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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/atom10full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearch/1.1/" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" gd:etag="W/&quot;DUcMQH49fSp7ImA9WhRTF0w.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629</id><updated>2011-11-07T23:51:21.065-02:00</updated><title>lemúrias (paisagens entre parênteses)</title><subtitle type="html" /><link rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/posts/default" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>24</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/Lemurias" /><feedburner:info xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" uri="lemurias" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><entry gd:etag="W/&quot;CEYBQ3c6eSp7ImA9Wx5aEEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-2720113031457195107</id><published>2010-11-06T18:30:00.003-02:00</published><updated>2010-11-06T23:09:12.911-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-11-06T23:09:12.911-02:00</app:edited><title>O cupido (ou o ato em vão)</title><content type="html">Apesar de ter uma pequena deficiência que não permitia a Pepe acompanhar os meninos de sua idade na escola, meu irmão era bastante inteligente. Fanático por leitura, subia toda tarde até a biblioteca do pai, pegava o livro de mitologia grega e lia e relia até o jantar. &lt;br /&gt;Aproximando-se o carnaval, logo anunciou a todos:&lt;br /&gt;- Quero ir de cupido.&lt;br /&gt;Fácil, o cabelo louro e encaracolado já lhe dava a cara angelical, bastando apenas arrumar um tecido para enrolar no corpo e umas sandálias. Minha avó cuidou de todo o vestuário: comprou o calçado na feira; pegou uma velha cortina branca e, com sua tesoura e máquina, fez um tipo de vestidinho que lembrou bem os tempos antigos.&lt;br /&gt;No jantar, Pepe irritou-se:&lt;br /&gt;- E as flechas?&lt;br /&gt;- Quais flechas?&lt;br /&gt;- Do Cupido! Eu não serei o Cupido? Pois bem, ele tem flechas e um arco também!&lt;br /&gt;É mesmo, tinha razão. Meu avô, então, foi a uma loja na manhã seguinte e comprou um brinquedo de plástico vagabundo.&lt;br /&gt;Na noite de Carnaval, bateram na porta do quarto. &lt;br /&gt;Leve seu irmão ao baile da praça, ordenou-me a mãe.&lt;br /&gt;- Não quero.&lt;br /&gt;- Você vai levá-lo.&lt;br /&gt;- Mas eu não quero.&lt;br /&gt;- Leve! Não é um pedido, é uma ordem, moleque.&lt;br /&gt;Peguei no braço do menino e desci as escadas. O conjunto lhe caiu tão bem que pareceu mesmo um anjo. &lt;br /&gt;Na praça, o sorriso no rosto aliado ao brilho no olhar indicavam a felicidade inocente do meu irmão. O movimento da festa alegrava a Pepe, acostumado a ficar trancado sozinho dentro de casa. Tudo ia bem até que dez minutos após chegarmos ao local, rodeando o coreto, apareceu Solange com o atual namorado.&lt;br /&gt;Era eu feliz com ela até mês passado, quando terminou comigo para ficar com esse homem lá de Brasília. Mulher de cidade pequena se derrete por qualquer forasteiro.&lt;br /&gt;Aí, fiz força, mas não consegui: ao vê-la beijando o canalha, uma lágrima caiu.&lt;br /&gt;Pepe olhou tudo. Perguntou-me se era por causa de Solange e pedi a ele que deixasse para lá este assunto.&lt;br /&gt;Irritado, desgrudou de meu braço e saiu correndo em direção a ela. Com seu arco, começou a atirar desengonçadamente suas flechas. Uma bateu na perna, outra na barriga.&lt;br /&gt;- O que está fazendo, moleque doido? – Perguntou Solange.&lt;br /&gt;- É para que ame meu irmão!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-2720113031457195107?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/2720113031457195107/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/11/o-cupido-ou-o-ato-em-vao.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2720113031457195107?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2720113031457195107?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/11/o-cupido-ou-o-ato-em-vao.html" title="O cupido (ou o ato em vão)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEMGQXk7fyp7ImA9Wx5QFU8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-7374673503441176133</id><published>2010-09-03T12:07:00.003-03:00</published><updated>2010-09-03T12:07:00.707-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-09-03T12:07:00.707-03:00</app:edited><title>fuso horário (ou a pausa significativa dessas horas em tão pouco tempo)</title><content type="html">já te amanhece aí e aqui ainda é ontem. enquanto tento apagar o pouco do meu hoje, você já está começando um outro dia, e o seu ontem- que é ainda onde estou e até mais longe- você já não se lembra mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dois compassos em tempos errados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já te anoitece aí e aqui agora é dia. hoje. se eu te conto desse meu hoje, meu presente, o que me passa agora chega pra você em forma de futuro, o seu presente acontece no meu futuro e assim, tudo fica cada vez mais distante de mim. tudo que me disse ontem ficou como lembrança dentro do meu dia de ontem. mas pra você ainda era hoje, e enquanto eu interpretava como lembrança, pra você era o instante. enquanto eu interpretava como instante para você era uma chance no futuro. quando entendi como uma chance, já não estávamos no mesmo futuro, já era tarde demais, e voltou a ser lembrança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem compasso.&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já me chegou amanhã, já deixou de ser ontem mas não o bastante para alcançar o seu presente (já são duas noites de diferença) por mais que eu tente acelerar o futuro, jamais alcançarei o seu hoje jamais alcançaremos o mesmo tempo e as horas não permitem que a gente entenda da mesma forma, as frases são difusas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;três por quatro e não há valsa alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se hoje a minha fala é construção, chega então até você como ruína. esse andamento na nossa comunicação se dá em alegretto. adagio melancolico na nossa tradução. dois pontos e um dos lados dos parênteses virado para cá. um sorriso. é entre esses dois pontos e um desses parênteses virado para cá que fica a lacuna entres nós dois, os deslocamentos do tom, os acidentes na tradução. conversamos em compassos que nem ao menos são nossos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dando passos para o nada.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-7374673503441176133?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/7374673503441176133/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/09/fuso-horario-ou-pausa-significativa.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7374673503441176133?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7374673503441176133?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/09/fuso-horario-ou-pausa-significativa.html" title="fuso horário (ou a pausa significativa dessas horas em tão pouco tempo)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkIDSX8_fSp7ImA9Wx5WEkw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-5570847399791725159</id><published>2010-08-30T00:26:00.007-03:00</published><updated>2010-09-22T23:56:18.145-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-09-22T23:56:18.145-03:00</app:edited><title>Um dia especial (ou um dia qualquer)</title><content type="html">Acordou mais cedo, mas custou a levantar. Sentia um misto de uma tola esperança ansiosa e a amarga certeza da realidade. Por fim, levantou. A esposa nem lhe deu bom dia, enquanto ele comia devagar e tomava o café. “Sempre essa moleza”, ela disse, “Vai logo, a gente vai se atrasar”. No andar de cima, as filhas ainda dormiam.&lt;br /&gt;A esperança ansiosa diminuía a cada passo que dava, sendo totalmente substituída pela certeza da realidade: nada de diferente, o mesmo trânsito, o mesmo cansaço, o mesmo mau humor. Deu bom dia para os funcionários e foi da colega, de quem nem gostava tanto assim, que recebeu o primeiro “Parabéns”, e logo em seguida, “você trouxe bolo?”. (Afinal, pedir o bolo direto seria excesso de sinceridade e falta de educação).&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;O resto do dia transcorreu normal e sentia-se até envergonhado por ter, horas antes, pensado que seria diferente. Riu de si mesmo, pois ano após ano ele confirmava que nada mudaria: era apenas mais um dia.&lt;br /&gt;Voltou para casa, foi o último a sair da empresa. Disse que precisava terminar relatórios urgentes, mas, quando se viu sozinho, jogou paciência até às 19h27. Resolveu que estava na hora de voltar. Ele só queria que o dia acabasse.&lt;br /&gt;Chegou em casa e jantou. Sozinho. A esposa preferia a companhia da televisão e ele, a solidão. A filha número um chegou em casa e resmungou um “voltei”. Ela preferia a companhia do computador, então fez um prato e comeu enquanto falava para a amiga, via MSN, que se sentia sozinha e que não tinha com quem conversar.&lt;br /&gt;A filha número dois chegou tarde, como sempre. Ele sentiu-se melhor, pois sabia que o dia estava acabando e poderia dormir, fingir que foi apenas mais um dia normal, como todos os anos anteriores. Mas a filha número dois estragou tudo quando lhe deu um abraço, sincero mas desajeitado, e disse “Parabéns!”.&lt;br /&gt;Ele sentiu-se feliz, mas triste. O abraço desajeitado fez com que a máscara da indiferença lhe caísse do rosto, e ele teve que sorrir (ainda se lembrava vagamente de como fazer isso). Deitou-se na cama mais cedo do que o normal, a esposa veio perguntar-lhe se ele estava com gripe.&lt;br /&gt;Encorajado pelo abraço e sem a proteção de sua máscara, ele murmurou entre dentes: “Você sabe que dia é hoje?”. Ela parou e pensou, respondeu alto, já preparada para brigar (apesar da pergunta banal, o tom de voz dele a incomodara). Ela disse: “Quarta-feira, por quê?”.&lt;br /&gt;Ele sorriu sem estar feliz (isso ele sabia bem como fazer) e disse: “É meu aniversário”.&lt;br /&gt;Pelo silêncio que se fez, poderíamos imaginar que se abraçaram e que ela pedia desculpas por esquecer. É o cansaço do dia-a-dia que acaba minando da vida de um casal o companheirismo e a memória de antes. Mas não, ela estava procurando o chinelo e disse apenas, mais para si do que ao marido, “vou lavar a louça”.&lt;br /&gt;Ele dormiu, a máscara da indiferença recolocada em seu rosto. Era assim que tinha que ser, e sentiu-se mais confortável com aquilo, a que já estava acostumado, do que com o abraço da filha número dois.  Resolveu que no ano seguinte, em seu aniversário, iria dormir mais cedo, fingindo gripe ou indisposição, para não ter de encontrar no dia a filha número dois.&lt;br /&gt;Enquanto isso, no quarto ao lado, a filha número dois ouvira aquele diálogo insólito e entendeu tudo na mesma hora. Reprimiu uma dor e uma lágrima (ela sempre fora desnessariamente sensível) e preferia não ter ouvido nada. Resolveu que no ano seguinte, naquele mesmo dia, iria chegar mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-5570847399791725159?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/5570847399791725159/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/08/um-dia-especial-ou-um-dia-qualquer.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/5570847399791725159?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/5570847399791725159?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/08/um-dia-especial-ou-um-dia-qualquer.html" title="Um dia especial (ou um dia qualquer)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;A04HRXo_fSp7ImA9Wx5SE0g.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-6338743188488930388</id><published>2010-08-08T21:36:00.004-03:00</published><updated>2010-08-09T10:18:54.445-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-08-09T10:18:54.445-03:00</app:edited><title>Fotografias modernas (ou abecedário de histórias que ouvi bebendo sozinho na Praça da Bicota)</title><content type="html">André queria se matar. Subiu até o último andar de seu prédio, olhou para baixo e desistiu: tinha medo de altura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bianca odiava o trânsito, seu trabalho, sua cidade e até mesmo seu país, mas sentia-se a pessoa mais feliz do mundo quando a cachorra lambia seu rosto todo dia de manhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos ficou muito triste quando percebeu que faltava naturalidade nas pessoas. Teve esse &lt;span style="font-style: italic;"&gt;insight&lt;/span&gt; no terceiro ano vivendo numa comunidade naturalista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daniela queria um amor; e recusou todos os amores que apareceram porque não era aquele que queria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elías julgava-se o mais tolo dos tolos; por isso, decidiu virar poeta&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farías descobriu qual era a maior hipocrisia do mundo quando levantou o dedo para chamar seu irmão de hipócrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo estava deprimido porque não tinha o que fazer. Escreveu, terminou e viu que nada adiantou: concluiu sua tarefa e veio novamente a melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hiago achava as noites de São Paulo muito tristes. Numa delas, conheceu Iara e tornou-se o mais feliz dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge sonhava em ser piloto de avião, porém virou lojista. Viajava para países distantes nas férias só para ficar horas e horas no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lorraine abraçou seu pai e chorou: fazia tempo que não se via nos braços de um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Márcio, também conhecido como Nóinha, era o traficante mais malvado da quebrada. Comia todas, bebia, cheirava e matava sem dó. Virou crente e teve todos os seus pecados perdoados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Otávio morria de rir quando deitava no colo de sua mãe e ouvia os barulhinhos da barriga dela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penélope olhou para um letreiro e disse a ela mesma: C+O, co; C+A, ca; C+O, co; L+A, la: Coca-cola! Desde aquele dia em que foi alfabetizada, sua paixão era desvendar as palavras do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quagliarella sentia-se o maior homem vivente. A culpa não era toda dele: ultra-premiado, o chamavam de gênio porque roubava as histórias dos outros e contava para todo o mundo. Quagliarella era jornalista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberval estava triste. Foi ao médico e este lhe receitou um remédio para a felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana não conseguia dormir. Foi ao médico e este lhe receitou um remédio para o sono&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talita não emagrecia de jeito nenhum. Foi ao médico e este lhe receitou um remédio para perder peso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ulisses estava cansado de sempre broxar. Foi ao médico e este lhe receitou um remédio para o pau subir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Victor percebeu o quanto estava irritado quando quase bateu em sua esposa. Foi ao médico e este lhe receitou um remédio para se acalmar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xavier, cheio dos problemas internos, concluiu que não sabia viver. Não havia remédios para seu problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zelia abriu a porta do apartamento e deu graças a Deus por seu filho André ter voltado com segurança do trabalho e ser um rapaz bonito e saudável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-6338743188488930388?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/6338743188488930388/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/08/fotografias-modernas-ou-abecedario-de.html#comment-form" title="8 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6338743188488930388?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6338743188488930388?