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  <title>investigandoonovoimperialismo</title>
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  <description>investigandoonovoimperialismo - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Sun, 12 May 2024 22:15:49 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Sun, 12 May 2024 20:39:00 GMT</pubDate>
  <title>Por que o fazem?</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/por-que-o-fazem-73240</link>
  <description>&lt;p&gt;Grupos de estudantes da universidade de Bolonha ocuparam a Praça Scaravilli com as suas tendas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que o fazem? Não posso responder por eles, porque eu respondo por mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que o fazemos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por vezes as nossas ações podem parecer inúteis, inconsequentes. Neste caso sabemos bem que o são: não conseguiremos parar o genocídio do Estado sionista com o nosso protesto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas as ações inconsequentes podem ajudar a entender melhor o que está  para acontecer,  a difundir a consciência do iminente, a preparar o irremediável. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Gaza está a desenrolar-se o primeiro ato de uma guerra mundial que o supremacismo branco em decadência aprontou contra a Humanidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Gaza está a repetir-se um genocídio como aquele que os colonos europeus levaram a cabo contra a população das planícies da América do Norte. Mataram mulheres e crianças, chegaram lume às tendas dos indígenas de pele vermelha, destruíram os seus meios de subsistência, mataram à fome, violaram, estriparam a vida para que aquelas terras pudessem tornar-se naquilo que se tornaram: a base de uma civilização estruturalmente psicótica, perseguida pela maldição da violência de todos contra todos, achacada por uma loucura incurável que acaba por se voltar contra ele própria.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;civilização guerra paz armas&quot; height=&quot;720&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B86185c73/22641606_nmTva.jpeg&quot; style=&quot;width: 563px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;563&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Monireh Ahmadi&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Do genocídio colonialista germinou uma civilização que multiplicou por mil a potência das armas de extermínio, mas destruiu em si mesmo a humanidade e a razão, precipitando um suicídio que tende a arrastar as suas vítimas para o abismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Gaza está a repetir-se um extermínio como o que os alemães executaram contra milhões de judeus, com a cumplicidade ativa de uma maioria da população europeia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de 1945, no final dessa guerra, alguém disse: nunca mais. A Resistência antifascista, os organismos internacionais de paz, os intelectuais judeus que escaparam ao Holocausto - disseram: Nunca Mais, &lt;em&gt;Nie Wieder&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas aquela promessa foi agora rompida, atropelada, esquecida. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O &lt;em&gt;Nie Wieder&lt;/em&gt; é agora, em Gaza. E desta vez ninguém poderá remediar, nem prometer, porque desta vez o desastre é definitivo, irreparável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 1945, apesar da morte de dezenas de milhões de pessoas (nunca saberemos verdadeiramente quantos), havia a energia de uma sociedade jovem,  e a confiança num futuro ainda possível, um futuro de democracia, ou de socialismo, ou de paz e de respeito pelos direitos humanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas hoje, a civilização branca, senil, decadente, moribunda, esqueceu todas as promessas. Dispõe da potência desmedida das armas e da alta tecnologia, e com aquela potência os exterminadores brancos - israelenses, americanos, russos, europeus - acreditam poder adiar a sua própria morte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Netanyahu, Macron, Trump, Biden,  Putin, Zelenskyy acreditam fazer parte de um romance de Norman Spinrad que se chamava &lt;/span&gt;&lt;em&gt;Bug Jack Barron&lt;/em&gt;&lt;span&gt;,  no qual se criavam crianças para lhes retirar sangue com o qual se rejuvenesciam os transumanos. Acreditam que o sangue de vinte mil crianças palestinianas podem restituir o seu vigor perdido para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não acontecerá. Morrerão como morrem os lobos, mas infelizmente as suas armas são capazes de apagar do planeta qualquer réstia de civilização humana, e talvez até de vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os estudantes que ocupam Bolonha e outros lugares não podem parar o Holocausto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas podem sinalizar que estamos do lado dos colonizados de todo o mundo e que desertamos da guerra que os novos Hitler estão a impor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Franco Berardi publicado a 7 de maio de 2024 em &lt;a href=&quot;https://francoberardi.substack.com/p/perche-lo-fanno?utm_source=post-email-title&amp;amp;publication_id=2391647&amp;amp;post_id=144401775&amp;amp;utm_campaign=email-post-title&amp;amp;isFreemail=true&amp;amp;r=e46vg&amp;amp;triedRedirect=true&amp;amp;utm_medium=email&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Il Desertore&lt;/a&gt;. Tradução para português de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 26 Feb 2024 13:17:00 GMT</pubDate>
  <title>Israel enleado na crise</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;gaza cartoon enleado&quot; height=&quot;500&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bf117d975/22609704_wEIo6.jpeg&quot; style=&quot;width: 800px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;800&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Tradução para português do cartoon de Paresh, publicado a 23 de janeiro de 2024 no &lt;a href=&quot;https://cartoonmovement.com/cartoon/israel-tangled-crisis&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Cartoon Movement&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 22 Nov 2023 18:14:00 GMT</pubDate>
  <title>Bastião do Hamas</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;Bastião Hamas IDF civis&quot; height=&quot;720&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B5a186b3d/22569849_CUg2O.jpeg&quot; style=&quot;width: 886px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;886&quot; /&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Tradução para português do cartoon de Khalil Bendib, publicado a 15 de novembro de 2023 em &lt;a href=&quot;https://otherwords.org/cartoon-targeting-hamas/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;OtherWords&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 30 Oct 2023 21:30:00 GMT</pubDate>
  <title>O terrorismo de Estado de Israel ao longo dos anos</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/o-terrorismo-de-estado-de-israel-ao-71919</link>
  <description>&lt;p&gt;Os grandes meios de comunicação documentaram amplamente o terrorismo do Hamas, da Jiade Islâmica e de outros grupos contra cidadãos israelitas que atingiram o seu nível mais horrendo e sádico no massacre de 7 de outubro.  Os média normalmente definem terrorismo como qualquer ato de violência contra civis com base numa ideologia, o que descreve corretamente o terrorismo do Hamas. Mas há outra definição de terrorismo que se refere a atos de violência contra civis para intimidar e/ou derrotar os seus líderes políticos. Com base nessa definição, Israel tem vindo a aterrorizar as comunidades palestinianas ao longo dos últimos 75 anos. Isto, obviamente, não explica, muito menos desculpa, os horrores que o Hamas infligiu aos israelitas há umas semanas, mas temos de ter em atenção o impacto de atos terroristas de ambos os lados nas políticas israelitas, palestinianas e dos países árabes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tal como os horrores do Holocausto no fim da décadas de 1930 e início da de 1940 contribuíram para a brutalidade israelita contra os palestinianos, o terrorismo da Nakba em 1948 contribuiu para a hostilidade árabe contra Israel. É a “cadeia do ódio” que o lendário historiador Arnold Toynbee descreveu na década de 1950. A &lt;em&gt;Nakba&lt;/em&gt;, que significa “catástrofe” em árabe, não é bem conhecida por alguns e é negada por alguns outros, mas o deslocamento forçado e a expulsão de palestinianos das suas casas durante a guerra árabe-israelita em 1948 é certamente bem conhecida pelos árabes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Israelitas pediram a demissão do Secretário-Geral da ONU por dizer meramente que os ataques do Hamas de 7 de outubro &quot;não aconteceram no vácuo&quot;.  Israelitas até se mostraram contra os comentários de uma das duas reféns libertadas que afirmou ter sido bem tratada pelos guardas e médicos palestinianos que garantiram que ela recebia os cuidados necessários. Habitualmente, os israelitas rejeitam qualquer crítica às suas ações considerando-as antissemitas procurando demonizar o seu inimigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A atroz campanha de bombardeamento israelita com milhares de ataques aéreos em Gaza é uma clara violação da lei internacional e das leis da guerra pela falta de qualquer proporcionalidade, pelas enormes quantidades de bombas largadas sobre comunidades civis incapazes de se defenderem. A falta de Israel providenciar uma estratégia de saída para os gazenses é uma violação da lei internacional.  O fracasso de Israel providenciar alimentos, água e combustível é outra violação do direito internacional. A soma de todas estes atos horrendos aponta para terrorismo ou mesmo genocídio.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;caminho guerra israel caos palestina&quot; height=&quot;375&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Ba217b364/22560746_Z4Dg7.jpeg&quot; style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;600&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de  Paresh Nath, U.T. Independent, Índia&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os grandes meios de comunicação basicamente ignoraram o facto de Israel ter transformado Gaza numa &quot;prisão a céu aberto&quot;, um termo usado pelo antigo Primeiro Ministro britânico David Cameron, logo após a vitória do Hamas nas eleições de 2006. O ato eleitoral foi inicialmente apoiado pelo governo Bush, particularmente pela Secretária de Estado Condi Rice. O termo &quot;prisão a céu aberto&quot; levantou críticas por parte dos israelitas, mas o facto de 2 milhões de palestinianos sofrerem 50 anos de ocupação e 15 anos de bloqueio não pode ser negado. Quando eu estive em Israel no final da década de 1970 numa visita oficial e me referi a Israel como um Estado de&lt;em&gt; apartheid&lt;/em&gt;, fui igualmente criticado pelos meus anfitriões israelitas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Metade da população de Gaza são crianças e as táticas de Israel fizeram com que as crianças palestinianas crescessem numa sociedade caracterizada pelo medo, falta de segurança e desesperança. Foram destruídos serviços médicos e a taxa de desemprego em Gaza é a pior do mundo. Os estudantes palestinianos conseguiram bolsas académicas no Ocidente, incluindo nos Estados Unidos, mas não lhes foi permitido sair do território. O tipo de imagens que estamos a ver atualmente em resultado dos bombardeamentos israelitas deveriam ter sido mais divulgadas nos anteriores bombardeamentos de 2009 e 2014. Os governos dos Estados Unidos em grande parte ignoraram este terrorismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sete em cada dez palestinianos de Gaza estão registados como refugiados e muitos deles são oriundos de famílias que foram forçadas a abandonar as suas aldeias em 1948. Muitos outros foram forçados a sair das suas casas devido a violência ou outras guerras. Quatro anos depois do ataque israelita a Gaza em 2014, dezenas de milhar de palestinianos em Gaza não tinham ainda conseguido regressar a suas casas. As crianças mais velhas em Gaza sobreviveram a três guerras que mataram mais de 3800 palestinianos antes da atual campanha. Mais de 700 destes mortos eram crianças. Muitas crianças viram membros da sua família, amigos ou outros serem mortos ou gravemente feridos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um relatório da ONU em 2012 previu que o enclave palestiniano se tornaria &quot;inabitável&quot; em 2020 se nada fosse feito para aliviar o bloqueio. Em junho de 2017 um relatório da ONU sobre as condições de vida em Gaza afirmava que todos os indicadores iam na direção errada e que o ponto limite estava a aproximar-se mais rapidamente do que anteriormente previsto. Na primeira semana da atual guerra vimos 6000 bombas destruir ou danificar 11000 estruturas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os Estados Unidos e o governo Biden são cúmplices desta campanha porque enviámos armamento militar sofisticado o mais rapidamente possível. Atualmente, os Estados Unidos apressaram-se a enviar artilharia de 155mm, bombas inteligentes e mísseis terra-terra para apoiar a campanha aérea e no terreno contra uma comunidade indefesa. Numa demonstração de coragem pouco usual, um responsável oficial do Departamento de Estado, Josh Paul, demitiu-se em protesto contra a entrega de material militar a um exército israelita que não necessita dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A combinação de um Netanyahu não confiável e de um Biden vulnerável não indicia uma oportunidade para um cessar-fogo, ainda menos para uma solução política. Biden aconselhou realmente Netanyahu para não se “deixar levar pela raiva&quot;, mas este é um exemplo de muito pouco e muito tarde. O Secretário de Estado de Biden, Antony Blinken, está particularmente à toa quanto ao contexto da guerra, chegando a Israel a dizer que estava lá &quot;como judeu&quot;. A sádica campanha de bombardeamento israelita contribuiu para a indisponibilidade dos líderes árabes para se encontrarem com o Presidente Biden.  Todos os recentes governos dos Estados Unidos parecem acreditar que a transferência de armas financiada por este país vai contribuir para a segurança de Israel e encorajar concessões de Israel que possam permitir um Estado palestiniano. Este é um cálculo falso e perigoso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Melvin Goodman publicado a 27 de outubro de 2023 no &lt;a href=&quot;https://www.counterpunch.org/2023/10/27/israeli-state-terrorism-over-the-years/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Counter Punch&lt;/a&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 18 Oct 2023 21:59:00 GMT</pubDate>
  <title>A licença para matar de Israel: há uma campanha genocida em Gaza</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/a-licenca-para-matar-de-israel-ha-uma-71187</link>
  <description>&lt;p&gt;Na guerra, mesmo antes de começarem os combates, uma das tarefas prioritárias é invalidar o inimigo enquanto um ser humano com moral. Depois, quando entram em ação os cartunistas, nem como ser humano. Isto pode resumir-se com a condenação por parte de William Gladstone &quot;dos turcos&quot; na década de 1870, apelidando-os de &quot;uma grande espécie anti-humana da humanidade.” As atrocidades cometidas, ou alegadamente cometidas, pelo exército irregular otomano deram o tom à guerra, fazendo aquilo a que agora se chama, o massacre e a limpeza étnica de centenas de milhares de muçulmanos da Bulgária. Sobre estas atrocidades, Gladstone não tinha nada a dizer. Assim que a população doméstica tenha sido persuadida de que o inimigo é intrinsecamente mau, brutal e desumano, qualquer horror é credível. Fazendo os alemães profundamente parte da &quot;civilização ocidental&quot;, tendo dado ao mundo alguma da sua maior literatura, filosofia, música e descobertas científicas, tinha de se encontrar uma identidade alternativa para que as histórias de atrocidades fossem credíveis. Isto fez-se transformando os alemães nos &quot;hunos&quot;, uma referência à tribo nómada da Ásia Central que invadiu o império romano no século IV. Como os hunos eram possivelmente de origem turca, serviram também para a propaganda usada contra o Império Otomano – &quot;os turcos&quot;. Os &quot;hunos&quot; rapidamente começaram a ser descritos como macacos com um capacete bicudo com as mãos a escorrer sangue. Tendo sido transformados em monstros, a população britânica podia agora acreditar que os hunos tinham uma fábrica onde os cadáveres eram derretidos e transformados para obter gordura, que tinham violado freiras belgas, que tinham cortado os peitos a mulheres e atirado bebés ao ar apanhando-os com as suas baionetas. O efeito na população era duplo, criando nos militares uma ânsia de matar e uma semelhante vontade de fazer sangue na frente interna. Só depois da guerra terminar é que se verificou, da forma possível tanto tempo após os acontecimentos, que essas histórias eram mentiras contadas para inflamar a população britânica contra o inimigo. A campanha contra &quot;os turcos&quot; foi ainda menos limitada. O efeito devastador nos civis da guerra no leste da Anatolia e no Cáucaso quase não precisavam de serem exagerados. O que aconteceu aos arménios ainda envenena as relações entre arménios e turcos. Ao mesmo tempo, o sofrimento dos muçulmanos e a sua morte pela mesma combinação de causas (massacres, contaminações, doenças e má nutrição) é largamente ignorado. &quot;Os turcos&quot; já eram monstros para lá do limite humano. É o retorno da &quot;espécie anti-humana da humanidade” de Gladstone. Contaram-se as histórias mais macabras, com acusações a serem apresentadas como factos. A campanha anti-turca continuou depois da guerra, preparando a mentes das pessoas para a invasão grega do ocidente da Anatólia em 1919. Os títulos das notícias na imprensa britânica e norte-americana são evidentes: &quot;Milhões de gregos massacrados, atirados ao mar&quot;, &quot;Um milhão de gregos mortos pelas forças turco-teutónicas na Ásia&quot;, &quot;Turcos escaldam 250 mil&quot;. A verdade, revelada por uma comissão inter-aliados em dois relatórios, um deles em 1919, que foram censurados por serem tão embaraçosos para os governos gregos e britânicos, era que as atrocidades tinham sido cometidas maioritariamente pelo exército grego e pelos civis no seu encalce. A escala era tão grande que a campanha grega foi descrita por um comissário do Comité Internacional da Cruz Vermelha e por Arnold Toynbee, também testemunha, como uma &quot;guerra de extermínio&quot; dos turcos. As atrocidades alegadas contra os turcos em  1914-18 também envolviam a morte de bebés de forma horrenda, queimados vivos e as cabeças entregues num saco a um comandante. Era possível acreditar nestas histórias de atrocidades porque &quot;os turcos&quot; já tinham sido apresentados como criaturas odiosas, capazes de qualquer coisa. O propósito era elevar o nível de ódio na população em ambos os lados do Atlântico. Isto não quer dizer que não tenham acontecido verdadeiras atrocidades. Isso acontece sempre, na guerra, mas a intenção aqui é a desumanização com recurso a qualquer mentira que possa inflamar os ânimos da população e manter o apoio popular num nível alto. Um bebé enquanto arma de guerra foi usado em 1990 quando uma mulher chorosa descrevia a forma como soldados iraquianos tinham arrancado bebés das suas incubadores num hospital do Kuwait e os tinham atirado pelo chão, mas a história era falsa. A mulher afinal era filha do embaixador do Kuwait em Washington e o seu guião tinha sido escrito por uma firma de relações públicas. As mentiras das armas de destruição em massa contadas em 2003 permitiram a matança de centenas de milhares de civis a a ruína do seu país. Mais mentiras foram contadas para justificar a destruição da Líbia e da Síria.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;gaza liberdade EUA Israel&quot; height=&quot;370&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Be117aaf1/22555645_LGmu1.jpeg&quot; style=&quot;width: 599px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;599&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Emad Hajjaj, jornal Alaraby Aljadeed, Londres&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais mentiras estão agora a ser contadas na atual guerra. Os meios de comunicação têm passado a história dos bebés decapitados todos os dias, quando a sua única fonte é um soldado, um colono associado a algumas das figuras mais violentas anti-palestinianas na Cisjordânia. Tal como aconteceu inúmeras vezes no passado, os meios de comunicação transformam uma acusação horripilante num facto, sem terem nenhuma evidência credível mas mesmo assim repetem-na irresponsavelmente e diariamente como se fosse verdade. Também não há evidências de violações nem da morte de 260 jovens mortos numa &quot;rave&quot; perto da fronteira com Gaza. A consequência disto é que é passada uma licença a Israel, aos olhos da população e dos políticos, para fazerem o que quiserem em Gaza, onde em poucos dias Israel já matou centenas de crianças. As suas mortes, os seus corpos encurralados nos destroços de edifícios de habitação, ao contrário do boato lançado por um único colono extremista vestido com uniforme militar, são verificáveis. Desde 1948, Israel matou muitos milhares de crianças, até mesmo bebés de colo. Na Cisjordânia, mata frequentemente crianças, em Gaza e no Líbano mata centenas de cada vez que invade. No entanto, só nas raras ocasiões em que são mortas crianças judias durante um ataque palestiniano é que todo o &quot;ocidente&quot; fica indignado. Nesse casos há uma cobertura mediática saturante de todos os pormenores pavorosos, enquanto que as crianças palestinianas mortas – às vezes até irmãos e pais mortos – raramente merecem ser nomeadas. Israel dizimou famílias inteiras em Gaza, não só agora mas também nos seus ataques anteriores, sem que os média ocidentais tivessem alguma coisa a dizer e com os governantes ocidentais a fazerem pouco mais do que se mostrarem contra a violência &quot;desproporcionada&quot;, ao passo que não há nada de proporcional quando Israel ataca. O que a história nos demonstra sobre as origens deste conflito desde o início, tendo por base o objetivo sionista de expulsar os palestinianos da sua terra, não parece ter importância para os meios de comunicação nem para os governos ocidentais. É como se a história só tivesse começado há alguns dias quando os palestinianos atravessaram a fronteira e atacaram colonatos judeus construidos na sua terra sujeita a limpeza étnica, um simples facto que os média não querem que os seus leitores saibam porque isso iria expor a desonestidade da sua narrativa. Apesar do que é inegável sobre a campanha sionista para se retirar da Palestina os seus habitantes, expulsando-os, matando-os ou tornado as suas vidas insuportáveis, os governantes ocidentais colocam-se próximos do Estado colonial agressor que eles implantaram no Médio Oriente. O governo e o parlamento de Israel está repleto de fascistas, supremacistas judeus e outros extremistas assassinos. Estas são as pessoas que os média e os governantes ocidentais estão a apoiar em Israel. Podemos ainda não estar no ponto final calamitoso desta guerra centenária  mas parece mais perto do que nunca. Há uma campanha genocida em Gaza, permitida para toda e qualquer finalidade pelos governos e meios de comunicação ocidentais. O &quot;quarto poder&quot; nunca pareceu tão degradado e destrutivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Jeremy Salt publicado a 14 de outubro de 2023 no &lt;a href=&quot;https://www.palestinechronicle.com/israels-license-to-kill-genocidal-campaign-has-been-unleashed-in-gaza/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Palestine Chronicle&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sat, 14 Oct 2023 20:39:00 GMT</pubDate>
