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	<title>Global Voices em Português</title>
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	<description>O Global Voices agrega, organiza e amplifica a conversação global na rede - jogando luz nos lugares e pessoas que o resto da mídia geralmente ignora.</description>
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		<title>Global Voices em Português</title>
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		<title>Terremotos na Venezuela deixam as crianças em situação de trauma, deslocamento e insegurança alimentar</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/09/18/terremotos-na-venezuela-deixam-as-criancas-em-situacao-de-trauma-deslocamento-e-inseguranca-alimentar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Juliana Stroebel]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Sep 2026 13:20:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Desastre]]></category>
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		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto as famílias buscam refúgio, as crianças mais novas da Venezuela enfrentam medo, perturbação de suas rotinas e perda da segurança alimentar básica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>Para os pequenos sobreviventes, as consequências dos terremotos são tanto físicas quanto emocionais</em></big></p><div style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-17-at-2.56.41-PM.webp" alt="Ilustração de uma criança brincando com conjuntos de Lego quebrados, imitando as rachaduras causadas pelo terremoto." width="1080" height="690" /><p class="wp-caption-text">Ilustração de Omarela Depablos, 2026. Usada sob permissão.</p></div>
<p data-start="0" data-end="279"><em>Este artigo faz parte da Cobertura Especial <a href="https://globalvoices.org/special/inside-venezuelas-earthquake-disaster/">“Por dentro do desastre causado pelo terremoto na Venezuela”</a>, na qual analisamos as consequências dos terremotos, compartilhamos relatos diretamente do local e exploramos o impacto humano, os esforços de recuperação e os desafios enfrentados pelas comunidades afetadas. Os nomes das crianças foram alterados para garantir sua proteção.</em></p>
<p data-start="0" data-end="279"><em data-start="4222" data-end="4381" data-is-last-node="">Esta reportagem foi produzida com o apoio da <a href="https://movingmindsalliance.org/">Moving Minds Alliance</a> (MMA) por meio do Fundo de Reportagens de Defesa da Causa “Reporters for Early Age Children in Crisis” (REACH).</em></p>
<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="0" data-end="279">“Por que a Terra está zangada com as pessoas?”, pergunta Elyas, de cinco anos, à avó, enquanto está deitado no meio de um labirinto de beliches montados sob uma barraca branca em um complexo esportivo em La Guaira, na Venezuela. Sua família não tem a resposta para uma pergunta tão profunda.</p>
<p data-start="281" data-end="526">O <a href="https://globalvoices.org/special/inside-venezuelas-earthquake-disaster/">duplo terremoto de 24 de junho</a> destruiu parte da cidade onde ele cresceu. Dezenas de edifícios que ele conhecia agora são pilhas de escombros. Enquanto isso, outros prédios que permanecem de pé, como esqueletos rachados, ameaçam desabar a qualquer momento.</p>
<p data-start="528" data-end="779">A família de Elyas está preocupada com a precisão com que o menino descreve a queda de um muro de dois andares sobre as costas do pai e a amputação da mão da avó. “Tentamos distraí-lo, mas ele começa a falar sobre isso por conta própria e faz todo tipo de pergunta”, diz sua mãe, Sandra.</p>
<p data-start="781" data-end="1074">Na nova rotina da criança, a chuva não é mais apenas água caindo do céu. A cada tempestade, ele antecipa o aviso da mãe de que “a terra vai tremer de novo”. <span style="font-size: 1.25rem;">Segundo ela, o estrondo dos trovões faz o menino lembrar do som que destruiu sua casa em Punta de Mulatos, em La Guaira, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://globalvoices.org/2026/07/15/why-venezuelas-earthquakes-were-so-devastating-geology-vulnerability-and-years-of-structural-neglect/" target="_blank" rel="noopener">a região mais devastada</a><span style="font-size: 1.25rem;"> entre os seis estados ao longo da costa norte da Venezuela afetados pelos terremotos.</span></p>
<p data-start="1076" data-end="1277">“Ele ouve um avião e fica com medo; ouve um trovão e fica com medo [&#8230;] teve um evento com o Mickey Mouse e, quando dispararam a pistola de confete, fez ‘Pow!’ e ele começou a correr.”</p>
<div class="factbox">
<h4 data-start="1076" data-end="1277">Leia mais: <a title="Venezuela earthquakes reveal a child protection system unprepared for disaster" href="https://globalvoices.org/2026/07/17/venezuela-earthquakes-reveal-a-child-protection-system-unprepared-for-disaster/" rel="bookmark">Terremotos na Venezuela revelam que sistema de proteção infantil não estava preparado para desastres</a></h4>
</div>
<p data-start="1279" data-end="1651">Janet Guerra, psicóloga da Universidade Católica Andrés Bello e especialista em desenvolvimento infantil, explica que, embora as crianças, nos primeiros anos de vida, não processem esses eventos de forma lógica, eles ficam “gravados no corpo”. O período entre zero e cinco anos de idade, fundamental para o crescimento biológico, é igualmente essencial para o desenvolvimento da psique.</p>
<p data-start="1653" data-end="1811">“Se esse medo não for controlado, a criança pode desenvolver um ciclo de paralisia ou desregulação emocional diante de eventos estressantes no futuro”, alerta Guerra, observando que essa consequência pode se estender até a idade adulta, quando a pessoa reagirá sem compreender racionalmente a origem de seu desconforto.</p>
<p data-start="1959" data-end="2144" data-is-last-node="" data-is-only-node="">Segundo a UNICEF, cerca de 3,9 milhões de crianças vivem em áreas afetadas pelos terremotos, e centenas de milhares delas precisam urgentemente de moradia, alimentação e apoio psicológico.</p>
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<h3 class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="0" data-end="21">As emoções que as crianças não conseguem nomear</h3>
<p data-start="23" data-end="283">No celular, Elyas e sua mãe veem fotos e vídeos de como era a vida deles antes do desastre: o último jantar de Natal, a festa de 15 anos do primo dele e quando pintaram a casa que agora temem voltar. É difícil para Elyas ficar parado. Logo ele se levanta de um salto, empurra a cadeira de rodas do pai e corre pela grama artificial com outros meninos e meninas.</p>
<p data-start="438" data-end="724">Desde que chegou ao acampamento, ele ficou mais “inquieto” e “terrível”. Às vezes, dizem seus pais, ele simplesmente “não dá ouvidos a nada”. De acordo com os especialistas consultados, esse comportamento é apenas uma das formas pelas quais as crianças expressam emoções que não conseguem ou não sabem nomear.</p>
<p data-start="726" data-end="1294">Nos abrigos espalhados por Caracas e La Guaira, algumas mães, pais e cuidadores dizem que seus filhos e filhas “não sabem” ou “não entendem” o que está acontecendo porque “são muito pequenos”. Porém, Argelia Escalona, assistente social do <a href="https://cecodap.org/">Cecodap</a>, desmistifica essa ideia: “Eles entendem, sentem e sofrem, mesmo os mais pequenos, de zero a dois anos de idade. Eles absorvem a tensão do ambiente ao seu redor e a expressam por meio do comportamento. Por isso, precisam de uma observação mais atenta, e os cuidadores [também] precisam cuidar de si mesmos.”</p>
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<h3 data-start="1508" data-end="1784">O custo oculto de uma rotina interrompida</h3>
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<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="24" data-end="318">A poucos metros de Elyas, sentadas em um colchão fino sem lençóis, duas irmãs, Daniela, de seis anos, e Albany, de um ano, choram juntas. A menina mais velha não consegue tirar os olhos das próprias mãos: uma travessura com um tubo de cola deixou-as vermelhas e irritadas. O choro da bebê é mais difícil de entender.</p>
<p data-start="320" data-end="640">Depois de aliviar a dor de Daniela com água e creme, a mãe delas, Claudia, amamenta Albany na tentativa de acalmá-la. Em questão de segundos, a bebê se afasta e começa a chorar novamente. Sua angústia se deve à ausência de sua principal fonte de alimentação: a mamadeira.</p>
<div class="factbox">
<h4 data-start="320" data-end="640">Leia mais: <a title="More than a month after Venezuela’s earthquakes: ‘I’m not leaving here until my son is found’" href="https://globalvoices.org/2026/08/11/more-than-a-month-after-venezuelas-earthquakes-im-not-leaving-here-until-my-son-is-found/" rel="bookmark">Mais de um mês após os terremotos na Venezuela: “Não vou sair daqui até que meu filho seja encontrado”</a></h4>
</div>
<p data-start="642" data-end="905">“Aqui, ela não tem seu leite, seu mingau de aveia nem seu fororo [uma bebida à base de milho]. Às vezes, eu a amamento, outras vezes dou a ela comida do refeitório, mas ela tem tido dificuldade para se acostumar com isso. É por isso que ela está assim: chorando o tempo todo”, diz ela.</p>
<p data-start="907" data-end="1324">De acordo com Marianella Herrera, nutricionista da <a href="https://www.fundacionbengoa.org/">Fundação Bengoa</a>, essa é uma reação esperada à interrupção da rotina da criança. Em situações de emergência, os abrigos e acampamentos temporários do país dependem da disponibilidade de suprimentos, o que significa que os alimentos servidos nas cozinhas comunitárias, como arroz, feijão preto ou arepas, costumam ter prioridade em relação às necessidades nutricionais específicas da primeira infância.</p>
<p data-start="1326" data-end="1747">Antes do terremoto, a segurança alimentar entre as crianças na Venezuela já era alarmante, com a desnutrição infantil começando a se agravar em 2016 como consequência da crise humanitária. O <a href="https://caritasvenezuela.org/caritas-venezuela-informe-gestion-2024-cxxiii-asamblea-obispos/">último comunicado</a> da Cáritas Venezuela, de março de 2024, indica que, em 67% das comunidades monitoradas no país, a desnutrição aguda, moderada e grave entre crianças menores de cinco anos ultrapassa os níveis de alerta sanitário.</p>
<p data-start="1749" data-end="2046">A tragédia dos dois terremotos também revelou que as agências estatais de proteção estavam “gravemente enfraquecidas e com recursos insuficientes [&#8230;] sem orçamento, meios de transporte ou assistentes sociais”, denuncia Gloria Perdomo, da <a href="https://www.redhnna.org/noticias/infancia-incierta-el-reto-de-vivir-en-venezuela">Redhnna</a>. Essa lacuna é agravada pelos cortes da ajuda internacional e as restrições às ONGs impostas pelo governo venezuelano.</p>
<p data-start="2048" data-end="2448">Como resultado, o alimento que antes chegava em um horário fixo agora depende da logística do abrigo em que a família estiver hospedada, prejudicando a transição de cada bebê para a alimentação sólida. “Se um menino ou uma menina ainda não tiver feito a transição completa para comer à mesa familiar, sua situação nutricional se torna crítica quando é impossível oferecer refeições adaptadas em meio à assistência em massa”, explica Herrera.</p>
<p data-start="2450" data-end="2605">Essa perturbação também afeta a segurança emocional da criança, acrescenta Guerra, pois rompe a rotina que proporcionava ordem e tranquilidade à psique da criança.</p>
<p data-start="2607" data-end="2829">Claudia embala seu bebê nos braços enquanto espera na fila para receber uma sacola de alimentos. Ela olha ao redor com um suspiro de desconfiança: “Dizem que estão dando casas em Caracas. É longe, mas queremos ir para lá”. No momento, ela e sua família dependem do acampamento porque a perda de sua casa também comprometeu a segurança alimentar de suas filhas. Na pior das hipóteses, isso poderia resultar em desnutrição para seu bebê, algo que ela já passou com a filha mais velha, que tem enfrentado oscilações de peso e altura desde o primeiro ano de vida.</p>
<p data-start="3483" data-end="3769">Claudia olha para a comida na sacola que acabou de receber. Ela tira compotas de frutas, biscoitos e tortilhas de milho, entre outras coisas, mas não há leite, fórmula infantil nem mingau de aveia. Ela acredita que, com o passar dos dias, o bebê vai se acostumando aos poucos com a comida do abrigo ou com a amamentação. Ao lado dela, Daniela saboreia um biscoito e pergunta quando o caminhão virá levá-las para Caracas. Assim como a mãe, ela acredita que, em um novo abrigo, terão a chance de encontrar um novo lar.</p>
</div>
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</div>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/omarela-depablos/' class='user-link'>Omarela Depablos</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/juliana-stroebel/' class='user-link'>Juliana Stroebel</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/08/28/venezuelas-earthquakes-leave-children-facing-trauma-displacement-and-food-insecurity/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Dos “indígenas” aos cidadãos: a longa travessia dos africanos de Moçambique</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/09/17/dos-indigenas-aos-cidadaos-a-longa-travessia-dos-africanos-de-mocambique/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tirso Sitoe]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Sep 2026 05:49:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África Subsaariana]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia Cidadã]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Português]]></category>
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					<description><![CDATA[A palavra "indígena" pertence, hoje, sobretudo à história. "Moçambicano" é a palavra que nasceu da nova soberania. Mas compreender o significado dessa cidadania exige recordar a trajetória que a precedeu.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>De “indígena” à conquista da cidadania: a história de resistência, transformação e direitos em Moçambique.</em></big></p><div id="attachment_857421" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-857421" class="wp-image-857421 size-large" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/pexels-speakmediauganda-27471152-800x533.jpg" alt="Grupo de mulheres tribais em trajes tradicionais ao ar livre" width="800" height="533" /><p id="caption-attachment-857421" class="wp-caption-text"><a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/panorama-vista-paisagem-moda-27471152/">Foto</a> tirada pela Speak Media Uganda. Este arquivo está licenciado sob a licença <a href="https://www.pexels.com/">Pexels</a>.</p></div>
<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Mo%C3%A7ambique"><span style="font-weight: 400;">Durante o colonialismo português</span></a><span style="font-weight: 400;">, a palavra </span>“<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%ADgenas">indígena</a>”<span style="font-weight: 400;"> não era apenas, uma descrição da população africana de Moçambique. Era uma categoria jurídica que determinava direitos, deveres e possibilidades de vida. Para os africanos do Sul de Moçambique — incluindo comunidades como os </span><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Ronga_language"><span style="font-weight: 400;">Ronga</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.changana.info/about-changana/"><span style="font-weight: 400;">Changana</span></a><span style="font-weight: 400;"> e outras populações da região — a experiência colonial foi marcada por uma profunda desigualdade perante o Estado. Ser africano e nascer em Moçambique não significava, necessariamente, ser tratado como cidadão com os mesmos direitos que um europeu.</span></p>
<h3><b>Uma cidadania dividida</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O sistema colonial português estabeleceu uma distinção entre os chamados </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%ADgenas"><span style="font-weight: 400;">indígenas</span></a><span style="font-weight: 400;">, os </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Assimilado"><span style="font-weight: 400;">assimilados</span></a><span style="font-weight: 400;"> e os </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Portugueses"><span style="font-weight: 400;">cidadãos portugueses</span></a><span style="font-weight: 400;">. A maioria da população africana permanecia na categoria de “indígena”. O acesso à educação formal, ao emprego qualificado, à administração pública e a outras oportunidades era muito mais limitado. A educação era particularmente reveladora dessa desigualdade. Enquanto os </span><a href="https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/001132557901100103"><span style="font-weight: 400;">filhos dos colonos tinham acesso mais fácil ao sistema escolar formal</span></a><span style="font-weight: 400;">, para as populações africanas existia uma estrutura educativa diferenciada, que procurava, em grande medida, prepará-las para ocupar posições subordinadas na </span><a href="https://guerracolonial.pt/1964-tres-teatros-de-operacoes/economia-de-mocambique/"><span style="font-weight: 400;">economia colonial</span></a><span style="font-weight: 400;">. A escola não era apenas um lugar de aprendizagem. Era também um instrumento de organização social.</span></p>
<h3><b>Trabalho, impostos e mobilidade</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">No campo, a vida das populações indígenas era condicionada por impostos, obrigações laborais e pelas necessidades da economia colonial. </span><a href="https://www.ces.uc.pt/emancipa/gen/mozambique.html"><span style="font-weight: 400;">No Sul de Moçambique</span></a><span style="font-weight: 400;">, esta realidade ganhou uma dimensão particular devido à proximidade da </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81frica_do_Sul"><span style="font-weight: 400;">África do Sul</span></a><span style="font-weight: 400;">. Durante décadas, milhares de homens atravessaram a fronteira para trabalhar nas minas sul-africanas. Os rendimentos enviados para as famílias tornaram-se uma componente importante da economia doméstica de muitas comunidades. A migração laboral não era, portanto, apenas uma escolha individual. Era parte de um sistema económico regional no qual o trabalho sustentava simultaneamente as famílias moçambicanas e a economia mineira sul-africana.</span></p>
<h3><b>A terra e a autoridade</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A desigualdade colonial também se manifestava na relação com a terra. As comunidades africanas tinham formas próprias de organização e utilização da terra, mas essas formas de posse e autoridade estavam subordinadas ao poder colonial. O Estado colonial podia definir territórios, reconhecer ou substituir autoridades locais e reorganizar o uso da terra segundo os interesses da administração e da economia colonial. Assim, o </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Colonialismo"><span style="font-weight: 400;">colonialismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> não controlava apenas as pessoas. Controlava também o espaço onde essas pessoas viviam e trabalhavam.</span></p>
<h3><b>1961: o fim do “indígena” no papel</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1961, Portugal aboliu formalmente o Estatuto do Indigenato. Foi uma mudança jurídica importante. A distinção formal entre indígenas e não indígenas foi eliminada e os habitantes das </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Col%C3%B3nia"><span style="font-weight: 400;">colônias</span></a><span style="font-weight: 400;"> passaram a ser considerados cidadãos portugueses. Mas a igualdade legal não produziu imediatamente, igualdade social. Décadas de exclusão da educação, de desigualdade económica e de discriminação não poderiam desaparecer simplesmente porque uma lei mudou. Para muitos africanos, a experiência quotidiana continuou marcada por profundas diferenças de poder e oportunidade. A palavra </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%ADgenas"><span style="font-weight: 400;">indígena</span></a><span style="font-weight: 400;"> podia desaparecer dos documentos, mas as estruturas sociais que haviam sido construídas em torno dela, permaneciam.</span></p>
<h3><b>1975: a transformação em cidadãos de um país independente</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A verdadeira ruptura ocorreu com a independência de Moçambique, em 25 de Junho de 1975. Pela primeira vez, a população africana deixou de estar juridicamente subordinada a um Estado colonial e passou a constituir a maioria política de um Estado soberano. </span><a href="https://citizenshiprightsafrica.org/en/mozambique-decreto-no-588-regulamenta-a-lei-da-nacionalidade/"><span style="font-weight: 400;">A nova legislação da nacionalidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> procurou estabelecer, quem era moçambicano e criar uma comunidade nacional baseada na cidadania, e não nas categorias coloniais. Para os antigos indígenas, esta transformação tinha um significado profundo. A pessoa que havia sido classificada pelo Estado colonial como </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%ADgenas"><span style="font-weight: 400;">indígena</span></a><span style="font-weight: 400;"> passou a ser reconhecida como moçambicana. Não era apenas uma mudança de nome. Era uma mudança de soberania.</span></p>
<h3><b>A liberdade política não eliminou a desigualdade</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A independência não apagou as consequências econômicas e sociais do colonialismo. </span><a href="https://www.redalyc.org/journal/1931/193157941045/html/"><span style="font-weight: 400;">Moçambique herdou uma população maioritariamente rural</span></a><span style="font-weight: 400;">, com baixos níveis de escolarização e uma enorme falta de quadros técnicos. O novo Estado enfrentou ainda, uma economia profundamente dependente das estruturas herdadas do período colonial. Assim, os antigos indígenas conquistaram uma nova posição jurídica e política, mas continuaram a viver, em muitos casos, em condições materiais muito difíceis. A cidadania foi conquistada mais rapidamente do que a igualdade económica.</span></p>
<h3><b>De “indígenas” a moçambicanos</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A história dos indígenas de Moçambique pode, portanto, ser vista como uma longa passagem entre três momentos. Primeiro, a subordinação colonial</span><b>,</b><span style="font-weight: 400;"> em que a maioria africana era governada através de uma categoria jurídica, que limitava os seus direitos. Depois, a igualdade formal de 1961</span><b>,</b><span style="font-weight: 400;"> que aboliu o estatuto do indígena, mas não eliminou as estruturas sociais herdadas. Finalmente, </span><b>a </b><span style="font-weight: 400;">independência de 1975, quando a população passou a ser politicamente soberana, no seu próprio país. Mas existe uma pergunta que permanece. Se a independência transformou os indígenas em cidadãos iguais perante a lei, até que ponto as desigualdades criadas durante o colonialismo foram realmente desfeitas? Essa pergunta continua relevante porque muitas das diferenças no acesso à educação, à riqueza, à terra e às oportunidades não nasceram depois da independência. Têm raízes muito mais antigas.</span></p>
<h3><b>A cidadania como conquista</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A história dos indígenas não deve ser contada apenas como uma história de sofrimento colonial. É também uma história de resistência, adaptação e transformação. As comunidades africanas preservaram línguas, culturas, formas de organização familiar, práticas religiosas e sistemas de solidariedade apesar das tentativas coloniais de reorganizar a sociedade. E quando chegou a independência, foram essas mesmas populações que constituíram o núcleo da nova cidadania moçambicana. A palavra </span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ind%C3%ADgenas"><span style="font-weight: 400;">indígena</span></a><span style="font-weight: 400;"> pertence hoje, sobretudo, à história. “</span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Mo%C3%A7ambicanos"><span style="font-weight: 400;">Moçambicano</span></a><span style="font-weight: 400;">” é a palavra que nasceu da soberania. Mas compreender o significado dessa cidadania, exige lembrar o percurso que veio antes: o tempo em que a maioria dos habitantes de Moçambique vivia na sua própria terra sem possuir os mesmos direitos que aqueles que governavam o território. A independência não criou a história dos moçambicanos e deu-lhes finalmente, um Estado que era seu.</span></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Escrito por</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/tirso-sitoe/' class='user-link'>Tirso Sitoe</a></div></div></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>A crise de fertilidade na China é prova do seu sucesso na modernização</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/09/15/a-crise-de-fertilidade-na-china-e-prova-do-seu-sucesso-na-modernizacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernando Baumgarten]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2026 16:41:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Chinês]]></category>
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					<description><![CDATA[As filhas únicas da China foram criadas para buscar educação, independência e oportunidades. Agora, essas mesmas qualidades são cada vez mais vistas como obstáculos ao casamento e à maternidade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>As filhas únicas do país tornaram-se exatamente o que foram criadas para ser</em></big></p><div id="attachment_857305" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-857305" class="wp-image-source-857305 size-large" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/f908405a719c6c61c5269ab5e511eb39-800x450.webp" alt="A poster for a popular Chinese drama, ‘Be Yourself’" width="800" height="450" /><p id="caption-attachment-857305" class="wp-caption-text"><span dir="auto">Um pôster do popular drama chinês &#8220;Be Yourself&#8221; (機智的上半場 2023), que retrata quatro mulheres independentes crescendo na China contemporânea. Imagem da </span><a href="https://weibo.com/7486936822/KtZOHgI0n"><span dir="auto">conta oficial do C-drama no Weibo,</span></a> usada com permissão<span dir="auto">. </span></p></div>
