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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/rss2full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><rss xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearch/1.1/" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" version="2.0"><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-29251019</atom:id><lastBuildDate>Fri, 27 Jan 2012 15:40:14 +0000</lastBuildDate><category>religião</category><category>copyright</category><category>amendoins</category><category>política</category><category>gozo</category><category>argolada</category><category>aborto</category><category>blinologia</category><category>ética</category><category>mente</category><category>filosofia</category><category>tecnologia</category><category>digital</category><category>sarcasmo</category><category>ciência</category><category>ateísmo</category><category>criacionismo</category><category>gertrudismo</category><category>cepticismo</category><category>eu</category><title>Que Treta!</title><description>Há tretas que me incomodam. É aqui que desabafo.</description><link>http://ktreta.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>1563</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/rss+xml" href="http://feeds.feedburner.com/QueTreta" /><feedburner:info xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" uri="quetreta" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-1449194041887056170</guid><pubDate>Fri, 27 Jan 2012 01:15:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-27T01:15:05.553Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><title>Palavra puxa palavra.</title><description>No site da Sociedade Portuguesa de Autores está uma lista de &lt;i&gt;«Mais de uma centena de autores e artistas [que] exigem nova lei da Cópia Privada»&lt;/i&gt;. No abaixo assinado, pessoas que contam receber &lt;i&gt;«remunerações sobre os suportes, aparelhos e dispositivos de armazenamento digitais que são actualmente, ou venham a ser no futuro, utilizados para a cópia privada das obras protegidas»&lt;/i&gt;(1) indicam que, realmente, não se importam de meter mais algum ao bolso. Não me surpreende. O que acho curioso é o termo, “remunerações”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Código do Direito de Autor e Direitos Conexos, ainda vigente, estipula (Art. 82º) uma &lt;i&gt;«Compensação devida pela reprodução ou gravação de obras»&lt;/i&gt; para &lt;i&gt;«beneficiar os autores, os artistas, intérpretes [etc..]»&lt;/i&gt;(2). Esta noção de beneficiar os criadores é mais vaga do que a “compensação equitativa” que surge no PJL 118/XII. Seguindo uma decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia, a “compensação equitativa” implica que o autor seja compensado em proporção ao dano estimado que a cópia privada lhe cause (3), enquanto que uma compensação para beneficiar os autores pode não exigir ligação clara com o prejuízo causado. Foi esse requisito que levou o supremo tribunal espanhol, em Março do ano passado, a anular a lei espanhola da cópia privada, que aplicava a taxa sem distinguir entre o cidadão privado e empresas ou instituições que não usufruíssem do direito à cópia privada (4). O PJL 118/XII, pelo menos na versão que conheço(5), tem precisamente o mesmo problema. Universidades, bancos, empresas de telecomunicações, o que calhe, é tudo presumível copiador de obras protegidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A declaração no abaixo-assinado da SPA é subtilmente, mas fundamentalmente, diferente do estipulado no PJL 118/XII. Em vez de pedirem uma compensação equitativa pelo prejuízo da cópia privada, e proporcional a este, exigem uma remuneração pelas cópias que outros fazem. O problema é que só deve remuneração quem se compromete a pagar. Quem já deu moedas aos arrumas percebe que pagar por algo que não se encomendou está mais perto da extorsão do que da remuneração. Não há dever de remunerar o autor pelas cópias que fazemos se nem lhe devemos pelo trabalho que teve nem lhe causamos trabalho adicional. No entanto, esta ideia encaixa no chavão popular, mas falso, de que o artista merece remuneração simplesmente por se lembrar de fazer algo, mesmo que ninguém lho peça. Melhor ainda, evita ter de demonstrar que a cópia privada prejudica os autores portugueses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo que haja muita cópia privada, não autorizada, de conteúdo protegido por direitos de autor, não me parece que autores como Abel Neves, Adolfo Morais de Macedo, Adriana Duarte, Aldina Duarte e afins ocupem uma parte significativa do armazenamento digital, fora aquele que os próprios tenham comprado. E ainda menos plausível me parece que a venda deste equipamento os prejudique.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Haver muitos leitores de mp3, vídeo ou livros electrónicos dá azo a muita cópia sem autorização, mas aumenta também o mercado onde o autor pode vender o seu trabalho. Apesar da queda das vendas de rodelas de plástico, e consequente pânico dos intermediários copiodependentes, os artistas têm beneficiado significativamente do alargamento do mercado. Entre espectáculos, toques de telemóvel, promoção fácil e vendas digitais, ganham mais agora do que ganhavam no final do século XX (6).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que sugere um ajuste diferente. A legislação assenta na premissa de que a proliferação de redes e suportes digitais prejudica o artista. Mas tudo indica o contrário. Há muito mais cópia, mas também há muito mais mercado, muito mais ideias e muito menos custos de produção. Feitas as contas, o artista sai a ganhar. Daí que, se alguma remuneração é devida pelo uso de suportes digitais e cópia privada, será aos cidadãos privados pelo trabalho de copiar, partilhar e promover as obras dos artistas. Ou seja, devia ser a AGECOP e a SPA a subsidiar a venda de discos rígidos e cartões de memória, em vez do contrário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas, por muito evidente que seja o benefício desta tecnologia para todo o sector cultural, nunca a SPA e afins irão admitir que os autores e artistas ficam a ganhar. Porque o objectivo não é defender direitos, lutar pela justiça ou incentivar a criatividade. O que motiva esta lei é simplesmente a ganância. Querem mais dinheiro, e pronto. Por isso é que tanto falam em remuneração como em compensação equitativa, benefício, &lt;i&gt;«receita fundamental e legítima»&lt;/i&gt;(7) ou o que calhar, sempre sem justificação adequada para a pretensão de que devemos dinheiro à Anamar, ao André Letria ou ao André Sardet só porque comprámos um disco rígido ou uma impressora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para terminar, só mais um exemplo desta aldrabice. Esta legislação devia ser uma transposição das directivas europeias sobre a cópia privada. Mas, enquanto que o acórdão do tribunal da União Europeia justifica a aplicação da taxa aos vendedores do equipamento por poderem facilmente passar esse custo para o consumidor privado, a Canavilhas diz que &lt;i&gt;«Não são os cidadãos portugueses que devem pagar esta taxa. Esta não se devia notar no preço final do produto»&lt;/i&gt;(7). Se a dívida do comprador para com os autores já é misteriosa, ainda menos se percebe que o vendedor de cartões de memória tenha de remunerar o Antonino Solmer, o António Valdemar ou o António Avelar Pinho* pelo que quer que seja que eles fizeram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;* Estes nomes foram copiados por ordem alfabética da lista da SPA. Pessoalmente, não tenho nada contra estas pessoas, a grande maioria das quais nem faço ideia de quem sejam. Mas estou convencido de que lhes devo tanto dinheiro quanto o que elas me devem a mim...&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- SPA, &lt;a href=http://www.spautores.pt/comunicacao/noticias/mais-de-uma-centena-de-autores-e-artistas-exigem-nova-lei-da-copia-privada&gt;Abaixo-assinado.&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Disponível &lt;a href=https://ciist.ist.utl.pt/docs_da/codigo_direito_autor_republicado.pdf&gt;aqui&lt;/a&gt; em pdf.&lt;br /&gt;
3- Curia, &lt;a href=http://curia.europa.eu/jurisp/cgi-bin/gettext.pl?where=&amp;lang=en&amp;num=79898978C19080467&amp;doc=T&amp;ouvert=T&amp;seance=ARRETA&gt;Judgement of the Court (Third Chamber), case C-467/08&lt;/a&gt;, 21 October 2010&lt;br /&gt;