  <title>Meus amigos israelitas: é por isto que eu apoio os palestinianos</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/meus-amigos-israelitas-e-por-isto-que-70588</link>
  <description>&lt;p&gt;É um grande desafio mantermos a nossa orientação moral quando a sociedade à qual pertencemos - líderes e meios de comunicação - assume uma superioridade moral e espera que partilhemos com eles a mesma fúria justiceira com a qual reagiram aos acontecimentos de sábado passado, 7 de outubro. Só há uma forma de resistir à tentação de embarcar nisso: já teres compreendido, a dada altura da tua vida - mesmo um cidadão judeu de Israel - a natureza colonial do sionismo e teres ficado horrorizado com as suas políticas anti povo palestiniano. Se tiveres essa compreensão, então não vacilarás, mesmo se as venenosas mensagens retratarem os palestinianos como animais, ou como &quot;animais humanos&quot;. Essas mesmas pessoas insistem em descrever o que aconteceu no sábado passado como um &quot;holocausto&quot;, maltratando a memória dessa grande tragédia. Estes sentimentos estão a ser veiculados, dia e noite, tanto pelos meios de comunicação como pelos políticos israelitas. Foi esta orientação moral que me levou, bem como a outros na nossa sociedade, a estar ao lado do povo palestiniano de todas as formas possíveis; isso permite-nos, ao mesmo tempo, admirar a coragem dos combatentes palestinianos que tomaram mais de uma dúzia de bases militares, ultrapassando o exército mais forte do Médio Oriente. De igual forma, pessoas como eu não podem deixar de levantar questões sobre o valor moral ou estratégico de algumas ações desta operação. Por sempre termos apoiado a descolonização da Palestina, sabíamos que quanto mais tempo durasse a opressão israelita, menor probabilidade havia de a luta de libertação ser &quot;estéril&quot; – tal como aconteceu em todas as lutas de libertação no passado, em qualquer parte do mundo. Isto não significa que não devemos olhar para o cenário geral, nem por um minuto. Este cenário é o de um povo colonizado a lutar pela sua sobrevivência, num tempo em que os seus opressores elegeram um governo que está decidido a acelerar a destruição, a eliminação de facto do povo palestiniano – ou mesmo do seu desejo de serem um povo. O Hamas tinha de agir e de forma rápida. É difícil proferir estes contra-argumentos porque os políticos e os meios de comunicação ocidentais encarreiraram no discurso de Israel e na sua narrativa, por muito problemática que ela seja. Será que aqueles que decidiram iluminar o edifício do Parlamento em Londres ou a Torre Eiffel em Paris, com as cores da bandeira de Israel, compreenderão verdadeiramente como este gesto aparentemente simbólico é recebido em Israel? Até os sionistas liberais, com um mínimo de decência, entendem este gesto como uma absolvição de todos os crimes que Israel cometeu contra o povo da Palestina desde 1948; e portanto, como um cheque em branco para continuar com o genocídio que Israel está a levar a cabo contra o povo de Gaza. Felizmente, também houve reações diferentes aos acontecimentos nos últimos dias. Tal como no passado, grande parte da sociedade civil no Ocidente não se deixa enganar com esta hipocrisia, já em exibição no caso da Ucrânia. Muita gente sabe que desde junho de 1967, um milhão de palestinianos foram detidos em prisões , pelo menos uma vez na vida. E com a prisão, o abuso, a tortura e a permanente detenção sem julgamento. Estas mesmas pessoas conhecem a horrorosa realidade que Israel criou na Faixa de Gaza quando bloqueou a região, impondo um cerco hermético, iniciado em 2007, acompanhado pelo implacável assassinato de crianças na Cisjordânia. Esta violência não é um fenómeno novo, pois tem sido esta a face permanente do sionismo desde a fundação de Israel em 1948. Por causa dessa mesma sociedade civil, meus queridos amigos israelitas, irá verificar-se que o vosso governo e meios de comunicação estão errados, pois não serão capazes de fazer de vítimas, receber apoio incondicional e escaparem com os seus crimes. Eventualmente, ficará visível o cenário geral, apesar do inerente enviesamento dos meios de comunicação ocidentais. A grande questão, no entanto, é esta: serão capazes, meus amigos israelitas, de ver também claramente o cenário geral? Mesmo depois de anos de doutrinação e engenharia social? E, não menos importante, serão capazes de aprender outra importante lição, que pode ser obtida dos acontecimentos recentes? A lição de que a força, só por si, não consegue encontrar um equilíbrio entre um regime justo, por um lado, e um projeto político imoral, por outro. Mas há uma alternativa. De facto, sempre houve uma: uma palestina livre sem sionismo, libertada e democrática, do rio ao mar; uma Palestina que acolha os refugiados e edifique uma sociedade que não discrimine com base na sua cultura, religião ou etnia. Esse novo Estado procuraria retificar, tanto quanto possível, os males do passado, em termos de iniquidade económica, roubo de propriedades e negação de direitos. Isso poderia ser o prenúncio de um renascimento de todo o Médio Oriente. Nem sempre é fácil mantermos a nossa orientação moral, mas se ela é em direção à descolonização e libertação, então ela guiar-nos-á pelo meio do fumo do propaganda venenosa, das políticas hipócritas e da desumanidade, tantas vezes perpetrada em nome dos &quot;nossos valores ocidentais comuns&quot;. &lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;gaza 2023 direito&quot; height=&quot;622&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B3a18f15c/22552982_oOEt4.jpeg&quot; style=&quot;width: 960px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;960&quot; /&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace; font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Emad Hajjaj (politicalcartoons.com)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Ilan Pappé, publicado a 10 de outubro de 2023 no &lt;a href=&quot;https://www.palestinechronicle.com/my-israeli-friends-this-is-why-i-support-palestinians-ilan-pappe/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;The Palestine Chronicle&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <guid isPermaLink='true'>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/o-desafogo-moral-supremacista-na-70005</guid>
  <pubDate>Sun, 08 Oct 2023 23:39:00 GMT</pubDate>
  <title>O desafogo moral supremacista na Palestina</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/o-desafogo-moral-supremacista-na-70005</link>
  <description>&lt;p&gt;Terroristas sanguinários do Hamas assassinam civis desarmados numa cidade de Israel. Todo o Ocidente condena a cruel aberração. Represália democrática contra os terroristas desumanos. Volta o equilíbrio, o desafogo moral, a superioridade reestabelece-se, já se pode continuar a brutal repressão do povo da Palestina por parte dos nossos sócios e amigos israelitas. Continuemos a dar lições sobre o que é justo, o bem e a democracia. Matar civis é errado. Todos aplaudimos, todos de acordo, afagamos os nossos egos, sorrimos para o telemóvel depois de ter escrito a nossa condenação banal, oca e ridícula que ninguém nos pediu e bebemos outro gole de cerveja.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ursula Von Der Leyen estava “&lt;em&gt;deeply concerned &lt;/em&gt;[profundamente preocupada]” após o ataque do Hamas e reconhecia o direito de Israel a se defender. Este comentário, que se usa cada vez que se avizinha uma violenta guerra de represália sionista, nunca é feito quando os colonos israelitas fazem um pogrom contra os palestinianos em Jenin, porque, embora não o expressem abertamente, as potências ocidentais defendem o direito do Estado de Israel a ocupar, reprimir, assassinar e realizar limpezas étnicas de palestinianos. Por isso, nunca iremos ver a mensagem de um mandatário internacional reconhecendo o direito da Palestina a defender-se depois de 100 anos de colonização, guerra e ocupação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ninguém é levado ao engano no que concerne às relações internacionais e à sua pretensa bondade na hora de agir num conflito. Tudo o que se argumenta com a Ucrânia frente à Rússia serve para a Palestina frente a Israel. Mas Israel é o &quot;nosso filho da puta&quot; e olhamos para o lado, da mesma forma que  deixamos o caminho livre para limpeza étnica no Nagorno-Karabakh.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Arthur James Balfour declarou em 1917 que os britânicos não tinham “sequer a intenção de passar pelo formalismo de consultar a vontade dos atuais habitantes do país”.  Essa é a história da Palestina, do colonialismo e da repressão sionista do povo palestiniano com a colaboração, conivência e silêncio de todas as potências ocidentais, desde que se decidiu despojar um povo da sua terra. Agora queremos explicar um conflito histórico e ocultar a responsabilidade da violência com o último ataque terrorista do Hamas. É compreensível, é uma maneira de se proteger a consciência, justificar o conflito de forma simples e maniqueísta, para que a roda da repressão possa continuar a girar, menorizando a sistémica violação dos direitos humanos palestinianos que não passa de uma simples nota de rodapé nos meios de comunicação ocidentais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Arthur James Balfour foi o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico que passou a certidão de nascimento do sionismo através de uma missiva enviada em 1917 a Lionel Walter Rothschild, um barão que era líder da comunidade judaica na Grã Bretanha. A carta dizia: “Estimado Lord Rothschild. Tenho o grande prazer de lhe enviar, em nome do governo de sua Majestade, a seguinte declaração de apoio às aspirações dos judeus sionistas que foi remetida ao gabinete e aprovada pelo mesmo. &apos;O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu e empregará os seus melhores esforços para facilitar a concretização desse objetivo, ficando claro que não se deve fazer nada que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina, os direitos e o estatuto político que desfrutam os judeus em qualquer outro país’. Ficarei agradecido se você der conhecimento desta declaração à Federação Sionista. Arthur Balfour.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A declaração Balfour converteu-se na primeira declaração sionista, isto é, o direito do povo judeu a estabelecer-se nos antigos reinos bíblicos de Judá e Israel. O sionismo declarado da carta instaurou-se não cumprindo um dos princípios fundamentais da breve missiva: o respeito pelos direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina, porque se algum ensinamento nos deixou a história é que o sionismo se construiu sobre o sangue dos povos semitas que ocupavam esse território antes de que o colonialismo decidisse por eles. Não se pode explicar, nem minimamente, a repressão sofrida pelo povo palestiniano num simples artigo de opinião, mas assinalar o ano da declaração Balfour serve para colocar em evidência as mensagens simplistas que reduzem tudo à denúncia de que não é correto que o Hamas mate civis em Israel.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;Latuff Palestina&quot; height=&quot;511&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B8d181442/22550132_y2h5J.jpeg&quot; style=&quot;width: 843px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;843&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Latuff.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Hamas é uma organização terrorista que se alimenta e expande pela violação dos direitos humanos por parte de Israel e dos impérios coloniais desde 1917. Cada ocupação, cada massacre sionista, cada criança morta, cada casa destruída pelos colonos, cada expulsão de uma família das suas terras é um menor armado com uma &lt;em&gt;kalashnikov&lt;/em&gt;. O processo colonial sionista imposto pela Grã Bretanha e Israel chegou numa época em que se impunham os processos de descolonização e por isso fracassou. Os sionistas equivocaram-se no tempo para expulsar os palestinianos e desvalorizaram a capacidade de resistência de um povo digno que aguentou um século frente às grandes potências imperiais e militares do nosso tempo. O ataque brutal do Hamas sobre Israel pode dar-lhes a justificação que procuravam para acabar com o conflito centenário de uma das três únicas maneiras possíveis: a que sempre procurou Israel, com a total eliminação e expulsão dos palestinianos da sua terra mediante um genocídio e uma limpeza étnica. As outras possibilidades, já descartadas por impossíveis, são a expulsão do colonizador, como na Argélia, ou o acordo justo entre iguais como na África do Sul depois do &lt;em&gt;apartheid&lt;/em&gt;. Quem se sentir melhor pessoa por ficar escandalizada com a violência brutal dos terroristas do Hamas em Israel contra a população civil é porque nunca se interessou de verdade pelo que acontece na Palestina. Que não se julguem melhores, são apenas mais ignorantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de António Maestre publicado &lt;a href=&quot;https://www.eldiario.es/internacional/desahogo-moral-supremacista-palestina_129_10579701.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;ElDiario.es&lt;/a&gt; a 8 de outubro de 2023. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>hamas</category>
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  <category>israel</category>
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  <pubDate>Sun, 30 Jul 2023 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Fábricas de vida e de morte</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;cartoon guerra fabricas armas alimentos&quot; height=&quot;545&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Ba918d681/22512581_zzbRz.jpeg&quot; style=&quot;width: 750px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;750&quot; /&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;&quot;Fábricas de vida e de morte&quot;, cartune de Arcadio Esquivel publicado na &lt;a href=&quot;https://www.cagle.com/arcadio-esquivel/2023/07/factories-for-life-and-death&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Cagle Cartoons&lt;/a&gt; a 21 de julho de 2023. Tradução de Alexandre Leite&lt;/span&gt;.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sat, 22 Jul 2023 15:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Por que votarei Sumar</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/por-que-votarei-sumar-68896</link>
  <description>&lt;p&gt;É provável que, olhando para o título deste artigo, o leitor imagine que este será um pangenírico incondicional da Sumar e da sua líder Yolanda Díaz. Mas não, trata-se de explicar por que votarei na Sumar apesar de todas as críticas que vou assinalar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de não se ter oposto com contundência, nem parece que o vá fazer, ao envio de armas para o exército da Ucrânia, ao treino dos seus militares, ao aumento do nosso orçamento militar, ao aplauso e receção com entusiasmo da cimeira da OTAN em Madrid… em poucas palavras, a metermo-nos numa guerra que no é a nossa e que cada vez mais se aproxima de uma Terceira Guerra Mundial e do desastre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar do projeto político estar longe de ser de uma organização com elaboração coletiva, democracia interna, debate interno, estrutura hierárquica mas com participação das bases.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de tanto a maioria dos seus candidatos, como os partidos membros da coligação, se terem caracterizado por promover um debate político em torno de guerras culturais baseadas em sentimentos de género, preocupações com os genitais, com quem se vai para a cama, o que se come, os animais de estimação, reivindicaçao de privilégios para o seu cantinho ou o ecologismo como um negócio para alguns.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;sumar eleições espanha&quot; height=&quot;572&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B1817de79/22512572_ziuvr.jpeg&quot; style=&quot;width: 442px; padding: 10px 10px;&quot; width=&quot;442&quot; /&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar do discurso eleitoral parecer às vezes uma missa evangelista, outras um episódio dos Teletubbies e outras uma montagem audiovisual para um infantário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de ter a sensação de que deslizamos no quadro político global em direção ao contexto verde capitalista alemão que apoiou invasiões na Jugoslávia, de cumplicidade absoluta com a OTAN e agora com o envolvimento total na guerra da Ucrânia e o seguidismo dos Estados Unidos. Tudo isso a acrescentar ao rol da tradição anti-imperialista da esquerda mundial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de tudo isto, não existe outra opção no panorama espanhol com uma proposta política melhor. E a política é a gestão do viável, do menos mau. Apoiar opções políticas de abstenção, voto nulo ou voto em partidos que não vão conseguir representação poderá servir para nos apresentarmos como coerentes e muito dignos, mas o nosso sistema político e eleitoral está perfeitamente desenhado para gerir em seu benefício todas essas opções aparentemente rebeldes e díscolas e acabarem neutralizadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aos políticos e partidos precedentes da Sumar não lhes podíamos exigir mais conquistas do que as que alcançava a sua representação de 35 deputados de um total de 350. E foi graças a eles que se subiu o Salário Mínimo Interprofissional como nunca tinha acontecido antes, se conseguiu ligar a subida das pensões ao Índice de Preços de Consumo, se protegeram os trabalhadores durante a pandemia, se aprovou o Rendimento Mínimo Vital embora desenvolvido com muitas deficiências ou se melhorou a reforma laboral. É verdade que muitos temos sentido falta de um discurso mais à esquerda frente às políticas do governo de coligação, mas os resultados efetivos devido à sua representação não podiam ser maiores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sou dos que pensam que promover um castigo com o objetivo de que quanto pior para esta esquerda insuficiente (mesmo que haja quem não a considere esquerda), melhor será para um horizonte futuro de uma esquerda melhor, não tem nenhum fundamento. Se se quer ir fazendo uma esquerda melhor, aqui estaremos dispostos a ajudar, apoiar e empurrar. Entretanto, vamos apoiar o único que temos. Este apoio não está impedindo que nasça algo melhor, se é que se pode.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os que somos críticos desde a esquerda com a Sumar, con os seus antecedentes, a sua realidade e a sua previsão de futuro, devemos continuar com esse espírito crítico, assinalar as deficiências, exigir as retificações, mas entender que com o castigo à Sumar negando-lhes o voto, não estaremos a melhorar nenhum horizonte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não existe o partido político perfeito para o meu ideário, mas isso creio que os comprometidos devemos saber que o nosso poder está no agrupamento em torno a mínimos, na colaboração desde as diferenças, no respeito por essa diferença sem perder o objetivo da influência e da crítica. Pode parecer contraditório, mas alguns acreditamos que devemos combinar o voto com a sua desmistifação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Pascual Serrano publicado a 21 de julho de 2023 em &lt;a href=&quot;https://mundoobrero.es/2023/07/21/por-que-votare-sumar&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Mundo Obrero&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 04 Apr 2021 19:11:00 GMT</pubDate>
  <title>«Eu quero parar com a luta entre os hútus e os tútsi!»</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/eu-quero-parar-com-a-luta-entre-os-68449</link>