<p><span dir="auto">Grace atendeu o telefone às 22h30, horário de Pequim, após mais uma jornada de trabalho de 12 horas.</span></p>
<p><span dir="auto">“Não posso confiar em mais ninguém”, ela me disse.</span></p>
<p>Suas palavras poderiam quase ser uma fala de “Be Yourself”, uma popular série chinesa sobre quatro jovens mulheres que lidam com trabalho, relacionamentos e a vida adulta do jeito que bem entendem. Nos últimos anos, histórias de mulheres independentes têm ganhado cada vez mais destaque na cultura popular chinesa, encontrando eco em uma geração de mulheres cujas vidas foram moldadas por maior acesso à educação, às oportunidades profissionais e à mobilidade.</p>
<p><span dir="auto">Uma semana depois, Scarlett estava sentada em um lounge de Manhattan bebendo chá quente de frutas. Tendo deixado um emprego na área de finanças em Hong Kong para fazer pós-graduação em Nova York, ela descreveu a independência de uma maneira diferente.</span></p>
<p><span dir="auto">“Posso ir embora a qualquer momento.”</span></p>
<p>Outra mulher que entrevistei, Iris, estava no Havaí, passando o tempo até que seu novo emprego começasse.</p>
<p>Essas três mulheres fazem parte da geração da política do filho único da China. Cada uma delas é filha única. Todas cresceram sob intenso investimento dos pais e com forte ênfase no sucesso. Embora suas vidas pareçam diferentes, uma herança comum as une: foram criadas para se verem como as principais protagonistas de suas próprias vidas.</p>
<p>As histórias delas apontam para uma contradição no cerne do debate demográfico na China.</p>
<p><span dir="auto">A queda na taxa de natalidade na China é frequentemente discutida como consequência de pressões econômicas, mudanças de postura em relação ao casamento ou do aumento dos custos de criação de filhos. Mas essas explicações ignoram uma transformação mais profunda. As mulheres que a China agora espera que se casem mais cedo e tenham mais filhos são as mesmas que o país passou décadas incentivando a buscar educação, realizações, mobilidade e independência — expandindo suas opções de vida muito além das expectativas tradicionais.</span></p>
<p><span dir="auto">Em nenhum lugar essa contradição é mais evidente do que entre </span><a href="https://globalvoices.org/2026/06/06/the-daughters-who-were-raised-to-be-everything-under-chinas-one-child-policy/"><span dir="auto">as filhas únicas da China</span></a><span dir="auto">.</span></p>
<p>Durante décadas, o projeto de modernização da China dependeu da ampliação de oportunidades. Nas famílias urbanas moldadas pela <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADtica_do_filho_%C3%BAnico">política do filho único</a> (1979–2015), segundo a qual muitas famílias chinesas eram obrigadas a ter apenas um filho, as filhas passaram a ser o foco de um investimento parental extraordinário. Os pais dedicavam recursos à educação, à formação extracurricular e ao sucesso acadêmico. Muitos incentivavam suas filhas a buscar uma vida mais ambiciosa do que aquela disponível às gerações anteriores de mulheres.</p>
<p><span dir="auto">Segundo os critérios convencionais, este projeto foi bem-sucedido.</span></p>
<p>Atualmente, as mulheres representam <a href="https://www.stats.gov.cn/english/PressRelease/202512/t20251231_1962224.html">mais da metade dos estudantes universitários</a> na China e têm ingressado em profissões de elite em números sem precedentes. Durante anos, essa transformação foi celebrada como prova de progresso social.</p>
<p>Mas esse sucesso também gerou um dilema inesperado.</p>
<p><span dir="auto">As mesmas qualidades antes cultivadas como trunfos — ambição, educação, independência e mobilidade — são cada vez mais discutidas como obstáculos ao casamento e à maternidade. O vocabulário em torno da feminilidade mudou. As mulheres são cada vez mais avaliadas não como estudantes, profissionais ou indivíduos, mas como agentes demográficos dos quais se espera que resolvam uma crise de fertilidade.</span></p>
<p><span dir="auto">As mulheres com quem conversei raramente descrevem suas escolhas em termos ideológicos. Elas falam sobre autonomia, trabalho significativo e a recusa de organizar a vida inteiramente em torno de expectativas externas.</span></p>
<p><span dir="auto">Em seus relatos, a independência assume formas diferentes: para Grace, a sobrevivência é moldada por sua carga de trabalho; para Scarlett, a segurança vem da flexibilidade financeira; para Iris, a mobilidade e a incerteza lhe dão propósito.</span></p>
<p><span dir="auto">A história de Iris ajuda a explicar de onde veio essa expectativa de autonomia.</span></p>
<p><span dir="auto">Sua infância foi repleta de aulas de piano, natação e programas de enriquecimento voltados para ampliar suas oportunidades futuras. Anos depois, ela passou a ver esses investimentos de forma diferente. Sua mãe não estava simplesmente pagando por habilidades. Ela estava investindo na capacidade de buscar oportunidades onde quer que surgissem.</span></p>
<p>Como muitos pais que viviam nas cidades durante os anos de rápido crescimento econômico da China, a mãe de Iris acreditava que um futuro melhor poderia ser construído com planejamento, educação e esforço. Estudar no exterior, alcançar sucesso profissional e mudar de cidade ou de país não eram sonhos distantes; eram metas a serem alcançadas.</p>
<p>No entanto, quando essas possibilidades se tornaram reais, muitos pais começaram a hesitar. As mesmas famílias que incentivavam as filhas a explorar o mundo muitas vezes esperavam que elas, no fim das contas, ficassem perto de casa, se casassem dentro de um prazo habitual e ajudassem a manter a continuidade da família.</p>
<p>Em outras palavras, muitas filhas únicas seguiram os ensinamentos que receberam. A tensão reside no fato de que esses ensinamentos levaram a um desfecho que seus pais, e talvez o próprio Estado, não previram totalmente.</p>
<p>O que muitas vezes fica de fora das discussões sobre o declínio da fertilidade na China é o quanto a expectativa de autonomia foi internalizada. A educação não apenas ampliou as oportunidades; ela ampliou também o leque de vidas imagináveis, transformando o casamento e a maternidade de destinos pré-estabelecidos em escolhas que as mulheres podem avaliar por si mesmas. À medida que as mulheres conquistam maior independência educacional, econômica e social, a maternidade pode deixar de ser uma obrigação implícita para se tornar, cada vez mais, uma questão de escolha individual e de direitos reprodutivos. <a href="https://equalityrights.hku.hk/post/mothersdayfeature"><span dir="auto">Pesquisas recentes da Universidade de Hong Kong</span></a><span dir="auto"> sobre as atitudes das mulheres chinesas em relação ao casamento e à maternidade apontam, de forma semelhante, para uma mudança mais ampla, na qual o casamento não é mais visto como condição necessária para que uma mulher constitua família.</span></p>
<p>Durante décadas, parecia possível um acordo implícito: as filhas receberiam investimentos e oportunidades sem precedentes, e o casamento e o cuidado com a família viriam naturalmente depois.</p>
<p>Mas a primeira parte desse acordo mudou as mulheres de forma mais profunda do que muitos esperavam.</p>
<p><span dir="auto">As mulheres que entrevistei não rejeitam o casamento ou a maternidade. A maioria ainda imagina essas possibilidades. O que elas rejeitam é a suposição de que esses resultados devam automaticamente ter prioridade sobre qualquer outra aspiração.</span></p>
<p><span dir="auto">As filhas únicas da China não rejeitaram o futuro que lhes foi oferecido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Elas mergulharam de cabeça. </span></p>
<p><span dir="auto">A crise de fertilidade do país pode ser um dos sinais mais claros de que elas tiveram sucesso.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/lina-ma/' class='user-link'>Lina Ma</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/fernando-binda-baumgarten/' class='user-link'>Fernando Baumgarten</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/08/30/chinas-fertility-crisis-is-evidence-of-its-modernization-success/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Como a IA é usada para influenciar eleições pelo mundo</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/09/07/como-a-ia-e-usada-para-influenciar-eleicoes-pelo-mundo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Doralice Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Sep 2026 02:37:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África Subsaariana]]></category>
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					<description><![CDATA[Empresas que atuam na área de persuasão política testam o uso de IA em larga escala para descobrir como tornar os métodos tradicionais de influência mais baratos, rápidos, convincentes e automatizados]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>A IA ajuda as campanhas políticas a se tornarem mais eficazes para os candidatos de que você gosta — e para aqueles de que não gosta</em></big></p><div id="attachment_851126" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-851126" class="wp-image-source-851126 size-full" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/AI-Influence-on-elections-Tactical-Tech.webp" alt="Illustration depicting a dove, emails etc to show AI infludnce on elections by Tactical Tech, with visual elements from Yiorgos Bagakis and Alessandro Cripsta, used with permission." width="800" height="450" /><p id="caption-attachment-851126" class="wp-caption-text">Ilustração: Tactical Tech, com elementos visuais de Yiorgos Bagakis e Alessandro Cripsta, usada sob permissão</p></div>
<p><em>Esta publicação faz parte da série de destaque de abril de 2026 da Global Voices, intitulada <a href="https://globalvoices.org/special/human-perspectives-on-ai/">“Perspectivas humanas sobre a IA”</a>. A série apresenta reflexões sobre como a IA vem sendo utilizada nos países do Sul Global, como seu uso e sua implementação estão afetando diferentes comunidades, o que esse experimento de IA poderia significar para futuras gerações, entre outros aspectos. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação <a href="https://globalvoices.org/2026/04/03/support-our-first-global-voices-spotlight-issue-human-perspectives-on-ai/">aqui</a>.</em></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Este artigo foi escrito por  Safa Ghnaim em colaboração com o Goethe-Institut Brazil e <a href="https://datadetoxkit.org/en/ai/influence/">publicado originalmente</a> no <a href="https://datadetoxkit.org/">DataDetoxKit.org</a>. Uma versão editada é republicada pela Global Voices sob acordo de parceria.</span></i></p>
<p>Durante uma eleição, pode parecer que os candidatos políticos estão por toda parte, o tempo todo, falando sobre todos os assuntos que são importantes para você. Mas como os políticos e outros influenciadores parecem saber quais mensagens você quer ver e ouvir — e até mesmo quando e onde quer recebê-las?</p>
<p>O smartphone, na palma da sua mão, às vezes pode parecer uma bola de cristal. Mas, assim como um vidente charlatão usa pistas para dizer exatamente o que você quer ouvir, os partidos políticos podem utilizar seus dados pessoais para direcioná-lo às mensagens com maior probabilidade de persuadi-lo. <span style="font-size: 1.25rem;">Dados pessoais têm sido utilizados em eleições em todo o mundo, incluindo </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-chile/" target="_blank" rel="noopener">Chile</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://influenceindustry.org/en/highlights/data-politics-georgia/" target="_blank" rel="noopener">Geórgia</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://influenceindustry.org/en/highlights/highlight-india-case-studies/" target="_blank" rel="noopener">Índia</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-italy/" target="_blank" rel="noopener">Itália</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-kenya/" target="_blank" rel="noopener">Quênia</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-malaysia/" target="_blank" rel="noopener">Malásia</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-nigeria/" target="_blank" rel="noopener">Nigéria</a><span style="font-size: 1.25rem;"> e </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/overview-usa/" target="_blank" rel="noopener">Estados Unidos</a><span style="font-size: 1.25rem;">.</span></p>
<p>Atualmente, as empresas estão testando ferramentas de inteligência artificial (IA) para ajudar as campanhas a tornar suas mensagens e estratégias de direcionamento de público ainda mais eficazes, convincentes e persistentes — tanto para os candidatos de quem você gosta quanto para aqueles de quem não gosta.</p>
<h3>Quem tem o poder de influenciar?</h3>
<p>Estamos constantemente recebendo mensagens, estímulos e sugestões de forma direta ou indireta, <a href="https://theglassroom.org/pt/what-the-future-wants/exhibits/capaz-de-largar-o-celular">dentro</a> e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=UrkPC81_QfU">fora</a> do ambiente digital, capazes de mudar nossas opiniões,  comportamentos e ações. Na verdade, a influência pode ser exercida de muitas maneiras e por diferentes meios; isso <a href="https://visualisingadvocacy.org/content/visualising-information-advocacy.html">não é necessariamente ruim</a>, mas é importante estar ciente disso.</p>
<p>Embora o termo “influenciador” seja geralmente usado para se referir a personalidades das redes sociais com muitos seguidores (como no Instagram, TikTok e YouTube), muitas outras pessoas também têm o poder de influenciar. Entre elas também estão as figuras públicas, como celebridades e apresentadores de notícias. Seu poder de influência pode ser percebido na escolha de palavras, roupas e imagens, bem como na seleção das histórias às quais dão prioridade e atenção.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">A “influência” não ocorre apenas nas redes sociais como Instagram e TikTok, mas também por meio da exibição dos </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/search-influence/" target="_blank" rel="noopener">principais resultados em sites de busca</a><span style="font-size: 1.25rem;"> como o Google, nos sistemas de recomendação que promovem </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.nytimes.com/interactive/2019/06/08/technology/youtube-radical.html" target="_blank" rel="noopener">o próximo vídeo</a><span style="font-size: 1.25rem;"> ou na publicação e no destaque de determinadas manchetes pelos meios de comunicação.</span> Essas mensagens também podem ser divulgadas em aplicativos de mensagens populares, como o WhatsApp.</p>
<p>Um político também é um tipo de “influenciador” que pode exercer grande persuasão mesmo quando está concorrendo a um cargo público. As campanhas políticas investem grandes quantias de dinheiro para alcançar potenciais eleitores, tanto que existe toda uma <a href="https://influenceindustry.org/">indústria</a> dedicada a ajudar a identificar e direcionar mensagens a grupos específicos. Na verdade, há <a href="https://influenceindustry.org/en/explorer/companies/">mais de 500 empresas registradas</a> que atuam no campo da persuasão política impulsionada pela tecnologia. Isso significa que elas vendem seus serviços a políticos e campanhas políticas, alegando que podem ajudar a influenciar as suas opiniões — e o seu voto.</p>
<p>As empresas que atuam na área de persuasão política atualmente estão testando o uso de IA em larga escala para descobrir como tornar os métodos tradicionais de influência mais baratos, rápidos, convincentes e automatizados. Isso torna esse trabalho ainda mais obscuro, menos transparente e mais difícil de regulamentar. A atividade está em plena expansão, e as recompensas financeiras são enormes.</p>
<h3>Uso de IA para chamar a atenção das pessoas</h3>
<p>Talvez não seja novidade que as mesmas técnicas usadas para vender produtos também sejam <a href="https://ourdataourselves.tacticaltech.org/posts/inside-the-influence-industry/">utilizadas para conquistar seu voto</a>. Mas você pode se surpreender com a quantidade de métodos digitais empregados para isso, pois são difíceis de identificar. As informações podem ser obtidas a partir dos termos digitados em mecanismos de busca, como o <a href="https://www.consumerreports.org/electronics-computers/privacy/how-to-use-google-privacy-settings-a7718818150/">Google</a> ou o <a href="https://thedroidguy.com/comparing-bing-privacy-policies-with-other-search-engines-best-practices-1263177">Bing</a>. <span style="font-size: 1.25rem;">Com ferramentas como o ChatGPT, até mesmo </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://theconversation.com/chatgpt-is-a-data-privacy-nightmare-if-youve-ever-posted-online-you-ought-to-be-concerned-199283" target="_blank" rel="noopener">termos de busca mais avançados</a><span style="font-size: 1.25rem;"> e detalhados podem revelar mais informações sobre o seu perfil e o que é importante para você.</span></p>
<p>As empresas que atuam na influência política vêm desenvolvendo <a href="https://influenceindustry.org/en/explorer/case-studies/campaign-conference-2024/">novas técnicas</a> para persuadir eleitores, arrecadar fundos e incentivar a participação nas eleições. Agora, com a IA, há muito mais possibilidades de otimização. A chamada “indústria da influência” dispõe de <a href="https://influenceindustry.org/en/explorer/">inúmeros métodos</a> e ferramentas de persuasão baseados em inteligência artificial, que se tornam cada vez mais eficazes e numerosos, alcançando milhões de pessoas. Ao conhecer alguns desses métodos e se familiarizar com eles, você poderá compreender melhor como a indústria da influência realiza esse trabalho em larga escala.</p>
<p>Os métodos de persuasão política mudam e evoluem à medida que as tecnologias avançam. A seguir, apresentamos apenas alguns deles para você conhecer.</p>
<p><span style="box-sizing: border-box;"><strong>A IA pode ser usada para criar conteúdos direcionados especificamente a você: </strong>Em vez de alcançar grandes grupos de pessoas com base em características em comum, as ferramentas baseadas em IA permitem <a href="https://blogs.lse.ac.uk/politicsandpolicy/campaign-microtargeting-and-ai-can-jeopardize-democracy/" target="_blank" rel="noopener">microdirecionar indivíduos automaticamente</a>, de forma mais relevante e próxima da realidade de cada pessoa.</span></p>
<p><b>A IA pode ser usada para realizar tarefas que antes cabiam aos partidos políticos: </b><span style="font-weight: 400;">Algumas empresas oferecem às legendas políticas ferramentas de IA capazes de <a href="https://news.sky.com/story/israel-president-uses-chatgpt-artificial-intelligence-to-write-part-of-major-speech-12801304">escrever discursos</a> para candidatos, mensagens destinadas aos eleitores e até mesmo estratégias completas de campanha. Embora isso possa tornar a produção de mensagens mais “eficiente”, também suscita algumas preocupações, como a necessidade de supervisão humana dessas novas ferramentas e o potencial de interferência.</span></p>
<p><b>A IA pode ser usada para fazer um candidato parecer mais atraente, jovem e divertido: </b>Os <span style="font-weight: 400;">“avatares digitais” de um candidato podem ser criados a partir de uma pequena amostra de sua voz e imagem. Depois, podem ser usados para produzir mensagens personalizadas que se dirigem a um potencial eleitor pelo nome ou em seu idioma ou dialeto nativo. Essas mensagens geradas por IA podem ser tão convincentes que acabam confundindo os limites entre o político “real” e <a href="https://www.reuters.com/technology/generative-ai-faces-major-test-indonesia-holds-largest-election-since-boom-2024-02-08/">seu avatar</a>.</span></p>
<p>O que você acha do uso de IA por políticos para realizar seu trabalho e alcançar os eleitores? Que tipo de informação ou identificação você gostaria de ter para saber o que é real e o que foi produzido por IA?</p>
<h3>Ações de influênc(IA)</h3>
<p>O uso de plataformas de redes sociais e ferramentas de IA por candidatos políticos ou por suas equipes durante as campanhas não é apenas uma visão futurista — já é uma prática atual. O ano de 2024 foi importante para a política, com muitas eleições ao redor do mundo, e o uso de IA em campanhas políticas ganhou destaque nos noticiários. Nesse ano, diversos casos chamaram a atenção.</p>
<p>Um candidato ao Congresso dos Estados Unidos publicou em suas redes sociais um vídeo que dava a impressão de que o falecido Dr. Martin Luther King Jr. o apoiava — mas <a href="https://www.fox2detroit.com/news/michigan-gop-congressional-candidate-posts-deepfake-mlk-jr-endorsing-him">era uma clonagem de voz gerada por IA</a>, o que provocou muitas críticas. <span style="box-sizing: border-box;">Imagens geradas por <a href="https://www.theguardian.com/us-news/article/2024/aug/19/trump-ai-swift-harris-musk-deepfake-images" target="_blank" rel="noopener">IA da cantora americana Taylor Swift,</a> que manifestavam apoio à candidatura de Donald Trump à presidência, foram divulgadas por ele próprio.</span> Em outro caso, nos Estados Unidos, uma chamada telefônica automatizada gerada por IA que se fazia passar pelo presidente Joe Biden aconselhou milhares de eleitores a não votar nas eleições primárias. O episódio causou grande confusão até que <a href="https://edition.cnn.com/2024/02/06/tech/nh-ag-robocall-update/index.html">se revelou ser uma notícia falsa</a>.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">Embora o político paquistanês Imran Khan estivesse preso e impedido de concorrer a um cargo público, sua </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.nytimes.com/2024/02/11/world/asia/imran-khan-artificial-intelligence-pakistan.html" target="_blank" rel="noopener">equipe de campanha conseguiu usar imagens e áudios antigos,</a><span style="font-size: 1.25rem;"> com clonagem de voz, para criar a impressão de que ele estava fazendo discursos.</span> Os vídeos foram identificados como “voz de IA autorizada”. Não está claro se ele participou da elaboração ou revisão dos discursos. Nas eleições de 2024 na Indonésia, o uso de avatares digitais gerados por IA ganhou destaque, especialmente como forma de chamar a atenção dos eleitores mais jovens. O candidato Prabowo Subianto utilizou um <a href="https://www.abc.net.au/news/2023-12-21/indonesia-president-elections-youth-vote-social-media/103215328">avatar digital bonitinho</a> nas redes sociais, incluindo o TikTok, e conseguiu reformular completamente sua imagem pública e vencer a eleição presidencial. Você jamais imaginaria que ele havia sido acusado de cometer graves violações de direitos humanos.</p>
<p>Esses são apenas alguns exemplos de como a IA está moldando a influência política ao redor do mundo. O político da sua região já usou IA em alguma campanha?</p>
<h3>Não se deixe enganar pelas aparências</h3>
<p>Só porque um conteúdo criado por IA generativa parece e soa realista, isso não significa que seja verdadeiro. Se você encontrar algo on-line ou no seu feed que seja chocante, estranho ou especialmente fora do comum, é possível que ferramentas de IA generativa tenham sido usadas para criá-lo ou adulterá-lo, mesmo que isso seja difícil de perceber a olho nu.</p>
<p>Imagens, vídeos e textos on-line que despertam emoções intensas, como medo, repulsa, admiração, raiva e ansiedade <a href="https://www.ned.org/wp-content/uploads/2020/01/Demand-for-Deceit.pdf">têm maior probabilidade de viralizar</a>. Esse tipo de conteúdo, por despertar emoções fortes, também é uma maneira eficaz de obter cliques e disseminar desinformação — e as ferramentas de IA podem ajudar a ampliar ainda mais sua viralização. Preste atenção às suas próprias reações e encare esses sentimentos como um sinal de que você precisa de mais tempo para verificar se o que está vendo ou lendo é legítimo. Por exemplo, se você assistir a um vídeo de um candidato político que faz ou diz algo que desperte sua desconfiança, procure mais informações para verificar se o conteúdo é autêntico ou se já foi identificado como desinformação gerada por IA.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">Você pode recorrer a organizações internacionais, como a </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.poynter.org/ifcn/" target="_blank" rel="noopener">International Fact-Checking Network</a><span style="font-size: 1.25rem;"> (Rede Internacional para Verificação de Fatos), para descobrir quais fontes têm cuidado especial ao verificar as informações que publicam.</span> <span style="font-size: 1.25rem;">Na </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://ifcncodeofprinciples.poynter.org/signatories" target="_blank" rel="noopener">página de signatários</a><span style="font-size: 1.25rem;">, procure pelo seu país para verificar quais fontes estão na lista.</span></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/tacticaltech/' class='user-link'>Tactical Tech</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/doralice-silva/' class='user-link'>Doralice Silva</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/04/03/how-ai-is-used-to-influence-global-elections/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Passagens sem destino: refugiados haitianos são vítimas de golpes de viagem</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/29/passagens-sem-destino-refugiados-haitianos-sao-vitimas-de-golpes-de-viagem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mariana Amaral]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 00:59:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Caribe]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Haiti]]></category>
