<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631</id><updated>2024-09-14T14:04:29.467-03:00</updated><category term="1ª temporada"/><category term="2ª temporada"/><title type='text'>Juliete Nunca Mais</title><subtitle type='html'>Folhetim online – texto de Gabito Nunes – 2ª temporada.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.julietenuncamais.com.br/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>67</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-7995793280488015260</id><published>2013-12-12T23:16:00.002-02:00</published><updated>2013-12-12T23:56:18.723-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(057)</title><content type='html'>Minha magricela ligou me acordando. Disse que daria uma rápida passada pra saber como foram os últimos dias. É sábado, eu não tinha nenhuma perspectiva de vida, então foi o bastante pra eu me sentir ridículo de tão contente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Limpei cuidadosamente a pocilga onde moro. Lavei cuecas. Consertei a pia, que gotejava há meses. Saí pra comprar cigarros, jornal e abastecer os armários e a geladeira de mantimentos e bobagens para nós dois assistirmos algum filme depois de... você sabe. Com o ritmo, a produtividade e a empolgação que eu estava de fazer as coisas só porque ela viria, sei lá, até o fim do dia eu era capaz de descobrir algum antídoto para escorpiões ou formularia uma proposta irrecusável para a paz mundial. O céu estava aberto e fazia bastante sol, mas o dia estava agradável, ventando mansamente. E eu quase já nem sentia muco na minha garganta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltei da rua. Almocei sozinho. Sentei e esperei. Já anoitecia em Porto Alegre quando desci intercalando vaga na minha boca entre uma ponta acesa de Lucky Strike e minha gaita-de-boca. Eu me sentia um paspalho desesperado e precisava respirar um ar novo, a fim de refletir para quem eu telefonaria mais tarde, ou em que bar sebento eu ia terminar depressivamente meu sábado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com as mãos sempre nos bolsos e chutando pedregulhos residuais de uma obra civil em andamento, vejo o corpo esguio de uma menina de melenas escuras e um metro e setenta, que vem do outro lado da rua. De perto, o hálito de Juliete denuncia: ela está levemente embriagada, sem nenhum motivo aparente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Somente lá em cima a garota me dirige alguma palavra, só que não entendo bem o relincho. Ficamos alguns infinitos minutos em silêncio no escuro. Sem emitir qualquer ruído além de nossos pulmões aflitos renovando o ar e nossas pulsões cardíacas produzindo o zumbido traiçoeiro de nossos jovens, vadios e arrebentados corações. Até que ela me dá um retardatário “oi”, sem muita objetividade. Fiquei meio reação, sem saber o que responder. Eu estava incomodado porque ela havia bebido e chegado naquele estado. Eu sei, eu sei, grande áfrica alguém tomar uns copos, mas eu passei o dia todo esperando outra coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não tenho onde morar – solta essa.&lt;br /&gt;
– O quê? Como assim, porra?&lt;br /&gt;
– Não sei se verei minhas plantas do jardim de inverno novamente.&lt;br /&gt;
– Caralho, o que você tá dizendo? – pergunto. Ela explode numa risada e joga as costas na minha cama.&lt;br /&gt;
– Eu, que sempre encarei a corda-bamba como projeto de vida, quem diria, estou perdida – ela continua despejando esse monte de merda, só que agora não a interrompo mais, deixo a garota desabafar, quem sabe assim eu descubro alguma coisa. A detestável versão bêbada de Juliete continua: – Santiago, sabe, qualquer outra na minha situação estaria num divã, ou na cobertura do prédio mais alto da cidade, ou se lamentando no colo de um de seus cabeleireiros. Já eu, estou com uma mala malfeita no banco de trás do meu carro, com destino a lugar nenhum.&lt;br /&gt;
– Você pode ficar aqui... – acendo a luz.&lt;br /&gt;
– Pensando melhor, vou sentir medo do quê? Não vou virar indigente, com duas ou três ligações arrumo um quarto para ficar.&lt;br /&gt;
– Fica comigo. Digo, aqui, no meu apartamento. É meio apertado, eu sei, mas isso...&lt;br /&gt;
– Não – ela me corta afiada, como se meu coração fosse um legume qualquer. – Quer dizer, não quero que o Maurício venha atrás de mim com aquelas neuras dele, perguntando se eu dei para outro, ou fazendo escândalos para que eu volte para o lugar que ele acabou de comprar para nós, em seu nome, sem me convidar a achar alguma coisa sobre isso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não estou entendendo patavinas. Por que aquele bosta apareceria aqui? Que lugar ele comprou? Que porra está acontecendo, afinal? Guardo minhas perquirições só pra mim, no entanto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Porra, tenho vinte e quatro anos, uma vontade louca de surfar na Austrália...&lt;br /&gt;
– Você surfa? Porra, que legal...&lt;br /&gt;
– Cala a boca, eu estou falando! Sou jovem demais para sonhar em casar.&lt;br /&gt;
– Casar?&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– É. Aquela bobagem que as pessoas fazem quando querem engordar ou transar sem camisinha.&lt;br /&gt;
– Ah – grunho embasbacado. Puta merda.&lt;br /&gt;
– O Maurício pediu minha mão, você sabe, oficialmente. E foram ridículas as duas vezes.&lt;br /&gt;
– Duas vezes? Porra...&lt;br /&gt;
– Na primeira foi num restaurante. Ele viu numa propaganda de sei-lá-eu-o-quê e resolveu imitar, enfiando a droga da aliança na minha sobremesa. Acabei engasgando, e não estou usando figuras de linguagem aqui.&lt;br /&gt;
– Putz – é só o que tenho ânimo pra dizer. – E a outra?&lt;br /&gt;
– A outra foi ontem, após uma briga em que escapei para o banheiro. Ele ficou do outro lado, lambendo a porta trancada e choramingando pelo buraco da fechadura. Eu estava refugiada lá há duas horas, já tinha parado de chorar. Aí ele sussurrou transponível “Ju, você quer se casar comigo?” Eu estava cagando, porra. E, de novo, não estou usando figuras de linguagem aqui. Preciso dizer mais alguma coisa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Achei engraçado e estou rindo. No outro instante, ela se junta a mim, mas não tão assiduamente, pois logo volta com a cara séria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sei lá, nunca me senti muito confortável como namorada do Maurício. Cara, eu acho que nunca nem me a-pai-xo-nei por ele. Um dia me perguntaram se eu já havia me apaixonado por alguém e eu disse “Não sei”, então a pessoa me veio com “Se você não sabe é porque nunca aconteceu”. E eu quis saber como ele tinha tanta certeza e fui convencida com um “Porque machuca, mesmo quando tudo está bem”.&lt;br /&gt;
– Hum.&lt;br /&gt;
– Casar com ele então, me parece uma coisa assustadora, como embarcar num trem para as estrelas e descer em algum lugar da Polônia na década de 40, sem entender bulhufas de alemão. Me aliar em cartório com o Maurício, não sei, é quase como você mesma se amarrar espontaneamente numa cadeira elétrica e ficar se dando choque de 220 volts uma vez por dia, até a morte de alguém ou descolar um divórcio. Em alguma de suas crises de ciúme, eu o mataria com uma pá ou algo assim. Sou muito nova para ser qualquer uma dessas coisas: esposa, assassina, viúva ou desquitada.&lt;br /&gt;
– Pois é.&lt;br /&gt;
– Santi, eu fui embora. Terminei o namoro, o relacionamento, sei lá eu o que era aquele troço.&lt;br /&gt;
– Puxa, Juliete... Você falou de mim pra ele? Que tinha outra pessoa...&lt;br /&gt;
– É claro que não! Pelo contrário, desmanchei meu relacionamento de sete anos com aquele intempestivo do Maurício porque quero dar um tempo sozinha, buscando entender o que está acontecendo com minha cabeça. Pelo menos foi essa a desculpa que eu dei. Não sei se é isso mesmo, não sei se tenho muito no que pensar. Eu posso dormir contigo?&lt;br /&gt;
– Mas é claro...&lt;br /&gt;
– É só hoje – ela se adianta em falar, como se estivesse me tranquilizando. – No máximo só uns dias, no mais tardar, e aí deixo você em paz – ainda completa, com todo cuidado de demonstrar um rancor educado. Começa aí a nova temporada de jogos psicológicos, chantagens emocionais e diálogos passivo-agressivos entre eu e Juliete. Somos ótimos nisso. Se houvesse alguma liga a ser disputada por garotas e rapazes que se detestam e se adoram mutuamente, aposto que lideraríamos a pontuação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ótimo. Além de me sentir mal por ter rezado para todas religiões já criadas por deuses e humanos para vê-la voltar, agora também me sinto meio culpado por querer que ela vá embora, eventualmente. Escutar isso tudo com a frieza foi como ter o peito dilacerado por um bisturi sem anestesia. Me sinto xaropeado, por ela não demonstrar que &lt;i&gt;eu sou a razão de ela ter largado o tal Maurício&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você ainda volta pra ele... – tenho a audácia de dizer.&lt;br /&gt;
– Não, não. Jamais – ela rechaça. – Sabe, esses dias voltando da minha aula, um caminhão carregado de leite tombou na pista e o trânsito ficou parado um tempão. Acredita que todo mundo desviou do engarrafamento, procurando alternativas pra ir pra casa, e eu fiquei ali, estacionada, olhando os saques e o caos, a polícia, todo aquele leite vazando pelo asfalto. Eu não queria ir embora. Me dava vontade de chorar só em pensar em olhar pra cara nojenta dele ao chegar em casa, só de pensar em deitar na mesma cama que aquele homem que, afinal, há tempos eu já nem reconheço mais, é como um completo estranho pra mim.&lt;br /&gt;
– É, ele é meio estranho mesmo – tento descontrair.&lt;br /&gt;
– Desculpa, acabei nem perguntando de você. Como tá sua garganta?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu me inclino para mostrar minha evolução com os antibióticos, mas ela acaba achando que eu ia beijá-la, então também me dirige e boca, só que para no meio do trajeto, vendo minha goela exposta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Minha garganta ainda tá inchada? – quero saber, feito um garotinho.&lt;br /&gt;
– Não muito... – diz Juliete, após uma examinada.&lt;br /&gt;
– Você ia me beijar? – pergunto, e ela fica tímida.&lt;br /&gt;
– Sim. Mas agora acho que mudei de ideia – diz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só que ela encosta os lábios nos meus e fala “Vem cá, meu menininho lindo...”, puxando meu corpo sobre o dela, maternalmente. É louco como eu ainda fico nervoso quando se aproxima a hora de a gente se encostar. Isso não acontece com boa parte das garotas que fiquei junto, não que eu me lembre. Sem pretensões, mas beijar na boca de uma garota não é uma das coisas que me levam a ter um surto. Mas com Juliete é sempre... Calma, Santiago, fica frio. Isso, continua abrindo e fechando a boca, mete a língua, mas não tanto. Inclina a cabeça pra lá, e agora volta lentamente. Agora vai para o outro lado, descendo bem devagar. Muito bem, rapaz. Está tudo sobre controle. É a Juliete, sua-velha-garota-que-nunca-foi-sua, lembra dela? Pois então, olha ela aí, de novo. Esqueça o agora ex-namorado dela, cara! Ótimo. Pronto, acho que temos uma ereção. É, definitivamente temos uma ereção. Mas mantenha a calma, bonitão. Mesmo se ela tiver identificado algo estranho saindo de dentro da sua braguilha, não significa que algo vai rolar. Talvez ela se sinto ofendida, vai saber. Ou ligeiramente lisonjeada. O que será que ela acha disso? Se concentra apenas em beijar por enquanto, pode ser? Óquei.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só que ela afasta o queixo, deixa o meu meio que no ar e se recompõe. E depois, bem perto dos meus olhos, me desafia:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sabe como eu sei que gosto mesmo de você? – Baby Julie me pergunta.&lt;br /&gt;
– Hum? – Não tenho a resposta certa.&lt;br /&gt;
– Porque machuca. Mesmo quando tudo está bem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Abraço Juliete demoradamente. Quem sabe até para sempre.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/7995793280488015260'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/7995793280488015260'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/12/057.html' title='(057)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-757528934537898094</id><published>2013-12-03T16:58:00.001-02:00</published><updated>2013-12-03T17:01:24.947-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(056)</title><content type='html'>Ela agacha e põe a sacola do mercado no chão para travar a porta. E eu não via a hora de retornar para o consolação da minha cama após meia tarde perdida num ambulatório precário. “Acabei nem falando o que vim te dizer” diz, e eu não quero saber o que é, então desconverso. Acho que não quero saber. Ou tenho medo. Ou estou indisposto para proclamações, com a nádega esquerda latejando do benzetacil que aquele homem fornido todo de branco me aplicou. Eu apostaria na casa dois, se minha morte estivesse em jogo. Me sinto muito mal. Me sinto quente, com fome, grudento e com bafo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não consigo enxergar porra nenhuma quando ela se ajoelha no colchão e alarga a boca feito uma criança à procura de atenção adulta. “Viu só, tirei minhas amígdalas, não tenho esse problema”, se vangloria com hábito de Tic-Tac sabor canela. E eu grunho um jocoso “e eu com isso” me cobrindo com o edredom cheirando a minha doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Toma. – Juliete me dá na boca a primeira boleta do antibiótico receitado, espichando um copo de suco de laranja recém comprado. – Vou descongelar aquela sopa, está com fome? – pergunta com a mão suavemente bajulando caracois molhados na minha testa.&lt;br /&gt;
– Sim, estou morrendo de fome. Quer dizer, estou morrendo de febre, mas ficar sem comer tá acelerando o processo.&lt;br /&gt;
– Para com isso, você não tá morrendo. É só uma amigdalite, deixa de ser fresco. Nossa, o que seria de você sem os cudados de uma mulher? E se eu não tivesse dado a louca de aparecer?&lt;br /&gt;
– Eu deixaria uma nota póstuma, narrando tudo. E semana que vem o mundo já teria esquecido quem fui.&lt;br /&gt;
– Abobado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela abre a embalagem e enfia o tijolo de galinha desfiada, arroz, temperos industrializados numa panela que já viu dias melhores e chegou a ser considerada de teflon. O fogão demora a ligar a chama, e aí ela lembra do jeitinho. Diz que não sabe fazer sopa, por isso pegou essa canja pronta no freezer do Zaffari, mas pode preparar um creme de chocolate que aprendeu na adolescência, com a querida senhora que terminou de criá-la. Talvez me faça sentir melhor. Aceito, com olhar desafiador. Ela não tem cara de quem aprendeu a fazer cremes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda estou num banho escaldante enquanto Juliete troca a fronha e os lençois. Flagro ela com o nariz na minha camiseta. Eu finjo que nem notei, ela tenta disfarçar a jogando num aglomerado de panos que vão acabar rodando naquela máquina de lavar barulhenta que divide o cômodo com o vaso sanitário. Me deito nu embaixo de um edredom novinho saído do armário, fedendo à madeira úmida e poeira e cocô de traças. É bom vê-la, isso me alegra e acalma, mas não a ponto da minha garganta descaroçar. Ela não é tão boa assim.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Quero ela perto de mim, não me manifesto, mas Baby Julie vem mesmo assim, parece atraída pelo perfume do meu afeto. Mede minha temperatura, sem muita habilidade ou certeza do que está fazendo. Anda levemente com a mão por sobre meu peito, que ofega. Tem a audácia vacilante de me beijar os lábios, toda insegura, respirando aliviada ao recuar sem ter levado um coice. Estou fraco demais para reagir ou protestar, então, como uma pantera faminta, a tinhosa toma vantagem da minha situação enferma. Ela monta em mim, as coxas de cada lado se destapando da saia e algemando meu tronco, e agora dispara umas linguaradas mais agressivas e profundas. Enquanto lambe meu rosto sem muito critério, a cintura baila inquieta atrás de um sinal positivo. Ela para, me olha, ela fecha os olhos, segue, mete a língua. É incrível como sou capaz de ostentar uma ereção no meu atual quadro clínico. Minha febre já não é mais só minha. Como por biosmose, estou congelado e Juliete está fervendo ensopada, só que não dá pra saber de quem é cada estado, o clima é um só, juntos somos sólidos, líquidos e gasosos ao mesmo tempo. Fazemos tanto silêncio que chega a dar pra ouvir o som culposo da nossa verve. Assim que minha empolgação ganha consistência e se firma, não há mais volta. Ela livra a calcinha do caminho, com o vagar engenhoso que só uma garota muito decidida e com vontade saberia como fazer. Fico impressionado, e quando percebo pulamos o cerimonial e já estou lá, com a contribuição ativa e manual dela. Tenho dificuldade para respirar, mas me viro bem quando ela pensa alto “nossa, você não sabe a saudade que senti do seu pau...” É uma penetração lenta e um pouco incômoda, porém prática, mas também silenciosa e constrangedora, uma cena de filme nacional apressada e deprimente de tão convencional, com aquele quê de “Não, isso não está acontecendo”. Mas é absurdamente real.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ouço um grito abafado perto da minha orelha. Eu gozo dentro, do jeito que eu sempre gosto. Me dá uma tremedeira. Foi tão urgente e rápido que não pareceu se tratar só de curtição. Não foi uma relação sexual, foi um acerto de contas. Mesmo de olhos fechados, consigo vê-la saindo de cima como se nunca tivesse subido. Ela acaba não dizendo o que veio falar quando me encontrou assim, debilitado pela dor de garganta, a febre e o quarto sombrio e caótico. Sinto cheiro de sopa de galinha queimando.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/757528934537898094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/757528934537898094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/12/056.html' title='(056)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-8153939027947571708</id><published>2013-11-20T12:49:00.000-02:00</published><updated>2013-11-20T12:55:51.086-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(055)</title><content type='html'>Eu não tinha nada pra fazer, então peguei aquela bigorna de dicionário que roubei da biblioteca no último ano de escola. Fui atrás de esperança, umedecendo os dedos a fim de deixar pra trás as páginas finas e amanteigadas com mais agilidade, e fui virando e lambendo, virando e lambendo, até sentir o gosto de pó velho e traças na minha língua e achar a maldita palavra. Minha expressão facial não descontraiu nada ao analisar os sinônimos. Espera, fé, ilusão, fantasia, sonho. Esperança, uma palavra tão bonita com significados tão nauseantes. E na prática, o &lt;i&gt;modus operandi&lt;/i&gt;, de uma coisa dessas é assim. No primeiro dia você checa o telefone, a caixa de entrada, a campainha, todas essas coisas, a cada dois minutos. No dia seguinte, de cinco em cinco. Na terceira data, você passa a conferir tudo somente a cada meia-hora. Depois, vê que a campainha anunciar uma presença física era sonhar demais e desiste dela, porém continua ligando pra companhia telefônica pra saber se sua linha ainda está de pé. Uma semana depois e você está olhando seu e-mail apenas duas vezes ao dia, uma bem cedo e outra antes de deitar mentalmente cansado. Passado um mês inteiro e você se flagra que permaneceu todo esse tempo escorado na sua poltrona feito um pudim, lendo os jornais que escorregaram por baixo da porta por engano dos entregadores, assistindo a vídeos, bebendo cervejas e esperando a vida dar na mesma. A parte boa é que você se dá conta que sobreviveu, conseguiu se arrastar até o outro lado do pântano e nem foi tão difícil assim, algo impensável no início de tudo. E agora está pronto pra ir a qualquer lugar, sair com quem ainda quiser sair contigo.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Se você também está tentando parar de fumar, aí vai um conselho grátis: não comece a largar o cigarro enquanto, ao mesmo tempo, espera uma ligação decisiva de alguém que você gosta. É impossível, e estou certo de que esta é – se não, deveria ser – uma das contra-indicações encontradas na bula dessas gomas de mascar terapêuticas: “Suspenda o uso do medicamento caso estiver aguardando um importante telefonema de ordem afetiva. Desse jeito não vai funcionar, cara”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Minha relação com a nicotina baseia-se nos mesmos critérios da minha compatibilidade com Juliete. Me faz um mal danado, mas quando estou com eles – com unzinho entre os dedos ou na minha cama, com ela – tudo parece estar no lugar certo, estar funcionando bem. Você sabe, química-cerebralmente. Posso estar desviando um pouco do meu caráter e contrariando alguma campanha governamental na televisão, mas cigarro e adultério são ótimas invenções humanas (dependendo, claro, da sua perspectiva; estar do outro lado da fumaça ou ser a ponta do triângulo que não está &lt;i&gt;rock n’ roll&lt;/i&gt; não deve ser nada bom). O caso é que essas duas coisas me fizeram bater à porta de questões filosóficas profundas que talvez eu não seria capaz encarar, se não fosse meu caso de amor com essa comprometida garota-tarja-preta e com meus maços de Lucky Strike caros pra burro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posso sentir você me julgando, mas tudo bem. O cigarro entre os dedos ou pendurado nos lábios murchos, o olhar perdido nas paredes amareladas pelas bolhas de fumaça que me perseguem pela casa, tudo isso contribui para minha lenda pessoal, faz de mim um lobo da estepe, me faz parecer bacana. Fumar é legal e vale a pena, e você sabe disso. Pergunte a qualquer um que já um passou por aquele troço de cateterismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Minha introdução a esses pequenos cilindros paradisíacos começou aos catorze para quinze, de forma bem clichê – eu precisava de autoafirmação, participar de algum grupo, gozar de uma liberdade que eu mal sabia que jamais teria, principalmente se me metesse com essa droga. Todos os meninos e meninas que se reuniam nas tardes de sábado na praça em frente ao arroio perto do colégio Assis Brasil roubavam cigarros de seus pais e ficavam baforando a cara uns dos outros, de cotovelos escorados ironicamente em algum brinquedo que nos embalava até alguns verões antes. Então, faz mais de uma década de uso praticamente contínuo, mas só fui me sentir um vencedor (como as propagandas vigentes na época me prometiam) esses tempos, ao quase pôr os bofes pra fora, por causa de dois lances de escada. Ou foi naquela noite em que perdi a ereção defronte à nudez meiga e encantadora da garota de cabelo parcialmente azul que trabalha na agência de Correios. Meus heróis morreram afogados numa banheira ou sufocados pelo próprio vômito enquanto dormiam bêbados, mas não broxaram com Cynthia Plaster Caster ou com Bebel Buell, até onde se sabe. Aí eu disse chega e estou tentando largar esse ótimo vício de merda. Se a desregulagem da minha jovem virilidade não vai me fazer parar, eu não sei o que vai. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante um período, testei aquele método, o de iniciar o vício cada dia uma hora mais tarde. Assim, em uns 12 dias eu iria me salvar dessa porra. E funcionou bem, eu acho, até começar ir dormir todo dia uma hora mais tarde. Foi então que tive essa ideia. Escadas. Ou seja, a terapia “Nunca mais fumar dentro do apartamento”. Para satisfazer minha dependência, eu precisaria fazê-lo lá fora, me obrigando a descer escadas, trancar portas, vestir casacos, aturar frios e eventuais assassinos. Parece idiota, mas pode ser que aconteça. Com cigarros e garotas, eu sou assim. Paro de fumar, fumando. Deixo de gostar, gostando.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8153939027947571708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8153939027947571708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/11/055.html' title='(055)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5500576422824443465</id><published>2013-10-10T19:00:00.002-03:00</published><updated>2013-10-10T19:08:58.833-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(054 e 3/3)</title><content type='html'>Na interminável escadaria daquele enorme prédio feio do centro de Porto Alegre, desço os degraus de três em três. E ela só consegue de um em um por causa do salto e tudo, mas com o triplo da velocidade. Juliete está grudada no meu calcanhar de Aquiles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Por que você é assim, hein? – me pergunta, depois que vencemos o saguão e botamos os pés na calçada imunda.&lt;br /&gt;
– Assim como? – rebato. Eu espero que essa seja uma questão retórica, do contrário vamos atravessar a madrugada discorrendo retroativamente os motivos, os fatos e os acidentes que me fizeram ser isso que me sobrou para ser.&lt;br /&gt;
– Não sei, assim. Você está sempre achando um jeito de escapar de mim. Eu te faço algum mal?&lt;br /&gt;
– Vários.&lt;br /&gt;
– Então por que você está sempre na minha volta?&lt;br /&gt;
– Porque você me chama, Juliete.&lt;br /&gt;
– Era só me dizer não.&lt;br /&gt;
– Eu não sei dizer não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ameaço ir dando o fora umas quantas vezes, e no desespero a garota me oferece uma carona, uma pizza qualquer hora dessas, outro encaixe bucal. E eu nego tudo. Olha só, estou aprendendo. Estou firme mesmo, nessa parada de fazer os troços certos, sem sacanagem. Vai ver é por isso que tudo anda errado na minha vida. Vou começar a fazer o contrário de tudo que já fiz até agora, pra ver no que dá. Até me proponho a dar satisfações à Juliete, mas ela não quer saber de nada, muito menos os motivos que a levaram a ser rejeitada nesse domingo amalucado. E acho que a garota nem entenderia o que eu ganho com isso, mesmo porque nem eu mesmo entendo ainda, direito. Sei lá, eu ganho dignidade, honra, distinção, prestígio. E um pau bem duro, que não pode ser vendido separadamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você não sabe viver o momento?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que clichê horroroso. Não existe isso de &lt;i&gt;momento&lt;/i&gt;. Um momento só é um momento digno de nota quando referenciado em todos os instantes significativos que sucederam antes de chegar a sua hora. E também há os momentos subsequentes. Ou seja, é ilusão achar que esse troço gostoso que poderia estar acontecendo entre nós lá em cima, agora às 23:37, seria apenas fruto isolado do agora e não um ato cheio de respostas e promessas. Eu não quero mais viver momentos, coisas sem significados. Não quero esquecer o passado e nem descartar o futuro. Ando sofrendo de agorafobia. Me deixa ir pra casa, por favor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu não pertenço a ele – Juliete diz, do nada.&lt;br /&gt;
– O quê?&lt;br /&gt;
– Você disse antes, que não queria fazer amor comigo, enquanto eu for de outro cara. Mas eu não pertenço a ele.&lt;br /&gt;
– É, mas também não é minha.&lt;br /&gt;
– Eu não me sinto confortável em “ser de alguém”&lt;br /&gt;
– Eu quero alguém que não se incomode nem um pouco de ser chamada de “minha”.&lt;br /&gt;
– E isso existe?&lt;br /&gt;
– Eu espero que sim. Aliás, eu já esperei que sim tanto tempo, não me importo de continuar esperando, mais um tempo.&lt;br /&gt;
– Não faz isso. Não deposita em mim essa esperança. Eu não quero ter essa responsabilidade. E não adianta você ficar me dizendo que posso fazer melhor, quando sei que já estou dando tudo que posso – me diz ela.&lt;br /&gt;
– E quem disse que eu me referia a você? Pode ser outra qualquer – eu digo, e eu mesmo me aplico uma correção, mentalmente. Não pode. Não pode ser outra, quanto mais uma outra qualquer. Tem que ser Juliete. Sei lá eu por que, mas tem. Só que não falo isso pra ela, claro que não, você não pode jogar um jogo e abrir de saída todas as cartas que tem em mãos. É arriscado dizer tudo. – Olha, Baby Julie, está bem claro que a gente se gosta, se bobear a gente até se ama. Só que não dá pra ser assim, entende?&lt;br /&gt;
– Não me obrigue a escolher, Santiago.&lt;br /&gt;
– Mas você tem! Você precisa fazer isso, criatura!&lt;br /&gt;
– Não grita comigo!&lt;br /&gt;
– Não estou gritando! – Me percebo por um momento e logo baixo o tom: – Não estou gritando.&lt;br /&gt;
– Você acha que é fácil, não acha?&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Ela tem razão, não deve ser bolinho, eu mesmo detestaria estar em seu lugar, de cara com a situação. Eu não queria ser namorada daquele cretino, eu adoraria mesmo é estar comigo, que sou inteligente, cheiroso, engraçado, soturno, complicado, charmosamente infeliz, perigoso e desajeitado, além de uma pessoa sexo-oralmente devota e dedicada (garotas gostam de tudo isso, certo?). Eu compreendo suas dúvidas, sério mesmo. Talvez se eu fosse – fora tudo que já listei – ainda bonitão, rico, ombrudo e com mais uns treze centímetros de altitude, esse dilema sofiânico já teria sido resolvido há tempos. Aliás, não daria nem graça competir. Com mais dinheiro, estatura e feições europeias, Santiago Ventura seria temido, imbatível, o terror da vizinhança. Porém, a genética e a economia não foram tão caridosas comigo e a realidade é outra, e é com ela que eu tenho de me acostumar, é em cima dessa mesa que preciso dar um jeito de esticar minhas pernas. Não se pode &lt;i&gt;ter&lt;/i&gt; e nem &lt;i&gt;ser&lt;/i&gt; tudo. Eu não posso escolher essas coisas. Mas Juliete pode. Pode optar por alguém com menos dinheiro, um rosto assimétrico e um cabelo não tão macio e ornamental. Então sim, ela tem essa responsabilidade, minhas fichas estão todas na mão dessa garota.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As encruzilhadas estão aí. Existe uma impossibilidade física de percorrer duas estradas ao mesmo tempo. Você não pode mandar suas pernas caminharem por uma rua e sair rolando seu tronco e todo o resto dos seus tentáculos por uma segunda via alternativa. É preciso seguir um só caminho para se manter íntegro, no sentido legítimo do termo. Pra ficar inteiro, completo, pleno. É ruim passar os dias assim, se contentando com esses fragmentos de satisfação, esses pedaços de bem-estar e essas alegrias pulverizadas. Tudo ou nada. Agora ou nunca. Ganhar ou perder.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltando à pergunta. Não, não é fácil, Juliete. Primeiro você precisa saber o que quer, e depois assumir pra você mesmo que é isso que você quer, e essa não é a estória toda, não é nem metade do caminho e já dá uma vontade de desistir e fingir não querer porra nenhuma. Mesmo com tudo organizado em mente, você ainda precisa correr atrás do que afinal escolheu. Essa é a parte mais difícil. Conseguir as coisas. Querer coisas é muito bom, mas qualquer um quer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Tem certeza que não quer subir?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sim – respondo.&lt;br /&gt;
– Última chance – ela me empareda, ardilosa.&lt;br /&gt;
