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	<title>Pablo González Blasco</title>
	
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		<title>O Artista: A Sabedoria de Envelhecer Sorrindo</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 13:52:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[The Artist. (2011) França. Diretor: Michel Hazanavicius   Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Anne Miller. 100 minutos   Há filmes que têm efeito retardado. São como filmes em camadas, nos adentramos aos poucos. Talvez isso não aconteça com todos os espectadores, mas afinal os comentários que aqui alinhavamos são apenas o reflexo que o [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p>The Artist. (2011) França. Diretor: Michel Hazanavicius   Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Anne Miller. 100 minutos
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<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa1.jpg" alt="" style="margin-right: 10px" />Há filmes que têm efeito retardado. São como filmes em camadas, nos adentramos aos poucos. Talvez isso não aconteça com todos os espectadores, mas afinal os comentários que aqui alinhavamos são apenas o reflexo que o cinema produz em quem os escreve. Com respeito total e absoluto pelas opiniões contrárias. O mundo das touradas –hoje tão politicamente incorreto- alcunhou uma expressão para indicar a falta de consenso no desempenho do toureiro: divisão de opiniões do respeitável. O respeitável, naturalmente, é o público, os assistentes. Se a tauromaquia permite a divisão de opiniões, o cinema –que é sonho, ficção, acúmulo de almejos, frustrações e alegrias- com maior motivo. O Artista é um destes filmes. Planos que vão se desnudando, impactos que nos atingem aos poucos.
</p>
<p>A primeira camada é papel de embrulho: a audácia de fazer um filme branco e preto, mudo, com todos os ingredientes do cinema anterior a 1929. A ousadia de quem produz tem de vencer a resistência natural do espectador que lá no fundo se questiona: valerá a pena? Mas afinal, quem é esse diretor, que aposta neste formato? Parece que é francês, onde já se viu? Esse sujeito não é Chaplin, isto não é <em>Luzes da Cidade</em>. Não será muita pretensão?
</p>
<p>A segunda camada &#8211; vencida a resistência, quem sabe alavancado pela crítica, pois o marketing é poderoso-, surge quando se assiste ao filme. Um espetáculo bonito, uma estética cuidada, atores de primeira categoria. Não é Chaplin, sem dúvida. Nem poderia. Talvez fosse o filme que Chaplin teria feito hoje, vendo o futuro chegar. Mas isso é puro futurível, quimera que os filósofos repetidamente condenam como inútil. Neste momento, mais ninguém se questiona sobre o formato anacrónico: ambientação perfeita, gestos, caras, situações onde incrivelmente a voz sobra.
</p>
<p><span id="more-1299"></span>
<p>O filme acaba. Uma noite bem dormida, e daí começa a reflexão que dispara este comentário. Até ontem não havia o que comentar a não ser que o filme é notável. Nem sabemos por que, mas agrada. Arrojado, bem montado, redondo. Mas tem mais. Ai é que engatamos na pegada que O Artista apresenta. É a terceira camada; um plano profundo, que se desdobra numa sequência de reflexões rápidas que chegam a dar vertigem. Intui-se que nos adentramos em terreno difícil: o universo da mudança, da adaptação, de saber envelhecer com classe, com aceitação das limitações, sem medo de pedir ajuda. Nesse momento a ressonância com pensadores, poetas e filósofos acode para iluminar um mundo que é uma verdadeira explosão nuclear, detonada por um filme branco e preto, mudo, sem pretensões.
</p>
<p>Tropeçamos, logo de cara, com os versos de Fernando Pessoa que O Artista talvez nunca leu, mas que nós conhecemos sobejamente: &#8220;Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.&#8221; Como é difícil empreender esta travessia, desprender-nos dos nossos modos –mais grudados a nós mesmos que as roupas com nossa forma corporal- para abrir-nos a novas possibilidades. Porque no fundo, gostamos imensamente de como somos. Mesmo que reclamemos e salpiquemos de queixas nosso jeito de ser. Afinal é terreno seguro, que conhecemos bem, que não traz o risco do desconhecido, de fazer feio.
</p>
<p><img align="right" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa2.jpg" alt="" style="margin-left: 10px"/>Há alguns anos li um livro notável que também ressurgiu enquanto mergulhava na terceira camada.  <a href="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2010/06/04/daniel-innerarity-etica-de-la-hospitalidad/"><em>Ética da hospitalidade</em></a><em>, </em>todo um tratado antropológico sobre a adaptação, sobre a postura que devemos assumir não com o que temos planejado –uma ética da atuação- mas com aquilo que nos chega, que vem de fora, que entra na nossa vida sem pedir licença e que costuma ser o que predomina. A maior parte da nossa vida compõe-se de coisas que nos acontecem, mais do que de coisas que planejamos; estar disposto, em postura de aceitação e crescimento para essas primeiras, é o núcleo da ética da hospitalidade: uma ética do acolhimento; de pessoas, de coisas, de circunstâncias.
</p>
<p>Enquanto as aventuras e desventuras do Artista desfilavam na minha memória, as notas que tomei do livro emolduravam cada quadro. Como as frases que se intercalam, no cinema mudo, a modo de explicação. E as molduras ressaltavam que nossa atuação no mundo é um curioso balanço entre o que nos vem dado e o que somos capazes de fazer com isso, em como damos conta das situações que se nos apresentam inopinadamente, sejam pessoas ou acontecimentos. Um balanço que deve equilibrar espaços de segurança com zonas de risco; uma vida em plena segurança seria aborrecida, enquanto que um viver no puro risco acaba por nos esgotar.
</p>
<p>Certamente, uma vida fechada ao imprevisto  –à visita de hóspedes que quebram nossos esquemas- nos condenaria a um autismo voluntário, egoísmo cristalizado. Os desafios que nos chegam e que exigem adaptação transpiram sempre algum sofrimento: não só a roupa se adaptou ao corpo, mas também o corpo se acomodou numa postura confortável. Diante desse sofrimento há quem se endurece, desespera e se fecha no ceticismo; e há quem cresce porque aprende a se reorganizar, corrigindo suas perspectivas, e se torna melhor.
