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	<title>Pablo González Blasco</title>
	
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		<title>Shirley du Boulay / Marianne Rankin: “Cicely Saunders”</title>
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		<pubDate>Fri, 18 May 2012 12:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Shirley du Boulay/ Marianne Rankin: &#8220;Cicely Saunders&#8221;. Palabra. Madrid (2011). Pgs. 348. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Eis uma biografia simples, objetiva e ao mesmo tempo intimista, da Dra. Cicely Saunders, a fundadora do movimento Hospice e dos Cuidados Paliativos. Nascida em Londres, em 1918, inicia seus estudos em Oxford, e se inscreve na Cruz Vermelha para ajudar nos serviços de enfermagem [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Shirley du Boulay/ Marianne Rankin: &#8220;Cicely Saunders&#8221;. Palabra. Madrid (2011). Pgs. 348.</strong>
	</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/05/051112_2105_ShirleyduBo1.jpg" alt=""   style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Eis uma biografia simples, objetiva e ao mesmo tempo intimista, da Dra. Cicely Saunders, a fundadora do movimento <em>Hospice</em> e dos Cuidados Paliativos. Nascida em Londres, em 1918, inicia seus estudos em Oxford, e se inscreve na Cruz Vermelha para ajudar nos serviços de enfermagem durante a Segunda Guerra Mundial.  Lá descobre a sua vocação de cuidar que norteia toda a sua vida.  Abandona a carreira de Ciências Políticas e filosofia e cursa enfermagem em ST. Thomas&#8217; Hospital, instituição associada a grandes nomes, entre outros ao daquela que é o símbolo da enfermagem moderna, a também britânica Florence Nightingale.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os frequentes problemas de saúde, com limitantes dores de coluna, restringem sua atuação como enfermeira e inicia sua dedicação como assistente social, sempre guiada pelo desejo de servir e ajudar os que sofrem. Mas repara que, somente com bons desejos e com afeto devotado, não consegue mudar as tristes condições dos pacientes terminais. Um conhecido, médico, lhe abre os horizontes: &#8220;Faça-se Médica. São os médicos os verdadeiros responsáveis do abandono que sofrem estes doentes terminais&#8221;. Cicely entende o recado, e parte para uma nova fase de estudos, com o sacrifício da trabalhadora incansável e persistente que sempre demostrou ser. Quando se forma médica tem quase quarenta anos.
</p>
<p><span id="more-1361"></span>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O livro é rico em detalhes biográficos e congrega os variadíssimos personagens que formaram parte da sua vida. Não é o caso de resumir o que compensa ler com vagar. Mas nessa sucessão de fatos, há um elemento que destaca como pano de fundo permanente: o interesse real de Cicely Saunders pelos pacientes. As conquistas do seu trabalho, que hoje cristalizam na especialidade médica dos Cuidados Paliativos, nascem da alma da sua fundadora. Não é uma questão apenas técnica, mas verdadeiro envolvimento com os pacientes que vai além da cordialidade ou da simples compreensão. Cria-se como um arco voltaico entre o sofrimento do paciente e a ressonância que este produz nela própria de onde surge a faísca: vontade de cuidar, fazendo a diferença, sem perder nunca o profissionalismo. Cicely constrói os fundamentos do primeiro <em>Hospice</em> – St. Christopher, à base de perdas e dúvidas, sofrimento e angústia, lágrimas e afetos, todos eles padecidos na sua própria carne. E a fé em Deus, a dimensão espiritual –não propriamente religiosidade a favor de determinada confissão- como balsamo que sara, como arcabouço que sustenta todo o projeto. A dimensão da transcendência é elemento essencial no <em>Hospice</em>, e nos Cuidados Paliativos.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Não há como evitar a questão, tão comum no meio médico –e na academia- nos dias de hoje. &#8220;Devemos ou não envolver-nos com os pacientes?&#8221; A resposta pode ter muitas nuances e variações, mas a vida de Dame Cicely Saunders mostra que sem envolvimento –sem verdadeira empatia, que é muitas vezes sofrer com quem sofre- não há como praticar os Cuidados Paliativos com qualidade. Dos remédios para controlar a dor, da técnica de administrar as doses de morfina de horário sem esperar que a dor grite mais alto, se passa com naturalidade para a atitude de cuidar, e se mergulha no envolvimento: &#8220;A ideia de aceitar a morte quando sua proximidade é inevitável não equivale à simples resignação por parte do paciente nem ao derrotismo ou negligência por parte do médico. Evidentemente não se trata de dar nenhum passo que precipite sua chegada, mas para médico e paciente significa todo o contrário a não fazer nada. O paciente pode obter nesta etapa da vida mais fruto do que em nenhuma outra, convertendo-a em algo que lhe reconcilie e o complete. Isso é o que mais consolo trará para os familiares e lhes ajudará a recomeçar a vida normal&#8221;
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tudo é feito com alta competência, incorporando os avanços da técnica, porque St. Christopher é também um centro de pesquisa e de docência. &#8220;Nossa função consiste em transformar o caráter de um processo inevitável para que não seja considerada uma derrota da vida, mas uma conquista pessoal do paciente, algo positivo&#8221;. Foram os pacientes, com suas vidas, os que ensinaram à Dra. Saunders o caminho para cuidar com eficácia. Referindo-se a um dos seus pacientes iniciais, muito querido, confessa: &#8220;É possível viver uma vida inteira em poucas semanas; que o tempo é uma questão de intensidade, não de quantidade; que num entorno adequado e mediante um controle da dor que permita ao paciente ser ele mesmo, nossos últimos dias podem ser os mais valiosos; que existe um tempo de reconciliação que é capaz de trazer paz aos enfermos e consolo aos que choram&#8221;. A interação com o médico, quando está preparado para a função que se espera dele, é de fato terapêutica. Um paciente lhe disse: &#8220;Quando falo com a minha família do que me preocupa, fico na mesma; mas se lhe conto isso mesmo à senhora, sinto-me liberado&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Também houve os que desculpavam o próprio descaso pela falta de tempo.  Assim, alguém lhe comentou que gastar tanto tempo com os pacientes não é possível quando há muito trabalho a fazer. Mal sabia o interlocutor –que atendia 90 leitos com a ajuda dos residentes- que a Dra. Saunders cuidava pessoalmente de 120. A resposta dela foi contundente: &#8220;O tempo não é uma questão de qualidade, mas de intensidade. Não lhe parece?&#8221;
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A questão que se decorre a seguir é clara: como encontrar profissionais –e formá-los-  para esta tarefa tão especial?  Novamente Cicely nos indica os parâmetros de qualidade: &#8220;Não servem para trabalhar aqui os que têm resposta fácil para as perguntas sobre a vida e a morte que necessariamente surgem neste cenário, como também não servem os que não se enfrentam com estas questões. Os mais aptos são os que não pretendem saber, os que buscam respostas a essas perguntas sem tentar evita-las&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nem tudo são flores nesta biografia; apontam-se claramente os defeitos de Cicely Saunders, sem fazer questão de disfarça-los. Parece ser que tinha um temperamento duro, rápido, perfeccionista, que atropelava as pessoas. A doçura que invariavelmente demonstrava com os pacientes nem sempre aflorava na hora de tomar decisões, de cobrar responsabilidades, de exigir à equipe de trabalho. Sabia disso, se esforçava por melhorar; foi uma luta de por vida. Talvez porque sabia que &#8220;a eficácia é consoladora&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Acabo o livro e a lembrança de um grande amigo vem à memória. Médico competente, atuante nos cuidados paliativos, foi quem me falou de Cicely Saunders por primeira vez. Também me revelou o processo da sua vocação. &#8220;Eu sou geriatra de formação. E não imagines que sempre pensei em dedicar-me aos cuidados paliativos. Simplesmente continuei cuidando dos pacientes quando pioravam. E quando olhava para os lados, buscando os meus colegas médicos, reparei que tinham desaparecido. Na hora crítica, quando não há aparentemente mais nada para fazer, os médicos desaparecem. Quer dizer, fiquei sozinho cuidando dos enfermos até o final. Não fui eu quem escolheu os paliativos; eles, ou melhor, os pacientes me escolheram a mim, fui eu quem sobrou&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A medicina não é para qualquer um. Requer vocação. Assim de simples. Estaria na hora de pensar nas consequências que um chamado vocacional implica. Algo ao qual se dedica muito pouco tempo –se é que se dedica algum- nas universidades e na formação dos médicos. Se a medicina é altamente seletiva no recrutamento, os Cuidados Paliativos, do modo como a sua fundadora os desenhou, são para muito poucos. Uma difícil escolha que vai à contramão de uma tendência que parece ser a coqueluche do momento, uma moda que atrai multidões. Ai está um perigo enorme que pode minar na base esta atuação tão especial, tão necessária. As palavras de Cicely Saunders servem como guia para uma seleção apropriada na escolha dos recursos humanos. &#8220;Enquanto continuemos nos perguntando pelo sentido da nossa vida, criaremos um clima em que pacientes e famílias sentir-se-ão capazes de buscar a força necessária para enfrentar a crise da separação. Isso lhes custará muito mais se nos deixamos envolver pelas exigências diárias de trabalho e não concedemos espaço para descobrir as necessidades espirituais, que não buscam tanto respostas mas sim necessidade de ser escutadas. Temos que lembrar que o modo de ajudar é capaz de chegar aos recantos mais ocultos quando são necessárias poucas palavras, ou talvez nenhuma&#8221;. Está tudo dito.</p>
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		<title>John Williams. “Stoner”</title>
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		<pubDate>Mon, 14 May 2012 18:31:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>John Williams. &#8220;Stoner&#8221;. Ed. Baile del Sol. Tenerife. 2012. 240 pgs. </strong>
	</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/05/051412_1831_JohnWilliam1.jpg" alt="" style="margin-right: 10px;" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um amigo estava interessado nesta obra, da qual eu nunca tinha ouvido falar.  Aproveitei uma viagem para comprar a edição em Espanhol, porque não existe a tradução portuguesa. Naturalmente, o livro pagou o pedágio necessário e avancei na leitura, quase até o final, na viagem de regresso ao Brasil.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As frases que costumeiramente se colocam na contracapa despertaram meu interesse. Afinal, essa é a função delas, estudados golpes de marketing. Chama-se a atenção para o injusto esquecimento desta importante obra, publicada em 1970. Fala-se dos dramas quotidianos salpicados de resignações e decepções, da naturalidade com que o autor trata as personagens que se nos tornam queridas, do herói que suporta as agonias profissionais e pessoais. Enfim, há quem se atreva a qualifica-lo como uma obra mestra.
