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	<title>Marmota, mais dos mesmos</title>
	
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	<description>O mesmo de sempre, agora no Dialetica.org</description>
	<pubDate>Thu, 09 Jul 2009 12:42:45 +0000</pubDate>
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			<creativeCommons:license>http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/</creativeCommons:license><image><link>http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/</link><url>http://creativecommons.org/images/public/somerights20.gif</url><title>Some Rights Reserved</title></image><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" href="http://feeds.feedburner.com/marmota" type="application/rss+xml" /><feedburner:emailServiceId>marmota</feedburner:emailServiceId><feedburner:feedburnerHostname>http://feedburner.google.com</feedburner:feedburnerHostname><feedburner:feedFlare href="http://add.my.yahoo.com/rss?url=http%3A%2F%2Ffeeds.feedburner.com%2Fmarmota" src="http://us.i1.yimg.com/us.yimg.com/i/us/my/addtomyyahoo4.gif">Subscribe with My Yahoo!</feedburner:feedFlare><feedburner:feedFlare href="http://www.newsgator.com/ngs/subscriber/subext.aspx?url=http%3A%2F%2Ffeeds.feedburner.com%2Fmarmota" src="http://www.newsgator.com/images/ngsub1.gif">Subscribe with NewsGator</feedburner:feedFlare><feedburner:feedFlare href="http://www.bloglines.com/sub/http://feeds.feedburner.com/marmota" src="http://www.bloglines.com/images/sub_modern11.gif">Subscribe with Bloglines</feedburner:feedFlare><feedburner:feedFlare href="http://www.netvibes.com/subscribe.php?url=http%3A%2F%2Ffeeds.feedburner.com%2Fmarmota" src="http://www.netvibes.com/img/add2netvibes.gif">Subscribe with Netvibes</feedburner:feedFlare><feedburner:feedFlare href="http://fusion.google.com/add?feedurl=http%3A%2F%2Ffeeds.feedburner.com%2Fmarmota" src="http://buttons.googlesyndication.com/fusion/add.gif">Subscribe with Google</feedburner:feedFlare><feedburner:feedFlare href="http://www.live.com/?add=http%3A%2F%2Ffeeds.feedburner.com%2Fmarmota" src="http://tkfiles.storage.msn.com/x1piYkpqHC_35nIp1gLE68-wvzLZO8iXl_JMledmJQXP-XTBOLfmQv4zhj4MhcWEJh_GtoBIiAl1Mjh-ndp9k47If7hTaFno0mxW9_i3p_5qQw">Subscribe with Live.com</feedburner:feedFlare><feedburner:browserFriendly>Leia o Marmota através do seu leitor RSS/XML favorito ou através de algum dos serviços on-line à direita.</feedburner:browserFriendly><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com" /><item>
		<title>Tina Oiticica Harris e eu</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jul 2009 12:42:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[E eu, uma pedra]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se um ano é tempo suficiente para que um episódio seja esquecido, digerido ou provocado alguma reflexão. Também nunca tive pretensão em julgar o que os outros pensam ou fazem, apenas defendo o direito de todos eles em defender suas idéias livremente. Na verdade, nada disso importa. O que você verá a seguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/pedra.gif" align="right" />Não sei se um ano é tempo suficiente para que um episódio seja esquecido, digerido ou provocado alguma reflexão. Também nunca tive pretensão em julgar o que os outros pensam ou fazem, apenas defendo o direito de todos eles em defender suas idéias livremente. Na verdade, nada disso importa. O que você verá a seguir é apenas uma descrição sobre como desenvolvi minha conexão virtual com uma amiga que perdi há um ano, e o que aprendi com isso. Pode ser que não sirva para você, mas enfim.</p>
<p>Em junho de 2006, fiz um textinho bem vagabundo sobre minha rotina durante a Copa. Fui surpreendido por um comentário, mmmhhh, complexo.</p>
<p><tt>Um dos comentários seus leva o bolão se dependesse de mim. Sou apaixonada por futebol. Nos tempos da FAU-UFRJ, íamos dois amigos e eu para a geral três vêzes por semana. Um é Framengo, o outro é Fluminense e eu sou Botafogo. Há vinte anos moro na minha terra natal, os EUA. Perdi muito o interesse pelo futebol e pior: vi a seleção ao vivo em Pasadena contra a Suécia; foi um purgante de jalapa aquele jogo. Recentemente colocamos a Rede Bobo pra dentro da casa. Dá pra ver o futebol do Brasil. Chego no ponto do bolão já-já. O futebol jogado no Brasil mudou. Não ligo pra campeonato nacional. Você venceu: torço é pro Botafogo; ainda mais, o quê me interessa é o campeonato carioca. O escrete canarinho, dizer o quê? Vi uns poucos jogos do Gaúcho, vi aquela vergonha contra a França, não gosto desde então do Ronaldo Fenômeno. João Saldanha dizia que a camisa pesa. Cheguei aqui através do blog Pensar Enlouquece.</tt></p>
<p>A quantidade de informações encadeadas num único parágrafo chama a atenção de qualquer um. Acabei que não dei qualquer retorno - sequer agradeci a visita, como normalmente faço. &#8220;É por isso que seus visitantes somem&#8221;, pensei. Não foi bem assim. Ela voltou em outubro, intervindo num texto meu de proposta bem clichê: resolva seus problemas chutando aquilo que não lhe faz bem.</p>
<p><tt>Alhear-se de pensamentos negativos é um exercício de força de vontade muito além da que tenho. Sou obsessiva, remôo todos os lados da questão que me injuria, falo pra caramba, escrevo, acordo de volta ao assunto e não esqueço. Acho que só um Maracanã de fósforos pra mudar minha idéia ou o Botafogo ser campeão. Valeu a retórica, ao menos.</tt></p>
<p>Se não havia motivo para ignorá-la da primeira vez, agora havia. &#8220;Deve ser difícil lidar com essa mulher&#8221;. Ah, vá! Demorou mais algumas semanas até surgir a primeira cutucada. Lembro quando ela reapareceu em janeiro de 2007, quando escrevi um texto simplinho sobre a cratera do Metrô de São Paulo. Cheguei a conversar com a <a href="http://dialetica.org/agridoce/2008/07/10/tina" target="_blank"><b>Luciana</b></a>: &#8220;ei, já ouviu falar na Tina? Olha esse comentário aqui e me diz: ela não é maluca?&#8221;. Aqui, além das múltiplas informações encadeadas, veio uma atropelada leve.</p>
<p><tt>Multiplique por vários milhares e você terá a cobertura do 9/11. Só soube hoje porque a Time Warner é malvada e nos deixou sem Internet; todos aqui no sul da California estamos com problemas. O buraco? Provavelmente erro na construção, desleixo no estudo geológico&#8230; A ponte Rio-Niterói deu problema porque os peões embuxavam os furos na estrutura com jornal, segundo um dos meus professores na FAU-UFRJ. Houve aqueles prédios na Barra, foi erro na construção, ganância. Meus votos de dias melhores a toda São Paulo. Isso não tem a ver com Serra ou PT. A indústria de construção civil é fogo na estopa. Olha só o bode de Nova Orleans e foi o exército USA quem construiu a proteção teórica da cidade. Para mim a palavra mais apropriada, com sua licença, é responsabilidade, não culpa. Culpa é coisa de religião. Com todo respeito.</tt> </p>
<p>Devo ressaltar aqui minha admiração aos que, mesmo diante da interface eletrônica que a rede oferece, agem exatamente como se o interlocutor estivesse diante dos seus olhos. Conheço quem goste de entrar em uma boa discussão&#8230;  Há quem elabore argumentos como se não houvesse amanhã e sinta prazer quando percebe o oponente partir para a ofensa, demonstrando fraqueza.</p>
<p>Não é o meu caso. Minha cota de interação com pessoas esquentadas costuma esgotar no âmbito profissional, onde &#8220;convivência&#8221; vira sinônimo de &#8220;sobrevivência&#8221;. Preferi ser educado, agradecendo finalmente a visita e sinalizando um ajuste no texto. Novo comentário dela no texto seguinte, mais um e-mail simpático de retorno. No primeiro e-mail que recebi dela, pincei uma entre inúmeras idéias descritas - creio que nunca mais verei alguém com estilo de texto parecido ao dela.</p>
<p><tt>Muito obrigada pelas palavras gentis. Sou petista e Libelu. Espero que não mude sua opinião sobre mim. Tenho fama de barraqueira entre os blogueiros. Treteira. Pois é.</tt></p>