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/08/fotografias-modernas-ou-abecedario-de.html" title="Fotografias modernas (ou abecedário de histórias que ouvi bebendo sozinho na Praça da Bicota)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUQCSHs7fyp7ImA9WxFaGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-4739194328976792620</id><published>2010-07-21T14:04:00.004-03:00</published><updated>2010-07-22T11:02:49.507-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-22T11:02:49.507-03:00</app:edited><title>elefantes (ou o tamanho de deus)</title><content type="html">menos zero -0&lt;br /&gt;o espetáculo dos elefantes havia sido na semana anterior, porém, era dificil de esquecê-los. o cheiro de estrume ainda rondava o ambiente e o vazio que a ausência deles deixava era quase maior que os próprios animais. todos tiveram a oportunidade de vê-los na sala de estar, camuflados na cortina; no banheiro, escondidos na banheira; no quarto, dentro do armário das camisas. em meio a brindes e copos vazios todos sorriam com a alegria e a elegância do olhar triste e desengonçado dos elefantes. havia cor, muita cor, vermelhos intensos, padrões verdes sobre verde, listras azuis-marinho e brancas. e todos tinham acesso a pincéis e tintas. alguns estavam ali para admirar, outros queriam sentir o prazer dos pincéis feitos com pêlos de orelha de boi passando sobre a pele enrugada e cheia de nostalgia dos elefantes.&lt;br /&gt;porém, sempre havia aqueles que traziam suas facas de casa e, entre uma conversa e outra, no escuro do ambiente, raspavam pedaços de marfim para depois usarem a metáfora das carreiras bem sucedidas e cheirarem suas ganâncias.&lt;br /&gt;no banheiro um casal jovem conversando prudentemente sobre ratos afastou um dos elefantes deixando o ambiente livre para suas imprudências joviais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos um -1&lt;br /&gt;na hora da saída o caos estava estabelecido. apesar dos vários esbarrões, estava proibido qualquer tipo de menção ao verbo "trombar". tanto pelo infame trocadilho quanto pelo fato de que os elefantes não queria ser lembrados de que se sentiam uma aberração.&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos dois -2&lt;br /&gt;os elefantes eram animais grandes com uma pele estranha, duas presas ao lado da boca, orelhas grandes e um rabo curto. tinham uma memória incrível e eram muy venerados por algumas pessoas.&lt;br /&gt;eles eram facilmente encontráveis no ambiente apesar de camuflados. era só ter um pouco de força de vontade.&lt;br /&gt;quando isto, as pessoas se ajoelhavam diante deles e não conseguiam ver mais nada além...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos três -3&lt;br /&gt;o ambiente estava quente e eram as orelhas dos elefantes que regulavam a temperatura. &lt;br /&gt;é tudo relativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos quatro -4&lt;br /&gt;havia um artista na sala. o único que não comia e não conversava com ninguém. trazia consigo o seu lápis e alguns papéis caros. sentava-se em posições estranhas (provavelmente pra chamar atenção) e fazia caras engraçadas.&lt;br /&gt;ele se posicionava estrategicamente entre as pessoas de paletó e as pessoas de chapéu, ficando longe das pessoas sem paletó nem chapéu. sabia que assim era melhor, pois as pessoas de paletó protegiam seus corações e poderiam sentir seus desenhos com mais ênfase. as pessoas de chapéu protegiam seus cérebros e assim poderiam fazer a semiose de seus traços. já as pessoas sem paletó nem chapéu estavam ocupadas demais admirando os paletós e os chapéus dos que tinham chapéus ou paletós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos quatrovirgulacinco - 4,5 (adendo necessário)&lt;br /&gt;o artista era o único, também, que tinha, ao mesmo tempo, um chapéu e um paletó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos cinco -5&lt;br /&gt;havia três cegos na sala e, contrariando as expectativas, quando cada um tocou em uma parte do elefante, não discordaram que era do mesmo animal que falavam. &lt;br /&gt;os cegos não usavam nem chapéu nem paletó nem calças. achavam que ninguém que ali estava podia ver, deixando assim seus pudores guardados em casa junto com suas roupas cheirando a mofo. &lt;br /&gt;os cegos podiam sentir a tristeza dos elefantes com suas mãos. "eu não pedi pra nascer assim" dizia o primeiro cego sobre o que ouvia de um dos grandalhões pela sua pele e pêlos. "odeio ser desengonçado", dizia o segundo cego traduzindo para todos o que escutava com suas mãos no elefante. "queria que todos pudessem realmente me ver, mas são todos cegos", gritou o terceiro cego sem perceber que, na verdade, tocava um espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos seis -6&lt;br /&gt;com o vento, uma folha de papel caiu no chão. ninguém riu, temendo a deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos sete -7&lt;br /&gt;a comida já estava servida: amendoins. &lt;br /&gt;todos esqueciam das regras da etiqueta quando tinham fome - "cinco minutos de festa sem nenhum tipo de alimento é inadimissível", cantavam em coro - e comiam vorazmente. a cada punhado de amendois um gole num licor barato para que a comida descesse mais rapidamente e assim pudessem alimentar mais ainda sua gula ao mesmo tempo que embebedavam-se em homenagem aos elefantes magros e camuflados pelo ambiente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos oito -8&lt;br /&gt;um senhor magro com calças engraçadas e um bigode fino e assimétrico havia estendido a lona e armado o picadeiro na dispensa na noite anterior, os participantes foram chegando e, um a um, agradeceram os convites feitos com dez minutos de antecedência. "o mundo gira muito rápido", diziam eles. metade dos covidados faltaram ao encontro por estarem preocupados demais com a falta de ocupação que os assolava todas as noites. passavam horas procurando em seus diários (vazios por representarem fielmente seus dias) as respostas pras perguntas que viriam a fazer amanhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menos nove -9&lt;br /&gt;era noite, e tudo era silêncio, exceto os bramidos dos elefantes que estavam chegando e que, em euforia, se esqueciam do seu passado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-4739194328976792620?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/4739194328976792620/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/07/elefantes-ou-o-tamanho-de-deus.html#comment-form" title="10 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4739194328976792620?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4739194328976792620?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/07/elefantes-ou-o-tamanho-de-deus.html" title="elefantes (ou o tamanho de deus)" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEcEQXg7eip7ImA9WxFaEk4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-193914532056174785</id><published>2010-07-10T20:22:00.006-03:00</published><updated>2010-07-15T19:13:20.602-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-15T19:13:20.602-03:00</app:edited><title>O poeta (ou os efeitos colaterais do amor; ou, ainda, tentando entender a lógica da loucura)</title><content type="html">Eu nunca o entendi muito bem. Talvez por isso soubesse, em meu íntimo, que não podia passar idéias suficientemente sérias em sua cabeça para que seus desejos fossem realizados.&lt;br /&gt;   Tomava minha cerveja vendo o Brasil perder para a Holanda quando a campanhinha tocou. Tinha finalmente um plano.&lt;br /&gt;   - Plano de que, Ibarra?&lt;br /&gt;   - Eliza. Finalmente bolei algo para que ela nunca mais me esqueça!&lt;br /&gt;   Era o amor não correspondido dele. De rosto era linda, mas o corpo magro demais lhe dava um aspecto de tísica. Se conheceram por minha causa: eu namorava uma amiga de infância dela e, por mero acaso, meu carro quebrou no meio da rua num dia em que dava carona a Ibarra. Estávamos perto da casa da minha ex e, como chovia, achei melhor visitá-la enquanto o guincho não vinha. Eliza estava lá e nunca mais saiu do coração de meu amigo, mesmo tendo sido rejeitado três vezes.&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;   Esqueça essa Eliza, eu lhe disse irritado com o jogo.&lt;br /&gt;   - Não, meu velho, isso é impossível! Confie em mim: tenho certeza de que dessa vez eu vou ficar marcado na vida dela.&lt;br /&gt;   Saiu sem me explicar o que era tal plano, deixando a porta aberta e passe-livre para minha cachorra escapar.&lt;br /&gt;   No outro dia, bem cedo, acordo com um telefonema: Ibarraga escreveu um poema de amor e se enforcou na árvore em frente à sua casa. Eu sabia que por mais que ele pensasse em algo, não daria certo: três dias antes, Eliza se mudou com a irmã para a Itália. Conseguiu cidadania e fez o caminho contrário ao de seus avós em busca de uma vida melhor. Não soube da morte.&lt;br /&gt;   Deixo, no entanto, esse texto em homenagem ao seu esforço, Ibarra. Quem sabe um dia Eliza não possa lê-lo e passar, então, a levar mais a sério quando alguém disser aos quatro ventos que morre de amores por ela.&lt;br /&gt;  &lt;p style="font-style: italic;"&gt;(Em memória de Guilherme Rosa Ibarraga, 15/11/1987 – 02/07/2010)&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-193914532056174785?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/193914532056174785/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/07/o-poeta-ou-os-efeitos-colaterais-do_10.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/193914532056174785?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/193914532056174785?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/07/o-poeta-ou-os-efeitos-colaterais-do_10.html" title="O poeta (ou os efeitos colaterais do amor; ou, ainda, tentando entender a lógica da loucura)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ak4ARnwzcCp7ImA9WxFVGE8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-2295309697100591217</id><published>2010-06-17T23:39:00.002-03:00</published><updated>2010-06-17T23:42:27.288-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-06-17T23:42:27.288-03:00</app:edited><title>Arquivo #1 (ou o título verdadeiro e a essência de tudo estão escondidos. Mas, de repente, você poderá vê-los em itálico)</title><content type="html">Em um mundo onde reinava o trivial, um resquício de amor ainda vivia no coração de Nicole que, ao ver seu antigo homem entregue aos lábios de outra, chorou. A ela, tudo fora tão bom, tão intenso e confortável que até acreditou na eternidade daquelas sensações. Que mulher tola: havia já chegado o momento em que pessoas não se amavam mais, ao contrário, consumiam-se.&lt;br /&gt;Pegou sua bolsa, pagou a conta e sem se despedir dos amigos foi-se embora do bar. Na esquina, em frente ao seu carro, um jovem bêbado – um bosta, como se auto-intitulava – bebia sentado na calçada, escorado na mureta como se fosse a única coisa no mundo a oferecer-lhe apoio.&lt;br /&gt;Levou a garrafa de cerveja à boca e deu um gole fitando a mulher que, assustada – pois tempos de violência nos fazem temer que nos furtem até o coração – dirigiu-se ao seu veículo.&lt;br /&gt;Assim que destravou a porta do carro, viu o homem se levantar. Encararam-se. Em silêncio, o rapaz foi se aproximando, devagar. Notava-se que não era da rua e que em seus olhos brilhava uma intenção bem mais forte e brutal que a do roubo ou abuso.&lt;br /&gt;Face a face, segundos de silêncio, vibrou no vento a voz do jovem:&lt;br /&gt;- Choras também?&lt;br /&gt;Ela abaixou o rosto, sem entender direito que, em sua linguagem própria, dois corações feridos gritaram suas dores e, ouvindo um ao outro, acabaram por se encontrar na esquina de uma cidade qualquer. Abraçaram-se então, mesmo sendo meros desconhecidos, pois o mais necessário naquele momento era, justamente, um pouco de conforto e carinho para duas das últimas almas vivas naquela noite de pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-weight: bold;" class="fullpost"&gt;“Já me disseram, e bem sei, que sou um estúpido por te querer e sofrer com a sua ausência sem que seja eu por ti notado. O que ninguém sabe, no entanto, é que eu amo essa minha estupidez”&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-2295309697100591217?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/2295309697100591217/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/06/arquivo-1-ou-o-titulo-verdadeiro-e.html#comment-form" title="8 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2295309697100591217?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2295309697100591217?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/06/arquivo-1-ou-o-titulo-verdadeiro-e.html" title="Arquivo #1 (ou o título verdadeiro e a essência de tudo estão escondidos. Mas, de repente, você poderá vê-los em itálico)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEYFSXY6eyp7ImA9WxFaEk4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-7910928740749182618</id><published>2010-05-30T23:31:00.003-03:00</published><updated>2010-07-15T19:15:18.813-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-15T19:15:18.813-03:00</app:edited><title>quase_6_de_misticismo.mp3 (ou poderia ser ao som dessa música)</title><content type="html">neide, sossegue a alma recuse a erva  recuse a cena recuse o texto. fuja da roubada fuja do esforço fuja dessa cena. aceite sua condição aceite a solidão aceite essa madrugada que ficará por isso mesmo, aceite que não haverá mais cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mais uma noite mais um esforço mais um não.  de novo a mesma condição de novo não, essa mesma situação. mais uma vez a mesma madrugada encerra o esforço encerra o fracasso encerra o dia, tortura, coisas ruins ficam pra sempre. mantendo mantendo mantendo o mesmo jeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mantendo mantendo mantendo o mesmo jeito de olhar pras mesmas coisas as pequenas coisas. &lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;começa assim a se preocupar. começa assim a dar a bochecha ao invés de dar um beijo esperando assim um beijo artesanal feito do jeito que é pra te dar.  começa a reparar que quanto mais entrega sua bochecha mais as outras encontram a sua. as bochechas dos cumprimentos diários dos cumprimentos forçados dos cumprimentos sinceros. no cumprimento repara há muito tempo não receber mais beijo algum nenhum sinal de saliva que fique na sua pele e se torne viva com uma passagem qualquer de vento no rosto. e nem tem nojo. tão pequeno mas tão sincero. aceite que não há um esforço aceite essa cena aceite que é isso. tente ver como uma fase tente ver como uma condição tente não preferir mais esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;prefira então o tal beijo artesanal os segundos do cumprimento embora não receba em troca esforço, é criar uma relação.  e nos poucos  segundos que consegue, sente a barba a bochecha a tal barba que nem sabe que cheiro tem aquela e a textura em segundos foi o máximo que conseguiu chegar. é tudo tão rápido a condição é tão mínima que após esse quase coito que se dá nesse seu rosto imagina em frames esse encontro, são tantos os encontros que acontecem nesse seu perfil são tantos dias são tantas condições que imagina aquela pausa com formato de retângulo num pentagrama, pausa o bastante pra se pensar no que tem a mais no que tem por trás no que tem de mais. é apenas mais um a se cumprimentar é apenas mais um a te rejeitar é apenas mais um pra se manter manter manter o mesmo jeito de ainda preferir esperar e pensar que ainda vai dar. até agora ele só te deu a bochecha.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-7910928740749182618?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/7910928740749182618/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/05/quase6demisticismomp3-ou-poderia-ser-ao.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7910928740749182618?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7910928740749182618?