4- Acórdão &lt;a href=http://estaticos.elmundo.es/documentos/2011/03/24/canon.pdf&gt;aqui&lt;/a&gt; em pdf, via &lt;a href=http://kluwercopyrightblog.com/2011/03/24/copyright-levies’-war-rages-in-spain/&gt;Kluwer copyright blog&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
5- Fu-Bar, &lt;a href=http://blog.1407.org/2011/05/03/proposta-do-ps-de-lei-da-copia-privada/&gt;Proposta (do PS) de Lei da Cópia Privada&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
6- Torrentfreak, &lt;a href=http://torrentfreak.com/artists-make-more-money-in-file-sharing-age-than-before-100914/&gt;Artists Make More Money in File-Sharing Age Than Before It&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
7- Expresso, &lt;a href=http://aeiou.expresso.pt/taxa-de-discos-rigidos-telemoveis-e-pens-deve-ser-paga-pelos-comerciantes=f699918&gt;Taxa de discos rígidos, telemóveis e pens deve ser paga pelos comerciantes&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-1449194041887056170?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/lLBaLurkgFU" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/palavra-puxa-palavra.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>11</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-4206100739487146216</guid><pubDate>Tue, 24 Jan 2012 19:12:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-24T19:12:14.499Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><title>O que se discute.</title><description>Ainda a propósito do PL 118/XII, o tal da taxa sobre discos e cartões de memória, o Rodrigo Moita de Deus escreveu que não discute o valor da taxa em si e que &lt;i&gt;«O que me chateia ver discutido e [diminuído] é a questão da propriedade intelectual. O valor que damos à criação e às ideias»&lt;/i&gt;(1). Se chateia, azar, porque é mesmo isso que temos de discutir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A convenção de Berna foi assinada em 1886 e, durante pouco mais de um século, este tratado internacional serviu de base a muita legislação sobre o comércio de obras artísticas e literárias. A legislação imposta pelo tratado não tinha a legitimidade de representar a vontade da maioria mas, por outro lado, só afectava editores e os poucos que trabalhassem para eles. Para bem ou para mal, a coisa foi-se aguentando. Mas o crescimento canceroso do âmbito da aplicação destas leis, nestes últimos anos, mudou radicalmente o problema. Agora que nos querem impor mais uma taxa pelo que fazemos em privado com o equipamento que é nosso, importa questionar o fundamento destas medidas e de coisas como a “propriedade intelectual”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos supor que eu imprimo este texto e vendo essa cópia ao Rodrigo. Quando o Rodrigo olha para o papel, o cérebro dele interpreta as manchas de tinta e forma pensamentos conforme as palavras que eu escrevi. É assim que a escrita funciona. Ora, segundo a lei, o Rodrigo é o proprietário do papel com tinta. E, segundo o bom senso, o Rodrigo é dono dos seus pensamentos. Para mim fica a “propriedade intelectual” sobre aquilo que a lei chama “a Obra”. O problema é que “a Obra” nem é o papel com tinta nem os pensamentos de ninguém, e não parece sobrar mais nada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na verdade, a “propriedade intelectual” não é a expressão legal de um direito moral de propriedade sobre alguma coisa do intelecto. Os meus pensamentos são meus e os do Rodrigo são dele, seja quem for o dono do papel. A “propriedade intelectual” é apenas um conjunto arbitrário de monopólios legais. Por exemplo, eu posso proibir o Rodrigo de vender outro papel que tenha manchas de tinta parecidas com estas letras, mesmo que o papel e a tinta sejam dele. Não posso proibir o Rodrigo de emitir sons que correspondam a estas palavras se ele estiver em casa, mas já posso fazê-lo se ele estiver num palco. Estes monopólios são uma forma de propriedade porque os posso vender mas, ao contrário do barrete que nos querem enfiar, não representam qualquer direito moral de propriedade sobre “a Obra”, até porque “a Obra” nem sequer existe; não passa de um truque de retórica legal. O que existe são os suportes físicos, que são de quem os compra, e os pensamentos, que são de quem os pensa. Quando estes monopólios só afectavam o comércio, esta treta pouco importava. Mas agora que isto nos afecta a todos é pertinente discutir se faz sentido conceder poderes legais para proibir tanta coisa a tanta gente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O “valor” é outra aldrabice. Tal como usam “propriedade intelectual” para disfarçar a referência a monopólios, usam “valor” para não dizer preço. Que é muito diferente, neste contexto. Imaginem que os textos de Camões deixavam de estar no domínio público e passavam a ser licenciados por uma editora. O preço de acesso aumentava muito, mas o valor cultural até seria menor, pela dificuldade acrescida de usufruir dessas obras e pela impossibilidade de criar obras derivadas. Por muito que o Rodrigo se chateie, é importante fazer esta distinção: o preço e o valor não são o mesmo e, na cultura, muitas vezes até são o contrário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, o Rodrigo quer dar valor &lt;i&gt;«à criação e às ideias»&lt;/i&gt;. Nisto estou de acordo. Valorize-se e incentive-se a criação e as ideias. Mas nem este projecto de lei nem a legislação que temos sobre “propriedade intelectual” serve para valorizar a criação e as ideias. As ideias, enquanto tal, estão explicitamente excluídas da lei. E todo o sistema de incentivos económicos está focado na cópia, que é aquilo de menos criativo e menos valioso que hoje se pode fazer a uma obra. De Gutenberg à Internet, a cópia foi o factor limitante. Arranjar quem escrevesse livros ou compusesse músicas sempre foi fácil; em muitos países e épocas nem ameaças de tortura e morte dissuadiram os autores de criar as suas obras. O problema era levar o suporte da obra desde o autor até ao público. Isso precisava de fábricas, transporte, lojas e uma data de gente e de dinheiro. Foi para isso que se legislou monopólios sobre a cópia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje a situação é tão diferente que vale a pena discutir alternativas. A cópia é gratuita, a distribuição é instantânea, o autor pode negociar directamente com o público, cada vez somos mais autores e cada vez menos nos importa a treta da cópia. É altura de revermos isso da "propriedade intelectual", do "valor" e de como incentivar a criatividade em vez de limitar a cópia. Se isto chateia o Rodrigo, é lá com ele. Desde que não me venha ao bolso, tem todo o direito de se chatear com o que quiser.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- 31 da Armada, &lt;a href=http://31daarmada.blogs.sapo.pt/5447999.html&gt;ainda a cópia privada&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-4206100739487146216?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/udt-0UggrKI" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/o-que-se-discute.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>13</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-8098374200790245196</guid><pubDate>Tue, 24 Jan 2012 02:48:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-24T02:48:00.034Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">cepticismo</category><title>Fé e razão.