<p>Decidi ignorar solenemente os adjetivos que ela usou, mantendo a cordialidade - o que fez com que eu descobrisse mais a respeito dela. Ao redigir uma mensagem para qualquer pessoa, costumo começar com &#8220;espero que esteja tudo bem com você&#8221;, ou algo assim. Logo percebi que devia ter deixado isso bem claro a ela.</p>
<p><tt>Esses dias perguntei um lance e quando você tiver tempo me responda, por favor.  Por quê você tomou a iniciativa, duas vezes, de saber como estou? Fiquei intrigada, é só isso.</tt></p>
<p>Minha explicação resultou em algo que não se vê todos os dias. Ela me respondeu como estava de maneira sincera, aberta, surpreendente. Usou para isso um longo arquivo em word, onde revelou muitos detalhes sobre sua vida.  Contou suas idas e vindas entre Estados Unidos e Rio de Jaqneiro, hoistórias permeadas com a ditadura militar e sua carreira como professora de inglês. Detalhou seus problemas de saúde, de origem nervosa, e suas cirurgias. Uma delas explica seu discurso peculiar: como tinha dificuldades para digitar, seus textos eram concebidos por um programa de reconhecimento de voz.</p>
<p>Ah, sim. A segunda parte do mesmo arquivo trouxe uma história envolvendo sua relação tensa com alguns blogs, algo que ela levava a sério demais - infelizmente. Considerei que a primeira parte do relato explica o fato de sua mente criar conexões estranhas entre expressões aparentemente inocentes, pregando-lhe peças. Uma vez, por exemplo, coloquei um link para a Ana Brambilla - cujo blog chama-se Libellus. E não é que a Tina veio brigar comigo, sentindo-se perseguida e ofendida por ter sido da Libelu?</p>
<p>Sim, a Tina era uma pessoa difícil de lidar. Mas eu a respeitava, exatamente por identificar o que estava por trás disso. Segui ignorando o que a pudesse fazer mal: limitávamo-nos a conversar sobre os assuntos de nossos blogs. Eu aprendi a lidar com seu temperamento, e admito que não era tarefa simples.</p>
<p>A própria <a href="http://dialetica.org/agridoce/2008/07/10/tina" target="_blank"><b>Luciana</b></a> (que também adora um barraquinho, vai) perdia a paciência facilmente. Em boa parte dos casos, bastava parodiar o Balão Mágico para seguirmos em frente, dando risada: &#8220;dizem que é lelé da cuca, mas a Tina é gente fina e companheira&#8221;. Na briga mais feia que elas tiveram, ela desabafou e, ao final, perguntei:</p>
<p>- Lu, a Tina é mau-caráter?</p>
<p>- Não, não é&#8230; </p>
<p>- Então releve, Lu.</p>
<p>Nunca soube se a Tina gostava ou não dessa vida de implicante. Ela não parava de se enrolar, mas ao mesmo tempo pedia, vez ou outra, conselhos para sair destas saias justas. Foi assim quando proliferaram alguns posts com temática &#8220;essa tina é louca&#8221; na mesma semana que, coincidentemente, a mãe dela faleceu. No fundo, sinto que ela queria apenas ser ouvida por alguém. Era o que eu fazia, além de respondê-la sempre de um jeito parecido.</p>
<p><tt>Oi, Tina! Sei que já passou um tempo desde que aquela multidão chegou ao seu blog por causa de alguns posts aí. Confesso que estava um pouco atarefado, por isso não acompanhei essa repercussão. Ao mesmo tempo, não presto atenção em relações virtuais quando elas não passam de simples troca de links ou tuitadas.</p>
<p>Mas enfim, como já te disse antes, a melhor coisa a fazer sempre nessas situações todas é ignorar completamente as pessoas que nos fazem mal. Eu também ando bastante entediado com pessoas que medem seu valor numa escala fraca - fulano é top te linha porque Fudêncio falou nele&#8230; Batizei essas relações de &#8220;suflê&#8221;: são infladas, mas sem sustância, entende?</p>
<p>Sabe, às vezes sinto em você uma necessidade (muito positiva) em responder com firmeza, demonstrando seu ponto de vista com veemência. Só que, dependendo de quem estiver do outro lado, os efeitos dessa argumentação podem te fazer mal. E sabe o que mais? Ficar incomodada com &#8220;relações suflê&#8221; é perder um tempo que poderia ser ocupado com coisas melhores.</p>
<p>No seu lugar, Tina, eu pensaria assim: &#8220;bom, até esses dias, fulano conversava comigo por alguma razão. Agora me agride, me dispensa&#8230; Ou vai ver que está se dedicando a outras prioridades, o que pode ser bom pra ele. Se qualquer dessas coisas o faz feliz, viva. Eu vou seguir minha vida, cultivando aquilo que me faz bem&#8221;.</p>
<p>Resumidamente: não tem como agradarmos a todos, e espero realmente que você use esse episódio como uma excelente oportunidade: limpe sua caixa de entrada e largue quem te decepciona. Valores baseados em &#8220;relações suflê&#8221; não fazem bem. Relações verdadeiras, baseadas na amizade e no respeito, sim.</tt></p>
<p>Acredito que ela nunca tenha conseguido ignorar relações virtuais. Pode ser que ela realmente identificasse relevância em se aproximar de conexões e insuflá-las, pegando carona em &#8220;hubs sociais&#8221;. Mas como disse, nada disso importa. Há pouco mais de um ano, a <a href="http://dialetica.org/agridoce/2008/07/10/tina" target="_blank"><b>Luciana</b></a> me estimulou a fazer algo que já tinha vontade há tempos: &#8220;por que não gravamos um podcast especial com a Tina?&#8221;.</p>
<p>Tínhamos alguns bons pretextos: a Tina ouvia constantemente nosso experimento, o <a href="http://www.dialetica.org/lovelive" target="_blank"><b>LoveLive</b></a>. Ao mesmo tempo, o aniversário dela estava próximo. Assim, formalizamos o convite e, via Skype, ficamos umas três horas jogando conversa fora. Tive uma certeza: a &#8220;Tina oral&#8221; não se aproxima em nada da &#8220;Tina verbal&#8221;, a ponto de me arrepender por não ter tomado essa iniciativa há mais tempo.</p>
<p>Talvez por isso eu tenha ficado tão chocado com a súbita morte da Tina, dois dias depois daquela conversa tão rica, tão cheia de vida, de planos futuros (sobre isso, <a href="http://dialetica.org/agridoce/2008/07/10/tina" target="_blank"><b>Luciana</b></a> e o <a href="http://www.interney.net/blogs/hedonismos/2008/07/11/tina_oiticica_harris" target="_blank"><b>Doni</b></a> já disseram o que eu penso). Fiquei mais triste ainda pelo marido Nicolas e o filho Gabriel, que diante de tantos elos enfraquecidos na web, eram suas conexões mais valiosas. Foi assim que a Tina se despediu, horas depois do nosso bate-papo:</p>
<p><tt>Quero agradecer pelo papo no Skype, que deixou de incluir vários dos temas propostos mas foi super-legal pra mim. Espero poder vê-los LIVE aqui em Santa Monica, onde nossas portas estão abertas para vocês.</p>
<p>Duas coisas que aprendi sobre o André, confirme ou não Luciana pois você o conhece bem melhor que eu. Primeiro, a memória dele me assustou, pois é tão boa e detalhista quanto a minha. Segundo, me parece que ele exerce sua liderança usando a lei do menor esforço. Ele não briga, não força a barra, apenas caga e anda, o que minha tchurma chamava de &#8220;lesmar&#8221; para o que vá desgastá-lo.</p>
<p>Finalmente, vai ser uma puta tranqueira (meu) editar três horas e doze minutos de papo. Estou com pena adiantada dele.</p>
<p>Para mim foi muita emoção. Luciana, volte a blogar por favor porque sinto falta dos teus posts. André, desculpe-me pelo abuso do seu tempo. Seja incisivo e me corte de saída na próxima.</p>
<p>Beijos pra vocês e até breve nos comentários da vida na blogosfera.</tt></p>
<p>A Tina nem imagina o trabalho que tive para editar&#8230; Preferi não mexer nessa gravação, esperar nossas vidas seguirem. Até para convidar a todos para guardarem todos os adjetivos para si, sejam eles bons ou ruins, e simplesmente curtir as boas vibrações propagadas por nossas gargalhadas. E já que você conseguiu ler até aqui, não custa nada <a href="http://dialetica.org/lovelive/2009/07/09/0009-tina-para-sempre"><b>ouvir mais uns setenta minutos</b></a> e, ao final, cantar &#8220;parabéns a você&#8221; ao som do Talking Heads.</p>
