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É ponto de junção e dispersão de múltiplos caminhos. É lugar de encontros e desencontros. É a possibilidade de mais de uma direção, bem como a nostalgia pelas sendas não exploradas. É onde se decide. Mas é, sobretudo, onde se duvida.</subtitle><link rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/posts/default" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/" /><link rel="next" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false&amp;v=2" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural" /><feedburner:info uri="oritameji-umaencruzilhadacultural" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><entry gd:etag="W/&quot;CkcGRXs8cSp7ImA9WhRUGUg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-4887429758632564052</id><published>2012-01-27T21:39:00.002-02:00</published><updated>2012-01-30T17:00:24.579-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-01-30T17:00:24.579-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="memória" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="literatura" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="candomblé" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="filosofia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Jorge Luis Borges" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="esquecimento" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Axeloyá" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Paul Ricoeur" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="ebó" /><title>Um ebó para o esquecimento...</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-ZMmBwsJ7FzA/TyMwscSRTxI/AAAAAAAAASQ/GmxCvjk73xo/s1600/erase%5B1%5D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/-ZMmBwsJ7FzA/TyMwscSRTxI/AAAAAAAAASQ/GmxCvjk73xo/s1600/erase%5B1%5D.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns anos atrás, antes ainda de completar os sete anos de iniciação no candomblé e pagar a obrigação que me tornou ebômi, título de senioridade da religião, um amigo meu me perguntou se haveria algum ebó para o esquecimento. Ele trazia uma aflição no seu peito, e diante da certeza de que as coisas não mudariam, tentava esquecer o passado, sem sucesso. Eu lhe disse que ignorava a existência de um ebó para tal fim. Aos que desconhecem o significado da palavra, "ebó" vem do iorubá, e significa "presente", "oferenda". Através de alguns atos e palavras, bem como da manipulação de alguns elementos, oferece-se algo ao sagrado em troca de algum favor. E o que esse meu amigo queria era alcançar a graça de esquecer. Aquilo me deixou intrigado. Passei-lhe então o contato de meu babalorixá, e o que sucedeu dali por diante ficou entre os dois. Seria mesmo possível haver um ebó para o esquecimento?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No mestrado que estou concluindo, em "Memória: Linguagem e Sociedade", fizemos não poucas discussões acerca da memória e de sua contraparte necessária - o esquecimento. Aprendi, lendo as retóricas latinas, especialmente a &lt;i&gt;Retórica a Herênio&lt;/i&gt;, de autoria desconhecida mas durante muito tempo atribuída a Cícero, que havia uma arte (&lt;i&gt;ars &lt;/i&gt;em latim, correspondente à &lt;i&gt;téchne&lt;/i&gt;&amp;nbsp;dos gregos) de memorização. Tratava-se de uma mnemotécnica: um conjunto de procedimentos para ajudar a memória natural a se lembrar de todos os argumentos - e mesmo de todas as palavras! - de um discurso. E o filósofo francês Paul Ricoeur (2007), na sua soberba obra &lt;i&gt;A Memória, a História, o Esquecimento&lt;/i&gt;, faz uma pergunta desconcertante: assim como havia uma arte da memória, seria possível também uma "arte do esquecimento"?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há vários tipos de esquecimento. Há, por exemplo, o oficial, compulsório, promovido pelo Estado quando decreta a anistia. Todos os lados são perdoados, desde que todos esqueçam o passado. Trata-se de um esquecimento imposto, com o fim de promover a paz. Mas estaria a paz acima da justiça? Ricoeur diz que não. Há uma base ética para a memória e o esquecimento, e tal base tem de ser a justiça. Assim é que países como a África do Sul pós-&lt;i&gt;apartheid&lt;/i&gt;&amp;nbsp;e a Argentina pós-ditadura recusaram-se a esquecer, simplesmente. A justiça deveria ser feita. E se a Argentina vem julgando e mesmo decretando a prisão dos responsáveis pelo horror da ditadura, o Brasil, por outro lado, governado por uma mulher que foi ela mesma vítima dos militares, mostra-se resistente em aplicar a justiça através da memória. Ainda se quer esquecer. Mais até: ainda se impõe o esquecimento. Os arquivos da memória continuam inacessíveis à população brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas a mim me interessa mais, ao menos nessa altura de minha vida, o esquecimento enquanto fenômeno que se dá na mente do indivíduo. Não sob o viés das neurociências, que têm mapeado o cérebro humano e apontado em que região do mesmo a memória habita. A mim me interessa o esquecimento sob a abordagem fenomenológica. E se ao cabo da leitura de Ricoeur não tenho certezas, ao menos alguma coisa aprendi. Há, sim, um esquecimento benéfico. É o que o filósofo francês chama de "esquecimento de reserva". É impossível que lembremos de tudo. Para que nosso cérebro trabalhe, ele permite um esquecimento seletivo. Mas o que se esquece fica em algum lugar, e com algum esforço conseguimos recuperá-lo. Nesse caso o indivíduo quer lembrar, e sente uma espécie de prazer quando consegue fazê-lo. A lembrança sempre esteve ali, "à mão". Quando não se consegue lembrar após um esforço, o sentimento é de frustração, e a coisa a ser lembrada não está mais no "esquecimento de reserva", mas foi para sempre devorada pelo esquecimento total.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não, Ricouer não poderia deixar de fazer alusão a "Funes, el Memorioso". Este foi o primeiro conto do escritor argentino Jorge Luis Borges que eu tive de ler. Numa tradução péssima, pescada na internet por um colega do mestrado. Lido uma hora antes da aula da Prof. Dra. Lúcia Ricotta. E ali se abriu um novo mundo para mim. Borges mostra de forma magistral como seria a vida de um homem - Ireneo Funes - que sofria da maldição de nunca esquecer de nada:&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;
&lt;i&gt;En efecto, Funes no sólo recordaba cada hoja de cada árbol de cada monte, sino cada una de las veces que la había percebido o imaginado. (...) Pensó que en la hora de la muerte no habría acabado aún de clasificar todos los recuerdos de la niñez (BORGES, 2009, p. 588-589).&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;
A Ireneo Funes era incompreensível, segundo Borges, que uma só palavra, "cachorro", por exemplo, bastasse para designar todos os indivíduos da espécie, todas as suas raças, todos os seus tamanhos. Com sua memória prodigiosa que desconhecia o esquecimento, Funes inventava nomes diferentes para um mesmo cachorro visto às 3:14 de perfil e, no minuto seguinte, de frente. Não poderiam dois momentos distintos de uma coisa ser a mesma coisa. E em sua voracidade por tudo reter na mente, lhe custava dormir. "Dormir es destraerse del mundo" (BORGES, 2009, p. 589). E lhe custava pensar:&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class="tr_bq"&gt;
&lt;i&gt;Sospecho, sin embargo, que no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos (BORGES, 2009, p. 590).&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;
Sua bênção, Borges! O esquecimento é necessário para que o próprio pensamento generalize e abstraia. Um homem improvável como Funes não poderia pensar, sintetizar, porque estaria muito ocupado em classificar as miríades de informações que são enviadas a cada segundo ao cérebro humano. E ele, o cérebro, sagazmente esquece, para poder pensar. Algumas coisas ele envia para o obscuro mundo do "esquecimento de reserva", e resgata quando necessário. O grosso, porém, esquece, simplesmente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não temos controle sobre todo o processo. E há coisas que, de fato, gostaríamos de esquecer. E se o homem conseguiu inventar uma arte da memória - repetimos com Ricoeur -, por que não seria capaz de criar também uma "arte do esquecimento"? Ou, no plano mágico, da fé, por que não poderia haver um "ebó para o esquecimento"?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E já que voltei a falar de ebó, ocorre-me que quando alguém se submete a fazer - ou "tirar" - um, tem alguns ingredientes passados em seu corpo, os quais são depositados aos seus pés. Findo o ritual, o sacerdote ou sacerdotisa ordena que a pessoa caminhe para a frente, para tomar um banho de ervas maceradas, "sem olhar para trás". Simbolicamente quer-se dizer com isso que o mal que a pessoa sofre deve ser "esquecido" pelo ato de não olhar para trás, para o passado. E aquele "carrego" - todos os elementos utilizados no ebó - deverá ser depositado em algum lugar por onde a pessoa nunca passe, para que ela não corra o risco de se "lembrar" do mal que, segundo a fé, fora "esquecido".&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tenho eu mesmo, como toda a gente, coisas que gostaria de esquecer. E recentemente essa necessidade tornou-se quase que insuportavelmente premente para mim. A psicanálise me foi de grande valia, ironicamente, por me ajudar a lembrar do que eu havia esquecido. E, mais importante, me ajudou a pensar - e aí se fez necessário esquecer de algumas coisas, segundo Borges - sobre o que eu gostaria de esquecer. Ao lado da psicanálise, os amigos foram muito importantes para que eu pudesse lidar com minhas memórias dolorosas. Entre eles, meu pai-de-santo. Toda vez que vou ao &lt;a href="http://oritameji.blogspot.com/2011/03/i-can-do-bless-uma-semana-no-candomble.html"&gt;Axeloyá, o terreiro de candomblé que frequento&lt;/a&gt;, em Salvador, peço a meu pai meus quinze minutos de conversa a sós comigo. Não para aprender ebó e outros encantos da religião. Isso se consegue no dia-a-dia, observando, fazendo. O que eu queria era ouvir seus conselhos. Mas da última vez eu lhe perguntei, tímido - confesso - se ele havia ensinado àquele meu amigo do qual falei, no começo desse texto, o tal "ebó para o esquecimento". Ele sorriu, terno, amoroso, e me contou de suas próprias memórias tristes. De como elas foram necessárias para o seu crescimento. E de como se aprende a conviver com elas. E como elas fazem parte do que ele é. E de como minhas próprias memórias, sejam elas festivas ou funestas, são necessárias para mim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O certo é que voltei para casa, em Vitória da Conquista, com minhas memórias ainda entaladas entre o peito e a garganta - mas não morariam elas na cabeça? Pareceu-me incompreensível o que meu pai dizia. &lt;a href="http://oritameji.blogspot.com/2011/07/o-tempo-nao-cura-nada.html"&gt;Mas o tempo, esse deus que a tudo destrói&lt;/a&gt;, ajudou-me a ruminar a memória e o esquecimento. E o certo é que não fiz nenhum ebó. Algum tempo depois, vasculhando e-mails antigos, encontrei, meio por acaso, uma mensagem daquele mesmo amigo, dizendo o passo-a-passo do ebó que, sim, meu pai lhe ensinara. Ele não realizou o tal do ebó. Conseguiu conviver com suas memórias. E embora eu mesmo agora finalmente soubesse a "receita do esquecimento" segundo o candomblé, recusei-me a proferir palavras e realizar atos em tal intenção. É que pensar em esquecer é já uma lembrança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje a memória que latejava em meu corpo e em minha mente repousa no "esquecimento de reserva". Isso permite que eu viva e pense. Está "à mão". Às vezes ela vem, por si só, como afecção. Mas já não embaça a vista. Outras vezes sou eu mesmo quem vou em sua busca. E sinto uma espécie de satisfação por encontrá-la. Não, não quero me esquecer do que vivi. Se alguém um dia inventar um remédio que cause esquecimento, merecerá o Nobel. E a pena de morte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Referências:&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
BORGES, Jorge Luis. Funes, el Memorioso. In: &lt;b&gt;Obras Completas&lt;/b&gt;: 1923-1949. 4ª ed. Buenos Aires: Emecé, 2009, p. 583-590.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-bottom: .0001pt; margin-bottom: 0cm; text-align: justify;"&gt;
&lt;span lang="PT-BR" style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-family: Times, 'Times New Roman', serif;"&gt;RICOUER, Paul. &lt;b&gt;A memória, a história, o esquecimento&lt;/b&gt;. Tradução de Alain François
[et al.]. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial, sans-serif;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-4887429758632564052?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/4887429758632564052/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2012/01/um-ebo-para-o-esquecimento.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/4887429758632564052?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/4887429758632564052?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/UKBS-18hGM8/um-ebo-para-o-esquecimento.html" title="Um ebó para o esquecimento..." /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://2.bp.blogspot.com/-ZMmBwsJ7FzA/TyMwscSRTxI/AAAAAAAAASQ/GmxCvjk73xo/s72-c/erase%5B1%5D.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2012/01/um-ebo-para-o-esquecimento.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CUYAQXg-fCp7ImA9WhRVFU0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-2661144598012962771</id><published>2012-01-13T22:29:00.000-02:00</published><updated>2012-01-13T23:05:40.654-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-01-13T23:05:40.654-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Bahia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Lavagem do Bonfim" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="balangandãs" /><title>Os balangandãs, a Bahia e o Bonfim</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-DVbPov9z-NM/TxDKZQUJwiI/AAAAAAAAAR8/LUCDrwuy1kc/s1600/1320452773_4406680_1-Fotos-de--FITINHAS-DO-SENHOR-DO-BONFIM-DA-BAHIA%255B1%255D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="211" src="http://4.bp.blogspot.com/-DVbPov9z-NM/TxDKZQUJwiI/AAAAAAAAAR8/LUCDrwuy1kc/s320/1320452773_4406680_1-Fotos-de--FITINHAS-DO-SENHOR-DO-BONFIM-DA-BAHIA%255B1%255D.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
"Quem não tem balangandãs não vai no Bonfim". Assim cantou Caymmi. E o velho obá de Xangô continua a ter razão. Algum tempo atrás vi um intelectual negro da Bahia - não me lembro quem, e por isso mesmo não vou me arriscar a apontar nomes - falar na TV sobre o balangandã, esse amontoado de amuletos que as pretas baianas carregavam e ainda carregam no pescoço ou a tiracolo, e que reúne fetiches tão díspares quanto a figa romana e símbolos religiosos&amp;nbsp;afro-brasileiros. E o que mais me chamou a atenção na sua fala foi justamente a informação de que o balangandã é sincrético por natureza, e que por isso mesmo agrega novos elementos que, segundo se crê, também estão imantados de poder de proteção.&amp;nbsp;E assim é que nos últimos anos os balangandãs da Bahia têm aceitado conviver com o olho grego, por exemplo. &amp;nbsp;O mesmo ocorreu com os patuás, originalmente usados pelo povo mandinga, islamizado, com trechos do Alcorão. Uma vez na Bahia e em contato com os bantos, jejes e iorubás, os patuás que usavam magicamente a palavra de Alá passaram a ser porta-vozes também de inquices, voduns e orixás. E mandinga, nome de um povo, tornou-se sinônimo de magia.&amp;nbsp;Isso é simplesmente fantástico, porque demonstra que os povos africanos que entraram na formação brasileira têm historicamente aceitado o novo não apenas no discurso, mas também na prática. E isso sem abrir mão de sua identidade.&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
E ontem finalmente fui ao Bonfim. No dia da Lavagem. Planejava assistir à missa ecumênica, contrito e incrédulo. Mas o engarrafamento provocado pelo próprio evento não permitiu que chegássemos a tempo. Eu e meu irmão e amigo André de Obaluaiê, que me tem hospedado por esses dias em sua casa. E Amanda, Jitomin, sua ekéji. Mas o bom de tudo é que fomos conversando, alegres, ao som dos Novos Baianos. Vestia eu minha camisa comprada especialmente para o evento, com estampa estilizada em mosaico de Xangô. Apropriada para a ocasião. Foi Xangô, afinal, quem carregou seu velho e alquebrado pai Oxalá nas costas. E a procissão desde a Conceição da Praia rumo ao Bonfim, para lavar suas escadarias, lembra um mito sobre isso.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
Chegamos, finalmente, à Avenida do Contorno e fomos descendo a pé, rumo aos pés do Elevador Lacerda. A procissão acabava de sair. E o profano nos saltava aos olhos. Vendedores de cerveja por todos os lados. E quando nos confundimos finalmente com o cortejo pude observar o que se assemelha a um carnaval como não existe mais em Salvador. Vários blocos independentes, formados por amigos, mas sem cordas, num convite a todos para pular pelos oito quilômetros do percurso. Aqui uma bandinha com percussão e instrumentos de sopro tocando velhas marchinhas; acolá apenas a percussão dançante dos samba-reggaes da Bahia. Senti-me no carnaval do Recife, ao qual nunca fui - erro que também tenho de reparar o mais rapidamente possível. O fato é que nos juntávamos às mais diversas manifestações de canto e de dança. E tudo se cantava e dançava. Tema da Rede Globo para o carnaval? Tinha. Michel Teló e sua música onipresente? Também. Qual balangandã que a tudo o que lhe agrada agrega e aceita, conforme o gosto e o capricho popular, a procissão rumo ao Bonfim não tem preconceito. E assim é que populares e intelectuais cantavam e dançavam marchinhas carnavalescas, sambas clássicos e modernos, músicas da moda e, claro, os ijexás para Oxalá.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
E depois de quase quinze anos eu voltava à Colina Sagrada, infestada de branco, onde fui pela vez primeira na semana seguinte à morte de meu pai, quando começou meu agnosticismo involuntário. E voltava, candomblecista e algo agnóstico, pouco preocupado se cantavam para o Nazareno ou para Orixalá. Ao primeiro não mais rendo louvor - embora a maior parte do povo do candomblé o faça. E ao segundo certamente não louvaria tomando cerveja. Fui pelo profano e pela fé alheia. Amarrei a fitinha do Bonfim no meu braço e na grade da igreja, cuja porta estava fechada. A Igreja Católica diz com isso que sincretismo tem limites - como o próprio balangandã, aliás.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
A fita do Bonfim não valeu a Chico Buarque. Talvez me valha. O certo é que fiz do meu corpo balangandã, e aceitei essa materialização da baianidade - nunca mais escreverei essa palavra sem me lembrar de Luisa - em mim. Fiz os três pedidos, claro. E um deles foi o retorno - em menos de quinze anos, de preferência - ao Bonfim. A música da moda será outra, certamente. Talvez já ninguém se lembre de Michel Teló. Talvez o galego se estabeleça finalmente no balangandã baiano, qual olho grego. Não importa. A porta do Bonfim provavelmente continuará fechada. Mas o cárdio baiano permanecerá aberto ao novo. Deglutindo. Aglutinando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-2661144598012962771?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/2661144598012962771/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2012/01/os-balangandas-bahia-e-o-bonfim.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2661144598012962771?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2661144598012962771?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/JzRgSrqhcOY/os-balangandas-bahia-e-o-bonfim.html" title="Os balangandãs, a Bahia e o Bonfim" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/-DVbPov9z-NM/TxDKZQUJwiI/AAAAAAAAAR8/LUCDrwuy1kc/s72-c/1320452773_4406680_1-Fotos-de--FITINHAS-DO-SENHOR-DO-BONFIM-DA-BAHIA%255B1%255D.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><georss:featurename>Salvador - BA, Brasil</georss:featurename><georss:point>-12.9703817 -38.512382</georss:point><georss:box>-13.217959700000002 -38.828239 -12.7228037 -38.196525</georss:box><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2012/01/os-balangandas-bahia-e-o-bonfim.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEAMQ3Y4eip7ImA9WhdaEUs.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-4607302901721052405</id><published>2011-10-01T17:27:00.001-03:00</published><updated>2011-10-21T00:06:22.832-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-21T00:06:22.832-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="erva-mate" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="ilex paraguariensis" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Universidad Nacional del Litoral" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="mate" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="UNL" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Argentina" /><title>Un buen mate</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-6iJmmR5tFZQ/Tod120zQh9I/AAAAAAAAAQs/E9b8tm9mC4M/s1600/000_0005.JPG" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="http://1.bp.blogspot.com/-6iJmmR5tFZQ/Tod120zQh9I/AAAAAAAAAQs/E9b8tm9mC4M/s320/000_0005.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: center;"&gt;
&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Tomando mate com colegas na UNL - Santa Fe - Argentina&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Manda
 a etiqueta do mate argentino que aquele que o preparou seja o primeiro a dele
 provar. É porque a primeira sorvida traz todo o amargor da bebida, e é
 uma cortesia tomar antes e poupar os outros amigos da roda dessa 
espécie de colostro. Mentira pura. Na verdade esse mito, creio, foi 
criado para justificar que a primeira bebida, em minha opinião a melhor,
 fique com quem preparou o mate. O que não deixa de ser uma cortesia dos
 outros amigos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos primeiros alheamentos que 
experimentei na Argentina diz respeito justamente a essa cascata de 
rituais que envolve tomar mate. Ensinou-me - ou ao menos tentou me 
ensinar - Francisco Russo, em madrugada fria. Chegou ele com sua 
parafernália: bolsa de couro apropriada para comportar a garrafa 
térmica, o recipiente com o mate (a folha) e a cumbuca (lá chamada 
simplesmente de "mate") e a &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt;. De antemão já sabia que não
 gostaria. Mas foi interessantíssimo observá-lo na execução do ritual: 
folhas de mate a três quartos da cumbuca; tapa-se com uma das mãos e se 
agita a cumbuca para retirar o excesso de folha em pó, que poderia tapar
 a &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt;; bate-se um pouco num dos cantos, para que as folhas depositadas fiquem na diagonal; um pouco de água morna no fundo; põe-se a &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;¡listo!&lt;/i&gt;,
 eis que se pode despejar a água aquecida num ritual à parte, já que não
 pode ferver, e o ideal é que seja tirada do fogo quando as primeiras 
bolhas se soltam do fundo da panela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas o ritual não acaba aí. Como disse acima, é hora do &lt;i&gt;cebador&lt;/i&gt;,
 aquele que preparou o mate, prová-lo em primeira mão. A mim me lembra o
 ritual de provar do vinho - outra coisa aprendida com Francisco Russo, 
esse &lt;i&gt;chef&lt;/i&gt; que tive o prazer de conhecer e me ensinou uns tantos 
bons modos. Quem preparou o mate deve prová-lo e só depois passar 
adiante. Deve guardar para si o amargor concentrado, e dividir com os 
amigos uma bebida mais "domesticada". Diz-se em Santa Fe que alguém só é considerado adulto quando já toma do mate sem precisar adicionar açúcar. É que os bebês, para serem iniciados nesse estranho ritual, tomam-no adoçado nas suas mamadeiras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dividir. Enquanto preparava o mate, Francisco Russo me ensinava que &lt;i&gt;"el mate es el símbolo del compartir"&lt;/i&gt;.
 É uma atividade social. O que já vinha comprovando na prática, antes de
 conhecer Francisco Russo. Quando caminhava pela Costanera, avenida em 
bairro nobre de Santa Fe, onde os moradores vão caminhar, à beira da 
Lagoa Setúbal, ou simplesmente interagir. Via por lá grupos de pessoas 
sentadas em rodas, tomando mate: famílias, colegas de escola, amigos, 
casais de namorados, reproduzindo o ritual de compartilhar do mate. E 
também nas aulas lá na Universidad Nacional del Litoral (UNL), quando 
nossos colegas preparavam o mate em meio à aula, e passavam aos demais, 
inclusive aos professores. Foi lá, aliás, que experimentei o mate pela 
primeira vez, e cometi as primeiras gafes: toquei na &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt; e 
dei apenas uns dois goles, sem tomar de todo o conteúdo. Discretos e 
condescendentes, meus colegas não me apontaram tais quebras de etiqueta.