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		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
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		<category><![CDATA[Mídia Cidadã]]></category>
		<category><![CDATA[Migração e Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Refugiados]]></category>
		<category><![CDATA[Weblog]]></category>
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					<description><![CDATA[Nas redes sociais haitianas, quase toda semana aparecem depoimentos sobre agências de viagens fraudulentas. A maioria dessas agências cobra entre 3.500 e 5.000 dólares por viagens que na realidade nunca acontecem.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>O desespero continua levando muitos haitianos a buscar uma saída</em></big></p><div id="attachment_856015" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://www.canva.com/pro/"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856015" class="size-large wp-image-source-856015" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Haiti-Visa-800x600.jpg" alt="Feature image of Haitian flag and passport next to a visa application via Canva Pro. " width="800" height="600" /></a><p id="caption-attachment-856015" class="wp-caption-text">Imagem de capa via <a href="https://www.canva.com/pro/">Canva Pro</a>.</p></div>
<p><em>Este artigo faz parte da série Spotlight de julho de 2026 da Global Voices, intitulada <a href="https://globalvoices.org/special/statelessness-spotlight/">&#8220;Statelessness&#8221;</a>. A série oferece uma visão detalhada do problema da apatridia e como ela  limita a liberdade de circulação, as oportunidades educativas, o acesso político e muito mais. Você pode apoiar esta reportagem com uma <a href="https://es.globalvoices.org/2026/05/18/apoya-el-numero-especial-de-global-voices-diversidad-de-genero/">doação</a>.</em></p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">O setor de agências de viagens no Haiti, pouco a pouco, transformou-se no que muitos </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://gazettehaiti.com/node/3751#google_vignette" target="_blank" rel="noopener">descrevem</a><span style="font-size: 1.25rem;"> como uma indústria fraudulenta.</span> <span style="font-size: 1.25rem;">Embora as empresas de viagens legítimas existam há anos no país, à medida que as crises sociais, econômicas e políticas se aprofundaram, os cidadãos haitianos passaram a </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://apnews.com/article/covid-politics-travel-health-1a7f9658ba2435487c4499e07df86847" target="_blank" rel="noopener">buscar formas</a><span style="font-size: 1.25rem;"> de deixar o território.</span></p>
<p>Especialmente para os jovens, o país já não oferece um futuro promissor em decorrência de grupos armados que controlam áreas inteiras, do fechamento de empresas e do aumento do desemprego. Isso fez com que agências de viagens clandestinas proliferassem. Uma vez que obtêm lucro, muitas desaparecem tão rápido quanto apareceram, aproveitando-se da crescente insegurança na região.</p>
<p>Uma realidade similar <a href="https://dr1.com/news/2022/11/28/focus-on-visa-mafia-in-haiti/">ocorre</a> na vizinha República Dominicana, onde vive uma considerável comunidade haitiana, a maioria em situação irregular. <span style="box-sizing: border-box;">Devido à rigidez do sistema migratório dominicano <a href="https://2021-2025.state.gov/reports/2023-country-reports-on-human-rights-practices/dominican-republic/" target="_blank" rel="noopener">em relação aos haitianos</a>, muitos não podem trabalhar legalmente nem regularizar sua situação.</span> Por isso, dependem do apoio financeiro de familiares que moram no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Consequentemente, a República Dominicana costuma ser um destino temporário para quem busca oportunidades de emigrar para outros países.</p>
<p>Considerando que se trata de pessoas indocumentadas, a grande maioria dos haitianos <a href="https://vantbefinfo.com/republique-dominicaine-un-faux-consul-haitien-arrete-pour-escroquerie-de-visas-bresiliens/">enganados</a> por agências de viagens fraudulentas na República Dominicana nem mesmo pode ir a uma delegacia ou promotoria <a href="https://dr1.com/news/2022/12/12/government-does-not-respond-to-report-on-profiteering-from-visas-in-haiti/">para fazer uma denúncia</a>. Temem que procurar ajuda não produza resultados e que, como consequência, acabem sendo presos e deportados.</p>
<p>Essa situação suscitou todo um mercado em torno da migração, no qual pessoas sem escrúpulos se aproveitam de haitianos desesperados que buscam uma vida melhor no exterior. As agências de viagens fraudulentas fazem uma publicidade intensa no Facebook, TikTok e em outras redes sociais; algumas, inclusive, pagam influenciadores ou figuras públicas para promover seus serviços online, com o objetivo de gerar confiança.</p>
<p>Do ponto de vista administrativo, abrir uma agência de viagens no Haiti não é complicado, uma vez que a supervisão é deficiente. Embora existam agências autorizadas que operam legalmente no país, muitas se dedicam a explorar pessoas indefesas que tentam escapar da violência de gangues, da pobreza e da instabilidade. Como esse grupo demográfico geralmente não atende aos requisitos financeiros e administrativos exigidos pelos programas oficiais de migração, torna-se um alvo vulnerável a ofertas de viagens arriscadas e não regulamentadas.</p>
<p>Um dos casos mais comentados nos últimos tempos envolve Mackenson Dorilas, figura espiritual muito conhecida, chamada por todos de &#8220;profeta Mackenson&#8221;. Segundo informações, ele firmou um acordo publicitário com a agência de viagens Fidélité Tours e aparece em vídeos promocionais da empresa, incentivando o público a viajar para o Canadá, México e Brasil.</p>
<p>Durante um episódio do popular programa matutino &#8220;Se sa nou vle&#8221; (&#8220;Isso é o que queremos&#8221;), do canal <a href="https://www.youtube.com/@TEAMRUDYOFFICIEL">Team Rudy Officiel</a> no YouTube, o apresentador Rudy Thomas Sanon disse ter recebido queixas de várias supostas vítimas ligadas à Fidelité Tours.</p>
<p>Segundo os depoimentos apresentados no programa, as pessoas confiaram na agência porque o profeta Mackenson a promovia publicamente. Algumas vítimas explicaram que foram pessoalmente ao escritório da agência em <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A9tion-Ville">Pétion-Ville</a> e desembolsaram cerca de 4.000 dólares cada uma para organizar viagens para fora do Haiti.</p>
<p>No programa, Sanon declarou:</p>
<blockquote><p>Moun yo di mwen yo peye ajans la 4000 dola ameriken pou vwayaje ak yo Meksik. Ajans la pran 4000 dola ameriken nan men 80 moun, sa ki fè 320,000 dola ameriken, epi li disparèt. Lè moun yo ale nan biwo ajans la, li te fèmen, yo pa jwenn okenn moun.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p><span style="font-size: 1.25rem;">As pessoas contam que pagaram 4.000 dólares à agência para viajar ao México. A agência arrecadou 4.000 dólares de 80 pessoas, somando um total de 320.000 dólares, e logo desapareceu. Quando foram ao escritório da agência, estava fechada e não encontraram ninguém.</span></p></blockquote>
<p>Em outros casos, presume-se que agências fraudulentas emitem vistos falsos para os clientes, que geralmente só descobrem o golpe quando chegam ao aeroporto e a equipe da companhia aérea ou os agentes de imigração recusam os documentos. As reportagens publicadas nas mídias haitianas, como Le Nouvelliste e <a href="https://ayibopost.com/fake-us-visas-are-sold-by-prisoners-from-haitis-national-prison/">AyiboPost</a>, documentaram situações similares relacionadas com vistos falsos.</p>
<p><span style="box-sizing: border-box;">Por exemplo, o Consulado do Haiti em Montreal, no Canadá, <a href="https://gazettehaiti.com/node/3751#google_vignette" target="_blank" rel="noopener">emitiu um aviso</a> aos cidadãos haitianos informando que pessoas inescrupulosas estavam criando sites e páginas falsas no Facebook, utilizando os nomes do Consulado e do cônsul-geral.</span></p>
<p>Além disso, na República Dominicana as vítimas afirmam que entregaram dinheiro, passaportes e fotos de identificação às agências que prometiam oportunidades de viagem. Poucos dias depois, os números de telefone deixaram de funcionar e os escritórios foram abandonados de forma repentina. Nesses casos, as pessoas perderam suas economias e seus documentos oficiais.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">Durante a </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.youtube.com/watch?v=NMKmZzNRrXM" target="_blank" rel="noopener">transmissão de 9 de junho de 2026 do programa &#8220;Se sa nou vle&#8221;</a><span style="font-size: 1.25rem;">, o profeta Mackenson se defendeu e disse que o dono da agência, um pastor chamado Claudy Jean François, se apresentava como um empresário cristão sério.</span> Mackenson alegou que solicitou documentos legais e comprovantes de viagem antes de aceitar promover a empresa e de assinar o contrato de publicidade.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">No dia 8 de julho de 2026, a Direção Central da Polícia Judicial (DCPJ) do Haiti </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.instagram.com/reel/Dai8Ez9I6ze/" target="_blank" rel="noopener">prendeu o profeta Mackenson</a><span style="font-size: 1.25rem;"> em conexão com o caso, com base em denúncias apresentadas pelas vítimas, que alegam ter sido incitadas a utilizar os serviços dessa agência de viagens fraudulenta.</span> Segundo o comissionado do Governo de Porto Príncipe, <a href="https://lenouvelliste.com/en/article/259956/port-au-prince-gets-third-government-commissioner-in-under-a-month">Fritz Patterson Dorval</a>, o caso foi encaminhado a um juiz de instrução após novas denúncias das vítimas, que relataram ter entregado, sem intermediários, um total de 61.000 dólares a Mackenson, o que contradiz suas afirmações de que só tinha um contrato publicitário com a agência de viagens.</p>
<p>O caso não é isolado. Nas redes sociais haitianas, quase todas as semanas aparecem depoimentos sobre agências de viagens fraudulentas que, em sua maioria, cobram entre 3.500 e 5.000 dólares por supostas viagens ao <a href="https://www.icihaiti.com/article-46150-icihaiti-cap-haitien-faux-vols-charters-vers-le-mexique.html">México</a>, <a href="https://kominotek.com/visa-pour-le-bresil-une-centaine-dhaitiens-arnaques-par-des-agences-de-voyage/">Brasil</a> e outros países. Em muitos casos, a viagem prometida nunca é realizada.</p>
<p>Outra vítima, que aceitou contar sua história sob o pseudônimo &#8220;Murielle&#8221;, mora na República Dominicana há mais de três anos. Seus familiares no exterior pagaram milhares de dólares a uma pessoa que afirmava organizar viagens ao México.</p>
<blockquote><p>Mwen rele’l nan telefòn, mwen pa janm jwenn li depi kèk jou apre nou te fin remet li 3600 dola ameriken an. Se frè mwen ak pitit mwen Ozetazini ki te peye lajan sa pou mwen.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p><span style="font-size: 1.25rem;">Tentei falar com ele por telefone há alguns dias, mas não consegui entrar em contato desde que entregamos os 3.600 dólares. Meu irmão e meu filho, que moram nos Estados Unidos, pagaram esse valor para mim.</span></p></blockquote>
<p>Muitas agências fraudulentas adotam uma estratégia semelhante. Alugam escritórios por um tempo determinado, fazem intensa publicidade online e, às vezes, até utilizam vídeos de viagem gerados por inteligência artificial para parecerem legítimos. Algumas contratam comediantes, influenciadores ou personalidades locais para gerar confiança entre potenciais clientes. Acredita-se que, nos últimos anos, milhares de haitianos perderam dinheiro devido a essas fraudes.</p>
<p>Uma das principais dificuldades enfrentadas pelas vítimas é a falta de provas legais. Em muitos casos, a única prova de que entregaram milhares de dólares são recibos feitos à mão. O precário sistema judicial do Haiti faz com que os processos judiciais sejam esporádicos e apenas em situações excepcionais os golpistas são presos ou processados</p>
<p>Na República Dominicana, Murielle não entrou com nenhuma ação legal contra a agência de viagens falsa porque isso poderia pôr em risco sua situação migratória.</p>
<blockquote><p>Mwen pat deside pote plent paske sa ap mete mwen nan plis problem, si mwen fe sa otorite lapolis yo ap tou arete mwen, remet mwen bay sevis imigrasyon, epi depote mwen Ayiti, ou deja konnen mwen paka tounen nan zonn bo lakay mwen akoz zonn sa se gang ki kontwole li, pifo mounn nan zonn te kouri kite li akoz zak kriminel gang 400 Mawozo an, mwen reziye mwen pedi lajan sa.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Decidi não registrar a queixa porque isso me traria mais problemas. Se eu denunciasse, a polícia me prenderia, me entregaria à imigração e me deportaria para o Haiti. Você já sabe que eu não posso voltar para o meu bairro porque ele está dominado por gangues. A maioria das pessoas da região fugiu por causa dos atos criminosos da gangue 400 Mawozo, por isso aceitei a perda daquele dinheiro.</p></blockquote>
<p>Murielle não tem documentos que comprovem o ocorrido porque não assinou nada; além disso, não foi ela quem entregou o dinheiro. Sua família no exterior transferiu os fundos diretamente à pessoa envolvida.</p>
<p>Algumas agências, de fato, organizaram com antecedência rotas migratórias reais que incluíam o México e o Brasil, com a Nicarágua e outros países como pontos de passagem, antes de trasladar os migrantes pela América Central até a fronteira mexicana. Também utilizaram outras rotas parecidas para chegar ao Brasil por meio da Bolívia, Guiana ou Colômbia, antes que esses países reforçassem os controles migratórios e aumentassem a segurança nas fronteiras.</p>
<p>Para muitos haitianos que tentam chegar ao México, os Estados Unidos continuam sendo o destino final, ainda que as rotas migratórias tenham <a href="https://es.globalvoices.org/2026/07/28/que-podria-significar-para-haiti-el-fin-del-estatus-de-proteccion-temporal-de-estados-unidos/">se tornado muito mais difíceis</a> desde janeiro de 2025, quando o presidente Donald Trump foi reeleito para seu segundo mandato.</p>
<p>Apesar das dificuldades, o desespero continua levando muitos haitianos a buscar uma saída. Entre a violência das gangues e o desemprego, inúmeras famílias se sentem reféns a ponto de vender suas propriedades ou depender de familiares no exterior para financiar essas tentativas perigosas de migração. Em geral, as promessas de viagem nunca se concretizam, mesmo com todos os sacrifícios e o dinheiro investido.</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/jude-pierre-louis/' class='user-link'>Jude Pierre Louis</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Español) by</span> <a href='https://es.globalvoices.org/author/mariela-sosa/' class='user-link'>Mariela Sosa</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/mariana-amaral-silva/' class='user-link'>Mariana Amaral</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/07/24/tickets-to-nowhere-haitian-refugees-fall-prey-to-travel-scams/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Acesso à justiça em um espaço cada vez mais restrito: Construindo ecossistemas para acabar com a apatridia</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/20/acesso-a-justica-em-um-espaco-cada-vez-mais-restrito-construindo-ecossistemas-para-acabar-com-a-apatridia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Juliana Stroebel]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 11:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[África Subsaariana]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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		<category><![CDATA[Migração e Imigração]]></category>
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					<description><![CDATA[Ecossistemas de apoio duradouros não são um complemento à estratégia jurídica; eles são a própria estratégia, desde a comunidade até a clínica, passando pelo tribunal e vice-versa.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>Pessoas apátridas ou em risco de apatridia vivem sob vulnerabilidade que afeta todos os aspectos da vida</em></big></p><div style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/judge-singing-papers-800x450.webp" alt="A mesa de um juiz, com destaque para o martelo, e o juiz assinando documentos ao fundo" width="800" height="450" /><p class="wp-caption-text"><a href="https://www.pexels.com/photo/judge-signing-on-the-papers-6077447/">Imagem</a> de <a href="https://www.pexels.com/@ekaterina-bolovtsova/">Katrin Bolovtsova</a> no <a href="https://www.pexels.com/">Pexels</a>. De uso livre sob uma <a href="https://www.pexels.com/license/">Licença do Pexels</a>.</p></div>
<p><i>Este artigo foi escrito por Elgene Lutshiti, Palesa Maloisane e Thandeka Chauke, uma cortesia do</i> <a href="https://www.againststatelessness.com/"><i>Movimento Global Contra a Apatridia</i></a><i> (GMAS), parceiro de conteúdo da Global Voices. Esse post faz parte da série Spotlight da Global Voices de julho de 2026, &#8220;</i><a href="https://globalvoices.org/special/statelessness-spotlight"><i>Statelessness</i></a>&#8220;<i>. Essa série aborda questões relacionadas à apatridia e como ela afeta a vida de indivíduos em sua liberdade de ir e vir, oportunidades educacionais, acesso a políticas e mais. Você pode apoiar essa cobertura doando</i> <a href="https://globalvoices.org/2026/06/17/support-global-voices-spotlight-statelessness/"><i>aqui</i></a><i>.</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para muitas pessoas, a cidadania é vista como algo natural. Ela permanece discretamente em segundo plano, representada por uma certidão de nascimento, um documento de identidade, um passaporte e um sentimento de pertencimento. Mas, para as pessoas afetadas pela apatridia, a identidade jurídica não é uma questão secundária. É a linha entre a inclusão e a exclusão, entre poder participar da sociedade e ser forçado a viver nas suas sombras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na África do Sul, essa realidade fica evidente na vida de muitos jovens que nasceram e foram criados no país, mas continuam sem conseguir obter a cidadania ou a documentação, apesar do direito legal assegurado a eles. O artigo 4º, parágrafo 3º, da Lei de Cidadania da África do Sul estabelece um caminho para a obtenção da cidadania para certas pessoas nascidas na África do Sul, cujos pais não eram cidadãos sul-africanos nem residentes permanentes. No papel, isso deveria oferecer um meio de obter reconhecimento legal. Na prática, muitos requerentes se deparam com procedimentos pouco claros, implementação inconsistente, atrasos excessivos, registros ausentes e uma estrutura administrativa que, seja por negligência ou escolha deliberada, acaba por esgotá-los em vez de resolver seus problemas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse ponto que o conceito de &#8220;acesso à justiça&#8221; deve ser levado a sério. Isso não se resume apenas à possibilidade de uma pessoa conseguir, por fim, encontrar um advogado. Trata-se também de saber se a lei é compreensível, se os procedimentos são acessíveis, se as autoridades aplicam a lei de maneira consistente e se há meios efetivos de responsabilizar o Estado quando os direitos são negados na prática.  </span></p>
<p>Essas questões tornam-se ainda mais urgentes em um espaço cívico cada vez mais restrito. Em diversos contextos, organizações da sociedade civil e advogados de causas sociais estão atuando com menos recursos, encargos administrativos mais pesados e um clima político cada vez mais hostil em relação aos grupos marginalizados.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na África do Sul, o</span><span style="font-weight: 400;"> <a href="https://citizenshiprightsafrica.org/en/south-africa-cabinet-approved-final-revised-white-paper-on-citizenship-immigration-and-refugee-protection/">Livro Branco Revisado sobre Cidadania, Imigração e Proteção aos Refugiados</a>, aprovado pelo Gabinete, sinaliza uma reestruturação jurídica potencialmente significativa, cujas implicações para as medidas de proteção contra a apatridia continuam a ser alvo de acirrada controvérsia. E essa controvérsia ocorre justamente quando as comunidades e organizações capacitadas para monitorá-la estão com sua capacidade mais reduzida.</span></p>
<p>Uma resposta jurídica restrita não é, portanto, suficiente. A apatridia e a exclusão da cidadania exigem um ecossistema jurídico.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse ecossistema começa no nível comunitário. As pessoas afetadas pela apatridia costumam ser as primeiras a compreender como o sistema falha: quais órgãos recusam atendimento, quais documentos são exigidos sem fundamento jurídico, quais barreiras se repetem ao longo das gerações e quais são as respostas sustentáveis. Construir um ecossistema jurídico significa criar estruturas em que esse conhecimento exerça liderança e em que as comunidades afetadas sejam tratadas como colaboradoras estratégicas, e não como beneficiárias passivas.</span><span style="font-weight: 400;"> A campanha &#8220;</span><a href="https://citizenshiprightsafrica.org/en/south-africa-this-is-home-hans/"><span style="font-weight: 400;">This Is Home</span></a>&#8220;<span style="font-weight: 400;">, que mostra um grupo de jovens sul-africanos enfrentando obstáculos à cidadania, é um exemplo dessa abordagem. Por meio da narrativa, da coordenação e da defesa de direitos, o grupo garante que a experiência vivida influencie tanto a reforma jurídica quanto a compreensão do público, não como complemento da estratégia, mas como sua base. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As clínicas jurídicas e as organizações da sociedade civil costumam ser o primeiro ponto de contato para as pessoas que foram recusadas por órgãos governamentais ou que não sabem se a lei as protege. Elas traduzem normas jurídicas complexas em orientações práticas, promovem a confiança nas comunidades em que os sistemas formais causaram danos e, principalmente, identificam padrões entre casos individuais que revelam quando um problema pessoal também é um problema sistêmico. É nesse ponto que parcerias mais amplas se tornam essenciais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os escritórios de advocacia privados podem oferecer um apoio significativo. Advogados que atuam <em>pro bono</em> podem ajudar com pedidos individuais, acompanhamento administrativo e análises, disponibilizando recursos da sociedade civil para um trabalho sistêmico mais aprofundado. Quando as clínicas identificam um padrão que exige intervenção estrutural, os parceiros do setor privado podem contribuir com recursos para ações judiciais estratégicas, pesquisa e elaboração de documentos. Mas o valor do trabalho <em>pro bono</em> do setor privado não se resume simplesmente ao número de horas doadas. Seu valor reside no fato de que esse apoio fortalece o trabalho já realizado pela comunidade e pela sociedade civil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um espaço civil cada vez mais restrito, a visibilidade exigida por  movimentos e comunidades afetadas baseia-se em uma infraestrutura confiável e um ecossistema de apoio e solidariedade internacional: um ecossistema de sistemas duradouros de recomendações, recursos compartilhados e conexões significativas além das fronteiras, a fim de ampliar a defesa de causas e desenvolver respostas regionais a questões críticas de direitos humanos. O litígio estratégico pode ser uma ferramenta importante nesse ecossistema, mas não deve ser confundido com a estratégia como um todo. O litígio pode revelar práticas administrativas ilegais, forçar a tomada de decisões, esclarecer obrigações legais e garantir reparações a indivíduos e grupos. Mas as decisões judiciais não se implementam por si só. Uma sentença pode abrir uma oportunidade jurídica, mas, muitas vezes, é necessário um trabalho contínuo para garantir que as autoridades alterem suas práticas, que as pessoas afetadas conheçam seus direitos, que futuros requerentes tenham acesso ao procedimento e que o Estado continue prestando contas após o encerramento do processo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso é particularmente importante em questões de cidadania e documentação, nas quais a exclusão costuma ser gerada pela burocracia, e não por um ato isolado. Uma pessoa pode não receber uma recusa formal. Pode simplesmente ser orientada a voltar mais tarde, a apresentar documentos adicionais que não são obrigatórios, a aguardar uma decisão não especificada ou a resolver um problema em um sistema interno ao qual não tem acesso. Essas formas de opacidade administrativa são difíceis de combater, pois envolvem processos lentos, técnicos e exaustivos. Além disso, são profundamente prejudiciais. É justamente porque a exclusão opera dessa maneira — de forma gradual, burocrática e fora do alcance das pessoas — que nenhum agente do ecossistema consegue enfrentá-la sozinho. A lição a ser tirada do contexto do Artigo 4º, parágrafo 3º, da Lei da África do Sul não é apenas que as leis de cidadania devem ser devidamente aplicadas. É que o direito legal não implica automaticamente no reconhecimento legal. Um direito que não pode ser exercido na prática permanece frágil.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um espaço cívico cada vez mais restrito, essa fragilidade se agrava. Ecossistemas de apoio duradouros não são um complemento à estratégia jurídica; são a própria estratégia, desde a comunidade até a clínica, passando pelo tribunal e vice-versa. Construí-los exige que a sociedade civil e os escritórios de advocacia colaborem com cuidado. Exige que os advogados ouçam antes de liderar. E isso requer que todos nós compreendamos que este não é apenas um projeto jurídico-técnico. Trata-se de um projeto de reconhecimento, pertencimento e responsabilização, no qual os indivíduos mais afetados não são meramente titulares de direitos a serem assistidos, mas parceiros cuja liderança deve moldar cada parte da resposta.</span></p>