<p>Sim, ela era uma pessoa dificil de lidar. Isso explica facilmente os muitos comentários negativos que ela recebeu - tanto em vida quanto depois. Também cometo minhas gafes, não sou perfeito. Sem falar que, como Tina bem disse no LoveLive, de perto ninguém é normal. Sem julgamentos, encerro com uma das reflexões possíveis, tomando emprestado a mensagem mais feliz que recebi sobre o tema, há um ano.</p>
<p><tt>Eu nem sabia quem era a Tina. Mas por causa de seu falecimento, aprendi uma lição sua que nunca mais vou esquecer. Agora toda vez que estou brigando ou irritada com alguém, penso: &#8220;essa pessoa é mau-caráter?&#8221;. Isso põe as coisas em perspectiva. Sempre.</tt></p>
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		<title>Sarnar, verbo regular transitivo direto</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 05:20:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Faça fazendo]]></category>

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		<description><![CDATA[Segue um serviço de utilidade pública, diante da movimentação política dos últimos dias. Um ex-presidente da Reública que, graças a um feudo familiar no Maranhão (e uma movimentação escabrosa no Amapá) apronta altas confusões com uma galera do barulho nas sessões da tarde no Congresso Nacional. Seu método de trabalho veio à tona só agora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/fazendo.gif" align="right" />Segue um serviço de utilidade pública, diante da movimentação política dos últimos dias. Um ex-presidente da Reública que, graças a um feudo familiar no Maranhão (e uma <a href="http://www.interney.net/blogs/inagaki/2006/09/03/como_a_campanha_xo_sarney_se_espalhou_pe" target="_blank"><b>movimentação escabrosa no Amapá</b></a>) apronta altas confusões com uma galera do barulho nas sessões da tarde no Congresso Nacional. Seu método de trabalho veio à tona só agora e gerou manifestações na Internet (que, como diria <a href="http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/06/30/ashton-kutcher-da-licao-de-politica-a-brasileiros-no-twitter" target="_blank"><b>Ashton Kutcher</b></a>, não serão mais eficientes que a força do voto).</p>
<p>Como são muitas ações, convém lembrarmos da existência de uma expressão pouco popular, mas que faz parte do nosso léxico desde 1989, quando Belmiro Ferreira o conjugou pela primeira vez em 1989, num livrinho chamado &#8220;No País do Vale Tudo&#8221;. O verbete, também citado na prestigiosa <a href="http://desciclo.pedia.ws/wiki/Jos%C3%A9_Sarney" target="_blank"><b>Desciclopedia</b></a>, voltou à plena carga, graças à crise instaurada no senado. Aproveite a manifestação virtual, a ebulição em nossa capital federal e o inferno astral do atual presidente de nossa casa legislativa: vamos propagar a definição e as conjugações do verbo&#8230;</p>
<p><tt><b>Sarnar</b>. sar.nar <i>vtd bras ch</i> <b>1</b> Importunar, molestar e aborrecer, como uma sarna, sem que remédios ou mesmo a lei possa o atinja. <b>2</b> Infectar e contagiar instituições públicas usando troca de favores e gratificações entre seus colegas. <b>3</b> Parasitar repartições através da contratação de parentes. <b>4</b> Alterar decisões administrativas por meio de boletins suplementares publicados sem informações completas. <b>5</b> Aprovar pagamento de horas extras para colaboradores sem a devida comprovação. <b>6</b> Criar cargos desnecessários e agraciar tais contratados com privilégios e vencimentos acima do teto constitucional. <b>7</b> Alocar salários de mordomos, empregadas, motoristas e outros serviçais no centro de custo da população. <b>8</b> Negar qualquer quebra de decoro e alegar invencionices, ou aribuir problemas históricos à instituição e não a si mesmo. <b>9</b> Acumular anos de vida pública executando procedimentos políticos questionáveis e, ao mesmo tempo, transmitir uma imagem de justiça e honestidade. <b>10</b> Acreditar que pode ocupar o mesmo cargo, na certeza de que todos os escândalos serão esquecidos rapidamente pela opinião pública, quando finalmente poderá deixar tudo como está. <i>pres indic</i>: sarno, sarnas, sarna, sarnamos, sarnais, sarnam. <i>pret</i>: sarnei, sarnaste, sarnou, sarnamos, sarnastes, sarnaram. <i>imp</i>: sarnava, sarnavas, sarnava, sarn&aacute;vamos, sarn&aacute;veis, sarnavam. <i>pret m-q perf</i>: sarnara, sarnaras, sarnara, sarn&aacute;ramos, sarn&aacute;reis, sarnaram. <i>fut</i>: sarnarei, sarnar&aacute;s, sarnar&aacute;, sarnaremos, sarnareis, sarnar&atilde;o. <i>fut pret</i>: sarnaria, sarnarias, sarnaria, sarnar&iacute;amos, sarnar&iacute;eis, sarnariam. <i>pres subj</i>: sarne, sarnes, sarne, sarnemos, sarneis, sarnem. <i>imp subj</i>: sarnasse, sarnasses, sarnasse, sarn&aacute;ssemos, sarn&aacute;sseis, sarnassem. <i>fut subj</i>: sarnar, sarnares, sarnar, sarnarmos, sarnardes, sarnarem. <i>imper</i>: sarna, sarne, sarnemos, sarnai, sarnem. <i>ger</i>: sarnando. <i>part</i>: sarnado.</tt></p>
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<p>(Vídeo pinçado <a href="http://www.novacorja.org/?p=5297" target="_blank"><b>daqui</b></a>.)</p>
<p><b>Atualizado:</b> O Pedro Doria <a href="http://pedrodoria.com.br/2009/07/03/o-inacreditavel-jose-sartney" target="_blank"><b>recordou um breve histórico</b></a> do Sarney, escrito pelo Marcelo Tas, que pode ser útil para uma futura atualização deste post.</p>
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		<title>Bug do milênio e o começo do fim</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Jun 2009 15:30:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Curtas]]></category>

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		<description><![CDATA[Então esta quarta-feira é, como de praxe, o começo do fim.
Sim, pois tradicionalmente a cada ano, janeiro é o começo do começo. Lá por abril, temos o fim do começo. Julho marca o começo do fim. E em outubro, é o fim do fim!
É no começo do fim que, normalmente, surge a pergunta que replica [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Então esta quarta-feira é, como de praxe, o começo do fim.</p>
<p>Sim, pois tradicionalmente a cada ano, janeiro é o começo do começo. Lá por abril, temos o fim do começo. Julho marca o começo do fim. E em outubro, é o fim do fim!</p>
<p>É no começo do fim que, normalmente, surge a pergunta que replica em cabeças alheias como se fosse um meme inconsciente: &#8220;puxa, o tempo tá passando depressa, né?&#8221;.</p>
<p>Foi exatamente isso que ouvi, por exemplo, de <a href="http://blogdopatrick.blig.ig.com.br" target="_blank"><b>Sergio Patrick</b></a> na abertura daquele programa esportivo diário da Rádio Bandeirantes. A resposta de <a href="http://blogs.lancenet.com.br/maurobeting" target="_blank"><b>Mauro Beting</b></a>: &#8220;Sim, e a década está acabando. Lembra do bug do milênio?&#8221;.</p>
<p>Imaginava-se que o tal &#8220;bug do milênio&#8221; significaria uma pane em serviços informatizados. Dados poderiam envelhecer cem anos do dia para a noite: de 31/12/99 para 01/01/00 (ou seja, 1900). Essa expectativa sim, Lula, foi uma marolinha.</p>
<p>Talvez possamos recuperar o conceito e atribuí-lo a sensação de que os dias passam e não somos capazes de finalizar o que programamos, absorver as informações que circulam, celebrar a vida ao lado de quem gostamos. Rapidinho, mentes que nunca se conectaram criam este elo comum: o &#8220;puxa, o tempo tá passando depressa, né?&#8221;.</p>
<p>É esse o bug do milênio em nossas cabeças. Viva o começo do fim.</p>
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		<title>Tudo já foi dito sobre a notícia do dia…</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Jun 2009 15:17:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Curtas]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8230; Mas só para registrar aqui, as duas contribuições que mais me chamaram atenção.