– Não mesmo, Juliete. Pode apostar, a próxima vez que a gente se encontrar, se é que isso ainda vai acontecer, será um sinal de que você resolveu tudo e decidiu ficar só comigo pra valer. Então, se você e eu nunca mais nos vermos, é porque... você sabe. E aí eu saberei também – tudo isso sai da minha boca, com uma firmeza monumental. E é isso aí mesmo, ou não me chamarei mais Santiago Ventura. Acho bom, só por precaução, começar a ver aí um outro nome. Eu sempre gostei de “Seymour”, o que vocês acham? Estou só brincando.&lt;br /&gt;
– Então até breve, Santiago – ela me dirige essa fala com olhos comprometedores.&lt;br /&gt;
– É, isso é o que vamos ver – assim retribuo, já me virando de costas, indo embora, louco pra subir e passar a noite. Cansado dessa lenga-lenga, pego um ônibus noturno até em casa. Será uma longa semana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Amanhã será mais um dia comum e movimentado nessa calçada. Milhares de passantes vão cruzar a frente deste prédio velho, fétido e decaído, típico da região central de Porto Alegre. Teremos um sol infernal, corre-corre, um festival bizarro de talentos, brados de alguma religião obscura, ambulantes oferecendo todo tipo de porcaria que ninguém precisa comprar. E ninguém terá dimensão da importância da conversa que aos trancos ocorreu ontem aqui, nem do quê essa travessa, essa portaria, essa calçada e esse prédio representaram pra mim, a partir de hoje. É estranho pensar que logo ao amanhecer esse lugar será apenas mais um lugar, sem significado algum, para todo mundo. Enquanto eu repassarei todo aquele promissor diálogo sempre que meu ônibus curvar essa esquina, por um bom tempo. Com um sorriso na boca ou um desgosto peitoral, ainda não sei.)</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5500576422824443465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5500576422824443465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/10/054-e-33.html' title='(054 e 3/3)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-3204471468958167220</id><published>2013-09-25T22:47:00.002-03:00</published><updated>2013-09-26T15:18:22.315-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(054 e 2/3)</title><content type='html'>– Puxa, hein? Isso aqui até que é bem ajeitado – falo, inspecionando todos os cômodos.&lt;br /&gt;
– O que você esperava?&lt;br /&gt;
– Sei lá. Não parece a casa de um viciado.&lt;br /&gt;
– Eu pago uma faxineira pra vir aqui três vezes por semana. E vivo trazendo comida, água, material de higiene, tudo que alguém precisa pra viver com alguma decência. Se está meio vazio, é porque ele repassa as coisas pra fumar aquela bosta nojenta.&lt;br /&gt;
– Às vezes me esqueço que você é uma garota legal, Juliete – largo essa, que sai como um elogio meio estranho.&lt;br /&gt;
– Não exagera também. Prometi à minha mãe que cuidaria dele – ela vai me contando, enquanto enfia nossa lasanha congelada no forno de microondas. – Fui eu quem batalhei pro pai alugar esse apê pro Mano, ao invés de deixá-lo por aí. Meu irmão não é indigente. É só mais um dependente químico, uma versão sortuda de um drogado comum.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É verdade. Eu, que nunca passei da bebida e do cigarro, não tenho dois quartos e nem metade dessa mobília que ainda não se transformou em pó. O cara não tem juízo, mas tem sorte de ter Juliete como irmã, no duro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
– Nossa, Santi, eu fico impressionada como você sabe tudo que eu gosto – diz Juliete num timbre dengoso e caramelizado, enquanto estamos esparramados de exaustão, numa cama de solteiro apertada no humilde quartinho dos fundos. Mas não é nada disso, não é o que parece, coisa alguma está rolando de fato, estou bancando o resistente, como um prisioneiro de Guantánamo. Ela apenas está de bruços e eu me segurando para não cair, de corpo enviesado e sustentando minha cabeça com o cotovelo no colchão. A mão direita acaricia por baixo da blusa as costas da garota, que exala cortisol a cada suspiro, se deleitando no meu tato como um cãozinho sem dono. Meus dedos passeiam da lombar às omoplatas, visitando cada vértebra de um ponto ao outro, amaciando micro-cabelinhos que eriçam entre suas respirações aliviadas, levantando um cheiro de desodorante Dove a cada infusão de oxigênio. É um cenário contraditoriamente tenebroso e pacífico, se isso for possível. Mas, sabe como é, &lt;i&gt;só por hoje&lt;/i&gt; não vou tentar desabotoar este sutiã. Com um “shhh...” tento interrompê-la de verbalizar, mas Juliete está mesmo admirada com a rapidez que peguei suas manhas em tão pouco tempo de convivência, “enquanto uns e outros levam sete anos e não aprendem nada...”, segundo ela mesma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Cala a boca, Juliete. Não é hora de pensar. Só sinta o lance, entende?&lt;br /&gt;
– Tá, tá. Desculpa – ela silencia e aguarda o próximo movimento do meu toque.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já que surgiu o assunto. Coisas que ela gosta, que descobri em dez dias juntos, submetidos ao mesmo cubículo. Bom, tem a passada de mão nas costas. Futricar entre seus dedinhos do pé a enlouquece. Esfregar o olfato em sua pele amanhecida enquanto ela redemoinha o corpo na cama, se espreguiçando pela manhã. Barbicha roçando entre os seios. Unhadas no couro cabeludo. Minha drenagem linfática caseira. Conversinha na orelha, com o termo “minha princesinha gostosa” em algum lugar da frase. Gozar dentro. (Na verdade, mais que isso, ela adorava quando eu permanecia lá o maior tempo possível depois do negócio já &lt;i&gt;feito&lt;/i&gt;, uma vez chegando a chorar de um jeito indecifrável quando deslizei pra fora abruptamente, coisa que me apavorou pra burro. Garotas, garotas...) Que eu tomei nota, é mais ou menos por aí.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como já estamos aqui, coisas que ela odeia (coisas que “uns e outros” ainda não se tocaram que não devem fazer após sete anos de relacionamento). Lambida no pescoço. Mordida no calcanhar. Beijo no umbigo. Dedo anal, manipulação clitoriana ostensiva e tapas no rosto (ações altamente condenáveis, com reações altamente decepcionantes, mas fazer o quê, a vida é assim). Embora tenha gargalhado naquele dia, beijo na boca com metade de uma cebola escondida atrás dos dentes não é recomendável. “Bohemiam Rhapsody” (Juliete não detesta Queen, a não ser durante o coito, diz ela que não consegue ter o orgasmo com aquela gritaria toda e aquele monte de “aleluia”. Eu sempre achei excitante.) E Juliete é a única garota do mundo de quem já tive notícias a não curtir muito abraços também. Sim, sim, abraços! É bem esquisito, pois “fica sem ar”, me disse uma vez. Sei lá, ela tem essas ressalvas com os contatos de primeiro grau entre terráqueos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tem várias outras coisas que ainda poderia descobrir e adicionar no manual de instruções que estou montando, antes de fechá-lo definitivamente e oferecer ao namorado dela em troca de um bom relógio suíço ou dinheiro vivo, se é que o camarada tem algum interesse nisso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu sei, todas essas paradas que decorei sobre essa garota são de ordem lasciva. É que, tudo indica, nós funcionamos mais ou menos como aquelas antenas velhas de tevê. Se você quiser alguma sintonia, precisa posicionar o troço na horizontal. Quando as antenas ficam de pé, só o que dá são ruídos, interferências e a imagem não passa de um borrão indiscernível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para evitar um torcicolo dos brabos, repousei perto de seus olhos atentos e melancólicos de tão castanhos. Ela tenta me beijar, só que eu recuo de forma elegante. Ela avança mais um pouco, e por milímetros não vou de costas para o chão. Juliete me puxa pela nuca e faz nova tentativa, com a língua em riste.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– Ei, me beija... – ordena, buscando me trazer com as mãos autoritárias pelas têmporas. – Vem, Santiago...&lt;br /&gt;
– Não, não. Eu sabia que isso ia acabar assim. Que porcaria.&lt;br /&gt;
– E daí?&lt;br /&gt;
– E daí que não quero que isso aconteça.&lt;br /&gt;
– Quer sim!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como “quer sim!”? Ela deve ter feito suposições a respeito da &lt;i&gt;inflação&lt;/i&gt; na minha braguilha, mas isso é só uma questão biológica. A biologia é a favor da procriação, não importa como, se foi com amor ou um estupro, como é o caso aqui. Mas amanhã quem vai aguentar e racionalizar as consequências desse ato sou eu, a natureza não está nem aí.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não, pode parando. Não enquanto você pertencer a outro cara. Parei com isso.&lt;br /&gt;
– Ah, deixa de besteira!&lt;br /&gt;
– Falo sério.&lt;br /&gt;
– Mas isso nunca nos impediu antes – diz com beiços pedintes.&lt;br /&gt;
– É, mas agora é diferente.&lt;br /&gt;
– Diferente como?&lt;br /&gt;
– Não sei explicar. Mas é.&lt;br /&gt;
– Faz amor comigo, por favor... &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela enrosca as batatas das pernas por trás do meu tronco, me arranha a dorsal e esgarça minha camiseta que fica presa ao redor do meu pescoço, numa manobra de sedução que mais parece um golpe de judô do que uma cena cortada de &lt;i&gt;Nove semanas e meia de amor&lt;/i&gt;. Sabidamente sou mais forte do que ela, mas Juliete está tão obstinada a levar uma penetração que as potências meio que se igualam. Ela se engancha toda e monta em mim como se eu fosse um touro malcriado, ficando então com parte da minha roupa nas garras, ao que me desvencilho. Aí consigo ficar de pé, vermelho de raiva, todo despenteado e com a barriga exposta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Chega disso, sua louca! Me dá minha camiseta, caralho.&lt;br /&gt;
– Pega aí, seu bicha. – Ela chicoteia meu rosto duas vezes com o pano e depois joga violentamente a peça na minha direção. – Está feliz agora, seu broxa?&lt;br /&gt;
– Isso dói, sua vadia!&lt;br /&gt;
– Não me chama de vadia! – Juliete berra me esbofeteando. – Seu broxa, bicha, idiota, molenga, babaca!&lt;br /&gt;
– Não sou broxa só porque não quero te comer. E nem bicha.&lt;br /&gt;
– É sim! E some daqui, seu imbecil! – a doida se contorce na cama, furibunda pelas ventas, como uma criança mimada que não ganhou o brinquedo mais caro num corredor de supermercado.&lt;br /&gt;
– Não adianta espernear – digo, tentando desvirar minha roupa do avesso, com uma boa dose de dificuldade. A garota dá faniquitos, produzindo uns sons esganiçados, como se tivesse um apito preso na garganta. É uma espécie de “grrr...” agudo e endiabrado.&lt;br /&gt;
– Que raiva, que ódio eu tenho de você! Aprende um negócio, Santiago. Quando uma garota está nervosa e em pânico porque o irmão dela está desaparecido, e quiser transar contigo para se acalmar e se distrair, não importa, seja como for, você tem o dever de foder ela, entendeu? Seu imprestável!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escutamos a fechadura sendo revirada e ambos fazem cara de alerta, saindo do quarto apressados, desajeitados e trombando um no outro, a caminho do aposento de convivência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Oi... – Rodrigo abre a porta vagarosamente, confuso e assustado, encaixando no esquadro uma enorme mochila de acampamento erguida às costas.&lt;br /&gt;
– Porra, Rodrigo! Onde você estava? – pergunta Juliete, socando o braço do garoto.&lt;br /&gt;
– Eu que pergunto, o que você faz aqui, Mana? Quem é o sujeito aí? – aponta pra mim, de modo curioso e sereno, sem hostilidade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela olha pra mim, como quem esqueceu deste detalhe enorme parado feito um pudim na frente de toda a irmandade. E, ops, Juliete não ensaiou uma justificativa para minha presença ali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Ah, esse é o Santiago, um amigo meu. Estava comigo. &lt;i&gt;Atrás de você&lt;/i&gt;, seu irresponsável de merda! – E mais safanões. Hoje ela está tinhosa.&lt;br /&gt;
– Hum – o irmão dela grunhe maliciosamente, e depois acena com os olhos.&lt;br /&gt;
– Não se trata disso, Mano – Juliete se apressa em explicar. – Ele até é gay...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dedico um olhar encolerizante em sua direção, que me devolve sobrancelhas enfezadas, além de uma queixada torta, caracterizando a feição insolente na qual Juliete se especializou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Então. Ele não parece gay... – Rodrigo conclui por si mesmo. Gostei do cara. – Por que ele está sem camisa?&lt;br /&gt;
– Por causa do calor – respondo no gatilho.&lt;br /&gt;
– Mas está dezesseis graus lá fora...&lt;br /&gt;
– Onde diabos você se meteu, afinal? – Juliete tenta dissuadir o rumo da conversa, toda errada.&lt;br /&gt;
– Fui para os cânions com meus amigos, Ju. Sai do meu pé, não enche meu saco!&lt;br /&gt;
– Custava dar um telefonema, deixar um bilhete?&lt;br /&gt;
– Bem, mistério resolvido. Eu já vou indo. É um prazer, Rodrigo. Já ouvi muito sobre você.&lt;br /&gt;
– Pois é, eu também. Falou... – ele diz enquanto apertamos as mãos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juliete me escolta até lá embaixo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;continua...&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3204471468958167220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3204471468958167220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/09/054-e-23.html' title='(054 e 2/3)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5741093904290548657</id><published>2013-09-23T23:33:00.001-03:00</published><updated>2013-09-23T23:34:42.967-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(054 e 1/3)</title><content type='html'>Era apenas outro domingo vazio, moribundo e usual, de modo que eu não tinha nada mais interessante na minha agenda individual do que ler algumas páginas de Nabokov sentado no parapeito, esmagando uma guimba atrás da outra, e de vez em quando reparando no burburinho da calçada, onde grupos fazem baderna uniformizados com tons a caráter, transitando de um lado para o outro, batucando e entoando ritmos organizados, a caminho do estádio para mais um dia de clássico. Essa confusão se fundiu com outra confusão, assim que identifiquei o fatídico Renault de Juliete abalroando o meio-fio oposto da rua, em frente do mercadinho quebra-galhos. Ah, a conhecida sensação de um alienígena remexendo o baixo-ventre e forçando a saída através do meu pobre ânus. Ela desembarcou, escorou sua indefectível bundinha na dianteira do carro e me enxergou dependurado na janela, decerto com minha feição pávida de alegria instantânea e tola. Enquanto escutava gracinhas eróticas dos brutamontes vestidos de azul e preto, pegou o fone, totalmente alheia às insinuações baratas. Eu mentalmente contei o tempo da discada, e atendi de prontidão, mas em silêncio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu preciso de você – ouço então. Por que não me surpreendo?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escutaram isso? Juliete precisa de mim. Ela precisa de mim. Ela &lt;i&gt;precisa&lt;/i&gt; de mim. Ela PRECISA de mim. De mim, ela quer dizer, de um pouco mais da ternura do velho Santiago. Ela precisa do Santiago, o Santiago Ventura. Eu (risos). E veja bem, não está &lt;i&gt;precisando&lt;/i&gt;. Nada de gerúndios ou temporalidades. O que Baby Julie quis dizer é que sou necessário não só neste momento, nesta data, neste domingo sacal, às duas da tarde. Ela está carente de mim já há algum tempo, e seguirá a carecer, infinitamente. Porcaria, odeio essa minha mania besta de ficar interpretando cada construção frásica saída das bocas que me interessam, para que a sintaxe de algum modo venha a me favorecer. Por que não pergunto logo de cara sobre o que diabos ela está se referindo, afinal?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Como assim “precisa de mim”, Juliete? – pergunto arduamente.&lt;br /&gt;
– Não posso falar agora, mas acredita em mim, Santi. Veste uma roupa e entra no meu carro.&lt;br /&gt;
– Não. Não vejo por que as coisas tem de ser sempre do seu jeito.&lt;br /&gt;
– É sério. Não estou de bobeira. Por favor, cara... – o timbre vai apoucando antes do fim da súplica, e a garganta dela dá um tinido aflito e choroso. Parece bem séria a coisa, sabe? Só que, pensando bem, tudo que vem dela parece sério. Não vou deixá-la me iludir.&lt;br /&gt;
– O que houve, Baby Julie? – espero uma boa desculpa.&lt;br /&gt;
– Que droga. Meu irmão sumiu... – a garota já está fungando quando libera a informação, e a frase misturada com lágrima, coriza e interferências vocais não me soa muito bem.&lt;br /&gt;
– Seu limão? Que limão?&lt;br /&gt;
– Meu IRMÃO, porra! Faz cinco dias que vou no apartamento e o Rodrigo não está lá. Acho que aconteceu alguma coisa com ele. Me ajuda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que exagero. Cinco dias sem dar notícias. O que poderia acontecer a um viciado em metanfetamina, pó e destilados, que deve pedir grana emprestada adoidado e atormentar a vizinhança? Hum. Bem, talvez eu entenda o desespero dela, olhando assim. Porém, o que a coitada espera que eu faça?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não espere o pior. Fique calma.&lt;br /&gt;
– Vou ficar calma, assim que você descer e me ajudar a procurar ele, ir na polícia, nos hospitais, sei lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por que eu? Tenho cara de detetive particular, por acaso? Será que Juliete não se ligou que eu me borro todo com essas situações periculosas? Embora esteja me sentindo alucinadamente um pouco adulto, não sei nem capturar um camundongo, como ela espera que eu elucide um crime de verdade? Porcaria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Mas – sigo com minhas objeções – ...e seu pai? E o Maurício? E o... Homem de Ferro?&lt;br /&gt;
– Ah! Você acha que eles dão a mínima? Você acha mesmo que eu estaria rastejando no meio do asfalto se tivesse mais alguém mais com quem contar? Caramba.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São boas perguntas. Contudo duvido ferozmente que ela tenha cogitado qualquer outra pessoa antes de vir correndo até mim. Na minha cabeça Juliete veio direto. Eu sou a solução de todos os problemas dela, aparentemente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Tudo bem...&lt;br /&gt;
– Mas óquei, se você não quer me ajudar... – a fala lamuriosa dela se sobrepõe ao meu consentimento meio frouxo aqui de cima.&lt;br /&gt;
– Eu já disse que tudo bem, porra. Só o tempo de eu escovar os dentes e vestir algo – falo, câmbio e desligo.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Mas vestir o quê? Não tenho traje adequado para o evento. Talvez uma calça de brim meio esfarrapada nos joelhos, que pode me dar um ar de Hulk. Ou uma cueca avermelhada que posso enfiar por sobre a calça. Ou posso fazer furos no meu tapa-olhos e improvisar algum Batman meio esquisito dos anos setenta. Lembro também do martelo que o zelador me emprestou para suspender na parede aquela moldura com as capas do Pink Floyd desenhadas em bundas femininas perfiladas. Quem sabe eu vou de Thor, daí? Nunca pensei que um dia fosse precisar de um consultor de moda credenciado pela Marvel. Mas que nada. Sou obrigado a entrar numa ducha supersônica – porque domingo é o dia em que me dedico a feder livremente – e vou de Super-Santiago mesmo. Talvez o tênis sujo, o jeans velho, a camiseta da Patti Smith, o cabelo revolto e o crivo pendurado no queixo assuste alguém. Contagem regressiva: estou entrando numa fria em... dois lances de escada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entro na porra do Renault, e então eu e minha parceira batemos as respectivas portas com uma sincronia empolgante. Quase me sinto um personagem tarantinesco ou num romance policial do Bill Moody. É ridículo constatar internamente o quanto estou contente em vê-la outra vez, não importa a ocasião. Estou ofegante e elétrico, e ao menos posso fingir que o desaparecimento do irmão dela é a razão da minha agitação, só que também faço parte da turma que não dá a mínima, nem conheço o sujeito. O que importa é que estamos juntos novamente, prontos para outra aventura. Antes de arrancar, ela me pega segurando um gorro ninja de lã escura que catei na última passada pelo roupeiro. Juliete me questiona com as sobrancelhas içadas, como se eu fosse um retardado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Para o caso de precisarmos nos disfarçar, ora.&lt;br /&gt;
– Uhum – grunhe sarcástica.&lt;br /&gt;
– Esqueceu que sou especialista em gorros?&lt;br /&gt;
– Eu adoraria ter esquecido – diz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Óquei, eu meio que sou um palerma. A garota faz os pneus uivarem, debutando a missão. Não pude deixar de notar os pés descalços pisando no acelerador e as sandálias jogadas no assoalho do carro. Que saudade eu estava daqueles pezinhos nus. E também de me acomodar neste banco e viajar de carona em seus dramas e turbulências, cuidando atenciosamente Juliete fazer as manobras com o volante, esmagar os pedais, entreolhar nos espelhos e acionar luzes piscantes que indicam para que lado essa história desajuizada está convergindo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Rodamos o Centro atrás do irmão de Juliete. Passamos sua descrição básica para delegacias, hospitais, necrotérios em vão. Reviramos a estação de trem, o Mercado Público, as praças, o interior de salas de cinema pornô, embaixo dos viadutos, na prainha do Gasômetro, em escadarias. Interpelamos taxistas, pipoqueiros, moradores de rua, ambulantes, guardas municipais. Ninguém demonstrou muito além de um interesse esnobe e rasteiro. Quando o desespero já esmurrava o coração da garota, resolvemos ser racionais e ir até o apartamento esperar algum telefonema mórbido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;continua...&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5741093904290548657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5741093904290548657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/09/054-e-13.html' title='(054 e 1/3)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-3831046790264755396</id><published>2013-09-06T22:13:00.000-03:00</published><updated>2013-09-06T22:51:37.453-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(053)</title><content type='html'>Uma das meninas que trabalham na copa avançou de idade na última semana, de modo que ficamos até mais tarde no Sta Gemma Café, devorando a comida que sobrou, falando asneiras, distribuindo parabenizações e sacaneando uns aos outros. Mas não sou tão tapado assim. Eu sei que a organização toda esconde outro motivo: o quadro funcional da nossa cafeteria quase arruinada ficou abatido com meu sumiço e Rafaela tramou esse álibi para me animar, ficou bem na cara. Aline sempre odiou fazer 29.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma hora, repentinamente, todo mundo levanta e resolve ir embora, cada um procurando sua estação de ônibus. Só ficamos eu e ela. Vencemos mais alguns minutos que se transformaram em vários blocos de tempo incontroláveis em que nem assistimos o relógio cruzar as oito, nove e dez. Durante o evento todo, não vou mentir que ignorei Rafaela abrindo um vão a seu lado para eu enfiar minha cadeira, e aqueles olhares que efetivamente “não olham”. Mas também não sou caradura a ponto de afirmar que a garota estava, digamos, se inclinando romanticamente para mim durante a celebração; mas estava, isso sim, alisando as mãos nos cabelos com alguma frequência e rindo de coisas que eu falei que normalmente ela não riria, não porque sou desprovido de instinto para boas sacadas, mas porque Rafaela é endurecida pra cacete. Só que ela esteve de humor plumado hoje, talvez como todo o resto do pessoal. Qualquer um – possuidor de autoestima com maior estabilidade do que a minha, ultimamente – acharia que ela não estava só de xaropada, mas amolecendo suas guarnições. Só que este cara, esse galã charmoso e disputado para quem Rafaela levemente se insinuava não sou eu. E digo isso com toda certeza, mesmo sendo o único rapaz na mesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bebemos o conhaque que usamos nas receitas gaulesas. Corrigindo, &lt;i&gt;eu bebo&lt;/i&gt; o negócio, dose a dose, quase levando a garrafa quadrada à bancarrota. Rafaela só ingere água, de frente pra mim, sentada na cadeira invertida, com os cotovelos no encosto e uma feição contrariada de tédio, enquanto conto toda a história de Juliete, desde quando a vadia deu as caras aqui no café e blá-blá-blá, vocês já sabem. Juliete, Juliete, Juliete. Até eu estaria achando essa enrolação chata, ridícula e juvenil, só que já meio que estou embriagado, além de, dá pra ver, repetitivo e solitário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Rafaela, minha mais nova amiga do peito que eu adoro de todo o meu coração nutrido e embalsamado de tanto Domecq, me joga por cima de um de seus ombros miúdos e tímidos e promete me levar pra casa, já ficou tarde demais. Ela fecha a cafeteria inteira enquanto me consolo no meio-fio, sem conseguir sentir as duas mãos na minha cara dormente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Chegamos lá. Mas há algo de errado. Já sei o que é. Não deixo a garota retornar sozinha pra casa a essa altura da lua, não importa se fica a cinco quadras daqui e o movimento da Cidade Baixa ainda não afunilou. Eu sou um cavalheiro, ou costumava ser. Ofereço uma carona a pé, ela rechaça, diz que vamos perder a viagem pois não tenho condições de me localizar, e aí terá de me conduzir novamente até minha porta, e vamos ficar indo e vindo pela rua escura, infinitamente. Não interessa, faço questão. Rafaela só dá o braço a torcer após enfatizar que sou um pé-no-saco, e não só quando estou triste e tropeçando nos meus calcanhares por causa de uma mulher. Seguimos para o apê dela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chegamos lá. Eu tento me auto-despachar, mas ela fica uns dezesseis minutos me convencendo a subir. Tudo bem, eu entro na casa dela pela primeira vez em quatro anos de antipatia recíproca e coleguismo frívolo atrás de um balcão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Então Rafaela me serve um café tinto e forte (porque onde mais arranjaríamos uma iguaria dessas?) e aí me sinto melhor, mas estranhamente permaneço. Ela põe o disco de um cantor que eu não conhecia, com a voz visguenta e um dedilhar malicioso no violão. O som é bom e tudo fica agradável, com minhas pernas esticadas no sofá e meus tênis imitação de All-Star no chão. Rafaela descarta o uniforme profissional e se agasalha num moletom caseiro, depois ajeitando o corpo no mesmo sofá, sentada enviesada sobre os próprios tornozelos, voltada para mim e conversando comigo, que reluto à vontade de adormecer imediatamente, pulando o aqui, o agora e o que pode rolar até o final da noite. Rafaela me fala sobre as glórias radiofônicas do tal do cantor que estamos apreciando.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Como ela pode não estar apavorada? Céus, estamos na sala de tevê do lugar onde ela mora, um lugar onde eu já deveria ter frequentado, se fosse bem-vindo como parece que estou sendo essa noite. E estamos falando de assuntos íntimos e embaraçosos e de vez em quando o pé dela roça no meu e eu tenho certeza que jamais, em todos esses sofríveis anos de convivência, essa garota usou essa tonalidade meiga de voz, que parece atrair alguma espécie de faro, tendência ou vocação, não sei, para chegar mais perto e usar a minha língua de algum jeito meio indeciso e desajeitado. Só que eu acabo mesmo optando por pegar no sono, coisa que pode ter a decepcionado, ou decepcionado toda uma cultura de macho-dominante-que-precisa-diariamente-se-autoafirmar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só que ir pra cima de Rafaela pode embaralhar mais as coisas. É como pegar um avião e descer num país exótico tipo a Tailândia ou a Malásia, sem nunca ter dado uma voltinha em Montevidéu, que fica bem mais perto e você pode até ir de carro, se quiser, pois há pontes pra lá e tudo. Seria arriscado passar do estado eu-e-Rafaela-não-nos-suportamos para essa assustadora Neverland onde eu e Rafaela faremos algo parecido com sexo e a coisa passará de insuportável para constrangedora. Existe um oceano entre uma coisa e outra, sabe?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fiz bem em dormir e deixar tudo como está, pois já fomos longe demais, de modo que antecipadamente me sinto horrorizado com o clima, a perspectiva e o cenário, mesmo sem, você sabe, o &lt;i&gt;encaminhamento da coisa&lt;/i&gt;, ou seja, sem a transa, sem o “acordar acidentalmente abraçados com cheiros não tão bons quanto ontem”, sem os arrependimentos e sem a escassez de telefonemas nos dias consequentes. Seria mais um artifício para despistar a merda dos meus sentimentos por outra garota, e eu acho que, na boa, pior do que mentir pra si mesmo é mentir pra si mesmo mal pra caramba. Sexo gratuito estraga tudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Na manhã seguinte, após experimentar uma geleia de morango com torradas e chá de hortelã de rosto acanhado, indisposto e com vergonha, vou pra casa com as mãos nos bolsos da calça amarrotada e me achando super independente, só porque resisti à tentação de levar mais uma pra cama – ou levar um fora monumental, bem mais provável. É que meio que estou querendo retomar algumas coisas que ficaram pra trás, sei lá. Lembro bem. Houve um momento, na minha infância ou na minha adolescência, em que escolhi ser um bom garoto, respeitar e valorizar as meninas e essa coisa toda. Mas as coisas fugiram do controle e eu virei isso. Para continuar sendo o que sempre fui, tenho de mudar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tudo bem, uma parte não muito espaçosa de mim pode estar agora admitindo que, porra, talvez eu não tenha dado um bom exemplo, talvez eu tenha mesmo é frustrado uma garota abandonada que na verdade não queria respeito e valorização e que tais, mas sim ecoar por aí que sua turma pode também sentir tesão e dar de ombros para o protocolo culposo do dia seguinte, a cultura ocidental e sei lá eu mais por que existem essas garotas que não dão de jeito nenhum. Mas essa inércia tem muito mais a ver comigo do que com Rafaela, que no fundo é bacana, é gata e deve ter um lugarzinho quente, aconchegante e maravilhoso disposto a acolher um homem bom. Ela merece ser amada. E seria fácil, se fosse uma questão de meritocracia; e não de sorte, de estar no lugar e na hora certa, com alguém mais sério e limpo do que ando conseguindo ser, falando de forma bem autocrítica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não importa o quão desiludido, incrédulo e esperto você foi ficando. Sempre haverá uma fração dentro de você que vai acreditar. Só que essa alíquota ingênua, sonhadora e otimista não estava comigo ontem, nem no bolso frontal da minha camisa marca-diabo e tampouco escondido na cueca decente que vesti antes de começar o dia. Talvez eu tenha esquecido no meu bidê, ao lado do cinzeiro e da luminária. Mas não se preocupe Rafaela, que você ainda vai encontrar um cara bacana. E aí vai trocá-lo por um australopitecos mais másculo e imbecil, um desses sujeitos sócios desse mesmo clube do qual, há algum tempo, venho tentando atrasar as mensalidades.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3831046790264755396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3831046790264755396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/09/053.html' title='(053)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-4242135776640405350</id><published>2013-08-06T23:27:00.000-03:00</published><updated>2013-08-11T12:35:13.529-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(052)</title><content type='html'>Grandes notícias, hein? Mesmo que, se baseando por nossas feições, não pareça. Joel se trancou no banheiro, e Marcus está louco na sacada blasfemando contra os apaixonados que moram nos apartamentos frontais e cantando “Forever Young” com onze garrafinhas de Heineken na corrente sanguínea. A décima segunda cerveja do fardo está amornando na minha mão, que estou letargicamente jogado no sofá e só consigo mirar no fundilho esverdeado do casco, como se fosse um túnel do tempo. O que está acontecendo? Não sei se são esses tais novos tempos, ou o problema é o acesso facilitado ao crédito imobiliário, ou as relações masculinas de amizade. Eu pensei que as pessoas hoje em dia odiassem se casar, contudo Joe e aquela namorada ciborgue dele resolveram viver juntos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não se pode voltar atrás numa decisão dessas. (Joel até está com uma argola provisória enfiada num dos dedos da mão direita, diz ele que a prata significa... Ah, sério Joe? Um workshop noturno sobre a definição de cada boda numa plena sexta-feira?) Mas podemos voltar um pouco no tempo, uns quinze minutos, depois de ele anunciar com formalidade desnecessária e um riso afetado pendurado na boca: “Marta encontrou um apartamento aqui perto e acha que deveríamos morar juntos!” (Sim, isso mesmo, foi ela quem o pediu nupcialmente. Céus, onde foram parar os pobre-diabos dos homens???) Só que a reação geral não foi bem de acordo com o que nosso amigo esperava.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Duzentos e vinte e cinco mil? Porra, um apartamento de duzentos e vinte e cinco mil? [Marcus]&lt;br /&gt;