</p>
<p><span id="more-1385"></span>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Terminado o livro, volto sobre as frases da contracapa. E reparo que não dizendo absolutamente nada da trama, resumem perfeitamente o drama de William Stoner. Um filho de camponeses que se torna professor de literatura na Universidade de Missouri. É uma réplica da vida do autor, também professor de Inglês nessa mesma Universidade, que tem o cuidado de advertir que, mesmo dedicando o livro aos colegas do departamento, as personagens e a trama são pura ficção. A tradução está muito bem feita. Agradece-se a riqueza de vocabulário e as descrições precisas que traduzem a fenomenologia intimista de Stoner; algo que, certamente, o original inglês deve cuidar com esmero. Afinal o autor é catedrático na matéria.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A frase da contracapa que mais despertou meu interesse é justamente a que menos encaixa nas minhas percepções, uma vez acabada a leitura. &#8220;Um retrato magistral de um homem virtuoso e verdadeiro&#8221;. De fato, o retrato é magistral, e a descrição do contexto externo perde vigor perante o impressionante mergulho nos sentimentos, e no drama interior do protagonista.  Do que não tenho certeza é do predicamento virtuoso de Stoner. Um homem cinza, apagado, que possui riqueza de conhecimentos, competência no seu campo, mas incapaz de projetar-se socialmente. Afinal, não sei se isso é timidez, ou pusilanimidade, ou uma mansidão mal entendida.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mesmo assim, o livro me ajudou muito. Fez-me entender o valor dos silêncios, talvez porque visualizo como virtude o que o protagonista vive por ser o seu natural. A frase que mais aparece no livro é &#8220;Não tem importância&#8221;. Uma despreocupação que não é indiferença, nem superficialidade; mais se assemelha a uma aceitação resignada e silenciosa de um destino inevitável. Que isso seja virtude é já outra questão. Lembrei-me da conhecida frase de Santo Agostinho: &#8220;<em>Martires non facit poena, sed causa&#8221;</em>. O que transforma alguém em mártir, não é o sofrimento da pena, mas o motivo pelo qual se sofre. Como a motivação é algo que depende da cada um, sempre é possível inspirar-se nos sofrimento silencioso de William Stoner para, temperando-o com a intenção adequada crescer em virtudes.</p>
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		<title>Rafael Ruiz: “O Espelho de América”</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 21:03:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Rafael Ruiz: &#8220;O Espelho de América&#8221;. Ed. Ufsc. Florianópolis. 2011. 195 pgs. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#8221;São as minhas aulas, um curso que dei na USP&#8221;. Desse modo, o autor me confidenciou o conteúdo desta sua próxima publicação. Estávamos participando num Seminário sobre &#8220;Arte e Beleza&#8221;, dirigido a jovens universitários, durante o último Carnaval. Toda uma conquista. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Algumas semanas [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Rafael Ruiz: &#8220;O Espelho de América&#8221;. Ed. Ufsc. Florianópolis. 2011. 195 pgs.</strong>
	</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/05/051112_2103_RafaelRuizO1.png" alt=""/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&#8221;São as minhas aulas, um curso que dei na USP&#8221;. Desse modo, o autor me confidenciou o conteúdo desta sua próxima publicação. Estávamos participando num Seminário sobre &#8220;Arte e Beleza&#8221;, dirigido a jovens universitários, durante o último Carnaval. Toda uma conquista.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Algumas semanas depois estive no lançamento do livro, para garantir o meu exemplar autografado. A leitura me resultou completamente familiar. E não apenas por tratar-se de um livro conversa –como adverte a professora que escreve o prefácio- mas porque conheço o estilo do autor, do &#8220;mano-a-mano&#8221; em que com frequência nos vemos envolvidos para promover a educação humanista.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Rafael tem a invejada habilidade de saber convocar variados interlocutores –personagens da literatura clássica- para estabelecer um diálogo entre eles e o público. Conduz as reuniões como um &#8220;ancora de telejornal&#8221; que cede passagem aos diversos correspondentes, distribuídos no espectro literário, e deste modo dar o seu recado. Nunca são conceitos fechados e herméticos, mas pontos de instigação que provocam a reflexão do público. Quer dizer, o núcleo do que denominamos conhecimento construído, paradigma da educação moderna de adultos. Como ele mesmo escreve, &#8220;o conhecimento não é um produto, mas um processo; não é um bloco fixo de informação, transmitido através de um download dos lábios do professor ao intelecto do aluno.&#8221;
</p>
<p><span id="more-1359"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O pano de fundo parece ser a colonização da América, ou melhor, a enculturação, a educação do americano, percebida por ele mesmo, com olhos que têm muito de europeus. Faz sentido, por tratar-se da especialidade do autor, cujo doutorado em História centra-se justamente nessa temática. E digo parece ser, porque &#8220;O Espelho de América&#8221; não reflete apenas o fenômeno do continente colônia, mas avança e mergulha no espelho da alma. O subtítulo da obra –De Thomas More a Jorge Luis Borges- nos adverte da variedade de interlocutores que serão convocados, e que facilitarão a dissecção das camadas profundas do ser humano. 
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E lá se inicia o desfile que dispensa qualquer comentário, pois se tratando de um processo exige uma leitura pausada, uma vivência do contexto. São os roteiros das aulas que, ao vivo, têm uma força muito maior, como o mesmo autor já comprovou inúmeras vezes. Mas escrever permite que outros ensaiem com a mesma metodologia; essa é a função da publicação, tornar público algo que pode ser útil, que agrega valor e permite sua reprodução.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As personagens –sempre encarnação das ideias- vão fazendo sua aparição ao longo dos capítulos. Hamlet, D. Quixote, o Gulliver viajante dialogam com os projetos da vida, atrelados aos sonhos, e se debatem com a modernidade e suas doenças. Um Bolívar no labirinto construído por Garcia Márquez, descrente e decepcionado com o sonho americano. Um destaque especialíssimo é o capítulo sobre Maquiavel (Ética e Política na Modernidade), e as variadas formas de manter-se no poder a qualquer custo: abrir mão das verdades objetivas e da virtude, para centrar-se apenas na eficácia, temática que assusta –é o que vemos todos os dias- pela terrível atualidade. Um espelho não apenas da América, mas do quotidiano.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Não falta uma advertência de caráter técnico que o autor vê-se na obrigação de dar, como resposta às visões herméticas, à leitura monolítica e única da história. Se os fatos objetivos são susceptíveis de interpretação, o Rafael lembra que essa interpretação pressupõe a liberdade e o respeito com as perspectivas que outros brindam. &#8220;A história contada não pode ser desvinculada de quem conta e de quem ouve. Nem pode ser desvinculada do seu sentido contextual. E o historiador precisa ser cientista e artista para saber narrá-lo&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Entendo o empenho do autor em firmar este particular, embora pouco conheço destas disputas interpretativas da historia, porque não é a minha guerra. Mais me vejo como D. Quixote, na vida como projeto, um projeto onde a educação humanística é parte essencial da missão que temos. Não lutamos com moinhos de vento, mas com gigantes reais. Uma difícil e encantadora tarefa para a qual a presente obra será de enorme utilidade.</p>
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		<title>Immaculée Ilibagiza; “Sobrevivi para contar”</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Apr 2012 18:50:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
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		<category><![CDATA[historia]]></category>
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		<description><![CDATA[Immaculée Ilibagiza; &#8220;Sobrevivi para contar&#8221;. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro. 2006. 340 pgs. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#8221;Se não podemos mudar uma situação, mudar a nós mesmos se torna o desafio&#8221;. Esse pensamento de Viktor Frankl encontra-se estampado na primeira página deste livro singular. Confesso que me ajudou logo de cara: estava num avião, no assento do meio –não [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Immaculée Ilibagiza; &#8220;Sobrevivi para contar&#8221;. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro. 2006. 340 pgs.</strong></p>
<p><img src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/04/042712_1849_ImmaculeIli1.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px;" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&#8221;Se não podemos mudar uma situação, mudar a nós mesmos se torna o desafio&#8221;. Esse pensamento de Viktor Frankl encontra-se estampado na primeira página deste livro singular. Confesso que me ajudou logo de cara: estava num avião, no assento do meio –não consegui marcar o lugar com antecedência- com uma viagem de 6 horas por diante, entre Nova York e Dublin. Acomodei-me do melhor modo possível e dei sequência à leitura. Li o livro em dois tempos, sendo que no segundo me encontrava um pouco mais confortável, no assento do corredor, voo de volta entre Dublin e São Paulo. Mais 10 horas de aperto.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas nessa altura eu já estava dando risada de gol contra depois de surpreender-me com a história desta jovem de 24 anos que ficou fechada num banheiro, de pouco mais de 1 m<sup>2 </sup>junto com outras seis mulheres, por quase três meses. Minha situação era, por tanto, de um conforto equivalente a um hotel de 5 estrelas, e o serviço de bordo equiparável aos melhores restaurantes do planeta. Vamos parar de reclamar. Foi a frase que me acudiu à cabeça: não sei se a formulei em voz alta, ou se foi um propósito para incorporar na minha vida, ou se foi alguém –uma voz divina, como as que Immaculée escutava no seu cativeiro- quem a formulou com clareza meridiana.<br />
<span id="more-1345"></span><br />