  <description>&lt;div class=&quot;kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Então o que é que te aconteceu?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Apanhei um tiro no pé!”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Mmmm... chiça... Iamento ouvir isso!”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC. “Não há problema... já não me dói e eu tive sorte de ter sido só o pé!”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “E por que é que apanhaste um tiro?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Foi só mais uma bala perdida... havia combates perto da minha aldeia...”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “E como é que te chamas?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Bonne Chance&quot; [Boa Sorte em francês]&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Ahahahah.... deve ser por isso que dizes que tiveste sorte! &lt;span class=&quot;pq6dq46d tbxw36s4 knj5qynh kvgmc6g5 ditlmg2l oygrvhab nvdbi5me sf5mxxl7 gl3lb2sf hhz5lgdu&quot;&gt;&lt;img src=&quot;https://static.xx.fbcdn.net/images/emoji.php/v9/t57/1/16/1f609.png&quot; alt=&quot;😉&quot; width=&quot;16&quot; height=&quot;16&quot; /&gt;&lt;/span&gt; “&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Temos todos sorte se ainda estivermos vivos! E de onde és tu?”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Portugal”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “?”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Cristiano Ronaldo?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Ahhh... Toda a gente gosta dele aqui no Burundi!”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Então, o que queres ser quando fores grande?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Mmm... ainda não sei...”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Mas deves ter algumas ideias”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Eu sei o que quero fazer mas não sei o que quero ser”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Então o que queres fazer?”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Eu quero parar com a luta entre os hútus e os tútsi! Todos os problemas no Burundi vêm dessa divisão estúpida. Quem de dera que esses rótulos não existissem. Toda a gente diz que um dia haverá outro Genocídio e já tivemos sofrimento que chegue neste país. Vocês têm hútus e tútsi no vosso país?”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Não, mas temos outros tipos de racismo e discriminação. Contra negros, muçulmanos, ciganos e outros....”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “ Então eu seria discriminado no país do CR7?”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Talvez não abertamente, e certamente não por toda a gente, mas algumas pessoas iriam olhar para ti com desdém... eu gostava de poder fazer alguma coisa para parar isso!”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Pois é isso que eu quero fazer. Parar a discriminação entre hútus e tútsis e fazer tudo para que estivéssemos todos unidos como uma família no Burundi. Mas como é que eu poderia fazer isso?”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;GC: “Mmmm...Podes ser um ativista ou trabalhar numa ONG que defenda os Direitos Humanos... Ou podes ser um advogado e proteger as vítimas ou enviar os criminosos para a prisão, ou podes ser um escritor ou um filósofo e tocar o coração das pessoas e andar pelo Burundi a contar histórias inspiradoras...”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;BC: “Eu gosto dessa última ideia de ser um escritor, fala-me mais sobre isso...”&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q&quot;&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;Gustavo Carona: “Bem, se conseguires tocar o coração das pessoas, podes salvar o teu país de um outro genocídio. Usa a realidade misturada com coração, alma, humor, criatividade e humanidade, e o resto há-de vir.”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;Bonne Chance: “Não digas mais nada. Eu vou escrever com o meu coração e salvar o meu país!”&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 540px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Gustavo Carona Burundi&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B5b182774/22057223_2TyFB.jpeg&quot; alt=&quot;Gustavo Carona Burundi&quot; width=&quot;540&quot; height=&quot;720&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div dir=&quot;auto&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Gustavo Carona publicado a 4 de abril de 2021 no &lt;a href=&quot;https://www.facebook.com/534663720057690/posts/1548341928689859/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Facebook&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 17 Mar 2021 09:23:00 GMT</pubDate>
  <title>Tomb Raider: &quot;prevenir a destruição de património arqueológico e cultural…&quot;</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia videos&quot;&gt;Vídeo Ensaio, por Simão Fernandes:&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia videos&quot;&gt;Shadow of the Tomb Raider - &quot;prevenir a destruição de património arqueológico e cultural…&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia videos&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia videos&quot;&gt;&lt;iframe src=&quot;https://www.youtube.com/embed/ExqPk_LfBUQ?feature=oembed&quot; width=&quot;480&quot; height=&quot;360&quot; frameborder=&quot;0&quot; style=&quot;width: 640px; padding: 10px 10px;&quot; allowfullscreen=&quot;allowfullscreen&quot; loading=&quot;lazy&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 07 Feb 2021 21:50:00 GMT</pubDate>
  <title>Patologizar a desigualdade</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/patologizar-a-desigualdade-67386</link>
  <description>&lt;p&gt;No anterior artigo falava sobre a importância de não converter a atual crise sanitária no eixo dos nossos problemas económicos, sociais e/ou sanitários. Dizia que, como nas anteriores crises que atravessámos, tínhamos uma oportunidade para identificar as desigualdades sociais pré-pandemia que deveriam ser a base de trabalho para qualquer atuação centrada na justiça social. O nosso problema não é só a covid-19, bem, talvez para algumas pessoas sim; mas esta crise adensa-se na profunda desigualdade social que vai aumentar se não olharmos mais além do que os metros da nossa distância social. Por isso defendia que se devia falar de sindemia. O conceito de sindemia remete-nos para as sinergias de ação entre as diferentes epidemias que confluem neste momento atual. Algumas delas são transmissíveis e outras não, como grande parte das doenças crónicas presentes numa significativa percentagem da população. A forma como interagem com a desigualdade social na prevenção, no desenvolvimento e intervenção de tais doenças interfere apenas sobre o impacto sanitário, já que a erradicação da desigualdade não pode ser sanitária. Sem dúvida é necessário rever os impactos diferenciais na saúde, por outro lado, não é mais do que aplicar os princípios legais vigentes, bastando recordar para já que um dos princípios que regem a Osakidetza [Serviço de Saúde o País Basco] é a equidade. Às vezes entende-se a equidade meramente como tratar todas as pessoas de forma igual, quando a equidade requer assinalar aquilo que gera iniquidade e colocar os meios para que o acesso de todas as pessoas aos recursos seja em igualdade de condições. Um exemplo simples, nestes tempos de distância e de meios telemáticos: quem não possuir meios tecnológicos ou não os saiba utilizar, vai ficar excluído de quase todos os recursos públicos. Outro exemplo é a distribuição das vacinas, mas não apenas o facto de diretores, padres, autarcas, etc. terem acedido a um recurso, a vacina, quando não era suposto, mas o facto da AstraZeneca não cumprir o seu contrato blindado e praticamente inacessível para vender a quem der mais. O capital e a sua premissa do lucro máximo à custa da vida humana é posto em marcha a partir de laboratórios e gabinetes, com investimentos privados que aproveitam a crise para obter lucro, sem pestanejar, como em tantas outras ocasiões. Escandaliza-nos porque está a acontecer na Europa, mas a Anesvad denunciava que já em novembro passado 54% das vacinas estavam vendidas a países que representam apenas 13% da população mundial.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 750px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Covid fome desigualdade&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B7718a57b/22013985_ngY9I.jpeg&quot; alt=&quot;Covid fome desigualdade&quot; width=&quot;750&quot; height=&quot;528&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de Jimmy Margulies - politicalcartoons.com&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O sistema para fazer frente ao problema da desigualdade, sem o abordar, realiza duas ações: uma, patologiza a desigualdade redesenhando o problema e convertendo-o num problema isolado, pessoal; outra, criminaliza os que sobre essa desigualdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso da patologização da desigualdade, continuando a abordar a questão através da estrutura normativa, fragmentou-se a violência contra as mulheres e o que obtemos é a perda do apoio estrutural. Esta estrutura normativa que diferenciou entre violência de género, violência sexual, assédio laboral, trata de mulheres, etc., redesenhando a origem desta violência e ignorando o seu objetivo. A busca do ato isolado acarreta uma perda de lógica, de compreensão do problema, tentando focalizar a violência num ato pontual que deriva da patologização do agressor material. Conjuntamente, existe uma tendência para patologizar o desconforto das mulheres e etiquetá-lo como entidades clínicas com soluções farmacológicas. Tudo isso, ainda que com consequências muito bem diferenciadas, forma parte dessa propensão de converter em doença o que é político.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, a criminalização dos que vivem na pobreza, como acontece na Canhada Real [favela na região de Madrid], ou no caso das mulheres que se sintetiza em frases como «eu não sei como é que algumas se deixam levar» ou «agora já não se podem mandar piropos a uma mulher porque te vão acusar de violência». No caso dos imigrantes, os meios de comunicação alentavam o imaginário de assaltantes ou de pessoas que vinham beneficiar dos nossos serviços sociais ou até mesmo violar as «nossas mulheres».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes dois elementos, a patologização e a criminalização são inter-relacionados espalhando o desafeto do coletivo e colocando o foco da atenção naquilo que ao sistema lhe interessa porque assim é mais fácil empurrar a raiva e o desalento para o particular, para o próximo, para o quotidiano, despolitizando o nosso &quot;que fazer&quot; e convertendo-o em inimigos os vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro tema importante na hora de tornar mais compreensível a realidade é a sobre-utilização das metáforas que podem parecer interessantes na hora de dimensionar um problema estrutural, mas que podem resultar ineficazes no momento de abordar a origem e promover a assunção de responsabilidades no que diz respeito às nossas práticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tendência para humanizar os vírus e ver como doença o humano, promove essa propensão a patologizar o que humanamente fazemos. Dizer que o machismo e o racismo são piores vírus do que a verdadeira pandemia, enferma e externaliza o problema. Precisamente o contrário que pode acontecer com a Covid-19, quando se diz de que é &quot;inteligente&quot; ou se usam termos como &quot;vencer a batalha&quot;. Se queremos transformar o mundo necessitamos de novas narrativas, sem inimigos, sem guerras. O enfoque vai guiar a nossa interpretação e a posterior atuação, para além de modelar os nossos imaginários, promovendo um enfrentamento ativo ou passivo do que (nos) acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vá acontecer de esperarmos que a vacina acabe com o machismo, o racismo ou a pobreza e nos esquecermos de que o que fazemos quotidianamente deriva do nossa humana ideologia. Reduzir as metáforas, assumir as responsabilidades individuais e coletivas do que cada um faz, exigir responsabilidades políticas a quem as tem e responsabilidades éticas a cada uma e cada um de nós seria o que humanamente nos corresponde fazer.  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Maitena Monroy publicado a 5 de fevereiro de 2021 na &lt;a href=&quot;https://www.naiz.eus/es/iritzia/articulos/patologizar-la-desigualdad&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;naiz:&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 08 Dec 2020 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Israel e Estados Unidos assassinam a paz</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/israel-e-estados-unidos-assassinam-a-67065</link>
  <description>&lt;p&gt;Israel e a Arábia Saudita estão a fazer tudo o que podem para evitar que Biden regresse ao acordo nuclear -- e a equipa de Biden não tem nada a dizer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os Estados Unidos e Israel mostraram mais uma vez serem a principal organização criminosa mundial. O assassinato do cientista iraniano Mohsen Fakhrazideh é só a última ação levada a cabo por estas duas nações que se comportam como  bandidos internacionais. Não ficam satisfeitos com a privação de alimentos e medicamentos aos iranianos, através das pesadas sanções, mas não dão hipóteses a que a paz se instale na região.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto assistíamos às diatribes de Donald Trump, dizendo que permanecerá no cargo, criando ansiedade sobre um possível golpe, as ameaças da sua política externa foram praticamente ignoradas. Nas últimas semanas essa falta de atenção provou ser muito perigosa, tendo a sua administração envidado esforços para atar as mãos do próximo presidente, Joe Biden, em relação ao Irão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Israel e a Arábia Saudita esforçam-se por evitar que a administração Biden torne a aderir ao Plano de Ação Conjunta Global (PACG), mais conhecido por Acordo Nuclear com o Irão. Ainda não é claro se Biden tem intenção em prosseguir este compromisso da era Obama mas Israel e a Arábia Saudita não estão para aí virados e estão a ter muita ajuda da parte de Trump.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Secretário de Estado Mike Pompeo reuniu-se com o príncipe saudita Mohammed bin Sultan e com o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Arábia Saudita. O encontro foi confirmado pouco depois à imprensa, por fontes próximas de Netanyahu. Também houve notícias convenientemente plantadas sobre a intenção de Trump atacar o Irão antes de abandonar o cargo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A morte de Fakhrazideh foi também um esforço para aniquilar o envolvimentos dos Estado Unidos no PACG procurando levar o Irão a responder. Israel mete veneno, “Seria uma pena se os EUA tivessem de atacar o Irão.” O esquema não é novo. Querem que os Estados Unidos façam o seu trabalho sujo e haver agora uma nova administração torna-se a oportunidade perfeita para cumprir o seu &lt;em&gt;modus operandi&lt;/em&gt; ou mesmo para ficar de fora e deixar a máfia fazer como quiser.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não houve nenhuma resposta oficial dos EUA ao assassinato. Uma posta de Trump no &lt;a class=&quot;0&quot; href=&quot;https://twitter.com/yossi_melman/status/1332320741480665088?s=20&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow noopener&quot;&gt;twitter&lt;/a&gt; parece ser suficiente para confessar o crime e para alertar o público para o risco de uma guerra real envolvendo o Irão ou o seu aliado, a Rússia, que poderia também envolver a Arábia Saudita ou Israel. Nem Joe Biden nem a sua equipa disseram nada. Os supostos progressistas no Congresso dos EUA estão em silêncio. O senador Democrata &lt;a class=&quot;0&quot; href=&quot;https://twitter.com/ChrisMurphyCT/status/1332398351002857473?s=20&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;nofollow noopener&quot;&gt;Chris Murphy&lt;span class=&quot;0&quot;&gt;&lt;span class=&quot;element-invisible&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; não foi carne nem peixe, dizendo que os Estados Unidos não ficaram mais seguros com esta morte. Nada disse sobre a violação do Direito Internacional e sobre os perigos de guerra originados por esta ação. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trump e Pompeo não são os únicos vilões nesta história. Eles sabem que o Congresso agirá como uma claque de apoio ou permanecerá em silêncio. Mesmo aqueles que normalmente se vangloriam das suas credenciais progressistas, não arriscarão ir contra a liderança do partido, contra os meios de comunicação corporativos e contra o lóbi pró Israel nos EUA. &lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 733px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Netanyahu Trump cartoon&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B6f17481f/21969285_awQ7z.jpeg&quot; alt=&quot;Netanyahu Trump cartoon&quot; width=&quot;733&quot; height=&quot;720&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de Joep Bertrams, Países Baixos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O jornal &lt;em&gt;New York Times&lt;/em&gt; chegou-se à frente no apoio à narrativa oficial fazendo referências ao &quot;programa de armas nucleares&quot; do Irão.  A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) confirmou há muito que o Irão nunca teve capacidade para fabricar armas nucleares. Obviamente que depois de Trump ter abandonado o PACG, os iranianos tinham todo o direito a fazê-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que  Fakrazideh não era o único cientista no seu país mas o seu assassinato não pretendia terminar com a capacidade tecnológica iraniana. O objetivo era mostrar ao mundo que Israel pode fazer o que quiser com impunidade e que o  Irão, o país vitimado, será aquele que terá de ser diplomático perante a provocação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Israel utiliza muitas vezes as transições presidenciais nos EUA para conseguir as suas pretensões. Em dezembro de 2008 Israel iniciou um ataque assassino em Gaza, um mês depois de Barack Obama ser eleito. O ataque só terminou no dia 18 de janeiro, dois dias antes da tomada de posse de Obama. Depois de terem morrido 1400 pessoas, o presidente eleito fez o que os seus antecessores fizeram em relação a Israel. Quando questionado sobre o massacre que estava a acontecer ele foi capaz de dizer “Nós só temos um presidente de cada vez.”&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 800px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Israel Estados Unidos Sangue Cartoon&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Ba618cdf8/21969292_S8zpr.jpeg&quot; alt=&quot;Israel Estados Unidos Sangue Cartoon&quot; width=&quot;800&quot; height=&quot;533&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de Behrooz Firoozi&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda faltam sete semanas para a tomada de posse no dia 20 de janeiro de 2021 e isso é tempo suficiente para as perversidades de Trump e Netanyahu. Cientistas iranianos, povo palestiniano ou outro qualquer que seja visto como um obstáculo às intenções de Israel estão sob ameaça. Se Israel está disposto a matar centenas de habitantes de Gaza para marcar posição a um novo presidente, eles estão disponíveis para fazer o que quer que seja. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: &amp;#39;courier new&amp;#39;, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Margaret Kimberley publicado na &lt;a href=&quot;https://blackagendareport.com/freedom-rider-israel-and-us-assassinate-peace&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Black Agenda Report&lt;/a&gt; a 2 de dezembro de 2020. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 23 Mar 2020 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>A culpa é do vírus</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/a-culpa-e-do-virus-66496</link>
