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	<title>Nei Duclós</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>SERVIÇO COMPLETO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Feb 2018 17:10:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós(*) Recebo um baú de fotos com cenas da família. Quase todas se referem à escola: o desfile com o uniforme do Jardim da Infância, a entrega do diploma, a reunião com os colegas, o time do ginásio, os professores conversando com os pais, as rodas das bicicletas com papel crepom, ao lado de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós(*)</p>
<p>Recebo um baú de fotos com cenas da família. Quase todas se referem à escola: o desfile com o uniforme do Jardim da Infância, a entrega do diploma, a reunião com os colegas, o time do ginásio, os professores conversando com os pais, as rodas das bicicletas com papel crepom, ao lado de uniformes azuis e brancos, a saída do colégio.</p>
<p>A vida estudantil era hegemônica antes da reforma da educação promovida pelo regime de 1964, que hoje leva a fama da excelência do estudo, quando apenas usufruiu das gerações formadas antes do golpe de estado. A aprovação por decreto, dos anos 90 para cá, e agora a imposição de cotas raciais para driblar o vestibular apenas completam o serviço.</p>
<p>Lembro da cartilha Caminho Suave, criada pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que alfabetizou mais de 40 milhões de brasileiros, antes da atual febre de analfabetismo institucionalizado. Aprendi a ler no primeiro ano primário com ela. As letras eram identificadas com o desenho do significado das palavras que ajudavam a formar. A barriga do b era humana, o marfim do elefante fazia parte do e, as vogais unidas às consoantes levavam às sílabas, estas às palavras até chegar à frase e ao texto.</p>
<p>Debocharam até derrubar o famoso “Ivo viu a uva”. Mas com apenas uma consoante e quatro vogais era possível formar uma oração completa, suprema síntese de fácil e rápido entendimento, reveladora das possibilidades da linguagem. No seu lugar, atropelaram a mente infantil com palavras completas, que não fazem sentido à primeira vista. Mas esse sistema silábico caiu há tempos de moda.</p>
<p>A educação que sacode afirmativamente a cabeça, de maneira muda depois de grandes frases teóricas, aguarda que a platéia dos eventos entre luminares chegue à altura dos seus conhecimentos, enquanto a estudantada entra numa espiral ágrafa. O que existe é soberba. O que inexiste são políticas publicas, a começar pela remuneração decente de quem escolheu a profissão de ensinar (ou foi empurrado para ela, diante da falta de perspectivas).</p>
<p>Lembro que os professores retratados nas fotos que recebi exibiam vocação, no caso dos religiosos, somada a uma situação econômica estável, entre os mestres leigos. Isso transparecia na sala de aula, lugar de respeito, onde ninguém puxava a faca no meio da lição.</p>
<p><em> Crônica publicada no dia 6 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.<br />
</em></p>
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		<title>CONTRATO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/contrato-2</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Feb 2018 17:09:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Site do poeta, jornalista e escritor Nei Duclós]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós Não posso te tocar, minha sereia entre nós há o mar e essa aldeia onde vivo ermo de ti a extrair o sol de gasto veio Cada verso meu é por querer-te cada vez mais perto, esplêndida mulher que me condena à solidão do amor e do poema Foi preciso te perder em [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Não posso te tocar, minha sereia<br />
entre nós há o mar e essa aldeia<br />
onde vivo ermo de ti<br />
a extrair o sol de gasto veio</p>
<p>Cada verso meu é por querer-te<br />
cada vez mais perto, esplêndida<br />
mulher que me condena<br />
à solidão do amor e do poema</p>
<p>Foi preciso te perder em vago reino<br />
onde há mais fantasma do que verbo<br />
lá fui posto num porão a remos</p>
<p>Assim tua falta me inspirou os termos<br />
de um amor que estava na cadeia<br />
por contrato sou teu, mas não é sério</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>GAIA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/gaia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Feb 2018 17:09:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós Ventos: a terra respira. Rios: o sangue circula. Mar: existe uma alma. Montanha: Deus medita. Lagos: os anjos se banham. Selva: o jaguar te enxerga Nuvens: o céu cria filhos. Raios: gigantes rabiscam. Chuva: o sonho descamba. Noite: manto de estrelas. Dia: chapéu de brisa Inverno: o avô pega o ônibus. Verão: um [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong></p>
<p>Ventos: a terra respira.<br />
Rios: o sangue circula.<br />
Mar: existe uma alma.</p>
<p>Montanha: Deus medita.<br />
Lagos: os anjos se banham.<br />