– Que bacana, cara. Parabéns. [Eu]&lt;br /&gt;
– Vão se foder vocês dois, é o momento mais importante da minha vida e vocês não demonstram o mínimo entusiasmo. [Joel]&lt;br /&gt;
– Parabéns, cara! U-hu. [Eu]&lt;br /&gt;
– Duzentos e vinte e cinco mil? Você vai desembolsar tudo isso pra morar com uma garota que não faz sexo contigo? [Marcus, só podia ser o Marcus]&lt;br /&gt;
– Nós já falamos sobre isso, Marcus. E ficou decidido os dias e horários em que faremos a coisa. [Joel]&lt;br /&gt;
– Sexo com hora marcada? [Marcus]&lt;br /&gt;
– Que legal. Como ir ao dentista. [Eu]&lt;br /&gt;
– Ei, caras, eu sei que vocês estão chocados, eu também achei que esse dia jamais chegaria... [Joel]&lt;br /&gt;
– Dia? Que dia? O dia que você cometeria o maior erro da sua vida? Eu pensei que você já tinha passado por ele, aquela vez que fomos pescar na lagoa gelada na nossa viagem de despedida do colégio. Você quase morreu de hipotermia aquele dia, Joe. Será que você não aprendeu nada com a experiência? [Marcus]&lt;br /&gt;
– Tipo o quê? [Joel]&lt;br /&gt;
– Tipo não se meter em frias! [Marcus]&lt;br /&gt;
– Que bosta, Marcus. Dá pra você me dar uma força? [Joel]&lt;br /&gt;
– Eu tirei você daquela porra de água quase congelando, caralho. O que mais você quer de mim? Não vem com essa de “me dá uma força”. [Marcus]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sou o primeiro a sentar novamente. Fico assistindo a tudo quieto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– O que aconteceu com os Três Mosqueteiros? Que bosta isso... [Marcus não deixa pra lá]&lt;br /&gt;
– Cara, o Joe parece saber o que tá fazendo... [Eu, dando de ombros]&lt;br /&gt;
– Fecha a boca, Santiago. Como você pode apoiar uma insanidade dessas? Vocês dois são o quê agora? A Força Romântica Nacional? Para o diabo vocês dois! [Marcus]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Marcus vai pisando duro até a sacada gritar. Joel luta contra suas glândulas lacrimais e recorre ao banheiro. Eu continuo com a bunda afundada no sofá, procurando algum canal que não traga nenhuma referência remota a matrimônios, relacionamentos, garotas, etc, mas acabo mesmo é tranquilizando meu polegar no seriado &lt;i&gt;New Girl&lt;/i&gt;. O que eu vou dizer a eles? A não ser que: no bolso da minha jaqueta tiro um papelzinho ralo que um propagandista me fez pegar na passada até aqui, anunciando...&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
BAR DRINK ALABAMA&lt;br /&gt;
BELAS GAROTAS EM LOCAL DISCRETO&lt;br /&gt;
HORÁRIO: DAS 10H AS 24H&lt;br /&gt;
BALDE EM PROMOÇÃO: R$ 25,00&lt;/blockquote&gt;
Desistimos todos de brigar.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
De entrada já gosto do lugar: sai The Doors dos alto-falantes. Joel tem olhos marejados e seu coração dá voltas em torno de si mesmo (“Obrigado por me carregarem caras, é a despedida de solteiro perfeita! Você tem algum trocado aí, Santiago? Quero enriquecer aquela calcinha ali...”). Marcus ainda não desamarrou a cara e parece meio entediado, não sei se pelo comunicado oficial ou se porque já esteve no local muitas vezes na última semana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pobre-diabo resolve sentar no meu colo e lamber a minha orelha, o que parece provocante e sedutor, mas por alguma razão decepcionante, não é. Nunca dei as caras num covil desses antes, e minha empolgação vai até aspirar o cheiro nauseabundo de creolina pelos cantos. Homens solitários devem mijar (ou coisas piores que nem vou me dar o trabalho de imaginar) pelos corredores. E outra, baseando-me nos três de &lt;i&gt;O Poderoso Chefão&lt;/i&gt;, sempre achei que nesses lugares as garotas seriam, você sabe, &lt;i&gt;garotas&lt;/i&gt;; e não mulheres com feições preguiçosas e famintas que já tiveram uma silhueta campeã mundial em algum tempo de glória, talvez nos anos noventa. Eu esperei também por mais gordos carecas e misteriosos (talvez com ternos escuros e com maletas quadradas com uma dinheirama trancafiada), esperei por saltos mais altos, mais danças ao redor de um eixo maciço, por mais sofisticação alcoólica, por mais, sei lá, glitter. Mas a vida é isso, aparentemente, uma promessa descumprida atrás da outra. Mas Joe está feliz e é isso que importa (“Caramba, se gostar de mulher como eu gosto faz de mim um pecador, já podem ir construindo um pórtico me dando boas-vindas lá no inferno!”). Ah, droga, parou de tocar “The Crystal Ship”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É um festival de peitos e traseiros e pernas e varizes. Nosso pequeno sarau erótico é pontuado por risadas e comentários à medida que vamos nos abismando com mãos frívolas e obscenas desafivelando, desabotoando, puxando zíperes e revirando braguilhas (“Puta merda, se Marta fica sabendo disso, com uma faca de cozinha e um golpe, faz de mim um eunuco. Isso, vai garota, pode ser a última vez ganho um boquete. Ei lourinha, você sabia que vou me casar?”).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuso o agradado e a moça se faz de ofendida, mas me oferta uma dança. Aceito, e a criatura começa a se chacoalhar na minha frente, decorada com uma infinidade colorida de luzes piscantes diante de mim. Eu tento me permitir uma sensação de normalidade, mesmo sabendo que nada à minha volta tenha qualquer ligação com o rotineiro. Fecho os olhos. Os abro novamente e não vejo nada, mesmo tentando pôr o rosto de Juliete na vaga dessa mulher horrorosa. Um tumulto de pensamentos e emoções me percorrem enquanto observo as sinuosidades da dançarina, me forçando a admirar toda aquela plasticidade. E, apesar do meu olhar avesso e oblíquo, e da má vontade dos meus beiços suspendendo um cigarro, a piranha segue exalando aquele cheiro triste das ruas, enquanto insiste em rodopiar no meu gelo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Qual o seu nome? – ela se intromete.&lt;br /&gt;
– Santiago. E o seu?&lt;br /&gt;
– Pode me chamar de “Danna”... – diz pausadamente, enquanto chaveia minha cintura com suas duas coxas polposas embrulhadas numa meia-calça que faz com que suas pernas pareçam um salame italiano, desses que a gente encontra pendurado em armazéns.&lt;br /&gt;
– Por que você está triste, Santiago?&lt;br /&gt;
– Quem disse que estou triste?&lt;br /&gt;
– Seu olhar – responde esfregando a mão carinhosamente no meu rosto, querendo extrair algum trocado de mim.&lt;br /&gt;
– É impressão sua – busco tortuosamente encerrar o assunto proposto pela puta, mas ela não deixa.&lt;br /&gt;
– No quê você está pensado, Santiago? – ela quase mia quando seu timbre roça no meu nome.&lt;br /&gt;
– Nada – digo o essencial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nada. Estou pensando em inúmeras coisas, mas minto que não estou pensando em nada específico, apesar da minha atenção estar de malas para Júpiter. Não posso dizer com o que estou ocupando minha cabeça porque as pessoas iriam apenas fingir um interesse cansado, rápido e bucólico. Soltar um confidencial “nada” é sempre melhor em casos obsessivos como o meu. Mas você quer a verdade? Óquei. Estou pensando que esse bailado pulguento em cima de mim não está com nada. Que ser tolhido de viver com a garota que você adora é uma bela merda. Que a vida na condição de solteiro já teve dias melhores. Que eu só estou aqui nessa boate pra enfiar umas tralhas na minha existência vã; porque sem esse divertimento lugar-comum, o próximo passo é parar de comer ou aparar os cabelos ou trocar de camiseta para sempre. Estou pensando que, de toda forma, o que estou fazendo aqui, senão me distraindo? Já ouvi dizerem que tudo isso, inclusive o que chamamos de amor, é só recreação e é verdade, amor é só entretenimento. O melhor entretenimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda que com algum ceticismo – e endossado pela deprimente cena dessa moça esforçada por cima de mim – eu quase posso confessar a ela que Joel não está tão errado assim, aceitando a monogamia sem oferecer grandes resistências. Quem sou eu para classificar os outros, aliás, uma das principais pessoas a quem devo toda a minha fraternidade? Sou só um covarde que, ao longo de um dia absolutamente normal, sou capaz de alucinar impossibilidades a respeito de uma mesma garota durante boa parte dele. E isso enquanto estamos na metade do ano, quase na metade da década, e eu insisto em ficar na minha, sem peito de me entregar a alguém. Então finalmente decido minha vida pegando “Danna” pelo pulso até um quarto no andar superior. Eu sei, será só mais uma das minhas transas paliativas, mas... foda-se.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4242135776640405350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4242135776640405350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/08/052.html' title='(052)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5682108994933188710</id><published>2013-07-14T20:13:00.000-03:00</published><updated>2013-07-14T20:39:33.564-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(051)</title><content type='html'>Amanheço com o telefone. Vou tropeçando até o banheiro, onde sinto que o deixei ontem à noite. Estou enganado quanto à localização do aparelho, mas não em relação ao emissor. Está na cozinha. É ela, confirmando minha expectativa, minha intuição, o destino, ou seja lá como chamam isso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Oi, te acordei?&lt;br /&gt;
– Não – respondo de timbre falho e pigarrento.&lt;br /&gt;
– Conheço bem sua voz de sono.&lt;br /&gt;
– O que foi? Por que tá me ligando? – questiono, sentindo uma veia do meu cangote pulsando como um cavalo galopando a favor do vento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isso que você ganha, supostamente, quando reencontra uma de suas paixões antigas. Diálogos consequentes, requerimentos de desculpa, novos levantamentos de dúvidas, análises retroativas. Nós rapazes, geralmente, achamos que o melhor é esquecer e deixar pra lá essas situações delicadas e chutar a bola pra frente, na arquibancada. Para as garotas, é o que concluo, funciona um pouco diferente, sem o isolamento térmico em torno do coração. Elas querem te telefonar pra dizer que viram você, que vocês se olharam simultaneamente, como se isso já não fosse bastante inegável. Eu sei que Juliete se sentiu uma geladeira, tanto quanto eu me senti um caldeirão naquele momento. Mas a gente concordou, ali na hora, que não faríamos nenhum alarde facial extremo, que agiríamos como fôssemos meros conhecidos. E foi assim. Então por que não manter a conduta nos próximos capítulos? Aliás, pra quê novos capítulos? Você não pode fingir que não conhece alguém na rua e na manhã seguinte ligar para essa pessoa. (Esses dias o Zeca da locadora de filmes estava na fila do caixa eletrônico e eu fiz que não o vi; e depois eu não, você sabe, “E aí, cara, tudo óquei? Por acaso você me viu fingindo não te conhecer ontem no Banco Santander?”) Não faz sentido querer explanar sobre o que aconteceu, mas... garotas, hein?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu só não queria que você tivesse a ideia de errada de mim.&lt;br /&gt;
– Tudo bem, eu não estou pensando nada.&lt;br /&gt;
– Ai, droga, droga, droga, droga... – ela sussura do outro lado. – Mas, então, está tudo bem contigo, mesmo?&lt;br /&gt;
– Já estive melhor – largo essa intencionalmente, para que ela se sinta mal. Eu sou um pobre-diabo mesmo. – Por que você está me telefonando, o que você quer, afinal?&lt;br /&gt;
– Eu não sei.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela diz não saber porque me liga, mas sabe. É como não saber que o sol está atrás das nuvens, só porque o dia acordou nublado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Droga, droga, droga, droga... – Juliete continua com isso de “ai, droga, droga” e isso está me irritando com profundidade.&lt;br /&gt;
– Olha, eu preciso ir – interrompo. – Tenho de trabalhar, não tenho a vida ganha.&lt;br /&gt;
– Certo – Juliete desliga, engasgada e melancólica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quanto você quer apostar que eu nunca mais ouvirei a voz dessa mulher?&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Recém entrei na minha sala. A menina nova me passa um telefonema particular. Adivinha quem é?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Então vocês voltaram? – atendo na lata.&lt;br /&gt;
– Hum... – Juliete parece confusa. – Oi. Sou eu outra vez.&lt;br /&gt;
– Eu sei. Então, vocês estão juntos novamente?&lt;br /&gt;
– Sim. Oficialmente – a garota amortece o timbre no &lt;i&gt;oficialmente&lt;/i&gt;, decerto querendo me dizer algo. Mas eu sou tapado demais pra captar.&lt;br /&gt;
– Que legal. Eu adoraria te desejar felicidade.&lt;br /&gt;
– Eu posso imaginar.&lt;br /&gt;
– Bem, e sexualmente?&lt;br /&gt;
– Como? – ela me faz repetir a pergunta, talvez querendo ganhar tempo, talvez incrédula.&lt;br /&gt;
– Você disse que reataram oficialmente. Quero saber se estão juntos sexualmente também. Não se faça de louca, você sabe o que estou falando.&lt;br /&gt;
– Ah, qual é, fala sério!&lt;br /&gt;
– Estou falando.&lt;br /&gt;
– Olha... você tem certeza de que quer saber disso?&lt;br /&gt;
– Quero. – Pelo menos eu acho.&lt;br /&gt;
– Bem. Sim. Claro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Óquei, acabo de me dar conta de que não queria saber disso, a julgar pelos ruídos estomacais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não, Juliete. Não quero saber disso. Pare de falar.&lt;br /&gt;
– O que você esperava?&lt;br /&gt;
– Nada. – Na verdade eu esperava que ela dissesse que isso nem passou por sua cabeça. – Vamos trocar de assunto.&lt;br /&gt;
– Óquei...&lt;br /&gt;
– Por que você tá me ligando?&lt;br /&gt;
– Já te disse. Eu não sei.&lt;br /&gt;
– E por que você reatou com ele?&lt;br /&gt;
– Eu não sei...&lt;br /&gt;
– Caralho, você não sabe nada?&lt;br /&gt;
– Você só me faz pergunta complicada. Se você quiser saber, apesar de todas as circunstâncias, não voltamos &lt;i&gt;emocionalmente&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
– Hum. Não, não me ajuda em nada saber disso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bato o telefone com muita força, mas sei que toda intensidade e toda a dramaticidade do gesto será em vão. Isso não vai ficar assim. Se eu conheço bem esse filme, a garota que faz a protagonista vai me cercar, no telefone ou no interfone, no café ou lá onde moro, a pé ou de helicóptero (sei que essa última parte parece exagero, porém não duvido de mais nada). Agora, pela minha integridade mental, quem precisa sumir sou eu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Entro no meu quarto, o 816. Capoto de bunda na cama enorme e fico estudando as paredes claras, em busca de algum traço residencial, só que tudo aqui é comum e ordinário. Temos apenas aquelas figuras abstratas embaixo de luzes quentes, como em todos os cômodos desta rede hoteleira. Invisto sobre o frigobar e sirvo um refrigerante de laranja num copo de uísque e fico lamentando as coisas que, na afobação de abandonar meu próprio apartamento, esqueci de enfiar na mochila. Esqueci da obra de Martin Amis no banheiro, mas não me torturo demais, não estava curtindo muito mesmo. Mas fico puto por ter trazido toalha, após descerrar uma porta e seis mil toalhas brancas cairem sobre minha testa. Que tipo de imbecil traz toalhas para um hotel, por mais vagabundo que seja? Minha gaita, meus óculos, minha identidade estão comigo e eu me sinto afagado. Meus cigarros, um &lt;i&gt;player&lt;/i&gt; com as canções pop e melequentas do Eric Clapton, e meu telefone ficaram para trás, coisas que podem me fazer mal. Não quero que ninguém me encontre pelos próximos tormentosos dias, o três estrelas Mundi Express é meu novo e provisório lar, enquanto a grana der e o pó baixar. Pedirei a alguém da recepção que daqui a um punhado de horas me desperte e invento um motivo infeccioso para não trabalhar. Sabe, no Sta. Gemma Café também fico atacável, mesmo agora exercendo minhas atividades num cubículo mofado dos fundos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após um longo, oportunista, revigorante e afeminado banho com hidromassagem, escolho um monte de roupas para sair. Ainda é junho, mas está fazendo um frio grotesco e germânico, especialmente na alameda onde está plantado meu hotel, no coração de Porto Alegre, aonde a corrente fresca do rio passa lambendo o pescoço de quem teve a audácia de dar uma banda perto do cais. Não posso deixar de comparar a noite com ela. Obscura, vazia, fria e seca, e mesmo assim meu pé está na calçada, e eu envolvido pelo relento, atrás de imprevistos. Na falta de um cigarro, trago na boca minha gaita e vou ecoando “Love Me Do” pelas trevas urbanas da noitada, competindo com o tinido macio que vem do Guaíba. Antes de descer as escadas para pegar o último trem, uma garota bonita e vulgar diz que essa música lembra seu pai e me deixa um trocado. “&lt;i&gt;Someone to love, somebody new, someone to love, someone like you...&lt;/i&gt;”</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5682108994933188710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5682108994933188710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/07/051.html' title='(051)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5559275977017047323</id><published>2013-06-29T00:07:00.001-03:00</published><updated>2013-06-29T15:31:59.828-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(050)</title><content type='html'>Fiz o que me mandaram fazer. Contrariando meus planos, fui dar uma volta na rua ao invés de ficar na minha poltrona apagando cigarros no braço com a luz azulada da tevê na minha cara, escutando barulhos de ambulância. Eu queria ver os amigos, olhar umas pequenas, ouvir música alta, falar bobagem, tomar uns copos de cerveja, a bebida preferida dos idiotas. E fiz tudo isso. Eu acho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lembro do Marcus, do Roger agarrado numa menina de cabelo verde sem idade para estar ali, de ter encontrado o Gregório e a Lily pela primeira vez depois que tiveram o bebê, e que eu fiquei de visitá-los um dia desses, mesmo sabendo que não vou sair de casa para ver criança nenhuma e ainda presenciar alguma briga dos dois, porque está tudo uma merda. Enfim, vi um montão de gente que não via há tempos, mas agora já não sei mesmo se estavam lá. É domingo, e eu acordei cedo, com gosto azedo de podre entre os dentes. Quando desço para buscar jornal e um frango assado, vejo o vômito seco escorrendo no muro da casa abandonada próxima à esquina, e então caio na real. Apesar da histeria e da felicidade etílica, ontem foi uma das noites mais hediondas de todos os tempos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nós ainda estávamos na terceira rodada, todos em volta da mesa do Malabar, botando os assuntos em dia e tirando sarro de uma faixa do Supertramp que algum desatualizado escolheu no Jukebox empoeirado perto dos banheiros. Até que um cara passou por mim, com um cabelo à escovinha familiar, mas que não consegui identificar de supetão. Quando então dois segundos depois avistei Juliete de relance bisbilhotando a bolsa, decerto atrás de seus cartões de crédito. Um terror cruzou meu rosto, eu havia entendido tudo. Ela levantou o queixo, esquivou a franja com um movimento cervical e deu de cara comigo, lá no fundo, rodeado de gente bacana. E aí baixou os olhos e seguiu o namorado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu quase fui parar debaixo da minha cadeira. Não sei se era o chão tremendo ou se apenas minhas panturrilhas sofreram uma súbita deficiência de potássio. Minha cara esquentou e começou formigar. Alguém perguntou se eu havia enxergado algum fantasma, Marcus observou que talvez eu tivesse apenas mirado um espelho, pois quem estava pálido feito uma aparição do além era o Santiago aqui. Lembro vagamente que me dei o trabalho responder à chateação com um sorriso mecânico, e forcei a arcada desesperadamente para não chorar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era ele. O tal do cara que Juliete disse ter conhecido não era nenhum francês sebento que ela esbarrou na viagem, como havia sugerido na última conversa. O novo namorado era, na verdade, o velho namorado, como eu não pensei nisso antes? Era ele, o penteado estava diferente desde o ano passado, talvez a cara mais ossuda e a barba menos caprichosa, mas era ele sim, ninguém nunca esquece das feições de quem um dia o nocauteou. Eu ainda tenho vivos na memória cada traço daquele ruivo parrudo e prepotente que chutava minha bunda na quarta série do colégio Assis Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dois devem ter se encontrado em algum lugar requintado e da moda, como a porra do Outback ou algo assim, para comer alguma coisa e devolver alguns pertences um do outro. Ele deve ter encostado a garota na parede e ela acabou falando sobre mim, e aí ele disse que eu não passava de uma diversão para quem só estava frágil e entediada após milênios num relacionamento sério, que ele compreendia, isso de que às vezes sentimos tesão por outras pessoas, mas que a perdoava por esse erro chamado, como era mesmo o nome do coitado? E então Juliete respondeu que não queria mais falar sobre isso, repetir meu nome e evocar essas recordações ruins, e os dois acabaram unindo forças para largar uma rocha em cima do passado, e depois chorando e se abraçando e fazendo mil promessas hipócritas e mútuas de que ninguém mais iria interferir no amor deles, que não era perfeito porém era real, tudo que ambos tinham. E que eles já chegaram até aqui, atravessaram muitas coisas, por que não haveriam de superar esse episódio também? Aí o otário suplicou para que ela voltasse pra casa, e Juliete estava cansada demais para reagir e não aguentou a cara de pidonho do ex. E naquela noite os dois fizeram amor como fizeram no terceiro mês de encantamento, e Juliete não gozou, mas já ficou satisfeita de não lembrar de mim, porque o cara até que faz bem a coisa, mas muito diferente de como eu faço.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É claro que não tenho certeza absoluta de nada disso, mas não é muito de difícil de imaginar como as coisas transcorreram, é?&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Que porcaria, isso. Eu assisti essa pessoa depilando as axilas debaixo do mesmo chuveiro. Eu vi essa pessoa de pijama. Eu tentei doutrinar essa pessoa a ler &lt;i&gt;O lobo da estepe&lt;/i&gt;. Eu transei sem camisinha com essa pessoa e posso muito bem estar dando carona para alguma peste herpética agora. Eu aturei o seriado &lt;i&gt;Grey&#39;s Anatomy&lt;/i&gt; sempre que essa pessoa chegava antes no controle-remoto. Eu rabisquei os azulejos com batom insinuando amar para sempre essa pessoa. Fui ao supermercado às onze da noite porque essa pessoa estava a fim de comer batatinhas sorridentes. Eu me preocupei com as provas semestrais dessa pessoa. Eu baixei da internet canções de quem não gosto, como as do Jack Johnson e Guns N’ Roses, para que essa pessoa pudesse correr no parque alegremente aos sábados. Eu esfreguei à mão as calcinhas sujas dessa pessoa. E agora essa pessoa simplesmente desfila na minha frente com outra pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sei que depois disso enchi a cara, topei ir com alguém (acho que, obviamente, com o grande Roger Birk) até a Avenida Farrapos atrás de zoar algumas prostitutas e por fim apaguei, despertando todo defumado neste estimulante domingo de sol debochando da minha cara, sem a mínima perspectiva de trocar palavra com alguma alma-irmã antes do anoitecer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu gostaria muito de agradecer a todos os incentivos para que eu saísse de casa e fosse ver gente. É verdadeiramente revigorante essa sensação de gastar metade do meu salário bebendo tudo o que pintar, gritar com os carros na rua, levar foras de patricinhas e ficar duzentos minutos tentando enfiar a chave na porra da fechadura de todos os prédios da cidade, exceto o meu. Esse masoquismo barato foi, nossa, muito legal. Se é isso que chamam de &lt;i&gt;viver&lt;/i&gt;, sou mais de passar o resto dos meus dias afundado no meu sofá lambendo minhas feridas, me auto-erotizando e tirando James Cotton na minha harmônica, torcendo pelo retorno daquela época de ouro em que minha única preocupação era chegar na frente dos outros espermatozoides, já que não tenho triunfado em muitas competições desde lá.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5559275977017047323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5559275977017047323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/06/050.html' title='(050)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5754992053876497603</id><published>2013-06-06T22:14:00.000-03:00</published><updated>2013-06-06T22:34:50.652-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(049)</title><content type='html'>O ponto alto do meu mês é estar num bar, no mesmo de sempre, ouvindo um dos meus amigos confessar que teve um mau dia. Engraçado, as pessoas à minha volta estão habilitadas a se queixar da vida porque não dormiram muito bem ou discutiram com uma autoridade ou uma calça do inverno passado está apertando na barriga. Para mim, tudo isso é normal, lucrativo até, a julgar pela merda incrustada em torno de mim nos últimos tempos. Para ter direito a reclamar do meu dia com justiça, no mínimo eu precisaria estar num pouso forçado de um monomotor ou ser esmagado por um fusca ou contrair algum vírus africano. Mas tudo bem. Vamos lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estamos tomando uns drinques e reclamando da vida, quero dizer, das garotas, basicamente. Joel não consegue trepar e Marcus aparentemente não está nem um pouco a fim de sair hoje com a coitada que já lhe enviou uns quatrocentos torpedos só no início dessa noite de reunião dos Três Mosqueiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu, você sabe, estou pensando em desistir de Juliete, depois de três semanas de buscas, perseguição e recados terrificantes na caixa postal da garota. Sei que andei irreconhecível esses últimos dias, desempenhando ações de reputação deplorável, merecedoras de retrato falado ou medida cautelar. Na última vez que Baby Julie atendeu minha ligação a conversa não foi muito longe, e acabou com ela perguntando “Você acha mesmo que ainda pode me fazer feliz?” e eu dizendo “É claro que não, mas isso nunca nos impediu de ficar juntos”. No fim, Juliete acabou dizendo que lamenta muito, porém não pode mudar quem  eu sou. Não deu tempo de dizer, porque ela desligou na minha cara e tudo, só que mal sabe ela que é isso mesmo que qualquer rapaz na minha condição precisa. E para quê serve ter uma namorada, senão para consertar um homem? Fazê-lo parar de sair, de gastar, de fumar, de desferir cantadas horrorosas num bar imundo, já às sete da noite, quando deveria estar fazendo algo produtivo para a sociedade, como plantar árvores, separar lixo ou manter as crianças longe de entorpecentes, ou sei lá eu o que fazem os homens úteis nas quintas-feiras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quero saber o que Marcus e Joel acham disso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Ué, mas eu pensei que ela já havia acabado com tudo.&lt;br /&gt;
– Bem lembrado, Marcus – diz Joel. – Ela já não tinha sido bem clara dizendo que não queria nada sério contigo, que você era estranho e nada confiável?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estranho e nada confiável. Parece um pouco comigo, no mínimo um irmão gêmeo. Óquei, talvez ela tenha dito isso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– É. Sim, de fato. Mas não quer dizer que tudo acabou – explico. – Na verdade estava pensando em parar de correr atrás. Literalmente falando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isso aí! Acabo de me decidir. Parei de ir atrás, eu tenho meu orgulho. Quero dizer, &lt;i&gt;não tenho&lt;/i&gt;, mas ela não precisa saber dessa parte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– O sexo não era bom?&lt;br /&gt;
– Sim, Marcus. Era bom. Aliás, deve ser bom ainda. Mas não é isso que importa.&lt;br /&gt;
– Pra mim é – ele fala, e dá um gole antes de olhar as garotas no boteco.&lt;br /&gt;
– É que... sei lá. Eu acho que continuar com essa história, alguém ia acabar se dando mal.&lt;br /&gt;
– No caso você, não é? A tal Juliete não está nem aí – conclui Marcus, com os requintes de crueldade que lhe são peculiares. – Aliás, &lt;i&gt;você já está se dando mal&lt;/i&gt;. Olha pra essa sua gola amarrotada. E essa jaqueta horrorosa? Você está um trapo, Santiago. Sabia disso? O que esse diabo fez contigo, cara...&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– Isso também não tem importância, Marcus – falo, mas não consigo não lembrar daquela canção “We Gotta Get You A Woman” (&lt;i&gt;We got to get you a woman / We better get walking / We&#39;re wasting time talking now...&lt;/i&gt;) Canto mentalmente por uns segundos.&lt;br /&gt;
