<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453</id><updated>2024-08-28T11:40:53.504-07:00</updated><category term="Vish"/><category term="Nonsense"/><category term="fuuu"/><category term="troll"/><category term="Banho"/><category term="Forever alone"/><category term="megusta"/><category term="Banheiro"/><category term="Batimá"/><category term="Bruxaria"/><category term="Coco"/><category term="Conversa"/><category term="DBZ"/><category term="Deus"/><category term="Diferenças"/><category term="Dirigir"/><category term="Disney"/><category term="Gatos"/><category term="PC"/><category term="Samba"/><category term="awyeah"/><category term="ciência troll"/><category term="confusão mental"/><category term="harry poter"/><category term="jogos"/><category term="meme"/><category term="okay"/><category term="safadinha"/><category term="salgadinho"/><category term="sogra"/><category term="traição"/><category term="Ônibus"/><title type='text'>Memes le blog</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>71</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-5470679205490339413</id><published>2014-01-01T09:18:00.002-08:00</published><updated>2014-01-01T09:18:27.716-08:00</updated><title type='text'>Capítulos 2</title><content type='html'>&lt;a href=&quot;http://memesleblog.blogspot.com.br/2014/01/jaime.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Jaime&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
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- Sim. Os deuses foram bons para você, Sansa. E uma menina adorável. Parece quase obsceno esbanjar essa doce inocência naquela gárgula. - Que gárgula? - Sansa não estava compreendendo. Estaria se referindo a Willas? Como poderia saber? Ninguém sabia além dela, de Margaery e da Rainha dos Espinhos... ah, e Dontos, mas esse não contava. Cersei Lannister ignorou a pergunta. - O manto - ordenou, e as mulheres trouxeram-no: um longo manto de veludo branco carregado de pérolas, Um feroz lobo gigante estava bordado nele em fio de prata. San- sa olhou-o com súbito temor. - As cores de seu pai - disse Cersei, enquanto o prendiam em volta do pescoço da garota com uma delicada corrente de prata. Um manto de donzela. A mão de Sansa subiu à garganta. Teria arrancado aquela coisa se se atrevesse. - E mais bonita com a boca fechada, Sansa - disse-lhe Cersei, - Venha já, o septão está à espera. E os convidados do casamento também. - Não - exclamou Sansa, - Não. - Sim. E protegida da coroa. O rei faz as vezes de seu pai, uma vez que seu irmão é um traidor proscrito. Isso significa que tem todo o direito de dispor de sua mão. Vai se casar com meu irmão Tyrion. A minha pretensão, pensou, agoniada. Dontos, o bobo, não era assim tão tolo, afinal; tinha visto a verdade. Sansa afastou-se da rainha. - Não vou. - Vou me casar com Willas, vou ser a senhora de Jardim de Cima, por favor... - Compreendo a sua relutância. Chore se precisar. Em seu lugar, eu provavelmente arrancaria os cabelos. Ele é um desprezível duendezinho, não há dúvida, mas vai mesmo se casar com ele. - Não pode me obrigar. - Claro que podemos. Pode vir calmamente e proferir seus votos como é próprio de uma senhora, ou pode lutar, gritar e dar um espetáculo que deixe os cavalariços aos risi- nhos, mas seja como for vai acabar casada e na cama com o seu esposo. - A rainha abriu a porta. Sor Meryn Trant e Sor Osmund Kettleblack esperavam lá fora, com a armadura de escamas brancas da Guarda Real. - Escoltem a Senhora Sansa até o septo - disse- -lhes. - Carreguem-na, se for preciso, mas tentem não rasgar o vestido. Foi muito caro. Sansa tentou fugir, mas a aia de Cersei apanhou-a antes de ter percorrido um metro. Sor Meryn Trant dirigiu-lhe um olhar que a fez encolher-se de medo, mas Kettleblack tocou quase gentilmente nela e disse: - Faça o que lhe dizem, querida, não será assim tão mau. Espera-se que os lobos sejam bravos, não é?&lt;br /&gt;
Bravos. Sansa respirou fundo. Eu sou uma Stark, sim, posso ser brava. Estavam todos a observá-la daquela maneira como a tinham olhado no pátio, no dia em que Sor Boros Blount rasgara sua roupa. Nesse dia foi o Duende quem a salvou de um espancamento, o mesmo homem que estava agora à sua espera, Ele não é tão mau quanto os outros, disse a si mesma. - Eu vou. Cersei sorriu. - Eu sabia que sim. Mais tarde não conseguiria se lembrar de ter saído do quarto, de descer os degraus ou de atravessar o pátio. O simples ato de pôr um pé à frente do outro pareceu tomar toda a sua atenção. Sor Meryn e Sor Osmund caminhavam ao seu lado, usando mantos tão claros quanto o seu, faltando-lhes apenas as pérolas e o lobo gigante que fora de seu pai. O próprio JofFrey encontrava-se à sua espera, nos degraus do septo do castelo. O rei resplandecia de carmesim e ouro, com a coroa na cabeça. - Hoje sou seu pai - anunciou. - Não é - irritou-se ela. - Nunca será. O rosto do rei ensombrou-se. - Sou. Sou seu pai, e posso casá-la com quem eu desejar. Com qualquer um. Casará com um criador de porcos, se eu ordenar, e vai se deitar com ele na pocilga. - Seus olhos verdes cintilaram de divertimento. - Ou talvez devesse dá-la a Ilyn Payne, gostaria mais dele? O coração de Sansa deu um salto. - Por favor, Vossa Graça - suplicou. - Se alguma vez me amou nem que fosse um pouquinho, não me obrigue a casar com seu... - ... tio? - Tyrion Lannister atravessou as portas do septo. - Vossa Graça - disse a JofFrey. - Tenha a gentileza de me conceder um momento a sós com a Senhora Sansa, por favor. O rei estava prestes a recusar, mas a mãe lançou-lhe um olhar penetrante. Afastaram- -se alguns metros. Tyrion vestia um gibão de veludo negro coberto de arabescos dourados, botas cujos canos chegavam às suas coxas e que acrescentavam sete centímetros à sua altura, uma corrente de rubis e cabeças de leão. Mas o rasgão em seu rosto estava vermelho e em carne viva, e o nariz era uma hedionda escara. - Está muito bela, Sansa - disse-lhe. - E bondade sua, senhor. - Não sabia o que mais responder. Deveria dizer-lhe que é bonito? Vai me achar uma tola ou uma mentirosa. Baixou os olhos e dominou a língua. - Senhora, isso não é maneira de trazê-la para o seu casamento, peço-lhe perdão. E por fazer isso de forma tão súbita e secreta. O senhor&lt;br /&gt;
meu pai achou necessário, por razões de estado. De outra forma, teria ido encontrá-la mais cedo, conforme eu desejava. - Bamboleou-se para mais perto. - Não pediu este casamento, eu sei. Eu também não. Mas se a tivesse recusado, eles teriam casado a senhora com meu primo Lancei. Talvez tivesse preferido assim. Ele tem uma idade próxima da sua, e é mais bonito de se ver. Se for esse seu desejo, diga, e eu porei fim a esta farsa. Não quero nenhum Lannister, ela quis dizer. Quero Willas, quero Jardim de Cima, os cachorros e a barcaça, e filhos chamados Eddard, Bran e Rickon. Mas então lembrou-se do que Dontos havia lhe dito no bosque sagrado. Tyrell ou Lannister, não faz diferença, não é a mim que querem, é só a minha pretensão. - E gentil, senhor - disse, derrotada. - Sou protegida da coroa e meu dever é casar segundo as ordens do rei, Ele estudou-a com seus olhos desiguais. - Eu sei que não sou o tipo de esposo com que as garotas sonham, Sansa - disse, com suavidade -, mas também não sou JofFrey. - Não - disse ela, - Foi gentil comigo. Eu me lembro. Tyrion ofereceu-lhe uma mão grossa de dedos curtos. - Então venha. Vamos cumprir o nosso dever. E assim ela pousou a mão na dele e ele levou-a até o altar nupcial, onde o septão esperava entre a Mãe e o Pai para unir suas vidas, Sansa viu Dontos, com o seu traje de bobo, olhando-a com grandes olhos redondos. Sor Balon Swann e Sor Boros Blount encontravam-se lá, ostentando o branco da Guarda Real, mas Sor Loras não. Nenhum dos Tyrell está aqui, compreendeu de repente. Mas havia fartura de outras testemunhas; o eunuco Varys, Sor Addam Marbrand, Lorde Philip Foote, Sor Bronn, Jalabhar Xho, uma dúzia de outros. Lorde Gyles tossia, a Senhora Ermesande mamava, e a filha grávida da Senhora Tanda soluçava por nenhum motivo aparente. Que soluce, pensou Sansa. Eu talvez faça o mesmo antes que este dia acabe. A cerimônia passou como que num sonho. Sansa fez tudo o que lhe foi pedido. Houve preces, votos e cânticos, e grandes velas queimando, uma centena de luzes dançantes, que as lágrimas em seus olhos se transformaram num milhar, Felizmente, ninguém pareceu reparar que ela estava chorando enquanto se encontrava ali, em pé, envolvida nas cores do pai; ou se viram, fingiram não ver. Naquilo que pareceu não ser tempo algum, chegaram à troca dos mantos. Na condição de pai do reino, Joffrey ocupou o lugar de Eddard Stark. Sansa permaneceu dura como uma lança enquanto as mãos dele passaram sobre seus ombros para lutar contra o broche de seu manto. Uma delas roçou num seio e demorou-se lá, para lhe dar um pequeno&lt;br /&gt;
apertão. Então o broche abriu-se, e JofF tirou seu manto de donzela com um floreado régio e um sorriso. A parte do tio não correu tão bem. O manto de noiva que segurava era enorme e pesado, de veludo carmesim ricamente trabalhado com leões e debruado de cetim dourado e rubis, Mas ninguém havia se lembrado de trazer um banco, e Tyrion era meio metro mais baixo do que sua noiva. Quando ele se colocou atrás dela, Sansa sentiu um forte puxão na saia. Ele quer que eu ajoelhe, compreendeu, corando. Ficou mortificada. Não deveria ser assim. Sonhara mil vezes com seu casamento, e em todas elas imaginara o modo como seu noivo ficaria atrás dela, alto e forte, envolveria majestosamente seus ombros com o manto de sua proteção, e a beijaria ternamente no rosto ao debruçar-se para a frente, a fim de lhe prender o broche, Sentiu outro puxão na saia, mais insistente. Não farei isso. Por que devo poupar os sentimentos dele, quando ninguém se preocupa com os meus? O anão puxou-a pela terceira vez. Teimosamente, apertou os lábios e fingiu não reparar. Alguém atrás deles soltou um riso abafado. A rainha, pensou, mas não importava. Pouco depois estavam todos rindo, ninguém mais alto do que Joffrey. - Dontos, de quatro - ordenou o rei. - Meu tio precisa de ajuda para subir até sua noiva. E foi assim que o senhor seu esposo a cobriu com um manto nas cores da Casa Lannister enquanto se empoleirava nas costas de um bobo. Quando Sansa se virou, o homenzinho fitava-a, de boca contraída, com o rosto tão vermelho quanto seu manto. De repente, sentiu-se envergonhada por sua teimosia. Ali- sou as saias e ajoelhou-se diante de Tyrion, para que as cabeças ficassem no mesmo nível. - Com este beijo empenho o meu amor, e o tomo como meu senhor e esposo. - Com este beijo empenho o meu amor - respondeu o anão em voz rouca - e a tomo como minha senhora e esposa. - Debruçou-se para a frente, e os lábios tocaram- -se brevemente. Ele é tão feio, pensou Sansa quando o rosto dele se aproximou do seu, E ainda mais feio do que o Cão de Caça. O septão ergueu bem alto seu cristal, para que a luz arco-íris caísse sobre os dois. - Aqui, à vista dos deuses e dos homens - disse proclamo solenemente que Tyrion da Casa Lannister e Sansa da Casa Stark são marido e mulher, uma carne, um coração, uma alma, agora e sempre, e maldito seja quem se interpuser entre eles. Teve de morder o lábio para náo soluçar.&lt;br /&gt;
O banquete de casamento foi servido no Pequeno Salão. Havia talvez cinqüenta convidados; a maioria servidores e aliados dos Lannister, juntando-se àqueles que tinham estado no casamento. E ali Sansa encontrou os Tyrell. Margaery olhou-a de um modo cheio de tristeza, e quando a Rainha dos Espinhos entrou, vacilante, entre o Esquerdo e o Direito, sequer a olhou. Elinor, Alia e Megga pareciam determinadas a não conhecê-la. Minhas amigas, pensou Sansa amargamente. Seu esposo bebeu muito e quase não comeu. Escutava sempre que alguém se levantava para fazer um brinde, e às vezes fazia um brusco aceno de apreço, mas fora isso daria para dizer que seu rosto era feito de pedra. O banquete pareceu prolongar-se sem fim, embora Sansa não tivesse provado nada da comida. Queria que aquilo acabasse, e no entanto temia o seu fim. Pois, após o banquete, vinha a noite de núpcias. Os homens iriam levá-la para sua cama nupcial, despindo-a no caminho e fazendo piadas grosseiras sobre aquilo que a aguardava entre os lençóis, enquanto as mulheres prestariam a Tyrion o mesmo serviço. Só depois de serem enfiados nus na cama é que os deixariam sós, e mesmo então os convidados permaneceriam à porta do aposento nupcial, gritando para dentro sugestões obscenas. A noite de núpcias parecera maravilhosamente maliciosa e excitante quando Sansa era garota, mas, agora que o momento estava quase chegando, sentia apenas terror. Não achava que seria capaz de suportar que arrancassem sua roupa, e estava certa de que rebentaria em lágrimas à primeira brincadeira lúbrica. Quando os músicos começaram a tocar, Sansa apoiou timidamente a mão sobre a de Tyrion e disse: - Senhor, lideramos o baile? A boca dele torceu-se. - Acho que já lhes demos divertimento suficiente para uma noite, não acha? - Como quiser, senhor. - Retirou a mão. Em vez deles, JofFrey e Margaery lideraram. Como é possível que um monstro dance de forma tão bela?, perguntou Sansa a si mesma. Tinha sonhado acordada muitas vezes sobre o modo como dançaria em seu casamento, com todos os olhos postos em si e em seu belo senhor. Nos sonhos, estavam todos sorrindo. Nem sequer o meu esposo sorri Outros convidados rapidamente se juntaram ao rei e à sua prometida. Elinor dançou com seu jovem escudeiro, e Megga, com o Príncipe Tommen, A Senhora Merryweather, a bela myrana de cabelos negros e grandes olhos escuros, girava tão provocantemente que em pouco tempo todos os homens presentes no salão a observavam. O Senhor e a Senhora Tyrell moviam-se mais calmamente, Sor Kevan Lannister pediu a honra à Senhora Janna Fossoway, irmã de Lorde Tyrell, Merry Crane&lt;br /&gt;
juntou-se aos dançarinos com o príncipe exilado Jalabhar Xho, magnífico em seus adornos de penas. Cersei Lannister fez par primeiro com Lorde Redwyne, depois com Lorde Rowan, e por fim com o próprio pai, que dançava com uma graça fluida e séria, Sansa ficou sentada com as mãos no colo, observando o modo como a rainha se movia, ria e sacudia os louros caracóis, Ela encanta a todos, pensou, entorpecida. Cowo eu a odeio. Afastou o olhar, dirigindo-o para onde o Rapaz Lua dançava com Dontos. - Senhora Sansa. - Sor Garlan Tyrell estava em pé junto ao estrado. - Dá-me a honra? Se o seu senhor consentir? Os olhos desiguais do Duende estreitaram-se. - A minha senhora pode dançar com quem quiser. Talvez devesse ter permanecido ao lado do marido, mas queria tanto dançar,., e Sor Garlan era irmão de Margaery, de Willas, de seu Cavaleiro das Flores, - Vejo por que lhe chamam Garlan, o Galante, sor - disse, ao pegar na mão dele. - E muito amável por dizer isso, minha senhora. Foi meu irmão Willas quem me deu esse nome, por acaso. Para me proteger. - Para protegê-lo? - Sansa dirigiu-lhe um olhar confuso. Sor Garlan soltou uma gargalhada. - Eu era um menininho rechonchudo, temo eu, e nós temos um tio chamado Garth, o Grosseiro. Por isso Willas atacou primeiro, não sem antes me ameaçar com Garlan, o Galo, Garlan, o Gatuno e Garlan, a Gárgula. Aquilo era tão encantador e inocente que Sansa foi obrigada a rir, apesar de tudo. Depois, sentiu-se absurdamente grata. Sem saber como, o riso tinha lhe dado de novo esperança, ainda que por pouco tempo. Sorrindo, deixou que a música a dominasse, perdendo-se nos passos, no som de flauta, gaita de foles e harpa, no ritmo do tambor... e de tempos em tempos nos braços de Sor Garlan, quando a dança os juntava. - A senhora minha esposa está muito preocupada com a senhora - disse ele em voz baixa numa dessas vezes. - A Senhora Leonette é bondosa demais. Diga-lhe que estou bem. - Uma noiva no seu casamento devia estar mais do que bem. - A voz dele não era desprovida de gentileza. - Parecia à beira das lágrimas. - Lágrimas de alegria, sor. - Seus olhos revelam a mentira de sua língua. - Sor Garlan virou-a, puxou-a para o seu lado. - Senhora, vi como olha para meu irmão. Loras é valente e bonito, e todos o amamos muito... mas o seu Duende será melhor marido. Ele é um homem maior do que parece, penso eu.&lt;br /&gt;
A música afastou-os antes de Sansa conseguir pensar numa resposta. Foi Mace Tyrell quem surgiu à sua frente, com o rosto vermelho e suado, e depois Lorde Merryweather, e depois o Príncipe Tommen. - Também quero me casar - disse o rechonchudo principezinho, que tinha nove anos. - Sou mais alto do que o meu tio! - Eu sei que é - disse Sansa, antes de os pares voltarem a trocar. Sor Kevan disse-lhe que estava bela, Jalabhar Xho disse qualquer coisa na Língua do Verão que ela não compreendeu, e Lorde Redwyne desejou-lhe muitas crianças gordas e longos anos de alegria. E então a dança deixou-a cara a cara com Joffrey. Sansa retesou-se quando a mão dele tocou na dela, mas o rei apertou sua mão e puxou-a para si. - Não devia estar com um ar tão triste. Meu tio é uma coisinha feia, mas você ainda terá a mim. - O senhor irá se casar com Margaery! - Um rei pode ter outras mulheres. Prostitutas. Meu pai teve. Um dos Aegon também. O terceiro ou o quarto. Teve um monte de prostitutas e um monte de bastardos. - Enquanto rodopiavam ao som da música, JofF deu-lhe um beijo úmido. - Meu tio vai trazê-la à minha cama sempre que eu ordenar, Sansa balançou a cabeça. - Não vai. - Vai, senão corto a cabeça dele, Esse Rei Aegon, ele tinha todas as mulheres que desejava, quer fossem ou não casadas. Felizmente, era hora de mudar mais uma vez. Mas suas pernas tinham se transformado em madeira, e Lorde Rowan, Sor Tallad e o escudeiro de Elinor devem tê-la achado uma dançarina muito desajeitada. E então viu-se de novo com Sor Garlan, e pouco depois, abençoadamente, a dança terminou. O alívio foi curto. Assim que a música acabou, ouviu JofFrey dizer: - Está na hora de levá-los para a cama! Vamos tirar a roupa dela e dar uma passada de olhos no que a loba tem a dar ao meu tio! - Outros homens juntaram-se ruidosamente ao grito, O anão seu marido ergueu lentamente os olhos da taça de vinho. - Não haverá nada de noite de núpcias. JofFrey agarrou o braço de Sansa. - Haverá, se eu ordenar. O Duende espetou violentamente o punhal na mesa, onde ficou vibrando, e disse: - E depois vai ter de servir a sua mulher com um cacete de madeira. Eu castro você, juro.&lt;br /&gt;
Caiu um pesado silêncio. Sansa tentou libertar-se de JofFrey, mas ele tinha-a bem agarrada e sua manga rasgou. Ninguém pareceu sequer ouvir. A Rainha Cersei virou-se para o pai. - Ouviu o que ele disse? Lorde Tywin levantou-se da cadeira. - Acho que podemos dispensar a noite de núpcias. Tyrion, tenho certeza de que não pretendia ameaçar a pessoa do rei. Sansa viu um espasmo de raiva percorrer o rosto do marido. - Expressei-me mal - disse. - Foi uma brincadeira de mau gosto, senhor. - Ameaçou me castrar! - disse JofFrey com uma voz esganiçada. - Ameacei, Vossa Graça - disse Tyrion -, mas foi só por invejar o seu régio membro. O meu é tão pequeno e torto... - Seu rosto contorceu-se num olhar malicioso. - E se cortar minha língua, não me deixará nenhuma maneira de dar prazer a esta encantadora esposa que me deu. Uma gargalhada explodiu dos lábios de Sor Osmund Kettleblack. Alguém soltou um risinho abafado. Mas JofF não riu, e Lorde Tywin também não. - Vossa Graça - disse este -, meu filho está bêbado, pode constatar o fato, - Estou - confessou o Duende -, mas não tão bêbado que não possa tratar da minha noite de núpcias. - Saltou do estrado e agarrou Sansa rudemente. - Venha, mulher, é hora de derrubar a sua porta levadiça. Quero brincar de entrar no castelo, Corada, Sansa saiu com ele do Pequeno Salão. Que escolha tenho? Tyrion bamboleava- -se ao caminhar, especialmente quando caminhava tão depressa quanto agora. Os deuses eram misericordiosos, e nem JofFrey nem nenhum dos outros fez um movimento para segui-los. Para a noite de núpcias, tinham-lhes concedido o uso de um quarto arejado no alto da Torre da Mão. Tyrion fechou a porta com um pontapé depois de entrarem. - Há um jarro de bom dourado da Árvore no aparador, Sansa. Quer fazer a gentileza de me servir uma taça? - Será isso sensato, senhor? - Não há nada mais sensato. Não estou realmente bêbado, compreende? Mas pretendo ficar. Sansa encheu uma taça para cada um. Será mais fácil se eu também estiver bêbada. Sentou-se na beira da grande cama de dossel e ingeriu metade do conteúdo de sua taça em três longos goles. Sem dúvida que o vinho era muito bom, mas estava nervosa demais para saboreá-lo. A bebida deixou sua cabeça flutuando. - Quer que eu tire minhas roupas, senhor? - Tyrion. - Ele ergueu a cabeça. - Meu nome é Tyrion, Sansa.&lt;br /&gt;
- Tyrion. Senhor. Devo tirar o vestido, ou quer me despir? - bebeu mais um gole de vinho. O Duende virou as costas para ela. - Da primeira vez que me casei, fomos só nós e um septão bêbado, e alguns porcos como testemunhas. Comemos uma das testemunhas no banquete de casamento. Tysha deu na minha boca pele torrada de porco assado e eu lambi a gordura dos dedos dela, e estávamos rindo quando caímos na cama, - Foi casado antes? Eu.„ eu tinha me esquecido, - Não esqueceu. Nunca soube. - Quem era ela, senhor? - a contragosto, Sansa sentia curiosidade. - A Senhora Tysha, - A boca dele torceu-se. - Da Casa Punho de Prata. As armas deles são uma moeda de ouro e cem de prata, num lençol ensangüentado. Nosso casamento foi muito curto... como é próprio de um homem muito baixo, suponho. Sansa fitou as mãos e nada disse. - Quantos anos você tem, Sansa? - perguntou Tyrion após um momento. - Treze - disse ela quando a lua virar. - Deuses, piedade. - O anão bebeu outro gole de vinho. - Bem, conversar não fará você ficar mais velha. Vamos tratar disso, senhora? Se for do seu agrado? - Será do meu agrado agradar ao senhor meu esposo. Aquilo pareceu enfurecê-lo. - Esconde-se atrás da cortesia como se fosse uma muralha de castelo. - A cortesia é a armadura de uma senhora - disse Sansa, Sua septã sempre lhe dizia isso. - Eu sou o seu marido. Agora pode tirar a armadura. - E a roupa? - Isso também. - Fez um gesto na direção dela com a taça de vinho. - O senhor meu pai ordenou-me que consumasse este casamento. As mãos de Sansa tremiam quando começou a remexer as roupas. Tinha dez pole- gares no lugar dos dedos, e todos estavam quebrados. Mas de algum modo conseguiu se desembaraçar dos nós e botões, e o seu manto, o vestido, o espartilho e a seda íntima deslizaram para o chão, até que por fim saiu de dentro da roupa de baixo. A pele de seus braços e pernas ficou arrepiada. Manteve os olhos no chão, tímida demais para olhá-lo, mas quando terminou, lançou-lhe um relance de olhos e viu-o a fitá-la. Havia fome no olho verde, pareceu a ela, e fúria no negro. Sansa não sabia qual dos dois a assustava mais. - É uma criança - disse ele. Ela cobriu os seios com as mãos. - Já floresci.&lt;br /&gt;
- Uma criança - repetiu ele mas desejo você. Isso a assusta, Sansa? - Sim. - A mim também. Eu sei que sou feio... - Não, sen... Ele ergueu-se. - Não minta, Sansa. Sou deformado, mutilado e pequeno, mas... - Sansa viu que ele procurava as palavras - ... na cama, depois das velas sopradas, não sou pior constituído do que os outros homens. No escuro, sou o Cavaleiro das Flores. - Bebeu um trago de vinho. - Sou generoso. Leal para com aqueles que me são leais. Provei que não sou covarde. E sou mais inteligente do que a maioria, decerto a esperteza deve contar para alguma coisa. Até posso ser bondoso. Temo que a bondade não seja um hábito entre nós, os Lannister, mas sei que tenho alguma, em algum lugar. Poderia ser... poderia ser bom para você. Ele está tão assustado quanto eu, percebeu Sansa. Isso talvez devesse tê-la deixado mais compreensiva para com ele, mas não a deixou. Tudo que sentiu foi pena, e a pena é a morte do desejo. O anão olhava-a, à espera de que dissesse alguma coisa, mas todas as suas palavras tinham murchado. Só conseguiu ficar ali, em pé, tremendo. Quando finalmente compreendeu que ela não tinha uma resposta para lhe dar, Tyrion Lannister entornou o resto do vinho. - Compreendo - disse amargamente. - Vá para a cama, Sansa. Temos de cumprir o nosso dever. Ela subiu para o colchão de plumas, consciente de que ele a encarava. Uma vela perfumada de cera de abelha ardia na mesa de cabeceira e pétalas de rosas tinham sido espalhadas entre os lençóis. Tinha começado a puxar uma manta para se cobrir quando o ouviu dizer: - Não. O frio fazia-a tremer, mas obedeceu. Seus olhos fecharam-se, e esperou. Um momento depois, ouviu o som do marido descalçando as botas, e o roçagar de roupa enquanto se despia. Quando saltou para a cama e pôs uma mão no seu seio, Sansa não conseguiu evitar um estremecimento. Ficou de olhos fechados, com cada músculo tenso, aterrorizada com o que poderia vir em seguida. Ele voltaria a tocá-la? Iria beijá-la? Deveria abrir já as pernas para ele? Não sabia o que era esperado de si. - Sansa. - A mão tinha desaparecido. - Abra os olhos. Prometera obedecer; abriu os olhos, Ele estava sentado junto aos seus pés, nu, Onde as pernas se juntavam, seu bastão de homem erguia-se, teso e rijo, de uma mata de ásperos pelos amarelos, mas essa era a única coisa nele que era direita. - Minha senhora - disse Tyrion - E adorável, não duvide, mas... não posso fazer isso. Que se dane o meu pai. Esperaremos. A volta da lua,&lt;br /&gt;
um ano, uma estação, o tempo que for preciso. Até que me conheça melhor, e talvez confie um pouco em mim. - O sorriso podia pretender ser tranquilizador, mas sem nariz só o fazia parecer mais grotesco e sinistro. Olhe para ele, disse Sansa a si mesma, olhe para o seu marido, para todo ele, a Septã Mordane dizia que todos os homens são belos, encontre a beleza dele, tente. Fitou as pernas tortas, a testa inchada e animalesca, o olho verde e o negro, os restos em carne viva de seu nariz e a cicatriz irregular e rosada, o rude emaranhado de pelos amarelos e pretos que nele passava por barba. Até o seu membro viril era feio, grosso e cheio de veias, com uma cabeça bulbosa e roxa. Isso não está certo, isso não é justo, como terei pecado tanto para levar os deuses afazerem isso comigo, como? - Por minha honra como Lannister - disse o Duende -, juro não tocá-la até que queira que eu o faça. Precisou de toda a coragem que possuía para olhar aqueles olhos desiguais e dizer: - E se eu nunca quiser que faça isso, senhor? A boca dele contraiu-se como se o tivesse esbofeteado. - Nunca? - Sansa tinha o pescoço tão tenso que quase não conseguiu assentir. - Ora - disse ele é por isso que os deuses fazem as prostitutas, para duendes como eu. - Fechou seus dedos curtos e grossos num punho e saltou da cama.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/481248263627727995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/sansa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/481248263627727995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/481248263627727995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/sansa.html' title='Sansa'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-7456680670009280864</id><published>2014-01-01T08:40:00.001-08:00</published><updated>2014-01-01T08:40:09.791-08:00</updated><title type='text'>Dany</title><content type='html'>- Todos? - a jovem escrava soava cautelosa. - Vossa Graça, os ouvidos sem valor desta ouviram-na mal? Uma luz fresca e verde filtrava-se pelos painéis de vidro colorido em forma de diamante montados nas paredes triangulares e inclinadas, e uma brisa soprava suavemente pelas portas do terraço, trazendo do jardim que nele crescia o cheiro de frutos e flores. - Seus ouvidos ouviram bem - disse Dany. - Quero comprar todos. Diga isso aos Bons Mestres, por favor. Naquele dia, havia escolhido um vestido qarteno. A seda de um tom profundo de violeta realçava a cor púrpura de seus olhos. O corte desnudava seu seio esquerdo. Enquanto os Bons Mestres de Astapor conferenciavam entre si em voz baixa, Dany bebericou vinho ácido de caqui de uma taça alta de prata. Não conseguia compreender tudo que eles estavam dizendo, mas ouvia a avidez. Cada um dos oito negociantes era servido por dois ou três escravos pessoais... embora um Grazdan, o mais velho, tivesse seis. Para não parecer uma pedinte, Dany tinha trazido seus próprios servidores; Irri e Jhiqui, com suas calças de sedareia e coletes pintados, o velho Barba-Branca e o poderoso Belwas, e seus companheiros de sangue. Sor Jorah encontrava-se atrás dela, sufocando em seu sobretudo verde com o urso negro de Mormont bordado. O cheiro do suor do cavaleiro era uma resposta terrena aos doces perfumes que ensopavam os astapori. - Todos - rosnou Kraznys mo Nakloz, que naquele dia cheirava a pêssegos. A jovem escrava repetiu a palavra no Idioma Comum de Westeros. - Milhares, temos oito. É isso que ela quer dizer com todos? Há também seis centenas, que farão parte de um nono milhar quando completas. Também as quer? - Quero - disse Dany quando a questão lhe foi colocada. - Os oito milhares, as seis centenas... e também os que ainda estão em treinamento. Aqueles que não conquistaram os espigões. Kraznys voltou a se virar para os seus companheiros. De novo conferenciaram entre si. A tradutora tinha dito a Dany seus nomes, mas era difícil guardá-los. Quatro dos homens pareciam se chamar Grazdan, presumivelmente em honra de Grazdan, o Grande, que fundara a Velha Ghis na aurora dos tempos. Todos eram parecidos; homens fortes e &lt;br /&gt;
carnudos, com pele ambarina, nariz largo e olhos escuros. Seus cabelos hirsutos eram negros, ou de um vermelho-escuro, ou daquela estranha mistura de ver- melho e negro que era característica dos ghiscari. Todos se enrolavam em tokars, uma vestimenta que só era autorizada aos homens livres de Astapor. O Capitão Groleo tinha dito a Dany que era o debrum do tokar que proclamava o estatuto de um homem. Naquela fresca sala verde no topo da pirâmide, dois dos negociantes de escravos usavam tokars debruados de ouro, e um deles, o Grazdan mais velho, exibia um debrum de grandes pérolas brancas que chocalhavam levemente quando ele se mexia no assento ou movimentava um braço. - Não podemos vender rapazes meio treinados - um dos Grazdan vestido em debrum de prata dizia aos outros. - Podemos, se o ouro dela for bom - disse um homem mais gordo, cujo debrum era de ouro. - Eles não são Imaculados. Não mataram seus bebês. Se falharem no campo de batalha, vão nos envergonhar. E mesmo se cortarmos cinco mil garotos crus amanhã, vão se passar dez anos até que estejam prontos para serem vendidos. O que diremos ao próximo comprador que vier em busca de Imaculados? - Diremos que precisa esperar - disse o gordo. - Ouro na minha bolsa é melhor do que ouro no meu futuro. Dany deixou-os discutir, bebericando do vinho ácido de caqui e tentando manter o rosto sem expressão, como se não entendesse nada do que diziam. Terei todos, seja qual for o preço, disse a si própria. A cidade tinha uma centena de negociantes de escravos, mas os oito que se encontravam diante dela eram os maiores. Quando vendiam escravos sexuais, trabalhadores rurais, escribas, artesãos e tutores, aqueles homens eram rivais, mas seus ancestrais tinham-nos aliado a fim de criar e vender os Imaculados. Tijolos e sangue construíram Astapor, e tijolos e sangue construíram o seu povo. Foi Kraznys quem finalmente anunciou a decisão. - Diga-lhe que obterá os oito milhares, se o seu ouro for suficiente. E as seis centenas, se desejar. Diga-lhe para voltar dentro de um ano, e venderemos a ela mais dois milhares. - Dentro de um ano estarei em Westeros - disse Dany depois de ouvir a tradução. - Preciso deles agora. Os Imaculados estão bem treinados, mesmo assim muitos caem em batalha. Preciso dos garotos como reforços para apanhar as espadas que caírem. - Pôs o vinho de lado e inclinou-se para a jovem escrava. - Diga aos Bons Mestres que quero até os pequenos que ainda têm seus cachorros. Diga-lhes que pagarei tanto&lt;br /&gt;
pelo rapaz que cortaram ontem como por um Imaculado com elmo de espigão. A moça disse-lhes. A resposta continuou a ser não. Dany franziu a testa, aborrecida. - Muito bem. Diga-lhes que pagarei o dobro, na condição de obter todos. - O dobro? - o gordo com o debrum de ouro por pouco não se babou. - Essa vadiazinha é realmente uma tola - disse Kraznys mo Nakloz. - Devíamos pedir o triplo. Ela está suficientemente desesperada para pagar. Sim, peçamos dez vezes o preço de cada escravo. O Grazdan alto com a barba pontiaguda falou no Idioma Comum, embora não tão bem quanto a jovem escrava. - Vossa Graça - rosnou Westeros está sendo rico, sim, mas você não está sendo rainha agora. Talvez nunca estará sendo rainha. Até Imaculados podem estar perdendo batalhas para selvagens cavaleiros de aço de Sete Reinos. Estou recordando, os Bons Mestres de Astapor não estão vendendo carne em troca de promessas. Está tendo ouro e bens de comércio suficientes para pagar por todos esses eunucos que está querendo? - Conhece a resposta para isso melhor do que eu, Bom Mestre - respondeu Dany. - Seus homens vasculharam meus navios e contaram cada conta de âmbar e frasco de açafráo. Quanto tenho eu? - Suficiente para comprar um dos milhares - disse o Bom Mestre, com um sorriso desdenhoso. - Mas vai pagar o dobro, está dizendo. Então, cinco centenas é tudo que compra. - Sua bonita coroa pode pagar outra centena - disse o gordo em valiriano. - A sua coroa dos três dragões. Dany esperou que as palavras dele fossem traduzidas. - Minha coroa não está à venda. - Quando Viserys vendeu a coroa da mãe, perdeu a alegria que lhe restava, sobrou apenas a raiva. - Nem escravizarei meu povo, nem venderei seus bens ou cavalos. Mas podem ficar com meus navios. A grande coca Balerion e as galés Vhagar e Meraxes. - Prevenira Groleo e os outros capitães de que podia chegar àquele ponto, embora eles tivessem contestado furiosamente a necessidade da venda. - Três bons navios devem valer mais do que um punhado de reles eunucos. O Grazdan gordo virou-se para os outros. Voltaram a conferenciar em voz baixa. - Dois dos milhares - disse o da barba pontiaguda quando voltou a se virar para ela. - E demais, mas os Bons Mestres estão sendo generosos e sua necessidade está sendo grande.&lt;br /&gt;
Dois mil nunca serviriam para aquilo que queria fazer. Tenho de obter todos. Dany sabia o que tinha de fazer naquele momento, embora o sabor fosse tão amargo que nem mesmo o vinho de caqui conseguia tirá-lo de sua boca. Refletira longa e duramente, e não havia encontrado outra maneira. E a minha única chance. - Deem-me todos - disse - e podem ficar com um dragão. Ouviu-se o som do prender da respiração de Jhiqui ao seu lado. Kraznys sorriu para seus companheiros. - Não disse? Ela vai nos dar qualquer coisa. Barba-Branca fitou-a, numa incredulidade chocada. Sua mão tremia agarrada ao bastão. - Não. - Ajoelhou perante ela. - Vossa Graça, suplico-lhe, conquiste seu trono com dragões, não com escravos. Não pode fazer isso... - Você é que não pode se atrever a me dar instruções. Sor Jorah, tire Barba-Branca de minha presença. Mormont agarrou rudemente o velho por um cotovelo, colocou-o em pé com um puxão e levou-o para o terraço. - Diga aos Bons Mestres que lamento essa interrupção - disse Dany à jovem escrava. - Diga-lhes que aguardo sua resposta. Mas sabia qual seria a resposta; podia vê-la na cinttlação dos olhos deles e nos sorrisos que grandemente se esforçavam para esconder. Astapor tinha milhares de eunucos, e ainda mais garotos escravos à espera de serem cortados, mas só havia três dragões vivos em todo o grande mundo. E os ghiscari anseiam por dragões. Como podiam não ansiar? Cinco vezes a Velha Ghis havia competido com Valíria quando o mundo era jovem, e cinco vezes havia caído, em derrota desoladora. Pois a Cidade Franca possuía dragões e o Império, não. O mais velho dos Grazdan agitou-se no assento, e suas pérolas chocalharam baixinho, - Um dragão à nossa escolha - disse, numa voz fina e dura, - O negro é maior e mais saudável, - O nome dele é Drogon. - Ela assentiu. - Todos os seus bens, exceto sua coroa e vestuário real, que lhe permitiremos manter. Os três navios. E Drogon. - Feito - disse ela, no Idioma Comum. - Feito - respondeu o velho Grazdan no seu denso valiriano. Os outros serviram de ecos ao velho do debrum de pérolas. - Feito - traduziu a jovem escrava - e feito, e feito, oito vezes feito. - Os Imaculados aprenderão seu idioma selvagem bastante depressa - acrescentou Kraznys mo Nakloz, depois de tudo combinado -, mas até esse momento irá necessitar de um escravo para falar com eles. Aceite esta como presente, um penhor de um bom negócio.&lt;br /&gt;
- Aceitarei - disse Dany. A jovem escrava transmitiu-lhe as palavras dele e a ele as de Dany. Se tinha alguma emoção sobre ser oferecida como penhor, teve o cuidado de não deixar transparecer, Arstan Barba-Branca também domou a língua quando Dany passou por ele no terraço. Seguiu-a pela escadaria em silêncio, mas ela ouvia seu bastão de madeira rígida fazendo tap-tap nos tijolos vermelhos enquanto caminhavam. Não o censurava por sua fúria. O que fizera foi deplorável. A Mãe de Dragões vendeu o seu filho mais forte. Até a idéia a deixava nauseada. Mas lá embaixo, na Praça do Orgulho, em pé sobre os quentes tijolos vermelhos entre a pirâmide dos negociantes de escravos e as casernas dos eunucos, Dany virou-se para o velho. - Barba-Branca - disse -, quero seus conselhos, e nunca deve sentir medo de me dizer o que pensa... quando estivermos sozinhos. Mas nunca me questione na frente de estranhos. Entendido? - Sim, Vossa Graça - disse ele, em tom infeliz. - Não sou uma criança - disse-lhe ela. - Sou uma rainha, - Mas até as rainhas podem errar. Os astapori enganaram-na, Vossa Graça. Um dragão vale mais do que qualquer exército. Aegon provou-o há trezentos anos, no Campo de Fogo. - Eu sei o que Aegon provou. Pretendo também provar umas coisinhas. - Dany virou-se para a jovem escrava que estava obedientemente em pé ao lado de sua liteira. - Você tem nome, ou precisa tirar um novo todos os dias de dentro de um barril? - Isso é só para os Imaculados - disse a moça. Então percebeu que a pergunta havia sido feita em Alto Valiriano, Seus olhos esbugalharam-se. - Oh. - Seu nome é Oh? - Não. Vossa Graça, perdoe esta pelo descontrole. O nome de sua escrava é Missan- dei, mas... - Missandei já não é uma escrava. Liberto-a, a partir deste instante. Junte-se a mim na liteira, quero conversar. - Rakharo ajudou-a a entrar, e Dany fechou as cortinas à poeira e ao calor. - Se ficar comigo, vai me servir como uma de minhas aias - disse, quando se puseram em movimento. - Manterei você ao meu lado para falar por mim como falou por Kraznys. Mas pode deixar o meu serviço na hora que desejar, se tiver um pai ou uma mãe para junto de quem prefira voltar, - Esta ficará - disse a garota, - Esta... eu... não tenho para onde ir. Esta... eu vou servi-la, e de bom grado. - Posso dar-lhe liberdade, mas não posso lhe dar segurança - preveniu Dany. - Tenho um mundo para atravessar e guerras para travar. Pode vir a passar fome. Pode adoecer. Pode ser morta.&lt;br /&gt;
- Vaiar morghulis - disse Missandei, em Alto Valiriano. - Todos os homens têm de morrer - concordou Dany mas podemos rezar para que isso demore muito tempo para acontecer. - Encostou-se nas almofadas e tomou a mão da garota nas suas. - Estes Imaculados são realmente destemidos? - Sim, Vossa Graça. - Agora está a meu serviço. E verdade que não sentem dor? - O vinho da coragem mata essas sensações. Quando matam os bebês, já o bebem há anos. - E são obedientes? - Tudo que conhecem é a obediência. Se lhes disser para não respirarem, acharão isso mais fácil do que não obedecer. Dany fez um gesto afirmativo com a cabeça. - E quando não precisar mais deles? - Vossa Graça? - Quando tiver ganhado a minha guerra e reclamado o trono que era de meu pai, meus cavaleiros embainharão as espadas e voltarão para suas fortalezas, para suas esposas, filhos e mães... para suas vidas. Mas esses eunucos não têm vida. O que farei com oito mil eunucos depois de deixar de haver batalhas a travar? - Os Imaculados dão bons guardas e excelentes vigias, Vossa Graça - disse Missandei. - E nunca é difícil encontrar um comprador para tropas tão boas e experientes. - Os homens não são comprados e vendidos em Westeros, segundo me dizem. - Com todo o respeito, Vossa Graça, os Imaculados não são homens. - Se os revendesse, como saberia que não seriam usados contra mim? - perguntou Dany sem rodeios. - Fariam isso? Lutariam contra mim, chegariam a me machucar fisicamente? - Se o seu dono o ordenasse. Eles não questionam, Vossa Graça. Todas as questões lhes foram arrancadas. Eles obedecem. - Parecia perturbada, - Quando não... quando não precisar mais deles... Vossa Graça pode ordenar-lhes que caiam sobre as espadas. - E até isso fariam? - Sim - A voz de Missandei suavizara-se. - Vossa Graça. Dany apertou sua mão. - Mas preferiria que eu não lhes pedisse isso. Por quê? Por que se preocupa? - Esta não... eu... Vossa Graça... - Diga-me. A garota baixou os olhos, - Três deles foram antigamente meus irmãos, Vossa Graça.&lt;br /&gt;
Então espero que seus irmãos sejam tão corajosos e inteligentes quanto você. Dany voltou a encostar-se na almofada, e deixou que a liteira a levasse em frente, uma última vez de volta ao Balerion, para colocar o seu mundo em ordem. E de volta a Drogon. Sua boca apertou-se numa expressão carrancuda. A noite que se seguiu foi longa, escura e ventosa. Dany alimentou os dragões como sempre fazia, mas descobriu que ela mesma não tinha apetite. Chorou um pouco, sozinha, em sua cabine, e depois secou as lágrimas durante tempo bastante para mais uma discussão com Groleo. - O Magíster Illyrio não está aqui - teve finalmente de lhe dizer e se estivesse, também não conseguiria me dissuadir. Preciso mais dos Imaculados do que destes navios, e não quero ouvir nem mais uma palavra. A ira consumiu-lhe o desgosto e o medo, pelo menos durante algumas horas. Mais tarde chamou os companheiros de sangue à sua cabine, com Sor Jorah. Eram os únicos em quem realmente confiava. Pretendia dormir depois, para estar bem repousada de manhã, mas uma hora de agitação insone no confinamento abafado da cabine rapidamente a convenceu de que não devia continuar tentando. A porta, encontrou Aggo colocando uma nova corda no arco à luz de uma oscilante candeia de azeite. Rakharo estava sentado no chão, ao seu lado, de pernas cruzadas, afiando o arakb com uma pedra de amolar. Dany disse a ambos para continuarem o que estavam fazendo, e subiu ao convés para tomar um pouco do ar fresco da noite. A tripulação deixou-a em paz enquanto tratava de seus assuntos, mas Sor Jorah rapidamente veio lhe fazer companhia junto à amurada. Ele nunca está longe, pensou Dany. Conhece meus estados de espírito bem demais. - Khaleesi. Devia estar dormindo. Amanhã estará quente e será duro, garanto-lhe. Precisará de suas forças. - Lembra-se de Eroeh? - perguntou-lhe ela. - A garota lhazarena? - Estavam violando a garota, mas eu impedi-os e coloquei-a sob a minha proteção. Só que quando o meu sol e estrelas morreu, Mago tomou-a de volta, voltou a usá-la e matou-a. Aggo disse que era o seu destino. - Lembro-me disso - disse Sor Jorah. - Estive só durante muito tempo, Jorah. Completamente só, tirando o meu irmão. Era uma coisinha tão pequena e assustada. Viserys deveria ter me protegido, mas em vez disso machucava-me e assustava-me mais ainda. Ele não devia ter feito isso. Não era só meu irmão, era meu rei. Por que os deuses criam os reis e as rainhas, se não for para pro- teger aqueles que não conseguem fazer isso por conta própria? - Alguns reis criam-se a si mesmos. Foi o que Robert fez.&lt;br /&gt;
- Ele não era um verdadeiro rei - disse Dany com desdém. - Não oferecia justiça. Justiça... é para isso que os reis servem. Sor Jorah não encontrou resposta. Limitou-se a sorrir, e tocou seus cabelos, muito de leve. Foi o bastante. Naquela noite sonhou que era Rhaegar, a caminho do Tridente. Mas ia montada num dragão, e não num cavalo. Quando viu a tropa rebelde do Usurpador do outro lado do rio, eles tinham armaduras de gelo, mas ela banhou-os em fogo de dragão e eles derreteram- -se como orvalho e transformaram o Tridente numa torrente. Uma pequena parte de si sabia que estava sonhando, mas outra parte exultou. Era assim que estava destinado a ser. A outra maneira foi um pesadelo, e só agora acordei. Acordou subitamente na escuridão de sua cabine, ainda transbordante de triunfo, O Balerion pareceu acordar com ela, e ouviu o tênue ranger de madeira, água batendo de encontro ao casco, um passo no convés por cima de sua cabeça. H algo mais. Alguém estava com ela na cabine. - Irri? Jhiqui? Onde estão? - as aias não responderam. Estava escuro demais para ver, mas ouvia-as respirar. - Jorah, é você? - Eles dormem - disse uma mulher. - Todos eles dormem. - A voz estava muito próxima. - Até os dragões têm de dormir. Ela está em cima de mim. - Quem está aí? - Dany tentou ver na escuridão. Julgou detectar uma sombra, o mais tênue contorno de uma silhueta. - O que quer de mim? - Lembre-se. Para ir para o norte, deve viajar para o sul. Para alcançar o oeste, tem de ir para leste. Para ir em frente, deve voltar para trás, e para tocar a luz, tem de passar sob a sombra. - Quaithe? - Dany saltou da cama e escancarou a porta. A pálida luz amarela das lanternas inundou a cabine, e Irri e Jhiqui sentaram-se, sonolentas. - Kkaleesi? - murmurou Jhiqui, esfregando os olhos. Viserion acordou e abriu as mandíbulas, e uma baforada de chamas iluminou até os cantos mais escuros. Não havia sinais de uma mulher com uma máscara de laca vermelha. - Khaleesi, não está bem? - perguntou Jhiqui, - Um sonho. - Dany sacudiu a cabeça. - Tive um sonho, foi só isso. Voltem a dormir. Vamos todas voltar a dormir. - Mas, por mais que tentasse, o sono não queria voltar. Se olhar para trás, estou perdida, disse Dany a si mesma na manhã seguinte, ao entrar em Astapor pelos portões do porto, Não se atrevia a lembrar a si mesma como, na realidade, era pequena e insignificante a sua comitiva, caso contrário perderia toda a coragem. Naquele dia montava a sua prata, vestida com calças de pelo de cavalo e um colete de couro pintado, com um cinto de medalhões de bronze na cintura e&lt;br /&gt;
mais dois cruzados entre os seios. Irri e Jhiqui tinham trançado seus cabelos e prendido neles uma minúscula sineta de prata, cujo tilintar cantava uma canção sobre os Imorredouros de Qarth, queimados em seu Palácio de Poeira. As ruas de tijolo vermelho de Astapor estavam quase repletas nessa manhã. Escravos e criados aglomeravam-se junto às paredes, enquanto os senhores de escravos e suas mulheres tinham vestido seus tokars para observar do alto das pirâmides de degraus. No fim das contas, não são assim tão diferentes dos qartenos, pensou Dany. Querem um vislum- bre de dragões que possam contar aos filhos e aos filhos dos filhos. Aquele pensamento fez Dany indagar-se sobre quantos deles chegariam a ter filhos. Aggo seguia na sua frente, com seu grande arco dothraki. Belwas, o Forte, caminhava à direita de sua égua, e a pequena Missandei à esquerda. Sor Jorah Mormont vinha atrás, de cota de malha e sobretudo, lançando olhares carrancudos a todos os que se aproxi- massem em excesso. Rakharo e Jhogo protegiam a liteira. Dany ordenara que o topo fosse removido, para que os três dragões pudessem ser acorrentados à plataforma. Irri e Jhiqui seguiam com eles, para tentar mantê-los calmos. Mas Viserion brandia a cauda para um lado e para o outro, e uma fumaça subia, irritada, de suas narinas, Rhaegal também sentia que algo não estava bem. Por três vezes tentou levantar voo, só conseguindo ser puxado para baixo pela pesada corrente que Jhiqui tinha na mão. Drogon enrolara-se numa bola, com as asas e a cauda bem aconchegadas. Só os seus olhos indicavam que não estava dormindo. O resto do seu povo seguia-os: Groleo e os outros capitães e suas tripulações, e os oitenta e três dothraki que restavam dos cem mil que um dia tinham acompanhado o khalasar de Drogo. Dany tinha colocado os mais velhos e mais fracos no centro da coluna, com as lactantes, as grávidas, as meninas pequenas e os garotos novos demais para trançar o cabelo. Os outros - aquilo que possuía de guerreiros - seguiam no exterior e faziam avançar a sua triste manada, os cento e tantos cavalos descarnados que tinham sobrevivido seja ao deserto vermelho, seja ao negro mar salgado. Devia mandar bordar um estandarte, pensou enquanto avançava à frente de seu bando andrajoso ao longo dos meandros do rio de Astapor. Fechou os olhos para imaginar seu aspecto: todo de seda negra e leve, e nele o dragão vermelho de três cabeças de Targaryen, exalando chamas douradas. Um estandarte que Rhaegar pudesse ter usado. As margens do rio eram estranhamente tranqüilas. Os astapori chamavam-no de Verme. Era largo, lento e cheio de curvas, semeado de minúsculas ilhas cobertas de florestas. Vislumbrou crianças que&lt;br /&gt;
brincavam numa delas, correndo por entre elegantes estátuas de mármore. Em outra ilha, um casal de amantes beijava-se à sombra de altas árvores verdes, tão desprovidos de vergonha como um dothraki num casamento. Sem roupas, não sabia dizer se eram escravos ou livres. A Praça do Orgulho, com sua grande harpia de bronze, era pequena demais para conter todos os Imaculados que tinha comprado. Em vez de estarem ali, os escravos tinham sido reunidos na Praça da Punição, em frente ao portão principal de Astapor, para poderem ser levados diretamente da cidade assim que Dany estivesse na posse deles. Ali não havia estátuas de bronze; só uma plataforma de madeira onde escravos rebeldes eram torturados, esfolados e enforcados. - Os Bons Mestres colocam-nos assim para que sejam a primeira coisa que um novo escravo vê quando entra na cidade - disse-lhe Missandei quando entraram na praça. A primeira vista, Dany pensou que os castigados tinham pele listrada, como os ze- bralos dos Jogos Nhai. Então aproximou-se na sua prata e viu a carne viva sob as listras negras em movimento. Moscas. Moscas e larvas. Tinham arrancado a pele dos escravos rebeldes como se descasca uma maçã, numa longa fita enrolada, Um dos homens tinha um braço negro de moscas dos dedos ao cotovelo, e vermelho e branco por baixo. Dany freou o cavalo por baixo dele. - O que este fez? - Levantou uma mão contra o dono. Com o estômago embrulhado, Dany virou sua prata e trotou na direção do centro da praça, e do exército que comprara a um preço tão elevado, Estavam em pé, fileira atrás de fileira, atrás de fileira, seus meios-homens de pedra com coração de tijolo; oito mil e seiscentos com os capacetes de espigão em bronze de Imaculados plenamente treinados, e cerca de cinco mil atrás deles, de cabeça descoberta, mas armados com lanças e espadas curtas. Viu que aqueles que se encontravam mais para trás não passavam de meninos, mas estavam tão rígidos e imóveis quanto os outros. Kraznys mo Nakloz encontrava-se ali com todos os seus companheiros para saudá-la. Outros astapori de elevado nascimento juntavam-se em grupos atrás deles, bebericando vinho de taças altas de prata, enquanto escravos circulavam entre eles com bandejas cheias de azeitonas, cerejas e figos. O Grazdan mais velho ocupava uma liteira, sustentada por quatro enormes escravos com peles acobreadas. Meia dúzia de lanceiros a cavalo percorria os limites da praça, mantendo afastadas as multidões que tinham vindo assistir. O sol reíulgia nos discos de cobre polido costurados aos seus mantos com um brilho que cegava, mas&lt;br /&gt;
Dany não pôde deixar de reparar como seus cavalos pareciam nervosos. Temem os dragões. E não é de admirar que os temam. Kraznys ordenou a um escravo que a ajudasse a descer da sela. Ele tinha as mãos ocupadas; uma agarrava o tokar, enquanto a outra empunhava um ornamentado chicote. - Aqui estão eles. - Olhou para Missandei. - Diga-lhe que são seus... se puder pagar. - Pode - disse a garota. Sor Jorah ladrou uma ordem, e a mercadoria foi trazida. Seis fardos de pele de tigre, trezentos rolos de boa seda. Potes de açafrão, potes de mirra, potes de pimenta, curry e cardamomo, uma máscara de ônix, doze macacos de jade, barris de tinta vermelha, preta e verde, uma caixa de raras ametistas negras, uma caixa de pérolas, um barril de azeitonas sem caroço recheadas com lagartas, uma dúzia de barris de bagres cegos em salmoura, um grande gongo de latão e um martelo para bater nele, dezessete olhos de marfim, e uma enorme arca cheia de livros escritos em línguas que Dany não sabia ler. E mais, e mais, e mais. Seu povo empilhou tudo diante dos negociantes de escravos. Enquanto o pagamento era feito, Kraznys mo Nakloz concedeu-lhe algumas palavras finais sobre o modo de lidar com as tropas. - Eles ainda estão verdes - disse ele através de Missandei. - Diga à prostituta de Westeros que faria bem em dar-lhes rapidamente o batismo de sangue. Há muitas cidades pequenas no caminho, cidades prontas para serem pilhadas. Qualquer saque que obtenha será apenas seu. Os Imaculados não cobiçam o ouro ou as pedras preciosas. E se capturar prisioneiros, alguns guardas serão suficientes para trazê-los para Astapor. Compraremos os saudáveis, e por um bom preço. E quem sabe? Daqui a dez anos, alguns dos garotos que nos mandar poderão ser por sua vez Imaculados. Assim todos prosperaremos. Por fim, já não havia mais mercadoria a adicionar à pilha. Seus dothraki voltaram a subir para os cavalos, e Dany disse: - Isto foi tudo o que pudemos transportar. O resto aguarda nos navios, uma grande quantidade de âmbar, vinho e arroz negro. E vocês têm os próprios navios. Então tudo que nos resta é... - ... o dragão - terminou o Grazdan com a barba pontiaguda, que falava o Idioma Comum com forte sotaque. - E aqui está ele. - Sor Jorah e Belwas dirigiram-se ao seu lado para a liteira, onde Drogon e os seus irmãos tostavam ao sol. Jhiqui desprendeu uma ponta da corrente e entregou-a a ela, Quando lhe deu um puxão, o dragão negro ergueu a cabeça, silvando, e abriu asas de noite e escarlate. Kraznys mo Nakloz deu um largo sorriso quando a sombra das asas caiu sobre si.&lt;br /&gt;
Dany entregou ao comerciante de escravos a ponta da corrente de Drogon. Em troca, ele presenteou-a com o chicote. O cabo era de osso negro de dragão, elaboradamente esculpido e incrustado de ouro. Nove longas e finas tiras de couro saíam desse cabo, todas rematadas por uma garra dourada. O botão de ouro era uma cabeça de mulher, com dentes pontiagudos de marfim. - Os dedos da harpia - chamou Kraznys ao açoite. Dany revirou o chicote na mão. Uma coisa tão leve, com um peso tão grande. - Então está feito? Eles pertencem a mim? - Está feito - concordou o homem, dando um forte puxão na corrente para que Drogon descesse da liteira. Dany montou sua prata. Sentia o coração tamborilando no peito. Sentia um medo desesperado. Seria isso o que o meu irmão teria jeito? Perguntou a si mesma se o Príncipe Rhaegar se sentira tão ansioso assim quando viu a tropa do Usurpador em formação do outro lado do Tridente, com todos os seus estandartes flutuando ao vento. Pôs-se em pé nos estrihos e ergueu os dedos da harpia sobre a cabeça, para que todos os Imaculados os vissem, - ESTÁ FEITO! - gritou, o mais alto que foi capaz. - VOCÊS SÂO MEUS/ - Es- poreou a égua e galopou ao longo da primeira fileira, mantendo os dedos erguidos. - PERTENCEM AGORA AO DRAGAO! FORAM COMPRADOS E PAGOS! ESTÁ FEITO! ESTÁ FEITO! Vislumbrou o velho Grazdan virando rapidamente a cabeça grisalha. Ele me ouviu falar valiriano. Os outros negociantes de escravos não estavam atentos. Aglomeravam-se em volta de Kraznys e do dragão, gritando conselhos. Embora os astapori puxassem e empurrassem, Drogon não saía da liteira. Fumaça cinza subia de suas mandíbulas aber- tas, e seu longo pescoço enrolava-se e endireitava-se enquanto ele tentava morder o rosto do feitor. É hora de atravessar o Tridente, pensou Dany, ao virar-se e trazer a prata de volta. Seus companheiros de sangue aproximaram-se e cercaram-na. - Está em dificuldades - observou Dany. - Ele não quer vir - disse Kraznys. - Há uma razão, Um dragão não é escravo de ninguém. - E Dany chicoteou com toda a força o rosto do negociante de escravos. Kraznys gritou e cambaleou para trás, com sangue escorrendo, vermelho, para sua barba perfumada. Os dedos da harpia tinham quase desfeito suas feições de um golpe, mas Dany não parou para contemplar o estrago. - Drogon - cantou em voz alta, em tom doce, todo o seu medo esquecido. - Dracarys. O dragão negro abriu as asas e rugiu.&lt;br /&gt;
Uma lança de turbilhonantes chamas escuras atingiu em cheio o rosto de Kraznys. Seus olhos derreteram e escorreram pelas maçãs de seu rosto, e o óleo que tinha nos cabelos e barba incendiou-se com tanta violência que, por um instante, o senhor de escravos usou uma coroa flamejante duas vezes mais alta do que sua cabeça. O súbito fedor de carne carbonizada conseguiu sobrepor-se até mesmo ao seu perfume, e seu grito de dor pareceu afogar todos os outros sons. Então a Praça da Punição estourou em sangue e caos. Os Bons Mestres guinchavam, esbarravam e empurravam-se uns aos outros, tropeçavam, com a pressa, no debrum de seus tokars. Drogon voou quase preguiçosamente contra Kraznys, batendo asas negras. Enquanto oferecia ao senhor de escravos mais um pouco de fogo, Irri e Jhiqui desacor- rentaram Viserion e Rhaegal, e de repente havia três dragões no ar. Quando Dany se virou para olhar, um terço dos orgulhosos guerreiros de chifres demoníacos de Astapor lutava para se manter montado em suas aterrorizadas montarias, e outro terço fugia num brilhante clarão de cobre brilhante. Um homem manteve-se sobre a sela tempo suficiente para puxar uma espada, mas o chicote de Jhogo enrolou-se em torno do pescoço dele e cortou seu grito. Outro perdeu uma mão para o arakh de Rakharo e afastou- -se, cambaleando e jorrando sangue. Aggo sentou-se calmamente, encaixando flechas na corda de seu arco e disparando-as contra tokars. Não importava nem um pouco que o debrum fosse de prata, ouro ou simples. Belwas, o Forte, também tinha o seu arakh de- sembainhado, e fazia-o rodopiar enquanto atacava. Dany ouviu um astapori gritar: - Lanças! - era Grazdan, o velho Grazdan com seu tokar carregado de pérolas. - Imaculados! Defendam-nos, parem-nos, defendam os seus senhores! Lanças! Espadas! Quando Rakharo enfiou uma flecha na boca dele, os escravos que sustentavam a sua liteira separaram-se e fugiram, deixando-o cair sem cerimônia no chão. O velho engatinhou até a primeira fileira de eunucos, deixando poças de sangue nos tijolos. Os Imaculados sequer olharam para baixo, para vê-lo morrer. Fileira atrás de fileira, atrás de fileira, permaneceram em pé. E não se moveram. Os deuses ouviram a minha prece. - Imaculados! - Dany galopou à frente deles, com a trança de um louro prateado es- voaçando atrás, e a sineta tilintando a cada passo. - Matem os Bons Mestres, matem os soldados, matem todos os homens que usem um tokar ou tenham um chicote nas mãos, mas não façam mal a nenhuma criança com menos de doze anos, e arranquem as correntes de todos os escravos que virem. - Ergueu os dedos da harpia... e então atirou o açoite para longe. - Liberdade! - entoou. - Dracarys! Dracarys!&lt;br /&gt;
- Dracarys! - gritaram eles em resposta, a mais bela palavra que já ouvira. - Dracarys! Dracarys! - E por toda a sua volta, feitores fugiam, soluçavam, suplicavam e morriam, e o ar poeirento encheu-se de lanças e fogo. &amp;nbsp;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/7456680670009280864/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/dany_1.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7456680670009280864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7456680670009280864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/dany_1.html' title='Dany'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-810187359107462093</id><published>2014-01-01T08:38:00.001-08:00</published><updated>2014-01-01T08:38:06.482-08:00</updated><title type='text'>Jon</title><content type='html'>A última noite caiu, negra e sem lua, mas pela primeira vez o céu estava limpo. - Vou subir o monte para procurar o Fantasma - disse aos Thenns na entrada da caverna, e eles soltaram um grunhido e deixaram-no passar. Tantas estrelas, pensou, enquanto subia penosamente a encosta por entre pinheiros, abetos e freixos. O Meistre Luwin ensinara-lhe as estrelas, na infância passada em Winterfell; havia aprendido o nome das doze casas do céu e o dos regentes de cada uma; conseguia encontrar os sete viajantes sagrados para a Fé; era velho amigo do Dragão de Gelo, do Gato das Sombras, da Donzela da Lua e da Espada da Manhã. Dividia todos estes com Ygritte, mas não alguns dos outros. Erguemos os olhos para as mesmas estrelas, e vemos coisas tão diferentes. Segundo ela, a Coroa do Rei era o Berço; o Garanhão era o Senhor Chifrudo; o viajante vermelho, que segundo as orações dos septões era sagrado para o seu Ferreiro, ali em cima era chamado de Ladrão. E quando o Ladrão se encontrava na Donzela da Lua, insistia Ygritte, isso queria dizer que a época era propícia para que um homem raptasse uma mulher. - Como na noite em que me raptou. O Ladrão estava brilhante naquela noite. - Não pretendia raptá-la - disse ele. - Nem sabia que era uma mulher até encostar a faca na sua garganta. - Se matar um homem sem querer, ele vai estar morto do mesmo jeito - disse Ygritte teimosamente. Jon nunca havia conhecido pessoa mais teimosa, exceto talvez sua irmã mais nova, Arya. Será que ela ainda é minha irmã?, perguntou a si próprio. Alguma vez terá sido? Ele nunca realmente fora um Stark, apenas o bastardo sem mãe de Lorde Eddard, que não tinha mais lugar em Winterfell do que Theon Greyjoy. E mesmo isso perdera. Quando um homem da Patrulha da Noite proferia suas palavras, punha de lado sua antiga família e juntava-se a uma nova, mas Jon Snow tinha perdido também esses irmãos. Encontrou Fantasma no topo do monte, como imaginara. O lobo branco nunca uivava, e no entanto algo o atraía às alturas mesmo assim, e ficava ali sentado, com o hálito quente levantando-se numa névoa branca enquanto seus olhos vermelhos bebiam as estrelas. &lt;br /&gt;
- Você também tem nomes para elas? - perguntou Jon quando se ajoelhou ao lado do lobo gigante e coçou os espessos pelos brancos do pescoço do animal, - A Lebre? A Corça? A Loba? - Com sua língua úmida e áspera, Fantasma lambeu o rosto de Jon, raspando as crostas onde as garras da águia tinham rasgado sua face. A ave marcou-nos a ambos, Jon pensou. - Fantasma - disse, em voz baixa -, amanhã de manhã passamos sobre a Muralha. Aqui não há degraus, não há gaiola e grua, não há como levá-lo para o outro lado. Temos de nos separar. Compreende? Na escuridão, os olhos vermelhos do lobo gigante pareciam negros. Encostou o foci- nho no pescoço de Jon, silencioso como sempre, com o hálito numa névoa quente. Os selvagens chamavam Jon Snow de warg, mas se o era, era dos ruins. Não sabia como vestir uma pele de lobo, como Orell vestia a de sua águia antes de morrer. Um dia Jon sonhara que era Fantasma, e olhava o vale do Guadeleite onde Mance Rayder reunira seu povo, e esse sonho revelou-se verdadeiro. Mas agora não estava sonhando, e isso deixava-lhe apenas as palavras. - Não pode vir comigo - disse Jon, envolvendo a cabeça do lobo nas mãos e olhando- -o profundamente nos olhos. - Tem de ir para Castelo Negro. Compreende? Castelo Ne- gro. Consegue encontrá-lo? O caminho para casa? E só seguir o gelo, para leste e mais para leste, para o sol, e vai encontrá-lo. Em Castelo Negro vão reconhecê-lo, e sua chegada talvez os previna. - Pensara em escrever um aviso para Fantasma levar, mas não tinha tinta nem pergaminho, nem sequer uma pena, e o risco de ser descoberto era grande demais. - Encontramo-nos em Castelo Negro, mas tem de chegar lá sozinho. Temos de caçar sozinhos durante algum tempo. Sozinhos. O lobo gigante libertou-se de Jon com uma torção do corpo, suas orelhas ergueram- -se. E de repente afastou-se aos saltos. Pulou através de um emaranhado de mato, saltou sobre uma árvore caída e correu pela vertente do monte, um traço branco entre as árvores. Para Castelo Negro?, perguntou Jon a si mesmo. Ou atrás de uma lebre? Gostaria de saber. Temia revelar-se tão ruim como warg quanto como irmão juramentado e espião. Um vento suspirou por entre as árvores, rico com o cheiro de agulhas de pinheiro, puxando sua roupa negra desbotada. Jon via a Muralha erguer-se alta e escura ao sul, uma grande sombra que bloqueava as estrelas. O terreno montanhoso dava-lhe a idéia de que deviam estar em algum lugar entre Torre Sombria e Castelo Negro, provavelmente mais perto da Torre. Havia dias em que se dirigiam para o sul, por entre lagos profundos que se estendiam como dedos finos compridos ao longo de vales estreitos, enquanto cumeadas de sílex e montes vestidos de pinheiros se empurravam uns contra os outros de ambos os lados. Um&lt;br /&gt;
terreno assim levava a um avanço lento, mas escondia facilmente aqueles que queriam se aproximar da Muralha sem serem vistos. Corsários selvagens, pensou. Como nós. Como eu. Para lá daquela Muralha ficavam os Sete Reinos, e tudo aquilo que jurara proteger. Tinha proferido as palavras, empenhado sua vida e sua honra, e o correto seria estar lá em cima, de sentinela. Devia estar levando um berrante aos lábios para chamar a Patrulha da Noite às armas. Mas não tinha berrante. Suspeitava que não seria difícil roubar um dos selvagens, mas o que conseguiria com isso? Mesmo se o soprasse, não haveria ninguém para ouvir, A Muralha tinha cem léguas de comprimento, e a Patrulha estava tristemente reduzida. Todos os fortes, exceto três, tinham sido abandonados; podia não haver nem um irmão num raio de cerca de sessenta e cinco quilômetros, além de si. Se é que ele ainda era um irmão... Devia ter tentado matar Mance Rayder no Punho, mesmo se isso significasse perder a vida. Isso seria o que Qhorin Meia-Mão teria feito. Mas Jon hesitara, e a oportunidade tinha passado. No dia seguinte partiu para o sul com Styr, o Magnar, Jarl e mais de uma centena de Thenns e batedores escolhidos. Dizia a si mesmo que estava apenas à espera de sua hora, que, quando o momento chegasse, escaparia e se dirigiria a Castelo Negro. O momento nunca chegou. Descansavam a maior parte das noites em aldeias selvagens abandonadas, e Styr punha sempre uma dúzia dos seus Thenns para guardar os cavalos. Jarl vigiava-o desconfiadamente. E Ygritte nunca estava longe, de dia ou de noite. Dois corações que batem como um só. As palavras zombeteiras de Mance Rayder ressoavam, amargas, em sua cabeça. Jon poucas vezes se sentira tão confuso. Não tenho alternativa, disse a si mesmo da primeira vez, quando ela deslizou para baixo de suas peles de dormir. Se recusá-la, ela compreenderá que sou um vira-casaca. Estou desempenhando o papel que o Meia-Mão me disse para desempenhar. Seu corpo desempenhou o papel com bastante avidez. Seus lábios nos dela, sua mão deslizando por baixo da camisa de pele de veado de Ygritte em busca de um seio, seu membro viril enrijecendo quando ela esfregou nele o seu monte através da roupa. Os meus votos, pensou, recordando o grupo de represeiros onde os proferiu, as nove grandes árvores brancas dispostas em círculo, os rostos vermelhos esculpidos observando, escutando. Mas os dedos de Ygritte desatavam seus cordões, e a língua dela estava na sua boca, e a mão dela tinha deslizado para dentro de sua roupa de baixo e trazido-o para fora, e ele já não conseguia ver os represeiros, só Ygritte. Ela mordeu seu pescoço, e ele esfregou o nariz no dela, enterrando-o em seus espessos cabelos ruivos. Sortuda, pensou, ela é sortuda, beijada pelo fogo.&lt;br /&gt;
- Não é bom? - sussurrou Ygritte enquanto o guiava para dentro de si. Estava ensopada, lá embaixo, e não era nenhuma donzela, isso era evidente, mas Jon não se importou. Os votos dele, a virgindade dela, nada importava, só interessava o seu calor, a sua boca na dele, o dedo que lhe beliscava o mamilo. - Não é muito bom? - voltou a dizer. - Não tão depressa, oh, devagar, sim, assim. Aí, aí, sim, bom, bom. Não sabe nada, Jon Snow, mas eu posso ensinar. Agora mais depressa. Siiiiim. Um papel, Jon tentou lembrar a si mesmo mais tarde. Estou desempenhando um papel Tinha de fazer isso uma vez, para provar que abandonei meus votos. Tive de Jazer com que ela confiasse em mim. Não precisava acontecer novamente, Ainda era um homem da Patrulha da Noite, e um filho de Eddard Stark, Fizera o que tinha de ser feito, demonstrara o que tinha de ser demonstrado. Mas a demonstração tinha sido muito agradável, e Ygritte havia adormecido ao seu lado, com a cabeça apoiada em seu peito, e isso também tinha sido agradável, perigosamente agradável. Voltou a pensar nos represeiros, e nas palavras que disse diante deles. .Foí só uma vez, e teve de ser. Até meu pai tropeçou uma vez, quando se esqueceu dos votos de casamento e gerou um bastardo. Jon jurou a si mesmo que não repetiria o mesmo erro. Não voltará a acontecer. Aconteceu mais duas vezes naquela mesma noite, e de novo de manhã, quando ela acordou e o encontrou duro. Os selvagens já se agitavam a essa altura, e vários não puderam evitar reparar no que estava se passando sob a pilha de peles, Jarl disse-lhes que se apressassem antes de ter de despejar um balde de água em cima deles. Como um par de cães no cio, pensou Jon mais tarde. Será que ele teria se transformado nisso? Som um homem da Patrulha da Noite, insistia uma vozinha dentro de si, mas todas as noites ela parecia um pouco mais distante, e quando Ygritte beijava suas orelhas ou mordia seu pescoço, não conseguia ouvi-la muito bem. Terá sido isso que aconteceu com meu pai?, perguntava Jon a si mesmo. Seria ele tão fraco quanto eu, quando se desonrou na cama de minha mãe? Percebeu subitamente que algo subia o monte atrás dele. Durante meio segundo pensou que poderia ser o Fantasma de volta, mas o lobo gigante nunca fazia tanto barulho, Jon desembainhou a Garralonga num único movimento fluido, mas era apenas um dos Thenns, um homem largo com um elmo de bronze. - Snow - disse o intruso. - Venha. Magnar quer. - Os homens de Thenn falavam o Idioma Antigo, e a maior parte não sabia mais do que algumas palavras do Idioma Comum. Jon não estava muito interessado em saber o que Magnar queria, mas não valia a pena discutir com alguém que quase não o compreenderia, por isso seguiu o homem monte abaixo,&lt;br /&gt;
A abertura da caverna era uma fenda na rocha que quase não era larga o suficiente para um cavalo, meio escondida por baixo de um pinheiro marcial. Abria para o norte, de modo que o brilho das fogueiras acesas lá dentro não seriam visíveis da Muralha. Mesmo se, por algum infortúnio, uma patrulha passasse no topo da Muralha naquela noite, nada veria além de montes, pinheiros e a cintilação gelada das estrelas num lago semicongela- do. Mance Rayder planejara bem a sua arremetida. Dentro da rocha, a passagem descia seis metros antes de desembocar num espaço tão grande quanto o Grande Salão de Winterfell. Ardiam fogueiras por entre as colunas, com a fumaça subindo, enegrecendo o teto de pedra. Os cavalos tinham sido presos ao longo de uma parede, junto a uma lagoa rasa. Um buraco no centro do chão abria-se para o que podia ser uma caverna ainda maior embaixo, embora a escuridão tornasse difícil ter certeza disso. Jon ouvia também o suave ruído de um riacho subterrâneo que corria em algum lugar lá embaixo. Jarl estava com Magnar; Mance entregara-lhes o comando conjunto. Jon notou rapidamente que Styr não estava nada satisfeito com isso. Mance Rayder chamou o escuro jovem de &quot;animal de estimação&quot; de Vai, que era irmã de Dalla, a sua rainha, o que fazia de Jarl uma espécie de cunhado do Rei-para-lá-da-Muralha. Era evidente que Magnar se ressentia de partilhar sua autoridade. Havia trazido uma centena de Thenns, cinco vezes mais homens do que Jarl, e muitas vezes agia como se ele tivesse o comando completo. Mas Jon sabia que seria o homem mais novo quem os levaria para o outro lado do gelo. Embora não pudesse ter mais do que vinte anos, Jarl já fazia incursões havia oito, e passara por cima da Muralha uma dúzia de vezes com gente como Alfyn Mata-Corvos e Chorão, e mais recentemente com seu próprio bando. Magnar foi direto. - Jarl preveniu-me a respeito de corvos patrulhando lá em cima. Diga-me tudo o que sabe dessas patrulhas. Diga-me, notou Jon, e não diga-nos, apesar de Jarl estar bem ao lado dele. Nada lhe daria mais prazer do que recusar a brusca exigência, mas sabia que Styr mandaria matá-lo pela mais ligeira deslealdade, e a Ygritte também, pelo crime de ser sua. - Há quatro homens em cada patrulha, dois patrulheiros e dois construtores - disse. - Os construtores devem tomar nota de fendas, derretimentos e outros problemas estruturais, enquanto os patrulheiros procuram sinais de inimigos. Montam mulas. - Mulas? - o homem sem orelhas franziu a testa. — As mulas são lentas. - São lentas, mas têm patas mais seguras no gelo. É freqüente que as patrulhas sigam pelo topo da Muralha, e, longe de Castelo Negro, os&lt;br /&gt;
caminhos lá em cima já não recebem cascalho há longos anos. As mulas são criadas em Atalaialeste e especialmente treinadas para o serviço. - É freqüente que sigam pelo topo da Muralha? Nem sempre seguem? - Não. Uma patrulha em cada quatro segue pela base, para procurar fendas no gelo das fundações ou sinais de abertura de túneis. Magnar assentiu com a cabeça. - Até na distante Thenn conhecemos a história de Arson Machado de Gelo e de seu túnel Jon também conhecia a história. Arson Machado de Gelo já tinha atravessado metade da Muralha quando seu túnel foi descoberto por patrulheiros vindos de Fortenoite. Não se incomodaram em perturbar suas escavações, limitaram-se a selar o caminho de volta com gelo, pedra e neve. Edd Doloroso costumava dizer que, caso se encostasse a orelha na Muralha, ainda se conseguia ouvir Arson dando machadadas no gelo. - Quando saem essas patrulhas? Com que freqüência? Jon encolheu os ombros. - Varia. Ouvi dizer que o Senhor Comandante Qorgyle costumava enviá-las de três em três dias de Castelo Negro para Atalaialeste do Mar, e de dois em dois dias de Castelo Negro para Torre Sombria. Mas a Patrulha tinha mais homens no tempo dele. O Senhor Comandante Mormont prefere variar o número de patrulhas e os dias de sua partida, para tornar mais difícil que alguém saiba de suas idas e vindas. E às vezes o Velho Urso até mandava uma força maior para um dos castelos abandonados durante uma quinzena ou uma volta de lua. - Jon sabia que fora o tio quem dera origem a essa tática. Tudo para deixar o inimigo incerto. - Portapedra está atualmente guarnecido? - perguntou Jarl. - Guardagris? Quer dizer então que estamos entre esses dois? Jon manteve o rosto cuidadosamente inexpressivo. - Só Atalaialeste, Castelo Negro e Torre Sombria tinham guarnições quando eu deixei a Muralha. Não sei dizer o que Bowen Marsh ou Sor Denys poderão ter feito desde então. - Quantos corvos permanecem dentro dos castelos? - perguntou Styr. - Quinhentos em Castelo Negro. Duzentos na Torre Sombria, talvez trezentos em Atalaialeste. - Jon havia acrescentado trezentos homens à contagem. Se pudesse ser assim tão fácil... Mas Jarl não se deixou enganar. - Ele está mentindo - disse a Styr. - Ou então incluiu aqueles que se perderam no Punho. - Corvo - avisou o Magnar -, não me tome por Mance Rayder. Se mentir para mim, corto sua língua.&lt;br /&gt;
- Não sou nenhum corvo, e ninguém me chama de mentiroso. - Jon flexionou os dedos de sua mão da espada. Magnar de Thenn estudou Jon com seus frios olhos cinzentos. - Vamos conhecer seus números em breve - disse após um momento. - Vá. Logo mando chamar você se tiver mais perguntas. Jon inclinou a cabeça rigidamente e partiu. Se todos os selvagens fossem como Styr, seria mais fácil trai-los. Mas os Thenn não eram como o resto do povo livre. Magnar afirmava ser o último dos Primeiros Homens, e governava com mão de ferro. A sua pequena terra de Thenn era um vale elevado de montanha escondido entre os picos setentrionais das Presas de Gelo, rodeado por homens das cavernas, homens de Cornopé, gigantes e os clãs canibais dos rios de gelo. Ygritte dizia que os Thenn eram guerreiros violentos, e que seu Magnar era para eles um deus. Jon conseguia acreditar nisso. Ao contrário de Jarl, Harma ou de Camisa de Chocalho, Styr exigia de seus homens obediência absoluta, e essa disciplina era sem dúvida parte do motivo por que Mance o escolhera para atravessar a Muralha. Passou pelos Thenns, sentados sobre seus elmos arredondados de bronze, em volta das fogueiras. Onde se meteu Ygritte? Encontrou as coisas dela junto das suas, mas não viu sinal da garota. - Ela pegou uma tocha e foi para lá - disse-lhe Grigg, o Bode, apontando para o fundo da caverna. Jon seguiu na direção indicada e deu por si numa sombria sala interior, vagueando um labirinto de colunas e estalactites. Ela não pode estar aqui, estava pensando quando ouviu sua gargalhada. Virou-se para o som, mas dez passos depois estava num beco sem saída, de frente para uma parede lisa de calcário branco e rosa. Confuso, voltou por onde tinha vindo, e então viu-o: um buraco escuro por baixo de uma saliência de pedra úmida. Ajoelhou-se, escutou, ouviu o tênue som de água. - Ygritte? - Aqui - veio a voz dela, com um leve eco. Jon teve de engatinhar uma dúzia de passos até a caverna se abrir à sua volta. Quando voltou a ficar em pé, os olhos precisaram de um momento para se ajustarem. Ygritte tinha trazido uma tocha, mas não havia nenhuma outra luz. Ela encontrava-se junto a uma pequena queda-dagua que jorrava de uma fissura na rocha para uma larga lagoa escura. As chamas amarelas e laranja brilhavam na água verde-clara. - O que você está fazendo aqui? - perguntou a ela. - Ouvi água. Quis ver pra onde ia a gruta. - Apontou com a tocha. - Há uma passagem que desce mais. Segui-a durante cem passos antes de voltar. - Um beco sem saída?&lt;br /&gt;
- Não sabe nada, Jon Snow. Continuava, e continuava, e continuava. Há centenas de cavernas nestes montes, e lá embaixo todas se juntam. Há até um caminho por baixo da Muralha. O Caminho de Gorne. - Gorne - disse Jon. - Gorne foi Rei-para-lá-da-Muralha. - Sim - disse Ygritte. - Com o irmão Gendel, há três mil anos. Levaram uma tropa do povo livre pelas cavernas e a patrulha não percebeu. Mas quando saíram, os lobos de Winterfell caíram sobre eles. - Houve uma batalha - recordou Jon. - Gorne matou o Rei do Norte, mas o filho deste pegou o estandarte e tomou a coroa de sua cabeça, e abateu Gorne, por sua vez. - E o som das espadas acordou os corvos em seus castelos, e saíram todos de preto pra pegar o povo livre pela retaguarda. - Sim. Gendel tinha o rei ao sul, os Umber a leste e a Patrulha a norte. Ele também morreu. - Não sabe nada, Jon Snow. Gendel não morreu. Ele abriu caminho com a espada, por entre os corvos, e levou seu povo de volta pro norte com os lobos uivando nos seus calcanhares. Mas Gendel não conhecia as cavernas como Gorne, e escolheu um caminho errado. - Agitou a tocha de um lado para o outro, para que as sombras saltassem e se movessem. - Desceu mais, e mais, e quando tentou voltar pra trás, os caminhos que pareciam familiares acabavam em pedra em vez de céu. Pouco depois, os seus archotes começaram a se apagar, um por um, até que no fim não havia nada além de escuridão. O povo de Gendel nunca mais foi visto, mas nas noites calmas é possível ouvir os filhos dos filhos de seus filhos soluçando por baixo dos montes, ainda à procura de uma saída. Está ouvindo? Consegue ouvi-los? Tudo que Jon ouvia era a água que caía e o tênue crepitar das chamas. - Esse caminho por baixo da Muralha também se perdeu? - Alguns procuraram-no. Aqueles que descem demais encontram os filhos de Gendel, e os filhos de Gendel sempre tão com fome. - Sorrindo, encaixou cuidadosamente a tocha num entalhe de rocha e dirigiu-se a ele. - No escuro não há nada pra comer além de carne - sussurrou, mordendo-lhe o pescoço. Jon enfiou o nariz nos cabelos dela e encheu-o com seu cheiro. - Parece a Velha Ama contando a Bran uma história de monstros. Ygritte deu um murro no ombro dele. - Ah, sou uma velha, é? - E mais velha do que eu. - Sim, e mais sábia. Você não sabe nada, Jon Snow. - Empurrou-o e contorceu-se para fora de seu vestido de pele de coelho. - O que você está fazendo?&lt;br /&gt;
- Estou mostrando a idade que tenho. - Desatou a camisa de pele de veado, atirou-a para o lado, tirou pela cabeça todas as três camisolas de lã que usava por baixo. - Acho que devia me ver. - Nós não devíamos... - Devíamos. - Os seios dela saltitaram quando se equilibrou num pé só para puxar uma bota, e depois saltou para o outro pé, para tratar da outra. Seus mamilos eram grandes círculos cor-de-rosa. - Você também - disse Ygritte enquanto puxava para baixo os calções de pele de ovelha de Jon. - Se quer ver, precisa mostrar. Não sabe nada, Jon Snow, - Sei que desejo você - ouviu sua própria voz dizer, esquecido de todos os votos e honra. Ela estava na sua frente, nua como no dia em que nasceu, e ele estava duro como a rocha que os rodeava. Aquela altura já tinha estado dentro dela meia centena de vezes, mas sempre por baixo das peles, com outras pessoas em volta. Nunca vira como ela era bela. As pernas de Ygritte eram magras, mas bem torneadas; os pelos no local onde as coxas se juntavam, de um vermelho mais vivo do que os que tinha na cabeça. Será que isso faz dela ainda mais sortuda? Puxou-a para mais perto. - Adoro seu cheiro - disse. - Adoro seus cabelos vermelhos. Adoro sua boca, e o jeito como me beija. Adoro seu sorriso. Adoro seus peitos. - Beijou-os, primeiro um e depois o outro. - Adoro suas pernas magras, e o que está entre elas. - Ajoelhou-se para beijá-la ali, a princípio levemente em seu monte de vênus, mas Ygritte abriu um pouco as pernas e ele viu o cor-de-rosa no interior e beijou-o também, e saboreou-o. Ela soltou um pequeno arquejo. - Se adora tudo isso, por que é que ainda tá vestido? - sussurrou. - Não sabe nada, Jon Snow. Naâ... oh. Ok OHHH. Mais tarde, ela ficou quase acanhada, ou tão acanhada quanto Ygritte poderia ficar. - Aquela coisa que você fez - disse, deitada com ele na pilha de roupas. - Com a sua... boca. - Hesitou. - E isso... é isso que os senhores fazem com suas senhoras, lá no sul? - Acho que não. - Nunca ninguém havia dito a Jon o que os senhores faziam com as suas senhoras. - Eu só... quis beijar ali, foi só isso. Parece que você gostou. - Sim. Eu... gostei um bocadinho. Ninguém lhe ensinou aquilo? - Não houve ninguém - confessou ele. - Só você. - Um donzelo - brincou ela. - Era um donzelo. Ele deu-lhe um beliscão brincalhão no mamilo mais próximo. - Eu era um homem da Patrulha da Noite. - Era, ouviu-se dizer. O que seria agora? Não queria debruçar-se sobre esse assunto. - Você era donzela? Ygritte apoiou-se num cotovelo.&lt;br /&gt;
- Tenho dezenove anos, sou uma esposa de lanças e beijada pelo fogo. Como poderia ser donzela? - Quem foi? - Um rapaz numa festa, há cinco anos. Tinha vindo comerciar, com os irmãos, e seus cabelos eram como os meus, beijados pelo fogo, por isso pensei que ele devia ter sorte. Mas era fraco. Quando voltou pra me raptar, o Lança-Longa quebrou o braço dele e botou-o para correr, e ele não voltou a tentar, nem uma vez. - Então não foi o Lança-Longa? - Jon estava aliviado. Gostava do Lança-Longa, com seu rosto simples e modos amigáveis. Ela esmurrou-o. - Isso é nojento. Você se deitaria com a sua irmã? - Lança-Longa não é seu irmão. - E da minha aldeia. Não sabe nada, Jon Snow. Um homem de verdade rapta uma mulher de longe, pra fortalecer o clã. As mulheres que se deitam com irmãos, pais ou gente do clã ofendem os deuses e são amaldiçoadas com filhos fracos ou doentes. Ou até monstros. - Craster casa com as próprias filhas - destacou Jon. Ela voltou a esmurrá-lo. - Craster é mais da sua gente do que da nossa. O pai dele era um corvo que raptou uma mulher da aldeia de Brancarbor, mas depois de tê-la, voou de volta pra sua Muralha. Uma vez, ela foi a Castelo Negro pra mostrar o filho ao corvo, mas os irmãos sopraram seus berrantes e botaram a mulher pra correr. O sangue do Craster é preto, e ele carrega uma pesada maldição. - Passou os dedos levemente pela barriga dele. -Antes tinha medo de que você fizesse o mesmo. Que fugisse de volta pra Muralha. Você nunca soube o que fazer depois de me raptar. Jon sentou-se. - Ygritte, eu não raptei você. - Raptou, sim. Saltou da montanha e matou o OrelI, e antes de eu conseguir chegar ao machado tinha uma faca encostada na minha garganta. Pensei que você ia me possuir naquela hora, ou me matar, ou talvez as duas coisas, mas não. E quando lhe contei a história do Bael, o Bardo, e do modo como ele colheu a rosa de Winterfell, imaginei que ia me colher com certeza na hora, mas não. Não sabe nada, Jon Snow. - Dirigiu-lhe um sorriso acanhado. - Mas pode ser que ande aprendendo umas coisas. De repente, Jon reparou que a luz oscilava em volta de Ygritte. Olhou ao redor. - E melhor subirmos. A tocha está quase no fim. - O corvo tá com medo dos filhos de Gendel? - disse ela, com um sorriso. - E rapidi- nho pra chegar lá em cima, e eu ainda não acabei o&lt;br /&gt;
que queria fazer com você, Jon Snow. - Voltou a puxá-lo para baixo e montou nele. - Não quer... - Hesitou, - O quê? - perguntou ele, enquanto a tocha começava a se apagar. - Fazer aquilo de novo? - disse Ygritte, muito depressa. - Com a boca? O beijo do senhor? E eu... eu podia ver se você também gosta. Quando a tocha se extinguiu, Jon Snow já não se importou. A culpa chegou mais tarde, mas mais fraca do que antes. Se isso é assim tão errado, pensou, por que os deuses fizeram com que desse uma sensação tão boa? A gruta estava negra como breu quando terminaram. A única luz era o tênue brilho da passagem de volta à caverna maior, onde ardiam vinte fogueiras. Pouco depois andavam tateando e esbarrando um no outro enquanto tentavam se vestir no escuro, Ygritte tropeçou e caiu na lagoa, e soltou um grito devido à água gelada. Quando Jon riu, ela puxou-o também para dentro. Lutaram e espirraram água na escuridão, e então ela acabou de novo nos braços dele, e descobriram que, afinal, ainda não tinham terminado. - Jon Snow - disse-lhe Ygritte, depois de ele gastar a sua semente dentro dela -, não se mexa agora, querido. Gosto de sentir você aí, gosto mesmo. E se a gente não voltasse pra junto do Styr e do Jarl? E se fôssemos pra dentro, pra nos juntarmos aos filhos de Gendel? Nunca mais quero sair desta gruta, Jon Snow. Nunca mais.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/810187359107462093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/jon.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/810187359107462093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/810187359107462093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/jon.html' title='Jon'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-60069094537179191</id><published>2014-01-01T08:37:00.001-08:00</published><updated>2014-01-01T08:37:35.520-08:00</updated><title type='text'>Davos</title><content type='html'>A cela era mais quente do que uma cela tinha direito de ser. &amp;nbsp;Sim, era escura. Uma tremeluzente luz laranja caía através das antigas barras de ferro, vinda do archote enfiado na arandela presa à parede do lado de fora, mas a metade interior da cela permanecia mergulhada em sombras. Também era úmida, como se pode&#39; ria esperar de uma ilha como Pedra do Dragão, onde o mar nunca estava longe. E havia ratazanas, tantas quantas qualquer masmorra podia esperar ter e mais algumas. Mas Davos não podia se queixar de frio. As passagens de pedra lisa sob a grande massa de Pedra do Dragão eram sempre quentes, e Davos ouvira dizer com freqüência que ficavam mais quentes à medida que se descia. Calculava estar muito abaixo do castelo, e sentia a parede de sua cela quente quando encostava a palma da mão nela. As velhas histórias talvez fossem verdadeiras, e Pedra do Dragão talvez tivesse sido construída com pedras do inferno. Estava doente quando o levaram até ali. A tosse que o vinha atormentando desde a batalha piorara, e tinha sido também atacado por uma febre. Seus lábios racharam, enchendo- -se de bolhas sangrentas, e o calor da cela não o impedira de ter calafrios. Não resistirei por muito tempo, lembrava-se de ter pensado. Morrerei em breve, aqui na escuridão. Davos descobriu rapidamente que nisso se enganava, tal como em muitas outras coisas. Lembrava-se vagamente de mãos gentis e de uma voz firme, e do jovem Meistre Pylos a olhá-lo de cima. Deram-lhe caldo quente de alho para beber e leite de papoula para lhe tirar as dores e os arrepios. A papoula fez com que dormisse, e enquanto dormia colaram sanguessugas na sua pele, para drenar o sangue ruim. Pelo menos fora isso que concluíra das marcas de sanguessugas que tinha nos braços quando acordou. Pouco tempo depois, a tosse parou, as bolhas desapareceram, e o caldo começou a vir com pedaços de peixe branco, e também cenouras e cebolas, E um dia percebeu que se sentia mais forte do que se sentira desde que o Betha Negra havia se estilhaçado sob os seus pés e o atirado ao rio, Tinha dois carcereiros para cuidar de si. Um era largo e atarracado, com grandes ombros e mãos enormes e fortes. Usava uma brigantina de couro pontilhada de tachões de ferro, e uma vez por dia trazia a Davos uma tigela de mingau de aveia. Às vezes adoçava-a com mel ou despejava nela um pouco de leite. O outro carcereiro era mais velho, curvado e pálido, com cabelos oleosos, sujos, e pele áspera. Usava um &lt;br /&gt;
gibão de veludo branco com um anel de estrelas bordado no peito, em fio de ouro. Caía mal nele, ao mesmo tempo curto e largo demais, e estava sujo e rasgado. Esse trazia a Davos pratos de carne com purê, ou guisado de peixe, e uma vez até tinha lhe trazido metade de um empadão de lampreia. A lampreia estava tão condimentada que Davos não conseguira mantê-la no estômago, mesmo assim era um raro acepipe para um prisioneiro numa masmorra. Nem sol nem luz brilhavam nas masmorras; nenhuma janela perfurava as espessas paredes de pedra. A única maneira de distinguir o dia da noite era através dos carcereiros. Nenhum dos homens falava com ele, embora Davos soubesse que não eram mudos; às vezes ouvia-os trocar algumas palavras rudes na troca da guarda. Nem sequer lhe disseram como se chamavam, por isso deu-lhes nomes inventados. Ao baixo e forte chamou Mingau, ao curvado e pálido, Lampreia, devido ao empadão. Marcava a passagem dos dias pelas refeições que eles traziam e pelas trocas de archotes na arandela fora de sua cela. Na escuridão, um homem sente-se só e anseia pelo som da voz humana, Davos dirigia-se aos carcereiros sempre que eles vinham à cela, fosse para lhe trazer comida, fosse para trocar o balde dos dejetos. Sabia que os homens seriam surdos a súplicas por liberdade ou misericórdia; em vez disso fazia-lhes perguntas, na esperança de que talvez um dia algum deles pudesse responder.&quot;Que notícias há da guerra?&quot; perguntava, e&quot;0 rei está bem?&quot;. Pedia notícias do filho Devan, e da Princesa Shireen, e de Salladhor Saan. &quot;Como anda o tempo?&quot;, perguntava, e &quot;As tempestades de outono já começaram?&quot; &quot;Os navios ainda percorrem o mar estreito?&quot; Não importava o que perguntava; eles nunca respondiam, embora às vezes Mingau lhe dirigisse um olhar, fazendo Davos pensar durante meio segundo que ele se preparava para falar. Com o Lampreia nem isso havia. Para ele, não sou um homem, pensou Davos, não passo de uma pedra que come, caga e/ala. Passado algum tempo, decidiu que gostava muito mais do Mingau. Este parecia pelo menos saber que ele estava vivo, e havia uma estranha espécie de bondade no homem. Davos suspeitava que ele alimentava as ratazanas; era por isso que havia tantas. Uma vez pensou ter ouvido o carcereiro falar com elas como se fossem crianças, mas isso talvez tivesse sido apenas um sonho. Eles não pretendem me deixar morrer, compreendeu. Estão me mantendo vivo, para um propósito qualquer. Não gostava de pensar no que esse propósito poderia ser. Lorde Sun- glass fora confinado nas celas sob Pedra do Dragão durante algum tempo, tal como os filhos de Sor Hubard Rambton; todos acabaram na pira. Devia ter me entregado ao mar, pensou Davos, sentado, fitando o archote do outro lado das&lt;br /&gt;
barras. Ou deixar que a vela passasse por mim, para morrer em meu rochedo. Prefiro alimentar caranguejos a chamas, Então, uma noite, enquanto terminava o jantar, Davos sentiu que um estranho brilho o inundava. Olhou para cima por entre as barras e ali estava ela, vestida com um cintilante tom de escarlate, com seu grande rubi na garganta, e os olhos vermelhos brilhando tanto quanto o archote que a banhava. - Melisandre - disse, com uma calma que não sentia. - Cavaleiro das Cebolas - respondeu ela, igualmente calma, como se os dois tivessem se encontrado numa escada ou no pátio e trocassem saudações delicadas. - Está bem? - Melhor do que já estive. - Falta alguma coisa a você? - O meu rei. O meu filho. Ambos me fazem falta. - Pôs a tigela de lado e levantou- -se, - Veio me queimar? Os estranhos olhos vermelhos da mulher estudaram-no através das barras. - Este é um mau lugar, não é? Um lugar escuro e malcheiroso. O bom sol aqui não brilha, e a lua brilhante também não. - Ergueu uma mão para o archote na arandela da parede. - Isto é tudo que existe entre você e as trevas, Cavaleiro das Cebolas. Este pequeno fogo, esta dádiva de R&#39;hllor. Devo apagá-la? - Não. - Davos aproximou-se das barras. - Por favor. - Não achava que conseguisse agüentar ser deixado só na escuridão completa, sem nada além das ratazanas para lhe fazer companhia. Os lábios da mulher vermelha curvaram-se para cima num sorriso. - Então acabou amando o fogo, ao que parece. - Preciso do archote. - Suas mãos se abriram e fecharam. Não lhe suplicarei. Não suplicarei. - Sou como este archote, Sor Davos. Ambos somos instrumentos de R&#39;hllor. Fomos feitos para o mesmo fim... para manter a escuridão afastada. Acredita nisso? - Não. - Talvez devesse ter mentido e dito o que ela queria ouvir, mas Davos estava habituado demais a falar a verdade. - Você é a mãe das trevas. Eu vi isso sob Ponta Tempestade, quando pariu diante de meus olhos. - Estará o bravo Sor Cebolas assim tão assustado por uma sombra passageira? Se é assim, anime-se. As sombras só vivem quando são geradas pela luz, e os fogos do rei ardem tão fracos que não me atrevo a tirar-lhe mais para fazer outro filho. Isso poderia até matá-lo. - Melisandre aproximou-se. - Mas com outro homem... um homem cujas chamas ainda se erguem quentes... se realmente deseja servir à causa&lt;br /&gt;
