<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/" xmlns:blogger="http://schemas.google.com/blogger/2008" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" version="2.0"><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039</atom:id><lastBuildDate>Wed, 08 Apr 2026 11:00:38 +0000</lastBuildDate><title>Páginas Avulsas de Literatura</title><description>Blog interessado em selecionar, comentar e divulgar  contos e crônicas  de autores brasileiros e portugueses.</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Unknown)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>106</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-4274369851759122612</guid><pubDate>Thu, 28 Jul 2016 04:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-07-28T01:02:09.667-03:00</atom:updated><title>Canibais, conto de Moacyr Scliar</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj-RJuOrw2fLa_JOk5xfixhyphenhyphenUWJANxVBVmopMkVwlGiUHiD-mM3KO2UERbFXPzPY3Jb8XmdBAW0WuAxKWWNm2WU97x5f2eBWZlKSRlv6Q6W_2qANQACuySvBlroQeIKsZvGOPRWl00hoXKu/s1600/a%252520sogra.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;150&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj-RJuOrw2fLa_JOk5xfixhyphenhyphenUWJANxVBVmopMkVwlGiUHiD-mM3KO2UERbFXPzPY3Jb8XmdBAW0WuAxKWWNm2WU97x5f2eBWZlKSRlv6Q6W_2qANQACuySvBlroQeIKsZvGOPRWl00hoXKu/s200/a%252520sogra.jpg&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subsequentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que se contentava em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot;, sans-serif;&quot;&gt;De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;Fonte: Os melhores contos de Moacyr Scliar, Global Editora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjW6mtXosl_WMvUVd-UDbD6zNTfFUfZ5g_D8Ng-j0FcS2W_b1AsyozbLm3oGuZEUzbcEYX0fYEDpyz8Lsp_XTqjs-kflRUN8AeNeoddxF-G0JE1T-GsiGuML-slT3uHAGs3mDzS_oVOkvyk/s1600/barrinha7.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjW6mtXosl_WMvUVd-UDbD6zNTfFUfZ5g_D8Ng-j0FcS2W_b1AsyozbLm3oGuZEUzbcEYX0fYEDpyz8Lsp_XTqjs-kflRUN8AeNeoddxF-G0JE1T-GsiGuML-slT3uHAGs3mDzS_oVOkvyk/s1600/barrinha7.gif&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/07/canibais-conto-de-moacyr-scliar.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj-RJuOrw2fLa_JOk5xfixhyphenhyphenUWJANxVBVmopMkVwlGiUHiD-mM3KO2UERbFXPzPY3Jb8XmdBAW0WuAxKWWNm2WU97x5f2eBWZlKSRlv6Q6W_2qANQACuySvBlroQeIKsZvGOPRWl00hoXKu/s72-c/a%252520sogra.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-3748965334057750230</guid><pubDate>Thu, 28 Jul 2016 03:59:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-07-28T00:59:22.590-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto Canibais</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC42osmwyIXUoijRe_4qMi4fT5GaQXLREXWlyzs1krjEy9Rknw7fL3s4XoSZSc0B4_d863wRiVsvgZasza1aTS3iPPqS9wgWmiSfsKnHn5ouv4HTSC7bMhjOtkqHnVbRQXNK0Kcwv3V4-n/s1600/fotscliar.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;200&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC42osmwyIXUoijRe_4qMi4fT5GaQXLREXWlyzs1krjEy9Rknw7fL3s4XoSZSc0B4_d863wRiVsvgZasza1aTS3iPPqS9wgWmiSfsKnHn5ouv4HTSC7bMhjOtkqHnVbRQXNK0Kcwv3V4-n/s200/fotscliar.jpg&quot; width=&quot;137&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, em 23 de março de 1937. Os seus contos assinalam seu talento e o vigor da sua ficção, na qual os jogos do poder e da paixão são mostrados sob perspectivas surpreendentes, em tom de humor e fantasia. Sua ficção é, quase sempre, pessimista e irônica quanto às desgraças humanas, com a crueldade da humanidade, que não receia desmascarar, quando escondidas sobre as supostas boas-intenções que costumam apresentar para serem mesquinhos e egoístas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Logo à primeira leitura do conto, dois elementos chamaram-me a atenção: os nomes dados às duas personagens e a sua relação com a caracterização de ambas, apontando para as diferenças contrastantes ente elas, como um dos caminhos possíveis para a compreensão do texto e da crítica social que nele está embutida.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O nome “Bárbara” significa pessoa sem civilização, selvagem, inculta, desumana, rude. Por sua vez, “Angelina” provém da palavra anjo, significando pessoa bondosa, virtuosa, caritativa. Comparando os dois nomes, percebe-se uma polaridade entre eles, ensejada pela conotação negativa de um e positiva do outro. Este contraste entre as personagens tem continuidade na descrição dos traços individuais de cada uma delas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao devorar os próprios membros e abrir o ventre, sangrando apesar dos torniquetes, Angelina não morre no tempo esperado. Pelas leis naturais que regem o nosso mundo, não há explicação para tal fato. Mesmo assim, o conto não se enquadraria no Fantástico, mas sim de uma alegoria. Neste caso, podemos admitir que o narrador, lança mão da história de Bárbara e Angelina como uma estratégia crítica para apontar as mazelas que tipificam as relações entre duas classes sociais coexistentes em nossa sociedade: a classe alta, representada pela rica Bárbara e a classe média desprivilegiada, representada por Angelina.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esse conto nos revela duas faces do ser humano: uma está relacionada ao ato de antropofagia coletiva, em que uma classe social privilegiada esmaga e destrói a classe social desprivilegiada, considerada inferior, sem se preocupar com sentimentos e interesses que não sejam os seus ou com necessidades, que não sejam as suas. A outra face liga-se à autodestruição passiva do indivíduo ou da classe que crê nas palavras enganosas e na hipocrisia dos “antropófagos bolivianos” que circulam pela sociedade, nas mentiras proferidas por quem está no poder para manter sua situação de superioridade e de privilégios.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
____________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Imagem na postagem: Foto de Moacyr Scliar.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/07/comentario-do-conto-canibais.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC42osmwyIXUoijRe_4qMi4fT5GaQXLREXWlyzs1krjEy9Rknw7fL3s4XoSZSc0B4_d863wRiVsvgZasza1aTS3iPPqS9wgWmiSfsKnHn5ouv4HTSC7bMhjOtkqHnVbRQXNK0Kcwv3V4-n/s72-c/fotscliar.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-6087424180694223751</guid><pubDate>Tue, 10 May 2016 03:10:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-05-10T00:10:22.814-03:00</atom:updated><title>Marina, a intangível, conto de M. Rubião</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEggW-AZM70OVRMz1badhbTVVuLl0n0uSVaR-7cwbdfaknYQZDSdmKtzMnsqk9-vrZg43fa7ZXRtilYg6GOUUtM4NqCEFdKkZhPt1vaNowT16hzJU8EvOuhoSpcNDYndIn23XR5LJ7GgNIg/s1600/Aphrodite_by_kamillyonsiya.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;200&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEggW-AZM70OVRMz1badhbTVVuLl0n0uSVaR-7cwbdfaknYQZDSdmKtzMnsqk9-vrZg43fa7ZXRtilYg6GOUUtM4NqCEFdKkZhPt1vaNowT16hzJU8EvOuhoSpcNDYndIn23XR5LJ7GgNIg/s200/Aphrodite_by_kamillyonsiya.jpg&quot; width=&quot;154&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
“Quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta, formosa como a lua, escolhida como o sol, terrível como um exército bem ordenado?” (Cântico dos Cânticos, 6,9)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Antes que tivesse de gritar por socorro, o silêncio me envolveu. Nem mesmo ouvia o bater do coração. Afastei da minha frente a Bíblia e me pus à espera de alguma coisa que estava por acontecer. Certamente seria a vinda de Marina.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Agoniado pela ausência de ruídos na sala, levantei-me da cadeira e quis fugir. Não dei sequer um passo e tornei a assentar-me: eu jamais conseguiria romper o vazio que se estenderam sobre a madrugada. Os sons teriam que vir de fora.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Afinal, duas pancadas longas e pesadas, que a imobilidade do ar fez ganhar em volume e nitidez, ressoaram, aumentando os meus sombrios pressentimentos. Vinham da capela dos capuchinhos, em cuja escadaria eu sempre me ajoelhava, a caminho do jornal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como persistisse o meu desamparo, balbuciei uma oração para Marina, a Intangível. A prece ajudou-me a reprimir a angústia, porém não me libertou da incapacidade de cumprir as umas poucas tarefas noturnas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sem me impressionar com o fato de a capela não possuir relógio, apertei a cabeça entre os dedos, procurando me concentrar nas minhas obrigações diárias. A cesta, repleta de papéis amarrotados, me desencorajava.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Movia-me, desinquieto, na cadeira, olhando com impotência as brancas folhas de papel, nas quais rabiscara umas poucas linhas desconexas. Além da sensação de plena inutilidade, o meu cérebro seguia vazio e não abrigava nenhuma esperança de que alguém pudesse me ajudar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para vencer a esterilidade, arremeti-me sobre o papel, disposto a escrever uma história, mesmo que fosse a mais caótica e absurda. Entretento, o desespero só fez crescer a dificuldade de expressar-me. Quando as frases vinham fáceis e enchia numerosas laudas, logo descobria que me faltara o assunto. Escrevera a esmo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Inventei várias desculpas para explicar a minha inesperada inibição. Culpei o silêncio da madrugada, a falta de colegas perto de mim. Não me convenci: e nos outros dias? Eu era o único jornalista destacado para o plantão da noite. Sendo o jornal um vespertino, logicamente só ocupava os seus redatores na parte da manhã.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tentei ainda persuadir-me de que, escrevendo ou não, o resultado seria o mesmo. O redator-chefe nunca aproveitava, na edição do dia, os meus artigos e crônicas, nem deixava determinadas as tarefas que eu deveria cumprir. Para suprir essa desagradável omissão, restava-me inventar, a procurar, ansioso, em velhos papéis, a matéria que iria utilizar nas minhas reportagens. Já abordara, em trabalhos extensos, os menores detalhes do trajeto que, ordinariamente, fazia entre a minha casa e o jornal, sem me esquecer de falar (com ternura) do nosso jardim. Um pequenino jardim , em forma de meia-lua, com algumas roseiras e secas margaridas.! Muito antes de ouvir o surdo rumor das pancadas, a expectativa me enervava. Não mais podia esperar. Que surgisse o que ameaçava vir! A qualquer momento poderia ser arrastado da cadeira e atirado ao ar. A ação da gravidade estava prestes a ser rompida.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
De novo abri a Bíblia. Agora menos intranquilo. O silêncio se desfizera e, mesmo sabendo que as horas eram marcadas por um relógio inexistente, tinha a certeza de que o tempo retomara o seu ritmo. (Isso era importante para mim, que não desejava ficar parado no tempo.)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Poucas páginas havia lido e descobri o assunto procurado. Iria falar do mistério de Marina, a Intangível, também conhecida por Maria da Conceição.(Mudou de nome ao fugir de Nova Lima com o namorado. Jamais lhe teve amor. Dizem que ele, um velho soldado, carregava no peito centenas de cicatrizes de numerosas revoluções. Nunca foi promovido.)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A alegria de ter encontrado com facilidade afrase que abriria o pequeno ensaio não durou muito. Quando ia escrevê-la, fugiu-me da pena.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Abri a janela, que dava para o jardim, a fim de sentir melhor o perfume das rosas. Talvez elas me ajudassem. Porém, ao descerrar as venezianas, deparei deparei com a fisionomia de um desconhecido. Rapidamente afastei os olhos noutra direção. Aquela cara me incomodava. Toda ela era ocupada por um nariz grosso e curvo. Tornei a observar o intruso e vi que me olhava com insistência. Sem alterar o semblante, ou mover os músculos da face, disse-me:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Recebi o seu recado, José Ambrósio. Aqui estou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Imobilizei-me ao contemplar-lhe o rosto sem movimento, a cabeça desproporcionada, tomando boa parte do espaço da janela.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Recuperando-me do espanto que a sua presença me trouxera, retruquei com vigor:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Não o conheço, nem disponho de tempo para atendê-lo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em seguida, fiz-lhe um sinal para se afastar. A sua figura desajeitada e estranha atormentava-me, impedia que tentasse elaborar um novo texto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Penso que interpretou o meu gesto como um convite para entrar, pois deu umas passadas miúdas e penetrou na sala pela porta principal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Deteve-se a alguns passos da minha escrivaninha e continuou a encarar-me. O corpo franzino, vestido de brim ordinário, o nariz imenso, a face plácida. (Uma nova idéia emergia do meu pensamento e desisti de concretizá-la, adivinhando que ele jamais permitiria que ela se efetivasse.)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sabendo ainda que naquela madrugada nenhuma das obrigações seria cumprida, afastei de perto de mim as folhas de papel, disponho-me a ouvi-lo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-São versos para publicar. Os que você me encomendou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Nada lhe encomendei. Por favor, afaste-se, tenho um trabalho urgente a terminar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Encomendou-me sim. Talvez não se recorde porque o pedido que me fez é anterior à sua doença.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Descontrolei-me, ouvindo tão cretina afirmação. Eu, doente?! O melhor seria encerrar o assunto e cortar de vez o nosso diálogo:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Toda e qualquer modalidade poétic foge à linha do jornal. Se nem os meus artigos, que são mais importantes, ele publica!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Já nervoso, irritado com o meu incompreensível interlocutor, saltei da cadeira:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Morra a poesia, morram os poetas!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Avancei enfurecido, com a intenção de pegá-lo pelo pescoço. Ao menos aquele poeta eu mataria.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele afastou-se devagar, a cara impassível, sem demonstrar medo ante a ameaça. À medida que eu me aproximava, o homenzinho recuava cauteloso, até que as suas costas encontraram a parede. Acuado, tentou o último recurso para me comover:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-São versos para Marina, a Intangível.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Caí de joelhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tínhamos que publicar o poema. Mas como? Passei amistosamente o braço pelo ombro do poeta e outra vez lhe esclareci que os meus superiores jogavam fora tudo o que, à força de penosa elaboração, eu escrevia noite adentro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não pareceu dar importância ao meu argumento e disse estar em nossas mãos afastar quantos empercílhos encontrássemos. Desde que havia desinteresse pela publicação, nós mesmos nos encarregaríamos de fazê-la. Seria uma edição extraordinária do vespertino, toda ela dedicada à Marina.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
_ E o pessoal para compor e imprimir o tablóide?- indaguei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Essa parte também ficará a nosso cargo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Achei boa a idéia, apesar de saber que o jornal não possuía linotipos, impressora e eu nada entendia de composição gráfica.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pra ganhar tempo, pedi-lhe que me mostrasse os versos.-&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Não os tenho aqui nem em parte alguma.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Como poderemos imprimí-los, se não existem?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Você os escreverá.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Mas, se eu apenas faço poemas bíblicos?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-São exatamente esses os que eu desejo. A existência de Marina está neste trecho dos Cânticos: “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Mesmo assim, não sei escrevê-los.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Vá me olhando e escrevendo, ordenou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E começou a fazer gestos com as mãos. Gestos vagarosos que, ritmadamente, lhe cobriam e descobriam a face plácida, imóvel.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não pude traduzir os movimentos todos, entretanto – coisa estranha – sentia que o poema de Marina poderia estar nascendo. Lindos e invisíveis versos!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Estão prontos, declarou com firmeza. Agora é só compô-los.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mirei o papel sem uma linha escrita, porém não tive coragem de contradizê-lo e o segui, casa adentro, em direção aos fundos do prédio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Atravessamos algumas portas. Eu, com a lauda em branco nas mãos, andando devagar, procurava uma desculpa para lhe mostrar a impossibilidade de se editar extraordinariamente o jornal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao chegarmos à velha cozinha, o último cômodo da casa, que dava acesso ao quintal, empurrei para trás o companheiro e gritei:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-É uma estupidez caminharmos mais. Não temos oficinas e este papel é uma odiosa mistificação- Os versos de Marina prescindem de máquinas, respondeu, afastando-me para o lado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A minha capacidade de reagir se esgotara. Em silêncio, acompanhei-o ao terreiro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Traga as rosas- exigiu, logo que chegamos perto da mangueira.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Desanimado de formular uma objeção, a me roer o íntimo, fui busca-las e as entreguei. Estava arrasado. Nem as flores, que nunca eram apanhadas e se desfolhavam ao sabor do tempo, escapavam à virulência de desconhecido. E eu, fraco, entregava-me aos seus caprichos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele as foi desfolhando com certa lentidão, muito compenetrado do trabalho. Rasgou as pétalas, pela metade, e colocou-as no chão. Formou palavras que não cheguei a decifrar e, em voz baixa, concluiu:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Os primeiros cantos são feitos de rosas despetaladas. Lembram o paraíso antes do pecado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- E os últimos? – indaguei aflito.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Inexistem – respondeu, continuando a espalhar as pétalas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não podiam deixar de existir, pensava eu, agoniado. Alheio à minha ansiedade, o poeta prosseguia na sua tarefa. Decorrido algum tempo, murmurou:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Só falta o girassol.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Percebi que chegara o momento de reagir com violência.(Primeiro, foram as rosas, jamais tocadas por alguém. Agora, os girassóis, que não existiam e nem podiam ser desfolhados!) Investi-me contra ele, disposto a partir-lhe os ossos. Sem recuar, levantou os braços, curtos e descarnados, para o alto: tocaram os sinos. Solenes e compassados.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vieram os padres capuchinhos. Galgaram, ágeis, o muro, soprando silenciosas trombetas. (Dez muros tinham saltado e ainda teriam que saltar dez.) Um pouco atrás, vinha a Filarmônica Flor-de-lis, com os pistonistas envergando fardas vermelhas. Tocavam os seus instrumentos separadamente e sem música. Simplesmente soprados. Encheram a noite de sons agudos, desconexos, selvagens.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O coral dos homens de caras murchas veio em seguida. Seus componentes escancaravam a boca como se desejam cantar e nenhum som emitiam. Um deles, vestido de sacristão, carregava o relógio da capela dos capuchinhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nem cheguei a me alegrar, constatando-lhe a existência, porque, num andor forrado de papel de seda, surgiu Marina, a Intangível, escoltada por padres sardentos e mulheres grávidas. Trazia no corpo um vestido de setim amarfanhado, as barras sujas de lama. Na cabeça, um chapéu de feltro, bastante usado, com um adorno de pena de galinha. Os lábios, excessivamente pintados e olheiras artificiais muito negras, feitas a carvão. Empunhava na mão direita um girassol e me olhava com ternura. Por entre o vestido rasgado, entrevi suas coxas brancas, bem feitas. Hesitei, um instante, entre os olhos e as pernas. Mas, os anjos de metal me prejudicaram a visão, enquanto as figuras começaram a crescer e a diminuir com rapidez. Passavm velozes, pulando os muros, que se estendiam continuamente, ao mesmo tempo que os planos subiam e baixavam. Eu corria de um lado para outro, afobado, arquejante, ora buscando os olhos, ora procurando as coxas de Marina, até que os gráficos encerraram a procissão.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os linotipos vinham voando junto aos obreiros, que compunham , muito atentos ao serviço.Letras manuscritas e garrafais. Os impressores, caminhando com o auxílio de compridas pernas de pau, encheram de papel o quintal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O cortejo passou em segundos, e os muros, que antes via na minha frente, transformaram-se num só. Quis correr, para alcançar o andor que levava Marina, porém os papéis, jogados para o ar e espalhados pelo chão, atrapalharam-me.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando deles me desvencilhei, encontrava-me só no terreiro e nenhum som, nenhum ruído se fazia ouvir. Sabia, contudo, que o poema de Marina estava composto, irremediavelmente composto. Feito de pétalas rasgadas e de sons estúpidos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Murilo Rubião.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/05/marina-intangivel-conto-de-m-rubiao.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEggW-AZM70OVRMz1badhbTVVuLl0n0uSVaR-7cwbdfaknYQZDSdmKtzMnsqk9-vrZg43fa7ZXRtilYg6GOUUtM4NqCEFdKkZhPt1vaNowT16hzJU8EvOuhoSpcNDYndIn23XR5LJ7GgNIg/s72-c/Aphrodite_by_kamillyonsiya.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-6209228300585790902</guid><pubDate>Tue, 10 May 2016 03:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-07-28T01:12:00.715-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto Marina, a intangível.</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi27z97CwFIpPwB8zICoigXb9zZ6GmvzjmKQlo3bB343JrXheaRgGtWHxB2vFnZpVCr0R8JazcL1lZW_x-urCwci3FCNzDaiGWKb_vtgoUZjzOT5Kq6maMYGNJhF299E4hUQsyx6Ah1Mgk/s1600/images+%25282%2529.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;150&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi27z97CwFIpPwB8zICoigXb9zZ6GmvzjmKQlo3bB343JrXheaRgGtWHxB2vFnZpVCr0R8JazcL1lZW_x-urCwci3FCNzDaiGWKb_vtgoUZjzOT5Kq6maMYGNJhF299E4hUQsyx6Ah1Mgk/s200/images+%25282%2529.jpg&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A escrita de Murilo Rubião é polissêmica e polifônica. Mesmo com toda a concisão e praticidade almejada por ele, há uma plurissignificação discursiva em cada enredo, no qual há uma confluência de vozes e de acepções. Vamos recordar aqui o 87. “Princípio do iceberg” que citamos no primeiro capítulo desta pesquisa. Nesse princípio, Hemingway sugere que apenas uma pequena parte do conto se mostra claramente para o leitor. O restante fica “submerso”. É nessa parte submersa que encontramos a polissemia e a polifonia discursiva em Rubião. E para entender essas entrelinhas, tentamos emergir pelo menos parte desse iceberg, em cada um dos contos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto “Marina, a Intangível”, como os demais, vem introduzido pela epígrafe bíblica. Marina é a palavra-mulher antevista nessa epígrafe, extraída do livro Cântico dos Cânticos. Quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta, formosa como a lua, escolhida como o sol, como um exército bem ordenado? (Cânticos dos Cânticos, VI, 10. In: RUBIÃO, 2006, p. 25).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O questionamento levantado, nesse trecho bíblico, coloca-nos diante de uma encruzilhada interpretativa. Em uma via, encontramos um questionamento acerca da mulher. O pronome “quem” é próprio para pessoa e não para coisas. Além disso, o pronome demonstrativo “esta” e os adjetivos “formosa” e “escolhida” estão todos no feminino. Entretanto, em outra via, torna-se possível o entendimento da personificação da palavra a ser usada no conto que virá, e a exaltação dessa palavra que surge como a aurora, que tem força e ordenação de um exército em batalha. O fato de o trecho ter sido retirado do Cânticos dos Cânticos, livro bíblico carregado de lirismo e metáforas, permite-nos entendê-lo como sendo a glorificação da palavra, pela mediação do recurso da prosopopeia.&lt;br /&gt;
Na Igreja Católica, esses versos sagrados passaram a ser atribuídos à figura de Maria. Embora eles pertençam ao Antigo Testamento e Maria seja do Novo Testamento, os versos foram facilmente adaptados para a celebração a Nossa Senhora, principalmente na Congregação chamada de “Legião de Maria”, cujo hino diz: Quem é essa que surge formosa/ como o sol fulgurante na serra/ como aurora de luz radiosa/qual exército em linha de guerra?/ É Maria a mãe legionária/ É Maria a rainha do céu/ que nos faz ser a luz missionária/ para o mundo levar até Deus...(Manual católico da Legião de Maria, 1987, p. 16). 88&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É evidente a apropriação dos versos do livro Cânticos dos Cânticos na letra do hino. É como se a Igreja Católica tivesse atribuído aos versos um caráter profético que, já no Antigo Testamento, exaltassem a futura mãe do filho de Deus. Ironicamente, Rubião, declaradamente agnóstico, apropria-se do texto sagrado, despindo-o de toda a força discursiva religiosa. Há uma evidente dessacralização da linguagem, já que o conto desconstrói a figura da “Virgem”, pela configuração como ela vem descrita. Mantém-se o andor, a procissão e o fato dela vir carregada, como se faz com as imagens nos festejos católicos. Porém, as vestes e a maquiagem destoam da imagem arquetípica do Catolicismo, uma imagem de face pálida, vestes cândidas e olhar condolente. Marina vem como uma mistura entre Maria e Eva – conforme apontamos no capítulo anterior – mas também traz muito da Lilith. Assim, vemos o celeste, o terreno e o infernal fundidos em uma só criatura.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Isso corrobora a ideia de que Rubião não adotou exclusivamente o gênero Fantástico, mas assimilou elementos do Estranho, do Realismo Mágico e do Maravilhoso. Da mesma forma que Marina traz esse hibridismo em sua constituição, a literatura dele também se faz híbrida. De acordo com o livro do Gênesis, o mundo foi feito por mediação da palavra, ou seja, do “logos”. Antes dos filósofos, essa palavra foi traduzida do grego como sendo “verbo” ou “palavra”. Na concepção filosófica passou a ser entendida como “razão”. No texto bíblico de João encontramos: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. (Jo 1.1-4).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Rubião utiliza o discurso bíblico – polifônico em si mesmo – e, assim como a Bíblia afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre os homens”, a palavra de Rubião se faz mulher e habita a narrativa. Ele, como criador, personifica-a e dá a essa palavra o poder de re-significar. E, ao mesmo tempo, ele não se ausenta, coloca-se ao lado da palavra-criatura como sendo a palavra-criadora, conforme observamos no transcursar da narrativa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador-personagem desse conto, já nas primeiras linhas, coloca-se como ledor da Bíblia, assim como Rubião o é. “Afastei da minha frente a Bíblia e me pus à espera de alguma coisa que estava por acontecer. Certamente seria a vinda de Marina.” 89 (RUBIÃO, 2006, p. 25). Há, nessas palavras, algo de profético. Ele espera a vinda de Marina. Esse narrador-personagem é escritor. Trabalha no espaço da escrita. Porém, é um espaço formal, não espontâneo. Sendo o espaço em que ele se encontra a redação de um jornal, o processo de espontaneidade acaba sendo engolido pelas exigências da profissão. Ele é José. José Ambrózio. Na Bíblia, José é marido de Maria. Porém a esposa é intocada, “intangível”, imaculada. Gera um filho de cuja concepção José não participa, mas que, humildemente, assume como pai. No conto, o narrador afirma que Marina se chamava “Maria da Conceição”, mas que mudara de nome ao fugir com o namorado. É outro ponto em comum com a história bíblica, pois Maria também foge com José, por causa das perseguições de Herodes. O que identificamos é uma paródia do texto bíblico que aparece “maquiado” e representativo de uma outra concepção: a do texto literário. O outro nome do narrador é Ambrózio. Nome de origem grega, que significa “imortal”, é o nome de um respeitável santo católico – Santo Ambrósio Autperto – que, segundo estudos realizados pelo Papa Bento XVI, fez importante pesquisa acerca do Apocalipse e deu uma grande ênfase, em outros de seus escritos, à figura de Maria. Mesmo não sendo possível afirmar que Rubião tivesse conhecimento disso, não podemos deixar de considerar o fato do narrador-personagem ter a missão de escrever o poema à “Marina, a Intangível”, assim como o referido santo o fizera à Maria.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Outro elemento no conto que gera a proximidade entre Marina e Maria é a revelação do narrador de que balbuciara uma prece a ela. A prece é feita a quem se dá o caráter de santidade. Ao mesmo tempo, a prece é composta de palavras, é discurso. Esse narrador se encontra, em seu ofício, às voltas com a palavra, seja ela oral, escrita ou simplesmente ausente, como quando olha a folha em branco. Para os católicos, a saudação do anjo a Maria tornou-se a principal prece a ela dirigida, a “Ave, Maria”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando, anteriormente, nessa investigação, apresentamos uma breve biografia de Rubião, citamos quanto tempo ele levou para ter os seus contos publicados. Nesse conto, o narrador constata: “Tentei ainda persuadir-me de que, escrevendo ou não, o resultado seria o mesmo. O redator-chefe nunca aproveitava, na edição do dia, os meus artigos e crônicas, nem deixava determinadas as tarefas que eu deveria cumprir.” (RUBIÃO, 2006, p. 26). Um texto é escrito com o intuito de que será lido e, para isso, precisa ser editado. Como há, no narrador, a certeza de que o texto não seria publicado, 90 esvazia-se nele a razão para escrevê-lo. E, mais uma vez, enxergamos nele o próprio Rubião.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Durante a luta travada pelo narrador diante daquilo que precisa escrever e não consegue, recebe uma visita inesperada de um desconhecido que o chama pelo nome. O mesmo fato se dá, na Bíblia, com Maria, que recebe a inesperada visita do anjo Gabriel que a saúda “Ave, Maria”. Em ambas as histórias, o visitante se comporta como anunciador de algo importante, de uma “boa nova”. Maria se coloca como serva diante do anjo; José Ambrózio se ajoelha diante do estranho visitante. É preciso confiar na única coisa que há para se crer nas duas situações: na palavra. Estranhamente, o visitante afirma a José Ambrózio que o poema a Marina não necessita de máquina para ser impresso e o anjo afirma a Maria que ela não precisa conhecer um homem para gerar o Filho de Deus. Assim, a palavra dá origem aos dois: ao filho e ao poema. O visitante, no conto, afirma: “– Os primeiros cantos são feitos de rosas despetaladas. Lembram o paraíso antes do pecado.” (RUBIÃO, 2006, p. 31). Também na história de Maria há a constatação de que ela fora “concebida sem pecado”, mostrando-nos o quanto as duas histórias se encontram imbricadas. Nesse ponto do enredo, José Ambrózio vê a chegada de Marina em procissão. É a concretização daquilo que profetizara no início, aquilo que estava por acontecer. No entanto, Marina vem submersa em uma atmosfera onírica, semelhante a um delírio: os instrumentos soprados não emitem sons, as bocas abertas não cantam, os muros vão surgindo sobrepostos e precisam ser transpostos. A imagem de Marina no andor coberto de seda atrai o olhar – ora para os olhos, ora para as pernas à mostra entre os panos rasgados do vestido. Ela vem “escoltada” por padre e mulheres grávidas. Esse aspecto também nos chama a atenção. Misturam-se dois elementos: padres que, pela exigência da Igreja Católica, fazem o “voto de castidade”, ou seja, que não terão relações carnais com nenhuma mulher; e as mulheres que, estando grávidas, evidenciam o contato carnal com o sexo oposto.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao fim de tudo, Ambrózio se vê sozinho, frente a um amontoado de papéis. O muro volta a ser único. E, recobrando a consciência, ele constata que o poema já está escrito. O delírio anterior representa o escritor diante do turbilhão de ideias e palavras que nascem na mente, no primeiro momento da escrita. Depois, o escritor sai desse “transe” e analisa racionalmente aquilo que nasceu durante o “delírio”. É o momento em que, segundo Rubião, começa o sofrimento: Cortar os excessos, destacar o que é 91 realmente bom e, num extremo, rasgar o que foi escrito, por julgar impublicável. Rubião confessa ter rasgado um amontoado de poemas manuscritos porque descobriu que não eram bons. É como se ele tivesse feito a mesma constatação de José Ambrózio, enxergando os versos como apenas “sons estúpidos”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Após essa análise, reafirmamos que o conto “Marina, a Intangível” é uma paródia, não de um único texto bíblico, mas de trechos extraídos de várias partes do Livro Sagrado que formam um mosaico discursivo-profano. Na Bíblia, Maria é a representação da mulher santificada, pura. No conto, Marina é a representação da mulher mundana, de pernas à mostra, numa evidente postura de sensualidade e sedução.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sua face maquiada a carvão contrapõe-se à imagem de candura que a Igreja Católica dá a Maria. Dessa forma, desconstrói-se o paradigma religioso da mulher-santa e cria-se um novo “perfil” da mulher do mundo contemporâneo. Vemos, em Marina, o fim da dualidade entre santa e pecadora, típica da literatura e das construções de gênero. O que detectamos em Rubião, portanto, como mudanças próprias do mundo contemporâneo, são conquistas que se desdobram ao longo do tempo, por meio dos espaços que a mulher foi – e vai – delineando na História e plantando, paulatinamente, nas lutas cotidianas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