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/05/quase6demisticismomp3-ou-poderia-ser-ao.html" title="quase_6_de_misticismo.mp3 (ou poderia ser ao som dessa música)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DkYGQHo6eyp7ImA9WxFXGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-2518926842097226550</id><published>2010-05-05T23:12:00.001-03:00</published><updated>2010-05-25T13:15:21.413-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-05-25T13:15:21.413-03:00</app:edited><title>Voltando ao fundo (ou o sono eterno de Mítia)</title><content type="html">Se eu dissesse que sabia onde estava, mentiria. Não sabia que lugar era aquele e nem como lá fui parar. Ao abrir meus olhos, após profundo sono, me deparei com um teto bege e mofado cobrindo aquele quarto de paredes revestidas com papel vermelho e florido. A aparência vampiresca do local me causou espanto de início, ao ponto de fazer o coração acelerar: ninguém de bom gosto poderia ali habitar. Cortinas grossas balançavam levemente com um vento frio que entrava por uma janela cobrindo toda a parede do céu ao chão e que deixava um cheiro cadavérico perfumar de esgoto o ambiente. Sentindo-me subir a náusea, corri até a vidraça para fechá-la e, só então, com o barulho do choque de um vidro ao outro, é que a epifania veio comigo falar. Segundos foram necessários para que o pânico se esvaísse do peito: encontrava-me só e, apesar da estranheza, aquele cômodo me pertencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;Ninguém tinha me dado o quarto e eu, muito menos, o havia comprado ou alugado. Era meu, apenas isso. Tinha um formato quadrado, apertado; a cama ocupava a posição central, rodeada por várias estantes em que se encontravam velhos brinquedos. Havia de tudo: soldadinhos de chumbo enferrujados, pelúcias rasgadas, aviões quebrados, bois sem patas, macaquinhos sem rabos, bolas de gude rachadas, piões de todos os tamanhos e, principalmente, tabuleiros sem peças e peças sem tabuleiros. Quando criança, nenhum daqueles brinquedos me pertenceu. Assim como o cômodo, não os havia comprado, nem alugado e muito menos os ganhei. Além disso, tinha a impressão de serem velhos demais, de uma época mais antiga que a infância de meu avô.&lt;br /&gt;Desperto pela curiosidade, fui me aproximando das estantes. Era fascinante tocar os objetos e sentir o gelado dos séculos nas pontas dos dedos. Meu nariz começou a coçar pois o pó levantava ao menor movimento. Com um ou outro espirro, fui passando, olhos e dedos, em cada brinquedo ali contido.&lt;br /&gt;Súbito, minha atenção foi para um tabuleiro plantado na estante mais baixa e mais destacada do quarto. Era quadriculado, como o de jogo de damas, apesar de ser três vezes maior que este e de ter diferentes e caóticos níveis de elevação. Numa parte dele havia uma seta indicando o início; no outro extremo, um pequeno circo mostrava ser ali o término do jogo. Um boneco do tamanho de um dedo estava encostado no canto direito do tabuleiro, perto de um estojo cheio de cartas. Eu o apanhei para observar seus detalhes. Era pesado, parecia de ferro, trajando roupas de tecido áspero. Não tinha nenhuma articulação nos membros, o que me fez pensar ter sido fabricado não muito recentemente.&lt;br /&gt;Mirei para o estojo de cartas e apanhei uma. Vi o desenho de um lobo dentuço e rudimentar mordendo um pedaço da Lua. Até o focinho do animal, o papel era todo preto, sem nenhum tipo de detalhe além do traçado branco que formava a fera. Do lado do satélite, ao contrário, havia um céu repleto de planetas e sóis, servindo de teto a uma floresta de pinheiros no solo. No canto direito da imagem, um quadriculado em forma de L indicava a direção a ser tomada no tabuleiro.&lt;br /&gt;Observei atentamente a figura até o momento em que me distraí e deixei o boneco cair em meu pé. A momentânea dor me fez olhar para baixo e reparar em uma fita vermelha que saía debaixo da camisetinha branca do brinquedo. Ao puxá-la, vi um extenso papel se desenrolar, contendo nele, em uma única linha, a seguinte mensagem:&lt;br /&gt;Tabuleiro de Tânatos. Para quantas pessoas desejar. Quem chegar por último ao final, ganha. Se o boneco sair do tabuleiro, ele morre e você está fora. Se o boneco cair de algum degrau, ele também morre e seu jogo acaba.&lt;br /&gt;Tentei posicionar o brinquedo em algum quadrado e o vi cair. Pela regra, estaria eliminado.&lt;br /&gt;Sentei no chão tomado por um profundo tédio. Subitamente, não me foi mais prazeroso tocar e ver aquela quantidade variada de objetos estranhos e quebrados. Tudo aquilo parecia um museu, junto a suas peças muito antigas e o frustrante sentimento que toma o peito, fruto de alguma reflexão que nos diz que em breve nosso próprio mundo se resumirá a uma exposição catalogada em algum canto do futuro.&lt;br /&gt;Ah, o tédio e seus pensamentos motivacionais! Precisava sair dali, urgentemente.&lt;br /&gt;Ao girar a maçaneta, um vento frio cortou meu rosto, expondo a brutal diferença de temperatura entre meu quarto e o mundo. O gelado era-me estranho, sendo eu incapaz de imaginar como sobreviver em um universo tão desconhecido. Respirei fundo, tentando tomar fôlego, mas o ar gélido fez arder meu corpo adentro: sensação insuportável em que única atitude viável era gritar.&lt;br /&gt;Gritei.&lt;br /&gt;Ajoelhei-me e senti um macio no chão. Cruzei os braços em meu corpo, me encolhi o máximo que pude e deitei. Percebi estar em cima de um carpete. Movi, com esforço, a cabeça para cima e vi um extenso corredor; uma senhora elegantemente vestida de branco se aproximava. Sabia estar perfumada, apesar de não conseguir cheirar mais nada. Ao chegar perto, olhou-me com dó, primeiramente, e depois com raiva:&lt;br /&gt;- Mas que imbecil! Como se atreve a sair sem se agasalhar? – começou a revirar a bolsa branca; segundos depois, jogou-me uma blusa preta – Tome, seu idiota, vista isso.&lt;br /&gt;Vendo a dificuldade em me movimentar, a senhora se abaixou e começou a me vestir. Dizia para me acalmar que em breve estaria aquecido. Fechei os olhos fracos e escutei seus passos se distanciando, abafados pelo carpete.&lt;br /&gt;Despertei depois de um tempo totalmente revigorado. O agasalho realmente me aqueceu, dando-me a impressão de estar ainda em meu quarto. Levantei-me e coloquei o capuz, pois sempre me agradou andar com esses adereços na cabeça. Fui até o final do corredor e vi que ele dava para uma escada. Desci, lanço a lanço, até chegar a uma recepção enorme, iluminada por dezenas de lustres e repleta de mulheres trajando casacos de pele e homens vestido à moda Al Capone. Olhei para a bancada e um dos recepcionistas me reconheceu. Cumprimentou-me com um aceno e retribuí.&lt;br /&gt;Senhor Mítia Botas, escutei alguém me chamar.&lt;br /&gt;Virei e vi o homem que a pouco acenou.&lt;br /&gt;- Há um recado para o senhor, Senhor Botas. Veja: seu primo quer encontrá-lo assim que possível. Ele está no Edifício Chinaski, apartamento 1377, décimo terceiro andar.&lt;br /&gt;- Onde é isso, amigo?&lt;br /&gt;- É exatamente aquele prédio que está em frente ao nosso, senhor.&lt;br /&gt;Agradeci-lhe e saí à rua. O Edifício Chinaski possuía inúmeras janelas refletindo tudo o que ocorria ao seu redor. Olhei encantado para aquele espelho do mundo ao ponto de esquecer-me do recado. Foi só com um esbarrão e um xingamento dirigido à minha mãe que despertei do encanto, atravessando as calçadas como um gato a fugir do cão.&lt;br /&gt;Pelo hall de entrada pude ver que o prédio era menos movimentado que o meu. O atendente vestia um elegante terno preto e provavelmente conseguiu o emprego apenas por conta de seu olhar intimidador. Os inquilinos não gostam de receber visitas, pensei, por isso contrataram um vigia ao invés de um recepcionista.&lt;br /&gt;Toquei a campanhinha e depois de um estalo a porta se abriu. Adentrei o quarto de meu primo e o encontrei fumando em uma poltrona com descanso para os pés. Estava completamente careca e vestia um hobby rubro-negro, não esbanjando emoção ao olhar para mim.&lt;br /&gt;Olha só quem finalmente acordou, disse ele.&lt;br /&gt;- Acabei de receber seu recado. Esperou-me por muito tempo?&lt;br /&gt;- Três dias.&lt;br /&gt;- Três dias?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Ninguém o faz esperar tanto assim.&lt;br /&gt;- Não mesmo. Para sua sorte, o ramo pornográfico cresce mais e mais nessa cidade, de forma que tive reunião atrás de reunião e acabei por me distrair. Fiz bons negócios por aqui, viu? Caso contrário, meu amigo, você pagaria caro, bem caro, por ter feito-me perder tanto tempo.&lt;br /&gt;- Lamento o incômodo, velho.&lt;br /&gt;Passei a vista pelo cômodo. Também era repleto de brinquedos dispostos em estantes, mas estas eram maiores e aqueles estavam inteiros e mais novos. Havia um trenzinho em miniatura com estação e cidade; autorama com uma eterna disputa entre os carros azul, verde e vermelho; uma réplica de Canudos; pelúcias de leões, tigres e ursos; peões; pipas; algumas bonecas; e, mais destacado e muito próximo a poltrona em que meu primo fumava, um Tabuleiro de Tânatos igualzinho ao que tinha em meu quarto. Aproximei-me empolgado com a vista. Notei que o boneco de meu primo estava posicionado no centro-esquerdo do tabuleiro.&lt;br /&gt;Sabe jogar, perguntei extremamente animado.&lt;br /&gt;Olhou-me com indiferença. Puxou um trago e soltou.&lt;br /&gt;- E quem não sabe?&lt;br /&gt;- Eu não sei.&lt;br /&gt;- Confesso que não me espanta ouvir isso de você.&lt;br /&gt;- Não sei fazer nem o boneco parar em pé!&lt;br /&gt;- Há uma manha. É só segura-lo por uns minutos antes de soltá-lo. Se você observar bem, verá que os quadrados são levemente pegajosos – passou o dedo em um; apertou o polegar e o indicador um com o outro – viu bem? Tem de esperar até o pé do boneco colar na casa.&lt;br /&gt;- Entendi. E isto demora?&lt;br /&gt;- Varia de boneco para boneco. Alguns são mais rápidos, outros são extremamente demorados. Eu tenho um amigo que precisa de dezoito minutos para fixar a peça toda vez que faz um movimento. Não sei como tem tanta paciência, por Deus!&lt;br /&gt;Apanhou uma carta do estojo e a olhou atentamente. Deu uma longa tragada, coçou a cabeça careca e alisou os grisalhos bigodes.&lt;br /&gt;Não sabe mesmo a regra do jogo, perguntou-me.&lt;br /&gt;Confirmei minha ignorância.&lt;br /&gt;- É simples, Mítia: você tem de pegar uma carta nesse estojo aqui, a caixa dos Sonhos. Todas as cartas possuem um desenho – que, na verdade, é uma charada - e no canto inferior indicam o movimento que se deve fazer com a peça assim que se desvendar o enigma.&lt;br /&gt;Passou-me a carta a pouco retirada para que eu pudesse analisá-la bem. Nela, um olho chorava em cima de uma asa de anjo.&lt;br /&gt;- Então o objetivo é acertar os enigmas das cartas?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- E como saber se acertou ou não a resposta?&lt;br /&gt;- Pois essa é a graça de tudo: você nunca saberá.&lt;br /&gt;- Desculpe-me, mas não entendi.&lt;br /&gt;- Qual a dúvida?&lt;br /&gt;- Como posso fazer o movimento se não sei se a resposta está certa?&lt;br /&gt;- Depende do jogador. O truque é tentar sentir a resposta: se ela te satisfazer, vá em frente; se não, procure outra.&lt;br /&gt;- Que merda de jogo!&lt;br /&gt;- Eu também achava até jogar pela primeira vez. Por que não tenta?&lt;br /&gt;- Não, obrigado, a vida é curta demais...&lt;br /&gt;Saí irritado do quarto, indagando-me como alguém poderia perder tempo com tão bobas distrações. Tinha muita raiva, pois a falta de objetividade das regras serviu como balde de água fria, tamanha a empolgação que sentia anteriormente, quando ainda reinava em mim o mistério do tabuleiro.&lt;br /&gt;De um quarto, uma criança chupando chupeta me observava. Aproximei-me para fechar a porta e colocá-la para dentro, pois podia adoecer com o choque térmico causado pelo o ar frio. Era uma menininha loira e extremamente linda. Abaixei-me e cumprimentei-a.&lt;br /&gt;Ela não respondeu, apenas continuou a me olhar.&lt;br /&gt;- Qual o seu nome?&lt;br /&gt;Ignorou-me.&lt;br /&gt;Perguntei se sua mãe se encontrava e balançou a cabeça negativamente.&lt;br /&gt;- E o papai, cadê?&lt;br /&gt;Correu poucos metros e apontou para a direita. Pude ver um homem de cabelos negros e barba por fazer fumando um cachimbo enquanto olhava concentradamente para uma carta. Jogava o Tabuleiro. Afastei-me.&lt;br /&gt;Quando, no corredor, percebi todas as portas estarem abertas, me bateu uma estranha certeza do que encontraria caso olhasse atentamente para cada cômodo. Assim foi: quarto por quarto, todos os seus ocupantes olhavam atentamente para uma carta em suas mãos. Meninos, meninas, senhores, jovens mulheres e até famílias inteiras: todos queriam, apenas, desvendar o mistério e mover suas peças para algum lado. Era patético. Desci, andar por andar, fazendo questão de percorrer os extensos corredores do prédio: todas as portas abertas mostravam a mesma cena.&lt;br /&gt;Ao me encontrar de volta à rua, tive um súbito ataque de riso. Gargalhava mais e mais, tendo de me sentar no chão para apertar meus membros e não mijar em minhas roupas. As pessoas passavam ao meu lado dirigindo-me estranhos olhares. Um senhor me jogou algumas moedas, pensando ser eu um louco, enquanto uma velha colocou a mão em minha testa e fez uma fervorosa oração.&lt;br /&gt;Após ouvir o amém, segurei subitamente o braço da senhora e fui com um ar pacífico até o pé de seu ouvido:&lt;br /&gt;- O final, independente de qual caminho pegar ou quantas cartas desvendar, será sempre o circo!&lt;br /&gt;Soltou-se assustada invocando o santo nome de Jesus, mas, sabia eu, ele não ouviria: estava sentando em algum canto do Céu tentando desvendar o enigma do papel retirado da caixa.&lt;br /&gt;Levantei-me querendo retornar ao meu quarto. O cansaço socou minhas pernas e percebi que precisava deitar. Para minha surpresa, no entanto, olhei para o outro lado da rua e meu prédio já não mais se encontrava ali. Observei bem ao meu redor e, sem saber explicar quando, concluí que em algum momento distraí-me e acabei por encontrar uma saída diversa da qual realmente buscava. Decidi, então, contornar o quarteirão.&lt;br /&gt;Na rua, pude ver a parte de trás de meu edifício. Muita gente ia em direção a uma entrada de estilo romano e para lá me dirigi. Próximo a ela, as pessoas começavam a se espremer como a uma boiada: havia mais humanos do que espaço. Uma porta corrida de vidro servia de divisória entre a calçada e o saguão, o qual notei não ser o mesmo que levava ao meu dormitório. Tentei virar para trás, mas o aperto me impediu. Como uma folha em uma forte correnteza, fui eu levado.&lt;br /&gt;Ao entrar no local, percebi se tratar de uma estação com um escadaria que levava a todas as direções. Eu estava no térreo e, ao olhar para cima, vi gente subindo em sentidos variados porque cada degrau se sobrepunha ao outro sem um sentido lógico, podendo-se rumar para leste, noroeste, norte, nordeste a qualquer momento desejado. Cada lanço era cercado por pequenas flores vermelhas de uma espécie que nunca havia visto. Quatrocentos degraus a oeste, pude ver um riacho de águas claras caindo em cascatas. Mirei o céu: não havia lua, estrelas, nem teto para nos abrigar, apenas uma densa negridão. Quem projetou isso, pensei, quis enlouquecer a todos, sem permitir, porém, a possibilidade de aliviar a angústia com um enforcamento.&lt;br /&gt;Bateram em meu ombro e me cumprimentaram. Olhei para o rosto e não o reconheci. Comecei a subir os degraus tentando achar uma saída para o meu quarto com uma estranha certeza do esforço ser vão.&lt;br /&gt;Quanto mais alto eu estava, mais comum era alguém que eu jamais conheci vir falar comigo, cumprimentando-me e chamando-me pelo nome. Já cansado, decidi apertar o capuz para expor o mínimo do meu rosto.&lt;br /&gt;Não adiantará, Mítia, alertou-me uma colega.&lt;br /&gt;- Jú?&lt;br /&gt;- Sim!&lt;br /&gt;- O que você faz aqui?&lt;br /&gt;- Estou indo para a faculdade.&lt;br /&gt;- Ah, sim. Está cursando outra?&lt;br /&gt;- Não, é a mesma, mas ainda não a terminei. Preciso ir, estou atrasada.&lt;br /&gt;Sumiu.&lt;br /&gt;Ainda cansado, parei em um lanço um pouco maior que o comum. Ao olhar para frente, vi que era cortado por uma rua onde estava estacionada uma perua escolar. Atrás dela, a escadaria continuava a subir.&lt;br /&gt;Uma moça beijou meu rosto. Usava calça e blusa jeans, segurando cadernos e livros entre os braços.&lt;br /&gt;- Finalmente chegou!&lt;br /&gt;Mirei fixamente seus olhos e concluí não imaginar quem era.&lt;br /&gt;- Aonde vai?&lt;br /&gt;- Para a faculdade. Eu te esperava para irmos lado a lado na van.&lt;br /&gt;- Acho que não irei para a aula hoje, querida.&lt;br /&gt;- Pois deveria, todos sentem sua falta.