– Para mim tem – diz, agora checando as moças à esquerda.&lt;br /&gt;
– Não dá pra conversar contigo. O que você acha, Joe?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele me dá de ombros. Parece magoado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Ah, cara. Eu e a Marta estávamos superfelizes porque tínhamos um casal para nos acompanhar nos lugares – desabafa. – Lembra aquele dia em que fomos todos ao cinema ver aquele filme do Spielberg?&lt;br /&gt;
– Sei. O que tem?&lt;br /&gt;
– Fizemos sexo naquela noite. Tudo bem que não foi no drive-thru do McDonald’s, foi em casa mesmo, na nossa cama de casal, antes de dormir. Mas igual, conta pontos. Era disso que estávamos precisando para apimentar nossa relação.&lt;br /&gt;
– Desculpa, Joe. Mas não posso manter um relacionamento com uma garota só para levá-la no cinema com outros casais quando algum amigo meu quiser se dar bem. Não somos assistentes sociais ou coisa parecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele parece desapontado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Tudo bem. Desista dela, então. Mas depois não vem choramingar que está sozinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dou de ombros. Quando foi que eu choraminguei por estar sozinho? Lembro apenas de uma primeira e única vez, e foi no colo do meu obstetra. A partir daí, tive tempo de sobra para me acostumar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então Joe põe na mesa uma outra questão, que nada tem a ver comigo ou comigo e com Juliete, mas sobre ele, Marta e o que ele pode fazer, afinal, para flamejar o namoro frígido dele. Eu sei lá. Marcus rapidamente sugere que Marta seja lésbica e manda Joe se danar com essa lenga-lenga. Então todos ficamos quietos, apenas olhando as desgraçadas das fêmeas na volta, com nossos ares desesperançosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Tive uma ideia. Por que você não tenta levar uma outra garota pra cama, Joel? – sugere Marcus.&lt;br /&gt;
– Como assim? Tipo, trair Marta?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Marcus encolhe os ombros e mostra as palmas das mãos, como se não houvessem alternativas. Esse meu amigo é um germe. No entanto, talvez não exista outro meio mesmo, como eu vou saber? Não entendo bulhufas sobre o assunto. Nunca nenhum namoro meu teve tempo de esfriar eroticamente. E, olha, não sei se isso é elogiável ou uma bosta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não vai dar. Aliás, nem saberia como conversar com uma hoje em dia – Joe rechaça fazendo careta. – Vocês sabem quanto tempo eu não flerto com uma garota?&lt;br /&gt;
– Fica tranquilo, Joe. Acho que ninguém “flerta” com ninguém desde 1953.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[TODOS NÓS JUNTOS]: – ZZzzzZZzzzZZZzzZ...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dou um demorado sorvo na minha garrafa de Sol, largo uma nota de vinte na mesa e vou andando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Acordo num solavanco. Meu ônibus noturno vem pela Oswaldo Aranha, dobra numa esquina e quando inicia uma subida, é minha hora de descer. Para completar meu trajeto preciso contornar o Parque Farroupilha e enfrentar a tortura que é passar defronte a um tradicional bar da cidade, onde só entram escritores. Lá eles se reúnem para amaldiçoar os best-sellers, discutir a morte do romance e disputar partidas de Hemingway versus Faulkner no pebolim. Deve ter um nome oficial mais decente, mas todos conhecem por “Bar dos Podres”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu, com toda a minha experiência como &lt;i&gt;ghostwriter&lt;/i&gt; e roteirista de cinema pornô, é claro, estou desautorizado por aqueles olhares repressivos e risinhos empafiados a deixar minhas pegadas no território dos grandes sabedores do novo século. Não que eu queira entrar, também.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porém, só em momentos íntimos de purgação, apenas para mim, confesso que olho para o interior do santuário toda vez que contorno por aqui. Me apoio no tronco desse pé de sicômoro do outro lado da rua e durante alguns minutos morro de inveja de ser um boçal pretensioso como eles; e não esse membro do proletariado que sou, sem nenhum estudo afora um cursinho vagabundo de línguas. Mas também, olha só, não é que eu &lt;i&gt;admire&lt;/i&gt; qualquer um deles, muito porque nunca li patavinas desses caras. Não leio ninguém que tenha nascido pra cá da década de 1950 e não escreva um único anglicismo (só de pensar que suas histórias de amor têm sotaque de Tramandaí e não de Frankfurt, eu já começo a gemer de dor no esôfago). Na minha opinião, escritor bom é escritor morto. E seria mesmo bom para a literatura que alguns deles morressem logo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eles fazem parte da pior raça que existe: os escritores felizes, que posam para anúncios de refrigerantes, participam de festas badaladas do gênero, posam de comedores em seus conversíveis figurões por aí, desfilando suas vidas auspiciosas e radiantes e elitistas, com aqueles penteados de quem se lava para dormir depois do sexo. E não escrevem bulhufas, demoram treze anos pra concluir uma novela que seja.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os caras de escrita mais escruchante que eu botei os olhos eram infelizes por natureza, de carteirinha, por predisposição genética, politicamente miseráveis mesmo. Se por acaso você é um escritor feliz, meu amigo, vá a um terapeuta ver o que há de errado com sua cabeça. No duro, depois que você devora a biografia de alguém, deixa eu ver, tipo Thomas Mann, e depois junta os pontos devorando algo dele (como &lt;i&gt;Tonio Kröger&lt;/i&gt;, sabe?) cara, você nunca mais vai querer saber desses sujeitos que jamais sofreram no âmago, seja por quererem comer a própria irmã ou porque foram parar numa solitária apenas por serem secretamente gays em mil oitocentos e qualquer coisa. Esses sim valem suas olheiras. Pode apostar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo assim. Um dia eu ainda entro naquela porra lá. E farei toda a questão de subir numa mesa e gritar para todos o quanto eu sou profundamente triste, mal-afortunado e desgostoso com a vida. Nossa, já posso até ver todos aqueles dentes de ouro sorrindo ironicamente de pura cobiça e veneração. Serei o grande romancista que começou escrevendo diálogos sucintos para a indústria pornográfica. Não vejo a hora, vai ser bonito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&lt;br /&gt;
Não sei ao certo se queria mesmo estar naquele bar de escritores. Mas sei que eu não gostaria de estar aqui, de chegar em casa e sentir esse cheiro de Juliete nas paredes desse meu pobre apartamentinho. Não importa o quanto você lave os lençois ou escancare as janelas, mesmo com todo esse frio que vem fazendo. Está sempre aqui, à espreita como um ladrão de sanidades, me esperando retornar do trabalho para mais uma noite de tormento e sono agitado e falta de apetite. Esses dias esbarrei com uma menina com a mesma fragrância, no setor de pizzas congeladas do Zaffari. Fiquei tão desorientado e saudoso que a segui por gôndolas e gôndolas, até ela estacionar na prateleira onde exibem tofu. Como se eu fosse de comer tofu. Nem em troca de viver cem anos, ainda assim a vida seria curta demais para ingerir tofu. Uma vez Juliete me obrigou a comer tofu. Eu adoraria estar agora jantando tofu. Será que tele-entregam tofu?</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5754992053876497603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5754992053876497603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/06/049.html' title='(049)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-1049229404763549743</id><published>2013-05-15T22:05:00.000-03:00</published><updated>2013-05-15T22:28:22.976-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(048)</title><content type='html'>Os primeiros dias de transitoriedade foram tranquilos e eu nem dei muita bola. Guardava em mim uma arenosa convicção de que ela não conseguiria ir muito longe, sentiria na boca do estômago a falta que sou capaz de fazer e voltaria de pesarosa e com o peito reaberto, se dando conta de que eu não teria capacidade nem de pensar numa sacanagem daquelas. Nada, até agora. Pelo jeito, Baby Julie acha mesmo que faz meu tipo fazer essas incursões transvaginais na maior caradura, debaixo do nariz dela, quase que literalmente. E embora nem eu mesmo saiba direito do que sou capaz ou que tipo de gente eu sou, tenho certeza que não sou tão canalha quanto ela pensa. Ela deve estar agora com um punhado de amigas, num bar, se enchendo de álcool doce e dizendo que sou o desastre ambiental que matou todos os peixes do oceano. Que se dane.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas há pouco achei aquele velho shortinho de brim que ficou orfão na minha gaveta de cuecas para sair. E aí tudo veio à superfície respirar desesperadamente e reanimar as memórias que estavam quase sem oxigênio. Eu amava esse short de brim curto e com uma cascata de farrapinhos se derramando por suas coxas franzinas, e a jaqueta de couro preto por cima de tudo. Atiro a peça no chão e me sinto melhor, com a pouco duradoura impressão de que ela está aqui comigo, fazendo bagunça no banheiro ou escutando baladinhas de surfista no meu computador. É nesse momento que eu crio coragem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela não atende.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela não atende.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela não atende.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela não atende.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela não atende.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Está fora de área.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Está desligado.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Está fora de área ou desligado.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Deixo uma mensagem de voz.&lt;br /&gt;
Eu ligo. Ela atende.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu quase choro de gratidão do meu lado da linha. Ela gentilmente sugere que eu morra. Em seguida bate a ligação na minha cara. O aparelho se multiplica em destroços ao esbarrar na parede fria. Eu pranteio feito um palerma, lágrimas idiotas me escorrem sem autorização, eu choro pelo aparelho, pela parede, pela fome na África, pelos buracos na calçada, pela propaganda partidária na TV, pela minha mãe, por causa de uma garota, porque tem dias que eu me sinto mais sozinho que o usual, por tudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela me liga. Recomenda que eu pare de ligar, e o engraçado que eu já havia feito isso momentos atrás. São três horas sem agir como um garoto maluco, desses que guardam ex-namoradas em freezeres. Tento reverter e consigo que ela me ouça um pouco. Digo a verdade, que não lamento pelo motivo que nos separou, mas pelo rompimento em si. E então acho que Juliete fica curiosa com minha veemência em encontrá-la e explicar tudo, pois grunhe um “Ok”. Ótimo, ótimo. Convido Julie para vir até aqui, mas a garota acha melhor não, e aí sugere um local público como oferta final. Topo, topo qualquer coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;*&lt;/div&gt;Chego ao pub e ela já está lá, com os ombros encolhidos e olhando fixamente para o rótulo da garrafa de vodka inerte em cima de mesa. Sento no outro extremo e logo um garçom se materializa na minha frente, o que considero a deixa pra pedir uma coca gélida e uma dose de Domecq, para que esse papo deslize com facilidade. Assim que o sujeito sai, junto as mãos e as esfrego um pouco, e aí olho pra ela preparando meu discurso pré-fabricado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Espera – Juliete larga na frente. – Olha, antes de você dizer qualquer coisa, deixa eu falar.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Meio que cortou minha onda, mas tudo bem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Ok. Pode falar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela fala:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sabe, eu acho que a gente deveria acabar com tudo isso, logo de uma vez – desembucha a garota.&lt;br /&gt;
– Mas... Como... Por quê? – pergunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vê como é a vida, esses dias eu falava em dispensar Juliete como se eu fosse o novo garanhão a estrelar o próximo &lt;i&gt;007&lt;/i&gt; e agora estou gaguejando como uma pessoa paranoica, carente, culpada e louca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu conheci outra pessoa. – Curta e grossa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É mentira dela. Ninguém conhece ninguém em quinze dias. Tudo bem, pessoas trocam nomes, signos e telefones com outras pessoas em quinze dias, mas o que eu quero dizer é que ninguém me esquece nesse meio tempo. Eu acho. Ela inventou esse camarada para me despistar. Porém, sou tão boboca que começo a acreditar nela, do fundo do meu coração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Que porcaria.&lt;br /&gt;
– Ah qual é, Santiago? Você realmente achava que isto estava dando certo?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ignoro a pergunta. Não interessa. O que interessa é:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Quem é?&lt;br /&gt;
– Não importa – ela se retrai na cadeira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ah importa, e como importa. O mínimo que todos os que já foram enganados deveriam ganhar como ressarcimento é uma descrição precisa e detalhada sobre por quem foram trocados. Dá uma referência para o quão próximo do penhasco você está sendo empurrado. E, sabe, muitas vezes tive notícias de pessoas que se sentiram ofendidas ao serem passadas pra trás por alguém, em tese, &lt;i&gt;pior&lt;/i&gt;. Eu não, ficaria muito aliviado em saber que Juliete está vendo, sei lá, um entregador de pizzas. Nada contra, eu mesmo adoro pizzas e aciono a tele-entrega o tempo todo, a não ser que, claramente, os entregadores de pizza não estão entre os dez estereótipos mais disputados do mundo. Eu odiaria mesmo é saber que ela anda se esfregando num tipão alto, protuberante, com um emprego-dos-sonhos e um cabelo louro e macio, que veste terno escuro em tempo integral. Porque eu sei que jamais vou me erguer a este patamar como indivíduo. Já sobre os entregadores de pizza, bem, há grandes chances de um dia eu me juntar à corporação deles, se eu perder meu pavor de motocicletas. É por isso que eu quero saber quem é o palhaço. Saber que fui trocado por alguém pior me fará sentir infinitamente melhor, sério mesmo. Até posso usar como desculpa que minha ex-namorada está desmiolada ou não soube compreender o homem gentil, austero e nada mesquinho que eu sou, não é verdade?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sabe, Santi... – ela retoma depois de uma breve crise polissilábica e irritadiça da minha parte: – As coisas não andam nada bem entre nós.&lt;br /&gt;
– Só se for pra você – murmuro como uma criança. – Eu estava achando tudo perfeito.&lt;br /&gt;
– É mesmo?&lt;br /&gt;
– No duro.&lt;br /&gt;
– Bem, eu acho que você não está enxergando direito – diz Juliete, antes de deixar um hiato reflexivo no ar. – Engraçado, porque a primeira vez que olhei no seu rosto, vi uma pessoa boa. Nunca me engano com essas coisas. Mas você passou todo esse tempo que estivemos juntos tentando provar que estou errada.&lt;br /&gt;
– Bem, eu...&lt;br /&gt;
– Me deixa concluir – Juliete me interrompe. – Talvez você seja um cara legal, ainda não sei. Só que dá pra ver que você anda meio perdido, sem saber o que você quer, sabe, de mim, da sua vida, de você mesmo.&lt;br /&gt;
– Quem disse que eu não sei o que eu quero? – minha vez de sustar o diálogo. – Mas é claro que eu sei o que eu quero!&lt;br /&gt;
– E o que é? Me diga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Paro por um instante. No entanto, logo desisto e vejo como sou incapaz de pensar em algo que eu queira muito, &lt;i&gt;com devoção&lt;/i&gt;. Então escolho o caminho mais fácil, e vou de “sei lá”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Viu só?&lt;br /&gt;
– Eu quero você, Juliete.&lt;br /&gt;
– Ah, é? E por que todos esses dias sem me ligar? Por que você me deixou terminar o namoro numa boa quando vi aquela cena horrível no sofá daquela festa cretina? Por que eu tenho tantos por-quês na minha cabeça? Por que eu me deixei seduzir pela primeira pessoa que pareceu estar bem aí pra mim?&lt;br /&gt;
– Numsei – balbucio.&lt;br /&gt;
– Bom, se você não sabe então tanto faz. Eu acho que você estava sem medo de me perder. E se você não tem medo de perder é porque não tem importância.&lt;br /&gt;
– Só sei que estou sentindo &lt;i&gt;o medo&lt;/i&gt; agora.&lt;br /&gt;
– É tarde para isso, Santiago. Acorda, cara. O sonho acabou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Me recuso a aceitar uma decisão unilateral dessas. Mas não há jeito, ao que parece. Ela pega a conta e se põe de pé, claramente de saída. Ela acha que a conversa chegou ao fim. Isso é o que ela pensa. Não vou deixá-la sair assim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Baby Julie, eu acho que amo você.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sério, Santiago? Você disse mesmo isso para todo o lugar ouvir? Sim, eu disse, e é a primeira vez que digo que amo alguém e faço questão de que a coisa soe totalmente falsa e desesperada. Foi mais constrangedor do que perder a virgindade. Que jogo mais sujo. Juliete fica imóvel, plantada no meio do bar, com uma mão na cintura e rindo ironicamente e sem humor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você é inacreditável – fala e aí sai porta afora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vou atrás. Ela dá passos largos na calçada, olhando avante, vetando meus chamados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Espere aí, Juliete. Esse papo ainda não terminou!&lt;br /&gt;
– Terminou para mim! – ela berra, enquanto caminha muito mais rápido, quase trotando.&lt;br /&gt;
– Por que as coisas tem de ser sempre como você quer, hein?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estou gritando no meio da rua. Patético.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Juliete! Juliete! Volta aqui!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela sobe no seu Renault e dá a partida. Paralelamente, na calçada, eu começo a perfurar os passantes, atropelando latas de lixo, orelhões e placas anunciando refeições, correndo, correndo, correndo e bravejando atrás da garota, como um cão raivoso se achando o dono da rua. Eu a persigo o mais veloz que sou capaz, gritando e acenando atrás do automóvel, como um maníaco do parque. Ela atravessa um semáforo no vermelho, quebra uma esquina e eu a parco de vista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dou um tempo ali, aos bufos e pigarros, arfando intensamente com as mãos nos joelhos, sentindo gosto de sangue a cada trocar de ar nos pulmões, realmente mal e sem fôlego, como um maratonista derrotado que em algum momento errou o trajeto. Que droga. Se eu quiser recuperar o amor de Juliete, com urgência terei de parar com o cigarro.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/1049229404763549743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/1049229404763549743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/05/048.html' title='(048)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5176325581289493561</id><published>2013-05-01T21:30:00.000-03:00</published><updated>2013-05-02T14:18:56.489-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(047)</title><content type='html'>Alguns dias depois da festa trágica que eu nunca deveria ter topado ir, Larissa – aquela amiga do peito de Juliete – vem buscar as coisas dela sem me dar muita trela e maiores satisfações. Enquanto cruzo meus braços rente à porta e a observo, ela fica distribuindo retalhos e bugigangas entre as várias malas que Juliete foi trazendo uma por uma. De vez em quando ela balança a cabeça e murmura alguma desmoralização indiretamente relacionada a mim, embora não me dirija nem um vinco de seu olhar indignado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Então. Como ela está? – mesmo arriscado a levar uns sopapos de umas unhas com esmalte, acabo perguntando.&lt;br /&gt;
– Chateada, é claro. O que você esperava? – a garota-intermediária me responde a jato, me fuzilando.&lt;br /&gt;
– E o que ela disse?&lt;br /&gt;
– Nada.&lt;br /&gt;
– Não me passou nenhum recado?&lt;br /&gt;
– Não. A Juliete não é muito de se abrir, você deve saber...&lt;br /&gt;
– É. Eu sei.&lt;br /&gt;
– Afinal de contas, o que você fez? Deu uma de idiota, não foi?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não digo nada a ela. O que iria adiantar falar pela milésima vez “Não é o que você está pensando!”? Mas a amiga insiste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Hein, cara. O que aconteceu naquela festa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
[Perto de 1h38]&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Juliete empurra uma porta entreaberta de um dos seiscentos quartos escadas acima. Entra dando passos cautelosos, e primeiro ela sente um fedor de vômito e solvente, e aí vê copos plásticos, garrafas de Amstel Pulse, bitucas de cigarro atirados pelo carpete e uma televisão quase muda exibindo um concerto do Pearl Jam – Eddie vocifera “Jeremy”. Ao levantar as sobrancelhas, me pega com uma garota sem blusa e estirada no meu colo com as pernas por cima das minhas, cobrindo o rosto com as mãos. O nome dela é Lara, ela tem uns dezessete anos, é loira e está bêbada ou chapada, ou ambas condições. Mas Juliete não está nada interessada em saber quem é, ou se ela deu um tapinha ou injetou um galão de heroína. Ela simplesmente sai correndo, sem escutar a parte em que uso um clichê que explicaria a cena.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
Olhando assim, a coisa parece o que não é, eu admito. Não é que eu nem tenha tentado persegui-la, mas aquela menina estava mentalmente surtada e me impediu de deixá-la sozinha. Ficou berrando “Não, por favor, não me deixa aqui sozinha, por favor, fica aqui comigo!” e me puxando pelas lapelas. Sem ação, fiquei. Ainda deu pra ouvir os pneus do carro da minha – agora ex-namorada – silvando numa arrancada furiosa, e então eu pensei comigo: “Porcaria!”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não conto nada para Larissa para não ter de me dar o trabalho de elaborar uma defesa. É uma causa perdida. É óbvio que dei uma de idiota, a minha especialidade. Mas não da maneira como ela pensa. Foi uma idiotice movida não por via de uma mente diabólica, mas por ingenuidade. Caí numa cilada que armei para mim mesmo, no momento em que decidi sair de casa, muito antes de abrirem as portas daquela droga de festa.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
[Pouco antes, uns trinta e três minutos, mais ou menos]&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Um cara me diz:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sai do quarto, garoto!&lt;br /&gt;
– Eu estou procurando uma pessoa – me justifico por estar plantado ali.&lt;br /&gt;
– E você tá vendo ela aqui? – um outro cretino me lança a pergunta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Olho em volta. Não, não estou. Só vejo gente dançando, se amassando ou fumando erva pelos bastidores da festa, outros de pé com cervejas numa mão e a outra no bolso, um cara com uma câmera prateada e pequeninha de tirar fotos, o som alto da televisão vulgarmente gigantesca sintonizada num show de rock, abafando risos esquizofrênicos da sala. Três caras estão amontoados sobre uma garota, consigo identificar pela sapatilha dependurada no pé caindo pra fora do sofá caro. A panturrilha parece enviesada e pêndula, como se ela estivesse desmaiada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu já mandei você sair do quarto, garoto! Não tem nada pra você aqui.&lt;br /&gt;
– Ei, cara. Essa menina está acordada?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eles me jogam pra fora do recinto e dão três voltas na fechadura.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
É o que dá você querer dar uma de herói. A amiga de Juliete quer saber se tem mais alguma coisa, enquanto senta a bundona no topo da última mala, que está abarrotada de coisas e não parece que vai fechar. Dou a ela uma mão, que agradece politicamente. Eu faço careta puxando o zíper e recomendo que dê uma conferida no banheiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Deve ter sido algo bem punk, sabe... – diz Larissa vasculhando as gavetinhas no organizador abaixo da pia. – Porque ela me pareceu bem triste com seja lá o que você aprontou na quinta-feira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dou de ombros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
&lt;i&gt;No corredor, bato na porta louca e violentamente. Passa gente nervosa por trás das minhas costas. Casalzinhos de uma noite. Jogadores de pólo aquático. Filhinhos da mãe. Não me sinto bem. Lá embaixo a galera grita, apaga e acende luzes, finge dançar e fica trocando de música, até achar algo dançante e da moda. Lá dentro ninguém me dá bola. Tento invadir, mas só consigo machucar meu antebraço. “Ei, porra, larguem a menina! Não tem nenhum homem de verdade aí para impedir isso?!” Ninguém me ouve. Peço ajuda a um passante, digo que estão abusando de uma criança lá dentro, mas ele me lança um esgar descrente como se eu fosse doente, e logo desce as escadas procurando mais Smirnoff. “Otário!” berro na nuca idiota dele.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
– Olha, Larissa. Não me leve a mal, mas se eu tenho que explicar alguma coisa é para Juliete. Se ela deixar, é claro.&lt;br /&gt;
– Era o que eu ia dizer. A Ju deixou bem claro que não quer te ver nunca mais. Por isso que &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt; estou pegando os trecos dela. E só eu sei o quanto pra ela é difícil pedir um favor desses a alguém. Minha amiga está realmente puta contigo. Fala aí, que besteira você fez? – a garota faz uma tentativa derradeira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E não tira nenhuma informação de mim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
&lt;i&gt;Alguém resolve sair, e na deixa eu pulo pra dentro. Tem roupas rosadas pelo assoalho e uma calça de brim mal dobrada no braço do sofá. O quarto segue escuro e cheira a hormônios. Todos vão saindo fora, encarrilhados num trenzinho humano que quase me atropela, todos atrás de mais bebida, fumo e confusão. O babaca-mor me dá uma ombrada intimidante:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Deu, garoto. Já terminamos o que estávamos fazendo. Foi mal, não tinha lugar pra mais um. Mas você vai poder assistir na internet depois. Ela é toda sua, trouxa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só não apunhalei o nariz daquele cretino porque eu ia tomar uma surra coletiva no minuto seguinte e sairia daquela farra muito pior do que entrei, com uma hemorragia ou algo assim encobrindo meu mau humor. Mas estava endiabrado de raiva, enjoado do estômago, incrédulo na humanidade, essa raça rastejante, egoísta, obscena e transbordando caprichos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando o quarto esvazia como a descarga de um vaso sanitário público sendo disparada, posso ver a garota abandonada no sofá, desmazelada embaixo da manta que originalmente decorava o sofá. Após esconder um dos peitos miúdos que estava exposto, a chamo e cutuco a menina, que abre os olhos narcóticos por dois segundos, dá duas voltas no ambiente com as pupilas letárgicas e apaga outra vez.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
Tudo pronto, já na calçada, surge uma trégua no espírito aborrível de Larissa, que deixa escapar um conselho ou uma recomendação ou uma pista, não sei, do que eu deveria fazer:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Olha, desculpa falar assim, mas não acho você adequado pra ela. Aliás, sendo honesta, eu nem gosto de você. Mas isso não importa. Ela gosta, não entendo bem como, mas gosta. E eu nunca tinha&amp;nbsp;visto minha amiga tão feliz quanto nessas últimas semanas. Do jeito dela, claro, mas feliz. Mesmo você sendo assim, tão pé-no-saco. E eu não posso&amp;nbsp;pensar em&amp;nbsp;nada que tenha mudado na vida que ela já tinha, a não ser você. Aí você deu uma de idiota e ela fugiu, paciência, ninguém acerta tudo. Mas se você não for atrás, vai dar uma de idiota pela segunda vez.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E então ela me dá um tchau sem muita cerimônia, assim que termino de encaixar toda a bagagem na traseira de um Chevrolet espaçoso e bacanudo. Ela mesma abaixa o capô e se despede civilizadamente de mim. Pela sua cara, enquadrada na janela do carro vinho rosnando pronto pra partir, eu não vou ver Juliete de novo. Espero o automóvel vencer a esquina e volto para o meu quarto vazio como há tempos não via. Ele parecia tão pequeno poucos dias atrás.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5176325581289493561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5176325581289493561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/05/047.html' title='(047)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-8317745370652781299</id><published>2013-04-18T23:16:00.001-03:00</published><updated>2013-05-01T20:46:13.608-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(046)</title><content type='html'>Em casa. Ela chega mais tarde, um pouco. Escuto todos os barulhos que Juliete se dá o trabalho de fazer, mas sigo fingindo que não estou nem aí. Tenho os olhos grudados num episódio de &lt;i&gt;Everybody Loves Raymond&lt;/i&gt; na TBS, o qual já assisti umas duzentas vezes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Oi. Boa noite. Cheguei – ela se anuncia, pisando leve no assoalho.&lt;br /&gt;
– E aí? – respondo sem me privar da tevê.&lt;br /&gt;
– Eu.. estava... com o Maurício – diz, num tom de voz tenso e meticuloso, que sugere prestação de contas. Maurício até ontem era o ex-namorado escroto dela. Agora não sei.&lt;br /&gt;
– Legal – balbucio. – Vocês vão voltar?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela bufa. Vai ver queria um escândalo, um sintoma de possessão, amor e insegurança. Não entro na dela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você &lt;i&gt;quer&lt;/i&gt; que eu volte pra ele?&lt;br /&gt;
– Tanto faz. O que for melhor pra você – dou de ombros, me ajeitando na poltrona.&lt;br /&gt;
– Às vezes parece que é isso que você quer, sabia?&lt;br /&gt;
– Como se o que eu quero fosse levado em consideração num caso desses. Eu querendo ou não, você vai voltar com ele, se decidir que é isso que você quer.&lt;br /&gt;
– Se eu não voltei ainda não foi por falta de convite. Ele estava praticamente rastejando atrás da mesa.&lt;br /&gt;
– E vai ser por que, então? – pergunto, pela primeira vez virando meu pescoço para encará-la.&lt;br /&gt;
