicioso! Minha mulher ficou reclamando que devíamos ter pedido um &lt;i&gt;merlot&lt;/i&gt;, porque o pato não combinava com o &lt;i&gt;cabernet&lt;/i&gt; chileno que o &lt;i&gt;sommelier&lt;/i&gt; tinha indicado. Claro que eu concordei na hora. Não tenho paladar para vinhos, e não queria que ela percebesse que eu estava louco por uma coca-cola. Depois do &lt;i&gt;chessecake&lt;/i&gt; de amora (que também me decepcionou; isso eu como todo dia) minha mulher encontrou umas conhecidas, e vi que era uma boa hora para aplicar o golpe do cigarro. Falei que eu ia fumar um pouquinho lá fora, e pedi a um garçom para me levar uma coca zero. Na calçada fiquei pensando que eu devia voltar a fumar de verdade; depois que eu como me dá uma vontade tremenda de sentir aquele gostinho do cigarro. Mas lembrei da Jussara buzinando no meu ouvido que cigarro faz mal para os meninos, que é um péssimo exemplo, e não sei mais o quê, e decidi ficar só na coca mesmo. Minha mãe bem que me avisou que eu não devia casar com uma mulher vinte anos mais jovem. Essa nova geração pensa completamente diferente. Ah, mas minha mãe nunca viu a Jussara nua, nunca viu como os mamilos dela ficam quando ela está excitada. Tem coisas que mamãe nunca vai entender...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando eu estava voltando para o mezanino, senti uma dor no peito, que foi um troço incrível. Cheguei a pensar que eu ia ter um infarto, e fiquei alguns segundos despistando na escada, &amp;nbsp;fingindo que eu estava tossindo. Foi nesse momento que uma força misteriosa agiu sobre mim. Sinceramente, eu tenho pena de quem não acredita em Deus. Quem não acredita, não entende esses momentos mágicos. Eu fui sentindo um calor no peito, uma palpitação, depois uma pressão, quase uma cãibra, e então... vagarosamente... deliciosamente, saiu aquele arroto fenomenal. Não pensem que eu fiz barulho, pelo amor de Deus! Eu estudei no Santo Inácio! Foi um arroto suave, silencioso, embora constante, convicto, eficiente, quase espiritual. Me senti tão leve que subi o resto da escada saltitando. Quando sentei à mesa, minha mulher já tinha pedido a conta, e fiquei pensando em como eu dormiria soberbamente depois daquele dia incrível. Quibes de coalhada, raviole de pato, &lt;i&gt;chessecake&lt;/i&gt;... Acho que o vinho tinha me dado sono, e minha mulher certamente estava notando, porque perguntou: — Você não está com sono, está? Temos que ir agora para o Piacere Reale! As meninas me falaram que eles estão servindo uns caldos incríveis!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu não ligo para caldos, mas lembrei do meu pequeno milagre na escada, e pensei: “Quer saber? Depois de um arroto daqueles, eu topo qualquer coisa.”&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E topei mesmo. O caldo de moranga estava uma delícia, o de lentilhas também. Mas nada superou o de feijão branco com calabresa! &amp;nbsp;Claro que eu me controlei: não toquei nas torradas. Comi só uns pãezinhos de alho, e depois um queijinho provolone para acompanhar o licor. Minha mulher adora o Poire Williams, eu estou acostumado com o Cointreau, e preferi manter a tradição. Depois já íamos pedir a conta, e a Jussara exclamou: — Amor, e a sua grapinha? Não é aqui que servem aquela grappa que você diz que é maravilhosa? — Deus do céu, eu tinha esquecido completamente. No Piacere servem aquela grappa divina que vem direto de uma aldeia da Sicília. Mas eu já estava sentindo uma coisa estranha, uma certa indisposição. Falei com minha mulher que eu ia arrematar com a grappa, mas depois de um cigarrinho, e saí pensando na minha coca-cola. Foi aí que cometi um erro terrível, uma coisa idiota mesmo! Em vez de conversar numa boa com o garçom, eu pensei em comprar a coca num quiosque da praia. Estávamos a uma quadra do calçadão, e achei que seria até bom tomar a coca lá, depois voltar caminhando lentamente, dando um tempo para um novo milagre. Tudo ia muito bem, quando eu senti novamente aquela estranha pressão no peito, aquele cansaço inconveniente. Fiquei me perguntando se Deus tinha invertido o milagre, e o arroto viria antes da coca. Para Ele nada é impossível. Mas aí me veio uma fraqueza nas pernas, eu vacilei, meio tonto. Os passantes devem ter rido muito do sujeito de sapatos e calça social que, de repente, ficou de quatro em pleno calçadão. Precisei me deitar por um instante, e quando vi aqueles rostos assustados, falando em ambulância, tentei gritar que eu só queria uma coca, e tudo ia ficar bem em questão de minutos. Mas acho que eles não me ouviam, porque eu também não ouvia nada&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;, e depois de um silêncio ritmado, que parecia barulho de mar, veio também um escuro completo, avassaldor. Quando eu acordei já estava no hospital.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Os médicos me explicaram que não foi infarto, apenas faltou um pouco de sangue num músculo do coração. É coisa à toa, que um &lt;i&gt;stent&lt;/i&gt; resolve sem dificuldade. Minha mulher mais uma vez brigou comigo, porque eu não falei que estava passando mal, e não sei mais o quê. Ora, por que eu não falei? É óbvio por que eu não falei. Eu ia deixar uma tontura de nada estragar o primeiro dia de festival gastronômico?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E por falar nisso, o Festival é até domingo. Já conversei com o doutor Danilo, ele disse que me libera no máximo amanhã. Vocês já ouviram falar do canelone de amêndoas do Sapore Romano? Me disseram que estão servindo com um molho difenciado, por causa do Festival. E no Gustosità tem aquele tiramisu maravilhoso! Tenho certeza que Deus vai me ajudar. Não posso perder essa de jeito nenhum!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: transparent; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-120974931895573754?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/uMTvtFiBmCzQKSS1Gkfpq16rWvA/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/uMTvtFiBmCzQKSS1Gkfpq16rWvA/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/uMTvtFiBmCzQKSS1Gkfpq16rWvA/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/uMTvtFiBmCzQKSS1Gkfpq16rWvA/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/I-jk-Cu_AwM" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/120974931895573754/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/02/um-leve-exagero.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/120974931895573754?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/120974931895573754?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/I-jk-Cu_AwM/um-leve-exagero.html" title="Um leve exagero" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/02/um-leve-exagero.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEYFRH47eSp7ImA9WhZbGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-7937636207824926850</id><published>2011-02-02T12:41:00.001-03:00</published><updated>2011-06-23T02:15:15.001-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-06-23T02:15:15.001-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Miniconto" /><title>Meu sonho incrível</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px; line-height: 22px;"&gt;Foi assim: eu estava no meu quarto, na paz da minha cama, sem nenhuma peça de roupa, me masturbando gloriosamente. Minha mão deslizava para cima e para baixo, minha ereção estava tão firme que eu sentia até uma pequena cãibra nas coxas. O prazer era delirante, não deixava espaço para pensamentos. Mas ainda assim me ocorreu um estranho momento de lucidez: de repente eu percebi que estava sonhando! Não sei explicar, eu olhei para aquele pau duro, aqueles pêlos todos nas minhas pernas, aquela glande vermelha, brilhando de úmida, e simplesmente saquei que aquilo era um sonho. Então me ocorreu uma pergunta bastante óbvia que acho que qualquer um faria naquela situação. Se aquilo tudo era um sonho, por que eu estava me masturbando em vez de comer uma atriz de cinema ou a gostosona da turma? O que havia de errado com minha imaginação? Se eu estava vivendo uma ilusão, podia ao menos ser uma ilusão inesquecível, fora do normal. Foi aí que tudo ficou mais complicado. Eu ouvi uma voz dizendo: “Pára de reclamar, e aproveita, porra!”&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px; line-height: 22px;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px; line-height: 22px;"&gt;&lt;span id="more-769"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 12px; line-height: 22px;"&gt;Nem perguntei quem era, porque na hora eu saquei que aquilo era o meu eu-consciente de alguma forma falando para o eu-do-sonho. Não sei como essas sacadas aconteciam, mas imediatamente percebi que meu eu-consciente tinha razão. Aquela ereção estava maravilhosa, por que desperdiçá-la com reflexões inúteis? Continuei o movimento, mantive a pressão, fui aumentando o ritmo lentamente. De vez em quando eu passava a mão na cabeça, espalhando a lubrificação. Às vezes dava uma apertadinha no saco que fazia meu corpo inteiro arrepiar. Até que eu senti que não podia mais parar, e mantive um ritmo firme e veloz, quase violento. A cãibra desceu para meus tornozelos, virei os pés para dentro. Senti uma contração percorrendo meu corpo, e logo se afunilando, e fluindo pelo meu pau com uma convicção brutal. Um, dois, três, quatro jatos decididos, nítidos, quase dolorosos. Depois senti o lento relaxamento, a respiração profunda, a sensação de que algo se dissolvia na minha nuca e atrás dos meus olhos. Foi tudo tão perfeito que comecei a entender que só podia mesmo ser um sonho. De alguma forma me conformei com aquela ilusão, e fui aos poucos me sentindo preparada para acordar. Logo em seguida abri os olhos. Vi primeiro o teto branco, indiferente, depois as paredes imóveis, irredutíveis, depois o corpo do meu eu-consciente. Levei a mão entre as pernas, só para confirmar o que eu já sabia. Lá estava ela, minha boceta úmida, mole e vazia. Meu pau não passava de um sonho. O melhor sonho que já tive, mas apenas um sonho. Para o resto da vida, voltei a ser mulher.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Geneva, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 12px; line-height: 22px;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-7937636207824926850?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fQYeBJEMKdJM9eIPWuU6thpS_BI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fQYeBJEMKdJM9eIPWuU6thpS_BI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fQYeBJEMKdJM9eIPWuU6thpS_BI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/fQYeBJEMKdJM9eIPWuU6thpS_BI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/PMGa3aBQW-Q" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/7937636207824926850/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/02/meu-sonho-incrivel.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7937636207824926850?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/7937636207824926850?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/PMGa3aBQW-Q/meu-sonho-incrivel.html" title="Meu sonho incrível" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2011/02/meu-sonho-incrivel.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEADQX8yfCp7ImA9Wx9XGEs.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-6178084547397216454</id><published>2010-10-26T16:44:00.007-03:00</published><updated>2011-01-12T18:12:50.194-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-12T18:12:50.194-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Gravata</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia a gente estava de bobeira na casa da Flávia, e de repente todo mundo começou a falar em masturbação. Os meninos contaram em detalhes como faziam e em quem pensavam, e as meninas só riam e desconversavam como sempre. Quando me perguntaram, falei que era lógico que eu não fazia essas coisas, porque era verdade, eu não me masturbava mesmo! Eu às vezes ficava pressionando o travesseiro contra o púbis até sentir aquele calorzinho gostoso, mas isso é bem diferente de se masturbar.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Só que eu evito falar dessas coisas, nem é porque eu tenha medo do que vão pensar, mas porque sei que ninguém vai me entender. Eu não posso contar, por exemplo, que nunca penso em sexo quando estou fazendo isso, porque acho sexo uma coisa meio... como é que eu vou dizer? Não é vulgar, é sem graça mesmo, sabe? Sexo é muito simples, é só colocar o negócio ali e ficar mexendo. É tão simples que até os animais sabem fazer. Em vez de sexo — e isso minhas amigas nunca vão entender — eu costumo pensar em gravata. Sim, porque eu acho gravata uma coisa súper &lt;i&gt;sexy&lt;/i&gt;. &amp;nbsp;A gravata não serve para nada, e muita gente não entende que é por isso mesmo que ela é tão sexy. Homem não usa brinco, nem jóia, nem maquiagem. A única coisa totalmente inútil que ele usa — a única coisa que serve apenas para atrair a atenção do sexo oposto — é a gravata. Você pode achar que é locura, mas eu acho que a gravata é uma concessão que o homem faz ao universo feminino. Quando ele põe uma gravata, é porque compreende que algumas coisas existem só para chamar a atenção, só para comunicar nosso gosto, nossa preferência pessoal por certas cores e formas. A gravata é como uma jóia: não é uma ferramenta de trabalho, é um objeto que serve apenas para mostrar quem você é.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Acho que é por isso que na hora de ficar brincando com o travesseiro, eu sempre pensava em gravata. Era só imaginar um homem charmoso, alto, forte, afrouxando a gravata na minha frente, que tudo acontecia naturalmente. A minha respiração ficava mais profunda, eu ia relaxando, ia sentindo aquele calorzinho nas pernas. Às vezes eu me visualizava desabotoando a camisa dele, passando a mão no seu peito, brincanco com a gravata, passando entre as minhas pernas, e não precisava mais que isso para eu começar a sentir as contrações. A gravata e uma boa camisa social já bastavam para fazer miséria comigo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Por isso eu sempre achei uma pena que ninguém usasse gravata na noite. Quando um carinha chegava em mim, não tinha como eu saber que roupa ele usava de dia, se era um bom paletó com gravata de seda ou uma calça dins com camisa de malha. Aos poucos fui aprendendo que os gerentes de qualquer setor usavam gravata, mas, sei lá, tem uma diferença muito grande entre aquelas gravatinhas de malha, que tem em qualquer loja de departamento, e as gravatas de seda que até brilham quando o cara passa perto de você. Eu ficava conversando com os homens e tentando imaginar que gravata eles usariam numa segunda-feira, quando chegassem em casa depois do trabalho. Não sei por quê, mas acho que uma gravata de malha, daquelas listradinhas, não ia ter o mesmo efeito que a de seda, não ia acender minha libido com a mesma facilidade. Por isso eu perguntava sobre o tipo de emprego, o bairro, a situação da família, ia tentando fazer um levantamento, julgar pelas estatísticas, mas não era fácil acertar. Foi aí que eu inventei esse truque do almoço. Isso é uma coisa inédita que eu nunca vi em nenhuma revista feminina. Eu começava a sair com o cara, e dava um jeito de marcar um encontro na hora do almoço. Fatalmente ele ia com a roupa de trabalho, e eu ganhava informação suficiente para decidir se ia continuar com ele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Infelzimente só os casados passavam no teste. Quer dizer, eles não me diziam que eram casados, mas isso foi uma coisa que eu aprendi com minhas amigas mais velhas. O cara que não te chama para a casa dele, ou é casado ou mora num buraco muito podre, o que no fundo dá na mesma. Mas eu não gosto de homem casado, nem é por causa da esposa, porque eu acho que uma esposa pacata, que só fica cuidando dos filhos, não deve atrapalhar em nada. O problema é que com homem casado não dá para realizar a minha fantasia de esperar o cara em casa, tirar a gravata, ir desabotando a camisa, e essas coisas que eu já falei. O homem casado só leva a gente para motel, e isso não dá para mim, porque eu fico me sentindo uma vagabunda, e não consigo relaxar. Não sei por quê, nunca me senti bem em motel. As minhas amigas me falam: “Mas, Natália, ali é o lugar certo para transar. É um lugar preparado para isso, com banheira, cama, ar condicionado.” Mas só de pensar em banheira de motel me dá vontade de vomitar. E isso é outra coisa que eu nunca conto para minhas amigas porque sei que elas não vão entender.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas nessa vida nem tudo é do jeito que a gente quer. Às vezes você acaba tendo que se contentar com o que aparece. Quando o Fabinho me disse que era diretor executivo de uma firma de publicidade, eu achei que ele usava uma gravatinha legal, nem que fosse dessas de microfibra, que vendem pela internet. Só depois eu fui descobrir que na firma dele todo mundo trabalhava de camisa de malha, e às vezes até de chinelo. Parece loucura mas esse pessoal da publicidade é meio descolado, não liga a mínima para roupa. Eu não me importei muito, porque ele tinha um Pálio, e um quarto-e-sala em Copacabana, que ele garantiu que já estava terminando de pagar. Daí fui ficando com ele, e me acostumando aos botequins baratos, aos jogos de futebol, ao sexo no carro mesmo, fazer o quê?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas, de vez em quando, me batia aquela decepção, aquela frustração profunda, que nem eu entendia direito. Aí não tinha como evitar. Eu pegava meu travesseirinho, e pensava nuns homens que eu tinha visto quando eu fazia evento lá no Expo Barra ou no Sul América Rio. Homens que falavam baixo, mantinham as sobrancelhas meio contraídas, tinham um andar firme, como se estivessem sempre atrasados — e, claro, usavam as mais lindas gravatas. Eu fantasiava um homem daqueles chegando em casa com uma gravata vermelha, falando que teve um dia cheio, que o chefe faltou e deixou tudo na mão dele ou coisa parecida. Meu Deus, como isso me excitava! Mas depois do orgasmo eu ficava me sentindo mal, me perguntando por que o Fabinho era tão intransigente com esse negócio de roupa. Ele falava que gravata era coisa de contador, não combinava com executivo de publicidade. Eu perguntava: “Mas Fabinho, nem nas reuniões?” E ele dizia que as reuniões da firma eram todas em bares, porque o pessoal da publicidade não tolerava uma reunião de verdade. Ah, como aquilo me punha para baixo!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Aí um dia pintou essa chance sensacional. Ia rolar um casamento de uma amiga, e eu falei com o Fabinho que ele tinha que ir comigo. Todo mundo sabe que em casamento se vai de terno e gravata, quer dizer, vem escrito no convite: passeio completo. Quando o Fabinho topou já comecei a imaginar uma gravata bonitinha, de três cores, mas com padrões geométricos bem definidos, ou talvez até de uma cor só, lisinha, um pouco brilhante, também acho finíssimo. Procurei não criar muita expectativa, porque eu sabia que ele não tinha tanto bom gosto para roupa. Mas eu estava confiante que naquela noite eu ia realizar minha fantasia. Depois do casamento a gente ia para o quarto-e-sala dele, e eu ia falar que ele tinha ficado lindo de gravata, ia afrouxar o nó de vagarinho, passá-la no meu corpo, de repente até fazer uma coisa que eu tinha visto num filme. Eu tinha certeza que aquela noite seria inesquecível.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mesmo assim, só para garantir, resolvi perguntar ao Fábio com antecedência.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— E aí, amor? Você sabe que na festa tem que usar gravata, não sabe?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Quê é isso, amor! Hoje em dia todo mundo vai só de blêiser.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você está louco, amor? Isso não existe. Todo mundo vai de gravata, você vai passar a maior vergonha se não for!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas não teve jeito. O maluco ficou repetindo que ia só de blêiser, e, quando eu insisti, ele acabou confessando que nem tinha gravata, que nunca na vida tinha precisado usar. Diante disso, eu tive que tomar minhas providências. Resolvi que eu mesma ia passar numa loja de departamento e comprar a maldita gravata. Cheguei até a comentar com minha mãe, e ela falou que hoje em dia a coisa estava assim mesmo, as mulheres estavam tendo que fazer tudo, porque os manés não tinham mais iniciativa. Eu nunca acreditei na minha mãe, mas nesse dia me pareceu que ela tinha razão. Fui para a loja escolher a peça, e senti que alguma coisa dentro de mim estava mudando. Peguei uma gravata bonita, grená, com dois tipos de listras brancas, mas não sei por quê, não senti aquele entusiasmo que eu esperava. Na hora de pagar, o sujeito me perguntou se eu queria parcelar no cartão, e eu achei melhor pagar tudo de uma vez, para não ficar lembrando, durante três meses, que eu é que acabei pagando a maldita gravata. Assim que digitei a senha, me senti meio estranha, meio para baixo, e fui correndo para casa, com medo de começar a chorar. Só no ônibus eu me toquei que nem tinha pedido para embrulhar para presente. Mas eu pensei: “Que se dane. O Fabinho não está merecendo presente nenhum!” E aí, no ônibus mesmo, acabou saindo aquela lagrimazinha, pequenininha, rápida — aquela de véspera de mensturação, sabe? Eu só passei a mão no rosto, e pensei que aquilo não era nada. Era coisa que eu ia esquecer rapidinho, talvez até no mesmo dia.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E não deu outra. No casamento da Rafaela, eu já não lembrava nada disso, e estava lá, feliz, dançando, bebendo, e toda hora arrumando a gravata do meu amorzinho. Ele esticava o pescoço, levantava o queixo, e eu pensava: “Ah, desgraçado, até parece que foi você que pagou essa gravata.” Mas ao mesmo tempo eu fiquei feliz, porque percebi que ele estava gostando e daí para ele passar a usar seria mera questão de tempo. A gravata tem uma magia própria. Os homens não gostam dela, até que a usam pela primeira vez, depois a querem para sempre. Eu sei disso porque com meu irmão foi a mesma coisa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando a gente chegou em casa, eu estava bem acesa. A primeira coisa que o Fabinho falou foi “estou louco para tirar essa gravata”, e eu, bem danadinha, chamei ele num canto, e falei baixinho: “deixa que eu tiro para você.” Ele entendeu o tom sussurante e veio me beijando daquele jeito, e eu encostei o corpo dele na parede, fui abrindo a camisa, beijando o peito dele, esfregando a cara na gravata, mordendo a gravata. Graças a Deus ele estava correspondendo, o negócio dele estava bem ligado, e eu pensei que aquela de repente ia ser a melhor noite da minha vida! Mas logo depois eu pensei que era melhor não ser a melhor, porque eu queria que a melhor fosse na lua-de-mel. Se fosse a segunda melhor seria mais perfeito. Aí eu notei que o Fabinho já estava súper excitado, e me debrucei na mesa, pensando que ia ter a segunda melhor noite da minha vida, mas uma coisa estranha veio na minha cabeça: eu comecei a lembrar do cara da loja me perguntando se eu queria parcelar no cartão. Depois lembrei que a gravata devia estar em promoção, porque antes do preço vinha escrito “Por apenas”. E aquilo não saiu mais da minha cabeça. Eu ficava pensando “Por apenas, por apenas...” e me senti horrível por ter comprado uma gravata na promoção. E o pior foi que bem nessa hora o Fabinho inventou de enrolar a gravata no meu pescoço e ficar puxando, como se estivesse, sei lá, domando um cavalo. E eu mandei ele parar, e ele não parou, aí eu falei: “Pára que está me machucando”, e ele falou: “Mas eu nem estou fazendo com força”, e não estava mesmo, mas na hora me subiu uma raiva que eu nem sei de onde veio, e de repente eu gritei: “Pára agora, porque um homem que não pode nem comprar uma gravata também não pode me cavalgar!”