<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="no"?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:blogger="http://schemas.google.com/blogger/2008" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0"><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130</id><updated>2024-11-08T12:11:41.857-03:00</updated><title type="text">Littera Scripta Litteratura</title><subtitle type="html">Blog destinado à divulgação dos meus ensaios literários, poesias e textos ficcionais, autos e teatro de autores portugueses e brasileiros, todos comentados.</subtitle><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/posts/default" rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/" rel="alternate" type="text/html"/><link href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" rel="hub"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25" rel="next" type="application/atom+xml"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><generator uri="http://www.blogger.com" version="7.00">Blogger</generator><openSearch:totalResults>91</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-2661195992344799738</id><published>2013-02-20T23:52:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T13:02:13.852-03:00</updated><title type="text">Mito do Amor-Paixão (Parte I)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s1600/1279130555.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="180" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s1600/1279130555.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Mito do Amor-Paixão tem a sua gênese no drama amoroso vivido por TRISTÃO e ISOLDA em época remotíssima e, relatado na lenda celta, que faz parte da tradição mítico-simbólica da Irlanda e da Escócia. Segundo a lenda celta, Isolda a Loura e seu tio Morholt são da raça dos reis da Irlanda. Tristão é filho de Rivalin, senhor de Loonois.. Na Cornualha, na região de Tintagel, às portas da fortaleza de Lancïen, no lendário castelo de Marke, encontramos o pilar funerário de um certo Tristão, “filho de Quonomorius:”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta lenda é celta, proveniente de um período dos “começos” na antiga Irlanda. Sobrevivem nas versões francesas e estrangeiras dos séculos XII e XIII vestígios evidentes da sociedade celta, nitidamente anteriores a essa época medieval, e no conjunto sobressaem a magia, a astrologia e o encantamento, tão comuns aos mitos e epopéias irlandeses. A rainha Isolda e Isolda a Loura, sua filha, são fadas que curam feridas envenenadas e que conhecem os segredos das ervas, folhas e flores das terras da Irlanda. O anão Frocin lê as estrelas e prediz a sorte por meio dos astros. Tristão é o herói do gigante Morholt e do dragão, mas é também o senhor dos “encantamentos” quando canta acompanhado da harpa ou quando constrói o “arco que não falha”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta lenda é celta, mas é também universal. Os séculos XII e XIII nos legaram várias versões – francesas, alemãs, norueguesa -, que nos chegaram completas ou mutiladas.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A partir da segunda metade do século XIII, as grandes cenas da história dos amantes da Cornualha foram fixadas em tapeçarias, afrescos, objetos , constituindo uma rica iconografia. Todos estes testemunhos nos mostram não só uma imensa difusão, mas também o grande fascínio que a lenda exercia sobre o público daquela época. Não bastasse toda a produção literária medieval, a lenda atravessa os séculos encantando a quantos a conhecem.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Setters ASPECTOS DO MITO:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
1-O Mito tem origem obscura: não tem autor. É, portanto, diferente da obra literária, cuja autoria é conhecida;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
2- O mito dá conta de normas de conduta estabelecidas por um grupo religioso ou social, está, pois, preso a uma determinada época;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
3-O mito se afirma como tal quando exerce poder sobre as pessoas.- e esta é a sua característica mais importante. Por estar o homem no sentido latente do mito, esta sua capacidade de penetrar a vivência humana, é que permite que este seja tantas vezes recriado e jamais perca a sua força..&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em seu sentido simbólico, o mito pode perdurar por vários séculos, exercendo sua influência sobre a humanidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span class=""&gt;CONTINUA&lt;/span&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/2661195992344799738/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/2661195992344799738?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2661195992344799738" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2661195992344799738" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/mito-do-amor-paixao-parte-i.html" rel="alternate" title="Mito do Amor-Paixão (Parte I)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s72-c/1279130555.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-6467352857924419927</id><published>2013-02-20T23:47:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T13:00:31.276-03:00</updated><title type="text">O Mito de Tristão e Isolda (Parte II)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s1600/2+%25284%2529.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" lwa="true" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s320/2+%25284%2529.jpg" width="140" /&gt;&lt;/a&gt;(Adaptação feita a partir de várias versões da lenda)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Marke, rei da Cornualha, estava em guerra com o rei da Escócia. Muitos heróis vieram em sua ajuda. Entre esses heróis, um rei de nome Rivalin, do país de Lohonois, também correu a Tintagel. Rivalin serviu a Marke como se fosse um vassalo, porque desejava tomar por esposa a irmã de Marke, Blanchefleur.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Blanchefleur se prendeu de tal forma a Rivalin que engravidou e, quando a guerra terminou, fugiu com ele. Em plena mar, com muitas dores, morreu. Retiraram então a criança de seu ventre. Em meio a grande angústia e desespero, Rivalin levou o bebê para seu país e deu-lhe o nome de Tristão, o que nasceu na tristeza.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por sete anos, Rivalin confiou a criança à guarda de Kurneval, que lhe ensinou as regras da cortesia, a tocar harpa e a cantar, e tudo que deveria ser ensinado a um jovem para ser herói.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando Tristão completou sua educação, Kurneval pediu permissão ao rei para levá-lo a conhecer outros países. Tristão e Kurneval partiram e chegaram à Cornualha. Ninguém os conhecia e Kurneval disse-lhe para não revelar sua identidade. Eles chegaram ao castelo de Marke com a música da harpa e pediu ao rei que o aceitasse para servi-lo. Marke confiou-o a seu melhor homem, Dinas de Dinan, e a partir daí o jovem Tristão não cessou de adquirir renome.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nessa época, havia, na Irlanda, um gigante de nome Morholt, cujo tamanho e força eram surpreendentes. Era o irmão da rainha Isolda da Irlanda. Morholt, pela força, havia submetido vários reinos a pagar tributo, e nenhum desses reinos possuía um herói à altura para defender os interesses do rei. Marke também devia tributo, só que não o pagava fazia quinze anos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Morholt estava aborrecido com a atitude de Marke e decidiu atacar a Cornualha. Entretanto, ofereceu a possibilidade a Marke de encontrar um nobre que quisesse enfrentá-lo num duelo singular. Caso o cavaleiro vencesse, ele partiria para seu país, e a Cornualha ficaria livre do tributo; caso contrário, o tributo a ser pago seria uma de cada três crianças nascidas no país. Os rapazes seriam seus servos e as moças trabalhariam nos seus bordéis. Marke ficou desolado. Como evitar a desonra? Convocou todos os nobres do país. Tristão avisou a Kurneval que, se nenhum nobre aceitasse o duelo, ele o aceitaria. Kurnerval tentou dissuadi-lo, mas foi em vão. Então disse a Tristão que pedisse a Marke que o sagrasse cavaleiro. Marke achou muito cedo, mas Tristão convenceu-o de que, o quanto antes fosse sagrado, melhor seria para o reino. Assim foi feito.&lt;br /&gt;
Uma assembléia com os nobres foi feita e Marke explicou-lhes a situação em que o reino se encontrava. Nenhum nobre se sentia capaz de combater. Tristão então se ofereceu. Eles se sentiram aliviados com a oferta, mas ao mesmo tempo preocupados de indicar um cavaleiro tão jovem para um combate tão perigoso e de tamanha responsabilidade para o reino.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os barões fizeram Marke prometer que quem quer que fosse que se apresentasse para o duelo seria aceito. Marke prometeu, mas havia um problema: Morholt só se bateria se o adversário fosse de linhagem real. Tristão então revelou sua identidade. Marke, ao saber que ele era seu sobrinho, se encheu de alegria e ao mesmo tempo de tristeza pela terrível prova a que ele ia se submeter. Marke tentou dissuadi-lo, mas foi inútil. Pelas mãos do rei, Tristão foi armado para o combate que aconteceria numa ilha.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Morholt se espantou com a coragem do jovem herói e lhe perguntou se ele não preferia partir para a Irlanda. Prometeu-lhe riqueza e renome. Tristão recusou e foi a contragosto que Morholt aceitou o duelo, lamentando a sorte de tão valoroso cavaleiro. Mas Tristão desafiou-o e ele, enraivecido, atacou. Lutaram durante muito tempo. Tristão foi ferido por uma lança envenenada; e Morholt foi atingido pela espada de Tristão com tal força que um fragmento que se desprendeu da lâmina se fixou na ferida.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os companheiros de Morholt, vendo-o mortalmente ferido, mandaram avisar a jovem princesa Isolda da Irlanda ( ou Isolda A Loura) que, se ela desejava ver o tio ainda com vida, viesse ao encontro deles. Ela sabia curar as feridas e correu para encontrá-los. Tarde demais. Quando ela chegou, o tio já estava morto. Ela descobriu o fragmento da espada de Tristão e o guardou. O povo todo chorou e lamentou a morte do gigante, jurando que qualquer um que viesse da Cornualha perderia a vida na Irlanda. Todos conheciam o nome do vencedor de Morholt, era Tristão da Cornualha. Entretanto, Tristão estava mortalmente ferido. Nenhum médico conseguia curá-lo da ferida deixada pela lança envenenada Ele não comia nem bebia e a ferida por fim começou a necrosar e a tal ponto cheirava mal que ninguém conseguia se aproximar dele. Todos choravam a sorte do herói. Kurneval cuidava dele, mas o herói não se sentia bem. Finalmente, pediu a Kurneval que o colocasse num pequeno esquife e o deixasse no mar para que pudesse morrer sozinho. Disse a Kurneval que o aguardasse por um ano, que se ele sobrevivesse, voltaria. Foi com grande tristeza que o levaram para o mar tendo como único consolo sua harpa e uma espada. O vento dirigiu o barco para as costas da Irlanda. O barco foi jogado na areia diante do castelo do rei. Quando Tristão viu onde se encontrava, percebeu logo que corria perigo. O rei foi informado de que havia um homem ferido na areia. Ele mesmo foi ver o ferido. Tristão disse chamar-se Pro, que viera da Grã-Bretanha e fora ferido no mar por bandidos que o tinham roubado. Apresentou-se como um cantador e tocador de harpa. O rei mandou pedir à filha Isolda que lhe aplicasse emplastros e ungüentos. Isolda percebeu que a ferida estava envenenada; então preparou o ungüento próprio para o mal. Graças a ela, Tristão ficou curado.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nesta época o reino da Irlanda estava em perigo devido à falta de víveres. Tristão aconselhou o rei e se ofereceu para negociar para ele na Inglaterra. A missão foi um sucesso e Tristão, depois de trazer alegria à Irlanda, voltou para a Cornualha.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando Marke e a corte souberam de sua chegada, choraram de alegria e correram ao seu encontro. Tristão foi recebido com toda a honra e tratado como valoroso cavaleiro.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Marke tinha tanta afeição pelo sobrinho que decidiu não se casar e torná-lo seu herdeiro. Mas isso desagradou aos barões, seus parentes. E Tristão se tornou motivo de raiva e inveja por parte dos barões, que prometeram guerra ao reino de Marke caso ele não escolhesse esposa. Marke pediu um prazo para pensar e, enquanto isso, tentou imaginar o que fazer para convencer os barões de que não queria esposa. Um dia, enquanto estava pensando, entraram no quarto duas andorinhas trazendo no bico um longo fio de cabelo louro. Marke então resolveu dizer aos barões que só se casaria com a mulher a quem pertencesse o fio de cabelo trazido pelas andorinhas. Os barões ficaram furiosos, porque o rei não sabia de quem era o cabelo. Eles culparam Tristão pela decisão de Marke. Tristão resolve partir à procura da dama a quem pertencia aquele fio da cabelo e trazê-la para esposar Marke. Na viagem os ventos empurram o barco para a Irlanda. Lá chegando, soube que o reino estava sendo devastado por um dragão, e aquele que conseguisse matá-lo ganharia a mão da princesa Isolda, A Loura, ou Isolda da Irlanda.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na manhã seguinte, Tristão resolveu matar o dragão. Lutou com ele, queimou-se muito, mas mesmo assim conseguiu matá-lo. Com isto ganhou a princesa Isolda para esposa. Quando a conheceu, percebeu que ela era a dama que procurava para casar-se com o rei Marke da Cornualha. Revelou então este fato ao rei, pai de Isolda A Loura dizendo-lhe que a recebia para o rei Marke e a levaria para o seu reino para que as bodas se realizassem. Na hora da partida, a mãe de Isolda entregou a Brangene um filtro ( vinho de ervas) que deveria ser dado aos noivos ( Marke e Isolda) na noite das núpcias Esse filtro foi feito para unir o casal durante quatro anos, e o amor que nascesse faria com que eles não pudessem se separar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tristão e Isolda, partem numa embarcação rumo à Cornualha, acompanhados de Kunerval e Brangene. Durante a viagem, uma serva , por engano, serviu o vinho de ervas contendo o filtro a Tristão e Isolda. Instantaneamente eles se apaixonaram. O desejo reprimido e a angústia por ignorare sobre os sentimentos do outro deixou-os doentes, sem conseguirem dormir e comer. Culpados pelo que sentiam e desconhecendo o efeito recíproco do filtro, isolaram-se em seus quartos, definhando a cada dia. Brangene e Kunerval, preocupados, não sabiam o que estava acontecendo. Ao descobrir o que acontecera com o filtro, resolveram unir o par apaixonado para que não morressem.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para que Marke não percebesse o que se passara, na noite de núpcias Brangene se deitou com Marke no quarto às escuras, conforme pedira Kunerval, alegando ser este um costume na Irlanda. Ã meia-noite, Brangene deixou o leito do marido e Isolda ocupou o seu lugar, dando início, assim, a vida de mentiras que viveria com o marido.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tristão e Isolda dão continuidade ao seu romance. Marke descobre a traição dos dois e condena-os à morte na fogueira. Tristão é o primeiro a ser levado para o sacrifício, todavia consegue escapar dos guardas e foge para a floresta onde Kunerval o espera com os cavalos&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Marke providencia então o sacrifício de Isolda na fogueira. No momento em que esta está para ser queimada, aparece um grupo de cem leprosos chefiados por Yvain. Este pede a Marke que não a mate, que dê-lhe morte mais lenta e sofrida. Marke indaga que tipo de morte seria esta e tem de Yvain a espantosa resposta: dê-ma para que sirva de mulher para todos nós e ela logo morrerá, pois. não há mulher que suporte, sem morrer, deitar-se com tantos homens ávidos por fazer amor. Isolda é entregue aos leprosos, que levam-na pelo caminho, sem saberem que a estavam conduzindo às proximidades de onde estava escondido Tristão na floresta. Tristão escuta os gritos de Isolda e vai em seu socorro, conseguindo libertá-la dos leprosos. Juntamente com Kunerval, os dois passam a viver na floresta em meio aos maiores sacrifícios, pobreza e medo de serem encontrados. Depois de três anos são descobertos por Marke enquanto dormiam, casualmente vestidos, com a espada nua entre os dois. O rei fica surpreso com o que vê e interpreta a atitude do casal como de indiferença, pensa que não se amam e que vivem como amigos. Decidindo perdoá-los, retira-se deixando uma prova de que ali estivera e de que estão perdoados.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Achando que já sacrificara demais Isolda e o amigo Kunerval, ao arrastá-los para aquela vida, Tristão decide que devem retornar ao castelo e pedir a Marke que receba de volta Isolda. Esta é aconselhada a mentir, dizendo que nunca fora amante de Tristão. Este prometeria exilar-se na Bretanha. Marke recebe a mulher e proíbe que esta seja incomodada. Todavia, os barões da corte, não acreditando em Isolda, exigem que esta vá a julgamento divino, perante as relíquias sagradas, para que prove que é inocente da acusação de trair o marido com Tristão. Ela aceita tal prova, mas exige que os cavaleiros de Arthur estejam presentes com as santas relíquias e presidam o julgamento público..Isolda, imediatamente, manda um mensageiro avisar a Tristão de que ela terá que se submeter ao julgamento e pede-lhe que esteja no local, no dia e hora marcados, completamente irreconhecível, apresentando os vestígios e os trajes que caracterizam os leprosos. No dia do julgamento, chove muito e o lugar está todo enlameado. Marke, Artur e seus cavaleiros passam e não se sujam na lama. O mesmo não acontece com os barões, que atolam na lama, chafurdando até os cabelos no lamaçal. enquanto Tristão e as pessoas se divertem com a cena . Isolda pede então a um leproso que encontra à beira do charco ( e que era Tristão disfarçado) que lhe sirva de montaria para transportá-la para o outro lado. Este curva o dorso e Isolda se escarrancha em suas costas para a travessia.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Arthur preside a cerimônia e pede a Isolda que, diante das santas relíquias, jure que jamais teve por Tristão um amor culpado ou vil.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Senhores, declara Isolda, Deus é testemunha! Escutem o meu juramento: Por Deus e por estas relíquias, juro que entre as minhas coxas só estiveram o leproso que me trouxe sobre o dorso e me ajudou a atravessar o lamaçal, e o rei Marke, meu marido. Eu tive o leproso entre as minhas coxas. Se alguém deseja qualquer outra prova, eu estou pronta a aceitar aqui e agora. Todos se espantam com a segurança de Isolda e acusam os barões de injúria grave. Artur dá a sua palavra a Isolda de que ela não será mais molestada com novas acusações.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tristão parte para a Bretanha, como se propusera. Longe de Isolda se atormenta com ciúmes, por julgar-se esquecido. Começa então a duvidar do amor de Isolda, a questionar-se diante da possibilidade de ela, mesmo sem amar Marke, estar satisfeita e sentir prazer ao lado dele, enquanto ele, Tristão, se condena à solidão. Essas dúvidas e incertezas levam-no aos extremos, com a paixão intensa e a fúria incontida contra a amada. Resolve então se comportar como Isolda. Para tal fim a única saída é o casamento. Acredita que, assim como Marke ajudou-a a se libertar da paixão, ele poderá conseguir a mesma coisa casando-se. Pede Isolda da Bretanha em casamento e casa-se em meio a uma grande festa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Todavia, quando se prepara para a noite de núpcias, o anel de jade verde que Isolda A Loura lhe dera cai no assoalho e a lembrança dela o desatina. Compreende que querendo ferir a amada ,quem mais saiu ferido foi ele próprio. Toma então a decisão de não consumar o seu casamento. Como desculpa para esta atitude, inventa uma doença grave que o impedia de fazer amor.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Isolda A Loura fica sabendo do casamento de Tristão e se consome de dor e desespero. Tristão ao tomar conhecimento do estado em que ficara a amada, torna-se sombrio e sabe que não será feliz enquanto não for ver e abraçar a sua amada. Parte para a Cornualha e, disfarçado, penetra no castelo onde tem um encontro com Isolda.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De volta à Bretanha, Tristão participa de um torneio de cavaleiros onde é ferido por uma lança envenenada. Os médicos não conseguem curá-lo. O veneno espalha-se por todo o corpo. Tristão perde as forças e definha. Pede então para que chamem Isolda a Loura para vir tratá-lo e curá-lo. Kunerval parte em busca de Isolda. Chegando à Cornualha, conta a Isolda que Tristão está mortalmente ferido e que somente ela poderá curá-lo e salvá-lo. Isolda parte secretamente à noite. No meio da viagem uma tempestade ameaça afundar o barco em que viaja. Isolda se lamenta desesperada., julgando que vai naufragar e morrer sem acudir o amado:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Infeliz! Deus não quer que eu viva para rever meu amado Tristão. Estou dilacerada, prostrada, desesperada, meu amado, de te privar, morrendo, de todo socorro contra a morte. Eu não sei se o meu temor tem fundamento, mas se eu o vir sem vida, não poderei sobreviver. Em meu imenso desespero, só sei que o amo mais que tudo. Deus nos permita de nos encontrarmos, a fim de que eu possa salvá-lo, ou então que morramos juntos, numa mesma agonia.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Enquanto isto, Isolda da Bretanha, a esposa despeitada devido ao amor de Tristão por Isolda A Loura decide vingar-se, tirando de Tristão a esperança de ser curado pela amada Isolda A Loura. Mente então para o marido ansioso pela chegada de Isolda, que esta recusara-se a vir para encontrá-lo e curá-lo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tristão ao saber desta triste notícia foi invadido por uma dilacerante dor, a pior que poderia sentir. Ele se volta para a parede e diz:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;“Deus nos salve. Porque você se recusou a vir, eu vou morrer por tê-la amado tanto. Eu não posso mais reter minha vida. Por tua causa, eu morro, Isolda, minha bem-amada.” Por três vezes, ele murmura: ”Isolda, minha bem-amada”; e, antes de repetir novamente, entrega a alma.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A aflição e o desespero tomam conta da cidade. O vento se eleva sobre o mar e o barco se move em direção à terra. Isolda desembarca, escuta os gemidos, os sinos das igrejas. Pergunta o que aconteceu e um velho responde:“Minha dama, Deus tenha piedade de nós! Nós sofremos o pior luto de todos os tempos. Tristão, o bravo, o generoso, está morto. Ele era o reconforto de todo o reino”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando Isolda escuta o que diz o ancião, não consegue pronunciar palavra alguma. Corre pelas ruas na direção do palácio. Chega perto do corpo de Tristão e diz:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;“Tristão, meu amado, quando eu o vejo sem vida, torna-se inconcebível que eu sobreviva. Você morreu pelo meu amor, é justo que eu também morra de ternura por você. Porque eu não pude chegar a tempo, nem te curar do teu mal, bem-amado, de tua morte, nada poderá me consolar, nem felicidade nem festa, nem prazer. Maldita seja a tempestade que me reteve no mar impedindo-me de chegar a tempo! Eu teria te devolvido a vida e você teria falado, ternamente, do amor que nos uniu.(...) e eu teria lembrado tudo em meio a abraços e beijos. Se eu não pude te curar que nos seja permitido morrer juntos.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ela o abraça, deita-se a seu lado, beija-lhe os lábios e o rosto, aperta-o fortemente, corpo contra corpo, lábios contra lábios, e é assim que entrega sua alma. Ela se deita a seu lado vítima de seu luto mortal. Tristão morreu por causa da sua ausência; Isolda, agora, morre por ter chegado muito tarde. Tristão morreu pelo amor de Isolda; Isolda morreu por sua paixão por Tristão Marke transportou os corpos dos amantes para a Cornualha e, os colocou, os dois, em túmulos juntos um do outro.. Dizem, como um fato autêntico, que o rei mandou plantar uma roseira sobre o túmulo da mulher e, sobre o túmulo de Tristão, uma cepa de vinha, do mesmo tamanho. Elas entrecruzaram os galhos de tal maneira que jamais foi possível separá-las, por mais que tentassem cortar os seus ramos..&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
CONTINUA...</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/6467352857924419927/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/6467352857924419927?isPopup=true" rel="replies" title="1 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6467352857924419927" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6467352857924419927" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-de-tristao-e-isolda-parte-iii.html" rel="alternate" title="O Mito de Tristão e Isolda (Parte II)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s72-c/2+%25284%2529.jpg" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-5230726737663502775</id><published>2013-02-20T23:21:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:58:51.361-03:00</updated><title type="text">Os planos e a permanência do mito (ParteIII)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhjIaEyXvpLEoUwu2rYJ3P_q81_t-1B9RBsqSv384QPwmx5acMulbU0Z25n8Z62uswQGNyqWgK2rpVIgDApvkKj37pZLj3nAyh57tmndNy6mNpPdtOOjU9-0E2KB9V1GGBmjYvzjQIP1em/s1600/2+%25283%2529.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhjIaEyXvpLEoUwu2rYJ3P_q81_t-1B9RBsqSv384QPwmx5acMulbU0Z25n8Z62uswQGNyqWgK2rpVIgDApvkKj37pZLj3nAyh57tmndNy6mNpPdtOOjU9-0E2KB9V1GGBmjYvzjQIP1em/s200/2+%25283%2529.jpg" width="145" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vamos procurar relacionar os diversos planos do mito procurando um paralelismo com os dois grandes temas. Em todos os planos nota-se uma tentativa de fugir às regras pré-estabelecidas, ganhando o tema amoroso maior evidência.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;strong&gt;Plano sociológico&lt;/strong&gt; – o casamento feito nos moldes feudais é levado ao ridículo ( tanto o do velho Marke, quanto o de Isolda, a de Brancas Mãos). Mas, por outro lado, há uma punição: Tristão e Isolda que se afastaram demasiadamente da sociedade, não dando a sua contribuição ao grupo, são levados à morte. Embora lutando contra os casamentos feitos nos moldes feudais, o mito não poderia abençoar, literalmente, o adultério.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;strong&gt;Plano religioso&lt;/strong&gt; – o mito está preso à heresia pelo uso de símbolos ( a espada da castidade, o filtro do amor, o julgamento divino, a virgindade de Isolda, a das Brancas Mãos) e pelo final que vai levar a uma purificação, pela posição excepcional dos amantes como seres privilegiados, pelo amor eterno simbolizado pelos dois arbustos que se entrelaçam por cima das sepulturas.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É com referência aos planos religioso e sociológico que o mito atinge sua dimensão máxima: relação entre “homem – grupo social – amor”. O final é bivalente, tanto no plano sociológico quanto no religioso. Há uma punição nos dois planos através da morte.Entretanto, por trás do sentido literal dessa morte, devemos buscar um segundo sentido. À primeira vista, parece que o mundo criado por Tristão e Isolda é bem menor que o mundo feudal; contudo, se dermos abertura no sentido cósmico dessa fuga, veremos que o mundo deles é muito maior, pois com seu amor eles conseguiram ultrapassar até os limites impostos pela morte. E no plano religioso, através da morte, os dois amantes alcançam a Luz, o Amor.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
È a partir da interpretação simbólica que o mito terá sua força. E para mostrar que ele tem um valor universal e para confirmar a opinião de Lévi-Strauss de que os mitos são transformações de outros mitos, relacionamos Tristão e Isolda com outras narrativas e com outros mitos:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
1-como Moisés, que tem seu nascimento marcado, Tristão perde o pai antes de nascer e a mãe logo ao nascer;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
2- como Teseu, que devia matar o Minotauro devorador de virgens, Teseu mata Morholt para libertar a Cornualha de um tributo de 500 virgens de 15 anos;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
3- como Ulisses ao voltar de Tróia, Tristão é também um homem solitário que parte em uma embarcação, levando somente a sua harpa e sua espada;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
4- como Èdipo, que imolou a Esfinge que tirava a vida dos homens de Tebas, Tristão mata o dragão que devorava uma virgem por dia;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
5- como na Chanson de Roland, na Demanda do Santo Graal e no Cantar de Mio Cid , Tristão também tem uma espada que é somente sua – individualização das espadas;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O item 2 e 4 referem-se a um dos temas centrais da literatura cavalheiresca e prendem-se a rituais de iniciação célticos: os celtas, no momento da puberdade, deviam realizar uma façanha para adquirir o direito de se casarem. É este o tema essencial da poesia de amor cavalheiresco: o jovem herói libertando a virgem. O motivo sexual está sempre subjacente, mesmo quando o agressor é um simples dragão. .Este tema é inesgotável, está presente nas narrativas até os dias atuais. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;strong&gt;No tema amoroso temos:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;1- Punição da mulher adúltera, motivo abordado desde as narrativas bíblicas: Isolda deve ser entregue a um bando de leprosos;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;2- O homem não é livre, pois seu destino é determinado por forças ocultas: através do filtro, Tristão e Isolda iniciam um destino alheio à vontade deles;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
3 - Desejo de morte, persistente na civilização céltica, pois ela trará uma purificação;, sendo também característica dos místicos árabes que reverenciavam o amor platônico e morriam de amor;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;4- Assim como Lançalot, n’A Demanda do Santo Graal, não podia achar o vaso sagrado porque não era puro, assim também Tristão e Isolda deviam morrer porque pecaram contra a castidade;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
5- Assim como Adão e Eva, no Paraíso, estavam próximos à natureza, Tristão e Isolda do mesmo modo vivem três anos na floresta, na pobreza, mas felizes.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O mito tem, pois, um valor universal porque se todas as culturas desenvolvem discursos muito particulares e notavelmente homólogos entre si, que são os mitos, há fundamento para se reconhecer nisso os frutos de um mesmo espírito humano.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A PERMANÊNCIA DO MITO &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Todas as características do mito que foram vistas até agora fornecerão as regras do amor cortês que serão exploradas nas cantigas de amor da Idade Média. Elas permanecerão, com algumas modificações, de acordo com o contexto sócio-cultural das épocas em que o mito será retomado, nos séculos XVI, VII, XIX e XX. E essa recriação será possível porque o homem ocidental está sempre revivendo a história de Tristão e Isolda, pois se acha no sentido latente dela. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
CONTINUA&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/5230726737663502775/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/5230726737663502775?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5230726737663502775" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5230726737663502775" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/os-planos-e-permanencia-do-mito-parte-iv.html" rel="alternate" title="Os planos e a permanência do mito (ParteIII)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhjIaEyXvpLEoUwu2rYJ3P_q81_t-1B9RBsqSv384QPwmx5acMulbU0Z25n8Z62uswQGNyqWgK2rpVIgDApvkKj37pZLj3nAyh57tmndNy6mNpPdtOOjU9-0E2KB9V1GGBmjYvzjQIP1em/s72-c/2+%25283%2529.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-8428567110801575842</id><published>2013-02-20T23:18:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:57:24.751-03:00</updated><title type="text">Tristão e Isolda e o Mito do Amor-Paixão (Parte IV)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW-8ZHrC5ccQ4OwLvlXh-py7mZZ0k_-_TVhd-apJd5a80CjAhfQyVOqBW4zeB73Q5HRW6jSNYk5zcFt7jwgUxZf_CTI9JZTA9KzSQbVD5V5DN7Z-nJPgSN9kpqu1eSX9TL423XURm-28OL/s1600/2+%25284%2529.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW-8ZHrC5ccQ4OwLvlXh-py7mZZ0k_-_TVhd-apJd5a80CjAhfQyVOqBW4zeB73Q5HRW6jSNYk5zcFt7jwgUxZf_CTI9JZTA9KzSQbVD5V5DN7Z-nJPgSN9kpqu1eSX9TL423XURm-28OL/s320/2+%25284%2529.jpg" width="140" /&gt;&lt;/a&gt;-A história de Tristão e Isolda tem todas as características do mito, seja no plano religioso, seja no plano sociológico:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
-Não tem autor definido;( há 5 versões diferentes da história ou lenda)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
-Traduz as normas de conduta de um grupo social, na medida em que o desenrolar da ação depende da realização de uma série de regras da cavalaria medieval; bem como de convenções sociais&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
-Traduz as normas de conduta de um grupo religioso: está preso à heresia dos cátaros, pois Tristão e Isolda foram seres escolhidos e porque pecaram contra um dos preceitos da heresia – a castidade-. Desta forma, no plano religioso, deviam morrer para purificarem-se e alcançarem a luz.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como adverte Lévi Strauss, “um mito é ao mesmo tempo uma história contada e um esquema lógico que o homem cria para resolver problemas que se apresentam sob planos diferentes, integrando-os numa construção sistemática.”. Diz ainda este autor, reportando-se à história de Tristão e Isolda, que quando um homem e uma mulher recusam o casamento, assemelham-se ao céu e à terra, sempre afastados, porém quando vivem numa eterna lua-de-mel, como Tristão e Isolda, correm o risco de se consumir, sem dar contribuição à sociedade, pondo em risco o equilíbrio do grupo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;Desta forma, no plano sociológico, Tristão e Isolda deviam morrer porque representavam um perigo.” (4)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como se vê, o Mito medieval do amor-paixão se manifesta em dois planos: religioso e/ou sociológico&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O MITO de TRISTÃO E ISOLDA NA SOCIEDADE HIERÁTICA DO SÉCULO XII.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O mito de Tristão e Isolda, em seu sentido existencial, remete-nos ao século XII – século em que se verifica a primeira crise do matrimônio do mundo ocidental- e nos traz de volta ao século XX, quando se verifica a grande crise do matrimônio. O homem do século XX está, pois, no sentido latente do mito que conseguiu sobreviver até hoje através de várias recriaçõees.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como esclarece Elizabete Carpinteiro, “o amor cortês nasceu de uma reação a certos costumes feudais. No século XII, os casamentos eram feitos na base dos interesses econômicos, isto é, visando enriquecer os feudos. Contra isso se insurgiram os adeptos de um novo ideal: o ideal cortês que preconizava uma fidelidade independente do casamento legal e fundamentada somente no amor. Assim, se Isolda se casou com Marke, o fez sem amor e por isso o adultério que cometeu com Tristão é perdoável porque exalta o amor cortês. O mito não perde a oportunidade de humilhar o velho marido de Isolda - Marke – e a esposa de Tristão – Isolda a de Mãos Brancas ou Isolda da Bretanha- que permaneceu virgem depois do casamento.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas, opondo-se aos casamentos feitos nos moldes feudais, a fidelidade cortês opõe-se também à satisfação completa do amor. Tentando explicar essa idéia de castidade, Denis de Rougemont fez um estudo pormenorizado da heresia dos cátaros à qual, segundo ele, estaria ligada a poesia dos trovadores.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;Os cátaros ( do grego: puro) pregavam a castidade. Sua heresia era baseada no princípio maniqueísta de oposição entre o BEM e o MAL, entre LUZ e TREVAS.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tanto o mito de Tristão e Isolda como as Cantigas de Amor medievais ligar-se-iam, em suas origens, à HERESIA dos Cátaros, pois desenvolveram-se no mesmo espaço ( Sul da França) e no mesmo período ( Século XII).&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A heresia, nos seus inícios, pregava a busca do Amor, da Luz, através da absoluta castidade, mas essa idéia foi-se perdendo e, quando o mito nasceu, já foi sob a influência de um outro sentido ou seja: a busca do amor à mulher – ideal do amor cortês – profanado, mas ainda conservando a idéia de castidade Porém, a luta contra o regime feudal estava implícita nos dois sentidos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Essa heresia desenvolveu-se na Provença e foi produto de um novo ambiente. É válido, pois, buscar as origens do mito, relacionando-o também a fatores sociais, políticos e econômicos de toda Plena Idade Média.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na verdade, o mito foi uma manifestação dos anseios do homem medieval do século XII. Neste século, dá-se o apogeu do sistema feudal os castelos fortificam-se, as igrejas são fortalezas de Deus, Paralelamente ao luxo crescente da nobreza, que se torna uma classe fechada, criando seu próprio código de honra e regras de etiqueta, o luxo que tem lugar nos mosteiros faz a Igreja cair em descrédito; reduz-se o sentido do cristianismo. Aparecem as HERESIAS ( especialmente a heresia dos cátaros), desenvolve-se o ideal cortês, exalta-se o heroísmo e surge o mito do amor-paixão&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