_____________________________________________________&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Análise da autoria de JUCILENE DE LOURDES VIEIRA (METAMORFOSES, METALINGUAGEM E REPRESENTAÇÕES FEMININAS EM CONTOS DE MURILO RUBIÃO. (Dissertação. WWW.cch.unimontes.br)&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/05/comentario-do-conto-marina-intangivel.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi27z97CwFIpPwB8zICoigXb9zZ6GmvzjmKQlo3bB343JrXheaRgGtWHxB2vFnZpVCr0R8JazcL1lZW_x-urCwci3FCNzDaiGWKb_vtgoUZjzOT5Kq6maMYGNJhF299E4hUQsyx6Ah1Mgk/s72-c/images+%25282%2529.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-3914754287213979433</guid><pubDate>Tue, 19 Apr 2016 20:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-04-19T17:50:43.568-03:00</atom:updated><title>O Pirotécnico Zacarias- Murilo Rubião.</title><description>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjF8pbmi3ShlXEvEz3Jsvm2vepjR16HjFVQD3dSsM_IOKKjFG7-JV_clITG4UPoO7pw3MpHZcmLoXL5BF-AaTQ6lq8A9XNGSi_YonNlCeg_T5SeIB9WyVDYtAqBg2SdRDyqosAITtXRWznr/s1600/img.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjF8pbmi3ShlXEvEz3Jsvm2vepjR16HjFVQD3dSsM_IOKKjFG7-JV_clITG4UPoO7pw3MpHZcmLoXL5BF-AaTQ6lq8A9XNGSi_YonNlCeg_T5SeIB9WyVDYtAqBg2SdRDyqosAITtXRWznr/s1600/img.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&quot;E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d&#39;alva.”..(Jó, XI, 17)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?...A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em verdade morri, o que vem de encontro à versão dos que crêem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Presente!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- &quot;Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não está?.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Tire a mão da boca, Zacarias!.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Quantos são os continentes?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- E a Oceania?.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam D. Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Meninos, amai a verdade!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu. Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LEIA MAis, clicando na frase abaixo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens. Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria. Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver - o meu ensangüentado cadáver - não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A idéia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Neste ponto eles estavam redonda- mente enganados, como explicarei mais tarde.).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dos moços, rapazola forte e imberbe - o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos -, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho - assim lhe chamavam - e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado. Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Este argumento não me ocorreu no momento.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso. Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma idéia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos Jornais..... Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Alto lá! Também quero ser ouvido!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me. Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível. A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saida que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuidos aos vivos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento. Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, que me prontifiquei a fazer rapidamente.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao clarear o dia saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos que Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença que aquele era vivo e este, um defunto. Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos...&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Autor: Murilo Rubião.&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Imagem na postagem: A capa do livro O Pirotécnico Zacarias. S. Paulo: Editora Ática, 1978.&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
Barrinhas Gifs&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsA45NL4dAkpnX61htwRW-i5H6-kFVxRpO6vivsjHAv35oAZcFBe-nLOa90Sd5AvxMYT9XioZqDtD21vdZx1p1sfqbTx3_AdfH88RxB5po_uczA2ocs5K2x3GvnXsw4H1SCWf_scvSDTk/s1600/13animation006ss5.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsA45NL4dAkpnX61htwRW-i5H6-kFVxRpO6vivsjHAv35oAZcFBe-nLOa90Sd5AvxMYT9XioZqDtD21vdZx1p1sfqbTx3_AdfH88RxB5po_uczA2ocs5K2x3GvnXsw4H1SCWf_scvSDTk/s1600/13animation006ss5.gif&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/04/o-pirotecnico-zacarias-murilo-rubiao.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjF8pbmi3ShlXEvEz3Jsvm2vepjR16HjFVQD3dSsM_IOKKjFG7-JV_clITG4UPoO7pw3MpHZcmLoXL5BF-AaTQ6lq8A9XNGSi_YonNlCeg_T5SeIB9WyVDYtAqBg2SdRDyqosAITtXRWznr/s72-c/img.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-1766422190941207948</guid><pubDate>Tue, 19 Apr 2016 20:46:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-04-19T17:46:04.594-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto O Pirotécnico Zacarias - Murilo Rubião</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4vf1Dpir9DXPgw3F7fV01lv3LbM2j4j3NlfmEhOc93pQWrx_7ZJ73218DBkk2JDcYLqJRvpTo-iASLUMz55mldbb2FGGQoqUtdRorRDiAdILrgnSk-vafg121Wu9JqEqh1Y_nLUvKiPMF/s1600/conto-fantastico.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;223&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4vf1Dpir9DXPgw3F7fV01lv3LbM2j4j3NlfmEhOc93pQWrx_7ZJ73218DBkk2JDcYLqJRvpTo-iASLUMz55mldbb2FGGQoqUtdRorRDiAdILrgnSk-vafg121Wu9JqEqh1Y_nLUvKiPMF/s320/conto-fantastico.jpg&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Pirotécnico Zacarias é um dos melhores contos de Murilo Rubião. Nele, temos um narrador autodiegético (um narrador que protagoniza a história que narra) e que, considerando se trata de um “morto vivo”, instaura o efeito fantástico na narrativa, na medida em que, paradoxalmente, narra a própria morte, movimentando-se em um plano no qual estão eliminados os limites entre VIDA e MORTE. Tal condição abre espaço para Zacarias transitar livremente de um estado para outro, além de permitir que ele viva simultaneamente esses dois estados antagônicos e inconciliáveis.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta insólita situação rompe radicalmente com o princípios da lógica, resvalando para uma inconcebível contradição, na proporção em que contraria o princípio estabelecido segundo o qual duas proposições que mutuamente se contradizem não podem ser consideradas verdadeiras e, portanto, jamais será possível afirmar e negar concomitantemente a mesma coisa, sob pena de provocar uma negação do real. A transgressão de tal princípio significaria o advento de uma nova lógica que irromperia sob a égide do princípio da contradição, via absurdo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta lógica contraditória e insólita é a que rege a instauração do fantástico muriliano neste conto, na qual qualquer tipo de diferença é banida, permitindo que estados tão diferenciados, antinômicos e inconciliáveis sejam nivelados, confundindo-se no indizível do fantástico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No próprio conto são levantadas algumas respostas lógicas pelas personagens que tentam encontrar uma explicação para o inusitado fato que testemunham. Daí o surgimento de indagações: “Teria morrido o pirotécnico Zacarias?” As possíveis explicações lógicas e verossímeis são dadas na narrativa, à guisa de excluir ou dirimir o paradoxo instaurador do fantástico. Duas hipóteses de explicação, que reduziria o efeito fantástico a um mero fato natural, sem mistério, são discutidas:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
1) O pirotécnico estaria vivo e o morto não passava de alguém parecido com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
2) O pirotécnico estaria morto e o vivo era alguém parecido com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ora bem, a escolha, pelo leitor, de qualquer uma das sugestões dissolveria o paradoxo e, consequentemente, excluiria o elemento fantástico. Todavia, se, por um lado, ambas as escolhas são lógicas e coerentes, ambas neutralizariam o efeito fantástico, por outro lado elas são igualmente possíveis. Sendo assim, a ambigüidade típica do fantástico permaneceria: O pirotécnico poderá estar vivo ou poderá estar morto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto questiona a condição existencial do homem, a sua condição dramática, a sua tragédia individual: Zacarias só tem a sua existência reconhecida depois que morre. Quando era vivo, todos o ignoravam, nunca o perceberam como um ser humano. Ele passa a ter existência no âmbito do trágico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O texto convida a uma reflexão sobre a realidade humana. Afinal, o que é o homem antes e depois de sua morte? Em qual das duas condições ele existe mais? Esta resposta cabe aos leitores responderem.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
______________________&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;color: #010101; font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot;;&quot;&gt;Imagem na postagem: Foto de Murilo Rubião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-left: -9pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIJpdGfdMi5D1psZmq9U9EplvaJzOsgL7eQheD4C0LmNcpfKCj4vOKo9iWi75CHJopSqBV4rb7CQ1c5WoPwYg8w5efAubIXTw5kW_vt2k_PlPWsQaWnXz5WzGi5HUL8_BqqE3HjjEYHbpN/s1600/28518646.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIJpdGfdMi5D1psZmq9U9EplvaJzOsgL7eQheD4C0LmNcpfKCj4vOKo9iWi75CHJopSqBV4rb7CQ1c5WoPwYg8w5efAubIXTw5kW_vt2k_PlPWsQaWnXz5WzGi5HUL8_BqqE3HjjEYHbpN/s1600/28518646.gif&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/04/comentario-do-conto-o-pirotecnico.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh4vf1Dpir9DXPgw3F7fV01lv3LbM2j4j3NlfmEhOc93pQWrx_7ZJ73218DBkk2JDcYLqJRvpTo-iASLUMz55mldbb2FGGQoqUtdRorRDiAdILrgnSk-vafg121Wu9JqEqh1Y_nLUvKiPMF/s72-c/conto-fantastico.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-7803427614484497953</guid><pubDate>Fri, 15 Apr 2016 13:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-04-15T10:33:26.858-03:00</atom:updated><title>A Estrela. Conto de Vergílio Ferreira</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZVDAWVtmANRvf9lCyJ78ky2C9XqLtqEveR4ugpa2gF33smFQlE5nVME3zTMrDxEoBs_8NN6k418eFWiBrT_C0aCLyf1Xh5-p-ZzDGPDXUzKq6d2VZh02EcVL5cWrOAim0Tr2t-iVr91fd/s1600/anja_estrela+2.JPG&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;195&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZVDAWVtmANRvf9lCyJ78ky2C9XqLtqEveR4ugpa2gF33smFQlE5nVME3zTMrDxEoBs_8NN6k418eFWiBrT_C0aCLyf1Xh5-p-ZzDGPDXUzKq6d2VZh02EcVL5cWrOAim0Tr2t-iVr91fd/s200/anja_estrela+2.JPG&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Era uma vez um menino chamado Pedro que viu, um dia, à meia-noite, uma estrela… Era a estrela mais gira do céu. Como é que ninguém a tinha roubado? Ele próprio poderia facilmente apanhá-la, era só deitar-lhe a mão. Então, quando achou que os pais estavam a dormir, abriu a janela e saltou para a rua, a janela era baixa. Assim que se viu na rua, desatou a correr até à igreja.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A estrela ficava mesmo por cima da torre. Ele entrou na igreja, a porta estava aberta, e começou a subir as escadas… ali cheirava muito mal. Subiu até ao campanário e tinha agora de subir uma escadinha estreita e depois outra de ferro, ao ar livre. Reparou que não chegava ainda à estrela com a mão, portanto teve de subir mais um pouco dobrando e desdobrando as pernas como uma rã. No cimo da torre havia uma bola de pedra com um ferro enterrado e no cimo do ferro estava um galo com os quatro pontos cardeais. Ele empoleirou-se nos ferros cruzados e começou a despregar a estrela a pouco e pouco. A estrela soltou-se, por fim, e ele prendeu-a no cordel das calças. Agora tinha de descer com cuidado, pois se a estrela caísse lá em baixo podia partir-se…&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele desceu devagar, correu para casa e trepou à janela. Quando se foi deitar, ainda esteve algum tempo com a estrela na mão, mas não muito, porque estava cheio de sono. Então, guardou a estrela numa caixa e adormeceu. No dia seguinte, acordou tarde e a mãe estranhou. A certa altura, Pedro começou aos berros e a mãe veio logo, muito aflita, ver o que ele tinha. Ele estava fora de si e gritava:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Roubaram-ma! Roubaram-ma!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mãe pensou que eram restos de sono, não ligou e disse: - Vê é se tiras o cu do ninho, que já são horas. Levantou-se da cama e foi para a cozinha, mas não comeu nada, pois estava triste: pois a sua estrela já não era a mesma, era como uma estrela de lata. Chegou a noite e Pedro foi-se deitar, mas não tinha sono e, de repente, viu vir uma luz muito forte de baixo da cama que se estendia pelo soalho, assustou-se, mas, antes de se assustar muito e berrar, lembrou-se que era a estrela que brilhava tanto como quando a fora apanhar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No dia seguinte, à noite, um velho, bastante velho, começou a berrar coisas, mas ninguém o percebia, até que o Cigarra, um tipo que tocava viola lhe encostou o ouvido à boca, percebeu-o e começou a gritar: - Roubaram a Estrela! As pessoas ficaram a olhar umas para as outras sem nada entender e Pedro foi-se raspando. Gerou-se então uma discussão: uns, como o Sr. António Governo, uma pessoa muito importante lá na aldeia, consideravam que uma estrela a mais ou a menos no céu pouca diferença fazia, outros, como o velho e o Cigarra, achavam as estrelas importantes, porque enfeitam o céu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao jantar, as conversas iam dar sempre ao mesmo: o roubo da estrela. Pedro fingia que não ouvia, muito encavacado, comendo depressa para ir para a cama. Nem tocava na caixa com medo que os pais descobrissem. E o roubo foi sendo esquecido. Só então ele abriu a caixa e espreitou a estrela.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Certa noite, a mãe lembrou-se de ir verificar se o lume estava bem acondicionado para não pegar fogo nem se apagar e, ao passar pelo quarto do filho, viu um feixe de luz por debaixo da porta, abriu a porta devagar, espreitou e apanhou o Pedro com a estrela na mão. A mãe furiosa foi-se a le e tirou-lhe a estrela da mão, queimou-se e atirou um grito tão alto que o pai acordou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O pai correu para o quarto do filho e encontrou os dois a chorar. Pedro chorava, mas não sabia porquê. A mãe chorava, porque ficara com a mão toda queimada. O pai mal falou, mas no outro dia toda a freguesia se pronunciou. Ninguém acreditava que aquilo era a estrela e até pediram uma opinião ao latoeiro. Este confirmou que não era uma estrela de certeza. Então o Governo disse, como um homem sábio que era, que só à meia-noite é que a estrela brilhava.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
À meia-noite toda a aldeia se reuniu no adro, o Governo chamou o seu filho para pôr a estrela no seu lugar, mas este ao agarrá-la queimou-se, largando-a logo. O pai do Pedro pediu silêncio e disse que o seu filho tinha tirado a estrela, devendo, por isso, ser ele a devolvê-la ao céu. Pedro lá foi. Subiu à torre, ao galo e aos pontos cardeais, tirou a estrela do cinto e colocou-a no seu lugar. Toda a gente soltou um “ah!” e nem reparou que a estrela começou a brilhar muito menos. E ou se assustou com a força do “ah!” ou porque não fincou bem os pés no varão, Pedro escorregou até à bola de pedra, desequilibrou-se e caiu da torre, estampando-se nas pedras do adro. Todos choraram a sua morte. A estrela ainda lá está e toda a gente a conhece.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;COMENTÁRIO&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto A Estrela está bem caracterizado como uma narrativa pertencente ao gênero maravilhoso, ou seja: ela se enquadra num tipo de ficção que explora o sobrenatural, orientado por um tipo de lógica que se coloca à margem da lógica do senso comum e prioriza outros códigos. A expressão fraseológica que inicia a narrativa – “Era uma vez”- estabelece um pacto narrativo entre o narrador e o seu leitor virtual, que passa a admitir como verdadeiros fatos inexplicáveis ou carregados de insondáveis mistérios, subordinados às leis do mundo da fantasia e do sonho, onde nada é impossível e tudo é encarado como natural. Segundo a lógica interna do Maravilhoso, o leitor aceita que a criança poderia, de fato, roubar a estrela do céu, sem se mostrar espantado ou descrente de sua verdade, tal como as crianças acreditam que animais falam, que tapetes voam nas historinhas que lêem.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador heterodiegético, assumindo a omnisciência e a focalização interna, especialmente em relação ao menino Pedro, vai desvelando os seus sentimentos e as suas emoções, explorando o seu imaginário infantil e a sua visão de mundo. Fazendo uso de um estilo comedido que sugere muito mais do que esclarece, o narrador constrói a narrativa visando dar mais realismo aos fatos narrados que envolvem a criança, bem como mimetizar o dramatismo presente em suas ações, em suas motivações, em seus impulsos, anseios e temores. A imprecisão temporal, as vagas e rarefeitas informações do narrador, a sua contensão concedem ao conto uma fisionomia misteriosa, uma atmosfera mágica e um desenlace surpreendente. Além do elemento Maravilhoso, o conto também se abre a uma leitura de cunho alegorizante. Ao relatar a história de Pedro, o seu empenho em roubar a estrela mais brilhante e mais bela do céu, mesmo sem ter consciência das razões que explicariam o seu desejo de tê-la somente para si, mesmo ignorando o que faria com ela, o conto reveste uma dimensão metafísica indiciadora de um processo iniciático, de índole alegórica que remete a uma busca de crescimento interior, ou da demanda de um estado de plenitude do ser.Tal como acontece nos rituais de iniciação, Pedro tem que vencer vários obstáculos para poder chegar até a Estrela, submetendo-se a vários tipos de provas, todas difíceis e arriscadas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Assim, ele é forçado a sair de casa, à meia noite, sozinho, às escondidas, para poder chegar à igreja. Esta, erigida no alto da montanha, para ser alcançada, exige que ele suba a íngreme encosta que leva ao cume. Lá chegando, tem que superar várias dificuldades, como a passagem na torre, o domínio o seu temor da escuridão e a sua hesitação ante o desconhecido, além de ter que superar os odores estranhos encontrados na subida à torre. Vencidas todos os exaustivos obstáculos da difícil escalada da torre, ele tem que ir até ao cimo do campanário, para subir no alto da rosa dos ventos, onde se encontra o galo e a esfera granítica que representa o universo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Somente ali pode tomar posse da estrela que o fascina. A irrupção do elemento trágico do conto radica no inesperado destino de Pedro, em sua morte ao retornar ao alto do campanário para devolver a estrela, abrindo mão do seu sonho, sob a absurda e mesquinha acusação de roubo feita pelos mesquinhos habitantes da cidade, ao darem por falta da estrela que nunca haviam notado e que nada significava para eles, tanto que rapidamente a esqueceram quando ela foi reposta no lugar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;20&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgU6FUffFk1QtS1nj61pE2XVBvRpZZ_BLgG26_AdMVSs6v7mxwXDJgdCck8smzNae3uBZ5YvZB7yqCdmAqg_LGZqqHdTutKamP5LNu-XD52M1GnBoZ2VzXgBC7urQ2hVfVG6whDdX2e2563/s200/barra85.gif&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &amp;quot;trebuchet ms&amp;quot; , sans-serif;&quot;&gt;
&lt;/span&gt;</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2016/04/a-estrela-conto-de-vergilio-ferreira.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZVDAWVtmANRvf9lCyJ78ky2C9XqLtqEveR4ugpa2gF33smFQlE5nVME3zTMrDxEoBs_8NN6k418eFWiBrT_C0aCLyf1Xh5-p-ZzDGPDXUzKq6d2VZh02EcVL5cWrOAim0Tr2t-iVr91fd/s72-c/anja_estrela+2.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-1530997118323024840</guid><pubDate>Mon, 21 Dec 2015 15:01:00 +0000</pubDate><atom:updated>2016-04-19T17:58:46.850-03:00</atom:updated><title>Seu amor por Ethel. Maria Judite de Carvalho</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTx77WJ_wpJW1FeR0VBxIvZ4zMX2WsojS_ErQ92bQurFRTHKzcYmtbBhILkXEqQ8B9kpH144J6K1qY_4z_27U_HHk5DOvFVVB0ouVpfqFEpDFvp5x8lOxENK7Varg2RC1ZqrhHPRL7sFA5/s1600/mjcm.jpg&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTx77WJ_wpJW1FeR0VBxIvZ4zMX2WsojS_ErQ92bQurFRTHKzcYmtbBhILkXEqQ8B9kpH144J6K1qY_4z_27U_HHk5DOvFVVB0ouVpfqFEpDFvp5x8lOxENK7Varg2RC1ZqrhHPRL7sFA5/s320/mjcm.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para uma pessoa Etel era a mais bela e desejável das mulheres. Ela, porém, ignorava-o. Se soubesse, se tivesse ao menos uma leve suspeita daquilo que os olhos dele, demorando-se nos seus olhos, procuravam em silêncio revelar, às vezes esconder, outras insinuar a medo, se isso acontecesse, é natural que o fitasse com mais atenção, um pouco estupefata da ousadia, ou deixasse mesmo - voluntária e definitivamente – de o olhar e de falar com ele. Porque Vitorino, embora freqüentasse o último ano da escola comercial, nem por isso deixava de ser a “gente bem” da cidade, categoria essa em que Etel estava incluída, o filho do antigo cozinheiro do hotel. Como, porém, não sabia nem suspeitava do quer que fosse, Etel continuava a falar-lhe com um à vontade desolador – ou consolador- e mesmo a perguntar-lhe, com o seu ar afável, mas distante de rapariga bem nascida, de, como se dizia, ele sempre namorava a Fulaninha. Tantos outros baldes de água fria no coração amante de Vitorino, que fazia o possível por sorrir, mesmo amarelo, e responder qualquer coisa adequada, no mesmo tom inócuo e puramente lúdico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nos dias em que se travavam esses diálogos mais ou menos tontos, mas para ele tão preciosos, regressava sempre a casa calado e amargo após o entusiasmo, e com uma grande vontade de morrer. Eram os dias em que, fechado à chave no seu quarto modesto, passava em revista, estudando-lhe os prós e os contras – primeiro uns, depois os outros – todas as possibilidades de pôr termo àquela existência morna e sem interesse onde nunca haveria Etel: o gás, os pulsos cortados com uma lâmina, o tubo de Aspirina. Pensava também, minuciosamente, recitando a meia voz algumas frases mais significativas, na carta que escreveria a Etel nos últimos instantes, confessando-lhe o seu desesperado amor. Estacava sempre, porém, a boa distância do precipício. Tentava-o, afinal de contas, a vida ainda não vivida e o desejo de tornar a ver Etel, de falar novamente com ela, mesmo de assuntos superficiais e dolorosos, que nunca conduziriam a nada.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em dias mais serenos, sobretudo quando não a encontrara, conseguia encarar quase friamente e com a objetividade necessária, o seu caso, e mesmo troçar um pouco de si próprio. Como podia Etel amá-lo? Pensava nesses dias. Era feio, pobre, de baixa condição. Nunca fora excepcional em coisa alguma, e na escola comercial ia passando à justa. Ora não havia na cidade, por mais que pensasse, ninguém que merecesse Etel. Se ela gostasse dele, não seria quem era. Por que não afastar então esse estúpido sonho que tomara posse do seu corpo e do seu coração? Isto pensava Vitorino em dias calmos. Mas depois encontrava-a, falava com ela, falavam-lhe dela e tudo voltava ao mesmo. A mãe olhava-o às vezes tristemente, quando o julgava distraído. Saberia do seu amor por Etel? Cria bem que não. No entanto, certa noite, beijou-o mais demoradamente quando foi ajeitar a roupa, e depois sentou-se mesmo na borda da cama e falou-lhe de certa rapariga que era boa e bonita, um encanto, mesmo talhada para ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Mas eu não quero casar, mãe, disse Vitorino, encolhendo molemente os ombros.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Todos se casam! Respondeu ela com um suspiro resignado, levantando-se.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
–Todos. Mais tarde ou mais cedo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Foi no dia seguinte que ele soube que Etel fora vista na última semana com um engenheiro, de apelido inglês, recém-chegado à cidade, onde ocupava um cargo importante numa grande empresa. Sempre pensara que nunca teria Etel para si, mas não lhe ocorrera que outro homem a conquistasse com tanta facilidade. Do pé para a mão, por assim dizer, e de maneira tão ostensiva que as vizinhas afiaram as línguas e se puseram a utilizá-las com atividade excepcional. Foi um choque terrível para Vitorino. “Não pode ser”, dizia sozinho, de cabeça nas mãos e a soluçar. “Não pode ser”. Podia. E passou a encontrá-la por toda a parte, sozinha com o engenheiro, um homem alto e muito bem vestido que lhe pareceu odiosamente sedutor.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Agora que Etel estava perdida para ele e de certo modo para o pequeno mundo de que faziam parte, a idéia da morte deixou de obcecar Vitorino. Morrer tornara-se por assim dizer um ato gratuito. Ela era tão feliz que talvez nem desse pelo seu desaparecimento, e a carta que lhe escreveria, o mais que podia era provocar nela um “pobre rapaz!” dito ou pensado de passagem, à pressa. Ou talvez que, para se fazer valer, também era possível, a mostrasse ao noivo. Seria uma boa peça para o seu palmares de mulher. Poucas se podiam gabar de a possuir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vitorino viveu, portanto, mas desinteressadamente. Perdeu o ano. O padrinho, que lhe pagava os estudos – o pai morrera era ele pequeno – retirou-lhe a mesada. Que trabalhasse, não era mais do que os outros e a ele ninguém lhe havia pago um curso. Vitorino empregou=se. Entretanto, pessoas nasciam e morriam, pessoas amavam-se e esqueciam-se. Ele continuava a amar Etel.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-Por que não lho disseste enquanto era tempo? Perguntou-lhe a mãe, com quem mum dia , por fim, se abrira.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele não respondeu, porque isso era difícil e não sabia muito bem o que havia de responder. Dizer-lho? Ela, Vitorino? E sabia que uma razão houvera, e bem forte, para se ter calado. Não queria, no entanto, pensar nisso, receava tais pensamentos e as conclusões a que eles o podiam conduzir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dia qualquer o engenheiro anunciou a sua partida, e os notáveis da cidade ofereceram-lhe um almoço de despedida com lagosta e discursos laudatórios. Depois, logo a seguir, começou a constar que o seu caso com Etel havia acabado e que pedira transferência de propósito para se ver livre dela. Humilhada, Etel não apareceu no primeiro baile da época e as outras raparigas sorriram discretamente. “Coitada!”, lamentavam-na sem piedade. “Já se via casada com o engenheiro. Ela que com toda pose não tem onde cair morta.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- “O que se lhe havia de meter na cabeça”, comentaram as mães, esparramadas nas cadeiras de palhinha em volta do salão, e vestidas com os seus trajes domingueiros, a estalar pelas costuras porque todas elas tinham engordado ultimamente. Sentiam-se um pouco felizes com aquele fracasso sentimental, porque as filhas delas nunca tinham tido um pretendente tão categorizado. Uma das senhoras, a mãe da rapariga “que era mesmo talhada para ele”, chamou Vitorino de parte e perguntou-lhe em grande mistério se já sabia “da Etelvina”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-”Não, o que foi?” disse ele, fingindo um à vontade que estava longe de sentir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Que acabou o namoro com o engenheiro. Enfim, ele acabou o namoro com ela, o que não é bem o mesmo.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Ah, sim, ouvi qualquer coisa.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“E é só esse o efeito que lhe faz!” exclamou a dama, mostrando os dentes muito brancos sob o buço forte. “Estes homens são verdadeiros cataventos. Um dia para o sul, no outro para o norte. Ah, a pobre Etelvina não tem muita sorte com os apaixonados!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vitorino riu um pouco, para tomar uma atitude, e depois foi dançar com a rapariga talhada para ele, que também lhe falou de Etel com voz doce e alguma ferocidade. Aquela pobre Etelvina, tão boa rapariga, não é verdade, e bonita, sem dúvida, mas não prendia homem nenhum, ele já tinha reparado? Havia mulheres assim e a Etelvina era uma delas. Lamentava-a sinceramente porque era muito, muito sua amiga.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele dançava apertando-a muito contra si, cheio de raiva inconsciente. Apertava-a tanto que ela se desprendeu e se quis sentar, dizendo-lhe que se sentia um pouco tonta. Mais tarde contaria que o filho do cozinheiro tinha se atrevido, ora vissem lá, sem compreender que ele a apertava contra si por ódio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O afastamento do engenheiro alegrava-o bastante e restituíra-lhe, ao mesmo tempo, a antiga angústia. No escritório muitas vezes lhe chamavam a atenção porque se esquecia do que estava a fazer e o seu olhar atravessava as pessoas e as paredes, fugindo para bem longe daquele lugar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Então, senhor Vitorino, essa carta? Em que diabo está o senhor a pensar?”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em Etel, evidentemente, mas isso ignorava-o o patrão, que não descia a interessar-se pela vida privada dos seus assalariados e muito menos por sua vida amorosa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
[...]&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dia, o padrinho morreu e, para espanto de todos e indignação de muitos, deixou a Vitorino tudo o que possuía. Era a riqueza. Que faria com tanto dinheiro? Não era ambicioso e nunca lhe passara pela cabeça que tal coisa pudesse acontecer, porque o padrinho fizera sempre constar que a sua fortuna iria para as casas de caridade. Vitorino não se habituara, pois, a sonhar com bens materiais, faltava-lhe o treino. Pareceu-lhe por isso muito difícil e embaraçoso o seu futuro de homem rico. Teria rendas a receber, contribuições a pagar, o diabo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Por que não casas com a Etel?” perguntou-lhe um dia a mãe.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vitorino olhou-a num grande espanto. “Com Etel?” respondeu pasmado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Sim, com a Etel, porque não? O que é ela mais do que tu, uma rapariga que não tem onde cair morta?” disse a mãe, já na sua nova perspectiva de mulher rica.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vitorino sentiu o coração bater-lhe com força no peito e de momento não soube o que dizer, nem em que pensar. Depois foi serenando a pouco e pouco e deixou-se ficar onde estava, a coordenar as idéias. A mãe voltara para a cozinha e ele ficou só com os seus pensamentos. Por que não, afinal de contas? Etel era pobre, embora de boas famílias – gente fina, como se dizia - , e depois daquela história com o engenheiro, ninguém mais tinha aparecido a procurá-la. Por que não lhe pediria que casasse com ele?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nos dias seguintes aperfeiçoou as suas meditações e resolveu que lhe falaria no domingo. Mas, conforme os dias iam passando e o domingo ia ficando mais próximo, foram aumentando os receios de Vitorino. Qual seria a resposta dela? Dir-lhe-ia, naturalmente, que não, nem outra coisa era de esperar. Etel era Etel e ele era ele, um pobre rapaz que por acaso recebera muito dinheiro e nem sequer sabia como gastá-lo, nada podia haver de comum entre ambos. Etel dir-lhe-ia que não, mas como? De que palavras se serviria? Vitorino sabia, porém, de um saber lá de dentro, que ela ficaria de certo modo feliz vendo-se amada mesmo por ele. Andava tão deprimida nos últimos tempos...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Telefonou-lhe pois no domingo e a sua mão tremia ao marcar o número dela.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Está?” ouviu-a dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Sou eu, o Vitorino. Desculpa se te incomodo, mas tenho uma coisa importante para te perguntar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ela ficou encantada.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Importante, dizes tu?”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“É que gosto de ti. Queres casar comigo?” Dissera aquilo assim de repente, com ar de quem pede desculpa, porque tinha medo de se arrepender ou de a sua timidez o atraiçoar, impedindo-o de ir até ao fim. Do outro lado houve uma pausa e depois a voz de Etel perguntou, em pouco sumida:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Isso é verdade?”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-“Foi sempre verdade. Desde que te conheço. Mas tive receio. Nota que eu acho natural que tu...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Etel interrompeu-o e disse: -“Creio que vou casar contigo, Vitorino.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele ouviu-a e ficou hirto e vazio de pensamentos e de palavras. Quando pôde falar, quando isso lhe foi possível, murmurou uma frase confusa em que queria mostrar a sua alegria e despediu-se apressadamente. Qualquer coisa como “Estou muito feliz, Etel. Até amanhã.”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Foi tudo. Depois desligou o telefone e sentou-se. Ficou assim longo tempo, como que esquecido, e sentia-se triste, desconsolado e árido. A mãe apareceu a limpar as mãos no avental e perguntou-lhe se tinha falado. Depois, vendo-o tão abatido, pensou que Etel se lhe negara. –“Que respondeu ela?” perguntou, apesar disso, ressentidamente. Ele não respondeu, talvez mesmo não a tivesse ouvido. A última frase que tivera eco em si não fora sequer a sua “Estou muito feliz, Etel” – feliz, ele! – Não fora essa, mas a que ela lhe respondera e que nunca pensara ouvir um dia: “Creio que vou casar contigo, Vitorino.” Palavras de Etel, como era possível?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mãe, na sua frente, falava. Ele ouvio-a, de súbito, disse-lhe que não se ralasse, que essa toleirona (era a Etel que se referia) não era afinal de contas nenhuma perfeição, tinha quase trinta anos e dera muito que falar com o tal engenheiro. Ele, Vitorino, podia arranjar melhor. E Vitorino compreendeu, de súbito, que Etel tinha a idade que a mãe dissera, não era tão bela como ele durante anos a vira e muita coisa se tinha dito a seu respeito. Sentiu também que deixara de a desejar e que o seu rosto, que sabia de cor, e que a sua voz, que há pouco lhe dissera ao ouvido as palavras tantas vezes sonhadas, tinham de súbito deixado de ter para ele qualquer significado profundo e eram uma cara e uma voz como tantas outras&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