&lt;br /&gt;Um grupo de sete pessoas nos rodeou. A mulher virou-se de costas e a abracei por trás. Todos tentavam me convencer a ir para a universidade.&lt;br /&gt;Lá embaixo, a entrada de estilo romano estava minúscula, dando a impressão de caber na palma da mão. Pessoas por lá entravam como caem os pingos de água em chuva de verão. A moça me beijou nos lábios, estávamos sós.&lt;br /&gt;- Vamos embora?&lt;br /&gt;Balancei a cabeça afirmativamente. Dei as costas a ela e comecei a descer.&lt;br /&gt;- Aonde vai?&lt;br /&gt;- Para lá.&lt;br /&gt;- Para o fundo?&lt;br /&gt;- Sim, para o fundo.&lt;br /&gt;Não olhei para trás. Precisava voltar ao meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-2518926842097226550?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/2518926842097226550/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/05/voltando-ao-fundo-ou-o-sono-eterno-de.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2518926842097226550?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2518926842097226550?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/05/voltando-ao-fundo-ou-o-sono-eterno-de.html" title="Voltando ao fundo (ou o sono eterno de Mítia)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEUCRXo7eSp7ImA9WxFREkg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-671211141021013572</id><published>2010-04-26T01:16:00.005-03:00</published><updated>2010-04-26T01:31:04.401-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-04-26T01:31:04.401-03:00</app:edited><title>num impulso só (ou tudo o que coube entre os dois tempos)</title><content type="html">&lt;p class="western" align="LEFT" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;span style="font-family:Arial, sans-serif;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;,seis, sete ; neide, mais uma vez, conte até dez. dezenas de dez eu sugiro que reze um terço e a sua avó ora por ti. ligue para ela e peça alguma lição de vida alguma coisa que ela saiba e você não, apesar de achar que sabe mais que ela por causa da internet. invente alguma coisa. chore porque ela existe e existir te faz chorar ou chore porque um dia ela não estará mais aqui. apenas isso. sorria porque ela tem aquelas mãos que são só dela e que oram e que se acariciam por pena. desse jeito assim: palma com palma e você percebe a textura tão bem. pare de contar até dez, ligue a tevê e procure não pensar no que os outros fazem enquanto você encaixa seu dedo indicador no umbigo teu e tua vontade de chorar ainda persiste. fique calma que em algum momento todo mundo tem desses momentos, aceite isso. sua avó ora por ti e não há espaço para o vácuo. não pra ela. ela se esforça pra não pensar porque só ela telefona. deixa ela discar, apenas deixa. neide, não existe paz, pare de contar e nem pense em fazer poesias pra tentar superar que eu não me aguento com essas coisas. poesia por hoje não. já é passado e você nunca soube deixar passar. não sei o que dizer quando você vem com essas suas coisas. a gente sabe que é o fim quando é tarde demais ou quando já não se tem mais vontade de adiar o tarde demais? desculpa não saber responder desculpa fazer sua avó responder, ela se preocupa com você saindo do país assim tão decidida ela quer te ver com casa própria, apenas isso. neide, você deveria mudar seus planos. andei percebendo que você gosta de puxar assunto fingindo que sonhou com a pessoa com quem quer conversar. normal. mas você não percebe o quanto eu apodreço pra te fazer sentir. desse jeito assim: enquanto você não aceita o laranja que quero te dar, vou te mostrando o meu azul e faço doer o seu azul guardado nesse seu potinho que é todo azul. talvez apodreço por ser tarde demais pra me esforçar e você aprendeu a deixar passar e aprendeu a não gostar das minhas metáforas que nem entende mais e nem ao menos percebeu que esse seria o terceiro mês de maio. você não quis lembrar porque agora aprendeu a deixar passar. e já que agora pelo visto só sou eu que não sei de tudo isso, pra não te fazer sentir pena vou facilitar e assim; oito, nove, dez&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="LEFT" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-671211141021013572?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/671211141021013572/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/04/num-impulso-so-ou-tudo-o-que-coube.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/671211141021013572?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/671211141021013572?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/04/num-impulso-so-ou-tudo-o-que-coube.html" title="num impulso só (ou tudo o que coube entre os dois tempos)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CU4AR3w9cCp7ImA9WxFTFkQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-4555677702631313111</id><published>2010-04-07T23:31:00.000-03:00</published><updated>2010-04-07T23:32:26.268-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-04-07T23:32:26.268-03:00</app:edited><title>Peixe morto (não conte a Ícelo)</title><content type="html">Houve um tempo em que era necessário apenas um grito para que eu pudesse ter alguém ao meu lado. Às vezes, ao abrir os olhos, encontrava tudo escuro e sentia o abominável medo começar a comer meu corpo por dentro. Enchia, então, o peito de ar e deixava as lágrimas caírem livres enquanto pela garganta os sons corriam apressados até a porta do quarto de minha mãe. Em segundos as luzes se ascendiam e um abraço quente me calava, afugentando todo aquele monstro que me machucava internamente.&lt;br /&gt;    Foi a lembrança desses momentos que me fez levantar da cama e ir em direção à janela, já incomodado com presença da insônia e sem saber como expulsá-la de casa a fim de que eu pudesse ter meu merecido descanso. Fazia três dias que eu não conseguia dormir: pensei, de início, estar preocupado demais com a falta de dinheiro nessas épocas de desemprego, mas, posteriormente, concluí que me amedrontava a idéia de não ter ninguém a quem gritar caso meus olhos não vissem mais sinais de luz.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Ao aproximar-me, então, da janela e jogar as cortinas para o lado vi, com surpresa, feixes claros vindos de um declive ao final do extenso jardim de casa. Era esse um ponto que raramente freqüentava, pois havia ali, anos atrás, um antigo pomar cultivado por meu avô: só a lembrança do velho mexendo na terra já era o suficiente para me fazer chorar por horas, tamanhas saudades do morto. Após o câncer devorar o intestino do vô, meu pai, revoltado, foi até a plantação e ateou fogo em tudo, de forma que o denso lado verde e frutífero da casa virou um descampado cinza. Passado os anos, nada foi construído naquele pedaço, ao ponto de, hoje, o terreno ter como utilidade única servir de ninho de amor para meu irmão mais velho e suas mulheres.&lt;br /&gt;    Tentei em vão lembrar-me de alguma conversa com meus pais que justificasse as luzes vindas do declive. Em toda janta, a família se reúne na mesa retangular da sala. Inevitavelmente meu pai briga com meu irmão e minha mãe em decorrência de algum engano na empresa. Escuto calado até a empregada retirar os pratos e servir a sobremesa, sendo este o momento em que, sem falta, são traçados os planos para viagens que nunca faremos e de reformas na casa. Rememorei os últimos jantares tentando achar algum instante em que alguém comentasse algo sobre o antigo pomar, mas, caso isso tenha acontecido, não escutei: é comum distrair-me.&lt;br /&gt;    Como não tinha sono, calcei os chinelos para ir até o fim do jardim acabar com minhas dúvidas. Ao abrir a porta do quarto, deparei-me com o corredor iluminado, cheio de gente. Gordas senhoras trajando longos e decotados vestidos brilhantes conversavam escoradas na parede da frente. Usavam colares até o meio dos peitos que me deram dores nos olhos assim que os mirei. Eram gêmeas e conversavam com um sotaque do Sul.&lt;br /&gt;    Um garçom esbarrou-se em mim. Sem saber que era um dos donos da casa, gritou palavras estranhas fazendo gestos obscenos. O absurdo da situação me deixou apático. Não pude entender a ofensa e sequer vi quando o homem se afastou.&lt;br /&gt;    Percebi que, assim como as gêmeas, a maioria das pessoas presentes se vestia de forma elegante. Por estar de pijamas, fui tentado a voltar para o quarto e colocar uma roupa mais apropriada, mas, assim que dei meia-volta, um homem me empurrou.&lt;br /&gt;    - Ande em frente, não há nada para ver lá atrás.&lt;br /&gt;    Sem muito esforço, segui, pois parecia estar dentro de uma boiada. Quando percebi, encontrava-me na parte de fora da casa, próximo à churrasqueira. Cadeiras rodeavam o balcão onde meu pai colocava a tábua de carnes. Ele sorriu assim que me viu, piscando o olho direito enquanto mastigava um pedaço de pão. Havia muita gente por ali, sendo a maioria familiares que não via há tempos. Ao contrário dos estranhos do corredor, todos usavam roupas mais simples, de verão, excluindo, apenas, meu irmão, que se fazia presente de terno preto e gravata. Seus cabelos estavam penteados para trás; olhava-me sério, de forma penosa.&lt;br /&gt;    Senti um leve puxar de camisa; ao olhar para baixo, vi minha avó paterna sorrindo. Estava sentada com um prato na mão. Fez um convite para que me acomodasse ao seu lado, em uma cadeira desocupada de almofada azul.&lt;br /&gt;    Perguntei a ela o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;    Ouvi se tratar de uma festa.&lt;br /&gt;    - Festa para quê?&lt;br /&gt;    - Para comemorar.&lt;br /&gt;    - Mas o que se comemora?&lt;br /&gt;    - O noivado de seu irmão.&lt;br /&gt;    - Não sabia nem que ele namorava!&lt;br /&gt;    - Pois precisa ser mais amigo dele. Assim se agrada a Deus.&lt;br /&gt;    - Quem é a noiva?&lt;br /&gt;    - Melina.&lt;br /&gt;    Lembrei-me, então, de minha ex-namorada. Há dois anos, não tinha notícias dela. Deixou-me em um restaurante com uma garrafa de vinho pela metade e uma conta para pagar. Sem conseguir explicar a razão, não me causou surpresa saber que estava ela noiva de meu irmão.&lt;br /&gt;    Serão felizes, disse a avó.&lt;br /&gt;    - Eu assim espero.&lt;br /&gt;    - Não lhe causa raiva?&lt;br /&gt;    - Não.&lt;br /&gt;    - Você é um bom menino. Assim se agrada a Deus&lt;br /&gt;    Levantei-me apressado e fui em direção a piscina. Estava nauseado. Passaram-se apenas algumas semanas desde que concluí ser ateu e causou-me um estranho mal-estar conversar com minha avó e pensar que, na verdade, não agravada ninguém. Corri tentando aliviar a tontura, mas percebi que, no fundo, fugia do niilismo.&lt;br /&gt;    Senti um desejo de estar só. Olhei ao redor e me entristeci com o ambiente repleto de gente. Procurei um lugar que estivesse vazio: meu olhar foi ao encontro do declive. Não havia ninguém naquela direção. Feixes de luz ainda saiam lá debaixo, me ressuscitando aquela curiosidade que me fez sair do quarto.&lt;br /&gt;    Quis correr, mas meus passos pesaram. Um estranho apito soou em meus ouvidos dando-me a sensação, por um momento, de estar prestes a desmaiar. Me movi lenta e cansativamente até a borda do antigo pomar, sentindo de forma intensa o impacto dos pés com o chão. Na beirada, deparei-me com uma escadaria que descia dois lanços. Dava para um pequeno jardim repleto de vinhas e orquídeas, que fazia entrada a uma casa alaranjada de dois andares disposta em forma de “C”. Cada andar era repleto de quartos ocupados por idosos, estando todos de frente a um pátio com vasos e estátuas de mármore ao estilo grego.&lt;br /&gt;    No jardim da frente havia um banco circular e nele estava sentada minha avó materna. Era a única que não tinha encontrado ao redor da churrasqueira. Desci os degraus me perguntando quem havia morrido: se era ela, minha avó, ou sua mãe, minha bisavó.&lt;br /&gt;    - O que faz aqui, vó?&lt;br /&gt;    - Estava vendo um quarto para morar.&lt;br /&gt;    - Aqui?&lt;br /&gt;    - Sim, nesse prédio. Só mora gente velha nele.&lt;br /&gt;    - Você não precisa disso, vó, pois tem a todos nós!&lt;br /&gt;    Ela sorriu para mim. Raramente sorria, ficando eu sempre muito feliz quando presenciava o seu mostrar de dentes: apesar da idade, ficava ela linda assim.&lt;br /&gt;    - Eu não conhecia essa parte da casa.&lt;br /&gt;    - Já faz um tempo que seu pai a construiu.&lt;br /&gt;    - Nem imaginava.&lt;br /&gt;    - Tem muita gente morando ali. Me acompanhe, quero te apresentar um senhor.&lt;br /&gt;    Levantou-se e eu a segui. Logo de frente ao primeiro quarto se encontrava um idoso de barba grisalha e cabelos brancos que lembrava um pouco o Hemingway. Tinha uma perna amputada e estava sentado de forma atravessada em um grande banco de madeira, sem encosto, cheio de farpas. Fomos apresentados, mas seu nome saiu de sua boca como vapor e antes de sabê-lo eu já tinha esquecido. Parecia-me um bom homem, apesar do sorriso não confiável.&lt;br /&gt;    Perguntou-me sobre a saúde de meu pai e pediu para avisá-lo que em breve pagaria o aluguel. Minha avó questionou algo sobre o vizinho de cima e os dois começaram uma conversa entediante. Sem pedir permissão, aproveitei o ensejo e entrei no quarto do homem. Era um cômodo simples com banheiro em anexo. Uma grande janela ocupava metade do lado esquerdo, enquanto a cama estava encostada na parede em frente à entrada, com um armário de roupas quase colado à sua beirada. Havia espaço, ainda, para uma poltrona, uma estante de livros e uma televisão antiga posicionada em cima de uma pequena mesa.&lt;br /&gt;    Interrompi a conversa dos velhos:&lt;br /&gt;    - É aqui onde mora mesmo, senhor?&lt;br /&gt;    - Sim.&lt;br /&gt;    - Mas e o espaço para cozinhar? Onde come?&lt;br /&gt;    - Ninguém aqui cozinha. Servem comida todos os dias no refeitório.&lt;br /&gt;    Fechei meus olhos imaginando como viveria em tal ambiente. Vi-me careca, enrugado, compondo músicas e pintando quadros como sempre sonhei. Estava decidido a sair de casa e procurar um lugar para morar sozinho desde que me formei. Olhei ao redor e percebi que não precisava de nada além daquilo que via no local. Senti paz e, pela primeira vez em anos, pareceu-me ser muito fácil viver e ser feliz.&lt;br /&gt;    Comecei a andar sentindo inveja de todos os velhos ali presentes. Uma grande agitação vinha de um cômodo do andar de cima. Olhei para o quarto em questão e vi um velho sem camisa a discutir com uma senhora de vestido e curtos cabelos. Parecia minha bisavó, mas percebi o engano quando lembrei-me de sua morte. Discutiam sobre a altura do som. O homem se levantou e, como se fosse algo comum, esbofeteou o rosto da velha, que revoltada, começou a gritar palavras em russo. Da janelas, casais assistiam a cena. Súbito, uma música começou a sair de uma porta aberta; todos os idosos do andar iniciaram um bate-palmas. O homem agressor rodopiou próximo a sua senhora.&lt;br /&gt;    Escutei um resmungo. Reparei em uma mulher me observando raivosa. Tentando ser simpático, apontei para o andar de cima e disse:&lt;br /&gt;    - Aquele casal é russo?&lt;br /&gt;    - Judeu.&lt;br /&gt;    - Mas falam russo.&lt;br /&gt;    - Não é russo, é iídiche.&lt;br /&gt;    - Jura? Como você sabe?&lt;br /&gt;    - Como não poderia saber?&lt;br /&gt;    Tinha razão: por que não poderia saber?&lt;br /&gt;    Ouvi alguém gritar meu nome. Olhei para trás e o senhor amputado vinha em minha direção em uma cadeira de rodas. Contou-me que a avó tinha se dirigido a festa. Agradeci-lhe. Afastou-se alguns metros, voltou a me chamar.&lt;br /&gt;    - Ei, moleque, quer conhecer um lugar legal?&lt;br /&gt;    - Claro, por que não? É tão bom quanto aqui?&lt;br /&gt;    - Quem foi que disse que este é um bom lugar?&lt;br /&gt;    - Ninguém, eu apenas sinto.&lt;br /&gt;    - Sente mal. Este é o pior lugar em que já vivi.&lt;br /&gt;    - Parece-me tão agradável.&lt;br /&gt;    - Pois você é um idiota. Ninguém em sã consciência gostaria de viver aqui.&lt;br /&gt;    - Talvez seja eu louco, quem sabe?&lt;br /&gt;    Olhei sem muita compaixão ao sósia do Hemingway: carregava muita raiva dentro de si.&lt;br /&gt;    - Se odeia tanto esse lugar, por que mora aqui, senhor?&lt;br /&gt;    - Rapaz, eu não tenho mais nada nessa vida, entende? Eu não tenho mais nada!