CONTINUA</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/8428567110801575842/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/8428567110801575842?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8428567110801575842" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8428567110801575842" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/tristao-e-isolda-e-o-mito-do-amor.html" rel="alternate" title="Tristão e Isolda e o Mito do Amor-Paixão (Parte IV)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW-8ZHrC5ccQ4OwLvlXh-py7mZZ0k_-_TVhd-apJd5a80CjAhfQyVOqBW4zeB73Q5HRW6jSNYk5zcFt7jwgUxZf_CTI9JZTA9KzSQbVD5V5DN7Z-nJPgSN9kpqu1eSX9TL423XURm-28OL/s72-c/2+%25284%2529.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-1835208859876619317</id><published>2013-02-17T00:10:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:54:25.174-03:00</updated><title type="text">O Mito do Amor-Paixão na Literatura do século XII. (Parte V)</title><content type="html">&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXR4I1ZqUfm-WBUUcXgr6uNnqNfKmgJmWQ5QmBrG-46OO73aghJgVPgoYgL-RcgzT8ricguMxBAIlVc-UADOvOq8YH7BpDObLB7YGE9v9xEceVlZPey10E9s2ZAVhCAEodcfABkLEQH-Jr/s1600/imagesccc.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="168" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXR4I1ZqUfm-WBUUcXgr6uNnqNfKmgJmWQ5QmBrG-46OO73aghJgVPgoYgL-RcgzT8ricguMxBAIlVc-UADOvOq8YH7BpDObLB7YGE9v9xEceVlZPey10E9s2ZAVhCAEodcfABkLEQH-Jr/s1600/imagesccc.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;O mito do amor-paixão não aparece apenas na literatura portuguesa. A prova de sua força latente na literatura ocidental é o seu aparecimento em literaturas de outros países europeus e mesmo no Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, temos, no século XVI, a mais perfeita recriação do mito com a história de Romeu e Julieta, de Shakespeare, o mesmo ocorrendo em outros países, no transcurso dos séculos, como veremos mais adiante.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na literatura Portuguesa encontramos, já no século XVI, a infeliz história de Inês de Castro, ocorrida no século XIV. O relato do trágico destino de Inês aparece na crônica de Fernão Lopes e, daí, penetra a literatura portuguesa, primeiramente com Garcia de Resende ( Trovas à morte de D. Inês). Depois, no século XVI, a história é retomada por António Ferreira ( Castro – tragédia em versos ) e por Camões, com o episódio de Inês de Castro em Os Lusíadas, apenas para citar os mais importantes. Do século XVI ao XVIII e deste até o século XX, as versões do drama de Inês se sucederam. Ao todo, foram escrita, em língua portuguesa, até os dias atuais, 204 composições sobre o drama amoroso de Inês de Castro e Pedro revivendo as lendas em torno de sua morte, consolidando a força do mito que a envolve&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O mito do amor-paixão, nascido no século XII, supõe sempre, entre os amantes, um obstáculo, que pode ser social, religioso, ou político. O amor-paixão persegue uma impossibilidade e acaba por transformar-se numa determinação que justifica a própria existência. Todos os grandes amantes são atraídos para o abismo da experiência-limite, pensam possuir e serem possuídos através do máximo sofrimento e tentam satisfazer a necessidade humana de perenidade, compreender o ciclo da vida e reverter a morte. A paixão, portanto, na medida que pretende o impossível transgride o permitido e é sempre anti-social, embora se ligue à comunidade que lhe fornece o motivo ou pretexto de sua existência.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa, Pedro e Inês, querem muito mais que a satisfação de seus desejos. Eles querem o impossível: alcançar o infinito pela posse de um ser finito. Por isso o amor-paixão sempre conduz à morte.&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm -21.3pt 0pt -7.1pt; text-align: center; text-indent: 14.2pt;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm -21.3pt 0pt -7.1pt; text-align: center; text-indent: 14.2pt;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhAWn-6_wQ9jXjZseofcMKrsuh76yJxWlWFkaimZOfVR_BMaBJFnYiegUJr4kTIfV2oSyq69CYHmu25y9fyQdpKcpFTWQ2yjTT7PTtGCmuvqA0OjEZQvZ_D3EtBIhDD4MdOS6svP5H5JZHN/s1600/28518646.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhAWn-6_wQ9jXjZseofcMKrsuh76yJxWlWFkaimZOfVR_BMaBJFnYiegUJr4kTIfV2oSyq69CYHmu25y9fyQdpKcpFTWQ2yjTT7PTtGCmuvqA0OjEZQvZ_D3EtBIhDD4MdOS6svP5H5JZHN/s1600/28518646.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/1835208859876619317/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/1835208859876619317?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/1835208859876619317" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/1835208859876619317" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-do-amor-paixao-na-literatura-do.html" rel="alternate" title="O Mito do Amor-Paixão na Literatura do século XII. (Parte V)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXR4I1ZqUfm-WBUUcXgr6uNnqNfKmgJmWQ5QmBrG-46OO73aghJgVPgoYgL-RcgzT8ricguMxBAIlVc-UADOvOq8YH7BpDObLB7YGE9v9xEceVlZPey10E9s2ZAVhCAEodcfABkLEQH-Jr/s72-c/imagesccc.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-7131010091909376551</id><published>2013-02-12T02:58:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:49:01.286-03:00</updated><title type="text">O mito do amor-paixão e a história de Inês de Castro e Pedro I (Parte VI)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiA8BKKYVaST0ZYFaAbJ0lhk2B1qXEXG_W9DOBZj3cZFpYDrMePfV9zWK7W5wsSTYq-PufvlYX6IcnpFvn0gfGO2_Y8cABRcg_VQjO3bjWAaw9T8ps1HIVyAyCCuKY3aCKBS-ihJ7jqEZxm/s1600/TRISTANANDISOLDEIMAGEM12.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="133" lwa="true" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiA8BKKYVaST0ZYFaAbJ0lhk2B1qXEXG_W9DOBZj3cZFpYDrMePfV9zWK7W5wsSTYq-PufvlYX6IcnpFvn0gfGO2_Y8cABRcg_VQjO3bjWAaw9T8ps1HIVyAyCCuKY3aCKBS-ihJ7jqEZxm/s200/TRISTANANDISOLDEIMAGEM12.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;Procuraremos mostrar que toda a literatura em torno da história de Inês de Castro está presa, no plano existencial, ao mito do amor-paixão, isto é, à historia de Tristão e Isolda.&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;span class=""&gt;O desejo do homem ocidental é criar um mundo racionalista, programado, sem conflito, onde cada coisa e cada ser tenha uma função. Toda vez que o homem e a mulher tendem a se afastar desse mundo racionalizado e criar o seu próprio, mais espiritual, é porque está havendo uma crise. O mito é, então, retomado. Mas tal afastamento é punido porque coloca, no plano sociológico, a organização em perigo. E na retomada do mito o final conduzirá sempre à morte&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No contexto português, História e Literatura estão interligadas. Prova maior são as Crônicas de Fernão Lopes, responsável, através de seu estilo literário, por páginas que não apenas contam fatos, mas mostram o poder de criação de sua linguagem&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É em Fernão Lopes, na Crônica de D. Pedro I, que vamos buscar uma possível semente para o mito de Inês de Castro. A Crônica se inicia com o reinado de D. Pedro, estando Inês, portanto, já morta&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A morte de Inês aparece na Crônica penetrada de um julgamento feito quase cem anos após o fato. E todos são responsabilizados. Ao isentar Diego Lopes da culpa, transfere-a ao Infante ampliando a escalada em direção à glorificação que se segue. O amor, entretanto, apesar das condenações implícitas ou explícitas ao rei D. Pedro, é fortemente plantado.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“...semelhante amor, qual el-Rei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos que nenhuum he tam verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde espaço do tempo. E se alguum disser que muitos foram já que tanto e mais que el amarom, assi como Adriana a Dido, e outras que nom nomeamos, segumdo se lee em suas epistolas, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaes alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom segundo lhes aprougue, dizendo em nome de taaes pessoas, razoões que numca nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas estorias, que seu fumdamento teem sobre verdade. Este verdadeiro amor ouve el Rei Dom Pedro a Dona Enes como se della namorou...” ( Ob. cit., cap. XLIV, p. 199 )&lt;br /&gt;
De acordo com Roland Barthes, estas obras não poderiam ser aceitas se não houvesse uma motivação que revelasse não tratar-se de pura lenda. E esta motivação existia: mostrar que na história de Portugal houve um casal cujo amor foi tão grande quanto o do casal mítico, conforme Fernão Lopes o fez.&lt;br /&gt;
Dessa forma já se pode apresentar um quadro com as sementes primeiras para a criação de alguma coisa ainda não bem delimitada, mas que já se vê origem de coisa maior.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
GARCIA DE RESENDE, com suas Trovas à morte de D. Inês, escritas no início do século XVI, assinala a introdução do mito de Inês de Castro na literatura portuguesa.&lt;br /&gt;
O romance infeliz de Inês e Pedro tem todas as características próprias do mito do amor-paixão. Inês e Pedro colocava em perigo a organização social, contrariando as regras de parentesco que regiam os matrimônios das casas reais. Com isso, colocavam-se contra os interesses do Estado. E o amor de Inês levou-a à morte em razão de, no plano sociológico, por a organização do grupo em perigo.&lt;br /&gt;
Garcia de Resende, em suas Trovas à morte de D. Inês, nos oferece uma versão lírica da história, mostrando a fatalidade do amor como obra do destino e a intensidade do sofrimento:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conheceu-me, conheci-o,&lt;br /&gt;
quis-me bem e eu a ele,&lt;br /&gt;
perdeu-me, também perdi-o;&lt;br /&gt;
nunca té morte foi frio&lt;br /&gt;
o bem que, triste, pus nele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os nobres que falam ao rei Afonso IV, aconselhando-o a matar Inês, assemelham-se aos barões que, no mito, de instigam o rei Marke contra Tristão e Isolda.&lt;br /&gt;
Assim como os arbustos se entrelaçaram por cima dos túmulos, no mito de Tristão e Isolda, simbolizando o amor eterno, os túmulos de Inês e Pedro estão colocados um em frente ao outro, no mosteiro de Alcobaça, em Portugal. Segundo a tradição, no dia do Juízo Final, quando os dois amantes se erguerem, encontrar-se-ão, frente a frente, mostrando que o amor persistiu durante séculos, que os amantes estarão juntos por toda a eternidade..&lt;br /&gt;
Garcia de Resende introduz Inês na literatura, acentua na arte a valorização da Inês histórica. Sua morte, que supostamente havia sido uma derrota e humilhação para tudo o que ela representava, começa a servir de instrumento para a subida de Inês, para a sua mitificação. A semente do mito, lançada por Fernão Lopes, frutifica. Inês é a única personagem nomeada, como se só ela importasse. Todos os outros permanecem Rei, Príncipe, Conselheiros. E, se o importante é Inês, há, neste caso, uma inversão de valores. Rei, Príncipe, Conselheiros, não nomeados, são meros representantes de suas classes. O que fica claro é que o poeta dera início a um processo de construção lírico-mítica da personagem. Na realidade, o poeta é consciente do poder do discurso literário: Inês, que diz ter sido a morte o prêmio de seu amor, não morre. Seu prêmio fora a glória de estar no poema, de passar a ser texto, de ter iniciado um caminho fora da história. Era a previsão clara do poder, que só alguns possuem: Inês, o poder de virar tema além do tempo, sempre criatura nova nas mãos do criador.&lt;br /&gt;
Ainda no século XVI, António Ferreira retoma a história de Inês de Castro, escreve e publica a tragédia Castro. Assim, de personagem lírica na obra de Garcia de Resende, Inês virou personagem trágica na peça de Ferreira. A inês que morre por amor é transformada naquela que morre por Razões de Estado. Mas como se dissociarem as duas coisas? Para os seus matadores, Inês era a perigosa mulher que causaria danos à dinastia no poder. Para Inês, o amor do Príncipe justificava tudo. Se para uns ela é a perigosa ameaça ao príncipe que reinará depois de D. Pedro, para outros ela é a vítima e não ameaça. António Ferreira mostra que Inês é a vítima da Razão de Estado. E sua peça é desenvolvida neste sentido.&lt;br /&gt;
Até aqui, com as “Trovas”, de Garcia de Resende, e a “Castro” de António Ferreira, a Inês foi lírica e dramática, com o episódio de Inês de Castro em Os Lusíadas, de Camões, ela foi, ao mesmo tempo lírica e dramática. Ela teve o seu prêmio, a glória, em Garcia, teve o reconhecimento de sua inocência em Ferreira. Mas foi, indubitavelmente, com Camões que Inês de Castro alcançou o esplendor, o ápice de sua fortuna literária e mítica.Nesta obra, Inês move-se em busca de sua felicidade, confirma o destino trágico e encontra a morte. No final do ato IV, o coro diz palavras que anunciam a perenidade do nome de Inês:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já morreu Dona Inês, matou-a Amor;&lt;br /&gt;
Amor cruel! se tu tivesses olhos&lt;br /&gt;
Também morreras logo. Ó dura morte,&lt;br /&gt;
Como ousaste matar aquela vida?&lt;br /&gt;
Mas não mataste: melhor vida, e nome&lt;br /&gt;
Lhe deste do que cá tinha na terra&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
A “LINDA INÊS “ de LUÍS DE CAMÕES&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre tantos que trataram o tema de Inês de Castro, CAMÕES mostra a arte mais lírica e estabelece com o leitor um contato tão emotivo que tem atravessado o tempo. Ele, com a sua força de gênio, mostra o “O caso triste e dino de memória,/ Que do sepulcro os homens desenterra” , fazendo-o parte da história de Portugal, situado, portanto, no tempo e no espaço. Camões a introduz no episódio já com qualidades que criam um clima de piedade e simpatia para ela. Era a infeliz, sem defesa. Contudo, depois de morta foi rainha. São dois extremos, assim, o que comparamos em Inês: a “mísera e mesquinha ”mas também a “rainha”, embora depois de morta. E o fato de introduzi-la já morta traz um elevado estado de tensão emocional que permite ao poeta mascarar possíveis Razões de Estado porventura responsáveis pela morte de Inês. Para Camões, é o amor o motivo principal da morte de Inês: &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tu só, tu, puro Amor, com força crua,&lt;br /&gt;
Que os corações humanos tanto obriga,&lt;br /&gt;
Deste causa à molesta morte sua,&lt;br /&gt;
Como se fora pérfida inimiga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O poeta dirige suas palavras ao deus do amor e ao sentimento amor ao mesmo tempo. E torna-se claro, então, que o clima pretendido é o da Razão do Amor. Através do tratamento “tu” para o Amor e para Inês, Camões iguala-os num mesmo nível- Inês é o próprio Amor.&lt;br /&gt;
As diferenças encontradas no episódio camoniano se fazem sentir em dois pontos principais: quanto a Inês, que é puro amor, e quanto ao Rei. Este determina a sua morte e, depois, quer perdoar-lhe. Até aí tudo igual. Mas ela é violentamente atacada antes que o Rei possa atuar. E é nisto que o Rei camoniano difere dos de Resende e Ferreira. Entre o querer perdoar a Inês e a morte desta não há palavra alguma, como se não lhe tivessem dado a oportunidade de salvá-la. O Rei não a entrega aos algozes, eles a tomam.&lt;br /&gt;
Evidentemente o poeta toma o partido de Inês: se Razões de Estado houve, ela, inocente, não as provocou. É uma Inês que ama integralmente, que ama com o mais puro amor, a que morre. Nenhuma menção aos Castros, às intrigas. Respira-se amor do princípio ao fim .&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/7131010091909376551/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/7131010091909376551?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7131010091909376551" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7131010091909376551" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-do-amor-paixao-e-historia-de.html" rel="alternate" title="O mito do amor-paixão e a história de Inês de Castro e Pedro I (Parte VI)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiA8BKKYVaST0ZYFaAbJ0lhk2B1qXEXG_W9DOBZj3cZFpYDrMePfV9zWK7W5wsSTYq-PufvlYX6IcnpFvn0gfGO2_Y8cABRcg_VQjO3bjWAaw9T8ps1HIVyAyCCuKY3aCKBS-ihJ7jqEZxm/s72-c/TRISTANANDISOLDEIMAGEM12.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-8207568801896145220</id><published>2013-02-12T02:47:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:46:50.093-03:00</updated><title type="text">A simbologia do mito de Inês de Castro (Parte VII)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s1600/2+%25284%2529.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s200/2+%25284%2529.jpg" uea="true" width="140" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim como Tristão e Isolda que, ao se refugiarem na floresta, criaram um mundo próprio, também Pedro e Inês têm o seu em Coimbra, afastado do mundo político da corte e suas intrigas. Em ambos os casos o amor é impossível, em razão de um deles ser casado; Inês é dama de honra de D. Costança e madrinha do filho de Pedro, tal como Tristão era sobrinho de Marke. Da mesma forma que os barões da Cornualha não viam com bons olhos Isolda , não compreendiam o seu amor por Tristão, também os Conselheiros de D. Afonso IV instigavam o rei contra Inês, exigindo a sua morte. A coincidência dos túmulos dos dois casais, juntos num mesmo local para simbolizar a união eterna, a superação do amor em relação à morte&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não é suficiente falar do mito de Inês, é preciso destacar os aspectos permanentes que aparecem no que se conta e no que se escreveu, sobre o assunto. Isso implica considerar o mito como formalizador de manifestações culturais e estabelecer suas relações com outros níveis de realidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ressalve-se, porém, que a significação mítica não tem a lógica matemática, por isso escapa às análises objetivas que pretendem desvelar por inteiro a complexidade humana. O mito pertence a um mundo autônomo e só pode ser compreendido pelas leis de sua própria estrutura.&lt;br /&gt;
Sob o ponto de vista do mito, é indiferente a realidade histórica dos amores de Inês e Pedro. O que interessa é a realidade profunda do mito que se esconde sob a liberdade de fantasia que as várias versões encerram.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando se estuda a organização de um mito, percebe-se que existe sempre um outro, mais antigo, que lhe empresta a seiva semântica. Assim, no mito de Inês de Castro, pode-se afirmar que a disputa entre o novo e o antigo é um dos pólos em torno do qual se organiza a lenda. A juventude está ligada ao amor e é o amor que, nessa história, passa ao primeiro plano até os tempos modernos. O amor traduz não só a ambição de conhecer o outro mas também de conhecer o mundo e agir sobre ele, descobrir suas leis e recusar todos os limites. A juventude, que tem como objetivo a volúpia do prazer, liga-se à afirmação de si mesmo, ao excesso, e procura romper o interdito. Pedro e Inês personificam a juventude, o desejo que se insurge contra o poder patriarcal, lutam contra o direito do mais velho ( D. Afonso IV) e cometem a transgressão.&lt;br /&gt;
Para se ter uma idéia da falta cometida por Pedro e Inês, é necessário dizer que no século XIV, os antigos justificam o moderno, a autoridade presente está garantida por um precedente no passado, da mesma maneira que o Antigo Testamento prefigura o Novo.&lt;br /&gt;
Ao unir-se a uma dama bastarda sem a legitimação do casamento, com ela tem filhos que poderão reivindicar à coroa ,Pedro , não somente transgride as leis de linhagem, essa comunidade de sangue que impunha aos nobres sua moral e seus deveres, como põe em ameaça os interesses do grupo. Na Idade Média, a breve duração da vida exaspera a impaciência dos jovens, daí a freqüente sublevação de filhos contra progenitores, de príncipes contra reis. É evidente que essas atitudes representavam um perigo para uma sociedade que experimentava um grande sentimento de insegurança e cuja ordem, portanto, apoiava-se na solidariedade entre os membros dos grupos em que cada um estava integrado. Os constantes desentendimentos entre Pedro, o jovem Infante, e D. Afonso IV ( o celebrado herói da batalha do Salado) manifestam as duas épocas que se defrontam. De um lado o rei, herdeiro da tradição dos barões, radicada na consciência aristocrática, produto da sociedade feudal, que justificava os atos de crueldade. A força, a bravura e a lealdade são suas armas. De outro lado, o Infante, contagiado pela regra da cortesia, situado na revelação da cultura cavalheiresca, com seu erotismo impulsivo, seu amor pela vida, manifesto no prazer das danças populares e da companhia de amigos.&lt;br /&gt;
Outro pólo mítico é o do amor impossível. A tragédia dessa paixão é um tema fundamental, ato que provoca a ira dos oponentes e conduz à morte. Ao apaixonar-se pelo Infante, Inês inicia um processo de oposição a seus sentimentos, levanta contra si a animosidade do Rei, dos Conselheiros e de praticamente toda a corte. No início, os seus amores eram impossíveis, porque Pedro era casado com D. Constança e, segundo o costume da época, o marido não poderia viver em mancebia enquanto não desse herdeiros para o trono. Após a morte de D. Constança, a interdição vem da parte do Estado, a quem não interessa o casamento do Infante com uma mulher, filha bastarda, pertencente a uma família espanhola - Castro -, não pertencente à nobreza de sangue.&lt;br /&gt;
Na história de Inês encontra-se ainda o motivo do casamento secreto. Tal como Abelardo e Heloísa, tal como Romeu e Julieta, o casamento de Inês e Pedro, realizado às escondidas, conduz à morte física ( ou à morte para à sociedade, como aconteceu à Abelardo e Heloísa, obrigados pelas circunstâncias a tomarem o hábito e “morrerem” para o mundo atrás das portas do convento. Também na Baviera, Agnés Bernauer casa em segredo com o Duque Alberto III, em 1432. Dois anos durou essa união, pois, declarada ilegítima, Agnés foi acusada de feitiçaria e afogada no rio Danúbio, quando o duque estava ausente. Repare-se na coincidência de nomes e histórias: Inês/ Agnés ( cordeiro).&lt;br /&gt;
A lenda das fontes dos amores também tem um significado mítico. A fonte, na tradição védica, sintetiza as possibilidades de existência e é o princípio de toda a cura, coisa que permanece até na atual mitologia cristã. Inês é a ninfa dessa fonte dos amores, que afirma o pranto e a dor da natureza pela morte de Inês, que presentifica a imagem da amada de Pedro na memória de todas as gerações de portugueses, que eterniza Inês de forma absoluta.&lt;br /&gt;
Ao mandar construir o túmulo de Inês, Pedro estava apenas seguindo um costume de eternizar um ente querido. Todavia, ao mandar construir seu próprio túmulo de frente para o túmulo de Inês, na capela do mosteiro de Alcobaça, Pedro realiza uma integração completa com Inês ( Pedro/pedra), uma volta aos primórdios míticos, quando os princípios masculino e feminino ainda não eram dissociados. Pedro é a pedra sobre a qual se inicia o mito e o alicerce de uma trajetória poética. Todavia, sem Inês, sem o trágico destino da história de amor vivida com ela, Pedro não passaria de mais um rei excêntrico na galeria dos monarcas portugueses. Os próprios epítetos que lhe são atribuídos por Fernão Lopes - de “o justiceiro” e o “cru” – são provenientes das suas ações após a morte de Inês, principalmente no que toca à punição dos algozes da amante.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/8207568801896145220/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/8207568801896145220?isPopup=true" rel="replies" title="1 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8207568801896145220" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8207568801896145220" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/a-simbologia-do-mito-de-ines-de-castro.html" rel="alternate" title="A simbologia do mito de Inês de Castro (Parte VII)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s72-c/2+%25284%2529.jpg" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-8362694804288171742</id><published>2013-02-11T18:30:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:45:00.872-03:00</updated><title type="text">A estetização do Mito de Inês de Castro (Parte VIII)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfaKL-qfPdvrzYQpdGD4MXxL77c38K_04mVaGpuWarz2IZfOZuSVGA_tWon-dY-ehrniN0G2UQ4cyl57scU7H7BwdhVsfK14kKedYg5hNLZSxK09vkRwrcVMQCrvo-otVp00IhvZo09m09/s1600/amor-cortes_iluminura-3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="197" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfaKL-qfPdvrzYQpdGD4MXxL77c38K_04mVaGpuWarz2IZfOZuSVGA_tWon-dY-ehrniN0G2UQ4cyl57scU7H7BwdhVsfK14kKedYg5hNLZSxK09vkRwrcVMQCrvo-otVp00IhvZo09m09/s200/amor-cortes_iluminura-3.jpg" uea="true" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As lendas sempre foram fonte inesgotável para a poesia. Não apenas as lendas mitológicas, mas também as lendas históricas, envolvendo reis e heróis guerreiros. Nos primórdios da poesia grega, já encontramos esse amálgama de mito, história e poesia., lembrando que deuses e soberanos não são avessos à mesquinharia, à vingança, ao rancor e à crueldade.A morte de Inês de Castro, tragédia que remonta a seis séculos, além de ter invadido a dramaturgia da Inglaterra e Alemanha no século XVIII, tem permanecido nas literaturas portuguesa e brasileira como motivo usado recorrentemente pelos poetas, ficcionistas e dramaturgos. Há, por assim dizer, uma espécie de fascínio dos escritores pela história de Inês, remetendo para uma existência latente do mito no imaginário do homem ocidental.&lt;br /&gt;
A história de amor de Inês e Pedro reduplica o mito do amor-paixão, o mito do amor eterno cujo ponto de partida foi o trágico amor de Tristão e Isolda. Todavia, Inês, em si própria tornou-se um mito, em torno do qual muitas lendas surgiram ( a lenda de que depois de morta foi coroada rainha, de que os seus assassinos, obrigados a beijar a mão do esqueleto de Inês, enlouqueceram; a lenda das fontes dos amores de Inês, que teria brotado no local onde esta fora assassinada; a de que Pedro fizera o seus restos mortais viajar pelo país para ser venerado, a de que os túmulos foram construídos um de frente para o outro para facilitar o reencontro dos amantes após a ressurreição, etc), assim como centenas de versões da sua história, escritas por escritores de várias nacionalidade, através dos séculos.&lt;br /&gt;
A morte de Inês, transformada em motivo literário, supera a temporalidade.&lt;br /&gt;
Ao tratar da vida de Inês, a literatura mostra um lado secreto sufocado pela História que converteu a vida da “que depois de morta foi rainha” em fracasso. É claro que cada uma das obras escritas a seu respeito é parcial, cristaliza determinados aspectos em detrimento de outros. Entretanto esta parcialidade é sempre remetida à força configuradora dos mitos que cada poeta escritor traz em si; daí surgiu a estetização em temas diferenciados e,desta maneira, Inês expressa a própria ordem do mundo, incongruente e fragmentada.&lt;br /&gt;
Como já dissemos antes, A Inês de Fernão Lopes é, talvez, a mola propulsora para o desencadeamento da formação do mito, já que o amor do Rei por ela era tal que “raramente se encontrou um amor tão grande como aquelle”. Não importa as razões outras que instauraram a tragédia. De qualquer forma, o amor está lá, bem instalado, e todos, novos e velhos autores se valem desta fonte histórica, tradicionalmente considerada fidedigna, para as suas conclusões.&lt;br /&gt;
A persistência do mito fica nítida quando é encontrado desde as crônicas de Fernão Lopes até a poesia e a ficção de autores portugueses contemporâneos, como Herberto Helder, de Fiama Hasse Pais Brandão, de Natália Correia, dentre tantos outros, para além dos brasileiros que, do mesmo modo, foram penetrado pelo fascínio do mito de Inês.&lt;br /&gt;
____________________________________________________&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Textos de apoio: Herberto Helder. “Teorema” In Os passos em volta, Lisboa, Assírio &amp;amp; Alvim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Fiama H. P. Brandão, Inês de Manto In Obras Completas, Lisboa, Verbo, 19&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Natália Correia, “Se digo Pedro digo Inês” In Inês de Castro na Literatura Portuguesa, Lisboa, Bibl. Breve, 1979.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Luís de Camões. O épisódio de Inês de Castro. IN: Os Lusíadas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/8362694804288171742/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/8362694804288171742?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8362694804288171742" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8362694804288171742" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/a-estetizacao-do-mito-de-ines-de-castro.html" rel="alternate" title="A estetização do Mito de Inês de Castro (Parte VIII)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfaKL-qfPdvrzYQpdGD4MXxL77c38K_04mVaGpuWarz2IZfOZuSVGA_tWon-dY-ehrniN0G2UQ4cyl57scU7H7BwdhVsfK14kKedYg5hNLZSxK09vkRwrcVMQCrvo-otVp00IhvZo09m09/s72-c/amor-cortes_iluminura-3.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-2138874767855545285</id><published>2013-02-09T21:01:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:43:24.021-03:00</updated><title type="text">O Mito do Amor-Paixão na Literatura Romântica. (Parte IX)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiP_HmAQQX5u02gkKyfu3L1J2TUz5aE1aqfnkYpzcabcxYOF5Or4trvq03a-2SLv6U_4gyXtVxM60UQniYCUKo1OQtFKwhlswgI1t037wTqrHKMYppao3AcZTfqtjEMJu04ld70YDqXROJ/s1600/images334.jpeg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiP_HmAQQX5u02gkKyfu3L1J2TUz5aE1aqfnkYpzcabcxYOF5Or4trvq03a-2SLv6U_4gyXtVxM60UQniYCUKo1OQtFKwhlswgI1t037wTqrHKMYppao3AcZTfqtjEMJu04ld70YDqXROJ/s1600/images334.jpeg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na literatura e no teatro portugueses dos finais do século XV até o século XVI foram dominados e nutridos pelo tema do amor-paixão de Pedro de Portugal e Inês de Castro, em cujo história transitam os ecos do mito de Tristão e Isolda, tão bem retomado pelos escritores que dela fizeram tema para as suas obras. Podemos assim dizer que, nos domínios da Literatura Portuguesa, até o século atual, a história ( tematizada na poesia, na epopéia e no teatro) que se liga ao mito do amor-paixão, ao mito surgido com Tristão e Isolda, é a história de Inês de Castro e Pedro. Desde Garcia de Resende até os poetas modernos, é ainda o Mito de Inês de Castro que continua invadindo o imaginário dos poetas e dramaturgos. Daí ter merecido um estudo à parte em nossa trajetória através dos caminhos percorridos pelo mito do amor-paixão, ligado a Tristão e Isolda, na literatura portuguesa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Encerrada a unidade dedicada ao Mito do amor-paixão no drama de Inês de Castro, passaremos agora ao exame da presença ou dos ecos do mito do amor-paixão na literatura, desvinculado do tema de Inês de Castro.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos períodos barroco, arcádico e pré-romântico não surgem obras que se liguem ao mito de Tristão e isolda. A mais dramática história de amor que invade o imaginário da época barroca é a que oferecem As Cartas Portuguesas de Sóror Mariana Alcoforado, freira do convento de Beja que viveu um romance clandestino com um oficial francês. Todavia, o oficial francês a quem Mariana se devota apaixonadamente, é incapaz de paixão, é uma espécie de D. Juan, é a antítese de Tristão, é o homem dos encontros sem futuro, leviano por definição, como seria, no século XIX, “Basilio” de Eça de Queirós.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Século XVIII, domínio da volúpia e da sensualidade solta, assista ao que Rougemont denomina de “eclipse do Mito”, apesar das obras pré-romântica, como a Nova Heloísa de Rousseau e do Werther de Goethe ( uma perfeita recriação do mito medieval do amor-paixão), por exemplo, provarem a persistência do mito nos corações dos homens do século XVIII. Todavia, no âmbito da literatura portuguesa, nada acontece que mereça um destaque especial, fora da expressão do mito de Tristão e Isolda no já estudado mito de Inês de Castro.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Até o advento do romance no século XIX, é, portanto, a história de Inês de Castro e as obras que a tematizam o que se liga ao mito de Tristão e Isolda.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na Europa, o eclipse do mito, no século XVIII, propiciou o surgimento da personagem que constituiria a antítese perfeita de Tristão: D, Juan. Este personifica a maldade e a perfídia, antítese das virtudes do amor cavalheiresco: a candura e a cortesia. A este assunto, retornaremos mais adiante, quando abordarmos o Mito no Realismo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Romantismo europeu recupera, através da ópera, também difusora do mito, a obra Werther do alemão Goethe , composta por Jules Massenet. O alemão Richard Wagner, em q865, apresenta a ópera Tristão e Isolda ao público europeu. Outras óperas estão ligadas ,também, à retomada do mito no século XIX, principalmente no Romantismo: Romeu e Julieta ( Gounod), La Traviata , Um baile de máscaras e A força do destino ( Verdi). Todas apresentam os mesmos traços definidores do mito: amor que leva à morte, amor impossível, amor infeliz.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como observa Maria Elizabeth de Vasconcellos, no século XIX assistimos a uma “explosão contra a sociedade aristocrática” do século XVIII, semelhante a que se verificou no século XII , contra a sociedade hierática dos seniores feudais. Os romances no século XIX passaram a refletir uma luta contra os preconceitos, contra a idéia de honra e de tradição mantidas pela sociedade aristocrática absolutista. O obstáculo à realização do amor que era, no mito, religioso e social, agora passa a ter uma evidência única que diz respeito ao plano social: os jovens reclamam a si o direito de escolherem o companheiro de casamento, recusando as uniões arranjadas pelos pais ou parentes e pautadas em interesses outros que nada tinham a ver com o amor. E o mito reaparece com toda a sua força.(1)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A partir do final do século XVII e ao longo do século XVIII, Os casamentos se faziam como as “alianças” ou acordos diplomáticos, não interessando as afinidades afetivas. Como informa Denis de Rougemont, “a conveniência das classes e a conformidade das “qualidades” tornam-se a medida ideal do bom casamento [...].(2)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na sociedade libertina, especialmente na França setecentista, “ quando todo o obstáculo ao amor é destruído, a paixão não tem onde se agarrar”. Já quase nada é proibido.” Todavia, neste século da volúpia e não da sensualidade saudável, embora se julgasse curado do mito, este irrompe aqui e ali, quando o sentimento sobrepõe-se à mera relação devassa, como bem o exemplifica o romance de Lacros As ligações perigosas, que tão bem retrata a sociedade da época.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A reviravolta originada na sociedade européia a partir Revolução Francesa, iria consequentemente refletir-se na sociedade burguesa-liberal-capitalista século XIX. Os valores da burguesia em ascensão, os ideais de liberdade individual, a instauração do capitalismo resultaram em mudanças irreversíveis nos costumes, nas mentalidades e na cultura da sociedade da época.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Classe burguesa no poder em nada se assemelha à aristocracia desprestigiada pela Revolução. As obras literárias do período romântico obedecem ao “gosto” da burguesia endinheirada, conquista um público numerosíssimo, ocioso e com poder de compra, basicamente constituído por mulheres, perde os “mecenas” e passa a se submeter aos caprichos e exigências das leis do mercado capitalista, ou seja às leis da oferta e da procura, perante às quais um livro é uma mercadoria como qualquer outra. Ao contrário da literatura do período neoclássico, toda ela condizente com o refinado gosto e cultura da aristocracia, vinculada ao mecenatismo que assegurava a sobrevivência do escritor e voltada para os valores desta mesma aristocracia.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
CONTINUE&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/2138874767855545285/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/2138874767855545285?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2138874767855545285" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2138874767855545285" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-do-amor-paixao-na-literatura.html" rel="alternate" title="O Mito do Amor-Paixão na Literatura Romântica. (Parte IX)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiP_HmAQQX5u02gkKyfu3L1J2TUz5aE1aqfnkYpzcabcxYOF5Or4trvq03a-2SLv6U_4gyXtVxM60UQniYCUKo1OQtFKwhlswgI1t037wTqrHKMYppao3AcZTfqtjEMJu04ld70YDqXROJ/s72-c/images334.jpeg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-7461827641673372860</id><published>2013-02-09T20:53:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:40:58.721-03:00</updated><title type="text">A Expressão do Mito no Romantismo (Parte X)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s1600/mulher-carta.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="131" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s200/mulher-carta.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Camilo Castelo Branco, com o seu romance Amor de Perdição e Alexandre Herculano com Eurico o presbítero,( e de certo modo com a história de Dulce e Egas no romance  O bobo) ofereceram à literatura portuguesa versões  românticas do mito do amor-paixão, com a narração dos infelizes amores de Simão e Teresa / Hermengarda e Eurico, respectivamente. No teatro, é Garrett quem oferece , através do drama Frei Luís de Sousa ,  uma história que retoma os conceitos míticos do amor impossível, do amor ligado à idéia da punição, etc.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O romance de Herculano tem a sua ação no século XII, época da formação da nacionalidade portuguesa. Em relação ao amor-paixão que liga Eurico, o presbítero a Hernengarda, o que se tem inicialmente é o obstáculo social. Quando este deixa de existir, dez anos mais tarde, surge o obstáculo religioso. Tanto o tema heróico quanto o tema amoroso estão configurados neste romance. No primeiro, o Cavaleiro Negro movimenta-se perfeitamente integrado no meio, realizando façanhas admiráveis. Já no tema amoroso, Eurico luta por valores ainda não aceitos: livre escolha da pessoa com quem se casará e, depois, libertação do casamento clerical. A sociedade burguesa-católica e puritana do século XIX ainda não estava preparada para romper definitivamente com o celibato clerical. Por isso Eurico e Hermengarda não podem ficar juntos, devem ser punidos com a morte, porque estavam colocando em perigo o equilíbrio do grupo social e do grupo religioso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O romance Amor de Perdição,  de Camilo Castelo Branco, será o nosso objeto de análise na busca de  elementos míticos nele presentes.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Neste romance, Camilo apresenta o homem em luta dramática para solucionar os seus problemas  dentro da “linha do espiritual”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O herói camiliano será regido pela “lei da paixão”, tal como o foi Tristão, Abelardo, Romeu etc.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tentaremos estabelecer uma relação entre a história de Tristão e Isolda e a de Simão e Teresa, mostrando que há um palarelismo entre ambas as histórias.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
AMOR DE PERDIÇÃO: dimensões e planos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O romance pode ser dividido em 3 partes:O CONHECIMENTO ( vai do nascimento de Simão à descoberta do amor);&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O AMOR ( vai da descoberta do amor à morte de Baltasar);&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A MORTE ( vai da prisão de Simão à morte deste e de Teresa.)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A narrativa atesta uma progressão, assim como o mito: assiste-se, de um lado, a uma disjunção crescente entre Simão / Teresa e a sociedade, enquanto, por outro lado, assiste-se a uma união cada vez mais profunda entre os dois jovens apaixonados, que vão criando seu mundo afastado dos valores da sociedade patriarcal. Embora os dois quase nunca se encontrem fisicamente, espiritualmente estão muito próximos e essa aproximação e comunicação é feita através das cartas.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No mito, como já vimos, há dois temas distintos: o heróico e o amoroso. Tristão, no tema heróico, já ganha dimensões de herói nacional e age de acordo com os valores aceitos na época.  Todavia, não ocorre o mesmo em Amor de Perdição. O tema heróico no romance de Camilo é bem mais reduzido do que o do mito e Simão não realiza nada definitivo quando age contra os valores aceitos na época, lutando por ideais políticos de libertação.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A atividade de Simão no tema heróico serve, apenas, para mostrar seu caráter forte e arrebatado e a incompreensão por parte da família em relação a ele:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“O filho do corregedor de Viseu defendia que Portugal devia regenerar-se num batismo de sangue, para que a hidra dos tiranos não erguesse mais uma das mil cabeças sob a clava do Hércules popular.” (3)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não há, pois, relações familiares superestimadas entre Simão e os pais,( tal como acontece ,também, com Teresa e Tadeu de Albuquerque).&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A troca das cartas, que vão e vêm clandestinamente, sem o consentimento dos pais, será sempre uma relação familiar subestimada, que se estende do início ao fim do romance.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É, entretanto, no plano amoroso que Simão ganhará dimensões de verdadeiro herói, por causa do amor.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na Introdução do romance, Camilo diz que a história de Simão pode ser resumida na frase: “Amou, perdeu-se e morreu amando.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No tema amoroso, Simão apresenta-se como um ser privilegiado: seu sentimento de honra é enorme, nada aceitando da família quando está na prisão.   Quando é chamado ao tribunal, no dia do seu julgamento, Simão recusa-se a qualquer defesa (4)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No tema amoroso, o amor , conforme declara o narrador do romance, faz  “maravilhosa mudança nos costumes de Simão”, ele procura lugares solitários e ermos: “Nas doces noites de Estio demorava-se por fora até o romper da alva.” (5)  Isso não quer dizer que ele perdesse a coragem, mas, sim, que passaria a lutar contra tudo que se opusesse ao novo ideal que regeria a sua vida:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
tema heróico: ideal político&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
