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		<title>Portal Brasileiro da Filosofia - Blog</title>
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			<title>Portal Brasileiro da Filosofia - Blog</title>
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			<title><![CDATA[Os donos dos afetos]]></title>
			<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 22:37:51 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<h1>Os donos dos afetos</h1> <div class="meta"><div class="date">Saturday, September 5, 2009</div> By Paulo Ghiraldelli</div> <p style="text-align: justify;"><a href="http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2009/09/K32.8Eros2.jpg" target="_blank"><img class="alignleft size-medium wp-image-300" style="border: 1px solid black; margin: 1px 10px; float: left;" title="ros, Athenian red-figure lekythos C5th B.C., Cleveland Museum of Art" src="http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2009/09/K32.8Eros2-135x200.jpg" alt="ros, Athenian red-figure lekythos C5th B.C., Cleveland Museum of Art" width="135" height="200" /></a>Uma boa parte daquilo que hoje tratamos como sentimentos, eram pot&ecirc;ncias divinas no mundo grego e romano. Os chamados &ldquo;processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o&rdquo;, que Hegel e Nietzsche foram mestres em analisar, e que depois, no s&eacute;culo XX, ganharam mais olhares a partir de Heidegger e Foucault, nos ensinaram a ver como que a filosofia refletiu o andamento da cultura na dire&ccedil;&atilde;o de &ldquo;trazer para o interior&rdquo; os deuses. S&oacute; assim nasceram os &ldquo;sentimentos modernos&rdquo;. Alguns dos sentimentos antigos desapareceram ou foram desvalorizados. Enquanto isso, aquilo que tinha vida objetiva, e n&atilde;o era propriamente um sentimento e, sim, uma praxe social ou uma condi&ccedil;&atilde;o humana, caiu para dentro da alma. A pr&oacute;pria alma veio a se espiritualizar, deixando seu car&aacute;ter corp&oacute;reo, como tinha em Arist&oacute;teles, para adquirir seu car&aacute;ter imaterial, como se afirmou com uma parte do cristianismo, chegando ao apogeu na filosofia de Descartes.</p> <p style="text-align: justify;">Assim, coisas como o amor, que dependia da for&ccedil;a de um demiurgo, <a href="http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0179">Eros</a>, hoje &eacute; algo da vida &iacute;ntima, um sentimento &ldquo;do cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Com isso, os padres se tornaram os donos do amor, uma vez que eles se promoveram como os donos das almas. Com o aparecimento da ci&ecirc;ncia moderna, o amor tem paulatinamente abandonado a met&aacute;fora do cora&ccedil;&atilde;o para se localizar na mente &ndash; &eacute; agora um estado mental. Assim, m&eacute;dicos e psicanalistas, roubam dos padres aquilo que eles roubaram do pag&atilde;o Eros. Agora, s&atilde;o esses profissionais das ci&ecirc;ncias, como donos da mente, os que podem falar do amor.</p> <p style="text-align: justify;">De Eros para os padres e destes para os psicanalistas, passando pelos m&eacute;dicos, o amor sempre foi propriedade de especialistas, nunca os pr&oacute;prios envolvidos nos dramas do amor puderam, eles pr&oacute;prios, botar a m&atilde;o nessa empresa. &Eacute; claro que literatos, poetas e fil&oacute;sofos tentaram quebrar esse monop&oacute;lio. &Eacute; claro que os pr&oacute;prios amantes, muitas vezes, buscaram a solid&atilde;o para n&atilde;o ter que perder, para os homens do monop&oacute;lio, o que lhes era caro. Mas, todas as vezes que isso ocorreu, os donos do amor ou, mesmo, de todos os afetos, criaram mecanismos para que o monop&oacute;lio n&atilde;o fosse arranhado. Ou apelaram para o poder de estado, com a censura, ou fizeram o inverso, apelaram para a imprensa, fazendo coro com a liberdade, ou melhor, certo tipo capcioso de liberdade.</p> <p style="text-align: justify;">No momento atual, a &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; que est&aacute; se formando para proteger o monop&oacute;lio dos afetos e, principalmente, o monop&oacute;lio do amor, inclui os psicanalistas, os puritanos de sempre, os advogados da sociedade do trabalho e, agora, a imprensa. Vestem diversas capas, mas o objetivo &eacute; o mesmo &ndash; o amor n&atilde;o pode sair do seu controle. Vestem a capa do &ldquo;combate a crimes sexuais&rdquo;, a capa do combate &agrave; &ldquo;prostitui&ccedil;&atilde;o infantil&rdquo; e, principalmente, a mortalha da &ldquo;campanha contra a pedofilia&rdquo;. Arrebanham nessas atividades muita gente mal amada, ou gente traumatizada pela viol&ecirc;ncia, mas nenhuma pessoa com consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica. Mobilizam a energia de pessoas infelizes no sexo e, portanto, prontas para gastar a energia em outras coisas, para gerar o terrorismo contra o amor sexual. O objetivo &eacute; um s&oacute;, a &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; n&atilde;o pode perder o controle dos indiv&iacute;duos. Nada al&eacute;m daquilo que Marcuse ensinou em seu tempo: a sociedade do trabalho n&atilde;o pode conviver com os que, buscando o prazer, desprezam hor&aacute;rios, disciplinas malucas, repress&otilde;es de toda ordem e, assim fazendo, mostram que a felicidade &eacute; irm&atilde; g&ecirc;mea do prazer.</p> <p style="text-align: justify;">Epicuro e outros hedonistas foram execrados na medida em que, em uma &eacute;poca de transi&ccedil;&atilde;o, quando os deuses come&ccedil;aram a perder espa&ccedil;o para os processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o, quiseram trazer o amor e coisas do tipo para os amantes. Quando a Renascen&ccedil;a e, depois, o liberalismo, quis dar continuidade a isso, j&aacute; o fez sob regras que n&atilde;o tardaram em ser parecer com as de agora, as da &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo;.</p> <p style="text-align: justify;">O Brasil de hoje est&aacute; sob o dom&iacute;nio dessa &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo;. O psicanalistas oficias aparecem na TV e, ao lado de jornalistas que fingem estarem espantados, como se fossem jovens de 12 aninhos, travam uma conversa louca sobre o epis&oacute;dio do pai italiano que, no Cear&aacute;, beijou sua filhinha de oito anos e foi preso. Houve desconfian&ccedil;a dos que estavam ao seu redor de que ele seria um ped&oacute;filo. Caso a crian&ccedil;a n&atilde;o fosse filha, fosse uma sobrinha, e o tio pagasse uma coca-cola para a ela, na certa iriam acrescentar tamb&eacute;m o crime de &ldquo;incita&ccedil;&atilde;o &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o infantil&rdquo;.&nbsp; Caso o tio quisesse, ainda que junto com a m&atilde;e, sair do local da den&uacute;ncia, talvez as pessoas come&ccedil;assem a gritar em &ldquo;sequestro&rdquo; e &ldquo;tr&aacute;fico de escravas brancas&rdquo;. A &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; n&atilde;o quer perder seus cativos.</p> <p style="text-align: justify;">Por que tudo isso? Por uma raz&atilde;o simples: o moralismo n&atilde;o consegue mais controlar as pessoas, para que elas abandonem o prazer e, cabisbaixos, voltem para a f&aacute;brica, para o escrit&oacute;rio, para a ditadura do cart&atilde;o de ponto. Ent&atilde;o, quando a press&atilde;o moral internalizada afrouxa, &eacute; necess&aacute;rio recolocar leis. Mas leis caducas n&atilde;o pegam. A &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; sabe disso. Da&iacute; as campanhas. Todas essas campanhas contra a pedofilia e a prostitui&ccedil;&atilde;o infantil s&atilde;o in&oacute;cuas. S&atilde;o irracionais. Ningu&eacute;m come&ccedil;a a gritar para pegar bandidos. Quem grita, espanta o bandido. O servi&ccedil;o da pol&iacute;cia, para desmontar tais redes, precisa ser sigiloso. Ora, ent&atilde;o, se &eacute; assim, porque as campanhas? Ah, elas n&atilde;o s&atilde;o fomentadas pela pol&iacute;cia. Elas v&eacute;m da &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo;.&nbsp; Elas possuem outros objetivos. &Eacute; a ca&ccedil;a &agrave;s bruxas, para afastar as pessoas do exerc&iacute;cio livre do amor. A partir da campanha, cada pai e cada m&atilde;e come&ccedil;ar&atilde;o a pensar duas vezes antes de beijar o filho. Eis a&iacute; o terrorismo. Eis a&iacute; o odioso terrorismo que ir&aacute; afastar todos n&oacute;s uns dos outros, inclusive de nossos filhos. A &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; poder&aacute;, ent&atilde;o, controlar tudo. Pois, no fundo, ela n&atilde;o tem nenhum sentimento nobre, ela &eacute; apenas fruto do reino da necessidade, n&atilde;o do reino da liberdade.</p> <p style="text-align: justify;">No in&iacute;cio, cada pessoa pensa assim: &ldquo;ora, bolas, eu sei o que fazer com meu filho ou filha, e como sou um pai dedicado ou uma m&atilde;e carinhosa, jamais v&atilde;o me denunciar injustamente de nada&rdquo;. Mas isso n&atilde;o &eacute; verdade. Pois veja o caso do italiano, l&aacute; no Cear&aacute;. Ela beijou a filhinha de oito anos. A m&atilde;e, brasileira &ndash; brasilieir&iacute;ssima &ndash; estava ao lado, tranq&uuml;ila. Pensava ela: &ldquo;ah, que gostoso estar aqui no meu pa&iacute;s, meu marido &eacute; estrangeiro, gosto da It&aacute;lia, mas aqui &eacute; meu pa&iacute;s, meu mundo&rdquo;. E eis que, no seu mundo, junto dos seus, ela viu seu marido e sua filha ir para uma delegacia. O marido foi para tr&aacute;s das grades, a filha, de oito aninhos, foi para o trauma de ter de salvar o pai em um interrogat&oacute;rio doido. Mas o que ela deve responder para salvar o pai? Ela mesma n&atilde;o sabe. Ora, e quem de n&oacute;s saberia? Afinal, como imaginar que, no Brasil, o beijo est&aacute; proibido?</p> <p style="text-align: justify;">O pior de tudo s&atilde;o os jornalistas da TV, que se perguntam: &ldquo;qual o meio termo que teremos de encontrar&rdquo;. Ora, que bandidos! Meio termo para beijar? Meio termo para beijar filho! Onde estamos? Chegamos na pior das ditaduras, a ditadura em que cada cidad&atilde;o ao lado pode acusar voc&ecirc; de crime, o fant&aacute;stico crime do amor.</p> <p style="text-align: justify;">Cada um de n&oacute;s que se omite nisso, que deixa essas campanhas da &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; continuar, achando que est&atilde;o fazendo um bem social, achando que por detr&aacute;s dessas campanhas n&atilde;o h&aacute; Ongs esquisitas e dinheiro envolvido &ndash; inclusive dinheiro p&uacute;blico &ndash;, colabora com o terrorismo contra os afetos. A &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo; &eacute; poderosa. Voc&ecirc;s ver&atilde;o at&eacute; por conta da rea&ccedil;&atilde;o contra este meu artigo. Mas, o que eles n&atilde;o sabem, &eacute; que a miss&atilde;o do fil&oacute;sofo &eacute; esta mesma, a de estar junto da liberdade. Nisso, n&atilde;o desisto jamais. Caso voc&ecirc;s decidam fazer a Santa Alian&ccedil;a correr, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil vencer n&atilde;o. O poder que ela tem depende de uma campanha contr&aacute;ria. Pode-se fazer isso. Deve-se fazer isso. Pedofilia e prostitui&ccedil;&atilde;o infantil &eacute; caso de pol&iacute;cia, caso de investiga&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; assunto para gritaria. N&atilde;o participe do proselitismo em favor das campanhas da &ldquo;Santa Alian&ccedil;a&rdquo;, e comece a ser cr&iacute;tico sobre a TV e os jornais, pois eles est&atilde;o, n&atilde;o raro, nesse barco do &ldquo;ca&ccedil;a &agrave;s bruxas&rdquo;.</p> <p style="text-align: justify;">&copy; Paulo Ghiraldelli Jr., fil&oacute;sofo</p> <p style="text-align: justify;">S&atilde;o Paulo, 4 de setembro de 2009</p> <p style="text-align: justify;">Portal: <a href="http://filosofia.pro.br/">http://filosofia.pro.br</a></p> <p style="text-align: justify;">Blog: <a href="http://ghiraldelli.pro.br/">http://ghiraldelli.pro.br</a></p> <p style="text-align: justify;">Rede: <a href="http://ghiraldelli.ning.com/">http://ghiraldelli.ning.com</a></p><hr /><br />]]>
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			<title><![CDATA[Xuxa está para Sarney como Sasha estará para ____.]]></title>
			<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 22:56:14 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<p align="center"><strong></strong></p><p style="text-align: justify;">&nbsp;</p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><img src="http://portal.filosofia.pro.br/arquivos/portal.filosofia.pro.br/imagens/img_1251338004.jpg" alt="" width="180" height="500" align="left" />Sasha &eacute; filha da Xuxa. Sasha faz filme com a mam&atilde;e. Sasha tem 11 anos. Sasha escreveu no seu twitter a palavra &ldquo;cena&rdquo; com &ldquo;s&rdquo;. Xuxa ficou brava com os cr&iacute;ticos. Xuxa deu a desculpa: a Sasha foi alfabetizada em ingl&ecirc;s.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Xuxa fez um dicion&aacute;rio usando &ldquo;x&rdquo; em tudo. Sarney era o Presidente da Rep&uacute;blica. Sarney n&atilde;o gostou.&nbsp; Sarney falou isso publicamente. Xuxa chorou. Xuxa disse que era muito nova e n&atilde;o sabia o que era o certo e o errado. Xuxa tinha 25 anos.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O que voc&ecirc; tem a&iacute; acima s&atilde;o dois fatos e dois ditados. Os dois fatos ocorreram e o primeiro &eacute; recente. Isso acontece nas melhores fam&iacute;lias. Uma menina de 11 anos pode cometer um erro ortogr&aacute;fico &ndash; &eacute; bem perdo&aacute;vel. Mas o que n&atilde;o pode ocorrer &eacute; o <em>ditado</em> desaparecer da escola. O que n&atilde;o pode ocorrer de modo algum &eacute; o que vai ocorrer agora: a Unesp (uma universidade estatal!) ir&aacute; criar, se &eacute; que j&aacute; n&atilde;o criou, uma infinidade de vagas para o curso de pedagogia, tudo em forma de EAD &ndash; Ensino a Dist&acirc;ncia. O or&ccedil;amento da universidade n&atilde;o cresceu e, ent&atilde;o, tirando do que n&atilde;o tem, tal institui&ccedil;&atilde;o vai formar os professores das aspirantes a Sashas por meio de monitores e do ensino aligeirado.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">A USP fez um projeto de EAD para formar professores. Teve de parar. Uma greve de alunos relativamente conscientes a fez parar. A Unesp n&atilde;o, vai em frente. Frente? N&atilde;o se pode dizer que isso &eacute; frente. Isso &eacute; vergonhoso, pois &eacute; a velha hist&oacute;ria de sempre, nada de cursos de qu&iacute;mica ou engenharia para os pobres, e sim o curso de pedagogia. A id&eacute;ia dos nossos reitores parece ser esta: vamos pegar todos os pobres e dar-lhes diplomas de professores do Ensino B&aacute;sico. E para que eles n&atilde;o abandonem os ricos, indo para a universidade por 4 anos, vamos mant&ecirc;-los no trabalho. Com isso, mantemos todos nos seus postos e ao mesmo tempo conseguiremos colocar boas estat&iacute;sticas para os organismos internacionais. Ou seja, logo teremos uma legi&atilde;o de professores, vindos das &ldquo;camadas populares&rdquo;. Ser&aacute; a gl&oacute;ria dessa esquerda pol&iacute;tica que nunca foi de esquerda, pois isso n&atilde;o &eacute; pol&iacute;tica educacional que se apresente, isso &eacute; uma forma de populismo barato e, pior, ineficaz. Essa &eacute; a pol&iacute;tica educacional da universidade estatal de S&atilde;o Paulo &ndash; ser&aacute; uma pol&iacute;tica que Serra aprova? Uma coisa &eacute; certa, trata-se de uma pol&iacute;tica que o MEC de Fernando Haddad aprova. &Eacute; a pol&iacute;tica (educacional ?) do Lula.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O Brasil &eacute; o pa&iacute;s da mentira. Tudo come&ccedil;a j&aacute; com uma mentira: Pedro &Aacute;lvares Cabral, um portugu&ecirc;s, descobriu o Brasil. A mentira continua agora nas estat&iacute;sticas: o Brasil est&aacute; ampliando o n&uacute;mero de alfabetizados. No entanto, &eacute; f&aacute;cil derrubar essa conversa fiada. Qualquer um de n&oacute;s que lida com o ensino (e com a Internet) v&ecirc; que o erro de Sasha, agora, n&atilde;o &eacute; cometido por crian&ccedil;as somente, e sim por adultos &ndash; uma boa parte desses adultos j&aacute; possui o diploma de n&iacute;vel superior.&nbsp; N&atilde;o raro, esse diploma &eacute; o de pedagogia.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Fernando Haddad, Lula e, agora, a dire&ccedil;&atilde;o da Unesp, est&atilde;o nessa linha: que os n&uacute;meros mintam por n&oacute;s para que possamos, ao final dos tempos, dizer o que sempre dissemos: &ldquo;n&atilde;o sab&iacute;amos de nada&rdquo;. N&atilde;o &eacute; a universaliza&ccedil;&atilde;o do ensino, &eacute; a universaliza&ccedil;&atilde;o do &ldquo;estilo Lula de ser e estar&rdquo;.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Mas, mentira tem perna curta, dizem todos. Recebi aqui os primeiros dados de uma pesquisa n&atilde;o governamental. Um grupo de professores experientes fez uma an&aacute;lise comparativa entre os erros de pessoas alfabetizadas pelo Mobral (da &eacute;poca) e alunos de cursos de licenciatura de universidades estatais e de renomadas universidades particulares (atualmente). O resultado &eacute; de deixar qualquer um de cabelo em p&eacute;. O texto do aluno do Mobral, quando considerado alfabetizado oficialmente, cont&eacute;m menos erros ortogr&aacute;ficos que o do aluno atual que ir&aacute; ser professor.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">A sa&iacute;da para isso n&atilde;o &eacute; a ado&ccedil;&atilde;o de novos m&eacute;todos de ensino. O ditado da velha did&aacute;tica cumpriria sua fun&ccedil;&atilde;o. Ele cumpre tal fun&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rios outros pa&iacute;ses que n&atilde;o se desviaram de seu destino. &nbsp;A sa&iacute;da para essa situa&ccedil;&atilde;o de analfabetismo funcional que vivemos &eacute; trazer os melhores para a profiss&atilde;o de professor. Para tal, a carreira do magist&eacute;rio precisa ser valorizada. Todos dizem isso: sem a carreira atrativa, n&atilde;o se muda a educa&ccedil;&atilde;o brasileira. Ningu&eacute;m mais consegue dizer outra coisa.