do seu rei, venha uma noite aos meus aposentos. Poderia dar-lhe prazer tal como nunca conheceu e, com seu fogo da vida, poderia gerar... - ... um horror. - Davos afastou-se dela. - Não quero nada com a senhora. Ou com o seu deus. Que os Sete me protejam. Melisandre suspirou, - Eles não protegeram Guncer Sunglass. Rezava três vezes por dia, e usava sete estrelas de sete pontas no escudo, mas quando R&#39;hllor lhe estendeu a mão, suas preces transformaram-se em gritos, e ele ardeu. Por que agarrar-se a esses falsos deuses? - Adorei-os toda a minha vida. - Toda a sua vida, Davos Seaworth? Tanto faz dizer que era assitn ontem. - Sacudiu a cabeça, tristemente. - Nunca temeu dizer a verdade a reis, por que é que mente a si mesmo? Abra os olhos, sor cavaleiro. - O que quer que eu veja? - O modo como o mundo é feito. A verdade está à sua volta, basta olhar para ela. A noite é escura e cheia de terrores, o dia, luminoso, belo e cheio de esperança. Uma é negra, o outro, branco. Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. - Ela deu um passo em sua direção. - Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra. - A guerra? - perguntou Davos. - A guerra - afirmou ela. - Existem dois, Cavaleiro das Cebolas. Nem sete, nem um, nem cem ou mil. Dois! Acha que atravessei metade do mundo para colocar mais um rei frívolo em mais um trono vazio? A guerra é travada desde o começo dos tempos, e, antes de chegar ao fim, todos os homens devem escolher de que lado se encontram. De um lado está R&#39;hllor, o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, o Deus da Chama e da Sombra. Contra ele ergue-se o Grande Outro, cujo nome não pode ser pronunciado, o Senhor das Trevas, a Alma do Gelo, o Deus da Noite e do Terror. A nossa escolha não é entre Baratheon e Lannister, entre Greyjoy e Stark. O que escolhemos é a morte ou a vida. A escuridão ou a luz. - Agarrou as barras da cela com suas mãos esguias e brancas. O grande rubi em sua garganta pareceu pulsar com esplendor próprio. - Portanto, diga-me, Sor Davos Seaworth, e diga-me a verdade: o seu coração arde com a luz brilhante de Rhllor? Ou é negro, frio e cheio de vermes? - Estendeu a mão através das barras e pousou três dedos no peito de Davos, como que para sentir a sua verdade através de carne, lã e couro. - Meu coração - disse lentamente Davos - está cheio de dúvidas. Melisandre suspirou. - Ahhhh, Davos. O bom cavaleiro é honesto até o fim, mesmo no seu dia de trevas. É bom que não tenha mentido para mim. Eu teria sabido.&lt;br /&gt;
Os servos do Outro freqüentemente escondem corações negros sob uma luz vivida, por isso R&#39;hllor dá aos seus sacerdotes o poder de ver através das falsidades, - Afastou-se da cela com um passo ligeiro. - Por que queria me matar? - Direi - disse Davos - se me disser quem me traiu. - Só poderia ter sido Salladhor Saan, mas ainda agora rezava para que não tivesse sido. A mulher vermelha soltou uma gargalhada. - Ninguém o traiu, Cavaleiro das Cebolas. Vi suas intenções nas minhas chamas. As chamas. - Se pode ver o futuro nessas chamas, como foi que ardemos na Água Negra? Entregou meus filhos ao fogo... meus filhos, meu navio, meus homens, todos queimando... Melisandre balançou a cabeça. - Trata-me injustamente, Cavaleiro das Cebolas. Esses incêndios não foram meus. Se eu estivesse com vocês, sua batalha teria tido um final diferente. Mas Sua Graça estava rodeado de descrentes, e seu orgulho mostrou-se mais forte do que sua fé. A punição foi severa, mas aprendeu com o erro. Então meus filhos nada mais foram do que uma lição para um rei? Davos sentiu sua boca contrair. - Agora é noite nos seus Sete Reinos - prosseguiu a mulher vermelha mas logo o sol voltará a se levantar. A guerra continua, Davos Seaworth, e certos homens aprenderão em breve que até uma brasa entre cinzas ainda pode causar um grande incêndio, O velho meistre olhava para Stannis e via apenas um homem. Você vê um rei. Ambos se enganam. Ele é o escolhido do Senhor, o guerreiro do fogo. Vi-o à frente da luta contra a escuridão, vi-o nas chamas. As chamas não mentem, caso contrário você não estaria aqui. Isso também está escrito na profecia. Quando a estrela vermelha sangra e as trevas reúnem forças, Azor Ahai renascerá por entre fumaça e sal, para acordar dragões da pedra. A estrela sangrenta já chegou e partiu, e Pedra do Dragão é o local de fumaça e sal. Stannis Baratheon é Azor Ahai renascido! - Os olhos vermelhos da mulher ardiam como fogueiras gêmeas, e pareceram fitar as profundezas da alma de Davos. - Não acredita em mim. Até agora duvida da verdade de Rhllor... e no entanto, serviu-o mesmo assim, e voltará a servi-lo. Vou deixá-lo aqui para pensar em tudo o que lhe disse. E, porque Rhllor é a fonte de todo o bem, deixarei também o archote. Com um sorriso e um rodopio de saias escarlates, desapareceu. Só o seu odor permaneceu depois de ela partir. Isso e o archote. Davos abaixou-se até o chão da cela e abraçou os joelhos. A luz inconstante do archote varria-o. Depois que os passos de Melisandre deixaram de ser&lt;br /&gt;
ouvidos, o único som que ficou foi o arranhar das ratazanas. Gelo efogo, pensou. Branco e preto. Trevas e luz. Davos não podia negar o poder do deus dela. Tinha visto a sombra sair do ventre de Melisandre, e a sacerdotisa sabia coisas que não tinha como saber. Ela viu as minhas intenções nas chamas. Era bom saber que Salla não o vendera, mas a idéia de a mulher vermelha espiar seus segredos com suas fogueiras inquietava- -o mais do que conseguiria exprimir. E o que ela quis dizer quando falou que eu servi seu deus e voltarei a servi-lo? Também não tinha gostado disso. Ergueu os olhos para fitar o archote. Olhou-o durante muito tempo, sem piscar, observando as chamas mudando e tremeluzindo. Tentou ver para além delas, espreitar através da cortina de fogo e vislumbrar o que quer que vivesse lá atrás... mas nada havia, apenas fogo, e após algum tempo seus olhos começaram a lacrimejar. Ofuscado e cansado, Davos enrolou-se na palha e entregou-se ao sono. Três dias mais tarde - bem, o Mingau tinha vindo três vezes e o Lampreia, duas - Davos ouviu vozes à porta de sua cela. Sentou-se de imediato, com as costas apoiadas na parede de pedra, escutando os sons de uma luta. Aquilo era novo, uma mudança em seu mundo imutável. O ruído vinha do lado esquerdo, onde os degraus levavam à luz do dia. Conseguia ouvir uma voz de homem, suplicando e gritando. - ... loucura&#39;. - o homem dizia quando surgiu à vista de Davos, arrastado entre dois guardas com corações flamejantes no peito. Mingau vinha à frente deles, fazendo tilintar um anel cheio de chaves, e Sor Axell Florent caminhava atrás. - Axell - disse o prisioneiro em tom de desespero -, pelo apreço que tem por mim, solte-mel Não pode fazer isso, eu não sou nenhum traidor. - Era um homem de certa idade, alto e esguio, com cabelos prateados, barba pontiaguda e rosto longo e elegante retorcido de medo. - Onde está Se- lyse, onde está a rainha? Exijo vê-la. Que os Outros carreguem todos vocês! Soltem-mel Os guardas não prestaram atenção ao alarido que o homem fazia. - Aqui? - perguntou o Mingau em frente à cela. Davos ficou em pé. Por um instante pensou em tentar precipitar-se sobre eles quando a porta fosse aberta, mas isso era uma loucura. Eles eram muitos, os guardas tinham espadas, e Mingau era forte como um touro. Sor Axell assentiu bruscamente para o carcereiro. - Que os traidores gozem da companhia um do outro. - Eu não sou traidor coisa nenhuma&#39;. - guinchou o prisioneiro enquanto Mingau destrancava a porta. Embora estivesse vestido de forma simples, com um gibão de lã cinza e calções pretos, sua maneira de falar identificava-o como nobre. Seu nascimento não o beneficiará aqui, pensou Davos.&lt;br /&gt;
Mingau abriu as barras por completo, Sor Axell fez um aceno, e os guardas atiraram seu cativo, de cabeça, para dentro da cela. O homem tropeçou e poderia ter caído, mas Davos agarrou-o, Ele libertou-se imediatamente com uma sacudida e correu cambaleando para a porta, apenas para vê-la fechada na sua cara pálida e mimada. - Não - gritou. - Nããããáão. - Toda a força abandonou de repente suas pernas e ele deslizou lentamente para o chão, agarrando-se às barras de ferro. Sor Axell, Mingau e os guardas já tinham se virado para partir. - Não podem fazer isso - gritou o prisioneiro para as costas dos homens que se afastavam. - Eu sou a Mão do Rei! Foi então que Davos o reconheceu. - E Alester Florent. O homem virou a cabeça. - Quem...? - Sor Davos Seaworth. Lorde Alester pestanejou. - Seaworth... o cavaleiro das cebolas. Tentou assassinar Melisandre. Davos não negou. - Em Ponta Tempestade usou uma armadura vermelho-dourada, com flores de lápis- -lazúli incrustadas na placa de peito. - Estendeu uma mão para ajudar o outro homem a pôr-se em pé. Lorde Alester sacudiu a palha imunda de suas roupas. - Eu... eu devo desculpar-me por minha aparência, sor. Minhas arcas foram perdidas quando os Lannister invadiram nosso acampamento. Escapei sem nada exceto a cota de malha que trazia no corpo e os anéis nos dedos. E ainda usa esses anéis, reparou Davos, que perdera até parte de seus dedos, - Sem dúvida que algum ajudante de cozinha ou palafreneiro anda agora se pavo- neando por Porto Real com o meu gibão fendido de veludo e o manto cravejado de jóias - prosseguiu Lorde Alester, absorto. - Mas a guerra tem seus horrores, como todos sabem. Sem dúvida você também sofreu suas próprias perdas. - Meu navio - disse Davos. - Todos os meus homens. Quatro de meus filhos. - Que o... que o Senhor da Luz os faça atravessar as trevas até um mundo melhor - disse o outro homem. Que o Pai os julgue com justiça, e a Mãe lhes conceda misericórdia, pensou Davos, mas guardou a prece para si. Os Sete não tinham mais lugar em Pedra do Dragão. - Meu filho está a salvo em Águas Claras - prosseguiu o lorde -, mas perdi um sobrinho no Fúria. Sor Imry, filho de meu irmão Ryam.&lt;br /&gt;
Foi Sor Imry Florent quem os levou cegamente pela Torrente da Água Negra adentro, com todos os remos em ação, sem prestar atenção nas pequenas torres de pedra na foz do rio. Não era provável que Davos se esquecesse dele. - Meu filho Maric era mestre dos remadores de seu sobrinho. - Lembrou-se do último vislumbre que tivera do Fúria, envolto em fogovivo. - Houve alguma notícia de sobreviventes? - O Fúria queimou e afundou com toda a tripulação - disse sua senhoria. - Seu filho e meu sobrinho perderam-se, com um número incontável de outros bons homens. A própria guerra foi perdida nesse dia, sor. Esse homem está derrotado. Davos recordou a conversa de Melisandre a respeito das brasas nas cinzas gerarem grandes incêndios. Não me admira que tenha acabado aqui - Sua Graça nunca se renderá, senhor. - Uma loucura, isso é uma loucura. - Lorde Alester voltou a se sentar no chão, como se o esforço de ficar em pé por um momento tivesse sido excessivo para ele. - Stannis Baratheon nunca ocupará o Trono de Ferro. Será traição dizer a verdade? Uma verdade amarga, mas não menos verdadeira por isso. Já não tem frota, à exceção dos lisenos, e Salladhor Saan fugirá assim que avistar uma vela Lannister. A maior parte dos senhores que apoiaram Stannis passaram para o lado de Joffrey ou morreram... - Até os senhores do mar estreito? Os senhores juramentados a Pedra do Dragão? Lorde Alester abanou debilmente as mãos. - Lorde Celtigar foi capturado e rendeu-se. Monford Velaryon morreu com o seu navio, a mulher vermelha queimou Sunglass, e Lorde Bar Emmon tem quinze anos, é gordo e frágil. São esses os senhores do mar estreito. Só restam a Stannis as forças da Casa Florent, contra todo o poderio de Jardim de Cima, Lançassolar e Rochedo Casterly, e agora também da maior parte dos senhores da tempestade. A melhor esperança que resta é tentar salvar qualquer coisa com a paz. Foi isso que tentei fazer. Pela bondade dos deuses, como podem chamar isso de traição? Davos franziu a testa. - Senhor, o que fez? - Traição, não. Traição, nunca. Adoro Sua Graça mais do que qualquer outro homem. Minha própria sobrinha é a rainha dele, e permaneci fiel quando homens mais sensatos desertaram. Sou sua Mão, a Mão do Rei, como posso ser um traidor? Só quis salvar nossas vidas e... honra... sim. - Lambeu os lábios. - Escrevi uma carta. Salladhor Saan jurou que tinha um homem que podia levá-la a Porto Real, ao Lorde Tywin, Sua senhoria&lt;br /&gt;
é um... um homem de razão, e os meus termos... os termos eram justos... mais do que justos. - Que termos eram esses, senhor? - Isto aqui está imundo - disse de repente Lorde Alester. - E esse cheiro... o que é esse cheiro? - O balde - disse Davos com um gesto. - Aqui não temos latrina. Que termos? Sua senhoria fitou o balde, horrorizado. - Que Lorde Stannis retiraria sua pretensão ao Trono de Ferro e se retrataria de tudo o que havia dito a respeito da bastardia de JofFrey, sob a condição de ser aceito de volta à paz do rei e confirmado como Senhor de Pedra do Dragão e Ponta Tempestade. Jurei fazer o mesmo, em troca da devolução da Fortaleza de Águas Claras e de todas as nossas terras. Pensei... Lorde Tywin compreenderia o bom senso de minha proposta. Ele ainda precisa lidar com os Stark e também com os homens de ferro. Sugeri selarmos o acordo casando Shireen com o irmão de JofFrey, Tommen. - Balançou a cabeça. - Os termos... eram os melhores que poderemos alcançar. Até você certamente compreende? - Sim - disse Davos -, até eu. - A não ser que Stannis gerasse um filho, um casamento assim significaria que Pedra do Dragão e Ponta Tempestade passariam um dia para as mãos de Tommen, o que sem dúvida agradaria a Lorde Tywin. Ao mesmo tempo, os Lannister teriam Shireen como refém para se certificarem de que Stannis não causaria mais rebeliões, - E o que disse Vossa Graça quando lhe propôs esses termos? - Ele está sempre com a mulher vermelha, e... receio que não esteja no seu juízo completo. Essa conversa sobre um dragão de pedra... loucura, digo eu, pura loucura. Será que não aprendemos nada com Aerion Fogovivo, com os nove magos, com os alquimistas? Será que não aprendemos nada com Solarestival? Nunca bem algum veio desses sonhos de dragões, foi o que eu disse a Axell. A minha maneira era melhor. Mais segura. E Stannis deu-me seu selo, deu-me licença para governar. A Mão fala com a voz do rei. - Nisso, não. - Davos não era cortesão, e sequer tentou amaciar as palavras, - A rendição não existe em Stannis, enquanto souber que suas razões são justas. Da mesma forma que não pode desdizer as palavras contra JofFrey, quando as crê verdadeiras. E, quanto ao casamento, Tommen nasceu do mesmo incesto que JofFrey, e Sua Graça antes gostaria de ver Shireen morta do que casada com alguém assim. Uma veia latejava na testa de Florent. - Ele não tem outra opção. ~ Engana-se, senhor. Ele pode escolher morrer como rei. - E levar-nos com ele? E isso que deseja, Cavaleiro das Cebolas?&lt;br /&gt;
- Não. Mas sou um homem do rei, e não farei qualquer paz sem a permissão dele. Lorde Alester fitou-o impotente por um longo momento e então começou a chorar.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/60069094537179191/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/davos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/60069094537179191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/60069094537179191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/davos.html' title='Davos'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-1287522578803037678</id><published>2014-01-01T08:36:00.003-08:00</published><updated>2014-01-01T08:36:54.173-08:00</updated><title type='text'>Bran</title><content type='html'>Nenhuma estrada atravessava os retorcidos vales de montanha que agora percorriam. Entre os picos cinzentos de pedra havia calmos lagos azuis, longos, profundos e estreitos, e as infinitas sombras verdes de florestas de pinheiros. O castanho-avermelhado e o dourado das folhas de outono tornaram-se menos comuns quando abandonaram a mata de lobos para subir as velhas colinas de sílex, e desapareceram quando as colinas se transformaram em montanhas. Gigantescas árvores sentinela cinza-esverdeadas erguiam-se agora por cima deles, ombreando com abetos e pinheiros-marciais numa profusão sem fim. Por baixo, a vegetação rasteira era pouco densa, e o chão da floresta estava atapetado de agulhas verde-escuras. Quando se perdiam, como aconteceu uma ou duas vezes, bastava-lhes esperar por uma noite fria e límpida em que as nuvens não se intrometessem e olhar para o céu em busca do Dragão de Gelo. A estrela azul no olho do dragão indicava o caminho para o norte&amp;gt; segundo Osha tinha lhe dito um dia. Pensar em Osha fazia Bran se perguntar sobre onde ela estaria. Imaginava-a a salvo em Porto Branco, com Rickon e Câo-Felpudo, comendo enguias, peixe e torta quente de caranguejo com o gordo Lorde Manderly. Ou talvez se aquecessem na Ultima Lareira, diante das fogueiras do Grande-Jon. Mas a vida de Bran transformara-se em dias infinitos e gelados nas costas de Hodor, subindo e descendo em seu cesto as vertentes de montanhas. - Para cima e para baixo - suspirava às vezes Meera enquanto caminhavam - e depois para baixo e para cima. E depois outra vez para cima e para baixo. Detesto estas suas malditas montanhas, Príncipe Bran. - Ontem disse que as adorava. - Ah, e adoro. O senhor meu pai tinha me falado de montanhas, mas nunca tinha visto nenhuma até agora. Adoro-as mais do que consigo expressar. Bran fez uma careta para ela. - Mas acabou de dizer que as detestava. - Por que é que não pode ser as duas coisas? - Meera esticou a mão para apertar o nariz de Bran. - Porque são coisas diferentes - insistiu ele. - Como a noite e o dia, ou o gelo e o fogo, &lt;br /&gt;
- Se o gelo pode queimar - disse Jojen em sua voz solene -, então o amor e o ódio podem se juntar. Montanha ou pântano, não importa. A terra é só uma. - Uma - concordou a irmã mas enrugada demais. Os vales de altitude raramente lhes faziam o favor de correr de norte para sul, de modo que era freqüente verem-se seguindo ao longo de léguas na direção errada, e às vezes eram forçados a voltar. - Se tivéssemos seguido a estrada do rei, a esta alutra já poderíamos estar chegando à Muralha - Bran costumava lembrar aos Reed. Queria encontrar o corvo de três olhos, para poder aprender a voar. Repetira isso meia centena de vezes, até que Meera começou a caçoar dele, proferindo as palavras ao mesmo tempo que ele. - Se tivéssemos seguido a estrada do rei também não teríamos tanta fome - começou então a dizer. Lá embaixo, nas colinas, não tinham tido falta de alimentos. Meera era uma boa caça- dora, e melhor ainda em arrancar peixes dos riachos com a sua lança de três dentes para caçar rãs. Bran gostava de observá-la, admirando a sua rapidez, o modo como arremessava a lança e a puxava de volta com uma truta prateada contorcendo-se na ponta. E também tinham Verão para caçar para eles. O lobo gigante desaparecia quase todas as noites quando o sol se punha, mas estava sempre de volta antes do nascer do dia, normalmente com alguma coisa nas mandíbulas, um esquilo ou uma lebre. Mas ali, nas montanhas, os riachos eram menores e gelados, e a caça, mais escassa. Meera ainda caçava e pescava quando podia, mas era mais difícil, e certas noites nem o Verão encontrava presas. Era freqüente irem dormir de barriga vazia. Mas Jojen continuava teimosamente determinado a permanecer bem longe das estradas. - Onde você encontra estradas, encontra viajantes - dizia, com aquela sua maneira de falar e os viajantes têm olhos para ver e bocas para espalhar histórias sobre o rapaz aleijado, seu gigante e o lobo que caminha com eles. - Ninguém era capaz de ser tão teimoso quanto Jojen, portanto avançavam com dificuldade por território bravio, e todos os dias iam um pouco mais alto, e caminhavam um pouco mais para o norte. Havia dias em que chovia, outros eram ventosos, e uma vez foram pegos por uma saraivada tão forte que até Hodor berrou de medo. Nos dias sem nuvens, freqüentemente tinham a impressão de que eram as únicas criaturas vivas no mundo inteiro. - Ninguém vive aqui em cima? - perguntou certa vez Meera Reed, enquanto rodeavam um maciço de granito tão grande quanto Winterfell.&lt;br /&gt;
- Há gente - disse-lhe Bran. - Os Umber vivem principalmente a leste da estrada do rei, mas pastoreiam suas ovelhas nos prados de altitude durante o verão. Há os Wull a oeste das montanhas ao longo da Baía de Gelo, os Harclay atrás de nós, nas colinas, e os Knott, Liddle e Norrey e até alguns Flint aqui em cima, nas zonas altas. - A mãe da mãe de seu pai fora uma Flint das montanhas. A Velha Ama certa vez dissera que era o sangue dessa antepassada que levou Bran a gostar tanto de escalar antes da queda. Mas ela tinha morrido muitos, e muitos e muitos mais anos antes de ele nascer, até antes do pai nascer, - Wull? - disse Meera. - Jojen, não houve um Wull que acompanhou o pai durante a guerra? - Theo Wull - Jojen ofegava devido à subida. - Costumavam chamá-lo de Baldes, - É o símbolo deles - disse Bran. - Três baldes marrons sobre azul, com um bordado de xadrez branco e cinza. Lorde Wull veio uma vez a Winterfell, para prestar vassalagem e conversar com o pai, e ele tinha os baldes no escudo. Mas não é um verdadeiro lorde. Bem, é, mas chamam-no só de o Wull, e há também o Knott, o Norrey e o Liddle. Em Winterfell, nós os chamávamos de lordes, mas seus povos não os chamam. Jojen Reed parou para recuperar o fôlego. - Acha que essa gente das montanhas sabe que estamos aqui? - Eles sabem. - Bran avistara-os observando; não com os próprios olhos, mas com os olhos mais sensíveis de Verão, que deixavam escapar muito pouco. - Não nos incomodarão se não tentarmos fugir com suas cabras ou cavalos. E não incomodaram. Só uma vez encontraram um membro do povo da montanha, quando uma súbita carga de água gelada tinha feito com que buscassem abrigo. Verão encontrou-o por eles, farejando uma gruta pouco profunda por trás dos ramos cinza- ^esverdeados de uma altaneira árvore sentinela, mas quando Hodor se abaixou sob a saliência rochosa, Bran viu o clarão alaranjado de uma fogueira mais para trás e compreendeu que não estavam sós. - Entrem e aqueçam-se - chamou uma voz. - Há pedra suficiente para manter a chuva afastada de todas as nossas cabeças. O homem ofereceu-lhes bolos de aveia e morcela e um gole da cerveja que trazia num odre, mas não lhes disse o nome; e também não perguntou o deles. Bran achou que devia ser um Liddle. O broche que prendia seu manto de pele de esquilo era de ouro e bronze, trabalhado em forma de pinha, e os Liddle usavam pinhas na metade branca de seus escudos verde e branco. - Aqui é longe da Muralha? - perguntou-lhe Bran enquanto esperavam que a chuva parasse.&lt;br /&gt;
- Não muito para o voo do corvo - disse o Liddle, se é que ele era tal coisa. - Mais longe, para aqueles que não têm asas. Bran então começou: - Aposto que já estaríamos lá se... -... tivéssemos seguido a estrada do rei - concluiu Meera com ele. O Liddle puxou uma faca e começou a desbastar um pedaço de madeira. - Quando havia um Stark em Winterfell, uma donzela podia percorrer a estrada do rei usando o vestido do dia de seu nome e nada sofrer, e os viajantes encontravam fogo, pão e sal em muitas estalagens e castros. Mas agora as noites são mais frias, e as portas estão fechadas. Há lulas na mata de lobos, e homens esfolados percorrem a estrada do rei, perguntando por forasteiros. Os Reed trocaram um olhar, - Homens esfolados? - perguntou Jojen. - Os rapazes do Bastardo, ora. Ele tava morto, mas agora não tá. E paga bom dinheiro por pele de lobos, segundo um homem ouviu dizer, e talvez até ouro por notícias de certos outros mortos que andam. - Olhou para Bran quando disse aquilo, e para Verão, que estava estendido ao seu lado. - Quanto a essa Muralha - prosseguiu o homem -, aão é lugar para onde eu iria. O Velho Urso levou a Patrulha para a floresta assombrada, e tudo que voltou foram seus corvos, quase sem trazer nenhuma mensagem. Asas escuras, palavras escuras, dizia a minha mãe, mas parece-me que quando os pássaros voam calados, isso é ainda mais sombrio. - Atiçou o fogo com o pedaço de madeira. - Era diferente quando havia um Stark em Winterfell. Mas o velho lobo tá morto e o novo foi para o sul jogar o jogo de tronos, e tudo que nos resta são os fantasmas. - Os lobos voltarão - disse solenemente Jojen. - E como é que você sabe, rapaz? - Sonhei com isso. - Há noites em que sonho com a minha mãe, que enterrei há nove anos - disse o homem -, mas, quando acordo, ela não voltou pra junto de nós. - Há sonhos e sonhos, senhor. - Hodor - disse Hodor, Passaram aquela noite juntos, pois a chuva não cedeu até bem depois de escurecer, e só Verão parecia querer abandonar a gruta. Quando a fogueira se reduziu a brasas, Bran deixou-o ir. O lobo gigante não sentia a umidade como as pessoas, e a noite chamava-o. O luar pintava os bosques molhados em tons de prata e tornava brancos os picos cinzentos. Corujas piavam na escuridão e voavam silenciosamente entre os pinheiros, enquanto cabras brancas se deslocavam pelos flancos das montanhas, Bran fechou os olhos e entregou-se ao sonho de lobo, aos cheiros e sons da meia-noite.&lt;br /&gt;
Quando acordaram na manhã seguinte, a fogueira tinha se apagado e o Liddle havia desaparecido, mas deixou-lhes uma morcela e uma dúzia de bolos de aveia bem embrulhados num pano verde e branco. Alguns bolos tinham pinhões misturados na massa e outros, amoras-pretas. Bran comeu um de cada, e não conseguiu decidir de qual tinha gostado mais. Um dia voltaria a haver Stark em Winterfell, disse a si próprio, e então mandaria chamar os Liddle e pagaria cem vezes por cada pinhão e amora. A trilha que seguiam era um pouco mais fácil naquele dia e, pelo meio-dia, o sol surgiu numa clareira entre as nuvens. Bran sentiu-se quase satisfeito, sentado em seu cesto às costas de Hodor. Cochilou um pouco, embalado pelo balanço regular dos passos do grande cavalariço e pelo suave cantarolar que ele às vezes soltava quando caminhava. Meera acordou-o com um ligeiro toque no braço. - Olhe - disse ela, apontando para o céu com sua lança de caçar rãs -, uma águia. Bran levantou a cabeça e viu-a, com asas cinzentas abertas e imóveis, como se flutuassem no vento. Seguiu a ave com os olhos enquanto ela subia aos círculos, perguntando a si mesmo como seria pairar pelo mundo afora com tal ausência de esforço. Ainda melhor do que escalar. Tentou alcançar a águia, abandonar seu estúpido corpo aleijado e subir ao céu para se juntar a ela como fazia com Verão. Os videntes verdes conseguiam fazer isso. Eu também devia ser capaz. Tentou e tentou, até que a águia desapareceu na bruma dourada da tarde. - Sumiu - disse, desapontado. - Ainda vamos ver outras - Meera falou. - Elas vivem aqui em cima. - Suponho que sim. - Hodor - disse Hodor. - Hodor - concordou Bran. Jojen deu um chute numa pinha. - Parece que o Hodor gosta quando diz o nome dele, - Hodor não é o verdadeiro nome dele - explicou Bran. - E só uma palavra qualquer que ele diz. A Velha Ama disse-me que seu verdadeiro nome é Walder. Ela era avó da avó dele, ou qualquer coisa do gênero. - Falar da Velha Ama entristecia-o. - Acha que os homens de ferro a mataram? - Não tinham visto o corpo dela em Winterfell. Não se lembrava de ver nenhuma mulher morta, agora que pensava nisso. - Ela nunca fez mal a ninguém, nem mesmo a Theon. Só contava histórias. Theon não ia fazer mal a alguém assim. Certo? - Algumas pessoas machucam outras só porque podem fazer isso - disse Jojen. - E não foi Theon quem fez a matança em Winterfell - disse Meera. - Muitos dos mortos eram homens de ferro. - Passou a lança para a outra&lt;br /&gt;
mão. - Lembre-se das histórias da Velha Ama, Bran. Lembre-se da maneira como ela as contava, do som da voz dela. Enquanto se lembrar, parte dela estará sempre viva em você. - Vou me lembrar - prometeu ele. Subiram em silêncio durante muito tempo, seguindo uma trilha de animais cheia de curvas ao longo da passagem elevada entre dois picos pedregosos. Pinheiros marciais esqueléticos agarravam-se às vertentes em volta deles. Bem mais à frente Bran viu a cintilação gelada de um rio que caía pelo fianco de uma montanha. Deu por si escutando o ruído da respiração de Jojen e o som quebradiço das agulhas de pinheiro sob os pés de Hodor. - Sabem histórias? - perguntou de repente aos Reed. Meera soltou uma gargalhada. - Ah, algumas. - Algumas - admitiu o irmão. - Hodor - disse Hodor, cantarolando. - Podiam contar uma - disse Bran, - Enquanto caminhamos. O Hodor gosta de histórias sobre cavaleiros. Eu também gosto. - Não há cavaleiros no Gargalo - disse Jojen. - Por cima da água - corrigiu a irmã. - Mas os pântanos estão cheios de cavaleiros mortos, - Isso é verdade - disse Jojen. - Andalos e homens de ferro, Frey e outros tolos, todos os orgulhosos guerreiros que tentaram conquistar a Água Cinzenta. Nem um conseguiu encontrá-la. Entram no Gargalo mas não conseguem sair. E mais cedo ou mais tarde tropeçam nos pântanos, afundam-se sob o peso de todo aquele aço e afogam-se lá, em suas armaduras. A imagem de cavaleiros afogados debaixo d agua fez Bran arrepiar-se. Mas não levantou objeções; gostava dos arrepios. - Houve um cavaleiro - disse Meera - no ano da Falsa Primavera. Chamavam-no de Cavaleiro da Árvore que Ri. Esse pode ter sido um cranogmano. - Ou não. - O rosto de Jojen estava salpicado de sombras verdes. - Tenho certeza de que o Príncipe Bran já ouviu essa história uma centena de vezes. - Não - disse Bran. - Não ouvi. E, se tivesse ouvido, não me importaria. Às vezes, a Velha Ama voltava a contar as mesmas histórias, mas nós nunca nos importávamos, desde que fossem boas, Ela costumava dizer que as velhas histórias são como velhos amigos. Temos de visitá-las de vez em quando. - Isso é verdade. - Meera caminhava com o escudo nas costas, afastando do caminho um ramo ou outro com a lança para rãs. Bem quando Bran já começava a achar que ela não ia contar a história, começou: - Num tempo muito distante houve um moço engraçado que&lt;br /&gt;
vivia no Gargalo. Era pequeno como todos os cranogmanos, mas também era bravo, esperto e forte. Cresceu caçando, pescando e subindo nas árvores e aprendeu toda a magia do meu povo. Bran tinha quase certeza de que nunca ouvira aquela história. - Ele tinha os sonhos verdes, como o Jojen? - Não - disse Meera mas era capaz de respirar lama e correr sobre folhas e transformar a terra em água e a água em terra só com uma palavra murmurada. Sabia falar com as árvores, tecer palavras e fazer castelos aparecerem e desaparecerem. - Gostaria de saber fazer isso - disse Bran em tom de lamento. - Quando é que ele conhece o cavaleiro da árvore? Meera fez-lhe uma careta. - Mais depressa, se um certo príncipe ficasse calado. - Estava só perguntando. - O rapaz conhecia as magias dos pântanos - prosseguiu ela -, mas queria mais. É que o nosso povo raramente viaja para longe de casa. Somos gente pequena, e nossos costumes parecem estranhos para certas pessoas, de modo que as pessoas grandes nem sempre nos tratam bem. Mas esse rapaz era mais ousado do que a maioria, e um dia, depois de chegar à idade adulta, decidiu que iria deixar os pântanos para visitar a Ilha das Caras. - Ninguém visita a Ilha das Caras - questionou Bran. - E onde vivem os homens verdes. - Eram os homens verdes que ele queria encontrar. Portanto vestiu uma camisa com escamas de bronze cosidas a ela, como a minha, pegou um escudo de couro e uma lança de três dentes, como os meus, e desceu o Ramo Verde remando num pequeno barco de casco de couro. Bran fechou os olhos para tentar ver o homem em seu pequeno barco de casco de couro. Na sua cabeça, o cranogmano parecia-se com Jojen, só que mais velho e forte e vestido como Meera. - Passou por baixo das Gêmeas de noite, para que os Frey não o atacassem, e quando chegou ao Tridente, saiu do rio, pôs o barco na cabeça e começou a caminhar. Demorou muitos dias, mas por fim chegou ao Olho de Deus, atirou o barco no lago e remou até a Ilha das Caras. - E encontrou os homens verdes? - Sim - disse Meera -, mas essa é outra história, e não cabe a mim contá-la. O meu príncipe pediu cavaleiros. - Homens verdes também são bons. - São mesmo - concordou ela, mas nada mais disse sobre eles. - O cranogmano ficou na ilha durante todo esse inverno, mas quando a primavera desabrochou, ouviu o grande mundo a chamá-lo e soube que era hora de partir. Seu barco de couro estava exatamente no local onde&lt;br /&gt;
o deixara, por isso fez suas despedidas e remou para terra firme. Remou e remou, e por fim viu as distantes torres de um castelo erguendo-se junto ao lago. As torres subiam cada vez mais, à medida que ia se aproximando da margem, até que ele percebeu que aquele devia ser o maior castelo do mundo inteiro. - Harrenhal! - compreendeu Bran de imediato, - Era Harrenhal! Meera sorriu. - Seria? À sombra das suas muralhas viu tendas de muitas cores, brilhantes estandartes balançando ao vento, e cavaleiros vestidos de cota de malha ou de placas de aço e montados em cavalos couraçados. Sentiu o cheiro de carne assando e ouviu o som de risos e o clangor das trombetas dos arautos. Um grande torneio estava prestes a começar, e tinham vindo campeões de todo o território para conquistá-lo. O próprio rei encontrava-se presente, com seu filho, o príncipe-dragão. As Espadas Brancas tinham vindo, para receber um novo irmão em suas fileiras. O senhor da tempestade andava por lá, bem como o senhor da rosa. O grande leão do rochedo tinha brigado com o rei e acabou se mantendo afastado, mas muitos de seus vassalos e cavaleiros compareceram mesmo assim. O cranogmano nunca vira tamanha pompa, e sabia que talvez nunca mais voltaria a ver coisa igual. Parte de si nada mais desejava do que participar daquilo. Bran conhecia bastante bem essa sensação. Quando era pequeno, só sonhava em ser um cavaleiro. Mas isso fora antes de cair e perder as pernas, - A filha do grande castelo reinava como rainha do amor e da beleza quando o torneio começou. Cinco campeões tinham jurado defender a sua coroa; seus quatro irmãos de Harrenhal e seu tio famoso, um cavaleiro branco da Guarda Real. - Era uma donzela bela? - Era - disse Meera, saltando sobre uma pedra -, mas havia outras ainda mais belas. Uma era a esposa do príncipe-dragão, que havia trazido uma dúzia de damas de companhia para servi-la. Todos os cavaleiros lhe suplicavam favores para atar em volta de suas lanças. - Isso não vai ser uma daquelas histórias de amor, não é? - perguntou Bran, desconfiado. - O Hodor não gosta lá muito dessas. - Hodor - disse Hodor, concordando. - Ele gosta das histórias em que os cavaleiros lutam com monstros. - As vezes os monstros são os cavaleiros, Bran. O pequeno cranogmano caminhava pelo campo, desfrutando do dia quente de primavera e sem fazer mal a ninguém, quando foi atacado por três escudeiros, Nenhum deles tinha mais de quinze anos, mesmo assim eram maiores do que ele, todos os três. Do modo como viam as coisas,&lt;br /&gt;
aquele mundo era deles, e o cranogmano não tinha o direito de estar lá. Roubaram sua lança e atiraram-no ao chão, e o chamaram de papa-rãs, - Eram Walder? - parecia algo que o Pequeno Walder Frey poderia ter feito. - Nenhum deles disse o nome, mas ele guardou bem seus rostos na memória, para que pudesse se vingar mais tarde. Derrubaram-no toda vez que tentou se levantar, e chutaram-no quando se enrolou sobre si mesmo no chão. Mas então ouviram um rugido. &quot;Esse que chutam é vassalo de meu pai&quot;, uivou a loba. - Uma loba com quatro patas, ou com duas? - Duas - disse Meera. - A loba meteu-se no meio dos escudeiros com uma espada de torneio, fazendo-os debandar. O cranogmano estava machucado e ensangüentado, por isso ela levou-o para a sua toca, para limpar as feridas e cobri-las com linho. Aí, ele conheceu os irmãos de matilha dela: o lobo selvagem que os liderava, o lobo calado ao seu lado e o lobinho que era o mais novo dos quatro. &quot;Nessa noite, haveria um banquete em Harrenhal, para anunciar a abertura do torneio, e a loba insistiu em que o rapaz comparecesse. Ele era de elevado nascimento, com tanto direito a um lugar no banco como qualquer outro homem. Não era fácil contrariar aquela donzela-lobo, e assim ele deixou que o jovem lobinho lhe arranjasse um traje adequado para um banquete real e dirigiu-se ao grande castelo. &quot;Comeu e bebeu sob o teto de Harren, com os lobos e também com muitas das espadas a eles juramentadas, homens das terras acidentadas, e também alces, ursos e tritões. O príncipe-dragão cantou uma canção tão triste que fez a donzela-lobo soluçar, mas quando o seu irmão lobinho caçoou dela por chorar, ela derramou vinho na cabeça dele. Um irmão negro interveio, pedindo aos cavaleiros para se juntarem à Patrulha da Noite. O senhor da tempestade derrotou o cavaleiro dos crânios e beijos numa batalha de copos de vinho. O cranogmano viu uma donzela com sorridentes olhos púrpuras dançando com uma espada branca, uma serpente vermelha e o senhor dos grifos, e por fim com o lobo silencioso... mas só depois que o lobo selvagem falou com ela em nome do irmão, que era tímido demais para sair de seu banco. &quot;No meio de toda aquela alegria, o pequeno cranogmano vislumbrou os três escudeiros que o tinham atacado. Um deles servia um cavaleiro forquilha; outro, um porco- -espinho, enquanto o terceiro assistia um cavaleiro com duas torres em seu sobretudo, um símbolo que todos os cranogmanos conhecem bem.&quot; - Os Frey - disse Bran. - Os Frey da Travessia. - Então, assim como agora - concordou ela. - A donzela-lobo também os viu e mostrou-os aos irmãos. &quot;Podia arranjar-lhe um cavalo e uma&lt;br /&gt;
armadura que talvez servisse&quot;, ofereceu o lobinho, O pequeno cranogmano agradeceu, mas não respondeu. Tinha o coração dividido. Os cranogmanos são menores do que a maioria dos homens, mas igualmente orgulhosos. O rapaz não era cavaleiro, nenhum dos seus era. Sentamo-nos mais freqüentemente num barco do que num cavalo, e nossas mãos são feitas para remos, não para lanças. Por mais que desejasse obter sua vingança, temia não fazer mais do que papel de bobo, envergonhando seu povo. O lobo silencioso ofereceu ao pequeno cranogmano um lugar em sua tenda naquela noite, mas este, antes de dormir, ajoelhou-se na margem do lago, olhando por sobre a água para onde a Ilha das Caras deveria estar, e proferiu uma prece aos deuses antigos do Norte e do Gargalo... - Seu pai nunca lhe contou essa história? - perguntou Jojen. - Era a Velha Ama quem contava histórias. Meera, continue, não pode parar aí. Hodor devia sentir o mesmo. - Hodor - disse, e depois: - Hodor hodor hodor hodor. - Bem - disse Meera -, se quer ouvir o resto... - Sim. Conte. - Estavam planejados cinco dias de justas - disse ela. - Também haveria uma grande luta corpo a corpo entre sete equipes, e torneios de tiro ao alvo e arremesso de machados, uma corrida de cavalos e um torneio de cantores... - Isso tudo não interessa. - Bran contorceu-se impacientemente no cesto que o prendia às costas de Hodor, - Conte o que aconteceu nas justas. - As ordens de meu príncipe. A filha do castelo era a rainha do amor e da beleza, com quatro irmãos e um tio para defendê-la, mas todos os quatro filhos de Harrenhal foram derrotados no primeiro dia. Os vencedores tiveram breves reinados como campeões, até serem, por sua vez, derrotados. Aconteceu que, no fim do primeiro dia, o cavaleiro do porco-espinho conquistou um lugar entre os campeões, e na manhã do segundo dia o cavaleiro da forquilha e o cavaleiro das duas torres também saíram vitoriosos. Mas, ao fim da tarde desse segundo dia, quando as sombras se tornavam longas, um misterioso cavaleiro surgiu na liça. Bran assentiu com a cabeça, com ar sabedor. Cavaleiros misteriosos apareciam freqüentemente nos torneios, com elmos que escondiam seus rostos, e escudos ora vazios ora ostentando um símbolo estranho qualquer. Às vezes eram campeões famosos sob disfarce. O Cavaleiro do Dragão certa vez ganhara um torneio como o Cavaleiro das Lágrimas, para poder nomear a irmã rainha do amor e da beleza no lugar da amante do rei. E Barristan, o Ousado, vestiu por duas vezes uma&lt;br /&gt;
armadura de cavaleiro misterioso, a primeira quando tinha apenas dez anos, - Aposto que era o pequeno cranogmano. - Ninguém soube - disse Meera -, mas o cavaleiro misterioso era de baixa estatura e usava uma armadura que mal lhe servia, feita de partes avulsas. O símbolo que trazia no escudo era uma árvore-coração dos velhos deuses, um represeiro branco com uma cara vermelha sorrindo. - Talvez tenha vindo da Ilha das Caras - disse Bran. - Era verde? - Nas histórias da Velha Ama, os guardiães tinham pele verde-escura e folhas no lugar dos cabelos. As vezes também tinham chifres, mas Bran não via como o cavaleiro misterioso poderia ter usado um elmo se tivesse chifres. - Aposto que foram os deuses antigos que o enviaram. - Talvez tenham sido. O cavaleiro misterioso saudou o rei com a lança e dirigiu-se para o fim da liça, onde os cinco campeões tinham seus pavilhões. Sabe quais foram os três que ele desafiou. - O cavaleiro do porco-espinho, o cavaleiro da forquilha e o cavaleiro das torres gêmeas. - Bran ouvira histórias suficientes para saber isso. - Era o pequeno cranogmano, bem que eu disse. - Fosse quem fosse, os deuses antigos deram força ao seu braço, O cavaleiro do porco-espinho foi o primeiro a cair, seguido pelo da forquilha e, por fim, o das duas torres foi derrubado. Nenhum deles era apreciado, por isso os plebeus aplaudiram vigorosamente o Cavaleiro da Arvore que Ri, nome pelo qual o novo campeão começou rapidamente a ser conhecido. Quando seus adversários caídos procuraram resgatar cavalos e armaduras, o Cavaleiro da Arvore que Ri falou numa voz trovejante através do elmo:&quot;Ensinem honra aos seus escudeiros, isso será um resgate suficiente&quot;. Depois de os cavaleiros derrotados terem punido severamente os escudeiros, seus cavalos e armaduras foram restituídos. E, assim, as preces do pequeno cranogmano foram atendidas.,, pelos homens verdes, pelos deuses antigos ou pelos filhos da floresta, quem saberá? Era uma boa história, decidiu Bran depois de pensar nela por um momento ou dois. - O que aconteceu depois? O Cavaleiro da Arvore que Ri ganhou o torneio e se casou com uma princesa? - Não - disse Meera, - Nessa noite, no grande castelo, tanto o senhor da tempestade como o cavaleiro dos crânios e dos beijos juraram que iriam desmascará-lo, e o próprio rei exortou os homens a desafiá-lo, declarando que o rosto por trás do elmo não era seu amigo. Mas, na manhã seguinte, quando os arautos sopraram suas trombetas e o rei ocupou seu lugar, só dois campeões apareceram. O Cavaleiro da Arvore que Ri tinha desaparecido. O rei ficou furioso, e até mandou o filho, o príncipe-dragão, procurar o homem, mas tudo que encontraram foi seu&lt;br /&gt;
escudo pintado, abandonado, pendendo de uma árvore. No fim, foi o príncipe-dragão que ganhou o torneio. - Oh. - Bran refletiu um pouco acerca da história. - Foi uma boa história, Mas, em vez dos escudeiros, os três cavaleiros maus deviam ter machucado o homem. Então, o pequeno cranogmano poderia ter matado os três. A parte dos resgates é estúpida. E o cavaleiro misterioso devia ter ganhado o torneio, derrotando todos os que o desafiassem, e nomeado a donzela-lobo rainha do amor e da beleza. - Ela foi nomeada - disse Meera mas essa é uma história mais triste. - Tem certeza de que nunca ouviu essa história antes, Bran? - perguntou Jojen. - O senhor seu pai nunca a contou para você? Bran sacudiu a cabeça. O dia já estava acabando a essa altura, e longas sombras rastejavam pelos flancos das montanhas, enviando dedos negros por entre os pinheiros. Se o pequeno cranogmano pôde visitar a Ilha das Caras, eu talvez também possa. Todas as histórias concordavam em que os homens verdes possuíam estranhos poderes mágicos. Talvez pudessem ajudá-lo a voltar a andar, ou até a transformá-lo num cavaleiro. Transformaram o pequeno cranogmano num cavaleiro, mesmo que só por um dia, pensou. Um dia seria suficiente.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/1287522578803037678/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/bran.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1287522578803037678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1287522578803037678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/bran.html' title='Bran'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-4960309001422107507</id><published>2014-01-01T08:36:00.001-08:00</published><updated>2014-01-01T08:36:18.880-08:00</updated><title type='text'>Dany</title><content type='html'>No centro da Praça do Orgulho havia uma fonte de tijolo vermelho cujas águas cheiravam a enxofre, e no meio da fonte erguia-se uma monstruosa harpia feita de bronze martelado. Empinava-se até seis metros de altura. Tinha rosto de mulher, com cabelos dourados, olhos de marfim e dentes pontiagudos também de marfim. A água jorrava amarela de seus seios pesados. Mas, no lugar dos braços, possuía as asas de um morcego ou dragão; suas pernas eram as de uma águia, e atrás tinha a cauda enrolada e venenosa de um escorpião. A barpia de Gbis, pensou Dany. A Velha Ghis caíra havia cinco mil anos, se bem se lembrava; suas legiões foram despedaçadas pelo poderio da jovem Valíria; suas muralhas de tijolo, arrasadas; suas ruas e seus edifícios, transformados em cinzas e brasas por fogo de dragão; os campos, semeados com sal, enxofre e crânios. Os deuses de Ghis es- tavam mortos, e seu povo também; aqueles astapori eram mestiços, dizia Sor Jorah. Até a língua ghiscari estava quase completamente esquecida; as cidades escravagistas falavam o Alto Valiriano de seus conquistadores, ou aquilo em que o tinham transformado. Mas o símbolo do Velho Império ainda resistia ali, embora aquele monstro de bronze tivesse uma pesada corrente pendurada das garras, com uma algema aberta em cada extremidade, A barpia de Ghis tinha um relâmpago nas garras. Esta é a harpia de Astapor. - Diga à prostituta westerosi para baixar os olhos - resmungou o senhor de escravos Kraznys mo Nakloz para a jovem escrava que falava por ele. - Eu negocio carne, não metal. O bronze não está à venda. Diga-lhe para olhar para os soldados. Até os fracos olhos púrpuras de uma selvagem do poente são certamente capazes de ver como as minhas criaturas são magníficas, O Alto Valiriano de Kraznys era tortuoso e carregado com o rosnado característico de Ghis e temperado aqui e ali com palavras de calão de feitor. Dany compreendia-o bastante bem, mas sorriu e olhou sem expressão para a escrava, como quem se interroga sobre o que ele teria dito. - O Bom Mestre Kraznys pergunta, não são magníficos? - a garota falava bem o Idioma Comum, para alguém que nunca estivera em Westeros. Com não mais de dez anos, tinha o rosto redondo e achatado, pele morena e olhos dourados de Naath. Chamavam seu povo de Povo &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
Pacífico, Todos eram unânimes em afirmar que davam os melhores escravos. - Podem ser adequados para as minhas necessidades - respondeu Dany. Tinha sido sugestão de Sor Jorah que ela falasse apenas em dothraki e no Idioma Comum enquanto estivesse em Astapor. 0 meu urso é mais esperto do que parece. - Fale-me de seu treinamento. - Eles agradam à mulher westerosi, mas ela não os elogia, para manter o preço baixo - disse a tradutora ao seu dono. - Quer saber como foram treinados. Kraznys mo Nakloz inclinou a cabeça. Aquele senhor de escravos cheirava como se tivesse tomado banho em framboesas, e sua protuberante barba vermelha e negra brilhava de óleo. Os seios dele são maiores do que os meus, refletiu Dany. Via-os através da seda verde-marinho do tokar debruado de ouro que ele trazia enrolado em volta do corpo e por cima de um ombro. A mão esquerda mantinha o tokar no lugar ao caminhar, enquanto a direita empunhava um curto chicote de couro. - Todos os porcos westerosi são assim tão ignorantes? - protestou. - O mundo inteiro sabe que os Imaculados são mestres de lança, escudo e espada curta, - Dirigiu a Dany um largo sorriso. - Diga-lhe o que quer saber, escrava, e depressa. O dia está quente. Isso, pelo menos, não é mentira nenhuma. Um par de jovens escravas encontrava-se atrás deles, segurando por cima de suas cabeças um toldo de seda riscado, mas, mesmo à sombra, Dany sentia-se um pouco tonta, e Kraznys transpirava abundantemente. A Praça do Orgulho cozia ao sol desde o nascer do dia, Dany conseguia sentir o calor dos tijolos vermelhos sob os pés mesmo através do solado de suas sandálias. Ondas de calor erguiam-se desses tijolos, estremecendo o ar e fazendo com que as pirâmides de degraus de Astapor que se erguiam ao redor da praça quase parecessem fazer parte de um sonho. Se os Imaculados sentiam o calor, não mostravam qualquer sinal disso. Eles mesmos podiam ser feitos de tijolo, julgando pelo modo como estão ali. Um milhar tinha sido trazido das casernas para a sua inspeção; alinhados em dez formações de cem homens perante a fonte e a sua grande harpia de bronze, estavam rigidamente em sentido, com os olhos de pedra fixos à frente. Nada vestiam além de panos de linho branco atados na altura dos rins e elmos cônicos de bronze rematados por um espigão afiado com trinta centímetros de altura. Kraznys ordenara-lhes que apoiassem as lanças e os escudos no chão e des- pissem os cintos de espadas e as túnicas acolchoadas, para que a Rainha de Westeros pudesse inspecionar melhor a rigidez esguia de seus corpos.&lt;br /&gt;
- São escolhidos ainda jovens, pelo tamanho, rapidez e força - disse-lhe a escrava. - Iniciam o treinamento aos cinco anos. Treinam todos os dias, da alvorada ao pôr do sol, até dominarem a espada curta, o escudo e as três lanças. O treino é muito rigoroso, Vossa Graça. Só um garoto em três sobrevive a ele, Isso todos sabem. Entre os Imaculados diz-se que no dia em que ganham seu capacete de espigão o pior ficou para trás, pois nenhum dever que for atribuído a eles poderá ser tão duro quanto o treinamento. Kraznys mo Nakloz, supostamente, não falava o Idioma Comum, mas balançava a cabeça enquanto escutava e de vez em quando empurrava a escrava com a ponta do chicote. - Diga-lhe que aqueles estão ali em pé há um dia e uma noite, sem comida nem água. Diga-lhe que ficarão ali até caírem se eu lhes ordenar que o façam, e que quando novecentos e noventa e nove tiverem caído e morrido sobre os tijolos, o último ainda estará ali e não se moverá até que a própria morte o reclame. É assim a coragem deles. Diga-lhe isso. - Eu chamo isso de loucura, não de coragem - disse Arstan Barba-Branca quando a solene pequena escriba terminou. Bateu com a ponta de seu bastão de madeira nos tijolos, tap tap, como que para afirmar seu descontentamento. O velho não quisera viajar até Astapor; tampouco era favorável à compra daquele exército de escravos, Uma rainha devia escutar todos os lados antes de tomar uma decisão. Era por isso que Dany o havia trazido consigo até a Praça do Orgulho, não para mantê-la em segurança. Seus companheiros de sangue fariam isso suficientemente bem. Deixara Sor Jorah Mormont a bordo do Balerion para proteger seu povo e seus dragões. Muito a contragosto, havia prendido os dragões no porão. Deixá-los voar livremente sobre a cidade era perigoso demais; o mundo estava repleto de homens que os matariam de bom grado por nenhum outro motivo além de poder se autodenominar matador de dragões. - O que disse o velho fedorento? - perguntou o feitor à tradutora. Quando ela lhe disse, ele sorriu e falou: - Informe os selvagens de que chamamos isso de obediência. Outros podem ser mais fortes, mais rápidos ou maiores do que os Imaculados. Alguns, poucos, podem até igualar a sua perícia com a espada, a lança e o escudo. Mas em nenhum lugar entre os mares encontrarão alguém mais obediente. - As ovelhas são obedientes - disse Arstan quando as palavras foram traduzidas. Ele também sabia algum valiriano, embora não tanto quanto Dany, mas, assim como ela, fingia ignorância. - Kraznys mo Nakloz mostrou seus grandes dentes brancos quando aquilo lhe foi transmitido, - Uma palavra minha e aquelas ovelhas derramam as velhas tripas fedorentas dele nos tijolos - disse ele -, mas não lhe diga isso. Diga-lhes&lt;br /&gt;
que estas criaturas são mais cães do que ovelhas. Eles comem cão ou cavalo lá nos Sete Reinos? - Preferem porcos e vacas, excelência. - Carne de vaca. Pfuá. Comida para selvagens que não se lavam. - Ignorando-os, Dany percorreu lentamente a fileira de soldados escravos. As mulheres - seguiram-na de perto com o toldo de seda, para mantê-la à sombra, mas os mil homens à sua frente não desfrutavam de tal proteção. Mais da metade possuía pele acobreada e olhos amendoados dos dothraki e dos lhazarenos, mas Dany também viu nas fileiras homens das Cidades Livres, bem como qarthenos de pele clara, ilhéus de verão com rosto de ébano, e outros cuja origem não era capaz de adivinhar. E alguns tinham pele do mesmo tom de âmbar de Kraznys mo Nakloz, e os cabelos rijos vermelhos e negros que identificavam o antigo povo de Ghis, aqueles que chamavam a si mesmos de filhos da harpia. Até vendem os seus. Não a devia ter surpreendido. Os dothraki faziam o mesmo, quando khalasar se encontrava com kbalasar no mar de erva. - Alguns dos soldados eram altos e outros, baixos. Dany calculou que as idades oscilariam entre os catorze e os vinte anos. Os rostos eram lisos, e os olhos todos iguais, fossem negros, castanhos, azuis, cinza ou ambarinos. São como um único homem, pensou, até se lembrar de que não eram homens coisa nenhuma. Os Imaculados eram eunucos, todos eles. - Por que os cortam? - perguntou a Kraznys através da escrava. - Sempre ouvi dizer que homens inteiros são mais fortes do que eunucos. - Um eunuco cortado ainda novo nunca terá a força bruta de um de seus cavaleiros westerosi, é verdade - disse Kraznys mo Nakloz quando a pergunta lhe foi colocada. - Um touro também é forte, mas touros morrem todos os dias nas arenas de luta. Uma menina de nove anos matou um há três dias na Arena de Jothiel. Os Imaculados têm algo melhor do que a força, diga-lhe. Têm disciplina. Lutamos à maneira do Velho Império, sim. São as legiões marchantes da Velha Ghis regressadas, absolutamente obedientes, absolutamente leais, e totalmente desprovidas de medo, Dany escutou pacientemente a tradução. - Até os homens mais corajosos temem a morte e a mutilação - disse Arstan quando a garota terminou. Kraznys voltou a sorrir quando ouviu aquilo. - Diga ao velho que ele cheira a mijo e precisa de uma bengala para mantê-lo em pé. - Digo mesmo, excelência? Ele cutucou-a com o chicote.&lt;br /&gt;
- Não, não diz mesmo, é uma menina ou uma cabra para fazer uma pergunta tão imbecil? Diga que os Imaculados não são homens. Diga que a morte não significa nada para eles, e a mutilação menos do que nada. - Parou perante um homem atarracado com traços de Lhazar e ergueu violentamente o chicote, deixando uma linha de sangue em sua face acobreada. O eunuco piscou, e ali ficou, sangrando. - Quer outra? - Se sua excelência desejar. Foi difícil fingir não entender. Dany pousou uma mão no braço de Kraznys antes de ele ter tempo de voltar a erguer o chicote. - Diga ao Bom Mestre que eu vejo como seus Imaculados são fortes e suportam corajosamente a dor. Kraznys soltou um risinho quando ouviu as palavras dela em valiriano. - Diga a essa prostituta ignorante do ocidente que coragem não tem nada a ver com o assunto. - O Bom Mestre diz que aquilo não foi coragem, Vossa Graça. - Diga-lhe para abrir esses olhos de cadela. - Ele pede-lhe que observe com atenção, Vossa Graça. Kraznys aproximou-se do eunuco que se seguia na fileira, um jovem muito alto com os olhos azuis e os cabelos louros de Lys. - A sua espada - disse. O eunuco ajoelhou, desembainhou a arma e ofereceu-a, com o cabo para a frente. Era uma espada curta, feita mais para trespassar do que para cortar, mas o gume parecia afiado como uma navalha. - Fique em pé - ordenou Kraznys. - Sua excelência. - O eunuco levantou-se, e Kraznys mo Nakloz deslizou lentamente a espada por seu tronco acima, deixando uma fina linha vermelha na barriga e entre as costelas. Depois espetou a ponta da espada por baixo de um grande mamilo cor-de-rosa e começou a manejá-la para trás e para a frente. - O que ele está fazendo? - perguntou Dany à garota, enquanto o sangue escorria pelo peito do homem. - Diga à vaca que pare de mugir - disse Kraznys sem esperar pela tradução, - Isso não lhe fará grande mal. Os homens não precisam dos mamilos, e os eunucos menos ainda, - O mamilo pendeu, preso por um fio de pele. Ele o cortou e fez com que rolasse pelos tijolos, deixando em seu lugar um olho vermelho que chorava sangue copiosamen- te. O eunuco não se mexeu, até que Kraznys entregou-lhe a espada de volta, com o cabo para a frente. - Tome, está dispensado. - Este está feliz por tê-lo servido. Kraznys virou-se para Dany. - Eles não sentem dor, está vendo? - Como isso é possível? - ela quis saber através da escriba. - O vinho da coragem - foi a resposta que ele lhe deu, - Não é um vinho de verdade, mas sim uma bebida feita a partir de beladona, larvas de&lt;br /&gt;
mosca de sangue, raízes de lótus negra e muitas coisas secretas, Bebem-no em todas as refeições desde o dia de seu corte, e a cada ano que passa sentem cada vez menos. Isso torna-os destemidos em batalha. E também não podem ser torturados. Diga à selvagem que seus segredos estão seguros com os Imaculados. Ela pode colocá-los de guarda em seus conselhos e até em seu quarto, sem nunca se preocupar com o que eles possam ouvir. &quot;Em Yunkai e Meeren, os eunucos são freqüentemente gerados através da remoção dos testículos de um rapaz, deixando o pênis. Uma criatura dessas é infértil, mas freqüentemente ainda capaz de ereção. Apenas problemas podem advir de tal prática. Nós removemos também o pênis, sem deixar nada. Os Imaculados são as criaturas mais puras da face da Terra. &quot;Ofereceu a Dany e Arstan outro largo sorriso branco.&quot; Ouvi dizer que nos Reinos do Poente os homens fazem votos solenes de se manterem castos e não gerar filhos, mas viver apenas para o seu dever, E verdade?&quot; - E - disse Arstan, quando a pergunta foi colocada. - Há muitas ordens dessas. Os meistres da Cidadela, os septÕes e as septãs que servem os Sete, as irmãs silenciosas dos mortos, a Guarda Real e a Patrulha da Noite... - Pobres coitados - rosnou o senhor de escravos depois da tradução. - Os homens não deveriam viver assim. Seus dias são um tormento de tentação, qualquer tolo pode ver isso, e não há dúvida de que a maioria sucumbe aos seus instintos mais primários. Nossos Imaculados não são assim. Estão casados com suas espadas de uma maneira que seus Irmãos Juramentados não podem ter esperanças de igualar. Nenhuma mulher poderá alguma vez tentá-los, e nenhum homem também. A garota transmitiu a essência do discurso, com mais delicadeza. - Há outras maneiras de tentar os homens, além da carne - retrucou Arstan Barba- -Branca depois de ela terminar. - Os homens, sim, mas os Imaculados, não. O saque não lhes interessa mais do que a violação. Nada possuem além de suas armas. Nem sequer permitimos que tenham nomes. - Não têm nomes? - Dany franziu a testa para a pequena escriba. - Poderá ser isso que o Bom Mestre disse? Eles não têm nomes? - E verdade, Vossa Graça, Kraznys parou na frente de um ghiscari que podia ter sido um irmão seu mais alto e em melhor forma e estalou o chicote num pequeno disco de bronze que ele tinha preso no cinto da espada, a seus pés. - O nome dele está ali. Pergunte à rameira de Westeros se sabe ler glifos ghiscari. - Quando Dany admitiu que não sabia, o feitor virou-se para o Imaculado. - Como se chama? - quis saber. - O nome deste é Pulga Vermelha, excelência.&lt;br /&gt;
A garota repetiu a conversa no Idioma Comum. - E ontem, qual era? - Rato Preto, reverência. - No dia anterior? - Pulga Marrom, reverência. - E antes disso? - Este não se lembra, reverência. Talvez Sapo Azul. Ou Verme Azul. - Diga-lhe que todos os nomes deles são assim - ordenou Kraznys à garota. - Recordam-lhes de que, por conta própria, são bichos. Os discos com os nomes são atirados dentro de um barril vazio ao terminarem os deveres do dia, e todas as alvoradas são de lá sorteados. - Mais loucuras - disse Arstan quando ouviu aquilo. - Como um homem pode se lembrar de um nome novo todos os dias? - Os que não podem são excluídos no treino, com aqueles que não são capazes de correr o dia inteiro com a bagagem completa, escalar uma montanha no meio da noite, caminhar sobre brasas ou matar uma criança. A boca de Dany certamente se contorceu ao ouvir aquilo. Ele terá visto, ou será tão cego quanto é cruel? Virou-se depressa, tentando manter uma máscara no rosto até ouvir a tradução. Foi só então que se permitiu dizer: - De quem são as crianças que matam? - Para conquistar seu capacete de espigão, um Imaculado deve ir aos mercados de escravos com um marco de prata, encontrar um recém-nascido qualquer e matá-lo diante dos olhos da mãe. Dessa maneira, certificamo-nos de que não resta neles qualquer fraqueza. Dany sentiu-se prestes a desmaiar. 0 calor, tentou dizer a si própria. - Arrancam um bebê dos braços da mãe, matam-no com ela assistindo e pagam por sua dor com uma moeda de prata? Quando a tradução lhe chegou, Kraznys mo Nakloz soltou uma sonora gargalhada. - Que idiota chorona e molenga esta aí é. Diga à puta de Westeros que o marco é para o dono da criança, não para a mãe. Os Imaculados não estão autorizados a roubar. - Bateu com o chicote na perna. - Diga-lhe que são poucos os que falham nesse teste. Os cães são mais difíceis para eles, na verdade. Damos um cachorro a cada garoto no dia em que é cortado. Ao fim do primeiro ano, ele deve estrangulá-lo. Todos os que não conseguem fazer isso são mortos e dados de comer aos cães sobreviventes. Achamos que isso serve como uma boa e forte lição. Arstan Barba-Branca batucou com a ponta de seu bastão nos tijolos enquanto ouvia aquilo. Tap tap tap. Lenta e regularmente. Tap tap tap. Dany viu-o afastar os olhos, como se não conseguisse olhar mais para Kraznys.&lt;br /&gt;
- O Bom Mestre disse que esses eunucos não podem ser tentados com moedas ou carne - disse Dany à garota mas se algum inimigo meu lhes oferecesse a liberdade por me traírem... - Eles iriam matá-lo imediatamente e trariam-lhe a cabeça, diga-lhe isso - respondeu o feitor. - Outros escravos podem roubar e guardar prata em segredo na esperança de comprar a liberdade, mas um Imaculado não a aceitaria se a eguazinha a oferecesse de presente. Não têm vida fora de seu dever. São soldados, e só. - E de soldados que preciso - admitiu Dany. - Diga-lhe que, nesse caso, fez bem em vir a Astapor. Pergunte-lhe qual é o tamanho do exército que deseja comprar. - Quantos Imaculados tem para vender? - Oito mil completamente treinados e disponíveis de imediato. Ela deve saber que só os vendemos em larga escala. Em milhares ou centenas. Antes os vendíamos em dezenas, para guardas domésticos, mas isso revelou-se um erro. Dez são poucos demais. Misturam-se com os outros escravos, e até com homens livres e esquecem-se de quem e do que são. — Kraznys esperou que aquilo fosse transmitido no Idioma Comum e depois prosseguiu. - Essa rainha pedinte precisa compreender que tais maravilhas não saem baratas. Em Yunkai e Meereen, espadachins escravos podem ser obtidos por menos do que o preço de suas espadas, mas os Imaculados são a melhor infantaria do mundo inteiro, e cada um deles representa muitos anos de treino. Diga-lhe que eles são como aço valiriano, dobrados uma e mais uma vez e martelados anos a fio, até ficarem mais fortes e resistentes do que qualquer metal da Terra. - Eu conheço o aço valiriano - disse Dany. - Pergunte ao Bom Mestre se os Imaculados têm seus próprios oficiais. - Precisa pôr seus oficiais à frente deles. Nós os treinamos para obedecer, não para pensar. Se é inteligência que ela quer, que compre escribas. - E o equipamento? - Espada, escudo, lança, sandálias e túnica acolchoada estão incluídos - disse Kraznys. - E os capacetes de espigão, com certeza. Eles usarão qualquer armadura que você queira, mas quem vai fornecê-la é você, Dany não conseguia pensar em mais perguntas. Olhou para Arstan. - Viveu longo tempo no mundo, Barba-Branca. Agora que já os viu, o que diz? - Digo que não, Vossa Graça - o velho respondeu de imediato. - Por quê? - perguntou ela. - Fale livremente, - Dany julgava saber o que ele diria, mas queria que a menina escrava o escutasse, para que Kraznys mo Nakloz ouvisse depois.&lt;br /&gt;
- Minha rainha - disse Arstan -, não há escravos nos Sete Reinos há milhares de anos. Tanto os velhos deuses como os novos consideram a escravidão uma abomínação. Maligna. Se desembarcar em Westeros à frente de um exército de escravos, muitos bons homens irão se opor a você por nenhum outro motivo além desse. Causará grande dano à sua causa e à honra de sua Casa. - E, no entanto, preciso ter algum exército - disse Dany. - O rapaz Joffrey não me dará o Trono de Ferro se eu pedir educadamente. - Quando chegar o dia de içar os estandartes, metade de Westeros estará com a senhora - prometeu Barba-Branca. - Seu irmão Rhaegar ainda é lembrado com grande amor. - E meu pai? - perguntou Dany. O velho hesitou antes de dizer: - O Rei Aerys também é recordado. Deu ao reino muitos anos de paz. Vossa Graça não tem necessidade de escravos. O Magíster Illyrio pode mantê-la a salvo enquanto seus dragões crescem e pode mandar enviados secretos para o outro lado do mar estreito em seu nome, para sondar os grandes senhores a respeito de sua causa, - Esses mesmos grandes senhores que abandonaram o meu pai em favor do Regicida e se curvaram a Robert, o Usurpador? - Mesmo aqueles que dobraram os joelhos podem ansiar no seu íntimo pelo retorno dos dragões. - Podem - disse Dany. Podem era uma palavra tão escorregadia! Em qualquer língua. Virou-se para Kraznys mo Nakloz e para sua pequena escrava. - Tenho de refletir cuidadosamente. O negociante de escravos encolheu os ombros. - Diga-lhe para refletir depressa» Há muitos outros compradores. Não há mais de três dias mostrei estes mesmos Imaculados a um rei corsário que espera comprar todos eles. - O corsário só queria cem, excelência - Dany ouviu a pequena escrava dizer. Ele cutucou-a com a ponta do chicote, - Os corsários são todos mentirosos. Ele vai comprar todos. Diga-lhe isso, garota. Dany sabia que levaria mais de cem, se chegasse a levar algum. - Lembre ao Bom Mestre quem eu sou. Lembre-lhe de que sou Daenerys Nascida na Tormenta, Mãe de Dragões, a Não Queimada, legítima rainha dos Sete Reinos de Westeros. Meu sangue é o sangue de Aegon, o Conquistador, e da antiga Valíria antes dele. Mas suas palavras não tocaram o rotundo e perfumado negociante de escravos, mesmo depois de transmitidas em sua feia língua. - A antiga Ghis dominava um império quando os valirianos ainda andavam fedendo ovelhas - rosnou para a pobre pequena escriba - e nós&lt;br /&gt;
somos os filhos da harpia. - Encolheu os ombros. - Tagarelar com mulheres é um desperdício. No leste ou no oeste são todas iguais, são incapazes de decidir até terem sido paparicadas, aduladas e empanturradas de docinhos. Bom, se é esse o meu destino, que seja. Diga à rameira que se quiser um guia para a nossa bela cidade, Kraznys mo Nakloz está a seu serviço... e também pode lhe prestar outros serviços, se for mais mulher do que parece. - O Bom Mestre Kraznys terá todo o gosto em mostrar-lhe Astapor enquanto a senhora reflete, Vossa Graça - disse a tradutora. - Dou-lhe geleia de miolos de cão, um belo e rico guisado de polvo vermelho e feto de cão para comer. - Passou a língua pelos lábios, - Ele diz que aqui é possível provar muitos pratos deliciosos, - Diga-lhe como as pirâmides são bonitas à noite - rosnou o negociante de escravos, - Diga-lhe que lamberei mel dos peitos dela, ou deixarei que lamba mel dos meus, se preferir. - Astapor é muito bela ao pôr do sol, Vossa Graça - disse a pequena escrava. - Os Bons Mestres acendem lanternas de seda em todos os terraços, para que todas as pirâmides brilhem com luzes coloridas. Barcaças do prazer percorrem o Verme, cheias de música suave e acostando nas pequenas ilhas para oferecer comida, vinho e outras delícias. - Pergunte se ela quer ver as nossas arenas de luta - acrescentou Kraznys. - A Arena de Douquor tem um bom espetáculo marcado para esta noite. Um urso e três garoti- nhos. Um menino será besuntado de mel, outro de sangue e outro de peixe podre, e ela pode apostar qual deles o urso comerá primeiro. Tap tap tap, ouviu Dany. O rosto de Arstan Barba-Branca estava imóvel, mas seu bastão demonstrava a ira que sentia. Tap tap tap. Obrigou-se a sorrir, - Tenho meu próprio urso na Balerion - disse à tradutora - e pode bem me comer se não voltar para junto dele. - Está vendo - disse Kraznys quando as palavras de Dany foram traduzidas, - Não é a mulher que decide, é este homem para quem corre, Como sempre! - Agradeça ao Bom Mestre por sua paciente gentileza - disse Dany - e diga-lhe que pensarei em tudo que aprendi aqui. - Ofereceu o braço a Arstan Barba-Branca, para que o velho escudeiro a levasse através da praça até a liteira, Aggo e Jhogo rodearam-nos, caminhando com o gingar de pernas arqueadas que todos os senhores dos cavalos ado- tavam quando eram forçados a desmontar e caminhar pela terra como simples mortais. Dany subiu na sua Iiteira com a expressão carregada e fez sinal a Arstan para que subisse também. Um homem tão velho como ele não devia&lt;br /&gt;
andar a pé num calor tão forte. Não fechou as cortinas quando se puseram em movimento. Com o sol castigando tão duramente aquela cidade de tijolos vermelhos, qualquer brisa perdida era algo a ser apreciado, mesmo se viesse acompanhada de um redemoinho de fina poeira vermelha. Além disso, tenho de ver. Astapor era uma cidade estranha, mesmo aos olhos de alguém que tinha andado pela Casa de Poeira e se banhado no Ventre do Mundo à sombra da Mãe das Montanhas. Todas as ruas eram feitas dos mesmos tijolos vermelhos que pavimentavam a praça. E o mesmo material construíra as pirâmides de degraus, as profundamente escavadas arenas de luta - com suas arquibancadas em forma de anéis descendentes -, as fontes sulfurosas e as sombrias adegas, e as antigas muralhas que os cercavam. Tantos tijolos, pensou, e tão velhos e desgastados. A fina poeira que soltavam encontrava-se por toda a parte, dançando pelas valetas a cada sopro de vento. Pouco admirava que tantas mulheres de Astapor velassem o rosto, a poeira de tijolo pinicava mais nos olhos do que a areia, - Abram alas! - gritava Jhogo, do cavalo à frente da Iiteira. - Abram alas para a Mãe de Dragões! - Mas quando desenrolou o grande chicote de cabo de prata que ela lhe dera e o fez estalar no ar, Dany debruçou-se para fora e disse-lhe que não. - Neste lugar, não, sangue do meu sangue - disse, na língua dele. - Estes tijolos ouviram o som de chicotes mais do que deveriam. As ruas tinham estado praticamente desertas quando saíram do porto naquela manhã, e não pareciam muito mais povoadas agora. Um elefante passou pesadamente por eles, com uma Iiteira gradeada sobre o dorso. Um garoto nu com a pele descascando estava sentado numa valeta de tijolo seca, com o dedo enfiado no nariz e olhando, carran- cudo, para um grupo de formigas que caminhavam pela rua. Ergueu a cabeça ao ouvir o ruído de cascos e ficou olhando de boca aberta quando uma coluna de guardas a cavalo passou por ele a trote, numa nuvem de poeira vermelha e gargalhadas quebradiças. Os discos de cobre cosidos aos seus mantos de seda amarela cintilavam como outros tantos sóis, mas suas túnicas eram de linho bordado, e abaixo da cintura usavam sandálias e saias de linho plissadas. De cabeça nua, cada homem tinha penteado, untado e retorcido seus rígidos cabelos vermelhos e negros, dando-lhes uma forma fantástica qualquer, cornos, asas e lâminas, e até mãos dadas, de modo que pareciam uma trupe de demônios fugida do sétimo inferno, O garoto nu observou-os por um tempo, tal como Dany, mas eles rapidamente desapareceram, e o menino voltou às suas formigas, com um dedo no nariz. Esta é uma cidade antiga, refletiu, mas não tão populosa quanto foi no seu apogeu, nem de perto tão povoada quanto Qarth, Pentos ou Lys.&lt;br /&gt;
A Iiteira parou subitamente num cruzamento, para permitir que um comboio de escravos passasse à sua frente, arrastando os pés, incentivado a avançar pelo estalar do chicote de um capataz. Aqueles não eram Imaculados, reparou Dany, mas homens de um tipo mais comum, com pele parda clara e cabelos castanhos. Havia mulheres entre eles, mas crianças não. Estavam todos nus. Dois astapori vinham atrás dos escravos, montados em burros brancos, um homem com um tokar de seda vermelha e uma mulher com véu, vestida de fino linho azul, decorado com lascas de lápis-lazúli. Em seus cabelos vermelhos e negros trazia um pente de marfim. O homem ria enquanto lhe segredava alguma coisa, sem prestar mais atenção em Dany do que em seus escravos ou no capataz com o chicote retorcido de cinco pontas, um dothraki grande e atarracado que tinha a harpia e as correntes orgulhosamente tatuadas em seu peito musculoso. - Tijolos e sangue construíram Astapor - murmurou o Barba-Branca ao seu lado - e tijolos e sangue construíram o seu povo. - O que é isso? - perguntou-lhe Dany, curiosa. - Uns versos antigos que um meistre me ensinou, quando eu era garoto. Nunca soube como eram verdadeiros. Os tijolos de Astapor são vermelhos do sangue dos escravos que os fizeram. - Consigo acreditar nisso perfeitamente - disse Dany. - Então abandone este lugar antes que seu coração também se transforme em um tijolo. Zarpe hoje mesmo, na maré da noite. Bem que gostaria de poder fazê-lo, pensou Dany. - Sor Jorah diz que quando eu deixar Astapor, deverá ser com um exército. - O próprio Sor Jorah foi um comerciante de escravos, Vossa Graça - recordou-lhe o velho. - Há mercenários em Pentos, Myr e Tyrosh que você pode contratar. Um homem que mata por dinheiro não tem honra, mas pelo menos não é escravo. Encontre lá o seu exército, suplico à senhora, - Meu irmão visitou Pentos, Myr, Bravos, quase todas as Cidades Livres. Os magíste- res e arcontes alimentaram-no com vinho e promessas, mas mataram sua alma de fome. Um homem não pode jantar da tigela de pedinte a vida toda e continuar a ser homem. Eu experimentei isso em Qarth e foi o bastante. Não voltarei a Pentos de tigela na mão. - Antes chegar como pedinte do que como senhora de escravos - disse Arstan. - Fala alguém que não foi nenhum dos dois. - As narinas de Dany dilataram-se. - Sabe o que é ser vendido, escudeiro? Eu sei. Meu irmão vendeu-me a Khal Drogo em troca da promessa de uma coroa dourada. Bem, Drogo coroou-o de ouro, embora não da maneira que ele havia&lt;br /&gt;
desejado, e eu... o meu sol e estrelas fez de mim uma rainha, mas se tivesse sido um homem diferente, as coisas poderiam ter acontecido de uma forma totalmente distinta. Acha que me esqueci de como é ter medo? Barba-Branca inclinou a cabeça. - Vossa Graça, não pretendi ofendê-la, - Só as mentiras me ofendem, nunca os conselhos honestos. - Dany deu uma palma- dinha na mão manchada de Arstan para sossegá-lo. - Tenho um gênio de dragão, é só • isso. Não pode permitir que ele o atemorize. - Tentarei me lembrar disso - Barba-Branca sorriu. Ele tem rosto gentil e uma grande força, pensou Dany. Não conseguia compreender por que Sor Jorah desconfiava tanto do velho. Poderá sentir ciúmes por eu ter encontrado outro homem com quem conversar? Sem pedir licença, seus pensamentos voltaram àquela noite, no Balerion, em que o cavaleiro exilado a beijara. Ele nunca devia ter feito aquilo. JÉ três vezes mais velho do que eu, e de um nascimento baixo demais para mim, e não lhe dei permissão, Nenhum verdadeiro cavaleiro beijaria uma rainha sem a sua permissão. Depois daquela noite, tinha tomado cuidado para nunca ficar sozinha com Sor Jorah, mantendo as aias consigo a bordo do navio, e às vezes também os companheiros de sangue. Ele deseja me beijar de novo, vejo em seus olhos. Dany nem era capaz de começar a expressar aquilo que desejava, mas o beijo de Jorah tinha acordado alguma coisa dentro dela, algo que estivera adormecido desde a morte de Khal Drogo. Deitada em seu estreito beliche, dava por si perguntando-se sobre como seria ter um homem ao seu lado em vez de sua aia, e a idéia era mais excitante do que deveria ser. As vezes fechava os olhos e sonhava com ele, mas nunca era com Jorah Mormont que sonhava; seu amante era sempre mais jovem e mais belo, embora o rosto de Sor Jorah nunca deixasse de surgir, como uma sombra em constante mutação. Uma noite, tão atormentada que não conseguia dormir, Dany enfiou uma mão entre as pernas e ficou sobressaltada quando verificou quão molhada se encontrava. Quase sem se atrever a respirar, moveu os dedos para a frente e para trás entre seus lábios inferiores, lentamente para não acordar Irri, que dormia ao seu lado, até que encontrou um local especial e se demorou ali, tocando-se levemente, a princípio com timidez, mas depois mais depressa. Mesmo assim o alívio que desejava parecia afastar-se à sua frente, até que os dragões se agitaram e um deles soltou um grito na cabine, e Irri acordou e compreendeu o que ela estava fazendo.&lt;br /&gt;
Dany sabia que seu rosto estava corado, mas na escuridão Irri certamente não conseguiria ver. Sem uma palavra, a aia pôs uma mão num seio dela e depois debruçou-se para tomar um mamilo na boca. A outra mão deslocou-se ao longo da suave curva da sua barriga, através do montículo de finos pelos prateados, e começou a trabalhar entre as coxas de Dany. Não passaram mais do que alguns momentos antes que as suas pernas se contorcessem, seus seios se elevassem e todo o seu corpo estremecesse. Então gritou. Ou talvez tivesse sido Drogon. Irri não chegou a dizer nada, limitou-se a enrolar-se e a voltar ao sono no momento em que o ato foi concluído. No dia seguinte, tudo aquilo tinha parecido um sonho, E o que tinha Sor Jorah a ver com o assunto? E Drogo que eu desejo, o meu sol e estrelas, recordou Dany a si mesma. Não Irri, e não Sor Jorah, apenas Drogo. Mas Drogo estava morto. Julgara que aqueles sentimentos tivessem morrido com ele, ali no deserto vermelho, mas um beijo traiçoeiro os havia trazido de volta à vida sem que ela soubesse como. Ele nunca devia ter me beijado. Ousou demais, e eu deixei. Não pode nunca voltar a acontecer. Fez uma expressão sombria com a boca e sacudiu a cabeça, e a sineta em sua trança tilintou suavemente. Mais perto da baía, a cidade apresentava uma aparência mais agradável. As grandes pirâmides de tijolo margeavam a costa, a maior tinha cento e vinte metros de altura. Todo tipo de árvores, trepadeiras e flores cresciam em seus largos terraços, e os ventos que rodopiavam em volta delas cheiravam a verde e a perfume. Outra harpia gigantesca erguia-se sobre o portão, esta era feita de argila vermelha cozida, e visivelmente se desfazia, não lhe restando mais do que um toco onde antes estivera a cauda de escorpião. A corrente que segurava com as garras de barro era ferro-velho, repleto de ferrugem. Mas, perto da água, estava mais fresco. O bater das ondas contra os pilares corroídos produzia um som curiosamente calmante. Aggo ajudou Dany a descer da Iiteira. Belwas, o Forte, estava sentado num alto pilar, comendo um grande pedaço de carne assada. - Cachorro - disse ele em tom alegre quando viu Dany. - Bom cachorro em Astapor, pequena rainha. Comer? - ofereceu com um sorriso gorduroso. - É gentil de sua parte, Belwas, mas não. - Dany tinha comido cachorro em outros lugares, em outros tempos, mas naquele momento tudo em que conseguia pensar era nos Imaculados e em seus estúpidos filhotes. Passou rapidamente pelo enorme eunuco e subiu a prancha até o convés do Balerion. Sor Jorah Mormont estava à sua espera. - Vossa Graça - disse, baixando a cabeça. - Os feitores vieram e foram embora. Três, com uma dúzia de escribas e outros tantos escravos para&lt;br /&gt;
os transportes. Percorreram cada centímetro de nossos porões e tomaram nota de tudo que possuímos. - Acompanhou-a até o fundo. - Quantos homens eles têm à venda? - Nenhum. - Seria com Mormont que estava zangada, ou com aquela cidade e o seu obstinado calor, seus fedores, suores e tijolos em ruína? - Vendem eunucos, não homens. Eunucos feitos de tijolo, como o resto de Astapor. Devo comprar oito mil eunucos de tijolo com olhos mortos que nunca se movem, que matam bebês de peito por causa de um chapéu com um espigão e estrangulam os próprios cães? Nem sequer têm nomes. Portanto não os chame de homens, sor. - Khaleesi - disse ele, surpreendido com a sua fúria -, os Imaculados são escolhidos ainda garotos e treinados... -Já ouvi tudo que quero ouvir a respeito do tremo. - Dany sentiu lágrimas jorrando de seus olhos, súbitas e indesejadas. Sua mão saltou e atingiu com força o rosto de Sor Jorah. Era isso ou gritar. Mormont tocou a bochecha que ela havia estapeado. - Se desagradei à minha rainha... - Desagradou. Desagradou-me muito, sor. Se fosse meu cavaleiro leal, nunca teria me trazido a esta vil pocilga. - Se fosse meu leal cavaleiro, nunca teria me beijado, ou olhado meus seios como fez, ou... - Às ordens de Vossa Graça. Direi ao Capitão Groleo que se prepare para zarpar na maré da noite, rumo a uma pocilga menos vil. - Não - disse Dany. Groleo observava-os do castelo de proa, e sua tripulação também assistia. Barba-Branca, seus companheiros de sangue, Jhiqui, todos tinham parado o que estavam fazendo ao ouvir a bofetada. - Quero zarpar agora, e não na maré, quero navegar para longe e depressa e não olhar para trás. Mas não posso, não é? Há oito mil eunucos de tijolo à venda, e tenho que arranjar uma maneira de comprá-los. - E com aquilo o deixou e foi para baixo. Atrás da porta de madeira esculpida da cabine do capitão, seus dragões estavam inquietos. Drogon ergueu a cabeça e soltou um grito, com fumaça clara saindo de suas narinas, e Viserion voou para ela e tentou se empoleirar em seu ombro, como fazia quando era menor. - Não - disse Dany, tentando afastá-lo com suavidade. - Agora é grande demais para isso, querido. - Mas o dragão enrolou a sua cauda branca e dourada em volta de um braço e enterrou garras negras no tecido de sua manga, agarrando-se bem. Impotente, Dany afundou-se na grande cadeira de couro de Groleo, aos risinhos - Estiveram agitados enquanto esteve fora, khaleesi - disse-lhe Irri. - Viserion arrancou lascas da porta com as garras, vê? E Drogon tentou escapar quando os feitores vieram vê-los. Quando agarrei sua cauda para detê-lo, ele se virou e me mordeu. - Mostrou aDanv as marcas dos dentes do dragão em sua mão.&lt;br /&gt;
- Algum deles tentou libertar-se pelo fogo? - isso era o que mais assustava Dany. - Não, khaleesi. Drogon soltou seu fogo, mas para o ar. Os negociantes de escravos tiveram medo de se aproximar dele. Beijou a mão de Irri no local onde Drogon a mordera. - Sinto muito que ele a tenha machucado. Os dragões não foram feitos para ficar trancados numa pequena cabine de navio. - Nisso, os dragões são como os cavalos - disse Irri. - E também como os cavaleiros. Os cavalos relincham lá embaixo, khaleesi, e dão coices nas paredes de madeira. Eu ouço. E Jhiqui diz que as velhas e os pequenos também gritam quando não está aqui. Não gostam desta carroça de água. Não gostam do negro mar salgado. - Eu sei - disse Dany. - Sei mesmo. - A minha khaleesi está triste? - Sim - admitiu Dany. Triste e perdida. - Deverei dar prazer à khaleesi? Dany afastou-se dela. - Não. Irri, não precisa fazer isso, O que aconteceu naquela noite, quando você acordou... não é escrava de cama, eu libertei-a, lembra? Você... - Sou aia da Mãe de Dragões - disse a moça. - E uma grande honra dar prazer à minha khaleesi. - Eu não quero - insistiu Dany. - Não quero. - Virou-se num movimento brusco. - Agora deixe-me. Quero ficar sozinha. Para pensar. A escuridão tinha começado a cair sobre as águas da Baía dos Escravos quando Dany voltou ao convés. Parou junto à amurada e olhou para Astapor. Daqui parece quase bela, pensou. As estrelas estavam aparecendo, no céu, e as lanternas de seda também, na terra, tal como a tradutora de Kraznys prometera. As pirâmides de tijolo tremeluziam com a luz. Mas embaixo está escuro, nas ruas, praças e arenas de luta. E onde a escuridão é maior é nas casernas, onde algum garotinho está dando restos de comida a um cachorro que lhe deram quando roubaram sua virilidade. Houve um passo suave atrás dela. - Khaleesi. - A voz dele. - Posso falar com franqueza? Dany não se virou. Não conseguia suportar olhá-lo naquele momento, Se o fizesse, poderia voltar a estapeá-lo. Ou chorar. Ou beijá-lo. E não chegar a saber o que era certo, o que era errado e o que era uma loucura. - Diga o que quiser, sor. - Quando Aegon, o Dragão, pisou na costa de Westeros, os Reis do Vale, do Rochedo e da Campina não correram para lhe entregar suas coroas. Se quer se sentar no seu Trono de Ferro, terá de conquistá-lo, tal&lt;br /&gt;
como ele fez, com aço e fogo de dragão. E isso significa ter sangue nas mãos antes de tudo acabar. Sangue c jogo, pensou Dany. As palavras da Casa Targaryen. Conhecera-as por toda a vida, - Derramarei com satisfação o sangue de meus inimigos. O sangue de inocentes é outra coisa, Querem me oferecer oito mil Imaculados. Oito mil bebês mortos. Oito mil cães estrangulados. - Vossa Graça - disse Jorah Mormont -, eu vi Porto Real depois do Saque. Também foram massacrados bebês nesse dia, e também velhos e crianças que brincavam. Foram violadas mais mulheres do que é possível contar. Há um animal selvagem em todos os homens, e quando se dá a esse homem uma espada ou uma lança e esse homem é enviado para a guerra, o animal acorda. O cheiro de sangue é o suficiente para acordá-lo. Mas nunca ouvi dizer que esses Imaculados tivessem violado, ou dizimado uma cidade com a espada, ou sequer saqueado, exceto por ordem expressa daqueles que os lideravam. Até podem ser de tijolo, como diz, mas se os comprar, daqui em diante os únicos cães que matarão serão aqueles que a senhora quiser mortos. E, se bem me lembro, a senhora tem alguns cães que quer ver mortos. Os cães do Usurpador. - Sim. - Dany fitou as suaves luzes coloridas e permitiu que a fresca brisa salgada a acariciasse. - Fala de saquear cidades. Responda-me uma coisa, sor: por que os dothra- ki nunca saquearam esta cidade? - apontou. - Olhe para as muralhas. E possível ver onde já começaram a ruir. Ali e ali. Vê algum guarda naquelas torres? Eu não. Estarão escondidos, sor? Vi hoje esses filhos da harpia, todos os seus orgulhosos guerreiros de alto nascimento. Vestem-se com saia de linho, e a coisa mais feroz neles era os cabelos. Até um khalasar modesto conseguiria rachar esta Astapor como uma noz e derramar seu conteúdo podre. Diga-me, portanto, por que é que aquela feia harpia não está às margens do caminho dos deuses em Vaes Dothrak entre os outros deuses roubados? - Possui um olho de dragão, khaleesi, vê-se isso claramente. - Quero uma resposta, não um elogio. - Há dois motivos. Os bravos defensores de Astapor não passam de palha, isso é verdade. Nomes antigos e bolsas gordas que se vestem com açoites ghiscari para fingir que ainda dominam um vasto império. Todos eles são oficiais de elevada patente. Nos dias de festa travam guerras de mentira nas arenas, para demonstrar como são brilhantes comandantes, mas são os eunucos que morrem. Da mesma forma, qualquer inimigo que quisesse saquear Astapor teria de saber que defrontaria Imaculados. Os senhores de escravos colocariam a&lt;br /&gt;
guarnição inteira a serviço da defesa da cidade. Os dothraki não atacam Imaculados desde que deixaram as tranças aos portões de Qohor. - E o segundo motivo? - Quem atacaria Astapor? - perguntou Sor Jorah. - Meereen e Yunkai são rivais mas não inimigos, a Perdição destruiu Valíria, o povo do interior, para oriente, é todo ghiscari, e para lá dos montes fica Lhazar. Os Homens-Ovelhas, como os seus dothraki os chamam, são um povo notavelmente avesso à guerra. - Sim - concordou ela mas a norte das cidades dos negociantes de escravos fica o mar dothraki, e duas dúzias de poderosos khal que apreciam mais do que qualquer coisa saquear cidades e levar seus povos como escravos. - Levá-los para onde? De que servem os escravos depois de se matar seus negociantes? Valíria já não existe, Qarth fica do outro lado do deserto vermelho, e as Nove Cidades Livres estão a milhares de léguas para oeste. E pode estar certa de que os filhos da harpia são pródigos nas ofertas a qualquer khal que por aqui passe, tal como fazem os magísteres em Pentos, Norvos e Myr. Sabem que se banquetearem os senhores dos cavalos e lhes derem presentes, eles em breve partirão. É mais barato do que lutar, e bastante mais seguro. Mais barato do que lutar, pensou Dany. Sim, talvez seja. Se ao menos pudesse ser assim tão fácil para ela, Como seria agradável velejar até Porto Real com seus dragões e pagar ao rapaz Joffrey uma arca de ouro para fazer com que fosse embora. - Khaleesi? - disse Sor Jorah depois de ela ficar em silêncio durante muito tempo. Tocou ligeiramente o cotovelo dela. Dany afastou-o, e disse: - Viserys teria comprado todos os Imaculados que tivesse dinheiro para isso, Mas você certa vez disse que eu era como Rhaegar... - Lembro-me disso, Daenerys. - Vossa Graça - corrigiu ela. - O Príncipe Rhaegar levou homens livres para a batalha, não escravos. Barba-Branca disse que foi o próprio quem armou os escudeiros cavaleiros e também armou muitos outros homens. - Não havia honra maior do que receber o grau de cavaleiro das mãos do Príncipe de Pedra do Dragão. - Então diga-me: quando ele tocava um homem no ombro com a espada, o que dizia? &quot;Vá e mate os fracos&quot;? Ou &quot;Vá e defenda-os&quot;? No Tridente, esses homens corajosos de que Viserys falou e que morreram sob os nossos estandartes do dragão... deram a vida porque acreditavam na causa de Rhaegar, ou porque tinham sido comprados e pagos? - Dany virou-se para Mormont, cruzou os braços e esperou por uma resposta.&lt;br /&gt;
- Minha rainha - disse lentamente o forte homem -, tudo que diz é verdade. Mas Rhaegar perdeu no Tridente. Perdeu a batalha, perdeu a guerra, perdeu o reino e perdeu a vida. Seu sangue escorreu rio abaixo com os rubis de sua placa de peito, e Robert, o Usurpador, cavalgou por cima de seu cadáver para roubar o Trono de Ferro. Rhaegar lutou valentemente, Rhaegar lutou com nobreza, lutou com honra. E Rhaegar morreu.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/4960309001422107507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/dany.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/4960309001422107507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/4960309001422107507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/dany.html' title='Dany'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-6908905127324388451</id><published>2014-01-01T08:35:00.001-08:00</published><updated>2014-01-01T08:35:19.714-08:00</updated><title type='text'>Arya</title><content type='html'>A pequena fortaleza quadrada estava meio arruinada, e o mesmo acontecia ao grande cavaleiro grisalho que lá vivia, Era tão velho que não compreendia as perguntas que lhe faziam, Não importava o que lhe dissessem, limitava-se a sorrir e a murmurar: - Eu defendi a ponte contra Sor Maynard. Ele tinha cabelos vermelhos e um humor negro, mas não conseguiu me afastar. Fui ferido seis vezes antes de matá-lo. Seis! O meistre que cuidava dele era um jovem, felizmente. Depois de o velho cavaleiro ter adormecido em sua cadeira, ele chamou-os para um canto e disse: - Temo que procure um fantasma. Chegou-nos uma ave, há séculos, pelo menos meio ano. Os Lannister capturaram Lorde Beric perto do Olho de Deus. Foi enforcado. - Sim, enforcado foi, mas Thoros cortou sua corda antes de morrer. - O nariz quebrado de Limo já não estava tão vermelho e inchado como algum tempo antes, mas estava sarando torto, dando ao seu rosto um aspecto assimétrico. - Sua senhoria é um homem difícil de matar, ah, se é. - E um homem difícil de achar, ao que parece - disse o meistre. - Já perguntou à Senhora das Folhas? - Perguntaremos - disse o Barba-Verde. Na manhã seguinte, ao atravessarem a pequena ponte de pedra que havia por trás da fortaleza, Gendry perguntou se aquela seria a ponte pela qual o velho tinha lutado. Ninguém sabia. - E o mais provável - disse Jack Sortudo. - Não vejo nenhuma outra ponte. - Se houvesse uma canção, saberíamos com certeza - disse Tom Sete-Cordas. - Com uma boa canção saberíamos quem era Sor Maynard e por que ele queria tanto atravessar esta ponte. O pobre velho Lychester podia ser tão afamado quanto o Cavaleiro do Dragão, se ao menos tivesse tido o bom senso de manter um cantor. - Os filhos de Lorde Lychester morreram na rebelião de Robert - resmungou Limo. - Alguns de um lado, outros do outro. Desde então, não anda bom da cabeça. Nenhum diabo de canção ia mudar isso. - O que o meistre quis dizer quanto a perguntar à Senhora das Folhas? - perguntou Arya a Anguy enquanto avançavam. O arqueiro sorriu.&lt;br /&gt;