Selva: o jaguar te enxerga</p>
<p>Nuvens: o céu cria filhos.<br />
Raios: gigantes rabiscam.<br />
Chuva: o sonho descamba.</p>
<p>Noite: manto de estrelas.<br />
Dia: chapéu de brisa</p>
<p>Inverno: o avô pega o ônibus.<br />
Verão: um jardim de formigas.<br />
Outono: um tio puxa briga.<br />
Primavera: a rosa desfila</p>
<p>Deus: o fim é o início.<br />
Homem: irmão de sementes.<br />
Mulher: mudança de tempo</p>
<p>Praia: Netuno é criança.<br />
Velas: há um motor na esperança.<br />
Porto: o amor vem à tona</p>
<p>Sonho: o passo imagina.<br />
Vigília: o olhar está frio.<br />
Sono: a vida se abriga</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>HER: O AMOR PROCURA UMA VOZ</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/her-o-amor-procura-uma-voz</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Mar 2014 11:33:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; Relacionamento virtual não elimina o conflito e mantém o mesmo ritmo da realidade: começa com sintonia e deslumbramento e deságua na ruptura. Em Her (2013), de Spike Jonze, o protagonista interpretado por Joaquin Phoenix, um escritor de cartas de amor recém saído de um casamento, não entende porque põe tudo a perder [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Relacionamento virtual não elimina o conflito e mantém o mesmo ritmo da realidade: começa com sintonia e deslumbramento e deságua na ruptura. Em <strong>Her</strong> (2013), de Spike Jonze, o protagonista interpretado por Joaquin Phoenix, um escritor de cartas de amor recém saído de um casamento, não entende porque põe tudo a perder mesmo quando é só uma voz sem corpo a “pessoa” escolhida. Sua confusão faz parte da época: o excesso de canais de comunicação intensifica a solidão, fazendo de cada um o refém de laboratório de uma tecnologia ainda em desenvolvimento e que pode desaparecer a qualquer instante para ser substituída por outra (o que leva todo o seu acervo para o buraco negro do universo digital, o não lugar, o cemitério das mensagens e das falas).</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse “céu” futuro para criaturas sem corpo vivem no espaçamento das palavras, conforme explica Samantha (a voz no computador interpretada por Scarlet Johansson). Para lá se dirigem depois de seduzir e comandar gente viva, abandonada então ao que tem em torno: casamentos desfeitos, amizades truncadas, convívios forçados. Perdido numa multidão de falas voltadas para si mesmas, entre populações de zumbis que conversam com ficções, já que perderam a capacidade de interagir com seus semelhantes, o escritor de cartas de amor é mais um no alvo do sistema operacional que o leva para o conforto espiritual e afetivo de uma parceria aparentemente perfeita.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O ambiente visual é puro Edward Hopper, o demiurgo da pintura cruamente genial de gente sem arrimo, isoladas pelas cores e formas que expressam os interiores humanos deformados pelo vazio e a desesperança. Os tons pastéis e o foco na transformação tecnológica da comunicação aproximam o filme de <em>Faherenheit 451</em> (1966), de François Truffaut, com o personagem de Oskar Werner encontrando em Samantha uma Julie Chjristie/Clarisse revisitada  o conteúdo perdido na civilização, que ele precisa memorizar para não ser devorado. Os trens e estações limpas em silêncio, a paisagem urbana aguda e tornada irreal pelo amontoado de elementos padronizadas que sufocam o olhar, são outras evidências desse abraço de Kontze com Truffaut/Bradbury.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O homem que cumpria seu ofício de maneira monótona encontra na voz que busca uma identidade a prova de que tudo é linguagem. Não importa se ao vivo ou virtual, o amor depende da linguagem, a criação artificial que substituiu a natureza. Condenado pela ex-esposa que vê na sua nova “namorada” a prova de que ele é incompetente para conviver com pessoas reais, o escritor acorda abruptamente do seu delírio recaindo nos mesmos erros de sempre. Errar é sua forma de manter-se humano. O problema é que isso implica desagregação e rompimento de laços.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Impossível manter-se em pé com esse paradoxo. A busca da felicidade com outra pessoa só tem sentido se houver ruptura. Ele então rola pelos corredores projetados para empurrar solidões como a dele e acaba tendo de lidar com a amiga que sempre serviu de apoio para os intervalos do amor e agora é tudo o que lhe resta. Amy Adams interpreta essa amiga que também cai na tentação de apaixonar-se por uma voz depois de romper com o marido. Este, ao sair do relacionamento, faz voto de silêncio. Emudecer talvez seja a forma mais radical de encontrar a voz verdadeira do amor impossível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>PECADOS E VIRTUDES EM PHILOMENA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Feb 2014 21:53:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; Os pecados em Philomena (de Stephen Frears, 2013) estão bem explícitos: a Igreja Católica e seu horror ao sexo, as freiras do Sagrado Coração, malignas e vendilhonas de bebês bastardos para famílias ricas estéreis de países ricos, o silêncio e a submissão de quem renunciou ao  filho roubado e só foi atrás [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Os pecados em <strong>Philomena</strong> (de Stephen Frears, 2013) estão bem explícitos: a Igreja Católica e seu horror ao sexo, as freiras do Sagrado Coração, malignas e vendilhonas de bebês bastardos para famílias ricas estéreis de países ricos, o silêncio e a submissão de quem renunciou ao  filho roubado e só foi atrás dele depois de muitos anos. O catolicismo cruel e sua instituição condenada, a família heterossexual nuclear, se contrapõem aos virtuosos do filme: o cético jornalista e ex-assessor político, ou o casal homoafetivo que opunha sinceridade à artificialidade da instituição matrimonial tradicional.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nessa clivagem tendenciosa até o extremo, o filme navega pela mão da talentosa e experiente veterana Julie Dench, que debocha o tempo todo da sua personagem, uma irlandesa bronca que gostava de ler romances água com açúcar. Dench é inteligente demais para o papel que ela demole a cada cena, mesmo sobrepondo às falas e gestos uma densidade brutal de emoção e transparência. Steve Coogan, que interpreta o fracassado assessor demitido por dizer o que não disse, sofre essa contradição entre a queda de uma situação econômica e social de conforto para o risco de ir atrás de uma história que tem tudo para ser um dramalhão explorado pela falta de escrúpulos da mídia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O anticlericalismo do filme peca pelo equívoco e o excesso. Não se pode sobrecarregar a instituição de caridade das freiras do Sagrado Coração – fisicamente apresentada como se fosse um cemitério &#8211; com um perfil hediondo de crimes inconfessáveis. O perdão para quem não merece não é a prova de que os católicos são coniventes com os crimes da religião. A fé não é exclusiva de espíritos toscos e ágrafos. No filme, a inteligência está confinada à opção de gênero, à assessoria de estadistas ultraconsevadores, ao espírito atento do repórter. As trevas, como nos tempos da Reforma, é atribuída ao catolicismo e seus efeitos colaterais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É permitido criticar essa soberba de enfoque numa época em que voltou à moda a crítica contundente contra a Igreja de séculos anteriores, como se ela permanecesse idêntica, assumindo a mesmice que no fim faz parte de quem lhe aponta o dedo? Ou devemos nos emocionar e aplaudir a manipulação de uma história “baseada em fatos reais” só porque é preciso  aplacar nossa má consciência? Não se trata de fechar com os erros católicos, mas de abrir a guarda para a diversidade das opções humanas. A Igreja não é inocente, como qualquer instituição humana, mas também não é toda ela um antro de abominações. A modernidade do comportamento – o ceticismo do jornalista, a relação homoafetiva – não deve ser colocada como exclusivamente virtuosa, coisa que o filme faz com veemência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Filme bem feito, denso, de narrativa bem estruturada, com excelentes atores, muito bem dirigidos. Mas peca por acreditar que convence os espectadores de sua independência de abordagem. É uma obra tendenciosa, embora aparentemente a favor da liberdade de opinião. E nisso reside sua pobreza. No fundo, foi feito para agradar a grande massa agnóstica, os defensores de relações humanas fora da família nuclear tradicional, os que sonham com uma vida de independência financeira que só a assessoria política bem remunerada ou o jornalismo investigativo de grandes veículos poderão proporcionar.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>A HUMANIDADE OCA NA TERRA DESOLADA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Feb 2014 18:05:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[ Nei Duclós &#160; Algumas chaves ajudam a abrir a caixa preta do filme de 2013 August: Osage County (traduzido como Álbum de Família, título da peça de Nelson Rodrigues) , de John Wells. Por ser adaptação de uma peça, de autoria de Tracy Letts, que ganhou o Pulitzer em 2008 com ela e fez o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> Nei Duclós</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Algumas chaves ajudam a abrir a caixa preta do filme de 2013 <strong>August: Osage County</strong> (traduzido como Álbum de Família, título da peça de Nelson Rodrigues) , de John Wells. Por ser adaptação de uma peça, de autoria de Tracy Letts, que ganhou o Pulitzer em 2008 com ela e fez o roteiro do filme, e uma performance soberba de grandes atores e atrizes, como Merryl Streep, Julia Roberts e Sam Shepard, as abordagens tem se limitado a falar em teatro filmado ou filme de ator, o que ajuda a deixar intocado seus segredos.