 Coisa que Francisco Russo fez depois, amavelmente, rindo de minha falta
 de jeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Toma-se todo o conteúdo do mate. Devolve-se a cumbuca ao &lt;i&gt;cebador&lt;/i&gt;,
 que renova a água quente, e passa ao próximo da roda. E assim 
sucessivamente. Outra gafe comum dos brasileiros - ao menos dos não 
acostumados ao mate - é, ao devolverem a cumbuca, agradecer. Não, não se
 diz obrigado - ou &lt;i&gt;¡gracias! &lt;/i&gt;- até que se acabe o encontro. Não é
 necessário agradecer a cada vez que se toma, sob o risco de ser 
mal-interpretado como alguém que não quer mais tomar do mate com os 
amigos. Afinal, ele nem acabou ainda...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Confesso que só
 vim a apreciar realmente o mate depois de voltar ao Brasil. Mas no fim 
do terceiro mês em Santa Fe seu gosto já não me era tão estranho. E na 
última disciplina, com a professora galega que também não entendia como 
se gostava do mate, eu já tomava sem estranhar o seu amargor. E recordo 
com saudade do domingo já próximo de meu retorno em que, além de 
Francisco Russo, tinha por companhia Luís Corvalán para uma roda de 
mate. E qual não foi minha surpresa ao ver que, sim, lá existe até 
máquina que vende água na temperatura ideal pelo preço módico de 1 peso o
 litro! Domingo frio, com feira hippie e &lt;i&gt;sándwich del viejo&lt;/i&gt;. Maldito o ladrão que levou minha máquina com aquelas fotos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Compro na rodoviária de Santa Fe, já no dia de vir embora, minha cumbuca e minha &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt;. Já sabia que não seria apenas um souvenir. Mas inadverditamente não trouxe da &lt;i&gt;yerba argentina&lt;/i&gt;,
 pensando que aqui encontraria. Não, não se encontra. Depois de voltar 
só encontrei o chimarrão, e tentei em vão tomar dele. É que o chimarrão é 
preparado de forma distinta. A erva é a mesma &lt;span class="st"&gt;(&lt;i&gt;Ilex paraguariensis&lt;/i&gt;), mas a forma de processá-la, não. Os brasileiros do sul tomam-na crua e quase em pó, motivo pelo qual minha &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt;
 sempre se tapava, e eu inutilmente não entendia o porquê. Ao voltar à 
Argentina nesse ano cuidei em observar que os argentinos tomam da erva &lt;i&gt;estacionada&lt;/i&gt;,
 ou seja, seca, quase que torrada, ao sol ou industrialmente; e acresce o
 fato de que as folhas são trituradas, e não moídas, e vêm inclusive com
 pedaços de &lt;i&gt;palo&lt;/i&gt;, ou seja, caule. Claro que trouxe ao menos 3kg dessa vez. E um deles já foi embora!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span class="st"&gt;O
 triste é tomar do mate só. A quem o ofertei por aqui não lhe agradou. E desde 
então, nesses frios e cinzas dias de Vitória da Conquista, tomo 
diariamente ao menos um litro de mate. Prepará-lo é algo que faço com 
gosto e calma. Gosto de sentir seu cheiro. Gosto da primeira sorvida, 
mais selvagem. Ativa-me as memórias olfativa e gustativa de noites não 
tão frias na Argentina. E assim, entre uma sorvida e outra, venho 
navegando na internet e lendo meus livros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span class="st"&gt;Aguardo a chegada de Teobaldo, que comigo foi à Argentina dessa vez e também trouxe sua cumbuca e sua &lt;i&gt;bombilla&lt;/i&gt;, além de alguma &lt;i&gt;yerba&lt;/i&gt;.
 Disse-me que não tem tomado mate lá em Recife por conta do calor. Bem, 
para variar hoje é um dia cinza em Vitória da Conquista. Espero que o 
frio fora de estação continue por alguns dias, para que eu tenha 
finalmente uma companhia para compartir dos rituais do mate. Sem açúcar,&amp;nbsp; que não somos mais meninos, hein?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class="st"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-SSxqvTdni-I/TodzQOSikyI/AAAAAAAAAQo/bEK0qKQtsQE/s1600/000_0011.JPG" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/-SSxqvTdni-I/TodzQOSikyI/AAAAAAAAAQo/bEK0qKQtsQE/s320/000_0011.JPG" width="240" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: center;"&gt;
&lt;span class="st"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Mate em tempos de globalização&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-4607302901721052405?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/4607302901721052405/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/10/un-buen-mate.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/4607302901721052405?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/4607302901721052405?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/KtQeLOs9KGU/un-buen-mate.html" title="Un buen mate" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/-6iJmmR5tFZQ/Tod120zQh9I/AAAAAAAAAQs/E9b8tm9mC4M/s72-c/000_0005.JPG" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/10/un-buen-mate.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0IDSH47fCp7ImA9WhdbGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-1764035928563630759</id><published>2011-09-25T19:39:00.000-03:00</published><updated>2011-10-16T20:52:59.004-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-16T20:52:59.004-02:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="memória" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Guimarães Rosa" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Pierre Nora" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="tristeza" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="lembrança" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Bernardo Soares" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="história" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="esquecimento" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Julio Braga" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="felicidade" /><title>Felicidade pelo retrovisor</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;
&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-heH6waeX1sU/Tn-paCG4QvI/AAAAAAAAAQk/qYmCvuXe_uk/s1600/rear+view+mirror.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" src="http://1.bp.blogspot.com/-heH6waeX1sU/Tn-paCG4QvI/AAAAAAAAAQk/qYmCvuXe_uk/s320/rear+view+mirror.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há gente ocupada demais - e aí estão o msn, o orkut e o facebook que não me deixam mentir - em ser feliz. Não sobra a essas pessoas tempo para mais nada, confessam, algo entre o constrangido e o desesperado. Da obrigação de ser feliz. Não quero, porém, falar disso. A conceder o benefício da dúvida a tais alardeadores da felicidade própria, pergunto-me: como podem ter certeza de que &lt;i&gt;são &lt;/i&gt;felizes? &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meu pai(-de-santo), Julio Braga, anteontem nos falava - a mim e a outros irmãos-de-santo - sobre como a felicidade não &lt;i&gt;é. Era&lt;/i&gt;. Ou, com um pouco de boa vontade de minha parte, &lt;i&gt;tem sido&lt;/i&gt;. Dizia ele que, mexendo em coisas antigas, encontrou algumas fotos suas de fins dos anos 60. Não sabia ele precisar se a foto fora tirada no Senegal, no então Daomé (hoje Benim) ou no Brasil. Ao fundo só havia o mar. E, em primeiro plano, ele, que nem trintado ainda havia. A foto era borrada. Disse-nos meu pai que se contemplasse a foto naquele ano, e nos seguintes, somente lhe pareceria mais uma recordação de suas viagens à África - sim, ele recordou, a foto havia sido tirada lá. Hoje, porém, na altura em que ele se aproxima de completar setenta anos, aquela foto lhe mostrava que, sim, ele &lt;i&gt;era&lt;/i&gt; feliz ali. A percepção, entretanto, só lhe ocorria agora. Ou, em outras palavras, não é apenas a vingança um prato que se come frio. A felicidade também o é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi então que ele falou sobre o que me motiva a escrever hoje: a felicidade é um "foi", ou "tem sido", que só se percebe - desculpem-me a redundância -&amp;nbsp; &lt;i&gt;a posteriori&lt;/i&gt;. Somente podemos julgar com segurança a respeito da felicidade em nossas vidas quando nos afastamos daquele momento, e o contemplamos com os olhos de hoje. Não, ele não quis dizer que só quando estamos tristes é que podemos medir a felicidade. A tristeza é também paixão, e atrapalharia um bom juízo - como a euforia que apressadamente tomamos por felicidade no momento em que a experimentamos. Quando se &lt;i&gt;é &lt;/i&gt;feliz, &lt;i&gt;é-se&lt;/i&gt; de forma inconsciente. A consciência da felicidade é já um afastamento dela, um alheamento, e, portanto, é sair dela. Quando já não estamos mais nela é que podemos discernir que - e o que - ela foi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso me traz à mente Maria Bethânia recitando Bernardo Soares, heterônimo não tão conhecido de Fernando Pessoa. Reproduzo o texto original que foi adaptado por Bethânia para seu espetáculo "Imitação da Vida":&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;span style="font-size: small;"&gt;Lembro-me de repente de quando era criança e via, como 
hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava 
para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a 
vida. Via a manhã, e tinha alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e
 fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás 
dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde 
das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas.&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
Tanto para meu pai quanto para o poeta a felicidade só foi percebida quando o tempo passou. Ela foi vista em retrospecto. Já não é mais. Vivida de forma inconsciente, a consciência dela - da felicidade - deriva do movimento para fora ocasionado pelo &lt;a href="http://oritameji.blogspot.com/2011/07/o-tempo-nao-cura-nada.html"&gt;tempo, esse que a tudo destrói, conforme digressão já feita por aqui&lt;/a&gt;. Bernardo Soares só fica triste após perceber que &lt;i&gt;já não é&lt;/i&gt; feliz. Mas antes da percepção a constatação - ele &lt;i&gt;foi&lt;/i&gt; feliz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sim, ronda todo esse texto minha preocupação acadêmica desde o ano passado - a memória. E permitam-me a costura, mas depois de invocar meu pai-de-santo e um prosador poeta, chamo agora Pierre Nora, historiador francês que discorre sobre as relações entre memória e história. Para Nora a memória já não existe em nossos dias. Ela foi substituída pela consciência da memória - ou seja, a história. As sociedades que viviam &lt;i&gt;na &lt;/i&gt;memória faziam-no de forma inconsciente, acrítica. Viviam, simplesmente, em continuidade com seu passado mitológico do qual não se afastavam nunca; pelo contrário, o presente era uma constante atualização de um passado sacro. Entregues à "dialética da lembrança e do esquecimento", as pessoas nunca problematizavam seu presente - e muito menos seu passado, do qual não se consideravam apartadas. Com o surgimento da história - ou da historiografia para ser mais preciso, que é, segundo Nora, uma história consciente de si, ou em segundo grau - todo o passado é problematizado. Iconoclasta que é, a história quer desconstruir os mitos e as origens, e não poupa nem a si mesma. O historiador só pode dizer às pessoas que o passado não era bem assim porque ele se encontra alheio à memória; ele cinde a continuidade entre passado e presente. A história, ela mesma uma musa para os gregos antigos, personificada por Clio, comete pois um crime quase que universal: mata sua mãe, a memória, ou Mnemosine.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não quero levar à frente a discussão de Pierre Nora. Para meu propósito chega a referência acima às suas ideias. É provável que meu improvável leitor já tenha estabelecido a ligação que se deu em minha mente: a memória e o esquecimento estão para a felicidade assim como a história está para a percepção dessa felicidade. &lt;i&gt;É-se&lt;/i&gt; feliz, inconscientemente, como quando as pessoas viviam imersas no mundo da memória atualizadora do passado e não consciente de si; percebe-se que se &lt;i&gt;foi &lt;/i&gt;feliz quando essa felicidade &lt;i&gt;já não&lt;/i&gt; &lt;i&gt;é&lt;/i&gt;, como quando a história diz que já não há mais memória - ou felicidade, como saber? E assim como Bernardo Soares, que se vê a si criança por trás de seus olhos adultos - e é nesse momento que ele &lt;i&gt;sabe&lt;/i&gt; que &lt;i&gt;foi &lt;/i&gt;feliz - fica triste só &lt;i&gt;após&lt;/i&gt; essa percepção, a história, que nada tem a oferecer após destruir o mundo mítico da memória, não pode ofertar nada que não seja &lt;a href="http://oritameji.blogspot.com/2011/01/conhecimento-e-melancolia.html"&gt;uma melancolia, essa tristeza dos que pensam&lt;/a&gt;. A percepção, porém, não é triste em si mesma. É quase que um susto. Como encontrar uma velha fotografia. E é só após essa percepção inesperada que se sabe que se &lt;i&gt;foi &lt;/i&gt;feliz. O que não quer dizer que não se &lt;i&gt;seja &lt;/i&gt;feliz&lt;i&gt; &lt;/i&gt;no momento da percepção. &lt;i&gt;Aquela &lt;/i&gt;felicidade percebida fortuitamente é que não existe mais. Talvez até se seja feliz agora - mas isso só poderá ser percebido depois, como que num novo balanço não planejado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E Bethânia, qual musa, sopra-me aos ouvidos toda essa digressão acima numa frasezinha de Guimarães Rosa: "Felicidade se acha é em horinhas de descuido". É no descuido e na inconsciência que somos felizes. Quando cuidamos da felicidade é porque ela já não existe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-1764035928563630759?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/1764035928563630759/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/09/felicidade-pelo-retrovisor.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/1764035928563630759?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/1764035928563630759?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/qPMV4N-YV5E/felicidade-pelo-retrovisor.html" title="Felicidade pelo retrovisor" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/-heH6waeX1sU/Tn-paCG4QvI/AAAAAAAAAQk/qYmCvuXe_uk/s72-c/rear+view+mirror.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/09/felicidade-pelo-retrovisor.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEMEQ347cSp7ImA9WhdQE0U.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-7102407995588177991</id><published>2011-08-14T18:38:00.011-03:00</published><updated>2011-08-15T01:26:42.009-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-08-15T01:26:42.009-03:00</app:edited><title>♪♫ Vuelvo al Sur... ♪♫</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-rW68-R3_Bsw/Tkg-jcG7d5I/AAAAAAAAAQY/03XWcAsQ4zI/s1600/paran%25C3%25A1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="http://3.bp.blogspot.com/-rW68-R3_Bsw/Tkg-jcG7d5I/AAAAAAAAAQY/03XWcAsQ4zI/s320/paran%25C3%25A1.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Uma semana atrás e eu deixava mais uma vez Buenos Aires. Agora por conta própria. Depois de um retorno para amarrar pontas soltas. E deixar novas. Para poder voltar novamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sempre pensei a Argentina como um lugar para se conhecer no inverno. Estranho quando me dizem que lá faz muito calor também. Daí o estranhamento de chegar lá, em fins de julho, e encontrar um frio tolerável. Um frio que se esquecia com alguns minutos de caminhada. Tirar o agasalho por caminhar um pouco rápido me parecia tão inusitado em Buenos Aires... Ainda mais após reportagens e reclames de amigos argentinos sobre a onda de frio insuportável. Mas meu retorno à Argentina não poderia ser o mesmo. Tampouco o frio. &lt;i&gt;"Al lugar donde fuiste feliz núnca deberías tratar de volver"&lt;/i&gt;, me lembraria poucos dias depois, em Santa Fé, Francisco Russo. Desobedeço ostensivamente, porque volto. Não volto à felicidade que de fato vivi. É impossível, bem o sei. Volto ao lugar em busca de novas felicidades. E tento reconfortar-me dizendo a mim mesmo que tampouco se volta à tristeza. A menos que se agarre a ela. Mas aí já não seria retorno, e sim teimosia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A chegada dessa vez a Buenos Aires ficará para sempre marcada em minha mente. No ano passado foi de avião, às quatro da tarde - hora perfeita, hora em que quero morrer. Ver de cima o barrento Rio da Prata e os quadrados perfeitos, ricos, medianos e pobres, que compõem a cidade, num verde amarelado totalmente alheio ao Brasil, foi, sim, lindo. Mas desta vez, por obra de Iansã, que resolveu mostrar-me que ela baila onde quer, inclusive nos céus de Montevideo, o avião não levantou vôo, e a companhia aérea se viu obrigada a nos colocar num ônibus que nos levou até Colónia del Sacramento, onde cruzaríamos o Rio da Prata. Passar pela capital uruguaia à noite foi como uma promessa não cumprida. Como também o foi entrar no navio. Afora o frio extremo, lá fora tudo era muito igual. Águas pretas do Prata. Distinto foi chegar a Buenos Aires, com o sol nascendo, e o rio, de fato, prata. Epifania.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois... Bem, depois permitir-se andar, meio que a esmo, pelas ruas portenhas, com Teobaldo. Tradicionais roteiros. E para além deles. E o cumprimento da promessa que fiz a mim mesmo, de passar uma tarde na Recoleta. Não apenas pela Faculdade de Direito. Tampouco somente pela flor metálica. Pela andança. E pela tarde. E pelo almoço que nos permitimos, caro mesmo para quem o câmbio lhe favorece. E o sol, que nessa época do ano nunca nos passa pela moleira, sempre com seu ar de quatro da tarde. Nem precisava de foto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E depois Paraná. A capital de Entre Ríos que eu havia desprezado pelos meses que vivi em Santa Fé, e que só descobri na véspera de vir embora. Reencontrar o amigo e anfitrião Gustavo. Falar de Zurara e de Gregório de Matos. Explicar o que é "porra" para os ouvintes, até o ponto de Teobaldo, constrangido, dizer que já estava de bom tamanho. E depois, novamente, a orla. O Rio Paraná, que nasce aqui no Brasil e que lá adiante se junta com outro rio brasileiro, o Uruguai, e numa pororoca sulista forma o da Prata. A orla de Paraná é belíssima. Ali reencontro o frio que fui buscar. E o show de tango, no Teatro Municipal. Com os ouvidos e os olhos sempre no bandoneón. E a emoção de depois de tanto alumbramento ouvir o bis com "Resistiré", que não é tango, mas vem de Almodóvar, igual e poeticamente dramático.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adio, mas chega a hora de finalmente não apenas rever, mas caminhar por Santa Fé. Voltar com as meninas da nova turma do mestrado em Memória ao restaurante onde me despedi de Luísa é amarrar uma ponta solta. Ver a Ponte Colgante; a Laguna Setúbal; a UNL; a Costanera. Memória acústica é uma miséria, porque só me sopram aos ouvidos cantores pernambucanos, ouvidos sempre pela Costanera, e sempre às quatro da tarde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E seguimos para Rosário. Refaço com Teobaldo o roteiro que Francisco Russo me ensinou no último agosto. Outra vez o mesmo Rio Paraná. Mas noutra orla. E em nossos colóquios acerca da memória, da história e do esquecimento, passeamos por lugares de memória. E de esquecimento. Bandeiras argentinas flamejando por toda a parte. Casa onde nasceu Che Guevara. Só a fachada, que a cidade corre e não há museus ou sequer lojas de souvenir sobre o rosarino mais famoso. Uma foto decepcionada e &lt;i&gt;¡adelante!&lt;/i&gt; Calle Córdoba. Um capuccino. Não é o mesmo de Salvador, lembra-me Teobaldo, que vê ao menos essa qualidade inusitada na capital baiana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E finalmente, com mais calma, onde tudo começou. Santa Fé. Novamente o aniversário de Luís Corvalán. Menos amigos, percebo. Ou talvez desta vez apenas os amigos? Lá estou. Recebido por Francisco Russo. Um cavalheiro. Trocamos nossos presentes. Dou-lhe, &lt;i&gt;chef&lt;/i&gt; que ele é, um livro sobre as feiras, mercados e iguarias do Brasil. Ele me presenteia com algo que me protegerá do frio. E nem estou a falar do abraço amigo. San Patrício, outro bar retrô de Santa Fé que desconhecia. Conversas. Profundas. Surpresas. Francisco lembra-me o que é bom de se lembrar, e me espanta. Sim, ele é um cavalheiro. Definitivamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E então Teobaldo tem de falar sobre Antônio Conselheiro e Canudos. E ganhamos livros sobre a ditadura argentina, que tanto nos instiga. E fazemos amizade com Jorge, o mais malandro dos argentinos. Histórias do tempo de Che. E retornos. E saímos de lá, com mais amigos. Tanto que somos hospedados por um casal simpaticíssimo em Buenos Aires. E, sim, jogo mais uma vez os búzios em terras do sul. Em Paraná já tinha visto Oxalá e seu opaxorô sobre a cabeça de Téo; e duas espadas, de Oxaguiã e de Oyá, brigando pelo ori de Gustavo. E me despeço de Buenos Aires vendo Omolu e Oyá - que já me havia recepcionado em Montevideo - sobre as cabeças de meus anfitriões e amigos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E às quatro da tarde estou de volta a São Paulo. Não vale a pena falar do assalto no metrô de Buenos Aires. Fiquemos aqui, nas quatro da tarde, em Guarulhos. Na mala meu gorro argentino feito na China, e o cachecol que trouxe para Luísa, argentino, feito na Índia. E três quilos da legítima erva-mate feita segundo o gosto argentino. Estacionada. Sorvida agora, enquanto escrevo. Ao som de um tango. Triste, como convém a um bom tango. Não é assim também com o samba?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://0.gvt0.com/vi/TsgYPpFoASQ/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/TsgYPpFoASQ&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/TsgYPpFoASQ&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-7102407995588177991?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/7102407995588177991/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/08/vuelvo-al-sur.html#comment-form" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7102407995588177991?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7102407995588177991?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/1dc_k5zFW9g/vuelvo-al-sur.html" title="♪♫ Vuelvo al Sur... ♪♫" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://3.bp.blogspot.com/-rW68-R3_Bsw/Tkg-jcG7d5I/AAAAAAAAAQY/03XWcAsQ4zI/s72-c/paran%25C3%25A1.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>5</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/08/vuelvo-al-sur.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUAFQHY4eSp7ImA9WhdSF0w.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-5902313198153483505</id><published>2011-07-24T20:15:00.002-03:00</published><updated>2011-07-26T19:01:51.831-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-26T19:01:51.831-03:00</app:edited><title>São Paulo me engana</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-y-ViPjVmm_o/TiyMUyQo-tI/AAAAAAAAAQU/5igUCH3ARes/s1600/2011-07-18_11-42-45_318.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="http://3.bp.blogspot.com/-y-ViPjVmm_o/TiyMUyQo-tI/AAAAAAAAAQU/5igUCH3ARes/s320/2011-07-18_11-42-45_318.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Do alto da torre do Banespa, a babilônica São Paulo corria sob os meus pés. Ao menos essa é a ilusão que me permito ter. Com sua indefectível garoa, desnudava-se e se ofertava por preço módico em toda sua concretude cinza, implacável, para minha garganta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São Paulo me decepcionou. Onde estão a pressa e a apatia?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São Paulo é para mim toda acolhimento. Na casa de minha anfitriã, Deborah, que me abriu suas portas e seu cárdio. Colóquios sobre congados, maracatus, candomblés e águas lusas. No abraço do Rogério Calaça, que a essa hora perambula por improváveis ruas paulistanas, tentando inutilmente se fazer esquecido. No dia inteiro com o Shurelambers, da cracolândia ao mosteiro. Cuidou tão bem de mim o Shure na segunda-feira pelas encruzilhadas por onde o Compadre vadia... Presentou-me com pão e livro, alimentos para o corpo e para a alma. Na imponência do quase abandono da Usp, onde me ouviram por um tanto. No retorno, com Teobaldo e Quindim, ao Mercado Municipal, onde brindamos com chopes de colarinhos largos e largos sanduíches de mortadela. Nos confrontos com meu passado cristão, num encontro apóstata, e com meu presente candomblecista, em alegre jantar na casa da Valéria de Exu, levado quase que pela mão pelo Fernando de Oxum.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São Paulo onde joguei os búzios pela primeira vez e onde, do décimo quinto andar, gritou-me aos olhos o ilá de Xangô sobre a cabeça da Deborah. Deborah de Xangô - não sem as ciumentas bênçãos de Oxum e de Nanã.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São Paulo que me chama para doutorar-me na vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do Paulo apóstolo, homofóbico e misógino nada quero. Mas de sua cidade, plural, tudo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-5902313198153483505?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/5902313198153483505/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/07/sao-paulo-me-engana.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/5902313198153483505?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/5902313198153483505?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/ainfV2HA7x4/sao-paulo-me-engana.html" title="São Paulo me engana" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://3.bp.blogspot.com/-y-ViPjVmm_o/TiyMUyQo-tI/AAAAAAAAAQU/5igUCH3ARes/s72-c/2011-07-18_11-42-45_318.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/07/sao-paulo-me-engana.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0UCRnw_eSp7ImA9WhdTF00.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-7098080421938309214</id><published>2011-07-14T15:34:00.003-03:00</published><updated>2011-07-15T01:47:47.241-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-15T01:47:47.241-03:00</app:edited><title>O tempo não cura nada.</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-Ki32xwY1D-Y/Th80p4p4uxI/AAAAAAAAAPw/dSf96Df7i7w/s1600/ponto_final.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/-Ki32xwY1D-Y/Th80p4p4uxI/AAAAAAAAAPw/dSf96Df7i7w/s1600/ponto_final.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Sempre me disseram - e nas últimas semanas isso quase se tornou um  mantra - que "o tempo cura tudo". O que é uma mentira escandalosa. Em sentido  absoluto é, sim, uma mentira. Dá a falsa impressão de que há uma  entidade pessoal, chamada tempo, que se ocupa de nossas tristezas,  angústias, frustrações e coisas que tais. Não há. Definitivamente não  há. O que pode haver é um fragmento de verdade nisso tudo. O tempo não  cura nada porque, em última instância, ele destrói tudo. Tudo. Como é  dito no começo e no fim - e quem já assistiu sabe que eu poderia dizer  isso na ordem inversa - do filme "Irreversível", de Gaspar Noe: "o tempo  destrói tudo". Esse é o absoluto. A cura - ou o que chamamos de cura -  nada mais é que um recorte no próprio tempo da sua ação destruidora. Explico: a sensação de cura que ocasionalmente experimentamos é um fragmento de um todo maior. Nesse fragmento, o tempo e sua voracidade apagaram o que havia de dor e de desespero. Ótimo. Que se aproveite desse fragmento. Mas o tempo não pára aí. Sendo autofágico, ele não respeita nem a si mesmo. Por que então respeitaria a suposta cura que nos trouxe? Ele prossegue, cego, devorando a "cura". E as pessoas que  ilusoriamente experimentam a "cura". E os sentidos que damos a tudo o  que se chama de "cura". Para onde foi, afinal, o conforto da "cura"?