– Nossa, você é tão estúpido e babaca! Sabia que você é um infeliz amargo de bosta, Santiago?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sabia, é claro. Sei quase tudo sobre mim. Julie, furiosa, bate a porta e se tranca no banheiro, após revirar umas coisas numa das três prateleiras que ela surrupiou do meu roupeiro na maior caradura. E nessa hora Ray Romano larga uma de suas metáforas esportivas impagáveis e eu estou me sentindo mal demais para rir pela milésima vez. Ela diz que sou amargo e infeliz e babaca como se fosse fácil. Ninguém sabe o duro que eu dei para chegar a esse esplêndido patamar de sofrimento e desgosto e autopiedade. Às vezes me pego de saco cheio de ser tão infeliz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Três quartos de hora depois, ela finalmente se desentoca. Sabe, eu estava recomposto, surfando numa onda amistosa, me sentindo pronto para fazer as pazes, o que no meu caso é quase um nirvana. Mas sou obrigado a mudar de planos quando vejo que Juliete está vestida para matar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
Fato: não me sinto confortável em festas. Aniversários, formaturas, jantares, bota-foras, bailes de casamento, anos-novos, baladas, orgias (embora ainda não tenha participado de uma, sei que vou pôr defeito em tudo). Não consigo fugir de me sentir meio mongol nessas situações, e normalmente passo a noite parado num canto, abraçado num pilar feito um ursinho coala que esqueceu de tomar o anti-depressivo e só quer voltar o quanto antes para seu galho na árvore. Fico ali, matutando pensamentos darwinianos e admirado com o potencial que as pessoas têm para ser frívolas, esnobes e dissimuladas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas mesmo assim tive um acesso de hipocrisia aguda quando vi Juliete de vestido azul acentuando aquele quadril campeão do mundo, e elegendo brincos refinados claramente para sair pela noite. Foi aquela coisa: “Mas você não gosta de festas!”/”Mas custava você me convidar?” e o resto você sabe. Enfiei umas calças e me dei o trabalho de passar a ferro aquela camisa que normalmente potencializa minha autoestima, em casos de urgência. Fui junto na tal da festa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
*&lt;/div&gt;
Depois que o fervor sanguíneo vai descendo ao nível da minha tireoide e a brisa me acalma, é que me dou conta. Juliete está linda, assim um pouco mais arrumada do que tenho a visto nas últimas semanas. O moletom da Hello Kitty deu lugar a saltos que a deixam mais alta do que eu. Ela fez um negócio no cabelo, meio que duas tranças frontais bem fininhas que se encontram na nuca e parecem segurar toda a estrutura capilar. Parece uma neo-hippie ou coisa assim. Ela toca a campainha e eu seguro a garrafa de José Cuervo que trouxemos, à medida que não consigo parar de me sentir um par inadequado para ela. É certo que a turma lá dentro vai notar. Talvez até me apontem e gargalhem baixinho quando eu passar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Demoram três décadas para atender a porta e minha perna não para de sacolejar. Minha garota se vira pra mim, ajeita uma das minhas mechas e levemente encosta dois dedos nos meus lábios, num beijo simbólico, para não estragar o batom.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu te amo, Santi.&lt;br /&gt;
– ... – (Glup!)&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Antes que eu me decida sobre como responder um troço desses à altura (“Eu também? Obrigado? Como assim me ama, mulher?”), um rosto largo, muito louro e muito maquiado e muito sorridente finalmente nos abre a porta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É um casarão de dois andares, com espaço amplo e enormes janelas envidraçadas que dão uma visão panorâmica para um jardim fantástico e uma piscina ornamental. À minha direita tem um bar equipado onde preparam coisas com gelo e à esquerda há uma sala rebaixada em dois degraus, com extensos sofás de couro branco e almofadinhas de cores vibrantes, cheios de gente com roupas caras pra burro e óculos estranhos, todos sentados em cima e emitindo opiniões. Me sinto num episódio da primeira temporada de &lt;i&gt;The O.C.&lt;/i&gt;, o que não me anima muito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É batata. Com cinco minutos de socialização, já estou isolado de costas para uma parede na companhia de uma planta verde e empinada, enterrada num vaso chique – gostei dela porque foi o único ser vivo com o qual me identifiquei de imediato –, com um copo plástico meio cheio de cerveja quente que um fanfarrão me enfiou nas mãos. Tudo me indica estar no corredor que dá para um banheiro, acho eu, ao constatar que volta e meia garotas passam em duplas de bracinhos dados, com seus vestidos curtos e suas meias-calças e seus perfumes enjoativos de morango e outras padronizações. Elas me analisam com olhares forçando sensualidade, decerto me achando exótico como um lêmure almoçando restos na praça de alimentação de algum shopping da Zona Sul. Eu não sei quem é quem. Com seus penteados, roupagem e sapatos todos iguais. Parece que antes da festas todas se combinaram de se arrumar juntas e foram expelidas de uma máquina de fazer sorvete do McDonald’s. Casas grandes e lindas e cheias de janelas. Mas sem mobília e nem jardim. É assim que enxergo a maioria das pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há seis metros da minha localização, Juliete conversa num grupinho faceiro de amigos e amigas que eu nem imaginava que ela possuía. Ela nunca me fala de ninguém, exceto daquela Larissa que conheci no Eddie’s Bar, que na avaliação dela é a menos superficial de todas as suas poucas amigas. É a primeira vez que tenho contato com a vida no planeta dela, até hoje só tínhamos nos relacionado na minha confortável zona onde fico retido e entrincheirado contra tudo e contra todos, e agora posso entender por quê. Ela queria adiar o máximo esse sentimento de humilhação e labirintite que agora está tomando conta de mim. Num momento de distração, me pego trocando todos os livros que eu li, de &lt;i&gt;O Grande Gatsby&lt;/i&gt; a qualquer coisa do Hemingway por toda a pompa circunstancial dessa galera. Já não sei quem é o imbecil aqui, eles ou eu, talvez seja a cerveja.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E esse é meu modo de curtir a festa. Secretamente invejar seus carros estacionados, seus abdômens, seus cabelos lisos, seus pais médicos ou empreiteiros ou super-heróis, seus diplomas, suas experiências sexuais, seus espíritos ignorantes e leves e despreocupados com o futuro, suas viagens, seus Apple, seus fígados. E esta é a pior parte da minha vexação e rebaixamento: não é porque sou pobre, normal e apático e eles são ricos, tatuados e risonhos. É porque uma parte de mim, talvez só uma ponta, quer se juntar a eles e deixar pra trás tudo que eu sou, meu gosto musical e fílmico, as garotas com quem saí, os lugares por onde andei, meu temperamento macambúzio que tanto descontenta Juliete (eu adoraria estar apto a fazê-la mais feliz e dizer coisas como eu te amo com facilidade). E isso é péssimo. Eu me sinto como Mogli desapontando toda uma alcateia de lobos que me criou, fazendo esse esforço para ser feliz e ajustado nesta nova civilização a que estou sendo introduzido – estuprado, quase. Onde foram parar meus ideais, meus princípios, minha origem, peraí, onde foi parar Juliete?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aquele grupinho se dissipou, ela não está no banheiro, nem no bar, tampouco na sala de estar e nem no entorno da piscina. Me dá uma coisa no baixo-ventre que sobe até minhas pálpebras, que sofrem tremeliques de pânico. Perdi minha namorada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;continua...&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8317745370652781299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8317745370652781299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/04/046-e-12.html' title='(046)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-8103141281823852607</id><published>2013-04-04T12:00:00.001-03:00</published><updated>2013-04-05T11:39:11.999-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(045)</title><content type='html'>Estou uns vinte minutos parado em frente à minha casa, com medo de entrar. Juliete está lá, é o que posso presumir a partir da lâmpada acesa e das imagens distorcidas que a tevê está projetando no teto do meu quarto, no segundo piso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por que não quero entrar, que bobagem é essa? Você deve estar perdido no meio da história, mas acredite, eu também estou. Faz dez dias, eu disse &lt;i&gt;dez dias consecutivos&lt;/i&gt; que a garota aparece aqui, dorme na minha cama, sai para fazer compras e resolver burocracias, come da minha comida, puxa da minha descarga, ocupa minhas prateleiras, tudo como se um homem e uma mulher sob o mesmo telhado fosse uma coisa natural, como se fosse uma vontade de deus uma coisa dessas. Não sou especialista em mandamentos bíblicos e esses troços, mas se foi mesmo deus quem teve a ideia, bem, o todo-poderoso é outro que esqueceu de falar comigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não lembro de ter a convidado, não lembro de Juliete sugerindo morar no meu quitinete. Ela simplesmente... &lt;i&gt;vem&lt;/i&gt;. Abre a porta, fecha a porta, guarda a cópia da minha chave na bolsa, traz um pacote com mantimentos, cada dia uma sacola com mais roupas e sapatos e acessórios, limpa meu vaso sanitário, espana minhas coisas, junta meus calções de dormir, esconde meus cinzeiros, tira minhas pantufas do caminho e quando chego em casa, pelas seis ou sete, não acho mais nada do que é meu. E se ouso tirar alguma dúvida, ela me manda calar a boca porque está passando uma cena importante na porcaria da novela; parece que o filho de alguém descobriu que biologicamente é filho de outra pessoa. Ó, céus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tudo bem, confesso não ter apagado uma conversa remotamente a respeito disso. Lá pelo terceiro ou quarto dia, não sei, insinuei cheio de impaciência que tomasse o caminho de casa. Ela deixou escapar que meio que saiu de lá fugida, num surto de independência contra seu pai. Aí quem surtou e teve uma crise de histerismo fui eu. Como ela toma uma atitude dessas? O que ela ia fazer agora? Para onde iria? Com que dinheiro? Essas coisas. Juliete me mandou respirar dentro do saquinho pardo de farmácia em que ela trouxe o contraceptivo do mês, falou possuir uma boa grana que o seguro de morte da mãe dela depositava todo dia primeiro até os vinte e cinco anos, e fora ainda uma parte da loja da família. Não ia morrer de fome ou congelada numa calçada, toda coberta de jornais. Só precisava de um tempo, já estava até tentando descolar um apê pra alugar. Calma, Santiago.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E mais. Chorando, disse que largou tudo por minha causa, isso mesmo, ela disse “não tenho mais ninguém com quem contar, você é tudo que eu tenho”, com mais ou menos essa construção frásica. Largou o namorado de anos, o pai não viu a ruptura com bons olhos, a mãe morta, o irmão drogado, as amigas superficiais, o resto da família todos uns idiotas hipócritas e ela está sozinha nesta porra de vida. E eu, que achava já ter entrado em pânico, quase tive uma ausência cerebral nessa parte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas a aninhei contra meu peito apertado, devo ter dito que tudo ficaria bem e assenti com um silêncio aterrorizado, o que eu podia fazer? Mas uma coisa eu sabia. Se &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt; sou tudo o que ela tem, ela está seriamente fodida, muito mais do que pode imaginar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;*&lt;/div&gt;Dez dias, cara. Dez dias dormindo com a mesma garota é um recorde pessoal (u-hu). Em toda minha biografia nunca pensei que o velho Santiago fosse capaz de uma proeza assim. Eu estou crescendo, tomando corpo, posso ouvir o som de cada célula do meu corpo amadurecendo com muita lentidão. Estou me tornando um homem, como diz minha mãe. Talvez.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Dez dias, sabe? Dez dias de sexo e brigas, e aí mais sexo e mais brigas. Brigamos porque dei a entender, segundo ela, que não estávamos namorando firme e oficialmente. Brigamos por que meu apê não fornecia creme rinse e eu caí na besteira de dizer que aquela bosta não funcionava, era só leite (foram duas horas discutindo os avanços da indústria cosmética). Brigamos por causa da vizinha da frente, Juliete quis saber se eu já tive algum lance com ela e eu tive de jurar entre cem e duzentas vezes que não. Brigamos pelo controle-remoto. Brigamos porque fui fumar na janela, muito puto por ter perdido uma ereção mesmo cheio de vontade, e Juliete vem me dizer que lá num livro de psicologia isso era uma coisa boa, significava que eu gostava dela realmente – mandei que fosse à merda. Brigamos porque falei uma coisa docemente e tentando soar romântico, e ela levantou a hipótese de que eu uso o mesmo artifício com todas. Brigamos por causa de cigarros, de pés descalços, de vinhos servidos sem requinte, alho demais na comida, porque ela não era uma boneca inflável, porque não ligo para minha mãe, porque não faço a porcaria de uma faculdade, porque não esperei ela dormir antes de me virar para o outro lado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vou te dizer, Juliete não é bolinho, que garota mais dificultosa, ô personalidade, vai ter temperamento assim na China ou no Canadá, mas não nos dois trópicos ao mesmo tempo, em tão curto espaço de minutos. Numa noite ela estava oscilando tanto entre humores que iam do picante ao adocicado que sua bipolaridade foi o mais próximo que já cheguei de um &lt;i&gt;ménage à trois&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas, sei lá. Se eu não brigasse com ela todos os dias eu ficaria em casa sozinho, lutando contra mim mesmo, de toda forma. É bom ter com quem bater-boca. Você se sente quentinho por dentro, parece até que as coisas importam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;*&lt;/div&gt;Estou num botequim atravessando a rua, bem em frente de casa, entre um estacionamento e um lugar onde forram sofás. Faz um frio obsceno e estou sem uma jaqueta adequada, o que me obriga a pedir doses de Domecq a sete dinheiros quando eu poderia, se não estivesse apavorado, consumir das minhas próprias doses caseiras de graça, das minhas velhas garrafas quadradas e melecadas. Eu já disse que está frio? Pois é, às vezes chega a ser ridículo o quanto pode esta cidade ficar gelada e úmida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dobrando a esquina vem aquela menina com uma blusa de lã horrorosa (em algum lugar uma criança não está conseguindo achar o Wally no cenário, pois ficou descaracterizado após roubarem seu suéter) e aquele cão fedido se arrastando numa coleira. Ela espera pacientemente ao passo que o bicho fareja canteiros e saiotes das portas residenciais que dão para a calçada. Ela tem um ar catastrófico, sensual e infeliz. Anda cabisbaixa e parece não saber direito onde pisar, onde olhar, o que dizer, que roupa vestir. Dá pra ver de longe que ela se acha feia, gorda e inadequada para um comercial de cerveja. Fico a observando enquanto seu melhor amigo derrama litros de mijo sobre um amontoado de flores azuis. Ela me vê, me acena com o queixo e sorri polidamente. Eu bato continência e dou outra bicada no meu copo. Tábata entra no prédio e eu penso em seguir o exemplo, só que não estou muito a fim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Você também não se pergunta, às vezes, se tem coragem de viver realmente tudo isso que você sonha?</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8103141281823852607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/8103141281823852607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/04/045.html' title='(045)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-4161810913939318279</id><published>2013-03-27T15:16:00.000-03:00</published><updated>2013-03-28T09:17:45.031-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(044)</title><content type='html'>No dia seguinte, quando chego no Sta. Gemma Café, já não me sinto fraco e nauseado e sim, faminto. Peço que me levem a maior xícara de café-com-leite que a gente tem e um misto-quente. Tenho uma estreita mesa de trabalho, de onde administro as rotinas pé-no-saco do café. É decorada por mim mesmo com primor – há papeis espalhados, um computador encardido, um porta-canetas com várias Bic&#39;s imprestáveis e uma xícara com restos dos chicletes que não estão me ajudando a parar de fumar. Fica no escritório apertado, na última porta do corredor, onde o zumbido dos clientes não enche muito minhas orelhas, e de frente para a sempre vazia mesa da proprietária, que é ocupada na maioria das vezes por Rafaela, quando não tem mais o que fazer na copa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Que livro é esse aí em cima? – Rafaela me pergunta.&lt;br /&gt;
– Você curte livros?&lt;br /&gt;
– Alguns – responde.&lt;br /&gt;
– Conhece Albert Camus?&lt;br /&gt;
– Nunca ouvi falar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reporto a ela que &lt;i&gt;O Estrangeiro&lt;/i&gt; é sobre um rapaz que atira num árabe meio sem querer, porque se atrapalhou com a luz do sol. Ela não entende bulhufas e eu me frustro ao explicar, pois igualmente não peguei muito bem a história, de modo que a gente deixa pra lá. Não quero falar sobre isso, com Rafaela e com ninguém. Estou num clima de bem-estar romântico e pretendo espremê-lo até o limite, como uma esponja de cozinha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário da noite passada me distrai a manhã toda e eu fico repassando tudo na minha cabeça, como se fossem falas de uma peça teatral que repetirá a sessão esta noite, mesmo sabendo que ao chegar no meu apartamento, Juliete já terá ido embora. (Eu não quis acordá-la tão cedo, de modo que deixei uma chave da porta no bidê, por sobre um bilhete seco e desajeitado que terminava dizendo que nos veríamos por aí, já que ela precisaria devolver minha cópia reserva de toda forma.)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Geralmente adoro quando algum freguês idiota pede pra falar com o gerente, me sinto um pequeno poderoso, mas hoje estou mais a fim é de ficar no meu canto, entretido com meus pensamentos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu pedi um chá de camomila e veio com gosto de pé – reclama uma moça de cabelos crespos e ruivos, meia-idade, olhos afundados como quem não dorme bem há oito anos.&lt;br /&gt;
– De pé?&lt;br /&gt;
– É, de pé.&lt;br /&gt;
– Vou pedir para que tragam outro...&lt;br /&gt;
– Não, eu já pedi. Veio com gosto de pé também.&lt;br /&gt;
– O que você quer, então?&lt;br /&gt;
– Vocês podiam lavar melhor essas xícaras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Viu só todo o tipo de troço que eu tenho de aguentar sorrindo? Mas hoje, especialmente hoje, estou contente demais para me aborrecer. Retorno ao meu posto e jogo os pés por cima da mesa, observando a pequena claraboia gradeada que dá para rua. É o primeiro dia realmente frio do ano. Enquanto penso em Juliete, consigo controlar minha vontade do cigarro inaugural deste que é um dia belo demais para fumar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Combinei assim, comigo mesmo: se eu acender o primeiro do dia cada hora mais tarde, em três semanas mais ou menos conseguirei parar completamente. Mas a grande questão, a mais urgente e significativa, o meu “ser ou não ser” tabagista, é: por que parar? E não de que jeito fazê-lo. No duro, não é como se eu tivesse alguém especial me vigiando porque está pensando em passar o resto da vida comigo e é importante que eu dure um bom tempo sem enfisemas, disfunções eréteis, gangrenas e outras moléstias fotografadas para o verso dos meus maços de seis dinheiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto enfio mais um daqueles milagrosos chicletes de merda na minha boca, relaxo um pouco mais na minha cadeira de gerente e penso em quem seria essa pessoa. Onde vou conhecê-la? Será que o Joel vai me apresentar alguém? Uma garota dos tempos de escola em Pelotas? A jornalista que irá me entrevistar quando eu finalmente publicar um livro? Será que eu já sei seu nome? Será que até já tive a oportunidade de me doar e acabei ferrando com tudo? É possível, as coisas não deram muito certo com Sarah, muito porque durante todo o nosso relacionamento de onze dias eu fui, você sabe, Eu Mesmo, e isso seria ótimo – se eu fosse outra pessoa, um alguém legal, paciente e carinhoso; e não essa criatura distante, inquieta, descompromissada e com esse dom natural de sempre cagar com tudo.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Sei que Juliete não é, isso eu sei. Mas de qualquer jeito não deixo de pensar em como seria, e é desse jeito que eu preencho meu inútil dia de trabalho. Eu a pediria em namoro ou nos veríamos obrigados a aceitar a condição porque ela ficou acidentalmente grávida? E qual seria o nome dessa criança? E o que pai dela acharia de tudo isso? Talvez ele me oferecesse uma posição confortável em uma de suas empresas, ou um apartamento maior para morarmos, ou uma viagem à Grécia, eu sempre quis conhecer a Grécia. E é isso, o dia todo, e quando vejo estou mexendo com situações maritais e barrigões absurdos e insônias e a conta das aulinhas de natação chegando mensalmente. Eu deveria estar ainda no estágio das mãos dadas no parque, na pipoca dos cinemas e dormindo de conchinha nas noites de agosto. Mas não pareço muito capaz de frear meus devaneios em se tratando de Juliete.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pelas cinco da tarde juntei minha mochila, olhei pra todo mundo e larguei um “até amanhã”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Nem a vi entrar, quando dei por mim, seus cabelos longos e negros como treva estavam fazendo cócegas na minha face sonolenta. Descolo as pálpebras lentamente e ela está ajoelhada ao meu lado, me olhando expressivamente, acentuando seu apego.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Isso são horas para estar dormindo? – me questiona, desabotoando o sutiã às costas, na direção do banheiro, decerto indo para uma ducha no meu chuveiro.&lt;br /&gt;
– E que horas são essas? – respondo com outra pergunta. Minha cara está pesada e tenho os lábios grudentos. Acho que estava na terceira camada de sono.&lt;br /&gt;
– São oito da noite – Juliete replica. – Levanta, vamos comer alguma coisa.&lt;br /&gt;
– Passei a noite em branco, se você não sabe – digo.&lt;br /&gt;
– É, sei como é. Esqueceu que eu estava junto? Você precisa largar de ser preguiçoso, Santiago. Fazer coisas de gente. Sair com seus amigos ou, sei lá, fazer andar de bicicleta – grita Juliete, audivelmente fazendo xixi, de porta arregaçada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então é nisso em que se transformam as noites mágicas de paixão adolescente e sexo brutal, depois de um tempo? Ficar ouvindo reclamações, barulho de máquina de lavar e som de mijo? Não, muito obrigado. Em termos reais, a verdade é que a ideia de um relacionamento fixo e duradouro me causa alguma repulsa. Por que alguém ia querer uma coisa dessas?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E outra, vai ser assim a partir de agora? Eu não terei a cópia da minha chave de volta? Juliete vai ficar entrando e saindo do meu apê o tempo todo? Se for assim, daqui a pouco nossos beijos aquosos e linguarudos subindo as escadas vão se transformar em selinhos insossos de “oi, como foi seu dia?” Não posso deixar isso acontecer, ela precisa ir embora e deixar a cópia em cima da mesa. Como vou executar esse plano sem magoá-la?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Me infiltro embaixo da água corrente. Gosto de ver Juliete nua. Ela percebe minha ereção e minha feição gananciosa, e, de forma meio improvisada e estabanada, acaba me dando no cubículo que é meu box. Esse tipo de coisa que ela faz me pega.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, me dou conta de que estou numa fase de negação, quando pela primeira vez tudo parece que pode funcionar entre nós. Eu me sinto como aqueles caras que morrem soterrados de frio após planejarem anos escalar o Everest, ou aqueles fãs que esperam décadas sua banda predileta desembarcar na cidade e aí não conseguem ingresso. Não estou preocupado com a regularidade alarmante de sua presença. Mas com as noites em que ela resolver não vir. É por isso que espero devolução da minha chave, do controle sobre mim mesmo. Não quero gastar minhas horas e créditos telefônicos querendo saber se hoje ela vem ou não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Enquanto tenta me convencer de que preciso de um fogão que não vaze gás, vamos apagando as luzes e catando nossas chaves, telefones, carteiras, bolsas e casacos. Juliete decidiu ir até a esquina comer sanduíches de peru desfiado com molho rosé num piano bar aonde falei que a levaria lá uma noite dessas, pois já me sinto em casa e sei o nome do dono.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando estamos cerrando a fechadura, a porta do vizinho frontal se abre de repente e revela um rosto sôfrego e conhecido. É aquela garota, a Tábata, com o punho fechado, os pés emparelhados e estacados no chão e um esgar fantasmagórico. Acho que ela estava à espreita de que algum ruído no corredor entregasse que eu estava de saída para então falar comigo novamente. Vai ver ela esqueceu algo no meu apartamento, um brinco ou coisa assim, embora não me lembre de brincos naquela noite. Muda, ela entra por onde saiu e fecha a porta atrás de si, após analisar Juliete por uns dois segundos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Garota estranha.&lt;br /&gt;
– Nem me fale – concordo com ela.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4161810913939318279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4161810913939318279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/03/044.html' title='(044)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-2338995580868950551</id><published>2013-03-14T16:06:00.000-03:00</published><updated>2013-03-14T16:06:46.734-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(043 e 2/2)</title><content type='html'>– Preciso da sua ajuda – Juliete me cochicha, enrolando suas pernas ao redor da minha cintura.&lt;br /&gt;
– Para o quê?&lt;br /&gt;
– Controlar o meu desejo.&lt;br /&gt;
– Não conte comigo – e dou um risinho cretino. – Mas por que você ia querer fazer uma coisa dessas?&lt;br /&gt;
– Porque eu sei que mais tarde você vai dar um jeito de me mandar embora e vou descer as escadas me sentindo uma coisa-nenhuma.&lt;br /&gt;
– E quem disse que vou te mandar embora? Eu nunca te mandei embora. Quando eu te mandei embora?&lt;br /&gt;
– Calma – me pede. – Não diretamente, mas você sempre arruma um jeito de me deixar desconfortável e me sentindo intrusa. Pareço meio tantã das ideias, mas pego bem os recados do ar.&lt;br /&gt;
– Você está é estragando o clima com esse papo, Baby Julie... – aviso.&lt;br /&gt;
– Bola fora minha. Desculpe. Vem... – ela me puxa pelos cachos caindo sobre a nuca, e eu deslizo por suas pernas arregaçadas e suspensas no ar, me afundando na hospitalidade macia da sua pelve. Ela junta seus dois pezinhos na minha lombar, cadeando meu tronco num círculo perfeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desta vez não é um sonho. Embora se manifeste igual a um, eu sei que essa sensação de delírio e desatino é efeito da dopamina ensopando todos os cantos do meu cérebro. Enquanto meu corpo se diverte eu sei que a minha cabeça está em apuros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estamos numa pequena capital latino-americana, certo? Mas dá muito bem pra esquecer esse detalhe geográfico. Parece que fomos recortados do quarto de um hotelzinho barato na zona central da Paris dos anos 1930. Estamos juntos não apenas por um encaixe de mãos, peles, bocas e genitálias, mas por uma fantasia – uma utopia, talvez? – de que não pertencemos ao mesmo nível planetário que os outros, como se não fôssemos os mesmos mortais, compartilhando o mesmo tempo. Não sei se o sexo por si só consegue dar um nó desses. Pode ser outra coisa. Estamos ligados de um jeito que eu ainda não entendo. E eu odeio quando sou incapaz de compreender alguma coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Definitivamente, agora sim, não estou viajando como aconteceu em algumas noites em que adormeci pensando nela, após beber conhaque demais sentado na minha poltrona. É fato. Sei porque, há pouco, estava mordiscando uma gordurinha flácida e saliente na parte interna da sua coxa, como se fosse alcaçuz. E as garotas que aparecem em sonhos não têm esse tipo de coisa. Nem esse cheiro e nem esse gosto e nem essas manchas arroxeadas na lateral das nádegas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então eu paro o beijo no meio e tiro meu corpo de cima, porém por uma boa causa. Desligo a tevê e boto um disco de jazz pra tocar. A função aleatória escolhe “Embraceable You” para começo, como se adivinhasse minha vontade. Alguns segundos permaneço de pé, franzindo a testa de olhos fechados, envergando o pescoço e com o indicador em riste, fingindo conduzir com maestria o saxofone do lendário Bird. Da cama, Juliete gargalha ridicularizando o que ela define como “música de velho”. A estúpida entrega que nunca alugou qualquer coisa do Woody Allen.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Volto apressado para as cobertas e retomo o que eu estava fazendo, e a comunicação verbal é novamente interrompida. Manuseio os gambitos de Juliete como bem entendo, os levanto, os fecho, abaixo, abro e chupo meu lugar favorito em todo o mundo, com a mesma estima e dedicação que Charlie Parker tira o som daquele instrumento. Ela estende o braço e agarra forte meus cabelos ensebados pela raiz, suas unhas esfolam meu couro e não digo nada, resisto concentrado, mas ela segue os puxando, oscilando força e cuidado, sofrendo uma série de solavancos pélvicos à medida que suas reações de prazer, desconforto, transe e agonia competem entre si.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– Você gosta? – me pergunta, assim que passo minha atenção para o próximo brinquedinho.&lt;br /&gt;
– Do quê?&lt;br /&gt;
– De fazer isso? Quero dizer, você não sente, sei lá, repulsa?&lt;br /&gt;