</title><description>Um problema nesta discussão é o brotar espontâneo de expressões como &lt;i&gt;«a fé é o princípio activo da razão e da racionalidade»&lt;/i&gt;, ou &lt;i&gt;«uma visão do mundo servida por uma razão que não se esgota na compreensão»&lt;/i&gt;, ou &lt;i&gt;«A racionalidade está muito mais no conforto intelectual que a expressão gera»&lt;/i&gt;, para dar apenas alguns exemplos recentes (1), cujo contributo é apenas revelar uma enorme confusão acerca do significado do termo. Na esperança de remediar a situação, vou tentar esclarecer o que eu quero dizer com “razão”, desafiando quem discordar a ser também claro e explícito acerca do que quer dizer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A razão é a capacidade de justificar uma conclusão de uma forma independente da preferência por qualquer premissa inicial. Um exemplo: a senhora está grávida, diz que é virgem, e ocorre-nos que pode ser virgem, que pode estar enganada, ou pode estar a mentir. Usar a razão, neste caso, é seguir as evidências e linhas de raciocínio necessárias para chegar à mesma conclusão seja qual for a alternativa que inicialmente nos pareça mais aceitável. Outro exemplo: um livro conta que uma senhora engravidou virgem, e duas pessoas discordam da veracidade do relato. Usar a razão, neste caso, será seguir as evidências e linhas de raciocínio que levem ambos à mesma conclusão apesar dessa divergência inicial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste sentido, “razão” e “racionalidade” estão em linha com a ideia de dar e exigir razões para justificar uma posição mesmo a quem comece por discordar dela, e com a ideia de formar opiniões sem ficar preso a preconceitos. É isto que esperamos de uma pessoa racional. Que seja capaz de encontrar o caminho para a conclusão certa seja qual for o seu ponto de partida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isto é claramente incompatível com a fé porque é precisamente o contrário. A fé considera um ponto de partida como determinante de tudo o resto. Se duas pessoas têm fé em proposições contraditórias, enquanto tiverem fé nenhuma vai conseguir demover a outra. A fé exige que o fiel suspenda a capacidade de se desviar do ponto de partida, de encontrar caminhos para algo que não dependa da sua crença ou sequer de considerar pontos de partida alternativos. Isso seria infidelidade e heresia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta coisa da heresia ilustra bem a incompatibilidade entre fé e razão. À luz da razão, o próprio conceito de heresia é um disparate. Se o objectivo é desvendar o caminho para a conclusão certa não podemos bloquear passagens com tabus arbitrários. A fé, em contraste, precisa de condenar como pecado qualquer alternativa, quer para evitar a inconveniência de se justificar, quer para disfarçar preconceitos com falsas virtudes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resposta a este post, já prevejo o papaguear costumeiro de que a verdade não contradiz a verdade, que fé e a razão andam de mãos dadas, que muitos homens racionais tinham fé, transcendente para aqui, mistério para ali e essas coisas. Tudo sem justificar qualquer alegação ou sequer explicar o que querem dizer com esses termos. Entretanto, persiste o problema fundamental: o termo “fé”, sejam quais forem os detalhes da definição, implica um apego idealmente inabalável a uma premissa inicial. Mas “razão”, sob qualquer definição que preserve o uso comum, implica agilidade mental para corrigir erros e encontrar o caminho certo seja de que ponto se comece. Por muito que tentem esconder este problema com alegações confusas, quem comece a procurar a verdade absolutamente convicto de que já a encontrou, além de presunçoso estará a ser irracional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Comentários em &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2012/01/fronteiras-2012-comentario.html&gt;Fronteiras, 2012: comentário.&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-8098374200790245196?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/3YIPPUmeeCA" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/fe-e-razao.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>27</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-5847598827495358932</guid><pubDate>Sun, 22 Jan 2012 23:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-23T11:19:13.250Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ética</category><title>Treta da semana: os “direitos”.</title><description>A propósito da proposta de lei 118/XII, tenho visto invocar os direitos de autor para defender que se taxe equipamento informático em benefício de quem esteja inscrito na SPA. Infelizmente, falta sempre a explicação de que direitos serão esses, e em que sentido estão a usar o termo. Porque “direitos” pode querer dizer várias coisas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O direito moral, assente num sistema ético de valores, é o mais forte e mais fundamental, mas esse não é do motorista, nem do electricista nem do autor. É da pessoa, seja qual for a sua profissão. Alguns direitos legais surgem de direitos morais, mas não correspondem exactamente aos direitos em que se baseiam. Por exemplo, o Código do Direito do Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) concede ao autor o direito legal de ser reconhecido como criador da obra. Moralmente, aceitamos que qualquer pessoa tem o direito de ser reconhecida por aquilo que criou. Neste caso, o direito legal surge do direito moral. Mas não corresponde ao direito moral porque o CDADC exclui explicitamente &lt;i&gt;«As ideias, os processos, os sistemas, os métodos operacionais, os conceitos, os princípios ou as descobertas»&lt;/i&gt;. Apesar do criador de uma teoria científica ou fórmula matemática ter o direito moral de ser reconhecido como o seu autor, esse direito moral não beneficia da protecção legal concedida ao direito moral equivalente de um músico ou poeta. Por isso, mesmo quando os direitos legais derivam de direitos morais, é preciso especificar a quais nos referimos, porque não são o mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, muitos direitos legais surgem por mera conveniência social ou económica e não têm um fundamento moral directo. Por exemplo, o direito de um agricultor receber subsídios por plantar árvores de fruto ou o direito de exclusividade dos farmacêuticos na venda de certos medicamentos são direitos legais que se justificam pela necessidade de incentivar ou regular certas actividades e não por haver tal coisa como direitos morais exclusivos de agricultores ou farmacêuticos. Só fará sentido obstar a venda de medicamentos nos supermercados se implicar algum prejuízo para a saúde pública, e nunca por violar "direitos dos farmacêuticos".&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando a Maria Henriques pergunta &lt;i&gt;«mas tu és contra o direito de autor?»&lt;/i&gt;(1) a quem se opõe à taxa sobre discos rígidos e cartões de memória, ou o Rodrigo Moita de Deus diz ser a favor dessa taxa porque &lt;i&gt;«Sou autor. Recebo direitos de autor. Os meus filhos vão receber esses direitos de autor»&lt;/i&gt;(2), não é nada claro que “direitos” serão estes. Não há qualquer direito moral que seja exclusivo dos cooperadores da SPA, nem direito moral sobre o que os outros fazem com os seus discos e cartões, que justifique esta taxa. Mesmo a ideia de que isto serve para compensar aos autores o prejuízo da cópia privada não tem fundamento moral, porque só incorre no dever moral de compensar o autor quem encomenda o serviço e se compromete a pagá-lo. Eu sou autor deste texto, mas escrevi-o por decisão minha e ninguém me deve nada pelo trabalho. Se não me devem pelo trabalho que eu tive, não se percebe como esse dever moral surge magicamente só por copiarem este texto. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resta então a justificação deste direito legal dos cooperadores da SPA como uma medida económica e não moral. Ou seja, não se trata de ser “contra direitos” nem de “receber direitos” mas de ser contra uma taxa ou querer receber o dinheiro dessa taxa. No entanto, nem assim a tese da compensação é justificável. Mesmo assumindo que boa parte do armazenamento digital será dedicada à cópia de obras alheias e protegidas pelo CDADC – uma parte cada vez menor, conforme aumenta o conteúdo amador gerado por todos e o número de obras de cópia autorizada – não é razoável assumir que haja muito espaço dedicado ao Rodrigo, à Maria ou aos cooperadores da SPA em geral. E não faz sentido compensar a SPA pela cópia privada das donas de casa desesperadas ou dos filmes de Hollywood.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Podemos também esquecer a cópia privada e afins, e considerar esta taxa apenas como uma forma de financiar a cultura em tempo de crise, canalizando para os autores parte do valor comercial do equipamento informático. Mas isto traz-nos de volta aos direitos morais. Nem todos os que criam obras protegidas pelo CDADC são cooperadores da SPA; nem todos os autores estão cobertos pelo CDADC; e nem todos a quem a crise afecta são autores. Falta dinheiro para financiar a poesia da Maria Henriques (3) mas também falta dinheiro, a muita gente, para medicamentos, comida e casa. Se é para cobrar dinheiro para financiar algo, então será melhor cobrar de forma justa e financiar primeiro o que é prioritário. Que não é certamente a AGECOP e a SPA. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moralmente, os direitos importantes não são os dos autores. São os de todos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- A Pomba Livre, &lt;a href=http://apombalivre.blogspot.com/2012/01/deliciosopara-os-que-atacam-lei-da.html&gt;delicioso.para os que atacam a lei da cópia, é ilicito o aumento e a taxa. mas insultar os que têm opinião diferente é mais que licito e prática corrente. ali no twitter numa esquina próxima de si.&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- 31 da Armada, &lt;a href=http://31daarmada.blogs.sapo.pt/5443816.html&gt;três boas razões para apoiar a gabriela canavilhas&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