Então um ícone pop se vai e&#8230; Vira notícia esportiva, lógico! Afinal, era &#8220;o Pelé do pop&#8221;! Mais: sua morte acabou com um dia feliz, graças à classificação dos EUA à final da Copa das Confederações&#8230;

Ah, mas eu não tinha dúvidas. Depois [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8230; Mas só para registrar aqui, as duas contribuições que mais me chamaram atenção.</p>
<p align="center"><a href="http://lancenet.com.br/noticias/09-06-25/569714.stm?michael-jackson-morre-aos-50-anos-em-los-angeles" target="_blank"><img src="http://marmota.org/blog/images/michaeljackson260609b.jpg" alt="Noticia certa, lugar errado" border="0" /></a></p>
<p>Então um ícone pop se vai e&#8230; Vira notícia esportiva, lógico! Afinal, era &#8220;o Pelé do pop&#8221;! Mais: sua morte acabou com um dia feliz, graças à classificação dos EUA à <a href="http://dialetica.org/copa/2009/06/25/estados-unidos-campeoes-mundiais-de-futebol" target="_bkank" title="Eles realmente se importam?"><b>final da Copa das Confederações</b></a>&#8230;</p>
<p align="center"><a href="http://meiahora.terra.com.br" target="_blank"><img src="http://marmota.org/blog/images/michaeljackson260609.jpg" alt="Tem que ter coragem" border="0" /></a></p>
<p>Ah, mas eu não tinha dúvidas. Depois de estamparem na manchete que &#8220;Luana Piovani não tem mais Dado em casa&#8221;, tudo que eu poderia esperar do Meia Hora (o melhor jornal do Rio) é uma frase com o mesmo tom criativo. Tiro o meu chapéu para &#8220;Nasceu negro, ficou branco e vai virar cinza&#8221;.</p>
<p>Em tempo: Tiago Dória compilou algumas <a href="http://www.tiagodoria.ig.com.br/2009/06/25/esta-na-capa-morte-de-michael-jackson" target="_blank"><b>home-pages desta quinta</b></a>, além de detalhar os <a href="http://www.tiagodoria.ig.com.br/2009/06/26/tmz-se-destaca-mais-uma-vez-na-cobertura" target="_blank"><b>bastidores do TMZ.com</b></a>, primeiro veículo ao confirmar a morte de Michael Jackson.</p>
<p><b>Atualizado</b>: &#8220;Não manchetar com uma notícia dessas é o cúmulo do autismo. É viver num mundo paralelo e totalmente fora de timing&#8221;, <a href="http://webmanario.wordpress.com/2009/06/27/com-que-capa-eu-vou" target="_blank"><b>disse o Alec</b></a>. Levando em conta este critério, o prêmio de &#8220;pior capa de jornal&#8221; desta sexta-feira vai para o Diário Popular, de Pelotas (onde certamente nenhum funcionário teve aulas com a <a href="http://pontomidia.com.br/raquel"><b>Raquel</b></a>).</p>
<p align="center"><a href="http://www.diariopopular.com.br" target="_blank"><img src="http://marmota.org/blog/images/diariopop260609.jpg" alt="Michael Jackson who?" border="0" /></a></p>
<p>Conseguiu achar a notícia da morte na primeira página? Pois é.</p>
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		<title>Por uma especialização de dois anos em jornalismo</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Jun 2009 18:11:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Plantão Marmota]]></category>

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		<description><![CDATA[Há tempos registrei aqui meu ponto de vista sobre a celeuma do diploma de jornalismo. Resumidamente: nunca vi problemas no fim da sua obrigatoriedade (decidida nesta quarta-feira pelo STF), por considerar que nem toda formação acadêmica resulta num bom profissional e vice-versa. Mais do que isso: esse antigo debate normalmente só consegue &#8220;fazer espuma&#8221; através [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/plantao.jpg" align="right" />Há tempos registrei aqui meu ponto de vista sobre a <a href="http://dialetica.org/marmota/quer-um-assunto-mais-palpitante-que-monetizacao-diploma" target="_blank" title="Fazedor de espuma"><b>celeuma do diploma de jornalismo</b></a>. Resumidamente: nunca vi problemas no fim da sua obrigatoriedade (<a href="http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&amp;p2=idnot%3d52496%26Editoria%3d8%26Op2%3d1%26Op3%3d0%26pid%3d35269%26fnt%3dfntnl" target="_blank" title="Não deixe de ver os comentários do Comunique-se"><b>decidida nesta quarta-feira pelo STF</b></a>), por considerar que nem toda formação acadêmica resulta num bom profissional e vice-versa. Mais do que isso: esse antigo debate normalmente só consegue &#8220;fazer espuma&#8221; através de argumentos engraçados - constatação evidente ao observarmos algumas <a href="http://search.twitter.com/search?lang=all&amp;q=diploma+jornalismo" target="_blank" title="Veja logo antes que o tempo passe"><b>reações pavorosas no Twitter</b></a>.</p>
<p>Enfim, agora que a questão foi resolvida, qualquer debate mais acalorado vai parecer aquele sobre como era boa a seleção brasileira de 1982. De qualquer forma, estou com o <a href="http://webmanario.wordpress.com/2009/06/18/o-fim-do-diploma-e-o-comeco-de-outro-jornalismo" target="_blank" title="É o começo de outro jornalismo"><b>Alec Duarte</b></a>: sempre valorizei a formação acadêmica (antes mesmo de direcionar minha carreira para esse ramo), e quem consegue aproveitar a sala de aula de verdade torna-se um profissional diferenciado. Vou mais longe: paralelamente aos debates referentes às <a href="http://monitorando.wordpress.com/tag/diretrizes-curriculares" target="_blank"><b>novas diretrizes curriculares</b></a>, vão surgir outros modelos - como especializações lato sensu direcionados a quem já possui graduação em outra área.</p>
<p>Pessoalmente, sempre vi com bons olhos essa possibilidade. Soube da existência dela há uns seis anos, quando um amigo (o <a href="http://lelebcn.com" target="_blank" title="Tá sumido, hein?"><b>Leandro Rodrigues</b></a>) decidiu fazer uma pós-graduação na área em Barcelona. O fato de ser o único brazuca no curso não o assustou tanto quanto o conteúdo das primeiras aulas: &#8220;eram conceitos básicos, como fazer um lide, essas coisas&#8221;, contou certa vez. Notícia velha para ele, formado na Cásper, mas necessidade para os demais - filósofos, advogados, sociólogos, entre outros graduados. Tempos depois, revi o tema <a href="http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&amp;p2=idnot%3D44713%26Editoria%3D237%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D215599%26fnt%3Dfntnl" target="_blank" title="Repensar? Só se for agora"><b>nesse artigo do José Nello Marques</b></a>, defendendo a substituição da graduação tradicional por uma especialização do gênero.</p>
<p>Não acredito que um modelo vá substituir o outro por decreto - apenas em função de uma potencial obsolescência do atual curso de jornalismo. De qualquer forma, quem se preocupa com a educação em qualquer nível deve encarar o fim da obrigação do diploma como uma oportunidade para fortalecer aquilo que realmente importa em qualquer profissional: bagagem cultural, capacidade de interpretação e organização, iniciativa e visão estratégica, bom senso&#8230; Essas coisas que tanto uma boa faculdade quanto a vivência de mercado deveriam oferecer. </p>
<p>Enfim, ao menos em duas coisinhas todos concordam. A primeira: além dessa discussão, acaba também aquela sobre <a href="http://dialetica.org/marmota/eiros-istas-existe-mesmo-alguma-diferenca" target="_blank" title="Como muitas outras entre eiros e istas"><b>blogueiros versus jornalistas</b></a>, ainda mais esdrúxula. A segunda: qualquer curso de jornalismo deveria obrigar seus alunos a atestarem, por uns três ou quatro anos, votos de humildade.</p>
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		<title>A pessoa certa no momento errado</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 04:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[E eu, uma pedra]]></category>

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		<description><![CDATA[Passar mais um ano sem considerar o tal dia dos namorados não é nada comparado ao combo de frases feitas para consolar solteiros: &#8220;nem sempre o amor traz felicidade&#8221;; &#8220;o mundo é feito de escolhas&#8221;; &#8220;não deixe as oportunidades passarem&#8221; ; &#8220;essas coisas acontecem naturalmente&#8221;; ou a mais insuportável  de todas: &#8220;o que é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/pedra.gif" align="right">Passar mais um ano sem considerar o tal dia dos namorados não é nada comparado ao combo de frases feitas para consolar solteiros: &#8220;nem sempre o amor traz felicidade&#8221;; &#8220;o mundo é feito de escolhas&#8221;; &#8220;não deixe as oportunidades passarem&#8221; ; &#8220;essas coisas acontecem naturalmente&#8221;; ou a mais insuportável  de todas: &#8220;o que é teu tá guardado&#8221;.</p>