&lt;br /&gt;    - Todos temos algo, senhor, nem que seja apenas a espera da morte.&lt;br /&gt;    Sorriu por um instante.&lt;br /&gt;    - É poeta, moleque?&lt;br /&gt;    - Não.&lt;br /&gt;    - Pois me pareceu.&lt;br /&gt;    - Por quê?&lt;br /&gt;    - Pois é um tolo.&lt;br /&gt;    Tive um desejo incontrolável de rir, como se as palavras relassem em minha pele fazendo cócegas. No entanto, bateu um vento em meu rosto trazendo, de carona, a gélida expressão do senhor. Congelei-me.    &lt;br /&gt;    - Vá até meu quarto e pule a janela, você chegará ao lugar legal. Aproveitando a ocasião, me faça um favor: livre-se do que tem nesse saquinho.&lt;br /&gt;    Jogou-me um saco de camurça azul que apanhei no ar.&lt;br /&gt;    No quarto, fiquei de frente a janela. Um grande oceano se estendia rumo ao horizonte, juntando-se na ponta com o azulado céu de um dia quente. Pulei e caí em um deque espremido entre o mar e uma orla cheia de vendas e casas.&lt;br /&gt;    Dei algumas passadas em direção oeste perguntando-me o que havia acontecido para não perceber o raiar do dia. Encontrei uma criança bochechuda e fedida ao lado de um barril de madeira.&lt;br /&gt;    “Vigia para mim?”, perguntou-me.&lt;br /&gt;    Disse-lhe que sim e se afastou. Mirei dentro do tonel, vi que estava cheio de água. Uns pequenos peixes nadavam ali e faziam uma valsa da esquerda para a direita que me emocionou: repentina vontade de chorar.&lt;br /&gt;    Uma moça se aproximou e, tocando meus ombros, perguntou-me o que fazia com os peixes do irmão. Era tão bela que não pude lhe dirigir as palavras. O cabelo dourado, preso em coque, exalava um perfume que contrastou, em minha mente, com o cheiro de carniça da criança. Achegou-se mais, quase ao pé de meu ouvido, relando seus peitos em meu colo.&lt;br /&gt;    - Diga-me, de uma vez, o que faz com os peixes de meu irmão.&lt;br /&gt;    - Ele pediu para que eu os vigiasse. Foi para oeste, mas não sei o que fará.&lt;br /&gt;    - Provavelmente foi ver como está meu pai.&lt;br /&gt;    Apalpou o bolso do meu pijama e agarrou o saquinho azul que o velho me jogou.&lt;br /&gt;    - O que é isso?&lt;br /&gt;    - Não sei. Entregaram-me junto a um pedido de que me livrasse de seu conteúdo.&lt;br /&gt;    - E carrega algo sem saber o que contém?&lt;br /&gt;    - Sim, carrego. Também converso com pessoas sem nem saber quem são. &lt;br /&gt;    Sorriu e beijou-me a face. Já se afastando, disse:&lt;br /&gt;    - Quando Ícelo voltar, diga-lhe que o procurei.&lt;br /&gt;    - Quem é Ícelo?&lt;br /&gt;    - Meu irmão, aquele que pediu para que vigiasse os peixes.&lt;br /&gt;    - E como você se chama?&lt;br /&gt;    - Não se preocupe, isso não tem importância.&lt;br /&gt;    Um forte vento soprou do mar. Cerrei os olhos para não ter irritações. No barril, os peixes continuavam o bailar de um lado a outro como se não houvesse um mundo diferente daquele. Enfiei a mão na água e senti mordiscadas nas juntas. Devem estar com fome, pensei.&lt;br /&gt;    Peguei o saco azul, despejei seu conteúdo. Quando o pó dourado caiu e boiou na superfície da água, pequenas bocas começaram um banquete.&lt;br /&gt;    No céu, um pássaro grande gritou. Senti que alguém me observava por trás. Ao virar, dei de cara com uma mulher de cabelos bem curtos. Era extremamente branca, tendo o aspecto de uma estátua de gesso viva.&lt;br /&gt;    Disse-me para ter cuidado.&lt;br /&gt;    - Com o quê?&lt;br /&gt;    - Com os peixes.&lt;br /&gt;    Olhei para o barril e vi como os bichos tinham crescido com a comida, já quase não cabendo no recipiente. Comovido com o debater angustiado dos seres, fiz uma força para tombar o tonel. Um por um, os peixes caíram no mar.&lt;br /&gt;    - Menino, você realmente não tem sentimentos?&lt;br /&gt;    Olhei para a mulher com uma expressão que indicava o não entender de sua fala.&lt;br /&gt;    - Você acha que irão viver muito tempo assim?&lt;br /&gt;    - Não irão?&lt;br /&gt;    Vi uma lágrima cair de seus olhos. Na água, os peixes nadavam de um lado a outro. Senti que um deles me observava com um olhar de agradecimento. Quis acariciá-lo, mas podia cair dentro d’água caso tentasse.&lt;br /&gt;    Apontei para o agradecido e falei para a mulher:&lt;br /&gt;    - O que acha de chamá-lo de Alberto?&lt;br /&gt;    - É um bom nome.&lt;br /&gt;    - Gostou?&lt;br /&gt;    - Sim, combinou com ele.&lt;br /&gt;    Ouvi um forte e agudo grito no céu. Tudo escureceu e um cheiro de estrume tomou conta do ambiente. Olhei para minhas roupas, estavam sujas de fezes de pássaro. Tive uma tremedeira e um vômito saiu de minha boca em um jorro. Cai de joelhos. Quando levantei-me, olhei para a água e vi Alberto nadando sozinho.&lt;br /&gt;    - Onde estão os outros?&lt;br /&gt;    A mulher apontou para o céu em direção ao grande pássaro. Comeu todos, disse-me.&lt;br /&gt;    Desesperado, enfiei a mão na água e agarrei o sobrevivente.&lt;br /&gt;    - Precisamos levá-lo para algum lugar em que tenha mais chances de viver.&lt;br /&gt;    - Conheço um rio a Oeste em que nadam muitos peixes iguais a este.&lt;br /&gt;    Agarrou-me pela gola do pijama, começou a correr em direção ao local falado. Senti meu braço dormente e vi que estava congelando: Alberto era mais frio que o gelo.&lt;br /&gt;    O rio era grande, parecendo outro oceano de águas mais barrentas e escuras. Olhei para a superfície e pude notar peixes semelhantes a aquele que carregava nas mãos. Joguei-o para o alto, como se tentasse fazê-lo voar, e observei sua queda. Ao entrar em contato com o leito, seu corpo encolheu. Não tardou o momento em que emergiu boiando, cadavérico.&lt;br /&gt;    Disse à mulher:&lt;br /&gt;    - Pobre Alberto, não tinha a ninguém.&lt;br /&gt;    Olhou-me. Senti seu gélido hálito quando me dirigiu a palavra:&lt;br /&gt;    - A razão da vida é ter?&lt;br /&gt;    - Como?&lt;br /&gt;    - Ter. Ter alguém, ter trabalho, ter prazer: ter? É isso a vida?&lt;br /&gt;    - Não sei dizer, moça, sou apenas um tolo.&lt;br /&gt;    Juntou os braços ao corpo e pulou na água. Tentei detê-la, mas era pesada e por pouco não me arrastou junto a ela. Todos os peixes se dirigiram apressados ao ponto da queda. Gritei por socorro: sabia que iriam devorá-la. Olhei ao redor, mas não vi ninguém.&lt;br /&gt;    Gritei.&lt;br /&gt;    No horizonte, o grande pássaro voava imponente. Éramos, ele e eu, os únicos seres viventes acima da terra. Fechei os olhos. Quando os abri, tudo estava escuro. Não tive vontade de gritar: sabia que ninguém viria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-4555677702631313111?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/4555677702631313111/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/04/peixe-morto-nao-conte-icelo.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4555677702631313111?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4555677702631313111?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/04/peixe-morto-nao-conte-icelo.html" title="Peixe morto (não conte a Ícelo)" /><author><name>Gustavo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17253277542730651436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="30" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_Qyl0MMcNzM8/SK84t3u5NbI/AAAAAAAAAAQ/XKQmeu6nvVw/S220/2bdyw-20080815080142.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CU8NR34-fCp7ImA9WxBbEko.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-2413008594976613220</id><published>2010-03-10T23:00:00.003-03:00</published><updated>2010-03-10T23:18:16.054-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-03-10T23:18:16.054-03:00</app:edited><title>Realidade Inventada (ou a_corda)</title><content type="html">Durante um tempo, escrevi um diário inventado. Era um daqueles cadernos infantis, com páginas coloridas (um punhado de folhas azuis, depois verdes e, por fim, cor-de-rosa) e exalava um enjoativo cheiro doce. Não o escolhera a dedo, apenas o encontrei jogado e o adotei. Como não queria transformá-lo em mais um caderno cheio de confissões e anotações tediosas sobre meu cotidiano, achei que seria interessante inventar um pouco a minha própria realidade.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;No começo eram fatos reais, com apenas um ou outro detalhe alterado, só para me divertir. Logo se tornou uma confissão sincera de sentimentos que nunca tive.&lt;br /&gt;Enquanto vivia um romance morno, escrevia uma vida tórrida de amores diversos sem fim nem começo, apenas meio. Não era, de forma alguma, um diário de frustrações pessoais ou de uma vida que não levava por falta de coragem, mas de vontade. &lt;br /&gt;Queria sentir a vida de outros e vivê-la pela minha imaginação, já que pela realidade não seria tão verdadeiro. Talvez seja culpa da minha mente feminina que consegue conciliar ideias antagônicas sem cair em contradição, como a lua que não deixa de ser o mesmo satélite até em fases opostas – cheia ou nova, crescente ou minguante.&lt;br /&gt;Meus suspiros e anseios eram sempre mais verdadeiros quando inventados. A vida real, por outro lado, era uma existência aconchegante, sem as incertezas e ímpetos que dominavam a minha imaginação e a tingiam com um colorido impossível, que faziam arder os olhos. Dois lados igualmente atrativos e que me encantavam com a mesma intensidade.&lt;br /&gt;O desfecho ocorreu quando tentei unir os dois extremos, que naquele momento já eram tão distantes e distintos que nem pareciam partir da mesma pessoa. De fato, cada mundo – o real e o inventado – era igualmente forte e se esticavam em sentidos opostos. Eu era a corda num jogo de cabo de guerra e nenhum dos lados queria ceder (e eu não sabia para qual lado torcer). Sentia que um dia seria partida ao meio e destruída em prol de um jogo que se estendera por quase dois anos.&lt;br /&gt;Foi então que tive a ideia de reforçar a corda, trazendo outro para o meu mundo bipolar e ajudar a segurar as pontas. O escolhido era alguém com quem eu dividia tudo, meus sonhos e meus pesadelos, minha mente e meu corpo. Tinha certeza de que ele me entenderia, visto que também possuía uma imaginação livre e se perdia em devaneios.&lt;br /&gt;Mas toda a certeza escoou à medida que ele lia aquele diário com aroma enjoativo, e notei seu olhar de asco logo nas primeiras páginas. Fiz-lhe o favor de tirar-lhe das mãos o meu diário e nada mais falamos até o final do dia. Um mês depois, já não éramos mais um “nós”, apenas “ela” e “ele”.&lt;br /&gt;Já não sentia mais a mesma naturalidade em inventar minha realidade e o diário parou por ali, com metade das folhas cor-de-rosa em branco. O fogo apagou qualquer evidência daqueles momentos pelos quais jamais passei, mas que vivi intensamente. A corda havia se rompido e até hoje não sei para que lado o meu corpo foi.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-2413008594976613220?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/2413008594976613220/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/03/realidade-inventada-ou-acorda.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2413008594976613220?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/2413008594976613220?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/03/realidade-inventada-ou-acorda.html" title="Realidade Inventada (ou a_corda)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0MNQH89eCp7ImA9WxBUFE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-5912598593670123800</id><published>2010-02-28T22:52:00.002-03:00</published><updated>2010-02-28T23:11:31.160-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-02-28T23:11:31.160-03:00</app:edited><title>consciente o bastante (ou não forte o bastante)</title><content type="html">&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;estou mantendo todos esses relacionamentos ao mesmo tempo pra não perder mais tempo e viver todos os relacionamentos necessários para que finalmente o inferno volte aqui pra casa e me diga que já vivemos o bastante em paz e que agora, enfim, podemos viver juntos.&lt;/p&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;estou encerrando todos esses relacionamentos ao mesmo tempo pra não sobrar mais tanto tempo depois que eles terminarem com o tempo. talvez seja melhor encerrar antes que apareça alguma vontade de me manter nos desnecessários que não andam bem pois andam em paz. andam em paz até demais agora que sei que até o inferno não quer mais voltar já que até ele foi capaz de perceber que só um pouco de paz já é o bastante e, por fim, apenas uma parte do inferno vai preferir ficar em paz.  &lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-5912598593670123800?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/5912598593670123800/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/02/consciente-o-bastante-ou-nao-forte-o.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/5912598593670123800?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/5912598593670123800?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/02/consciente-o-bastante-ou-nao-forte-o.html" title="consciente o bastante (ou não forte o bastante)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;D04BRn44eCp7ImA9WxBVEEs.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-6792474525608101239</id><published>2010-02-13T10:44:00.004-02:00</published><updated>2010-02-13T10:59:17.030-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-02-13T10:59:17.030-02:00</app:edited><title>Retorno (ou agridoce)</title><content type="html">&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; "&gt;Dos três que se encontram naquela sala apenas Arquimedes, o gato, parece se divertir com aquilo tudo. Pula de “torre” em “torre”, explorando as pilhas de caixas de papelão empilhadas pela sala. Logo o felino se enjoa de toda aquela aventura e deita-se preguiçoso no seu do canto predileto do sofá, bem onde bate uma faixa de luz do sol no fim da tarde. Era também meu lugar preferido.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; "&gt;Outro fato que o gato deve estar adorando é que, finalmente, o silêncio habitual voltou a reinar após um mês inteiro de turbulências repentinas. Se fossem contínuas, Arquimedes já teria se acostumado e cochilaria tranquilo. Mas não era assim, ele sempre se assustava com aquele imprevisível caos, aquele súbito levantar de vozes e gritaria que começavam e terminavam por mil motivos banais, nenhum deles “o” real.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; "&gt;Eu já sabia há um tempo que iria acontecer. Após anos de convivência harmoniosa, de repente ele começou a implicar com qualquer coisa, até mesmo com as minhas habituais implicâncias e tudo era motivo para brigar – toalha molhada em cima da cama, divisão desigual de tarefas domésticas, contas a pagar, freelances (os meus, já que os dele eram sempre considerados bem-vindos, enquanto os meus “atrapalhavam nossos interessantes planos de final de semana”, como se ir ao cinema ou ao restaurante chinês fosse assim tão empolgante).&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; "&gt;Não posso fingir que não tenho culpa nisso. Irritada por saber que ele escondia algo, eu também me agarrava com unhas e dentes em qualquer motivo que fosse para discutirmos. Para esquentar nossa relação, criamos um pequeno incêndio, cujas labaredas eram alimentadas continuamente com nossas juras e promessas de amor, planos e tudo aquilo que nos unia. Quando até o respeito foi consumido pela pira que criamos, ele finalmente decidiu que era hora de ir embora.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; "&gt;O apartamento era meu e não éramos casados, então tudo se resumiu em juntar os pertences dele, encaixotá-los e esperar a carona de um amigo em cujo apartamento ele se hospedará até arranjar outro lugar.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Talvez ele tenha pensado que haveria mais discussões bobas sobre quem ficaria com o quê, mas deve ter se frustrado. Eu já não tenho mais forças para brigar e, no fundo, adorei pensar que aquela mesa de centro que compramos juntos sumirá de vez da minha vista. Não quero nada que me lembre dele.