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O cenário do livro é o genocídio que aconteceu em Ruanda na década de 90, onde morreram milhares de pessoas, em assassinatos sangrentos, praticados pelos Hutus contra os Tutsis, etnia esta à qual pertence a autora do livro. Tentar entender o tamanho deste drama está fora do propósito do livro. E penso que está fora do alcance de qualquer estudo sociológico que os intelectuais dos assim chamados países civilizados costumam produzir. É algo incompreensível, perante o qual se pode reagir com revolta, desespero, sede de vingança, descrédito absoluto pela humanidade. Ultrapassa os parâmetros racionais, supera a ficção, e não adianta perguntar-se quem são os bandidos e quem os mocinhos da história. É uma tragédia social e pública.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas é também possível, como demonstra este livro, reagir de um modo diferente, e transformar os obstáculos em degraus que permitem subir na vida, ganhar novas perspectivas, crescer por dentro, amealhar densidade. Ai está, talvez, o grande ensinamento do livro e uma pauta para a reflexão pessoal: como é a nossa reação perante as dificuldades. Crescemos ou nos encolhemos?  Mantemos os valores, o peso específico que se deve esperar, ou ficamos como barata tonta e assustada, ao sabor dos acontecimentos? <em>Virtus in infirmitate perficitur</em> - reza a sabedoria bíblica. A virtude se aperfeiçoa no sofrimento. São as adversidades as que revelam o verdadeiro caráter de uma pessoa.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O livro não busca respostas ou interpretação. Relata apenas a reação da protagonista, e assim o adverte ela: &#8220;Não pretende contar a historia de Ruanda, mas a minha historia pessoal&#8221;.  Immaculée vai buscar no fundo da sua alma os recursos da fé, a união pessoal com Deus, a descoberta do amor que Deus tem por ela, e a segurança que daí decorre. Mais um ensinamento notável: ao enfrentar as desventuras, também se manifestam os recursos espirituais que ao longo da vida, em época de bonança, foram capitalizados. Esse é o lastro que entra em jogo na hora das crises: da econômica, da social, da pessoal. Quando os recursos são escassos, estoura a bolha imobiliária, dispara o desemprego, revela-se a farsa de uma riqueza que era puro decorado de teatro, e, no plano pessoal, toma conta o desespero.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um belo livro, pista de decolagem para uma reflexão profunda de índole pessoal. Impactante, necessário. Se houver alguma dúvida, coloque-o na mala de mão para a próxima viagem de avião, e desfrutará de uma experiência fenomenológica que ilustrará convenientemente as ponderações.</p>
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		<title>Luiz V. Décourt: “A Didática Humanista do Professor”</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Apr 2012 18:18:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[conferências]]></category>
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		<description><![CDATA[Luiz V. Décourt: &#8220;A Didática Humanista do Professor&#8221;. Ed. Atheneu. 2005.São Paulo. 192 pgs. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Uma bela coleção de pronunciamentos, conferências e escritos do Professor Décourt, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente. Corria o ano 1980, e eu tinha iniciado o meu internato na enfermaria da Propedêutica – Clínica Médica, no sexto andar do [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Luiz V. Décourt: &#8220;A Didática Humanista do Professor&#8221;. Ed. Atheneu. 2005.São Paulo. 192 pgs.</strong>
	</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/04/040212_1818_LuizVDcourt1.png" alt="" style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma bela coleção de pronunciamentos, conferências e escritos do Professor Décourt, a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente. Corria o ano 1980, e eu tinha iniciado o meu internato na enfermaria da Propedêutica – Clínica Médica, no sexto andar do Hospital das Clínicas. Lembro-me de um paciente &#8211; um dos primeiros que tive no quinto ano –, com uma afeção pulmonar sobre quem levantei algumas dúvidas diagnósticas e terapêuticas durante a reunião clínica. A residente de segundo ano comentou que poderíamos chamar o professor para tirá-las, que ele vinha sempre com muito gosto. Assim foi; pouco tempo depois o Professor Décourt estava sentado na cama do meu paciente, conversando com ele, escutando-o com atenção. Foi a primeira vez o que o vi, e tratou-me com naturalidade, como um colega. Depois, estive com ele muitas outras vezes, assisti as aulas e reuniões clinicas no INCOR, acompanhei-o em alguma visita clínica na enfermaria. Mas a primeira impressão nunca se esquece.
</p>
<p><span id="more-1337"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Leio agora esta coletânea e não me custa imaginar o professor Décourt pronunciando as conferências que aqui se recolhem. Um homem sóbrio, profundamente respeitoso, sério. Não era fácil vê-lo sorrir, porque era naturalmente muito circunspecto, como se observa na fotografia da capa, que corresponde perfeitamente ao seu semblante habitual. Isto me fez pensar; porque frequentemente se associa uma relação médico paciente, ou professor-aluno a um temperamento jovial, alegre, descontraído. Não há dúvida de que sociabilidade espontânea e natural pode facilitar essas funções imprescindíveis no médico e no professor. Daí que o mérito do Professor Décourt seja, no meu modo de ver, muito maior. Ele vivia o que ensinava e, de certo, teve de praticar um esforço constante por vencer sua natural seriedade para mostrar-se aconchegante, e oferecer o conforto ao paciente que sofre: essa é uma das máximas que aparece em quase todos os seus pronunciamentos.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O livro recolhe perfis de figuras notáveis da história da medicina, das quais o Professor Décourt sabe tirar proveito. Harvey, Semmelweis, Trousseau e um destaque todo especial para William Osler, de quem era admirador devoto, e propõe como exemplo notável.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas é nos primeiros capítulos, que recolhem pronunciamentos feitos como Paraninfo e Patrono de turmas de médicos formados na década de 50, onde o Professor Décourt nos presenteia com reflexões preciosas. &#8220;Ao afastar-se do paciente, o médico deforma e descaracteriza sua própria pessoa&#8221;. Quer dizer, sem não é para servir o paciente, perde-se o motivo de ser do próprio médico. Um belo pensamento que, como espelho, causaria pânico em tantos profissionais de hoje, além de explicar suas frequentes crises.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O professor fala das virtudes do médico, entre as quais destaca as variantes da caridade: &#8220;não só em forma de compaixão e de interesse, mas daquela que muitas vezes é a mais difícil, a caridade da paciência&#8221;. É somente assim, como se consegue ser &#8220;amparo e repouso para os que não têm repouso; não somente para o corpo, mas também para o espírito do enfermo&#8221;. Recomenda a austeridade do médico, e adverte (em 1955!) que a fragmentação da doença para melhor estuda-la pode conduzir a uma postura perigosa para com o paciente: &#8220;Na minucia do pormenor das partes, desaparece, muitas vezes, a imagem do todo; na fascinante busca de uma verdade regional, ignora-se inteiramente o homem que sofre&#8221;. Não falta também a sábia recomendação contra a vaidade médica, elemento que sempre se infiltra na nossa profissão e na acadêmica, para o qual se deve estar atento: &#8220;Não se aplaude o que o indivíduo realiza, mas aplaude-se o posto que ele ocupa. O aplauso que afaga as vaidades contribuiu para a falsa identificação do indivíduo à posição que ele ocupa&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Temos aqui, enfim, um belo conjunto de pensamentos e reflexões que devem ser lidos, meditados, e deixados por perto para retomar sua leitura de tempos em tempos. Isto é o que faz de uma obra, um clássico: sua perenidade, sua utilidade sempre atemporal. A obra, o pensamento, e o exemplo do Professor Décourt é um monumento clássico da nossa medicina brasileira e universal.</p>
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		<title>Aldous Huxley: “Admirável Mundo Novo”</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Mar 2012 16:56:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[humanização]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>

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		<description><![CDATA[Aldous Huxley: &#8220;Admirável Mundo Novo&#8221;. Ed. Globo. 2009. São Paulo. 390 pgs. Um novo fórum humanista oferece-me a ocasião para uma leitura pausada da conhecidíssima obra de Aldous Huxley. Conhecida, profética e, eu diria camaleônica. Lembro que na minha adolescência –há quase 50 anos- este livro era visto com certas reservas pelos educadores ortodoxos. Talvez [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Aldous Huxley: &#8220;Admirável Mundo Novo&#8221;. Ed. Globo. 2009. São Paulo. 390 pgs.</strong></p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/033012_1656_AldousHuxle1.jpg" alt="" style="margin-right: 10px" />Um novo fórum humanista oferece-me a ocasião para uma leitura pausada da conhecidíssima obra de Aldous Huxley. Conhecida, profética e, eu diria camaleônica. Lembro que na minha adolescência –há quase 50 anos- este livro era visto com certas reservas pelos educadores ortodoxos. Talvez pelas descrições cruas, desumanizadas, das relações humanas. Ou pelas misturas religiosas que os impulsos de transcendência acarretam. Ou mesmo porque poderia se considerar um exagero de uma mente culta, produzido na década dos 30 (muito antes mesmo da minha adolescência). Hoje, leio com gosto esta obra, olho à minha volta, e vejo que encaixa perfeitamente com tudo o que nos toca viver, observar, e suportar. Daí o camaleônico; não do livro, mas das circunstâncias. Do &#8220;Index inquisitorial&#8221; onde quase a situavam os educadores de outrora, eu a colocaria hoje entre os livros de formação moral altamente recomendáveis. Um exagero, talvez, mas a ideia se entende.
</p>
<p>Caminho por entre as páginas de &#8220;Admirável Mundo Novo&#8221; e olho à minha volta por ver se algum executivo alfa, ou um socialite beta-menos esboça o sorriso de plástico na tela do Big Brother. Continuo lendo e contemplo os trabalhadores gama e os anões ípsilon, pululando à minha volta, em redes sociais, fotos incluídas. Todos iguaizinhos, com muitos milhões de amigos, poderosamente despersonalizados, se comunicando, o tempo todo, mais, mais, sobre o nada; uma anorexia patológica de conteúdo. Mas todos felizes. Sempre felizes, porque foram condicionados para livrar-se de tudo o que é desagradável em vez de aprender a suportá-lo. E, no aperto, algumas gramas do <em>soma</em>, a poção mágica que recupera a felicidade. O <em>soma</em> é, em palavras do grande administrador, a religião, o Cristianismo, sem lágrimas.
