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Aqui vocês poderão conhecer esse lado maléfico de alguns autores.</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Sandra F.)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>50</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/rss+xml" href="http://feeds.feedburner.com/OLadoNegroDaMenteHumana" /><feedburner:info xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" uri="oladonegrodamentehumana" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><feedburner:emailServiceId xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">OLadoNegroDaMenteHumana</feedburner:emailServiceId><feedburner:feedburnerHostname xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0">http://feedburner.google.com</feedburner:feedburnerHostname><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7618063478956996556</guid><pubDate>Thu, 23 Sep 2010 23:27:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-09-23T21:10:46.845-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">corpos</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">êxtase</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">jaz</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">gritos</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pele</category><title>Amor e Morte</title><description>Eu sobre ela.&lt;br /&gt;Nossos corpos unidos bailando com leveza, em sintonia.&lt;br /&gt;Aquela boca, pele e curvas, senti-me enfeitiçado.&lt;br /&gt;Seu modo de amar, de se entregar, de se contorcer conforme se aproximava o ápice do prazer.&lt;br /&gt;Bocas que se buscavam, mãos que se apertavam, desejo que enlouquecia.&lt;br /&gt;Ela, vibrando em meus braços, eu penetrando-a com loucura.&lt;br /&gt;Sussurros, gemidos, gritos,  gritos e mais gritos. Gritos meus, em êxtase, gritos dela, apavorada, a dor a dominá-la. Berros horripilantes.&lt;br /&gt;O sorriso, de repente, se desfez daqueles lábios rosados e carnudos. Os olhos, de um azul intenso, pararam.&lt;br /&gt;Nas unhas dela, resquício da minha pele arranhada no auge de seu desespero. Nas minhas mãos, um punhal a dilacerar seus orgãos.&lt;br /&gt;Que pena, amor, que pena.&lt;br /&gt;Nunca mais sentirei o calor do seu corpo a me aquecer. Esse corpo que agora jaz inerte sobre meus lençóis ensanguentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sandra F.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7618063478956996556?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2010/09/amor-e-morte.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>10</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-1707244143602649506</guid><pubDate>Wed, 13 Jan 2010 14:40:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-01-15T15:04:56.321-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pés</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">vítimas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crimes</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">morte</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">horror</category><title>O podólatra assassino - do fetiche à morte</title><description>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ninguém sabe o que se passa na cabeça de um psicopata, ele pode estar mais perto do que se imagina, sua frieza e determinação não o deixa arrepender-se. Mas, nem todos chegam tão longe a ponto de matar... o que não era o caso de Felizberto...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Felisberto tinha fascínio por pés femininos. Pés bem feitos, unhas bonitas e sandálias de salto simplesmente o enlouqueciam. Antes de admirar os cabelos, os olhos, o sorriso e o corpo de uma mulher, ele observava os pés, os quais eram um convite para que ele avançasse o sinal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era um homem de meia idade, casado e sem filhos. Seu casamento sempre foi tranquilo e porque não dizer... feliz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Certa vez, a cunhada Adalgiza, passou uma noite em sua casa após uma visita. Estava tarde pra ir embora. Ela dormiu no sofá. Felisberto se levantou durante a noite para beber um copo de água, passou pela sala e a avistou deitada. Sabia que o sono de Adalgiza era pesado. Ele se aproximou e se ajoelhou diante dela, acariciou e beijou aqueles pezinhos macios. Mal pôde controlar o ímpeto de rasgar as roupas daquela linda mulher, dirigiu-se ao banheiro e lá começou a se masturbar. Antes de se deitar, ele fotografou os pés da cunhada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Felisberto gostava de ir trabalhar de metrô em vez de carro, afinal, era um modo mais fácil de observar os pés femininos. Lamentava pelas estraga-prazeres que usavam sapatos fechados, porém, ele se deliciava com as rasteirinhas, sandálias e plataformas usadas pelas mulheres. Ele gostava quando a cor do esmalte combinava com a cor da sandália. E somente depois de admirar os pés, ele prestava atenção nos demais atributos físicos das garotas e senhoras. Costumava portar uma câmera na maleta e sempre que surgia uma oportunidade, ele fotografava diversos pés femininos. Essa invasão de privacidade não era percebida devido sua agilidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Felisberto era um homem esquisito, por trás desse fetiche havia algum mistério. Seu comportamento parecia estranho, óbvio que ele guardava um segredo, mas qual? Sua esposa o amava, ela não podia reclamar, pois tinha um marido carinhoso e atencioso apesar de antisocial. Não gostava de ir para festas e para lugares lotados. Apenas sair sozinho e demorava horas pra retornar. Luzinete não desconfiava de amantes, mas acreditava que havia algo suspeito no ar. &lt;i&gt;E de fato havia...&lt;/i&gt; Entretanto, ela decidiu jamais tocar no assunto para não aborrecê-lo, afinal, ele dava tudo o que ela queria, na verdade, ele era tudo o que ela precisava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O grande mistério que Felisberto escondia chocaria qualquer cidadão, até mesmo os produtores de filmes americanos de suspense porque era real, ele possuía um galpão onde guardava as milhares de fotos que tirava e onde mantinha 35 pés devidamente armazenados em substâncias apropriadas para conservar a carne humana. Sempre que podia, fugia do estresse do dia-a-dia lá, acariciando, beijando e admirando suas relíquias. Era um homem orgulhoso do que possuía. Mas nunca estava satisfeito, sempre desejava mais, um homem insaciável!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os corpos das 35 vítimas foram encontrados pela polícia em diversos lugares. Os exames periciais mostravam marcas de mordidas e sinais de estupro. Não foram encontradas impressões digitais nos locais, nem sêmem nas vítimas. Após a violência sexual, elas eram enforcadas e tinham seus pés arrancados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O horror assolava a sociedade, os crimes em série aterrorizavam a cidade. O Ministério Público estava com um caso complicado nas mãos e a opinião pública pressionava cada vez mais. A situação era tensa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Luzinete tinha sorte de não se tornar uma vítima nas mãos do marido. &lt;i&gt;Prefiro afirmar que uma força maior a protegia.&lt;/i&gt; Ele escolhia até mesmo a cor do esmalte que ela usava e inclusive o modelo do sapato. Nas relações sexuais, Felisberto passava muito tempo brincando com os pés da esposa, desde alisar, beijar, morder até se esfregar neles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Laura trabalhava como recepcionista na mesma empresa de Felisberto, era uma moça encantadora, seu corpo fazia qualquer homem perder o foco. A cintura fina, o quadril largo e as coxas grossas chamavam a atenção, mas Felisberto só prestou atenção nessas características depois de se surpreender com os pés exuberantes que ela possuía. Tão pequenos, dedinhos jeitosos, unhas pintadas numa tonalidade discreta, enfim, a coisa mais linda que ele já viu... Ele a queria e quanto mais ela o ignorava, mas ele a desejava. Felisberto nunca foi homem de desistir, paciência sempre esteve entre suas virtudes. E meses depois de tamanha insistência, ele a seduziu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era uma noite de verão, estava muito quente no escritório. Laura usava um vestido azul e bege. O decote estonteante, mas foi a sandalinha bege combinando com o vestido e as unhas pintadas num tom rosado que fizeram Felisberto enlouquecer. Ele convidou-a para jantar e após o expediente saíram para o mesmo endereço. Ela saiu 15 minutos antes pra que ninguém percebesse. Encontraram-se num restaurante agradável, localizado à Rodovia Régis Bittencourt. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bom papo, "una bella pasta italiana" e um bom vinho regado a um clima de flerte que estava no ar. Ele, um homem galanteador. Ela, uma presa fácil. Após o jantar, dirigiram-se ao galpão de Felisberto. Eufórico ele empurrou Laura na cama, rasgou suas roupas com os dentes, a amordaçou e a penetrou com violência repetidas vezes. Ela se debatia e gritava desesperada, mas a mordaça abafafa o som de sua voz. Aquela tortura durou uns 40 minutos, pra Laura parecia um século. Ele a estuprava, mordia e batia, estava fora de si. Quase arrancou um pedaço do seio esquerdo. Então, quando se deu por satisfeito, apertou o pescoço da moça até matá-la para, finalmente, cortar o pés.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ousado, Felisberto jogou o corpo atrás de uma delegacia próxima. Ele brincava com a polícia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os crimes estavam fazendo com que muitas pessoas se mudassem de cidade, o medo apavorava os cidadãos, os assassinatos brutais pareciam não ter fim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na semana posterior ao episódio da morte de Laura, a cunhada de Felisberto fez nova visita. Luzinete estava no mercado fazendo compras e Felisberto recebeu respeitosamente a mulher com quem sonhava muitas noites. Atraente, Adalgiza usava um vestido branco justo, o qual marcava seu corpo, os cabelos negros estavam soltos e a sandália era prateada. Ele notou que nas unhas havia apenas base. Uma loucura!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Luzinete chegou do mercado e ficou feliz em receber a irmã para o jantar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conversaram animadamente até altas horas, bebericaram um bom licor, a convidada era uma companhia agradável. Depois de um longo tempo foram se deitar. As mulheres dormiram rapidamente devido à bebida. Menos Felisberto que virava na cama de uma lado pro outro, não tinha sono, só desejo. Imaginava Adalgiza deitada no sofá e tinha ereções. Até que num determinado momento, ele não resistiu mais e se dirigiu à sala. Parou diante de Adalgiza, contemplando-a toda por alguns minutos. Aproximou-se, se abaixou e esfregou os pés da cunhada em seu rosto. Delicadamente lambia a sola e chupava os dedos. Ela se mexia, mas não acordava. Felisberto passou a massagear os pés da bela morena com uma das mãos e a outra, dentro de sua bermuda, esfregava o pênis. Só que nessa hora, Adalgiza abriu os olhos e ia gritar quando ele tapou sua boca. Ela tentou lutar contra inutilmente, não tinha força pra tanto. Puxando-a pelos cabelos e com uma faca nas mãos, ele fez com que ela ficasse em silêncio. Rapidamente, ele a amordaçou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As roupas de Adalgiza foram rasgadas, aquele homem bruto a penetrava com tanta fúria que saiam lágrimas de dor dos seus olhos. Terminado o estupro, no momento em que Felisberto ia apertar o pescoço da cunhada como fazia com todas as vítimas, um ruído o interrompeu, Luzinete tinha se levantado, estava ainda sonolenta pelo calmante que tomava todas as noites e a mistura com o álcool. Tudo aconteceu muito rápido, não havia como impedí-la de observar a cena cruel que se passava na sala. A irmã nua e amordaçada, as roupas rasgadas caídas no chão, sinais de violência por todo canto e o marido também nu, de posse de uma faca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não havia outra coisa a ser feita, a não ser matar a esposa. E foi justamente isso que ele decidiu fazer, Felisberto foi pra cima de Luzinete para golpeá-la, só que ela foi mais ágil e o acertou com um vaso que estava próximo na estante, o qual matou Felisberto instantaneamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Luzinete estava pasma com aquele acontecimento inacreditável, desamarrou a irmã, elas se abraçaram chorando perplexas. Luzinete deu um telefonema para a delegacia. Era o fim daquela onda de horror.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Nota:&lt;/strong&gt; esclareço que podolatria &lt;strong&gt;não &lt;/strong&gt;está relacionada à psicose. O fetiche pelos pés é, na verdade, mais comum do que muitas pessoas imaginam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este é apenas um conto que escrevi, uma ideia que surgiu de repente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sandra&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-1707244143602649506?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2010/01/o-podolatra-assassino-do-fetiche-morte.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>11</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-3748030086297963517</guid><pubDate>Wed, 18 Nov 2009 10:48:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-11-18T20:46:34.013-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">fake</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">vítimas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">tripas</category><title>O fake assassino...</title><description>&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Noel era um homem de arrancar suspiros, o charme em pessoa. Sempre teve a mulher que desejou, por onde passava atraía atenções" - era assim que ele criava suas fantasias, mentia pra si mesmo e acaba acreditando nas próprias invenções. Na realidade, Noel não saía da frente do computador, mal reparava o tempo passar, quando se dava conta já era tarde da noite e ele nem percebia. A sua vida passava em vão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Noel não era uma beldade, mas tinha lá seu 'sex appeal', o qual estava se deteriorando cada vez mais devido às longas horas perdidas com a Internet. Após uma doença, ele perdeu muito peso, ficou abatido e deprimido. Foi assim que trocou de vez a vida real pela virtual. Participava de blogs, sites de relacionamentos, Twitter, se relacionava em diversas comunidades, já estava neurótico, pois usava várias identidades falsas que chegavam ao ponto de interagir entre si. Conversava com ele mesmo, deixava recados e os respondia. Nem mesmo ele sabia quem era de fato.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conheceu uma garota, Lara, num desses sites de relacionamentos que existem por aí. Eram de cidades diferentes e começaram a namorar. Ele se iludiu que ela o amava, que ficariam juntos para o resto de suas vidas. Poderia ser verdade, mas nunca chegaram a se conhecer pessoalmente, muitas eram as desculpas que ele inventava para não vê-la. Tudo o que tinham do outro eram fotos e declarações de amor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As várias identidades de Noel também se relacionavam com outras pessoas. Uma delas, inclusive, tinha sido criada única e exclusivamente para fazer ciúmes para Lara. E sempre que os dois namorados brigavam, Lilian (a fake) aparecia com seus recadinhos ousados e sem noção. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Noel nunca usou fotos recentes, deu pra namorada apenas as antigas de quando ainda chamava a atenção, hoje está pele e osso. Os dias foram passando e ele vivia cada vez mais fora da realidade. Sua lábia era o que atraía as mulheres, conseguia cativá-las virtualmente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dono de uma baixa-estima, ele era um poço de ciúmes. No entanto, tentava transparecer o contrário, que era um homem desejável, o mais belo entre os amigos e o mais inteligente também. Tratava-se de um homem manipulado pela própria mente doentia, passou a viver num mundo de ilusões. Quando se deu conta, já tinha 15 fakes que variavam desde homens e mulheres, jovens e idosos, cultos e ignorantes e muito mais. E, após muitas conversas pelo msn, começou a ir além, resolveu marcar encontros com suas vítimas. A princípio, ganhava a confiança e obtinha informações preciosas, quando as encontrava fazia com que sacassem todo o dinheiro possível e depois as matava levando as tripas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até o momento, 25 pessoas estão mortas e a polícia não possui pistas do fake assassino. Dentre essas 25, apenas 3 foram mais cautelosas a ponto de dificultarem seu trabalho. As demais, em poucas semanas, caíram em sua conversa e deram todas as informações de que ele precisava para agir.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marília, 36 anos, era uma publicitária que interagiu durante cinco meses com Noel. Ele usou a foto de um modelo e deu o nome de Vitório. Falavam-se diariamente até maracarem o encontro fatal. A publicitária foi vista morta sem as tripas e com um rombo em sua conta bancária.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A outra vítima chamava-se Alex, um joalheiro de 40 anos. Noel usou a foto de uma linda mulher e deu o nome de Solange. Conversaram durante quase um ano. Alex queria encontrá-la antes, mas "Solange" era muito recatada e tinha medo de se expor. O fim do joalheiro foi o mesmo das outras vítimas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Joana, uma senhora aposentada que vivia de alta renda, levou sete meses para sair com "Seu Nelson". Essa pobre senhora nunca imaginou que acabaria nos braços da morte. Os encontros eram marcados em lugares pouco frequentados e distantes. Sempre ocorria em regiões diferentes. Isso dificultava a polícia a pôr as mãos no assassino. Do mesmo modo como era difícil saber em qual rede o fake dava o bote.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Noel navegava constantemente pela web e, entre um crime e outro, se deliciava perseguindo pessoas, cismava com alguém sem mais nem menos e enviava mensagens ofensivas. Nunca deixava pistas. Era um hacker muito esperto.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Andava irritado, pois Lara não estava mais escrevendo. Ele se declarava quase que diariamente, mas ela estava vivendo um relacionamento de verdade, em que havia beijo, toque, abraços, ela podia olhar nos olhos do rapaz. Enquanto isso, Noel enganava-se acreditando que Lara seria dele, que em algum lugar também sentia sua falta e sofria. Mas a moça sequer se deu ao trabalho de enviar um mensagem simples. As poucas vezes que se falaram após tanto tempo, ela apenas foi educada, dizia ter se apaixonado por ele um dia. As frases eram sempre conjugadas no passado. Foi então que Noel resolveu agir, conhecia muito bem os gostos da amada e resolveu criar mais um fake. Sabendo que Lara gostava de homens mais velhos e que passava por momentos difíceis em sua vida, surgiu José Roberto, um homem experiente, charmoso, encantador, mas com conselhos paternalistas. Assim será mais fácil atraí-la. Ela terá o que merece - pensava Noel.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lara gostou de José Roberto rapidamente... &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Noel guardava as tripas num vidro com álcool, havia uma etiqueta com o nome das vítimas. Certa noite, à meia luz, ele fitou as belas tripas guardadas. Só havia um vidro vazio... vazio por pouco tempo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sandra&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-3748030086297963517?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/11/o-fake-assassino.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>10</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-179641579380075733</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2009 17:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-14T16:29:24.374-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">culpa</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">doces</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desafiar</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">destino</category><title>A maldade inanimada do ser humano...</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse conto é baseado em outro que eu já tinha escrito antes. Para quem quiser refrescar a memória está aí o link, não têm muitos caracteres:&lt;br /&gt;http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/o-bem-e-o-mal.html&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Amanda estava sentada no terraço pensando sobre tudo e todos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Eu já estava farta dessa vida monótona, sem sentir aquela adrelalina ao atuar na vida de uma pessoa podendo levá-la à morte. Afinal, já provei desse sabor, liquidei meu pai, minha avó e mais alguns outros, fora as pequenas maldades, se é que eu deveria chamar assim, maldades que não mataram mas prejudicaram alguns indivíduos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Eu juro que tentei parar. Imaginei que seria difícil conviver com meus pecados, só que eles não me atormentam. Ora, eu fui apenas uma ferramenta usada para privar um ou outro de sua vida, se deus ou o diabo quisesse interferir... faria. Então ninguém poderá me julgar. Culpas não devem ser imputadas a mim. O destino me usou, apenas isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Estou com fome, pensar nessa minha colaboração ao destino me abre o apetite.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Qualquer dia desses vou comprar um cachorro, um não, três ou cinco...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Algumas semanas depois&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram 23 horas de uma noite fria e chuvosa de Primavera. Já era para o tempo estar quente, mas São Paulo parecia estar imersa na tempestade. E como a temperatura caiu! Devia estar uns 8 graus. Ninguém notou que Mariana corria desesperada, estava toda arranhada e a respiração ofegante. Resolveu tirar os sapatos de salto para correr melhor,  o asfalto estava escorregadio. Pobre moça que saía do trabalho, acabou pisando em falso e caiu. Tarde demais para se levantar, cinco Pitbulls a atacaram até a morte. E tranquilamente assistindo a tudo estava Amanda. Esperou os cachorros terminarem o serviço e os levou para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Mais tarde em sua cama, Amanda refletia&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Vê-los atacarem aquela moça me chocou. Não, não senti remorso, nem piedade ao ouví-la gritar por socorro ou berrar de dor quando teve parte da carne arrancada, o que me chocou foi a fúria dos meus cães só porque eu os deixei uns dias sem comida, ainda bem que usavam focinheira o tempo todo aqui. Tão irracionais!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;E sua mente voava&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Ai mamãe, mamãe, por que resolveu se casar novamente? Até aí tudo bem, mas engravidar nessa idade já era ridículo. João é um padrasto que nem parece que tem sangue nas veias, muito quieto, me admiro que ele tenha engravidado uma mulher. Na verdade parece que já morreu, só esqueceram de enterrar. Então ele fica ali na sala fazendo parte da mobília. Não sei como nunca tropecei nele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Mamãe teve uma gravidez muito tranquila e nove meses depois ganhei meu irmãozinho Renan. Sempre fui indiferente a ele. Era uma criança boazinha, não dava trabalho. Mas, ele não deveria ter me olhado daquele modo petulante.  Onde já se viu uma coisinha insignificante de três meses de vida me desafiar? Foi só por isso que resolvi dar um banho nele, enchi a banheira do mesmo modo que vi acontecer naquele filme, como era mesmo o nome? Não me lembro. Ou será que eu li em algum lugar? Num livro? Um conto? Não sei, mas o deixei se afogar. Sentei no vaso sanitário e assisti aquele corpinho indefeso se debater até ficar imóvel. Demorou uns cinco minutos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Quanta tristeza! Mamãe e João envelheceram 20 anos da noite para o dia depois que Renan se foi, agora parecem mortos-vivos. Procuro animá-los generosamente, mas é em vão. Ela parece que deseja morrer, talvez eu faça sua vontade e promova um reencontro de mamãe com o  Renanzinho. Já João sempre me olha atrevessado, parece que me odeia. Terei que dar um jeito nisso, ainda decidirei como, ele merece uma boa lição.