- Espere e verá. Três dias mais tarde, ao atravessarem um bosque amarelo, Jack Sortudo desprendeu o berrante e soprou um aviso, diferente daqueles que fizera soar antes. Os sons mal haviam se extinguido quando escadas de corda caíram, desenrolando-se, dos galhos das árvores. - Amarrem os cavalos e lá vamos nós - disse Tom, semientoando as palavras. Subiram até uma aldeia escondida nos ramos mais elevados, um labirinto de passadiços de corda e pequenas casas cobertas de musgo, escondidas atrás de paredes vermelhas e douradas, e foram levados à Senhora das Folhas, uma mulher magra como um espeto, de cabelos brancos, vestida de tecido grosseiro. - Não podemos ficar aqui muito mais tempo, pois o outono está chegando - disse-lhes ela. - Há nove dias, uma dúzia de lobos andou caçando pela estrada de Vaufeno. Se tivessem por acaso olhado para cima, poderiam ter nos visto. - Não viu Lorde Beric? - perguntou Tom Sete-Cordas. - Está morto. - A mulher parecia desgostosa. - A Montanha pegou-o, e enfiou um punhal num olho dele. Foi um irmão mendicante que nos contou. Ele ouviu isso dos lábios de um homem que viu tudo. - Essa história é velha, rançosa e falsa - disse Limo. - O senhor do relâmpago não é assim tão fácil de matar. Sor Gregor pode ter tirado um de seus olhos, mas um homem não morre disso. Jack poderia contar. - Bem, eu não morri - disse o zarolho Jack Sortudo. - Meu pai arranjou uma maneira de ser bem enforcadinho pelo meirinho de Lorde Piper, meu irmão Wat foi mandado pra Muralha, e os Lannister mataram meus outros irmãos. Um olho não é nada. - Jura que ele não está morto? - a mulher agarrou o braço de Limo. - Abençoado seja, Limo, essa é a melhor novidade que ouvi em meio ano. Que o Guerreiro o proteja, e o sacerdote vermelho também. Na noite seguinte encontraram abrigo dentro do esqueleto carbonizado de um septo, numa aldeia queimada chamada Brotadança. Só restavam estilhaços de suas janelas de vitral, e o idoso septão que os acolheu disse que os saqueadores tinham até levado as caras vestes da Mãe, a lanterna dourada da Velha e a coroa de prata que o Pai usava. - Também cortaram os seios da Donzela, embora fossem só de madeira - disse-lhes. - E os olhos, os olhos eram de jade, lápis-lazúli e madrepérola, arrancaram-nos com as facas. Que a Mãe tenha piedade de todos eles. - Isso foi obra de quem? - perguntou Limo Manto Limão, - Saltimbancos? - Não - respondeu o velho. - Eram nortenhos. Selvagens que adoram árvores. Disseram que procuravam o Regicida.&lt;br /&gt;
Arya ouviu-o e mordeu o lábio. Sentiu Gendry observá-la. Isso a deixou zangada e envergonhada. Havia uma dúzia de homens vivendo nas galerias por baixo do septo, por entre teias de aranha, raízes e barris de vinho quebrados, mas também não tinham notícia de Beric Dondarrion. Nem mesmo o chefe, que usava uma armadura enegrecida pela fuligem e um tosco relâmpago no manto. Quando Barba-Verde viu Arya a fitá-lo, riu e disse: - O senhor do relâmpago está em todo lado e em lado algum, esquilo magricela. - Não sou um esquilo - disse ela. - Vou ser quase uma mulher em breve. Vou fazer onze anos. - Então é melhor ter cuidado para que eu não me case com você! - tentou fazer cócegas nela sob o queixo, mas Arya afastou sua estúpida mão com uma pancada. Naquela noite, Limo e Gendry jogaram dominó com seus anfitriões, enquanto Tom Sete-Cordas cantava uma canção boba sobre Ben Barrigudo e o ganso do Alto Septão. Anguy deixou Arya experimentar o arco, mas por mais que ela mordesse o lábio, não conseguia puxá-lo. - Precisa de um arco mais leve, senhora - disse o arqueiro sardento. - Se houver madeira seca em Correrrio, talvez faça um para você. Tom ouviu-o e interrompeu a canção. - É um imbecil, Arqueiro. Se formos a Correrrio, será só para recolher o resgate dela, não vai haver tempo para andar por lá fazendo arcos. Fique contente se sair com o couro inteiro. Lorde Hoster já enforcava homens fora da lei quando você ainda nem se barbeava. E aquele filho dele... eu sempre digo que um homem que odeia música não é de confiança. - Não é música que ele odeia - disse Limo. - E você, palerma. - Bem, não tem motivo para isso. A garota estava disposta a fazer dele um homem, será culpa minha que tenha bebido demais para tratar do assunto? Limo fungou através de seu nariz quebrado. - Foi você quem fez uma canção sobre isso, ou terá sido outro burro qualquer apaixonado pela própria voz? - Só a cantei daquela vez - protestou Tom. - E quem disse que a canção era sobre ele? Era sobre um peixe. - Um peixe murcho - disse Anguy, rindo. Arya não queria saber sobre o que eram as estúpidas canções de Tom. Virou-se para Harwin. - O que ele quis dizer com aquilo do resgate? - Temos uma grande falta de cavalos, senhora. E também de armaduras. Espadas, escudos, lanças. Tudo aquilo que as moedas podem comprar. Sim, e sementes para plantar. O inverno está&lt;br /&gt;
chegando, lembra? - tocou-lhe sob o queixo. - Não será a primeira cativa de elevado nascimento que resgatamos. Nem a última, espero eu. Arya sabia que aquilo era verdade. Os cavaleiros andavam sempre sendo capturados e resgatados, e às vezes as mulheres também. Mas e se Robb não quiser pagar o preço deles? Ela não era nenhum cavaleiro famoso, e era de esperar que os reis colocassem o reino à frente das irmãs. E a senhora sua mãe, o que diria? Ainda a quereria de volta, depois de todas as coisas que havia feito? Arya mordeu o lábio e desejou saber. No dia seguinte chegaram a um local chamado Coração Alto, um monte tão elevado que de seu cume parecia a Arya que era possível ver metade do mundo. Em volta desse cume havia um anel de enormes tocos brancos, tudo que restava de um círculo de majestosos represeiros. Arya e Gendry caminharam em volta do monte para contá-los. Havia trinta e um, e alguns eram tão largos que poderiam tê-los usado como cama. O Coração Alto fora sagrado para os filhos da floresta, contou-lhe Tom Sete-Cordas, e parte de sua magia permanecia no local. - Nenhum mal pode acontecer àqueles que aqui dormem - disse o cantor. Arya pensou que devia ser verdade; o monte era tão alto e as terras que o cercavam eram tão planas que nenhum inimigo poderia se aproximar sem ser visto. Tom disse-lhe que o povo das redondezas evitava o lugar; dizia-se que estava assombrado pelos fantasmas dos filhos da floresta que tinham morrido ali quando o rei ânda- Io chamado Errog, o Fratricida, derrubou o seu bosque, Arya sabia algo sobre os filhos da floresta e também sobre os ândalos, mas fantasmas não a assustavam. Quando era pequena, costumava esconder-se nas criptas de Winterfell e brincava de entra-no-meu- -castelo e de monstros entre os reis de pedra sentados em seus tronos. Mesmo assim, seus cabelos da nuca se arrepiaram naquela noite. Estava dormindo, mas a tempestade acordou-a. O vento arrancou a manta de cima dela e soprou-a, rodopiando, para os arbustos, Quando foi atrás dela, ouviu vozes. Junto às brasas da fogueira, viu Tom, Limo e Barba-Verde conversando com uma mu- lherzinha minúscula, uns trinta centímetros mais baixa do que Arya e mais velha do que a Velha Ama, toda corcunda e enrugada, apoiada em uma bengala nodosa e negra. Seus cabelos brancos quase chegavam ao chão de tão longos e esvoaçavam em volta de sua cabeça como uma nuvem quando o vento soprava. A pele era ainda mais branca, da cor do leite, e pareceu a Arya que seus olhos eram vermelhos, embora fosse difícil ter certeza do meio dos arbustos.&lt;br /&gt;
- Os velhos deuses movimentam-se e não querem me deixar dormir - ouviu a mulher dizer. - Sonhei ver uma sombra com um coração em chamas matando um veado dourado, sim. Sonhei com um homem sem rosto, à espera numa ponte que oscilava e balançava. Em seu ombro estava empoleirado um corvo afogado, com algas penduradas nas asas. Sonhei com um rio rugindo e uma mulher que era um peixe. Estava à deriva, morta, com lágrimas vermelhas nas faces, mas quando seus olhos se abriram, oh, acordei aterrorizada. Tudo isso sonhei, e mais ainda. Têm presentes para mim, para me pagar pelos sonhos? - Sonhos - resmungou Limo Manto Limão -, de que servem os sonhos? Mulheres- -peixe e corvos afogados. Eu também tive um sonho na noite passada. Estava beijando uma moça de taberna que conheci. Vai me pagar por isso, velha? - A moça está morta - sibilou a mulher. - Só os vermes podem beijá-la agora. - E depois disse a Tom Sete-Cordas: - Quero a minha canção, caso contrário quero vocês fora daqui. E assim o cantor tocou para ela, uma canção muito suave e triste, mas Arya só ouviu fragmentos das palavras, embora a melodia lhe fosse vagamente familiar. Sansa iria reconhecê-la, aposto, A irmã conhecia todas as canções, e até sabia tocar um pouco, e cantava com toda a doçura, Tudo que eu consegui alguma vez fazer foi gritar as palavras. Na manhã seguinte, não se via a pequena mulher branca em lugar algum. Enquanto selavam os cavalos, Arya perguntou a Tom Sete-Cordas se os filhos da floresta ainda habitavam o Coração Alto. O cantor soltou um risinho. - Você a viu, foi? - Era um fantasma? - Os fantasmas reclamam de como as suas articulações rangem? Não, ela é só uma velha anã. Mas é estranha, e tem olhos diabólicos. E sabe coisas que não devia saber, e às vezes nos diz se gosta de nosso aspecto. - Ela gostou do seu aspecto? - perguntou Arya de modo duvidoso. O cantor riu. - Pelo menos gostou do meu som. Mas obriga-me a cantar sempre a mesma maldita canção. Não é ruim, veja bem, mas conheço outras que são igualmente boas. - Balançou a cabeça. - O que importa é que agora temos o cheiro. Aposto que em breve irá ver Thoros e o senhor do relâmpago. - Se são homens deles, por que se escondem de vocês? Tom Sete-Cordas rolou os olhos ao ouvir aquilo, mas Harwin deu-lhe uma resposta. - Eu não chamaria isso de esconder, senhora, mas é verdade, Lorde Beric desloca-se muito e raramente revela seus planos. Assim, ninguém&lt;br /&gt;
pode traí-lo. A essa altura, nós, os homens que lhe prestamos juramento, devemos ser centenas, talvez milhares, mas não seria bom se andássemos todos atrás dele. Deixaríamos os campos nus para nos alimentarmos, ou seríamos massacrados numa batalha por alguma tropa maior. Da maneira como estamos espalhados em pequenos bandos, podemos atacar uma dúzia de locais ao mesmo tempo, e partir para qualquer outro antes que eles saibam o que aconteceu. E quando um de nós é pego e levado a interrogatório, bem, não lhes pode dizer onde encontrar Lorde Beric, façam eles o que fizerem. - Hesitou. - Sabe o que significa ser levado a interrogatório? Arya assentiu com a cabeça. - Chamavam isso de fazer cócegas. O Polliver, o Raff e os outros. - Contou-lhes tudo sobre a aldeia nas margens do Olho de Deus onde ela e Gendry tinham sido capturados e sobre as perguntas que Cócegas fazia. &quot;Há ouro escondido na aldeia?&quot;, era sempre como começava.&quot;Prata, pedras preciosas? Há comida? Onde está Lorde Beric? Quais dos habitantes da aldeia o ajudaram? Para onde foi? Quantos homens estavam com ele? Quantos cavaleiros? Quantos arqueiros? Quantos estavam montados? Como estavam armados? Quantos feridos? Para onde disse que foram?&quot; Só de pensar naquilo conseguia ouvir de novo os gritos, e sentir o fedor de sangue, merda e carne queimada. - Ele fazia sempre as mesmas perguntas - disse solenemente aos fora da lei -, mas todos os dias mudava a forma de fazer cócegas. - Nenhuma criança devia ser obrigada a agüentar isso - disse Harwin quando ela terminou. - Ouvimos dizer que a Montanha perdeu metade de seus homens no Moinho de Pedra. Pode ser que esse Cócegas agora esteja flutuando Ramo Vermelho abaixo, com peixes mordiscando sua cara. Se não, bem, é mais um crime pelo qual hão de responder. Ouvi sua senhoria dizer que esta guerra começou quando a Mão lhe ordenou que levasse a justiça do rei a Gregor Clegane, e é assim que pretende que termine. - Deu-lhe uma palmadinha de encorajamento no ombro. - E melhor que monte, senhora. E um longo dia de viagem até o Solar de Bolotas, mas quando terminarmos teremos um teto sobre nossa cabeça e sopa quente na barriga. E foi um longo dia de viagem, mas ao anoitecer vadearam um riacho e chegaram ao Solar de Bolotas, com suas muralhas exteriores de pedra e a grande fortaleza de carvalho. Seu senhor andava longe, lutando na companhia do senhor dele, Lorde Vance, e deixara os portões do castelo fechados e trancados em sua ausência. Mas a senhora sua esposa era uma velha amiga de Tom Sete-Cordas, e Anguy dizia que um dia tinham sido amantes. Anguy viajava com freqüência ao lado de Arya; de todos, era quem mais se aproximava de sua idade, salvo Gendry, e contava-lhe histórias engraçadas sobre a Marca de Dorne. Mas nunca a enganou. Ele&lt;br /&gt;
não é meu amigo. Só fica por perto para me vigiar e certificar- -se de que não voltarei a fugir. Bem, Arya também sabia vigiar. Syrio Forel ensinara-lhe a fazer isso. A Senhora Smallwood deu as boas-vindas aos fora da lei com bastante gentileza, embora lhes tenha dado um sermão por arrastarem uma garotinha pela guerra. Ficou mais irada ainda quando Limo deixou escapar que Arya era bem-nascida. - Quem vestiu a pobre criança com esses farrapos dos Bolton? - exigiu saber. - Esse símbolo... há muitos homens que a enforcariam em meio segundo por usar um homem esfolado no peito. - Arya foi prontamente levada para cima, forçada a entrar numa banheira, e mergulhada em água escaldante. As aias da Senhora Smallwood esfregaram-na com tanta força que Arya se sentiu como se elas a estivessem esfolando. Até derramaram uma coisa qualquer com um fedor adocicado de flores. E depois, insistiram para que se vestisse com coisas de menina, meias marrons de lã, uma combinação leve de linho e, por cima disso, um vestido verde-claro com bolotas bordadas em fio castanho por todo o corpete, e mais bolotas ao longo da bainha da saia. - Minha tia-avó é septã num convento em Vilavelha - disse a Senhora Smallwood enquanto as mulheres atavam o vestido ao longo das costas de Arya. - Mandei minha filha para lá quando a guerra começou. Quando voltar, certamente já estará grande demais para usar essas coisas. Gosta de dançar, filha? A minha Carellen é uma ótima dançarina. Também canta lindamente. O que é que você gosta de fazer? Arya arrastou os pés nas esteiras. - Trabalhos de agulha. - São muito relaxantes, não são? - Bem - disse Arya da maneira como eu os faço, não, - Não? Sempre os achei relaxantes. Os deuses oferecem a cada uma de nós pequenos dons e talentos, e é sua intenção que os usemos, diz sempre a minha tia. Qualquer ato pode ser uma prece, se for desempenhado tão bem quanto formos capazes. Não é um pensamento adorável? Lembre-se dele da próxima vez que trabalhar com a agulha. Trabalha todos os dias? - Trabalhava até perder a Agulha. A nova não é tão boa, - Em tempos como estes, todos temos de nos arranjar o melhor possível, - A Senhora Smallwood ajeitou o corpete do vestido, - Agora já parece uma jovem senhora como deve ser. Não sou uma senhora, Arya quis lhe dizer, sou uma loba. - Não sei quem você é, filha - disse a mulher -, e talvez ainda bem que não saiba. Alguém importante, temo. - Alisou o colarinho de Arya. - Em tempos como estes, é melhor ser insignificante. Bem que gostaria de&lt;br /&gt;
poder ficar com você aqui. Mas não seria seguro, Tenho muralhas, mas homens insuficientes para defendê-las. - Suspirou. O jantar estava sendo servido no salão quando Arya entrou, toda lavada, penteada e vestida. Gendry deu uma olhada e riu tanto que o vinho saiu por seu nariz, até que Harwin lhe deu uma forte palmada na orelha. A refeição foi simples, mas nutritiva; carneiro e cogumelos, pão escuro, purê de ervilhas e maçãs cozidas com queijo amarelo. Depois da refeição e de os criados terem sido mandados embora, Barba-Verde baixou a voz para perguntar se sua senhoria teria notícias do senhor do relâmpago. - Notícias? - ela sorriu. - Estiveram aqui não faz nem quinze dias. Eles e mais uma dúzia, pastoreando ovelhas. Quase não acreditei nos meus olhos. Thoros deu-me três em agradecimento. Comemos uma esta noite. - Thoros pastoreando ovelhas? - Anguy soltou uma gargalhada. - Admito que foi uma estranha visão, mas Thoros afirmou que, sendo sacerdote, sabia como cuidar de um rebanho. - Sim, e como tosquiá-lo também - gracejou Limo Manto Limão. - Alguém podia fazer disso uma canção, e das boas. - Tom fez vibrar uma corda em sua harpa. A Senhora Smallwood lançou-lhe um olhar fulminante. - Talvez alguém que não rime bombom com Dondarrion. Ou que não toque &quot;Oh, deite minha doce menina na relva&quot; para todas as amas de leite do condado, deixando duas delas com grandes barrigas. - Foi &quot;Deixe-me beber a sua beleza&quot; - disse defensivamente Tom - e as amas de leite sempre ficam felizes por ouvi-la. Tal como uma certa senhora de elevado nascimento de que eu bem me lembro. Toco para agradar. As narinas dela dilataram-se. - As terras fluviais estão cheias de donzelas a quem agradou, todas elas bebendo chá de tanásia. Seria de se imaginar que um homem com a sua idade já soubesse como não derramar a semente em suas barrigas. Daqui a pouco, os homens vão chamá-lo de Tom Sete-Filhos. - Acontece - disse Tom - que já passei de sete há muitos anos. E que belos rapazes são, com vozes belas como a do rouxinol. - Era claro que o assunto não lhe interessava. - Sua senhoria disse para onde se dirigia, senhora? - perguntou Harwin. - Lorde Beric nunca divulga seus planos, mas reina a fome perto do Septo de Pedra e do Bosque de Três Dinheiros. Eu iria procurá-lo aí. - Bebeu um gole de vinho. - E melhor que saiba que também tive visitantes menos agradáveis. Uma matilha de lobos veio uivar em volta de meus portões, achando que eu poderia ter aqui o Jaime Lannister. Tom parou de dedilhar a harpa.&lt;br /&gt;
- Então é verdade? O Regicida anda de novo à solta? A Senhora Smallwood deu-lhe um olhar de escárnio. - Não me parece que andariam à caça dele se estivesse acorrentado por baixo de Correrrio. - O que foi que a senhora lhes disse? - perguntou Jack Sortudo. - Ora, que Sor Jaime estava nu na minha cama, mas que o tinha deixado exausto demais para descer. Um deles teve o desplante de me chamar de mentirosa, portanto pusemo-los para andar com uma meia dúzia de dardos. Acho que seguiram para Volta de Fundonegro. Arya agitou-se impacientemente no banco. - Que nortenhos eram esses que vieram à procura do Regicida? A Senhora Smallwood pareceu surpreendida por ela intervir. - Não me disseram os nomes, filha, mas vinham vestidos de preto, com um sol branco no peito. Um sol branco sobre negro era o símbolo de Lorde Karstark, pensou Arya. Aqueles eram homens de Robb. Perguntou a si mesma se ainda andariam por perto. Se conseguisse escapulir dos fora da lei e encontrá-los, talvez a levassem à mãe em Correrrio... - Disseram como foi que o Lannister conseguiu escapar? - perguntou Limo. - Disseram - disse a Senhora Smallwood. - Não que eu acredite numa palavra sequer. Afirmaram que a Senhora Catelyn o libertou. Aquilo surpreendeu tanto Tom que ele estourou uma corda. - Até parece - disse ele. - Isso é uma loucura. Não é verdade, pensou Arya. Não pode ser verdade. - Pensei o mesmo - disse a Senhora Smallwood. Foi então que Harwyn se lembrou de Arya. - Esta conversa não é para os seus ouvidos, senhora, - Não, eu quero ouvir. Os fora da lei mostraram-se inflexíveis, - Vá embora, esquilinho magricela - disse Barba-Verde. - Seja uma boa senhorinha e vá brincar no pátio enquanto nós conversamos. Arya saiu a passos largos, zangada, e teria batido a porta se não fosse tão pesada. A escuridão havia caído sobre o Solar de Bolotas. Algumas tochas ardiam ao longo das muralhas, mas era tudo. Os portões do pequeno castelo encontravam-se fechados e trancados. Sabia que prometera a Harwin que não tentaria fugir novamente, mas isso tinha sido antes de começarem a contar mentiras sobre sua mãe. - Arya? - Gendry tinha seguido a menina para fora. - A Senhora Smallwood disse que havia uma forja. Quer ir dar uma olhada? - Se quiser, - Não tinha mais nada para fazer.&lt;br /&gt;
- Esse Thoros - disse Gendry enquanto passavam pelos canis - é o mesmo Thoros que vivia no castelo em Porto Real? Um sacerdote vermelho, gordo, com a cabeça raspada? - Acho que sim. - Que se lembrasse, Arya nunca tinha falado com Thoros em Porto Real, mas sabia quem ele era. Ele e Jalabhar Xho tinham sido as personagens mais coloridas na corte de Robert, e Thoros era também um grande amigo do rei. - Ele não vai se lembrar de mim, mas costumava vir à nossa forja. - A dos Smallwood já não era usada havia algum tempo, embora o ferreiro tivesse pendurado as ferramentas ordenadamente na parede. Gendry acendeu uma vela e apoiou-a na bigorna enquanto pegava um par de tenazes. - Meu mestre o repreendia sempre por causa das espadas em chamas. Não eram modos de tratar bom aço, dizia ele, mas esse Thoros nunca usava bom aço. Limitava-se a mergulhar uma espada barata qualquer em fogovivo e incendiava-a. Era só um truque de alquimista, dizia meu mestre, mas assustava os cavalos e alguns dos cavaleiros mais verdes. Arya contraiu a testa, tentando recordar se o pai alguma vez falara em Thoros, - Ele não é muito sacerdotal, não é? - Não - admitiu Gendry. - Meistre Mott dizia que Thoros até conseguia beber mais do que o Rei Robert. Eram farinha do mesmo saco, disse-me ele, ambos glutões e bêbados. - Não devia chamar o rei de bêbado. - O Rei Robert talvez costumasse beber muito, mas fora amigo do pai de Arya. - Estava falando de Thoros. - Gendry estendeu as tenazes como que para agarrar o rosto dela, mas Arya afastou-as com uma pancada. - Ele gostava de banquetes e torneios, por isso é que o Rei Robert era tão amigo dele. E era um homem de coragem. Quando as muralhas de Pyke ruíram, foi o primeiro a atravessar a brecha. Lutou com uma de suas espadas flamejantes, incendiando homens de ferro a cada golpe. - Gostaria de ter uma espada flamejante. - Arya conseguia se lembrar de montes de gente em que gostaria de atear fogo. - É só um truque, já lhe disse, O fogovivo estraga o aço. Meu mestre vendia a Thoros uma espada nova depois de cada torneio. E tinham sempre uma discussão sobre o preço. - Gendry voltou a pendurar as tenazes e pegou o martelo pesado. - Mestre Mott dizia que era hora de eu fazer a minha primeira espada longa. Deu-me um belo pedaço de aço, e eu sabia exatamente que forma queria dar à lâmina. Mas o Yoren veio e levou-me para a Patrulha da Noite. - Ainda pode fazer espadas, se quiser - disse Arya. - Pode fazê-las para o meu irmão Robb, quando chegarmos a Correrrio,&lt;br /&gt;
- Correrrio. - Gendry apoiou o martelo e olhou-a. - Você agora parece diferente. Como uma menina de verdade. - Pareço um carvalho, com todas estas bolotas estúpidas. - Mas bonito. Um carvalho bonito. - Aproximou-se um passo e farejou-a. - Até cheira bem, para variar. - Você, não. Você fede. - Arya empurrou-o contra a bigorna e tentou fugir, mas Gendry segurou-a pelo braço. Ela enfiou um pé entre as suas pernas e passou-lhe uma rasteira, mas ele puxou-a ao cair, e rolaram pelo chão da forja. Ele era muito forte, mas ela era mais rápida. Todas as vezes que ele tentava dominá-la, ela libertava-se com uma contor- ção e dava um murro nele. Gendry limitava-se a rir dos golpes, e isso deixava-a furiosa. Por fim, ele pegou ambos os pulsos dela com uma mão e começou a fazer-lhe cócegas com a outra, e Arya enfiou o joelho entre as pernas dele e libertou-se. Ambos estavam cobertos de sujeira, e o estúpido vestido de bolotas tinha uma manga rasgada. - Aposto que agora já não estou tão bonita - gritou ela. Tom estava cantando quando voltaram ao salão. Meu colchão de penas é grande e suave, e é lá que a vou deitar Vou vestir-la toda de seda amarela, e na testa uma coroa pousar. Pois será o meu amor, senhora, e eu seu senhor serei. Sempre a manterei quente e segura, e com espada a defenderei. Harwin deu um olhar de relance para eles e estourou em gargalhadas, e Anguy deu um de seus estúpidos sorrisos sardentos e disse: - Temos certeza de que esta é uma senhora bem-nascida? Limo Manto Limão deu um cascudo na cabeça de Gendry. - Se quer lutar, lute comigo! Ela é uma menina, e tem metade de sua idade! Mantenha essas mãos longe dela, ouviu? - Fui eu que comecei - disse Arya. - Gendry estava só conversando. - Deixe o moço, Limo - disse Harwin. - Foi mesmo ela quem começou, não duvido. Era a mesma coisa em Winterfell. Tom piscou o olho para ela e cantou: E como sorriu e como ela riu, a donzela do pinheiro. Fugiu num rodopio e disse-lhe, não quero o seu braseiro. Usarei um vestido de folhas douradas, a trança com ervas atada, Mas você pode ser meu amor da floresta, e eu a sua namorada.&lt;br /&gt;
- Não tenho trajes de folhas - disse a Senhora Smallwood, com um pequeno sorriso simpático mas Carellen deixou aqui mais alguns vestidos que podem servir. Venha, filha, vamos lá em cima ver o que encontramos. Foi ainda pior do que antes; a Senhora Smallwood insistiu que Arya tomasse outro banho, e também que cortasse e escovasse os cabelos; o vestido em que a enfiou daquela vez era de uma cor parecida com lilás, e decorado com pequenas perolazinhas. A única coisa boa era ser tão delicado que ninguém podia esperar que Arya montasse a cavalo com ele. Por isso, na manhã seguinte, enquanto quebravam o jejum, a Senhora Smallwood deu-lhe calções, cinto e túnica para vestir, e um gibão marrom de pele de veado com rebites de ferro, - Eram coisas de meu filho - disse ela. - Morreu com sete anos. - Lamento, senhora. - Arya subitamente sentiu-se envergonhada e com pena dela. - Também lamento ter rasgado o vestido das bolotas. Era bonito. - Sim, filha. E você também é. Seja corajosa.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/6908905127324388451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/arya.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/6908905127324388451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/6908905127324388451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/arya.html' title='Arya'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-5313624342075232624</id><published>2014-01-01T08:34:00.002-08:00</published><updated>2014-01-01T08:34:35.545-08:00</updated><title type='text'>Jaime</title><content type='html'>Há dois dias de viagem, para ambos os lados da estrada do rei, entraram numa larga JLr faixa de destruição, quilômetros de campos e pomares enegrecidos, onde os troncos de árvores mortas se projetavam para o ar como postes de arqueiro. As pontes também estavam queimadas, e os riachos seguiam cheios pelas chuvas do outono, de modo que tinham de patrulhar as margens em busca de vaus. As noites estremeciam com os uivos dos lobos, mas não viam ninguém. Em Lagoa da Donzela, o salmão vermelho de Lorde Mooton ainda flutuava sobre o castelo em sua colina, mas as muralhas da vila encontravam-se desertas, os portões, derrubados, metade das casas e lojas, incendiada ou saqueada. Não viram nenhum ser vivo exceto um punhado de cães selvagens, que escapuliram ao ouvir sua aproximação. A lagoa que deu à vila seu nome, onde a lenda dizia que Florian, o Bobo, pela primeira vez vislumbrara Jonquil banhando-se com as irmãs, estava de tal maneira repleta de cadáveres em decomposição que a água se tranformara numa sopa escura, de cor cinza-esverdeada. Jaime deu uma olhada e começou a cantar, - Cinco donzelas havia numa lagoa de nascente... - O que estí fazendo? - quis saber Brienne. - Estou cantando &quot;Seis donzelas na lagoa&quot;, certamente já ouviu a canção. E que donzelinhas tímidas elas eram. Muito parecidas com você. Embora um tanto mais belas, aposto. - Silêncio - disse a moça, com um olhar que sugeria que adoraria deixá-lo flutuando na lagoa entre os cadáveres. - Por favor, Jaime - suplicou o primo Cleos. - Lorde Mooton está juramentado a Correrrio, não queremos atrai-lo para fora de seu castelo. E pode haver outros inimigos escondidos nas ruínas... - Inimigos dela ou nossos? Não são os mesmos, primo. Tenho um forte desejo de ver se a garota sabe usar aquela espada que transporta. - Se não ficar em silêncio, não me deixa escolha a não ser amordaçá-lo, Regicida. - Desacorrente minhas mãos, e eu brincarei de mudo até chegarmos a Porto Real. O que poderia ser mais justo do que isso, garota? - Brienne! Meu nome é Brienne! - três corvos levantaram voo, assustados pelo ruído. - Não quer tomar um banho, Brienne? - soltou uma gargalhada. - E uma donzela,&lt;br /&gt;
e ali esta a lagoa. Eu lavo suas costas. — Costumava esfregar as costas de Cersei, quando éramos crianças no Rochedo Casterly, A garota virou a cabeça do cavalo e afastou-se a trote. Jaime e Sor Cleos seguiram- -na para fora das cinzas de Lagoa da Donzela. Um quilômetro e meio adiante, o verde começou a voltar ao mundo. Jaime sentiu-se satisfeito. As terras queimadas faziam-lhe lembrar Aerys em excesso. - Ela está seguindo a estrada de Valdocaso - murmurou Sor Cleos. - Seria mais seguro seguir pela costa. - Mais seguro, mas mais lento. Eu sou favorável a Valdocaso, primo. Para falar a verdade, sua companhia aborrece-me. - Pode ser meio Lannister, mas não tem nada a ver com a minha irmã, Nunca tinha conseguido suportar estar muito tempo separado de sua gêmea. Até quando crianças, costumavam enfiar-se nas camas um do outro e dormir de braços entrelaçados. Até no ventre, Muito antes de a irmã florescer ou do advento de sua própria masculinidade, tinham visto éguas e garanhões nos campos e cães e cadelas nos canis e brincado de fazer o mesmo. Uma vez, a aia da mãe pegou-os no ato... não se lembrava bem do que estavam fazendo, mas, fosse o que fosse, havia horrorizado a Senhora Joanna. Ela mandou a aia embora, mudou o quarto de Jaime para o outro lado de Rochedo Casterly, colocou um guarda à porta do de Cersei e disse-lhes que não podiam voltar a fazer aquilo nunca mais, caso contrário não teria alternativa e seria obrigada a contar ao senhor pai deles. Mas não precisariam ter medo. Aquilo fora um pouco antes de ela morrer ao dar à luz Tyrion. Jaime quase nem se lembrava do rosto da mãe. Stannis Baratheon e os Stark talvez lhe tivessem feito um favor. Tinham espalhado a sua história de incesto por todos os Sete Reinos, portanto nada mais havia a esconder. Por que não devo me casar abertamente com Cersei e dividir a cama com ela todas as noites? Os dragões sempre se casavam com as irmãs, Septões, senhores e povo tinham fechado os olhos aos Targaryen durante centenas de anos, que fizessem o mesmo com a Casa Lannister. Certamente devastaria a pretensão de Joffrey ao trono, mas no fim das contas tinham sido as espadas que conquistaram o Trono de Ferro para Robert, e espadas também podiam manter Joffrey lá, independente de que semente havia lhe dado origem. Poderíamos casá-lo com Myrcella, depois de enviarmos Sansa Stark de volta à mãe. Isso mostraria ao reino que os Lannister estão acima das leis deles, tal como os deuses e os Targaryen. Jaime tinha decidido que iria devolver Sansa e a garota mais nova também, se fosse possível encontrá-la. Não era coisa que lhe reconquistasse a honra perdida, mas a idéia de cumprir com a palavra dada quando todos esperavam uma traição divertia-o mais do que seria capaz de exprimir.&lt;br /&gt;
Passavam por um campo de trigo espezinhado e um muro baixo de pedra quando Jaime ouviu um suave jrum vindo de trás, como se uma dúzia de aves tivessem levantado voo ao mesmo tempo. - Para baixo! - gritou, atirando-se sobre o pescoço do cavalo. O castrado relinchou e empinou-se quando uma flecha o atingiu na garupa. Outras flechas passaram assobiando por eles. Jaime viu Sor Cleos cair da sela, torcendo-se quando seu pé ficou preso no estribo. Seu palafrém fugiu, e o Frey passou por eles arrastado, aos gritos, com a cabeça batendo contra o chão. O castrado de Jaime arrastou-se pesadamente, bufando e resfolegando de dor. Esticou a cabeça para procurar Brienne. Ainda estava montada, com uma flecha alojada nas costas e outra na perna, mas parecia não senti-las. Viu-a puxar a espada e descrever um círculo, em busca dos arqueiros. - Atrás do muro - gritou Jaime, lutando para virar a sua montaria meio cega de volta à luta. As rédeas emaranhavam-se em suas malditas correntes, e o ar estava de novo repleto de flechas. - Avançar! - gritou, esporeando para mostrar à mulher como se fazia. Em algum canto, o velho e coitado cavalo encontrou um sopro de velocidade. De repente, dispararam pelo campo de trigo, fazendo voar nuvens de palha. Jaime só teve tempo suficiente para pensar: E melhor que a garota me siga antes que eles percebam que quem avança sobre eles é um homem desarmado e acorrentado. Então ouviu-a vindo de trás em grande velocidade. - Entardecer! - gritou ela, quando seu cavalo de tração passou por Jaime trovejando. Brandia a espada. - Tarth! Tarth! Algumas últimas flechas passaram inofensivamente por eles; então os arqueiros se separaram e fugiram, como os arqueiros sem reforço sempre faziam diante do ataque de cavaleiros. Brienne refreou o cavalo junto ao muro. Quando Jaime chegou ao seu lado, todos os arqueiros tinham desaparecido na floresta, vinte metros adiante, - Perdeu o gosto pela batalha? - Eles estavam fugindo. - Essa é a melhor hora para matá-los. Ela embainhou a espada. - Por que você atacou? - Os arqueiros são destemidos desde que possam se esconder atrás de muros e disparar de longe, mas, se são atacados, fogem. Sabem o que lhes acontece quando são apanhados, Você tem uma flecha nas costas, sabia? E outra na perna. Devia me deixar tratar delas. - Você? - Se não for eu, quem será? Da última vez que vi primo Cleos, o palafrém estava usando a cabeça dele para arar um sulco, Apesar disso,&lt;br /&gt;
suponho que deveríamos ir à sua procura. Ele é uma espécie de Lannister. Encontraram Cleos ainda preso ao estribo. Tinha uma flecha espetada no braço direito e uma segunda no peito, mas fora o chão que dera cabo dele. O topo da cabeça estava empastado de sangue e mole ao toque, e pedaços de osso partido moviam-se por baixo da pele, sob a pressão da mão de Jaime. Brienne ajoelhou-se e pegou na mão dele. - Ainda está quente. - Esfriará em breve. Quero o cavalo e as roupas dele. Estou farto de farrapos e moscas. - Ele era seu primo. - A moça estava chocada. - Era - concordou Jaime. - Não se preocupe, possuo ampla provisão de primos. Também quero a espada dele. Precisará de alguém com quem dividir as vigias. - Pode ficar de vigia sem armas. - A garota levantou. - Acorrentado a uma árvore? Talvez possa. Ou talvez possa negociar à minha maneira com o próximo bando de fora da lei e os deixe cortar esse seu grosso pescoço, garota. - Não vou armá-lo. E meu nome é... - Brienne, já sei. Eu prestaria o juramento de não lhe fazer mal, se isso atenuasse os seus medos de menina. - Seus juramentos não têm qualquer valor. Prestou um juramento a Aerys. - Que eu saiba, você não cozinhou ninguém dentro de sua armadura. E ambos queremos que eu chegue a Porto Real em segurança e inteiro, não queremos? - Acocorou-se ao lado de Cleos e começou a desafivelar o cinto dele. - Afaste-se. Já. Pare com isso, Jaime estava cansado. Cansado das suspeitas dela, cansado de seus insultos, cansado de seus dentes tortos, de seu rosto largo e manchado e daqueles seus cabelos finos e sem vida. Ignorando os protestos da garota, pegou com ambas as mãos no cabo da espada do primo, prendeu o cadáver ao chão com o pé e puxou. No momento em que a lâmina deslizou para fora da bainha, já estava rodopiando, trazendo a espada à sua volta e para cima num rápido e mortífero arco. Aço encontrou aço com um ressonante clang de fazer tremer os ossos. Sem que ele soubesse como, Brienne puxou a própria lâmina bem a tempo. Jaime riu. - Muito bem, garota. - Dê-me a espada, Regicida, - Ah, darei. - Pôs-se em pé como uma mola, e arremeteu contra ela, com a espada viva nas mãos. Brienne saltou para trás, parando o&lt;br /&gt;
ataque, mas ele seguiu-a, mantendo a pressão. Assim que a garota parava um golpe, o seguinte caía sobre ela. As espadas beijavam-se, saltavam para longe e voltavam a se beijar. O sangue de Jaime cantava, Era àquilo que estava destinado; nunca se sentia tão vivo como quando estava lutando, com a morte equilibrada em cada golpe. E com os pulsos acorrentados, a moça pode até me desafiar durante algum tempo. As correntes forçavam-no a usar uma empunhadura a duas mãos, embora fosse claro que o peso e o alcance eram menores do que seriam se a lâmina fosse uma verdadeira espada longa de duas mãos, mas que importava? A espada do primo era suficientemente longa para pôr um ponto final naquela Brienne de Tarth. Pelo alto, por baixo, com o braço lançado acima do ombro, fez chover aço sobre ela. Pela esquerda, pela direita, para trás, brandindo a espada com tanta força que chispas voavam quando as lâminas se encontravam, para cima, estocada lateral, lançada sobre o ombro, sempre atacando, caindo contra ela, passo e esquiva, ataque e passo, passo e ataque, golpeando, cortando, mais depressa, mais depressa, mais depressa... ... até que, sem fôlego, deu um passo para trás e deixou a ponta da espada cair ao chão, dando-lhe um momento de descanso. - Nada mal - reconheceu. - Para uma garota. Ela inspirou lenta e profundamente, mantendo os olhos cuidadosos a vigiá-lo. - Não quero machucá-lo, Regicida. - Como se fosse capaz. - Rodopiou a lâmina por sobre a cabeça e voltou a cair sobre ela, num chacoalhar de correntes. Jaime não saberia dizer durante quanto tempo prosseguiu o ataque. Podiam ter sido minutos ou podiam ter sido horas; o tempo dormia quando as espadas acordavam. Empurrou- -a para longe do cadáver do primo, empurrou-a para o outro lado da estrada, empurrou-a para o meio das árvores. Brienne tropeçou uma vez numa raiz que não chegou a ver, e por um momento Jaime pensou que ela estivesse acabada, mas a mulher apoiou-se num joelho em vez de cair, e não perdeu o controle. A espada dela ergueu-se de um salto para bloquear um golpe alto que lhe teria aberto o tronco do ombro à virilha, e então golpeou-o, uma vez e mais outra, ganhando golpe a golpe o espaço para voltar a se levantar. A dança prosseguiu. Jaime encurralou-a contra um carvalho, praguejou quando ela se esquivou dele, seguiu-a através de um riacho raso quase coberto de folhas caídas. O aço ressoou, o aço cantou, o aço gritou, raspou e soltou chispas, e a mulher passou a grunhir como uma porca a cada golpe, mas Jaime não encontrou maneira de atingi-la. Era como se, em volta dela, houvesse uma gaiola de ferro que parasse todos os golpes.&lt;br /&gt;
- Nada mal mesmo - disse ele quando fez um segundo de pausa para recuperar o fôlego, rodeando-a pela direita. - Para uma garota? - Para um escudeiro, digamos. Um verde. - Soltou uma gargalhada irregular e sem fôlego. - Vem, vem, minha querida, a música ainda está tocando. Posso ter a honra desta dança, minha senhora? Grunhindo, ela atacou-o, com a espada a rodopiar, e de repente era Jaime quem lutava para manter o aço afastado da pele. Um dos golpes de Brienne varreu sua testa, e sangue correu para seu olho direito. Que os Outros a levem, e também a Correrrio! Sua perícia tinha enferrujado e apodrecido naquela maldita masmorra, e as correntes também não ajudavam em nada. Seu olho fechou-se, os ombros começavam a ficar entorpecidos por causa de toda a trepidação que tinham suportado, e seus pulsos doíam com o peso de correntes, algemas e espada. A espada ficava mais pesada a cada golpe, e Jaime sabia que não a brandia tão depressa como antes, nem a erguia tão alto. Ela é mais forte do que eu. Perceber aquilo gelou-o. Robert tinha sido mais forte do que ele, certamente. Touro Branco e Gerold Hightower, em seu apogeu, também, bem como Sor Arthur Dayne. Entre os vivos, Grande-Jon Umber era mais forte, Javali Forte de Crakehall muito provavelmente também, ambos os Clegane com toda a certeza. A força da Montanha não tinha nada de humano. Não importava. Com velocidade e perícia, Jaime era capaz de derrotar todos eles. Mas aquilo era uma mulher. Uma mulher que mais parecia uma enorme vaca, com certeza, mesmo assim... por tudo aquilo que era certo, quem devia estar se cansando era ela. Em vez disso, forçou-o a voltar ao riacho, gritando: - Renda-se! Jogue fora a espada! Uma pedra escorregadia virou-se sob o pé de Jaime. Ao sentir-se caindo, transformou o azar numa estocada em mergulho. A ponta da espada ultrapassou a defesa dela e mordeu sua coxa superior. Uma flor vermelha desabrochou, e Jaime teve um instante para saborear a visão do sangue de Brienne antes de seu joelho colidir com uma pedra. A dor cegou-o. Brienne andou até ele, espalhando água, e afastou a espada de suas mãos com um chute, -RENDA-SE! Jaime atirou o ombro contra as pernas dela, fazendo-a cair por cima de si. Rolaram, esperneando e esmurrando-se, até que por fim ela conseguiu sentar-se montada nele. Jaime conseguiu tirar o punhal da bainha dela, mas antes de ter tempo de mergulhá-lo em sua barriga, ela apanhou seu pulso e bateu-o com tanta força numa pedra que foi como&lt;br /&gt;
se lhe tivesse arrancado o braço do ombro, Com a outra mão, a garota segurou seu rosto. - Renda-se! - empurrou sua cabeça para baixo, manteve-a dentro da água, puxou-a para cima. - Renda-se! - Jaime cuspiu água no rosto dela. Um empurrão, um espirrar de água, e estava de novo submerso, esperneando inutilmente, lutando para respirar. De novo para cima. - Renda-se, senão vou afogá-lo! - E quebrará seu juramento? - rosnou ele. - Como eu? Ela largou-o, e ele mergulhou com um esparramar de água. E a floresta ressoou com gargalhadas roucas. Brienne pôs-se em pé com dificuldade. Abaixo da cintura, ela era toda lama e sangue, tinha a roupa em desalinho e o rosto vermelho. Pelo aspecto dela é como se nos tivessem apanhado fodendo, e não lutando. Jaime engatinhou pelas pedras até a água rasa, limpando o sangue do olho com as mãos acorrentadas. Homens armados margeavam ambos os lados do riacho. Pouco admira, estávamos fazendo uma barulbeira tão grande que acordaríamos um dragão. - Sejam bem-vindos, amigos - gritou-lhes amigavelmente. - Minhas desculpas se os incomodei. Pegaram-me dando um corretivo na esposa. - A mim pareceu que quem tava dando o corretivo era ela. - O homem que falou era forte e poderoso, e barra nasal de seu meio-elmo de ferro não escondia por completo a ausência de seu nariz. Jaime percebeu subitamente que aqueles não eram os fora da lei que tinham matado Sor Cleos. Estavam cercados pela escumalha da terra: dorneses trigueiros e lisenos louros, dothraki com sinetas nas tranças, ibbeneses cabeludos, ilhéus do verão, negros como carvão, com manto de penas. Conhecia-os. Os Bravos Companheiros. Brienne encontrou a voz. - Tenho cem veados... Um homem de aspecto cadavérico, com um manto esfarrapado de couro, disse: - A gente aceita-os pra começar, senhora. - E depois aceita a sua boceta - disse o homem sem nariz. - Não pode ser tão feia quanto o resto de você. - Vire-a e meta no cu dela, Rorge - sugeriu um lanceiro de Dorne com um lenço de seda vermelho enrolado em volta do elmo. - Assim não precisa olhar para ela. - E roubar dela o prazer de olhar pra mim? - disse o sem-nariz, e os outros riram. Por mais feia e teimosa que fosse, a garota merecia coisa melhor do que um estupro coletivo por uma escória como aquela. - Quem comanda aqui? - exigiu saber Jaime em voz alta.&lt;br /&gt;
- Sou eu quem tem essa honra, Sor Jaime. - Os olhos do cadáver estavam debruados de vermelho, e seus cabelos eram finos e secos. Conseguiam ver-se veias azul-escuras através da pálida pele de suas mãos e de seu rosto. - Sou Urswyck. Chamam-me de Urswyck, o Fiel. - Sabe quem eu sou? O mercenário inclinou a cabeça. - E preciso mais do que uma barba e uma cabeça rapada para enganar os Bravos Companheiros. Os Saltimbancos Sangrentos, você quer dizer. Jaime não via mais utilidade naqueles do que em Gregor Clegane ou Amory Lorch, Cães, chamava o pai a todos, e usava-os como cães, para espantar as presas e plantar o medo em seu coração. - Se me conhece, Urswyck, sabe que terá a sua recompensa. Um Lannister sempre paga as suas dívidas. Quanto à garota, é bem-nascida, e vale um bom resgate. O outro inclinou a cabeça para o lado. - Ah, é? Que sorte. Havia uma certa astúcia no sorriso de Urswyck que não agradou a Jaime. - Ouviu o que eu disse. Onde está o bode? - A algumas horas de distância. Ele ficará satisfeito por vê-lo, não tenho dúvida, mas, se fosse você, não o chamaria de bode em sua presença. Lorde Vargo tem ficado suscetível quanto à sua dignidade. Desde quando aquele selvagem baboso tem dignidade? - Farei o possível para me lembrar disso quando nos encontrarmos. Senhor do quê, diga-me? - Harrenhal. Foi-lhe prometido. Harrenbal? Será que meu pai perdeu o juízo? Jaime ergueu as mãos. - Quero estas correntes tiradas. O risinho de Urswyck foi seco como papel. Algo aqui está muito errado. Jaime não mostrou sinais de sua confusão e limitou-se a sorrir. - Disse alguma coisa divertida? O sem-nariz deu um sorriso. - E a coisa mais engraçada que eu vi desde que o Dentadas arrancou as tetas daquela septã com mordidas. - Você e seu pai perderam batalhas demais - esclareceu o dornês. - Tivemos de trocar as nossas peles de leão por peles de lobo. Urswyck abriu as mãos. - O que o Timeon quer dizer é que os Bravos Companheiros já não estão a soldo da Casa Lannister. Agora servimos Lorde Bolton, e o Rei no Norte. Jaime dirigiu-lhe um frio sorriso de desprezo. - E os homens ainda dizem que eu tenho merda no lugar de honra!&lt;br /&gt;
Urswyck não ficou satisfeito com aquele comentário. Ao seu sinal, dois dos Saltimbancos agarraram Jaime pelos braços e Rorge enfiou-lhe no estômago um punho revestido de cota de malha. Quando se dobrou, grunhindo, ouviu a garota protestar: - Parem, ele não deve ser ferido! Foi a Senhora Catelyn que nos enviou, uma troca de cativos, ele está sob a minha proteção... - Rorge bateu outra vez nele, arrancando-lhe o ar dos pulmões. Brienne mergulhou em busca da espada que estava sob as águas do riacho, mas os Saltimbancos caíram sobre ela antes que conseguisse alcançar a arma. Forte como era, foram precisos quatro para espancá-la até deixá-la submissa. No fim, o rosto da moça ficou tão inchado e ensangüentado quanto o de Jaime devia estar, e tinham quebrado dois de seus dentes. Isso em nada contribuiu para melhorar sua aparência. Tropeçando e sangrando, os dois prisioneiros foram arrastados pela floresta até os cavalos, com Brienne mancando do ferimento na coxa que Jaime lhe causara no riacho. Ele sentiu pena da garota. Não tinha dúvidas de que Brienne perderia a virgindade naquela noite. Aquele canalha sem nariz iria possuí-la com certeza, e era provável que alguns dos outros também esperassem a sua vez. O dornês amarrou-os costas com costas em cima do cavalo de tração de Brienne, enquanto os outros Saltimbancos despiam Cleos Frey até a pele e dividiam entre si as suas posses. Rorge ganhou o sobretudo manchado de sangue, com seus orgulhosos quartos Lannister e Frey. As flechas tinham aberto buracos tanto nos leões como nas torres. - Espero que esteja satisfeita, garota - murmurou Jaime a Brienne. Tossiu e cuspiu um punhado de sangue. - Se tivesse me armado, nunca teríamos sido capturados. - Ela não respondeu. É uma cadela teimosa que nem uma mula, pensou. Mas valente, sim. Não podia negar isso. - Quando acamparmos para a noite, você será estuprada, e mais de uma vez - preveniu-a. - Seria sensato não resistir. Se resistir, perderá mais do que alguns dentes. Sentiu as costas de Brienne retesarem contra as suas. - Seria isso que você faria, se fosse uma mulher? Se eu fosse uma mulher, seria Cersei. - Se eu fosse uma mulher, iria obrigá-los a me matar. Mas não sou. - Jaime induziu o cavalo deles a trote. - Urswyck! Uma palavrinha! O mercenário cadavérico com o manto de couro esfarrapado puxou as rédeas por um momento, e depois pôs-se a seu lado. - O que quer de mim, sor? E tenha cuidado com a língua, senão voltarei a dar um corretivo em você. - Ouro - disse Jaime. - Gosta de ouro? Urswyck estudou-o através de olhos avermelhados.&lt;br /&gt;
- Tem os seus usos, confesso. Jaime dirigiu a Urswyck um sorriso astuto. - Todo o ouro em Rochedo Casterly. Por que deixar que seja o bode quem se beneficiará dele? Por que não nos leva a Porto Real e recolhe você mesmo o meu resgate? O dela também, se quiser. Uma donzela disse-me que chamam Tarth de Ilha Safira. - A mulher contorceu-se ao ouvir aquilo, mas nada disse. - Toma-me por um vira-casaca? - E claro. Que outra coisa seria? Urswyck pesou a proposta durante meio segundo. - Porto Real fica muito longe, e seu pai está lá. Lorde Tywin pode nutrir ressentimentos por nós, por termos vendido Harrenhal ao Lorde Bolton. Ele é mais esperto do que parece. Jaime tinha acalentado a esperança de enforcar o desgraçado assim que seus bolsos estivessem repletos de ouro. - Deixe o meu pai comigo. Arranjo um perdão régio por quaisquer crimes que tenha cometido. Arranjo um grau de cavaleiro para você. - Sor Urswyck - disse o homem, saboreando o som. - Como a minha querida esposa ficaria orgulhosa de ouvir isso. Se ao menos eu não a tivesse matado. - Suspirou. - Então, e o bravo Lorde Vargo? - Deverei cantar um verso de &quot;As chuvas de Castamere&quot; para você? O bode não será assim tão bravo quando meu pai puser as mãos nele. - E como ele fará tal coisa? Serão os braços de seu pai tão compridos que conseguem passar por cima das muralhas de Harrenhal e arrancar-nos de lá? - Se for necessário. - A monstruosa loucura do Rei Harren já tinha caído antes, e poderia voltar a cair. - É tão estúpido que acredita que o bode pode vencer o leão? Urswyck debruçou-se e deu-lhe um tabefe indolente no rosto. A pura insolência casual do gesto foi pior do que o golpe em si. Ele não tem medo de mim, compreendeu Jaime, com um arrepio. -Já ouvi o bastante, Regicida. Teria de ser realmente um grande idiota para acreditar nas promessas de um petjuro como você. - Esporeou o cavalo e galopou vivamente em frente. Aerys, pensou Jaime com ressentimento. Acaba sempre chegando em Aerys. Balançava com os movimentos do cavalo, desejando uma espada. Duas espadas seria ainda melhor. Uma para a garota e uma para mim. Morreríamos, mas levaríamos metade deles para o inferno conosco. - Por que lhe disse que Tarth era a Ilha Safira? - murmurou Brienne quando Urswyck não podia mais ouvi-la. - E provável que pense que meu pai é rico em pedras preciosas... - E melhor que reze para que ele pense assim.&lt;br /&gt;
- Todas as palavras que você diz são mentiras, Regicida? Tarth é chamada de Ilha Safira devido ao azul de suas águas. - Grite um pouco mais alto, garota, acho que Urswyck não ouviu. Quanto mais depressa souberem o pouco que vale de resgate, mais depressa o estupro começa. Todos os homens que aqui estão irão montar em você, mas que importa? Basta fechar os olhos, abrir as pernas e fingir que todos eles são Lorde Renly. Misericordiosamente, aquilo fechou a boca dela durante algum tempo, O dia tinha quase chegado ao fim quando encontraram Vargo Hoat, que saqueava um pequeno septo com mais uma dúzia de seus Bravos Companheiros. As janelas de vitral tinham sido quebradas e os deuses de madeira esculpida arrastados para a luz do sol. O mais gordo dothraki que Jaime vira na vida estava sentado sobre o peito da Mãe quando se aproximaram, arrancando seus olhos de calcedônia com a ponta da faca. Ali perto, um septão magricela e perdendo o cabelo pendia, de pernas para o ar, de um galho de um grande castanheiro. Três dos Bravos Companheiros estavam usando seu cadáver como alvo de tiro com arco. Um deles devia ser bom; o morto tinha flechas espetadas em ambos os olhos. Quando os mercenários viram Urswyck e os prisioneiros, soou um grito em meia dúzia de línguas. O bode estava sentado junto a uma fogueira, comendo uma ave meio assada que tinha num espeto, com gordura e sangue escorrendo por seus dedos e sua longa barba filamentosa. Limpou as mãos na túnica e levantou-se. - Regifida - babou. - Vofê é meu catifo. - Senhor, sou Brienne de Tarth - gritou a garota. - A Senhora Catelyn Stark ordenou-me que entregasse Sor Jaime ao irmão dele em Porto Real. O bode lançou-lhe um olhar desinteressado. - Filenfiem-na, - Escute-me - rogou Brienne enquanto Rorge cortava as cordas que a ligavam a Jaime -, em nome do Rei no Norte, o rei que você serve, por favor, escute... Rorge arrastou-a de cima do cavalo e começou a chutá-la. - Veja se não quebra nenhum osso - gritou-lhe Urswyck. - A cadela com cara de cavalo vale o próprio peso em safiras. O dornês Timeon e um ibbenês malcheiroso puxaram Jaime de cima da sela e empurraram-no rudemente na direção da fogueira. Não lhe teria sido difícil agarrar num dos punhos de suas espadas enquanto o maltratavam, mas os mercenários eram muitos e Jaime continuava acorrentado. Poderia abater um ou dois, mas no fim morreria por isso. Jaime ainda não estava pronto para morrer, especialmente por alguém como Brienne de Tarth,&lt;br /&gt;
- Efte é um dia effelente - disse Vargo Hoat. Em seu pescoço havia uma corrente de moedas interligadas, moedas de todas as formas e tamanhos, cunhadas e esculpidas, ostentando retratos de reis, feiticeiros, deuses e demônios, e de todos os tipos de animais fantasiosos. Moedas de todas as terras onde lutou, recordou Jaime. A cobiça era a chave para aquele homem. Se ele mudou de lado uma vez, pode mudar de novo. - Lorde Vargo, foi uma tolice ter abandonado o serviço do meu pai, mas não é tarde demais para corrigi-la. Ele pagará bem por mim, sabe disso, - Ah, fim - disse Vargo Hoat. - Metade do ouro em Rofedo Caíterly ferá meu. Maf primeiro tenho de lhe enviar uma menfagem. - Disse qualquer coisa em sua língua escorregadia de bode, Urswyck empurrou Jaime para trás, e um bobo vestido de losangos verdes e rosa chutou suas pernas, fazendo-o cair, Quando atingiu o chão, um dos arqueiros agarrou a corrente entre os pulsos de Jaime e usou-a para puxar seus braços para a frente. O do- thraki gordo pôs a faca de lado para desembainhar um enorme arakb, a diabolicamente afiada espada-gadanha que os senhores dos cavalos adoravam. Querem me assustar, O bobo subiu nas costas de Jaime, aos risinhos, enquanto o do- thraki gingava em sua direção, O bode quer que eu me mije nas calças e suplique por misericórdia, mas nunca terá esse prazer. Ele era um Lannister de Rochedo Casterly, Senhor Comandante da Guarda Real; nenhum mercenário o faria gritar, A luz do sol correu, prateada, pelo gume do arakb quando ele desceu tremendo, quase depressa demais para ser visto. E Jaime gritou.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/5313624342075232624/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/jaime.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5313624342075232624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5313624342075232624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2014/01/jaime.html' title='Jaime'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-8803229774365671895</id><published>2013-12-27T15:20:00.006-08:00</published><updated>2013-12-27T15:20:54.154-08:00</updated><title type='text'>Capitulos</title><content type='html'>&lt;a href=&quot;http://memesleblog.blogspot.com.br/2013/12/uando-subiu-ao-conves-longa-ponta-de.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Davos&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
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&lt;a href=&quot;http://memesleblog.blogspot.com.br/2013/12/catelyn_27.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Catelyn&lt;/a&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/8803229774365671895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/capitulos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/8803229774365671895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/8803229774365671895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/capitulos.html' title='Capitulos'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-587768494144835843</id><published>2013-12-27T15:14:00.000-08:00</published><updated>2013-12-27T15:14:03.506-08:00</updated><title type='text'>Catelyn</title><content type='html'>Trouxeram os cadáveres nos ombros e pousaram-nos sob o estrado, O silêncio caiu sobre o salão iluminado por archotes, e nele Catelyn conseguiu ouvir Vento Cinzento uivando a meio castelo de distância, Ele sente o cheiro do sangue, pensou. Através de paredes de pedra e portas de madeira, através da noite e da chuva, mesmo assim reconhece o odor da morte e da ruína. Estava à esquerda de Robb, junto ao cadeirão, e por um momento sentiu-se quase como se estivesse olhando seus próprios mortos, Bran e Rickon, Aqueles rapazes eram muito mais velhos, mas a morte encolhera-os. Nus e molhados, pareciam umas coisinhas tão pequenas e tão imóveis que era difícil lembrar deles com vida. O rapaz louro andava tentando deixar crescer uma barba. Uma penugem amarelo- -clara cobria suas bochechas e seu queixo por cima da ruína vermelha em que a faca transformou a sua garganta. Seus longos cabelos dourados ainda estavam molhados, como se tivesse sido arrancado de um banho. A expressão era a de quem havia morrido em paz, talvez dormindo, mas seu primo de cabelos castanhos tinha lutado pela vida. Seus braços exibiam cortes onde havia tentado parar as lâminas, e gotas vermelhas ainda pingavam das punhaladas que lhe cobriam o peito, a barriga e as costas como outras tantas bocas sem língua, embora a chuva o tivesse lavado quase por completo. Robb tinha posto a coroa antes de entrar na sala, e o bronze brilhava, escuro, à luz dos archotes, Sombras esconderam seus olhos quando observou os mortos. Será que ele também vê Bran e Rickon? Catelyn poderia ter chorado, mas já não lhe restavam lágrimas. Os rapazes mortos estavam pálidos devido ao longo encarceramento, e ambos eram de tez clara; contra a pele lisa e branca, o sangue era chocantemente rubro, insuportável de contemplar. Será que irão colocar Sansa nua sob o Trono de Ferro depois de a matarem? Irá sua pele parecer assim tão branca, seu sangue tão vermelho? Do exterior chegavam o ruído contínuo da chuva e os inquietos uivos de um lobo. O irmão, Edmure, estava a direita de Robb, com uma mão apoiada no espaldar da cadeira do pai, e o rosto ainda inchado de sono. Tinham-no acordado, tal como a ela, batendo em sua porta, na noite cerrada, para arrancá-lo rudemente dos sonhos. Eram bons sonhos, irmão? Sonha com a luz do sol com risos e com os beijos de uma donzela? Rezo para que sim. Os sonhos dela eram escuros e fustigados por terrores. &lt;br /&gt;
Os capitães e senhores vassalos de Robb espalhavam-se pelo salão, alguns armados e com as cotas de malha vestidas, outros em vários estados de desalinho e nudez. Sor Raynald e o tio, Sor Rolph, encontravam-se entre eles, mas Robb tinha achado por bem poupar sua rainha daquela monstruosidade. O Despenhadeiro não fica longe de Rochedo Casterly, recordou Catelyn. Jeyne pode perfeitamente ter brincado com esses garotos quando eram crianças. Voltou a baixar o olhar para os cadáveres dos escudeiros Tion Frey e Willem Lannister, e esperou que o filho falasse. Pareceu passar-se muito tempo até que Robb erguesse o olhar dos mortos ensangüentados. ~ Pequeno-Jon - disse -, diga ao seu pai que os traga. - Sem uma palavra, Pequeno- -Jon Umber virou-se para obedecer, com os passos ecoando no grande salão de pedra. Enquanto Grande-Jon introduzia os prisioneiros na sala, Catelyn notou o modo como alguns dos outros homens recuavam para lhes dar espaço, como se a traição pudesse de algum modo ser transmitida por um toque, um olhar, um pouco de tosse. Os captores e os cativos eram muito parecidos; homens grandes, todos eles, com barbas espessas e cabelos compridos. Dois dos homens de Grande-Jon estavam feridos, e três de seus prisioneiros também. Só o fato de alguns terem lanças e outros bainhas vazias os distinguia. Todos usavam camisões de cota de malha ou camisas de anéis cosidos, com botas pesadas e mantos grossos, alguns de lã, outros de peles. O Norte é duro efrio, e não tem misericórdia, Ned tinha lhe dito quando ela veio a Winterfell pela primeira vez, mil anos antes. - Cinco - disse Robb quando os prisioneiros foram postos à sua frente, molhados e silenciosos. - São todos? - Eram oito - trovejou Grande-Jon. - Matamos dois quando os capturamos e um terceiro está agora agonizando. Robb estudou o rosto dos presos. - Foram precisos oito de vocês para matar dois escudeiros desarmados. Edmure Tully interveio. - Eles também assassinaram dois de meus homens para chegar à torre. Delp e Elwood. - Não foi assassinato, sor - disse Lorde Rickard Karstark, que não se mostrava mais derrotado pela corda que prendia seus pulsos do que pelo sangue que corria por seu rosto. - Qualquer homem que se interponha entre um pai e a sua vingança está pedindo a morte. As palavras dele ressoaram nos ouvidos de Catelyn, duras e cruéis, como o bater de um tambor de guerra. Sua garganta estava&lt;br /&gt;
completamente seca. Fui eu que fiz isso. Estes dois rapazes morreram para que minhas filhas pudessem sobreviver. - Eu vi seus filhos morrerem naquela noite no Bosque dos Murmúrios - disse Robb ao Lorde Karstark. - Tion Frey não matou Torrhen. Willem Lannister não tirou a vida de Eddard. Assim, como pode chamar isso de vingança? Isso foi uma loucura, e um assassinato sangrento. Seus filhos morreram honradamente no campo de batalha, de espada nas mãos. - Eles morreram - disse Rickard Karstark, sem ceder um milímetro. - O Regicida abateu-os. Estes dois eram da laia dele. Só sangue pode pagar sangue. - O sangue de crianças? - Robb apontou para os cadáveres. - Que idade eles tinham? Doze anos, treze? Escudeiros. - Morrem escudeiros em todas as batalhas. - Sim, morrem lutando. Tion Frey e Willem Lannister entregaram as espadas no Bosque dos Murmúrios. Eram prisioneiros, trancados numa cela, adormecidos, desarmados... garotos. Olhe para eles! Lorde Kastark preferiu olhar para Catelyn. - Diga à sua mãe para olhar para eles - falou. - Ela matou-os tanto quanto eu. Catelyn apoiou uma mão no espaldar da cadeira de Robb. O salão pareceu girar à sua volta. Sentiu-se prestes a vomitar. - Minha mãe não teve nada a ver com isso - disse Robb, irritado. - Isso foi obra sua. O assassinato foi seu. A traição foi sua. - Como pode ser traição matar Lannisters quando não é traição libertá-los? - perguntou rudemente Karstark. - Vossa Graça esqueceu-se de que estamos em guerra com o Rochedo Casterly? Na guerra, matam-se os inimigos. Seu pai não lhe ensinou isso, rapaz? - Rapaz? - com o punho revestido de cota de malha, Grande-Jon deu uma bofetada que deixou Rickard Karstark de joelhos. - Deixe-ol - a voz de Robb ressoou com autoridade. Umber afastou-se do cativo. Lorde Karstark cuspiu um dente. - Sim, Lorde Umber, deixe-me para o rei. Ele pretende me dar uma descompostura antes de me perdoar. E assim que ele lida com a traição, o nosso Rei no Norte, - Sorriu um sorriso úmido e vermelho. - Ou será que devo chamá-lo de Rei que perdeu o Norte, Vossa Graça? Grande-Jon tirou uma lança das mãos do homem que estava ao seu lado e ergueu-a sobre o ombro. - Deixe-me atravessá-lo, senhor. Deixe-me abrir a barriga dele para vermos a cor de suas tripas. As portas do salão abriram-se com estrondo, e Peixe Negro entrou com água escorrendo do manto e do elmo. Homens de armas Tully&lt;br /&gt;
seguiram-no, enquanto lá fora relâmpagos cruzavam o céu e uma chuva forte e negra assolava as pedras de Correrrio. Sor Brynden tirou o elmo e caiu sobre um joelho. - Vossa Graça - foi tudo que disse, mas seu tom lúgubre falava por si. - Ouvirei em privado o que Sor Brynden tem a dizer, na sala de audiências. - Robb levantou-se. - Grande-Jon, mantenha Lorde Karstark aqui até a minha volta, e enforque os outros sete. Grande-Jon abaixou a lança. - Até os mortos? - Sim, Não quero essa gente conspurcando os rios do senhor meu tio. Que alimentem os corvos. Um dos prisioneiros ajoelhou-se. - Misericórdia, senhor. Eu não matei ninguém, fiquei só à porta, de vigia, por causa dos guardas. Robb refletiu naquilo por um momento. - Conhecia as intenções de Lorde Rickard? Viu as facas desembainhadas? Ouviu os gritos, as súplicas de misericórdia? - Sim, mas não participei. Era só o vigia, juro... - Lorde Umber - disse Robb este era só o vigia. Enforque-o por último, para que possa vigiar a morte dos outros. Mãe, tio, venham comigo, por favor. - Deu as costas enquanto os homens de Grande-Jon cerravam fileiras em volta dos prisioneiros e os levavam do salão sob a ameaça de lanças. Lá fora, os trovões ribombavam e estrondeavam, tão alto que parecia que o castelo estava ruindo em volta de seus ouvidos. Será este o som de um reino desmoronando?, perguntou Catelyn a si mesma. Estava escuro dentro da sala de audiências, mas pelo menos o som dos trovões era abafado por mais uma parede de pedra. Um criado entrou com uma candeia de azeite para acender a lareira, mas Robb mandou-o embora e ficou com a candeia. Havia mesas e cadeiras, mas só Edmure se sentou, e levantou-se quando percebeu que os outros permaneceram em pé. Robb tirou a coroa e pousou-a na mesa, à sua frente. Peixe Negro fechou a porta. - Os Karstark desapareceram. - Todos? - seria ira ou desespero o que pesava daquela maneira na voz de Robb? Nem mesmo Catelyn tinha certeza. - Todos os guerreiros - respondeu Sor Brynden. - Algumas seguidoras de acampamento e criados foram deixados com os feridos. Interrogamos tantos quantos foram necessários para nos certificarmos da verdade. Começaram a partir ao cair da noite, escapando a princípio um a um ou dois a dois, e depois em grupos maiores, Foi ordenado aos feridos e criados que mantivessem as fogueiras acesas para que ninguém soubesse que tinham partido, mas depois que começou a chover, deixou de valer a pena.&lt;br /&gt;
- Irão voltar a se agrupar longe de Correrrio? - perguntou Robb. - Não. Espalharam-se, à caça. Lorde Karstark jurou oferecer a mão de sua filha donzela a qualquer homem, bem ou malnascido, que lhe traga a cabeça do Regicida. Que os deuses nos vaíham. Catelyn voltou a sentir náuseas. - Quase trezentos cavaleiros e duas vezes mais montar ias desaparecidos na noite, - Robb esfregou as têmporas, no local onde a coroa havia deixado sua marca, na pele macia acima das orelhas. - Todas as forças de cavalaria de Karhold, perdidas. Perdidas por mim. Por mim, que os deuses me perdoem. Catelyn não precisava ser um soldado para compreender a armadilha em que Robb se encontrava. Por ora, controlava as terras fluviais, mas seu reino estava cercado de inimigos por todos os lados, exceto pelo leste, onde Lysa se empoleirava em seu cume de montanha, Até o Tridente estava pouco seguro desde que o Senhor da Travessia retirara sua fidelidade. E agora perdemos também os Karstark... - Nem uma palavra sobre isso deve sair de Correrrio - disse Edmure. - Lorde Tywin faria... os Lannister pagam as suas dívidas, sempre dizem isso. Que a Mãe nos guarde quando ele souber. Sansa. As unhas de Catelyn enterraram-se na carne macia das palmas de suas mãos, tal foi a força com que cerrou os punhos. Robb lançou a Edmure um frio olhar, - Quer me transformar num mentiroso além de um assassino, tio? - Não precisamos falar nenhuma falsidade. Basta não dizer nada. Enterramos os rapazes e permanecemos em silêncio até o fim da guerra. Willem era filho de Sor Kevan Lannister e sobrinho de Lorde Tywin. Tion era filho da Senhora Genna, e um Frey. Temos também de manter a notícia longe das Gêmeas, até... - ... até conseguirmos trazer os assassinados de volta à vida? - disse Brynden Peixe Negro em tom cortante. - A verdade fugiu com os Karstark, Edmure. E tarde demais para esses jogos. - Devo a seus pais a verdade - disse Robb. - E a justiça. Também lhes devo isso. - Fitou a coroa, o brilho escuro do bronze, o círculo de espadas de ferro. - Lorde Rickard desafiou-me. Traiu-me. Não tenho escolha a não ser condená-lo. Só os deuses sabem o que fará a infantaria Karstark que está com Roose Bolton quando lhes chegar a notícia de que executei seu suserano por traição. Bolton precisa ser prevenido. - O herdeiro de Lorde Karstark também estava em Harrenhal - recordou-lhe Sor Brynden. - O filho mais velho, aquele que os Lannister capturaram no Ramo Verde. - Harrion. Chama-se Harrion. - Robb soltou uma gargalhada amarga, - Um rei faz bem em conhecer o nome de seus inimigos, não acha? Peixe Negro lançou-lhe um olhar astuto,&lt;br /&gt;
- Sabe disso com certeza? Que isso fará do jovem Karstark seu inimigo? - O que mais poderá acontecer? Estou prestes a matar o pai dele, não é provável que me agradeça. - Pode agradecer, Há filhos que odeiam os pais, e com um só golpe estará transformando-o no Senhor de Karhold. Robb balançou a cabeça. - Mesmo se Harrion fosse esse tipo de homem, nunca poderia perdoar abertamente o homem que matou seu pai. Seus próprios homens iriam se voltar contra ele. Estamos falando de nortenhos, tio. O Norte tem memória. - Então perdoe-o - sugeriu Edmure Tully. Robb fitou-o com franca incredulidade. Sob aquele olhar, o rosto de Edmure corou. - Poupe sua vida, quero dizer. Não gosto mais da idéia do que você, senhor. Ele também matou homens meus. O pobre Delp tinha acabado de se recuperar do ferimento que Sor Jaime lhe infligiu. Karstark deve ser punido, certamente. Mantenha-o acorrentado. - Um refém? - disse Catelyn. Poderia ser melhor... - Sim, um refém! - o irmão tomou a sua reflexão por concordância. - Diga ao filho que, desde que permaneça leal, o pai não será maltratado. Caso contrário... agora não temos esperança de reconquistar os Frey, nem que eu me oferecesse para casar com todas as filhas de Lorde Walder e transportasse sua liteira, Se também perdermos os Karstark, que esperança nos restará? - Que esperança,.. - Robb suspirou, afastou os cabelos dos olhos e disse: - Nada nos chegou de Sor Rodrik no norte, nenhuma resposta veio de Walder Frey à nossa nova oferta, recebemos apenas silêncio do Ninho da Águia. - Apelou à mãe. - Sua irmã não nos responderá nunca? Quantas vezes terei de lhe escrever? Não quero acreditar que nenhuma das aves chegou até ela. Catelyn percebeu que o filho queria ser confortado; queria que ela lhe dissesse que tudo ficaria bem. Mas seu rei precisava da verdade. - As aves chegaram ao Ninho da Águia. Embora ela possa lhe dizer que não, se alguma vez chegarem a falar do assunto. Não espere ajuda desse lado, Robb. Lysa nunca foi corajosa. Quando éramos meninas, ela fugia e escondia-se sempre que fazia algo errado. Talvez pensasse que o senhor nosso pai esqueceria de se zangar com ela caso não fosse capaz de encontrá-la. Agora é a mesma coisa. Ela fugiu de Porto Real por medo, para o lugar mais seguro que conhece, e recolhe-se em sua montanha com a esperança de que todos a esqueçam. - Os cavaleiros do Vale poderiam fazer toda a diferença nesta guerra - disse Robb mas se ela não quer lutar, que assim seja. Só lhe pedi que&lt;br /&gt;
nos abrisse o Portão Sangrento e nos desse navios em Vila Gaivotas para nos levar ao norte. A estrada de altitude seria difícil, mas não tão difícil quanto abrir caminho pelo Gargalo lutando. Se conseguisse desembarcar em Porto Branco, poderia flanquear Fosso Cailin e expulsar os homens de ferro do norte em meio ano. - Isso não acontecerá, senhor - disse Peixe Negro. - Cat tem razão. A Senhora Lysa é temerosa demais para deixar entrar um exército no Vale. Qualquer exército, O Portão Sangrento permanecerá fechado. - Então que os Outros a levem - praguejou Robb, numa fúria causada pelo desespero. - E o maldito Rickard Karstark também. E Theon Greyjoy, Walder Frey, Tywin Lannister e todos os outros. Pela bondade dos deuses, por que alguém haveria de querer ser rei? Quando todos estavam gritando Rei no Norte, Rei no Norte, eu disse a mim mesmo. .Jurei a mim mesmo.., que seria um bom rei, tão honrado quanto o pai, forte,justo, leal para com os meus amigos e bravo quando enfrentasse os inimigos... agora sequer sei distingui-los uns dos outros. Como foi que tudo isso ficou tão confuso? Lorde Rickard lutou ao meu lado em meia dúzia de batalhas. Os filhos dele morreram por mim no Bosque dos Murmúrios. Tion Frey e Willem Lannister eram meus inimigos. Mas agora tenho de matar o pai de meus amigos mortos por causa deles. - Olhou-os. - Os Lannister vão me agradecer pela cabeça de Lorde Rickard? E os Frey? - Não - disse Brynden Peixe Negro, direto como sempre. - Mais um motivo para poupar a vida de Lorde Rickard e mantê-lo como refém - insistiu Edmure. Robb estendeu ambas as mãos para baixo, ergueu a pesada coroa de bronze e ferro e voltou a colocá-la na cabeça, e de repente era um rei novamente. - Lorde Rickard morre. - Mas por quê? - perguntou Edmure. - Foi você mesmo que disse... - Eu sei o que disse, tio. Não muda o que tenho de fazer. - As espadas de sua coroa encostavam-se, rígidas e negras, contra a sua testa. - Em batalha poderia ter matado Tion e Willem em pessoa, mas isso não foi uma batalha. Eles estavam dormindo em suas camas, nus e desarmados, na cela em que os coloquei. Rickard Karstark matou mais do que um Lannister e um Frey. Matou a minha honra. Tratarei dele à alvorada, Quando o dia nasceu, cinzento e gelado, a tempestade se reduzira a uma chuva contínua, mesmo assim o bosque sagrado estava repleto de gente. Senhores do rio e nortenhos, de alto e baixo nascimento, cavaleiros, mercenários e cavalariços espalhavam-se entre as árvores para ver o fim da dança negra da noite. Edmure dera ordens, e um cepo de carrasco fora colocado em frente à árvore-coração. Chuva e folhas&lt;br /&gt;
caíam em volta deles quando os homens de Grande-Jon atravessaram a multidão com Lorde Rickard Karstark, ainda de mãos atadas. Seus homens já pendiam das grandes muralhas de Correrrio, balançando na ponta de longas cordas enquanto a chuva lhes lavava o rosto que enegrecia. Lew Longo esperava ao lado do cepo, mas Robb tirou o machado de sua mão e ordenou-lhe que se afastasse. - Isso é tarefa minha - disse. - Ele morre por ordem minha. Deve morrer por minhas mãos. Lorde Rickard Karstark inclinou rigidamente a cabeça. - Por isso lhe agradeço. Mas por mais nada. - Vestira-se para a morte com uma longa túnica negra de lã, decorada com o resplendor branco de sua Casa. - O sangue dos Primeiros Homens corre tanto nas minhas veias quanto nas suas, rapaz. Faria bem em se lembrar disso. Fui batizado em honra de seu avô. Convoquei meus vassalos contra o Rei Aerys por seu pai, e contra o Rei Joffrey por você. Em Cruzaboi, no Bosque dos Murmúrios e na Batalha dos Acampamentos cavalguei ao seu lado, e acompanhei Lorde Eddard no Tridente, Somos parentes, os Stark e os Karstark. - Esse parentesco não o impediu de me trair - disse Robb. - E não o salvará agora. Ajoelhe-se, senhor. Catelyn sabia que Lorde Karstark falara a verdade. Os Karstark traçavam sua genea- logia até Karlon Stark, um filho mais novo de Winterfell que derrubou um senhor rebelde mil anos antes e a quem tinham sido concedidas terras por seu valor, O castelo que construíra fora chamado Karls Hold, mas logo transformou-se em Karhold, e, ao longo dos séculos, os Stark de Karhold foram se transformando em Karstark. - Segundo os deuses antigos ou modernos, não faz diferença - Lorde Rickard disse ao filho dela -, não há homem mais amaldiçoado do que aquele que mata parentes. - Ajoelhe-se, traidor - voltou a dizer Robb. - Ou terei de ordenar-lhes que empurrem a sua cabeça contra o cepo? Lorde Karstark se ajoelhou. - Os deuses vão julgá-lo, tal como você me julgou, - Deitou a cabeça no cepo. - Rickard Karstark, Senhor de Karhold. - Robb ergueu o pesado machado com ambas as mãos. - Aqui, à vista dos deuses e dos homens, considero-o culpado de assassinato e alta traição. Em meu nome o condeno. Com as minhas mãos tiro a sua vida, Quer dizer uma última palavra? - Mate-me, e que seja amaldiçoado. Não é o meu rei.&lt;br /&gt;
O machado caiu. Pesado e bem afiado, matou em um único golpe, mas foram precisos três para separar a cabeça do corpo, e quando tudo terminou, tanto os vivos como o morto estavam encharcados de sangue. Robb atirou o machado ao chão, enojado, e virou-se para a árvore-coração sem dizer uma palavra. E ali ficou, tremendo e com as mãos se- micerradas e a chuva correndo por seu rosto. Que os deuses o perdoem, rezou Catelyn em silêncio. Ele é só um rapaz, e não tinha alternativa. Não voltou a ver o filho naquele dia. A chuva prosseguiu ao longo de toda a manhã, açoitando a superfície dos rios e transformando a relva do bosque sagrado em lama e poças. Peixe Negro reuniu uma centena de homens e saiu em busca de Karstarks, mas ninguém esperava que trouxesse muitos de volta. -Só rezo para não ter de enforcá-los - disse ao partir, Quando foi embora, Catelyn retirou-se para o aposento privado do pai, para sentar-se novamente à cabeceira de Lorde Hoster, - Não durará muito mais - preveniu-a Meistre Vyman quando apareceu naquela tarde. - Suas últimas forças estão se esgotando, embora ainda tente lutar. - Sempre foi um lutador - disse ela. - Um homem teimoso e querido. - Sim - disse o meistre -, mas esta é uma batalha que não pode ganhar. É hora de pousar a espada e o escudo. É hora de se render. De se render, pensou ela, de fazer a paz. O meistre estaria falando de seu pai ou de seu filho? Ao cair da noite, Jeyne Westerling veio visitá-la. A jovem rainha entrou timidamente no aposento privado. - Senhora Catelyn, não quero incomodá-la... - E muito bem-vinda aqui, Vossa Graça. - Catelyn estava bordando, mas pôs a agulha de lado. - Por favor. Chame-me de Jeyne. Não me sinto como uma Graça. - E, no entanto, é o que é. Por favor, venha sentar-se, Vossa Graça. -Jeyne, - Ela sentou-se junto à lareira e alisou ansiosamente a saia. - Como quiser. Como posso servi-la, Jeyne? - E Robb - disse a garota, - Ele está tão infeliz, tão... tão zangado e desconsolado. Não sei o que fazer. - Tirar a vida de um homem é uma coisa dura. - Eu sei. Disse-lhe que devia usar um carrasco, Quando Lorde Tywin envia um homem para a morte, tudo que faz é dar a ordem. Assim é mais fácil, não acha? - Sim - disse Catelyn -, mas o senhor meu esposo ensinou aos filhos que matar nunca deve ser fácil. - Oh. - A Rainha Jeyne umedeceu os lábios. - Robb não comeu o dia inteiro. Mandei que Rollam lhe levasse um bom jantar, costelas de javali&lt;br /&gt;
com cebolas cozidas e cerveja, mas nem tocou no prato. Passou a manhã inteira escrevendo uma carta e disse-me para não incomodá-lo, mas quando a carta ficou pronta, queimou-a. Agora está sentado, olhando uns mapas. Perguntei-lhe o que procurava, mas não me respondeu. Acho que nem sequer me ouviu. Nem quis mudar de roupa. Passou o dia inteiro molhado e ensangüentado. Eu quero ser uma boa esposa para ele, quero mesmo, mas não sei como ajudar. Não sei como animá-lo ou reconfortá-lo. Não sei de que precisa. Por favor, senhora, é a mãe dele, diga-me o que devo fazer. Diga-me o que devo fazer. Catelyn poderia fazer a mesma pergunta, se seu pai estivesse em condições de responder. Mas Lorde Hoster tinha partido, ou estava perto disso. O seu Ned também. E também Bran e Rickon, e a mãe, e Brandon, bá tanto tempo. Só lhe restava Robb, Robb e a esperança que se desvanecia de recuperar as filhas. - As vezes - disse Catelyn lentamente -, a melhor coisa que podemos fazer é nada. Quando cheguei a Winterfell, sentia-me magoada sempre que Ned ia ao bosque sagrado e lá se sentava sob a árvore-coração. Sabia que parte de sua alma estava naquela árvore, uma parte que eu nunca partilharia. Mas rapidamente percebi que sem essa parte ele não teria sido Ned. Jeyne, filha, você casou com o Norte, tal como eu fiz... e no Norte os invernos chegam. - Tentou sorrir. - Seja paciente. Seja compreensiva. Ele a ama e precisa de você, e voltará para você bem depressa. Talvez nesta mesma noite. Procure estar lá quando ele fizer isso. E tudo que posso lhe dizer. A jovem rainha escutou, arrebatada. ~ Estarei - disse, quando Catelyn terminou, - Estarei lá. - Pôs-se em pé. - Devia voltar. Ele pode ter sentido a minha falta. Verei. Mas se ainda estiver com os seus mapas, serei paciente, - Faça isso - disse Catelyn, mas quando a garota chegou à porta, lembrou-se de mais uma coisa, - Jeyne - chamou-a há algo mais que Robb precisa de você, embora ele próprio talvez não saiba ainda. Um rei precisa de um herdeiro. A garota sorriu ao ouvir aquilo. - Minha mãe diz o mesmo. Ela faz uma poção para mim, com ervas, leite e cerveja, para ajudar a me tornar fértil Bebo todas as manhãs. Disse a Robb que tenho certeza de que vou lhe dar gêmeos. Um Eddard e um Brandon. Ele gostou da idéia, acho eu. Nós... nós tentamos quase todos os dias, senhora. Certos dias duas vezes ou mais. - A garota corou de uma forma encantadora. - Vou esperar um bebê em breve, prometo. Rezo à nossa Mãe no Céu todas as noites. - Muito bem. Juntarei também as minhas preces. Aos velhos deuses e aos novos.&lt;br /&gt;
Depois que a garota saiu, Catelyn voltou para junto do pai e alisou os finos cabelos brancos por cima da testa. - Um Eddard e um Brandon - suspirou em voz baixa. - E talvez, a seu tempo, um Hoster. Gostaria disso? - ele não respondeu, mas ela nunca tinha esperado que respondesse. Enquanto o som da chuva no telhado se misturava com a respiração do pai, pensou em Jeyne. A garota realmente parecia ter bom coração, como Robb dissera. E boas ancas, o que pode vir a ser mais importante.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/587768494144835843/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/catelyn_27.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/587768494144835843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/587768494144835843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/catelyn_27.html' title='Catelyn'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-5285675383532034322</id><published>2013-12-27T15:12:00.001-08:00</published><updated>2013-12-27T15:12:54.684-08:00</updated><title type='text'>Tyrion</title><content type='html'>A corrente de mãos de Lorde Tywin projetava uma cintilação dourada sobre o profundo tom bordo de sua túnica de veludo. Os Senhores Tyrell, Redwyne e Rowan reuniram-se à sua volta quando ele entrou. Cumprimentou-os um por um, deu uma palavrinha em voz baixa a Varys, beijou o anel do Alto Septão e a face de Cersei, apertou a mão do Grande Meistre Pycelle e sentou-se no lugar do rei, à cabeceira da longa mesa, entre a filha e o irmão. Tyrion tinha se apoderado do antigo lugar de Pycelle, ao fundo da mesa, tendo-lhe acrescentado almofadas para poder estender o olhar ao longo de toda a mesa. Desalojado, Pycelle se mudara para junto de Cersei, sentando-se quase tão longe do anão quanto podia sem reclamar a cadeira do rei. O Grande Meistre era um esqueleto trôpego, apoiando-se pesadamente numa bengala retorcida e tremendo ao caminhar, com um punhado de cabelos brancos brotando de seu longo pescoço enrugado onde outrora tivera a sua luxuriante barba branca. Tyrion fitou-o sem remorso. Os outros tiveram de disputar os lugares: Lorde Mace Tyrell, um homem pesado e robusto, com cabelos castanhos encaracolados e uma barba em forma de folha bem salpicada de branco; Paxter Redwyne, da Árvore, de ombros estreitos e magro, com a cabeça calva rodeada de tufos de cabelo cor de laranja; Mathis Rowan, Senhor de Bosquedouro, escanhoado, entroncado e transpirando; o Alto Septão, um homem frágil, com uma bar- bicha fina e branca. Muitos rostos desconhecidos, pensou Tyrion, muitos jogadores novos. 0 jogo mudou enquanto eu apodrecia na cama, e ninguém vai me contar as regras, Oh, os lordes tinham sido bastante corteses, embora Tyrion visse como se sentiam desconfortáveis ao olhar para ele. - Aquela sua corrente, isso foi astucioso - tinha dito Mace Tyrell, num tom alegre, e Lorde Redwyne assentiu e completou: - E bem verdade, é bem verdade, o nosso senhor de Jardim de Cima fala por todos nós - também com grande alegria. Vá dizer isso ao povo desta cidade, pensou Tyrion amargamente. Vá dizer isso aos malditos cantores que andam por aí, com suas canções sobre o fantasma de Renly. Tio Kevan fora o mais caloroso, chegando ao ponto de lhe dar um beijo na face e dizer: - Lancei contou-me de sua bravura, Tyrion. Fala muito bem de você.&lt;br /&gt;
É melhor que fale, caso contrário eu teria algumas coisas a dizer sobre ele. Tinha se obrigado a sorrir e respondeu: - Meu bom primo é demasiado gentil. Confio que seu ferimento esteja cicatrizando, certo? Sor Kevan franziu a testa. - Um dia parece mais forte, no seguinte... é preocupante. Sua irmã vai com freqüência visitá-lo à cama, para melhorar seu moral e rezar por ele. Mas estará rezando para que sobreviva ou para que morra? Cersei usara desavergonhadamente o primo, na cama e fora dela; um pequeno segredo que sem dúvida esperava que Lancei levasse para a tumba, agora que o pai estava ali e já não precisava dele. Mas chegaria ao ponto de assassiná-lo? Ao vê-la hoje, nunca se suspeitaria de que Cersei era capaz de ser assim tão implacável. Ela era toda encanto, flertando com Lorde Tyrell enquanto conversavam sobre o banquete de casamento de Joffrey, elogiando Lorde Redwyne pelo valor de seus gêmeos, amaciando o rude Lorde Rowan com gracejos e sorrisos, dirigindo ruídos piedosos ao Alto Septão. - Começamos pelos preparativos para o casamento? - ela perguntou, quando Lorde Tywin se sentou. - Não - disse o pai. - Pela guerra. Varys. O eunuco deu um sorriso de seda. - Tenho notícias deliciosas para todos os senhores. Ontem de madrugada, o nosso bravo Lorde Randyll apanhou Robett Glover nos arredores de Valdocaso e encurralou- -o contra o mar. As perdas foram pesadas de ambos os lados, mas no fim os nossos leais homens prevaleceram. Dizem que Sor Helman Tallhart está morto, bem como mais de mil homens. Robett Glover volta a Harrenhal com os sobreviventes, em sangrenta desordem, sem sonhar que irá encontrar atravessados no caminho o valente Sor Gregor e seus bravos, - Que os deuses sejam louvados! - disse Paxter Redwyne. - Uma grande vitória para o Rei Joffrey! O que Joffrey teve a ver com isso?, pensou Tyrion. - E uma terrível derrota para o Norte, certamente - observou Mindinho mas uma derrota em que Robb Stark não desempenhou nenhum papel. O Jovem Lobo permanece invencível no campo de batalha, - O que sabemos dos planos e movimentos dos Stark? - perguntou Mathis Rowan, sempre direto e sem rodeios. - Correu de volta a Correrrio com o saque, abandonando os castelos que tomou no oeste - anunciou Lorde Tywin. - Nosso primo, Sor Daven, está reorganizando os restos do exército de seu falecido pai em Lanisporto. Quando estiverem preparados, vai se juntar a Sor Forley&lt;br /&gt;
Prester no Dente Dourado. Assim que o rapaz Stark marchar para norte, Sor Forley e Sor Daven cairão sobre Correrrio. - Está certo de que Lorde Stark pretende ir para o Norte? - perguntou Lorde Rowan. - Mesmo com os homens de ferro em Fosso Cailin? Mace Tyrell interveio. - Haverá alguma coisa mais inútil do que um rei sem reino? Não, é evidente, o rapaz tem de abandonar as terras fluviais, voltar a juntar suas forças às de Roose Bolton e a atirar todo o seu poderio contra Fosso Cailin. Seria isso que eu faria. Tyrion teve de morder a língua ao ouvir aquilo. Robb Stark vencera mais batalhas em um ano do que o Senhor de Jardim de Cima em vinte. A reputação de Tyrell se baseava em uma vitória não decisiva sobre Robert Baratheon em Vaufreixo, numa batalha praticamente ganha pela vanguarda de Lorde Tarly, antes mesmo de a tropa principal chegar. O cerco de Ponta Tempestade, onde Mace Tyrell realmente detinha o comando, arrastara-se durante um ano sem qualquer resultado, e após a batalha no Tridente, o Senhor de Jardim de Cima tinha saudado docilmente Eddard Stark com seus estandartes. - Devia escrever a Robb Stark uma carta severa - disse Mindinho. - Ouvi dizer que o seu subordinado Bolton anda guardando cabras no meu salão de audiências, é realmente uma grande falta de escrúpulos. Sor Kevan Lannister pigarreou. - No que diz respeito aos Stark... Balon Greyjoy, que agora se intitula Rei das Ilhas e do Norte, escreveu-nos oferecendo termos para uma aliança. - O que devia oferecer era fidelidade - exclamou Cersei. - Com que direito se intitula rei? - Com o direito da conquista - disse Lorde Tywin. - O Rei Balon tem dedos de estrangulador apertados em volta do Gargalo. Os herdeiros de Robb Stark estão mortos, Winterfell caiu e os homens de ferro detêm Fosso Cailin, Bosque Profundo e a maior parte da Costa Pedregosa. Os dracares do Rei Balon controlam o mar de poente e estão em boa posição para ameaçar Lanisporto, Ilha Bela e até Jardim de Cima, se o provocarmos. - E se aceitarmos essa aliança? - inquiriu Lorde Mathis Rowan. - Que termos ele propõe? - Que reconheçamos a sua condição régia e lhe demos tudo a norte do Gargalo. Lorde Redwyne soltou uma gargalhada. - O que há a norte do Gargalo que um homem são possa querer? Se o Greyjoy quiser trocar espadas e velas por pedras e neve, eu digo que devemos ir em frente e nos achar com sorte.&lt;br /&gt;
- E verdade - concordou Mace Tyrell. - Isso é o que eu faria. Que o Rei Balon acabe com os nortenhos enquanto nós acabamos com Stannis. O rosto de Lorde Tywin não mostrava nenhum sinal do que sentia. - Também é preciso lidar com Lysa Arryn, Viúva de Jon Arryn, filha de Hoster Tully, irmã de Catelyn Stark... cujo marido andava conspirando com Stannis Baratheon no momento de sua morte. - Ah - disse Mace Tyrell em voz alegre -, as mulheres não têm estômago para a guerra. Que seja deixada em paz, penso eu, não é provável que nos cause problemas. - Concordo - disse Redwyne. - A Senhora Lysa não participou na luta e tampouco cometeu qualquer ato claro de traição. Tyrion mexeu-se na cadeira, - Ela atirou-me numa cela e levou a minha vida a julgamento - apontou, com certa quantidade de rancor, - E não voltou a Porto Real para jurar lealdade a JoíFcomo lhe foi ordenado. Senhores, deem-me homens suficientes e eu tratarei de Lysa Arryn. - Não conseguia lembrar-se de nada que pudesse lhe dar mais prazer, exceto talvez estrangular Cersei. Às vezes ainda sonhava com as celas do céu do Ninho da Águia e acordava ensopado em suores frios. O sorriso de Mace Tyrell era jovial, mas por trás dele Tyrion detectou desprezo. - Talvez seja melhor que deixe a guerra para os guerreiros - disse o Senhor de jardim de Cima. - Homens melhores do que você perderam grandes exércitos nas Montanhas da Lua, ou estilhaçaram-nos contra o Portão Sangrento. Conhecemos seu valor, senhor, não há necessidade de tentar a sorte. Tyrion ergueu-se nas almofadas, irritado, mas o pai falou antes que tivesse oportunidade de reagir. - Tenho em mente outras tarefas para Tyrion. Creio que Lorde Petyr pode deter a chave para o Ninho da Águia. - Oh, se tenho - disse Mindinho -, tenho-a aqui bem entre as pernas. - Havia tra- vessura em seus olhos cinza-esverdeados. - Senhores, com a sua licença, proponho-me a viajar até o Vale e lá cortejar e conquistar a Senhora Lysa Arryn. Assim que me tornar seu consorte, entregarei o Vale de Arryn aos senhores, sem que seja derramada uma gota de sangue. Lorde Rowan demonstrou um ar de dúvida. - Mas a Senhora Arryn vai querer aceitá-lo? -Já me aceitou várias vezes antes, Lorde Mathis, e não exprimiu nenhuma queixa. - Dormir com alguém - disse Cersei - não é o mesmo que casar-se com tal pessoa. Até uma anta como a Lysa Arryn será capaz de compreender a diferença.&lt;br /&gt;
- Com certeza. Não seria próprio para uma filha de Correrrio casar com alguém tão abaixo de seu estatuto. - Mindinho abriu as mãos. - Mas agora... um casamento entre a Senhora do Ninho da Águia e o Senhor de Harrenhal não é assim tão impensável, não é? Tyrion reparou no olhar que foi trocado entre Paxter Redwyne e Mace Tyrell. - Talvez sirva - disse Lorde Rowan -, se tem a certeza de ser capaz de manter a mulher leal à Graça do Rei. - Senhores - proclamou o Alto Septão o outono está aí, e todos os homens de bom coração se sentem cansados da guerra. Se Lorde Baelish for capaz de trazer o Vale à paz do rei sem mais derramamento de sangue, os deuses certamente o abençoarão. - Mas será que ele é capaz de tal coisa? - perguntou Lorde Redwyne. - O Senhor do Ninho da Águia é agora o filho de Jon Arryn, Lorde Robert, - Não passa de um garoto - disse Mindinho, - Vou me assegurar de que cresça como o mais leal dos súditos de Joffrey, e um firme amigo de todos nós. Tyrion estudou o homem esbelto com barba pontiaguda e irreverentes olhos cinza- -esverdeados. Senhor de Harrenhal, uma honraria vazia? O raio que o parta, pai Mesmo que nunca ponha os pés no castelo, o titulo torna esse casamento possível, tal como ele sempre soube. - Não nos faltam inimigos - disse Sor Kevan Lannister. - Se o Ninho da Águia puder ser mantido fora da guerra, ótimo, Estou disposto a ver o que Lorde Petyr será capaz de alcançar. Tyrion sabia, por longa experiência, que Sor Kevan era a vanguarda do pai nos conselhos; nunca tinha um pensamento que antes não tivesse passado pela cabeça de Lorde Tywin. Tudo já foi combinado com antecedência, concluiu, e esta discussão não passa de um espetáculo. As ovelhas baliam o seu acordo, sem se darem conta da limpeza com que tinham sido tosquiadas, por isso, coube a Tyrion levantar objeções. - Como a coroa pagará as suas dívidas sem Lorde Petyr? Ele é o nosso mago da moeda, e não temos ninguém que o substitua. Mindinho sorriu. - Meu pequeno amigo é gentil demais. Tudo que faço é contar cobres, como o Rei Robert costumava dizer. Qualquer mercador inteligente poderia se sair igualmente bem... e um Lannister, abençoado com o toque de ouro de Rochedo Casterly, irá sem dúvida ultrapassar-me em muito. - Um Lannister? - aquilo deu a Tyrion um mau pressentimento. Os olhos salpicados de ouro de Lorde Tywin encontraram-se com os olhos desiguais do filho. - E admiravelmente adequado para a tarefa, creio eu.&lt;br /&gt;