(Seu amor por Etel. Lisboa: Ed. Movimento, 1967, p. 7-19).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
COMENTÁRIO:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Maria Judite de Carvalho distingue-se entre os melhores contistas portugueses contemporâneos. O conto &quot;Seu amor por Etel&quot; é dos primeiros escritos pela contista e também um dos que oferece um final epifânico de interesse para quem estuda este recurso literário.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Filho do cozinheiro do hotel, já falecido, Vitorino pertence a um estrato social considerado “inferior” pela “gente bem” da cidade. Apaixonado por Etel, ele não tem a menor chance de conquistar a moça, pertencente a uma classe social privilegiada e preconceituosa que faz dela uma figura inacessível. Portanto seu amor por Etel é um sonho irrealizável, sobrevive, silenciosamente, em sua fantasia. Mas, entrou na vidinha apagada e sem esperanças do rapaz um elemento capaz de promover prodigiosa mudança em sua vida – o dinheiro – uma fortuna inesperadamente herdada por Vitorino.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para a sociedade capitalista, o dinheiro é o valor absoluto, capaz de transformar situações que parecem definitivas. O dinheiro produz milagres, nivelas as diferenças, elimina as distâncias, transforma defeitos em virtudes e tem poder de mudar a personalidade do indivíduo. Vitorino pediu a moça em casamento e este foi aceito. A resposta que em outros tempos teria feito Vitorino exultar de alegria, paradoxalmente, agora o deixa frio, “vazio de pensamentos” e triste.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A aceitação da moça assinala a ruptura total de Vitorino com a fantasia que o mantinha iludido e impedido de ser feliz. Este é o ponto alto do conto, é o momento em que ocorre a epifania, é o momento de revelação: Ele descobre que amava uma Etel que só existia na idealização que, durante anos, ele alimentou, amava uma ilusão, uma pessoa que só existia em sua fantasia. Quando ela se torna acessível, quando ele pode tê-la, o seu sonho se extingue, a fantasia evapora-se e ele pode enxergar seus reais sentimentos. A Etel real não desperta o mínimo interesse em Vitorino. Sentiu também que a deixara de desejar, que ela não significava mais nada para ele. A epifania é positiva, na medida em que é portadora da libertação de Vitorino, abrindo-lhe a possibilidade de ser feliz&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2015/12/seu-amor-por-ethel-maria-judite-de.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTx77WJ_wpJW1FeR0VBxIvZ4zMX2WsojS_ErQ92bQurFRTHKzcYmtbBhILkXEqQ8B9kpH144J6K1qY_4z_27U_HHk5DOvFVVB0ouVpfqFEpDFvp5x8lOxENK7Varg2RC1ZqrhHPRL7sFA5/s72-c/mjcm.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-8185881994491218367</guid><pubDate>Wed, 22 Apr 2015 10:22:00 +0000</pubDate><atom:updated>2015-04-22T07:22:30.028-03:00</atom:updated><title>O Espelho, conto de Machado de Assis.</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjzi-E875lqs-lIom1_CPXRZst_GcI4IUPAL75wkF4JEPOZzVl8jHoS-f2ObXnAdbhHw5i7Sq_diIO1NrtoIxYExw28BN_MgZqSwVMVcId0_QBAizcH5rtU-PlovzMI_tduZfnRk68J29E/s1600/130028,O.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjzi-E875lqs-lIom1_CPXRZst_GcI4IUPAL75wkF4JEPOZzVl8jHoS-f2ObXnAdbhHw5i7Sq_diIO1NrtoIxYExw28BN_MgZqSwVMVcId0_QBAizcH5rtU-PlovzMI_tduZfnRk68J29E/s1600/130028,O.jpg&quot; height=&quot;200&quot; width=&quot;171&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esboço de uma nova teoria da alma humana Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu: - Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos. - Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... - Duas? - Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. &quot;Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração.&quot; Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma... - Não? - Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... - Perdão; essa senhora quem é? - Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos... Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia comigo, uma foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.&lt;br /&gt;
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio.&lt;br /&gt;
Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.&lt;br /&gt;
- Matá-lo?&lt;br /&gt;
- Antes assim fosse.&lt;br /&gt;
- Coisa pior?&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano.&lt;br /&gt;
Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular.&lt;br /&gt;
O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade.&lt;br /&gt;
Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada.&lt;br /&gt;
E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Sim, parece que tinha um pouco de medo.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac.&lt;br /&gt;
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.&lt;br /&gt;
- Mas não comia?&lt;br /&gt;
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada.&lt;br /&gt;
Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...&lt;br /&gt;
- Na verdade, era de enlouquecer.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...&lt;br /&gt;
- Diga. - Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.&lt;br /&gt;
- Mas, diga, diga.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir... Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
FIM&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2015/04/o-espelho-conto-de-machado-de-assis.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjzi-E875lqs-lIom1_CPXRZst_GcI4IUPAL75wkF4JEPOZzVl8jHoS-f2ObXnAdbhHw5i7Sq_diIO1NrtoIxYExw28BN_MgZqSwVMVcId0_QBAizcH5rtU-PlovzMI_tduZfnRk68J29E/s72-c/130028,O.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-7054341265334756008</guid><pubDate>Wed, 22 Apr 2015 10:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2015-04-22T07:06:39.987-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto O Espelho, de Machado de Assis.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOZv5QxVvlzXvviBZAhbWo1odvgXkWD2BA0dQbPxvwU4oyoGaZByUZytbbpInb0OUmPBHF22DqsIj76qdqW-uwEH1Emcza4jx284fbkvEEm5qgeDPVlYE20RqMyuhGOFeHauEthaFqU-w/s1600/mensagens-de-auto-estima-150x150.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOZv5QxVvlzXvviBZAhbWo1odvgXkWD2BA0dQbPxvwU4oyoGaZByUZytbbpInb0OUmPBHF22DqsIj76qdqW-uwEH1Emcza4jx284fbkvEEm5qgeDPVlYE20RqMyuhGOFeHauEthaFqU-w/s1600/mensagens-de-auto-estima-150x150.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Neste conto, o autor ironiza a sociedade da época em uma das mais arraigadas crenças do povo cristão, que é a existência de uma única alma portadora de expressão única e inabalável até então.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao escrevê-lo, Machado de Assis lança a idéia de que o indivíduo está sujeito a duas &quot;almas&quot;. Segundo ele, o ser possui uma alma interna, a qual &quot;olha de dentro para fora&quot; transmitindo seus anseios particulares e valorizando sua consciência individual. Além disso, há uma alma externa, que &quot;olha de fora para dentro&quot;, composta de valores alheios ao indivíduo que são, porém, indispensáveis para a concepção do mesmo. Machado exemplifica: &quot;a alma exterior daquele judeu (Shylock) eram seus ducados; perdê-los equivalia a morrer&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto em questão tem início e fim com o foco narrativo em terceira pessoa; neste intervalo ocorre o discurso do personagem principal, Jacobina, que narra “um caso de sua vida” aos cavalheiros presentes na “casa do morro de Santa Tereza”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A narrativa de Jacobina é linear, interrompida uma vez ou outra por pequenas perguntas dos outros cavalheiros que o ouviam atentamente, mas significativamente interrompida uma única vez pelo narrador em terceira pessoa que denuncia: “Santa Curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia”(p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Na trajetória de sua narrativa, o personagem percorre o caminho da tradição bíblica, mitológica, literária e filosófica para melhor expor os acontecimentos, afinal,como ele mesmo diz, “os fatos são tudo”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Trata-se da história de Jacobina, rapaz pobre que se torna alferes aos 25 anos, nomeação que gerava status e despertava inveja em muitas pessoas, “Houve choro e ranger de dentes”. Era um rapaz pobre; seu fardamento foi dado por amigos e depois disso passou a ser visto como o cargo que ocupava na guarda nacional, “o alferes eliminou o homem”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sua tia Marcolina convidou-o a passar uns dias em seu sítio e cercando-o de mimos por todos os lados, mandou colocar um grande espelho, relíquia da casa,&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
em seu quarto, “obra rica e magnífica”. Tudo corria bem, até que sua tia Marcolina recebe notícias da doença de sua filha e viaja para vê-la, deixando-o sozinho com os escravos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Jacobina sentiu uma grande tristeza, “coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere”, e os escravos o trataram muito bem, era “nhô alferes, de minuto a minuto”. Mas no dia seguinte Jacobina estava só, os escravos haviam fugido, e com eles todos os paparicos, não havendo ninguém mais no sítio, “nenhum ente humano” para reconhecer nele o “alferes”. Jacobina perdera então sua motivação para a vida, “nunca os dias foram mais compridos”. Tinha medo de olhar-se no espelho, “era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois”. Não era mais possível ver sua imagem refletida no grande espelho. Sua imagem era agora difusa, e sua figura era completa apenas nos sonhos, “o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior”. Até que ele tem a idéia de colocar a farda e olhar-se diante do espelho. Assim fardava-se uma vez ao dia e colocava-se diante do espelho, retomando sua identidade, já “não era mais um autômato, era um ente animado”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Revela-se no início da narrativa um tom de incerteza e volubilidade das coisas, que permeia toda a estrutura do texto. O conto começa com “quatro ou cinco cavalheiros&quot; que debatem acerca da natureza da alma, sobre metafísica enfim.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Por que quatro ou cinco?” Porque o quinto personagem, Jacobina, mantém-se quieto durante a conversa e somente se propõe a contar um caso de sua vida se os outros lhe ouvirem calados.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos” (p. 345).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Na caracterização do ambiente, assim como da narrativa, cria-se uma atmosfera difusa na descrição da casa do morro de Santa Tereza, cuja “luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora”. Também, quando o narrador se refere a “quatro ou cinco cavalheiros”, ou lhes atribui a idade de “quarenta ou cinqüenta anos”, desencadeia-se no texto uma duplicidade, um turvamento de imagens.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metafísicas” (v. 2, p. 345).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com esta frase, “Entre a cidade..., e o céu...”, o narrador machadiano faz uma alusão, a qual nos remete, embora com o uso de outras palavras, à célebre frase de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A seguir, Jacobina descarta a possibilidade de conjeturar sobre coisas metafísicas e assim se dispõe a contar aos cavalheiros um caso concreto de sua vida e inicia seu relato:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Duas?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro(...).&quot; (p. 346).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E assim, Jacobina define a alma “metafisicamente falando”, como “uma laranja”. Utilizando-se da citação literária para melhor expor seus argumentos, e melhor&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
esclarecer sobre a alma exterior das pessoas, o narrador machadiano cita Shylock, personagem da peça O Mercador de Veneza de Shakespeare.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados: perdê-los equivalia a morrer. Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração. Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele (p. 346).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com maestria, Machado traz da peça de Shakespeare a cena que mostra a verdadeira alma de Shylock, um judeu que no auge de sua avareza prefere a filha&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
morta a perder suas pedras e ducados. Por meio dessa citação, Jacobina consegue transpor para o conto a “alma exterior” do judeu ao citar o momento em que ele recebe de Tubal notícias de que sua filha Jéssica teria gasto, em apenas uma noite em Gênova, oitenta ducados do dinheiro que lhe havia roubado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;O ofício da segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira&quot; (p. 346)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Continuando a expor sobre a alma e a capacidade de transformação de sua natureza, Jacobina deixa claro que não se refere a certas almas absorventes. Assim cita a pátria de Camões como sua absorvente alma exterior e o poder como alma externa e única de César, imperador romano, e de Cromwell, estadista inglês.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras embora enérgicas, de natureza mudável&quot;. (p. 346).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Essas referências levam, primeiramente, à história de Camões e seu poema épico Os Lusíadas, obra que exalta o povo português e é dedicada a D.Sebastião, rei de Portugal na época de sua publicação.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Voltando aos estadistas, Jacobina cita César e Cromwell, ditadores que viveram e tudo fizeram pelo poder, e embora tendo recusado o título de rei, ambos morreram soberanos em seu próprio despotismo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se pensar na alma externa como uma motivação para a vida, ou seja, os objetos de desejos de uma pessoa, essa alma será “de natureza mudável”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião...&quot; (p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Jacobina alude à Bíblia quando chama de “Legião” a senhora que troca de alma exterior por várias vezes no ano. Citações bíblicas são freqüentemente encontradas em sua obra. Nesse trecho, Jacobina refere-se à passagem bíblica “O endemoninhado geraseno” (Mc 4-5), na qual Jesus se depara com um homem possuído que morava no cemitério e apresentava fenômenos misteriosos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador fala a seguir da “Santa curiosidade” e a denomina como alma da civilização e também como o pomo da concórdia:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia&quot; (p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador, depois de ter lançado o pomo da concórdia, continua então a narração:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional” (p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam” (p.347).&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mais uma vez o narrador recorre à Escritura, e, desta vez, para comparar as atitudes das pessoas em relação ao seu posto de alferes.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em ambos os casos, a ironia do personagem-narrador estaria fundamentada no descompasso entre o universo sagrado e solene da Bíblia, deslocando esse&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
universo para um fato secular, a sua nomeação de alferes; soam ridículas aos olhos do leitor a pretensão e a aspiração de grandeza da personagem Jacobina,&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
que traz para o plano pessoal, do cotidiano, um tema que concerne ao plano religioso como um forte argumento em seu discurso.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No trecho a seguir, aliado a outros elementos que compõem a caracterização do objeto, o espelho serve também para dar ênfase ao aspecto social do personagem e seu posto de alferes.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição&quot; (p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A palavra espelho, além de dar nome ao conto e ser munida de importantes significados para o entendimento do texto, encerra aqui um outro sentido. O grande&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
espelho, “obra rica e magnífica”, denota a vaidade do homem, que mistura a tradição do objeto com o prazer de ser visto por si próprio e pelos outros. E o fato&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
de o espelho ter pertencido a nobres vindos com a corte de D. João VI deixa ainda mais nítida a intenção do autor em colocar a importância da tradição, da imagem na sociedade, a importância de ser visto pelo outro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em O Espelho, Machado trata da alma humana e também igualmente, da alma nacional do Brasil, que corre também o perigo de não existir quando se contempla ao espelho. O que ocorre neste trecho, na descrição do espelho, é uma analogia à política nacional da época:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;O espelho estava naturalmente muito velho, mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom&quot; (...) (p. 347).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pode-se notar que Machado traça um paralelo entre a alma de Jacobina e a alma nacional brasileira, duas imagens que se projetam ou se dissolvem na moldura&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
velha, mas tradicional. Enquanto Jacobina precisava de sua farda de alferes para compor sua imagem, a alma do povo brasileiro talvez precisasse da tradição monárquica para sua representação no espelho da sociedade, como a velha moldura coberta de madrepérolas, mas corroída pelo tempo. Há implicitamente nesta&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
caracterização do espelho uma crítica à oligarquia brasileira, tão presente na Monarquia quanto seria na iminente República. Era a tradição oligárquica, o poder&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
centralizador como moldura de nossa sociedade, moldura velha mas boa, difícil de quebrar, “era a tradição”. E assim, neste conto, coexistem os focos de duas correntes da interpretação literária sobre Machado de Assis, o caráter universalizante de um lado e de outro o histórico-social.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Jacobina recorre agora à filosofia para continuar sua narrativa, e introduz em seu discurso uma anedota filosófica.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando”. (p. 348).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando o personagem diz que “um filósofo antigo demonstrou o movimento andando”, ele está se referindo à famosa anedota do filósofo Diógenes, que, andando&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
de um lado para outro, disse: o ser é imóvel.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A próxima citação surge com o famoso estribilho do poeta americano Longfellow:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“-Never, for ever! - For ever, never!” para representar o pêndulo do “relógio da tia Marcolina”, que feria-lhe “a alma interior”. Com esses versos, o narrador alude não somente ao poeta americano, mas também à epígrafe utilizada por este, que cita Bridaine, “L’eternité est une pendule...”, no início do poema The old clock on the stairs (Bradley, 1970, p. 1509). Jacobina utiliza-se dos versos de Longfellow para expressar o seu desespero diante do tempo, tempo que mediante seu sofrimento lhe parecia, portanto, uma eternidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever! - For ever , never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada&quot; (p. 349).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para o personagem-narrador, não basta apenas explicar ou narrar o fato de o relógio parecer marcar a eternidade e a estabilidade do tempo. Naquele momento,&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
o relógio revelava para Jacobina total angústia mediante a solidão, e, com ela, a impossibilidade de ser o “alferes”, perdendo sua alma exterior.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes&quot; (p. 350).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No trecho acima, fica claro que Machado conhecia a importância do que Freud definiria como inconsciente e a relação disso com os sonhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No momento de maior tensão do conto, no qual o personagem Jacobina se sente perdido no tempo e espaço, pela eternidade do “tic-tac” do relógio, o narrador&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
utiliza-se da citação de O Barba-Azul, de Charles Perrault. No conto francês, a esposa de Barba-Azul não consegue conter sua curiosidade e entra no único aposento em que o marido a proibe de entrar quando sai em viagem. É também na história francesa, o momento de maior tensão para a personagem, que se vê perdida com o regresso do marido que descobre que ela entrou no aposento proibido.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sem chances de continuar viva, ela espera ansiosamente pela chegada dos irmãos, para que a salvem da morte, e chama incessantemente pela irmã “Souer Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir?&quot; (p. 350). “E tal qual como a lenda francesa”, na espera angustiante de Jacobina, ele não via “nenhum sinal de regresso”. E enquanto a moça da lenda francesa via “o sol que cintilava e o capim que verdejava” (Perrault, 1994, p. 97), Jacobina “quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel” (p. 350).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nessa citação, o tempo é a vertente que se divide em dois caminhos: o tempo de Jacobina, que custa a passar e é marcado pela eternidade do “tic-tac” do relógio, e o tempo da mulher de Barba-Azul, que possui apenas um quarto de hora e nem mais um segundo para se salvar da morte. Portanto, o tempo é o principal perigo que os dois personagens enfrentam. O desespero de Jacobina diante de sua imagem difusa no espelho à espera de alguém, e da hora que demorava uma eternidade a passar, contrapõe-se ao desespero da esposa de Barba-Azul; para ela restava apenas um quarto de hora, nem um segundo a mais, para que seus irmãos chegassem e a salvassem das mãos de seu marido. Portanto, sentidos diferentes que nos levam a idéias semelhantes. A passagem rápida do tempo para a esposa de Barba-Azul acarreta na sensação da iminente morte, e no caso de Jacobina a passagem lenta do tempo contribui para a dissolução do seu “eu”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Fonte: Revista ARGUMENTO (Revista das Faculdades de Educação, Ciências e Letras e Psicologia Padre Anchieta Jundiaí - SP,: Sociedade Padre Anchieta de Ensino) - Ano VI - nº 12 - Dezembro/2004&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div align=&quot;center&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2015/04/comentario-do-conto-o-espelho-de.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOZv5QxVvlzXvviBZAhbWo1odvgXkWD2BA0dQbPxvwU4oyoGaZByUZytbbpInb0OUmPBHF22DqsIj76qdqW-uwEH1Emcza4jx284fbkvEEm5qgeDPVlYE20RqMyuhGOFeHauEthaFqU-w/s72-c/mensagens-de-auto-estima-150x150.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-6055749736650548378</guid><pubDate>Tue, 30 Dec 2014 02:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-12-29T23:53:24.908-03:00</atom:updated><title>Machado de Assis: O Esqueleto.</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;h3&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbj-atJAxty9qfWry0MmtiILI24wJFwM-deOt8bGBcVbYftEKu_gTmVy0v3Bhy-GeWAQGr4iNJuA3YqefWJS40N-VJh0MIP4pyuTqJu4YpnRo73io_SbJiMxAd5xdOqmKszP1tsJPROxWg/s1600/caveira.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbj-atJAxty9qfWry0MmtiILI24wJFwM-deOt8bGBcVbYftEKu_gTmVy0v3Bhy-GeWAQGr4iNJuA3YqefWJS40N-VJh0MIP4pyuTqJu4YpnRo73io_SbJiMxAd5xdOqmKszP1tsJPROxWg/s1600/caveira.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/h3&gt;
&lt;br /&gt;
Eram dez ou doze rapazes. Falavam de artes, letras e política. Alguma anedota vinha de quando em quando temperar a seriedade da conversa. Deus me perdoe! parece que até se fizeram alguns trocadilhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O mar batia perto na praia solitária... estilo de meditação em prosa. Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite também não, que era feia e ameaçava chuva.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É provável que se a chuva caísse ninguém desse por ela, tão entretidos estavam todos em discutir os diferentes sistemas políticos, os méritos de um artista ou de um escritor, ou simplesmente em rir de uma pilhéria intercalada a tempo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Aconteceu no meio da noite que um dos convivas falou na beleza da língua alemã. Outro conviva concordou com o primeiro a respeito das vantagens dela, dizendo que a aprendera com o Dr. Belém.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não conheceram o Dr. Belém? perguntou ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não, responderam todos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Era um homem extremamente singular. No tempo em que me ensinou alemão usava duma grande casaca que lhe chegava quase aos tornozelos e trazia na cabeça um chapéu-do-chile de abas extremamente largas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Devia ser pitoresco, observou um dos rapazes. Tinha instrução?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Variadíssima. Compusera um romance, e um livro de teologia e descobrira um planeta...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas esse homem?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Esse homem vivia em Minas. Veio à corte para imprimir os dois livros, mas não achou editor e preferiu rasgar os manuscritos. Quanto ao planeta comunicou a notícia à Academia das Ciências de Paris; lançou a carta no correio e esperou a resposta; a resposta não veio porque a carta foi parar a Goiás.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dos convivas sorriu maliciosamente para os outros, com ar de quem dizia que era muita desgraça junta. A atitude porém do narrador tirou-lhe o gosto do riso. Alberto (era o nome do narrador) tinha os olhos no chão, olhos melancólicos de quem se rememora com saudade de uma felicidade extinta. Efetivamente suspirou depois de algum tempo de muda e vaga contemplação, e continuou:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Desculpem-me este silêncio, não me posso lembrar daquele homem sem que uma lágrima teime em rebentar-me dos olhos. Era um excêntrico, talvez não fosse, não era decerto um homem completamente bom; mas era meu amigo; não direi o único mas o maior que jamais tive na minha vida. Como era natural, estas palavras de Alberto alteraram a disposição de espírito do auditório. O narrador ainda esteve silencioso alguns minutos. De repente sacudiu a cabeça como se expelisse lembranças importunas do passado, e disse:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Para lhes mostrar a excentricidade do Dr. Belém basta contar-lhes a história do esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A palavra esqueleto aguçou a curiosidade dos convivas; um romancista aplicou o ouvido para não perder nada da narração; todos esperaram ansiosamente o esqueleto do Dr. Belém. Batia justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia funebremente na praia. Estava-se em pleno Hoffmann. Alberto começou a narração.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Dr. Belém era um homem alto e magro; tinha os cabelos grisalhos e caídos sobre os ombros; em repouso era reto como uma espingarda; quando andava curvava-se um pouco. Conquanto o seu olhar fosse muitas vezes meigo e bom, tinha lampejos sinistros, e às vezes, quando ele meditava, ficava com olhos como de defunto. Representava ter sessenta anos, mas não tinha efetivamente mais de cinqüenta. O estudo o abatera muito, e os desgostos também, segundo ele dizia, nas poucas vezes em que me falara do passado, e era eu a única pessoa com quem ele se comunicava a esse respeito. Podiam contar-se-lhe três ou quatro rugas pronunciadas na cara, cuja pele era fria como o mármore e branca como a de um morto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dia, justamente no fim da minha lição, perguntei-lhe se nunca fora casado. O doutor sorriu sem olhar para mim. Não insisti na pergunta; arrependi-me até de lha ter feito.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Fui casado, disse ele, depois de algum tempo, e daqui a três meses posso dizer outra vez: sou casado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Vai casar?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Vou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Com quem?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Com a D. Marcelina.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
D. Marcelina era uma viúva de Ouro Preto, senhora de vinte e seis anos, não formosa, mas assaz simpática, possuía alguma cousa, mas não tanto como o doutor, cujos bens orçavam por uns sessenta contos. Não me constava até então que ele fosse casar; ninguém falara nem suspeitara tal cousa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Vou casar, continuou o Doutor, unicamente porque o senhor me falou nisso. Até cinco minutos antes nenhuma intenção tinha de semelhante ato. Mas a sua pergunta faz-me lembrar que eu efetivamente preciso de uma companheira; lancei os olhos da memória a todas as noivas possíveis, e nenhuma me parece mais possível do que essa. Daqui a três meses assistirá ao nosso casamento. Promete?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Prometo, respondi eu com um riso incrédulo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não será uma formosura.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas é muito simpática, decerto, acudi eu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Simpática, educada e viúva. Minha idéia é que todos os homens deviam casar com senhoras viúvas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Quem casaria então com as donzelas?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Os que não fossem homens, respondeu o velho, como o senhor e a maioria do gênero humano; mas os homens, as criaturas da minha têmpera, mas... O doutor estacou, como se receasse entrar em maiores confidências, e tornou a falar da viúva Marcelina cujas boas qualidades louvou com entusiasmo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não é tão bonita como a minha primeira esposa, disse ele. Ah! essa... Nunca a viu?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Nunca.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É impossível.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É a verdade. Já o conheci viúvo, creio eu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Bem; mas eu nunca lha mostrei. Ande vê-la. ..&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Levantou-se; levantei-me também. Estávamos assentados à porta; ele levou-me a um gabinete interior. Confesso que ia ao mesmo tempo curioso e aterrado. Conquanto eu fosse amigo dele e tivesse provas de que ele era meu amigo, tanto medo inspirava ele ao povo, e era efetivamente tão singular, que eu não podia esquivar-me a um tal ou qual sentimento de medo. No fundo do gabinete havia um móvel coberto com um pano verde; o doutor tirou o pano e eu dei um grito. Era um armário de vidro, tendo dentro um esqueleto. Ainda hoje, apesar dos anos que lá vão, e da mudança que fez o meu espírito, não posso lembrar-me daquela cena sem terror.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É minha mulher, disse o Dr. Belém sorrindo. É bonita, não lhe parece? Está na espinha, como vê. De tanta beleza, de tanta graça, de tanta maravilha que me encantaram outrora, que a tantos mais encantaram, que lhe resta hoje? Veja, meu jovem ele! o meu bom e compassivo mestre!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com estas idéias fui logo de manhã à casa do Dr. Belém. Achei-o a almoçar sozinho, como sempre, servido por um escravo da mesma idade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Entre, Alberto, disse o doutor apenas me viu à porta. Quer almoçar?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Aceito.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— João, um prato.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Almoçamos alegremente; o doutor estava como me parecia na maior parte das vezes conversando de cousas sérias ou frívolas, misturando uma reflexão filosófica com uma pilhéria, uma anedota de rapaz com uma citação de Virgílio. No fim do almoço tornou a falar do seu casamento.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas então pensa nisso deveras?... perguntei eu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Por que não? Não depende senão dela; mas eu estou quase certo de que ela nãorecusa. Apresenta-me lá?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Às suas ordens.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No dia seguinte era apresentado o Dr. Belém em casa da viúva Marcelina e recebido com muita afabilidade. &quot;Casar-se-á deveras com ela?&quot; dizia eu a mim mesmo espantado do que via, porque, além da diferença da idade entre ele e ela, e das maneiras excêntricas dele, havia um pretendente à mão da bela viúva, o Tenente Soares. Nem a viúva nem o tenente imaginavam as intenções do Dr. Belém; daqui podem já imaginar o pasmo de D. Marcelina quando ao cabo de oito dias, perguntou-lhe o meu mestre, se ela queria casar com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Nem com o senhor nem com outro, disse a viúva; fiz voto de não casar mais.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Por quê? perguntou friamente o doutor.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Porque amava muito a meu marido.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não tolhe isso que ame o segundo, observou o candidato sorrindo. E depois de algum tempo de silêncio:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não insisto, disse ele, nem faço aqui uma cena dramática. Eu amo-a deveras, mas é um amor de filósofo, um amor como eu entendo que deviam ser todos. Entretanto deixe-me ter esperança; pedir-lhe-ei mais duas vezes a sua mão. Se da última nada alcançar consinta-me que fique sendo seu amigo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Dr. Belém foi fiel a este programa. Dali a mês pediu outra vez a mão da viúva, e teve a mesma recusa, mas talvez menos peremptória do que a primeira. Deixou passar seis semanas, e repetiu o pedido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Fui jantar com eles no fim de uma semana; D. Marcelina parecia mais que nunca feliz; o Dr. Belém não o estava menos. Até parecia outro. A mulher começava a influir nele, sendo já uma das primeiras conseqüências a supressão da singular casaca . O doutor consentiu em vestir-se menos excentricamente.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Veste-me como quiseres, dizia ele à mulher; o que não poderás fazer nunca é mudar- me a alma. Isso nunca.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Nem quero.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Nem podes.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Parecia que os dois estavam destinados a gozar uma eterna felicidade. No fim de um mês fui lá, e achei-a triste. &quot;Oh! disse eu comigo, cedo começam os arrufos.&quot; O doutor estava como sempre. Líamos então e comentávamos à nossa maneira o Fausto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nesse dia pareceu-me o Dr. Belém mais perspicaz e engenhoso que nunca. Notei, entretanto, uma singular pretensão: um desejo de se parecer com Mefistófeles. Aqui confesso que não pude deixar de rir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Doutor, disse eu, creio que o senhor abusa da amizade que lhe tenho para zombar comigo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Sim?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Aproveita-se da opinião de excêntrico para me fazer crer que é o diabo...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ouvindo esta última palavra, o doutor persignou-se todo, e foi a melhor afirmativa que me poderia fazer de que não ambicionava confundir-se com o personagem aludido. Sorriu-se depois benevolamente, tomou uma pitada e disse:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ilude-se meu amigo, quando me atribui semelhante idéia, do mesmo modo que se engana quando supõe que Mefistófeles é isso que diz.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Essa agora!...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Noutra ocasião lhe direi as minhas razões. Por agora vamos jantar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Obrigado. Devo ir jantar com meu cunhado. Mas, se me permite ficarei ainda algum tempo aqui lendo o seu Fausto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor não pôs objeção; eu era íntimo da casa. Saiu dali para a sala do jantar. Li aind durante vinte minutos, findos os quais fechei o livro e fui despedir-me do Dr. Belém e sua senhora. Caminhei por um corredor fora que ia ter à sala do jantar. Ouvia mover os pratos, mas nenhuma palavra soltavam os dois casados.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;O arrufo continua&quot;, pensei eu. Fui andando... Mas qual não foi a minha surpresa ao chegar à porta? O doutor estava de costas, não me podia ver. A mulher tinha os olhos no prato. Entre ele e ela, sentado numa cadeira vi o esqueleto. Estaquei aterrado e trêmulo. Que queria dizer aquilo? Perdia-me em conjeturas; cheguei a dar um passo para falar ao doutor, mas não me atrevi; voltei pelo mesmo caminho, peguei no chapéu, e deitei a correr pela rua fora.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em casa de meu cunhado todos notaram os sinais de temor que eu ainda levava no rosto. Perguntaram-me se havia visto alguma alma do outro mundo. Respondi sorrindo que sim; mas nada contei do que acabava de presenciar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Durante três dias não fui à casa do doutor. Era medo, não do esqueleto, mas do dono da casa, que se me afigurava ser um homem mau ou um homem doudo. Todavia, ardia por saber a razão da presença do esqueleto na mesa do jantar. D. Marcelina podia dizer-me tudo; mas como indagaria isso dela, se o doutor estava quase sempre em casa?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No terceiro dia apareceu-me em casa o Doutor Belém.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Três dias! disse ele, há já três dias que eu não tenho a fortuna de o ver. Onde anda? Está mal conosco?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Tenho andado doente, respondi eu, sem saber o que dizia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— E não me mandou dizer nada, ingrato! Já não é meu amigo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A doçura destas palavras dissipou os meus escrúpulos. Era singular como aquele homem, que por certos hábitos, maneiras e idéias, e até pela expressão física, assustava a muita gente e dava azo às fantasias da superstição popular, era singular, repito, como me falava às vezes com uma meiguice incomparável e um tom patriarcalmente benévolo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Conversamos um pouco e fui obrigado a acompanhá-lo à casa. A mulher ainda me pareceu triste, mas um pouco menos que da outra vez. Ele tratava-a com muita ternura e consideração, e ela se não respondia alegre, ao menos falava com igual meiguice. No Meio da conversa vieram dizer que o jantar estava na mesa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Agora há de jantar conosco, disse ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não posso, balbuciei eu, devo ir...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não deve ir a nenhuma parte, atalhou o doutor; parece-me que quer fugir de mim. Marcelina, pede ao Dr. Alberto que jante conosco.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