<hr />
<p><em><i>Palesa Maloisane é advogada especializada em direitos humanos e causas sociais na organização Lawyers for Human Rights, com sede em Joanesburgo, África do Sul, e tem realizado um extenso trabalho nas áreas do direito constitucional e administrativo, incluindo direitos de nacionalidade, apatridia, litígios estratégicos feministas e igualdade de gênero.<br />
Thandeka Chauke é advogada internacional especializada em direitos humanos e atua como Coordenadora de Defesa do Movimento Global Contra a Apatridia.<br />
Elgene Lutshiti é diretora da Cliffe Dekker Hofmeyr, na área de Atuação Pro Bono e Direitos Humanos.</i></em><em><br />
</em></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/global-movement-against-statelessness/' class='user-link'>Global Movement Against Statelessness</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/juliana-stroebel/' class='user-link'>Juliana Stroebel</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/08/06/legal-access-in-a-shrinking-space-building-ecosystems-to-end-statelessness/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>As histórias indígenas são histórias globais</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/18/as-historias-indigenas-sao-historias-globais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernando Baumgarten]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 16:55:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[“Mesmo após a queda dos impérios e a descolonização política, nós, povos indígenas, continuamos a lutar pelo reconhecimento e a promoção de nossos direitos fundamentais no mundo.”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>“Preterindo apresentar histórias indígenas como do passado ou marginais, quero destacar sua importância como histórias globais.”</em></big></p><div id="attachment_856570" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856570" class="wp-image-source-856570" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/Indigenous-action-at-COP30-UNclimatechange-Flickr.webp" alt="Munduruku people demonstrate at the COP30 Brazil, 2025. " width="800" height="534" /><p id="caption-attachment-856570" class="wp-caption-text"><span dir="auto">&#8220;Lutar pelo nosso território é lutar pela nossa vida.&#8221; Povo Munduruku protesta na COP30 no Brasil, em 2025. </span><a href="https://www.flickr.com/photos/unfccc/54922368242/"><span dir="auto">Foto</span></a><span dir="auto"> de </span><a href="https://www.flickr.com/photos/diegoherculanoofficial/"><span dir="auto">Diego Herculano</span></a><span dir="auto"> para </span><a href="https://www.flickr.com/photos/unfccc/"><span dir="auto">UNclimatechange</span></a><span dir="auto"> no </span><a href="https://www.flickr.com/"><span dir="auto">Flickr</span></a><span dir="auto"> ( </span><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/deed.en"><span dir="auto">CC BY-NC-SA 4.0</span></a><span dir="auto"> ) usada sob permissão.</span></p></div>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><span dir="auto">Esta publicação faz parte da série especial de agosto de 2026 da Global Voices,      </span></i></span><span style="font-weight: 400;"><i><span dir="auto"> intitulada “</span><a href="https://globalvoices.org/special/indigenous-rights/"><span dir="auto">Direitos Indígenas</span></a><span dir="auto">”. Esta série oferece uma visão sobre as vidas e  experiências dos povos indígenas, com o objetivo de construir conexões entre regiões, dar destaque às experiências indígenas e divulgar histórias de líderes, ativistas, membros da comunidade e muito mais. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação</span> </i><i><span draggable="true"><a href="https://globalvoices.org/2026/07/26/support-global-voices-spotlight-indigenous-rights/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">aqui</a></span></i><i>.</i></span></p>
<p>Não importa onde você more neste planeta, há uma grande possibilidade de que sua cidade, município ou vila tenha sido construída em terras indígenas. <span style="box-sizing: border-box;">A organização canadense sem fins lucrativos Native Land Digital criou <a href="https://native-land.ca/" target="_blank" rel="noopener">um atlas interativo</a> que mostra onde as sociedades indígenas existem há séculos nas Américas e na Oceania, bem como no norte e no oeste da África, no norte da Europa, na Sibéria e no leste da Ásia.</span> No entanto, esse mapeamento dos territórios indígenas históricos e contemporâneos ainda está incompleto. Não se trata apenas de não mostrar toda a presença indígena na África Subsaariana e na Ásia. O exercício ainda estaria incompleto sem integrar a importância fundamentalmente global das histórias e perspectivas indígenas, e é isto que a programação temática da GV busca fazer neste mês.</p>
<p><span dir="auto">Sou um pesquisador </span><a href="https://www.mexicolore.co.uk/maya/home/the-maya-a-4000-year-old-civilization-in-the-americas"><span dir="auto">maia</span></a><span dir="auto"> da península de Yucatán, no México (o que significa que sou indígena), e atualmente vivo, trabalho e estudo em </span><i><span dir="auto">W8banakiak wdakiw8k</span></i><span dir="auto">, território tradicional não cedido do </span><a href="https://gcnwa.com/en/history-of-the-nation/"><span dir="auto">povo Abenaki</span></a><span dir="auto">, onde hoje é o sul de Quebec, Canadá. Este reconhecimento territorial visa ser mais do que um gesto convencional; trata-se, antes, de uma demonstração de respeito e gratidão ao povo que me acolheu e compartilhou comigo seu conhecimento cultural e histórico, como hóspede indígena em sua terra.</span></p>
<p><span dir="auto">Nós, povos indígenas, somos pessoas e sociedades que descendem daqueles que viviam em um determinado território antes de sua colonização e povoamento por outros povos, ou antes da criação dos modernos Estados-nação que incorporaram esse território. </span><span dir="auto"><span style="box-sizing: border-box;">Embora o termo “<a href="https://www.merriam-webster.com/dictionary/indigenous" target="_blank" rel="noopener">indígena</a>” signifique etimologicamente “nascido nesse lugar”, tem sido aplicado na história, exclusivamente a sociedades classificadas por potências ocidentais e governos nacionais como “naturais”, “rústicas”, “selvagens”, “primitivas” ou “incivilizadas”.</span> Isso faz com que sejamos um tipo específico de sociedade apátrida dentro dos modernos Estados-nação — um tipo de sociedade racializada, frequentemente considerada “diferente”, “rudimentar” e “incontrolável” demais para ser aceita como uma nação autodeterminada nas estruturas estatais atuais. </span></p>
<p><span dir="auto">Frequentemente somos identificados ou chamados de </span><i><span dir="auto">índios</span></i><span dir="auto"> ou “índios americanos”, &#8220;aborígenes&#8221;, &#8220;nativos&#8221;, &#8220;bosquímanos&#8221;, &#8220;berberes&#8221; ou &#8220;tribais&#8221;. No entanto, mais recentemente, temos exigido ser chamados pelos nomes que escolhemos, geralmente reivindicando nossos próprios nomes históricos, por exemplo: Povos Originários, Primeiras Nações, </span><a href="https://minorityrights.org/communities/adivasis-2/"><span dir="auto">Adivasi</span></a><span dir="auto"> , Maias, </span><a href="https://itk.ca/about-canadian-inuit/"><span dir="auto">Inuit</span></a><span dir="auto"> , Sami, </span><a href="https://www.tofugu.com/japan/ainu-japan/"><span dir="auto">Ainu</span></a><span dir="auto"> , Māori, </span><a href="https://www.bbc.com/news/world-africa-36516241"><span dir="auto">Khoisan</span></a><span dir="auto"> , </span><a href="https://icmagazine.org/free-people-the-imazighen-of-north-africa/"><span dir="auto">Amazigh</span></a><span dir="auto"> , entre outros.</span></p>
<div id="attachment_856572" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856572" class="wp-image-source-856572" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/Ainu-sun-ceremony-53754514328_ba67010b41_c.webp" alt="Ainu people in Japan perform a morning ceremony. " width="800" height="533" /><p id="caption-attachment-856572" class="wp-caption-text"><span lang="en-GB"><span dir="auto">Povo Ainu no Japão realiza uma cerimônia matinal. </span></span><a href="https://www.flickr.com/photos/peterthoeny/53754514328/in/photolist-2pDUkDB-2pU6Wkb"><span lang="en-US"><span dir="auto">Foto</span></span></a><span lang="en-GB"><span dir="auto"> de </span></span><a href="https://www.flickr.com/photos/peterthoeny/"><span lang="en-GB"><span dir="auto">Peter Thoeny</span></span></a><span lang="en-GB"><span dir="auto"> via </span></span><a href="https://www.flickr.com/"><span lang="en-GB"><span dir="auto">Flickr.</span></span></a><span lang="en-GB"><span dir="auto"> ( </span></span><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/"><span lang="en-GB"><span dir="auto">CC BY-NC-SA 2.0</span></span></a><span lang="en-GB"><span dir="auto"> ) usada sob permissão.</span></span></p></div>
<p><span dir="auto">Nossas línguas indígenas, identidades, formas de conhecimento e modos de vida foram preservados e transformados ao longo de centenas de anos, mesmo com a desapropriação territorial, assimilação forçada, exclusão política e econômica e, em muitos casos, com o genocídio cultural. Diante da queda de impérios e a descolonização política, nós, povos indígenas, continuamos a lutar pelo reconhecimento e para proteger e promover nossos direitos fundamentais no mundo. Esses direitos dependem de acesso territorial e autonomia política, e da manutenção de nossos meios de subsistência e nossa relação com a terra, tanto dentro quanto fora das fronteiras nacionais. </span></p>
<div id="attachment_856598" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856598" class="wp-image-source-856598 size-featured_image_large" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/CC-Genner-Llanes-Ortiz-800x450.webp" alt="The author, center, with colleagues from the Indigenous Television network at the Global Voices Summit in Kathmandu, Nepal, December 8, 2024. Photo courtesy of Genner Llanes-Ortiz." width="800" height="450" /><p id="caption-attachment-856598" class="wp-caption-text"><span dir="auto">O autor, ao centro, com colegas da rede de televisão Indigenous Television na Cúpula da Global Voices em Katmandu, Nepal, em 8 de dezembro de 2024. Foto cedida por Genner Llanes-Ortiz, usada sob permissão.</span></p></div>
<p><span style="font-weight: 400;"><span dir="auto">Ao contrário do pensamento convencional, em vez de apresentar as histórias indígenas como do passado ou marginais, quero destacar sua importância como histórias globais. </span><span style="box-sizing: border-box;">Sua relevância reside no fato de que, embora os povos indígenas representem aproximadamente 6,2% da população mundial, os territórios que continuamos a ocupar, manter e administrar correspondem a <a href="https://library.sprep.org/sites/default/files/spatial-overview-global-importance-lands-conservation.pdf" target="_blank" rel="noopener">25% da massa terrestre do planeta</a> e abrigam <a href="https://news.mongabay.com/2019/08/indigenous-managed-lands-found-to-harbor-more-biodiversity-than-protected-areas/" target="_blank" rel="noopener">uma parcela significativa da biodiversidade do planeta</a>.</span> <span dir="auto">A importância dessa biodiversidade para a sobrevivência futura da nossa espécie não pode ser subestimada. Um fato fundamental nessa história é que, embora o “primitivismo” ou a “falta de tecnologia” atribuídos aos povos indígenas tenham sido frequentemente usados ​​como explicação para a conservação da diversidade natural, </span><a href="https://theconversation.com/its-taken-thousands-of-years-but-western-science-is-finally-catching-up-to-traditional-knowledge-90291"><span dir="auto">estudos recentes</span></a><span dir="auto"> demonstram que, na verdade, foi o </span><a href="https://popular-archaeology.com/article/the-milpa-cycle/"><span dir="auto">manejo multifacetado e complexo da paisagem indígena</span></a><span dir="auto"> que originou, </span><a href="https://theconversation.com/sacred-forests-in-west-africa-capture-carbon-and-keep-soil-healthy-158325"><span dir="auto">atendeu</span></a><span dir="auto"> e </span><a href="https://rainforestfoundation.org/the-ancestral-forest-how-indigenous-peoples-transformed-the-amazon-into-a-vast-garden/"><span dir="auto">expandiu essa diversidade</span></a><span dir="auto">. Assim, é fundamental atentar ao conhecimento, às práticas culturais e às experiências desses diversos povos, em cujas mãos tal recurso vital não só foi preservado, mas também continua a prosperar.</span></span><span style="font-weight: 400;"> <span dir="auto">O compromisso de proteger a terra e toda a vida que nela habita (que consideramos nossos parentes não humanos: animais, plantas, montanhas, águas) </span><a href="https://www.culturalsurvival.org/news/cultural-survival-publishes-memoriam-report-least-46-indigenous-defenders-murdered-latin"><span dir="auto">frequentemente coloca vidas em perigo</span></a><span dir="auto">. Há relatos que mostram que os ativistas ambientais sequestrados e assassinados são,</span><a href="https://globalwitness.org/en/campaigns/land-and-environmental-defenders/enemies-state/"><span dir="auto"> de forma desproporcional, os defensores indígenas da terra</span></a><span dir="auto"> .</span></span></p>
<p><span dir="auto">Hoje, somos </span><a href="https://stories.undp.org/10-things-we-all-should-know-about-indigenous-people"><span dir="auto">cerca de 476 milhões de pessoas no mundo</span></a><span dir="auto"> que se identificam ou são identificadas como pertencentes a algum povo, nação e/ou comunidade indígena. Nossas sociedades, em muitos casos, têm vivido e prosperado nas mesmas terras há centenas </span><a href="https://www.theguardian.com/australia-news/2016/sep/21/indigenous-australians-most-ancient-civilisation-on-earth-dna-study-confirms"><span dir="auto">ou até milhares de anos</span></a><span dir="auto">. Frequentemente, vivemos à margem de culturas nacionais dominantes (e resistimos à pressão para sermos totalmente assimilados por elas), mas também contribuímos para o avanço cultural e científico global. Os povos indígenas introduziram </span><a href="https://lab.plant-humanities.org/maize"><span dir="auto">milho</span></a><span dir="auto">, chá, batata, amendoim, </span><a href="https://www.americanindianmagazine.org/Indigenous-origins-of-maple-syrup"><span dir="auto">xarope de bordo</span></a><span dir="auto">, pimenta, </span><a href="https://daily.jstor.org/quinoa-rise-of-an-andean-superfood/"><span dir="auto">quinoa</span></a><span dir="auto">, </span><a href="https://www.universityofcalifornia.edu/news/avocado-cultivations-ancient-origins-hold-lessons-changing-climate"><span dir="auto">abacate</span></a><span dir="auto">, cacau, </span><a href="https://www.environmentandsociety.org/arcadia/stevia-genetic-resource-intellectual-property-and-guarani-strategies-access-and-benefit"><span dir="auto">estévia</span></a><span dir="auto">, aspirina, </span><a href="https://daily.jstor.org/quinoa-rise-of-an-andean-superfood/"><span dir="auto">quinoa</span></a><span dir="auto"> e outros produtos </span><a href="https://www.museumofindigenouspeople.org/post/indigenous-agriculture-how-it-shaped-the-world"><span dir="auto">às dietas</span></a><span dir="auto"> e </span><a href="https://www.mcgill.ca/oss/article/medical-history/sordid-medicine-shows-exploited-indigenous-cures"><span dir="auto">farmácias</span></a><span dir="auto"> do mundo, e contribuíram para o desenvolvimento da </span><a href="https://thecanadianencyclopedia.ca/en/article/birchbark-canoe"><span dir="auto">canoagem</span></a><span dir="auto">, do caiaque, </span><a href="https://www.americanindianmagazine.org/story/the-creators-game"><span dir="auto">do lacrosse</span></a><span dir="auto">, do hóquei, </span><a href="https://www.csecs.ca/en/news/rousseau-indigenous-critique-and-the-dawn-of-everything"><span dir="auto">do Iluminismo</span></a><span dir="auto">, do federalismo constitucional, do pluralismo jurídico, da agricultura de policultura, do manejo da terra, da botânica, entre outros campos da atividade humana. </span></p>
<p><span dir="auto">Os mundos indígenas são tão diversos quanto nossos idiomas, que representam </span><a href="https://www.unesco.org/en/decades/indigenous-languages"><span dir="auto">a maioria das 7.000 línguas ainda faladas no mundo</span></a><span dir="auto">. No entanto, elas estão ameaçadas pela discriminação racial e política, e pela marginalização econômica. Por meio do </span><a href="https://rising.globalvoices.org/"><span dir="auto">Rising Voices</span></a><span dir="auto">, um programa da Global Voices, apoiamos comunidades de ativistas indígenas em seus esforços para resgatar, preservar e dar maior visibilidade às suas línguas.</span></p>
<div id="attachment_856599" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856599" class="wp-image-source-856599 size-featured_image_large" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/CC-Jer-Clarke-800x450.jpeg" alt="Language activists show their work at the Mayan Languages Digital Activism Summit in Chiapas, Mexico, March, 2026. " width="800" height="450" /><p id="caption-attachment-856599" class="wp-caption-text"><span dir="auto">Ativistas linguísticos exibem seu trabalho na Cúpula de Ativismo Digital das Línguas Maias em Chiapas, México, em março de 2026. Foto de </span><a href="https://jerclarke.org/"><span dir="auto">Jer Clarke</span></a><span dir="auto"> ( </span><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/deed.en"><span dir="auto">CC-BY-NC</span></a><span dir="auto"> ) usada sob permissão.</span></p></div>
<p><span dir="auto">Nós, povos indígenas, vivemos em regiões árticas, planícies, florestas de pinheiros e  florestas tropicais, desertos, savanas, montanhas, costas, ilhas, bem como em </span><a href="https://www.theguardian.com/cities/2016/jun/29/which-worlds-most-indigenous-city"><span dir="auto">algumas das maiores cidades</span></a><span dir="auto"> do mundo. </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://elgirodelarueda.net/rostro-oculto-cartografia-resistencia-cdmx/" target="_blank" rel="noopener">Cidade do México</a><span style="font-size: 1.25rem;">, Cidade da Guatemala, Winnipeg, Vancouver, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.cbc.ca/news/canada/toronto/toronto-urban-indigenous-census-1.6192449" target="_blank" rel="noopener">Toronto</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.theguardian.com/global-development/2022/apr/20/prollema-barcelona-barcelonas-pro-mother-tongue-project-that-inverts-the-classic-rule-of-migration-catalan-spanish-amazigh" target="_blank" rel="noopener">Barcelona</a><span style="font-size: 1.25rem;">, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.cityofsydney.nsw.gov.au/history/aboriginal-histories" target="_blank" rel="noopener"> Sydney</a><span style="font-size: 1.25rem;">, Los Angeles, Auckland, Rio de Janeiro, Hokkaido e </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.inei.gob.pe/media/MenuRecursivo/publicaciones_digitales/Est/Lib1642/cap03_01.pdf" target="_blank" rel="noopener">Lima</a><span style="font-size: 1.25rem;">, entre outras, que hoje abrigam milhões de indígenas.</span></p>
<p><span dir="auto">Embora os povos indígenas tenham conquistado avanços significativos para serem reconhecidos como membros distintos da comunidade global no início deste século — com a adoção da </span><a href="https://www.ohchr.org/en/indigenous-peoples/un-declaration-rights-indigenous-peoples"><span dir="auto">Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas</span></a><span dir="auto"> pela Assembleia das Nações Unidas em 2007 — continuamos enfrentando pressão constante por parte de governos nacionais, empresas multinacionais, indústrias extrativas e até mesmo projetos de captura de carbono, parques eólicos e solares, e </span><a href="https://news.mongabay.com/2026/07/indigenous-advocates-push-for-rights-protections-around-ai-data-centers/"><span dir="auto">centros de dados</span></a><span dir="auto"> para que abramos mão do controle sobre o uso de nossos territórios. Essas áreas ainda são vistas como “terras vazias”, o que segue o mesmo princípio que justificou a colonização e o genocídio em um passado não tão remoto.</span></p>
<div id="attachment_856573" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-856573" class="wp-image-source-856573 size-full" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/Aboriginal-flag-grafitti-9368448043_abbc8fd03f_c.webp" alt="Indigenous flag mural in Sydney, Australia. " width="800" height="600" /><p id="caption-attachment-856573" class="wp-caption-text"><span dir="auto">Mural com a bandeira indígena em Sydney, Austrália. </span><a href="https://www.flickr.com/photos/newtown_grafitti/9368448043"><span dir="auto">Foto</span></a><span dir="auto"> de </span><a href="https://www.flickr.com/photos/newtown_grafitti/"><span dir="auto">Newtown graffiti</span></a><span dir="auto"> no </span><a href="https://www.flickr.com/"><span dir="auto">Flickr</span></a><span dir="auto"> ( </span><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/"><span dir="auto">CC BY-NC-SA 2.0</span></a><span dir="auto"> ) usada sob permissão.</span></p></div>
<p><span dir="auto" style="font-size: 1.25rem;">Assim como as perspectivas de muitas outras comunidades marginalizadas, as perspectivas indígenas são fundamentais para construir mundos melhores, com base na diversidade, interdependência e reciprocidade. Essas perspectivas, contudo, quase nunca estão presentes na mídia convencional e, quando estão, tendem a apresentar uma imagem desumanizada dos povos indígenas, marcada por estereótipos racistas ou muito simplificados, romantizados e vistos como exóticos. </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.latimes.com/entertainment-arts/tv/story/2025-04-10/north-of-north-review-netflix" target="_blank" rel="noopener">Felizmente, isso está mudando</a><span style="font-size: 1.25rem;"> e, com a programação temática de agosto da Global Voices, esperamos que mais pessoas tenham a oportunidade de conhecer, em primeira mão, as vozes indígenas que fazem parte da nossa rede global.</span></p>
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</div>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/genner/' class='user-link'>genner</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/fernando-binda-baumgarten/' class='user-link'>Fernando Baumgarten</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/08/05/indigenous-stories-are-global-stories/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
		<media:content height="202" medium="image" url="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/08/Indigenous-action-at-COP30-UNclimatechange-Flickr-400x300.webp" width="270"/>	</item>
		<item>
		<title>Moçambique: Mulheres, capulanas e violência policial marcam protestos em Nampula</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/17/mocambique-mulheres-capulanas-e-violencia-policial-marcam-protestos-em-nampula/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tirso Sitoe]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Aug 2026 09:45:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África Subsaariana]]></category>
		<category><![CDATA[Ativismo Digital]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia Cidadã]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres e Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Protesto]]></category>
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					<description><![CDATA[Mulheres em Nampula transformaram a capulana em símbolo de resistência, enquanto redes sociais ampliaram protestos, ativismo digital e debates sobre controlo estatal e direitos cívicos em Moçambique]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>Capulanas, protestos e redes sociais revelam novas formas de resistência feminina e ativismo digital em Moçambique.</em></big></p><div id="attachment_122731" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122731" class="wp-image-122731 size-full" src="https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-scaled.webp" alt="" width="2560" height="1707" srcset="https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-scaled.webp 2560w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-400x267.webp 400w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-800x533.webp 800w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-1536x1024.webp 1536w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-2048x1365.webp 2048w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/pexels-wyteshot-35633192-1200x800.webp 1200w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><p id="caption-attachment-122731" class="wp-caption-text"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Uma pilha de capulanas. <a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/35633192/">Foto</a> tirada por Wyte Shot. Accra, Gana. Via <a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/35633192/">Pexels</a>. <a href="https://www.pexels.com/license/">Licença Pexels</a>.</span></span></p></div>