tema amoroso: ideal amoroso&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que é comum aos dois temas em relação ao comportamento de Simão, é que ele luta sempre em favor de valores aceitos ainda, manifestando-se como um espírito dramático. E para evidenciar sua qualidade de ser escolhido, Simão também teve seu nascimento marcado por um fato triste. É a mãe quem lhe escreve quando ele está na prisão:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não o quis largar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Por sua vez, Teresa também é especial no seu sentimento. Camilo diz que “... o amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas...”  Logo a seguir, explica que “Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exceção no seu amor.” (6)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Portanto, no romance, não só o herói realiza façanhas extraordinárias, mas também Teresa luta como pode para vencer a ferocidade do pai, preferindo ir para o convento a casar-se com o primo Baltasar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se verificarmos o obstáculo que se apresenta ao amor de Simão e Teresa, veremos que ele é social. É o pai de Teresa que lhe quer impor um casamento com o primo, não cogitando do sentimento da filha por Simão. Tanto em Tristão e Isolda, quanto no romance de Camilo, como ainda não havia perspectiva de aceitação, no momento em que as obras foram feitas, do ideal que buscam os dois casais, ambos foram levados à morte, pois, não podendo sintonizar a realização de seu amor com os desejos da sociedade, colocam em perigo o equilíbrio do grupo social. O mesmo esquema do mito do amor-paixão desenha-se no romance camiliano”:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Teresa                                                            Simão&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Baltasar                                                       Mariana&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
_______________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Embora jovens são rejeitados&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entretanto, embora paralelas, na medida em que Mariana e Baltasar são recusados como pretendentes, há uma oposição que se processa no campo em que a recusa é feita. A recusa de Teresa é feita no campo das relações familiares subestimadas – a relação entre ela e Baltasar é hostil. Já não é assim a recusa de Simão ao amor da filha de João da Cruz: Simão não pode aceitar o amor de Mariana porque simplesmente seu sentimento por Teresa é como o de Tristão por Isolda: amor eterno, fruto do acaso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a habitual nos seus anos.”(7)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para Simão, tudo seria mais simples se, em vez de amar Teresa, amasse Mariana, como ele próprio diz ao ferrador: “Pudesse eu ser marido de sua filha, meu nobre amigo!”(8)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim como Tristão se afastou de Isolda para que esta, depois do julgamento de Deus, pudesse voltar a viver com Marc, também Simão ter-se-ia afastado de Teresa se ela assim o quisesse:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Se teu pai quisesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, beijar-lhos-ia.                                  Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser feliz com outro homem, morreria, Teresa.”(9)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim como Tristão se casou com Isolda, a das Brancas Mãos, mas não a amou, também Simão não corresponde ao amor de Mariana: “Sou infeliz por não poder fazê-la  minha mulher.”, diz à filha de João da Cruz, quando ela comunica que vai acompanhá-lo ao desterro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mariana é uma espécie de tentação para colocar à prova o amor de Simão; mas este permanece fiel à sua amada, como o cavalheiro medieval, como Tristão. Vale lembrar que a fidelidade à mulher amada é uma das regras do amor cortês.  Mesmo que esta seja inacessível, mesmo que infindos obstáculos se interponham entre ele e a mulher que ama, o amante se mantém fiel..&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considerando, agora, Mariana podemos dizer que ela se opõe a Isolda, a de Brancas Mãos. Enquanto esta foi a causa, no plano literal, da morte de Tristão. Mariana, ao contrário, sempre apoiou Simão, embora sofresse com isso. A fidelidade de Simão a Teresa atinge proporções muito maiores, pois as relações dele com Mariana processam-se no campo positivo e ela, como personagem, é até mais humana que Teresa. A filha de Tadeu de Albuquerque aproxima-se da mulher das cantigas medievais, sempre distante, quase nunca tendo seus atributos físicos referidos explicitamente pelo narrador. Há, no romance, pouquíssimas referências tanto ao físico de Teresa quanto ao do próprio Simão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em relação aos planos, não teremos em Amor de perdição o aparecimento do plano mágico, como no mito medieval. A ajuda aos jovens apaixonados é dada sempre por aliados humanos tais como João de Deus e Mariana. Somente a mendiga poderia ligar-se ao plano mágico: ela aparece e desaparece misteriosamente.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Finalmente, o que está em jogo no romance de Camilo é a luta dos jovens contra o poder patriarcal e, por isso, o plano sociológico é o que terá maior destaque. No plano religioso, não haverá punição, como no mito, pois Simão e Teresa não pecaram contra nenhum preceito religioso, nem contra  a castidade. O próprio Prior que confessava Teresa, ao ouvir o desejo que esta manifestava de encontrar Simão no céu, preconizando a união eterna das almas, não sabia “... se seria herético contestar uma cláusula não inscrita em algum dos quatro evangelhos.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É o plano sociológico, assim, aquele que obtém maior ênfase no romance camiliano:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Exaltação____________________________________Punição&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Permanência do mundo espiritual criado pelas cartas . &amp;nbsp;Teresa  _  convento&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; - Simão _ prisão&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
MORTE&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há, no final, a morte passivamente aceita pelos dois amantes, pois, não podendo casar-se na terra, procuram a união após-morte.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim como Tristão e Isolda também se uniram depois da morte, através da simbologia dos arbustos entrelaçados, Simão e Teresa esperam encontrar-se no céu. Nas cartas de Teresa a Simão, há referencias a esse desejo e, quando Simão está prestes a expirar, fala a Mariana sobre tal encontro.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Uma vez ressaltadas as analogias entre o mito do amor-paixão e o romance de Camilo, fica ainda uma pergunta: porque, no mito, há adultério e nos dois romances citados ( o de Camilo e o de Herculano) não há consumação física do amor?  Podemos responder a isso, dizendo que o mito do amor-paixão, emergente da história de Tristão e Isolda, precisava causar um impacto na sociedade medieval, uma vez que se insurgia em rebelião, que lutava, contra a organização hierática. Bem diferente é a situação no contexto burguês-capitalista do século XIX e do Romantismo. Este também lutava contra a organização aristocrática em classes fechadas, mas não podia admitir o adultério ou a consumação física do amor antes do casamento religioso, pois suas obras eram dirigidas à burguesia e esta tinha padrões morais muito rígidos. Dá-se, então, a adequação do Mito,  aos princípios morais estabelecidos pela classe burguesa no poder. Assim, nos romances escritos na primeira metade do século XIX, no período romântico, não era admitido o adultério ou a consumação do amor antes do casamento. No caso de ocorrer este tipo de delito, haveria sempre uma punição rigorosa, como acontece em Anátema de Camilo Castelo Branco&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que fica bem claro através da análise de Amor de Perdição  é que os escritores ( e também compositores de óperas) retomaram os conceitos míticos do amor-paixão, mostrando com isso uma semelhança entre seus próprios anseios e os do grupo social e religioso do século XII.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na literatura do Romantismo europeu, muitos foram os romances que, tematizando o amor impossível, o amor ligado à morte ou ao sacrifício da renúncia, imposta pelo grupo social ou religioso: O Morro dos ventos uivantes , de Émile Bronte, por exemplo, que já teve duas versões no cinema, ainda hoje seduz as pessoas, do mesmo modo que A dama das Camélias de Alexandre Dumas, também com várias versões para o cinema, além da ópera La Traviatta. Tais histórias seduzem porque tratam do tema Amor e morte, a combinação que mais profundamente sensibiliza o ser humano em qualquer época.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como bem o diz Denis de Rougemont, O amor feliz não tem história. Só existem romances do amor mortal, ou seja, do amor ameaçado e condenado pela própria vida. O que o lirismo ocidental exalta não é o prazer dos sentidos nem a paz fecunda do par amoroso. É menos o amor realizado que a paixão de amor. E paixão significa sofrimento. Eis o fato fundamental..( Ob. cit., p. 17)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
____________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
1- Maria Elizabeth  G. Vasconcelos. O homem no sentido latente do mito do amor-paixão, p. 43.(dissertação)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
2-Denis de Rougemont, O amor no Ocidente, Rio de Jan. Ed, Guanabara, p.149,151;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
3)    Camilo C. Branco. Amor de Perdição, Porto, Porto ed.,s/d, p.35.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
5. C.C.Branco, Ob. Cit., p. 36;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
6. Idem, p. 148-9;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
7. Idem, p. 37;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
8. Idem, p. 88-89&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
CONTINUA...&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/7461827641673372860/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/7461827641673372860?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7461827641673372860" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7461827641673372860" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/a-expressao-do-mito-no-romantismo-parte.html" rel="alternate" title="A Expressão do Mito no Romantismo (Parte X)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s72-c/mulher-carta.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-341363856206473360</id><published>2013-02-09T20:48:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:38:34.953-03:00</updated><title type="text">Declínio e eclipse do mito do amor-paixão (Parte XI)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s1600/2+%25284%2529.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s200/2+%25284%2529.jpg" width="140" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No século XVII “racional” os costumes se separam das crenças religiosas e, sem que ninguém perceba, se adaptam às leis da razão do século, renegando o absoluto cristão. A partir de então, o casamento já não é visto como uma instituição de base, as “alianças” privadas são celebradas da mesma forma que os acordos diplomáticos, sem importar as afinidades entre os cônjuges. A medida para um bom casamento era somente a conveniência das classes e a conformidade das “qualidades” e dos “méritos”. Tal forma de casamento viria a ter grandes dificuldades de ser mantido nos séculos seguintes.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A partir do século XVII os casamentos se subordinam às leis do racionalismo, segundo à qual só “os méritos”, e não a graça imprevisível, decidem uma união. Assim, um bom partido é aquele “cuidadosamente escolhido pela razão. Triunfo da moral jesuíta. O barroco aprisiona o sentimento sob o artifício das suas pompas. Do mesmo modo a análise da paixão, tal como a fez Descartes, sua redução a categorias psicológicas perfeitamente distintas, a hierarquias racionais de qualidades, méritos e faculdades, conduziria necessariamente à dissolução do mito e de seu dinamismo original. E que o mito só exerce seu poder precisamente onde desaparecem todas as categorias morais – para além do Bem e do Mal, no transporte e na transgressão do espaço onde a moral prevalece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Spinoza definiu o amor como um sentimento de alegria acompanhado da idéia de uma causa exterior. Tal causa exterior seria um Deus com o qual a nossa alma poderia se identificar. “ Todavia, entre a alegria e sua causa exterior há sempre alguma separação, algum obstáculo: a sociedade, o pecado, a virtude, nosso corpo, nosso eu distinto. Daí o ardor da paixão. E daí que o desejo de união total se ligue indissoluvelmente ao desejo da morte que liberta. Por não existir sem a dor, a paixão faz com que desejemos nossa perda. “(11) Exemplifica bem esse desejo de perda, esta espécie de volúpia da dor, o que diz a religiosa portuguesa Soror Mariana Alcoforado, em uma das cartas que escreveu ao homem que a seduziu: “Agradeço-vos do fundo do coração o desespero que me fazeis sentir e desprezo a tranqüilidade em que vivia antes de conhecer-vos...Adeus! Amai-me sempre, fazei-me sofrer ainda os piores tormentos!” (12)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No século XVIII, as qualidades e méritos exigidos ao cônjuge já não são de ordem moral, mas sim de ordem intelectual e física, a divisão do ser já não é em espírito e carne, mas em inteligência e sexo. Já não há obstáculos ao prazer, à paixão. E, “quando todo obstáculo é destruído, a paixão não tem onde se agarrar. O deus do Amor já não é o destino severo, mas uma criança impertinente. Já quase nada é proibido. Dá-se , então, o apogeu das idéias de Meung, o realismo sobrepõe-se ao idealismo, o cinismo devasso ao platonismo pleno de fidelidade. O que se vê é a profanação do mito de Tristão e Isolda.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ora, esse século da Volúpia não é o da sensualidade saudável, embora se julgasse curado do mito. “As mulheres desta época não amam com o coração, amam com a cabeça, entregam-se à licenciosidade sem freios.Contudo esta espécie de donjuanismo feminino em vez de lhe proporcionar a satisfação do amor sensual, enche-a de inquietação, leva-a à busca de novas experiências, em busca de um “mentira ideal” de amor-paixão.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Don Juan: a imagem invertida de Tristão..&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por outro lado, o eclipse do mito daria lugar ao aparecimento da mais absoluta antítese de Tristão: Don Juan. “Se Don Juan não é, historicamente, uma invensão do século XVIII, ao menos esse século imprimiu nesta personagem os dois traços tão típicos da época: a maldade e a perfídia. Antítese perfeita das duas virtudes do amor cavalheiresco: a candura e a cortesia.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O personagem mítico de Don Juan exerce fascínio sobre mulheres e homens, sem sombra de dúvidas. Tal fascínio talvez tenha o seu fundamento na natureza contraditória desse aventureiro amoroso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como esclarece Rougemont, “Don Juan é ao mesmo tempo a espécie pura, a espontaneidade do instinto, o espírito puro em sua dança desvairada sobre a imensidade do possível. É a infidelidade perpétua, mas também a procura perpétua da mulher única, jamais encontrada pelo erro incansável do desejo.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A imagem de Don Juan que nos interessa aqui considerar é a que o teatro ( ou a ópera de Mozart) nos oferece: como a imagem invertida de Tristão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Antes de mais nada, o contraste está na aparência exterior das personagens, em seu ritmo. Sempre imaginamos Don Juan numa atitude altiva e ameaçadora, prestes a investir mesmo quando por acaso interrompe sua perseguição. Ao contrário, Tristão entra em cena com aquela lentidão sonambúlica de alguém que hipinotiza um objeto maravilhoso, cuja riqueza ela jamais esgotará plenamente. Um possuiu mil e três mulheres, o outro uma só mulher. Mas pobre é a multiplicidade, enquanto num ser único e possuído ao infinito se concentra o mundo inteiro. Tristão já não precisa do mundo – porque ama! Enquanto Don Juan, sempre amado, não pode jamais retribuir com amor. Daí sua angústia e sua busca desenfreada.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um procura no ato do amor a voluptuosidade de uma profanação, o outro realiza a “proeza”divinizante permanecendo casto. A tática de Don Juan é a violação e, uma vez obtida a vitória, abandona o terreno e foge. Ora, a regra do amor cortês fazia da violação precisamente o crime dos crimes, a felonia sem remissão, e da homenagem um compromisso até à morte. Mas Don Juan ama o crime em si, tornando-se assim tributário da moral de que abusa. Ela é imprescindível para que Don Juan sinta o gosto de a violar, enquanto Tristão se sente livre do jogo das regras, dos pecados e das virtudes, pela graça de uma virtude que transcende o mundo da Lei.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Enfim, tudo se resume nesta oposição: Don Juan é o demônio da pura imanência, prisioneiro das aparências do mundo, o mártir da sensação cada vez mais decepcionante e desprezível _ enquanto Tristão é o prisioneiro da infinitude do dia e da noite, mártir de um encantamento que se transforma em pura alegria com a morte.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Voltando aos romances de Camilo e Eça, antes referidos, podemos dizer que Amor de Perdição filia-se à “linha do espiritual” e O Primo Basílio” segue a “linha do material”, o primeiro é herdeiro das idéias de De Lorris, foi escrito sob o sentido latente do mito do amor-paixão, do qual recupera muitos conteúdos míticos, dentre eles O amor ligado a morte, o amor eterno, etc. Enquanto isso, o romance de Eça radica nas idéias de Meung., repete o mito de Dom Juan e promove a profanação do mito. Enquanto Simão aproxima-se de Tristão, Basílio assemelha-se a D. Juan.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Simão e Teresa têm um objetivo comum a atingir, um mesmo sentimento a uni-los. Com Basílio e Luísa dá-se o contrário, nada em comum os une, nem na área dos sentimentos, nem na área dos objetivos a alcançarem: ela, com a cabeça cheia de sonhos, os sentidos insatisfeitos e ávida de viver as aventuras que lia nos romances românticos, de viver um grande e apaixonante amor, não resiste à corte que Basílio lhe faz , tornando-se a sua amante. Por sua vez, Basílio apenas deseja uma aventurazinha picante com Luísa, um passatempo enquanto está de passagem por Lisboa. Não há sentimento amoroso em sua relação, apenas desejo. Ele obtém o que quer, ela não se vê contemplada com o que sonha: ser amada por Basílio, ao contrário disso percebe que o "amor”do primo em nada se assemelha aos que conhecera nos romances. Conquistada a prima, Basílio abandona-a para não ter de assumir maiores responsabilidades. Luísa morre, Basílio cinicamente dá continuidade à sua vida de conquistador leviano. O caso amoroso de Basílio e Luísa não traz nenhum aperfeiçoamento para ela, apenas a degradação. Trata-se de um amor que avilta e rebaixa o ser. Só um ganhador teve esta história: o vilão Basílio. antítese de Tristão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já em amor de perdição, Simão e Teresa têm o mesmo aperfeiçoamento a obter: enquanto Simão deseja ser amado eternamente por Teresa, esta deseja o mesmo com referência a Simão. No processo para alcançar a realização do desejo recíproco de amor eterno, Simão luta contra os preconceitos familiares e chega a matar o rival; Teresa, por sua vez, recusa o casamento com o primo e prefere ir para o convento. O que eles desejam é obtido pelos dois de forma idêntica: Teresa morre de amor e promete encontrar Simão no céu e Simão morre de amor e promete encontrá-la no céu.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há também a referir o caso das cartas que, em Amor de perdição, propiciaram a criação do mundo de Simão e Teresa, levando-os a uma união espiritual crescente, enquanto em O Primo Basílio são as cartas de amor que precipitam a separação dos amantes.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na verdade Luís foi apenas a ROSA de MEUNG que deveria ser colhida. Basílio nada mais foi que o duplo de Don Juan, a antítese de Tristão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lembrar que os princípios morais da burguesia não admitia o adultério, considerado crime passível de punição com a cadeia e o desprezo do meio social. Por outro lado, vale salientar que Eça, ao escrever o romance O Primo Basílio, intencionava criticas a dissolução dos costumes, amora, a decadência da família e a crise do casamento em razão do adultério. Lembrar também que cada grupo social tem as suas normas de conduta, os papéis que cada um deve desempenhar, o lugar marcado que cada qual deve ocupar para que se mantenha o equilíbrio do grupo. A cometer o adultério, Luísa infringiu o código estabelecido, desafiando, assim, o equilíbrio do grupo social, não podia continuar viva. Tinha que ser punida com a morte.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Encerrando os estudos acerca da expressão do mito na literatura do século XIX, propomos a LEITURA da peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, obra prima do teatro romântico português.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lida a peça, procuraríamos estabelecer a relação entre a história das personagens Manuel de Sousa Coutinho e D.Madalena de Vilhena, com o mito de Tristão e Isolda,( ou o mito do amor-paixão), bem como com a história de Abelardo e Heloísa, apontando os conteúdos míticos presentes na tragédia do Frei Luís de Sousa .&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
____________________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
09- Cleonice Berardinelli, Para uma análise estrutural da obra de Eça de Queirós, Colóquio, Lisboa, Junho,1971, p. 26.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
10- Denis de Rougemont, O amor e o Ocidente, Rio de Jan° , Ed, Guanabara, p. 127-128.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
11- Idem, ibidem, p. 149.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
12- Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, Lisboa, Morais, p.17.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/341363856206473360/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/341363856206473360?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/341363856206473360" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/341363856206473360" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/declinio-e-eclipse-do-mito-do-amor.html" rel="alternate" title="Declínio e eclipse do mito do amor-paixão (Parte XI)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiAhBRavXLyjbQpRzhC24NY3wCCC-9EiAZWdBLnFDEE0aIbJ6rARcnom09A2c4oRuNty9ZdJVSTjKlGcdzR0snSViW1_PYcClLQKpd-CviBW3AYLg6iAQDRNNcKC47y2nnOMkCys_ZkpCv0/s72-c/2+%25284%2529.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-6689997115391792949</id><published>2013-02-09T20:47:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:16:16.116-03:00</updated><title type="text">O Mito do Amor-Paixão no Ultra-Romantismo (XII))</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4hIpvXDCG_5sZuXgtxNFQp3IRwITWuwVA8sWFi1Vugp4whSgJNsg-KEcvVcIddTR1O0AwRw9ZYsgUK0zgKHEXYVaEprCoQeFx1MMZPPRVUPEINNy669d67l7MMpn-jTclsHMt1YNl1IiO/s1600/Isolda+e+Trist%25C3%25A3o_3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4hIpvXDCG_5sZuXgtxNFQp3IRwITWuwVA8sWFi1Vugp4whSgJNsg-KEcvVcIddTR1O0AwRw9ZYsgUK0zgKHEXYVaEprCoQeFx1MMZPPRVUPEINNy669d67l7MMpn-jTclsHMt1YNl1IiO/s200/Isolda+e+Trist%25C3%25A3o_3.jpg" width="134" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como já o dissemos antes, a burguesia foi a responsável pelo não aparecimento do adultério, bem como a punição de tal delito ( o adultério era considerado crime, passível de prisão, tal como ocorreu com o próprio Camilo e Ana Plácido) , nos romances da primeira metade do século XIX. Portanto, se havia adultério no romance, este era severamente punido, tal como o faria a sociedade e a justiça.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;div class="WordSection1"&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Já no século XVIII, ocorre a ascensão crescente da burguesia endinheirada que se tornava a maior consumidora da literatura. No século XIX, a obra literária não é mais que um objeto de consumo, exposto às leis do mercado capitalista, ou seja, a lei da oferta e da procura, portanto, para sobreviver com o fruto do seu trabalho, o artista tem que produzir&amp;nbsp; obras que satisfaçam às exigências do público consumidor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Por isso, ao lado de obras que recriavam o mito do amor-paixão, surgem outras em que se dará o aburguesamento da história com a modificação do final, que não será mais trágico, mas um final feliz. Assim, para atender à solicitação da burguesia, cada vez mais poderosa, a filha de um escrivão casa com o filho do patrão ( &lt;i&gt;Uma família Inglesa&lt;/i&gt; de Júlio Dinis), duas órfãs casam com ricos herdeiros de terras ( &lt;i&gt;As pupilas do Senhor Reitor &lt;/i&gt;de Júlio Dinis), pois para a burguesia, a mais importante aspiração era o nivelamento social. Tais obras não apresentam punições, no plano sociológico, como o mito, pois os que se amam, embora encontrem obstáculos à realização do amor, conseguem superá-los. O final do romance, que termina em matrimônio, com a fórmula “Foram felizes e tiveram muitos filhos”, faz supor que o novo casal dará, em futuro próximo, sua contribuição ao grupo social. Estes romances eram publicados, geralmente, em folhetins, juntamente com as Óperas e as operetas, foram para o século XIX, o que as novelas de televisão e o cinema são para o público do século XX.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;O Ultra-Romantismo nos oferece também nos domínios da poesia manifestações da presença de conceitos míticos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;No que pese à conotação pejorativa que durante muito tempo recaiu sobre o Ultra-Romantismo, principalmente através da visão que dele tinham os primeiros historiadores da literatura portuguesa, hoje esta tendência do Romantismo já está reabilitada aos olhos da crítica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Em 1880, Teófilo Braga&amp;nbsp; formulou&amp;nbsp; o conceito de Ultra-Romantismo, que o considerava uma expressão da decadência do Romantismo, um mero fenômeno da degradação a que tinha chegado a literatura romântica em Portugal, invadida pelos excessos sentimentalistas e funéreos, a partir dos derradeiros anos da década de quatenta do século XIX.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;A cidade do Porto, berço de Camilo Castelo Branco, Soares de Passos e Maria Brawne, os mais fieis cultores dão Ultra-Romantismo, era o lugar onde predominava , notadamente na poesia, o que a crítica mordaz de Gomes de Amorim rotulava de “poético-mania”&amp;nbsp; ultra-romântica que traça o perfil caricatural do poeta infeliz com o nos “tenebrosos subterrâneos”dos romances “góticos”de Ana Radcliffe ( autora pertencente ao Pré-Romantismo inglês), acabando por caricaturar o inevitável “amor no cemitério”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Todavia o fenômeno do chamado Ultra-Romantismo na literatura do século XIX não foi tão simples como poderia parecer. A sua gênese deve ser procurada na influência tardia que as obras dos autores do Pré-Romantismo anglo-germânico&amp;nbsp; exerceram sobre os autores do Romantismo português. Edward Young, com as suas &lt;i&gt;Noites, &lt;/i&gt;que puseram em moda em toda a Europa a poesia noturna e sepulcral; Tomás Gray, com a sua célebre &lt;i&gt;Elegia escrita em um cemitério de aldeia; &lt;/i&gt;James Hervey, com a sua obra &lt;i&gt;Meditações entre os túmulos; &lt;/i&gt;Richard Blair , com &lt;i&gt;Le Tombeau; &lt;/i&gt;Parnell com seu poema &lt;i&gt;Noturno sobre a&amp;nbsp; morte. &lt;/i&gt;Mais tarde&lt;i&gt;, &lt;/i&gt;o poeta inglês&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Lord Byron, que, com a sua morbidez e o seu satanismo, seduzia as mentes românticas, propensas ao cultivo do lado sombrio e pessimista da vida. Esta literatura que tanto sucesso fizera no período pré-romântico, em razão da proibição da censura civil em Portugal, nas últimas décadas do século XVIII e primeiras do século seguinte, eram praticamente desconhecidas do público e dos escritores de então. Somente com a suspensão da censura, após dos anos vinte do século XIX, tais obras podiam ser trazidas para o país. Daí certos traços definidores da estética pré-romântica surgirem nas producões poéticas ultra-românticas, notadamente, o gosto pela poesia noturna e sepulcral, das elucubrações sobre a morte e o destino do homem, ao qual se mesclam determinados conceitos míticos, como o do amor ligado à idéia da morte, do amor eterno que se realiza ou que prossegue após a morte.&amp;nbsp; O que isto parece significar é a evidência de que a literatura amorosa do Ocidente está presa, no plano existencial, ao mito do amor-paixão, ou seja, à história de Tristão e Isolda, sempre retomada, adaptada às circunstâncias, aos tempos, mas sempre revivida e revitalizada, como a provar que o homem do Ocidente vive no sentido latente do Mito e do fascínio que exerce sobre os anseios amorosos inerentes à sua condição humana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&lt;b&gt;Antes de fazermos a leitura dos textos, lembremos alguns traços definidores do Ultra-Romantismo. &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Este estilo assinala um forte desequilíbrio do pensamento, da expressão das emoções e dos sentimentos, na medida em que os exprime de forma hiperbólica e excessivamente dramática. Manifesta um predomínio da emoção, da exaltação do espírito, da melancolia, da melancolia que vai levar ao tédio da vida e, consequentemente ao desejo da morte, ao fatalismo. Aqui se volta a sentir a presença do masoquismo, expresso no gosto da própria dor, do desejo de fartar o coração de tristeza, de buscar lugares apartados e sinistros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;A Natureza é pintada com cores tristes e vai até o domínio do tétrico, do macabro, com fantasmas, sepulturas, ajustando-se, assim, ao estado de alma do poeta. (tudo isto tão tipicamente pré-romântico!).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Afirma-se o gosto pelo melodrama tão longe do equilíbrio do drama romântico. Aqui e ali, sente-se certa religiosidade que está muitas vezes ligada à magia, &lt;i&gt;à &lt;/i&gt;&lt;u&gt;crença num regresso das almas a este mundo.&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Vejamos, a guisa de exemplo, o poema que se segue.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp; NOIVADO NO SEPULCRO&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Vai alta lua!&amp;nbsp; Na mansão da morte&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Já meia-noite com vagar soou;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Que paz tranqüila!&amp;nbsp; Dos vaivéns da sorte&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Só tem descanso quem ali baixou&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; II&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Que paz tranqüila!...&amp;nbsp; Mas eis longe,&amp;nbsp; ao longe,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Funérea campa com fragor rangeu;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Branco fantasma, semelhante a um monge,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; III“&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Ergueu-se,&amp;nbsp; ergueu-se! ... Na amplidão celeste&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Campeia a lua com sinistra luz;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;O vento geme no feral cipreste,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Do mocho pia na marmórea cruz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; IV&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Ergueu-se,&amp;nbsp; ergueu-se!... Com sombrio espanto&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Olhou em roda... não achou ninguém...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Por entre os campos arrastando o manto,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -39.3pt 0pt -7.1pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Com lentos passos caminhou além.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; V&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Chegando perto duma cruz alçada,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Que, entre os ciprestes, alvejava ao fim,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Parou,&amp;nbsp; sentou-se e, com voz magoada,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Os ecos tristes acordou assim;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; VI&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Mulher formosa, que &lt;u&gt;adorei na vida,&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;E que na tumba não cessei de&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt; &lt;u&gt;ama&lt;/u&gt;r,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Por que atraiçoas, desleal, mentida,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;O amor eterno que te ouvi jurar&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; VII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Amor!&amp;nbsp; Engano que na campa finda,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Que a morte despe da ilusão falaz:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Quem dentre os vivos se lembrará ainda&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Do pobre morto que na terra jaz?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; VIII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Abandonado neste chão repousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Há já três dias, e não vens aqui...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Ai!&amp;nbsp; Quão pesada me tem sido a lousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Sobe este peito que bateu por ti!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; IX&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Ai!&amp;nbsp; Quão pesada me tem sido!” E, em meio,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;A fronte exausta lhe pendeu na mão,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; X&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Talvez que, rindo dos protestos nossos,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Gozes com outro d’infernal prazer,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;E o ouvido cobrirá meus ossos&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;N aterra fria, sem vingança ter !&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XI&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;- Oh!&amp;nbsp; Nunca, nunca!&amp;nbsp; de saudade infinda&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Responde um eco suspirando além...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“ -Oh! nunca, nunca! “ repetiu ainda&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Formosa virgem que em seus braços tem,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Cobrem-lhe as formas divinais, airosas,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Longas roupagens de nevada cor,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Singela c ‘roa de virgíneas rosas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Lhe cerca a fronte dum mortal palor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XIII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Não,&amp;nbsp; &lt;u&gt;não perdeste meu amor jurado&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Vês este peito? Reina a morte aqui...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“E já sem forças, ai de mim, gelado,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“&lt;u&gt;Mas inda pulsa com amor por ti&lt;/u&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XIV&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“&lt;u&gt;Feliz que pude acompanhar-te ao fundo&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Da sepultura, sucumbindo à dor:&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Deixei a vida... Que importava o mundo,&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Um mundo em trevas, sem a luz do amor?&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XV&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Saudosa ao longe vês no céu a lua?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Oh! vejo, sim...&amp;nbsp; recordação fatal!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Foi à luz dela que &lt;u&gt;jurei ser tua,&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Durante a vida e na mansão final.&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XVI&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Oh!&amp;nbsp; vem!&amp;nbsp; se nunca te cingi ao peito,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Hoje o sepulcro nos reúne enfim...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Quero o repouso do teu frio leito,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;“Quero-te unido para sempre a mim!”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XVII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;E ao som dos pios do cantar funéreo,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;E à luz da lua de sinistro alvor,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Foi celebrado, d’infeliz amor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XVIII&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Quando risonho despontava o dia,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Já deste drama nada havia então,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Mais que uma tumba funeral vazia,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Quebrada a lousa por ignara mão,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; XIX&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Porém mais tarde, quando foi volvido&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Das sepulturas o gelado pó,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Dois esqueletos, um ao outro unido,&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Foram achados num sepulcro só&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="margin: 0cm -7.1pt 0pt 0cm; text-indent: 0cm;"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;SOARES DE PASSOS&amp;nbsp; (&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt; grifos nossos)&lt;u&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/6689997115391792949/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/6689997115391792949?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6689997115391792949" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6689997115391792949" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-do-amor-paixao-no-ultra.html" rel="alternate" title="O Mito do Amor-Paixão no Ultra-Romantismo (XII))" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4hIpvXDCG_5sZuXgtxNFQp3IRwITWuwVA8sWFi1Vugp4whSgJNsg-KEcvVcIddTR1O0AwRw9ZYsgUK0zgKHEXYVaEprCoQeFx1MMZPPRVUPEINNy669d67l7MMpn-jTclsHMt1YNl1IiO/s72-c/Isolda+e+Trist%25C3%25A3o_3.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-5327674343576618903</id><published>2013-02-09T20:46:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:11:35.603-03:00</updated><title type="text">Don Juan: a imagem invertida de Tristão (Parte XIII))</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