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Mas a valoriza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se faz simplesmente pelo aumento salarial pela via do &ldquo;b&ocirc;nus&rdquo; ou pela via do &ldquo;tempo de servi&ccedil;o&rdquo;, e sim pelo aumento salarial substancial acoplado a um sistema voltado para a <img src="http://portal.filosofia.pro.br/arquivos/portal.filosofia.pro.br/imagens/img_1251338099.jpg" alt="" width="180" height="500" align="right" />premia&ccedil;&atilde;o da capacidade intelectual do professor, avaliada em provas regulares e individuais. O professor do ensino de crian&ccedil;as e jovens no Brasil n&atilde;o pode ganhar de modo t&atilde;o diferente do professor universit&aacute;rio ou de outras profiss&otilde;es que requisitam educa&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria. Todavia, sua ascens&atilde;o na carreira, como a do professor universit&aacute;rio (ao menos em princ&iacute;pio), deve correr pelo leito da sua demonstrada compet&ecirc;ncia no dom&iacute;nio dos conte&uacute;dos intelectuais aos quais tem o direito, por lei, de ensinar.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">A &uacute;ltima coisa que podemos fazer para sairmos dessa mentira que nossos dirigentes est&atilde;o criando, a partir de estat&iacute;sticas ludibriadoras, &eacute; a ado&ccedil;&atilde;o do EAD na forma&ccedil;&atilde;o de professores. N&atilde;o temos que ser contra o EAD, mas temos de barr&aacute;-lo na forma que est&aacute; sendo propagandeado e posto em pr&aacute;tica, como panac&eacute;ia para suprir nossa falta de professores. N&atilde;o devemos fazer &nbsp;isso apenas em benef&iacute;cio da forma&ccedil;&atilde;o de professores, mas para proteger o pr&oacute;prio EAD. Do modo como estamos caminhando, nosso pa&iacute;s n&atilde;o ter&aacute; bons professores e, pior, em curto prazo veremos o EAD desacreditado. Ent&atilde;o, novas estat&iacute;sticas falsas ir&atilde;o tentar dizer que o fracasso n&atilde;o foi culpa do EAD ou, ent&atilde;o, dizer que o fracasso foi n&atilde;o da Unesp ou coisa parecida, mas do EAD.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Caso n&atilde;o fizermos isso, cada novo professor vai ter de aproveitar o barco da Xuxa e, todos os dias, dizer: fomos todos transformados em professores por meio de um EAD que errou o programa, era tudo em chin&ecirc;s, s&acirc;nscrito e coisas assim, ent&atilde;o, perdemos o traquejo com o portugu&ecirc;s. Para Sasha, at&eacute; que vale. Para os pobres que ir&atilde;o pegar diplomas de faculdades estatais via essa falcatrua que est&aacute; sendo armada, n&atilde;o valer&aacute;. Mais uma vez, os pobres ser&atilde;o enganados. Mais uma vez, tudo dar&aacute; errado. At&eacute; l&aacute;, os ide&oacute;logos que est&atilde;o ganhando dinheiro e poder com essa f&oacute;rmula, junto a reitores e ao governo, j&aacute; ter&atilde;o usufru&iacute;do das benesses desse poder e j&aacute; ter&atilde;o usado o dinheiro.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">S&atilde;o Paulo, 26 de agosto de 2009</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">&copy; Paulo Ghiraldelli Jr. fil&oacute;sofo</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Rede: <a href="http://ghiraldelli.ning.com.br/">http://ghiraldelli.ning.com.br</a></span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Blog: <a href="http://ghiraldelli.pro.br/">http://ghiraldelli.pro.br</a></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"> Portal: <a href="http://filosofia.pro.br/">http://filosofia.pro.br</a></span></span></p><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/xuxa-est-para-sarney-como-sasha-estar-para-.html#comentarios</comments>
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			<title><![CDATA[O que é um filósofo]]></title>
			<pubDate>Tue, 18 Aug 2009 19:08:52 -0300</pubDate>
			<link>http://portal.filosofia.pro.br/blog/o-que--um-filsofo.html</link>
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				<![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img style="float: left; border: 1px solid black; margin-top: 1px; margin-bottom: 1px; margin-left: 10px; margin-right: 10px;" title="LD The Philosopher, Paris, 1897" src="http://portal.filosofia.pro.br/arquivos/portal.filosofia.pro.br/imagens/img_1250633158.jpg" alt="L Deutsch - The Philosopher, Paris, 1897" width="200" height="159" align="left" />O que &eacute; um fil&oacute;sofo? Quase todos os mais escolarizados sabem o que &eacute;. Todavia, quando a pergunta &eacute; dirigida a algu&eacute;m que estudou filosofia ou que fez o curso de gradua&ccedil;&atilde;o em filosofia ou que &eacute; reconhecidamente um fil&oacute;sofo, nem sempre aquele que pergunta obt&eacute;m uma resposta satisfat&oacute;ria. N&atilde;o raro, os que est&atilde;o na empresa da filosofia complicam demais a resposta. Como todo e qualquer campo do saber, quem est&aacute; nele sabe que det&eacute;m algum poder &ndash; isso nos foi ensinado por Bacon, de um modo, e por Foucault, de outro. Alguns acreditam, ent&atilde;o, que se respondem &agrave;s perguntas que lhe fazem de um modo complicado, podem exercer o poder de maneira ampliada. Afinal, tudo que &eacute; misterioso, mesmo no mundo moderno, o mundo que Weber qualificou de desencantado, parece guardar mais poder que aquilo que &eacute; exposto claramente.</p> <p style="text-align: justify;">&Eacute; claro que, como Arist&oacute;teles notou e praticou, pode-se falar de filosofia em diversos n&iacute;veis e para diversos p&uacute;blicos segundo discursos diferentes. Mas, enfim, isso &eacute; desse modo para qualquer assunto.&nbsp; O que n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel de fazer &eacute; n&atilde;o conseguir explicar, para algu&eacute;m com alguma escolariza&ccedil;&atilde;o, o que &eacute; ser fil&oacute;sofo, e isso de modo claro, objetivo e at&eacute; mesmo simples. Ali&aacute;s, quem n&atilde;o exp&otilde;e de modo claro o que pensa, n&atilde;o pensa bem &ndash; n&atilde;o sabe corretamente o que acredita que sabe.</p> <p style="text-align: justify;">O fil&oacute;sofo ocidental &eacute; aquele tipo de intelectual que est&aacute; inserido na conversa&ccedil;&atilde;o inaugurada pelos pr&eacute;-socr&aacute;ticos e, enfim, colocada de um modo dur&aacute;vel por Plat&atilde;o. Trata-se da conversa que, depois de Arist&oacute;teles, chamamos de metaf&iacute;sica. <em>Meta</em>f&iacute;sica e alguma coisa que come&ccedil;amos a saber o que &eacute; quando a comparamos com a f&iacute;sica.</p> <p style="text-align: justify;">A f&iacute;sica fala do mundo, das coisas materiais. Sua fun&ccedil;&atilde;o, ao menos no in&iacute;cio das cosmologias, era o de procurar um princ&iacute;pio (um <em>arkh&eacute;</em>, em grego), dado por um elemento material (&aacute;gua, terra, ar e fogo &ndash; para os gregos antigos), cujo funcionamento e conduta, uma vez mostrados, diria como todo o mundo se faz e se organiza. A meta-f&iacute;sica, como o pr&oacute;prio nome j&aacute; diz, n&atilde;o se prende ao que &eacute; f&iacute;sico, vai al&eacute;m da f&iacute;sica (ou aqu&eacute;m, dependendo do ponto de vista), e quer encontrar princ&iacute;pios que regem o mundo em algo n&atilde;o material. Est&aacute; embutida na metaf&iacute;sica a id&eacute;ia de que h&aacute; a apar&ecirc;ncia e h&aacute; a realidade essencial de tudo, e que, em geral, tomamos a apar&ecirc;ncia pelo real e, ent&atilde;o, vivemos na ilus&atilde;o. Assim, o irmos para al&eacute;m da f&iacute;sica, ao entrarmos na metaf&iacute;sica, podemos desvendar os mecanismos pelos quais cometemos esse erro, o que nos faz cair na ilus&atilde;o e n&atilde;o enxergar o real. Eis a&iacute; o trabalho da filosofia. Eis a&iacute; o que faz um fil&oacute;sofo, em um sentido bem amplo: ele &eacute; aquele que acredita que h&aacute; uma ilus&atilde;o &ndash; um especial tipo de ilus&atilde;o &ndash; que d&aacute; um tran&ccedil;a-p&eacute;s na maioria das pessoas, os n&atilde;o-fil&oacute;sofos, e que ele, o fil&oacute;sofo, pode contar a tais pessoas como a <em>estrutura do cosmos</em> coloca a perna na frente de todos, armando o tran&ccedil;a-p&eacute;s. Antes que simplesmente expor o que &eacute; o real, o fil&oacute;sofo seria aquele capaz de mostrar o mecanismo pelo qual o real n&atilde;o estaria sendo captado pelo chamado senso comum.</p> <p style="text-align: justify;">&Eacute; claro que h&aacute; fil&oacute;sofos que dizem que toda essa conversa de metaf&iacute;sica &eacute; bobagem. S&atilde;o essas pessoas, que se dizem antimetaf&iacute;sicos, tamb&eacute;m fil&oacute;sofos? Na maioria dos casos, sim! Denunciar as ilus&otilde;es da filosofia ou da metaf&iacute;sica, pela via c&eacute;tica ou pela via de pensamentos deflacion&aacute;rios &ndash; ou descritivos, como os de Donald Davidson &ndash; n&atilde;o coloca tais pessoas como quem n&atilde;o sabe o que diz a metaf&iacute;sica, mas, antes, como <em>experts</em> da conversa&ccedil;&atilde;o que veio desde os pr&eacute;-socr&aacute;ticos e Plat&atilde;o &ndash; fil&oacute;sofos, ent&atilde;o.</p> <p style="text-align: justify;">Cada fil&oacute;sofo aut&ecirc;ntico &eacute; um ing&ecirc;nuo e, n&atilde;o raro, um presun&ccedil;oso. Ele acredita &ndash; e tem de acreditar &ndash; que pode dar fim &agrave; filosofia, pois vai desvendar de uma vez o mecanismo que estaria dando o tran&ccedil;a-p&eacute;s em todos, ou seja, a arma&ccedil;&atilde;o do cosmos ou do mundo que faz com que o chamado senso comum tome o que &eacute; a mera apar&ecirc;ncia pelo real. Ao mesmo tempo, cada fil&oacute;sofo aut&ecirc;ntico &eacute; um presun&ccedil;oso, pois ele continua essa investiga&ccedil;&atilde;o mesmo olhando para tr&aacute;s e vendo que os que investigaram antes a quest&atilde;o n&atilde;o eram tolos &ndash; eram grandes fil&oacute;sofos.</p> <p style="text-align: justify;">Assim, em termos gerais, h&aacute; dois tipos de fil&oacute;sofos: o metaf&iacute;sico e o deflacion&aacute;rio. Um, infla a filosofia com metaf&iacute;sica, o outro tenta fazer uma descri&ccedil;&atilde;o do mundo racional, mas de um modo descritivo, querendo mostrar que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio usar da dualidade central da metaf&iacute;sica &ndash; apar&ecirc;ncia e realidade &ndash; para tecer uma boa descri&ccedil;&atilde;o do mundo, da nossa atividade no mundo e tudo o mais.</p> <p style="text-align: justify;">Esses segundos fil&oacute;sofos poderiam ser os cientistas? N&atilde;o! Por uma raz&atilde;o simples: ainda que esses fil&oacute;sofos possam evocar algum tipo de empirismo ou pragmatismo, ou mesmo algum tipo de ceticismo, eles n&atilde;o fazem investiga&ccedil;&atilde;o a partir de experimentos e experi&ecirc;ncias, como os cientistas. Quando falam em experi&ecirc;ncias, estas s&atilde;o imagin&aacute;rias, n&atilde;o s&atilde;o poss&iacute;veis de serem efetivamente feitas em laborat&oacute;rio. S&atilde;o fil&oacute;sofos, sim, pois tentam fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o geral do mundo a partir de uma descri&ccedil;&atilde;o racional, ainda que digam que a exposi&ccedil;&atilde;o racional do mundo que est&atilde;o fornecendo ou que poderiam oferecer tenha dispensado a presen&ccedil;a do c&eacute;lebre tran&ccedil;a-p&eacute;s.</p> <p style="text-align: justify;">Particularmente, como fil&oacute;sofo, eu sou daqueles que ama ler os colegas metaf&iacute;sicos, embora me sinta mais companheiro dos deflacion&aacute;rios. Amo Plat&atilde;o, &eacute; certo, mas fui amigo, mesmo, de Rorty.</p> <p style="text-align: justify;">Ao longo dos anos em que fui me filiando &agrave; empresa da filosofia, procurei criar minha pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o do que seria a filosofia, e do que eu mesmo seria nisso tudo. Cheguei ent&atilde;o &agrave; formula&ccedil;&atilde;o atual: <em>o fil&oacute;sofo &eacute; um desbanalizador do banal</em>. O fil&oacute;sofo n&atilde;o busca o que est&aacute; &ldquo;por tr&aacute;s&rdquo;, mas &eacute; aquele que fica estupefato com o mais banal, o que est&aacute; sob a vis&atilde;o e observa&ccedil;&atilde;o de todos. N&atilde;o &eacute; que ele esteja vendo mais que outros, ou de modo mais profundo, ele apenas &eacute; capaz de <em>redescrever</em> o que v&ecirc; (ou que escuta ou que l&ecirc;) de modo que aquilo que ficou banal se desbanaliza e ganha ou recupera fama, prest&iacute;gio, adquire ou readquire capacidade de n&atilde;o ser mais banal.</p> <p style="text-align: justify;">&Eacute; claro que bons escritores, diretores de cinema, artistas de teatro etc. podem desbanalizar o banal. Mas, o banal do qual eu falo &eacute; o banal desbanalizado a partir da conversa&ccedil;&atilde;o e da linguagem da filosofia. Encaixa-se perfeitamente na tradi&ccedil;&atilde;o dos assuntos que se colocaram, de uma maneira ou de outra, na agenda da filosofia ocidental ou que poderiam ter sido colocados. Por isso, n&atilde;o raro, a minha redescri&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre a partir de uma j&aacute; boa redescri&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &agrave; toa a filosofia, como eu a pr&aacute;tico, &eacute; uma forma de conversa&ccedil;&atilde;o sobre a cultura. Nessa linha, tento manter a articula&ccedil;&atilde;o entre filosofia te&oacute;rica e pr&aacute;tica, como os fil&oacute;sofos gregos fizeram, negando o que atualmente a maioria dos professores de filosofia da universidade fazem &ndash; eles falam de filosofia e, no entanto, n&atilde;o vivem filosoficamente.&nbsp; O que os guia na vida s&atilde;o os interesses mundanos, s&atilde;o levados pela vida e n&atilde;o conseguem eles pr&oacute;prios levar a vida. N&atilde;o s&atilde;o fil&oacute;sofos, de modo algum.</p> <p style="text-align: justify;">Uma boa defini&ccedil;&atilde;o de filosofia &eacute; aquela que n&atilde;o serve apenas para explicar o que o fil&oacute;sofo que a formulou faz. Ela tem de se encaixar como boa explica&ccedil;&atilde;o da atividade de todos os outros fil&oacute;sofos do passado. Eles, os fil&oacute;sofos do passado, explicaram suas atividades de outro modo, &eacute; claro. No entanto, se voltassem &agrave; vida e lessem a minha defini&ccedil;&atilde;o de filosofia, seriam capazes de dizer: &ldquo;&eacute;, isso n&atilde;o foge tanto do que eu mesmo fiz&rdquo;. Isso deve valer, inclusive, para os n&atilde;o deflacion&aacute;rios. A defini&ccedil;&atilde;o tem de ser espec&iacute;fica, para caracterizar o que &eacute; o fil&oacute;sofo, e ao mesmo tempo ampla, de modo a trazer para o seu interior at&eacute; os metaf&iacute;sicos &ndash; contra os quais podemos, ora ou outra, nos colocar.</p> <p style="text-align: justify;">Ora, minha defini&ccedil;&atilde;o obedece a esses crit&eacute;rios? Isso &eacute; uma das coisas que tenho posto &agrave; prova, a cada dia, a cada iniciativa minha na vida filos&oacute;fica que levo. Sempre convido o meu leitor ou ouvinte a participar dessa aventura comigo. Pois, filosofia &eacute; algo da conversa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, da investiga&ccedil;&atilde;o coletiva. Nenhum fil&oacute;sofo imaginou filosofar sozinho.&nbsp; O fil&oacute;sofo que pensa fazer isso, n&atilde;o percebeu ainda que n&atilde;o &eacute; fil&oacute;sofo.</p> <p style="text-align: justify;">&copy; 2009-08-18 &ndash; &ldquo;Dia do Fil&oacute;sofo&rdquo; &ndash; S&atilde;o Paulo</p> <p style="text-align: justify;">Paulo Ghiraldelli Jr, fil&oacute;sofo</p> <p style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a href="http://ghiraldelli.pro.br/">http://ghiraldelli.pro.br</a></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a href="http://ghiraldelli.ning.com/">http://ghiraldelli.ning.com</a></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="color: #0000ff;"><a href="http://filosofia.pro.br/">http://filosofia.pro.br</a></span></p> <p style="text-align: justify;">&nbsp;</p><hr /><br />]]>
			</description>
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			<title><![CDATA[Paulo Freire versus Martin Carnoy]]></title>
			<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 00:15:25 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<p>&nbsp;</p><p style="text-align: justify;"><a href="http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2009/08/pf.jpg" target="_blank"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-138" style="margin: 2px 10px; border: black 1px solid;" title="Paulo Freire" src="http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2009/08/pf-150x150.jpg" alt="Paulo Freire" width="150" height="150" /></a></p><p style="text-align: justify;">Os comunistas odeiam utopias. N&atilde;o foi &agrave; toa que Engels se insurgiu contra elas. As utopias s&atilde;o do campo da esperan&ccedil;a e os comunistas gostam do campo do conhecimento. As utopias s&atilde;o feitas por aquilo que os fil&oacute;sofos modernos, desde Hobbes e Descartes, temem: a imagina&ccedil;&atilde;o. Contra o Renascimento, os modernos abominaram a imagina&ccedil;&atilde;o e a substitu&iacute;ram pelo entendimento iluminador que, depois, se transformou em iluminista. Antes conhecer do que imaginar. Antes propor o caminho reto do que criar utopias. Os marxistas se fizeram herdeiros aferrados dessa tradi&ccedil;&atilde;o iluminista, praticamente cientificista.</p><p style="text-align: justify;">As utopias, como o pr&oacute;prio nome diz, n&atilde;o est&atilde;o em lugar algum no campo do existente. N&atilde;o s&atilde;o pensadas para serem realizadas. As melhores utopias s&atilde;o apenas propostas negativas, de den&uacute;ncia da sociedade existente. Rousseau com o seu <em>Em&iacute;lio</em> irritou Durkheim exatamente porque, como o soci&oacute;logo dizia, e com raz&atilde;o, era algo irrealiz&aacute;vel. Diferente de Durkheim, Marx estava preparado para conviver com as utopias, mas os marxistas nunca as engoliram, pois, como frutos de uma &aacute;rvore demasiadamente enraizada no s&eacute;culo XIX, eles cultuaram o cientificismo, herdeiro do iluminismo estreito. Ao contr&aacute;rio da ci&ecirc;ncia, o cientificismo odeia a imagina&ccedil;&atilde;o. Assim, uma boa parte do pensamento de esquerda, ainda hoje, apegado ao cientificismo do s&eacute;culo XIX, n&atilde;o tolera quando se lida com a imagina&ccedil;&atilde;o. Nisso, este tipo de esquerda se aproxima do pensamento da direita.