  <description>&lt;p&gt;De certeza que quando esta desgraça passar, os economistas da praça e as nossas autoridades irão dizer que esta foi uma crise vinda de fora, que não teve nada a ver com falhas inerentes ao modo de produção capitalista e à estrutura social da sociedade.  A culpa é do vírus.  Este argumento foi muito usado para a Grande Recessão de 2008/2009 e será repetido em 2020.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No momento em que escrevo, a pandemia (como foi oficialmente declarada) ainda não chegou ao seu pico.  Aparentemente tendo começado na China (embora haja algumas referências de que possa ter começado noutros locais), está agora espalhado por todo o mundo.  O número de infeções é agora superior fora da China do que lá.  Os casos na China estabilizaram muito; nos outros países ainda estão em crescimento exponencial.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 630px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;coronavirus grafico europa&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Be1171116/21728336_LPUEz.png&quot; alt=&quot;coronavirus grafico europa&quot; width=&quot;630&quot; height=&quot;463&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta crise biológica criou pânico nos mercados financeiros. Os mercados de ações caíram até 30% num período de poucas semanas. Terminou a fantasia dos ativos financeiros financiados por custos de empréstimo baixíssimos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O COVID-19 parece ser um ‘estranho desconhecido’, como a crise financeira global tipo &quot;cisne negro&quot; que espoletou a Grande Recessão há dez anos. Mas o COVID-19, tal como essa crise financeira, não apareceu do nada. Não foi um desastre que atingiu uma economia capitalista com um suposto crescimento harmonioso. Ainda antes do surgimento da pandemia, na maioria das economias capitalistas, quer se tratassem dos chamados países desenvolvidos, quer se tratassem das economias &apos;em vias de desenvolvimento&apos;  do hemisfério sul, a atividade económica estava a abrandar quase ao ponto de parar. Algumas economias já se encontravam em contração do investimento e do Produto Interno Bruto, e muitas outras a chegarem próximo desse ponto.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 450px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Índice PMI Produção&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B6d171575/21729966_kyAjy.png&quot; alt=&quot;Índice PMI Produção&quot; width=&quot;450&quot; height=&quot;234&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O COVID-19 foi o ponto de viragem. Uma analogia é imaginar um monte de areia onde se vai acrescentando mais grãos; a acumulação começa a fazer um deslize e chega a um ponto em que todo o monte se desfaz. Se formos pós-Keynesianos podemos preferir chamar a este momento como um ‘momento Minsky’, em honra a Hyman Minsky, que defendeu que o capitalismo parece ser estável até deixar de o ser, porque a estabilidade gera instabilidade. Um Marxista diria, sim, há instabilidade mas essa instabilidade gera uma avalanche periodicamente por causa das contradições subjacentes ao modo de produção capitalista na busca do lucro.&lt;img style=&quot;width: 755px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;acumulação Keynes Marx instabilidade&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bde1707ea/21729985_wKoH5.jpeg&quot; alt=&quot;acumulação Keynes Marx instabilidade&quot; width=&quot;755&quot; height=&quot;266&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por outro lado, o COVID-19 não era um ‘estranho desconhecido’. No início de 2018, numa &lt;a href=&quot;http://origin.who.int/emergencies/diseases/2018prioritization-report.pdf&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;reunião na Organização Mundial de Saúde&lt;/a&gt; em Genebra, um grupo de especialistas (&lt;a href=&quot;https://www.who.int/blueprint/about/en/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;R&amp;D Blueprint&lt;/a&gt;) cunhou o termo “&lt;a href=&quot;https://edition.cnn.com/2018/03/12/health/disease-x-blueprint-who/index.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Doença X&lt;/a&gt;”: Eles previram que a próxima pandemia seria causada por um novo agente infecioso desconhecido que não tivesse atingido a população humana. A Doença X seria causada por um vírus de origem animal que iria emergir algures no planeta onde o desenvolvimento económico colocasse as populações e a vida selvagem lado a lado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Doença X seria provavelmente confundida inicialmente com outra doença e espalhar-se-ia rapidamente sem fazer estrondo; através das circuitos de transporte de pessoas e bens, atingiria muitos países frustrando o seu confinamento. A Doença X teria uma taxa de mortalidade superior a uma gripe sazonal mas espalhar-se-ia tão facilmente como a gripe. Abanaria os mercados financeiros ainda antes de atingir o estatuto de pandemia. Resumindo, a Covid-19 é a Doença X.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como argumentou o biólogo socialista, Rob Wallace, as pragas não são apenas parte da nossa cultura, elas são causadas por ela. A &quot;&lt;a href=&quot;https://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_negra&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Peste Negra&lt;/a&gt;&quot; espalhou-se na Europa em meados do século XIV com o crescimento das trocas comerciais ao longo da Rota da Seda. Novas variantes da gripe surgiram da produção pecuária. Ébola, SARS, MERS, e agora o Covid-19 foram relacionados com animais selvagens. As pandemias normalmente começam por vírus em animais que passam para os humanos que contactam com eles. Estas passagens estão a aumentar exponencialmente à medida que a nossa pegada ecológica nos coloca mais próximos da vida selvagem em áreas remotas e acontece a comercialização desses animais em centros urbanos. Novas vias de transporte, desflorestação, desmatações e desenvolvimento da agricultura, bem como comércio e circulação de pessoas globalizados, tornam-nos extremamente suscetíveis a agentes infeciosos como os coronavírus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há um debate tonto entre os economistas da praça sobre se o impacto económico do COVID-19 resulta de uma &quot;crise da oferta&quot; ou de uma &quot;crise da procura&quot;. A escola neoclássica diz que é uma crise da oferta porque interrompe a produção; os Keynesianos querem afirmar que se trata de uma crise da procura porque as pessoas e as empresas deixam de gastar dinheiro em viagens, serviços, etc.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas primeiro, como dito acima, não é verdadeiramente uma &quot;crise&quot;, mas sim o inevitável resultado da busca capitalista pele lucro na agricultura e na natureza num estado já fragilizado da produção capitalista de 2020.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E em segundo lugar, começa com a oferta, não com a procura como afirmam os Keynesianos. Como disse Marx: &lt;em&gt;&quot;Qualquer criança sabe que uma nação sucumbiria se deixasse de produzir, não digo por um ano, digo mesmo por umas semanas.&quot; &lt;/em&gt;(Carta de Marx a Kugelmann, Londres, 11 de julho de 1868). São a produção, o comércio e o investimento que param primeiro quando as lojas, escolas e empresas são encerradas para conter a pandemia. Claro que se depois as pessoas não podem trabalhar e as empresas não podem vender, descem as receitas, as despesas colapsam e isso produz uma &quot;crise da procura&quot;.  De facto, é assim que acontece nas crises capitalistas: elas começam com uma contração da oferta e acabam com uma queda no consumo – não ao contrário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eis uma visão geral (e precisa) sobre a anatomia das crises:&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 960px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Resposta fiscal politica covid-19 oferta procura&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Ba617a4a1/21735159_klQ9e.png&quot; alt=&quot;Resposta fiscal politica covid-19 oferta procura&quot; width=&quot;960&quot; height=&quot;536&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há otimistas no mundo financeiro que argumentam que a crise do COVID-19 nos mercados de ações terminará como no dia 19 de outubro de 1987.  Na &quot;Segunda-Feira Negra&quot; as ações caíram muito rapidamente, ainda mais do que agora, mas no prazo de alguns meses estavam novamente em cima e assim continuaram. O atual Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, assegura que o pânico financeiro terminará como em 1987. Disse ele: &quot;&lt;em&gt;Sabem, recordo-me  das pessoas que compraram ações depois da queda de 1987, pessoas que compraram acções depois da crise financeira&quot;&lt;/em&gt;. Prosseguiu dizendo: &quot;&lt;em&gt;Para investidores de longo prazo, esta será uma grande oportunidade de investimento. [...] Este é um assunto de curta duração. Pode ser um par de meses&lt;/em&gt;&lt;em&gt;, mas iremos ultrapassar isto e a economia ficará mais forte do que nunca.&quot;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os comentários de Mnuchin ecoaram através do conselheiro económico da Casa Branca, Larry Kudlow, que incentivou os investidores a capitalizarem o mercado de ações vacilante pelos receios do coronavírus. &lt;em&gt;“Os investidores de longo prazo devem pensar a sério em fazerem estes investimentos”,&lt;/em&gt; descrevendo o estado da economia estadunidense  como &lt;em&gt;“são”.&lt;/em&gt; Kudlow repetiu mesmo o que tinha dito duas semanas antes da crise financeira global de setembro de 2008: &lt;em&gt;“para aqueles que preferirem olhar para a frente, pela janela, o cenário das ações está a ficar cada vez melhor&lt;/em&gt;&lt;em&gt;.”&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A culpa da queda de 1987 foi atribuída ao crescimento das hostilidades no Golfo Pérsico que conduziram a uma subida do preço do petróleo, a receios de maiores taxas de juro, a um mercado de ações que tinha vindo a subir durante cinco anos sem signficativas correções e à introdução da informatização das transações. Como a economia estava essencialmente &quot;saudável&quot; a crise não durou muito. De facto, a rentabilidade do capital nas principais economias estava a subir e só atingiu o pico no no final dos anos 1990 (embora cm um deslize em 1991).  Por isso, 1987 foi aquilo a que Marx chamou de &quot;crise financeira&quot; devida à instabilidade inerente aos mercados da especulação capitalista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas não é isso que se passa em 2020.  Desta vez o colapso do mercado de ações irá ser seguido por uma recessão económica como em 2008. Isso é porque agora a rentabilidade do capital é baixa e os lucros globais estão parados, mesmo antes da erupção do COVID-19. O comércio e o investimento globais têm vindo a cair, não a subir. O preço do petróleo colapsou, não subiu. O impacto económico do COVID-19 encontra-se primeiro na cadeia de abastecimento, não numa instabilidade dos mercados financeiros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qual será a dimensão do tombo? Há um &lt;a href=&quot;https://drive.google.com/file/d/1mwMDiPQK88x27JznMkWzEQpUVm8Vb4WI/view&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;excelente artigo do Pierre-Olivier Gourinchas&lt;/a&gt; que prevê o impacto provável. Ele mostra o habitual diagrama do curso das pandemias. Sem se tomarem medidas nenhumas, a pandemia segue o percurso da linha curva vermelha, havendo um grande número de casos e de mortes. Tomando medidas de encerramentos e confinamento social, o pico da curva (azul) pode ser adiado e moderado, apesar da pandemia durar mais tempo. Isto supostamente reduz a dimensão da infeção e o número de mortes.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 641px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;aplanando curva pandemia capacidade sistema saúde covid19&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Be8181458/21731725_WWlFZ.png&quot; alt=&quot;aplanando curva pandemia capacidade sistema saúde covid19&quot; width=&quot;641&quot; height=&quot;313&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As políticas de saúde pública deveriam procurar &quot;aplanar a curva&quot; impondo medidas drásticas de distanciamento social e promovendo práticas de higiene para reduzir a taxa de transmissão. Neste momento, a Itália segue a estratégia chinesa de encerramento total, apesar de estar a colocar trancas na porta quando a casa já está a ser roubada. O Reino Unido está a tentar uma estratégia muito arriscada de auto-isolamento das pessoas mais vulneráveis e permitir que os jovens e saudáveis se infetem de forma a conseguir a chamada &quot;imunidade da manada&quot;  e evitar uma sobrecarga do sistema de saúde. O que esta estratégia implica é que são descartados os mais velhos ou mais vulneráveis, por se considerar que, de qualquer modo, irão morrer na mesma, e assim se evita um encerramento total que prejudica a economia (e os lucros). A estratégia dos Estado Unidos da América é basicamente não fazer nada: não fazer testes em massa, não promover o auto-isolamento, não proibir os eventos públicos; apenas esperar até que as pessoas adoeçam e aí lidar com os casos mais severos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poderíamos chamar a esta última estratégia uma estratégia Malthusiana. O mais reacionários dos economistas clássicos do início do século XIX foi o pastor anglicano Thomas Malthus, que defendeu que havia muita gente &quot;não produtiva&quot; no mundo, por isso as pragas e as doenças regulares eram necessárias para aumentar a produtividade das economias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O jornalista conservador britânico Jeremy Warner &lt;a href=&quot;https://metro.co.uk/2020/03/11/telegraph-journalist-says-coronavirus-cull-elderly-benefit-economy-12383907/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;defendeu a mesma coisa&lt;/a&gt; em relação a esta pandemia do Covid-19, que &quot;mata principalmente idosos&quot;. &lt;em&gt;“Digamos as coisas sem rodeios, do ponto de vista meramente económico, o COVID-19 pode mesmo ser ligeiramente benéfico a longo prazo ao abater de forma desproporcional idosos dependentes.”&lt;/em&gt; Em resposta a críticas, respondeu: &quot;&lt;em&gt;Obviamente, para os que são afetados é uma tragédia humana independentemente da idade, mas eu estava a falar sobre economia, não sobre as misérias da Humanidade.’&lt;/em&gt; De facto, por alguma razão Marx chamou ao economistas do início do século XIX, os filósofos da miséria.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 960px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;taxa mortalidade covid-19 idade&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bc91712f4/21735228_d7oWE.jpeg&quot; alt=&quot;taxa mortalidade covid-19 idade&quot; width=&quot;960&quot; height=&quot;484&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A razão pela qual os governos britânico e norte-americano não estão (ainda) a impor medidas draconianas, como as da China e agora as de Itália (tardiamente) e de outros países, é que isso inevitavelmente faz subir a &lt;span style=&quot;text-decoration: underline;&quot;&gt;curva da recessão macroeconómica&lt;/span&gt;. Vejam o caso da China ou da Itália: para promover o isolamento social foi necessário encerrar escolas, universidades, a maioria das atividades não essenciais, e pedir à maioria da população em idade laboral que permanecesse em casa. Porventura algumas pessoas poderão trabalhar a partir de casa, mas continuam a ser uma pequena parte da totalidade da força de trabalho. Mesmo que o teletrabalho seja uma opção, a disrupção imediata das rotinas familiares e de trabalho é enorme e provavelmente afetará a produtividade. Resumindo, uma excelente política de saúde pública provoca uma paragem repentina da economia. A crise da oferta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os danos económicos serão consideráveis. Gourinchas tentou prever o impacto. Ele assume que partindo de uma linha de base, as medidas de contenção reduzem a atividade económica em 50% num mês e 25% no seguinte, a partir do qual a economia regressa à linha de base. &lt;em&gt;“Esse cenário ainda derrubaria os números do PIB , com um declínio anual do crescimento na ordem dos 6,5% relativamente ao ano anteriror. Estender o confinamento mais um mês e o declínio anual do crescimento seria de quase 10% em relação ao ano anterior!”&lt;/em&gt;  Como ponto de comparação, a queda do crescimento nos EUA durante a &apos;Grande Recessão&apos; de 2008/2009 foi de cerca de 4.5%. Gourinchas conclui que &lt;em&gt;“estamos prestes a assistir a uma queda que faria da Grande Recessão uma coisa pequena.”&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No pico da Grande Recessão, a economia dos EUA estava a perder emprego a um ritmo de 800 mil trabalhadores por mês, mas a grande maioria das pessoas ainda tinha emprego e trabalhava. A taxa de desemprego teve um pico de &apos;apenas&apos; 10%. Pelo contrário, o coronavírus está a criar uma situação onde – &lt;u&gt;por um breve período de tempo &lt;/u&gt;– 50% ou mais das pessoas poderão não conseguir trabalhar. O impacto na atividade económica é comparativamente muito maior.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O irónico é que a economia, tal como o sistema de saúde, enfrenta um problema de ‘aplanamento da curva’. A curva vermelha representa a perda de crescimento numa queda abrupta da economia, amplificada pelas decisões económicas de milhões de agentes a tentarem-se proteger cortando nas despesas, no investimento, no crédito e de uma forma geral a refugiarem-se.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 642px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Curva Recessão Coronavírus Covid-19 aplanar&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bf717211a/21737620_bdr9U.png&quot; alt=&quot;Curva Recessão Coronavírus Covid-19 aplanar&quot; width=&quot;642&quot; height=&quot;312&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que fazer para aplanar a curva? Bem, os bancos centrais podem e estão a fornecer liquidez de emergência ao setor fianceiro. Os governos podem desenvolver medidas fiscais discricionárias ou mais  amplas para apoiar a atividade económica. Estas medidas ajudam a &apos;aplanar a curva económica&apos;, isto é, limitam as perdas económicas, exemplificado pela linha azul, ao manter os salários dos trabalhadores para que possam cumpir os seus compromissos ou então permitinado um adiamento dos pagamentos das suas contas ou uma isenção temporária. Pequenas empresas podem ser financiadas para conseguirem sobreviver à tempestade e os bancos receberem injeções de liquidez, como na Grande Recessão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas uma crise financeira é ainda um grande perigo. Nos EUA, a dívida das empresas subiu e está concentrada em empréstimos pedidos pelas empresas mais frágeis (BBB ou inferior).&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 960px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Gráfico dívida rating covdi-19&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bda18cf70/21737856_lcuGG.png&quot; alt=&quot;Gráfico dívida rating covdi-19&quot; width=&quot;960&quot; height=&quot;698&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o setor da energia está a ser atingido duplamente com a descida também abrupta do preço do petróleo. O custo do empréstimo escalou nos setores da energia e dos transportes.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 960px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;High Yeld coronavirus energia grafico&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bbe181838/21738047_wnNe9.png&quot; alt=&quot;High Yeld coronavirus energia grafico&quot; width=&quot;960&quot; height=&quot;698&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A facilitação do crédito não será suficiente para aplanar a curva. As taxas de juro dos bancos centrais já estão perto, ou mesmo abaixo, do zero. Os efeitos na produção e no investimento através de grandes injeções de crédito ou de dinheiro no sistema bancário serão como os de ‘empurrar uma corda’. Financiamento barato não irá acelerar a cadeia de abastecimento nem fazer com que as pessoas gastem mais ou queiram novamente viajar. Nem melhorará as receitas das empresas se as pessoas não estiverem a consumir.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 549px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;recompra reserva federal coronavírus&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B8a1836b5/21738105_9goq7.png&quot; alt=&quot;recompra reserva federal coronavírus&quot; width=&quot;549&quot; height=&quot;399&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A principal mitigação económica terá de vir da política fiscal. As agências internacionais como o FMI e o Banco Mundial ofereceram 50 mil milhões de dólares. Os governos nacionais estão agora a lançar vários programas de estímulos fiscal. O governo do Reino Unido anunciou um grande investimento no seu último orçamento e o Congresso dos EUA aceitou aumentar a despesa de urgência.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas será suficiente aplanar a curva se dois meses de confinamento geral atingirem a maioria das economias com uns impressionantes 10%? Nenhum dos atuais pacotes fiscais chega perto dos 10% do PIB. De facto, na Grande Recessão, apenas a China atingiu esses valores. As propostas do governo do Reino Unido rondam 1.5% do PIB no máximo, enquanto que na Itália ficam pelos 1.4% e nos EUA menos de 1%.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É possível que no final de abril vejamos o número mundial de casos atingir um pico e começarem a diminuir. É essa a esperança dos governos e com base nisso que fazem os planos. Se esse cenário otimista acontecer mesmo, o coronavírus não irá desaparecer. Passará a ser um agente infecioso comum como o da gripe que nos atingirá todo os anos, como os seus antecessores. Mas mesmo dois meses de confinamento geral provocarão grandes danos económicos. E os estímulos fiscais e financeiros previstos não vão conseguir evitar um enorme tombo, mesmo que consigam reduzir um pouco a &quot;curva&quot;. O pior ainda está para vir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Michael Roberts publicado no &lt;a href=&quot;https://thenextrecession.wordpress.com/2020/03/15/it-was-the-virus-that-did-it/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;seu blogue&lt;/a&gt; a de março de 2020. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 28 Jan 2020 12:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Entretenimento perpétuo</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p&gt;Quanto mais monótona e irrelevante se torna a vida nos países desenvolvidos, mais câmaras são acrescentadas aos telemóveis inteligentes. Ainda há poucos anos os telemóveis vinham com uma câmara, o que significou um avanço para registar as brutalidades do poder que antes ficavam enterradas com as suas vítimas. Depois passaram a ser duas, à medida que a indústria do entretenimento nos países desenvolvidos se democratizava. Há um ano o&lt;em&gt; iPhone&lt;/em&gt; juntou três câmaras, com uma ao lado da outra. Agora os mais jovens desesperam por ter o telemóvel com quatro câmaras e gozam com os que ainda têm a antiguidade de três câmaras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como os seres humanos somos, numa crescente maioria, cada vez mais irrelevantes no sistema de produção dominado por ultra-eficazes robôs e sistemas de inteligência artificial implacáveis, o único que sobrará é manter entretidas as massas, jogando videojogos ou inventando infinitos &lt;em&gt;pranks &lt;/em&gt;[&quot;apanhados&quot;] de trinta segundos que os indivíduos consumirão durante intermináveis horas, enquanto um punhado de outros indivíduos tomam as decisões importantes sobre as suas vidas e sobre o destino do planeta.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Telemóvel celular alheamento entretenimento&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B4f17dd53/21677438_jkQcD.png&quot; alt=&quot;Telemóvel celular alheamento entretenimento&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;564&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Cartoon de Osmani Simanca, Brasil&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em breve teremos telemóveis com tantas câmaras como olhos tem uma mosca, para registar o vazio interior e toda a porcaria que vamos gerando num mundo sobrepovoado de falsas novidades que não nos deixam ver a destruição real do planeta e o esvaziamento das nossas vidas anestesiadas pelo entretenimento perpétuo que, como qualquer droga, necessitará de uma dose cada vez maior para conseguir o mesmo estímulo que nos alheie da depressão do vazio e do nada.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt;Felizmente, o futuro não existe; é algo que está em construção agora mesmo, e há sempre uma possibilidade de despertar. Lamentavelmente, os seres humanos somos especialistas em mentir-nos e costumamos despertar com alguma crise, como um condutor adormecido ao volante e algo indesejável o devolve à realidade.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Jorge Majfud publicado na &lt;a href=&quot;http://rebelion.org/noticia.php?id=264892&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Rebelion&lt;/a&gt; a 28 de janeiro de 2020. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 22 Dec 2019 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Pele branca, máscaras verdes</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/pele-branca-mascaras-verdes-66024</link>