D. JUAN: A Imagem Invertida de Tristão&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgvY9Mke5jDw59HIE__j-AJYbLhBPearTtwv1wx78G3QbiOe4xrs7W-yyP2C9GN808nFTF21rQxOtvfqDJiGArnKsXgtWMPl3DXFGzUAkklZqChfx4rSZcuDFZbK90r1v-2rThVzjFg1Ev_/s1600/TristoeIsolda.jpg.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="144" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgvY9Mke5jDw59HIE__j-AJYbLhBPearTtwv1wx78G3QbiOe4xrs7W-yyP2C9GN808nFTF21rQxOtvfqDJiGArnKsXgtWMPl3DXFGzUAkklZqChfx4rSZcuDFZbK90r1v-2rThVzjFg1Ev_/s200/TristoeIsolda.jpg.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="text-align: justify;"&gt;O ROMANCE DA ROSA segundo De Lorris e Meung;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como informa Denis de Rougemont, “A Rosa" de Guilherme de Lorris – na primeira parte do romance, considerada cortês – é o amor da mulher ideal, já mulher verdadeira, mas inacessível no seu jardim orvalhado de alegorias. Perigo, Maledicência e Vergonha defendem Belo Acolhimento contra as investidas dos galanteadores. O obstáculo à união amorosa é representado pela exigência moral e não mais de todo religiosa: já não se trata de uma ascese mística, e sim de um refinamento do espírito que deve conduzir o amante a merecer a dádiva do amor.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De modo inverso, para João de Meung, que terminará o Romance, a Rosa é apenas a volúpia física. O mais franco realismo sucede à sensaboria de Lorris, o sensualismo ao platonismo, o cinismo à exaltação. A Rosa é conquistada através de rude combate. A natureza triunfa sobre o Espírito e a razão sobre a paixão.” (10)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É evidente que cada uma destas partes dará seus frutos em separado na literatura que lhe é posterior, através dos discípulos de De Lorris ou de Meung, que adotarão o idealismo/platonismo ou o realismo/cinismo como fundamento para os seus romances. Não requer muito esforço de nossa parte relacionar o romance de Camilo Castelo Branco Amor de Perdição, escrito no período romântico com a versão doRomance da Rosade De Lorris e o romance realista de Eça de QueirósO Primo Basíliocom a versão de Meung.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dá-se, assim, na segunda metade do século XIX, principalmente, uma espécie de eclipse do Mito nos costumes e nas relações sentimentais., cuja origem podemos buscar no século XVIII.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por outro lado, o eclipse do mito daria lugar ao aparecimento da mais absoluta antítese de Tristão: Don Juan. “Se Don Juan não é, historicamente, uma invensão do século XVIII, ao menos esse século imprimiu nesta personagem os dois traços tão típicos da época: a maldade e a perfídia. Antítese perfeita das duas virtudes do amor cavalheiresco: a candura e a cortesia.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O personagem mítico de Don Juan exerce fascínio sobre mulheres e homens, sem sombra de dúvidas. Tal fascínio talvez tenha o seu fundamento na natureza contraditória desse aventureiro amoroso. Como esclarece Rougemont, “Don Juan é ao mesmo tempo a espécie pura, a espontaneidade do instinto, o espírito puro em sua dança desvairada sobre a imensidade do possível. É a infidelidade perpétua, mas também a procura perpétua da mulher única, jamais encontrada pelo erro incansável do desejo.”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A imagem de Don Juan que nos interessa aqui considerar é a que o teatro ( ou a ópera de Mozart) nos oferece: como a imagem invertida de Tristão. “Antes de mais nada, o contraste está na aparência exterior das personagens, em seu ritmo. Sempre imaginamos Don Juan numa atitude altiva e ameaçadora, prestes a investir mesmo quando por acaso interrompe sua perseguição. Ao contrário, Tristão entra em cena com aquela lentidão sonambúlica de alguém que hipinotiza um objeto maravilhoso, cuja riqueza ela jamais esgotará plenamente. Um possuiu mil e três mulheres, o outro uma só mulher. Mas pobre é a multiplicidade, enquanto num ser único e possuído ao infinito se concentra o mundo inteiro. Tristão já não precisa do mundo – porque ama! Enquanto Don Juan, sempre amado, não pode jamais retribuir com amor. Daí sua angústia e sua busca desenfreada.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um procura no ato do amor a voluptuosidade de uma profanação, o outro realiza a “proeza”divinizante permanecendo casto. A tática de Don Juan é a violação e, uma vez obtida a vitória, abandona o terreno e foge. Ora, a regra do amor cortês fazia da violação precisamente o crime dos crimes, a felonia sem remissão, e da homenagem um compromisso até à morte. Mas Don Juan ama o crime em si, tornando-se assim tributário da moral de que abusa. Ela é imprescindível para que Don Juan sinta o gosto de a violar, enquanto Tristão se sente livre do jogo das regras, dos pecados e das virtudes, pela graça de uma virtude que transcende o mundo da Lei.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Enfim, tudo se resume nesta oposição: Don Juan é o demônio da pura imanência, prisioneiro das aparências do mundo, o mártir da sensação cada vez mais decepcionante e desprezível _ enquanto Tristão é o prisioneiro da infinitude do dia e da noite, mártir de um encantamento que se transforma em pura alegria com a morte.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Voltando aos romances de Camilo e Eça, antes referidos, podemos dizer que Amor de Perdição filia-se à “linha do espiritual” e O Primo Basílio” segue a “linha do material”, o primeiro é herdeiro das idéias de De Lorris, foi escrito sob o sentido latente do mito do amor-paixão, do qual recupera muitos conteúdos míticos, dentre eles O amor ligado a morte, o amor eterno, etc. Enquanto isso, o romance de Eça radica nas idéias de Meung., repete o mito de Dom Juan e promove a profanação do mito. Enquanto Simão aproxima-se de Tristão, Basílio assemelha-se a D. Juan.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Simão e Teresa têm um objetivo comum a atingir, um mesmo sentimento a uni-los. Com Basílio e Luísa dá-se o contrário, nada em comum os une, nem na área dos sentimentos, nem na área dos objetivos a alcançarem: ela, com a cabeça cheia de sonhos, os sentidos insatisfeitos e ávida de viver as aventuras que lia nos romances românticos, de viver um grande e apaixonante amor, não resiste à corte que Basílio lhe faz , tornando-se a sua amante. Por sua vez, Basílio apenas deseja uma aventurazinha picante com Luísa, um passatempo enquanto está de passagem por Lisboa. Não há sentimento amoroso em sua relação, apenas desejo. Ele obtém o que quer, ela não se vê contemplada com o que sonha: ser amada por Basílio, ao contrário disso percebe que o "amor”do primo em nada se assemelha aos que conhecera nos romances. Conquistada a prima, Basílio abandona-a para não ter de assumir maiores responsabilidades. Luísa morre, Basílio cinicamente dá continuidade à sua vida de conquistador leviano. O caso amoroso de Basílio e Luísa não traz nenhum aperfeiçoamento para ela, apenas a degradação. Trata-se de um amor que avilta e rebaixa o ser. Só um ganhador teve esta história: o vilão Basílio. antítese de Tristão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já em amor de perdição, Simão e Teresa têm o mesmo aperfeiçoamento a obter: enquanto Simão deseja ser amado eternamente por Teresa, esta deseja o mesmo com referência a Simão. No processo para alcançar a realização do desejo recíproco de amor eterno, Simão luta contra os preconceitos familiares e chega a matar o rival; Teresa, por sua vez, recusa o casamento com o primo e prefere ir para o convento. O que eles desejam é obtido pelos dois de forma idêntica: Teresa morre de amor e promete encontrar Simão no céu e Simão morre de amor e promete encontrá-la no céu.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há também a referir o caso das cartas que, em Amor de perdição, propiciaram a criação do mundo de Simão e Teresa, levando-os a uma união espiritual crescente, enquanto em O Primo Basílio são as cartas de amor que precipitam a separação dos amantes.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na verdade Luís foi apenas a ROSA de MEUNG que deveria ser colhida. Basílio nada mais foi que o duplo de Don Juan, a antítese de Tristão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lembrar que os princípios morais da burguesia não admitia o adultério, considerado crime passível de punição com a cadeia e o desprezo do meio social. Por outro lado, vale salientar que Eça ,ao escrever o romance O Primo Basílio, intencionava criticas a dissolução dos costumes, amora, a decadência da família e a crise do casamento em razão do adultério. Lembrar também que cada grupo social tem as suas normas de conduta, os papéis que cada um deve desempenhar, o lugar marcado que cada qual deve ocupar para que se mantenha o equilíbrio do grupo. A cometer o adultério, Luísa infringiu o código estabelecido, desafiando, assim, o equilíbrio do grupo social, não podia continuar viva. Tinha que ser punida com a morte&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Encerrando os estudos acerca da expressão do mito na literatura do século XIX, propomos a LEITURA da peça de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, obra prima do teatro romântico português.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lida a peça, procuraríamos estabelecer a relação entre a história das personagens Manuel de Sousa Coutinho e D.Madalena de Vilhena, com o mito de Tristão e Isolda,(ou o mito do amor-paixão), bem como com a história de Abelardo e Heloísa, apontando os conteúdos míticos presentes na tragédia do Frei Luís de Sousa .&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
_____________________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
09- Cleonice Berardinelli, Para uma análise estrutural da obra de Eça de Queirós, Colóquio, Lisboa, Junho,1971, p. 26.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
10- Denis de Rougemont, O amor e o Ocidente, Rio de Jan° , Ed, Guanabara, p. 127-128.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
11- Idem, ibidem, p. 149.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
12- Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, Lisboa, Morais, p.17.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="-webkit-text-stroke-width: 0px; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: medium; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; letter-spacing: normal; line-height: normal; orphans: auto; text-align: justify; text-indent: 0px; text-transform: none; white-space: normal; widows: 1; word-spacing: 0px;"&gt;
&lt;div style="margin: 0px;"&gt;
CONTINUA...&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/5327674343576618903/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/5327674343576618903?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5327674343576618903" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5327674343576618903" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/don-juan-imagem-invertida-de-tristao.html" rel="alternate" title="Don Juan: a imagem invertida de Tristão (Parte XIII))" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgvY9Mke5jDw59HIE__j-AJYbLhBPearTtwv1wx78G3QbiOe4xrs7W-yyP2C9GN808nFTF21rQxOtvfqDJiGArnKsXgtWMPl3DXFGzUAkklZqChfx4rSZcuDFZbK90r1v-2rThVzjFg1Ev_/s72-c/TristoeIsolda.jpg.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-4340733068171728386</id><published>2013-02-09T20:45:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:09:11.095-03:00</updated><title type="text">A profanação do mito do amor-paixão no Realismo (Parte XIV)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s1600/fui+amada.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="160" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s200/fui+amada.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tratando agora da “linha do material”, veremos que ela tem continuação na segunda metade do século XIX, com o Realismo, movimento que, como sabemos, se opõe ao Romantismo. que seguia a “linha do espiritual”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Essa oposição entre a linha do espiritual e a linha do material já se anuncia na poesia de Garrett, espírito essencialmente dramático, dividido entre espiritualidade e sensualidade, entre o ideal de amor sentimento, de amor puro, e a irresistibilidade dos apelos dos sentidos, como bem o revela o poema que se segue, à guisa de exemplificação:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não te amo, quero-te: o amor vem da alma&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E eu n’alma – tenho a calma,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A calma – do jazigo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! não te amo, não.&lt;br /&gt;
Não te amo, quero-te: o amor é vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;E a vida – nem sentida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A trago eu já comigo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai, não te amo, não.!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! não te amo, não; e só te quero&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De um querer bruto e fero&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o sangue me devora,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não chega ao coração.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;Quem ama a aziaga estrela&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;span style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp; Que lhe luz na má hora&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Da sua perdição?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E quero-te, e não te amo, que é forçado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De mau feitiço azado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este indigno furor.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas, oh! não te amo, não.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;E infame sou, porque te quero: e tanto&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;Que de mim tenho espanto,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;span style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;De ti medo e terror..&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Mas amar! ...Não te amo não!.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em quase todos os poemas de &lt;i&gt;Folhas Caídas&lt;/i&gt; de Garrett, observa-se o conflito em que vive o “Eu” lírico, entre o seu ideal de amor sentimento e a sua inclinação para o amor sensual. Ele mesmo confessa, no prólogo de seu livro que: “O meu deus verdadeiro é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.” a sua aspiração a um grande amor que o elevasse acima dos meros delírios dos sentidos”. A obra poética de Garrett indica a oposição dramática entre “corpo e alma”entre amor sentimento e amor sensual, que caracteriza toda a literatura amorosa, desde a o &lt;i&gt;Romance da Rosa.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;LEIA MAIS, clicando na frase abaixo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a href="https://www.blogger.com/null" name="more"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em Portugal, o romance de Eça de Queirós, &lt;i&gt;O Primo Basílio&lt;/i&gt; , é a antítese de &lt;i&gt;Amor de Perdição&lt;/i&gt;, de Camilo Castelo Branco. O herói de Camilo nutria por Teresa um amor puro:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
"Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo que eu não possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Teresa, se os meus lábios profanaram a pureza dos teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quis eu fazer do meu amor o teu opróbrio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nunca, Teresa! Nunca, ó mundo que me condenas! ( ob. cit, p. 186)"&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já Basílio só queria satisfazer seus instintos. Diz Cleonice Berardinelli, a respeito da referida personagem , quando analisa a obra de Eça de Queirós:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Basílio busca em Luísa apenas uma aventura a mais. Indu-la ao adultério conscientemente, sem nada que o justifique. Sua falta contra a instituição básica da sociedade, a família, é agravada pelo seu cinismo.” ( 9)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eis como se expressa, em pensamento, Basílio, quando recebe um pedido de Luísa que quer partir para o exterior com ele:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
"E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a “situação”:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris com aquele trambolhozinho!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embru-&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
lhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ora o descaro! "&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
A “linha do espiritual” difere radicalmente da “linha do material” ( ou do sensual), na mesma medida em que idealização e pureza diferem de realidade e cinismo .&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Romantismo e Realismo nos coloca, assim, perante duas realidades distintas e antitéticas com fortes parentescos, de um lado, com o que nos é dado pelo Romance da Rosa, através das suas duas versões, por um outro, com o mito de Tristão e o mito de Don Juan. Portanto, para apreendermos o que se passou com o Mito do amor-paixão no século XIX, ou seja, a sua profanação ou vulgarização, é necessário, não só que compreendamos alguns costumes típicos do século XVII, como retomemos, como ponto de partida às duas versões deste romance medieval, relacionando-as ,a seguir com às personagens míticas antes referidas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;b&gt;CONTINUA...&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/4340733068171728386/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/4340733068171728386?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/4340733068171728386" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/4340733068171728386" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/a-profanacao-do-mito-do-amor-paixao-no.html" rel="alternate" title="A profanação do mito do amor-paixão no Realismo (Parte XIV)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s72-c/fui+amada.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-9095738468872667979</id><published>2013-02-08T20:06:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T12:04:40.283-03:00</updated><title type="text">Teorema: uma desconstrução do Mito de Inês de Castro?  (Parte XV)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s200/nb.jpg" width="157" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;El rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do Marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico de meu Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste no meio do tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;O rei olha para mim com simpatia. Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o. Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;-Preparem-me esse coelho, que tenho fome.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas de gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo que cidades e lugares apreciaram. Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor. Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;-Senhor,- agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;-Muito bem – responde o rei. Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-me.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingênua excitação. Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal que entrou no meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço de rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo.&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;Percebe como tudo está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem. Ah, não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico. Matei por amor do amor – e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;O moço sobe a escada com a bandeja onde meu coração é um molusco quente e sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o meu sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura de seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé, temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul do céu, acima dos telhados. Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro expande-se liricamente no ar. Estamos nos começos de junho. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o pênis. Um moço vai perguntar ao rei se podem fazer, mas este recusa.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;-Só o coração, diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda-me a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este meu povo bárbaro e puro as boas palavras violentas. Um filete de sangue escorre do queixo de D. Pedro e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto de seu plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma vez e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima. Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;Talvez que a sua inspiração não termine aí, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força do fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta de nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do Inferno, manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;(Herberto Helder. Os passos em volta. Lisboa: Assírio Alvim.p 121-125.)&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;TEXTO ESSENCIAL PARA A ANÁLISE DOS TEXTOS SEGUINTES SOBRE O MITO NA FICÇÂO DO SÈCULO XX&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s1600/nb.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;CONTINUA&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/9095738468872667979/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/9095738468872667979?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/9095738468872667979" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/9095738468872667979" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/teorema-uma-desconstrucao-do-mito-de.html" rel="alternate" title="Teorema: uma desconstrução do Mito de Inês de Castro?  (Parte XV)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFgye0NAiES3fs3MSZsOiO3FZKaFSOGauYtjvAKg672dZYjdudQ2m_l5rlegJYefAMjBduKim8xbLwKz9E3sNiVaAbJ_Xq5A_MINmsVEypOpIrGGTg2zB6cMgpxtBzqVA-misGBq7gF-QI/s72-c/nb.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-986638843859234084</id><published>2013-02-08T20:00:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T13:03:57.343-03:00</updated><title type="text">Desconstrução do mito do amor-paixão na ficção do século XX-  (Parte XVI)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s1600/1279130555.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="180" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s200/1279130555.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As evidentes e multifacetadas alterações que caracterizam a experiência humanas no século em curso também se fazem sentir no tratamento que é dado ao tema AMOR na literatura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dentre as muitas formas de abordagem literária, sobressai a desestruturação do modelo mítico tradicional, como ocorre em “Teorema”, de Herberto Helder, no qual se pode observar uma outra versão desmistificadora do drama de Inês de Castro. O assassinato de Inês, sempre evocado para alimentar a ideologia dominante, neste conto é encarado sob uma outra perspectiva: o assassino conta a sua morte, e impregna toda a narrativa com um tom de crítica às tradições da “velha ordem”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
TEOREMA.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Herberto Helder, mais de cinco séculos depois do tragédia amorosa de D. Inês de Castro e D. Pedro de Portugal, escolhe-a como tema de um conto: Teorema. Esta palavra, dicionarizada, significa qualquer proposição que, para ser admitida ou se tornar evidente, precisa ser demonstrada. Quem faz a proposição e quem a demonstra é o que pretendemos descobrir.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O conto é narrado em primeira pessoa. O narrador é Pero Lopes Coelho, um dos assassinos de Inês.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A narrativa começa qualificando D. Pedro com o epíteto “o Cruel”. Coelho, o narrador, gosta do Rei “louco, inocente e brutal” e todos os adjetivos são no sentido de caracterizar D. Pedro em clima de violência suavizado por termos como “rosto melancólico” e “meu pobre senhor” e ainda “o rei olha para mim com simpatia”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O narrador matara Inês, o que é uma demonstração de crueldade e selvageria semelhante à do Rei, que agora o mata. Não estaria o narrador igualando-se ao Rei e esta não seria a razão de trocarem-se simpatias? Ou ainda – o matar o matador de Inês não seria a complementação de uma mesma obra?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Narrador declara: “matei-a para salvar o amor do Rei. D. Pedro sabe-o”. É uma narrativa tranqüila em que a selvageria não chega a perturbar-nos. O que nos perturba é exatamente a tranqüilidade, como se a fatalidade histórica estivesse a desfiar seus fatos, isenta de qualquer responsabilidade no desenrolar deles. Inês era a amada-amante do Rei. Coelho mata-a para salvar aquele amor. O Rei sabe disso, é, portanto conivente no crime. E o narrador continua:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“O que este homem trabalhou na nossa obra!”&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É de D. Pedro que Coelho fala. O Rei conhece o jogo: trata-se de construir um amor. E ele colabora grandemente:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo., entre e cantos fúnebres. Foi tochas um terrível espetáculo que cidades e lugarejos apreciaram”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É tudo calmo, tudo pensado, tudo consciente. Coelho, que vai morrer, agradece ao Príncipe a sua morte. E oferece-lhe a de Inês: necessária para que aquele amor se salvasse. Mas aqui a pergunta ao teorema que está sendo demonstrado: se salvasse como, se o grande amor estava sendo construído? A morte de Coelho em praça, era mais um detalhe da construção. E quem era o arquiteto desse amor? O “coração fumegante” aparece e D. Pedro o come. Pedro, “triste, embora, ao mesmo tempo se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo”. Tudo se completando, tudo interligado. Pouco a pouco, aquele arquiteto ainda anônimo completando sua obra. E Coelho sabe que vai para o inferno: seu país é católico. Assim, o contexto em que alguma coisa muito grande está sendo construída fica pronto. Faltava o católico inferno. As personagens podem ser colocadas, então, ou no céu ou no inferno, as duas localizações das almas que pertencem ao paradigma do mundo católico. Aquele “matar por amor do amor” , do espírito demoníaco, coloca Coelho no inferno. Mas também Pedro e Inês, “criaturas infernais” ;lá estão. E estão, por que? Se o narrador diminui a paixão de Pedro classificando Inês “amante favorita” e se Inês não matara ninguém e ele nada diz a respeito dos sentimentos dela, por que razão também é colocada nas chamas eternas? Mas, estamos em meio da demonstração de um teorema. Deixemos que ela se complete.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Rei está “à altura de seu cargo”. Seu povo é um povo “de alma obscura, religiosa”. É cheio de fé: “fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade”. E ele, o Rei, é um exemplo vivo disso tudo. Mas, diz ainda o narrador: “somos todos loucos”. A partir dessa última afirmação, raciocinemos: em primeiro lugar, temos um rei à altura de seu cargo – o de rei. Assim, o rei está de um lado, comandante, e o povo está do outro, os comandados. Mas, a descrição do povo, cheio de fé, demonstra que rei e povo são iguais.  E aí une os dois elementos. Vem, então, a frase que o faz juntar-se a rei e povo – “somos todos loucos”. Agora, sim, pode-se questionar essa loucura coletiva: estariam todos, a partir da fé-loucura, construindo o amor de Pedro, parte fundamental do teorema em demonstração?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O narrador vê o azul do céu e vê uma pomba passar. A justiça estava feita. E a justiça é aqui vingança, a colocação das peças em seus lugares próprios. A vingança fecha o círculo, completa o trabalho: por amor ao amor Coelho matara e por amor Pedro completará a obra. A vingança é o instrumento da tranqüilidade e, assim, a pomba e o azul do céu são coerentes no contexto.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A pomba passa em frente à “janela manuelina”, chamada “relíquia” em outra parte do conto. Mas que “relíquia” se D. Manuel ainda viria a pertencer ao contexto histórico?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Análise do texto&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Principiemos a nossa análise pelo título do conto, pista consistente para a ambigüidade que o percorre, já que pode ser analisado em dois sentidos. Na sua acepção mais evidente, como a veicularam as ciências matemáticas, “teorema” significa uma proposição demonstrável a partir de axiomas, ou seja, uma proposição que, para ser admitida, precisa de demonstração que comprovará a evidência da tese. Mas existe uma forma de perturbar a lógica deste procedimento, por redução do teorema ao absurdo, inversão de caminho que, no entanto, chegará à mesma verdade. Para que se tenha um exemplo, seria provar que “duas retas paralelas não se encontram” através de uma demonstração que começasse assim: “sejam A e B duas retas paralelas, cujo ponto de encontro é X.” . Ao se verificar que “retas que têm ponto em X são concorrentes e não paralelas”, teríamos a verdade alcançada via absurdo. Ora , é em torno de algo semelhante que gira o “Teorema” de Herberto Helder, aproveitando ao máximo aquele andamento, próprio do conto, rumo ao desfecho e ao epílogo: com as frases “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”, ditas por Pero Coelho e colocadas logo no primeiro parágrafo, opera-se a inversão da “verdade histórica”, ou daquilo que se tem tomado como tal – um crime praticado por razões políticas. O que sempre pareceu barbárie e manifestação de instintos primários, adquire altíssima finalidade, em última instância comprometida com o modo de ser do povo português. Esta é a proposição que o conto visa demonstrar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Atentemos para a estrutura e o significado das orações supracitadas, a falar pela intenção de ser exato: o primeiro período, composto por subordinação, contém uma oração reduzida de infinito, subordinada adverbial final, que dispõe sobre a intencionalidade, a premeditação do objetivo. O segundo período, simples, de verbo no presente, taxativo na redução do sentido essencial a sujeito e predicado, instaura uma estranha conivência entre o rei e sua futura vítima. A estranheza advém não só do ângulo adotado para justificar o crime, mas, acima de tudo, da inesperada aquiescência de D. Pedro. As orações, separadas entre si e do resto do parágrafo por ponto simples, fazem pensar em móbiles, que, embora presos a um ponto comum, flutuam independentes. Ápice do raciocínio que se desenvolve ao longo do parágrafo, dele vão sendo fornecidos indícios que garantem a coesão das idéias: “Gosto deste rei louco, inocente e brutal”, onde “inocência” e “brutalidade”( veja-se a ordem das palavras) são atributos de essência antagônica, a explicar a “loucura” e a tornar obscuros os motivos que levam a vítima a “gostar” de seu algóz. Em seguida, “O rei olha para mim com simpatia” gesto tão menos compreensível quando se considera a violência do castigo que sua real vontade impingirá ao condenado. Nessa seqüência, aquelas orações – “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”- adquirem plausibilidade, referendadas pela realidade heterodoxa que o conto instaura. É a “lógica do absurdo”, o primeiro dos sentidos que parece ter a palavra “teorema”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A segunda acepção vincula-se à etimologia do vocábulo: theorema ( latim), significando “o que se pode contemplar” e, por extensão, “espetáculo”, “festa em geral”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dois pormenores sugerem ter sido o conto concebido como um “espetáculo” que se oferece à “contemplação” das personagens e do leitor : 1) a disposição do cenário como um pequeno circo ( “El-rei D.Pedro, o Cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira”), para onde acorrem o “barbeiro de bigode louro” e o populacho curioso e anônimo. Além disso, é evidente a teatralidade de toda a cena: o moço do rei que espera com a bandeja de prata e que, mais tarde, sobe escadas; D. Pedro a erguer ante a multidão o coração que sangra; o banquete sinistro; os soldados que se dispersam, etc.. 2) A incidência do verbo ver ( “vejo”, vê-se”, vendo”, etc) e de seus correlatos ( “olho”, “verifico”, “percebo”,etc), muito notória até meados do conto e escasseando rumo ao epílogo, como se a insistência se fosse tornando desnecessária à medida que progride a “demonstração”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considerando-se que “a visão se propõe como inalienável ao conhecimento do ser, podemos conceber os vários apelos às várias formas de ver nos coloca diante de uma realidade ainda ignorada e que precisamos “aprender” a conhecer, “lição” de que se incumbe o conto Teorema.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dessa perspectiva, juntam-se ambos os significados de “Teorema”: a revisão que o conto se propõe – de um episódio mítico-lendário e, por extensão, de todo o passado histórico português - exige argumentos convincentes, embora de lógica própria, para que o leitor (e/ou espectador) descortine ( e/ou veja) a verdade por trás das aparências.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Outra vez, dois aspectos parecem apelar de imediato para essa fusão de sentidos: 1) além de a perspectiva adotada para o conto ser a do narrador homodiegético ( da chamada 1ª pessoa) , o que implica uma visão da realidade a que se tem de amoldar quem está de fora, aqui no caso ele é Pero Coelho, assassino e assassinado, que reivindica intenção nobre para o seu crime e que bendiz e “compreende” o do seu algoz. Essa equação absurda insere-se num a-tempo, porque a narração acompanha os momentos finais do “morto”, antes, durante e depois do suplício; 2) tanto o raciocínio vai num crescendo, proporcional à ampliação da capacidade de “ver”, que, no instante climático de sua morte, diz o narrador: “Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem”. O verbo “perceber” significa “conceber pelos sentidos, “abranger com a inteligência”, “conhecer”- ato supremo do entendimento, portanto, a indicar que o mistério foi intuído ( decifrado?). A partir deste ponto-chave , que muito significativamente é o da morte, Pero Coelho, com a segurança de quem “conhece”( ou de quem vê”), passa às generalizações: atente-se que no resto do parágrafo predomina o verbo SER e, no seguinte, a primeira pessoa do plural, quando “eu” e “nós” se dissolvem na mesma “loucura”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Maria Terezinha do Prado Valadares&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/986638843859234084/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/986638843859234084?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/986638843859234084" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/986638843859234084" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/desconstrucao-do-mito-do-amor-paixao-na.html" rel="alternate" title="Desconstrução do mito do amor-paixão na ficção do século XX-  (Parte XVI)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgh_QXCruZrwagUFuTpx0ig0Gelh7RIO9Km-oLqjI0uMc5s5fjcllgJt1hh_2CIbdSBWAMKwrbA8e8t9XxcQs3QD4Hct9IPJPOGxJzdumIFPNZ9BFPK0HuyoMi7BZBRLIMySAk08FGQgKc/s72-c/1279130555.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-5619042863059313214</id><published>2013-02-08T19:47:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T11:50:36.407-03:00</updated><title type="text">Conto Teorema, de Herberto Helder (Parte XVII)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s1600/fui+amada.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="160" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s200/fui+amada.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;
El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira.  Gosto deste rei louco, inocente e brutal.  Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto a cabeça, torno o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor.  Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste ao tempo.  D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados.  Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens.  O rei olha para mim com simpatia.  Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês.  Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota.  Que desejava salvar o Reino da influência espanhola.  Tolice.  Não me interessa o Reino.  Matei-a para salvar o amor do rei.  D. Pedro sabe-o.  Olho de novo para a janela onde se debruça.  Ele diz um gracejo.  Toda a gente ri.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
— Preparem-me esse coelho, que tenho fome.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O rei brinca com o meu nome.  O meu apelido é Coelho.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que este homem trabalhou na nossa obra!  Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres.  Foi um terrível espetáculo, que cidades e lugarejos apreciaram.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.  Levanto-me e fico bem defronte do edifício.  Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu suplício.  Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
— Senhor — digo eu —, agradeço-te a minha morte.  E ofereço-te a morte de D. Inês.  Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
— Muito bem — respondeu o rei.  Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro.  Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação.  Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal.  Estremeço de frio.  Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas.  Uma pancada de alto a baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos.  Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado.  A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo, se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo.  Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem.  Ah, não tenho medo.  Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico.  Matei por amor do amor — e isso é do espírito demoníaco.  O rei e a amante também são criaturas infernais.  Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu.  Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas.  Detesto a rainha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e sangrento.  Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela.  O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita.  Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo.  Ouvem-se aplausos.  Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim.  Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra.  Somos também um povo cheio de fé.  Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade.  Somos todos loucos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados.  Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina.  O claxon de um carro expande-se lìricamente no ar.  Estamos nos começos de junho.  Ainda é primavera.  A terra está cheia de seiva.  A terra é eterna.  À minha volta dizem obscenidades.  Alguém sugere que me cortem o pénis.  Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
— Só o coração — diz.  E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente.  A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda a alma ao Diabo.  Eu gostaria de poder agradecer a este povo bárbaro e puro as suas boas palavras violentas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente.  O rei come o meu coração.  O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.  O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu plinto de granito.  As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima.  D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça.  Aclama-o o povo mais uma vez, e dispersa.  Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima.  Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim.  Meditaremos.  Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade.  O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.  Talvez não termine aí a sua inspiração, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado.  O seu corpo ir-se-á reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura.  E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração.  D. Inês tomou conta das nossas almas.  Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda.  Entra devagar nos poemas e nas cidades.  Nada é tão incorruptível como a sua morte.  No crisol do inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos.  O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração.  Que ninguém tenha piedade.  E Deus não é chamado para aqui.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