- Deveras! - disse cordialmente Sor Kevan. - Nào tenho dúvidas de que será um magnífico mestre da moeda, Tyrion. Lorde Tywin virou-se de novo para Mindinho. - Se Lysa Arryn recebê-lo como esposo e regressar à paz do rei, devolveremos a Robert o título de Protetor do Leste. Quando pode partir? - Amanhã, se os ventos permitirem. Há uma galé de Bravos ao largo, para lá da corrente, embarcando carga por intermédio de barcos. O Rei Bacalhau. Falarei com o seu capitão a propósito de uma cabine. - Faltará ao casamento do rei - disse Mace Tyrell. Petyr Baelish encolheu os ombros. - As marés e as noivas não esperam por ninguém, senhor. Assim que se iniciem as tempestades de outono, a viagem vai se tornar muito mais perigosa. O afogamento certamente diminuiria meus encantos como noivo. Lorde Tyrell soltou um risinho. - E verdade. E melhor que não se demore. - Que os deuses o acompanhem em sua viagem - disse o Alto Septão. - Todos em Porto Real rezarão por seu sucesso. Lorde Redwyne apertou o nariz. - Podemos voltar ao problema da aliança Greyjoy? A meu ver, há muito a ser dito em seu favor. Os dracares Greyjoy reforçarão a minha frota e vão nos dar força suficiente no mar para assaltar Pedra do Dragão e pôr fim às pretensões de Stannis Baratheon. - Os dracares do Rei Balon no momento estão ocupados - disse educadamente Lorde Tywin assim como nós. Greyjoy exige metade do reino como preço por uma aliança, mas o que fará para merecê-lo? Lutar contra os Stark? já está fazendo isso. Por que havemos de pagar por aquilo que nos deu de graça? A melhor coisa a fazer a respeito de nosso senhor de Pyke é nada, a meu ver. Com tempo suficiente, uma alter- nativa melhor poderá se apresentar. Uma alternativa que não exija que o rei abra mão de metade de seu reino. Tyrion observou o pai com atenção. Há alguma coisa que ele não está dizendo. Lembrou-se daquelas cartas importantes que Lorde Tywin estava escrevendo na noite em que Tyrion exigiu Rochedo Casterly. O que foi que ele disse? Algumas batalhas ganham- se com espadas e lanças, outras com penas e corvos... Perguntou a si mesmo quem seria a &quot;melhor alternativa&quot;, e que tipo de preço estaria exigindo. - Talvez devêssemos passar ao casamento - disse Sor Kevan. O Alto Septão falou dos preparativos que estavam sendo feitos no Grande Septo de Baelor, e Cersei detalhou os planos que tinha feito para o banquete. Iriam ter mil convi- ciados na sala do trono, mas muitos mais lá fora, nos pátios. Os pátios exterior e intermediário seriam&lt;br /&gt;
cobertos por toldos de seda, com mesas de comida e barris de cerveja para todos os que não pudessem ser acomodados no salão. - Vossa Graça - disse o Grande Meistre Pycelle em relação ao número de convidados... recebemos um corvo de Lançassolar. Trezentos dorneses vêm a caminho de Porto Real neste exato momento e esperam chegar antes da boda. - Vêm como? - perguntou bruscamente Mace Tyrell. - Não pediram autorização para atravessar as minhas terras. - Tyrion reparou que seu grosso pescoço havia se tornado vermelho-escuro. Dorneses e o povo de Jardim de Cima nunca tinham tido grande simpatia uns pelos outros; ao longo dos séculos, tinham travado incontáveis guerras fronteiriças, além de desencadearem ataques para lá e para cá, atravessando montanhas e campinas, mesmo em tempo de paz. A inimizade atenuara-se um pouco depois de Dorne ter se tornado parte dos Sete Reinos... até que o príncipe dornês que chamavam de Víbora Vermelha aleijou o jovem herdeiro de Jardim de Cima num torneio. Isso pode vir a ser constrangedor, pensou o anão, esperando para ver como o pai lidaria com o assunto. - O Príncipe Doran vem a convite de meu filho - disse calmamente Lorde Tywin não só para se juntar à nossa festa, mas também para reclamar seu lugar neste conselho e a justiça que Robert lhe negou pelo assassinato da irmã Elia e de seus filhos. Tyrion observou o rosto de Lorde Tyrell, de Redwyne e de Rowan, perguntando a si mesmo se algum dos três seria suficientemente ousado para dizer &quot;Mas, Lorde Tywin, não foi você quem apresentou os corpos a Robert, enrolados em mantos Lannister?&quot;. Nenhum deles fez isso, mas a pergunta estava lá, em suas expressões, mesmo assim. Redwyne não está nem aí, pensou, mas Rowan parece pronto para vomitar. - Quando o rei estiver casado com a sua Margaery e Myrcella com o Príncipe Tristane, seremos todos uma grande Casa - recordou Sor Kevan a Mace Tyrell. - As inimizades do passado devem permanecer no passado, não concorda, senhor? - Este é o casamento da minha filha... - ... e do meu neto - disse firmemente Lorde Tywin. - Certamente não será o lugar adequado para velhas rixas. - Não tenho nenhuma rixa com Doran Martell - insistiu Lorde Tyrell, embora seu tom de voz fosse mais do que um pouco ríspido. - Se deseja atravessar a Campina em paz, só precisa pedir a minha autorização. Isso é pouco provável, pensou Tyrion. Ele vai subir o caminho do espinhaço, virar para leste perto de Solarestival, e seguir pela estrada do rei. - Trezentos dorneses não irão perturbar os nossos planos - disse Cersei. - Podemos colocar os homens de armas no pátio, enfiar mais&lt;br /&gt;
alguns bancos na sala do trono para os fidalgos e cavaleiros de bom nascimento e arranjar para o Príncipe Doran um lugar de honra no estrado. Perto de mim, não, era a mensagem que Tyrion lia nos olhos de Mace Tyrell, mas o Senhor de Jardim de Cima limitou-se a responder com um aceno brusco. - Talvez possamos passar a uma tarefa mais agradável - disse Lorde Tywin. - Os frutos da vitória aguardam divisão. - O que poderia ser mais animador? - perguntou Mindinho, que já havia engolido seu fruto, Harrenhal. Cada senhor tinha as suas exigências; este castelo e aquela aldeia, extensões de terra, um pequeno rio, uma floresta, a tutela de certos menores deixados sem pai pela batalha. Felizmente, os frutos eram abundantes, e havia órfãos e castelos para todos. Varys tinha listas. Quarenta e sete fidalgos menores e seiscentos e dezenove cavaleiros tinham perdido a vida sob o coração flamejante de Stannis e de seu Senhor da Luz, bem como vários milhares de homens de armas plebeus. Todos eles traidores, seus herdeiros eram deserdados, suas terras e castelos oferecidos àqueles que tinham se mostrado mais leais. Jardim de Cima teve a colheita mais rica. Tyrion olhou a grande barriga de Mace Tyrell e pensou: Esse aí tem um apetite prodigioso. Tyrell exigiu as terras e castelos de Lorde Alester Florent, seu próprio vassalo, que tivera o singular mau discernimento de apoiar primeiro Renly e depois Stannis. Lorde Tywin fez sua vontade com toda a satisfação. A Fortaleza de Águas Claras e todas as suas terras e rendimentos foram oferecidos ao segundo filho de Lorde Tyrell, Sor Garlan, transformando-o num grande senhor num piscar de olhos. O irmão mais velho, naturalmente, estava na linha para herdar o próprio Jardim de Cima, Extensões menores de terra foram oferecidas a Lorde Rowan e separadas para Lorde Tarly, Senhora Oakheart, Lorde Hightower e outros ilustres que não se encontravam presentes. Lorde Redwyne pediu apenas trinta anos de perdão nos impostos que Mindinho e seus feitores vinícolas tinham feito cair sobre certos dos melhores vinhos da Árvore, Quando isso lhe foi concedido, declarou-se plenamente satisfeito e sugeriu que mandassem vir um casco de vinho dourado da Árvore, a fim de brindar ao Rei Joffrey e à sua sábia e benevolente Mão. Ao ouvir aquilo, Cersei perdeu a paciência. - E de espadas que Joff precisa, não de brindes - exclamou. - Seu reino continua empesteado de candidatos a usurpadores e autoproclamados reis. - Mas não por muito tempo, penso eu - disse untuosamente Varys. - Ainda restam alguns assuntos, senhores. - Sor Kevan consultou seus papéis. - Sor Addam encontrou alguns dos cristais da coroa do Alto&lt;br /&gt;
Septão. Agora parece certo que os ladrões separaram os cristais e fundiram o ouro. - Nosso pai no Céu conhece a culpa deles e vai levá-los todos a julgamento - disse piamente o Alto Septão. - Sem dúvida que sim - disse Lorde Tywin. - Seja como for, você deve estar coroado na boda do rei. Cersei, convoque nossos ourives, temos de arranjar uma coroa que a substitua. - Não esperou pela resposta dela e virou-se imediatamente para Varys. - Tem relatórios? O eunuco tirou um pergaminho da manga. - Foi vista uma lula-gigante ao largo dos Dedos. - Soltou um risinho. - Não um Greyjoy, notem, uma lula-gigante de verdade. Atacou um baleeiro ibbenês e afundou-o. Luta-se nos Degraus, e uma nova guerra entre Tyrosh e Lys parece provável. Ambas as cidades têm esperança de ganhar Myr como aliada. Marinheiros vindos do Mar de Jade relatam que um dragão de três cabeças nasceu em Qarth e é a maravilha dessa cidade... - Dragões e lulas-gigantes não me interessam, independentemente de quantas cabeças tenham - disse Lorde Tywin. - Seus informantes terão por acaso encontrado algum rastro do filho de meu irmão? - Infelizmente, nosso bem-amado Tyrek desapareceu por completo, pobre e bravo rapaz. - Varys parecia perto de rebentar em lágrimas. - Tywin - disse Sor Kevan, antes que Lorde Tywin tivesse oportunidade de expressar a sua óbvia insatisfação alguns dos homens de manto dourado que desertaram durante a batalha esgueiraram-se de volta aos quartéis, pensando retornar ao serviço. Sor Addam quer saber o que fazer com eles. - Podem ter posto Joff em perigo com sua covardia - disse imediatamente Cersei. - Quero-os executados, Varys suspirou. - Eles certamente mereceriam a morte, Vossa Graça, ninguém pode negar, E, no entanto, talvez fosse mais sensato se os mandássemos para a Patrulha da Noite. Nos últimos tempos, recebemos mensagens perturbadoras da Muralha. Sobre selvagens em movimento... - Selvagens, lulas-gigantes e dragões, - Mace Tyrell soltou um risinho. - Ora essa, haverá alguém que não se agita? Lorde Tywin ignorou-o. - Os desertores servem-nos melhor como lição. Quebrem seus joelhos com martelos. Não voltarão a fugir. Assim como qualquer homem que os veja mendigando pelas ruas, - Passou o olhar pela mesa, para ver se algum dos outros senhores discordava. Tyrion lembrou-se de sua visita à Muralha, e dos caranguejos que tinha dividido com o velho Lorde Mormont e seus oficiais. Lembrou-se também dos temores do Velho Urso,&lt;br /&gt;
- Talvez possamos quebrar os joelhos de alguns para afirmar nossa posição. Aqueles que mataram Sor Jacelyn, por exemplo. Quanto aos outros, podemos mandá-los para o Marsh. A Patrulha está com uma grave falta de efetivos. Se a Muralha cair... - ... os selvagens inundarão o Norte - concluiu o pai - e os Stark e os Greyjoy terão outro inimigo para combater, Se, como parece, já não desejam ser súditos do Trono de Ferro, com que direito olham para ele em busca de ajuda? Tanto o Rei Robb como o Rei Balon reivindicam o Norte. Que eles o defendam, se conseguirem. E, se não conseguirem, esse Mance Rayder até pode se revelar um aliado útil. - Lorde Tywin olhou para o irmão. - Mais alguma coisa? Sor Kevan sacudiu a cabeça, - Terminamos, Senhores, Sua Graça, o Rei Joffrey, desejará sem dúvida agradecer a todos por sua sabedoria e bons conselhos. - Gostaria de trocar umas palavras em privado com meus filhos - disse Lorde Tywin quando os outros se levantaram para sair da sala. - Você também, Kevan. Obedientemente, os outros conselheiros fizeram as suas despedidas. Varys foi o primeiro a sair e Tyrell e Redwyne, os últimos. Quando todos exceto os quatro Lannister tinham saído da sala, Sor Kevan fechou a porta. - Mestre da moeda? - perguntou Tyrion numa voz fina e tensa. - De quem foi essa idéia, diga-me? - De Lorde Petyr - disse o pai -, mas é útil ter o tesouro nas mãos de um Lannister. Você pediu um trabalho importante. Teme ser incapaz de desempenhar a tarefa? - Não - disse Tyrion. - Tenho medo de uma armadilha. Mindinho é sutil e ambicioso. Não confio nele. E o senhor também não deveria confiar. - Ele conquistou Jardim de Cima para o nosso lado... - começou Cersei. - ... e vendeu-lhe Ned Stark, eu sei. Vai nos vender com a mesma rapidez. Nas mãos erradas, uma moeda é tão perigosa quanto uma espada. Tio Kevan olhou-o com uma expressão estranha. - Decerto que não para nós. O ouro de Rochedo Casterly... - ... é escavado do chão. O ouro de Mindinho é feito a partir do ar, com um estalar de dedos. - Uma habilidade mais útil do que qualquer uma das suas, querido irmão - ronro- nou Cersei, numa doce voz de malícia. - Mindinho é um mentiroso... - ... e também é preto, disse a gralha sobre o corvo. Lorde Tywin bateu na mesa. - Basta! Não admito mais essa briguinha indecorosa. São ambos Lannister e vão se comportar como tal.&lt;br /&gt;
Sor Kevan pigarreou. - Eu preferiria ter Petyr Baelish governando o Ninho da Águia do que qualquer outro dos pretendentes da Senhora Lysa. Yohn Royce, Lyn Corbray, Horton Redfort... são homens perigosos, cada um à sua maneira. E orgulhosos. Mindinho pode ser esperto, mas não tem nem nascimento elevado nem perícia com as armas. Os Senhores do Vale nunca aceitarão um homem assim como seu suserano. - Olhou para o irmão. Quando Lorde Tywin acenou com a cabeça, prosseguiu. - E há o seguinte: Lorde Petyr continua a demonstrar sua lealdade. Ontem mesmo trouxe-nos a notícia de um estratagema dos Tyrell para levar Sansa Stark até Jardim de Cima para uma &quot;visita&quot;, e lá casá-la com o filho mais velho de Lorde Mace, Willas. - Mindinho trouxe-lhe essa notícia? - Tyrion debruçou-se sobre a mesa. - Não foi o nosso mestre dos sussurros? Que interessante, Cersei olhou o tio com incredulidade. - Sansa é minha refém. Ela não vai a lugar nenhum sem a minha licença. - Licença que forçosamente teria que dar, se Lorde Tyrell a pedisse - ressaltou o pai. - Recusá-la seria equivalente a declarar que não confiamos nele. Ele iria se ofender. - Que se ofenda. E daí? Maldita idiota, pensou Tyrion. - Querida irmã - explicou pacientemente se ofender os Tyrell, ofenderá também os Redwyne, os Tarly, os Rowan e os Hightower, e talvez os faça começar a pensar se Robb Stark não poderia ser mais obsequioso para com os seus desejos. - Não quero a rosa e o lobo gigante juntos na cama - declarou Lorde Tywin. - Temos de nos antecipar. - Como? - perguntou Cersei, - Através do casamento. O seu, para começar. Aquilo foi tão súbito que Cersei não conseguiu fazer mais do que fitá-lo por um momento. Então, seu rosto enrubesceu como se tivesse sido esbofeteado. - Não. Outra vez, não. Não farei isso. - Vossa Graça - disse Sor Kevan com cortesia -, é uma mulher jovem, ainda bela e fértil. Certamente não vai querer passar o resto de seus dias sozinha. E um novo casamento afastará de uma vez por todas essa história de incesto. - Enquanto permanecer sem casar, estará permitindo que Stannis espalhe essa repugnante difamação - disse Lorde Tywin à filha. - Precisa ter um novo marido em sua cama, para lhe gerar filhos. - Três filhos são mais do que suficientes. Sou Rainha dos Sete Reinos, não uma égua reprodutora! A Rainha Regentel&lt;br /&gt;
- E minha filha, e fará o que eu ordenar. Ela pôs-se em pé. - Não ficarei aqui ouvindo essa... - Ficará se quiser dizer algo sobre a escolha de seu próximo marido - disse calmamente Lorde Tywin. Ela hesitou e depois se sentou, Tyrion compreendeu que ela tinha perdido, apesar de sua sonora declaração de que: - Não voltarei a me casar! - Vai se casar e se reproduzir. Cada filho que der à luz tornará Stannis mais mentiroso. - Os olhos do pai pareciam pregá-la à cadeira como se fossem alfinetes. - Mace Tyrell, Paxter Redwyne e Doran Martell são casados com mulheres mais jovens, que provavelmente sobreviverão a eles, A esposa de Balon Greyjoy é idosa e de saúde delicada, mas um casamento desses iria nos comprometer a uma aliança com as Ilhas de Ferro, e eu ainda não estou certo de que esse seja o caminho mais sensato. - Não - disse Cersei por entre os lábios brancos. - Não, não, não. Tyrion não conseguiu suprimir por completo o sorriso que veio aos seus lábios ao pensar em despachar a irmã para Pyke. Justamente quando eu me preparava para desistir das rezas, um deus bondoso entrega-me isto. Lorde Tywin prosseguiu. - Oberyn Martell poderia servir, mas os Tyrell levariam uma coisa dessas muito a mal. Portanto, temos que olhar para os filhos. Presumo que não levante objeções a se casar com um homem mais novo do que você. - Levanto objeções a casar com qualquer... - Pensei nos gêmeos Redwyne, em Theon Greyjoy, em Quentyn Martell e em vários outros. Mas a nossa aliança com Jardim de Cima foi a espada que quebrou Stannis. Deve ser temperada e fortalecida. Sor Loras envergou o branco e Sor Garlan está casado com uma das Fossoway, mas ainda resta o filho mais velho, o rapaz que planejam casar com Sansa Stark. Willas Tyrell. Tyrion estava tendo um prazer perverso com a fúria impotente de Cersei. - Esse é o aleijado - ele disse. O pai gelou-o com um olhar. - Willas é herdeiro de Jardim de Cima, e, segundo tudo que se diz, um jovem brando e cortês, apreciador da leitura e da observação das estrelas. Tem também uma paixão pela criação e seleção de cruzas de animais, possui os melhores cães de caça, falcões e cavalos dos Sete Reinos.&lt;br /&gt;
Um casamento perfeito, devaneou Tyrion. Cersei também tem uma paixão por cruzar. Sentiu pena do pobre Willas Tyrell, e não soube se devia rir da irmã ou chorar por ela. - O herdeiro Tyrell seria a minha escolha - concluiu Lorde Tywin -, mas se preferir outro, escutarei seus argumentos. - Isso é tão gentil de sua parte, pai - disse Cersei com fria cortesia. - A escolha que me deixa é tão complicada. Quem eu preferiria levar para a cama, a lula velha ou o cãozinho aleijado? Precisarei de alguns dias para pensar no assunto. Tenho a sua licença para me retirar? Você é a rainha, Tyrion quis lhe dizer. Ele devia estar pedindo licença a você. - Vá - disse o pai. - Voltaremos a conversar depois de ter recuperado a compostura. Lembre-se de seus deveres. Cersei caminhou, dura, para fora da sala, ostentando claramente a sua raiva. Mas no fim fará o que o pai pede. Ela provara isso com Robert. Se bem que haja Jaime a considerar. O irmão era muito mais novo quando Cersei se casou pela primeira vez; poderá não aceitar tão facilmente um segundo casamento. O infeliz Willas Tyrell corria o risco de contrair um súbito caso fatal de espada-através-das-entranhas, o que poderia amargar consideravelmente a aliança entre Jardim de Cima e Rochedo Casterly. Devia dizer alguma coisa, mas o quê? Perdoe-me, pai, mas é com o nosso irmão que ela quer se casar? - Tyrion. Deu um sorriso resignado. - Estarei ouvindo o arauto me chamar para a liça? - Seu gosto por prostitutas é uma fraqueza - disse Lorde Tywin sem preâmbulos mas talvez parte da culpa seja minha. Como não é mais alto do que um garoto, acostumei-me a esquecer que é realmente um adulto, com todas as necessidades básicas de um homem. Já é mais do que tempo de se casar. Eu já me casei, ou será que se esqueceu? A boca de Tyrion retorceu-se, e dela saiu um ruído que era meio gargalhada e meio rosnido. - A idéia de casamento o diverte? - Só de imaginar o noivo demoniacamente bonito que serei. - Uma esposa poderia ser exatamente aquilo de que precisava. Se lhe trouxesse terras e uma fortaleza, poderia providenciar-lhe um lugar no mundo afastado da corte de Joffrey... e de Cersei e do pai. Por outro lado, havia Shae. Ela não vai gostar disso, apesar de todas as juras sobre contentar-se em ser a minha prostituta. Mas isso não era propriamente um argumento que influenciasse o pai, por isso Tyrion retorceu-se mais para cima na cadeira e disse: - Você pretende me casar com Sansa Stark. Mas os Tyrell não irão considerar essa união uma afronta se tiverem planos para a garota?&lt;br /&gt;
- Lorde Tyrell não abordará o assunto da garota Stark até depois da boda de Joffrey. Se Sansa se casar antes disso, como poderá se ofender, se não nos deu nenhuma pista de suas intenções? - Precisamente - disse Sor Kevan -, e quaisquer ressentimentos que persistam deverão ser acalmados pela oferta de Cersei para o seu Willas. Tyrion esfregou os restos inflamados do nariz. A cicatriz às vezes coçava abominavel- mente. - Sua Graça, a real pústula, transformou a vida de Sansa num inferno desde o dia em que o pai dela morreu, e agora que está finalmente livre de Joffrey você propõe casá-la comigo. Isso parece extraordinariamente cruel, Até para o senhor, pai, - Por quê? Pretende tratá-la mal? - o pai parecia mais curioso do que preocupado, - Minhas intenções não incluem a felicidade da menina, e as suas também não deviam inclui-la. Nossas alianças no sul podem ser sólidas como o Rochedo Casterly, mas resta o norte por conquistar, e a chave para o norte é Sansa Stark. - Ela não passa de uma criança. - Sua irmã jura que já floresceu. Se assim for, é uma mulher em condições de se casar, Terá de deflorá-la para que ninguém possa dizer que o casamento não foi consumado. Depois disso, se preferir esperar um ano ou dois antes de voltar a dormir com ela, estará no seu direito de marido. Shae é toda a mulher de que preciso no momento, pensou, e Sansa é uma garota, diga o que disser. - Se a sua intenção com isso é afastá-la dos Tyrell, por que não a devolve à mãe? Isso talvez convencesse Robb Stark a dobrar o joelho. O olhar de Lorde Tywin era de escárnio. - Se a mandarmos para Correrrio, a mãe arranjará um casamento com um Blackwood ou um Mallister, para escorar as alianças do filho ao longo do Tridente. Se a mandarmos para norte, estará casada com algum Manderly ou Umber antes da volta da lua. Mas não é menos perigosa aqui na corte, como essa história com os Tyrell demonstra. Ela tem de se casar com um Lannister, e depressa. - O homem que casar com Sansa Stark pode reclamar Winterfell em seu nome - interveio tio Kevan. - Isso não lhe ocorreu? - Se não quiser a garota, podemos dá-la a um de seus primos - disse o pai. - Kevan, crê que Lancei está suficientemente forte para se casar? Sor Kevan hesitou. - Se levarmos a garota à sua cabeceira, deverá ser capaz de proferir as palavras... mas para a consumação, não... Eu sugeriria um dos gêmeos, mas os Stark detêm ambos em Correrrio. Também têm o filho de Genna, Tion, se for o caso, ele poderia servir.&lt;br /&gt;
Tyrion deixou-os desenvolver seu enredo secundário. Sabia que era tudo para ele ouvir. Sansa Stark, meditou. A Sansa de falinhas mansas e cheiros doces, que gostava de sedas, canções, cavalaria e cavaleiros altos e galantes com rostos bonitos. Sentia-se de volta à ponte do navio, com o convés se movendo debaixo de seus pés. - Você me pediu para recompensá-lo por seus atos na batalha - disse Lorde Tywin vivamente, - Isto é uma oportunidade para você, Tyrion, a melhor que provavelmente terá na vida. - Tamborilou impacientemente na mesa com os dedos, - Antigamente tive esperança de casar seu irmão com Lysa Tully, mas Aerys nomeou-o para a sua Guarda Real antes de os preparativos estarem concluídos. Quando sugeri ao Lorde Hoster que Lysa poderia se casar com você em vez de Jaime, ele respondeu que queria um homem inteiro para a filha. Portanto casou-a com Jon Arryn, que tinha idade para ser avô dela. Tyrion estava mais inclinado a sentir-se agradecido do que zangado, considerando aquilo em que Lysa Arryn se tornara. - Quando o ofereci a Dorne, foi-me dito que a sugestão era um insulto - prosseguiu Lorde Tywin, - Nos anos seguintes recebi respostas semelhantes de Yohn Royce e Leyton Hightower. Por fim, desci ao ponto de sugerir que poderia aceitar a moça Florent que Robert deflorou na cama de núpcias do irmão, mas o pai preferiu dá-la a um dos cavaleiros de sua guarnição. &quot;Se não aceitar a garota Stark, vou arranjar outra esposa para você. Em algum lugar, no reino, haverá sem dúvida algum fidalgote que se separará de bom grado de uma filha para conquistar a amizade de Rochedo Casterly. A Senhora Tanda ofereceu Lollys...&quot; Tyrion estremeceu de susto. - Preferiria cortá-lo e dá-lo de comer às cabras. - Então abra os olhos. A garota Stark é nova, núbil, afável, do melhor nascimento e ainda donzela. Não é feia. Por que haveria de hesitar? E por quê, realmente? - E só uma idiossincrasia minha. E estranho dizê-lo, mas preferiria uma esposa que me queira na sua cama. - Se acha que as suas rameiras querem você nas camas delas, é um idiota ainda maior do que eu suspeitava - disse Lorde Tywin. - Você me decepciona, Tyrion. Tinha esperança de que essa união lhe agradasse. - Sim, todos nós sabemos como meu agrado é importante para você, pai. Mas há mais coisas envolvidas nisso. A chave para o Norte, você diz? Agora quem controla o Norte são os Greyjoy, e o Rei Balon tem uma filha. Por que Sansa Stark, e não ela? - Olhou os olhos do pai, frios e verdes, com seus salpicos de ouro. Lorde Tywin uniu os dedos sob o queixo.&lt;br /&gt;
- Balon Greyjoy pensa em termos de saque, não de governo. Que aproveite um outono de coroa e agüente um inverno do norte. Não dará aos súditos motivo para gostar dele. Ao chegar a primavera, os nortenhos estarão fartos de lulas-gigantes. Quando levar o neto de Eddard Stark para casa, para reclamar o seu direito de nascença, tanto os senhores como o povo se erguerão juntos para instalá-lo no cadeirão de seus ancestrais. Você é capaz de engravidar uma mulher, espero eu? - Creio que sim - disse Tyrion, irritado. - Confesso que não posso provar. Embora ninguém possa dizer que não tentei. Ora, se planto as minhas sementinhas sempre que tenho oportunidade... - Nas fossas e nas sarjetas - concluiu Lorde Tywin - e em terreno plebeu, onde só ervas bastardas ganham raízes. Já é mais do que hora de manter seu próprio jardim. - Pôs-se em pé. - Nunca terá Rochedo Casterly, garanto. Mas case com Sansa Stark, e é possível que conquiste Winterfell. Tyrion Lannister, Senhor Protetor de Winterfell A idéia provocou-lhe um estranho arrepio. - Muito bem, pai - disse lentamente mas há uma questão que não estão considerando. Robb Stark é tão capaz quanto eu, presume-se, e está prometido a uma daquelas férteis Frey. E assim que o Jovem Lobo gerar uma ninhada, as crias que Sansa trouxer ao mundo não serão herdeiras de nada. Lorde Tywin não se mostrou preocupado, - Robb Stark não gerará nenhum filho nessa fértil Frey, tem a minha palavra quanto a isso. Há algumas notícias que não achei por bem partilhar com o conselho, embora os bons senhores irão sem dúvida saber delas em breve. O Jovem Lobo tomou a filha mais velha de Gawen Westerling como esposa. Por um momento, Tyrion não conseguiu acreditar que ouvira bem o que o pai dissera. - Ele quebrou a palavra? - disse, incrédulo. - Ele jogou fora os Frey por... - As palavras falharam-lhe. - Uma donzela de dezesseis anos, chamada Jeyne - disse Sor Kevan. - Lorde Gawen sugeriu-a uma vez para Willem ou Martyn, mas tive de recusar. Gawen é um bom homem, mas sua esposa é Sybell Spicer. Ele nunca devia ter se casado com ela. Os Westerling sempre tiveram mais honra do que bom senso. O avô da Senhora Sybell era um mercador de açafrão e pimenta, de um nascimento quase tão baixo quanto o daquele contrabandista de Stannis. E a avó era uma mulher qualquer que ele trouxe do leste. Uma velha assustadora, supostamente uma sacerdotisa. Chamavam-lhe Maegi. Ninguém conseguia pronunciar seu verdadeiro nome. Metade de Lanisporto ia até ela em busca de curas, poções de amor e coisas do gênero. - Encolheu os ombros. - Ela está&lt;br /&gt;
morta há muito tempo, é certo. E Jeyne parecia uma doce criança, admito, embora só a tenha visto uma vez. Mas com um sangue tão duvidoso... Tendo casado uma vez com uma prostituta, Tyrion não podia partilhar inteiramente do horror do tio à idéia de se casar com uma garota cujo bisavô vendia cravos. Mesmo assim... Uma doce criança, dissera Sor Kevan, mas muitos eram os venenos que também eram doces. Os Westerling eram de sangue antigo, mas possuíam mais orgulho do que poder. Não o surpreenderia se lhe dissessem que a Senhora Sybell trouxera mais riqueza ao casamento do que o seu esposo bem-nascido. As minas Westerling tinham se esgotado havia anos, suas melhores terras tinham sido vendidas ou perdidas, e o Despenha- deiro era mais ruína do que fortaleza. Uma ruína romântica, porém, projetando-se ousadamente sobre o mar, - Estou surpreso - Tyrion teve de confessar. - Julgava que Robb Stark tinha mais bom senso. - E um garoto de dezesseis anos - disse Lorde Tywin. - Nessa idade, o senso pouco pesa contra o desejo, o amor e a honra. - Ele quebrou um juramento, envergonhou um aliado, traiu uma promessa solene. Onde está a honra nisso? Foi Sor Kevan quem respondeu. - Ele colocou a honra da garota acima da sua. Depois de deflorá-la, não tinha alternativa. - Podia ter sido mais gentil deixá-la com um bastardo na barriga - disse Tyrion sem rodeios. Os Westerling arriscavam-se assim a perder tudo; as terras, o castelo, até a própria vida. Um Lannister sempre paga as suas dívidas. - Jeyne Westerling é filha de sua mãe - disse Lorde Tywin - e Robb Stark é filho de seu pai. Aquela traição Westerling não parecia ter enraivecido o pai tanto quanto Tyrion esperaria. Lorde Tywin não tolerava deslealdades por parte dos vassalos. Extinguira completamente os orgulhosos Reyne de Castamere e os antigos Tarbeck de Solar Tar- beck quando mal deixara de ser um rapaz. Os cantores tinham até feito uma canção bastante lúgubre sobre o assunto. Alguns anos mais tarde, quando Lorde Farman de Belcastro se tornou truculento, Lorde Tywin enviou um embaixador que levava um alaúde em vez de uma carta. Mas, depois de ouvir &quot;As chuvas de Castamere&quot; ecoando em seu salão, Lorde Farman deixou de causar problemas. E se a canção não bastasse, os castelos destruídos dos Reyne e dos Tarbeck ainda estavam lá, como testemunhos mudos do destino que esperava aqueles que escolhiam escarnecer do poder de Rochedo Casterly,&lt;br /&gt;
- O Despenhadeiro não é muito longe de Solar Tarbeck e Castamere - destacou Tyrion, - Seria esperado que os Westerling tivessem passado por esses locais e visto a lição que lá se encontra. - E talvez o tenham feito - disse Lorde Tyw in. — Garanto-lhe que estão bem cientes de Castamere. - Poderão os Westerling e Spicer ser tão idiotas que creem que o lobo pode derrotar o leão? Muito de vez em quando, Lorde Tywin Lannister chegava mesmo a ameaçar um sorriso; nunca o fazia, mas a simples ameaça era terrível de contemplar, - Os maiores idiotas são às vezes mais espertos do que os homens que deles riem - disse, e depois: - Casará com Sansa Stark, Tyrion. E em breve.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/5285675383532034322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/tyrion_27.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5285675383532034322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5285675383532034322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/tyrion_27.html' title='Tyrion'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-739251520537199065</id><published>2013-12-27T15:11:00.002-08:00</published><updated>2013-12-27T15:11:54.206-08:00</updated><title type='text'>Sanwel</title><content type='html'>Soluçando, Sam deu mais um passo. Este é o último, o último de todos, não sou capaz de continuar, não sou capaz. Mas os pés voltaram a se mover. Um deles e depois o outro. Deu um passo, e depois outro, e ele pensou: Estes pés não são meus, são de outra pessoa, é outra pessoa que caminha, não posso ser eu. Quando olhou para baixo, viu-os tropeçando através da neve; coisas sem forma e desajeitadas. Parecia lembrar-se de que as botas tinham sido pretas, mas a neve formara uma crosta em volta delas, e agora eram disformes bolas brancas. Como dois pés deformados feitos de gelo, Não queria parar, a nevasca. Os montes de neve acumulada já lhe passavam dos joelhos, e uma crosta cobria a parte de baixo de suas pernas como um par de grevas brancas. Seus passos eram arrastados, deslizantes. A mochila pesada que levava fazia com que ele parecesse um monstruoso corcunda. E estava cansado, tão cansado. Não consigo continuar. Mãe, tenha piedade de mim, não consigo. A cada quatro ou cinco passos, tinha de baixar a mão e puxar para cima seu cinto da espada, Havia perdido a espada no Punho, mas a bainha ainda pesava no cinto. Possuía duas facas; o punhal de vidro de dragão que Jon lhe dera e o de aço com que cortava a carne. Todo esse peso sobrecarregava o cinto, e sua barriga era tão grande e redonda que, caso se esquecesse de puxá-lo, o cinto deslizaria até se enrolar em volta de seus tornozelos, por mais que o apertasse. Uma vez tentou afivelá-lo por cima da barriga, mas então chegou quase em suas axilas. Grenn quase tinha morrido de rir ao vê-lo, e Edd Doloroso disse: - Uma vez, conheci um homem que usava assim a espada, numa corrente em volta do pescoço. Um dia tropeçou, e o cabo entrou no nariz dele, O próprio Sam andava tropeçando. Havia pedras por baixo da neve, além de raízes de árvores e, às vezes, buracos profundos no chão gelado. Bernarr, o Negro, havia enfiado o pé em um e quebrado o tornozelo havia três dias, ou talvez quatro, ou... na verdade ele não sabia quanto tempo tinha se passado. O Senhor Comandante tinha colocado Bernarr num cavalo depois disso. Soluçando, Sam deu mais um passo. Sentia-se mais como se estivesse caindo do que andando, sempre caindo, mas sem nunca atingir o chão, apenas caindo para a frente e mais para a frente. Tenho de parar, dói&lt;br /&gt;
demais. Sinto tanto frio e estou tão cansado, tenho de dormir, só um pouco de sono junto a uma fogueira, e um pouco de comida que não esteja congelada. Mas se parasse, morreria. Sabia disso. Todos os poucos que restavam sabiam. Tinham sido cinqüenta quando fugiram do Punho, talvez mais, mas alguns haviam se perdido na neve, alguns dos feridos tinham sangrado até a morte... e, às vezes, Sam ouvia gritos atrás de si, vindos da retaguarda, e uma vez ouviu um berro horrível Quando ouviu aquilo, correu, vinte ou trinta metros, tanto e tão depressa como tinha sido capaz, levantando neve com os pés meio congelados. Ainda estaria correndo se suas pernas fossem mais fortes. Eles estão atrás de nós, eles ainda estão atrás de nós, estão nos levando um por um. Soluçando, Sam deu mais um passo. Havia tanto tempo que sentia frio que estava se esquecendo de como era sentir-se quente. Usava três pares de meias, duas camadas de roupa de baixo por sob uma túnica dupla de lã de carneiro e, por cima disso tudo, um espesso casaco almofadado, que o protegia do aço frio de sua cota de malha. Sobre a camisa usava um sobretudo largo, e por cima disso um manto de tripla espessura com um botão de osso que se prendia bem abaixo de seu queixo. O capuz tombava para a frente, por cima de sua testa. Grossas luvas de peles cobriam suas mãos, por cima de finas luvas de lã e couro, um cachecol estava bem enrolado em volta da metade inferior do rosto, e, por baixo do capuz, tinha um apertado gorro forrado com velo puxado sobre as orelhas. E mesmo assim tinha frio. Especialmente nos pés, Agora nem sequer os sentia, mas no dia anterior tinham doído tanto que quase não conseguia se manter em pé, muito menos caminhar. Cada passo fazia-o querer gritar. Teria sido no dia anterior? Não se lembrava. Não dormira desde o Punho, nem uma única vez desde que o berrante tinha soprado. A menos que tivesse dormido enquanto caminhava. Poderia um homem caminhar enquanto dorme? Sam não sabia, ou, se sabia, tinha se esquecido. Soluçando, deu outro passo, A neve caía, rodopiando, à sua volta. As vezes, caía de um céu branco e, às vezes, de um negro, mas isso era tudo o que restava do dia e da noite. Levava-a nos ombros como um segundo manto, e ela empilhava-se num grande monte sobre a mochila que ele transportava, tornando-a ainda mais pesada e difícil de carregar. Seu lombo doía abominavelmente, como se alguém tivesse espetado nele uma faca e a mexesse de um lado para o outro a cada passo. Seus ombros estavam em agonia por causa do peso da cota de malha. Teria dado quase tudo para tirá-la, mas tinha medo de fazer isso. E, de qualquer forma, teria de despir o manto e o capote para chegar à cota de malha, e então o frio o pegaria.&lt;br /&gt;
Se eu ao menos fosse mais forte... Mas não era, e não valia a pena desejar ser. Sam era fraco, e gordo, tão gordo que quase não conseguia agüentar o próprio peso, e a cota de malha era demais para ele. Sentia-se como se ela estivesse deixando seus ombros em carne viva, apesar das camadas de tecido e forro que havia entre o aço e a pele. A única coisa que podia fazer era chorar, e, quando chorava, as lágrimas congelavam em seu rosto. Soluçando, deu outro passo. A crosta de neve estava rachada nos locais em que colocava os pés, caso contrário não julgaria que pudesse ter se movido. À esquerda e à direita, entrevistos através das árvores silenciosas, os archotes transformavam-se em vagos halos cor de laranja na neve que caía. Quando virava a cabeça, conseguia vê-los, deslizando em silêncio pela floresta, balançando para cima e para baixo e de um lado para o outro. O anel de fogo do Velho Urso, lembrou a si mesmo, e desgraçado daquele que o deixar. Enquanto caminhava, parecia-lhe que perseguia os archotes da frente, mas eles também possuíam pernas, mais longas e mais fortes do que as dele, então nunca conseguia alcançá-los. No dia anterior, suplicou-lhes que o deixassem ser um dos portadores dos archotes, mesmo que isso significasse caminhar fora da coluna, com a escuridão se aproximando. Sam desejava o fogo, sonhava com ele. Se eu tivesse fogo, não teria frio. Mas alguém lembrou a ele de que tivera um archote no início, mas o deixou cair na neve e apagou o fogo. Sam não se lembrava de ter deixado cair nenhum archote, mas supunha que devia ser verdade. Estava fraco demais para manter o braço erguido por muito tempo. Teria sido Edd quem o lembrou do archote, ou Grenn? Também não conseguia se lembrar disso. Gordo, fraco e inútil, agora até os meus miolos estão congelando. Deu mais um passo. Tinha enrolado o cachecol por cima do nariz e da boca, mas agora estava coberto de ranho e tão duro que temia que tivesse congelado e ficado preso em seu rosto. Até respirar era difícil, e o ar estava tão frio que doía inspirá-lo. - Mãe, tenha piedade - murmurou, numa voz abafada e rouca, por baixo da máscara gelada. - Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade. - A cada prece dava mais um passo, arrastando as pernas pela neve. - Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade. A mãe dele encontrava-se mil léguas para sul, em segurança, com as irmãs e o irmão mais novo, Dickon, na fortaleza em Monte Chifre. Ela não pode me ouvir, e a Mãe no Céu também não. A Mãe era misericordiosa, os septões eram unânimes em afirmá-lo, mas os Sete não tinham poder para lá da Muralha. Ali eram os velhos deuses que governavam, os deuses sem nome das árvores, dos lobos e das neves.&lt;br /&gt;
- Piedade - sussurrou então, para qualquer deus que estivesse ouvindo, velho ou novo, ou até para demônios -, oh, piedade, piedade de mim, piedade de mim. Maslyn gritou por piedade. Por que teria se lembrado subitamente daquilo? Não era nada que quisesse recordar. O homem tinha tropeçado para trás, deixando cair a espada, suplicando, rendendo-se, chegando mesmo a arrancar a grossa luva negra e atirando-a à sua frente como se fosse uma manopla. Ainda guinchava, pedindo trégua, quando a criatura o ergueu no ar pelo pescoço e quase arrancou sua cabeça. Nos mortos, não resta qualquer piedade, e os Outros... não, não devo pensar nisso, não pense, não se lembre, limite-se a andar, limite-se a andar, limite-se a andar. Soluçando, deu outro passo. Uma raiz escondida sob a neve pegou na ponta de seu pé, e Sam tropeçou e caiu pesadamente sobre um joelho com tanta força que mordeu a língua. Sentiu o sabor do sangue na boca, mais quente do que qualquer outra coisa que havia saboreado desde o Punho. Este é o fim, pensou. Agora que caíra, não parecia ser capaz de encontrar as forças necessárias para voltar a se levantar. Tateou um ramo de árvore e agarrou-o com força, tentando puxar-se e ficar de pé, mas suas pernas enrijecidas não conseguiam aguentá-lo. A cota de malha era pesada demais, e ele gordo demais, e fraco demais, e estava cansado demais. - Fique em pé, Porquinho - rosnou alguém ao passar, mas Sam não ligou. Vou apenas ficar deitado na neve e fechar os olhos. Não seria assim tão ruim morrer ali. Não havia como ser mais frio e, após algum tempo, não seria capaz de sentir a dor na parte de haixo das costas ou a terrível dor nos ombros, assim como já não sentia os pés. Não serei o primeiro a morrer, eles não poderão dizer que fui. Centenas de homens tinham morrido no Punho, tinham morrido por toda a sua^volta, e muitos morreram depois, ele viu. Tremendo, Sam largou a árvore e deixou-se cair na neve. Sabia que era fria e úmida, mas quase não conseguia senti&#39;Ia através de todas as suas roupas. Fixou os olhos no alto, no céu branco, enquanto flocos de neve pousavam na sua barriga, no seu peito e nas suas pálpebras. A neve vai me cobrir como uma espessa manta branca. Ficarei quente sob a neve e, se falarem de mim, terão de dizer que morri como um homem da Patrulha da Noite. Foi o que fiz. Foi o que fiz. Cumpri meu dever. Ninguém pode dizer que quebrei o juramento. Sou gordo, fraco e covarde, mas cumpri o meu dever. Os corvos estavam sob sua responsabilidade. Foi por isso que o trouxeram. Sam não queria vir, lhes dissera que não, revelara a todos o grande covarde que era. Mas Meistre Aemon era muito velho e também&lt;br /&gt;
cego, por isso enviaram Sam para cuidar dos corvos. O Senhor Comandante dera-lhe as suas ordens quando acamparam no Punho. - Você não é um guerreiro. Ambos sabemos disso, rapaz. Se por acaso formos atacados, não tente provar o contrário, só vai ficar no meio do caminho. Deverá enviar uma mensagem. E não venha correndo perguntar o que a carta deve dizer. Escreva-a você, e mande uma ave para Castelo Negro e outra para a Torre Sombria. - O Velho Urso apontou um dedo enluvado para o rosto de Sam. - Não quero saber se estará tão assustado que sujará os calções e não me importa se mil selvagens saltarem a muralha uivando por seu sangue, ponha essas aves no ar, senão juro que vou persegui-lo através de todos os sete infernos e o farei lamentar amargamente por não o ter feito. - E o corvo de Mormont balançou a cabeça para cima e para baixo e crocitou:&quot;Lamentar, lamentar, lamentar&quot;. Sam realmente lamentava; lamentava não ter sido mais corajoso, mais forte ou melhor com espadas, não ter sido um filho melhor para o pai ou irmão melhor para Dickon e as meninas. Lamentava também morrer, mas homens melhores tinham morrido no Punho, homens bons e leais, não rapazes gordos e resmungões como ele. Mas pelo menos o Velho Urso não o perseguiria no inferno. Enviei as aves. Pelo menos isso fiz bem. Tinha escrito as mensagens com antecedência, mensagens curtas e simples, falando de um ataque ao Punho dos Primeiros Homens, e então enfiou-as, a salvo, em sua bolsa para perga- minhos, esperando nunca ter de enviá-las. Quando os berrantes soaram, Sam estava dormindo. A princípio, pensou que estava sonhando com eles, mas, quando abriu os olhos, caía neve no acampamento e todos os irmãos negros estavam pegando em arcos e lanças e correndo para a muralha anelar. O único que andava por perto era Chett, o antigo intendente do Meistre Aemon, com o rosto cheio de marcas e o grande quisto no pescoço. Sam nunca vira tanto medo no rosto de um homem como no de Chett quando aquele terceiro toque chegou, gemendo, por entre as árvores. - Ajude-me a tirar os pássaros das gaiolas - pediu, mas o outro intendente virou-se e fugiu, de punhal na mão. Tem de cuidar dos cães, lembrou-se Sam. O Senhor Comandante provavelmente também havia lhe dado algumas ordens. Seus dedos estavam rígidos e desajeitados no interior das luvas, e tremia de medo e de frio, mas encontrou a bolsa dos pergaminhos e recuperou as mensagens que havia escrito. Os corvos gritavam como loucos e, quando abriu a gaiola de Castelo Negro, um deles voou em seu rosto. Outros dois fugiram antes de Sam conseguir apanhar um, e, quando o fez, deu-lhe uma bicada através da luva, de tirar sangue. Mas, de algum modo, tinha conseguido segurá-lo o suficiente para prender o&lt;br /&gt;
pequeno rolo de pergaminho. A essa altura, o berrante de guerra já havia silenciado, mas o Punho ressoava com ordens gritadas e o tinir do aço. - Voa! - gritou Sam quando atirou o corvo ao céu. As aves na gaiola de Torre Sombria estavam gritando e esvoaçando com tamanha ferocidade que teve medo de abrir a porta, mas obrigou-se a fazê-lo mesmo assim. Dessa vez, apanhou o primeiro corvo que tentou fugir. Um momento mais tarde, a ave abria caminho através da neve que caía, levando consigo a notícia do ataque. Depois de cumprido o seu dever, acabou de se vestir com dedos desastrados e assustados, enfiando o gorro, o capote e o manto com capuz e afivelando o cinto da espada, prendendo-o bem apertado para não cair. Então, procurou a mochila e enfiou nela todas as suas coisas, mudas extras de roupa de baixo e meias secas, as pontas de flecha e a ponta de lança de vidro de dragão que Jon lhe dera e também o velho chifre, os pergaminhos, as tintas e penas, os mapas que andara desenhando, e uma alheira, dura como pedra, que guardava desde a Muralha. Amarrou tudo e pôs a mochila nas costas. O Senhor Coman- dante disse que eu não devia correr para a muralha anelar, lembrou-se, mas também disse que não devia ir correndo para junto dele. Sam respirou fundo e percebeu que não sabia o que fazer em seguida. Lembrava-se de ficar andando em círculos, perdido, com o medo crescendo em seu interior, como sempre acontecia. Havia cães ladrando e cavalos barrindo, mas a neve abafava os sons e fazia com que parecessem distantes. Sam não via nada além de três metros, nem mesmo os archotes que ardiam ao longo da baixa muralha de pedra que rodeava o cume do monte. Será que os archotes se apagaram? Pensar nisso era assustador demais. O berrante soou três vezes, e longamente, três sopros longos quer dizer Outros. Os caminhantes brancos da floresta, as sombras frias, os monstros das histórias que o faziam gritar e tremer quando garoto, montando as suas gigantes aranhas de gelo, sedentos de sangue... Desajeitadamente, puxou a espada e, com ela na mão, caminhou pesadamente pela neve. Um cão passou correndo e latindo, Samwell viu alguns dos homens da Torre Sombria, grandes homens barbudos com machados de cabo longo e lanças de dois metros e meio. Sentia-se mais seguro na companhia deles, então seguiu-os até a muralha. Quando viu os archotes ainda ardendo no topo do anel de pedras, foi percorrido por um estremecimento de alívio. Os irmãos negros estavam em pé, de espadas e lanças na mão, observando a neve que caía, à espera. Sor Mallador Locke passou a cavalo, com o elmo salpicado de neve. Sam ficou bem afastado, atrás dos outros, procurando Grenn ou Edd Doloroso com os olhos. Se tiver de&lt;br /&gt;
morrer, que eu morra ao lado de meus amigos, lembrava-se de ter pensado. Mas todos os homens que o rodeavam eram estranhos, homens da Torre Sombria sob o comando do patrulheiro chamado Blane. - Aí vêm eles - ouviu um irmão dizer. - Encaixar - disse Blane, e vinte flechas negras foram puxadas de dentro de outras tantas aljavas e encaixadas em outros tantos arcos. - Pela bondade dos deuses, são centenas - sussurrou uma voz. - Puxar - disse Blane, e então: - Esperar. - Sam não conseguia e não queria ver. Os homens da Patrulha da Noite espalhavam-se atrás de seus archotes, à espera, com flechas puxadas até perto das orelhas, enquanto algo subia aquela encosta escura e escorregadia, através da neve. - Esperar - voltou a dizer Blane esperar, esperar. - E então - Soltar. As flechas sussurraram ao voar. Uma aclamação irregular surgiu entre os homens ao longo da muralha anelar, mas rapidamente morreu. - Eles não estão parando, senhor - disse um homem a Blane, e um segundo gritou: - Mais! Olhem ali, saindo de entre as árvores. E um terceiro disse: - Pela piedade dos deuses, eles rastejam. Eles tão quase aqui, eles tão aqui! Sam recuara, tremendo como a última folha na árvore quando o vento aumenta, tanto de frio como de medo. Fizera muito frio naquela noite. Até mais frio do que agora. A neve parece quase quente. Agora sinto-me melhor. Tudo que precisava era de um pouco de descanso. Talvez daqui a pouco já esteja de novo suficientemente forte para voltar a andar. Daqui a pouco. Um cavalo passou perto de sua cabeça, um animal felpudo e cinzento com neve na crina e cascos com uma crosta de gelo. Sam viu-o chegar e viu-o partir. Outro saiu da neve que caía, com um homem de negro conduzindo-o a pé. Quando viu Sam em seu caminho, xingou-o e desviou com o cavalo. Gostaria de ter um cavalo, pensou. Se tivesse um, poderia continuar. Poderia me sentar, e até dormir um pouco na sela. Mas a maior parte das montarias tinha sido perdida no Punho, e aquelas que restavam transportavam a comida, os archotes e os feridos. Sam não estava ferido. Só sou gordo e fraco e o maior covarde dos Sete Reinos. Era tão covarde. Lorde Randyll, seu pai, sempre dizia isso, e tinha razão. Sam era seu herdeiro, mas nunca mostrara valor, então o pai enviou-o para a Muralha. O irmão mais novo, Dickon, herdaria as terras e o castelo dos Tarly, e a espada Veneno do Coração, que os senhores de&lt;br /&gt;
Monte Chifre usavam com tanto orgulho havia séculos. Gostaria de saber se Dickon derramaria alguma lágrima pelo irmão que morreu na neve, em algum lugar para lá do limite do mundo. Por que haveria de derramar? Não vale a pena chorar por um covarde. Tinha ouvido o pai dizer exatamente isso à mãe meia centena de vezes. O Velho Urso também sabia disso. - Disparar flechas - rugiu o Senhor Comandante naquela noite no Punho, quando surgiu, de repente, montado em seu cavalo deem-lhes fogo. - Foi então que reparou em Sam ali, tremendo. - Tarly! Saia daqui! Seu lugar é com os corvos. - Eu... eu... eu enviei as mensagens. - Bom. - Empoleirado no ombro de Mormont, seu corvo ecoou: &quot;Bom, bom&quot; O Senhor Comandante parecia enorme com as peles e a cota de malha. Por trás do visor de ferro negro, os olhos brilhavam ferozes. - Aqui você está no caminho. Volte para as suas gaiolas. Se precisar enviar outra mensagem, não quero ter que procurá-lo primeiro. Trate de ter as aves prontas. - Ele não esperou resposta, deu meia-volta com o cavalo e trotou em torno do anel, gritando: - Fogo! Deem-lhes fogo! Sam não precisou que lhe dissessem aquilo duas vezes. Voltou para junto das aves, tão depressa quanto suas pernas gordas lhe permitiram. Devia escrever a mensagem com antecedência, pensou, para poder mandar as aves tão depressa quanto necessário. Demorou mais tempo do que deveria para acender a pequena fogueira e aquecer a tinta congelada. Sentou-se numa pedra, junto do fogo, com pena e pergaminho nas mãos, e escreveu suas mensagens. Atacados entre a neve e o frio, mas repelimo-los com flechas incendiárias, escreveu, enquanto ouvia a voz de Thoren Smallwood ressoar com uma ordem de &quot;Encaixar, puxar... soltar&quot;. O voo das flechas fazia um som doce como uma prece de mãe. - Queimem, seus bastardos mortos, queimem - cantarolou Dywen, entre risos. Os irmãos ciavam vivas e xingavam. Todos em segurança, escreveu. Permanecemos no punho dos Primeiros Homens. Sam esperava que os outros fossem melhores arqueiros do que ele. Deixou esse bilhete de lado e pegou outro pergaminho em branco. Ainda lutando no Punho, numa nevasca pesada, escrevia, quando alguém gritou: - Continuam a vir. - Resultado incerto. - Lanças - disse alguém. Podia ter sido Sor Mallador, mas Sam não poderia jurar. Criaturas atacaram-nos no Punho, no meio da neve, escreveu, mas as repelimos com jogo. Virou a cabeça. Através da neve que enchia o ar, tudo o que via era a enorme fogueira no centro do acampamento, com homens a cavalo que se moviam, inquietos, à sua volta. Sabia que era a&lt;br /&gt;
reserva, pronta para abater qualquer coisa que conseguisse abrir uma brecha na muralha anelar. Tinham se armado de tochas em vez de espadas, e as estavam acendendo nas chamas. Criaturas por toda a volta, escreveu, quando ouviu os gritos vindos da face norte. Vêm ao mesmo tempo do norte e do sul. Lanças e espadas não os param, só o fogo. &quot;Soltar, soltar, soltar&quot; gritou uma voz na noite, e outra berrou: &quot;Enorme pacas!&quot;, e uma terceira disse &quot;Um gigante!&quot; e uma quarta insistiu&quot;Um urso, um ursol&quot;. Um cavalo guinchou e os cães começaram a ladrar, e houve tantos gritos que Sam não conseguia mais distinguir as vozes. Escrevia mais depressa, bilhete atrás de bilhete. Selvagens mortos, e um gigante, ou talvez um urso, em cima de nós, por todos os lados. Ouviu o estrondo de aço batendo em madeira, que só podia ter um significado. Criaturas sohre a muralha anelar. Luta dentro do acampamento. Uma dúzia de irmãos a cavalo passou por ele na direção da muralha leste, com galhos jorrando chamas nas mãos de todos os cavaleiros. O Senhor Comandante Mormont combate-os com fogo. Ganhamos. Estamos ganhando. Estamos agüentando. Estamos abrindo caminho pelo meio deles e nos retirando para a Muralha. Estamos encurralados no Punho, sob grande pressão. Um dos homens da Torre Sombria saiu cambaleando da escuridão e caiu aos pés de Sam. Rastejou até meio metro da fogueira antes de morrer. Perdemos, escreveu Sam, a batalha está perdida. Estamos todos perdidos. Por que tinha de se lembrar da batalha no Punho? Não queria lembrar. Isso não. Tentou forçar-se a lembrar da mãe, ou da irmã mais nova, Talla, ou daquela garota, Goiva, da Fortaleza de Craster. Alguém lhe sacudia o ombro. - Levante-se - disse uma voz. - Sam, não pode dormir aqui. Levante-se e continue a andar. Não estava dormindo, estava lembrando. - Vá embora - disse, com as palavras congelando no ar frio. - Estou bem. Quero descansar. - Levante. - A voz de Grenn, dura e rouca, erguia-se por cima de Sam, com os panos negros incrustados de neve. - O Velho Urso disse que não haveria descanso. Vai morrer. - Grenn. - Sorriu. - Não, de verdade, estou bem aqui. Continue. Já alcanço vocês, depois de descansar um pouco mais. - Não alcança - A espessa barba castanha de Grenn estava congelada ao redor de sua boca. Isso fazia-o parecer um velho qualquer. - Vai congelar, ou então ser pego pelos Outros. Sam, levante-se! Sam lembrou-se de que na noite anterior à da partida da Muralha, Pyp provocara Grenn, como costumava fazer, sorrindo e dizendo que ele era uma ótima escolha para a patrulha, porque era burro demais para ficar&lt;br /&gt;
aterrorizado. Grenn tinha negado com veemência até perceber o que estava dizendo. Era entroncado, com um pescoço grosso e forte (Sor Alliser Thorne chamara-o de &quot;Auroque&quot;, tal como chamara Sam de &quot;Sor Porquinho&quot; e Jon de &quot;Lorde Snow&quot;), mas sempre tratara Sam bastante bem. Porém, foi só por causa de fon. Se não fosse Jon, nenhum deles teria gostado de mim. E agora Jon tinha sumido, perdido no Passo dos Guinchos com Qhorin Meia-Mão, provavelmente estava morto. Sam teria chorado por ele, mas essas lágrimas também se limitariam a congelar, e agora mal conseguia manter os olhos abertos. Um irmão alto, com um archote, parou junto a eles, e por um maravilhoso momento, Sam sentiu o calor em seu rosto. - Deixe-o - disse o homem a Grenn. - Quem não pode andar, está acabado. Guarde as suas forças para si, Grenn. - Ele vai se levantar - respondeu Grenn. - Só precisa de uma ajuda. O homem prosseguiu seu caminho, levando o abençoado calor consigo. Grenn tentou pôr Sam de pé. - Isso dói - este reclamou. - Pare. Grenn, está machucando meu braço. Pare. - E mais pesado que o diabo. - Grenn enfiou as mãos sob as axilas de Sam, soltou um grunhido e içou-o para cima de suas pernas. Mas, no momento em que o largou, o gordo voltou a se sentar na neve. Grenn deu-lhe um pontapé, uma sólida pancada que rachou a crosta de neve que havia em volta de sua bota e a fez voar para todo lado. - Em pé\ - Voltou a chutá-lo. - Levante-se e ande. Tem de andar. Sam caiu de lado, enrolando-se a fim de se proteger dos pontapés. Quase não os sentia, através de toda a sua lã, couro e cota de malha, mesmo assim doíam. Pensava que Grenn fosse meu amigo. Não se deve chutar os amigos. Por que não me deixa em paz? Só preciso descansar; é só isso, descansar e dormir um bocado, e talvez morrer um pouco. - Se levar a tocha, eu posso levar o gordo. De repente foi atirado ao ar frio, para longe de sua querida neve macia; estava flutuando. Havia um braço debaixo de seus joelhos, e outro sob as suas costas. Sam ergueu a cabeça e piscou os olhos. Um rosto pairou perto do seu, um rosto largo e bruto, com um nariz achatado, pequenos olhos escuros e um matagal de rija barba castanha. Já tinha visto aquele rosto, mas precisou de um momento para se lembrar dele. Paul. Paul Pequeno. Gelo derretendo escorreu por seus olhos devido ao calor da tocha. - Consegue carregá-lo? - ouviu Grenn perguntar. - Uma vez carreguei um bezerro que era mais pesado do que ele. Levei-o até a mãe, para que ele pudesse beber leite. A cabeça de Sam balançava para cima e para baixo a cada passo que Paul Pequeno dava.&lt;br /&gt;
- Pare - murmurou me ponha no chão, não sou um bebê. Sou um homem da Patrulha da Noite. - Soluçou. - Apenas deixe-me morrer. - Fique quieto, Sam - disse Grenn. - Poupe suas forças. Pense em suas irmãs e em seu irmão. No Meistre Aemon. Em seus pratos preferidos. Cante uma canção, se quiser. - Em voz alta? - Na cabeça. Sam conhecia uma centena de canções, mas quando tentou se lembrar de uma, não foi capaz. Todas as palavras tinham fugido de sua mente. Voltou a soluçar e disse: - Não sei nenhuma canção, Grenn. Antes sabia algumas, mas agora não sei. - Sabe, sim - disse Grenn. - Que tal &quot;O urso e a bela donzela&quot;? Todo mundo conhece essa. Havia um urso, um urso, um urso! Preto e castanho e coberto de pelo! - Não, essa não - suplicou Sam. O urso que tinha subido ao Punho já não tinha pelo em sua carne apodrecida. Não queria pensar em ursos. - Canções, não. Por favor, Grenn. - Então pense em seus corvos. - Nunca foram meus. - Eram os corvos do Senhor Comandante, os corvos da Patrulha da Noite. - Pertenciam ao Castelo Negro e à Torre Sombria. Paul Pequeno franziu a testa. - Chett disse que eu podia ficar com o corvo do Velho Urso, aquele que fala. Guardei comida para ele e tudo. - Balançou a cabeça. - Mas esqueci. Deixei a comida onde a escondi. - Continuou a avançar pesadamente, com o hálito branco saindo de sua boca a cada passo, e então disse, de repente: - Posso ficar com um dos seus corvos? Só um. Prometo que não deixo que Lark o coma. - Eles foram embora - disse Sam. - Lamento. - Lamento tanto. - Agora estão voando de volta à Muralha. Samwell tinha libertado as aves quando ouviu os berrantes de guerra soar uma vez mais, ordenando à Patrulha que montasse nos cavalos. Dois sopros curtos e um longo, isso era o toque de montar. Mas não havia motivo para montar, a não ser que fosse para abandonar o Punho, e isso queria dizer que a batalha estava perdida. O medo atacou-o então com tanta força que só conseguiu abrir as gaiolas. Só quando viu o último corvo erguer- -se na tempestade de neve percebeu que havia se esquecido de enviar qualquer uma das mensagens que escrevera. - Não - ele gritou então -, oh não, oh não. - A neve caía e os berrantes soavam; ahuuu ahuuu ahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, gritavam, a cavalo, a cavalo, a cavalo. Sam viu dois corvos empoleirados numa pedra e correu atrás deles, mas as aves bateram indo- lentemente as&lt;br /&gt;
asas através dos redemoinhos de neve, em direções opostas. Perseguiu um deles, com o hálito saindo de sua boca e de seu nariz em densas nuvens brancas, tropeçou e deu por si a três metros da muralha anelar. Depois disso... lembrava-se de ver os mortos saltando as pedras com flechas espetadas nos rostos e nas gargantas. Alguns estavam cobertos por cotas de malha, e outros vinham quase nus... selvagens, a maior parte, mas alguns usavam panos negros desbotados. Lembrava-se de ver um dos homens da Torre Sombria espetando a lança na barriga pálida e macia de uma das criaturas, fazendo-a sair pelas costas, e do modo como a coisa se empurrou, cambaleando pelo cabo da lança acima, estendendo as mãos negras e torcendo a cabeça do irmão até lhe fazer sair sangue da boca. Tinha quase certeza de que foi nesse momento que sua bexiga se soltou pela primeira vez. Não se lembrava de ter fugido, mas deve tê-lo feito, pois na lembrança seguinte encontrava-se junto à fogueira, a meio acampamento de distância, com o velho Sor Ottyn Wythers e alguns arqueiros. Sor Ottyn estava ajoelhado na neve, fitando sem reação o caos que os rodeava, até que um cavalo sem cavaleiro chegou e lhe deu um coice no rosto. Os arqueiros não prestaram atenção nele. Estavam disparando flechas incendiárias contra sombras na escuridão. Sam viu uma criatura ser atingida, ser engolida pelas chamas, mas, atrás dela, havia uma dúzia de outras e uma enorme silhueta pálida que devia ser o urso, e pouco depois os arqueiros ficaram sem flechas. E então Sam deu por si sobre um cavalo. Não era o seu cavalo, e também não se recordava de ter montado nele. Talvez fosse o cavalo que esmagara o rosto de Sor Ottyn. Os berrantes ainda soavam, por isso esporeou o cavalo e virou-o na direção do som. No meio da carnificina, do caos e da neve soprada pelo vento, encontrou Edd Doloroso montado em um garrano, com um estandarte negro sem adornos flutuando numa lança. - Sam - disse Edd quando o viu não quer me acordar? Estou tendo um pesadelo terrível. Mais homens montavam a cada momento que passava. Os berrantes de guerra estavam chamando. Abuuu ahuuu ahuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. - Eles saltaram a muralha oeste, senhor - gritou Thoren Smallwood para o Velho Urso, enquanto lutava para controlar o cavalo. - Vou enviar reservas... - NÃO! - Mormont teve de berrar a plenos pulmões para ser ouvido sobre os berrantes. - Chamem-nos de volta, temos que abrir caminho para fora daqui. - Ficou em pé nos estribos, com o manto negro batendo ao vento e o fogo brilhando em sua armadura, - Ponta de lança! - rugiu. - Formação em cunha, avançamos. Pela encosta sul, e depois para leste!&lt;br /&gt;
- Senhor, a encosta sul está cheia de criaturas! - As outras são demasiado inclinadas - disse Mormont. - Temos... Seu garrano relinchou, empinou-se e quase o atirou ao chão quando o urso surgiu cambaleando através da neve. Sam voltou a urinar nas calças. Pensava que não tinha sobrado mais nada dentro de mim. O urso estava morto, pálido e apodrecendo, com o pelo e a pele descolados do músculo e metade do braço direito queimada até o osso, mesmo assim avançava. Só os seus olhos viviam. Azul-claros, tal como o Jon dizia. Brilhavam como estrelas congeladas. Thoren Smallwood avançou, com a espada brilhando, laranja e vermelha à luz da fogueira. Sua estocada quase arrancou a cabeça do urso. E então a fera arrancou a dele. - AVANÇAR! - gritou o Velho Urso^ dando meia-volta. Já iam a galope quando atingiram o anel. Antes, Sam sempre tivera medo demais para saltar a cavalo, mas quando a pequena muralha de pedra se aproximou dele, soube que não tinha alternativa. Esporeou o animal, fechou os olhos e choramingou, e o garrano levou-o para o outro lado, sem que ele soubesse como, sem que soubesse como, o garrano levou-o para o outro lado. O cavaleiro à sua direita caiu num emaranhado de aço, couro e carne de cavalo gritante, e então as criaturas formigaram em volta dele e a cunha se fechou. Mergulharam encosta abaixo, em corrida, através de mãos negras que tentavam agarrá-los, ardentes olhos azuis e neve soprada pelo vento. Cavalos tropeçaram e rolaram, homens foram varridos de cima de suas selas, tochas rodopiaram pelo ar, machados e espadas retalharam carne morta, e Samwell Tarly soluçava, agarrando-se desesperada- mente ao cavalo, com uma força que nunca soube que possuía. Seguiu no meio da ponta de lança em fuga, com irmãos de ambos os lados, e também à frente e atrás dele. Um cão acompanhou-os durante parte do caminho, saltando pela encosta nevada abaixo, enfiando-se entre as patas dos cavalos e saltando para fora de seu caminho, mas não conseguiu manter o ritmo. As criaturas mantinham-se firmes em suas posições e eram atropeladas e pisoteadas. Mesmo quando caíam, tentavam agarrar espadas, estribos e as patas dos cavalos que passavam por elas. Sam viu uma delas rasgar a barriga de um cavalo com a mão direita, enquanto se agarrava à sela com a esquerda. De repente, as árvores estavam em volta deles, e Sam atravessava chapinhando um riacho gelado, com os sons do massacre minguando lá atrás. Virou-se, com a respiração presa devido ao alívio... até que um homem de negro saltou dos arbustos e o arrancou de cima da sela. Sam nunca chegou a ver quem foi; montou num instante e no seguinte afastava-se a galope. Quando tentou correr atrás do cavalo, seus pés se prenderam numa raiz, e ele caiu com força, batendo o rosto no chão, e&lt;br /&gt;
ficou deitado, chorando como um bebê, até que Edd Doloroso o encontrou. Essa era a sua última recordação coerente do Punho dos Primeiros Homens. Mais tarde, horas mais tarde, deu por si tremendo entre os outros sobreviventes, metade montada, metade a pé. Encontravam-se já a quilômetros do Punho, embora Sam não se lembrasse de como isso tinha acontecido. Dywen trouxe para baixo cinco cavalos de carga, bem carregados de comida, óleo e archotes, e três tinham chegado ali. O Velho Urso fez com que redistribuísse as cargas, para que a perda de qualquer um dos cavalos e de suas provisões não fosse uma catástrofe muito grande. Tirou garranos dos homens saudáveis e deu-os aos feridos, organizou os caminhantes e colocou archotes para defender os flan- cos e a retaguarda. Tudo que tenho de jazer é andar, disse Sam a si mesmo enquanto dava aquele primeiro passo de volta para casa. Mas antes mesmo de uma hora ter passado, ele já começava a sentir dificuldades e a ficar para trás... Via que agora também estavam ficando para trás. Lembrou-se de Pyp contar, certa vez, como Paul Pequeno era o homem mais forte da Patrulha. E deve ser, para me levar no colo. Mesmo assim, a neve estava ficando mais profunda, o terreno, mais traiçoeiro, e os passos de Paul começavam a encurtar-se. Mais cavaleiros passaram, feridos que olhavam para Sam com olhos baços e sem curiosidade. Alguns porta-archotes também passaram por eles. - Está ficando para trás - disse-lhes um deles. O seguinte concordou. - Ninguém vai esperar por você, Paul. Deixe o porco para os mortos. - Ele prometeu que eu podia ficar com um pássaro - disse Paul Pequeno, embora Sam não o tivesse feito, não exatamente. Não são meus para dá-los. - Quero ter um pássaro que fale e venha comer milho na minha mão. - Maldito idiota - disse o homem do archote. E depois desapareceu. Passou-se algum tempo antes de Grenn parar de repente. - Estamos sozinhos - disse ele numa voz rouca. - Não consigo ver os outros archotes. Aquilo era a guarda de retaguarda? Paul Pequeno não tinha uma resposta para lhe dar. O grandalhão soltou um gru- nhido e ajoelhou-se. Seus braços tremiam quando pousou cuidadosamente Sam na neve. - Não posso levá-lo mais. Queria, mas não posso. - Tremeu com violência. O vento suspirava por entre as árvores, atirando uma neve fina no rosto deles. O frio era tanto que Sam se sentia nu. Procurou os outros archotes, mas tinham desaparecido, todos eles. Só havia aquele que Grenn transportava, com chamas erguendo-se como sedas de um&lt;br /&gt;
laranja-claro. Conseguia ver a escuridão através delas. Aquele archote irá se apagar em breve, pensou, e estamos sozinhos, sem comida, amigos ou fogo. Mas enganava-se. Não estavam nada sozinhos. Os galhos mais baixos da grande sentinela verde largaram a sua carga de neve com um plop suave e úmido. Grenn girou sobre si mesmo, projetando o archote à frente. - Quem está aí? - uma cabeça de cavalo emergiu da escuridão. Sam sentiu um momento de alívio, até ver o cavalo. A geada cobria-o como uma película de suor congelado, e um emaranhado de entranhas rígidas e negras saía de sua barriga aberta. Sobre o dorso, trazia um cavaleiro branco como gelo. Sam soltou um som lamen- toso vindo do fundo da garganta. Estava tão assustado que poderia ter se urinado mais uma vez, mas tinha o frio dentro de si, um frio tão violento que parecia que a bexiga havia congelado. O Outro deslizou graciosamente da sela e ficou em pé na neve. Era magro como uma espada, e de um branco leitoso. Sua armadura ondulava e transformava-se quando ele se movia, e seus pés não quebravam a crosta de neve recém-caída. Paul Pequeno desprendeu o machado de cabo longo que trazia preso às costas. - Por que fez mal a esse cavalo? Era o cavalo de Mawney. Sam tateou em busca do cabo de sua espada, mas a bainha estava vazia. Lembrou-se tarde demais que a perdera no Punho. - Vá embora! - Grenn deu um passo, estendendo o archote à sua frente. - Vá, senão vai arder. - Empurrou-o com as chamas. A espada do Outro cintilou com uma tênue incandescência azul. Moveu-se na direção de Grenn, rápida como um relâmpago, golpeando. Quando a lâmina de um azul gelado roçou as chamas, um grito agudo apunhalou os ouvidos de Sam, afiado como uma agulha. A ponta do archote caiu de lado e desapareceu sob um grande monte de neve, com o fogo extinto num instante. E tudo o que restou na mão de Grenn foi um pequeno pedaço de madeira. Atirou-o no Outro, praguejando, no momento em que Paul Pequeno avançava com seu machado, O medo que então dominou Sam foi pior do que qualquer medo que já sentira, e Samwell Tarly conhecia todos os tipos de medo. - Mãe, tenha piedade de mim - chorou, esquecendo os deuses antigos em seu terror. - Pai, proteja-me, oh, oh,., - Os dedos encontraram o punhal e Sam encheu a mão com ele. As criaturas tinham sido coisas lentas e desajeitadas, mas o Outro era ligeiro como neve no vento. Esquivou-se do machado de Paul, com a armadura ondulando, e sua espada de cristal torceu-se, girou e deslizou entre os anéis de ferro da cota de malha de Paul, através de couro e lã, de osso e carne. Saiu por suas costas com um 555555555555ilvo e Sam&lt;br /&gt;
ouviu Paul dizer &quot;Oh&quot; quando deixou cair o machado. Empalado, com o sangue fumegando em volta da espada, o grandalhão tentou agarrar seu assassino com as mãos e quase conseguiu antes de cair. Seu peso arrancou a estranha espada pálida das mãos do Outro. Vá em frente agora. Pare de chorar e lute, seu bebê. Lute, covarde. Era o pai que ouvia, era Alliser Thorne, era o irmão Dickon e o garoto Rast. Covarde, covarde, covarde. Soltou um risinho histérico, perguntando a si mesmo se fariam dele uma criatura, uma criatura enormemente gorda sempre a tropeçar nos próprios pés mortos. Vá em frente, Sam. Aquele agora seria Jon? Jon estava morto. Consegue ir em frente, consegue, apenas vá em frente. E então viu-se tropeçando para a frente, realmente caindo mais do que correndo, fechando os olhos e projetando cegamente o punhal adiante, com ambas as mãos. Ouviu um crac, um som como aquele que o gelo faz quando se quebra sob os pés de um homem, e em seguida um guincho tão estridente e penetrante que cambaleou para trás com as mãos nos ouvidos, e estatelou-se sobre o traseiro. Quando abriu os olhos, a armadura do Outro escorria por suas pernas em riachos, enquanto o sangue azul-claro silvava e fumegava em volta do punhal negro de vidro de dragão que trazia espetado na garganta. Estendeu duas mãos brancas como osso para arrancar a arma, mas onde os dedos tocavam a obsidianafumegavam. Sam rolou sobre o flanco, com olhos esbugalhados enquanto, o Outro minguava e se liqüefazia, dissolvendo-se. Em vinte segundos, sua carne tinha desaparecido, afastando-se em redemoinhos de névoa branca. Por baixo, havia ossos parecidos com vidro leitoso, brancos e brilhantes, e também eles se derretiam. Por fim, só o punhal de vidro de dragão ficou, embrulhado em vapor, como se estivesse vivo e transpirando. Grenn dobrou-se para apanhá-lo, e atirou-o imediatamente no chão. - Mãe, como está.frio! - Obsidiana. - Sam ajoelhou-se com dificuldade. - Chamam de vidro de dragão. Vidro de dragão. - Riu e chorou e dobrou-se para vomitar a sua coragem na neve. Grenn ajudou Sam a ficar em pé, verificou se Paul Pequeno tinha pulso e fechou seus olhos, e depois voltou a pegar o punhal. Daquela vez conseguiu segurá-lo. - Fique com ele - disse Sam. - Não é covarde como eu. - Tão covarde que matou um Outro. - Grenn apontou com a faca. - Olhe para lá, entre as árvores. Luz cor-de-rosa. A alvorada, Sam, A alvorada. Aquilo deve ser o leste. Se seguirmos naquela direção, alcançaremos o Mormont.&lt;br /&gt;
- Se você diz. - Sam deu um chute numa árvore com o pé esquerdo, para desprender toda a neve. Depois com o direito. - Eu tento, - Fazendo uma careta, deu um passo. - Tento de verdade. - E depois outro.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/739251520537199065/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sanwel.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/739251520537199065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/739251520537199065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sanwel.html' title='Sanwel'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-1258276063725116075</id><published>2013-12-27T15:10:00.000-08:00</published><updated>2013-12-27T15:10:19.422-08:00</updated><title type='text'>Arya</title><content type='html'>As chuvas iam e vinham, mas havia mais céus cinzentos do que azuis, e todos os cursos de água corriam cheios. Na manhá do terceiro dia, Arya reparou que o musgo estava crescendo principalmente do lado errado das árvores. - Estamos indo na direção errada - disse a Gendry, ao passarem por um olmo especialmente cheio de musgo. - Estamos indo para o sul. Está vendo como o musgo cresce no tronco? Ele afastou os espessos cabelos negros dos olhos e disse: - Estamos seguindo a estrada, é só isso. A estrada aqui vai para o sul. Passamos o dia todo indo para o sul, ela quis lhe dizer. E ontem também, quando seguimos o curso daquele riacho. Mas, no dia anterior, não tinha prestado muita atenção, e por isso não podia ter certeza. - Acho que estamos perdidos - disse em voz baixa. - Não devíamos ter deixado o rio. Tudo que tínhamos de fazer era segui-lo. - O rio faz curvas e dá voltas - disse Gendry. - Este é só um caminho mais curto, aposto. Algum caminho secreto dos fora da lei. O Limo, o Tom e os outros vivem há anos por aqui. Aquilo era verdade. Arya mordeu o lábio. - Mas o musgo... - Com toda essa chuva, daqui a pouco teremos musgo crescendo nas orelhas - queixou-se Gendry. - Só da orelha virada para o sul - declarou teimosamente Arya. Não valia a pena tentar convencer o Touro do que quer que fosse. Em todo caso, era o único amigo verdadeiro que tinha, agora que Torta Quente os deixara. - A Sharna diz que precisa de mim para fazer pão - ele tinha lhe dito, no dia em que se puseram a caminho. - E, seja como for, estou farto da chuva, das dores de sela e de andar sempre assustado. Aqui há cerveja e coelho para comer, e o pão vai ser melhor quando eu o estiver fazendo. Quando voltar verá. Vai voltar, não vai? Depois que a guerra acabar? - então se lembrou de quem ela era e acrescentou, corando: - Senhora. Arya não sabia se a guerra chegaria a acabar, mas confirmou com a cabeça. - Desculpe ter batido em você daquela vez - disse. Torta Quente era burro e covarde, mas a tinha acompanhado sempre desde Porto Real, e Arya habituou-se a ele. - Quebrei seu nariz. &lt;br /&gt;
- Também quebrou o do Limo, - Torta Quente deu um sorriso. - Isso foi bom. - O Limo não achou - disse Arya num tom sorumbático. E então chegou a hora de partir. Quando Torta Quente perguntou se podia beijar a mão da senhora, Arya esmurrou o ombro dele. - Não me chame disso. Você é o Torta Quente, e eu sou Arry. - Aqui nãò sou o Torta Quente. Sharna só me chama de Rapaz. Do mesmo jeito que chama o outro rapaz. Vai ser uma confusão. Sentia mais a falta dele do que achava que sentiria, mas Harwin compensava um pouco. Ela lhe contara o que acontecera ao pai, Hullen, e como o encontrara agonizando junto aos estábulos na Fortaleza Vermelha, no dia em que fugira. - Ele sempre disse que morreria num estábulo - disse Harwin mas todos julgávamos que seria algum garanhão genioso que o levaria à morte, não uma matilha de leões. - Arya contou também sobre Yoren e a fuga de Porto Real, e sobre muito do que tinha acontecido desde então, mas deixou fora da história o cavalariço que ela atravessara com a Agulha, e o guarda cuja garganta rasgara para escapar de Harrenhal. Contar a Harwin seria quase como contar ao pai, e havia certas coisas que não suportaria que o pai soubesse. E também não mencionara Jaqen Hghar e as três mortes que ele lhe devera e pagara. Mantinha enfiada no cinto a moeda de ferro que ele lhe dera, mas às vezes, à noite, pegava-a e recordava o modo como o rosto do homem havia derretido e mudado quando passou a mão por ela. - Vaiar morghulis - dizia em surdina. - Sor Gregor, Dunsen, Polliver, RafF, Querido, Cócegas e Cão de Caça. Sor Ilyn, Sor Meryn, Rainha Cersei, Rei Joffrey. Harwin disse-lhe que só restavam seis homens de Winterfell dos vinte que o pai mandara para oeste com Beric Dondarrion, e eles estavam espalhados. - Era uma armadilha, senhora. Lorde Tywin mandou a Montanha dele cruzar o Ramo Vermelho com fogo e espada, esperando atrair o senhor seu pai. Planejava que Lorde Eddard viesse para oeste em pessoa, a fim de lidar com Gregor Clegane. Se tivesse feito isso, teria sido morto, ou capturado e trocado pelo Duende, que naquela altura era prisioneiro da senhora sua mãe. Mas o Regicida não sabia do plano de Lorde Tywin e quando ouviu a notícia da captura do irmão, atacou seu pai nas ruas de Porto Real. - Eu me lembro - falou Arya. - Ele matou Jory, - Jory sempre sorrira para ela, quando não estava lhe dizendo para sair do caminho. - Ele matou Jory - concordou Harwin - e a perna de seu pai quebrou quando o cavalo caiu sobre ele. Por isso Lorde Eddard não pôde ir para oeste. Mandou Lorde Beric em seu lugar, com vinte homens dele e vinte&lt;br /&gt;
de Winterfell, entre eles eu. E havia também outros. Thoros e Sor Raymun Darry e seus homens, Sor Gladden Wylde, um lorde chamado Lothar Mallery. Mas Gregor estava à nossa espera no Vau do Saltimbanco, com homens escondidos em ambas as margens. No momento em que atravessávamos, caiu sobre nós pela frente e pela retaguarda. Vi a Montanha matar Raymun Darry com um único golpe, tão terrível que arrancou o braço de Darry pelo cotovelo e matou também o cavalo que tinha entre as pernas. Gladden Wylde morreu ali com ele, e Lorde Mallery foi derrubado e afogou-se. Tínhamos leões por todos os lados, e eu pensei que estava condenado com os outros, mas Alyn gritou ordens e restaurou a ordem em nossas fileiras, e aqueles de nós que ainda estávamos a cavalo reunimo-nos em volta de Thoros e libertamo-nos dando espadadas. Naquela manhã, éramos cento e vinte. Ao cair da noite, não somávamos mais de quarenta, e Lorde Beric estava gravemente ferido. Nessa noite, Thoros tirou trinta centímetros de lança de seu peito e despejou vinho fervendo no buraco que ficou. &quot;Todos estávamos convencidos de que sua senhoria estaria morta ao nascer do dia. Mas Thoros rezou com ele a noite inteira junto à fogueira e, quando a alvorada chegou, ele ainda estava vivo, e mais forte do que antes. Passou-se uma quinzena antes de poder montar a cavalo, mas sua coragem manteve-nos fortes. Disse-nos que nossa guerra não terminara no Vau do Saltimbanco, que só começara ali, e que cada um de nossos homens que caíra seria vingado dez vezes. &quot;A essa altura, a luta tinha passado por nós. Os homens da Montanha eram só a vanguarda da tropa de Lorde Tywin. Atravessaram o Ramo Vermelho em força e varreram as terras fluviais, queimando tudo que encontravam no caminho. Éramos tão poucos que tudo que pudemos fazer foi atormentar a retaguarda deles, mas dizíamos uns aos outros que nos juntaríamos ao Rei Robert quando ele marchasse para oeste para esmagar a rebelião de Lorde Tywin. Mas então soubemos que Robert estava morto e Lorde Eddard também, e que a cria da Senhora Cersei tinha ascendido ao Trono de Ferro. &quot;Isso virou o mundo inteiro de pernas para o ar. Fôramos enviados pela Mão do Rei para lidar com os fora da lei, está vendo, mas agora éramos nós os fora da lei, e Lorde Tywin era Mão do Rei. Alguns desejaram se render nesse momento, mas Lorde Beric não queria nem ouvir falar do assunto. Ainda éramos homens do rei, dizia, e aqueles que os leões andavam massacrando eram o povo do rei. Se não podíamos lutar por Robert, lutaríamos por eles, até que todos os nossos homens estivessem mortos. E foi o que fizemos, mas, à medida que íamos lutando, algo estranho começou a acontecer. A cada homem que perdíamos, surgiam dois para tomar o seu lugar. Alguns eram cavaleiros ou escudeiros, de&lt;br /&gt;
bom nascimento, mas a maioria era gente comum... trabalhadores rurais, rabequeiros e estalajadeiros, criados e sapateiros, e até dois septões. Homens de todos os tipos, e também mulheres, crianças, cães... - Cães? - perguntou Arya. - Sim. - Harwyn sorriu. - Um dos nossos rapazes trata dos cães mais bravos, você algum dia gostaria de ver, - Gostaria de ter um bom cão bravo - disse Arya em tom desejoso. - Um cão matador de leões. - Antigamente tinha uma loba gigante, Nymeria, mas atirei pedras nela até pô-la em fuga, para evitar que a rainha a matasse. Seria um lobo gigante capaz de matar um leão?, perguntou a si mesma. Nessa tarde voltou a chover e continuou por muito tempo, noite adentro, Felizmente, os fora da lei tinham amigos secretos por todos os lados, e não precisavam acampar ao ar livre ou procurar abrigo debaixo de algum caramanchão cheio de goteiras, como ela, Torta Quente e Gendry tinham feito tantas vezes. De noite, abrigaram-se numa aldeia incendiada e abandonada. Pelo menos parecia estar abandonada, até Jack Sortudo soltar dois sopros curtos e dois longos em seu berrante. Então começou a aparecer todo tipo de gente, de dentro das ruínas e de adegas secretas. Tinham cerveja, maçãs desidratadas e um pouco de pão de cevada amanhecido, e os fora da lei traziam um ganso que Anguy havia abatido no caminho, de modo que o jantar dessa noite foi quase um banquete. Arya estava chupando os últimos bocados de carne de uma asa quando um dos aldeões se virou para Limo Manto Limão e disse: - Passaram homens por aqui há menos de dois dias, à procura do Regicida. Limo fungou. - Fariam tiielhor se o procurassem em Correrrio. Lá embaixo, nas masmorras mais profundas, onde é bom e úmido. - Seu nariz parecia uma maçã esmagada, vermelho, dolorido e inchado, e ele estava de mau humor. - Não - disse outro aldeão. - Ele fugiu. O Regicida. Arya sentiu os cabelos no pescoço se eriçarem, Segurou a respiração para escutar. - Será que isso é verdade? - disse o Tom das Sete. - Não acredito - respondeu o homem zarolho com o elmo redondo enferrujado. Os outros fora da lei chamavam-no de Jack Sortudo, embora perder um olho não parecesse lá muita sorte a Arya. - Já experimentei essas masmorras. Como é que ele conseguiria escapar? Os aldeões só podiam responder com ombros encolhidos. Barba-Verde afagou seus espessos pelos cinzentos e verdes e disse:&lt;br /&gt;
- Os lobos irão se afogar em sangue, se o Regicida tá outra vez à solta. O Thoros tem de saber disso. O Senhor da Luz vai lhe mostrar o Lannister nas chamas. - Há ali um belo fogo ardendo - disse Anguy, sorrindo. Barba-Verde soltou uma gargalhada e deu uma tapa na orelha do arqueiro. - Acha que eu tenho ar de sacerdote, Arqueiro? Quando Pello de Tyrosh olha o fogo, as fagulhas chamuscam sua barba. Limo estalou os dedos e disse: - Mas Lorde Beric adoraria capturar Jaime Lannister... - Ele o enforcaria, Limo? - perguntou uma das mulheres da aldeia. - Seria uma pena enforcar um homem tão lindinho como ele. - Primeiro um julgamento! - disse Anguy. - Lorde Beric dá-lhes sempre um julgamento. - Sorriu. - Só depois é que os enforca. Houve risos por toda a volta. Então Tom passou os dedos pelas cordas de sua harpa e começou a cantar numa voz suave. Os irmãos da mata do rei, eram um bando de fora da lei. A floresta era o seu castelo, mas vagueavam por todo lado. Ouro algum era por si recusado, das donzelas eram grande flagelo. Oh, os irmãos da mata do rei, temível bando de fora da lei. Quente e seca, em um canto, entre Gendry e Harwin, Arya escutou a cantoria durante algum tempo, mas depois fechou os olhos e deslizou para o sono. Sonhou com sua casa; não Correrrio, mas Winterfell. Não foi um bom sonho, porém. Estava sozinha do lado de fora do castelo, enfiada até os joelhos em lama. Conseguia ver as muralhas cinzentas à sua frente, mas quando tentou alcançar os portões, cada passo pareceu mais difícil do que o anterior, e o castelo desvaneceu-se perante seus olhos, até se parecer mais com fumaça do que com granito. E também havia lobos, silhuetas descarnadas e cinzentas caminhando furtivamente por entre as árvores à sua volta, com os olhos brilhando. Sempre que olhava para eles, lembrava-se do sabor do sangue. Na manhã seguinte, deixaram a estrada para cortar caminho pelos campos. O vento soprava em rajadas, fazendo rodopiar folhas secas marrons entre os cascos dos cavalos, mas, pela primeira vez, não chovia. Quando o sol surgiu de trás de uma nuvem, estava tão brilhante que Arya teve de puxar o capuz para a frente, a fim de cobrir os olhos. Puxou as rédeas bruscamente. - Estamos indo no sentido errado! Gendry soltou um gemido. - O que foi, outra vez o musgo? - Olhe para o sol - disse ela. - Estamos indo para o sull - Arya esquadrinhou o alforje em busca do mapa, para poder mostrar-lhes. - Nunca devíamos ter nos afastado do Tridente. Olhem. - Desenrolou o&lt;br /&gt;
mapa sobre a perna. Agora todos a observavam. - Olhem, Correrrio fica aqui, entre os rios. - Acontece - disse Jack Sortudo - que a gente sabe onde fica Correrrio. Cada um de nós. - Não vamos para Correrrio - disse Limo sem rodeios. Estava quase lá, pensou Arya. Devia tê-los deixado levar nossos cavalos. Podia ter percorrido o resto do caminho a pé. Lembrou-se então do seu sonho e mordeu o lábio. - Ah, não faça uma expressão tão sentida, filha - disse Tom Sete-Cordas. - Nenhum mal acontecerá a você, tem a minha palavra quanto a isso. - A palavra de um mentiroso! - Ninguém mentiu - disse Limo. - Não fizemos promessas. Não cabe a nós dizer o que será feito com você. Mas Limo não era o chefe, não o era mais do que Tom; o chefe era o Barba-Verde, o tyroshi. Arya virou-se para ele. - Leve-me a Correrrio, e será recompensado - disse, desesperadamente. - Pequena - respondeu Barba-Verde um camponês pode esfolar um esquilo comum para a panela, mas se encontrar um esquilo de ouro em sua árvore, leva-o ao seu senhor, senão se arrependerá de não ter feito isso. - Não sou um esquilo - insistiu Arya. - E, sim. - Barba-Verde soltou uma gargalhada. - Um pequeno esquilo de ouro que vai se encontrar com o senhor do relâmpago, quer queira, quer não. Ele vai saber o que fazer com você. Aposto que vai mandá-la para junto da senhora sua mãe, tal como você deseja. Tom Sete-Cordas concordou com a cabeça. - Sim, Lorde Beric é assim. Ele vai fazer o que é certo, você vai ver. Lorde Beric Dondarrion. Arya recordou tudo que ouvira dizer em Harrenhal, tanto da boca dos Lannister como dos Saltimbancos Sangrentos. Lorde Beric era o fogaréu dos bosques. Lorde Beric, que fora morto por Vargo Hoat e antes disso por Sor Amory Lorch e duas vezes pela Montanha que Cavalga. Se ele não me mandar para casa, talvez também o mate. - Por que é que tenho de me encontrar com Lorde Beric? - perguntou ela calmamente. - Levamos todos os nossos cativos bem-nascidos a ele - disse Anguy. Cativa. Arya respirou fundo para sossegar a alma. Calma como águas paradas. Olhou de relance os fora da lei em seus cavalos, e virou a cabeça do seu. Agora, rápida como uma cobra, pensou,&quot; enquanto batia com os calcanhares no flanco do corcel. Fugiu bem entre Barba-Verde e Jack Sortudo, e viu de relance a expressão pasma de Gendry, quando a&lt;br /&gt;
égua dele saiu de seu caminho. E então estava em campo aberto, e em fuga. Para norte ou para sul, para leste ou oeste, agora não importava. Podia encontrar o caminho para Correrrio mais tarde, depois de tê-los despistado. Arya inclinou-se para a frente na sela e pôs o cavalo a galope. Em suas costas, os fora da lei praguejavam e gritavam-lhe para voltar. Fechou os ouvidos aos gritos, mas quando deu um olhar de re- lance por cima do ombro, quatro deles vinham em seu encalço, Anguy, Harwin e Barba- -Verde lado a lado e, mais atrás, Limo, cujo comprido manto amarelo esvoaçava atrás dele enquanto cavalgava. - Ligeira como uma corça - disse à sua montaria. - Agora corra, corra. Arya precipitou-se por campos marrons de ervas daninhas, por mato na altura da cintura e por pilhas de folhas secas que se agitavam e voavam quando o cavalo passava a galope. Víu que havia bosques à esquerda. Posso despistá-los ali. Uma vala seca corria ao longo de um dos lados do terreno, mas saltou-a sem abrandar o ritmo, e mergulhou no bosque de olmos, teixos e bétulas, Uma rápida espiada para trás mostrou que Anguy e Harwin ainda continuavam muito próximos. Mas Barba-Verde tinha ficado para trás, e já não via Limo. - Mais depressa - disse ao cavalo -, você consegue, você consegue. E cavalgou por entre dois olmos, sem parar para ver de que lado o musgo crescia. Saltou por cima de um tronco apodrecido e fez uma curva aberta em volta de uma monstruosa árvore caída, eriçada de galhos quebrados. Depois subiu uma ligeira vertente e desceu pelo outro lado, abrandando e voltando a ganhar velocidade, tirando faíscas do sílex com os cascos do cavalo. No topo da colina espreitou para trás. Harwin havia se colocado à frente de Anguy, mas ambos a seguiam de perto. Barba-Verde tinha ficado mais para trás e parecia estar perdendo a força. Um riacho barrou seu caminho. Entrou nele, atravessando a água repleta de folhas ensopadas e castanhas. Algumas vieram agarradas às patas do cavalo quando subiram do outro lado. Ali, a vegetação rasteira era mais densa, com o chão tão cheio de raízes e pedras que teve de desacelerar, mas manteve o ritmo mais elevado que ousou. Surgiu outra colina à sua frente, mais íngreme. Para cima, e de novo para baixo. Que tamanho têm estes bosques?, se perguntou. Sabia que tinha o cavalo mais rápido, roubara um dos melhores animais de Roose Bolton dos estábulos de Harrenhal, mas a sua velocidade era desperdiçada ali. Preciso voltar a encontrar campo aberto. Tenho de encontrar uma estra- da. Em vez disso, encontrou uma trilha de caça. Era estreita e irregular, mas era alguma coisa. Correu ao longo dela, com os ramos chicoteando seu rosto. Um se prendeu ao seu capuz e puxou-o para trás, e durante meio segundo Arya temeu que a tivessem apanhado. Uma raposa saltou&lt;br /&gt;
dos arbustos após sua passagem, assustada pela fúria de sua fuga. A trilha levou-a a outro riacho. Ou seria o mesmo? Teria dado meia-volta? Não havia tempo para desvendar isso, pois ouvia os cavalos arremetendo por entre as árvores atrás de si. Espinhos arranharam seu rosto como os gatos que costumava perseguir em Porto Real. Pardais explodiram dos ramos de um amieiro. Mas agora as árvores estavam ficando mais esparsas, e de repente viu-se fora delas. Largos campos planos estendiam-se à sua frente, só ervas daninhas e trigo selvagem, ensopado e pisoteado. Arya voltou a pôr o cavalo a galope. Corra, pensou, corra para Correrrio, corra para casa. Teria conseguido despistá-los? Deu uma olhada rápida, e ali estava Harwin a cinco metros dela e ganhando terreno. Não, pensou, não, ele não pode fazer isso, não ele, não é justo. Ambos os cavalos estavam espumando e perdendo as forças quando ele chegou ao lado, estendeu a mão e agarrou o freio dela. A própria Arya estava ofegante. Sabia que a fuga tinha terminado. - Monta como um nortenho, senhora - disse Harwin quando a obrigou a parar. - Sua tia também era assim. A Senhora Lyanna. Mas lembre-se de que meu pai era mestre dos cavalos. O olhar que Arya lhe lançou estava cheio de mágoa. - Achava que era um homem de meu pai. - Lorde Eddard está morto, senhora. Agora pertenço ao senhor do relâmpago e aos meus irmãos. - Que irmãos? - o Velho Hullen não tinha gerado mais nenhum filho, que Arya se lembrasse. - Anguy, Limo, Tom das Sete, Jack e Barba-Verde, todos eles. Não queremos mal ao seu irmão, senhora... mas não é por ele que lutamos. Robb tem um exército próprio, e muitos grandes senhores que dobram o joelho para ele. O povo só tem a nós. - Deu-lhe um olhar perscrutador. - E capaz de compreender o que estou dizendo? - Sim. - Que ele não era um homem de Robb compreendia bastante bem. E também que era sua cativa. Podia ter ficado com Torta Quente. Podíamos ter roubado o barquinho e velejado nele até Correrrio. Estivera melhor como Pombinha. Ninguém tomaria a Pombinha cativa, ou a Nan, ou a Doninha, ou o Arry, o órfão. Era uma loba, pensou, mas agora sou só uma estúpida senhorinba qualquer. - Voltará agora em paz? - perguntou-lhe Harwin - Ou terei de amarrá-la e colocá-la atravessada no cavalo? - Volto em paz - disse ela num tom amuado. Por enquanto. </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/1258276063725116075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/arya_27.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1258276063725116075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1258276063725116075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/arya_27.html' title='Arya'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-3008002111511203663</id><published>2013-12-27T15:06:00.000-08:00</published><updated>2013-12-27T15:06:11.592-08:00</updated><title type='text'>Sansa</title><content type='html'>Um vestido novo? - disse, tão cautelosa quanto espantada. ** u - Mais lindo do que qualquer outro que tenha usado, senhora - prometeu a velha. Mediu as ancas de Sansa com uma corda cheia de nós. - Todo de seda e renda de Myr, com forro de cetim. Ficará muito bela. Foi a própria rainha que o encomendou. - Qual rainha? - Margaery ainda não era rainha de Joffrey, mas havia sido a de Renly. Ou ela estaria se referindo à Rainha dos Espinhos? Ou... - A Rainha Regente, com certeza. - A Rainha Cersei? - Essa mesma. Há muitos anos que me dá a honra de ser freguesa. - A velha estendeu a corda ao longo da parte de dentro da perna de Sansa. - Sua Graça disse-me que agora é uma mulher, e não deve se vestir como uma garotinha. Estenda o braço. Sansa ergueu o braço. Precisava de um vestido novo, isso era verdade. Tinha crescido sete centímetros no ano anterior, e a maior parte de seu antigo guarda-roupa havia estragado com a fumaça, quando tentou queimar o colchão no dia de sua primeira floração. - Seu peito ficará tão lindo como o da rainha - disse a velha enquanto envolvia o peito de Sansa com a corda. - Não devia escondê-lo tanto. O comentário fez Sansa corar. E no entanto, da última vez em que fora montar, não conseguiu atar o justilho até em cima, e o cavalariço não tirou os olhos dela enquanto a ajudava a montar. As vezes, via também homens-feitos olhando para seu peito, e algumas de suas túnicas estavam tão apertadas que quase não conseguia respirar vestida com elas. - De que cor será? - perguntou à costureira. - Deixe as cores comigo, senhora. Ficará contente, tenho certeza. Também terá roupas de baixo e meias, batas, capas e mantos, e tudo o mais que é próprio de uma... de uma linda jovem senhora de nobre nascimento. - Estarão prontos a tempo da boda do rei? -Oh, mais cedo, muito mais cedo, Sua Graça insiste. Tenho seis costureiras e doze aprendizes, e deixaremos de lado todos os outros serviços para nos dedicarmos a este. Muitas senhoras ficarão zangadas conosco, mas foram ordens da rainha. - Tenha a gentileza de agradecer à Sua Graça por sua amabilidade - disse Sansa com cortesia. - Ela é boa demais para mim. &lt;br /&gt;