  <description>&lt;p&gt;Finalizada que está a COP25, que decorreu em Madrid na primeira quinzena de dezembro, pouco ou nada se avançou em termos de acordos climáticos globais como era de esperar, já que não foi capaz de ir mais além das suas versões anteriores, apresentando uma declaração final que parece ser mais um discurso de boas intenções dos Estados presentes, que um posicionamento que realmente coloque a centralidade numa real preocupação pela crise civilizacional atual.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;2020 poluição&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bed176f53/21651226_8aSpk.png&quot; alt=&quot;2020 poluição&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;378&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de Arcadio Esquivel, Costa Rica&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São alguns dos pontos daquele declaração final da COP25: maior &quot;ambição” dos Estados para lutar contra as alterações climáticas, maior papel da ciência na tomada de decisões, maior transversalidade política para ver o ambiental (finanças, indústria, transporte, energia, agricultura), ressaltar a importância dos oceanos para o clima, maior participação das mulheres na tomada de decisões, a criação de um fundo verde que entregue recursos aos países mais vulneráveis às alterações climáticas, maior regulação dos mercados de carbono, maior multilateralismo, melhores empregos e mas espaço para atores não governamentais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por consequência, é uma declaração totalmente voluntarista e difusa, dentro de um quadro neoliberal, que se centra nos boas vontades de cada Estado para travar a crises civilizacional atual, sendo incapaz de exigir limites mínimos às grandes empresas contaminadoras do planeta no que diz respeito a emissões de gases com efeito de estufa, o que mais não faz do que dar toda a liberdade às grandes corporações para que façam os negócios que quiserem com os bens comuns, negando assim a possibilidade de estabelecer certas regulações globais básicas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante, apesar deste triste espetáculo, paralelamente a esta declaração, foi apresentado em Bruxelas, pela presidente da comunidade europeia, Úrsula von der Leyen, o denominado &lt;em&gt;European Green Deal &lt;/em&gt;[Acordo Verde Europeu], acordo este que procura, em termos gerais, que a Europa seja o primeiro continente do planeta a não produzir emissões de carbono no ano 2050. Isto é, descarbonizar completamente a sua matiz energética até aquele ano, através de distintas medidas que se implementarão de maneira paulatina.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto às medidas, propõe-se impulsionar de forma interconectada as denominadas fontes de energia renováveis, gerar economias circulares, renovação e construção de edifícios eficientes energeticamente, prevenção na contaminação da água e do ar, preservar a biodiversidade, desenvolvimento de modelos alimentares mais saudáveis e oferecer meios de transporte sustentáveis para alcançar o que se denominou como neutralidade climática.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema evidente de todas estas medidas, é que embora sendo bastante mais concretas, em comparação com o decidido na falhada COP25, a Europa continua a pensar-se, após 500 anos de história colonial, por cima do resto do mundo. Daí que a ideia da neutralidade climática passe completamente por alto e não se faça caso não apenas do impacto histórico que tiveram as suas economias industrializadas nos últimos 200 anos, em termos de pegada ecológica, como também das múltiplas empresas atualmente extrativas, que com este Acordo Verde Europeu, continuarão a contaminar igualmente os países do Sul Global, por intermédio de mega corporações energéticas, mineiras e agroalimentares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De igual modo, este acordo omite a dívida climática histórica de países como Inglaterra, Alemanha e França perante o mundo, e nunca põe em dúvida a absurda ideia de um crescimento económico infinito dentro de um planeta com limites finitos. Por outras palavras, ainda que se disfarcem de verdes todas estas medidas internas, continua a ser um projeto capitalista ao fim e ao cabo, ao não equacionar nada sobre perspetivas provenientes do decrescimento ou do ecofeminismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por outro lado, não é por acaso que este novo acordo é tão bem recebido pela ultradireita europeia, a qual está a começar a deixar o negacionismo climático, para dar passo a um novo nacionalismo verde, que está explanado em “as fronteiras são o melhor aliado do meio ambiente”, como assinalou o partido de Marine Le Pen. Em consequência, a Europa, perante a sua debilidade económica frente à China, o que procura é impulsionar um novo racismo ambiental, que continua a saquear os países mais empobrecidos, enquanto que internamente continua a fechar as suas fronteiras a migrantes do Sul Global, os quais são cada vez mais afetados nos seus países por catástrofes de índole climática.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Acord Verde Europeu Pacto&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Ba1179193/21651223_yONYF.png&quot; alt=&quot;Acord Verde Europeu Pacto&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;555&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de Joep Bertrams, Holanda&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso, a ideia da pele branca, máscaras verdes, atualiza o afirmado pelo pensador anticolonial Frantz Fanon, já que nos permite ilustrar um novo processo de exclusão impulsionado pelas grandes elites da Europa, às quais pouco ou nada lhes importa o planeta, entendido este como um sistema de vida integrado. Mais lhes interessa usar a preocupação com o meio ambiente como um mero instrumento para construir um mundo por cima de outros mundos explorados e saqueados historicamente por elas mesmas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por conseguinte, se às elites europeias realmente importasse o aquecimento global, não falariam em neutralidade climática, mas sim em justiça climática, como pedem todos os povos do mundo, já que só partindo de um olhar relacional e crítico dos processo históricos de acumulação, se poderão construir sistemas de vida alternativos, como propõe a Via Campesina, por exemplo, a partir de uma agricultura ecológica, a qual não deixa ninguém de fora, como se faz neste Acordo Verde Europeu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Andrés Kogan Valderrama publicado na &lt;a href=&quot;http://rebelion.org/noticia.php?id=263731&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Rebelion&lt;/a&gt; a 21 de dezembro de 2019. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/pele-branca-mascaras-verdes-66024</comments>
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  <category>europa</category>
  <category>cop25</category>
  <category>justiça climática</category>
  <category>alterações climáticas</category>
  <category>frantz fanon</category>
  <category>acordo verde europeu</category>
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  <pubDate>Sat, 16 Nov 2019 13:00:00 GMT</pubDate>
  <title>As revoltas de outubro</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/as-revoltas-de-outubro-65365</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;em&gt;Como cada povo se comporta conforme a sua experiência prévia, a compreensão dos levantamentos e eclosões devem &lt;/em&gt;&lt;em&gt;rastrear-se nas ações prévias.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As revoltas de outubro na América Latina têm causas comuns mas expressam-se de formas diferentes. Respondem aos problemas sociais e económicos que gera o extrativismo ou a acumulação por espoliação, a dimensão dos monocultivos, a mineração a céu aberto, as mega-obras de infra-estruturas e especulação imobiliária urbana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um modelo de destruição da natureza e de roubo e contaminação de terras e águas, que é a principal forma de espoliação. Um modelo que gera uma brutal concentração de riqueza em 1%, marginalização e precarização da vida de 50% e é responsável pelo crescimento do narcotráfico, da militarização dos territórios e, em consequência, da violência contra as mulheres, o feminicídio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As revoltas de outubro respondem à acumulação de diversas afrontas. No Equador assumiu a forma de levantamento bem estruturado, recuperando a larga experiência do movimento indígena que desta vez caminhou ao lado dos setores populares urbanos, em geral classes médias profissionais, estudantes e centenas de milhares de indígenas migrantes.&lt;br /&gt;No Chile é uma eclosão sem organizações convocantes, porque foi a imbecilidade do poder que atirou milhões para as ruas. Como cada povo se comporta conforme a sua experiência prévia, a compreensão dos levantamentos e eclosões devem rastrear-se nas ações prévias realizadas pelos atores coletivos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se no Equador a coluna vertebral foram os quéchuas das montanhas e amazónicos, no Chile houve três grandes precedentes: a grande resistência mapuche, as rebeliões estudantis e a nova onda feminista desde 2015 e, muito em particular, a de 2018, que atravessou toda a sociedade com tomadas massivas de centros estudantis.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Chile Equador protestos revoltas&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B29182349/21616599_ZEfTE.png&quot; alt=&quot;Chile Equador protestos revoltas&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;431&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Michael Kountouris, Grécia&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A resistência mapuche tem cinco séculos, mas desde o «regresso» da democracia teve vários momentos marcantes. Na década de 1990, a Coordenadora Arauco-Malleco (CAM) foi marcante na história desse povo. Tratou-se de uma aliança entre comunidades e guerreiros, entre longkos e weichafes, estes formados em universidades e em grupos de esquerda. Juntos produziram uma importante rebelião desde as bases que recuperou milhares de hectares, para além de uma boa dose de auto-estima coletiva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As greves de fome dos presos da CAM (entre 2006 e 2008), conseguiram apoio de uma parte da sociedade branca, que se consolida com o assassinato de Matías Catrileo (2008) e dá um salto impressionante há um ano, quando sucedeu o crime de Camilo Catrillanca (a 14 de novembro de 2018).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante 15 dias, milhares de pessoas cortaram as ruas, acenderam fogueiras e bateram em tachos em mais de 30 cidades. Este é um antecedente importante do que sucede agora e explica por que tantas pessoas empunham bandeiras mapuche nas manifestações: o povo mapuche é uma referência ética e política para todo o Chile.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O segundo movimento que converge é o estudantil, em particular os secundários. Em 2001 aconteceu o «mochilazo», que para além de grandes manifestações produziu uma rutura na a organização estudantil controlada pelo Partido Comunista. De ela nasceu uma articulação horizontal, chamada Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundários (ACES), que praticou uma nova cultura política.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2006 aconteceu a «revolução pinguim», com 400 colégios paralisados. Em 2011 o movimento transbordou mais do que o imaginável, com a tomada de estações de TV, 600 colégios tomados e dezenas de institutos que seguiram o seu curso sob controlo estudantil e de docentes solidários. A resposta da população à brutal repressão de 4 de agosto, foi a massiva ocupação de bairros, com &quot;caçaroladas&quot; e festa/protesto até de madrugada, como nas «jornadas nacionais» contra o regime de Pinochet na década de 1980.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Finalmente, no ano passado milhares de mulheres ocuparam 32 faculdades e várias secundárias, denunciaram conotados catedráticos e docentes por acosso, abuso e violência, e aprofundaram uma luta que tinha rebentado em 2015 com um massivo 8 de março e as marchas do “Nem Uma Menos”. Com base nesse movimento, multiplicam-se as organizações feministas, entre elas grupos de mulheres mapuche e de setores populares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estes três movimentos (e outros como os pensionistas), convergem desde o início de outubro, somando e multiplicando o que já tinham vindo a fazer nas últimas décadas. Um eclodir não espontâneo, porque boa parte das e dos jovens já tinham ensaiado, em escalas apenas menores, o que estão a fazer agora, ainda que com resultados mais modestos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No Equador trata-se de um levantamento planificado ou, melhor, da repetição com novidades do que tem vindo a fazer a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). Como vimos noutra análise (Gara, 14/10/2019), a principal novidade nesta ocasão foi que vários milhares se somaram à ocupação dos indígenas de Quito. Os jovens urbanos trouxeram a sua quota parte de radicalidade e ódio à polícia. As classes médias solidarizaram-se com alimentos, mantas, roupa e donativos de todo o tipo. Os estudantes forçaram a abertura de universidades públicas e privadas para albergar e alimentar indígenas e setores populares.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As mulheres realizaram uma gigantesca marcha na que confraternizaram as feministas académicas com indígenas da serra e da Amazónia. A grande experiência da Conaie, desde o primeiro levantamento em 1990, permitiu-lhe colocar um ponto final no levantamento quando vislumbraram que os partidos pretendiam montar-se em cima da mobilização, dos presos e dos mortos, para tirar partido da luta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Retiraram-se mas não se desmobilizaram. Ergueram o Parlamento Indígena e dos Povos, uma aliança entre todos os setores populares para começar uma &lt;em&gt;minga &lt;/em&gt;(trabalho coletivo) que deve estabelecer medidas para sair do modelo neoliberal. Este trabalho é mais difícil do que resistir nas barricadas, porque não existe um modelo alternativo ao neoliberal e extrativista, já pronto a meter em marcha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new, courier, monospace;&quot;&gt;Texto de Raúl Zibechi publicado a 3 de novembro de 2019 em &lt;a href=&quot;https://www.naiz.eus/es/iritzia/articulos/las-revueltas-de-octubre&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Naiz&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>conaie</category>
  <category>américa latina</category>
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  <pubDate>Tue, 18 Jun 2019 11:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Tiananmen e Chernobil, do silêncio comunista ao espetáculo capitalista</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/tiananmen-e-chernobil-do-silencio-65064</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Por estes dias temos assistido a um &lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;remember&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt; dos acontecimentos históricos sucedidos no mundo comunista do século XX: os protestos de Tiananmen e o acidente de Chernobil. Não é objetivo da minha reflexão discutir sobre a informação que dispomos daqueles acontecimentos e sobre a precisão ou não do nosso conhecimento. O que creio que sim vale a pena é observar a capacidade que tem o mundo  ocidental e a sua maquinaria de informação/entretenimento/ideológica de converter em atualidade acontecimentos passados quando lhe interessam, apresentar o formato mais atrativo da história e conseguir que a sua versão afaste qualquer discussão, debate ou investigação sobre os factos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;No assunto Tiananmen, o mais destacável é como, para o cidadão ocidental, o nome de uma praça aparece unido inevitavelmente a uns acontecimentos de protestos contra o governo comunista chinês. Diretamente, os meios de comunicação falam dos 30 anos de Tiananmen, os anos que passaram desde esses protestos, apesar de a praça ter uns quarenta anos mais. Ninguém pensa no massacre dos 300 estudantes em Tlatelolco quando os meios de comunicação referem esse local da cidade do México. De modo que Tiananmen é a praça de um massacre mas a praça das Três Culturas, onde aconteceu o massacre mexicano, é um complexo arquitetónico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Um dos paradoxos dos protestos de Tiananmen é que a foto mais emblemática da repressão é precisamente um tanque que se imobiliza para não atropelar um manifestante. Ocorrem-me muitas mobilizações e protestos no mundo onde as forças da ordem não respeitaram um manifestante semelhante e não passaram à história por sangrentas repressões, como sucede com a praça chinesa. Desde o &lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;caracazo&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt; venezuelano ao massacre de El Mozote em El Salvador. E, claro, creio que há muitos muitos países onde não é preciso recuar 30 anos para encontrar repressão e massacres dos seus exércitos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;cartoon, Tiananmen&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B6c1814bd/21483890_gLzvo.jpeg&quot; alt=&quot;cartoon, Tiananmen&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;343&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de &lt;span class=&quot;MainText&quot;&gt;Paresh Nath, The Khaleej Times, UAE&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;O outro tema trazido à atualidade foi o acidente de Chernobil graças a uma série do canal de televisão HBO, com o mesmo nome. Tal como com os acontecimentos de Tiananmen, Chernobil sofreu por parte das autoridades comunistas um grande secretismo, o que permitiu ao ocidente fazer as suas próprias interpretações e manejar os dados que considerou oportunos. Para começar, no que diz respeito ao número de vítimas que, em ambos os casos, a amplitude é muita. No caso do acidente nuclear, porque o cálculo supõe não só as mortes pelo acidente, apenas umas dezenas, mas também os falecidos em consequência das radiações recebidas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 600px; padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Chernobil, cartoon, chernobyl&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bda178b64/21483889_KszK4.jpeg&quot; alt=&quot;Chernobil, cartoon, chernobyl&quot; width=&quot;600&quot; height=&quot;409&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 12pt;&quot;&gt;Cartoon de &lt;span class=&quot;MainText&quot;&gt;Christo Komarnitski, Bulgaria&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;O que é evidente é que as lacunas sobre o que aconteceu, o secretismo que rodeou a tragédia, característico de uma guerra fria que ainda se fazia sentir, e a estigmatização do governo comunista de então, eram ingredientes estupendos para um produto audiovisual com o formato de ficção em vez do de documentário. Não é minha intenção justificar nem branquear as responsabilidades daqueles governos, vou limitar-me a suspeitar da oportunidade de tanta insistência e da forma como é feita. Que uma série de ficção, com cenas dramatizadas, com alguns personagens criados especialmente para a série (a física bielorrussa Ulana Khomyuk), sem oferecer fontes rigorosas, nem documentação, seja a via principal de conhecimento do acidente de Chernobil para a população ocidental de hoje, não implica nenhum avanço de aproximação à verdade. Não se pode compreender que a única pessoa que se preocupasse em investigar o motivo do desastre fosse uma física da república vizinha da Bielorrússia, que fosse a Chernobil por sua conta para entrevistar os técnicos moribundos no hospital. E que, ainda por cima, terminasse detida pelo KGB. O lógico é que o próprio estado soviético, ainda que não tivesse nenhuma intenção de transparência, tentasse saber o que se tinha passado. Poderão argumentar que isto é só uma série, que não pretendem apresentar-se como investigadores e reveladores de uma verdade, mas isso é irrelevante, a realidade é que &quot;documentação&quot; que os cidadãos terão sobre aqueles acontecimentos será a história que viram no canal HBO.