<p>Imagino como a minha vida poderia ser diferente agora se os meus pais não tivessem ido atrás de novas oportunidades há trinta anos, permanecendo na zona rural, onde se esconde atualmente o município de Capão do Leão. Possivelmente iriam apenas até Pelotas, como fez boa parte da família. Fatalmente seria um homem casado, funcionário público ou motorista de táxi, uma casa e uma família para sustentar, recebendo visitas de centenas de familiares aos finais de semana.</p>
<p>Em compensação, quando não trabalho na megalópole paulistana, posso dar um pulinho de 1500km para visitá-los, ao menos uma vez por ano. Puxar o freio de emergência e viver o ritmo absurdamente diferente daquela cidade. É como se eu deixasse o mundo real para viver, mesmo que por alguns dias, uma espécie de conto de fadas. Quando não estamos na casa de um dos meus dezessete tios - onze irmãos do meu pai (eram doze) e seis da minha mãe - ou de algum primos que já casou, descansamos na casa da vovó (mãe da mamãe), na pacata Cohab Fragata, bairro que lembra uma cidade cenográfica.</p>
<p>Em qualquer das duas situações, talvez eu tivesse me casado com a Íris.</p>
<p>Sempre tive o privilégio de comemorar a virada do ano com muito churrasco e rojões ao lado de parentes, amigos - e amigas, claro - conquistados graças à proximidade das casas da velha cohab. Em 1990, a vizinhança recebeu vizinhos novos. Uma família que vinha de Canguçu, terra cheia de índio grosso barbaridade, como se diz por lá. O casal tinha duas filhas. A mais velha tratou de enturmar a molecada no dia do aniversário: um 27 de dezembro.</p>
<p>O enorme quintal da casa estava tomado pela gauchada naquela tarde. Além dos meus primos, muitos garotos da rua eu já conhecia. A grande maioria, no entanto, eram parentes da aniversariante - ou seja, um bando de desconhecidos. Não levou muito tempo para que eu chamasse a atenção: era o único a me dirigir às pessoas usando o pronome &#8220;você&#8221; ao invés de &#8220;tu&#8221;.</p>
<p>Mas o chamariz aconteceu num episódio insólito: após tomar todo o meu refrigerante, amassei e joguei fora meu copo descartável. Como se faz em qualquer lugar do mundo. Menos ali. Não demorou para que a dona da casa viesse em minha direção, enfurecida: &#8220;de onde foi que tu saíste, guri? Por que tu acabasse de jogar um copo fora!&#8221;. Fiquei até com medo de tomar mais refrigerante: os copos deviam ser os mesmos das últimas três festas&#8230;</p>
<p>O paulista que amassou um copo descartável virou presença constante em todos os 27 de dezembro dos anos 90. E foi graças a eterna amizade com essa aniversariante que eu acabei conhecendo minha primeira namorada. Que infelizmente não era a Íris, prima dessa amiga capricorniana. Claro que eu não sabia, mas só fui reparar nela alguns anos depois, mesmo com ela sempre ali, em todas as festinhas.</p>
<p>Ela era magra, tinha a pele e os olhos bem claros e longos cabelos loiros e ondulados. Mas o que chamava mesmo a atenção era o sotaque: Qualquer palavra proferida por ela ganhava uma musicalidade indescritível. E ela já havia sentido a minha presença desde aquela tarde de 1990. Coisa que descobri  tomando chimarrão com ela e a família,  em um dia de janeiro num ano seguinte qualquer - tempo suficiente para a minha primeira namoradinha já ter se casado&#8230;</p>
<p>O sol foi embora e nós continuamos ali, proseando. Ela fazia curso técnico em agropecuária no tradicional CAVG. Alimentava o sonho de cursar agronomia na Ufpel e aplicar seu conhecimento nas lavouras de todo o Estado. Ela quis saber por que um paulistano estava naquele momento segurando uma cuia e falando da vida naquele lugar. Convidou para uma festinha numa danceteria. Chamava-se Apocalipse, ficava ao lado da pizzaria Bella Nápoli, numa das ruas que cruzam a Bento Gonçalves.</p>
<p>Não recusei o convite e aproveitei bem a noite - uma das poucas em que usei o verbo &#8220;dançar&#8221; sem a conotação pejorativa. Foi a única vez que pude ficar mais de cinco horas ao lado da Íris. Aproveitei bem, como se soubéssemos que não iríamos nos ver de novo tão cedo. Saímos por volta das cinco da manhã e seguimos de táxi até a deserta e ainda escura cohab. Nem me despedi como gostaria antes de voltar para São Paulo.</p>
<p>Só pude reencontrá-la na virada de 97 para 98, tempo de sobra para que o meu coração passasse por mais naufrágios. A cena de sempre repete: champanhe, churrasco, rojões e abraços, acompanhadas de felicitações e desejos de bom princípio. Num relance, dirigi o olhar para a casa da vizinha. E a Íris não parava de tirar os olhos de mim. Usava um vestido branco, como se a luz do luar estivesse ali no chão. Sorria cada vez mais à medida em que eu chegava perto.</p>
<p>Ao chegar, abri os braços e disse a frase mais original que poderia citar naquele momento: feliz ano novo. Ela continuou sorrindo, mas não usou palavras para agradecer. Preferiu retribuir o gesto com um abraço delicioso, que parecia ter durado até 1999.</p>
<p>Acredite: este foi o nosso último encontro.</p>
<p>Mas não foi a última em que ela deu notícias. Pouco antes de embarcar para a realidade paulistana, recebi um envelope amarelo. Só fui abrir em plena BR-116, já em Camaquã. Aqueles corações desenhados em uma folha de almaço pela metade e as palavras escritas em vermelho delatavam o conteúdo antes mesmo das duas primeiras palavras: &#8220;meu amor&#8221;.</p>
<p>O que vi na sequência foi uma declaração apaixonada de alguém que foi conquistada pela minha presença em um dia de sua vida há muitos anos e por um abraço de feliz ano novo. Íris cobrava uma resposta: dizia que seria fiel eternamente e que se submeteria a um terrível controle, esperando ansiosamente o meu retorno a cada final de ano. Uma prova de amor que jamais vi igual.</p>
<p>Qualquer ser humano seria incapaz de resistir. Se eu tivesse coragem, eu diria para o meu pai dar a volta no carro e voltar aqueles cento e poucos quilômetros. Ou pediria para descer, voltaria para Pelotas de ônibus e viveria para sempre nos braços da Íris, a mulher que mais se apaixonou por mim até hoje.</p>
<p>E o que seria da minha vida, aquela que estava me aguardando em São Paulo? E se eu optasse pelo conto de fadas? Ora, fada é o cacete. Estaria trocando uma realidade por outra, desconhecida. Era o cenário das minhas melhores histórias, mas sem as mesmas perspectivas.</p>
<p>Tanto nessa quanto na história da primeira namoradinha, a escala não está em horas, minutos, segundos. Estou sempre falando em anos. Graças a primeira história que quase deu certo na minha vida, descobri o quanto é difícil amar alguém ajustando o relógio para funcionar em meses. E mesmo sendo outra pessoa, não estava predisposto a viver algo parecido de novo. Não naquele momento.</p>
<p>Já em casa, num doloroso processo de desintoxicação, abri o write do meu windows 3.1 e escrevi a minha resposta. Usei basicamente as seguintes palavras: conto de fadas, realidade, distância, tempo, razão, futuro, impossível, etc. Tudo mesclado com muita sinceridade e carinho - não exatamente como ela queria, mas o suficiente para não magoá-la demais. Imprimi na velha matricial da Citizen e envelopei. Como não tinha o endereço da Íris, mandei a carta para a prima, pedindo a gentileza de entregá-la sem abrir.</p>
<p>Meses depois, o carteiro trouxe a resposta. Era mais ou menos assim:</p>
<p><tt>&#8220;Pelotas, 11 de março de 1998</p>
<p>Oi Dé! Como vai?</p>
<p>Quero começar te pedindo desculpas pela carta que chegou a ti. Sabe, lendo a tua resposta senti muito a sua falta e percebi o quanto és valioso. Também já sofri muito com as minhas experiências.</p>
<p>Quero dividir com você a que mais me marcou. Quando tinha 15 anos, conheci um guri numa festa. Naquela noite conversamos muito, até trocamos telefones. Até que começamos a namorar. Cheguei a ser apresentado à família dele - acredita que a sobrinha dele me chamava de tia?</p>
<p>Ele sempre dizia que me amava, que eu era a vida dele. Passamos dois anos juntos, e numa noite, ele queria&#8230; Ah, você sabe, né? Eu tinha 17, disse que era muito nova e que não estava preparada.</p>
<p>Sabe o que ele me disse? Me esquece, e nunca mais fala comigo!</p>
<p>Imagine, aquilo me deixou decepcionada&#8230; Comecei a agir de uma maneira tão fria com as pessoas, todos achavam que eu não tinha sentimentos. Já estava ficando convencida disso.</p>
<p>Mas graças a ti, acho que mudei um pouquinho&#8230; Já tive até coragem de dizer que estou apaixonada por ti! Agora que tudo já passou, penso que é bom passarmos por situações ruins, dessa maneira a gente começa a enxergar as coisas como elas realmente são.</p>