</p><p style="text-align: justify;">A entrevista de Martin Carnoy na <em>Folha</em> (<a title="Carnoy" href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/08/10/os-bonus-da-educacao-x-o-modelo-cubano/" target="_self">10/08/09</a>) &eacute; exatamente isso: o anti-utopismo. S&oacute; se pode pensar o estabelecido, o que j&aacute; est&aacute; posto em forma de modelo. &Eacute; claro que essa postura vem n&atilde;o s&oacute; dele ser comunista ou ter sido comunista, mas dele agregar ao seu curr&iacute;culo o diploma de economista. O comunista-economista &eacute;, na face da Terra, o animal menos capaz de usar da imagina&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; da ordem da fauna autenticamente cientificista. Precisa de um modelo para pensar, pois n&atilde;o consegue criar nada. Ora, o modelo de Carnoy n&atilde;o &eacute; mais a URSS ou a Alb&acirc;nia &ndash; ele evoluiu! Em pleno s&eacute;culo XXI o modelo dele &eacute; Cuba. E diz ele que esteve junto ao PSDB de S&atilde;o Paulo para falar ao Paulo Renato, o secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o de Serra, o que se deveria fazer no Brasil para melhorar nossa educa&ccedil;&atilde;o.</p><p style="text-align: justify;">Os diagn&oacute;sticos de Carnoy s&atilde;o uma li&ccedil;&atilde;o de p&eacute;ssimo entendimento de dados estat&iacute;sticos e as solu&ccedil;&otilde;es por ele propostas s&atilde;o exatamente aquilo que n&oacute;s, os fil&oacute;sofos de esquerda que amam a liberdade e a democracia, jamais engoliriam.</p><p style="text-align: justify;">Carnoy come&ccedil;a e acaba a entrevista elogiando o modelo cubano de ensino. Cita alguns exemplos de outros pa&iacute;ses, mas n&atilde;o lhes d&aacute; o cr&eacute;dito que confere ao ensino em Cuba. Faz isso, aparentemente, n&atilde;o por raz&otilde;es pol&iacute;ticas. Quer explicar como que o Chile e o Brasil, mesmo sendo mais ricos do que Cuba, n&atilde;o produzem uma educa&ccedil;&atilde;o eficiente. Mesmo perguntado sobre a falta de liberdade em Cuba, ele n&atilde;o titubeia, continua achando que a educa&ccedil;&atilde;o daquele pa&iacute;s &eacute; uma boa educa&ccedil;&atilde;o &ndash; &ldquo;ela funciona&rdquo;, ele diz. No final, ele mostra realmente o que pensa, de uma vez por todas, ao dizer que em uma reforma educacional &ldquo;tem de haver algum autoritarismo no in&iacute;cio&rdquo;. O pior &eacute; que cita, para endosso, o secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o de Obama, e em uma atitude que n&atilde;o tem a ver com o que Carnoy parece endossar ao elogiar Cuba.</p><p style="text-align: justify;">Carnoy n&atilde;o consegue compreender aquilo que Paulo Freire ensinou e que &eacute; de bom senso, a saber, que a educa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma atividade pol&iacute;tica. Sempre foi. Pedagogia e pol&iacute;tica estavam unidas na Gr&eacute;cia Antiga e s&atilde;o indissoci&aacute;veis hoje como sempre. A pedagogia faz na cidade a produ&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo enquanto a pol&iacute;tica prepara a cidade para acolher o indiv&iacute;duo que a vai colocar em funcionamento, modificando-a e, tamb&eacute;m, mantendo-a naquilo que muitos acham que &eacute; a sua melhor geografia. Por n&atilde;o entender isso, Carnoy acha que pode falar em educa&ccedil;&atilde;o como quem fala de uma &aacute;rea t&eacute;cnica, e a palavra t&eacute;cnica, neste caso, se faz equivalente da express&atilde;o &ldquo;filos&oacute;fica e politicamente neutra&rdquo;.</p><p style="text-align: justify;">Em Cuba, o aluno n&atilde;o consegue pensar criticamente exatamente porque a cr&iacute;tica &eacute; dirigida, limitada e, ent&atilde;o, tudo isso se torna um elemento de castra&ccedil;&atilde;o da imagina&ccedil;&atilde;o. Pode-se aprender, mas s&oacute; o que &eacute; permitido pelo Estado. Ora, o que &eacute; permitido &eacute; estreito demais. Os jovens reclamam disso quando entram em contato com o exterior. E a reclama&ccedil;&atilde;o dos jovens est&aacute; longe de se mover em fun&ccedil;&atilde;o daquilo que padres ocidentais e Fidel Castro condenam: &ldquo;o consumismo&rdquo;. Reclamam exatamente da quest&atilde;o central para eles: em Cuba, a liberdade filos&oacute;fica &eacute; imposs&iacute;vel. Carnoy admite que &eacute; assim em Cuba. Aceita do entrevistador a id&eacute;ia de que em Cuba o adestramento atropela a educa&ccedil;&atilde;o escolar. No entanto, ele acredita que em matem&aacute;tica, por exemplo, os alunos s&atilde;o bons, e ele pensa que esse tipo de assunto n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel de cair restrito pelas condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Ora, &eacute; um erro filos&oacute;fico esse tipo de atitude, pois &eacute; como se a matem&aacute;tica estivesse fora do mundo e n&atilde;o fosse conceitual. Quando nossa capacidade de conversar e, portanto, de elaborar conceitos, &eacute; restrita em v&aacute;rios setores, &eacute; um pouco ing&ecirc;nuo achar que ela vai ter grande f&ocirc;lego em outros setores e suprir a necessidade que temos de fazer da educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o um treinamento, mas um elemento de produ&ccedil;&atilde;o de &ldquo;vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos&rdquo;, como dizia Richard Rorty.</p><p style="text-align: justify;">Carnoy evoca estat&iacute;sticas quantitativas ou, melhor dizendo, quantitativistas, para mostrar que os alunos de Cuba s&atilde;o melhores do que os de outros pa&iacute;ses, nomeadamente o Brasil. S&oacute; n&atilde;o percebe que essas estat&iacute;sticas avaliam o que a escola fornece, e n&atilde;o o pensamento em geral. Responder ao professor o que ele pede, o que ele quer ouvir, ou passar em um exame padronizado a partir de uma vis&atilde;o padronizada, n&atilde;o &eacute; um bom modo de se mostrar algu&eacute;m capaz de construir um mundo melhor. Tenho grandes d&uacute;vidas sobre a utilidade da avalia&ccedil;&atilde;o de <em>performance</em> que coloca em&nbsp; destaque os meios, nunca os fins educacionais. Dou exemplos. A escola ensina que extrair uma raiz quadrada se faz por um procedimento, e ent&atilde;o, o aluno repete isso e chega a um resultado, e eis que &eacute; dito que ele &ldquo;aprendeu&rdquo;. Aprendeu mesmo? E aprendeu o que? Aprendeu a repetir procedimentos! A escola diz que o capitalismo &eacute; um sistema de explora&ccedil;&atilde;o e o aluno, no final do exame, repete isso. Aprendeu? Ora, aprendeu a repetir. Dogmas decorados e procedimentos padronizados, em ci&ecirc;ncias naturais e humanidades, n&atilde;o me parece ser algo que possa ser elogiado. Pois &eacute; o que ocorre: o aluno acertou a dar o resultado da raiz quadrada pedida e acertou no procedimento, o aluno acertou ao dizer que o capitalismo &eacute; um regime de explora&ccedil;&atilde;o, mas em ambos os casos, era poss&iacute;vel fazer diferente, usar da imagina&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o o fez. Evitou errar. Mas nem todo mundo que acerta tudo &eacute; inteligente, muito menos pode ser um projeto de &ldquo;vers&atilde;o melhorada de n&oacute;s mesmos&rdquo;.</p><p style="text-align: justify;">Uma raiz quadrada pode ser levada extra&iacute;da por v&aacute;rios procedimentos. Posso afirmar que h&aacute; alguns que poderiam ser inventados pelos jovens, e se tal atitude fosse incentivada, eles estariam seguindo a imagina&ccedil;&atilde;o, a faculdade temida. &Eacute; certo que o capitalismo &eacute; um regime de explora&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; poss&iacute;vel ver que a palavra &ldquo;explora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, no caso, pode ser usada com conota&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pejorativa, e a conota&ccedil;&atilde;o depende do contexto, do te&oacute;rico que est&aacute; definindo o capitalismo etc. Caso n&atilde;o exista imagina&ccedil;&atilde;o para abordar tais nuances, &eacute; dif&iacute;cil dizer que o aluno que repete &ldquo;o capitalismo &eacute; um regime de explora&ccedil;&atilde;o&rdquo; aprendeu algo capaz de faz&ecirc;-lo um <em>bom cidad&atilde;o do mundo</em>.</p><p style="text-align: justify;">Carnoy aposta que o ensino pode ser separado de um modo mais ou menos assim: uma parte t&eacute;cnica pode ser ensinada com efic&aacute;cia, mesmo sob o que ele diz que gosta, que o controle total do aluno e do professor (ele at&eacute; sugere ao Paulo Renato que filme os professores!). Ele imagina que isso &eacute; separar pol&iacute;tica e educa&ccedil;&atilde;o. Ele n&atilde;o percebe que sua proposta &eacute; pol&iacute;tica: &eacute; o endosso da pol&iacute;tica autorit&aacute;ria em favor de uma pedagogia mascarada.</p><p style="text-align: justify;">Meio envergonhado, ele diz que o sistema de b&ocirc;nus pode funcionar no Brasil. Claro, ele quer agradar o PSDB, pois parece afinado com o Paulo Renato. Mas, pelo que fiquei sabendo h&aacute; poucos dias, o pr&oacute;prio PSDB de Serra j&aacute; est&aacute; disposto a abandonar essa posi&ccedil;&atilde;o. Serra parece que tende a uma posi&ccedil;&atilde;o que venho defendendo faz tempo, e que inclusive est&aacute; em artigo publicado no <em>Estad&atilde;o</em> e enviado a ele, antes da elei&ccedil;&atilde;o para governador, na qual ele participou. Neste artigo, recomendo como proposta para o ensino o real incentivo salarial do professorado, mas feito a partir de exames aplicados no professor, independentemente de atua&ccedil;&atilde;o de escolas e de desempenho de alunos. A proposta do governador Serra para a Assembl&eacute;ia Legislativa, recente, &eacute; a de colocar quatro exames na carreira, capazes de jogar o sal&aacute;rio de um professor na ativa para algo em torno de 12 mil reais, em n&atilde;o muito tempo de trabalho. Isso faria o professor crescer se mantendo na sala de aula. Isso sim, acredito, resolver&aacute; de fato o problema de manter os melhores mestres como professores do Ensino M&eacute;dio, que &eacute; quase tudo que se pode fazer, em realidade, para melhorar o ensino. A fuga do bom professor da sala de aula, indo para a carreira burocr&aacute;tica ou para o ensino superior, &eacute; o nosso real problema educacional. Essa proposta enviada por Serra, certamente &eacute; uma cunha para solucionar isso (<a title="Estad&atilde;o" href="http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090804/not_imp413062,0.php" target="_self">Estad&atilde;o, 04/08/09</a>).</p><p style="text-align: justify;">Mas, Carnoy ainda &eacute; do &ldquo;PSDB do b&ocirc;nus&rdquo; e do autoritarismo. Ele n&atilde;o v&ecirc; que Cuba &eacute; diminuta e totalit&aacute;ria, e que os resultados dos alunos cubanos os colocam, em termos internacionais, abaixo do que &eacute; conseguido pelos alunos de pa&iacute;ses democr&aacute;ticos. Cuba se sai bem quando ponderamos o seguinte: eis a&iacute; um pa&iacute;s pobre que, na m&eacute;dia, se saiu bem. Mas, n&atilde;o raro, a m&eacute;dia &eacute; tamb&eacute;m a mediocridade. Ali&aacute;s, o intelectual cubano formado por Castro &eacute;, n&atilde;o raro, med&iacute;ocre. Notamos isso no professor universit&aacute;rio formado em Cuba. Ele pensa mal, pensa torto. Quando come&ccedil;a a usar da imagina&ccedil;&atilde;o, pelo contato com o exterior, ou &eacute; banido ou &eacute; punido. O ideal de Cuba &eacute; o ideal de &ldquo;um pouco para muitos&rdquo;. A ra&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria oferecida a todos para que ningu&eacute;m se sobressaia acaba funcionando: ningu&eacute;m se sobressai. E se sobressai, &eacute; convidado a voltar &agrave; mediocridade. O que &eacute; vigente &eacute; a id&eacute;ia da planifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; do pa&iacute;s, mas das mentes. Desse modo &eacute; f&aacute;cil se sair bem em exames internacionais &ndash; na m&eacute;dia.</p><p style="text-align: justify;">O problema do Brasil &eacute; outro, e a solu&ccedil;&atilde;o &eacute; bem diferente do que &nbsp;Cuba pode ensinar. O que queremos &eacute; como se sair bem em exames internacionais colocando todos os alunos sabendo o que devem saber e sabendo, tamb&eacute;m, o que a voz oficial de nosso pa&iacute;s acredita que n&atilde;o devem saber. Al&eacute;m disso, temos de manter nossa capacidade de n&atilde;o ficar na m&eacute;dia, mas de manter uma parte de nossos alunos na disputa de ponta. Pois, na ponta, n&atilde;o somos t&atilde;o diferentes dos melhores. Nossa rede de universidades p&uacute;blicas n&atilde;o &eacute; ruim. E nossos intelectuais mais destacados n&atilde;o s&atilde;o diferentes dos do exterior. Ali&aacute;s, recentemente, nossos alunos ganharam a Olimp&iacute;ada Internacional em Matem&aacute;tica. Assim, nosso fracasso na quantidade n&atilde;o &eacute; um fracasso do pa&iacute;s. N&atilde;o temos raz&atilde;o de pensar em Cuba ou na Cor&eacute;ia do Sul como modelos, pois chegar na m&eacute;dia ou na mediocridade elogiada n&atilde;o &eacute; nosso objetivo. Nosso melhor objetivo &eacute; como democratizar o ensino, fazer mais e mais pessoas aprenderem, sem que tenhamos de abrir m&atilde;o de estamos sempre com uma elite intelectual capaz de se colocar entre os destaques internacionais em v&aacute;rias &aacute;reas.</p><p style="text-align: justify;">Al&eacute;m disso, nosso desafio n&atilde;o &eacute; o de vencer mesmo tendo mentes planificadas, mas o de vencer utilizando mentes as mais divergentes poss&iacute;veis, dentro de um pluralismo de posi&ccedil;&otilde;es, etnias, gostos e perspectivas cada vez maior.</p><p style="text-align: justify;">Posso resumir isso lembrando uma conversa contada v&aacute;rias vezes por Paulo Freire, e que inclusive foi contada para mim, quando fui seu aluno. Freire contava que, em um encontro com Castro, o presidente cubano fez um elogio a ele diretamente, e incrivelmente franco: &ldquo;Paulo, voc&ecirc; faz bem ao criticar o capitalismo e a educa&ccedil;&atilde;o do mundo capitalista, mas quando voc&ecirc; envereda por criticar nosso antifeminismo, nossas medidas que voc&ecirc; chama de autorit&aacute;rias, voc&ecirc; n&atilde;o ajuda a Revolu&ccedil;&atilde;o&rdquo;. E Freire, segundo ele mesmo, respondeu algo mais ou menos assim: &ldquo;Comandante, eu sou fiel &agrave; uma educa&ccedil;&atilde;o libertadora&rdquo;. N&atilde;o sei se Freire publicou essa conversa, mas ele a contava sempre, para que seus alunos e amigos n&atilde;o tivessem d&uacute;vida de que ele n&atilde;o endossava a pedagogia da m&eacute;dia, do &iacute;ndice mediano, da mediocridade. Uma pedagogia libertadora n&atilde;o &eacute; aut&ecirc;ntica se n&atilde;o est&aacute; voltada para a cria&ccedil;&atilde;o de personalidades cada vez mais ricas por conta de poderem exercer sua imagina&ccedil;&atilde;o maximamente. Antes o Renascimento do que os tempos modernos &eacute; o que est&aacute; no horizonte de toda pedagogia que evoca a liberdade. Quando olhamos o Renascimento, vemos Rafael, Dante, Erasmo e tantos outros sorrindo. Quando olhamos os modernos vemos tudo culminando em Kant e Comte, substituindo o sorriso pela sisudez da ci&ecirc;ncia. Por isso, Nietzsche nunca gostou de outra &eacute;poca que n&atilde;o o Renascimento. Foi uma &eacute;poca de liberdade real, individual, de <em>hip hip hurra</em> para a imagina&ccedil;&atilde;o.</p><p style="text-align: justify;">Hoje em dia, Paulo Freire foi esquecido. A revista <em>Veja</em> consegue mercen&aacute;rios para escrever contra ele. E escrevem sem saber o que Freire escreveu. Tive de mostrar isso ao apontar para erros crassos, imbecis, de um Gustavo Ioschpe e outros meninos do mesmo tipo (<a title="Gustavo" href="http://ghiraldelli.blogspot.com/2008/07/direita-est-tosca-o-caso-de-gustavinho.html" target="_self">artigo</a>). O PSDB n&atilde;o quer nem ouvir falar em Paulo Freire e, se n&atilde;o chega a bater nele, n&atilde;o deixa de, por baixo do pano, apoiar a iniciativa da <em>Veja</em>. E o PT, que foi o partido de Freire, o idolatra exatamente para n&atilde;o ter de discutir o que ele dizia &ndash; e muito menos seguir. O ministro da Educa&ccedil;&atilde;o atual, do PT, &eacute; economista como Carnoy, e quer o pensamento ut&oacute;pico de Freire bem distante do MEC. Ele, como outros tantos educadores no Brasil, n&atilde;o querem nada com a imagina&ccedil;&atilde;o. Foram educados no marxismo. Aquele marxismo que jamais conseguiu conviver com o pensamento ut&oacute;pico. Para tudo, tinha e tem modelo &ndash; <em>modelitos. </em></p><p style="text-align: justify;">Carnoy &eacute; o homem do <em>modelito</em>. N&atilde;o &agrave; toa, portanto, chegou e j&aacute; conseguiu f&aacute;cil destaque na imprensa paulista, significativamente t&atilde;o avessa a discutir educa&ccedil;&atilde;o a partir do que &eacute; feito entre n&oacute;s. A imprensa brasileira fica deslumbrada com cada estrangeiro-modelito que se apresenta aqui para dizer que n&atilde;o sabemos fazer educa&ccedil;&atilde;o. O mundo copiou Paulo Freire. Nossa imprensa ainda n&atilde;o percebeu isso. Santo da terra n&atilde;o faz milagre.</p><p style="text-align: justify;">12 de agosto de 200, Ibitinga, S&atilde;o Paulo</p><p style="text-align: justify;">Paulo Ghiraldelli Jr., fil&oacute;sofo.</p><address style="text-align: justify;">Portal Brasileiro da Filosofia: <a href="http://filosofia.pro.br/">http://filosofia.pro.br</a></address><address style="text-align: justify;">Site pessoal <a href="http://ghiraldelli.pro.br/">http://ghiraldelli.pro.br</a></address><address style="text-align: justify;">Rede social de filosofia: <a href="http://ghiraldelli.ning.com/">http://ghiraldelli.ning.com</a> </address><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/paulo-freire-versus-martin-carnoy.html#comentarios</comments>
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		</item>

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			<title><![CDATA[A morte vai por compulsória]]></title>