HELDER, Herberto.  "Teorema", in: &lt;i&gt;Os Passos em Volta&lt;/i&gt;.  3a ed. Editorial Estampa, 1970&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/5619042863059313214/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/5619042863059313214?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5619042863059313214" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5619042863059313214" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/conto-teorema-de-herberto-helder-parte.html" rel="alternate" title="Conto Teorema, de Herberto Helder (Parte XVII)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgWq0EzX2mU5y27FqD1uYXqkxGjCry6ksRIq98RgfR_oBQRaGq9GjXoHYj0b641_UtHkR8Wh-iAwhpgW0WsRZ9sCdCCI15_HTgYM8xi8_nIDCYa9BSp3NV8yVFIZeJxdQvEu93CtQici-0p/s72-c/fui+amada.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-2584775831644735784</id><published>2013-02-08T19:29:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T11:44:36.134-03:00</updated><title type="text">Teorema: Uma Verdade Demoníaca (Parte XVIII)</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s1600/download.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s200/download.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No século XIV há, no espírito acentuadamente religioso do homem medieval, uma preponderância da devoção ao Cristo sofredor, ao Cristo da Paixão. A cruz passa a ser o símbolo da humanidade e do suplício; Cristo é o Rei coroado de espinhos e sua humanização aparece com destaque na iconografia da época. É a realeza de Deus feito Homem que invade a espiritualidade e a arte do século XIV.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entretanto, um personagem disputa o poder com Deus, no Céu e&amp;nbsp;na Terra: o Demônio. A luta entre eles explica, para o homem da Baixa Idade Média, todos os acontecimentos. A ortodoxia cristã condenava o maniqueísmo por basear-se na crença em dois deuses, um deus do Bem, pertencente ao Céu, e um deus do Mal, criador e senhor da Terra. Apesar de a Igreja condenar o maniqueísmo, considerando-o uma heresia, a tradição popular colocara Deus e o Demônio no mesmo plano e dava ao último um justo poder sobre o homem, expresso pelos direitos do Diabo. A humanidade se via bipartida, a intolerância se tornava implacável. O homem medieval vivia sob a ameaça da aparição do demônio, demônio que se apresentava sempre como sedutor, sob uma enganadora e atraente aparência, ou como perseguidor, a oferecer-se sob um aspecto terrível. Pretendido aqui na terra por Deus e o Diabo, o homem é, na morte, o objeto de uma última e decisiva disputa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No conto TEOREMA, é a vitória do demônio que Herberto Helder retrata. Um demônio que movimenta a ação histórica e se perpetua nas ações humanas; na janela manuelina, no monumento a Sá Bandeira, em Inês transformada em fonte da poesia.&lt;br /&gt;
&lt;a href="https://www.blogger.com/null" name="more"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em Teorema há uma execução que pune um assassino. O que se conta são as emoções experimentadas pelo narrador-personagem, emoções intimamente ligadas ao prazer de destruição, ao desejo de matar outrem. Um dos efeitos dessas emoções é inverter a situação, tornar o pecado um ato de grandeza, o assassinato, uma salvação – e desfrutar o prazer dessa inversão.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O personagem-narrador [...] sente um orgulho terrível de seu crime e sua destrutividade alcança aqueles a quem admira. Há uma glorificação da crueldade e Pero Coelho não apresenta sinais de remorso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D. Pedro é o instrumento da justiça, tal como nas crenças helênicas, é necessário vingar os mortos, se a morte foi violenta; pois, no Hades, a vingança contra a ofensa sofrida é essencial para a paz depois da morte. Se a Mãe Terra foi manchada de sangue, ela e o povo octoniano ( os mortos) clamam por vingança. Assim,.D. Pedro ordena o assassinato de Pero Coelho e internaliza D. Inês; enquanto preserva o amor que os ligava, realiza a união com o objeto perdido. A fantasia de que o objeto internalizado, morto, mantém, quando amado, vida própria, está em consonância com a convicção do narrador de que D. Pedro será possuído por D. Inês, morte e rediviva.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“O rei estará insone no seu quarto sabendo que amará para sempre a minha vítima. Talvez que sua inspiração não pare aí, ele se torne cada vez mais cruel e inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força do fogo interior, e sua paixão será sempre mais vasta e pura” .&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pero Coelho matou D. Inês e diz que o fez para salvar o amor do rei. D. Pedro manda matar Coelho para vingar a morte de D. Inês. A seqüência crime-castigo-crime faz nascer o demônio comum aos envolvidos na tragédia, reforça a ambição e anula a humildade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Herberto Helder, com poesia e aspereza, busca um desprendimento acima de princípios éticos, mostra predileção pelas situações de marginalidade, onde, no extremo da violência e do cinismo, os seres podem gerar uma solidariedade sem sentimentos condicionados.  Todos extraem da dor, do suplício a seiva da liberdade, mesmo que essa liberdade só se apresente na morte. A morte é o monstro que, ao longo da ficção, aprisiona os personagens para introduzi-los na perenidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Nada é tão incorruptível como sua morte. No crisol do Inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos.”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A sugestão do pecado é uma presença constante e, quando ocorre o crime, ainda há a possibilidade de redenção, porque o amor destrói, mas é a única tentativa de resgatar o vazio da existência e de penetrar nos intrigantes mistérios da alma. A narrativa parte dos limites físicos da vida para explorar os abismos da psique humana. Herberto Helder traz o crime para o primeiro plano da vida e do texto; com um “close” no Mal, mostra-se um libertino, nega qualquer cerceamento para dar voz à sua verdade demoníaca:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ö demoníaco de Teorema já se manifesta na primeira pessoa do singular, na “possessão” de um narrador pelo outro, numa pretendida comunhão total entre eles; está presente no gosto pela brutalidade, paixão e culpa; engrandece o espetáculo de uma vida que cultua a morte violenta e desejada, planejada e assustadora. Coelho detesta o amor limitado, odeia o perdão e se deixa assassinar pelo demônio escolhido, depois de organizar a obra que lhe assegura a eternidade: a morte pela mão satânica, assim como descrição desse momento por um outro-si mesmo:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Percebo como tudo está tão ligado, como é necessário que todas as coisas se completem. Ah, não tenho medo.  Sei que vou para o Inferno, visto que sou um assassino e meu país é católico. Matei por amor do amor – e isto é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se o mundo nasceu da queda do homem, Teorema celebra o homem decaído e parodia a missa cristã. Repete a comunhão, não com o sentido de união com o salvador, mas como algo hostil a Deus, realizado por um ser intermediário e maléfico.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Filho de Deus não se torna homem; ao contrário, o homem se torna filho do Demônio. Não se trata da simples execução de um criminoso, trata-se de libertar o demoníaco que existe no humano para consagrar seu poder e glória, multiplicar e prolongar sua presença aqui na Terra. Na Eucaristia, Cristo está presente no pão e no vinho, e reúne num banquete sagrado aqueles que foram escolhidos para integrar o povo de Deus. Assim será até o fim dos tempos. “Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” diz o Novo Testamento.  Em Teorema, Coelho não é um morto que se  lamente. Ele adquire uma permanência misteriosa, uma presença maior. Também Inês, que morreu em suas mãos, e D. Pedro em quem vive. Como Cristo, o demônio continuará existindo sempre; tal como o Espírito Santo animava os apóstolos, D. Inês, transfigurada em labareda, anima os dois assassinos e unifica-os; torna-se Senhora da Morte e da vida em plenitude.  D. Inês é aqui a deusa do amor misterioso, mistura de Circe e de Medéia. Como Circe, representa a sedução, é a mulher que faz dos homens o que bem entende; como Medéia, é o arquétipo do trágico feminino a imortalizar a vingança. Vivem todos três. Inês é a labareda, símbolo da purificação e imagem do espírito de transcendência, sopro de revolta, brasa que se consome e que é inesgotável.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ao exaltar o demoníaco, Herberto Helder envolve a narrativa num clima satírico, para revelar a falência de valores sociais apoiados em contradições éticas e históricas. Desmitifica heróis e vilões da História, mostra que essas polarizações se resolvem num jogo de máscaras que se substituem nas relações de poder.  Teorema é a paródia de uma confissão. Ao invés do pecador arrependido que se propõe a não cair mais em erro, temos a afirmação de uma autêntica natureza demoníaca, num discurso sarcástico que desperta o leitor para o enfrentamento com a verdade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há uma carnavalização do texto que transgride as normas do código narrativo ( por intervir no tempo) e as normas do código ético ( pela exaltação do demoníaco). A “verdade”está em crise, as personagens recebem uma caracterização particular e jogam com a máscara para exibir uma nova realidade. A história “verdadeira”, a que existe nos documentos, sofre uma descentralização do ponto de vista, o que permite a leitura de seu avesso e uma interpretação que o presente faz do passado. Teorema apresenta uma leitura intertextual com o Novo Testamento, notadamente com a Paixão de Cristo. Uma comparação entre os dois textos deixa clara as aproximações e os desvios.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
NOVO TESTAMENTO&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Então cuspiram-lhe no rosto e feriram-no a  pauladas; e outros deram-lhe bofetadas no rosto dizendo. Adivinha, Cristo, quem é que te fere?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Mateus, 26;67 – 68)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E depois de o terem escarnecido, despiram-no de seus vestuários e vestiram-no de púrpura e levaram-no para o crucificarem. E obrigaram um certo homem que ia a passar por ali, Simão Tirene, a tomar a cruz de Jesus. E conduziram-no ao lugar do Gólgota que quer dizer “lugar do crânio”.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Marcos, 15,20-22)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas quando chegaram a Jesus, tendo visto que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(João, 19,33-34)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estando eles, porém, ceando, tomou Jesus o pão e benzeu-o e partiu-o e deu-o a seus discípulos e disse: Tomai , e comei, este é o meu corpo. E tomando o cálice, deu graças”: e deu-lho dizendo: Bebei dele todos. Porque este é o meu sangue que será derramado por vós e por muitos para remissão de pecados. Mas digo-vos: que desta hora em diante, não beberei mais deste fruto da vida até aquele dia em que o beberei de novo convosco no reino de meu pai.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Mateus, 26-29)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
TEOREMA&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor.(p. 121.)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingênua exaltação. Escolhem-me um sítio nas costas para enterrar o punhal. (p. 122)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas. Uma pancada de alto a baixo do meu corpo e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço do rei com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. (p. 122)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
-Só o coração, diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. (p. 123)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. (p. 123)&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui. (p. 125)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;b&gt;CONTINUA...&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/2584775831644735784/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/2584775831644735784?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2584775831644735784" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/2584775831644735784" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/teorema-uma-verdade-demoniaca-parte-xix.html" rel="alternate" title="Teorema: Uma Verdade Demoníaca (Parte XVIII)" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s72-c/download.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-4825020014834478857</id><published>2013-02-06T22:29:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T11:39:13.307-03:00</updated><title type="text">O Mito do Amor-Paixão na poesia do Século XIX</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj9bVNMA-cVRU97HFbYL-AHjVIvV0KrnSLW6bS2uReDr9vOX7qRQh7z0h3xrqX_WC6OUDWAMo8fTOyTmJqxPu2ugOuOw2Qr96Glr9KsW44zr__kjKAnyCH6hedDJCNOikRo1goIFyHRWAyC/s1600/download+(2)ccc.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj9bVNMA-cVRU97HFbYL-AHjVIvV0KrnSLW6bS2uReDr9vOX7qRQh7z0h3xrqX_WC6OUDWAMo8fTOyTmJqxPu2ugOuOw2Qr96Glr9KsW44zr__kjKAnyCH6hedDJCNOikRo1goIFyHRWAyC/s1600/download+(2)ccc.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Finalizamos aqui o nosso estudo acerca do Mito do Amor-Paixão na Literatura.&lt;br /&gt;
Dentro da “linha do espiritual” passamos ao estudo do poema de António Manuel Couto Viana “Madrigal “,o qual nos revela que a vontade de retornar ao “amor lirismo” é universal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda é possível este amor&lt;br /&gt;
Como um regresso ao paraíso?&lt;br /&gt;
Aroma apenas de uma flor?&lt;br /&gt;
O beijo apenas de um sorriso?&lt;br /&gt;
Ainda é possível este amor?&lt;br /&gt;
Qual a resposta que preciso?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E nada digo! E nada dizes!&lt;br /&gt;
Tudo nos basta num olhar&lt;br /&gt;
E que tu, mão, lisa, deslizes&lt;br /&gt;
Por sobre a minha, devagar...&lt;br /&gt;
Com pouco somos tão felizes&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que é já demais pedir luar!&lt;br /&gt;
E é já demais esta poesia&lt;br /&gt;
Se há cada vez menos valor&lt;br /&gt;
Nas tais palavras que diria&lt;br /&gt;
Para dizer-te o som e a cor&lt;br /&gt;
De um coração em harmonia&lt;br /&gt;
Que só se diz, dizendo: Amor!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Notar, nos dois primeiros versos, a posição favorável do poeta à idéia de “amor ideal” ligado a “paraíso”.&lt;br /&gt;
Assim. a palavra “paraíso” reporta-nos, primeiramente, à história bíblica de Adão e Eva e, depois, a uma passagem do Mito de Tristão e Isolda, na qual o casal vive na floresta o seu amor ideal, numa paisagem também ideal, paradisíaca,&lt;br /&gt;
&lt;a href="https://www.blogger.com/null" name="more"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Essa paisagem ideal ( o locus amoenus) está presente no poema, na medida em que o amor se refere a um campo todo espiritual sem menção de materialidade.&lt;br /&gt;
Já que evocamos o ambiente da floresta do mito, estaria ele também imbuído de uma espiritualidade? Achamos que sim, pois na passagem da história de Tristão e Isolda em que o rei Marc encontra os dois amantes , na floresta, deitados lado a lado, mas separados pela espada da castidade, Logo a igualdade proposta torna-se válida.&lt;br /&gt;
Em relação ao poema, temos presentes os sentidos, mas todos despidos de sensualidade, à moda dos trovadores medievais:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Olfato:&lt;/strong&gt; Aroma apenas de uma flor&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Visão:&lt;/strong&gt; Tudo nos basta num olhar&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Tato:&lt;/strong&gt; E que tu, mão, lisa, deslizes&lt;br /&gt;
Por sobre a minha, devagar...&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Audição:&lt;/strong&gt; E nada digo! E nada dizes!&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Tato/visão:&lt;/strong&gt; O beijo apenas de um sorriso? ( afirmados pela negação)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, está implícita a oposição entre material ( século XX) e espiritual ( século XII “paraíso”&lt;br /&gt;
Século XX : exaltação dos sentidos / luar das paisagens estereotipadas / palavras gastas.&lt;br /&gt;
Paraíso: {Aroma de uma flor } / não há necessidade de luar / apenas uma palavra “Amor!”&lt;br /&gt;
{Beijo de um sorriso }&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LEIA MAIS, clicando na frase abaixo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As palavras já estão gastas e também o luar das paisagens estereotipadas sobre o qual já se falou tanto; certo tipo de poesia também é apenas um amontoado de palavras sem nexo que não exprimem o amor, pois este “... só se diz, dizendo: Amor!”&lt;br /&gt;
E a oposição continua através de dois advérbios: o que para o mundo representa POUCO, para eles é MUITO: “Com pouco somos tão felizes”&lt;br /&gt;
Podemos dizer que o poema é todo construído a partir da duplicação:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda é possível este amor?&lt;br /&gt;
Aroma apenas de uma flor?&lt;br /&gt;
Beijo apenas de um sorriso? } Todas essas construções binárias são equivalentes&lt;br /&gt;
E nada digo! E nada dizes!&lt;br /&gt;
Que é já demais pedir luar!&lt;br /&gt;
E já é demais esta poesia&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, portanto, no poema, uma nítida evocação de épocas passadas que entram em oposição à época presente, O próprio título do poema MADRIGAL, refere-se a um gênero nascido provavelmente no século XIV. Na sua origem, é uma peça a duas vozes de caráter profano. Mas os elementos literário e musical assumem nele idêntica importância: foi cultivado por Dante, Petrarca e Boccacio.&lt;br /&gt;
Observar o clima de silêncio de que é penetrado o poema. Como as palavras já estão gastas pelo uso, não há necessidade de rebuscamentos, pois para os amantes,&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tudo nos basta num olhar&lt;br /&gt;
E que tu, mão, lisa, deslizes&lt;br /&gt;
Por sobre a minha, devagar...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observar ainda que esse clima de silêncio é evocado também pelas aliterações das sibilantes /s/ , /z/ e das chiantes pós-vocálicas que sugerem sussurro, completadas tmbém pelo som das laterais /l/ e /lh/, na segunda estrofe.&lt;br /&gt;
Na primeira estrofe o ritmo é mais acelerado, através do enjambement que liga o primeiro verso ao segundo, culminando este numa pergunta. Seguem-se quatro versos interrogativos. Todos eles se referem à procura de um amor diferente do século XX. O quarto reflete a pergunta íntima do poeta “Qual a resposta que preciso?”&lt;br /&gt;
Nas duas estrofes seguintes, não há mais interrogações; oróprio poeta incumbe-se de responder ao que perguntou. Usa exclamações, reticências, pausas, reiterando o clima de sussurro evocado pelos sons.&lt;br /&gt;
Na terceira estrofe, os versos encadeados, num ritmo crescente que culmina numa parada de dois pontos antes da palavra final “Amor!” que fica soando como um eco.&lt;br /&gt;
É interessante notar que tanto a primeira rima do poema, quanto a última, são formadas pela palavra amor.&lt;br /&gt;
A repetição do verbo dizer, que aparece nessa estrofe 4 vezes, vai evidenciar a importância de “amor”.&lt;br /&gt;
Como Cecília Meireles, o poeta português António Manuel procura revitalizar o mito do amor-paixão no século XX, continuando a “linha do espiritual”. Assim, também, Sophia de Mello Breyner Andresen, com o poema ‘Tristão e Isolda”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Tristão e Isolda".&lt;br /&gt;
Sophia de Mello Breyner Andresen&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sobre o mar de Setembro velado de bruma&lt;br /&gt;
O sol velado desce&lt;br /&gt;
Impregnando de oiro a espuma&lt;br /&gt;
Onde a mais vasta aventura floresce.&lt;br /&gt;
Tristão e Isolda que eu sempre vi passar&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Num fundo de horizontes marítimos&lt;br /&gt;
Trespassados como o mar&lt;br /&gt;
Pela fatalidade fantástica dos ritmos&lt;br /&gt;
Caminham na agonia desta tarde&lt;br /&gt;
Onde uma ânsia irmã da sua arde. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tristão e Isolda que como o Outono&lt;br /&gt;
Rolando de abandono em abandono&lt;br /&gt;
Traziam em si suspensa&lt;br /&gt;
Indizivelmente a presença&lt;br /&gt;
Extasiada da morte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao qualificar o episódio de Tristão e Isolda como a “mais vasta aventura”, Sophia já atribui ao fato uma dimensão mítica. E essa “aventura”deve ser analisada no plano simbólico, pois é trazida desde a Idade Média até o século XX, “rolando de abandono em abandono”.&lt;br /&gt;
Notar que o verbo no gerúndio sugere o escoamento do tempo e a eternidade e a continuidade do mito.&lt;br /&gt;
A segunda e a terceira estrofes iniciam-se da mesma maneira, isto é, com a anáfora “Tristão e Isolda” que adquire um segundo sentido , através da leitura mais aberta que deve ser dada ao poema.&lt;br /&gt;
A palavra “aventura” remete para a atmosfera dos grandes romances de cavalaria, ao mundo lendário das estórias medievais e ao clima do próprio mito.&lt;br /&gt;
Vejamos os sentidos que assume a anáfora “Tristão e Isolda”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sentido 1- Tristão e Isolda trazidos para o século XX através da evocação de Sophia,&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caminham na agonia desta tarde&lt;br /&gt;
Onde uma ânsia irmã da sua arde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sentido 2 –Tristão e Isolda do mito medieval&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
....que como o Outono&lt;br /&gt;
Rolando de abandono em abandono&lt;br /&gt;
Traziam em si suspensa&lt;br /&gt;
Indizivelmente a presença&lt;br /&gt;
Extasiada da morte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O poema pode ser lida através de 3 movimentos, de acordo com a divisão de estrofes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- localização do espaço&lt;br /&gt;
2- Tristão e Isolda do mito trazidos para o século XX,&lt;br /&gt;
3- Tristão e Isolda do Mito medieval.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No primeiro movimento, a autora situa o espaço. A atmosfera é velada e misteriosa. Até o sol, que naturalmente é luminoso, aparece acompanhado do adjetivo “velado” que qualifica tanto o “sol” quanto o “mar”. Vale lembrar que , na Europa, o mês de Setembro assinala o início do Outono e o fim do Verão.&lt;br /&gt;
Notar que o espaço evocado não está imerso em uma obscuridade total, pois se trata de um cenário de final da tarde, ou seja, o ocaso, com o sol se pondo na linha do horizonte que se reúne ao mar. o jogo de claro X escuro é que vai sugerir o clima de mistério.&lt;br /&gt;
É mais misterioso o que apenas vem sugerido do que aquilo que se esconde de forma total. A bruma que desce sobre o mar onde o sol de deita, acrescenta uma nota de serenidade ao mistério do momento, mágico em que o dia se encontra com a noite e o sol banha de luz o mar, derramando ouro sobre a brancura da espuma. O poema se abre, assim, envolvendo-nos numa atmosfera de densa poeticidade, levantando um vasto campo de beleza, quase de sonho, mas também gerando uma atmosfera de morte, se associarmos o ocaso com a morte do dia, a agonia da tarde, o entristecer do fim do dia, O verso final da primeira estrofe, a palavra “vasta” concede à “aventura” um sentido de prolongamento no tempo e de grandeza associada à história de Tristão e Isolda, ao amor eterno que os liga e se expande através dos séculos.&lt;br /&gt;
No segundo movimento ( segunda estrofe) , a autora define o tempo “na agonia da tarde “ precisando que tudo se passa num crepúsculo. Neste segundo movimento, Tristão e Isolda são imagens suscitadas e presentificadas pela imaginação da autora. O advérbio de tempo “sempre” conota o tempo da eternidade que a autora confere ao casal mítico. Ela, a autora, se coloca como a própria Isolda do século XX, pois tem “uma ânsia irmã da sua”. O pronome demonstrativo “desta”, por sua vez, vai trazer o mito para o século XX.&lt;br /&gt;
Quando Sophia diz “que eu sempre vi passar”, o verbo VER não precisa ser entendido no sentido literal, mas pode remeter a um sentido simbólico de recordação.&lt;br /&gt;
Tristão e Isolda vêm para o presente através da lembrança, da recriação poética, do imaginário lírico. Pode-se dizer que ocorre uma contemplação evocativa de Sophia que vê através do tempo. O passado que ela procura trazer para o presente não está longe, nem terminou, porque é mítico. Portanto se renova sempre, renasce, ressurge ao longo dos tempos.&lt;br /&gt;
O primeiro movimento, que diz respeito à colocação do espaço, é a própria natureza que faz a autora “recordar”. Tristão e Isolda são comparados ao mar porque, como as ondas, eles também rolam fatalmente, irreversivelmente, num ritmo continuado de vai e vem contínuo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“MAR ......rolando para praia = Tristão e Isolda .......rolando pelas gerações, para o futuro.&lt;br /&gt;
Final do ensaio.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/4825020014834478857/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/4825020014834478857?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/4825020014834478857" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/4825020014834478857" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2013/02/o-mito-do-amor-paixao-na-poesia-do.html" rel="alternate" title="O Mito do Amor-Paixão na poesia do Século XIX" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj9bVNMA-cVRU97HFbYL-AHjVIvV0KrnSLW6bS2uReDr9vOX7qRQh7z0h3xrqX_WC6OUDWAMo8fTOyTmJqxPu2ugOuOw2Qr96Glr9KsW44zr__kjKAnyCH6hedDJCNOikRo1goIFyHRWAyC/s72-c/download+(2)ccc.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-8989639006427020203</id><published>2012-10-12T23:47:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:41:46.585-03:00</updated><title type="text">O Barroco Português no Feminino- Parte I</title><content type="html">&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqHQZN8uhegqewx1HH16co7GWv_vBCs_lIlSvde4_136F3YjzEAXjPxfCS7kr4DfzoQm2n3uc4kgBzF4RGYWWPfPuXnv_QiWWmETl3kCmymuB1QFZ1YDWHh9Z_rHTP0x27GlWpIr1GQyJa/s1600/mulher+e+livro+2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqHQZN8uhegqewx1HH16co7GWv_vBCs_lIlSvde4_136F3YjzEAXjPxfCS7kr4DfzoQm2n3uc4kgBzF4RGYWWPfPuXnv_QiWWmETl3kCmymuB1QFZ1YDWHh9Z_rHTP0x27GlWpIr1GQyJa/s1600/mulher+e+livro+2.jpg" /&gt;&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não temos profissão das Sciências, nem a obrigação de sermos sábias, mas também não fizemos voto de sermos ignorantes.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tereza Margarida da Silva e Orta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Podemos dizer que a afirmação do Barroco português, nos finais da segunda década do século XVII &amp;nbsp;assinalou também a abertura de um espaço triunfante para a escrita feminina no cenário literário lusitano, no qual algumas mulheres escritoras notabilizaram-se pelas obras que produziram.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Após dois séculos em que a participação da mulher na literatura portuguesa havia sido reduzidíssima e praticamente insignificante, deu-se a irrupção de excepcionais talentos literários femininos, principalmente no terreno fecundo da poesia, no qual quase todas se projetaram. Além das poetisas religiosas Violante do Céu, Maria do Céu, Magdalena da Glória, revelaram-se, fora dos muros conventuais, poetisas do quilate de Bernarda Correia de Lacerda, Maria de Lara e Meneses, além de outras escritoras, como Mariana Alcoforado e Antónia Margarida Castelo Branco, que abrilhantaram o período barroco com a qualidade das suas obras nas áreas da epistolografia, da prosa autobiografica.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As poetisas surgidas ao longo do período barroco, por meio da obra que produziram, comprovaram e justificaram o sucesso que alcançaram em uma época na qual a poesia era “concebida como arte da palavra, criação de beleza verbal, jogo segundo técnicas complexas visando à exibição do engenho do poeta e o deslumbramento do leitor.”&amp;nbsp;&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Tratava-se, portanto, de uma prática poética que exigia muito da inteligência e da habilidade dos poetas.&amp;nbsp;&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[2]&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A POESIA BARROCA FORA DO CLÁUSTRO.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fora dos claustros doa conventos, com suas bibliotecas e acesso ao saber, poucas mulheres recebiam uma instrução que lhes permitisse ir além de ler mal e escrever pior ainda. Somente as meninas nascidas em famílias abastadas ou pertencentes à aristocracia tinham acesso aos livros e ao aprimoramento de suas capacidades intelectuais. Essa realidade explica a rara aparição na cena literária de escritoras vindas das camadas sociais economicamente menos privilegiadas. Para estas, a via de acesso ao saber e à cultura teria que ser buscada nos claustros de alguma ordem religiosa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vale acentuar que tal situação não é exclusiva do período barroco; ela pode ser observada ao longo dos períodos literários, desde o século XV, ou seja, desde a entrada da mulher na literatura, através de D. Filipa de Almada. Foi, portanto, nos salões do palácio real que as mulheres fizeram a sua estréia na poesia, na literatura do país.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dentre as poetisas religiosas que se destacaram na cena literária fora dos conventos, figuram os nomes de Bernarda Ferreira de Lacerda, Maria de Lara e Meneses e Feliciana de Milão, todas três muito celebradas em sua época e freqüentadoras da corte.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
__________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Maria Lucília G. Pires, Op. cit., p. 31.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[2]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Nem toda a poesia barroca é arte para deleite do intelecto, pois, contrastando com esta, coexistia uma versalhada satírica, jocosa, que visava ao entretenimento, à ludicidade, tal como fora praticada por grande parte dos poetas do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende. Muitas dessas composições, segundo informa Oscar Lopes, surgiram em “concursos e outros passatempos das academias, em outeiros ou torneios poéticos realizados junto de conventos femininos, e conseqüentes amores freiráticos, que aliás constituem um dos predilectos objectos de sátira desbocada.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div id="ftn2"&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: center;"&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAFlm0sEXITNe02kwk_izlERGAOjqpkH2kto4Tvv-PjjPYtwI3BYrE92BZNFjZIZ7skhqyrwxlbqzo4F_qj-IEtxk_zZGhCHW0TQnicH57jt3esZu9ImfU4zs2oeYo_PX8Ddh5tZlj0M8l/s1600/vfru9ctj.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="94" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAFlm0sEXITNe02kwk_izlERGAOjqpkH2kto4Tvv-PjjPYtwI3BYrE92BZNFjZIZ7skhqyrwxlbqzo4F_qj-IEtxk_zZGhCHW0TQnicH57jt3esZu9ImfU4zs2oeYo_PX8Ddh5tZlj0M8l/s320/vfru9ctj.gif" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/8989639006427020203/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/8989639006427020203?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8989639006427020203" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8989639006427020203" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2012/10/o-barroco-portugues-no-feminino-parte-i.html" rel="alternate" title="O Barroco Português no Feminino- Parte I" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqHQZN8uhegqewx1HH16co7GWv_vBCs_lIlSvde4_136F3YjzEAXjPxfCS7kr4DfzoQm2n3uc4kgBzF4RGYWWPfPuXnv_QiWWmETl3kCmymuB1QFZ1YDWHh9Z_rHTP0x27GlWpIr1GQyJa/s72-c/mulher+e+livro+2.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-6069783437117737583</id><published>2012-10-12T23:45:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:39:04.906-03:00</updated><title type="text">A Poesia Fora do Cláustro.  PARTE II</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzE1vKmg1eRD089iW8KbAQIqmsDIEfYH4Sg0d5exqLXDtyg5Cqfte47KB1rws9Cr3W8ml5HYQHlgHZgpth_aPDTk1y9UciH7vUy6sBX36o5M9MNW33Gx0bLaT-nTILGrmGnCYudIAYqY91/s1600/rotari-pietro-antonio-6.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzE1vKmg1eRD089iW8KbAQIqmsDIEfYH4Sg0d5exqLXDtyg5Cqfte47KB1rws9Cr3W8ml5HYQHlgHZgpth_aPDTk1y9UciH7vUy6sBX36o5M9MNW33Gx0bLaT-nTILGrmGnCYudIAYqY91/s200/rotari-pietro-antonio-6.jpg" width="158" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Ai! Melindrosa flor agonizada,&lt;br /&gt;
Despojado Jasmim de qualquer vento,&lt;br /&gt;
Que quando pasce traz na mesma alvura&lt;br /&gt;
Gala, mortalha, berço, e sepultura.&lt;br /&gt;
(D. Maria de Lara e Meneses)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fora dos claustros doa conventos, com suas bibliotecas e acesso ao saber, poucas mulheres recebiam uma instrução que lhes permitisse ir além de ler mal e escrever pior ainda. Somente as meninas nascidas em famílias abastadas ou pertencentes à aristocracia tinham acesso aos livros e ao aprimoramento de suas capacidades intelectuais. Essa realidade explica a rara aparição na cena literária de escritoras vindas das camadas sociais economicamente menos privilegiadas. Para estas, a via de acesso ao saber e à cultura teria que ser buscada nos claustros de alguma ordem religiosa. Vale acentuar que tal situação não é exclusiva do período barroco; ela pode ser observada ao longo dos períodos literários, desde o século XV, ou seja, desde a entrada da mulher na literatura, através de D. Filipa de Almada. Foi, portanto, nos salões do palácio real que as mulheres fizeram a sua estréia na poesia, na literatura do país.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dentre as poetisas religiosas que se destacaram na cena literária fora dos conventos, figuram os nomes de Bernarda Ferreira de Lacerda, Maria de Lara e Meneses e Feliciana de Milão, todas três muito celebradas em sua época e freqüentadoras da corte.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
BERNARDA FERREIRA DE LACERDA&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(1595 – 1644)&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Viver, por merecer mais,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
N´este sagrado deserto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D´onde o céu tendes tão perto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quão longe da terra estais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nascida no Porto, em 1600, Bernarda Ferreira de Lacerda pertencia a uma família aristocrática, sendo filha do Dr. Inácio Ferreira Leitão, chanceler-mor do reino. Muito religiosa, a poetisa pretendia ingressar no convento, porém desistiu de professar para atender ao pedido do seu pai para que se casasse com Fernão Corrêa de Sousa, de quem ficou viúva oito anos após o casamento, com seis filhos pequenos. Pelo conjunto das suas qualidades literárias, pelos seus dotes intelectuais, Bernarda Ferreira de Lacerda gozou de grande prestígio em sua época, tornando-se célebre em Portugal e em outros países europeus. A maior parte de sua obra foi escrita em língua espanhola, conforme o uso generalizado entre os escritores portugueses de seu tempo. É autora consagrada do longo poema épico Espanha libertada e do livro de poesias líricas Saudades de Bussaco, as duas principais obras que escreveu, revelando grande habilidade e desenvoltura tanto no gênero épico quanto no lírico.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Depois de uma curta e atormentada vida, Bernarda Ferreira de Lacerda morreu em 1º de outubro de 1645, aos 45 anos de idade, nos braços de sua filha. Ela mesma expõe a dolorosa vida que suportou, numa das estrofes do seu poema Saudades de Bussaco:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ali nos crespos troncos&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com lágrimas suaves&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A minha escreverei trágica vida.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ali no mar os roncos,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A música das aves,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O murmurar das fontes, que convida&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A amorosa saudade,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Roubarão para o céu minha vontade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As Saudades do Bussaco, segundo a autora, tiveram a sua gênese por ocasião de um passeio que ela fez ao Bussaco, atraída pela fama do lugar serrano, afastado da cidade, dotado de uma estupenda paisagem. A extraordinária beleza região fascinou-a e, seduzida pela atmosfera mágica daquele espaço privilegiado, a poetisa não conseguia aceitar a idéia de abandoná-lo, como confessa nas estrofes do poema:&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://www.blogger.com/null" name="more"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh! Se minha ventura,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eliano deserto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tão desejado bem me concedera,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que na densa espessura&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do teu céu encoberto&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em ócio branco e doce paz vivera,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Gozando de um retiro&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por quem suspiros dou, e em vão suspiro;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que ufana, que contente&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De tudo me apartara&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por chegar a gozar tal paraíso,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Onde, do mundo ausente&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Segura sempre andaria,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dando ao bosque alegria, aos campos riso,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Livre de sobressaltos,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém não livre o céu de meus assaltos!&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem de pombas tivera&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As asas voadoras,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que sobre teus penedos subira!&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem n´elles estivera,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não momentos, mas horas,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não horas só, mas annos, sem que vira&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fim a tão feliz sorte,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Senão com o da Parca mortal corte!&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os altos medronheiros,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que com corado fructo,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estão seus verdes ramos inclinando&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por cima dos outeiros,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me dariam tributo&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para que fosse a vida sustentando,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que hervas ajudaram,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando fructas agrestes me faltaram.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As fontes crystalinas,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que rindo se despenham&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por entre musgo pardo e grama verde,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Abrindo ricas minas&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De prata com que despenham&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A quem ganhando alento sede perde,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De néctar excelente&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me dariam docíssima corrente.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As frescas espadarias,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que os lírios se cobrem,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me puderam servir de branco estrado,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E as relvas que ufanas&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mil boninas encobrem,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De livro, onde vive deixado&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do autor da Natureza&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A providência, amor, graça e beleza.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O poema Saudades do Bussaco é formado por um conjunto de quadros esplêndidos, nascidos do encantamento da poetisa pela formosura que brota de cada elemento da paisagem, de cada recanto, tudo captado por seu delicado sentimento, pela sedução que exerce sobre a sua sensibilidade a aquarela de cores, os aromas das flores e das ervas, os sons das aves e das fontes cristalinas que despencam pela serra. As descrições da autora se sucedem em cascata, numa tentativa reiterada de retratar tudo quanto naquele recanto isolado a deixa maravilhada. Todavia ela sabe que só com a sensibilidade, com o sentimento estético da natureza tudo aquilo pode ser percebido:&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Retratar-vos intentei,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ó deserto peregrino;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém, como sois divino,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em vão mil linhas lancei.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Confesso enfim que não sei&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Juntar vossa formosura.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E assim por mais que procura&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Meu amoroso desejo,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Das perfeições que em vós vejo,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Difere muito a pintura&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se em graça sois sem igual,&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E mora em vós sempre a Graça,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem haverá que vos faça&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um retrato natural?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quis mostrar, como em cristal,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