D. Marcelina repetiu o pedido do marido, mas com um ar de constrangimento visível. Ia recusar de novo, mas o doutor teve a precaução de me agarrar no braço e foi impossíve recusar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Deixe-me ao menos dar o braço a sua senhora, disse eu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Pois não.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dei o braço a D. Marcelina que estremeceu. O doutor passou adiante. Eu inclinei a boca ao ouvido da pobre senhora e disse baixinho:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Que mistério há?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
D. Marcelina estremeceu outra vez e com um sinal impôs-me silêncio. Chegamos à sala de jantar. Apesar de já ter presenciado a cena do outro dia não pude resistir à impressão que me causou a vista do esqueleto que lá estava na cadeira em que o vira com os braços sobre a mesa. Era horrível.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Já lhe apresentei minha primeira mulher, disse o doutor para mim; são conhecidos antigos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sentamo-nos à mesa; o esqueleto ficou entre ele e D. Marcelina; eu fiquei ao lado desta. Até então não pude dizer palavra; era porém natural que exprimisse o meu espanto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Doutor, disse eu, respeito os seus hábitos; mas não me dará a explicação deste?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Este qual? disse ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com um gesto indiquei-lhe o esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ah!... respondeu o doutor; um hábito natural; janto com minhas duas mulheres.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Confesse ao menos que é um uso original.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Queria que eu copiasse os outros?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não, mas a piedade com os mortos...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Atrevi-me a falar assim porque, além de me parecer aquilo uma profanação, a melancolia da mulher parecia pedir que alguém falasse duramente ao marido e procurasse trazê-lo a melhor caminho.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor deu uma das suas singulares gargalhadas, e estendendo-me o prato de sopa e replicou:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— O senhor fala de uma piedade de convenção; eu sou pio à minha maneira. Não é respeitar uma criatura que amamos em vida, o trazê-la assim conosco, depois de morta?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não respondi cousa nenhuma a estas palavras do doutor. Comi silenciosamente a sopa, e o mesmo fez a mulher, enquanto ele continuou a desenvolver as suas idéias a respeito dos mortos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— O medo dos mortos, disse ele, não é só uma fraqueza, é um insulto, uma perversidade do coração. Pela minha parte dou-me melhor com os defuntos do que com os vivos. E depois de um silêncio:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Confesse, confesse que está com medo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Fiz-lhe um sinal negativo com a cabeça.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É medo, é, como esta senhora que está ali transida de susto, porque ambos são dois maricas. Que há entretanto neste esqueleto, que possa meter medo? Não lhes digo que seja bonito; não é bonito segundo a vida, mas é formosíssimo segundo a morte. Lembrem-se que isto somos nós também; nós temos de mais um pouco de carne.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Só? perguntei eu intencionalmente.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor sorriu-se e respondeu:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Só.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Parece que fiz um gesto de aborrecimento, porque ele continuou logo:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não tome ao pé da letra o que lhe disse. Eu também creio na alma; não creio só, demonstro-a, o que não é para todos. Mas a alma foi-se embora; não podemos retê-la; guardemos isto ao menos que é uma parte da pessoa amada. Ao terminar estas palavras, o doutor beijou respeitosamente a mão do esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Estremeci e olhei para D. Marcelina. Esta fechara os olhos. Eu estava ansioso por terminar aquela cena que realmente me repugnava presenciar. O doutor não parecia reparar em nada. Continuou a falar no mesmo assunto, e por mais esforços que eu fizesse para o desviar dele era impossível.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Estávamos à sobremesa quando o doutor, interrompendo um silêncio que durava já havia dez minutos perguntou:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— E segundo me parece, ainda lhe não contei a história deste esqueleto, quero dizer a história de minha mulher?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não me lembra, murmurei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— E a ti? disse ele voltando-se para a mulher.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Já.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Foi um crime, continuou ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Um crime?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Cometido por mim.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Pelo senhor?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É verdade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor concluiu um pedaço de queijo, bebeu o resto do vinho que tinha no copo, e repetiu:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É verdade, um crime de que fui autor. Minha mulher era muito amada de seu marido; não admira, eu sou todo coração. Um dia porém, suspeitei que me houvesse traído; vieram dizer-me que um moço da vizinhança era seu amante. Algumas aparências me enganaram. Um dia declarei-lhe que sabia tudo, e que ia puni-la do que me havia feito. Luísa caiu-me aos pés banhada em lágrimas protestando pela sua inocência. Eu estava cego; matei-a.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Imagina-se, não se descreve a impressão de horror que estas palavras me causaram. Os cabelos ficaram-me em pé. Olhei para aquele homem, para o esqueleto, para a senhora, e passava a mão pela testa , para ver se efetivamente estava acordado, ou se aquilo era apenas um sonho.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor tinha os olhos fitos no esqueleto e uma lágrima lhe caía lentamente pela face. Estivemos todos calados durante cerca de dez minutos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor rompeu o silêncio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Tempos depois, quando o crime estava de há muito cometido, sem que a justiça o soubesse, descobri que Luísa era inocente. A dor que então sofri foi indescritível; eu tinha sido o algoz de um anjo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Estas palavras foram ditas com tal amargura que me comoveram profundamente. Era claro que ainda então, após longos anos do terrível acontecimento, o doutor sentia o remorso do que praticara e a mágoa de ter perdido a esposa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A própria Marcelina parecia comovida. Mas a comoção dela era também medo; segundo vim a saber depois, ela receava que no marido não estivessem íntegras as faculdades mentais.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Era um engano. O doutor era, sim, um homem singular e excêntrico; doido lhe chamavam os que, por se pretenderem mais espertos que o vulgo, repeliam os contos da superstição. Estivemos calados algum tempo e dessa vez foi ainda ele que interrompeu o silêncio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Não lhes direi como obtive o esqueleto de minha mulher. Aqui o tenho e o conservarei até à minha morte. Agora naturalmente deseja saber por que motivo o trago para a mesa depois que me casei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não respondi com os lábios, mas os meus olhos disseram-lhe que efetivamente desejava saber a explicação daquele mistério.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— É simples, continuou ele; é para que minha segunda mulher esteja sempre ao pé da minha vítima, a fim de que se não esqueça nunca dos seus deveres, porque, então como sempre, é mui provável que eu não procure apurar a verdade; farei justiça por minhas mãos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta última revelação do doutor pôs termo à minha paciência. Não sei o que lhe disse, mas lembra-me que ele ouviu-me com o sorriso benévolo que tinha às vezes, e respondeu-me com esta simples palavra:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Criança!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Saí pouco depois do jantar, resolvido a lá não voltar nunca. A promessa não foi cumprida. Mais de uma vez o Doutor Belém mandou à casa chamar-me; não fui. Veio duas ou três vezes instar comigo que lá fosse jantar com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ou, pelo menos, conversar, concluiu.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pretextei alguma cousa e não fui. Um dia porém, recebi um bilhete da mulher. Dizia-me que era eu a única pessoa estranha que lá ia; pedia-me que não a abandonasse.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Fui. Eram então passados quinze dias depois do célebre jantar em que o doutor me referiu história do esqueleto. A situação entre os dois era a mesma; aparente afabilidade da parte dela, mas na realidade medo. O doutor mostrava-se afável e terno, como sempre o vira com ela. Justamente nesse dia, anunciou-me ele que pretendia ir a uma jornada dali a algumas léguas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas vou só, disse ele, e desejo que o senhor me faça companhia a minha mulher vindo aqui algumas vezes.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Recusei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Por quê?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Doutor, por que razão, sem urgente necessidade, daremos pasto às más línguas? Que se dirá...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Tem razão, atalhou ele; ao menos, faça-me uma cousa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— O quê?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Faça com que em casa de sua irmã possa Marcelina ir passar as poucas semanas de minha ausência.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Isso com muito gosto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Minha irmã concordou em receber a mulher do Dr. Belém, que daí a pouco saía da capital para o interior. Sua despedida foi terna e amigável para com ambos nós, a mulher e eu; fomos os dois, e mais minha irmã e meu cunhado acompanhá-lo até certa distância, e voltamos para casa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pude então conversar com D. Marcelina, que me comunicou os seus receios a respeito da razão do marido. Dissuadi-a disso; já disse qual era a minha opinião a respeito do Dr. Belém. Ela referiu-me então que a narração da morte da mulher já ele lha havia feito, prometendo-lhe igual sorte no caso de faltar aos seus deveres.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Nem as aparências te salvarão, acrescentou ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Disse-me mais que era seu costume beijar repetidas vezes o esqueleto da primeira mulher e dirigir-lhe muitas palavras de ternura e amor. Uma noite, estando a sonhar com ela, levantou-se da cama e foi abraçar o esqueleto pedindo-lhe perdão.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em nossa casa todos eram de opinião que D. Marcelina não voltasse mais para a companhia do Dr. Belém. Eu era de opinião oposta.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ele é bom, dizia eu, apesar de tudo; tem extravagâncias, mas é um bom coração.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No fim de um mês recebemos uma carta do doutor, em que dizia à mulher fosse ter ao lugar onde ele se achava, e que eu fizesse o favor de a acompanhar. Recusei ir só com ela. Minha irmã e meu cunhado ofereceram-se porém para acompanhá-la. Fomos todos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Havia entretanto uma recomendação na carta do doutor, recomendação essencial; ordenava ele à mulher que levasse consigo o esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Que esquisitice nova é essa? disse meu cunhado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Há de ver, suspirou melancolicamente D. Marcelina, que o único motivo desta minha viagem, são as saudades que ele tem do esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eu nada disse, mas pensei que assim fosse. Saímos todos em demanda do lugar onde nos esperava o doutor. Íamos já perto, quando ele nos apareceu e veio alegremente cumprimentar-nos. Notei que não tinha a ternura de costume com a mulher, antes me pareceu frio. Mas isso foi obra de pouco tempo; daí a uma hora voltara a ser o que sempre fora.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Passamos dois dias na pequena vila em que o doutor estava, dizia ele, para examinar umas plantas, porque também era botânico. Ao fim de dois dias dispúnhamos a voltar para a capital; ele porém pediu que nos demorássemos ainda vinte e quatro horas e voltaríamos todos juntos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Acedemos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No dia seguinte de manhã convidou a mulher a ir ver umas lindas parasitas no mato que ficava perto. A mulher estremeceu, mas não ousou recusar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
—Vem também? disse ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Vou, respondi.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mulher cobrou alma nova e deitou-me um olhar de agradecimento. O doutor sorriu à socapa. Não compreendi logo o motivo do riso; mas daí a pouco tempo tinha a explicação. Fomos ver as parasitas, ele adiante com a mulher, eu atrás de ambos, e todos três silenciosos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não tardou que um riacho aparecesse aos nossos olhos; mas eu mal pude ver o riacho; o que eu vi, o que me fez recuar um passo, foi um esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dei um grito.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Um esqueleto! exclamou D. Marcelina.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Descansem, disse o doutor, é o de minha primeira mulher.— Mas...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Trouxe-o esta madrugada para aqui.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nenhum de nós compreendia nada. O doutor sentou-se numa pedra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Alberto, disse ele, e tu, Marcelina. Outro crime devia ser cometido nesta ocasião; mas tanto te amo, Alberto, tanto te amei, Marcelina, que eu prefiro deixar de cumprir a minha promessa...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ia interrompê-lo; mas ele não me deu ocasião.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Vocês amam-se, disse ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Marcelina deu um grito; eu ia protestar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Amam-se que eu sei, continuou friamente o doutor; não importa! É natural. Quem amaria um velho estúrdio como eu? Paciência. Amem-se; eu só fui amado uma vez; foi por esta.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dizendo isto abraçou-se ao esqueleto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Doutor, pense no que está dizendo...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Já pensei...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas esta senhora é inocente. Não vê aquelas lágrimas?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Conheço essas lágrimas; lágrimas não são argumentos. Amam-se, que eu sei; desejo que sejam felizes, porque eu fui e sou teu amigo, Alberto. Não merecia certamente isso...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Oh! meu amigo, interrompi eu, veja bem o que está dizendo; já uma vez foi levado a cometer um crime por suspeitas que depois soube serem infundadas. Ainda hoje padece o remorso do que então fez. Reflita, veja bem se eu posso tolerar semelhante calúnia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele encolheu os ombros, meteu a mão no bolso, e tirou um papel e deu-mo a ler. Era uma carta anônima; soube depois que fora escrita pelo Soares.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Isto é indigno! clamei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Talvez, murmurou ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E depois de um silêncio:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Em todo o caso, minha resolução está assentada, disse o doutor. Quero fazê-los felizes, e só tenho um meio: é deixá-los. Vou com a mulher que sempre me amou. Adeus!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O doutor abraçou o esqueleto e afastou-se de nós. Corri atrás dele; gritei; tudo foi inútil; ele metera-se no mato rapidamente, e demais a mulher ficara desmaiada no chão.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vim socorrê-la; chamei gente. Daí a uma hora, a pobre moça, viúva sem o ser, lavava-se em lágrimas de aflição.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Alberto acabara a história.— Mas é um doido esse teu Dr. Belém! Exclamou um dos convivas rompendo o silêncio de terror em que ficara o auditório.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ele doido? disse Alberto. Um doido seria efetivamente se porventura esse homem tivesse existido. Mas o Dr. Belém não existiu nunca, eu quis apenas fazer apetite para tomar chá. Mandem vir o chá.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É inútil dizer o efeito desta declaração.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/12/machado-de-assis-o-esqueleto.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbj-atJAxty9qfWry0MmtiILI24wJFwM-deOt8bGBcVbYftEKu_gTmVy0v3Bhy-GeWAQGr4iNJuA3YqefWJS40N-VJh0MIP4pyuTqJu4YpnRo73io_SbJiMxAd5xdOqmKszP1tsJPROxWg/s72-c/caveira.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-4230919749712810325</guid><pubDate>Tue, 30 Dec 2014 02:47:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-12-29T23:48:17.600-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto O Esqueleto (M. de Assis)</title><description>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhw7J3mfHfG11r2PpowletLV0OAeMhaKJ6tmAkdBnRADtq4CLmj9ML45pWEEURmGgZ6Deu4zZovvSPWU-7AZmZWu3XJI_gvNBPtN_N4OyFq8TSrTfnfou-Ir8B2upjyrRNPViK7HM9ABoI/s1600/Machado+de+assis.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhw7J3mfHfG11r2PpowletLV0OAeMhaKJ6tmAkdBnRADtq4CLmj9ML45pWEEURmGgZ6Deu4zZovvSPWU-7AZmZWu3XJI_gvNBPtN_N4OyFq8TSrTfnfou-Ir8B2upjyrRNPViK7HM9ABoI/s1600/Machado+de+assis.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto “Um esqueleto” tem seu tema baseado em um fato real macabro, e “...o tal esqueleto seria o de uma cantora lírica francesa, a bela Eugênia Mege, que ao chegar ao Brasil se apaixonara por um médico de grande clínica da antiga capital do Império, o Dr. Antônio José Peixoto. Assassinada pelo marido ciumento, seu corpo fora depois roubado da sepultura pelo amante, que lhe armara o esqueleto e o colocara, numa vitrina, em seu consultório, como um caçador ardente que colecionasse os seus troféus” .&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O louco que protagoniza a narrativa é um insano. Assim, a trama desenrola-se entre peripécias medonhas que devem ter feito correr um calafrio pelas alvas e castas espinhas das leitoras oitocentistas do Jornal das Famílias. O epílogo é, entretanto, abrandado pelo mesmo artifício de outras narrativas: o nefasto personagem Dr. Belém, um doente mental, seria realmente um louco. Se tivesse existido... “Mas o Dr. Belém não existiu nunca - pondera Machado - eu quis apenas fazer apetite para o chá...”. E o autor reduz a narrativa, aterradora até então, aos “cestos de costuras”.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Um esqueleto” apresenta a realidade, prosaica, em contraponto ao fantasmagórico, arrepiante. Há nestas narrativas alguma influência dos autores fantásticos de seu tempo, como E. T. A. Hoffmann e Edgar Allan Poe, ainda que Machado desfaça os efeitos suscitados pelo insólito com uma brusca retomada da realidade, pondo fim ao efeito fantástico e, consequentemente, projetando a narrativa no âmbito do “estranho”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Concluindo, nos contos fantásticos machadianos, não há a justificativa/explicação para os “fenômenos” narrados; elas são dissolvidas, quase sempre, pela simples dissolução do efeito fantástico “quase-macabro” ou seja, o horror diluído, desmanchado no final da narrativa, como pode ser visto em “O Esqueleto”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhg6MGHT6qMvavF8kHfD5h4vDemMEK9nZccDmH59g29UFXh_CMo-YL8a2mXvy6KAFiUsmP-dtB2ClYGHwwHMTqiMj46YyjbqFIibuAbm-UivUvo4IHj9pS8PSJmg-k3xqMIQVAiAOgqWPSs/s1600/rosasbelas.png&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhg6MGHT6qMvavF8kHfD5h4vDemMEK9nZccDmH59g29UFXh_CMo-YL8a2mXvy6KAFiUsmP-dtB2ClYGHwwHMTqiMj46YyjbqFIibuAbm-UivUvo4IHj9pS8PSJmg-k3xqMIQVAiAOgqWPSs/s1600/rosasbelas.png&quot; height=&quot;226&quot; width=&quot;320&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/12/comentario-do-contoo-esqueleto-m-de.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhw7J3mfHfG11r2PpowletLV0OAeMhaKJ6tmAkdBnRADtq4CLmj9ML45pWEEURmGgZ6Deu4zZovvSPWU-7AZmZWu3XJI_gvNBPtN_N4OyFq8TSrTfnfou-Ir8B2upjyrRNPViK7HM9ABoI/s72-c/Machado+de+assis.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-5274710968050355633</guid><pubDate>Fri, 19 Sep 2014 00:30:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-09-18T21:30:30.686-03:00</atom:updated><title>Fernando Sabino,  A mulher do vizinho</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjA57djfQmF7NYwPAtWf2j2GfgJnjWbWVDbGcsCUOB-PLSd6kMzgpWw6MfwMFFdYgML-yxLrI6t-JDV8k515AW7ER7Kn5Qvg9a-xb4acexts8AcXf1HXph5QezdvRAsUW0prxSgaBLjufYO/s1600/_0001799.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjA57djfQmF7NYwPAtWf2j2GfgJnjWbWVDbGcsCUOB-PLSd6kMzgpWw6MfwMFFdYgML-yxLrI6t-JDV8k515AW7ER7Kn5Qvg9a-xb4acexts8AcXf1HXph5QezdvRAsUW0prxSgaBLjufYO/s1600/_0001799.jpg&quot; height=&quot;200&quot; width=&quot;133&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Da ativa, minha senhora?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Da ativa, Motinha! Sai dessa...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Texto extraído do livro &quot;Fernando Sabino - Obra Reunida - Vol.01&quot;, Editora Nova Aguiar - Rio de Janeiro, 1996, pág. 872.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
COMENTÁRIO DO CONTO&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mulher do vizinho” é outro conto de Sabino incluso nessa antologia acima mencionada.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Narrado em 3ª pessoa, a estória conta sobre um general que vai ao delegado reclamar dos filhos do vizinho sueco que jogavam futebol na rua e a bola às vezes bate em seu carro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O delegado, um homem arrogante, grosseiro, bajulador e covarde, para agradar ao general chama o sueco à delegacia. Este vai com sua mulher. Por parecer humilde, vestido com simplicidade e de poucas falas (*na verdade era grande empresário) o delegado abre o verbo, cheio de empáfia, humi-lhando o sueco de forma autoritária e exagerada: “Eu ensino o senhor a cumprir a lei. Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos.”&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O sueco, sem dizer uma palavra que não fosse pedir licença para se retirar, fez menção de sair, mas a sua mulher, indignada com a forma agressiva, desrespeitosa e intimidadora como foram tratados, sem papas na língua, contesta com veemência o desaforado delegado, deixando-o encurralado, encolhido de medo : “Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo. Sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou?”  A covardia do Delegado ficou evidente ao  encolher-se após saber  quem era a mulher do sueco. Excelente crítica do autor ao abuso de poder...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Moral da estória: você sabe com quem está falando?&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/09/fernando-sabino-mulher-do-vizinho.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjA57djfQmF7NYwPAtWf2j2GfgJnjWbWVDbGcsCUOB-PLSd6kMzgpWw6MfwMFFdYgML-yxLrI6t-JDV8k515AW7ER7Kn5Qvg9a-xb4acexts8AcXf1HXph5QezdvRAsUW0prxSgaBLjufYO/s72-c/_0001799.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-9187083155033430865</guid><pubDate>Fri, 01 Aug 2014 03:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-08-01T00:01:40.861-03:00</atom:updated><title>O Pirotécnico Zacarias, Murilo Rubião.</title><description>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB5u0HsqQt6tCDfYG7rFjUQQ9bGIXXGp9sGaI-igbh6cf8YAJuou5R2gZzezTUYrxsiSJPkvZCMLCgnho8CDpuPStaYmVks0kN3brYigqCV4SJAdrbigg9_50bcz0Vx4U2EzmTdlj_2CM3/s1600/conto-fantastico.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB5u0HsqQt6tCDfYG7rFjUQQ9bGIXXGp9sGaI-igbh6cf8YAJuou5R2gZzezTUYrxsiSJPkvZCMLCgnho8CDpuPStaYmVks0kN3brYigqCV4SJAdrbigg9_50bcz0Vx4U2EzmTdlj_2CM3/s1600/conto-fantastico.jpg&quot; height=&quot;139&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&quot;E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d&#39;alva.”..(Jó, XI, 17)&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?...A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em verdade morri, o que vem de encontro à versão dos que crêem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Presente!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- &quot;Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não está?.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Tire a mão da boca, Zacarias!.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Quantos são os continentes?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- E a Oceania?.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam D. Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Simplício Santana de Alvarenga!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Meninos, amai a verdade!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu. Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens. Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria. Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver - o meu ensangüentado cadáver - não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A idéia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Neste ponto eles estavam redonda- mente enganados, como explicarei mais tarde.).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um dos moços, rapazola forte e imberbe - o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos -, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho - assim lhe chamavam - e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado. Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Este argumento não me ocorreu no momento.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso. Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma idéia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos Jornais..... Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Alto lá! Também quero ser ouvido!....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me. Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível. A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saida que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuidos aos vivos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento. Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, que me prontifiquei a fazer rapidamente.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao clarear o dia saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou.....&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos que Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença que aquele era vivo e este, um defunto. Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos...&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
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Autor: Murilo Rubião.&lt;/div&gt;
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Imagem na postagem: A capa do livro O Pirotécnico Zacarias. S. Paulo: Editora Ática, 1978.&lt;/div&gt;
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Barrinhas Gifs&lt;/div&gt;