&lt;/span&gt; Só morrer não basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;Acho que vou até a padaria, de repente me deu uma vontade de comer uns doces...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sandra&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-179641579380075733?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/10/maldade-inanimada-do-ser-humano.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>18</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-5446657860779685615</guid><pubDate>Sun, 11 Oct 2009 16:17:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-11T13:24:37.798-02:00</atom:updated><title /><description>&lt;a href="'http://blogblogs.com.br/api/claim/489606162/217300/164989'" rel="'me'"&gt; BlogBlogs.Com.Br &lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-5446657860779685615?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/10/blogblogs.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-4425801371558114737</guid><pubDate>Sun, 11 Oct 2009 02:16:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-10T23:18:19.106-03:00</atom:updated><title /><description>JigSaw&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;By N.E.I.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoal, vou fazer algo diferente hoje: vou comentar um pouco sobre um personagem e um filme, onde o Lado Negro da Mente se faz presente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que a grande maioria, se não viu, já ouviu falar num filme (esta no número 5 já) chamado "Jogos Mortais". Trata-se de um dos filmes de terror mais comentados e vistos dos últimos tempos, muito famoso pela originalidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem querer tirar a graça de quem não assistiu, o personagem central, o psicopata apelidado como JigSaw proporciona para determinadas pessoas (pessoas com pouco ou nenhum valor pela vida) "jogos mortais", onde elas precisam se sacrificar, ou fazer algo extremamente difícil, ou terrível, ou doloroso, para se safar da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de JigSaw é bastante simples: ele é uma pessoa normal, que é diagnosticado com um tumor cerebral inoperável. Com este diagnóstico médico, ele dedica sua vida a "castigar" aqueles que são agraciados com muita saúde, mas pouco amor pela vida. É muito interessante, recomendo a todo que assistam os filmes. Além de original, criativo e muito bem feito, ainda tem tudo a ver com nossa temática do blog. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana que vem tem mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudações,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.E.I.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-4425801371558114737?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/10/jigsaw-by-n.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7618310283061773669</guid><pubDate>Fri, 09 Oct 2009 00:15:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-10-08T21:24:08.901-03:00</atom:updated><title>Crueldade</title><description>Crueldade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai, vai “mermão”. Anda logo com isso. Passa a grana logo, meu.&lt;br /&gt;Ca calma...&lt;br /&gt;Que calma, véio. Anda logo. Tá demorando muito.&lt;br /&gt;Assim começava um assalto a um posto de gasolina de beira de estrada. O meliante era baixo, por volta de 1,60 m. Aparentava ter no máximo 25 anos. Barba rala e o rosto sujo, juntamente com uma touca preta, dificultava a identificação.&lt;br /&gt;O mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma  maldade, um sadismo difícil de descrever.&lt;br /&gt;Ficou de tocaia ate o momento que o caixa passou para recolher o numerário dos frentistas. Era inicio de feriado prolongado e o posto teve movimento o dia todo.&lt;br /&gt;Estava acabando o turno do caixa e ele, foi recolher o dinheiro para conferência e a guarda do movimento do dia.&lt;br /&gt;O individuo tinha as roupas sujas, a calça larga e suja de barro, estava amarrada com um barbante. Entrou no escritório do posto sem ninguém perceber, parecia um pedinte. Foi quando anunciou o assalto.&lt;br /&gt;Portava um revolver velho, um 38 talvez. Balançava muito os braços enquanto falava, Parecia muito nervoso e alucinado. Talvez estivesse sob o efeito de drogas. Mas o mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.&lt;br /&gt;Gritava o tempo todo. Pedia dinheiro, não só o que estava nas gavetas mas o que estava no cofre também. &lt;br /&gt;O caixa estava apavorado. Era uma situação inusitada. Já havia ouvido e visto casos semelhantes, mas nunca se acha que vai acontecer, até que aconteça.&lt;br /&gt;O assaltante continuava gritando. O vidro fumê e grosso do escritório, impedia que as pessoas de fora percebessem que estava acontecendo.&lt;br /&gt;O caixa já estava abrindo o cofre, quando o cliente entrou no escritório. O bandido assustou-se com a repentina intromissão e disparou a arma. O cofre já estava aberto quando o projétil deflagrado atingiu a tranca da porta do cofre, que é de puro aço, ricocheteando e atingindo o braço esquerdo do meliante que, apavorado e com dor, sai em disparada, sem levar nada. No caminho bateu com a arma no rosto do fregues.&lt;br /&gt;Correu para trás do posto e se embrenhou no mato. Com muita dor no braço, livrou-se da arma para fazer pressão no ferimento.&lt;br /&gt;Correu por algumas horas no meio do mato, tropeçando e caindo várias vezes.&lt;br /&gt;Alcançara uma vila próximo ao rio. Uma das casas estava com a luz acessa. Aproximou-se e os cães começaram a ladrar. A mulher olhou pelas frestas da janela e viu apenas um homem maltrapilho, sujo e com um pedaço de pano amarrado no braço esquerdo. Parecia ferido, pois segurava o braço contra o peito com a mão direita e uma expressão de dor.&lt;br /&gt;- Ó de casa? Tem alguém aí? Eu estou com fome. Só quero um prato de comida.&lt;br /&gt;A moça ficou olhando, mas pelo jeito ele não sairia dali.&lt;br /&gt;- Eu sei que tem alguém em casa. Só quero um pouco de comida e vou embora.&lt;br /&gt;Ela foi ate a cozinha e pegou o resto de comida que sobrou da janta, comida que ela ia dar aos cachorros no dia seguinte, fez um prato e foi até a porta.&lt;br /&gt;Quando o meliante a viu na porta aberta, percebeu a silhueta de grávida. Devia faltar poucas semanas para o nascimento, devido ao tamanho da barriga. &lt;br /&gt;Ela o chamou para pegar o prato. Ele se aproximou da porta e pegou o prato com o braço bom, sentou-se no degrau e apoiou o prato nos joelhos.&lt;br /&gt;- Não se preocupe moça, não vou demorar.&lt;br /&gt;- Como você se machucou? - perguntou ela.&lt;br /&gt;Ele já tinha colocado três colheradas na boca, quando parou de mastigar. Seus olhos começaram a se injetar de vermelho, a respiração ficou rápida e descompassada. O bandido atirou o prato longe e sem o menor aviso, deu um potente soco na barriga da gestante. Essa, por sua vez, caiu de costas gritando de dor e sentindo contrações.&lt;br /&gt;- Vou te ensinar a não se meter na vida dos outros.&lt;br /&gt;A mulher começou a entrar em trabalho de parto. Tremia e sua barriga mexia muito. Depois de alguns momentos de sofrimento e dor a criança nascera, ou melhor foi arrancada pelo bandido, que até o momento assistia a tudo calmamente, pegou a criança ainda suja, cortou o cordão com uma faca e levou-a até os fundos da casa e atirou-o no rio.&lt;br /&gt;Ficou observando aquele feto se debatendo na água e o rio seguindo seu curso levando o pequeno rebento embora. Ele olhava tudo extasiado dando gargalhadas. Ria muito e sem parar, parecia que estava assistindo a um programa de comédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça finalmente abre os olhos e percebe que não foi um pesadelo. Foi real e bem real. Está acontecendo agora. Aquele maníaco ainda estava lá, na sua casa e rindo.&lt;br /&gt;Tirando forças não se sabe de onde, movida pelo ódio e pela vingança, ela tenta se levantar. Escorrega no sangue e na água que está a sua volta e tenta novamente. Segue para os fundos, escorando nas paredes e nos móveis. Vai até a área externa, onde o marido guarda as ferramentas.&lt;br /&gt;O maníaco alucinado ainda ria quando sente uma forte dor no braço direito e o vê caindo no chão. Tenta se virar quando se desequilibra e cai sentado, ele para um lado e sua perna esquerda para o outro. Sem entender, vê a mulher próxima a ele, agora com a barriga murcha e um penado na mão. Mal teve tempo de falar, quando ela desferiu outro golpe, agora no lado esquerdo do tronco, na altura do cotovelo. Como ele estava com o braço dobrado e a força do impacto foi tão grande, que cortou o o braço em três partes e ainda enterrou na costela. A ferramenta ficou presa no tronco da vítima.&lt;br /&gt;Não satisfeita com o resultado, a mulher voltou para casa e de lá saiu com uma foice na mão para acabar o serviço.&lt;br /&gt;Vizinhos viram a moça vagando pela rua de noite, com as roupas ensanguentadas e chamaram socorro.&lt;br /&gt;Na ambulância, ela dizia palavras sem nexo. A única coisa que parecia compreensível era:&lt;br /&gt;“meu bebê foi embora, meu bebê foi embora”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jack Sawyer&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7618310283061773669?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/10/crueldade.html</link><author>noreply@blogger.com (Jack Sawyer (Silvio A.P.Bernardo))</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-3248193158364184865</guid><pubDate>Wed, 30 Sep 2009 18:24:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-30T15:30:15.124-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Amor</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">inferno</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pecados</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciúmes</category><title>Tudo por amor</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Flora era apaixonada por Natanael, pensava em mais nada, em mais ninguém. Tudo o que ela desejava era estar junto dele e buscava um modo de conquistá-lo. Ela sabia que seria uma missão quase impossível, mas daria um jeito. Muitos homens a cobiçavam, mas Natanael era seu foco. Por ele ela iria até o inferno, venderia a alma ao diabo, seria capaz de qualquer coisa, matar ou morrer.&lt;br /&gt;Cresceram na mesma casa, passaram a infância juntos. Ela morria de ciúmes das amigas e namoradas que Natanael conseguia. Sempre dava um jeito de sabotar as relações dele. Chegou a jurar pra si mesma que se ele não fosse dela, não seria de mais ninguém.&lt;br /&gt;Flora já não dormia, não comia, não estudava. Passava o dia e a noite arquitetando planos e mais planos. Natanael a tratava com carinho, com ternura. Nunca a olharia com olhos de desejo, de paixão, nunca a desejaria como um homem deseja uma mulher. Tão bonito e sempre rodeado de oferecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Piranhas - pensava  alto Flora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi justamente nesse momento que teve uma ideia. Seria tudo ou nada. Como dinheiro não era problema, resolveu contratar dois criminosos e assim fez. Ela teria que fazer escolhas, magoaria pessoas, mas faria &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;tudo por amor&lt;/span&gt;. Os criminosos conseguiram um cadáver com as características de Flora e implantaram na casa quando todos haviam saído. Tiveram muito cuidado para não serem vistos. Depois, atearam fogo e provocaram um incêndio. Todos choraram a morte de Flora, inclusive Natanael. Afinal, sempre se deram bem e ele queria o melhor pra ela.&lt;br /&gt;Ela desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se dois anos quando Flora resolveu voltar. Ela sempre observava de longe tudo o que se passava e continuava sabotando os relacionamentos de Natanael mesmo à distância. Estava diferente, ainda mais bela, agora era loira, havia feito algumas plásticas e mudado seus traços. Usava outra identidade. Ficou muito charmosa, uma mulher de parar o trânsito.&lt;br /&gt;Flora sabia os lugares onde Natanael costumava frequentar. Naquela noite ia revê-lo depois de tanto tempo, ia ficar cara a cara com ele. Foi ao barzinho em que ele estaria. Usou um vestido atraente e o melhor perfume. Estava deslumbrante. Logo ao entrar, todos os homens a olhavam, mas ela só queria um, Natanael. Era pra ele que ela dançava. Quando ele a viu, ficou encantado, não a reconheceu. Natanael se apresentou, conversaram, riram, flertaram, ele estava fascinado, mas tinha a sensação de já conhecê-la de algum lugar. Talvez de uma outra vida - E não deixava de ser.&lt;br /&gt;A noite acabou num motel. Flora finalmente seria tocada pelo homem dos seus sonhos. Ah se ele soubesse quantas noites ela sonhou com isso, virando na cama, perdida em pensamentos. Quantas noites ela se masturbou pensando nele. Flora se entregou ao seu homem. Muitos beijos, toques, carícias, sussurros e gemidos, êxtase, delírio, prazer absoluto. Não podia ter sido melhor.&lt;br /&gt;Flora pertencia a Natanael e ele pertencia a ela. Ninguém jamais poderia mudar isso.&lt;br /&gt;Daquela noite em diante, eles nunca mais se separaram. E Flora nunca se arrependeu, a consciência não pesou. Ela só ajudou o destino. Conseguiu o que mais queria na vida, conseguiu o impossível, Natanael. Se ardesse no inferno por seus pecados, valeria cada segundo ao lado dele. Se pudesse voltar o tempo, faria tudo de novo.&lt;br /&gt;Natanael estava feliz. Nunca tinha sido amado de um modo tão intenso. Viveria pra sempre ao lado de Flora, envelheceriam juntos sem saber que sua amada era, na verdade, sua própria irmã. A filha por quem seus pais sofrem até hoje acreditando terem perdido naquele incêndio horrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sandra&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-3248193158364184865?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/tudo-por-amor.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>16</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-8517987312586630459</guid><pubDate>Wed, 23 Sep 2009 15:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-23T14:28:53.099-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">má</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">sensação estranha</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">boa</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pecados</category><title>O bem e o mal</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Meu nome é Amanda, tenho 29 anos e estou vivendo um dilema pessoal. Sempre fui uma pessoa de bem, sempre procurei conviver pacificamente com as pessoas, porém, comecei a imaginar como seria minha vida se eu fosse má, se eu ferisse alguém, se causasse dor. Quais seriam as sensações de ser uma vilã? O que eu sentiria seria bom? Afinal, eu já sei qual a sensação de fazer alguém feliz, de contemplar um sorriso sabendo que eu fui a responsável por ele. Essas questões começaram a tirar meu sono. Passei dia e noite pensando nisso, perdi o autocontrole e decidi virar o jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi sair pra passear com minha vizinha de 5 anos, a levei para tomar sorvete e brincar no parque, passamos um dia agradável. No fim da tarde, a deixei numa rua de um bairro distante de casa e segui meu caminho de volta. Contei pra sua mãe que ela havia soltado a minha mão e desapareceu, fomos à Delegacia e registramos a ocorrência.&lt;br /&gt;Pode ser que essa menina apareça sã e salva, pode ser que uma família boa tome conta dela nesse período, mas pode ser também que algum pedófilo a veja primeiro. Ou que a coitadinha seja atropelada. Fica a critério do destino. Quanto a mim, presenciei o desespero de uma mãe, quase a vi enlouquecer, dei meu apoio 'sincero' e consegui convencê-la de que a culpa não foi minha.&lt;br /&gt;Confesso que senti uma sensação estranha, não era boa e nem má, era uma adrenalina que tomava conta de todo o meu ser.&lt;br /&gt;Dias depois, caminhando pelo Minhocão em São Paulo, vi uma senhora cuja idade era avançada, ela andava com dificuldades, era baixa e magra. Cheguei a pensar por qual razão ninguém a acompanhava, que família era essa? Talvez fossem ordens médicas para ela caminhar diariamente. O local é  sempre tão movimentado, foi quando eu tive uma ideia, mas precisei estar atenta e assim que encontrei o momento certo, joguei de uma só vez a frágil senhora do alto daquela ponte, seu corpo era tão leve! Ela deve ter morrido do impacto da batida, além disso, carros que passavam acabaram atropelando seu corpo. Incrível, cometi minha segunda maldade, mas dessa vez matei uma pessoa. E o que é pior, não senti nenhum arrependimento, de repente aquela senhora já estivesse esperando por isso, desejando que esse dia chegasse logo. Saí de lá às pressas.&lt;br /&gt;Passou-se dois meses e eu não conseguia atinar se eu era boa ou má. Foi quando meu pai que, tomava medicamentos diariamente para seu problema de saúde, assistia à televisão. Sentei-me ao seu lado e contei que havia matado uma pessoa, eu sabia que ele não suportaria ouvir isso, é cardíaco, o coração do meu pai andava tão fraquinho e todo cuidado era pouco. Ele, a princípio, achou que era brincadeira de mal gosto até eu convencê-lo de que era verdade. Assisti a uma cena triste, comovente, tocante. Parecia que ele não conseguia respirar, afrouxou a camisa desabotoando-a, pediu que eu pegasse o remédio, só que já estava comigo em meu bolso. Papai me olhou como a suplicar e bem diante dos meus olhos o vi cair sem vida no chão da sala. Matei meu próprio pai.  Com o passar do tempo, também matei minha avó, ela morava conosco, tinha 84 anos e muitas dificuldades para se locomover, usava uma bengala.  Eu a empurrei da escada, ela bateu a cabeça, teve traumatismo craniano e não resistiu.&lt;br /&gt;E foi assim, no decorrer daquele ano cometi pequenas maldades e contribuí indireta e diretamente com a morte de algumas pessoas, mas nunca levantei suspeitas.  Em relação  à  garotinha, minha vizinha. ela voltou pra casa alguns dias depois, deu sorte a danadinha.&lt;br /&gt;Parei de tentar agir na vida das pessoas, deixei o destino se encarregar disso. Ainda não descobri ao certo qual o ponto exato em que o bem e o mal se encontram como numa bifurcação que leva a dois caminhos. E o que faz com que as pessoas escolham um ou outro? Quanto a mim, precisei conviver com o que fiz e acreditem, o pior castigo é alguém conviver com seus próprios pecados. O que o futuro me reservará, não sei. Que tipo de pessoa sou? Também não imagino. A única coisa que sei é que se o tempo voltasse atrás eu &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;não&lt;/span&gt; teria feito diferente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sandra&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-8517987312586630459?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/o-bem-e-o-mal.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>17</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7039166522444211262</guid><pubDate>Fri, 18 Sep 2009 22:42:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-20T10:46:52.031-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">conto</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">suspense</category><title>Nem todos serão cordeiros - Capítulo 2</title><description>&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A noite nas grandes praças do centro de São Paulo ainda o impressionava, apesar dos quase seis anos vivenciando-a.  A escuridão derramando-se sobre as sutilezas da arquitetura da majestosa Catedral, os espelhos d'água refletindo as luzes excessivamente artificiais da iluminação pública, os bancos da praça ocupados por um ou outro mendigo mais corajoso, num sono descuidado e convidativo ao espancamento e morte. Grupos de crianças perdidas, dormindo amontoadas em cantos mais escuros e fronteiriços à praça, alguns ainda acordados, consumindo mais uma pedra.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em nada a cena lembrava a fúria vencedora do dia claro e corrido, desenhado por vitoriosos ou outros tantos que ainda buscavam seu lugar ao sol, quando o espaço era disputado em milímetros por pedestres e ambulantes. Após o anoitecer, a praça pertencia aos excluídos. Aqueles à quem já não importava a conquista, o sucesso – Apenas mais um dia – era tudo o que almejavam estes, pensou Glauco, enquanto deslizava quase sorrateiro pelo calçadão. Venceu a distância até os degraus da Igreja e sentou-se por ali, para poder contemplar melhor seus possíveis inimigos. E também aos “alvos”.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Meteu a mão no bolso de seu paletó encardido, bastante gasto pelos anos de uso – O preço de minha invisibilidade – e apanhou a caixa de fósforos e o maço de Eight. Apenas dois no maço - E nenhum camelô com coragem suficiente para enfrentar o abandono desta terra - A noite seria longa, sem poder fumar. Acendeu um, ainda hesitante pela imprudência. O pulso de uma chama, o estalo do fósforo. Qualquer coisa neste ambiente poderia atrair a atenção de outros. Mas a sua necessidade de repor a nicotina era maior que a razão. Encheu os pulmões, numa extenuante tragada. Ao mesmo tempo, aguçou os ouvidos, como um pastor alemão, para compensar a desnecessária exposição de seu personagem. Focou a atenção num grupo de adolescentes, há uns cinquenta metros de onde estava, quase na esquina da Senador Feijó. O mais velho, talvez tivesse uns dezessete anos. Os outros, bem menores. Talvez na faixa de treze ou quatorze anos, sentados sob a proteção do maior -  Muito imprudentes também – analisou ao ver as fagulhas das pedras de crack  saindo dos cachimbos. Contou os alvos – Quatro em transe. Um em pé, possivelmente entorpecido também – enfiou a mão dentro de seu saco de quinquilharias. A barra de ferro estava ali. Uns doze quilos de metal maciço, suficientemente rijo e pesado para esmigalhar alguns crânios. Mas não iria se apressar em fazê-lo. Seu cigarro estava quase por inteiro, a espera de ser fumado com paixão. E aqueles moleques não iriam a lugar algum após se entupirem de crack. Deu mais uma voraz tragada e soltou a fumaça em fragmentos miúdos, quase como numa crise de soluços.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Por quantas mortes fora responsável durante os últimos seis anos? Drogados, skin-heads, punks, alguns policiais e até inocentes que estavam no lugar errado? Cem, duzentas, mil, mais? Não guardava esse número. Apenas uma execução fora-lhe marcante, doída. Todas as demais – Apenas trabalho...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Deixou-se levar por algumas lembranças persistentes. O telefonema para o se celular. Sua chegada em casa, no meio da tarde, os corpos de sua esposa e de sua filha ainda pré-adolescente sobre o tapete da sala de visitas. Muito sangue e dor tatuada em suas faces mortas. Um drogado, a necessidade da droga, do dinheiro para adquiri-la. Um taco de beisebol, duas mortes, outras tantas vidas destruídas. Um maldito drogado de dezesseis anos – Meu próprio filho – E a sensação de impotência, de ter errado muito. Educação, criação, repreensões na medida exata e na hora precisa... não conseguia equacionar a questão. Não conseguia respostas. Apenas a depressão. Oito longos meses afastado de sua Metalúrgica, trancado em casa, chorando em sessões com seu psiquiatra, se entupindo de antidepressivos – E pra que? - Para aplacar o ódio que sentia por si próprio e pelo seu filho? - Por aquele canalha que me tirou tudo, tudo mesmo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Encontraria suas respostas nas ruas. Deixou os remédios de lado, a análise, os amigos. E foi atrás de seu filho. Sabia que andava pelas ruas. Atras de mais drogas e longe da polícia. Tinha a certeza de que iria encontrá-lo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;De fato, nem foi uma longa busca. Duas semanas vivendo como maltrapilho, morador de rua, e lá estava Diogo. Magro, quase um cadáver. Encostado numa das árvores da República com mais outros dois amigos.  