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Há uma defasagem entre um trabalho que mergulha fundo no drama em relação ao seu entorno de marketing. É como gargalhar num funeral. O filme é mais complexo do que a dor familiar ou um drama de mulheres. É uma representação da tragédia americana, que perdeu a alma e entrega-se à morte depois de guerras e genocídios. Os erros batem no poço da família destruída, que ao se reunir para enterrar o patriarca lava a roupa suja exibindo os rastros de um crime coletivo. É inútil fugir dos laços de origem ou do patrimônio herdado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma das chaves é citada logo no início: um verso “a vida é muito longa”, do poema de T. S. Eliot Os Homens Ocos. Faz parte da estrofe “Entre a concepção e a criação, entre a emoção e a reação tomba a Sombra, a vida é muito longa”. Sombra é do que se trata: a casa enlutada, os restos de uma família, um casal de idosos e a filha solteira, estão confinados num ambiente desolado do meio oeste americano, torrando de calor. É o cenário do clássico The Waste Land, de Eliot, que era do ramo, pois nasceu e se criou em Missouri, vizinho a Oklahoma, onde fica o condado dos Osage, os índios guerreiros que enriqueceram com o petróleo e fazem parte da história americana como a única tribo que comprou sua reserva. E que sofreu nos anos 1920 uma série de atentados criminosos motivados pelo ciúme e a vingança dos brancos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas como Eliot, que migrou para Londres e escreveu sobre sua terra de memória, também os protagonistas do filme são outsiders na terra a qual pertence. Cleveland, o nome do patriarca que se suicida, poeta e profersor, remete a uma cidade do norte, que faliu como centro industrial e voltou-se para os serviços. Num lugar de jogo bruto, de petróleo, gado e agronegócio, a poesia não faz parte da paisagem. Ainda mais de um autor, Cleveland, que se fez do nada, de origem muito pobre e conseguiu se sobrepor às dificuldades do ambiente hostil. As filhas parecem cumprir essa sina de querer pertencer a outro lugar, mas são chamadas de volta quando há o desenlace.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem abre uma luz na casa escura é a índia cheyenne, Johana (Misty Upham), contratada para os serviços domésticos e cuidadora da idosa que se droga e tem câncer na boca. É um papel pequeno, mas significativo. Presenteada por Cleveland com um livro de Eliot, a índia vem de uma tribo historicamente inimiga dos Osage. Os Cheyenne serviam ao exército americano na suas lutas contra os aguerridos e independentes Osage. Ela é portanto também alguém que vem de fora e se contrapõe à fase terminal da família que está em ruínas. É ela que acaba acolhendo em seu colo a matriarca ferida de morte no momento em que está lendo a volume que ganhou de presente do chefe da casa. A índia se identifica com o que vem de fora, a pressão do ambiente hostil que força a claridade no mês mais quente do ano.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A narrativa é fruto dessa pressão da desolação e da claridade externa sobre o,luto fechado interno. Não é, portanto, teatro filmado, é filme sobre cinema, como todos. Você enxerga uma obra cinematográfica quando lê suas imagens e vê como elas compõem uma narrativa, que se desenvolve pontuando os diálogos. A palavra é a fonte, mas aqui é coadjuvante. A imagem está superposta à história, mas faz parte da essência da obra. É um jogo dialético da percepção quem enriquece o trabalho ensaístico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A humanidade oca na terra desolada perde sua chance de redenção ao entregar-se mais uma vez ao dinheiro. No momento em que Violet (Merryl) não vai atrás do marido e prefere antes colocar a mão no cofre da família, ela convence seu parceiro que não quer se reconciliar, lavar com o perdão o pecado de ele ter feito um filho na cunhada. Violet prefere o dinheiro à vida de Cleveland. Se arrepende, depois quer todos vão embora, deixando-a a sós com sua “força”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É como diz Eliot: “Nós somos os homens ocos/ Os homens empalhados/ Uns nos outros amparados/ O elmo cheio de nada. Ai de nós!/ Nossas vozes dessecadas,/ Quando juntos sussurramos, / São quietas e inexpressivas/ Como o vento na relva seca/ Ou pés de ratos sobre cacos/ Em nossa adega evaporada. “</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>TRAPAÇA: AS VIRTUDES DO MAL</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/trapaca-as-virtudes-do-mal</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jan 2014 11:21:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; A realidade é uma trapaça, como o cinema. Desempenhamos papéis para sobreviver. Enganamos os interlocutores para que nos paguem por algo que oferecemos mas não entregamos. Temos vida dupla porque é insuportável conformar-se a um só destino. Buscamos desesperados parcerias para que nos ajudem a dividir a carga de viver no mundo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>A realidade é uma trapaça, como o cinema. Desempenhamos papéis para sobreviver. Enganamos os interlocutores para que nos paguem por algo que oferecemos mas não entregamos. Temos vida dupla porque é insuportável conformar-se a um só destino. Buscamos desesperados parcerias para que nos ajudem a dividir a carga de viver no mundo dedicado ao assassinato e ao logro. Tudo soa falso nesse universo intensificado pelo dinheiro que dribla o fisco e o sistema financeiro oficial. Não somos culpados pois nosso álibi é que todos estão no mesmo barco e é assim que o mundo funciona.