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E ele parou. E eu só consegui pensar: “De onde saiu isso? Como é que eu fui falar uma merda dessas?” Fiquei alguns segundos de olhos fechados, imóvel, pensando que talvez ele não tinha entendido, e ia continuar. E, se ele puxasse meu cabresto de novo, eu juro que não ia ligar. E se ele me chamasse de égua, de puta, de vagabunda, do que viesse na cabeça dele, eu ia deixar, e até fingir que estava gostando. E pedir mais, e fazer qualquer coisa para ele esquecer a merda que eu tinha falado. Mas eu senti que ele tirava o negócio de mim, e deduzi que se eu pedisse desculpa ia ser pior. Depois ele começou a colocar a roupa, sem falar nada, e eu senti que devia fazer a mesma coisa. Enquanto pegava minha calcinha no chão, não olhei para a gravata que tinha ficado em cima da mesa. Fui deitar com ele, calada, e lembrei que a gente tinha bebido bastante. Provavelmente no dia seguinte tudo já estaria esquecido.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E, desde esse dia, eu não pensei mais em gravata. Durante um tempo fiquei com certo medo de o Fabinho terminar, depois vi que ele ia acabar me perdoando. Na semana seguinte já voltamos a transar, e quando ele estava por cima, eu fiquei me perguntando como vai ser no meu casamento, se eu também vou ter que comprar a gravata ou se os pais dele vão comprar. Aí eu lembrei que ele ainda nem tinha me pedido em casamento, e de repente comecei a chorar. E o Fabinho me perguntou: “O que é isso, amor? O que está acontecendo?” E eu falei: “Ai, amor, dessa vez foi tão maravilhoso!” Não fui idiota de falar que eu estava triste, e estragar tudo de novo.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="white-space: normal;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="white-space: normal;"&gt;Confesso que passei um tempo pensando em substituir o Fabinho, mas o problema é que só casado dava em cima de mim. Depois de uma certa idade, a mulher passa a viver uma espécie de maldição. Todo homem que aparece ou já é casado ou é um completo fracassado que não ganha nem para um fim de semana em Cabo Frio. Além disso, terminar com o Fabinho seria muito desagradável, ele já conhecia minha família, todos perguntavam por ele quando me viam. Seria tão chato explicar para todo mundo que a gente terminou.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Hoje, quando vejo um homem de gravata, eu simplesmente olho para outro lado. E quando eu sinto vontade de brincar com meu travesseirinho, eu não penso mais em gravata, nem em roupa cara, nem mesmo em homem. Eu só esfrego com força para passar logo a tensão, depois vou arrumar a casa ou fazer as unhas. Mas outro dia eu ouvi dizer que os filhos costumam ser exatamente o contrário dos pais. Quando o pai é descolado e liberal, o filho é formalista, atuoritário, elitista. Assim, quem sabe meu filho um dia não vai estar diante de mim, com uma gravatinha de três cores, com um estampado discreto, bem fino. Ou então uma monocromática, de seda, meio brilhante, por que não? A esperança, afinal, é última que morre.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6178084547397216454?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/wWdsK__EiLtuyPpxnZllvzI9e0s/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/wWdsK__EiLtuyPpxnZllvzI9e0s/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/31lrKvxBBzE" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/6178084547397216454/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/10/um-dia-gente-estava-de-bobeira-na-casa.html#comment-form" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6178084547397216454?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6178084547397216454?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/31lrKvxBBzE/um-dia-gente-estava-de-bobeira-na-casa.html" title="Gravata" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>5</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/10/um-dia-gente-estava-de-bobeira-na-casa.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkENQHc9eyp7ImA9Wx9XE0s.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-7325292055345437727</id><published>2010-09-29T17:34:00.018-03:00</published><updated>2011-01-06T21:38:11.963-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-06T21:38:11.963-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Controle Remoto</title><content type="html">&lt;div style="line-height: 22px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 15px; padding-bottom: 0px; padding-left: 0px; padding-right: 0px; padding-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: large;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Quando surgiu o controle remoto, no final dos anos setenta, Macaulay não deu muita bola. Achou que levantar para mudar de canal era no mínimo um bom exercício, e não valia a pena pagar o dobro numa televisão, só para ter o prazer de comandá-la à distância. Porém, com o tempo, o preço caiu bastante, e o número de canais só aumentou. Mac, como o chamava sua mulher, acabou cedendo, e aderiu à moda sem maiores dificuldades. Desde então, seu entusiasmo pela tecnologia não parou de crescer. Quando o microcomputador surgiu, nos anos oitenta, ele foi um dos primeiros compradores. Também foi pioneiro quando os telefones celulares começaram a tocar nos restaurantes e cinemas, no final dos noventa. Em 2004 fez um curso de &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;webdesign&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; e, quando se aposentou, em 2009, trabalhava criando aplicativos para &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;smartphones&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;. Na velhice havia se tornado um entusiasta de novas tecnologias, e assinava revistas especializadas, que tratavam desde livros digitais até viagens intergalácticas. Foi por meio delas que descobriu o que era criogenia, e, para desespero de Zelda, nunca mais conseguiu pensar em outra coisa. Chegou a mudar seu círculo de amigos, porque os retrógrados não adeririam à idéia nem depois que o preço caiu para menos que o de um condicionador de ar. Sua maior decepção, sem dúvida, foi não ter convencido a mulher, e, depois de inúmeras discussões, ficou decidido que os dois não falariam mais no assunto, para evitar aborrecimentos. Afeita a seitas esotéricas e idéias orientais, que Macaulay chamava simplesmente de superstição, Zelda fazia questão de defender seu direito a morrer em paz. Argumentava que: ou haveria vida após a morte – e essa seria um pouco melhor – ou haveria o descanso eterno, sem nenhum espaço para saudade. As duas opções seriam melhores que acordar num mundo assombrado por andróides e infestado de aparelhinhos irritantes que seus donos já nem lembrassem para que serviam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
Macaulay respeitou o direito da mulher, mas sempre que se encontrava com os amigos não deixava de expressar sua profunda frustração: – Ela não acompanha o progresso da medicina, não vê que é apenas questão de tempo até conseguirem fazer um transplante de cérebro!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
Os amigos concordavam. Sim, era absurdo. Ela preferia morrer a dar um pouco de crédito à ciência. E agora estava tão barato, apenas quatrocentos dólares por ano! Que mulher mesquinha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas Zelda também respeitou a decisão do marido, e guardou com cuidado o telefone da equipe de criogenização. Um dia Mac sentiu uma palpitação e lembrou à mulher: – Quando minha hora chegar, não vá esquecer de chamá-los, hem! Depois tomou seu comprimido para pressão, e ficou estranhamente taciturno. Sua mulher logo se preocupou: – O que foi, querido? Por que esse silêncio todo? O homem resmungou um pouco, depois desabafou: – Zelda, você vai casar de novo? – O quê?! – Quando eu for criogenizado, você vai arrumar outro marido? A mulher ficou até lisonjeada. – Ora, o que é isso, Mac! Eu tenho sessenta e quatro anos, você acha que eu ainda penso nessas coisas! – Sei lá, de repente você encontra um velho que nem você, que goste dessas bobagens orientais. – Ora, Mac, não seja bobo!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Zelda cortou o assunto, mas naquela noite dormiu até melhor. Nos dias seguintes começou a considerar a criogenização com mais simpatia. Mac, afinal, era um bom marido, sempre trabalhara e arcara com as maiores despesas do lar. Não era justo deixá-lo sozinho. Devia ser muito triste passar anos trancado naquele tanque de nitrogênio líquido. E se ele acordasse mesmo no tal futuro, será que se acostumaria a falar com andróides? Como ele se sustentaria? Sua aposentadoria se tornaria vitalícia? Dúvida e compaixão se alternaram no coração da velha, e ela concluiu que, se o marido insistisse mais um pouquinho, ela acabaria indo para o tanque com ele. Não por ela, que detestava qualquer aparelho com mais de quatro botões, mas pelo seu velho Macaulay, que sozinho não conseguia nem achar os óculos. Alguém tinha que cuidar dele, e se fosse preciso passar séculos imersa em nitrogênio líquido, ela estava disposta a fazer esse sacrifício. Decidiu que explicaria tudo ao marido assim que ele viesse com mais uma especulação cansativa sobre o futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não podia imaginar que o destino lhe negaria essa oportunidade. No dia seguinte, Macaulay estava vendo televisão, quando de repente o controle remoto parou de funcionar. As pilhas se esgotaram, e ele teve que se levantar para mudar de canal. Mas seu coração, muito desgastado, não suportou o pequeno trajeto. A dor no peito foi até fraca, comparada às outras que vieram após a queda. Contudo Macaulay lamentou mesmo foi a perda da fala, porque o rosto de Zelda, nos momentos finais, parecia mais consternado que ele esperava. O velho te&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;meu que ela tivesse perdido o telefone da equipe. Mas seu receio não durou nem dez segundos. Logo ele mergulharia numa calma profunda, sem sonoridade, sem luz, sem nada que pudesse deixar uma lembrança.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;br /&gt;
Quando acordou, a primeira coisa que viu foi um teto branco, depois notou que ele não era branco, seus olhos é que estavam se acostumando à iluminação. Parecia estar num hospital, e chegou a lamentar que tivesse apenas passado por mais um infarto. Uma voz de mulher o saudou – Bom dia, senhor Smithson. Em breve uma de nossas enfermeiras falará com o senhor – e ele ficou mais aliviado, porque pelo menos era um hospital moderno, com dispositivos eletrônicos que sabiam que ele tinha acordado. A enfermeira era linda, e Macaulay quase não entendeu o que ela dizia, de tanto que ficou vidrado no movimento suave e ritmado dos seus lábios. Quando ela parou de falar, ele arriscou um comentário engraçadinho.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
– Ah, minha querida, se eu tivesse apenas uns dez anos a menos, não saía daqui sem o seu telefone.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;    &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;–&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A resposta da garota acelerou seu batimento cardíaco, que ele podia acompanhar num pequeno monitor ao lado da cama.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; – Senhor, devo avisá-lo que sou uma andróide. Neste pequeno panfleto o senhor encontrará informações sobre minha companhia. Caso tenha interesse, poderemos fabricar uma andróide com noventa e nove por cento de semelhança com a senhora Smithson, inclusive no sotaque e nos hábitos mentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seguida a beldade abriu um pequeno armário, e informou: – Esses são os pertences que a senhora Smithson considerou que seriam de interesse pessoal do senhor. Aqui está o cartão de outra companhia que poderá reconstruí-los caso algum deles venha a se desfazer. Ainda em estado de choque, Macaulay perguntou: – Quando ela morreu? – O senhor se refere à Sra. Smithson? – Claro que me refiro à minha mulher, sua máquina estúpida. De quem mais eu estaria falando? – Me desculpe, senhor. Eu precisava confirmar. Ela morreu em 2021. Fará exatamente 218 anos no dia 21 de outubro de 2239.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele ia perguntar quanto tempo ficou dentro da câmara de criogenização, mas as palavras simplesmente não saíram. Pela primeira vez lhe ocorreu que o futuro talvez não fosse tão hospitaleiro quanto ele tinha pensado. Ficou alguns segundos contemplando seus objetos pessoais, que eram um leptop, um chapéu de caubói, algumas fotos de Zelda e um controle remoto de televisão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dias seguintes foram de descobertas paradoxais. Quanto mais Macaulay conhecia coisas novas, mais lhe parecia que o mundo no fundo continuava o mesmo de sempre. Havia mais jardins, as pessoas trajavam estranhos macacões de plástico. Óculos inteligentes – chamados &lt;i&gt;smartglasses&lt;/i&gt; – substituíam a televisão, os jornais e quase tudo relacionado a informação. Mas continuava a haver pobres e ricos, e o velho descobriu que precisaria voltar a trabalhar. Depois de alguns meses de treinamento, ele não teve dificuldade em se adaptar, e se tornou inspetor de qualidade numa fábrica de &lt;i&gt;petbots&lt;/i&gt; (eram robôs que acompanhavam as pessoas filmando e gravando tudo que elas faziam, para consulta pessoal ou para servir de prova em caso de processos judiciais). Sua maior dificuldade era parar de pensar no passado. Quando ficava sozinho, punha-se a olhar suas fotos antigas, e como não lembrava muito bem dos seus sentimentos, começou a pensar – e até mesmo a acreditar – que tinha sido feliz. A Zelda das fotos tinha seios firmes e um sorriso encantador, não lembrava em nada a mulher rabugenta e entediante que havia se tornado mais tarde. Ele mesmo parecia contente entre os amigos, tinha um riso modesto e franco, um rosto descontraído, parecia um homem realizado. O futuro, por outro lado, era apenas um conjunto de rotinas maçantes que intensificavam sua sensação de vazio e solidão. Um dia recordou os argumentos de sua mulher sobre a morte, e se pegou pensando que, afinal, ela podia ter razão.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Morrer não seria mais fácil que se cercar de atividades cada vez mais complexas para conservar a vida?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;br /&gt;
Daí para a tentativa de suicídio foi apenas um passo. Se Macaulay ainda está vivo é porque ressuscitar uma pessoa agora é tão banal quanto acender um fósforo. Depois de muita terapia e alguns órgãos substituídos, ele acabou consentindo em tentar de novo. O problema, como lhe explicaram os psicanalistas, era sua tendência a idealizar o passado como um estado paradisíaco, sem conflitos e contrariedades. Parece que Macaulay fazia agora com o passado o que no passado fizera com o futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi também na terapia que ele descobriu uma forma criativa de lidar com essa tendência. Começou a escrever romances de época, que logo cativaram a todos pela riqueza de detalhes históricos. No futuro, familiarizados com os comandos por movimento de íris, todos adoram ouvir uma boa história sobre controles remotos. O próprio exemplar de Macaulay valeria uma fortuna se ele quisesse vender. Mas ele garante que nunca se desfará do objeto. Depois de duas ressurreições, ele começou a acreditar que certas coisas têm, para além de sua função imediata, um imensurável valor sentimental.&lt;/span&gt;     &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-size: 12px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-7325292055345437727?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/qpk0cRZThBHRh9iuAblOHNcxtfA/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/qpk0cRZThBHRh9iuAblOHNcxtfA/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O que mais me impressionava nem era que ela morasse no espelho, mas que ela acertasse todas as suas previsões. Ela foi a primeira a falar que minha mãe ia acabar pedindo o divórcio e&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;que minha irmã ia voltar do exterior ainda mais pobre que antes. Também previu que meu pai ia ficar muito solitário depois da separação, e acabaria gostando bem mais de mim. Eu ficava súper contente em ter uma amiga daquelas, e morria de vontade de contar para as meninas, mas aí eu lembrava do tio Sélton, e tratava de ficar calada. Eu adorava minha amiga secreta, e o silêncio era o sacrifício que eu tinha que fazer para a gente continuar se vendo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois eu fui crescendo, e comecei a consultá-la para coisas cada vez mais sérias. Quando fiz dezoito anos, por exemplo, todas as minhas amigas já tinham silicone, e eu sentia que também já estava precisando. O que não tinha crescido até os dezoito, provavelmente não ia crescer depois. Meu pai, naquela época, andava um amor comigo, adorava me encontrar nas baladas e ser apresentado às minhas amigas. Claro que elas não queriam nada com ele, mas eu falava que elas o achavam uma gracinha, um coroa muito fofo, e ele ficava todo feliz, rindo que nem sambista de televisão. Para minha surpresa, ele não se opôs à cirurgia, apenas perguntou se dava para parcelar no cartão de crédito. Minha mãe é que ficou contrariada, e começou a jogar uma conversa pessimista para cima de mim. Tentou me fazer medo, disse que o silicone podia estourar, que ia prejudicar a produção de leite, que podia tirar a sensibilidade da pele. Hoje sei que era tudo mentira, mas na época eu fiquei assustada, e fui correndo consultar a menina do espelho. Como sempre, ela foi bastante lúcida. Explicou que minha mãe estava era morrendo de inveja, porque meu pai pagava tudo para mim, e não queria nem conversar com ela. Falou que os meninos me dariam muito mais atenção, e isso ia botar minha auto-estima lá nas alturas. Não demorei a perceber que ela tinha toda razão. Coloquei apenas trezentos mililitros em cada seio, mas isso bastou para que mil garotos pedissem meu telefone, e falassem de mim o tempo todo, como se eu fosse uma dessas mulheres do Big Brother. Todo dia eu agradecia à menina do espelho, e ela ficava me elogiando e me olhando com tanta atenção que até fiquei especulando se ela não era bi. Mas eu não tinha que me preocupar com isso, afinal, ela morava no espelho, e de lá de dentro não dava nem para me passar a mão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas foi só eu pensar nisso que comecei a sentir pena dela. A coitada ficava enclausurada naquele espelho, não podia ir para a balada, não pegava ninguém, não conversava com ninguém a não ser comigo. Sinceramente, eu morria de dó. Às vezes, no meio de uma balada ou de uma festinha, eu ia para o banheiro e contava para ela tudo que estava acontecendo, só para ela se distrair um pouco. De início ela gostava, me ouvia com atenção, e fazia observações interessantes sobre as minhas aventuras. Mas, depois de um tempo, ela começou a falar umas coisas estranhas, ficava me depreciando, enxergava defeito em tudo. Quando eu contava que algum carinha estava me cantando, ela perguntava:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você ainda gosta disso? Não está cansada desses joguinhos?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando eu contava alguma briguinha com a minha mãe, ela apelava:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você ainda não percebeu que ela quer você saia de casa? Você já não está muito velha para morar com a mamãe?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu achei que ela estava ficando muito amarga, por isso nem comentei quando conheci o Fernando. Ele era mais velho, tinha um Audi, e trabalhava de executivo numa importadora. Eu não sabia direito o que era executivo, mas nem quis saber quando vi o apartamento lindo que ele tinha no Leblon. Era um quarto-e-sala súper espaçoso. No quarto tinha cama de casal, e no banheiro tinha até bidê. No dia que a gente transou no sofá, eu fique pensando: “Nossa, como essa sala é grande! Se eu morasse aqui, com certeza poderia trazer minhas amigas para ver um filme.” Quando a gente transou na cama de casal, eu estiquei bem os braços e fiquei passando as mãos no lençol. Ele deve ter achado que eu estava gozando, mas eu estava medindo a largura da cama, e pensando que dava tranqüilo para a gente dormir ali sem incomodar um ao outro. Minha alegria culminou no dia que dei uma desculpa para ir à cozinha, e abri a geladeira dele. Meu Deus, tinha tudo que eu adorava comer: palmito, tomate seco, mussarela de búfala! Desde aquele dia foi como se eu estivesse apaixonada, porque comecei a pensar só no Fernando, a sonhar com o Fernando, e a tentar fazer absolutamente tudo para agradar o Fernando — incluindo engolir um bocado de sêmen. Não importava se ele não fosse o homem da minha vida, ele era a porta para o apartamento da minha vida!