<p>Bom, disse que tive coragem de te dizer que estou apaixonada&#8230; E ainda estou. Continuo te achando perfeito e te admirando mais ainda. Estou tentando achar uma palavra pra te definir, mas nem as mais belas palavras retiradas das mais lindas poesias não são nada perto da pessoa maravilhosa que tu és.</p>
<p>Quanto a distância, ela pode separar dois corpos, mas jamais dois corações que se gostam. As pessoas se tornam bonitas ou feias pelas suas atitudes, e você é a pessoa mais linda que eu já conheci. Fique tranquilo: tu jamais me magoaste.</p>
<p>Agradeço demais a tua sinceridade, obrigado por tu existir, sem você o mundo não teria graça. Tenho certeza de que a tua sinceridade, junto com as tuas outras qualidades, vai conquistar o mundo como tu me conquistasse. E nunca deixe de acreditar em uma paixão: quando ela demora, é porque está adormecendo nos braços da esperança.</p>
<p>Desculpe por ter entrado na sua vida sem pedir licença&#8230;</p>
<p>Um beijo de quem te adora,</p>
<p>Íris.&#8221;</tt></p>
<p>Vez ou outra releio essa carta e questiono se o meu estágio atual de &#8220;eu uma pedra&#8221; não é castigo por ter ignorado essa chance. E é estranho terminar história dizendo simplesmente que, atualmente, a Íris é uma mulher casada, assim como a prima dela, minhas primas e todas as moças que conheci em Pelotas nesses últimos anos. Tenho certeza de que ela era a pessoa certa. Pena que a hora e o lugar não eram.</p>
<p><i>(Postado em 17/06/2005. Digamos que esse texto contribuiu para que eu voltasse a comemorar o Dia dos Namorados&#8230;)</i></p>
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		<title>Nova Novíssima Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa</title>
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		<pubDate>Thu, 28 May 2009 20:31:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Faça fazendo]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos últimos meses, provavelmente você já decorou todas as regras da Nova Ortografia. Tudo já foi dito, todos já contestaram e reclamaram - tanto aqui quanto em Portugal, onde há um forte movimento contrário. Enfim, o melhor texto que vi sobre as mudanças foi do Mario Amaya - que, curiosamente, repetiu A História do Mundo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/fazendo.gif" align="right" />Nos últimos meses, provavelmente você já decorou todas as regras da Nova Ortografia. Tudo já foi dito, todos já contestaram e reclamaram - tanto aqui quanto em Portugal, onde há um <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/geral,portugal-discute-renegociacao-de-acordo-ortografico,373868,0.htm" target="_blank"><b>forte movimento contrário</b></a>. Enfim, o melhor texto que vi sobre as mudanças foi do <a href="http://marioav.blogspot.com/2009/01/nova-ortografia-parte-1.html" target="_blank"><b>Mario Amaya</b></a> - que, curiosamente, repetiu A História do Mundo de Mel Brooks e limitou-se a escrever apenas a &#8220;parte 1&#8243;.</p>
<p>De toda forma, concordo com o <a href="http://www.interney.net/blogs/fiapodejaca/2009/02/11/acordo_ortografico_sofre_nova_revisao" target="_blank"><b>Tuca</b></a>: os pensadores por trás da reforma perderam a grande chance de ouvir quem realmente usa o português diariamente e adotar algumas expressões correntes, como &#8220;asterístico&#8221;, &#8220;a nível de&#8221; e &#8220;enquanto&#8221;. Para ir além no debate e colaborar com possíveis discussões a respeito do tema, desenvolvi ao lado do amigo Narazaki uma série de modificações, que podem cair ao gosto do povo.</p>
<p>Apresentamos agora a Nova Novíssima Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa:</p>
<p>- <s>Fim do acento grave.</s> Existe uma espécie de divisão soberana entre os luso-parlantes que sabem reconhecer um &#8220;a&#8221; formado por preposição e artigo do resto. Como se esta informação fosse capaz de separar as criaturas do meu círculo social de amizades da ralé ignorante e desprezível. Para estimular esta união e acabar com as diferenças, derrubamos o acento grave. Aproveitamos para resolver um problema corriqueiro: quantas vezes você não se sentiu um tremendo idiota ao se perguntar &#8220;tem crase aqui?&#8221;.</p>
<p>- <s>Fim do hifen.</s> Ao invés de resolver o problema, a atual reforma complicou tudo, derrubando o hifen de substantivos compostos que mantenham unidade semântica. Até hoje não sei se &#8220;rádio-relógio&#8221; tem hifen ou não. Da mesma forma, esse tracinho (que serve ainda para acompanhar pronomes) é sempre confundido com o travessão. Sem falar na trivial separação de sílabas em frases mais longas - coisa que nem todo mundo sabe fazer. Logo, acabamos com o hifen para sempre e pronto!</p>
<p>- <s>Fim do ponto e vírgula.</s> Certamente alguém poderá questionar o fim do acento grave e do hifen, mas duvido alguém apresentar algum argumento palpável para a manutenção do ponto e vírgula. &#8220;Ele serve para dar uma pausa maior&#8221;, entre outras atribuições como enumerações, supressões&#8230; Essas coisas que ninguém sente falta. Só existem duas funções claras para este sinal atualmente: associá-lo ao Wagner Montes ou exibir um smiley piscandinho. Nada além disso: fora com ele.</p>
<p>- <s>Fim do H.</s> Ninguém pronuncia o H. Tal falha na prosódia faz com que sua existência seja completamente desnecessária. Angar, aver e oje podem parecer monstruosas, mas leia outra vez: faz diferença? &#8220;E ouve, é do verbo ouvir ou aver?&#8221; Ué, depende do contexto, como em qualquer idioma decente. Quanto aos fonemas do LH ou NH, basta trocá-lo por i. Assim, sua mãe terá que ter cuidado para &#8220;coziniar uma galinia velia&#8221;. Simples assim.</p>
<p>- <s>Fim do tu/vós.</s> É muito estranho para qualquer pessoa chegar a uma sala de aula e exercitar tempos verbais diante dos pronomes &#8220;tu&#8221; e &#8220;vós&#8221;. Apenas alguns estados do Nordeste e o sul do Brasil (de maneira equivocada, diga-se) usam estes arcaicos pronomes de segunda pessoa. É você ou vocês, não acham?</p>
<p>- <s>Revisão das conjugações.</s> Já que falamos em verbos, por que não incorporar algo que funciona perfeitamente no inglês: vamos acabar com mais da metade destas variações. Até porque, o que vai determinar o direcionamento das ações é o pronome pessoal. Assim, o verbo ir no presente do indicativo ficaria: eu vou, você vai, ele vai, nós vamo, vocês vão, eles vão. Pegou? O próprio verbo estar também seria simplificado, dentro das regras mais populares: eu tô, você tá, ele tá, nós tamo, vocês tão, eles tão.</p>
<p>- <s>Fim da desinência de plural.</s> Percebeu como, além de determinar o sujeito da ação do verbo, o pronome também indica singular ou plural? Por que diabos concordar qualquer substantivo, desperdiçando &#8220;esses&#8221;? Dois pastel, oras. Está claro que é dois pastel.</p>
<p>- <s>Fim do mais-que-perfeito.</s> Coisa mais desnecessária diferenciar um passado de outro ainda mais passado. Já está bom demais diferenciar pretérito perfeito do imperfeito, além de entender o uso do subjuntivo e o condicional. Aliás, só por conta disso valeria repensar essa quantidade de tempos verbais nostálgicos. Vamos pensar pra frente.</p>
<p>- <s>Igualdade entre pronomes pessoais. </s> Você sabe a diferença entre &#8220;eu&#8221; e &#8220;mim&#8221;? Normalmente &#8220;mim&#8221; não faz nada, por ser um pronome oblíquo. Mas convenhamos: nem todo mundo leva isso em consideração. Por que não considerar estes dois tipos equivalentes? Será melhor assim, para mim escrever da maneira como der na telha.</p>
<p>- <s>Gerúndio liberado e sem o D.</s> Por fim, se não podemos com o gerundismo, aceitamos e pronto. Vou mais longe: com a natural utilização do gerúndio ao invés dos tempos futuros, não vai demorar para que o &#8220;D&#8221; também ir pro saco. Logo, se &#8220;estar fazendo&#8221; é horrível, acostume-se com &#8220;tá fazeno&#8221;.</p>
<p>Enfim, se tivé outras sugestão, você pode tá comentano. Enquanto isso, vô ali no terreiro catá umas galinia veia pra mim tá cozinhano oje a noite.</p>
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		<title>A diferença entre chutar ou não o balde</title>
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		<pubDate>Sat, 23 May 2009 03:02:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[E eu, uma pedra]]></category>

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		<description><![CDATA[Fortaleza (CE) - Duas cenas breves que testemunhei no Aeroporto de Guarulhos nesta sexta despertaram uns três neurônios meus em busca de alguma conclusão sobre o que nos incentiva a seguir trabalhando, ainda que haja um abismo entre realização profissional e a simples execução de tarefas rotineiras.