Nem reconheceu Glauco, com sua imensa barba postiça, roupas imundas e rasgadas, pele coberta por uma crosta de sujeira e fedor. Ninguém o reconheceria mesmo. Ninguém se aproximava o bastante para isso. Nem com um olhar. Já esbarrara em diretores de sua empresa, que tinha sede administrativa ali na Barão de Itapetininga. Como sua própria secretária também. Nenhum deles lançou sequer um olhar para ele. Distanciaram-se mais meio metro ao perceberem aquela presença incomoda, recostado sobre uma parede qualquer – Meu manto de invisibilidade. Meus super poderes – sorriu, concluindo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Só teria que esperar a hora certa, para abordar Diogo. Algumas horas mais e teria sua vida de volta. A vida que Diogo lhe roubara. Olhou para um dos relógios da praça – Nove da noite. Cedo ainda – teria que ser a sombra do moleque até a madrugada, para que não lhe escapasse.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O grito abafado de uma criança trouxe-o à Sé novamente. Atentou para o som, procurando identificar sua origem – As escadarias do metrô – Apagou seu cigarro e caminhou apressado, porém silencioso. Abordou a escadaria lateralmente. Uma pequena olhadela e viu três moleques, não mais que quinze anos, subjugando um outro de oito ou nove anos, para que fosse estuprado pelo maior do grupo. Glauco empunhou sua barra de ferro e, num pulo calculado, voou sobre eles. Alguns estalos de ossos partindo, gritos, sangue respingando para todos os lados. Questão de segundos. E apenas o menino de oito anos olhava-o nos olhos, apavorado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Vem. Temos que sair rápido daqui, antes que alguém nos veja.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E assim, o Seu Glauco entrou em minha história - Glauco - Como um misterioso herói underground de HQs. Eu senti repulsa por ele, no primeiro instante. Por seu cheiro, por sua horrenda aparência. Mas era-lhe grato. Na minha primeira noite na rua, ele apareceu e me resgatou de um massacre. Lembrei de minha mãe, de seu alerta sobre o mundo. E então, pensei em Glauco como um pai. O que nunca tive. E o que entrava agora na minha vida, para restituir-me uma família. Sentia-me feliz, apesar do corpo e alma doloridos pela humilhação do estupro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sumimos, entre ruas escuras e becos. Passos apressados, porém não numa corrida, caminhamos rumo à Praça da República. Eu não imaginava minimamente as possibilidades que estavam se abrindo para mim. E nem ao mundo que eu viria a pertencer. O estranho mundo de Glauco.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;continua na próxima sexta&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3; font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Georgia,&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;não leu o Capitulo 1 -&amp;nbsp; &lt;a href="http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/nem-todos-serao-cordeiros.html"&gt;Clique aqui e leia&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7039166522444211262?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/nem-todos-serao-cordeiros-capitulo-2.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>8</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-5457843683289482024</guid><pubDate>Sun, 13 Sep 2009 00:52:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-12T21:53:51.672-03:00</atom:updated><title>Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo</title><description>Pessoal,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um tempo afastado, devido ao concurso de contos, retomo as postagens de sábado, abordando, desta vez, uma outra maneira de se falar sobre o que se passa dentro de nossa cacholinha. É o lado oculto da mente falando através de poemas, afinal, nada mais oculto na mente humana do que os versos que formam esta manifestação literária belíssima e tão pouco difundida, infelizmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo seguem três poemas que tem como temática a mente humana, e, não por acaso, poemas de três mestres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o próximo sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.E.I.'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=======================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -&lt;br /&gt;Para um Olhar criterioso -&lt;br /&gt;Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -&lt;br /&gt;É a Maioria que&lt;br /&gt;Nisto, como em Tudo, prevalece -&lt;br /&gt;Consente - e és são -&lt;br /&gt;Objecta - és perigoso de imediato -&lt;br /&gt;E acorrentado -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emily Dickinson, em "Poemas e Cartas"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=======================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu irmão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,&lt;br /&gt;Eu sei o nome ao meu estranho mal:&lt;br /&gt;Eu sei que fui a renda dum vitral,&lt;br /&gt;Que fui cipreste, caravela, dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui tudo que no mundo há de maior:&lt;br /&gt;Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!&lt;br /&gt;E fui, talvez, um verso de Nerval,&lt;br /&gt;Ou, um cínico riso de Chamfort...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui a heráldica flor de agrestes cardos,&lt;br /&gt;Deram as minhas mãos aroma aos nardos...&lt;br /&gt;Deu cor ao eloendro a minha boca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! de Boabdil fui lágrima na Espanha!&lt;br /&gt;E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha,&lt;br /&gt;Mágoa não sei de quê! Saudade louca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Florbela Espanca, em "Livro de Sóror Saudade"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=======================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Génio do Mal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostavas de tragar o universo inteiro,&lt;br /&gt;Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,&lt;br /&gt;Para se exercitar no jogo singular,&lt;br /&gt;Por dia um coração precisa devorar.&lt;br /&gt;Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras&lt;br /&gt;Das barracas de feira, e prendem como garras;&lt;br /&gt;Usam com insolência os filtros infernais,&lt;br /&gt;Levando a perdição às almas dos mortais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!&lt;br /&gt;Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo&lt;br /&gt;Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?&lt;br /&gt;Nenhum espelho há que te mostre a verdade?&lt;br /&gt;A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.&lt;br /&gt;Nunca, jamais, te fez recuar com espanto&lt;br /&gt;Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,&lt;br /&gt;— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —&lt;br /&gt;Vai recorrer a ti para um génio formar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Baudelaire, em "As Flores do Mal"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===========&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-5457843683289482024?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/demasiada-loucura-e-o-mais-divino-juizo.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7139315534531112055</guid><pubDate>Fri, 11 Sep 2009 09:20:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-18T19:46:13.473-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">conto</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">suspense</category><title>Nem todos serão cordeiros - Capítulo 1</title><description>&lt;div align="JUSTIFY" style="background-color: #f3f3f3;"&gt;&lt;span style="font-family: georgia;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="JUSTIFY" class="western" style="font-family: Georgia,&amp;quot; font-weight: normal; margin-bottom: 0cm;"&gt;&lt;span style="font-family: georgia;"&gt;De minha primeira infância, lembro-me muito pouco. Nos dias de calor, do fétido cheiro que vinha dos esgotos que corriam a céu aberto. Da coceira crônica em meu corpo, uma mescla da sujeira e das picadas dos insetos abundantes. Do chão rústico de cimento do barraco em que vivíamos e das ruas enlameadas e ingrimes pelas vielas da favela. De Dona Altamira, com quem ficávamos quando minha mãe ia ao trabalho ou quando passava a noite fora. E dos  beliscões que a velha nos dava, quando chorávamos ou a desobedecíamos.  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: georgia;"&gt;&lt;br /&gt;Das imagens de minha família, alguma coisa ficou. Mas tênues, suplantadas pelos conceitos e impressões adquiridas quando eu já tinha uma consciência mais apurada. Minha mãe, Bete, uma mulher até que bela, dentro das limitações impostas pela pobreza. Não haviam os cuidados necessários. Quando muito, um batom barato, alguma maquiagem mal feita, para as poucas ocasiões especiais que teve em sua vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negra, cabelo ruim, sempre desgrenhados, dentição bastante prejudicada por caries e até ausências de dentes, já tinhas os peitos caídos pelas sucessivas gestações e pelo hábito de não suportá-los com um sutiã. Mas ainda chamava a atenção em nosso meio, quando saia à rua, com uma saia curta, colada às ancas, deixando a mostra suas coxas grossas e a bunda avantajada. Os homens do local, certamente imaginavam que havia muita safadeza a se fazer com uma mulher destas. E ela, não se fazia de rogada. Namorara muitos, engravidara mais quatro vezes durante o tempo em que convivemos. Tinha 23 anos e cinco filhos, quando eu fugi de casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, o filho mais velho, parido sem o desejo de parir-me, aos 15 anos. Como aos meus outros três irmãos e uma irmã, esta a caçula, com seis meses de idade apenas. Nunca conheci meu pai, como meus outros irmãos também não viriam a saber quem eram os seus próprios. Nunca perguntei, ela nunca falou. Não falava de seus “homens”. Ficavam para trás, nas noites de forró e alguma cachaça. Foram incidentais em sua vida. Dependera deles para um momento, uma bebida, uma noite. Nóias da favela, de mesma idade e futuro presumido. Ou velhos aproveitadores de sua estupidez adolescente de outrora. Agora, transformada em desesperança e indiferença. Era sexo o que queriam? Então, abria as pernas, desfrutava de umas palavras amorosas, que nunca ouvia senão nua e submetida à satisfazê-los. Saciava-lhes as taras, suportava seus hábitos embriagados. Uma ervinha para relaxar, um lingerie ou bijuteria vagabunda, adquirida por R$ 5,00 dos marreteiros que as vendiam de bar em bar. Essa era sua vida. Não era perfeita, mas caminhava resoluta, entre os serviços de diarista doméstica e as tarefas de casa. Por vezes, nos acarinhava, fazia cócegas. Por outras, ralhava conosco. E chinelava nossas bundas, por alguma arte cometida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que a enfurecia de fato, era quando brigávamos entre nós, irmãos. Lembro-me de uma vez, em especial. Eu tinha sete, meu irmão seis anos. E por disputarmos a tapas um carrinho de apenas três rodas, pego por ela em uma cesta de lixo, a caminho de casa. Ela caiu sobre nós dois como um raio da fúria divina. E cobriu-nos de chineladas. Desta feita, sem a menor preocupação de que o chinelo nos alcançasse as faces ou qualquer outra região do corpo. E quando se deu conta, ouviu enfim nossos apelos para que parasse, agarrou-nos pelas orelhas e assim, puxando-as com força, nos levou para a porta do barraco. Escancarou-a com um chute e apontando para as vielas estreitas e escuras gritou, com a voz transtornada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês vão enfrentar isso sozinhos? Vocês vão enfrentar esse mundo aí de fora, sozinhos? Um sem o outro, sem a família, sem seus irmãos, não sobreviverão nem até a próxima esquina. Serão devorados, entendem? Estão me entendendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto eu como meu irmão, mais a olhávamos, temerosos, do que para o cenário apontado por ela. Não tínhamos compreensão sobre o que falava. Mas jamais esqueceríamos suas palavras. Porque sentíamos que seriam importantes para a nossa sobrevivência. Só assim para entende-la e perdoar toda a sua fúria. Mas o fato, é que não me recordo de qualquer outra briga séria entre eu e meus irmãos. Um bate boca, um empurrão. Mas nada além disso. Bem ou mal, eu havia aprendido o que era uma família. E que seus membros se amparam mutuamente. Se protegem do mundo. Brigam, até matam se for preciso, para defenderem a integridade de um membro ameaçado ou ofendido. E minha mãe sabia disso. Havia aprendido da pior maneira: ninguém para defendê-la de seu destino e humilhações. Expulsa de casa ainda menina, por engravidar. Por me carregar em seu ventre. E ninguém para ampará-la. Nem um grito em seu favor, sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as coisas mudam. E nossa família também mudou. Uns dois meses após, Bete conheceu Agenor e o trouxe para morar em nosso barraco. Um sujeito de boa pinta, branco, pele morena de sol, cabelos loiros, olhos verdes, diversas tatuagens pelo corpo. Musculatura forjada em academias, sabe-se lá pagas com que dinheiro. Agenor não trabalhava. Mas tinha sempre seu maço de cigarros no bolso. Agenor. Nunca acordava antes das onze da manhã. Mas sua cerveja estava sempre geladinha, confortavelmente instalada em nossa geladeira quase vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversa fácil, Agenor a agradava. Dizia-lhe juras de amor, a assediava até na nossa frente, com carinhos ousados e cochichos em seus ouvidos. E Bete sorria, gargalhava. Se trancavam no banheiro, único cômodo separado dos demais. Eu e meus irmãos, no cômodo único, ouvindo os sons estranhos que de lá vinham. Mas ele fazia bem para ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu permanente sorriso. Os carinhos que passou a dispensar aos filhos, o cuidado que passou a ter com o vestir-se, perfumar-se. Estava florescendo como mulher. Realizando-se no sonho do amor encontrado e compartilhado. Durante três meses, pude conhecer uma outra mãe: a Bete, que sonhava acordada. E sonhou e sonhou. Até que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras de Agenor já não eram tão doces.  Era normal vê-lo pedir dinheiro para minha mãe – Não nasci para ficar preso dentro de um barraco. Vou jogar bilhar com os amigos – As lágrimas de minha mãe também se tornaram corriqueiras. Ela não falava nada. Nem para nós. Nem para ele. Tentara, mas ela a interrompera abruptamente, indagando se ela pretendia passar a  “cuidar” de sua vida. Porque, se fosse assim, ele iria embora naquela noite mesmo. E ela calou, enquanto pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fingia dormir, secando as lágrimas e engolindo o soluço, quando ele entrava cambaleante, de madrugada. Deitava-se ao lado dela. As vezes, desmaiava de bêbado. Noutras, matava sua fome de sexo, usufruindo o seu corpo. Nada mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os sonhos de Bete foram-se, como vieram. Nos seus olhos, o retorno da indiferença e desesperança. Mas havia um componente novo. Algo que a machucava. Que arrancava lágrimas que antes não existiam. Havia a sensação de culpa. Por ter perdido a felicidade alcançada. De ter chegado tão perto, mas tão perto e... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela o amava? Não sei. Creio que amava mais a sensação de saber poder amar. E de ter sido amada. Ou crer nisso. E ver isso desfeito, arrancado de seus dias miseráveis, a alquebrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ainda tentou. Criou coragem, reuniu o que ainda havia de dignidade em si. Recusou-se a abrir sua carteira, para que ele fosse a uma segunda rodada de bilhar com os amigos. Era frequente esse seu retorno lá pelas oito da noite, horário em que Bete já estaria em casa, após sua jornada diária e com algum dinheiro na bolsa. Agenor pedia, ela dava-lhe vinte, as vezes trinta reais, que ela sabia que seriam gastos em bebida e com outras. Como um dia, foram gastos com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não – e foi a única palavra que a ouvi dizer. E então um primeiro tapa no rosto. Ela caiu. Ele ainda deu um chute em seu estômago. Eu pulei em cima dele. Mas o que podia um moleque de oito anos contra um homem formado, forte, no auge de seu vigor físico? Senti o impacto das costas de sua mão contra a minha face. Devo ter voado meio metro, de encontro a parede do barraco. Ele abaixou-se tranquilamente. Enfiou suas mãos nos bolsos da calça de minha mãe, que se contorcia ainda. Tirou o dinheiro. Contou os setenta reais da diária que ela recebera. Puxou uma das notas de dez e jogou sobre o rosto de Bete – Pro leite das crianças – Deu uma gargalhada e saiu pela porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri até minha mãe e a abracei. Meus outros irmãos, até agora encolhidos ao pé do sofá, também vieram. Demos um abraço, todos nós – Eu vou matar esse cara, mãe. Eu juro que vou! - E ela apenas abraçou-se em meu braço de criança. Sua cabeça sobre minhas pernas, uma mistura de sangue e lágrimas as umedecendo. Foi o momento mais feliz da minha vida. Sentir aquele calor de todos nós abraçados. Nos cuidando mutuamente. Como deve ser, em uma família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, a vida continuaria. E Agenor voltaria. Ela sabia, bem como nós. Então, Bete serviu-nos o jantar, uma sopa bastante pedaçuda com muitos legumes, como gostava de fazer nas noites frias. Antes das dez, estávamos em nossas camas. Silenciosos e atentos. O sono não vinha. Apenas a angústia nos apertando o peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num horário incerto, Agenor entrou. Cambaleante como sempre, despiu-se totalmente e se deitou ao lado de Bete. Cochichava em seus ouvidos. Pedia desculpas, dizia ter perdido o controle, que ela o irritara, ele só queria uns trocos para beber com os amigos. Que não aconteceria de novo. Ele prometia. E até devolveu-lhe o dinheiro que não gastara: pouco mais de seis reais. Fizeram amor ali, na nossa frente. Como no início, quando ainda havia encanto nos olhos de minha mãe. E nessa hora, com o rosto ainda a latejar, odiei-a como nunca odiei alguém em minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova lua de mel durou alguns dias. Agenor preso em casa, feito besta arrancada de seu habitat, ralhava conosco na ausência de Bete. Enchendo-a de palavras amorosas, quando chegava do trabalho. Mas numa noite sem nenhum porquê especial... chutes mais fortes, socos em profusão. Um dia, noutro. Então, começamos, eu e meus irmãos a apanhar também, durante a ausência de nossa mãe. Por nada, por um olhar de ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia mais família. Eu não a amparava mais. Ela não se importava em ver nossos hematomas. E a vida apenas seguia. Um menino de oito anos sonhando com o dia que tivesse coragem para enfrentar aquela viela. Sem família. Só. E convicto de que sobreviveria, a qualquer custo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um domingo de Dezembro, próximo ao natal. Acordei cedo. Não haviam mais aulas, mas mesmo assim, quis pular da cama as seis da manhã. Sem fazer barulho, aproveitando-me do sono pesado de Agenor e de minha mãe, após uma noite de bebedeira de ambos, mas ela só, em casa, e ele num bar. Fucei os bolsos da bermuda de Bete e tirei alguns trocados: R$ 28,40. - Minha herança – pensei ao enfiar o dinheiro no bolso e sair pela porta do barraco. A mochila escolar com umas poucas roupas e mais nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cabeça, a vontade de vencer. No coração, o desejo de um dia voltar. E me vingar de Agenor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: #f3f3f3;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Gostou? Então leia também o Capítulo 2 - &lt;a href="http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/nem-todos-serao-cordeiros-capitulo-2.html"&gt;Clique aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7139315534531112055?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/nem-todos-serao-cordeiros.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>26</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-5255709071248262291</guid><pubDate>Fri, 04 Sep 2009 16:41:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-04T14:44:29.080-03:00</atom:updated><title>Lava-pés</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fábio olhou para seu relógio de pulso. O que viu, não foi nada bom – Quatro da madruga. Vai dar merda de novo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seus pensamentos não eram totalmente embriagados, porém nem absolutamente lúcidos. Tinha consumido uma boa quantidade de cerveja – E um conhaque! -  para calibrar a libido. As sexta-feiras  tinha essa liberdade provisória. Ou tivera, até que Marina o obrigara a confessar a infidelidade praticada – Nossa, que dia infernal...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda eram-lhe vivas a lembrança do episódio. Do choro da mulher, das perguntas intermináveis, dos tantos “por ques” aflitos e de suas súplicas por compreensão e perdão – Porra, era um homem – e suportara bem a condição de casado por sete anos. Mas naquela noite, após infindáveis cervejas e gargalhadas entre amigos, Glorinha pareceu-lhe irresistível – Destino mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma mulher vulgar, que vestia-se apenas para se expor, para ressaltar sua fartura de carnes – Gordinha sim – Vulgar, falava obscenidades que nem os marmanjos se atreviam. Insinuante como uma serpente, cheia de toques com as mãos e resvaladas provocantes, tão devassa em pensamentos e atitudes. Tão diferente da sensatez e inteligência de Marina  - Com resistir?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sóbrio, atravessava a rua e fingia não vê-la. Mas após o consumo de álcool, preso ao mesmo recinto e conversas... - Ah, Glorinha... que trepada infernal que tivemos! - a mulher era mesmo diabólica numa cama. Todos os desejos satisfeitos, todas as curiosidades saciadas. E além dos limites, um quarto de descobertas pecaminosas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não teve como Marina deixar de perceber. Por mais que preferisse não tomar ciência do fato, Fábio mudará a olhos visto após o início de seu romance com Glorinha. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Marina até que tolerou o comportamento do marido por alguns meses. Foi vendo as noitadas de cerveja invadirem os dias úteis, os horários de retorno cada vez mais distantes. Até que algo se rompeu dentro dela. Tinha que saber, tinha que entender o porquê, o que faltava nela, Marina, como mulher?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas era fato sepultado, julgava Fábio. Após aquela noite de acertos de contas, há oito meses, as coisas voltaram a normalidade. Fábio ia ao trabalho, voltava para casa. Jantava e assistia TV com a esposa. E até o relacionamento sexual entre eles foi reavivado, por algumas semanas. Como nos tempos de namoro, faziam sexo todos os dias. Até duas vezes por noite – Se bem que... - Mas tinha que se acostumar. Nenhum prazer ou loucura valia a companhia de Marina. Uma mulher bela, dedicada, inteligente e fiel – Sim, principalmente fiel.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fábio abriu a porta com todo o cuidado, evitando ao máximo qualquer ruído. Mesmo desconfiando de que nada lhe adiantaria tanto silêncio. E suas suspeitas estavam corretas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Marina estava sentada no sofá da sala, abajur aceso. Fábio tentou ver se os olhos dela estavam inchados, por tanto chorar. Mas não. Apenas o olhava, serena.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Marina, eu sei o que você está pensando. Mas...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pára, Fábio. A gente já teve nossa conversa. Você não precisa dizer nada. Alias, você não precisa nem inventar nada. Porque no mínimo, eu mereço a verdade. Fiz por merecer. Por meses. Por te tolerar, por suportar seu hálito de cerveja, seu cheiro de perfume barato. O sabor de sexo vulgar em sua boca...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Marina...