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsA45NL4dAkpnX61htwRW-i5H6-kFVxRpO6vivsjHAv35oAZcFBe-nLOa90Sd5AvxMYT9XioZqDtD21vdZx1p1sfqbTx3_AdfH88RxB5po_uczA2ocs5K2x3GvnXsw4H1SCWf_scvSDTk/s1600/13animation006ss5.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsA45NL4dAkpnX61htwRW-i5H6-kFVxRpO6vivsjHAv35oAZcFBe-nLOa90Sd5AvxMYT9XioZqDtD21vdZx1p1sfqbTx3_AdfH88RxB5po_uczA2ocs5K2x3GvnXsw4H1SCWf_scvSDTk/s1600/13animation006ss5.gif&quot; style=&quot;cursor: move;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/08/e-se-levantara-pela-tarde-sobre-ti-uma.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB5u0HsqQt6tCDfYG7rFjUQQ9bGIXXGp9sGaI-igbh6cf8YAJuou5R2gZzezTUYrxsiSJPkvZCMLCgnho8CDpuPStaYmVks0kN3brYigqCV4SJAdrbigg9_50bcz0Vx4U2EzmTdlj_2CM3/s72-c/conto-fantastico.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-1415112107625816692</guid><pubDate>Fri, 01 Aug 2014 02:57:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-12-30T11:01:49.091-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto O Pirotécnico Zacarias&quot;.</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiHDNSqkgB-ycrvtNhfN6IJR7z3Zyf9Hg43j0DqUjRIlWy4oihESLPMXb9MLMalh5Vp7A1gkC5c1VJpOZI328fndOOT1mGmmoVA5qGXY1uTvgjOXeK7BcDZozkNHz9DbWCvzzZz5G9DCUI9/s1600/img.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiHDNSqkgB-ycrvtNhfN6IJR7z3Zyf9Hg43j0DqUjRIlWy4oihESLPMXb9MLMalh5Vp7A1gkC5c1VJpOZI328fndOOT1mGmmoVA5qGXY1uTvgjOXeK7BcDZozkNHz9DbWCvzzZz5G9DCUI9/s1600/img.jpg&quot; height=&quot;200&quot; width=&quot;200&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Pirotécnico Zacarias é um dos melhores contos de Murilo Rubião. Nele, temos um narrador autodiegético (um narrador que protagoniza a história que narra) e que, considerando se trata de um “morto vivo”, instaura o efeito fantástico na narrativa, na medida em que, paradoxalmente, narra a própria morte, movimentando-se em um plano no qual estão eliminados os limites entre VIDA e MORTE. Tal condição abre espaço para Zacarias transitar livremente de um estado para outro, além de permitir que ele viva simultaneamente esses dois estados antagônicos e inconciliáveis.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta insólita situação rompe radicalmente com o princípios da lógica, resvalando para uma inconcebível contradição, na proporção em que contraria o princípio estabelecido segundo o qual duas proposições que mutuamente se contradizem não podem ser consideradas verdadeiras e, portanto, jamais será possível afirmar e negar concomitantemente a mesma coisa, sob pena de provocar uma negação do real. A transgressão de tal princípio significaria o advento de uma nova lógica que irromperia sob a égide do princípio da contradição, via absurdo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta lógica contraditória e insólita é a que rege a instauração do fantástico muriliano neste conto, na qual qualquer tipo de diferença é banida, permitindo que estados tão diferenciados, antinômicos e inconciliáveis sejam nivelados, confundindo-se no indizível do fantástico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No próprio conto são levantadas algumas respostas lógicas pelas personagens que tentam encontrar uma explicação para o inusitado fato que testemunham. Daí o surgimento de indagações: “Teria morrido o pirotécnico Zacarias?” As possíveis explicações lógicas e verossímeis são dadas na narrativa, à guisa de excluir ou dirimir o paradoxo instaurador do fantástico. Duas hipóteses de explicação, que reduziria o efeito fantástico a um mero fato natural, sem mistério, são discutidas:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
1) O pirotécnico estaria vivo e o morto não passava de alguém parecido com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
2) O pirotécnico estaria morto e o vivo era alguém parecido com ele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ora bem, a escolha, pelo leitor, de qualquer uma das sugestões dissolveria o paradoxo e, consequentemente, excluiria o elemento fantástico. Todavia, se, por um lado, ambas as escolhas são lógicas e coerentes, ambas neutralizariam o efeito fantástico, por outro lado elas são igualmente possíveis. Sendo assim, a ambigüidade típica do fantástico permaneceria: O pirotécnico poderá estar vivo ou poderá estar morto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto questiona a condição existencial do homem, a sua condição dramática, a sua tragédia individual: Zacarias só tem a sua existência reconhecida depois que morre. Quando era vivo, todos o ignoravam, nunca o perceberam como um ser humano. Ele passa a ter existência no âmbito do trágico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O texto convida a uma reflexão sobre a realidade humana. Afinal, o que é o homem antes e depois de sua morte? Em qual das duas condições ele existe mais? Esta resposta cabe aos leitores responderem.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
______________________&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span class=&quot;Apple-style-span&quot; style=&quot;color: #010101; font-family: &#39;Trebuchet MS&#39;;&quot;&gt;Imagem na postagem: Foto de Murilo Rubião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;margin-left: -9pt; text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIJpdGfdMi5D1psZmq9U9EplvaJzOsgL7eQheD4C0LmNcpfKCj4vOKo9iWi75CHJopSqBV4rb7CQ1c5WoPwYg8w5efAubIXTw5kW_vt2k_PlPWsQaWnXz5WzGi5HUL8_BqqE3HjjEYHbpN/s1600/28518646.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIJpdGfdMi5D1psZmq9U9EplvaJzOsgL7eQheD4C0LmNcpfKCj4vOKo9iWi75CHJopSqBV4rb7CQ1c5WoPwYg8w5efAubIXTw5kW_vt2k_PlPWsQaWnXz5WzGi5HUL8_BqqE3HjjEYHbpN/s1600/28518646.gif&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/07/comentario-do-conto-o-pirotecnico.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiHDNSqkgB-ycrvtNhfN6IJR7z3Zyf9Hg43j0DqUjRIlWy4oihESLPMXb9MLMalh5Vp7A1gkC5c1VJpOZI328fndOOT1mGmmoVA5qGXY1uTvgjOXeK7BcDZozkNHz9DbWCvzzZz5G9DCUI9/s72-c/img.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-2912276560157654092</guid><pubDate>Sun, 20 Jul 2014 03:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-07-20T00:02:59.913-03:00</atom:updated><title>A Mensagem, conto de Clarice Lispector</title><description>&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyB0mAi-iBlSBYJyVhTZEuI_4wBWN1opQt7oMIeAm74uO8vud8wiBUEX979mDRKSLnqrYVlU_DadoAB8MNjBuvFMIbPiupZfiWtQ4BO2FzhaE41CO2HJNojpX6xCcGK4u0KVcscogIGGfT/s1600/ClarisseLispectorPeB.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyB0mAi-iBlSBYJyVhTZEuI_4wBWN1opQt7oMIeAm74uO8vud8wiBUEX979mDRKSLnqrYVlU_DadoAB8MNjBuvFMIbPiupZfiWtQ4BO2FzhaE41CO2HJNojpX6xCcGK4u0KVcscogIGGfT/s1600/ClarisseLispectorPeB.jpg&quot; height=&quot;200&quot; width=&quot;165&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarçar o aceleramento do coração.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas há muito tempo — desde que era jovem — ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termo de &quot;coincidência&quot;. Ou melhor — evoluindo muito e não acreditando nunca mais — ele considerava a expressão &quot;coincidência&quot; um novo truque de palavras e um renovado ludíbrio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntária que a verdadeiramente espantosa coincidência dela também sentir angústia lhe provocara — ele se viu falando com ela na sua própria angústia, e logo com uma moça! Ele que de coração de mulher só recebera o beijo de mãe.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moça! Conversavam também sobre livros, mal podiam esconder a urgência que tinham de pôr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez não porque a expressão fosse mais uma armadilha de que os outros dispõem para enganar os moços. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angústia, fosse pessoa de confiança. Nem em missão ele falaria jamais, embora essa expressão tão perfeita, que ele por assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Naturalmente, o fato dela também sofrer simplificara o modo de se tratar uma moça, conferindo-lhe um caráter masculino. Ele passou a tratá-la como camarada.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ela mesma também passou a ostentar com modéstia aureolada a própria angústia, como um novo sexo. Híbridos — ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e sem terem ainda uma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente — híbridos eles se procuravam, mal disfarçava a gravidade. Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrédula aceitação da coincidência: ele, tão original, ter encontrado alguém que falava a sua língua! Aos poucos compactuaram. Bastava ela dizer, como numa senha, &quot;passei ontem uma tarde ruim&quot;, e ele sabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audácia entre ambos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Até que também a palavra angústia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever.) A palavra angústia passou a tomar aquele tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar de angústia. &quot;Eu já superei esta palavra&quot;, ele sempre superava tudo antes dela, só depois que a moça o alcançava.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a única mulher angustiada. Apesar disso lhe conferir um caráter intelectual, ela também era alerta a essa espécie de equívocos. Pois ambos queriam, acima de tudo, ser autênticos. Ela, por exemplo, não queria erros nem mesmo ao seu favor, queria a verdade, por pior que fosse. Aliás, às vezes tanto melhor se fosse &quot;por pior que fosse&quot;. Sobretudo a moça já começara a não sentir prazer condecorada com o título de homem ao menor sinal que apresentava de... de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por não julgá-la capaz. Embora, se ambos não tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de súbito vir a tona. Eles tomavam cuidado.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas, naturalmente, havia a confusão, falta de possibilidade de explicação, e isso significava tempo que ia passando. Meses mesmo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E apesar da honestidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mãos que estão perto e não se dão, eles não podiam se impedir de se procurar. E isso porque — se na boca dos outros chamá-los de &quot;jovens&quot; lhes era uma injúria — entre ambos &quot;ser jovem&quot; era o mútuo segredo, e a mesma desgraça irremediável. Eles não podiam deixar de se procurar porque, embora hostis — com o repúdio que seres de sexo diferente têm quando não se desejam —, embora hostis, eles acreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O coração ofendido de ambos não perdoava a maneira alheia. Eles eram sinceros. E, por não serem mesquinhos, passavam por cima do fato de ter muita facilidade para mentir — como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginação. Assim continuaram a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros, tão diferentes a ponto de nem se amarem. Aqueles outros que nada faziam senão viver. Vagamente conscientes que havia algo de falso em suas relações. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma só, a desgraça de cada um. Eles apenas concordavam no único ponto que os unia: o erro que havia no mundo e a tácita certeza de que se eles não se salvassem seriam traidores. Quanto a amor, eles não se amavam era claro. Ela até já lhe falava de uma paixão que tivera recentemente com um professor. Ele chegara a lhe dizer — já que ela era como um homem para ele —, chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrível bater de coração, que um rapaz é obrigado a resolver &quot;certos problemas&quot;, se quiser ter a cabeça livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, e ela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu pai sabia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmo, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Que máximo?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Que é, afinal, que eles queriam? Eles não sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores até poder sozinho galgar a maior, a difícil e a impossível; usavam-se para se exercitarem na iniciação; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para enfim - cada um sozinho e liberto — pudesse dar o grande vôo solitário que também significaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outro ser desastrado, um culpando o outro por não ter experiência. Falhavam em cada encontro, como se numa cama se desiludissem. O que é, afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o quê? Eram uns desastrados. Oh, eles não poderiam dizer que eram infelizes sem ter vergonha, por que sabiam que havia os que passam fome; eles comiam com fome e vergonha. Infelizes? Como? Se na verdade tocavam, sem nenhum motivo, num tal ponto extremo de felicidade como se o mundo fosse sacudido e dessa árvore imensa caíssem mil frutos. Infelizes? se eram corpos com sangue como uma flor ao sol. Como? se estavam para sempre sobre as próprias pernas fracas, conturbados, livres, milagrosamente de pé, as pernas dela depiladas, as dele indecisas mas a terminarem em sapatos de número 44. Como poderiam jamais ser infelizes seres assim?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forçando uma continuação da compreensão inicial e casual que nunca se repetira — e sem ao menos se amarem. O ideal os sufocava, o tempo passava inútil, a urgência os chamava — eles não sabiam para o que caminhavam, e o caminho os chamava. Um pedia muito do outro, mas é que ambos tinham a mesmo carência, e jamais procurariam um par mais velho que lhes ensinasse, por que não eram doidos de se entregarem sem mais nem menos ao mundo feio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um modo possível de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, coincidência, caísse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? Ou mesmo encontrarem-se por coincidência na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesia já publicada com o maior despudor nos suplementos de Domingo dos jornais. Poesia era palavra dos mais velhos. E a desconfiança de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa: que um dia serão caçados. Eles já tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar. E, para caçá-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita lábia, e um carinho ainda mais cauteloso — um carinho que não os ofendesse — para, pegando-os desprevenidos, poder capturá-los na rede. E, com mais cautela ainda para não despertá-los, levá-los, astuciosamente para os mundo dos viciados, para o mundo já criado; pois esse era o papel dos adultos e dos espiões. De tão longamente ludibriados, vaidosos da própria amargura, tinham repugnância por palavras, sobretudo quando uma palavra — como poesia — era tão esperta que quase exprimia, e aí então é que mostrava mesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnância pela maioria das palavras, o que estava longe de facilitar-lhes uma comunicação, já que eles ainda não tinham inventado palavras melhores: eles se desentendiam constantemente, obstinados rivais. Poesia? Oh, como eles a detestavam. Como se fosse sexo. Eles também achavam que os outros queriam caçá-los não para o sexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, científicos, exaustos de experiência. Na palavra experiência, sim, eles falavam sem pudor e sem explicá-las: a expressão ia mesmo variando sempre de significado. Experiência às vezes também se confundia com mensagem. Eles usavam ambas as palavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Aliás, não aprofundava nada, como se não houvesse tempo, como se existissem coisas demais sobre as quais trocar idéias. Não percebendo que não trocavam nenhuma idéia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Bem, não era apenas isso, e nem com essa simplicidade. Não era apenas isso: nesse ínterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o coração do tempo era o sobressalto e havia aquele ódio contra o mundo que ninguém lhes diria que era amor desesperado e era piedade, e havia neles a cética sabedoria de velhos chineses, sabedoria que de repente podia quebrar denunciando duas caras que se consternavam por que eles não sabiam como se sentar com naturalidade numa sorveteria: tudo então se quebrava, denunciando de repente dois impostores. O tempo ia passando, nenhuma idéia se trocava, e nunca, nunca eles se compreendiam com perfeição como na primeira vez em que ela dissera que sentia angústia e, por milagre, também ele dissera que sentia, e formara-se o pacto horrível. E nunca, nunca acontecia alguma coisa que enfim arrematasse a cegueira com que estendiam as mãos e que os tornasse prontos para o destino que impaciente os esperava, e os fizesse enfim dizer para sempre adeus.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Talvez estivessem tão prontos para se soltarem um do outro como uma gota de água quase a cair, e apenas esperassem algo que simbolizasse a plenitude da angústia para poderem se separar. Talvez, maduros como uma gota de água, tivessem provocado o acontecimento de que falarei.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O vago acontecimento em torno da casa velha só existiu porque eles estavam prontos para isso. Tratava-se apenas de uma casa velha e vazia. Mas eles tinham uma vida pobre e ansiosa como se nunca fossem envelhecer, como se nada jamais fosse suceder — e então a casa tornou-se um acontecimento. Haviam voltado da última aula do período escolar. Tinham tomado o ônibus, saltado, e iam andando. Como sempre, andavam entre depressa e soltos, e de repente devagar, sem jamais acertar o passo, inquietos quanto à presença de outro. Era um dia ruim para ambos, véspera de férias. A última aula os deixava sem futuro e sem amarras, cada um se desprezando o que na casa mútua de ambos a família asseguravam como futuro amor e incompreensão. Sem um dia seguinte e sem amarras, eles estavam pior que nunca, mudos, de olhos abertos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nessa tarde a moça estava de dentes cerrados, olhando tudo com rancor ou ardor, como se procurasse no vento, na poeira e na própria extrema pobreza de alma mais uma provocação para a cólera.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E o rapaz, naquela rua da qual ela nem sabiam o nome, o rapaz pouco tinha do homem da criação. O dia estava pálido ainda, involuntariamente moço, ao vento, obrigado a viver. Estava porém suave e indeciso, como se qualquer dor só o tornasse ainda mais moço, ao contrário dela, que estava agressiva. Informes como eram, tudo lhes era possível, inclusive às vezes permutavam as qualidades: ela se tornava como um homem, e ele como uma doçura quase ignóbil de mulher. Varias vezes ele quase se despedira, mas, vago e vazio como estava, não sabia o que fazer quando voltasse para casa, como se o fim das aulas tivessem cortado o último elo. Continuara, pois, mudo atrás dela, seguindo-a com a docilidade do desamparo. Apenas um sétimo sentido de mínima escuta ao mundo o mantinha, ligando-o em obscura promessa ao dia seguinte. Não, os dois não eram propriamente neuróticos e — apesar do que eles pensavam um do outro vingativamente nos momento de mal contida hostilidade — parece que a psicanálise não os resolveria totalmente. Ou talvez resolvesse.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Era uma das ruas que desembocam diante do cemitério João Batista, com poeira seca, pedras soltas e pretos parados à porta dos botequins.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os dois andavam na calçada esburacada que mal os continha de tão estreita. Ela fez um movimento — ele pensou que ela ia atravessar a rua e deu passo para seguí-la — ela se voltou sem saber de que lado ele estava — ele recuou procurando-a. Naquele mínimo instante em que se buscavam inquietos, viraram-se ao mesmo tempo de costa para os ônibus — e ficaram de pé diante da casa, tendo ainda a procura no rosto .&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Talvez tudo tivesse vindo de eles estarem com a procura no rosto. Ou talvez do fato da casa estar diretamente encostada à calçada e ficar tão &quot;perto&quot;. Eles mal tinham espaço para olhá-la, imprensados como estavam na calçada estreita, entre o motivo ameaçador dos ônibus e a imobilidade absolutamente serena da casa. Não, não era por bombardeio: mas era uma casa quebrada, como diria uma criança. Era grande, larga e alta como as casas assobradadas do Rio antigo. Uma grande casa enraizada. Com uma indagação muito maior do que a pergunta que tinham no rosto, eles se haviam voltado incautelosamente ao mesmo tempo, e a casa estava tão perto como, se saindo do nada, lhes fosse jogada aos olhos uma súbita parede. Atrás deles os ônibus, à frente a casa — não havia como não estar ali. Se recuassem seriam atingidos pelo ônibus, se avançassem esbarrariam na monstruosa casa. Tinham sido capturados.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A casa era alta, e perto, eles não podiam olhá-la sem ter que levantar infantilmente a cabeça, o que os tornou de súbito muito pequenos e transformou a casa em mansão. Era como se jamais alguma coisa estivesse estado tão perto deles. A casa devia ter tido uma cor. E qualquer que fosse a cor primitiva das janelas, estas eram agora apenas velhas e sólidas. Apequenados, eles abriram os olhos espantados: a casa era angustiada.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A casa era angustiada e calma. Como palavra nenhuma o fora. Era uma construção que pesava no peito dos dois meninos. Um sobrado como quem leva a mão à garganta. Quem? Quem a construíra, levantando aquela feiúra pedra por pedra, aquela catedral do medo solidificado?! Ou fora o tempo que se colara paredes simples e lhes dera aquele ar de estrangulamento, aquele silêncio de enforcado tranqüilo? A casa era forte como um boxeursem pescoço. E ter a cabeça diretamente ligada a ambos era a angústia. Eles olhavam a casa como uma criança diante de uma escadaria.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Enfim ambos haviam inesperadamente alcançado a meta e estavam diante da esfinge. Boquiabertos, na extrema união do medo e do respeito e da palidez, diante daquela verdade. A nua angústia dera um pulo e colocara-se diante deles — nem ao menos familiar como a palavra que eles tinham se habituado a usar. Apenas uma casa grossa, tosca, sem pescoço, só aquela potência antiga.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eu sou enfim a própria coisa que vocês procuravam, disse a casa grande.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E o mais engraçado é que não tenho segredo nenhum, disse também a casa grande.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A moça olhava adormecida. Quanto o rapaz, seu sétimo sentido enganchara-se na parte mais interior da construção e ele sentia na ponta do fio um mínimo estremecimento de resposta. Mal se movia, com medo de espantar a própria atenção. A moça encorara-se no espanto, com medo de sair deste para o terror de uma descoberta. Mal falassem, e a casa desabaria. O silêncio de ambos deixava o sobrado intacto. Mas, se antes tinham sido forçados a olhá-lo, agora mesmo que lhes avisassem que o caminho estava livre para fugirem, ali ficavam, presos pelo fascínio e pelo horror. Fixando aquela coisa erguida tão antes deles nascerem, aquela coisa secular e já esvaziada de sentido, aquela coisa vinda do passado. Mas e o futuro?! Oh Deus, dai-nos o nosso futuro! A casa sem olhos, com uma potência de um cego. E se tinha olhos, eram redondos olhos vazios de estatua. Oh Deus, não os deixeis ser filho desse passado vazio, entregai-nos ao futuro. Eles queriam ser filhos. Mas não dessa endurecida carcaça fatal, eles não compreendiam o passado: oh livrai-nos do passado, deixai-nos cumprir nosso duro dever. Pois não era a liberdade o que duas crianças queriam, elas bem queriam ser convencidas e subjugadas e conduzidas — mas teria que ser por alguma coisa mais poderosa que o grande poder que lhes batia no peito.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A moça desviou subitamente o rosto, tão infeliz que sou, tão infeliz que sempre fui, as aulas acabaram, tudo acabou! — porque na sua avidez ela era ingrata com uma infância que fora provavelmente alegre. A moça subitamente desviou o rosto numa espécie de grunhido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quanto o rapaz, ele rapidamente perdia o pé na vaguidão como se fosse ficando sem um pensamento. Isso também era resultado da luz da tarde: era uma luz lívida e sem hora. O rosto do rapaz estava esverdeado e calmo, e ele não tinha nenhuma ajuda das palavras dos outros: exatamente como temerariamente aspirara um dia conseguir. Só que não contara com a miséria que havia em não poder exprimir.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Verdes e nauseados, eles não sabiam exprimir. A casa simbolizava alguma coisa que eles jamais poderiam alcançar, mesmo com toda a vida de procura de expressão. Procurar a expansão, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergência que pouco a pouco os afastaria da perigosa verdade — e os salvaria. Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, já tinham inventado para eles mesmo um futuro: ambos iam ser escritores, e com uma determinação tão obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se não suprimisse, seria um modo de só saber que se mente na solidão do próprio coração.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao passo que com a casa do passado eles não poderiam brincar. Agora, tão menores que ela, parecia-lhes que tinham apenas brincado de ser moço e doloroso de dar a mensagem.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Agora, espantados, tinham finalmente o que haviam perigosa e imprudentemente pedido: eram dois jovens realmente perdidos. Como diriam as pessoas mais velhas, &quot;eles estavam tendo o que bem mereciam&quot; . E eram tão culpados como crianças culpadas, tão culpados como são inocentes os criminosos. Ah, se ainda pudessem apaziguar o mundo por eles exacerbados, assegurando-lhes: &quot;estávamos apenas brincando! Somos dois impostores!&quot; Mas era tarde. &quot;rende-te sem condição e faze de ti uma parte de mim que sou o passado&quot; — dizia-lhes a vida futura. E, por Deus, em nome de que poderia alguém que tivesse esperança de que o futuro seria deles? quem?! Mas quem se interessava em esclarecer–lhes o mistério, e sem mentir? Havia por acaso alguém trabalhando nesse sentido? Dessa vez, emudecidos como estavam, nem lhes ocorreria acusar a sociedade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A moça havia subitamente voltado o rosto com um grunhido, uma espécie de soluço ou tosse.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Meio que chorar dessa hora é bem de mulher&quot;, pensou ele do fundo da sua perdição, sem saber o que queria dizer com &quot;essa hora&quot;. Mas essa foi a primeira solidez que ele encontrou para si mesmo. Agarrando-se a essa primeira tábua, pôde voltar cambaleando à tona, e como sempre antes da moça. Voltou antes dela, e viu uma casa de pé com um cartaz de &quot;aluga-se&quot;. Ouviu o ônibus às suas costas, viu uma casa vazia, e ao seu lado a moça com um rosto doentio, procurando escondê-lo do homem já acordado: ela procurava por algum motivo ocultar a cara.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ainda vacilante, ele esperou com palidez que ela se recompusesse. Esperou vacilante, sim, mas homem. Magro e irremediavelmente moço, sim, mas homem. Um corpo de homem era a solidez que o recuperava sempre. Volta e meia, quando precisava muito, ele se tornava um homem. Então, com mão incerta, acendeu sem naturalidade um cigarro, como se ele fosse osoutros, socorrendo-se do gesto que a maçonaria dos homens lhe dava como apoio e caminho. E ela?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas a moça saiu de tudo isso pintando com batom, com ruge meio manchado, e enfeitado por um colar azul. Plumas que um momento antes haviam feito parte de uma situação e de um futuro, mas agora era como se ela não tivesse levado o rosto antes de dormir e acordasse com as marcas impudicas de uma urgia anterior. Pois ela, volta e meia, era uma mulher.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com um cinismo reconfortante, o rapaz olhou-a curioso. E viu que ela não passava de uma moça.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Ficou por aqui mesmo, disse-lhe então despedindo-se com altivez, ele que nem sequer tinha mais hora certa para voltar para casa e sentia no bolso a chave da porta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Despediram-se eles, que nunca se apertavam as mãos, pois ela, na falta de jeito de em tão má hora ter seios e colar, ela estendera desastradamente a sua. O contato das duas mãos úmidas se apalpando sem amor constrangeu o rapaz como uma operação vergonhosa, ele corou. E ela, com batom e ruge, procurou disfarçar a própria nudez enfeitada. Ela não era nada, e afastou-se como se mil olhos a seguissem, esquiva na sua humildade de ter uma condição.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Vendo-a afastar-se, ele a examinou incrédulo, com um interesse divertido: &quot;será possível que mulher possa saber realmente o que é angustia?&quot; E a dúvida fez com que ele se sentisse muito forte.&quot; Não, mulher servia mesmo era para outra coisa, isso não se podia negar.&quot; E era de amigo que precisava. Sim, de um amigo leal. Sentiu-se então limpo e fraco, sem nada a esconder, leal como um homem. De qualquer tremor de terra, ele saía com um movimento livre para frente, com a mesma orgulhosa inconseqüência que faz o cavalo relinchar. Enquanto ela saiu costeando a parede como uma intrusa, já quase mãe dos filhos que teria, o corpo pressentido a submissão, corpo sagrado e impuro a carregar. O rapaz olhou-a, espantado de ter sido ludibriado pela moça tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que acabavam de crescer. Sou homem, disse-lhe o sexo em obscura vitória. De cada luta ou repouso, ele saía mais homem, ser homem se alimentava mesmo daquele vento que agora arrastava poeira pelas ruas do cemitério São João Batista. O mesmo vento de poeira que fazia com que o outro ser, o fêmeo, se encolhesse ferido, como se nenhum agasalho fosse jamais proteger a sua nudez, esse vento das ruas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O rapaz viu-a afastar-se, acompanhando-a com os olhos pornográfico e curioso que não pouparam nenhum detalhe humilde da moça. A moca que de súbito pôs-se a correr desesperadamente para não perder o ônibus...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Num sobressalto, fascinado, o rapaz viu-a correr como doida para não perder o ônibus, intrigado viu-a subir no ônibus como um macaco de saia curta. O falso cigarro caiu-lhe da mão...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Alguma coisa incômoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiança o tomava. Mas o que era?! Ele vira a correr toda ágil mesmo que o coração da moça, ele bem adivinhava, estivesse pálido. E vira-a, toda cheia de impotente amor pela humanidade, subir como um macaco no ônibus — e viu-a depois sentar-se quieta e comportada, recompondo a blusa enquanto esperava que o ônibus andasse... Seria isso? Mas o que poderia haver nisso que o enchia de desconfiada atenção? Talvez do fato dela Ter corrido à toa, pois o ônibus ainda não ia partir, havia pois tempo...Ela nem precisava ter corrido... Mas que havia nisso tudo que fazia com que ele erguesse as orelhas em escutar angustia, numa surdez de quem jamais ouvirá a explicação?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava também assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glória, e uma experiência insondável dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome ávida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossível? A moça era um zero naquele ônibus parado, e no entanto, homem que agora ele era, o rapaz de súbito precisava se inclinar para aquele nada, para aquela moça. E nem ao menos inclinar-se de igual para igual, nem ao menos inclinar-se para conceder... Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? Para lembrar-se de uma cláusula? Para que ela ou outra qualquer não o deixasse ir longe demais e se perder? Para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro? Ele precisava dela com fome para não esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne pobre da qual, ao subir no ônibus como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. Que é! Mas afinal que é que está me acontecendo? Assustou-se ele.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nada. Nada, e que não se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilação, nada mais que isso, não havia perigo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Mas dentro desse sistema de duro juízo final, que não permite nem um segundo de incredulidade senão o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua — e tudo agora estava estragado e seco como se tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! A mensagem esfarelada na poeira do vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;h3 style=&quot;margin-bottom: 11.25pt; margin-left: 0cm; margin-right: 0cm; margin-top: 0cm;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 13.5pt;&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/h3&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/07/a-mensagem-conto-de-clarice-lispector.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyB0mAi-iBlSBYJyVhTZEuI_4wBWN1opQt7oMIeAm74uO8vud8wiBUEX979mDRKSLnqrYVlU_DadoAB8MNjBuvFMIbPiupZfiWtQ4BO2FzhaE41CO2HJNojpX6xCcGK4u0KVcscogIGGfT/s72-c/ClarisseLispectorPeB.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-380691744790866648</guid><pubDate>Sun, 20 Jul 2014 02:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-07-19T23:49:19.998-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto A Mensagem</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
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&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