			<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 21:08:17 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<p style="text-align: center;"><object width="306" height="204" data="http://www.doink.com:80/a/443373" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="src" value="http://www.doink.com:80/a/443373" /></object></p><p style="text-align: center;"><strong><span style="font-size: small;"><span style="color: #ff6600;">A Descoberta da Imortalidade e suas Fun&ccedil;&otilde;es</span></span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: small;"><span style="color: #ff6600;"><span style="font-size: x-small;"></span></span></span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">As pesquisas sobre imortalidade n&atilde;o est&atilde;o no terreno da pura fic&ccedil;&atilde;o. H&aacute; novas not&iacute;cias delas. O bi&oacute;logo Fernando Reinach publicou </span></span><a title="Artigo de FR" href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64916" target="_self"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">artigo sobre o tema</span></span></a><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">. Em tese, a id&eacute;ia n&atilde;o &eacute; nada maluca. Nossas c&eacute;lulas germinativas s&atilde;o imortais. Nossas c&eacute;lulas som&aacute;ticas, n&atilde;o. A id&eacute;ia b&aacute;sica &eacute; a de transportar caracter&iacute;sticas das primeiras para as segundas. At&eacute; a&iacute;, a fic&ccedil;&atilde;o. At&eacute; a&iacute;, &eacute; o que eu sabia com a minha biologia de ensino m&eacute;dio. O que Reinach divulga &eacute; que a fic&ccedil;&atilde;o, mais uma vez, est&aacute; sendo realizada, ainda que se esteja em passos bem iniciais.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O fato &eacute; que os cientistas n&atilde;o conseguiram <em>ainda</em> retardar o envelhecimento de &oacute;rg&atilde;os &ndash; e &eacute; este o objetivo que perseguem &ndash;, mas eles est&atilde;o j&aacute; sabendo, ao menos, que a reprograma&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas som&aacute;ticas a partir do que fazem as c&eacute;lulas ditas imortais, as germinativas, &eacute; perfeitamente poss&iacute;vel. Ora, nesta hora, o bi&oacute;logo volta para o laborat&oacute;rio, o fil&oacute;sofo vai para &agrave;s ruas.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Se as pesquisas est&atilde;o certas, num futuro que, segundo Fernando Reinach, avaliamos como long&iacute;nquo, poderemos pensar na imortalidade. Ora, para o fil&oacute;sofo, uma conclus&atilde;o como esta n&atilde;o precisa nem um pouco do futuro para ter suas conseq&uuml;&ecirc;ncias. Suponhamos que uma parte da popula&ccedil;&atilde;o escolarizada, informada e, &eacute; claro, inteligente, entenda que esse caminho &eacute; vi&aacute;vel, ent&atilde;o, o que isso significa para o pensamento social que lida com a morte? Por exemplo, as doutrinas mais dependentes, atualmente, da n&atilde;o exist&ecirc;ncia da imortalidade, s&atilde;o as doutrinas religiosas. Caso possamos nos convencer que o que Fernando Reinach diz &eacute; correto, e temos tudo para isso por meio da nossa cultura m&eacute;dia, podemos ent&atilde;o abolir, desde j&aacute; a id&eacute;ia de que morte e religi&atilde;o est&atilde;o ligadas <em>do modo como est&atilde;o</em>. Caso estiv&eacute;ssemos no mundo grego, uma descoberta assim teria um impacto tremendo, mas n&atilde;o faria a religi&atilde;o desaparecer. Todavia, e no nosso mundo ocidental moderno, o mundo dito oficialmente crist&atilde;o, o que &eacute; compreender que a imortalidade &eacute; fact&iacute;vel?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O problema todo recai, novamente, no modo como Jesus articulou a sua no&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a com a nossa tarefa &eacute;tica. O problema &eacute;, mesmo, o de como pensamos na no&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">A esperan&ccedil;a nossa, de pragmatistas rortiano-davidsonianos, &eacute; uma esperan&ccedil;a vaga, ela n&atilde;o se vincula a uma utopia pr&eacute;-determinada. No m&aacute;ximo, o que n&oacute;s dizemos &eacute; que temos esperan&ccedil;a de construir uma sociedade futura em que possamos ser &ldquo;vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos&rdquo;. Do mesmo modo que Marx, n&oacute;s tamb&eacute;m evitamos delinear nossa utopia (o comunismo nunca foi mais que mera palavra, nunca foi uma utopia no sentido das utopias cl&aacute;ssicas, bem detalhadas). Por isso podemos dizer, junto com Rorty, &ldquo;antes esperan&ccedil;a que conhecimento&rdquo;. Conhecimento para, ent&atilde;o, se ter a utopia, &eacute; algo esquisito. Caso possamos saber tudo do futuro de modo a deline&aacute;-lo <em>aqui </em>para realiz&aacute;-lo <em>l&aacute;</em> em detalhes, tudo indica que o resultado n&atilde;o ser&aacute; bom &ndash; ao menos foi o que aprendemos no s&eacute;culo XX.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Ora, mas a esperan&ccedil;a que Jesus trouxe tem um componente diferente. Os crist&atilde;os n&atilde;o discordam dos pragmatistas quanto &agrave; id&eacute;ia de que podemos &ndash; e devemos &ndash; tentar construir sociedades futuras em que seus membros sejam &ldquo;vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos&rdquo;. Mas os crist&atilde;os discordam de n&oacute;s quando ficamos mais ou menos satisfeitos com essa nossa id&eacute;ia de utopia. Eles nos acham muito humildes. Pois a esperan&ccedil;a deles segue pelo caminho de Jesus, o de vencer a morte. Um caminho que os cientistas do artigo de Reinach acreditam que existe.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Os cientistas imaginam vencer a morte sem ter de enfrent&aacute;-la. &Eacute; uma boa t&aacute;tica. Jesus foi mais ousado: ele disse que venceria a morte, enfrentando-a. Foi para a Cruz e, depois de morto, reapareceu para os ap&oacute;stolos, bem vivo. E com o mesmo corpo &ndash; inclusive, datado, pois ainda perfurado pela crucifica&ccedil;&atilde;o. Tendo perambulado por entre eles durante v&aacute;rios dias, finalmente, segundo o que diz o &ldquo;Credo&rdquo;, &ldquo;subiu aos C&eacute;us de corpo e alma, onde est&aacute; sentado &agrave; direita do Pai&rdquo;. Claro, o &ldquo;Credo&rdquo; ainda diz mais. Diz que Jesus e voltar&aacute; para &ldquo;julgar os vivos e os mortos&rdquo;. Assim, neste exato momento, os mortos de fato ter&atilde;o a ressurrei&ccedil;&atilde;o, para serem julgados. E os que estiverem vivos, tamb&eacute;m ser&atilde;o julgados. Fica claro, portanto, que se formos imortais, ainda assim, a tarefa de Jesus n&atilde;o terminou. Pois o tal do julgamento final est&aacute; posto, em qualquer circunst&acirc;ncia. O que fica um pouco desacreditado &eacute;, assim, <em>somente </em>a id&eacute;ia de que unicamente Jesus poderia vencer a morte. Al&eacute;m do mais, uma vez que ele reapare&ccedil;a, e ponha seu julgamento para funcionar, o que ele poderia nos dar de vantagem que j&aacute; n&atilde;o tiv&eacute;ssemos conseguido? J&aacute; n&atilde;o ter&iacute;amos a tal de imortalidade, de vida eterna, que ele disse que s&oacute; ele poderia dar?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Pois bem. Como se v&ecirc;, uma vez posta a <em>quest&atilde;o imortalidade</em> como um elemento fact&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio esperar por ela para ver como que a filosofia j&aacute; tem de ser alterada. Uma boa filosofia deve, agora, para ser inteligente, dar mais cr&eacute;dito a William James, que dizia que a religi&atilde;o &eacute; verdadeira se acreditamos nela. Parece que &eacute; isso que temos de levar em conta, principalmente agora. Pois, mais do que antes, a religi&atilde;o, agora, ganha componentes de doutrina pr&aacute;tica, e menos de conjunto te&oacute;rico. O que faz um crist&atilde;o num mundo em que a imortalidade se torna um fato, sen&atilde;o para n&oacute;s no presente, ao menos para outros, no futuro? O intelectual que ainda quiser se crist&atilde;o, precisa, a partir da&iacute;, tomar o cristianismo como Nietzsche o tomou, como uma revolu&ccedil;&atilde;o moral, n&atilde;o como uma mostra de poder sobrenatural capaz de, ao fomentar a esperan&ccedil;a, fazer tal coisa pela id&eacute;ia de &ldquo;vencer a morte&rdquo;.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Em outras palavras: tornamos o Velho Testamento uma f&aacute;bula, um conjunto de alegorias, e agora vamos ter de fazer o mesmo com o Novo Testamento. Ou fazemos isso, ou n&atilde;o teremos mais como sustentar &ndash; ao menos que n&atilde;o tenhamos forma&ccedil;&atilde;o no ensino m&eacute;dio para entender a biologia explicada por Reinach &ndash; o cristianismo em um de seus pontos fortes, ou seja, a posi&ccedil;&atilde;o de Jesus como o &uacute;nico capaz de vencer a morte, de corpo e alma. Ou seja, &ldquo;vencer a morte&rdquo; deve ser algo, daqui para a frente, um frase cada vez mais aleg&oacute;rica, metaf&oacute;rica. O que dever&aacute; indicar essa met&aacute;fora, a&iacute;, isso fica por conta dos te&oacute;logos que quiserem reconduzir o cristianismo no interior de um pensamento inteligente.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O que diferenciava os gregos antigos de seus deuses n&atilde;o era a quest&atilde;o dos deuses serem seus criadores. N&atilde;o! O que os diferenciava era o fato dos deuses serem, embora naturais, imortais. O Olimpo nunca foi o C&eacute;u. O Olimpo era de fato o Monte Olimpo, a morada terrestre dos deuses. O C&eacute;u crist&atilde;o &eacute; &ldquo;um outro mundo&rdquo;. &ldquo;Meu reino n&atilde;o &eacute; desse mundo&rdquo;, disse Jesus. Ora, o Olimpo estava e est&aacute; no mundo nosso, e os deuses, n&atilde;o raro, saiam de l&aacute; e faziam sexo com mortais, gerando os her&oacute;is. Assim, a imortalidade, caso introduzida no mundo grego, apenas faria um ateniense j&aacute; ser mais orgulhoso do que era. Na nossa sociedade atual, crist&atilde;, as implica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o maiores. H&aacute; uma barganha entre os donos de igrejas e os fi&eacute;is em torno da imortalidade. Essa barganha, para os n&atilde;o intelectuais, &eacute; feita por meio da simples troca de mercadorias: promessas de um lado, cura de outro; pagamentos de um lado, o C&eacute;u de outro. Para os intelectuais crist&atilde;os, a troca se d&aacute; de um modo dito mais sofisticado: imperativos morais de dever podem se por como imperativos, e isso &eacute; tudo o que os intelectuais querem, isso j&aacute; os tranq&uuml;iliza, e essa tranq&uuml;ilidade &eacute; o suficiente para, enfim, ficarem contentes com o C&eacute;u. Como se v&ecirc;, em certa medida, o povo &eacute; mais exigente na troca com o C&eacute;u do que os intelectuais.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Todavia, o problema da imortalidade posta pelo artigo de Fernando Reinach n&atilde;o &eacute; um problema popular. A biologia do ensino m&eacute;dio n&atilde;o &eacute; de dom&iacute;nio popular. Mesmo que fosse, o elemento popular n&atilde;o p&otilde;e f&eacute; nela! Agora, para o intelectual crist&atilde;o que, enfim, ainda n&atilde;o transformou o cristianismo em uma exclusiva doutrina moral, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; diferente. Uma vez que Jesus n&atilde;o pode mais se dizer o &uacute;nico que &eacute; capaz de vencer a morte, ou transformamos tudo que ele disse, tudo mesmo, em alegoria, ou ent&atilde;o teremos de conviver com o seguinte fato posto para o futuro: quando Jesus voltar, para que possamos acompanh&aacute;-lo, teremos todos de abrir m&atilde;o da conquista da ci&ecirc;ncia, teremos de voltar a poder morrer, pois para ir para l&aacute;, para os C&eacute;us, e ficar &agrave; direita ou &agrave; esquerda do Pai, temos de atravessar a morte. Bem, Jesus, uma vez de volta, pedir&aacute; o qu&ecirc;? Um suic&iacute;dio coletivo? Quem ir&aacute; topar?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Bom, podemos ent&atilde;o abrir m&atilde;o de todo tipo de raz&atilde;o. Podemos conceder a Jesus a id&eacute;ia de que, sendo ele filho de Deus, e tendo Deus achado que o dia do Ju&iacute;zo Final realmente chegou, e tendo a humanidade j&aacute; at&eacute; esquecido o tempo em que os seres humanos morriam (supondo, portanto, que o Ju&iacute;zo Final &eacute; bem depois da conquista da imortalidade posta na conta do artigo do Fernando Reinach), todos poder&atilde;o simplesmente esquecer essa coisa de &ldquo;subir aos C&eacute;us&rdquo;. Ou seja, Deus dever&aacute; fundir o C&eacute;u e a Terra. N&atilde;o sei o que significa exatamente essa frase. Ser&aacute; ela algo como &ldquo;fundir duas dimens&otilde;es&rdquo;? Bom, mas seja l&aacute; o que for isso, essa seria uma forma de uni&atilde;o final entre n&oacute;s e nossos deuses sem que vi&eacute;ssemos a morrer. Ou seja, n&atilde;o seria preciso nem o suic&iacute;dio coletivo nem a maldade de Deus nos lan&ccedil;ar em alguma cat&aacute;strofe para que o mundo viesse ao seu fim. Ou seja, o que estou dizendo &eacute; que posso conceder a Deus aquilo que j&aacute; &eacute; dele: &ldquo;Para Deus tudo &eacute; poss&iacute;vel&rdquo;.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Haveria, ent&atilde;o, o momento de fus&atilde;o entre a ordem natural e a ordem supranatural, a ordem divina. Passado isso, nunca ter&iacute;amos sabido se foi Deus que desceu do C&eacute;u ou se fomos n&oacute;s que subimos. A id&eacute;ia de Jesus, de ultrapassar a morte batendo de frente com ela, ficaria como coisa do passado. N&atilde;o ter&iacute;amos a petul&acirc;ncia de vir remoer o passado. Ningu&eacute;m, tendo boa educa&ccedil;&atilde;o, ficaria lembrando ent&atilde;o, na frente de Jesus, piadinhas do tipo: &ldquo;ah, conseguimos a imortalidade sem a cruz&rdquo; e coisas do tipo. Ali&aacute;s, Jesus, talvez, at&eacute; pudesse ouvir coisas desse tipo, e retrucar: voc&ecirc;s &eacute; que pensam que n&atilde;o tiveram cruz!</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Todavia, vejam que o problema real, filos&oacute;fico que temos, &eacute; o de agora: para que possamos conviver com o cristianismo e com as informa&ccedil;&otilde;es da biologia atual, se quisermos ser crist&atilde;os e intelectuais ao mesmo tempo, h&aacute; muito exerc&iacute;cio filos&oacute;fico para se fazer no &acirc;mbito religioso. N&atilde;o para a popula&ccedil;&atilde;o, ao menos por enquanto, mas, certamente, para os intelectuais crist&atilde;os. &Eacute; trabalho duro. Estou com pena do servi&ccedil;o que meu amigo italiano, o fil&oacute;sofo Giovanni Vattimo, tem pela frente.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="color: #0000ff;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self">Paulo Ghiraldelli Jr</a></span></span></span><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self"><span style="color: #0000ff;">.,</span> </a>fil&oacute;sofo</span></span></p><p><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">&nbsp;</span></span></p><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-morte-vai-por-compulsria.html#comentarios</comments>
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		</item>

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			<title><![CDATA[A morte vai por compulsória, e agora?]]></title>
			<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 21:06:18 -0300</pubDate>
			<link>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-morte-vai-por-compulsria-e-agora.html</link>
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			<description>
				<![CDATA[<p style="text-align: center;"><object width="235" height="200" data="http://www.doink.com:80/a/443373" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="src" value="http://www.doink.com:80/a/443373" /></object></p><p style="text-align: center;"><strong><span style="font-size: small;"><span style="color: #ff6600;">A Descoberta da Imortalidade e suas Fun&ccedil;&otilde;es</span></span></strong></p><p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-size: small;"><span style="color: #ff6600;"><span style="font-size: x-small;"></span></span></span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">As pesquisas sobre imortalidade n&atilde;o est&atilde;o no terreno da pura fic&ccedil;&atilde;o. H&aacute; novas not&iacute;cias delas. O bi&oacute;logo Fernando Reinach publicou </span></span><a title="Artigo de FR" href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64916" target="_self"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">artigo sobre o tema</span></span></a><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">. Em tese, a id&eacute;ia n&atilde;o &eacute; nada maluca. Nossas c&eacute;lulas germinativas s&atilde;o imortais. Nossas c&eacute;lulas som&aacute;ticas, n&atilde;o. A id&eacute;ia b&aacute;sica &eacute; a de transportar caracter&iacute;sticas das primeiras para as segundas. At&eacute; a&iacute;, a fic&ccedil;&atilde;o. At&eacute; a&iacute;, &eacute; o que eu sabia com a minha biologia de ensino m&eacute;dio. O que Reinach divulga &eacute; que a fic&ccedil;&atilde;o, mais uma vez, est&aacute; sendo realizada, ainda que se esteja em passos bem iniciais.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O fato &eacute; que os cientistas n&atilde;o conseguiram <em>ainda</em> retardar o envelhecimento de &oacute;rg&atilde;os &ndash; e &eacute; este o objetivo que perseguem &ndash;, mas eles est&atilde;o j&aacute; sabendo, ao menos, que a reprograma&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas som&aacute;ticas a partir do que fazem as c&eacute;lulas ditas imortais, as germinativas, &eacute; perfeitamente poss&iacute;vel. Ora, nesta hora, o bi&oacute;logo volta para o laborat&oacute;rio, o fil&oacute;sofo vai para &agrave;s ruas.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Se as pesquisas est&atilde;o certas, num futuro que, segundo Fernando Reinach, avaliamos como long&iacute;nquo, poderemos pensar na imortalidade. Ora, para o fil&oacute;sofo, uma conclus&atilde;o como esta n&atilde;o precisa nem um pouco do futuro para ter suas conseq&uuml;&ecirc;ncias. Suponhamos que uma parte da popula&ccedil;&atilde;o escolarizada, informada e, &eacute; claro, inteligente, entenda que esse caminho &eacute; vi&aacute;vel, ent&atilde;o, o que isso significa para o pensamento social que lida com a morte? Por exemplo, as doutrinas mais dependentes, atualmente, da n&atilde;o exist&ecirc;ncia da imortalidade, s&atilde;o as doutrinas religiosas. Caso possamos nos convencer que o que Fernando Reinach diz &eacute; correto, e temos tudo para isso por meio da nossa cultura m&eacute;dia, podemos ent&atilde;o abolir, desde j&aacute; a id&eacute;ia de que morte e religi&atilde;o est&atilde;o ligadas <em>do modo como est&atilde;o</em>. Caso estiv&eacute;ssemos no mundo grego, uma descoberta assim teria um impacto tremendo, mas n&atilde;o faria a religi&atilde;o desaparecer. Todavia, e no nosso mundo ocidental moderno, o mundo dito oficialmente crist&atilde;o, o que &eacute; compreender que a imortalidade &eacute; fact&iacute;vel?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O problema todo recai, novamente, no modo como Jesus articulou a sua no&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a com a nossa tarefa &eacute;tica. O problema &eacute;, mesmo, o de como pensamos na no&ccedil;&atilde;o de esperan&ccedil;a.