- Sua Graça é muito generosa - concordou a costureira, enquanto recolhia as suas coisas e se retirava. Mas por quê?, perguntou Sansa a si mesma quando ficou sozinha. Aquilo deixava-a inquieta. Aposto que esse vestido é de algum modo obra de Margaery, ou da avó. A gentileza de Margaery tinha sido inabalável, e sua presença mudara tudo. As suas senhoras também tinham acolhido Sansa entre elas. Fazia tanto tempo que não desfrutava da companhia de outras mulheres que quase se esquecera de como podia ser agradável. A Senhora Leonette ensinava-a a tocar harpa, e a Senhora Janna partilhava com ela todas as melhores fofocas. Merry Crane tinha sempre uma história divertida para contar, e a pequena Senhora Bulwer lembrava-lhe Arya, embora não fosse tão irrequieta. As primas Elinor, Alia e Megga estavam mais próximas da idade de Sansa. Eram Tyrell de ramos menores da Casa.&quot;Rosas de partes mais baixas do arbusto&quot;, como brincava Elinor, que era esbelta e possuía senso de humor. Megga era redonda e ruidosa, Alia, tímida e bonita, mas Elinor governava as três por direito de maturação; era uma donzela já florida, enquanto Megga e Alia não passavam de garotas. As primas acolheram Sansa como se a tivessem conhecido a vida inteira. Passavam longas tardes bordando e conversando, comendo bolos de limão e bebendo vinho com mel, à noite jogavam damas, cantavam juntas no septo do castelo... e era freqüente que uma ou duas delas fossem escolhidas para dividir a cama com Margaery, onde gastavam metade da noite em segredos. Alia possuía uma linda voz, e quando era aliciada, tocava harpa e cantava canções de cavalaria e amores perdidos. Megga não sabia cantar, mas era louca por beijos. Confessou que ela e Alia jogavam às vezes um jogo de beijos, mas não era o mesmo que beijar um homem, muito menos um rei. Sansa perguntou a si mesma o que Megga acharia de beijar o Cão de Caça, como ela o fizera. Ele a tinha encontrado na noite da batalha, fedendo a vinho e sangue. Beijou-me e ameaçou me matar, e obrigou-me a cantar uma canção para ele. - O Rei Joffrey tem lábios tão belos - exclamou Megga, absorta, - Oh, pobre Sansa, como o seu coração deve ter se partido quando o perdeu. Oh, como deve ter chorado! Joffrey me fez chorar com mais freqüência do que imagina, teve vontade de dizer, mas o Abetouro não estava por perto para abafar sua voz, por isso apertou os lábios e segurou a língua. Quanto a Elinor, estava prometida a um jovem escudeiro, filho de Lorde Ambrose; iam se casar assim que ele ganhasse as esporas. Ele tinha usado o seu favor na Batalha da Água Negra, onde matou um besteiro de Myr e um homem de armas Mullendore,&lt;br /&gt;
- Alyn contou que seu favor o tornou destemido - disse Megga. - Ele diz que usou o nome de Elinor como grito de guerra, não é galante? Um dia quero que algum campeão use o meu favor e mate cem homens. - Elinor disse-lhe para se calar, mesmo assim pareceu ficar contente. Elas são crianças, pensava Sansa. São garotinhas tolas, até mesmo Elinor. Nunca viram uma batalha, nunca viram um homem morrer, não sabem nada. Seus sonhos estavam cheios de canções e histórias, como os dela tinham estado antes de Joffrey cortar a cabeça do pai. Sansa tinha dó delas. E também tinha inveja. Mas Margaery era diferente. Doce e gentil, sim, mas também havia nela um pouco da avó. Na antevéspera, levara Sansa à caça com falcão, Foi a primeira vez que saiu da cidade depois da batalha. Os mortos tinham sido queimados ou enterrados, mas o Portão da Lama estava rachado e lascado onde os aríetes de Lorde Stannís o tinham atacado, e viam-se cascos de navios esmagados ao longo de ambas as margens do Água Negra, com mastros carbonizados que se erguiam dos baixios como lúgubres dedos negros. O único tráfego no rio era o barco de fundo chato em que fizeram a travessia, e quando chegaram à mata de rei, encontraram um campo desolado de cinzas, carvão e árvores mortas. Mas as aves aquáticas abundavam nos pântanos ao longo da baía, e o esmerilhão de Sansa abateu três patos, enquanto o falcão-peregrino de Margaery apanhava uma garça-real em pleno voo. - Willas tem as melhores aves dos Sete Reinos - disse Margaery quando as duas ficaram sozinhas por um breve período, - As vezes, faz voar uma águia, Você vai ver, Sansa, - Pegou na mão dela e deu-lhe um apertão. - Irmã. Irmã. Antigamente, Sansa sonhara em ter uma irmã como Margaery; bela e gentil, com todas as graças do mundo às suas ordens. Arya havia sido completamente insatisfatória no que tocava a ser irmã. Como posso deixar que minha irmã se case com Joffrey?, pensou, e de repente ficou com os olhos cheios de lágrimas, - Margaery, por favor - disse não pode. - Era difícil fazer sair as palavras. - Você não pode se casar com ele. Ele não é o que parece, não é. Vai machucá-la. - Penso que não. - Margaery sorriu com um ar confiante, - E corajoso de sua parte prevenir-me, mas não tem nada a temer. JofF é mimado e vaidoso e não duvido que seja tão cruel como você diz, mas o pai obrigou-o a nomear Loras para a sua Guarda Real antes de concordar com o casamento. Terei o melhor cavaleiro dos Sete Reinos me pro- tegendo dia e noite, tal como o Príncipe Aemon protegeu Naerys. Portanto, é melhor que nosso leãozinho se comporte bem, não é? - soltou uma gargalhada, e disse: - Venha, querida irmã, vamos fazer&lt;br /&gt;
uma corrida até o rio. Isso deixará os nossos guardas bem loucos, - E, sem esperar resposta, bateu com os calcanhares no cavalo e fugiu. Ela é tão corajosa, pensou Sansa, galopando atrás da garota... e, no entanto, as dúvidas ainda a atormentavam. Sor Loras era um grande cavaleiro, todos eram unânimes em dizê-lo. Mas Joffrey tinha outros guardas reais, e também homens de manto dourado e vermelho, e, quando fosse mais velho, comandaria seus próprios exércitos. Aegon, o Indigno, nunca tinha feito mal à Rainha Naerys, talvez por temer o seu irmão, o Cavaleiro do Dragão... mas quando outro de seus guardas reais se apaixonou por uma de suas amantes, o rei cortou a cabeça de ambos. Sor Loras é um Tyrell, lembrou Sansa a si mesma. Esse outro cavaleiro era apenas um Toyne. Seus irmãos não tinham exércitos, não possuíam nenhum modo de vingá-lo a não ser pela espada, Mas, quanto mais pensava em tudo aquilo, mais se interrogava.Joff poderá se segurar durante algumas voltas de lua, talvez durante um ano, mas mais cedo ou mais tarde irá mostrar as garras, e quando fizer isso... O reino poderia ver surgir um segundo Regicida, e haveria guerra dentro da cidade, enquanto os homens do leão e os homens da rosa fizessem as valetas correr rubras. Sansa surpreendia-se por Margaery não ver isso também. Ela é mais velha do que eu, deve ser mais sábia. E o pai dela, Lorde Tyrell certamente saberá o que está fazendo. Estou só sendo tola. Quando falou a Sor Dontos que partiria para Jardim de Cima para se casar com Willas Tyrell, achou que ele ficaria aliviado e satisfeito por ela. Mas Sor Dontos agarrou seu braço e disse: - Você não pode fazer isso! - numa voz tão carregada de horror como de vinho. - Estou falando, esses Tyrell são apenas Lannister com flores. Suplico-lhe, esqueça essa loucura, dê um beijo em seu Florian, e prometa que seguirá o caminho que planejamos. Na noite do casamento de Joffrey, não falta muito tempo, use a rede de prata para o cabelo e faça o que eu lhe disser, e depois fugiremos. - E tentou lhe dar um beijo no rosto. Sansa desvencilhara-se de sua mão e afastara-se dele. - Não farei isso, Não posso. Alguma coisa daria errado. Quando eu quis fugir, você não me levou, e agora não preciso. Dontos fitara-a estupidamente, - Mas os preparativos estão feitos, querida. O navio para levá-la para casa, o barco para levá-la para o navio, o seu Florian fez tudo para a sua doce Jonquil. - Lamento todo o incômodo que lhe causei - ela disse mas agora não preciso de barcos e navios. - Mas é tudo para a sua segurança.&lt;br /&gt;
- Estarei em segurança em Jardim de Cima. Willas vai me manter em segurança. - Mas ele não a conhece - insistiu Dontos - e não a amará. Jonquil, Jonquil, abra seus belos olhos, esses Tyrell não se interessam por você. E a sua pretensão que querem desposar. - A minha pretensão? - por um momento Sansa ficou confusa. - Querida - ele disse -, é herdeira de Winterfell. - Voltou a agarrá-la, suplicando-lhe que não fizesse aquilo, e Sansa se libertou, deixado-o cambaleando sob a árvore-coração. Não voltou a visitar o bosque sagrado desde então. Mas também não esqueceu suas palavras. Herdeira de Winterfell pensava na cama, à noite. E a sua pretensão que querem desposar. Sansa tinha crescido com três irmãos. Nunca pensara em ter alguma pretensão, mas com Bran e Rickon mortos... Não importa, ainda há Robb, ele é agora um homem-feito, e em breve se casará e terá um filho. Seja como for, Wiüas Tyrrell terá Jardim de Cima, o que ele iria querer de Winterfell? Às vezes sussurrava o nome dele para a almofada, só para ouvir o som. - Willas, Willas, Willas. - Supunha que Willas era um nome tão bom quanto Loras. Até soavam um pouco parecidos. Que importava a sua perna? Willas seria Senhor de Jardim de Cima, e ela seria a sua senhora. Imaginava os dois sentados juntos num jardim, com cachorros no colo, ou ouvindo um cantor dedilhar um alaúde enquanto flutuavam Vago abaixo numa barcaça de prazer. Se lhe der filhos, ele pode chegar a me amar. Ela ia chamá-los de Eddard, Brandon e Rickon, e educá-los para serem tão valentes quanto Sor Loras. E também para odiarem os Lannister. Nos sonhos de Sansa, seus filhos eram tal qual os irmãos que tinha perdido. Às vezes, havia até uma menina parecida com Arya. Mas nunca conseguia manter durante muito tempo uma imagem de Willas na cabeça; a sua imaginação transformava-o sempre em Sor Loras, jovem, gracioso e belo. Não pode pensar nele assim, dizia a si mesma. Senão, Willas pode ver o desapontamento em seus olhos quando se encontrarem, e como poderá então casar com você, sabendo que é o irmão que você ama? Recordava constantemente a si mesma que Willas tinha o dobro de sua idade, que era coxo, e talvez até gordo e de rosto vermelho como o pai. Mas, garboso ou não, poderia ser o único campeão que algum dia teria. Uma vez sonhou que ainda era ela, e não Margaery, quem se casaria com Joff, e que na noite de núpcias ele se transformava no carrasco Ilyn Payne. Acordou tremendo. Não queria que Margaery sofresse como ela tinha sofrido, mas a idéia de que os Tyrell pudessem recusar prosseguir com o casamento aterrorizava-a. Eu preveni, avisei, contei a verdade sobre ele. Talvez Margaery não acreditasse nela. Joff sempre&lt;br /&gt;
desempenhava o papel de perfeito cavaleiro com a jovem Tyrell, como fizera com Sansa. Ela verá a sua verdadeira natureza bem depressa, depois do casamento, se não vir antes. Sansa decidiu que acenderia uma vela à Mãe no Céu da próxima vez que visitasse o septo e lhe pediria para proteger Margaery da crueldade de Joffrey. H talvez também uma vela ao Guerreiro, para Loras. Usaria seu novo vestido na cerimônia no Grande Septo de Baelor, decidiu enquanto a costureira tirava as últimas medidas. Deve ser por isso que Cersei o mandou fazer para mim, para que não assista á boda malvestida. Devia mesmo ter um vestido diferente para o banquete que haveria depois, mas supunha que um dos velhos serviria. Não queria arriscar-se a derramar comida ou vinho sobre o novo. Tenho de levá-lo comigo para Jardim de Cima. Queria estar bela para Willas Tyrell, Mesmo se Dontos tiver razão e ele desejar Winterfell e não a mim, ainda pode vir a me amar pelo que sou. Sansa abraçou-se com força, perguntando a si mesma quanto tempo demoraria para o vestido ficar pronto. Quase não podia esperar para usá-lo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/3008002111511203663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sansa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/3008002111511203663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/3008002111511203663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sansa.html' title='Sansa'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-7406992537008107981</id><published>2013-12-27T15:05:00.000-08:00</published><updated>2013-12-27T15:05:10.852-08:00</updated><title type='text'>Jon</title><content type='html'>São grandes o suficiente para você? - Flocos de neve salpicavam o rosto largo de Tormund, derretendo-se em seus cabelos e sua barba. Os gigantes balançavam lentamente no topo de mamutes ao passarem por eles, dois a dois. O garrano de Jon espantou-se, assustado por tamanha estranheza, mas era difícil dizer se o que o assustava eram os mamutes ou os seus cavaleiros. Até Fantasma recuou um passo, exibindo os dentes num rosnado silencioso. O lobo gigante era grande, mas os mamutes eram muito maiores, e havia muitos mais e muitos ainda. Jon controlou o cavalo e manteve-o quieto, para poder contar os gigantes que emergiam da neve soprada pelo vento e das névoas pálidas que rodopiavam ao longo do Guadeleite. Já passavam bastante de cinqüenta quando Tormund disse alguma coisa e Jon perdeu a conta. Deve haver centenas. Não importa quantos passassem, pareciam continuar chegando mais. Nas histórias da Velha Ama, os gigantes eram homens muito grandes que viviam em castelos colossais, lutavam com espadas enormes e andavam por aí calçados com botas grandes o suficiente para um garoto se esconder lá dentro. Mas aqueles eram outra coisa, mais semelhantes a ursos do que a humanos, e tão peludos como os mamutes que montavam. Sentados, era difícil ver quão grandes eram. Três metros de altura, talvez, ou três metros e meio, pensou Jon. Talvez quatro metros, mas não mais do que isso. O peito inclinado podia parecer peito de homens, mas os braços eram longos demais, e a parte inferior do torso parecia ser vez e meia mais larga do que a superior. As pernas eram mais curtas do que os braços, mas muito grossas, e eles não usavam botas; os pés eram coisas largas e achatadas, duras, calosas e pretas. Sem pescoço, tinham uma cabeça enorme e pesada, que se projetava do meio das espáduas para a frente, e o rosto era achatado e brutal. Olhos de rato, que não eram maiores do que contas, quase se perdiam no interior de dobras de pele calosa; mas fungavam continuamente, capazes de farejar tanto quanto de ver. Eles não vestem peles, percebeu Jon. Aquilo é pelo. Pelagens felpudas cobriam os corpos, espessas abaixo da cintura, mais esparsas acima. O fedor que exalavam era sufocante, mas isso talvez se devesse aos mamutes. E Joramun soprou o Berrante do Inverno e acordou gigantes da terra. Procurou as grandes espadas de três metros de comprimento,&lt;br /&gt;
mas só encontrou clavas. A maior parte não passava de galhos de árvores mortas, algumas ainda com ramos menores presos. Algumas delas tinham bolas de pedra firmemente amarradas às extremidades, formando marretas colossais. A canção não chega a dizer se o berrante pode fazê-los adormecer de novo, Um dos gigantes que se aproximava deles parecia mais velho do que os outros. Sua pelagem era cinza e rajada de branco, e o mamute que montava, maior do que todos os demais, também era cinza e branco. Tormund gritou qualquer coisa para ele ao passar, palavras rudes e ressonantes, numa língua que Jon não compreendia. Os lábios do gi- gante separaram-se para revelar uma boca cheia de enormes dentes quadrados, e ele fez um som que era meio arroto, meio trovão. Após um momento, Jon compreendeu que estava rindo. O mamute virou sua enorme cabeça para dar uma breve olhada nos dois, fazendo uma gigantesca presa passar sobre a cabeça de Jon enquanto o animal avançava pesadamente, deixando grandes pegadas na lama mole e na neve fresca ao longo do rio. O gigante gritou qualquer coisa na mesma língua grosseira que Tormund havia usado, - Aquele era o rei deles? - perguntou Jon. - Os gigantes não têm mais reis do que os mamutes, os ursos-das-neves ou as grandes baleias do mar cinzento. Aquele era Mag Mar Tun Doh Weg. Mag, o Poderoso. Pode ajoelhar-se diante dele se quiser, ele não vai se importar. Sei que seus joelhos de ajoe- lhador devem estar coçando, por falta de um rei a quem se dobrar. Mas tome cuidado para que ele não pise em você. Os gigantes têm olhos ruins, e pode ser que ele não veja um corvozinho lá embaixo, junto aos pés. - O que você disse a ele? Isso era o Idioma Antigo? - Sim. Perguntei se ele estava montando o pai, já que se pareciam tanto, com a diferença de que o pai cheirava melhor. - E o que ele respondeu? Tormund Punho de Trovão abriu um sorriso desdentado. - Perguntou-me se quem estava a cavalo ao meu lado era a minha filha, com as suas bochechas lisas e rosadas. - O selvagem tirou neve do braço e fez o cavalo dar meia-volta. - Pode ser que ele nunca tenha visto um homem sem barba. Ande, vamos voltar. Mance fica muito irritado quando não me encontra no lugar de costume. Jon deu meia-volta e seguiu Tormund de volta à cabeça da coluna, com o novo manto caindo, pesado, dos ombros. Era feito de peles de ovelha não lavadas, e usava-o com o lado da lá para dentro, como os selvagens tinham sugerido. Mantinha bastante bem a neve afastada, e à noite era bom e quente, mas também havia ficado com o manto negro, dobrado por baixo da sela.&lt;br /&gt;
- E verdade que você uma vez matou um gigante? - perguntou a Tormund enquanto avançavam. Fantasma saltava em silêncio ao lado deles, deixando rastros de patas na neve recém-caída. - Ora, por que deveria duvidar de um homem poderoso como eu? Era inverno e eu era meio garoto, e estúpido como os garotos são. Avancei longe demais e meu cavalo morreu, e depois uma tempestade apanhou-me. Uma tempestade verdadeira, não uma nevasquinha como esta. Ha! Sabia que ia congelar antes do fim. De modo que encontrei uma giganta adormecida, abri a barriga dela, e enfiei-me dentro. Manteve-me bem quentinho, ah, sim, mas o fedor quase acabou comigo. O pior foi que ela acordou quando a primavera chegou e achou que eu era seu bebê. Deu-me de mamar durante três luas completas antes que eu conseguisse fugir. Ha! Mas há horas em que sinto saudades do sabor do leite de gigante. - Se ela o alimentou, não pode tê-la matado. - E não matei, mas vê se não espalha isso por aí. Tormund, Terror dos Gigantes, soa melhor do que Tormund, Bebê de Gigante, e esta é a verdade verdadeira. - Então como foi que arranjou os outros nomes? - perguntou Jon. - Mance chamou-o de Soprador de Chifres, não foi? Rei-Hidromel do Solar Ruivo, Esposo de Ursas, Pai de Tropas? - era do sopro no chifre que queria realmente ouvir falar, mas não se atrevia a perguntar tão diretamente. EJoramun soprou o Berrante do Inverno e acordou gigantes da terra. Teriam eles vindo daí, eles e aqueles mamutes? Teria Mance Rayder encontrado o Berrante de Joramun e dado a Tormund para soprar? - Todos os corvos são assim tão curiosos? - perguntou Tormund. - Bom, aqui vai uma história para você. Foi em outro inverno, ainda mais frio do que aquele que passei dentro da giganta, e nevava de dia e de noite, flocos de neve do tamanho de sua cabeça, não estas coisinhas. Nevava tanto que a aldeia inteira estava meio enterrada. Eu estava em meu Solar Ruivo, só com um barril de hidromel para me fazer companhia e nada para fazer a não ser bebê-lo. Quanto mais bebia, mais pensava numa mulher que vivia ali perto, uma mulher boa e forte, com o maior par de tetas que você já viu. Tinha um gênio difícil, aquela, mas, oh, também sabia ser quente, e no meio do inverno um homem precisa de seu calor. &quot;Quanto mais bebia, mais pensava nela, e quanto mais pensava, mais duro ficava o meu membro, até que não agüentei mais. Idiota como era, enfiei-me em peles da cabeça aos pés, enrolei a cara numa volta de lã, e lá fui à procura dela. A neve caía com tanta força que me virou uma ou duas vezes, e o vento soprava através de mim e congelava meus ossos, mas finalmente cheguei em sua casa, todo enfaixado como estava,&lt;br /&gt;
&quot;A mulher tinha um gênio terrível, e deu uma luta e tanto quando pus as mãos nela. Por pouco não conseguia levá-la para casa e tirá-la de dentro daquelas peles, mas quando fiz isso, oh, ela foi ainda mais quente do que eu me lembrava, e passamos um belo tempo juntos, e depois adormeci. Na manhã seguinte, quando acordei, a forte nevasca tinha parado e o sol brilhava, mas eu não estava em estado de aproveitá-lo. Estava todo ferido e rasgado, com metade de meu membro arrancado a dentadas, e bem ali no chão estava a pele de uma ursa. E não demorou muito tempo para que o povo livre começasse a contar histórias sobre um urso sem pelos visto na floresta, seguido pelo mais estranho par de filhotes que já se viu. Ha! - deu uma palmada numa coxa carnuda. - Gostaria de voltar a encontrá-la. Aquela ursa era boa na cama. Nunca mulher nenhuma me deu uma luta daquelas, nem filhos tão fortes.&quot; - O que faria se a encontrasse? - perguntou Jon, sorrindo. - Disse que ela arrancou seu membro com os dentes. - Só metade. E metade de meu membro é duas vezes maior do que o de outro homem qualquer. - Tormund resfolegou. - E agora você... é verdade que cortam seus membros quando os levam para a Muralha? - Não - disse Jon, afrontado. - Eu acho que deve ser verdade. Se não, por que é que rejeita Ygritte? Ela quase não lhe daria luta, me parece. A moça quer você lá dentro, isso tá bem na cara. Está na cara até demais, pensou Jon, e parece que metade da coluna já percebeu isso. Estudou a neve que caía para que Tormund não o visse corar. Som um homem da Patrulha da Noite, lembrou a si próprio. Mas então por que se sentia como se fosse uma donzela tímida? Passava a maior parte dos dias na companhia de Ygritte, e a maior parte das noites também. Mance Rayder não se mostrara cego perante a desconfiança que o Camisa de Chocalho nutria pelo &quot;corvo-que-veio&quot; por isso, depois de dar a Jon o novo manto de pele de ovelha, sugeriu que talvez preferisse acompanhar Tormund Terror dos Gigantes. Jon sentiu-se feliz por concordar, e no dia seguinte Ygritte e o Lança-Longa Ryk também tinham trocado o bando do Camisa de Chocalho pelo de Tormund. - O povo livre acompanha quem quiser - a moça lhe disse -, e nós estamos de saco cheio do Saco de Ossos. Todas as noites, quando montavam o acampamento, Ygritte estendia as suas peles de dormir ao lado das dele, quer estivesse perto da fogueira, quer estivesse longe. Uma vez, acordou com ela aninhada a si, com o braço apoiado em seu peito. Permaneceu imóvel por muito tempo, escutando a respiração dela, tentando ignorar a tensão na virilha. Era freqüente que os patrulheiros dividissem as peles para obter calor, mas suspeitava que calor não era tudo que Ygritte queria. Depois disso,&lt;br /&gt;
começou a usar Fantasma para mantê- -la afastada. A Velha Ama costumava contar histórias sobre cavaleiros e suas senhoras que dormiam na mesma cama com uma lâmina entre eles, em nome da honra, mas Jon achava que aquela devia ser a primeira vez que um lobo gigante fazia as vezes de espada. Mesmo assim, Ygritte persistia. Na antevéspera, Jon cometera o erro de desejar ter água quente para um banho. - A fria é melhor - ela disse de imediato -, se tiver alguém para aquecê-lo depois. O rio ainda só está meio gelado, vai lá. Jon riu. - Você me mataria congelado. - Todos os corvos têm medo de pele de galinha? Um bocadinho de gelo não vai matar você. Eu salto junto pra provar. - E passamos o resto do dia com a roupa molhada e congelada agarrada à pele? - retrucou. - Jon Snow, você não sabe nada. Não se mergulha vestido. - Não mergulho e ponto - disse com firmeza, logo antes de ouvir Tormund Punho de Trovão berrar por ele (não tinha ouvido, mas não importa). Os selvagens pareciam achar Ygritte uma grande beleza, por causa de seus cabelos; cabelos ruivos eram raros entre o povo livre, e dizia-se que aqueles que o possuíam tinham sido beijados pelo fogo, o que supostamente era sinal de sorte. Os cabelos de Ygritte até podiam ser sinal de sorte, e certamente eram ruivos, mas eram também tão embaraçados que Jon se sentia tentado a perguntar se ela só o escovava na mudança da estação. Sabia que na corte de um senhor a garota nunca teria sido considerada algo mais do que comum. Tinha um rosto redondo de camponesa, nariz achatado e dentes ligeiramente tortos, e os olhos eram afastados demais. Jon havia reparado em tudo isso na primeira vez que a viu, quando encostou o punhal na garganta dela. Mas nos últimos tempos andava reparando em outras coisas. Quando ela sorria, os dentes tortos não pareciam importar. E talvez seus olhos fossem afastados demais, mas eram de uma cor bonita, azul-acinzentada, e tão cheios de vida como nenhum outro que já tivesse visto. Às vezes, cantava numa voz grave e rouca que o estimulava. E às vezes, junto à fogueira, quando ela se sentava abraçando os joelhos com as chamas a despertar ecos em seus cabelos vermelhos, e o olhava, sorrindo apenas... bem, isso também estimulava algumas coisas. Mas ele era um homem da Patrulha da Noite, tinha prestado um juramento. Não tomarei esposa, não possuirei terras, não gerarei filhos. Proferira as palavras perante o represeiro, perante os deuses do pai.&lt;br /&gt;
Não podia desdizê-las... assim como não podia admitir o motivo de sua relutância a Tormund Punho de Trovão, Pai de Ursos. - Não gosta da garota? - perguntou-lhe Tormund enquanto passavam por mais vinte mamutes, estes transportando selvagens no topo de altas torres de madeira em vez de gigantes. - Gosto, mas eu... - 0 que posso dizer para convencê-lo? - Ainda sou novo demais para casar. - Casar? - Tormund soltou uma gargalhada. - Quem falou em casamento? No sul um homem precisa se casar com todas as garotas com quem dorme? Jon sentia que estava enrubescendo novamente. - Ela falou em meu favor quando o Camisa de Chocalho quis me matar. Não quero desonrá-la. - Você agora é um homem livre, e Ygritte, uma mulher livre. Onde está a desonra se dormirem juntos? - Ela pode engravidar. - Sim, pode-se ter esperança nisso. Um filho forte ou uma menina cheia de vida e de risos, beijada pelo fogo, e que mal há nisso? As palavras falharam-lhe por um momento. - O menino... a criança seria um bastardo. - Os bastardos são mais fracos do que as outras crianças? Mais enfermiços, mais sujeitos a erro? - Não, mas... - Você mesmo é um bastardo. E se a Ygritte não quiser um filho, ela vai até uma bruxa qualquer dos bosques para beber uma taça de chá de lua. Você não tem nada a ver com isso, depois de a semente ter sido plantada. - Não serei pai de um bastardo. Tormund balançou sua cabeça desgrenhada. - Vocês, os ajoelhadores, são grandes bobos. Por que roubou a garota se não a queria? - Roubar? Eu não... - Você, sim - disse Tormund. - Matou os dois homens com quem ela estava e levou- -a consigo, que nome dá a isso? - Levei-a prisioneira. - Obrigou-a a se entregar a você. - Sim, mas... Tormund, juro que nunca toquei nela. - Tem certeza de que não cortaram seu membro? - Tormund encolheu os ombros, como que para dizer que nunca conseguiria compreender tal loucura. - Bem, agora é um homem livre, mas se não quer a moça, é melhor que arranje uma ursa. Se um homem não usa o membro, ele vai ficando cada vez menor, até que um dia quer mijar e não o encontra,&lt;br /&gt;
Jon não tinha resposta para aquilo. Não era de admirar que os Sete Reinos considerassem o povo livre pouco acima dos animais, Eles não têm leis, nem honra, nem sequer simples decência. Roubam-se continuamente uns aos outros, reproduzem-se como animais, preferem a violação ao casamento, e enchem o mundo de filhos ilegítimos. E, no entanto, estava começando a gostar de Tormund Terror dos Gigantes, apesar do grande saco de vento e mentiras que o homem era. E do Lança-Longa também. E Ygritte... não, não pensarei em Ygritte. Mas com Tormund e Lança-Longa seguiam outros tipos de selvagem; homens como o Camisa de Chocalho e o Chorão, que tão depressa abririam sua goela quanto escarrariam em você. Havia Harma Cabeça de Cão, uma mulher que mais parecia um barril atarraca- do, com lajes de carne branca no lugar das bochechas, que odiava cães e matava um a cada quinzena para arranjar uma cabeça nova para a sua insígnia; o Styr sem orelhas, Magnar de Thenn, que era considerado por seu povo mais deus do que homem; Varamyr Seis-Peles, um pequeno rato em forma de homem, cujo garanhão era um urso-das-neves branco e selvagem, que tinha quase quatro metros de altura quando ficava em pé nas patas traseiras. E onde quer que Varamyr e o urso fossem, três lobos e um gato-das-sombras seguiam-nos. Jon estivera em sua presença apenas uma vez, e uma vez fora o bastante; bastou ver o homem para se sentir irritado, ao mesmo tempo que o pelo no pescoço de Fantasma havia se eriçado quando o lobo avistou o urso e aquele grande gato preto e branco. E havia gente ainda mais feroz do que Varamyr, vinda das regiões mais setentrionais da floresta assombrada, dos vales escondidos das Presas de Gelo e de lugares ainda mais estranhos: os homens da Costa Gelada, que seguiam em bigas feitas de ossos de mor- sa, puxadas por matilhas de cães selvagens; os terríveis clãs do rio de gelo, dos quais se dizia que se banqueteavam com carne humana; os habitantes das cavernas, com o rosto pintado de azul, roxo e verde. Jon contemplara com os próprios olhos os homens de Cornopé, que avançavam a trote, em coluna, sobre pés nus que tinham solas duras como couro fervido. Não tinha visto snarks nem grumequins, mas, até onde sabia, Tormund poderia ter alguns para comer no jantar. Jon calculava que metade da tropa dos selvagens passara toda a vida sem ver a Muralha, nem que fosse de relance, e, entre esses, a maioria não sabia uma palavra do Idioma Comum. Não importava. Mance Rayder falava o Idioma Antigo, até cantava nele, dedilhando o seu alaúde e enchendo a noite com música estranha e selvagem. Mance tinha passado anos reunindo aquela vasta e lenta tropa, falando aqui com uma mãe de clã e ali com um magnar, conquistando uma aldeia com palavras simpáticas, outra com uma canção e uma terceira&lt;br /&gt;
com o gume da espada, fazendo a paz entre Harma Cabeça de Cão e o Senhor dos Ossos, entre os Cornopés e os Corredores da Noite, entre os homens-morsa da Costa Gelada e os clãs canibais dos grandes rios de gelo, fundindo uma centena de punhais diferentes numa única grande lança, apontada ao coração dos Sete Reinos. Não tinha coroa nem cetro, nem vestes de seda e veludo, mas para Jon estava claro que Mance Rayder era mais rei do que se assim fosse chamado. Jon tinha se juntado aos selvagens por ordem de Qhorin Meia-Mão. - Cavalgue com eles, coma com eles, lute com eles - dissera-lhe o patrulheiro, na noite antes de morrer. - E observe. - Mas, com toda a sua observação, pouco aprendera. Meia-Mão suspeitava que os selvagens tinham subido às desoladas e estéreis Presas de Gelo em busca de alguma arma, de algum poder, de algum terrível feitiço para derrubar a Muralha... mas, se tinham encontrado algo assim, ninguém andava se vangloriando abertamente do fato, nem o mostrava a Jon. E Mance Rayder tampouco tinha lhe confidenciado qualquer um de seus planos, qualquer parte de sua estratégia. Desde aquela primeira noite, quase não vira o homem, exceto a distância. Vou matá-lo, se tiver de ser. A idéia não dava a Jon nenhuma alegria; não haveria honra em tal morte, e significaria também a sua. Mas não podia deixar que os selvagens abrissem uma brecha na Muralha, que ameaçassem Winterfell e o Norte, as terras acidentadas e os Regatos, Porto Branco e a Costa Pedregosa, até mesmo o Gargalo. Havia oito mil anos que os homens da Casa Stark viviam e morriam para proteger seu povo contra tais atacante^ e piratas... e, bastardo ou não, era o mesmo sangue que corria em suas veias. Além disso, Bran e Rickon ainda estão em Winterfell Assim como Meistre Luwin, Sor Rodrik, a Velha Ama, Farlen, o mestre dos canis, Mikken, em sua forja, e Gage, junto aos fornos... todos os que conheci, todos os que amei. Se Jon tinha de matar um homem por quem tinha meia admiração e do qual quase gostava para salvar aqueles que amava dos caprichos de Camisa de Chocalho, Harma Cabeça de Cão ou Magnar de Thenn, era isso que pretendia fazer. Apesar de tudo, rezava aos deuses do pai para que o poupassem dessa tarefa tão deso- Iadora. A tropa movia-se lentamente, sobrecarregada que estava com todos os rebanhos, crianças e pequenos tesouros dos selvagens, e as neves tinham tornado o progresso ainda mais lento. A maior parte da coluna estava agora para lá do sopé dos montes, escorrendo ao longo da margem ocidental do Guadeleite como mel numa manhã fria de inverno, seguindo o curso do rio em direção ao coração da floresta assombrada. E Jon sabia que em algum lugar mais adiante, perto, o Punho dos Primeiros Homens se erguia por sobre as árvores, abrigando trezentos irmãos negros da Patrulha da Noite, armados, montados e à espera. O&lt;br /&gt;
Velho Urso tinha enviado outros batedores além do Meia-Mão, e decerto Jarman Buckwell ou Thoren Smallwoodjá teriam retornado com a informação sobre aquilo que vinha descendo das montanhas. Mormont não fugirá, pensou Jon. É velho demais e chegou longe demais. Atacará, e que se danem os números. Um dia, em breve, ouviria o som de berrantes de guerra e veria uma coluna de cavaleiros caindo sobre eles com esvoaçantes mantos negros e aço frio nas mãos. Trezentos homens não podiam esperar matar cem vezes mais, claro, mas Jon achava que não precisariam fazer isso, Ele não precisa matar mil homens, apenas um. Mance é tudo que os mantém juntos. O Rei-para-lá-da-Muralha estava fazendo tudo o que podia, mas os selvagens mantinham-se irremediavelmente indisciplinados, e isso tornava-os vulneráveis. Aqui e ali, na serpente com léguas de comprimento que era a sua linha de marcha, havia guerreiros tão bons como quaisquer membros da Patrulha, mas cerca de um terço deles encontrava-se agrupado nas duas extremidades da coluna, na vanguarda de Harma Cabeça de Cão e na retaguarda selvagem, com os seus gigantes, auroques e lançadores de fogo. Outro terço seguia com o próprio Mance, perto do centro, defendendo carroças, trenós e carros puxados por cães que levavam a maior parte das provisões e dos abastecimentos da tropa, tudo que restara da colheita do verão anterior. O resto, dividido em pequenos bandos sob o comando de homens como o Camisa de Chocalho, Jarl, Tormund Terror dos Gigantes e Chorão, servia como batedores, forrageiros e &quot;chicotes&quot;, galopando sem cessar ao longo da coluna, para mantê-la em movimento de uma forma mais ou menos ordenada. E ainda mais relevante era que só um em cem selvagens se encontrava montado. O Velho Urso vai atravessá-los como um machado atravessa mingau de aveia. E quando isso acontecesse, Mance os perseguida com suas forças centrais, tentando minimizar a ameaça. Se caísse na luta que se seguiria, Jon estimava que a Muralha estaria a salvo durante mais cem anos. Caso contrário... Abriu e fechou os dedos queimados de sua mão da espada. A Garralonga estava pendurada na sela, com o botão de pedra esculpida em forma de cabeça de lobo e o macio punho de couro ao alcance da mão. A neve caía com força quando alcançaram o bando de Tormund, várias horas depois. Fantasma partiu ao longo do caminho, misturando-se à floresta ao farejar uma presa. O lobo gigante voltaria quando acampassem para passar a noite, o mais tardar à alvorada. Por mais longe que andasse, Fantasma sempre voltava... e o mesmo, ao que parecia, fazia Ygritte. - Então - gritou a garota quando o viu - já acredita em nós, Jon Snow? Viu os gigantes em seus mamutes?&lt;br /&gt;
- Ha! - gritou Tormund, antes de jon conseguir responder. - O corvo está apaixonado! Quer casar com um! - Com um gigante? - Lança-Longa Ryk riu. - Não, com um mamutel - berrou Tormund. - Ha! Ygritte trotou para o lado de Jon enquanto este reduzia o passo do garrano. Ela dizia ser três anos mais velha do que ele, embora fosse quinze centímetros mais baixa; qualquer que fosse a sua idade, a garota era uma coisinha rija. Cobra das Pedras chamara-a de &quot;esposa de lança&quot; quando a tinham capturado no Passo dos Guinchos. Não era casada e sua arma favorita era um pequeno arco curvado feito de chifre e represeiro, mas &quot;esposa de lança&quot; ajustava-se a ela mesmo assim, Lembrava a Jon um pouco sua irmã, Arya, embora esta fosse mais nova e provavelmente mais magra. Era difícil dizer se Ygritte era magra ou gorda, com todas as peles que usava. - Conhece &quot;O último dos gigantes&quot;? - sem esperar resposta, Ygritte continuou: - E preciso uma voz mais grave do que a minha para cantá-la como deve ser. - E então cantou: - Oooooob, sou o último dos gigantes, o meu povo do mundo partiu. Tormund, Terror dos Gigantes, ouviu as palavras e sorriu, - O último dos gigantes de montanha, que um dia tudo possuiu - berrou em resposta através da neve. Lança-Longa Ryk juntou-se a eles, cantando: - Oh, o povo pequeno roubou-me as florestas, roubou-me os rios e os montes. - E atravessou meus vales com uma grande muralha, e pescou meus peixes das fontes - responderam-lhe Ygritte e Tormund, em vozes adequadamente gigânticas. Os filhos de Tormund, Toregg e Dormund, juntaram também suas vozes graves à canção, seguidos por Munda e todos os demais. Outros começaram a bater com as lanças em escudos de couro para marcar um ritmo grosseiro, até todo o bando de guerreiros estar cantando enquanto avançava. &lt;br /&gt;
Em salões de pedra fazem suas grandes fogueiras, em salões de pedra forjam suas afiadas lanças. &amp;nbsp;Enquanto eu caminho sozinho nas montanhas, &amp;nbsp;sem nenhum companheiro além das lembranças. &amp;nbsp;Caçam-me sempre com cães à luz do dia, &amp;nbsp;Caçam-me sempre com archotes no escuro. &amp;nbsp;Pois os homens pequenos não poderão ver-se altos, se caminharem gigantes no futuro, &amp;nbsp;Oooooo, sou o ÚLTIMO dos gigantes, &amp;nbsp;Por isso aprenda bem a minha canção. &lt;br /&gt;
Pois quando eu partir nascerá o silêncio, &amp;nbsp;e durante muito tempo as canções morrerão. &lt;br /&gt;
Havia lágrimas no rosto de Ygritte quando a canção terminou. - Por que está chorando? - perguntou Jon. - Foi só uma canção. Há centenas de gigantes, acabei de vê-los. - Oh, centenas - disse ela, furiosa, - Não sabe nada, Jon Snow. Você. JON! Jon virou-se ao ouvir o súbito som de asas. Penas azul-acinzentadas encheram seus olhos, enquanto garras afiadas se enterravam em seu rosto. Uma dor rubra atravessou- -o, súbita e violenta, enquanto asas batiam em volta de sua cabeça. Viu o bico, mas não houve tempo para levantar uma mão ou estendê-la para alguma arma. Jon cambaleou para trás, seu pé saltou do estribo, o garrano fugiu em pânico, e de repente estava caindo. E a águia ainda se agarrava ao seu rosto, com as garras rasgando-o enquanto a ave batia as asas, guinchava e bicava. O mundo virou de pernas para o ar, num caos de penas, carne de cavalo e sangue, e então o chão surgiu e esmagou-o. Quando deu por si, estava caído sobre o rosto, com gosto de lama e sangue na boca, e Ygritte ajoelhava-se protetoramente sobre ele, com um punhal de osso na mão. Ainda ouvia asas, embora não visse a águia. Metade de seu mundo estava negra. - Meu olho - disse, num pânico súbito, levando a mão ao rosto. - E só sangue, Jon Snow. Ela errou o olho, só rasgou um pouco de sua pele. Sentia o rosto latejar. Viu com o olho direito, enquanto esfregava o esquerdo para limpá-lo do sangue, que Tormund se encontrava perto deles, berrando. Então ouviram-se batidas de cascos, gritos, e o chocalhar de velhos ossos. - Saco de Ossos - rugiu Tormund -, chame seu corvo infernal! - O corvo infernal tá ali! - Camisa de Chocalho apontou para Jon, - Sangrando na lama como um cão sem fé! - A águia desceu, batendo as asas, e foi pousar no crânio rachado de gigante que servia de elmo ao guerreiro. - Venho por ele. - Então venha buscá-lo - disse Tormund mas é melhor vir de espada na mão, porque é assim que vai encontrar a minha. Pode ser que ferva os seus ossos e use seu crânio para mijar. Ha! - Quando eu furar você e deixar sair o ar, vai encolher até ficar menor do que aquela garota. Afaste-se, senão Mance vai ficar sabendo disso. Ygritte levantou-se. - O quê? É Mance que o quer? - Foi o que eu disse, não foi? Ponha o cara sobre seus pés pretos. Tormund franziu a testa para Jon.&lt;br /&gt;
- É melhor ir, se é Mance quem chama. Ygritte ajudou-o a se levantar. - Tá sangrando como um javali na matança. Olhe o que o Orell fez com o lindo rosto dele. Será que uma ave pode odiar? Jon matara o selvagem Orell, mas uma parte do homem permanecia dentro da águia. Os olhos dourados olhavam-no com fria malevolência. - Eu vou - disse. O sangue continuava a escorrer para dentro de seu olho direito, e a bochecha era uma explosão de dor. Quando a tocou, as luvas pretas se mancharam de vermelho. - Deixem-me apanhar o garrano. - O que queria não era o cavalo e sim Fantasma, mas não se via o lobo gigante em lugar nenhum. A essa altura, pode estar muito distante, dilacerando a goela de algum alce. Talvez isso fosse bom. O garrano fugiu dele quando se aproximou, sem dúvida assustado pelo sangue que tinha no rosto, mas Jon acalmou-o com algumas palavras ditas em voz baixa, e algum tempo depois conseguiu aproximar-se o suficiente para pegar as rédeas. Ao montar, sentiu a cabeça rodopiar. Vou precisar tratar disso, pensou, mas não agora. Que o Rei-para- -lá-da-Muralha veja o que a águia dele mejez. A mão direita abriu-se e fechou-se, e Jon estendeu-a para a Garralonga e pôs a espada bastarda ao ombro antes de dar meia-volta e seguir a trote para onde o Senhor dos Ossos o esperava com seu bando. Ygritte também estava à espera, montada no cavalo com uma expressão feroz no rosto. - Também vou. - Suma. - Os ossos da placa de peito do Camisa de Chocalho tiniram. - Mandaram- -me buscar o corvo-que-desceu e mais ninguém, - Uma mulher livre leva o cavalo para onde quiser - disse Ygritte. O vento estava soprando neve nos olhos de Jon. Sentia o sangue congelando em seu rosto. - Ficamos conversando ou vamos embora? - Vamos embora - disse o Senhor dos Ossos. Foi um galope duro. Percorreram a coluna ao longo de mais de três quilômetros, por entre flocos de neve rodopiantes, depois cortaram através de um emaranhado de carroças de bagagem e atravessaram o Guadeleite no local onde o rio fazia uma grande curva para leste. Uma crosta de gelo fino cobria os baixios do rio; a cada passo, os cascos dos cavalos quebravam-na e atravessavam-na, até chegarem a águas mais profundas, dez metros mais adiante. A neve parecia cair ainda mais depressa na margem oriental, e os montes de neve acumulada também eram mais profundos. Até o vento é mais frio. E a noite estava caindo. Mas mesmo através da neve soprada pelo vento, a forma do grande monte branco que pairava acima das árvores era inconfundível. O Punho&lt;br /&gt;
dos Primeiros Homens. Jon ouviu o guincho da águia por cima de sua cabeça. Um corvo olhou-o do alto de um pinheiro marcial e lançou um cuorc quando ele passou. Teria o Velho Urso feito seu ataque? Em vez do estrondo do aço e do ruído seco das flechas levantando voo, Jon ouvia apenas o suave esmagamento da crosta gelada por baixo dos cascos do garrano. Deram a volta em silêncio até a vertente sul, onde a subida era mais fácil. Foi aí que Jon viu o cavalo morto, estatelado no sopé do monte, meio enterrado na neve. Entranhas jorravam da barriga do animal como serpentes congeladas, e uma de suas patas tinha desaparecido. Lobos, foi o primeiro pensamento de Jon, mas não estava certo. Os lobos comiam os animais que matavam. Mais garranos estavam espalhados pela encosta, com as patas retorcidas de um modo grotesco e olhos cegos fixos na morte. Os selvagens rastejavam sobre eles como moscas, despindo-os de selas, arreios, embrulhos e armaduras, e cortando sua carne com machados de pedra. - Para cima - disse Camisa de Chocalho a Jon, - O Mance tá lá no alto. Desmontaram junto à muralha anelar para se enfiarem através de um vão inclinado entre as pedras. A carcaça de um garrano felpudo e castanho estava empalada nos es- pigões afiados que o Velho Urso havia colocado dentro de todas as entradas. Ele estava tentando sair, não entrar. Não havia sinal de um cavaleiro. Lá dentrahavia mais, e pior. Jon nunca antes vira neve cor-de-rosa. O vento soprava em rajadas à sua volta, puxando seu pesado manto de pele de ovelha. Corvos esvoaçavam de um cavalo morto para o seguinte. Será que aqueles corvos são selvagens ou dos nossos? Jon não sabia dizer. Perguntou a si mesmo onde estaria agora o pobre Sam. E o que seria. Uma crosta de sangue congelado rangeu por baixo do calcanhar de sua bota. Os selvagens estavam despindo os cavalos mortos de todos os restos de aço e couro, chegando mesmo a arrancar suas ferraduras dos cascos. Alguns vasculhavam pacotes que tinham achado, em busca de armas ou alimentos. Jon passou por um dos cães de Chett, ou aquilo que dele restava, jazendo numa poça viscosa de sangue meio congelado. Ainda havia algumas tendas em pé no lado mais distante do acampamento, e foi nesse lugar que encontraram Mance Rayder. Sob o manto rasgado de lã negra e seda vermelha usava cota de malha preta e felpudos calções de pele, e na cabeça tinha um grande elmo de bronze e ferro, com asas de corvo nas têmporas. Jarl encontrava-se com ele, bem como Harma Cabeça de Cão; Styr também estava lá, assim como Varamyr Seis-Peles, com seus lobos e seu gato-das-sombras.&lt;br /&gt;
O olhar que Mance lançou a Jon foi ameaçador e frio. - O que aconteceu com seu rosto? Ygritte respondeu: - Orell tentou arrancar-lhe um olho. - Perguntei a ele. Perdeu a língua? Talvez devesse, para nos poupar de mais mentiras. Styr, o Magnar, puxou uma longa faca. - O rapaz talvez possa ver com mais clareza com um olho em vez de dois. - Gostaria de ficar com o olho, Jon? - perguntou o Rei-para-lá-da-Muralha. - Se sim, diga-me quantos eram. E tente falar a verdade dessa vez, Bastardo de Winterfell. Jon tinha a garganta seca. - Meu senhor... o que... - Não sou o seu senhor - disse Mance. - E o que é bastante claro. Seus irmãos morreram. A questão é: quantos? O rosto de Jon latejava, a neve continuava caindo e era difícil pensar. Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado, Qhorin lhe dissera. As palavras prenderam-se em sua garganta, mas Jon forçou-se a dizer: - Éramos trezentos. - Éramos? - disse Mance vivamente. - Eram. Eram trezentos. - Não importa o que lhe seja solicitado, disse o Meia-Mão. Então por que me sinto tão covarde? - Duzentos de Castelo Negro, e cem da Torre Sombria. - Essa é uma canção mais verdadeira do que a que cantou em minha tenda. - Mance olhou para Harma Cabeça de Cão. - Quantos cavalos encontrou? - Mais de cem - respondeu a enorme mulher menos de duzentos. Há mais mortos a leste, debaixo da neve, é difícil saber quantos. - Atrás dela encontrava-se o seu porta- -estandarte, segurando uma vara com a cabeça de um cão na ponta, suficientemente fresca para ainda estar vertendo sangue. - Não devia ter mentido para mim, Jon Snow - disse Mance, - Eu... eu sei. - O que poderia dizer? O rei selvagem estudou seu rosto. - Quem tinha o comando aqui? E diga-me a verdade. Era Rykker? Smallwood? Não pode ter sido o Wythers, ele era fraco demais. De quem era esta tenda? Já disse demais. - Não encontrou o corpo dele? Harma fungou, lançando desdém pelas narinas. - Que idiotas esses corvos pretos.&lt;br /&gt;
- Da próxima vez que me responder com uma pergunta, dou você ao Senhor dos Ossos - prometeu Mance Rayder a Jon. Aproximou-se dele. - Quem comandava aqui? Mais um passo, pensou Jon. Mais alguns centímetros. Deslocou a mão para mais perto do cabo da Garralonga. Se ficar de boca fechada... - Tente pegar nessa maldita espada, e eu corto sua cabeça de bastardo antes de você ter tempo de tirá-la da bainha - disse Mance. - Estou perdendo rapidamente a paciência com você, corvo. - Diga - exortou Ygritte. - Ele está morto, seja quem for. Seu franzir de sobrancelhas fez rachar a crosta de sangue que tinha no rosto. Isso é difícil demais, pensou Jon, desesperado. Como é que eu faço papel de vira-casaca sem me transformar em um? Qhorin não havia lhe dito. Mas o segundo passo é sempre mais fácil do que o primeiro. - O Velho Urso. - Aquele velho? - o tom de Harma mostrava descrença. - Veio em pessoa? Então quem comanda em Castelo Negro? - Bowen Marsh. - Daquela vez, Jon respondeu imediatamente. Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado. Mance soltou uma gargalhada. - Se isso for verdade, temos a guerra ganha. Bowen sabe bastante mais sobre contar espadas do que algum dia soube a respeito de usá-las. - O Velho Urso comandava - disse Jon. - Este lugar era alto e forte, e ele tornou- -o mais forte. Cavou fossos e colocou estacas, armazenou comida e água. Estava pronto para... - ... mim? - concluiu Mance Rayder. - Se estava. Se eu tivesse sido suficientemente tolo para assaltar seu monte, poderia ter perdido cinco homens para cada corvo que matasse e ainda estaria com sorte. - Os lábios endureceram. - Mas quando os mortos caminham, muralhas, estacas e espadas não significam nada. Não se pode lutar com os mortos, Jon Snow. Ninguém sabe disso tão bem quanto eu. - Ergueu o olhar para o céu que escurecia e disse: - Os corvos podem nos ter ajudado mais do que julgam. Tenho perguntado a mim mesmo por que não sofremos ataques. Mas ainda há uma centena de léguas de caminho, e o frio aumenta. Varamyr, mande seus lobos farejarem o rastro das criaturas, não quero que nos apanhem desprevenidos. Senhor dos Ossos, duplique todas as patrulhas, e certifique-se de que todos os homens têm archotes e pederneira. Styr, Jarl, vocês partem à primeira luz da aurora. - Mance - disse Camisa de Chocalho quero uns ossos de corvo. Ygritte pôsfse diante de Jon. - Não pode matar um homem por mentir para proteger seus antigos irmãos.&lt;br /&gt;
- Eles ainda são seus irmãos - declarou Styr. - Não são - insistiu Ygritte. - Ele não me matou, como lhe disseram para fazer. E matou o Meia-Mão, como todos vimos. A respiração de Jon condensava no ar. Se mentir para Mance, ele saberá. Olhou Mance Rayder nos olhos, abriu e fechou a mão queimada. - Uso o manto que me deu, Vossa Graça. - Um manto de pele de ovelha! - disse Ygritte. - E há muitas noites dançamos por baixo dele! Jarl soltou uma gargalhada, e até Harma Cabeça de Cão deu um sorrisinho. - Ah, então é isso, Jon Snow? - perguntou brandamente Mance Rayder. - Ela e você? Era fácil perder o rumo para lá da Muralha. Jon já não sabia se ainda era capaz de distinguir a honra da vergonha, ou o certo do errado. Que o pai me perdoe. - Sim - disse. Mance fez um aceno. - Ótimo. Então vão com Jarl e Styr de manhã. Ambos. Longe de mim separar dois corações que batem como um só. - Iremos para onde? - Subir a Muralha. Já é mais do que hora de provar a sua lealdade com algo mais do que palavras, Jon Snow. Magnar não ficou satisfeito. - O que eu faço com um corvo? - Ele conhece a Patrulha e conhece a Muralha - disse Mance - e conhece Castelo Negro melhor do que qualquer assaltante. Se não for tolo, vai encontrar uso para ele. Styr lançou-lhe um olhar carrancudo. - O coração dele pode ainda ser negro. - Se for, arranque-o. - Mance virou-se para Camisa de Chocalho. - Meu Senhor dos Ossos, mantenha a coluna em movimento a qualquer preço. Se chegarmos à Muralha antes de Mormont, vencemos. - Vão se mover. - A voz de Camisa de Chocalho estava carregada e irada. Mance assentiu e afastou-se, com Harma e Seis-Peles ao seu lado. Os lobos e o gato- -das-sombras de Varamyr seguiram atrás. Jon e Ygritte foram deixados com Jarl, Camisa de Chocalho e Magnar. Os dois selvagens mais velhos olharam Jon com rancor mal disfarçado, enquanto Jarl dizia: - Ouviu, partimos ao nascer do dia. Traga toda a comida que puder, não vai haver tempo para caçar. E trate dessa cara, corvo. Isso tá uma porcaria.&lt;br /&gt;
- Tratarei - disse Jon. - E melhor que não esteja mentindo, garota - disse o Camisa de Chocalho a Ygritte, com os olhos brilhantes por baixo do crânio de gigante. Jon desembainhou Garralonga. - Afaste-se de nós se não quiser o que Qhorin teve. - Não tem nenhum lobo aqui pra ajudá-lo, rapaz. - Camisa de Chocalho estendeu a mão para sua espada. - Tem certeza? - Ygritte soltou uma gargalhada. Sobre as pedras da muralha anelar, Fantasma baixava a cabeça, com os pelos brancos eriçados. Não soltava um som, mas seus olhos vermelho-escuros falavam de sangue, O Senhor dos Ossos afastou lentamente a mão da espada, recuou um passo, e deixou-os com uma praga. Fantasma caminhou ao lado dos garranos de Jon e Ygritte enquanto desciam o Punho. Só quando já estavam no meio da travessia do Guadeleite é que Jon se sentiu suficientemente em segurança para dizer: - Não pedi para você mentir por mim. - Não menti - disse ela. - Só não lhes contei uma parte, nada mais. - Disse... - ... que fodemos muitas noites debaixo de seu manto. Mas não lhes disse quando começamos. - O sorriso que lhe deu era quase tímido. - Arranje outro lugar para o Fantasma dormir esta noite, Jon Snow. E como o Mance diz: as ações são mais verdadeiras do que as palavras.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/7406992537008107981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/jon.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7406992537008107981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7406992537008107981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/jon.html' title='Jon'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-8073588414301830412</id><published>2013-12-27T15:01:00.002-08:00</published><updated>2013-12-27T15:01:17.354-08:00</updated><title type='text'>Catelyn</title><content type='html'>Robb compreendeu, no momento em que ouviu os canis entrarem em erupção. JK| O filho voltara a Correrrio, e Vento Cinzento vinha com ele. Só o cheiro do gran- de lobo gigante cinza podia deixar os cães em tamanho frenesi de ganidos e latidos. Ele virá me encontrar, pensou. Edmure não tinha retornado depois de sua primeira visita, preferindo passar seus dias com Marq Piper e Patrek Mallister, escutando os versos de Rymund, o Rimante, sobre a batalha no Moinho de Pedra. Mas Robb não é Edmure. Robb virá me visitar. Já chovia havia dias, um dilúvio frio e cinzento que se ajustava ao estado de espírito de Catelyn. O pai ia ficando mais fraco e mais delirante a cada dia que passava, acordando apenas para murmurar &quot;Tanásia&quot; e pedir perdão. Edmure evitava-a, e Sor Desmond Grell ainda lhe negava a liberdade de castelo, por mais infeliz que isso parecesse deixá- -lo. Só o regresso de Sor Robin Ryger e seus homens, de pés cansados e ensopados até os ossos, servira para aliviar seu espírito. Ao que parecia, tinham voltado a pé. De algum modo, o Regicida tinha conseguido afundar a galé e escapar, confidenciara-lhe o Meistre Vyman. Catelyn perguntou se podia falar com Sor Robin, para saber melhor o que tinha acontecido, mas isso foi-lhe recusado. Algo mais estava errado. No dia em que o irmão voltara, algumas horas depois da discussão com ele, ouvira vozes iradas vindas do pátio, embaixo. Quando ela subiu ao telhado para ver o que se passava, havia grupos de homens reunidos do outro lado do castelo, junto ao portão principal. Cavalos estavam sendo trazidos dos estábulos, selados e ajaezados, e havia gritos, embora Catelyn estivesse distante demais para discernir as palavras. Um dos estandartes brancos de Robb jazia no chão, e um dos cavaleiros tinha dado a volta com o cavalo e pisoteado o lobo gigante ao esporear a montaria na direção do portão. Vários dos outros fizeram o mesmo. Aqueles são homens que lutaram com Edmure nos vaus, pensou. O que poderá tê-los deixado tão zangados? Será que meu irmão os afrontou de algum modo, os insultou? Pensou ter re- conhecido Sor Perwyn Frey, que fora e voltara com ela até Pontamarga e Ponta Tempestade, e também o seu meio-irmão bastardo, Martyn Rivers, mas do local em que se encontrava era difícil ter certeza. Perto de quarenta homens jorraram dos portões do castelo, não sabia para que fim. Não retornaram. E Meistre Vyman também não queria lhe dizer quem tinham sido, para onde tinham ido ou o que os deixara tão zangados.&lt;br /&gt;
- Estou aqui para cuidar do seu pai, e só para isso, senhora - dizia» - Seu irmão em breve será Senhor de Correrrio. O que ele quiser que você saiba será dito por ele. Mas agora Robb voltara do oeste, retornava em triunfo. Ele vai me perdoar, disse Catelyn a si mesma. Ele tem de me perdoar, é meu filho, e Arya e Sansa são tanto do sangue dele como do meu. Ele vai me libertar destes quartos e então saberei o que aconteceu. Quando Sor Desmond veio buscá-la, já tinha tomado banho, se vestido e escovado seus cabelos rui vos. - O Rei Robb retornou do oeste, senhora - disse o cavaleiro -, e ordena que a senhora compareça perante ele no Grande Salão. Era o momento com que sonhara e que temera. Será que perdi dois filhos, ou três? Em breve saberia. O salão estava cheio de gente quando entrou. Todos os olhos estavam postos no estrado, mas Catelyn conhecia as costas; a cota de malha remendada da Senhora Mor- mont, o Grande-Jon e seu filho, erguendo-se acima de todas as outras cabeças no salão, Lorde Jason Mallister, de cabelos brancos, com o elmo alado debaixo do braço, Tytos Blackwood com seu magnífico manto de penas de corvo... Metade deles agora vai querer me enforcar. A outra metade poderá limitar-se a desviar os olhos. Tinha também a desconfortável sensação de que faltava alguém. Robb encontrava-se de pé sobre o estrado. Já não é um garoto, compreendeu com uma súbita angústia. Tem agora dezesseis anos, é um homem-feito. Olhe para ele. A guerra derreteu toda a suavidade de seu rosto e deixou-o duro e magro. Tinha feito a barba, mas os cabelos ruivos caíam, sem corte, sobre seus ombros. As chuvas recentes tinham enferrujado sua cota de malha e deixado manchas marrons no branco do manto e do sobretudo. Ou talvez as manchas fossem sangue. Na cabeça, trazia a coroa de espadas que tinham fabricado para ele em bronze e ferro. Agora usa-a com mais conforto. Usa-a como um rei. Edmure encontrava-se embaixo do estrado repleto de gente, com a cabeça modestamente inclinada enquanto Robb elogiava sua vitória - ... caiu no Moinho de Pedra, nunca será esquecido. Pouco admira que Lorde Tywin tenha fugido para enfrentar Stannis. Já não podia mais com homens do Norte e das terras fluviais. - Aquilo gerou risos e gritos de aprovação, mas Robb ergueu uma mão, pedindo silêncio. - Mas não se iludam. Os Lannister voltarão a pôr-se em marcha, e haverá outras batalhas a vencer antes de o reino estar seguro. O Grande-Jon rugiu &quot;Rei no Norte.1&quot; e atirou ao ar um punho revestido de cota de malha. Os senhores dos rios responderam com um grito de &quot;Rei do Tridente!&quot;. O salão trovejou com o som de punhos e pés batendo.&lt;br /&gt;
Só alguns repararam em Catelyn e Sor Desmond no meio do tumulto, mas deram cotoveladas nos vizinhos, e um silêncio cresceu lentamente ao seu redor. Ela ergueu bem a cabeça e ignorou os olhares. Que pensem o que quiserem. É o julgamento de Robb que interessa. Ver o rosto escarpado de Sor Brynden Tully no estrado deu-lhe conforto. Um garoto que não conhecia parecia estar agindo como escudeiro de Robb. Atrás dele, encontrava- -se um jovem cavaleiro com um sobretudo cor de areia decorado com conchas marinhas, e um outro, mais velho, que usava três pimenteiros negros sobre uma banda cor de aça- frão, com fundo listrado de verde e prata. Entre os dois, encontrava-se uma senhora bonita, de certa idade, e uma bela donzela que parecia ser sua filha. Havia também outra menina, com idade próxima à de Sansa. Catelyn sabia que as conchas eram o símbolo de uma casa menor qualquer; não reconhecia o do homem mais velho. Prisioneiros? Por que Robb traria cativos para o estrado? Utherydes Wayn bateu com o bastão no chão enquanto Sor Desmond avançava com ela. Se Robb me olhar como Edmure olhou, não sei o que farei Mas parecia-lhe que não era ira aquilo que via nos olhos do filho, mas outra coisa... talvez apreensão? Não, isso não fazia sentido. O que ele poderia temer? Era o Jovem Lobo, Rei do Tridente e no Norte. O tio foi o primeiro a saudá-la. Um peixe tão negro como sempre, Sor Brynden não se importava com o que os outros pudessem pensar. Saltou do estrado e puxou Catelyn para si. - É bom vê-la em casa, Cat - disse, e ela teve de lutar para manter a compostura. - Igualmente - sussurrou. - Mãe. Catelyn ergueu os olhos para o seu alto e régio filho. - Vossa Graça, rezei por seu regresso em segurança. Ouvi dizer que foi ferido. - Uma flecha atravessou meu braço durante o assalto ao Despenhadeiro - disse ele. - Mas sarou bem. Tive o melhor dos cuidados. - Então os deuses são bons. - Catelyn inspirou profundamente. Diga. Não pode ser evitado. - Devem ter contado a você o que eu fiz. Disseram-lhe os motivos? - Pelas meninas. - Tinha cinco filhos. Agora tenho três. - Sim, senhora. - Lorde Rickard Karstark empurrou o Grande-Jon para passar, como um espectro sombrio em sua cota de malha negra e longa barba, malcuidada e grisalha, seu rosto estreito, atormentado e frio. - E eu tenho um filho, quando um dia tive três, Você roubou minha vingança. Catelyn encarou-o calmamente.&lt;br /&gt;
- Lorde Rickard, a morte do Regicida não teria trazido vida aos seus filhos. A sobrevivência dele pode pagar pela vida dos meus. O lorde não estava apaziguado. - Jaime Lannister a fez de tola. Comprou um saco de palavras vazias, nada mais. O meu Torrhen e o meu Eddard mereciam mais da senhora. -Já chega, Karstark - trovejou Grande-Jon, cruzando-lhe o peito com seus enormes braços. - Foi uma loucura de mãe. As mulheres são assim. - Uma loucura de mãe? - Lorde Karstark virou-se ameaçadoramente para Lorde Umber. - Eu chamo isso de traição. - Basta. - Durante apenas um instante, Robb soou mais como Brandon do que como o pai. - Nenhum homem chama a senhora de Winterfell de traidora ao alcance de meus ouvidos, Lorde Rickard. - Quando se virou para Catelyn, sua voz suavizou-se. - Se pudesse voltar a acorrentar o Regicida com a força do desejo, faria isso. A senhora o libertou sem o meu conhecimento ou consentimento... mas sei que fez por amor. Por Arya e Sansa, e por pesar por Bran e Rickon. Já aprendi que o amor nem sempre é sensato. Pode nos levar a grandes loucuras, mas seguimos nosso coração... até onde quer que nos leve. Não seguimos, mãe? Foi isso que fiz? -Se o meu coração me levou à loucura, de bom grado darei todas as compensações que possa oferecer ao Lorde Karstark e ao senhor. O rosto de Lorde Karstark mostrava-se implacável. - Irão as suas compensações aquecer Torrhen e Eddard nas tumbas frias onde o Regi- cida os depositou? - abriu caminho entre Grande-Jon e Maege Mormont, e abandonou a sala. Robb nada fez para detê-lo. - Perdoe-o, mãe. - Se você me perdoar, -Já o fiz. Sei o que é amar tanto que não se é capaz de pensar em mais nada. Catelyn inclinou a cabeça. - Obrigada. - Este filho, pelo menos, não perdi. - Temos de conversar - prosseguiu Robb. - A senhora e os meus tios. Sobre isso e„. outras coisas. Intendente, encerre a audiência. Utherydes Wayn bateu com o bastão no chão e anunciou o fim da sessão, e tanto os senhores do rio como os do norte se dirigiram para as portas. Foi só então que Catelyn compreendeu o que faltava. O lobo. O lobo não está aqui. Onde está o Vento Cinzento? Sabia que o lobo gigante tinha retornado com Robb, ouvira os cães, mas ele não se encontrava no salão, nem no lugar que lhe pertencia, ao lado do filho. Mas antes de poder pensar em interrogar Robb, deu por si rodeada por um círculo de amigos. A Senhora Mormont pegou a sua mão e disse:&lt;br /&gt;
- Senhora, se Cersei Lannister tivesse em seu poder duas de minhas filhas, eu teria feito o mesmo. Grande-Jon, pouco respeitador do que era adequado, ergueu-a no ar e apertou seus braços com suas enormes mãos peludas: - Seu lobinho espancou o Regicida uma vez, voltará a fazê-lo se for necessário. Galbart Glover e Lorde Jason Mallister foram mais frios, e Jonos Bracken, quase gelado, mas suas palavras foram suficientemente corteses. O irmão foi o último a dirigir-se a ela. - Também rezo por suas meninas, Cat. Espero que não duvide disso. - Claro que não, - Beijou-o. - E adoro-o por isso. Quando todas as palavras foram ditas, o Grande Salão de Correr rio ficou vazio, exceto por Robb, os três Tully e os seis estranhos que Catelyn não conseguia identificar. Olhou-os com curiosidade. - Senhora, sores, são recém-chegados à causa do meu filho? - Recém-chegados - disse o mais jovem dos cavaleiros, aquele que ostentava as conchas mas com uma coragem feroz e firme lealdade, como espero ter oportunidade de lhe demonstrar, senhora. Robb fez uma expressão desconfortável. - Mãe - disse -, permita-me que lhe apresente a Senhora Sybell, esposa de Lorde Gawen Westerling do Despenhadeiro. - A mulher mais velha avançou com um porte solene. - O esposo dela foi um daqueles que fizemos prisioneiros no Bosque dos Murmúrios. Westerling, sim, pensou Catelyn. Seu estandarte tem seis conchas marinhas, brancas, em fundo areia. Uma casa menor, juramentada aos Lannister. Robb fez sinal aos outros estranhos para avançarem, um de cada vez. - Sor Rolph Spicer, irmão da Senhora Sybell. Era castelão no Despenhadeiro quando o tomamos. - O cavaleiro dos pimenteiros inclinou a cabeça. Com uma constituição quadrada, nariz quebrado e barba grisalha cortada rente, tinha um ar bastante valente. - Os filhos de Lorde Gawen e da Senhora Sybell. Sor Raynald Westerling. - O cavaleiro das conchas sorriu por baixo de um bigode hirsuto. Jovem, esguio, com um ar rude, tinha bons dentes e uma espessa cabeleira castanho-clara. - Elenya. - A garotinha fez uma rápida reverência. - Rollam Westerling, meu escudeiro. - O rapaz começou a ajoelhar, viu que ninguém mais ajoelhava, e em vez disso fez uma reverência. - A honra é minha - disse Catelyn. Poderá Robb ter conquistado a fidelidade do Despe- nhadeiro? Se assim fosse, não surpreendia que os Westerling o acompanhassem. Rochedo Casterly não admitia tais traições com gentileza. Pelo menos desde que Tywin Lannister tinha idade suficiente para partir para a guerra...&lt;br /&gt;
A donzela avançou por último, e de um modo muito tímido. Robb pegou a mão dela. - Mãe - disse -, tenho a grande honra de lhe apresentar a Senhora Jeyne Westerling, filha mais velha de Lorde Gawen, e minha... ah... e a senhora minha esposa. O primeiro pensamento que passou pela cabeça de Catelyn foi: Não, não pode ser, você é só uma criança. O segundo foi: E, além disso, está prometido a outra. O terceiro foi: Pela misericórdia da Mãe, Robb, o que vocêjez? Só então chegou a memória tardia. Loucuras feitas por amor? Pegou-me de jeito, como uma lebre numa armadilha. Aparentemente já o perdoei. Uma admiração triste misturou- -se com o aborrecimento; a situação fora encenada com uma astúcia digna de um mestre pantomimeiro... ou de um rei. Catelyn não viu outra alternativa exceto pegar as mãos de Jeyne Westerling. - Tenho uma nova filha - disse, de um modo mais duro do que pretendera. Beijou ambas as faces da garota aterrorizada. - Seja bem-vinda ao nosso salão e lar. - Obrigada, senhora. Serei uma esposa boa e fiel para Robb, juro, E uma rainha tão sábia quanto for capaz. Rainha. Sim, esta garotinha bonita é uma rainha, tenho de me lembrar disso. Ela era bonita, inegavelmente, com seus caracóis castanhos e rosto em forma de coração, e aquele sorriso tímido. Esbelta, mas com bons quadris, notou Catelyn. Pelo menos, não deverá encontrar problemas para ter filhos. A Senhora Sybell interveio antes que mais alguma coisa fosse dita. - Sentimo-nos honrados pela companhia da Casa Stark, senhora, mas também estamos muito cansados. Viajamos uma longa distância em pouco tempo. Talvez pudéssemos nos retirar para os nossos aposentos, para que possa conversar com o seu filho? - Seria melhor. - Robb beijou a sua Jeyne. - O intendente vai arranjar alojamento adequado para vocês. - Eu posso levá-los até ele - ofereceu-se Sor Edmure Tully. - E muito amável - disse a Senhora Sybell. - Eu também devo ir? - perguntou o garoto, Rollam, - Sou o seu escudeiro. Robb soltou uma gargalhada. - Mas agora não tenho necessidade de um escudeiro. -Oh. - Sua Graça passou dezesseis anos sem você, Rollam - disse Sor Raynald, das conchas. - Imagino que sobreviverá mais algumas horas. - Pegando firmemente na mão do irmão mais novo, levou-o para fora da sala.&lt;br /&gt;
- Sua esposa é adorável - disse Catelyn depois de eles terem se afastado o bastante para não ser ouvida - e os Westerling parecem ter valor... se bem que Lorde Gawen é vassalo de Tywin Lannister, não é? - Sim. Jason Mallister capturou-o no Bosque dos Murmúrios e tem-no mantido em Guardamar para obter um resgate. Claro que agora o libertarei, embora ele talvez não queira se juntar a mim. Receio que tenhamos casado sem o consentimento dele, e esse casamento coloca-o num perigo terrível. O Despenhadeiro não é forte. Por seu amor por mim, Jeyne pode perder tudo. - E você - disse ela suavemente - perdeu os Frey. O estremecimento dele disse tudo. Compreendia agora as vozes iradas, o motivo por que Perwyn Frey e Martyn Rivers tinham partido com tanta pressa, pisoteando o estandarte de Robb ao sair. - Posso perguntar quantas espadas vieram com a sua noiva, Robb? - Cinqüenta. Uma dúzia de cavaleiros. - Sua voz era sorumbática, como deveria ser no caso. Quando o contrato de casamento fora feito nas Gêmeas, o velho Lorde Walder Frey enviara com Robb mil cavaleiros montados e quase três mil homens a pé, - Jeyne é tão inteligente quanto bela. E bondosa, também. Tem um coração gentil. É de espadas que precisa, não de corações gentis. Como pôde fazer isso, Robb? Como pôde ser tão imprudente, tão estúpido? Como pôde ser tão... tão, tão... jovem. Mas censuras de nada serviriam ali. Tudo que disse foi: - Conte-me como isso aconteceu. - Conquistei o castelo dela, e ela conquistou meu coração. - Robb sorriu. - O Despenhadeiro tinha uma guarnição fraca, portanto conseguimos tomá-lo de assalto em uma noite, Walder Negro e Pequeno-Jon lideraram grupos que escalaram as muralhas, enquanto eu arrombava o portão principal com um aríete. Levei uma flecha no braço imediatamente antes de Sor Rolph nos entregar o castelo. A princípio não parecia ser nada, mas inflamou. Jeyne mandou que me levassem para sua própria cama, e cuidou de mim até a febre passar. E estava comigo quando Grande-Jon me trouxe a notícia de... de Winterfell. Bran e Rickon. - Pareceu ter dificuldade em proferir o nome dos irmãos. - Nessa noite, ela... ela confortou-me, mãe. Catelyn não precisava que lhe dissessem que tipo de conforto Jayne Westerling tinha oferecido ao filho. - E você casou com ela no dia seguinte. Ele olhou-a nos olhos, ao mesmo tempo orgulhoso e infeliz. - Foi a única coisa honrosa a fazer. Ela é doce e gentil, mãe, será uma boa esposa para mim. - Talvez. Mas isso não apaziguará Lorde Frey.&lt;br /&gt;
- Eu sei - disse o filho, atingido. - Fiz besteiras em tudo, menos nas batalhas, não fiz? Pensava que as batalhas seriam a parte difícil, mas... se tivesse dado ouvidos a você e mantido Theon como refém, ainda governaria o Norte, e Bran e Rickon estariam vivos e a salvo em Winterfell. - Talvez. Ou talvez não. Lorde Balon ainda pode ter ganho a guerra por acaso. Da última vez que estendeu a mão para uma coroa, isso custou-lhe dois filhos. Podia ter achado barato só perder um dessa vez. - Tocou seu braço. - O que aconteceu com os Frey depois de seu casamento? Robb sacudiu a cabeça. - Podia ter sido capaz de fazer as pazes com Sor Stevron, mas Sor Ryman é burro como uma pedra, e Walder Negro... esse não ganhou o nome devido à cor da barba, garanto. Chegou ao ponto de dizer que as irmãs não teriam problema em se casar com um viúvo. Teria matado Walder por isso se Jeyne não me tivesse suplicado que fosse misericordioso. - Insultou gravemente a Casa Frey, Robb. - Não era essa a minha intenção. Sor Stevron morreu por mim, e Olyvar foi um escudeiro tão leal como qualquer rei pode desejar. Pediu para ficar comigo, mas Sor Ryman levou-o com os outros. Todas as suas forças. Grande-Jon incitou-me a atacá-los... - Lutar com os seus no meio dos inimigos? - disse ela. - Isso teria sido o seu fim. - Sim. Pensei que talvez pudéssemos arranjar outros casamentos para as filhas de Lorde Walder. Sor Wendel Manderly ofereceu-se para aceitar uma delas, e Grande-Jon diz que os tios dele desejam voltar a se casar. Se Lorde Walder for razoável... - Ele não é razoável - disse Catelyn. - E orgulhoso, e suscetível até a medula. Você sabe disso. Queria ser avô de um rei. Não o apaziguará com a oferta de dois salteadores envelhecidos e do segundo filho do homem mais gordo dos Sete Reinos. Não só quebrou o juramento, como também desrespeitou a honra das Gêmeas ao escolher uma noiva de uma casa menos importante. Robb irritou-se ao ouvir aquilo. - Os Westerling são de melhor sangue do que os Frey. São uma linhagem antiga, descendente dos Primeiros Homens. Os Reis do Rochedo às vezes se casavam com mulheres Westerling antes da Conquista, e houve outra Jeyne Westerling que foi rainha do Rei Maegor há trezentos anos. - E tudo isso só jogará sal nas feridas de Lorde Walder. Sempre lhe causou ressentimento que as casas mais antigas olhassem os Frey de cima, considerando-os arrivistas. Esse insulto não é o primeiro que&lt;br /&gt;
sofreu, segundo o que ele conta. Jon Arryn não se mostrou disposto a criar seus netos, e o meu pai recusou a oferta a Edmure de uma de suas filhas. - Inclinou a cabeça ao irmão quando este voltou a se juntar a eles. - Vossa Graça - disse Brynden Peixe Negro -, talvez seja melhor prosseguirmos em privado. - Sim. - Robb tinha a voz cansada. - Era capaz de matar por uma taça de vinho. A sala de audiências, penso. Quando começaram a subir os degraus, Catelyn colocou a questão que a perturbava desde que entrara no salão, - Robb, onde está o Vento Cinzento? - No pátio, com uma perna de carneiro. Disse ao mestre dos canis para lhe dar de comer. - Antes mantinha-o sempre junto de si. - Um salão não é lugar para um lobo. Ele fica desassossegado, já o viu. Começa a rosnar e a tentar morder. Nunca devia tê-lo levado comigo para a batalha. Matou homens demais para que agora os tema. Jeyne fica ansiosa com ele por perto, e aterroriza a mãe dela. E aí está o coração de tudo, pensou Catelyn. - Ele é parte de você, Robb. Temê-lo é temer a si mesmo. - Não sou um lobo, não importa como me chamem. - Soava aborrecido. - Vento Cinzento matou um homem no Despenhadeiro, outro em Cinzamarca, e seis ou sete em Cruzaboi. Se o tivesse visto... - Vi o lobo de Bran rasgar a garganta de um homem em Winterfell - disse ela em tom cortante - e adorei-o por isso. - E diferente. O homem no Despenhadeiro era um cavaleiro que Jeyne conhecia desde sempre. Não pode censurá-la por ter medo. Vento Cinzento também não gosta do tio dela. Mostra os dentes sempre que Sor Rolph se aproxima dele. Um arrepio percorreu sua espinha. - Mande Sor Rolph embora. Imediatamente, - Para onde? Para o Despenhadeiro, para que os Lannister possam espetar a cabeça dele num espigão? Jeyne adora-o. E tio dela, e também um bom cavaleiro. Preciso de mais homens como Rolph Spicer, não de menos. Não vou bani-lo só porque meu lobo parece não gostar de seu cheiro. - Robb. - Catelyn parou e segurou-o pelo braço. - Disse-lhe um dia para manter Theon Greyjoy por perto, e não me escutou. Escute agora. Mande este homem embora. Não estou dizendo que deva bani-lo. Encontre alguma tarefa que exija um homem de coragem, um dever honroso, não importa o quê... mas não o mantenha perto de si. Ele franziu a testa. - Devo mandar Vento Cinzento farejar todos os meus cavaleiros? Pode haver outros cujo cheiro não lhe agrade.&lt;br /&gt;
- Qualquer homem que não agrade ao Vento Cinzento é um homem que você não quer ter por perto. Esses lobos são mais do que lobos, Robb. Tem de saber que é assim. Julgo que os deuses talvez os tenham mandado até nós. Os deuses de seu pai, os velhos deuses do norte. Cinco crias de lobo, Robb, cinco, para as cinco crianças Stark, - Seis - disse Robb. - Também havia um lobo para Jon. Fui eu que os encontrei, lembra? Sei quantos havia e de onde vieram. Costumava pensar o mesmo que você, que os lobos eram os nossos guardiães, os nossos protetores, até que... - Até que? - ela incitou. A boca de Robb apertou-se. - ... até que me disseram que Theon tinha assassinado Bran e Rickon. Pouco bem lhes fizeram os lobos. Já não sou um garoto, mãe. Sou um rei, e posso me proteger sozinho. - Suspirou. - Encontrarei alguma tarefa para Sor Rolph, algum pretexto para mandá-lo para longe, Não por causa do cheiro dele, mas para sossegar seu espírito. A senhora já sofreu o bastante. Aliviada, Catelyn deu-lhe um leve beijo na bochecha antes de os outros terem tempo de surgir naquele lance da escada, e, por um momento, ele foi de novo o seu filho, e não o seu rei, A sala de audiências privadas de Lorde Hoster era um aposento pequeno, situado acima do Grande Salão, mais adequado a discussões íntimas. Robb sentou-se no cadeirão, tirou a coroa e apoiou-a no chão, ao seu lado, enquanto Catelyn pedia vinho. Edmure vinha enchendo os ouvidos do tio com a história completa da batalha no Moinho de Pedra. Foi só depois de os criados terem chegado e partido que o Peixe Negro pigarreou e disse: - Acho que já ouvimos o suficiente de suas vanglorias, sobrinho, Edmure foi surpreendido por aquilo. - Vanglorias? O que quer dizer? - Quero dizer - disse o Peixe Negro - que deve a Sua Graça agradecimentos pela indulgência dele. Desempenhou aquela farsa no Salão Grande para não envergonhá-lo perante a sua gente. Se tivesse sido eu, teria esfolado você por sua burrice, em vez de elogiar essa loucura nos vaus. - Bons homens morreram para defender esses vaus, tio - Edmure parecia indignado. - O que foi? Ninguém deve conquistar vitórias a não ser o Jovem Lobo? Roubei alguma glória que lhe estava destinada, Robb? - Vossa Graça - corrigiu Robb, friamente. - Aceitou-me como seu rei, tio. Ou também se esqueceu disso? O Peixe Negro disse: - Foi-lhe ordenado que defendesse Correrrio, Edmure, nada mais.&lt;br /&gt;
- Eu defendi Correrrio e ensangüentei o nariz de Lorde Tywin... - É verdade - disse Robb. - Mas um nariz ensangüentado não ganha a guerra, não é? Alguma vez parou para se perguntar sobre o motivo de termos permanecido tanto tempo no oeste depois de Cruzaboi? Sabia que eu não tinha homens suficientes para ameaçar Lanisporto ou Rochedo Casterly. - O motivo... havia outros castelos... ouro, gado... - Pensa que ficamos pelo saque? - Robb mostrava-se incrédulo. - Tio, eu queria que Lorde Tywin viesse para oeste. - Estávamos todos a cavalo - disse Sor Brynden. - A tropa Lannister era principalmente infantaria. Planejávamos dar ao Lorde Tywin uma bela caça de um lado para o outro ao longo da costa, e depois enfiar-nos em sua retaguarda para ocupar uma forte posição defensiva na estrada do ouro, num local que meus batedores encontraram, onde o terreno estaria grandemente a nosso favor. Se tivesse vindo contra nós ali, teria pago um preço enorme. Mas, se não atacasse, ficaria encurralado no oeste, a mil léguas de onde precisaria estar. E durante esse tempo, viveríamos de suas terras, em vez de ser ele vivendo das nossas. - Lorde Stannis estava prestes a cair sobre Porto Real - disse Robb. - Podia ter nos livrado de Joffrey, da rainha e do Duende, com um único golpe sangrento. Então, poderíamos ter sido capazes de fazer a paz. Os olhos de Edmure saltaram do tio para o sobrinho. - Vossa Graça não me disse nada. - Eu disse para defender Correrrio - disse Robb. - Que parte dessa ordem não entendeu? - Quando parou Lorde Tywin no Ramo Vermelho - disse o Peixe Negro -, atrasou- -o tempo suficiente para que cavaleiros vindos de Pontamarga o encontrassem, com as notícias sobre o que estava se passando no leste. Lorde Tywin imediatamente deu meia- -volta com a tropa, juntou-se a Matthis Rowan e Randyll Tarly perto da nascente do Água Negra, e fez uma marcha forçada até a Cascata do Acrobata, onde encontrou Mace Tyrell e dois dos filhos à espera com uma tropa enorme e uma frota de barcaças. Flutuaram rio abaixo, desembarcaram a meio dia de viagem da cidade e apanharam Stannis pela retaguarda. Catelyn recordou a corte do Rei Renly, como a vira em Pontamarga. Um milhar de rosas douradas flutuando ao vento, o sorriso recatado e as palavras suaves da Rainha Mar- gaery, o irmão, o Cavaleiro das Flores, com o linho ensangüentado em volta da cabeça. Se tinha de cair nos braços de uma mulher, meu filho, por que não foi nos de Margaery Tyrell? A riqueza e o poderio de Jardim de Cima podiam ter feito toda a diferença nas batalhas que estavam para vir. E talvez o Vento Cinzento também tivesse gostado do cheiro dela. Edmure pareceu mal.&lt;br /&gt;
- Nunca quis... nunca, Robb, tem de permitir que lhe compense. Liderarei a vanguarda na próxima batalha! Para compensar, irmão? Ou pela glória?, interrogou-se Catelyn. - A próxima batalha - disse Robb. - Bem, isso acontecerá bastante depressa. Assim que Joffrey estiver casado, os Lannister voltarão a campo contra mim, não duvido, e dessa vez os Tyrell marcharão ao lado deles. E posso ter de lutar também com os Frey, se Walder Negro prosseguir assim... - Enquanto Theon Greyjoy estiver sentado no castelo de seu pai, com o sangue de seus irmãos nas mãos, esses outros inimigos terão de esperar - disse Catelyn ao filho. - Seu primeiro dever é defender sua própria gente, reconquistar Winterfell e pendurar Theon numa gaiola para corvos, para que morra lentamente. Caso contrário, o melhor é pôr de lado essa coroa para sempre, Robb, pois os homens saberão que não é um verdadeiro rei. Pelo modo como Robb a olhou, viu que havia passado bastante tempo desde que alguém se atrevera a lhe falar com tanta franqueza, - Quando me disseram que Winterfell tinha caído, quis ir imediatamente para o norte - disse ele, só ligeiramente na defensiva. - Quis libertar Bran e Rickon, mas pensei... nunca sonhei que Theon pudesse realmente lhes fazer mal. Se tivesse... - E tarde demais para ses, tarde demais para resgates - disse Catelyn. - Tudo que resta é a vingança. - Segundo as últimas notícias que nos chegaram do norte, Sor Rodrik tinha derrotado uma força de homens de ferro perto da Praça de Torrhen e estava reunindo uma tropa no Castelo Cerwyn para retomar Winterfell - disse Robb, - A essa altura, pode já tê-lo feito. Já não recebemos notícias há bastante tempo. E como fica o Tridente, se eu for para o norte? Não posso pedir aos senhores das terras fluviais para abandonarem o próprio povo. - Não - disse Catelyn. - Deixe-os para defenderem os seus, e reconquiste o Norte com nortenhos. - Como levaria os nortenhos para o Norte? - perguntou Edmure. - Os homens de ferro controlam o mar do poente. Os Greyjoy detêm também o Fosso Cailin. Nunca nenhum exército tomou o Fosso Cailin pelo sul. Até mesmo marchar contra ele é uma loucura, Podíamos ficar encurralados na zona do talude, com os homens de ferro à nossa frente e Frey zangados na retaguarda. - Temos de reconquistar os Frey - disse Robb. - Com eles, ainda temos alguma chance de sucesso, por menor que seja. Sem eles, não vejo esperança. Estou disposto a dar ao Lorde Walder tudo que ele pedir... desculpas, honrarias, terras, ouro... deve haver algo que lhe acalme o orgulho...&lt;br /&gt;
- Não é algo - disse Catelyn. - E alguém.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/8073588414301830412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/catelyn.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/8073588414301830412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/8073588414301830412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/catelyn.html' title='Catelyn'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-954911550286877384</id><published>2013-12-27T14:59:00.001-08:00</published><updated>2013-12-27T14:59:19.648-08:00</updated><title type='text'>Arya</title><content type='html'>Estava desenterrando legumes no jardim de um morto quando ouviu a cantoria, vil Arya retesou-se, quieta como pedra, escutando, subitamente esquecida das três cenouras fibrosas que tinha na mão. Pensou nos Saltimbancos Sangrentos e nos homens de Roose Bolton, e um arrepio de medo correu por sua espinha. Não é justo, quando finalmente encontramos o Tridente, quando pensávamos que estávamos quase a salvo. Mas por que os Saltimbancos estariam cantando? A canção pairava sobre o rio, vinda de algum lugar para lá da pequena elevação que havia a leste. - Vou à Vila Gaivota ver a bela donzela, ei-ou, ei-ou... Arya levantou-se, com as cenouras penduradas na mão. Soava como se o cantor viesse ao longo da estrada que ladeava o rio. No meio das couves, Torta Quente também o ouviu, julgando pela expressão que tinha no rosto. Gendry fora dormir à sombra do chalé incendiado, e não estava em estado de ouvir qualquer coisa, - Coa ponta da espada roubarei um beijo dela, ei-ou, ei-ou, - parecia ouvir também uma harpa, ao fundo do suave rumorejar do rio. - Está ouvindo? - perguntou Torta Quente num sussurro rouco, enquanto se abraçava a um monte de couves. - Alguém está vindo. - Vá acordar Gendry - disse-lhe Arya. - Sacuda-o só pelo ombro, não faça muito barulho. - Gendry era fácil de acordar, ao contrário do Torta Quente, que precisava levar pontapés e ouvir gritos. - Será o meu amor, descansando sob a tela, ei-ou, ei-ou. - A canção tornava-se mais alta a cada palavra. Torta Quente abriu os braços. As couves caíram ao chão com ruídos surdos e suaves. - Temos de nos esconder; Onde? O chalé incendiado e seu jardim descuidado ficavam bem ao lado das margens do Tridente. Havia alguns salgueiros crescendo ao longo do rio, e grupos de ca- niços nos baixios lamacentos atrás deles, mas a maior parte do terreno ao redor era dolorosamente aberta. Eu sabia que nunca deveríamos ter saído da floresta, pensou ela. Mas tinham tanta fome, e o jardim era uma tentação tão grande. O pão e o queijo que tinham roubado de Harrenhal acabara seis dias antes, quando eles se encontravam no meio da floresta. &lt;br /&gt;
- Leve Gendry e os cavalos para trás do chalé - decidiu. Lá ainda havia parte de uma parede que permanecia em pé, suficientemente grande, talvez, para esconder dois rapazes e três cavalos. Se os cavalos não relincharem, e aquele cantor não vier meter o nariz no jardim. - E você? - Eu me escondo ao pé da árvore. Ele provavelmente vem sozinho. Se me incomodar, mato-o, Vá! Torta Quente partiu, e Arya largou as cenouras e puxou a espada roubada por sobre o ombro. Tinha prendido a bainha nas costas; a espada fora forjada para um adulto, e batia no chão quando ela a usava na cintura. Além disso é pesada demais, pensou, sentindo falta da Agulha, como acontecia sempre que pegava naquela coisa desajeitada. Mas era uma espada, e podia matar com ela, isso bastava. Ligeira, correu para o grande e velho salgueiro que crescia ao lado da curva da estrada e caiu sobre um joelho entre a grama e a lama, no interior do véu de ramos que roçavam o chão. Oh, velhos deuses, rezou enquanto a voz do cantor se tornava mais forte, oh, deuses das árvores, escondam-me, e façam com que passem por mim. Então, um cavalo relinchou e a voz interrompeu-se subitamente. Ele ouviu, compreendeu, mas talvez esteja sozinho, ou, se não estiver, talvez tenham tanto medo de nós como nós temos deles. - Ouviu aquilo? - disse uma voz de homem. - Parece que há alguma coisa atrás daquela parede. - Sim - respondeu uma segunda voz, mais grave. - O que acha que pode ser, Arqueiro? Então são dois. Arya mordeu o lábio. Não conseguia vê-los de onde estava ajoelhada, por causa do salgueiro. Mas conseguia ouvir. - Um urso. - Uma terceira voz, ou a primeira outra vez? - Um monte de carne num urso - disse a voz grave. - Um monte de gordura também, no Outono. Boa para comer, se for bem cozida. - Poderia ser um lobo. Talvez um leão. - Você acha que com quatro patas? Ou com duas? - Não importa. Importa? - Que eu saiba, não. Arqueiro, o que pretende fazer com todas essas flechas? - Lançar umas tantas atrás daquela parede. Seja o que for que está escondido ali, vai sair bem depressa, espere e verá. - Mas e se for algum homem honesto que está ali? Ou uma pobre mulher com um bebezinho de peito? - Um homem honesto sairia e mostraria a cara. Só um fora da lei fugiria e se esconderia. - Bem, é verdade. Então mande lá as suas flechas.&lt;br /&gt;
Arya ficou em pé de um salto. - Não! - mostrou-lhes a espada. Viu que eram três. Só três. Syrio podia lutar com mais de três, e ela talvez tivesse Torta Quente e Gendry para lutar com ela. Mas eles são garotos, e estes são homens. Eram homens a pé, sujos da viagem e salpicados de lama. Identificou o cantor pela harpa que embalava contra o gibão, como uma mãe embalaria um bebê. Um homem pequeno, de uns cinqüenta anos, tinha a boca grande, o nariz marcante e cabelos castanhos que já rareavam. Suas roupas, de um verde desbotado, estavam consertadas aqui e ali com remendos de couro velho, e trazia na cintura um molho de facas de arremessar e, a tiracolo, um machado de lenhador. O homem que seguia a seu lado era uns bons trinta centímetros mais alto, e parecia um soldado. De seu cinto de couro com rebites pendia uma espada longa e um punhal, fileiras de anéis de aço sobrepostos estavam costuradas em sua camisa, e sua cabeça estava coberta por um meio elmo de ferro negro em forma de cone. Tinha dentes estragados e uma cerrada barba castanha, mas era o manto amarelo com capuz que chamava a atenção. Grosso e pesado, manchado aqui por mato e ali por sangue, puído ao longo da bainha e remendado com pele de veado no ombro direito, o manto dava ao homem o aspecto de um enorme pássaro amarelo. O último dos três era um jovem tão esguio como o seu arco, embora não fosse tão alto. Ruivo e sardento, usava uma brigantina com rebites, botas de cano alto, luvas de couro sem dedos e uma aljava a tiracolo. As penas de suas flechas eram de ganso cinza, e seis delas estavam espetadas no chão à sua frente, como uma pequena cerca. Os três homens olharam-na, ali, em pé, no meio da estrada, de espada na mão. Então o cantor tocou uma corda num gesto indolente. - Menino - disse -, abaixe já essa espada se não quiser se machucar. E grande demais para você, garoto, e além disso o Anguy aqui conseguiria atravessá-lo com três flechas antes de você pensar em nos alcançar. - Não conseguiria nada - disse Arya -, e eu sou uma menina. - Ah, e não é que é verdade? - o cantor fez uma reverência. - As minhas desculpas. - Continue pela estrada afora. Limite-se a andar adiante e continue a cantar, para que saibamos onde está. Vá embora e deixe-nos em paz, e eu não os mato. O arqueiro sardento soltou uma gargalhada. - Limo, ela não nos mata, ouviu? - Ouvi - disse Limo, o soldado grande com a voz grave. - Filha - disse o cantor -, abaixe essa espada, que nós levamos você para um lugar melhor e colocamos alguma comida nessa barriga. Há&lt;br /&gt;