– Não há nada no seu corpo que eu não ache bom.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isso, isso aí, exatamente aí! É disso que eu estou falando. Você pode chamar como estiver a fim, de química, epiderme, fusão de almas, paixão, amor, blá-blá-blá, ou qualquer outro termo que soe super-sexy saindo da boca de um&amp;nbsp;Patrick Swayze&amp;nbsp;e super-brega se pronunciado por um cidadão comum tal eu sou. Mas é aí mesmo, é isso que estamos procurando quando vamos pulando de garota em garota, transformando as relações numa selva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estamos todos atrás do verdadeiro tesão (o tamanho do “T” sim é que é documento), de alguém de quem aceitamos de bom grado todos os seus fluidos. Certa altura, ela sussurra “Santiago, faz assim” ou “Santiago, eu quero assado” e eu a obedeço, claro, e essa é a diferença – dela, para as outras com as quais já me deitei com as roupas no assoalho. A maioria dos homens quer exclusividade, uma vagina que eles possam chamar de minha, mas isso de possuir é subjetivo e pouco importa. O que importa é ganhar aquela olhadinha livre-arbitrária de “Veja, eu não estou aqui apenas para me masturbar com a sua ajuda, &lt;i&gt;eu realmente quero dar pra você&lt;/i&gt;. PRA VOCÊ!”. Bem, aí é o auge, depois disso você não vai mais querer saber de outra coisa. O resto não passa de acrobacias, ereções e lubrificações. Ou, como diz meu amigo Marcus, “sexo de farmácia”. Não havia compreendido bem o termo, até agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Olha, ela poderia estar em qualquer lugar do mundo – é sério, ela tem recursos pra isso – e optou por estar aqui nesse continente, em Porto Alegre, perto do centro, nesse quarto apertado. E não é impossível imaginar que ela tenha uma listinha na bolsa nomeando onze ou doze sujeitos que poderiam fazer meu papel numa boa. Mas está comigo. Sim, isso aí mesmo, &lt;i&gt;comigo&lt;/i&gt;. COMIGO! Eu tenho sorte, não tenho? É claro que tem Santiago, até o dia em que você vai cair em si e perceber que essa mulher arruinou sua boa vontade para qualquer outra fêmea cansando de te esperar no futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estamos de cara para a lua. Eu fiz tanta força que cruzamos toda a extensão do colchão e fomos parar na cabeceira, próximo à janela. Ela debruçou os cotovelos, inclinou o tórax e eu não a soltei nenhum milímetro, continuei a pegando por trás, abraçando suas costas, ora sentindo a nuca com cheiro de suor, ora admirando seu cóccix. Mexi no interruptor e ficamos no escuro, assim ninguém poderia nos ver lá de fora, nem quem passasse a pé ou de ônibus, e nem o senhorzinho jantando solitário no prédio da frente, dois andares acima.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto escutamos o som degradê do jazz ejetando do aparelho de CD, nossos corpos produzem estampidos ao esbarrar um no outro e a gente alterna feições de dor, de medo, de êxtase, com sorrisos maliciosos e deboches direcionados para a vida imbecil que todos estavam levando, no mesmo momento em que fazemos essas safadezas apaixonadas, com a claridade nebulosa e amarelenta do luar em nossos rostos. Duvido que, algum dia, eu participe de uma cena mais romântica do que essa. Ponto para o cinema, que nos deu referências a respeito de que tipo de careta devemos fazer, e que som fica bem emitir, e como nos comportar numa situação única como essa. Obrigado, Patrick Swayze, sério mesmo cara, de todo o meu coração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caímos no mesmo lado da cama, Juliete por cima. Suarentos, avermelhados, ofegantes e levemente ruborizados com as coisas que acabamos de praticar, mas ainda assim felizes e satisfeitos com nosso desempenho entrosado (tanto que não seria surpresa a qualquer momento receber um telefonema de algum secretário de Eros, nos cumprimentando). Tomamos o cuidado de não manchar o lençol, e na falta de um pedaço de papel higiênico, eu ofereço minha camiseta quase limpa. Conversamos um pouco, até ficarmos letárgicos e sonolentos e entregues.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juliete não faz qualquer pergunta sobre minha mudez, mas mesmo assim percebo um ruído de incômodo. Antes que a garota se queixe, clareio que estou quieto não por a querer longe, mas porque, bem, sou um garoto que acabou de trepar. Ela acha graça e diz tudo bem, entende, vai fechar a matraca. Quase brigamos por conta disso, não quis dizer para que calasse a boca e tudo. É só que, ela vê meu silêncio como uma afronta ou um descaso, quando para mim é o sinal mais afiado de cumplicidade e compreensão e intimidade entre duas pessoas. Ao contrário do que diz a sabedoria popular a respeito, conversar depois do sexo não é sintonia porra nenhuma, só demonstra o quão culpados ficamos após realizar todas aquelas manobras animalescas – toda palavra pós-coito é, na verdade, uma &lt;i&gt;desconversa&lt;/i&gt;. Vão querer o quê, que eu tome um banho também? Eu não me sinto mal por gostar da coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fora esse pequeno desentendimento, conseguimos adormecer amigavelmente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Acordo num estremecimento, meio dormente, gelado e kafkaniano. Talvez seja uma crise de hipoglicemia ou troço assim. Vou até o banheiro e só me dou conta de que a noite passada foi concreta quando sinto o cheiro dela no meu pau. Lavo o rosto e saio do banheiro esfregando os olhos e tateando a parede, quando dou de cara com o dia aclarando, recheando o quarto com uma luminosidade turva e rósea. Me aproximo e a garota dorme de boca entreaberta, parecendo um pequeno ratinho envenenado, com alguns dentinhos aparecendo. A cena me tira um sorriso de ternura. Falho ao não conseguir frear essa minha felicidade impostora. Meus dedos tiritam, os joelhos amolecem e o oxigênio me faz falta. Porcaria, eu preciso de um chocolate.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/2338995580868950551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/2338995580868950551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/03/043-e-22.html' title='(043 e 2/2)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5860328865527085939</id><published>2013-03-07T18:56:00.000-03:00</published><updated>2013-03-10T21:53:56.439-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(043 e 1/2)</title><content type='html'>Uns dias depois, foi até engraçado, porque vi de raspão quando a doida ergueu seus braços fininhos alcançando os galhos da pequena arvorezinha que fica na calçada defronte eu moro. Com o pé direito numa forquilha do tronco, se impulsionou desesperada pra se refugiar de mim, subindo mais dois galhos com a agilidade de uma gata reumática e retardada. Isso mesmo, um mulherão daquele tamanho trepado em cima de um jovem flamboaiã vermelho. Pra você ver, até que ponto chega a fissura de um ser humano por um pouco de amor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bem abaixo, me sentei no meio-fio e ali dei um tempo, assobiando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não era pra você ter me visto... – tentou se explicar já em solo, reajustando a blusa, a franja, o sapato de salto não muito agudo, mas nem por isso apropriado para esse tipo de escalada.&lt;br /&gt;
– Você tem feito muito disso? – pergunto com a sisudez de um investigador do FBI.&lt;br /&gt;
– Não muito – Juliete dá de ombros, sem nenhum traço aparente de vergonha-na-cara. Faço um gesto com as mãos de o-que-fazer-com-uma-criatura-dessas.&lt;br /&gt;
– Assustador – concluo então. – Você quer entrar?&lt;br /&gt;
– Não. Ainda estou indignada contigo.&lt;br /&gt;
– Que bom. Você fica uma graça quando está braba comigo. Sabe, você fica berrando todos aqueles xingamentos e eu só consigo pensar em dar uma mordida no seu queixo furioso.&lt;br /&gt;
– Cala a boca.&lt;br /&gt;
– Tudo bem. Se você quiser a gente pode fazer um telefone sem fio, da árvore até meu apartamento. Acho que tenho umas latinhas vazias em casa. Vai ser divertido.&lt;br /&gt;
– Idiota – diz jogando as sobrancelhas pro ar e tentando desesperadamente não rir. – O que você tem aí? – ela faz um gesto farejador com o nariz, se metendo na minha sacola de papel pardo que eu trago do mercadinho dobrando a rua.&lt;br /&gt;
– Hum, deixa eu ver – enfiei a cara no pacote. – Seis cervejas, dois baguetes e umas tiras de salmão defumado.&lt;br /&gt;
– Hum. Parece bom – comenta. – Esperando alguém?&lt;br /&gt;
– Sabe como é. A gente nunca sabe quando uma visita vai estar nos esperando no topo de uma árvore...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela soca meu úmero, toda encabulada. Até dói um pouco, não muito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– O canal MGM ficou de homenagear Cameron Crowe a partir das dezenove horas – falo sério, pondo Juliete a par das miudezas maravilhosas do cotidiano. – Temos &lt;i&gt;Vanilla Sky&lt;/i&gt;, aí &lt;i&gt;Quase Famosos&lt;/i&gt;, depois &lt;i&gt;Jerry Maguire&lt;/i&gt; e aí &lt;i&gt;Tudo Acontece em Elizabethtown&lt;/i&gt;. É, eu acho que essa a ordem. Todos, um atrás do outro.&lt;br /&gt;
– Não vi nenhum desses.&lt;br /&gt;
– Sério? Em que galáxia você vive?&lt;br /&gt;
– Num planeta muito distante, onde os homens entendem nossas indiretas – diz num tom performático. – Mas é claro que eu vi! Sou fã do Tom Cruise, ele fez alguns desses, não foi? Disse que não assisti só pra você insistir que eu deveria vê-los e me chamar lá pra cima. Seu panaca.&lt;br /&gt;
– Ah, bom. Eu não tinha entendido mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O panaca a chama lá pra cima e dessa vez ela não pensa muito antes de se decidir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;A maratona de cinema em casa vai longe, mas sem nós. Já na sessão inicial, quando o Mr. Cruise grita ELA ROUBOU A MINHA VIDA!, a garota está sem a parte superior da roupa, e por alguma razão impensável seus peitos foram parar na minha boca. Nenhum filme, do meu preferido Cameron Crowe ou não, jamais exibirá cena tão bonita quanto o movimento tímido, meigo e melindroso de Juliete tirando a blusa pra mim. Vocês até podem tentar, prezados diretores, todos vocês, mas se depender de mim já posso sentir o cheiro do fracasso de bilheterias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas não aconteceu tão ligeiro.&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt; Antes, a gente matou a fome com os sandubas de salmão com rúcula e uma maionese de leite que recentemente aprendi a fazer com uma das cozinheiras do café. E aí conversamos um pouco. Eu falei. Ela falou. Nenhum assunto que pudesse nos colocar em rota de colisão foi para a ata. Sem incitações angustiantes de memória. Juliete contou da França, de Roma, de um húngaro que tentou golpeá-la. Falou da vida nova de solteira, da faculdade trancada por tempo indeterminado, que está procurando um emprego e um outro local para morar – pequeno e agradável, de preferência uma cobertura bem distante da civilização. Essas coisas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ah, importante. Também me falou que há dois dias foi ver o irmão no apê que o pai deles alugou no centro de Porto Alegre, para o barbado viver com alguma decência. Disse que seu mano está perdendo dentes, raciocínio e tudo, por causa da metanfetamina. Acabou chorando um pouco na parte do relato em que ele arrancou de sua bolsa uma nota de cem. Se encostou no meu peito. Abracei Juliete, com delicadeza e precisão. Ela fungou com eloquência. Eu beijei o topo da sua cabeça. Ela foi acalentando a respiração. E a gente acabou, você sabe, se readaptando àquele contato íntimo que tanto nos fez falta. Comovido, fui me desculpar pelo lance do livro, por tratá-la mal, por tudo, enfim, mas ela não deixou, não quis falar sobre isso. Em suas bochechas, lambi algumas de suas lágrimas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Só quero que você faça amor comigo – disse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afastei sua cabeça, segurando a garota pelas têmporas e olhei bem na cara dela, me certificando se ela só podia estar maluca. Ela contrapôs minha cara apavorada com aquela feição manhosa e ardil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu quero! Você me deve uma – repetiu.&lt;br /&gt;
– Não sou um pedaço de carne, Juliete. Eu tenho sentimentos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo com o rosto todo salgado e lacrimoso, ela deixa escapar o riso, e logo em seguida, eu também. “Eu tenho sentimentos”, essa foi boa, hein? Tudo bem então, aproximei minha boca com a intenção de tascar de uma vez aquele beijo tradicional de abertura dos trabalhos, só que ela engatou numa gargalhada que parecia que tinha um apito preso na garganta, o que foi meio o anticlímax. Tentei outras vezes, por cima e por baixo, sem sucesso, ela estava muito abobada e risonha. E então desisti, acendendo um dos meus últimos Lucky Strike perto da janela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Senti muita saudade dessas suas risadas gostosas – falei.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juliete me mostrou a ponta da língua rapidamente e submergiu no meu cobertor. Virei a cara e dei umas baforadas pra rua, sob uma imensa Porto Alegre escura e encoberta por nuvens, luzes e cores de outono. Uma brisa vem chegando do rio, umedecendo as calçadas e a ramaria seca e amarelada daquele flamboaiã vermelho. Cavei um suspiro vagaroso. A noite me respondeu com uma aragem fresca na face, me roubando um raro momento sorridente, com cada músculo do meu rosto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aquela velha história, a mesma garota na minha cama, no meio das minhas coisas. Como uma reprise do mesmo sorriso malicioso, o mesmo ar arruinado, o mesmo corpo surreal. Às vezes, Baby Julie rebaixa a bainha do cobertor e esconde meia feição, só deixando os olhos de fora, me provocando, cobrando alguma atitude vil. Fica me encarando, jocosa e debochada, para depois recuar de novo, só de farra. Como uma musa-inspiradora de Charlie Parker, o jeitinho suave e imprevisível de menina falcatrua, a amante pavloviana da minha vida. Esquecer como, esses olhos de deusa-cadela?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Amassei a ponta em fogaréu no esquadro da janela e me juntei a ela, penetrando com voracidade pelo lado inverso da manta de flanela cinza-com-verde, e a garota grita de susto, implorando para não ser castigada com as sabidas cócegas. Nem dei ouvidos. Os pés de bailarina na minha cara. Lindos. Pequenos, porém esguios, macios, dedos longos. Ela intuía que algo pudesse acontecer, pois eles estão bem cuidados, lisos, perfumados e coloridos. Ela sabe que eu os adoro e sempre dou uma passada por ali, entre uma rolada e outra, passeando pela cama ao trocar papeis e posições. Não sei, talvez minha tara seja pela franqueza com que essa parte do corpo feminino expressa a sensualidade. Sem adulterações, fora esmalte e uma correntinha de tornozelo. É impossível fabricar mais do que isso. É como é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A folia prosseguiu por baixo dos panos, e o fluxo de risadas profusas tateia o limite, a voz dela esganiça, meus dentes serrilham, nossos corpos começam levemente a amornar, não importa que nossos pelos entrem em atrito, o suor expectora lentamente e vai me selando a ela. A vontade de corpo começa a cheirar e mutuamente nos atrair, como a chaminé de uma fábrica de doces abandonada, mas que nós dois podemos jurar ainda sentir jujubas no ar. Eu vou perfurando aquela pequena cabana acolchoada, perseguindo um breve facho de luz, puxando ar. E quando meu rosto se equipara ao dela, nossos olhos se encontram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tudo pausa e a gente se põe a ficar sério. Seus olhos examinam os meus, as pupilas inchadas miram em todas as direções oculares, a dois centímetros de separação. Trocamos um breve e intenso beijo, e meu lábio inferior é quase arrancado, por pouco não ficando pendurado entre seus dentes afiados de bicho-do-mato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Vamos, anda, me traça! – disse ela, contrariada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Me traça? De onde ela tirou uma expressão dessas? Recomeçamos a rir feito idiotas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;continua...&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5860328865527085939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5860328865527085939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/03/043-e-12.html' title='(043 e 1/2)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5723173754014770092</id><published>2013-02-28T23:11:00.000-03:00</published><updated>2013-03-05T17:31:55.443-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(042)</title><content type='html'>Acordo antes do despertador. Ao recuperar a lucidez, estou encolhido e babando no braço aveludado da minha poltrona reclinável, e o clarão da rua insulta meu rosto amassado. Ainda estou onírico, mas aconteceu de verdade. Tábata e seu cão bege passaram a noite aqui, na minha própria cama que eu mesmo ofereci atenciosamente. Mas já se foram sem se despedir ou deixar maiores rastros, exceto um fedor de cachorro molhado na minha cama, que posso estar sendo injusto ao confundir com as toalhas úmidas que diariamente atiro sobre o colchão. Não estou surpreso por não ter acontecido nada de excitante, mas sim por eu ter feito uma amizade do nada. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma ducha me melhora. Dou um gole de suco de laranja, escovo meus dentes, minha gengiva sangra um pouco. Espio meu reflexo no pequeno espelho dependurado num prego acima da minha pia e organizo minha cara do jeito que dá. Já estou pronto para uma jornada servindo cafés e tortas e sanduíches para aqueles clientes ditatoriais do Sta. Gemma Café.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não preciso correr muito, porque agora Rafaela faz o que eu fazia. Ocupo agora um cargo que ainda não sei direito para quê serve e o que eu devo fazer, apesar dos montes de treinamentos especiais e palestras técnicas que andei frequentando nas últimas semanas. Só sei que tenho mais tempo para as coisas que importam de verdade, como escrever putaria e olhar vitrines. No fim das contas, apenas sei que tenho o dever de entregar o caixa batendo com os pedidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pego carona com o sol da manhã. O cheiro da rua é tão triste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
***&lt;/div&gt;
Como agora sou o senhor do meu tempo, bebo lentamente meu café enquanto folheio uma edição do &lt;i&gt;Correio do Povo&lt;/i&gt; na ante-sala da copa. Pessoas morreram num acidente de carro, o governo anunciou uma nova medida para turbinar as exportações, o cronista do dia, as palavras-cruzadas, o encarte de cultura com os shows internacionais deprimentes que eu não tenho grana pra ir de toda forma. Grandes merdas. Sempre a mesma coisa. Pelo menos, o dia começa com uma história diferente para contar para Rafaela, os fregueses costumeiros, as garçonetes e também a proprietária, se por acaso ela aparecer aqui. De resto, o mesmo cotidiano ordinário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas aí:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Dá pra me explicar que bosta é esta? – ela atira um livro com brutalidade contra o meu peito, que depois se espatifa no chão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu declino o queixo, olho para o livro de capa fosca aberto e escangalhado sobre o assoalho, e finalmente para a feição tétrica de Juliete. Ela está diferente. O cabelo está enrolado numa espécie de bandana lilás,&amp;nbsp;&lt;i&gt;cool&lt;/i&gt; e europeia, o rosto mais pálido, as sobrancelhas mais escuras e delineadas, o quadril mais cheinho de comer crepes cobertos de calda de amora e queijos fedorentos, uma saia longa e um casaquinho curto de marca boa. A garota aparenta, não sei, um pouco mais de &lt;i&gt;essência&lt;/i&gt;; mas se bem a conheço, pode ser tudo jogo-de-cena.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não sei sobre que porra ela está falando, mas não é isso que me atordoa. Como pode, de um minuto para o outro, o mundo deixar de ser banal? Por que algumas pessoas tem essa capacidade de produzir esse efeito de impulsionar nossos níveis anímicos?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Que maneira triunfal de reaparecer, &lt;i&gt;mademoiselle&lt;/i&gt;. Se é que é você mesma, e não uma alucinação matinal de quem dormiu só duas horas – digo tentando soar amargo, mas a verdade é que encontrá-la me alegrou desgraçadamente. Ela faz uma careta e um gesto umbral o qual traduzo como “Mas é claro que sou eu, o que você esperava?”&lt;br /&gt;
– Vamos deixar o protocolo de lado. Eu voltei. Eu senti saudades. Você continua aí, na mesma, sentindo minha falta. Certo. Mas e então, rapaz? QUE MERDA É ESSA?&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Ok, vamos à merda. Pego o livro do chão e o examino com cuidado. A capa de escala cinzenta mostra uma mulher sozinha à noite friorenta na beira da estrada, acompanhada por uns farois difusos típicos de metrópole. Ela parece imoral, chateada e buscando escapar de algo ou alguém, não dá pra afirmar. Mais ao topo, uma inscrição num vermelho gélido e vulgar diz &lt;i&gt;Juliete Nunca Mais&lt;/i&gt;. Fito-a bem no meio do rosto e dou de ombros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– É o que é, ora – largo a brochura no balcão, com desdém. &lt;br /&gt;
– É o seu livro, não é? Comprei numa livraria do aeroporto em São Paulo e li várias partes durante a viagem. Eu conheço bem esse enredo e esse manuscrito. &lt;i&gt;Sou eu&lt;/i&gt; nessa história, só que menos neurótica e encrenqueira, claro. Só não estou entendendo: por que você assinou como “Yalon Boloni”?&lt;br /&gt;
– Porque foi ele quem escreveu.&lt;br /&gt;
– Mas que mentira! Quem é esse cara?&lt;br /&gt;
– Você está de farra, não é? Todo mundo conhece Yalon Boloni.&lt;br /&gt;
– Eu não!&lt;br /&gt;
– O cara das peças de teatro? Dos roteiros para a televisão? Daquele livro que a gente é forçado a ler para as provas de vestibular? Yalon Boloni! – dou pistas mais do que claras, contudo Juliete insiste em franzir a testa, denotando estranhamento, indiferença e deficiência cultural.&lt;br /&gt;
– Não me interessa quem é esse bosta. Como ele roubou seu livro? Olha, eu vou meter um processo nesse cara que não vai sobrar uma cueca...&lt;br /&gt;
– Cala a boca, Juliete! – interrompo seu festival de bravatas. – Eu vendi a porra do romance, entende? O cara estava num infernal bloqueio produtivo e acenando com um cheque gordo no meio da rua. Eu passei e peguei.&lt;br /&gt;
– Quer dizer que foi isso que você fez com a melhor oportunidade que o mundo te deu? Ou melhor, eu te dei!&lt;br /&gt;
– Azar – murmuro. – E outra, você nunca encontraria numa prateleira de aeroporto um romance assinado por um tal ignóbil de Santiago Ventura. Quem gastaria uma nota numa porcaria dessas? Acorda, garota. As coisas não são como deveriam ser.&lt;br /&gt;
– Ah, nem vem – ela me rechaça. Está possessa comigo. – Você tinha o dever perante a si e seus amigos e sua mãe de, putz, ao menos tentar sair dessa espelunca de café.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os clientes olham na nossa direção e depois analisam em volta, do parquê ao lustre, para ter noção em que espelunca de café eles se enfiaram a uma hora dessas da manhã. Alguns até erguem o dedinho pedindo a conta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você está apavorando meus clientes.&lt;br /&gt;
– Fodam-se seus clientes! – ela está espumando de tão puta. Eu olho para os meus fregueses e sorrio polidamente.&lt;br /&gt;
– Sem dramas, pode ser?&lt;br /&gt;
– Sem dramas? Sem dramas? Santi, você tinha um sonho, uma coisa que eu nunca tive na minha vida. Sério, eu tenho um jet-ski, uma banheira de hidromassagem a dez passos da minha cama, todos os aparelhos já lançados pela Apple. Montes de coisas. E quer saber? Tudo tralhas materiais que só servem pra tirar espaço no meu quarto e me fazer tropeçar. Eu trocaria isso tudo por um sonho, um sentido para existir. Cara, antes você era um fracassado, mas pelo menos eu te admirava e te respeitava, porque você era sonhador. E agora que você assassinou o sonhador que havia dentro de ti, só consigo ver o fracassado na minha frente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antes de dar as costas, me lança um último olhar de descrença. E vai embora, fechando a porta de vidro do Sta. Gemma Café atrás de si. Olha, se eu estava esperando pelo dia perfeito pra me jogar num rio gelado e morrer hipotérmico e afogado, é hoje. No duro, eu só não caminho cinco quarteirões e me atiro no Guaíba porque detesto sentir frio e a água é podre. Fora isso, não tenho a mínima ideia de por que insisto em continuar vivendo. Eu faço tudo errado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
***&lt;/div&gt;
Eu sei, minha existência foi apequenada e reduzida a humilhação, terror e angústia. Ainda assim, ver a garota novamente foi bom – e irresistível e delicioso, como futucar naquela casca grossa e seca de um furúnculo nojento e infeccionado, que só depois você percebe que não estava pronto para ser coçado com tanta virulência, e então recomeça a vazar sangue misturado com pus. Mas a gente não aprende jamais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No transcorrer do dia a empolgação foi se transformando em sudoreses manuais, rejeições estomacais, traições memoriais e maus pensamentos assoladores que eu até consigo controlar um pouco, mas não tudo. Ao menos me impediu de cair no fosso de tédio e banalidade que encontro toda vez ao chegar em casa com a noite prosperando. Às vezes parece mesmo que aquele cara que dormiu com ela várias vezes morreu, escapuliu, não existe mais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Óbvio que eu estava de palhaçada quando cogitei a questão do suicídio logo cedo. Mas é claro que eu não estou a fim de acabar com tudo, não desse jeito, não de contribuir ativamente para isso. Só que, mesmo assim, posso ver que vou cruzar a madrugada de vigília remastigando toda a merda que fiz, roendo unhas e repassando o diálogo na minha cabeça, e refletindo sobre o que eu poderia ter feito ou que eu posso fazer de agora em diante, afinal, para agradar Juliete. E se eu tivesse tentado &lt;i&gt;eu mesmo&lt;/i&gt; publicar aquela estória? Onde eu estaria? Quem eu seria? Seria &lt;i&gt;ninguém&lt;/i&gt;, mas com um livro publicado fazendo fiasco nos estoques de livrarias por aí, eu desconfio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Talvez eu não acabe comigo, hoje. Mas isso não significa que vou escapar ileso. A real é que estou fodido por todos os lados, pela esquerda, pela frente e por trás; e provavelmente vou me roer de culpa, impotência e arrependimento até cair no meio do meu quarto, fulminado por algum tipo de câncer que dá de repente e te destrói em apenas um dia. Não sei se os oncologistas já descobriram algo assim, mas, se o meu nódulo fatal for o primeiro, dessa vez não abro mão de que leve meu nome.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5723173754014770092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5723173754014770092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/02/042.html' title='(042)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5945887925441700607</id><published>2013-02-25T22:02:00.001-03:00</published><updated>2013-07-01T22:31:55.387-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="2ª temporada"/><title type='text'>(041)</title><content type='html'>O tédio chega ao ápice quando você se pega concentrado na torneira gotejando contra o ralo na pia. Pinga. Dois segundos depois pinga outra vez, numa cadência irritante e perfeitamente harmônica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meus olhos estão injetados, como uma pistola se refreando para não disparar as pupilas por acidente. O teto é branco e não vai trocar a tonalidade, não importa o quanto você o encare, ou até onde ousa ir sua imaginação de sábado à noite. Aposto contigo que o tédio é incolor. E a solidão é negra como a medula de um furacão. O curioso é o efeito que dá ao confrontar os dois: meus olhos solitários e o teto pálido. Entre o preto e o branco, há matizes que às vezes são impossíveis até de imaginar. Gosto das cores que não existem. Aquelas que ninguém descobriu, com medo de misturar os pinceis e arruinar suas tintas que já possuía em princípio. Qual a cor oficial do tédio?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Preciso sair e ver uns olhos. Há duas semanas comprei um videogame de segunda mão, o trocando por um cheque bancário que o sr. Schmelzer me repassou assim que entreguei uns roteiros pra ele. Ah, não é nada de mais, só uns curta-metragens pornográficos para serem exibidos nos melhores cinemas obscuros do ramo. Eu não me orgulho disso, mas entre potencializar minhas finanças e gabar vantagens empregatícias aos outros, eu prefiro faturar mais. Preciso de uma nova jaqueta de brim, a minha está cheirando esquisito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu até tentei desenvolver um enredo exultante por trás de toda a putaria, mas o editor foi enfático, “Não, não, Santiago, o pessoal quer ver só as penetrações mesmo, reescreva isso e mande novamente amanhã, ok?” Tudo bem. Com um copo de Domecq com coca ao meu alcance, eu retirava todas as partes geniais que havia pensado e deixava o troço como eles queriam. Ou seja, apagava os diálogos e deixava só o sexo. “Meu público não quer saber como eles chegaram lá, entende?”, me disse por telefone, insatisfeito com o trabalho. É, eu virei um daqueles escritores do submundo. Porcaria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
***&lt;/div&gt;
Aí aconteceu um negócio estranho pela noite. Era uma e pouco da madrugada, e a garota do apartamento em frente resolveu levar o cachorro para defecar e cheirar postes. Por volta de 1h37, lembro bem porque olhei assustado no relógio digital do meu telefone, ela bateu na minha porta. Os olhos apavorados, mantendo um cão distraído e amarelado agachado junto ao corpo, preso numa coleira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Oi. Foi mal incomodar, mas, por mais estúpido que isso possa parecer, fiquei presa do lado de fora do meu apê – ela diz antes de dizer quem é, como se eu tivesse a obrigação de saber. Quem, nos dias de hoje, é familiarizado com seus vizinhos de porta?&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Acreditei nela de primeira. É modelo no nosso prédio essas drogas de maçanetas que não giram externamente, e também porque isso já aconteceu comigo uma ou duas vezes; porém, nunca assim num horário em que todos os mágicos das fechaduras estão plenamente roncando ao lado de suas esposas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Sou Tábata, aliás – diz sem estender a mão. – Você conhece algum serviço vinte e quatro horas?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Levei um tempo até responder, pois estava concentrado no nome dela – Tábata –, e me perguntando quem se chama Tábata nesse mundo. Mas é um nome bonito. Não me pergunte como é isso, mas ela tinha cara de Tábata. Com boa vontade, um rosto até jeitoso por trás das lentes enormes e das sardas saxônicas nas bochechas rubras de vergonha. Tábata e seu nariz infantil, seus olhos verdes não muito escandalosos e seu corpo nem tão rotundo e feminino quanto eu gostaria, e no entanto nada ruim, torneado por um vestido rosa-quase-choque. Uma forma de ser híbrida entre o caipirismo e os novos &lt;i&gt;hipsters&lt;/i&gt; metropolitanos. Era difícil definir qualquer coisa. Liberei a entrada e ofereci minha poltrona, enquanto buscava opções na internet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Puxa, você tem uma porrada de livros por aqui, hein?&lt;br /&gt;