</p>
<p><span id="more-1333"></span></p>
<p>Passeio pelos capítulos, e acode à minha memória um exemplo inevitável: &#8220;<em>O Show de Truman</em>&#8220;, esse fantástico filme, ensaio sobre a liberdade que busca, teimosamente, fugir da mesmice e da mediocridade. No meio desse admirável mundo novo -o mundo feliz como se intitula em espanhol esta obra clássica- em expressão emprestada de &#8220;A Tempestade&#8221; de Shakespeare, há também espasmos de liberdade, gente inconformada e perigosa que não se encaixa no condicionamento necessário que faz as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar. São pessoas que ameaçam a ordem social, inquietantes, &#8220;porque tem aquela mania de fazer as coisas na intimidade. O que equivale a não fazer nada. Afinal, que se poderia fazer na intimidade?&#8221;
</p>
<p>Este diálogo vale a reprodução ipsis litteris: (<em>o itálico é meu</em>):
</p>
<blockquote><p>-&#8221;Eu quero contemplar o mar em paz. Não se pode nem olhar com esse barulho infernal nos ouvidos&#8221; (<em>alguma semelhança com os points do barulho?</em>)
</p>
<p>-&#8221;Mas eu acho delicioso. E, além disso, não quero olhar&#8221;. (<em>é a beta menos, de plástico, encantadoramente insípida</em>)
</p>
<p>- &#8220;Isso me dá a sensação de ser mais eu, de agir por mim mesmo, e não tão completamente como parte de alguma outra coisa. De não ser simplesmente uma célula do corpo social. O que eu sentiria se pudesse, se fosse livre, se não estivesse escravizado pelo meu condicionamento?&#8221; (<em>saudades de um mundo que não tenho e que também não tenho a coragem de buscar. Fazer o quê? Toca em frente, e toma alguns comprimidos de Soma que essas quimeras logo passam&#8230;..)</em></p></blockquote>
<p>E vale a reflexão que estremece quando, levantando os olhos do livro, nos atrevemos a olhar à nossa volta e, por que não, até dentro de nós mesmos. <em>Maravilha, que seres fantásticos há por aqui, como é bela a espécie humana.</em> É Miranda, a filha de Próspero da Tempestade de Shakespeare quem empresta as palavras. Exclamação que sublinha nossa admiração quando contemplamos a fauna que nos rodeia: executivos embrulhados em roupas de grife, exércitos de modelos (profissão (?) em alta), políticos clonados. Todos &#8220;adultos intelectualmente e durante as horas de trabalho, mas criancinhas, no que diz respeito ao sentimento e ao desejo&#8221;.
</p>
<p>E no meio dessa calmaria amorfa de gente programada para ser feliz, surge John, O Selvagem, que não foi civilizado nem condicionado. Um Truman buscando a liberdade, fugindo do show da vida que se encena no admirável mundo novo. Está contaminado, leu tudo de Shakespeare, conhece-o de cor. Doença sem volta, o câncer do humanismo que se empenha em viver perigosamente porque é isso que vale a pena. E teima em pensar, em buscar a verdade a tudo custo. O grande administrador lhe adverte do risco: &#8220;A felicidade é uma soberana exigente, muito mais exigente do que a verdade, quando não se está condicionado para aceita-la sem restrições&#8221;. É a turma do deixa disso que em coral polifônico clama quando alguém se atreve a pensar por conta própria, a assumir compromissos árduos e dolorosos, a viver fora dos esquemas convencionais. Quer dizer, quando alguém quer buscar a verdade que, também traz a felicidade, mas de outra espécie, sem facilitadores químicos.
</p>
<p>Os clamores dos anos 30, quando o livro foi escrito, hoje comparecem em forma de ONGs para defender os direitos humanos (?), em conchavos políticos e acadêmicos (sim, acadêmicos, que é a politica travestida de cultura, exibindo como passaporte polpudos currículos) que afirmam saber o que de fato nos convém. Algo assim como: &#8220;A gente diz o que você tem de fazer, o que funciona, o que é politicamente correto; não perde tempo pensando, não&#8221;. Tudo muito bem explicado em menus de TV, enxurrada de modas, protocolos e processos, e multimídia variada. Um admirável mundo novo, enganoso, falso, que transpira mediocridade satisfeita e bem nutrida.
</p>
<p>Chegava ás páginas finais do livro, quando me deparei com uma pequena reportagem sobre a recente visita do Papa Bento XVI a Cuba. Chamou-me a atenção a frase final nos créditos: &#8220;<em>Joseph Ratzinger: A Love-affaire with the truth</em>&#8220;. Fecho o livro e penso em Huxley profético, devastador, contundente. E até imagino uma conversa entre estas duas personagens sobre o mundo que nos tocou viver. E parece-me vislumbrar, lá no fundo, Truman saindo do cenário para engrossar o grupo dos poucos e seletos que decidem ter um caso de amor com a verdade.</p>
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		<title>Cavalo de Guerra, um promotor da Paz</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Mar 2012 18:51:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[Spielberg]]></category>

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		<description><![CDATA[Cavalo de Guerra, um promotor da Paz: O Cinema antropológico de Spielberg (War Horse) 146 min. Dir: Steven Spielberg. Jeremy Irvine, Emily Watson and David Thewlis &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Alimentava boas expectativas diante do último filme de Spielberg. Não me decepcionou; sai satisfeitíssimo. E enquanto esboço estes comentários desfilam pela minha memória as lembranças do meu relacionamento com esse diretor, um [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Cavalo de Guerra, um promotor da Paz: O Cinema antropológico de Spielberg<br />
</strong></p>
<p><strong>(War Horse) 146 min. Dir: Steven Spielberg.  <a href="http://www.imdb.com/name/nm3528539/">Jeremy Irvine</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0001833/">Emily Watson</a> and <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000667/">David Thewlis</a><br />
		</strong></p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/031612_1851_CavalodeGue1.jpg" alt="" style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Alimentava boas expectativas diante do último filme de Spielberg. Não me decepcionou; sai satisfeitíssimo. E enquanto esboço estes comentários desfilam pela minha memória as lembranças do meu relacionamento com esse diretor, um eterno menino, que sabe sonhar, que desfruta fazendo filmes, que toca fundo a fibra afetiva do expectador.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando Spielberg nos apresentava há mais de 30 anos seus ensaios cósmicos –<em>Contatos Imediatos, E.T</em>-  recordo que, apesar da boa acolhida do público, não me interessei pela temática. Talvez fosse a minha juventude, ou o gosto por um cinema direto, ou a pouca simpatia que sempre tive pela ciência ficção. A saga de <em>Indiana Jones</em> –divertidíssima- vinha assinada pela dupla Spielberg- George Lucas, quer dizer, não era um Spielberg genuíno. Foi anos depois, com <em>A Cor Púrpura,</em> quando percebi que por trás de temáticas variadas os filmes de Spielberg destilavam poesia, a inspiração que o ser humano encerra. Acordei: comecei a respeitar os filmes dele, respeito que se transformou em admiração. Hoje, além da admiração sou obrigado a creditar dividendos nesta conta de relacionamento, pois as cenas de <em>A Lista de Schindler</em>, <em>Amistad</em>, <em>O Resgate do Soldado Ryan</em>, fazem continuo ato de presença nas minhas aulas e conferências. Sou quase um Spielberg-boy, um Spielberg-freak, e me sinto irmanado com ele no amor pelo bom cinema, ou melhor, pelas possibilidades que o cinema nos oferece para mergulhar no mistério do homem. Uma antropologia em versão celuloide.
</p>
<p><span id="more-1318"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cavalo de Guerra é, contra toda aparência, um filme antropológico. Os variados comentários que escutei não chegam, no meu modo de ver, no âmago da questão. Ouvi dizer que era um filme ingênuo. Escutei que era um filme bonito, talvez longo demais. Comentou-se que era muita aventura para um cavalo, areia demais para um modesto caminhão. E alguém se atreveu a afirmar –e aqui concordo plenamente- que era a versão equina do Soldado Ryan. Penso que o cavalo de guerra é uma elegante metáfora. Spielberg põe num cavalo tudo o que gostaria de colocar no ser humano, mas é difícil de encontrar um protagonista que reúna esses predicados.
</p>
<p><img align="right" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/031612_1851_CavalodeGue2.png" alt="" style="margin-left: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Lembrei de um pensamento que li há muitos anos e reproduzi em outros comentários  a propósito dos filmes que se atrevem a falar com franqueza. O filósofo em questão afirmava que a simplicidade que conquista e se impõe é própria das crianças, dos loucos e dos santos. As crianças falam o que pensam porque não tem discernimento nem conhecem a vergonha. Fácil lembrar situações embaraçosas, onde o menino fala para a mãe em voz alta que &#8220;aquela amiga chata está no telefone te esperando&#8221;. O louco perdeu a crítica que governa as boas maneiras e o relacionamento social. O santo não se preocupa com a plateia humana, pois atua de cara a Deus. Para dizer verdades contundentes, fazer filmes de santos teria pouco marketing; daí que o cinema utilize crianças e loucos –gente atípica: <em>Rain Man, Forrest Gump,</em> por dar um exemplo- para transmitir ideias sem incomodar ninguém. Uma solução politicamente correta à qual Spielberg acrescenta agora um cavalo. Crianças, loucos e agora os animais (não de modo figurado, como Disney), mas em carne e osso, em plenitude do seu mundo irracional, evocando timidamente o ser humano, convidando-o a assumir o papel que o animal é obrigado a desempenhar até que apareça algum homem que seja capaz de substitui-lo.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Cavalo de Guerra é um promotor da paz. As aventuras e vicissitudes pelas que atravessa têm um denominador comum: a descoberta de pessoas de bem. O cavalo de guerra é como uma linha que costura homens de paz, de boa vontade, independente do credo, do país, ou da bandeira à qual servem. Suas missões aparentemente bélicas são motivo para atrair as pessoas certas que ele se encarrega de descobrir. Lá onde ele vai parar –ou melhor, onde é levado, não tem vontade própria, lembremos que é um cavalo-  invariavelmente se depara com pessoas que sintonizam e são congregadas para uma missão de paz no meio de uma guerra mundial. E tudo isso o consegue desempenhando sua função a consciência: cumprindo o seu dever. Não é Pégaso, nem Centauro, nem mesmo cavalo adestrado de circo. É simplesmente um cavalo que trabalha, que não se poupa e que enfrenta desafios novos embebido pela boa vontade de ser útil.