lobos por esses lados, e também leões, e coisas piores. Não é lugar para uma menininha ficar vagueando sozinha. - Ela não está sozinha. - Gendry saiu a cavalo de trás da parede do chalé, e Torta Quente veio atrás, trazendo o cavalo de Arya pela arreata. Vestindo a cota de malha e com uma espada na mão, Gendry quase parecia um homem-feito, e perigoso. Torta Quente parecia Torta Quente. - Faça o que ela diz, e deixe-nos em paz - preveniu Gendry. - Dois e três - contou o cantor - e é só isso? E também cavalos, lindos cavalos. Onde foi que os roubaram? - São nossos. - Arya observou-os cuidadosamente. O cantor tentava distraí-la com a sua conversa, mas o perigo estava no arqueiro. Se ele arrancar uma flecha do chão... - Vão nos dizer seus nomes como homens honestos? - perguntou o cantor aos rapazes. - Sou o Torta Quente - disse o Torta Quente de imediato. - Ora, e que bom para você. - O homem sorriu. - Não é todos os dias que conheço um garoto com um nome tão saboroso. E como se chamam os seus amigos, Costeleta de Carneiro e Pombinha? Gendry franziu a testa de cima de sua sela. - Por que devo lhe dizer o meu nome? Ainda não ouvi o seu. - Bom, não seja por isso, sou Tom de Seterrios, mas todos me chamam de Tom Sete- -Cordas, ou então Tom das Sete, Este grande grosseirão com dentes marrons é o Limo, abreviatura de Manto Limão. Ele é amarelo, está vendo, e o Limo é um cara amargo. E este jovem rapaz aqui é Anguy, ou Arqueiro, como gostamos de chamá-lo. - E agora, quem são vocês? - exigiu saber o Limo, na voz grave que Arya tinha ouvido através dos ramos do salgueiro. Ela não ia revelar seu verdadeiro nome assim tão facilmente. - Se quiser que seja Pombinha, sou Pombinha - disse. - Não me importo. O grandalhão soltou uma gargalhada. - Uma pombinha com uma espada - disse. - Ora, eis uma coisa que não se vê todos os dias, - Eu sou o Touro - disse Gendry, imitando Arya. Não podia censurá-lo por preferir Touro a Costeleta de Carneiro. Tom Sete-Cordas arrancou um acorde da harpa. - Torta Quente, Pombinha e Touro. Fugidos da cozinha de Lorde Bolton, não? - Como sabe? - quis saber Arya, inquieta, - Tem o símbolo dele no peito, pequena. Havia se esquecido disso por um instante. Sob o manto, ainda usava o gibão de pa- jem, com o homem esfolado do Forte do Pavor cosido no peito.&lt;br /&gt;
- Não me chame de pequena! - Por que não? - disse Limo. - E bastante pequena. - Sou maior do que era. Não sou uma criança. - As crianças não matam gente, e ela já havia feito isso. - Já tinha percebido, Pombinha. Nenhum de vocês é criança, não se pertenciam a Bolton. - Nunca fomos dele. - Torta Quente nunca sabia quando devia ficar calado. - Estávamos em Harrenhal antes de ele chegar, só isso. - Então são filhotes de leão, é isso? - perguntou Tom. - Também não. Não somos de ninguém. E vocês, são de quem? Anguy, o Arqueiro, disse: - Somos homens do rei. Arya franziu a testa. - Qual deles? - O Rei Robert - disse Limo, com seu manto amarelo. - Aquele velho bêbado? - perguntou Gendry em tom de escárnio. - Está morto, um javali qualquer matou-o, todo mundo sabe disso. - Bem, rapaz - disse Tom Sete-Cordas e é uma pena. - Fez soar um acorde triste na harpa, Arya não achava nem um pouco que eles fossem mesmo homens do rei. Pareciam-se mais com fora da lei, todos andrajosos e esfarrapados. Nem sequer tinham cavalos para montar. Homens do rei teriam cavalos. Mas Torta Quente interveio ansiosamente, - Andamos à procura de Correrrio - disse ele. - A quantos dias de viagem fica, vocês sabem? Arya sentiu-se capaz de matá-lo. - Cale-se, senão encho essa sua grande boca estúpida de pedras. - Correrrio fica a uma longa distância para montante - disse Tom. - A uma distância longa e faminta. Não querem uma refeição quente antes de seguirem caminho? Há uma estiagem ali adiante, não muito longe, que é de uns amigos nossos. Podíamos dividir umas cervejas e um pouco de pão, em vez de lutar uns com os outros. - Uma estalagem? - pensar em comida quente fez a barriga de Arya trovejar, mas não confiava naquele Tom. Nem todo mundo que nos falava de forma amistosa era realmente nosso amigo. - Fica perto, você diz? - Três quilômetros a montante - disse Tom. - Uma légua, no máximo. Gendry parecia tão incerto quanto ela. - O que quer dizer com amigos? - perguntou ele com cautela. - Amigos. Esqueceu-se do que são amigos? - O nome da estalajadeira é Sharna - interveio Tom. - Tem uma língua afiada e um olho feroz, admito, mas o coração é bom e gosta de menininhas.&lt;br /&gt;
- Eu não sou uma menininha - disse Arya, zangada. - Quem mais está lá? Você disse amigos. - O marido de Sharna, e um garoto órfão que eles acolheram. Não lhe farão mal. Há cerveja, se achar que já tem idade. Pão fresco e talvez um pouco de carne. - Tom olhou de relance para o chalé. - E mais o que quer que tenham roubado do jardim do Velho Pate. - Não roubamos nada - disse Arya. - Então será que é filha do Velho Pate? Uma irmã? Uma esposa? Não minta para mim, Pombinha. Fui eu mesmo quem enterrou o Velho Pate, bem ali, debaixo daquele salgueiro onde estava escondida, e você não se parece com ele. - Arrancou da harpa um som triste. - Enterramos muitos bons homens neste último ano, mas não queremos enterrar você, juro pela minha harpa, Arqueiro, mostre-lhe. A mão do arqueiro moveu-se mais depressa do que Arya julgaria possível, A flecha passou por sua cabeça assobiando, a dois centímetros de sua orelha, e foi se enterrar no tronco do salgueiro, que ficava atrás. Nesse momento, o arqueiro já tinha uma segunda flecha encaixada e a corda puxada. Antes Arya achava que entendia o que Syrio queria dizer com rápida como uma cobra e suave como seda de verão, mas agora sabia que não. A flecha zumbiu atrás dela como uma abelha. - Errou - disse. -Tola é você se acha isso - disse Anguy. - Elas vão para onde as mando. - E vão mesmo - concordou Limo Manto Limão. Havia uma dúzia de passos entre o arqueiro e a ponta da espada dela. Não temos escolha, compreendeu Arya, desejando ter um arco como o dele, e a perícia para usá-lo. Sombriamente, baixou a pesada espada até a ponta tocar o chão. - Vamos ver essa estalagem - admitiu, tentando esconder a dúvida que tinha no coração atrás de palavras ousadas. - Caminhem em nossa frente e nós seguiremos atrás a cavalo, para podermos ver o que estão fazendo. Tom Sete-Cordas fez uma profunda reverência e disse: - À frente, atrás, não faz diferença. Venham, rapazes, vamos mostrar-lhes o caminho. Anguy, é melhor guardar essas flechas, não vamos precisar delas aqui. Arya embainhou a espada e atravessou a estrada até onde os amigos estavam a cavalo, mantendo distância dos três estranhos. - Torta Quente, pegue essas couves - disse enquanto saltava para a sela. - E as cenouras também. Por uma vez, ele não discutiu. Puseram-se a caminho como ela quis, avançando lentamente com os cavalos ao longo da estrada sulcada, uma dúzia de passos atrás dos três caminhantes. Mas não muito tempo depois, de algum modo, estavam bem na cola deles. Tom Sete-Cordas&lt;br /&gt;
caminhava devagar, e gostava de ir dedilhando a harpa à medida que avançava. - Conhecem algumas canções? - perguntou-lhes. - Adoraria ter alguém com quem cantar, adoraria mesmo. O Limo não consegue cantar afinado, e o nosso rapaz do arco só conhece baladas da Marca, todas com cem versos de comprimento. - Na Marca cantamos canções de verdade - disse brandamente Anguy. - Cantar é idiota - disse Arya. - Cantar faz barulho. Ouvimos você de muito longe. Podíamos ter matado você. O sorriso de Tom indicava que ele não tinha a mesma opinião. - Há coisas piores do que morrer com uma canção nos lábios. - Se houvesse lobos por aqui, saberíamos - resmungou o Limo. - Ou leões. Esta floresta é nossa. - Não sabiam que nós estávamos aqui - disse Gendry. - Ora, rapaz, não devia ter tanta certeza assim - disse Tom. - As vezes um homem sabe mais do que diz. Torta Quente mexeu-se na sela. - Eu conheço a canção sobre o urso - disse. - Pelo menos parte dela. Tom correu os dedos pelas cordas. - Então vamos ouvi-la, menino das tortas. - Atirou a cabeça para trás e cantou: - Havia um urso, um urso, um urso! Preto e castanho e coberto de pelo... Torta Quente juntou-se a ele cheio de energia, chegando mesmo a balançar um pouco na sela, nas rimas. Arya fitou-o, espantada. Tinha uma boa voz e cantava bem, Nunca fez nada bem, a não ser cozinhar, pensou consigo mesma. Um pequeno riacho desaguava no Tridente um pouco mais à frente. Enquanto o atravessavam, a cantoria espantou um pato que estava no meio dos juncos. Anguy parou, pegou o arco, encaixou uma flecha e abateu-o. A ave caiu nos baixios, não muito longe da margem. Limo tirou o manto amarelo e entrou na água até os joelhos para recuperá-la, sem parar de se queixar. - Acha que a Sharna terá limões lá embaixo, naquela adega dela? - perguntou Anguy a Tom enquanto observavam o Limo espirrar água, praguejando. - Certa vez, uma garota de Dorne fez pato com limões para mim. - Parecia cheio de desejo. Tom e Torta Quente reataram a canção do outro lado do riacho, com o pato já preso ao cinto de Limo, por baixo de seu manto amarelo. De algum modo, a canção fez com que os quilômetros parecessem mais curtos. Não demorou realmente muito tempo até a estalagem aparecer à frente deles, erguendo-se da margem do rio onde o Tridente fazia uma grande curva para o norte. Arya observou-a com suspeita ao se aproximar, de olhos semicerrados. Não parecia um covil de fora da lei,&lt;br /&gt;
tinha de admitir; aparentava um local amigável, até mesmo acolhedor, com seu andar superior caiado e o telhado de ardósia e a fumaça que saía em preguiçosas espirais da chaminé. Estábulos e outros edifícios secundários rodeavam-na, e havia um vinhedo nos fundos, e macieiras e um pequeno jardim. A estalagem até tinha seu próprio ancoradouro, que se projetava pelo rio, e... - Gendry - chamou Arya, com voz baixa e urgente. - Eles têm um barco. Podíamos fazer o resto do caminho até Correrrio navegando. Seria mais rápido do que a cavalo, eu acho. Ele pareceu duvidar. - Você alguma vez já velejou? - Iça-se a vela - disse ela - e o vento empurra. - E se o vento estiver soprando na direção errada? - Então há remos para remar. - Contra a corrente? - Gendry franziu a testa. - Isso não seria devagar? E se o barco virar e cairmos na água? Seja como for, o barco não é nosso, é da estalagem. Podíamos roubá-lo. Arya mordeu o lábio e nada disse. Desmontaram em frente aos es- tábulos. Não se via mais nenhum cavalo, mas Arya reparou no estrume fresco em muitas das cocheiras. - Um de nós devia vigiar os cavalos - disse, cautelosa. Tom ouviu-a. - Não há necessidade disso, Pombinha. Venha comer, eles vão ficar suficientemente seguros. - Eu fico - disse Gendry, ignorando o cantor. - Pode vir me buscar depois de ter comido alguma coisa. Assentindo, Arya foi atrás de Torta Quente e Limo. Ainda levava a espada na bainha, a tiracolo, e mantinha uma mão perto do cabo do punhal que roubara de Roose Bolton, para o caso de não gostar do que quer que encontrassem lá dentro. O letreiro pintado por cima da porta mostrava a imagem de um velho rei qualquer ajoelhado. Lá dentro ficava a sala comum, onde uma mulher feia e muito alta, com um queixo protuberante, estava em pé, de mãos no quadril, encarando-a com ar zangado. - Não fique aí parado, menino - exclamou. - Ou é uma menina? Seja como for, está bloqueando a porta. Ou entra ou sai. Limo, que foi que eu disse a respeito do meu chão? Você está pura lama. - Abatemos um pato. - Limo mostrou-o como uma bandeira de paz. A mulher arrancou-o de sua mão. - O que você quer dizer é que o Anguy abateu um pato. Tire as botas, você é surdo ou é só burro? - virou-se. - Marido! - chamou, em voz alta. - Venha aqui pra cima, os rapazes voltaram. Marido!&lt;br /&gt;
Um homem com um avental sujo subiu a escada da adega, resmungando. Era uma cabeça mais baixo do que a mulher, e tinha o rosto grumoso e uma pele amarelada e solta, qu.e ainda mostrava as marcas de um tipo qualquer de varíola. - Estou aqui, mulher, pare de berrar. O que foi agora? - Pendure isto - disse ela, entregando-lhe o pato. Anguy remexeu os pés. - Estávamos pensando em comê-lo, Sharma. Com limões. Se tiver alguns. - Limões. E onde iríamos arranjar limões? Você acha que está em Dorne, meu idiota sardento? Por que não dá um pulo lá atrás até os limoeiros e colhe um balde para a gente, e também algumas azeitonas e romãs das boas? - sacudiu um dedo em frente ao nariz dele. - Ora bem, suponho que podia cozinhá-lo com o manto do Limo, se quisesse, mas só depois que o pato passar uns dias pendurado. Ou você vai comer coelho, ou não vai comer. Coelho assado no espeto é o mais rápido, se tiver fome. Ou talvez o queira cozido, com cerveja e cebolas. Arya quase conseguia sentir o gosto do coelho. - Não temos dinheiro, mas trouxemos algumas cenouras e couves que poderíamos trocar com você. - Ah, trouxe? E onde estão elas? - Torta Quente, dê as couves para ela - disse Arya, e ele entregou, embora se aproximasse da velha tão cautelosamente como se ela fosse Rorge, Dentadas ou Vargo Hoat. A mulher inspecionou bem os legumes, e melhor o garoto. - Onde está essa torta quente? - Aqui. Eu. E o meu nome. E ela é a... ah... Pombinha. - Debaixo do meu teto, não. Dou nomes diferentes aos clientes e aos pratos, para distingui-los uns dos outros. Marido! O Marido tinha ido até lá fora, mas, ao ouvir o grito da mulher, apressou-se a voltar. - O pato está pendurado. O que foi agora, mulher? - Lave estes legumes - ordenou ela. - Os outros, sentem-se enquanto eu começo a cuidar dos coelhos. O garoto vai lhes trazer bebidas. - Olhou ao longo de seu grande nariz para Arya e Torta Quente. - Não tenho o hábito de servir cerveja a crianças, mas a sidra acabou, não há vacas para dar leite, e a água do rio tem gosto de guerra, com todos os mortos que vêm à deriva. Se lhes servisse uma tigela de sopa cheia de moscas mortas, vocês a tomariam? - Arry tomaria - disse Torta Quente. - A Pombinha, quero dizer. - E Limo também - sugeriu Anguy, com um sorriso manhoso. - Não se preocupe com Limo - disse Sharna, - Há cerveja para todos. - E desapareceu na direção da cozinha.&lt;br /&gt;
Anguy e Tom Sete-Cordas ocuparam a mesa perto da lareira, enquanto Limo pendurava seu grande manto amarelo num cabide. Torta Quente deixou-se cair pesadamente num banco, junto à mesa perto da porta, e Arya enfiou-se ao lado dele. Tom pegou a harpa. - Uma estalagem solitária na estrada da floresta ~ cantou, inventando lentamente uma melodia que se adaptasse às palavras. - A mulher do estalajadeiro era feia como uma besta. - Cale a boca, senão não vai ter coelho para ninguém - preveniu-o Limo, - Sabe como ela é. Arya debruçou-se, aproximando-se de Torta Quente. - Sabe manejar um veleiro? - perguntou. Antes de ele ter tempo de responder, um rapaz atarracado com quinze ou dezesseis anos apareceu com canecas de cerveja. Torta Quente pegou reverentemente a sua, com as duas mãos, e quando bebeu um trago, deu o sorriso mais largo que Arya já tinha visto nele. - Cerveja - sussurrou - e coelho. - Bem, à saúde de Sua Graça - gritou alegremente Anguy, o Arqueiro, erguendo a caneca. - Que os Sete protejam o rei! - Todos os doze que há por aí - resmungou Limo Manto Limão. Bebeu, e limpou a espuma da boca com as costas da mão. O Marido entrou em grande correria pela porta da frente, com um avental cheio de legumes lavados. - Há cavalos estranhos nos estábulos - anunciou, como se eles náo soubessem. - Sim - disse Tom, colocando a harpa de lado e melhores do que os três que você deu. O Marido deixou cair os legumes sobre uma mesa, aborrecido. - Não os dei. Vendi por um bom preço, e arranjei também um esquife para nós, E, seja como for, o seu grupinho deveria tê-los trazido de volta. Sabia que eles eram fora da lei, pensou Arya, escutando. A mão desceu para baixo da mesa e tocou o cabo do punhal, para se assegurar de que ainda estava lá. Se tentarem nos roubar, vão se arrepender. - Não vieram para onde estávamos - disse Limo, - Bem, eu mandei-os. Vocês deviam estar bêbados, ou dormindo. - Nós? Bêbados? - Tom bebeu um longo trago de cerveja. - Nunca. - Podia tê-los pego você mesmo - disse Limo. - O que, só com o garoto aqui? Já lhes disse duas vezes, a velha estava na Charneca dos Cordeiros ajudando a Fern a parir o bebê. E o mais certo é ter sido um de vocês quem plantou o bastardo na barriga da pobre garota, - Deu a Tom um olhar azedo, - Você, aposto, com essa sua&lt;br /&gt;
harpa, cantando todas essas canções tristes só para fazer a pobre Fern tirar a roupa de baixo. - Se uma canção leva uma donzela a querer tirar a roupa e sentir o bom sol quente beijar sua pele, ora, será culpa do cantor? - perguntou Tom. - E, além disso, ela gostava era do Anguy.&quot;Posso tocar o seu arco?&quot;, ouvi Fern perguntando-lhe.&quot;Ooohh, é tão liso, e duro. Acha que eu podia dar uma puxadinha nele?&quot; O Marido resfolegou. - Você ou o Anguy, não faz diferença. São tão culpados como eu pelos cavalos. Eram três, sabe? O que pode um homem fazer contra três? - Três - disse Limo em tom de escárnio -, mas um era mulher e o outro tava acorrentado, foi você mesmo que disse. O Marido fez uma careta, - Uma mulher grande, vestida como um homem. E o que estava acorrentado... Não gostei da expressão nos olhos dele. Anguy exibiu um sorriso por cima da cerveja. - Quando não gosto dos olhos de um homem, espeto uma flecha num deles. Arya recordou a flecha que roçara em sua orelha. Queria saber disparar flechas. O Marido não se mostrou impressionado. - E você fique calado quando os mais velhos estão conversando. Beba a sua cerveja e segure essa língua, senão mando a velha mostrar-lhe uma colher de pau. -Os mais velhos falam demais, e não preciso que me diga para beber a minha cerveja. - E deu um grande trago, para mostrar que era assim. Arya fez o mesmo. Depois de passar dias bebendo de riachos e poças e, depois, do lamacento Tridente, a cerveja tinha um sabor tão bom quanto os golinhos de vinho que o pai costumava deixá-la beber. Começava a vir da cozinha um cheiro que lhe enchia de água a boca, mas seus pensamentos ainda estavam todos naquele barco. Manejá-lo será mais difícil do que roubá-lo. Se esperarmos até estarem todos dormindo... O criado voltou a aparecer com grandes pães redondos. Arya partiu um pedaço, esfomeada, e atirou-se nele. Mas era difícil de mastigar, estava espesso e grumoso, e queimado embaixo. Torta Quente fez careta assim que o provou. - Este pão é ruim - disse. - Está queimado, e duro. - E melhor quando há guisado para mergulhá-lo nele - disse Limo, - Não é, não - disse Anguy mas com guisado é menos provável que quebre um dente. - Podem comê-lo ou passar fome - disse o Marido, - Tenho cara de ser um maldito padeiro? Gostaria de vê-los fazer melhor.&lt;br /&gt;
- Eu conseguiria - disse Torta Quente. - E fácil. Você amassou demais a massa, é por isso que é tão difícil mastigar. - Bebeu outro gole de cerveja e desatou a falar, com gosto, de pães, tortas e empadas, tudo aquilo que adorava. Arya rolou os olhos. Tom sentou-se diante dela, - Pombinha - disse ele -, ou Arry, ou seja lá qual for o seu verdadeiro nome, isto é para você. - Pousou um pedaço sujo de pergaminho na mesa de madeira entre ambos. Ela olhou o pergaminho com desconfiança. - O que é isso? - Três dragões de ouro. Precisamos comprar aqueles cavalos. Arya olhou-o com cautela. - Os cavalos são nossos. - O que quer dizer é que foi você que os roubou, não é? Não há vergonha nisso, menina. A guerra transforma muita gente honesta em ladrões. - Tom bateu com o dedo no pergaminho dobrado. - Estou lhe pagando um bom preço. Mais do que qualquer cavalo vale, para falar a verdade. Torta Quente pegou o pergaminho e desdobrou-o. - Não há ouro nenhum - protestou em voz alta. - Só há coisas escritas, - Sim - disse Tom -, e lamento por isso. Mas, depois da guerra, pretendemos fazer esse ouro, tem a minha palavra como homem do rei. Arya afastou-se da mesa e pôs-se em pé. - Vocês não são homens do rei coisa nenhuma, são assaltantes! - Se algum dia tivesse encontrado verdadeiros assaltantes, saberia que eles nunca pagam, nem mesmo em papel. Não é para nós que levamos seus cavalos, filha, é para o bem do reino, para que possamos nos deslocar mais depressa e travar as batalhas que precisam ser travadas. As batalhas do rei. Negaria isso ao rei? Estavam todos a observá-la: o Arqueiro, o grande Limo, e o Marido, com seu rosto pálido e olhos esquivos. Até Sharna, que espreitava da porta da cozinha. Vão roubar os cavalos, diga eu o que disser, compreendeu. Vamos ter de ir a pé até Correrrio, a menos que... - Não queremos papel - com uma palmada, Arya arrancou o pergaminho das mãos de Torta Quente, - Podem ficar com nossos cavalos em troca daquele barco que está lá fora. Mas só se nos mostrarem como manejá-lo. Tom Sete-Cordas fitou-a por um momento, e depois sua grande boca acolhedora torceu-se num sorriso deplorável. Riu alto. Anguy juntou-se a ele, e então desataram todos a rir, Limo Manto Limão, Sharna e o Marido, até o criado, que saíra de trás dos barris com uma besta debaixo de um braço. Arya quis gritar com eles, mas em vez disso deu um sorriso...&lt;br /&gt;
- Cavaleiros! - o grito de Gendry parecia esganiçado por causa do susto. A porta abriu-se de rompante, e ali estava ele. - Soldados - arquejou. - Pela estrada do rio, uma dúzia deles. Torta Quente ficou em pé de um salto, derrubando a caneca, mas Tom e os outros permaneceram imperturbados. - Não há motivo para derramar boa cerveja no meu chão - disse Sharna. - Volte a se sentar e acalme-se, garoto, o coelho vem aí. Você também, garota. Seja qual for o mal que lhe foi feito, está feito e acabou-se, e agora está com homens do rei. Nós vamos mantê-la a salvo o melhor que pudermos. A única resposta de Arya foi estender a mão para a espada, mas antes de tê-la meio desembainhada, Limo agarrou seu pulso. - Não vamos ter mais nada disso. - Torceu-lhe o braço até que sua mão se abriu. Os dedos dele eram duros, cheios de calos, e terrivelmente fortes. Outra vez!, pensou Arya. Está acontecendo outra vez&amp;gt; como na aldeia, com Chiswyck, Rajj e a Montanha Que Cavalga. Iam roubar sua espada e voltar a transformá-la num rato. A mão livre fechou-se em volta de sua caneca e brandiu-a contra o rosto de Limo. A cerveja saltou por cima da borda e derramou-se para dentro dos olhos dele, e ela ouviu o nariz do homem quebrar e viu o sangue jorrar. Quando ele soltou um urro, levou as mãos ao rosto, e ela viu-se livre. - Fujam! - gritou, saltando. Mas Limo logo caiu de novo sobre ela, com longas pernas que faziam com que um de seus passos se igualasse a três dos dela. Arya retorceu-se e esperneou, mas ele a pegou sem esforço e manteve-a pendurada enquanto o sangue corria por seu rosto. - Pare com isso, tolinha - gritou, sacudindo-a de um lado para o outro. - Pare com isso, já! - Gendry fez um movimento para ir ajudá-la, mas parou quando Tom Sete- -Cordas se pôs à sua frente com um punhal. A essa altura, já era tarde demais para fugir. Ouvia cavalos lá fora, e o som de vozes de homens. Um momento mais tarde, um homem entrou, pavoneando-se, pela porta, um tyroshi ainda maior do que Limo, com uma grande barba espessa, pintada de verde vivo nas pontas, mas crescendo grisalha. Atrás dele veio um par de besteiros que ajudavam um homem ferido a caminhar entre os dois, e depois mais... Arya nunca vira bando mais andrajoso, mas nada havia de andrajoso nas espadas, machados e arcos que traziam. Um ou dois deram olhadelas curiosas para ela ao entrar, mas nenhum disse uma palavra. Um homem zarolho com um elmo redondo e enferrujado farejou o ar e sorriu, enquanto um arqueiro com a cabeça cheia de duros cabelos loiros gritava por cerveja. Depois deles, entrou um lanceiro com um elmo encimado por um leão, um homem mais velho e coxo, um mercenário de Bravos, um...&lt;br /&gt;
- Harwin? - sussurrou Arya. E era! Sob a barba e os cabelos emaranhados encontrava-se o rosto do filho de Hullen, que costumava levar o pônei dela pelo pátio, arremeter contra o boneco com Jon e Robb, e beber em excesso em dias de festa. Estava mais magro, de certo modo mais duro, e em Winterfell nunca tinha usado barba, mas era ele... um homem de seu pai. - Harwin! - contorcendo-se, atirou-se para a frente, tentando se livrar da mão de ferro de Limo. - Sou eu - gritou -, Harwin, sou eu, não me reconhece, não me reconhece? - as lágrimas chegaram, e deu por si chorando como um bebê, exatamente como uma menininha estúpida qualquer. - Harwin, sou eu! Os olhos de Harwin desceram do rosto de Arya para o homem esfolado que trazia no gibão. - Como é que me conhece? - disse, franzindo a testa, desconfiado. - O homem esfolado... quem é você, algum criado do Lorde Sanguessuga? Por um momento, Arya não soube como responder. Tivera tantos nomes. Teria apenas sonhado com Arya Stark? - Sou uma menina - fungou. - Fui copeira de Lorde Bolton, mas ele ia me deixar com o bode, e por isso fugi com Gendry e Torta Quente. Você tem de me reconhecer! Costumava levar o meu pônei quando era pequena. Os olhos do homem esbugalharam-se. - Pela bondade dos deuses - disse, numa voz estrangulada. - Arya Debaixo-dos- -Pés? Limo, largue-a. - Ela quebrou meu nariz. - Limo largou-a sem cerimônia no chão. - Quem, com os sete infernos, é que ela deveria ser? - A filha do Mão. - Harwin ajoelhou-se diante dela. - Arya Stark, de Winterfell</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/954911550286877384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/arya.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/954911550286877384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/954911550286877384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/arya.html' title='Arya'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-7229196239600571908</id><published>2013-12-27T14:58:00.002-08:00</published><updated>2013-12-27T14:58:45.651-08:00</updated><title type='text'>Tyrion</title><content type='html'>O eunuco vinha cantarolando monocordicamente para si mesmo ao atravessar a porta, vestido com um manto leve de seda cor de pêssego e cheirando a limão. Quando viu Tyrion sentado junto à lareira, parou e ficou muito quieto. - Senhor Tyrion - soou como um guincho, pontuado por um risinho nervoso. - Ah, então você se lembra de mim? Tinha começado a duvidar, - É tão bom vê-lo com um aspecto tão forte e bem de saúde. - Varys deu o seu sorriso mais servil. - Embora tenha de confessar que não esperava encontrá-lo nos meus humildes aposentos. - E realmente são humildes. Na verdade, em excesso. - Tyrion esperara Varys ser convocado por seu pai antes de se esgueirar até ali para lhe fazer uma visita. Os aposentos do eunuco eram despojados e pequenos, três quartos confortáveis e sem janelas junto à muralha norte. - Esperava descobrir grande quantidade de cestos cheios de segredos suculentos para me entreter enquanto aguardava, mas não encontrei nem um papel. - Também procurei por passagens escondidas, sabendo que a Aranha tinha de ter maneiras de ir e vir sem ser vista, mas elas se mostraram igualmente esquivas. - Havia água em seu jarro, que os deuses tenham piedade de você - prosseguiu -, a cela onde dorme não é mais larga do que um caixão e aquela cama... é mesmo feita de pedra, ou só parece ser? Varys fechou a porta e trancou-a. - Sou atormentado por dores nas costas, senhor, e prefiro dormir sobre uma superfície dura. - Teria tomado você por um amante de colchões de plumas. - Sou uma caixinha de surpresas. Está zangado comigo por tê-lo abandonado após a batalha? - Isso fez com que pensasse em você como em alguém de minha família. - Não foi por falta de simpatia, meu bom senhor, Tenho um caráter tão delicado, e a sua cicatriz é tão terrível de observar... - Um estremecimento exagerado sacudiu-o. - O seu pobre nariz... Tyrion esfregou, irritado, a escara. - Talvez deva mandar fazer um novo, de ouro, Que tipo de nariz você sugere, Varys? Um como o seu, para farejar segredos? Ou devo dizer ao ourives que desejo o nariz de meu pai? - sorriu. - Meu nobre pai trabalha com tanta diligência que já quase não o vejo. &lt;br /&gt;
Diga-me, é verdade que ele vai restituir ao Grande Meistre Pycelle o cargo no pequeno conselho? - E, senhor. - Devo agradecer à minha querida irmã por isso? - Pycelle tinha sido uma criatura da irmã; Tyrion despojara o homem do cargo, da barba e da dignidade, e atirara-o em uma cela escura. - De modo algum, senhor. Agradeça aos arquimeistres de Vilavelha, que decidiram insistir na restituição de Pycelle com o argumento de que só o Conclave pode fazer ou desfazer um Grande Meistre. Malditos idiotas, pensou Tyrion. - Acho que me recordo que o carrasco de Maegor, o Cruel, desfez três com o seu machado. - É bem verdade - disse Varys. - E o segundo Aegon deu o Grande Meistre Gerar- dys de comer ao dragão. - Infelizmente, não disponho de um dragão. Creio que poderia ter mergulhado Pycelle em fogovivo, incendiando-o. A Cidadela teria preferido assim? - Bem, estaria mais em concordância com a tradição. - O eunuco soltou um risinho abafado. - Felizmente, cabeças mais sensatas prevaleceram, e o Conclave aceitou o fato da destituição de Pycelle e tratou de escolher seu sucessor. Depois de considerar devidamente Meistre Turquin, o filho do sapateiro, e Meistre Erreck, o bastardo do pequeno cavaleiro, assim demonstrando, para sua própria satisfação, que em sua ordem a competência conta mais do que o nascimento, o Conclave estava à beira de nos enviar o Meistre Gormon, um Tyrell de Jardim de Cima. Quando contei isso ao senhor seu pai, ele agiu de imediato. Tyrion sabia que o Conclave se reunia em Vilavelha a portas fechadas; suas deliberações eram supostamente secretas. Então Varys também tem passarinhos na Cidadela. - Entendo. Portanto meu pai decidiu apanhar a rosa antes que desabrochasse. - Não conseguiu evitar um risinho, - Pycelle é um sapo. Mas antes um sapo Lannister do que um sapo Tyrell, não é? - O Grande Meistre Pycelle sempre foi um bom amigo da sua Casa - disse Varys suavemente. - Talvez o console saber que Sor Boros Blount também vai recuperar o cargo. Cersei tinha despido Sor Boros do manto branco por não ter morrido em defesa do Príncipe Tommen quando Bronn capturou o garoto na estrada de Rosby. O homem não era amigo de Tyrion, mas depois daquilo era provável que odiasse Cersei quase com a mesma força. Suponho que isso seja alguma coisa. - Blount é um covarde fanfarrão - disse, em tom amigável.&lt;br /&gt;
- E? Deuses. Seja como for, é verdade que os cavaleiros da Guarda Real servem a vida inteira, tradicionalmente. Talvez Sor Boros se mostre mais corajoso no futuro. Irá sem dúvida permanecer muito leal. -Ao meu pai — disse Tyrion propositalmente. -Já que estamos falando da Guarda Real... pergunto a mim mesmo se esta sua visita, deliciosamente inesperada, por acaso tem algo a ver com o irmão caído de Sor Boros, o galante Sor Mandon Moore. - O eunuco afagou a bochecha empoada. - Nos últimos tempos, seu amigo Bronn parece muito interessado nele. Bronn tinha desenterrado tudo que pôde sobre Sor Mandon, mas não havia dúvida de que Varys poderia lhe dizer muito mais... se decidisse dividir o que sabia. - O homem parece ter sido bastante desprovido de amigos - disse Tyrion, com cautela. - Lamentavelmente - disse Varys -, oh, lamentavelmente. Talvez conseguisse encontrar alguns familiares se revirasse algumas pedras no Vale, mas aqui... Lorde Arryn trouxe- -o para Porto Real e Robert deu-lhe seu manto branco, mas temo que nenhum dos dois gostasse muito dele. Nem era o tipo de homem que os plebeus aplaudem nos torneios, apesar de sua indubitável perícia. Ora, até seus irmãos da Guarda Real nunca chegaram a nutrir por ele amizade. Certa vez, ouviram Sor Barristan dizer que o homem não tinha nenhum amigo fora a espada e nenhuma vida para além do dever... mas, entenda, não creio que Selmy dissesse isso inteiramente como elogio. E isso é estranho, se pensarmos no assunto, não é? Daria para dizer que são essas as exatas qualidades que procuramos para a nossa Guarda Real... homens que não vivem para si, mas para o seu rei. Visto sob essa luz, nosso bravo Sor Mandon era o perfeito cavaleiro branco. E morreu como um cavaleiro da Guarda Real devia morrer, de espada na mão, defendendo um homem do sangue do rei. - O eunuco brindou-o com um sorriso bajulador e observou-o atentamente. Tentando assassinar um homem do sangue do rei, você quer dizer. Tyrion perguntou-se se Varys saberia mais a respeito do que estava dizendo. Nada do que acabara de ouvir era novo; Bronn tinha lhe trazido notícias muito semelhantes. Precisava de uma ligação com Cersei, alguma indicação de que Sor Mandon havia sido uma marionete da irmã. O que queremos nem sempre é o que obtemos, refletiu, com amargura, o que lhe fez lembrar... - Não é Sor Mandon que me traz aqui. - Certamente. - O eunuco atravessou a sala e pegou o jarro de água. - Posso servi-lo, senhor? - perguntou enquanto enchia uma taça. - Sim. Mas não com água. - Juntou as mãos. - Quero que me traga Shae.&lt;br /&gt;
Varys bebericou. - Isso será sensato, senhor? A querida e doce criança. Seria uma pena tão grande se o seu pai a enforcasse. Não o surpreendeu que Varys soubesse. - Não, não é sensato, é uma maldita loucura. Quero vê-la uma última vez, antes de mandá-la embora. Não consigo tolerar tê-la tão perto. - Compreendo. Como você pode compreender? Ainda no dia anterior Tyrion a vira, subindo a escada em espiral com um balde de água. Ficara vendo um jovem cavaleiro oferecendo-se para levar o pesado balde. O modo como ela tocou o braço dele e sorriu havia dado nós nas entranhas de Tyrion. Tinham passado a centímetros um do outro, ele descendo e ela subindo, tão perto que conseguira sentir o cheiro fresco e limpo de seus cabelos. Ela disse &quot;Senhor&quot; para ele, com uma pequena reverência, e ele quís estender a mão, agarrá-la e beijá-la logo ali, mas tudo que pôde fazer foi dar um rígido aceno de cabeça e seguir, bamboleando, o seu caminho. - Vi-a várias vezes - disse a Varys mas não me atrevo a falar com ela. Suspeito que todos os meus movimentos estão sendo vigiados. - Essa suspeita mostra a sua sensatez, meu bom senhor. - Quem? - Tyrion inclinou a cabeça. - Os Kettleblack entregam freqüentes relatórios à sua querida irmã. - Quando penso em todo o dinheiro que paguei a esses miseráveis... acha que há alguma hipótese de mais ouro reconquistá-los? -Há sempre uma hipótese, mas eu não apostaria nisso. Eles agora são cavaleiros, todos os três, e sua irmã prometeu-lhes mais promoções. - Um risinho abafado e perverso irrompeu de entre os lábios do eunuco. - E o mais velho, Sor Osmund da Guarda Real, sonha também com outros certos... favores. Você pode igualar a rainha moeda a moeda, não duvido, mas ela tem uma segunda bolsa que é bastante inesgotável. Sete infernos, pensou Tyrion. - Está sugerindo que Cersei anda fodendo o Osmund Kettleblack? - Oh, deuses, não, isso seria terrivelmente perigoso, não acha? Não, a rainha só sugere... talvez amanhã, ou depois do casamento... e depois um sorriso, um sussurro, um gracejo irreverente... um seio roçando levemente na manga dele quando se cruzam... e no entanto parece funcionar. Mas o que um eunuco poderia saber dessas coisas? - a ponta de sua língua correu pelo lábio inferior como um animal tímido e cor-de-rosa. Se conseguisse de algum modo levá-los afazer mais do que carícias dissimuladas, arranjar uma maneira de o pai pegá-los juntos na cama... Tyrion levou os dedos à escara do nariz. Não via como isso seria realizável, mas talvez lhe ocorresse algum plano mais tarde. - Os Kettleblack são os únicos?&lt;br /&gt;
- Bom seria se assim fosse, senhor. Temo que haja muitos olhos postos em você. E... como direi? Impossível de ignorarí E não muito amado, lamento dizê-lo. Os filhos de Ja- nos Slynt iriam denunciá-lo de bom grado para vingar o pai, e o nosso querido Lorde Pe- tyr tem amigos em metade dos bordéis de Porto Real. Se fosse suficientemente insensato para visitar um qualquer, ele saberia de imediato, e o senhor seu pai, pouco depois. Ê ainda pior do que eu temia. - E o meu pai? Quem ele tem para me espiar? Dessa vez o eunuco riu alto. - Ora, eu, senhor. Tyrion também riu, Não era suficientemente tolo para confiar mais em Varys do que era obrigado,., mas o eunuco já sabia o suficiente sobre Shae para que ela fosse facilmente enforcada. - Você vai me trazer Shae através das paredes, escondida de todos esses olhos. Como fez antes. Varys torceu as mãos. - Oh, senhor, nada me agradaria mais, mas... o Rei Maegor não queria ratazanas em suas paredes, se entende o que quero dizer. Ele exigiu uma maneira de sair secretamente, para o caso de ficar alguma vez encurralado por seus inimigos, mas essa porta não tem ligação com nenhuma outra passagem. Posso roubar a sua Shae da Senhora Lollys durante algum tempo, com certeza, mas não tenho como levá-la até o seu quarto sem que sejamos vistos. - Então leve-a a outro lugar qualquer. - Mas onde? Não há lugar seguro. - Há, - Tyrion deu um sorriso. - Aqui. E hora de dar um uso melhor àquela sua cama dura como pedra, creio eu. A boca do eunuco abriu-se. Depois soltou um risinho. - Lollys cansa-se facilmente nos dias atuais. Está muito grávida. Imagino que estará dormindo em segurança por volta do nascer da lua. Tyrion saltou da cadeira. - Então será ao nascer da lua. Trate de arranjar algum vinho. E duas taças limpas. Varys fez uma reverência. - Será feito como o senhor ordena. O resto do dia pareceu rastejar, lento como um verme em melaço, Tyrion subiu até a biblioteca do castelo e tentou se distrair com a História das guerras de Roine, de Beldecar, mas quase nem conseguia ver os elefantes, com a imaginação ocupada como estava pelo sorriso de Shae. Quando a tarde chegou, pôs o livro de lado e pediu um banho. Esfregou- -se até a água esfriar, e depois ordenou que Pod aparasse sua barba. Esta era uma provação para si mesmo; um emaranhado de pelos&lt;br /&gt;
amarelos, brancos e pretos, irregular e grosseira, raramente menos do que desagradável à vista, mas servia para esconder parte de seu rosto, e isso era sempre bom. Quando ficou tão limpo, cor-de-rosa e aparado como lhe era possível, Tyrion vasculhou o guarda-roupa e escolheu um par de calções apertados de cetim, do carmesim Lannister, e seu melhor gibão, o de pesado veludo negro com os rebites em forma de cabeça de leão. Teria colocado também a sua corrente de mãos douradas, se o pai não a tivesse roubado dele enquanto estava à beira da morte. Só depois de se vestir é que compreendeu a que ponto aquela loucura tinha chegado. Sete infernos, anão, perdeu todo o juízo quando perdeu o nariz? Qualquer pessoa que o veja vai querer saber por que vestiu a roupa para audiências para visitar o eunuco. Praguejando, Tyrion despiu-se e voltou a vestir-se, com um traje mais simples; calções pretos de lã, uma velha túnica branca e um gibão de couro marrom desbotado. Não importa, disse a si mesmo enquanto esperava que a lua nascesse. Vista o que vestir, continua sendo um anão. Nunca será tão alto como aquele cavaleiro na escada, com as suas longas pernas retas, barriga dura e largos ombros viris. A luz se projetava sobre a muralha do castelo quando disse a Podrick Payne que ia visitar Varys. - Vai demorar, senhor? - perguntou o garoto. - Ah, espero que sim. Com a Fortaleza Vermelha tão cheia de gente, Tyrion não podia acalentar a esperança de passar despercebido, Sor Balon Swann estava de guarda junto à porta, e Sor Loras Tyrell, à ponte levadiça. Parou para trocar amabilidades com ambos. Era estranho ver o Cavaleiro das Flores todo de branco quando anteriormente andara sempre tão colorido como um arco-íris. - Quantos anos você tem, Sor Loras? - perguntou-lhe. - Dezessete, senhor. Dezessete, belo, e já uma lenda. Metade das garotas dos Sete Reinos querem dormir com ele, e todos os rapazes querem ser ele. - Se me perdoa a pergunta, sor... por que é que alguém escolhe se juntar à Guarda Real aos dezessete anos? - O Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, proferiu os votos aos dezessete - disse Sor Loras -, e o seu irmão Jaime era ainda mais novo. - Eu conheço os motivos deles. Quais são os seus? A honra de servir junto a modelos de cavalaria como Meryn Trant e Boros Blount? - deu ao rapaz um sorriso zombeteiro. - Para defender a vida do rei, desistiu da sua. Abriu mão de suas terras e títulos, perdeu a esperança num casamento, em filhos...&lt;br /&gt;
- A Casa Tyrell continua por meio de meus irmãos - disse Sor Loras. - Não é necessário que um terceiro filho se case, ou se reproduza. - Não é necessário, mas há quem ache isso prazeroso. E o amor? - Depois de o sol se pôr, não há vela que possa substituí-lo. - Isso vem de uma canção? - Tyrion inclinou a cabeça, sorrindo. - Sim, tem dezessete anos. Agora entendo. Sor Loras retesou-se. - Está caçoando de mim? Um rapaz suscetível. - Não. Se o ofendi, perdoe-me. Um dia eu mesmo tive uma amada, e nós também tínhamos uma canção. Amei uma donzela bela como o verão, com luz do sol nos cabelos. - Desejou a Sor Loras uma boa noite e prosseguiu o seu caminho. Perto dos canis, um grupo de homens de armas assistiam a uma luta de cães. Tyrion parou tempo suficiente para ver o cão menor arrancar metade do focinho do maior, e conquistou algumas gargalhadas ao observar que o perdedor se assemelhava agora a San- dor Clegane. Então, esperando ter desarmado a desconfiança dos homens, prosseguiu na direção da muralha norte e desceu a curta escadaria que levava à pobre habitação do eunuco. A porta abriu-se no momento em que erguia a mão para bater. - Varys? - Tyrion deslizou para dentro. - Você está aí? - Uma única vela iluminava as trevas, enchendo o ar com o cheiro de jasmim. - Senhor. - Uma mulher surgiu à luz; roliça, suave, com aspecto de matrona e um rosto que mais parecia uma lua redonda e cor-de-rosa, além de pesados caracóis escuros. Tyrion recuou. - Há algo errado? - perguntou a mulher. Varys, compreendeu Tyrion, aborrecido. - Por um horrível momento pensei que tivesse me trazido Lollys em vez de Shae. Onde está ela? - Aqui, senhor. - Ela pôs as mãos sobre seus olhos, por trás. - Será capaz de adivinhar o que estou vestindo? -Nada? -Oh, é tão esperto - disse ela, fazendo beicinho e afastando as mãos. - Como sabia? - E muito bela dentro de nada. - Sou? - disse ela. - Sou mesmo? - Oh, sim. - Então não devia estar me fodendo em vez de falando? - Primeiro temos de nos livrar da Senhora Varys. Não sou um daqueles anões que gostam de público. - Ele foi embora - disse Shae.&lt;br /&gt;
Tyrion virou-se para olhar. Era verdade. O eunuco havia desaparecido, com saias e tudo. As portas escondidas estão aqui, em algum lugar, têm de estar. Foi tudo em que teve tempo de pensar antes que Shae lhe virasse a cabeça para beijá-lo. A boca dela estava úmida e esfomeada, e ela nem sequer parecia ver a sua cicatriz, ou a escara em carne viva que agora tinha no local onde antes o nariz esteve. A pele da moça era seda morna sob os seus dedos. Quando o polegar roçou no mamilo esquerdo dela, ele endureceu de imediato. - Depressa - ela pediu, entre beijos, enquanto os dedos dele se dirigiam às ataduras oh, depressa, depressa, quero você dentro de mim, dentro de mim, dentro de mim. - Tyrion sequer teve tempo para se despir como deveria. Shae puxou seu pau para fora dos calções, empurrou-o para o chão e trepou em cima dele. Gritou quando Tyrion atravessou seus lábios e montou-o violentamente, gemendo: - Meu gigante, meu gigante, meu gigante - sempre que se lançava contra ele. Tyrion estava tão ardente que explodiu no quinto empurrão, mas Shae não pareceu se importar. Deu um sorriso maroto quando o sentiu ejacular e debruçou-se para a frente para beijar o suor de sua testa. - Meu gigante de Lannister - murmurou. - Fique dentro de mim, por favor. Gosto de senti-lo aí. Então Tyrion não se moveu, exceto para pôr os braços em volta dela. E tão bom abraçá-la, e ser abraçado, pensou. Como pode uma coisa tão doce ser um crime que justifique enforcá-la? - Shae - disse -, querida, esta tem de ser a última vez que ficamos juntos, O perigo é grande demais. Se o senhor meu pai encontrá-la... - Gosto da sua cicatriz. - A moça percorreu-a com um dedo. - Faz com que pareça muito feroz e forte. Ele soltou uma gargalhada. - Muito feio, você quer dizer. - O senhor nunca será feio aos meus olhos. - Ela beijou a escara que cobria os restos destroçados do seu nariz. - Não é o meu rosto que deve preocupá-la, é o meu pai... - Ele não me assusta. O senhor vai me devolver agora as jóias e as sedas? Perguntei a Varys se ele podia me dá-las quando você foi ferido na batalha, mas ele não quis. Que teria acontecido com elas se tivesse morrido? - Não morri. Aqui estou. - Eu sei. - Shae contorceu-se em cima dele, sorrindo. - Bem no lugar certo. - Fez beicinho. - Mas por quanto tempo tenho de continuar com Lollys, agora que está bem? - Não está ouvindo? - disse Tyrion. - Pode ficar com Lollys se quiser, mas seria melhor se saísse da cidade.&lt;br /&gt;
- Não quero sair. O senhor me prometeu que eu voltaria a me mudar para uma mansão depois da batalha. - A boceta dela deu-lhe um pequeno apertão, e ele começou a enrijecer de novo, dentro dela. - Um Lannister sempre paga as suas dívidas, você disse. - Shae, malditos sejam os deuses, pare com isso. Escute-me. Você tem de ir embora. Agora a cidade está cheia de Tyrells, e eu sou vigiado de perto. Você não compreende os perigos. - Posso ir ao banquete de casamento do rei? A Lollys não quer ir. Disse-lhe que ninguém deverá estuprá-la na sala do trono do rei, mas ela é tão burra, - Quando Shae rolou de cima de Tyrion, o pau dele escorregou para fora com um som suave e úmido. - O Symon diz que vai haver um torneio de cantores, e acrobatas, e até uma justa de bobos. Tyrion tinha quase se esquecido do três vezes maldito cantor de Shae. - Como foi que falou com Symon? - Falei dele à Senhora Tanda, e ela contratou-o para tocar para Lollys. A música acalma-a quando o bebê começa a chutar. Symon diz que vai haver um urso dançarino no banquete, e vinhos da Árvore. Nunca vi um urso dançar. - Dançam pior do que eu. - O que o preocupava era o cantor, não o urso. Uma palavra descuidada ao ouvido errado, e Shae seria enforcada. - Symon diz que vai haver setenta e sete pratos e uma grande torta com cem pombas lá dentro - prosseguiu Shae. - Quando a crosta for aberta, todas vão sair e levantar voo. - E em seguida irão se empoleirar nas vigas do teto e fazer chover cocô de pássaro sobre os convidados. - Tyrion já sofrerá com aquele tipo de torta de casamento. As pombas gostavam especialmente de cagar em cima dele, ou pelo menos sempre tinha suspeitado disso. - Eu não poderia vestir as minhas sedas e veludos e ir como uma senhora em vez de uma criada de quarto? Ninguém saberia que não sou uma senhora. Todo mundo saberia que não é uma senhora, pensou Tyrion. - A Senhora Tanda podia sentir curiosidade em saber onde a aia de Lollys teria arranjado tantas jóias. - Symon diz que vai haver mil convidados. Ela nunca me veria. Eu encontraria um lugar em algum canto escuro abaixo do sal, mas sempre que se levantasse para ir à latrina, eu poderia escapulir e ir encontrá-lo. - Envolveu a pica dele nas mãos e afagou-a com suavidade. - Não levaria roupas de baixo sob o vestido, para que o senhor nem precisasse me desatar. - Os dedos dela brincaram com ele, para cima e para baixo. - Ou, se quisesse, podia fazer-lhe isto. - Enfiou-o na boca. Tyrion ficou pronto de novo depressa. Daquela vez durou muito mais tempo. Quando terminou, Shae voltou a rolar para cima dele e aninhou-se por baixo de seu braço.&lt;br /&gt;
- Vai me deixar ir, não vai? - Shae - gemeu -, não é seguro. Durante algum tempo, ela não disse uma palavra. Tyrion tentou falar em outras coisas, mas deparou com uma muralha de cortesia amuada, tão gelada e inflexível como a Muralha por onde caminhara uma vez, no norte. Deuses, sejam bons, pensou, fatigado, enquanto observava a vela queimando e começando a oscilar, como deixei que isso voltasse a acontecer, depois de Tysha? Será que sou um tolo tão grande como o meu pai pensa? De bom grado lhe teria feito a promessa que ela queria, e de bom grado voltaria com ela para o seu quarto, de braço dado, para deixá-la vestir as sedas e os veludos de que tanto gostava. Se a escolha fosse sua, ela poderia sentar-se a seu lado no banquete de casamento de Joffrey, e dançaria com todos os ursos que quisesse. Mas não podia vê-la enforcada. Quando a vela se apagou, Tyrion desprendeu-se e acendeu outra. Então fez uma ronda pelas paredes, batendo em todas, uma de cada vez, em busca da porta escondida. Shae sentou-se com as pernas dobradas próximas ao peito e os braços enrolados em volta delas, observando-o. Por fim, disse: - Estão debaixo da cama. Os degraus secretos. Ele olhou-a, incrédulo. - A cama? A cama é de pedra sólida. Pesa meia tonelada. - Há um lugar onde Varys empurra, e a cama flutua para cima. Perguntei-lhe como fazia aquilo, e ele disse que era magia. - Sim. - Tyrion teve de sorrir. - Um feitiço de contrapeso, Shae ficou em pé. - Eu devia voltar. Às vezes o bebê chuta e Lollys acorda e me chama. - Varys deve voltar em breve. Provavelmente está escutando todas as palavras que diremos. - Tyrion apoiou a vela. Havia um ponto úmido na parte da frente dos seus calções, mas na escuridão devia passar despercebido. Disse a Shae para se vestir e esperar pelo eunuco. - Eu espero — ela prometeu. - É o meu leão, não é? O meu gigante de Lannister? - Sou - disse ele. - E você é... - ... a sua rameira. - Ela pôs um dedo nos lábios dele. - Eu sei. Gostaria de ser a sua senhora, mas não posso. Se fosse, você iria me levar ao banquete. Não importa. Gosto de ser rameira para o senhor, Tyrion. Basta que me mantenha, meu leão, e que me mantenha a salvo. - Manterei - prometeu ele. Tolo, tolo, gritou a sua voz interior. Por que disse isso? Veio aqui para mandá-la embora! Em vez disso, voltou a beijá-la.&lt;br /&gt;
O caminho de volta pareceu longo e solitário. Podrick Payne estava dormindo em sua bicama, aos pés da de Tyrion, mas este acordou o rapaz. - Bronn - disse. - Sor Bronn? - Pod afastou o sono dos olhos com as mãos. - Oh. Devo ir chamá-lo? Senhor? - Ora, não, acordei você para termos uma conversinha sobre a maneira como ele se veste - disse Tyrion, mas o sarcasmo foi desperdiçado. Pod limitou-se a olhá-lo de boca aberta, confuso, até que o anão jogou as mãos para o ar e disse: - Sim, vá buscá-lo. Traga-o aqui. Já. O rapaz vestiu-se às pressas e saiu do quarto praticamente correndo. Sou mesmo tão aterrorizado)&quot; assim?, perguntou Tyrion a si mesmo, enquanto se despia, vestia um roupão e se servia de um pouco de vinho. Bebia a terceira taça, depois de ter decorrido metade da noite, quando Pod finalmente retornou, rebocando o cavaleiro mercenário. - Espero que o rapaz tenha mesmo uma razão muito boa para me arrastar para fora da casa de Chataya - disse Bronn enquanto se sentava. - Da casa de Chataya? - disse Tyrion, aborrecido. - E bom ser um cavaleiro. Foi-se o tempo de andar à procura dos bordéis mais baratos no fim da rua, - Bronn sorriu. - Agora é Alayaya e Marei na mesma cama de plumas, com Sor Bronn no meio, Tyrion teve de reprimir o incômodo. Bronn tinha tanto direito de se deitar com Alayaya quanto qualquer outro homem, mesmo assim... Nunca toquei nela, por mais que a desejasse, mas Bronn não podia saber disso. Devia ter mantido o pau longe dela. Ele mesmo não se atrevia a visitar a casa de Chataya. Se o fizesse, Cersei se certificaria de que o pai ficasse sabendo, e Alayaya sofreria mais do que algumas chicotadas. Enviara à moça um colar de prata e jade e um par de pulseiras combinando, como forma de desculpa, mas, além disso... Isso não leva a nada. - Há um cantor que chama a si mesmo de Symon Língua de Prata - disse Tyrion num tom fatigado, afastando a culpa. - As vezes toca para a filha da Senhora Tanda. - Que tem ele? Podia ter dito: Mate-o, mas o homem nada havia feito além de cantar algumas canções. E encher a linda cabeça de Shae com visões de pombas e ursos dançarinos. - Encontre-o - acabou por dizer. - Encontre-o antes que outros o façam</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/7229196239600571908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/tyrion.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7229196239600571908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/7229196239600571908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/tyrion.html' title='Tyrion'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-2116908330969168284</id><published>2013-12-27T14:57:00.002-08:00</published><updated>2013-12-27T14:57:07.285-08:00</updated><title type='text'>James</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Jaime foi o primeiro a ver a estalagem. O edifício principal
cingia a margem sul no local onde o rio virava, com as longas e baixas janelas
estendendo-se ao longo da água como que para abraçar os viajantes que velejavam
seguindo a corrente. O andar inferior era de pedra cinza, o superior, de
madeira caiada, o telhado, de ardósia. Também via estábulos, e um caramanchão
repleto de trepadeiras. - Não há fumaça nas chaminés - destacou quando se
aproximaram. - Nem luzes nas janelas. - A estalagem ainda estava aberta da
última vez que passei por aqui - disse Sor Cleos Frey. - Fermentavam uma boa
cerveja. Talvez ainda haja um pouco na adega. - Pode haver gente - disse
Brienne, - Escondida. Ou morta. - Assustada por meia dúzia de cadáveres,
garota? - indagou Jaime. Ela o atravessou com os olhos. - Meu nome é... - ...
Brienne, sim. Não gostaria de dormir numa cama por uma noite, Brienne?
Estaríamos mais seguros do que em rio aberto, e pode ser prudente descobrir o
que aconteceu aqui. Ela não respondeu, mas após um momento moveu a cana do leme
para virar o esquife na direção da gasta doca de madeira. Sor Cleos baixou
desajeitadamente a vela. Quando bateram suavemente no cais, saltou para fora do
barco para amarrá-lo. Jaime escalou atrás dele, de forma desastrada, por causa
das correntes. Na extremidade da doca, uma telha lascada de madeira pendia de
um poste de ferro, pintada com a imagem de um rei de joelhos, com as mãos
unidas num gesto de lealdade. Jaime deu uma olhada para ela e riu alto. - Não
poderíamos ter encontrado estalagem melhor. - Este é algum lugar especial? -
perguntou a garota, desconfiada. Sor Cleos respondeu. - Esta é a Estalagem do
Ajoelhado, senhora. Fica no exato local onde o último Rei no Norte ajoelhou
perante Aegon, o Conquistador, para lhe oferecer a sua submissão. Suponho que
seja ele retratado na tabuleta. - Torrhen tinha trazido suas forças ao sul
depois da queda dos dois reis no Campo Fogo - disse Jaime -, mas quando viu o dragão
de Aegon e o J &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
tamanho da sua tropa, escolheu o caminho sensato, e dobrou
seus joelhos gelados. - Interrompeu-se ao ouvir o relincho de um cavalo. -
Cavalos no estábulo. Pelo menos um. - E um é tudo que preciso para deixar a
garota para trás. - Vamos ver quem está em casa, que tal? - Sem esperar
resposta, Jaime seguiu tinindo ao longo da doca, encostou um ombro na porta,
abriu-a com um empurrão... ... e viu-se frente a frente com uma besta
carregada. Em pé, atrás dela, estava um atar- racado garoto de quinze anos. -
Leão, peixe ou lobo? - exigiu saber o jovem. - Tínhamos esperança de que
houvesse um capão. - Jaime ouviu os companheiros entrando atrás dele. - A besta
é uma arma de covarde. - Espeto um dardo em seu coração mesmo assim, - Talvez.
Mas antes que possa voltar a carregá-la, o meu primo aqui derrama suas tripas
pelo chão. - Não assuste o rapaz - disse Sor Cleos. - Não lhe desejamos nenhum
mal - disse a garota. - E temos moedas para pagar por comida e bebida. - Tirou
uma peça de prata da bolsa. O rapaz olhou desconfiado para a moeda e depois
para as algemas de Jaime. - Por que é que ele está acorrentado? - Matei alguns
besteiros - disse Jaime. - Tem cerveja? - Sim, - O rapaz baixou a besta dois
centímetros. - Soltem os cintos das espadas e deixem-nos cair, e pode ser que
lhes demos de comer. - Deu a volta cautelosamente para espiar através dos
espessos vidros das janelas, em forma de losango, e ver se havia mais alguém lá
fora. - Aquela é uma vela Tully. - Viemos de Correrrio. - Brienne desafivelou o
cinto e deixou-o retinir no chão, Sor Cleos imitou-a. Um homem pálido com um
rosto bexiguento e pouco saudável entrou pela porta da adega com um pesado
cutelo de açougueiro na mão. - São três, hã? Temos carne de cavalo suficiente
para três. O cavalo era velho e rijo, mas a carne ainda está fresca. - Tem pão?
- perguntou Brienne. - Pão duro e bolos de aveia amanhecidos. Jaime abriu um
sorriso. - Ora, eis um estalajadeiro honesto. Todos nos servem pão amanhecido e
carne fi- brosa, mas a maioria não admite isso tão claramente. - Não sou
estalajadeiro coisa nenhuma. Enterrei-o lá atrás, com as mulheres. - Matou-os?
- E eu lhe diria se o tivesse matado? - o homem escarrou. - O mais provável é
que tenha sido trabalho de lobos, ou talvez de leões, qual é a &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
diferença? Eu e a mulher os encontramos mortos. Da maneira
que vemos as coisas, o lugar agora é nosso. - Onde está essa sua mulher? -
perguntou Sor Cleos. O homem deu-lhe uma olhada desconfiada de viés. - E por
que é que quer saber isso? Não está aqui,., tal como vocês não estarão, a menos
que eu goste do sabor da sua prata. Brienne atirou-lhe a moeda. Ele apanhou-a
no ar, mordeu-a e enfiou-a no bolso. - Ela tem mais - anunciou o garoto com a
besta. - Se tem. Rapaz, vá lá embaixo e traga-me algumas cebolas. O moço
colocou a besta no ombro, lançou um ultimo olhar mal-humorado e desapareceu na
adega. - Seu filho? - perguntou Sor Cleos. - Só um garoto que eu e a mulher
acolhemos. Tínhamos dois filhos, mas os leões mataram um deles e o outro morreu
de diarréia. O rapaz perdeu a mãe para os Saltimbancos Sangrentos. Nos dias de
hoje, um homem precisa de alguém que fique de vigia enquanto dorme. - Indicou
as mesas com o cutelo. - Pois bem, podem se sentar. A lareira estava fria, mas
Jaime escolheu a cadeira mais próxima das cinzas e estendeu suas longas pernas
por baixo da mesa. O tinir das correntes acompanhava o menor de seus
movimentos. Um ruído irritante. Antes de isso acabar, ainda enrolo estas
correntes cm volta da garganta da garota, veremos se ela gosta delas então. O
homem que não era estalajadeiro chamuscou três enormes bifes de cavalo e fritou
as cebolas em gordura de bacon, o que quase compensou os bolos de aveia
amanhecidos. Jaime e Cleos beberam cerveja, Brienne, uma taça de sidra. O rapaz
manteve distância, empoleirado num barril de sidra com a besta pousada nos
joelhos, pronta para disparar. 0 cozinheiro serviu-se de uma caneca de cerveja
e sentou-se com eles. - Quais são as notícias de Correrrio? - perguntou a Sor
Cleos, tomando-o por chefe do grupo. Sor Cleos olhou Brienne de relance antes
de responder. - Lorde Hoster está moribundo, mas o filho defende os vaus do
Ramo Vermelho contra os Lannister. Houve batalhas. - Há batalhas por todo lado.
Para onde vão, sor? - Porto Real. - Sor Cleos limpou a gordura dos lábios. O
anfitrião resfolegou. - Então são loucos. Segundo as últimas notícias que ouvi,
o Rei Stannis estava às portas da cidade. Dizem que tem cem mil homens e uma
espada mágica. As mãos de Jaime fecharam-se em volta da corrente que lhe
prendia os pulsos, e torceu-a, retesando-a, desejando ter forças para quebrá-la
em &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
duas. Então vou mostrar a Stannis onde deve embainhar a sua
espada mágica. - Se fosse vocês, ficaria bem longe da estrada do rei -
prosseguiu o homem. - E pior do que ruim, segundo dizem. Tanto lobos como
leões, e bandos de homens sem bandeira que atacam qualquer um que consigam
apanhar. - - Ralé - declarou Sor Cleos com desprezo. - Gente assim nunca se
atreveria a causar | problemas a homens armados. - - Com a sua licença, sor,
mas estou vendo um homem armado, viajando com uma | mulher e um prisioneiro
acorrentado. - Brienne lançou ao cozinheiro um olhar duro. A garota odeia mesmo
que lhe seja lembrado que e uma garota, refletiu Jaime, voltando a torcer as
correntes. Sentia os elos frios e duros, contra a pele, sentia o ferro
implacável. As algemas tinham deixado seus pulsos em carne viva. - - Pretendo
seguir o Tridente até o mar - disse a garota ao anfitrião. - Arranjaremos
montarias em Lagoa da Donzela e seguiremos via Valdocaso e Rosby. Isso deve nos
manter bem longe do pior da batalha. - O anfitrião balançou a cabeça. - - Nunca
chegará à Lagoa da Donzela por rio. A menos de cinqüenta quilômetros daqui,
alguns barcos foram queimados e afundaram, e o canal se assoreou em volta
deles. Ali há um ninho de fora da lei que ataca qualquer um que tente passar, e
existem outros como mesmo perfil mais para baixo, em volta das Pedras
Saltitantes e da Ilha do Veado Vermelho. E o senhor do relâmpago também foi
visto por essa região. Atravessa o rio onde bem quer, passando para cá e para
lá, sempre em movimento. - E quem é esse senhor do relâmpago? - quis saber Sor
Cleos Frey. - E Lorde Beric, com a sua licença, sor. Dão-lhe esse nome porque
ataca repentinamente, como um relâmpago vindo de um céu sem nuvens. Dizem que
não pode morrer. Todos eles morrem quando se enfia uma espada no corpo deles,
pensou Jaime. - Thoros de Myr ainda o acompanha? - Sim. O feiticeiro vermelho.
Ouvi dizer que tem estranhos poderes. Bem, tinha o poder de acompanhar Robert Baratheon
na bebida, e eram bem poucos os que podiam se gabar disso. Jaime ouvira uma vez
Thoros dizer ao rei que havia se tornado sacerdote vermelho porque as vestes
escondiam muito bem as manchas de vinho. Robert riu tanto que encheu de cerveja
o manto de seda de Cersei. - Longe de mim questionar - disse -, mas talvez o
Tridente não seja a nossa rota mais segura. - Eu diria que é verdade -
concordou o cozinheiro. - Mesmo se passarem da Ilha do Veado Vermelho sem
encontrar Lorde Beric e o &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
feiticeiro vermelho, ainda terão à sua frente o vau rubi. Da
última vez que ouvi notícias, eram os lobos do Lorde Sanguessuga que defendiam
o vau, mas isso foi já há algum tempo. A essa altura podem ter voltado a ser os
leões, ou Lorde Beric, ou seja lá quem for. - Ou ninguém - sugeriu Brienne. -
Se a senhora quer apostar a pele nisso, eu não a impedirei... mas se fosse
vocês, deixaria este rio aqui, cortaria caminho por terra. Se permanecerem
longe das estradas principais e se abrigarem debaixo das árvores à noite, meio
que escondidos... bem, ainda não quereria ir com vocês, mas talvez tenham uma
pequena chance. A grande garota estava com uma expressão de dúvida. -
Precisaríamos de cavalos. - Aqui há cavalos - ressaltou Jaime. - Ouvi um nos
estábulos. - Sim, há cavalos - disse o estalajadeiro que não era estalajadeiro.
- E logo três, por acaso, mas não estão à venda. Jaime não conseguiu evitar uma
gargalhada. - Claro que não. Mas vai nos mostrá-los mesmo assim. Brienne
franziu a testa, mas o homem que não era estalajadeiro enfrentou seu olhar sem
piscar, e um momento depois, relutantemente, ela disse: - Mostre-me - e todos
se ergueram da mesa. Os estábulos não eram limpos havia muito tempo, julgando
pelo cheiro que exalavam. Centenas de gordas moscas pretas esvoaçavam por entre
a palha, zumbindo de cocheira em cocheira e passeando sobre os montículos de
esterco de cavalo que se espalhavam por todo lado, mas só se viam três cavalos.
Eram um trio improvável: um pesado cavalo de tração castanho, um castrado
branco, muito velho, cego de um olho, e o palafrém de um cavaleiro, sarapintado
de cinza e vivaz. - Não estão à venda por nenhum preço - anunciou seu alegado
dono. - Como arranjou estes cavalos? - quis saber Brienne. - O de tração estava
preso aqui quando a mulher e eu chegamos à estalagem - disse o homem - com
aquele que você acabou de comer. O castrado apareceu uma noite, e o garoto
apanhou o palafrém que corria por aí, livre, ainda selado e com rédeas. Venham,
eu mostro a vocês. A sela que lhes mostrou estava decorada com relevos de
prata. O xairel tinha sido originalmente axadrezado de rosa e negro, mas agora
era fundamentalmente marrom. Jaime não reconhecia as cores originais, mas
reconhecia manchas de sangue com bastante facilidade. - Bem, o dono não virá
pedi-lo de volta tão cedo. - Examinou as patas do palafrém, contou os dentes do
castrado. - Dê uma peça de ouro pelo cinza, se incluir a sela - aconselhou a
Brienne. - Uma de prata pelo cavalo de tração. Ele devia nos pagar por tirarmos
o branco das mãos dele. &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Não fale sem cortesia do seu próprio cavalo, sor. - A
garota abriu a bolsa que a Senhora Catelyn havia lhe dado e tirou três moedas
de ouro. - Pago um dragão por cada um. O homem pestanejou e estendeu a mão para
o ouro, e depois hesitou e recolheu a mão. - Não sei. Não posso montar um
dragão de ouro se precisar ir embora. Nem comê-lo, se tiver fome. - Pode também
ficar com o nosso esquife - disse ela, - Viaje para cima ou para baixo no rio,
como quiser. - Deixe-me ver que gosto tem esse ouro. - O homem tirou uma das moedas
da palma da mão de Brienne e mordeu-a. - Hum. Diria que é verdadeiro o
bastante. Três dragões e o esquife? - Ele está lhe roubando, garota - disse
Jaime amigavelmente. - Também vou querer provisões - disse Brienne ao
anfitrião, ignorando Jaime. - Seja 0 que for que possa nos arranjar. - Há mais
bolos de aveia. - O homem recolheu os outros dois dragões da palma da mão dela
e sacudiu-os no punho fechado, sorrindo do som que faziam. - Bem, e peixe
defumado e salgado, mas isso vai lhes custar prata. As minhas camas também vão
custar dinheiro. Vão querer passar a noite aqui. - - Não - disse Brienne de
imediato. O homem franziu a testa para ela. - Mulher, você não quer cavalgar de
noite por uma região onde nunca esteve e em cavalos que não conhece. O mais certo
é que acabe tropeçando em algum brejo ou quebre uma pata do cavalo. - - A lua
estará brilhante esta noite - disse Brienne. - Não teremos nenhum problema
encontrar o nosso caminho.&amp;nbsp; - O anfitrião
remoeu aquilo. - - Se não tem a prata, pode ser que alguns cobres paguem por
suas camas e uma ou duas colchas para se manterem aquecidos. Não estou
propriamente dispensando viajantes, se entende onde quero chegar. - Isso parece
mais do que justo - disse Sor Cleos. - E as colchas até estão recém-lavadas. A
mulher tratou disso antes de precisar ir embora. E não há nem uma pulga nelas,
tem a minha palavra quanto a isso. - Voltou a sacudir as moedas, sorrindo. Sor
Cleos estava claramente tentado. - Uma cama apropriada faria bem a todos nós,
senhora - disse a Brienne. - Faríamos um tempo melhor amanha, depois de
descansarmos. - Olhou para o primo, em busca de apoio. - Não, primo, a garota
tem razão. Temos promessas a manter, e longas léguas à nossa frente. Devíamos
ir andando. - Mas - disse Cleos - você mesmo disse... &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Antes. - Quando pensava que a estalagem estava deserta. -
Agora estou com a barriga cheia e uma cavalgada ao luar será mesmo a coisa
certa. - Sorriu à garota. - Mas, a não ser que pretenda me atirar para a garupa
daquele cavalo de tração como se fosse um saco de farinha, alguma coisa tem de
ser feita com estes ferros, E difícil montar com os tornozelos acorrentados.
Brienne franziu a testa ao ver a corrente. O homem que não era estalajadeiro
esfregou o queixo. - Há uma forja ali atrás do estábulo. - Mostre-me. - Sim -
disse Jaime -, e quanto mais depressa, melhor. Há aqui muito mais bosta de
cavalo do que devia para o meu gosto. Detestaria pisar nela. - Lançou à garota
um olhar penetrante, perguntando a si mesmo se ela seria suficientemente
esperta para entender o que queria dizer. Acalentava a esperança de que ela
também tirasse os ferros de seus pulsos, mas Brienne mantinha-se desconfiada.
Cortou ao meio a corrente dos tornozelos com meia dúzia de fortes golpes dados
com o martelo do ferreiro na ponta plana de um cinzel de aço. Quando sugeriu
que também quebrasse a corrente do pulso, ela ignorou-o. - A quase dez
quilômetros daqui, ao longo do rio, vão encontrar uma aldeia queimada - disse o
anfitrião enquanto os ajudava a selar os cavalos e a carregar a bagagem.
Daquela vez dirigia os conselhos a Brienne. - A estrada bifurca-se aí. Se virar
para sul, vai chegar à torre de pedra de Sor Warren, Sor Warren foi embora e
morreu, portanto não sei dizer de quem ela é agora, mas é melhor evitar o
lugar. Faria bem em seguir a trilha que atravessa a floresta, para sul-sudeste.
- Faremos isso - respondeu ela. - Tem os meus agradecimentos. E, mais do que
isso, tem o seu ouro. Jaime guardou o pensamento para si. Estava cansado de ser
menosprezado por aquela vaca grande e feia. Ela escolheu o cavalo de tração
para si e atribuiu o palafrém a Sor Cleos. Cumprindo a ameaça, Jaime ficou com
o castrado zarolho, o que pôs fim a quaisquer idéias que pudesse ter alimentado
de esporear o cavalo e fazer a garota comer sua poeira. O homem e o garoto
saíram da estalagem para vê-los partir, O homem desejou-lhes boa sorte e
disse-lhes para voltarem em tempos melhores, enquanto o rapaz ficou em
silêncio, com a besta debaixo do braço. - Arranje uma lança ou um malho -
disse-lhe Jaime -, que lhe serão mais úteis. - O rapaz fitou-o com
desconfiança. E isso que se ganha com um conselho de amigo. Encolheu os ombros,
virou o cavalo, e não olhou para trás. Sor Cleos era só queixas quando
partiram, ainda de luto pelo colchão de plumas perdido. Avançaram para leste,
ao longo da margem do rio iluminado pelo luar. O Ramo Vermelho era muito largo
ali, mas raso, &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
com margens cheias de lama e de canaviais. A montaria de
Jaime avançava placidamente, embora o pobre animal tivesse a tendência de
derivar para o lado do olho bom, Era bom estar montado de novo. Não subia em um
cavalo desde que os arqueiros de Robb Stark tinham matado o corcel entre as
suas pernas, no Bosque dos Murmúrios. Quando chegaram à aldeia incendiada,
foram confrontados por uma escolha entre duas estradas igualmente pouco
promissoras; trilhas estreitas, profundamente sulcadas pelas carroças de
agricultores que traziam as colheitas até o rio. Uma partia para sudeste e
rapidamente desaparecia entre as árvores que se viam a distância, enquanto a
outra, mais reta e pedregosa, se lançava para sul. Brienne avaliou-as
rapidamente e depois desviou o cavalo para a estrada do sul. Jaime ficou
agradavelmente surpreso; era a mesma decisão que ele teria tomado. - Mas esta é
a estrada contra a qual o estalajadeiro nos preveniu - objetou Sor Cleos. - Ele
não era estalajadeiro nenhum. - Ela arqueava as costas sem qualquer encanto
sobre a sela, mas apesar disso seguia bem sentada. - O homem mostrou um
interesse grande demais no caminho que nós íamos tomar, e aquela floresta...
lugares assim são notórios covis de fora da lei. Ele podia estar nos mandando
direto para uma armadilha. - Garota esperta. - Jaime sorriu para o primo. -
Nosso anfitrião tem amigos ao longo daquela estrada, calculo. Os homens cujas montarias
deram àquele estábulo um aroma tão memorável. - Ele também podia estar mentindo
sobre o rio, para nos pôr nestes cavalos - disse a garota -, mas eu não podia
correr esse risco. Haverá certamente soldados no vau rubi e nas encruzilhadas.
Bem, ela pode ser feia, mas não é completamente burra. Jaime brindou-a com um
sorriso relutante. A luz avermelhada vinda das janelas superiores da casa-torre
de pedra avisou-os de sua presença a uma longa distância, e Brienne levou-os
pelos campos. Só quando o forte ficou bem para trás é que eles voltaram a virar
e encontraram a estrada de novo. Decorreu metade da noite antes de a garota
admitir que podia ser seguro parar. A essa altura, os três já estavam prestes a
cair das selas. Abrigaram-se num pequeno grupo de carvalhos e freixos ao lado
de um riacho indolente. A garota não autorizou uma fogueira, e por isso
partilharam um jantar tardio de bolos de aveia amanhecidos e peixe sal- .gado,
A noite estava estranhamente pacífica, Uma meia-lua rodeada de estrelas pairava
.sobre suas cabeças, num céu negro de feltro, A distância, um grupo de lobos
uivava, Um idos cavalos do grupo soltou um relincho nervoso. Não se ouviam
outros sons, A guerra não tocou este lugar, pensou Jaime. Estava contente por
estar ali, contente por se encontrar vivo, contente por voltar para junto de
Cersei, &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Eu fico com o primeiro turno de vigia - disse Brienne a
Sor Cleos, e rapidamente o Frey começou a roncar baixinho, Jaime sentou-se de
encontro ao tronco de um carvalho e perguntou a si mesmo o que Cersei e Tyrion
estariam fazendo naquele momento, - Tem irmãos, senhora? - perguntou. - Brienne
olhou-o de soslaio, desconfiada. - Não. Fui o ún... a única filha de meu pai.
Jaime soltou um risinho. - Ia dizer filho. Ele pensa em você como num filho? É
certo que é um tipo estranho : de filha. Sem uma palavra, ela virou as costas
para ele, cerrando o punho com força no cabo da espada. Que criatura miserável
é esta. De alguma estranha forma, fazia-lhe lembrar de Tyrion, embora à
primeira vista fosse difícil encontrar duas pessoas mais diferentes. Talvez
tivesse sido esse pensamento sobre o irmão que o fez dizer: - Não pretendia
ofendê-la, Brienne. Perdoe-me. - Seus crimes estão para além do perdão,
Regicida. - Outra vez esse nome. - Jaime torceu à toa as correntes. - Por que a
deixo com tanta raivar* Nunca lhe fiz mal, que me lembre. - Fez mal a outros.
Aqueles que tinha jurado proteger. Aos fracos, aos inocentes... - ... ao rei? -
voltava sempre a Aerys. - Não tenha a presunção de me julgar por aquilo que não
entende, garota. - Meu nome é... - ... Brienne, sim. Nunca ninguém lhe disse
que era tão entediante quanto feia? - Não vai conseguir me fazer perder o
controle com provocações, Regicida. - Ah, talvez conseguisse, se eu quisesse
tentar. - Por que motivo prestou juramento? - ela quis saber. - Por que
envergar o manto branco se pretendia trair tudo aquilo que ele simboliza? Por
quê? O que poderia dizer que ela fosse capaz de entender? - Era um rapaz. Tinha
quinze anos. Era uma grande honra para alguém tão jovem. - Isso não é resposta
- disse ela em tom de escárnio. Você não ia gostar da verdade. Tinha se juntado
à Guarda Real por amor, claro. O pai chamara Cersei para a corte quando ela
tinha doze anos, esperando arranjar um casamento real para ela. Tinha recusado
todas as ofertas por sua mão, preferindo mantê-la consigo na Torre da Mão
enquanto crescia e se tornava mais mulher e ainda mais bela. Esperava, sem
dúvida, que o Príncipe Viserys amadurecesse, ou talvez que a &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
esposa de Rhaegar morresse ao dar à luz. Elia de Dorne nunca
tinha sido a mais saudável das mulheres. Jaime, entretanto, passara quatro anos
como escudeiro de Sor Sumner Crakehall e conquistara as esporas contra a
Irmandade da Mata do Rei. Mas quando fez uma breve visita a Porto Real no caminho
de volta para Rochedo Casterly, principalmente para ver a irmã, Cersei puxou-o
de lado e sussurrou que Lorde Tywin pretendia casá- -lo com Lysa TuIIy,
chegando ao ponto de convidar Lorde Hoster a vir à cidade para conversar sobre
o dote. Mas se Jaime vestisse o branco, podia ficar sempre perto dela. O velho
Sor Harlan Grandison morrera durante o sono, o que não podia ser mais
apropriado para alguém cujo símbolo era um leão adormecido. Aerys iria querer
um jovem para ocupar o seu lugar, portanto, por que não um leão rugindo para o
lugar de um sonolento? - O pai nunca consentirá - Jaime questionou. - O rei não
lhe pedirá consentimento. E uma vez que a coisa estiver feita, o pai não pode
objetar, pelo menos abertamente. Aerys mandou arrancar a língua de Sor Ilyn
Pay- ne só por alardear que era a Mão quem realmente governava os Sete Reinos.
O capitão da guarda da Mão, e no entanto o pai não se atreveu a tentar
impedi-lo! Também não impedirá isso. - Mas - disse Jaime - há Rochedo
Casterly... - O que você quer é um rochedo? Ou eu? Lembrava -se daquela noite
como se fosse ontem. Tinham-na passado numa velha estalagem na Viela das
Enguias, bem longe de olhos vigilantes. Cersei fora encontrá-lo vestida como
uma simples criada, o que acabou por excitá-lo ainda mais. Jaime nunca a tinha
visto mais apaixonada. Sempre que adormecia, ela voltava a acordá-lo. Pela
manhã, Rochedo Casterly parecia um pequeno preço a pagar para ficar sempre
perto dela. Deu seu consentimento, e Cersei prometeu fazer o resto. Uma volta
de lua mais tarde, um corvo real chegou a Rochedo Casterly para informá- -lo de
que fora escolhido para a Guarda Real. Era-lhe ordenado que se apresentasse ao
rei durante o grande torneio em Harrenhal, para prestar juramento e envergar o
manto. A investidura de Jaime libertou-o de Lysa Tully. Mas, tirando isso, nada
se passou conforme planejado, O pai nunca estivera mais furioso. Não podia
levantar objeções abertamente - Cersei julgara isso de forma correta -, mas
usou um pretexto qualquer pouco convincente para se demitir do cargo de Mão e
retornou a Rochedo Casterly, levando a filha consigo. Em vez de ficarem juntos,
Cersei e Jaime limitaram-se a trocar de lugar, e ele se viu sozinho na corte,
defendendo um rei louco enquanto quatro homens menores se sucederam dançando
sobre facas, &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
cujos pés não calçavam bem os sapatos do pai. As Mãos
ascendiam e caíam cão rapidamente que Jaime recordava melhor a heráldica do que
o rosto deles. A Mão cornucópia e a Mão grifos dançantes tinham ambas sido
exiladas; a Mão maça e punhal, mergulhada em fogovivo e queimada viva. Lorde
Rossart fora o último. Seu símbolo era um archote ardente; uma escolha infeliz,
tendo em conta o destino de seu predecessor, mas o alquimista tinha ascendido
em grande medida por partilhar a paixão do rei pelo fogo. Devia ter afogado
Rossart em vez de estripá-lo. Brienne continuava à espera de sua resposta.
Jaime disse: - Não tem idade para ter conhecido Aerys Targaryen... Ela não quis
ouvir, - Aerys era louco e cruel, nunca ninguém negou isso, Ainda assim era
rei, coroado e ungido. E você jurou protegê-lo. - Eu sei o que jurei. - E o que
fez. - Ergueu-se acima dele, um metro e oitenta de desaprovação sardenta,
carrancuda e com dentes de cavalo. - Sim, e o que você fez também. Aqui somos
ambos regicidas, se aquilo que ouvi dizer é verdade. - Nunca fiz mal a Renly,
Mato o primeiro homem que diga que fiz. - Nesse caso, é melhor que comece por
Cleos. E, depois disso, terá bastante matança a fazer, pelo que ele conta da
história. - Mentiras. A Senhora Catelyn estava lá quando Sua Graça foi
assassinado, ela viu. Apareceu uma sombra. As velas apagaram-se e o ar ficou
frio, e houve sangue... - Ah, muito bem. - Jaime soltou uma gargalhada. - Pensa
mais depressa do que eu, confesso. Quando me encontraram em pé junto ao meu rei
morto, nunca pensei em dizer: Não, não, não fui eu, foi uma sombra, uma
terrível sombra fria&quot;. - Soltou outra gargalhada. - Conte-me a verdade, de
um regicida para outro: foram os Stark que lhe pagaram para cortar a goela
dele, ou foi Stannis? Renly repeliu-a, foi por isso? Ou talvez estivesse com o
sangue de lua. Nunca dê uma espada a uma garota quando ela estiver sangrando.
Por um momento, Jaime pensou que Brienne iria bater nele. Mais um passo, e tiro
aquele punhal da bainha dela e enterro em seu ventre. Retesou uma perna debaixo
do corpo, pronto para saltar, mas a garota não se moveu. - Ser um cavaleiro é
uma dádiva rara e preciosa - disse - e mais ainda quando se é um cavaleiro da
Guarda Real. E algo dado a poucos, algo que você desprezou e conspurcou. Algo
que você deseja desesperadamente, garota, e que nunca poderá obter. &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Eu conquistei o meu grau de cavaleiro. Nada me foi dado.
Ganhei uma luta corpo a corpo num torneio com treze anos, quando ainda era
escudeiro. Aos quinze, acompanhei Sor Arthur Dayne contra a Irmandade da Mata
de Rei, e ele armou-me cavaleiro no campo de batalha. Foi aquele manto branco
que me conspurcou, e não o contrário. Portanto, poupe-me de sua inveja. Foram
os deuses que se esqueceram de lhe dar uma pica, não fui eu. O olhar que
Brienne lhe deu estava carregado de repugnância. De bom grado me cortaria cm
pedaços, se não fosse o seu precioso juramento, refletiu. Ótimo. Já estou farto
de débeis piedades e julgamentos de donzelas. A moça afastou-se a passos largos
sem dizer sequer uma palavra. Jaime enrolou-se debaixo do manto, esperando
sonhar com Cersei. Mas, quando fechou os olhos, foi Aerys Targaryen que viu,
andando de um lado para o outro em sua sala de trono, repuxando as mãos cheias
de crostas e sangrando. O idiota vivia se cortando nas lâminas e farpas do
Trono de Ferro. Jaime tinha se esgueirado através da porta do rei, vestindo a
armadura dourada e com a espada na mão. A armadura dourada, não a branca, mas
ninguém nunca se lembra disso. Bem que gostaria de ter tirado também aquele
maldito manto. Quando Aerys viu o sangue em sua arma, exigiu saber se era de
Lorde Tywin. - Quero-o morto, o traidor. Quero a cabeça dele, vai me trazer a
cabeça dele, senão queimo você com todos os outros. Todos os traidores. Rossart
diz que estão dentro das muralhasl Foi lhes dar boas-vindas calorosas. De quem
é o sangue? De quem? - De Rossart - respondeu Jaime. Aqueles olhos púrpura
então se abriram enormemente, e a boca do rei caiu, escancarando-se com o
choque. Havia perdido o controle das tripas, virado-se e corrido para o Trono
de Ferro. Por baixo dos olhos vazios dos crânios pendurados nas paredes, Jaime
arrancou o último rei-dragão dos degraus, guinchando como um porco e cheirando
a latrina. Um único golpe na garganta foi tudo que precisou para acabar com
ele. Tão fácil, lembrava-se de ter pensado, Um rei devia ser mais duro de matar
do que isso. Rossart pelo menos tinha tentado lutar, se bem que, para falar a
verdade, lutava como um alquimista. Estranho que nunca perguntem quem matou
Rossart... mas, claro, ele não era ninguém, com seu baixo nascimento, Mão
durante uma quinzena, só mais uma idéia louca do Rei Louco. Sor Elys
Westerling, Lorde Crakehall e outros dos cavaleiros do pai tinham irrompido
pelo salão a tempo de ver o fim, portanto, não houve maneira de Jaime
desaparecer e deixar que um fanfarrão qualquer roubasse a glória ou a culpa.
Compreendeu de imediato, assim que viu o &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
modo como o olhavam, que seria considerado culpado... embora
os olhares que lhe lançavam talvez fossem de medo, Lannister ou não, ele era um
dos sete de Aerys. - O castelo é nosso, sor, e a cidade também - disse-lhe
Roland Crakehall, o que era quase verdade. Ainda havia lealistas Targaryen
morrendo nas escadas em espiral e no arsenal, Gregor Clegane e Amory Lorch
estavam escalando as muralhas da Fortaleza de Maegor, e, nessa altura, Ned
Stark ia entrando com os seus homens pelo Portão do Rei, mas Crakehall não
tinha como saber disso. Não pareceu surpreendido por encontrar Aerys morto;
Jaime era filho de Lorde Tywin muito antes de ser nomeado para a Guarda Real, -
Diga-lhes que o Rei Louco está morto - ordenou. - Poupe e prenda todos aqueles
que se renderem. - Deverei também proclamar um novo rei? - perguntou Crakehall,
e Jaime leu claramente a questão: seria o seu pai, ou Robert Baratheon, ou
pretendia tentar criar um novo rei-dragão? Por um momento, pensou no garoto,
Viserys, fugido em Pedra do Dragão, e no filho bebê de Rhaegar, Aegon, ainda em
Maegor com a mãe. Um novo rei Targaryen, e o meu pai como Mão. Como uivarão os
lobos, como se engasgará de raiva o senhor da tempestade. Por um momento
sentiu-se tentado, até voltar a olhar o corpo no chão, no meio da poça
crescente de sangue. Há sangue dele em ambos, pensou. - Proclame quem lhe der
na telha - disse a Crakehall, Então, subiu até o Trono de Ferro e sentou-se,
com a espada pousada nos joelhos, para ver quem viria reclamar o reino. Acabou
sendo Ned Stark. Também não tinha o direito de me julgar, Stark. Em seus
sonhos, os mortos surgiram em chamas, vestidos de bruxuleantes chamas verdes.
Jaime dançou entre eles com uma espada dourada, mas para cada um que abatia,
erguiam-se mais dois em seu lugar. Brienne acordou-o com um chute nas costelas.
O mundo ainda estava negro, e tinha começado a chover. Quebraram o jejum com
bolos de aveia, peixe salgado e umas poucas amoras silvestres que Sor Cleos
havia encontrado, e estavam de novo sobre as selas antes do nascer do sol.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/2116908330969168284/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/james.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/2116908330969168284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/2116908330969168284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/james.html' title='James'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-2263648733167663531</id><published>2013-12-27T14:43:00.004-08:00</published><updated>2013-12-27T14:51:08.585-08:00</updated><title type='text'>Davos</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Quando subiu ao convés, a longa ponta de Derivamarca
diminuía atrás deles, enquan- ro, adiante, Pedra do Dragáo se erguia do mar. Um
pálido fiapo cinzento de fumaça era soprado do topo da montanha, marcando o
local onde ficava a ilha. O Monte Dragão está agitado hoje, pensou Davos, ou
então é Melisandre que está queimando mais alguém. Melisandre ocupara muito os
seus pensamentos enquanto o Dança de Shayala abria caminho pela Baía da Água
Negra e atravessava a Goela, manobrando contra perversos ventos contrários. O
grande incêndio que ardia no topo da torre de vigia de Ponta Aguda, na
extremidade do Gancho de Massey, tinha feito Davos se lembrar do rubi que ela
usava no pescoço, e de quando o mundo ficava vermelho de madrugada e ao pôr do
sol, as nuvens que pairavam no céu ganhavam a mesma cor que as sedas e os
cetins de seus vestidos sussurrantes. Ela também estaria à espera em Pedra do
Dragão, à espera com toda a sua beleza e todo o seu poder, com o seu deus, as
suas sombras e o rei dele. A sacerdotisa vermelha :parecera sempre ser leal a
Stannis, até agora. Ela domou-o, do mesmo modo que um homem doma um cavalo.
Subiria ao poder montada nele se pudesse, epor isso entregou meus filhos ao
fogo. Vou arrancar o coração de seu peito e ver como queima. Tocou o cabo da
boa e longa adaga lisena que o capitão tinha lhe oferecido. O capitão fora
muito gentil com ele. Chamava-se Khorane Sathmantes, era liseno como Salladhor
Saan, a quem o navio pertencia. Tinha os olhos azul-claros como os que se via
com freqüência em Lys, incrustados num rosto ossudo e desgastado pelas
intempéries, mas passara muitos anos negociando nos Sete Reinos. Quando soube
que o homem que resgatara do mar era o afamado cavaleiro das cebolas, cedeu-lhe
o uso da própria cabine e de suas roupas e um par de botas novas que quase lhe
serviam. Também insistiu que Davos consumisse de suas provisões, embora isso
não tenha dado muito certo. O estômago do antigo contrabandista não conseguiu
tolerar os caracóis, as lampreias e outros ricos alimentos que o capitão
Khorane tanto apreciava, e depois de sua primeira refeição à mesa do capitão
passou o resto do dia com uma extremidade ou a outra projetada sobre a
amurada.&amp;nbsp; Q&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Pedra do Dragão crescia a cada remada. Agora, Davos já
conseguia ver a forma da montanha e, em seu flanco, a notável cidadela negra
com suas gárgulas e torres em forma de dragão. A figura de proa, feita de
bronze, à frente do Dança de Shayala atirava ao ar asas de espuma salgada ao
cortar as ondas. Ele encostou seu peso à amurada, grato pelo apoio. A provação
pela qual havia passado enfraquecera-o. Quando ficava muito tempo em pé, as
pernas fraquejavam, e às vezes era dominado por incontroláveis ataques de tosse
e escarrava muco ensangüentado. Não é nada, dizia a si mesmo. Certamente os
deuses não me fizeram atravessar, a salvo, o fogo e o mar para depois me
matarem de doença. Enquanto escutava o bater do tambor do mestre dos remadores,
o ruído das velas e o respingar e ranger rítmicos dos remos, recordou seus dias
de juventude, quando os mesmos sons despertavam terror em seu coração em muitas
manhãs de nevoeiro. Anunciavam a aproximação da patrulha marítima do velho Sor
Tristimun, e a patrulha marítima significava a morte para os contrabandistas na
época em que Aerys Targaryen ocupava o Trono de Ferro. Mas isso foi em outra
vida, pensou. Isso Joi antes do navio das cebolas, antes de Ponta Tempestade,
antes de Stannis encurtar meus dedos. Isso foi antes da guerra e do cometa
vermelho, antes de eu ser um Seaworth ou um cavaleiro. Nesses dias, era um homem
diferente, antes de Lorde Stannis ter me erguido bem alto. O capitão Khorane
lhe contara sobre o fim das esperanças de Stannis na noite em que o rio ardeu.
Os Lannister tinham-no atacado pelo flanco, e seus instáveis vassalos o
abandonaram às centenas no momento de maior necessidade. - Também foi vista a
sombra do Rei Renly - dissera o capitão - matando à esquerda e à direita
enquanto liderava a vanguarda do lorde leão. Dizem que sua armadura verde tomou
um brilho fantasmagórico por causa do fogovivo e que seus chifres soltavam
labaredas douradas. A sombra de Renly. Davos perguntou a si mesmo se seus
filhos também regressariam como sombras. Tinha visto coisas estranhas em
excesso no mar para afirmar que não existiam fantasmas. - Ninguém se manteve
fiel? - perguntara. - Uns poucos - disse o capitão. - A família da rainha,
principalmente. Levamos muitos que usavam a raposa e as flores, embora muitos
mais tivessem sido deixados em terra, exibindo todos os tipos de símbolos.
Lorde Florent agora é Mão do Rei em Pedra do Dragão. A montanha crescia,
coroada por fumaça pálida. A vela cantava, o tambor batia, os remos puxavam
suavemente, e, não muito mais tarde, a entrada para o porto abria-se à frente
deles. Tão vazio, pensou Davos, lembrando-se de como fora antes, com os navios
enchendo todos os cais &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
e balançando, ancorados, fora do quebra-mar. Via o navio
almirante de Salladhor Saan, Valiriana, atracado ao cais onde antes o Fúria e
seus irmãos estiveram amarrados. Os navios que o ladeavam também possuíam
cascos lisenos rajados. Procurou, em vão, por qualquer sinal do Senhora Marya
ou do Espectro. Arriaram a vela ao entrarem no porto, para atracarem apenas com
a força dos remos. O capitão veio encontrar Davos no momento em que amarravam o
navio. - Meu príncipe deseja vê-lo imediatamente. Um ataque de tosse dominou
Davos quando tentou responder. Apoiou-se na amura- da e escarrou para o mar. -
O rei - arquejou. - Tenho de encontrar o rei. - Pois onde o rei estiver,
encontrarei Melisandre. - Ninguém se encontra com o rei - respondeu com firmeza
Khorane Sathmantes. - Salladhor Saan vai lhe contar. Primeiro ele, Davos estava
fraco demais para desafiá-lo. Só conseguiu assentir. Salladhor Saan não se
encontrava a bordo de seu Valiriana. Foram encontrá-lo em outro cais, a cerca
de trezentos metros de distância, no interior do porão de uma larga coca de
Pentos chamada Farta Colheita, contando a carga com o auxílio de dois eunucos.
Um segurava uma lanterna, o outro, uma placa de cera e um estilete. - Trinta e
sete, trinta e oito, trinta e nove - o velho tratante dizia quando Davos e o
capitão desceram pela escotilha. Naquele dia, usava uma túnica cor de vinho e
botas de cano alto feitas de couro branco com detalhes de prata. Tirando a
rolha de um pote, cheirou, espirrou e disse: - Uma moagem grosseira, e, de
acordo com meu nariz, de segunda qualidade. A nota de carga diz quarenta e três
potes. Onde se enfiaram os outros, pergunto eu? Esses pentoshi por acaso acham
que eu não conto a carga? - Quando viu Davos, parou subitamente. - Será a
pimenta que arde meus olhos, ou lágrimas? E o cavaleiro das cebolas que está
diante de mim? Não, como pode ser, meu querido amigo Davos morreu no rio em
chamas, todos sabem. Por que veio me assombrar? - Não sou nenhum fantasma,
Salla. - Que outra coisa pode ser? Meu cavaleiro das cebolas nunca foi tão
magro ou pálido como você. - Salladhor Saan abriu caminho por entre os potes de
especiarias e rolos de tecido que enchiam o porão do navio mercante, envolveu
Davos num forte abraço, depois deu-lhe um beijo em cada bochecha e um terceiro
na testa. - Ainda está quente, sor, e sinto seu coração bater. Será verdade? O
mar que o engoliu cuspiu-o de volta. Davos lembrou-se do Cara-Malhada, o bobo
doido da princesa Shireen. Também tinha entrado no mar e, quando voltou, estava
louco. Também estarei louco? Tossiu na mão enluvada e disse: &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Nadei por baixo da corrente e fui jogado à costa numa
lança do rei bacalhau. Teria morrido lá se o Dança de Shayala não tivesse me
encontrado. Salladhor Saan pousou um braço sobre os ombros do capitão. - Isso
foi ótimo, Khorane. Estou aqui pensando que vai acabar ganhando uma bela
recompensa. Meizo Mahr, seja um bom eunuco e leve meu amigo Davos à cabine do
proprietário. Arranje para ele um pouco de vinho quente com cravo, que não
estou gostando do som dessa tosse. Esprema também um pouco de limão lá dentro,
E traga queijo branco e uma tigela daquelas azeitonas verdes tostadas que
contamos há pouco. Davos, logo irei encontrá-lo, assim que tiver conversado com
o nosso bom capitão. Vai me desculpar, bem sei. Não coma todas as azeitonas,
senão vou acabar me zangando. Davos deixou que o mais velho dos dois eunucos o
acompanhasse até uma grande e suntuosamente mobiliada cabine na popa do navio.
Os tapetes eram macios, havia vitrais nas janelas e, em qualquer um dos grandes
cadeirões de couro, poderiam ter se sentado com todo o conforto, três Davos. O
queijo e as azeitonas chegaram pouco depois, com uma taça de vinho tinto quase
fervendo. Pegou-a com as duas mãos e bebericou, sentindo-se grato. O calor que
se espalhou por seu peito teve um efeito calmante. Salladhor Saan apareceu não
muito depois. - Precisa me perdoar pelo vinho, meu amigo. Aqueles pentoshi
beberiam o próprio mijo se fosse púrpura. - Vai ser bom para o meu peito - disse
Davos. - Minha mãe costumava dizer que vinho quente é melhor do que compressas.