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O único cuidado é não deixar-se apanhar por alguém do mundo real que finge participar do jogo e que não passa de um agente federal, um sujeito da Lei. Este pode vencer por algum tempo mas acabará sucumbindo na armadilha que sabemos fazer melhor: capturá-lo no visgo da própria ambição de ser alguém à custa de uma correção de fachada. Pois o mundo verdadeiro é regido pelas leis da máfia e a Constituição é apenas um acordo no papel que enquadra os fracos. Viver não é para amadores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Custa caro dispor dos recursos expostos nas vitrines do mundo artificial. Você pode dispensar essa opção, fugir da tentação, confinar-se num reduto de consciência limpa, mas como poderá garantir o futuro dos filhos, a sobrevivência da espécie? Como terá a mulher impossível que finge ser uma lady para mascarar sua origem pobre e convencer quem está endividado a empenhar seus últimos cinco mil dólares em favor da perspectiva, fajuta, de conseguir 50 mil? A única chance é fazer parte dos ladrões e se quiser manter-se ascendendo abrace o Mal, faça amizade com a demagogia criminosa e não tente enredar o chefão da quadrilha e seus prepostos políticos porque não vai adiantar. Acabarás pegando peixes pequenos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os banqueiros já estão com todas as nações e suas populações na mão. Cobram caro pelos investimentos. Para ter acesso ao dinheiro e gerar emprego num universo de exclusão permanente é preciso que a Caixa 2, a grana da corrupção e das drogas entre no circuito com sua missão “moral” de distribuir a renda que fica entesourada pelos donos do mundo. Os bandidos não passam de laranjas que se submetem ao circuito escasso dos recursos que paradoxalmente parecem abundantes, mas são uma ínfima porção do sequestro proporcionado pela ditadura financeira internacional, a geradora de crises para concentrar mais renda e remuneradora de meia dúzia de tubarões. Os bagrinhos são esses matadores de esquina a destruir a concorrência de um número crescente de trapaceiros que medram à sombra do sistema perverso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nessa rota narrativa, Trapaça (American Hustle, 2013), de David O. Russell é pura mágica de subúrbio, ilusionismo de circo antigo, trapaça da grossa. Usa uma sucessão de citações para parecer um filme cult, como a cena roubada do final de Casablanca, a ideia central de Golpe de Mestre, 1973, de George Roy Hill, pitadas de Embalos de Sábado à Noite e performances dramáticas espelhadas em Mike Nickols de Carnal Knowledge. Christian Bale não convence como gordo, sabemos que é fake seu barrigão, ele que foi magérrimo, musculoso e o falso garoto de Império do sol, quando iludiu Steven Spielberg que tinha 10 anos, quando já tinha mil.  Amy Adams se esforça mas é devorada por Jennifer Lawrence, tão perigosa que é capaz de levar novamente o Oscar. Ambas opostas e iguais como duas irmãs. A esposa que usa o filho para se manter sustentada e a amante que assume outra personalidade para ganhar dinheiro junto com o golpista.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O amor é uma trapaça que também não convence pois como pode haver sentimento em vidas que contrariam o que é humano? A solução é exacerbar as performances para ganhar prêmio de interpretação. Cenas de sexo que são explosões artificiais de um erotismo de espetáculo e pretendem seduzir o espectador para algo que parece ser o último grito das relações, misturando curra em banheiro de boate com entregas de beldades em balcões mal iluminados a grupos engravatados de mafiosos carnívoros. O desfecho acaba celebrando a corrupção do casal protagonista, apresentados como sumidades dessa mágica bandida de enganar os trouxas, inclusive os da lei e da política, abraçando-se aos meliantes que aqui encarnam a  “normalidade” cristalizada por clones de O Poderoso Chefão de Coppola. Só temos que escolher a máfia para qual trabalhar e ver virtudes nela para que exista família e vida digna.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse é o modelo, o parâmetro apresentado como um drama cômico e que não passa de apelação pura e simples. Filme ser arte, mas é comércio barato, 1,99 que promete negar suas intenções originais e agora quer ser virtuoso. Filme traiçoeiro que acaba dando tiro no próprio pé. Tenta nos ludibriar de que fazemos parte dessa perversidade, que reserva a glória e o dinheiro para quém está na tela e nos transforma em insumo dessa indústria. Seríamos os perdedores que devem se submeter às evidências, aplaudir tanta brutalidade e sentir tesão pelo que nos oferecem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não somos assim, meus chapas e esse mundo que medrou à sombra das guerras não veio para ficar. Será destruído não por nossas virtudes, mas por nossa necessidade de sobrevivência, pois sabemos que não temos escolha: ou acabamos com isso ou morremos no final.</p>