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas não fui boba de contar essas coisas para a menina do espelho, porque, do jeito que ela andava amarga, com certeza ia me encher de críticas. Ia falar que eu não amava o Fernando e via nele só uma solução para sair da casa da minha mãe. Ia inventar que ele também não me amava, e estava apenas obcecado pelo prazer que eu lhe dava na cama. Para evitar essas discussões, passei a só cumprimentar a menina do espelho, e quando ela me perguntava alguma coisa mais íntima, eu dava uma desculpa, e virava as costas. Eu já era uma adulta, já estava na hora de tomar minhas decisões sozinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fiquei um tempão sem falar com ela, e não contei como foi o meu casamento, nem como minha mãe ficou contente quando eu me mudei. Não confessei minha enorme decepção com a minha mãe, que nem queria saber se eu estava feliz, só estava louca que eu achasse outro lugar para morar. Não falei das inúmeras piadas que minha irmã ficou fazendo, só porque o Fernando era quase vinte anos mais velho que eu. E também enfrentei calada o preconceito das minhas amigas, que diziam que, se elas quisessem coroa, era só estalar o dedo que vinham duzentos. Mas eu não me ofendia com esse papo. Elas até podiam pegar coroa, mas quantos queriam levá-las para morar com eles? Eram uma burras, umas fúteis, não sabiam fazer um ravióli ao molho de funghi ou um &lt;i&gt;petit gateau&lt;/i&gt; com sorvete. Tinham nascido para aqueles burros malhados que só serviam para motobóis. Mas não comentei nada disso com a menina do espelho, porque eu sabia que ela ia me chamar de arrogante, e talvez até insinuar que eu não era assim tão diferente das minhas amigas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fui perdendo o contato com elas, e comecei a gostar de literatura. Passei a ler uns livros antigos e demorados que não tinham nada a ver com vampiros ou lobisomens. Fui descobrindo um monte de mulheres que tinham vivido os mesmos problemas que eu, e aquilo me dava um tremendo alívio. Ler era bem mais seguro que falar com o espelho, porque eu podia ver os problemas dos outros, sem que ninguém visse os meus. Acho que esqueci completamente a menina do espelho, de tão fascinada que eu ficava com aquelas estórias de jovens que queriam casar, e casadas que queriam ter amantes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Nessa época, o Fernando adorava a minha comida, e falava que eu não precisava trabalhar, que eu devia ficar só cozinhando e cuidando da casa. Se eu aceitava essa idéia, era porque queria ler cada vez mais, e depois fazer uma faculdade de psicologia ou letras. Mas, às vezes, a leitura ficava chata, e eu comecei a entrar na internet, e puxar assunto com estrangeiros. Pensei que o Fernando nunca ia ter ciúme de estrangeiro, porque um cara que estivesse do outro lado do mar podia até me cantar, mas não poderia nem me encostar a mão. Eu só conversava com eles para praticar meu inglês e pedir dicas de livros. O problema é que pintavam uns caras meio depravados, que ficavam pedindo para eu fazer umas coisas indecentes. Uns queriam que eu ficasse só de calcinha, outros pediam que eu me masturbasse na frente da câmera. Claro que eu me recusava. Eu confesso que algumas propostas chegaram a me excitar, mas eu não estava nem um pouco a fim de entrar em crise com o Fernando, e ter que voltar a morar com minha mãe. Quando eles vinham com aquele papo estranho, eu desconversava e começava a falar sobre livros. Foi assim que eu fiquei sabendo da Jane Austen, da Emily Brönte, e de outras mulheres que pareciam bem mais infelizes que eu. Depois alguém me indicou umas autoras iranianas, e quando li os livros delas, aí sim, me senti satisfeitíssima com a vida! Meu Deus, como tinha mulher infeliz no mundo. E eu tinha aquele apartamento arrumadinho, morava no Leblon, ia ao cinema todo sábado. Só sentia falta de sair para dançar, mas isso eu resolvia colocando uma música bem alta para arrumar a casa. Comecei a me sentir bem comigo mesma, e até pensei em voltar a falar com a menina do espelho, só para ter uma companhia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas eu não devia ter pensado nisso, porque umas coisas muito estranhas começaram a acontecer. Já no dia seguinte recebi uns emails de caras da internet, agradecendo minha perfórmance, dizendo que eu tinha arrasado, que tinha sido incrível para eles, e não sei mais o quê. Eu não fazia idéia do que eles estavam falando, e achei que eles tinham pirado de ficar tanto tempo na internet. Mas toda semana chegavam mais emails, pedindo para eu fazer mais, alguns oferecendo até dinheiro, e fiquei feito louca perguntando o que estava acontecendo, de que diabo eles estavam falando. Quando um cara me contou, eu simplesmente não acreditei! Lógico que não era eu! Ou eles estavam me confundindo ou era uma puta alucinação coletiva! Mas logo me bateu uma intuição de que a menina do espelho podia ter alguma coisa a ver com aquilo, e fui correndo no banheiro tirar satisfação com ela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Pode aparecer, e me explicar tudo que está acontecendo — eu mandei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;O que mais me impressionou foi que ela admitiu tudo sem a menor vergonha. Eu fiquei súper chocada, não conhecia esse lado pervertido dela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Coitados desses moleques — ela alegou. — Eles são uns nerdes, nunca devem ter visto uma mulher pelada. Quê que custa mostrar um pouquinho para eles?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Ah, você é louca, é?! Você vai me dizer que usou a minha imagem para ficar se exibindo pela internet?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Lamento, minha filha, mas a imagem que eu tenho é essa. Não posso usar outra. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas ela falou aquilo de um jeito que quase me matou. Uma espécie de satisfação maldosa, misturada com escárnio. Eu percebi que ela tinha prazer em se passar por outra, em poder ser uma completa fraude, sem levar culpa nenhuma por isso. Me subiu uma raiva tão grande que, se ela não estivesse fechada dentro daquele espelho, eu tinha enfiado a mão na cara dela! Foi aí que eu lembrei que ela morava dentro do espelho. Como é que a safada tinha entrado na minha &lt;i&gt;webcam&lt;/i&gt;? Perguntei na mesma hora, e tive que engolir um papo suspeito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Eu não moro só no espelho — ela falou. — Eu posso me projetar em qualquer superfície plana que produza uma imagem dotada de sentido. Os monitores são superfícies planas, e produzem imagens que... bem, você entendeu, não é?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas eu não tinha entendido direito. Que papo era aquele? Superfície plana, imagem dotada de sentido?! Além de safada, a putinha agora era filósofa?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Fiquei meio transtornada, e passei dias sem usar o computador. Meu medo era que o Fernando descobrisse alguma coisa, e achasse que a culpa era minha. Passei a ter ódio da menina do espelho. Não era justo que essa loucura toda pudesse acontecer. Ela podia aparecer em qualquer tela por aí, e todo mundo ia achar que era eu. Comecei a ficar súper tensa quando pensava nisso, e passei a buscar mais e mais sexo com o Fernando, para me aliviar, e para ver se eu parava de pensar no assunto. Aliás, depois que a gente se casou, ele já não fazia muito, e aquilo às vezes me incomodava. Não que eu gostasse de sexo, porque eu não gostava, mas era uma das poucas coisas que me deixavam com uma sensação de dever cumprido. Eu não trabalhava, não estudava, passava os dias lendo e acessando a internet. Quando fazíamos sexo, eu pensava: “Pelo menos isso eu sei fazer. Pelo menos consigo satisfazer meu marido.” Mas o problema é que ele já não estava querendo, e aquilo acabava me deixando nervosa. Um dia insinuei que de vez em quando ele bem que podia tomar um viagra. Eu não conhecia tanto os homens, e não sabia que isso era suicídio. A partir daquele dia, tudo mudou no nosso casamento. O Fernando passou a ser ciumento, me ligava toda hora, perguntava onde eu estava. Quando a gente ia numa festa, ele ficava me olhando de longe, depois falava que eu tinha olhado para fulano ou ciclano. Claro que era tudo loucura da cabeça dele, e eu ficava puta de ter que me explicar mil vezes, falar que eu o amava, pedir perdão o tempo todo pelo papo do viagra. Fui ficando cansada dele, e me sentindo cada vez mais incompreendida. Agora eu não tinha nem a menina do espelho para me entender. Mas o pior era que eu nem podia me separar. O apartamento era dele, se eu pedisse o divórcio, ia ter que voltar a morar com minha mãe. Tudo era aceitável, menos conviver de novo com minha mãe, principalmente agora que ela tinha arrumado um namorado mais novo e estava matando a família de vergonha. O jeito era tentar um emprego, e eu sabia que nunca ia conseguir um bom salário, porque não tinha faculdade. Mas era a única alternativa que me restava. Talvez juntando por uns dez anos, eu conseguisse comprar um apartamento, e ter uma vida só minha. Eu queria esquecer o Fernando, com aquele ciúme doentio, e minha mãe, com aquele egoísmo, sei lá, doentio também. Aí entrei na internet e comecei a me inscrever nos saites de emprego. De repente, quem apareceu no meu monitor e começou a falar comigo? Sim, ela mesma, a garota de espelho. Lembrei daquele papo sobre superfície plana, e falei que era melhor começar a chamá-la de menina 2D. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— É mais apropriado mesmo — ela falou. — E mais contemporâneo também. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Não sei de onde a putinha tirava essas palavras. Eu ainda estava meio irada com ela, mas não estava muito a fim de brigar. Minha situação era deprimente, e talvez ela pudesse ser de alguma ajuda. E acho que ela adivinhou esse pensamento, porque do nada resolveu me passar o endereço de alguns saites.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Entra neste aqui ó: “stripweb.com” E neste: “meancams.com”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Quando entrei nos saites, me arrependi na hora de ter dado papo para aquela putinha. Era só mais uma das idéias pervertidas que ela tinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Você acha que eu sou que nem você, sua louca?! Acha que eu vou ficar fazendo strip pela internet, só para ganhar dinheiro?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Não é só strip — ela falou. — Tem que se masturbar também.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu nem respondi. Desliguei o computador e fui para a cama chorar. Meu casamento era um fracasso, eu não tinha uma carreira, e minha única amiga, que me conhecia desde criança, estava sugerindo que eu me tornasse uma espécie de prostituta. Chorei sem parar, depois fiz uma maquiagem meio trash, para o Fernando não descobrir que eu passei a tarde chorando. Mas justamente nessa hora ele me ligou, para falar que tinha um lance complicado rolando lá no trabalho, e ele ia chegar súper tarde. Aí voltei para o computador e olhei de novo aqueles saites. Meu marido bem que estava merecendo um chifrezinho. Ele não me amava, não ligava nem um pouco para meu estado emocional. Quando vi que uma menina podia ganhar uns trezentos por dia, só fazendo aquelas bobagens, eu quase caí para trás. Meu Deus, trezentos reais por dia! Em quanto tempo daria para comprar um apartamento?! Mas eu não podia fazer aquelas coisas, não tinha nada a ver comigo. Mostrar os peitos e me masturbar na frente da câmera?... Eu nem gostava de me masturbar! Foi então que me veio aquela idéia incrível. A idéia redentora, a idéia perfeita, que me mostrava como eu podia me aproveitar completamente daquela situação. Eu não era safada, não gostava daquelas indecências, mas ela gostava. Se eu entrasse no saite, e ficasse só conversando com os meninos, aposto que a menina 2D ia se excitar, e fazer um monte de loucuras! Ela podia se dar ao luxo desses descaramentos, porque a culpa sempre cairia em cima de mim. Mas a culpa agora era uma transferência bancária para a minha conta corrente. Vasculhei os saites, e peguei todas as informações. No dia seguinte, abri a conta. Mas continuo com a minha política, e não faço nada daquelas bobagens. Eu só entro no saite, e fico conversando sobre Jane Austen e mulheres iranianas. E ela faz o que gosta de fazer. Voltamos a ser amigas, e nunca estive tão feliz por conhecê-la. Acho que a menina 2D finalmente se tornou, para mim, uma imagem dotada de sentido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-4218371171975868639?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/09Cwps-nGDiFXuUWrGx-MsZttBI/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/09Cwps-nGDiFXuUWrGx-MsZttBI/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/09Cwps-nGDiFXuUWrGx-MsZttBI/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/09Cwps-nGDiFXuUWrGx-MsZttBI/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/skZ_b8ipjDo" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/4218371171975868639/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/05/menina-2d.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/4218371171975868639?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/4218371171975868639?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/skZ_b8ipjDo/menina-2d.html" title="A menina 2D" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/05/menina-2d.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEIFRXY9cSp7ImA9Wx5UEEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-5023108727321861027</id><published>2010-04-22T14:11:00.005-03:00</published><updated>2010-10-14T18:41:54.869-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-10-14T18:41:54.869-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Desordem</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Eu odeio bagunça. Meu quarto nunca foi bagunçado, pelo contrário, eu achava tudo que eu queria em questão de segundos. Minha mãe é que pensava que estava tudo bagunçado, ela não percebia que as coisas estavam absolutamente no lugar, porque eu podia lembrar onde as tinha colocado e pegá-las&amp;nbsp;na hora que eu quisesse. Acho que a única pessoa que entendia isso era o Paulinho. Ele ficava à vontade na minha bagunça, não mexia em nada, sentava, deitava, às vezes pegava um livro, mas depois colocava onde tinha encontrado. Eu lembro perfeitamente quando comecei a amá-lo, porque eu tinha levado um fora do Alessandro, e estava&amp;nbsp;percebendo que o Caio também não queria nada comigo. Mas o Paulinho estava sempre lá em casa, a gente conversava sobre coisas legais, como seriados de televisão e livros de vampiro, e eu comecei a pensar que tudo seria mais fácil se eu amasse o Paulinho, se eu conseguisse ver um charme especial naquele jeito calado, naquela cara impassível que ele mantinha diante tudo, até das contrariedades. Fui aos poucos criando uma estratégia para me aproximar, até que um dia estávamos vendo televisão, e eu falei:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Estou numa fase ótima para homem, tenho recebido um monte de cantada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— É mesmo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Só você ainda não me cantou. Você se segura, bem, hem! Ha, ha, ha!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— É mesmo? — Ele era meio lerdo, mas pelo menos chegou a rir. Aí eu mandei essa:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Me dá uma cantada só para eu ver como é o seu estilo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Como assim? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Me dá uma cantada, seu tonto!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Ah... Você é linda, ué!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Ele não era muito original, mas naquela hora eu percebi claramente que ele gostava de mim. Sei lá, a cantada saiu com um jeito tão sincero. Depois ele ficou me olhando sem graça, rindo de nervoso, e eu fiz aquela carinha de quem quer ser beijada, para facilitar para ele, mas como ele nem se mexeu, eu o agarrei e o beijei com força, com decisão, acho que até com raiva — não dele, mas de Deus, que não me mandava um homem melhor. Depois o beijo foi engrenando, e ficou até gostoso. Tenho certeza que ele queria me beijar naquele dia, mas ele era muito tímido, aos poucos fui entendendo isso melhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Aí veio aquela fase em que eu não pensava mais no Caio nem no Alessandro, porque eu ficava horas com o Paulo no meu quarto, beijando e curtindo aquela fissurinha. Quando ele tentava alguma coisa, tipo colocar a mão dentro da minha calça, eu falava: — Você ouviu esse barulho? Acho que minha mãe está subindo — mas não havia barulho nenhum, eu só queria me exercitar nessa arte de aceitar e rejeitar que eu estava descobrindo ser o maior e mais verdadeiro prazer feminino. O Paulo era bem comportado e não tentava nada muito ousado, e às vezes eu me perguntava se eu gostava realmente dele ou se ele não era só um estágio que eu estava fazendo antes de encontrar o homem da minha vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas a minha bagunça continuava a mesma, e a minha mãe já falava que não ia entrar nunca mais no meu quarto. É difícil explicar como eu achava chato tirar as coisas do lugar e colocar dentro de uma gaveta, do armário ou em cima da estante. Me parecia que eu estava traindo a minha própria ordem, e aderindo a um esquema externo que não tinha nada a ver comigo. Acho que foi por isso que passei a gostar bastante do Paulinho. Ele nunca reclamava da minha bagunça, pelo contrário, ficava lá, deitado no meio das minhas coisas jogadas, às vezes olhando para o teto, às vezes rabiscando num dos meus cadernos velhos. Ele integrava a minha bagunça e eu gostava disso. Aos poucos fui deixando que ele fizesse cada vez mais coisa, liberei os seios, deixei ele enfiar a mão na minha calcinha, e até comecei a explorar o corpo dele. No dia que eu o chupei, e o deixei gozar na minha boca, fiquei pensando que ele nem devia imaginar o quanto meu amor tinha a ver com aquele quarto desordenado onde a gente ficava. Mas em vez de falar sobre isso, eu acabei dizendo que o amava, e eu mesma não entendi por que a voz saiu fraca e meio trêmula. Ele me olhou com um olhar meio vazio, e eu achei que ele ia falar “eu também”, mas ele disse: — É mesmo?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Acho que foi a partir desse dia que começou a acontecer uma coisa estranha: eu não achava mais nada no meu quarto. Devia ser culpa da minha mãe, porque, quando eu era obrigada a guardar alguma coisa, eu não lembrava onde tinha guardado. Era um ato artificial, que não tinha partido de mim, e minha mente não registrava. Mas depois eu já não achava nem o que eu tinha deixado no chão. E também comecei a me incomodar com a sujeira que acumulava de baixo da cama, e passei a sentir com nitidez o cheiro do Paulo no lençol, e aquilo me desagradava, porque significava que ele passava semanas sem ser lavado. E o tonto do Paulinho continuava no centro daquela bagunça, olhando para o teto, rabiscando folhas velhas, costas de envelopes usados, ou até mesmo dormindo, como se fosse um gato de estimação e tivesse o direito de dormir em qualquer canto da casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia eu estava procurando uma caneta, e como não a encontrava, perguntei ao Paulinho se ele não se incomodava com aquela bagunça toda. Ele respondeu que sabia que eu lembrava onde eu tinha deixado as coisas, e confessei que eu já não lembrava mais, que talvez precisasse aderir à maldita ordem da minha mãe para encontrar a minha própria tralha. Achei que ele ia me apoiar e dizer que aquilo ia passar ou qualquer coisa assim, mas ele disse: — É mesmo? —&amp;nbsp;e foi aí que eu percebi que alguma coisa estava muito errada com o Paulinho. Não era certo ele me aceitar daquele jeito. Ele tinha que, pelo menos, tentar me transformar numa pessoa mais organizada, mais disciplinada, mais capaz de alguma atitude. Ele me aceitava do jeito que eu era, mas eu queria ser outra pessoa, por isso não aceitava que ele me aceitasse. Fiquei meio confusa, não sabia direito o que dizer, e acabei por pedir que ele fosse embora. Ele fez uma carinha meio triste, e eu pensei: “pelo menos isso! Pelo menos ele é capaz de fazer outra cara!” Naquele dia coloquei algumas coisas dentro do armário, depois pensei em ligar para o Paulinho e pedir desculpa, mas senti que eu podia segurar a vontade até o dia seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E no dia seguinte eu já me sentia melhor, porque vi que eu era capaz de colocar certa ordem nos meus impulsos. O Paulinho voltou com a sua cara habitual, e, no maior cinismo, me perguntou se eu estava mais calma. Fiquei com tanto ódio que respondi: — Claro que eu estou mais calma — e ainda o beijei com uma ternura fingida. Comecei a ver que eu podia não apenas controlar meus impulsos, mas decidir se eu ia demonstrá-los ou não. Fiquei mais introvertida, passei a pensar um pouco antes de falar, e pedia licença ao Paulinho para arrumar a cama e guardar minhas roupas. Então foi ficando mais claro para mim algo que eu já sabia, mas não gostava de admitir. Eu nunca havia amado o Paulinho, eu apenas me acostumara com ele. O homem da minha vida devia ser mais organizado, mais ativo, e ao mesmo tempo mais estrategista. Pensava antes de falar, e falava as coisas certas. Sabia impressionar uma mulher. Naquela mesma semana decidi que ia terminar com o Paulinho e, quando chegou sexta-feira, eu me arrumei toda e me maquiei como uma putinha, e o levei para dançar. Fiquei dançando e flertando com outros homens na frente dele, e aquilo me divertia, e me fazia sentir poderosa, mas acho que o sonso nem estava ligando. Fiz a mesma coisa outras semanas, depois ainda dei em cima de um amigo dele, e quando o cara finalmente soltou uma indireta, eu fui correndo contar para o Paulinho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Sabe quem fica jogando indireta para mim? Seu amigo, o Arsênio. Ele fica falando que eu sou bonita demais para ter um namorado só. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Pensei que ele ia dizer “é mesmo?”, mas ele disse: — Ah, o Arsênio, grande figura!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Então comecei a pensar que eu mesma ia ter que terminar, não ia ter outro jeito. Mas pensar é fácil, difícil é fazer. Eu não conseguia achar uma ocasião apropriada. Sempre que eu ia abordar o assunto, acontecia alguma coisa que me mostrava que o Paulinho, afinal, era um carinha legal, tranqüilo, sem muita neura. Além disso, ele estava começando a demorar mais para gozar, e até dava para gozar com ele. Às vezes eu lembrava do Caio e do Alessandro, e ficava com medo que os outros homens me desprezassem, e eu não conseguisse outro namorado. Aquilo me irritava, e eu gritava com o Paulinho, e o chamava de sonso, de preguiçoso, de mané. Ele abaixava a cabeça e começava a assobiar, e aquilo me fazia subir um ódio tão grande que eu quase vomitava. Mas depois comecei a ver que esse ódio podia se transformar em energia para arrumar o quarto. No início era só uma desculpa para mandar o Paulinho embora, mas depois fui descobrindo a delicadeza do ato de dobrar, de acomodar as coisas na gaveta, o prazer de varrer, de esticar o lençol. Descobri como era gostoso e gratificante ficar de quatro, e puxar a sujeita de baixo da cama. E tirar todas as teias de aranha, nos cantinhos mais imprevisíveis, me fazia sentir vitoriosa, feliz comigo mesma — era quase como ter um orgasmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Uma nova amizade começou a surgir entre mim e mamãe, e ela me apresentou à cozinha, com seus odores variados e ruídos metálicos. Fazer compras também era gostoso, apertar os legumes, sentir sua consistência, cheirar as frutas, perscrutar datas de validade. Fui descobrindo um mundo que não dependia do Paulinho, um mundo mais permanente e silencioso, que ele nem devia saber que existia. Passei a pensar menos nele, e vi que terminar não podia ser tão difícil. Eu era muito nova, provavelmente ainda teria uma porção de namorados antes de casar. Estava me acostumando a essa idéia quando resolvi trocar os móveis de lugar, só para tirar a poeira que acumulava em baixo, e me surpreendi com uma das folhas rabiscadas pelo Paulinho. Tentei ler a caligrafia canhestra dele, e descobri um poeminha todo bonitinho, falando de um cara que se sente à vontade no quarto desarrumado da namorada. Ainda lembro os versos finais, que diziam:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;E ela nem deve suspeitar&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Que seu mundo fora de lugar&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Já tem um canto reservado&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No sonho improvisado&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Que eu sonhei para nós dois&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Acho que fiquei vermelha, porque senti um calor forte no meu peito, que subia para o rosto e enchia meu olho de água. Me deu vontade de ligar para todas as minhas amigas e contar que o Paulinho tinha escrito um poema para mim, mas naquela tarde só consegui falar com a Flávia, a Vanessa, a Cláudia e a Samira. Elas disseram que seus namorados também escreviam para elas, e fiquei pensando: “Meu Deus, como elas são idiotas! Aposto que eles apenas copiam frases feitas de cartões de papelaria. Não são como o Paulinho, que escreveu uma coisa que tem tudo a ver comigo!