- Me parece que também vai precisar de compressas. Sentado todo esse tempo numa
lança caramba. Que acha dessa excelente cadeira? Ele tem nádegas gordas, não
tem? - Quem? - perguntou Davos entre pequenos goles de vinho quente. - Illy rio
Mopatis. Uma baleia com bigodes, é o que lhe digo, de verdade. Essas cadeiras
foram feitas sob medida para ele, embora raramente saia de Pentos para se
sentar nelas. Um gordo senta sempre confortavelmente, me parece, pois leva a
almofada consigo para onde quer que vá. - Como foi que arranjou um navio de
Pentos? - perguntou Davos. - Voltou à pirataria, senhor? - Colocou de lado a
taça vazia. - Vis calúnias. Quem sofreu mais com os piratas do que Salladhor
Saan? Só peço aquilo a que tenho direito. Muito ouro é devido, ah sim, mas não
sou desprovido de compreensão; portanto, em vez da moeda, aceitei um belo
pergaminho, muito enrolado. Ostenta o nome e o selo de Lorde Alester Florent, a
Mão do Rei. Está me nomeando Senhor da Baía da Água Negra, e nenhum navio pode
atravessar as águas sob o meu do-&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
mínio sem a minha senhorial licença, ah não. E quando esses
fora da lei estão tentando se esgueirar durante a noite para evitar minhas
legítimas taxas e direitos alfandegários, ora, não são melhores do que
contrabandistas, portanto, estou perfeitamente dentro da lei quando os
confisco, - O velho pirata soltou uma gargalhada. - Mas não corto os dedos de
ninguém. De que servem pedaços de dedos? Capturo os navios e as cargas, alguns
resgates, nada de exorbitante. - Lançou um olhar penetrante para Davos. - Não
está bem, meu amigo. Essa tosse... e tão magro que vejo seus ossos através da
pele. E, no entanto, não estou vendo seu saquinho de ossos dos dedos... O velho
hábito obrigou Davos a levar a mão à bolsa de couro que já não estava lá. -
Perdi no rio. - A minha sorte. - O rio foi terrível - disse solenemente
Salladhor Saan. - Mesmo da baía, eu podia ver e tremi. Davos tossiu, cuspiu e
voltou a tossir. - Vi o Betha Negra ardendo, e também o Fúria - conseguiu por
fim dizer, com voz rouca. - Nenhum de nossos navios escapou do fogo? - Parte de
si ainda tinha esperança. - Lorde Steffonjenna Esfarrapada, Espada Ligeira,
Lorde que Ri e mais alguns estavam a montante do mijo dos piromantes, sim. Não
foram queimados, mas, com a forte correnteza, também não puderam fugir. Alguns
poucos se renderam. A maior parte subiu a Água Negra, para longe da batalha, e
depois foi afundada pela tripulação, para não cair em mãos Lannister. Jenna
Esfarrapada e Lorde que Ri continuam se fazendo de piratas no rio, segundo ouvi
dizer, mas quem sabe se é verdade? - O Senhora Marya? - perguntou Davos. - O
Espectro? Salladhor Saan apoiou uma mão no braço de Davos e deu-lhe um apertão.
- Não. Esses, não. Lamento, meu amigo. Eram bons homens, os seus Dale e Allard.
Mas posso lhe dar este conforto: seu jovem Devan está entre aqueles que
embarcamos no fim. O bravo rapaz nunca saiu de junto do rei, segundo dizem. Por
um momento sentiu-se quase tonto, de tão palpável que era seu alívio. Temera
perguntar a respeito de Devan. - A Mãe é misericordiosa. Tenho de encontrá-lo,
Salla. Tenho de vê-lo. - Sim - disse Salladhor Saan. - E também vai querer
zarpar para o Cabo da Fúria, eu sei, para ver sua mulher e os dois pequenos.
Estou aqui pensando que precisa de um novo navio. - Sua Graça vai me dar um
navio - disse Davos. O liseno sacudiu a cabeça. - Quanto a navios, Sua Graça
não tem nenhum, e Salladhor Saan tem muitos. Os navios do rei arderam no rio,
mas os meus não. Ficará com &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
um deles, velho amigo. Velejará para mim, sim? Entrará
deslizando em Bravos, Myr e Volantis na noite cerrada, sem ser visto, e sairá
também deslizando, com sedas e especiarias. Ficaremos com bolsas gordas, sim. -
É gentil, Salla, mas meu dever é para com meu rei, não para com sua bolsa. A
guerra continuará, Stannis ainda é o legítimo herdeiro do trono, segundo todas
as leis dos Sete Reinos. - Todas as leis não estão ajudando quando todos os
navios se queimam, me parece. E o seu rei, bem, receio que vá acabar achando-o
mudado. Desde a batalha não recebe ninguém, fica só matutando naquele Tambor de
Pedra. A Rainha Selyse recebe em audiência em seu nome, com o tio, Lorde
Alester, que anda se chamando de Mão. Ela deu o selo do rei a esse tio, para
pôr nas cartas que ele escreve, e até em meu belo pergaminho. Mas o reino que
eles estão governando é pequeno, pobre e rochoso, sim. Não há ouro, nem sequer
um bocadinho para pagar ao fiel Salladhor Saan o que lhe é devido, e só restam
os cavaleiros que levamos no fim, e nenhum navio além de minha pequena e brava
frota. Um súbito e torturante ataque de tosse obrigou Davos a se dobrar.
Salladhor Saan aproximou-se para ajudá-lo, mas, com um gesto, ele pediu que se
afastasse, e após um momento se recuperou. - Ninguém? - rouquejou. - O que quer
dizer com ele não receber ninguém? - sua voz soava úmida e espessa, até mesmo
aos seus ouvidos, e por um momento a cabine pareceu oscilar ao seu redor. -
Ninguém além dela - disse Salladhor Saan, e Davos não precisou perguntar o que
ele queria dizer. - Meu amigo está se cansando. E de uma cama que está
precisando, não de Salladhor Saan, Uma cama e muitas mantas, com uma compressa
quente no peito e mais vinho e cravo, Davos sacudiu a cabeça - Vou ficar bem.
Conte-me, Salla, preciso saber. Ninguém além de Melisandre? O liseno lançou um
longo olhar de dúvida para ele e prosseguiu com relutância, - Os guardas estão
mantendo todos os outros afastados, até sua rainha e a filhinha. Criados trazem
refeições que ninguém come. - Inclinou-se para a frente e baixou a voz, - Ouvi
estranhas conversas sobre fogos esfomeados dentro da montanha, e sobre como
Stannis e a mulher vermelha descem juntos para observar as chamas. Há poços,
dizem, e escadas secretas que descem até o coração da montanha, até lugares
quentes onde só ela pode caminhar sem se queimar. É mais do que suficiente para
aterrorizar um velho, a tal ponto que às vezes quase não arranja forças para
comer. Melisandre. Davos estremeceu. &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- A mulher vermelha fez isso a ele - disse. - Enviou o fogo
para nos consumir, para punir Stannis por tê-la posto de lado, para lhe ensinar
que não tem esperança de vencer sem seus feitiços. O liseno tirou uma gorda
azeitona da tigela que se encontrava entre os dois. - Não é o primeiro a dizer
isso, meu amigo. Mas se eu fosse você, não estaria falando tão alto. Pedra do
Dragão está cheia daqueles homens da rainha, ah, sim, e eles têm ouvidos
aguçados e facas afiadas. - Enfiou a azeitona na boca. - Eu também tenho uma
faca. Capitão Khorane deu-me de presente. - Puxou a adaga e colocou-a na mesa,
entre eles. - Uma faca para arrancar o coração de Melisandre. Se é que ela tem
um. Salladhor Saan cuspiu um caroço de azeitona. - Davos, bom Davos, não deve
andar dizendo tais coisas, nem mesmo brincando. - Não é brincadeira. Pretendo
matá-la, - Se ela puder ser morta por armas mortais. Davos não tinha certeza se
isso era possível. Tinha visto o velho Meistre Cressen despejando veneno no
vinho dela, viu com os próprios olhos, mas quando ambos be- beram da taça
envenenada, foi o meistre quem morreu, e não a sacerdotisa vermelha. Mas uma
faca no coração... até os demônios podem ser mortos pelo ferro frio, segundo
dizem 05 cantores. - Essas são conversas perigosas, meu amigo - preveniu-o
Salladhor Saan. - Acho que ainda está doente do mar. A febre cozinhou seu
cérebro, sim. E melhor que vá para a cama para um longo descanso, até ficar
mais forte. Até que a minha determinação enfraqueça, você quer dizer. Davos se
levantou. Realmente sentia-se febril e um pouco tonto, mas não importava. - E
um velho patife traiçoeiro, Salladhor Saan, mas um bom amigo mesmo assim. O
liseno afagou a pontiaguda barba prateada. - Então ficará com este bom amigo,
certo? - Não, vou andando. - Tossiu. - Andando? Olhe para si mesmo! Tosse,
treme, está magro e fraco. Aonde irá andando? - Para o castelo. Minha cama está
lá, assim como o meu filho. - E a mulher vermelha - disse Salladhor Saan com
suspeita. - Ela também está no castelo. - Ela também. - Davos voltou a enfiar a
adaga na bainha. - Você é um contrabandista de cebolas, o que sabe de ataques à
surdina e punhala- das? E está doente, nem sequer consegue segurar a adaga.
Sabe o que acontecerá com você, se for apanhado? Enquanto &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
estávamos ardendo no rio, a rainha queimava traidores. Servos
da escuridão, ela lhes chamou, pobres homens, e a mulher vermelha cantava
enquanto as fogueiras eram acendidas. Davos não se surpreendeu. Eu sabia,
pensou, sabia antes de ele me contar. - Tirou Lorde Sunglass das masmorras -
adivinhou - e os filhos de Hubard Rambton. - Exatamente, e queimou-os, tal como
queimará você: se matar a mulher vermelha, vão queimá-lo por vingança, e se não
a matar, vão queimá-lo pela tentativa. Ela cantará, e você gritará, e depois
morrerá. E você acabou de voltar à vida! - E foi esse o motivo - disse Davos. -
Para fazer isso. Para pôr fim em Melisandre de Asshai e em todas as suas obras.
Por que mais o mar teria me cuspido? Conhece a Baía da Água Cinzenta tão bem
como eu, Salla. Nenhum capitão com bom senso levaria seu navio para passar
entre as lanças do rei bacalhau, arriscando-se a ter o casco rasgado. O Dança
de Shayala nunca deveria ter passado perto de mim, - Um vento - insistiu
Salladhor Saan em voz alta um mau vento, foi só isso, Um vento empurrou a
embarcação mais para sul do que deveria. - E quem enviou o vento? Salla, a Mãe
falou comigo. O velho liseno olhou-o pestanejando. - Sua mãe está morta... - A
Mãe. Ela abençoou-me com sete filhos, e no entanto eu permiti que a queimassem.
Ela falou comigo. Disse que nós convocamos o fogo, E também convocamos as
sombras. Eu levei Melisandre, num barco a remo, até as entranhas de Ponta
Tempestade e vi-a dar à luz um horror. - Ainda vislumbrava a cena em seus
pesadelos, as mãos negras e descarnadas puxando as coxas da mulher enquanto se
contorcia para se libertar de seu ventre inchado. - Ela matou Cressen, Lorde
Renly e um homem corajoso chamado Cortnay Penrose, e também matou meus filhos.
Agora é hora de alguém matá-la. - Alguém - disse Salladhor Saan. - Sim, é isso
mesmo, alguém. Mas não você. Está fraco como uma criança, e não é nenhum
guerreiro. Fique, eu lhe suplico, voltaremos a conversar, você vai se
alimentar, e talvez velejemos até Bravos para contratar um Homem sem Rosto para
fazer essa coisa, sim? Mas isso, não, você precisa se sentar e comer. Ele está
tornando isso muito mais difícil, pensou Davos, fatigado, e já era mortalmente
difícil - Tenho vingança nas entranhas, Salla. Não deixa espaço para comida.
Agora deixe- -me ir. Por nossa amizade, deseje-me sorte, e deixe-me ir.
Salladhor Saan pôs-se em pé. &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Não é um amigo verdadeiro, estou aqui pensando. Quando
estiver morto, quem trará suas cinzas e ossos à senhora sua esposa e lhe dirá
que perdeu um marido e quatro filhos? Só o triste e velho Salladhor Saan. Mas,
que assim seja, bravo sor cavaleiro, corra para a sepultura. Irei reunir seus
ossos numa sacola e os darei aos filhos que deixa para trás, para que os tragam
em saquinhos em volta do pescoço. - Brandiu uma mão zangada, com anéis em todos
os dedos. - Vá, vá, vá, vá, vá. Davos não queria deixá-lo assim. - Salla... - -
VÁ. Ou melhor, fique, mas se é para ir, vá. - E foi. - A caminhada desde o
Farta Colheita até os portões de Pedra do Dragão foi longa e solitária. As ruas
junto às docas onde soldados, marinheiros e pessoas simples outrora se&amp;nbsp; aglomeravam encontravam-se vazias e desertas.
Por onde antes caminhara entre porcos&amp;nbsp;
grunhindo e crianças nuas, fugiam agora ratazanas. Suas pernas, sob seu
corpo, pareciam&amp;nbsp; feitas de pudim, e por
três vezes a tosse torturou-o de tal modo que teve de parar a fim de descansar.
Ninguém veio ajudá-lo, ninguém sequer espiou por uma janela para ver o que se
passava. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas e mais da metade das
casas ostentava algum sinal de luto. Milhares subiram a Torrente da Água Negra,
e centenas retornaram, refletiu Davos. Meus filhos não morreram sós. Que a Mãe
tenha piedade de todos eles. - Ao chegar aos portões do castelo, encontrou-os
também fechados. Davos bateu com o punho na madeira reforçada com ferro. Quando
não obteve resposta, chutou-a, uma e e mais outra vez.. Por fim, um besteiro
surgiu no topo da barbacã, espreitando para baixo, |entre duas grandes
gárgulas. - -Quem vem lá? Davos ergueu a cabeça e pôs as mãos em volta da boca.
- Sor Davos Seaworth, para falar com Sua Graça - Está bêbado? Vá embora e pare
de bater. Salladhor Saan prevenira-o. Davos tentou outra linha de ação. - Então
mande chamar meu filho. Devan, o escudeiro do rei. O guarda franziu a testa. -
Quem você disse que era? - Davos - gritou -, o cavaleiro das cebolas. A cabeça
desapareceu, voltando um momento mais tarde. - Desapareça. O cavaleiro das
cebolas morreu no rio. O navio dele queimou. - O navio dele queimou - concordou
Davos -, mas ele sobreviveu, e está aqui. Jate ainda é capitão do portão? &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Quem? - Jate Blackberry. Ele me conhece bastante bem. -
Nunca ouvi falar. O mais certo é que esteja morto. - Então Lorde Chyttering. -
Esse conheço. Ardeu na Água Negra. - Will Cara-de-Anzol? Hal, o Porco? - Morto
e morto - disse o besteiro, mas seu rosto traiu uma súbita dúvida. - Espere
aqui. - Voltou a desaparecer. Davos esperou. Morreram, morreram todos, pensou,
entorpecido, lembrando-se de como a barriga branca do gordo Hal se mostrava
sempre por baixo de seu gibão manchado de gordura, da longa cicatriz que o
anzol deixara no rosto de Will, do modo como Jate costumava tirar o chapéu para
as mulheres, tivessem elas cinco ou cinqüenta anos, fossem bem ou mal-nascidas.
Afogados ou queimados, com meus filhos e outros mil, desaparecidos para fazer
um rei no inferno. De repente, o besteiro regressou. - Dê a volta até a porta
de surtida, e vão deixá-lo entrar, Davos fez o que lhe foi pedido. Os guardas
que o admitiram eram estranhos para ele. Transportavam lanças e, no peito,
usavam o símbolo da raposa e das flores da Casa Florent. Escoltaram-no não para
o Tambor de Pedra, como esperava, mas fizeram-no passar sob o arco da Cauda do
Dragão e através do Jardim de Aegon. - Espere aqui - disse-lhe o sargento. -
Sua Graça sabe que eu voltei? - perguntou Davos. - Sei lá, que se dane. Espere,
já falei. - O homem foi embora, levando consigo os lanceiros, O Jardim de Aegon
tinha um agradável aroma de pinheiro e altas e escuras árvores erguiam-se por
todos os lados. Também havia rosas silvestres, e grandes cercas vivas
espinhosas, e um local pantanoso onde cresciam mirtilos. Por que será que me
trouxeram para cá?, questionou-se Davos. Então ouviu um tênue tinir de sinos, e
um risinho de criança, e de repente o bobo Cara-Malhada saltou dos arbustos
arrastando os pés o mais depressa que conseguia, com a Princesa Shireen logo
atrás. - Volte aqui - ela vinha gritando. - Malhas, volte aqui. Quando o bobo
viu Davos, parou subitamente, com as campainhas em seu capacete de latão
guarnecido de chifres fazendo ting-a-hng, ting-a-ling. Saltitando de um pé para
o outro, cantou: - Sangue de bobo, sangue de rei, sangue na coxa da donzela,
mas pros convidados e noivo, correntes, lá, lá, lá. - Shireen quase o pegou
nessa hora, mas no último instante o bobo saltou por cima de um grupo de
samambaias e desapareceu por entre as árvores. A princesa seguiu logo atrás.
Vê-los fez Davos sorrir. &lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Virara-se para tossir na mão enluvada quando outra pequena
silhueta saltou da cerca viva e esbarrou nele, atirando-o ao chão. O rapaz
também caiu, mas se levantou quase de imediato. - Que está fazendo aqui? - quis
saber enquanto se sacudia. Cabelos negros de azevi- che caíam sobre seu
colarinho, e os olhos eram de um azul surpreendente. - Não devia ficar na minha
frente quando estou correndo, - Não - concordou Davos. - Não devia. - Outro
ataque de tosse dominou-o na hora em que lutava para ficar de joelhos. - Está
mal? - o garoto pegou-o pelo braço e ajudou-o a se levantar. - Devo chamar o
meistre? Davos balançou a cabeça. - É uma tosse. Vai passar. f O garoto não
pensou mais no assunto. _ Estávamos brincando de monstros e donzelas -
explicou. - Eu era o monstro. É um jogo infantil, mas a minha prima gosta dele.
Tem um nome? s - Sor Davos Seaworth. O rapaz olhou-o de cima a baixo com ar de
dúvida. - Tem certeza? Não parece muito cavalheiresco. - Sou o cavaleiro das
cebolas, senhor. • Os olhos azuis pestanejaram. - O do navio negro? . - Conhece
essa história? - Trouxe ao meu tio Stannis peixe para comer antes de eu nascer,
quando Lorde Tyrell o tinha cercado. - O rapaz ficou ereto. - Sou Edric Storm -
anunciou. - Filho do Rei Robert. - Claro que é, - Davos compreendera quase de
imediato. O rapaz possuía as orelhas proeminentes de um Florent, mas os
cabelos, os olhos, o maxilar, os malares eram todos Baratheon, - Conheceu meu
pai? - quis saber Edric Storm. - Vi-o muitas vezes quando visitava seu tio na
corte, mas nunca conversamos. - Meu pai me ensinou a lutar - disse
orgulhosamente o rapaz. - Vinha me visitar quase todos os anos, e às vezes
treinávamos juntos. No último dia de meu nome mandou-me um martelo de guerra
igualzinho ao dele, só que menor. Mas me obrigaram a deixá-lo em Ponta
Tempestade. E verdade que meu tio Stannis cortou seus dedos?&amp;nbsp;&amp;nbsp; - - Só a ponta. Ainda tenho dedos, só que
mais curtos. - - Mostre. - - Davos tirou a luva. O rapaz estudou sua mão com
atenção. - - Ele não encurtou seu polegar? - - Não, - Davos tossiu. - Não, o
polegar deixou inteiro. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
- Não devia ter cortado nenhum de seus dedos — decidiu o
rapaz. — Isso foi errado. - - Eu era um contrabandista. - Sim, mas
contrabandeou peixe e cebolas para ele. - Lorde Stannis fez-me cavaleiro pelas
cebolas e cortou meus dedos pelo contrabando. Vestiu as luvas. - Meu pai não
teria cortado seus dedos. - Como quiser, senhor. - Robert era um homem
diferente de Stannis, é bem verdade. O garoto é como ele. Sim, e também como
Renly. Esse pensamento deixou-o ansioso. O garoto preparava-se para dizer mais
alguma coisa quando ouviram passos. Davos virou-se. Sor Axell Florent descia o
caminho do jardim com uma dúzia de guardas com gibões acolchoados. Ao peito
traziam o coração flamejante do Senhor da Luz. Homens da rainha, pensou Davos.
Foi subitamente atacado pela tosse. Sor Axell era baixo e musculoso, com abdome
em forma de barril, braços fortes, pernas arqueadas, e pelos que cresciam em
suas orelhas. Tio da rainha, tinha servido durante uma década como castelão de
Pedra do Dragão, e sempre havia tratado Davos com cortesia, sabendo que ele
desfrutava da predileção de Lorde Stannis. Mas não havia nem cortesia nem calor
no tom de sua voz quando disse: - Sor Davos, e não afogado. Como isso é
possível? - As cebolas flutuam, sor. Veio para me levar ao rei? - Vim para
levá-lo até a masmorra, - Com um gesto, Sor Axell mandou os homens avançarem. -
Capturem-no e retirem a adaga dele. Ele pretende usá-la contra a nossa senhora.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/2263648733167663531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/uando-subiu-ao-conves-longa-ponta-de.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/2263648733167663531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/2263648733167663531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/uando-subiu-ao-conves-longa-ponta-de.html' title='Davos'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-1903600250410507633</id><published>2013-12-26T13:44:00.004-08:00</published><updated>2013-12-27T14:46:58.148-08:00</updated><title type='text'>Bran</title><content type='html'>BRAN&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
JC cadeia de montes projetava-se vivamente da terra, uma longa dobra de pedra e solo jfjfccom a&lt;br /&gt;
forma de uma garra. Árvores agarravam-se às suas vertentes inferiores, pinheiros, espinheiros e&lt;br /&gt;
freixos, mas mais acima o terreno era nu, e a linha de cumeada definia-se bem contra o céu&lt;br /&gt;
enevoado.&lt;br /&gt;
Sentiu que os rochedos elevados o chamavam. E lá subiu, a princípio a um trote fácil, e depois&lt;br /&gt;
mais depressa e mais alto, devorando o declive com as fortes patas. Aves saltavam dos galhos&lt;br /&gt;
por cima de sua cabeça quando passava por baixo correndo, abrindo caminho para o céu numa&lt;br /&gt;
confusão de garras e asas. Conseguia ouvir o vento suspirar por entre as folhas, os esquilos&lt;br /&gt;
chilreando uns para os outros, até o ruído que uma pinha fez ao cair no chão da floresta. Os&lt;br /&gt;
cheiros eram uma canção à sua volta, uma canção que enchia o belo mundo verde.&lt;br /&gt;
Cascalho voou de debaixo de suas patas quando conquistou os últimos metros e chegou ao&lt;br /&gt;
cume. O sol pendia, baixo, sobre os grandes pinheiros, enorme e vermelho, e por baixo dele as&lt;br /&gt;
árvores e os montes prolongavam-se até perder de vista ou de odor. Muito acima, uma pipa voava&lt;br /&gt;
em círculos, uma mancha escura contra o céu cor-de-rosa.&lt;br /&gt;
Príncipe. O som-de-homem entrou subitamente em sua cabeça, e no entanto ele conseguia&lt;br /&gt;
sentir que aquilo estava certo. Príncipe do verde, príncipe da mata de lobos. Era forte, rápido e&lt;br /&gt;
feroz, e tudo que vivia no belo mundo verde tinha medo dele.&lt;br /&gt;
Muito embaixo, na base da floresta, algo se moveu por entre as árvores. Uma imagem cinza,&lt;br /&gt;
apenas vislumbrada e logo desaparecida, mas o suficiente para levá-lo a erguer as orelhas. Lá&lt;br /&gt;
embaixo, ao lado de um riacho rápido e verde, outra silhueta surgiu e desapareceu, correndo.&lt;br /&gt;
Lobos, compreendeu. Seus primos pequenos, à caça de alguma presa. Agora o príncipe via mais,&lt;br /&gt;
sombras sobre velozes patas cinzentas. Uma matilha.&lt;br /&gt;
Ele também tivera uma matilha antes. Tinham sido cinco, e um sexto que ficava de lado. Em&lt;br /&gt;
algum lugar, bem fundo em seu íntimo, alojavam-se os sons que os homens lhes tinham dado&lt;br /&gt;
para distingui-los uns dos outros, mas não era pelos sons que os conhecia. Lembrava-se de seus&lt;br /&gt;
odores, dos odores de seus irmãos e irmãs. Todos tinham odores parecidos, cheiravam a matilha,&lt;br /&gt;
mas cada um deles também era diferente.&lt;br /&gt;
O príncipe sentia que o irmão zangado com os quentes olhos verdes estava próximo,, embora&lt;br /&gt;
não o visse já havia muitas caçadas. Mas com cada sol que se punha, ele distanciava-se mais, e&lt;br /&gt;
tinha sido o último. Os outros estavam muito espalhados, como folhas sopradas pelo vento forte.&lt;br /&gt;
Mas às vezes conseguia senti-los, como se ainda estivessem com ele, escondidos de sua vista&lt;br /&gt;
apenas por um pedregulho ou um pequeno bosque. Não era capaz de cheirá- -los, nem de ouvir&lt;br /&gt;
seus uivos noturnos, mas sentia a presença deles atrás de si... todos menos a irmã que tinham&lt;br /&gt;
perdido. Sua cauda abaixava quando se lembrava dela. Agora quatro, não cinco. Quatro e mais&lt;br /&gt;
um, o branco que não tem voz.&lt;br /&gt;
Aquela floresta pertencia a eles, as vertentes nevadas e os montes pedregosos, os grandes&lt;br /&gt;
pinheiros verdes e carvalhos de folhas douradas, os impetuosos riachos e lagos azuis,&lt;br /&gt;
emoldurados por dedos de gelo branco. Mas a irmã tinha abandonado as regiões selvagens para&lt;br /&gt;
caminhar nos salões da rocha-de-homem, onde outros caçadores governavam, e, uma vez dentro&lt;br /&gt;
desses salões, era difícil encontrar o caminho de volta. O príncipe lobo lembrava-se.&lt;br /&gt;
O vento mudou subitamente.&lt;br /&gt;
Veado, e medo, e sangue. O odor da presa despertou sua fome. O príncipe voltou a farejar o ar,&lt;br /&gt;
virando-se, e então partiu, saltando ao longo da cumeada com a boca entrea- berta. A outra&lt;br /&gt;
vertente da serra era mais inclinada do que aquela por onde tinha subido, mas correu, com&lt;br /&gt;
segurança, sobre pedras, raízes e folhas em putrefação, pela encosta abaixo e através das&lt;br /&gt;
árvores, devorando o terreno em longas passadas. O cheiro o atraía, cada vez mais depressa.&lt;br /&gt;
A corça estava no chão e morria quando chegou até ela, cercada por oito de seus primos&lt;br /&gt;
menores e cinza. As cabeças da matilha tinham começado a se alimentar, primeiro o macho e&lt;br /&gt;
depois a sua fêmea, rasgando em turnos a carne da barriga vermelha da presa. Os outros&lt;br /&gt;
esperavam pacientemente, todos menos a cauda da matilha, que vagueava num círculo&lt;br /&gt;
cuidadoso, a alguns passos dos restantes, com a própria cauda entre as pernas. Seria o último&lt;br /&gt;
animal a comer, e comeria o que quer que os irmãos lhe deixassem.&lt;br /&gt;
O príncipe estava contra o vento, e os lobos não o detectaram até saltar para cima de um tronco&lt;br /&gt;
caído a seis passos do local onde se alimentavam. A cauda foi a primeira a vê-lo, soltou um ganido&lt;br /&gt;
de dar dó, e escapuliu para longe. Os irmãos da matilha viraram- -se ao ouvir o ruído e mostraram&lt;br /&gt;
os dentes, rosnando, todos menos as cabeças macho e fêmea.&lt;br /&gt;
O lobo gigante respondeu aos rosnidos com um grave rugido de aviso e lhes mostrou os dentes.&lt;br /&gt;
Era maior do que os primos, com duas vezes o tamanho da magra cauda e vez e meia o dos dois&lt;br /&gt;
líderes da matilha. Saltou para o meio deles, e três fugiram, fundindo- -se com o arvoredo. Outro&lt;br /&gt;
atacou-o, mordendo. Enfrentou diretamente o ataque, abocanhou a perna do lobo e atirou-o para o&lt;br /&gt;
lado, ganindo e coxeando.&lt;br /&gt;
E então restava apenas a cabeça a enfrentar, o grande macho cinza com o focinho&lt;br /&gt;
ensangüentado, recém-saído de dentro da macia barriga da presa. Havia também pelos brancos&lt;br /&gt;
em seu focinho, que o identificava como um lobo velho, mas quando sua boca se abriu, uma saliva&lt;br /&gt;
vermelha escorreu de seus dentes.&lt;br /&gt;
Ele não tem medo, pensou o príncipe, não tem mais medo do que eu. Seria uma boa luta.&lt;br /&gt;
Atiraram-se um contra o outro.&lt;br /&gt;
Lutaram longamente, rolando juntos sobre raízes, pedras, folhas caídas e as entranhas&lt;br /&gt;
espalhadas da presa, rasgando o pelo um do outro com dentes e garras, separando-se,&lt;br /&gt;
rodeando-se e voltando a saltar para a luta. O príncipe era maior, e muito mais forte, mas o primo&lt;br /&gt;
tinha uma matilha. A fêmea caminhava por perto, em volta deles, farejando e rosnando, e&lt;br /&gt;
interpunha-se sempre que seu companheiro se afastava com um novo ferimento. De tempos em&lt;br /&gt;
tempos, os outros lobos também intervinham, mordendo uma perna ou uma orelha quando o&lt;br /&gt;
príncipe estava virado para o outro lado. Um deles irritou-o tanto que se virou numa fúria negra e&lt;br /&gt;
rasgou a garganta do atacante. Depois disso, os outros mantiveram-se a distância.&lt;br /&gt;
E na hora em que a última luz se filtrava através de ramos verdes e dourados, o lobo velho&lt;br /&gt;
deitou-se cansado na terra e rolou para expor a garganta e a barriga. Era a submissão.&lt;br /&gt;
O príncipe farejou-o e lambeu o sangue do pelo e da carne rasgada. Quando o lobo velho soltou&lt;br /&gt;
um suave ganido, o lobo gigante afastou-se. Tinha agora muita fome, e a presa era sua.&lt;br /&gt;
- Hodor.&lt;br /&gt;
O súbito som fez com que parasse e rosnasse. Os lobos olharam-no com olhos verdes e&lt;br /&gt;
amarelos, brilhando com a última luz do dia. Nenhum deles tinha ouvido aquilo. Era um estranho&lt;br /&gt;
vento que soprava apenas em seus ouvidos. Enterrou os dentes na barriga da corça e rasgou um&lt;br /&gt;
pedaço de carne.&lt;br /&gt;
- Hodor, hodor.&lt;br /&gt;
Não, pensou. Não, não quero. Era um pensamento de garoto, não de lobo gigante. A floresta&lt;br /&gt;
escureceu ao seu redor, até só restarem as sombras das árvores, e os clarões dos olhos dos&lt;br /&gt;
primos, E através deles e atrás desses olhos, viu o rosto sorridente de um homem grande, e uma&lt;br /&gt;
adega de pedra, cujas paredes estavam manchadas de salitre. O rico e quente sabor do sangue&lt;br /&gt;
desvaneceu-se em sua boca. Não, não, não, quero comer, quero comer, quero...&lt;br /&gt;
- Hodor, hodor, hodor, hodor, hodor - cantarolou Hodor enquanto o sacudia suavemente pelos&lt;br /&gt;
ombros, de um lado para o outro, de um lado para o outro. Estava tentando ser gentil, tentava&lt;br /&gt;
sempre, mas Hodor tinha dois metros e dez de altura e era mais forte do que pensava, e suas&lt;br /&gt;
enormes mãos faziam os dentes de Bran tremer.&lt;br /&gt;
- NÂOl - gritou, zangado. - Hodor, largue-me, estou aqui, estou aqui.&lt;br /&gt;
Hodor parou, parecendo desconcertado.&lt;br /&gt;
- Hodor?&lt;br /&gt;
A floresta e os lobos tinham desaparecido. Bran estava outra vez de volta à úmida adega de uma&lt;br /&gt;
antiga torre de vigia qualquer que devia ter sido abandonada havia milhares de anos, Agora não&lt;br /&gt;
era bem uma torre. As pedras caídas estavam mesmo tão cobertas de musgo e hera que quase&lt;br /&gt;
não se viam até se estar bem em cima delas. Bran tinha chamado o lugar de Torre Arruinada; mas&lt;br /&gt;
fora Meera quem encontrara a descida para a adega.&lt;br /&gt;
- Esteve longe tempo demais. - Jojen Reed tinha treze anos, era só quatro mais velho do que&lt;br /&gt;
Bran. Jojen também não era muito maior do que ele, não mais do que cinco centímetros, ou talvez&lt;br /&gt;
seis, mas tinha uma maneira solene de falar que fazia com que parecesse mais velho e mais sábio&lt;br /&gt;
do que realmente era. Em Winterfell, a Velha Ama o chamara de &quot;pequeno avô&quot;.&lt;br /&gt;
Bran franziu a testa para ele.&lt;br /&gt;
- Queria comer.&lt;br /&gt;
- Meera voltará em breve com o jantar.&lt;br /&gt;
- Estou farto de rãs. - Meera era uma papa-rãs do Gargalo, por isso Bran supunha que não&lt;br /&gt;
podia realmente culpáAa por apanhar tantas rãs, mesmo assim... - Queria comer a corça. - Por um&lt;br /&gt;
momento, recordou o seu gosto, o sangue e a carne rica e crua, e sua boca encheu-se de água.&lt;br /&gt;
Ganhei a luta pela presa. Ganhei.&lt;br /&gt;
- Marcou as árvores?&lt;br /&gt;
Bran corou. Jojen andava sempre lhe dizendo para fazer coisas quando abria o terceiro olho e&lt;br /&gt;
colocava a pele de Verão. Arranhar a casca de uma árvore, ou pegar um coelho e traze-lo na boca,&lt;br /&gt;
ainda inteiro, empurrar algumas pedras para formar uma fila. Coisas estúpidas.&lt;br /&gt;
- Esqueci - disse.&lt;br /&gt;
- Você esquece sempre.&lt;br /&gt;
Era verdade. Ele pretendia fazer as coisas que Jojen pedia, mas assim que era lobo elas nunca&lt;br /&gt;
pareciam importantes. Havia sempre coisas para ver e cheirar, um mundo verde inteiro onde caçar.&lt;br /&gt;
E podia correr! Não havia nada melhor do que correr, exceto correr atrás de uma presa.&lt;br /&gt;
- Eu era um príncipe, Jojen - disse ele ao garoto mais velho. - Era o príncipe da floresta.&lt;br /&gt;
- Você é um príncipe - lembrou-lhe Jojen com suavidade. - Lembra-se disso, não é verdade?&lt;br /&gt;
Diga-me quem é.&lt;br /&gt;
- Você sabe. - Jojen era seu amigo e professor, mas às vezes só tinha vontade de bater nele.&lt;br /&gt;
- Quero que diga as palavras. Diga-me quem é.&lt;br /&gt;
- Bran - ele falou, sem vontade, Bran, o Quebrado. - Brandon Stark. - O menino aleijado. - O&lt;br /&gt;
Príncipe de Winterfell. - Do Winterfell incendiado e em ruínas, de seu povo disperso e assassinado.&lt;br /&gt;
Os jardins de vidro estavam destruídos, e jorrava água quente das paredes rachadas, fumegando&lt;br /&gt;
ao sol. Como se pode ser príncipe de um lugar que possivelmente nunca mais se verá?&lt;br /&gt;
- E quem é o Verão? - perguntou Jojen,&lt;br /&gt;
- Meu lobo gigante. - Sorriu. - Príncipe do verde.&lt;br /&gt;
- Bran, o garoto, e Verão, o lobo, São, então, dois?&lt;br /&gt;
- Dois - suspirou - e um só. - Detestava Jojen quando ficava assim estúpido. Em Winterfell&lt;br /&gt;
queria que eu sonhasse os sonhos de lobo, e agora que sei como sonhá-los está sempre me&lt;br /&gt;
chamando de volta.&lt;br /&gt;
- Lembre-se disso, Bran. Lembre-se de si, senão o lobo vai consumi-lo. Quando se juntam, não&lt;br /&gt;
basta correr, caçar e uivar na pele de Verão.&lt;br /&gt;
Para mim, basta, pensou Bran. Gostava mais da pele de Verão do que da sua. De que serve ser&lt;br /&gt;
um troca-peles, se não se pode usar a pele que quiser?&lt;br /&gt;
- Vai se lembrar? E da próxima vez, marque a árvore. Qualquer árvore, não importa qual, desde&lt;br /&gt;
que o faça.&lt;br /&gt;
- Eu marcarei, Vou me lembrar, Podia voltar e fazer isso agora, se quiser. Dessa vez não me&lt;br /&gt;
esquecerei. - Mas primeiro como a minha corça, e luto mais um pouco com aqueles pequenos&lt;br /&gt;
lobos.&lt;br /&gt;
Jojen balançou a cabeça.&lt;br /&gt;
- Não. E melhor que fique e coma. Com a sua boca. Um warg não pode viver daquilo que seu&lt;br /&gt;
animal consome.&lt;br /&gt;
Como é que você sabe?, pensou Bran, com ressentimento. Nunca foi um warg, não sabe como&lt;br /&gt;
é.&lt;br /&gt;
De repente, Hodor ficou em pé, quase batendo com a cabeça no teto abobadado.&lt;br /&gt;
- HODOR! - gritou, correndo para a porta. Meera abriu-a antes de ele alcançá-la e entrou no&lt;br /&gt;
refugio do grupo. - Hodor, hodor - disse o enorme cavalariço, sorrindo.&lt;br /&gt;
Meera Reed tinha dezesseis anos, era uma mulher-feita, mas não era mais alta do que o&lt;br /&gt;
irmão.&quot;Todos os cranogmanos são pequenos&quot; ela havia dito um dia a Bran, quando lhe perguntara&lt;br /&gt;
por que não era mais alta. De cabelos castanhos, olhos verdes, e reta como um rapaz, caminhava&lt;br /&gt;
com uma graça flexível que Bran só podia observar e invejar. Meera usava uma adaga longa e&lt;br /&gt;
afiada, mas a sua maneira preferida de lutar era com uma esguia lança de três dentes para caçar&lt;br /&gt;
rãs numa mão e uma rede na outra.&lt;br /&gt;
- Quem tem fome? - perguntou ela, erguendo a caça que trazia: duas pequenas trutas&lt;br /&gt;
prateadas e seis gordas rãs verdes.&lt;br /&gt;
- Eu tenho - disse Bran. Mas não de rãs. Em Winterfell, antes de terem acontecido todas as&lt;br /&gt;
coisas más, os Walder costumavam dizer que comer rãs deixava os dentes verdes e fazia crescer&lt;br /&gt;
musgo debaixo dos braços. Perguntou a si mesmo se os Walder estariam mortos. Não tinha visto&lt;br /&gt;
seus cadáveres em Winterfell... mas foram muitos cadáveres, e não tinham procurado dentro das&lt;br /&gt;
construções.&lt;br /&gt;
- Nesse caso, teremos de lhe dar comida. Me ajuda a limpar a caça, Bran?&lt;br /&gt;
Ele assentiu. Era difícil se aborrecer com Meera. Ela era muito mais alegre do que o irmão e&lt;br /&gt;
parecia sempre saber como fazê-lo sorrir. Nada nunca a assustava ou a fazia se zangar. Bem,&lt;br /&gt;
exceto Jojen, às vezes... Jojen Reed conseguia assustar quase qualquer um. Vestia-se todo de&lt;br /&gt;
verde, tinha olhos escuros como musgo e sonhos verdes. Aquilo que Jojen sonhava tornava-se&lt;br /&gt;
realidade. Exceto que sonhou que eu morria, e não morri. Mas tinha morrido, de certo modo.&lt;br /&gt;
Jojen mandou Hodor buscar lenha e fez uma pequena fogueira, enquanto Bran e Meera&lt;br /&gt;
limpavam os peixes e as rãs. Usaram o elmo de Meera como panela, cortando a caça em&lt;br /&gt;
pequenos cubos e juntando um pouco de água a ela e algumas cebolas silvestres, que Hodor&lt;br /&gt;
achara, para fazer um guisado de rãs. Enquanto comia, Bran decidiu que não era tão bom quanto&lt;br /&gt;
corça, mas também não era ruim.&lt;br /&gt;
- Obrigado, Meera - disse. - Minha Senhora.&lt;br /&gt;
- Não tem de quê, Vossa Graça.&lt;br /&gt;
- De manhã - anunciou Jojen é melhor que prossigamos.&lt;br /&gt;
Bran viu Meera ficar tensa.&lt;br /&gt;
- Teve um sonho verde?&lt;br /&gt;
- Não - admitiu o irmão.&lt;br /&gt;
- Então por que temos de ir embora? - quis saber a irmã. - A Torre Arruinada é um bom lugar&lt;br /&gt;
para nós. Não há aldeias por perto, a floresta está cheia de caça, há peixe e rãs nos riachos e&lt;br /&gt;
lagos... quem é que vai nos encontrar aqui?&lt;br /&gt;
- Este não é o lugar em que devemos estar.&lt;br /&gt;
- Mas é seguro.&lt;br /&gt;
- Parece seguro, eu sei - disse Jojen -, mas por quanto tempo? Houve uma batalha em&lt;br /&gt;
Winterfell, vimos os mortos. Batalhas significam guerras. Se algum exército nos pegar&lt;br /&gt;
desprevenidos...&lt;br /&gt;
- Podia ser o exército de Robb - disse Bran. - Robb voltará em breve do sul, eu sei que sim. Ele&lt;br /&gt;
voltará com todos os seus vassalos e botará os homens de ferro para correr.&lt;br /&gt;
- Seu meistre não disse nada de Robb quando o encontramos à beira da morte - recordou-lhe&lt;br /&gt;
Jojen. - Homens de ferro na Costa Pedregosa, ele disse, e: a leste, o Bastardo de Bolton. Fosso&lt;br /&gt;
Cailin e Bosque Profundo caíram, o herdeiro de Cerwyn morreu, tal como o castelão de Praça de&lt;br /&gt;
Torrhen. Guerra por todo o lado, disse ele, cada homem contra o vizinho.&lt;br /&gt;
- Já fizemos esse caminho antes - disse a irmã. - Você quer seguir na direção da Muralha e de&lt;br /&gt;
seu corvo de três olhos. Isso está muito certo, mas a Muralha fica muito longe e Bran não tem&lt;br /&gt;
outras pernas que não sejam as de Hodor. Se estivéssemos a cavalo...&lt;br /&gt;
- Se fôssemos águias, poderíamos voar - disse Jojen em tom cortante -, mas não temos asas,&lt;br /&gt;
assim como não temos cavalos,&lt;br /&gt;
- Há cavalos que podemos obter - disse Meera. - Até mesmo nas profundezas da mata de lobos&lt;br /&gt;
há lenhadores, caseiros, caçadores. Alguns devem ter cavalos.&lt;br /&gt;
- E se tiverem, vamos roubá-los? Somos ladrões? A última coisa de que precisamos é de&lt;br /&gt;
homens nos perseguindo.&lt;br /&gt;
- Poderíamos comprá-los - disse ela. - Negociar por eles.&lt;br /&gt;
- Olhe para nós, Meera. Um rapaz aleijado com um lobo gigante, um gigante simplório e dois&lt;br /&gt;
cranogmanos a mil léguas do Gargalo. Seremos reconhecidos. E a notícia vai se espalhar.&lt;br /&gt;
Enquanto Bran permanecer morto, estará a salvo. Vivo, transforma-se numa presa para todos os&lt;br /&gt;
que o querem morto de verdade e para sempre. - Jojen dirigiu-se à fogueira para avivar as brasas&lt;br /&gt;
com um graveto. - Em algum ponto, ao norte, o corvo de três olhos nos espera. Bran precisa de um&lt;br /&gt;
professor mais sábio do que eu.&lt;br /&gt;
- Como, Jojen? - perguntou a irmã. - Como?&lt;br /&gt;
- A pé - respondeu ele. - Um passo de cada vez.&lt;br /&gt;
- A estrada de Água Cinzenta até Winterfell nunca mais acabava, e nós estávamos montados.&lt;br /&gt;
Você quer que percorramos um caminho mais longo a pé, sem sequer sabermos onde termina,&lt;br /&gt;
Para lá da Muralha, você diz. Não estive lá, assim como você, mas sei que Para-lá-da-Muralha é&lt;br /&gt;
um lugar grande, Jojen, Há muitos corvos com três olhos ou só há um? Como é que o&lt;br /&gt;
encontramos?&lt;br /&gt;
- Ele talvez nos encontre.&lt;br /&gt;
Antes que Meera pudesse pensar em uma resposta, ouviram o som; o uivo distante de um lobo,&lt;br /&gt;
ecoando na noite.&lt;br /&gt;
- Verão? - perguntou Jojen, escutando.&lt;br /&gt;
- Não. - Bran conhecia a voz de seu lobo gigante.&lt;br /&gt;
- Tem certeza? - perguntou o pequeno avô.&lt;br /&gt;
- Absoluta. - Naquele dia, Verão tinha se afastado muito, e não voltaria antes da alvorada. Jojen&lt;br /&gt;
talvez sonhe verde, mas não distingue um lobo de um lobo gigante. Perguntou a si mesmo por que&lt;br /&gt;
motivo todos escutavam tanto Jojen. Não era um príncipe como Bran, nem era grande e forte como&lt;br /&gt;
Hodor, nem tão bom caçador quanto Meera, e, no entanto, de algum modo, era sempre Jojen quem&lt;br /&gt;
lhes dizia o que fazer.&lt;br /&gt;
- Deveríamos roubar cavalos, como Meera quer - disse Bran e ir até os Umber, lá em cima na&lt;br /&gt;
Ultima Lareira. - Refletiu por um momento. - Ou podíamos roubar um barco e descer o Faca Branca&lt;br /&gt;
até a cidade de Porto Branco. E aquele gordo do Lorde Manderly que governa lá, ele foi amigável&lt;br /&gt;
na festa das colheitas. Queria construir navios. Talvez tenha construído alguns, e poderíamos&lt;br /&gt;
navegar até Correrrio e trazer Robb para casa com todo o seu exército. Então não importaria quem&lt;br /&gt;
soubesse que eu estou vivo. Robb não deixaria que alguém nos fizesse mal.&lt;br /&gt;
- Hodor! - exclamou Hodor. - Hodor, hodor.&lt;br /&gt;
Mas ele foi o único que gostou do plano de Bran. Meera limitou-se a sorrir para ele e Jojen&lt;br /&gt;
franziu a testa. Nunca escutavam o que ele queria, apesar de Bran ser um Stark e, além disso, um&lt;br /&gt;
príncipe, e os Reed do Gargalo serem vassalos dos Stark.&lt;br /&gt;
- Hoooodor - disse Hodor, se balançando. - Hooooooodor, hoooooooodor, hoDOR, hoDOR,&lt;br /&gt;
hoDOR. - Às vezes gostava de fazer aquilo, dizer o seu nome de diversas maneiras, uma vez, e&lt;br /&gt;
outra, e outra. Outras vezes, ficava tão calado que dava para esquecer que ele estava ali, Com&lt;br /&gt;
Hodor nunca se sabia. - HODOR, HODOR, HO- DOR! - gritou,&lt;br /&gt;
Ele não vai parar, compreendeu Bran.&lt;br /&gt;
- Hodor - disse -, por que não vai até lá fora treinar com a espada?&lt;br /&gt;
O cavalariço tinha se esquecido de sua espada, mas agora se lembrara.&lt;br /&gt;
- Hodor! - exclamou. Foi buscar a arma.&lt;br /&gt;
Tinham três espadas mortuárias que trouxeram das criptas de Winterfell quando Bran e o irmão&lt;br /&gt;
Rickon se esconderam dos homens de ferro de Theon Greyjoy. Bran ficou com a espada do tio&lt;br /&gt;
Brandon; Meera, com aquela que encontrara sobre os joelhos do avô, Lorde Rickard. A lâmina de&lt;br /&gt;
Hodor era muito mais velha, um enorme e pesado pedaço de ferro, embotado por séculos de&lt;br /&gt;
negligência e cheio de pontos de ferrugem. Podia passar horas e horas a brandi-la. Perto das&lt;br /&gt;
pedras tombadas, havia uma árvore apodrecida que ele tinha quase desfeito em pedaços.&lt;br /&gt;
Mesmo depois de o gigante sair conseguiam ouvi-lo através das paredes, berrando &quot;HODOR!&quot;&lt;br /&gt;
enquanto lançava estocadas e dava pancadas em sua árvore. Felizmente, a mata de lobos era&lt;br /&gt;
enorme, e não era provável que houvesse alguém por perto para ouvir.&lt;br /&gt;
- Jojen, o que você quis dizer com aquilo do professor? - perguntou Bran. - Meu professor é&lt;br /&gt;
você. Sei que não cheguei a marcar a árvore, mas marco da próxima vez. Meu terceiro olho está&lt;br /&gt;
aberto, como você queria...&lt;br /&gt;
- Está tão escancarado que temo que possa cair através dele, e viver o resto de seus dias como&lt;br /&gt;
um lobo na floresta.&lt;br /&gt;
- Não cairei, prometo.&lt;br /&gt;
- O garoto promete. O lobo vai se lembrar? Corre com o Verão, caça com ele, mata com ele...&lt;br /&gt;
mas se curva mais à vontade dele do que ele se curva à sua.&lt;br /&gt;
- Eu só me esqueço - protestou Bran. - Só tenho nove anos. Serei melhor quando for mais&lt;br /&gt;
velho. Nem mesmo Florian, o Bobo, e o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, eram grandes&lt;br /&gt;
guerreiros quando tinham nove anos.&lt;br /&gt;
- Isso é verdade - disse Jojen - e seria uma coisa sensata a dizer, se os dias ainda fossem mais&lt;br /&gt;
longos... mas não são. E uma criança de verão, eu sei. Diga-me o lema da Casa Stark.&lt;br /&gt;
- O Inverno está chegando. - Bastava dizê-lo para que Bran sentisse frio.&lt;br /&gt;
Jojen acenou solenemente com a cabeça.&lt;br /&gt;
- Sonhei com um lobo alado, preso à terra por correntes de pedra, e fui a Winterfell para&lt;br /&gt;
libertá-lo. Já não tem as correntes, mas ainda não voa.&lt;br /&gt;
- Então me ensina você. - Bran ainda temia o corvo de três olhos que às vezes assombrava&lt;br /&gt;
seus sonhos, bicando sem parar a pele entre os seus olhos e dizendo-lhe para voar. ~ E um&lt;br /&gt;
vidente verde.&lt;br /&gt;
- Não - disse Jojen sou só um garoto com sonhos. Os videntes verdes eram mais do que isso.&lt;br /&gt;
Eram também wargs, assim como você, e os maiores de todos podiam usar a pele de qualquer&lt;br /&gt;
animal que voasse, nadasse ou caminhasse, e eram também capazes de olhar através dos olhos&lt;br /&gt;
dos represeiros, e de ver a verdade que está por trás do mundo.&lt;br /&gt;
&quot;Os deuses concedem muitos dons, Bran. Minha irmã é uma caçadora. Foi-lhe dada a&lt;br /&gt;
capacidade de correr com rapidez e de ficar tão imóvel que parece ter desaparecido. Tem ouvidos&lt;br /&gt;
e olhos aguçados, uma mão firme com a rede e a lança. Sabe respirar lama e voar entre as árvores.&lt;br /&gt;
Eu não seria mais capaz de fazer essas coisas do que você. A mim, os deuses deram os sonhos&lt;br /&gt;
verdes, e a você... você poderia ser mais do que eu, Bran. E o lobo alado, e não há como dizer&lt;br /&gt;
quão longe ou alto poderia voar... se tivesse alguém que lhe ensinasse. Como eu poderia ajudá-lo&lt;br /&gt;
a dominar um dom que não compreendo? No Gargalo, recordamos os Primeiros Homens, e os&lt;br /&gt;
filhos da floresta, que eram seus amigos... mas tanto foi esquecido, e houve tanto que nunca&lt;br /&gt;
soubemos.&quot;&lt;br /&gt;
Meera pegou na mão de Bran.&lt;br /&gt;
- Se ficarmos aqui, sem incomodar ninguém, ficará a salvo até que a guerra termine. Mas não&lt;br /&gt;
aprenderá, exceto o que meu irmão pode lhe ensinar, e você ouviu o que ele disse. Se deixarmos&lt;br /&gt;
este lugar para procurar refúgio na Ultima Lareira ou Para-lá-da- -Muralha, arriscamo-nos a ser&lt;br /&gt;
capturados. Você é apenas um garoto, eu sei, mas também é o nosso príncipe, o filho de nosso&lt;br /&gt;
senhor e o verdadeiro herdeiro de nosso rei. Juramos lealdade a você em nome da terra e da água,&lt;br /&gt;
do bronze e do ferro, do gelo e do fogo. O risco é seu, Bran, tal como o dom. A escolha também&lt;br /&gt;
deve ser sua, creio eu. Somos seus servos e estamos às suas ordens. - Ela sorriu. - Pelo menos&lt;br /&gt;
nisso.&lt;br /&gt;
- Quer dizer - disse Bran - que vão fazer o que eu disser? Mesmo?&lt;br /&gt;
- Sim, meu príncipe - respondeu a garota -, portanto, reflita bem.&lt;br /&gt;
Bran tentou pensar em todos os detalhes, como o pai poderia ter feito. Os tios do Grande-Jon,&lt;br /&gt;
Hother Terror-das-Rameiras e Mors Papa-Corvos, eram homens violentos, mas achava que se&lt;br /&gt;
mostrariam leais. E os Karstark, eles também. O pai dizia sempre que Karhold era um castelo forte.&lt;br /&gt;
Estaríamos a salvo com os Umber ou os Karstark.&lt;br /&gt;
Ou podiam ir para sul, até o gordo Lorde Manderly. Em Winterfell, ele riu muito, e nunca pareceu&lt;br /&gt;
olhar para Bran com piedade demais, como faziam os outros senhores. O Castelo Cerwyn ficava&lt;br /&gt;
mais perto do que Porto Branco, mas Meistre Luvvin havia dito que Cley Cerwyn estava morto. Os&lt;br /&gt;
Umber, os Karstark e os Manderly também podem estar mortos, compreendeu. Tal como ele&lt;br /&gt;
ficaria, se fosse pego pelos homens de ferro ou pelo Bastardo de Bolton.&lt;br /&gt;
Se ficassem ali, escondidos por baixo da Torre Arruinada, ninguém os encontraria.&lt;br /&gt;
Permaneceria vivo. E aleijado,&lt;br /&gt;
Bran percebeu que estava chorando. Bebê imbecil, pensou consigo mesmo. Fosse para onde&lt;br /&gt;
fosse, para Karhold, para Porto Branco ou para a Atalaia da Água Cinzenta, seria um aleijado&lt;br /&gt;
quando lá chegasse. Fechou as mãos em punho.&lt;br /&gt;
- Quero voar - disse-lhes. - Por favor. Levem-me ao corvo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/1903600250410507633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/bran-jc-cadeia-de-montes-projetava-se.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1903600250410507633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/1903600250410507633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/bran-jc-cadeia-de-montes-projetava-se.html' title='Bran'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-929903956931393928</id><published>2013-12-26T13:44:00.001-08:00</published><updated>2013-12-26T13:44:13.418-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Daenerys&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O lento e constante bater de tambores e o suave sibilar dos remos das galés pairavam sobre a&lt;br /&gt;
imóvel água azul. A grande coca gemia em seu rastro, com as pesadas cordas bem retesadas&lt;br /&gt;
entre os navios. As velas do Balerion pendiam, flácidas, caindo desamparadas dos mastros.&lt;br /&gt;
Mesmo assim, em pé no castelo de proa, observando seus dragões se perseguirem com um céu&lt;br /&gt;
azul sem nuvens ao fundo, Daenerys Targaryen estava tão feliz como jamais se lembrava de estar.&lt;br /&gt;
Seus dothraki chamavam o mar de água venenosa, desconfiando de qualquer líquido que seus&lt;br /&gt;
cavalos não pudessem beber. No dia em que os três navios tinham levantado âncora em Qarth,&lt;br /&gt;
seria possível ter pensado que estavam zarpando para o inferno e não para Pentos. Seus bravos e&lt;br /&gt;
jovens companheiros de sangue fitavam com enormes olhos brancos a linha de costa que&lt;br /&gt;
minguava, cada um deles determinado a não mostrar medo perante os outros dois, enquanto as&lt;br /&gt;
aias Irri e Jhiqui se agarravam desesperadamente à amurada e vomitavam borda afora a cada&lt;br /&gt;
pequeno balanço. O resto do minúsculo khala- sar de Dany permanecia sob o convés, preferindo a&lt;br /&gt;
companhia de seus nervosos cavalos ao aterrorizador mundo sem terra que rodeava os navios.&lt;br /&gt;
Quando uma súbita tempestade os engoliu no sexto dia de viagem, ouviu-os através das&lt;br /&gt;
escotilhas; os cavalos relinchando e aos coices, os cavaleiros rezando com vozes agudas e&lt;br /&gt;
trêmulas a cada vez que o Balerion se elevava ou adernava.&lt;br /&gt;
Mas nenhum balanço era capaz de assustar Dany. Era chamada Daenerys, nascida na&lt;br /&gt;
Tormenta, pois chegara ao mundo, aos gritos, na distante Pedra do Dragão, enquanto a maior&lt;br /&gt;
tempestade de que se havia memória em Westeros rugia lá fora, uma tempestade tão violenta que&lt;br /&gt;
arrancou gárgulas das muralhas do castelo e fez a frota do pai em pedaços.&lt;br /&gt;
O mar estreito era freqüentemente tempestuoso, e Dany atravessara-o meia centena de vezes&lt;br /&gt;
quando menina, correndo de uma Cidade Livre para a seguinte, meio passo à frente dos&lt;br /&gt;
assassinos contratados pelo Usurpador. Adorava o mar. Gostava do intenso cheiro salgado do ar e&lt;br /&gt;
da vastidão do horizonte, limitado apenas por uma abóbada de céu azul-celeste. Fazia-a sentir-se&lt;br /&gt;
pequena, mas também livre. Gostava dos golfinhos que às vezes nadavam ao lado do Balerion,&lt;br /&gt;
cortando as ondas como lanças prateadas, e dos peixes-voadores que podiam ser vislumbrados&lt;br /&gt;
de vez em quando. Até gostava dos marinheiros, com todas as suas canções e histórias. Certa vez,&lt;br /&gt;
em uma viagem para Bravos, enquanto observava a tripulação que lutava para arriar uma grande&lt;br /&gt;
vela verde no meio de uma crescente ventania, até tinha pensado em como seria bom ser um&lt;br /&gt;
marinheiro. Mas, quando disse isso ao irmão, Viserys torcera seus cabelos até fazê-la gritar.&lt;br /&gt;
- Você é do sangue do dragão - ele berrou. - Um dragão, não um peixe fedorento qualquer.&lt;br /&gt;
Foi um tolo com isso, como com tantas outras coisas, pensou Dany. Se tivesse sido mais sensato&lt;br /&gt;
e mais paciente, seria ele quem viajaria para oeste a fim de tomar o trono que era dele por&lt;br /&gt;
direito. Havia chegado à conclusão de que Viserys era burro e mau, mesmo assim às vezes sentia&lt;br /&gt;
sua falta. Não do homem fraco e cruel em que se transformara por fim, mas do irmão que às vezes&lt;br /&gt;
a deixava se deitar na cama dele, do garoto que lhe contava histórias sobre os Sete Reinos e&lt;br /&gt;
falava de como a vida de ambos seria melhor depois de reclamar a sua coroa.&lt;br /&gt;
O capitão surgiu junto a ela.&lt;br /&gt;
- Seria bom que este Balerion pudesse voar como o seu homônimo, Vossa Graça - disse num&lt;br /&gt;
valiriano baixo, fortemente temperado pelo sotaque de Pentos. - Então não precisaríamos remar,&lt;br /&gt;
nem rebocar, nem rezar por vento.&lt;br /&gt;
- É verdade, capitão - respondeu ela com um sorriso, satisfeita por ter conquistado o homem. O&lt;br /&gt;
capitão Groleo era um velho pentoshi como o seu patrão, Illyrio Mopatis, e tinha se mostrado&lt;br /&gt;
nervoso como uma donzela com a idéia de transportar três dragões em seu navio. Meia centena de&lt;br /&gt;
baldes de água do mar ainda pendiam da amurada, para o caso de incêndio. A princípio, Groleo&lt;br /&gt;
quis os dragões engaiolados e Dany consentiu para sossegá-lo, mas a infelicidade dos animais era&lt;br /&gt;
tão palpável que rapidamente mudou de idéia e insistiu para que fossem libertados.&lt;br /&gt;
Agora até o capitão Groleo estava contente com isso. Ocorrera um pequeno incêndio, extinto&lt;br /&gt;
com facilidade; em compensação, agora o Balerion parecia ter menos ratazanas do que antes,&lt;br /&gt;
quando velejara com o nome de Saduleon. E a tripulação, antes tão temerosa quanto curiosa,&lt;br /&gt;
começou a ganhar um estranho orgulho feroz de &quot;seus&quot; dragões. Todos os homens do navio, do&lt;br /&gt;
capitão ao ajudante de cozinha, gostavam de ver os três voando... embora nenhum gostasse tanto&lt;br /&gt;
como Dany.&lt;br /&gt;
São meus filhos, disse a si mesma, e se a maegi falou a verdade, são os únicos filhos que&lt;br /&gt;
alguma vez terei.&lt;br /&gt;
As escamas de Viserion eram da cor de creme fresco e seus chifres, os ossos das asas e a&lt;br /&gt;
crista dorsal, de um dourado escuro que relampejava ao sol, brilhante como metal. Rhaegal era&lt;br /&gt;
feito do verde do verão e do bronze do outono. Voavam por cima dos navios em largos círculos,&lt;br /&gt;
cada vez mais alto, ambos tentando subir acima do outro.&lt;br /&gt;
Dany tinha aprendido que os dragões preferiam sempre atacar de cima. Se algum deles&lt;br /&gt;
conseguisse se colocar entre o outro e o sol, dobrava as asas e mergulhava, gritando, e caíam&lt;br /&gt;
ambos do céu, presos numa emaranhada bola escamosa, com as mandíbulas atacando e as&lt;br /&gt;
caudas chicoteando. Da primeira vez que tinham feito isso, Dany temeu que quisessem matar um&lt;br /&gt;
ao outro, mas era só brincadeira. Assim que caíam no mar, es- pirrando água, largavam-se e&lt;br /&gt;
voltavam a levantar voo, guinchando e silvando, com a água salgada evaporando de sua pele, em&lt;br /&gt;
nuvens de vapor, enquanto as asas rasgavam o ar. Drogon também andava pelas alturas, mas não&lt;br /&gt;
se encontrava à vista; devia estar muito à frente ou atrás, caçando.&lt;br /&gt;
Seu Drogon andava sempre com fome. Com fome e crescendo depressa. Mais um ano, ou&lt;br /&gt;
talvez dois, e estará suficientemente grande para montar. Então não terei necessidade de navios&lt;br /&gt;
para atravessar o grande mar salgado.&lt;br /&gt;
Mas esse tempo ainda não tinha chegado. Rhaegal e Viserion eram do tamanho de cães&lt;br /&gt;
pequenos, Drogon, só um pouco maior, e qualquer cão seria mais pesado do que eles; os dragões&lt;br /&gt;
eram todos asas, pescoço e cauda, mais leves do que pareciam. E assim Daenerys Targaryen&lt;br /&gt;
dependia de madeira, vento e vela para levá-la para casa.&lt;br /&gt;
A madeira e a vela tinham-na servido bastante bem até agora, mas o inconstante vento&lt;br /&gt;
tornara-se traidor. Havia seis dias e seis noites que estavam presos numa calmaria, e agora o&lt;br /&gt;
sétimo dia chegara, e ainda não havia um sopro de ar que enchesse suas velas. Felizmente, dois&lt;br /&gt;
dos navios que o Magíster Illyrio tinha mandado à sua procura eram galés mercantes, com&lt;br /&gt;
duzentos remos cada uma e tripulação de remadores de braços fortes para manuseá-los. Mas a&lt;br /&gt;
grande coca Balerion tocava por outra partitura; um navio imponentemente largo que mais parecia&lt;br /&gt;
uma imensa porca, com porões gigantescos e enormes velas, mas que era impotente numa&lt;br /&gt;
calmaria. A Vbagar e a Meraxes tinham-lhe atirado cabos para rebocá-la, mas o avanço era&lt;br /&gt;
dolorosamente lento. Os três navios estavam repletos de gente e iam muito carregados.&lt;br /&gt;
- Não vejo o Drogon - disse Sor Jorah Mormont quando se juntou a ela no castelo de proa. -&lt;br /&gt;
Perdeu-se outra vez?&lt;br /&gt;
- Somos nós que estamos perdidos, sor. Drogon não gosta mais do que eu deste rastejar&lt;br /&gt;
molhado. - Mais ousado do que os outros dois, seu dragão negro tinha sido o primeiro a&lt;br /&gt;
experimentar as asas por cima da água, o primeiro a pairar de navio em navio, o primeiro a se&lt;br /&gt;
perder numa nuvem passageira... e o primeiro a matar. Assim que os peixes-voadores rompiam a&lt;br /&gt;
superfície da água, eram envolvidos numa lança de chamas, apanhados e engolidos. - Ele&lt;br /&gt;
crescerá até que tamanho? - perguntou Dany com curiosidade. - Você sabe?&lt;br /&gt;
- Nos Sete Reinos contam-se histórias de dragões que cresceram tanto que conseguiam&lt;br /&gt;
arrancar lulas gigantes do mar.&lt;br /&gt;
Dany soltou uma gargalhada.&lt;br /&gt;
- Isso seria uma visão maravilhosa.&lt;br /&gt;
- E só uma história, Kbaleesi - disse seu cavaleiro exilado. - Também falam de velhos e sábios&lt;br /&gt;
dragões que viveram mil anos.&lt;br /&gt;
- Bom, e quanto tempo vive mesmo um dragão? - olhou para cima quando Viserion passou em&lt;br /&gt;
voo rasante por cima do navio, batendo lentamente as asas e agitando as velas murchas.&lt;br /&gt;
Sor Jorah encolheu os ombros.&lt;br /&gt;
- A vida natural de um dragão é muito mais longa do que a de um homem, ou pelo menos é isso&lt;br /&gt;
que as canções nos querem levar a crer... mas os dragões que os Sete Reinos conheceram melhor&lt;br /&gt;
foram aqueles da Casa Targaryen. Eram criados para a guerra, e na guerra morriam. Matar um&lt;br /&gt;
dragão não é coisa fácil, mas é possível.&lt;br /&gt;
O escudeiro Barba-Branca, em pé junto da figura de proa, com uma mão esguia segurando seu&lt;br /&gt;
rijo bastão de madeira, virou-se para eles e disse:&lt;br /&gt;
- Balerion, o Terror Negro, tinha duzentos anos de idade quando morreu durante o reinado de&lt;br /&gt;
Jaehaerys, o Conciliador. Era tão grande que podia engolir um auroque inteiro. Um dragão nunca&lt;br /&gt;
para de crescer, Vossa Graça, desde que tenha comida e liberdade. - O nome do homem era&lt;br /&gt;
Arstan, mas Belwas, o Forte, apelidara-o de Barba-Branca devido à cor dos pelos que cresciam em&lt;br /&gt;
seu rosto, e agora quase todos o chamavam assim. Era mais alto do que Sor Jorah, embora não&lt;br /&gt;
fosse tão musculoso; seus olhos eram azul- -claros, e sua longa barba era branca como neve e fina&lt;br /&gt;
como seda.&lt;br /&gt;
- Liberdade? - perguntou Dany, curiosa. -O que quer dizer?&lt;br /&gt;
- Em Porto Real, seus ancestrais construíram para os dragões um imenso castelo coberto por&lt;br /&gt;
uma cúpula. Chama-se Fosso dos Dragões. Ainda está de pé no topo da Colina de Rhaenys,&lt;br /&gt;
embora esteja agora em ruínas. Era lá que os dragões reais moravam nos dias de outrora, e era&lt;br /&gt;
uma habitação espaçosa, com portas de ferro tão largas que trinta cavaleiros podiam atravessá-las&lt;br /&gt;
lado a lado. Mas, mesmo assim, notou-se que nunca nenhum dos dragões do fosso atingiu o&lt;br /&gt;
tamanho de seus ancestrais. Os meistres dizem que isso se deveu às paredes que os rodeavam, e&lt;br /&gt;
ao grande domo sobre suas cabeças.&lt;br /&gt;
- Se as paredes pudessem nos manter pequenos, os camponeses seriam todos minúsculos e&lt;br /&gt;
os reis, grandes como gigantes - disse Sor Jorah. - Eu vi homens enormes nascidos em casebres e&lt;br /&gt;
anões que viviam em castelos.&lt;br /&gt;
- Homens são homens - respondeu Barba-Branca. -Dragões são dragões.&lt;br /&gt;
Sor Jorah fungou de desdém.&lt;br /&gt;
- Que profundo. - O cavaleiro exilado não simpatizava com o velho, tinha deixado isso claro&lt;br /&gt;
desde o início. - De resto, o que você sabe a respeito de dragões?&lt;br /&gt;
~ Bastante pouco, é verdade. Mas servi durante algum tempo em Porto Real, nos dias em que o&lt;br /&gt;
Rei Aerys ocupava o Trono de Ferro, e caminhei sob os crânios de dragões que olhavam para&lt;br /&gt;
baixo, das paredes de sua sala do trono.&lt;br /&gt;
- Viserys falava desses crânios - disse Dany. - O Usurpador tirou-os das paredes e os&lt;br /&gt;
escondeu. Não suportava vê-los olhando-o no trono que havia roubado, - Fez um gesto para que&lt;br /&gt;
Barba-Branca se aproximasse. - Chegou a conhecer meu real pai? - o Rei Aerys II morrera antes&lt;br /&gt;
de a filha nascer,&lt;br /&gt;
- Tive essa grande honra, Vossa Graça.&lt;br /&gt;
- Achou-o bom e gentil?&lt;br /&gt;
Barba-Branca fez o seu melhor para esconder os sentimentos, mas eles estavam ali,&lt;br /&gt;
estampados em seu rosto,&lt;br /&gt;
- Sua Graça era... freqüentemente agradável.&lt;br /&gt;
- Freqüentemente? - Dany sorriu. - Mas nem sempre?&lt;br /&gt;
- Podia ser muito severo para com aqueles que julgava ser seus inimigos.&lt;br /&gt;
- Um homem sensato nunca faz de um rei um inimigo - disse Dany. - Também conheceu meu&lt;br /&gt;
irmão Rhaegar?&lt;br /&gt;
- Dizia-se que homem algum chegou a conhecer realmente o Príncipe Rhaegar. Mas tive o&lt;br /&gt;
privilégio de vê-lo em torneios e ouvi-o freqüentemente tocar a sua harpa de cordas de prata.&lt;br /&gt;
Sor Jorah fungou.&lt;br /&gt;
- Junto com outros mil em alguma festa das colheitas. A seguir vai dizer que foi o escudeiro dele.&lt;br /&gt;
- Não direi uma coisa dessas, sor. O escudeiro do Príncipe Rhaegar foi Myles Moo- ton, e&lt;br /&gt;
depois Richard Lonmouth. Quando ganharam suas esporas, foi ele mesmo quem os armou&lt;br /&gt;
cavaleiros, e permaneceram companheiros próximos. O jovem Lorde Conning- ton também era&lt;br /&gt;
caro ao príncipe, mas seu amigo mais antigo era Arthur Dayne.&lt;br /&gt;
- A Espada da Manhã! - disse Dany, deliciada. - Viserys costumava falar de sua maravilhosa&lt;br /&gt;
lâmina branca. Dizia que Sor Arthur era o único cavaleiro no reino capaz de se igualar a nosso&lt;br /&gt;
irmão.&lt;br /&gt;
Barba-Branca inclinou a cabeça.&lt;br /&gt;
- Não me cabe questionar as palavras do Príncipe Viserys.&lt;br /&gt;
- Rei - corrigiu Dany. - Ele foi um rei, embora nunca tenha reinado. Viserys, o Terceiro de Seu&lt;br /&gt;
Nome. Mas o que quer dizer? - a resposta dele não fora a que esperava. - Sor Jorah certa vez&lt;br /&gt;
chamou Rhaegar de o último dragão. Ele precisava ter sido um guerreiro ímpar para ser chamado&lt;br /&gt;
assim, certamente.&lt;br /&gt;
- Vossa Graça - disse Barba-Branca -, o Príncipe de Pedra do Dragão foi um guerreiro muito&lt;br /&gt;
poderoso, mas...&lt;br /&gt;
- Prossiga - pediu ela. - Pode falar livremente comigo.&lt;br /&gt;
- Às suas ordens. - O velho apoiou-se em seu bastão, com a testa enrugada. - Um guerreiro&lt;br /&gt;
sem par... essas são belas palavras, Vossa Graça, mas palavras não vencem batalhas.&lt;br /&gt;
- As espadas vencem batalhas - disse Sor Jorah sem rodeios. - E o Príncipe Rhaegar sabia usar&lt;br /&gt;
uma.&lt;br /&gt;
- Sabia, sor, mas... vi uma centena de torneios e mais guerras do que desejaria, e por mais&lt;br /&gt;
forte, rápido ou hábil que um cavaleiro seja, há outros que podem se equiparar a eles. Um homem&lt;br /&gt;
pode ganhar um torneio e cair rapidamente no seguinte. Um ponto escorregadio na relva, ou aquilo&lt;br /&gt;
que se comeu na noite anterior, pode significar a derrota. Uma mudança no vento pode trazer a&lt;br /&gt;
dádiva da vitória. - Olhou de relance para Sor Jorah. - Ou o favor de uma senhora atado em volta&lt;br /&gt;
de um braço.&lt;br /&gt;
O rosto de Mormont obscureceu-se.&lt;br /&gt;
- Tenha cuidado com o que diz, velho.&lt;br /&gt;
Dany sabia que Arstan vira Sor Jorah lutar em Lanisporto, no torneio que Mormont tinha&lt;br /&gt;
ganhado com o favor de uma senhora atado ao braço. Tinha conquistado também a senhora;&lt;br /&gt;
Lynesse, da Casa Hightower, sua segunda esposa, bem-nascida e bela... mas ela arruinara-o e&lt;br /&gt;
abandonara-o, e a recordação da mulher agora era amarga para ele.&lt;br /&gt;
- Seja gentil, meu cavaleiro. - Dany pôs uma mão no braço de Jorah. - Estou certa de que Arstan&lt;br /&gt;
não teve nenhuma intenção de ofendê-lo.&lt;br /&gt;
- Às suas ordens, Khaleesi. - A voz de Sor Jorah mostrava ressentimento,&lt;br /&gt;
Dany voltou-se para o escudeiro.&lt;br /&gt;
- Sei pouco de Rhaegar. Só as histórias que Viserys contava, e ele era um garotinho quando&lt;br /&gt;
nosso irmão morreu. Como ele era realmente?&lt;br /&gt;
O velho refletiu por um momento.&lt;br /&gt;
- Capaz. Isso acima de tudo. Determinado, circunspecto, cumpridor, obstinado. Conta-se uma&lt;br /&gt;
história sobre ele... mas sem dúvida Sor Jorah também a conhece.&lt;br /&gt;
- Gostaria de ouvi-la de você.&lt;br /&gt;
- Às suas ordens - disse Barba-Branca. - Quando criança, o Príncipe de Pedra do Dragão era&lt;br /&gt;
extraordinariamente dado à leitura. Começou a ler tão cedo que os homens diziam que a Rainha&lt;br /&gt;
Rhaella devia ter engolido alguns livros e uma vela enquanto ele estava em seu ventre. Rhaegar&lt;br /&gt;
não tinha nenhum interesse pelas brincadeiras das outras crianças. Os meistres ficavam&lt;br /&gt;
assombrados com sua inteligência, mas os cavaleiros do pai trocavam gracejos amargos sobre&lt;br /&gt;
Baelor, o Abençoado, ter renascido. Até que um dia o Príncipe Rhaegar encontrou algo em seus&lt;br /&gt;
pergaminhos que o mudou. Ninguém sabe o que pode ter sido, só se sabe que o garoto apareceu&lt;br /&gt;
no pátio uma manhã, no momento em que os cavaleiros vestiam as armaduras. Foi direito a Sor&lt;br /&gt;
Willem Darry, o mestre de armas, e disse: &quot;Vou precisar de espada e armadura. Parece que tenho&lt;br /&gt;
de ser um guerreiro.&quot;&lt;br /&gt;
- E foi! — disse Dany, deliciada,&lt;br /&gt;
- Foi, realmente, - Barba-Branca fez uma reverência. - Meus perdões, Vossa Graça. Falamos de&lt;br /&gt;
guerreiros e eu vejo que Belwas, o Forte, se levantou. Tenho de ir servi-lo.&lt;br /&gt;
Dany lançou um rápido olhar para a popa. O eunuco saía do porão no meio do navio, ágil,&lt;br /&gt;
apesar de todo o seu tamanho. Belwas era atarracado mas largo, uns bons noventa e cinco quilos&lt;br /&gt;
de gordura e músculo, com sua grande barriga marrom atravessada por cicatrizes brancas&lt;br /&gt;
desvanecidas. Usava calças largas, uma faixa de seda amarela na cintura, e um colete de couro&lt;br /&gt;
absurdamente minúsculo, decorado com rebites de ferro,&lt;br /&gt;
- Belwas, o Forte, tem fome! - rugiu para todos e para ninguém em especial. - Belwas, o Forte,&lt;br /&gt;
quer comer, já! - Virando-se, viu Arstan no castelo de proa. - Barba- -Branca! Vai trazer comida&lt;br /&gt;
para Belwas, o Forte!&lt;br /&gt;
- Pode ir - disse Dany ao escudeiro. Ele fez outra reverência e afastou-se para satisfazer as&lt;br /&gt;
necessidades do homem a quem servia.&lt;br /&gt;
Sor Jorah ficou observando-o com uma carranca em seu rosto franco e honesto. Mor- mont era&lt;br /&gt;
grande e corpulento, com mandíbula forte e ombros largos. Hão era, de modo algum, um homem&lt;br /&gt;
bonito, mas era o amigo mais leal que Dany alguma vez tivera.&lt;br /&gt;
- Seria sensata se desse um bom desconto às palavras daquele velho - disse-lhe quando&lt;br /&gt;
Barba-Branca se afastou o suficiente para não ouvi-los.&lt;br /&gt;
- Uma rainha deve escutar todos - lembrou-lhe Dany. - Os de nascimento alto e baixo, os fortes&lt;br /&gt;
e os fracos, os nobres e os venais. Uma voz pode proferir falsidades, mas em muitas sempre é&lt;br /&gt;
possível encontrar verdade. - Lera aquilo num livro.&lt;br /&gt;
- Escute então a minha voz, Vossa Graça - disse o exilado, - Esse Arstan Barba- -Branca está&lt;br /&gt;
levando a senhora ao engano, E velho demais para ser escudeiro, e fala bem demais para servir&lt;br /&gt;
àquele eunuco idiota.&lt;br /&gt;
Isso realmente parece estranho, Dany teve de admitir. Belwas, o Forte, era um ex- -escravo,&lt;br /&gt;
criado e treinado nas arenas de luta de Meereen. O Magíster Illyrio enviara-o para protegê-la, ou&lt;br /&gt;
pelo menos era isso que Belwas dizia, e era verdade que ela precisava de proteção. O Usurpador,&lt;br /&gt;
em seu Trono de Ferro, oferecera terras e uma senhoria a qualquer homem que a matasse. Uma&lt;br /&gt;
tentativa já tinha acontecido, com uma taça de vinho envenenado. Quanto mais perto chegasse de&lt;br /&gt;
Westeros, mais provável se tornava outro ataque. Em Qarth, o mago Pyat Pree enviara um Homem&lt;br /&gt;
Pesaroso em seu encalço para vingar os Imortais que ela queimara na sua Casa de Poeira, Os&lt;br /&gt;
magos nunca esqueciam uma desfeita, dizia-se, e os Homens Pesarosos nunca falhavam uma&lt;br /&gt;
morte. A maioria dos dothraki também estaria contra ela. Os kos de Khal Drogo lideravam agora&lt;br /&gt;
kha- lasares seus, e nenhum hesitaria em atacar o pequeno bando de Dany assim que o visse,&lt;br /&gt;
para matar e escravizar seu povo e arrastar a própria Dany para Vaes Dothrak, a fim de tomar o&lt;br /&gt;
lugar que lhe era próprio entre as velhas mirradas do dosh khaleen. Ela esperava que Xaro Xhoan&lt;br /&gt;
Daxos não fosse um inimigo, mas o mercador qarteno tinha cobiçado seus dragões, E havia ainda&lt;br /&gt;
Quaithe da Sombra, essa mulher estranha com máscara de laca vermelha e todos os seus&lt;br /&gt;
misteriosos conselhos, Seria também uma inimiga, ou apenas uma amiga perigosa? Dany não&lt;br /&gt;
sabia dizer.&lt;br /&gt;
Sor Jorah salvou-me do envenenador, e Arstan Barba-Branca, da mantícora. Talvez Belwas, o&lt;br /&gt;
Forte, me salve do próximo, Ele era suficientemente enorme, com braços semelhantes a pequenas&lt;br /&gt;
árvores e um grande arakh curvo tão afiado que poderia ter se barbeado com ele, no improvável&lt;br /&gt;
caso de nascerem pelos naquelas bochechas lisas e marrons. Mas também era infantil Como&lt;br /&gt;
protetori deixa muito a desejar. Felizmente, tenho Sor Jorah e meus companheiros de sangue. E os&lt;br /&gt;
meus dragões, não posso esquecer. A seu tempo, os dragões seriam seus guardiães mais&lt;br /&gt;
poderosos, tal como tinham sido para Aegon, o Conquistador, e suas irmãs trezentos anos antes.&lt;br /&gt;
Mas, por enquanto, traziam-lhe mais perigo do que proteção. No mundo inteiro não havia mais de&lt;br /&gt;
três dragões vivos, e eles eram seus; uma maravilha e um terror. E não tinham preço.&lt;br /&gt;
Refletia sobre as palavras que diria em seguida quando sentiu um sopro frio na nuca, e uma&lt;br /&gt;
madeixa solta de seus cabelos louro-prateados se agitou contra sua testa. Por cima, a vela rangeu&lt;br /&gt;
e moveu-se, e de repente irrompeu um grande grito em todo o Balerion.&lt;br /&gt;
- Vento! - gritavam os marinheiros. - O vento voltou, o ventol&lt;br /&gt;
Dany olhou para cima, para onde as velas da grande coca ondulavam e se enfunavam enquanto&lt;br /&gt;
as cordas vibravam, se retesavam e cantavam a doce canção de que tinham sentido tanta falta&lt;br /&gt;
durante seis longos dias. O capitão Groleo correu para o fundo, gritando ordens. Os pentoshi,&lt;br /&gt;
aqueles que não estavam soltando vivas, escalavam os mastros, Até Belwas, o Forte, soltou um&lt;br /&gt;
grande urro e executou uma pequena dança.&lt;br /&gt;
- Os deuses são bons! - disse Dany, - Está vendo, Jorah? Vamos de novo a caminho,&lt;br /&gt;
- Sim - ele disse -, mas de quê, minha rainha?&lt;br /&gt;
O vento soprou durante todo o dia, a princípio constante e de leste, e depois em violentas&lt;br /&gt;
rajadas. O sol pôs-se num deslumbramento vermelho. Ainda estou a meio mundo de distância de&lt;br /&gt;
Westeros, lembrou Dany a si mesma, mas a cada hora me aproximo mais. Tentou imaginar como&lt;br /&gt;
se sentiria quando vislumbrasse pela primeira vez a terra que nascera para governar. Será uma&lt;br /&gt;
costa mais bela que qualquer outra que já tenha visto, eu sei. Como poderia ser de outro modo?&lt;br /&gt;
Mas mais tarde, nessa noite, enquanto o Balerion mergulhava adiante através da escuridão e&lt;br /&gt;
Dany se sentava de pernas cruzadas em seu beliche na cabine do capitão, dando comida aos&lt;br /&gt;
dragões (&quot;Até no mar&quot;, disse Groleo, tão atenciosamente, &quot;as rainhas têm precedência sobre os&lt;br /&gt;
capitães&quot;), alguém bateu à porta com vivacidade.&lt;br /&gt;
Irri estava dormindo aos pés do beliche (era estreito demais para três, e naquela noite era a vez&lt;br /&gt;
de Jhiqui dividir a macia cama de penas com a sua khaleesi), mas a aía ergueu-se ao ouvir o toque&lt;br /&gt;
e dirigiu-se à porta. Dany puxou uma colcha para cima de si e prendeu- -a debaixo dos braços.&lt;br /&gt;
Estava nua, e não esperava um visitante àquela hora.&lt;br /&gt;
- Entre - disse, quando viu Sor Jorah à porta, sob uma lanterna oscilante.&lt;br /&gt;
O cavaleiro exilado abaixou a cabeça ao entrar,&lt;br /&gt;
- Vossa Graça, lamento perturbar seu sono,&lt;br /&gt;
- Não estava dormindo, sor. Entre e observe, - Tirou um pedaço de carne de porco salgada da&lt;br /&gt;
tigela que tinha no colo e ergueu-o para os dragões verem, Todos os três o olharam com um ar&lt;br /&gt;
faminto. Rhaegal estendeu asas verdes e agitou o ar, e o pescoço de Viserion balançou de um lado&lt;br /&gt;
para o outro como uma longa serpente pálida, enquanto seguia o movimento de sua mão. - Drogon&lt;br /&gt;
- disse Dany em voz baixa dracarys. - E atirou o pedaço de porco ao ar.&lt;br /&gt;
O movimento de Drogon foi mais rápido do que o ataque de uma cobra. Chamas saíram rugindo&lt;br /&gt;
de sua boca, em laranja, escarlate e negro, torrando a carne antes que começasse a cair. Quando&lt;br /&gt;
seus afiados dentes negros se fecharam em volta do naco, a cabeça de Rhaegal projetou-se para&lt;br /&gt;
perto, como que para roubar a recompensa das mandíbulas do irmão, mas Drogon engoliu e&lt;br /&gt;
guinchou, e o dragão verde, menor, só pôde silvar, frustrado.&lt;br /&gt;
- Pare com isso, Rhaegal - disse Dany, aborrecida, dando-lhe uma pancada na cabeça. -Já&lt;br /&gt;
comeu o último. Não admito dragões gananciosos. - Sorriu para Sor Jorah. - Já não vou precisar&lt;br /&gt;
esturricar a carne deles num braseiro durante muito mais tempo.&lt;br /&gt;
- Vejo que não. Dracarys?&lt;br /&gt;
Os três dragões viraram as cabeças ao ouvir aquela palavra, e Viserion soltou uma labareda de&lt;br /&gt;
um dourado claro que fez Sor Jorah dar um apressado passo para trás. Dany soltou um risinho.&lt;br /&gt;
- Cuidado com essa palavra, sor, senão é provável que eles chamusquem sua barba. Significa&lt;br /&gt;
&quot;fogo de dragão&quot; em Alto Valiriano. Quis arranjar um comando que não fosse provável que alguém&lt;br /&gt;
proferisse por acidente.&lt;br /&gt;
Mormont fez um aceno.&lt;br /&gt;
- Vossa Graça - disse -, gostaria de saber se posso conversar um pouco com a senhora em&lt;br /&gt;
particular.&lt;br /&gt;
- Claro. Irri, deixe-nos por um instante. - Pôs uma mão no ombro nu de Jhiqui e sacudiu a outra&lt;br /&gt;
aia até acordá-la. - Você também, querida. Sor Jorah precisa falar comigo.&lt;br /&gt;
- Sim, Kkaleesi. - Jhiqui tombou do beliche, nua e bocejando, com os espessos cabelos negros&lt;br /&gt;
caindo em volta de sua cabeça. Vestiu-se depressa e saiu com Irri, fechando a porta atrás delas.&lt;br /&gt;
Dany deixou os dragões lutarem pelo resto do porco salgado, e deu palmadinhas na cama a seu&lt;br /&gt;
lado.&lt;br /&gt;
- Sente-se, bom sor, e diga-me o que o perturba.&lt;br /&gt;
- Três coisas. - Sor Jorah sentou-se. - Belwas, o Forte. Aquele Arstan Barba-Branca. E Illyrio&lt;br /&gt;
Mopatis, que os enviou.&lt;br /&gt;
Outra vez? Dany puxou a colcha mais para cima e passou uma ponta por sobre o ombro.&lt;br /&gt;
- E por quê?&lt;br /&gt;
- Os magos de Qarth disseram-lhe que seria traída três vezes - lembrou-lhe o cavaleiro exilado,&lt;br /&gt;
enquanto Viserion e Rhaegal começavam a morder e arranhar um ao outro.&lt;br /&gt;
- Uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor. - Não era provável que Dany se&lt;br /&gt;
esquecesse. - Mirri Maz Duur foi a primeira.&lt;br /&gt;
- O que significa que ainda restam dois traidores... e agora aparecem aqueles dois. Sim, acho&lt;br /&gt;
isso perturbador. Não se esqueça de que Robert ofereceu uma senhoria ao homem que a matar.&lt;br /&gt;
Dany inclínou-se para a frente e deu um puxão na cauda de Viserion, para tirá-lo de cima do&lt;br /&gt;
irmão verde. A colcha soltou-se de seu corpo quando se mexeu. Agarrou-a apressadamente e&lt;br /&gt;
voltou a cobrir-se.&lt;br /&gt;
- O Usurpador está morto - disse.&lt;br /&gt;
- Mas o filho governa em seu lugar. - Sor Jorah ergueu o olhar, e os seus olhos escuros&lt;br /&gt;
encontraram os dela. - Um filho atencioso paga as dívidas do pai. Até as dívidas de sangue.&lt;br /&gt;
- Esse garoto, Joffrey, pode me querer morta... caso se lembre de que estou viva. O que isso&lt;br /&gt;
tem a ver com Belwas e Arstan Barba-Branca? O velho sequer usa uma espada. Você viu que não.&lt;br /&gt;
- Sim. E vi a habilidade com que ele maneja aquele bastão. Lembra-se de como matou aquela&lt;br /&gt;
mantícora em Qarth? Com a mesma facilidade poderia ter esmagado a sua garganta.&lt;br /&gt;
- Poderia ter sido, mas não foi - ela ressaltou. - Era uma mantícora picadora que estava&lt;br /&gt;
destinada a me matar. Ele salvou minha vida.&lt;br /&gt;
- Khaleesi, já lhe ocorreu que aquele Barba-Branca e Belwas podiam estar combinados com o&lt;br /&gt;
assassino? Pode ter sido tudo um estratagema para ganhar a sua confiança.&lt;br /&gt;
A súbita gargalhada de Dany fez Drogon silvar e Viserion voar até o seu poleiro, acima da&lt;br /&gt;
portinhola.&lt;br /&gt;
- O estratagema funcionou bem.&lt;br /&gt;
O cavaleiro exilado não lhe devolveu o sorriso.&lt;br /&gt;
- Estes são navios de Illyrio, capitães de Illyrio, marinheiros de Illyrio... e Belwas, o Forte, e o&lt;br /&gt;
Barba-Branca também são homens dele, não seus.&lt;br /&gt;
- O Magíster Illyrio já me protegeu no passado. Belwas, o Forte, diz que ele chorou quando&lt;br /&gt;
ouviu dizer que meu irmão estava morto.&lt;br /&gt;
- Sim - disse Mormont -, mas terá chorado por Viserys, ou pelos planos que tinha&lt;br /&gt;
feito com ele?&lt;br /&gt;
- Seus planos não precisam mudar. O Magíster Illyrio é um amigo da Casa Targaryen, e é rico...&lt;br /&gt;
- Ele não nasceu rico. Do que já vi do mundo, nenhum homem enriquece através da bondade.&lt;br /&gt;
Os magos disseram que a segunda traição seria por ouro. O que é que Illyrio Mopatis ama mais do&lt;br /&gt;
que ouro?&lt;br /&gt;
- A própria pele. - Do outro lado da cabine Drogon agitou-se desassossegadamente, com vapor&lt;br /&gt;
se erguendo de seu focinho. - Mirri Maz Duur traiu-me. Queimei-a por isso.&lt;br /&gt;
- Mirri Maz Duur encontrava-se em seu poder. Em Pentos, você estará em poder de Illyrio. Não&lt;br /&gt;
é a mesma coisa. Conheço o magíster tão bem quanto você, Ele é um homem desleal, e esperto...&lt;br /&gt;
- Preciso me cercar de homens espertos se quiser conquistar o Trono de Ferro.&lt;br /&gt;
Sor Jorah fungou.&lt;br /&gt;
- Aquele vendedor de vinhos que tentou envenená-la também era um homem esperto. Homens&lt;br /&gt;
espertos elaboram planos ambiciosos.&lt;br /&gt;
Dany puxou as pernas para cima, por baixo do cobertor.&lt;br /&gt;
- Você vai me proteger. Você e meus companheiros de sangue.&lt;br /&gt;
- Quatro homens? Khaleesi, acha que conhece Illyrio Mopatis, muito bem. Mas insiste em se&lt;br /&gt;
cercar de homens que não conhece, como esse eunuco inchado e o mais velho escudeiro do&lt;br /&gt;
mundo. Aprenda uma lição com Pyat Pree e Xaro Xhoan Daxos.&lt;br /&gt;
Ele tem boas intenções, lembrou Dany a si mesma. Ele faz tudo isso por amor.&lt;br /&gt;
- Parece-me que uma rainha que não confia em ninguém é tão tola quanto uma rainha que&lt;br /&gt;
confia em todo mundo. Cada homem que acolho ao meu serviço é um risco, compreendo isso, mas&lt;br /&gt;
como poderei conquistar os Sete Reinos sem correr esses riscos? Deverei conquistar Westeros&lt;br /&gt;
com um cavaleiro exilado e três companheiros de sangue dothraki?&lt;br /&gt;
O queixo de Sor Jorah retesou-se, teimosamente.&lt;br /&gt;
- Seu caminho é perigoso, não nego. Mas se confiar cegamente em todos os mentirosos e&lt;br /&gt;
conspiradores que o cruzarem, acabará como seus irmãos.&lt;br /&gt;
A obstinação dele irritou-a. Trata-me como a uma criança qualquer.&lt;br /&gt;
Belwas, o Forte, não conseguiria conspirar para chegar a um café da manhã. E que mentiras me&lt;br /&gt;
contou Arstan Barba-Branca?i&#39; - cie nao è quem hnge ser. Fala com você com mais ousadia do&lt;br /&gt;
que qualquer escudeiro se atreveria.&lt;br /&gt;
Falou francamente sob ordens minhas, Ele conheceu meu irmão.&lt;br /&gt;
Muitos homens conheceram seu irmão. Vossa Graça, em Westeros, o Senhor Comandante da&lt;br /&gt;
Guarda Real faz parte do pequeno conselho e serve seu rei tanto com a inteligência como com o&lt;br /&gt;
aço. Se eu sou o primeiro de sua Guarda Real, suplico-lhe, escute- -me. Tenho um plano a sugerir.&lt;br /&gt;
Que plano? Conte-me.&lt;br /&gt;
Illyrio Mopatis a quer de volta a Pentos, sob o teto dele, Muito bem, vá até ele... mas em um&lt;br /&gt;
momento escolhido por você, e acompanhada. Vejamos quão leais e obedientes são realmente&lt;br /&gt;
esses seus novos súditos. Ordene a Groleo para mudar de rumo e se dirigir à Baía dos Escravos.&lt;br /&gt;
Dany não tinha certeza se gostava, mesmo que um tíquinho, de como aquilo soava. Tudo que&lt;br /&gt;
ouvira falar dos mercados de carne nas grandes cidades de escravos de Yunkai, Meereen e&lt;br /&gt;
Astapor era terrível e assustador.&lt;br /&gt;
O que há para mim na Baía dos Escravos?&lt;br /&gt;
Um exército - disse Sor Jorah. - Se Belwas, o Forte, lhe agrada tanto assim, podemos comprar&lt;br /&gt;
mais centenas como ele nas arenas de lutadores de Meereen... mas eu dire- cionaria minhas velas&lt;br /&gt;
para Astapor. Em Astapor você pode comprar Imaculados.&lt;br /&gt;
Os escravos com chapéu de bronze com espigão? - Dany tinha visto guardas Imaculados nas&lt;br /&gt;
Cidades Livres, em posição ao lado dos portões de magísteres, arcontes e dinastas. - Por que eu&lt;br /&gt;
teria Imaculados? Eles sequer montam a cavalo, e em sua maioria são gordos.&lt;br /&gt;
Os Imaculados que podem ter visto em Pentos e Myr eram guardas domésticos. Isso é serviço&lt;br /&gt;
leve e, em todo caso, os eunucos tendem a engordar. A comida é o único vício que lhes é&lt;br /&gt;
permitido. Julgar todos os Imaculados por uns poucos velhos escravos domésticos é como julgar&lt;br /&gt;
todos os escudeiros por Arstan Barba-Branca, Vossa Graça. Conhece a história dos Três Mil de&lt;br /&gt;
Qohor?&lt;br /&gt;
Não. - A colcha deslizou do ombro de Dany, e ela voltou a colocá-la no lugar.&lt;br /&gt;
Foi há quatrocentos anos ou mais, quando os dothraki chegaram pela primeira vez do leste,&lt;br /&gt;
saqueando e incendiando todas as vilas e cidades que encontravam pelo caminho. O khal que os&lt;br /&gt;
liderava chamava-se Temmo. Seu khalasar não era tão grande quanto o de Drogo, mas era grande&lt;br /&gt;
o suficiente. Cinqüenta mil, pelo menos, metade dos quais era de guerreiros com campainhas&lt;br /&gt;
tinindo em suas tranças,&lt;br /&gt;