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gaspar Noe preocupa-se, no filme que citei acima, com a irreversibilidade do tempo e nossa cegueira quanto a isso. A cegueira que me incomoda é outra. É a da inexorabilidade do tempo. Não penso que a história - ou as histórias, as comezinhas, as nossas - tenha um sentido, uma direção. Não, não sou teleológico. Acredito no caos. Talvez eu seja escatológico, mas apenas no sentido de que tudo caminha para uma consumação final. Inclusive o próprio tempo, que não existindo para além do homem, se extinguirá quando o último de nós desaparecer. Porque vamos desaparecer, não sejamos pedantes ao ponto de pensar que não. Assim, não somos filhos de Cronos, que nos devora. Somos seus pais. Mas ainda assim ele nos devora. O tempo, esse parricida, destrói tudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Das pontuações, quando aprendia os rudimentos da gramática e da ortografia, a que mais me fascinava eram as reticências. Sempre achei o ponto final algo brusco. As reticências, por seu lado, têm por missão deixar em aberto a possibilidade de prosseguimento. Ou ao menos uma intenção de prosseguir. O ponto final sempre me pareceu cru. Às vezes almejado, quando a leitura era enfadonha. Outras vezes excomungado, quando me perdia pelas páginas sem me preocupar em contar quantas restavam; angustiava-me apenas a aproximação do inexorável ponto final. Mas ele chega. Se não o pusermos, alguém o porá por nós. E ainda que intimamente queiramos o agnosticismo do reticente, impera, no final, o incrédulo ponto. Final.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Penso que é, sim, sabedoria usar a destrutibilidade do tempo a nosso favor. Que chamem a isso de cura pouco me importa. Mas é loucura pensar que o tempo está necessariamente trabalhando por nós. Como é também parvoíce sem tamanho esquecer que o tempo seguirá a tudo destruindo. E morrerá conosco. Como um vírus, que ao matar seu hospedeiro mata a si mesmo. Não sejamos reticentes quanto a isso. Sem medos do ponto final.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ponto final.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-7098080421938309214?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/7098080421938309214/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/07/o-tempo-nao-cura-nada.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7098080421938309214?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7098080421938309214?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/J7gk3t9qAak/o-tempo-nao-cura-nada.html" title="O tempo não cura nada." /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/-Ki32xwY1D-Y/Th80p4p4uxI/AAAAAAAAAPw/dSf96Df7i7w/s72-c/ponto_final.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/07/o-tempo-nao-cura-nada.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0YDSX04eyp7ImA9WhZUGU8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-8176485383622033624</id><published>2011-06-12T20:22:00.002-03:00</published><updated>2011-06-12T20:26:18.333-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-06-12T20:26:18.333-03:00</app:edited><title>A Estranha Metáfora do "Bom Pastor"</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-7QB6FbmLK8Y/TfVHqLC31EI/AAAAAAAAAPY/J6az6_ZblLY/s1600/BomPastor2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/-7QB6FbmLK8Y/TfVHqLC31EI/AAAAAAAAAPY/J6az6_ZblLY/s320/BomPastor2.jpg" width="219" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Jesus Cristo nos é apresentado como o "bom pastor", que é capaz  de deixar 99 ovelhas para ir atrás da única que se desgarrou. Isso, entretanto, não é um precedente bíblico. Houve outros, antes dele, que foram pintados como "bons pastores", como Moisés ou o rei Davi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas uma metáfora como essa é realmente amorosa? Segundo João Ubaldo Ribeiro, tal mitologia do "bom pastor",  cujo primeiro exemplo é Abel, em detrimento do "agricultor",  representado por seu irmão Caim, o malvado, tem uma explicação. Uma das  principais atividades dos hebreus era o pastoreio, ficando a agricultura  em segundo lugar. Assim, os patriarcas pastores criaram uma mitologia  que exalta a figura dos pastores e marginaliza a dos agricultores, que foram  submetidos pelos primeiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas voltemos à ilustração do "bom pastor".  Por que um pastor seria tão amoroso com os de sua grei? Com os de seu  curral? Com suas "ovelhinhas"? Para lhes dar uma vida confortável e  esperar que suas ovelhas morram velhinhas e amadas? Evidentemente  que não! Bom pastor é aquele que é capaz de preservar suas ovelhas para  tosqueá-las todos os anos, ou, em outros casos, vendê-las por um bom  preço, depois do que serão provavelmente abatidas!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O bom pastor  pensa em si próprio e na sua família. Criar ovelhas é uma atividade que  garante sua subsistência. Uma vez garantida, pouco lhe importa se suas  ovelhas serão sacrificadas a Javé, comidas ou tosqueadas. E aí  eu pergunto: será que as ovelhas que voltam ao seu "bom  pastor", no caso o Cristo, sabem que ele as buscou por interesses próprios?  Será que elas sabem que esse amor em breve se tranformará em morte?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O  mais irônico de tudo é o caso do próprio Jesus. Se em um momento ele é o  "bom pastor", em outra ocasião é ele mesmo um cordeiro. Aliás, não &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;um&lt;/span&gt; cordeiro, mas &lt;span style="font-weight: bold;"&gt;o&lt;/span&gt;  "cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". Ele mesmo é abatido com o  consentimento de seu pai, também ele um "bom pastor", ou o maior de todos. E no livro do Apocalipse nós somos convidados a lavar  nossas roupas no sangue de tal cordeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aí eu me pergunto: quão amoroso é mesmo esse "bom pastor"? Até que ponto vale a pena ser uma de suas "ovelhas"?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro ponto: a própria metáfora do "bom pastor" não passa de mais uma apropriação de hebreus e cristãos da mitologia grega. Senão, observem as imagens abaixo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Oi73phnoh6k/TfVF0OEhvmI/AAAAAAAAAO4/Txynz4rprvM/s1600/3388342233_8ac6cd8b4c.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://3.bp.blogspot.com/-Oi73phnoh6k/TfVF0OEhvmI/AAAAAAAAAO4/Txynz4rprvM/s320/3388342233_8ac6cd8b4c.jpg" width="197" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-1tcYKM8L0F4/TfVF2a8XBcI/AAAAAAAAAPE/f7OoVEaW4BU/s1600/HermesShepherd.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/-1tcYKM8L0F4/TfVF2a8XBcI/AAAAAAAAAPE/f7OoVEaW4BU/s320/HermesShepherd.jpg" width="283" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-oGDAvJuLybM/TfVF1arPKDI/AAAAAAAAAO8/0n0UoevzIpE/s1600/3942442308_b4263fd3b5.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="213" src="http://2.bp.blogspot.com/-oGDAvJuLybM/TfVF1arPKDI/AAAAAAAAAO8/0n0UoevzIpE/s320/3942442308_b4263fd3b5.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-7z3UqH2oS9I/TfVF13C-PYI/AAAAAAAAAPA/iu9GtlKUAdc/s1600/HermesCriophorus2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/-7z3UqH2oS9I/TfVF13C-PYI/AAAAAAAAAPA/iu9GtlKUAdc/s320/HermesCriophorus2.jpg" width="167" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp;Todas elas são representações de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Hermes Kriophoros&lt;/span&gt;, ou Hermes Carregador de Carneiro. Atentem agora para as seguintes imagens de Cristo, feitas ainda nos primórdios do cristianismo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-kfz5MCOzNh0/TfVGjKtImgI/AAAAAAAAAPI/oLHGGSTD1pU/s1600/4435155527_9edf2e2ee3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="199" src="http://1.bp.blogspot.com/-kfz5MCOzNh0/TfVGjKtImgI/AAAAAAAAAPI/oLHGGSTD1pU/s320/4435155527_9edf2e2ee3.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Pintura do "Bom Pastor" numa catacumba cristã, 200 d.C.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-VojyDXyAXwY/TfVGj88e8GI/AAAAAAAAAPM/TACuiowFSbY/s1600/Bom+Pastor.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/-VojyDXyAXwY/TfVGj88e8GI/AAAAAAAAAPM/TACuiowFSbY/s320/Bom+Pastor.jpg" width="220" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Pintura cristã do século III d. C.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-Z80PLT5mKKs/TfVGkd9KWxI/AAAAAAAAAPQ/DOlQzXl3Y-s/s1600/GoodShepherd2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/-Z80PLT5mKKs/TfVGkd9KWxI/AAAAAAAAAPQ/DOlQzXl3Y-s/s320/GoodShepherd2.jpg" width="199" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Escultura do ano 225 d. C.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-34eNYImEqtk/TfVGlE9cpXI/AAAAAAAAAPU/ftiZQPLiybw/s1600/the-good-shepherd-catacomb-art.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/-34eNYImEqtk/TfVGlE9cpXI/AAAAAAAAAPU/ftiZQPLiybw/s320/the-good-shepherd-catacomb-art.jpg" width="213" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Outro "Bom Pastor" numa catacumba cristã.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Seja ele Hermes ou o Cristo, persiste o fato de que o amor do pastor às suas ovelhas só dura na medida em que estas garantem sua sobrevivência. À exceção do Jesus Cristo de Saramago, que se torturava com "a insolúvel contradição entre comer os cordeiros e não matar os cordeiros", desconheço qualquer outro "bom pastor" que criasse ovelhas a não ser para delas se aproveitar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-8176485383622033624?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/8176485383622033624/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/06/estranha-metafora-do-bom-pastor.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8176485383622033624?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8176485383622033624?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/QYf2Z9Oj_uc/estranha-metafora-do-bom-pastor.html" title="A Estranha Metáfora do &quot;Bom Pastor&quot;" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/-7QB6FbmLK8Y/TfVHqLC31EI/AAAAAAAAAPY/J6az6_ZblLY/s72-c/BomPastor2.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/06/estranha-metafora-do-bom-pastor.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0YERXg4fyp7ImA9WhZTGU8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-8096443930494137285</id><published>2011-03-21T21:08:00.002-03:00</published><updated>2011-03-23T19:58:24.637-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-03-23T19:58:24.637-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="inconsciência" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="orixás" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Nietzsche" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="consciência" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="candomblé" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="irracionalidade" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="racionalidade" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="ebômi" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Axeloyá" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="iaô" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Manuel Alegre" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Julio Braga" /><title>I Can Do Bless: Uma semana no candomblé do Axeloyá</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh6.googleusercontent.com/-d6w5lX64FUc/TYfh7gBsnGI/AAAAAAAAAOY/2TNgJ4xIVHs/s1600/101_0154.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="https://lh6.googleusercontent.com/-d6w5lX64FUc/TYfh7gBsnGI/AAAAAAAAAOY/2TNgJ4xIVHs/s320/101_0154.jpg" width="240" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;"Bandeira branca hasteada em pau forte..."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
E lá já se vão sete anos desde que adentrei pela primeira vez os muros do Axeloyá, terreiro de candomblé de nação ketu situado na Estrada do Raposo, oficialmente bairro de São Cristóvão, mas aonde só se chega pedindo para ir à Pedreira. Alguns dizem que já nem é mais Salvador, e sim município de Lauro de Freitas. Permanece o fato, porém, de que não é um lugar tão fácil de se chegar - bem o sei! Mas lá cheguei em 2003, desapontado com o candomblé e ainda com alguma fé nessas energias que os iorubás e seus descendentes no Brasil chamam de orixás.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era 2003 e lá estava eu, iaô recém-iniciado, com apenas a obrigação de um ano paga. Os búzios de meu pai, Julio Braga de Iansã, Oyá Tundê, bem como a dona da casa, a dona do axé, convenceram-me a ficar - muito mais do que os títulos acadêmicos do Doutor Julio Braga. E desde então tenho pelo menos duas datas por ano para estar em Salvador: março, para a festa-mor da casa, a festa de Iansã; e setembro, para o Olubajé, o banquete do rei Omolu. Como nunca fui muito chegado ao culto aos caboclos, geralmente não apareço por lá no 2 de julho, que é quando se celebram tais entidades na casa, num culto tímido, restrito, mas vivo. E ocasionalmente alguma obrigação de algum filho da casa também acaba me levando para lá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh4.googleusercontent.com/-FtFzYacVr-E/TYfiJemXyNI/AAAAAAAAAOc/IkETVYdp7Y4/s1600/101_0156.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="https://lh4.googleusercontent.com/-FtFzYacVr-E/TYfiJemXyNI/AAAAAAAAAOc/IkETVYdp7Y4/s320/101_0156.jpg" width="240" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Protegido, do lado de dentro&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Desta vez, como é março, fui para a festa de Oyá Iansã. Feliz por saber que meu pai fazia questão de minha presença durante toda a semana. Agora não mais como iaô, mas como ebômi. E, para além de ebômi, como babalorixá de direito, já que recebi minha cuia no ano passado. Se um dia serei pai-de-santo de fato, não sei. Como disse meu pai, tenho em minhas mãos um &lt;i&gt;habeas corpus&lt;/i&gt; preventivo - a cuia - e se a cobrança se concretizar, já terei a faca e a navalha em minhas mãos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh5.googleusercontent.com/-e5YvHRK0-n0/TYflyT0Y4PI/AAAAAAAAAOw/qGvQ6J22wWE/s1600/54504_166905986682706_100000899187763_322888_5568754_o.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="https://lh5.googleusercontent.com/-e5YvHRK0-n0/TYflyT0Y4PI/AAAAAAAAAOw/qGvQ6J22wWE/s320/54504_166905986682706_100000899187763_322888_5568754_o.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Jóias do axé&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
Esta foi uma semana de aprendizado como babalorixá. Aliás, cabe aqui uma reflexão. Na casa de meu pai, quando alguém recebe o cargo de babalorixá ou ialorixá (pai e mãe-de-santo, respectivamente), ele está apto a aprender os segredos vedados aos iaôs e mesmo aos ebômis. Tal pessoa começa seu aprendizado como pai ou mãe-de-santo. Fecho parênteses, sem sotaques ou tiranias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E na segunda-feira eu e Adauto de Exu chegamos ao Axeloyá. Descobrimos que haveria obrigações de 1 ano para uma ekédi de Ogum, e de 3 anos para uma iaô de Omolu e outra de Ogum. Sim, haveria muito trabalho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantamos para as folhas. Esse é um aspecto particularmente emocionante para mim. Cada folha sagrada tem seu próprio culto. As folhas, que contêm em si o axé, a energia vital, de forma latente, são por assim dizer "despertadas" através de cantos laudatórios. Cada um mais bonito que o outro. E à medida que meu pai cantava para cada uma, respondíamos, uníssonos. E, para minha surpresa, eu me peguei respondendo a todas. Não é fácil cantar para mim. Especialmente em uma língua estranha - na verdade, cada vez menos estranha - o iorubá litúrgico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh4.googleusercontent.com/-gND_mZlNgxQ/TYfmyN-855I/AAAAAAAAAO0/VhN71qzBZAo/s1600/Iroko.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="https://lh4.googleusercontent.com/-gND_mZlNgxQ/TYfmyN-855I/AAAAAAAAAO0/VhN71qzBZAo/s320/Iroko.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Adornando Iroko, a árvore sagrada&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antes disso, porém, acompanhamos as iaôs em seu &lt;i&gt;balué&lt;/i&gt;, sua procissão pelas estradas e matas em busca de águas límpidas para diversos usos ritualísticos. Para meu espanto, ao mesmo tempo em que me ensinava meu pai me testava, e ordenou que eu "puxasse" a cantiga e as iaôs pelo itinerário. Por mais de uma hora tive de conduzir o rito, como um filho satisfeito por não decepcionar o pai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E então se sucederam os atos, os cantos, os ritos e as dramatizações dos mitos. Tudo tão simples e tão complexo ao mesmo tempo. Segredos do axé, que os olhos do não-iniciado não podem ver - muito menos ler em textos de internet. A despeito das apostilas que por aí prometem vender o acesso direto aos segredos, prefiro que o meu aprendizado (e de meus [im]prováveis filhos-de-santo) se dê ao modo de minha tradição, aos poucos, sempre, com vivência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já disse que sou ex-testemunha-de-jeová. Após a saída desta seita passei um bom tempo agnóstico. A vivência no candomblé é para mim muito menos a busca de respostas racionais às perguntas existenciais (quem sou? de onde vim? para onde vou?) do que a permissão de vivenciar minha irracionalidade. E não estou com isso querendo dizer que o candomblé seja uma religião para irracionais. Longe de mim! Freud já disse que somos muito mais irracionalidade (inconsciência) do que racionalidade (consciência). Por mais que queiramos ser conscientes todo o tempo, não conseguimos. Muitas vezes nem percebemos que nossos atos que se querem conscientes são em grande medida influenciados por nosso inconsciente. Assim, sem abrir mão do que já conquistamos até hoje através da racionalidade, permito-me, através de minha religião, entregar-me a mim mesmo, ao meu eu profundo, ou, como disse o racionalista Pierre Verger, ao "esquecimento" em mim mesmo. O candomblé é para mim um (re)encontro comigo mesmo. Seja quando canto para uma folha, um animal, uma pedra ou um orixá, quando me banho nas águas sagradas ou quando permito que meu orixá aflore. Assim é que digo que o candomblé é minha válvula de escape, meu encontro com o desconhecido de mim e em mim mesmo. Eis a minha estratégia racional para conviver com o irracional - ou seria o contrário?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bom, e para além de minhas idiossincrasias, a festa de Iansã foi uma beleza. Nunca vi o barracão do Axeloyá tão cheio em todos esses anos. Meu pai se emocionou muitíssimo ao agradecer a Iansã por sua saúde, e eu por minha vida. Oxóssi veio, claro. Dançou, à sua maneira, com outras divindades que se fizeram presentes nos corpos de meus irmãos-de-santo. Lá estavam também Exu, Ogum, Omolu, Oxumarê, Xangô, Iansã (a dona da festa), Oxum, Iemanjá e Oxalá. Todos dançaram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E me lembro de Nietzsche: &lt;span id="search"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;span id="search"&gt;"Eu só acreditaria num &lt;i&gt;Deus&lt;/i&gt; que soubesse &lt;i&gt;dançar&lt;/i&gt;."&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span id="search"&gt;E arremato com o poeta português Manuel Alegre, com versos que bem poderiam ter sido escritos para Iansã e toda a corte dos orixás presentes no Axeloyá, no último sábado:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;
"Tudo em ti é magia e tensão extrema &lt;br /&gt;
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos &lt;br /&gt;
batem as sílabas da noite no coração do poema &lt;br /&gt;
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos. &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
Tudo em ti é milagre Senhora da energia &lt;br /&gt;
quando tu chegas a terra treme e &lt;i&gt;dançam as divindades&lt;/i&gt; &lt;br /&gt;
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia &lt;br /&gt;
ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades."&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="https://lh3.googleusercontent.com/-XewS0eqGDpk/TYfi9c6O-II/AAAAAAAAAOs/20vZc7p0rUE/s1600/P2070630.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="https://lh3.googleusercontent.com/-XewS0eqGDpk/TYfi9c6O-II/AAAAAAAAAOs/20vZc7p0rUE/s320/P2070630.JPG" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span id="search"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span id="search"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-8096443930494137285?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/8096443930494137285/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/03/i-can-do-bless-uma-semana-no-candomble.html#comment-form" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8096443930494137285?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8096443930494137285?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/RwdHt0s_ULg/i-can-do-bless-uma-semana-no-candomble.html" title="I Can Do Bless: Uma semana no candomblé do Axeloyá" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://lh6.googleusercontent.com/-d6w5lX64FUc/TYfh7gBsnGI/AAAAAAAAAOY/2TNgJ4xIVHs/s72-c/101_0154.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>5</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/03/i-can-do-bless-uma-semana-no-candomble.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEcHRns7fip7ImA9WhZVE0g.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-3242120403805923227</id><published>2011-01-20T21:05:00.005-03:00</published><updated>2011-05-25T17:40:37.506-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-05-25T17:40:37.506-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="humores" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="melancolia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="conhecimento" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Paul Ricoeur" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Idade Média" /><title>Conhecimento e Melancolia</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Segundo a medicina grega antiga, as pessoas poderiam ser de quatro tipos  de humores (caráteres, ou temperamentos): sanguíneo, colérico,  fleumático ou &lt;span style="text-decoration: underline;"&gt;melancólico&lt;/span&gt;. Da harmonia desses humores na vida de um indivíduo resultaria sua saúde ou sua doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quero falar da melancolia, que  nos traz à mente a ideia de tristeza. Segundo o pensador francês Paul Ricoeur, durante a Idade Média a teoria dos  humores se desenvolveu, e o humor melancólico acabou sendo associado à  depressão, à loucura, ao medo e à ansiedade. Mas apenas quando  estava em desarmonia com os outros humores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isto porque o humor  melancólico também tem seu lado positivo. Há um texto grego antigo  atribuído a Aristóteles que diz o seguinte: "Por que razão os homens  mais eminentes em filosofia, em política, em poesia ou nas artes são  manifestamente melancólicos?" Assim, a melancolia estaria intimamente  relacionada à reflexão, à sensibilidade e ao conhecimento. Tanto que,  durante o Renascimento, o melancólico será associado ao gênio.  Melancolia e genialidade...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vejam a seguinte representação renascentista da melancolia, do alemão Albrecht Dürer (1471-1528):&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TTjJdlm_odI/AAAAAAAAAN4/r1rBG0Z7iFM/s1600/464px-D%2525C3%2525BCrer_Melancholia_I%255B1%255D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TTjJdlm_odI/AAAAAAAAAN4/r1rBG0Z7iFM/s400/464px-D%2525C3%2525BCrer_Melancholia_I%255B1%255D.jpg" width="308" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E agora, a leitura que desse quadro fez Ricoeur&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;Uma mulher está sentada, o olhar mergulhado numa distância vazia, o  rosto obscuro, o queixo apoiado num punho cerrado; no seu cinto estão  dependuradas chaves, símbolos de poder, e uma bolsa, símbolo de  riqueza, dois títulos de vaidade, em suma. A  melancolia é para sempre essa figura inclinada, pensativa. Cansaço?  Pesar? Tristeza? Meditação? A pergunta volta: postura declinante da  doença ou do gênio que reflete? A resposta não deve ser buscada  apenas na figura humana; o cenário também é tacitamente eloquente:  insturmentos sem emprego, uma figura geométrica de três dimensões que  representa a geometria, a quinta das "artes liberais", jazem dispersos  na cena imóvel. A vaidade do  saber é assim incorporada à figura desocupada. Essa fusão entre a  geometria que se entrega à melancolia e a melancolia perdida numa  geometria sonhadora dá a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Melancholia I&lt;/span&gt; seu poder enigmático: a própria verdade seria triste, segundo o provérbio de Eclesiastes?&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fonte: RICOEUR, Paul. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A memória, a história, o esquecimento.&lt;/span&gt; Trad. Alain François (et al.). Campinas: SP: Editora da Unicamp, 2007, página 89.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por  isso lembrei dos característicos lamentos de quem preferiria não saber determinada verdade. &lt;i&gt;Triste pílula vermelha&lt;/i&gt;, numa alusão a &lt;i&gt;Matrix.&lt;/i&gt; O conhecimento verdadeiro seria  triste. Eis a síntese da melancolia. Não por acaso a melancolia era  considerada, ainda segundo Ricoeur, uma das piores tentações medievais,  pior mesmo que a luxúria. O conhecimento que traz tristeza. Não foi essa a consequência do pecado adâmico de comer da fruta do conhecimento do que é bom e do que é mau?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saber e sabor têm uma origem comum. Em  Portugal, segundo me disse uma professora que lá viveu, é comum se  dizer, ao se saborear uma fruta (!) ou algo de gosto agradável: "Sabe-me bem!". Ao incorporar a si o objeto do conhecimento (a fruta, o  saber), o homem sente prazer (saboreia). Mas fatalmente também virá a se  tornar melancólico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse é, no final das contas, o grande  ensinamento do mito de Adão e Eva: o saber implica em sabor, mas também  na tristeza contemplativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas como do saber não há fim, também temos muitas coisas novas a saborear... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-3242120403805923227?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/3242120403805923227/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/01/conhecimento-e-melancolia.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3242120403805923227?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3242120403805923227?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/AErx5q5Dnq4/conhecimento-e-melancolia.html" title="Conhecimento e Melancolia" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TTjJdlm_odI/AAAAAAAAAN4/r1rBG0Z7iFM/s72-c/464px-D%2525C3%2525BCrer_Melancholia_I%255B1%255D.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/01/conhecimento-e-melancolia.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUAMQXg7fCp7ImA9Wx9XE08.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-630347628703281963</id><published>2011-01-06T11:32:00.002-03:00</published><updated>2011-01-06T12:29:40.604-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-06T12:29:40.604-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="negros" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Igreja" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="índios" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="colonização" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Baltazar" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Reis Magos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Gaspar" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Índia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Melchior" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Dia de Santos Reis" /><title>Baltazar, o rei mago que foi colonizado</title><content type="html">&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dia 06 de janeiro é Dia de Santos Reis, celebrado pela tradição  católica. O interessante é que o relato bíblico sobre tais personagens,  presente em Mateus 2:1-12, em nenhum momento diz que se tratam de reis. A  Tradução do Novo Mundo (Bíblia das Testemunhas de Jeová) refere-se a eles como "astrólogos das regiões  orientais a Jerusalém" (versículo 1), e a Versão Almeida Revista e Corrigida os retrata como "uns magos [que] vieram do oriente a Jerusalém" (&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Idem&lt;/span&gt;). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição é que fez deles três, e não apenas magos, mas também reis.  Três seriam os reis magos porque três foram os presentes ofertados:  ouro, incenso e mirra. Essa informação procede de evangelhos  não-canônicos, como o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Evangelho Armênio da Infância&lt;/span&gt;, do século VI, que lhes dita os nomes: Melchior, rei da Pérsia, Baltazar, rei da Índia, e Gaspar, rei da Arábia.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vale lembrar que na Europa medieval a Índia, ou as Índias, era uma  designação muito genérica, e abarcava o leste da África, a Índia  propriamente dita, a China e as ilhas do Pacífico. Por isso Baltazar,  segundo São Beda, o Venerável, doutor da Igreja que viveu entre os  séculos VII e VIII, afirmou que este rei mago era negro. E isso acabou  se incorporando à tradição católica, tanto que Albrecht Dürer, pintor  renascentina alemão (1471-1528), retrata o negro Baltazar:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/durer/images/magi.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="365" src="http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/durer/images/magi.jpg" width="400" /&gt;&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;Os portugueses, que haviam chegado oficialmente à América do Sul em  1500, levaram para Portugal alguns índios para a contemplação do rei D.  Manuel. Sendo Baltazar o rei das Índias, acabou se tornando entre os  portugueses o "rei dos Índios", conforme a pintura abaixo, de autoria  incerta, feita nos primeiros anos de 1500 numa igreja lusitana, e que  retrata Baltazar como um índio tupi devidamente vestido para os pudores  católicos:&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TSXPw5oSM0I/AAAAAAAAANk/nFyiTvjsYiU/s1600/AdoraodosReisMagos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TSXPw5oSM0I/AAAAAAAAANk/nFyiTvjsYiU/s400/AdoraodosReisMagos.jpg" width="295" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O objetivo em retratar Baltazar como africano ou ameríndio era mostrar  que todos os reis da Terra aceitaram se curvar diante de Cristo - e, portanto, diante do cristianismo. Isso é uma estratégia retórica. Conferir dignidade a um rei negro ou indígena só é possível na medida em que tal honra se dobra diante de um rei maior - Jesus Cristo, cujo único representante legal na Terra era o papa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Colonizaram o Baltazar!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-630347628703281963?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/630347628703281963/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2011/01/baltazar-o-rei-mago-que-foi-colonizado.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/630347628703281963?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/630347628703281963?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/ZHWa2qXap2M/baltazar-o-rei-mago-que-foi-colonizado.html" title="Baltazar, o rei mago que foi colonizado" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TSXPw5oSM0I/AAAAAAAAANk/nFyiTvjsYiU/s72-c/AdoraodosReisMagos.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2011/01/baltazar-o-rei-mago-que-foi-colonizado.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ak4AQn0_eSp7ImA9Wx9QF0w.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-8933578784002354218</id><published>2010-12-29T22:58:00.003-03:00</published><updated>2010-12-30T11:22:23.341-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-12-30T11:22:23.341-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="literatura" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Bariloche" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Jorge Luis Borges" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Felipe Pigna" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Argentina" /><title>Borges, Bariloche e Sofisticação</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TRvi9TdlUwI/AAAAAAAAANY/iiu2_dLFP7g/s1600/jorge_luis_borges.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="263" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TRvi9TdlUwI/AAAAAAAAANY/iiu2_dLFP7g/s400/jorge_luis_borges.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quase nada tinha escutado sobre Jorge Luis Borges até esse ano. Poderia até saber que se trata de um escritor argentino. Mas nesse grande universo que é a tradição canônica literária nós precisamos fazer escolhas - e para meu infortúnio, Borges decididamente não estava no meu rol de prioridades. Sendo assim, outros escolheram por mim. Felizmente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na disciplina "Estudos em Memória", da Prof. Lúcia Ricotta, no mestrado, tivemos de fazer a leitura de dois contos de Borges: "Funes, o Memorioso" e "A Biblioteca de Babel". Um colega nos conseguiu uma dessas traduções apócrifas que vagam pela internet, e ainda que tenha descoberto depois o quão ruim eram aquelas traduções, não pude deixar de me espantar com o que lia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda nessa mesma disciplina, agora com a Prof. Conceição, começamos a fazer leituras orientadas de Foucault. E qual não foi minha surpresa, ao iniciar a leitura de "As Palavras e as Coisas", e me deparar com um elogio rasgado do pensador francês a Borges:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento — do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia —, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro (FOUCAULT, 1999, p. VIII).&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E Foucault, depois de descrever brevemente o texto borgeano "El Idioma Analítico de John Wilkins", que trata de uma certa enciclopédia chinesa e sua peculiar - para não dizer estranhíssima - classificação dos animais, confessa-se deslumbrado com o que lê. E eu a essa altura claro que já estava muitissimamente ansioso para ler o texto por ele mesmo, sem intervenções ou interpretações alheias. E foi só então que eu percebi, entre o envergonhado e o estarrecido, que foi necessário que um pensador europeu gabaritasse um escritor latino-americano - como eu - para que eu voltasse meus olhos para a América do Sul.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não quero agora adentrar numa discussão sobre o cânone literário. Até porque eu não tenho competência para tanto. Mas comecei a desejar que no meu passado, lá no ensino médio ainda, eu já tivesse entrado em contato com Borges. Quantos de meus professores já o leram? Melhor nem tentar responder.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando fui para a Argentina, em maio desse ano, sabia que em algum momento eu leria novamente - ou pela vez primeira? - Borges. Com a aura de ler em seu próprio idioma, sem traduções/traições, e, melhor ainda, com a própria tonada argentina de falar/ler o &lt;i&gt;castellano.&lt;/i&gt; E se meus ouvidos demoraram um pouco a digerir o novo idioma, meus olhos foram bem mais rápidos. Mas até então os textos eram basicamente acadêmicos, e havia ainda muito o que ler, não em livros, mas nas ruas de Buenos Aires com seu cheiro de amendoim doce, ou nas de Santa Fe, com suas muitas vitrines cheias de &lt;i&gt;alfajores&lt;/i&gt; e outros pecados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E então vieram as férias de julho, e planejamos fazer uma viagem dentro da Argentina. Cheguei a cortejar com o norte indígena, Jujuy, Salta. Mas uma oferta igualmente imperdível para Bariloche acabou voltando nossos olhares ainda mais para o sul. E não posso negar que no nosso imaginário a simples palavra "Bariloche" evocava sofisticação. Conheceríamos a neve. Dito e feito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dentre as excursões que faríamos, uma não deu certo. Quer dizer, não deu certo para mim. O guia turístico nos disse que, de nós três (eu e meus outros dois colegas de mestrado), um não poderia ir. Eu já não estava muito propenso a ir mesmo, e me dispus a ficar. Tinha um dia inteiro para perambular pelas ruas frigidíssimas de San Carlos de Bariloche. Sentar-me em algum lugar e tomar um chocolate quente ou um capuccino mirando o Lago Nahuel Huapi e, mais ao fundo, a Cordilheira dos Andes, já seria algo suficientemente prazeroso para mim. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TRvkqeck20I/AAAAAAAAANc/DaSsib7wcXc/s1600/bariloche.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TRvkqeck20I/AAAAAAAAANc/DaSsib7wcXc/s400/bariloche.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas no caminho havia... uma livraria! &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E quando entro numa livraria eu me sinto criança outra vez. Eu não diria nem que tenho crises de consumismo. Eu tenho mesmo é aquela vontade infantil de ter o que está ali, aparentemente, à mão. E deixando comparações infantis de lado, recorro a Clarice Lispector e digo que cada um daqueles livros que eu gostaria de levar seriam novos amantes para mim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os livros na Argentina já são mais baratos que no Brasil. Mas pensei que não seria bom negócio comprar numa cidade turística como Bariloche. Engano meu. Livros lá são tabelados. Motivo pelo qual, aliás, não adianta chorar um desconto. E como a atendente era brasileira - coisa facílima de se achar em Bariloche, diga-se -, nos pusemos a conversar e comparar as realidades do Brasil e da Argentina.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estava querendo comprar o livro do historiador portenho Felipe Pigna, "Mitos de la Historia Argentina". Mas meus olhos bateram nas "Obras Completas" de Borges e vi que era sua vez. Pigna poderia esperar - e no meu último dia em Santa Fe comprei seu livro, objeto de uma outra postagem futura.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O volume 1 das "Obras Completas" de Borges abarca suas obras escritas entre 1923 e 1949, com três livros de poemas, três de ensaios e três de contos. Certifiquei-me de que "La Biblioteca de Babel" e "Funes, el Memorioso" estariam ali. E, para arrematar, "El Aleph". Pela bagatela do equivalente a R$60,00 comprei o livro. Se fosse comprar aqui no Brasil, seria quase pelo dobro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto estive na Argentina lia esparsamente um texto ou outro, com muita dificuldade. Claro que tinha um dicionário à mão. E fiquei tranquilo quando Gus, amigo que fiz na cidade de Paraná, província de Entre Ríos, me disse que Borges é uma leitura difícil mesmo para o argentino mediano, e que é sempre bom ter um dicionário por perto. Não só Español/Português como Português/Português mesmo. Gus é docente no Professorado em Língua Portuguesa da Universidad Autónoma de Entre Ríos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só agora terminei de ler o último livro deste volume, e que é justamente "El Aleph". Três meses na Argentina me concederam um mínimo de familiaridade com o jeito daquele povo falar. E se quando lemos há sempre uma "vozinha" na nossa mente, que verbaliza apenas para nós o que nossos olhos vão percorrendo silenciosamente, é com satisfação que ouço a &lt;i&gt;tonada &lt;/i&gt;argentina a ler Borges para mim, dentro de minha cabeça. Meus comentários e assombros sobre esse livro ficam para uma outra postagem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltei correndo para o hotel e, no aconchego quente do quarto, reli os contos que já conhecia. Nevava em Bariloche nesse fim-de-tarde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Referências Bibliográficas:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;BORGES, Jorge Luis. &lt;i&gt;Obras Completas I: 1923-1949.&lt;/i&gt; 4ª ed. Buenos Aires: Emecé, 2009.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FOUCAULT, Michel. &lt;i&gt;As Palavras e as Coisas&lt;/i&gt;. Trad. Salma T. Michail. São Paulo: Martins Fontes, 1999.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-8933578784002354218?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/8933578784002354218/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/12/borges-bariloche-e-sofisticacao.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8933578784002354218?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/8933578784002354218?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/HErc8C918Yo/borges-bariloche-e-sofisticacao.html" title="Borges, Bariloche e Sofisticação" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TRvi9TdlUwI/AAAAAAAAANY/iiu2_dLFP7g/s72-c/jorge_luis_borges.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/12/borges-bariloche-e-sofisticacao.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUcEQHc8eSp7ImA9Wx9RE0g.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-3166527825781485877</id><published>2010-12-14T15:34:00.004-03:00</published><updated>2010-12-14T17:03:21.971-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-12-14T17:03:21.971-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="romanos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Grécia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Roma" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Platão" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="retórica" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="gregos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Alexandre" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Aristóteles" /><title>Sobre Retórica</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TQe3al4CRkI/AAAAAAAAAM4/5w4vq10GIbs/s1600/alexander_and_aristotle.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="220" n4="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TQe3al4CRkI/AAAAAAAAAM4/5w4vq10GIbs/s400/alexander_and_aristotle.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Alexandre, O Grande, ouvindo seu preceptor, Aristóteles. A força dobra-se ao poder de persuasão da palavra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;Platão detestava a retórica. Assim como detestava a democracia. Para ele, os governantes perfeitos seriam os filósofos - claro. Num sistema democrático, quem decide é o povo. Acontece que o povo é movido pelas paixões, segundo Platão. Acaba votando em quem faz um discurso mais bonito, que apele mais para as paixões da plebe. Daí seu ódio pela retórica, que segundo ele não se preocuparia com a verdade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já seu discípulo rebelde, Aristóteles, via a retórica com bons olhos. Segundo ele, a retórica - definida como a "arte da persuasão" - não deve tratar de absurdos, mas estar ligada a uma realidade concreta. Quem usa de retórica deveria estar ligado no que seu público pensa, e só falar o que é honroso segundo tal público. Só assim o discurso retórico será visto como verdadeiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aliás, essa é uma das principais polêmicas quando se fala de retórica. No dia-a-dia, entendemos que ela não tem compromisso com a verdade. Pelo contrário: a retórica seria um falseamento da verdade. Para Aristóteles e outros pensadores, porém, a retórica é um meio para que tornemos a verdade mais verídica. Como assim? Ora, quantas vezes não tivemos aquela impressão de que se fôssemos falar algo que realmente aconteceu conosco as pessoas não se convenceriam disso? Algo do tipo: "É verdade, mas até parece mentira. Se eu inventar outra história será mais convincente". Pois bem, a retórica seria um recurso valioso para tornar o discurso verdadeiro ainda mais &lt;i&gt;verossímil&lt;/i&gt;, ou similar ao real, ao verdadeiro. Isso não impede, porém, que alguém utilize argumentos retóricos para dar caráter verossímil a uma mentira...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há&amp;nbsp;três tipos de gênero da retórica: o epidítico (também chamado de demonstrativo), o deliberativo e o judiciário. O gênero epidítico volta-se para o presente, e quer convencer as pessoas se alguém é digno de ser louvado ou censurado. Muito utilizado por poetas e historiadores. O gênero deliberativo diz respeito ao futuro, e quer convencer as pessoas se uma decisão deve ser tomada ou não. É o preferido dos políticos em seus discursos para angariar votos para sua causa. Por fim, o gênero judiciário volta-se para o passado e, como o próprio nome indica, é utilizado principalmente por advogados que querem convencer ao juiz e ao júri se um crime foi cometido ou não e, em caso afirmativo, se a pena deve ser mais branda ou severa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sabemos que os romanos se destacaram na área do Direito, motivo pelo qual eles desenvolveram ainda mais a retórica jurídica aprendida com os gregos. Os latinos, aliás, desejavam emular, ou seja, competir e tentar igualar ou mesmo superar a excelência dos gregos. A emulação não deixa de ser um elogio retórico ao competidor, uma vez que só queremos competir com quem realmente vale a pena.﻿&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-3166527825781485877?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/3166527825781485877/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/12/sobre-retorica.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3166527825781485877?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3166527825781485877?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/5UmpVJUs0XA/sobre-retorica.html" title="Sobre Retórica" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TQe3al4CRkI/AAAAAAAAAM4/5w4vq10GIbs/s72-c/alexander_and_aristotle.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/12/sobre-retorica.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0cGQXo6eCp7ImA9Wx5bF04.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-1111640977476933048</id><published>2010-11-02T18:33:00.002-03:00</published><updated>2010-11-02T18:57:00.410-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-11-02T18:57:00.410-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="memória" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Egungun" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Egum" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="candomblé" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="mortos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Dia de Finados" /><title>Homenagear os mortos...</title><content type="html">&lt;span id="goog_1701414030"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id="goog_1701414031"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TNCDGvWv63I/AAAAAAAAAMU/16xXFEUDG38/s1600/salvador+021.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="250" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TNCDGvWv63I/AAAAAAAAAMU/16xXFEUDG38/s400/salvador+021.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
Hoje é "Dia de Finados", ou daqueles que se findaram. Não tenho certeza se eles persistem em outro plano espiritual. Mas tenho certeza que é muito bom cultivar a memória dos que se foram. Não necessariamente por eles, mas por nós, os que aqui ficamos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O catolicismo tornou esta data um feriado nacional. Mas o que é o Dia de Finados além de mais um feriado?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu, que tenho muitos mortos, fico particularmente contemplativo neste dia. Já fiquei triste, hoje eu fico mais reservado. Meus pais já faleceram, e três dos meus avós. O ano inteiro é pontilhado com datas que me pegam. Aniversários de nascimento ou de morte das pessoas que amo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde os gregos antigos, uma das maiores preocupações era com a descendência. Entre os iorubás, isso não é diferente. Ter muitos filhos seria uma garantia de sobreviver, de fato, à morte. Por quê? Porque permaneceríamos vivos, ao menos na memória, dos que viessem depois de partirmos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois anos atrás, num ritual de oferecimento de presentes à minha cabeça, chamado bori, meu babalorixá, ou pai-de-santo, num momento do ritual, perguntou-me se eu tinha pais biológicos vivos. Disse-lhe que não, e ele fez uma pequena mudança no ritual. Além de oferecer presentes ao meu ori, minha cabeça, centro material de minha existência, ele também ofereceu presentes a meus pés, que representam a minha ancestralidade. Não apenas minha memória precisava "comer", como também a memória dos meus pais, representados por meus dois pés, pela parte do corpo que escreve nossa trajetória sobre a terra, pelo que nos traz do passado até aqui. Achei tal simbologia particularmente bonita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No candomblé existe o culto de "Babá Egum", ou o culto aos pais ancestrais. Independentemente da fé, necessária - e na qual eventualmente ainda fraquejo - para a certeza de que os que se foram estão lá, e se lembram de nós, cobrando uma lembrança recíproca; independentemente disso tudo, acho belíssimos os rituais de rememorização coletiva dos que vieram antes de nós. É um respeito para conosco, humanos. É um respeito para com a humanidade de cada um de nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje estou em Vitória da Conquista, e não posso visitar meus mortos em Maracás, cidade onde foram sepultados. Mas me lembro com carinho de cada um deles. Não se tornaram melhores com a morte. Lembro-me de seus defeitos também. Sagrados, tão sagrados quanto o ato amoroso e sexual que culminou no meu choro, nove meses depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Babá, Iyá, mojubá!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
Pai, Mãe, inclino-me humildemente diante de vós...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-1111640977476933048?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/1111640977476933048/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/11/homenagear-os-mortos.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/1111640977476933048?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/1111640977476933048?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/ziNfoUJwT_M/homenagear-os-mortos.html" title="Homenagear os mortos..." /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TNCDGvWv63I/AAAAAAAAAMU/16xXFEUDG38/s72-c/salvador+021.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/11/homenagear-os-mortos.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0UCQ3c6fSp7ImA9WxFaF0o.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-626664000368114822</id><published>2010-07-21T23:34:00.008-03:00</published><updated>2010-07-22T02:07:42.915-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-22T02:07:42.915-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="black is beautiful" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="comercial" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="negros" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Martin Luther King" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="propaganda" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="movimento negro" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="beleza" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Isaiah Mustafa" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cinema" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="racismo" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="estética" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Malcom X" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Old Spice" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Rosa Louise McCauley" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="TV" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Rosa Parks" /><title>Quando cheirar como um negro vira sonho de consumo</title><content type="html">&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;object height="340" width="560"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/owGykVbfgUE&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/owGykVbfgUE&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="560" height="340"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 14" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 14" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CUsers%5CJerry%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CUsers%5CJerry%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CUsers%5CJerry%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;