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois pensei em fazer um blogue para mostrar para todo mundo o poema lindo que meu namorado tinha escrito. Liguei para o celular do Paulinho e falei: — Vai para casa agora, e me liga! — E quando ele me ligou, eu mandei:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Sabe o que achei aqui em casa?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— O quê?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Olha só, vou ler os primeiros versos:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A ordem que eu procuro&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Não está dentro de uma gaveta.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Não está fechada no escuro,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Morta, impassível, obsoleta.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Senti que ele ficou um pouco emocionado, porque fez um longo silêncio, e fiquei contente por tirar um silêncio daqueles do Paulinho. Eu ria por dentro, queria encontrar uma forma de dizer que o amava, mas não daquele jeito que eu tinha falado da outra vez. Só que não consegui encontrar uma frase melhor, e soltei: — Eu te amo, sabia? — E quando ele falou — Puxa, amor, eu também! — senti que eu já podia morrer, porque fiquei feliz feito uma passarinha! Depois eu perguntei se ele ia passar lá em casa, e ele falou — Olha, amor, pode ser amanhã? — mas eu nem liguei, porque eu queria mesmo fazer uma surpresa para ele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No dia seguinte, acordei cedo, e comecei a desarrumar o quarto. Tirei as roupas do armário, joguei no chão e na cama. Depois fiz o mesmo com a cômoda. Deixei folhas e cadernos espalhados, para o caso de ele querer escrever, e ainda comi biscoito e fiz o farelo cair em cima do teclado do computador. Assim que ele chegou, eu o arrastei para o quarto, e acho que ele entendeu que aquilo era o meu poema para ele, aquilo era a minha declaração de amor, porque ele falou — Nossa! Que bagunça! — e me beijou de um jeito que nunca tinha beijado. Depois me jogou na cama, e enquanto tirava a minha roupa, eu fiquei pensando que era uma pena eu não poder colocar certas coisas no blogue.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois a gente ficou deitado de conchinha, e eu estranhei quando ele falou — Amor, lembra do Arsênio? — porque aquilo não era hora para pensar no Arsênio. Mas aí ele contou uma coisa que me deixou ainda mais surpresa. O Arsênio tinha uma banda, e os dois tinham feito uma música juntos. O Paulinho escreveu a letra e o outro pôs os acordes. Claro que eu fiquei encantada, e me deu vontade de falar outra vez que eu o amava, mas eu me segurei porque já tinha falado no dia anterior; não queria que o Paulinho ficasse se achando o cara. Depois, quando fui ao banheiro, fiquei pensando que eu era uma tonta. O Paulinho tinha essa veia artística, e eu nem tinha percebido, eu achava que ele era só um banana mesmo. Voltei para cama ainda mais entusiasmada, com vontade de ser todinha dele, de deixar ele fazer tudo que quisesse, até me amarrar e gozar na minha cara, mas ele já tinha colocado a roupa, e começou a me falar sobre o dia e o lugar onde a banda ia tocar. Eu achei legal, e pensei: “amanhã ele vai estar com mais vontade”. Mas quando ele foi embora, eu ainda estava sentindo uma energia vibrante, e me tranquei no quarto e me masturbei, pela primeira vez pensando no Paulinho. Imaginei que ele estava em cima do palco cantando e apontando para mim na hora que falasse “amor” ou “princesa”, depois fiquei especulando se eu devia contar para ele que eu às vezes me masturbava, depois não pensei em mais nada, porque fiquei exausta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No dia do chou, o Paulinho não cantou, e a gente ficou só numa mesa vendo o Arsênio e a banda tocar. Fiquei me sentindo meio mal, porque eu já tinha jogado charme para cima do Arsênio, antes de saber que o Paulinho era um artista. Depois chegaram as minhas amigas e começaram a lhe dar os parabéns, e eu pensei: “Ah, Meu Deus, agora essas putinhas vão dar em cima dele!” Lembrei aquele dia que eu tinha levado o Paulo para uma boate e flertado com vários caras, e fiquei pensando que eu merecia mesmo que ele paquerasse outras meninas, talvez ele ia até me trair e eu ia ter que agüentar. Fiquei tão mal que nem entendi direito a música. Falava de amor de uma forma meio exagerada, e fiquei um pouco decepcionada, pensando que o Paulinho devia ser meio falso, porque me amar daquele jeito eu sei que ele não amava. Mas não liguei muito para isso. Se ele fizesse sucesso, para mim estava bom. No final da apresentação, o Arsênio chamou a gente para tirar foto com ele, e fiquei feliz como uma doida. Abracei os dois e tive até vontade de beijar os dois, mas claro que beijei só o Paulinho para não dar vexame. Depois o Paulo me levou em casa, e fiquei de novo me sentindo mal, pensando que eu era meio putinha, e&amp;nbsp;ele era tão atencioso, tão gracinha comigo. Ele não merecia a namorada que tinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Na semana seguinte a minha situação piorou, porque o Paulinho me mandou por email um linque para um conto dele que tinha saído num saite de literatura. Levei um susto, eu nem sabia que ele escrevia. Não perguntem se estava bom — aliás, acho que não estava, não se parecia com nenhum texto da Anne Rice — mas eu adorei assim mesmo, porque percebi que o assunto mais uma vez era eu. Era a estória de um cara que adorava a namorada, bagunceira e destrambelhada, e de como ela tinha transformado a vida dele. Na mesma hora coloquei um linque para o conto no meu blogue, depois mandei um email para todas as minhas amigas. No dia seguinte, quando encontrei com elas na faculdade, todas falaram: “ainda não li, não tive tempo”, e me subiu aquele ódio mortal que me deixa até sem ar. Cheguei em casa e li o conto mais umas dez vezes, depois mandei emails para mais uns vinte amigos, divulgando o saite. Alguém ia ter que ler aquilo, nem que fosse à força.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas quando o Paulinho chegou lá em casa, fiquei me sentindo estranha. Lembrei que eu tinha pensado várias vezes em terminar, e tinha até achado que não o amava. E no entanto ele parecia realmente gostar de mim: tinha escrito o poema, falava súper bem de mim no continho. Fiquei pensando se ele não merecia uma namorada melhor, que o amasse de verdade, que tivesse algum talento como ele. O Paulinho era calado e meio sonso, mas quando fazia alguma coisa, era algo que valia a pena ver. Eu era destrambelhada, e sonsa também, mas da minha bagunça não saía nada que merecesse atenção. Eu era só uma burra mesmo! E o Paulinho estranhou que eu estivesse meio distante, e perguntou o que eu tinha, mas eu não consegui responder. Apenas levantei e comecei a arrumar o quarto. Quando ele desceu, eu fechei a porta e deixei o choro aflorar. Era triste ver que eu não o merecia. Ele era inteligente, carinhoso, fiel, eu não tinha metade dessas qualidades. Depois lavei o rosto e voltei para a cama. Mas tive que trocar o lençol, porque ainda estava com o cheiro do Paulinho. Quando o levei para a área de serviço, minha mãe me viu, e fez um elogio, tipo “olha como ela está ficando organizada”, e, não sei por quê, me deu vontade de voltar para o quarto e chorar de novo. Mas, assim que entrei no quarto, decidi escrever uma lista de tudo que eu ia fazer no dia seguinte: passar roupas, arrumar o quarto, começar a economizar para comprar um cachorro. Fiquei pensando que nome colocar no cachorro, e isso me ajudou a dormir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No dia seguinte, fui fazendo algumas coisas da lista, e antes de acabar já fiquei louca para escrever outra. De noite escrevi mais uma, na outra noite também, depois chegou o fim de semana e eu deixei prontas as listas de segunda e terça-feira. Na segunda comprei uma agenda, na terça passei tudo a limpo, desde a primeira lista, porque eu queria registrar tudo que eu tinha feito. Assim fui descobrindo que eu adorava programar o meu dia. Agora eu arrumava o quarto, não porque gostasse de dobrar as roupas e colocá-las no lugar, mas porque era um item a cumprir da minha lista. Resolvi escrever tudo que eu tinha que fazer, até o fim do mês, e de repente apareceu o item “Terminar com o Paulinho”. Ele foi lá em casa nesse dia, e eu tinha guardado a agenda no fundo de uma gaveta. Fiquei pensando como era engraçado que eu já tivesse até data para terminar, e ele não fazia idéia, não podia nem suspeitar. Quando chegou o dia 27 de março de 2009, eu liguei para o Paulinho e disse: “A gente precisa conversar”. Ele perguntou: “Pode ser amanhã?”, e eu falei: “Não, não pode.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Naquele mesmo dia a gente conversou, e eu achei que não ia sentir emoção nenhuma, porque já estava tudo programado. Mas ele ficou me olhando com aquela carinha de desorientado, e de repente eu chorei. Depois eu achei que precisava pedir desculpa, e falei:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Desculpa, Paulo. Eu ainda não consigo ser totalmente organizada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Mas por que é que você cismou com esse negócio de ser organizada? — Ele perguntou, quase gritando. E eu pensei na minha mãe, pensei no Caio e no Alessandro, pensei no poema do Paulinho, e chorei de novo. Depois voltei para o quarto, e pensei que assim que eu começasse a fazer uma lista ia me sentir melhor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas eu só fui me sentir melhor no dia seguinte, porque contei o dinheiro que estava juntando e vi que já quase dava para um cachorro. Depois eu estava descendo a rua, e o Caio passou de carro. Ele me ofereceu uma carona, e falou que tinha visto no meu Orkut que eu tinha voltado a ser solteira. Na mesma hora eu lembrei que o Caio era um traste. Ele era galinha, já tinha ficado com todas as minhas amigas, fumava maconha, era burro, tinha tentado direito, mas só passara em publicidade. Para piorar, ele estava namorando a Cátia, uma conhecida minha. Percebi de repente que um cara daqueles jamais ia me fazer sentir culpada. Qualquer besteira que eu fizesse, ele poderia fazer pior. A Cátia ia me desculpar, mas eu precisava tentar. Assim que eu cheguei na faculdade pensei em abrir a agenda e escrever umas coisas que eu estava pensando. Mas depois concluí que era melhor guardar aquilo apenas na memória. Tem coisa que é melhor ninguém saber que foi planejada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;No outro dia passei pelo mesmo lugar. No outro também, e persisti nessa tática até o Caio aparecer e me dar outra carona. Quando eu desci do carro, me inclinei diante da porta para me despedir, e percebi que ele meteu os olhos nos meus peitos. Era um traste mesmo, não havia como defendê-lo. Se, alguns dias depois, a gente acabou se beijando, não era porque eu gostava dele, mas só porque eu precisava mostrar para a Cátia que ela estava namorando um cretino. Depois que os dois terminaram, ele veio com um papo dengoso para cima de mim, e eu percebi que ele nem gostava de mim, nem sabia direito quem eu era, só queria alguém porque não agüentava ficar sozinho. Aí fiquei com ele sem culpa nenhuma, porque eu também já tinha visto que eu não gostava dele. E hoje eu sei que é melhor assim. Não quero passar por toda aquela humilhação que eu passei com o Paulinho. Se qualquer dia eu trair o Caio, não vou ficar me sentindo péssima. Aliás, eu nem penso muito sobre isso. Agora eu tenho minha agenda, e consigo fazer tudo que eu programo. No fim do ano vou comprar um cocker spaniel. E o poema do Paulinho, eu ainda não tive coragem de jogar fora. Às vezes eu releio aqueles versos, e me dá saudade de alguma coisa que eu não consigo compreender. Alguma coisa que parece que eu nunca mais vou ter, tipo a infância. Mas eu já tenho data para acabar com isso. Deixa chegar o dia trinta e um de maio, que esse maldito poeminha nunca mais vai existir! E eu vou continuar sendo organizada. Vou continuar fiel à minha agenda. Pelo menos nela eu sei que eu posso confiar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-5023108727321861027?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cXl2Ut5thqBDzdpV2rUhi5jsXpQ/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cXl2Ut5thqBDzdpV2rUhi5jsXpQ/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cXl2Ut5thqBDzdpV2rUhi5jsXpQ/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/cXl2Ut5thqBDzdpV2rUhi5jsXpQ/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/WLQk6V80_0Q" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/5023108727321861027/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/04/desordem.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/5023108727321861027?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/5023108727321861027?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/WLQk6V80_0Q/desordem.html" title="Desordem" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/04/desordem.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkMDSX46fCp7ImA9Wx9WEUk.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-442261591143306744</id><published>2010-03-03T10:57:00.007-03:00</published><updated>2011-01-16T00:27:58.014-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-16T00:27:58.014-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>Como me tornei o marido de Heloísa</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Eu amo Heloísa, e nisso definitivamente não sou original. Qualquer homem entre dezoito e cinqüenta anos pode amá-la sem dificuldade, pricipalmente se notar que ela não consegue levantar a voz — nem quando quer. Loira, alta, de olhos claros, sua beleza seria trivial, não fosse por um nariz exagerado e duas narinas pontiagudas que parecem vírgulas de cabeça para baixo. Aliás acho que foi esse nariz que a fez pensar, por um tempo, que poderia ser uma espécie de atriz cult. Embora formada em direito, ela acabou grudando nesse pessoal metido a artista, tão comum aqui no Rio, e que no fundo não passa de um bando de desempregados. Mas, quando eles apareceram com a idéia de um curta-metragem, ela ficou tão entusiasmada que acabei concordando em usar nossa poupança conjunta para bancar parte do filme. Dava gosto vê-la tão animada, e o roteiro, no fim das contas, não era dos piores. O protagonista descobre que sua mulher já havia trabalhado em filmes pornôs. Ele passa por alguns conflitos antes de perdoá-la, e chega a traí-la com a cunhada, numa vingança desesperada e inútil, tentando atenuar seu enorme sentimento de humilhação. Acho que gostei do filme porque ele me ajudou a compreender essa estranha adoração que eu sentia por Heloísa. Mesmo que ela me traísse, mesmo que me humilhasse marcantemente, eu me sentia impotente para deixá-la. As outras mulheres que passaram pela minha vida eram feias, ou de uma beleza banal, ou meio burras. Heloísa não era inteligente, mas tinha certo dom para fazer frases espirituosas que fascinavam a todos.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Além disso, era divertida e capaz de me surpreender; e eu, que sou um homem rotineiro e pacato, preciso de alguém assim para me animar um pouco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O curta-metragem acabou não dando muito certo, mas rendeu a Heloísa o convite para uma peça&amp;nbsp;—&amp;nbsp;que também teríamos de ajudar a produzir. Eu a incentivei bastante, pois naquela época cheguei mesmo a acreditar que ela queria ser atriz. Mas, assim que começou a ensaiar, ela não pôde deixar de perceber que o teatro exigia dedicação, autodomínio e alguma outra coisa misteriosa, que talvez seja o que chamam de talento. Isso a desanimou bastante, e ela acabou por providenciar, algumas semanas antes da estréia, uma sinusite, uma bronquite alérgica e não sei que outra "ite" que a salvaram de um vexame maior. Um dia cheguei em casa mais cedo e a surpreendi chorando no nosso quarto, encolhida na borda da cama, na posição fetal. Eu nunca entendi se ela chorava por ter perdido uma boa oportunidade ou por se dar conta que não tinha nascido para o palco. Mas fiquei feliz em estar lá para consolá-la. Sua carreira de atriz me causava certa aflição que eu já não estava conseguindo controlar. Quase chorei com ela, mas por dentro eu sentia alívio, e até certa alegria. Foi a primeira vez que pensei que, apesar de tanto tempo juntos, ainda sentíamos os acontecimentos de forma bem diferente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Depois desse episódio, Heloísa foi ficando mais quieta, mais conformada com seu trabalho administrativo na Justiça Federal. Comecei a pensar que talvez fosse o momento de falar num filho. Mas esperei que a iniciativa viesse dela, porque, em todos os filmes que eu tinha visto, era a mulher que falava nessas coisas, e o homem até fingia contrariar, nem que fosse só para manter a pose. No entanto ela acabou não falando em filho, e, em vez disso, começou a escrever certos textos confusos que ela chamava de contos. Passou a frenqüentar um evento ainda mais confuso, chamado Clube da Leitura, e eu, com aquele receio incômodo de perdê-la, comecei a ir com ela. Nunca entendi direito como o evento funcionava — as regras eram bem complexas — mas os textos dela eram lidos em voz alta, e, quando tudo acabava, sempre aparecia alguém para dizer que tinha gostado deles. Mesmo sem compreender, eu ficava feliz, contagiado pela felicidade dela. Acho que passei a ser assim desde que a conheci: meu riso sempre vinha por tabela, provocado pelo riso dela, que por sua vez era provocado por coisas cada vez mais imprevisíveis. Quando ela não estava por perto, eu não sabia direito o que sentir, e falava a primeira banalidade que me viesse à cabeça. Talvez por isso eu tenha concordado tão prontamente quando falaram num livro de contos que seria rateado pelos membros do clube. Nossa poupança foi ficando cada vez menor, e o filho dos meus sonhos foi envelhecendo, aprendeu a falar, e já me chamava para jogar&lt;i&gt; playstation&lt;/i&gt;, antes de passar pelo ventre da mãe.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O livro teve um lançamento bacana, com um bifê de comida árabe, e muita gente pedindo autógrafo. Heloísa me fez uma dedicatória bonita, dizendo que não conseguiria escrever uma linha sem meu amor e minha compreensão. Fiquei tão feliz que não liguei a mínima para a falta de retorno financeiro. Durante algumas semanas me senti muito próximo dela, cheguei a ler alguns de seus textos, e até desejei ter mais dinheiro para bancar seus sonhos. Comecei a fantasiar que, se ela se tornasse escritora, seria uma mãe mais dedicada, talvez lesse poesia para os filhos, talvez lhes ensinasse francês, que ela sabia um pouco, mas não falava na minha frente por insegurança. Imaginei uma Heloisinha delicada, introspectiva, cercada de livros e diários, falando em francês com a &lt;i&gt;mère&lt;/i&gt; os segredinhos que desejasse esconder do pai. Nessa época ela andava escrevendo uns contos de mulheres tresloucadas que queriam abandonar o emprego e o marido, e nem sequer sabiam por quê — nem sequer tinham amantes. Claro que eu não compreendia nada daquilo, e logo comecei a sugerir, sorrateiramente, que ela escrevesse sobre filhos. Talvez fosse interessante abordar o tema de uma mulher que a princípio tem certo receio da maternidade, mas aos poucos acaba sendo conquistada pela fragilidade e delicadeza de seu bebê.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Fiquei surpreso e feliz quando vi que minha sugestão fazia efeito. Ela começou a escrever sobre um homem que adorava a vida de solteiro, a independência, a liberdade, e ainda tinha vontade de conhecer Las Vegas. Esse pobre diabo descobre que tem um filho com uma mulher do seu passado, e o moleque já passa dos oito anos quando os dois se conhecem. Então vão surgindo uma série de situações engraçadas nas quais ele vai aprendendo a aceitar e a gostar do filho. Pode não ser uma idéia original, mas eu vibrei a cada página. Não entendo de literatura, e não saberia dizer se estava bem escrito, mas eu ficava pensando que Heloísa, afinal, começava a aceitar a idéia da maternidade. Acreditei que aquele menino atrevido e inteligente, com que eu tanto sonhava, estaria agora morando também nos sonhos dela. Daí até ele mudar para o nosso apartamento seria só um pulo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Adorei a forma como o livro terminava. Os dois tinham uma discussão, e o menino demonstrava uma astúcia fora do comum. O homem acabava por dizer: "Você é mesmo bem parecido com seu pai, hem!", tentando salvar sua autoestima. "Então você conhece meu pai?", o menino perguntava. E só nesse momento o protagonista e o leitor percebiam que a mulher ainda não tinha contado a verdade para o filho. O sujeito descobre que tem a chance de sumir, de desaparecer da vida dos dois, e o menino ia se lembrar dele apenas como o amigo da mamãe que o ensinou a jogar damas. Mas, após alguma hesitação, o personagem responde: "Sim, eu conheço seu pai. Graças a você, eu o estou conhecendo cada vez melhor", e depois disso fica implícito que ele decidiu aceitar definitivamente o papel de pai.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Poucas vezes chorei com um livro, e durante muito tempo esse choro me fez acreditar que Heloísa era mesmo uma ótima escritora. Foi com enorme prazer que a ajudei na revisão, depois imprimimos várias cópias e começamos a mandar para as editoras. Ela parecia muito feliz, e pensei que seria apenas questão de semanas até ela me dizer que parou com os anticoncepcionais. Mas essa notícia acabou não vindo. Em vez disso, ela passou a perguntar sempre: "Você olhou a correspondência? Nada ainda?" Depois ela se fechava no quarto, ou ficava horas absorta, olhando para o nada, e mexendo nos cabelos. Eu sentia sua angústia por tabela, e me perguntava o que estaria faltando. Afinal, a estória era bem pensada, comovente. O que mais as editoras queriam? Essa aflição não demorou a passar. Logo começaram a chegar as respostas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;"Concluída a avaliação do original em referência, informamos que sua publicação não foi indicada, ainda que apresente evidentes qualidades."&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;ou&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;"Apesar de apresentar qualidades literárias", etc, etc. "Os originais serão destruídos conforme as normas da editora", etc.