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">A esperan&ccedil;a nossa, de pragmatistas rortiano-davidsonianos, &eacute; uma esperan&ccedil;a vaga, ela n&atilde;o se vincula a uma utopia pr&eacute;-determinada. No m&aacute;ximo, o que n&oacute;s dizemos &eacute; que temos esperan&ccedil;a de construir uma sociedade futura em que possamos ser &ldquo;vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos&rdquo;. Do mesmo modo que Marx, n&oacute;s tamb&eacute;m evitamos delinear nossa utopia (o comunismo nunca foi mais que mera palavra, nunca foi uma utopia no sentido das utopias cl&aacute;ssicas, bem detalhadas). Por isso podemos dizer, junto com Rorty, &ldquo;antes esperan&ccedil;a que conhecimento&rdquo;. Conhecimento para, ent&atilde;o, se ter a utopia, &eacute; algo esquisito. Caso possamos saber tudo do futuro de modo a deline&aacute;-lo <em>aqui </em>para realiz&aacute;-lo <em>l&aacute;</em> em detalhes, tudo indica que o resultado n&atilde;o ser&aacute; bom &ndash; ao menos foi o que aprendemos no s&eacute;culo XX.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Ora, mas a esperan&ccedil;a que Jesus trouxe tem um componente diferente. Os crist&atilde;os n&atilde;o discordam dos pragmatistas quanto &agrave; id&eacute;ia de que podemos &ndash; e devemos &ndash; tentar construir sociedades futuras em que seus membros sejam &ldquo;vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos&rdquo;. Mas os crist&atilde;os discordam de n&oacute;s quando ficamos mais ou menos satisfeitos com essa nossa id&eacute;ia de utopia. Eles nos acham muito humildes. Pois a esperan&ccedil;a deles segue pelo caminho de Jesus, o de vencer a morte. Um caminho que os cientistas do artigo de Reinach acreditam que existe.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Os cientistas imaginam vencer a morte sem ter de enfrent&aacute;-la. &Eacute; uma boa t&aacute;tica. Jesus foi mais ousado: ele disse que venceria a morte, enfrentando-a. Foi para a Cruz e, depois de morto, reapareceu para os ap&oacute;stolos, bem vivo. E com o mesmo corpo &ndash; inclusive, datado, pois ainda perfurado pela crucifica&ccedil;&atilde;o. Tendo perambulado por entre eles durante v&aacute;rios dias, finalmente, segundo o que diz o &ldquo;Credo&rdquo;, &ldquo;subiu aos C&eacute;us de corpo e alma, onde est&aacute; sentado &agrave; direita do Pai&rdquo;. Claro, o &ldquo;Credo&rdquo; ainda diz mais. Diz que Jesus e voltar&aacute; para &ldquo;julgar os vivos e os mortos&rdquo;. Assim, neste exato momento, os mortos de fato ter&atilde;o a ressurrei&ccedil;&atilde;o, para serem julgados. E os que estiverem vivos, tamb&eacute;m ser&atilde;o julgados. Fica claro, portanto, que se formos imortais, ainda assim, a tarefa de Jesus n&atilde;o terminou. Pois o tal do julgamento final est&aacute; posto, em qualquer circunst&acirc;ncia. O que fica um pouco desacreditado &eacute;, assim, <em>somente </em>a id&eacute;ia de que unicamente Jesus poderia vencer a morte. Al&eacute;m do mais, uma vez que ele reapare&ccedil;a, e ponha seu julgamento para funcionar, o que ele poderia nos dar de vantagem que j&aacute; n&atilde;o tiv&eacute;ssemos conseguido? J&aacute; n&atilde;o ter&iacute;amos a tal de imortalidade, de vida eterna, que ele disse que s&oacute; ele poderia dar?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Pois bem. Como se v&ecirc;, uma vez posta a <em>quest&atilde;o imortalidade</em> como um elemento fact&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio esperar por ela para ver como que a filosofia j&aacute; tem de ser alterada. Uma boa filosofia deve, agora, para ser inteligente, dar mais cr&eacute;dito a William James, que dizia que a religi&atilde;o &eacute; verdadeira se acreditamos nela. Parece que &eacute; isso que temos de levar em conta, principalmente agora. Pois, mais do que antes, a religi&atilde;o, agora, ganha componentes de doutrina pr&aacute;tica, e menos de conjunto te&oacute;rico. O que faz um crist&atilde;o num mundo em que a imortalidade se torna um fato, sen&atilde;o para n&oacute;s no presente, ao menos para outros, no futuro? O intelectual que ainda quiser se crist&atilde;o, precisa, a partir da&iacute;, tomar o cristianismo como Nietzsche o tomou, como uma revolu&ccedil;&atilde;o moral, n&atilde;o como uma mostra de poder sobrenatural capaz de, ao fomentar a esperan&ccedil;a, fazer tal coisa pela id&eacute;ia de &ldquo;vencer a morte&rdquo;.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Em outras palavras: tornamos o Velho Testamento uma f&aacute;bula, um conjunto de alegorias, e agora vamos ter de fazer o mesmo com o Novo Testamento. Ou fazemos isso, ou n&atilde;o teremos mais como sustentar &ndash; ao menos que n&atilde;o tenhamos forma&ccedil;&atilde;o no ensino m&eacute;dio para entender a biologia explicada por Reinach &ndash; o cristianismo em um de seus pontos fortes, ou seja, a posi&ccedil;&atilde;o de Jesus como o &uacute;nico capaz de vencer a morte, de corpo e alma. Ou seja, &ldquo;vencer a morte&rdquo; deve ser algo, daqui para a frente, um frase cada vez mais aleg&oacute;rica, metaf&oacute;rica. O que dever&aacute; indicar essa met&aacute;fora, a&iacute;, isso fica por conta dos te&oacute;logos que quiserem reconduzir o cristianismo no interior de um pensamento inteligente.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">O que diferenciava os gregos antigos de seus deuses n&atilde;o era a quest&atilde;o dos deuses serem seus criadores. N&atilde;o! O que os diferenciava era o fato dos deuses serem, embora naturais, imortais. O Olimpo nunca foi o C&eacute;u. O Olimpo era de fato o Monte Olimpo, a morada terrestre dos deuses. O C&eacute;u crist&atilde;o &eacute; &ldquo;um outro mundo&rdquo;. &ldquo;Meu reino n&atilde;o &eacute; desse mundo&rdquo;, disse Jesus. Ora, o Olimpo estava e est&aacute; no mundo nosso, e os deuses, n&atilde;o raro, saiam de l&aacute; e faziam sexo com mortais, gerando os her&oacute;is. Assim, a imortalidade, caso introduzida no mundo grego, apenas faria um ateniense j&aacute; ser mais orgulhoso do que era. Na nossa sociedade atual, crist&atilde;, as implica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o maiores. H&aacute; uma barganha entre os donos de igrejas e os fi&eacute;is em torno da imortalidade. Essa barganha, para os n&atilde;o intelectuais, &eacute; feita por meio da simples troca de mercadorias: promessas de um lado, cura de outro; pagamentos de um lado, o C&eacute;u de outro. Para os intelectuais crist&atilde;os, a troca se d&aacute; de um modo dito mais sofisticado: imperativos morais de dever podem se por como imperativos, e isso &eacute; tudo o que os intelectuais querem, isso j&aacute; os tranq&uuml;iliza, e essa tranq&uuml;ilidade &eacute; o suficiente para, enfim, ficarem contentes com o C&eacute;u. Como se v&ecirc;, em certa medida, o povo &eacute; mais exigente na troca com o C&eacute;u do que os intelectuais.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Todavia, o problema da imortalidade posta pelo artigo de Fernando Reinach n&atilde;o &eacute; um problema popular. A biologia do ensino m&eacute;dio n&atilde;o &eacute; de dom&iacute;nio popular. Mesmo que fosse, o elemento popular n&atilde;o p&otilde;e f&eacute; nela! Agora, para o intelectual crist&atilde;o que, enfim, ainda n&atilde;o transformou o cristianismo em uma exclusiva doutrina moral, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; diferente. Uma vez que Jesus n&atilde;o pode mais se dizer o &uacute;nico que &eacute; capaz de vencer a morte, ou transformamos tudo que ele disse, tudo mesmo, em alegoria, ou ent&atilde;o teremos de conviver com o seguinte fato posto para o futuro: quando Jesus voltar, para que possamos acompanh&aacute;-lo, teremos todos de abrir m&atilde;o da conquista da ci&ecirc;ncia, teremos de voltar a poder morrer, pois para ir para l&aacute;, para os C&eacute;us, e ficar &agrave; direita ou &agrave; esquerda do Pai, temos de atravessar a morte. Bem, Jesus, uma vez de volta, pedir&aacute; o qu&ecirc;? Um suic&iacute;dio coletivo? Quem ir&aacute; topar?</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Bom, podemos ent&atilde;o abrir m&atilde;o de todo tipo de raz&atilde;o. Podemos conceder a Jesus a id&eacute;ia de que, sendo ele filho de Deus, e tendo Deus achado que o dia do Ju&iacute;zo Final realmente chegou, e tendo a humanidade j&aacute; at&eacute; esquecido o tempo em que os seres humanos morriam (supondo, portanto, que o Ju&iacute;zo Final &eacute; bem depois da conquista da imortalidade posta na conta do artigo do Fernando Reinach), todos poder&atilde;o simplesmente esquecer essa coisa de &ldquo;subir aos C&eacute;us&rdquo;. Ou seja, Deus dever&aacute; fundir o C&eacute;u e a Terra. N&atilde;o sei o que significa exatamente essa frase. Ser&aacute; ela algo como &ldquo;fundir duas dimens&otilde;es&rdquo;? Bom, mas seja l&aacute; o que for isso, essa seria uma forma de uni&atilde;o final entre n&oacute;s e nossos deuses sem que vi&eacute;ssemos a morrer. Ou seja, n&atilde;o seria preciso nem o suic&iacute;dio coletivo nem a maldade de Deus nos lan&ccedil;ar em alguma cat&aacute;strofe para que o mundo viesse ao seu fim. Ou seja, o que estou dizendo &eacute; que posso conceder a Deus aquilo que j&aacute; &eacute; dele: &ldquo;Para Deus tudo &eacute; poss&iacute;vel&rdquo;.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Haveria, ent&atilde;o, o momento de fus&atilde;o entre a ordem natural e a ordem supranatural, a ordem divina. Passado isso, nunca ter&iacute;amos sabido se foi Deus que desceu do C&eacute;u ou se fomos n&oacute;s que subimos. A id&eacute;ia de Jesus, de ultrapassar a morte batendo de frente com ela, ficaria como coisa do passado. N&atilde;o ter&iacute;amos a petul&acirc;ncia de vir remoer o passado. Ningu&eacute;m, tendo boa educa&ccedil;&atilde;o, ficaria lembrando ent&atilde;o, na frente de Jesus, piadinhas do tipo: &ldquo;ah, conseguimos a imortalidade sem a cruz&rdquo; e coisas do tipo. Ali&aacute;s, Jesus, talvez, at&eacute; pudesse ouvir coisas desse tipo, e retrucar: voc&ecirc;s &eacute; que pensam que n&atilde;o tiveram cruz!</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">Todavia, vejam que o problema real, filos&oacute;fico que temos, &eacute; o de agora: para que possamos conviver com o cristianismo e com as informa&ccedil;&otilde;es da biologia atual, se quisermos ser crist&atilde;os e intelectuais ao mesmo tempo, h&aacute; muito exerc&iacute;cio filos&oacute;fico para se fazer no &acirc;mbito religioso. N&atilde;o para a popula&ccedil;&atilde;o, ao menos por enquanto, mas, certamente, para os intelectuais crist&atilde;os. &Eacute; trabalho duro. Estou com pena do servi&ccedil;o que meu amigo italiano, o fil&oacute;sofo Giovanni Vattimo, tem pela frente.</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="color: #0000ff;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self">Paulo Ghiraldelli Jr</a></span></span></span><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self"><span style="color: #0000ff;">.,</span> </a>fil&oacute;sofo</span></span></p><p><span style="font-size: x-small;"><span style="font-family: verdana,geneva;">&nbsp;</span></span></p><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-morte-vai-por-compulsria-e-agora.html#comentarios</comments>
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		</item>

		<item>
			<title><![CDATA[A filosofia e a morte]]></title>
			<pubDate>Wed, 22 Jul 2009 05:09:43 -0300</pubDate>
			<link>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-filosofia-e-a-morte.html</link>
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			<description>
				<![CDATA[<p align="right"><strong><em>Para o amigo Alexandrelli</em></strong></p> <p style="text-align: justify;"><img style="float: left; border: 1px solid black; margin-left: 10px; margin-right: 10px;" src="http://portal.filosofia.pro.br/arquivos/portal.filosofia.pro.br/imagens/img_1248250076.jpg" alt="Benjamin por PGJr" width="80" height="80" align="left" />Os agentes de St&aacute;lin entraram no quarto e n&atilde;o precisaram falar nada. O fil&oacute;sofo sabia que era o seu fim. Havia imaginado durante todo o dia que, de fato, poderia ter de vir a colocar fim &agrave; sua vida. Mas, n&atilde;o se pode dar tanta raz&atilde;o assim ao que parece ser um destino. N&atilde;o haveria uma fada madrinha dos intelectuais? Algu&eacute;m para salv&aacute;-los, em um &uacute;ltimo instante? N&atilde;o seria interessante apostar uma ficha, ainda que de pouco valor, nessa id&eacute;ia? Foi isso que o fez n&atilde;o morrer no come&ccedil;o daquela noite, por sua pr&oacute;pria decis&atilde;o, e ent&atilde;o morrer na madrugada, pela decis&atilde;o dos homens de St&aacute;lin. &nbsp;Esses homens cuidaram bem para que, na manh&atilde; seguinte, ningu&eacute;m pudesse duvidar que Walter Benjamin havia cometido suic&iacute;dio.</p> <p style="text-align: justify;">Foi assim que Benjamin morreu? Dizem que n&atilde;o.</p> <p style="text-align: justify;">Os homens da Gestapo estavam para pegar Benjamin. Sua id&eacute;ia era sair da Fran&ccedil;a n&atilde;o ocupada em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Espanha, e seguir para a Am&eacute;rica. Mas, em Port Bou, ele se deu conta de que n&atilde;o conseguiria ir mais adiante. Imaginando que iria ser mandado de volta e, ent&atilde;o, cairia de vez nas m&atilde;os de Gestapo, Benjamin deu fim &agrave; pr&oacute;pria vida. Nem por um momento pensou dar chance &agrave; fada madrinha dos intelectuais.</p> <p style="text-align: justify;">Foi assim que Benjamin morreu? Dizem que sim.</p> <p style="text-align: justify;">A partir da&iacute;, as perguntas que ficaram eram todas de ordem pr&aacute;tica, em favor de algum ganho intelectual ou pol&iacute;tico. Onde estaria a valise que Benjamin carregava? Ser&aacute; mesmo que ele carregava alguma valise? Havia ou n&atilde;o manuscritos nela? Onde estariam? Caso houvesse, o que ele tinha escrito, o colocava mais como v&iacute;tima de estalinistas do que de nazistas? Sempre quando o assunto &eacute; a morte de Benjamim, esse mist&eacute;rio todo chama a aten&ccedil;&atilde;o. Adorno, Horkheimer e toda a Escola de Frankfurt nunca fizeram um gesto sequer noutra dire&ccedil;&atilde;o. Afinal, o que fariam? Quando um intelectual morre, o correto n&atilde;o &eacute; buscar os manuscritos, as cartas e, afinal, tudo aquilo que poderia ser tido como &ldquo;o in&eacute;dito&rdquo;?</p> <p style="text-align: justify;">Algu&eacute;m arriscaria escrever sobre Walter Benjamin com perguntas de outro tipo? Por exemplo, n&atilde;o seria interessante aplicar &agrave; morte de um frankfurtiano algo <em>mais</em> frankfurtiano?</p> <p style="text-align: justify;">Quando cheguei na garagem do hospital, vi o corpo do meu pai n&atilde;o ser retirado da ambul&acirc;ncia para a maca, mas de ser posto num caix&atilde;o. No trajeto da estrada, ele teve um segundo enfarto. Tentaram reaviv&aacute;-lo com choque. Ele pareceu reagir, mas n&atilde;o conseguiu. Minha primeira pergunta para minha m&atilde;e, que havia estado com ele o tempo todo, foi a seguinte: &ldquo;m&atilde;e, quando ele saiu de casa, j&aacute; tendo tido o primeiro enfarto, ele sentiu que ia morrer ou n&atilde;o? Ele ficou apavorado, ele teve medo?&rdquo; S&oacute; isso me interessava. Pois o que eu queria ouvir era simples. Queria que ela dissesse que n&atilde;o, que ele n&atilde;o se apavorou, n&atilde;o por coragem, e sim porque n&atilde;o sentiu a morte chegar, em nenhum momento.&nbsp; Pouco me interessava todo o resto. A &uacute;nica curiosidade que eu tinha, naquele momento, era a de saber se eu podia ou n&atilde;o ficar descansado, pois meu pai n&atilde;o teria visto a morte cara a cara. Ele n&atilde;o esperou por ela, n&atilde;o a viu, e quando ela veio, ele estava de costas. S&oacute; isso eu queria. S&oacute; isso podia me dar alguma coisa a mais naquele momento, e mesmo hoje, anos depois.</p> <p style="text-align: justify;">&Eacute; uma pena que nenhum dos membros da Escola de Frankfurt, que eu saiba, tenha deixado de lidar com a morte segundo uma pr&aacute;tica que eles mesmos chamariam de reificada. De que vale uma pasta com o maior texto do mundo? S&oacute; vale alguma coisa, depois que a vida se vai, quando se quer acreditar que o texto &eacute; maior que a vida.&nbsp; &Eacute; claro que todos n&oacute;s, intelectuais, ainda mais na condi&ccedil;&atilde;o de fil&oacute;sofos, podemos querer acreditar que a melhor homenagem que se pode prestar a um amigo morto &eacute; buscar seus escritos, public&aacute;-los, manter seu pensamento vivo e respeitado. Todavia, n&atilde;o &eacute; justamente isto, um gesto que mostra que estamos reificados? Afinal, o texto, por mais brilhante que possa ser, por mais amor que aquele que o produziu tivesse nele, continua sendo ... um texto. Na maior parte das vezes, at&eacute; pouco tempo, um pacote de papel. Uma arvore morta transformada no recept&aacute;culo dos pensamentos de um morto.</p> <p style="text-align: justify;">Pode-se, &eacute; claro, dizer o seguinte: mas n&atilde;o era isso que o amigo faria, caso a situa&ccedil;&atilde;o fosse inversa? Caso fosse voc&ecirc; a v&iacute;tima, o amigo que ficou no mundo n&atilde;o teria de se preocupar &uacute;nica e exclusivamente com os textos? Proteger o pensamento do morto, suas id&eacute;ias, n&atilde;o seria este o melhor tributo? Todavia, o problema aqui &eacute; outro, caso se possa imaginar que dever&iacute;amos ficar no esp&iacute;rito <em>verdadeiro </em>da Escola de Frankfurt. O problema &eacute; o seguinte: ser&aacute; que temos de fazer do &ldquo;tributo&rdquo; algo maior que a vida ou, para ser mais exato, a perda dela?</p> <p style="text-align: justify;">O que quero dizer &eacute; que a &uacute;nica forma frankfurtiana de lidar com a morte de Benjamin &eacute; aquela maneira com que lidei &ndash; sem qualquer frankfurtianismo, &eacute; claro &ndash; com a morte do meu pai. Qual a pergunta mais importante sobre Benjamin? S&oacute; uma: ser&aacute; que Benjamin se apavorou? Suic&iacute;dio ou n&atilde;o, tanto faz. O que quero perguntar &eacute;: ele se apavorou? N&atilde;o quero a resposta para essa pergunta. Ao contr&aacute;rio da que fiz para minha m&atilde;e, esta pergunta n&atilde;o tem resposta. Nunca saberemos. Mas, coloc&aacute;-la, &eacute; tudo que podemos fazer para sermos frankfurtianos diante de um frankfurtiano. Procurar pap&eacute;is, pastas ou mesmo quem o matou &eacute; n&atilde;o entender que o que se foi &eacute; aquilo que n&atilde;o poderia ter ido, a vida. A vida de uma pessoa chamada Walter Benjamin que, afinal, n&atilde;o atravessou os Pirineus para turismo, viajou para fugir. Isto sim &eacute; o doloroso. Ou seja, Benjamin viajou para viver! E n&atilde;o viveu. A vida se foi. E o terr&iacute;vel nisso tudo &eacute; o que n&atilde;o pode ser abrandado, n&atilde;o deve ser abrandado, que &eacute; a pergunta: qual foi o seu desespero na hora da morte? Temos de apertar as m&atilde;os com for&ccedil;a, massageando-as uma na outra e dizer: &ldquo;ah, tomara que n&atilde;o, tomara que ele n&atilde;o tenha visto a morte cara a cara&rdquo;.