</p>
<p>Consultando aquelas anotações encontro um parágrafo que não resisto a copiar, porque é uma análise magnífica do sentir do Artista. &#8220;A nossa civilização está completamente ocupada com o presente, um viver o instante, órfão de memória e de projeto. Um presente sem memória, que exclui o que não se faz valer na atualidade. É preciso desprender-se desse fetiche que é um presente pleno e absoluto, exercer a responsabilidade para com os ausentes e para com os seres futuros. A detenção do presente fixado em si mesmo desencadeia o medo que é próprio de toda carência de memória e de previsão. Desse presente desmemoriado se apodera um medo difuso, pois não recorda nada similar nem é capaz de prever como afrontar o imprevisível. O medo é a sensação habitual de quem não tem experiência nem confiança, isto é, nem passado nem futuro. A concentração no presente torna ameaçadora qualquer dimensão que faça valer outros aspectos da temporalidade humana.&#8221;
</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/02/021612_1352_OArtistaASa3.jpg" alt="" style="margin-right: 10px;" />Vamos fundo no mergulho na terceira camada que, de acordo com a idade do espectador, pega de cheio no alvo.  É possível que os jovens considerem estas molduras filosóficas como exagero, como se diz hoje uma viagem na maionese. Recomendo paciência: o tempo alcança todos.
</p>
<p>Com a idade sobrevém a limitação física, desgaste fisiológico inegável. Chegam também as manias, fruto de uma cristalização obstinada do modo de ver o mundo, uma espécie de presbiopia existencial, vista cansada da alma. Mas pouca atenção se dá a outro deterioro que é a susceptibilidade, difícil de reconhecer. Começa a se passar a fatura a tudo o que fizemos pelos outros, nota-se que os outros não percebem os débitos que têm conosco, sente-se a ingratidão de perto. Será possível que não reconheçam –jovens, filhos, amigos, colegas- tudo o que eu fiz por eles?
</p>
<p>&#8220;A juventude –diz Marañón nos <em>Ensayos Liberales-</em> é essencialmente indelicada. Um jovem que não fere ninguém no seu caminho, é um jovem anormal&#8221;. E continua o médico humanista: &#8220;Mas tão natural como a agressividade do jovem, deve ser a obrigação do homem maduro de mostrar ao de menor idade, com firmeza invariável, qual é o caminho preciso. A rebeldia do moço não se pode reprimir; mas deve se canalizar com a verdade&#8221;. Mostrar a verdade é descartar a susceptibilidade, prescindir o que de ofensa pessoal possa supor essa atitude desagradecida da juventude, e manter-se sereno, alegre, fiel aos princípios que nos levaram a fazer tudo o que fizemos na vida. Coerência e fidelidade: um exemplo, silencioso e gritante, que irá esculpindo, com o tempo, o caráter do jovem no qual desabrochará a gratidão.
</p>
<p>A pedagogia bíblica, com suas histórias e parábolas, nos ensina que a gratidão é atitude rara, que deve ser ensinada, como um hábito a incorporar desde a mais terna infância. Lá encontramos um exemplo gráfico: de um grupo de 10 leprosos que foram curados milagrosamente, apenas um voltou para agradecer. É assim mesmo: os atos de gratidão humana dificilmente atingem o 10%. Quer dizer, matéria prima de qualidade para alimentar a susceptibilidade. A criança não nasce sabendo agradecer. São os pais que devem insistir, uma vez e outra: &#8220;Como se diz, fulaninho, quando você recebe um presente?&#8221; A criança, encabulada, responde com o olhar fixo no brinquedo que acabou de ganhar: &#8220;Obrigado&#8221;, e sai correndo.
</p>
<p>A adaptação da maturidade requer entendimento dessa realidade e passar por cima as ingratidões, lombadas naturais no curso da vida, sem queixar-se, sem desistir. É o momento de lembrar os motivos que nos levam a agir. E viver, de verdade, com a convicção de quem ninguém nos deve nada, porque nunca passamos a conta: o nosso balanço contável situa-se em outro nível. Do contrário, ficaremos azedos, amargurados, ranzinzas.
</p>
<p>O Artista não é Chaplin, mas é impossível não evocar <em>Luzes da Ribalta</em>, onde Calvero, o velho cômico em decadência abre o caminho do sucesso para Teresa, a dançarina. Um argumento clássico, com variantes sobre o mesmo tema em filmes como <em>Nasce uma estrela</em>, nas variadas versões. E a estrela que nasce e amadurece oferece ajuda ao veterano que a ajudou a despontar.
</p>
<p>Deixar-se ajudar é também adaptar-se. Colaborar com o que de melhor temos. A experiência vivida, a sabedoria serena que os anos dão. É preciso superar o orgulho e aceitar a ajuda. Não a modo de bengala ou de prótese postiça que ajuda grosseiramente num equilíbrio triste e bizarro. Mas como a descoberta de um novo sentido. Essa sabedoria que magistralmente descreve Romano Guardini naquele livro encantador, <em>As Idades da Vida</em>. Ser exemplo vivo de uma meta possível e convidativa. Tudo isso se resume numa expressão que li faz muito tempo e, com o passar dos anos, ganha novo relevo: aprender a envelhecer sorrindo. Um sorriso que resume a paz, a adaptação, a atitude aberta que convive com qualquer mudança e encontra sempre o modo de ser útil.</p>
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		<title>(Español) Carlos Pujol: Los Fugitivos</title>
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		<title>(Español) Antonio Muñoz Molina: Sefarad</title>
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		<title>Em um Mundo Melhor: A pedagogia do perdão</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 13:05:01 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>(Hævnen / In a Better World) Diretora: Susanne Bier. Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, Markus Rygaard, William Jøhnk Nielsen. 113 min.