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Todas as cartas diziam mais ou menos a mesma coisa. Heloísa as lia, depois as passava para mim, com um olhar resignado: "Não foi dessa vez, amor".&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Às vezes tentava ser mais leve: "Não tem jeito, não não dá para enganar profissionais". Mas eu sentia o quanto ela estava desapontada e intimamente revoltada. Notei que ela nunca falava a respeito, e procurei também evitar comentários. Imaginei que lhe seria mais fácil esquecer se não conversássemos sobre o assunto. De vez em quando ela dizia alguma coisa como "Esse pessoal só está publicando estórias sobre prostitutas", e eu dizia: "É verdade, é uma vergonha". Um dia ela brincou: "Se eu me tornasse garota de programa e fizesse um diário, aposto que eles publicariam!" Eu respondi "Por que você não inventa um diário? Os escritores costumam ter uma imaginação bem fértil". Mas ela desconversou, e senti que alguma coisa nesse argumento não lhe agradava. Ao mesmo tempo fiquei pensando: será que ela seria capaz disso? Seria capaz de fazer programa só para escrever um livro? Logo concluí que não. Minha mulher podia ser excêntrica, mas quebrar as regras não era seu forte.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Algum tempo depois ela já não falava sobre livros, e fiquei pensando que de repente a fase de escritora tinha sido como a de atriz: uma dessas aventuras de juventude que vivemos apenas para ter o que contar aos netos. A idéia de um filho voltou a me seduzir, principalmente quando vi que meus amigos já estavam com seus pequenos Tiagos e Daniéis. Passei a convidá-los incessantemente à nossa casa, e adorava quando eles perguntavam à Heloísa: "E vocês, quando vão encomendar um?" Mas eu notei que ela andava meio desanimada, calada, sisuda. Fiquei com medo de ela inventar uma nova moda; talvez agora quisesse aprendar a cavalgar, ou pilotar avião. Felizmente, nada disso se passou. Acho que Heloísa estava apenas envelhecendo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Uma noite eu voltava de uma sinuca &amp;nbsp;com amigos, e me surpreendi com uma cena realmente trágica. Heloísa tinha tirado seus vestidos do armário, e os estava picotando, reduzindo-os a tiras e retalhos, formando uma massa caótica de tecido pelo quarto. Fiquei pasmo. Eram vestidos caros, que imitavam cortes dos anos cinqüenta, com golas e botões enormes. Ela pagava metade do seu salário num vestido daqueles, por que agora estava se empenhando em destruí-los? Num primeiro momento suspeitei que estivesse pensando numa carreira de estilista. Mas notei que ela ria nervosamente, jovaga as tiras para o alto, chegou a atirar algumas pela janela, "Está gostando, amor? Está vendo como eu mudei?" Depois teve um brusco ataque de choro. Soluçava, sacudindo os ombros e a cabeça, chorando com o corpo inteiro. Percebi imediatamente que se tratava de um ataque nervoso. Abracei-a com carinho, procurei tranqüilizá-la. Encarnei rapidamente o papel de marido compreensivo que tanto me agradava.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— Não fique assim, linda. Eu te amo. Apenas me diga o que está acontecendo. Me deixe cuidar de você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São esses vestidos! — Ela gritou. — Nunca mais vou usar esses malditos vestidos!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Obviamente não entendi, e deduzi que era caso para um psiquiatra, ou pelo menos um analista. Fiquei ali, abraçado nela, pensando em como eu era bom, amável, paciente. Talvez ela estivesse descobrindo que também não queria ser escritora. Queria apenas alguma profissão que justificasse o uso daqueles vestidos exóticos. Ou talvez começasse a perceber que era uma pessoa medíocre, sem nenhum talento fora do normal. Mesmo que fosse escritora ou atriz, teria uma carreira discreta, sem nada que destacasse seu nome. Seu nariz excêntrico não bastava para lhe dar uma personalidade autêntica.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Em contrapartida, eu descobria em mim algo realmente descomunal. Era essa capacidade para adorar Heloísa, para amá-la mesmo no fracasso, para servi-la sem compreendê-la. O que antes me parecia uma fraqueza agora eu via claramente como um talento raro e especial. Qualquer homem no meu lugar teria pensado imediatamente em divórcio. Mas eu estava disposto a cuidar de Heloísa, a pagar um tratamento, a perder os amigos, e encarar a reprovação da minha família se fosse preciso. Eu aceitava — e acho que até desejava — que ela fosse uma espécie de destino elevado e inevitável ao qual eu me entregaria com a bravura dos guerreiros e a convicção dos mártires.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Depois de algumas semanas ela começou com a análise. Os remédios eram apenas ansiolíticos fracos, e isso me surpreendeu menos que o fato de ela passar a usar terninhos de poliéster. Ainda mais estranha foi a notícia de que ia fazer uma plástica no nariz. Eu nunca gostei realmente daquele nariz, mas gostava de ser um homem capaz de aceitar uma mulher com nariz feio. Conversei com ela, falei que não precisava renunciar à sua originalidade para se encaixar em nenhum padrão de beleza. Eu a aceitava do jeito que era, eu a amava. Não previ que eu me decepcionaria tanto com sua resposta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— Renunciar à minha originalidade? Que originalidade?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;De fato ela parou com suas pequenas extravagâncias. Não falou mais em livros, não comprou vestidos estranhos. Quando chegava do trabalho, ligava a televisão, conversava sobre previdência privada, planos de saúde, drenagem linfática, férias em Cabo Frio. Alguma coisa me incomodava naquilo tudo, mas eu não sabia o que era. Às vezes ficava contente, planejava com ela um cruzeiro até Buenos Aires, uma viagem à Itália, ou alguma outra coisa que nossos amigos já tinham feito. Mas depois ia para o quarto, ficava olhando para o teto, me perguntando o que estava errado afinal. Por que eu me sentia tão vazio?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Um dia arrisquei abordar o assunto. Estávamos num barzinho, a bebida me deu coragem para falar sobre algo real.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— O que está acontecendo, amor? Você não sente que está faltando alguma coisa?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— Eu sei o que você quer dizer — ela falou num tom resignado, sem nenhuma emoção. — Se você quiser, eu paro com os anticoncepcionais.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Fiquei muito assutado, não com essa resposta, mas com a súbita percepção de aquilo parecia não me importar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— Claro, amor. Por que não? Minha mãe sempre me cobra um neto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— A minha também...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E em poucos meses tínhamos a notícia para nossas mães. Elas pareceram realmente contentes, ao contrário de Heloísa, que continuava meio amuada, e agora estava até mais pálida — mas eu não arriscava comentar, porque talvez fosse algum efeito da plástica. Quando comecei a falar sobre nomes, ela disse que ainda era muito cedo. Eu sabia que era cedo, mas queria preencher aquele silêncio incômodo que tinha se instalado entre nós. Decidi não contar de imediato para meus amigos. A coisa estava ainda muito recente, e eu queria esperar pelo menos um ultrassom. Hoje me pergunto se essa decisão não foi fruto de algum pressentimento. Quando a levei ao hospital, naquela noite confusa, de alguma forma eu já sabia o que estava acontecendo. Quanto mais eu lhe dizia que era só um sangramento, uma coisa normal em qualquer gravidez, mais eu me preparava para a notícia fatídica. Estranhei que ela não parecesse triste, e isso até me incomodou. "Meu Deus, será que é isso que ela quer?", me perguntei, assutado. Mas evitei pensar no assunto. Sempre preferi enxergá-la com outros olhos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Estávamos no quarto quando o médico chegou com a notícia. Vi que ela ficou com os olhos marejados, e ansiei que ficássemos a sós. O médico disse ainda algumas palavras de praxe, "Você é jovem, saudável, poderá tentar muitas outras vezes". Ela levou as mãos ao rosto, e eu assumi um ar grave, logrando esconder que não sabia como agir. Mas quando o homem saiu do quarto, tudo foi ficando mais claro e confortável. Abracei Heloísa, falei de como ela era importante para mim, mais importante que um filho, mais importante que qualquer outra coisa que eu pudesse encontrar na vida. E logo fui me sentindo mais à vontade, sabendo como agir e o que dizer. As palavras vinham quase espontaneamente à minha cabeça, e depois que as pronunciava, eu ficava satisfeito com a sonoridade, a elegância. Eu aprovava minha índole generosa, minha paixão constante e elevada. Acho que foi nesse dia que percebi com mais clareza que não era propriamente Heloísa que eu amava, era esse homem generoso e compreensivo que eu havia me tornado. Um marido compassivo, protetor, fiel. Quando chegamos em casa, levei-a para a cama no colo, e fiquei pensando: meu Deus, que homem eu construí! Que homem eu sou! Nessa noite percebi que a situação que sempre havia durado entre nós agora tinha se invertido. Eu não a amava mais em primeiro lugar. Amava primeiro a mim mesmo, depois a Heloísa, pelo homem que ela me permitia ser. A partir desse dia me senti preenchido por uma paz quase sobrenatural. Nunca mais temi que ela me traísse, nem que me deixasse. Essas coisas pareciam simplemente não me atingir. Também não a atormentei com a idéia de filhos. O posto de marido passou a me satisfazer completamente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Poucas semanas depois, ela voltou à idéia dos livros. Mas agora queria escrever uma estória infantil. Obviamente não contrariei, dei todo o apoio necessário. Cheguei a dizer que bancarei a edição do livro, se as editoras não se interessarem. Quem sabe ela não faça sucesso com um público menos exigente? Quanto a mim, estou feliz com minha descoberta. Agora vejo que meu amor é algo muito maior que eu tinha pensado — é como uma matriz que justifica e define minha vida. A decisão de ficar com ela de certa forma me deixa imune às adversidades, imune até à própria Heloísa. Não temo mais o que ela possa fazer. Tenho a satisfação de ser algo que ela ainda não conseguiu alcançar, algo que eu mesmo construí. Um dia talvez ela se dê conta disso, e quem sabe resolva escrever um livro sobre mim. Por hora me contento em ser meu próprio personagem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-442261591143306744?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/spT_Q-VZTbiWrDAqfpZDf6dXl_M/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/spT_Q-VZTbiWrDAqfpZDf6dXl_M/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
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— Quem me trouxe para cá? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;Eles se olham intrigados, as duas garotas riem. São morenas de olhos pequenos, mas estranhamente corpulentas para descendentes de japoneses. Faço outras perguntas que só causam mais risadas. Então surge do corredor uma figura conhecida. É o Maurício, já está calçado, certamente acordou há mais tempo.&lt;br /&gt;
— Não fale em português, eles não entendem com facilidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;O que será que ele quer dizer?, me pergunto um segundo antes de começar a entender. Volto para a janela e vejo uma placa no prédio em frente: "Ferreteria Reina - Accessorios para muebles". Começo a recordar algumas cenas, o pequeno restaurante em Santa Fe, depois a cervejaria na Plaza de Toros. Uma canção em espanhol me vêm à cabeça, mas provavelmente não a ouvi no bar, onde só se tocava música americana. Deve ter sido no avião. Maurício me dá um café, e o sabor me confirma a localização geográfica. Mas eu preferia estar no hotel, assim poderia tomar um banho e me recompor mais à vontade. Fico olhando para as duas morenas, estão abotoando as calças e as sandálias. São bonitas, apesar das sobrancelhas grossas. Conversam sobre alguma coisa engraçada, que não chego a compreender. Eu falo espanhol, mas não o entendo bem, principalmente quando pronunciado assim, entre risos e onomatopéias. Noto que uma delas é mais agitada e falante. A outra é introspectiva e serena. Penso que seria bom se essa fosse a minha.&lt;br /&gt;
— Qué harás esta noche? — Pergunto depois de alguns rodeios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;— Encontraré a mi marido, ya lo sabes. — Ela responde quase sem me olhar, e percebo que é uma cretina. Me dá vontade de sair daquele lugar. O cara que acordou com elas está num canto lendo jornal. Talvez seja o marido da metida, e tenha dormido na sala só para garantir que não rolasse nada. No táxi penso em perguntar ao Maurício quem eram aquelas pessoas, mas ele zombaria de mim, e espalharia a história para metade do Rio de Janeiro. Procuro falar de outra coisa:&lt;br /&gt;
— Eu queria comprar aquele rum venezuelano que tomei na sua casa.&lt;br /&gt;
— Vai ser difícil encontrar. A Venezuela está meio brigada com a Colômbia.&lt;br /&gt;
— Ah, odeio política.&lt;br /&gt;
— Por falar nisso, comprei ingressos para uma luta de boxe.&lt;br /&gt;
— Boxe? Mas eu queria ver uma tourada.&lt;br /&gt;
— Não tem tourada de noite.&lt;br /&gt;
— Mas não está amanhecendo?&lt;br /&gt;
— Você está ruim mesmo, hem. Está anoitecendo. Você deve estar confundindo por causa do fuso-horário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;Vejo que isso torna ainda mais difícil entender como fui parar naquele apartamento. Aceito humildemente o boxe, e deixo de pensar no assunto. Aposto no americano só para ser do contra. Na platéia,&amp;nbsp;deduzo que o negro seja o americano, e começo a torcer por ele. Chega uma hora em que ele dá uma porrada tão bem dada no queixo do branco, que este fica com os braços caídos e os olhos arregalados, como se estivesse tentando lembrar o que foi fazer ali. Quando ele finalmente cai, vibro e digo que sabia que a noite era do negão. Maurício me olha intrigado:&lt;br /&gt;
— Então por que você apostou no branco?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;Depois me bate aquela fome e lembro que a última vez que almocei foi em outro meridiano. Maurício está cansado e diz que vai para o hotel. Mas, quando entro no táxi, fico me perguntando quando foi minha última trepada. Se foi há mais de dois dias, já posso procurar uma bela garota de programa. Explico a situação ao taxista, que parece compreender, e me leva a um bar cheio de morenas com cabelo amarelo. Mas escolho uma beleza local, com cabelos negros e pequenos olhos de índia. Ela me lembra Catalina, minha agente em Bogotá. Se meus livros venderem bem na Colômbia, pretendo comprar uma jóia cara e levar Catalina para jantar. Meus amigos dizem que sou muito antiquado com as mulheres. Eles são pobres, não fazem idéia de como essa tática funciona.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;A garota compete comigo pelas &lt;em&gt;arepas&lt;/em&gt;. Depois me explica por que devemos ir a um hotel mais afastado, distante da agitação do centro. Não estou seguro de ter entendido, mas posso ir a qualquer lugar que aceite cartão de crédito. No quarto noto que ela tem seios meio ovalados, tipo os da ex-mulher do Gustavo. Então recordo que transei há pouco tempo com essa mulher, pode ter sido há menos de dois dias. Mas percebo, aliviado, que isso não prejudicará minha performance. O corpo jovem da garota já acionou minha virilidade. Enquanto abro a camisinha, ela mantém minha ereção com os lábios e as mãos. É uma mulher compreensiva, deve ter mais que os vinte anos que aparenta. Quando começa a me cavalgar, fico pensando em Catalina, se ainda está casada, se é católica, se isso fará muita diferença. Depois trocamos de posição e reparo mais na garota. Ela geme delicadamente, tem uma doçura jovial que a profissão ainda não estragou. Fecho os olhos e me entrego ao prazer seguro das batidas. Depois saio de cima dela e me enrosco nos cobertores. Volto a pensar em Catalina, e recordo uma coisa que ela me disse quando nos conhecemos. "Detesto llegar al fin de tus libros. Me gustaria leerlos para siempre." Sei que é mentira, as mulheres odeiam meus livros. Mas eu saco um pequeno estojo aveludado e digo que é só uma lembrança, que quero que ela pense mais em mim que em meus personagens. Ela o abre avidamente, e seus olhos brilham como os pequenos diamantes incrustrados na platina. Seguro firme uma de suas mãos. "He esperado tanto para decírtelo, e ahora no me salem las palabras." Assim vou passando da imaginação ao sonho. Catalina me acaricia, suas mãos são leves e frescas como uma brisa marinha. Mas logo se tornam quentes e ásperas, e um buzinaço vindo da rua me faz abrir os olhos e dar de cara com o sol. A garota não está no quarto, pego minhas roupas e as apalpo em busca do passaporte. Felizmente, tudo em ordem. Pela janela, vejo que o hotel fica ao lado de um cemitério. Me divirto pensando que, se eu escrevesse isso, todos tentariam&amp;nbsp;—&amp;nbsp;e conseguiriam&amp;nbsp;—&amp;nbsp;enxergar alguma bobagem simbólica neste trecho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;A água do chuveiro demora um pouco a se aquecer, mas saio do banho renovado, lamentando apenas ter de vestir uma camisa que já começa a feder. Penso em ligar para o Maurício, deve haver ao menos uma tourada marcada para hoje. Encontro, amassado no bolso de trás da calça, o cartão de um hotel em Rosales. Quando lhe passam a ligação, ele me parece ligeiramente desesperado:&lt;br /&gt;
— Onde você está?&lt;br /&gt;
— Estou num hotelzinho em Las Mártires, em frente ao cemitério.&lt;br /&gt;
— Que diabo você está fazendo aí? Por que não veio para o hotel que reservamos?&lt;br /&gt;
Agora lembro vagamente de uma conversa sobre um hotel com vista para um braço dos Andes.&lt;br /&gt;
— Bem... encontrei uma garota...&lt;br /&gt;
— Tudo bem! Me dá o endereço, passo aí para te pegar.&lt;br /&gt;
— Você sabe de alguma tourada?&lt;br /&gt;
— Depois a gente fala sobre tourada. Sua palestra começa em quinze minutos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;Que diabo será isso de Palestra? Só pode ser idéia da Catalina. Essa gente formada em Letras realmente acredita em palestras. Mas talvez haja tempo para o café. Fico um pouco decepcionado quando me servem os mesmos bolinhos que comi no jantar de ontem. Peço ovos mexidos, e ouço, do saguão, um espanhol arrastado, cheio de vogais abertas. É o Maurício que já me descobriu. Está com uma cara afetada, como se realmente se importasse com um atraso de cinco minutos. No táxi, tento pensar em algo para dizer. Não quero contar pela milésima vez que meus pais queriam que eu fosse advogado, e que depois, quando ganhei o Jaburu, mudaram de idéia e me deram um apartamento na zona sul. De repente chegamos a uma sala escura e sem mobília, com um pé direito monumental. Deduzo ser a coxia de um anfiteatro. Entre ecos, reconheço a voz de Catalina. Parece estar dizendo que meu último livro vendeu cem mil exemplares na Colômbia. Será que ouvi direito?! Quando verei esse dinheiro? Um sujeito de terno claro me indica um corredor. Chego ao palco e sento à mesa que deve ser para mim, pois é a única vazia. As palmas me ensurdecem por alguns segundos, mas logo cessam, ao contrário de uma luz ofuscante que jogam na minha cara. Sinto que é hora de dizer alguma coisa, quero fazer um gracejo qualquer, mas nada me vem à cabeça. A luz decai lentamente e começo a ver os olhinhos pequenos que me fitam ansiosos; parecem realmente esperar que eu diga alguma coisa.&lt;br /&gt;
— Minha mãe queria que eu fosse advogado — começo, sem muita convicção.&lt;br /&gt;