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah, cala a boca, e vem dormir. Quando você estiver sóbrio, quando tiver um mínimo de vergonha na cara, conversaremos. Se... ah, deixa. Vamos dormir e amanhã veremos como fazer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dito assim, levantou-se e caminhou para o quarto. Fábio atrás, como um menino pego em flagrante delito pelos pais. Cabeça baixa, mudo, envergonhado – Que merda que eu fui fazer, Meu Deus... - lamentava-se em pensamentos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No quarto, Marina tirou a camiseta e jogou-a no chão. Fábio ficou a admirá-la em sua nudez. A pele bem clara, contrastante com os cabelos negros e os lábios vermelhos. Olhos de um mel profundo. Nem magra, nem gorda. Seios médios, ligeiramente caídos pela ação do tempo. Mamilos rosados, abdômen quase inexistente, quadril estreito, porém acentuado na cintura.  Enfim, uma mulher bonita, agradável de se ver – E decente - muito mais do que Glorinha, certamente – Ah, Glorinha... por que você teve que me provocar novamente?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Marina deitou-se na cama e olhou para Fábio – Então, não vem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fábio despiu-se, entre uma e outra cambaleada e deitou-se ao seu lado, mantendo uma relativa distância de segurança. Tinha medo de tocá-la. Tinha medo de que ela cobrasse-o por uma noite de sexo e ele falhasse, como da última vez em que brigaram. Álcool, vergonha, arrependimento, várias trepadas depravadas durante as últimas horas... uma combinação letal para seu desejo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas desta feita, Marina não abriu a boca. Desligou a luz da luminária e condenou os dois a escuridão e ao silêncio. Fábio ainda demorou alguns minutos para ser vencido pelo cansaço. Mas nem as especulações sobre o “amanhã” lhe deram forças para mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acordou com a velha dor de cabeça pós balada. Mas nem lhe incomodou tanto quanto o peso em seus braços. Quis trazer suas mão aos olhos, para coça-los e eles simplesmente recusavam-se a obedecer. Até que vislumbrou-os presos à cabeceira da cama, por um par de algemas – Que porra é essa? - resmungou, enquanto corria os olhos por seu corpo, vendo-se preso pelas pernas também. E completamente encapado por filme de PVC, próprio para embrulhar alimentos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Marina, sentada em uma cadeira a sua frente, fitava-o, sem qualquer expressão em sua face - Dormiu bem? - e não havia ironia em sua voz tampouco, apesar da pergunta. Quisera apenas chamar a atenção de Fábio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que você está fazendo, sua louca? Que merda é essa? - esbravejou em vão. Marina apenas levantou-se da cadeira e caminhou até a penteadeira do quarto. Ao lado desta, malas prontas para uma longa viagem. Sobre o móvel, uma urna de cerâmica, bojuda, com uns 30 centímetros de diâmetro na parte mais larga e uns 45 de altura. Apanhou o pote e veio até a borda da cama, com o mesmo caminhar lento e cadenciado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sabe Fábio, imaginei esta nossa conversa por toda a noite, enquanto te esperava. Mas quando deitamos, lado a lado, eu sentindo o cheiro do álcool e daquela vagabunda em você... - balançou a cabeça lentamente -  Você nem me tocou! Não há mais o porquê de mais uma conversa...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Espera, Marina. O que é isso, esse pote? O que você pretende fazer? Pense nos momentos que tivemos, pense nos seus pais, como vão lidar com a vida se você fizer uma bobagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Será problema deles, Fábio. Quanto ao pote... - desrosqueou a tampa até ouvir um  pequeno estalo – Não sei se você percebeu, mas apenas o seu pênis está livre do filme. Exposto...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Escuta, olha.... vamos conversar direito mulher – Fábio gaguejava, olhando em desespero suplicante para Marina. Não sabia detalhes de seu plano. Porém, tinha a certeza do pior porvir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Lava-pés. Ou formigas de fogo. Uma das ferroadas mais dolorosas da natureza.  Carnívoras, aterrorizam pessoas e aminais da região amazônica. Carnívoras... Não tanto quanto nos filmes de Hollywood. Afinal, são formigas e não piranhas – e dito isso, tombou a urna numa abocanhada envolvente sobre o membro do marido – Umas cinco ou seis mil delas dentro deste pote. Vindas do laboratório da Universidade e criadas no porão, com todo o cuidado. Só aguardando...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fábio urrou de desespero. E em seguida, urrou e urrou de dor a cada ferroada que sentia. Mas Marina nem lhe prestava atenção. Com as malas na mão, saía pela porta da frente de sua casa. Para uma viagem. Sem destino certo. Apenas para longe da mediocridade e hipocrisia cotidiana – Com um pintinho desses, em minutos o serviço estará feito -  e ele poderia pensar nisso, enquanto o veneno das formigas fechasse sua garganta e o matasse por asfixia – O que é uma pena. Me daria mais prazer imaginá-lo sentir as entranhas devoradas também.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O carro partiu e em segundos a casa ficou diminuta no retrovisor. Os gritos de Fábio eram apenas lembranças de um passado de equívocos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-5255709071248262291?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/lava-pes.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>10</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-557956856104407436</guid><pubDate>Wed, 02 Sep 2009 13:29:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-05T13:58:06.060-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">mudança</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">vida pacata</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">bolo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">inferno na terra</category><title>A solução - aproveitando para apresentar o template novo!</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Acabei de escrever esse conto, espero que todos apreciem. Aproveito para apresentar o novo visual do blog feito pelo Dieguito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana era uma menina linda, tinha 14 anos, mas seu corpo era de uma mulher. Vivia na fazenda, longe de toda a modernidade trazida pela tecnologia e não sentia falta. Era feliz. Estava acostumada àquela vida saudável.&lt;br /&gt;Às 6 já estava acordada. Gostava de respirar o ar puro das manhãs orvalhadas ou o delicioso cheiro de terra molhada das manhãs chuvosas. O leite puro retirado das vacas sempre uma delícia. Às 22 já estava na cama. Durante o dia estudava, ajudava a sua mãe e se reunia com amigas para prosearem.&lt;br /&gt;Gostoso mesmo era quando chegava a tarde, sua avó costumava fazer bolos deliciosos para o café. Bolo de fubá, milho, cenoura, chocolate. E o cheiro do café então? Invadia a casa toda. A vida era simples, mas era boa justamente por isso.&lt;br /&gt;A vizinhança era tranquila, a cidadezinha do interior paulista era muito pacata. Moravam em Osvaldo Cruz, quase 8 horas da capital.&lt;br /&gt;Alguns aposentados se reuniam no centro da cidadezinha, na praça pra jogarem conversa fora e assim a vida seguia em frente.&lt;br /&gt;A cidade ganhou novos moradores, Lauro, sua irmã e a mãe se mudaram para lá. Pareciam ser pessoas de boa índole. Ele acabou conhecendo Joana por intermédio da irmã, pois passaram a estudar juntas e se tornaram amigas. Lauro interessou-se logo por Joana. Ele tinha 18 anos, morava na Grande São Paulo, era acostumado a sair durante a noite, curtia baladas, sempre foi namorador, coisa comum pra sua idade. Não era ruim, porém, se envolveu com drogas muito cedo devido as más companhias. A mudança para o interior foi justamente uma fuga, estava jurado de morte pelos traficantes locais. Tratava-se apenas de um rapaz doente, precisando de tratamento. A família acreditava que essa mudança poderia fazer muto bem a ele.&lt;br /&gt;O namoro com Joana foi inevitável, apesar dela ter apenas 14 anos a família permitiu. Eles se davam muito bem, Lauro era carinhoso com a namorada e conquistou a família da moça.&lt;br /&gt;Joana era simples, mas sempre teve gosto pela leitura, costumava ler de tudo, livros, revistas, jornais, na falta deles, lia até bula de remédio. Estava muito apaixonada, Lauro era seu primeiro amor. Ele insistia em manter relações sexuais, mas Joana se negava a isso, dizia não estar preparada ainda, pedia ao namorado mais paciência.&lt;br /&gt;Lauro, com o tempo,  passou a usar drogas com mais frequência e a família de Joana descobriu, proibindo o relacionamento entre os dois. Começaram as brigas, tudo virou do avesso, fez-se o inferno na Terra. Joana e Lauro decidiram fugir, arquitetaram um plano e ela iria, finalmente, entregar-se a ele, seria sua mulher, mas só depois da fuga.&lt;br /&gt;Num certo dia, Joana ouviu uma conversa dos pais com os avós, eles planejavam mandá-la estudar longe para afastá-la de Lauro e decidiu procurá-lo para apressarem a fuga. Naquele dia, ela não foi assistir aula, resolveu ir pra casa do seu amado. Os pais dele não costumavam estar lá naquele horário e sua amiga, a irmã de Lauro, estava na escola. Ao entrar, a porta estava aberta, foi direto para o quarto dele e o viu com outra garota na cama. Ficou chocada, sentiu o chão sumir sob seus pés, seu sangue ferveu, mas suas mãos estavam geladas. Sentiu as lágrimas rolarem pela sua face. Lauro olhou pra ela, estava totamente drogado e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu bem, assista e aprenda como se faz.  A garota que estava com ele ria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana saiu do quarto, mas ficou no corredor ouvindo os gemidos dos dois. Primeiro sentiu ódio. Depois, sentiu pena de si mesma. Minutos depois, estava pensando que Lauro fez isso porque não estava consciente dos próprios atos, além disso, a culpa era dela que não aceitou ir pra cama com ele antes. Depois de um tempinho, resolveu sair, mas ele a puxou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora é a sua vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tentou empurrá-lo, disse que em outro momento sim, mas ela precisava assimilar o que acabou de assistir. E tinha um assunto sério pra conversar. Ele não deu ouvidos, a jogou no chão e a estuprou ali mesmo.&lt;br /&gt;Foi assim a primeira experiência de Joana, violenta, dolorosa no corpo e no coração. A outra garota havia saído correndo ao perceber o que aconteceria por lá.&lt;br /&gt;Joana chegou em casa horas depois num estado lastimável, olhos inchados, cabelos bagunçados. Sua mãe sequer perguntou o que tinha acontecido, deu um tapa em seu rosto.  Coisa inédita, ela nunca bateu na filha antes. Justamente num dia em que a garota precisava de colo esse fato ocorreu. Joana, sem dizer uma palavra sequer, foi para o quarto onde se trancou o resto do dia.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, como se nada tivesse acontecido, pediu a avó que preparasse um bolo.  Inventou uma mentira qualquer quando a mãe questionou por onde ela tinha andado no dia anterior. Sabia que ninguém resistia aos bolos da vovó. Sem que sua avó percebesse, misturou na massa veneno de rato. Cinquenta minutos depois, o bolo estava pronto, quentinho e com uma aparência ótima como sempre. Todos se  serviram e morreram. Joana guardou um pedaço caprichado para Lauro. Tomou um banho rápido, se arrumou e foi visitá-lo. Chegando lá, disse que o perdoava, pois sabia que ele não fez por mal. E ofereceu o pedaço de bolo. Lauro adorava bolos. Ele sorriu para Joana, disse que a amava, sentou-se e comeu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold; font-style: italic;"&gt;Sandra&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Espero que tenham curtido o novo visual do Lado Negro da Mente Humana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-557956856104407436?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/09/conto-solucao-aproveitando-para.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>13</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7366706155138783281</guid><pubDate>Sun, 09 Aug 2009 03:10:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-09T00:39:57.366-03:00</atom:updated><title>Desconhecido</title><description>Prezados,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na condição de convidado, trago-lhes um conto curto e escrito fora dos meus padrões normais de escrita. Tentei, com esse conto, escrito já há algum tempo, exercitar frases mais curtas, a exemplo de outro postado em uma coluna do Norberto/Vic em ocasião diversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é exatamente sobre o outro lado da mente, mas creio adequar-se ao inesperado, sempre ontido naquilo que não conhecemos plenamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESCONHECIDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era tarde, e as árvores que passavam pelas janelas do ônibus eram tão somente linhas um pouco mais negras em meio à escuridão da noite. Fechou o livro e apagou a lâmpada acima de sua poltrona. A cabeça agora pendia para o lado direito, e a mente voltava-se para a mata fechada que ela pouco conseguia ver naquela altura da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que viajava para visitar seus pais, pensava, ao olhar para aquela vegetação já familiar, sobre o que poderia haver por detrás das folhas verdes – apenas sombras à noite – que beiravam o caminho da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era frio, mas precisou interromper seus pensamentos para pegar um casaco na mochila. Olhou para a poltrona ao lado. Ficara aliviada quando a senhora cheia de histórias e valores dormira. Somente assim pôde começar sua leitura sobre Dr. Jeckill e Dr. Hide, a dicotomia médico/monstro que a fazia pensar no que mais havia por trás das pessoas. Onde estaria o lado monstro da "quase-freira" que dormia no banco ao lado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus estava lotado, e a época da Páscoa de fato movimentava as estradas. Não sabia se eram as pessoas que movimentavam as rodovias ou se era a própria Páscoa que agia materializada sobre o asfalto. Lembrou do garoto que empanturrava-se de chocolate no início da viagem. “Teria ele já vomitado?”. Não. Precisaria de mais alguns bombons, mas não tardaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um instante, quis saber onde estava o outro lado das pessoas que lhe cercavam. Olhou novamente para as árvores e esqueceu da idéia. Retomou o pensamento sobre o que havia após as árvores. O que haveria do ouro lado? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os pensamentos misturados à escuridão das árvores, estava demasiadamente concentrada para perceber que o garoto sujo de chocolate que corria ao banheiro não queria vomitar. Se visse aquele jovem rosto por uma fração de segundo, teria reconhecido o sinal do medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando pareceu ter visto uma sombra mais escura na mata que as luzes do ônibus se apagaram. Ouviu-se um único grito vindo das poltronas da frente. O medo a fez desejar que as luzes não voltassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em princípio, sentiu-se aliviada por não passar pelo estranho evento sozinha. Havia mais algumas pessoas com quem compartilharia aquele momento. Em seguida, frustrou-se por não saber como os outros reagiam. E por alguns segundos ninguém ousou pronunciar uma palavra sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não era conhecido o motivo da escuridão, mas voltou a concentrar-se no interior do ônibus quando uma senhora gorda ergueu-se da poltrona n. 4 e bateu secamente na cabine do motorista, exigindo explicações. Não houve resposta. Se a senhora houvesse permanecido na poltrona, talvez não tivesse o mesmo destino a que foi entregue motorista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruscamente, alguém lhe atacou pelas costas, vindo de algum ponto desconhecido no ônibus, e o grito que se ouviu depois ficou claro até mesmo para quem jamais havia visto alguém morrer – e ver, naquela altura da noite, não era privilégio de muitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pânico exalava de cada corpo ainda vivo, e os gritos de pavor seguiram o grito de morte. Um a um, os passageiros foram ecoando o que começou nas poltronas da frente. Não sentiu medo de morrer. Sentiu medo de ser a última a morrer. Não se importava com seu destino, desde que fosse igual ao dos demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, ninguém foi poupado. As lágrimas de sangue não demoraram a escorrer de seu pescoço, e a imagem que a garota pôde ver em seus últimos reflexos foi a de um corpo enorme caminhando – como quem volta para casa – em direção à mata fechada.&lt;br /&gt;_______________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Fripp/Croatan&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7366706155138783281?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/08/desconhecido.html</link><author>noreply@blogger.com (Leonardo Croatan)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-7814150656560456924</guid><pubDate>Sun, 09 Aug 2009 00:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-08T21:52:34.954-03:00</atom:updated><title>Sonhos</title><description>Salve!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surfando nas ondas da grande, revolta e farta rede mundial de computadores, topei com este conto e acredito que ele deva ser publicado aqui. O crédito ao autor esta no final do conto. Não o conheço, mas é interessante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, nada de horror, aborda o lado negro da mente, afinal o que é o lado negro da mente senão aquilo que a grande maioria não conhece e os poucos que sabe, não podem escrever sobre? Sendo assim, tudo que investiga a mente humana esta na calota negra, aquela grande e imensa porção do cérebro que pouco é explorada, e onde o sol nunca se faz ver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bons sonhos, meus queridos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salut!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.E.I.'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;=================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitada de costas, ela estava pensando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (Ele tinha razão quando me disse que o divã do psicólogo nunca é muito cômodo.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estava dizendo que teve um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (Mas, que coisa fez tanta graça dos lacanianos paulistanos?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estava pensando em alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim ... não ... Sim, eu teve um sonho a noite passada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer me contar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero. Eu estava deitada numa cama. A habitação estava a meia luz. De repente, entra um homem abrindo violentamente a porta. Se aproxima à cama, olha fixo para mim, tira uma arma de sua cintura e atira em mim. Eu morro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse homem lhe é conhecido? Ou parecido com alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá para ver a cara dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu estou deitada de costas à porta e todo acontece rapidamente. Eu vejo a cena de fora, como num filme. A cama está no lado esquerdo do quarto. Tem uma janela no lado direito por onde entra a luz. Quase no centro fica a porta pela qual entra o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá tempo de ficar apavorada, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não ... heim ... não, não dá. (Pavor não. O que eu estava sentindo?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você disse que o homem não lhe lembra a ninguém em particular ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Era um homem grandão, de movimentos bruscos, como Stallone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como quem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como Silvester Stallone, o ator de cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E porque ele ia querer matá-la?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele queria realmente me matar? Sim, claro. Por que ele queria me matar? ... Não sei, estou confusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele atira em você, ele mata você, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, sim. Ele atira três tiros e me mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E ai você acordou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acordei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E depois de acordar sentiu medo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, eu estava confusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sentiu medo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, claro, sabendo que ia morrer, eu estava como com medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro, depois que morreu já não dava para sentir mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paciente e psicólogo riram. Ele lembrou a hora e a sessão terminou na paz dos honorários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco antes da sessão de psicanálise ela conheceu um rapaz numa livraria. Os dois estavam procurando novidades em literatura, o que chamou à atenção de ambos. Ai começou o diálogo, foram a tomar um café e continuaram a conversa. Primeiro falaram de romances modernos, mas quando ela disse que de ai a pouco ia ter sua terapia, o diálogo mudou de rumo: passou para Freud, a neurose moderna, a depressão e coisas similares. Quando ela disse que o seu terapeuta era um lacaniano paulistano, ele tentou em vão esconder seu sorriso. Trocaram números de telefone para continuar a conversa. Dois dias depois marcaram um novo encontro. O tema, desde o início, foi psicologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, eu já li bastante Freud, mas não tenho sacos para ser psicólogo. Agüentar a conversa de pessoas que o único problema real que tem é que não sabem o que fazer com o tempo. Claro que tem pacientes interessantes, como os de Freud, mas também ele deve ter suportado imbecis que nem deram para ser citados. Por outra parte, das pessoas que acho interessantes, não quero ser o psicólogo. Quero ser o amigo, por exemplo. Também não quero ser o psicólogo de meus amigos. Por isso não gosto de interpretar os sonhos por interpretar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você sabe interpretar sonhos? Eu teve um sonho que contei para meu psicólogo, mas ele ainda não me disse nada. Como se faz para interpretar um sonho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com talento. Interpretar um sonho requer de uma habilidade especial. Tem envolvida uma questão de sensibilidade. O inconsciente é como o Apolo de Heráclito: nada diz, nem nada cala, só dá sinais. A chave para decifrar a maioria dos sonhos é algum sentimento. Algum sentimento que não condisse com o que está acontecendo no sonho. Por isso é que um psicólogo precisa de uma sensibilidade especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas Freud tem uma teoria da interpretação dos sonhos, onde o fundamental é que o sonho é a expressão de algum desejo oculto, que a pessoa não quer reconhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, mas isso não significa nada. Um sonho é multiface e expressa, misturados, muitos desejos de diferentes tipos. Sempre é fácil achar algum desejo expresso em qualquer sonho. Mas isso não vale nada. É como o Édipo. Freud usa o Édipo como chave mestre e os psicólogos com cavalo na batalha: o Édipo corre com o prejuízo e eles vão encima. Vasculhando sempre se chega ao Édipo, mas o problema não é chegar, mas como se chega. O Édipo e o happy end da terapia freudiana, mas muitos psicólogos reagem como as pessoas ingênuas ante um filme hollywoodiano: têm tanta ansiedade pelo fim, que acham que o fim é todo. O final sozinho não é um final, precisa do desenvolvimento, da ansiedade da qual é o final. Se uma mulher dizer: ``me corria um homem com uma faca'' e o psicólogo interpreta logo: ``o homem é o seu pai e a faca o pênis'', dificilmente esteja prestando algum serviço para seu paciente. Tem que ler Freud não olhando para a teoria que ele esta expondo, mas vendo como ele interpreta. Ver como Freud descreve os sentimentos: ``um pavor desmedido'', ``um desejo contraditório'', ``uma alegria apática''. Muitos psicólogos não vão ao detalhe do sentimento porque eles próprios não sentem com detalhe. O psicólogo não pode ser menos sensível que o paciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não tinha pensado nisso, pode ser. (Mas ele não está falando do meu psicólogo, pois nem conhece ele.) Que pena que você não quer interpretar sonhos de amigos, pois eu gostaria que interprete o meu. Mas fique tranqüilo, vou respeitar sua posição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Outra maneira de ver a coisa é que o importante num sonho quase sempre é um detalhe. Sem sensibilidade esse detalhe passa desapercebido. Aliás, se podermos falar de intenção do sonho, essa intenção é que o detalhe passe desapercebido. Se o paciente sabe psicanálise tem um outro motivo: falar para a pessoa certa, não revelar segredos para aqueles que só vão criar confusão. Nem todo o que um paciente oculta do psicólogo é por causa da malvada repressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminou o encontro e ela ficou pensando. Um detalhe. O detalhe que chamava a atenção no seu sonho era a iluminação da habitação. A luz vinha da janela da direita e dava um clima dramático à situação. Mas, que significado pode ter a iluminação? Seria que ela estava ocultando o essencial a seu psicólogo não pela ``malvada repressão'', mas para que aquele não entrasse no seu inconsciente como um elefante numa loja de louças? Mas o seu psicólogo é um bom psicólogo, um lacaniano paulistano. Não é que ele não seja sensível, é só sua postura de psicólogo. Continuou pensando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (Também eu não sei ao certo se o papel da sensibilidade é tão importante num psicólogo. O homem seu pai, e a faca o pênis dele. Não, meu psicólogo não vai ser tão burro para dizer: ``Olha, o homem que entra pela porta é o seu pai, e o revolver o pênis dele''. Claro que isso não explica nada. Bom, explica porque eu acordei tranqüila e contenta. Detalhes nos sentimentos? Como se tiver realizado um antigo desejo. Vem? O desejo está presente. Sim, claro, sempre esta presente.