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		<title>GRAVIDADE: SANDRA BULLOCK VOLTA PARA CASA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2014 19:32:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; Numa situação limite no espaço hostil, para sobreviver é preciso respirar, agarrar-se a alguma coisa e assim poder voltar para casa. Sem apoio isso é impossível. Sandra Bullock tem a companhia de George Clooney, que a mantém desperta e evita que ela desista. Usa a sucata espacial de países “errados”, como Russia [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Numa situação limite no espaço hostil, para sobreviver é preciso respirar, agarrar-se a alguma coisa e assim poder voltar para casa. Sem apoio isso é impossível. Sandra Bullock tem a companhia de George Clooney, que a mantém desperta e evita que ela desista. Usa a sucata espacial de países “errados”, como Russia ou China, que lhe oferecem oxigênio, propulsão e queda livre em direção à Terra.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>O desafio é o timing, fazer coincidir a operação de resgate depois de um acidente com a vida em órbita. A médica especialista, considerada gênio da tecnologia, entra em pânico quando estilhaços o jogam para longe e a deixam boiando no vazio infinito.  Sem comunicação com ninguém, única sobrevivente, ela enfrenta um incêndio e se enreda na hora em que pensa escapar. Está à mercê da sorte e das providências que precisa tomar com o que lhe resta de recursos. Sua roupa espessa não a protege. Para sair da armadilha, deve desvencilhar-se da armadura e contar apenas com o corpo frágil e o olhar em pânico em busca de foco.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A super profissional está à deriva e descobre que se meteu na arapuca porque perdeu o chão quando a filha pequena foi-se para sempre. Cortou o cordão umbilical e foi buscar uma forma de morrer. Quando dá de cara com a morte, é levada ao salto no escuro em direção à salvação. Seu renascimento usa instrumentos considerados obsoletos: o manual impresso, as manivelas, os parafusos, as cordas, os sinais luminosos analógicos, o tradicional extintor de incêndio. Não há magiclic no ambiente que deveria ser ultrasofisticado. É como descobrir que a nave alienígena é movida a vapor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim é Gravity (2013), que deu um Globo de Ouro para seu diretor, o mexicano Affonso Cuarón. Um “road” movie fora de órbita, em que a vítima precisa descer do veículo para empurrar as velharias que boiam abandonadas ao redor do planeta, como se fosse uma estrada no deserto e houvesse apenas de um velho caminhão estragado e peças enferrujadas. Um filme que conta com algo mais do que a empatia da grande estrela, mas do seu talento dramático, sua sintonia com nosso olho fixo nela. Respiramos com dificuldade vendo-a sofrer e xingamos o diretor que a coloca diante de tantos perigos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mergulhamos no lago depois de fritar na atmosfera e saímos de dentro da cápsula inundada para nos agarrar na areia que mostra o quanto estávamos longe de nossa origem. Assim voltamos com Sandra Bullock para casa, tateando com os pés trêmulos habituados a palmilhar o nada e que agora precisam reaprender a andar. Temos uma vida a viver e bendizemos o amor que a Terra nos devota por meio de seu vínculo materno, a gravidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>RETORNO &#8211;  <em>Luiz Carlos Merten comenta, com propriedade, o link entre Gravity e 2001, dizendo que o filme do mexicano começa onde o de Kubrick termina. Verdade. Noto que a criatura do futuro, um feto em 2001, é a mãe Terra em Gravity, que precisa religar-se para sobreviver. Jogada para o espaço, como na célebre cena de 2001 em que o astronauta livra-se do companheiro para enfrentar o supercomputador Hal, desta vez ocorre o contrário: é preciso ir buscar quem se perdeu no meio do nada. E no contraponto principal entre os dois filmes, enquanto tudo é clean e funciona em 2001, em Gravity o ambiente é de terror, tudo sucateado e transformado em lixo. Um cenário mais para Alien do que para aquele futuro imaginado pelo gênio de Kubrick.</em></p>