N´este debuxo, a riqueza&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que encerra vossa pobreza;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém nada tenho dito&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois nem as sombras imito&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De vossa rara beleza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LEIA MAIS, clicando na frase abaixo&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a name='more'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De eternos sois Oriente,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que Ocaso jamais conhecem,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vergel fértil d´onde crescem&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Flores de cheiro excelente.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem copiosa corrente&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do vosso néctar não prova,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Veja a maravilha nova&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que em Lusitânia mostrais,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As grandezas que encerrais&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dentro na mais pobre cova.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vivei, vivei venturosos,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Divinos habitadores&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que d´este jardim sois flores,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Deste céu sois luminosos,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Soldados que valorosos,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De pelejar não cansais,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Viver, por merecer mais,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
N´este sagrado deserto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D´onde o céu tendes tão perto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quão longe da terra estais.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que singulariza Saudades do Bussaco é a forma inovadora como a poetisa focaliza a paisagem, fazendo dela o tema do poema. Esse sentimento estético da natureza não está previsto no cânone do Barroco, tampouco era usual entre os poetas lusitanos. Estes não chegaram a manifestar um sentimento estético da natureza, o gosto pela descrição pintores do espaço físico, da paisagem. Bernarda Ferreira de Lacerda dá um salto à frente do seu tempo e, ignorando os lugares-comuns, os surradíssimos clichês exaustivamente usados pelos poetas, principalmente a partir do classicismo-renascentista, substitui a paisagem convencional dos clássicos por uma paisagem viva. Os quadros descritivos da paisagem do Bussaco são reveladores de um profundo sentimento estético da natureza. A autora se compraz em descrever os espetáculos naturais, os esplendores da paisagem.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vale salientar que, nos domínios da literatura, a valorização da paisagem não constitui um fenômeno atinente ao século XVII, espaço do Barroco, mas sim ao século XVIII, mais precisamente ao Pré-romantismo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com o avanço da botânica e da astronomia, passou-se a olhar para a natureza de forma diferente, ampliou-se a percepção de sua beleza e do multifacetado aspecto que pode ser captado do seu conjunto. Na verdade, somente com o advento do Pré-romantismo alemão, no limiar do século XVIII, a natureza foi sendo percebida e tornada tema predileto dos poetas, que a despojaram do convencionalismo que sempre fizera dela uma imagem padronizada, sem vida e artificial.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O poema épico “Espanha libertada” é desenvolvido em 20 cantos, em oitava rima, nos quais a poetisa celebra a libertação da Espanha do domínio maometano, como evidencia a estância que abre o canto:&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Da nossa Espanha a liberdade canto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E as façanhas do Godo valoroso,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que com ânimo ousado e zelo santo&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A foi tirando ao jugo trabalhoso;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E os feitos também dignos de espanto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E de sublime verso belicoso,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que em Espanha praticou a gente forte&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Triunfando dos tempos e da morte.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Logo à primeira leitura dessa estância, fica bem claro o eco dos versos camonianos em “Os Lusíadas” (canto I, estr. 1). Como Camões, a poetisa constrói seu canto épico em oitava rima, ou seja, com rimas cruzadas nos seis primeiros versos e rimas emparelhadas nos dois últimos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O soneto abaixo justifica a inserção da poetisa na vertente cultista da estética barroca. A autora desenvolve o soneto através de um jogo imagético constituído por metáforas, em alguns versos obscuras, sugerindo mais do que dizendo. Se, por um lado, sacrifica a clareza da idéia, por outro permite que seja inteligível, justamente porque todo o seu preciosismo radica no rebuscado da construção dialética, fundada na metáfora que estabelece a articulação entre os quartetos e os tercetos. Sem dúvida, a poetisa revela domínio de um dos aspectos mais típicos do estilo barroco: a capacidade de invenção verbal, a volúpia em manipular ludicamente a linguagem.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na minha solidão a fénix retirada&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em ajuntar de aromas cópia entende&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando prudente renovar pretende&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A vida, e formosura já gastada.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E na região das nuvens levantadas&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As asas quando o sol mais arde, estende,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dali desce, e batendo-as fogo acende&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Donde, depois renasce de abrasadas.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim o solitário no deserto&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Méritos ajuntando, bate as asas&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Da consideração, e amor excita,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o fere o soberano Sol de perto,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E tudo o que era humano feito brasa&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Das cinzas já divino ressuscita.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Bernarda Ferreira de Lacerda não foi reconhecida e celebrizada apenas em Portugal. Ela foi, na época em que viveu e produziu a sua obra, uma das escritoras que gozaram do maior prestígio dentro e fora do país, especialmente na Espanha.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/6069783437117737583/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/6069783437117737583?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6069783437117737583" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/6069783437117737583" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2012/10/a-poesia-fora-do-claustro-parte-ii.html" rel="alternate" title="A Poesia Fora do Cláustro.  PARTE II" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzE1vKmg1eRD089iW8KbAQIqmsDIEfYH4Sg0d5exqLXDtyg5Cqfte47KB1rws9Cr3W8ml5HYQHlgHZgpth_aPDTk1y9UciH7vUy6sBX36o5M9MNW33Gx0bLaT-nTILGrmGnCYudIAYqY91/s72-c/rotari-pietro-antonio-6.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-5380433318576378912</id><published>2012-10-12T23:43:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:37:05.984-03:00</updated><title type="text">A Poesia Fora do Cláustro= PARTE III</title><content type="html">&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s1600/download.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s200/download.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MARIA DE LARA E MENESES&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(1610 – 1649)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este pesar sentiste em teus amores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que não posso dizer, que neste emprego&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estavas, linda Ignez, posta em sossego.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Maria de Lara Resende&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D. Maria de Lara e Meneses foi casada com o Infante D. Duarte, irmão de D. João I. Nascida de pais pertencentes à nobreza de sangue, recebeu uma esmerada instrução na área da cultura humanística. Escreveu várias obras de caráter moralizante e de poesias. Seu livro Saudades de Donna Ignez de Castro, escrito em duas partes, com 140 estrofes em oitava rima, foi publicado várias vezes entre 1732 e 1824, além de correr manuscrito em várias coletâneas. Em alguns casos o poema leva também o título de Sentimentos de D. Pedro e de Dona Ignes de Castro, ou ainda Suspiros de D. Inês de Castro e Sentidas queyxas do Princepe D. Pedro. O mesmo volume inclui ainda poesias de sua autoria reunidas sob o título de Obras de sentimento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O poema Saudades de Donna Ignez de Castro foi o que teve mais ampla divulgação dentre os produzidos por poetas do período barroco. Claramente inspirado no texto de Camões, tanto na forma, em oitava rima, como na intertextualização que faz dos versos do episódio inesiano, em Os Lusíadas: “Estava, linda Ignez, posta em sossego” e “Aconteceu da mísera e mesquinha, / Que depois de ser morta foi Rainha;” estes dois últimos usados para encerrar o poema, com chave de ouro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O texto de D. Maria de Lara Resende Saudades de Donna Ignez de Castro avulta como um poema tipicamente lusitano, seja pelo olhar que lança sobre o texto camoniano, cuja seiva o alimenta, da mesma forma como ainda hoje nutre o imaginário dos poetas e ficcionistas portugueses; seja pela invocação, logo no título, do sentimentos expresso pela palavra mais lusitana: saudade. Acrescente-se a isto o modo sui generis como a autora desenvolveu o tema inesiano, imprimindo em seu texto todas as possíveis nuanças e peculiaridades dos sentimentos do par amoroso, através de extensas falas concedidas não apenas a Inês como também a Pedro. Nesse aspecto, o poema de D. Maria de Lara e Menezes é inovador, na medida em que arrasta Pedro do silêncio que lhe é imposto no episódio de Os Lusíadas e em obras de outros autores que a precederam, dando voz ao príncipe e, assim, permitindo que, em dueto com a desditosa amante, expresse também os seus sentimentos. O poema é também inovador por não se deter na questão do assassinato de Inês. Todo o pathos amoroso dos amantes organiza-se em torno da saudade, motivada pela partida de Pedro (“Forçosa foy de Pedro a dura ausência. / Esta ausência cruel, forçosa, urgente”) nos dias que antecedem a morte de Inês, saudade que perdura no príncipe após a trágica morte da amada.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A dor da separação, o sofrimento causado pela ausência e o gosto amargo da solidão constituem a espinha dorsal do discurso do desditoso casal. Vazado em linguagem própria do estilo barroco, nele se sucedem as metáforas transfiguradoras da realidade quotidiana, gerando esplêndidas metamorfoses. A habilidade com que a poetisa maneja a linguagem culta sem cair nos exageros do gongorismo, o uso equilibrado de figuras retóricas, como a hipérbole e a antítese, o domínio que revela no uso de elementos estilísticos como a enumeração e a bimembração, a forma como articula os jogos de palavras e de idéias justificam os louvores em torno do seu fazer poético e a fama que logrou alcançar entre os seus contemporâneos. à guisa de demonstração, segue-se a primeira parte do longo poema:&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
I&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Era na meia idade, a que chegava&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em fraguas de safir o Sol, que ardia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E nas asas do tempo, que passava,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Icario de seus rayos era o dia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando pois cõ as chãmas se abrasava,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que morrer incendido então queria,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sendo por renascer com novo alarde,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em cinzas de rubim Fénix da tarde.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
II&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na lisonjeira planta se enlaçava&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Cortez o vento com gentil porfia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E nos jardins a Rosa, que encalmava,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em berços de esmeralda adormecia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A simples avesinha se banhava&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No murmúrio correr da fonte fria,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Renovando na vista o doce alento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Narciso nos cristais, Orfeo no vento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
III&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas Ignez só, que por penar vivia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Naufragava em soluços cada instante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ignez, aquela Ignez, que amor fazia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por lhe dobrar as mágoas mais constante:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aquela, em cujas graças competia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ser formosa, discreta, e ser amante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em cujas prendas não tiveram parte&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Artifícios da indústria, invenções da arte.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
IV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A que nos dotes da alma tão possante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Discreta, grave, terna, e generosa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tinha por menor prenda o ser formosa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos donaires do talhe tão galante&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos alinhos da graça tão vistosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que topando na culpa do Narciso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fora sem culpa seu discreto aviso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
V&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas qual passarinho descuidado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lisonja mais gentil da tenra idade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi das mãos do menino aprisionado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que lhe roubou no laço a liberdade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quando dele mais galanteado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exp´rimenta no mimo a crueldade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E quando a cor das penas lhe contenta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas que lhe tira, mais lhas acrescenta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal Ignez na manhã dos ternos anos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas primeiras Auroras da esperança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Deu nos laços de amor doces enganos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do vendado rapaz linda vingança;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas os golpes da Parca desumanos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A beleza por flor em flor alcança.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exp´rimentou na sempre amarga sorte&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por mãos do Deus do amor armas da morte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eram gentil emprego a seus cuidados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As finezas de Pedro, que a beldade&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nele soube trazer aprisionados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O ceptro, coroa, vida, e liberdade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entre ambos tinham amor já tão ligados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os soltos alvedrios da vontade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que foi neles baldado, e foi partido&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nascer Anteros por crescer Cupido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh tirana dor amor inventa!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Forçosa foi de Pedro a dura ausência,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Atropos da alma, que da pena isenta&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nela sabe sentir mortal violência:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como preso, partir-se Pedro intenta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E sente na alma, Ignez, nova inclemência;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quer a sorte, pois amor ordena;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Onde não chega a morte, ofenda a pena.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
IX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quantas vezes, Ignez, no pensamento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este desar notastes a teus favores?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quantas vezes, Ignez, na mão do vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os viste, e vês agora, e verás flores:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tanto nas afeições, gosto avarento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este pesar sentiste em teus amores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que não posso dizer, que neste emprego&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estavas, linda Ignez, posta em sossego.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
X&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entre os braços de Pedro, ardente fragoa&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que multiplica a dor, e dobra a mágoa&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lograr presente o bem, que he já perdido:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dos olhos solta dois chuveiros de ágoa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oceanos de neve; onde Cupido&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quis da beleza já colhendo as velas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Chegasse a tempestade até as estrelas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Qual em berços de púrpura vistosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Delícias de manhã, da tarde empresa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dos melindres de flor enferma a Rosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Desmaiado o verdor, murcha a lindeza;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois a que foi de Abril pompa lustrosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Livro do amor, emblema da beleza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Perde a graça, por ver que o Sol lhe talha&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do mesmo carmesim gala, e mortalha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal do fogo de amor na imensa calma&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A cor Ignez perdeu, que amor ordena,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os desmaios, que tinha impressos na alma,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trasladasse no rosto a viva pena:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já despojo da dor, da mágoa palma,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com respirar de flor, arde Açucena,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exala nova dor ao pensamento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em saudosos ais o doce alento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Caduco prazer, diz lastimada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esperança de um bem, doce tormento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Que por verde murchas apressada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Primavera do amor, da dor portento:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Melindrosa flor agonizada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Despojado Jasmim de qualquer vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quando pasce traz na mesma alvura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Gala, mortalha, berço, e sepultura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Que chegas, oh dia! Em que amor tira&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Duas almas de um peito, oh noite fria!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh noite, digo, porque a quem suspira,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foge a luz, morre o Sol, acaba o dia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A boca, de que um ai, outro ai, retira.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Parai, Senhor; mas um soluço ardente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sufoca o par, repete o ai somente.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Parai, torna a dizer, meu gosto amado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Glória desta alma, enquanto glória tinha;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas ai alívio meu! Ai meu cuidado!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como podeis parar, se glória minha!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas se destina o Céu, e manda o Fado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta alma castigar, que amor mantinha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mais almas tenha, porque assim mais pene.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XVI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas não, que he contra amor esta porfia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas não, que deixo amor nisto agravado;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Muitas almas não quero, que seria&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Repartir o tormento a meu cuidado:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas se a pena permite a companhia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nesta ausência cruel, o triste Fado!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Antes que a dor ma roube da partida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Levai-me, vida minha, a minha vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XVII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Só com vosco, Senhor, irá segura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sem que mortal achaque lhe aconteça;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque talvez do Fado a sorte dura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fora deste meu peito a desconheça:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem poderá temer minha ventura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que sombra de pesar vos entristeça;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois farei no tormento mais esquivo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Correr por conta da alma o sensitivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XVIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se só para viver na lei de amante&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Forçosa seja a vida repetida;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Senhor, que não pode ser bastante&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para viver ausente uma só vida:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém se amor de vidas tão possante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Uma nos deu para ambos repartida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Posto que a dor entre ambos se acomoda,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Melhor vos partireis levando-a toda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XIX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Cá me fica outra vida, que não passa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com que padeça morte repetida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quer amor tirano, que renasça&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Uma vida das cinzas de outra vida:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que como tão cruéis penas me traça,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como me traz em fogo convertida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A acabar, outra Fenix, me condena,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Morrendo em cinzas, renascendo em pena.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
XX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ah! quem cuidara, amor, que meus amores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fossem fingidas sombras mentirosas?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ah! quem cuidara, amor, que em seus favores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fossem mais as espinhas do que as Rosas?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas depois, que triunfo a teus ardores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foram de Marte as armas generosas;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tão guerreiro ficaste, ufano, e forte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que bem podes matar a própria morte.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
XXII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas remontadas penhas, nas vizinhas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Se restar a meus ais penhasco possa)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
vos buscarão, Senhor, lágrimas minhas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
minhas se pode ser, sendo a alma vossa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
de meus anos a flor entre as espinhas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
passarei, sem perder esta fé nossa;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
mas antes perderão seu bruto alento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
o mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh! Que he tal a dor de meus retiros,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E tão firme na lei da tirania,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que vendo, que me assistem meus suspiros,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Talvez deles me roube a companhia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas inda mais, e mais acerbos tiros&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Contra mim fulminar amor porfia;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois sem dar atenções à minha queixa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por mais só me deixar, sem mim me deixa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Qual quando na manhã naufraga o dia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos undosos cristais, que o Céu desata,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Jasmim desmaiado se agonia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dos achaques da gota, que o maltrata:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em desares trocando a galhardia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ícaro já nas águas se retrata,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que lisonja foi tão prateada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se no prado jasmim, nas ondas nada.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal Ignez já de lágrimas banhada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De seus olhos gentis mortais desares,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quis a natureza acautelada&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o Ocaso de dois Sóis fossem dois mares.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exalava de todo agonizada&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O suspiro final a seus pesares:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que com vir entre lágrimas undosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Inda na boca achou maré de rosas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXVI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já Pedro enfim rendido a seu cuidado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A dor quer disfarçar a seu retiro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que como o coração tem já quebrado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um pedaço lhe traz cada suspiro:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E como em fim no peito agonizado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sente da mortal flecha o novo tiro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Notando Ignez no pranto de seu rogo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exala em água, quanto bebe em fogo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXVII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não chores, diz, formosa Ignez, agora&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ficar ausente ser partir comigo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que se es vida minha, que te adora,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na alma te levo por viver contigo;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pretendo ausentar-me hoje Senhora,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Suposto que partir-me enfim prossigo;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que se alma trocar amor consente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem tu só ficas, nem me parto ausente.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O corpo só se ausenta, a alma não parte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que em fim não vivo de potências suas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que como me alimento só de amar-te,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bastam para viver memórias tuas:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E porque amor nos tiros, que reparte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fulmina contra mim flechas mais cruas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando a vida me rouba, outra me ordena,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fora em fim matar me a menor pena&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXIX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A fazer impossíveis of´recida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois que contaminando a natureza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas como amor notou nesta belleza&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os impossíveis só de merecida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quis tomar por razão força infalível.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Obrar por alcançá-la outro impossível.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem vês agora, Ignez, como abrasado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos vivos holocaustos de meu peito,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Meu coração consagro a teu cuidado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em víctimas de lágrimas desfeito:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Agora alcançarás, como alentado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Todo me sacrifico a teu respeito,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois chega a consagrar-te em viva calma&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sangue do coração, relíquias da alma.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXXI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Suceda à Primavera o fresco Estio;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
À serena manhã terde calmosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Seja manso regato, quem foi rio,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sejam secas relíquias, quem foi rosa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Seja, quem cravo foi, cadáver frio,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Seja quem foi jasmim, cinza olorosa;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Seja tudo à mudança enfim sujeito,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que amor firme será dentro em meu peito.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXXII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nessas gentis madeixas da beldade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em cuja luz do sol o sol se nega,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Onde feito pirata da vontade&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas crespas ondas sempre amor navega:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nessas, digo, captiva a liberdade&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em reféns minha fé por fé se entrega:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nelas deixo por fim com meus alentos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Alma. cuidados, vida, e pensamentos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
XXXIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus delicia minha, a Deus cuidado;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus Senhora, a Deus, que amor consente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que para enfim nas mágoas sepultado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se partir posso de mim mesmo ausente:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus, que amor nos tinha decretado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta ausência cruel, forçosa, urgente;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas ai! Formosa Ignez, que em vão me queixo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus, que enfim me parto, enfim te deixo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXXIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já se remonta Pedro a seus retiros,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E já de morte em morte Ignez discorre,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que como entrega a vida a seus suspiros,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quantas vezes suspira, tantas morre:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O coração sentindo acerbos tiros&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pelos olhos sangrados em cristais corre,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh! Que no sangrar-se em vão se cansa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque em cada sangria uma alma alcansa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XXXV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Qual na seca vergóntea desfolhada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que despojo restou da tempestade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se lamenta em requebros lastimada&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A casta Rosa posta em soledade;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Soluça, pasma, e geme agonizada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Chora, suspira, anela em crueldade;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que seu pesar lhe tem no peito unidos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Rigores, mágoas, lastimas, gemidos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
XXXVI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal lastimada chora Ignez saudosa;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No seu mesmo tormento sepultada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos desvelos do dia cuidadosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos descuidos da noite desvelada:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já se queixa em suspiros lastimosa;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Forma razões dos ais agonizada:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fez para queixar-se em seus retiros,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Embaixadores da alma seus suspiros.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mais duro sentimento, mais nocivo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No ser da alma pedaços vos confesso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois se levais a parte com que vivo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A parte me deixais, com que padeço:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que como neste mal por excessivo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Repartida minha alma reconheço,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se levais uma parte não pequena,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A vida pode ser, mas nunca a pena.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LVII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh! Parai razões, tornai gemidos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A dor interpretai, que o peito sente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que talvez em meus ais por repetidos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os ecos ouça de quem choro ausente:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Doce ausente meu, não dos sentidos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Quem pudera amor ter-vos presente!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas deixai-me falar, talvez que possa&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ouvir na minha voz ecos da vossa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LVIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aqui, meu doce amor, meu bem querido,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se me duplica a dor ao pensamento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois quando em vós me falta meu sentido,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não me pode faltar meu sentimento:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em vós lamenta a dor meu bem perdido,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em mim renova a dor novo tormento;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas creio, doce amor que sentir possa&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Menos a minha dor, que a falta vossa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