</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/01/012612_1304_EmumMundoMe1.png" alt="" align="left" style="margin-right: 10px"/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Animado pelos comentários de um amigo, assisti &#8220;Em um mundo melhor&#8221;.  O Oscar de melhor filme estrangeiro criava certa expectativa. Não que os prêmios da academia sejam indicações incontestáveis. Mas penso que, às vezes, Hollywood premia os filmes estrangeiros que gostaria de ter feito e outros se adiantaram e os produziram. Há uma longa série de Oscar de filmes estrangeiros inesquecíveis: A Festa de Babette, A Historia Oficial, Cinema Paradiso, A Vida é Bela, Infância Roubada. Por citar um espectro de vários países.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um médico dinamarquês que trabalha num campo de refugiados africanos. Dedicação e carinho em condições muito precárias. Uma família –a do médico- se desfazendo na Dinamarca. Quem alivia como pode as moléstias dos africanos, parece que não sabe cuidar da própria família.  Onde está o mundo melhor? –pensei. Tenho verdadeira alergia à beneficência distante que esconde o descaso para com o próximo doméstico. Quantos se envolvem em projetos filantrópicos sociais e se omitem no desvelo pelos que têm do lado, diariamente. O próximo é a família, a empregada, o zelador do prédio; seres humanos que a vida colocou do nosso lado, cinzentos, quotidianos, sem nenhum glamour. A solidariedade sem fronteiras traz sempre o encanto de escolher o destinatário. E o quintal do vizinho, sempre parece melhor, mesmo situado na miséria africana. Lembrei-me da minha professora de primário: &#8220;Meninos, é muito bom dar esmolas para as crianças da África; mas vejam se dividem o lanche que está na sua mochila com o seu colega de carteira&#8221;. O lanche, a fome, o colega eram entidades concretas, palpáveis. A Africa estava no primário, distante, em outra galáxia, sem nenhuma ameaça para o sanduiche que a mamãe tinha preparado a gosto do consumidor. Pouco faltou para interromper o filme. Decidi dar mais uma chance.
</p>
<p><span id="more-1284"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dois garotos assumem o protagonismo. Elias, o filho do médico, e Christian, que também vem de uma família desfeita, pois a mãe morreu e ele não perdoa o pai que considera omisso. Uma série de circunstâncias –lentas e densas, como corresponde aos filmes nórdicos- fornecem o clima onde se vai cozinhando um ambiente de ódio e de vingança nos meninos. Senti-me novamente incomodado. Animosidade, represália, raiva, verdadeiro ódio em versão adolescente, mas com os requintes de um adulto. Gente complicada estes dinamarqueses, pensei.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Fosse pouco, coloquei no tradutor do Google o título original: <em>Hævnen</em>. Resultado: Vingança. Eu que pensei que teria algo a ver com o inglês Heaven, Céu, por aquilo do mundo melhor: ingenuidade e desconhecimento total do sistema operacional escandinavo. Por segunda vez quase parei o filme. As idas e vindas do médico para a África, onde salva vidas machucadas também pelo ódio, me fez esperar. Será que este homem vai para Africa &#8220;carregar as baterias&#8221;, entender o mundo, mergulhar nas misérias do ser humano e na compaixão que a dor desperta, para depois capitalizar o aprendizado e trazê-lo de volta ao seu país?
</p>
<p><img src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/01/012612_1304_EmumMundoMe2.png" alt="" align="right" style="margin-left: 10px"/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Não me enganei. A trama do filme converge no médico que busca soluções. Quer reconquistar a esposa, que ama. Dedica-se aos filhos e ao garoto que perdeu a mãe. Educa com tempo, e com o exemplo, até culminar na cena onde é agredido sem revidar. Momento alto do filme, que se repete didaticamente, para que os jovens entendam que a mansidão e o perdão é o que de fato conseguirá tornar um mundo melhor.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O mundo melhor não existe pronto, não depende de lugares ou de circunstâncias externas. &#8220;<em>A vida é terra</em> –diz Fernando Pessoa- <em>e vive-la é lodo</em>&#8220;. O ser humano consegue emporcalhar qualquer cenário, como decorrência de suas misérias e limitações, por conta de um orgulho doentio. A vida torna-se lodo, e nos lambuzamos nela. A diferença vem do interior de cada um, dos recursos que é capaz de colocar em jogo. &#8220;<em>Tudo é maneira, diferença ou modo </em>- continua o poeta português-. <em>Em tudo quanto faças sé só tu; em tudo quanto faças se tu todo</em>&#8220;. Somos cada um de nós os que podemos construir um mundo melhor. E a compreensão e o perdão são ferramentas imprescindíveis nessa tarefa.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Perdoar não é tarefa fácil, porque como dizia um santo do nosso tempo o orgulho morre 24 horas depois que o homem foi enterrado. Coincidência ou não, lia nestes dias um escrito desse mesmo autor afirmando que compreender, desculpar e perdoar é possível mediante o amor de Deus, e a nossa humilhação. Quer dizer: para perdoar de verdade, sem guardar contabilidade, é preciso esmagar o ego e pedir emprestado o amor divino capaz de cicatrizar as ofensas. Perdoar com argumentos humanos altruístas ou filantrópicos gera um perdão insuficiente onde, antes ou depois, o orgulho se encarregará de passar a conta, certamente com juros.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Lembrei-me de uma frase que li, faz muitos anos, numa das obras de Georges Bernanos: &#8220;Odiar-se a si mesmo, não é difícil. O realmente difícil é esquecer-se de si mesmo&#8221;. Perdoar implica esquecimento próprio, abrir mão dos direitos sempre hipertrofiados pelo orgulho, para deixar que um amor maior, divino, tome conta de nós e nos ajude a desculpar com sinceridade. O perdão e a humildade caminham de mãos dadas. Daí o acertado comentário de Unamuno quando disse que a maior humildade é a de Deus que cria o mundo e depois cria o homem para que lhe critique sua obra.