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&lt;div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um rapaz de dezesseis anos e uma moça de dezessete, colegas de escola sem amizade, um dia se sentiram ligados um ao outro porque ela disse que sentia angústia e ele também.&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O assunto do conto é a história de uma relação entre dois adolescentes e do despertar destes para a vida e para a maturidade. Todo o percurso é marcado pelo temacexistencialista da angústia e da náusea, pela insatisfação, pela busca de um sentido para as coisas, pela insegurança e perplexidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador é muito semelhante ao do conto “Os Obedientes”, ou seja: omnisciente, totalmente conhecedor das personagens e das suas motivações mais íntimas, embora pouco dado a reflexões partilhadas com o leitor como acontecia naquele.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O ponto de partida que dominamtodomo conto quase até ao final, é, como já foi dito, o tema da angústia. Esta começa por ser o objeto de conversa entre os dois jovens e o indicador que os distingue como pessoas que falam sobre coisas que realmente importam. A descoberta de que a moça também sente angústia leva o rapaz a corar e a sentir-se surpreso e  maravilhado sobretudo devido ao fato de ela ser uma moça.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É a angústia que marca a afinidade entre as duas personagens, embora através do rapaz se assinale sempre a dúvida em relação à sensibilidade da moça/mulher.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A vergonha do sexo oposto marca frequentemente o início da adolescência. Então é mais fácil encarar o outro como um ser do mesmo sexo. Ele passou a tratá-la como camarada. A partir de então se tornaram íntimos. Intimidade que não significava sexo nem amor. Eles se sentiram ligados porque ambos queriam ser autênticos, sinceros, diferentes dos outros. Não se viam como homem e mulher, mas como dois seres angustiados, à procura de algo que eles não sabiam o que fosse. Vagamente, confusamente, achavam-se portadores de uma mensagem. Mas o que era isso?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Saindo do colégio no último dia letivo, os dois caminhavam numa rua próxima do Cemitério S. João Batista, no Rio. A calçada era estreita e os ônibus passavam rentes. De repente, os dois se viram colados a uma casa velha. Pararam diante dela, olharam para a fachada. Em seu íntimo cada um foi se descobrindo ali, parados: ele era apenas um rapaz e ela, uma moça. Não tinham mais o que se dizer e por que continuarem juntos. Ela despediu-se, correu para um ônibus que estava parado. Entrou subindo como se fosse um macaco, pensou ele, vendo-a acomodar-se lá dentro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A moça saíra envergonhada por se sentir mulher; o rapaz tinha acabado de nascer homem. “Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? (...) para não esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne podre da qual, ao subir no ônibus, como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal.” O que estava acontecendo a ele naquele momento em que viu a moça entrar no ônibus daquele jeito? Nada! Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Só que agora ele se sentia fraco para resistir ao que os outros tentavam ensinar-lhe para ser homem. “Mas e a mensagem?! a mensagem esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele.”&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/07/comentario-do-conto-mensagem.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhNRByKkGn4pH_19lt4UYDjUwXYZzmx0f-aAeVhjDjrPxLEuVmqH77Kvob4B8u6KKvsJQwlK85pef699F1vKXeEEFWQ8xFAwk1K4ohaLIJntHZ5gQsQgFIepgrf7RH-kiKQx7UeWlzepKI7/s72-c/clarice.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-8226130576954889818</guid><pubDate>Thu, 12 Jun 2014 18:52:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-06-12T15:52:55.975-03:00</atom:updated><title>A Teoria do Medalhão, de Machado de Assis</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUE40meisgGNnM9OfOtjt3ndq2SzxTImC_YpESwj4vQMTavZTZeTcrc_9QI-B02pFZFYtNS2B1DO9_bWj-OTGSFDzxs1NQxeQml-gMJV7Qqd3O53P6atEP9LOK5wYqGXdt75vMFftDC7E2/s1600/machado.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUE40meisgGNnM9OfOtjt3ndq2SzxTImC_YpESwj4vQMTavZTZeTcrc_9QI-B02pFZFYtNS2B1DO9_bWj-OTGSFDzxs1NQxeQml-gMJV7Qqd3O53P6atEP9LOK5wYqGXdt75vMFftDC7E2/s1600/machado.gif&quot; height=&quot;200&quot; width=&quot;166&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&amp;nbsp;&lt;span style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Estás com sono?&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não, senhor.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Onze.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Papai...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Sim, senhor.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: &quot;a gravidade é um mistério do corpo&quot;, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- É verdade, por que quarenta e cinco anos?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Entendo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Mas quem lhe diz que eu...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Como assim, se também é um exercício corporal?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses - suponhamos dois anos, - reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim... - Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! - E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: - ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas; no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira esperta e afreguesada, - que, segundo um poeta clássico, Quanto mais pano tem, mais poupa o corte, Menos monte alardeia de retalhos; e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Upa! que a profissão é difícil!&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- E ainda não chegamos ao cabo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Vamos a ele.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Percebi.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a &quot;alavanca do progresso&quot; e o &quot;suor do trabalho&quot; vencem as &quot;fauces hiantes&quot; da miséria. No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d&#39;água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nem política?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: - ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; - é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Farei o que puder. Nenhuma imaginação?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Nenhuma filosofia?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. &quot;Filosofia da história&quot;, por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Também ao riso?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Como ao riso?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Ficar sério, muito sério...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, - e este ponto é melindroso...&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Diga...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Meia-noite.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;background: white; line-height: 15.0pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;background: white; line-height: 15.0pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;background: white; line-height: 15.0pt; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/06/a-teoria-do-medalhao-de-machado-de-assis.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUE40meisgGNnM9OfOtjt3ndq2SzxTImC_YpESwj4vQMTavZTZeTcrc_9QI-B02pFZFYtNS2B1DO9_bWj-OTGSFDzxs1NQxeQml-gMJV7Qqd3O53P6atEP9LOK5wYqGXdt75vMFftDC7E2/s72-c/machado.gif" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-6946147428066089526</guid><pubDate>Thu, 12 Jun 2014 18:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-06-12T15:49:28.210-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto Teoria do Medalhão, de M. de Assis</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto, Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, traz uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como pano de fundo uma conversa &quot;inocente&quot; como a de um pai com um filho.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Este conto, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e social, é satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire. Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de idéias cínicas, através do diálogo entre pai e filho.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador cede seu espaço à reprodução das falas das duas únicas personagens: pai e filho. O tom terrivelmente irônico da fala do pai revela, obviamente, a denúncia feita pelo autor por trás do conto em relação a uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações humanas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O diálogo familiar acontece numa noite às onze horas, após um jantar comemorativo dos 21 anos do filho. Quando pai e filho ficam a sós na sala, este aconselha o filho a se tornar um Medalhão, ou seja, um homem que ao chegar à velhice, tenha adquirido respeito e fama na sociedade do Rio de Janeiro do século XIX. Para tanto, será necessário que ele mude seus hábitos e costumes e passe a viver sob uma máscara, anulando os seus gostos pessoais e suas atitudes. E nisso disserta sobre a necessidade do filho de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como encontram-se os valores da sociedade de sua época. Portanto, o medalhão, tipo criado pelo autor neste conto, se caracteriza por aparentar ser o que não é. Caracteriza-se, sobretudo, por ter, como nos medalhões, uma face oculta e sem atrativos, voltada apenas para o corpo do dono, e outra, vistosa, virada para o exterior, para ser vista e admirada, respeitada.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Trata-se, portanto, de um contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime. O conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, à opinião da maioria.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eliminada a presença de um narrador temos, de um lado, a presença de um pai que quer projetar seus ideais frustrados de sucesso no jovem filho; de outro lado, o filho que se sujeita a aceitar passivamente as imposições do pai, anulando-se.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os papéis sociais no conto machadiano, pertencem, num primeiro momento, a um grupo restrito: pai e filho. As personagens não possuem nomes e são, portanto, caracterizadas somente pela posição que ocupam no grupo familiar. Num segundo momento, no decorrer da narrativa, há a construção de um terceiro papel social, este pertencente a um grupo mais amplo: o Medalhão.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No diálogo estabelecido no conto, há a presença das formas de tratamento. O pai dirige-se ao filho sempre utilizando a 2ª pessoa pronominal: tu, te, contigo, teu etc.; o filho, por sua vez, utiliza-se a 3ª pessoa, com valor de 2ª pessoa: vosmecê, lhe, o senhor etc. No primeiro caso, a presença da 2ª pessoa dá um valor de proximidade ao discurso (ou tentativa de), dando um maior sentimento de intimidade. No segundo caso, o uso da 3ª pessoa, mostra uma aceitação do discurso paterno, como se não houvesse outro meio de discussão. É a aceitação pacífica do papel social que cabe ao filho no final do século XIX.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/06/comentario-do-conto-teoria-do-medalhao.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEit-UXgZjCs1_-vENCv5rVdSrvX-Cfh9s3aN5xBw78HUgyZcIm7KEK8ZUizYWO1P2Wd3aVUP1OIDOgRrTVB9OUU7ibRvdilzzuRh36Icui0KX86PgZhiUtwHnvsl8BlKHk24tP2RkE6pNCR/s72-c/machado.gif" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-3691190553113242677</guid><pubDate>Sat, 07 Jun 2014 14:41:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-06-07T11:41:36.840-03:00</atom:updated><title>Os gestos. Conto de Osman Lins</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhrtVz2AG_Ewc1cb9XwckX5DGqtnGuHu1iDTKOy8cJokHuYVrJMAUhciAivneWQE8-UuP2ZNrMHhaZxSgbg5iTMUe1u4ToVNayN9yaazXWTqjPf8KSteCaUgrhjd63OhfDTXiK1WWoD5ulR/s1600/osmanlins.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhrtVz2AG_Ewc1cb9XwckX5DGqtnGuHu1iDTKOy8cJokHuYVrJMAUhciAivneWQE8-UuP2ZNrMHhaZxSgbg5iTMUe1u4ToVNayN9yaazXWTqjPf8KSteCaUgrhjd63OhfDTXiK1WWoD5ulR/s1600/osmanlins.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem. Durante minutos, ficou a olhá-la e sentiu que a sua grave serenidade o envolvia, trazendo-lhe um bem-estar como não sentia há muito. “E eu não o posso exprimir – lamentou”. Não posso dizer. “Se agitasse a campainha, viria a esposa ou uma das filhas, mas seu gesto em direção à janela não seria entendido”. E ele voltaria a cabeça, contendo a raiva.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para sempre exilado – pensou. Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os pensamentos fatigaram-no. Veio, como de outras vezes, a ideia de que tudo aquilo poderia cessar, restituindo-o à companhia dos seus, mas ele recusou a esperança. Nunca mais - insistiu. Nunca. Esta é que é a verdade.  “Súbita, febril impaciência fê-lo agitar-se, trazendo-lhe à mente o seu despertar um mês antes e o horror ao perceber que estava sem voz, mas ele tentou afastar a lembrança. “Esquecer todas as palavras”. Resignarr-me ao silêncio.”&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um casal de pássaros esvoaçou, além da árvore, dando a impressão de que as asas tocavam o céu cinzento, levantando um ondular de ondas que se cruzavam e extinguiram-se. A ilusão embalou-o, durante segundos achou-se debruçado ante uma paisagem lacustre, vinculada à sua juventude, ignorava por que laços; mas quando um vento agitou a mangueira, o instante presente retomou-o com tal suavidade e de modo tão repentino, que não o surpreendeu: a aspereza da barba sobre o dorso da mão, o desapontamento abafado, o calor do leito e os sons vadios ressurgiram sem choque, como se o distante lago não houvesse fremido e se dissipado num segundo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Na sala de jantar, a mulher gritou para que apanhassem a roupa estendida no quintal: ele ouviu a irritada exclamação da filha mais nova e seus pés descalços afastarem-se correndo. Sorriu: distraía-se agora imaginando grandes panos brancos soprados pelo vento – uma fila interminável de lençóis túmidos, camisas bracejantes e lenços -, nítidos, reais, arrebatados uma a um por invisíveis que os faziam desaparecer. Algumas pancadas extinguiram-nos: ele reencontrou o céu mais escuro, a copa mais virente: mas só percebeu que haviam batido à porta da rua, quando a mulher cruzou o corredor, magra, lépida, sem olhar para o quarto.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Uma visita. Inútil imaginar-lhe o rosto. É uma visita. “E ficou a olhar para a entrada, coração aos saltos, buscando reconhecer a voz masculina que se alternava com a da esposa e se avizinhava”. “Rodolfo”! Cinco ou seis dias talvez mais!” Queria abraçar o recém-chegado e quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo um gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia. Antes, os encontros com Rodolfo lhe davam prazer, mas não provocavam efusões. Agora, o rosto largo, de maçãs salientes, o semblante sem malícia, o torso amplo, a alva roupa de linho e o ar de vida que ele desprendia, eram coisas inestimáveis e André continuava a estreitá-lo, gemendo, até que o olhar indecifrável da esposa, visto por sobre a nuca do amigo fê-lo afrouxar o amplexo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sentado junto à cama, o rapaz se esforçava para não fazer perguntas nem ficar em silêncio: o rosto móbil oscilava entre a gravidade e o riso, detendo-se, às vezes a olhá-lo entre apreensivo e cismático – a expressão que deveria ter ante um filho doente – e o homem indagava se era a sua vitalidade ou a roupa branca o que o fazia repousante. Rodolfo lembrava um marinheiro, sua presença tinha uma amplitude de viagens. Como era diferente daquela mulher por trás dele, em seu vestido escuro, fria e vigilante, pronta a insinuar que a visita se alongava!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Devido à chuva próxima, ela não teve que intervir. O rapaz levantou-se, estendeu a mão num gesto franco. André fê-lo curvar-se e abraçou-o outra vez, com força, tornando a gemer. Com as duas mãos, apertou-lhe ainda o braço, deixando-o ir e ficou a olhar com gratidão o dorso forte, à espera de um aceno final: Rodolfo perguntava pelas moças, foi embora sem voltar-se.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mulher tornou ao quarto, com o invariável gesto de enfado que se sucedia às visitas, mesmo breves, o que era a sua maneira de se mostrar solidária. Indagou, com acento imperativo, se ele queria leite, cerrou a janela e saiu.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
André ficou só, olhando as rótulas fechadas. Quisera pedir à esposa que as soltasse, deixando-lhe algumas nesgas de céu, mas nem ao menos esboçou o gesto. Imobilizava-o novo acesso de fadiga e ele ficou a ouvir os passos da mulher – um caminhar sorrateiro, em que os pés se encurvavam nos chinelos, contidos, pousando aos poucos no solo, de modo que ao fim do corredor já não eram escutados, embora ele os acompanhasse ainda em imaginação.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A chuva anunciada chegou, banhando o arvoredo invisível, alguém correu na calçada, as primeiras gotas bateram na janela, ressoaram nas telhas. Ele sorriu, enleado, mas uma visão trespassou-o: Rodolfo alcançado pela chuva, a mão protegendo a fronte, a roupa de linho a molhar-se. Foi como se o visse esmagado: oprimiu-o uma compaixão violenta; soergueu-se, tomou a campainha e agitou-a, frenético, até que a mulher voltou-se e pôs-se a fazer-lhe perguntas, com tal rapidez que seria impossível entende-la.  As duas filhas surgiram à porta, assustadas; voltou-se para elas e entrou a gesticular, ainda aflito. Veio-lhe então o desejo de estar só, sem aquelas presenças inúteis; escorraçou-as com um gesto brutal e deitou-se.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
De olhos cerrados, ouviu-as murmurar. Três mulheres espantadas queriam que lhes dissesse algo. Deviam saber que isto era impossível; sua voz estava morta. Quando pereceriam os olhos? Quando seria a morte da memória?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Afastaram-se os passos confusos, entrelaçando-se como os fios de uma trança. Mariana. Lise e a mulher fundiram-se numa sombra vaga, dispersaram-se e mergulharam na chuva, que as dissolveu.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele corre na manhã invernal, os pés descalços cortando poças de água. A prima chama-o, à janela; voam cabelos sobre o rosto infantil, que sorri. A viagem do barco de papel repousa nas mãos da menina. Ele toma-o, curva-se, entrega-o à enxurrada. Nascem veleiros, alvíssimos, libertos do mar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas haveria raízes penetrando-o? Seria ele um campo, um vasto campo sob a chuva, guardado pela noite? Buscava-o uma voz familiar, longínqua, vencendo corredores infindos. Ele reconheceu aquela pressão em seu ombro, voltou-se; cingiu o punho da filha mais velha, encontrando inesperado prazer em sentir-lhe as pulsações.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O rosto inclinado olhava-o, frágil, pálido, fosco. Os anos tinham alongado seus traços, definira-os, mas a infância permanecera na boca e nos olhos, misteriosa, com o seu espanto e sua malícia contida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
André soltou o punho delgado; e enquanto via a sua filha se preparar para servir o leite sem dirigir-lhe a palavra, voltou a lembrar-se de Rodolfo, percebendo, com súbita lucidez, que todas as visitas evitavam agora as frases de esperança e falavam o menos possível com ele. “Todos já aceitaram a mudez como um fato consumado. Lise também, também. Eu não tenho ilusões, mas desejaria que eles, pelo menos... Consumado.”&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ela estendia um biscoito que mergulhara no leite. Isso afastou as preocupações e ele se entregou àquele prazer que não estava só no alimento, mas na curvatura da filha, no modo como os dedos finos se moviam e no riso que ele sentia pairar, fugidio, em algum ponto do rosto apreensivo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
“Lise é um anjo. Ao menos isso, eu...” E mais uma vez lamentou não poder desculpar-se pelo que havia feito, quando ela tivera a idéia de trazer-lhe uma folha de papel com o alfabeto, para que ele indicasse as letras dos nomes que procurava dizer. “Talvez ela tenha compreendido que eu não pude expressar-me e que isto me irritou.” Mas ele gostaria de contar-lhe que, ao lhe arrebatar das mãos o papel e rasga-lo, obedecera a um impulso irresistível, a um violento rancor contra aqueles sinais que pareciam esquivar-se ao seu entendimento e cuja profusão o irritara como um enxame de moscas. E que os momentos seguintes, enquanto alguém soluçava e todos se afastavam do quarto, tinham sido os mais dolorosos de sua vida.  “Eu pensava nos gestos. Em não falar, não escrever. Gesticular, apenas. Eu pensava nos gestos.”&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Segurou o braço da filha, com ânsias, a olhá-la e o sorriso pressentido aflorou, difuso, remoto, evanescente, surpreendendo-o e ferindo-o por não corresponder à sua aflição. Esforçando-se para conter as lágrimas, ele voltou a cabeça.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A chuva continuava firme e apaziguou. Junto, Lise permanecia em silêncio, tão imóvel que André se imaginou sozinho e voltou-se. Ela ofereceu-lhe outro biscoito, como se nada houvesse acontecido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mariana apareceu depois, cinto justo, queixo para cima, alteando os seios novos:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Papai agora virou menino.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Foi à janela, soltou as fasquias; o quarto ficou mais claro, um vento úmido agitou a lâmpada pendente e a irmã repreendeu-a:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Está louca?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Por quê?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
- Não vê que essa frieza pode fazer mal a ele. Mas pelas frinchas que se sobrepunham, cada vez mais delgadas, até se anularem no alto, apareciam agora a fronde, a chuva e o céu escuro – retalhados e ainda assim atraindo-o com uma sedução tão forte, que ele agitou as mãos, protestando.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
-É o vento, papai. Está frio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele se obstinou, as rótulas ficaram abertas. Mariana deixou a janela, foi ao toucador, abriu e fechou as gavetas, sem procurar coisa alguma, escrutando disfarçadamente o espelho, com enlevo. Para ela, a adolescência ainda era uma espécie de conquista nova e absorvente – pensou ele – cegando-a para tudo que não fossem as suas próprias belezas ou as que julgava possuir.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lise tirou-lhe o guardanapo do pescoço, cobriu seus braços com o lençol e deixou-o. Mariana seguiu-a, petulante, ajeitando os cabelos. A chuva insistia, o vento sacudia a lâmpada. A enxurrada engrossava, pingavam as biqueiras e os rumores se fundiam num som único, manso, que lembrava um caudal.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Do silêncio que se fizera em seu espírito, ele sentiu, à maneira de reflexo que abandonasse um espelho, destacar-se um outro ser, ligado aos seus sentidos, mas alheio às paredes. Modelou toda a copa da árvore semi-invisível, o tronco, a inchação das raízes; as pedras úmidas, além; outras folhagens, um telhado escuro, a erva rala junto ao muro rachado – coisas fugidias, a fasciná-lo com sua consistência de sonho. Fechou os olhos, isto não alterou a contemplação.  Com aterrorizada alegria, sentiu-se disperso, livre na vastidão da manhã.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como dizer? – perguntava. Seria possível? A pergunta continha a certeza de que não chegariam a entendê-lo. Como de outras vezes, descreveria visões para cegos, com termos profanos, que as degradariam. Impossível.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os rumores da chuva refluíam, levando a paisagem; quando tornaram, vieram sós, desencantados. O velho André abriu os olhos. Mariana estava de costas para a janela, os cotovelos no peitoril e as mãos cruzadas sobre o ventre. Por trás dela, na linha exterior das fasquias, cintilavam gotas de água; cresciam trêmulas, deslizavam, uniam-se, caíam. Uma claridade opalina subia do pescoço, tocava o queixo da moça, banhava sua face direita e extinguia-se na penugem da fonte. O resto das feições, mal se percebia; mas era evidente que algo se anunciava, um evento único, secreto – e ele conteve a respiração. A parte do colo sobre que incidia a luz pálida fremiu, palpitou, os lábios se entreabriram, estremeceram as narinas. Soprou um vento forte, que agitou seus cabelos e precipitou o tombar das gotas de água. Ela moveu a cabeça em direção à luz, lenta, com um suspiro ansioso. O rosto era belo e se renovava, como um ser adormecido que enriquecesse no deslumbramento de um sonho. O pai não se enganara, aquele era um momento único, ela cruzara um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Isto é inexprimível – pensou. E que não o é? Meus gestos de hoje talvez não sejam menos expressivos que minhas palavras de antes. Fechou os olhos, para conservar durante o maior tempo possível aquela visão. Quando tornou a abri-los, Mariana se fora, a chuva passara e ele viu que estivera dormindo, sem haver sonhado.&lt;/div&gt;
&lt;form&gt;
&lt;/form&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/06/os-gestos-conto-de-osman-lins.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhrtVz2AG_Ewc1cb9XwckX5DGqtnGuHu1iDTKOy8cJokHuYVrJMAUhciAivneWQE8-UuP2ZNrMHhaZxSgbg5iTMUe1u4ToVNayN9yaazXWTqjPf8KSteCaUgrhjd63OhfDTXiK1WWoD5ulR/s72-c/osmanlins.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-4854744062865969547</guid><pubDate>Sat, 07 Jun 2014 14:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-06-07T11:52:47.577-03:00</atom:updated><title>Comentário do conto Os Gestos.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfqs9aY8JUz2yohYx0-R0-Xaa3KhivLSODO1es5YqEl7GHfi_ZtCs5G2THn9dCQhwZLXmtZF5PurCJSJ0mwnZTBtiJofUezDYpO66UYg4-hP-WbB2Ev5sDsLX08jCiFQpk4uGyQV_LOa_u/s1600/osmanlins.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfqs9aY8JUz2yohYx0-R0-Xaa3KhivLSODO1es5YqEl7GHfi_ZtCs5G2THn9dCQhwZLXmtZF5PurCJSJ0mwnZTBtiJofUezDYpO66UYg4-hP-WbB2Ev5sDsLX08jCiFQpk4uGyQV_LOa_u/s1600/osmanlins.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Osman Lins ocupa um lugar muito especial no panorama da ficção brasileira contemporânea. Com uma produção literária dicotomizada em duas fases distintas, uma tributária da tradição inovadora e outra, a derradeira, absolutamente revolucionária, ímpar e sem precedentes na literatura produzida no Brasil até então. Resumindo: Osman Lins deixou uma obra extraordinária, digna de merecer destaque entre os mais importantes e notáveis escritores de sua geração, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os Gestos pertence à primeira fase da escrita linsiana. Nessa fase, o autor já produz uma literatura avançada, com componentes bem individualizadores de um estilo rico, que apresenta sensibilidade para o intimismo, psicologismo e “ascendeu à fusão clima regional” e “sondagem interior”, conforme sentenciou A. Bosi&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No conto, Os gestos, Osman Lins revela de forma altamente sensível à condição existencial do homem – André -  enclausurado no reduzido limite de um quarto, dependente dos familiares, incapacitado para comunicar-se verbalmente, por ter perdido a voz. Ele é um ser solitário e carente de afeto. A impossibilidade de comunicação tem alterado as suas relações com a família e com o mundo. O personagem protagonista André, um homem velho, doente, exilado em si mesmo, contra o silêncio que o angustia e também o desprende, passa a manifestar-se somente através de gestos, às vezes, não entendidos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
André é um homem que fez do silêncio sua linguagem dentre a estranheza dos acontecimentos externos “Do leito o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã. Havia um segredo naquela paisagem” (O. Lins, 1994, Os gestos, p. 11). Ele habituou-se a ouvir os sons ao redor, dentro e fora da casa. Os resmungos da mulher e o desespero das filhas, mediante a sua mudez, e desinteresse pelos seus gestos, que não eram lidos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
André encontrava-se derrotado desde que perdera a voz. “Para sempre exilado” (OG, p. 11), era assim que se sentia. Exilado em si mesmo, sem retorno aparente. A ausência da comunicação transita para o ambiente familiar onde ele vive. Na família ninguém esconde ou disfarça a irritabilidade gerada por tanta lida e pela permanência de visitas, como a do amigo Rodolfo: “Queria abraçar o recém-chegado e, quando este se aproximou, ele não conteve o impulso: estendeu os braços e o reteve junto a si, emitindo em gemido nasal, a suportar uma onda de felicidade transbordante, cujos motivos desconhecia” (OG, p 12). O Contato físico funciona como demonstração de aproximação e vínculo comunicativo. O abraço representa uma manifestação de carinho entre as pessoas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O diálogo não parece ser comum naquela casa, cada um parecia que falava para si, cada um fechado em seu mundinho individual. Essa atmosfera fria do ambiente leva o próprio André a manifesta-se interiormente “Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos...” (OG, p. 11). A reação das pessoas era a mesma diante daquele quadro. Segundo o narrador, o protagonista preferia essa situação “Nunca mais” (OG, p. 11). Era a sua decisão “Esquecer todas as palavras. Resignar-me ao silêncio” (OG, p. 11). André reconstrói o seu estar no mundo solitário e quase ignorado, numa linguagem que se reduz aos gestos. Não quer saber dos membros da família “Veio-lhe então o desejo de estar só, sem aquelas presenças inúteis, escorraçou-as com um gesto brutal e deitou-se” (OG, p. 13).&lt;br /&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto pode ser classificado como uma narrativa lírica. Os componentes líricos da mesma emanam não apenas das sentimentais, profundas e angustiadas reflexões da personagem André, quase sempre vasadas em termos poéticos, advindos da sua visão sensível do mundo que percebe pela janela, ou das suas lembranças do passado mais remoto. A comunicação fria, distante, indiferente, sem afeto com seus familiares, somada à sua mudez, e consequente impossibilidade de expressão, desencadeia a série de reflexões que constitui a maior parte da narrativa.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como escreve Paulo Antônio F. Gonçalves, “Enquanto as (Mulher, filhas e Rodolfo) são personagens marcadas por uma ou poucas características, André pode ser classificado como personagem esférica: ser complexo, com vários traços característicos, e pontos profundos que podem constituir momentos de mistério e desconhecimento, que podem vir a tornarem-se grandes revelações. Por outro lado, parte dessa pouca cristalização ou definição da personalidade das personagens, constitui parte da coerência interna do conto, limitando ou convencionalizando a caracterização da personagem de acordo com a proposta do conto, no caso, a impotência do ser humano, e sua incapacidade de expressar sua interioridade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A construção da ambientação em Os gestos, constitui também importante participação na concepção do conto. Sobretudo no parágrafo inicial, com a descrição da paisagem que a personagem vê da janela de seu quarto, imagem descrita dentro do início da primeira cena do conto, ocorrida no inicio da manhã. Unidade essa que inclusive marca o tempo da história da narrativa: uma manhã. “Do leito, o velho André via o céu nublar-se, através da janela, enquanto as folhas da mangueira brilhavam com surda refulgência, como se absorvessem a escassa luz da manhã”. Havia um segredo naquela paisagem&quot;. Osman Lins denota nessa passagem o ambiente básico da vida de André na ocasião: o leito, a janela, o céu e a mangueira. E demonstra a já aguçada sensibilidade do protagonista, que percebe detalhes minuciosos daquela singela paisagem. Esse pode ser considerado o espaço real da narrativa. No decorrer do conto, há passagem em que o espaço amplia-se, mas no âmbito imaginário: aos demais cômodos da casa e ao quintal, onde &quot;grandes panos brancos soprados pelo vento – numa fila interminável de lençóis...&quot;, e a lugares amenos, lacustres e marítimos, ligados à sua juventude.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O tempo manifesta-se no conto de forma similar ao da ambientação. O tempo da história é de uma manhã, mas as incursões do protagonista por suas reflexões, por seus fluxos de consciência, remontam a um tempo e espaço psicológicos, tornando essa manhã um período mais rico e preenchido, o que pode causar ao leitor a impressão de um tempo decorrido maior que o tempo da história, ou seja, de uma manhã.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dentre os demais elementos utilizados usualmente para a análise de narrativas, o foco narrativo é um dos mais explorados pelo autor no conto. A narração é feita em 3ª pessoa, por um narrador onisciente seletivo, em razão do uso da exposição direta ou simultânea da análise do pensamento de uma personagem central, sem indícios da presença de um narrador (discurso indireto livre), e da larga utilização da cena. A utilização deste tipo de narrador possibilitou ao autor atingir o lirismo encontrado em toda a obra. A análise dos fluxos de consciência e dos pensamentos da personagem central permitiram a realização de uma dicção intimista, sensível e verossímil, e um grande aprofundamento psíquico na construção da personagem.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por esse foco narrativo – narrador onisciente seletivo, em detrimento ao onisciente múltiplo seletivo –, tudo o que é transmitido ao leitor é feito através das sensações, pensamentos e sentimentos da personagem central. A caracterização das demais personagens é concebida através do olhar do protagonista, ou seja, um enfoque parcial.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conteúdo e o enredo formam também elementos fundamentais para o conto Os gestos. Osman Lins utilizou neste a mudez – uma impotência humana frente à rudez da vida, assim como outras incapacidades humanas são utilizadas nos demais contos da obra: a impossibilidade do amor, a psicose, a morte etc. –, como elemento desencadeador de novas percepções e novos sentidos, que possibilitam à personagem vislumbrar novos sentimentos – em relação à vida e a seus parentes próximos –, novas imagens e sons, e memórias antes escondidas.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A incapacidade humana explicita-se nos momentos em que André é incapaz de exprimir-se, como na cena em que contempla a paisagem pela janela no início da manhã, ou na passagem em que rasga o papel oferecido pela filha para escrever o que tencionava dizer num momento em que gesticulava freneticamente, ou na cena em que percebe a transformação da filha de menina para adolescente. Fatos que levam André a um sentimento de indignação em relação à sua condição, ou talvez em relação à condição humana em geral – a incapacidade de expressão dos sentimentos – concluindo tristemente: &quot;‘Isso é inexprimível’, pensou. ‘E que não é? Meus gestos de hoje talvez não sejam menos expressivos que minhas palavras de antes’&quot;. Osman Lins deixa claro que a interioridade do ser humano é quase inexprimível. Pode-se fazer algum esboço, nada mais. Isso em razão da disparidade da interioridade dos seres humanos. Seria possível essa troca de impressões somente se houvesse uma grande afinidade entre os seres, como explicitado em uma passagem de Elegíada, conto da mesma obra: &quot;Isso eles não saberão. É íntimo demais, exige um nível de compreensão mútua demasiado grande para ser revelado. Não lhes contarei&quot;. Ou seja, não é possível expressar um sentimento interior, mas é possível falar sobre ele, trocar-se impressões, desde que seja um sentimento comum, presente em ambos os interlocutores.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Essa impossibilidade de expressão culmina em uma situação de incompreensibilidade e isolamento entre as personagens, presente em quase todo o enredo do conto. André é despertado de sua reflexão descrita no início do conto – fluxo de consciência – com a chegada de Rodolfo, pessoa por quem André tem afeição, por sentir nele uma compreensão de sua situação interior, e por sentir nele características que se afinam com as suas, como sensibilidade, gosto pela alegria e pela liberdade. Em contrapartida, os amigos são observados pela esposa, inquieta com a presença da visita, não percebendo a simpatia entre os dois, nem a alegria do marido. Com a saída de Rodolfo inicia-se o fato mais central e desencadeador do enredo: a chuva apanha Rodolfo de surpresa na rua, e André torna-se frenético, buscando alguma forma de ajudar o amigo, e toca a sineta chamando todos da casa, que ao chegarem não compreendem suas intenções. André tem uma reação colérica ante essa incompreensão dos familiares, e as três mulheres saem do quarto confusas. André volta à reflexão, e só é despertado com a chegada de Lise para servir-lhe um lanche. A atitude carinhosa da filha o faz arrepender-se de sua anterior reação colérica, e angustiar-se por não poder pedir-lhe desculpas. Mariana entra no quarto, demonstrando suas características de distância em relação ao pai, egoísmo e vaidade – &quot;Papai agora virou menino&quot;, &quot;abriu e fechou as gavetas, sem procurar coisa alguma, escrutando disfarçadamente o espelho com enlevo&quot;. As filhas saem do quarto, e André retorna aos fluxos de consciência e fecha os olhos. Ao abri-los, depara-se com Mariana em sua frente, de costas para a janela. André inicia a contemplação do que ele chama de um momento único: &quot;ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No parágrafo final do conto, André parece querer concluir a lição que aprendera naquela manhã. Conclui explicitamente que as sensações, impressões, sentimentos, enfim, a interioridade de cada um, não é exprimível em palavras, mas talvez em gestos. Talvez os gestos transmitam mais significado que as palavras. E por isso devam ser guardados, na memória, no coração, na alma, &quot;Fechou os olhos, para conservar durante o maior tempo possível aquela visão&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Comentário do conto da autoria de Paulo Antônio F. Gonçalves, Escritor e Pesquisador em Ciências Humanas.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2014/06/comentario-do-conto-os-gestos.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgfqs9aY8JUz2yohYx0-R0-Xaa3KhivLSODO1es5YqEl7GHfi_ZtCs5G2THn9dCQhwZLXmtZF5PurCJSJ0mwnZTBtiJofUezDYpO66UYg4-hP-WbB2Ev5sDsLX08jCiFQpk4uGyQV_LOa_u/s72-c/osmanlins.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-1579830856347203346</guid><pubDate>Tue, 03 Dec 2013 23:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2013-12-03T21:01:45.463-03:00</atom:updated><title>Penélope, conto de Dalton Trevisan</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi5DrOmEKBPVEEaxDDL98qE9s4Qnape-VK1NlKeWnamQRQzv3FGRHQyBgXiPF35sueMRSdkzL-LWJWpk1sy5KytGRYecUMM65ZOdxzkShTqYBByy8Gc8ngbK8chLP50HZ7JqvoaLxpuKPFm/s1600/download+%25282%2529.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi5DrOmEKBPVEEaxDDL98qE9s4Qnape-VK1NlKeWnamQRQzv3FGRHQyBgXiPF35sueMRSdkzL-LWJWpk1sy5KytGRYecUMM65ZOdxzkShTqYBByy8Gc8ngbK8chLP50HZ7JqvoaLxpuKPFm/s1600/download+%25282%2529.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