</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/031612_1851_CavalodeGue3.png" alt="" style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Veio à memória a condição de eficácia que um santo contemporâneo resumia em quatro ações: calar, trabalhar, sorrir, rezar. E, por vezes, também metaforicamente, personificava estes verbos não na figura de um cavalo, mas num burro. Evidentemente, nem um nem outro, rezam nem sorriem; mas trabalham caladamente, eficazmente, dão conta do recado. O sorriso e a prece ficam por conta do ser humano que tenha a coragem de assumir o papel que o burro ou o cavalo desempenham enquanto esperam que alguém se candidate.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quando se trabalha caladamente, sorrindo e com sentido de transcendência, as circunstâncias mais adversas se convertem em terreno fértil, onde é possível encontrar no meio da podridão que nos rodeia, gente de bem, pessoas de boa vontade, ar para respirar, luz no fundo do túnel. Um belo desafio para qualquer ser humano: ser um promotor da paz e do bem.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Parabéns para o Steven Spielberg, esse garoto de 68 anos que se permite sonhar, e nos arrasta no seu sonho estético, sem vergonha de ser feliz. Um filme ingênuo? Um filme bonito? Depende do que você procura no cinema. Para mim o resultado é claro: um épico com sabor de western de John Ford &#8211; horizontes que o pôr de sol tinge de vermelho. Uma avalanche de virtudes silenciosas à espera de um protagonista. Um convite a fazer o mundo melhor. Uma epopeia humana montada num cavalo de guerra que teima incansavelmente em promover a paz.</p>
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		<title>O humanismo médico de Gregorio Marañón: um exemplo sempre atual</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Mar 2012 18:34:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Medicina]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Gregório Marañón]]></category>
		<category><![CDATA[humanização]]></category>
		<category><![CDATA[médico]]></category>
		<category><![CDATA[pensamento]]></category>

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		<description><![CDATA[The medical humanism of Gregorio Marañón: a timeless example João Antônio Gonçalves Garreta Prats Acadêmico do 5º ano do curso de Ciências Médicas do Centro Universitário Lusíada &#8211; Santos &#8211; SP. Pablo González Blasco Doutor em Medicina. Diretor Científico da SOBRAMFA. RBM Jan 12 V 69 Especial Oncologia &#160; Numeração de páginas na revista impressa: 18 [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>The medical humanism of Gregorio Marañón: a timeless example</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong>João Antônio Gonçalves Garreta Prats</strong><br />
<em>Acadêmico do 5º ano do curso de Ciências Médicas do Centro Universitário Lusíada &#8211; Santos &#8211; SP.</em><br />
<strong>Pablo González Blasco</strong><br />
<em>Doutor em Medicina. Diretor Científico da SOBRAMFA.</em><br />
<em>RBM Jan 12 V 69 Especial Oncologia</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Verdana;"><span>Numeração de páginas na revista impressa: <strong>18 à 24</strong></span></span></p>
<p>Resumo</p>
<p>Gregorio Marañón y Posadillo (1887-1960) foi membro da denominada Geração do 14, um grupo de intelectuais espanhóis e homens de ciência, conhecido pelo europeísmo, racionalismo e cientificismo. O presente estudo relata alguns dos trabalhos inspiradores de Gregorio Marañón e a sua análise atemporal da figura humana do médico e da medicina atual. Dentre as atitudes do médico, Marañón confere particular importância ao entusiasmo e à dedicação, que são como garantia de qualidade da sua ação. Uma postura que hoje poderíamos traduzir como compromisso e empatia com a pessoa do enfermo. Para Marañón, a formação humanística é tarefa e compromisso essencial no médico, fonte de conhecimentos, recurso inestimável na sua profissão. Afirma também que o protagonismo do paciente implica em saber &#8220;defendê-lo&#8221; do uso indiscriminado da tecnologia. Propõe, assim, um verdadeiro resgate das origens da profissão médica, adaptada ao progresso moderno. Descreve-se o &#8220;conhecimento&#8221; que tivemos da vida e obra de Marañón na exposição realizada em Toledo (Espanha), por ocasião do cinquentenário da sua morte, que supôs algo de valor inestimável. <span style="font-size: 12pt;"><br />
</span></p>
<p style="text-align: center;"><img style="border-style: initial; border-color: initial;" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/031612_1834_Ohumanismom2.jpg" alt="" /><span style="font-family: Verdana; font-size: 12pt;"><br />
</span></p>
<p><span>Conclui-se o presente artigo com nossas reflexões sobre o pensamento do médico espanhol que demonstra com clareza as perturbações da prática médica na Europa, tão extrapoláveis e tão atemporais, que apresentam completa atualidade no século XXI. Formar médicos verdaeiramente humanistas requer a instalação de um processo de reflexão que lhe permita, de modo contínuo, reavaliar sua opção vocacional, sua resposta como pessoa e como profissional. O estudo dos trabalhos de Gregorio Marañón representa contribuição de enorme valor para as reflexões necessárias ao estudante de Medicina em sua formação.</span></p>
<p><span id="more-1314"></span></p>
<p><strong>A título de introdução</strong></p>
<p>Quem foi Gregorio Marañón (1)?</p>
<p>Gregorio Marañón y Posadillo (1887-1960) foi membro da denominada Geração do 14, um grupo de intelectuais espanhóis conhecidos por seu europeísmo, racionalismo e cientificismo. Aquela geração era constituída por homens do mundo artístico, literário e, também, por homens da ciência.</p>
<p>Gregorio Marañón iniciou seus estudos médicos em Madrid, no antigo Colegio San Carlos, no curso pré-universitário de 1902-1903. Seu excelente desempenho acadêmico o levou a obter o Prêmio Extraordinário de Licenciatura em 1909. Concorreu também ao prêmio Martínez Molina, galardão concedido pela Real Academia Nacional de Medicina Espanhola. Seu trabalho – Investigaciones anatómicas sobre el aparato paratiroideo del hombre – foi o vencedor, a despeito de não haver completado ainda seus estudos médicos. Este prêmio proporcionou transcendência fundamental a sua carreira acadêmica e científica.</p>
<p>Marañón deu seus primeiros passos profissionais em duas direções principais: a endocrinologia e a luta contra as doenças infecciosas. Em Frankfurt, trabalhando com o dr. Ehrlich, ajudou no desenvolvimento do 606, que foi tido como um grande avanço no combate às doenças infecciosas, sobretudo no combate à sífilis. Marañón finalizou seu doutorado e elaborou sua tese – La sangre en los estados tiroideos – com a qual obteve o Prêmio Extraordinário de Doutorado. Tão importante foi a presença de Marañón como endocrinologista na Espanha que, com a guerra e seu exílio para Paris, a Endocrinologia praticamente desapareceria naquele país até 1947. Após sua morte, em 1960, a cadeira de Endocrinologia permaneceu vazia até 1969.</p>
<p>Marañón foi conhecido em toda a Europa e ao redor do mundo e toda a sua história, seus feitos, pesquisas, trabalhos e contribuições estão muito além do mérito deste estudo.</p>
<p><strong>Gregorio Marañón no Brasil</strong></p>
<p>Impressiona que pouquíssimos médicos conheçam Gregorio Marañón no Brasil. Entre os estudantes de Medicina não encontramos um sequer que o conhecesse. Tivemos a oportunidade de melhor apreciar essa insigne figura numa viagem à Espanha, para um congresso internacional, durante uma visita à cidade de Toledo. Marañón foi um médico de alto prestígio na Espanha do século XX, além de um endocrinologista internacionalmente conhecido. No entanto, o que torna tão atraente estudar seus trabalhos é o fato de ele ter sido muito mais do que um médico famoso. Marañón foi um liberal, um historiador notável, pensador e crítico, professor, escritor, filósofo, mestre e um ser humano de categoria excepcional. Ele encarna com perfeição a figura do Humanista, a quem podem aplicar-se os dizeres clássicos: Nihil humanum alienum me est (nada humano é alheio a mim).</p>
<p>Este estudo objetiva comentar e refletir sobre alguns dos trabalhos inspiradores de Gregorio Marañón, em busca de uma análise atemporal da figura humana do médico e da Medicina atual. Faremos, pois, algumas considerações estabelecendo um paralelismo entre o estudante de Medicina e o médico dos dias de hoje, ao sabor dessas reflexões que também querem ser um motivador para o estudo do trabalho de Marañón nos anos da formação médica.</p>
<p style="text-align: center;"><img style="border-style: initial; border-color: initial;" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/031612_1834_Ohumanismom3.jpg" alt="" /><span><br />
</span></p>
<p><span><br />
<em>O humanismo médico de Gregorio Marañón: um exemplo sempre atual</em></span></p>
<p><strong>O estudante de Medicina</strong></p>
<p>Entusiasmo e vocação<br />
O entusiasmo é um denominador comum dos estudantes de Medicina no início da faculdade. Entusiasmam-se comtudo o que há de novo. A primeira ida a um laboratório de anatomia, o primeiro paciente examinado, a primeira patologia estudada, a vida em um lugar novo, com pessoas novas, novas inspirações. O entusiasmo não é aspecto a ser desprezado, como se fosse elemento ingênuo; uma ingenuidade que o tempo fará perder. Marañón associa o entusiasmo com a nobreza interior, condição imprescindível para o futuro médico:</p>
<p>&#8220;Todo homem verdadeiramente entusiasta, na ciência ou na vida em geral, é sempre um homem bom; e talvez haja poucos índices mais certos do que o entusiasmo para julgar a qualidade moral dos outros. Nada abre o coração e mostra com menos reserva seus recantos como o entusiasmo (2).&#8221;</p>
<p>E ainda integra o entusiasmo com a verdadeira vocação:<br />
&#8220;Esta força que penso deva chamar-se extra científica, depende em última análise de uma coisa só: do entusiasmo do médico, do seu desejo fervente de aliviar a seus semelhantes, em suma, do rigor e emoção com que sinta o seu dever. Nisto consiste a vocação: numa emoção primordial do dever, em detrimento dos possíveis direitos. Isto é muito mais importante do que um problema de aptidão, onde superficialmente se costuma localizar a questão vocacional. A aptidão se adquire – salvo raras exceções- mesmo que se careça dela completamente, no calor da emoção ética. Todos os homens servimos para quase todas as coisas, sempre que queiramos com vontade inamovível. A vocação é uma questão de fé, não de técnica (3).&#8221;</p>
<p>Daqui se percebe facilmente que o entusiasmo é uma qualidade de excelência que, no estudante de Medicina, pode motivá-lo ao encontro de sua verdadeira vocação. Temos aqui um primeiro ponto de reflexão: quando a motivação para estudar Medicina não está atrelada ao entusiasmo pela profissão, começou-se mal. Haverá, sim, outras motivações: dinheiro, reputação ou qualquer coisa. É fácil diferenciar esses colegas como bem adverte Marañón:<br />