3- Por exemplo, &lt;a href=http://mariahenriques-artesplasticas.blogspot.com/&gt;Maria Henriques, A viagem&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-5847598827495358932?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/eLiZkodPRV8" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/treta-da-semana-os-direitos.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>7</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-6070587824947825414</guid><pubDate>Sat, 21 Jan 2012 09:26:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-21T09:26:02.649Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><title>Fronteiras, 2012: comentário.</title><description>O debate de quarta-feira (1) foi muito agradável, e aproveito para agradecer aqui o convite, a organização e a participação de todos. Apesar de ter sido o único no painel a defender que ciência e fé são incompatíveis, pareceu-me que as justificações dos restantes participantes para a posição contrária até suportavam a minha. Propuseram que fé e ciência são compatíveis desde que se debrucem sobre temas independentes. Mencionaram Galileu, segundo o qual a ciência diria como as coisas funcionam e a religião como podemos salvar a alma, e os &lt;i&gt;magisteria&lt;/i&gt; independentes do Stephen Jay Gould. Mas dizer que são compatíveis só enquanto estiverem completamente separadas equivale a admitir que são incompatíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Pedro Quintella, padre da diocese de Setúbal, explicou que enquanto a ciência lida com problemas, a fé lida com mistérios, sendo a diferença que as respostas aos problemas podem ser avaliadas para aferir quão correctas são, enquanto que os mistérios transcendem essa possibilidade. À primeira vista, isto dá a impressão de que a fé é muito mais profunda e significativa do que a ciência. Mistérios, e tal. Mas não é nada disso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se podemos testar e avaliar a adequação das respostas às perguntas – perguntas como qual a composição do Sol, de que é feita a matéria ou como cresce uma planta – então podemos formar opiniões fundamentadas acerca desses temas. Temos respostas para as quais se pode dar e exigir razões. Ou seja, respostas racionais. Em contraste, se as respostas não são passíveis de qualquer teste, não há justificação para considerar uma como melhor do que as outras. Por exemplo, para responder à pergunta “qual a finalidade última do universo?” tanto faz invocar um deus como maionese de gambas se, sendo um mistério, não há forma de distinguir a resposta mais adequada. É apenas uma questão de preferência pessoal ou, como lhe chamam, fé. É por isto que a ciência pode partir de hipóteses diferentes e convergir para a mesma explicação, guiando-se pelo peso das evidências, enquanto que fés diferentes não têm forma de determinar quem é que tem razão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A necessidade de manter a fé e a ciência em domínios separados é consequência, e evidência, da incompatibilidade entre elas. Se fossem compatíveis, dariam as mesmas respostas às mesmas perguntas. Não era preciso coutadas isoladas. Seja como for, a hipótese da separação também é falsa, como atestam o criacionismo, milagres, o nascimento virgem, a ressurreição, a assunção de Maria e muitos outros exemplos de alegações de fé acerca de acontecimentos históricos e verificáveis. E é também falso que a ciência se abstenha de formar uma opinião acerca das respostas aos tais mistérios. A ciência classifica explicitamente de mera especulação qualquer alegação factual que não seja testada, e isto é incompatível com o crédito que a fé dá a tais hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fundo, o problema é que o método da ciência é considerar diferentes alternativas e dar crédito a cada uma em função do peso das evidências. Ou seja, a crença em alguma hipótese depende dos dados que a sustentam. A fé faz o contrário. Em qualquer fé há um conjunto nuclear de crenças que determina tudo o resto e que é aceite mesmo sem dados que o fundamentem. Por exemplo, um monoteísta dirá que só há um deus, um politeísta defenderá que há mais do que um deus, e ambos estarão absolutamente convictos com base em coisíssima nenhuma. A isto a ciência dirá que, sem evidência de deuses nem valor explicativo para essas hipóteses, o mais sensato é exclui-las da nossa representação da realidade. Os crentes querem interpretar esta posição como delegando tais questões ao domínio da fé, mas a ciência não delega a astrologia aos astrólogos, nem a homeopatia aos homeopatas nem a teologia aos crentes. A ciência conclui, claramente, que posições sem fundamento nos dados de que dispomos não merecem crédito, e ter fé nelas é um erro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para concluir, queria abordar uma questão que surgiu no início e no fim do debate mas que não houve tempo para explorar. Em tom provocatório, o José Paulo Santos referiu uma rábula que corre as Internets, segundo a qual um professor diz à turma que Deus não existe porque não podemos vê-lo nem tocar-lhe, e um aluno diz que então o cérebro do professor não existe, pela mesma razão (2). No final, uma pergunta da audiência repetiu o erro: como é que podemos dizer que Deus não existe se aceitamos que o amor existe mesmo sem o ver. O erro é julgar que a ciência só considera evidência sensorial directa, mas nem sequer existe tal coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo quando vemos ou tocamos algo, aquilo que sentimos resulta de um processo complexo de transdução e interpretação de sinais pelo nosso sistema nervoso. Não é evidência directa para nada. Por exemplo, se eu vir um elefante verde a voar não concluo que exista tal coisa, mas sim que se passa algo de errado comigo. O que deve determinar as nossas conclusões não é um dado isolado, como ver ou tocar, mas sim uma interpretação consistente com todos os dados de que dispomos. É assim que conseguimos concluir que existem electrões, gravidade, microondas e uma data de outras coisas que não podemos ver. Concluímos que tais cosias existem porque incluir tais premissas nos nossos modelos permite explicar, consistentemente, um conjunto muito grande de dados independentes, e explicá-los melhor do que as alternativas. E é precisamente por isso que eu concluo que não existem deuses como aqueles que as religiões propõem. Assumir a sua existência não contribui nada para os melhores modelos que, até agora, encontrámos para representar a realidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- &lt;a href=http://www.unl.pt/eventos/geral/2012/fronteiras-2012-crer-ou-nao-crer-biblioteca-fct-nova-en&gt;Crer ou não Crer: Diálogo ou confronto entre Religião e Ciência?&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Um exemplo &lt;a href=http://my.opera.com/jhunniior/blog/2011/01/07/professor&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-6070587824947825414?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/EcftRSrxRS4" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/fronteiras-2012-comentario.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>40</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-107972794669594418</guid><pubDate>Tue, 17 Jan 2012 23:07:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-17T23:07:55.243Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><title>Fronteiras, 2012</title><description>Amanhã, às 14:00, no auditório da biblioteca da FCT/UNL, vou participar no debate &lt;i&gt;«Crer ou não Crer: Diálogo ou confronto entre Religião e Ciência?»