— Quando encaro uma platéia desse tamanho, fico me perguntando por que a contrariei.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: georgia; font-size: small;"&gt;Todos riem, e rio com eles. Ainda não sei o que dizer, mas estou relaxado, talvez até feliz. De repente, como um relâmpago, lembro perfeitamente o que aconteceu quando cheguei a Bogotá. Tudo começou numa livraria, onde uma jovem me perguntou se eu era aquele escritor brasileiro que tinha dado uma entrevista ao &lt;em&gt;Espectador&lt;/em&gt;. Sim, eu sou aquele escritor brasileiro. Nunca conseguir ser outra coisa, e agora tenho cem mil testemunhas. Olho para Catalina, ela está aflita, certamente já percebeu que não preparei nada para dizer. Começo a ter uma idéia mais definida da jóia que vou lhe dar. Cem mil exemplares! Será que dá para uma casa em Cartagena? Não, melhor levar Catalina para o Rio. Lá ela não conhece ninguém, dependerá totalmente de mim. Será apenas preciso fazê-la desistir do marido, mas agora isso me parece mais fácil que nunca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6711544943368850619?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9jhRBztbH6ghnAUMRMjRH46SdKE/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9jhRBztbH6ghnAUMRMjRH46SdKE/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9jhRBztbH6ghnAUMRMjRH46SdKE/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/9jhRBztbH6ghnAUMRMjRH46SdKE/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/vEal320ED9w" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/6711544943368850619/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/01/estranha-sao-paulo.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6711544943368850619?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6711544943368850619?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/vEal320ED9w/estranha-sao-paulo.html" title="Estranha São Paulo" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2010/01/estranha-sao-paulo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0QMQ3g8eSp7ImA9Wx9REE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-271146109234807949</id><published>2009-12-20T16:33:00.005-03:00</published><updated>2010-12-10T14:16:22.671-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-12-10T14:16:22.671-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Miniconto" /><title>Onde estão minhas fadas?</title><content type="html">&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;A vida é amarga, mas não é amarga como um bom café. Ela é chata, pequena, mesquinha. Depois dos dezesseis anos todo sonho já vem com o carimbo de Sonho Impossível. Mas eu sou teimosa: eu sonhei assim mesmo. Eu quis enxergar um charme especial naquele cabelo grisalho, &amp;nbsp;não apenas o sinal de que ele mentia a idade. Acreditei que a ex-mulher de Petrópolis era uma megera que só se preocupava com academia e botox. Depois ainda vislumbrei um amor paternal na forma como ele falava da &lt;i&gt;cocker spaniel.&lt;/i&gt; Sonhei que aquele carinho e aquela dedicação um dia seriam para mim. No hotel em Cabo Frio, eu chupei como uma profissional, eu abri as pernas em cima da mesa, depois ainda fiquei me perguntando se eu tinha sido perfeita. Ah, como eu queria acreditar que eu tinha sido perfeita! Quando as flores começaram a chegar, eu pensei: “Até que não foi tão difícil. A proposta e o anel vêm depois”. Ainda havia nos meus olhos cansados, um resquício de comédia romântica que me fazia pensar em anel, em dança de salão, em palavras de filmes antigos. Naquela manhã constrangedora, ele disse que seu único vício era o café, e eu quis acreditar também nessa bobagem. Os filmes não me ensinaram dos outros vícios, da capacidade para mentir, do desprezo inabalável que um homem pode sentir, mesmo depois de dois anos na mesma cama. Isso eu tive de aprender aos tropeços, entre um riso fingido e uma manhã de ressaca, um orgasmo fingido e um telefone mudo. Mas eu sou teimosa: eu vou sonhar assim mesmo! Vou acreditar que ele temia me perder para alguém mais jovem, que ele gaguejava quando falava minha idade para os amigos — talvez escondesse os famosos comprimidos azuis no bolso interno do paletó. Semana que vem já vou olhar aquelas fotos com outros olhos. Vou me deixar convencer pelo meu próprio riso falso, e jurar para qualquer amiga que eu fui feliz. E esse choro irritante de hoje, esse silêncio, que não me deixa perguntar onde errei, vai ser só mais uma lembrança indigesta, como o sêmen que engoli em Cabo Frio. Quando outro homem falar em &lt;i&gt;cocker spaniel&lt;/i&gt;, quando eu vir outra gravata de seda e outro anular sem aliança, os meus olhos vão estar prontos para mais poesia, e a minha boca, para mais de sêmen. Porque eu sou teimosa, eu vou sonhar com tanta força que a realidade vai acabar se parecendo com minha fantasia, nem que seja por piedade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-271146109234807949?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LReJ0yneiV43dtEuO3XEOzPa6js/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LReJ0yneiV43dtEuO3XEOzPa6js/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LReJ0yneiV43dtEuO3XEOzPa6js/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/LReJ0yneiV43dtEuO3XEOzPa6js/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/kUrwqJz9HC0" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/271146109234807949/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2009/12/onde-estao-minhas-fadas_20.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/271146109234807949?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/271146109234807949?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/kUrwqJz9HC0/onde-estao-minhas-fadas_20.html" title="Onde estão minhas fadas?" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2009/12/onde-estao-minhas-fadas_20.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CUQBRXYzeip7ImA9Wx5bEU8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-6730074845504975643</id><published>2009-10-31T17:36:00.001-03:00</published><updated>2010-10-26T17:02:34.882-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-10-26T17:02:34.882-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>A notícia do século</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 13px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Meu último artigo havia suscitado uma péssima repercussão. Acho que os leitores não estavam preparados para o impacto do avanço biotecnológico sobre a vida moral. Muitos enviaram críticas ferozes à revista, dizendo que eu tinha deturbado o conceito de "direito natural" e, principalmente, o caráter sagrado da maternidade. Mas nada daquilo me surpreendia. As pessoas são assim mesmo: aponte a mínima possibilidade de mudança nos seus hábitos, e elas o acusam de ser uma espécie de demônio. Não toleram mudanças, não suportam o fato de que a vida como é agora é só uma das muitas vidas possíveis. Se tomarmos outros caminhos, o mundo que surge diante de nós pode ser tão belo e desejável quanto o anterior, o sofrimento está apenas na nossa resistência.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana; font-size: 13px;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Verdana; font-size: 13px;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Mas eu havia estudado o assunto por mais de 10 anos, e minha opinião não era mero palpite. O custo das técnicas Cold Milltered já havia baixado bastante, facilitando a abertura de clínicas no terceiro mundo. Além disso, nos países pobres, era mais fácil encontrar mulheres dispostas a alugarem seus ventres para a geração de filhos alheios. Quando a prática se tornasse mais comum, haveria um efeito reverso, e ela se popularizaria também nos países ricos. O ato que atende as expectativas dos interessados sempre se alastra com rapidez e facilidade. Logo a prática da barriga de aluguel seria comum no mundo todo. As jovens alugariam seus ventres para pagarem a faculdade. As mulheres mais ricas gerariam seus filhos pelos ventres das mais pobres, e não apenas por motivos de saúde, mas também por razões estéticas. Quando o processo se tornasse mais fácil e mais comum, muitas mães optariam pela barriga de aluguel apenas para poupar as transformações do corpo e a dor do parto. Quem realmente estudasse o assunto veria que era apenas uma questão de tempo. Só retrógrados e ignorantes se opunham às minhas opiniões. Eu não estava dando a mínima para a enxurrada de críticas, pois sabia que ela não vinha de gente balizada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Quando o doutor Chertrol me telefonou, encarei a situação com naturalidade. Eu era o jornalista que mais entendia desse assunto. Era normal que ele me chamasse para registrar e divulgar as mais novas técnicas da área. Não fiquei envaidecido, não me senti privilegiado. Eu havia dedicado grande parte da vida a compreender e divulgar as técnicas de fertilização artificial. Ele provavelmente queria anunciar uma técnica nova, algo que possibilitasse uma geração de aluguel mais barata e eficiente, e me escolhia para portador da notícia. Era um corolário dos meus anos de esforço. Compareci a sua clínica tranqüilo e preparado para o trabalho. Não tinha idéia de que sairia de lá tão chocado, tão estupefato, e ao mesmo tempo feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Doutor Chertrol vinha se destacando na área de reprodução humana. Mulheres do mundo todo vinham contratá-lo para administrar suas complexas gestações transuterinas. É claro que elas vinham também pela facilidade de se encontrar uma barriga de aluguel no Brasil, mas tenho certeza que a competência e o renome do médico também pesavam na sua decisão. Ele tinha fama de ser um homem frio, um pouco rude, com um jeitão meio caipira. Diziam que havia estudado primeiro veterinária, porque não gostava muito de tratar gente — ouvir lamentações, lidar com neuroses — mas, quando vira o que poderia fazer na área de reprodução humana, regressara à faculdade e conseguira um diploma de medicina. E, de fato, o setor só melhorou com sua decisão. Desde que ele assumira a clínica Nova Gênesis, as notícias de aperfeiçoamento e barateamento operacional eram constantes. Eu estava ansioso por conversar um pouco com ele, conhecer sua personalidade, tentar entender suas motivações. Enquanto estava no táxi, cheguei a pensar numa possível biografia. Cairia muito bem na minha carreira de jornalista científico. Mas era uma idéia ainda muito fresca, e tocar nesse assunto talvez seria precipitar-me. De qualquer forma, eu ficaria atento às oportunidades. Estava tão entretido com esses pensamentos que não me aborreci por esperar quase duas horas antes que ele me recebesse com seu entusiasmo e bom humor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Não há desculpa para meu atraso. Não vou nem pedir, sei que não há...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Ora, não se preocupe, doutor. Sei como é seu trabalho. Não há como prever quanto tempo certas coisas vão durar...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Sem dúvida! Você não faz idéia de como tem razão. Podemos prever muitas coisas, mas não quanto tempo vão durar, às vezes não sabemos nem quando poderão começar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Senti que ele não estava falando apenas sobre horários e atrasos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Prever nem sempre é fácil...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Sim, sim! Prever não é fácil. E por falar em previsão, li seu artigo. Quer dizer, nós lemos! Todos aqui na clínica o leram, e comentamos muito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Eu estava lisonjeado. A essência do meu trabalho é popularizar a ciência, mas confesso que nada me agrada mais que merecer o reconhecimento dos especialistas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Fico muito contente com isso, doutor. O que o senhor achou das previsões? Será que tenho chance de acertar? — Eu não esperava entrar nesse assunto tão cedo, mas o bom humor e o elogio do doutor Chertrol me deixaram confiante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Falaremos sobre isso, meu caro. Falaremos ainda sobre essas coisas. Por hora digo apenas que você é brilhante. Vejo como você acompanha com atenção o assunto da reprodução humana. Sua intuição lhe faz um enorme bem, pois de fato acho que esse tema vai render as mais importantes inovações científicas do século XXI.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Óbvio que fiquei bastante lisonjeado. Queria muito ter gravado o que ele havia dito, e me arrependi de não ter ligado um gravador escondido. Meus escrúpulos muitas vezes me fazem perder um pouco da glória que mereço.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— De fato, sempre achei que esse assunto tem potencial para uma verdadeira revolução na forma como concebemos a sociedade e a família. — Preferi não dizer que eu me interessara pelo assunto simplesmente porque tenho uma irmã de proveta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Sim, você está certo. Não gosto dessa palavra, “revolução”, mas você tem razão. As novas técnicas de reprodução poderão mudar a forma como pensamos o homem e a família. Falaremos mais sobre isso, oh, sim, falaremos...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Ele estava um tanto enigmático. Confesso que eu já estava me cansando daquela história de "falaremos mais..." mas minha ansiedade estava prestes a terminar. Ele me encaminhou para um enorme salão cheio de aparelhos e pessoas trabalhando. Trajavam aqueles jalequinhos brancos, provavelmente eram veterinários ou enfermeiros. No centro havia uma espécie de jardim interno, cercado por barras de ferro, iluminado por uma grande cúpula de vidro. Quando me aproximei, tive a primeira surpresa de nossa entrevista. Vi uma cabra, deitada num gramado artificial, ligada a uma série de aparelhos por fiozinhos de capa transparente. Tive um momento de grande decepção, pois percebi que o motivo da visita não era a reprodução humana, como eu havia imaginado. Doutor Chertrol provavelmente voltara à veterinária e queria divulgar alguma nova descoberta, talvez ligada a clones. O assunto não me interessava muito, mas resolvi não reclamar. Se a coisa fosse realmente nova, pelo menos eu teria um furo, e isso faria bem à minha imagem recém abalada na revista.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Alguns enfermeiros ou veterinários, passavam um emplastro transparente na barriga da cabra. Ela estava estranhamente desanimada, provavelmente dopada. Pelo tamanho de suas tetas e barriga, supus que estava prenha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;O doutor Chertrol não se deu ao trabalho de me explicar inteiramente a situação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Vamos fazer uma ultrassonografia. Logo teremos uma imagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Alguma técnica de clonagem? — Perguntei, um pouco ansioso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Logo teremos a imagem! — Ele respondeu, sem tirar os olhos do vídeo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Senti que a imagem era algo definitivo, mais importante que uma explicação. Pus meus olhos no pequeno monitor preto e fiquei atento aos vultos que se formavam. Não consegui enxergar nada demais. Minha mente esperava encontrar alguns cabritinhos nebulosos, algo como as formas que vemos nas nuvens quando somos crianças. Mas eu não via nada parecido com isso, as manchas brilhantes do ultrassom não estavam fazendo muito sentido para mim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Você vê o coração? Está vendo o coraçãozinho do bebê? — Doutor Chertrol me apontou entusiasmado uma pequena bolinha pulsante. De fato reconheci algo parecido com um coração, pelo menos dava para ver que batia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Aqui está a cabeça... Sim, a pequena cabecinha do bebê, não é lindo?!?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Não consegui ver a cabeça, talvez por que não fazia idéia de como devia ser a cabeça de um feto de cabra; se tinha chifres, se já era alongada, com um princípio de focinho, etc. Mas fiquei impressionado com a forma carinhosa com que ele se referia ao pequeno animal. Não dizia cabrito ou feto, mas bebê. Pensei em anotar isso para a reportagem, o Doutor Chertrol era de fato um homem emocionalmente envolvido com seu trabalho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Desculpe a pergunta, doutor, mas os fetos de cabra já têm chifres? Não estou reconhecendo a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Uma risada alta e contagiante encheu o salão. Todos começaram a rir com ele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Chifres?! Você está procurando chifres, ha, ha, ha!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Fiquei imaginando o quanto minha pergunta era ridícula. Assim como nascemos sem dentes, as cabras deviam nascer sem chifres. Era óbvio, como pude ser tão idiota!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Perdoe minha ignorância, doutor Chertrol. Minha especialidade é reprodução humana, não tenho acompanhado nada sobre veterinária.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— O que é isso, amigo! Não se desculpe. Eu é que devo me desculpar. Acho que confiei demais naquela história de que uma imagem vale mais que mil palavras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— De fato, doutor, olhar para esse ultrassom é como olhar para uma nuvem. Você não enxerga nada, se não souber o que está procurando.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Oh, meu rapaz, quanta sabedoria! Você não sabe o que está dizendo, suas palavras são mais precisas que imagina... Além disso, tem toda razão, não adianta ficar aqui olhando para esse ultrassom. Vamos voltar para a minha sala. Pessoal, mantenham a diploptamina. Vou voltar logo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Fiquei envergonhado. Certamente ele esperava que eu tivesse entendido algo só de olhar para o ultrassom. Talvez algo filosófico, sublime, que não tivesse nada a ver com uma simples cabra prenha. Fiquei me questionando enquanto o acompanhava cabisbaixo, evitando os olhares de decepção dos veterinários, que certamente também esperavam algo de mim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Assim que entramos ele me serviu uma pequena dose de cachaça. Fiquei encantado com sua autenticidade. Um médico medíocre certamente teria uísque importado em sua sala. Agradeci e bebi com prazer o primeiro gole.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Sabe, Lucas, eu sempre achei um pouco difícil lidar com gente. As pessoas são emotivas demais, não conseguem agir racionalmente...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Eu não tinha idéia de onde ele queria chegar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Veja esse caso das mães de aluguel, por exemplo. As mulheres aceitam as condições, assinam um contrato, depois voltam atrás começam a nos encher de processos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Muitas não fazem isso por uma emoção verdadeira. São mal intencionadas, querem explorar o casal que as contrata.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Exato, meu rapaz! Você é a pessoa certa para conversar, você entende minhas dificuldades. Não é fácil trabalhar neste ramo, ainda mais com o atraso da legislação, que insiste em não legalizar a coisa. Os contratos ficam à mercê da confiança mútua, e, você sabe, confiança é algo raro hoje em dia...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Sei, sei, claro que sei. — Eu conhecia bem o assunto, sabia que algumas mães de aluguel tentavam extorquir o casal contratante ou a clínica, ameaçando processos e ações judiciais diversas para ficar com o bebê.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Pois é isto, meu caro. Não é fácil lidar com gente. — Enquanto falava, ele ia bebericando sua cachaça. — Então fiquei pensando se não seria possível criar uma espécie de gestação artificial. Um feto crescendo e se desenvolvendo fora da mãe, mas que não fosse numa outra mulher, que não dependesse de outro ser humano, entende? Uma gestação que dependesse exclusivamente de nós, profissionais. Pessoas que não iriam interferir no processo, pessoas que não iam mudar de idéia no meio do caminho...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Um dia aconteceu uma coincidência, um evento que me ajudou a ter essa idéia. Fui passar as férias na fazenda de um amigo, em Mato Grosso do Sul. Ele tinha uma criação de caprinos, e uma cabra resolveu entrar em trabalho de parto no meio da noite. O veterinário mais próximo estava a uns duzentos quilômetros de distância, e meu amigo me pediu para supervisionar o parto. Ah, foi uma experiência ótima! Não só relembrei minha juventude, minha perambulação de fazenda em fazenda, o cheiro de mato, de esterco, os rugidos dos bichos... mas revivi mais uma vez a magia da vida. Não precisamos fazer muito para que a vida se reproduza, basta lhe dar boas condições e ela faz o resto. Isso não é maravilhoso, rapaz? A vida faz mais vida, precisamos apenas dar uma mãozinha!... —  Eu ainda não sabia onde ele queria chegar, mas seu entusiasmo era algo bonito de se ver.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Ah, meu amigo, essa é a beleza da minha profissão: ver a vida se reproduzir... — o álcool fazia seu efeito. Ele estava sorridente: — Mas, voltando às cabras, voltando àquela noite imprevista, na fazenda do meu amigo, eu fiquei encantado ao ver aqueles bichinhos escapando do ventre da mãe, escapando para o mundo, para a vida! Depois, enquanto ajudava a limpar a pobre fêmea, que estava exausta, reparei numa coisa interessante. O feto humano é relativamente pequeno. Ele caberia com facilidade em outro animal. Numa vaca, Numa porca, talvez até numa cabra... Então, meu amigo... então... acho que você está me acompanhando... Uma cabra não pode processar uma clínica, pode? Você percebe, percebe a grandeza da idéia que estava me ocorrendo naquele momento? O resto, meu amigo, são detalhes técnicos... Proteínas, hormônios, anti-soros... enfim, essas coisinhas sobre as quais debrucei minha juventude.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Eu estava atônito. Sabia exatamente o que ele queria dizer, mas não acreditava. É difícil explicar tudo que passou pela minha cabeça naquele momento. Fiquei zonzo, cheguei a pensar que eu estava passando mal. Doutor Chertrol não pôde deixar de notar:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;— Você está bem, meu rapaz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Mas logo me recuperei: — Estou bem, doutor. Vamos voltar ao salão. Acho que estou preparado para a imagem que vale mais que mil palavras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;Enquanto eu caminhava, ainda estava dominado pela dúvida. De alguma forma eu sabia que aquilo estava acontecendo, um profissional como o doutor Chertrol não iria me falar tudo aquilo em vão. Mas ao mesmo tempo eu parecia estar vivendo um sonho. Algo naquela história era fantástico demais para eu aceitar como realidade. Mesmo assim parei diante do vídeo e esperei. Agora eu sabia o que deveria enxergar, e a imagem logo faria sentido em minha cabeça. De fato, os pontinhos brilhantes foram formando um contorno nítido. Vi os bracinhos retorcidos para dentro, o dorso, a cabeça. Julguei ver até uma pequena orelha. A cabra estava deitada no gramado artificial, indiferente a toda emoção que me perpassava. Ainda em certo estado de choque, olhei para o doutor Chertrol. Ele sorria, parecia ter previsto todo o espanto que me ocorreria com aquela visão. Eu também sorri, na verdade comecei a gargalhar, quase sem controle. De repente percebi que tudo que eu havia previsto estava errado. A barriga de aluguel não se popularizaria, não se tornaria uma prática comum, não geraria renda para estudantes e mulheres mais pobres. Eu era um péssimo profeta. E no entanto estava completamente feliz, pois eu era o portador da notícia científica mais importante do século. Não sabia como agradecer ao doutor Chertrol, e de fato não havia como agradecê-lo. Há homens que simplesmente nasceram para alargar o horizonte do possível. É graças a eles que chegamos até aqui. É graças a eles que cada geração pode fazer muito mais que a anterior. Eu era apenas um jornalista. Tudo que eu podia fazer era contar. Minha tarefa era simplesmente colocar em palavras aquela imagem valiosa que eu havia testemunhado, e que valia infinitamente mais do que elas. Ali mesmo, ainda atordoado pela surpresa, pensei num título para a reportagem: “Barriga de aluguel está com os dias contados”. O resto são apenas detalhes da profissão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" class="western" style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Tahoma;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6730074845504975643?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/tzkpNRY5H_DVXeNOq7sXYgK7sQE/0/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/tzkpNRY5H_DVXeNOq7sXYgK7sQE/0/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;