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Um dos princípios éticos do jornalismo televisivo é renunciar à dramatização das notícias, isto é, não contar uma violação ou um assalto a um banco mediante uma teatralização de atores, pelo que isso implica  de manipulação da emoção das audiências. Imaginem a reação de uns espectadores perante um acusado de violação e assassinato se, na informação sobre o julgamento, se exibe a dramatização desse crime com todo o tipo de detalhes, sangue, terror da vítima e maldade nos gestos do assassino. Pois isso é a série de Chernobil. Nela, a intencionalidade é cuidada ao milímetro sem importar o rigor. Até a responsável pelo vestuário, Odile Dicks-Mireaux, reconheceu que o realizador, Johan Renck, &quot;&lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://smoda.elpais.com/moda/actualidad/chernobyl-vestuario-ropa-hbo/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;deu a diretriz de que queria que fosse um vestuário feio&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;&quot;. E reconhece tranquilamente que na série “acrescentaram alguma decadência” e &quot;a roupa é mais da URSS do que a de então em Pripyat, onde se viam calças de ganga, sapatos coloridos e roupa que ia chegando do estrangeiro”. Se era preciso projetar uma imagem decrépita do comunismo, então fez-se isso. Poucos deram conta, e muitos menos se recordam, que no filme &lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;As vidas dos outros&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;, a cor torna-se alegre e brilhante ou sórdida e apagada conforme as imagens correspondem aos dissidentes ou às autoridades, conforme se esteja na Alemanha Ocidental ou na Oriental.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Em qualquer dos filmes americanos que estamos habituados a ver, os que sacrificam a sua vida ou a colocam em perigo para salvar outros, são apresentados como heróis. Pelo contrário, esses mesmos, na série do HBO são mostrados como se fossem levados pela direção soviética para o matadouro. Militares, polícias, bombeiros e médicos morrem todos os anos em muitos países do mundo cumprindo o seu trabalho obedecendo a ordens superiores e, em última instância, aos seus governos. No entanto, na série Chernobil são apresentados como enganados e empurrados pelo governo comunista. Muitos deles eram profissionais que conheciam bem o risco, dificilmente podiam ser enganados, sem dúvida foi o seu sentido de solidariedade que os motivou, como se pode apreciar nalguns momentos da série. Apesar disso, essas decisões heróicas e voluntárias aparecem encenadas precedidas de miseráveis tentativas de engano por parte do governo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Se a alternativa ao ocultismo soviético é o espetáculo ocidental de uma série de ficção, a única coisa que fica demonstrada é uma maior inteligência para pastorear os cidadãos de uns do que os outros. É paradoxal que  que aqueles que no seu desenlace final do último capítulo da série, fazem do rigor científico e da verdade um baluarte, sejam os mesmos que criam uma série de ficção audiovisual sem aval científico nem documental. A frivolidade e o espetáculo imperante no ocidente faz crer que um produto televisivo de ficção nos vai dar lições de história e veracidade científica. Se o governo soviético teve um comportamento desajeitado acreditando que com o silêncio e a mentira podiam enganar um povo, o do ocidente tem uma brilhante atuação de espetacularidade que pretende substituir aquele silêncio e mentira por exibição e entretenimento recorrendo a todos os recursos narrativos necessários desde que o resultado seja atrativo para os espectadores. E o que é pior, dando lições de cátedra sobre o valor do rigor e da verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Obviamente, uma boa narrativa requer que se eliminem as partes que não interessam. A URSS não deixou nunca de homenagear os liquidadores, todas as pessoas que se expuseram para paliar os efeitos do desastre. Os diferentes monumentos erguidos mostram que não houve intenção de esquecer o sucedido. E também não se ficou pelas meras homenagens, há uns anos um bombeiro ucraniano ucraniano denunciava que  &quot;&lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://www.lavanguardia.com/internacional/20110426/54145745335/ucrania-homenajea-a-los-liquidadores-de-chernobil-en-el-25-aniversario.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;quando existia a União Soviética, cuidavam de nós, curavam-nos, preocupavam-se connosco. Agora os governos esqueceram-nos&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;&quot;. Teria sido um bom final para a série, procurar mostrar como são vistos hoje esses heróis, já &quot;libertados do jugo soviético&quot;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Também poderiam ter investigado onde foram recebidos e assistidos, durante anos, os afetados pela radiação e contar que, depois da queda da URSS,&lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;http://www.granma.cu/ciencia/2018-04-27/cuba-sola-atendio-mas-ninos-de-chernobil-que-todo-el-mundo-27-04-2018-22-04-53&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt; &lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;26 mil pessoas foram a Cuba, um governo que continuava a ser comunista, para receberem tratamento médico gratuito&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Mas contar tudo isto implicaria visitar agora os locais, recolher testemunhos e declarações e o resultado seria um rigoroso documentário em vez de uma atrativa série de televisão com efeitos especiais e dramas ficcionados. Demasiado aborrecido para a nossa sociedade do espetáculo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier,monospace;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;Texto de Pascual Serrano publicado a 11 de junho de 2019 no &lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://www.eldiario.es/zonacritica/Tiananmen-Chernobyl-comunista-espectaculo-capitalista_6_907869210.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;El Diario&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: 400;&quot;&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/tiananmen-e-chernobil-do-silencio-65064</comments>
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  <category>chernobil</category>
  <category>ficção</category>
  <category>tiananmen</category>
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  <guid isPermaLink='true'>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/a-imprensa-esconde-o-papel-da-otan-no-64705</guid>
  <pubDate>Thu, 22 Feb 2018 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>A imprensa esconde o papel da OTAN no aparecimento de mercados de escravos na Líbia</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/a-imprensa-esconde-o-papel-da-otan-no-64705</link>
  <description>&lt;p&gt;Mercados de escravos no século XXI. Seres humanos a serem vendidos por umas centenas de dólares. Protestos em massa em todo o mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os meios de comunicação americanos e britânicos acordaram para a cruel realidade da Líbia, onde refugiados africanos estão à venda em mercados de escravos ao ar livre. No entanto, um detalhe crucial deste escândalo está a ser desvalorizado ou mesmo ignorado em muitas reportagens da imprensa: o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte no aparecimento da escravatura a essa nação do norte de África .&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em março de 2011, a OTAN lançou uma guerra na Líbia expressamente para derrubar o governo do perene líder Muamar Kadafi. Os Estados Unidos e os seus aliados fizeram cerca de &lt;a href=&quot;https://www.nato.int/cps/en/natolive/topics_71652.htm&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;26 mil sobrevoos&lt;/a&gt; à Líbia e lançaram centenas de mísseis cruzeiro, destruindo a capacidade do governo de resistir às forças rebeldes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O presidente norte-americano Barack Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton, em conjunto com os seus comparsas europeus, insistiram que a intervenção militar estava a ser levada a cabo por razões humanitárias. Mas o cientista político Micah Zenko (&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Foreign Policy&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, &lt;a href=&quot;http://foreignpolicy.com/2016/03/22/libya-and-the-myth-of-humanitarian-intervention/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;22/3/2016&lt;/a&gt;) usou os próprios documentos da OTAN para demonstrar como “a intervenção na Líbia tinha a ver com uma mudança de regime desde o início.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A OTAN apoiou um conjunto de grupos de rebeldes que lutavam no terreno na Líbia, muitos dos quais dominados por extremistas islâmicos portadores de visões violentamente racistas. Os militantes do bastião de Misurata, apoiado pela OTAN, até se &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/commentisfree/2011/aug/30/libya-spectacular-revolution-disgraced-racism&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;referiram&lt;/a&gt; a eles mesmos em 2011 como “uma brigada para purgar escravos, de pele negra”—uma arrepiante previsão dos horrores que estavam para chegar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A guerra terminou em outubro de 2011. Aviões americanos e europeus atacaram a caravana onde seguia Kadafi e ele foi brutalmente assassinado por rebeldes extremistas—sodomizado com uma baioneta. A Secretária Clinton, que desempenhou um &lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2016/02/28/us/politics/hillary-clinton-libya.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;papel decisivo&lt;/a&gt; na guerra declarou à televisão &lt;strong&gt;CBS News&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.cbsnews.com/news/clinton-on-qaddafi-we-came-we-saw-he-died/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;20/10/2011&lt;/a&gt;), “Nós chegamos, vimos e ele morreu!”. O governo líbio foi dissolvido pouco tempo depois.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos seis anos que entretanto se passaram, a Líbia foi revirada pelo caos e pelo derramamento de sangue. Vários putativos governos competem pelo controlo desse país rico em petróleo e, nalgumas áreas, ainda não há uma autoridade central. Morreram muitos milhares de pessoas, apesar de ser impossível verificar a verdadeira contagem. Milhões de líbios foram deslocados—um número impressionante, quase um terço da população, tinha &lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2014/09/10/world/africa/libya-refugees-tunisia-tripoli.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;fugido&lt;/a&gt; para a vizinha Tunísia até 2014.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os meios de comunicação corporativos, no entanto, esqueceram em grande medida o papel fulcral da OTAN na destruição do governo da Líbia, na desestabilização do país e no reforço do poder dos traficantes de seres humanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para além disso, mesmo as poucas notícias que assumem uma cumplicidade da OTAN no caos da Líbia não dão o passo seguinte, de detalhar o bem documentado racismo violento dos rebeldes apoiados pela OTAN que encetaram a escravatura depois de terem feito uma limpeza étnica e de cometer crimes brutais contra os líbios negros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;Ó OTAN, onde andas tu?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2017/11/14/africa/libya-migrant-auctions/index.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;14/11/2017&lt;/a&gt;) tornou pública uma história explosiva em meados de novembro que possibilitou uma visão em primeira mão ao negócio de escravos na Líbia. Essa rede de meios de comunicação obteve um terrível vídeo que mostra jovens refugiados africanos a serem leiloados.“Grandes e fortes rapazes para trabalhos agrícolas,” vendidos por tão pouco como 400 dólares [340 euros].&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A apelativa reportagem multimédia da &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; abundantes extras: dois vídeos, duas imagens animadas, duas fotografias e um gráfico. Mas faltava lá alguma coisa: nessa história de mil palavras não foi mencionada a OTAN, ou a guerra de 2011 que destruiu o governo líbio, nem Muamar Kadafi, nem nenhuma espécie de contexto histórico e político.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;escravatura líbia CNN&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B4e012868/20870549_DGEkO.png&quot; alt=&quot;escravatura líbia CNN&quot; width=&quot;497&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; Apesar destas grandes falhas, a reportagem da &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; foi muito saudada e teve impacto num aparelho mediático corporativo que, habitualmente, pouco se debruça sobre o norte de África. Seguiu-se uma lufada de reportagens na imprensa. Esses relatos falaram maioritariamente da escravatura na Líbia como um assunto de direitos humanos intemporal e apolítico, não como um problema com raízes na história recente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas notícias que se seguiram, quando autoridades líbias e das Nações Unidas anunciaram que abririam uma investigação à venda de escravos, a &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2017/11/17/africa/libya-slave-auction-investigation/index.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;17/11/2017&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2017/11/20/africa/un-secretary-general-libya-slave-auctions/index.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;) tornaram a não mencionar a guerra de 2011, nem o papel da OTAN nessa guerra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma reportagem da &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2017/11/21/africa/un-security-council-libya-slave-trade/index.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;21/11/2017&lt;/a&gt;) sobre uma reunião do Conselho de Segurança da ONU conta-nos que “Embaixadores do Senegal à Suécia também apontaram as causas na base do tráfico: países instáveis, pobreza, lucros com o comércio de escravos e a falta de cumprimento das leis.” Mas não explicava &lt;em&gt;por que razão&lt;/em&gt; a Líbia está instável.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro artigo de 1200 palavras da &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2017/11/23/africa/libya-reaction-slave-trade/index.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;23/11/2017&lt;/a&gt;) também é ofuscante. Só quando se chega ao 35º parágrafo, o penúltimo, é que vem a citação de um investigador da organização de defesa dos Direitos Humanos, a &lt;em&gt;Human Rights Watch&lt;/em&gt;: “As autoridades líbias têm vindo a arrastar-se em quase todas as investigações que supostamente iniciaram, mas que nunca concluíram, desde os tumultos de 2011.” A liderança da OTAN nestes tumultos foi, mesmo assim, ignorada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma nota de imprensa da &lt;strong&gt;Agence France-Presse (AFP)&lt;/strong&gt; que foi publicada pela &lt;strong&gt;Voice of America&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.voanews.com/a/africa-union-calls-libya-slave-market-probe/4122200.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;17/11/2017&lt;/a&gt;) e por outros sítios da internet, também não nos fornece nenhum contexto histórico da situação política da Líbia. “Testemunhos reunidos pela &lt;strong&gt;AFP&lt;/strong&gt; nos últimos anos, revelam uma ladainha de abusos de direitos por parte de líderes de gangues, traficantes de seres humanos e das forças de segurança da Líbia”, diz-nos o artigo, sem nada revelar sobre o que aconteceu antes de 2017.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reportagens da &lt;strong&gt;BBC&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/news/world-africa-42038451&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;18/11/2017&lt;/a&gt;), do&lt;strong&gt; New York Times&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2017/11/20/world/middleeast/libya-slave-auction-un.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;), &lt;strong&gt;Deutsche Welle&lt;/strong&gt; (reproduzuda pelo &lt;strong&gt;USA Today&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.usatoday.com/story/news/world/2017/11/23/slave-trade-libya-outrage-across-africa/891129001/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;23/11/2017&lt;/a&gt;) e da &lt;strong&gt;Associated Press&lt;/strong&gt; (reproduzida pelo &lt;strong&gt;Washington Post&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.washingtonpost.com/world/africa/rwanda-offers-to-shelter-african-migrants-abused-in-libya/2017/11/23/d29ef858-d05b-11e7-a87b-47f14b73162a_story.html?utm_term=.286c6f90e548&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;23/11/2017&lt;/a&gt;) também não mencionam a guerra de 2011, nem o papel do OTAN.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra história do jornal &lt;strong&gt;New York Times&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2017/11/19/world/africa/libya-migrants-slavery.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;19/11/2017&lt;/a&gt;) dá-nos algum contexto:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Desde que a Primavera Árabe de 2011 acabou com a liderança brutal do Coronel Muamar Kadafi, a costa da Líbia tornou-se um eixo do tráfico humano e de contrabando. Isso foi alimentado pela crise de emigração ilegal com a qual a Europa se tem debatido desde 2014. A Líbia, que resvalou para o caos e para a guerra civil depois da revolta, está agora dividida entre três grandes fações.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;No entanto, o &lt;strong&gt;Times&lt;/strong&gt; oculta o papel fulcral da OTAN no tumultos de 2011.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num relato das grandes manifestações que surgiram às portas das embaixadas da Líbia na Europa e em África, em resposta aos leilões de escravos, a agência noticiosa &lt;strong&gt;Reuters&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.reuters.com/article/us-libya-slavery-migrants/sale-of-migrants-in-libya-slave-markets-sparks-global-outcry-idUSKBN1DK2AU&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;) indica: “Seis anos depois da queda de Muamar Kadafi, a Líbia continua a ser um Estado sem lei onde grupos armados competem por território e recursos e onde operam impunemente redes de tráfico de pessoas.” Mas não deu mais nenhuma informação sobre a forma como Kadafi foi derrubado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma reportagem do &lt;strong&gt;Huffington Post&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.huffingtonpost.com/entry/video-slave-auction-migrants-libya_us_5a161d56e4b064948072e9f3?ncid=%20edlinkusaolp00000029&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;22/11/2017&lt;/a&gt;), mais tarde republicada pela &lt;strong&gt;AOL&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.aol.com/article/news/2017/11/27/video-of-migrants-sold-in-apparent-slave-auction-in-libya-provokes-outrage-worldwide/23289149/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;27/11/2017&lt;/a&gt;), concedeu que a Líbia é “um dos países mais instáveis, atolado em conflitos, desde que Muamar Kadafi foi afastado e morto em 2011”. Não se menciona o papel importante da OTAN nesse afastamento e morte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parte do problema tem estado na falta de vontade das organizações internacionais em apontar responsabilidades aos poderosos governos ocidentais. Na sua declaração sobre as notícias de escravidão na Líbia, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres (&lt;a href=&quot;https://www.un.org/sg/en/content/sg/statement/2017-11-20/secretary-general%E2%80%99s-statement-reported-news-slavery-libya&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;) nada disse sobre os acontecimentos políticos dessa nação norte-africana nos últimos seis anos. A reportagem do &lt;strong&gt;Centro de Notícias da ONU &lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=58127#.WhyJIlWnGUm&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;) sobre os comentários de Guterres também não contextualizou nem informou devidamente, bem como a nota de imprensa (&lt;a href=&quot;https://www.iom.int/news/iom-joins-un-sg-call-end-libya-migrant-slave-trade&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;21/11/2017&lt;/a&gt;) da Organização Internacional para as Migrações (OIM).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A &lt;strong&gt;Al Jazeera&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.aljazeera.com/programmes/countingthecost/2017/11/migrants-sale-slave-trade-libya-171126063748575.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;26/11/2017&lt;/a&gt;) citou um responsável da OIM que sugeriu, nas palavras da &lt;strong&gt;Al Jazeera&lt;/strong&gt;, que “a comunidade internacional devia dar mais atenção à Líbia pós-Kadafi”. Mas este órgão de comunicação não contextualizou a forma como a Líbia passar a ser &quot;pós-Kadafi&quot;. De facto, a fonte da  &lt;strong&gt;Al Jazeera&lt;/strong&gt; acabou por fazer do tema um assunto apolítico: “A escravatura contemporânea está espalhada por todo o mundo e a Líbia não é, de todo, um caso único”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Embora seja verdade que a escravatura e o tráfico de seres humanos acontecer noutros países, esta narrativa de que está espalhada por todo o lado despolitiza o problema na Líbia, que tem raízes em decisões políticas explícitas tomadas pelos governos e pelos seus líderes: nomeadamente, a escolha de derrubar o governo estável da Líbia, transformar essa nação norte-africana, rica em petróleo, num estado falhado governado por milícias e senhores da guerra, alguns dos quais envolvidos e a lucrarem com a escravatura e com o tráfico humano.&lt;/p&gt;