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;O problema dos homens é que eles não sabem disfarçar. Era óbvio que não foram as toalhas, a louça ou as contas que o fizeram me deixar. Embora ele sempre negasse, eu sabia que tudo tinha a ver com uma certa ruiva de voz levemente rouca, bonita e muito mais nova, sempre presente nas fotos dos eventos de quadrinhos a que ele ia todos os anos – e que, quando eu ainda não era diretora de arte, o acompanhava com prazer. Tenho orgulho dos quadrinhos independentes que ele escreve, enquanto ele sente desprezo pela agência em que trabalho. Já era tarde quando percebi.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;É estranho pensar, ao ver as caixas empilhadas no meio da sala, que anos antes aquela mesma cena acontecera, porém pelo motivo oposto. Havia esperança e achávamos que unir nossas vidas sob o mesmo teto aplacaria as pequenas diferenças que já começavam a ruir nosso relacionamento. Queríamos tapar com argamassa e três mãos de tinta todas as pequenas rachaduras, que já eram visíveis na fachada da casa. Pensando melhor agora, a ruiva era apenas uma das diversas outras ranhuras já existentes. Ou talvez nem isso.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Ele ainda tenta, vez ou outra, comprar briga. Talvez se sinta culpado, talvez queira que eu dê motivos para que ele me abandone assim, desse jeito, sem me explicar direito o que se passa dentro dele. Eu não tenho o direito de saber, já que não sou mais protagonista de suas histórias. Não sei se um dia já fui. Não sei se a ruiva atualmente é.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;O pior de tudo, porque sempre tem como piorar, é que eu realmente o amava. Ou melhor, eu amo aquele filho da puta, que nem se digna a me contar a verdade. E talvez seja o único cara que eu realmente amei, mas não volto atrás nem que pedisse, implorasse e me prometesse novas tolices. Ilusão minha, ele nunca o fará.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Ele é uma viagem boa, daquelas que a gente planejou e esperou a vida toda para fazer. Quando a viagem finalmente se concretiza, nos sentimos mais do que felizes: ficamos realizados. O ar é sempre repleto de novidade, alegria e descobertas agradáveis. Tudo parece fazer sentido e se encaixar no lugar certo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Mas não somos turistas eternos e um dia precisamos voltar. Quando percebemos isso, sentimos uma leve vertigem e uma precoce saudade do que está para terminar. Mas no fim somos sempre tomados por uma espécie de nostalgia e uma nova ansiedade, desta vez pelo retorno, pelo aconchego do lar que abandonamos pela aventura. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Apesar de tudo, é na nossa cama onde nos sentimos mais confortáveis e em que podemos relaxar de verdade. A questão nunca é “se a viagem vai acabar”, porque ela sempre tem um fim. O que me angustia é o “quando” e, ao descobri-lo, sinto tristeza e alívio: voltarei a dormir sossegada. &lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;A campainha finalmente toca: é o Jonas, o amigo. Cumprimentos trocados em silêncio, o clima pesa e apaga de seu rosto um sorriso débil, daqueles sem sentido que damos apenas por educação. Logo estão os dois carregando as caixas para fora, e eu fingindo que seguro o gato para não ter de ajudar.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Tudo colocado no elevador, eu ainda sem sair do apartamento, plantada na porta e segurando Arquimedes no colo (me sinto um daqueles vilões de filmes ruins, arquitetando planos mirabolantes enquanto acaricia suavemente um gato gordo e peludo). A mesa acaba ficando comigo. Hoje não caberá no carro, talvez semana que vem ele volte para buscar. “Se eu estiver aqui”, quis dizer, para brincar, fingir que já tinha dado a volta por cima e tinha planos mirabolantes, mas não tenho vontade.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;Não espero a porta do elevador se fechar, volto para dentro sem olhar para trás. Quero que ele veja em minha nuca minha força e meu orgulho inabalado, mesmo que eu tenha acabado de ser deixada para trás. Duvido que ele tenha captado isso.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent:35.4pt"&gt;No silêncio do apartamento meio vazio, permito-me a primeira lágrima cheia de dor, mas sinto também o paradoxal alívio: finalmente eu tinha voltado para casa.&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-6792474525608101239?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/6792474525608101239/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/02/retorno-ou-agridoce.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6792474525608101239?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6792474525608101239?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/02/retorno-ou-agridoce.html" title="Retorno (ou agridoce)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0IAQHg9fSp7ImA9WxBXGEU.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-4730747509747647645</id><published>2010-01-30T18:43:00.002-02:00</published><updated>2010-01-30T19:05:41.665-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-01-30T19:05:41.665-02:00</app:edited><title>sugiro que,(ou faça logo uma música sobre mim)</title><content type="html">&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;nada pra falar nada pra esperar nenhum desenho nenhuma aquarela nenhuma emoção, sei lá porque espero que você ainda faça uma canção pra mim alguma música sobre mim um som que me explique que me acalme.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;gostaria de uma música, assim, que tivesse duas repetições de progressões daquelas que me fazem ter vontade de lamber sabão depois que eu ouço, você sabe. que fosse em quatro tempos pois quatro tempos é a minha cara, me falaram. mas sem  valsinha ou violão-zinho, espero que você ainda lembre.&lt;/p&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;poderia ser algo entre tnt e filas longas taxas altas, são dessas progressões que falo e você sabe. das texturas também. quero uma música boa pra ouvir nos dias que eu tiver uns galhos. muitas camadas. você pode usar em algum momento um xilofone se pá não sei se você ainda lembra mas é meu instrumento favorito assim como é o favorito para mais de três mil garotas que usam jaqueta marrom e blusa verde como eu e que você tanto preferia qualquer outra garota de jaqueta marrom e blusa verde, vai dizer que não.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;você poderia cantar um pouquinho também, mas só num momentinho porque não gosto de vocais e sua voz é enjoativa. pode ser que nem naquela love like a sunset que também usa uns sintetizadores que você acha legal. mas só pras progressões, que ficam ótimas nos dias que eu tenho uns galhos. mas pode ficar um pouco over. você poderia fazer algo com o seu sintetizador que você tanto ama e depois enfiá-lo no cu. (e morra.)&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;coloque umas referências étnicas. você sabe que eu tenho uma cara tão bobinha que não faz jus à minha paixão pelo leste europeu. as garotinhas amam o leste europeu, mas você bem que achava que eu também ficaria ótima em lugares como Jerusalém onde eu me casaria com um violeiro e teria muitos azulejos, vai dizer que não. pena a minha ter uma cara tão bobinha pra você e tão bobinha pro violeiro de Jerusalém. você preferiu as mais gordinhas, fazer o quê. sinto raiva sinto inveja que elas ficam bem no leste europeu e ficam bem em você também. tô tentando descobrir o que fazer com essa minha cara.&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;eu ainda espero que você faça uma canção para mim uma música sobre mim um som que me explique que me acalme. duvido você ter alguma coisa boa pra falar, duvido você não citar aquelas coisas, duvido você não gritar daquelas outras, duvido você encontrar alguma coisa boa em mim pra me contar, eu te desafio tanto. faça e mande pro meu e-mail que eu espero mas só lembrando que meu computador não abre arquivo winzip.&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-4730747509747647645?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/4730747509747647645/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/sugiro-queou-faca-logo-uma-musica-sobre.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4730747509747647645?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4730747509747647645?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/sugiro-queou-faca-logo-uma-musica-sobre.html" title="sugiro que,(ou faça logo uma música sobre mim)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUUDSX87eip7ImA9WxBXEkw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-1758655346435862039</id><published>2010-01-23T00:40:00.005-02:00</published><updated>2010-01-23T01:27:58.102-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-01-23T01:27:58.102-02:00</app:edited><title>oo! (ou o quase-infinito)</title><content type="html">dois amigos de longa data, em um dos semquereres da vida, se encontraram numa noite estrelada de desejos que arranhavam o céu. ele, um apaixonado incurável pela vida e por formigas em metáfora. ela, dona de um sorriso que mostrava que toda sua quietude tinha um motivo óbvio. tão óbvio que ninguém sabia, porém. a relação entre os dois era como o antônimo de uma unha arranhando um quadro-negro e todos que podiam notar isso tinham uma inveja boa, bonita e sorridente ao vê-los imersos mundo tão siamês. ele estava imensamente feliz em encontrá-la assim, no acaso que regia sua vida, num lugar imensamente bonito, ainda mesmo quando coberto pelo manto da noite que tudo enegrece. dizem por ai, em bocas populares, que a beleza é algo que se dá além dos olhos.  isso era particularmente certo para essa noite em que nada se via além do brilho da lua crescente regendo as estrelas em constelações de acordes diminutos.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;nesse longo silêncio inicial, os olhares dos dois intercalavam entre a imensidão interna dos negrolhos e a imensidão externa do negruniverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;após terminarem de observar os infinitos, decidiram se sentar na grama, num acordo silencioso que duraria até a hora de acordar novamente. &lt;br /&gt;começaram então a falar das coisas banais da vida. falavam, porém, da forma menos concreta possível. sabiam por empirismo que tudo o que é solido se desmancha no ar e que a única tarefa  do ar é cuidar de si mesmo. por isso conversavam em sussurros, para que pudessem enganá-lo e fazer com que suas palavras se eternizassem em leves brisas.&lt;br /&gt;as pessoas ao redor olhavam com o rabo-do-olho-de-gato-pardo tentando saber o que raios tanto falavam. em vão: o ponto-cego da despoesia de seus olhos impedia que enxergassem seus decassilábios se mexendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foram três dias e três noites conversando.&lt;br /&gt;falaram sobre tudo, sobretudo sobre falar sobre as palavras. e em sóbrias palavras disseram aquelas que mais gostavam:&lt;br /&gt;-ensimesmado - disse ele em oposição ao seu estado de espírito.&lt;br /&gt;-disgusting – escolhendo um anglicismo por pensar além.&lt;br /&gt;-quiçá – percebendo que adorava aglutinações de palavras e de pessoas.&lt;br /&gt;-oo!&lt;br /&gt;-?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;após uma pausa semibreve ela se viu obrigada a explicar esse último algo que disse: era uma expressão de espanto. algo como “ô loco!” ou “minha nossa!”, misturado com uma leve dúvida sincera de “é sério?”. tudo isso dito com uma entonação bem peculiar de papagaio.&lt;br /&gt;ele adorou e, mais que isso, adotou a expressão para usar em momentos de interjeição peculiares.&lt;br /&gt;as palavras continuavam a se movimentar numa transfusão recíproca e as noites e os dias continuavam passando em ciclo, sem se repetirem, porém.&lt;br /&gt;entre sorrisos e aranhas que passeavam ao lado ele disse, num momento de epifania:&lt;br /&gt;-você tem dez minutos e trinta e sete segundos pra me dizer algo que nunca disse a ninguém.&lt;br /&gt;ela, em sopetão, emudeceu e sorriu. sorriu com o mesmo sorriso que fez com que ele se apaixonasse em segredo alguns anos antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;num silêncio confortável eles se mantiveram até o fim do prazo estipulado. sem titubear ela  contou da forma mais singela possível sobre um caso de amor que tivera num verão anterior e que ninguém havia sabido até então.&lt;br /&gt;-eu gostava dele, mas ele gostava da minha amiga também - disse, sem perceber que ele a admirava pela sinceridade em suas palavras ao mesmo tempo em que observava algo que havia perdido há muito: a inocência. ele gostava do jeito quase-infantil que ela usava pra ser.&lt;br /&gt;é preciso muita maturidade e destreza para se manter com a alma lisa de um bebê em tempos de chocolatentações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eles riram juntos. o que ela havia dito não era um grande segredo, muito provavelmente fora algo quase insignificante em sua vida,  e por isso não contou a ninguém. não pelo sigilo, mas pela falta de memória. apesar disso, ele se sentia extremamente comovido por saber de algo que ninguém mais sabia e se perdeu em nuvens de devaneios enquanto ela continuava a falar. a conversa continuou a fluir naturalmente, mas ele já não estava mais lá. é impressionante como a mente humana funciona, basta um grão de areia pra já pensarmos em oceano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até que em um dado instante ela disse um algo inesperado, o trazendo de volta a esse mundo.&lt;br /&gt;-agora é sua vez, me diga alguma coisa que nunca disse a ninguém.&lt;br /&gt;-oo!&lt;br /&gt;a expressão recém-adotada coube perfeitamente naquele instante. e agora? ele caiu em seu próprio jogo inocente e nunca tinha pensado a esse respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apesar de tudo, apesar de nunca ter pensado nisso, ele saberia  muito bem o que dizer. mas como dizê-lo? a amizade dos dois era demasidamente preciosa pra ser levada à borda do abismo. dizer que estava apaixonado por ela seria perigoso demais, era quase certo que escorregariam. o silêncio se instaurou e durou um dia inteiro. ele na indecisão e ela na expectativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ela sabia das coisas. sabia por observar sempre ao longe tudo o que ele fazia. e ela esperava que ele dissesse o que já havia sido dito sem palavras durante uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os dois estavam deitados no chão de olhos fechados. suas mãos quase se tocavam. e nesse quase-tocar, trocavam o calor da proximidade do que ainda não é. como aquela sensação do espirro iminente. aquela agonia que precede a meleca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;era assim que se sentiam. ele não conseguia pensar em outra coisa pra dizer. ela não queria que ele pensasse em outra coisa pra dizer. então, finalmente, alguns instantes antes do fim-da-madrugada quando o primeiro pássaro alçou voo para anunciar a chegada dum novo dia, ela disse aquilo novamente, em uma ansiedade que nunca foi dela. aumentando ainda mais a tensão:&lt;br /&gt;-então... diga algo agora que você nunca disse a ninguém.&lt;br /&gt;-eu faço xixi sentado! - (silêncio) – sabe? é mais higiênico...&lt;br /&gt;era isso. era assim que ele ia ia impedir o infinito de acontecer, deixando que as partes partissem sem a declaração, sem o elo. com uma imagem ridícula de si. mas com o sorriso de quem ele mais gostava de ver sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e então nasceu o dia. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-1758655346435862039?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/1758655346435862039/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/oo-ou-o-quase-infinito.html#comment-form" title="12 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/1758655346435862039?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/1758655346435862039?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/oo-ou-o-quase-infinito.html" title="oo! (ou o quase-infinito)" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEUHRHk5eCp7ImA9WxBQF0o.