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&lt;/style&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Quando a jovem senhora Rosa Louise McCauley (1913-2005), mais conhecida como Rosa Parks,&amp;nbsp; recusou-se a dar seu lugar a outra pessoa num bonde, na década de 50, no estado do Alabama (EUA), ela não poderia imaginar quais as consequências do seu ato. Não, ela não estava sendo apenas deselegante. Pelas leis do seu estado, ela estava cometendo um crime: como negra, deveria ceder seu lugar ao branco. Mas ela se negou veementemente a fazer isso. Resultado: foi presa e multada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Ao tomar conhecimento da atitude de Rosa Parks, o pastor Marthin Luther King sentiu-se animado a lutar pelos direitos dos negros nos EUA. Incentivava os negros nos seus sermões a não sentirem vergonha da cor da sua pele. Pelo contrário, tinham motivos para se orgulharem de ser negros. Depois veio um Malcom X, mais radical, dizendo que na luta pela igualdade os negros deveriam se valer até mesmo da violência. Oscilando entre o pacifismo e o radicalismo, o movimento negro ganhou grandes proporções nos EUA e no mundo, e como mantra seus manifestantes repetiam que, sim, “black is beautiful”; sim, eu posso ser bonito e ser&amp;nbsp; negro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Apesar disso, a TV e o cinema sempre foram espaços muito limitados para os negros mostrarem sua beleza. Simplesmente porque o padrão de beleza hegemônico tem sido o branco. Geralmente atores negros têm conseguido papéis de protagonistas em produções voltadas para o público negro, como Damon Wayas, por exemplo, que interpreta Michael no seriado “Eu, A Patroa e as Crianças”. Poucos são os que atuam em filmes para o grande público. Aposto que você lembrou de cara do Denzel Washington. Talvez também do Will Smith, ou do Morgan Freeman. Mais algum?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Se é difícil para um ator negro ganhar projeção em filmes, imagine em propagandas comerciais. Uma empresa sabe que os modelos ou atores serão associados à sua marca, e por isso é comum que empresários participem da seleção de quem vai aparecer no comercial. Se você folhear qualquer revista ou assistir propagandas de TV por uma hora talvez nem se assuste ao verificar que os negros quase não aparecem em comerciais. E muitas vezes aparecem apenas para vender os chamados produtos “étnicos”: xampus para cabelos cacheados, maquiagem para negros ou cremes alisantes. O preconceito aí é de mão dupla: a empresa sabe que o público é preconceituoso e por isso não quer associar sua marca ao negro; e o público continua sendo preconceituoso porque continua assistindo a programas e comerciais que reafirmam que só há beleza no branco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Daí a minha agradável surpresa ao ver bombando na internet um vídeo comercial do perfume “Old Spice”, da multinacional Procter &amp;amp; Gamble. Não é um produto “étnico”, voltado apenas para os negros. É um produto para homens, simplesmente. E esse é o mote da campanha. O vídeo original, “The Man Your Man Could Smell Like” (numa tradução livre: “seu homem poderia cheirar como esse cara”), o garoto propaganda, Isaiah Mustafa, dirige-se às mulheres e num tom entre o cafajeste e o provocativo, convida-as a olharem para seus homens e olharem novamente para ele. “Infelizmente” para a garota que o assiste seu namorado provavelmente não é tão bonito e sensual quanto o “garoto do Old Spice” &amp;nbsp;– mas poderia cheirar como ele! Em seguida ele já está num barco luxuoso, com ingressos para um programa que a espectadora adora. Os ingressos se transformam em diamantes, outro sonho de consumo feminino. Por fim, eis o “cara do Old Spice” montado num cavalo branco. Era só o que faltava para o sonho se tornar completo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;O comercial caprichou nos efeitos gráficos e ganhou o Grand Prix em Cannes Lions 2010. Mas de nada adiantariam os aparatos tecnológicos e o excelente roteiro se não tivesse um ator/modelo como Isaiah Mustafa. Ele encarnou o personagem, e em sua página no Twitter, no Facebook ou no YouTube dialoga com os clientes. Novos comerciais foram feitos em cima do sucesso do primeiro. Basta digitar “old spice guy” no YouTube para ter acesso a vários deles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Duas coisas me chamaram a atenção nesse comercial. Primeiro o fato de um negro estar associado não apenas à virilidade sexual, como tem sido comum até então, mas também à beleza, ao charme, à riqueza, e até mesmo ao ideal de príncipe encantado, como fica claro na alusão ao cavalo branco. A empresa apostou no “black is beautiful” e o público reagiu favoravelmente. No entanto, para além disso, o fato de esse não ser um produto “étnico”, mas para o grande público, é ainda mais emblemático. Trocando em miúdos: quando você vê o comercial, você não vê um negro. Você vê um homem bonito, simplesmente.&amp;nbsp; E ficamos com a impressão de que, sim, todo homem poderia cheirar como ele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Quem diria, Dona Rosa Parks! Talvez aquele senhor branco que exigiu que a senhora se levantasse e lhe desse o lugar no bonde quisesse hoje cheirar como um negro. Talvez a neta dele compre para o namorado um Old Spice. Talvez não. O certo é que o negro continua lindo, e se percebemos isso hoje com maior nitidez é porque somos todos um pouco devedores do seu ato de coragem, Dona Rosa. Meus respeitos!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEev1pRMXjI/AAAAAAAAAKw/-qAIh4E9Wio/s1600/rosa%5B1%5D.jpeg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEev1pRMXjI/AAAAAAAAAKw/-qAIh4E9Wio/s320/rosa%5B1%5D.jpeg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEewnwONRMI/AAAAAAAAAK4/RbV1Foe-iyo/s1600/rparksmug1%5B1%5D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEewnwONRMI/AAAAAAAAAK4/RbV1Foe-iyo/s320/rparksmug1%5B1%5D.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEexBbln6II/AAAAAAAAALA/_XKM-0jUH1o/s1600/rose.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEexBbln6II/AAAAAAAAALA/_XKM-0jUH1o/s320/rose.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-626664000368114822?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/626664000368114822/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/07/quando-cheirar-como-um-negro-vira-sonho.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/626664000368114822?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/626664000368114822?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/ptVb2dziSuw/quando-cheirar-como-um-negro-vira-sonho.html" title="Quando cheirar como um negro vira sonho de consumo" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEev1pRMXjI/AAAAAAAAAKw/-qAIh4E9Wio/s72-c/rosa%5B1%5D.jpeg" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/07/quando-cheirar-como-um-negro-vira-sonho.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ak8MQno5fSp7ImA9WxFaEkw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-6401614509116642390</id><published>2010-07-15T15:03:00.005-03:00</published><updated>2010-07-15T15:34:43.425-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-15T15:34:43.425-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="direitos humanos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="leis" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="casamento gay" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="casamento homossexual" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Argentina" /><title>¡Marica! - Argentina aprova casamento gay</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TD9M8gx2blI/AAAAAAAAAKM/Uc83GkfrJxc/s1600/129900771-732674b906e33ea3fa0e842e976bdfa9.4c3f4ca0-scaled%5B1%5D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="250" src="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TD9M8gx2blI/AAAAAAAAAKM/Uc83GkfrJxc/s400/129900771-732674b906e33ea3fa0e842e976bdfa9.4c3f4ca0-scaled%5B1%5D.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Decisão histórica. A Argentina, de população esmagadoramente católica, tornou-se hoje, 15 de julho de 2010, o primeiro país latino-americano e décimo do mundo a decidir que os cidadãos homossexuais tem os mesmos direitos que os heterossexuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não importa como queiram chamar: casamento, matrimônio, união civil legal. O inferno! Não importa. São direitos. O Estado, que tomou da Igreja para si a prerrogativa de institucionalizar e oficializar o casamento, não poderia se deixar influenciar pela mesma na hora de definir o que é o casamento. Assim, agora a Constituição da Argentina, ao falar de família, não mais se referirá a "marido e mulher", e sim a "os contratantes".&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sim, parece que a Argentina está abandonando o caminho de "confirmar a incompetência da América católica", como cantou Caetano. Que a América Latina não seja definida por religião. Afinal, as igrejas evangélicas não tem se mostrado mais tolerantes. Que nos definamos pela democracia. Que todos os cidadãos, independentemente de seu sexo ou de sua orientação sexual, tenham os mesmos direitos. É o que queremos: nenhum direito a mais, mas também nenhum a menos!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, o gay tem dezenas de direitos a menos que o heterossexual. Não pode juntar renda com o parceiro para comprar imóvel, por exemplo. Nem receber pensão por morte - embora contribua compulsoriamente para a Previdência Social, como os heterossexuais. Que a Argentina seja um exemplo para o Brasil, que engaveta a discussão há anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Emocionei-me com a defesa apaixonada que o teatrólogo Pepe Ciprian Campoy fez no Senado argentino dos direitos dos homossexuais. Trata-se de um excerto de sua obra "Marica", um fictício e factível diálogo entre o poeta e dramaturgo espanhol García Lorca (1898-1936), homossexual assumido, e seu assassino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote&gt;Galileo, el más marica,&lt;br /&gt;
por pretender ver redondo&lt;br /&gt;
un mundo cuadrangulado&lt;br /&gt;
por cuadrángulos maricas.&lt;br /&gt;
(...)&lt;br /&gt;
¡marica penicilina&lt;br /&gt;
que solo curas maricas!&lt;br /&gt;
(...)&lt;br /&gt;
Marica el crucificado&lt;br /&gt;
por redimir mariquitas.&lt;br /&gt;
Marica, madre, ¡marica!&lt;br /&gt;
por haberme tu parido.&lt;br /&gt;
Marica también mi padre&lt;br /&gt;
por tener semen marica&lt;br /&gt;
y maricas mis ancestros&lt;br /&gt;
por engendrarnos maricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Y así... sumando ... maricas...&lt;br /&gt;
veremos que en cada tumba&lt;br /&gt;
de humanidades maricas&lt;br /&gt;
solo yacen esqueletos...&lt;br /&gt;
esqueletos de maricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Se escucha un tiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apagón.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;Obra completa disponível para download em: &lt;a href="http://www.megaupload.com/?d=B9G440B4"&gt;http://www.megaupload.com/?d=B9G440B4&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object height="385" width="480"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/HVjq7ctzrvw&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/HVjq7ctzrvw&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-6401614509116642390?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/6401614509116642390/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/07/marica-argentina-aprova-casamento-gay.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/6401614509116642390?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/6401614509116642390?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/R2N4mGPnPQ4/marica-argentina-aprova-casamento-gay.html" title="¡Marica! - Argentina aprova casamento gay" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TD9M8gx2blI/AAAAAAAAAKM/Uc83GkfrJxc/s72-c/129900771-732674b906e33ea3fa0e842e976bdfa9.4c3f4ca0-scaled%5B1%5D.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/07/marica-argentina-aprova-casamento-gay.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkABQ3wzfip7ImA9WxFbFEU.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-138438814522850824</id><published>2010-07-07T02:32:00.000-03:00</published><updated>2010-07-07T02:32:32.286-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-07T02:32:32.286-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Cerro Catedral" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Bariloche" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="neve" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Argentina" /><title>Brincando na Neve</title><content type="html">Um monte de coisas para escrever: sobre a Copa do Mundo vista desde a Argentina; sobre novas amizades feitas por aqui; sobre as disciplinas na UNL; sobre as leituras e releituras de mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas agora são férias. E aproveitamos as &lt;i&gt;vacaciones&lt;/i&gt; para conhecer Bariloche e brincar na neve. Isso, por si só, vai render muita coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por enquanto, dois videozinhos feitos em Cerro Catedral, Bariloche, Província de Rio Negro, Argentina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object width="500" height="405"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/LHnzEZ14Y4Q&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1?border=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/LHnzEZ14Y4Q&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1?border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object width="500" height="405"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/3_J6EtrrZYg&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1?border=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/3_J6EtrrZYg&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1?border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="500" height="405"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-138438814522850824?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/138438814522850824/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/07/brincando-na-neve.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/138438814522850824?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/138438814522850824?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/2HcfYsHKfCU/brincando-na-neve.html" title="Brincando na Neve" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/07/brincando-na-neve.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CUQDQ3s4eSp7ImA9WxFUEE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-5556216046856143570</id><published>2010-06-20T00:09:00.000-03:00</published><updated>2010-06-20T00:09:32.531-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-06-20T00:09:32.531-03:00</app:edited><title>Flagra de um Tango em Buenos Aires</title><content type="html">&lt;span&gt;Passeando pela Calle Florida, em Buenos Aires, eu, Luísa e Roney nos deparamos com uma apresentação de tango. Claro que eu tinha de gravar. Linda!&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object height="385" width="480"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/mjY2BRaMzDw&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/mjY2BRaMzDw&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-5556216046856143570?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/5556216046856143570/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/06/flagra-de-um-tango-em-buenos-aires.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/5556216046856143570?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/5556216046856143570?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/kvczh7rGSvw/flagra-de-um-tango-em-buenos-aires.html" title="Flagra de um Tango em Buenos Aires" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/06/flagra-de-um-tango-em-buenos-aires.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0cBRXsycCp7ImA9Wx9RFEg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-2872703706508019209</id><published>2010-06-15T00:55:00.007-03:00</published><updated>2010-12-15T21:24:14.598-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-12-15T21:24:14.598-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Sérgio Buarque de Hollanda" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Santa Fe" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Universidad Nacional del Litoral" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="UNL" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Argentina" /><title>Em Santa Fe (quase) como os santafesinos</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TBbjwqcqWCI/AAAAAAAAAKA/q5KlTRozLx8/s1600/sf.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300" src="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TBbjwqcqWCI/AAAAAAAAAKA/q5KlTRozLx8/s400/sf.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam dominar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõe-lhes antes o acento voluntário da linha reta. (...)&amp;nbsp; O traço retilíneo, em que se exprime a direção da vontade a um fim previsto e eleito, manifesta bem essa deliberação. E não é por acaso que ele impera decididamente em todas essas cidades espanholas, as primeiras cidades "abstratas" que edificaram europeus em nosso continente.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
(HOLANDA, Sérgio Buarque de. &lt;i&gt;Raízes do Brasil&lt;/i&gt;. São Paulo: Cia das Letras, 1995. Página 96)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bem, já que de Buenos Aires escrevi quando estava em Santa Fe, nada mais justo do que falar de minha morada temporária - Santa Fe - estando novamente em Buenos Aires. E por que estou &lt;i&gt;acá&lt;/i&gt;? Para fazer o que não pude quando estive pela primeira vez na capital portenha: turismo. E por que não pude? Primeiro porque não tinha tempo; segundo porque a bendita bolsa Capes ainda não havia sido liberada. &lt;i&gt;¡Adelante!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de mal arranhar Buenos Aires, no último dia 31 de maio, eu, Luísa e Roney pegamos o caminho do Aeroparque. Na paisagem, vi finalmente as "vilas miséria" daqui. Esse é o modo como as favelas são conhecidas por aqui. Mas foi tudo muito rápido. Ademais, o relevo plano de Buenos Aires favorece que as tais vilas de miséria fiquem escondidas. Diferentemente do Rio de Janeiro, onde os morros esfregam na cara dos transeuntes as favelas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Partimos de Buenos Aires por volta das 16 h (hora perfeita). A tensão começou a tomar conta. Afinal, estávamos finalmente indo para onde passaremos os próximos três meses: Santa Fe, capital da província de mesmo nome. Ali se situa a Universidad Nacional del Litoral. O fato de ser uma cidade distante do mar me intrigava: como seria possível falar de litoral? Mas ao sobrevoar a região, encharcadíssima de braços do Rio Paraná, pude compreender.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Santa Fe de la Vera Cruz, é seu nome completo. A Wikipedia me informa que ela tem 369.589 habitantes. Pouco maior que Vitória da Conquista. É claro que as comparações entre ambas as cidades seriam inevitáveis. E a primeira: o aeroporto. Sim, Santa Fe tem um aeroporto. Conquista tem uma biboca que perde até mesmo para a rodoviária de Itambé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma simpática professora da UNL nos esperava, e nos levou em seu carro para a casa onde haveríamos de fazer morada. Luísa por dois meses; eu e Roney por três. Lá também já nos esperava Héctor, responsável pelo intercâmbio. Antes de chegarmos, passamos pela cidade de Santo Tomé. Minúscula. Mas irritantemente organizada. Lembrei das cidades pequenas da Bahia. Nova &lt;i&gt;verguenza&lt;/i&gt;. E lembrei de Sérgio Buarque de Holanda e do seu clássico &lt;i&gt;Raízes do Brasil&lt;/i&gt;, onde é feita uma comparação entre as colonizações portuguesa e espanhola na América. Por isso usei-a como epígrafe desse texto. E digo mais: em Buenos Aires, Santo Tomé ou Santa Fe, basta dizer ao taxista o cruzamento das ruas. E se você for perguntar a alguém sobre determinada &lt;i&gt;ubicación &lt;/i&gt;(localização), fatalmente ele vai te dizer a quantas quadras você se encontra do local, e especificar qual o cruzamento de ruas exato. Em Santa Fe, por exemplo, moro na Mitre com a Domingos Silva. Isso é suficiente. A cidade é formada por quadrados quase perfeitos, e toda esquina indica o cruzamento e a direção em que o trânsito deve fluir. Repito: toda esquina. As ruas são enormes. Daí a orientação por encruzilhadas (&lt;i&gt;oritameji!&lt;/i&gt;) e quadras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adentramos em Santa Fe, e ela parece ser maior do que o seu número de habitantes indica. A tarde é fria. Nos muros, algumas pichações. Entre uma e outra com referências a sindicatos e ao partido comunista, uma me chama a atenção: protestava contra o desaparecimento de mulheres em Santa Fe. Comento, em meu portunhol abaianado, com a professora. Ela nos explica, um pouco constrangida, que se trata de rapto de meninas para a prostituição. E antes que eu faça qualquer comentário, ela emenda dizendo que no Brasil não é tão diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chegamos. Hector nos recebe, educadíssimo. Dá-nos as boas-vindas, e nos explica que, não havendo mais vagas nos alojamentos de professores ou alunos, teríamos uma casa só para nós. Por um lado fiquei decepcionado, já que queria praticar inglês e espanhol com os alunos, além de, evidentemente, interagir; mas, por outro, ter uma casa só para nós nos garantiria privacidade e o direito a um mínimo de barulho. Entramos. Em seguida, a dona da casa, Dona Alícia, atrás de nós, já chega e se apresenta. Ela fala que cada um já está devendo 500 pesos. Hector confirma, e nos diz que temos um dia para efetuar o pagamento. A bolsa da Capes ainda não havia saído. O jeito era raspar o que sobrou do salário. No dia seguinte, pontualmente às 8 da manhã, Hector nos pegaria para nos apresentar à UNL. Lembrei-me das palavras da professora Lívia, ainda no Brasil, no sentido de não nos atrasarmos. Aprendemos ainda que não deveríamos apagar o calefador - essa lareira a gás - da casa nunca. E descobrimos que, sem quintal, teríamos de lavar nossas roupas em lavanderias. Mal sabíamos que o calefador em breve teria uma nova utilidade...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No dia seguinte, pontualmente, Héctor batia à porta. É óbvio que não estávamos prontos. Engolimos o café (café?), e fomos. No caminho Roney pergunta pela academia mais próxima; Luísa, por uma escola de tango; eu, pela biblioteca ou livrarias...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucos minutos já estávamos atravessando a Ponte Colgante. Seria o rio Paraná abaixo? Héctor nos explica que não. Era a Laguna Setúbal, um dos braços do Paraná. Ele nos diz que podemos caminhar pela Costanera. Pergunto se a água era limpa, e ele responde orgulhosamente que sim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É pela Costanera que tenho caminhado, inclusive. Hora e meia por dia. O horário para fazer isso não importa: sempre vai fazer frio. Uma vez caminhei ao meio-dia. O frio era insuportável para mim: 8º. Nos fins-de-semana é possível ver as pessoas caminhando com seus cachorros muito bem tratados. Parece um desfile de cães de raça. Ao longo da Costanera famílias, grupos de amigos ou casais de namorados passeiam, ou sentam-se na balaustrada. Quase todos com sua garrafa térmica cheia de água quente e uma cumbuca para o mate. Apenas uma, que é socializada entre todos. Dizem que amarga menos que o chimarrão gaúcho. Ainda não provei. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A UNL é grande. Vamos direto para a sala de Héctor. Ele nos entrega as chaves do laboratório, e nos diz que podemos fazer uso de computadores e inclusive ligar para o Brasil. Fazemos isso imediatamente. Ele nos mostra a universidade, as bibliotecas, o espaço. Como não comparar com a Uesb? A UNL tem uma estrutura muito boa. Parece muito organizada. Mas na hora de nos matricularmos, descobrimos então - e só então - que temos de pagar por cada disciplina. Começo a perceber de onde vem o dinheiro para tanta organização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O módulo onde funcionam os cursos de exatas e biológicas é taciturno, sério, frio. Rapidamente fui dar uma olhada no módulo das humanidades, e a diferença é gritante: cores, cartazes, protesto. Gente alternativa. E, claro, os eternos clichês de revolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hora de uma pausa para uma explicação. Explicação, aliás, que sempre tenho de dar quando perguntam o que eu estudo no Brasil e na UNL. Bom, quem me conhece sabe que sou licenciado em História, com especialização em Literatura. Atualmente estou cursando mestrado multidisciplinar em Memória. Sou da área de humanas, enfim. Que diabos então estou fazendo na Faculdade de Bioquímica da UNL??? Sim, porque o próprio Héctor é ele mesmo bioquímico!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Confesso que ainda me pergunto o porquê. É claro que as disciplinas que cursamos aqui dialogam com as humanidades: todas têm algo que ver com educação e teoria do conhecimento. Ademais, é interessante o contraste nas discussões entre o povo das chamadas ciências duras, ou experimentais, e nós, das humanas. Mas, acima de tudo, trata-se principalmente de uma experiência antropológica. Tanto do ponto de vista epistemológico quanto cultural mesmo. Imersão total numa língua e numa área de conhecimento estranhos. &lt;i&gt;Otredad&lt;/i&gt; (alteridade).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi mais ou menos o que disse - ou quis dizer - na entrevista que concedemos à rádio universitária da UNL. Inesperadamente, Martín (na mesma rádio trabalham três com esse nome), o locutor, me mostrou um cartaz do bicentenário da independência da Argentina, e perguntou sobre a repercussão do mesmo no Brasil. Nem pestanejei. Disse que no Brasil não há muita preocupação em se discutir africanidades ou latinidades. Eu não poderia mentir, poderia? Afinal, nos cursos de história tupiniquins aprendemos mais do modo de vida de um camponês francês ou de um operário inglês do que de um metalúrgico iorubá ou de um pescador argentino... &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma de nossas primeiras gafes foi querer conhecer o comércio no começo da tarde, quando estavam quase todos em casa, tirando sua &lt;i&gt;siesta&lt;/i&gt;. Parecíamos estar numa cidade fantasma. Pensamos que poderia ser feriado. Mas logo descobrimos que aqui, apesar de ser capital de província, as pessoas mantêm o hábito de tirar uma soneca após o almoço. É por isso que o comércio fecha às 12:30 e só reabre às 16:30, para só fechar por volta das 20:00 h. No começo foi desconfortável. Mas, pensando bem, a &lt;i&gt;siesta &lt;/i&gt;não deixa de ser uma resistência cultural à voracidade capitalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chega o primeiro dia de aula. E logo na turma de doutorado. Conseguimos não nos atrasar. Mas muitos da turma, sim. A professora, idem. Essa pontualidade não era algo tão pétreo assim, afinal. Para meu espanto, conseguia entender boa parte do que a professora falava. Ela também ajudava, falando devagar. Mas os colegas falam tão rápido que dificilmente entendemos algo. Os ouvidos estão, entretanto, se acostumando aos poucos. Angústia mesmo eu tenho quando quero participar da discussão. Por se tratar de uma discussão teórica, acadêmica, o pensamento e a própria linguagem tem de ser mais elaborados. Elaboro na minha cabeça. Mas cadê o vocabulário &lt;i&gt;castellano &lt;/i&gt;para expressar o que penso? Ainda que com meu portunhol (mais "portu" que "nhol") abaianado, tenho-me feito ouvir e entender - creio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Choque cultural mesmo foi quando fomos almoçar no &lt;i&gt;comedor&lt;/i&gt; universitário. Prato baratinho, só 7 pesos. Chegando lá, recebemos nossa bandeja com um pedaço de frango, um pãozinho, sopa, batatas e uma laranja. O estômago avisou logo que aquilo não seria suficiente. Resolvemos almoçar no centro da cidade, no dia seguinte. Novamente a sopa, os pães, e um único pedaço de carne. E elas, claro, não poderiam faltar: as &lt;i&gt;papas&lt;/i&gt;, ou batatas. Gente, até de arroz eu senti saudade. Mas para piorar a situação, uma das sopas era de &lt;i&gt;zapallo&lt;/i&gt;. Claro que eu queria experimentar. Primeira colherada. Gosto de tabu. Seria abóbora? Sou filho de uma casa que cultua Iansã, e esse orixá odeia abóbora. Outra colherada para tirar a dúvida. Tem de ser! Roney e Luisa não dão por fé. Chamo o garçon. Eu não o entendo, e ele muito menos a mim. Ele tenta desenhar com as mãos o que é &lt;i&gt;zapallo&lt;/i&gt;. Nunca fui bom em jogo de mímica. Arrisco o inglês. Ele não falava inglês. Nem a referência ao &lt;i&gt;Halloween&lt;/i&gt; com as abóboras. Mas por que diabos um argentino teria de saber que abóboras tem tudo a ver com uma festa norte-americana? Eu não havia percebido o ridículo da situação. Melhor não tomar&amp;nbsp; a sopa. Que o estômago reclame. Depois recorri ao Pai Google e descobri que, sim, &lt;i&gt;zapallo&lt;/i&gt; é abóbora. Trato logo de procurar como se diz em espanhol os outros tabus alimentares que tenho: mel e milho (os principais).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Falando em "como se diz": aqui na Argentina o "&lt;i&gt;ll&lt;/i&gt;" não é pronunciado como "&lt;i&gt;lh&lt;/i&gt;", conforme geralmente aprendemos. Aqui se diz como "&lt;i&gt;ch&lt;/i&gt;". &lt;i&gt;Calle&lt;/i&gt; é "&lt;i&gt;cache&lt;/i&gt;", &lt;i&gt;pollo&lt;/i&gt; é "&lt;i&gt;pocho&lt;/i&gt;", &lt;i&gt;llamar&lt;/i&gt; é "&lt;i&gt;chamar&lt;/i&gt;". Particularidade argentina, assim como o uso do "&lt;i&gt;vos&lt;/i&gt;" no lugar do "&lt;i&gt;usted&lt;/i&gt;". Mas esse último caso eu já havia aprendido no filme &lt;i&gt;Plata Quemada&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conhecemos pessoas legais. Dario, que nos atualiza nas gírias e xingamentos. Martín (nome popularíssimo por aqui) que nos quer vender um netbook. Diego, pisciano com quem assisto ao jogo da Argentina. Falando em jogo, eu tinha escrito antes que a proliferação de bandeiras tinha chamado minha atenção. Diego me explica que isso é atípico. Fruto da copa e do bicentenário da Argentina. Ok. Mas ainda assim é estranho ver uma universidade federal como a UNL cheia de bandeiras. Isso me é estranho porque seria estranho as universidades brasileiras todas embandeiradas. Isso não ocorreu quando do "Brasil 500 Anos". Houve, pelo contrário, muita crítica. E Diego tem muitas críticas ao bicentenário. Ele explica que San Martín não foi herói. E assim como nosso D. Pedro I não estava montado num cavalo branco quando proclamou a independência do Brasil, tampouco San Martín estava - como cruzar as montanhas senão de mulas? E Diego me indica ainda alguns novos historiadores argentinos iconoclastas em relação à historiografia tradicional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caso alguém tenha chegado até aqui, talvez esteja se perguntando sobre a foto que abre esse texto. Aos que me dedicaram a atenção, explico: seu nome é Jesús. Estava eu sentado num dos bancos da &lt;i&gt;pietonal&lt;/i&gt; (rua comercial por onde só transitam pedestres) aguardando Roney e Luísa, que namoravam as vitrines. E ele chega, animado. Ao ver sua mão, pensei que quereria me vender algo. Mas ele só dizia que minha roupa era &lt;i&gt;"re copada"&lt;/i&gt; (duplamente legal, segundo a gíria). Era minha blusa riponga, minha bermuda jeans desfiada (Roney prometeu pendurá-la no Obelisco, em Buenos Aires) e meus chinelos de couro. Jesús era a alegria em pessoa. Uma simpatia. Perguntei se estudava, e ele disse que sim, mas que tinha de trabalhar para ajudar em casa. Discurso incomodamente familiar. Traços indígenas. Outro dia, caminhando novamente pela &lt;i&gt;pietonal &lt;/i&gt;(dessa vez finalmente com algum dinheiro, já liberado pela Capes), ouvi sua irmã chamando por ele. E o revi, trabalhando e rindo com alguns turistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi na ocasião em que conhecemos Jesús que se aproximou da gente Ricardo, catarinense capoeirista radicado por aqui há anos. Já com forte &lt;i&gt;tonada &lt;/i&gt;(sotaque) &lt;i&gt;castellana&lt;/i&gt;. Ele tem nos dado algumas dicas legais sobre sobrevivência tupiniquim por aqui.