LIX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Menos dor, menos dano enfim tivera,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Menos cruel sentira o meu cuidado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando neste rigor, que padecera,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me pudera esquecer do que hei logrado:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas ai! Que nesta dor outra me espera,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E um mal outro me traz apensionado;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois chego a padecer em meu sentido&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O mal, que passo, o gosto, que hei perdido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem conheço, que posso na lembrança&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vossas prendas lograr, meu doce esposo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas o bem, que se perde na esperança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fica, quando lembrado, mas penoso:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas nesta triste dor, dura esquivança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se me duplica amor mais rigoroso;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois só quer meu sentido avincular-se,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para mais padecer, a mais lembrar-se.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim chorava Ignez, e assim gemia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh trágica dor! rara estranheza!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que já topa nas mãos da tirania&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Armas sempre mortais contra a beleza:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas mãos de dois tiranos já se via,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entre cruéis espadas, tosca empresa!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas que Rosa no campo Aurora molhas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A que não falte a vida, e sobrem folhas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXVI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh! Suspendei sentença tão penosa;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mitigai por um pouco a crueldade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que não podeis dar morte rigorosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que possa matar mais que a saudade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas já que minha dor menos piedosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vos não pode causar nova piedade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não roubeis meus filhos, tão queridos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Única prenda só de meus sentidos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXVII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Claras prendas minhas tão queridas;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Relíquias de amor, da alma pedaços;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai! Como sentireis em mim perdidas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As mimosas delícias de meus braços:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas pois não pode ser entre homicidas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lograr, amores meus, vossos abraços,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus, ficai-vos, já gostos amados,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Deus alma, a Deus vida, a Deus cuidados.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXVIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mais quisera falar enternecida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh! Indigna acção de um peito forte!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um tirano cruel, torpe homicida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos fios de um punhal lhe tece a morte:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Inclina o lácteo colo amortecida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Avassalada já da infausta sorte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Exala a vida o corpo de alabastro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fenece amor com Donna Ignez de Castro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
LXIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Qual nas tecidas silvas da espessura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Labirinto de espinhos intrincado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com balidos se queixa da ventura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O simples cordeirinho aprisionado:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já soluça em melindres com ternura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Das maternas delícias apartado:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que mimos achou na branda ervinha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Acha mortal rigor em cada espinho.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal lastimada Ignez troca em gemidos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quantas vozes no peito articulava,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Enquanto ou dois algozes fementidos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As mãos lhe prendem, com que amor matava:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O soluçar as vozes lhe embargava:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas oh! Que amor lhe deu no pensamento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Razões ao pranto, voz ao sentimento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
LXV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ai tiranos cruéis! Oh sorte dura!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entre suspiros, diz agonizada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que delicto comete a formosura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com que possa a beleza ser culpada?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh! Deixai-me esta vida em pena escura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se me quereis a morte dilatada;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que nesta triste dor tão repetida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Menos me mata a morte, do que a vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
LXIX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Qual a branca açucena, que cortada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em seu mesmo candor amortalhada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Defunta flor em flor na flor da idade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
À qual ficam somente de engraçada&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os antigos rascunhos da beldade:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tal fica a bela Ignez amortecida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Fim da primeira parte)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não foi apenas no manejo do poema épico que D. Maria de Lara Resende foi notável, também na composição de poemas líricos revelou-se dotada de habilidade especial, como pode ser visto em seus sonetos e glosas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A poesia constituída por mote e glosa, tão do gosto dos poetas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, tem continuidade no período renascentista, atravessa a circunscrição do Maneirismo e tem uma triunfante continuidade nos domínios do Barroco, como bem documentam as duas Oitavas de D. Maria de Lara Resende. Todavia essa forma poética passou por significativa mudança na lírica do Maneirismo, na qual se tornou comum uma nova modalidade de glosa poética, que consistia em tomar um soneto como mote a ser glosado em quatorze oitavas. Os poetas do período barroco herdaram e cultivaram a nova forma de glosa criada pelos maneiristas sem, contudo, abandonarem o “modelo” consagrado pela tradição medieval. D. Maria de Lara cultivou as duas formas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas oitavas que se seguem, a poetisa desenvolve as glosas lançando mão da mesma estrutura bimembre e antitética do mote “Não cabe a mesma paz, na mesma guerra”. Esse texto é interessante sob vários aspectos: a linguagem é sem afetação, despida de ornamentos e de aparatos cultistas, resvalando para uma graciosa simplicidade, para uma clareza familiarmente coloquial, não deixando dúvidas de que se trata de uma composição exemplarmente conceptista, bem nos moldes do figurino barroco.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É oportuno notar que o soneto é quase exclusivamente uma enumeração de coisas impossíveis de serem realizadas porque se opõem às leis naturais. Esse tipo de construção tem uma função hiperbólica, na medida em que representa o mote que serve de tema a ser glosado como mais impossível que todos os impossíveis enumerados. Todavia o mais importante nessa construção é que nela não se pretende apenas fazer referência a acontecimentos cuja realização é impossível; o importante é o fato de nela serem associados conceitos logicamente incompatíveis.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
OITAVAS&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fez dirigidas a sua magoa, (...) mostrando quanto perturbado tinha com penas o seu coração sobre que glosou o Mote seguinte:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não cabe a mesma paz, na mesma guerra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
GLOSAS&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Não pode ser a chama quente, e fria,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na tempestade estar o ar sereno,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na noite escura ver-se o claro dia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O fogo abrasador sentir-se ameno,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Achar-se na tristeza a alegria,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E poder ser mezinha, o que é veneno,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não se pode ajuntar o Céu com a terra,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não cabe a mesma paz, na mesma guerra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
II&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não se acha pelo mar caminho aberto,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A Lua não se vê nunca constante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem pode o que é desordem ser concerto,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na incerteza achar-se o tempo certo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem ser um mesmo sábio, e ignorante,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ninguém na pátria fica, e se desterra,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não cabe a mesma paz, na mesma guerra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
III&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pode ser piedoso, o que é tirano;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ninguém em seu tormento, tem sua glória&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em seu proveito pode achar seu dano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E sua destruição sua victória,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não mora o desengano, no engano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não é a vida eterna transitória,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não sobe o vale nunca, mais que a serra;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não cabe a mesma paz, na mesma guerra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
IV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pode ser prudente o vicioso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Solícito, sagaz, o descuidado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem manso pode ser o furioso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem pode estar contente o magoado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não é o temerário temeroso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ninguém em um mesmo tempo acerta e erra,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não cabe a mesma paz, na mesma guerra.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
O texto que vem a seguir é interessante sob vários aspectos: a linguagem é sem afetação, despida de ornamentos e de aparatos cultistas, resvalando até uma simplicidade, uma clareza familiarmente coloquial, não deixando dúvidas de que se trata de uma composição exemplarmente conceptista, bem nos moldes do figurino barroco, especialmente por estar inserido numa forma de intertextualidade muito difundida na lírica barroca, a que diz respeito à imitação amplificante.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A notória preferência dos poetas barrocos pela hiperbolização, pelo excesso de elementos decorativos, é concretizado, de vários modos, dentre os quais pode ser apontada a amplificação como figura da intertextualidade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na imitação amplificante o processo intertextual recai na construção da glosa, que deve desenvolver um texto poético de outro autor, em um número de estrofes de oito versos (oitavas) correspondente à quantidade de versos da poesia intertextualizada, devendo vir repetido cada um dos seus versos em lugares fixos das estrofes da glosa, preferencialmente no último verso de cada oitava. É este tipo de composição que D. Maria de Lara desenvolve ao glosar o soneto de Diogo Bernardes, “Horas breves do meu contentamento”:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
OITAVAS&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fez dirigidas a sua magoa, (...) mostrando quanto perturbado tinha com pennas o seu coração sobre que glosou o Mote seguinte:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Horas breves do meu contentamento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
GLOSAS&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
I&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Agora que meu mal trouxe a meu dano&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mil anos se detém um duro inverno,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quem em um só momento acha um ano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um ano lhe parece tempo eterno;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim por castigar meu cego engano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por quem já me não vejo nem governo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As horas mudam em anos de tormento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Horas breves de meu contentamento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
II&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O gosto por algum tempo me destes,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque vindo o desgosto mais durasse,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que se no falso bem me detivestes,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi por manchar o mal quando chegasse.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Logo me pareceu quando vistes,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que nunca longos anos vos lograsse,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas que só sei agora a pena minha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nunca me pareceu quando vos tinha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
III&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E como me parecer que vos detinheis;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O vosso vão sujeito me mostrava,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ser tão certa a mudança do que tinheis&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como a posse do bem que então lograva:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Cuidei, ó horas breves, quando vinheis,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o tempo por algum tempo vos dava,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas nunca presumiu esta alma minha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que vos visse mudadas tão asinha&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
IV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem podes em breve tempo conhecer;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que por discursos as coisas vais sabendo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que a brevidade oculta do prazer,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Da vida dele está nascendo;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas como a paixão tira o saber,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pude nesse tempo ir entendendo,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que vos mudasse o vil contentamento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em tão compridos anos de tormento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
V&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não julga o vão juízo apaixonado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com segunda razão, alta, e profunda,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quando o fundamento vai errado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Errado há-de ficar quanto se funda;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Assim para ficar mais magoado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E porque o erro meu mais se confunda,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em vento resolveu meu fundamento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As minhas torres, que fundei no vento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pode ser contente a esperança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fundada sobre um falso pensamento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque a constante, e firme segurança&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Procede de ser firme o fundamento:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por isso vi tão cedo esta mudança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque as torres que fiz fundei no vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E como eu no vento as torres tinha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O vento mas levou, que mas sustinha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Culpa de meu perverso, e vão sentido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que vendo só mal uma sombra boa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mais estimou o mal pelo vestido,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do que estimou o bem pela pessoa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas posto que me veja hoje perdido,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em pena que a razão tanto magoa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como buscar o bem só a mim convinha,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do mal que me ficou a culpa é minha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
VIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por culpa só morre, e padece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem quer que as armas deu a seu amigo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem mostra que seu mal não aborrece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem deste mesmo mal o perigo;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois logo se a razão isto conhece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Justo tormento foi, justo castigo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que tudo me levasse o leve vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois sobre coisas vãs fiz fundamento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
IX&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sente o cego amador em seus amores;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A paga do serviço ser o engano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Converterem-se os bens em puras dores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ser o proveito pouco, muito o dano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mentirosas lisonjas os louvores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O fim de seu trabalho um desengano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém nestas verdades que conhece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Amor com falsas mostras aparece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
X&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que vê cruel, mostra amoroso;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que é puro, mal finge bem puro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que certo é, faz duvidoso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E tudo o que se vai, dá por seguro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo que doce é, diz que é penoso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que é manifesto, mostra escuro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo confunde amor, tudo mistura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo possível faz, tudo assegura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XI&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mostra que pode dar contentamentos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aquele que de tais mostras se fia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E mostra que é remédio de tormentos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Instrumento do bem, e da alegria;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mostra que faz seguros fundamentos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E que leva segura, e reta via,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mostra que a vida toda permanece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas logo no melhor desaparece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XII&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas ó razão perversa, e infernal,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois tens a eleição tão cega, e injusta;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que queres dar um bem que tanto val,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por um perverso mal, que tanto custa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que por iguais teu bem, queiras teu mal,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E que aborreças tanto a vida justa?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que ames mais que a vida a morte dura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O grande mal, estranha desventura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XIII&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nesta alegria falsa, a qual eu douro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com minha razão torpe, e com meu erro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Onde as promessas são de fino ouro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E as dádivas são de duro ferro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trocava o rico preço, e o tesouro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que me levava à pátria do desterro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trocava o eterno bem que permanece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por um breve prazer que desfalece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
XIV&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Só o torpe Juízo, e insensato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A quem verdades tais são odiosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Das coisas preza mais o aparato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do que preza, e ama as mesmas coisas;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Só este a quem por falso já não trato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pode por falsas mostras, mas fermosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por uma breve, e vã desventura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aventurar um bem que sempre dura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
O poeta maneirista Diogo Bernardes, em seu soneto intitulado “Horas breves do meu contentamento”, reconhece que o amor humano não passa de um engano, de um contentamento fugaz. Essa meditação do poeta acerca do caráter falacioso do amor humano adquire um sentido moral, na medida em que o leva a concluir que, além de ter desperdiçado seu tempo com a ilusão dos efêmeros prazeres do amor (Que sobre coisas vãs fiz fundamento) na crença em seus projetos falidos de felicidade (as minhas torres que fundei no vento, / o vento mas levou que as sustinha), pois nada se realizou, restando-lhe apenas assumir o peso da culpa pela dor que lhe ficou do desengano e do arrependimento, por ter acreditado em um sentimento falso, efêmero e fugaz (Mas dês que dentro n´alma reina, e manda, / Como na minha fez, quer que se veja, / Quão fugitivo é, quão pouco dura).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tomados pelo pessimismo e pela descrença na ventura terrena, os poetas maneiristas, dentre os quais se inclui Diogo Bernardes, consideravam o mundo em que viviam uma teia de enganos e ilusões, da mesma forma que concebem “o amor entre homem e mulher o engano por excelência, o engodo que impele os homens a confundirem perigosamente a verdade e o erro, buscando contentamentos falazes que afastam a salvação eterna”.&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Alguns poetas, como Camões, em vários sonetos que mencionam as mentiras e perfídias do amor, e Bernardes, no soneto em análise, principalmente, não deram às suas queixas contra os enganos do amor uma conotação moral e religiosa, mas sim um sentido psicológico que atribui a tais enganos e desenganos as causas dos sofrimentos e da tristeza que atormentam o poeta. Todavia, glosado por outros poetas maneiristas, como André Falcão de Resende e Baltasar Estaco, o soneto “Horas breves do meu contentamento”, foi desenvolvido numa perspectiva moral e religiosa que intensificou a execração do amor terreno, ao qual contrapõe o amor divino:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E triste quem por baixo amor malino&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Alto e divino amor trocar quisesse,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E de vão bem por uma vã figura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aventurar um bem, que sempre dura).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D. Maria de Lara Resende glosa esse soneto bernardiano de forma exemplar, desenvolvendo com segurança e adequação o tema do desengano, das ilusões falazes e das perfídias do amor humano, dando, no entanto, ênfase aos efeitos morais e psicológicos do desengano amoroso, haurido no texto de Diogo Bernardes bem como aos efeitos morais e religiosos, coincidentes com as glosas de André Falcão de Resende, que desenvolve e acentua a condenação do amor terreno ao qual contrapõe, nos versos das duas últimas estrofes (o eterno bem que permanece ao breve prazer que desfalece):&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nesta alegria falsa, a qual eu douro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com minha razão torpe, e com meu erro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Onde as promessas são de fino ouro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E as dádivas são de duro ferro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trocava o rico preço, e o tesouro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que me levava à pátria do desterro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Trocava o eterno bem que permanece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por um breve prazer que desfalece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Continuando a verbalizar as suas reflexões acerca da insensatez dos que recusam - por razões inconfessáveis - e execram tais verdades, preferindo enlear-se nas falsas aparências e nas enganosas promessas do amor perjuro, a poetisa reitera o seu propósito de não se deixar embair pelos acenos do falso amor humano, “a quem por falso já não trato”, pois não pretende que, seduzida por uma breve, e vã desventura, venha a arriscar-se a perder um bem que sempre dura:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Só o torpe Juízo, e insensato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A quem verdades tais são odiosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Das coisas preza mais o aparato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do que preza, e ama as mesmas coisas;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Só este a quem por falso já não trato,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pode por falsas mostras, mas fermosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por uma breve, e vã desventura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aventurar um bem que sempre dura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É curioso notar que a poetisa não repete fielmente no final de cada estrofe o verso bernardiano, fazendo algumas alterações, mais de acordo com o sentimento que deseja expressar, sem com isso deturpar o sentido geral desses versos. Alguns versos chegam a ser substituídos por outros diferentes. No final da derradeira estrofe, o verso que encerra a glosa é substituído pelo que André Falcão de Resende criou na glosa que fez do mesmo soneto de Bernardes, ou seja: Aventurar um bem que sempre dura, acrescentado ao texto original para dar à sua glosa um sentido religioso.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Essas fugas da poetisa ao texto original não desmerecem o valor da sua imitação amplificante ao texto de Diogo Bernardes. Ao contrário disso, as variantes que impôs à recriação do texto do poeta maneirista que intertextualiza ou tornaram-na mais enriquecida, tanto por esses desvios quanto pela extensão intertextual que realizou com o texto de André Falcão de Resende, concretizando, assim, um diálogo entre o seu texto, barroco em suas raízes, e os dos poetas maneiristas legitimamente apropriados através do processo intertextual.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considerando o fato de que o tema do desengano transitou para o Barroco como herança do Maneirismo, é natural que, na poesia barroca, essa temática tenha adquirido “novas características e novas ressonâncias, permitindo-nos concluir que o sentimento existencial que se comunica é já bem diverso”&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[2]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;do que é comunicado no soneto de Bernardes. Daí ser inevitável que haja diferenças na maneira como o tema é desenvolvido pela poetisa barroca, pois, enquanto a meditação de Bernardes sobre o desengano é dominada por intensa melancolia e sofrimento, que dão conta de uma atitude penitencial e ascética verdadeiramente sentida, na abordagem de D. Maria de Lara Resende o desenvolvimento do tema do desengano nas glosas tanto intertextualiza as meditações e as conclusões de Bernardes acerca da efemeridade do amor e da fugacidade dos momentos de felicidade quanto se aproxima da concepção tipicamente maneirista que opõe ao amor humano (enganoso, fugaz) e o amor divino (autêntico, eterno). Apesar da abordagem desse tema ensejar a adoção dos mais rebuscados torneios hiperbólicos para expressar a intensidade do desengano e a execração da falsidade na relação amorosa, a poetisa não sobrecarrega a expressão do seu sofrimento com imagens hiperbólicas. Apenas, na estrofe X, a autora lança mão de um processo anafórico no qual as antíteses se sucedem, num esforço reiterativo de denunciar as artimanhas do amor fingido, que, através de uma série de falsas aparências e mentirosas lisonjas e louvores vai convertendo o que é enganoso e ilusório em falsas verdades, e mascarando em verdade o que é falso - Amor com falsas mostras aparece, resultando desses engodos e falácias a conversão dos falsos bens em puras dores:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
[...]&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ser o proveito pouco, muito o dano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mentirosas lisonjas os louvores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O fim de seu trabalho um desengano,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém nestas verdades que conhece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Amor com falsas mostras aparece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que vê cruel, mostra amoroso;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que é puro, mal finge bem puro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que certo é, faz duvidoso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que se vai, dá por seguro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo que doce é, diz que é penoso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo o que é manifesto, mostra escuro;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo confunde amor, tudo mistura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tudo possível faz, tudo assegura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O poema chega ao final sem atingir uma expressão clara da emoção religiosa que o tema do desengano suscitaria, principalmente quando está em jogo a tensão gerada pela oposição entre o amor humano e o amor divino. Em alguns versos a clareza da linguagem é sacrificada pelos jogos de palavras e de imagens.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Apenas duas poetisas, dentre as que vicejaram fora dos muros dos conventos, tiveram as suas obras publicadas e preservadas nos acervos bibliotecários portugueses, o que possibilitou serem localizadas e levadas ao público do dos nossos dias. Todavia é possível que outras tenham existido, como é o caso de D. Feliciana de Milão, poetisa e prosadora que teve sua obra destruída por ordem real, ficando dela apenas algumas cartas, hoje sob a guarda da Biblioteca Nacional de Lisboa, das quais transcreveremos alguns trechos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
_______________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Op. cit., p. 296-297.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[2]&lt;/a&gt;&amp;nbsp;Id. Ibidem, p. 399.&lt;br /&gt;
_____________________________________________&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaio&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/5380433318576378912/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/5380433318576378912?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5380433318576378912" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/5380433318576378912" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2012/10/a-poesia-fora-do-claustro-parte-iii.html" rel="alternate" title="A Poesia Fora do Cláustro= PARTE III" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigOB28UsXklSU0PsYfUAuXGbnh95ijKi3kyY0dNMpCkRsmpRie_nN-X4-2HAAf6Ok2ZJFe2VUtA59rkIiOsnUPiLJHIbUN5spKrbmGfQFVP1WkrCShVeSM7n4N_n4jFQy0QMH1APoWis8v/s72-c/download.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-8462598461128047554</id><published>2012-10-12T23:36:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:04:03.916-03:00</updated><title type="text">A Polígrafa D. Feliciana de Milão Parte IV</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s1600/mulher-carta.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="131" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s200/mulher-carta.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Muito pouco se sabe acerca da biografia de D. Feliciana de Milão. Algumas informações foram recolhidas por Barbosa Machado e D. Antonio da Costa, a partir das quais tentamos traçar o perfil dessa escritora tão famosa em seu tempo, tão esquecida nos dias atuais.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
D. Feliciana de Milão nasceu em Lisboa e 1632 e falecida em 1705. Filha de pais ignorados, foi exposta na Roda dos Enjeitados de um convento, no qual, ao que parece, foi criada e educada com esmero. Já adulta e possuidora de razoável fortuna, certamente deixada por algum familiar que preferiu não se identificar, passou a morar em uma bela casa, na companhia de algumas escravas. Costumava freqüentar bailes e festas, igrejas e o passeio da cidade, sempre acompanhada de duas servas. Dotada de notório talento, inteligência e vastíssima erudição, escreveu poesias, cartas e tratados. Foi, portanto, poetisa e ensaísta de reconhecido valor, gozava de grande prestígio na corte e entre a intelectualidade da época. Muito bela, despertou paixões e recebeu vários pedidos de casamento, sendo indiferente a ambas as coisas. De espírito crítico e desenvolto não se eximia de tecer críticas e ironias aos que a molestavam ou incomodavam, chegando à audácia de escrever cartas a uma amiga nas quais criticava o Padre António Vieira e à corte, como veremos mais adiante. Muito afeita à leitura, corria os livreiros da cidade em busca de novidades e de jornais , nos quais se inteirava acerca dos acontecimentos, desde as guerras até à vida social, sendo, assim, uma espécie de crônica vivas das novidades recentes e dos fatos interessantes.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana, relata que D. Feliciana compôs poesias, em que a elegância competia com a agudeza. Diogo Ayres de Azevedo, no Portugal Illustrado, diz que o seu Tratado sobre a existência da pedra philosophal é uma obra que testemunha a profundidade dos conhecimentos da autora e que por si só poderia qualificá-la como uma das grandes inteligências do seu tempo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por razões ignoradas este tratado e todo o restante da obra de D. Feliciana foi destruída, por ordem do rei de Portugal, restando da autora apenas, em manuscrito, uma parte das sua correspondência. Em uma das suas cartas à sua amiga D. Margarida, ela faz alusão aos perigos de destruição ou de impedimento de publicação que ameaçam seus escritos, conforme o trecho abaixo revela:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
“Segurem-se os fiscaes, com que, se me der a ociosidade para o tinteiro, não mande imprimir os meus escriptos a Veneza, porque não disse, nem direi nunca, cousa que desminta o nome de D. Feliciana.”&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="https://www.blogger.com/null" name="more"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Infelizmente, a autora não cumpriu o que disse, e, assim sendo, dos seus manuscritos não enviados para fora de Portugal, somente parte das suas cartas escaparam à destruição. &amp;nbsp;Dentre as cartas da autora, deixadas na Biblioteca de Évora e hoje sob a guarda da Biblioteca Nacional de Lisboa, há algumas trocadas entre a autora e D. Maria das Saudades, freira no convento da Assunção de Via-longa. A que se segue, da autoria da amiga religiosa, escritas nos lúdicos e intrincados termos próprios dos jogos de linguagem típicos do gosto barroco, é quase indecifrável para leitores dos dias atuais. Todavia, percebe-se que o assunto gira em torno da figura do rei. Consta que D. Feliciana teria sido cortejada pelo monarca, mas nenhuma prova há desse fato:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
"Ora contente-se com a resposta, e saiba que ao jogo do homem hei-de ganhar, porque por homens não me costumo perder. Vamos, parceira, olhe como se destaca, que não seja de rei, sendo que os reis para Vossa Mercê se descartam; e se na mão, como Vossa Mercê quer, me fica um rei secco, como vi que na de Vossa Mercê foi verde, por isso encontrou desgraça; e eu não lhe empato as vasas, nem tenho tenção de lhe furtar os tentos, que sempre trouxe a cara descoberta quem não tem que encobrir nos procedimentos da pessoa. Deus guarde a Vossa Mercê.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Via-longa- 6ª. feira – D. Maria das Saudades "&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aos 24 anos de idade, em pleno apogeu de sua juventude, beleza e prestígio social, D. Feliciana de Milão, de repente, tomou a decisão de fazer-se freira. Logo, recolheu-se ao mosteiro de Odivelas, tomou o hábito, professou e assumiu o humilde encargo de porteira.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do convento, escreveu as cartas que se salvaram, sendo as mais irreverentes as que relata minuciosamente à sua amiga Margarida a deposição do rei D. Afonso VI e a que endereça a D. Maria das Saudades, ironizando os sermões do Pe. Vieira, como se pode ver nos trechos da referida carta:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