– Sirva-se à vontade – digo num tom envaidecido, o peito estufado. Mas logo começo a me sentir desconfortável ao pegá-la manuseando alguns. A garota então escolhe folhear&amp;nbsp;&lt;i&gt;O Estrangeiro&lt;/i&gt;, de Camus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em nenhum instante me passou pela cabeça abrigar ela e seu cão. Eu estava na décima fase de &lt;i&gt;Medal Of Honour&lt;/i&gt; agora em modo espera, e a cama cheia de migalhas entregava meu estilo de vida. Eu apenas trabalhava em algum emprego desgraçado e passava noitadas descontando minha imobilidade jogando videogame, bebendo conhaque e comendo sacos de maçãs desidratadas. Tinha dúvidas se eu teria algo hospitaleiro a oferecer aos inusitados visitantes, como chá, uma conversa ensolarada ou mesmo uma toalha limpa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fiz uns telefonemas e nada. Olhei pra ela com ar derrotado. O cachorro esvaziou sua apreensão repousando o papo molenga no meu tapete. Parecia então que a garota estranha teria de dormir por aqui, no meu quarto, ou em algum lugar decente pelo qual seria necessário procurar muito. Até tentei sondar se ela não tinha um parente geograficamente próximo ou então uma cópia de emergência em algum lugar, embaixo do tapete de boas-vindas ou com o zelador, de repente. Ela balançou a cabeça negativamente, fazendo cara de burra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Tábata até tentou se despedir, jurando dar um jeito nisso ela mesma, mas alguma parte misericordiosa de mim contrariou minha má vontade e não a deixou na mão. Inconvicto, martelei que ficasse, é para isso que servem os vizinhos, afinal; embora o cheiro rançoso daquele bicho enorme me perturbasse. “Lenny” (a dona do cão adora aquele cantor bonitão que canta “American Woman”) cheirou meus pés à mostra e deu duas voltas em torno de mim, decerto se certificando se seria ou não uma boa eles ficarem. Até onde o faro dele pôde compreender, eu não era nenhum tarado esquartejador, pois não conseguiu rastrear nenhum aroma de mulher morta entre meus dedos e o chinelo, ou em minhas canelas finas. E sossegou, portanto, com aqueles olhos remelentos de comiseração canina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alcancei uma cerveja para ela, e calibrei minha dose de Domecq. Nos restava esperar pelo branquejar de um novo dia, cheio de esperança e chaveiros acordados, de pé e atendendo seus aparelhos telefônicos. O acidente nos deixou perplexos demais para dormir de tão ridículo e absurdo que era. Uma simples fechadura do novo século já evitaria toda essa coação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ficamos momentaneamente silenciados por um filme metido a &lt;i&gt;cult&lt;/i&gt; que passava no Cinemax – continha diálogos esquisitos e a Scarlett Johansson bem novinha procurando moradia – e não estava ajudando muito. O constrangimento tinha tudo para progredir, mas recuou a partir de um comentário encabulado que ela fez:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você está sem calças... – disse meio vacilante e embaraçada, agregando tons diversos à frase: era um alerta, uma análise ou apenas uma constatação? Declinei o pescoço e, puta merda, eu estava mesmo só de cuecas, e nem era uma das sociáveis, daquelas bonitonas que a gente acaba ganhando de uma namoradinha trivial que ficou pra trás. Cueca e camiseta, meu uniforme oficial das noitadas de entretenimento com a televisão. Mergulhamos num riso abobado e aí tudo foi ficando bem menos impessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tábata numa ponta da cama, eu apoiado no cotovelo próximo à cabeceira, agora de calças de sarja marrom, espiando a janela de vez em vez. Engatamos uns assuntos. Ela se mudou para o 204 não faz muito. Tábata também desabafa que está odiando seu curso de Mecânica Industrial, relata que ainda não conseguiu tirar sua habilitação para dirigir, diz que está perto de ser tia, que já comeu bolo com maconha uma vez e não ficou chapada. Enquanto ela fala, acompanho em seus lábios desprovidos de malícia um traço remoto de beleza, já que ela não é lá muito atraente – ela me parece meio desajeitada, sei lá, como uma personagem neurótica desses seriados americanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Engraçado eu não ter pensado em sacanagem na hora, embora tenha me dado algumas ideias depois, as quais anotei num caderninho torcendo para ela não perguntar do que se tratava. No duro, a realidade desse acontecimento dá um roteiro pornográfico de primeira linha. Você sabe, a vizinha que não sabe trocar a temperatura do chuveiro ou ficou sem açúcar. São clássicos. Mas, para o meu alívio, ela não pula em cima de mim, o que transforma todos aqueles milhares de filminhos que assisti na internet em verdadeiros enredos míticos. Mas a vida sabe como ser banal, não é?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tábata pergunta se pode descalçar o tênis, e eu imploro para que fique relaxada, numa boa. Ela espreguiça os pés e afunda os ombros no meu travesseiro.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5945887925441700607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5945887925441700607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2013/02/041.html' title='(041)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-3398997663596181060</id><published>2012-12-17T16:03:00.000-02:00</published><updated>2013-02-17T23:34:59.922-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="1ª temporada"/><title type='text'>(040)</title><content type='html'>Chegou para mim hoje, por correio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
&lt;i&gt;Santi,&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como vão as coisas por aí? Espero que bem. Você é um rapaz bacana, e eu sempre torço para que você esteja bem. Sim, sim, eu poderia ter escrito um e-mail ou deixado uma mensagem no seu perfil do Facebook. Mas você merece uma carta à punho. E além do mais, estou em Praga agora, e os teclados dos computadores daqui não me ajudam em nada. Você recebeu meus postais? Enviei de Lisboa, depois de Barcelona, Madrid, Paris, Berlim, Londres... Tomara que tenha gostado. Como eu disse, estou na terra de Kafka agora, parece realmente que estou passando por uma espécie de metamorfose.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não tenho um motivo especial para escrever, e acho que nem deveria estar fazendo isso. Nossa última conversa foi meio conturbada e a parte boa de uma carta é que se você quiser retrucar alguma das minhas explicações, isso vai levar aí uns vinte e cinco dias. É a maneira perfeita de dizer umas coisas sem ter a boca calada por uma de suas intempestividades e expulsões que me me partiam ao meio, fazendo minhas frases prontas se espatifarem no chão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escrevo, então e apenas, como uma forma de deixar registrada a minha afeição. Quando eu iria imaginar que aquele “cara atrás do balcão” seria convertido a alguém tão especial na minha vida, causando toda essa revolução em mim? Aquele dia em que entrei perturbada naquela cafeteria mixuruca e fui acolhida por você, de relance não pude ver nada além de uma pessoa comum, com nada a acrescentar, alguém que eu jamais ousaria sequer me aproximar ou ultrapassar a barreira comercial que havia entre nós. Admito que a primeira impressão não foi das melhores, te achei um pouco intrometido e chato. Mania do ser humano de julgar as aparências, e comigo não foi diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quem diria que aquele rapaz engraçado, com um charme arrogante e meio desastrado, ia aos poucos me ganhar. Como eu poderia prever que um rapaz que ninguém dá nada (desculpe, mas é verdade) pudesse me surpreender tanto e me ensinar tantas coisas? Se eu soubesse, não teria invadido aquele café, e minha vida seria bem mais fácil. Mas continuaria não sendo a minha, seria apenas uma vida sendo levada, um fantoche fazendo teatro na mão dos outros. Posso dizer, sem receio de parecer clichê, que você me libertou, como se eu fosse uma personagem da literatura finalmente publicada após 23 anos sendo escrita. Obrigada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lembra? Enquanto a gente praticava aquele jogo de desinteresses, cada um de um lado do balcão, seu olhar profundo foi emperrando meu raciocínio lógico e moral, não sei, era como se eu fosse um filhote de beija-flor que se chocou contra a fachada de um prédio no primeiro voo. Você, daquele seu jeito, me catou do chão, cuidou da minha asa, me deu néctar direto no bico com uma seringa, me engaiolou de porta aberta, e eu fui ficando porque eu quis. Mesmo quando eu estava recuperada e sadia, não tive vontade de te contar, ou então você me devolveria para a natureza. Por isso eu me fazia tanto de louca. Se eu me comportasse normalmente, como as outras, você perderia o interesse no enigma. Você vai me achar uma bruxa manipuladora agora, mas tudo que eu fazia era pra te dar o que falar com seus amigos no bar. Entrando e saindo fora assim da sua vida você pensaria em mim dias a fio. Eu queria ser o exemplo de garota que você teria em mente ao dizer que todas as mulheres são doidas. Pelo menos assim, quando eu resolvia voltar, você ainda não havia me esquecido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não digo que não fiquei mexida contigo, não vou dizer que depois daquela noite não pensei em ti. Pensei sim, mas eu decidi que só estava necessitada e vulnerável e curiosa. Porém, a semana foi passando e aquele timbre de voz não saía do meu ouvido interno, aquele olhar sujo-ingênuo paralisante ficava embaçando minha visão, aquelas conversas ficavam se desenrolando na minha cabeça. Mas esqueci, sei lá, a distância e o monte de coisas que eu tinha para estudar me fizeram esquecer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Daí, a segunda vez. Eu estava acabada, triste, desiludida, enjoada, arrasada, sem um único lugar no mundo para enfiar meu pescoço. Entrei naquele lugar outra vez, só por curiosidade, certa de que iria comprovar a minha tese, que aquele barulho todo era por nada. Você estava lá, atrapalhado com as louças e os lixos para tirar até a calçada. O pouco que falou comigo, as brincadeiras bobas, o calor do corpo o mais próximo que eu deixava chegar perto, já me aqueceu naquela noite de inverno desgraçadamente fria. Naquele momento não entendi como pude te deixar de lado. Tudo voltou. Mesmo estressada, pude sorrir. E isso despertou dentro de mim, como um alarme dizendo que eu precisava te ver semanalmente. Naquela noite, quando retornei pra casa e agarrei meu travesseiro, senti saudades. Foi estranho.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;
Mas foi no aniversário de morte da minha mãe que eu tive de engolir o quanto você é um cara legal, uma pessoa especial, dessas que não se acha à toa por aí. Como você me levou até aquele lugar, o Lago da Saudade (Sabia que mesmo sozinha, eu continuei indo lá? Agora é o santuário oficial, sempre que preciso falar com minha mãe. Obrigada por isso também.) Aí o beijo repentino, minha negativa mesmo louca de vontade, mas é que eu achava que seria mais vantagem uma amizade verdadeira, já que namorado eu já tinha. E eu nem te conhecia direito, achava que você era como todos os outros (já falamos sobre isso). Um tempo depois... olha só, quem pedia beijo era eu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que ando mais adorando são as pontes de Praga. Elas têm um simbolismo meio sedante, com toda sua paisagem arruinada, úmida e gris. Ontem parei sobre uma e li algumas páginas de &lt;/i&gt;A Identidade&lt;i&gt; do Milan Kundera, e tentei me sentir inteligente como você é. Já leu esse? Tomara que sim, porque roubei da sua estante na última vez em que estive aí. Tem o cheiro do seu apartamento até a última página. Sei lá, na época eu vivia arrumando essas estratégias para te ver de novo, então torci muito para que esse seja um de seus livros queridos, assim eu seria obrigada a devolvê-lo pessoalmente. Antes de viajar, eu quis te encontrar, mas como sempre você foi arisco, e acabamos não nos falando direito. Sei lá o que eu queria. Provavelmente acabaríamos fazendo coisas proibidas outra vez. Talvez eu quisesse sugerir a você que me encontrasse aqui, eu pagaria sua passagem até. Mas conheço meus bloqueios vocais, acho que só diria tchau mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje posso dizer que tomamos a decisão certa, quer dizer, você tomou. Você sabe das coisas. Acho que, como amigos, pelo menos tenho alguém para escrever e contar minhas coisas, uma amizade vale mais do que meia-dúzia de atitudes precipitadas. Estou vendo as coisas de um modo diferente, por outro ângulo, um ângulo tcheco, ha ha... Você contribuiu para tudo isso, me ajudou a encarar as novas situações, você sempre me deu força, mesmo daquele seu jeito rude e torto e reticente. Aprendi que eu posso viajar pela Europa, desistir da Psicologia se não for mesmo a minha praia, que posso me desvencilhar de uma relação quebrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Precisei desse tempo longe. Eu estava exausta de todo mundo falando mal de mim pelas costas, especulando minha vida aos cochichos, soprando por aí que eu não passava de uma putinha. Gente hipócrita. Até parece que fui a primeira mulher de toda aquela faculdade idiota e do mundo inteiro que teve vontade de dar para outro. Pelo menos fiz o que eu fiz porque estava apaixonada, embora essa justificativa nem vale como justificativa, tenha sido apenas meu álibi para não sentir culpa. E eu não sinto mesmo. Se sinto alguma culpa é por não me sentir culpada por aquilo, que afinal de contas foi tão bom. Se ostentar duas caras era o que eu precisava para me sentir completa, foi o que eu fiz. Claro, existem as consequências, casa que incendeia não para em pé, mas o terreno fica. Limpa-se os escombros e se ergue tudo de novo, mais próxima do que você sempre sonhou arquitetar. As pessoas têm medo das consequências, mas às vezes é o período mais fértil. Enfim. Aconteceu o que era para acontecer, o jeito como aconteceu é que não deu para controlar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isso, então. Acabei dizendo esse monte de coisas quando só queria mesmo dizer que gosto de ti, honestamente. Não sei se como amigo ou algo mais, mas definitivamente pelo tipo de gente que você escolheu ser. Rezo para que você tenha sorte aí com suas coisas, que você encontre alguém legal como você, que vai te fazer feliz e mostrar que o amor verdadeiro existe sim, coisa que obviamente sou incapaz de fazer. Bem, no próximo ano talvez a gente não se veja muito, pois é difícil não notar que seguimos caminhos diferentes. (Mas, juro, você vai junto comigo no meu peito, seja em Praga ou em Porto Alegre. Passe o tempo que for, nada vai apagar a lembrança daquele olhar. Profundo).&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
Ah, não. Porcaria! Vaca louca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;fim.&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3398997663596181060'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3398997663596181060'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2012/12/040.html' title='(040)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-6949036926349585782</id><published>2012-12-07T16:01:00.000-02:00</published><updated>2013-02-17T23:34:59.950-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="1ª temporada"/><title type='text'>(039 e 2/2)</title><content type='html'>Sarah e sua motocicleta vieram me apanhar várias vezes no último mês, e acho que até que estamos nos dando bem; embora eu diga isso debruçado em parâmetros conturbados e peçonhentos, ante o último envolvimento que tive com uma garota – não quero nem lembrar aliás, então vamos parar por aqui. Trocando de assunto: Sarah é fácil. Não &lt;i&gt;fácil&lt;/i&gt;, no sentido de, você sabe – se não sabe, ainda vai entender porquê. Ela é espirituosa, desligada, risonha, ardilosa, forte, direta, tanto que em alguns momentos tendo a achar que sou quem represento a alíquota feminina da relação, visto que ela tem uma &lt;i&gt;scooter&lt;/i&gt; e me pega em casa e depois me larga em casa e não se preocupa com o horário previamente combinado para executar tais missões, coisa que me deixa meio puto. Só que ainda não fizemos o troço, digo, aquele ritual lascivo que as pessoas adultas e resolvidas fazem antes de decretar que se gostam e estão dentro de um lance pra valer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não que eu precisasse despender de muito esforço, ou que eu tivesse de vencer uma melhor-de-três na queda de braço para o negócio finalmente ocorrer e a gente mandar ver. Eu apenas sou perfeccionista para essas coisas e confesso que não estava muito seguro de que, na hora H, eu realmente teria a boa vontade de pensar nela, &lt;i&gt;ainda que estando com ela&lt;/i&gt;. Saca? (O lado ruim de ser homem e ter duas cabeças é que, às vezes, cada uma fica num lugar, ha ha...) Bom, só que nós já tínhamos meio que agendado o contato físico usando o Regulamento do Quinto Encontro. Nós já vimos estrelas cadentes, trocamos amassos contra um muro, jantamos de casalzinho com Joel e Marta num buffet árabe, fomos a uma apresentação voz-e-violão do meu amigo Roger Birk no bar Cardinale 44, caminhamos juntos e lentamente por aí, trocando experiências de uma infância tediosa. Logo era meio que tempo de realizar uma perícia em nossas capacidades eróticas, se vocês nos derem licença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A minha equação era bastante lógica: garota + canção romântica = x possibilidades de me dar bem. Então eu passei uma semana de John Cusack no filme &lt;i&gt;Alta Fidelidade&lt;/i&gt; fazendo listas de músicas favoráveis. Eu não queria algo muito viril, agressivo e intrometido; você acaba se sentindo um frangote transando embalado na voz de Barry White ou de Sid Vicious. O caso é que eu precisava de algo requintado e meigo, mas não água-com-açúcar, ou seja, de sons que incitassem uma libertação corporal feminina revolucionária, entende? Então acabei indo de coisas como Cardigans, Joni Mitchell, Cat Power, Patti Smith, Fiona Apple, 10.000 Maniacs, Runaways, Alanis Morissette, Etta James, The Pretenders e também, para minha grande surpresa e alívio, um pouco de Tracy Chapman. (Que por ignorância ou desatenção passei toda a minha vida musical achando que fosse um rapaz com uma voz delicada. Mas a Wikipédia me corrigiu, então agora compreendo que estamos lidando aqui com uma moça cujo timbre é bastante robusto.)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim. Eu tive amantes suficientes para estar calmo, e acho que ela pertenceu a uns três ou quatro, tirando sua idade como referência. (Tudo bem, pela idade ela pode ter ido pra cama com muito mais do que três ou quatro; na verdade ela pode contar com um histórico incluindo centenas de parceiros sexuais, se você considerar que, para uma garota viçosa, é humana e anatomicamente viável arrumar um candidato a cada semana, se ela assim quiser. Mas vamos parar com essa encheção, eu prefiro pensar em três ou quatro, cinco no máximo; com esses números me sinto mais especial e menos pessimista com a real chance não mostrar nada de muito mais impressionante do que preparar um &lt;i&gt;pen-drive&lt;/i&gt; com algumas melodias escolhidas a dedo. Sim, sim, já sei, garotos e seus espíritos competitivos, ha ha...)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bem, mas eu desencanei a tempo, tudo indica. Aquela coisa de &lt;i&gt;let’s get it on&lt;/i&gt; e seja o que deus quiser, sabe? É um modo de falar apenas, tenho minhas dúvidas se deus realmente participa de tudo, sobretudo essas coisas. Sei lá. Não reparem, porque estou nervoso e um dos efeitos colaterais é não conseguir brecar o falatório. Eu só queria dizer que não sei o que Sarah efetivamente é para mim, e também acho que eu não deveria pensar nessas coisas antes do coito, perigando soar como uma adolescente perto de sua estreia carnal. É que, bem, se há um significado para Sarah ter pintado na minha frente, e eu acho que há, não pode ser mais claro. Lembra de quando os adultos diziam para não apontar qualquer estrela sob pena de crescer uma verruga na ponta do indicador? Acho que o folclore em si esconde uma metáfora: quando você foca numa estrela durante muito tempo, acaba esquecendo de admirar todas as outras milhares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O barulho da moto na calçada, ela chegou. Foi mal, mas tenho que ir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Ok, para encerrar o Assunto Juliete de uma vez por todas, combinado?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Você já tentou ler, sei lá, &lt;i&gt;Ulysses&lt;/i&gt; do James Joyce, ou então &lt;i&gt;Cem Anos de Solidão&lt;/i&gt;, do García Márquez? Eu também tentei e não consegui vencer o capítulo inaugural, assim como já aconteceu com dezenas de obras clássicas espalhadas pela minha estante, à espera de uma atitude persistente e determinada da minha parte. Tenho certeza que há belíssimas histórias ali narradas; mas, sejamos honestos, são livros muito densos, calhamaços difíceis de ler. Não contêm um abecedário propício para um leitor inexperiente, e você precisa ter a manha, conhecer os atalhos, possuir um vocabulário opulento, um senso dinâmico de interpretação das linhas. Assim somos, Juliete e eu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu e ela somos co-autores de uma paixão aguda e insana, um caso complexo, narrado por dois “escritores” verdes. Uma história de leitura custosa, altamente abandonável. No entanto, não se engane, não é que seja ruim ou chata ou desprezível. Quantos livros você largou na juventude simplesmente porque não estava com tempo, com o espírito e a paciência, com o clima necessário para cruzar a linha final? E eram criações ruins? Talvez não. Vai ver não era o momento certo. E quem vai dizer que, no futuro – ou um dia desses, na próxima década, sei lá – você não vai esbarrar com o clássico na prateleira de uma biblioteca pública e lembrar com carinho do dia em que tentou encarar a personagem e o enredo, porém, por vários motivos – que agora nem têm mais importância – você não o fez, não foi até o fim. Certos amores também são assim, eu acho.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Ainda lembro do dia quando terminei o interminável e delicioso &lt;i&gt;Grandes Esperanças&lt;/i&gt;, do Dickens. Foi devastador fechar o livro e novamente ser forçado a reconhecer o sofrível mundo real à minha volta, e ainda ser obrigado a conviver com ele, como um delinquente juvenil é reencaminhado ao convívio social. O que fazer com a saudade que senti de Pip no primeiro dia de sua ausência? Depois de quatro longos meses de companhia, como atravessar o dia sem o amargor de não encontrar a indecifrável miss Havisham ou com o hediondo e insalubre sr. Magwitch? Eu corria para bares, inspecionava a geladeira, trocava canais, sondava garotas e nada, nada, nada adiantava.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na ficção, tudo parece mágico e perfeito, mas há uma grande desvantagem: não importa se o protagonista tem dezessete anos ou é um moribundo, se é uma novela ou uma trilogia; toda criação literária pressupõe um começo, um meio e um fim. Nas páginas lúcidas da vida, algumas histórias simplesmente não tem final, e há sempre consideráveis chances de uma reviravolta, pois a trama não se limita a três, seis ou dez personagens. Mais alguém pode entrar por aquela porta, agora mesmo. É o que todos nós esperamos, quase sempre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sabe, embora eu tenha contado tudo isso a vocês com a alma, o entusiasmo e o ardor de um exemplar grande-amor-de-livro, não é nada disso, eu nem sei se era sobre amor. Era apenas sobre um rapaz pobre que morava em Porto Alegre, trabalhava numa cafeteria, e com charme o bastante para envolver uma garota rica e perdida, com um coração e um ego frágeis o suficiente para se deixar levar. Viu? Nada de mais. Coisas assim se dão todos os dias. Eu é que tenho mania de – uns chamam de dom, outros de doença psíquica, e eu gosto de conceber isso como um&amp;nbsp;&lt;i&gt;estilo de vida&lt;/i&gt; – romancear tudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que quero dizer é que, quando você tem 25 anos mais ou menos, e você ainda tem muitos capítulos à sua frente para vivenciar, as coisas não têm o poder de ser para sempre ou nunca mais. Não é assim, tão simples. Na maioria das vezes, apenas ficam suspensas. Penosamente suspensas.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/6949036926349585782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/6949036926349585782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2012/12/039-e-22.html' title='(039 e 2/2)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-5159831537714599728</id><published>2012-12-03T18:37:00.000-02:00</published><updated>2013-02-17T23:34:59.938-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="1ª temporada"/><title type='text'>(039 e 1/2)</title><content type='html'>– Desista, garota! Pare de me ligar! – Atendo gentilmente o chamado de um número desconhecido e dou com os burros na água. É o sr. Schmelzer, ele quer falar sobre umas cifras que podem me interessar. Diferente do que eu diagnostiquei na primeira e última conversa, percebo que o otário da vez não sou bem eu: o editor e o tal Sr. Escritor Famoso Decadente estão desesperados por comprar o meu romance, o que me dá poder de barganha: – Deposite 100 mil na minha conta hoje mesmo ou então diga ao medalhão que sente a bunda para escrever alguma coisa que preste!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desligo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O telefone volta a tocar e eu estou com sangue nos olhos demais para antes conferir a origem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Eu já disse! Cem mil ou não falamos mais sobre isso. Na minha conta, até o fim do dia e o livro é seu, você pode atribuir ao nome de sua mãe, se quiser... – grito, apavorando alguns clientes do Sta. Gemma Café. Mas apavorado mesmo estou eu, não sabia que possuía todo esse poder de negociação. Vejo que assim eu podia estar na Bovespa ou operando fusões multinacionais, se quisesse. Hoje estou me sentindo &lt;i&gt;o cara&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
– Santi? Você está bem?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Putz. Ah, não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Não. Quer dizer, estou. Estava. Não estava falando com você – digo, à guisa de explicações.&lt;br /&gt;
– Ah, logo vi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela fica um tempo muda e eu dou uma bufada supersônica, delatando minha má vontade de sempre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Estou saindo fora, daqui a duas semanas – ela diz.&lt;br /&gt;
– É, estou sabendo. Legal.&lt;br /&gt;
– Queria te ver antes de ir.&lt;br /&gt;
– Não – falo, curto e decidido.&lt;br /&gt;
– Eu queria te explicar umas coisas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boa tentativa. É a primeira menção a respeito de que coisas deveriam ser explicadas por parte dela. Não respondo nada. Não sei se quero ter as coisas explicadas ou não, que porra iria adiantar, de toda maneira? Ela só quer sair por cima. Eu quero apenas que ela saia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Deixa pra lá, você não precisa me explicar nada.&lt;br /&gt;
– Mas eu só queria...&lt;br /&gt;
– Não.&lt;br /&gt;
– Mas você nem...&lt;br /&gt;
– Não, Juliete.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ela interrompe a ligação na minha cara querendo parecer dramática, mas a garota tem um desses telefones móveis tecnológicos onde só se encontra um botão, e que você precisa deslizar o dedo sobre a tela como um pintor para encerrar a ligação, igual faziam em &lt;i&gt;Minority Report&lt;/i&gt;. Então o efeito não é o mesmo e não tem tanta graça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não quero mais vê-la, de jeito nenhum, nem fazendo &lt;i&gt;pole dance&lt;/i&gt; pelada num mastro de ouro maciço ao som de “Careless Whisper” (mesmo que a ideia acontecendo na imaginação seja quase irresistível de tão tentadora). No duro. Não estou fazendo como das outras vezes, sabendo que vou quebrar a medida restritiva que criei para mim mesmo há cinco minutos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juliete e eu temos boas histórias para contar, embora ouvindo assim você não ficará com os braços arrepiados como nós ficamos naqueles encontros tensos. Você pode não entender nada, porque escutando a descrição dos bons momentos, não é possível sentir o cheiro doce de suor, a pele fria, a ternura dos carinhos, a loucura do sexo, as melodias que enviei para ela achando que ela, talvez, deveria escutar e quem sabe sentir a mesma coisa que eu estava sentindo ao ouvir tais canções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É provável que um dia ela negue que tudo isso aconteceu, negue que foi bom ter acontecido, negue que foi importante, negue que algo mudou dentro da gente, daqui para o resto de nossos dias, a perder de vista. Mas estou lembrando de tudo isso agora, e que sei ela também está, aonde estiver. Mas não importa mais. Algumas pessoas apenas não nascem para ficar juntas, digo juntas-juntas, embora seus encontros físicos sejam bem românticos e inesquecíveis. Vai ver é isso que querem dizer quando dizem que tudo isso é um jogo. Se você foi derrotado, não faz sentido ficar depois assistindo as reprises dos melhores momentos. Só tope jogar se souber perder. E eu perdi. Nós perdemos. Para nós mesmos, ou seja, perdemos para quem a gente é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;O telefone não para. Só pode ser ela de novo. Arrependida. Ou talvez há algum palavrão direcionado a mim que Juliete esqueceu de usar. Palhaço ou cretino ou bobalhão, qualquer um desses – ou todos de uma vez – são perfeitamente aplicáveis à minha pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não é.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– Olha só, me diga o que você acha... – É aquele vigarista outra vez. – Vinte mil no bolso. É o que posso fazer.&lt;br /&gt;
– Não. Noventa mil e negócio fechado – contraproponho.&lt;br /&gt;
– Puxa vida, garoto. Você não está entendendo. Vinte mil e uma participação nas vendas. Uns 2%, mais ou menos. E aí?&lt;br /&gt;
– Oitenta mil e cinco por cento ou mande seu cliente botar aquela cabeça aristocrata para funcionar. Ou nada.&lt;br /&gt;