</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/01/012612_1304_EmumMundoMe3.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O tema dos recursos transcendentes para melhorar o mundo vai muito além do tema pontual do perdão: é condição de sucesso. Quantas iniciativas altruístas bem intencionadas são truncadas porque quando sobrevêm as dificuldades comprova-se que as boas intenções, mesmo sendo sinceras, são de todo ponto insuficientes. A lembrança da Madre Teresa de Calcutá –paradigma de inciativas solidarias exemplares- é contundente. Certa vez um jornalista, ao ver o trabalho heroico da sua comunidade no meio da pobreza e da sujeira, comentou: &#8220;Madre Teresa, eu não creio que fizesse isso que vocês fazem nem que me pagassem mil dólares por dia&#8221;. A boa freira sorriu e respondeu: &#8220;Eu também não! Por mil dólares diários eu não faria. Faço é por Deus&#8221;.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Afogar o mal em abundancia de bem, empenhar-se sem desânimos em melhorar o mundo que nos rodeia, entender que o perdão nos constrói e o ódio nos desgasta, é empreitada que ultrapassa as simples boas intenções humanistas. Requer um lastro de transcendência que alavanque as ações. Cabe a cada um buscar esses recursos capaz de segurar os momentos de crise. Na hora em que o bicho pega –o lodo em que nossas misérias transformam a terra da vida- a simples boa vontade não costuma dar conta. Aprendi no colégio há muitos anos – saudades daquelas ótimas aulas de filosofia!- que a postura ingênua do bom selvagem de Rousseau, o homem é bom por natureza, desemboca no ceticismo de Hobbes, onde se comprova que <em>homo homini lúpus</em>- o homem é mesmo um lobo para o homem!
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Relendo minhas reflexões suspeito que o recado tenha se tingido de um matiz excessivamente piegas. Nada disto está no filme, pois não aponta os horizontes de transcendência que, em minha opinião, são imprescindíveis para praticar o exercício do perdão. Afinal, o tema é atual e candente. As interpretações serão variadas. A presença do protagonista que suporta com teimosia as afrontas, dominando o orgulho como uma versão viking do nosso Augusto Matraga, talvez careça desta dimensão transcendental. Mas perante a dificuldade que todos enfrentamos &#8211; diariamente, muitas vezes ao dia!- em perdoar, não vejo como deixar o amor divino de fora nesta empreitada. Outro pensador francês, Gustave Thibon, o adverte: &#8220;Os que buscam eliminar Deus em benefício do homem, são os que posteriormente menos perdoam o homem que não seja Deus&#8221;. Deus nos situa na condição de criaturas, carentes, miseráveis, necessitadas de perdão. Uma opção clara e acessível para fazer do nosso mundo, um mundo melhor. Desta vez, a tradução inglesa do título – e a correspondente em português- foi feliz. E salvou o filme da minha irritação inicial: provavelmente com Vingança nos créditos, não teria suportado mais de meia hora. Vantagens de não conhecer o dinamarquês.</p>
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		<title>Joseph Ratzinger (Bento XVI): Lembranças da Minha Vida</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 15:40:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Joseph Ratzinger (Bento XVI): Lembranças da Minha Vida. Ed. Paulinas. São Paulo. 2006. 150 pgs. Eis um livro pequeno, curto, objetivo, necessário. Não substitui as biografias do Professor Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, muitas delas excepcionais. Também não um livro de memórias. Como muito bem o titulo indica, trata-se apenas de lembranças de um período [...]


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<li><a href='http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2010/01/04/etty-hillesum-%e2%80%9cuna-vida-conmocionada%e2%80%9d-%e2%80%93-record-1981-260-pgs/' rel='bookmark' title='Etty Hillesum. “Una vida conmocionada”.– Record, 1981, 260 pgs.'>Etty Hillesum. “Una vida conmocionada”.– Record, 1981, 260 pgs.</a></li>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Joseph Ratzinger (Bento XVI): Lembranças da Minha Vida. Ed. Paulinas. São Paulo. 2006. 150 pgs.<br />
</strong></p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2012/01/012012_1540_JosephRatzi1.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px;" /> Eis um livro pequeno, curto, objetivo, necessário. Não substitui as biografias do Professor Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, <a href="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2011/08/29/pablo-blanco-sarto-%E2%80%9Cbenedicto-xvi-el-papa-aleman%E2%80%9D/">muitas delas excepcionais</a>.
</p>
<p>Também não um livro de memórias. Como muito bem o titulo indica, trata-se apenas de lembranças de um período da vida de Joseph Ratzinger: os primeiros 50 anos (1927-1977), até ser nomeado Arcebispo de Munique.
</p>
<p>Relatadas com simplicidade e com a precisão de um professor, acompanhamos a trajetória do jovem bávaro desde a infância. Os primeiros estudos, as mudanças de domicilio por conta da profissão do pai, comissário de polícia e bom católico, opositor decidido à ameaça Nazista num terceiro Reich em ascensão. Seguem-se os anos do seminário, interrompidos pela guerra: a convocação forçada ainda adolescente para as tropas germânicas, e a recusa ao alistamento nas SS por manifestar o desejo de tornar-se sacerdote católico. À ordenação sacerdotal em 1951 segue-se uma curta atividade pastoral, pois desde os primeiros momentos Ratzinger mostrou seu dom para a investigação teológica e para a docência. Em 1953, completado o Doutorado, inicia a livre docência em Frisinga, e a trajetória docente em importantes universidades alemãs: Bonn, Munster, Tubinga, Ratisbona, assim como a sua participação no Concílio Vaticano II, como consultor do Cardeal Frings de Colonia. Tinha Ratzinger nessa época 37 anos e se apresentava como um teólogo inovador e quase revolucionário.