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E já que o dinheiro da Capes saiu, respiramos aliviados. Pagamos à pobre Luísa, que segurou a barra legal enquanto estávamos pobres "de marré de si". Até brincamos com a situação. Numa ocasião uma mendiga nos pediu esmola, dizendo: &lt;i&gt;"¡Tenga piedad!"&lt;/i&gt; Isso bastou para que, toda vez que precisávamos de dinheiro, repetíssemos o chavão para Luísa: &lt;i&gt;"¡Tenga piedad!"&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Agora sou eu&lt;i&gt; &lt;/i&gt;quem tenho piedade de algum provável e paciente leitor. Fico por aqui.&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Sobre a pobreza - e mesmo a miséria - em Santa Fe e Buenos Aires, escrevo outro dia.&lt;i&gt; ¡Hasta luego!&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-2872703706508019209?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/2872703706508019209/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/06/em-santa-fe-quase-como-os-santafesinos.html#comment-form" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2872703706508019209?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2872703706508019209?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/pH7tBVhQDdg/em-santa-fe-quase-como-os-santafesinos.html" title="Em Santa Fe (quase) como os santafesinos" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TBbjwqcqWCI/AAAAAAAAAKA/q5KlTRozLx8/s72-c/sf.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/06/em-santa-fe-quase-como-os-santafesinos.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkcMR3c4eyp7ImA9WxFWGUw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-2991519728880804516</id><published>2010-06-05T19:41:00.002-03:00</published><updated>2010-06-07T10:41:26.933-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-06-07T10:41:26.933-03:00</app:edited><title>Do Brasil a Buenos Aires</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TArSTC2SJ9I/AAAAAAAAAJ4/1cJOliCA3co/s1600/100_0298.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TArSTC2SJ9I/AAAAAAAAAJ4/1cJOliCA3co/s400/100_0298.JPG" width="300" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Menos de uma semana, e um turbilhão de novas sensações, novos estímulos, e velhas saudades. Mas cá estou, de meu quarto temporário, num bairro nobre de Santa Fé, capital da província de mesmo nome, depois de dar uma caminhada pela orla da cidade. Caminhada necessária, após comer tantos alfajores em tão poucos dias. Mas comecemos pelo começo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saí de Vitória da Conquista no último domingo, dia 30 de maio. Fazer o trajeto Conquista/Salvador em menos de uma hora era um sonho de consumo de há muito. Palavras de quem volta e meia tem de estar na capital baiana para compromissos religiosos e acadêmicos e gasta nessa brincadeira de ônibus cerca de nove horas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fiquei hospedado no domingo na casa de Rogério, irmão de Roney, meu colega de mestrado e companheiro de quarto. Lanchamos na Subway à noite, mas infelizmente não tive tempo de dar uma passeada pela Saraiva e comprar algo em português para ler na viagem. Ou simplesmente para passear. Perder (perder?) horas entre livros. Mas, enfim, para casa, que o dia seguinte começaria muito cedo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O avião deveria sair às 7:14 de Salvador em direção ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde pegaríamos o avião para Buenos Aires. Claro que eu contava com algumas horas lá em SP, para passear pelo aeroporto, especialmente por alguma livraria ou pelo freeshop. Ilusão. Houve atraso, e chegamos na hora de embarcar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bendito atraso, aliás. Devido à neblina em São Paulo, o piloto teve de desviar a rota de vôo. E por onde fomos? Pelo litoral! Eu não acreditei quando vi o Rio de Janeiro sob meus olhos e meus pés. Que cidade linda! Um dia ainda ponho meus pés lá. Vi ainda Santos do avião, e em pouco tempo aterrisávamos em Guarulhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ver São Paulo de cima foi algo deveras estranho: o Pacaembu e o Morumbi, os rios (rios?) Tietê e Pinheiros, e um mar de cidade que não acabava mais nunca. Pude identificar ainda Curitiba, e não tive como não me lembrar de Bia. Outra cidade onde devo pôr meus pés ainda nessa existência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algum tempo depois, começou a aparecer uma vastidão encharcada lá embaixo. Não sabia mais se estava sobrevoando o Brasil, o Uruguai ou a Argentina. Até que comecei a vislumbrar um rio que não acabava mais. Barrento. Cheguei a pensar que fosse o mar. Então ei-la: Buenos Aires, imensa, irritantemente organizada em quadrados ricos e pobres, quase todos encharcados. Quase não podia deixar de notar sua paisagem não-tropical...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aterrisamos em Ezeiza, o aeroporto internacional da capital argentina. Na entrada, uma surpresa inusitada: argentinos e estrangeiros oriundos de países do Mercosul para um lado, europeus e estadunidenses para outro. Trata-se da política recíproca: cidadãos desses lugares são tratados como argentinos são tratados lá. Acho justo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na fila da alfândega, eu e Roney nos dirigimos juntos à burocracia portenha. A mulher mal nos olha, e avisa que somos bem-vindos por três meses. Não sei se foi muito bem boas-vindas, mas vá lá. Melhor do que ser tratado como um estadunidense ou europeu por aqui - ao menos na porta de entrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E agora, que fazer? Cambiar o dinheiro? Outra fila, outra burocracia. Novo resmungar burocrático. E se o piloto disse que fazia, naquela tarde ensolarada sem nenhuma nuvem no céu, 8°, é claro que eu estava ansioso por sentir aquele frio. Mas o aeroporto tinha sistema de calefação, evidentemente. Entrando no táxi, o mesmo sistema me afastava do frio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saindo do aeroporto, a primeira multinacional que vejo é um posto da Petrobrás. E os 30 km que separam o aeroporto internacional de onde ficaríamos, a Downtown portenha, tem uma paisagem lindíssima. Finalmente, ao descer do táxi defronte ao Firulete, hostel onde nos hospedaríamos, sinto todo aquele frio estranho. Extremamente frio. Olho para o céu limpo e cismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É que em Vitória da Conquista onde moro, conhecida como Suíça Baiana, só faz frio de verdade quando venta ou está nublado. É condição sine qua non para o frio. Mas ali, em Buenos Aires, sem vento e sem nuvem, o frio assustava. Melhor subir para o Firulete.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ambiente muito legal. Lembra de longe algum casarão do Pelourinho. Claro que não é um estilo luso-tropical. Nem sei que estilo é aquele. Mas é um casarão antigo. Um dos donos, brasileiro que mora há uma vintena em Buenos Aires, já assimilou o sotaque. Ambiente interno bem retrô. Eu só queria colocar minha bagagem no quarto e circular pela cidade. Foi o que fizemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E agora? Com um mapa em mãos, entregue no aeroporto por algum agente burocrático sorridente, ficamos indecisos entre o obelisco e a Plaza de Mayo. Vamos à praça. Nossa, os portenhos que circulam pelo centro são muito charmosos. É claro que uma cidade fria no fim do outono obriga os transeuntes a se vestirem mais, mas o bom gosto evidente não é responsabilidade do frio. É charme local mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu ainda não fui à Europa, mas da imagem que faço de lá, por livros, filmes ou pelo senso comum mesmo, é quase a que vi retratada na Downtow de Buenos Aires: frio, árvores coníferas, pedestres com cachecóis e sobretudos, limpeza pelas ruas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Casa Rosada não é tão imponente quanto eu pensava. E os bêbados ou vendedores ambulantes que por lá andavam tinham feições desconcertantemente indígenas. Claro que pensei que, no Brasil, seus correlatos seriam negros ou mestiços. Mas andemos à praça do Obelisco, ou Roney me enforca...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Casarões antigos com faixadas luminosas de multinacionais. Bandeiras argentinas por todo o canto, a lembrar o 25 de Maio que se passou, ou a copa que se aproxima, não sei. Só sei que no Brasil, seja no 7 de Setembro ou na copa, bandeiras pelas ruas só são comuns em enfeites do comércio ou do governo. Mas nas casas, como tenho visto por aqui, seja em Buenos Aires ou em Santa Fé, onde estou agora, definitivamente não.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Escurece. Voltamos para o hostel, a esperar Luisa, que não conseguiu o mesmo voo que o nosso de Salvador para Buenos Aires. Adormecemos, e ela chega, fazendo barulho. Quer ver o que já vimos. Mas decidimos deixar para o dia seguinte, e comer algo. Pegamos a Florida, chegamos à Corrientes. Novamente na praça do Obelisco. E onde comemos? Num McDonalds (há três em duas quadras!), ao som de Lady Gaga. Querem algo mais "latino" que isso? ¬¬&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de uma noite de muito frio, sem calefação (tinha, mas não ligamos...), refizemos o programa de turista. Mas queríamos ver a parte comercial. A cada esquina alguém de traço indígena nos entregava folhetos oferecendo sexo barato. Não é brincadeira: a cada esquina. Num dos folhetos, a prostituta que oferecia seus serviços se gabava de ser brasileira...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos pedir informação a um vendedor ambulante, e eis outro brasileiro, vendendo tomates malucos para sobreviver. Prometemos comprar alguns quando estivermos retornando ao Brasil. E chegamos aos notebooks. Mais baratos, mas não tanto quanto eu pensava. Talvez volte para comprar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não consegui ver com calma as livrarias. Achei, ao menos, um exemplar da "Filosofia da História", de Hegel. Em espanhol, por supuesto. Voltarei para comprar. Uma olhada rápida nas seções de CDs e DVDs, e vejo que Alexandre Pires faz muito sucesso por acá. Alguma coisa da velha guarda da MPB (Chico, Caetano, Gal, Bethânia), e muita coisa de axé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim, hora de pegar o caminho para o Aeroparque, aeroporto de voos domésticos (embora esteja se internacionalizando). Finalmente vejo de perto o Rio da Plata. Barrento. Não se vê o outro lado. Do outro lado fica o Uruguai. Não visitamos o túmulo de Evita. Vai ficar para o retorno a Buenos Aires, que seja logo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em breve contarei sobre os primeiros dias de Santa Fé. Mas adianto que aqui, como em Buenos Aires, é comum homens heterossexuais se cumprimentando com beijos. Tão bonitinhos.... hehe&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-2991519728880804516?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/2991519728880804516/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/06/do-brasil-buenos-aires.html#comment-form" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2991519728880804516?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/2991519728880804516?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/k_Jr89EiL1Y/do-brasil-buenos-aires.html" title="Do Brasil a Buenos Aires" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TArSTC2SJ9I/AAAAAAAAAJ4/1cJOliCA3co/s72-c/100_0298.JPG" height="72" width="72" /><thr:total>6</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/06/do-brasil-buenos-aires.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEYERno4eip7ImA9WxFWEk8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-3719255414898588603</id><published>2010-05-30T10:21:00.002-03:00</published><updated>2010-05-30T10:28:27.432-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-05-30T10:28:27.432-03:00</app:edited><title>¡Dale!</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://justoeu.files.wordpress.com/2008/07/mafalda.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://justoeu.files.wordpress.com/2008/07/mafalda.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim, chegou o dia de viajar para a Argentina. Cursar disciplinas do mestrado. Ter uma experiência duplamente antropológica: Primeiro por experimentar a imersão total numa cultura nova. Depois por ser fruto das humanidades e dialogar com mestrandos e doutorandos das chamadas ciências duras, ou da natureza. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sei que voltarei transformado. Claro que bate um medinho. Mentira, bate um medão. Mas não o medo que paralisa, que te impede de ir adiante. Muito menos o medo que te impulsiona a fugir. É o medo saudável, desconfiado, que negocia mas que cede.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isso aí, meus amigos. As próximas postagens serão feitas da Argentina. Colocarei aqui minhas impressões e digressões. Fotos. Descobertas do outro e de mim. Continuem comigo, por favor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Momento totalmente Belchior:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object height="364" width="445"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/cUjXiV6Fnwc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x006699&amp;color2=0x54abd6&amp;border=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/cUjXiV6Fnwc&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;color1=0x006699&amp;color2=0x54abd6&amp;border=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="445" height="364"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-3719255414898588603?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/3719255414898588603/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/05/dale.html#comment-form" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3719255414898588603?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3719255414898588603?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/B491bLpdTCQ/dale.html" title="¡Dale!" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/05/dale.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0EHQ3Y5eCp7ImA9WxFWEUo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-7053832626105681765</id><published>2010-05-29T21:15:00.005-03:00</published><updated>2010-05-29T21:33:52.820-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-05-29T21:33:52.820-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="resenha" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Bahia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Benin" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="escravos" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Chachá" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="escravidão" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Alberto da Costa e Silva" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="África" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Francisco félix de Souza" /><title>Chachá - O baiano que fez fortuna na África vendendo escravos</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;h1 style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;Resenha de&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;: SILVA, Alberto da Costa  e. &lt;i&gt;Francisco Félix de Souza, mercador de escravos. &lt;/i&gt;Rio de  Janeiro: Nova Fronteira: EdUERJ, 2004.&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;h1 style="font-family: &amp;quot;Trebuchet MS&amp;quot;,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; line-height: 150%;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/h1&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TAGvhEN4ewI/AAAAAAAAAJo/OKf6-H8fwOg/s1600/Francisco_F%25C3%25A9lix_de_Souza%5B1%5D.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TAGvhEN4ewI/AAAAAAAAAJo/OKf6-H8fwOg/s320/Francisco_F%25C3%25A9lix_de_Souza%5B1%5D.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;
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&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Em sua mais recente obra, o africanista Alberto da Costa e Silva realiza, segundo ele mesmo, um sonho dos tempos de adolescência: escrever a biografia daquele que é tido como um dos maiores – senão o maior – mercadores de escravos do século XIX – Francisco Félix de Souza, o Chachá. Quase desistiu, devido a um artigo recente de Robin Law – que, segundo Costa e Silva, é “quem mais sabe... da história da Costa dos Escravos” (p. 06) – e que também tratava do Chachá. Prevaleceu, no entanto, o desejo de ver seu sonho realizado. Melhor para os estudiosos e todos aqueles que nutrem interesse pela história da África, pois fomos todos agraciados com um livro profundo, mas de leitura aprazível.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não busca Costa e Silva fornecer-nos um retrato definitivo de Francisco Félix de Souza. Este é, segundo ele, o &lt;i&gt;seu &lt;/i&gt;retrato do Chachá. Para tanto, o autor valeu-se de documentos escritos por pessoas que tiveram contato com Francisco Félix, mas também de depoimentos orais dos inúmeros descendentes do Chachá. Não nos esqueçamos que Costa e Silva é, além de historiador, diplomata, e sua profissão levou-o a conhecer de perto o cenário onde Francisco Félix deixou de ser um anônimo para se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Assim, é com propriedade que o autor descreve a geografia da antiga Costa dos Escravos e, mais especificamente, do antigo reino do Daomé. De como esta geografia facilitava ou dificultava as guerras entre os reinos africanos, o transporte dos escravos e o seu embarque nos portos de Ajudá, Badagry ou Lagos. E, se nos fala de Singbomey, a casa-grande que o Chachá mandou erguer em Ajudá, é de dentro do casarão que o faz.&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.history.ac.uk/ihr/Focus/Slavery/images/illustration4sm.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://www.history.ac.uk/ihr/Focus/Slavery/images/illustration4sm.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;Tumba do Chachá, no interior de sua casa, Singbomey, no atual Benin&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: &amp;quot;Helvetica Neue&amp;quot;,Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;E é exatamente com esta descrição que Costa e Silva começa o primeiro dos 16 capítulos que compõem seu livro de 208 páginas. Somos convidados a compartilhar da intimidade do biografado, pois nos encontramos no quarto do Chachá, onde a mobília portuguesa se confunde com costumes africanos e brasileiros. É neste quarto que Francisco Félix se encontra sepultado, “dentro de casa, à daomeana” (p. 12). Sobre sua vida, segundo o autor, as dúvidas são muitas. Se há certeza quanto à data de sua morte – 08 de maio de 1849, em Ajudá – a maior parte de sua vida é cercada de incertezas. Sabe-se que nasceu em Salvador, segundo depoimento de próprio punho do Chachá, mas o ano é incerto (1754 ou 1768?). Sabe-se ainda que foi guarda-livros do almoxarife e escrivão do forte luso de São João Batista de Ajudá, mas não exatamente quando começou a prestar seus serviços. Sobre os motivos que o levaram à costa africana os documentos mais confundem que informam. Para Costa e Silva, Francisco Félix provavelmente era um degredado, cujos serviços foram aproveitados pela Coroa portuguesa. Segundo a tradição oral em Ajudá, em algum momento do final do XVIII Francisco Félix teria desistido do forte português e partido em direção a Badagry, atraído pelo lucro do comércio de escravos.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O capítulo seguinte narra a transformação de Badagry, de mero vilarejo a centro comercial de escravos no século XVIII. Foi no movimentado porto de Badagry, como vimos acima, que Francisco Félix teria buscado oportunidades como mercador de escravos, em fins do Setecentos. Depois de três anos em Badagry, Francisco Félix teria voltado à Bahia e, em 1800, retornado novamente à África, em Popô Pequeno (também chamada de Anexô). Lá, após se casar com a filha de Comalangã, rei da ilha de Gliji, teria recebido terras para fundar seu entreposto comercial, Adjido. Segundo outra versão, esta talvez teria sido a primeira vez que Francisco Félix pisava em solo africano, e ele só seria empregado no forte português de Ajudá algum tempo depois. De qualquer maneira, segundo Alberto da Costa e Silva, Francisco Félix já estava na Costa dos Escravos no começo do Oitocentos, fosse em Badagry ou Popô Pequeno, a comerciar gente.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
No capítulo 3 o autor tenta explicar como Francisco Félix, um homem que chegara pobre, conseguiu se tornar um riquíssimo mercador de escravos. Conforme relato do próprio baiano, ele sobrevivera furtando a moeda local, os cauris, ou búzios, ofertados nos santuários dos voduns, divindades fons. É possível. O autor nos informa que os alimentos eram muito baratos naquela região do litoral africano, e mesmo com poucos cauris ninguém morreria de fome. Mas daí a tornar-se comerciante de escravos? Os escravos eram mercadoria cara, que não podia ser adquirida sem ouro, cauris, tecidos de luxo, tabaco baiano, aguardentes, armas de fogo, pólvora, contas, facas, cobre e latão, “produtos que, na maioria dos casos, não custavam barato em sua origem e viam o preço aumentado pelos riscos e as distâncias do transporte até o golfo do Benin” (p. 32). Neste momento a erudição de Costa e Silva orienta as hipóteses que ele levanta para explicar o sucesso de Francisco Félix de Souza: como os navios negreiros nem sempre encontravam sua mercadoria quando chegavam à Costa dos Escravos, às vezes era necessário comprar cativos a crédito, com pagamento adiantado. Ao que parece o baiano deve ter se beneficiado desse sistema de crédito após ter granjeado a confiança de algum mercador. Além disso – conjectura Costa e Silva – Francisco Félix provavelmente tinha facilidade em aprender idiomas, e deve ter trabalhado também como intérprete nas transações comerciais. O certo é que já tinha prestígio por ter se casado com a filha de um rei local. Amizades com pessoas influentes junto ao &lt;i&gt;dadá&lt;/i&gt; (rei do Daomé) Agonglo também foram importantes para a ascensão econômica de Francisco Félix. Por tudo isso se tornara um influente mediador no comércio, entre europeus e brasileiros, de um lado, e os chefes africanos, de outro. Com seus ganhos teria Francisco Félix comprado seus primeiros escravos, sempre aguardando o melhor momento para vendê-los.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O capítulo 4 trata dos motivos que levaram Ajudá a se tornar o principal centro exportador de escravos do Golfo do Benin no início do século XVIII. Apesar de não ser bem localizada geograficamente para o embarque de escravos, Ajudá situava-se numa região densamente povoada, com muitos estados em conflito, o que garantia o fornecimento de cativos. Os comandantes dos navios negreiros preferiam os riscos oferecidos pelas ondas enormes, bancos de areia e tubarões de Ajudá, do que se demorarem em outros portos africanos à espera da mercadoria. Ademais, somos informados que a neutralidade de Ajudá nos conflitos entre estados próximos tornava seu comércio seguro. Vemos ainda que em Ajudá, no Setecentos, predominaram os negreiros oriundos do Brasil, pois detinham a moeda mais apreciada naquele parte da África: o tabaco baiano e o ouro das Minas Gerais.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O reino do Daomé, em suas guerras, produzia muitos escravos que eram vendidos ao reino de Aladá, que por sua vez revendia-os aos comerciantes de escravos de Ajudá; estes negociavam com os traficantes europeus e baianos. Conforme Costa e Silva nos mostra no capítulo 5, o dadá queria vender seus escravos diretamente aos traficantes, sem intermédios. Por isso – mas também porque tinha uma “ideologia da expansão militar permanente” (p. 51) – invadiu os reinos de Aladá (1724) e Huedá, ou Ajudá (1727). Estavam os daomeanos interessados em trocar seus escravos principalmente por armas de fogo, a fim de ampliarem sua superioridade bélica para levarem adiante sua expansão e obterem mais escravos, num círculo infindável. O porto de Ajudá, agora sob o monopólio comercial do dadá, perdeu sua neutralidade e a insegurança se espalhou. Como o dadá só vendia em Ajudá os escravos que obtinha nas guerras, o fornecimento de escravos passou a depender do bom sucesso do Daomé nas suas investidas, o que gerava períodos de escassez de cativos. Além disso, o dadá preferia os traficantes brasileiros, que pagavam em ouro. Tudo isto acabou afugentando os traficantes europeus e, posteriormente, até mesmo os brasileiros do até então movimentadíssimo porto de Ajudá.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
No capítulo 6 vemos como sucessivos dadás (Agaja, Tegbesu, Kpengla, Agonglo e Adandozan) tentam devolver o vigor comercial ao Porto de Ajudá durante o Setecentos. Mas os constrangimentos que o dadá impunha aos comerciantes estabelecidos em Ajudá, como se apossar das propriedades (inclusive esposas) daquele que morria ou regressava a seu país, afastou-os de Ajudá. Estes passaram a preferir outros portos, especialmente os aparelhados por libertos brasileiros que retornaram à África, como os de Porto Novo e Lagos.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