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim chegou o dia da próxima sessão. Ela esperava ansiosa pela interpretação do seu sonho. O primeiro que ela fez foi perguntar. Ele respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um sonho deve ser interpretado em contexto. Não é como um texto sagrado que tem normas absolutas para sua interpretação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas Freud falou que sonho expressa desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que desejo você vê se expressar no seu sonho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei, para mim está confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas no sonho você morre. Você quer morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não, eu não quero morrer. Eu tenho esperança de que alguma coisa de maravilhosa vai acontecer logo na minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fala como se tivesse conhecido alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, conheci um rapaz bem interessante, mas não é isso, não. E um sentimento de realização pessoal. Mas, o que me importa é a interpretação do sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você fala do sonho e fala de desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Freud fala de desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, mas você trouxe o desejo até aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, eu falei do desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas você fala que não quer morrer e o seu sonho mostra você morrendo. Portanto, a morte do sonho representa uma outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Representar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Representa. A sua morte no sonho representa alguma outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não, eu estou representando minha morte. Não, o sonho representa minha morte. Estou confundida. Como diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique tranqüila, sua confusão mostra que estamos no caminho certo. Eu disse que sua morte no sonho representa alguma outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma relação sexual. Eros e Thánatos. O meu desejo oculto de ter uma relação sexual com meu pai, toma a forma de ele me matando. (Página 475, tombo 4, Obras Completas de Freud. E para isso lhe pago?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E isso explica também o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (O medo de que o elefante entre na loja de louças.) Mas o meu pai não se parece a Stallone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a imagem infantil do pai grande e forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah ... (Será?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sessão continuou com outras páginas de Freud e terminou na paz dos honorários. E como a vida é muitas vezes uma sucessão de encontros e desencontros, dias depois da sessão de psicanálise aconteceu um outro encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O seu psicólogo deu uma interpretação surpreendente de seu sonho. Foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não seja irônico, por favor, que para mim é coisa séria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdão. Não quis magoá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para mim a interpretação desse sonho é fundamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como a interpretação? Que raro! Você fala de interpretação de uma maneira esquizofrênica. Por um lado com uma ênfase e um sentimento de paixão difíceis de compreender. Por outro lado como se a interpretação que está procurando fosse um jogo matemático, uma coisa lógica e fria. Esqueça da interpretação e pense no seu sonho de uma outra maneira. Como os antigos, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como se meu sonho está mostrando meu futuro. Você fala sério?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Falo. Se lembra do alpinista de Freud que sonhava que caia da montanha? Ele sonhou seu futuro. As vezes, o inconsciente sabe mais do futuro que a consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (Mas, se eu desejar minha própria morte, por que acordei tão feliz?) Então agora não entendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O mais importante de um sonho nunca é o primeiro que vê a pessoa que o teve. Pode até estar explícito, mas não vai ser o primeiro que vê. Seu psicólogo não falou nisso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece que você não gosta do meu psicólogo, mas ele tem boa fama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas a fama é a opinião dos outros. Você que acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu acho ele bom. Só que parece não ter cultura geral. Não conhecia a Stallone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas você gosta dos filmes de Stallone?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem tanto. Mas também não sabia que era Fellini.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, ai a coisa complica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, porque existe uma imagem coletiva, um sentimento do que é Fellini. Se seu psicólogo não sabe quem é Fellini o paciente vai quer dar uma idéia ``objetiva'' de Fellini, ou seja, essa imagem coletiva, em vez de expressar o seu sentimento. Então o psicólogo, que não conhece o sentimento geral, deve diferenciar o sentimento particular do paciente. As vezes, o que já é difícil torna-se impossível. Eu já teve esse problema na minha própria terapia. Uma vez comecei a falar de Safo e minha psicóloga não sabia que foi Safo. Perdeu uma porta aberta, mas enganosa, para o tema da homossexualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ironizou com um leve sorriso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, você gosta da poesia lésbica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tanto como para fazer o esforço de aprender eólio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os ventos trazem lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando falam do ventos da antigüidade, eu me lembro do Bóreas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, se eu for sua psicóloga, diria que no seu aprendizado do eólio está presente o seu desejo de raptar sua mãe quando ela era donzela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas todos os ventos frios do Norte raptam donzelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois riram das ironias quase ininteligíveis. Ela continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Passando da ironia para a fofoca. Você que leu Safo em eólio, acha que ela era homossexual?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu acho que não. Acho que os fofoqueiros da antigüidade injustiçaram ela com uma difamação, tal vez por inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E isso sim que tem que ver com a sua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem, com certeza, tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, você percebeu? Começamos falando de romances modernos e psicanálise e agora estamos chegando aos temas verdadeiramente importantes: os clássicos, a poesia ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto de ela mudou. Ele falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que você ficou tão séria? Aconteceu alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não. Eu gosto tanto do teatro e do cinema. Participo de um grupo de teatro experimental, mas por vergonha ou por medo da incompreensão não falo para quase ninguém. Mas é como se você tivesse adivinhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não adivinhei, não. O sentimento com que você falou do cinema. Parecia machucada pelo fato de seu psicólogo não saber que é Fellini. Vai participar de alguma peça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, mas eu fiz um teste. Não para uma peça, para um filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um filme?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Glaúber Rocha vai rodar uma adaptação da peça Melissa, de Augusto Boal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu estou sabendo. Já li na Folha. Eu já assisti Melissa no Rio, com direção do próprio Boal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu nunca assisti a peça, mas li o livro uma dúzia de vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um teste para que papel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou com vergonha, e logo falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O papel de Melissa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melissa? Tomara que consiga esse papel. Parece uma coisa muito importante para você. E eu tenho a sensação de que seria uma Melissa antológica. Mas, que personagem complicada! É como nas obras de Shakespeare, a gente sabe o final desde o princípio, mas, mesmo assim, o final surpreende. Quando vai ficar sabendo se foi a escolhida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram se olhando um para outro em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Momentos antes de sua sessão de psicanálise. O telefone tocou. Deram a notícia: ela era a escolhida para Melissa. Ela dava um passo para um lado, um outro para outro lado, queria pular, queria dançar, queria gritar, queria chorar. Aos poucos foi se acalmando. Lembrou-se da sua terapia. Ai veio um sentimento de raiva e pensou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- (Mas que burro, que burro, que burro que é o meu psicólogo. Eu tenho que parar de jogar fora tempo e dinheiro e dar bola somente às pressões das pessoas que admiro.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entrou no consultório do psicólogo, olhou aos olhos dele, e lhe diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é um burro, e eu não vou vir mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E saiu batendo a porta. Chegou na sua casa e ligou para marcar um encontro com ele. Falou da novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parabéns. Você conseguiu. Eu sinto que vai fazer uma Melissa memorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Larguei de meu psicólogo. Quando uma pessoa tem algum desejo muito intenso, parece que tem a necessidade de ocultá-lo para que se realizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ou pelo menos não contar para os psicólogos burros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você também acha? Eu gosto tanto de você ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a filmagem. Glaúber surpreendeu todo mundo quando disse que o primeiro a filmar ia ser o final, a última cena. Ascenderam os refletores e Glaúber deu a ordem de rodar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou na cama de costas à porta, como está na peça. O grandão ficou sabendo da traição de Melissa. Entrou violentamente no quarto e matou Melissa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não podia acreditar tanta alegria. Seu sonho tornava-se realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(c) 1998 Carlos González&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;========================= *** ========================&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-7814150656560456924?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/08/sonhos.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-3276618805384285389</guid><pubDate>Fri, 07 Aug 2009 05:12:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-08T00:46:54.621-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">perdão</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">padre</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pecado</category><title>Vá e não peques mais</title><description>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Me perdoe Padre, porque eu pequei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo inala sofregamente todo o ar cabível em seus pulmões e senta-se de súbito em sua cama. As imagens a sua frente eram pouco nítidas, em parte pela escuridão de seu pequeno quarto na pensão de Dona Olívia, em parte pela confusão provocada por um sonho recorrente, assombrado por vozes do passado. Inclina seu corpo e tateia o soalho do dormitório, em busca de seu maço de cigarro e isqueiro. Pagava R$ 250,00 a mais por mês, para Dona Olívia, só para ter o privilégio de não dividir o quarto e poder socorrer-se em algumas tragadas nos momentos críticos, sem ser censurado por um eventual companheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajeita os travesseiros na cabeceira da cama, criando um encosto estofado e confortável para suas costas. Leva o cigarro a boca e dá um longa tragada. Seus olhos se habituam à escuridão da madrugada e os limites de seu pequeno quarto podem ser vislumbrados, ainda que sutilmente. Porém, não era a visão do quarto que ansiava, mas as imagens que provocariam mais uma noite de insônia. Reclina sua cabeça para trás e, ao mesmo tempo em que expele uma bolha expansível de fumaça, fecha os olhos, mergulhando na obscuridade de suas memórias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podia deixar de supor que sua vida teria sido plena, se não fosse por uma tarde, num confessionário, há quase seis anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo tinha vinte e oito anos, na época. Era o Padre Gustavo da modesta Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, Protetora dos Nascituros. Uma igreja simples, sem qualquer ostentação. A nave principal, talvez abrigasse umas quarenta pessoas. Mas isso ocorria somente em dias de casamento. No restante, os poucos fiéis de sempre, pessoas de mais idade e tradicionalistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito, o povo do interior de São Paulo perdera sua convicção nos ritos da fé. Criam em Deus, Jesus e eram quase todos devotos de Nossa Senhora. Gustavo tinha a mais absoluta certeza disso. Porém, não viam mais nas Igrejas o caminho para chegar a Eles, aos seus Salvadores e Protetores – &lt;i&gt;A Igreja precisa se encontrar com o povo novamente. Ter o unguento para suas aflições e temores – &lt;/i&gt;lembrava-lhe o velho Padre Anselmo, titular de fato da paróquia, porém já bastante alquebrado pela idade e incapaz de celebrar sequer uma das duas missas diárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram três bons anos, aprendendo com o Velho, rezando as missas diárias e ouvindo seu rebanho no discreto confessionário, ao fundo da igreja. Até aquele sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu Dona Anita, uma senhora miúda, quase esquelética, estragada mais pela desnutrição e maus tratos da vida do que propriamente por seus 70 anos de vida. As mesmas mazelas e inocentes pecados de sempre, da briga com a neta, da discussão com o genro, a quem jurava respeitar – &lt;i&gt;mas que me tira do sério - &lt;/i&gt; como ouviu seu Nestor, o prefeito da cidade. E do mais humilde ao mais poderoso,  ninguém lhe confessava algum pecado que merecesse uma preocupação maior com a saúde moral da comunidade. As vezes, instigava-os até a um trabalho social, junto as populações menos favorecidas como forma de alívio para o tormento e punição pelo pecado confessado. Uma novena, algumas &lt;i&gt;ave marias e pai nossos,&lt;/i&gt; mais habitualmente. Se os moradores da cidade tinham pecados maiores, não era ao seus ouvidos que os confessavam – &lt;i&gt;e pode ter certeza que eles tem, meu filho. Pecados inomináveis! - &lt;/i&gt;brincava o Padre Anselmo. Mas Gustavo gostava de ouví-los, por vezes ingênuos, noutras tentando “enganar um pouquinho à Deus e ao Padre”, mas fundamentalmente, comparecendo e mostrando a importância que  poderia haver em um par de ouvidos pacientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que Padre Gustavo ouviu um abrir diferente da portinhola de seu confessionário. Um abrir cuidadoso, quase sorrateiro, diferenciado de todos os outros que estava habituado a ouvir. Deveria ficar feliz. A possibilidade de um novo fiel, de alguém mais em comunhão com a Igreja e com Deus. Porém, no seu peito sentiu um incômodo, um aperto. Suspirou, espantando seus temores e procurou se concentrar em suas obrigações,  declamando o início da confissão, ao ouvir o assento do banquinho rangir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amém – respondeu uma voz grave e rouca do outro lado da divisória em treliça - Padre, me perdoe, porque eu pequei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que o Senhor esteja em seu coração e palavras para que, arrependido, confesse seus pecados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu nunca me confessei antes, Padre. Vivia e acreditava que Deus me perdoaria por meus pecados, sem que alguém precisasse interceder, quando chegasse a hora. Porém, percebi estar errado – a rouquidão da voz solenemente fez uma pausa. Talvez buscasse perceber a repercussão de suas palavras, talvez quisesse apenas tomar um fôlego e organizar suas idéias para prosseguir com seu relato. Porém, ao Padre Gustavo não restava mais qualquer dúvida: este era um homem sinistro e que estava por confessar um pecado abominável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que importa para Nosso Senhor Jesus Cristo é que você se arrependa, confessando seus pecados. Ele pode a tudo perdoar, se for sincero o seu arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje eu sou um homem feito, Padre. Quarenta e cinco anos, um cirurgião brilhante. Ganho muito dinheiro em São Paulo. Sou admirado e respeitado por todos meus amigos, clientes e colegas de profissão. E praticamente, atravessei o Estado para chegar nesta Igreja, de Nossa Senhora de Guadalupe, para confessar-lhe que minha história nem sempre foi respeitável assim... - e a Voz fez uma nova pausa. Padre Gustavo não resistiu a tentação e focou seu olhar sobre as frestas da treliça. A Voz tinha a tez bem clara, porém com bochechas rosadas, macilentas, cabelos levemente grisalhos. Um riso discreto permanentemente desenhado em seus lábios. O rosto que personificava a bondade, a retidão. Estatura mediana, talvez um metro e setenta, pouco mais pouco menos. Não era gordo nem magro. Vestia-se elegantemente, num terno cinza claro, gravata azul quase marinho, camisa reluzentemente branca e bem passada. E numa avaliação desta superfície diria-se – Ali está um bom homem – Porém, Padre Gustavo sentia em sua alma que não. E temia por cada nova palavra a ser dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha mãe era uma puta, Padre. Não dessas que ganham a vida fazendo sexo. Mas por vocação mesmo. Não sei quem é meu pai. Possivelmente um dos muitos bêbados e drogados que ela levou para casa, nos finais de noite. Eu me lembro da primeira vez que a ouvi – a Voz sorriu levemente – morávamos num pequeno apartamento no centro da cidade. Dois quartos fétidos, sempre imundos, grudados parede a parede. &lt;i&gt;“mete mais, mete mais seu puto! Me come!”&lt;/i&gt;. Eu tinha cinco anos, Padre. E passei a noite de olhos abertos, ouvido colado na parede do quarto, temendo por minha mãe. Pelas dores que estava sentindo... - E a Voz fez-se gargalhada. Alta, grave, descontrolada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu filho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Padre, é importante que eu conte, que o senhor saiba e entenda. É importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele tudo sabe, filho. Você não precisa se defender ou se torturar. Apenas se arrepender...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E eu me arrependo, Padre. Muito! Não desses pecadinhos. Não por ter colado o ouvido na parede. E nem por ter me escondido dentro do guarda-roupas dela, pouco mais de um ano após.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu precisava! Eu tinha que ver as imagens que me traziam os sons, os pesadelos... Era preciso saber. Só assim eu poderia ter meu sono e paz de volta, eu pensava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padre Gustavo ouviu um prolongado suspiro, carregado de dor e sofrimento. Pensou em abordá-lo novamente, dissuadi-lo de pormenorizar sua história. Mas sabia não ter forças para deter esse homem. Teria que ouví-lo até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então aconteceu numa sexta-feira de madrugada. E eu estava a tanto tempo lá dentro do armário, prensado por roupas, cabides e cobertores, que dormi. Acenderam a luz do quarto, passos trôpegos, cambaleantes. Risos embriagados. Acordei assim. Cuidadoso, pois me lembrava onde estava. Temia pela minha sorte se me descobrissem. Minha mãe tinha a mão pesada. E paciência nenhuma. Não lhe custaria nada me espancar mais uma vez... O guarda-roupas era antigo. Daqueles em madeira mesmo, entalhes e fechadura. Nada de &lt;i&gt;aglomerados&lt;/i&gt;, daquela quase serragem que tentam nos vender hoje... Foi pelo buraquinho da fechadura que pude vê-los. Loucos, como dois loucos... - a Voz serve-se de mais uma pausa. Gustavo o vê baixar a cabeça e cobrir os olhos com uma das mãos. Mas não estava chorando. Parecia apenas esforçar-se para ter mais nitidez em suas lembranças – Eles se beijavam muito, exploravam seus corpos com violência, forçando frestas em suas roupas, até se livrarem completamente delas. E eu fiquei olhando. Minha mãe naquela cama, gemendo, urrando. Sua barriga lustrosa, gigantesca, de uma gestante de 7 meses. E o homem sobre ela, estocando forte, violento. Via a musculatura dele brilhar com o suor. Um peão de obra talvez, pela força física talhada no trabalho. Não havia sinais de cuidado ali. De academias ou malhação coordenada para a produção de músculos perfeitos. A força dele vinha da rudeza de sua vida – A Voz fez novamente uma pausa. Levantou a cabeça e colou-se à treliça divisória. Padre Gustavo podia sentir seu hálito – O senhor já viu uma expulsão de feto? Um aborto espontâneo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo sentiu seu corpo gelar, ao mesmo tempo em que sua cabeça parecia dar voltas no ar. Aquele homem não era humano. Ele era mau, a personificação do mal. E Gustavo precisava escapar. Porém era tarde e sabia-se refém da Voz. Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos. E as imagens vieram, claras, nítidas como em um cinema. Podia ver pelos olhos da Voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem, pele negra, brilhando de suor, penetrando a grávida com tamanha violência que se alegaria um estupro. Os gemidos enlouquecidos até o grito de dor – &lt;i&gt;que porra é essa? - &lt;/i&gt;gritou o homem ao ver seu membro encharcado de sangue. Cambaleante, levantou-se da cama. A grávida se contorcendo na cama. O sangue derramando-se sobre o lençol, em golfadas,  e ela implorando – &lt;i&gt;me ajude, me ajude – &lt;/i&gt;Rapidamente ele se veste e sai em disparada do quarto, ainda calçando o tênis sem meia mesmo. Não buscaria ajuda alguma. Não se envolveria com policia – &lt;i&gt;eu só queria dar uma trepada. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O choro apavorado de Débora – sim, esse era seu nome – Padre Gustavo podia senti-lo. Talvez a Voz o pronunciara, talvez sua imaginação o buscara. E então o garotinho, abrindo a porta do guarda-roupas e pisando no assoalho de madeira sem lustro algum – &lt;i&gt;filho... Otávio. Corre, vai até o apartamento da Marta e chama uma ambulância. Pelo amor de Deus filho – &lt;/i&gt;e Débora se contorcia. Porém, Otávio permanecia ali. Olhando o sangue, olhando o sexo de sua mãe abrir-se e iniciar a expulsão de um pequeno bebê. A mulher gritou forte, seguidas vezes, dobrando-se ao meio. Otávio deu dois passos a frente, ficando bem próximo a mãe. Ela ainda olhou para ele, com os olhos suplicantes – &lt;i&gt;chama ajuda meu filho. Vai... - &lt;/i&gt;E foram as últimas palavras que Débora disse, antes de ser atingida pelo ferro de passar roupas, que Otávio trouxera de dentro de seu esconderijo. Não houve tempo para protesto ou surpresa. A mulher simplesmente desabou, rosto desfigurado, crânio amassado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Otávio se sentou na cama, separou as pernas da mãe. A criança ainda não havia sido expulsa completamente. Então, com suas mão aos redor da cabeça, puxou-a até que saísse por completo. Parecia sem vida, morta como a mãe. Tocou em sua pernas, balançando-as. Empurrou sua cabeça para os lados. E então, a coisa mais estranha do mundo aconteceu: um choro, vindo daquela menina suja de sangue. Otávio deu um pulo, assustado. Porém, se conteve e ficou olhando a criança mexer convulsivamente as pernas e os braços. Foram uns dois minutos. Não mais que isso. E o ferro de passar silenciou a criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padre Gustavo arfava. Sentia suas roupas cerimoniais grudadas ao seu corpo. Transpirava descontroladamente e percebia-se possuído pela história que ouvia. Era um estranho dentro de seu próprio corpo. Não tinha mais o domínio de si próprio. Submetido a uma história hedionda, sem poder gritar por socorro, sem poder evitar as imagens que vinham-lhe à mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E eu fugi de lá, Padre. Na verdade, calmamente saí do apartamento e busquei refúgio nas ruas. Vivi assim por algum tempo. Até que Dona Lígia resolveu me tirar da rua. Me levou para sua casa, legalmente procurou se informar sobre quem eu era. Mas nada havia. Ninguém para reclamar minha posse. Apenas minhas histórias inventadas sobre um abandono. Frequentei boas escolas, me dediquei muito, porque tinha um objetivo definido na vida: ver um nascimento novamente. E assim, me tornei ginecologista e obstetra. Nunca tive filhos meus. Porém, trouxe muitos ao mundo. Tive poucas mulheres. Todas clientes grávidas em estado avançado, adulteras ou mães solteiras. E, Padre, como eu trepei! Forte, vigoroso. Mas tudo isso era pouco. Não me tirava a dor, a angústia. Perto do que acontecera antes... era muito pouco. Então... - a Voz fez uma pausa profunda, mediante um suspiro que prenunciava o fim de sua história - Eu vou deixar um jornal sobre o banquinho. Esta foi minha 13a. vítima. A décima terceira mulher grávida em quem provoquei um aborto e matei: mãe e criança – Otávio se afasta da treliça e recosta-se sobre a parede - Me perdoe, Padre, porque eu pequei. E me arrependo com sinceridade e verdade em meu coração. Me arrependo profundamente, com a alma doída. Não suporto mais essa vida de mortes e sangue. Mas não tenho forças para resistir a essa necessidade, a essa angústia. Só o seu perdão poderá me dar a paz e a redenção para me livrar dessa maldição. Por piedade, Padre: dê-me seu perdão. Eu lhe suplico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padre Gustavo abana a cabeça em, sucessivos “nãos” - Como poderia? Como esse homem ousava pensar que tudo era tão simples assim? Era um louco, insano, que invadira sua mente com esta repugnante história, sua crueldade – pensava Gustavo, torturando-se profundamente na esperança de retomar sua lucidez – Eu não posso! Nem Deus poderia... o que você fez, doutor Otávio... eu não posso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então não há esperança para mim. E nem para as gestantes que eu possa encontrar... Padre, faça-me um último favor. Reze à Nossa Senhora de Guadalupe. A prece em favor dos  nascituros. E peça a ela que interceda por mim. Que obtenha o perdão dos que sacrifiquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E numa fração de segundos, um clarão, um estrondo. O corpo de Otávio tomba e arrebenta a portinhola do confessionário. Os poucos fiéis na igreja ainda chegam a tempo de verem o Padre Gustavo ajoelhar-se frente ao cadáver, fazer o sinal da cruz em sua testa ensanguentada e dizer-lhe – Então vá. E não peques mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mão de Otávio, ainda fumegava o cano do revólver calibre 38. Nos olhos de  Padre Gustavo, incontidas lágrimas lhe diziam que sua profissão de fé o tinha abandonado, ao estampido daquele disparo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-3276618805384285389?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/08/va-e-nao-peques-mais.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>14</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-4845304267665377438</guid><pubDate>Sun, 02 Aug 2009 20:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-02T17:17:11.986-03:00</atom:updated><title>Além da justiça de Deus</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;ALÉM DA JUSTIÇA DE DEUS&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Domenium&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som abafado das pás escavando com extrema frenesi ressoava em seus ouvidos, sendo a salvação para os lamurios fúnebres que ouvirá durante muito tempo debaixo daqueles escombros. A esperança tomou formas quando viu a luz adentrar pela senda que pouco a pouco aumentava. Januário estava coberto por terra e sangue. Retido por um pavor inexplicável, teve apenas força para dizer: “O sangue de Javé tem poder! Glória senhor!”. Ao sair do buraco seus olhos vislumbraram a voracidade da destruição e uma pequena multidão de curiosos que cultuavam a busca por novos sobreviventes; o jornal nas mãos de uma senhora, dizia: “Aquecimento Global: furacões devastam Estado”. Januário, pastor devoto, faz o sinal da cruz ao ver aterrorizante manchete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha senhor, vamos para ambulância. - consola, Moacir, o bombeiro, observando o estado débil do debilitado homem. Notando a vontade inviolável de suas mãos ao segurar um curioso rolo de papel manchado com sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão operou de forma estranha, breve e soturna na mente de Moacir. Não foram necessários 10 segundos após o seu imediato dizer: “Senhor, estão todos mortos aqui!” e a leitura do estranho rolo: “Lista dos escolhidos por Deus”. Onze nomes riscados a sangue! Como dito, não foram necessários 10 segundos; um disparo ecoou em meio a destruição, um corpo tombou no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente não há nenhum sobrevivente aí. Procuremos em outro lugar! - Concluiu Moacir com a sua fumegante justiça automática em punho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Imemoravel Templo das palavras&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;http://domenium.blogspot.com/&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-4845304267665377438?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/08/alem-da-justica-de-deus.html</link><author>noreply@blogger.com (DOMENIUM)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-5264929767717595180</guid><pubDate>Sat, 01 Aug 2009 19:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-01T16:15:02.785-03:00</atom:updated><title>O lado escuro da mente</title><description>Salve, salve povo congelado! :D&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu sempre gosto de coisas novas, variantes, hoje vou postar um conto relacionado com RPG (Role Playing Game), que é outra paixão minha, ainda que "adormecida" pela falta de tempo para jogar. Quem quiser maiores detalhes sobre RPG, o próprio site onde peguei este conto tem aos montes, além de outras fontes. Jogando "RPG" no Google tem milhares de sites que explicam o jogo, mas mesmo quem nunca jogou e nem sabe o que é isso, e acha que RPG significa apenas Reeducação de Postura Global (terapia), o conto é interessante e independente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este aqui eu retirei do site www.rpgonline.com.br , espero que gostem. O nome do autor esta abaixo, no texto (na verdade, o pseudônimo dele).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não reparem na quantidade de espaços que eu coloco no texto abaixo, nem com os ------ que eu coloco, esta tralha aqui, que é do Google, mesmo dono do Orkut, tem o mesmo problema do Orkut: você enche de espaços para centralizar algo e posta, quando vai ver, ele come os espaços e o que era para ser centralizado, fica no começo da linha. O mesmo se dá entre os parágrafos: eu deixo um espaço, ele não reconhece e junta o texto, dificultando a leitura, então dou sempre 2 espaços, se ele comer um, sobrará um. Não sei se isso acontece só comigo ou se é bug do sistema, sei que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa leitura, neste sábado frio e chuvoso. Os meteorologistas falaram que ia sair o sol hoje, mas vai ver que ele estava sem o seu capote (e touca - tem touca para o tamanho do sol?) e preferiu não sair, ficou nas profundezas do céu, escondido em sua toca celestial... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudações!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.E.I.'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;====================== * * * =========================&lt;br /&gt;-------------------&gt;      O lado escuro da mente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes nem os olhos abertos ajudam a compreender uma situação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: [D&amp;D] Frost Hyral&lt;br /&gt;Publicado em 3 de Março de 2008 às 16h27&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes nem os olhos abertos ajudam a compreender uma determinada situação. Em certos momentos eles servem apenas para confundir ainda mais, contradizendo com o que sua cabeça deseja acreditar, vendo coisas que não deviam estar ali. Era isso que acontecia com Roy naquela noite, mas não apenas a visão contribuía para confundi-lo, os ferimentos e a fraqueza também o deixaram assustado. Como ele foi parar ali? E talvez algo mais importante, que diabos de lugar era aquele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conhecia aquela estrada, não conhecia aquelas árvores mortas, aquela poeira, aquelas rochas, nem a vegetação rasteira, mas isso não era o que mais o perturbava, mas sim o que iluminava a existência dessas coisas: o fogo que queimava restos de corpos e carroças que se espalhavam por toda estrada e além dela. Os rostos estavam desfigurados demais para serem reconhecidos, as carroças destruídas demais, não havia nenhum sinal de cavalos, não havia nada que ele conhecia, até que seus olhos foram ao encontro de Clara, ela estava a poucos metros, jazia inerte próximo a uma rocha. Roy tentou se aproximar, foi então que notou que estava caído, seu casaco estava sujo com alguma coisa e suas pernas eram como um fardo que ele não conseguia carregar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastar-se com a ajuda apenas de seus braços era como escalar alguma coisa, porém ainda mais difícil devido a seus ferimentos, era como se suas mãos pegassem fogo sempre que forçavam o chão. Foi uma luta difícil, mas no final ele chegou até Clara. Não podia abandoná-la ali, ela havia salvado suas vidas inúmeras vezes, deixá-la seria como deixar uma parte de si mesmo. E após a dúvida sobre os pedaços que havia visto, se alguns deles não eram seus, não podia arriscar perder mais nada. Finalmente conseguiu colocar suas mãos em Clara e a analisou totalmente, algo faltava. Ela estava descarregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ruído próximo tirou sua atenção da arma, aparentemente, alguém também se encontrava confuso. Era um homem que já aparentava mais de meio século, sua barba e o que restava de seu cabelo já se encontravam em um meio termo entre o cinza e o branco. Estava tão sujo quanto o outro, embora ferido em uma hemorragia terrível. Roy percebeu nesse momento de quem era uma das pernas que vira ao acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah! Droga, bastardos, olhe o que fizeram! Eu sabia que eles viriam, mas de onde? Foi tudo tão rápido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho parecia dizer mais para si mesmo do que para qualquer outro, mas ficou apreensivo quando escutou o galopar de cavalos em algum lugar próximo. Roy só conseguiu distinguir o som dos estalos do fogo quando o outro silenciou. Chegaram tão rapidamente perto dos dois feridos que ambos se surpreenderam. Os homens montados eram sete no total, o que os liderou desceu de seu animal e retirou o chapéu, o que fez Roy perceber que também utilizava um. Seus dentes eram podres e seu rosto suado, seus olhos eram fundos e negros, o cabelo lembrava capim já morto, em suas costas carregava uma carabina, muito parecida com Clara. Roy fitou-o por alguns segundos e então se lembrou vagamente de quem era o homem, seu nome era Bob Conrad.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Woaah. Que confusão os senhores aprontaram aqui, não é mesmo? — disse Conrad olhando mais para Roy do que o velho. — Cheguei a pensar que o ouro também tinha ido junto com toda essa gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roy não conseguia entender sobre o que o homem estava falando, nada fazia sentido para ele naquele momento. A não ser as dores dos ferimentos em si mesmo que ele começava a diferenciar a origem. A dor na lateral de seu corpo provavelmente viera de algumas costelas quebradas, algumas pontadas de dor em alguns lugares diversos surgiram de algumas concusões e sua perna foi definitivamente baleada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Monstros, foram vocês que fizeram isso! — O velho manifestava uma raiva que parecia superior ao que ele podia suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sim, fizemos, perdemos muitos dos nossos no processo, mas a tristeza que sentimos por eles agora vai desaparecer em breve quando ficarmos com suas partes da pilhagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Conrad parecia se divertir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Malditos! Olhem para o que fizeram, será que não têm família?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não sei quanto aos outros, mas depois de hoje, se eu quiser poderei comprar uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repentinamente, o ancião surpreendeu novamente Roy ao tentar se levantar e ir ao encontro de Conrad, com sua fúria maior que si próprio. Entretanto, nenhuma fúria consegue ser maior que uma bala, para ser mais exato, uma bala que entra em um lado da face e sai pelo outro deixando uma cratera quatro vezes maior. Conrad guardou a carabina novamente em suas costas. Aquele foi o momento em que Roy pareceu conhecer os outros homens que estavam lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que um deles era o responsável por conseguir pólvora, era um homem instruído e falava muitas línguas. Outro era um mexicano, mal falava inglês e sabia contar apenas até seis, o necessário para recarregar e recomeçar a matança. Os outros ainda eram desconhecidos, pois também as chamas já começavam a se apagar e a escuridão tomava conta de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Roy, você vem comigo agora.  — Não era surpresa, se Roy conhecia Conrad a recíproca também era verdadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nãao.... eu.... — O som da própria voz era estranho para o homem ferido, então ele decidiu permanecer no silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah! Quem você acha que é para discutir? Para casa é que você não vai, isso se tiver uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sete homens haviam deixado uma carroça em um lugar próximo, Roy viajava jogado atrás de uma delas, outras pessoas também feridas estavam a seu lado, as infecções que podiam surgir dali eram inúmeras. Um dos homens havia levado Clara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Você vai simplesmente deixá-los levarem você? Deus sabe o que diabos vão fazer quando chegarmos vai saber onde! Seremos reféns com certeza, mas depois disso seremos inúteis! — Um homem que parecia ter morrido há dias era o dono dessas palavras. Roy pensou tê-lo reconhecido, qual era mesmo seu nome? William? Travis? Ele não conseguia lembrar, mas pelo que pouco conseguia recordar ele já devia estar mesmo morto, mas não tinha tempo para debates sobre vida e morte, queria apenas descansar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Hey, você é um tolo sabia? Alguém quer salvar sua vida aqui, eu já estou ferrado! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tudo que Roy queria era que o homem ficasse quieto. — Esse cara morto aqui do meu lado tem uma arma na cintura, você sabe atirar não é? É claro que sabe, hoje eu vi você matar muita gente, não venha me negar isso. Você é dos bons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem ficou quieto depois que Roy pegou a arma e a escondeu sob o casaco, ao contrário de Clara, estava carregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Jonas, Stuart e Michael morreram. — informou o homem que conseguia a pólvora. Roy acordou e olhou para os outros deitados na carroça e para o homem que os analisava, apenas ele estava se mexendo, ao seu lado o que havia falado com ele antes de adormecer estava calado até demais. Seu nome não era nem Jonas, Stuart ou Michael, até onde Roy conseguia se lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Roy, você está bem? — Conrad apareceu para verificar e notou que ele era o único a se mover. Então estendeu a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele gesto, estender a mão, era uma marca de Conrad, não, na verdade, a marca era a pistola de carga única por baixo da manga que ele utilizava em seus cumprimentos covardes. Roy sabia que estava ferido demais, sua união com os mortos apenas piorou sua situação, seja lá o que Conrad preparava para ele, não seria mais possível, era dia, as montanhas estavam distantes, assim como as cidades, Roy morreria até lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—  Foi o único a agüentar até aqui, considere-se um homem de sorte! — Conrad ainda estendia a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Talvez... um pouco de sorte para mim... — Roy tentou dizer. — Mas não para você. — Disse numa calma como se estivesse lendo uma receita de torta, então sacou a arma escondida com destreza. Alvejou Conrad, o homem da pólvora e um terceiro que não conseguia se lembrar, antes que esses pudessem perceber o que havia se passado. Arrastou-se para fora da carroça e olhou para onde os homens haviam acampado. Nenhum deles parecia estar a caminho, talvez tenham pensado que os tiros pertenciam a Conrad e os outros com a finalidade de matar os doentes como ele. Estavam enganados, Roy pensou, os tiros não pertenciam a Conrad nem aos outros homens, mas as balas agora eram deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perda de consciência já se tornara algo comum. Roy sabia que havia caminhado o máximo que pode naquele deserto. O sol havia esquentado tanto sua cabeça que ele não mais se importava, pensamentos fluíam em seu cérebro de forma desordenada como um quebra-cabeça. Ele caiu mais uma vez, primeiro de joelhos, depois de todo o corpo, mas antes que navegasse pelo rio da inconsciência, conseguiu amontoar algumas peças de suas lembranças:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava em seu cavalo, Clara em mãos, uma caravana passaria por ali a qualquer momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Temos homens infiltrados. — O homem no outro cavalo disse. — Eles sabem o sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Soube que há um grande carregamento de pólvora na caravana, além do ouro. — Disse Roy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sério? Então eles deviam trazer mais homens com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Acho que já estão em grande número.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Humph... De todo modo, vou preparar para dar o sinal. Deseje-me sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Boa sorte. — Disse Bob Conrad.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--------------------&gt;  F I M&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;====================== * * * =========================&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-5264929767717595180?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/08/o-lado-escuro-da-mente.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-2359202026685395558</guid><pubDate>Fri, 31 Jul 2009 14:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-01T10:32:08.966-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">violência</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">sacrifício</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">holocausto</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">imolação</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">dor</category><title>A Santa Imolação</title><description>&lt;p align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;- Me safar, Maninho? Me explica como é isso? Como um pai que segurou o filho nos braços...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt; Emanuel fecha os olhos, apertando com força as pálpebras, ao mesmo tempo em que tenta equilibrar o inspirar e expirar. Porém, o tremor nos maxilares não se aquieta. Esfrega as costas da mão sobre os olhos, abortando as lágrimas por nascerem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;  - Ele tinha oito anos, Maninho. O moleque era alegre, não maltratava ninguém. Estudava muito, só tinha notas boas... ele iria sair daqui um dia, Maninho. Seria “gente de bem”. A primeira pessoa em minha família que seria. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;"&gt;  Emanuel luta contra suas emoções novamente, desta vez socorrendo-se em uma pausa prolongada nas palavras e o acender de um cigarro. Dá umas boas tragadas até erguer os olhos de encontro aos de Maninho. Sente-se timidamente satisfeito, ao ver o horror nos olhos de seu interlocutor. E sente-se homem por enfim poder olhá-lo nos olhos, sem temer, sem ser submisso, refém das vontades do outro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt; &lt;span style="font-size:100%;"&gt;  - Me explica como é isso, Maninho? Eu vi o sangue encharcar o peito da camisa dele, eu contei cada gemido e suspiro. Eu o ouvi implorar, Maninho: “pai, pai, me ajuda. Tá doendo muito. Eu não quero morrer... Me ajuda, pai.” E eu disse que tudo iria ficar bem, que eu não deixaria que ele morresse – aperta o cigarro entre os lábios e puxa uma boa porção de fumaça para dentro de sua boca - Eu menti pra ele. Minhas últimas palavras para o meu filho foram uma mentira, Maninho!