&lt;/i&gt; O diálogo será com Fernando Santana, director da FCT; Pedro Quintela, padre da Diocese de Setúbal; e Carlos Fontes, da FMV/UTL. Mais informações no &lt;a href=http://www.unl.pt/eventos/geral/2012/fronteiras-2012-crer-ou-nao-crer-biblioteca-fct-nova-en&gt;NOVA&lt;/a&gt; e no &lt;a href=http://biblioteca.fct.unl.pt/DDB/&gt;site da biblioteca da FCT/UNL&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-107972794669594418?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/EY9b0JYMY3E" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/fronteiras-2012.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>28</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-6017420651307676008</guid><pubDate>Tue, 17 Jan 2012 13:13:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-17T13:13:23.965Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>Treta da semana (passada): a praça pública.</title><description>O caso dos políticos maçons têm preocupado muita gente. A Paula Teixeira da Cruz quer que os políticos digam se pertencem à maçonaria (1), o José Policarpo acha que não têm obrigação de dizer nada (2), o PCP não admite que os seus militantes sejam maçons (3), o José Seguro quer debater (4) e assim por diante. Por mim, o problema não é se pertencem à maçonaria ou ao GDR Leões da Murrunhanha. O que importa é que declarem conflitos de interesse. Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, disse que &lt;i&gt;«O que é relevante é saber se algum deputado ou líder parlamentar coloca, no exercício das suas funções, outro interesse particular acima do interesse nacional»&lt;/i&gt;(5). De acordo. Mas quando o Luís Montenegro integrou a Comissão Parlamentar encarregue de investigar irregularidades nos serviços secretos, esconder que era compadre maçónico do Jorge Silva Carvalho, ex-director do SIED, pôs claramente interesses particulares acima do interesse nacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Infelizmente, esta nem é a treta pior. Com este compadrio dissimulado, a fiscalização só serve para distrair os eleitores. O que é grave mas, pelo menos, percebe-se bem o problema. O pior é a conjuntura de opacidade por omissão que lhe está subjacente, à qual já ninguém liga mesmo quando tem consequências como estas. Este caso rebentou porque a contribuição do PSD para o relatório final da comissão omitia as relações com a maçonaria, originalmente mencionadas no relatório do PSD. Por este último ser agora conhecido, a Teresa Leal Coelho protesta que tenham lançado &lt;i&gt;«estas faíscas para a praça pública»&lt;/i&gt;(5) e o PSD quer apresentar queixa por fuga de informação (6).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Teresa Leal Coelho, tal como os restantes deputados desta Comissão Parlamentar, é paga por nós, contribuintes. São nossos funcionários. Também é nosso funcionário quem trabalha no SIED e do SIS. Nesta investigação, uns funcionários do povo português foram incumbidos de averiguar se outros funcionários do povo português estavam a zelar devidamente pelos interesses de quem os contratou e lhes paga o salário. Foi no âmbito desta investigação que a Teresa Leal Coelho e os seus colegas, todos nossos funcionários, elaboraram o tal relatório. É preocupante que se considere “fuga de informação” que quem os contratou conheça o trabalho que lhes pagou para fazer, ou que a transparência, único garante de um trabalho bem feito, seja menosprezada com esse “deitar tudo na praça pública”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Admito que algumas coisas devam ser secretas, mesmo no nosso interesse. Algumas fases dos processos de investigação criminal ou algo que viole direitos de privacidade dos envolvidos, por exemplo. Mas o secretismo também serve para encobrir trafulhices e para nos embarretarem. Por isso, é preciso avaliar cada caso e só aceitar que o trabalho de funcionários públicos seja mantido secreto quando as vantagens para os contribuintes sejam claramente superiores ao risco de abuso. E isso, ao que tudo indica, é muito mais raro do que se assume.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema principal neste episódio é que o Jorge Silva Carvalho, a Teresa Leal Coelho, o Luís Montenegro e, infelizmente, a maioria dos eleitores, não parecem perceber que deputados, ministros e directores das secretas são nossos empregados. A sociedade que os contrata e lhes paga tem todo o direito de saber o que fazem no exercício dessas funções. Se não querem “fugas de informação” ou que as coisas apareçam “na praça pública”, então despeçam-se e dêem o lugar a quem tenha consciência dos deveres de um funcionário público.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- DN, &lt;a href=http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=2235386&gt;PSD admite obrigar políticos a dizer se são maçons&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Sol, &lt;a href=http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=38413&gt;Cardeal Patriarca: políticos não têm de assumir que são maçons&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
3- Sol, &lt;a href=http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=38879&gt;PCP proíbe militantes maçons&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
4- TVI24, &lt;a href=http://www.tvi24.iol.pt/politica/antonio-jose-seguro-ps-maconaria-tvi24/1314979-4072.html&gt;Seguro quer Parlamento a debater maçonaria&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
5- Público, &lt;a href=http://www.publico.pt/Política/psd-nega-alteracao-ao-relatorio-sobre-secretas-1527437&gt;PSD nega alteração ao relatório sobre secretas&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
6- I online, &lt;a href=http://www.ionline.pt/portugal/secretas-psd-nega-ter-feito-apagao-sobre-maconaria&gt;Secretas. PSD nega ter feito “apagão” sobre Maçonaria&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-6017420651307676008?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/QPGhls_akKo" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/treta-da-semana-passada-praca-publica.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>6</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-6231410368510579367</guid><pubDate>Sun, 15 Jan 2012 12:51:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-15T12:52:44.362Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">argolada</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><title>Lei de Poe</title><description>O Douglas Bonafe estreou-se neste blog, há dias, com umas questões curiosas. Infelizmente, comentou um post de 2007, pelo que ninguém deve ter reparado. Para desenjoar do &lt;i&gt;copyright&lt;/i&gt; e da política, vou aproveitar a deixa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;«Se a ciência não é dogmática então me prove, considerando o método científico, algumas coisinhas simples que uma criança é capaz de definir como postulado. Vou citar alguns postulados:&lt;br /&gt;
1) O ponto existe.&lt;br /&gt;
2) Por um ponto passam infinitas retas.&lt;br /&gt;
3) Não existe velocidade maior que a velocidade da luz.»&lt;/i&gt;(1)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nós podemos definir ponto e recta como “postulados” porque são apenas conceitos. São as peças que usamos para criar modelos. Por exemplo, posso modelar o ar num balão assumindo que cada molécula de gás é um ponto que se desloca em linha recta e colide com a borracha do balão. Daqui deriva-se a lei dos gases perfeitos, um modelo bastante aproximado do que se passa no balão. Mas postular conceitos e inventar modelos é só parte do processo. Em ciência, também se tem de investir muito trabalho a averiguar o ajuste entre o modelo e o aspecto da realidade que o modelo tenta descrever. Por isso é que, em ciência, “provar” é pôr à prova. É testar. E é por isso que exigir uma prova científica de que “pontos existem” não faz sentido. É como pedir a demonstração matemática do café com leite. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;«Os postulados são proposições fundamentais em cima das quais modelamos o  Universo ao nosso redor. Nas Religiões, os dogmas são proposições fundamentais […] Ou seja... tudo o que conhecemos partem de postulados.»