<p style="text-align: left;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Dias antes, do </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_da_Mulher_Mo%C3%A7ambicana"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">dia 7 de abril</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , data em que se comemora o dia da Mulher Moçambicana, na </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Nampula"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">cidade de Nampula</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , foi alvo de protestos sociais de mulheres que reclamaram o fato de não terem recebido </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://cartamz.com/destaque/50121/dia-da-mulher-mocambicana-primeira-dama-garante-ja-estar-a-distribuir-capulanas/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">capulanas prometidas</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , pela primeira-dama da República de Moçambique, </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/First_Lady_of_Mozambique"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Gueta Chapo</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> para celebrem a data. </span></span></span></span></span></span></span></span><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Este cenário relembra protestos políticos após as eleições gerais de 2024 em que manifestantes saíram às ruas, mulheres — muitas envoltas em capulanas — e, destacaram-se como protagonistas visíveis, num cenário de crescente confronto com a polícia, bloqueios de estrada como recentemente, aconteceu em </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://opais.co.mz/tag/anchilo/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Anchilo</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , depois da primeira-dama ter informado que </span></span></span></span></span></span></span></span><a href="https://www.facebook.com/Lloydfroykingoficial/videos/primeira-dama-mam%C3%A3-gueta-chapo-reafirma-que-a-distribui%C3%A7%C3%A3o-das-capulanas-continu/4437384229917671/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">não tinha capulanas por oferta</span></span></span></span></span></span></span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> e</span></span><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> que culminou com dois feridos por balas.</span></span></span></span></span></span></span></span></p>
<h3><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Capulana: de símbolo cultural uma ferramenta de resistência</span></span></h3>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Em Moçambique, a capulana é um elemento central da </span></span><a href="https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/170443/2/747221.pdf"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">identidade cultural</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , frequentemente associada à vida quotidiana das mulheres. No entanto, durante os protestos em Nampula, este tecido ganhou novos significados. Além de vestuário, foi utilizado como proteção improvisada contra o gás lacrimogêneo e tornou-se um símbolo visual de unidade e resistência que já tem, ligações anteriores a participação das </span></span><a href="https://www.institutopedropires.org/artigos.php?id=165"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">mulheres na luta de liberação nacional</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> associada assim, a imagem de </span></span><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Josina_Machel"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Josina Machel</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> .</span></span></p>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">A utilização de </span></span><a href="https://opais.co.mz/o-protesto-um-direito-camuflado-em-forma-de-arte/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">objetos culturais em contextos de protesto</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> não é nova. Estudos em contextos africanos mostram como </span></span><a href="https://viradadaconsciencia.com.br/tour/moda-africana/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">tecidos e símbolos tradicionais</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> podem assumir papéis políticos em momentos de crise e mobilização social. A presença de mulheres nos protestos reflecte uma tendência crescente de participação feminina na esfera cívica em Moçambique.</span></span></p>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Organizações como a </span></span><a href="https://www.weforum.org/organizations/amnesty-international/?gad_source=1&amp;gad_campaignid=22228224717&amp;gbraid=0AAAAAoVy5F4S2CyoCrsEB4RR6TTSGgZk9&amp;gclid=CjwKCAjw-dfOBhAjEiwAq0RwI-roWbWwuBjZFevy_p2D1DalWzFoFsU8n9UHzDznuCWaGcbbvKm8PxoCvoQQAvD_BwE"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Amnistia Internacional</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> e a </span></span><a href="https://www.hrw.org/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Human Rights Watch</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> têm riscos documentados enfrentados por manifestantes, incluindo uso excessivo da força, detenções arbitrárias e intimidação — com impactos diferenciados sobre mulheres e jovens. Uma ativista que pediu para não ser identificada referenciou o seguinte: “</span></span><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">As mulheres já não são apenas observadoras. São parte do movimento”, afirmou uma ativista local.</span></span></p>
<h3><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Um contexto nacional de tensão</span></span></h3>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Os recentes acontecimentos em Nampula, estão de alguma forma, ligados a um contexto mais amplo de </span></span><a href="https://aimnews.org/2025/04/09/manifestacoes-pos-eleitorais-causaram-um-prejuizo-superior-a-322-mil-milhoes-de-meticais-e-fizeram-50-mil-desempregados/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">instabilidade após as eleições gerais de 2024</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> em que de acordo com a </span></span><a href="https://pdecide.org/blog/reduz-para-2-742-o-numero-de-detidos-no-ambito-das-manifestaces-pos-eleitorais-em-mocambique"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Plataforma Decide</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , milhares de pessoas foram detidas e centenas morreram em episódios relacionados. Além disso, organizações como o </span></span><a href="https://www.cipmoz.org/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Centro de Integridade Pública</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> são alertadas para irregularidades eleitorais e desafios à transparência.</span></span></p>
<h3><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Espaço digital e visibilidade dos protestos</span></span></h3>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Grande parte da documentação dos protestos em Nampula circulada em plataformas digitais. Isso mostra como as redes sociais se tornaram ferramentas centrais para denunciar abusos, mobilizar cidadãos, compartilhar evidências em tempo real. No entanto, organizações como a </span></span><a href="https://www.accessnow.org/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Access Now</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> e </span></span><a href="https://cipesa.org/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">a CIPESA</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> têm alertado para riscos de restrições ao acesso à internet em contextos de tensão política.</span></span></p>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Apesar de não ter decorrido restrições ao acesso à internet, com a aprovação recente do </span></span><a href="https://mznews.co.mz/executivo-mocambicano-aprova-decreto-que-permite-bloqueio-da-internet-em-caso-de-manifestacoes/"><span dir="auto"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Decreto n.º 48/2025, de 16 de Dezembro de 2025</span></span></span></a><span dir="auto"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , que estabelece mecanismos de controlo e possíveis bloqueios do acesso às redes de telecomunicações no país, surge uma nova proposta relativa ao</span></span></span><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> bloqueio de vias públicas, durante os protestos ou manifestações populares, que poderá ser penalizada, de acordo com a </span></span><a href="https://checka.co.mz/mocambique-novo-codigo-estrada-penalizacoes/"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">proposta do novo Código de Estrada</span></span></a><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"> , pelo Governo e colocada à disposição da sociedade para comentários.</span></span></p>
<p><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;"><span dir="auto" style="vertical-align: inherit;">Dentro desse contexto, algumas linhas de análise e questões podem ser exploradas como pontos de reflexão e algumas delas são: Como o uso das redes sociais está a redefinir o ativismo digital e a documentação cidadã em Moçambique, especialmente em contextos de protesto e tensão política? Qual a possibilidade de crescimento de formas alternativas de mobilização digital, descentralização da informação e uso de plataformas criptografadas em cenários de maior controle estatal e que comparações possam ser feitas, com outros países africanos, onde bloqueios de internet foram usados ​​durante protestos, eleições ou crises políticas?</span></span></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Escrito por</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/tirso-sitoe/' class='user-link'>Tirso Sitoe</a></div></div></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>“Eu nunca tive a experiência de votar”: Como a iniciativa de uma médica haitiana está engajando cidadãos na vida cívica</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/15/eu-nunca-tive-a-experiencia-de-votar-como-a-iniciativa-de-uma-medica-haitiana-esta-engajando-cidadaos-na-vida-civica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Alvim]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 08:11:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Caribe]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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		<category><![CDATA[Mídia Cidadã]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres e Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Weblog]]></category>
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					<description><![CDATA[As dificuldades diárias no Haiti fizeram a Dra. Lucna Henrisme focar no ensino de jovens e mulheres sobre seus direitos e deveres como cidadãos, para que eles participar da vida cívica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>&#8220;Minha geração nunca vivenciou a chamada democracia&#8221;</em></big></p><div id="attachment_855621" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.canva.com/pro/"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-855621" class="size-large wp-image-source-855621" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/haiti-vote-800x600.jpg" alt="Feature image shows a voting stub going into a ballot box wrapped in the Haitian flag, via Canva Pro. " width="800" height="600" /></a><p id="caption-attachment-855621" class="wp-caption-text">Imagam via <a href="https://www.canva.com/pro/">Canva Pro</a>.</p></div>
<p>Dra. <span style="box-sizing: border-box;">Lucna Henrisme é uma médica de 30 anos, do <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/International_Visitor_Leadership_Program" target="_blank" rel="noopener">Programa de Liderança de Visitantes Internacionais</a> (IVLP), uma ativista apaixonada em prol da democracia, mas, como o Haiti e<a href="https://reliefweb.int/report/haiti/haiti-more-1600-people-killed-first-quarter-2026-human-rights-situation-remains-extremely-worrying" target="_blank" rel="noopener">nfrenta uma crise marcada pela insegurança e violência de gangues</a>, ela se recusa a limitar seu trabalho ao campo da medicina.</span> A realidade cotidiana do Haiti a levou a concentrar seus esforços em uma missão fundamental: ensinar as pessoas sobre seus direitos e deveres como cidadãos, com ênfase em ajudar jovens e mulheres a se envolverem ativamente na política.</p>
<p>Poucos jovens participam da vida política do Haiti. Isto porque muitos estão desapontados com as promessas de mudança que nunca se concretizaram. <span style="box-sizing: border-box;">Todo novo governo mantém o mesmo sistema baseado em corrupção, nepotismo e favoritismo, e <a href="https://www.csis.org/analysis/haitis-problematic-electoral-dynamics" target="_blank" rel="noopener">nada realmente muda</a> para a população.</span> Outro motivo é a <a href="https://news.un.org/en/story/2026/01/1166801">violência e a intimidação</a> no sistema político. Existe também a falta de <a href="https://www.cram.com/essay/The-Challenges-Of-Haiti-Patriotism-Or-Pride/FJP8TFJSEG">educação cívica</a>; muitos haitianos não sabem sobre seus direitos e deveres porque não recebem formação cívica básica, especialmente aqueles que não tiveram <a href="https://eiehub.org/country-briefs/country-briefing-haitis-education-crisis">acesso à educação</a>.</p>
<div id="attachment_855611" style="width: 320px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-855611" class="wp-image-source-855611 size-medium" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Hernisme-320x400.jpg" alt="Dr. Lucna Henrisme, founder of Mouvman SÈVI, which seeks to raise the civic engagement of women and young people in Haiti. Photo courtesy Dr. Henrisme." width="320" height="400" /><p id="caption-attachment-855611" class="wp-caption-text">Dra. Lucna Henrisme, fundadora do Mouvman SÈVI, organização que procura engajar mulheres e jovens na vida cívica no Haiti. Foto: cortesia da Dra. Henrisme.</p></div>
<p class="tm7"><span class="tm8">E</span>m um esforço para mudar essa tendência, a Dra. <span style="box-sizing: border-box;">Henrisme fundou uma organização chamada <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Lucna_Henrisme#Mouvement_SÈVI" target="_blank" rel="noopener">Mouvman SÈVI</a> (Movimento SERVIÇO) em junho de 2024, com a qual organiza atividades de conscientização, oficinas, encontros públicos e sessões de debate em todo o país.</span> Qual o seu principal objetivo? Encorajar jovens e mulheres a entrarem na vida política. O SÈVI oferece educação cívica para que os cidadãos aprendam sobre seus direitos e deveres. <span style="font-size: 1.25rem;">A organização também busca </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://haitiantimes.com/2026/07/11/haiti-cep-approves-316-political-parties/" target="_blank" rel="noopener">fomentar o interesse pela  política ativa,</a><span style="font-size: 1.25rem;"> para que possam buscar cargos políticos, participar das decisões do país e assegurar que suas vozes sejam incluídas quando decisões importantes são tomadas.</span></p>
<p>Em uma entrevista para a Global Voices por chamada de vídeo, a Dra. Henrisme disse que a crise política que o Haiti está enfrentando a tem deixado decepcionada e  preocupada com os desafios que isso representa para a democracia. <span style="box-sizing: border-box;">Após o assassinato do então <a href="https://globalvoices.org/2021/07/07/will-president-moises-assassination-bring-stability-or-unleash-even-more-chaos-in-haiti/" target="_blank" rel="noopener">presidente Jovenel Moïse</a> em 7 de julho de 2021, o Haiti permanece em um processo contínuo de transição.</span> <span style="box-sizing: border-box;">O país tem sido governado por três administrações transitórias sucessivas, começando com o <a href="https://globalvoices.org/2022/10/09/when-the-porridge-is-hot-one-eats-it-on-the-side-haitis-current-protests-explained-on-twitter/" target="_blank" rel="noopener">antigo primeiro-ministro Ariel Henry</a>, seguido pelo <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Transitional_Presidential_Council" target="_blank" rel="noopener">Conselho Transitório Presidencial</a> (CPT) e, mais recentemente, pela administração do <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Garry_Conille" target="_blank" rel="noopener">ex-primeiro-ministro Garry Conille</a> e d<a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Alix_Didier_Fils-Aimé" target="_blank" rel="noopener">o atual primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé</a>.</span> Embora as principais responsabilidades dos governos de transição fossem melhorar a segurança e promover eleições, nenhum destes objetivos foi concretizado.</p>
<p class="tm7"><span style="font-size: 1.25rem;">A probabilidade de ocorrerem eleições no Haiti em 2026 permanece incerta, pois os problemas de segurança no país </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://globalvoices.org/2026/06/25/haiti-fleeing-is-not-enough-in-port-au-prince-and-other-major-cities/" target="_blank" rel="noopener">persistem</a><span style="font-size: 1.25rem;">.</span> <span style="box-sizing: border-box;">Gangues criminosas ainda controlam muitas regiões, principalmente no departamento<a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Ouest_(department)" target="_blank" rel="noopener"> Oeste,</a> onde está localizada a capital, Port-au-Prince, e em grande parte dos departamentos de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Artibonite_(department)" target="_blank" rel="noopener">Artibonite</a> e do <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Centre_(department)" target="_blank" rel="noopener">Centro</a>.</span> <span style="font-size: 1.25rem;">A violência contínua de gangues tem </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://lac.iom.int/en/news/haitis-displacement-crisis-hits-record-15-million-amid-escalating-violence" target="_blank" rel="noopener">forçado</a><span style="font-size: 1.25rem;"> mais de 1,5 milhão de pessoas a deixar suas casas e a viver em condições muito difíceis em campos de refugiados.</span></p>
<p>Apesar de tudo, Dra. Henrisme é persistente em seu forte apoio e respeito à <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Constitution_of_Haiti">Constituição</a>. <span style="font-size: 1.25rem;">Ela tem feito apelos ao governo de transição para a realização de eleições justas, a fim de </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://haitiantimes.com/2026/02/24/haitian-political-actors-signed-a-pact/" target="_blank" rel="noopener">honrar o pacto de governança</a><span style="font-size: 1.25rem;">, denominado Pacto Nacional para a Estabilidade e a Organização de Eleições, firmado pela maioria das entidades e partidos políticos.</span></p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">O Haiti não tem eleições </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://globalvoices.org/2016/02/13/haitis-electoral-crisis-and-unsteady-future/" target="_blank" rel="noopener">desde 2016</a><span style="font-size: 1.25rem;"> e o Parlamento </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.feminittcaribbean.org/post/where-haiti-is-today-and-the-role-caricom-can-play-in-its-future-1" target="_blank" rel="noopener">não funciona</a><span style="font-size: 1.25rem;"> desde janeiro de 2020, deixando o governo principalmente a cargo de oficiais interinos.</span> A Dra. Henrisme acredita que esta situação limita a democracia no Haiti, especialmente para os jovens, que não podem exercitar seus direitos civis:</p>
<blockquote><p>Jenerasyon pa m nan pa janm viv sa yo rele demokrasi, ni vote nan yon eleksyon. Sa se yon bagay ki ban nou anpil pwoblèm kòm jèn kap viv nan yon peyi kote mwen paka egzèse dwa politik mwen nan eleksyon. Paske, depi mwen gen laj pou mwen patisipe nan pran desizyon politik, mwen pa janm jwenn opòtinite pou mwen vote, paske eleksyon pa janm òganize.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Minha geração nunca vivenciou o que se chama democracia, nem nunca votou em uma eleição. Isto é um grande problema para nós, como jovens cidadãos que vivem em um país onde não podemos exercer nossos direitos políticos em uma eleição. Desde que atingi a idade para participar de decisões políticas, eu nunca tive a oportunidade de votar porque nunca houve convocação para eleições.</p></blockquote>
<p class="tm6"><span class="tm7">Ao fazer um apelo direto às autoridades, ela diz:</span></p>
<blockquote><p>Fòk gouvènman an aplike pak gouvènabilite li te siyen ak pati politik yo, pou yo ka òganize eleksyon kredib ak transparan pou retabli lejitimite demokratik jan pak la prevwa li.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>O governo deve implementar o pacto de governança assinado pelos partidos políticos a fim de organizar eleições justas que tragam de volta a legitimação democrática e restaurem a confiança nos líderes eleitos, assim com o pacto intencionava.</p></blockquote>
<p class="tm6"><span class="tm7">A Dra. Henrisme acredita que a atual crise somente poderá ser resolvida se as lideranças locais mudarem seu foco e considerarem a realidade diária das pessoas. Ao enfatizar que a reconstrução da confiança entre governo e cidadãos é necessária para o futuro progresso, ela visualiza um Estado em que haitianos e  parceiros internacionais possam trabalhar juntos para ajudar o país a seguir adiante: </span></p>
<blockquote><p>Kriz Ayiti ap viv la kapab rezoud si aktè yo gen yon sèl objektif, ki se pèp ayisyen an. Mank konfyans sitwayen yo nan Leta pa pèmèt peyi a soti nan sitiyasyon li ye a. Fòk konfyans retabli ant Leta ak sitwayen yo pou gen chanjman.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>A crise que o Haiti está enfrentando pode ser resolvida se os atores envolvidos compartilharem o mesmo objetivo: o povo haitiano. A falta de confiança dos cidadãos no Estado impede que o país de saia de sua situação atual. A confiança entre Estado e cidadãos deve ser restaurada para que possa haver uma mudança real.</p></blockquote>
<p class="tm6"><span class="tm7">Apesar das oportunidades de viver e praticar a medicina no exterior, a Dra. Henrisme decidiu ficar no Haiti e ajudar os mais necessitados. Ela acredita no poder da sua geração para mudar esse cenário:</span></p>
<blockquote><p>Jenerasyon pa nou an gen espwa. Se yon kriz ayisyen, li dwe rezoud ant ayisyen. Fòk jenn yo ak fanm yo fè pati solisyon peyi a.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Nossa geração tem esperança. Esta é uma crise haitiana, e deve ser resolvida pelos próprios haitianos. Jovens e mulheres devem ser parte da solução do país.</p></blockquote>
<p class="tm6"><span class="tm7">A realidade do país ainda é profundamente complexa. Gangues armadas continuam a impor suas regras em várias regiões, enquanto a crise humanitária piora progressivamente. Além disso, desavenças crescentes entre o governo e partidos políticos influentes quanto à reativação do processo eleitoral ameaçam prolongar ainda mais a incerteza política e a instabilidade no Haiti.</span></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/jude-pierre-louis/' class='user-link'>Jude Pierre Louis</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/luciana-alvim/' class='user-link'>Luciana Alvim</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/07/14/i-have-never-had-the-opportunity-to-vote-how-one-haitian-doctors-initiative-is-getting-people-involved-in-civic-life/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
		<media:content height="202" medium="image" url="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/haiti-vote-400x300.jpg" width="270"/>	</item>
		<item>
		<title>A próxima crise global de saúde já começou: o trauma infantil causado pela guerra</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/10/a-proxima-crise-global-de-saude-ja-comecou-o-trauma-infantil-causado-pela-guerra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Denise Andréia Stange]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Aug 2026 01:31:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Europa Oriental e Central]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra & Conflito]]></category>
		<category><![CDATA[Inglês]]></category>
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		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Ucrânia]]></category>
		<category><![CDATA[Weblog]]></category>
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					<description><![CDATA[Embora algumas lesões físicas cicatrizem ou possam ser tratadas, as feridas invisíveis do trauma psicológico podem durar por toda a vida.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>Embora algumas lesões físicas cicatrizem ou possam ser tratadas, as feridas invisíveis do trauma psicológico podem durar por toda a vida</em></big></p><div id="attachment_851183" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-851183" class="wp-image-source-851183 size-full" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/pexels-baraa-obied-2157551361-36520960.jpg" alt="Children playing in a street in war-torn Damascus, Syria. Undated photo by Baraa Obied on Pexels." width="800" height="600" /><p id="caption-attachment-851183" class="wp-caption-text">Crianças brincam em uma rua de Damasco, na Síria, devastada pela guerra. <a href="https://www.pexels.com/photo/children-playing-in-damascus-war-torn-street-36520960/">Foto</a> sem data por <a href="https://www.pexels.com/@baraa-obied-2157551361/">Baraa Obied</a> via <a href="https://www.pexels.com/">Pexels</a>.</p></div>
<p><strong><em>Por Angela Joyce</em></strong></p>
<p>A dura realidade das guerras que assolam o mundo, como o atual <a href="https://news.un.org/en/story/2026/01/1166822">conflito na Ucrânia</a>, o <a href="https://www.aljazeera.com/tag/israel-iran-conflict/">confronto entre Irã, Israel e Estados Unidos</a> e a devastadora <a href="https://news.un.org/en/story/2026/03/1167159">crise humanitária em Gaza</a>, revela que elas nunca se restringem aos campos de batalha, mas alcançam cada estrada, cada pátio de escola e cada lar.</p>
<p>As notícias sobre as guerras dominam as manchetes, mas, longe dos holofotes, são pessoas comuns, especialmente as crianças, que mais sofrem. Um exemplo é o caso de <a href="https://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/gaza-toddler-torture-idf-israel-detention-b2947167.html?utm_source=chatgpt.com">uma criança de 21 meses em Gaza,</a> devolvida à família com ferimentos que, segundo os médicos, eram compatíveis com tortura. <a href="https://www.unicefusa.org/stories/stories-unicefs-impact-sudan-helping-children-caught-conflict">Meninos e meninas que vivem em zonas de conflito sofrem consequências emocionais e físicas, além de impactos duradouros no desenvolvimento</a>.</p>
<p>Embora a comunidade internacional costume contabilizar os impactos visíveis, como vidas perdidas e escolas destruídas, as marcas deixadas pelo trauma, pelo deslocamento e pela perda da confiança podem acompanhar, por toda a vida, as crianças que crescem em zonas de guerra.</p>