&#8220;Sempre tive facilidade para reconhecer, entre a multidão dos estudantes, os distraídos, que não são poucos em cada turma; percebe-se neles a impaciência inequívoca com a qual passam diante do cadáver ou junto da cama do enfermo. Falta-lhes aquele deleite crescente, moroso até, que dá o contato com a natureza e que se encontra na verdadeira vocação. É inútil para eles o bom mestre, o abundante material, o curriculum apurado, já que apenas aspiram a passar como cometas pela etapa acadêmica para tomar posse de um título que trocarão logo depois – isso é o que eles imaginam – pelo triunfo social que, naturalmente, nunca chegará (4).&#8221;<br />
As palavras de Marañón nos levam a outra reflexão: Seria a falta de entusiasmo – que afinal é carência de verdadeira vocação – o que leva o estudante de Medicina a tornar-se um médico desumanizado?</p>
<p><strong>Reputação</strong></p>
<p>No início da faculdade, o estudante de Medicina pouco se preocupa com sua reputação. Não fica incomodado de não ser conhecido por todos ou de não ser reconhecido como médico pelos pacientes. Cabe uma pergunta: por que, com o passar dos anos, o estudante de Medicina passa a se importar tanto com seu currículo, com sua imagem, com exibir seus feitos acadêmicos e científicos e vangloriar-se com um ou outro diagnóstico, comentário ou ponderação? Por que passam a importar-se menos com sua relação com os outros e mais com certificados? Marañón comenta sobre a reputação do médico:</p>
<p>&#8220;O pecaminoso é a verdade que muitos médicos dizem por vaidade profissional, pelo gosto de acertar, à custa da dor do seu enfermo. Eu cumpri muitas vezes com a minha obrigação, ocultando a verdade, mesmo sabendo que pouco depois apareceria como erro o meu juízo, em detrimento disso que chamam &#8220;reputação&#8221;. Não tem a têmpera de médico aquele que não sabe, desde o início da sua atuação profissional, que talvez uma das suas missões principais seja a de saber sacrificar a reputação perante a dor do próximo, todas as vezes que for preciso (5).&#8221;</p>
<p>Mais uma vez, as palavras de Marañón demonstram sua atemporalidade, ao explicitar um problema tão comum nas faculdades: a preocupação excessiva com o curriculum vitae. Isso leva o estudante a preocupar-se menos com o cuidado dos seus pacientes e focar-se numa simples pesquisa científica, desprovida de significado, apenas para aumentar o número de páginas de seu currículo. Isso será abordado mais adiante.</p>
<p>Uma &#8220;proporção&#8221; de valores<br />
O estudante de Medicina também apresenta outro aspecto contrastante com o médico que é digno de discussão, uma proporção de difícil definição. O estudante é menos médico, mas não teria uma proporção maior de vários outros valores? Não teria o estudante mais caracteres humanos? É difícil compreender, mas o estudante de Medicina, para dar um exemplo, é proporcionalmente mais conhecedor de história, música, literatura e muitos outros conhecimentos ausentes da grade das faculdades. É como se ainda tivesse tempo de ocupar-se com outras coisas que não Medicina. Algo que com o tempo parece perder-se. A este respeito dizia Marañón:</p>
<p>&#8220;O médico que somente sabe Medicina nem sequer Medicina sabe. [...] Existe uma fronteira tênue entre os doutores que, por saberem somente medicina, ignoram esta ciência e aqueles que, pretendendo saber tantas outras coisas, ignoram a medicina elementar e eficaz, a que serve para aliviar fadigas e dores. O enciclopedismo pedante é obstáculo para o verdadeiro saber. Deve-se fugir daquele que exibe os seus títulos acadêmicos como garantia de suficiência e se dedica a cultivar suas aptidões expositivas para surpreender os ingênuos com o seu enciclopedismo faustoso. E deve-se confiar naquele que dedica à investigação o tempo necessário e, depois, dedica o seu descanso a outras inquietudes que mantêm viva a tensão do espírito e aprimoram a eficácia do instrumento profissional (6).&#8221;</p>
<p>Esses dizeres também corroboram a sua crítica em busca pela reputação, pelos títulos e pelo reconhecimento. Levam a considerar o cientificismo exacerbado, representado muitas vezes nas faculdades de Medicina pela mínima quantidade – ou total ausência – de aulas de ética, filosofia e humanização do cuidar.</p>
<p><strong>O médico atual</strong></p>
<p>As maiores críticas de Marañón para o médico espanhol são recolhidas em seu trabalho &#8220;La medicina y nuestro tiempo&#8221;. Ele aborda na obra o dogmatismo e o cientificismo, como verdadeiros entraves da atuação médica. Marañón define o dogmatismo como &#8220;a presunção dos que querem que sua doutrina ou suas afirmações sejam tidas como verdade irrefutável&#8221;.</p>
<p>Ele defendia a medicina antidogmática, pontuando com clareza a fugacidade das &#8220;verdades&#8221; na medicina e mostrava também a humildade como característica necessária para o médico, assim como a contrastante oposição ao dogmatismo:<br />
&#8220;Sempre disse àqueles que trabalham ao meu lado que nunca devem esquecer que cada coisa que nós médicos sabemos, devemos procurar saber com a maior exatidão possível, mas sem perder de vista o seu valor provisório. O vazio que surge entre a imperfeição da verdade que possuímos e a verdade que almejamos conseguir deve ser preenchido com entusiasmo, boa fé e, acima de tudo, com doses abundantes de modéstia [...] O médico dogmático vive escravo da sua reputação, ignorando que esta serve, não para que a sua família se envaideça, mas para arriscá-la sempre que for preciso, para manter alto o moral dos pacientes. O moral alto é quase sempre o melhor remédio e, às vezes, o único que podemos receitar7 .&#8221;<br />
Outro alvo de críticas de Marañón, o cientificismo exacerbado, permanece hoje como problema evidente. Cada vez mais, como já mencionado, os estudantes e médicos acabam por experimentar por diletantismo, sem ter em vista algo de benéfico a contribuir com o meio científico ou no benefício do paciente. Marañon dizia:</p>
<p>&#8220;Aquelas numerosas e inúteis obras do experimentar por experimentar, ou para chegar ao título de professor, têm muito mais de esporte do que de ciência verdadeira e, em sua maioria, são infecundas, pois estão desconectadas da trajetória do grande pensamento científico (8).&#8221;</p>
<p>Escreveu ainda sobre a postura do médico diante dos avanços da ciência:<br />
&#8220;O médico, cuja humanidade deve estar sempre alerta dentro do espírito científico, tem de contar, primeiramente, com a dor individual; e mesmo que cheio de entusiasmo pela ciência, deve estar disposto a adotar a paradoxal postura de defender o indivíduo, cuja saúde lhe é confiada, contra o próprio progresso científico (9) .&#8221;</p>
<p>Não cabe interpretar esses pensamentos do médico espanhol como oposição à ciência e ao progresso. Marañón também aborda as dificuldades de manter-se na carreira acadêmica, o que dificulta o trabalho dos professores responsáveis pelas pesquisas científicas relevantes:<br />
&#8220;Aqui e na Europa em geral não se realizam experimentos [...], sobretudo pelo modestíssimo saldo que recebem os professores, o qual os obriga a repartir seu tempo em ocupações díspares, se não querem morrer de inanição10 .&#8221;</p>
<p>Ainda mais atual é a discussão sobre a transformação da Medicina, de profissão humana latu sensu em carreira científica – na verdade pseudocientífica –, com a perda de seu estilo sacerdotal, artístico e enigmático. Dizia Marañón:<br />
&#8220;O pecado dos médicos, nos últimos anos, foi abdicar de tudo quanto nossa missão tinha de entranhável, de generosa – de sacerdotal, para usar um lugar-comum –, e tentar convertê-la numa profissão científica, quer dizer, exata como a do engenheiro ou a do arquiteto. [...] No fim, tudo se voltará contra o próprio médico, pois, mesmo que não o queira, a sua ciência será embrionária, cheia de lacunas e de aspectos pouco exatos. Estas falhas somente podem ser preenchidas pelo amor. Seu prestígio exclusivamente científico estará, inevitavelmente, sujeito a quebras graves e contínuas. E é por isso que o médico se verá privado do respeito cordial dos seus pacientes e da própria sociedade, que não aceitará seu erro com generosidade mas espreitará suas falhas, perseguindo-o onde quer que esteja11 .&#8221; [..] Se esquecermos o conceito sacerdotal do médico, a supremacia da vocação para exercer nossa arte, então não teremos direito a queixar-nos quando nos exigirem responsabilidades por algum erro no exercício profissional que, na realidade, somente se podem resolver no ambiente do mútuo amor em que se desenvolvia a medicina de outrora. [...] &#8220;Porque esquecemos que a sabedoria não é apenas conhecer as coisas, mas amá-las (12).&#8221;</p>
<p><strong>Alinhavando reflexões e conclusões</strong></p>
<p>A leitura e discussão dos trabalhos de Gregorio Marañon contribuem sensivelmente para esse processo de reflexão, especialmente ao pontuar a importância da prática crítica e reflexiva, do entusiasmo e do conceito de vocação. A despeito do lapso temporal, suas palavras são inegavelmente atuais. Faremos a seguir algumas anotações, nos moldes de um simples &#8220;fatorial&#8221; desse produto enorme que é a obra desse insigne médico humanista.</p>
<p><strong>O papel do entusiasmo</strong></p>
<p>Dentre as atitudes do médico, Marañón confere particular importância ao entusiasmo e à dedicação, que são garantia de qualidade da sua ação. Em hipótese alguma se pode interpretar esta consideração como um desprezo ao progresso científico ou à tarefa de investigação. O próprio Marañón era um pesquisador notável, com particular dedicação ao campo da endocrinologia. O significado de dedicação e entusiasmo é o que hoje poderíamos traduzir como compromisso e empatia com a pessoa do enfermo: o médico sabe os limites da ciência que possui e esses limites que sempre existirão – diante do sofrimento e da morte – têm de ser preenchidos com competência profissional. Os recursos dessa competência se encontram no campo humanístico.</p>
<p><strong>Estamos desumanizando-nos durante a faculdade?</strong></p>
<p>Para Marañón, a formação humanística é tarefa e compromisso essencial no médico, fonte de conhecimentos e recurso instrumental de sua profissão.<br />
&#8220;O humanismo, ambicioso e ao mesmo tempo humilde, serve para amadurecer, para firmar e fazer prudente e eficaz o instrumento da profissão13 .&#8221;</p>
<p>O humanismo que Marañón propôs e viveu é um humanismo que visa – como tudo no médico – o benefício do paciente. É tão prejudicial a falta de cultura como uma cultura que não reverte em serviço alheio.</p>
<p>As reflexões humanistas de Marañón têm sua tradução imediata nas atitudes do médico que vai sendo forjado de acordo com este modelo. O protagonismo do paciente, tema constante em Marañón, implica em crítica contumaz de uma postura médica não comprometida, sem consciência de sua missão, preocupada apenas com a sustentação da imagem profissional.</p>
<p>A crítica que todo médico deve ter<br />
Do compromisso com o paciente decorre a necessidade de saber oferecer ao paciente o melhor possível, sem deixar-se guiar pelo progresso indiscriminado. Saber &#8220;defender&#8221; o paciente do uso indiscriminado da tecnologia é também aspecto que Marañón sublinha. E discute sobre a crítica:<br />