&lt;a href="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/tzkpNRY5H_DVXeNOq7sXYgK7sQE/1/da"&gt;&lt;img src="http://feedads.g.doubleclick.net/~a/tzkpNRY5H_DVXeNOq7sXYgK7sQE/1/di" border="0" ismap="true"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/EstriasPacatas/~4/TayA6Gex_h0" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/feeds/6730074845504975643/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://estoriaspacatas.blogspot.com/2009/10/noticia-do-seculo.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6730074845504975643?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/5175613312726469304/posts/default/6730074845504975643?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/EstriasPacatas/~3/TayA6Gex_h0/noticia-do-seculo.html" title="A notícia do século" /><author><name>Ronaldo Brito Roque</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06190960099699856433</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="25" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/-PqTYV9DUhNg/ThKSs5ieHoI/AAAAAAAAANo/Vp6cYU2fe2w/s220/Foto%2BFace%2B4.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://estoriaspacatas.blogspot.com/2009/10/noticia-do-seculo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkECQnc-eSp7ImA9Wx9WEU0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5175613312726469304.post-7380478837902935015</id><published>2009-10-04T15:10:00.004-03:00</published><updated>2011-01-15T13:24:23.951-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-15T13:24:23.951-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Conto" /><title>A mesma tatuagem</title><content type="html">&lt;div class="western" style="margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Danilo evitava pegá-la de quatro, porque a maldita tatuagem de cruz lhe arrefecia o desejo. Quem tatuaria um crucifixo daquele tamanho no meio das costas? Que ele soubesse, Amanda não tinha religião, não ia à missa, não devia saber sequer um dia de santo, mas tinha estampado a própria pele com aquele enorme crucifixo gótico. Se ela não fosse bonita, se não tivesse seios grandes e firmes, Danilo talvez tivesse terminado ao descobrir a tatuagem. Mas na época ele também descobria que não podia se dar ao luxo de muitas escolhas. Tinha uns trinta anos quando conhecera Amanda. Magro, pálido, ligeiramente calvo no cocuruto, suas opções com as mulheres começavam a escassear. Amanda, apesar de bonita, era uma mulher um tanto banal, sem originalidade, sem muita cultura, educada pela televisão e pelas canções populares. Os homens agüentavam seus papos chatos — reclamações da mãe e do emprego — até conseguirem o segundo orgasmo; em geral, depois sumiam. Os dois tinham fracassado em conseguir parceiros melhores, e esse fracasso foi a força que os uniu e que eles chamaram de amor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Uma aliança mais definitiva surgiu quando descobriram o preço de um apartamento. Nenhum deles podia pagá-lo sozinho, dividir era uma necessidade. Mas como rachar as prestações sem algum documento que garantisse a posse mútua do imóvel? Foi assim que compreenderam o que era uma certidão de casamento, chamaram testemunhas e assinaram os papéis. Depois puderam dormir tranqüilos. Tinham encontrado alguém para dividir as contas, e aliviar o desejo que os oprimia nas noites de lua cheia. Continuavam meio solitários, mas escreviam excelentes cartões de amor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Na cama Danilo preferia o papai-e-mamãe, para não ter que encarar o frustrante crucifixo gótico. Mas tinha a delicadeza de nunca conversar a respeito. Sabia que uma tatuagem é algo permanente em uma pessoa, e criticar uma parte integrante é criticar o todo. Os sentimentos dos dois provavelmente não sairiam ilesos se ele abordasse o assunto com sinceridade. Quando Amanda queria ficar de quatro, ele resolvia o problema apagando a luz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Só não era tão fácil resolver o tédio dos domingos, quando ela ia para a casa da mãe, ou das madrugadas de insônia, quando ele já não podia ligar a televisão, porque a mulher estava dormindo. Para não pensar em bobagens, para não recordar Cláudia e Heloísa, que eram mais bonitas e inteligentes que Amanda — por isso tinham encontrado homens mais bonitos e ricos que ele — Danilo se permitia algumas horas de internet. Os videozinhos pornôs eram apenas parte do repertório que o entretinha nesses momentos, junto com as piadas sobre bichas, as notícias sobre esportes e atores famosos. De madrugada ele evitava os vídeos de cacetadas, para não acordar Amanda com as risadas agudas e inevitáveis. No auge do tédio, no seio da vidinha pacata de recém casado, onde só faltava um cachorro de raça, Danilo não podia imaginar que o destino lhe atiraria na cara um fato inédito; muito menos que o fato fosse sobre o passado da mulher sossegada e bem comportada que ele agora chamava de esposa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas aconteceu que uma madrugada ele se divertia com um videozinho proibido para menores — os fones de ouvido resguardavam o sono da mulher — quando a câmera se afastou do ato maquinal, e focou nas costas da atriz. Danilo contraiu as sobrancelhas ao ver um crucifixo gótico na tela. Depois sentiu uma estranha pressão no peito, e constatou um tremor incômodo nas mãos. Sua respiração mudou de ritmo enquanto ele se perguntava quem tatuaria uma cruz daquele tamanho no meio das costas, uma pergunta menos urgente que a necessidade de salvar aquele vídeo, de o rever trezentas vezes, pelo menos naquela noite. &lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Já amanhecia quando ele passou a ter certeza que a atriz era absolutamente igual a uma Amanda cinco anos mais nova, exceto por uma ridícula peruca cor de rosa e pelo rosto que só aparecia de viés, quase de costas, não dando margem para um reconhecimento seguro. A perplexidade contudo não impediu que ele despistasse muito bem ao notar a presença da mulher, que, por sua vez, perguntaria sobre a noite ao computador, já suspeitando de uma amante virtual. Danilo explicou pacientemente sobre a necessidade de digitar certos contratos em casa e os levar prontos pela manhã, para reuniões com clientes de São Paulo que ainda iam pegar o avião. Amanda não se deu ao trabalho de duvidar e, enquanto passava o café e carregava a torradeira, nem reparou que o marido também tinha ido à cozinha. Mas ele reparava atentamente nas suas curvas generosas e na tatuagem por trás da camisola que a transparência do tecido fazia parecer uma grande marca d'água. Estranhou que uma ereção convicta lhe brotasse àquela hora da manhã, tanto mais porque tinha passado a noite em claro, e Amanda estranhou o beijo de língua e as carícias ousadas que recebia enquanto ouvia a torradeira apitar. Nenhum dos dois compreendeu aquela urgente necessidade de fazer amor, mas Danilo talvez entendesse por que mirava com fascínio a tatuagem gótica, enquanto possuía sua mulher por trás, reclinada sobre a mesa, quase na mesma posição do vídeo. Depois do agito, uma satisfação pacífica impediu que ela fizesse qualquer pergunta, e um misto de orgulho e cansaço ocupou Danilo o bastante para que ele não se preocupasse em criar uma desculpa. Despediram-se falando em amor, mas dessa vez o que sentiam estava mesmo bem perto disso. Porém, durante o dia, Amanda não conseguiu abandonar a idéia de que o súbito apetite do marido tivesse algo a ver com o computador, e a suspeita de uma amante virtual voltou a fustigar seus pensamentos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Nos dias seguintes as suspeitas aumentariam, porque Danilo não apenas passou a procurá-la mais vezes, mas também inovou nas posições, nos lugares da casa, e no repertório de frases que usava nos momentos íntimos. Lisonjeada com esse entusiasmo, ela logrou controlar a curiosidade, e não contaminou os momentos de prazer com perguntas desconfiadas e talvez fatais. O sexo floresceu entre os dois, ainda mais vívido e saboroso que nos primeiros dias, e o amor pareceu acompanhá-lo, nas carícias matinais, nas frases quase românticas e sobretudo numa nova cumplicidade que germinava lentamente entre eles, mais profunda e permanente que o mero acordo de dividir contas e problemas domésticos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Mas Amanda era mulher e a curiosidade dos gatos borbulhava em sua cabeça como gordura ao fogo. As pequenas investigações não tardaram a começar, primeiro no computador, em busca de fotos, depois na pasta executiva, no celular, no lixo, e em tudo que estivesse a seu alcance enquanto o marido dormia ou tomava banho ou estava longe o bastante para não ver a batida. Cada fracasso era um pequeno alívio, mas também um motivo para recomeço. Depois de alguns dias de buscas frustradas, a jovem esposa se assustou ao perceber que seu maior medo não era descobrir uma amante, mas ter que admitir que ela fizera bem ao casamento. Essa conclusão fez que as buscas parassem por alguns dias, mas depois voltaram com redobrada força, com tentativas de descobrir a senha do &lt;i&gt;email&lt;/i&gt;, com planos para surpreender o marido na hora do almoço, com um gravador ligado em baixo da cama para averiguar que nomes o homem resmungava durante o sono. A mulher gastou tanta energia na investigação, que estranhamente passou a desejar que a outra realmente existisse para justificar ao menos uma aparência de vitória. Se uma amante pode ser motivo de vergonha para a esposa, sua descoberta por meios tão astutos e engenhosos pode dar ensejo a um orgulho triunfante, patente, memorável. Toda essa agitação fazia também aumentar seu desejo sexual, seu prazer em realizar os pedidos do marido, seu carinho ao se despedir e ao recebê-lo à noite, com frases que pela primeira vez pareciam não vir de cartões de papelaria, mas de alguma parte viva e eficiente do seu cérebro que ela mesma não suspeitara existir. Cada um vivia — por razões que o parceiro nem sequer imaginava — um novo casamento, mais romântico, candente, quase sublime.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Amanda já estava desistindo de encontrar a suposta rival quando resolveu expor o assunto a uma amiga. Queria ao mesmo tempo se gabar das recentes aventuras e encontrar um possível motivo que as explicasse. A amiga, que sempre fora, na opinião de Amanda, meio irreverente, excêntrica, original (às vezes até vulgar), veio com uma sugestão ousada que nunca teria ocorrido a uma mulher recatada e prudente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Por que você não pergunta para ele?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Considerando-se superior em assuntos diplomáticos, Amanda sentia até preguiça em se explicar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Se ele tiver uma amante, claro que não vai admitir. E o que será pior: sabendo de minha desconfiança, terá mais motivos para se precaver.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Surpreendida por tamanha astúcia, a amiga apenas concordou: — Então continue as buscas. Uma hora alguma coisa vai aparecer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Mas a idéia tinha ganhado vida, e Amanda já não podia se livrar dela com facilidade. Quando se via a sós com o marido, a pergunta coçava sua garganta, e ela, que não era boa em conter impulsos, embora não os tivesse muito fortes, acabou por usar uma tarde íntima de domingo para introduzir o assunto. De forma discreta e dissimulada, tentou fazer o marido falar sem formular uma pergunta específica. Abordou o recente aumento na libido dele. A causa seria alguma mudança na alimentação? Alguma vitamina recomendada por amigos?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Você não era assim quando a gente namorava...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Como assim, amor? — Danilo se divertia em desconver-sar. Mas no fundo reconhecia que, de alguma maneira, havia aguardado ansiosamente aquela pergunta. Não haveria sentido em ser um homem moderno, em aceitar piedosamente o passado da esposa, se ela não soubesse do feito, não o admirasse, não o louvasse caudalosamente, e o considerasse motivo das melhores recompensas. Com certa hesitação, buscando, como podia, demonstrar cumplicidade e condescendência, Danilo revelou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Tudo bem, amor. Eu vi o vídeo. Sei de tudo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Amanda ficou estupefata. — Que vídeo, amor! Do que você está falando?!&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Quero que você saiba que não fiquei magoado. Foi uma aventura de juventude, eu compreendo perfeitamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Compreende o quê?!&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;— Sei que você vai achar estranho, mas acho até que gostei. Não me interprete mal, amor, mas sempre achei você muito quietinha... não sei, muito convencional, sabe? Agora sei que eu estava enganado. Vi o vídeo! Ah, você aprontou na juventude, hem, amor!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Continuo sem entender.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;—&amp;nbsp;Não precisa agir assim, querida. Já disse que acho até legal. Foi coisa de juventude, já passou, não é? Se já passou, não me importo. Acho normal que você tenha aprontado das suas. Você acha que não aprontei também? Você acha que sempre fui esse homem certinho, que cumpre todos os horários e nunca bebe mais que uma caipivodca? Não me olhe assim, eu descobri o vídeo, mas não estou aborrecido, juro. Não precisava esconder, você podia ter me contado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Amanda estava muito assustada, mas não tardou a pensar numa saída.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Onde está esse vídeo? Me mostra, amor, por favor! Preciso ver esse troço para entender o que você está falando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Danilo não se opôs, e a levou ao computador. Amanda franzia as sobrancelhas, alternava os olhos entre a tela e o olhar de Danilo, até que a enorme tatuagem apareceu, e ela — Ah! — deduziu tudo que se passava na cabeça dele.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;É por causa dessa tatuagem?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Danilo ficou um pouco confuso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Já disse, amor. Pode me contar tudo. Eu compreendo e não estou bravo. Foi uma aventura de juventude, não foi? O que é que tem demais? Você era levadinha, estou até contente em saber disso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu não era levadinha! Como você pode pensar isso de mim, amor!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Linda, não vá fazer esse papel comigo. O formato da panturrilha, das ancas, essa estriazinha aqui em cima da cintura, ó! Está tudo aí. Pode admitir que é você, já falei que gostei da descoberta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Ah! O quê? Não acredito! Não posso acreditar que isso esteja acontecendo! Você está achando que sou essa mulher!? Está achando que sou essa vagabunda por causa de uma tatuagem e uma estria na cintura? Meu Deus, quantas mulheres no mundo devem ter a mesma tatuagem e a mesma estria! Por que isso está acontecendo logo comigo, meu próprio marido me confundindo com uma piranha!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Danilo olhou novamente para a tela. Ficou em silêncio. O vídeo acabou, e ele o recomeçou, sem saber o que dizer. Estava acima de tudo decepcionado. Se sua esposa não era aquela atriz, ela voltava a ser a mulher certinha e banal que ele antes imaginava. Sabia que devia pedir desculpas, mas isso, que tantas vezes já fora difícil, agora não era sua maior preocupação. O que o incomodava era voltar a ver na mulher apenas uma fiel cumpridora de regras, uma pessoa convencional, sem nada fora do comum.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; page-break-before: auto; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Amor, acho que te devo um pedido de desculpa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Claro que deve!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Me perdoa, amor. Realmente achei que fosse você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;—&amp;nbsp;É claro que não sou eu! — Amanda mantinha os braços cruzados, o nariz ligeiramente erguido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;—&amp;nbsp;Desculpa, amor. Desculpa mesmo. É por causa da tatuagem... Você entende... — Desanimado e confuso, o homem sentou no sofá e ligou a televisão. Estava terrivelmente decepcionado, mas não queria pensar no assunto. No dia seguinte teria o trabalho, os ho-rários a cumprir. Calculou que no máximo em duas semanas teria esquecido tudo. Sentia-se um imbecil por ter fantasiado o passado da mulher, mas intimamente se absolvia, pois sabia que a culpa era dela. Amanda tinha uma vida tão comum, tão sem graça, que ele se divertira em fantasiar-lhe um passado minimamente interessante. Mas agora era melhor esquecer. Aumentou o volume da televisão, tentou prestar atenção ao jogo de tênis. Nunca tinha se interessado por tênis, mas qualquer coisa era melhor que aquela vidinha estúpida. Amanda foi arrumar a cozinha. Também pensava que em breve teriam esquecido tudo, e que seria melhor assim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas a libido do marido não voltou a ser a mesma, e depois de duas semanas de abstinência, Amanda estava um pouco arrependida. Por um lado estava satisfeitíssima, pois acreditava ter representado brilhantemente seu papel. O homem nem sequer a questionara; um argumento e uma cara de indignação bastaram para que ele acreditasse inteiramente nela. Gabava-se de ser uma ótima atriz, de ter o delicioso poder de fazer o marido acreditar mais nela que nos fatos. Mas também sentia que tinha perdido alguma coisa fundamental. Danilo voltara a falar com ela daquele jeito seco e maquinal — oi, amor, tchau, amor, vou sim, amor, tudo bem, amor, pode deixar, amor — e agora que tinha experimentado algo diferente, Amanda não conseguia mais se satisfazer com um rol de frases feitas. Tentou algumas reaproximações, mas elas resultaram no sexo ordinário de sempre: a luz apagada, Danilo por cima, de olhos fechados, apenas esperando o momento do alívio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Nenhum deles se preocupara em apagar o vídeo, e Amanda começou a assisti-lo, quando chegava em casa antes do marido. Não sabia exatamente o que pensar: ficava desconsertada, tensa, arrependida, estranhamente humilhada. Revia o vídeo pensando em domar esses sentimentos, mas eles retornavam, às vezes com lembranças desagradáveis e confusas. A idéia de contar a verdade a Danilo passou a persegui-la, não como obrigação que devesse a ele, mas como forma de se livrar daquelas lembranças desconfortáveis que eram agora recorrentes e torturantes como nunca foram antes do casamento. No dia que orava, pedindo forças para enfrentar a situação, surpreendeu-se pensando que tudo seria mais fácil se ele apenas tivesse uma amante. O casamento talvez estivesse mais seguro que agora, e ela não teria de passar pela tortura da confissão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Escolheu um domingo para a revelação. Mas no sábado, quando o marido assistia ao campeonato de sinuca, ela foi ficando nervosa, excitada, estranhamente revoltada com a paz que ele encontrava na televisão. Acabou não se contendo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Amor, preciso falar uma coisa com você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Agora? — Danilo não esperava mais nenhuma surpresa da esposa. Estranhou que ela desligasse a televisão, e intuindo a importância do momento, achou que ela ia noticiar uma gravidez. Já começava a sentir um pequeno entusiasmo quando a mulher falou:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Olha, aquele vídeo...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;O quê? — Ele quase não lembrava do assunto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Você estava completamente errado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;O vídeo da mulher com a tatuagem?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu não podia admitir, você estava fazendo uma idéia totalmente errada de mim, entende?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Claro que entendo, amor. Você já me explicou, já falou que não era você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Pois é, não era eu. Quer dizer, não fui eu que escolhi, não foi uma decisão minha, então era como se fosse outra pessoa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Como assim?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Você não sabe o que aconteceu quando meu pai morreu...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Amor... — Danilo não esperava esse assunto. Achou que havia alguma coisa errada, mas se aproximou da mulher, abraçou-a carinhosamente. — Pode me falar. Você nunca me contou nada dessa época.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;—&amp;nbsp;De repente eu tive que sair da faculdade e agüentar um empreguinho de balconista. Não era fácil para mim. Sempre fui sustentada, meu pai bancava tudo, pagava a conta do meu celular. De repente eu tinha que suportar um emprego daqueles, ficar sem a faculdade, pegar ônibus lotado... Você não imagina o baque que foi para mim...&amp;nbsp;—&amp;nbsp;Ela não conseguia conter as lágrimas. O homem estava emocionado, ainda não tinha visto a esposa naquele estado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Então minha amiga me falou desse gringo que fazia uns vídeos com brasileiras.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;O estupor gelou o corpo de Danilo. Seus olhos também estacaram.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Gringo? Que gringo, amor?!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Você acha que eu ia topar se fosse com brasileiro?! Se minha mãe visse uma coisa dessas!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Então era você!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Ele me garantiu que o filme nunca ia sair no Brasil, aquele cretino, ele garantiu! — O choro convulso e sincero deixava Danilo pasmo. Ele não sabia o que era mais assustador: se a revelação que acabava de ouvir ou a farsa exagerada que Amanda tinha encenado, não apenas o convencendo, mas humilhando-o, envergonhando-o por suas especulações. Ficou algum tempo em silêncio, olhando para o nada. Amanda continuava chorando, mas agora suavemente, tentando adivinhar o que o marido estava pensando. Porém, se adivinhasse, não ficaria contente. Pior do que maçante e convencional, agora ela se revelava uma mera vítima das circunstâncias, sem convicções, sem nenhuma fidelidade a seu íntimo. Fizera o filme por dinheiro, não por audácia. Depois escondera a verdade por necessidade de manter as aparências. E agora a revelava por falta de força para sustentar a mentira. Era uma fraca, não seguia nenhum princípio interior, era movida apenas pela oscilação dos acontecimentos. Com uma pachorra e uma hipocrisia que ainda não conhecia em si, Danilo abraçou-a, consolou-a, garantiu que tudo ia ficar bem. Amanda se acalmou, e quase riu da pergunta imprevista que o marido lhe fez.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;—&amp;nbsp;Amor, me diga apenas uma coisa. Por que você fez essa tatuagem de cruz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; orphans: 0; text-indent: 1.25cm; widows: 0;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;A mulher se viu aliviada por não ter de explicar nada sobre o filme. Tudo indicava que Danilo não tinha visto a outra cena, com os dois atores negros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Bem, amor. Minhas amigas todas já tinham tatuagem, e eu não queria ser a única a não ter. Mas minha mãe era católica, aí você já sabe: ela ia falar no meu ouvido até caírem os dentes. Então pensei em fazer algo que pudesse lhe agradar. Pensei que uma cruz talvez tivesse mais a ver com o mundo dela... Não sei se acertei. Ela reclamou do mesmo jeito, mas talvez não tanto quanto se fosse um dragão ou uma cobra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt; — &lt;span style="font-size: small;"&gt;Você é bem espertinha, hem, amor!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm; text-indent: 1.25cm;"&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;Os olhos e um sorriso maroto demonstraram certo orgulho. De fato Amanda se julgava esperta por seu hábito de tentar agradar a todos que a cercavam.