<h3>Trauma: principal indicador de dificuldades ao longo da vida para crianças em zonas de conflito</h3>
<p>O trauma é um dos problemas mais graves enfrentados por crianças que vivem em zonas de guerra. Embora algumas lesões físicas cicatrizem ou possam ser tratadas, as feridas invisíveis do trauma psicológico podem durar por toda a vida.</p>
<p>Infelizmente, a saúde mental costuma ser negligenciada, especialmente em áreas afetadas pela violência. Compreender e lidar com o trauma é fundamental para ajudar essas crianças a se recuperarem e reconstruírem suas vidas.</p>
<p>Cada vez mais, especialistas defendem que o trauma psicológico causado pela guerra deve ser reconhecido e tratado como uma <a href="https://www.unicef.org/press-releases/mental-health-needs-children-and-young-people-conflict-need-be-prioritized?utm_source=chatgpt.com">crise global de saúde pública.</a></p>
<p>Uma das formas pelas quais profissionais que trabalham com crianças, como os serviços de proteção à infância, avaliam a situação de uma criança que passa a receber acompanhamento e definem a melhor forma de oferecer apoio é por meio da avaliação de <a href="https://www.cdc.gov/aces/about/index.html">Experiências Adversas na Infância (ACEs, na sigla em inglês)</a>.</p>
<p>A avaliação inclui perguntas como: &#8220;Você já ficou sem acesso a comida, água ou moradia? Você já perdeu um ou mais responsáveis por doença, prisão ou divórcio? Já sofreu violência por parte de um membro da família? Já teve algum contato sexual indesejado com um adulto?&#8221;</p>
<p>São dez perguntas ao todo. Elas servem para avaliar o nível de trauma vivenciado pela criança e são atualmente utilizadas por assistentes sociais e psicólogos nos Estados Unidos.</p>
<p>Pessoas que passaram por três ou mais dessas experiências correm um risco muito maior de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, tentativas de suicídio, uso de drogas e diversas doenças físicas, incluindo câncer, hipertensão e insuficiência cardíaca.</p>
<p>Nos Estados Unidos, uma em cada dez pessoas vivencia três ou mais experiências adversas na infância. Esse número é muito menor do que o estimado para crianças que vivem em zonas de conflito ativo ao redor do mundo: cerca de uma em cada seis é exposta, simultaneamente, a múltiplas experiências adversas.</p>
<p>Quando tantas crianças ao redor do mundo são expostas a traumas repetidos, o impacto psicológico da guerra deixa de ser apenas uma preocupação humanitária. Torna-se uma questão de saúde global que moldará as sociedades por décadas.</p>
<h2><b>Estatísticas atuais sobre crianças em zonas de conflito no mundo</b></h2>
<p>Crianças em todo o mundo continuam a enfrentar as consequências devastadoras da guerra.</p>
<p>Na Ucrânia, <a href="https://www.unicef.org/emergencies/war-ukraine-pose-immediate-threat-children?utm">milhares de crianças foram mortas ou feridas</a>, e milhões foram deslocadas desde o início da guerra, enquanto as famílias lutam para reconstruir a vida cotidiana em meio à incerteza constante.</p>
<p>Na Ásia Ocidental, a recente guerra envolvendo o Irã agravou uma situação regional que já era frágil. Relatórios indicam que centenas de crianças morreram ou ficaram feridas durante os <a href="https://www.reuters.com/world/middle-east/un-experts-deeply-disturbed-by-child-deaths-escalating-middle-east-conflict-2026-03-04/">bombardeios, enquanto os ataques a escolas</a> e áreas civis suscitam sérias preocupações humanitárias.</p>
<p>Em Gaza, James Elder, porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla em inglês), descreveu o território como &#8220;<a href="https://www.unicef.org/press-releases/unicef-geneva-palais-briefing-note-gaza-worlds-most-dangerous-place-be-child?utm_source">o lugar mais perigoso do mundo para uma criança</a>&#8220;. Dezenas de milhares de crianças foram mortas ou feridas, enquanto centenas de milhares tiveram que deixar suas casas e agora enfrentam graves condições humanitárias.</p>
<p><a href="https://www.unicef.org/sudan/sudan-crisis-childrens-crisis-0?utm_source">No Sudão, milhões de crianças também foram deslocadas</a> pelo conflito em curso, deixando muitas sem acesso regular a alimentos, educação, assistência médica ou abrigo seguro.</p>
<p>Para as crianças que vivem em meio a tais crises, a guerra não é algo distante que acompanham pela televisão, mas uma realidade que as cerca e determina todos os aspectos de suas vidas.</p>
<h3>Processo de recuperação</h3>
<p>A boa notícia é que as crianças são resilientes.</p>
<p>Alguns fatores ajudam a amenizar as consequências do trauma. O mais importante é a presença constante de um responsável que ofereça apoio e tranquilidade.</p>
<p>Nós, adultos, temos uma oportunidade única de reduzir e até reverter os efeitos das adversidades enfrentadas por crianças e jovens.</p>
<p>Infelizmente, muitas crianças em zonas de conflito perderam um ou ambos os principais responsáveis por seus cuidados, tornando-as ainda mais vulneráveis aos efeitos de experiências adversas.</p>
<p>A resiliência de crianças que vivenciaram traumas nem sempre implica o retorno à normalidade ou a recuperação completa.</p>
<p>Após vivenciar uma série de experiências adversas como perder a casa, os pertences e entes queridos, sofrer ferimentos e muito mais, é difícil definir o que é &#8220;normal&#8221;.</p>
<p>Muitos especialistas em trauma que trabalham com crianças acreditam que é mais realista esperar que passem por um processo conhecido como &#8220;<a href="https://wjarr.com/sites/default/files/fulltext_pdf/WJARR-2024-0114.pdf?utm">busca de sentido</a>&#8220;, no qual os indivíduos encontram significado em suas experiências, compreendem como elas os influenciam e descobrem como seguir em frente.</p>
<p>Esse processo geralmente requer apoio psicológico, um ambiente estável e redes comunitárias que permitam às crianças começarem a reconstruir o senso de segurança e pertencimento.</p>
<h3>A responsabilidade coletiva de proteger a infância</h3>
<p>Seja ao refletirmos sobre as guerras que ocorrem atualmente ou ao considerarmos como prevenir conflitos futuros, uma coisa permanece clara: as crianças precisam ser protegidas do peso esmagador da violência.</p>
<p>Uma geração que cresce em meio à guerra não é necessariamente uma geração perdida. Com estabilidade, apoio e oportunidades, essas crianças podem se tornar líderes, inovadoras e defensoras de um mundo mais pacífico. Mas não conseguirão fazer isso sozinhas.</p>
<p>A responsabilidade da comunidade internacional não é apenas reconstruir a infraestrutura, mas também ajudar as crianças a recuperar o senso de segurança, estabilidade e esperança.</p>
<p>Essa responsabilidade recai tanto sobre governos e instituições internacionais quanto sobre educadores, profissionais da área humanitária, líderes comunitários e cidadãos comuns.</p>
<p>Apoiar iniciativas que ofereçam educação, assistência psicológica e ambientes estáveis para crianças afetadas por conflitos, defender políticas de proteção aos civis e acompanhar as crises humanitárias são formas de ajudar a garantir que as crianças não tenham que enfrentar sozinhas o peso da guerra.</p>
<p>O verdadeiro custo dos conflitos não se mede apenas pelos edifícios destruídos ou territórios perdidos. Mede-se pelas infâncias marcadas pela violência e a responsabilidade coletiva de proteger as gerações que crescem à sombra desses conflitos.</p>
<div class="contributors"><span style="font-weight: 400;">Angela Joyce é uma escritora independente que aborda temas relacionados à resposta humanitária, ao desenvolvimento global e ao deslocamento de populações. Trabalha em comunicações para uma organização internacional de ajuda humanitária e escreve sobre o impacto humano dos conflitos e das crises.</span></div>
<p>&nbsp;</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/guest-contributor/' class='user-link'>Guest Contributor</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/denise-andreia-stange/' class='user-link'>Denise Andréia Stange</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/04/06/the-next-global-health-crisis-is-already-here-childhood-trauma-from-war/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Apresentando o kobudo, artes marciais tradicionais do Japão</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/05/apresentando-o-kobudo-artes-marciais-tradicionais-do-japao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gisele Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 10:30:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arte e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Esportes]]></category>
		<category><![CDATA[Inglês]]></category>
		<category><![CDATA[Japão]]></category>
		<category><![CDATA[Japonês]]></category>
		<category><![CDATA[Leste da Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia Cidadã]]></category>
		<category><![CDATA[Weblog]]></category>
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					<description><![CDATA[O Kobudo rejeita padronização, recompensa eficiência e prioriza flexibilidade, preparando os praticantes para qualquer situação. O que também explica porque só tem demonstrações, e não competições de combate real.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>‘Budo não é apenas treinamento físico; é uma porta de entrada para entender a cultura japonesa.’</em></big></p><div style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/IMG_7316-1200x900.webp" alt="Kobudo demonstration" width="1200" height="900" /><p class="wp-caption-text">A 49ª Demonstração de Kobudo na Nippon Budokan. Foto tirada por Jo Carter. Usada com permissão.<span style="color: #111111; font-family: Georgia, Times, 'Times New Roman', serif; font-size: 1.25rem;"> </span></p></div>
<p>Hoje em dia, a maioria das artes marciais é consumida principalmente como evento esportivo. Competições durante as Olimpíadas ou outros eventos têm regras rigorosas que definem os sistemas de pontuação e priorizam medidas que garantem a segurança dos participantes. No judô, as torções nas articulações só são permitidas nos cotovelos. Na esgrima, os participantes não podem atacar a parte de trás da cabeça do oponente.</p>
<p>Ao assistir a versões ludificadas de artes marciais, é fácil esquecer que nas práticas originais, essas técnicas emergiram e foram desenvolvidas para machucar os adversários.</p>
<p>Quais são as artes marciais originais? Alguns exemplos são o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Kalari_payattu">kalaripayattu</a> indiano, o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Kung_fu_(term)">kung fu</a> chinês ou o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Bokator">bokator</a> cambojano. No Japão, há várias escolas de artes marciais clássicas que praticam técnicas ancestrais até hoje. Essas escolas, chamadas de <em>kobudo</em>, foram estabelecidas antes da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Restaura%C3%A7%C3%A3o_Meiji">Restauração Meiji</a> (em 1868).</p>
<p>Como sugerem as palavras <em>ko</em> (古/ancestral ou tradicional) e <em>budo</em> (武道/ artes marciais ou a modo marcial), o kobudo se orgulha de tradições de longa data.</p>
<p>Em primeiro de fevereiro, a <strong>Global Voices</strong> assistiu à 49ª Demonstração Japonesa de Kobudo no Nippon Budokan, um dos maiores eventos de artes marciais do Japão, para ver essas técnicas ancestrais em ação.</p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">Nós entrevistamos especialistas em escolas de artes marciais para aprender o verdadeiro significado do kobudo e explorar como os instrutores preservam valores tradicionais em um ambiente contemporâneo.</span></p>
<h3>Eficiência no combate</h3>
<div style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/IMG_7801-1200x555.webp" alt="Hontai Yoshin Ryu" width="1200" height="555" /></a><p class="wp-caption-text">Uma performance de Hontai Yoshin Ryu. Captura de tela do canal do Youtube de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE">Hanasuke55</a>. Uso justo.</p></div>
<p>Sensei Kyoichi Inoue, o <em>soke</em> (instrutor principal) da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Hontai_Y%C5%8Dshin-ry%C5%AB">Hontai Yoshin-ryu</a> — uma escola tradicional de artes marciais japonesa fundada em 1660 — nota que a maior diferença entre o kobudo e outras artes marciais é que o kobudo não possui regras sobre onde golpear.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseando-se em sua extensa experiência no judô e no kendo, ele contou à Global Voices (GV):<br />
</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">古武道は全身の致命傷になる部分を狙います。現代武道は主にルールの中で戦うスポーツとして発達したので、古武道とは変化した部分も多いと思います。</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">相手を殺そうと思ったら、硬い頭蓋骨や防具に守られているところよりも、防具に守られていない動脈が通っているところを狙えばいいんです。</span></p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p><span style="font-weight: 400;">O kobudo mira pontos letais ao longo do corpo inteiro. Desde que as artes marciais modernas evoluíram como esportes praticados com um conjunto de regras, muitos aspectos mudaram em relação ao kobudo. Se o nosso objetivo é matar um oponente, ao invés de golpear o crânio duro ou áreas protegidas por armaduras, seria eficiente simplesmente mirar em áreas sensíveis e expostas onde passam as principais artérias.</span></p></blockquote>
<p>A escola demonstrou diversas técnicas, incluindo tanto combates sem armas quanto armados. Essas técnicas diversas simbolizam a personalidade do kobudo: rejeitar padronização, recompensar eficiência, e priorizar flexibilidade, preparando os praticantes para qualquer situação. Isso também explica por que o kobudo só tem demonstrações, e não competições de combate real, diferentemente de outros esportes baseados em lutas: é extremamente perigoso.</p>
<h3>O modo marcial e o <em>bushido</em></h3>
<p>Enquanto o perigo inerente ao kobudo pode sugerir um foco na violência, a tradição é ancorada por valores centenários que transcendem a mera brutalidade. Shojitsuken Rikata Ichi-ryu Katchu Battojutsu, uma escola de artes marciais estabelecida durante o final do período Sengoku (meados do século XV até o final do século XVI), se mantém como um testemunho dessa herança. Os seus praticantes utilizam armaduras autênticas e longas espadas reais ao estilo Sengoku, preservando o caráter ancestral do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Buxido"><em>bushido</em></a> (a tradição dos guerreiros japoneses/Bushi) — transformando uma arte letal em uma prática disciplinada de honra e etiqueta.</p>
<div style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/IMG_7790-1200x555.webp" alt="Shojitsuken Rikata Ichi-ryu" width="1200" height="555" /><p class="wp-caption-text">Shojitsuken Rikata Ichi-ryu (Sensei Kanzaki demonstrando o ato do “todome wo sasu”) Captura de tela do canal do Youtube de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE">Hanasuke55</a> . Uso justo</p></div>
<p>Durante a exibição no Nippon Budokan, representantes da escola Shojitsuken Rikata Ichi-ryu demonstraram o penúltimo movimento do <em>todome-wo-sasu</em> (とどめを刺す/ dar o golpe final). Esse é um ato poderoso decorrente da filosofia cultural japonesa ao redor da mortalidade, na qual a desonra na batalha era pior do que a morte.</p>
<p>O representante da escola, Sensei Masaru Kanzaki, explicou essa filosofia única:</p>
<blockquote><p>我々は相手を「一刀両断」にし、必ずとどめを刺すことを定めています。これには武士道の精神が深く関わっています。武士は相手の名誉を重んじます。斬った相手をのたうち回らせて苦しませるのではなく、速やかにとどめを刺して楽にしてあげる。これは切腹の際の「介錯」と同じ考え方です。名誉を保ったまま逝かせるという、武士の情けなのです。</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Nós buscamos o <em>itto ryodan</em> (一刀両断/partir em dois) e somos estritamente ensinados a desferir um golpe final. Isso é profundamente enraizado no espírito do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Buxido">bushido</a> [o código moral do samurai]. Este é o mesmo princípio do <em>kaishaku</em> — um ato para por fim à própria vida com o <em>seppuku</em> [um ritual suicida para limpar a vergonha]. Um guerreiro bushi respeita a honra do oponente. Ao invés de deixar um inimigo ferido para contorcer-se em agonia, você encerra o sofrimento dele rapidamente.</p></blockquote>
<p>Essa filosofia soa muito similar, mas é fundamentalmente diferente do conceito ocidental do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_miseric%C3%B3rdia"><em>golpe de misericórdia</em></a>, o ato para libertar o oponente de uma dor desesperadora sob o conceito cristão de misericórdia.</p>
<p>Sob a tradição do bushido, não há desgraça maior do que ter uma morte “conturbada”. Era esperado que um guerreiro mantivesse a compostura até mesmo na morte; contorcer-se ou gritar de agonia era completamente mal-visto. Significava perder o espírito de disciplina que os guerreiros passam a vida cultivando.</p>
<p>Enquanto outras culturas do leste asiático valorizam morrer por seus princípios, a idealização específica de encontrar beleza no ato da morte em si é uma sensibilidade unicamente japonesa. A famosa metáfora das cerejeiras em flor de vida breve simboliza o ideal bushi: viver vibrantemente e morrer sem hesitação.</p>
<h3>Praticando a tradição</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Atualmente, 75 escolas são afiliadas à Associação Nihon Kobudo. A cada ano, cerca de metade das escolas membros se revezam em demonstrações públicas. Esse ano, 36 escolas participaram. Haruhiko Hata, o chefe da Divisão Promocional da Nippon Budokan, disse à GV que o local funciona como um hub para que as escolas de artes marciais japonesas exponham os resultados dos seus treinamentos e, assim, preservem a tradição.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um grande desafio para essas escolas é atrair jovens para praticar e estudar a arte marcial ancestral e a sua filosofia.<br />
</span></p>
<div style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/IMG_7796-1200x555.webp" alt="Yoshin-ryu Naginata jutsu" width="1200" height="555" /></a><p class="wp-caption-text">Yoshin-ryu Naginata jutsu. Captura de tela do canal do Youtube de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE">Hanasuke55</a>. Uso justo.</p></div>
<p><a href="https://budojapan.com/guide/dojyo102/">Yoshin-ryu Naginatajutsu</a>, uma escola que tem sido liderada por sokes mulheres nos últimos anos, por exemplo, se tornou mais flexível em adaptar sua cultura para atrair os jovens japoneses. A soke da escola, Takako Koyama, diz:</p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">今回の大会の時に、演武者が髪を染めるか、染めないかという話になりました。でも、国際化の時代ですから、外国人も日本人も、自然体で生きていくべきだと思います。門下生の子たちには、今日はメイクを濃いめにしてくださいって言ったんですよ。写真に撮られるから。 </span></p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Para essa demonstração, houve uma discussão sobre se os praticantes deveriam pintar seus cabelos de volta ao preto ou não. Mas nós vivemos em uma época internacional. Não importa se você é estrangeiro ou japonês, eu acredito que você deve viver como o seu eu natural. Na verdade, eu disse aos meus alunos para usarem suas maquiagens um pouco mais carregadas hoje — já que eu sabia que estariam batendo fotos deles.</p></blockquote>
<p>Diferente de outras escolas de budo, Yoshin-ryu Naginatajutsu foi fundada há cerca de 400 anos para ensinar a damas da corte, servindo à autodefesa do palácio. A escola tem seguido a convenção de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Yoshin-ryu">Yoshin-ryu</a> (a escola do Coração de Salgueiro), uma das escolas de artes marciais japonesas mais influentes, fundada em 1642 durante o período Edo, e usa o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Furisode"><em>furisode</em></a> (kimono de mangas longas) como traje de combate. Soke Koyama explica que a vestimenta tradicional oferece uma vantagem tática, já que pode disfarçar os movimentos e melhorar a eficiência ao estilo salgueiro — um estilo de combate-chave de Yoshin-ryu.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas escolas também recebem aprendizes entusiastas do exterior. Dentre as escolas que entrevistamos, Hontai Yoshin-ryu tem filiais em oito países. Entre os praticantes nesta demonstração, estavam os senseis Frederic Roncioni e Sami Mechmech, da Bélgica.<br />
</span></p>
<div style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/03/IMG_7797-1200x555.webp" alt="Foreign budo" width="1200" height="555" /></a><p class="wp-caption-text">Praticante estrangeiro (Hontai Yoshin ryu. À esquerda está Sr. Roncioni, à direita está Sr. Mechmech) Captura de tela do canal do Youtube de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=0BLu3JTjlrE">Hanasuke55</a>. Uso justo.</p></div>
<p>O sensei Frederic, líder da filial belga da Hontai Yoshin-ryu, começou sua jornada budo há 40 anos em seu país. O professor dele passou um ano no Japão estudando Hontai Yoshin-ryu e, ao retornar em 1990, passou a ensiná-lo. Desde então, eles têm viajado para o Japão pelo menos uma vez por ano — às vezes duas ou três — para aprofundar o treinamento.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele contou à GV:</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">If you want to truly understand Japanese budo, you need to study Japan’s general culture, not just the fighting techniques. To gain a full perspective of any martial art, you must understand the culture from which it emerged. Budo is not just physical training; it is a profound gateway to understanding Japanese culture as a whole.</span></p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p><span style="font-weight: 400;">Se você quer entender verdadeiramente o budo japonês, você precisa estudar a cultura geral do Japão, não apenas as técnicas de combate. Para ter uma perspectiva completa de qualquer arte marcial, você deve entender a cultura da qual ela surgiu. Budo não é apenas treinamento físico; é uma profunda porta de entrada para compreender a cultura japonesa como um todo.</span></p></blockquote>
<p>A jornada do Kobudo começou muito antes de nascermos e continuará sua caminhada em direção ao futuro, não permanecendo estática, mas se misturando cuidadosamente com a cultura japonesa contemporânea.</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/jo-carter/' class='user-link'>Jo Carter</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/gisele-soares/' class='user-link'>Gisele Soares</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/03/16/introducing-kobudo-japans-traditional-martial-arts/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Como a IA está beneficiando o regime ditatorial na África</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/03/como-a-ia-esta-beneficiando-o-regime-ditatorial-na-africa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mônica Couto Valadares]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 11:47:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África Subsaariana]]></category>
		<category><![CDATA[Ativismo Digital]]></category>
		<category><![CDATA[Censorship]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
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					<description><![CDATA[Um estudo feito em março de 2026 identificou que onze governos africanos haviam gasto mais de US$ 2 bilhões de dólares em sistemas de vigilância baseados em inteligência artificial]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>Um mapeamento mostra câmeras onde partidos da oposição se organizam, não onde a criminalidade comum é maior</em></big></p><div id="attachment_853280" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-853280" class="wp-image-source-853280 size-huge" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/Dictator_illustration-1200x813.webp" alt="Illustration of a dictator " width="1200" height="813" /><p id="caption-attachment-853280" class="wp-caption-text">Ilustração mostrando um ditador usando vigilância e controle automatizado para vigiar, observar e reprimir cidadãos. Ilustração por Khalid Bencherif. Usada com permissão.</p></div>
<p><strong>Por Khalid Bencherif</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, em faixas, cartazes e embalagens de maço de cigarro — em todo lugar. Sempre os olhos te observando e a voz te envolvendo. Dormindo ou acordado, trabalhando ou comendo, em lugares fechados ou ao ar livre, no banho ou na cama — sem saída. Nada era seu, exceto os poucos centímetros cúbicos dentro do seu crânio</span>.” – George Orwell, “1984.”</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Orwell não poderia imaginar que, mais cedo ou mais tarde, até mesmo aqueles poucos centímetros cúbicos dentro de um crânio poderiam ser disputados em um continente já flagelado pela corrupção e tirania. Isso importa ainda mais em um continente onde a corrupção, a impunidade e o interesse do poder executivo vieram muito antes da inteligência artificial</span><span style="font-weight: 400;">. E onde a adoção da IA <a href="https://cipesa.org/2025/09/state-of-internet-freedom-in-africa-report/">avança</a> mais rápido do que o desenvolvimento de estruturas legais que respeitem os direitos humanos.</span></p>
<h3>A África corre por ferramentas inteligentes de tirania</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">No passado, a tirania na África exigia prisões, informantes, polícia secreta e repressão visível. Hoje, cada vez mais isso chega na forma de softwares, financiado por crédito, embrulhado na linguagem da modernização e vendido como uma melhoria para a segurança pública.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><span style="font-size: 1.25rem;">Um </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.ids.ac.uk/publications/smart-city-surveillance-in-africa-mapping-chinese-ai-surveillance-across-11-countries/" target="_blank" rel="noopener">estudo</a><span style="font-size: 1.25rem;"> de março de 2026, realizado pelo Instituto de Estudos do Desenvolvimento (IDS) e pela Rede Africana de Direitos Digitais, constatou que 11 governos africanos gastaram, em conjunto, mais de US$ </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://iafrica.com/ai-surveillance-spending-tops-2-billion-across-11-african-nations-raising-rights-concerns/" target="_blank" rel="noopener">2 bilhões</a><span style="font-size: 1.25rem;"> em sistemas de vigilância operados por IA.</span> Só a Nigéria foi responsável por mais de US$ 470 milhões. O kit inclui CCTV de alta definição, leitores de placas, reconhecimento facial, camadas de identificação biométrica e uma sala de controle onde as informações são reunidas. Grande parte disso é fornecida ou financiada por <a href="https://www.theguardian.com/global-development/2026/mar/12/invasive-ai-led-mass-surveillance-in-africa-violating-freedoms-warn-experts">empresas e bancos chineses</a>, enquanto outros sistemas vêm <a href="https://english.noonpost.com/p/why-is-israel-supplying-africa-with">principalmente de empresas israelenses</a>.</span></p>