</p>
<p>O jovem professor tinha já muito estudado a Santo Agostinho, e certamente é hoje o maior conhecedor do seu pensamento. Estudado e incorporado: nas páginas finais, ao relatar sua nomeação como Arcebispo de Munique, hesita pensando que sua vocação não é pastoral, mas docente. Lembra-se então, que o Bispo de Hipona também queria dedicar-se à investigação teológica, mas a vida lhe empurrava para o serviço como pastor. Esta imagem –fazer de Santo Agostinho um alter ego- a encontramos também nas recentes encíclicas de Bento XVI: gostariam –ambos- de dedicar-se à docência, e escrever livros de teologia, sem envolver-se diretamente nas tarefas pastorais. A vida é um paradoxo, e Deus não desaproveita os talentos: não devem ser muitos os que possam se igualar em produção cientifica e literária com Agostinho de Hipona e com o Professor Ratzinger.</p>
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		<title>(Español) José Jiménez Lozano: “El azul sobrante”</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jan 2012 17:03:30 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Desculpe, este post só está disponível em Español. Posts relacionados:(Español) José Jiménez Lozano: “Un pintor de Alejandría” (Español) José Jiménez Lozano: “Libro de Visitantes” (Español) José Jiménez Lozano: “Agua de noria”. RBA. Barcelona. 256 págs.


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</ol>]]></description>
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		<title>Um Conto Chinês: A disponibilidade que nos engrandece</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 14:52:28 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Un cuento chino [2010] Argentina. Diretor: Sebastián Borensztein. Ricardo Darín, Ignacio Huang, Muriel Santa Ana, Ivan Romanelli 93 minutos &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Vários amigos têm comentado que minhas críticas de filmes são excessivamente longas. Na verdade, eu nunca me propus fazer análises &#8220;do filme&#8221;, mas apenas utilizá-lo para dar recados. Alguns já estão dissolvidos no meio dos fotogramas; [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Un cuento chino [2010] Argentina. Diretor: Sebastián Borensztein.  Ricardo Darín, Ignacio Huang, Muriel Santa Ana, Ivan Romanelli  93 minutos<br />
</strong></p>
<p><img src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2011/12/121911_1452_UmContoChin1.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px;" width="300" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vários amigos têm comentado que minhas críticas de filmes são excessivamente longas. Na verdade, eu nunca me propus fazer análises &#8220;do filme&#8221;, mas apenas utilizá-lo para dar recados. Alguns já estão dissolvidos no meio dos fotogramas; outros, talvez os mais, são reflexões pessoais que a fita me provocou. De qualquer forma, é sinal de sabedoria aprender a ouvir os amigos. Se, como reza o ditado, Vox Populi, Vox Dei, com maior motivo a voz dos amigos merece atenção.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um filme argentino brinda uma ótima oportunidade para colocar em prática o modelo de recados pontuais. As produções argentinas que temos assistido nos últimos anos têm surpreendido agradavelmente. Roteiros simples, orçamentos enxutos, situações muito humanas, cálidas, em sintonia com a sensibilidade latina. São filmes de modestas dimensões, miniaturas estéticas, mas redondos, bem acabados. A crise que sucateia o pais vizinho, rende um cinema de primeira. Acontece como com o tango, que afundando suas raízes em carências e tragédia, decola como melodia transcendente, impactante, única. Já dizia Al Pacino no seu inesquecível &#8220;Perfume de Mulher&#8221;: &#8216;O tango não é como na vida; se você erra, continua dançando. Isso é o que faz do tango algo especial&#8217;.
</p>
<p><span id="more-1265"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um conto chinês é um desses filmes; pequenos, encantadores, pontuais. Um bom começo com um acertado título cuja tradução ao português perde força. Explico. Quando em espanhol se fala de &#8216;un cuento chino&#8217;, significa que o tema em pauta é algo pouco confiável. Não me venhas com &#8216;cuentos chinos&#8217; se poderia traduzir como &#8220;não me venhas com historias&#8221;. No filme há chineses, e também há quem conta histórias inverossímeis &#8211; ou melhor, quem as coleciona: Roberto de Cesare, &#8211; uma interpretação soberba de Ricardo Darin que é noventa por cento do filme- dono de uma loja de ferragens, um misantropo brigado com o mundo e consigo mesmo.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O conto chinês surge, feito pessoa e com toda sua imprevisibilidade, invadindo a vida –privada, fechada, e cinza- do protagonista.  São as vicissitudes que salpicam nossa biografia, transtornando nossos projetos, ou mesmo, a falta de projetos como parece ser o caso do comerciante que se refugia na imaginação e nos recortes de jornal, para suportar uma existência pesada e densa. Por que logo comigo? O que eu tenho a ver com tudo isto? Será que não posso cuidar da minha vida e que os outros me deixem em paz? Os interrogantes não se explicitam, mas aparecem inevitavelmente na cabeça do espectador.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A vida nos é disparada a queima roupa, diz Ortega. E na resposta a esses disparos  -que não são agradáveis, nem previstos- radica nossa grandeza. A ausência de pressões e de problemas apagaria nossa vida –continua o filósofo espanhol- porque nosso viver é um constante aceitar feridas e responder com energia a essa vulneração. Não se pode viver sem problemas: ao contrário, todo indivíduo, todo povo, vive dos seus problemas, do seu destino. A vida é uma permanente criação, não um tesouro que vem de graça. E não existe destino tão desfavorável que não possa ser fertilizado aceitando-o com jovialidade e decisão. Desse atrito surge a capacidade para as grandes verdades históricas. Não duvidemos: na dor nos construímos e no prazer nos desgastamos.