&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ciência não é nada assim. A ciência é fundamentalmente diferente das religiões porque não assenta tudo nos postulados. Em vez de postular apenas uma coisa e seguir por aí, cega às alternativas, a ciência começa por considerar várias alternativas, mutuamente exclusivas, que depois testa, seleccionar e aperfeiçoa para ir aproximando as descrições à realidade. Além disso, durante este processo vão surgindo novas hipóteses, que muitas vezes substituem elementos anteriores. Aquilo que a ciência considera conhecimento, em cada momento, é a região onde os dados encurralaram as várias hipóteses ainda não rejeitadas. É um ponto de convergência de  muitos “postulados” alternativos de onde a investigação partiu. Por exemplo, em ciência não se vai simplesmente postular que “Não existe velocidade maior que a velocidade da luz”. Em vez disso, vai-se procurar indícios que permitam distinguir entre essa hipótese e hipóteses alternativas. Basicamente, enquanto que as religiões partem de afirmações que assumem verdadeiras, a ciência começa com perguntas às propõe várias respostas possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A respeito do ateísmo e da moralidade, o Douglas escreve que &lt;i&gt;«O pensamento ateu em sua origem, não considera a existência de um Deus, nem seu antagônico, não considera a existência do bem e do mal, uma vez que não fazem sentido dada a inexistência de uma causa para o bem ou o mal. Logo, para um ateu verdadeiro, comer a mãe e jogar os restos aos cães não tem nenhuma diferença de se comer um animal qualquer»&lt;/i&gt;. É fácil desfazer esta confusão. O ateu é ateu porque confia em proposições factuais apenas na medida em que os dados o justifiquem. É por isso que conclui não haver deuses, diabos, fadas ou Saci-pererê. Por outro lado, há ampla evidência de que a imbecilidade existe, mesmo fora das caixas de comentários dos blogs, e de que é causa de muito mal. Não é preciso fé em deuses para perceber que há bem e mal, e é fácil encontrar uma justificação ética para não se “comer a mãe e jogar os restos aos cães” mesmo sem acreditar que o menino Jesus castiga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mais preocupante é haver quem ache que a tortura, a violação e o homicídio só são maldade porque um deus disse que eram, e que se esse deus disser outra coisa – por exemplo, para se apedrejar até à morte adolescentes que desobedeçam aos pais – então é isso que é bom fazer. No fundo, o problema não é tanto se as pessoas acreditam num deus ou não acreditam em deus nenhum. O maior problema é haver tanta gente que, para acreditar num deus, vive com o cérebro desligado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Comentários em &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2007/03/dogma-e-cincia.html&gt;Dogma e ciência.&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-6231410368510579367?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/61ECP0BwuFQ" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/lei-de-poe.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>21</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-9077139724304445883</guid><pubDate>Fri, 13 Jan 2012 10:28:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-13T23:03:02.398Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><title>Promiscuidade.</title><description>Numa entrevista à TSF, que a Maria João Nogueira transcreveu, a Gabriela Canavilhas justificou assim a taxa sobre equipamento informático que propõe no Projecto de Lei 118/XII: &lt;i&gt;«a situação pretende remediar e acudir a um problema que é grave e que há muitos anos não tem sido resolvido, que é a situação dos autores, porque Portugal está abaixo do meio da tabela em relação aos outros países da Europa no que respeita à contribuição per capita para sociedades gestoras de direitos autorais.»&lt;/i&gt;(1) O que é grave é a confusão entre a cultura de todos, o negócio de alguns e a vida de cada um.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dever e interesse da sociedade promover a cultura, incentivar a criatividade e facilitar o acesso a todos esses bens intelectuais que, pela sua natureza – e ao contrário do que se diz por aí – não podem ser consumidos, apenas multiplicados. E é razoável que se cobre impostos para esse fim. Mas a forma justa de cobrar impostos é repartindo equitativamente o esforço, cobrando mais a quem tem mais, e não a quem precisa de comprar um disco rígido ou uma impressora. E o investimento na cultura deve ser feito naquilo que contribui para a sua preservação e progresso. Escolas, bolsas de estudo, bibliotecas, museus, espectáculos e afins. Dar dinheiro a sociedades privadas de “gestão de direitos” não é investir na cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isto porque o comércio da cultura é negócio; não é cultura. E, enquanto negócio, é um negócio como qualquer outro. Os autores, artistas, produtores e editores têm o direito de aplicar talento e recursos na procura do lucro, e a sociedade tem o dever de lhes garantir essa liberdade, mas no negócio não são mais nem menos do que os outros. Ninguém tem a obrigação de subsidiar lucros, seja no negócio da música, da carpintaria ou da revenda de congelados. A cultura é um bem de todos, para o qual todos devem contribuir, mas os negócios que cada um faz para o seu bem são consigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
À parte destas actividades públicas de criação cultural e comércio, cada um tem também a sua vida pessoal. O que faz em casa, em família, entre amigos ou mesmo com estranhos, mas que não é público. Este é um domínio que o Estado tem a obrigação de proteger e onde só deve intervir em caso de absoluta necessidade, apenas para defender os direitos mais fundamentais de cada um. Onde não se inclui o alegado direito ao lucro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para justificar esta taxa, deturpam conceitos como consumo, direito à remuneração e prejuízo. Não se consome cultura. Consumir é tirar proveito destruindo valor, mas a difusão de uma obra não lhe tira qualquer valor cultural. O direito à remuneração só surge do acordo voluntário entre a parte remuneradora e a parte remunerada. Ninguém tem direito a remuneração só porque lhe deu para trabalhar sem encomenda nem promessa de pagamento, seja a limpar o quintal do vizinho, escrever um post no blog ou compor uma música. E ter prejuízo é ficar sem aquilo que seria legítimo reivindicar como seu, o que não se aplica ao hipotético lucro pela venda de algo que, afinal, o cliente não quis comprar. É importante perceber que, moralmente, copiar não faz dever nada a ninguém. Mesmo que se deixe de comprar e não se recompense o autor, só com um compromisso prévio é que haveria obrigação moral de o fazer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Toda esta embrulhada assenta numa obsessão anacrónica pela cópia, um legado do suporte analógico. O número de cópias nunca foi indicativo da qualidade cultural de uma obra mas, ao menos, antigamente era uma boa medida do esforço industrial e financeiro necessário para que a obra chegasse ao seu público. Hoje nem isso. A cópia digital não exige esforço nem não mede nada de relevante. O contributo cultural ou impacto económico do “sai da frente Guedes”, por exemplo, fica muito aquém do número de cópias que originou. E bastava deixar de inflacionar a cópia pela concessão de monopólios que o mercado passaria a canalizar recursos para o que nos interessa: talento e a criatividade em vez da cópias e “gestão de direitos”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta taxa de &lt;i&gt;«contribuição per capita para sociedades gestoras de direitos autorais»&lt;/i&gt; é uma conspiração promiscua entre a regulação da cópia para uso pessoal, a mentira de que se defende a cultura e o propósito claro de dar mais lucro à SPA e seus compadres. Ou seja, uma aldrabice.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- A entrevista (também com o Octávio Gonçalves, da ANSOL) na &lt;a href=http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2235516&amp;page=-1&gt;TSF&lt;/a&gt;; transcrição e comentário (que vale a pena ler) no &lt;a href=http://jonasnuts.com/426059.html&gt;Jonasnuts&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-9077139724304445883?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/rVs4iCv_iGg" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/promiscuidade.