Na rua de casas iguais morava, há muitos anos, um casal de velhos. Ela o esperava, costurando na cadeira de embalo da varanda e, quando ele vinha pela rua, com um pacote no braço, descia, de chinelos, os dois degraus da varanda e lhe sorria, com o portão aberto. Cruzavam o pequeno jardim e, apenas na porta, por causa dos vizinhos, mas ainda antes de entrar, ela lhe erguia a cabeça, sem nenhum fio branco, e ele a beijava na testa. Estavam sempre juntos, lidando no seu quintal, ele com as couves, ela com sua coleção de cactos. Quando deixavam aberta a porta da cozinha, os vizinhos podiam ver que ele enxugava a louça para a mulher. E, aos sábados, saíam para o seu passeio diante das vitrinas, ela, gorda, ainda bonita, de olhos azuis e ele, magro, baixo, de preto. Nas noites de verão, ela usava vestidos brancos, de pernas nuas, ele não, sempre de preto. Havia um mistério na vida deles, que nenhum vizinho conhecia. Sabia-se vagamente que os filhos tinham morrido num desastre, há muitos anos. O casal de velhos abandonou tudo, casa, túmulos, bichos e se mudara para aquela cidade, naquela rua. Eram os dois, sem cão, gato, passarinho, nem mesmo galinhas. Tinham medo de se afeiçoar a qualquer coisa. Algumas vezes, na ausência do marido, ela trazia ossos para os cães vagabundos que cheiravam o portão. Quando engordavam uma galinha, a mulher se enternecia por ela e não tinha coragem de matá-la. Então, o velho desmanchou o galinheiro e, no seu lugar, plantou uns pés de couve. Arrancou a única roseira que crescia num canto do jardim; nem a uma rosa se atreviam a dar os seus restos de amor.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Afora a viagem, que faziam uma vez por ano para visitar o túmulo dos filhos, não saíam de casa, o velho fumando seu cachimbo, a velha trançando as agulhas de tricô, a não ser no seu clássico passeio dos sábados. E foi num sábado que, ao abrir a porta, eles acharam a seus pés, uma carta. Era estranho, porque ninguém lhes escrevia, os dois sozinhos no mundo, e confabularam antes de se decidir a abri-la. Era um envelope azul, sem qualquer endereço. A mulher propôs rasgá-lo, sem ler. Já tinham sofrido demais. Ele respondeu que ninguém podia mais fazer-lhes mal. Não queimou a carta, não se apressou de abri-la, deixou-a sobre a mesa. Sentaram-se um diante do outro, sob o abajur azul da sala, ela com seu tricô, ele com seu jornal. As vezes, ela curvava a cabeça, mordendo uma agulha na boca e com a outra contando os pontos. Quando chegava ao fim, tinha de contar a linha de novo: pensava na carta sobre a mesa. O homem lia com o jornal dobrado, no joelho, e leu duas vezes cada linha para entendê-la: pensava na carta sobre a mesa. O seu cachimbo apagou, não o acendeu, os olhos parados na mesma notícia, ouvindo apenas o seco bater das agulhas entre os dedos da mulher. Então, pegou a carta e abriu-a. Achou um pedaço de papel dobrado, com duas palavras: corno Manso, escritas com grandes letras recortadas de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Entregou o papel à mulher que, depois de ler, o olhou. Nenhum falou. A mulher se ergueu, segurando a carta na ponta dos dedos. Onde é que você vai? o homem perguntou. Queimar... ela respondeu. Não, ele disse. Dobrou o papel dentro do envelope azul e guardou-o no bolso. Juntou para a mulher a toalhinha que tinha caído no chão e continuou a ler o jornal e em cada linha, aquela noite, leu as duas palavras da carta.&lt;br /&gt;
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&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não estava mais certo de que ninguém podia fazer-lhes mal. Antes da mulher se erguer e guardar a cestinha com os fios e as agulhas, segurou-lhe a mão para consolá-la: aposto, minha velha, disse, que a mesma carta foi jogada sob a porta de todas as casas da rua. As vozes das sereias cantam ainda no coração dos velhos? Nem mesmo um pobre casal de velhos estava a salvo. Haviam-lhes tirado os filhos, os bichos, a cidade. Agora, queriam separá-los um do outro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O homem esqueceu a carta no bolso e passou-se outra semana. No sábado, de volta do seu passeio, antes de abrir a porta, sabia que ela estava ali, azul sobre o capacho. A mulher pisou na carta, fingindo que não a via. Ele a juntou e guardou no bolso. Quase no fim do serão, sem erguer a cabeça da toalhinha, contando sempre a mesma linha, ela perguntou: você não vai ler a sua carta? Olhava-a, fingindo que lia o jornal, admirando-lhe a bela cabeça, sem nenhum cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia. Eu já sei o que diz, ele respondeu. Então por que não a queima? É um jogo, minha velha, disse, mostrando o envelope azul entre os dedos: nenhum sobrescrito e fechado. Rasgou-o numa ponta e tirou o papel dobrado: duas palavras, as mesmas, nas letras recortadas de jornal. Soprou o envelope, sacudiu-o sobre o tapete, mais nada. A mulher tricoteava, como se não visse a carta. Ele a guardou no bolso, com a outra e continuou a ler em cada linha do jornal aquelas duas palavras. Ela não lhe perguntou, como se soubesse. Tinha o rosto oculto pela sombra do abajur. O homem reparou que ela desmanchava um ponto errado na toalhinha. Eram os dedos que tricoteavam ou as mãos que tremiam?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele acordou com dor de cabeça, no meio da noite, levantou-se da cama e foi beber água no filtro. Afastou a cortina e, na rua deserta, viu na sombra dum muro, o vulto daquele homem. Ficou ali, com a mão crispada na cortina, até o homem ir-se embora. Deitou-se, de costas para a mulher, (sabia que estava acordada e de olhos abertos para ele), imaginando quem seria o homem na sombra do muro. E pensou, pela primeira vez, se a carta não podia ser para ele mesmo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
De manhã, esqueceu a idéia e, deitado na cama, observava de olhos meio fechados a mulher, que se vestia para ir às compras. Diante do guarda-roupa, ela escolhia um vestido. Os seus vestidos brancos a deixavam mais gorda. Esperou-o para tomarem café juntos, como todas as manhãs e, quando ela fechou a porta, foi olhá-la pela janela. Era ela mesma, a sua mulher. O homem se sentiu envergonhado e fechou os olhos, dizendo: minha velha, me perdoe... Quando os abriu, notou que a mulher olhava para a janela, ainda que não pudesse vê-lo, atrás da cortina. Por que olhara a janela? Para dar-lhe adeus, se ele ali estivesse ou para saber se desconfiava dela?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No sábado seguinte, quis propor-lhe ficarem em casa, de luzes apagadas e surpreenderem o autor das cartas. Ao vê-la tão alegre, porque iam passear, não teve coragem e saíram. Durante o passeio pensou o tempo todo se era apenas ele que recebia as cartas. Não podia abordar um dos vizinhos no portão e perguntar-lhe aquilo. As casas da rua, de aluguel, eram todas iguais. Podia ser engano, o envelope não tinha endereço. Se, ao menos citasse nomes, horas, lugares... Quando abriu a porta, lá estava ela: a carta azul. Desta vez, não a leu diante da mulher. Guardou-a no bolso, junto com as outras e pôs-se a ler o seu jornal, sob o abajur. Quando virava as páginas, surpreendia o rosto da mulher debruçado sobre as agulhas. Era uma toalhinha difícil, porque há meses trabalhava nela. Como se lesse no jornal, ele lhe contou a história de Penélope, que desfazia de noite, à luz das velas, as linhas trançadas durante o dia, para ganhar tempo dos seus pretendentes, esperando a volta do senhor seu marido. Pela primeira vez, pensou se Penélope não teria enganado ao marido ausente. Para quem era a mortalha que ela bordava? Teria continuado a trançar suas agulhas após a volta de Ulisses? Homero não fala. Nem a mulher, que não perguntou sobre a carta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No banheiro, fechando a porta à chave, abriu a carta. As duas palavras... Ele tinha o seu plano: guardou a carta no envelope e dentro dela um fio de cabelo. Pendurou o paletó no cabide, com a carta visível num dos bolsos. Foi-se deitar, enquanto a mulher punha o saco de pão na janela e a garrafa vazia de leite na porta. No dia seguinte, após o café, quando ela saiu, com a sacola das compras no braço, examinou a carta: estava no mesmo lugar, parecia intacta. Abriu-a e procurou o pequeno fio de cabelo, não estava mais.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Então, revolveu no fundo das gavetas. Não tinha tempo, ela voltaria logo. No emprego, imaginava os passos de sua mulher pela casa. Quando a encontra no portão descobre nos seus olhos o reflexo da gravata azul do outro. Observando-a, de manhã, na penumbra do quarto, suspeita que as sombras no seu gordo corpo nu são de abraços do outro. Ele quer erguer-lhe o cabelo da nuca para ver se não tem a tatuagem dos dentes do outro. Na sua ausência, abre o guarda-roupa da mulher, cobre a cabeça com seus vestidos e cheira-os. Espreita os homens que passam diante da casa, atrás da cortina. Conhece agora o leiteiro e o padeiro, jovens, de olhos falsos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pode contar, na volta do emprego, quais foram os passos da mulher pela casa: se os móveis têm pó ou não, se a terra nos vasos de flores está molhada ou seca... Ele marca o tempo pela toalhinha. Sabe quantas linhas a mulher tricoteou. Sabe quando ela erra os pontos e deve desmanchá-los, antes mesmo de contá-los com a ponta da agulha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nada tem contra ela e o homem ficou silencioso. Come de cabeça baixa, sem falar. Lê o seu jornal, de noite e, em vez de ler para a mulher as notícias divertidas, como antes, lê apenas em voz alta as histórias de crimes. Enquanto lê, vigia o rosto curvado da mulher, na sombra azul do abajur. Se ouve passos de noite na calçada vai espreitar pela janela, de pijama e pés descalços; a cortina está amarrotada no canto pela sua mão crispada.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Houve somente uma cena entre eles, quando comprou um revólver. Ele o guardou sobre o guarda-roupa da mulher. Ela perguntou: você está louco, meu velho? Para que um revólver? Há muito ladrão nesta cidade. E olhou como se ela fosse um ladrão. Meu Deus, a mulher gemeu, você não pensa que eu... e quis abraçá-lo, com as mãos estendidas, quando o homem, para desvencilhar-se, empurrou-a e, como não o soltasse, lhe golpeou o rosto com toda a força. Ela cobriu o rosto com uma das mãos e com a outra pegou a sua, ainda fechada. Pensou que fosse mordê-lo. Ela lhe beijou a mão, antes que pudesse retirá-la. O homem sentiu pena, mas não lhe pediu perdão. Foi a única cena e, depois dela, a mulher aceitou tudo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ele quer saber o destino de velhos presentes, de jóias sem valor (desconfia que o outro é moço, ela deve dar-lhe presentes). Quem sabe, faça toalhinhas de tricô, para o outro vender. No serão, os dois sob o abajur, em vez de ler o jornal, vigia a mulher - o rosto, o vestido, as mãos - atrás dos dedos do outro. Crava-lhe os olhos na mão (as mãos que acariciam e não têm memória dos carinhos) até que ela erra o ponto, tem que desmanchar a linha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Às vezes, quando chega em casa ela não o espera mais no portão, (porque finge não vê-la e passando por ela sobe os dois degraus, como se estivesse ali no portão à espera do outro) a casa está silenciosa, ele aspira os odores no ar, passa a mão sobre os móveis, apalpa entre os dedos a terra dos vasos. Adivinha onde a mulher está. Esconde-se dele, nos cantos escuros da casa e dá-lhe as costas, para que não veja os seus olhos vermelhos. Eram olhos azuis que sorriam a vida inteira para ele. Estão vermelhos de chorar pelo outro, por não ter podido vê-lo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma noite, acordou e achou o outro travesseiro vazio, ainda quente da cabeça da mulher. Sob a porta, viu uma luz na sala. Pé ante pé, agarrou o revólver sobre o guarda-roupa e abriu de súbito a porta. Sob o abajur, a mulher fazia o seu tricô - sempre a toalhinha para a mesa da sala. Era ela Penélope, desfazendo na noite o trabalho executado de dia? Tecia a mortalha para o marido antes de casar-se com o outro?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Erguendo os olhos da toalhinha, viu o revólver na mão do homem, mas não disse nada. As suas agulhas batiam uma na outra, embora não tricoteasse e estivesse olhando para o homem. Ele voltou para o quarto, fechando a porta, não sabia por que não a matava.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No meio de uma refeição, ele a interroga sobre seus velhos namorados, do tempo de solteira, de um primo que queria casar com ela. Ela responde, enquanto ele aprova com a cabeça, fumando seu cachimbo, de olhos meio fechados. Agora sabe, tem todas as provas: ela o enganava com o primo. Se não fosse culpada, protestaria, fugiria de casa. Mas não: ouve tudo, conta tudo. Se ela se contradiz, corrige-a batendo com a ponta do cachimbo apagado no seu prato.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Mas faz tanto tempo, meu...&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não tem coragem de chamá-lo &quot;meu velho&quot;. Enquanto ela vai, com sua sacola, de cabeça baixa, fazer suas compras, o velho revolve as cinzas do fogão, para saber se ela queima os bilhetes do outro.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
De súbito, no meio da leitura em voz alta de um crime, ele tira as cartas do bolso - são muitas, uma de cada sábado - e lê, uma por uma, como se fossem todas diferentes. Guarda-as de novo no bolso, porque não se separa delas, e prossegue a leitura do jornal em voz alta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Achou, numa caixa de sapatos, cheia de fotografias, uma dela, menina, com o primo, o outro. Ele colocou a fotografia sobre a mesa da sala, de pé, contra um vaso de cacto. Assim que a mulher abriu a porta, olhou para a mesa e viu a fotografia. Ela começou a chorar. Tinha pacotes nas mãos e não podia esconder as lágrimas, nem enxugá-las. Olhava para o homem e para a fotografia, e chorava. Ela nada disse, aquelas lágrimas eram de culpada. O homem se deu por satisfeito. Eram provas que reunia, queria ser justo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O passeio aos sábados era seu único vício de velhos. Ela se arrumava, punha seu melhor vestido, seu chapéu fora de moda. Fumando seu cachimbo atrás da janela, deixou-a que se arrumasse. Ela sentou-se na poltrona da sala, com seu chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, e ficou esperando. Não se virou, enquanto ela esperava, com as mãos cruzadas. Ele então se voltou, olhou o chapéu, a bolsa, as mãos vazias da toalhinha e disse:&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
— Meu Deus, que chapéu feio... Não posso sair na rua com uma mulher que usa um chapéu desses!&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Abriu o jornal e começou a ler as notícias policiais em voz alta, enquanto a mulher ouvia, sem tirar o chapéu, já com o tricô na mão. Aquele sábado não veio nenhuma carta. Foi até a porta, abriu-a, olhou para o capacho e para a mulher. Era vigiado, ele também, o corno manso, pelo outro. Sentia falta daquela carta. Era uma correspondência inteligente entre outro e ele, um jogo, como tinha dito uma vez à mulher. Um dia, o outro revelaria tudo, era preciso não interromper as cartas. Então, continuaram a sair nos sábados.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eles saem, dá o braço à mulher no portão e não falam durante todo o passeio, passam diante das vitrinas sem parar. Como é gorda, ela cansa mais depressa, mas não se queixa, nem ele diminui o passo. Na volta, sob a porta, junta a carta azul e, antes de abri-la, passeia com ela na mão pela casa, pára diante da mulher, de rosto azul sob o abajur. Ele a lê escondido, de porta fechada, no banheiro, e guarda com um cabelo no envelope e deixa sobre a mesa. Em todas encontra depois o cabelo, a mulher nunca mais leu as cartas. Ou - ele pensa, com uma nova ruga na testa - descobriu o seu segredo e lê as cartas substituindo o cabelo por um dos dela?&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma tarde, de volta do emprego, abriu a porta e aspirou o ar, como fazia antes de entrar. Passou a mão no canto dos móveis: pó. Apalpou a terra dos vasos: seca. O coração batia na ponta dos pés, enquanto avançava pela casa. Entrou, ante pé, no quarto escuro e acendeu a luz: a mulher estava deitada na cama de casal, de chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, segurando o revólver na mão direita. Ele não pôde fechar os seus olhos, outra vez azuis. Eles sorriam de novo para o velho.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não sentiu piedade, estava vingado. Chamou a polícia que o deixou em paz, estava no emprego na hora em que a mulher se suicidou. Quanto o enterro saiu, os vizinhos repararam que, embora fosse um casal tão unido de velhos, ele não chorou nenhuma vez. Segurou na alça do caixão e ajudou a empurrá-lo no túmulo, (como fazem os velhos, ele o tinha construído há anos) e antes mesmo de o pedreiro, erguer a sua parede de tijolos, ele deu as costas para a mulher e foi-se embora.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quando entrou em casa, reparou em qualquer coisa estranha: a toalhinha sobre a mesa era nova. Era a toalhinha de tricô! A mulher esperou terminar a toalhinha antes de se matar. Ela trançara sua própria mortalha. Penélope concluiu sua obra, o marido chegou em casa. Ele a tocou, na ponta dos dedos, estava lavada e engomada. Não tinha mancha de lágrimas, nem ruga de dedos trêmulos. Acendeu a lâmpada do abajur azul. Sobre a poltrona da mulher, diante da sua, vê as agulhas de tricô cruzadas na sua cestinha.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Era sábado, o velho pensou. Nada tinha a recear, nenhuma carta chegaria. Ninguém mais podia fazer-lhe mal. A mulher estaca morta, pagara pelo seu crime. E, então, pensou que a mulher podia ser inocente. A carta poderia ser jogada sob todas as portas da rua. Ou ser atirada sob a sua porta, por engano, eram todas as casas iguais. Havia um meio de saber: se fossem destinadas a ele, com a mulher morta, não viriam nunca mais. Não as acharia sob a porta, encostadas no capacho. Aquela fora a última: o outro teria visto, de tarde, a casa de portas e janelas abertas para sair o enterro. Teria visto ao crepúsculo o carro funerário saindo do portão. Teria seguido, ninguém sabe, o enterro, era um dos que o acotovelavam para ver o caixão entrar, rangendo sobre os grãos de areia, no túmulo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O velho saiu de casa. Andava com um braço dobrado, pelo hábito de dá-lo à mulher por tantos anos. Diante de uma vitrina de vestidos, alguns brancos, sentiu no braço a mão de sua mulher. Ele tinha razão, aquela carta fora a última. Nunca mais viria outra. Subiu os dois degraus da escadinha, parando com o pé no ar diante da porta. Eu fui justo, ele se disse e abriu a porta para ver a carta azul.&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2013/12/na-rua-de-casas-iguais-morava-ha-muitos.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi5DrOmEKBPVEEaxDDL98qE9s4Qnape-VK1NlKeWnamQRQzv3FGRHQyBgXiPF35sueMRSdkzL-LWJWpk1sy5KytGRYecUMM65ZOdxzkShTqYBByy8Gc8ngbK8chLP50HZ7JqvoaLxpuKPFm/s72-c/download+%25282%2529.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-3686948860004826295</guid><pubDate>Tue, 03 Dec 2013 23:19:00 +0000</pubDate><atom:updated>2014-06-07T11:55:06.380-03:00</atom:updated><title> Comentário do conto Penélope, de Dalton Trevisan</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7TbdwMHGjZdcy_o822pmrXJeDeVg_0iHDBLPTDNBuip31B_m4NJNqR2myiQzX4MAtufTxXurLntfRt6UjBPaYSM4Q98vsDao6X9-lMJ5PpC0o_UKvZjlEkmJD33-uHUjx2UR-1PMax2lY/s1600/download+(2).jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7TbdwMHGjZdcy_o822pmrXJeDeVg_0iHDBLPTDNBuip31B_m4NJNqR2myiQzX4MAtufTxXurLntfRt6UjBPaYSM4Q98vsDao6X9-lMJ5PpC0o_UKvZjlEkmJD33-uHUjx2UR-1PMax2lY/s1600/download+(2).jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
No conto Penélope, de Dalton Trevisan, a aparente banalidade do enredo gira em torno de um casal de velhos que tem sua vida metódica abalada por uma série de cartas anônimas que promovem o ciúme paranóico do marido e o suicídio da mulher. Esta aparente banalidade se desfaz quando se observa a construção da linguagem e a maneira como o autor apresenta os fatos, criando um clima de suspense e expectativa. É notável seu intertexto com a personagem Penélope, esposa de Ulisses, não só pelo nome do conto e da personagem, mas, sobretudo, pela simbologia da fiação. O autor vale-se do mito de Penélope para “reinventar” a história por meio do recurso parodístico e criar uma nova história, uma nova situação condizente com os novos tempos e rumos da sociedade e do homem moderno.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A Penélope de Dalton é um espectro daquilo que já foi mais nobre e elevado na arte; espectro que não implica, necessariamente, morte, mas prorrogação e repetição (degradadas).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao parodiar o mito de Penélope, Dalton Trevisan inaugurou um “novo paradigma” ao instaurar uma inversão de sentido, proporcionando ao leitor uma versão diferente, em que a instituição familiar e o matrimônio não são vistos como instituições sagradas, mas passíveis de dissolução pelas atitudes do ser humano. É evidente, portanto, o diálogo intertextual e parodístico que o autor faz com o mito grego de Penélope, personagem famosa por sua fidelidade ao marido, posta à prova numa espera de vinte anos enquanto Ulisses estava ausente, lutando em Tróia e, na viagem de retorno para Ítaca, ele se envolve em uma série de aventuras que retardam sua volta. Durante sua ausência, Penélope é disputada por vários pretendentes e, para despistá-los, urde um plano: tecer, antes da escolha, a mortalha de Laerte, pai de Ulisses. Porém, para ganhar tempo, desfazia à noite o bordado feito durante a dia, até o regresso do marido, quando é recompensada por sua fidelidade.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Embora Trevisan faça referência à personagem da mitologia, no conto, o autor faz uma inversão irônica deste mito, pois, se na versão mitológica, o que está em jogo é o amor, o encontro, a fidelidade e a indissolubilidade do casamento, no conto, os elementos são outros: a morte, o drama da infidelidade e a dissolução do casamento. Não há possibilidade de reencontro amoroso, porque não existe mais este “modelo” de casamento feliz. Trevisan apresenta uma característica negativa da instituição familiar e inverte os famosos “finais felizes”, apresentando a miséria comum, os dramas e as frustrações do homem em sociedade. O autor parodia estes “finais felizes” e desenvolve um contra-canto, demonstrado que, na sociedade moderna, as pessoas convivem com traumas, paranóias e medos. Mas, apesar de mostrar este lado mais “nefasto” do ser humano, Trevisan o faz de uma maneira surpreendente, pois ele não aponta, não culpa nem defende o marido por seu ciúme paranóico e doentio, ele limita-se a apresentá-lo, afinal, ele é “homem” e o ser humano comete falhas e enganos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta apresentação “sem juízo de valor” do drama do marido chega ao leitor pela voz de um narrador onisciente, que penetra na consciência da personagem de tal modo que, em certos momentos, não fica evidente se é a voz do narrador ou o pensamento do marido: uma voz que se introjeta entre o discurso do narrador e do protagonista e que segue o fluxo de consciência.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Acendeu o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. Era sábado, recordou-se. Pessoa alguma tinha poder de fazer-lhe mal. A mulher pagara pelo crime. Ou – de repente o alarido no peito – acaso inocente? A carta jogada sob outras portas... Por engano na sua. (TREVISAN, 1979, p. 176).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A narrativa reconstitui o processo de construção de ciúme percorrendo o “itinerário” que vai do fluxo de consciência e da imaginação do marido aos acontecimentos concretos – a série de cartas anônimas deixadas na porta do casal todos os sábados enquanto saiam ao passeio rotineiro. Entre a evidência das cartas e a incerteza da traição, o narrador acompanha o conflito do marido e penetra em seu inconsciente afetado pelo ciúme, mas deixa a mulher numa redoma de mistério. Os pensamentos de Penélope são uma incógnita, pois não se sabe seu ponto de vista em relação aos fatos, ela aparece sempre tricotando sua toalhinha, envolta numa rede na qual é tanto senhora quanto objeto da trama.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A narrativa faz uma intersecção com o pensamento do marido e nesta paranóia de ciúme acaba deixando insinuações de que Penélope não seria tão inocente assim. De acordo com Kury, numa versão aberrante da lenda, “Penélope ter-se-ia entregue a todos os pretendentes (mais de cem), e desse adultério com todos eles teria concebido o deus Pan” (1999, p.313). No conto, o narrador intercala um discurso indireto livre que gera estas suspeitas da possível traição de Penélope, mas ficam apenas no plano do interdito, uma vez que não se conhece o ponto de vista da mulher.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Voltando as folhas, surpreendia o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recordou a legenda de Penélope, que desfazia de noite, à luz do archote, as linhas acabadas durante o dia e, à espera do marido, assim ganhava tempo de seus pretendentes. Calou-se no meio da história: ao marido ausente enganara Penélope? Para quem a mortalha que trançava? Continuou a estalar as agulhas após o regresso de Ulisses? (TREVISAN, 1979, p.173).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O narrador apresenta o discurso de um homem sem nome atormentado pela desconfiança da traição da mulher e que conhece o legendário de Penélope. O conto torna-se altamente significativo pelas associações entre as duas personagens que, propositalmente, chamam-se Penélope e igualmente aparecem relacionadas às fiandeiras, mas se distanciam pela oposição crucial entre vida e morte. Se, no mito, o que está em jogo é o amor que leva à vida conjugal, no conto, é a morte e a desconfiança que provoca a fatal separação do casal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pelas características das personagens do marido e da mulher que o narrador deixa entrever, há no conto uma forte oposição entre Eros e Thanatos, não só em termos de inversão mítica, mas também na estrutura interna da narrativa e do comportamento das personagens: amor e morte se entrelaçam o tempo todo na trama da vida. Na descrição do marido, por exemplo, ele é fortemente influenciado por Thanatos, pois ele está sempre de mal com a vida, veste-se de preto e planta cacto feroz – “Nem a uma rosa se atrevia a dar seu resto de amor” (TREVISAN, 1979, p. 171). Embora apresente esta característica sombria, o resto de amor que lhe sobrava era dedicado à mulher – a sua única companheira, descrita por ele com um tom de carinho e afeição que lembra o cantar de namorado das cantigas de amigo. Este sentimento que nutre pela companheira é quase uma “dependência”, uma vez que a simples possibilidade de a mulher o estar traindo gera toda a crise de desconfiança que o afastará para sempre da mulher e culminará com a perda definitiva do resto de amor que ele nutria – “Por cima do jornal admirava a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia”(TREVISAN, 1979, p. 172). Mas o comportamento do marido demonstra ser o de uma pessoa insegura, que se fechou para a vida e “contamina” de uma carga “negativa” todos que convivem com ele. A visão um tanto pessimista da vida e o ciúme incontrolável e doentio em relação à mulher provocam a supremacia da morte sobre a vida, o que faz com que sua vida seja influenciada pela regência de Thanatos. A semente da desconfiança é plantada pelas cartas que funcionam como um “canto de sereia” traiçoeiro que enfeitiçou e seduziu o coração do velho, tornando-o cego e atraindo-o para as armadilhas de uma morte em vida ou da vida.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A esposa, no entanto, apresenta indicativos de que é um pouco mais feliz, ou de resquícios de felicidade, pois conserva, ainda, sinais de caridade e amor e de uma visão mais positiva da vida: usava vestido branco; na ausência do marido, trazia um osso para o cão vagabundo, era incapaz de matar uma galinha. Apesar destes indicativos, Penélope tem sua voz limitada e seus pensamentos silenciados, como se a influência de Eros fosse perdendo forças, ao longo do tempo, diante do “coração de ferro” de Thanatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas este “silêncio” de Penélope não invalida a importância da personagem na trama, uma vez que, pela paródia, é possível resgatar informações adicionais que não se encontram explícitas na narrativa. No conto, Penélope ora se aproxima ora se afasta da Penélope mítica pela oposição Eros/Thanatos que remete à simbologia do ato de fiar. A ação de tecer representa criação e vida, abrange o domínio do ritmo e da continuidade, aos movimentos de ir e vir, fazer e desfazer: os elementos vida e morte correspondem ao vaivém da urdidura. Assim como no mito, Penélope tece/borda uma toalhinha, fazendo e desfazendo pontos, num trabalho que exige tempo e paciência. Porém, se no mito, ao bordar a mortalha do sogro, Penélope perpetua o amor ao marido, tecendo de longe a trama da vida e do encontro; no conto, Penélope tece, perto do marido, a mortalha da morte e da separação – “Entrou na sala, viu a toalhinha na mesa – a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia – o marido em casa” (TREVISAN, 1979,p. 175).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O ato de fiar representa um eterno retorno pelo processo de tecer e desfazer o trabalho começado, recomeçado e interminável. A escolha de Penélope por desfazer à noite o que fizera de dia garante-lhe tempo para fabricar suas próprias defesas contra o homem, o esposo e o pai [...] É uma fiandeira prevendo o futuro. Também no conto, Penélope é uma fiandeira, uma parca ou moira que borda a própria mortalha, decidindo o momento em que o trabalho ficará pronto e, finalmente, cortará os fios que a prendem à vida, determinando, assim, o momento de sua morte. Ao contrário do mito, Penélope não suporta a longa espera, o momento em que o marido “voltaria” a si, superando a paranóia do ciúme e reconhecendo sua fidelidade. Antes, decide por fim ao drama, sendo senhora de seu destino ao cortar os fios que a ligam à vida, embora ainda dê um tempo ao marido, pelo processo fazer e desfazer a toalhinha. Em sua “reclusão”, Penélope é uma fiandeira, e, a exemplo de Átropos, corta o fio da vida. Ao fazer isso, ela torna-se uma espécie de fiandeira que tece, mede e corta, no mistério, seu destino e o destino dos homens. E é por ser uma fiandeira que ela embaralha a vida do marido, pois ele estará condenado ao remorso e à culpa por seu suicídio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Saiu de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito de dá-lo à amiga em tantos anos. Diante da vitrina com vestidos, alguns brancos, o peso da mão dela. [...] Os dois degraus da varanda – “Fui justo”, repetia, “fui justo” –, com mão firme girou a chave. Abriu a porta, pisou na carta e, sentando-se na poltrona, lia o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.(TREVISAN, 1979, p. 176).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No conto, Penélope corta o fio de forma definitiva, sem que haja qualquer possibilidade de reatar o fio partido, pois sua morte representa uma separação sem volta. No caso de Penélope, o fio não parte por vontade divina, e sim por vontade humana, por sua própria vontade; o fiar não é criação e sim separação, pois representa o fim da espera de que Eros poderia voltar a habitar a vida do casal.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A simbologia da fiação enquanto este eterno recomeçar ou criação aparece no conto às avessas, uma vez que o trabalho de “fiação” de Penélope, embora sirva para ganhar tempo e avaliar a situação, não está voltado ao eterno retorno ao mesmo: há um fim e este fim não implica o retorno do marido e a reconciliação, mas ao contrário, a sua solidão e o remorso. Não há possibilidade de reencontro amoroso neste mundo constituído de “homens” frustrados e inseguros, que se deixam conduzir por forças que se opõem à vida e ao amor. Dalton Trevisan parte de um mote que, na tradição literária, seria uma “novela exemplar” da capacidade vivificante do amor e da felicidade conjugal e parodia-o, criando uma “novela nada exemplar”, mas que reflete a sociedade contemporânea. E, nesta perspectiva, a criação literária do autor está em sintonia com a proposta moderna: a ruptura com a tradição e ao mesmo tempo o resgate da mesma para compor o novo e (re) criar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O marido, no conto, é um misto de homem frustrado e infeliz, apresentando características culturais patriarcais em seu comportamento possessivo, como, por exemplo, o fato de a mulher só sair de casa em sua companhia e de ela estar sempre no espaço fechado da casa, fazendo atividades do âmbito doméstico: tricotar, limpar a casa, molhar as flores. Tal comportamento corrobora para o esmaecimento das forças de Eros na vida do casal, a tal ponto que ela decide por fim ao fio da vida e terminar de uma vez por todas com seu suplício em ter que conviver com a desconfiança do marido.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os traços remanescentes da cultura patriarcal são perceptíveis, também, na forma como o marido, após a morte de Penélope, sente sua alma lavada, como se tivesse “lavado sua honra com sangue”, embora não sendo ele o agente direto da morte – “Não sentiu piedade, havia sido justo” (TREVISAN, 1979, p. 175). No final, a voz da consciência, como um “superego” acusador, repetirá para sempre em sua memória que ele não fora justo, uma vez que continuara recebendo as cartas anônimas – as mesmas que implicaram seu ciúme e o conseqüente suicídio da mulher - mas era tarde demais para redimir-se, estava condenado a viver com o peso da injustiça cometida com a mulher: a amiga que ele amava e que sua paranóia levou à morte. A morte não trouxe alívio nem a sensação de ter a honra - lavada -, ao contrário, trouxe desespero e a certeza de uma mancha que jamais poderia ser apagada, já que estava marcada pela tragédia e o sangue da mulher, repetindo, a cada instante, na sua solidão, na memória, no silêncio e no vazio da casa que fora injusto.&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;