"Ora, Maria, não é de valia que aperteis comigo, que me ponhais culpa por padecermos em perigo de murmúrios. Quando me enxergasses vós gênio de Mestre [...] deste mundo, que me mandeis perguntar que censura pode dar-se ao Sermão que me anuíste do Padre António Vieira? Estou certa que naquele grande juízo sempre se há tão delgado que, a sair de Portugal, tivesse estima vantajosa em os teares do Cambray; pois já temos conhecido que nos ensinar a urdir cambray em Portugal.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sempre que prega, o entendem poucos, porque para poucos ele estende-os sempre. aonde porém passou a arte de jogos a mostrou inumerável nos pontos, se nesta panegírica história, ou neste histórico Sermão Panegírico que compôs, e não disse. [...] Outros diriam o próprio porque é próprio de más almas terem só parte em maus discursos. E porque da parte deste sermão todas me parecem desta cor, os tomei para passar algumas destas noites enfadonhas, porque se o que é mau por qualidade faz parecer pequeno o que é grande por natureza, como nos persuade neste sermão o seu autor, que melhor meio para encurtar noites compridas que meter-me à lição dos maus discursos deste papel? ".&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaios.&lt;/div&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/8462598461128047554/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/8462598461128047554?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8462598461128047554" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/8462598461128047554" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2012/10/a-poligrafa-d-feliciana-de-milao-parte.html" rel="alternate" title="A Polígrafa D. Feliciana de Milão Parte IV" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinOI0XrNtvD-7maLQQHjZS3s1s_gNPYzIY8ZCOR8VlUT_6ex3RyrjMWOrOp0Ps4zJFUEZeIhcyy1ZRd8i_5xqR4bF_xkT33GTSBoSjsJBJAeaWkoHpdpnMEApIlwYQw98TnfWDXsah_Mn-/s72-c/mulher-carta.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-7143616182217900240</id><published>2012-10-12T23:25:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:02:40.755-03:00</updated><title type="text">O LIRISMO CONVENTUAL - Parte V</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqdhmOzlfAlDc2YZUqo1ztXLLl89OErS-5r4We9OORic0tA32TbKAJ58n1ycP7LCiQZ_ugtJuXDOetdwiqbDsMV4JtNuk3DNyi1c6SNfT5L0NwpOV78fs6XxrNdxcfrR0FdGLfKX5s_0ZD/s1600/svxc.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqdhmOzlfAlDc2YZUqo1ztXLLl89OErS-5r4We9OORic0tA32TbKAJ58n1ycP7LCiQZ_ugtJuXDOetdwiqbDsMV4JtNuk3DNyi1c6SNfT5L0NwpOV78fs6XxrNdxcfrR0FdGLfKX5s_0ZD/s200/svxc.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
SÓROR VIOLANTE DO CÉU&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Apesar de rodeadas de muros conventuais, as mulheres que escreveram ao longo dos anos de seiscentos foram permeadas pelas preocupações dominantes do tempo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Isabel Allegro Magalhães)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem todas as ordens religiosas isolavam do mundo suas professas, propiciando-lhes convivência com pessoas de ambos os sexos no interior dos conventos, nos quais eram organizadas reuniões que atraíam poetas, artistas e intelectuais, seduzidos pelas atividades também culturais que ali eram realizadas, inclusive a boa música, o canto e a recitação de poesias. Exemplifica bem a liberdade que era dada às religiosas o caso de Sóror Mariana Alcoforado e seu ardente amor – por um cavalheiro francês – revelado nas célebres Cartas portuguesas.&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se as poetisas religiosas chegaram aos nossos dias com o prestígio que lograram alcançar no seu tempo, o mesmo não se deu com as demais poetisas, especialmente com Bernarda Ferreira de Lacerda e Maria de Lara e Meneses. Seus nomes e suas obras ficaram relegados ao esquecimento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sóror Violante do Céu nasceu em 1602 e faleceu em 1693, despedindo-se duma longa trajetória existencial, quase toda ela transcorrida entre os faustos da fama conquistada pela qualidade literária de sua obra. Antes de ingressar no convento, atendia pelo nome de Violante da Silveira, ou Violante de Montesino e cultivou a poesia profana, inclusive o lirismo amoroso. Após vestir o hábito, passou a investir o seu talento poético na poesia religiosa, revelando-se uma das mais prestigiadas representantes femininas do Barroco português, conquistando inúmeros prêmios e louvores das academias literárias do seu tempo. Sua produção literária é considerada pela crítica da atualidade um dos momentos altos do conceptualismo barroco português. Dentre as escritoras suas contemporâneas, nenhuma teve a obra mais celebrada que a dela, nem atingiu a culminância do seu sucesso entre os altos representantes da nobreza, da intelectualidade da época e dos próprios soberanos. As sucessivas edições dos seus livros logo se esgotavam, dentro e fora de Portugal.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sóror Violante do Céu publicou as seguintes obras: Rimas várias (Ruão, 1646); Parnaso lusitano de divinos e humanos versos (Lisboa, 1633, dois volumes); Romance a Cristo crucificado, Solilóquios para antes e depois da Comunhão (Lisboa, 1668); Oitavas a Nossa Senhora da Conceição em aplauso da vitória de Montes Claros (1665); Meditações de missa e preparação afectuosa de uma alma devota (1689), La transformacion por Dios (s/d); El hijo esposo y hermano (comédia, s/d); La vitória por la cruz (comédia, s/d).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Alguns aspectos biográficos de Sóror Violante do Céu merecem uma atenção especial, notadamente no tocante à sua vida sentimental, que ela mesma relata em um “romance” endereçado a Nise, uma amiga íntima da religiosa e também sua fiel confidente. Tal “romance”, que tanto espicaçou a curiosidade dos biógrafos de Sóror Violante, dá conta da sua mal sucedida relação afetiva com um homem a quem amara desde a adolescência e que ela supunha ser merecedor dos seus sentimentos. Desalentada, tomada pela tristeza, escreve:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considero la prudência&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Impossibles lãs venturas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Forçosos los precipícios,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lãs esperanças defuntas...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Desiludida com o amor e com os homens, Violante decide entrar para o convento. Ela mesma conta a Nise os sofrimentos que padeceu por causa das decepções amorosas, conflitos, dúvidas, ciúmes e incertezas:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Hizo loucuras por outra,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fue, sino em las astúcias,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Marcias Ariano em finezas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Adonis tambien em culpas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Y dexando-me um retrato&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque em la muerte futura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No me faltasse la imagem,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fuesse com falsas desculpas...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si quede triste, si muerta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tu que lo sabes lo julga,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que tantas vezes me hallaste,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Entre paracismos muda...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas, pensando en los agrabios,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tanto me vencio la furia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que admití devertimentos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Veras amorosas nunca...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O retorno do homem amado, depois de uma breve ausência, ao mesmo tempo em que fez renascer o amor no coração de Violante, encheu-a de dúvidas em relação ao destino que tal sentimento daria à sua vida:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Despues de um lustro de ausência,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Despues de tanta fortuna,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
El que negava respuestas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me haze agora perguntas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Matarme quiere de nuevo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque como al fim se oculta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No teme ser homicida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Y mas de vida que es suya.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Yo, que sujeta me veyo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A correspondencias justas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De un hombre que son finezas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Triunfar de mi amor procura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Renovadas las heridas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No sé que elija confusa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si buscar a quien me dexa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si dexar a quien me busca...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Confrontada com o dilema que exigia de si mesma uma atitude decisória, Violante recorre aos conselhos de Nise, para que consiga livrar-se da indecisão que a angustia:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si asseguro quien me olvida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si olvido quien me asegura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Obedezco a mis deseos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pero sugetome a culpas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
[...]&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh dame consejo, Nise,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
si de que muera no gustas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dime, que haré, Nise mia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dime, pues mi pena escuchas!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se Nise deu-lhe ou não o conselho pedido, não se sabe. Todavia Violante achou a solução para o conflito que a torturava na renuncia ao amor, mesmo com algum sofrimento:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Determinada em mi daño,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em mi ofensa resoluta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para um tumulo de vidas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Huy de tantas fortunas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ay, que ignorante prudencia!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ay, que imprudente cordura!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ay, que furioso delirio!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ay, que delirante furia!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Levada a tomar o hábito de freira dominicana, no Convento de Nossa Senhora da Rosa, aos 29 anos de idade, e a exilar-se na vida claustral, não motivada por uma imperiosa vocação, mas para proteger-se dos sentimentos que a arrebataram e fizeram sofrer, Violante voltou as costas para o mundo e para o amor. No entanto, em sua poesia, a temática amorosa desponta aqui e ali, como uma força oculta que não consegue, ou talvez não quer sufocar. Mesmo nas poesias de temática religiosa, nas quais suplica ao Criador o perdão para os seus erros passados, é freqüentemente o amor que emerge do seu discurso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No soneto que segue, tem-se a comprovação dessa presença do amor no espírito da poetisa. No poema, chamam a atenção as palavras opositivas vida e morte, alternadas no final dos versos. A antítese vida/morte é habilmente submetida a um jogo de sentidos no qual os termos opostos harmonizam-se através de um reiterado revezamento permutativo entre o sentido próprio e o sentido metafórico dos dois vocábulos: a morte, usada como expressão hiperbólica do sofrimento amoroso, confunde-se com a vida, como comprova o derradeiro verso do soneto.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se, apartada do corpo a doce vida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Domina em seu lugar a dura morte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De que nasce tardar-me tanto a morte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Si ausente d´alma estou que me dá vida?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não quero sem Silvano já ter vida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois tudo sem Silvano é viva morte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já que se foi Silvano, venha a morte&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Perca-se por Silvano a minha vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ah! suspirado ausente, se esta morte&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não te obriga querer vir dar-me a vida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como não ma vem dar a mesma morte?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas se na alma consiste a própria vida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem sei que se me tarda tanto a morte&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que é porque sinta a morte de tal vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A invulgar sensibilidade da autora, seu estilo intelectualizado e a sua habilidade técnica asseguraram-lhe lugar de destaque nas letras portuguesas, ao lado das maiores expressões da poesia barroca. Em suas poesias profanas, reunidas na obra intitulada Rimas várias, publicada em 1646, sobressaem as metáforas conceituosas, as sutilezas, os jogos verbais, as figuras de estilo, manipulados com invulgar habilidade. Veja-se, por exemplo, a estrutura metafórica através da qual se estruturam as estrofes da Canção que segue. As metáforas que se sucedem, usadas para referenciar o pensamento, espraiam-se em cascata ao longo da estrofe, resultando num efeito redundante e altamente intensificador do sentido:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Amante pensamento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Núncio de amor, correio a vontade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Emulação do vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lisonja da mais triste soledade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ministro da lembrança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Gosto na posse, alívio na esperança.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O soneto que abaixo exemplifica bem o requintado gosto barroco pela enumeração e pela proliferação verbal. Maria Lucília G. Pires chama a atenção para o fato de esse soneto ser quase exclusivamente constituído por “uma enumeração de adynata ou impossibilia, tópico que consiste em referir coisas impossíveis de se realizarem por serem opostas às leis naturais”, acrescentando que “este tópico tem sempre uma função hiperbólica, pois apresenta o facto que serve de tema ao poema como mais impossível (...) que todos os impossíveis enumerados”.&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[2]&lt;/a&gt; Soma-se a esse processo enumerativo a técnica da bimembração dos versos, resultando numa simetria perfeita em cada um deles e na estrofe como um todo. Vale notar que os versos bimembres encerram uma oposição intensificada, ou seja, eles têm no oxímoro a viga mestra de sua construção. Observe-se ainda o domínio absoluto do oxímoro e da bimembração em todos os versos das quadras, prolongando-se nos tercetos, sem que o uso intensivo de ambos os recursos de estilo prejudique o ritmo do soneto ou o torne monótono, como costuma acontecer em textos que se constroem de forma semelhante:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Será brando o rigor, firme a mudança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Humilde a presunção, vária a firmeza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Triste o prazer, discreta a confiança;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Terá a ingratidão firme lembrança,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Será rude o saber, sábia a rudeza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Áspero o amor, benigna a esquivança;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Será merecimento a indignidade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Defeito a perfeição, culpa a defensa,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Intrépido o temor, dura a piedade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Delito a obrigação, favor a ofensa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Verdadeira a traição, falsa a verdade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Antes que vosso amor meu peito vença.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A inevitabilidade da morte e do caráter transitório da vida é um dos temas mais apreciados pelos poetas barrocos, bem como o gosto pela meditação sobre a fugacidade das coisas e dos seres, principalmente da beleza da mulher, um dos símbolos mais dramáticos da destruição causada pelo tempo ou pela morte. A nota sombria do texto fica por conta do reconhecimento de que a vaidade, a beleza, enfim os bens terrenos, tudo caminha para o fim inexorável imposto pela morte:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
SONETO&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura, que fala a outra dama, que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos, e se assentou a um túmulo, que tinha este epitáfio, que leu curiosamente)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ó tu, que com enganos divertida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vives do que hás-de ser tão descuidada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aprende aqui lições de escarmentada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ostentarás acções de prevenida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considera, que em terra convertida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Jaz aqui a beleza mais louvada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E que tudo o da vida é pó, é nada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E que menos que nada a tua vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Considera, que a morte rigorosa&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não respeita beleza, nem juízo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E que sendo tão certa é duvidosa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Admite deste túmulo o aviso,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E vive do teu fim mais cuidadosa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois sabes, que o teu fim é tão preciso.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No soneto dado a seguir, a poetisa deseja expressar o desconcerto de um coração atormentado pela dúvida e o faz num crescendo que as duas quadras e o último terceto paralelamente acentuam nas duas formas interrogativas. E é na chave do soneto que conclui, empolgadamente, qual poderá ser o estado de alma que resultará de uma certeza, se só a dúvida já é suficiente para a matar. A poetisa desdobra essa idéia obcecante, insistindo nela três vezes, apenas mudando a forma de expressão que traduz o seu estado de espírito presente e deixa subentendido o que poderá acontecer se a dúvida se transformar em certeza. A idéia está condensada nos dois primeiros versos e no último terceto:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Amor, se uma mudança imaginada&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É com tanto rigor minha homicida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fará, se passar de ser temida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A ser, como temida, averiguada?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se, só por ser de mim tão receada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Com dura execução me tira a vida,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fará, se chegar a ser sabida?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que fará, se passar de suspeitada?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém, já que se mata, sendo incerta,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Somente o imaginá-la e presumi-la&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Claro está, pois da vida o fio corta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que me fará depois, quando for certa:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ou tornar a viver para senti-la,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ou senti-la também depois de morta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O refinamento do amor traduz-se no último terceto, nos dois versos finais. Num requinte de sentimento, acentua-se a continuidade do sofrimento, mesmo além da morte, que pode levar a um renascer contínuo a serviço do mesmo amor, sempre tomado por dúvidas angustiantes: “Ou tornar a viver, para senti-la. / Ou senti-la também depois de morta”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A inspiração de Sóror Violante do Céu não se voltava apenas para a expressão de seus sentimentos, da sua religiosidade e da sua visão de mundo. Coexistia com esse lado grave da poetisa um outro jovial, irreverente e irônico, através do qual dava vazão ao “estilo jocoso”, tão do gosto da ludicidade e do espírito crítico dos barrocos. A guisa de exemplificação, segue-se a décima, escrita decerto em data anterior ao ingresso da poetisa no convento, com a qual respondeu a um certo doutor que caíra na infeliz idéia de fazer um trocadilho com o nome da autora, associando-o ao nome da viola ou violeta, respectivamente, instrumento musical e flor:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Contradizer a um doutor,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Bem sei que é temeridade;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porém com uma verdade&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quero pagar um louvor:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem instrumento, nem flor&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sou, porém se o posso ser,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ninguém trate de empreender&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que não há-de alcançar,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois nenhum me há-de tocar,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois nenhum me há-de colher.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Celebrada, como já foi dito, por personalidades importantes do mundo das letras, da aristocracia e do clero, as composições de Sóror Violante eram recebidas com aplausos pelos seus admiradores, eram lidas, recitadas, e tinham as suas edições rapidamente esgotadas em Portugal e no estrangeiro.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
_________________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt; Sóror Mariana Alcoforado,&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div id="ftn2"&gt;
&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx" name="_ftn2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt; Maria Lucília G. Pires&lt;i&gt;, Op. cit.,&lt;/i&gt; p. 108.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="MsoFootnoteText"&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
</content><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/feeds/7143616182217900240/comments/default" rel="replies" title="Postar comentários" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/5043598139122945130/7143616182217900240?isPopup=true" rel="replies" title="0 Comentários" type="text/html"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7143616182217900240" rel="edit" type="application/atom+xml"/><link href="http://www.blogger.com/feeds/5043598139122945130/posts/default/7143616182217900240" rel="self" type="application/atom+xml"/><link href="http://litterascripta-litteratura.blogspot.com/2012/10/o-lirismo-conventual-parte-v.html" rel="alternate" title="O LIRISMO CONVENTUAL - Parte V" type="text/html"/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image height="16" rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" src="https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" width="16"/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" height="72" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqdhmOzlfAlDc2YZUqo1ztXLLl89OErS-5r4We9OORic0tA32TbKAJ58n1ycP7LCiQZ_ugtJuXDOetdwiqbDsMV4JtNuk3DNyi1c6SNfT5L0NwpOV78fs6XxrNdxcfrR0FdGLfKX5s_0ZD/s72-c/svxc.jpg" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5043598139122945130.post-5470049470105101189</id><published>2012-10-12T23:22:00.000-03:00</published><updated>2015-05-27T19:00:35.662-03:00</updated><title type="text">O LIRISMO CONVENTUAI - PARTE VI</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a href="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAx1H8gUNcdgslobzl9fMTgRRpXTEbTZDiTDOtbT0MbuPhjMiPT_dyudyHMOy_6uDIoBl9wzgUP-qDUve1IDqIW9dzIs7pfqzpmXOgtTp1qzwZ-q2G69P8aAbJlMRd3IvsFSaDGc7jKJEZ/s1600/k1349817.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAx1H8gUNcdgslobzl9fMTgRRpXTEbTZDiTDOtbT0MbuPhjMiPT_dyudyHMOy_6uDIoBl9wzgUP-qDUve1IDqIW9dzIs7pfqzpmXOgtTp1qzwZ-q2G69P8aAbJlMRd3IvsFSaDGc7jKJEZ/s200/k1349817.jpg" width="133" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&amp;nbsp;SÓROR MADALENA DA GLÓRIA&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh! Considera em tão penosa sorte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que a vida é feno, sendo raio a morte!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
(Sóror Madalena da Glória)&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Nascida em 1672 e falecida em 1759, Madalena da Glória ingressou no Convento de Nossa Senhora da Esperança aos dezesseis anos de idade. Com o pseudônimo de Leonarda da Gama, escreveu várias obras, em prosa e verso: Brados do desengano contra o profundo sono do esquecimento (2 tomos, 1739 e 1749); Orbe celeste adornado de brilhantes estrelas e dois ramalhetes.(1742); Reino da Babilônia ganhado pelas armas do Empírio (1749). Os principais poemas da autora estão inseridos ao longo de narrativas alegóricas de função moralizadora&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se, na composição dos sonetos, Sóror Madalena da Glória revela menos esmero e habilidade do que Sóror Violante do Céu, consegue, no entanto, superá-la no trato com formas poéticas menos fechadas, adequadas, na medida justa, à sua exuberante e solta imaginação lírica, ao seu sereno sentimentalismo. Sóror Madalena da Glória destaca-se, ainda, pela desenvoltura com que maneja o jogo de conceitos típico do conceitismo, despojando esse estilo de exageros e frivolidades, utilizando-o no sentido mais intensamente expressivo de uma discreta densidade que emana dos seus versos. A estrofe que segue, escrita em oitava rima, ressalta a leveza da construção metafórica dos poemas da poetisa-freira, nos quais as metáforas em série vão se sucedendo de verso a verso, para exprimirem o caráter efêmero da vida humana:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esse monte de fogo, que nascendo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em campo de safiras, luz ardente&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em chegando ao zênite, já vai descendo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando o viste subir do seu oriente:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nasceu luz, cresceu sol, porém morrendo&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nem luz, nem sol se mostra no ocidente.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pois se de vida o sol não tem dois dias,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mortal, como em instantes te confias?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A poesia de Sóror Madalena da Glória percorre, praticamente, toda a temática barroca, ocupando lugar de destaque o problema da efemeridade da vida humana, do tempo, da morte e do desengano.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O tema da efemeridade da vida, quase sempre, se desenvolve em conexão com o da transitoriedade do tempo e da inexorável ação destrutiva que ele exerce sobre o físico e a mente do homem, arrastando-o para a morte:&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esse sono, em que cego vás passando,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Essa vida mortal, em que confias,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já nas asas do tempo vai voando&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque da vida instantes são os dias:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já que o tempo da vida vai correndo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A flor da formosura descaindo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do sol o resplendor desfalecendo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E a luz do desengano vem ferindo:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando tudo da vida vai morrendo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E tudo enfim a morte desunindo;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Oh! Considera em tão penosa sorte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que a vida é feno, sendo raio a morte!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No livro da poetisa, Orbe celeste, o tema da morte, sempre presente na lírica barroca, é desenvolvido em vários poemas dentre os quais figura o soneto a seguir, dedicado A uma caveira pintada em um painel que foi retrato, associado à meditação acerca da efemeridade dos valores terrenos:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este que vês de sombras colorido&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E invejas deu na primavera às flores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do pincel transformadas os primores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Desengano horroroso é dos sentidos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ídolo foi do engano pretendido&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A que a cega ilusão votou louvores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estrago é já do tempo e seus rigores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que então foi ao que é já reduzido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi um vão artifício do cuidado,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi luz exposta ao combater do vento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Emprego dos perigos mal guardado;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi nácar reduzido ao macilento,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O culto ali nos medos transformada,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mortalha a gala, a casa monumento.&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É certo que a consciência de que o tempo flui, arrastando o homem, em sua passagem, não está presente apenas no Barroco; ela está presente na literatura desde sempre, intensificando-se no período maneirista, do qual transitou para o Barroco trazendo consigo o mesmo caráter obsessivo que lhe imprimiu o Maneirismo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O teor subjetivo da poesia de Madalena da Glória, a expressão de estados melancólicos, suscitados pela saudade de um bem ausente, pelo desengano e pelos ciúmes, é bem estranha, considerando-se tratar-se da obra de uma freira:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aves que o ar discorreis,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No vôo as asas batendo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E por vossas penas conta&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Às minhas meu sentimento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Compadecidas ouvi&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De minha dor os excessos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas em dizer que é saudade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Digo o que posso dizer-vos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Triste padeço, e ausente&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Os golpes dos meus receios&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas batalhas da distância,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nos desafios do tempo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas violências, do que choro,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dos alívios desespero,&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que não adormece a queixa,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando a desperta o desvelo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Esmoreceu a esperança&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas dilações do desejo,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Prognosticando a ruína&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Frenético o pensamento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se meu mal são sintomas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mortais ausências, e zelos,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Era o remédio esquecer-me,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se em mim houvera esquecimento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas se faz no meu cuidado&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Operações o veneno,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Viva de senti-lo quem,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não morre de padecê-lo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já que morro, ingrata sorte,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Às mãos da tua porfia,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Deixa-me inquirir um dia&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A causa da minha morte:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se amor com impulso forte&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Me rendeu, como me aparta&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Do bem, que na alma retrata&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Minha doce saudade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que em lágrimas persuade,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Como dá vida o que mata.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A religiosidade encontra na poesia barroca muitas formas de expressão. O sujeito poético apresenta-se quase sempre como um ser fraco, arrastado para o pecado e assumindo uma total dependência ao amor e da misericórdia de Deus. No soneto abaixo, inserto no livro de Sóror Madalena da Glória, Reino da Babilônia, o ser que nele fala posta-se suplicante perante a graça divina, contrito e consciente da sua situação de pecador penitente. Todavia, fica clara a relação amorosa que se estabelece entre a alma pecadora e o Criador, pautada numa reciprocidade que faz da criatura não apenas uma fonte de amor por Deus como o objeto do amor divino:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
OITAVAS&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já, Senhor, despertaram meus cuidados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Em tanta ingratidão adormecidos;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nasceram a querer-vos destinados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E em cega idolatria os vi perdidos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Vossa mesma fineza lhe deu brados&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Por que a tanto favor agradecidos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Confesse o coração com rendimento&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que é de vosso amor doce sustento.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dos aparentes bens a prisão dura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o gosto cativaram com violência,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Venceu a vossa luz a sombra escura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para maior vitória da clemência.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Constante a minha fé vos assegura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De Babilônia às leis a resistência,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que é certo pouco faz quem obedece,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se chegando a vos ver o mais lhe esquece.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Primeiro se verá da Quarta Esfera&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Apagado o monarca refulgente&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que no palácio etéreo reverbera&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A luz que os montes doura no oriente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que meu amor vos falte quando espera&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que acendais vós com fogo o fogo ardente,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que o peito, que das chamas tem inveja,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Um coração de chamas ter deseja.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Venham formosos lírios, venham rosas,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Maçãs e jasmins venham, que ferida&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Minha alma está das setas amorosas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Que quanto mais me ferem me dão vida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Cubram-me de açucenas, que cheirosas&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Fragrâncias vão inspirando à fé unida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Arda o peito no fogo em que suave&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Imite o coração a imortal ave.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não é a tematização do amor o que centraliza os interesses dos poetas barrocos. Muitas vezes o tema amoroso é abordado como mero exercício poético, como sátira ou como ludicidade. Talvez seja nesse último caso que se inclui a composição de Sóror Madalena da Glória que segue, considerando-se que o poema é desenvolvido a partir de um mote, o que aponta para o caráter lúdico do texto:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
MOTE E GLOSA&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tenho amor, sem ter amores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
GLOSAS&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este mal que não tem cura,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este bem que me arrebata,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este rigor que me mata,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta entendida loucura&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É mal e é bem que me apura;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Se equivocando os rigores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Da fortuna aos favores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É remédio em caso tal&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dar por resposta ao meu mal:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tenho amor, sem ter amores.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É fogo, é incêndio, é raio,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este, que em penosa calma,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sendo do meu peito alma,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De minha vida é desmaio:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E pois em moral ensaio&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Da dor padeço os rigores,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Pergunta em tristes clamores&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A causa da minha aflição,&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Respondeu o coração:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tenho amor, sem ter amores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A leveza da construção metafórica dos poemas da poetisa-freira, o equilíbrio e a habilidade com que maneja o conceitismo, o a vontade com que trabalha o verso, dando expressão aos sentimentos e sua imaginação lírica, faz da autora uma das mais qualificadas expressões da poesia barroca portuguesa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="file:///C:/Users/ZENOBIA/Documents/O%20BARROCO%20NO%20FEMININO%202%20(Reparado).docx"&gt;[1]&lt;/a&gt; Sóror Madalena da Glória, Op, cit., p. 265),&lt;br /&gt;
____________________________________________________&lt;br /&gt;
Zenóbia Collares Moreira. O Barroco no Feminino. Ensaios&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: center;"&gt;
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