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-6872832883823800454</id><published>2010-01-17T21:19:00.004-02:00</published><updated>2010-01-17T22:57:15.720-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-01-17T22:57:15.720-02:00</app:edited><title>anticoncepcional (essa porra mesmo)</title><content type="html">se eu esqueço de te tomar e de me comprimir num dia assim, é porque você pediu pro alarme não tocar ou então preu não sentir o alarme me chamar pra você. o alarme sempre me chama pra você todos os dias às 18:15, todos os dias com uma leve pausa de sete dias pra pensar se vale a pena tomar, se vale a pena mesmo pensar  todo mês e será sempre assim todo mês.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;agora se eu esqueço do comprimido num dia assim, é porque não me importou, e preu esquecer do par num dia assim então o caso é grave.e se não me dói o todo por não lembrar em um dia assim, é porque a coisa tá ainda mais perigosa e talvez eu deva visitar o doutor; - talvez seja só calma.-(talvez seja saco cheio).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-6872832883823800454?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/6872832883823800454/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/anticoncepcional-essa-porra-mesmo.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6872832883823800454?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6872832883823800454?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/anticoncepcional-essa-porra-mesmo.html" title="anticoncepcional (essa porra mesmo)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkMERHg-cSp7ImA9WxBQEE4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-7682546304144885251</id><published>2010-01-09T00:31:00.003-02:00</published><updated>2010-01-09T10:00:05.659-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-01-09T10:00:05.659-02:00</app:edited><title>A página errada (ou a verdade relativa)</title><content type="html">Depois de tantos anos, eu o vi. Foi de relance, por acaso: informava a uma moça asiática onde ficava a seção de literatura estrangeira. Naquele breve instante em que olhei para as estantes com livros estrangeiros, apontei e voltei a encarar a moça, foi durante aqueles 37 segundos que eu o percebi, pelo canto do olho, a alguns metros de mim.&lt;br /&gt;Depois que ela se afastou – após agradecer baixinho e dar um sorriso acompanhado de um desviar de olhos, típico de pessoas tímidas – olho na mesma direção de antes, mas não vi mais rastro algum. Foi então que percebo que faz muitos anos que não pensava nele e em mais ninguém daquela empresa.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;A empresa a que me refiro era um escritório de contabilidade em São Paulo, com certo renome até. Não cabe aqui mencionar qual é, mesmo porque não tem relevância alguma. O que basta saber é que trabalhei lá durante mais de dez anos e todos ficaram bastante surpresos quando declarei minha decisão. &lt;br /&gt;“Mas por quê?”, me perguntavam. “Ouvi dizer que você seria promovido!”.&lt;br /&gt;De fato, eu seria. Quando pedi demissão, uma oferta ainda maior foi feita e eu, sem pestanejar, recusei. Para não se darem por vencidos, disseram que não poderiam me demitir naquela semana por causa de questões burocráticas, mas na próxima, se ainda o quisesse, poderia ir embora. Foi a semana mais longa da minha vida.&lt;br /&gt;Não ligava para os boatos e murmúrios sobre a minha saída. Era natural que todos já soubessem e ficassem indignados. Só não digo que eu fui o assunto da semana porque, na mesma época, ele – a quem pensei ter visto minutos atrás- também pedira demissão. E todos o conheciam mais do que a mim, já que eu era mais reservado. &lt;br /&gt; Temos histórias bem parecidas, mas nunca pensei muito nisso. Era um daqueles rapazes expansivos e talentosos, e entrara na empresa quando ainda era menor de idade, como office boy. Aos poucos conquistou a confiança e simpatia de todos e, por seu interesse e facilidade em aprender, foi galgando seu lugar ao sol.&lt;br /&gt; Talvez por sua humildade e carisma, ele conquistava facilmente a amizade de todos, independente da posição social. Por mais que subisse de cargo, ele cumprimentava e tratava a todos igualmente, desde os mais humildes até a diretoria.  Em reuniões e comemorações, era sempre fácil saber onde estava: bastava seguir as risadas. Ele era sempre o centro das atenções.&lt;br /&gt; Naquela minha última semana, perguntaram-me bastante sobre mim, mas mais ainda sobre ele. Achavam que éramos próximos e nos confundiam bastante. Não sei o que ele achava disso, eu nunca me importei muito.&lt;br /&gt; Na verdade, o que eu pensava sobre ele era muito diferente da opinião dos outros, que o viam apenas como um sol ou qualquer outra estrela de massa tão densa que atraía os outros ao seu redor. Apenas alguém com uma mente despida de preconceitos - e que não orbitasse admirado ao seu redor - conseguiria perceber que quando sorria o fazia apenas com a boca. &lt;br /&gt; Apesar de me sentir mais próximo dele do que os outros, não sabia quais foram os seus motivos e nunca fiquei curioso a respeito. Ouvi dizer que poderia ser por causa de Ana. Ana foi a única mulher que conseguira a atenção particular dele, mesmo que por apenas alguns meses. Ele sempre fora bastante assediado pelas mulheres, mas dispensava-as de uma maneira que pelo menos a amizade mantinha-se intacta. Os outros sempre queriam saber como ele fazia isso.&lt;br /&gt; Ana saiu do escritório, na mesma época em que terminaram. Apesar das portas fechadas, era possível escutá-la dizer que já não aguentava mais.&lt;br /&gt; - Não sei quem é você!&lt;br /&gt; - Mas... eu sou um livro aberto!&lt;br /&gt; - Mentiroso...&lt;br /&gt; No dia seguinte, todos já sabiam. Ana não aguentou, encontrou um emprego melhor ou similar e sumiu. Nunca mais se falou no assunto, pelo menos não enquanto ele estava presente. Nos cochichos e burburinhos, era sempre o assunto preferido, principalmente por aquelas que haviam sido rejeitadas.&lt;br /&gt; A fama de mentiroso e fingido cresceu, mas creio que ele mesmo teve certa culpa nisso. Gostava de inventar histórias para divertir o resto das pessoas e, até então, ninguém se preocupava muito se eram verdadeiras ou não. A preferida dele era a respeito de uma grande cicatriz que possuía no braço esquerdo e que, a cada vez que perguntavam, contava uma história diferente. E todos riam e, de propósito, perguntavam vezes seguidas e ele nunca repetiu uma explicação sequer, dizendo cada uma delas com total convicção e desembaraço.&lt;br /&gt;A inveja e o ressentimento, até então escondidos, alimentaram os comentários maldosos. O que antes era visto como inocente descontração, agora era tido como falsidade e fingimento, como se a máscara finalmente tivesse caído.&lt;br /&gt; Os superiores, entretanto, não se importavam com aquilo tudo e ele, por seu esforço e dedicação, continuava a ser promovido. Isso despertou ainda mais intrigas e fofocas. &lt;br /&gt; Não acho que ele se importou com isso, embora com certeza tenha notado. Aos poucos passou a permanecer menos tempo nos eventos sociais da empresa, alegando serviços atrasados e urgências mil, até a reclusão total a que se submeteu durante quase um ano. Mas não acho que foi isso que o fez desistir de tudo.&lt;br /&gt; Nunca achei que ele mentia, pelo menos não em assuntos sérios. O que ninguém entendeu é que ele era, de verdade, um livro aberto – só que na página errada. Sabe, aquela página em que o leitor é induzido a pensar o exato oposto, para que no final do livro seja revelada toda a trama real. Mas ninguém chegava lá. &lt;br /&gt;A tristeza dele, a meu ver, era que todos se contentavam com a página que ele mostrava e nem buscavam realmente folhear o livro, ir mais a fundo e ler com mais cautela. Irônico pensar que, de todas as pessoas daquela empresa, eu, que possuía o menor interesse nele, era também o que mais o conhecia. E vice-versa.&lt;br /&gt; Oito mil cento e noventa e sete quilômetros e dois anos se passaram. Percebo então que é impossível que tenha sido ele, minutos atrás, que vi de relance. Olho ao redor, sem muito empenho, e não o vejo novamente. Na verdade, não sinto vontade de revê-lo e nem ninguém que deixei para trás. Minha vida é aqui e agora, em outro país e outra profissão que, embora não tenha tanta perspectiva de crescimento, me satisfaz. Estou contente com a vida que levo e com a paz que a falsidade outrora roubara de mim.&lt;br /&gt; Meus devaneios são interrompidos pela moça de minutos atrás, que voltou a me procurar. Com alguns livros na mão, me pergunta se eu tenho, em estoque ou em outras lojas da franquia, um outro título que eu bem conheço. Comento com ela, enquanto busco os dados no computador, que aquele escritor era meu conterrâneo. &lt;br /&gt; Ela abre um sorriso, muito maior do que o anterior e desta vez nem desviou o olhar. Conta que tem interesse por culturas diversas e que adoraria conhecer outros países, entre eles o Brasil. Principalmente a Chapada Diamantina. Confesso que eu também não conheço a Chapada e ela me olha com reprovação fingida. “Como assim não conhecer o próprio país de origem?”, parecia dizer.&lt;br /&gt; Eu a desafio a conhecer por inteiro sua terra natal, mas só o fiz porque o inglês dela é bem fluente e sem sotaque estrangeiro, sinal de que mora no Canadá há mais tempo do que em qualquer outro lugar. Ela sorri e diz que saíra da China ainda bebê e que obviamente não se lembrava de nada de lá: nem dos lugares ou cheiros ou cores. Duvido até que se lembrasse dos pais biológicos.&lt;br /&gt; Ela então baixa os olhos, e ficamos em silêncio. Talvez eu tenha dito algo que não deveria, mas não pareceu pois ela não está zangada. &lt;br /&gt; Nesse momento o computador termina a busca e, por sorte, há um exemplar disponível, mas em outra loja da franquia, em outra cidade. Com o consentimento dela, reservo o livro, que será enviado para cá em dois ou três dias. Sinto uma tola animação ao pensar que talvez a veja novamente.&lt;br /&gt; Ela então agradece e sorri, sem olhar para baixo como fizera da outra vez. Penso que vai se afastar e ir embora, mas ela me olha e pergunta curiosa o que já devia estar pensando há muito tempo. Ela quer saber como eu fizera aquela cicatriz tão grande no braço. &lt;br /&gt; Tenho a certeza de que ele não voltará mais. Respiro aliviado. &lt;br /&gt;Falo então que é uma longa e até que divertida história, mas que fica melhor ainda se acompanhada com café.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-7682546304144885251?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/7682546304144885251/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/pagina-errada-ou-verdade-relativa.html#comment-form" title="7 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7682546304144885251?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7682546304144885251?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2010/01/pagina-errada-ou-verdade-relativa.html" title="A página errada (ou a verdade relativa)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0UNQX44fip7ImA9WxNaFEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-1671511810471899270</id><published>2009-11-29T09:44:00.001-02:00</published><updated>2009-11-29T09:48:10.036-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-11-29T09:48:10.036-02:00</app:edited><title>sado (ou morangos amassados)</title><content type="html">Foi assim que aconteceu. eu não a esperava ali. jurava que nunca mais ia encontrá-la. pelo menos é o que meu sonho verde áspero- daqueles que te deixam sem ar enquanto dorme, que trazem à tona uma lagrima fria- havia me contado. sim, um sonho ruim que te acorda com uma lágrima n'olho e um sorriso no rosto, por te contar bem baixinho que nada daquilo era verdade. não havia mais motivos pra se debater. não havia mais por que procurar a solução no escuro. pois você podia sim acender a luz e ver que os monstros, os fantasmas que sua mente adulta criou, não estão ali. pelo menos naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;ainda não consigo acreditar em sonhos-presságios. pra mim os sonhos ainda são manifestações de pulsos elétricos no cérebro. até a dor no coração que sentimos é só isso. não há paixão. não há quadro, não há cor. é tudo invenção do cérebro. é tudo um grande rascunho de grafite feito às pressas. logo vão amassar teu amor-sonho-sorriso e te dar outra folha em branco. raras são as pessoas que conseguem cuidar de uma folha até que amarele. até que venham as traças e acabem comendo tudo, num grande sonho real. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você ainda pode ver as sombras no fundo da caverna, mas não é capaz de dizer de onde vem a luz. atribui tudo a um deus estúpido que inventou pra se isentar de toda e qualquer culpa que está por vir. e, por ver que os outros te copiam nessa grande ideia que teve de sair pela esquerda, inventa qualquer desculpa pra que façam o que diz, mas não o que faz.&lt;br /&gt;se ao menos olhasse pra trás, veria que o fogo aumenta, e que breve morrerão, com sorte, asfixiados, e com mais sorte ainda, queimados. pois é a dor que quer sentir. é a dor que te dá vida. mesmo sendo a mesma dor que mata. mesmo queimando todos os rascunhos que não consegue mais ver, pela fumaça que já é densa e por ainda se sentir mais atraido pelas sombras na parede. o que seria da escuridão se não fossem as sombras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os morangos mofam&lt;br /&gt;foram amassados enquanto ainda estavam maduros. eram comestiveis sim. há agora uma grande colônia de fungos neles. e mesmo assim ainda são comestíveis. não sei por que pisou com tanta força neles. ao menos não escorregou, ao menos não se machucou. &lt;br /&gt;sabe? os morangos me lembram corações e a sua fala naquele momento me lembrava algumas canções. canções sobre morangos amassados, despedaçados. canções tristes e sussuradas ao ouvido de quem tem dor de cabeça por chorar há um longo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu me lembro agora. os morangos tinham cobertura de chocolate. e foram trazidos a ti por duas mãos contentes. mal viam a hora de passarem essa alegria à frente.&lt;br /&gt;agora estas mesmas mãos os trazem de volta. escorrendo entre os dedos. tentanto consertar o que não cabe à elas consertar. eu deveria saber que mãos não combinam com pés. tantas vezes elas foram pisadas. deveria saber que aquela dor não era uma dor boa. não era necessária. mãos merecem carinhos de outras mãos. senão mais as suas, não será dificil encontrar outras. porém em outras, será dificil encontrar as tuas, que, por raros momentos, me deram o que deveria ser dado a todo instante. que por raros momentos me puxaram pra direção certa. e que por muitos momentos, me fizeram pôr as minhas no bolso praquecê-las. se preparando pro reencontro com as tuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois é...&lt;br /&gt;mas a tristeza reapareceu, assim, como quem não quer nada. e amassou meus morangos. com seus passos gigantes, como num sonho.&lt;br /&gt;agora o que me restam são viscosos morangos que sangram em meus calos lágrimas frias de um um sonho que era de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-1671511810471899270?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/1671511810471899270/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/11/sado-ou-morangos-amassados.html#comment-form" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/1671511810471899270?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/1671511810471899270?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/11/sado-ou-morangos-amassados.html" title="sado (ou morangos amassados)" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEcNSXs7eyp7ImA9WxNVF0s.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-4860400006827296130</id><published>2009-10-20T15:34:00.002-02:00</published><updated>2009-10-28T19:41:38.503-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-10-28T19:41:38.503-02:00</app:edited><title>simplicidade (os descendentes de Macabéa)</title><content type="html">cida adiava o suicídio e já estava nessa há onze anos.&lt;br /&gt; - vou esperar ficar pior.&lt;br /&gt;ia ver se ficava pior.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-4860400006827296130?