<div id="attachment_853283" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-853283" class="size-featured_image_large wp-image-source-853283" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/05/Africa_AI_surviellance-800x450.webp" alt="Statistics about AI powered surveillance " width="800" height="450" /><p id="caption-attachment-853283" class="wp-caption-text">Dados estatísticos sobre a vigilância alimentada por IA. Pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento. Usado com permissão<span style="font-weight: 400;">.</span></p></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A justificativa comum dada pelos governos africanos é que adquirir esse equipamento é necessário para combater o crime, porém, os números de criminalidade não estão diminuindo. Os pesquisadores da IDS, ao examinar as instalações em várias cidades, encontraram <a href="https://www.biometricupdate.com/202603/smart-city-projects-in-11-african-countries-reveal-major-digital-authoritarianism-risks">poucas evidências de que as câmeras reduzem a criminalidade</a>, e as evidências realmente mostram que as câmeras se concentram em bairros onde partidos de oposição se organizam, onde houve protestos e onde a imprensa tem “causado problemas” para os regimes no poder.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A infraestrutura de informação das ditaduras na África não é nova, nem está começando do zero. Na maioria dos países africanos, o Estado há tempos tem apetite por dados. Registros de comunicações, impostos, contas bancárias e relatórios administrativos têm sido coletados há décadas e usados com pouca restrição legal, mesmo onde as proteções existem no papel. A novidade é o mecanismo. A IA transformou os arquivos dormentes em arquivos consultáveis. Um nome, um canal, um padrão de viagem, um histórico de transações agora aparecem em segundos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até a KGB, a polícia secreta da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Uni%C3%A3o_Sovi%C3%A9tica">União Soviética</a>, como Yuval Noah Harari <a href="https://bigthinkmedia.substack.com/p/what-happens-when-intelligence-outgrows">apontou</a>, não tinha pessoas suficientes para ler milhões de relatórios sobre milhões de cidadãos todos os dias</span><span style="font-weight: 400;">. A poeira no arquivo era, em si, uma forma de liberdade. A IA dissipa essa poeira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A vigilância online viabilizada pela IA nas cidades africanas é muito mais barata graças aos modelos abertos de IA chineses e ferramentas inteligentes de Israel, pois raramente precisa punir alguém. As tecnologias de vigilância em massa — câmeras, programas de celular, redes locais de internet — não precisam prender ninguém. Elas só precisam que os cidadãos saibam que estão lá. A consciência de estar sendo vigiado impede a maioria das ações antes mesmo que elas comecem.<br />
</span></p>
<h3>A lista de alvos</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo movimento de mudança no continente começou da mesma maneira. Um grupo de pessoas decide que o risco de ser visto em público é menor que o risco de permanecer em silêncio. Elas se reúnem. Elas postam. As imagens circulam. Às vezes o governo cai. Às vezes ele se mantém. O cálculo, em ambos os casos, gira em torno de um único momento, quando estranhos se tornam visíveis uns aos outros e ao mundo, como um movimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atualização muda esse cálculo na origem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A vigilância viabilizada pela IA não é uma rede neutra estendida sobre uma cidade. Ela é configurada com base em uma lista-alvo, e essa lista é política. O mapeamento do IDS mostra câmeras concentradas onde partidos de oposição se organizam, não aonde crimes comuns têm taxa mais elevada.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O efeito é preventivo: ele suprime a dissidência antes que ela se forme. O reconhecimento facial em um ponto de ônibus não precisa prender o organizador; só precisa deixar claro que se organizar não é mais anônimo, e que ser identificado tem um custo. Por exemplo, um protesto planejado para domingo e identificado no sábado — por meio de metadados, publicações nas mídias sociais, análise de redes e reconhecimento facial — raramente precisa ser disperso pela polícia. Os organizadores já sabem que foram vistos e sabem o que isso pode custar: prisão, acusações apresentadas posteriormente em tribunal ou até mesmo ser banido de ocupar cargos públicos. Frequentemente, os protestos simplesmente não se formam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A lógica se resume a um ciclo: o algoritmo sinaliza uma pessoa como sendo o provável organizador, e esse sinal é tratado como prova de que o evento teria ocorrido; dessa forma, a pessoa não pode ser inocente, pois o alarme em si é uma evidência. Em um país com um sistema judicial fraco e um serviço de segurança politizado, isso se transforma em uma máquina que trata intenção como culpa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os rastros digitais ampliam a lista de alvos. Através dos vestígios que os usuários deixam online e das comunicações controladas pelo Estado, este pode construir um perfil de cada cidadão e depois pesquisar por indícios de deslealdade. Não pelo que a pessoa tenha feito, mas pelo que curtiu, para quem ligou ou mandou mensagem, em qual manifestação o celular estava próximo, qual hashtag anti-governo eles compartilharam. A constatação mais discreta e desconfortável do relatório do Atlantic Council <a href="https://www.atlanticcouncil.org/in-depth-research-reports/report/biometrics-and-digital-identity-in-africa/">diz respeito</a> a essa integração dos bancos de dados administrativos em algo mais abrangente, um índice de fidelidade, construído a partir de registros que foram introduzidos, separadamente, por razões diferentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A consequência é que a reforma morre cedo. A <a href="https://cipesa.org/about-us/about-cipesa/">CIPESA</a> (Colaboração em Política Internacional TIC para a África Oriental e Austral) <a href="https://cipesa.org/2025/09/state-of-internet-freedom-in-africa-report/">documenta o efeito inibidor</a> em 14 países: um retrocesso considerável na liberdade de expressão, reunião e mídia independente em locais onde a arquitetura de vigilância foi construída sem garantias baseadas em direitos. O cidadão que teria participado de uma manifestação, publicado em redes sociais, se juntado a um comitê ou apresentado uma denúncia, agora avalia e fica em casa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do norte ao sul da África, um novo tipo de atmosfera cotidiana se estabelece. A semente da mudança é abortada, não em uma cela, mas em um quarto, por uma pessoa que entendeu que o banco de dados memoriza e que o algoritmo não distingue entre opinião expressa e opinião sustentada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É isso que a modernização protege de forma mais eficiente. Não é a capacidade do Estado de punir. É a capacidade de tornar a punição desnecessária. Foucault <a href="https://foucault.info/documents/foucault.disciplineAndPunish.panOpticism/">chamou isso</a> de panóptico: um conceito no qual o detento, sem saber ao certo se a torre de vigilância estava ocupada, aprende a vigiar a si mesmo.<br />
</span></p>
<h3>Os que se recusam</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora a vigilância por IA esteja se tornando uma ferramenta poderosa para regimes autoritários, há pequenos contraesforços, com poucos recursos, correndo contra um ciclo de aquisição que já entregou as câmeras e conectou os bancos de dados. Vários jornalistas e organizações estão documentando abusos, movendo ações judiciais em casos-teste e pressionando por uma governança de IA baseada em direitos. Civis especialistas em tecnologia estão utilizando essa mesma ferramenta contra o Estado, incluindo a verificação de fatos em conteúdos gerados automaticamente, monitorando discurso de ódio, observando eleições e oferecendo ferramentas abertas, seguras e inteligentes para jornalistas e ativistas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, essa simetria é ilusória. A infraestrutura, o processamento, os dados de capacitação, os contratos com fornecedores e o talento técnico estão todos nas mãos do Estado e de seus fornecedores estrangeiros. Eles não estão com o cidadão africano, que luta todos os dias pelo seu pão. Um aplicativo de tecnologia civil pode monitorar alguns casos de corrupção, mas não consegue se equiparar à sala de controle.</span></p>
<h3>Os poucos centímetros cúbicos</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A ditadura de Orwell precisava de um ministério, de uma guerra, de um informante atrás de cada porta. A nova versão africana parece precisar somente de um contrato de empréstimo para a compra de infraestrutura de IA, e uma população que tenha sido convencida de que tudo isso é para seu benefício.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O historiador Yuval Noah Harari <a href="https://www.cfhu.org/news/hus-yuval-noah-harari-still-time-to-stop-rule-by-computer-algorithms/">alertou</a> que a combinação de sensores biométricos, reconhecimento facial e de voz “torna possível, pela primeira vez na história, que um governo ditatorial monitore todos os cidadãos o tempo todo” e pode fabricar regimes totalitários “muito, muito piores do que qualquer coisa que vimos no século XX.” Esse alerta geralmente é direcionado a Pequim. Porém, Pequim e Tel Aviv estão começando a exportar essas ferramentas para a África</span><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O medo no continente não é que a IA transforme cada Estado africano numa ditadura. O medo é que a IA esteja reduzindo o custo da capacidade autoritária e elevando seu limite máximo — a uma velocidade sem precedentes, justamente no momento em que o apetite dos regimes corruptos está crescendo e as garantias legais e institucionais destinadas a contê-los são tênues ou ausentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Certamente, a IA pode ser uma alavanca para o desenvolvimento e o bem-estar na África; para serviços públicos, para inovação e também para a expressão. Porém, sem a infraestrutura subjacente da democracia e da imprensa livre, ela se torna um pesadelo.</span></p>
<div class="notes"><em>Khalid Bencherif é um jornalista freelancer premiado, nascido no Marrocos e que mora em Berlim, especializado em cobrir questões ambientais e políticas no Norte da África. Ele recebeu o Prêmio Michael Elliott 2022 de Excelência por reportagem na África, concedido pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ). Essa matéria foi viabilizada graças ao apoio do <a href="https://www.icfj.org/our-work/michael-elliott-award-excellence-african-storytelling">Prêmio Michael Elliott</a> do Centro Internacional para Jornalistas, que está comemorando seu décimo aniversário.</em></div>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/guest-contributor/' class='user-link'>Guest Contributor</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/monica-couto-valadares/' class='user-link'>Mônica Couto Valadares</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/05/22/how-ai-is-upgrading-african-dictatorship/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Estados de emergência e os desafios para o desenvolvimento no Caribe</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/02/estados-de-emergencia-e-os-desafios-para-o-desenvolvimento-no-caribe/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Ferreira Wittaker]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2026 11:29:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Caribe]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento]]></category>
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					<description><![CDATA[Cidadãos comuns também podem querer garantias de que essas medidas continuem proporcionais, com responsabilidade e ligadas ao interesse público]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>As condições de segurança também estão conectadas ao sustento e a confiança pública nas instituições</em></big></p><div style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><a href="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/GV-800x600.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/GV-800x600.jpg" alt="The logo of the Trinidad and Tobago Police Service (TTPS), taken at the TTPS building on Duke Street in Port of Spain. &lt;a href=" width="800" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">O logotipo do Serviço Policial de Trinidad e Tobago (TTPS), imagem capturada no prédio do TTPS em Duke Street em Port of Spain, <a href="https://www.flickr.com/photos/markmorgantrinidad/7969343294/">Foto</a> por Mark Morgan no <a href="https://www.flickr.com/">Flickr</a> (<a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/deed.en">CC BY 2.0</a>).</p></div>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">Quando o estado de emergência </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://printery.gov.tt/e-gazette/2025/Legal%20Notices/Legal_Notice_No._247_of_2025.pdf" target="_blank" rel="noopener">foi declarado</a><span style="font-size: 1.25rem;"> em Trinidad e Tobago, a discussão pública, compreensivelmente, centrou-se na segurança.</span> As questões imediatas eram familiares: as medidas irão reduzir a violência, interromper a atividade criminal e criar uma sensação maior de segurança para as comunidades afetadas pela criminalidade?</p>
<p>Sob regulamentações de emergência, <a href="https://laaa.org.tt/news-and-events/188-your-rights-under-the-state-of-emergency">poderes adicionais</a> são concedidos ao Estado, incluindo expansão de autoridade para busca e apreensão sem apresentar acusações. Essas medidas foram introduzidas como respostas a ameaças sérias à segurança pública e sua efetividade geralmente é analisada através de resultados de segurança, como ações de imposição da lei, prisões e mudanças no nível de criminalidade. As implicações dessas medidas, porém, se <a href="https://www.guardian.co.tt/news/what-the-new-state-of-emergency-regulations-mean-for-you-6.2.2528856.42ae9b1e9d">estendem além</a> da resposta imediata de segurança. Estados de emergência também influenciam o modo como instituições operam, comunidades funcionam e pessoas navegam em suas vidas diárias durante períodos de incerteza.</p>
<p>Não são apenas aqueles envolvidos em atos criminosos que podem questionar ou se opor a como os poderes de emergência são usados; cidadãos comuns também podem querer garantias de que essas medidas continuem proporcionais, com responsabilidade e ligadas ao interesse público. É onde a segurança do cidadão cruza com o desenvolvimento — as condições que dão forma à segurança também estão conectadas ao sustento e à confiança pública nas instituições.</p>
<h3>Efeitos da insegurança no dia a dia</h3>
<p>Para algumas comunidades, a insegurança é vivenciada através de decisões diárias em vez de estatísticas criminais. Preocupações com a segurança podem, por exemplo, levar um pequeno comerciante a reconsiderar seu horário de funcionamento ou que organizações comunitárias a ajustar seus programas. Moradores também podem alterar suas rotinas dependendo de como se sentem ao se deslocarem por certas áreas. Tais experiências são muitas vezes menos visíveis do que medidas de segurança oficiais, mas elas influenciam a vida econômica e social das comunidades.</p>
<p>Pelo Caribe, há muito tempo pesquisas exploram a relação entre o crime, a insegurança e os resultados de desenvolvimento. O Fundo Monetário Internacional (FMI) <a href="https://www.imf.org/en/news/articles/2017/11/13/na111417-crime-and-youth-unemployment-in-the-caribbean">apontou</a> que o crime e a violência podem afetar investimentos, atividades econômicas e oportunidades de emprego, especialmente em contextos onde os jovens encaram caminhos limitados até o emprego estável.</p>
<p>Esse relacionamento cria um ambiente difícil para políticas. Governos devem responder a ameaças imediatas enquanto também abordam as condições mais abrangentes que permitem que a insegurança persista.</p>
<h3>Um desafio para todo o Caribe</h3>
<p>A experiência de Trinidad e Tobago reflete uma <a href="https://caricom.org/statement-from-the-caribbean-community-on-crime-and-violence/">discussão regional recorrente</a> sobre como os estados respondem à violência. Na Jamaica, estados de emergência <a href="https://globalvoices.org/2022/11/23/will-more-states-of-emergency-in-jamaica-curtail-gang-related-crime/">formam parte</a> dos <a href="https://globalvoices.org/2021/11/20/once-more-jamaicans-debate-whether-states-of-emergency-are-an-effective-crime-fighting-tool-or-a-band-aid/">esforços para abordar</a> desafios sérios de <a href="https://globalvoices.org/specialcoverage/2010-special-coverage/jamaica-state-of-emergency-2010/">segurança</a>. Autoridades apontaram uma redução de crimes violentos em áreas específicas, enquanto organizações por direitos e grupos comunitários <a href="https://www.theguardian.com/world/2025/may/12/jamaica-murders-fatal-police-shootings?">levantaram preocupações</a> sobre os <a href="https://www.amnesty.org/en/documents/act30/001/2002/en/">efeitos maiores</a> dessas medidas sobre as comunidades afetadas.</p>
<p>A experiência regional sugere que a violência raramente resulta de um único fator. O Relatório de Desenvolvimento Humano Regional de 2025 do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas <a href="https://www.undp.org/latin-america/regional-human-development-report-2025">destaca o relacionamento</a> entre a segurança do cidadão, desigualdade, exclusão e oportunidades sociais e econômicas limitadas. O relatório argumenta que respostas eficazes requerem intervenções de segurança e medidas que abordem fatores subjacentes da insegurança. Para os governos, isso cria um equilíbrio entre a resposta rápida a ameaças imediatas e o foco em estratégias de longo prazo.</p>
<p>Outra consideração é como as medidas de emergência influenciam as relações entre cidadãos e instituições. Em comunidades afetadas pela violência, a presença maior de segurança pode trazer garantias e demonstrar que as autoridades estão respondendo às preocupações públicas. Ao mesmo tempo, a maneira como essas medidas são implementadas pode influenciar a percepção pública de equidade, transparência e responsabilidade.</p>
<p>A confiança é uma parte importante da governança efetiva. Quando as respostas de segurança são vistas como intervenções temporárias conectadas a melhorias mais abrangentes da segurança pública e do bem-estar da comunidade, elas podem reforçar os laços de convicção nas instituições. Quando as medidas são experiências isoladas sem melhorias visíveis nas condições do dia a dia, seu impacto pode ser mais limitado. Isso é particularmente relevante em espaços onde os moradores já enfrentam desafios relacionados a emprego, educação, serviços públicos e insegurança econômica.</p>
<p>O uso de medidas de emergência também <a href="https://www.jamaicaobserver.com/2020/01/23/soe-costing-the-country-almost-half-a-billion-dollars/#google_vignette">levanta questões</a> sobre como os recursos e a atenção são <a href="https://www.guardian.co.tt/news/young-questions-500m-police-overtime-bill-6.2.2605586.aa0c9b25aa">realocados</a>. Intervenções de segurança costumam ser pensadas para abordar ameaças imediatas; porém, reduzir a violência ao longo do tempo requer investimento constante em áreas como educação, empregos, infraestrutura comunitária, e iniciativas de prevenção direcionadas e baseadas em evidências.</p>
<p>Há valor em conectar respostas de segurança e estratégias de desenvolvimento. Na Colômbia, por exemplo, esforços para abordar a violência foram acompanhados por investimentos em transporte público, educação e infraestrutura urbana — particularmente em comunidades que viveram longos períodos de exclusão. Projetos como <a href="https://www.wri.org/insights/urban-transformations-medellin-metrocable-connects-people-more-ways-one">o Metrocable</a> e o desenvolvimento de espaços públicos melhoraram a conexão e o acesso a serviços, demonstrando como o investimento social pode contribuir para resultados de segurança mais abrangentes.</p>
<p>Na Jamaica, como parte de uma abordagem mais ampla para a melhoria da segurança, o <a href="https://jis.gov.jm/government/agencies/citizen-security-justice-programme-csjp/">Programa de Segurança do Cidadão e Justiça</a> (CSJP), que <a href="https://jis.gov.jm/communities-to-be-served-despite-ending-of-csjp/">terminou em 2020</a>, focava em combinar iniciativas de prevenção da violência, engajamento da juventude e fortalecimento institucional. Trinidad e Tobago buscou algo similar através de seu <a href="https://www.undp.org/trinidad-and-tobago/publications/citizen-security-programme-final-report">Programa de Segurança do Cidadão</a>, que <a href="https://trinidadexpress.com/news/local/will-the-citizens-security-programme-be-retained/article_5499c003-60f6-5a57-9505-d21ebcc1d785.html">terminou em 2017</a>, reforçando a necessidade de esforços para prevenção da violência, pensados para contextos locais e não tratados como uma solução única.</p>
<p>Estes casos demonstram que respostas à insegurança são muitas vezes mais sustentáveis quando as medidas de segurança são apoiadas por investimentos que melhoram as condições sociais e econômicas.</p>
<h3>Além da emergência</h3>
<p>Para Trinidad e Tobago, o <a href="https://www.guardian.co.tt/news/govt-heading-to-parliament-on-wednesday-to-extend-soe-6.2.2601355.055b6ffe5a">estado de emergência em andamento</a> reflete a urgência em abordar a violência e as questões de segurança pública. Ao mesmo tempo, ele levanta questões maiores sobre como políticas de segurança se encaixam dentro de uma abordagem de desenvolvimento a longo prazo.</p>
<p>O impacto destas medidas irá refletir não somente nas estatísticas criminais, mas também em como as comunidades se recuperam, na saúde das operações de seus negócios e se as instituições irão ou não manter a já frágil confiança pública.</p>
<p>Entender esses efeitos maiores é importante porque as decisões de segurança dão forma ao ambiente no qual as comunidades se desenvolvem e  respondem a desafios futuros.</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/kwasi-cudjoe/' class='user-link'>Kwasi Cudjoe</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/gabriel-ferreira-wittaker/' class='user-link'>Gabriel Ferreira Wittaker</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/07/12/states-of-emergency-and-the-caribbeans-development-challenge/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Lei do Camboja pode tornar cidadãos apátridas por “prejudicarem a segurança nacional”</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/08/01/lei-do-camboja-pode-tornar-cidadaos-apatridas-por-prejudicarem-a-seguranca-nacional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isabela Torezan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 11:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Camboja]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Governança]]></category>
		<category><![CDATA[Inglês]]></category>
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					<description><![CDATA[“Eu sei como é fácil para aqueles no poder usarem as palavras 'traidor' e 'inimigo' para destruir a esperança e semear o medo”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>A nova lei é uma ferramenta para promover nacionalismo ou uma arma para silenciar a dissidência?</em></big></p><div style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://www.facebook.com/photo?fbid=857741653053461&amp;set=pcb.857745443053082"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Mother-Nature-800x450.jpg" alt="Ativistas do Mãe Natureza " width="800" height="450" /></a><p class="wp-caption-text">A detenção persistente de jovens ativistas do Mãe Natureza evidencia o uso das leis e processos legais como armas para sufocar a oposição. <a href=" https://www.facebook.com/photo?fbid=857741653053461&amp;set=pcb.857745443053082"> Foto</a> do post no Facebook do Mãe Natureza</p></div>
<p><em>Este post também é parte da série Spotlight de julho de 2026 da Global Voices, &#8220;<a href="https://globalvoices.org/special/statelessness-spotlight/">Statelessness</a>&#8220;. Essa série oferece insights sobre o problema da apatridia e como ela prejudica a liberdade de ir e vir, oportunidades educacionais, acesso político e mais. Você pode apoiar essa cobertura doando <a href="https://globalvoices.org/2026/06/17/support-global-voices-spotlight-statelessness/">aqui</a>.</em></p>
<p><span style="font-size: 1.25rem;">O Camboja acrescentou uma emenda à sua Constituição e promulgou uma nova lei em julho de 2025, </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://cambodianess.com/article/national-assembly-approves-controversial-citizenship-law-despite-civil-society-opposition" target="_blank" rel="noopener">possibilitando</a><span style="font-size: 1.25rem;"> que as autoridades revoguem a cidadania khmer daqueles que cometam traição, conspirarem com poderes estrangeiros ou prejudiquem a segurança nacional.</span> O governo disse que a lei vai fortalecer o nacionalismo em meio aos <a href="https://globalvoices.org/2025/07/31/displaced-residents-and-concerned-citizens-appeal-for-peace-amid-the-cambodia-thailand-border-conflict/" target="_blank" rel="noopener">conflitos de fronteira</a> do país com a Tailândia, mas críticos e oponentes disseram que é a última medida autoritária com o objetivo de suprimir a oposição.</p>