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>9</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-7900720114764768716</guid><pubDate>Wed, 11 Jan 2012 22:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-11T22:53:45.113Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><title>Ciência, ideologia e economia.</title><description>A Priscila Rêgo chamou-me a atenção para uma discussão no Douta Ignorância sobre a objectividade (ou falta dela) da ciência e, em particular, da economia (1). A conversa toca vários problemas que costumo trazer para aqui.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um deles é a divisão “das ciências” em naturais e humanas, como se o objectivo não fosse sempre o de perceber o que se passa. Ciência só há uma. É o processo de gerar, testar, seleccionar e melhorar descrições da realidade pela sua correspondência ao que pretendem descrever. Descrever coisas que não são realidade não é ciência. Deuses, demónios ou o Homem Aranha, por exemplo. Também não é ciência alegar que se descreve a realidade sem aferir se a descrição corresponde ao descrito. É o caso de Lysenko, dos criacionistas e de quem diz saber como são os deuses ou demónios. Mas tentar perceber como as coisas são, tendo o cuidado de testar se são mesmo como julgamos, é ciência, seja com telescópios, medidores de pH ou preços e taxas de juro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Roubando dois exemplos à Priscila, a lei dos gases perfeitos diz que o produto da pressão pelo volume de um gás é proporcional ao produto da temperatura pelo número de moléculas; e a função de consumo de Keynes diz que o consumo total é igual ao consumo autónomo mais o produto do rendimento pela propensão marginal de consumo. Estas afirmações são ambas científicas. É certo que Keynes assume que os consumidores ignoram expectativas de rendimentos futuros, o que não se ajusta perfeitamente à realidade. Mas a lei dos gases perfeitos também assume que as moléculas de gás são partículas pontuais que não interagem, e isso também não é verdade. Ainda assim, desde que se compreenda as limitações e condições de aplicabilidade destas relações, e não se descure as margens de erro associadas, é tão científico descrever a procura de latas de feijão com a expressão de Keynes como descrever a pressão do pneu com a lei dos gases perfeitos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro problema é ignorar essas condições e margens de erro. Se modelarmos o custo dos transportes públicos considerando apenas o que se paga em bilhetes e impostos, será de prever que a privatização é mais “eficiente”, no sentido de reduzir o total pago pelo mesmo serviço. Se contabilizarmos também o impacto económico da privatização na poluição, mobilidade dos trabalhadores e rendimento disponível, o resultado pode ser diferente e a incerteza aumenta. E se quisermos avaliar custos e benefícios em utilidade em vez de em euros temos de considerar também que o dinheiro não vale o mesmo para todos. É um erro comum assumir que dinheiro e utilidade são a mesma coisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se uma pessoa acha que uma cadeira vale 38 laranjas e outra diz que, para si, vale 29 cenouras, não sabemos quem dá mais valor à cadeira porque não sabemos que valor dão a cenouras e laranjas. Mas se uma avalia a cadeira em 40€ e a outra em 30€, a tendência é de pronunciar que a cadeira vale mais para a primeira pessoa. No entanto, também não sabemos se os 40€ da primeira valem, para si, mais do que os 30€ valem para a outra. Se a primeira ganha 10,000€ por mês, por exemplo, e a outra só 100€, o mais plausível é que a segunda tenha um apreço muito maior pela cadeira, apesar de não poder dar tanto dinheiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto ciência, a economia não ignora estes factores. Já desde Bernoulli que se sabe que a utilidade do dinheiro não corresponde directamente ao valor nominal. Mas se já é difícil quantificar o impacto económico da poluição ou da desigualdade de rendimentos, ainda mais difícil é quantificar a utilidade de algo como viver numa sociedade justa, por exemplo. A tentação é cortar a direito, ignorar estes factores e moldar tudo a uma ideologia. Por exemplo, que é melhor privatizar os transportes públicos porque o sector privado é mais eficiente, e pronto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema não é a ideologia, até porque não se pode ter valores sem ideologia e, sem valores, não se pode tomar decisões. O problema é baralhar a descrição de como as coisas são com a expressão de como queremos que sejam. Porque, enquanto que aceitar ou rejeitar uma descrição da realidade deve depender dos dados e não de opiniões, exigindo conhecimentos sobre a matéria em causa, uma ideologia pode ser legitimamente rejeitada apenas em função dos valores de cada um. A aldrabice que se faz com a economia, especialmente na política, é apresentar premissas ideológicas como se fossem factos económicos, dando a impressão de que só os entendidos as podem avaliar. Por exemplo, as medidas de austeridade são  apresentadas como uma necessidade económica objectiva quando, na realidade, derivam apenas da opção de poupar os ricos sacrificando os pobres. Economicamente, seria possível resolver os problemas da dívida pública distribuindo o esforço de forma mais equitativa. Mas se a opção ideológica por trás da austeridade fosse declarada de forma clara enfrentaria a objecção imediata da maioria dos eleitores. Daí a necessidade da aldrabice.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A economia é ciência. O que acontece é que, nas mãos dos políticos, deixa de ser uma forma objectiva de esclarecer aspectos da realidade e torna-se num truque para esconder juízos de valor questionáveis e motivações egoístas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Comentários no post &lt;a href=http://adoutaignorancia.blogs.sapo.pt/252151.html&gt;Ciência e Ideologia&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-7900720114764768716?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/tgAL87IAcZI" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/ciencia-ideologia-e-economia.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>21</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-3746704123018142519</guid><pubDate>Sun, 08 Jan 2012 23:30:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-09T01:02:47.015Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">cepticismo</category><title>Treta da semana: a linguagem da treta.</title><description>Independentemente do tema, a treta normalmente é propagada com uma linguagem própria, fácil de identificar pelo exagero, pelo abuso da metáfora, por termos mal definidos e por não dizer nada de concreto. Com esta linguagem, pode-se fingir revelar ideias de grande profundidade e significância sem, no entanto, arriscar nada, porque o que se profere é de tal forma vazio de conteúdo que nem faz diferença se é falso ou verdadeiro. Aqui ficam alguns exemplos, de entre um número deprimentemente grande de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;iframe width="420" height="315" src="http://www.youtube.com/embed/215won8bF6c" frameborder="0" allowfullscreen&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Estes excertos foram usados sem autorização dos autores, mas ao abrigo da liberdade de crítica, que espero ainda ser legal.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fontes:&lt;br /&gt;