– Te procuro novamente, até o fim do dia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desligamos. Mas sem exaltações dessa vez. Com o sentimento mútuo de que podemos nos acertar, talvez. Acho que vocês estão entendendo e vão entender melhor quando eu contar o seguinte: essa agência de má-fé está me tentando a assinar um contrato de inconfidência, para que eu ceda tudo o que trabalhei duro por anos escrevendo para um, como eu disse, Dr. Escritor Famoso Decadente, que foi uma sensação nos anos 1980, mas há quinze anos não consegue produzir porra alguma com a própria originalidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não é pra menos. Recordo de ter tentado encarar sua obra mais prestigiada, só que o autor me perdeu logo nas primeiras páginas, quando ficou umas trezentas linhas falando sobre um abajur (ou era sobre um vidro de pepino em conserva, não me lembro bem). Bom, como minha estória, que também não é nenhum palmeiral de criatividade, veio a calhar – por falar de bloqueios inventivos e esses troços –, o melhor que ele pode querer desse final de carreira lamentável é me aporrinhar para que eu venda meus créditos e o libere para assinar &lt;i&gt;Juliete Nunca Mais&lt;/i&gt; (sim, foi como batizei a versão final, depois que consegui encaixar essa personagem atraente, linda e incompreensível no meio). Negócios, negócios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;– Vamos lá, me ver não vai arrancar nenhum pedaço – diz Juliete. Deixo a maluca dizer algo, como prêmio pela enésima tentativa de falar comigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como se ainda houvesse algum pedaço para arrancar. Penso em dizer, mas não digo, não vou dar margens para interpretações de que estou sentindo qualquer resquício de autopiedade. Embora seja verdade, não vem ao caso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– O que de tão urgente temos a dizer que não possa ser adiado?&lt;br /&gt;
– Sei que você está chateado e tudo. Mas tenha um pouco de consideração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideração é uma palavra nova no nosso relacionamento. Explodo uma risada na cara dela, através do aparelho. Ela também não se aguenta e começa a rir de si mesma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Aceito a última proposta e embolso um bom dinheiro. Meu romance não me pertence mais, e o sentimento é de ter vendido minha alma ao diabo. Certo, me sinto meio culpado, mas não dá pra voltar atrás. Como dizem, &lt;i&gt;a vida é curta&lt;/i&gt;. E o dinheiro só não compra aquilo que ninguém está interessado em comprar. Eles tinham a quantia, eu possuía algo que eles estavam querendo muito, então não foi muito complicado chegarmos a um acordo satisfatório para ambas as partes. Foi um prazer filho-da-puta negociar contigo, sr. Schmelzer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre ganhar o equivalente a uma lata de milho por cada livro vendido pelo ignóbil “Santiago Ventura” e poder faturar uma grana boa para viajar ou dar entrada num apartamento, eu preferi o caminho mais fácil, a oportunidade que estava logo à mão, ali na esquina – ser uma espécie de barriga de aluguel do mercado de literatura, ou, como usam nos jargões editoriais, sou um &lt;i&gt;ghostwriter&lt;/i&gt; bem-sucedido. E já está de bom tamanho, visto que eles até já estão acenando com um novo contrato para o ano que vem. Parece que há uma onda de literatura erótica pegando, e eles acham que têm alguma coisa para mim, que faz bem o meu tipo. Não sei se foi um elogio ou não, mas, se for verdade, vou poder largar aquela porcaria de café.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O mal da nossa geração é se achar muito especial, pensar que de um jeito ou de outro dá para &lt;i&gt;ser alguém&lt;/i&gt;, como se um gênio saísse detrás de cada lata chutada na rua. Essa coisa de acordar todo dia torcendo para levantar da cama com o pé direito estava me cansando. É idiotice ficar esperando sua vida entrar na época de ouro, quando essa época talvez já esteja em andamento e só você não vê. Pode não ser tão dourada quanto você sonhou, e nem sequer prateada quanto prometia ser, com talvez um pouco mais de berço, sorte, esperteza ou empenho. Só que uma vida &lt;i&gt;bronzeada&lt;/i&gt; não é tão ruim assim, é? Você quer ser o número um? Então se apresse, porque a fila é quilométrica, e às vezes a catraca emperra. Seja bem-vindo à Decepçolândia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Times, &#39;Times New Roman&#39;, serif;&quot;&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;continua...&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5159831537714599728'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/5159831537714599728'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2012/12/039-e-12.html' title='(039 e 1/2)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-4262856156281865191</id><published>2012-11-28T20:57:00.000-02:00</published><updated>2013-02-17T23:34:59.928-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="1ª temporada"/><title type='text'>(038)</title><content type='html'>Chego ao escritório do sujeito misterioso, e o desencanto já inicia por aí. Eu esperava mais. Não sei, mais refinamento, mais plantas pelos cantos, mais claridade, mais açúcar naquele café que mais parecia um subproduto do departamento de saneamento básico municipal, mais ônibus carregando gente para aquele lado da cidade, ou então, pelo menos, uma secretária com mais pernas e menos bochechas já me faria um bem desgraçado. Nada disso. O lugar lembra mais o gabinete de um detetive particular do que a agência de um editor que sabe das coisas: tem infiltrações nas paredes, janelas fumaceadas baralhando a única regalia do prédio, que é uma vista enorme para o Guaíba, prateado pelas emissões solares. É com o queixo encostado no resguardo da janela que eu espero o cara, após ser anunciado sem muita apoteose.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele tem a simpatia, a calma e a persuasão de quem tem trinta anos de mercado na garupa. Fala sobre um monte de troços que eu não estou interessado em saber, enquanto ricocheteio minha bunda na cadeira dura. Ele não me olha nos olhos, não pergunta onde nasci, nem desde quando escrevo, e nem como pude esconder meu talento durante todo esse tempo, pois claramente estamos diante de um prodígio, um novo Philip Roth ou similar e blá-blá-blá. Não, ele não diz nenhuma dessas coisas, parece que o meu manuscrito não o empolgou tanto assim. E também seria mentira dizer que nunca fui atrás de dilatar o meu talento. É só o que tenho feito até hoje, não tenho culpa se o meu talento é ser normal, pálido e medíocre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O coloco na parede, querendo saber como foi que ele obteve meu trabalho, e o tal editor se esquiva. (Ele começa a se vangloriar de todos os seus feitos pregados na parede, e a dizer nomes de escritores famosos a quem ele deu projeção e toda essa lenga-lenga. Depois de muita enrolação, o senhor velhusco toca no nome de um escritor daqui sobre qual já se ouviu falar, talvez já se tenha lido alguma coisa dele, inclusive alguns diriam que ele já está morto numa enquete de rua sobre seu paradeiro. Não entendo.) Vamos à proposta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você tem um ótimo trabalho aqui, meu jovem – ele diz, folheando uma encadernação cuja folha de rosto traz meu nome.&lt;br /&gt;
– Uhum, uhum – resmungo. Ele continua.&lt;br /&gt;
– Você tem uma prosa calorosa, uma verborragia orgânica, uma juventude feérica que não se vê mais muito nesses dias de hoje – completa. E eu, sentado em sua frente feito um pudim, assinto com o maxilar, mesmo quase não entendendo nada do que ele falou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um minuto interminável até que ele pare de embromar e largue o rascunho na mesa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Então, meu rapaz. Na sua opinião, quanto vale o seu trabalho?&lt;br /&gt;
– Bem. Umas sete noites de amor com a Jennifer Aniston, mais ou menos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele começa uma risada e a interrompe abruptamente, ficando sério.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Então. Eu estive pensando...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Puta merda. Não era esse o trato. Quero dizer, essa foi a primeira tratativa, mas em nenhum dos minutos que gastei vindo até aqui, imaginei que isso não teria a ver comigo, com o nome Santiago Ventura, com o mais novo jovem romancista de vanguarda do pedaço (isso em meus devaneios mais desenfreados, claro). Saio porta afora e não fico de dar uma resposta, mas ele fica de me telefonar na semana que vem para, sabe como é, ver o que eu achei da proposta e se eu pensei melhor. Vou embora com a última frase que ele diz, se dirigindo às minhas costas de saída daquele escritório imundo: “Quem disse que tem coisas que não se compra ainda não ouviu a proposta”. Foi o mais próximo que já consegui me sentir de uma puta, e olha que já fui abusado outras vezes. Só que dessa vez não foi das mais legais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Olha, eu não quero, e não vou, dizer o que o imbecil me disse, porque além de me causar engulho, estou voltando pra casa e agora mesmo o céu liberou uma daquelas chuvas de pré-verão, que acontecem naqueles dias quentes em que você nem pensou em sair de casa com a droga de um guarda-chuva. Está tudo alagado, congestionado e encharcado, incluindo o manuscrito do meu romance, que fiz questão de tomar de volta. Mas tem um filme de que eu gostei muito quando tinha uns dezoito anos – acho que tem o Ben Affleck –, contudo não guardei o nome. E a piada do enredo diz muito sobre isso, talvez: um cara se apaixona por uma garota mesmo sabendo que ela é lésbica, e mesmo assim ela topa namorar com ele, causando um gigantesco ciúme no melhor amigo dele, que por sua vez descobre que a garota fez um &lt;i&gt;ménage&lt;/i&gt; uma vez, com dois colegas dos tempos de escola. Bom, certa altura estão todos infelizes e desapontados pelas mais diversas razões. Então o personagem central, sem saber como resolver tudo, propõe que todos os três se juntem na mesma cama, para exorcizar o passado e cada um dos receios do suposto triângulo. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. O editor obscuro me ofereceu um sexo a três, quando eu só queria a porra de uma namorada e ser feliz. Ah, lembrei, o título é &lt;i&gt;Procurando Amy&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;É claro que não esperei três semanas. Se deu para tirar uma lição disso tudo é que não dá pra ser cem por cento legal. E, pelos meus cálculos, eu já tinha sido 33% legal e isso é muito mais do que muita gente consegue ser. No sétimo dia eu já estava discando os números escritos naquele recibo amassado da máquina de débito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ponto para mim. A garota, a tal de Sarah (que no terceiro dia me lembrei de onde a conhecia; é a Garota Falante do Café Descafeinado!), não perguntou porque demorei tanto, mas me justifiquei mesmo assim. Contei uma história de que estava envolvido num casinho que já estava indo para o buraco de toda maneira, e que não era aconselhável misturar garotas e tal-tal-tal. Ela caiu, muito porque a historinha procede, e o tom da minha voz saiu sincero e bonitinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Vamos sair? Eu pago – ela se joga. Gosto disso. Gosto de garotas que se oferecem pra pagar, mesmo que eu não aceite a contribuição.&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
– Claro. Vamos, sim. Mas antes eu preciso saber. Você está em alguma outra?&lt;br /&gt;
– Como? – ela parece confusa.&lt;br /&gt;
– Situação – tento explicar. – É que, uma besteira minha, mas não curto muito sair com pessoas que já estão com outros lances acontecendo. Sei lá, gosto de saber que sou o único, que não estou furando a fila, atravancando a vida de alguém.&lt;br /&gt;
– Não, não. Faz tempo que não saio com ninguém, na verdade. E também não vai pensando que ando com um bloquinho na bolsa e saio jogando meu telefone nos ventiladores dos restaurantes.&lt;br /&gt;
– Tudo bem. Era só pra saber mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso quer dizer que o rapazinho aquele não tomou atitude nenhuma e acabou ficando para trás. Eu sei, eu sei, o prazo era de três semanas, mas ele devia ter feito alguma coisa no máximo &lt;i&gt;naquele&lt;/i&gt; dia. Foda-se. No meu lugar ele faria o mesmo, se tivesse cacife.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Fomos dar uma volta uma noite fresca dessas. Ela foi me pegar em casa com sua &lt;i&gt;scooter&lt;/i&gt; e um capacete extra. Após breves momentos de hesitação e uma intermitente tremedeira na panturrilha esquerda, eu até que gostei de sentir novamente o medo e a brisa na cara. Estacionamos num gramado, o chão estava úmido, ficamos sentados um tempo, fumando uns cigarros, sem medo do escuro ou do silêncio. Perguntei onde estávamos, e Sarah me diz que ali é o campo oficial do time de rúgbi feminino com quem ela treina às sextas-feiras e disputa campeonatos nos sábados pela manhã. Ótimo, ela me pega em casa de motocicleta e joga num time de rúgbi. Já sabemos quem é o James Dean da relação. Me sinto um pouco menos másculo do que há sete minutos. Mas logo passou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Você precisava ver o entusiasmo da moça com o queixo em pé e a boca entreaberta cuidando o negrume do céu. Acredita que ela não sabia que existe mesmo esse troço de estrela cadente? Achava que era uma espécie de fantasia das pessoas que estão começando a desgostar da vida. Meio que tinha razão, eu disse a ela, quanto a esse lance de pedidos e tudo. Então sugeri que deitasse a nuca na minha coxa e fixasse os olhos num ponto. Até que ela viu, lá distante, de relance, sem muita certeza. Aí largou um sorriso lacrimejante. Foi aí que a gente encostou os lábios. Foi bonito. Depois conversamos mais um pouco, pensamos coisas separadamente, fizemos mais alguns silêncios. E retornamos vivos para casa. Eu para a minha, e Sarah para a dela, na Zona Sul.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não quero entrar em longos devaneios, e nem romancear demais, acabando por desenvolver aqueles sintomas tradicionais de quem acha que deve fazer um telefonema, mas não lembra direito do rosto da pessoa com quem quer falar. Muito porque sou um ás em colocar rostos fictícios em corpos de pessoas reais, em repassar na lembrança imagens violentas de um amor inventado, e sempre acabo vivendo todo o romance e sua sequência de fatos dentro da minha cabeça, sem conseguir ver que lá fora tudo ocorre como num desastre em decomposição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porém, eu gostei dela. É raro encontrar alguém que vê além das nuvens, que se senta no meio do nada pra caçar estrelas e trocar ideias com a lua. Há pouco azul na cidade, ninguém dá mais bola para o firmamento, estão todos vivendo sem perceber os prédios se erguendo na volta e engolindo nossa capacidade de reparar nos detalhes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se eu pudesse escolher, é claro que não estaria ali. Só que eu nem sei onde estaria, e o primeiro lugar que me vem à tona não é exatamente um &lt;i&gt;lugar&lt;/i&gt;, e assim percebo que na verdade não tenho nenhum rumo em mente. Nem pra onde ir, nem o que fazer, e nem quem procurar. Tudo que eu faço achando que é por amor, é uma busca por prazer, é para me sentir vivo. O prazer é a trégua da minha agonizante guerrilha existencial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É por isso que, em alguns meneios desse encontro com Sarah, eu me sentia meio sem nada a acrescentar. É óbvio. Estou recomeçando, zarpei de uma maravilhosa terra prometida e estou me recuperando para avistar uma nova ilha deserta para atracar. E quando todos já saltaram, é aí mesmo que tudo fica leve e diminui o risco de afundar. Acredite sempre no barco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Juliete me liga na manhã seguinte. Não atendo. Ela deixa recado. Não acesso. Um anônimo toca o interfone apaixonadamente, e eu escorrego para baixo da cama, tampo os ouvidos e finjo que não estou, ou que estou morto, que dei um tiro nos miolos ou que tomei uma grande quantidade de drogas enlouquecedoras ou que sofri uma parada cardíaca durante a noite. Ela liga mais uma vez. Dessa vez não deixa recado. Dou um tempo e vou para a cafeteria trabalhar.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4262856156281865191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/4262856156281865191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2012/11/038.html' title='(038)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3492663220501222631.post-3782294272373012313</id><published>2012-11-21T11:09:00.001-02:00</published><updated>2013-02-17T23:34:59.925-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="1ª temporada"/><title type='text'>(037)</title><content type='html'>Estou apaixonado, mas desta vez não por uma garota. Porém, por um livro – que até me fez esquecer toda essa encheção. Sirvo uma torta ganache de chocolate branco em uma mesa e pego o livro: alguém está voltando pra casa no vagão dos fumantes. Perto da janela um cliente ergue o braço por um chá de menta, levo gentilmente, e retorno ao mundo perfeito: Frank está morrendo de tédio com aquele emprego idiota dele; e por aí o dia corre. E eu estou grudado nas páginas como uma lombriga maníaca e faminta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A obra-prima de capa mole e meio amarelada que está me desfibrilando foi escrita pelo Richard Yates, e foi nomeada aqui bagaceiramente de &lt;i&gt;Foi Apenas Um Sonho&lt;/i&gt;, quando virou um filme com aquele casal de atores que fez também aquele clássico premiadíssimo em que um navio afunda. Mas o nome original é &lt;i&gt;Revolutionary Road&lt;/i&gt;, ou algo como “Rua da Revolução”. Esse Yates escreve tão bem que me dá vontade de chorar enquanto sinto um conforto paralelo; porque, eu acho, se você não chega nem perto de traçar as linhas como faz esse cara, seu lugar é mesmo atrás de um balcão de uma cafeteria insignificante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estou tendo meus dias de Frank Wheeler e é isso que me amarra a um escritor. Incorporar, por algum tempo, seus personagens. Já tive meus dias de Arturo Bandini com essa coisa de querer publicar um grande romance geracional; já vivi na carcaça do jovem Werther perseguindo Juliete-Charlotte; também incorporei Sal Paradise aquela vez em que escapei até Dublin para trabalhar com esfregões e vasos sanitários; e todo dia é dia de ser um pouco Holden Caulfield, como confirma meu constante mau humor e meu pirronismo com a coitada da humanidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas aí:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Olá, eu gostaria de falar com Santiago. Santiago Ventura – um homem diz do outro lado de um obscuro telefonema no meio da tarde. Ele tem uma proposta que pode me interessar, ao menos é o que ele diz.&lt;br /&gt;
– Obrigado, senhor. Não quero assinar nenhuma revista.&lt;br /&gt;
– Não sou vendedor de assinaturas.&lt;br /&gt;
– Ah, bom – grunho. – Também não estou interessado em trocar minha tevê a cabo, senhor.&lt;br /&gt;
– Errou outra vez, rapaz.&lt;br /&gt;
– Hum. Aparelhos para modelar o abdômen?&lt;br /&gt;
– Não.&lt;br /&gt;
– Uma promoção de geladeiras?&lt;br /&gt;
– Errado.&lt;br /&gt;
– Eu ganhei algum sorteio de programa de auditório?&lt;br /&gt;
– Está frio.&lt;br /&gt;
– Já sei. Deixa eu ver... – É difícil imaginar que tipo de televendas tomaria esse rumo na negociação. – Escuta, você pode me dizer logo qual é a sua?&lt;br /&gt;
– Meu nome é Hermes Schmelzer. Você não me conhece, mas eu conheço você.&lt;br /&gt;
– Você é matador profissional, por acaso?&lt;br /&gt;
– Ei, não!&lt;br /&gt;
– Desculpe, senhor. Mas é que faria todo o sentido. Então o que você quer?&lt;br /&gt;
– Recebi aqui no meu escritório uma prova do seu romance. Tenho uma proposta a te fazer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que porra é essa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Que porra é essa? Como assim? Do que você está falando? Como você conseguiu isso? – muitas perguntas.&lt;br /&gt;
– É confidencial. Segredo de mercado. Anote aí meu endereço e venha tomar um café comigo amanhã.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se minha vida fosse um romance de Richard Yates, ou alguma trama policial de revista &lt;i&gt;pulp&lt;/i&gt;, seríamos enrolados até o último capítulo, e todos os acontecimentos seguintes girariam sobre o eixo “Quem Roubou O Livro de Santiago Ventura?” Mas ninguém aqui no Sta. Gemma Café e no resto do mundo todo está interessado nisso, muito porque o vilão está muito na cara: aquela putinha desgraçada que está sempre se metendo onde não é chamada. Juliete é a abelha picando meu pescoço. O cocô de cachorro no meio da grama onde piso. O fusca azul 1968 ultrapassando o semáforo fechado e esmagando minhas pernas em plena faixa de segurança. Juliete é a goteira sobre minha cama. Que diabos essa garota!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É tudo culpa dela. Tudo. Minha ruína, minha amargura, minhas trapalhadas e todas as coisas boas que acontecem comigo de vez em quando. Acho que é por isso que eu odeio tanto tudo nesse mundo. Tenho experimentado cada pessoa, cada assunto e cada utensílio doméstico com fins de ver se consigo detestar algo com mais profundidade e com todas as minhas forças, para assim rebaixá-la ao segundo lugar na minha lista pessoal de coisas que me enervam. Tem um espremedor de alho que está há trinta e três semanas na segunda posição, mas que parece não ter a menor chance. Maldito foi o dia em que ela atravessou por aquela porta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;***&lt;/div&gt;Ela tem exatamente vinte e nove pintinhas marrons divergindo com o branco encanecido de suas costas lisas, dos ombros à lombar. Quando Baby Julie dá uma folga e adormece de bruços, gosto de ficar revirando seu tronco e membros atrás dos defeitos reles da sua carne de menina-garota-mulher. Me encurvo sobre as viandas da sua pele e vou procurando futilidades como um perito especialista em feminilidades; de olhos, dedos, dentes afiados tatuando impressões e marcas de saliva, às vezes enfrentando alguns resmungos protestantes de quem está cansada e quer ser deixada em paz alguns minutos antes de vestir a saia e o sutiã, entrar no carro e ir pra casa viver sua vida pública.&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
A cama é um lugar democrático. Quando estamos na minha, nus e implorando aos deuses do orgasmo para sermos salvos, trepando ou rindo ou conversando – ou tudo isso ao mesmo tempo –, eu não me sinto um fracassado cheio de vergonha do meu emprego e do cubículo que é esse apartamento vazio. Não, quando eu a seguro forte por trás e sinto olor doce de seu dorso ou do pescoço, eu me sinto um grande homem, o mais próximo de ser um macho dominante que eu já me senti na vida. E Juliete se sente estranhamente acolhida e favorita de alguém. Porque, se eu posso usar toda essa potência para foder com ela de quatro, posso também usar a mesma força e artimanha para protegê-la de alguma coisa que a gente ainda não sabe o que é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por isso essa luta, esse vaivém, esse carteado, essa constante e circular recriação de um ambiente inóspito para o nosso amor acidental. Ela me provoca e está sempre me pentelhando para despertar meu lado áspero, firme e corpulento, que a faz perder o comando. Tudo que ela quer é me ver como homem, por pelo menos uma hora a cada sessão. Sentir que não é a manda-chuva, e figurativamente ser posta na vala comum das garotas que dão e não recebem o que procuram em troca, porque não sabem se estão o fazendo por amor, carência ou autoafirmação. Sei lá, estou apenas refletindo sobre isso sem nenhum dos ensinamentos filosóficos que ela deve receber como estudante do quinto semestre. Se tem alguma coisa a ver com os descuidos afetivos daquele pai escroto dela, não quero nem saber. O que importa é que sexo com garotas malucas e emocionalmente arrebentadas é sensacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como era de se esperar, ela matou aula e deu uma passada aqui, como já virou hábito. Um hábito perigoso, adorável e inconsequente, preciso dizer. Nada muito diferente do normal, então, como era de se esperar num caso de violação de privacidade como esse, eu voei na sua direção com sangue nos olhos. Aí, depois de uma crise hipócrita e dissimulada, do tipo que-direito-você-tinha e parecida com uma asma, ela me convenceu que apenas fez aquilo que eu mesmo faria, se tivesse um pouco de dignidade, autoestima e coragem. Cinco minutos depois, ou nem tudo isso, como era de se esperar, e eu já estava com o maxilar enfiado no meio das pernas dela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um tempo depois:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Tenho boas e más notícias – ela fala sem me encarar.&lt;br /&gt;
– Você quer que eu escolha? – eu sondo. – Bom, na verdade tanto faz, porque dificilmente uma notícia partindo de você é tão boa que possa suprimir as ruins. Todo o bem que você me faz está sempre soterrado por escombros e destruição.&lt;br /&gt;
– Deus, como você é exagerado e melodramático – Juliete me acusa. – Mas não são apenas uma boa e uma ruim, são duas de cada, uma meio que relacionada à outra.&lt;br /&gt;
– Complicado. Hum. Escolha um tema e me mande a boa.&lt;br /&gt;
– Ok – ela toma fôlego. – Meu namoro com o Maurício está suspenso até o fim do verão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grande áfrica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– E a ruim é que você não estará aqui todo esse tempo de meditação nupcial, e sim vagando pela Europa – concluo sozinho.&lt;br /&gt;
– Isso aí. Acertou – diz Juliete, com um ar positivo e contente por eu não dar faniquitos a respeito disso. É que eu já sabia.&lt;br /&gt;
– E a outra boa?&lt;br /&gt;
– Eu realmente gosto de você – diz. – Sabe? Não só como amigo – continua, aos solavancos e engasgos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juliete não faz muito o tipo de garota que deixa escapar essas sentimentalidades de filme romântico. Eu acho que ela anda meio incentivada por aquela sessão cinematográfica que tivemos. Mas ela acaba dizendo também, ainda que meio rouca e bloqueada, que está apaixonada de verdade por mim, que “está assombrada porque acha que nunca tinha sentido algo tão forte por alguém antes”, com essas palavras. Não consigo segurar um sorriso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– E como foi que você descobriu isso logo agora? – digo, terminando de limpar o riso da cara.&lt;br /&gt;
– Bom. Aí vem a outra má notícia – diz. E faz uma pausa dramática, enquanto algo queima e retumba no meu peito. – Porque eu saí com outro cara.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meu sorriso derrete e minha cara se parte em um bilhão de pedacinhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Digo, alguém além de você e o meu namorado. Bem, acho que você entendeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Deveria existir alguma lei na pauta do congresso proibindo alguém de dizer que está apaixonado por você e no minuto seguinte despejar que dormiu com outra pessoa. Está mais do que na hora do poder legislativo e desses políticos de bosta interferirem nos nossos diálogos amorosos, pois claramente estamos vencendo os limites.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meu rosto está quente e minhas canelas estão geladas. Permaneço uns minutos cozinhando a boa-nova e o novo viés de caráter que a garota está me apresentando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Como... – quero perguntar, mas não sei o quê, e Juliete percebe, então logo começa com as justificativas.&lt;br /&gt;
– Sei lá, Santi. Eu estava mal. Confusa, perturbada, fora de mim. Sabe? Com esse negócio aí que eu disse, do que estou sentindo por você... – Ela não consegue repetir que está apaixonada por mim, como se a frase contivesse mensagens diabólicas ao ser lida de trás pra frente.&lt;br /&gt;
– E a solução foi trepar com outro? – grito.&lt;br /&gt;
– Não, não. Não fui pra cama com esse. A gente só se beijou.&lt;br /&gt;
– Puta que o pariu, Juliete!&lt;br /&gt;
– Calma, Santiago. Não foi nada. Eu precisava tirar a prova, entende? Saber se, de repente, eu apenas não estava enjoada do meu relacionamento e procurando uma distração. Mas agora eu sei, eu sei. Eu gosto mesmo de você! – ela consegue dizer, mas não ajuda nada. Então retoma: – Desculpa. Sei lá. Eu não sei onde estava com a cabeça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ah, tá bom. Elas sempre dizem isso. Aposto que antes de ser esfaqueada naquele banheiro de hotel, Nancy Spungen disse a Sid Vicious que não sabia onde estava com a cabeça. Jogo contigo que Brigitte Bardot dormia com um camisetão com a inscrição “Eu Não Sei Onde Estava Com A Cabeça”. Sério mesmo, então sou um asno a respeito do gênero feminino, se todas as letras de ódio consolador e romântico que o Billy Joel já compôs em toda sua autobiografia musical não são inspiradas em garotas que, supostamente, não sabiam onde estavam com a cabeça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não posso acreditar. Estou realmente puto com isso. Me sentindo devastado, estarrecido, enojado, tonto, inútil, imbecil. Achei mesmo que o que estava acontecendo aqui era um troço especial entre o universo e duas pessoas. Ok, três – corrigindo. Mas ainda assim, eu achei que eu e o tal do Maurício éramos únicos, incomparáveis, diferentes de todos os outros caras, sujeitos realmente &lt;i&gt;sui generis&lt;/i&gt; no coração bárbaro e sujo e perverso de Juliete. No duro, essa garota podia ministrar workshops às pessoas que querem quebrar um coração e não sabem como fazer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– Você não pegou a essência da coisa, Santi – ela insiste. – Eu não tive as mesmas chances de experimentar tudo de quem se criou na rua. Fui criada com zelo excessivo, não tinha permissão pra nada, ir a uma festa ou pegar um resfriado. Depois me envolvi muito cedo com o Maurício, hoje eu vejo na época era o melhor meio para me libertar da tirania do meu pai, enfim, poder viver alguma coisa, ir além do nosso condomínio de luxo. Aposto que você não sabe como é isso, sentir... Ei, do quê você está rindo?&lt;br /&gt;
– Do quanto sou um ingênuo estúpido – respondo a ela, no meio de uma conflagração de risos impulsivos, reação essa que só demonstra o quão transtornado estou com o noticiário. Acho que vou sair daqui de ambulância.&lt;br /&gt;
– Por acaso você ouviu a parte onde eu disse que isso que aconteceu foi uma coisa positiva? – ela fala elevando o timbre, irritada notoriamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Risos. Risos. Risos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
– E que diferença isso faz? – sigo gargalhando de besta, até ela dar o fora, do mesmo jeito que entrou na minha história: chorando. E eu continuo lá, gozando o pseudo-êxtase ridículo de algumas risadas remanescentes, até dizer chega. Até dizer: agora é sério, parei. Até dizer: estou fora. Até dizer nunca mais.</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3782294272373012313'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3492663220501222631/posts/default/3782294272373012313'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.julietenuncamais.com.br/2012/11/037.html' title='(037)'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>