<p>Em 27 de junho de 2025, o ex-primeiro-ministro e presidente em exercício do Senado,  Hun Sen, propôs uma emenda para permitir a revogação da cidadania cambojana a acusados de conspirar com forças estrangeiras. Isso foi aprovado pelo Conselho Constitucional em 2 de julho de 2025, pela Assembleia Nacional em 11 de julho e pelo Senado em 15 de julho de 2025. <span style="font-size: 1.25rem;">O projeto de emenda à Lei de Cidadania foi </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.hrw.org/news/2025/09/01/cambodia-revised-law-endangers-citizenship" target="_blank" rel="noopener">promulgado</a><span style="font-size: 1.25rem;"> em 25 de agosto, e o &#8220;Sub-decreto para Implementar a Lei de Nacionalidade&#8221; foi </span><a style="font-size: 1.25rem;" href="https://www.hrw.org/news/2026/01/23/cambodia-finalizes-process-to-arbitrarily-strip-citizenship" target="_blank" rel="noopener">publicado</a><span style="font-size: 1.25rem;"> em 22 de janeiro de 2026.</span></p>
<p><span style="box-sizing: border-box;">Em resumo, a Constituição emendada agora <a href="https://cambojanews.com/constitution-amended-to-permit-cambodian-citizenship-stripping/" target="_blank" rel="noopener">permite</a> que oficiais revoguem a cidadania daqueles julgados culpados de “cometer traição, conspirar com países estrangeiros ou serem condenados pela corte por vários crimes, incluindo traição ou insultar o rei.”</span></p>
<p>O primeiro-ministro Hun Manet, filho do presidente do Senado Hun Sen, <a href="https://pressocm.gov.kh/en/archives/112767?utm" target="_blank" rel="noopener">disse</a> em um discurso que cidadãos obedientes à lei não têm nada a temer em relação às emendas.</p>
<blockquote><p>If you are a patriot and are determined to your last breath not to act against Cambodian interests, please do not worry. But if you have a plan to conspire with a foreign country to destroy Cambodian interests, then you should be [concerned]. And, if you are like that, you should not remain a Cambodian.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Se você é um patriota e está determinado até o seu último suspiro a não agir contra os interesses cambojanos, por favor não se preocupe. Mas se você tem planos de conspirar com um país estrangeiro para destruir os interesses cambojanos, então você deveria (se preocupar). E, se você é assim, não deveria mais ser cambojano.</p></blockquote>
<p>Seus apoiadores no Parlamento <a href="https://cambojanews.com/lawmakers-clear-path-to-strip-citizenship/" target="_blank" rel="noopener">insistiram</a> que as emendas ressaltam o valor do nacionalismo e a necessidade de “proteger a nação.”</p>
<p><span style="box-sizing: border-box;">Mas, em uma declaração conjunta, cerca de 50 organizações da sociedade civil <a href="https://cchrcambodia.org/en/publications/press-releases/drop-amendments-to-nationality-law-don-t-strip-citizenship-of-cambodians" target="_blank" rel="noopener">alertaram</a> que poderiam ser usadas para perseguir ativistas e defensores dos direitos humanos e <a href="https://ngocedaw.org/wp-content/uploads/2025/08/ENG-Joint-Statement-Drop-Amend-nationality-law.pdf" target="_blank" rel="noopener">legalizar</a> a apatridia.</span></p>
<blockquote><p>We risk becoming stateless, rightless, and prisoners in our own homeland. The potential for abuse in the implementation of this vaguely worded law to target people on the basis of their ethnicity, political opinions, speech, and activism is simply too high to accept. The government has many powers, but they should not have the power to arbitrarily decide who is and is not a Cambodian.</p>
<p>The process is so vaguely worded that anyone merely accused of affecting national security or sovereignty can lose their Cambodian citizenship, even if it is the only citizenship they have. In addition, anyone convicted of misdemeanours affecting ‘national security’ can also be stripped of their citizenship.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Estamos correndo o risco de nos tornarmos apátridas, sem direitos, e prisioneiros em nossa própria terra natal. O potencial de abuso na implementação dessa lei de texto vago para perseguir pessoas com base em sua etnia, opiniões políticas, discurso, e ativismo é simplesmente muito alto para ser aceito. O governo tem muitos poderes, mas ele não deveria ter o poder de arbitrariamente decidir quem é e quem não é um cambojano.</p>
<p>A lei é tão vaga em sua redação que qualquer um meramente acusado de afetar a segurança nacional ou soberania pode perder sua cidadania cambojana, mesmo se for a única cidadania que essa pessoa tem. Além disso, qualquer um condenado por delitos afetando a ‘segurança nacional’ pode ser privado de sua nacionalidade.</p></blockquote>
<p>Uma declaração de grupos de direitos humanos, em setembro de 2025, <a href="https://www.licadho-cambodia.org/pressrelease.php?perm=550" target="_blank" rel="noopener">destacou</a> as graves consequências de <a href="https://www.licadho-cambodia.org/pressrelease.php?perm=550" target="_blank" rel="noopener">retirar</a> a cidadania de indivíduos.</p>
<blockquote><p>The removal of citizenship in Cambodia carries harsh and significant consequences. It erases the foundation of the person’s right to own land, to access healthcare, to go to school, to marry, to work legally, to participate in politics, and to travel in and out of the country.</p>
<p>These amendments risk arbitrarily stripping Cambodians of their nationality and fundamental rights, with a far-reaching chilling effect on freedom of expression.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>A remoção da cidadania no Camboja carrega consequências severas e significativas. Isso apaga a fundação do direitos da pessoa a possuir terra, acessar serviços de saúde, estudar, se casar, trabalhar legalmente, participar na política, e sair e entrar no país.</p>
<p>Essas emendas arriscam arbitrariamente tirar a nacionalidade e direitos fundamentais dos cambojanos, com um efeito assustador e de longo alcance na liberdade de expressão.</p></blockquote>
<p>O <em>position paper</em> (documento que apresenta um posicionamento) do Movimento Khmer para a Democracia <a href="https://khmermovementfordemocracy.org/wp-content/uploads/2025/08/General-Comment-of-the-Draft-Law-on-Nationality-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">mencionou</a> como a nova lei pode normalizar a apatridia.</p>
<blockquote><p>Another major gap is the absence of explicit protection against statelessness. International law prohibits rendering individuals stateless, yet the draft law does not guarantee that revocation will only apply to those who hold dual nationality. As a result, Cambodians with only Cambodian citizenship could lose all legal identity and rights.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Outra grande brecha é a ausência de proteção explícita contra a apatridia. A lei internacional proíbe tornar indivíduos apátridas, e mesmo assim o projeto de lei não garante que a revogação vai se aplicar somente àqueles que tem dupla nacionalidade. Como resultado, cambojanos que tem apenas a cidadania cambojana poderiam perder toda a identidade legal e direitos.</p></blockquote>
<p>Em resposta, as autoridades apontaram que outros países têm leis similares, incluindo o Reino Unido, Canadá e muitos <a href="https://cmsny.org/publications/unmaking-citizens/" target="_blank" rel="noopener">países europeus</a>. Mas grupos da sociedade civil destacaram como o governo cambojano tem um histórico de abuso das leis e dos processos judiciais para silenciar críticas e oposição.  Em uma entrevista com o CambojaNews, o presidente da ONG Adhoc, Ny Sokha, <a href="https://cambojanews.com/thumbs-down-on-proposal-to-strip-khmer-citizenship-risk-of-being-abused/" target="_blank" rel="noopener">resumiu</a> a preocupação sobre como a lei pode causar danos a críticos e rivais políticos.</p>
<blockquote><p>We have observed that institutions which have the authority to impose punishments on political groups have yet to make truly independent decisions. We are concerned that if this draft law is passed, certain groups will be powerless to defend themselves, as our judicial system is still not strong.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Nós notamos que instituições com autoridade para impor punições a grupos políticos devem tomar decisões verdadeiramente independentes. Nossa preocupação é que, se esse projeto de lei passar, certos grupos ficarão impotentes para se defender, uma vez que nosso sistema judiciário ainda não é forte o bastante.</p></blockquote>
<p>Nos últimos anos, o partido no poder foi <a href="https://globalvoices.org/2023/12/04/from-hun-sen-to-hun-manet-the-worrying-state-of-free-speech-in-cambodia/" target="_blank" rel="noopener">acusado</a> de usar as leis e as cortes como armas para forçar o <a href="https://www.dw.com/en/cambodian-press-freedom-under-attack/a-71639204" target="_blank" rel="noopener">fechamento de veículos de mídia</a>, <a href="https://www.bbc.com/news/world-asia-42006828" target="_blank" rel="noopener">desfazer partidos da oposição</a> e prender jovens ativistas, incluindo a detenção de <a href="https://globalvoices.org/2024/12/10/free-yourselves-from-fear-cambodian-youth-activists-fight-for-environmental-justice/">jovens ativistas</a> do Mother Nature (Mãe Natureza), um grupo em defesa de direitos ambientais focado em fortalecer as proteções ao meio ambiente no Camboja.</p>
<p>Em uma entrevista com a Radio Free Asia, Vann Dara, ex-líder provincial que agora vive exilada na Austrália, <a href="https://www.rfa.org/english/cambodia/2025/07/07/cambodia-citizenship-amendment-proposed/?utm" target="_blank" rel="noopener">contou</a> que perdeu seu passaporte em 2020 e se tornou apátrida devido à sua posição crítica contra o governo de Hun Sen.</p>
<blockquote><p>I’ve never done anything to harm my country. I only helped the people. I didn’t cut down forests, sell land, gems, or minerals. Yet Hun Sen hunts me down, abuses and arrests us without fault, and even strips us of citizenship and passports.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Eu nunca fiz nada para prejudicar meu país. Eu apenas ajudei as pessoas. Eu não desmatei florestas, vendi terras, pedras preciosas, ou minerais. Mesmo assim, Hun Sen me caça, abusa e nos prende sem razão, e até mesmo tira nossa cidadania e passsaportes.</p></blockquote>
<p>A política exilada Mu Sochua <a href="https://thediplomat.com/2025/07/cambodias-citizenship-bill-is-a-dangerous-weapon-in-a-dictators-hands/" target="_blank" rel="noopener">acrescentou</a> que, com base em sua experiência, as emendas representam uma séria ameaça às liberdades civis das pessoas.</p>
<blockquote><p>For me, this is not an abstract debate. It is deeply personal. I know what it means to lose your birth place and the identity attached. I know how easily words like ‘traitor’ and ‘enemy’ can be wielded by those in power to crush hope and sow fear. I also know silence, from the international community, often emboldens further repression.</p></blockquote>
<blockquote class="translation"><p>Para mim, isso não é um debate abstrato. É profundamente pessoal. Eu sei o que significa perder seu local de nascença e sua identidade juntos. Eu sei como é fácil para aqueles no poder usarem as palavras ‘traidor’ and ‘inimigo’ para destruir a esperança e semear o medo. Eu também sei que o silêncio, da comunidade internacional, frequentemente estimula mais repressão.</p></blockquote>
<p>As tensões na fronteira entre Tailândia e Camboja persistem, e o partido no poder, liderado por Hun Manet e seu pai, continua a consolidar o controle político criminalizando a dissidência. Outra <a href="https://constitutionnet.org/news/voices/amending-article-33-cambodian-constitution-loyalty-nationalism-and-citizenship-stripping?utm" target="_blank" rel="noopener">tática legal</a> que eles agora podem utilizar é ameaçar revogar a cidadania de críticos e rivais políticos, refletindo a deterioração do espaço cívico do país.</p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Written (English) by</span> <a href='https://globalvoices.org/author/mong/' class='user-link'>Mong Palatino</a></div><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Translated (Português) by</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/isabela-torezan/' class='user-link'>Isabela Torezan</a></div></div><span class='source-link'><a href='https://globalvoices.org/2026/07/19/cambodian-law-can-render-citizens-stateless-for-undermining-national-security/'>Veja o post original (English)</a></span></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
		<media:content height="202" medium="image" url="https://globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Mother-Nature-400x300.jpg" width="270"/>	</item>
		<item>
		<title>Brasil: Decisão na Justiça joga luz à história de mulher sem documentos e ‘sem-pátria’</title>
		<link>https://pt.globalvoices.org/2026/07/31/brasil-decisao-na-justica-joga-luz-a-historia-de-mulher-sem-documentos-e-sem-patria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[MigraMundo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 11:19:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Bolívia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois de 40 anos sem documentos e identidade oficial, mulher nascida na Bolívia conseguiu regularizar situação migratória e abrir processo de reconhecimento como apátrida]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><big class='tagline'><em>País passou a ter reconhecimento formal da condição de apátrida a partir de 2017</em></big></p><div id="attachment_123156" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-123156" class="wp-image-123156 size-full" src="https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Untitled-design-7.webp" alt="Mulher de costas diante de um mapa da América do Sul e de um diagrama que mostra um pessoa em busca de documentos" width="800" height="600" srcset="https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Untitled-design-7.webp 800w, https://pt.globalvoices.org/wp-content/uploads/2026/07/Untitled-design-7-400x300.webp 400w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><p id="caption-attachment-123156" class="wp-caption-text">Arte criada no Canva Pro por Global Voices</p></div>
<p><em>Esse texto, escrito por Gustavo Cavalcante e com a colaboração de Rodrigo Borges Delfim, foi publicado originalmente no <a href="https://migramundo.com/como-uma-decisao-da-justica-de-ms-ajuda-a-chamar-atencao-para-questao-da-apatridia-no-brasil-e-no-mundo/">site MigraMundo</a>, em 29 de maio de 2026. Ele é republicado aqui em acordo de parceria com o Global Voices, com edições.</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>Esse post faz parte da série Spotlight do Global Voices de julho de 2026: “</i><a href="https://globalvoices.org/special/statelessness-spotlight"><i>Statelessness</i></a><i>.” Essa série aborda questões relacionadas à apatridia e como ela afeta a vida de indivíduos em sua liberdade de ir e vir, oportunidades educacionais, acesso a políticas e mais. Você pode apoiar essa cobertura doando</i><em><a href="https://globalvoices.org/2026/06/17/support-global-voices-spotlight-statelessness/"> aqui</a>.</em></span></p>
<p>Maria* tinha entre sete e oito anos quando uma mulher brasileira apareceu para buscá-la em <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Cruz_de_la_Sierra">Santa Cruz de la Sierra</a>, na Bolívia, e levá-la ao Brasil, sem que ela carregasse consigo qualquer documento ou registro oficial de sua existência, nem fosse notada por quaisquer autoridades dos países ao cruzar a fronteira.</p>
<p>“Nunca mais voltei. Desde aquele dia eu fiquei em uma casa de um, em uma casa de outro e fiquei rodando. O Brasil inteiro eu já rodei. Trabalhava pela comida, morava na rua. Eu morei na rua porque a pessoa me maltratava, me batia”, <a href="https://direitoshumanos.dpu.def.br/apos-mais-de-40-anos-sem-existir-oficialmente-mulher-apatrida-consegue-na-justica-direito-a-residencia-no-brasil/">contou ela à Justiça</a> brasileira, mais de 40 anos depois.</p>
<p>O relato de Maria foi feito durante uma audiência judicial. Em maio de 2026, uma decisão da 1ª Vara Federal de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Corumb%C3%A1">Corumbá, no estado de Mato Grosso do Sul</a>, região Centro-Oeste do Brasil, reconheceu seu direito à residência no Brasil por reunião familiar, já que ela teve três filhos brasileiros, e instaurou o procedimento de reconhecimento formal da condição de apátrida. A Justiça determinou que a União e a Polícia Federal adotem medidas para garantir sua regularização migratória, sem que sejam necessários documentos considerados impossíveis de obter diante da própria condição de inexistência civil.</p>
<p>Segundo dados divulgados pela <a href="https://direitoshumanos.dpu.def.br/apos-mais-de-40-anos-sem-existir-oficialmente-mulher-apatrida-consegue-na-justica-direito-a-residencia-no-brasil/">Defensoria Pública da União (DPU)</a>, que a representou, Maria passou grande parte da vida à margem de direitos considerados básicos para a maioria da população. Sem certidão de nascimento, carteira de identidade ou passaporte, ela trabalhou informalmente, criou os filhos, sempre enfrentando obstáculos para acessar serviços públicos, como matricular as crianças na escola ou solicitar benefícios previdenciários após a morte do companheiro.</p>
<p>Ainda segundo a Defensoria, enquanto vive da renda de bolos vendidos nas ruas de Corumbá, ela faz tratamento contra o câncer, após o diagnóstico de um nódulo na mama. Os planos dela hoje incluem ir à escola para aprender a escrever e ser batizada na igreja, porém, ambas as instituições exigem documento de identidade.</p>
<p>O juiz federal Rubens Petrucci Júnior <a href="https://direitoshumanos.dpu.def.br/apos-mais-de-40-anos-sem-existir-oficialmente-mulher-apatrida-consegue-na-justica-direito-a-residencia-no-brasil/">definiu o caso dizendo</a> que a Justiça se deparava ali com alguém que “para o Estado brasileiro e para o boliviano, simplesmente não existe”. A frase sintetiza uma condição que vai além da burocracia documental e revela um processo profundo de invisibilidade jurídica e social.</p>
<h3>Cenário do Brasil</h3>
<p>O caso de Maria não é único no Brasil. Em junho de 2023, o <a href="https://migramundo.com/apatrida/">MigraMundo contou a história</a> de Andrimana Buyoya Habizimana, o Abin, que nasceu no Burundi e por questões diversas não teve direito à cidadania local, sendo reconhecido como apátrida pelo governo brasileiro após anos de luta e de residência no país. Ele vive atualmente em <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Natal_(Rio_Grande_do_Norte)">Natal, no Rio Grande do Norte</a>.</p>
<p>De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública compartilhados com o Global Voices, entre 2018 e abril de 2025, 58 processos de condição de apatridia foram analisados no Brasil. Destes, 33 pessoas foram reconhecidas como apátridas, 17 tiveram o caso indeferido e 8 foram encaminhados a outros desfechos (arquivados, extintos ou revogados).</p>
<p>O ministério diz ainda que, atualmente, há 8 processos em análise no país, e não há estimativa oficial do número de pessoas que podem estar em situação de apatridia no Brasil sem registro nos canais oficiais.</p>
<p>Ainda de acordo com informações do governo brasileiro, entre os países de origem das pessoas reconhecidas como apátridas estão Alemanha, Angola, Arábia Saudita, Argentina, Bolívia, Brasil, Burundi, China, Cuba, Egito, Estados Unidos, Guiana Francesa, Holanda, Itália, Japão, Jordânia, Kuwait, Líbano, Palestina, Paraguai, Peru, Rússia, Síria, Suriname, Tibet, Uruguai e Venezuela.</p>
<p>O Brasil passou a ter procedimento próprio para tratar de casos de apatridia com a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Migra%C3%A7%C3%A3o">Lei de Migração, de 2017</a>, e uma portaria interministerial de 2018. Antes disso, diz o governo, ainda que o país fosse parte da <a href="https://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_sobre_o_Estatuto_dos_Apatridas_de_1954.pdf">Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas de 1954</a>, “não havia, na legislação migratória, um procedimento administrativo específico e estruturado para o reconhecimento formal da condição de apátrida nos moldes atuais”. Ainda assim, alguns casos, <a href="https://migramundo.com/apatrida/">como Abin</a>, recorriam à Justiça.</p>
<h3>O que é ser apátrida?</h3>
<p>Segundo a <a href="https://www.acnur.org/br/sobre-o-acnur/quem-ajudamos/apatridas">definição da Organização das Nações Unidas</a>, o apátrida é aquele que não tem sua nacionalidade reconhecida por nenhum Estado. Tal situação ocorre por diversas razões relacionadas, principalmente, a algum tipo de discriminação judiciária, política, religiosa ou social contra minorias. Embora pareça uma questão restrita ao campo diplomático, os impactos da apatridia atravessam o cotidiano de forma profunda e permanente.</p>
<p>A apatridia é considerada uma das formas mais severas de invisibilidade institucional contemporânea. Sem reconhecimento legal, tais pessoas passam a viver em um limbo jurídico no qual direitos básicos deixam de ser garantias universais e passam a depender de exceções administrativas ou de decisões judiciais.</p>
<p>As causas variam conforme o contexto político e histórico de cada país. Entre os principais fatores estão conflitos entre legislações nacionais, discriminação contra minorias étnicas ou religiosas, mudanças territoriais, dissolução de Estados e falhas nos sistemas de registro civil. Crianças nascidas em regiões de conflito, por exemplo, frequentemente ficam sem certidão de nascimento, tornando-se vulneráveis à exclusão documental.</p>
<p>Segundo a Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), ao menos<a href="https://www.unhcr.org/about-unhcr/who-we-protect/stateless-people"> 4,5 milhões de pessoas são apátridas no mundo</a>. Embora esse dado ajude a dimensionar a gravidade do fenômeno, o próprio órgão das Nações Unidas admite que a dimensão real da apatridia é significativamente maior.</p>
<p>A estimativa histórica utilizada por organismos internacionais aponta que o número verdadeiro pode chegar a<a href="https://www.statelesshub.org/theme/data-and-statistics"> 15 milhões de pessoas</a>, justamente porque muitos governos não possuem mecanismos adequados para identificar populações sem cidadania ou sequer produzem estatísticas oficiais sobre o tema, o que gera um ciclo vicioso de invisibilidade e de falta de ações para lidar com a questão.</p>
<p>Entre os casos mais emblemáticos de apátridas estão os <a href="https://globalvoices.org/2026/07/21/sold-as-brides-lost-at-sea-the-trafficking-of-stateless-rohingya-girls/">rohingyas</a>, minoria muçulmana perseguida em Mianmar e privada de cidadania local há décadas. Há ainda populações conhecidas como Bidun, presentes em países do Golfo Pérsico e historicamente excluídas dos sistemas nacionais.</p>
<p>O ACNUR diz que, em algumas regiões, a ausência de documentação também aumenta o risco de exploração laboral, tráfico humano e violência institucional.</p>
<h3>Respostas globais e locais</h3>
<p>Nos últimos anos, organismos multilaterais intensificaram campanhas para tentar reduzir o problema, como a “#IBelong”, liderada pelo ACNUR, que já auxiliou mais de 550 mil pessoas a obter ou confirmar uma nacionalidade. Alguns países passaram a revisar suas legislações e a criar mecanismos de reconhecimento documental. Em 2024, por exemplo, a Tailândia anunciou medidas para acelerar a concessão de cidadania a centenas de milhares de pessoas sem nacionalidade reconhecida.</p>
<p>Além de ser integrante das duas Convenções Internacionais das Nações Unidas sobre a Apatridia – Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas de 1954 e a <a href="https://www.acnur.org/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_para_a_Reducao_dos_Casos_de_Apatridia_de_1961.pdf">Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia de 1961</a> – o Brasil aprovou, em 2007, a <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc54.htm">Emenda Constitucional nº 54</a>, que solucionou o problema dos chamados <a href="https://www.indexlaw.org/index.php/rdb/article/view/2693">“brasileirinhos apátridas”</a> – filhos de brasileiros nascidos no exterior que não conseguiam adquirir a nacionalidade.</p>
<p>Em 2018, o país reconheceu oficialmente seus <a href="https://www.acnur.org/br/noticias/historias/maha-e-souad-mamo-sao-primeiras-pessoas-reconhecidas-como-apatridas-pelo-brasil">primeiros casos de apátridas</a> sob a nova legislação vigente: as <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45738226">irmãs Maha e Souad Mamo</a>, nascidas no Líbano e filhas de sírios, que viviam sem nacionalidade reconhecida devido a conflitos entre legislações nacionais e discriminação religiosa. O caso foi <a href="https://www.acnur.org/br/noticias/historias/maha-e-souad-mamo-sao-primeiras-pessoas-reconhecidas-como-apatridas-pelo-brasil">divulgado pelo ACNUR</a>. As duas receberam naturalização brasileira em cerimônia considerada histórica pela agência.</p>
<p>Maha contou sua <a href="https://www.acnur.org/br/noticias/comunicados-imprensa/conheca-historia-de-maha-mamo-mulher-que-viveu-por-trinta-anos-sem">história no livro</a> “Maha Mamo &#8211; a luta de uma apátrida pelo direito de existir”, publicado no Brasil em 2020.</p>
<p><em>*Um nome fictício foi usado para preservar sua identidade. </em></p>
<div class='gv-rss-footer'><strong><div class='text-credits-container'><div class='text-credits-section'><span class='credit-label'>Escrito por</span> <a href='https://pt.globalvoices.org/author/migramundo/' class='user-link'>MigraMundo</a></div></div></strong></div>]]></content:encoded>
					
		
		
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