</p>
<p><img src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2011/12/121911_1452_UmContoChin2.jpg" alt="" align="right" style="margin-left: 10px;" width="300" />&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Entender isto não e difícil; resulta atraente e convidativo. Mas colocar em pratica já é outros quinhentos. Neste mundo corrido em que vivemos, saber abrir mão dos planejamentos pessoais em função das necessidades alheias –que sempre chegam quando não estavam previstas- é tarefa quase heroica. Alguém já disse que a esmola mais difícil é dar do próprio tempo. Uma verdade contundente que requer um exercício contínuo, praticar o que poderíamos denominar uma ginástica da disponibilidade.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Roberto quer desligar-se da situação, romper com um mundo que considera absurdo. Mas não consegue. O destino lhe cerca, lhe envolve. E ele que jurou inúmeras vezes cuidar da própria vida, se deixa conquistar, uma vez e outra, pelas circunstâncias que lhe interpelam. Quer ser indiferente, mas não consegue. É bem possível que o espectador veja aqui refletido vivências análogas e impulsos nem sempre exemplares. Quer saber? Vou cuidar é do meu quintal, os outros que se explodam! Por que sempre tem de sobrar para mim? Felizmente, nem sempre cumprimos esses juramentos extemporâneos, algo nos segura, como ao Roberto. E descobrimos que nesse esforço –verdadeiro atrito entre a generosidade que nossa alma encerra e o egoísmo que culturalmente nos cerca- é de onde nasce a grandeza que podemos almejar: ser úteis.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sempre existe o risco de pensar que há pessoas que são feitas para isso, para estar disponíveis, enquanto nós carecemos desse predicado. O ser humano consegue enganar-se com suma facilidade. Assim, é comum invejar nos demais caraterísticas que nunca será possível atingir –a cor dos olhos, a estatura, mesmo a inteligência ou especiais habilidades- enquanto nos desculpamos por não ter outras qualidades que seriam perfeitamente adquiríveis, como a pontualidade, o bom humor, a generosidade. Invejamos o que vêm de fábrica –e não temos- e dispensamos os acessórios que poderíamos conquistar com esforço. &#8220;Eu não tenho jeito para isso. Fulano, esse sim, consegue chegar antes e estar a postos&#8221;.  Quando se requer colocar o ombro, sempre há os que têm jeito, e aqueles que não nasceram para isso. Como se a virtude fizesse parte do hardware de fabricação.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Responder com generosidade às solicitações alheias –mesmo que não falte algum que outro resmungo- é porta que descortina horizontes formidáveis, perspectiva que coloca em jogo os talentos que Deus nos deu, e os faz render. Servir é sempre caminho de crescimento. E todos têm jeito para isso, basta querer. Fica aqui este oportuno recado para o Natal que se aproxima.</p>
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		<title>Javier Gomá: “Ejemplaridad Pública”</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 15:55:22 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Javier Gomá: &#8220;Ejemplaridad Pública&#8221;. Taurus. Madrid (2009) 274 pgs.<br />
</strong></p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2011/12/121611_1555_JavierGomE1.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px;"/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esperava muito deste livro, talvez demais. O título resultou-me sugestivo e imaginei que encontraria argumentos para alimentar a minha esperança na res publica, nos tempos de mediocridade política que vivemos. Não que a corrupção pública seja novidade, mas o acomodamento, a ausência de crítica, gera um genuíno processo de anestesia de valores que afoga perspectivas de melhora. A podridão existe, mas não nos incomoda. Ao menos, não molesta o suficiente para tomar providencias. Sinceramente, não encontrei nas quase 300 páginas deste livro nada que ajudasse a empreender esta batalha da exemplaridade.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Cabe perguntar-se, e com razão, o porquê deste comentário, em português, de um livro escrito em espanhol, que não me consta tenha sido traduzido, e que me decepcionou. O motivo é simples: escrevo para ordenar as ideias, as reflexões que surgiram enquanto lia este livro. A contribuição do livro em si é mínima: de fato não fiz nenhuma anotação textual, não tirei nenhuma ficha para utilizar em citações posteriores. Mas a provocação que o livro me brindou, bem vale a reflexão que aqui anoto.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No primeiro capítulo, Democracia, o autor descreve o percurso da modernidade, com a renuncia a todas as ideologias tradicionais &#8211; aristocracia, religião, valores, metafísica &#8211; para desembocar na igualdade democrática, aquela que nos faz –em palavras de Tocqueville- &#8220;independentes e débeis&#8221;. E cita textualmente o francês: &#8220;O homem que vive nos países democráticos sente orgulho, ao comparar-se com todos os que o rodeiam, vendo que é igual a eles; mas examinando o conjunto dos seus semelhantes sua insignificância e debilidade lhe entristecem&#8221;. Mais adiante: &#8220;São homens semelhantes e iguais, que giram sem descansos sobre si mesmos, procurando pequenos e vulgares prazeres para encher sua alma&#8221;.