Numa literatura sem ilusões, Dalton Trevisan faz um contra-canto, no qual resgata e se afasta do mito grego, ao propor um mito às avessas, em que se observa, ao invés da fortaleza conjugal, a fragilidade dos laços matrimoniais e do ser humano, expondo o lado mórbido desses homens sem nome da sociedade moderna, que se deixam reger pela influência do Filho da Noite, Thanatos, limitando o campo de influência de Eros, o deus do amor que rege e gera a vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Autor: Sueli Aparecida da Costa, Mestra em Letras - Área de concentração em Linguagem e Sociedade (Unioeste - PR)&lt;/div&gt;
</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2013/12/comentario-do-conto-penelope-de-dalton.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7TbdwMHGjZdcy_o822pmrXJeDeVg_0iHDBLPTDNBuip31B_m4NJNqR2myiQzX4MAtufTxXurLntfRt6UjBPaYSM4Q98vsDao6X9-lMJ5PpC0o_UKvZjlEkmJD33-uHUjx2UR-1PMax2lY/s72-c/download+(2).jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-7558006467881934463</guid><pubDate>Sat, 28 Sep 2013 03:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2013-09-28T00:34:30.092-03:00</atom:updated><title>Elegíada”, conto de Osman Lins</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjr26iXlx_Cu4xAHDjnuAtiTJtO2RwgEpMCa7j6zGSQbxjfBBDFYxTerh7Ytu4oco-RJvl5c6O3EUKRxJIb4Vx2cF_zxzah32Xw3xtwzLr4V-k1Sub0p2Suvgf7R1oCL8JDQeeLT7jiN-rq/s1600/osmanlins.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjr26iXlx_Cu4xAHDjnuAtiTJtO2RwgEpMCa7j6zGSQbxjfBBDFYxTerh7Ytu4oco-RJvl5c6O3EUKRxJIb4Vx2cF_zxzah32Xw3xtwzLr4V-k1Sub0p2Suvgf7R1oCL8JDQeeLT7jiN-rq/s1600/osmanlins.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta é a verdade: agora eu estou só. Com mais um pouco, chegará a madrugada. As velas ficarão pálidas, os sinos dobrarão em tua homenagem; e, quando o sol vier, não iluminará teus olhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mais algumas horas e nossos conhecidos te levarão para o Campo. Estarão um pouco tristes, mas não podem imaginar que imensa perda eu sofri. Dirão entre si: “Tinha de ser. Um deles havia que ir primeiro…” E acharão que já sou muito idoso, que minha capacidade de sofrer se extinguiu e que não tardarei a seguir-te. Não lhes ocorrerá talvez, que é justamente por ser velho que tua ida é mais triste. Se fora moço, minha saúde afastaria a dor. Mas eu estou velho. E muito só, abandonado – sou uma criança aflita, querida. Meus filhos acham agora que os superiores são eles; que devem governar-me. Fazem recolher-me cedo, não me permitem comer o que desejo e até ralham comigo. É um modo de mostrar que me amam. Mas eu não sinto grande profundidade nesse afeto. Há uma certa rispidez na maneira como eles procuram preservar-me, como se eu fosse meio tonto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Também os netos, creio, não me querem como eu desejava. Sempre os imaginei como ingênuas crianças, as quais eu levaria pela mão a maravilhosas viagens e para quem inventaria histórias que ouviriam com prazer. Mas quase nunca eu os levo a passeio; e quando o faço, não consigo unir-me a eles, que trocam segredos, conversam em língua codificada, sorriem. (Suponho, mesmo, que muitas vezes troçam de mim.) E se tento contar-lhes uma história, não me levam a sério. Mas me recebem com alegria quando os visito, pedem a bênção ao vovô e levam meu chapéu para guardar. Observo, contudo, que não se sentem à vontade quando me beijam a mão e que o júbilo deles se prende muito mais aos brinquedos que lhes levo. E eu os olho sorrindo, com amargura, e penso nos anos que nos distanciam e no afeto que eles mal supõem existir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quanto aos amigos, tu sabes muito bem que não mais os possuo. Uns morreram; outros acharam na velhice um agradável pretexto para se tornarem brigões ou dementes; e o resto me aborrece pela insistência em me fazer acreditar ser bem mais velho que eles.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Só tu me restavas. Junto a ti eu podia ser eu mesmo, sem temor de parecer ridículo. Eras tu quem tinha a chave do meu caráter e do dom de encantar-me. (Mesmo a tua zombaria era uma forma de afeição.) E agora um duro silêncio te envolve e imobiliza. Vejo tuas mãos cruzadas, o lençol que te cobre, tuas feições tranqüilas. Sei que logo mais eles te levarão. Talvez, então, eu te beije a fronte. Não ignoro, porém, que me dói tua frieza de morta e é mais provável que beije teus cabelos. Sim, beijarei teus cabelos — que eu vi, de abundantes e negros, rarearem e encanecerem. Beijarei teus cabelos, querida; eles não mudaram com a morte. Tua fronte ficou mais límpida, o nariz mais fino, as faces se encovaram, a carne está rígida e as pálpebras não as fechaste com a suavidade de sempre. Teu cabelo, porém, continua intato; quando sopra o vento, ainda esvoaça; está vivo, é o mesmo que penteavas pela manhã e soltavas à noite, antes de dormir. E agora se bem não os houvesses despenteado, tu dormes. E eu me senti pesaroso e grave, como tantas vezes me senti junto a nossos filhos, quando eles estavam doentes e o sono lhes chegava pela madrugada, após uma noite inquieta e eu ficava junto a eles, sentado, olhando-os, até que tu vinhas e punhas a mão em meu ombro e fazias com que me fosse deitar. Agora, eu não conhecerei mais a doçura desse gesto. Talvez, daqui há pouco, venha alguém — um filho ou vizinho — que me induza a afastar-me de ti e deitar-me. Mas, quem quer que seja, virá com palavras. Tu, não: vinhas com o teu silêncio, com tua tranqüilidade, e fazias com que eu dormisse. Mas quando despertava, eras tu quem estava ao lado do enfermo. Isto, eles não saberão. É íntimo demais, exige um nível de compreensão mútua demasiado grande para ser revelado. Não lhes contarei.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Também não falarei a ninguém de certas coisas que guardo com imensa ternura e que, se contasse, me julgariam tonto. Não direi da emoção com que te vi, muitas vezes, fazer as mais corriqueiras tarefas. Durante anos, quase todos os dias cuidavas da casa. Eu te viam sem nada de especial. Mas vinha um dia em que eu te descobria a intimidade nesse trabalho. Via o cuidado com que afastavas a poeira, a precisão com que punhas os jarros em seus lugares, com que mudavas as toalhas, os panos; escutava teus passos e me comovia por ver como te entregavas a esses afazeres. E descobria um extremado amor nisso tudo, o que me fazia perceber como eras simples.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lembro-me mesmo que um dia havias trabalhado muito e te deitaste cedo. Eu fiquei lendo, e, quando o sono veio, fechei as portas. Havia um silêncio tão grande! Os móveis brilhavam, não havia pó no chão; tudo em ordem, limpo, cuidado. Detive-me um instante à sala de jantar, como se pressentisse avizinhar-se um mistério. Contemplei o jarro de flores, na mesa. Tu mesma as havias colhido pela manhã. Senti tua presença diligente na limpeza, nas flores; o carinho que depositavas em tudo. E percebi que havia algo me envolvendo: cingia-me um princípio de angústia. Na cozinha, olhei para o fogo: apagara-se. Durante o dia, estivera ativo, quente. Agora, estava morto. Era cinza. O que aconteceu em seguida, foi tão ridículo e sutil, tão difícil de expressar, que nunca te contei. Eu chorei, querida. Penso que sofri uma decepção obscura e súbita, uma espécie de dor ante a pouca duração da vida, da nossa vida – não sei; é possível também que houvesse sentido, ante a simplicidade com que vivias, algo semelhante à pena que às vezes nos aflige ante um folguedo de criança. Mas é difícil explicar. Talvez o que eu houvesse sentido fosse o presságio disto: de que virias a morrer, que nosso fogo não mais seria aceso pela tuas mãos e que nunca voltarias a colhes flores para o nosso jarro. Seria? Que me dizes?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Oh! Mas eu estou delirando. Fitava-te tão intensamente, com tanta saudade, que já te supunha viva. Se eles soubessem disto, também sorririam de mim. Na minha idade, já não se pode ter pensamentos estranhos nem fazer confissões. Fica-se ridículo, querida. E eu tenho que aproveitar estes últimos momentos em que ainda estamos juntos. É a última oportunidade de falar-te, mesmo sem abrir os lábios, e contar as tolices que não contarei a ninguém. Quero te dizer, por exemplo, uma coisa esquisita, uma coisa que não compreendo: os fatos culminantes de nossas vidas, aqueles que nunca poderíamos chegar a esquecer, perderam hoje esse privilégio. Nosso casamentos não é mais importante que a lembrança conservada, como por milagre, de quando te vi, pouco antes da cerimônia, em teu traje de noiva. Tão bem me lembro como teus olhos brilhavam e como teu riso era alegre! E no momento em que fecharam a porta para teu primeiro parto, que eu não tive coragem de assistir? Antes, isso era um fato importante! Hoje, não: está no mesmo nível de um gesto teu ou de teu sorriso. Hoje ele é tão importante como a tua alegria – esse resto de infância que nunca perdeste – a tua alegrai quando eu te presenteava com uma caixa de bombons ou uma fruta. Às vezes, eu te trazia biscoitos. Tu os guardavas e eu te censurava, porque me parecias avara, pois nem os comia de uma vez, nem os repartias com outrem. Mas eu te censurava sem rancor, porque sabia que a tua avareza era um modo de prolongar, ingenuamente, uma lembrança minha. Também não poderei contar isto a ninguém. Dirão que me preocupo com migalhas ou invento qualidades que não tinhas. E agora, querida, com quem repartirei estas memórias? Tu te vais e o peso do passado é muito grande para que eu o suporte sozinho. As palavras – todos sabem – são mortalmente vazias para exprimir certas coisas. Quando nos sentávamos, sós, a recordar nossa vida, não eram elas que restauravam os fatos: éramos nós.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E agora, que já não existes, com quem poderei falar de coisas triviais e amadas, como teu pesar, por teres quebrado involuntariamente um presente que eu te dera e nossa alegria na primeira viagem de trem? Com quem poderia falar disto? Com quem irei comentar teu hábito de, quando eu me esquecia dos óculos, deixares que eu chegasse à esquina para só então me chamar? E eu vinha, ralhava contigo, perguntava quando deixarias de ser criança. Mais tardem lembrava-me do episódio e me ria, disfarçadamente, com medo que me vissem e dissessem: “Olha o velho rindo sem motivo…”&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas eu não devia estar me lembrando dessas coisas. Talvez alguém tenha visto meu sorriso e julgará que não sinto a tua falta. “Ele não chorou — pensará. E agora, sorri. Está maluco; ou então nem sentiu.” Decerto, minha dor não é violenta. É cansada. Mas é tão vasta, tão desalentada e profunda… E vou ficar tão sozinho, querida…&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Conto inserido na coletânea OS GESTOS.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
_____&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
COMENTÁRIO:&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O conto &quot;Elegíada&quot; fala da solidão e da dor “cansada, vasta e desalentada” &amp;nbsp;de um homem que, já velho, fica viúvo. No último momento, com o corpo da esposa morta, ele pensa a saudade, tem a última conversa “em silêncio” com a mulher e relembra que, agora, todos os fatos e gestos vividos terão a mesma dimensão de profunda importância (desde as datas festivas, os eventos como o casamento, o nascimento dos filhos, até os gestos mais triviais). A saudade do silêncio partilhado, a compreensão um do outro pelos gestos, a profunda solidão de ver-se sem a companheira.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 115%;&quot;&gt;
&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;br /&gt;
&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKw1rYhSEjvElZNG-AUrYMD3c6aOmXFssrepC4g6shPcrDJg73i0dbfKKtPtk6wyvNJRV2Ae2ukXn958JfuVe684o7pBnyWO97NHnbMB2fNfwG4wl9SBBnH5Vdvz5rF355kmYCAs1dTqFM/s1600/28518646.gif&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhKw1rYhSEjvElZNG-AUrYMD3c6aOmXFssrepC4g6shPcrDJg73i0dbfKKtPtk6wyvNJRV2Ae2ukXn958JfuVe684o7pBnyWO97NHnbMB2fNfwG4wl9SBBnH5Vdvz5rF355kmYCAs1dTqFM/s1600/28518646.gif&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: &#39;Times New Roman&#39;, serif; font-size: 12pt; line-height: 115%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;</description><link>http://paginasavulsasdeliteratura.blogspot.com/2013/09/elegiada-conto-de-osman-lins.html</link><author>noreply@blogger.com (Unknown)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjr26iXlx_Cu4xAHDjnuAtiTJtO2RwgEpMCa7j6zGSQbxjfBBDFYxTerh7Ytu4oco-RJvl5c6O3EUKRxJIb4Vx2cF_zxzah32Xw3xtwzLr4V-k1Sub0p2Suvgf7R1oCL8JDQeeLT7jiN-rq/s72-c/osmanlins.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-2479522698964647039.post-2370940200027040941</guid><pubDate>Sun, 22 Sep 2013 22:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2013-11-14T15:28:26.334-03:00</atom:updated><title>Maria Teresa Horta. Lydia.</title><description>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYE5U105R_OXelOGAvLs2dJe4WVxHgZ7jL5__X7bal-z3DaOa-k_BLHpF6rRSzCh0j-bNOsdqilQ4Mq6w75dd9dQkt-PBJgA1VCTk4MOGUbUSSPwxXcOB9IdvmCjHrmcHQ-G0jzNOmtK2A/s1600/00zr051Rl4N.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYE5U105R_OXelOGAvLs2dJe4WVxHgZ7jL5__X7bal-z3DaOa-k_BLHpF6rRSzCh0j-bNOsdqilQ4Mq6w75dd9dQkt-PBJgA1VCTk4MOGUbUSSPwxXcOB9IdvmCjHrmcHQ-G0jzNOmtK2A/s1600/00zr051Rl4N.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYE5U105R_OXelOGAvLs2dJe4WVxHgZ7jL5__X7bal-z3DaOa-k_BLHpF6rRSzCh0j-bNOsdqilQ4Mq6w75dd9dQkt-PBJgA1VCTk4MOGUbUSSPwxXcOB9IdvmCjHrmcHQ-G0jzNOmtK2A/s1600/00zr051Rl4N.jpg&quot;&gt;Primeiro foi uma espécie de impressão nos ombros e no pescoço. Uma ardência. Uma espécie de queimadura à flor da pele. Tentou ver-se no espelho do quarto: nua da cintura para cima, torcendo-se um pouco. Pareceu-lhe descobrir uma pequeníssima mancha vermelha em cada omoplata. Foi buscar o espelho redondo, cabo de prata trabalhada toda à volta, mas não conseguiu distinguir mais de perto.&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Levou os dedos de novo às costas e tacteou um pouco. Mexeu de cá para lá a ver se descobria alguma grossura, mas não sentiu nada; absolutamente nada. Vestiu a blusa mais fina a abotoar à frente, praticamente translúcida e durante o resto do dia quase se esqueceu fresca e leve daquela impressão, daquela comichão.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao fim da tarde, quando já fazia escuro, o ardor voltou: docemente, num incômodo sem causa. Lídia nem sabia afinal o que sentia. E quando o marido chegou para jantar encontrou a casa às escuras e fria. Como que vazia na escuridão opaca dos quartos. Gritou: “Lídia!”, mas ela não lhe respondeu logo, entorpecida, entontecida, como se tivesse bebido um pouco.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Realmente Lídia sentia muita sede.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A mãe vomitara sangue quando ela era muito pequena. Vira-a levar os dedos à boca e eles saírem sujos de sangue enquanto tossia sem conseguir parar. Num desespero sem nome. Agarrara-lhe um dos braços abaixo do cotovelo e não o largara mais até a hemoptise acabar, pouco a pouco, de forma surda e equívoca.&lt;br /&gt;
O avô que era médico deitara a mãe num cadeirão baixo e largo na casa de jantar, dera-lhe um comprimido, um copo de água gelada. Pusera-lhe um saco de água quente aos pés e sentara-se numa cadeira em frente, hirto, à espera.&lt;br /&gt;
Estava muito branco e silencioso, como que a escutar aquele pequeno silvo que saia da boca da mãe, aquele borbulhar contínuo no peito da mãe enquanto tossia e levava um guardanapo de linho à boca e ele voltava sempre manchado de encarnado vivo. A mãe inclinava a cabeça para trás no espaldar forrado do cadeirão e de olhos fechados tentava dominar aquele pequeno repuxo de sangue que lhe subia do corpo a aflorar os lábios cerrados e lívidos; a perderem os contornos.&lt;br /&gt;
Lídia lembrou-se da mãe e teve medo, inexplicavelmente, ao lembrar aquelas marcas que julgara perceber nas costas quando olhara no espelho. Simétricas. Totalmente simétricas: em cada omoplata numa pequeníssima dor que começava agora a descer pelos braços, à flor da pele. Um formigueiro, era isso. Como um formigueiro na parte exterior dos braços que prendeu ao pescoço do marido inclinado sobre a cama ainda de casaco vestido tal como chegara da rua.&lt;br /&gt;
“Teus braços tão quentes!” – admirou-se ele, beijando-a na boca. Mas ela recuou porque lhe era insuportável o contacto do seu corpo. Nauseada. Percebeu então que asfixiava; as janelas fechadas da casa pareceram-lhe por momentos terem grades.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lídia recuou enrodilhando a colcha de renda da cama e disse baixo, como se estivesse a perder as forças: “Sufoco”. E não se levantou para fazer o jantar. Dormitou um pouco antes de o marido começar a despir-se para se deitar. Mas quando ele se estendeu a seu lado ela gritou. Um grito estrídulo e modelado.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A meio da madrugada, Lídia acordou, aterrada. “Foi um sonho”, pensou, mas logo percebeu que realmente não sentia os braços. Estavam tão leves que mal os sentia. Sentou-se na cama banhada por um suor morno que lhe corria pelas axilas, num cheiro a erva seca, a palha. Um suor que lhe colava os cabelos ao pescoço, lhe escorria pela cara, à volta da cintura. Nas virilhas também: pequenas bagas de suor a descerem pelas pernas que limpou devagar com a ponta dos dedos trêmulos. Levantou-se cambaleando e foi vomitar, curvada na retrete, um líquido amarelo, sujo, nauseabundo. Depois, quando lavou a boca à torneira do lavatório, olhou-se novamente no espelho e reparou nos olhos: afastados, de um azul lívido. Esgarçado, que não conhecia. Confusa, voltou a olhar e não se reconheceu no rosto no rosto que viu refletido no espelho: comprido e lívido, malares muito salientes, os olhos separados e sem cor.&lt;br /&gt;
Abriu a torneira toda, deixou correr a água e mergulhou nela a cara sem no entanto conseguir acalmar aquela febre. Aquele tremor, aquela chama a queimar-lhe o corpo todo. E ficou ali durante muito tempo, desorientada, sem conseguir entender o que se passava consigo. Sentindo-se desesperadamente só. Agachada a um canto da banheira.&lt;br /&gt;
“Tem graça – disse o marido quando se levantou de manhã -, cheira a rio, aqui.” –Ergueu um pouco a cabeça, olhando à roda. Lídia encolheu-se debaixo dos lençóis, os pulsos latejantes e novamente com aquela impressão esquisita e aguda nas costas, no pescoço, nos ombros. Encolheu-se mais, os joelhos unidos quase ao pé da boca, a sentir os braços dormentes. Ou melhor: ausentes.&lt;br /&gt;
“Acho-te com um ar estranho” – disse-lhe o marido parando para se despedir dela mesmo junto à cama. Lídia encolheu-se mais, muda. E sem a beijar, distraído, perguntou-lhe por que não ia ao médico da parte da tarde.&lt;br /&gt;
Lídia abanou a cabeça que sim e fechou os olhos depressa, na pressa de se afastar do seu olhar inquiridor, aterradoramente perto, como se de um momento para o outro a fosse agarrar. Então soube que não suportaria que ele a tocasse e fingiu que havia adormecido de novo. Mas logo que o ouviu sair, bater com a porta da rua, saltou num movimento único e ficou de pé no meio do quarto tremendo muito. Em desequilíbio. Entreabriu os braços naquele gesto largo que vinha fazendo por gosto há umas semanas e logo os seus pés tocaram por inteiro o chão, equilibrando-a.&lt;br /&gt;
Foi até ao espelho grande do guarda-vestidos e virando-se tentou novamente ver. As manchas lá estavam, maiores mesmo, dois pequenos círculos rosados e grossos. Tocou primeiro um, depois o outro e soube-lhe bem acariciar-se assim, aliviando um tudo nada aquele ardor. Aquela comichão. Aquela comichão dormente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;a name=&#39;more&#39;&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
Lídia ficou ali praticamente o resto do dia: entre a cama e o espelho. Ora morrendo de sede ora de fome, ora asfixiando, janela escancarada por onde entrava todo o calor de um Verão sufocante que a banhava em suores entorpecedores que a febre fazia queimar sobre o corpo nu, enrodilhado no chão.&lt;br /&gt;
No primeiro dia ainda conseguiu beber algum leite, mas logo o vomitava, espumoso. Mais uma baba, um suco ácido que lhe abria gretas nos lábios ressequidos. Depois, a pouco e pouco ficou a beber só água que engolia em goles pequenos erguendo o pescoço que parecia cada vez mais esguio à medida que ela perdia peso e os ossos iam surgindo sob a pele de um tom levemente rosado; cada vez mais áspera. O marido fugia dela, espantado primeiro e depois repugnado. Teimando em chamar o m édico que quando veio diagnosticou uma depressão e lhe receitou uns comprimidos que ele foi buscar à farmácia e Lídia fingia tomar para logo os cuspir fora quando o via afastar-se.&lt;br /&gt;
Na segunda noite disse ao médico que não o queria a dormir a seu lado; mas ele também não desejava ficar, aterrado com o aspecto desfeito do rosto dela, agoniado com o suor que lhe banhava o corpo e foi dormir para a sala, dizendo alto, admirado: “esquisito, há um cheiro esquisito lá em casa”.&lt;br /&gt;
- Era um odor a prado; a erva seca e a água corrente por entre as pedras e os cardos, soube Lídia desde o princípio, quando secou os primeiros suores de febre no seu corpo nu, tremendo sobre a cama.&lt;br /&gt;
Na terceira noite tornou a acordar de madrugada, enrodilhada aos pés da cômoda de mogno preto que lhe dera a mãe. A cômoda da casa do avô, posta ao canto do quarto grande ao fundo do corredor por onde ela deslizava a medo quando era pequena, em bicos de pés, durante as horas da sesta e todos estavam deitados, nos meses de férias.&lt;br /&gt;
Na terceira noite voltou a acordar de madrugada debatendo-se com algo que ela julgou ser um pesadelo. A comichão nas costas aumentara e os braços voltaram a ficar dormentes e sem peso. Passou neles os dedos trêmulos e sentiu pela primeira vez que lhe estava a nascer uma espécie de penugem pelo lado de fora, até aos ombros; uma penugem áspera e doce ao mesmo tempo. Correu tropeçando a abrir a luz e ficou a olhar-se durante muito tempo, com o coração a bater descompassadamente, a olhar o corpo liso e macio que percorreu com as mãos. Ao de leve.&lt;br /&gt;
Na manhã seguinte o marido foi encontrá-la dormindo febrilmente, deitada perto da janela. A receber a brisa da manhã já acesa de calor àquela hora. Os cabelos espalhados na alcatifa, tão louros que faziam doer os olhos.&lt;br /&gt;
Ficou a olhar assustado a magreza do corpo despido a seus pés. A beleza do corpo despido a seus pés. Curvou-se devagar e aproximou a boca dos seios que beijou ao de leve sentindo aquele odor adocicado que se desprendia da mulher adormecida, lábios entreabertos e hálito queimado, ácido.&lt;br /&gt;
Curvou-se e tocou-lhe com a ponta dos dedos nos bicos erectos dos seios docemente em repouso. Mas ela acordou logo e fugiu-lhe dos braços naquele grito estrídulo e modelado que estava a tornar-se um hábito da sua parte.&lt;br /&gt;
“Eu não te faço mais – disse baixo levantando-se e olhando-a aterrado, querendo de qualquer forma acalmá-la. E afastou-se até a porta. Foi então que viu as fezes a um canto do quarto. Fugiu enojado. Ao passar na sala reparou que ela deixara de se preocupar de todo com a casa: o pó começava a tomar altura nos móveis, na alcatifa. Só os cinzeiros estavam estranhamente limpos. E apenas nesse instante se apercebeu que Lídia não voltara a fumar.&lt;br /&gt;
Deixara até de comer: o leite, o pão, os ovos que trazia todos os dias estavam na cozinha, intactos.&lt;br /&gt;
Antes de sair fez um café forte que bebeu agoniado com aquele cheiro doce que estava a tomar conta de tudo. Um cheiro a água estagnada. Ou antes , a animal. Em cima da mesa de mármore da cozinha estava a fruta: golpeada, decepada, caroço à mostra&lt;br /&gt;
Debicada? Ficou ali parado sem saber o que pensar. Desnorteado. Com uma repugnância que sem ele querer lhe começava a ser insuportável, a empurrá-lo dali para fora.&lt;br /&gt;
Ao fim da tarde voltaria a procurar o médico, decidiu. Lídia havia enlouquecido.&lt;br /&gt;
Sentada no parapeito da janela, joelhos subidos à boca, Lídia estremeceu quando o escutou bater a porta da rua depois de andar de cá para lá entre a cozinha e a sala. Ouviu-o ainda a falar ao telefone para o médico a combinar um encontro e adivinhou o perigo.&lt;br /&gt;
Lídia adivinhou o perigo.&lt;br /&gt;
Naquele dia sentia-se melhor – a febre não voltara, mas a noite fora atormentada e terrível. Só conseguira adormecer já de manhã, horas e horas tentando acalmar aquela comichão nas costas cada vez maior.&lt;br /&gt;
No espelho redondo da casa de banho viu que as manchas nas omoplatas haviam crescido muito: eram agora dois círculos largos, imensos, de um rosa intenso, brilhante. Rugosos.&lt;br /&gt;
Fascinada voltou a acariciar-se e a acariciar-se, braços cruzados sobre os seios a embrulharem o tronco, mãos tacteando as omoplatas, tentando apagar aquela comichão macia agora quase boa.&lt;br /&gt;
Baixou-se sobre o lavatório para beber água da torneira.Deixara de se servir dos copos: inclinava o tronco, recebia a água na boca e em seguida engolia-a , cabeça erguida, o pescoço ondeando ternamente.&lt;br /&gt;
Já havia nascido a manhã quando se deitou sob a janela escancarada. A frescura da madrugada a descer-lhe no corpo a secar-lhe da pele os últimos suores da febre que baixara. A sossegar-lhe o cansaço. E o torpor cresceu adormecendo-a finalmente. Fazendo-a esquecer tudo à volta. O próprio corpo.&lt;br /&gt;
O medo que ainda aparecia de vez em quando perfurando aquele enevoado, aquele universo difuso, brumoso, onde passara a habitar.&lt;br /&gt;
Foi a última vez que dormiu deitada.&lt;br /&gt;
“Ela também deixou de falar” – explicou o marido ao médico quando o procurou no consultório ao fim da tarde. E contou-lhe dos dejetos, dos objetos derrubados, da fruta decepada na mesa da cozinha, dos ruídos estranhos e agudos que ouvia vindos do quarto. Do cheiro de animal que enchia a casa.&lt;br /&gt;
“Ela também deixou de se vestir” – lembrou-se.&lt;br /&gt;
Lídia sabia que tinha de se apressar, acabar aquele percurso de dor e de medo; cada dia menores. Perdidos à medida que mergulhava mais fundo na penumbra, dia após dia. Ficava horas alisando o corpo com a ponta dos dedos, passando a língua nos braços, pelos joelhos, pelos pulsos.&lt;br /&gt;
No princípio do mês viera-lhe a menstruação: deixara-a correr livremente pelas coxas, pelas pernas, naquele encarnado vivo de rubi. Debaixo do chuveiro masturbara-se até se sentir exausta. A seus pés a água era nacarada, rosa e sanguínea. Depois frente ao espelho do quarto voltara a acariciar-se, lentamente, entreabrindo os lábios da vagina e vendo o pequeno clitóris tumefacto, erecto e húmido.&lt;br /&gt;
Sabia que lhe restavam poucos dias, atenta nos curtos momentos de lucidez que ainda surgiam, aos ruídos e às modificações à sua volta. Tudo o resto lhe era indiferente. Ou melhor, o resto do seu tempo perdia-se informe e feroz. Lídia não se lembrava de alguma vez ter sido voraz. De ter sentido algum dia aquela voracidade.&lt;br /&gt;
Corria a defender-se atrás da cama quando o marido entreabria a porta e espreitava para dentro da penumbra onde se abrigava. Naquele fim de tarde o marido trouxe com ele o médico. Tentaram agarrá-la. Mas ela guinchou, mordendo. Arranhando; unhas na direcção dos olhos dos dois, que logo recuaram atemorizados. Aterrados.&lt;br /&gt;
“Tem de ser internada” – disse o médico.&lt;br /&gt;
Nessa noite Lídia sonhou com as árvores. Pela primeira vez sonhou com as árvores e com o imenso azul do céu, à sua frente. Sentia o ar fresco abrindo-se para a receber: um vento tépido e envolvente passando no seu corpo ágil, em movimento.&lt;br /&gt;
Pela primeira vez nessa noite Lídia sonhou com as árvores. Tomou elas o cheiro e as sementes do chão, por entre as ervas macias.&lt;br /&gt;
Pela primeira vez nessa noite Lídia sonhou com as árvores, matou a sede no ribeiro e a fome na mata deixando correr na garganta o suco dos frutos e das flores.&lt;br /&gt;
Acordou cedo, desceu do espaldar da cama onde se aninhara e foi até a janela escancarada. Olhou para fora, atenta. Mas apenas viu os prédios enormes, à volta, mesmo até lá longe. E por entre os intervalos, lá no cimo, um pouco de céu onde passavam as naves, silenciosas.&lt;br /&gt;
Encostou a cabeça aos vidros. Os cabelos caídos pelas costas, tão louros que faziam doer os olhos. Nessa noite Lídia sonhou com rosas: carnudas e vermelhas, sanguíneas. Rosas-chá, pálidas, de pétalas quase transparentes. Rosas cor-de-rosa, mais pequenas, que ela lembrava da quinta do avô, perto do muro que na parte de trás da casa dava para o rio que corria ali perto.&lt;br /&gt;
Nessa noite Lídia recuperou a memória. Em movimentos muito leves andou pelo escuro da casa sem tropeçar nos móveis, a tocar, a tactear os objectos, a louça, os contornos dos móveis.&lt;br /&gt;
Recuperou a memória. Entendeu que tinha de se apressar e foi encostar-se à janela esperando pela madrugada, que ela aparecesse por entre os prédios enormes à sua frente. E pensou naquela fotografia onde estava no meio das hortências azuis, sorrindo para o pai e para a mãe à sua frente. Porque nessa noite Lídia sonhara com a ilha onde vivera quando era pequena, o mar sombrio todo à roda, a terra a tremer debaixo dos pés, uma, três vezes por dia... E as hortências num colorido intenso. Como os olhos da mãe.&lt;br /&gt;
Lídia ficou ali muito tempo. Ouviu o marido levantar-se lá dentro. Percebeu depois que a espreitava entreabrindo a porta. Escutou em seguida o seu telefonema para o médico.&lt;br /&gt;
Quando ele saiu foi até à sala, à cozinha, ao escritório. Depois regressou ao quarto e ficou à espera.&lt;br /&gt;
Levantou-se um vento quente por volta do meio-dia: mais um bafo afinal pesado e tenso, que quase nem fazia inquietar os ramos das árvores. As cortinas do quarto de Lídia moveram-se um pouco mas logo se aquietaram. Ela estremeceu, sentiu uma ligeira tontura, estremeceu mas não saiu de onde estava, fitando-se e ao quarto através do espelho grande do guarda-vestidos pesado, a um canto. Alisou os ombros e as costas com as unhas durante algum tempo, os braços cruzados à altura do peito, as mãos atiradas para trás, os dedos longos esticados, as unhas compridas a adoçarem no gesto.&lt;br /&gt;
Parecia adormecida se não fosse o movimento das mãos quebradas pelos pulsos delgados, de criança.&lt;br /&gt;
Agora o seu tempo era estar ali à espera, vigilante a todos os ruídos. Ainda sabendo como era chorar mas já não conseguindo sequer imaginar-se chorando. Porque Lídia perdera para sempre a faculdade de chorar. Mesmo assim o soluço formou-se-lhe no peito à altura do coração. Mas os olhos continuaram secos, sem cor nenhuma, com aquele cintilar agudo do vidro que de longe se poderia confundir com lágrimas.&lt;br /&gt;
Lídia recuperara a memória mas não o choro. Não o choro.&lt;br /&gt;
Agachou-se, mãos e pés no chão, quando ouviu o marido meter a chave à porta da rua. Recuando para perto da janela aberta. Os olhos fitos na maçaneta de porcelana branca com pequenas flores pintadas a cor-de-rosa e verde.&lt;br /&gt;
Ele hesitou um pouco antes de deixar entrar os enfermeiros. Na sala percebeu que ela havia ali estado pelos objectos derrubados, pelo vidro partido da fotografia grande colorida à pena: as hortências tão azuis com os olhos dela, o pequeno casaco de malha encarnado subido na cintura, os joelhos magros e um pouco esfolados de brincar sozinha no pátio, as tranças e o risco ao meio no cabelo ainda cor de mel.&lt;br /&gt;
E o cheiro. Ele soube que Lídia havia ali estado pelo cheiro: a terra molhada, a palha, o riacho. A erva seca pelo calor. A animal, também.&lt;br /&gt;
Levou devagar a mão à maçaneta da porta do quarto e rodou-a.&lt;br /&gt;
Lídia viu a maçaneta rodar. Num golpe de rins saltou para o parapeito da janela a olhar sempre para dentro, a espreitar para dentro da penumbra do quarto. Acocorada. Os cabelos tombados para a frente, soltos, a baterem abaixo dos ombros.&lt;br /&gt;
Viu a maçaneta rodar e a porta abrir-se tão lentamente que ao princípio até poderia parecer ter continuado fechada.&lt;br /&gt;
Primeiro reparou nele e em seguida nos dois homens, bata branca abotoada atrás. Os três parados à entrada do quarto a olharem para ela, sem um gesto. Nem uma palavra. Apenas ali parados, excessivamente imóveis para serem reais. Só passado algum tempo o marido deu o primeiro passo em sua direcção.&lt;br /&gt;
Lídia deixou que pouco a pouco ele se aproximasse mais: cauteloso. A medo. Pés silenciosos postos atrás um do outro. Passos medidos. Olhar astuto.&lt;br /&gt;
Como quem caça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E na altura em que ele ia começar a formar o salto para a agarrar, lançou-se da janela.&lt;br /&gt;
Abriu as asas. Cintilantes ao sol da tarde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E voou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
_____________________________________________________&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Maria Teresa Horta. Lídia: In: VVAA, Contos. Ed. Caminho, 1985.&lt;/div&gt;
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