</p> <p style="text-align: justify;">Quando a morte pode ser t&atilde;o facilmente tomada como ela &eacute;, ou seja, irrevers&iacute;vel, para ent&atilde;o, rapidamente, todos j&aacute; poderem cuidar dos pertences de intelectuais do morto, h&aacute; a&iacute; uma reifica&ccedil;&atilde;o. H&aacute; a&iacute; algo estranho. Algo do &ldquo;mundo administrado&rdquo; j&aacute; dominando a todos. Os frankfurtianos n&atilde;o fizeram o luto de Benjamim. Nada mais esquisito do que o n&atilde;o luto.</p> <p style="text-align: justify;">Richard Rorty morreu em 2007. Ele tinha um tumor no c&eacute;rebro. Era inoper&aacute;vel. Ent&atilde;o, escreveu para mim agradecendo o que eu havia feito pelo pragmatismo no Brasil e os trabalhos em conjunto e coisas assim. Era uma despedida. Escreveu a todos os amigos. Creio que a cada um ele contou da doen&ccedil;a de uma maneira um pouco diferente. Imagino isso porque Habermas acabou publicando o modo como foi informado da doen&ccedil;a pelo pr&oacute;prio Dick. Al&eacute;m disso, Rorty fez um &uacute;ltimo texto, praticamente incitado por parentes, e nele confessou que, ao saber que n&atilde;o iria durar muito, o consolo que encontrou foi na poesia, como os que, enfim, o encontram na religi&atilde;o. At&eacute; chegou a comentar que ele deveria ter lido mais poesia. Mas, n&oacute;s sabemos, por outros escritos, que ele n&atilde;o podia fazer isso, tendo sido filho de James Rorty, um c&eacute;lebre poeta. Demorei um pouco para falar da morte de Rorty e deste texto. Os familiares de Rorty, s&oacute; agora, em 2009, refazem o site dele na Stanford University, e ent&atilde;o colocam novas fotos, mais ou menos biogr&aacute;ficas. Bem, o que eu quis dizer &eacute; que todos n&oacute;s, de certa forma, fizemos luto por Rorty.</p> <p style="text-align: justify;">O luto &eacute; um tema que n&atilde;o pode fugir de quem vive a filosofia da Escola de Frankfurt. Do mesmo modo que notar as pequenas coisas, o que h&aacute; de vivo e o que, enfim, &eacute; o superior ao valor, que &eacute; a vida, &eacute; algo bem frankfurtiano.&nbsp; Creio que agimos frankfurtianamente com Rorty. Simplesmente porque, com Rorty, agimos como t&iacute;nhamos de agir. Ou melhor, agimos como uma filosofia pragmatista nos ensina: n&atilde;o se esquecer da morte como morte mesmo, de tudo que h&aacute; de pr&aacute;tico nela, de tudo que h&aacute; de <em>experi&ecirc;ncia</em> naquele momento &ndash; e n&atilde;o deixar de passar pela experi&ecirc;ncia, n&atilde;o reific&aacute;-la. N&atilde;o fazer missa ou venda de livros ou publica&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios te&oacute;ricos e tudo o mais antes da hora. Respeitar a pr&aacute;tica e viver, em grande medida, sob a praxe &ndash; fizemos isso, segundo o pragmatismo. Acabamos, ent&atilde;o, agindo frankfurtianamente com Rorty.</p> <p style="text-align: justify;">Compreender que diante da morte de algu&eacute;m o que h&aacute; de se fazer &eacute; chorar, deveria ser uma li&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica. Outra li&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, inclusive frankfurtiana, deveria ser esta: pensar os &uacute;ltimos momentos de algu&eacute;m, poder saber que n&atilde;o foram de desespero, &eacute; a &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o que temos de ter. O resto &eacute; resto. O resto, por mais grandioso que possa aparecer depois, como <em>produto cultural</em>, n&atilde;o deixar&aacute; de virar ... mercadoria.</p> <p style="text-align: justify;">&copy; 2009 Paulo Ghiraldelli Jr., fil&oacute;sofo</p><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-filosofia-e-a-morte.html#comentarios</comments>
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		</item>

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			<title><![CDATA[Benjamin, Rorty e a morte]]></title>
			<pubDate>Wed, 22 Jul 2009 05:06:49 -0300</pubDate>
			<link>http://portal.filosofia.pro.br/blog/benjamin-rorty-e-a-morte.html</link>
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				<![CDATA[<p align="right"><strong><em>Para o amigo Alexandrelli</em></strong></p> <p style="text-align: justify;">Os agentes de St&aacute;lin entraram no quarto e n&atilde;o precisaram falar nada. O fil&oacute;sofo sabia que era o seu fim. Havia imaginado durante todo o dia que, de fato, poderia ter de vir a colocar fim &agrave; sua vida. Mas, n&atilde;o se pode dar tanta raz&atilde;o assim ao que parece ser um destino. N&atilde;o haveria uma fada madrinha dos intelectuais? Algu&eacute;m para salv&aacute;-los, em um &uacute;ltimo instante? N&atilde;o seria interessante apostar uma ficha, ainda que de pouco valor, nessa id&eacute;ia? Foi isso que o fez n&atilde;o morrer no come&ccedil;o daquela noite, por sua pr&oacute;pria decis&atilde;o, e ent&atilde;o morrer na madrugada, pela decis&atilde;o dos homens de St&aacute;lin. &nbsp;Esses homens cuidaram bem para que, na manh&atilde; seguinte, ningu&eacute;m pudesse duvidar que Walter Benjamin havia cometido suic&iacute;dio.</p> <p style="text-align: justify;">Foi assim que Benjamin morreu? Dizem que n&atilde;o.</p> <p style="text-align: justify;">Os homens da Gestapo estavam para pegar Benjamin. Sua id&eacute;ia era sair da Fran&ccedil;a n&atilde;o ocupada em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Espanha, e seguir para a Am&eacute;rica. Mas, em Port Bou, ele se deu conta de que n&atilde;o conseguiria ir mais adiante. Imaginando que iria ser mandado de volta e, ent&atilde;o, cairia de vez nas m&atilde;os de Gestapo, Benjamin deu fim &agrave; pr&oacute;pria vida. Nem por um momento pensou dar chance &agrave; fada madrinha dos intelectuais.</p> <p style="text-align: justify;">Foi assim que Benjamin morreu? Dizem que sim.</p> <p style="text-align: justify;">A partir da&iacute;, as perguntas que ficaram eram todas de ordem pr&aacute;tica, em favor de algum ganho intelectual ou pol&iacute;tico. Onde estaria a valise que Benjamin carregava? Ser&aacute; mesmo que ele carregava alguma valise? Havia ou n&atilde;o manuscritos nela? Onde estariam? Caso houvesse, o que ele tinha escrito, o colocava mais como v&iacute;tima de estalinistas do que de nazistas? Sempre quando o assunto &eacute; a morte de Benjamim, esse mist&eacute;rio todo chama a aten&ccedil;&atilde;o. Adorno, Horkheimer e toda a Escola de Frankfurt nunca fizeram um gesto sequer noutra dire&ccedil;&atilde;o. Afinal, o que fariam? Quando um intelectual morre, o correto n&atilde;o &eacute; buscar os manuscritos, as cartas e, afinal, tudo aquilo que poderia ser tido como &ldquo;o in&eacute;dito&rdquo;?</p> <p style="text-align: justify;">Algu&eacute;m arriscaria escrever sobre Walter Benjamin com perguntas de outro tipo? Por exemplo, n&atilde;o seria interessante aplicar &agrave; morte de um frankfurtiano algo <em>mais</em> frankfurtiano?</p> <p style="text-align: justify;">Quando cheguei na garagem do hospital, vi o corpo do meu pai n&atilde;o ser retirado da ambul&acirc;ncia para a maca, mas de ser posto num caix&atilde;o. No trajeto da estrada, ele teve um segundo enfarto. Tentaram reaviv&aacute;-lo com choque. Ele pareceu reagir, mas n&atilde;o conseguiu. Minha primeira pergunta para minha m&atilde;e, que havia estado com ele o tempo todo, foi a seguinte: &ldquo;m&atilde;e, quando ele saiu de casa, j&aacute; tendo tido o primeiro enfarto, ele sentiu que ia morrer ou n&atilde;o? Ele ficou apavorado, ele teve medo?&rdquo; S&oacute; isso me interessava. Pois o que eu queria ouvir era simples. Queria que ela dissesse que n&atilde;o, que ele n&atilde;o se apavorou, n&atilde;o por coragem, e sim porque n&atilde;o sentiu a morte chegar, em nenhum momento.&nbsp; Pouco me interessava todo o resto. A &uacute;nica curiosidade que eu tinha, naquele momento, era a de saber se eu podia ou n&atilde;o ficar descansado, pois meu pai n&atilde;o teria visto a morte cara a cara. Ele n&atilde;o esperou por ela, n&atilde;o a viu, e quando ela veio, ele estava de costas. S&oacute; isso eu queria. S&oacute; isso podia me dar alguma coisa a mais naquele momento, e mesmo hoje, anos depois.</p> <p style="text-align: justify;">&Eacute; uma pena que nenhum dos membros da Escola de Frankfurt, que eu saiba, tenha deixado de lidar com a morte segundo uma pr&aacute;tica que eles mesmos chamariam de reificada. De que vale uma pasta com o maior texto do mundo? S&oacute; vale alguma coisa, depois que a vida se vai, quando se quer acreditar que o texto &eacute; maior que a vida.&nbsp; &Eacute; claro que todos n&oacute;s, intelectuais, ainda mais na condi&ccedil;&atilde;o de fil&oacute;sofos, podemos querer acreditar que a melhor homenagem que se pode prestar a um amigo morto &eacute; buscar seus escritos, public&aacute;-los, manter seu pensamento vivo e respeitado. Todavia, n&atilde;o &eacute; justamente isto, um gesto que mostra que estamos reificados? Afinal, o texto, por mais brilhante que possa ser, por mais amor que aquele que o produziu tivesse nele, continua sendo ... um texto. Na maior parte das vezes, at&eacute; pouco tempo, um pacote de papel. Uma arvore morta transformada no recept&aacute;culo dos pensamentos de um morto.</p> <p style="text-align: justify;">Pode-se, &eacute; claro, dizer o seguinte: mas n&atilde;o era isso que o amigo faria, caso a situa&ccedil;&atilde;o fosse inversa? Caso fosse voc&ecirc; a v&iacute;tima, o amigo que ficou no mundo n&atilde;o teria de se preocupar &uacute;nica e exclusivamente com os textos? Proteger o pensamento do morto, suas id&eacute;ias, n&atilde;o seria este o melhor tributo? Todavia, o problema aqui &eacute; outro, caso se possa imaginar que dever&iacute;amos ficar no esp&iacute;rito <em>verdadeiro </em>da Escola de Frankfurt. O problema &eacute; o seguinte: ser&aacute; que temos de fazer do &ldquo;tributo&rdquo; algo maior que a vida ou, para ser mais exato, a perda dela?</p> <p style="text-align: justify;">O que quero dizer &eacute; que a &uacute;nica forma frankfurtiana de lidar com a morte de Benjamin &eacute; aquela maneira com que lidei &ndash; sem qualquer frankfurtianismo, &eacute; claro &ndash; com a morte do meu pai. Qual a pergunta mais importante sobre Benjamin? S&oacute; uma: ser&aacute; que Benjamin se apavorou? Suic&iacute;dio ou n&atilde;o, tanto faz. O que quero perguntar &eacute;: ele se apavorou? N&atilde;o quero a resposta para essa pergunta. Ao contr&aacute;rio da que fiz para minha m&atilde;e, esta pergunta n&atilde;o tem resposta. Nunca saberemos. Mas, coloc&aacute;-la, &eacute; tudo que podemos fazer para sermos frankfurtianos diante de um frankfurtiano. Procurar pap&eacute;is, pastas ou mesmo quem o matou &eacute; n&atilde;o entender que o que se foi &eacute; aquilo que n&atilde;o poderia ter ido, a vida. A vida de uma pessoa chamada Walter Benjamin que, afinal, n&atilde;o atravessou os Pirineus para turismo, viajou para fugir. Isto sim &eacute; o doloroso. Ou seja, Benjamin viajou para viver! E n&atilde;o viveu. A vida se foi. E o terr&iacute;vel nisso tudo &eacute; o que n&atilde;o pode ser abrandado, n&atilde;o deve ser abrandado, que &eacute; a pergunta: qual foi o seu desespero na hora da morte? Temos de apertar as m&atilde;os com for&ccedil;a, massageando-as uma na outra e dizer: &ldquo;ah, tomara que n&atilde;o, tomara que ele n&atilde;o tenha visto a morte cara a cara&rdquo;.</p> <p style="text-align: justify;">Quando a morte pode ser t&atilde;o facilmente tomada como ela &eacute;, ou seja, irrevers&iacute;vel, para ent&atilde;o, rapidamente, todos j&aacute; poderem cuidar dos pertences de intelectuais do morto, h&aacute; a&iacute; uma reifica&ccedil;&atilde;o. H&aacute; a&iacute; algo estranho. Algo do &ldquo;mundo administrado&rdquo; j&aacute; dominando a todos. Os frankfurtianos n&atilde;o fizeram o luto de Benjamim. Nada mais esquisito do que o n&atilde;o luto.</p> <p style="text-align: justify;">Richard Rorty morreu em 2007. Ele tinha um tumor no c&eacute;rebro. Era inoper&aacute;vel. Ent&atilde;o, escreveu para mim agradecendo o que eu havia feito pelo pragmatismo no Brasil e os trabalhos em conjunto e coisas assim. Era uma despedida. Escreveu a todos os amigos. Creio que a cada um ele contou da doen&ccedil;a de uma maneira um pouco diferente. Imagino isso porque Habermas acabou publicando o modo como foi informado da doen&ccedil;a pelo pr&oacute;prio Dick. Al&eacute;m disso, Rorty fez um &uacute;ltimo texto, praticamente incitado por parentes, e nele confessou que, ao saber que n&atilde;o iria durar muito, o consolo que encontrou foi na poesia, como os que, enfim, o encontram na religi&atilde;o. At&eacute; chegou a comentar que ele deveria ter lido mais poesia. Mas, n&oacute;s sabemos, por outros escritos, que ele n&atilde;o podia fazer isso, tendo sido filho de James Rorty, um c&eacute;lebre poeta. Demorei um pouco para falar da morte de Rorty e deste texto. Os familiares de Rorty, s&oacute; agora, em 2009, refazem o site dele na Stanford University, e ent&atilde;o colocam novas fotos, mais ou menos biogr&aacute;ficas. Bem, o que eu quis dizer &eacute; que todos n&oacute;s, de certa forma, fizemos luto por Rorty.</p> <p style="text-align: justify;">O luto &eacute; um tema que n&atilde;o pode fugir de quem vive a filosofia da Escola de Frankfurt. Do mesmo modo que notar as pequenas coisas, o que h&aacute; de vivo e o que, enfim, &eacute; o superior ao valor, que &eacute; a vida, &eacute; algo bem frankfurtiano.&nbsp; Creio que agimos frankfurtianamente com Rorty. Simplesmente porque, com Rorty, agimos como t&iacute;nhamos de agir. Ou melhor, agimos como uma filosofia pragmatista nos ensina: n&atilde;o se esquecer da morte como morte mesmo, de tudo que h&aacute; de pr&aacute;tico nela, de tudo que h&aacute; de <em>experi&ecirc;ncia</em> naquele momento &ndash; e n&atilde;o deixar de passar pela experi&ecirc;ncia, n&atilde;o reific&aacute;-la. N&atilde;o fazer missa ou venda de livros ou publica&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios te&oacute;ricos e tudo o mais antes da hora. Respeitar a pr&aacute;tica e viver, em grande medida, sob a praxe &ndash; fizemos isso, segundo o pragmatismo. Acabamos, ent&atilde;o, agindo frankfurtianamente com Rorty.</p> <p style="text-align: justify;">Compreender que diante da morte de algu&eacute;m o que h&aacute; de se fazer &eacute; chorar, deveria ser uma li&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica. Outra li&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, inclusive frankfurtiana, deveria ser esta: pensar os &uacute;ltimos momentos de algu&eacute;m, poder saber que n&atilde;o foram de desespero, &eacute; a &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o que temos de ter. O resto &eacute; resto. O resto, por mais grandioso que possa aparecer depois, como <em>produto cultural</em>, n&atilde;o deixar&aacute; de virar ... mercadoria.</p> <p style="text-align: justify;">&copy; 2009 Paulo Ghiraldelli Jr., fil&oacute;sofo</p><hr /><br />]]>
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			<title><![CDATA[A partir de Kolakowski]]></title>
			<pubDate>Sat, 18 Jul 2009 18:08:09 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;"><img style="float: left; border: 1px solid black; margin-left: 10px; margin-right: 10px; margin-top: 2px; margin-bottom: 2px;" src="http://portal.filosofia.pro.br/arquivos/portal.filosofia.pro.br/imagens/img_1247951094.jpg" alt="Kolakowski por PGJr" width="200" height="199" align="left" />Cansei-me de olhar para os volumes de <em>Main Currents of Marxism</em> de <span style="color: #0000ff;"><a title="Kolakowski" href="http://www.kirjasto.sci.fi/kolakow.htm" target="_self">Leszek Kolakowski</a></span> em minha estante, ent&atilde;o, l&aacute; por meados dos anos oitenta e in&iacute;cio dos anos noventa e os doei a uma biblioteca p&uacute;blica. A linguagem magoada contra o marxismo, com que Kolakowski escreveu aquilo tudo, n&atilde;o me agradava nem um pouco. N&atilde;o que eu n&atilde;o lhe desse raz&atilde;o. Ele tinha l&aacute; sua verdade. Todavia, se h&aacute; necessidade de falar de modo magoado de l&iacute;deres que evocaram a tradi&ccedil;&atilde;o de Marx para dar golpes de estado, o melhor seria usar a linguagem magoada de Nabokov, como no bel&iacute;ssimo &ldquo;A destrui&ccedil;&atilde;o dos tiranos&rdquo;. A linguagem da m&aacute;goa &eacute; matreira, s&oacute; n&atilde;o se volta contra o escritor quando este sabe, antes de tudo, o valor da est&eacute;tica no trabalho de escrever. &nbsp;</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Minha liga&ccedil;&atilde;o com Kolakowski terminou a&iacute;, nessa doa&ccedil;&atilde;o. Ao menos quanto ao Kolakowski que, agora, em 18 de julho de 2009, &eacute; retratado nos v&aacute;rios necrol&oacute;gios que chegam a imprensa. Todavia, h&aacute; outro Kolakowski, menos conhecido do p&uacute;blico. Com este, nunca deixamos de aprender. Trata-se antes do Kolakowski fil&oacute;sofo do que do historiador ou especialista em marxismo.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Uma boa recorda&ccedil;&atilde;o que tenho de Kolakowski &eacute; a de sua participa&ccedil;&atilde;o, em meados dos anos noventa, de um debate com Rorty, Habermas e Gellner na Academia de Ci&ecirc;ncias da Pol&ocirc;nia. O debate girou em torno de Rorty. Este, ent&atilde;o, apresentou um texto b&aacute;sico. Curiosamente, o mesmo texto apresentando em 1994 em S&atilde;o Paulo, em um evento realizado por Wally Salom&atilde;o, patrocinado pelo Banco Nacional. Este texto, &ldquo;Relativismo &ndash; encontrar e fabricar&rdquo; (1), apresentado no Brasil, teve respostas p&iacute;fias dos fil&oacute;sofos brasileiros convidados. Bento Prado ensaiou algo, mas n&atilde;o conseguiu pegar o ponto central do texto. Derrapou e bateu no poste, tomando Rorty por uma esp&eacute;cie de neokantiano. Giannotti fez um texto curto, onde confessou estar um pouco por fora. E estava mesmo. Paulo Arantes escreveu bastante, todavia, embora soubesse que o galo havia cantado, n&atilde;o sabia onde. O texto de Luis Eduardo Soares, o &uacute;nico brasileiro convidado que, enfim, conhecia Rorty, puxou o assunto para sua &aacute;rea, a antropologia e a pol&iacute;tica. Assim, c&aacute; entre n&oacute;s, as coisas foram menos frut&iacute;feras do que poderiam ter sido.