&#8220;Seria lamentável se alguém concluísse que desrespeito a Medicina, e que sou pessimista sobre o seu presente ou seu futuro. Respeito a Medicina, porque a amo; e o amor é a fonte suprema do culto, no humano e no divino. Mas o amor é também, e deve ser, crítica. Somente quando esmiuçamos o objeto amado, retirando o que tem de deletério, conseguimos encontrar, lá no fundo, o que tem de imperecedouro. Aquele que fala valentemente dos defeitos da sua pátria é o melhor patriota, e quem vai polindo com censuras justas sua profissão, esse é quem a serve com toda plenitude (14).&#8221;</p>
<p><strong>O médico &#8220;latu sensu&#8221;</strong><br />
Marañón reconhece o recurso humanístico como elemento permanente no exercício da Medicina. Neste sentido, adverte que o processo de formação universitária deve ensinar a praticar o que, em épocas outras – os médicos antigos que ele denomina médicos de família – se fazia de modo natural. Propõe, assim, um verdadeiro resgate das origens da profissão médica, adaptada ao progresso moderno. Se antigamente os médicos, para exercitar sua profissão, precisavam do componente humano como elemento indispensável – até o ponto em que carecer dele impedia a prática da medicina e o sucesso profissional –, hoje o progresso não pode embaçar nem fazer esquecer o que é o núcleo essencial da arte médica: a compreensão humana do paciente, do ser humano que sofre.</p>
<p>&#8220;Devemos lutar com empenho heroico para conservar, enquanto for possível, algo deste espírito (da medicina enigmática, artística, humana), adaptando-nos às necessidades dos nossos dias. Assim, faremos tanto pelo prestígio da Medicina como queimando as pestanas com os livros ou na ocular do microscópio (15).&#8221;</p>
<p>A competência que buscamos na formação de futuros médicos implica Humanismo. Sem Humanismo não há competência possível. Formar médicos humanistas vai muito além de dar um verniz humanitário ao futuro médico. É instalar um processo de reflexão que lhe permita, de modo contínuo, reavaliar sua opção vocacional, sua resposta como pessoa e como profissional. Um elemento essencial que se insere na alma do profissional e se faz vida da sua vida (16).</p>
<p>A formação cultural e universal surge como uma necessidade. É natural que, sendo o próprio ser humano a matéria-prima da profissão médica, tudo aquilo que contribua a entendê-lo melhor se converte em instrumento de trabalho. Daí que o médico não deva contentar-se com saber só Medicina; deve procurar um conhecimento amplo, universal, tonalidade universitária na própria vida. A introdução desses conceitos na formação acadêmica tem grande valor e se impõe diante da realidade atual.</p>
<p><strong>Reflexões finais</strong></p>
<p>O papel da atemporalidade de Marañón nas faculdades de Medicina<br />
&#8220;Conhecer&#8221; Gregorio Marañón foi algo de valor inestimável. Tomar ciência dos trabalhos de um homem e que foi médico latu sensu tem algo de fantástico. Marañón foi um grande cientista e, apesar de sua reputação, de seus feitos, manteve-se como homem humilde, crítico até consigo mesmo. Demonstrou tão claramente as perturbações da prática médica na Europa, tão extrapoláveis e tão atemporais, que parece ser um médico do século XXI. Sua referência ao humanismo, a despeito de ser exímio cientista, é motivadora e pontua de forma inigualável que a ciência pura só contém parte das respostas. A lacuna que deve ser preenchida – em suas palavras – com amor e entusiasmo. Mostra também quão arte é a Medicina e quão pouco dessa arte aprendemos na faculdade.</p>
<p>Marañón leva a refletir: o paciente prefere o médico que está lá para ouvi-lo e tratar a sua dor ao médico cientificista, dogmático, para o qual se torna dado estatístico. É tão óbvio, mas ainda assim digno de nota, que são pouquíssimos, senão inexistentes, os pacientes que procuram um médico apenas por seu currículo. Talvez nosso grande erro seja querer que o nosso currículo seja reconhecido por colegas e professores, quando, na verdade, o alvo do nosso curriculum vitae, em seu sentido mais amplo, deva ser nosso paciente. Por que nos preparamos para o reconhecimento dos colegas e não para empatia com as pessoas que vamos tratar? O cientificismo nos influencia a cada dia, e cada vez mais, nossa reputação vale mais do que o humanismo. Marañón nos leva a pensar criticamente a esse respeito e a manter o entusiasmo que nos motiva desde o início da faculdade. Além disso, conhecer a história de um homem formidável leva a refletir, uma e outra vez, e essas reflexões tornaram possível a realização deste pequeno texto. Ainda que simples, esperamos que sirva como um estímulo para o estudo e o conhecimento de uma figura histórica da Medicina e da humanidade.<br />
Para nós, o estudo dos trabalhos de Gregorio Marañón representa contribuição de valor inestimável para as reflexões necessárias ao estudante de Medicina em sua formação. Vai aqui o nosso reconhecimento – palavras de um estudante entusiasmado – ao médico humanista espanhol.</p>
<p><strong>Agradecimentos</strong></p>
<p><span>Ao professor Antonio Lopes Vega, diretor da Fundação Ortega-Marañon (www.ortegaygasset.edu), em Madrid, que nos apresentou Gregorio Marañón na cidade de Toledo de maneira envolvente, única, tendo certamente motivado a realização deste trabalho.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong></strong></p>
<p><strong></strong></p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p><strong></strong><span>1. Vega, A. L. Gregorio Marañón y el nacimiento de la endocrinología en España: ejemplo ilustrativo del impulso científico del primer tercio del siglo XX español. Circunstancia. Año VII &#8211; Nº 19 &#8211; Mayo 2009.</span><br /><span>2. Marañón G. Vocación y ética. Espasa Calpe Buenos Aires,1946.</span><br /><span>3. Marañón G. Los deberes olvidados. En Obras Completas, vol. III Espasa Calpe Madrid, 1966.</span><br /><span>4. Marañón G. Vocación y ética. Espasa Calpe Buenos Aires,1946.</span><br /><span>5. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>6. Marañón G. La medicina y nuestro tiempo Espasa Calpe. Madrid,1954.</span><br /><span>7. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>8. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>9. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>10. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>11. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>12 . Marañón G. Mi homenaje a Francisco Huertas. En Obras Completas, vol. III Espasa Calpe Madrid, 1966.</span><br /><span>13. Marañón G. La medicina y nuestro tiempo Espasa Calpe. Madrid,1954.</span><br /><span>14. Marañón G. Ibidem.</span><br /><span>15. Marañón G. Vocación y ética. Espasa Calpe Buenos Aires,1946.</span><br /><span>16. Levites MR, Blasco PG. Competencia y Humanismo: La Medicina Familiar en Busca de la Excelencia. Archivos de Medicina Familiar y General. 2009; 6:2-9.</span></p>
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		<title>Dennis Lehane: “Naquele Dia”</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 19:27:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Dennis Lehane: &#8220;Naquele Dia&#8221;. (The given day: a novel). Companhia da Letras. São Paulo. 2009. 690 pgs.</strong></p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/03/030512_1927_DennisLehan1.png" alt="" style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As quase 700 pgs deste livro são mais uma saga de época, tão a gosto dos americanos, que gira em volta de um par de personagens principais, com inúmeros coadjuvantes. Boston, no final da Primeira Guerra Mundial, a &#8220;Atenas da América&#8221;, onde irlandeses e italianos se aglomeram nas suas colônias respectivas, e os negros fazem tímida aparição num cenário absolutamente ianque.  
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O autor é, naturalmente, de Boston e as descrições dos bairros, avenidas, pontes e vielas respondem ao seu gosto pessoal e, certamente, a quem conhece a cidade como a palma da mão. Algo que fica muito distante –e até resulta cansativo- para quem não está igualmente familiarizado com a topografia. Esse é, junto com a extensão do livro, um dos pontos negativos: não descreve os locais, os dá por suposto, como se estivesse falando com os próprios habitantes da cidade.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ponto alto é a construção do caráter dos personagens &#8211; com destaque para os irlandeses, os grandes protagonistas-, que integram a polícia de Boston e querem construir uma América que consideram seu território adotivo. Descasos políticos, salários desfasados, articulações políticas, greves e violência, desenham um panorama que lembra &#8220;As Gangs de New York&#8221;, do indigesto filme de Scorsese.
</p>
<p><span id="more-1305"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ambiente de época está bem delineado, há personagens reais misturados com fictícios, heróis anônimos e gente de bom coração mesclada com bandoleiros e gangsteres da estirpe mais diversa. Por exemplo, aquele policial que &#8220;tinha um sorrio radioso como uma lua cheia num rio, uma dessa personalidade ruidosas e brincalhonas que não merecem a menor confiança; são homens que sempre escondem a parte de si mesmo que não estava rindo, guardando-a tão fundo que ela ficava mais faminta, como um urso recém-saído da hibernação&#8221;. Há também outros personagens que o autor nos impõe sem nenhum motivo; sua presença não se justifica, dispersa o núcleo da trama, torna a leitura tediosa.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Enfim, mais um épico com sabor americano que ajuda a compreender uma época da historia de USA: o resultado de cultura histórica é o melhor saldo de um romance por demais extenso. Além de entender um pouco mais sobre as paixões humanas que, essas sim, não têm nacionalidade nem bandeira: as vemos retratadas no vizinho, no colega, em nós mesmos. O tempo todo.</p>
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		<title>O Artista: A Sabedoria de Envelhecer Sorrindo</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 13:52:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo González Blasco</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[adaptação]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>The Artist. (2011) França. Diretor: Michel Hazanavicius   Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Anne Miller. 100 minutos
</p>
<p>
 </p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa1.jpg" alt="" style="margin-right: 10px" />Há filmes que têm efeito retardado. São como filmes em camadas, nos adentramos aos poucos. Talvez isso não aconteça com todos os espectadores, mas afinal os comentários que aqui alinhavamos são apenas o reflexo que o cinema produz em quem os escreve. Com respeito total e absoluto pelas opiniões contrárias. O mundo das touradas –hoje tão politicamente incorreto- alcunhou uma expressão para indicar a falta de consenso no desempenho do toureiro: divisão de opiniões do respeitável. O respeitável, naturalmente, é o público, os assistentes. Se a tauromaquia permite a divisão de opiniões, o cinema –que é sonho, ficção, acúmulo de almejos, frustrações e alegrias- com maior motivo. O Artista é um destes filmes. Planos que vão se desnudando, impactos que nos atingem aos poucos.