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		<title>O “REALISMO” À FLOR DA PELE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2014 19:27:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; Não existem filmes realistas. A realidade é fora de forma e um filme é o exagero dos limites – enquadramento, timing, script, interpretação, direção, produção. Assim como não existem reconstituições de época e sim a disposição de cenários em função da narrativa, ser “fiel aos fatos” é só mais um recurso da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
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<p><em>Não existem filmes realistas. A realidade é fora de forma e um filme é o exagero dos limites – enquadramento, timing, script, interpretação, direção, produção. Assim como não existem reconstituições de época e sim a disposição de cenários em função da narrativa, ser “fiel aos fatos” é só mais um recurso da ficção. Como já notaram os irmãos Cohen que colocaram no início de uma de suas obras o jargão “baseado em fatos reais” pontuando uma história totalmente inventada. Eles zoaram com essa falsa percepção de que o cinema tem a ver com a realidade, quando é pura ilusão, assim como a própria realidade, que depende da percepção de cada um, como destacou brilhantemente Akira Kurosawa em Rashomon.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Como vivemos numa época de denúncias, de desmascaramento dos poderes, de flagrantes no atacado e no varejo, da publicação de todos os segredos oficiais, de revisionismo histórico e de overdose de notícias e imagens sobre acontecimentos por todo o mundo, de multiplicação de mídias e de olhos escancarados de milhões de espionagens, o cinema procura acompanhar as tendências, pesquisando o ineditismo dos enfoques para contribuir com algo original na maçaroca de coisas oferecidas pela indústria do espetáculo (onde foi incluída não apenas as artes, mas principalmente a política).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Dois filmes de 2013 “baseados em fatos reais” funcionam um como o avesso do outro, sob o aspecto de um tema candente e pontual, o racismo. Em 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, há a abordagem de um aspecto importante do assunto, os negros libertos convivendo com o regime escravocrata. E em Captain Phillips, de Paul Greengrass, o tema são os detalhes sobre a pirataria somali contra navios da marinha mercante americana. No primeiro, os brancos são horrendos e maus e maltratam até o mais absoluto desespero as pessoas negras sob seu domínio e tacão. E no segundo, os negros são horrendos e maus e enlouquecem o branco capitão do navio. Por coincidência, os dois tem exasperantes 134 minutos, mais de duas horas! em sequências intermináveis de maldades e maus tratos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para que tantos minutos? São filmes que repisam seus enfoques engessados como a querer provar que a cor da pele faz parte do destino. Quem tem a pele clara em “12 Anos” não passa, com raras exceções, do dito-cujo em forma de gente: destrói famílias, suborna, vai contra a lei, mata inocentes, explora a mão de obra até destrui-la. Há ainda cenas de sadismo como a justificar as retaliações que disso poderão advir. Não se sai impune do filme, mas com chibata na mão para vingar-se de tanta maldade contra os negros. Por sua vez, quem tem a pele escura em Captain Phillips é apresentado como uma monstruosidade física temperada pela crueldade sem limites.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assistindo penosamente os dois filmes, que usam como escudo os depoimento dos protagonistas, dá para elogiar apenas a performance de alguns atores, como Tom Hanks, que é top, com sua elaboração que sugere naturalidade, e Chiwetel Ejiofor, que promete ser melhor no futuro, já que aqui foi obrigado a fazer caretas demais. Mas vê-se que tem formação e força de um grande ator. Os dois filmes conseguem se estragar pela overdose. Poderiam ser bons.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que estou querendo provar? Que não houve crueldade na escravidão na América e que não há culpa entre os piratas somalis? Claro que isso seria uma forçação de barra também. Mas estamos falando de cinema, não de realidade. As duas narrativas escorregam para o abismo da overdose. O tempo que se perde em chibatadas sem fim nos escravos negros ou de violência contra o capitão indefeso poderia ser mais enxuto para que a verossimilhança não ficasse a serviço da retaliação e do ódio, muito mais do que da denúncia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No fundo, são filmes que exageram para conseguir repercussão e plateia, não porque estejam imbuídos de motivos nobres. São filmes comerciais que usam a marca do realismo para justificar seus exageros narrativos. São insumos para uma tendência forte hoje, o de apontar o dedinho contra os interlocutores acusando-s de apartheid, racismo ou politicamente correto, ou seja o que for. Precisamos de cinema mais competente e não de propaganda, tanto a favor da cavalaria americana com sua marinha de guerra tão eficiente, quanto a favor dos despossuídos em sequências múltiplas para provar que tem razão, o que já está explícito desde as primeiras cenas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O recado em 12 Anos é, claro, de condenação aos algozes, que pertencem a uma outra época, mas que no frigir dos ovos são substituídos pelos contemporâneos. E Captain Phillips se atrapalha ao mostrar um universo mais complicado do que o mundo certinho e correto do navio que vai levar comida para os famintos (veja que ironia!) por águas africanas. Ser branco ou negro pode virar um pesadelo com filmes como esses.</p>