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Emanuel não tinha mais forças para segurar a emoção. Baixa a cabeça e o olhar e deixa que o pranto desfigure seu semblante. A sua frente, assustado, sem compreensão da dimensão do que estava por ocorrer, Maninho o fita. Sente ódio de Emanuel. Ódio desse senhor de quarenta e tantos anos, baixo, magro, fraco... Como ele pudera aprisioná-lo? Como ele pudera fazer Maninho refém, deixá-lo a sua mercê? Emanuel era apenas um homem comum. Um homem como tantos outros moradores daquela favela miserável. Mais um dos que viravam o rosto ou baixavam os olhos para não “verem”, na esperança de não “serem vistos”. E agora Maninho estava ali, preso aos grilhões na parede crua de alvenaria, olhando para Emanuel – Um merda – mas que o fizera prisioneiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Caralho Emanuel! E você acha que me matar vai resolver isso? Você vai é foder com tudo de uma vez. Você tem família, você tem mais dois filhos. O que você acha que vai acontecer com eles? Assim que meu pessoal souber que foi você... cara, você é um homem morto!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  E Emanuel gargalha, levantando a cabeça e olhando para Maninho. Limpa o rosto com o punhos da camisa. Levanta-se da cadeira e acocora-se frente a seu prisioneiro. A centímetros da face de Maninho, sente seu hálito podre, ve o medo em seus olhos. E sente-se poderoso, como nunca. Aperta o pescoço de Maninho. Não para matá-lo, mas apenas para vê-lo sofrer com a escassez de ar  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   – Desde que nasci, Maninho, sou um homem morto. Rastejando pelos becos, como uma pálida sombra. Fugindo da violência e insultos de meu pai, fugindo dos moleques enturmados aqui na favela e na escola, rezando para ser deixado em paz por todos. Para poder viver minha vida. Só isso... Mas que vida tem um homem morto? - solta a garganta de Maninho, empurrando sua cabeça de encontro aos tijolos da parede.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Regozija-se ao ver dor e medo nos olhos de seu prisioneiro. Levanta-se revitalizado, sem tirar os olhos de Maninho. Subjugar aquele homem lhe dava força, lhe dava vida. A vida que nunca tivera. Vira-se e caminha até uma pequena janela basculante, esculpida junto a porta de entrada daquela cozinha em construção. Lança o olhar pela frestas entre as abas. Parecia procurar por alguém, por alguma notícia ou manifestação do mundo lá de fora. Porém, na escuridão da madrugada ficava difícil ver com clareza. O local era pouco iluminado. Quase como na favela de que vinha. Na favela de Maninho. Sombras e mais nada. Olha para seu relógio e pensa – Alfredo está atrasado – e isso podia ser preocupante. Volta-se para a cadeira e senta, apontando a arma para Maninho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - O mais cruel Maninho, é que precisei de você e daquela corja de vagabundos que cuidam do tráfico na favela... de você e daqueles policiais canalhas que deram a batida. Precisei que meu filho mais novo morresse para poder descobrir o quanto eu mesmo já estava morto. E o quanto não valia nada aquela vida. Você vê, Maninho? Entende? Eu devo a vocês essa descoberta. E eu devo a vocês ter renascido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Você acha que me matar vai te fazer vivo? - e Maninho pôs-se a gargalhar. Quase histérico, tentando entender o que passava pela cabeça de Emanuel. Percebeu que seu algoz mantinha os olhos fixos nele, sem qualquer expressão no rosto. Maninho não podia desequilibrá-lo. Não podia fazer com que puxasse logo aquela porcaria de gatilho e acabasse com sua espera. Não tinha medo de morrer. Entretanto, se horrorizava por ser subjugado. Conhecia a crueldade. Praticava a crueldade com maestria. E um tiro, um único disparo em seu peito, lhe parecia uma morte boa e digna - Emanuel, pensa bem... eu não dei nenhum tiro. Meus camaradas se defenderam, revidaram os disparos dos homens. Dos policiais que mataram seu filho. Foram eles, Emanuel. Você sabe que foram – Emanuel continuava a olhá-lo, impassível – Faz assim: me solta. Eu deixo pra lá. Te mato, mas com honra, com dignidade. Um tiro na cabeça e acabou. E libero uma grana legal para tua mulher, para teus filhos. Eles vão poder sair daqui. O que me diz? É um bom trato. E não matei teu filho, porra! Aceita então.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Todos nós o matamos, Maninho. Cada morador dessa maldita favela, cada policial e traficante. Cada pessoa nessa cidade que não fez nada, nada mesmo para impedir que isso acontecesse. E acontecesse de novo e de novo e de novo – balançou a cabeça levemente, numa negativa – Quantas vezes eu vi isso na TV? Quantas crianças mortas, velhos mortos, mulheres mortas. Por balas que eram para você, Maninho. Para os policiais... e eu não abri minha boca, se não para uns resmungos de piedade. Não movi um músculo... Até que foi o meu filho. E eu tive que passar por essa dor para saber. Seis meses em agonia, sofrendo por não ter feito nada, para agora saber que preciso fazer. Para não acontecer de novo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - E me matar vai acabar com as balas perdidas, seu velho de merda?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Eu não vou te matar, Maninho. Você é lixo, escória. Não representa nada pra ninguém. Nem para os seus. No outro dia, teria um novo chefe do tráfico. No outro dia, tua mulher botava um outro homem na cama. Você não vale nada e não tem serventia para o meu plano.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - E pra que você me pegou, seu porra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-weight: normal;font-size:100%;" &gt;  - Para assistir a dor nos seus olhos, como eu assistia a TV antes de meu filho... -  e as batidas na porta cortam suas palavras. Aguça os ouvidos, tentando buscar mais sons, mais pistas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Emanuel, abre. Sou eu, Alfredo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Até que enfim – disse Emanuel, levantando-se rapidamente de sua cadeira e correndo em direção a porta. Abriu-a.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Alfredo era um senhor negro baixinho, pouco mais de 1,60 de altura, barrigudo, camisas puídas sempre para fora das calças bastante manchadas pelas tinta dom ofício de pintor. Alguém que há muito tempo, não se importava. Viúvo, dois filhos presos por tráfico de drogas, camaradas de Maninho. Ao lado dele, um homem branco, forte, 1,80 e tanto de altura, fardamento da policia, cabeça encoberta por um capuz negro. A cena era até que cômica. Ou surreal. Como um pequenino daqueles conseguira a proeza de capturar aquele grandalhão?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - E então? - indagou-lhe Emanuel, dando passagem para que Alfredo e seu prisioneiro entrasse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Me ajude a prendê-lo na parede – pediu Alfredo. Os dois sentaram o homem ao lado de Maninho, que assistia com surpresa a tudo aquilo. Abriram as algemas presas por trás das costas e prenderam-as nas presilhas fixas na parede. Alfredo puxou o capuz negro e todos viram o rosto desesperançado do Tenente Rodrigues, amordaçado.  Alfredo e Emanuel afastaram-se dos prisioneiros, falando baixo para não serem ouvidos. Os olhos do policial examinaram atentamente o local. Mas era um olhar sem vida, de alguém que já havia desistido. Ele parecia saber sobre seu trágico destino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Alfredo! - gritou Maninho – Você sabe que teus filhos vão morrer, se você se envolver com esse louco. Eu tô cuidando deles, protegendo eles lá dentro da cadeia. Mas se eu morrer, eles morrem também. E não vai ser de uma morte bonita de se ver, velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Meus filhos já morreram faz tempo. Quando você os adotou. Quando a sua Droga tirou eles de mim. Não tenho filhos por quem eu possa fazer algo. Mas posso fazer pelos filhos de outros, que ainda nem nasceram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Você e esse outro maluco acham que são super heróis? Acham que matando um traficante e um policial tudo se resolve? Que isso paga tudo? E que o mundo vai ser salvo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Emanuel sorriu – Você não vai morrer, Maninho. E nem o Tenente Rodrigues. Já te disse isso – olhou para Alfredo – Você trouxe as fotos? - Alfredo fez um sim com a cabeça e entregou o pequeno pacote pardo à Emanuel, que abriu-o e folheou os dois álbum – Solta a mão esquerda de cada um deles – ordenou a Alfredo, que o atendeu prontamente, sob a proteção de seu revolver.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Tanto Maninho quanto o Tenente Rodrigues flexionavam as mãos para livrarem-se da dormência. Emanuel apenas observava-os, buscando capturar o estado de espírito daqueles homens. Buscando compreender qual seria o melhor momento para seu golpe final – Agora são duas e cinquenta e cinco da manhã. A nossa Favela esta praticamente dormindo. Fora os teus Camaradas, sempre atentos, sempre prontos para vender mais um pouco de morte. Mas nós demos um jeito neles também - sorri novamente - Não, Maninho. Não morreram e nem vão morrer. Não vai haver mortes de canalhas nesta noite. Apenas Sacrifícios. Sagrados.e puros. Para levar nossa mensagem aos homens e a Deus.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Um calafrio percorreu a espinha de Maninho – Do que você tá falando, seu maluco? Que porra de sacrifício é esse? - olhou para o Tenente e viu lágrimas brotarem nos seu olhos – Você sabe? Você tá entendendo esse doido?  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;   - Ele sabe sim. Ou supõe. Foi pego dentro de sua própria casa. Aguardou por lá, enquanto eram feitos os preparativos. Enfim, viu tudo. Entendeu a trama – Emanuel andou em direção aos dois homens e jogou-lhes sobre o colo um álbum de fotos para cada um. O Tenente Rodrigues apenas chorava. Mesmo com a mão solta, não se preocupava em tirar sua mordaça e nem segurar o álbum com as fotos. Já entendera tudo, já percebera o desfecho da história. E não tinha forças sequer para protestar. Ou gritar por socorro – As três horas da manhã nossos dispositivos vão disparar. O fogo vai se alastrar rapidamente. Não sobrará muito para ser visto depois. De uma boa olhada nas fotos, Maninho. São as últimas imagens de sua família viva. Porque em cinco minutos, ela vai queimar.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Os olhos de Maninho arregalaram-se em desespero -  Minha família – e foi folheando as fotos de seu álbum. O pequeno Lucas, sua esposa, sua mãe e até o seu irmão mais novo, Jonas. Todos ali, amordaçados e amarrados juntos a galões de gasolina – Meu Deus, Emanuel! Não faz isso caralho. Me mata, mas não faz isso porra! Não mata eles não... eles não te fizeram nada. Fui eu, fui eu .. Eu, meus camaradas, os policiais... Minha família não...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Emanuel e Alfredo dão as costas aos homens e se encaminham para a porta. Antes de sair, porém, Emanuel volta-se para Maninho e Rodrigues – Neste mesmo horário, a favela pegará fogo. O incêndio será feroz, voraz em demasia. Mas só as crianças, velhos e mulheres estarão nos barracos. Nossos companheiros já removeram os homens adultos – sorri, ao ver os olhos de Maninho cheios de lágrimas, em desespero e até incredulidade - Isso, Maninho. Somos em muitos. Quarenta pessoas que simplesmente cansaram-se e... entenderam que só a imolação  pode reparar o mundo. Só quando cada Homem, culpado por omissão ou crueldade, perceber o quanto dói a vida. E entender que é preciso acabar com a bestialidade – Emanuel confere seu relógio. Em um minuto, começaria o Inferno na Terra. Em um minuto, estaria ele próprio condenado a danação eterna. Mas não havia outra forma. Não via como tocar o coração daqueles homens se não fosse assim, com a própria crueldade com que traçaram suas vidas – Minha família também está lá. Meus outros dois filhos, minha esposa – nem se preocupou em deter uma lágrima que deslizou por sua face – As TV s e Jornais vão receber a matéria, assim  que estiver consumado o sacrifício. Saberão também onde encontrar vocês dois. Saberão também o porque de tanta dor em uma só noite. E também saberão em que Igreja me encontrar, juntos aos meus novos companheiros, prontos para um tiroteio final. Um último confronto entre “mal” e o “mal”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Os dois homens saem e fecham a porta da casa em construção, deixando para trás o pranto dos vencidos  Maninho e Rodrigues. Emanuel contempla o horizonte avermelhado. Há poucos quilômetros dali, as chamas lambem as madeiras dos barracos. Emanuel faz o sinal da cruz. Porém, não pediria perdão. Não havia perdão para o que acabará de fazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-2359202026685395558?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/santa-imolacao.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>22</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-5885179609201235377</guid><pubDate>Wed, 29 Jul 2009 18:13:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-08-10T17:15:50.357-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">assassino</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">justiça</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">corpo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">cadeira elétrica</category><title>O crime perfeito</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Matou sem piedade! Não demonstrou arrependimento. Enterrou o corpo esquartejado no quintal da própria mansão. Não fossem os cães de guarda que ficavam soltos durante a noite, as partes que um dia pertenceram ao corpo de sua esposa, não seriam encontradas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jane Gutemberg estava grávida de seis semanas. É um assassino frio e cruel, peço que seja executado! - Gritava John Bosch, o advogado de acusação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lá fora do tribunal de justiça, ouvia-se os gritos da multidão indignada:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Cadeira elétrica ao criminoso! Cadeira elétrica ao criminoso!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E cartazes eram erguidos, várias coisas estavam escritas, mas o que mais se podia ler era:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Justiça!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Repórteres de diversas emissoras se revezavam em busca de notícias como abutres em cima de carniça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O juíz, Jack Millor, bateu o martelo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Culpado!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;William Gutemberg seria executado dentro de dois anos. Passaria esse período no corredor da morte. O réu saiu escoltado por policiais e, aos berros, dizia:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sou inocente, não matei minha esposa!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Michael Watson, advogado de defesa, amigo da família, sócio de Gutemberg num grande empreendimento em que seria único beneficiário com a morte do réu visto que o mesmo não possuía mais familiares, e amante de Jane, observava-o cinicamente com um meio sorriso e pensava:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Perfeito! Ambos fora do meu caminho, Jane está morta e William preso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Sandra&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-5885179609201235377?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/o-crime-perfeito.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>11</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-6437984984684702318</guid><pubDate>Sat, 25 Jul 2009 13:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-07-25T10:00:04.459-03:00</atom:updated><title>O Coração Delator - Poe</title><description>Saudações pessoal! :)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma semana se passou, e como estou de férias, parece que ela passou rápido demais...enfim, esta semana vou postar um conto de outro mestre do gênero, também de domínio público, espero que gostem. Vou sempre mesclar aqui contos de autores com contos pessoais, acho que fica interessante. Sendo assim, boa leitura e até semana que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[]s&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.E.I.'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===============================================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração delator&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edgar Allan Poe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre - um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça. Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Quem está aí?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: "Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão", ou "É só um grilo cricrilando um pouco". É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza - todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo - ha! ha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.&lt;br /&gt;Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia - e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! - Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===============================================================&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-6437984984684702318?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/o-coracao-delator-poe.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-880557413948531547</guid><pubDate>Fri, 24 Jul 2009 08:25:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-09-15T09:18:50.904-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">assassino</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">criança</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">coração</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">maníaco</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">canibalismo</category><title>As preocupações de Dona Marilza</title><description>&lt;style type="text/css"&gt;  &lt;!--   @page { margin: 2cm }   P { margin-bottom: 0.21cm }  --&gt;  &lt;/style&gt; &lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; - O mundo está perdido mesmo – pensou Dona Marilza ao terminar de ler uma das notícias de capa do jornal, dando conta de mais um horrível crime do Maníaco do Coração – Acham que é algum ritual satânico...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Mas hoje ela não tinha tempo para refletir muito sobre essas maluquices. Tampouco,  tinha a compreensão da mente humana para as crueldades. Como era possível conceber uma pessoa que matava o semelhante para devorar-lhe o coração? E ainda mais, matava crianças? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Nos seus tempos de juventude também houveram pessoas más. O Bandido da Luz Vermelha, o Chico Picadinho e outros tantos que não tinham piedade nenhuma - Pessoas sem alma! - que aterrorizavam o imaginário coletivo. Mas eram notícia de página inteira. E por meses. Hoje em dia, um crápula deste era só mais uma entre tantas outras notícias ruins estampadas ali. Um pouquinho mais de destaque talvez, por ser a oitava vítima – Quase três por mês – fez as contas e arrematou– Só pode ser essa porcaria da droga!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ainda deu uma olhada na foto da menina, estirada numa clareira de um matagal qualquer, com o peito completamente aberto – O Toninho precisa parar de comprar estes jornais. Como publicam uma foto dessas? Não pensam na família da pobre  criança?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Mas Dona Marilza tinha outras preocupações agora. Precisava terminar a encomenda de salgados para a festa da Dona Cleide até as 18:00 horas, para que o Toninho pudesse entregá-los e receber a outra metade do pagamento. Depois da aposentadoria de seu marido há dez anos, por conta de um infarto, essa sua atividade de salgadeira já representava a maior fatia da renda familiar. Sem ela, a vida seria bem difícil. E não perderia uma cliente por ficar de tagarelice com os seus próprios pensamentos. Em todos os anos de encomendas aceitas, nunca perdera a hora de uma só festa. Não seria hoje que isso aconteceria – Ainda mais com a Cleide, que é tão amiga! Ah, mas não vou perder a hora mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Porém sabia que trabalharia com o coraçãozinho apertado, por ver a menina toda ensanguentada – Pobrezinha... deve ter sofrido muito na mão desse animal! - Mesmo que o jornal dissesse que nenhuma das vítimas havia sido abusada sexualmente ou torturada. O Maníaco  somente as matava. Um única e precisa facada no peito. E depois, abria o tórax da vítima e arrancava-lhe o coração – Dizem, que pra comê-lo à dentadas – e se horrorizou ao visualizar em sua mente a imagem de um homem medonho, endemoniado mesmo, mastigando os corações das crianças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Assim, Dona Marilza foi passando sua tarde. Entre um pensamento e outro, sobre os crimes que lhe afligiam, e o empanar de suas coxinhas de frango. Perto das 17 horas, começou a fritar os 300 quitutes e armazená-los no forno pré-aquecido – Quando meu marido Toninho entregá-los, ainda estarão quentinhos – raciocinou com satisfação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Mesmo com tudo correndo bem e de acordo com o planejado, não conseguia livrar-se daquela maldita notícia – Quantos anos teria aquela pobre menina? Doze, Onze anos? - parecia-lhe tão jovem e bonita. A pele clara, cabelos loiros e compridos, uma franjinha delicada... E de repente, vinha aos seus pensamentos sua neta Talita – Meu Deus, proteja minha menina!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A semelhança entre as vítimas e sua neta ficava mais evidente a cada novo ataque. Era como se o assassino fosse aprimorando a arte de escolher suas vítimas, buscando enfim a beleza de sua neta como objetivo final. E isso dava arrepios em Dona Marilza – Que bobagem, mulher! - tinha dito Toninho ao ouvir suas observações  – Ele ataca meninas. Brancas e loiras. E só nisso se parecem com a nossa Talita. E ponto! - Mas não adiantava-lhe em nada ouvir as palavras do marido. Sentia a aflição subir-lhe pela garganta, estreitando os caminhos do ar. Cada nova criança morta, mais semelhanças com Talita ela via. E temia pelo dia em que abrisse o jornal e lá estivesse a neta, estirada no matagal – Ai Meu Deus, não permita que esse monstro toque nela!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Os salgados estavam fritos enfim. E ainda tinha uns vinte minutos de folga. O que era bom, para poder tomar um café com o Toninho. Mas não tão bom para as coxinhas, que poderiam perder a aparência de frescor, se ficassem muito tempo presas na embalagem recoberta por papel alumínio, sem respirarem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mesmo assim, pôs duas xícaras à mesa, encheu-as de café e leite e chamou – Toninho! Vem tomar um café antes de fazer a entrega da Dona Cleide – e Seu Toninho atendeu rapidamente ao chamado de sua mulher, porque junto com esse cafezinho, com certeza teria um prato de salgados para beliscarem. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ao se aproximar da mesa, os olhos de Toninho brilharam, admirando os quibes,  bolinhos de carne,  coxinhas de frango e bolinhas de queijo. Tudo quentinho, só para os dois. Deu um sorriso – Sabe mulher, se não fosse por estes teus mimos antes das entregas, juro que eu arranjava outro emprego. O salário que me pagas é péssimo – e soltou sua gargalhada mais estridente – mas a marmita.... hum, compensa toda tua muquiranice!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Dona Marilza deu-lhe um leve tapa no ombro e mandou-o sentar-se. Ao que obedeceu prontamente, já passando a mão num bolinho de carne e dando-lhe uma boa mordida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; - Sabe Toninho... eu queria pedir para você não comprar mais esse jornal horrível. Nenhum jornal... Ou que não os deixe  aqui em casa, ao menos. Leia e depois largue-os lá no carro. Não quero mais ver notícias sobre aquele homem... você sabe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Seu Toninho solta um suspiro paciente. Por dez longos anos, a mulher sempre voltava a esse assunto. E Toninho sentia os olhos arderem-lhe, sempre que acontecia esta conversa insólita. &lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Balançando a cabeça, desenha no ar um sim silencioso. Resignado, pega seu jornal de esportes, que trazia na primeira página fotos dos heróis da última rodada do Brasileirão, dobra-o ao meio e enfia-o no bolso de trás das calças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Queria poder abraça-la, dizer “esta tudo bem, Marilza. Já passou, já foi”. Mas como,  se para Marilza, a qualquer instante Talita entraria por aquela porta, com seu sorriso aberto e gritando? – Vó, vó, olha só que eu fiz na escola pra senhora – E pularia num abraço apertado em Toninho e na avó. E então dariam-lhe  os salgadinhos e brigadeiros de que tanto ela gostava, enquanto olhariam os desenhos feitos para ela.  &lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; – A nossa Talita... - deixou escapar num murmúrio – de quem aquele maníaco tirou a vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;- Não Toninho! Não diga uma bobagem dessa! Nem por brincadeira... – Dona Marilza cobre a o rosto com as mãos em concha – Eu sei que ele quer isso, ele quer Talita. Eu vejo nas fotos. São tão parecidas, meu Deus... Mas Deus é mais forte. Não vai deixar isso acontecer. Não vai acontecer... Nunca mais diga isso Toninho – e o choro miúdo de Marilza surpreende o silêncio da cozinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Toninho faz um carinho nos cabelos desgrenhados da esposa – Me desculpe, mulher. Não devia ter dito. Me perdoe. Vamos deixar pra lá. Deus é mais forte mesmo. E Ele cuidará de nossa menina – Fecha os dedos, entrelaçados aos cabelos de Marilza, num aperto, enquanto cerra os olhos, expulsando a força suas lágrima. Tão doídas quanto as que deixara cair ao reconhecer o corpo de sua neta, dez anos atrás. Uma linda menina de 11 anos, de pele branquinha, cabelos dourados e brilhantes, deitada no mármore do Instituto Médico Legal. Não havia mais sorriso em seus lábios, não havia mais cores em seu rosto. Apenas um buraco em seu peito, por onde a vida se esvaíra. E uma menção nos jornais de que a nona vítima do Maníaco fora encontrada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Um assassino bestial, que arrancava mais que o coração de suas vítimas: arrancava do mundo a alegria, a esperança e a fé; nos homens e em Deus.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O peito de Toninho arde, como naquele dia distante. Porém, desta vez não podia infartar. Tinha que cuidar de Dona Marilza. Tinha que entregar os salgadinhos na casa de Dona Cleide.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western"  style="margin-bottom: 0cm; font-weight: normal;font-family:georgia;" align="JUSTIFY"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-880557413948531547?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/as-preocupacoes-de-dona-marilza.html</link><author>noreply@blogger.com (J.S.Pereira)</author><thr:total>18</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-774055628887630256</guid><pubDate>Sat, 18 Jul 2009 05:46:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-07-18T02:58:12.688-03:00</atom:updated><title>A  Fera na Caverna</title><description>Pessoal, hoje posto um conto de um autor que eu havia citado na minha primeira coluna. Este conto, H.P. Lovecraft, escreveu quando tinha entre 15 e 20 anos (a data de nascmento dele é imprecisa), representa uma das vertentes dele e se aplica muito bem ao tema de nosso blog, sendo um dos seus melhores trabalhos, ainda que precoce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que gostem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N.'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;============================     ***     ============================== &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A FERA NA CAVERNA - H.P. Lovecraft&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conclusão terrível que vinha se impondo gradualmente sobre minha mente confusa e relutante era agora uma certeza aterradora. Eu estava perdido, completa e desesperadamente perdido nas vastas e labirínticas reentrâncias da Caverna Mamute. A situação se apresentava de tal forma que, por mais que forçasse a visão, em nenhuma direção era possível distinguir qualquer objeto capaz de servir como um ponto de referência que me colocasse no caminho da rua. Que eu nunca mais contemplaria a luz abençoada do dia nem correria os olhos pelos montes e vales aprazíveis do belo mundo exterior minha razão não podia mais alimentar a menor descrença. A esperança havia partido. Entretanto, doutrinado como fui por uma vida de estudos filosóficos, não deixei de sentir uma grande satisfação com minha conduta desapaixonada; pois apesar de ter lido freqüentemente sobre os frenesis desvairados a que as pessoas vítimas de situações similares se entregam, não senti nada disso, e fiquei calmo tão logo percebi claramente que havia perdido o senso de orientação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tampouco o pensamento de que provavelmente teria me afastado além dos limites máximos de uma busca comum fez com que abandonasse minha postura sequer por um instante. Se devo morrer, refleti, essa caverna terrível e majestosa será tão bem-vinda como uma sepultura quanto a que qualquer cemitério de igreja poderia me proporcionar, uma idéia que trazia consigo mais tranqüilidade do que desespero.&lt;br /&gt;A fome seria meu destino final, disso eu tinha certeza. Alguns, eu sabia, tinham enlouquecido numa circunstância como essa, mas eu sentia que aquele não seria o meu fim. O desastre que vivia era resultado de minha inteira responsabilidade, já que, sem avisar o guia, havia me separado do grupo ordeiro de visitantes; e, perambulando por mais de uma hora em caminhos proibidos da caverna, vi-me incapaz de retornar pelas curvas tortuosas que havia seguido desde que abandonara meus companheiros.&lt;br /&gt;A tocha já começava a apagar-se; logo eu seria coberto pela escuridão total e quase palpável das entranhas da terra. Parado na luz instável e decrescente, refleti em vão sobre as circunstâncias exatas do fim que se aproximava. Lembrei dos relatos que ouvira da colônia de tuberculosos que passara a morar nessa gruta gigantesca buscando curar-se com a atmosfera aparentemente sadia do mundo subterrâneo, com sua temperatura estável e uniforme, seu ar puro e ambiente sossegado, mas que haviam encontrado em vez disso uma morte estranha e horripilante. Eu vira os escombros tristes das suas cabanas malconstruídas quando passara por elas com o grupo e tinha me perguntado que influência antinatural uma longa estada nessa caverna imensa e silenciosa exerceria sobre um homem saudável e vigoroso como eu. Pois chegara a oportunidade de tirar essa dúvida, afirmei severamente, desde que a falta de alimento não acarretasse uma partida muito rápida dessa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os últimos raios intermitentes da tocha desapareceram aos poucos até a obscuridade, decidi que não deixaria uma pedra sem revirá-la e nenhum meio possível de saída seria negligenciado. Assim sendo, reunindo toda a capacidade dos meus pulmões, dei uma série de gritos na esperança vã de chamar a atenção do guia com meu clamor. Enquanto chamava, entretanto, tinha certeza de que as súplicas não tinham efeito algum e que minha voz aumentada e refletida pelas inumeráveis plataformas do labirinto escuro à minha volta não chegavam a nenhum ouvido a não ser os meus.&lt;br /&gt;De repente, no entanto, parei para prestar atenção quando imaginei ter ouvido o som suave de passos que se aproximavam no chão rochoso da caverna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha libertação seria conseguida tão cedo? Todas as apreensões terríveis então haviam sido por nada e o guia teria notado a minha ausência desautorizada e seguido o meu curso procurando-me nesse labirinto de calcário? Enquanto essas indagações felizes surgiam no meu cérebro, eu estava prestes a renovar meus gritos a fim de que me descobrissem de uma vez, quando num instante minha alegria transformou-se em horror. Minha audição, que sempre fora sensível e que agora estava mais aguçada ainda com o silêncio completo da caverna, transmitiu para minha compreensão entorpecida a consciência inesperada e terrível de que aqueles passos não eram como os de qualquer homem mortal. No silêncio fantasmagórico dessa região subterrânea, o caminhar do guia calçando botas teria soado como uma série de batidas secas e incisivas. Os impactos eram suaves e furtivos, como os das patas de algum felino. Além disso, quando prestei bastante atenção, eu parecia acompanhar as batidas de quatro pés em vez de dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava convencido agora que tinha provocado e atraído alguma fera selvagem com meus próprios gritos, talvez um leão das montanhas que se perdera acidentalmente dentro da caverna. Talvez, considerei, o Todo-Poderoso tenha escolhido para mim uma morte mais rápida e misericordiosa do que a da fome; o instinto de autopreservação, entretanto, que nunca estivera completamente adormecido, foi incitado em meu peito e, embora a fuga do perigo iminente pudesse apenas me poupar de um fim mais sombrio e prolongado, decidi-me mesmo assim a vender a vida o mais caro possível. Por mais estranho que possa parecer, minha mente não concebeu outra intenção por parte do visitante a não ser a hostilidade. Dessa maneira, não fiz ruído algum, na esperança de que a fera desconhecida perdesse seu senso de direção na ausência de um som que a guiasse como ocorrera comigo e, assim, passasse ao largo. Mas essa esperança não estava destinada a se concretizar, pois os passos estranhos avançavam firmes. Tendo evidentemente sentido meu cheiro, o animal poderia sem dúvida segui-lo a uma grande distância, algo factível numa atmosfera como a de uma caverna tão absolutamente livre de todas as influências que pudessem distraí-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo, portanto, que eu tinha de estar armado para defender-me contra um ataque sinistro e oculto no escuro, tateei em meu redor em busca de fragmentos maiores de rochas que estavam espalhados por todas as partes do chão da caverna, e, pegando uma em cada mão para usá-las naquele momento, esperei com resignação pelo resultado inevitável. Enquanto isso o ruído hediondo das patas se aproximava. O comportamento da criatura era certamente muito estranho. A maior parte do tempo os passos pareciam ser de um quadrúpede, caminhando singularmente sem um ruído uníssono entre as patas traseiras e dianteiras, entretanto, em intervalos breves e esporádicos, eu imaginava que apenas duas patas estavam envolvidas no processo de locomoção. Fiquei a me perguntar que espécie de animal iria confrontar-me; ele devia ser alguma fera azarada que pagara por sua curiosidade de investigar uma das entradas da gruta temível com um confinamento perpétuo nessas reentrâncias intermináveis. Sem dúvida ela obtinha como alimento o peixe sem olhos, os morcegos e os ratos da caverna, assim como alguns dos peixes comuns que são levados pelas cheias do Rio Grande, que se comunica de alguma maneira oculta com as águas da caverna. Eu ocupava minha vigília terrível com conjecturas grotescas sobre quais alterações a vida na caverna havia provocado na estrutura física da fera, lembrando das aparências pavorosas atribuídas pela tradição local aos tuberculosos que tinham morrido após uma longa permanência nela. Então lembrei subitamente que, mesmo tendo sucesso em abater meu antagonista, eu nunca contemplaria a sua forma, pois minha tocha há muito apagara e eu estava completamente desprovido de fósforos. A tensão no meu cérebro agora era espantosa. Minha fantasia desordenada evocava formas hediondas e temíveis na escuridão sinistra que me envolvia e que na realidade parecia fazer pressão sobre meu corpo. Então os passos medonhos começaram a se aproximar cada vez mais. Achei que deixaria escapar um grito estridente, mas mesmo que fosse suficientemente indeciso para tentar algo do gênero, minha voz mal responderia, pois estava petrificado e preso ao chão. Eu duvidava se o braço direito me deixaria arremessar um projétil quando chegasse o momento crucial. Nesse instante o pat, pat regular dos passos se aproximava e agora estava muito próximo. Eu podia ouvir a respiração cansada do animal, e, aterrorizado como estava, percebi que ele tinha de vir de uma distância considerável, já que estava similarmente fatigado. De repente o feitiço foi quebrado. A mão direita, guiada pela minha audição sempre confiável, jogou com força total a pedra afiada de calcário na direção do ponto no escuro de onde emanavam a respiração e os passos; e, para meu deleite narrativo, quase acertou o alvo, pois ouvi a criatura pulando e pousando um pouco distante, onde pareceu fazer uma pausa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo reajustado a mira, lancei o segundo projétil e dessa vez mais eficazmente, pois ouvi tomado de alegria quando a criatura desabou no que parecia ser um colapso completo, e evidentemente permaneceu imóvel no chão. Quase dominado pelo alívio enorme que sentia, cambaleei de costas até a parede, mas a respiração dela continuava em inspirações e expirações pesadas e ofegantes, então percebi que só a tinha ferido. E agora todo o desejo de examinar a criatura passara. Por fim algo associado a um medo infundado e supersticioso entrou em meu cérebro, e não me aproximei do corpo, tampouco continuei a jogar pedras nele a fim de completar o extermínio da sua vida. Em vez disso, corri o mais rápido que pude na direção de onde viera, ou na direção mais próxima disso que conseguia estimar na condição enlouquecida que me encontrava. Subitamente ouvi um barulho, ou melhor, uma seqüência regular de barulhos. No instante seguinte tinham se limitado a uma série de estalos secos e metálicos. Dessa vez não havia dúvida. Era o guia. E então eu chamei, gritei, berrei, até guinchei de alegria quando contemplei nos arcos em abóbada da caverna o brilho débil e bruxuleante que eu sabia ser a luz refletida de uma tocha que se aproximava. Corri para encontrar o clarão e, antes que pudesse compreender realmente o que tinha ocorrido, já estava deitado no chão aos pés do guia, abraçado nas suas botas e tagarelando inarticuladamente do jeito mais idiota e sem sentido, despejando minha história terrível e ao mesmo tempo cobrindo-o com declarações de gratidão, apesar de orgulhar-me de minha reserva. Por fim, acordei para algo próximo de minha consciência normal. O guia havia observado minha ausência com a chegada do grupo na entrada da caverna e a partir do seu próprio sentido intuitivo de direção passara a investigar minuciosamente os desvios logo à frente de onde ele havia falado comigo pela última vez, localizando meu paradeiro após uma busca de em torno de quatro horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que ouvi esse relato, senti-me encorajado com a luz e a companhia e comecei a refletir sobre a estranha fera que tinha ferido bem próximo dali no escuro. Sugeri que verificássemos, com a ajuda das tochas, que tipo de criatura fora minha vítima. Então voltei sobre meus passos, dessa vez com a coragem nascida da companhia, para a cena da minha experiência terrível. Logo divisamos um objeto branco sobre o chão, um objeto mais branco do que o próprio calcário reluzente. Avançando com cuidado, soltamos uma exclamação simultânea de espanto, pois de todos os monstros esquisitos que qualquer um de nós vira em vida, esse possuía um grau incomparável de estranheza. Parecia ser um macaco antropóide de grandes proporções, fugido talvez de algum show de feras itinerante. Seu cabelo era branco como a neve, algo sem dúvida devido à ação descorante de uma longa estadia no breu do confinamento de uma caverna, mas era também surpreendentemente magro, em grande parte sem pêlos, a não ser na cabeça, onde era de um comprimento e profusão que caía sobre os ombros com uma abundância considerável. O rosto estava voltado para o outro lado, visto que a criatura deitava quase diretamente sobre ele. A curva dos membros era bastante singular, o que explicava, entretanto, a alternação no seu uso que eu observara antes, e através da qual a fera usava algumas vezes todas as quatro patas para progredir e em outras ocasiões apenas duas. Das pontas dos dedos das patas, estendiam-se longas garras como as de uma ratazana. As patas não eram preênseis, fato que atribuí à longa permanência na caverna que, como havia mencionado antes, parecia evidente pela brancura impregnada e quase fantasmagórica tão característica de toda sua anatomia. Ele parecia não ter rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A respiração agora tornara-se bastante fraca, e o guia puxou a pistola com a intenção evidente de eliminar a criatura, quando um som repentino emitido por ela fez com que a arma caísse no chão sem ser usada. O som era de uma natureza difícil de se descrever. Não era como o timbre normal de qualquer espécie de símio conhecida, e me pergunto se essa qualidade antinatural não era resultado de um silêncio longo, continuado e absoluto, quebrado pelas sensações produzidas pela chegada da luz, algo que a fera não podia ter visto desde a sua primeira entrada na caverna. O som, que eu poderia tentar descrever como sendo um tagarelar inarticulado, seguia cada vez mais fraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, de uma hora para outra, um espasmo fugidio de energia pareceu trespassar a carcaça da fera. As patas se mexeram convulsivamente e os membros se contraíram. Com um movimento reflexo, o corpo branco rolou para o lado de maneira que o rosto voltou-se para nossa direção. Por um momento fiquei tão aterrorizado com os olhos que se revelavam que não observei nada mais. Eles eram escuros, aqueles olhos, de um âmbar-negro, num contraste terrível com o cabelo e a pele cor de neve. Assim como os olhos de outros moradores das cavernas, eles eram afundados nas suas órbitas e inteiramente destituídos da íris. Quando olhei mais proximamente, vi que faziam parte de um rosto menos prógnato do que o de um macaco médio e infinitamente menos peludo. O nariz era bem-definido. Enquanto olhávamos pasmos para o quadro fantástico diante da nossa visão, os lábios grossos abriram-se e vários sons foram emitidos deles, após o que a criatura relaxou na morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O guia agarrou a manga do meu casaco e tremia tão violentamente que a luz sacudia em espasmos, jogando sombras estranhas e rápidas sobre as paredes. Não fiz movimento algum e fiquei rigidamente parado com os olhos horrorizados fixos sobre o chão à minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O medo deixou-me, e o assombro, a surpresa, a compaixão e o respeito sucederam-se no seu lugar, pois os sons emitidos por aquela figura ferida e agora estendida sobre o calcário nos contou a verdade aterradora. A criatura que eu matara, a fera estranha da caverna inescrutável, era, ou fora um dia um HOMEM!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21 de abril 1905.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===============================   ***   =======================================&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-774055628887630256?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/fera-na-caverna.html</link><author>noreply@blogger.com (N.'.E.'.I.'.)</author><thr:total>7</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-7782189458206728615.post-1166566436145979417</guid><pubDate>Mon, 13 Jul 2009 17:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-07-13T14:50:25.821-03:00</atom:updated><title>Insanidade</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Vilma tinha 20 anos e estava apaixonada pelo pai de sua amiga Karen. As duas se conheceram na faculdade. Sempre faziam trabalhos juntas, as vezes na casa de uma, as vezes de outra. A primeira vez que Vilma viu Ademir ficou encantada. Ele a achou atraente, mas preferiu não olhá-la por muito tempo. No entanto, aquele breve olhar foi suficiente pra demonstrar seu interesse e, sendo assim, ela resolveu tentá-lo. Ela sabia como ousar, usava roupas provocantes e incitava-o o tempo todo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Certo dia, Vilma resolveu visitar a amiga sabendo que o pai, Ademir, trabalha em casa no seu escritório. A mãe, Sara, trabalhava fora. Foi vestida para matar, na rua não havia homem que não a olhasse. Usava uma saia justa e bem curta que deixava suas pernas grossas e bem torneadas à mostra. Uma blusinha decotada que valorizava seus seios. Ela se perfumou, usou pouca maquiagem, apenas um brilho labial e um rímel nos olhos. O cabelo estava muito bem escovado e as unhas bem feitas. Quando Ademir a viu, mal pôde disfarçar seu interesse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vilma simulou uma cólica depois de meia hora na casa, disse que não era uma dor forte, mas estava incomodando um pouco. Pediu que a amiga fosse até a farmácia. Ademir resolveu pedir para a filha ir ao banco pra ele, era pra pagar uma conta. Ela questionou, disse ao pai que ele podia fazer isso pela internet. Ele informou que não gostava de usar esse procedimento, não achava seguro. Karen, mesmo contrariada, foi e pediu que a amiga a esperasse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na cozinha, os dois estavam a sós, Vilma se sentou na ponta da mesa e abriu as pernas devagar, não usava nada por baixo. Ademir que estava de frente pra ela, sentiu uma onda de calor invadir seu corpo, correu em sua direção e lá mesmo se entregaram à luxúria. Fizeram de tudo sem se preocupar com mais nada ou com a chegada de Karen. A partir desse dia, se tornaram amantes. Sempre buscavam um jeito de se encontrarem e se davam muito bem na cama. Ela o enlouquecia e ele a deixava plena, realizada, satisfeita. Karen nunca percebeu nada, muito menos sua mãe.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Meses depois, Vilma estava decidida a ficar com seu amante pra sempre, queria que ele deixasse a esposa pra ficar com ela de uma vez por todas, assumindo o relacionamento. Ademir amava Sara, do seu jeito, mas amava. Ele jamais a abandonaria. Apesar disso, não queria perder Vilma, não poderia imaginar outro homem tocando em sua menina.  Vilma cansada dessa situação, resolveu pôr um fim no envolvimento. Ademir nunca havia traído sua esposa antes e jamais teria se envolvido com a amiga de sua filha se ela não o tivesse levado a isso. Agora ela pertencia a ele, mas o estava evitando. Ele não admitiria isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ademir teve uma ideia, pediu à Sara que fizesse um almoço de domingo, chamaram Vilma, a insistência de Karen foi tanta que ela acabou aceitando. E tudo transcorreu muito bem. Vilma se sentiu mal, pois Sara a tratava carinhosamente, pensou o quanto foi bom pôr fim nesse relacionamento. Estava decidida a nunca mais voltar lá, ia fazer uma viagem, qualquer coisa. Ela não olhava nos olhos de Ademir. Após o jantar, disse que iria embora pois tinha compromisso. Todos insistiram pra que ela ficasse mais tempo, porém, não adiantou.  Só que Ademir se ofereceu pra levá-la à estação de metrô. Claro que ela não aceitou, falou que podia pegar um ônibus, mas ele persistiu nisso com a ajuda de Sara e Karen e ela não teve como recusar. Deu um abraço na amiga, se despediu também de Sara e saiu com Ademir.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ademir colocou uma substância num lenço e fez com que Vilma inalasse, ela desmaiou e ele a levou para uma garagem, na verdade, era um enorme galpão que ele tinha e que estava abandonado a algum tempo. Num quarto localizado na parte debaixo, ele deixou Vilma. A porta de aço ficava constantemente trancada e não havia janelas. Ele esperou que ela acordasse e a forçou a transar. Essa foi a última vez que "fez amor" com Vilma ainda viva. Depois do prazer, ele a asfixiou com a jaqueta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A insanidade de Ademir não parou por aí, ele gastou muito dinheiro para que o corpo daquela bela mulher fosse empalhado. Gastou mais ainda para que o segredo fosse mantido. Na região genital, após o trabalho realizado, ele colocou uma borracha macia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todas as tardes Ademir visitava sua amante para um encontro amoroso, agora ela pertenceria a ele, só a ele.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sandra&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7782189458206728615-1166566436145979417?l=ladonegrodamente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://ladonegrodamente.blogspot.com/2009/07/insanidade.html</link><author>noreply@blogger.com (Sandra F.)</author><thr:total>3</thr:total></item></channel></rss>