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">A sorte do texto de Rorty veio, ent&atilde;o, por causa do evento logo em seguida, em 1995, na Pol&ocirc;nia. Habermas e Gellner fizeram interessant&iacute;ssimas observa&ccedil;&otilde;es sobre o texto de Rorty. Diga-se de passagem, Habermas se deu ao luxo de escrever seu texto, na &eacute;poca, no estilo utilizado por Rorty, mostrando uma versatilidade incomum &ndash; e nunca mais repetida. Kolakowski tamb&eacute;m fez um bom texto, mas, enfim, sua melhor contribui&ccedil;&atilde;o foi quanto ao pequeno escrito de observa&ccedil;&atilde;o direta &agrave; prele&ccedil;&atilde;o rortiana. Dispensando erudi&ccedil;&atilde;o excessiva ou rodeios, Kolakowski brindou o &ldquo;Relativism &ndash; finding and making&rdquo;(2) com agu&ccedil;adas quest&otilde;es, dando oportunidade de Rorty deixar claro, na &eacute;poca, algumas t&oacute;picos pol&ecirc;micos do seu pragmatismo.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">N&atilde;o cabe aqui fazer um hist&oacute;rico do texto de Kolakowski, uma vez que seu escrito est&aacute; dispon&iacute;vel em livro. O que destaco em seu texto &eacute; algo que me &eacute; particularmente significativo, uma vez que tem a ver com o modo como eu mesmo desenvolvo aspectos da doutrina pragmatista, no meu pr&oacute;prio filosofar. Uma das obje&ccedil;&otilde;es de Kolakowski aos pragmatistas &ndash; e ele, corretamente, assume Rorty como um modelo de pragmatista &ndash; &eacute; a de que &eacute; v&aacute;lido dizer que v&aacute;rios enunciados verdadeiros s&atilde;o alter&aacute;veis e realmente se alteram, e isso, por exemplo, tanto no &acirc;mbito da f&iacute;sica quanto do feminismo, mas que, &eacute; dif&iacute;cil de n&atilde;o assumir que &ldquo;a s&eacute;rie de n&uacute;meros primos &eacute; infinita&rdquo; tem uma prova, feita por Euclides, eternamente v&aacute;lida. Assim, por essa id&eacute;ia de Kolakowski, algo que o pragmatista n&atilde;o pode desconsiderar &eacute; por que essa prova euclidiana n&atilde;o parece perec&iacute;vel.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Bem, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio dizer o qu&atilde;o velho &eacute; este debate na hist&oacute;ria da filosofia. Ele est&aacute; l&aacute; nos gregos. E, se &eacute; para voltar a falar em Marx, este tamb&eacute;m ficou importunado com quest&otilde;es sobre o relativismo cultural, chegando a perguntar coisas como: se as obras de arte s&atilde;o artefatos datados, como que n&atilde;o paramos de dizer que, algumas delas, s&atilde;o sempre belas? Ora, a quest&atilde;o &eacute; ainda pertinente, e Kolakowski n&atilde;o se fez de rogado, ele a colocou, tinha de faz&ecirc;-lo.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">A resposta de Rorty &eacute; simples: a diferen&ccedil;a entre a prova sobre a infinitude da s&eacute;rie de n&uacute;meros primos e o debate entre pragmatistas e platonistas &eacute; que este &uacute;ltimo t&oacute;pico &eacute; controverso, ou parece que &eacute;, e a da prova euclidiana n&atilde;o se apresenta para n&oacute;s como controversa. Ent&atilde;o, n&atilde;o o m&eacute;rito de cada uma, mas a diferen&ccedil;a entre elas, n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o filos&oacute;fica, &eacute; um <em>fato sociol&oacute;gico</em> &ndash; diz Rorty.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Aqui, a tend&ecirc;ncia dos opositores a Rorty &eacute; a de levantar o mesmo que foi levantado contra Dewey: uma resposta assim n&atilde;o seria um escapismo? Todavia, Rorty tem um complemento que deveria ser considerado com cuidado. Ele diz: quanto &agrave; prova de Euclides, n&atilde;o aparece ningu&eacute;m vendo coisa melhor para oferecer, quanto ao debate entre pragmatistas e platonistas, aparecem aqueles que possuem coisa melhor para oferecer dos dois lados do contendores. Rorty traz a quest&atilde;o para o &acirc;mbito do que n&oacute;s, os b&iacute;pedes-sem-penas, fazemos. Ou seja, <em>somos n&oacute;s</em>, e mais ningu&eacute;m, que vamos dar o aval para os enunciados, sejam eles quais forem. Para certas quest&otilde;es, n&atilde;o h&aacute; o que oferecer, para outras h&aacute; encontramos muita coisa para oferecer, dando v&aacute;rias op&ccedil;&otilde;es.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Bem, qual &eacute; a li&ccedil;&atilde;o que se pode tirar da controv&eacute;rsia entre Kolakowski e Rorty? Para o tipo de filosofia que eu desenvolvo, uma que salta aos olhos &eacute; a seguinte: se todos os enunciados que fazemos s&oacute; podem ser avaliados por n&oacute;s mesmos, sem que eles tragam, a despeito de nossos prop&oacute;sitos, uma guilhotina que ir&aacute; cortar nossas cabe&ccedil;as antes de&nbsp; qualquer in&iacute;cio do debate, j&aacute; dando validade eterna a um em detrimento de outro (por exemplo, a guilhotina dada pela &ldquo;vis&atilde;o do mundos das Formas&rdquo; ou a guilhotina da &ldquo;l&oacute;gica inerente ao mundo&rdquo;), ent&atilde;o nossa <em>responsabilidade</em> &eacute; ampliada ao m&aacute;ximo. N&atilde;o h&aacute; nenhum enunciado que possa ser posto de lado, sem que tenhamos de examin&aacute;-lo e, depois, reexamin&aacute;-lo. Assim, todos os enunciados n&atilde;o controversos s&atilde;o os que nos satisfazem, mas que podem n&atilde;o vir nos satisfazer. Isso n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o temos a que nos apegar na ci&ecirc;ncia e na vida. Ao contr&aacute;rio, nos apegamos, a todo momento, a um n&uacute;mero enorme de enunciados, pois estamos satisfeitos com o grau de controv&eacute;rsia que h&aacute; sobre eles. Ou o grau de controv&eacute;rsia que sabemos que h&aacute; sobre eles, &eacute; claro. Em outras palavras: exercemos, sim, nossas responsabilidades para com os enunciados.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Volto agora, ent&atilde;o, para o tipo de filosofia que eu mesmo fa&ccedil;o. Trata-se da filosofia que se articula com a vida di&aacute;ria, a <em>filosofia do cotidiano</em>.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">As pessoas acham que quest&otilde;es de f&eacute; s&atilde;o incompat&iacute;veis com a atitude filos&oacute;fica, e imaginam que um fil&oacute;sofo deveria colocar em cheque todo e qualquer enunciado. Todavia, n&atilde;o fazemos isso e n&atilde;o somos menos racionais por n&atilde;o agirmos assim. Pois, &eacute; claro, &eacute; perfeitamente racional quem acredita por algo que ele &ldquo;bota f&eacute;&rdquo;, pois isso pode ser o equivalente de dizer: o grau de controv&eacute;rsia sobre esses enunciados n&atilde;o &eacute; o suficiente para que eu possa descart&aacute;-los, n&atilde;o at&eacute; o presente &ndash; e isso por v&aacute;rias raz&otilde;es, inclusive por uma que &eacute; a coer&ecirc;ncia deles com o resto de minhas cren&ccedil;as, e outra ainda, a efic&aacute;cia deles no que preciso para conseguir o que quero.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Dou f&eacute; para o enunciado &ldquo;a imagem da TV &eacute; produzida por um canh&atilde;o de el&eacute;trons que bombardeia a tela&rdquo;. A maioria de n&oacute;s n&atilde;o pensa sobre isso, uma vez que sabe um pouco de como funciona a TV, mas n&atilde;o se recorda da f&iacute;sica necess&aacute;ria para compreender totalmente esse enunciado. Mas, o grau de controv&eacute;rsia que pode ser instalado sobre esse enunciado n&atilde;o &eacute; relevante para o que quero fazer, ou seja, entender o aparelho de TV minimamente, simplesmente para ter uma no&ccedil;&atilde;o sobre o que &eacute; tubo ali colocado, caso ele quebre. Bem, e se quero s&oacute; assistir a TV, ent&atilde;o, nem se coloca a quest&atilde;o do grau de controv&eacute;rsia a respeito do enunciado em quest&atilde;o. Todavia, ligo a TV e escuto algu&eacute;m dizer que &ldquo;o Rio Tiet&ecirc; n&atilde;o pode ser despolu&iacute;do, est&aacute; morto&rdquo;. Ora, entendo de Rio tanto quanto de TV, mas, nesse caso, o grau de controv&eacute;rsia, como um fato sociol&oacute;gico, eu sei bem, &eacute; maior do que o anterior e, inclusive, para mim, mais relevante. Tenho um interesse claro em n&atilde;o v&ecirc;-lo legitimado.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">N&atilde;o me tornei nem um pouco mais ou menos dogm&aacute;tico, fazendo isso, do que o &ldquo;fil&oacute;sofo cr&iacute;tico&rdquo; que, ao menos na sala de aula, diz que n&atilde;o &eacute; dogm&aacute;tico. Quando soubermos lidar com isso, teremos dado um passo que, afinal, de certo modo j&aacute; demos. Ent&atilde;o, sobrar&aacute; mais energia para come&ccedil;armos a fazer da filosofia menos um debate sobre crit&eacute;rios de verdade do que uma proposta de contar hist&oacute;rias de mundos n&atilde;o existentes, de modo a faz&ecirc;-los existir. Caso possamos inventar mundos em que seremos vers&otilde;es melhores de n&oacute;s mesmos, dou f&eacute;, viveremos melhor.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self">Paulo Ghiraldelli Jr.</a>, fil&oacute;sofo</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">(1) Este texto foi publicado em portugu&ecirc;s: Salom&atilde;o e C&iacute;cero (curadores). <em>O relativismo enquanto concep&ccedil;&atilde;o de mundo</em>. Rio de Janeiro: Banco Nacional de Id&eacute;ias e Editora Francisco Alves, 1994.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">(2) O debate na pol&ocirc;nia foi publicado em ingl&ecirc;s: Niznik and Sanders (Ed.). <em>Debating the state of philosophy</em>. London: Praeger, 1996.</span></span></p><hr /><br />]]>
			</description>
			<comments>http://portal.filosofia.pro.br/blog/a-partir-de-kolakowski.html#comentarios</comments>
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			<title><![CDATA[O amor e a origem da filosofia]]></title>
			<pubDate>Fri, 17 Jul 2009 23:46:56 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<h2><span style="color: #ff6600;">O Amor e a origem da filosofia </span></h2><h2><span style="color: #ff6600;"><span style="font-size: x-small;">Mais um ou dois erros de Marilena&nbsp;Chau&iacute;</span></span></h2><p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Nietzsche diz que Plat&atilde;o percebeu e confessou, por meio de uma &ldquo;ingenuidade poss&iacute;vel apenas para a um grego, n&atilde;o a um crist&atilde;o&rdquo;, que &ldquo;n&atilde;o haveria absolutamente filosofia plat&ocirc;nica se n&atilde;o houvesse t&atilde;o belos jovens em Atenas&rdquo;. Na presen&ccedil;a desses jovens, mirando-os, o fil&oacute;sofo enlouquece. &Eacute; a imagem desses jovens que &ldquo;lan&ccedil;a a alma do fil&oacute;sofo numa vertigem er&oacute;tica&rdquo; n&atilde;o lhe permitindo repouso &ldquo;at&eacute; que tenha plantado a semente das coisas elevadas num solo t&atilde;o belo&rdquo;.[1]</span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">N&atilde;o dever&iacute;amos nunca tergiversar a respeito desse verdadeiro in&iacute;cio da filosofia plat&ocirc;nica, e que, em certo sentido, &eacute; o in&iacute;cio da filosofia <em>tout court</em>. Mas, para n&atilde;o tergiversar, antes de tudo, n&atilde;o podemos errar.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Ap&oacute;s ter levantado o erro da professora Marilena Chau&iacute; a respeito do <em>elenkh&oacute;s</em>,[2] volto a mais dois problemas de seus textos, exatamente quanto ao ponto do in&iacute;cio da filosofia, com S&oacute;crates e Plat&atilde;o.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Em seu livro <em>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria da filosofia</em>, a professora Marilena Chau&iacute; inicia o t&oacute;pico &ldquo;a filosofia de S&oacute;crates&rdquo; dizendo que o &lsquo;conhece-te a ti mesmo&rsquo; e o &lsquo;sei que nada sei&rsquo; s&atilde;o &ldquo;as duas express&otilde;es que ningu&eacute;m no pensamento ocidental jamais duvidou que fossem de S&oacute;crates&rdquo;. Ela ainda acrescenta que, com tais perguntas &ldquo;o homem, a &eacute;tica e o conhecimento surgem como as quest&otilde;es centrais da filosofia&rdquo;.[3]</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Apesar da express&atilde;o de Chau&iacute; parecer perempt&oacute;ria, n&oacute;s todos sabemos que, a rigor, o que ela diz de S&oacute;crates, neste particular, n&atilde;o poderia ser dito. Primeiro, sabemos que o &ldquo;conhece-te a ti mesmo&rdquo; era tido como uma inscri&ccedil;&atilde;o no Templo de Apolo, no santu&aacute;rio de Delfos. N&atilde;o era uma express&atilde;o de S&oacute;crates, e vinha junto com outras que, enfim, compunham aquilo que os velhos legisladores do povo hel&ecirc;nico haviam deixado ali, como ordem do deus. S&oacute;crates endossou a frase. E o modo que o endossou &eacute; complexo.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; verdade que S&oacute;crates tenha dito, do modo que a professora Marilena afirma que o fez, a frase &ldquo;sei que nada sei&rdquo;. S&oacute;crates nunca se declarou um ignorante, nesse sentido geral. Muito menos fez do &ldquo;sei que nada sei&rdquo; um ponto de partida. Ao contr&aacute;rio, o &ldquo;sei que nada sei&rdquo; foi, de certo modo, um ponto de chegada. E n&atilde;o foi dito dessa maneira. Em <em>A defesa de S&oacute;crates</em>, o que Plat&atilde;o faz a Mosca de Atenas contar &eacute; outra coisa. Ap&oacute;s investigar um seu interlocutor sobre um assunto determinado, como de praxe, S&oacute;crates conclui (vejam: conclui!) que ele e seu interlocutor s&atilde;o ignorantes sobre o que tentaram investigar, mas ao menos, sobre o que est&aacute; em quest&atilde;o, ele sabe que n&atilde;o sabe, enquanto que seu interlocutor imagina que sabe.[4]</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Poder&iacute;amos rearranjar as coisas para a professora Marilena Chau&iacute;? Em parte, sim. Dir&iacute;amos que, quanto ao &ldquo;conhece-te a ti mesmo&rdquo;, o que ela quis dizer foi que ningu&eacute;m duvidaria que S&oacute;crates assumiu a express&atilde;o como lema, embora n&atilde;o fosse uma frase dele. Todavia, quanto ao &ldquo;sei nada sei&rdquo;, fica mais dif&iacute;cil salvar a professora. Pois, primeiro, a express&atilde;o n&atilde;o &eacute; descontextualizada, como ela exp&ocirc;s, e n&atilde;o diz respeito ao in&iacute;cio da investiga&ccedil;&atilde;o e, sim, aparece como uma conclus&atilde;o. Al&eacute;m disso, o mais importante &eacute; que em todas as conversa&ccedil;&otilde;es socr&aacute;ticas, a Mosca de Atenas jamais diz que nada sabe. Ele diz saber v&aacute;rias coisas. Sabe tanto que, quando inicia o <em>elenkhos</em>, ele assume o que acredita e pede ao outro que tamb&eacute;m o fa&ccedil;a, e que seja sincero, e isso <em>no que acredita</em> &eacute; o seu saber. A chamada &ldquo;ignor&acirc;ncia socr&aacute;tica&rdquo;, que muitos autores elevam a um paradoxo, n&atilde;o pode ser expressa de um modo descontextualizado, como sendo um &ldquo;sei que nada sei&rdquo; em absoluto, geral.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">O mais complicado desse trecho da professora Marilena Chau&iacute; &eacute; que, exatamente no que &eacute; chamado de &ldquo;o in&iacute;cio da filosofia&rdquo; (plat&ocirc;nica), S&oacute;crates a desmente. Vamos imaginar que Plat&atilde;o seja o in&iacute;cio da filosofia enquanto um g&ecirc;nero liter&aacute;rio do Ocidente, e vamos levar em considera&ccedil;&atilde;o que Marilena Chau&iacute; come&ccedil;a o seu cap&iacute;tulo sobre Plat&atilde;o falando do amor, tendo em vista que a&iacute; estaria o in&iacute;cio da filosofia para o Cisne de Atenas. Se assim agimos, ent&atilde;o a leitura de <em>O</em> <em>Banquete</em> &eacute; o caminho natural, que Marilena deve citar, e ela assim o faz. Ora, mas &eacute; exatamente no in&iacute;cio de <em>O</em> <em>Banquete</em> que S&oacute;crates diz claramente que se h&aacute; algo no qual ele &eacute; um bom conhecedor, isso &eacute; o amor. A proposta ali, na festa de Agathon, &eacute; a de fazer diversas falas sobre Eros, e ent&atilde;o, na vota&ccedil;&atilde;o, S&oacute;crates diz que ningu&eacute;m vai votar contra essa proposta, muito menos ele pr&oacute;prio: &ldquo;de modo algum&rdquo; diz S&oacute;crates, &ldquo;uma vez que a &uacute;nica coisa que eu digo que entendo &eacute; da arte do amor&rdquo;.[5]</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Poder-se-ia dizer, em favor da professora Chau&iacute;, que ela n&atilde;o considerou a fala de S&oacute;crates em <em>O Banquete</em>, pois este seria um escrito do per&iacute;odo intermedi&aacute;rio de Plat&atilde;o, em que S&oacute;crates j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais o S&oacute;crates hist&oacute;rico. Mas, isso n&atilde;o resolveria o problema dela. Primeiro, ela pr&oacute;pria, como mostrei em outro lugar[6], n&atilde;o faz uma divis&atilde;o rigorosa e consistente entre o &ldquo;S&oacute;crates de Plat&atilde;o&rdquo; e o &ldquo;S&oacute;crates hist&oacute;rico&rdquo;. Portanto, por esse crit&eacute;rio, ela n&atilde;o tem boa defesa. Em segundo lugar, e de modo mais importante, isso que S&oacute;crates fala na casa de Agathon, de fato pode ser tomado como algo seu, uma vez que no livro <em>Lisis</em>, que pertence &agrave; fase dos &ldquo;di&aacute;logos Socr&aacute;ticos&rdquo;, a Mosca de Atenas mostra bem que &eacute; versado no assunto sobre o amor, distinguindo-o bem da amizade.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Assim, o &ldquo;sei que nada sei&rdquo; que Marilena Chau&iacute; imputa a S&oacute;crates, e que v&aacute;rios outros autores, um tanto descuidados, tomam de modo absoluto, n&atilde;o pode ser aceito. Ou seja, n&atilde;o pode ser aceito como tendo sendo dito do modo que ele &eacute; posto no livro da professora Chau&iacute;.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Exatamente no trabalho de se come&ccedil;ar a filosofar, &eacute; o amor que est&aacute; presente. Mas n&atilde;o somente como pr&aacute;tica, e sim como um conhecimento. S&oacute;crates diz bem que ele &eacute; versado na &ldquo;arte do amor&rdquo;. Nietzsche leva bem a s&eacute;rio essa afirma&ccedil;&atilde;o, chamando S&oacute;crates de &ldquo;o grande er&oacute;tico&rdquo;.