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/4860400006827296130/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/simplicidade-os-descendentes-de-macabea_2660.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4860400006827296130?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/4860400006827296130?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/simplicidade-os-descendentes-de-macabea_2660.html" title="simplicidade (os descendentes de Macabéa)" /><author><name>druwe</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08257110905406200396</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEICRXg5eSp7ImA9WxNXF0Q.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-3708737546158170336</id><published>2009-10-05T23:28:00.003-03:00</published><updated>2009-10-05T23:36:04.621-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-10-05T23:36:04.621-03:00</app:edited><title>Primeira Vez (ou aquilo que fazemos entre quatro paredes)</title><content type="html">A primeira coisa que chamou a atenção dela foi o espelho no teto: grande e intimidador. O quarto era simples, bem arrumado e silencioso. Seu próprio coração era o único barulho que ouvia. Gentilmente, ele a empurrou para dentro e fechou a porta atrás de si. Agora era tarde demais para desistir.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Ela dirigiu-se vagarosamente ao leito. Notou que o rapaz estava ansioso, o que abrandou um pouco seu próprio nervosismo. E agora? Lembrou-se então dos conselhos da amiga, mais experiente. Um carinho aqui, uma mordida ali: nada de especial. Logo tudo estaria terminado, homens nunca ligam muito para preliminares. Respirou fundo, esvaziou a mente. Pensar, naquele momento, seria inútil. Medo e hesitação só iriam lhe causar mais dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os minutos que se seguiram pareceram horas. O corpo dela apenas reagia aos toques dele, movendo-se por impulso. Enquanto ele transpirava e ofegava, ela se observava no grande espelho do teto. Alheia, fingia não ser dela o reflexo que via.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo ele parou de se mover. Ficaram parados durante alguns segundos, ela sentindo o peso do corpo dele sobre o seu. Ele levantou-se, olhou o relógio e foi ao banheiro. &lt;br /&gt;Aos poucos, o som do chuveiro preenchia o quarto e ela voltava à realidade. Sentiu que seu corpo inteiro latejava. O cheiro de tudo provocava-lhe um pouco de náusea. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saiu do banheiro, já vestido e penteado. Calçou os sapatos, pegou seus pertences e verificou se não havia esquecido algo. Por fim, abriu a carteira e entregou a ela três notas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Era isso mesmo, né?”, perguntou ele sem esperar a resposta. Abriu a porta e partiu. Sozinha, ela sufocou a parte de si que queria chorar e apertou entre os dedos o dinheiro. Era só uma questão de tempo até ela se acostumar. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-3708737546158170336?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/3708737546158170336/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/primeira-vez-ou-aquilo-que-fazemos.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/3708737546158170336?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/3708737546158170336?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/primeira-vez-ou-aquilo-que-fazemos.html" title="Primeira Vez (ou aquilo que fazemos entre quatro paredes)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0MCRn0-fip7ImA9WxNXGEs.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-7627161943594887248</id><published>2009-10-04T11:33:00.005-03:00</published><updated>2009-10-06T17:37:47.356-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-10-06T17:37:47.356-03:00</app:edited><title>fome (ou Assalto à mão amada)</title><content type="html">Era a véspera de algum feriado importante. ele não sabia ao certo qual. há um incerto tempo tinha perdido a noção do mesmo. sabia, porém, que era a véspera-de-algum-feriado-importante por ver a agitação das pessoas nas ruas comprando coisas e se preparando pra ir a algum lugar que não aquele onde elas estavam. procurando algum objeto que agradasse e fizesse sentir que estavam vivos. procurando mais ainda alguma figura de cerâmica ou pedaço de papel supervalorizado que pudesse preencher sua ausência na vida de alguma outra pessoa. ele, porém, não tinha nada nem ninguém.&lt;br /&gt;tinha fome e isso era visível.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;a fome era uma sensação estranha. era como se seu corpo em sua inevitabilidade de ser procurasse uma forma de mostrar que ainda existia sua vitalidade, sua energia vital, sua vida. tudo era devir naquela situação. tudo era possibilidade. a fome era esperança da saciedade futura manifestada num presente inexistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a fome era a véspera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ele sabia que, apesar de tudo, esse era o melhor sentimento que poderia ter naquele instante. ele gostava da fome. gostava desse impulso. desse pulso de vida sem muita razão. e foi assim que decidiu:&lt;br /&gt;pegou sua arma e se dirigiu até a casa dela. sabia que lá podia encontrar o que procurava no limiar de sua sanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já era fim de tarde, e o dia estava naquele exato momento em que a sua sombra parece dez vezes maior que você e que aponta para frente. para lá, onde ela já está e você ainda não pensou em chegar. &lt;br /&gt;a cada passo ele sentia o seu sorriso aumentando. sabia que já havia quebrado todos os paradigmas da sua vida. sabia que ja tinha jogado tudo ao vento, tudo o que havia inventado. que não havia sensação melhor que essa: a liberdade conquistada, não imposta. e não importa o que dissessem ele sabia que só podia fazer o que seu corpo pedia. era essa a lei. não havia certo e errado.&lt;br /&gt;a cada passo ele sentia sua fome aumentando. como passos em uma escada muito alta que ensaia te jogar pra baixo caso você fraqueje. e ele não podia desistir agora. com todo aquele sentimento ele só podia existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sabia o caminho de cor, era um caminho que ele havia descoberto há pouco mas que sabia antes de conhecer.&lt;br /&gt;tocou a campainha com dedos trêmulos e esperou a maior espera de sua vida. maior que toda a sua véspera.&lt;br /&gt;ela abriu a porta, linda como sempre, e sorriu. sorriram juntos. sorriram e ficaram um bom tempo em silêncio. como se pensassem em uníssono.&lt;br /&gt;(não há nada aqui que possa ser descrito nem entendido sem que haja uma descrição.)&lt;br /&gt;ele decidiu então falar. &lt;br /&gt;após ensaiar algumas palavras belas e ameaçadoras, sem muitas delongas, ele disparou, fazendo um círculo sutil vermelho e delicado no peito dela.&lt;br /&gt;ela então sentiu o que ele sentira por todo aquele tempo, sentira a sua vida passando. sentira a véspera do inevitável. lembrara de todos os sonhos que tiveram sido afogados desde sua infância até o exato momento. e sabia que ali um sonho novo estava se realizando. denovo. sentiu a fome que ele sentiu e percebeu que ela havia se enganado por todo esse tempo com guloseimas pra forrar-o-estômago. sentiu então o amor. aquele amor que respingava em seu peito causado pelas belas palavras bélicas.&lt;br /&gt;ela decidiu tomar a arma de sua mão e sem muito ensaio nem jeito disparou de volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o tempo parou em volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele, agora, não sabia de mais nada.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-7627161943594887248?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/7627161943594887248/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/fome-ou-assalto-mao-amada.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7627161943594887248?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/7627161943594887248?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/10/fome-ou-assalto-mao-amada.html" title="fome (ou Assalto à mão amada)" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUcNRH4zeCp7ImA9WxBUEEs.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-8988436293494993360</id><published>2009-09-21T22:25:00.006-03:00</published><updated>2010-02-25T00:04:55.080-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-02-25T00:04:55.080-03:00</app:edited><title>Cerejas (ou é assim que tenho vivido sem você)</title><content type="html">Fazia tempo que não tomava chá neste lugar – aquele em que você sempre me levava. Não há muitas mesas ocupadas, procuro sentar longe dos outros e finjo ler um jornal, desinteressada. Uma gota do chá que tomo cai na primeira página, ao lado do último escândalo envolvendo o presidente. Fico por alguns instantes reparando em como o liquido é sorvido pelo papel, deixando uma mancha amarela em forma de sapo ou guaxinim. Aquilo me interessa mais do que a manchete do jornal e resolvo deixar as notícias de lado.&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Na mesa ocupada mais próxima, um casal parece discutir. Ele fala com bastante paixão, agitando os braços diversas vezes. Ela o fita, sem nada dizer, os olhos semi cerrados e a expressão vazia, como se há muito não ouvisse o que ele dizia. Ela bebe devagar o café e move a cabeça de vez em quando, concordando ou não com o provável namorado.&lt;br /&gt;Lembro-me então de você, como não lembrar? Você que fazia discursos tão eloquentes e fervorosos por ideologias distantes, comportamento social, mártires revolucionários e maionese. É, maionese. Lembro como você odiava quando pedia um lanche sem, mesmo sabendo que iriam esquecer. E você dizia: “tá vendo? Eu sabia que iam mandar com maionese, essa coisa nojenta!”. Às vezes penso que de todas as suas discussões-monólogos, esta era a mais verdadeira, a única em que você sabia realmente do que estava falando.&lt;br /&gt;Não me entenda mal, não estou ridicularizando sua conduta, mesmo que a considere ingênua. Na verdade, acho-a tão pura e rara que só de lembrar, um sorriso acende em meus lábios. Sinto até  falta desta doce presença, já que vamos envelhecendo e ficando tão amargos.&lt;br /&gt;Percebo novamente que nossos caminhos só podiam ser separados, pois eu não tinha – e até hoje não tenho – essa energia para definir e discutir a vida: sempre fui do tipo silencioso que só sabe vive-la. Tento, vez ou outra, transformar em palavras o que sinto, mas é como se tentasse desenhar um som ou escrever com cores.&lt;br /&gt;Sorvo o último gole de chá e vejo que o casal já está tranqüilo e ele sorri de uma forma muito bonita para ela, mãos entrelaçadas e alianças de noivado encostando-se. Ela agora sorri, também terna e eu invejo aquele sorriso. No fundo, sei que é falso, estampado num rosto que realmente não se sente feliz. É um sorriso vistoso e doce, como aquelas apetitosas cerejas em calda que nem sequer são cerejas de verdade, apenas maçarocas coloridas e aromatizadas artificialmente feitas a partir de chuchu ou mamão.&lt;br /&gt;E quando percebo, a saudade que sinto é tão grande que me sufoca. Não sei se de você apenas, ou de como tudo que fazia me irritava e encantava em igual proporção, ou se da época em que eu também conseguia dar aquele sorriso adocicado artificialmente.&lt;br /&gt;Pago a conta e me retiro. Sua presença ausente vai sumindo aos poucos, até não sobrar nada. Olho a rua, as folhas sendo sopradas pelos ventos, os olhares tão vazios quanto os meus perambulando pelas ruas. Já não tenho o sorriso doce, mas também não me sinto sufocada pela companhia vazia de quem não se ama mais.&lt;br /&gt;E é assim que tenho vivido sem você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-8988436293494993360?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/8988436293494993360/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/09/cerejas-ou-como-tenho-vivido-sem-voce.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/8988436293494993360?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/8988436293494993360?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/09/cerejas-ou-como-tenho-vivido-sem-voce.html" title="Cerejas (ou é assim que tenho vivido sem você)" /><author><name>Debs</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00235126332158108680</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="32" height="27" src="http://1.bp.blogspot.com/-Tstk1hSrrmE/TriK9zpjEZI/AAAAAAAAAxY/gpouFWxBHes/s220/dbes.jpg" /></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkcNQX49eyp7ImA9WxNTEU4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-16059629.post-6000960834814548610</id><published>2009-08-12T23:07:00.002-03:00</published><updated>2009-08-12T23:21:30.063-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-08-12T23:21:30.063-03:00</app:edited><title>vão (ou Sobre o que sobra)</title><content type="html">E da janela viam-se pássaros.&lt;br /&gt;Poucos, escassos, mas pássaros.&lt;br /&gt;Pairando sobre um cheiro de não-sei-o-quê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, isso era o que dizia a criança, que cresceu vendo os pássaros amigos, e hoje tem medo deles. Pássaros pretos que escrevem linhas de tristeza no livro de suas histórias.&lt;br /&gt;Pássaros rápidos que passam a borracha em todas suas glórias.&lt;br /&gt;O quintal ainda é de terra, e lá essa criança brinca pra esquecer. Tão poucos anos e tanta coisa em sua memória. Tanta coisa ruim. Só de pensar que um dia achou o canto dos pássaros agradável e hoje acha ensurdecedor.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;A raiva é muita, e se sentir impotente só piora.&lt;br /&gt;Ela pega seu estilingue. Mira lá, bem longe, no pássaro. Põe todo o seu sentimento naquela pedra. O seu desejo é a força que ela põe no elástico, fecha os olhos e solta...&lt;br /&gt;A pedra vai, vai... e cai.&lt;br /&gt;A criança continua de olhos fechados. É criança mas sabe da verdade. Já tem pensamentos de adulto. E pra fugir disso cria seu próprio filme na cabeça:&lt;br /&gt;(&lt;br /&gt;a pedra acerta o pássaro-do-mal, a poeira baixa e o sol volta a aparecer. É o fim.. o fim não... é o recomeço... ela era o herói, sua cabeça já não dói mais. Vai para perto do lago e se vê de olhos fechados... chega mais perto da borda...&lt;br /&gt;)&lt;br /&gt;...  abre os olhos e acorda. Os pássaros ainda estão lá. Mais pesados ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tudo pode ter mudado assim, só por causa de um não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(aqui, a lacuna de seus anos esquecidos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;hoje,&lt;br /&gt;o seu quintal ainda é de guerra e lá essa criança brigou pra não crescer. Tantos anos e tão pouca coisa em sua história. Tão pouca chance, enfim. Só de pensar que um dia achou o canto dos pássaros agradável e hoje não acha mais nada.&lt;br /&gt;Marchou para seu exército, cantou sua glória, lutou pela história.&lt;br /&gt;E hoje, o canto que cobre o manto é o de outra marcha&lt;br /&gt;...a fúnebre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(aqui, a lacuna de seus anos não vividos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah sim.... agora eu sei. O cheiro era de gente. Gente morta. &lt;br /&gt;Morta pelos mesmos pássaros que transportam gente. Gente podre.&lt;br /&gt;Mais podre do que os mortos um dia vão ser.&lt;br /&gt;Mortos que vão pro vão em vão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16059629-6000960834814548610?l=lemurias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://lemurias.blogspot.com/feeds/6000960834814548610/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/08/vao-ou-sobre-o-nada.html#comment-form" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6000960834814548610?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/16059629/posts/default/6000960834814548610?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://lemurias.blogspot.com/2009/08/vao-ou-sobre-o-nada.html" title="vão (ou Sobre o que sobra)" /><author><name>uiu</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="22" height="32" src="http://2.bp.blogspot.com/_ix92kRYBYbQ/SsOwpBXsQpI/AAAAAAAAAKE/r2OuWhZ-9yA/S220/uiu.jpg" /></author><thr:total>6</thr:total></entry></feed>