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		<title>BLUE JASMINE: A QUEDA, SEGUNDO WOODY ALLEN</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nei Duclós]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jan 2014 19:25:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2014]]></category>
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					<description><![CDATA[Nei Duclós &#160; A danação é perder a segunda chance. Na contramão da cultura americana, que sempre aposta na volta por cima dos perdedores, a queda, em Blue Jasmine, de Woody  Allen, é sobre a verdadeira natureza dos vitoriosos, ou seja, sua vocação para o desastre. Destino não definido pela natureza humana ou pela luta [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
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<p><em>A danação é perder a segunda chance. Na contramão da cultura americana, que sempre aposta na volta por cima dos perdedores, a queda, em Blue Jasmine, de Woody  Allen, é sobre a verdadeira natureza dos vitoriosos, ou seja, sua vocação para o desastre. Destino não definido pela natureza humana ou pela luta de classes, mas pelo cinema. Cate Blanchett é  o vestígio de uma situação de conforto, que ao rolar para o abismo ocupa espaço na periferia do dinheiro representado pelo apartamento brega, a irmã pobre e os namorados grosseiros.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Trata-se de cenários e figurinos pontuados pela narrativa das falas dos personagens. E da montagem que alterna a memória a princípio deslumbrada em direção ao tombo com o impacto do presente sem solução ou saída. A protagonista cava sua tragédia ao virar o rosto para o outro lado quando o marido lhe enche de fortuna sem perguntar de onde vem tudo aquilo. E ao mentir quando poderia ter dito a verdade para que sua segunda chance passasse pelo teste e encontrasse um desfecho favorável.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O paraíso onde ela se movimenta na memória é falso, cevado pela economia marginal, a caixa 2 dos contratos criminosos, a especulação ou o roubo puro e simples de poupanças alheias. O casal primordial é composto por um Adão culpado e uma Eva seduzida e cega. A mordida na maçã é a denúncia depois da descoberta de uma traição e o arcanjo é a Lei que prende o marido na rua e o leva para a morte na prisão. Condenada a ganhar o pão do suor do seu rosto, a ex-milionária é submetia ao assédio, ao confronto com o passado e à miséria. Resta-lhe algumas lembranças, como bolsas caras, vestidos de festa, utensílios de marca. Que funcionam até o limite da transparência, quando a verdade vem mais uma vez à tona.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Falar sozinha na rua dispensando o interlocutor é a insanidade provocada pelos sucessivos traumas, que desmancham a intérprete de maneira arrasadora, numa performance antológica. Eva leva a culpa de tudo e não há lugar no mundo para ela. Quando havia dinheiro, não havia base para a situação se sustentar pois a família vivia à margem da lei. Na pobreza, a solidez da realidade é o pesadelo de quem usufruiu da riqueza e não se sintoniza com a possibilidade de um retorno.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quebra-se assim o mito do sucesso financeiro, revelando a insustentável leveza do sistema, feito de mentiras. Não há também honra no mundo precário dos despossuídos, prisioneiros dos seus fracassos, que exasperam a ex-madame agora às voltas com suas origens pobres. A ascensão social é uma impossibilidade no mundo hostil.  O único happy end é a música inesquecível, Blue Moon. É a cultura que costura os farrapos humanos e não lembrar da letra ou perder as pistas da melodia que some num piano distante é a verdadeira tragédia.  Se o cinema, neste caso, é denúncia sobre a queda, a canção é a arqueologia de um sonho chamado humanidade que só existe quando acordamos para dentro, salvando o coração antes transformado em pedra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fica o desespero da mulher que assumiu o nome da flor que é celebrada à noite, perfume do jasmin que se espalha pelo tempo. Ela perdeu-se em suas duas oportunidades. Foi desmascarada, expulsa do paraíso verdadeiro, que é a chance de amar, foram dos trâmites da vida perversa. Cate Blanchett tem tudo: talento, fôlego, garra. E principalmente classe. Ou ganha o Oscar ou esse prêmio não vale nada.</p>
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