A primeira diz respeito a um auxiliar novato da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/pedra.gif" align="right" /><b>Fortaleza (CE)</b> - Duas cenas breves que testemunhei no Aeroporto de Guarulhos nesta sexta despertaram uns três neurônios meus em busca de alguma conclusão sobre o que nos incentiva a seguir trabalhando, ainda que haja um abismo entre realização profissional e a simples execução de tarefas rotineiras.</p>
<p>A primeira diz respeito a um auxiliar novato da empresa aérea, que aproveitou o raro movimento tranquilo no check-in para treinar procedimentos de atendimento. &#8220;Próximo, senhor. Senhor! Aqui, senhor&#8221;, insistiu em voz alta, apontando para mim - e abstraindo a presença de um mané, feito paisagem, atrapalhando o meu caminho&#8230;</p>
<p>Enfim, o rapaz pulou o boa tarde e já foi logo perguntando: &#8220;qual seu destino, senhor?&#8221;. Informei, entregando minha identidade e o cartão do programa de milhagem. Sem que eu pudesse questionar, pegou apenas o documento. &#8220;Ué, normalmente eles deixam os dois juntos&#8230;&#8221;, pensei.</p>
<p>Só então descobri que o atendente era trainee. O cara digitava alguma coisa, olhava para o meu RG, voltava para o terminal, torcia as sobrancelhas, voltava a digitar&#8230; &#8220;É André o seu nome, né?&#8221;. Dei um desconto. Se estivesse preocupado em acertar um processo que não domino, também faria uma pergunta idiota. </p>
<p>Respondi que sim, mas decidi atrapalhá-lo: &#8220;escuta, não vai precisar disso aqui?&#8221;, apontando para o cartão de milhagem. &#8220;Ah sim, você vai pontuar, né?&#8221;. Imagino que, em meu lugar, você diria &#8220;então, na verdade meu nome é Muricy Ramalho, e como a coisa não está boa pro meu lado estou fugindo de São Paulo. O Milton Cruz vai comandar o time no clássico. Estou usando o nome desse laranja aqui, está me fazendo um favor por isso quero que as milhas desse vôo sirva como prêmio&#8221;.</p>
<p>No fim, apenas balancei a cabeça afirmativamente e sorri. &#8220;Prefere janela ou corredor, senhor?&#8221;. Digo que tanto faz, desde que não seja aquele assento horrendo à frente da saída de emergência. O rapaz preencheu algo, &#8220;catando milho&#8221; e soletrando: &#8220;ésse, um, dábliu&#8230; Ei, como faz pra marcar janela aqui?&#8221;, perguntou à loira bonitinha do guichê ao lado. &#8220;É S1W e enter&#8221;, respondeu. Puxa, bem que eu podia ter sido atendido por ela&#8230;</p>
<p>De repente, o cartão de embarque pula em minha direção. O rapaz me entrega dobradinho, sem as tradicionais canetadas com o horário limite para embarque, portão, essas coisas. &#8220;Ah, você tem bagagem?&#8221;. Pensei que não iria perguntar. Despachei minhas duas malas, as duas etiquetas foram impressas - uma foi colada, outra caiu embaixo da balança. &#8220;Na sua bagagem de mão tem algum objeto perfurante, cortante&#8230;&#8221;. Disse que não, imaginando quando ele tomaria o cartão de embarque da minha mão para colar os comprovantes da bagagem.</p>
<p>&#8220;Ei Rodrigo, você precisa anotar o peso de cada bagagem na etiqueta&#8221;, alertou outro funcionário. &#8220;Mas estou sem caneta aqui&#8221;, devolvou o novato. Com cara de &#8220;mas que tolinho&#8221;, puxou uma caneta do bolso e entregou ao rapaz. &#8220;Ei, não vai esquecer do meu cartão de milhagem!&#8221;, emendei. Ah sim, mais isso. Nova consulta à loirinha e as últimas digitadas lentas no sistema.</p>
<p>&#8220;É só isso?&#8221;, perguntei. &#8220;Sim, senhor. Ah, sua bagagem de mão tem algum objeto perfurante?&#8221;. Sorri ao negar outra vez, sem sequer confirmar qual seria portão de embarque. Enquanto saio, uma voz comemora ao fundo: &#8220;Olha o Rodrigo, atendendo cliente!&#8221;. Bom pra ele, né?</p>
<p>Decidi celebrar o desempenho do esforçado e interessado novato com um cafezinho. Antes de pedir à mocinha do caixa, peguei um chocolatinho no balcão. Para que pudesse me atender, ela precisou interromper o bate-papo com um amigo. &#8220;O seu dá cinco reais&#8221;, afirmou. Mas moça, nem vai seguir a orientação da sua supervisora e perguntar se eu quero mais alguma coisa? Anote aí um café e uma água.</p>
<p>Enquanto registrava, a mocinha perguntou ao amigo: &#8220;e você, está com saudades desse aeroporto?&#8221;. &#8220;Nossa, nenhuma. Não aguentava mais esse lugar aqui&#8221;. &#8220;É crédito ou débito, moço?&#8221;. Respondi, perguntando pelo CPF na nota fiscal. &#8220;Nossa, eu também estou de saco cheio daqui&#8221;, disse a atendente, de olho no provável ex-colega. Arregalei meus olhos!</p>
<p>Antes de me entregar o comprovante, a figura que representava o estabelecimento naquele momento apontou seus dedos para o lado numérico do teclado e, sem dizer uma palavra, esperou pelo meu CPF. Se eu tivesse mais tempo, perguntaria pela gerente e lhe diria: &#8220;olha, tem um rapaz ali no balcão de check-in que é um pouco atrapalhado, mas bastante entusiasmado. De repente, ele pode indicar alguém pra vaga dessa folgada aqui&#8221;.</p>
<p>Acredito que alguém com sólidos conhecimentos em gestão de pessoas consiga identificar melhor esses padrões de comportamento. Mas eu me arrisco a dizer que, em uma cidade gigantesca com poucas e complexas formas de transporte, e em empresas com alta rotatividade de funcionários e foco em processos irrelevantes para o bom andamento do negócio, infelizmente o jovem carinha do check-in seria capaz de dizer algo parecido em poucos dias.</p>
<p>Da mesma forma, também não me surpreenderia se soubesse que a atendente do café começou a trabalhar ali semana passada.</p>
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		<title>A resposta mais bacana do WolframAlpha</title>
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		<pubDate>Wed, 20 May 2009 05:36:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Curtas]]></category>

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		<description><![CDATA[Se você permaneceu conectado à Internet por pelo menos algumas horas nas últimas semanas, provavelmente já ouviu falar no WolframAlpha, ferramenta que pretende oferecer respostas exatas às suas dúvidas - ao contrário de uma extensa lista de links dos mecanismos tradicionais de busca. Dá para ficar algum tempo experimentando o brinquedo novo, em busca de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se você permaneceu conectado à Internet por pelo menos algumas horas nas últimas semanas, provavelmente já ouviu falar no <a href="http://wolframalpha.com" target="_blank"><b>WolframAlpha</b></a>, ferramenta que pretende oferecer respostas exatas às suas dúvidas - ao contrário de uma extensa lista de links dos mecanismos tradicionais de busca. Dá para ficar algum tempo experimentando o brinquedo novo, em busca de resultados interessantes ou inusitados.</p>
<p>Entre as experiências possíveis, a que mais gostei foi esta:</p>