No capítulo 7, a propósito do primeiro encontro entre Francisco Félix de Souza e o então dadá Adandozan, Alberto da Costa e Silva relata como teria sido a viagem que Francisco Félix teria feito entre Ajudá e a capital daomeana, Abomé. É quando conhecemos um pouco do cotidiano do povo fon no começo do século XIX. De Ajudá, Costa e Silva fala das residências, do forte, dos mercados e das vestimentas dos diversos grupos sociais. A caminho de Abomé, ficamos sabendo da excelente qualidade da Estrada Real do Daomé, elogiada por europeus devido à sua largura e à boa manutenção. Na chegada a Abomé, Francisco Félix deve ter se deparado com uma cidade protegida por um fosso e abastecida com as águas de um riacho próximo. O autor retrata ainda as profissões e os palácios de Abomé, além da intimidade do dadá, suas esposas e seu quarto. Por fim, imagina, com base na cultura daomeana, como teria sido o encontro entre Francisco Félix de Souza e Adandozan: as reverências e os ritos da audiência.&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.beninensis.net/gallery/albums/Le-Benin-en-images/Palais_Royal_Abomey.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="240" src="http://www.beninensis.net/gallery/albums/Le-Benin-en-images/Palais_Royal_Abomey.gif" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;Palácio dos dadás, ou reis, do Daomé&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;No capítulo oitavo encontramos Francisco Félix já comerciante de gente, exercendo seu ofício na fortaleza lusa de Ajudá, e a fornecer mercadorias em créditos ao dadá para obter seus escravos. Quando Adandozan deixa de efetuar um pagamento, Francisco Félix queixa-se e é preso. Seu infortúnio, entretanto, acabaria por favorecê-lo. Isto porque o rei Adandozan já não agradava mais nem à elite daomeana nem aos comerciantes com quem tinha tratos, e um golpe pelo trono parecia iminente. O príncipe Gapê, meio-irmão de Adandozan, procura Francisco Félix na prisão e faz com ele um pacto de sangue, à maneira dos fons. Gapê providencia a fuga de Francisco Félix, e este em troca consegue para Gapê armas e outros bens. Ajudado também por nobres, Gapê é bem sucedido no seu golpe, e se torna dadá por volta de 1818 com o nome de Guezo. O novo dadá convida Francisco Félix, que morava em Anexô, a se mudar para Ajudá. Segundo seus descendentes é nomeado chefe dos brancos e vice-rei de Ajudá, com o título de &lt;i&gt;chachá&lt;/i&gt;. Francisco Félix conseguiu tornar-se então um importante agente comercial, com o direito de primazia na venda de seus escravos, o que lhe permitia escolher as melhores mercadorias de troca. Obteve o Chachá muito poder em Ajudá e grande influência sobre Guezo, de quem era “primeiro amigo”, conforme a tradição fon. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
No capítulo 9 vemos o auge do prestígio do Chachá. Prestígio como amigo do dadá e responsável pelo forte português de Ajudá. Mesmo o tratado feito entre Portugal e Inglaterra em 1815, que proibia o tráfico de escravos ao norte do Equador (o que incluía o golfo do Benin), não foi empecilho ao sucesso comercial de Francisco Félix, que soube driblar a marinha inglesa. É certo que o Chachá teve de se adaptar ao tráfico clandestino, e seu negócio se tornou ainda mais arriscado. Mas ele contava com o privilégio da primeira escolha, e podia vender seus escravos rapidamente. Ademais, deixou de depender de terceiros para alimentar sua escravaria e passou a utilizar os cativos para produzir seu próprio alimento enquanto aguardavam o embarque. Fez alianças com portos fora dos domínios do Daomé para garantir o suprimento de mercadoria humana. Quando as disputas políticas ameaçavam seus negócios, o Chachá interferia. Por tudo isso, Francisco Félix tornou-se o maior mercador de escravos do Golfo do Benin, admirado na Europa e na América. Tanto era assim que o dadá Guezo tentou se valer do prestígio do Chachá para encontrar sua rainha-mãe, Nã Agontimé, que havia sido vendida como escrava quando Adandozan subira ao poder.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O décimo capítulo trata das conseqüências da Independência do Brasil na Costa dos Escravos. Para o Chachá era mais conveniente permanecer português, embora o grosso de seus negócios se dessem com a Bahia. Mas Costa e Silva afirma que Francisco Félix manteve as duas nacionalidades, a portuguesa e a brasileira, que eram usadas conforme suas conveniências. Entre os comerciantes brasileiros e portugueses que viviam na Costa dos Escravos não houve divisões, pois os interesses de ambos continuavam os mesmos: comerciar escravos. O Levante dos Malês, ocorrido em 1835, na Bahia, levou o governo baiano a expulsar os revoltosos libertos, e muitos foram recebidos pelo Chachá. Esses passaram a ser conhecidos na África como agudás. Embora viessem também de outras partes do Brasil, provinham, em sua maioria, da Bahia. Ao chegarem à África, não se sentiam mais ijexás, huedás, hauçás, ou jejes, ou não eram mais vistos assim pelos que imaginavam ser seu povo. Sentindo-se estrangeiros, o Brasil era um ponto em comum, e passaram a morar juntos. Os que se fixaram em Ajudá ergueram suas casas ao redor da casa do Chachá, a quem viam como protetor e líder. Isto era bom para Francisco Félix, pois ao aumentar o número de dependentes e agregados, reforçava sua riqueza e seu poder. O capítulo 11 traz alguns casos de agudás que enriqueceram como mercadores de escravos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O capítulo 12 trata das conseqüências do &lt;i&gt;Equipment Act&lt;/i&gt;, de 1839, através do qual a Inglaterra reservava-se o direito de prender qualquer navio que transportasse escravos. Este capítulo mostra ainda as estratégias de sobrevivência do maior mercador de escravos do golfo do Benim diante da vigilância britânica.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
No capítulo 13 aproximamo-nos um pouco mais do cotidiano do Chachá. Ficamos sabendo de sua numerosa prole com as suas esposas africanas. Criados segundo a cultura de suas mães (que podiam ser fons, guns, hulas, minas, nagôs ou mahis), seus filhos eram instados a se comportarem como europeus a partir da adolescência. Alguns foram estudar na Bahia. “E a quase todos, transmitiu o que pôde de seus saberes de traficante” (p. 136). Vestia-se como europeu, morava e comia como brasileiro, e agia como chefe daomeano. Católico “à baiana”, cultuava os voduns fons. O Chachá era um excelente anfitrião, pois tratava bem até mesmo os visitantes que se opunham ao tráfico, e era por eles muitíssimo elogiado. Chegou a receber, entre os fons, louvações, à maneira dos orikis iorubás. &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O ocaso do Chachá nos é apresentado nos capítulos 14 e 15 do livro. Em seus últimos anos, Francisco Félix de Souza passou a ter prejuízos devido à intensificação da repressão inglesa. Com isso, deixou de honrar os créditos que recebera antecipadamente de Salvador e de Havana. Já não podia contar muito com o dadá Guezo, que passara a enviar escravos para outros portos menos vigiados que o de Ajudá. O Chachá acabou perdendo sua condição de único agente comercial de Guezo, ainda que continuasse com alguns privilégios. Se diminuía a demanda de escravos, crescia a de azeite-de-dendê, utilizado na Europa para produzir velas e sabão. Muitos traficantes tornaram-se então senhores de dendezais, sem deixar o comércio de escravos. Quando este finda, os personagens continuam os mesmos, mudando apenas a mercadoria: de gente a azeite-de-dendê, ainda que com lucros menores. Ao contrário dos traficantes britânicos, que garantiram sua sobrevivência financeira através da diversificação de investimentos, Francisco Félix, de mentalidade luso-brasileira, preferia “investir” seu dinheiro em doações à Igreja, no luxo, na ostentação e no desperdício.&amp;nbsp; Certamente – pensa Costa e Silva – , o Chachá já antevira o declínio do tráfico, mas não sabia fazer outra coisa que não vender gente. E gostava de sua vida. “Encontrara a sua Pasárgada, e não tinha por que afastar-se dela” (p. 169).&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
O último capítulo narra brevemente a festa de “posse” do novo Chachá, o VIII, Honoré Feliciano Julião de Souza, em 1995, acompanhada pelos Souza e muitos agudás de Ajudá. Os atuais descendentes de Francisco Félix esquecem, de acordo com o relato de Costa e Silva, o que consideram condenável na vida de seu antepassado: o ofício de mercador de escravos. Preferem lembrar dele como patriarca e protetor dos ex-escravos regressados do Brasil. É o que o historiador inglês Peter Burke chama de “uso da amnésia social”: indivíduos ou grupos buscam tirar da memória “um passado que as pessoas por um ou outro motivo não desejam conhecer, embora talvez fosse melhor para elas se o fizessem”&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=6939741587856919558#_ftn1" name="_ftnref1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;. Mas como o esquecimento nunca é completo, ou pelo menos nem todos preferem esquecer, no meio da festa um beninense chama Costa e Silva à parte e cochicha em seu ouvido “que Francisco Félix de Souza não foi aquele grande homem a quem cantam loas, mas a principal personagem de um medonho pesadelo” (p. 175).&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/images/1616_agudas/5155156_beninmilton6a.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/images/1616_agudas/5155156_beninmilton6a.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span class="bodytext" style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;O Rei do Daomé (sentado, sem camisa) saúda Mitô  Honoré Feliciano de Souza, o Chachá VIII, vice-rei de Uidá.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/images/030220_novaagudas300.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://www.bbc.co.uk/portuguese/images/030220_novaagudas300.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;Chachá VIII demonstra orgulho por sua ascendência brasileira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Desta maneira, percebemos que a ambigüidade prevalece deliberadamente no retrato do Chachá que Alberto da Costa e Silva busca nos apresentar em seu mais recente livro. Um retrato que às vezes aparenta estar embaçado, indefinido. E nem poderia ser diferente, já que, com sua honestidade característica, em diversos momentos Costa e Silva reconhece que apenas especula, em vez de afirmar. E lamenta que não haja, “semelhante ao de exclamação, um ponto de dúvida” para encerrar os períodos onde as incertezas abundam (p. 14).&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
Em outros momentos, porém, conseguimos visualizar mais nitidamente o Chachá retratado por Alberto da Costa e Silva. Onde os documentos escritos ou a memória coletiva silenciam, o autor enriquece a biografia de Francisco Félix com sua erudição acerca da geografia, dos costumes, do cotidiano, das culturas e da história dos habitantes do golfo do Benin. É inegável que ter convivido de perto com a realidade da África confere-lhe um conhecimento de causa que se torna um diferencial em relação a obras de outros historiadores que tratam do continente africano.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;
Francisco Félix simplesmente escapole de qualquer tentativa de um parecer definitivo sobre sua pessoa. Sendo ele um homem de mentalidade luso-brasileira colonial, que teve de se adaptar às cosmovisões dos povos que habitavam a Costa dos Escravos, especialmente dos jejes, podemos afirmar que Francisco Félix se integra, juntamente com os lançados portugueses na Senegâmbia dos fins do século XV&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=6939741587856919558#_ftn2" name="_ftnref2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, a um grupo que Costa e Silva chama de “centauros culturais: africanos entre africanos, europeus ou europeizados quando em contato com europeus” (p. 35). Tal maleabilidade cultural foi imprescindível para que Francisco Félix sobrevivesse em terra estranha e se tornasse o maior negociante de almas que o tráfico já produzira até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.companhiadasletras.com.br/images/autores/02271_gg.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://www.companhiadasletras.com.br/images/autores/02271_gg.jpg" width="212" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyTextIndent" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Courier New&amp;quot;,Courier,monospace;"&gt;O diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva, autor do livro resenhado&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;hr align="left" size="1" width="33%" /&gt;&lt;div id="ftn1" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText" style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=6939741587856919558#_ftnref1" name="_ftn1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; BURKE, Peter.&amp;nbsp; &lt;i&gt;Variedades de história cultural&lt;/i&gt;. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 88.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div id="ftn2" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div class="MsoFootnoteText" style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=6939741587856919558#_ftnref2" name="_ftn2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; O autor discorre sobre os lançados em SILVA, Alberto da Costa e. &lt;i&gt;A manilha e o libambo – a África e a escravidão, de 1500 a 1700. &lt;/i&gt;Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2002. Capítulo 7, páginas 229-279.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-7053832626105681765?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/7053832626105681765/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/05/chacha-o-baiano-que-fez-fortuna-na.html#comment-form" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7053832626105681765?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/7053832626105681765?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/GE7AHlCppl8/chacha-o-baiano-que-fez-fortuna-na.html" title="Chachá - O baiano que fez fortuna na África vendendo escravos" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TAGvhEN4ewI/AAAAAAAAAJo/OKf6-H8fwOg/s72-c/Francisco_F%25C3%25A9lix_de_Souza%5B1%5D.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/05/chacha-o-baiano-que-fez-fortuna-na.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkAMRng8eip7ImA9WxFQGUo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-3069338946713247060</id><published>2010-05-15T18:41:00.003-03:00</published><updated>2010-05-15T21:46:27.672-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-05-15T21:46:27.672-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Norbert Elias" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Mãe Senhora" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="candomblé" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="religião" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="hierarquia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Pierre Verger" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Julio Braga" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="autocrítica" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="sociedade de corte" /><title>Um candomblecista critica sua religião</title><content type="html">&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://impressao.files.wordpress.com/2009/11/autocritica.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://impressao.files.wordpress.com/2009/11/autocritica.jpg" width="316" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferentemente de boa parte dos cristãos, eu, candomblecista, não penso que minha religião seja a solução para os problemas do mundo. Não porque ela seja inferior ao cristianismo ou a qualquer outra instituição religiosa. Definitivamente não o é. Diferente, mas não melhor ou pior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como um típico brasileiro, minha história pregressa é permeada pelo cristianismo. Nasci católico, pratiquei tal religião até o começo da adolescência, quando comecei a estudar a Bíblia com as testemunhas de Jeová. Além do saber cotidiano, hoje eu estudo a história do cristianismo, e isso só contribuiu para a solidificação de minha certeza de que as denominações cristãs não são melhores que quaisquer outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje eu sou um candomblecista num contexto difícil como é o brasileiro. Participo de uma religião discriminada e malignizada pelos ignorantes em geral, e pelos cristãos em específico. Não visto, entretanto, a carapuça de "coitadinho". Sei que foi, de fato, um ato hercúleo a manutenção da cultura religiosa afro-brasileira em contexto tão adverso. Isto não significa, no entanto, que minha religião seja formada por "mocinhos".&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esforço-me, enquanto livre-pensador e humanista, em não fechar meus olhos às arbitrariedades das religiões, o que inclui, evidentemente, aquela que comungo atualmente: o candomblé. Neste sentido, tenho, sim, minhas críticas a esta religião que amo, e que por isso mesmo faço dela um exame pormenorizado que aponte seus defeitos. Defeitos estes que são alvo de meu discernimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre eles, o maior, aquele que mais me incomoda, diz respeito à &lt;i&gt;rígida hierarquia&lt;/i&gt; estruturante dos terreiros de candomblé. Não há um líder religioso ao qual todos os terreiros devam seguir. Em cada ilê, ou terreiro, o babalorixá (pai-de-santo) ou a ialorixá (mãe-de-santo), são reis e rainhas praticamente incontestes, e a &lt;i&gt;tendência ao absolutismo religioso&lt;/i&gt; é algo muito forte e, infelizmente, na maioria dos casos, presente. Muitas vezes a vontade do chefe religioso ganha um status de decreto real, e aos filhos daquela casa resta apenas aceitar, ou buscar um outro terreiro, onde muito provavelmente o contexto não será tão diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Abaixo do babalorixá ou da ialorixá, encontra-se o babaquequerê (pai-pequeno) e/ou iaquequerê (mãe-pequena), segunda pessoa em importância do templo. Em seguida vêm os ogãs e ekéjis, respectivamente homens e mulheres que não entram em transe com orixás, mas que zelam pela manutenção da ordem da casa. Paralelamente vêm os ebômis (literalmente, "meu irmão mais velho"), pessoas que já completaram no mínimo sete anos de iniciadas, e que cumpriram com todas os rituais religiosos exigidos pelos anos. Em seguida, os iaôs, iniciados com menos de sete anos de obrigações religiosas. E, por fim, vêm os abiãs (literalmente "não nascido"), pessoas que frequentam a casa de candomblé, mas ainda não foram iniciadas. Infelizmente é comum ver um ebômi tiranizando um iaô, que, por sua vez, irá tiranizar o abiã. E a coisa vem de cima.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Norbert Elias estudou a sociedade de corte na Europa absolutista. O etnógrafo francês Pierre Verger, também ele iniciado no culto aos orixás, teve a percepção de que o candomblé funciona com uma lógica equivalente. Ele relata no seu livro "Orixás" que minha bisavó de santo, Mãe Senhora, cujo nome iniciático era Oxum Muiwá, então sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá, casa tradicional aqui da Bahia, recebeu, em 1952, o título de "Iyanassô", conferido pelo Alafin Oyó, ou rei de Oyó, na Nigéria, África. Tal título é o mais alto grau a que pode chegar uma mulher no culto aos orixás na África. Qual foi a reação das pessoas do candomblé? Deveria ser de alegria porque o nosso culto praticado aqui no Brasil foi reconhecido por um alto dignitário do culto entre os iorubás na África. &lt;i&gt;Mas na sociedade de corte do candomblé, infelizmente, assim como ocorria na Europa absolutista, houve muito espaço para a simulação e a dissimulação&lt;/i&gt;. Vejamos o que Verger diz:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote&gt;Essa dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os fuxicos que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a esse pequeno mundo cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos, fundamentadas sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; nesse mundo onde o beijamão, as curvaturas, as deferentes inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom-tom reinam ainda soberanamente.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;Percebam que há aqui dois problemas. Primeiro, os famosos "fuxicos de candomblé". A menos que haja uma testemunha de respaldo, simplesmente não se acredita. E o disse-que-me-disse, que a tudo aumenta ou diminui, conforme as conveniências. Meu babalorixá, Julio Braga (professor aposentado da UFBA e atualmente lecionando na UEFS), escreveu um livro intitulado "Fuxico de Candomblé", onde ele mostra que o fuxico em nossa religião é uma espada de dois gumes: se por um lado tem um papel importante na difusão das informações num credo onde a tradição é oral, por outro há o risco de deformação e maledicência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em segundo lugar, o exemplo abordado por Pierre Verger mostra a importância dos mínimos ritos sociais. Ai do iaô que passar por um ebômi ou uma ekéji de cabeça levantada, ou olhá-lo diretamente no olho. O iaô e o abian têm de, na presença de tais, andar levemente agachados, e nunca deixar de pedir a bênção. Como um nobre francês de baixa estirpe deveria se comportar diante de um outro nobre cujo título fosse maior. Ai do iaô se, ao passar diante de seu babalorixá ou da iaquequerê, não "adobar", ou seja, prostrar-se no chão, diante de sua pessoa, e pedir-lhe humildemente a bênção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu não vejo problema nenhum em adobar. Não via quando era iaô, e não vejo agora que sou ebômi com cargo de babalorixá. É o modo como um iorubá demonstra respeito para com os mais velhos. Mas isto se torna problemático quando o ato é mecanizado, ou então quando é praticado mediante o medo de ser repreendido na frente de todos. "Bato a cabeça" para meu pai porque é minha obrigação, mas também porque com ele eu me sinto à vontade para fazê-lo. Tenho até prazer em fazê-lo, em demonstrar meu respeito por ele, como um iorubá o faria diante de alguém mais velho e mais sábio. Mas nem todos os que se prostram pensam como eu e, mais importante, nem todos a quem tal prostração é devida entendem o ato como o que ele realmente é, mas vêem nisso uma demonstração de uma suposta superioridade sobre o outro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há um ditado muito repetido no candomblé, e que aplico a mim mesmo: "Pelo santo se beijam as pedras!". Sim. Para que as energias que comandam minha existência sejam devidamente cultuadas; para que eu me mantenha suficientemente sintonizado com tais forças; para que eu compartilhe de uma visão de mundo onde o ser humano é deificado, em vez de decaído; eu tenho de suportar toda a rígida hierarquia da religião. Infelizmente as marcas da escravidão mostraram-se fortes na organização do culto aos orixás no Brasil. Afinal, foi na época em que havia senhores e escravos, na época em que havia quem gritava e quem obedecia sob ameaças, que o culto se adaptou à realidade brasileira. E muitos daqueles que eram escravos, que não eram ninguém segundo a ótica hegemônica (branca e cristã), acabaram eternizando tal mandonismo na religião. Como o empregado que, depois de ter sido xingado pelo patrão, desconta na mulher, muitos escravos, tornando-se sacerdotes e readquirindo a realeza perdida pela escravidão, acharam-se no direito de tiranizar seus filhos espirituais. Felizmente, entretanto, tem havido um movimento que luta, não pelo fim da hierarquia, mas sobretudo pelo respeito a indivíduos, a seres humanos, independentemente de seu tempo de iniciação. E deste movimento faço parte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-3069338946713247060?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/3069338946713247060/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/05/um-candomblecista-critica-sua-religiao.html#comment-form" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3069338946713247060?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3069338946713247060?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/Eklyj9ngtVg/um-candomblecista-critica-sua-religiao.html" title="Um candomblecista critica sua religião" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><thr:total>6</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/05/um-candomblecista-critica-sua-religiao.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEEESH4zfip7ImA9WxFQFU4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-6708667706342121108</id><published>2010-05-10T17:59:00.009-03:00</published><updated>2010-05-10T20:03:29.086-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-05-10T20:03:29.086-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="literatura" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="cinema" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="As Horas" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="machismo" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="feminismo" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Virginia Woolf" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="burguesia" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Mrs. Dalloway" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Inglaterra" /><title>Virginia Woolf e suas mulheres: "Mrs. Dalloway" e o filme "As Horas"</title><content type="html">&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;o:smarttagtype name="PersonName" namespaceuri="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags"&gt;&lt;/o:smarttagtype&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;