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Ele pediu um café. Ela ficou contente por ter como ocupar aquele momento constrangedor. Quando retornou à sala, sentiu como se as coisas começassem a voltar ao normal. Danilo elogiou o café, manteve a atenção compenetrada na televisão, enquanto se perguntava silenciosamente como seus amigos tinham conseguido amantes. Nos próximos dias, tentaria descobrir. Não poderia prescindir de alguém para dividir as prestações do apartamento, mas sua libido precisaria de uma nova ilusão. Amanda, sentando-se a seu lado, começou a pensar em parar com os anticoncepcionais. Sentia que havia decepcionado terrivelmente o marido, e, não havendo uma nova necessidade externa, o casamento poderia estar acabado. Juntos no mesmo sofá, traçavam planos completamente diferentes, mas permaneceriam unidos, até que as circunstâncias determinassem o contrário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="JUSTIFY" style="line-height: 120%; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-7380478837902935015?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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Pablo tinha falado sobre um lugar no centro onde a hora era apenas cem reais. Ruslan havia lhe indicado um saite com garotas um pouco mais caras, mas muito bonitas. Saulo hesitava porque sua namorada era até gostosa; tinha seios pequenos, mas graciosos, tinha um corpinho proporcional, pernas bem torneadas. O problema é que era muito apagada na cama. Apenas se deitava e esperava que ele fizesse o trabalho; não tinha iniciativa, parecia até mesmo não gostar de sexo. Saulo estava percebendo que a estratégia dela era inventar mil programas para o fim de semana, passar na casa de vários amigos, ir a festas intermináveis, estúpidas exposições de arte, e assim cansar o namorado e não ter que transar. Em contrapartida, ele descobria que gostava realmente de sexo, não era mero capricho de adolescente. Queria penetrar uma mulher, abraçá-la com força, morder seus ombros e pescoço; depois gostava de dormir aquele sono pacífico e redentor que só existe após o orgasmo. O trabalho, as reclamações dos clientes, os horários e prazos seriam esquecidos por algumas horas; o próprio mundo desapareceria por algumas horas. Depois ele acordaria disposto, como se estivesse começando algo novo, como se estivesse prestes a fazer uma descoberta. Mas Flávia Cristina estava lhe negando esse imenso prazer. Inventava cada vez mais desculpas para não ir para cama. Quando não era a menstruação, eram festas e insuportáveis reuniões de família. Saulo sentiu que precisava dar um basta. Olhou mais uma vez o saite — estava numa &lt;i&gt;lanhouse&lt;/i&gt; — tomou coragem, e escreveu o email que tinha planejado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Se você não fizer amor comigo hoje, vou chamar uma garota de programa.”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enviou a mensagem com uma sensação obscura, misto de orgulho e receio. Orgulho pela iniciativa, e medo da reação de Flávia, que ele não conseguia prever. E se ela não gostasse da provocação? E se quisesse terminar? “Que se dane!” pensou, irritado. “De que me adianta uma namorada, se não posso ir para cama? Não sou nenhum padre, quero sexo, e Flávia vai ter que lidar com isso! Afinal, para quê estou trabalhando?!” Ele mesmo se surpreendeu com essa pergunta, pois não tinha imaginado que trabalhava para ter direito a sexo. Mas era isso mesmo! Trabalhava para ter direito a algum prazer, e que prazer seria melhor que a nudez quente e úmida de uma mulher bonita? Estava confuso, mas excitado, confiante, quase feliz. Sim, era um homem! Tinha testosterona correndo em suas veias, e era delicioso admitir aquilo. De volta ao trabalho, ainda curtia certa empolgação quando recebeu uma mensagem no celular:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Amor, precisamos conversar. Passo na sua casa às oito.”&lt;/div&gt;&lt;div&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Seu humor oscilou com uma rapidez incrível. “Está acabado”, pensou, derrotado. “Ela vai terminar. Eu sabia: fui longe demais.” Passou alguns minutos confuso e envergonhado. Não conseguiu trabalhar, passava as mãos na cabeça, queria acender um cigarro, embora nunca tivesse fumado. “Meu Deus, exagerei! Devia ter tocado no assunto de outra maneira.”&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Depois do trabalho, voltou à &lt;i&gt;lanhouse&lt;/i&gt; e ficou olhando os saites de garotas de programa. Muitas não mostravam o rosto, apenas exibiam os corpos em poses de revista masculina. Aquelas fotos muitas vezes tinham disparado suas fantasias e lhe despertado ereções bastante convictas. Mas agora elas pareciam exageradas, extravagantes, irreais. Reparou que o cabelo de uma garota parecia peruca. O silicone de outra estava visivelmente mal colocado, deixando veias ressaltadas e mamilos esticados. Uma terceira chegava mesmo a ter uma cicatriz de cesariana, o que deixou Saulo estranhamente chocado. Pela primeira vez pensou que aquelas jovens talvez já tivessem filhos, talvez trabalhassem apenas para sustentá-los, e não porque fossem mulheres ousadas e fissuradas em sexo. Essas conclusões eram ainda mais incômodas quando ele imaginava Flávia Cristina terminando o namoro. Ela diria: “então é isso, amor. Pensei que você fosse outro tipo de homem. Eu me enganei sobre você, e você se enganou sobre mim”, depois se despediria com indiferença, batendo a porta do seu quarto-e-sala e sumindo para sempre. A previsão se agravava quando sua mãe aparecia na história, perguntando por Flávia Cristina, frisando que ela era modesta, simpática, educada, que ele não encontraria facilmente outra garota como aquela. Mas tudo estava acabado. Era melhor se acostumar logo à idéia. Fechou os olhos, repetiu cinco vezes que estava acabado, depois voltou a olhar o saite, com um rancor profundo que confundia com determinação. Encontrou uma garota — Larissa — que mostrava o rosto nas fotos. Era branca, tinha cabelos lisos que não pareciam artificiais. Seios perfeitos, pele sem manchas de sol: provavelmente não era carioca. Verificou que o preço era acessível. Não seria nenhum desfalque no seu orçamento mensal. Calculou que às nove Flávia Cristina já teria feito um discurso e dado seu adeus. Às nove e dez ele ligaria para a garota, nove e meia estaria no hotel. Receberia Larissa às quinze para as dez, os dois conversariam sobre coisas banais, ela perguntaria sua profissão, ele perguntaria há quanto tempo ela fazia programa. Às dez e quarenta metade das suas fantasias estariam realizadas e às onze ele estaria relaxado, feliz, esperando a garota sair do banheiro para tomar uma ducha. Era uma ótima previsão para a noite. Acreditou que umas quatro aventuras como essa lhe bastariam para esquecer a namorada e sua sexualidade insípida e banal.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Às oito estava preparado para a prova. Estranhou que Flávia chegasse de salto e tão bem arrumada, brilho nos lábios, sombra, delineador, um vestido de noite que ele sabia não ser usado em qualquer ocasião. De repente se sentiu oprimido por um ciúme obscuro e indeciso. Especulou que ela também encontraria alguém depois de terminar, talvez havia muito já estivesse interessada em outro, e ansiasse pela oportunidade de poder culpá-lo pelo fim do namoro. Sentiu-se manipulado, traído de uma forma tão complexa que não conseguiria bolar uma vingança à altura. E sentia sua derrota aumentar quando reparava que Flávia estava bonita, confiante, estranhamente distante. Saulo se convenceu de que era na verdade a mera vítima de uma mulher calculista e dissimulada.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Ela começou a falar com frieza, não parecia nervosa. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Sabe, Saulo. Quando eu te conheci, achei que estava conhecendo outro tipo de homem...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Ele ouvia sem muita atenção. Estava convencido de que ela ia terminar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Você era sensível, gostava de arte, parecia entender a alma feminina, parecia valorizar o amor, o romantismo... — enquanto falava, ela movia a cabeça e fazia balançar um pouco os cabelos. Seu olhar estava distante, parecia uma atriz, estava mais linda que nunca. Saulo reparou que ela usava um sutiã preto, provavelmente novo. Aquilo o excitava levemente, mas também o torturava, porque ele não parava de pensar que ela ia encontrar alguém quando saísse do apartamento. Não era normal que se arrumasse daquele jeito simplesmente para terminar com ele, lógico que ia ver outro.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Flávia continuava a falar, lembrando que o sexo não pode estar acima da confiança, do amor, dos planos compartilhados. Mas Saulo só reparava no suave movimento dos seus lábios, nos olhos cuidadosamente delineados, e nos seios contornados e pressionados pelo rigor do sutiã preto. Começou a pensar que sua namorada não era assim tão inocente: quando queria, sabia provocar. O problema era que não queria com muita freqüência. Mas era inaceitável que aqueles seios macios terminassem a noite nas mãos de outro. Subitamente uma idéia confusa pareceu dar alívio àquela pletora de sensações contraditórias. Faria amor com Flávia uma última vez. Ou pelo menos tentaria. Tomaria suas mãos, pediria um perdão caudaloso, convincente, e a levaria para o quarto antes que ela o contrariasse. Afinal, ele ainda era oficialmente seu namorado. Depois disso estaria mais calmo para terminar, deixaria que ela saísse porta afora, deitado em sua cama, enrolado na maciez compreensiva do seu edredom. Dormiria um sono pesado, sem sonhos, e só voltaria a pensar em garotas de programa daí uma semana, quiçá um mês. A idéia lhe agradava e antes mesmo de formular a primeira frase, já tinha tocado Flávia nos cabelos, já estava confessando que ela era linda, na verdade a mulher mais linda que ele já tinha namorado. Dizia isso com os olhos baixos, como se admitisse uma fraqueza dele, não uma qualidade dela. E logo recordou os seios, e quis dizer alguma coisa também sobre eles, mas, não sabendo como se expressar, apenas os tocou, com espanto, com estranheza, com certo desespero até. Suas mãos já lhe tiravam o vestido quando ela exigiu alguma promessa, que ele fez, sem entender muito bem, apenas assentindo com a cabeça — sim amor, claro que sim, eu prometo, eu juro! — e redescobrindo a magia candente daqueles seios que pareciam bem mais imponentes por trás do negrume do sutiã. Flávia Cristina deteve-o algumas vezes, por vaidade e prazer, enquanto internamente se deliciava com a realização de seus planos. Lá estava ele novamente, seu namorado, implorando por sua nudez, prometendo e concordando com o que ela quisesse, só para ter alguns minutos dentro do seu corpo quente e úmido de fêmea. Considerava-se superior em estratégia, e se congratulava por não ter respondido o email dele com as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Depois consentiu em ir para o quarto, se despiu de uma maneira programada, teatral, prendendo a barriga e exibindo uma &lt;i&gt;lingerie&lt;/i&gt; ansiosa, que esperara anos no fundo de uma gaveta. Saulo estava extasiado, certas coisas com que ele sempre tinha sonhado começavam a acontecer, e isso dava à realidade uma atmosfera cinematográfica, meio fantástica e ao mesmo tempo mais emocionante, mais colorida, mais real. Quando Flávia cavalgou sobre ele e o sufocou de leve entre os seios, ele quis desesperadamente dizer alguma coisa que não sabia o que era, só sabia que era verdadeiro, intenso e definitivo. Assustou-se ao ouvir a própria voz gritando “eu te amo, Flávia Cristina!” e o susto logo se converteu no imenso prazer que fluiu pelo seu corpo e o sossegou e o refrescou como uma chuva torrencial de dezembro. Flávia o ouviu, satisfeita, depois sentiu certa comichão na altura da cintura e ficou se perguntando se aquilo era o tal do orgasmo. Mas a sensação se dissipou e ela apenas se deitou relaxada sobre o namorado, seu corpo oscilando entre o cansaço e a satisfação. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Quando recuperou o ânimo, foi correndo ao banheiro, porque detestava ficar com sêmen entre as pernas. Estacou diante do espelho, levemente chocada, lembrando que estava gorda e notando que o suor tinha espraiado a tinta do delineador. Mas, apesar dos inconvenientes, teve a sensação de estar ligeiramente mais bonita, e lamentou que não fosse passar numa festa ou danceteria onde todos pudessem testemunhar essa mudança. Voltou ao quarto e tentou não rir ao ver Saulo com cara de bobo, olhando para o teto. Não adivinhou que ele se perguntava se da próxima vez ela o deixaria filmar. Deitou ao lado dele, acariciou de leve seu peito, seu rosto, e disse baixinho o que tinha pensando antes de sair de casa. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Então, amor? Você vai me dar os duzentos reais?&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— O quê?! — Saulo não acreditou. Achou que outra mulher tinha tomado o corpo dela.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Não foi o que combinamos? Você não ouviu o que eu disse na sala?&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Ele ficou ainda mais confuso e assustado. De fato não tinha ouvido bem o que ela dissera antes de irem para cama. Tinha achado que era algo banal, mais um sermão sobre a importância do amor ou coisa do tipo.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Amor, então foi isso que você falou!? Não estou nem acreditando, você falou que ia me cobrar!?&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;Flávia abriu uma risada gostosa, triunfante. Saulo também começou a rir, primeiro apreensivo, indeciso, depois relaxado e cúmplice. Abraçou a namorada, mais feliz do que nunca. Sentia estar diante de outra mulher, mais ousada, mais inteligente e divertida.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Você não tinha ouvido nada, hem, amor.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText" style="text-align: justify;"&gt;— Você me pegou, linda. Aquela hora eu nem estava ouvindo... — Os dois se abraçavam e riam agora por dentro, riam por sentir que mereciam aquele momento, mereciam um ao outro, por motivo nenhum e por todos os motivos do mundo, como a terra merece as flores e as flores merecem a luz e o calor do sol. Flávia ria com um prazer especial, porque sentia que aquela conquista era sua. Ela planejara e executara aquela noite com a precisão de um gênio do crime. De repente sentiu um calor suave e pulsante que aquecia seu peito e subia até as faces, talvez a fazendo corar. Surpresa e encantada, ficou se perguntando se aquilo era afinal o tal do orgasmo. Mas logo concluiu que não. Não era orgasmo. Era simplesmente felicidade.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-1727331702915258146?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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A Bruxa&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um pentagrama tatuado nas costas, uma lua e três estrelas na mão. Ela tentava me convencer que bruxaria era coisa boa, “o contato com a natureza, a sensibilidade para as energias cósmicas, o cristianismo é que estragou tudo, com aquela moral repressora...” Eu tolerava incenso e maconha em troca de alguns orgasmos — o que um adolescente não faz movido por hormônios? Mas deuses pagãos não são eternos. Um dia foi minha paciência e veio a inquisição. Confessei meu ceticismo. Ela não tinha poderes sobrenaturais, era apenas humana, ou pior: mulher. Ultrajada, tentou se defender atacando — Nunca gozei com você! — mas isso apenas provava sua completa falta de poderes mágicos. A não ser, é claro, para a hipocrisia: nos despedimos com beijinhos formais. Quando ela bateu a porta, o ar puro voltou a fluir no meu apartamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;II. La Mamma&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela ficou decepcionada quando esqueci nosso aniversário. Não mandei cartão, não telefonei, mas continuei sendo o destinatário de suas palavras carinhosas: “meu amor”, “minha vida”, “razão da minha existência”. Ela não podia evitar, já que fora educada por estórias infantis e canções românticas. Quando não era a princesa, esperando que eu matasse um dragão, tornava-se uma mãe solícita e pegajosa: “Leve agasalho”, “Não tome leite vencido”; frases até desejáveis quando uma mulher não sabe fazer outra coisa. Confesso que quase a amei, sobretudo quando dentro do seu corpo quente e molhado. Mas seus olhos mendigos pediam algo que eu não podia dar: uma promessa. Acabei por lhes dar algumas lágrimas. Felizmente, seriam poucas. Funcionários públicos vivem à espera de mamães como essa. Eles sim, têm as promessas que elas pedem. Eu ainda tinha alguns dragões para matar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;III. É Ela&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando ela disse “eu te amo”, tive certa vertigem. Eu queria mesmo tocá-la de novo, sentir o frescor inesperado da sua pele, a maciez sombria dos cabelos negros, estranha nuvem noturna — mas achei que o destino me negaria o privilégio. Veio o privilégio, veio o deleite escandaloso da sua nudez, o tremor ilícito das nossas bocas: a dela de prazer, a minha de medo — medo de ser a única vez. E, de fato, ela não voltou a falar em amor. Fez bem melhor que isso: me deu ordens. Explicou que filhos precisam de um pai, com gravata e carteira assinada. Eu obedeço calado. Não quero que ela descubra minha enorme satisfação. De dia uso o trabalho para esquecê-la. De noite seu corpo absorve essa revolta muda e absurda que tem sido meu único pecado desde que me entendo por gente. Entre uma novidade e outra, passei a acreditar em Deus; afinal, preciso ter a quem pedir. Enquanto ela dorme, peço baixinho que eu seja sempre o destinatário das suas ordens, peço que eu saiba o que fazer com esses moleques ruidosos que brotarão do seu ventre, e peço, sobretudo, que seu riso me dê sempre essa sensação de que já vivo na eternidade. Não tenho mais dúvidas, não preciso de mais nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-1516390200652786543?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Mas não digo que nos estranhássemos. Acabei descobrindo que mamãe não era a única a adivinhar emoções por trás do seu rosto inerte. Quando tomei certa liberdade com nossa empregada, me pareceu que ele aprovava silenciosamente. Acreditei captar-lhe uma euforia contida, quando um amigo mais velho começou a me ensinar a dirigir. Um dia mamãe me mandou usar calças compridas e camisa de gola para jantar. Apareceu um senhor meio curvado, apresentado com adjetivos favoráveis, junto à estranha previsão de que nos daríamos bem. Naquela noite derramei comida na mesa, falei alto, relembrei constantemente a figura altiva de meu pai. Citei sua seriedade, sua austeridade moral, como se eu não as conhecesse apenas pelas palavras de minha mãe. Eu mesmo não compreendia a razão da minha insólita fúria, mas quando o sujeito se despediu, um tanto encabulado, ainda mais curvado que na entrada, senti pela primeira vez que o retrato me transmitia um olhar &amp;nbsp;triunfal. Era o início de uma cumplicidade secreta, já não acessível a mamãe e suas frases tortuosas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Nos anos seguintes, papai passou a aprovar minha juventude tranqüila, meus passeios de carro, minha lenta aprendizagem com a bebida, o bilhar e as garotas. Achei que nossa relação manteria a sintonia, até o dia ingrato em que olhei para o retrato e não compreendi o olhar que ele me devolvia: seria aprovação desdenhosa, reprovação sumária ou simplesmente indiferença? Chegava a época do vestibular, e eu tinha escolhido Artes Plásticas. Mamãe protestava incessantemente, pois acreditava que uma facilidade para desenho seria mais bem explorada em arquitetura — ou mesmo em moda, desde que observadas certas reservas. Mas a carreira incerta das artes era algo que meu pai decididamente não aprovaria. Pela primeira vez, ao perscrutar o retrato, eu não sabia dizer se ela tinha razão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Depois veio a questão com Lucélia. Mamãe não aprovava nosso casamento, dizia que o temperamento instável da garota me traria problemas no futuro. Reclamava do cigarro, acusava-a de não saber cozinhar — no que tinha plena razão — e nesse debate também não consegui intuir de que lado papai estaria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;Um dia estaquei na sala e fiquei a encará-lo, mudo, como se esperasse uma resposta definitiva. Não uma palavra, mas um sinal nítido, o princípio de um código que me permitiria deduzir suas intenções para o resto da vida. O silêncio me surpreendeu com uma clareza inacreditável. Na sua indiferença pálida, o retrato tentava me transmitir que não era mais hora de consultá-lo. Me pareceu que a foto queria abdicar da função de oráculo, e se contentar com o cargo modesto de lembrança. Mas a súbita transformação me perturbava. Não consegui conter a revolta; um silêncio morto queria se instalar onde antes havia um diálogo fértil e profundo. Senti-me traído, abandonado, praticamente insultado. Tomei o retrato nas mãos, vociferei impropérios, acusei a imagem de ser apenas o espelho da minha loucura, uma ilusão que eu herdara de minha mãe, e minha mãe herdara de uma ausência. Revoltado contra sua passividade orgulhosa, espanquei o retrato, bati-o contra as costas de uma cadeira, depois o rasguei, cortei minhas mãos no vidro estilhaçado, talvez acreditando, por desespero, que se pode destruir um passado anulando um de seus símbolos. Quando mamãe entrou na sala, consegui conter o choro, não as lágrimas. Ela apenas se abaixou e começou a catar os cacos. Surpreso, percebi que não estava contrariada. Também estava farta de ver o presente governado pelo fantasma que ela mesma havia projetado atrás daquela imagem vazia. Recolhemos juntos os estilhaços, varremos o chão, colocamos o vidro para fora. A grande moldura, que me disseram ser de jacarandá, eu venderia numa feira de antigüidades. Mas algo me deteve no momento de fechar o negócio. Não foi o preço baixo — o dinheiro não me interessava, eu queria apenas me livrar do que restava de uma revolta estéril e obscura — foi antes o insólito pressentimento de que um dia eu também seria retrato. A emoção que pulsava no meu peito, a força misteriosa que enchia e esvaziava meus pulmões também se tornaria rigidez, frieza, ausência. Segurei a moldura diante de mim, tentei imaginar meu rosto imobilizado dentro dos seus limites. Especulei que um dia talvez um filho precisasse do meu rosto ali dentro, dos meus olhos vazios de sentimento para que ele pudesse projetar e compreender os seus. Livrar-me da moldura não me livraria dessas conclusões. Minha decisão súbita decepcionou o comprador. Apoiei a moldura no ombro, voltei para casa com passos lentos e firmes. O peso do limite eu aprenderia a suportar paulatinamente, até que eu fosse também um limite, uma imagem contida num retângulo de madeira. Hoje a moldura me aguarda num quartinho dos fundos, e eu aguardo o dia em que me tornarei o homem que quero emoldurar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5175613312726469304-6765995972147845212?l=estoriaspacatas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;
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