</p>
<p>A primeira camada é papel de embrulho: a audácia de fazer um filme branco e preto, mudo, com todos os ingredientes do cinema anterior a 1929. A ousadia de quem produz tem de vencer a resistência natural do espectador que lá no fundo se questiona: valerá a pena? Mas afinal, quem é esse diretor, que aposta neste formato? Parece que é francês, onde já se viu? Esse sujeito não é Chaplin, isto não é <em>Luzes da Cidade</em>. Não será muita pretensão?
</p>
<p>A segunda camada &#8211; vencida a resistência, quem sabe alavancado pela crítica, pois o marketing é poderoso-, surge quando se assiste ao filme. Um espetáculo bonito, uma estética cuidada, atores de primeira categoria. Não é Chaplin, sem dúvida. Nem poderia. Talvez fosse o filme que Chaplin teria feito hoje, vendo o futuro chegar. Mas isso é puro futurível, quimera que os filósofos repetidamente condenam como inútil. Neste momento, mais ninguém se questiona sobre o formato anacrónico: ambientação perfeita, gestos, caras, situações onde incrivelmente a voz sobra.
</p>
<p><span id="more-1299"></span>
<p>O filme acaba. Uma noite bem dormida, e daí começa a reflexão que dispara este comentário. Até ontem não havia o que comentar a não ser que o filme é notável. Nem sabemos por que, mas agrada. Arrojado, bem montado, redondo. Mas tem mais. Ai é que engatamos na pegada que O Artista apresenta. É a terceira camada; um plano profundo, que se desdobra numa sequência de reflexões rápidas que chegam a dar vertigem. Intui-se que nos adentramos em terreno difícil: o universo da mudança, da adaptação, de saber envelhecer com classe, com aceitação das limitações, sem medo de pedir ajuda. Nesse momento a ressonância com pensadores, poetas e filósofos acode para iluminar um mundo que é uma verdadeira explosão nuclear, detonada por um filme branco e preto, mudo, sem pretensões.
</p>
<p>Tropeçamos, logo de cara, com os versos de Fernando Pessoa que O Artista talvez nunca leu, mas que nós conhecemos sobejamente: &#8220;Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.&#8221; Como é difícil empreender esta travessia, desprender-nos dos nossos modos –mais grudados a nós mesmos que as roupas com nossa forma corporal- para abrir-nos a novas possibilidades. Porque no fundo, gostamos imensamente de como somos. Mesmo que reclamemos e salpiquemos de queixas nosso jeito de ser. Afinal é terreno seguro, que conhecemos bem, que não traz o risco do desconhecido, de fazer feio.
</p>
<p><img align="right" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa2.jpg" alt="" style="margin-left: 10px"/>Há alguns anos li um livro notável que também ressurgiu enquanto mergulhava na terceira camada.  <a href="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2010/06/04/daniel-innerarity-etica-de-la-hospitalidad/"><em>Ética da hospitalidade</em></a><em>, </em>todo um tratado antropológico sobre a adaptação, sobre a postura que devemos assumir não com o que temos planejado –uma ética da atuação- mas com aquilo que nos chega, que vem de fora, que entra na nossa vida sem pedir licença e que costuma ser o que predomina. A maior parte da nossa vida compõe-se de coisas que nos acontecem, mais do que de coisas que planejamos; estar disposto, em postura de aceitação e crescimento para essas primeiras, é o núcleo da ética da hospitalidade: uma ética do acolhimento; de pessoas, de coisas, de circunstâncias.
</p>
<p>Enquanto as aventuras e desventuras do Artista desfilavam na minha memória, as notas que tomei do livro emolduravam cada quadro. Como as frases que se intercalam, no cinema mudo, a modo de explicação. E as molduras ressaltavam que nossa atuação no mundo é um curioso balanço entre o que nos vem dado e o que somos capazes de fazer com isso, em como damos conta das situações que se nos apresentam inopinadamente, sejam pessoas ou acontecimentos. Um balanço que deve equilibrar espaços de segurança com zonas de risco; uma vida em plena segurança seria aborrecida, enquanto que um viver no puro risco acaba por nos esgotar.
</p>
<p>Certamente, uma vida fechada ao imprevisto  –à visita de hóspedes que quebram nossos esquemas- nos condenaria a um autismo voluntário, egoísmo cristalizado. Os desafios que nos chegam e que exigem adaptação transpiram sempre algum sofrimento: não só a roupa se adaptou ao corpo, mas também o corpo se acomodou numa postura confortável. Diante desse sofrimento há quem se endurece, desespera e se fecha no ceticismo; e há quem cresce porque aprende a se reorganizar, corrigindo suas perspectivas, e se torna melhor.
</p>
<p>Consultando aquelas anotações encontro um parágrafo que não resisto a copiar, porque é uma análise magnífica do sentir do Artista. &#8220;A nossa civilização está completamente ocupada com o presente, um viver o instante, órfão de memória e de projeto. Um presente sem memória, que exclui o que não se faz valer na atualidade. É preciso desprender-se desse fetiche que é um presente pleno e absoluto, exercer a responsabilidade para com os ausentes e para com os seres futuros. A detenção do presente fixado em si mesmo desencadeia o medo que é próprio de toda carência de memória e de previsão. Desse presente desmemoriado se apodera um medo difuso, pois não recorda nada similar nem é capaz de prever como afrontar o imprevisível. O medo é a sensação habitual de quem não tem experiência nem confiança, isto é, nem passado nem futuro. A concentração no presente torna ameaçadora qualquer dimensão que faça valer outros aspectos da temporalidade humana.&#8221;
</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa3.jpg" alt="" style="margin-right: 10px;" />Vamos fundo no mergulho na terceira camada que, de acordo com a idade do espectador, pega de cheio no alvo.  É possível que os jovens considerem estas molduras filosóficas como exagero, como se diz hoje uma viagem na maionese. Recomendo paciência: o tempo alcança todos.
</p>
<p>Com a idade sobrevém a limitação física, desgaste fisiológico inegável. Chegam também as manias, fruto de uma cristalização obstinada do modo de ver o mundo, uma espécie de presbiopia existencial, vista cansada da alma. Mas pouca atenção se dá a outro deterioro que é a susceptibilidade, difícil de reconhecer. Começa a se passar a fatura a tudo o que fizemos pelos outros, nota-se que os outros não percebem os débitos que têm conosco, sente-se a ingratidão de perto. Será possível que não reconheçam –jovens, filhos, amigos, colegas- tudo o que eu fiz por eles?
</p>
<p>&#8220;A juventude –diz Marañón nos <em>Ensayos Liberales-</em> é essencialmente indelicada. Um jovem que não fere ninguém no seu caminho, é um jovem anormal&#8221;. E continua o médico humanista: &#8220;Mas tão natural como a agressividade do jovem, deve ser a obrigação do homem maduro de mostrar ao de menor idade, com firmeza invariável, qual é o caminho preciso. A rebeldia do moço não se pode reprimir; mas deve se canalizar com a verdade&#8221;. Mostrar a verdade é descartar a susceptibilidade, prescindir o que de ofensa pessoal possa supor essa atitude desagradecida da juventude, e manter-se sereno, alegre, fiel aos princípios que nos levaram a fazer tudo o que fizemos na vida. Coerência e fidelidade: um exemplo, silencioso e gritante, que irá esculpindo, com o tempo, o caráter do jovem no qual desabrochará a gratidão.
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<p>A pedagogia bíblica, com suas histórias e parábolas, nos ensina que a gratidão é atitude rara, que deve ser ensinada, como um hábito a incorporar desde a mais terna infância. Lá encontramos um exemplo gráfico: de um grupo de 10 leprosos que foram curados milagrosamente, apenas um voltou para agradecer. É assim mesmo: os atos de gratidão humana dificilmente atingem o 10%. Quer dizer, matéria prima de qualidade para alimentar a susceptibilidade. A criança não nasce sabendo agradecer. São os pais que devem insistir, uma vez e outra: &#8220;Como se diz, fulaninho, quando você recebe um presente?&#8221; A criança, encabulada, responde com o olhar fixo no brinquedo que acabou de ganhar: &#8220;Obrigado&#8221;, e sai correndo.
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<p>A adaptação da maturidade requer entendimento dessa realidade e passar por cima as ingratidões, lombadas naturais no curso da vida, sem queixar-se, sem desistir. É o momento de lembrar os motivos que nos levam a agir. E viver, de verdade, com a convicção de quem ninguém nos deve nada, porque nunca passamos a conta: o nosso balanço contável situa-se em outro nível. Do contrário, ficaremos azedos, amargurados, ranzinzas.
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<p>O Artista não é Chaplin, mas é impossível não evocar <em>Luzes da Ribalta</em>, onde Calvero, o velho cômico em decadência abre o caminho do sucesso para Teresa, a dançarina. Um argumento clássico, com variantes sobre o mesmo tema em filmes como <em>Nasce uma estrela</em>, nas variadas versões. E a estrela que nasce e amadurece oferece ajuda ao veterano que a ajudou a despontar.
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<p>Deixar-se ajudar é também adaptar-se. Colaborar com o que de melhor temos. A experiência vivida, a sabedoria serena que os anos dão. É preciso superar o orgulho e aceitar a ajuda. Não a modo de bengala ou de prótese postiça que ajuda grosseiramente num equilíbrio triste e bizarro. Mas como a descoberta de um novo sentido. Essa sabedoria que magistralmente descreve Romano Guardini naquele livro encantador, <em>As Idades da Vida</em>. Ser exemplo vivo de uma meta possível e convidativa. Tudo isso se resume numa expressão que li faz muito tempo e, com o passar dos anos, ganha novo relevo: aprender a envelhecer sorrindo. Um sorriso que resume a paz, a adaptação, a atitude aberta que convive com qualquer mudança e encontra sempre o modo de ser útil.</p>
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