&quot;Os Qohorik sabiam que ele estava a caminho. Fortaleceram as muralhas, duplicaram o&lt;br /&gt;
tamanho de sua guarda e contrataram ainda duas companhias livres, os Brilhantes Estandartes e&lt;br /&gt;
os Segundos Filhos. E, quase como uma idéia de última hora, enviaram um homem a Astapor para&lt;br /&gt;
comprar três mil Imaculados. Mas era uma longa marcha de regresso a Qohor e, quando se&lt;br /&gt;
aproximaram, viram fumaça e poeira e ouviram o estrondo distante da batalha.&lt;br /&gt;
&quot;Quando os Imaculados chegaram à cidade, o sol tinha se posto. Corvos e lobos&lt;br /&gt;
banqueteavam-se à sombra das muralhas com aquilo que restava da cavalaria pesada de Qohor.&lt;br /&gt;
Os Brilhantes Estandartes e os Segundos Filhos tinham fugido, como os mercenários costumam&lt;br /&gt;
fazer quando se defrontam com desvantagens insuperáveis. Com a escuridão caindo, os dothraki&lt;br /&gt;
tinham se retirado para os seus acampamentos, a fim de beber, dançar e banquetear-se, mas&lt;br /&gt;
ninguém duvidava de que retornariam de manhã para esmagar as portas da cidade, assaltar as&lt;br /&gt;
muralhas e violar, saquear e escravizar a seu bel-prazer.&lt;br /&gt;
&quot;Mas quando rompeu a alvorada e Temmo e seus companheiros de sangue saíram do&lt;br /&gt;
acampamento à frente do khalasar, foram encontrar três mil Imaculados imóveis diante dos&lt;br /&gt;
portões, com o estandarte da Cabra Negra esvoaçando sobre as suas cabeças. Uma força tão&lt;br /&gt;
pequena podia ter sido facilmente flanqueada, mas conhece os dothraki. Aqueles homens&lt;br /&gt;
estavam a pé, e homens a pé só servem para ser atropelados.&lt;br /&gt;
&quot;Os dothraki investiram. Os Imaculados ergueram os escudos, baixaram as lanças, e&lt;br /&gt;
suportaram. Contra vinte mil homens aos gritos, com campainhas nos cabelos, agüentaram.&lt;br /&gt;
&quot;Dezoito vezes os dothraki investiram, e quebraram-se contra aqueles escudos e lanças como&lt;br /&gt;
ondas em uma costa rochosa. Três vezes Temmo mandou seus arqueiros cercarem os&lt;br /&gt;
Imaculados, e flechas choveram como chuva sobre eles, mas os Três Mil limitaram-se a erguer os&lt;br /&gt;
escudos sobre a cabeça até a tempestade passar. Por fim, só restaram seiscentos deles... mas&lt;br /&gt;
mais de doze mil dothraki jaziam mortos naquele campo de batalha, incluindo Khal Temmo, seus&lt;br /&gt;
companheiros de sangue, seus kos e todos os seus filhos. Na manhã do quarto dia, o novo khal&lt;br /&gt;
levou os sobreviventes em uma imponente procissão junto aos portões da cidade. Um por um,&lt;br /&gt;
todos os homens cortaram as tranças e arremessaram-nas aos pés dos Três Mil.&lt;br /&gt;
&quot;Desde esse dia, a guarda urbana de Qohor é composta unicamente de Imaculados, e todos&lt;br /&gt;
usam uma grande lança, da qual pende uma trança de cabelo humano.&lt;br /&gt;
&quot;Isto é o que encontrará em Astapor, Vossa Graça. Acoste lá, e prossiga até Pentos por terra.&lt;br /&gt;
Levará mais tempo, sim... mas quando dividir a mesa com o Magíster Illyrio, terá mil espadas atrás&lt;br /&gt;
de si, e não apenas quatro.&quot;&lt;br /&gt;
Sim, há sabedoria nisso, pensou Dany, mas...&lt;br /&gt;
- Como posso comprar mil soldados escravos? Tudo que tenho de valor é a coroa que a&lt;br /&gt;
Irmandade Turmalina me deu.&lt;br /&gt;
- Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que&lt;br /&gt;
os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qar- tenos fizeram. Se&lt;br /&gt;
não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram&lt;br /&gt;
mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e&lt;br /&gt;
fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos,&lt;br /&gt;
Vossa Graça. Peles de tigre são caras.&lt;br /&gt;
- Essas peles de tigre são de Illyrio - ela objetou.&lt;br /&gt;
- E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.&lt;br /&gt;
- Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.&lt;br /&gt;
- Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha?&lt;br /&gt;
Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for&lt;br /&gt;
sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar- -Ihe três navios&lt;br /&gt;
carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que&lt;br /&gt;
comprar o início de um exército para você?&lt;br /&gt;
Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.&lt;br /&gt;
- Haverá perigos numa marcha tão longa.&lt;br /&gt;
- Também há perigos no mar. Corsários e piratas percorrem a rota sul e, ao norte de Valíria, o&lt;br /&gt;
Mar Fumegante é assombrado por demônios. A próxima tempestade pode nos afundar ou nos&lt;br /&gt;
dispersar, uma lula gigante pode nos puxar para o fundo,., ou podemos nos perder de novo numa&lt;br /&gt;
calmaria, e morrer de sede enquanto esperamos pelo vento. Uma marcha terá perigos diferentes,&lt;br /&gt;
minha rainha, mas nenhum será maior.&lt;br /&gt;
- Mas e se o capitáo Groleo recusar a mudança de rota? E Arstan e Belwas, o Forte, o que&lt;br /&gt;
farão?&lt;br /&gt;
Sor Jorah levantou-se.&lt;br /&gt;
- Talvez seja hora de descobrir.&lt;br /&gt;
- Sim - decidiu ela. - Farei isso! - Dany atirou a colcha para trás e saltou do beliche. - Vou já falar&lt;br /&gt;
com o capitão, ordenar-lhe que marque uma rota para Astapor. - Dobrou- -se sobre o seu baú,&lt;br /&gt;
abriu a tampa e pegou a primeira roupa que encontrou, um par de calças largas de sedareia. -&lt;br /&gt;
Dê-me o meu cinto de medalhões - ordenou a Jorah enquanto puxava a sedareia sobre as coxas. -&lt;br /&gt;
E o meu colete... - começou a dizer, virando-se.&lt;br /&gt;
Sor Jorah deslizou os braços em volta dela.&lt;br /&gt;
- Oh - foi tudo o que Dany teve tempo de dizer quando ele a puxou e pressionou os lábios contra&lt;br /&gt;
os dela. Cheirava a suor, sal e couro, e os rebites de ferro em seu justilho enterraram-se nos seus&lt;br /&gt;
seios nus quando ele a apertou com força contra si. Uma mão prendeu-a pelos ombros enquanto a&lt;br /&gt;
outra deslizou ao longo da espinha até a base das costas, e a boca de Dany abriu-se para deixar&lt;br /&gt;
entrar a língua dele, embora ela não lhe tivesse dito para fazer isso. A barba dele arranha, pensou,&lt;br /&gt;
mas a boca é suave. Os dothraki não usavam barba, tinham apenas longos bigodes, e antes só&lt;br /&gt;
Khal Drogo a beijara. Ele não devia estar fazendo isso. Sou sua rainha, não sua mulher.&lt;br /&gt;
Foi um beijo longo, embora Dany não soubesse dizer quão longo. Quando terminou, Sor Jorah&lt;br /&gt;
largou-a, e ela deu um passo rápido para trás.&lt;br /&gt;
- Você... você não devia...&lt;br /&gt;
- Eu não devia ter esperado tanto tempo - concluiu o cavaleiro, - Devia tê-la beijado em Qarth,&lt;br /&gt;
em Vaes Tolorro. Devia tê-la beijado no deserto vermelho, todas as noites e todos os dias. Foi feita&lt;br /&gt;
para ser beijada, sempre e bem. - Os olhos dele estavam fixos em seus seios.&lt;br /&gt;
Dany cobriu-os com as mãos, antes que os mamilos a traíssem.&lt;br /&gt;
- Eu... isso não foi certo. Sou sua rainha.&lt;br /&gt;
- Minha rainha - disse ele - e a mais corajosa, mais doce e mais bela mulher que eu já vi.&lt;br /&gt;
Daenerys...&lt;br /&gt;
- Vossa Graçal&lt;br /&gt;
- Vossa Graça - concedeu ele -, o dragão tem três cabeças, lembra? Tem refletido sobre essa&lt;br /&gt;
frase desde que a ouviu dos feiticeiros na Casa da Poeira, Bem, aqui está o significado: Balerion,&lt;br /&gt;
Meraxes e Vhagar, montados por Aegon, Rhaenys e Visenya. O dragão de três cabeças da Casa&lt;br /&gt;
Targaryen,,. três dragões e três cavaleiros.&lt;br /&gt;
- Sim - disse Dany mas meus irmãos estão mortos.&lt;br /&gt;
- Rhaenys e Visenya eram esposas de Aegon, além de serem suas irmãs. Não tem irmãos, mas&lt;br /&gt;
pode ter maridos, E digo-lhe com franqueza, Daenerys, não há outro homem no mundo inteiro que&lt;br /&gt;
tenha por você nem metade da fidelidade que eu tenho.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/929903956931393928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/daenerys-o-lento-e-constante-bater-de.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/929903956931393928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/929903956931393928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/daenerys-o-lento-e-constante-bater-de.html' title=''/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-5210995421556367100</id><published>2013-12-26T13:41:00.003-08:00</published><updated>2013-12-26T13:41:34.788-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>JON&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
mundo era uma escuridão cinzenta e fria, com cheiro de pinheiro e musgo, Névoas pálidas&lt;br /&gt;
erguiam-se da terra negra enquanto os cavaleiros abriam caminho pela confusão de pedras e&lt;br /&gt;
árvores deformadas na direção das bem-vindas fogueiras que se espalhavam como jóias no fundo&lt;br /&gt;
do vale do rio, lá embaixo. Havia mais fogueiras do quejon Snow conseguia contar, centenas delas,&lt;br /&gt;
milhares, um segundo rio de luzes tremeluzentes ao longo das margens do Guadeleite, branco de&lt;br /&gt;
gelo. Os dedos da mão que manejava a espada se abriram e fecharam.&lt;br /&gt;
Desceram a vertente sem estandartes nem trombetas, num silêncio interrompido apenas pelo&lt;br /&gt;
murmúrio distante do rio, pelo ruído dos cascos e pelos estalidos da armadura de ossos do Camisa&lt;br /&gt;
de Chocalho, Em algum lugar, lá no alto, uma águia pairava, com grandes asas azul-acinzentadas&lt;br /&gt;
abertas, enquanto embaixo seguiam homens, cães, cavalos e um gigante lobo branco.&lt;br /&gt;
Uma pedra rolou encosta abaixo, perturbado por um casco de passagem, e Jon viu Fantasma&lt;br /&gt;
virar a cabeça ao ouvir o súbito som. Ele tinha seguido os cavaleiros a distância o dia todo, como&lt;br /&gt;
era seu costume, mas quando a lua se ergueu sobre os pinheiros marciais, aproximou-se aos&lt;br /&gt;
saltos, com os olhos vermelhos brilhando. Os cães do Camisa de Chocalho receberam-no com um&lt;br /&gt;
coro de rosnidos e violentos latidos, como sempre, mas o lobo gigante não lhes deu importância.&lt;br /&gt;
Seis dias antes, o maior dos cães atacara-o por trás enquanto os selvagens acampavam à noite,&lt;br /&gt;
mas Fantasma virara-se e mordera- -o, colocando o cão para correr com um quadril&lt;br /&gt;
ensangüentado. Depois disso, o resto da matilha passou a guardar uma distância saudável.&lt;br /&gt;
O garrano de Jon Snow relinchou baixinho, mas um toque e uma palavra carinhosa rapidamente&lt;br /&gt;
aquietaram o animal. Seria bom que seus próprios medos fossem acalmados com tanta facilidade&lt;br /&gt;
quanto os do animal. Estava todo vestido de preto, o negro da Patrulha da Noite, mas o inimigo&lt;br /&gt;
acompanhava-o, à frente e atrás. Selvagens, e eu estou com eles, Ygritte usava o manto de Qhorin&lt;br /&gt;
Meia-Mão. Lenyl tinha a camisa de malha dele; a grande esposa de lanças, Ragwyle, as luvas; um&lt;br /&gt;
dos arqueiros, as botas. O elmo de Qhorin foi ganho pelo pequeno simplório chamado&lt;br /&gt;
Lança-Longa Ryk, mas encaixava-se mal em sua cabeça estreita, e ele deu-o também a Ygritte. E&lt;br /&gt;
o Camisa de Chocalho levava os ossos de Qhorin no saco, bem como a cabeça ensangüentada de&lt;br /&gt;
Ebben, que tinha partido com Jon para bater o Passo dos Guinchos, Mortos, todos mortos, menos&lt;br /&gt;
eu, e eu estou morto para o mundo.&lt;br /&gt;
Ygritte seguia logo atrás dele, À frente ia o Lança-Longa Ryk. O Senhor dos Ossos tinha feito&lt;br /&gt;
dos dois seus guardas,&lt;br /&gt;
O&lt;br /&gt;
- Se o corvo fugir, também fervo os ossos de vocês - preveniu-os quando partiram, sorrindo&lt;br /&gt;
através dos dentes tortos do crânio de gigante que usava como elmo.&lt;br /&gt;
Ygritte gritou para ele.&lt;br /&gt;
- Você quer guardá-lo? Se quer que nos encarreguemos disso, deixe-nos em paz e faremos o&lt;br /&gt;
que pede.&lt;br /&gt;
Este é realmente um povo livre, compreendeu Jon. Camisa de Chocalho podia ser o líder, mas&lt;br /&gt;
nenhum deles se acanhava em dar resposta a ele.&lt;br /&gt;
O líder selvagem fitou-o com um olhar pouco amistoso.&lt;br /&gt;
- Pode ser que tenha enganado esses aí, corvo, mas não ache que vai enganar Mance. Ele vai&lt;br /&gt;
olhar uma vez pra você e ver que é um farsante. E quando isso acontecer, vou fazer um manto&lt;br /&gt;
com o seu lobo ali, e abrir sua barriga mole de rapaz pra costurá-la com uma doninha lá dentro.&lt;br /&gt;
A mão de Jon que manejava a espada tinha se aberto e fechado, flexionando os dedos&lt;br /&gt;
queimados sob a luva, mas o Lança-Longa Ryk limitou-se a rir.&lt;br /&gt;
- E onde é que você ia achar uma doninha na neve?&lt;br /&gt;
Nessa primeira noite, após um longo dia a cavalo, tinham acampado numa rasa con- cavidade&lt;br /&gt;
de pedra, no topo de uma montanha sem nome, aninhando-se junto à fogueira enquanto a neve&lt;br /&gt;
começava a cair. Jon observava os flocos derreterem enquanto pairavam sobre as chamas.&lt;br /&gt;
Apesar das camadas de lá, peles e couro, sentia frio até os ossos. Ygritte sentou-se ao seu lado&lt;br /&gt;
depois de comer, com o capuz levantado e as mãos enfiadas nas mangas, para aquecâ-las.&lt;br /&gt;
- Quando Mance ouvir dizer como você deu cabo do Meia-Mão, vai recebê-lo bem depressa -&lt;br /&gt;
disse-lhe.&lt;br /&gt;
- Receber-me onde?&lt;br /&gt;
A moça riu com zombaria.&lt;br /&gt;
- Recebê-lo como um de nós. Acha que é o primeiro corvo a fugir da Muralha? Lá no fundo,&lt;br /&gt;
vocês todos só querem voar livres.&lt;br /&gt;
- E quando eu for livre - disse ele lentamente -, serei livre para ir embora?&lt;br /&gt;
- Claro que sim. - Ela tinha um sorriso quente, apesar dos dentes tortos. - E ele vai ser livre pra&lt;br /&gt;
matar você. Ser livre é perigoso, mas a maior parte acaba gostando. - Pousou a mão enluvada em&lt;br /&gt;
sua perna, logo acima do joelho. - Você vai ver.&lt;br /&gt;
- Vou ver, pensou Jon. Vou ver e ouvir, e aprender, e quando o tiver feito, levarei as novidades&lt;br /&gt;
de volta para a Muralha. Os selvagens tinham-no tomado por perjuro, mas em seu âmago ainda&lt;br /&gt;
era um homem da Patrulha da Noite, cumprindo o último dever que Qhorin Meia-Mão depositara&lt;br /&gt;
nele. Antes de ser morto por mim..&lt;br /&gt;
- No fundo da encosta depararam-se com um pequeno riacho que descia do sopé dos montes e&lt;br /&gt;
ia se juntar ao Guadeleite. Parecia todo feito de pedras e gelo, embora conseguissem ouvir o som&lt;br /&gt;
da água correndo sob a superfície congelada. Camisa de Chocalho atravessou à frente deles,&lt;br /&gt;
estilhaçando a fina crosta de gelo.&lt;br /&gt;
- Os batedores de Mance Rayder cercaram-nos quando subiram para a margem. De re- lance,&lt;br /&gt;
Jon verificou quantos eram; oito cavaleiros, tanto homens como mulheres, vestidos de peles e&lt;br /&gt;
couro fervido, com um elmo ou um pouco de cota de malha aqui e ali. Vinham armados com lanças&lt;br /&gt;
e arpões endurecidos pelo fogo, todos menos o chefe, um louro cor&lt;br /&gt;
pulento, com olhos lacrimejantes, que usava uma grande gadanha curva de aço afiado. O Chorão,&lt;br /&gt;
compreendeu de imediato. Os irmãos negros contavam histórias sobre ele. Assim como Camisa&lt;br /&gt;
de Chocalho, Harma Cabeça de Cão e Alfyn Mata-Corvos, era um célebre assaltante.&lt;br /&gt;
- O Senhor dos Ossos - disse Chorão quando os viu. Deu uma olhada em Jon e em seu lobo. -&lt;br /&gt;
E este, quem é?&lt;br /&gt;
- Um corvo que passou pro lado de cá - disse Camisa de Chocalho, que preferia ser chamado&lt;br /&gt;
de Senhor dos Ossos devido à ruidosa armadura que usava. - Tava com medo que eu roubasse os&lt;br /&gt;
ossos dele como os do Meia-Mão. - Sacudiu o saco de troféus na direção dos outros selvagens,&lt;br /&gt;
- Ele matou Qhorin Meia-Mão - disse Lança-Longa Ryk. - Ele e seu lobo.&lt;br /&gt;
- E também deu cabo do Orell - disse Camisa de Chocalho.&lt;br /&gt;
- O moço é um warg, ou coisa que o valha - interveio Ragwyle, a grande esposa de lanças, - O&lt;br /&gt;
lobo dele arrancou um pedaço da perna do Meia-Mão.&lt;br /&gt;
Os olhos vermelhos e remelentos de Chorão deram outra olhada em Jon.&lt;br /&gt;
- Ah, é? Bom, tem certo ar de lobo, agora que o vejo de perto. Levem-no até Mance, pode ser&lt;br /&gt;
que fique com ele. - Fez o cavalo dar meia-volta e afastou-se a galope, com os companheiros logo&lt;br /&gt;
atrás.&lt;br /&gt;
O vento soprava úmido e pesado quando atravessaram o vale do Guadeleite e avançaram em&lt;br /&gt;
fila pelo acampamento. Fantasma manteve-se perto de Jon, mas seu cheiro seguia à frente do&lt;br /&gt;
grupo como um arauto, e logo havia cães dos selvagens por toda a volta, rosnando e latindo. Lenyl&lt;br /&gt;
gritou-lhes que se calassem, mas não prestaram atenção nele.&lt;br /&gt;
- Não gostam muito desse seu animal - comentou Lança-Longa Ryk a Jon.&lt;br /&gt;
- São cães e ele é um lobo - disse Jon. - Sabem que não pertence à espécie deles. - Tal como&lt;br /&gt;
eu não pertenço à sua. Mas tinha de manter seu dever em mente, a tarefa de que Qhorin Meia-Mão&lt;br /&gt;
o encarregara enquanto partilhavam aquela última fogueira... desempenhar o papel de vira-casaca&lt;br /&gt;
e encontrar o que quer que fosse que os selvagens tinham andado à procura na estéril desolação&lt;br /&gt;
fria das Presas de Gelo. &quot;Algum poder&quot;, Qhorin tinha denominado em conversa com o Velho Urso,&lt;br /&gt;
mas morrera antes de saber que poder seria, ou se Mance Rayder o teria encontrado com suas&lt;br /&gt;
escavações.&lt;br /&gt;
Havia fogueiras para cozinhar ao longo de todo o rio, entre carros, carroças e trenós. Muitos dos&lt;br /&gt;
selvagens tinham erguido tendas, de couro cru, peles e feltro. Outros abrigavam-se atrás de&lt;br /&gt;
rochedos, em toldos improvisados, ou dormiam debaixo de suas carroças. Junto a uma fogueira,&lt;br /&gt;
Jon viu um homem endurecendo a ponta de longas lanças de madeira e atirando-as em uma pilha.&lt;br /&gt;
Em outro ponto, dois jovens barbudos vestidos de couro fervido lutavam com varas, saltando um&lt;br /&gt;
sobre o outro por cima das chamas, grunhindo toda vez que um golpe acertava o alvo. Uma dúzia&lt;br /&gt;
de mulheres estava sentada ali perto, preparando flechas.&lt;br /&gt;
Flechas para os meus irmãos, pensou Jon. Flechas para o povo de meu pai, para o povo de&lt;br /&gt;
Winterjell, Bosque Profundo e Última Lareira. Flechas para o norte.&lt;br /&gt;
Mas nem tudo que via era bélico. Vislumbrou também mulheres dançando, e ouviu um bebê&lt;br /&gt;
chorando, e um garotinho passou correndo diante de seu garrano, todo enrolado em peles e sem&lt;br /&gt;
fôlego, por causa da brincadeira. Ovelhas e cabras vagueavam livremente, enquanto bois&lt;br /&gt;
percorriam a margem do rio em busca de pasto. Cheiro de carneiro assado pairava no ar, vindo de&lt;br /&gt;
uma das fogueiras, e em outra viu um javali sendo girado em um espeto de madeira.&lt;br /&gt;
Num espaço aberto rodeado por grandes pinheiros marciais, Camisa de Chocalho desmontou.&lt;br /&gt;
- Acampamos aqui - disse a Lenyl, Ragwyle e os outros. - Deem de comer aos cavalos, depois&lt;br /&gt;
aos cães, depois a vocês. Ygritte, Lança-Longa, tragam o corvo para que Mance possa dar uma&lt;br /&gt;
olhada nele. Vamos estripá-lo depois.&lt;br /&gt;
Seguiram a pé o resto do caminho, passando por mais fogueiras e tendas, com Fantasma&lt;br /&gt;
seguindo de perto. Jon nunca tinha visto tantos selvagens. Perguntou a si mesmo se alguém já&lt;br /&gt;
teria. 0 acampamento não tem fim, refletiu, mas é mais uma centena de acampamentos do que um&lt;br /&gt;
só, e cada um deles é mais vulnerável do que o anterior. Espalhados ao longo de uma grande área,&lt;br /&gt;
os selvagens não tinham defesas de que valesse a pena falar, nem fossos nem estacas afiadas, só&lt;br /&gt;
pequenos grupos de batedores patrulhando os terrenos ao redor. Cada grupo, clã ou aldeia&lt;br /&gt;
simplesmente acampou onde quis, assim que viu os outros parando ou encontrou um bom local. O&lt;br /&gt;
povo livre. Se os seus irmãos os apanhassem em tal desordem, muitos pagariam tal liberdade com&lt;br /&gt;
o sangue do corpo. Possuíam número, mas a Patrulha da Noite tinha disciplina e, &quot;em batalha, a&lt;br /&gt;
disciplina vence o número em nove entre dez batalhas&quot;, o pai disse-lhe certa vez.&lt;br /&gt;
Não havia como não saber qual das tendas pertencia ao rei. Era três vezes maior do que a&lt;br /&gt;
segunda maior tenda que vira, e ouvia-se música vinda lá de dentro. Tal como muitas das tendas&lt;br /&gt;
menores, aquela era feita de peles cosidas ainda com pelo, mas as de Mance Rayder eram as&lt;br /&gt;
hirsutas peles brancas dos ursos das neves. Um enorme par de chifres de um dos alces gigantes&lt;br /&gt;
que outrora vagueavam livremente pelos Sete Reinos, nos tempos dos Primeiros Homens,&lt;br /&gt;
coroava a cobertura pontiaguda.&lt;br /&gt;
Pelo menos ali encontrou defensores; dois guardas junto à abertura da tenda, apoiados em&lt;br /&gt;
grandes lanças e com escudos redondos feitos de couro. Quando viram Fantasma, um deles&lt;br /&gt;
baixou a lança e disse:&lt;br /&gt;
- Esse animal fica aqui.&lt;br /&gt;
- Fantasma, fique - ordenou Jon. O lobo gigante sentou-se.&lt;br /&gt;
- Lança-Longa, vigie o lobo. - Camisa de Chocalho puxou a aba da tenda e, com um gesto,&lt;br /&gt;
ordenou que Jon e Ygritte entrassem.&lt;br /&gt;
A tenda estava quente e fumacenta. Nos quatro cantos havia cestos de turfa queimando,&lt;br /&gt;
enchendo o ar com uma tênue luz avermelhada. Mais peles atapetavam o chão. Jon sentiu-se&lt;br /&gt;
absolutamente só ali, em pé, vestido de negro, esperando a atenção do vira-casaca que se&lt;br /&gt;
autodenominava Rei-para-lá-da-Muralha. Depois de seus olhos se ajustarem à luz vermelha e&lt;br /&gt;
esfumaçada, viu seis pessoas, nenhuma das quais prestou qualquer atenção nele. Um jovem&lt;br /&gt;
escuro e uma loura bonita dividiam um corno de hidromel. Uma mulher grávida estava em pé junto&lt;br /&gt;
a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado&lt;br /&gt;
manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando um alaúde e&lt;br /&gt;
cantando:&lt;br /&gt;
A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada&lt;br /&gt;
do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera. Jon conhecia a canção,&lt;br /&gt;
embora fosse estranho ouvi-la ali, numa tenda de peles felpudas para lá da Muralha, a dez mil&lt;br /&gt;
léguas das montanhas vermelhas e dos ventos quentes de Dorne.&lt;br /&gt;
Camisa de Chocalho tirou seu elmo amarelado enquanto esperava que a canção chegasse ao&lt;br /&gt;
fim. Sob sua armadura de osso e couro era um homem pequeno, e o rosto por baixo do crânio de&lt;br /&gt;
gigante era simples, com um queixo nodoso, um bigode fino e bochechas pálidas e descarnadas.&lt;br /&gt;
Os olhos eram bem próximos um do outro, com sobrancelhas que cruzavam toda a testa, e os&lt;br /&gt;
cabelos escuros rareavam, recuando nas têmporas.&lt;br /&gt;
A mulher do dornês cantava no banho, numa voz que era pêssego doce. Mas a espada do&lt;br /&gt;
dornês tinha a sua canção, e mordia como se sanguessuga fosse.&lt;br /&gt;
Ao lado do braseiro, um homem baixo mas imensamente largo estava sentado num banco,&lt;br /&gt;
comendo uma galinha diretamente no espeto. Gordura quente escorria por seu queixo e pela barba&lt;br /&gt;
branca como a neve, mas ele sorria mesmo assim, com um ar feliz. Três presilhas de ouro&lt;br /&gt;
gravadas com runas cingiam seus braços fortes, e usava uma pesada camisa de cota de malha&lt;br /&gt;
negra que só podia ter vindo de um patrulheiro morto. Não muito longe dele, um homem mais alto&lt;br /&gt;
e mais esguio, com uma camisa de couro com escamas de bronze, franzia a testa sobre um mapa,&lt;br /&gt;
com uma longa espada a tiracolo, em uma bainha de couro. Era reto como uma lança, todo ele&lt;br /&gt;
longos músculos duros, escanhoado, calvo, com um forte nariz reto e olhos cinzentos encovados.&lt;br /&gt;
Podia ter sido bonito se tivesse orelhas, mas perdera ambas; Jon não sabia dizer se devido ao frio&lt;br /&gt;
ou à faca de algum inimigo. A falta delas fazia com que a cabeça do homem parecesse estreita e&lt;br /&gt;
pontiaguda.&lt;br /&gt;
Tanto o homem de barba branca como o calvo eram guerreiros, tinha bastado um relance para&lt;br /&gt;
que isso ficasse claro para Jon. Esses dois são de longe mais perigosos do que o Camisa de&lt;br /&gt;
Chocalho. Perguntou a si mesmo qual deles seria Mance Rayder.&lt;br /&gt;
Jazendo no chão, rodeado de escuridão, seu sangue ele saboreou, Os irmãos se ajoelharam e&lt;br /&gt;
rezaram uma oração, e ele sorriu e ele riu e cantou, &quot;Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim,&lt;br /&gt;
o dornês minha vida desfez, Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer, e eu provei&lt;br /&gt;
a mulher do dornês!&quot;&lt;br /&gt;
Enquanto as últimas notas de &quot;A mulher do dornês&quot; se desvaneciam, o homem careca e sem&lt;br /&gt;
orelhas ergueu os olhos do mapa e fez uma carranca feroz para Camisa de Chocalho e Ygritte, que&lt;br /&gt;
tinham Jon entre eles.&lt;br /&gt;
- O que é isto? - ele perguntou. - Um corvo? O bastardo preto que estripou Orell - disse Camisa&lt;br /&gt;
de Chocalho - e também um maldito warg.&lt;br /&gt;
- Devia ter matado todos.&lt;br /&gt;
- Este passou para o nosso lado - explicou Ygritte. - Matou Qhorin Meia-Mão com as próprias&lt;br /&gt;
mãos.&lt;br /&gt;
- Esse garoto? - o homem sem orelhas irritou-se com a notícia. - O Meia-Mão devia ter sido&lt;br /&gt;
meu. Você tem nome, corvo?&lt;br /&gt;
-Jon Snow, Vossa Graça, - Perguntou a si mesmo se também esperavam que dobrasse o&lt;br /&gt;
joelho.&lt;br /&gt;
- Vossa Graça? - o homem sem orelhas olhou para o grandalhão da barba branca. - Vê? Ele&lt;br /&gt;
acha que sou rei.&lt;br /&gt;
O barbudo riu com tanta força que espalhou pedaços de galinha por toda a parte. Limpou a&lt;br /&gt;
gordura da boca com as costas de uma de suas enormes mãos.&lt;br /&gt;
- Um rapaz cego, só pode ser. Quem já ouviu falar de um rei sem orelhas? Ora, a coroa cairia&lt;br /&gt;
até o pescoço! Ha! - Dirigiu a Jon um sorriso, limpando os dedos nas calças, - Feche o bico, corvo.&lt;br /&gt;
Dê meia-volta e talvez encontre quem veio procurar.&lt;br /&gt;
Jon virou-se.&lt;br /&gt;
O cantor pôs-se em pé.&lt;br /&gt;
- Sou Mance Rayder - disse ele, enquanto colocava o alaúde de lado. - E você é o bastardo de&lt;br /&gt;
Ned Stark, o Snow de Winterfell.&lt;br /&gt;
Aturdido, Jon ficou sem fala por um momento, antes de se recuperar o suficiente para dizer:&lt;br /&gt;
- Como... como pode saber...&lt;br /&gt;
- Isso é uma história para mais tarde - disse Mance Rayder. - O que achou da canção, moço?&lt;br /&gt;
- Gostei bastante. Já a tinha ouvido.&lt;br /&gt;
- Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer - disse alegremente o&lt;br /&gt;
Rei-para-Iá-da-Muralha -, e eu provei a mulher do dornês. Diga-me, o meu Senhor dos Ossos fala&lt;br /&gt;
a verdade? Matou meu velho amigo, o Meia-Mão?&lt;br /&gt;
- Matei. - Embora tenha sido mais obra dele do que minha.&lt;br /&gt;
- A Torre Sombria nunca mais vai parecer tão temível - disse o rei, com tristeza na voz. - Qhorin&lt;br /&gt;
era meu inimigo. Mas também foi meu irmão um dia. Por isso... devo agradecê-lo por tê-lo matado,&lt;br /&gt;
Jon Snow? Ou amaldiçoá-lo? - dirigiu a Jon um sorriso zombeteiro.&lt;br /&gt;
O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um&lt;br /&gt;
selvagem, Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e&lt;br /&gt;
longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos. Não havia coroa em sua cabeça, nem&lt;br /&gt;
presilhas de ouro nos braços, nem jóias no pescoço, nem mesmo uma cintilação de prata. Usava&lt;br /&gt;
lã e couro, e o único traje digno de nota que vestia era o esfarrapado manto de lã negra, cujos&lt;br /&gt;
longos rasgões tinham sido cosidos com seda vermelha desbotada.&lt;br /&gt;
- Devia me agradecer por matar seu inimigo - disse Jon por fim - e me amaldiçoar por matar seu&lt;br /&gt;
amigo.&lt;br /&gt;
- Ha! - trovejou o homem da barba branca. - Bem respondido!&lt;br /&gt;
- De acordo. - Mance Rayder fez um gesto para Jon se aproximar. - Se quer se juntar a&lt;br /&gt;
nós, é melhor que nos conheça. O homem que confundiu comigo é Styr, Magnar de Thenn.&lt;br /&gt;
Magnar significa &quot;senhor&quot; no Idioma Antigo. - O homem sem orelhas fitou Jon friamente&lt;br /&gt;
enquanto Mance se virava para o homem da barba branca. - Aqui, nosso feroz comedor de&lt;br /&gt;
galinhas é o meu leal Tormund. A mulher...&lt;br /&gt;
- Tormund levantou-se.&lt;br /&gt;
- Espere. Tratou Styr por seu título, trate-me também pelo meu,&lt;br /&gt;
Mance Rayder soltou uma gargalhada,&lt;br /&gt;
- Como quiser. Jon Snow, perante a sua presença encontra-se Tormund Terror dos&lt;br /&gt;
Gigantes, Arauto, Soprador de Chifres e Quebrador de Gelo. Eis também Tormund Punho&lt;br /&gt;
de Trovão, Esposo de Ursas, Rei-Hidromel de Solar Ruivo, Falador com os Deuses e Pai de&lt;br /&gt;
Tropas.&lt;br /&gt;
- Isso já se parece mais comigo - disse Tormund. - Prazer em conhecê-lo, Jon Snow.&lt;br /&gt;
Acontece que gosto de wargs, apesar de não gostar nada dos Stark,&lt;br /&gt;
- A boa mulher junto ao braseiro - prosseguiu Mance Rayder - é Dalla, - A grávida deu um&lt;br /&gt;
sorriso tímido. - Trate-a como trataria qualquer rainha, porque espera um filho meu. -&lt;br /&gt;
Virou-se para os últimos dois. - Esta beldade é a irmã de Dalla, Vai. O jovem Jarl, ao lado&lt;br /&gt;
dela, é seu último animalzinho de estimação.&lt;br /&gt;
- Não sou animal de estimação de homem nenhum - disse Jarl, sombrio e feroz.&lt;br /&gt;
- E Vai não é homem nenhum - resfolegou o da barba branca, Tormund. - A esta altura já&lt;br /&gt;
devia ter percebido, moço.&lt;br /&gt;
- Então aqui nos tem, Jon Snow - disse Mance Rayder, - O Rei-para-lá-da-Muralha e sua&lt;br /&gt;
corte, tal como é. E agora algumas palavras suas, creio eu. De onde vem?&lt;br /&gt;
- De Winterfell - disse Jon -, via Castelo Negro.&lt;br /&gt;
- E o que o traz ao vale do Guadeleite, tão longe dos fogos de sua casa? - não esperou&lt;br /&gt;
pela resposta de Jon, e olhou de imediato para Camisa de Chocalho. - Quantos eram?&lt;br /&gt;
- Cinco. Três tão mortos e o rapaz tá aqui. O outro subiu uma encosta onde nenhum&lt;br /&gt;
cavalo podia segui-lo.&lt;br /&gt;
Os olhos de Rayder voltaram a encontrar os de Jon,&lt;br /&gt;
- Eram só os cinco? Ou há mais irmãos seus escondidos por aí?&lt;br /&gt;
- Éramos quatro e o Meia-Mão. Qhorin valia por vinte homens comuns.&lt;br /&gt;
O Rei-para-lá-da-Muralha sorriu ao ouvir aquilo.&lt;br /&gt;
- Havia quem pensasse assim. Seja como for... um rapaz de Castelo Negro com patrulheiros&lt;br /&gt;
da Torre Sombria? Como foi que isso aconteceu?&lt;br /&gt;
Jon tinha a mentira pronta.&lt;br /&gt;
- O Senhor Comandante mandou-me ao Meia-Mão para ganhar experiência, e por isso&lt;br /&gt;
ele trouxe-me a essa patrulha.&lt;br /&gt;
Styr, o Magnar, franziu a testa ao ouvir aquilo.&lt;br /&gt;
- Chama isso de patrulha... por que corvos viriam patrulhar pelo Passo dos Guin- chos&lt;br /&gt;
acima?&lt;br /&gt;
- As aldeias estavam desertas - disse Jon, honestamente. - Era como se todo o povo livre&lt;br /&gt;
tivesse desaparecido.&lt;br /&gt;
- Desaparecido, certo - falou Mance Rayder. - E não só o povo livre. Quem lhes disse&lt;br /&gt;
onde estávamos, Jon Snow?&lt;br /&gt;
Tormund fungou.&lt;br /&gt;
- Se não foi o Craster, eu sou uma donzela corada. Eu disse, Mance, aquela criatura&lt;br /&gt;
precisa ficar uma cabeça mais curta.&lt;br /&gt;
üi I O rei deu ao homem mais velho um olhar irritado.&lt;br /&gt;
- Tormund, um dia desses experimente pensar antes de falar. Eu sei que foi o Craster.&lt;br /&gt;
Perguntei a Jon para ver se ele nos diria a verdade.&lt;br /&gt;
- Ha. - Tormund escarrou, - Bem, meti os pés pelas mãos! - Dirigiu um sorriso a Jon. - Tá&lt;br /&gt;
vendo, moço, é por isso que ele é rei e eu não. Bebo melhor, luto melhor e canto melhor que ele, e&lt;br /&gt;
o meu membro é três vezes maior que o dele, mas Mance tem astúcia. Foi educado como corvo,&lt;br /&gt;
sabe, e o corvo é um pássaro cheio de truques.&lt;br /&gt;
- Gostaria de falar com o rapaz a sós, meu Senhor dos Ossos - disse Mance Rayder ao Camisa&lt;br /&gt;
de Chocalho. - Deixem-nos, todos vocês,&lt;br /&gt;
- O quê, eu também? - perguntou Tormund.&lt;br /&gt;
- Sim, especialmente você - disse Mance.&lt;br /&gt;
- Não como em um salão onde não sou bem-vindo. - Tormund ficou em pé. - Eu e as galinhas&lt;br /&gt;
vamos embora. - Pegou outra galinha do braseiro, enfiou-a num bolso costurado no forro de seu&lt;br /&gt;
manto, disse &quot;Ha&quot;, e saiu lambendo os dedos. Os outros seguiram- -no, todos menos a mulher&lt;br /&gt;
chamada Dalla.&lt;br /&gt;
- Sente-se, se quiser - disse Rayder depois de eles partirem. - Está com fome? Tormund&lt;br /&gt;
deixou-nos pelo menos duas aves.&lt;br /&gt;
- Eu adoraria comer, Vossa Graça. E obrigado.&lt;br /&gt;
- Vossa Graça? - o rei sorriu. - Isso não é tratamento que se ouça com freqüência vindo dos&lt;br /&gt;
lábios do povo livre. Para a maioria sou Mance. 0 Mance para alguns. Aceita um corno de&lt;br /&gt;
hidromel?&lt;br /&gt;
- De bom grado - disse Jon.&lt;br /&gt;
O próprio rei o serviu enquanto Dalla cortava as galinhas crocantes e dividia a porção entre os&lt;br /&gt;
dois. Jon descalçou as luvas e comeu com os dedos, chupando dos ossos cada pedacinho de&lt;br /&gt;
carne.&lt;br /&gt;
- Tormund falou a verdade - disse Mance Rayder enquanto partia um pão. - O corvo preto é um&lt;br /&gt;
pássaro cheio de truques, é assim mesmo... mas eu já era um corvo quando você não era maior&lt;br /&gt;
do que o bebê na barriga de Dalla, Jon Snow, Portanto tome cuidado para não tentar truques&lt;br /&gt;
comigo.&lt;br /&gt;
-Às suas ordens, Vossa... Mance.&lt;br /&gt;
O rei soltou uma gargalhada.&lt;br /&gt;
- Vossa Mance! E por que não? Há pouco prometi uma história a você sobre o modo como o&lt;br /&gt;
conheci. Já descobriu?&lt;br /&gt;
Jon balançou a cabeça.&lt;br /&gt;
- Camisa de Chocalho enviou a notícia à nossa frente?&lt;br /&gt;
- Voando? Não temos corvos treinados. Não, reconheci seu rosto. Já tinha visto você antes.&lt;br /&gt;
Duas vezes.&lt;br /&gt;
- A princípio não fazia sentido, mas quando Jon revirou a informação em sua mente, a manhã&lt;br /&gt;
clareou,&lt;br /&gt;
- Quando era um irmão da Patrulha...&lt;br /&gt;
- Muito bem! Sim, essa foi a primeira vez. Você era só um garoto e eu estava todo de preto, fazia&lt;br /&gt;
parte de uma dúzia que escoltou o velho Senhor Comandante Qorgyle quando ele desceu até&lt;br /&gt;
Winterfell para um encontro com o seu pai. Eu percorria a muralha em volta do pátio quando me&lt;br /&gt;
deparei com você e seu irmão Robb. Nevara na noite anterior, e vocês tinham feito uma grande&lt;br /&gt;
montanha por cima do portão e estavam esperando que alguém passasse por baixo.&lt;br /&gt;
- Eu me lembro - disse Jon, surpreso, com uma gargalhada. Um jovem irmão negro no adarve,&lt;br /&gt;
sim. - Jurou não contar.&lt;br /&gt;
- E mantive meu voto. Pelo menos esse.&lt;br /&gt;
- Despejamos a neve em cima do Gordo Tom. Ele era o guarda mais lento do pai. - Tom&lt;br /&gt;
perseguira-os depois, em volta do pátio, até os três ficarem vermelhos como maçãs de outono. -&lt;br /&gt;
Mas disse que me viu duas vezes. Quando foi a segunda?&lt;br /&gt;
- Quando o Rei Robert veio a Winterfell para fazer de seu pai Mão - disse com malícia o&lt;br /&gt;
Rei-para-lá-da-Muralha.&lt;br /&gt;
Os olhos de Jon arregalaram-se de descrença.&lt;br /&gt;
- Não pode ser verdade.&lt;br /&gt;
- Mas foi. Quando seu pai soube que o rei vinha, mandou a notícia ao irmão Benjen, na Muralha,&lt;br /&gt;
para que ele pudesse descer para o banquete, Há mais trocas entre os irmãos negros e o povo livre&lt;br /&gt;
do que você imagina, e não demorou muito tempo para a notícia chegar também aos meus&lt;br /&gt;
ouvidos. Era uma oportunidade boa demais para resistir. Seu tio não me conhecia de vista,&lt;br /&gt;
portanto nada tinha a temer vindo daí, e não me parecia que seu pai fosse capaz de se lembrar de&lt;br /&gt;
um jovem corvo que conhecera brevemente anos antes. Queria ver esse Robert com meus&lt;br /&gt;
próprios olhos, de rei para rei, e também avaliar seu tio Benjen. Nessa época, ele era Primeiro&lt;br /&gt;
Patrulheiro, e o terror de todo o meu povo. Portanto selei meu cavalo mais veloz e tomei o caminho.&lt;br /&gt;
- Mas - objetou Jon - a Muralha...&lt;br /&gt;
- A Muralha pode parar um exército, mas não um homem sozinho. Peguei um alaú- de e uma&lt;br /&gt;
bolsa de prata, escalei o gelo perto do Monte Longo, caminhei algumas léguas para o sul da Nova&lt;br /&gt;
Dádiva e comprei um cavalo. Apesar de tudo, fui muito mais rápido do que Robert, que viajava com&lt;br /&gt;
uma imponente e enorme casa rolante para manter a sua rainha confortável. A um dia de&lt;br /&gt;
Winterfell, para o sul, encontrei-o e juntei-me à sua comitiva. Cavaleiros livres e pequenos&lt;br /&gt;
cavaleiros passam a vida ligando-se a cortejos reais, na esperança de entrar para o serviço do rei,&lt;br /&gt;
e o meu alaúde me fez conquistar uma aceitação fácil. - Mance soltou uma gargalhada. - Conheço&lt;br /&gt;
todas as canções obscenas que já foram feitas, ao norte ou ao sul da Muralha. Então é isso. Na&lt;br /&gt;
noite em que seu pai ofereceu o banquete a Robert, eu estava sentado num banco no fundo do seu&lt;br /&gt;
salão, com os outros cavaleiros livres, ouvindo Orland de Vilavelha tocar sua harpa e cantar&lt;br /&gt;
cantigas sobre reis mortos sob o mar. Entreguei-me à comida e à bebida do senhor seu pai, passei&lt;br /&gt;
os olhos pelo Regicida e pelo Duende... e tomei nota, de passagem, dos filhos de Lorde Eddard e&lt;br /&gt;
dos lobinhos que corriam atrás deles,&lt;br /&gt;
- Bael, o Bardo - disse Jon, lembrando-se da história que Ygritte lhe contara nas Presas de Gelo,&lt;br /&gt;
na noite em que quase a tinha matado.&lt;br /&gt;
- Bem que eu gostaria. Não negarei que a façanha de Bael inspirou a minha... mas, que me&lt;br /&gt;
lembre, não raptei nenhuma de suas irmãs. Bael escrevia as próprias canções e viveu-as. Eu só&lt;br /&gt;
canto as canções que homens melhores fizeram. Mais hidromel?&lt;br /&gt;
- Não - disse Jon. - Se tivesse sido descoberto... capturado...&lt;br /&gt;
- Seu pai teria cortado a minha cabeça. - O rei encolheu os ombros. - Se bem que, depois de ter&lt;br /&gt;
comido à sua mesa, estivesse protegido pelo direito de hóspede. As leis da hospitalidade são&lt;br /&gt;
velhas como os Primeiros Homens e sagradas como uma árvore-coração. - Fez um gesto para a&lt;br /&gt;
mesa entre eles, para o pão partido e os ossos de galinha. - Aqui é você o hóspede, e está a salvo&lt;br /&gt;
de ser ferido pelas minhas mãos... esta noite, pelo&lt;br /&gt;
menos. Portanto, diga-me a verdade, Jon Snow. É um covarde que virou a casaca por medo, ou há&lt;br /&gt;
algum outro motivo que o traga à minha tenda?&lt;br /&gt;
Direito de hóspede ou não, Jon Snow sabia que ali caminhava em gelo quebradiço. Um passo&lt;br /&gt;
em falso e podia atravessá-lo para dentro de água suficientemente fria para lhe parar o coração.&lt;br /&gt;
Pese toâas as palavras antes de dize-las, disse a si mesmo. Tomou um longo trago de hidromel, a&lt;br /&gt;
fim de ganhar tempo para a resposta. Quando apoiou o corno, disse:&lt;br /&gt;
- Diga-me por que virou a sua casaca, e eu direi por que virei a minha.&lt;br /&gt;
Mance Rayder sorriu, como Jon esperara que fizesse. O rei era claramente um homem que&lt;br /&gt;
gostava do som da própria voz.&lt;br /&gt;
- Certamente já deve ter ouvido histórias sobre a minha deserção.&lt;br /&gt;
- Alguns dizem que foi por uma coroa. Outros, que foi por uma mulher. Outros ainda, que tem&lt;br /&gt;
sangue de selvagem.&lt;br /&gt;
- Sangue de selvagem é o sangue dos Primeiros Homens, o mesmo sangue que corre nas&lt;br /&gt;
veias dos Stark. Quanto à coroa, você vê alguma?&lt;br /&gt;
- Vejo uma mulher. - Olhou de relance para Dalla.&lt;br /&gt;
Mance pegou-a pela mão e puxou-a para junto dele.&lt;br /&gt;
- A minha senhora não tem culpa. Conheci-a ao voltar do castelo de seu pai. O Meia- -Mão era&lt;br /&gt;
esculpido de um velho carvalho, mas eu sou feito de carne e tenho um grande gosto pelos&lt;br /&gt;
encantos das mulheres... o que faz com que não seja em nada diferente de três quartos da&lt;br /&gt;
Patrulha. Há homens ainda de negro que tiveram dez vezes mais mulheres do que este pobre rei.&lt;br /&gt;
Precisa tentar de novo, Jon Snow.&lt;br /&gt;
Jon refletiu por um momento.&lt;br /&gt;
- Meia-Mão disse que tinha uma paixão pela música dos selvagens.&lt;br /&gt;
- Tinha. E tenho. Isso está mais perto do alvo, sim. Mas ainda não acertou. - Mance Rayder&lt;br /&gt;
ergueu-se, desprendeu a fivela que segurava seu manto e atirou-o para cima do banco. - Foi por&lt;br /&gt;
isto.&lt;br /&gt;
- Um manto?&lt;br /&gt;
- O manto de lã negra de um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite - disse o Rei- -para-íá-da&lt;br /&gt;
Muralha. - Um dia, numa patrulha, abatemos um grande e belo alce. Estávamos esfolando-o&lt;br /&gt;
quando o cheiro do sangue fez um gato-das-sombras sair de seu covil. Eu afastei-o, mas não antes&lt;br /&gt;
de ele ter rasgado meu manto em tiras. Está vendo? Aqui, aqui e aqui? - soltou um risinho. -&lt;br /&gt;
Também me rasgou o braço e as costas, e sangrei mais do que o alce. Meus irmãos temeram que&lt;br /&gt;
pudesse morrer antes de conseguirem me levar ao Meistre Mullin na Torre Sombria, e levaram-me&lt;br /&gt;
até uma aldeia selvagem onde sabíamos que uma velha feiticeira fazia algumas curas. Aconteceu&lt;br /&gt;
que ela estava morta, mas a filha tratou de mim. Limpou meus ferimentos, deu pontos em mim e me&lt;br /&gt;
alimentou com mingau de aveia e poções até eu ficar suficientemente forte para voltar a subir em&lt;br /&gt;
um cavalo. E também costurou os rasgões em meu manto, com um pouco de seda escarlate de&lt;br /&gt;
Asshai que a avó tinha tirado dos restos de um barco afundado que apareceu na Costa Gelada, Era&lt;br /&gt;
o maior tesouro que ela possuía, e foi um presente para mim. - Voltou a pôr o manto nos ombros. -&lt;br /&gt;
Mas na Torre Sombria me deram um manto novo de lã, tirado dos armazéns, preto e preto, e&lt;br /&gt;
forrado de preto, para combinar com meus calções pretos e minhas botas pretas, meu gibão preto&lt;br /&gt;
e cota de malha preta. O manto novo não tinha Zonas puídas, rasgões ou cortes... e, acima de&lt;br /&gt;
tudo, não tinha vermelho. Os homens da Patrulha da Noite vestiam-se de negro, lembrou-me&lt;br /&gt;
severamente Sor Denys Mallister, como se eu tivesse me esquecido, Agora, meu velho manto só&lt;br /&gt;
estava bom para queimar, disse ele. Parti na manhã seguinte... para um lugar onde um beijo não&lt;br /&gt;
era crime e um homem podia usar o manto que quisesse. - Fechou a fivela e se sentou novamente.&lt;br /&gt;
- E você, Jon Snow?&lt;br /&gt;
Jon bebeu outro trago de hidromel. Só há uma história em que ele pode acreditar.&lt;br /&gt;
- Disse que estava em Winterfell na noite em que meu pai ofereceu o banquete ao Rei Robert.&lt;br /&gt;
- Disse, porque estava.&lt;br /&gt;
- Então viu-os todos. O Príncipe Joffrey e o Príncipe Tommen, a Princesa Myrcella, meus irmãos&lt;br /&gt;
Robb, Bran e Rickon, minhas irmãs Arya e Sansa. Viu-os caminhar pelo corredor central com todos&lt;br /&gt;
os olhos postos neles e ocupar seus lugares na mesa logo abaixo do estrado onde o rei e a rainha&lt;br /&gt;
se sentavam.&lt;br /&gt;
- - Lembro-me.&lt;br /&gt;
- - E viu onde eu estava sentado, Mance? - inclinou-se para a frente. - Viu onde eles puseram o&lt;br /&gt;
bastardo?&lt;br /&gt;
- Mance Rayder olhou o rosto de Jon durante um longo momento.&lt;br /&gt;
- Acho que é melhor arranjarmos um novo manto para você - disse o rei, estendendo a mão.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/5210995421556367100/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/jon-mundo-era-uma-escuridao-cinzenta-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5210995421556367100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5210995421556367100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/jon-mundo-era-uma-escuridao-cinzenta-e.html' title=''/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5364094752732638453.post-5457001852505032658</id><published>2013-12-25T18:12:00.002-08:00</published><updated>2013-12-26T13:37:38.143-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Sansa&lt;br /&gt;
O convite parecia bastante inocente, mas sempre que Sansa o lia, sua barriga dava um nó. Ela&lt;br /&gt;
agora vai ser rainha, é bela e rica e todo mundo a adora, por que desejaria jantar com afilha de um&lt;br /&gt;
traidor? Supunha que podia ser por curiosidade; talvez Margaery Tyrell quisesse avaliar a rival que&lt;br /&gt;
havia afastado. Será que ela se ressente de mim? Será que pensa que tenho má vontade com&lt;br /&gt;
ela...&lt;br /&gt;
Sansa observara das muralhas do castelo a chegada de Margaery Tyrell pela Colina de Aegon.&lt;br /&gt;
Joffrey tinha recebido sua futura noiva no Portão do Rei, para lhe dar as boas-vindas à cidade, e&lt;br /&gt;
seguiram a cavalo, lado a lado, através de multidões que os aclamavam, com JofF cintilando numa&lt;br /&gt;
armadura dourada e a garota Tyrell magnificamente vestida de verde, com um manto de flores&lt;br /&gt;
outonais florescendo em seus ombros, Tinha dezesseis anos, cabelos e olhos castanhos, era&lt;br /&gt;
esbelta e bela. O povo gritava seu nome quando ela passava, erguia os filhos para que ela os&lt;br /&gt;
abençoasse, e espalhava flores sob os cascos de seu cavalo, A mãe e a avó seguiam-na de perto,&lt;br /&gt;
numa alta casa rolante cujos flancos tinham uma centena de rosas entrelaçadas esculpidas, todas&lt;br /&gt;
douradas e brilhantes. O povo também as aclamava.&lt;br /&gt;
O mesmo povo que me arrancou de cima do cavalo e que teria me matado se não fosse o Cão&lt;br /&gt;
de Caça. Sansa nada tinha feito para os plebeus a odiarem, não mais do que Margaery Tyrell&lt;br /&gt;
fizera para conquistar seu amor. Será que ela quer que eu também a ame? Estudou o convite, que&lt;br /&gt;
parecia ter sido escrito pela mão da própria Margaery. Será que ela deseja a minha bênção?&lt;br /&gt;
Sansa perguntou a si mesma se Joffrey estaria ciente daquele jantar. Por tudo que ela sabia,&lt;br /&gt;
aquilo podia bem ser obra dele. A idéia encheu-a de medo. Se Joff estivesse por trás do convite,&lt;br /&gt;
teria alguma partida cruel planejada para envergonhá-la aos olhos da garota mais velha. Iria&lt;br /&gt;
ordenar à Guarda Real que a despisse de novo? Da última vez que fizera isso, o tio Tyrion o&lt;br /&gt;
impediu, mas o Duende não podia salvá-la agora.&lt;br /&gt;
Ninguém pode me salvar, a não ser meu Florian. Sor Dontos tinha prometido que a ajudaria a&lt;br /&gt;
fugir, mas não antes da noite do casamento de Joffrey. Os planos estavam em marcha,&lt;br /&gt;
assegurara-lhe seu querido e devotado cavaleiro-feito-bobo; nada havia a fazer até lá além de&lt;br /&gt;
agüentar, e contar os dias.&lt;br /&gt;
E jantar com a minha substituta...&lt;br /&gt;
O&lt;br /&gt;
Talvez estivesse cometendo uma injustiça para com Margaery Tyrell. O convite talvez não fosse&lt;br /&gt;
mais do que uma simples consideração, um ato de cortesia. Pode ser só um jantar. Mas aquilo era&lt;br /&gt;
a Fortaleza Vermelha, aquilo era Porto Real, aquilo era a corte do&lt;br /&gt;
Kei joitrey tfarattieon, o Frimeiro de òeu fslome, e se havia alguma coisa que Sansa Stark&lt;br /&gt;
aprendera ali era a desconfiança.&lt;br /&gt;
Mesmo assim, tinha de aceitar, Agora não era nada, a filha rejeitada de um traidor e a irmã caída&lt;br /&gt;
em desgraça de um senhor rebelde. Dificilmente poderia dizer não à futura rainha de JofFrey.&lt;br /&gt;
Gostaria que o Cão de Caça estivesse aqui. Na noite da batalha, Sandor Clegane viera aos&lt;br /&gt;
seus aposentos para levá-la da cidade, mas Sansa recusou. Ás vezes ficava acordada à noite,&lt;br /&gt;
perguntando a si mesma se teria feito bem, Havia escondido o manto branco e manchado do Cão&lt;br /&gt;
de Caça em uma arca de cedro, por baixo de suas sedas de verão, Não saberia dizer por que o&lt;br /&gt;
guardara. Ouviu dizer que o Cão de Caça tinha se acovardado; no auge da batalha ficara tão&lt;br /&gt;
bêbado que o Duende tivera de levar seus homens, Mas Sansa compreendia. Conhecia o segredo&lt;br /&gt;
de seu rosto queimado. Ele só temia o jogo. Naquela noite, o fogovivo incendiou o próprio rio, e&lt;br /&gt;
encheu o ar de chamas verdes. Mesmo no castelo, Sansa tinha sentido medo. Lá fora,., quase&lt;br /&gt;
nem conseguia imaginar.&lt;br /&gt;
Suspirando, pegou uma pena e o tinteiro e escreveu a Margaery Tyrell uma graciosa nota&lt;br /&gt;
aceitando o convite.&lt;br /&gt;
Quando a noite marcada chegou, outro membro da Guarda Real veio buscá-la, um homem tão&lt;br /&gt;
diferente de Sandor Clegane como... bem, como uma flor de um cão. Ver Sor Loras Tyrell, em pé,&lt;br /&gt;
à soleira de sua porta, fez o coração de Sansa bater um pouco mais depressa. Aquela era a&lt;br /&gt;
primeira vez que estava tão perto dele desde seu retorno a Porto Real, à frente da vanguarda da&lt;br /&gt;
tropa do pai. Por um momento, não soube o que dizer,&lt;br /&gt;
- Sor Loras - conseguiu enfim pronunciar -, está... está muito bonito.&lt;br /&gt;
Ele deu-lhe um sorriso embaraçado.&lt;br /&gt;
- A senhora é muito amável. E também bela, Minha irmã a espera ansiosamente.&lt;br /&gt;
- Aguardei o nosso jantar com tanta expectativa.&lt;br /&gt;
- Margaery também, assim como a senhora minha avó. - Tomou seu braço e levou-a na direção&lt;br /&gt;
dos degraus.&lt;br /&gt;
- Sua avó? - Sansa estava achando difícil caminhar, conversar e pensar ao mesmo tempo, com&lt;br /&gt;
Sor Loras tocando seu braço. Sentia o calor de sua mão através da seda.&lt;br /&gt;
- A Senhora Olenna. Ela também deverá jantar com você.&lt;br /&gt;
- Oh - disse Sansa. Estou falando com ele, e ele está me tocando, está segurando meu braço e&lt;br /&gt;
me tocando. - Chamam-na de Rainha dos Espinhos. Não é verdade?&lt;br /&gt;
- E. - Sor Loras soltou uma gargalhada. Ele tem a mais quente das gargalhadas, pensou Sansa&lt;br /&gt;
enquanto o jovem prosseguia - Mas é melhor que não use esse nome na presença dela, caso&lt;br /&gt;
contrário é provável que seja espetada.&lt;br /&gt;
Sansa corou. Qualquer idiota teria compreendido que nenhuma mulher ficaria feliz por ser&lt;br /&gt;
chamada de &quot;Rainha dos Espinhos&quot;. Talvez eu seja mesmo tão burra quanto Cersei Lannister diz.&lt;br /&gt;
Tentou desesperadamente pensar em algo inteligente e encantador para lhe dizer, mas a&lt;br /&gt;
esperteza a tinha abandonado. Quase lhe disse como era belo, até se lembrar de que já tinha feito&lt;br /&gt;
isso.&lt;br /&gt;
Mas ele era belo. Parecia mais alto do que quando o vira pela primeira vez, mas mantinha a&lt;br /&gt;
agilidade e a graciosidade, e Sansa nunca vislumbrara outro garoto com olhos tão maravilhosos.&lt;br /&gt;
Mas ele não é um garoto, é um homem-feito, um cavaleiro da Guarda Real. Achou que sua&lt;br /&gt;
aparência era ainda melhor de branco do que com o verde e dourado da Casa Tyrell. O único&lt;br /&gt;
ponto de cor que havia nele agora era o broche que prendia seu manto; a rosa de Jardim de Cima&lt;br /&gt;
trabalhada em ouro mole amarelo, aninhada em uma base de delicadas folhas verdes de jade.&lt;br /&gt;
Sor Balon Swann abriu a porta de Maegor para eles passarem. Estava também todo de branco,&lt;br /&gt;
embora a cor nem de perto o vestisse tão bem quanto a Sor Loras. Para lá do fosso dos espigões,&lt;br /&gt;
duas dúzias de homens treinavam com espadas e escudos. Com o castelo tão cheio, o pátio&lt;br /&gt;
exterior fora dado aos visitantes, para ali levantarem suas tendas e pavilhões, deixando apenas os&lt;br /&gt;
pátios interiores, menores, para os treinos. Um dos gêmeos Redwyne estava sendo encurralado&lt;br /&gt;
por Sor Tallad, com os olhos postos em seu escudo. O atarracado Sor Kennos, de Kayce, que&lt;br /&gt;
mostrava os dentes e bufava sempre que erguia a espada, parecia estar se defendendo bem&lt;br /&gt;
contra Osney Kettleblack, mas o irmão de Osney, Sor Osfryd, castigava violentamente o escudeiro&lt;br /&gt;
com cara de rã, Morros Slynt. Com ou sem espadas embotadas, Slynt teria uma rica safra de&lt;br /&gt;
hematomas na manhã seguinte. Sansa estremeceu só de ver. Eles mal acabaram de enterrar os&lt;br /&gt;
mortos da última batalha ejá estão treinando para aproxima.&lt;br /&gt;
Na extremidade do pátio, um cavaleiro solitário, com um par de rosas douradas no escudo,&lt;br /&gt;
defendia-se de três oponentes. Precisamente no momento em que Sansa os observava, o&lt;br /&gt;
cavaleiro golpeou um dos oponentes na parte lateral da cabeça, deixando-o sem sentidos.&lt;br /&gt;
- Aquele é seu irmão? - perguntou Sansa.&lt;br /&gt;
- Sim, senhora - disse Sor Loras. - Garlan treina freqüentemente contra três homens, ou mesmo&lt;br /&gt;
quatro. Ele diz que em batalha é raro que se lute um contra um, e por isso gosta de estar&lt;br /&gt;
preparado.&lt;br /&gt;
- Deve ser muito corajoso.&lt;br /&gt;
- E um grande cavaleiro - respondeu Sor Loras. - Na verdade, é melhor espadachim do que eu,&lt;br /&gt;
embora eu seja melhor lanceiro.&lt;br /&gt;
- Eu me lembro - disse Sansa. - Cavalga maravilhosamente, sor,&lt;br /&gt;
- A senhora é amável por dizer tal coisa. Quando foi que me viu montar?&lt;br /&gt;
- No torneio da Mão, não se recorda? Montou um corcel branco, e sua armadura era feita de&lt;br /&gt;
uma centena de diferentes espécies de flores. Você me deu uma rosa. Uma rosa vermelha. Nesse&lt;br /&gt;
dia atirou rosas brancas às outras mulheres. - Falar daquilo fazia-a co- rar. - Disse que nenhuma&lt;br /&gt;
vitória possuía sequer metade da minha beleza.&lt;br /&gt;
Sor Loras dirigiu-lhe um sorriso modesto,&lt;br /&gt;
- Disse apenas uma verdade simples, que qualquer homem com olhos pode ver.&lt;br /&gt;
Ele não se lembra, compreendeu Sansa, sobressaltada. Está só sendo gentil comigo, não se&lt;br /&gt;
lembra de mim, da rosa ou de qualquer outra coisa. Tivera tanta certeza de que o acontecimento&lt;br /&gt;
tinha significado algo, de que tinha significado tudo. Uma rosa vermelha, e não branca.&lt;br /&gt;
- Foi depois de ter derrubado Sor Robar Royce - disse ela, desesperada.&lt;br /&gt;
Ele tirou a mão de seu braço.&lt;br /&gt;
- Matei Robar em Ponta Tempestade, senhora, - Não estava se vangloriando; sua voz soava&lt;br /&gt;
triste.&lt;br /&gt;
Ele e outro dos homens da Guarda Arco-íris do Rei Renly, sim. Sansa ouviu as mulheres falar&lt;br /&gt;
disso em volta do poço, mas por um momento tinha se esquecido.&lt;br /&gt;
- Foi quando Lorde Renly foi morto, não foi? Que coisa terrível para sua pobre irmã.&lt;br /&gt;
- Para Margaery? - a voz dele estava tensa, - Com certeza. Mas ela estava em Ponta- marga.&lt;br /&gt;
Não viu nada.&lt;br /&gt;
- Mesmo assim, quando ouviu a notícia...&lt;br /&gt;
Sor Loras afagou ligeiramente o cabo da espada com a mão, O punho era de couro branco, o&lt;br /&gt;
botão, uma rosa de alabastro.&lt;br /&gt;
- Renly está morto. Robar também. Por que falar deles?&lt;br /&gt;
A aspereza em seu tom pegou-a desprevenida.&lt;br /&gt;
- Eu... senhor, eu... não pretendia ofendê-lo, sor.&lt;br /&gt;
- Nem poderia fazê-lo, Senhora Sansa - respondeu Sor Loras, mas todo o calor tinha&lt;br /&gt;
desaparecido de sua voz. Nem voltou a tomar seu braço.&lt;br /&gt;
Subiram a escada em espiral num profundo silêncio.&lt;br /&gt;
Oh, por que eu tinha de mencionar Sor Robar? pensou Sansa. Estraguei tudo. Ele agora está&lt;br /&gt;
zangado comigo. Tentou pensar em alguma coisa que pudesse dizer para fazer as pazes, mas&lt;br /&gt;
todas as palavras que passavam por sua cabeça eram capengas e fracas. Fique calada, senão vai&lt;br /&gt;
ficar ainda pior, disse a si mesma.&lt;br /&gt;
Lorde Mace Tyrell e sua comitiva tinham sido alojados atrás do septo real, na longa fortaleza&lt;br /&gt;
com telhado de ardósia, que era chamada de Arcada das Donzelas desde que o Rei Baelor, o&lt;br /&gt;
Abençoado, confinara ali as irmãs, para que a visão delas não o tentasse a ter pensamentos&lt;br /&gt;
carnais. Junto às suas portas altas e esculpidas encontravam-se dois guardas com meio elmo&lt;br /&gt;
dourado e manto verde debruado de cetim dourado, com a rosa dourada de Jardim de Cima cosida&lt;br /&gt;
no peito. Ambos tinham mais de dois metros e dez de altura e eram largos de ombros e estreitos de&lt;br /&gt;
cintura, magnificamente musculosos. Quando Sansa se aproximou o suficiente para ver seus&lt;br /&gt;
rostos, não foi capaz de distingui- -los um do outro. Possuíam os mesmos maxilares fortes, os&lt;br /&gt;
mesmos profundos olhos azuis, os mesmos densos bigodes ruivos.&lt;br /&gt;
- Quem são eles? - perguntou a Sor Loras, momentaneamente esquecida do embaraço.&lt;br /&gt;
- A guarda pessoal de minha avó - disse-lhe ele. - A mãe deles os chamou de Erryk e Arryk.&lt;br /&gt;
Minha avó não consegue distingui-los, por isso os chama de Esquerdo e Direito.&lt;br /&gt;
Esquerdo e Direito abriram as portas, e a própria Margaery Tyrell surgiu e desceu saltitante o&lt;br /&gt;
pequeno lance de escadas, ao encontro dos recém-chegados.&lt;br /&gt;
- Senhora Sansa - gritou -, estou tão contente por ter vindo. Seja bem-vinda.&lt;br /&gt;
Sansa ajoelhou aos pés de sua futura rainha.&lt;br /&gt;
- A senhora me concede uma grande honra, Vossa Graça.&lt;br /&gt;
- Por que não me chama de Margaery? Por favor, levante-se. Loras, ajude a Senhora Sansa a&lt;br /&gt;
ficar em pé. Posso chamá-la de Sansa?&lt;br /&gt;
- Se lhe agradar.&lt;br /&gt;
Sor Loras fez o que lhe foi pedido. Margaery mandou-o embora com um beijo fraternal e pegou a&lt;br /&gt;
mão de Sansa.&lt;br /&gt;
- Venha, minha avó a espera, e ela não é a mais paciente das senhoras.&lt;br /&gt;
O fogo crepitava na lareira, e esteiras com um cheiro doce tinham sido espalhadas pelo chão.&lt;br /&gt;
Uma dúzia de mulheres estava sentada em volta da longa mesa de montar.&lt;br /&gt;
Sansa só reconheceu a alta e digna esposa de Lorde Tyrell, a Senhora Alerie, cuja longa trança&lt;br /&gt;
prateada se encontrava presa com anéis incrustados de jóias. Margaery fez as outras&lt;br /&gt;
apresentações. Havia três primas Tyrell, Megga, Alia e Elinor, todas com idades próximas à de&lt;br /&gt;
Sansa. A roliça Senhora Janna era irmã de Lorde Tyrell, e era casada com um dos Fossoway da&lt;br /&gt;
maçã verde; a graciosa Senhora Leonette, de olhos brilhantes, era também uma Fossoway,&lt;br /&gt;
casada com Sor Garlan. A Septá Nysterica possuía um rosto modesto e marcado por varíola, mas&lt;br /&gt;
parecia alegre. A pálida e elegante Senhora Grace- ford esperava criança, e a Senhora Bulwer era&lt;br /&gt;
uma criança, com não mais de oito anos. E &quot;Merry&quot; era como ela chamaria a rude e encorpada&lt;br /&gt;
Meredyth Crane, mas decididamente não a Senhora Merryweather, uma apaixonante beleza de&lt;br /&gt;
Myr, de olhos negros.&lt;br /&gt;
Após todas as outras, Margaery trouxe-a junto de uma mulher encarquilhada, de cabelos&lt;br /&gt;
brancos, que mais parecia uma boneca, sentada à cabeceira da mesa.&lt;br /&gt;
- Tenho a honra de lhe apresentar a minha avó, a Senhora Olenna, viúva do falecido Luthor&lt;br /&gt;
Tyrell, Senhor de Jardim de Cima, cuja memória é um conforto para todos nós.&lt;br /&gt;
A idosa cheirava a água de rosas. Ob, ela é uma coisinha minúscula. Nada havia na mulher que&lt;br /&gt;
fosse minimamente espinhoso.&lt;br /&gt;
- Beije-me, filha - disse a Senhora Olenna, puxando o pulso de Sansa com uma mão suave e&lt;br /&gt;
manchada. - É tanta gentileza sua vir jantar comigo e com meu tolo bando de galinhas.&lt;br /&gt;
Obedientemente, Sansa beijou a velha no rosto.&lt;br /&gt;
- A gentileza foi sua, por me convidar, senhora.&lt;br /&gt;
- Conheci seu avô, Lorde Rickard, embora mal.&lt;br /&gt;
- Ele morreu antes de eu nascer,&lt;br /&gt;
- Sei disso, filha. Dizem que seu avô Tully também está morrendo. Lorde Hoster, certamente&lt;br /&gt;
lhe disseram, não? Um velho, embora não tão velho como eu. Seja como for, no fim a noite cai&lt;br /&gt;
para todos nós, e cedo demais para alguns. Deve saber disso melhor do que a maioria das&lt;br /&gt;
pessoas, pobre criança. Teve a sua cota de luto, eu sei. Lamentamos as suas perdas,&lt;br /&gt;
Sansa olhou de relance para Margaery,&lt;br /&gt;
- Entristeceu-me saber da morte de Lorde Renly, Vossa Graça, Ele era muito galante.&lt;br /&gt;
- E bondade sua dizer isso - respondeu Margaery.&lt;br /&gt;
A avó bufou.&lt;br /&gt;
- Galante, sim, e encantador, e muito limpo. Sabia como se vestir, sabia como sorrir e sabia&lt;br /&gt;
como tomar banho, e, não se sabe bem como, arranjou a idéia de que isso o tornava apto a ser rei.&lt;br /&gt;
Os Baratheon sempre tiveram idéias estranhas, certamente. Vem do sangue Targaryen, creio eu. -&lt;br /&gt;
Fungou. - Um dia tentaram me casar com um Targaryen, mas rapidamente dei um basta nisso.&lt;br /&gt;
- Renly era bravo e gentil, avó - disse Margaery. - O pai também gostava dele, assim como&lt;br /&gt;
Loras.&lt;br /&gt;
- Loras é jovem - disse com vivacidade a Senhora Olenna - e muito bom em derrubar homens&lt;br /&gt;
dos cavalos com um pau, Isso não faz dele sensato. Quanto ao seu pai, gostaria de ter nascido&lt;br /&gt;
camponesa com uma grande colher de pau, porque talvez tivesse sido capaz de enfiar na marra&lt;br /&gt;
algum juízo naquela cabeça gorda.&lt;br /&gt;
- Mãe - repreendeu a Senhora Alerie.&lt;br /&gt;
- Chiu, Alerie, não fale comigo nesse tom. E não me chame de mãe. Se tivesse dado você à luz,&lt;br /&gt;
certamente me lembraria. Só podem me culpar por seu marido, o lorde idiota de Jardim de Cima.&lt;br /&gt;
- Avó - disse Margaery tome tento nas palavras, senão o que Sansa pensará de nós?&lt;br /&gt;
- Pode pensar que possuímos alguma inteligência. Uma de nós, pelo menos. - A mulher idosa&lt;br /&gt;
virou-se para Sansa. - É traição, eu os preveni, Robert tem dois filhos e Renly, um irmão mais&lt;br /&gt;
velho, como seria possível que ele tivesse alguma pretensão àquela feia cadeira de ferro? Vá lá,&lt;br /&gt;
diz o meu filho, não quer que a sua querida seja rainha? Vocês, os Stark, um dia foram reis, os&lt;br /&gt;
Arryn e os Lannister também, e até os Baratheon, pela linha feminina, mas os Tyrell não passavam&lt;br /&gt;
de intendentes até chegar Aegon, o Dragão, e cozinhar o rei legítimo da Campina no Campo de&lt;br /&gt;
Fogo, A bem da verdade, até nossa pretensão a Jardim de Cima é um pouco malandra, como&lt;br /&gt;
aqueles terríveis Florent andam sempre choramingando. &quot;O que importa&quot; você pode perguntar, e&lt;br /&gt;
certamente não importa, exceto para idiotas como o meu filho. A idéia de um dia ver o neto com a&lt;br /&gt;
bunda no Trono de Ferro faz Mace inchar como... como é que se chama? Margaery, você que é&lt;br /&gt;
esperta, seja boazinha e diga à sua avó meio pateta o nome daquele peixe esquisito das Ilhas do&lt;br /&gt;
Verão que, quando é tocado, incha como um balão até ficar dez vezes maior,&lt;br /&gt;
- Ele é chamado de peixe-balão, avó.&lt;br /&gt;
- Claro que sim. O povo das Ilhas do Verão não tem imaginação nenhuma. O meu filho devia&lt;br /&gt;
adotar o peixe-balão como símbolo, para falar a verdade. Podia pôr uma coroa nele, como os&lt;br /&gt;
Baratheon fazem com o veado, isso talvez o deixasse feliz. Devíamos ter permanecido bem longe&lt;br /&gt;
de toda esta sangrenta babaquice, a meu ver, mas depois de ordenhar a vaca não há como enfiar&lt;br /&gt;
o leite de volta nas tetas. Depois de o Lorde Peixe - -Balão colocar aquela coroa na cabeça de&lt;br /&gt;
Renly, enfiamo-nos na lama até os joelhos, portanto aqui estamos para levar as coisas até o fim. E&lt;br /&gt;
o que você diz sobre isso, Sansa?&lt;br /&gt;
A boca de Sansa abriu e fechou. Também se sentia como um peixe-balão.&lt;br /&gt;
- Os Tyrell conseguem traçar a sua genealogia até Garth da Mão Verde - foi o melhor que&lt;br /&gt;
conseguiu arranjar assim de repente.&lt;br /&gt;
A Rainha dos Espinhos fungou e disse:&lt;br /&gt;
- Assim como os Florent, os Rowan, os Oakheart e metade das outras casas nobres do sul.&lt;br /&gt;
Garth gostava de plantar a sua semente em terreno fértil, segundo dizem. Não me surpreenderia&lt;br /&gt;
que não fosse só a mão que ele tinha verde.&lt;br /&gt;
- Sansa - interrompeu a Senhora Alerie -, deve estar com muita fome. Vamos comer um pouco&lt;br /&gt;
de javali e alguns bolos de limão?&lt;br /&gt;
~ Bolos de limão são os meus preferidos - admitiu Sansa.&lt;br /&gt;
- Foi o que nos disseram - declarou a Senhora Olenna, que claramente não tinha qualquer&lt;br /&gt;
intenção de ser silenciada. - Aquela criatura chamada Varys pareceu pensar que devíamos nos&lt;br /&gt;
sentir gratas por essa informação. Nunca entendi lá muito bem qual é o objetivo de um eunuco, a&lt;br /&gt;
bem da verdade. Parece-me que são só homens com as partes úteis cortadas. Alerie, mande que&lt;br /&gt;
nos sirvam a comida, ou pretende me matar de fome? Venha cá, Sansa, sente aqui ao meu lado,&lt;br /&gt;
sou muito menos chata do que essas outras. Espero que goste de bobos.&lt;br /&gt;
Sansa alisou a saia e sentou-se.&lt;br /&gt;
- Penso que... bobos, senhora? Fala de... do tipo que se veste de quadriculado?&lt;br /&gt;
- Nesse caso são penas. De que achava que eu falava? Do meu filho? Ou destas adoráveis&lt;br /&gt;
senhoras? Não, não fique vermelha, com esses cabelos, você fica parecendo uma romã. Todos os&lt;br /&gt;
homens são bobos, na verdade, mas aqueles que se vestem de quadriculado são mais divertidos&lt;br /&gt;
do que os que usam coroa. Margaery, filha, mande chamar o Abetouro, vamos ver se ele consegue&lt;br /&gt;
fazer a Senhora Sansa sorrir. O resto de vocês sentem-se, terei de lhes dizer tudo o que for para&lt;br /&gt;
fazer? Sansa deve pensar que a minha neta é servida por um rebanho de ovelhas.&lt;br /&gt;
O Abetouro chegou antes da comida, vestido com um traje de bobo de penas verdes e&lt;br /&gt;
amarelas, com um barrete pendente. Um homem imensamente gordo e redondo, do tamanho de&lt;br /&gt;
três Rapazes-Lua, entrou rebolando no salão, saltou para cima da mesa e depositou um&lt;br /&gt;
gigantesco ovo bem na frente de Sansa.&lt;br /&gt;
- Quebre-o, senhora - ordenou. Quando ela o fez, uma dúzia de pintinhos amarelos fugiram e&lt;br /&gt;
desataram a correr em todas as direções. - Apanhem-nos! - exclamou o Abetouro. A pequena&lt;br /&gt;
Senhora Bulwer capturou um e entregou a ele, de modo que o homem o enfiou em sua enorme&lt;br /&gt;
boca elástica, e pareceu engoli-lo inteiro. Quando arrotou, minúsculas penas amarelas voaram por&lt;br /&gt;
seu nariz. A Senhora Bulwer desatou a chorar, aflita, mas suas lágrimas transformaram-se num&lt;br /&gt;
súbito guincho de deleite quando o pintinho saiu, contorcendo-se, da manga de seu vestido e&lt;br /&gt;
correu pelo seu braço abaixo.&lt;br /&gt;
Quando os criados trouxeram um caldo de alho-poró e cogumelos, o Abetouro começou a fazer&lt;br /&gt;
malabarismos e a Senhora Olenna inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa.&lt;br /&gt;
- Conhece o meu filho, Sansa? Lorde Peixe-Balão de Jardim de Cima?&lt;br /&gt;
- É um grande senhor - respondeu polidamente Sansa.&lt;br /&gt;
- É um grande idiota - disse a Rainha dos Espinhos. - O pai também era um idiota. Meu esposo,&lt;br /&gt;
o falecido Lorde Luthor..Oh, amei-o bastante, não me entenda mal. Era um homem gentil, e não&lt;br /&gt;
lhe faltava habilidade no quarto, mas não deixava de ser pavorosamente idiota. Conseguiu cair&lt;br /&gt;
com o cavalo de uma falésia enquanto caçava com falcão. Dizem que olhava para o céu, sem&lt;br /&gt;
prestar nenhuma atenção para onde o cavalo o levava.&lt;br /&gt;
&quot;E agora o idiota do meu filho está fazendo o mesmo, só que está montando um leão em vez de&lt;br /&gt;
um palafrém. Eu preveni-o de que é fácil montar um leão, mas não é tão fácil desmontá-lo; porém,&lt;br /&gt;
ele só responde com risinhos. Se algum dia tiver um filho, Sansa, bata nele com freqüência, para&lt;br /&gt;
que aprenda a lhe dar ouvidos. Eu só tive um rapaz e quase não bati nele, é por isso que agora ele&lt;br /&gt;
presta mais atenção ao Abetouro do que a mim. Um leão não é um gato de colo, eu lhe disse, e ele&lt;br /&gt;
me vem com um &#39;vá-lá-mãe&#39;. Há muito mais&#39;vá-lás&#39; neste reino do que devia existir, se quer saber.&lt;br /&gt;
Todos esses reis fariam bastante melhor se depusessem as espadas e escutassem as mães.&quot;&lt;br /&gt;
Sansa percebeu que estava de novo com a boca aberta. Encheu-a com uma colher de caldo&lt;br /&gt;
enquanto a Senhora Alerie e as outras mulheres riam do espetáculo que Abetouro dava, fazendo&lt;br /&gt;
laranjas saltarem com sua cabeça, seus cotovelos e seu grande traseiro.&lt;br /&gt;
- Quero que me conte a verdade sobre esse real rapaz - disse abruptamente a Senhora&lt;br /&gt;
Olenna. - Esse JofFrey.&lt;br /&gt;
Os dedos de Sansa apertaram-se em volta da colher. A verdade? Não posso, Não me peça a&lt;br /&gt;
verdade, por favor, não posso.&lt;br /&gt;
- Eu.,, eu... eu...&lt;br /&gt;
- Você, sim. Quem melhor o conheceria? O moço parece bastante régio, admito. Um pouco&lt;br /&gt;
cheio de si, mas isso deve vir do sangue Lannister. No entanto, ouvimos algumas histórias&lt;br /&gt;
perturbadoras. Há alguma verdade nelas? Aquele rapaz maltratou-a?&lt;br /&gt;
Sansa lançou um olhar nervoso à sua volta. O Abetouro enfiou uma laranja inteira na boca,&lt;br /&gt;
mastigou-a e engoliu-a, deu um tapa no rosto e assoou sementes pelo nariz. As mulheres riram.&lt;br /&gt;
Criados iam e vinham, e a Arcada das Donzelas ecoava com o ruído das colheres e dos pratos.&lt;br /&gt;
Um dos pintos voltou a saltar para cima da mesa e atravessou correndo o caldo da Senhora&lt;br /&gt;
Graceford. Ninguém parecia estar prestando a mínima atenção nelas, mesmo assim Sansa&lt;br /&gt;
sentia-se assustada.&lt;br /&gt;
A Senhora Olenna estava ficando impaciente.&lt;br /&gt;
- Por que está olhando para o Abetouro de boca aberta? Fiz uma pergunta, espero uma&lt;br /&gt;
resposta. Os Lannister roubaram a sua língua, filha?&lt;br /&gt;
Sor Dontos prevenira-a para só falar à vontade no bosque sagrado.&lt;br /&gt;
- Joff... o Rei Joffrey, ele... Sua Graça é muito justo e bonito, e... e bravo como um leão.&lt;br /&gt;
- Sim, todos os Lannister são leões, e quando um Tyrell solta gases cheira mesmo a rosas -&lt;br /&gt;
exclamou a idosa. - Mas quão bondoso ele é? Quão inteligente? Tem um bom coração, uma mão&lt;br /&gt;
gentil? E cavalheiresco como um rei deve ser? Irá estimar Margaery e tratá-la com ternura,&lt;br /&gt;
proteger sua honra como protegeria a própria?&lt;br /&gt;
- Sim - mentiu Sansa. - Ele é muito... muito bonito.&lt;br /&gt;
- Já disse isso. Sabe, filha, há quem diga que você é tão tola quanto o Abetouro, e eu começo a&lt;br /&gt;
acreditar. Bonito? Ensinei à minha Margaery o que vale a beleza, espero eu. Um pouco menos do&lt;br /&gt;
que um peido de saltimbanco. Aerion Fogo-Forte era bastante bonito, mas mesmo assim era um&lt;br /&gt;
monstro. A questão é: o que é Joffrey? - estendeu a mão para puxar um criado que passava. - Não&lt;br /&gt;
gosto de alho-poró. Leve este caldo e traga-me um pouco de queijo.&lt;br /&gt;
- O queijo será servido depois dos bolos, senhora.&lt;br /&gt;
- O queijo será servido quando eu quiser que ele seja servido, e quero-o servido já. - A velha&lt;br /&gt;
voltou a se virar para Sansa. - Está assustada, filha? Não precisa, aqui somos só mulheres.&lt;br /&gt;
Conte-me a verdade, nenhum mal acontecerá a você.&lt;br /&gt;
- Meu pai sempre disse a verdade, - Sansa falava em voz baixa, ainda assim era difícil forçar as&lt;br /&gt;
palavras a sair,&lt;br /&gt;
- Lorde Eddard, sim, ele tinha essa reputação, mas mesmo assim o chamaram de traidor e&lt;br /&gt;
cortaram sua cabeça. - Os olhos da velha a atravessaram, afiados e brilhantes como pontas de&lt;br /&gt;
espadas.&lt;br /&gt;
-Joffrey - disse Sansa. - Foi Joffrey quem fez isso. Prometeu-me que seria misericordioso, e&lt;br /&gt;
cortou a cabeça de meu pai. Disse que isso era uma misericórdia e levou-me até o alto das&lt;br /&gt;
muralhas e obrigou-me a olhar para ela. Para a cabeça. Queria que eu chorasse, mas,,. - Parou&lt;br /&gt;
abruptamente e cobriu a boca. Disse mais do que deveria, oh, pela bondade dos deuses, eles&lt;br /&gt;
saberão, eles ouvirão falar disso, alguém me denunciará.&lt;br /&gt;
- Continue. - Foi Margaery que pediu. A futura rainha de Joffrey. Sansa não sabia quanto ela&lt;br /&gt;
teria ouvido.&lt;br /&gt;
- Não posso. -E se ela contar para ele, e se ela contar? Ele então vai me matar com certeza, ou&lt;br /&gt;
me dar a Sor Ilyn. - Não quis dizer,., meu pai era um traidor, meu irmão também, tenho sangue de&lt;br /&gt;
traidor, por favor, não me obriguem a dizer mais.&lt;br /&gt;
- Acalme-se, filha - ordenou a Rainha dos Espinhos.&lt;br /&gt;
- Ela está aterrorizada, avó, olhe só para ela.&lt;br /&gt;
A velha gritou ao Abetouro.&lt;br /&gt;
- Bobo! Dê-nos uma canção. Uma longa, penso eu. &quot;O urso e a bela donzela&quot; servirá muito bem.&lt;br /&gt;
- Sim! - respondeu o enorme bobo. - Servirá mesmo muito bem! Devo cantá-la apoiado em&lt;br /&gt;
minha cabeça, senhora?&lt;br /&gt;
- Isso fará com que soe melhor?&lt;br /&gt;
- Não»&lt;br /&gt;
- Nesse caso, fique sobre seus pés. Não queremos que seu chapéu caia. Se bem me lembro,&lt;br /&gt;
você nunca lava o cabelo.&lt;br /&gt;
-Às suas ordens, senhora. - O Abetouro fez uma profunda reverência, soltou um gigantesco&lt;br /&gt;
arroto, e então endireitou-se, espetou a barriga e berrou: - Havia um urso, um urso, um URSO!&lt;br /&gt;
Preto e castanho e coberto de pelo...&lt;br /&gt;
A Senhora Olenna inclinou-se para a frente.&lt;br /&gt;
- Quando eu era uma garota mais nova do que você, já era bem sabido que na Fortaleza&lt;br /&gt;
Vermelha as paredes têm ouvidos. Bem, ficarão entretidos com uma canção e, enquanto isso, nós,&lt;br /&gt;
as meninas, falaremos livremente.&lt;br /&gt;
- Mas - disse Sansa - Varys... ele sabe, ele sempre...&lt;br /&gt;
- Cante mais alto! - gritou a Rainha dos Espinhos ao Abetouro. - Estes velhos ouvidos estão&lt;br /&gt;
quase surdos, sabe? Está sussurrando para mim, bobo gordo? Não lhe pago por sussurros. Cante!&lt;br /&gt;
- ... 0 URSO/ - trovejou o Abetouro, fazendo ecoar a sua sonora e profunda voz nas vigas do&lt;br /&gt;
teto. - OH, VEM, DISSERAM, OH, VEM AO CONCURSO! CONCURSO? DISSE ELE, MAS EU&lt;br /&gt;
SOU UM URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO!&lt;br /&gt;
A encarquilhada velha senhora sorriu.&lt;br /&gt;
- Em Jardim de Cima temos muitas aranhas entre as flores. Desde que guardem as coisas para&lt;br /&gt;
si, deixamos que teçam as suas pequenas teias, mas quando se põem debaixo de nossos pés,&lt;br /&gt;
pisamos nelas. - Deu palmadinhas nas costas da mão de Sansa. - Agora, filha, a verdade. Que tipo&lt;br /&gt;
de homem é esse JofFrey, que chama a si mesmo Baratheon, mas parece tão Lannister?&lt;br /&gt;
- E DAQUI PARA LÁ AO LONGO DO PERCURSO. PERCURSO! PERCURSO! TRÊS MOÇOS,&lt;br /&gt;
UM BODE E UMA DANÇA DE URSO!&lt;br /&gt;
Sansa sentia-se como se o coração estivesse preso em sua garganta. A Rainha dos Espinhos&lt;br /&gt;
estava tão perto dela que conseguia sentir seu mau hálito. Os dedos descarnados e esguios da&lt;br /&gt;
velha beliscavam seu pulso. Do outro lado, Margaery também estava à escuta. Um arrepio&lt;br /&gt;
percorreu-a.&lt;br /&gt;
- Um monstro - segredou, com uma voz tão trêmula que quase não conseguiu ouvir a si mesma.&lt;br /&gt;
- JofFrey é um monstro. Mentiu a respeito do filho do carniceiro e obrigou meu pai a matar a minha&lt;br /&gt;
loba. Quando lhe desagrado, manda a Guarda Real bater em mim. E mau e cruel, senhora, é a&lt;br /&gt;
verdade. E a rainha também.&lt;br /&gt;
A Senhora Olenna Tyrell e a neta trocaram olhares.&lt;br /&gt;
- Ah - disse a velha -, isso é uma pena.&lt;br /&gt;
Oh, deuses, pensou Sansa, horrorizada. Se Margaery não se casar com ele, Joff saberá que a&lt;br /&gt;
culpa é minha.&lt;br /&gt;
- Por favor - suplicou -, não impeça o casamento...&lt;br /&gt;
- Não tenha medo, Lorde Peixe-Balão está determinado a que Margaery seja rainha. E a&lt;br /&gt;
palavra de um Tyrell vale mais do que todo o ouro de Rochedo Casterly. Pelo menos era assim na&lt;br /&gt;
minha época. Seja como for, agradecemos pela verdade filha.&lt;br /&gt;
- ... DANÇOU E GIROU ATÉ CHEGAR AO CONCURSO! CONCURSO! CONCURSO! - o&lt;br /&gt;
Abetouro saltava, rugia e batia os pés.&lt;br /&gt;
- Sansa, gostaria de visitar Jardim de Cima? - quando Margaery Tyrell sorria, parecia-se muito&lt;br /&gt;
com o irmão Loras. - Todas as flores do outono estão em botão nesta época, e há bosques e&lt;br /&gt;
fontes, pátios cheios de sombras, colunatas de mármore. O senhor meu pai sempre mantém&lt;br /&gt;
cantores na corte, melhores do que o Abinho aqui, e também flautistas, rabequeiros e harpistas.&lt;br /&gt;
Temos os melhores cavalos e barcos de lazer para viajar ao longo do Vago. Você pratica falcoaria,&lt;br /&gt;
Sansa?&lt;br /&gt;
- Um pouco - admitiu.&lt;br /&gt;
- OH, E ELA ERA DOCE E PURA E BELA! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!&lt;br /&gt;
- Vai gostar tanto de Jardim de Cima quanto eu, sei que sim. - Margaery empurrou para trás&lt;br /&gt;
uma madeixa solta dos cabelos de Sansa. - Assim que vir o castelo, nunca mais vai querer partir. E&lt;br /&gt;
talvez não tenha que fazer isso.&lt;br /&gt;
- CABELOS! CABELOS! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!&lt;br /&gt;
- Chiu, filha - disse a Rainha dos Espinhos em tom penetrante. - Sansa nem sequer nos disse&lt;br /&gt;
que gostaria de ir até lá como visita.&lt;br /&gt;
- Ah, mas gostaria - disse Sansa. Jardim de Cima parecia ser o lugar com que sempre sonhara,&lt;br /&gt;
como a bela corte mágica que um dia esperara encontrar em Porto Real.&lt;br /&gt;
- ... CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO. 0 URSO/ 0 URSO! PRETO E CASTANHO E&lt;br /&gt;
COBERTO DE PELO.&lt;br /&gt;
- Mas a rainha - prosseguiu Sansa -, ela não me deixará ir...&lt;br /&gt;
- Deixará. Sem Jardim de Cima, os Lannister não têm esperança de manter Joffrey no trono. Se&lt;br /&gt;
o meu filho, o lorde idiota, pedir, ela não terá outra escolha a não ser conceder- -lhe o pedido.&lt;br /&gt;
- Ele faria isso? - perguntou Sansa. - Ele pedirá?&lt;br /&gt;
A Senhora Olenna franziu a testa.&lt;br /&gt;
- Não vejo necessidade de lhe dar outra escolha, Claro, ele não faz a mínima idéia de nosso&lt;br /&gt;
verdadeiro propósito.&lt;br /&gt;
- CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO!&lt;br /&gt;
Sansa franziu a testa.&lt;br /&gt;
- O nosso verdadeiro propósito, senhora?&lt;br /&gt;
- FUNGOU E RUGIU E CHEIROU-O, BABÃO! MEL NO AR DE VERÃO!&lt;br /&gt;
- Tratar de casá-la em segurança, filha - disse a velha, enquanto o Abetouro berrava a&lt;br /&gt;
velhíssima canção -, com o meu neto.&lt;br /&gt;
Casar com Sor Loras, ok.. A respiração de Sansa ficou presa na garganta. Lembrou-se de Sor&lt;br /&gt;
Loras em sua cintilante armadura de safiras, atirando-lhe uma rosa. Sor Loras vestido de seda&lt;br /&gt;
branca, tão puro, inocente e belo. As covinhas nos cantos da boca quando sorria. A doçura de seu&lt;br /&gt;
riso, o calor de sua mão. Só podia imaginar o que seria tirar sua túnica e acariciar a pele suave,&lt;br /&gt;
ficar nas pontas dos pés e beijá-lo, correr os dedos por aqueles espessos caracóis castanhos e&lt;br /&gt;
afogar-se em seus profundos olhos castanhos. Uma vermelhidão subiu por seu pescoço.&lt;br /&gt;
- OH, SOU UMA DONZELA, E SOU PURA E BELA! NÃO DANÇAREI CUM URSO PELUDO!&lt;br /&gt;
UM URSO! UM URSO! NÃO DANÇAREI CVM URSO PELUDO!&lt;br /&gt;
- Gostaria disso, Sansa? - perguntou Margaery. - Nunca tive uma irmã, só irmãos. Oh, por favor,&lt;br /&gt;
diga que sim, por favor, diga que consentirá em se casar com meu irmão.&lt;br /&gt;
As palavras precipitaram-se para fora de sua boca.&lt;br /&gt;
- Sim, eu me caso. Nada me agradaria mais. Casar com Sor Loras, amá-lo...&lt;br /&gt;
- Loras? - a Senhora Olenna fez uma expressão aborrecida. - Não seja tola, filha. A Guarda&lt;br /&gt;
Real nunca se casa. Não lhe ensinaram nada em Winterfell? Estávamos falando de meu neto&lt;br /&gt;
Willas. Ele é um pouco velho para você, com certeza, mas um rapaz adorável, apesar de tudo.&lt;br /&gt;
Nem um pouquinho imbecil, e além disso herdeiro de Jardim de Cima.&lt;br /&gt;
Sansa sentiu vertigem; num instante sua cabeça estava cheia de sonhos sobre Loras, e no&lt;br /&gt;
seguinte tinham-lhe tirado todos, Willas? Willas?&lt;br /&gt;
- Eu - disse, estupidamente. A cortesia é a armadura de uma senhora. Não pode ofende- Aos,&lt;br /&gt;
tenha cuidado com o que diz. - Eu não conheço Sor Willas. Nunca tive o prazer, minha senhora. Ele&lt;br /&gt;
é.„ é um cavaleiro tão bom quanto os irmãos?&lt;br /&gt;
-.,. ERGUEU-A NO AR C&#39;UMA MÂO! 0 URSO! 0 URSO!&lt;br /&gt;
- Não - disse Margaery. - Nunca prestou juramento.&lt;br /&gt;
A avó franziu a testa.&lt;br /&gt;
- Conte a verdade à garota. O pobre rapaz é aleijado, e é assim que as coisas são.&lt;br /&gt;
- Foi ferido quando era escudeiro, ao participar de seu primeiro torneio - confidenciou Margaery.&lt;br /&gt;
- O cavalo caiu e esmagou a perna de Willas.&lt;br /&gt;
- A culpa foi daquela serpente de Dorne, aquele Oberyn Martell. E o meistre dele também.&lt;br /&gt;
- gl/JS UM CAVALEIRO, MAS VOCÊ É UM URSO! UM URSO! UM URSO! PRETO E&lt;br /&gt;
CASTANHO E COBERTO DE PELO!&lt;br /&gt;
- Willas tem uma perna ruim mas um bom coração - disse Margaery. - Costumava ler para mim&lt;br /&gt;
quando eu era uma menininha, e fazia desenhos das estrelas para mim. Vai amá-lo tanto como&lt;br /&gt;
nós, Sansa.&lt;br /&gt;
- &#39;SPERNEOU E CHOROU, A DONZELA TÃO BELA, MAS ELE LAMBEU- -LHE O MEL DOS&lt;br /&gt;
CABELOS. CABELOS! CABELOS! LAMBEU-LHE 0 MEL DOS CABELOS!&lt;br /&gt;
- Quando poderei conhecê-lo? - perguntou Sansa, hesitante.&lt;br /&gt;
- Em breve - prometeu Margaery. - Quando for a Jardim de Cima, depois de JofFrey e eu nos&lt;br /&gt;
casarmos. Minha avó vai levá-la.&lt;br /&gt;
- Levarei - disse a velha, dando palmadinhas na mão de Sansa e abrindo um sorriso suave&lt;br /&gt;
cheio de rugas. - Levarei mesmo.&lt;br /&gt;
- ENTÃO SUSPIROU E GUINCHOUEATÉ &#39;SPERNEOU! MEU URSO! CANTOU. MEU URSO&lt;br /&gt;
TÃO BELO! E DAQUI PARA LÁ FORAM PELO PERCURSO, 0 URSO, 0 URSO E A BELA&lt;br /&gt;
DONZELA. - O Abetouro rugiu o último verso, deu um salto e caiu sobre ambos os pés com um&lt;br /&gt;
estrondo que fez balançar as taças de vinho sobre a mesa. As mulheres riram e aplaudiram.&lt;br /&gt;
- Achava que essa terrível canção nunca mais acabaria - disse a Rainha dos Espinhos. - Mas,&lt;br /&gt;
olhem, aí vem o meu queijo.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memesleblog.blogspot.com/feeds/5457001852505032658/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sansa-o-parecia-bastante-inocente-mas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5457001852505032658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5364094752732638453/posts/default/5457001852505032658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memesleblog.blogspot.com/2013/12/sansa-o-parecia-bastante-inocente-mas.html' title=''/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>