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&lt;/style&gt;  &lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-h26QbjRpI/AAAAAAAAAJg/GOzCD8Q2mJo/s1600/woolf.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-h26QbjRpI/AAAAAAAAAJg/GOzCD8Q2mJo/s400/woolf.jpg" width="310" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O romance &lt;i&gt;Mrs. Dalloway&lt;/i&gt;, escrito por Virginia Woolf e publicado originalmente em 1925, foi traduzido em língua portuguesa no Brasil por Mário Quintana. Em comum entre o poeta e a romancista há o fascínio pelo cotidiano, pelas coisas miúdas e que, sem nenhuma importância aparente, descortinam-se ante nossos olhos em profundidade e beleza, levando-nos à reflexão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Não quero, entretanto, falar de Mário Quintana, e sim de Virginia Woolf, especialmente a sua obra supracitada, &lt;i&gt;Mrs. Dalloway&lt;/i&gt;. Vale destacar que Quintana preferiu manter a forma inglesa para “Senhora”, e descobrimos o motivo no decorrer da leitura: o ambiente londrino, com o Big Ben a marcar o ritmo das horas, referências ao Império Britânico e descrições das ruas e praças da capital inglesa, além de reiteradas alusões a Shakespeare, explicam o anglicismo conservado no título.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Análise das personagens do romance "Mrs. Dalloway"&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O romance, conforme o título sugere, é protagonizado por uma mulher. Mas uma mulher que se esconde sob o sobrenome do marido: Mrs. Dalloway. E é só quando iniciamos a leitura que descobrimos que ela se chama Clarissa. Era, antes de casar-se, Miss Parry (filha de Mr. Parry), mas agora, neste dia em que prepara uma festa, ela é Mrs. Dalloway (esposa de Mr. Dalloway). Donde percebemos, obliquamente, a crítica de Virginia Woolf a este patriarcalismo: a mulher não é definida a partir de si, do seu &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt;, mas a partir do &lt;i&gt;outro&lt;/i&gt;, sempre o homem. Ela deixa de ser “propriedade” do pai e passa a pertencer ao marido. Apesar disto, Clarissa sente-se feliz em ter se casado com Richard Dalloway, afinal, conforme ela acreditava, ele lhe concedia a liberdade necessária ao matrimônio (p.11). Isto não impedia, porém, que ocasionalmente Clarissa sentisse uma esquisita sensação de invisibilidade em relação a ele (p.14).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Clarissa Dalloway amava mais Londres que ao campo, assim como Virginia Woolf, que no momento em que escrevia o livro achava-se em Richmond por ordens médicas. O livro trata de um único dia na vida de Clarissa, dia este em que ela está especialmente feliz porque prepara uma festa. Mas ela está também desassossegada, já que se preocupa em agradar às pessoas. Mrs. Dalloway resolve então que ela mesma irá comprar as flores.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;No caminho para a floricultura ela encontra uma mulher que acompanha um homem aparentemente perturbado. Trata-se da italiana Lucrezia e seu marido, o inglês Septimus, Mr. e Mrs. Smith. Lucrezia acha que os homens são egoístas, já que podem ser felizes sem as mulheres. O contrário, infelizmente para ela, não ocorre, pois não consegue ser feliz sem seu homem.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Clarissa depara-se também com Mrs. Dempster, para quem o casamento, com marido e filhos, não passa de um sacrifício para a mulher. É por isso que Mrs. Dempster tem pena de outra transeunte, a jovem Maisie Johnson. Ao vê-la passar no parque, Mrs. Dempster prevê seu futuro tão óbvio e maçante de dona-de-casa. Ao chegar em casa com as flores, Clarissa encontra um bilhete de seu esposo, Richard, informando-lhe que fora jantar na casa de Lady Bruton, e sente-se desapontada por não ter sido convidada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mrs. Dalloway começa então a pensar na sua juventude e lembra-se de Sally Seton. Recorda o amor que sentia por ela, e que era diferente do amor que sentia pelos homens, porque desinteressado. “Não havia sido amor, afinal de contas?” indaga-se ela, sem muita certeza (p. 34, 35). Clarissa queria protegê-la. Mas ambas sabiam que seriam tragicamente separadas pelo casamento convencional, com homens.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Eis que inesperadamente chega Peter Walsh, outro ex-amor, vindo da Índia para resolver problemas pessoais na Inglaterra. O reencontro deixa-a perturbada, e somos levados a crer que seu amor por Peter não terminou, ou ao menos não estava bem-resolvido. Peter é reiteradamente descrito como sensível, característica geralmente atribuída ao feminino. Seria isto o que o tornava atraente para Clarissa? Dezenas de páginas adiante temos a confirmação: as mulheres apreciavam-no por perceberem que ele não era “demasiado masculino” (p.150).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Quando Clarissa convida Peter para sua festa de logo mais, sente-se desconcertada, pois sabe que ele a considera “frívola; cabeça-oca; uma simples tagarela” (p.45). Ou, como ele já lhe dissera um dia no passado, fazendo-a chorar, uma “perfeita dona-de-casa” (p.11). Clarissa, tão zelosa dos bons costumes, irrita-se com a falta de etiqueta costumeira de Peter. Ao sair da casa dos Dalloway, Peter pensa &lt;st1:personname productid="em como Clarissa" w:st="on"&gt;em como Clarissa&lt;/st1:personname&gt; não mudara: “a sua voz, sendo voz de dona-de-casa, timbra em não impor-se” (p. 51). Ele, que sempre fora um aventureiro, amante de livros, de teoria, da ciência, da filosofia e das viagens, não era homem para a rotina sufocante de um casamento. Percorrendo as ruas londrinas ele observa a burguesia, “doutores e homens de negócios”, além de “mulheres modernas”, pontuais, “a caminho de seus afazeres” (p.56). Peter não pode deixar de observar as mudanças nos hábitos femininos no pós-guerra: maquiagem em público, namoros sem compromisso ou sentimento profundo, casamentos tardios e por interesse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Aos olhos de Peter, Clarissa e sua classe, a burguesia, eram por demais mundanos. Lembra-se de quando ela, na juventude, mostrara-se preconceituosa em relação a uma mulher que tivera um filho antes do casamento, numa atitude tipicamente burguesa. Sob a perspectiva da burguesia inglesa, porém, Peter não passava de um fracassado, e isto às vezes o incomodava, embora não almejasse mudar de vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Dormitando num banco da praça, Peter, em êxtase, vê uma gigantesca figura de “forma feminina”, o que nos permite analisar sua visão sobre a mulher. Tal imagem, em sua vidência, “derrama caridade, compreensão, absolvição, e, subitamente alarmado, confunde a piedade do seu gesto com uma dança endemoniada” (p.58). Agora é Peter quem observa Lucrezia e Septimus Smith, na praça. Neste momento, com seu Septimus a delirar, Lucrezia, também vivendo sua situação-limite, pergunta-se por que devia continuar sofrendo por seu marido. O casamento, para ela, implicou na renúncia à sua família, sua casa e sua terra, já que ela deixara a Itália para viver com Septimus na Inglaterra.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ao recordar o passado com Clarissa, Peter obrigatoriamente lembra-se também de Sally Seton, terceira ponta do triângulo amoroso juvenil. Ao contrário da convencional Clarissa, Sally sempre fora ousada, selvagem e romântica. Ela era defensora apaixonada dos direitos das mulheres nas reuniões sociais. Sally instigava Peter a raptar Clarissa e livrá-la do casamento com “perfeitos &lt;i&gt;gentlmen&lt;/i&gt;” como Hugh Whitbread ou Richard Dalloway, pois isso faria dela “uma simples dama, incentivando apenas o seu mundanismo” (p.75). Nisto Peter e Sally eram muito parecidos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ele começa então a comparar Sally com Clarissa, e o contraste é evidente:&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30.05pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;O mais óbvio que se poderia dizer dela [Clarissa] é que era mundana; preocupava-se demasiado com a posição, a sociedade, os êxitos de salão – o que era verdade num sentido; ela própria o reconhecia (sempre se podia fazer com que confessasse as coisas, era leal), (p.75)&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Após refletir sobre a admiração de Clarissa pelas “velhas condessas encanecidas”, Peter continua: &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;Em tudo isso havia muito de [Mr.] Dalloway, naturalmente; muito do espírito das classes governantes – bem público, reformas tarifárias, Império Britânico –, que se apodera dela, como acontece. Embora duas vezes mais inteligente que o marido, via as coisas pelos olhos deste – uma das tragédias da vida conjugal. (p.76)&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Nem Sally nem Peter conseguiram “salvar” Clarissa da nulidade que o casamento impunha às mulheres. O casamento, segundo eles, poda, inibe o potencial feminino, e faz da mulher um espectro, uma sombra do homem. Em outras palavras: ratifica a posição do feminino num mundo de estruturas masculinas. Esta era ainda a realidade das mulheres no mundo de Mrs. Dalloway, ainda que os avanços do pós-guerra já se fizessem observáveis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A festa que Clarissa planejava com tanto esmero não era, no final das contas, dela, mas do marido. Afinal, Clarissa, segundo ela mesma, sentia-se “na obrigação de sentar-se à mesa e esforçar-se para atender a algum velho tonto que poderia ser útil a Dalloway” (p.77). Como Richard trafegava com desenvoltura na elite política inglesa, manter contatos era vital para o marido, e Mrs. Dalloway só se sentiria útil se fosse útil para o seu esposo. E quando não estava se dedicando a Richard, Clarissa voltava-se para a filha única do casal, Elizabeth.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Tal submissão da mulher diante da família, especialmente do marido, pode ser notada também na relação entre Lady Bradshaw e seu esposo, o respeitadíssimo médico psiquiatra Sir&lt;i&gt; &lt;/i&gt;William Bradshaw:&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;Quinze anos antes [Mrs. Bradshaw] havia-se submetido. Nada que se notasse, afinal; nenhuma cena, nenhum ruído; apenas o moroso afundamento, o lento naufrágio da sua vontade na dele. Doce era o seu sorriso, atenta a sua submissão...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;(...) Em outros tempos, há muito, ela pescara salmão livremente; agora, pronta a atender à sede de domínio, de poder, que ardia untuosamente nos olhos do marido, ela diminuía-se, continha-se, recolhia-se, apagava-se, apenas aparecia. (p. 98, 99)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 144pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Nas palavras da narradora, Lady Bradshaw “convertera-se” ao seu marido. Sorridentemente – como era de se esperar da mulher ideal – colocara-se sob seu jugo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E Septimus Smith, levado por sua esposa, Lucrezia, a Sir&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Bradshaw para tratar de sua loucura, desde então odiara ao médico como a personificação da Razão e da Civilização, que todos julgavam faltar a Septimus. O método do Dr. Bradshaw para determinar se alguém é ou não normal era relativamente simples: “seu senso da medida – o seu, se eram homens, o de Lady Bradshaw, se eram mulheres (ela bordava, fazia trabalhos de agulha, passava quatro noites por semana em casa com o filho)” (p.97). Em outras palavras, o padrão burguês masculino e masculinizante determinaria a normalidade. Nesta perspectiva, nem Peter Walsh nem Sally Seton se encaixariam no padrão da normalidade de Sir&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Bradshaw. Ele porque não era suficientemente masculino; ela porque questionava a organização falocêntrica do mundo. Já Lucrezia e Mrs. Dalloway seriam consideradas normais por Sir Bradshaw, pois ambas agiam como se esperava das mulheres casadas, ou seja, com subordinação. O caso de Septimus fora detectado como gravemente anormal, uma vez que ele se recusava a continuar no seu emprego de boa remuneração, o que claramente desafiava a ordem burguesa/masculina.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Outro tipo que se deixou dominar pelas estruturas masculinizantes da sociedade burguesa da Inglaterra foi Lady Bruton, a que convidara Richard Dalloway e Hugh Whitbread para um jantar em sua casa, causando ciúmes &lt;st1:personname productid="em Mrs. Dalloway. Mas" w:st="on"&gt;em  Mrs. Dalloway. Mas&lt;/st1:personname&gt; Lady Bruton se diferenciava em relação às outras mulheres que aceitavam a falocracia. Afinal, ela falava “como um homem”: interessava-se por política e se chateava com mulheres que dificultavam a carreira de seus maridos. Orgulhava-se de seus ancestrais: almirantes, militares, administradores, “gente de ação”, todos, logicamente, homens (p.108). Eventualmente Lady Bruton esforçava-se por manter uma “certa camaradagem feminina” ao perguntar, por exemplo, sobre as esposas de seus convidados (p.103).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Lady Bruton não era introspectiva (característica feminina), mas sincera e simples. Pesava-lhe, no entanto, o fato de não conseguir se desvencilhar do que considerava ser a “futilidade da sua condição feminina”. Por isso recorreu à ajuda de Mr. Dalloway e Mr. Whitbread. Precisava escrever uma carta ao &lt;i&gt;Times&lt;/i&gt;, e achava que só os homens poderiam fazê-lo de tal forma que merecesse ser publicada, pois eles “sabem como encarar as coisas; sabem como dizê-las; de modo que se Richard a aconselhasse, e Hugh escrevesse por ela, estava certa de fazer alguma coisa às direitas” (p.106-107). Escrever como mulher, pois, seria escrever “errado” naquelas circunstâncias, já que o público (jornal) é esfera masculina. A única escrita feminina aceitável seria a de diários íntimos e memórias (esfera do privado).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Há ainda outra personagem feminina intrigante &lt;st1:personname productid="EM MRS. DALLOWAY" w:st="on"&gt;em &lt;i&gt;Mrs. Dalloway&lt;/i&gt;&lt;/st1:personname&gt;: Miss Kilman, uma desvalida por quem Clarissa teve a condescendência de oferecer emprego como professora de história de Elizabeth. A palavra mais adequada é mesmo “condescendência”, pois Clarissa tivera de transigir para consigo mesma, uma vez que não gostava de tipos como o de Miss Kilman. O que era recíproco, pois Miss Kilman também desprezava “damas inúteis” como Mrs. Dalloway.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Por saber-se feia, sem atrativos para os homens, Miss Kilman odiava Clarissa e tentava subjugar a carne. Juntamente com Elizabeth entregava-se a orações fervorosas, o que desagradava ainda mais a Clarissa. Nutria, inconfessadamente, uma paixão por Elizabeth, mas não se atrevia a externá-la.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Além de lecionar história, Miss Kilman emprestava a Elizabeth livros de direito, política e medicina, já que “todas as profissões estavam franqueadas às mulheres da sua geração” (p.126). A professora não aceitava ser sustentada por um homem, e, apesar de não ser ficcionista, parece ter atendido à exortação de Virginia Woolf, de conseguir para si “dinheiro e um teto todo seu” (WOOLF, 1985, p.08). Mesmo sentindo-se infeliz e feia, Miss Kilman, por ter diploma, via-se como uma “mulher que abrira caminho no mundo” (p.128). E por isso aconselhou Elizabeth a fazer o mesmo. Mas, para desespero de Miss Kilman, Elizabeth parecia puxar à mãe.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Não podemos deixar de chamar a atenção para o fato de que Miss Kilman conseguiu o que a autora, Virginia Woolf, não conseguiu: entrar na universidade, no mundo acadêmico. Woolf nunca se contentou em ser autodidata. Ela relata como foi censurada por ter caminhado na grama de uma universidade, privilégio restrito a estudantes e &lt;i&gt;fellows&lt;/i&gt; que, “para protegerem sua grama, há trezentos anos seguidos sendo aparada, eles haviam feito [seu] peixinho esconder-se” (1985, p.10). Isto ajuda a explicar a ironia com que a autora trata a ciência – então sob monopólio masculino – no seu romance: “pois sejamos científicos, antes de tudo científicos”. Esta frase aparece três vezes, nas páginas 24, 68 e 139. O diploma de Miss Kilman, porém, não garantiu sua aceitação integral na sociedade masculinizante, o que fica patente no desprezo que Mrs. Dalloway tinha por ela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Naquela tarde havia espaço para uma tragédia. Septimus, que não queria ver o Dr. Holmes, personificação da Razão e da Civilização, juntamente com Sir Bradshaw, comete suicídio atirando-se da janela. Ele não queria (como Virginia Woolf) a paz do campo para tratar sua loucura. Quando Mrs. Dalloway é informada do suicídio por Lady Bradshaw, sente-se incomodada que estejam comentando coisas tristes em sua festa. Não há nenhum lamento íntimo pela vida humana. A ambulância que leva o corpo de Septimus é um “triunfo da civilização”, segundo Peter Walsh, que se dirige à festa de Mrs. Dalloway. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Clarissa estava angustiada porque nem Richard nem Peter entendiam sua necessidade de dar recepções, numa oferenda à vida. O que tais homens estranhavam, pragmáticos que eram, era a falta (ao menos aparente) de finalidade das festas de Clarissa (p.118). Mrs. Dalloway só deixa suas preocupações de lado após a chegada de Sally, que estava de passagem por Londres e resolveu fazer uma surpresa a Clarissa em sua festa. Sally deixara de pertencer à família da pai, Seton, e agora carregava o sobrenome do marido, Rosseter. E Sally já não é mais a ousada mulher de outrora, pois também ela “convertera-se” a seu marido:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 138pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;; font-size: 10pt; line-height: 150%;"&gt;Porque Clarissa, dizia Sally, era, no fundo, uma esnobe; tinha-se de reconhecê-lo: uma esnobe. E era o que as separava, estava certa disso. Clarissa pensava que ela havia casado mal, pois o seu marido – orgulhava-se disso – era filho de um mineiro. Cada &lt;i&gt;pêni &lt;/i&gt;que possuíam, ele o ganhara com o seu trabalho. (p.182)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 138pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O que Sally não conseguia perceber é que sua previsão se cumprira: ela e Clarissa foram separadas pelo casamento. Mas estavam juntas no papel de esposas submissas, anuladas diante de seus respectivos maridos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Um contraponto com o filme "As Horas"&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O filme &lt;i&gt;As Horas&lt;/i&gt;, do diretor Stephen Daldry, lançado em 2002 nos Estados Unidos, é muito oportuno para essa análise que me atrevo a fazer, pois permite pensar sobre a recepção do livro &lt;i&gt;Mrs. Dalloway&lt;/i&gt;, de Virginia Woolf. A trama acontece com personagens femininas em três lugares e tempos diferentes: em Richmond, Inglaterra, 1923, Virginia Woolf,(Nicole Kidman), obrigada a recuperar-se de suas crises, escreve o romance &lt;i&gt;Mrs. Dalloway&lt;/i&gt;; &lt;st1:personname productid="em Los Angeles" w:st="on"&gt;em  Los Angeles&lt;/st1:personname&gt;, EUA, 1951, Laura (Julianne Moore) lê o romance de Virginia e toma coragem para fazer o que deseja, mesmo sabendo que pode ser repreendida por isso; e &lt;st1:personname productid="em Nova York" w:st="on"&gt;em Nova York&lt;/st1:personname&gt;, EUA, 2001, Clarissa Vaughn (Meryl Streep) planeja uma festa para comemorar um prêmio literário recebido por seu amigo e ex-amor, o filho de Laura, Richard (Ed Harris).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A primeira coisa que nos salta aos olhos são os efeitos do casamento na vida de cada uma delas. Apesar de amar seu esposo, Leonard (Stephen Dillane), Virginia sente-se sufocada pelo excesso de proteção deste para com ela. Laura, ao contrário da personagem Clarissa Dalloway do livro de Virginia, recusa-se a ser uma “perfeita dona-de-casa”: não ama seu marido e gostaria de se relacionar com mulheres; e Clarissa Vaughn, lésbica assumida, casada há dez anos com Sally (Allison Janney), vive os problemas de qualquer relacionamento.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O Richard do filme se parece um pouco com o Peter do livro. Não gosta de festas, odeia convenções sociais e considera hipócrita a sociedade em que vive. Acredita que só ganhou o prêmio porque assumiu ser soropositivo. Richard não quer morrer para não estragar a festa de sua amiga Clarissa Vaughn, a quem chama carinhosamente de “Mrs. Dalloway”. Richard diz que sua amiga pensa pouco em si mesma (como a Clarissa do livro), e que não deve abrir mão de si por causa dos outros.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O beijo que Clarissa Vaughn, casada com Sally, dera há anos, e que lhe marcara profundamente, fora &lt;st1:personname productid="em Richard. Ela" w:st="on"&gt;em Richard. Ela&lt;/st1:personname&gt; ainda o amava. Observamos aqui uma inversão em relação ao livro, pois Clarissa Dalloway, a personagem literária, beijara furtivamente a Sally, e se casara com Richard. Ambas, Clarissa Vaughn e Clarissa Dalloway, porém, sentem-se na obrigação de serem felizes no casamento. A Sally do filme, esposa de Clarissa Vaughn, tem ciúmes do escritor Richard, e acha-o pedante.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Laura, a personagem de 1951, tem em comum com Mrs. Dalloway o fato de viver no pós-guerra e de achar-se na obrigação de recompensar o marido de alguma forma. Mas Laura não se sente bem como dona-de-casa. No dia em que seu marido faz aniversário, ela, que está lendo o livro de Virginia Woolf, até que tenta, mas não consegue ser uma dona-de-casa convencional, e esta será a grande diferença entre Laura e Clarissa Dalloway. Laura promete abandonar a família assim que der à luz ao segundo filho, o que cumpre para desespero do pequeno Richard.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Virginia está furiosa porque não pode ir a Londres, por orientação médica. Acha os médicos vitorianos desprezíveis, como no livro o faz em relação aos médicos que tratavam de Septimus, marido de Lucrezia. Como ele, a Virginia do filme reivindica o direito humano de escolher seu tratamento. Lembramo-nos também da aversão de Septimus à medida com que Sir Bradshaw determinava o que é ou não normal. Ao examinar um pássaro morto trazido pela sobrinha, identifica-o como fêmea porque maior e menos colorida que os machos. Ela pensa, no momento em que ainda escreve o livro, em matar a personagem principal. Já o Richard do filme matara em seu livro premiado à própria mãe, Laura, pois nunca a perdoara pelo abandono.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Richard lembra-se de sua mãe e chora. Ele está transtornado. Diz a Clarissa que não está disposto a enfrentar as horas após a festa, e todas as outras horas que restam. Richard, como Septimus e Virginia, ouve vozes. E como Septimus se mata, jogando-se da janela. Tal acontecimento trágico tira todo o sentido da festa que Clarissa Vaughn preparava.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Voltamos a 1923. Virginia resolve não matar a personagem convencional, Clarissa Dalloway. Decide matar o poeta, Septimus, o visionário, a antena da realidade à sua volta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Clarissa Vaughn recebe a visita da mãe de Richard, Laura. “Então esta é o monstro?!”, é a fala da filha de Clarissa, Julia (Claire Danes), ao ver Laura.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Laura acha terrível ter sobrevivido à família. Seu ex-marido, o pai de Richard, morrera de câncer, ainda jovem. A filha caçula também morrera. E agora o suicídio de Richard. Laura entende por que seu filho a matara no seu romance, afinal ela abandonara marido e filhos, e isso fazia dela um “monstro”, como dissera Julia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Laura, a leitora de Virginia Woolf, diz que sempre se sentiu deslocada. Explica que abandonou a família para não abrir mão de si mesma, e que não se arrependeu disto. Aguentou o quanto pôde a vida familiar. Ser uma perfeita dona-de-casa, como Mrs. Dalloway, significaria a morte para ela. E ela escolhera a vida. Ainda que isso tenha significado, de alguma forma, a morte de sua família.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Conclusão&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;É interessante observar como Virginia Woolf traça o perfil da mulher ideal no contexto inglês das primeiras décadas do século XX: uma “perfeita dona-de-casa”, tão criticada pelas personagens Peter (no livro) e Laura (no filme). Especialmente naquele momento de mudanças para a mulher - que ganhava mais espaço e visibilidade - uma crítica como esta se fazia necessária. Como que para marcar os espaços que estavam sendo tão arduamente conquistados pelas mulheres, Virginia Woolf pinta Mrs. Dalloway com as tintas do reacionarismo, tão comum àquela sociedade. Pinta sua personagem principal desta maneira como que para despertar as mulheres de seu sono, forçá-las a mirarem-se no espelho e se indignarem com o seu reflexo de “perfeitas donas-de-casa”. Mais importante, para despertá-las para a necessidade de lutarem pelo direito à igualdade jurídica e à diferença existencial em relação ao homem. Luta esta que pode parecer - e de fato é -, a princípio, injusta, já que o cenário tem sido construído segundo as convenções masculinas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 30pt;"&gt;&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Word.Document" name="ProgId"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Generator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;meta content="Microsoft Word 12" name="Originator"&gt;&lt;/meta&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"&gt;&lt;/link&gt;&lt;link href="file:///C:%5CDOCUME%7E1%5CADMINI%7E1%5CCONFIG%7E1%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"&gt;&lt;/link&gt;&lt;style&gt;
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--&gt;
&lt;/style&gt;  &lt;br /&gt;
&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;LIVROS DE VIRGÍNIA WOOLF CITADOS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="EN-US" style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;WOOLF, Virginia. &lt;i&gt;Mrs. Dalloway.&lt;/i&gt; Trad. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mário Quintana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hvb1Qx5-I/AAAAAAAAAJI/QrtpZWxqU-8/s1600/DALLOWAY.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hvb1Qx5-I/AAAAAAAAAJI/QrtpZWxqU-8/s400/DALLOWAY.jpg" width="300" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;______________.&amp;nbsp; &lt;i&gt;Um teto todo seu&lt;/i&gt;. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hwWF14ikI/AAAAAAAAAJQ/274CKKZir5I/s1600/teto.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hwWF14ikI/AAAAAAAAAJQ/274CKKZir5I/s400/teto.jpg" width="262" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;h1&gt;FILMOGRAFIA&lt;/h1&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;AS HORAS. Direção: Stephen Daldry. Produção: Robert Fox e Scott Rudin. Roteiro: David Hare, baseado em livro de Michael Cunningham. 2001. 114 min.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hwqJ8HIzI/AAAAAAAAAJY/6otHvYIHYGo/s1600/the-hours-poster02.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://2.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-hwqJ8HIzI/AAAAAAAAAJY/6otHvYIHYGo/s400/the-hours-poster02.jpg" width="256" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoBodyText"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;"&gt;TRAILER&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;object height="344" width="425"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/he8cR7skklA&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/he8cR7skklA&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div&gt;&lt;hr align="left" size="1" width="33%" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-6708667706342121108?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/6708667706342121108/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/05/virginia-woolf-e-suas-mulheres-mrs.html#comment-form" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/6708667706342121108?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/6708667706342121108?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/7bq_qhp4u2Q/virginia-woolf-e-suas-mulheres-mrs.html" title="Virginia Woolf e suas mulheres: &quot;Mrs. Dalloway&quot; e o filme &quot;As Horas&quot;" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://3.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/S-h26QbjRpI/AAAAAAAAAJg/GOzCD8Q2mJo/s72-c/woolf.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/05/virginia-woolf-e-suas-mulheres-mrs.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEEHR3g_fSp7ImA9WxFRFkg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-6939741587856919558.post-3365243631439069841</id><published>2010-04-30T16:42:00.002-03:00</published><updated>2010-04-30T16:43:56.645-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-04-30T16:43:56.645-03:00</app:edited><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Oxalá" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="candomblé" /><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="paz" /><title>Oxalá</title><content type="html">Porque hoje é sexta-feira, e porque Oxalá me olha favoravelmente, fiz esse vídeo em homenagem ao orixá da paz:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object height="344" style="background-image: url(&amp;quot;http://i2.ytimg.com/vi/YXqrYaiqg5w/hqdefault.jpg&amp;quot;);" width="425"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/YXqrYaiqg5w&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/YXqrYaiqg5w&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1" allowscriptaccess="never" allowfullscreen="true" wmode="transparent" type="application/x-shockwave-flash" height="344" width="425"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6939741587856919558-3365243631439069841?l=oritameji.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://oritameji.blogspot.com/feeds/3365243631439069841/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://oritameji.blogspot.com/2010/04/oxala.html#comment-form" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3365243631439069841?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/6939741587856919558/posts/default/3365243631439069841?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/Oritameji-UmaEncruzilhadaCultural/~3/S193FIgeU9g/oxala.html" title="Oxalá" /><author><name>Jerry Guimarães</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14461619603220064158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="26" height="32" src="http://4.bp.blogspot.com/_5-wiQ4mLGMw/TEfJFINa2oI/AAAAAAAAALI/X0TyqLtfyKw/S220/entojo.jpg" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://oritameji.blogspot.com/2010/04/oxala.html</feedburner:origLink></entry></feed>