</p>
<p><span id="more-1259"></span></p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O autor entende que a modernidade, que eliminou a autoridade, a imposição, de critérios teológicos e aristocráticos, se constitui pela democracia numa vulgaridade que a todos equipara. Essa vulgaridade pede respeito, e necessita novos modelos para melhorar; mas não os modelos de antes –heróis, santos, aristocratas- mas modelos que sejam acessíveis a todos. Uma Paideia para o povo, uma cultura para educar a vulgaridade, sem elitismos. Esse é o objetivo que anuncia para os outros dois capítulos e que foi o que me animou a continuar a leitura.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No segundo capitulo, Virtude, também não decola. Recorre a infinidade de autores –tantos que a erudição se transforma em leitura maçante, as arvores não deixam ver o bosque, e desconfio que nem bosque existe no meio dessa profusão de citações- para invocar a necessidade de uma virtude que conquiste a vulgaridade e a conduza à emancipação moral. &#8220;Os antigos deuses morrem ou envelhecem e ainda não nasceram outros novos&#8221;, afirma citando a Durkheim. Esse é o grande problema do livro: quer propor uma novidade –um exemplo de virtude- que não despreze a vulgaridade, que a conduza a melhorar suavemente, que seja uma vulgaridade reformada. Qualquer tentativa de distinguir-se da vulgaridade –daquilo que é accessível a todos- lhe dá verdadeira alergia, e volta recorrentemente sobre o tema. Tem uma quase doentia obsessão pela igualdade.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esta obsessão chega a ser iconoclasta quando no terceiro capítulo, Exemplaridade, dedica várias páginas a criticar a exemplaridade que Ortega y Gasset propõe na sua obra, condenando-a por ser aristocrática e idealista. O homem superior que Ortega sugere em, por exemplo, a Rebelião das Massas, afirma ser um modelo aristocrático que não é accessível à vulgaridade democrática. Confesso que nesse momento estive tentado de fechar o livro, e poupar-me de escrever estas linhas. Mas contive-me; afinal, tenho o direito –democrático – de resposta. Ou não entendi nada do muito que li de Ortega, ou o autor não chega a ver que os modelos que o filósofo espanhol propõe são um verdadeiro convite à reforma pessoal: o homem superior, aquele que se exige mais do que os outros, não é um predicado decorrente do berço onde nasceu, mas o resultado da sua transformação, do seu treino incessante por melhorar, da sua askesis, e isso sim é textual em Ortega, citação da minha própria colheita.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao longo do livro, o autor tem espasmos saudosistas, e mostra que lhe falta terreno onde edificar. Reconhece que uma tolerância –ausência de qualquer imposição coercitiva- que não esteja temperada pela virtude e pelos bons costumes conduz à barbárie. Volta novamente a Tocqueville em &#8220;A Democracia na América&#8221;, para citá-lo textualmente: &#8220;Ao tempo que a lei permite ao povo americano fazer tudo, a religião lhe impede conceber tudo e lhe proíbe atrever-se a tudo&#8221;. Postula a bom exemplo, como recurso formador em homens públicos e pais de família: &#8220;O mau exemplo me absolve, o bom me condena&#8221;. E afirma a necessidade que todo homem &#8211; elemento democrático dessa venerada vulgaridade e homem público pelo simples fato de ser cidadão- tem de dar exemplo, como um tributo que deve à coletividade. Mas estas afirmações não são sustentáveis em absoluto, não convencem a ninguém. Afinal, se não há nenhum referencial objetivo –a modernidade acabou com todos- em virtude do que vou ter que complicar a minha vida para dar exemplo? Talvez um dever cívico para com a Polis, e não com o vizinho. Mas faltando o objetivo resulta por demais difícil estabelecer de que virtudes ou costumes morais –mores, costumes, usos- estamos falando. E além do mais, o exemplo tem de ser tal que não me faça superior ou diferente, mas que simplesmente convide à vulgaridade a uma melhora, sem sentir-se ofendida pelo meu exemplo. Francamente, não encontro nenhum motivo para deixar de cuidar da minha própria vida. A Polis não me seduz em absoluto.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quero pensar na boa vontade do autor, ao tempo que me surpreende a ingenuidade dos seus postulados. Entendo que busque recursos acessíveis, modernos, para que o homem comum queira tornar-se melhor. Mas quem se esforça por ser melhor –sendo deste modo exemplo- acaba por distinguir-se dos outros; alias, são os outros os que o consideram diferente. Aí estão os heróis, os lideres, os santos; tanto os reais, como os protagonistas da literatura clássica, sobre a qual também o autor lança suas farpas.. Até ai chega a repulsa por tudo o que se distinga de vulgaridade. Não sei se os jogadores de futebol, alguns atores de cinema, ou os participantes do Big Brother seriam para ele elementos de vulgaridade não suspeita; se assim for, ainda estamos esperando a exemplaridade que nos devem como cidadãos.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Esta excursão filosófica, árdua e divertida, trouxe à minha memória Descartes que, no início da modernidade, também quis propor um novo sistema para garantir o conhecimento –e com ele a atuação- após eliminar tudo o que lhe precedeu. O que para Gomá é a vulgaridade, para o filósofo francês eram as ideias claras e distintas. Sabemos que Descartes, após a demolição matemática do saber, encontrou-se sem teto, despido, à espera de construir uma nova casa que, bem sabia ele, demoraria. E foi viver de aluguel, refugiando-se no que sempre havia acreditado, até que a casa própria fosse edificada.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Não creio que o jovem autor chegue perto de Descartes, nem muito menos. Até porque se de algo carece é de claridade na escrita. Os parágrafos são longos, confusos, e as ideias se perdem no meio de citações. Falta o fio condutor. A nota biográfica adverte da sua formação, dos cargos que ocupa, e até de algum premio conquistado. Mas reparo que não é professor, ou pelo menos nada disso se comenta. Faz tempo me fizeram notar a tremenda diferença que existe nos escritos daqueles que dão aulas sobre o tema, e os que escrevem sem nunca ter submetido suas ideias ao crivo da docência, da dúvida do aluno, da vivência enriquecedora de uma sala de aula. Os professores são claros, sua escrita é viva, depurada pela atividade docente. Vai aqui a minha modesta recomendação ao autor: leve todas essas teorias à sala de aula, depure sua escrita. Quem sabe podemos chegar a nos entender e buscar juntos as raízes e as motivações para uma exemplaridade pública que nos é tão necessária.</p>
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		<title>(Español) Juan Marsé : Caligrafía de los sueños</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Dec 2011 18:09:40 +0000</pubDate>