<a href="http://ghiraldelli.wordpress.com/?s=origem+da+filosofia#_ftn7">[7]</a> Nietzsche leva muito a s&eacute;rio, tamb&eacute;m, o que seria, segundo ele pr&oacute;prio, a confiss&atilde;o de Plat&atilde;o, de que o in&iacute;cio da filosofia s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pelo amor.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Ali&aacute;s, aqui, no trato com o in&iacute;cio da filosofia, do modo que Plat&atilde;o a entende, a professora Marilena Chau&iacute; tamb&eacute;m introduz outro ponto problem&aacute;tico. Ela exp&otilde;e sua explica&ccedil;&atilde;o de <em>O Banquete</em>, e desconsidera completamente o papel de Alceb&iacute;ades no texto. Ele entra b&ecirc;bado, e creio que a professora achou por bem n&atilde;o dar ouvidos a um b&ecirc;bado! Ent&atilde;o, ele acredita que <em>O Banquete</em> diz respeito a uma s&oacute; coisa: o discurso de Diotima sobre o amor. O dado problem&aacute;tico, no entanto, n&atilde;o &eacute; este. &Eacute; que ela d&aacute; ao leitor uma informa&ccedil;&atilde;o errada. Ela termina esse t&oacute;pico de se livro dizendo que a fala de Diotima-S&oacute;crates &eacute; que a &ldquo;ess&ecirc;ncia de Eros&rdquo; &eacute; o &ldquo;desejo de formosura &ndash; da forma bela ou da bela forma&rdquo;, e que &eacute; isso que &ldquo;a tradi&ccedil;&atilde;o consagrou com a express&atilde;o Amor Plat&ocirc;nico&rdquo;.[8]</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Ora, sabemos que a tradi&ccedil;&atilde;o, ou seja, o que viemos contando uns para outros, sobre a express&atilde;o &ldquo;amor plat&ocirc;nico&rdquo;, n&atilde;o &eacute; isso que ela diz. E aqui, tanto faz a literatura quanto a conversa comum, o fato &eacute; que &ldquo;amor plat&ocirc;nico&rdquo; &eacute; um amor sem sexo, algo do &ldquo;amor distante&rdquo;, &ldquo;idealizado&rdquo;, &agrave;s vezes &ldquo;n&atilde;o confesso&rdquo;. Enquanto que, para Plat&atilde;o, em <em>O banquete</em>, Eros n&atilde;o abdica de si mesmo em favor de uma ess&ecirc;ncia &hellip; deserotizada. O que ocorre no processo da &ldquo;escada do conhecimento&rdquo;, &eacute; que o interesse pelo belo inicia-se com o desejo pelos corpos belos e atinge o desejo pelo belo em si. Mas isso n&atilde;o significa que, ao fim e ao cabo, Eros perca sua condi&ccedil;&atilde;o er&oacute;tica propriamente dita. Ao contr&aacute;rio, &eacute; mais f&aacute;cil percebermos nesse processo, como Gregory Vlastos nota, que h&aacute; a&iacute; um caminho que, mais tarde, seria chamado por n&oacute;s de sublima&ccedil;&atilde;o. Nosso impulso pelo amor de coisas intelectuais, belas e boas pode ganhar o car&aacute;ter de fixa&ccedil;&atilde;o e de loucura que estamos acostumados a ver no amor sexual, na paix&atilde;o er&oacute;tica. Trata-se, ent&atilde;o, do mesmo fio condutor de energia &ndash; libido[9] &ndash;, dir&iacute;amos n&oacute;s, p&oacute;s-freudianos. Ora, Nietzsche, tamb&eacute;m ele um pr&eacute;-freudiano como Plat&atilde;o, notou que Plat&atilde;o estava, sim, mostrando as transforma&ccedil;&otilde;es do instinto er&oacute;tico, n&atilde;o sua dissolu&ccedil;&atilde;o ou seu abafamento. Mas, se seguirmos Chau&iacute;, as coisas se complicam.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Caso paremos no texto dela, no momento em que diz que a &ldquo;ess&ecirc;ncia de Eros&rdquo; &eacute; o &ldquo;desejo de formosura&rdquo;, ficamos aqu&eacute;m de entender a &ldquo;escada&rdquo; do conhecimento apresentada por Diotima-S&oacute;crates. Principalmente, ter&iacute;amos a&iacute; de perguntar a raz&atilde;o dela falar que isso &eacute; filosofia e ligar tal coisa ao termo grego: philosophia &ndash; &ldquo;desejo de saber&rdquo;. Ora, philia e eros s&atilde;o &ldquo;amor&rdquo; de modos bem diferentes. E o pr&oacute;prio S&oacute;crates fez as distin&ccedil;&otilde;es devidas. As liga&ccedil;&otilde;es que Chau&iacute; faz s&atilde;o mec&acirc;nicas, pouco explicativas. Se as seguimos, &eacute; como se o amor-er&oacute;tico virasse amor-amizade, de modo a poder justificar a etimologia da palavra filosofia. N&atilde;o &eacute; isso que S&oacute;crates apresenta em <em>O Banquete</em>, de modo algum. Agora, se continuamos no texto de Chau&iacute;, e chegamos ao fim do t&oacute;pico, as coisas ficam mais complicada ainda. Pois, no final desta parte, ela diz o que j&aacute; contei, que &eacute; que a tradi&ccedil;&atilde;o tem acertado na sua no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;amor plat&ocirc;nico&rdquo;.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Sobre isso, &ldquo;a tradi&ccedil;&atilde;o&rdquo; errou feio. Pois quando falamos, na literatura ou no &acirc;mbito da conversa comum, sobre &ldquo;amor plat&ocirc;nico&rdquo;, estamos dizendo que nosso amor se dirige a algo individual. &Eacute; um amor distante, mas dirigido a algu&eacute;m, a algo <em>individual.</em> Ora, o amor plat&ocirc;nico, na acep&ccedil;&atilde;o de <em>O Banquete</em>, &eacute; o amor pela Forma, portanto, pelo universal. Ali&aacute;s, essa falta do amor pelo individual, em Plat&atilde;o, &eacute; o que &eacute; reclamado por Gregory Vlastos.[10] E eis a&iacute;, ent&atilde;o, a raz&atilde;o do aparecimento de Alceb&iacute;ades, que Chau&iacute; n&atilde;o notou. Ou que n&atilde;o quis notar! (quanta censura pode haver em nossa cabe&ccedil;a crist&atilde;, n&atilde;o?)</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Nesse particular, vale a pena lembrar a interpreta&ccedil;&atilde;o de Marta Nussbaum.[11] Ela diz que Vlastos procura em Plat&atilde;o o amor individual e, enfim, n&atilde;o acha e censura o Cisne de Atenas por isso. Mas ela, Nussbaum, lembra que Vlastos pode ter procurado no lugar errado, ou seja, na fala de S&oacute;crates-Diotima. Pois o amor individual aparece, justamente, ao final, quando Alceb&iacute;ades entra e faz o seu discurso chamando a aten&ccedil;&atilde;o para sua maneira de seguir Eros &ndash; seguindo o amor pelo indiv&iacute;duo S&oacute;crates. Ali&aacute;s, Alceb&iacute;ades usava em seu escudo n&atilde;o um bras&atilde;o de seus ancestrais, e sim a figura de Eros segurando um raio.&nbsp; Ele era um devoto de Eros, mas de um modo especial. Plat&atilde;o n&atilde;o deixou isso passar. N&atilde;o censurou a fala de Alceb&iacute;ades. Ao contr&aacute;rio, ele fechou o texto com essa fala.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Valeria a&iacute; retomarmos as discuss&otilde;es sobre a origem da filosofia, se Plat&atilde;o &eacute; seu in&iacute;cio no Ocidente. E valeria a pena, creio eu, que a professora Marilena Chau&iacute; retomasse esses pontos problem&aacute;ticos em seu livro que, afinal, &eacute; um livro bastante utilizado pelos jovens.</span></span></p> <p style="text-align: justify;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">&copy; 2009 <span style="color: #0000ff;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self">Paulo Ghiraldelli Jr.</a></span>, fil&oacute;sofo.,</span></span></p> <hr size="1" /><p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[1] Nietzsche, F. O problema de S&oacute;crates. Trad. Paulo Cesar Souza. <em>Crep&uacute;sculo dos &iacute;dolos</em>. S&atilde;o Paulo: Cia das Letras, 2006, aforismo 23, p. 76 </span></span></p><p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[2] Ghiraldelli Jr., P. <em>Hist&oacute;ria da filosofia</em>. S&atilde;o Paulo: Contexto, 2008. Para uma refer&ecirc;ncia mais r&aacute;pida, online, ver: &lt;http://ghiraldelli.wordpress.com/2008/12/17/socrates-frankenstein/&gt;</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[3] Chau&iacute;, M. <em>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria da filosofia</em>. S&atilde;o Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 187.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[4] Plato.. The apology of Socrates. Trad. G. M. A. Grube.<em> </em><em>Five dialogues</em>. Indianapolis: Hackett Publishing Company.21, d, p. 26.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[5] Plato. Trad. Nehamas and Woodruff. <em>Symposium</em>. Indianapolis. Hackett Publishing Company, 1989. 177D, p. 8</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[6] &ldquo;Sobre um erro de Marilena Chau&iacute;&rdquo;: &lt;http://portal.filosofia.pro.br/fotos/File/erro_marilena.pdf&gt;</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[7] Nietzsche, F. O problema de S&oacute;crates. <em>Crep&uacute;sculo dos &iacute;dolos</em>. S&atilde;o Paulo, 2006.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[8] Chau&iacute;, M. <em>Op. cit</em>., p., 212.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[9] Dodds, Plato and the irrational soul. In; Vlastos, G. (org.) <em>Plato II</em>. Notre Dame: University of Notre Dame, 1978. P. 221.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[10] Vlastos. G. Love in Plato. In: Platonic Studies. Princeton: Princeton University Press, 1981.</span></span></p> <p><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">[11] Nussbaum, M. Trad. Ana Aguiar Cotrim. <em>A fragilidade da bondade</em>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 209, p. 173</span></span></p><hr /><br />]]>
			</description>
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			<title><![CDATA[O coelho filósofo]]></title>
			<pubDate>Mon, 13 Jul 2009 16:55:07 -0300</pubDate>
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				<![CDATA[<p style="text-align: center;"><object width="300" height="225" data="http://www.flickr.com/apps/video/stewart.swf?v=71377" type="application/x-shockwave-flash"><param name="flashvars" value="intl_lang=pt-br&amp;photo_secret=4fc2fa20bd&amp;photo_id=3718535320" /><param name="bgcolor" value="#000000" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="src" value="http://www.flickr.com/apps/video/stewart.swf?v=71377" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><strong><span style="color: #ff6600;">O coelho fil&oacute;sofo</span></strong></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">L&aacute; pelos anos sessenta, havia uma horta no quintal de casa. Bem, para n&oacute;s todos de casa era uma horta. Mas, na verdade, descobri logo que era lugar de reuni&atilde;o e bate papo. Toda tarde, por volta das quatro horas, minha av&oacute; mexia num port&atilde;o l&aacute; e logo o lugar estava povoado. Quatro coelhos grandes se acomodavam por ali. Eram dois casais. Entre uma cenoura e outra, rolava um papo.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">&Eacute; claro que eu jamais perdia um papo entre eles. Todavia, eu tinha alguma educa&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o interferia. Eu disse &ldquo;alguma&rdquo;. N&atilde;o disse <em>toda</em> a educa&ccedil;&atilde;o. Pois, eu n&atilde;o interferia, mas eu escutava, e sem pedir permiss&atilde;o. Pouco antes de minha av&oacute; mexer no port&atilde;o, eu j&aacute; estava ali no p&eacute; de goiabeira, acomodado no meu galho favorito, bem acima da horta. O lugar era estrat&eacute;gico. Via tudo, escutava tudo, mas n&atilde;o podia ser visto. Ali&aacute;s, quanto a isso, eu sempre estive tranq&uuml;ilo, coelhos jamais olham para o alto.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Os papos eram interessantes. Ficava-se sabendo muito da vida dos coelhos e, principalmente, algo fant&aacute;stico, que agu&ccedil;ava minha curiosidade, que era conhecer um pouco de como era a toca deles, l&aacute; embaixo da terra. Eu fazia alguma id&eacute;ia, pois assistia os desenhos do Pernalonga na rec&eacute;m chegada TV. Depois, na banca de jornais e revistas, come&ccedil;ou a aparecer o coelho por l&aacute;. Mas eu sempre achei que aquilo tudo na TV ou nas revistas era muita fantasia, que a toca dos coelhos da minha av&oacute; deveria ser mais r&uacute;stica. Com aquela conversa toda dos coelhos, eu aprendia muito.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">A rotina da conversa&ccedil;&atilde;o da &ldquo;cenoura das quatro&rdquo; ficou mais interessante com a introdu&ccedil;&atilde;o de um novo convidado. Bem, n&atilde;o sei se era um convidado, exatamente. Sei que surgiu l&aacute; na horta. Vinha do vizinho, creio eu. Chegava sempre depois dos coelhos e, para causar inveja a todos, vinha pelo ar, voando. Era um pato magro, que voava mal. Mas, como ele mesmo dizia, perto dos coelhos, que n&atilde;o voavam nada, ele podia se exibir.&nbsp;&nbsp;</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Eu tinha l&aacute; minha d&iacute;vida para com o pato. Ele me via, mas n&atilde;o contava nada. Ent&atilde;o, o papo sa&iacute;a, e era espont&acirc;neo. Nem bem sei se ele se lembrava, na hora da conversa, da minha presen&ccedil;a. Parece que n&atilde;o. Isso foi at&eacute; certo dia, e depois do que ocorreu naquele dia, o pato n&atilde;o voltou mais. &Eacute; que, neste dia fat&iacute;dico, surgiu por l&aacute; um gato preto. Um gato preto muito grande &ndash; quase uma on&ccedil;a!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">O gato veio sorrateiro, rastejando. E num pulo s&oacute; agarrou o pato. Apertou o pesco&ccedil;o dele e ia morder a jugular do coitado, que j&aacute; nem podia grasnar. Eu ia intervir naquela situa&ccedil;&atilde;o, claro! Mas, para meu espanto, n&atilde;o precisei. O coelho mais velho ali, que at&eacute; tinha l&aacute; certa dificuldade de andar e mordia a cenoura com lentid&atilde;o, cutucou o gato no ombro, e foi soltando o verbo.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Que isso, meu caro, no nosso encontro da &ldquo;cenoura das quatro&rdquo;, voc&ecirc; aqui, apertando o pesco&ccedil;o de nosso amigo?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">E o gato, espantando, respondeu:</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Voc&ecirc; n&atilde;o tem espelho &eacute;?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Espelho, para qu&ecirc;?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Ora, para perceber que tem orelhas grandes, &eacute; muito peludo, tem rabo de pom-pom e, enfim, est&aacute; com uma cenoura na boca. Resumindo: voc&ecirc; devia saber que &eacute; UM COELHO!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Ah, sim, sou um coelho. Faz tempo isso, que sou um coelho. E faz tempo, tamb&eacute;m, que sei que sou um coelho! Qual a novidade?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Simples, meu caro coelho. N&atilde;o creio que vai me importunar por eu apertar o pesco&ccedil;o desse seu amigo penoso aqui, pois ele ser&aacute; minha janta. Sendo voc&ecirc; um coelho, com carne tenra de coelho, deveria saber logo que, jantando esse pato eu estarei livrando a sua barra. Pois se n&atilde;o fosse o pato ... SERIA VOC&Ecirc;, IMBECIL.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">O coelho olhou para os lados, como que desentendido, e disse:</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Eu? Eu mesmo?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Sim, sim, sim &ndash; voc&ecirc;. Vo-c&ecirc;!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- N&atilde;o, n&atilde;o acredito que voc&ecirc; faria isso, ali&aacute;s, tamb&eacute;m n&atilde;o acredito que ir&aacute; jantar o pato. Jamais algu&eacute;m, ostentando o t&iacute;tulo de animal ca&ccedil;ador, esperto, grande, amedrontador e carn&iacute;voro iria comer algo que, no fundo no fundo, nada &eacute; sen&atilde;o um saco de milho. O pato acabou de tomar seu lanche, e quando um pato termina o seu lanche, ele nada &eacute; sen&atilde;o um saco de milho. E depois que ele faz a digest&atilde;o, ele nada &eacute; sen&atilde;o um monte de milho mo&iacute;do. Nunca imaginei um felino garboso, ca&ccedil;ador, grande e com pelo brilhante a&iacute;, nessa situa&ccedil;&atilde;o de mero comedor de milho!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Bem, ent&atilde;o pior para voc&ecirc;! Posso trocar, posso jantar coelho. Co-e-lho!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Ora, mas n&oacute;s estamos terminando a &ldquo;cenoura das quatro&rdquo;. Estamos empanturrados. Voc&ecirc;, um animal ca&ccedil;ador, esperto, CARN&Iacute;VORO, iria encher a barriga de algo completamente sem gosto, como a cenoura? Sim, pois do mesmo modo que o pato &eacute; um saco de milho, n&oacute;s somos o resto da horta! Depois da digest&atilde;o, ent&atilde;o, nem se fale, estaremos praticamente como uma massa disforme toda recheada com cenoura. Ahhrrrg!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">O gato soltou o pato vagarosamente. Olhou o coelho, fitou-o da ponta das orelhas at&eacute; a primeira unha do primeiro dedo que dava para ver entre os pelos da pata. Co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a. Mostrou-se contrariad&iacute;ssimo. Baixou os bigodes.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- Coelho, coelho ... Voc&ecirc; tem l&aacute; sua raz&atilde;o. Quer dizer que isso n&atilde;o &eacute; boa comida? Nem voc&ecirc; nem esse pato s&atilde;o uma verdadeira comida?</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">- N&atilde;o para voc&ecirc;, nobre felino. &Eacute; necess&aacute;rio n&atilde;o ficar na primeira impress&atilde;o, no que vemos &ldquo;por fora&rdquo;, &eacute; necess&aacute;rio sair do escuro &ndash; sair da caverna. Nossos olhos do rosto mostram uma coisa, mas precisamos aprender a olhar por meio do intelecto, do pensamento. Pense: o que h&aacute; na minha frente &eacute; um monte de cenouras e um saco de milho!</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;">Foi com essa id&eacute;ia, chamada de &ldquo;teoria da vis&atilde;o profunda&rdquo;, que o encontro &ldquo;cenoura das quatro&rdquo; foi salvo. Todavia, salva&ccedil;&atilde;o para uns, infelicidade para outros. O gato durou muito pouco. Dali para diante ele sempre procurou olhar &ldquo;com o pensamento&rdquo; para todas as suas potenciais presas e, com isso, perdeu todas. Ele pensava, queria ver &ldquo;o interior delas&rdquo;, e isso era o tempo suficiente para fugirem. V&aacute;rios dias sem comer, sempre analisando tudo, sempre olhando a realidade por detr&aacute;s das apar&ecirc;ncias, ele logo definhou e morreu. Morreu de filosofia.</span></span></span></p><p style="text-align: justify;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: verdana,geneva;"><span style="font-size: x-small;"><a title="Rede social de filosofia" href="http://ghiraldelli.ning.com" target="_self"><span style="color: #0000ff;">Paulo Ghiraldelli Jr</span></a>., fil&oacute;sofo</span></span></span></p><p style="text-align: justify;">&nbsp;</p><p style="text-align: justify;">&nbsp;</p><hr /><br />]]>
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