<div align="center"><a href="http://www.wolframalpha.com/input/?i=88mph" target="_blank"><img src="http://marmota.org/blog/images/88mph200509.gif" border="0" alt="Repare na informação envolvendo o DeLorean de Marty MaFly!" /></a></div>
<p>Informação relacionada surge ao procurar por outra medida de <i>Back to the Future</i>: <a href="http://wolframalpha.com/input/?i=1.21GW" target="_blank"><b>&#8220;Um ponto vinte e um GigaWatt?!?&#8221;</b></a>. Para ficar perfeito, só faltou mesmo a referência ao dia 26 de outubro de 1985.</p>
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		<title>Meu currículo de mídia social</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 22:53:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marmota</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[E eu, uma pedra]]></category>

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		<description><![CDATA[Li há algum tempo, no twitter de alguém, algo como &#8220;no gibi da Turma da Mônica Jovem, o Chico Bento vai para a cidade grande e se torna analista de mídias sociais&#8221;. Talvez piadinhas como esta explique a reação da Gabi Bianco esta semana, diante de uma dúvida genuinamente sincera que tive ao encontrar uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://marmota.org/blog/secoes/pedra.gif" align="right">Li há algum tempo, no twitter de alguém, algo como &#8220;no gibi da Turma da Mônica Jovem, o Chico Bento vai para a cidade grande e se torna analista de mídias sociais&#8221;. Talvez piadinhas como esta explique a reação da <a href="http://casadagabi.com" target="_blank"><b>Gabi Bianco</b></a> esta semana, diante de uma dúvida genuinamente sincera que tive ao encontrar uma oportunidade de emprego nessa área.</p>
<p>A vaga denota uma demanda irreversível. O mercado de trabalho está aquecido diante do interesse das empresas em estar onde as pessoas passam boa parte do tempo: diante do computador ou ao celular, trocando mensagens com sua rede de contatos. Mas parece que nem todos enxergam este novo negócio com bons olhos. &#8220;Algumas pessoas gostam de tirar sarro da minha profissão e isso é horrível. Como se o que fazemos fosse digno de chacota&#8221;, desabafou a Gabi.</p>
<p>Mas enfim. A pergunta que fiz diz respeito a um requisito da vaga: &#8220;mandem CVs de midia social&#8221;. A dúvida foi puramente semântica: eu posso interpretar o pedido de duas formas, desde o envio por e-mail de um documento tradicional ou minhas intervenções em blogs, redes sociais, ferramentas colaborativas, enfim. Como meu Twibble em meu celular defasado não permite explicações maiores, fui simplista: &#8220;é um link pro meu perfil do Orkut ou um doc relatando minha experiência?&#8221;.</p>
<p>O retorno que recebi foi: &#8220;se você acha que midia social é só Orkut, não precisa mandar o CV&#8221;.</p>
<p>Enfim, eu realmente não tenho interesse na vaga (que, a essa altura, já foi preenchida) e não estava fazendo gracinha. Tanto que, mesmo esclarecido o mal entendido e valorizando este novo modelo de negócio, poderia interpretar perfeitamente o tal &#8220;currículo de mídia social&#8221; assim:</p>
<p><tt>Oi. Meu nome é <b>André</b>, e este é meu <b>currículo de mídia social</b>. Bom, antes de estranhar o formato, é importante ressaltar que a expressão <b>&#8220;curriculum vitae&#8221;</b>, originalmente em latim, quer dizer <b>&#8220;trajetória de vida&#8221;</b>. Aliás, a amplitude de interpretações possíveis para &#8220;trajetória de vida&#8221; se aplica aos termos &#8220;mídia&#8221; e &#8220;social&#8221;. De uns tempos pra cá, qualquer <b>meio de comunicação de massa</b> virou <b>&#8220;mídia&#8221;</b> - inclusive a web, que até cai bem para as massas, mas funciona melhor em nichos. Já <b>&#8220;social&#8221;</b> é praticamente qualquer <b>coisa que o homem pode fazer</b>, como naquela velha expressão do Governo Sarney: &#8220;tudo pelo social&#8221;. Então juntamos as duas expressões e, a grosso modo, falamos em <b>ferramentas de comunicação utilizadas por pessoas</b>. O que nos deixa algumas dúvidas: eu mantive um <b>fanzine</b> com os amigos no colégio; é mídia social? Eu montei um <b>quadro de cortiça</b> no meu primeiro emprego, permitindo qualquer funcionário postar mensagens para o acesso de todos; é mídia social? Eu contratei várias vezes uma agência de <b>telemensagem</b> para disparar uma gravação bonitinha feita em casa pra muitas pretendentes; é mídia social? Enfim, tenho a impressão que <b>algum gaiato</b> usou as duas palavras para aproveitar uma oportunidade e definir essa característica exclusivamente em redes como a Internet, que subverte o conceito tradicional de mídia ao permitir a <b>participação</b> de todos e proporcionar um <b>comportamento emergente</b> - ao invés da comunicação de massa. Se não tiver expressão melhor, <b>posso dizer</b> que já convidei amigos para abrir um site vagabundo no <b>GeoCities</b>, onde o fluxo de idéias circulava a ponto da coisa evoluir para um <b>domínio próprio</b> (que infelizmente não existe mais). Nesse serviço próprio, subvertemos um sistema arcaico de gerenciamento de sites para bolar um <b>publicador de artigos</b>. Já experimentei blog num sistema gratuito que, ao consider qualquer Zé Ruela um autor batuta, listava dez endereços notáveis por semana, fazendo-os sentir um gostinho artificial de &#8220;mídia de massa&#8221; e acirrando as primeiras briguinhas por <b>mérito e relevância</b> nessa gigantesca feira livre. Já transportei o conteúdo desse espaço algumas vezes, entre <b>sistemas e databases</b> diversos, mas nunca acreditei na força da tecnologia isoladamente, e sim na das <b>pessoas</b> que cercavam tanto conteúdo. Com isso na cabeça, já experimentei outras formas de estimular essa troca de informações a partir de perfis criados nas mais diversas <b>redes sociais e comunidades</b>. Com tantas interfaces possíveis, cheguei a conclusão de que não há concorrência entre mídia tradicional, mídia social, mídia eletrônica ou qualquer dessas: a relação entre as idéias que pretendo compartilhar é com o <b>tempo de cada indivíduo</b>, representado por arestas conectadas nas minhas redes e nas dos outros. Afinal, enquanto você dedica alguma importância a qualquer informação transmitida a você (como este meu breve currículo), dezenas de links se perdem em sua conta no Twitter, em suas leituras no agregador de feeds, entre ouras fontes. Diante disso, assumo minha ignorância: sem controle do tempo, não consigo conversar como gostaria, aperfeiçoando técnicas para canalizar minha mensagem e fortalecer meus contatos. Quem conseguiu isso já se considera <b>&#8220;evangelista&#8221;</b>, como proliferam aos montes. Evangelizar é uma profissão de fé, quase uma religião. Logo, definiria meu currículo de mídia social em uma palavra: <b>agnóstico</b>.</tt></p>
<p>Mmmhhh&#8230; Tenho a impressão que, com um currículo desses, é melhor ir vender churros no Ibirapuera.</p>
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