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		<title>Alessandro D’Avenia: “Branca como o leite, vermelha como o sangue”</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Dec 2011 11:00:28 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Alessandro D&#8217;Avenia: &#8220;Branca como o leite, vermelha como o sangue&#8221;. Bertrand Brasil. 2010. Rio de Janeiro, 370 pgs.</strong>
	</p>
<p><img align="left" src="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2011/12/120211_1925_AlessandroD1.jpg" alt="" align="left" style="margin-right: 10px;"/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dificilmente leio livros dos quais não me tenha informado previamente. A vida – o tempo da vida- é limitada, é preciso escolher atentamente. Há exceções, claro; esta é uma delas. Um amigo me entregou o livro: &#8220;Leia, vai gostar. É um adolescente que pensa em voz alta. Lembra-se de <em>O apanhador no campo de centeio</em>?&#8221;. Naturalmente que lembrava: tinha-o lido alguns meses atrás, até escrevi um <a href="http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2011/10/20/j-d-salinger-%E2%80%9Co-apanhador-no-campo-de-centeio%E2%80%9D/">comentário</a> por ocasião de um fórum humanístico com universitários. Temos aqui –pensei- mais uma sessão de adolescente-rebelde-sem-causa. Tinha duas viagens de avião pela frente, coloquei o livro na mala de mão como opção para enfrentar as inevitáveis esperas de aeroporto. Funcionou. Leitura fácil, amena, enriquecedora.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O autor, um jovem professor italiano que ensina Letras no Liceu; o protagonista, Leo, um garoto de 16 anos, contestador, apaixonado, moderníssimo e clássico ao mesmo tempo. Um romântico perdido, que despreza a escola, gosta de arriscar a vida na moto, craque no futebol, toca guitarra, e considera os adultos seres antediluvianos com os quais é impossível estabelecer qualquer comunicação satisfatória e, muito menos, ser compreendido por eles.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na vida de Leo, surgem as garotas &#8211; amigas como Silvia, e o amor platónico que não poderia ter outro nome que Beatriz. E aparece toda uma fauna de professores dos quais nada se pode esperar. De repente, um professor substituto, que devendo ensinar historia e filosofia, se diverte fazendo perguntas. &#8220;Por primeira vez, a resposta não está em algum lugar onde você possa copiá-la. Você é quem tem que encontrar a resposta. E talvez esteja em jogo algo mais. Odeio o Sonhador, porque ele me ferra sempre, me desperta a curiosidade&#8221; O sonhador, naturalmente, é o professor questionador. Por alguns instantes, assomou-se à minha memória a figura de um aluno –passaram-se quase quinze anos- que me dizia: “Você guarda cartas na manga! Por que não as põe para fora?” Eu sorria e respondia: “Cada um tem de encontrar as próprias cartas”. Parece que ele as encontrou. Hoje é um professor bem sucedido, questionador, uma fábrica incansável de perguntas.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A comparação do amigo que me emprestou o livro permanecia na minha cabeça.  Mas Leo não é Holden, o apanhador de Salinger. Talvez o professor sonhador tenha a ver com essas diferenças. As revoltas da adolescência são sempre as mesmas, e se explicam pela cegueira fisiológica, própria da idade, de não enxergar os outros, o mundo, ou qualquer coisa diferente do próprio umbigo. O adolescente se considera sempre único, esgota sua espécie. A lente capaz de sarar a cegueira é o amor. O amor pelos outros –há generosidade no coração jovem- e, também, o amor que os outros te dedicam, e que move as relações humanas. A educação da juventude implica uma educação afetiva, uma <em>Education sentimental. </em>As cegueiras são carências, o amor é parte do combustível formador e, sempre, o lubrificante que facilita o processo.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Com o amor desabrocha a criatividade poderosa da alma jovem. &#8220;Amar é quando alguém suporta o teu cheiro. Somente quem ama o teu cheiro te ama de verdade. Te dá força, te dá serenidade.&#8221; São as reflexões do Leo em voz alta. E ainda: &#8220;Só quem faz perguntas sobre detalhes procurou sentir o que o coração da gente sente. Os detalhes: um modo de amar para valer&#8221;.  Lembrou-me Susanna Tamaro e não foi à toa: o autor agradece à escritora italiana no final do livro.
</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os solilóquios do Leo, uma versão moderníssima de Hamlet, com Ofélia incluída, levantam diversidade de temas que me resultam familiares. Aquele, por exemplo, sobre a música como elemento educador dos afetos, que um colega professor também pratica com os seus alunos: &#8220;Às vezes você encontra na música as respostas que procura, quase sem procurar. E, mesmo que não encontre, pelo menos acha os mesmos sentimentos que está experimentando. Alguém já os experimentou. Você não se sente sozinho&#8221;.  Ou aquela afirmação de outro amigo de que quando alguém te viu de pijama você perde a autoridade, a exprime Leo quando está no hospital e passeia pelos corredores: &#8220;O pijama é o uniforme certo para anular as diferenças&#8221;.
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<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O livro foi uma surpresa agradável. Pergunto-me qual é o público a quem poderia recomendá-lo. Aos jovens? O fórum humanístico com o apanhador de Salinger foi surpreendente, houve quem &#8220;ficou com vontade de cuidar de Holden&#8221;; houve também quem passou mal, teve até indigestão. Não consigo prever os efeitos das reflexões de Leo quando em contato com os seus pares. Mas de uma coisa estou certo: para os que nos dedicamos à educação e temos o privilégio de lidar diariamente com o rico e imprevisível espectro do ser humano, é uma leitura que vale a pena. Querer conhecer melhor os alunos, não desistir de ouvi-los, fazer perguntas mais do que dar respostas, e ter o amor como pano de fundo, enriquecerá nossas possibilidades, nos tornará mais úteis.
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<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As viagens de avião me levaram, entre outras coisas, a ter oportunidade de conversar com velhos amigos. Levantou-se o tema da sociedade pós-moderna, onde tudo é muito rápido, imediato, <em>on line</em>. &#8220;Pensar –disse alguém- é parar para pensar. As máquinas, os animais, os softwares, os robôs, não pensam porque não param: estão sempre fazendo algo. Mesmo que no automático&#8221;. Pode ser –refleti &#8211; que a velocidade com que o jovem vive lhe impeça de pensar. Educar deve ser também ajudar a brecar. E as melhores lombadas são as perguntas certas, aquelas cujas respostas não estão na web. Sorri enquanto ensaiava uma variante da fórmula de Descartes: <em>&#8220;Je me demande, je m&#8217;arrête, je pense donc je suis&#8221;. </em>Voilà !</p>
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