&lt;h3&gt;Atenção seletiva ao &quot;pós-OTAN&quot; na Líbia&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;As reportagens dos meios de comunicação corporativos sobre a Líbia espelham o tratamento dado às notícias sobre o Iémen (&lt;strong&gt;FAIR.org&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://fair.org/home/ignoring-washingtons-role-in-yemen-carnage-60-minutes-paints-us-as-savior/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/11/2017&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://fair.org/home/media-yemen-us-saudi-airstrikes-killing-civilians/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;31/8/2017&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://fair.org/home/downplaying-us-contribution-to-potential-yemen-famine/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;27/2/2017&lt;/a&gt;) e a Síria (&lt;strong&gt;FAIR.org&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://fair.org/home/the-return-of-the-dangerous-obama-did-nothing-narrative-on-syria/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;7/4/2017&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://fair.org/home/the-syrian-refugee-crisis-and-the-do-something-lie/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;5/9/2015&lt;/a&gt;). O papel dos governos dos EUA e dos seus aliados na criação do caos a nível mundial é minimizado, se não mesmo ignorado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espantosamente, uma das únicas exceções a esta impressionante tendência da imprensa aconteceu em abril, e logo no editorial do &lt;strong&gt;New York Times&lt;/strong&gt;. Esse editorial (&lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2017/04/14/opinion/another-degree-of-suffering-in-libya.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;14/4/2017&lt;/a&gt;) não poupou nos termos, fazendo uma ligação direta entre a operação militar apoiada pelos EUA e a atual catástrofe:&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;Nada disto seria possível se não existisse um caos político na Líbia desde a guerra civil de 2011, quando — com o envolvimento da coligação da OTAN da qual faziam parte os Estado Unidos — o Coronel Muamar Kadafi foi derrubado. Os migrantes tornaram-se o ouro que financia as fações beligerantes na Líbia.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Esta foi uma significativa mudança de posição. Logo depois da OTAN ter lançado a guerra na Líbia em março de 2011, o editorial do jornal &lt;strong&gt;Times&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.nytimes.com/2011/03/22/opinion/22tue1.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;21/3/2011&lt;/a&gt;) festejou o bombardeamento, esfuziando, “o Coronel Muamar Kadafi há muito que é um bandido e um assassino e nunca pagou pelos seus vários crimes.” Cantou loas à “extraordinária” e “impressionante” intervenção militar, e desejou a queda rápida de Kadafi.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O editorial de abril de 2017 do &lt;strong&gt;Times&lt;/strong&gt; não chegou a ser um &lt;em&gt;mea culpa&lt;/em&gt;, mas foi uma rara admissão da verdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na altura em que este editorial surpreendentemente honesto foi escrito, tinha havido alguma atenção dada pela imprensa à Líbia. A Organização Internacional para as Migrações tinha feito uma investigação sobre a escravatura depois da mudança de regime na Líbia, levando a uma corrente de notícias no &lt;strong&gt;Guardian&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2017/apr/10/libya-public-slave-auctions-un-migration&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;10/4/2017&lt;/a&gt;) e noutros jornais. Mas quase logo que esta história começou a atrair a atenção da imprensa corporativa  essa mesma atenção acabou por esmorecer. Mudou-se para a Rússia, para a Coreia do Norte e para o papão do dia.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;mercado de escravos na Líbia - Media&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bc6148b3b/20870550_l0ymI.png&quot; alt=&quot;mercado de escravos na Líbia - Media&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;478&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando os governos ocidentais estavam prestes a intervir militarmente na Líbia, no período que antecedeu o dia 19 de março de 2011, houve uma constante corrente de notícias sobre o lado mau de Kadafi e do seu governo—incluindo uma boa dose de notícias falsas (&lt;strong&gt;Salon&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.salon.com/2016/09/16/u-k-parliament-report-details-how-natos-2011-war-in-libya-was-based-on-lies/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;16/9/2016&lt;/a&gt;). Os principais jornais &lt;a href=&quot;https://www.alternet.org/grayzone-project/top-us-newspapers-libya-syria-regime-change&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;apoiaram aguerridamente a invervenção da OTAN&lt;/a&gt;, e não fizeram segredo das suas linhas editoriais a favor da guerra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando o governo dos EUA e os seus aliados se preparavam para a guerra, o aparelho mediático corporativo fez o que melhor sabe fazer e ajudou a vender ao público mais uma  intervenção militar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos anos que se seguiram, por outro lado, houve exponencialmente menos interesse na desastrosa situação que se seguiu à guerra na OTAN.  Há alguns picos de interesse, como aconteceu no início de 2017. O interesse súbito mais recente da imprensa foi inspirado pela publicação do chocante vídeo pela &lt;strong&gt;CNN&lt;/strong&gt;. Mas a cobertura mediática invariavelmente desaparece abruptamente.&lt;/p&gt;
&lt;h3&gt;O Racismo Extremo dos Rebeldes Líbios&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;A catástrofe que poderia atingir a Líbia depois do colapso do seu Estado foi prevista na altura. O próprio Kadafi &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2016/jan/07/gaddafi-warned-blair-of-threat-from-opening-door-to-al-qaida&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;avisou&lt;/a&gt; os Estados membros da OTAN, que ao desencadearem uma guerra contra ele, iriam lançar o caos na região. No entanto, os líderes ocidentais —Barack Obama e Hillary Clinton nos EUA, David Cameron no Reino Unido, Nicolas Sarkozy na França, Stephen Harper no Canadá—ignoraram a premonição de Kadafi e derrubaram violentamente o seu governo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mesmo no pequeno número de relatos na imprensa sobre a escravatura na Líbia que assumem o papel de responsabilidade da OTAN na desestabilização do país, falta ainda alguma coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olhando retrospetivamente para os rebeldes líbios anti-Kadafi, quer antes quer depois da guerra de 2011, é bastante claro que um ultra-racismo anti-negros se espalhou na oposição apoiada pela OTAN. Uma investigação de 2016 da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns britânica (&lt;strong&gt;Salon&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.salon.com/2016/09/16/u-k-parliament-report-details-how-natos-2011-war-in-libya-was-based-on-lies/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;16/9/2016&lt;/a&gt;) reconhece que “as milícias islâmicas tiveram um papel fulcral nos tumultos que se seguiram a fevereiro de 2011.” Mas muitos rebeldes não eram apenas fundamentalistas; eles eram também violentamente racistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infelizmente, não surpreende que estes extremistas líbios escravizassem depois os refugiados e migrantes africanos: eles andavam no seu encalço desde o início.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A maior parte da cobertura jornalística norte-americana e europeia na altura da intervenção militar da OTAN era decididamente pró-rebeldes. Quando os repórteres foram para o terreno, no entanto, começaram a publicar algumas peças mais esbatidas que insinuavam a realidade da oposição. Foram em número insignificante mas são bem esclarecedoras e merecem ser vistas novamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Três meses depois do início da guerra da OTAN, em junho de 2011, Sam Dagher, do &lt;strong&gt;Wall Street Journal &lt;/strong&gt;(&lt;a href=&quot;https://www.wsj.com/articles/SB10001424052702304887904576395143328336026&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;21/6/2011&lt;/a&gt;), relatando com base em Misurata, a terceira maior cidade da Líbia e um grande reduto da oposição, contou que ouviu palavras de ordem tais como “a brigada para a purga de escravos, pele negra.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dahger afirmou que o baluarte rebelde de Misurata era dominado por “um núcleo de famílias de comerciantes brancos,” ao passo que “o sul do país, que é predominantemente negro, apoia maioritariamente o Coronel Kadafi.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um &lt;em&gt;grafiti&lt;/em&gt; em Misurata dizia “Traidores fora daqui.” Por “traidores,” os rebeldes referiam-se aos líbios da cidade de Tauerga, que o &lt;strong&gt;Journal&lt;/strong&gt; explicou ser “habitada principalmente por líbios negros, um legado das suas origens no século XIX como cidade na rota do comércio de escravos.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dagher revelou que alguns líderes rebeldes líbios &quot;apelavam à expulsão dos provenientes de Tauerga da zona” e à &quot;proibição dos naturais de Tauerga de poderem trabalhar, viver ou enviar os seus filhos para a escola em Misurata.&quot; Ele acrescentou que os bairros onde a maioria dos habitantes eram de Tauerga já estava vazios. Os líbios negros estavam “desaparecidos ou escondidos, temendo ataques dos habitantes de Misurata, havendo relatos de ofertas de recompensas pela sua captura.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; O comandante rebelde Ibrahim al-Halbous disse ao &lt;strong&gt;Journal&lt;/strong&gt;, “Tawergha já não existe, só Misrata.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Al-Halbous reapareceria mais tarde numa notícia do jornal &lt;strong&gt;Sunday Telegraph&lt;/strong&gt; (&lt;a href=&quot;http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/libya/8754375/Gaddafis-ghost-town-after-the-loyalists-retreat.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;11/9/2011&lt;/a&gt;), reiterando ao jornal britânico, “Tauerga já não existe.” (Quando Halbous foi ferido em setembro, o &lt;strong&gt;New York Times&lt;/strong&gt;—&lt;a href=&quot;http://www.nytimes.com/2011/09/21/world/africa/qaddafi-assails-libya-government-that-replaced-him.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;20/9/2011&lt;/a&gt;—descreveu-o simpaticamente como um mártir na heróica luta contra Kadafi. A brigada de Halbous tornou-se nos anos que se seguiram uma milícia &lt;a href=&quot;https://www.reuters.com/article/us-libya-security/for-libya-u-n-deal-former-rebel-brigades-mean-success-or-failure-idUSKCN0SU0M420151105&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;influente&lt;/a&gt; na Líbia.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tal como Dagher, Andrew Gilligan do &lt;strong&gt;Telegraph&lt;/strong&gt; chamou a atenção para o mural pintado ao lado da estrada que liga Misurata a Tauerga: “a brigada para purgar escravos [e] peles negras.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gilligan escreveu a partir de Tauerga, ou antes das ruínas da cidade de maioria negra, que ele descreve como  tendo sido “esvaziada de pessoas, vandalizada e parcialmente queimada por forças rebeldes.” Um líder rebelde disse sobre os residentes de pele negra, “Nós dissemos que se eles não saíssem, seriam conquistados e presos. Foram todos embora e não iremos permitir que regressem.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gilligan deu nota de “um clima racista. Muitos dos habitantes de Tauerga, que nem eram migrantes nem faziam parte dos famosos mercenários africanos pró-Kadafi, são descendentes de escravos e têm a pele mais escura que a maioria dos líbios.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Organização do Tratado do Atlântico Norte deu apoio a estes rebeldes virulentamente racistas em Misurata. As forças da OTAN  fizeram frequentemente &lt;a href=&quot;http://www.cnn.com/2011/WORLD/africa/04/24/libya.war/index.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;ataques aéreos&lt;/a&gt; sobre a cidade. &lt;a href=&quot;http://abcnews.go.com/International/nato-charge-libya-fly-zone-united-states/story?id=13210685&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;Aviões de guerra franceses&lt;/a&gt; derrubaram aviões líbios em Misurata. Os &lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/news/world-africa-12796972&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;Estados Unidos da América e o Reino Unido&lt;/a&gt; dispararam mísseis de cruzeiro sobre alvos governamentais líbios, e os Estado Unidos lançaram ataques com aviões não tripulados &lt;em&gt;Predator&lt;/em&gt;. A &lt;a href=&quot;https://www.theglobeandmail.com/news/politics/canadian-jets-bomb-libyan-target-in-first-attack/article4266667/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;força aérea canadiana&lt;/a&gt; também atacou forças líbias, empurrando-as para fora de Misurata.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num vídeo de relações públicas publicado pelo OTAN em maio de 2011, no início da guerra da Líbia, a aliança militar ocidental admitiu abertamente que permitiu que “os rebeldes líbios transportassem armamento de Bengazi para Misurata.” O cientista político Micah Zenko (&lt;strong&gt;Foreign Policy&lt;/strong&gt;, &lt;a href=&quot;http://foreignpolicy.com/2016/03/22/libya-and-the-myth-of-humanitarian-intervention/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;22/3/2016&lt;/a&gt;) assinalou as implicações desse vídeo: “Um vaso de guerra da OTAN estacionado no Mediterrâneo para controlar o embargo de armas fazia exatamente o oposto, e a OTAN estava confortável com a divulgação de um vídeo que demonstra a sua hipocrisia.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante a guerra e mesmo depois, os rebeldes líbios continuaram a perpetrar ataques sectários e racistas contra os seus compatriotas negros. Estes ataques foram bem documentados pelas principais organizações de defesa dos direitos humanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O diretor executivo da &lt;em&gt;Human Rights Watch&lt;/em&gt;, &lt;a href=&quot;http://foreignpolicy.com/2011/03/19/does-the-world-belong-in-libyas-war-2/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;Kenneth Roth&lt;/a&gt;, saudou a intervenção da OTAN na Líbia em 2011, considerando a declaração unânime de uma zona de proibição de voo por parte do Conselho de Segurança da ONU uma “notável” confirmação da chamada doutrina de “responsabilidade de proteger”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A organização de Roth, no entanto, não pôde ignorar os crimes dos militantes anti-Kadafi cometidos contra os líbios de pele negra e contra os migrantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em setembro de 2011, quando ainda decorria a guerra, a &lt;em&gt;Human Rights Watch&lt;/em&gt; &lt;a href=&quot;https://www.hrw.org/news/2011/09/04/libya-stop-arbitrary-arrests-black-africans&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;referiu-se&lt;/a&gt; à “detenção arbitrária e abuso de trabalhadores migrantes africanos e de líbios negros assumidos como sendo mercenários [pró-Kadafi]”, por parte dos rebeldes líbios.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;migrantes negros racismo líbia&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B870931d0/20870552_VGhMU.png&quot; alt=&quot;migrantes negros racismo líbia&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;487&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois, em outubro, a importante organização norte-americana de defesa dos direitos humanos referiu que &lt;a href=&quot;https://www.hrw.org/news/2011/10/30/libya-militias-terrorizing-residents-loyalist-town&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;milícias líbias&lt;/a&gt; estavam a “aterrorizar os residentes deslocados da localidade de Tauerga,” a comunidade de maioria negra que era um bastião de apoio a Kadafi. “Toda a cidade de 30 mil pessoas foi abandonada—parte dela saqueada e queimada— e os comandantes da brigada de Misurata dizem que os residentes de Tauerga não devem nunca mais regressar,” segundo a HRW. Testemunhas “fizeram relatos credíveis de algumas milícias de Misurata terem disparado sobre habitantes desarmados de Tauerga, e de detenções arbitrárias e espancamentos de presos, tendo em alguns casos levado à morte dos detidos.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 2013, a HRW debruçou-se sobre a &lt;a href=&quot;https://www.hrw.org/news/2013/03/20/libya-stop-revenge-crimes-against-displaced-persons&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt;limpeza étnica&lt;/a&gt; da comunidade negra de Tauerga. A organização de defesa dos direitos humanos, cujo diretor tão efusivamente tinha apoiado a intervenção militar, escreveu: “A deslocação forçada de aproximadamente 40 mil pessoas, as detenções arbitrárias, tortura e assassinatos são comuns, sistemáticas e suficientemente organizadas para se poder considerar tratarem-se de crimes contra a Humanidade.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estas atrocidades são inegáveis e abrem um caminho direto à escravização de refugiados africanos e migrantes. Mas para reconhecer a cumplicidade da OTAN no fortalecimento destes militantes racistas extremistas, a imprensa teria de reconhecer primeiro o papel da OTAN na guerra para a mudança de regime na Líbia em 2011.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier;&quot;&gt;Texto de Ben Norton publicado na &lt;a href=&quot;http://fair.org/home/media-nato-regime-change-war-libya-slave-markets/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;FAIR&lt;/a&gt; a de 28 de novembro de 2017. Tradução de Alexandre Leite para &lt;a href=&quot;http://resistir.info/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Resistir.Info&lt;/a&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 23 Nov 2017 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Libertado um “pigmeu” batwa que tinha sido preso por caçar</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;https://www.survival.es/indigenas/guardianes-cuenca-congo&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Um “pigmeu” batwa&lt;/a&gt; saiu da prisão após sete meses detido por matar um antílope numa área protegida da qual o seu povo foi expulso ilegalmente.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;batwa preso uganda caçadores&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B4c13acde/20753845_Hbok0.jpeg&quot; alt=&quot;batwa preso uganda caçadores&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;318&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt; Kafukuzi Valence na sua cela em Kisoro, Uganda, em fevereiro de 2017. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;https://www.survival.es/noticias/11584&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Kafukuzi Valence&lt;/a&gt;, que terá 72 anos, assegura que o animal escapou do Parque Nacional da Selva Impenetrável de Bwindi para um campo das redondezas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Prenderam-me porque capturei um animal da selva e o comi”, declarou Kafukuzi à &lt;em&gt;Survival &lt;/em&gt;[organização de defesa dos povos indígenas].&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Estive muito doente e desamparado e não fui visto por um médico”, lamenta Kafukuzi sobre o seu tempo na prisão. “Doía-me muito o estômago e as pernas e eram muitos os percevejos que me mordiam”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Mesmo agora ainda continuo débil. Não tenho nada que comer, fico só aqui sentado. Assim é a minha vida agora.”&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;batwa bwindi caçadores&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bbf072b27/20753847_Dt1C0.jpeg&quot; alt=&quot;batwa bwindi caçadores&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;318&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Kafukuzi alega que os guardas do parque da Autoridade da Vida Selvagem do Uganda roubaram, ainda por cima, os bens de sua casa quando foi detido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Parque Nacional da Selva Impenetrável de Bwindi foi criado na  terra ancestral dos caçadores-colectores batwas em 1991, com o apoio do Fundo Mundial para a Naturaleza (&lt;span class=&quot;caps&quot;&gt;WWF&lt;/span&gt;) e sem o consentimento dos batwas. Agora, são acusados de “furtivos” quando caçam para alimentar as suas famílias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Os guardas do parque anunciaram na região que todo a gente tinha de ir embora da selva, mas eles ficaram”, relata Kafukuzi. “Vieram caçar-nos e disparar contra nós”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas perseguir os caçadores indígenas desvia a atenção e evita que se atue contra os verdadeiros furtivos: criminosos que conspiram com funcionários corruptos. &lt;a href=&quot;http://www.eagle-enforcement.org/news/news/a-corrupt-wildlife-officer-arrested-trafficking-hippo-teeth-A391&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Pelo que se sabe&lt;/a&gt;, na semana passada um guarda da Autoridade da Vida Selvagem do Uganda foi capturado traficando dentes de hipopótamo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier;&quot;&gt;Texto publicado pela &lt;a href=&quot;https://www.survival.es/noticias/11865?utm_source=feedburner&amp;amp;utm_medium=feed&amp;amp;utm_campaign=Feed%3A+SurvivalEspana+%28Survival+Espa%C3%B1a%29&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Survival&lt;/a&gt; a 7 de novembro de 2017. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sat, 18 Nov 2017 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Paraíso</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/paraiso-64045</link>
  <description>&lt;div&gt;Quem diz que &quot;sistema&quot; não funciona? Para os mais ricos, esta conjuntura é um paraíso (não apenas fiscal).
&lt;p&gt;Um por cento da população mundial concentra agora mais de metade da riqueza mundial e os 10 por cento mais ricos controlam cerca de 90 por cento da riqueza do planeta, revela o jornal &lt;em&gt;New York Times&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os oito multimilionários mais ricos do mundo controlam o equivalente a toda a riqueza dos 50 por cento mais pobres do mundo, noticiou a Oxfam no início deste ano; esses oito têm uma fortuna coletiva de 426 mil milhões de dólares, equivalente ao total da riqueza de 3,6 mil milhões de seres humanos pobres no planeta (&lt;a href=&quot;https://www.oxfam.org/en/pressroom/pressreleases/2017-01-16/just-8-men-own-same-wealth-half-world&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;www.oxfam.org/en/pressroom/&lt;br /&gt;pressreleases/2017-01-16/just-8-men-&lt;br /&gt;own-same-wealth-half-world&lt;/a&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os super ricos aumentaram a sua riqueza combinada em 17 por cento no ano passado para acumularem um total recorde de 6 mil milhões de dólares, mais do dobro do PIB do Reino Unido. Hoje em dia há 1542 multimilionários (com fortunas de mil milhões para cima) no mundo, relata a UBS (&lt;a href=&quot;https://www.ubs.com/microsites/billionaires-report/en/new-value.html&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;www.ubs.com/microsites/billionaires-&lt;br /&gt;report/en/new-value.html&lt;/a&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo este relatório, estes multimilionários são 72 dos 200 colecionadores de arte mais importantes do mundo; uns 109 multimilionários são donos de 140 das melhores equipas desportivas profissionais do mundo. Ninguém calculou ainda quantos governos compraram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O número total de ricos (incluindo ultra-ricos) no mundo –definindo-se como aqueles com mais de 50 milhões de dólares em bens– é de aproximadamente 140900; metade deles estão nos Estados Unidos, segundo um relatório recente do Credit Suisse (&lt;a href=&quot;https://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/index.cfm?fileid=AD6F2B43-B17B-345E-E20A1A254A3E24A5&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;https://publications.credit-&lt;br /&gt;suisse.com/tasks/render/file/index.cfm?&lt;br /&gt;fileid=AD6F2B43-B17B-345E-&lt;br /&gt;E20A1A254A3E24A5&lt;/a&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos Estados Unidos, segundo a Reserva Federal (o banco central estadunidense), o 1 por cento mais rico das famílias controlam 38,6 por cento da riqueza deste, o país mais rico do mundo, quase o dobro da riqueza total de 90 por cento das famílias abaixo, um novo recorde.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As três pessoas mais ricas deste país, Bill Gates, Jeff Bezos e Warren Buffett –concentram uma fortuna equivalente à riqueza de 160 milhões de cidadãos, metade da populção nacional– segundo um estudo do &lt;em&gt;Institute for Policy Studies&lt;/em&gt;, que conclui que essa crescente brecha entre ricos e pobres está a gerar uma crise moral. Acresce que os 400 estadunidenses mais ricos têm uma fortuna combinada equivalente à riqueza de 64 por cento da população, 204 milhões de pessoas. Não tínhamos visto níveis tão extremos de riqueza e poder desde a época dourada, há um século, concluem (&lt;a href=&quot;https://inequality.org/wp-content/uploads/2017/11/BILLIONAIRE-BONANZA-2017-Embargoed.pdf&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;https://inequality.org/wp-content&lt;br /&gt;/uploads/2017/11/BILLIONAIRE-&lt;br /&gt;BONANZA-2017-Embargoed.pdf&lt;/a&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A lista dos 400 estadunidenses mais ricos da Forbes festejou outro ano recorde para os mais ricos, para entrar no seu clube exclusivo, é preciso ter pelo menos 2 mil milhões de dólares.&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;A enorme influência destes ricos no governo não é nada de novo, mas é mais explícita e desavergonhada do que nunca. O governo do magnata multimilionário que ocupa a Casa Branca inclui no seu gabinete o mais rico da história do país (embora se tenha agora descoberto que um dos multimilionários não era assim tão rico como afirmava e foi expulso da lista da Forbes, o Secretário de Comércio Ross só tem 700 milhões, que não exagere).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gates, Soros, a família Walton (da Walmart), Eli Broad, os irmãos Koch, Robert Mercer, Sheldon Alderson e outros multimilionários no apenas impulsionaram políticas em vários itens, como também conseguiram tomar controlo quase direto da agenda política. Gates e companhia elaboraram a política educativa de Barack Obama (circulava a anedota de que o Secretário da Educação, Arnie Duncan, trabalhava para Gates).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na semana passada, parte deste clube exclusivo foi desmascarado outra vez, com os Papéis do Paraíso, projeto do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, documentando como os ultra-ricos ocultam as suas fortunas e evitam o pagamento de impostos nos seus países, e como este grupo compacto supera diferenças nacionais, de raça, ideologia, género e religião para se proteger, e ao seu dinheiro, dos seus povos. (&lt;a href=&quot;https://www.icij.org/investigations/paradise-papers/&quot; target=&quot;-blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;www.icij.org/investigations/paradise-&lt;br /&gt;papers/&lt;/a&gt;).&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Paradise Papers offshore&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B30141ac7/20745240_9hVOZ.jpeg&quot; alt=&quot;Paradise Papers offshore&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;358&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartune de &lt;span class=&quot;MainText&quot;&gt;Tom Janssen, Holanda&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; A desigualdade económica é a maior ameaça à democracia, avisaram vários recentemente: desde Noam Chomsky, o economista Prémio Nobel Joseph Stiglitz, Bernie Sanders, Ocupa Wall Street e toda uma gama de líderes sociais, até alguns dos próprios multimilionários (Buffett, Soros). E isto é mais visível do que nunca neste país.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;“Os nossos líderes elevaram uma pequeníssima classe de indivíduos (…) e construiram-lhes um paraíso, tornando as suas vidas numa suprema delícia. Hoje em dia têm um poder inimaginável e não têm que prestar contas. Hoje em dia são estas mesmas figuras douradas, com os seus milhares de milhões &lt;em&gt;offshore,&lt;/em&gt; as que são anfitriãs das ações de recolha de fundos, as que contratam os lobistas, as que financiam os grupos de reflexão e as que subsidiam artistas e intelectuais. Esta é a sua democracia hoje. Nós simplesmente não fazemos parte”, escreve no jornal &lt;em&gt;The Guardian&lt;/em&gt; o colunista e autor sobre o cenário sociopolítico estadunidense, Thomas Frank, introduzindo as revelações dos Papéis do Paraíso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acontece que não poucos dos multimilionários estão a questionar-se sobre até quando as maiorias aguentarão tal situação, alguns inclusivamente recordam insurreições, revoluções ou grandes reformas que se detonaram noutras conjunturas de desigualdade tão extrema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguns argumentam que essa oposição já se está levantando nos Estados Unidos embora num no meio de um dos tempos mais retrógrados no panorama político, tanto a nível local, em dezenas de batalhas políticas, sociais e laborais incluindo muitas encabeçadas por imigrantes em torno da desigualdade económica e fenómenos surpreendentes como o facto de que o político nacional com a taxa de aprovação mais alta, Bernie Sanders, se identificar como um socialista democrático.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguns insistem que para salvar os que vivem na Terra terão de ser expulsos os que ocupam o paraíso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier;&quot;&gt;Texto de David Brooks publicado no &lt;a href=&quot;http://www.jornada.unam.mx/2017/11/13/opinion/029o1mun&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;La Jornada&lt;/a&gt; a 13 de novembro de 2017. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 08 May 2017 22:02:00 GMT</pubDate>
  <title>Le Pen, Macron e o Fascismo Global</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/le-pen-macron-e-o-fascismo-global-63852</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Ainda é recente a disputa Clinton-Trump e chega-nos agora outra: Macron-Le Pen. E, como na primeira, os meios de comunicação &lt;em&gt;sensatos&lt;/em&gt; assinalam-nos a opção “boa” e a “má”. Le Pen, dizem, representa a perigosa extrema direita anti-europeia. A esquerda, receosa do “neoliberal” Macron, não tem tão clara a sua opção. Mas o dilema resolve-se &lt;a href=&quot;http://www.lamarea.com/2017/04/24/antifascista-no-duda-le-pen-jamas/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;identificando a Le Pen com o fascismo…&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;MP.jpg&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/B4b12823b/20416812_zgJpk.jpeg&quot; alt=&quot;MP.jpg&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;279&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;a href=&quot;http://www.lavanguardia.com/internacional/20170503/422260726413/debate-macron-le-pen-elecciones-francia.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;Fonte: ‘La Vanguardia’&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejamos… A Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Political_positions_of_Marine_Le_Pen&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;mudou muito&lt;/a&gt; desde que o tempo em que era dirigida pelo seu pai, Jean-Marie. Nas questões de emigração, hoje diferencia-se muito pouco de qualquer partido “liberal” ou conservador. Boa parte das suas propostas sobre emigração assemelham-se a medidas reacionárias de &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Political_positions_of_Marine_Le_Pen#Legal_immigration&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;governos europeus&lt;/a&gt; (britânico, holandês, suíço…) não considerados de ultradireita. A sua ênfase &lt;em&gt;explícita&lt;/em&gt; contra o islão (contra o “fundamentalismo islâmico”, como prefer dizer a líder) sim seria, com matizes, um elemento diferenciador da FN. Inclusivamente a sua defesa de um laicismo mais radical parece inspirada por um grau nada despiciendo de &lt;a href=&quot;https://fr.wikipedia.org/wiki/Marine_Le_Pen#Religion&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;islamofobia&lt;/a&gt;, pelo menos &lt;em&gt;de facto&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto ao resto, na maioria das &lt;strong&gt;questões sociomorais&lt;/strong&gt;, a FN apenas se distingue das correntes tidas como progressistas (já não se opõe às &lt;a href=&quot;https://fr.wikipedia.org/wiki/Marine_Le_Pen#Th.C3.A8mes_LGBT&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;uniões homossexuais&lt;/a&gt;, nem ao aborto; nem defende a pena de morte; mantem-se, isso sim, contrária à eutanásia). E em assuntos económicos e políticos, as suas posturas são em grande medida semelhantes às que defende hoje a esquerda de Mélenchon: defesa do setor público, questionamento da União Europeia (UE), &lt;strong&gt;resistência à OTAN e ao FMI&lt;/strong&gt;, tudo isto desde uma ótica nacionalista e antiglobalista. Opõe-se, até, ao acosso à Rússia e às &lt;strong&gt;guerras do Império&lt;/strong&gt; de forma (ainda) mais expedita que a citada esquerda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O Fascismo Global&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chamar a Le Pen “fascista”, como é feito por setores da esquerda, parece exagerado e, sobretudo, anacrónico. O fascismo real, o histórico, ao qual se pretende igualar a FN, surgiu sobretudo para fazer frente ao comunismo, encarnado na &lt;strong&gt;União Soviética&lt;/strong&gt;. Hoje não existe nada disso. O que há, em seu lugar, é um império ultracapitalista de clara projeção unipolar que busca a &lt;strong&gt;hegemonia planetária absoluta&lt;/strong&gt;. Em todo o caso, quando se vêm as coisas em perspetiva, não é difícil compreender que a questão não é se o partido de Le Pen é ou não fascista, mas sim onde está o maior e verdadeiro perigo para a liberdade, a paz e inclusivamente a sobrevivência no mundo. E aí é onde, dispostos a usar a palavra, convém &lt;a href=&quot;https://sontantascosas.wordpress.com/2016/11/12/trump-la-nariz-tapada-y-el-despiste-general/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;voltar a falar&lt;/a&gt; de Fascismo Global, que apresenta estas características:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Belicismo imperialista&lt;/strong&gt;, inclusivamente “preventivo” (ao modo nazi), com a desculpa de um terrorismo “jiadista” de obscura origem e de cantilenas como as “armas de destruição em massa” ou “ditadores” demonizados.&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Crescente liberticídio&lt;/strong&gt; com a mesma desculpa (França, o país sobre o qual nos estamos a debruçar, está quase há um ano e meio em estado de emergência: regime excecional que não parece escandalizar ninguém).&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Massiva espionagem a todos&lt;/strong&gt; por parte dos serviços secretos imperiais em colaboração com as grandes empresas tecnológicas.&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Grupos mediáticos&lt;/strong&gt; que, com um mesmo discurso básico, controlam a informação numa escala global e cuja propriedade está nas mãos da grande banca e de empresas transnacionais.&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Imposição ao mundo de uma política económica&lt;/strong&gt; que assegure os negócios desses poderes, com a fachada da UE no caso europeu, os meios de comunicação convertidos em instrumentos de doutrinação geral do pensamento único, e a &lt;strong&gt;OTAN&lt;/strong&gt; (surgida frente à “ameaça” soviética, hoje inexistente) como garante último do sistema, tudo evidenciando qua a nossa alardeada democracia é no fundo uma ficção, ao ser impossível de facto uma mudança social real.&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;strong&gt;Descomunal e inédita concentração de poder global&lt;/strong&gt; obviamente procurando implantar um &lt;strong&gt;governo mundial&lt;/strong&gt; que, como se depreende das características anteriores, terá um sentido totalitário, para o qual necessita, primeiro &lt;strong&gt;&lt;em&gt;fechar o mundo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; acabando com os governos (Síria, Irão, Rússia, China, Venezuela…) que saem do guião.&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;p&gt;Este é Fascismo que deveria preocupar-nos, o que nos engana, espia, amordaça, acossa e ainda derruba governos legítimos, tritura os povos dissidentes, arrasa e destrói países. O Fascismo Global, raivosamente elitista e supremacista, utiliza (supostos ou reais) fascistas &lt;em&gt;menores&lt;/em&gt; (desde Trump até à Aurora Dourada, passando pela FN) como &lt;strong&gt;cortinas de fumo e bodes expiatórios&lt;/strong&gt;. A globalização derrama sangue dos povos e valores cada vez maiores nas contas dos opulentos. O &lt;strong&gt;Sistema-Império&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mesmo que já conseguiu pôr contra a Rússia o néscio Donald Trump, e cujo representante atual na França não é outro que &lt;strong&gt;Emmanuel Macron&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se Marine fosse uma fervente otanista, o Sistema odiá-la-ia tanto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier;&quot;&gt;Texto de JF-Cordura publicado a 5 de maio de 2017 no blogue &lt;a href=&quot;https://sontantascosas.wordpress.com/2017/05/05/le-pen-macron-y-el-fascismo-global/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;En Pocas Palabras&lt;/a&gt;. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 19 Apr 2017 18:17:00 GMT</pubDate>
  <title>Entre a espada e a parede</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;espada parede ONU&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Baf158c4d/20378434_SgGGR.jpeg&quot; alt=&quot;espada parede ONU&quot; width=&quot;363&quot; height=&quot;500&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Cartune de Adán Iglesias Toledo traduzido para &lt;a href=&quot;http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;InI&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 12 Jan 2017 19:00:00 GMT</pubDate>
  <title>Trabalho com precariedade</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
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  <description>&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Precariedade eneko Trabalho&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/G14018d83/20179645_UoDQL.jpeg&quot; alt=&quot;Precariedade eneko Trabalho&quot; width=&quot;460&quot; height=&quot;541&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt; Cartune de Eneko traduzido para &lt;a href=&quot;http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;InI&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</description>
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  <category>precariedade</category>
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  <pubDate>Tue, 21 Jun 2016 14:40:00 GMT</pubDate>
  <title>Saindo da UE</title>
  <author>Alexandre Leite</author>
  <link>https://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/saindo-da-ue-62508</link>
  <description>&lt;p&gt;Eu ainda não tinha escrito nenhuma palavra sobre este não-acontecimento, precisamente por não ser um acontecimento. É uma discussão artificialmente criada, com os argumentos de ambos os lados sendo falaciosos de igual forma. Uma farsa gigantesca apresentada com a pompa e circunstância de um casamento da realeza e igualmente vazio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de tudo, sabendo quão indiferente é, já que o resultado está feito, eu irei votar pela saída da UE. E para além disso, tal como num recente referendo na Irlanda que correu &quot;mal&quot;, se o nosso também for pelo caminho &quot;errado&quot; então o Estado irá repetir o processo até obter o resultado &quot;certo&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;a class=&quot;media-link&quot; title=&quot;Brexit&quot; href=&quot;http://fotos.sapo.pt/ini/fotos/?uid=UMKeYt4U1Gy8UNZv1bCa&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;img class=&quot;editing&quot; style=&quot;padding: 10px 10px;&quot; title=&quot;Brexit&quot; src=&quot;https://fotos.web.sapo.io/i/Bd908286b/19718118_N5i75.jpeg&quot; alt=&quot;Brexit&quot; width=&quot;500&quot; height=&quot;437&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;sapomedia images&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Cartoon de Luojie, &lt;span class=&quot;MainText&quot;&gt;China Daily, China&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já houve quem resumisse as variadas razões para sairmos, por isso deixo que sejam eles a explicar. Trago aqui uma citação dos dois &lt;em&gt;únicos&lt;/em&gt;, sim dois, artigos que eu li sobre o assunto e que me fazem sentido como socialista:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;padding-left: 30px;&quot;&gt;De facto, a ala esquerda que apoia a permanência na UE terá dado ao poder estabelecido (em particular ao Tory - Partido Conservador) uma grande ajuda no apoio à UE, e apesar de Michael Chessum e Owen Jones irem choramingar sobre a necessidade que a UE tem de ser reformada e desafiada, usando as suas palavras, as forças parlamentares dominantes  irão simplesmente argumentar (e bem) que a maioria das forças políticas e um grande número de campanhas progressistas, de um variado conjunto de causas e sectores, deram um grande apoio a uma Grã-Bretanha membro da UE após o referendo. Alavancando-se nisso, Cameron e os meios de comunicação de direita serão facilmente capazes de abafar reformas mais radicais da UE e irão gabar-se de como o voto pela manutenção sustenta a sua posição e aumenta a sua autoridade. Com o mundo empresarial, os grandes meios de comunicação, as forças armadas, a &lt;em&gt;City&lt;/em&gt; [centro financeiro] de Londres, o negócio das armas  e a maioria política da direita e do centro a votarem pela permanência, um voto na saída não é apenas um voto contra as forças neoliberais da troica: é também um voto contra as nossas próprias elites dominantes. — ‘&lt;em&gt;Another Tamriel is Possible: Brexit Proposals vs Solutions&lt;/em&gt; [Um outro Tamriel é possível: Propostas e Soluções para a &lt;em&gt;Brexit&lt;/em&gt; - saída britânica da UE]’ por Elliot Murphy&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;a class=&quot;moz-txt-link-freetext&quot; href=&quot;http://www.counterpunch.org/2016/06/07/another-tamriel-is-possible-brexit-proposals-vs-solutions/&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;http://www.counterpunch.org/2016/06/07/another-tamriel-is-possible-brexit-proposals-vs-solutions/&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Noutro local, uma voz menos macia deitou cá para fora as razões que subjazem às de cima:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;padding-left: 30px;&quot;&gt;Ao mesmo tempo que a União Europeia tenta “encurralar” refugiados na Turquia, devolvê-los à Líbia antes de chegarem a águas internacionais, luta também para controlar a Itália e a sua marinha que cometeu o imperdoável pecado, segundo a UE, de cumprir a lei marítima e insistir em resgatar pessoas em risco no mar, mesmo quando essas pessoas têm a pele mais escura e uma religião diferente da que a EU acha admissível; enquanto a União Europeia contorce e distorce a sua própria política para os refugiados, negando um porto seguro aos que fogem de bombas, milícias, exércitos, armas automáticas, ataques aéreos feitos, fornecidos e apoiados em parte, pelos mesmos países que pertencem à UE; a grande preocupação, aparentemente, para alguns socialistas no Reino Unido, é que a maioria das pessoas na Grã-Bretanha possam mesmo votar pela saída desta confederação de capitalistas; esta união de exploradores; este mercado comum engendrado para derrubar qualquer barreira à acumulação de capital. — ‘Little Ado About Something [Pouco se pode fazer]’ por S. Artesian&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://thewolfatthedoor.blogspot.co.uk/2016/06/little-ado-about-something.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;http://thewolfatthedoor.blogspot.co.uk/2016/06/little-ado-about-something.html&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;A chamada &quot;esquerda pela permanência&quot; parece toda sofrer do mesmo tipo de estranha ilusão sobre a sua capacidade de transformar a UE, mas isso é um sintoma da doença a que Lenine chamou de imperialismo social e que eu prefiro chamar directamente de oportunismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quase tudo o que eu li sobre essas &quot;esquerdas pela permanência&quot; realtivamente a ficar na UE e unir as forças progressistas da UE e formar alguma estrutura de internacional de qualquer coisa, soa-me sempre a manias de grandeza! Tirando a Grécia (onde, mesmo no governo, a &quot;esquerda&quot; fez muita borrada e no final ainda capitulou perante as forças do Capital, desprezando nesse processo as pessoas que tinham votado neles!), o resto, especialmente aqui no Reino Unido, nem uma churrascada conseguiam organizar, quanto mais um movimento político internacional. E isto tudo, como assinala acima Elliot Murphy, sem explicar nada sobre como se atingiria esse nirvana da esquerda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Penso que estas duas citações deixam bem claro por que irei infrutiferamente exercer o meu direito de voto no dia 23 de junho, na vã esperança de que um número suficiente de pessoas tenha juízo e diga à &quot;União&quot; Europeia QUE SE VÁ FODER! Bem, posso sonhar, não?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;São bem-vindas as opiniões contrárias, desde que razoavelemente convincentes e claro, inteligentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: courier new,courier;&quot;&gt;Texto de William Bowles publicado em &lt;a href=&quot;http://williambowles.info/2016/06/12/exiting-the-eu-by-william-bowles/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;williambowles.info&lt;/a&gt; a 12 de Junho de 2016. Tradução de Alexandre Leite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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