&lt;a href=http://videos.sapo.pt/lqUZZaVWlAZ4g8DCQoR8&gt;Terapia Bioenergética&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;a href=http://cienciareligiao.blogspot.com/2012/01/perspectivas-para-2012.html&gt;Perspectivas para 2012&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;a href=http://www.youtube.com/watch?v=mlqFizED69c&gt;Alexandra Solnado - Livro Voo Sensitivo - Companhia das Manhãs Parte 1&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;a href=http://www.youtube.com/watch?v=p6PiVTzXUaY&gt;O Ocidente está ferido de morte | Bento XVI&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;a href=http://www.youtube.com/watch?v=R3PmQrqg6Dc&amp;feature=related&gt;O BUDISMO UMA RELIGIÃO SEM DEUS?&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-3746704123018142519?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/f8mYVjHsKu0" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/treta-da-semana-linguagem-da-treta.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://img.youtube.com/vi/215won8bF6c/default.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>28</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-5535821356200436417</guid><pubDate>Fri, 06 Jan 2012 23:09:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-06T23:09:17.565Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><title>Projecto de Lei 118/XII do Partido Socialista</title><description>O Partido Socialista adiou por 15 dias a votação deste seu Projecto de Lei para a cópia privada. É uma boa oportunidade para pressionar os vários grupos parlamentares para que abortem este absurdo. Mais sobre isto: no blog do Rui Seabra, o &lt;a href=http://blog.1407.org/2011/05/03/proposta-do-ps-de-lei-da-copia-privada/&gt;texto do PL&lt;/a&gt; e &lt;a href=http://blog.1407.org/2012/01/03/urgente-contactar-parlamentares-portugueses-ja/&gt;algumas opiniões&lt;/a&gt;; da Paula Simões, o &lt;a href=http://paulasimoesblog.wordpress.com/2012/01/05/sobre-o-projecto-de-lei-que-pretende-alterar-a-lei-da-copia-privada/&gt;email aos grupos parlamentares&lt;/a&gt; e um post sobre &lt;a href=http://paulasimoesblog.wordpress.com/2012/01/03/as-taxas-pela-copia-privada/&gt;estas taxas&lt;/a&gt;. &lt;a href=http://www.mycomputerforum.com/viewtopic.php?f=27&amp;t=250&gt;Aqui&lt;/a&gt; podem ver como tem aumentado a capacidade dos discos rígidos, e extrapolar o custo desta lei para os próximos anos. E, da Jonasnuts, &lt;a href=http://jonasnuts.com/423879.html&gt;Para onde vai o dinheiro da Lei da Cópia Privada&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aqui fica o email que eu enviei, e os endereços para quem quiser dar-lhes uma palavrinha também:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido Socialista  - gp_ps@ps.parlamento.pt&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata – gp_psd@psd.parlamento.pt&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido Popular – gp_pp@pp.parlamento.pt&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido do Bloco de Esquerda – bloco.esquerda@be.parlamento.pt&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português – gp_pcp@pcp.parlamento.pt&lt;br /&gt;
Grupo Parlamentar do Partido Ecologista “Os Verdes” – PEV.correio@pev.parlamento.pt&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exmos(as) Srs(as) Deputados(as) [do grupo parlamentar],&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Venho por este meio pedir-vos que votem contra o Projecto de Lei 118/XII do Partido Socialista, que “Aprova o regime jurídico da Cópia Privada e altera o artigo 47.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos Sétima alteração ao Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este Projecto de Lei visa aplicar aos suportes digitais taxas de compensação pelo exercício do direito à cópia privada, tal como se faz com os suportes analógicos. No entanto, mantém a protecção legal dos sistemas de restrição de cópia (Digital Rights Management, DRM). Assim, seremos todos obrigados a pagar pelo direito à cópia privada de conteúdos digitais pela mesma lei que nos proíbe de os copiar sempre que as editoras assim entendam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este Projecto de Lei pretende “acompanhar a realidade e as incessantes inovações do mercado tecnológico”. No entanto, as taxas impostas são calculadas em função das capacidades do equipamento. Por exemplo, dois cêntimos por Gigabyte para um disco rígido. Esta formulação é precisamente o contrário do objectivo alegado. Na última década, a capacidade destes suportes aumentou cem vezes, para os mesmos preços. Se “a realidade e as incessantes inovações do mercado tecnológico” continuarem como até agora, daqui a dez anos o mesmo disco comprado em Portugal custará dezenas de vezes mais do que no resto da Europa, só por causa desta taxa. Como a compra online é outra inovação significativa do mercado tecnológico, o maior efeito  deste Projecto de Lei será a destruição do mercado português destas tecnologias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este Projecto de Lei alega “reforçar o legítimo interesse dos diversos titulares de direitos”. No entanto, declara que “A compensação equitativa de autores, e de artistas, intérpretes ou executantes, é inalienável e irrenunciável”. Mas eu, enquanto autor deste texto, não quero cobrar nada pelo seu armazenamento. Não quero taxas pelas fotografias que tiro nas férias ou por guardar os filmes dos meus filhos. Não quero que a Associação para a Gestão da Cópia Privada cobre a quem armazene os textos que publico no meu blog, o software que escrevo ou o material de apoio às minhas aulas, que preparo e que disponibilizo aos meus alunos. Sinto que, ao contrário de reforçar os meus legítimos interesses enquanto autor, este Projecto de Lei está a violá-los em benefício de associações de cobrança com as quais nem tenho nem quero ter qualquer relação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crise que vivemos não é só económica. É também política, com os eleitores suspeitando cada vez mais que as leis são feitas segundo interesses de grupos bem posicionados e em detrimento dos cidadãos. O Projecto de Lei 118/XII do Partido Socialista é um exemplo claro deste problema. Ignora que esta tecnologia nos torna todos autores, em cada opinião que escrevemos, em cada comentário que fazemos, em cada fotografia que tiramos. E atropela direitos de todos nós só para fazer o jeito às organizações que o elaboraram. Não peço que votem contra este Projecto de Lei apenas pela taxa que me tentarão cobrar se o aprovarem, até porque, no máximo, só pagarei a mais a diferença nos portes de correio por comprar o equipamento a outro país. Preocupa-me o efeito que esta lei terá na nossa economia, mas nem sequer é a crise económica o que mais me motiva a escrever-vos. Pior ainda é a crise política. Por isso, peço que votem contra este Projecto de Lei, principalmente, para mostrar que as leis ainda são feitas no interesse de todos e não apenas para favorecer alguns.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com os meus melhores cumprimentos,&lt;br /&gt;
Ludwig&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-5535821356200436417?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/JuqwYrn7a5o" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2012/01/projecto-de-lei-118xii-do-partido.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>13</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-2948302736150454226</guid><pubDate>Sat, 31 Dec 2011 19:03:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-31T19:04:37.828Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">criacionismo</category><title>A Lua e a idade do universo.</title><description>Vi isto ontem no Pharyngula (1) e concordo que é um bom contra-exemplo para a alegação criacionista de que tudo foi criado há cerca de dez mil anos. A imagem abaixo mostra o “lado de trás” da Lua, o que está sempre a virado no sentido oposto ao da Terra. Vê-se bem a abundância de crateras. No canto superior esquerdo está representado Portugal, para dar uma ideia da escala.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;img width="600" src="http://pessoa.fct.unl.pt/a4338/quetretaimages/lua.png" alt="esburacada"/&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Lua tem umas centenas de crateras com mais de cem quilómetros de diâmetro. A Terra, maior e com mais massa do que a Lua, atrai mais meteoróides e asteróides, pelo que por cá terá havido ainda mais impactos, se bem que maior parte das crateras já desapareceu devido à erosão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas vamos supor que a Terra só existe há dez mil anos, como dizem alguns criacionistas, em vez de ter surgido há quatro mil e quinhentos milhões de anos. Comprimindo todos os impactos nesse período quinhentas mil vezes menor, teríamos, em média, um ou dois impactos gigantes por geração. Quando digo gigantes, não estou a falar de impactos como os que dizem ter demolido Sodoma e Gomorra. Estou a falar no tipo de pedregulho que, se caísse em Coimbra, obliterava tudo de Lisboa ao Porto. Basta ver o tamanho das crateras na Lua onde, sem atmosfera, permanecem claramente visíveis mesmo depois de muitas centenas de milhões de anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta imagem não é só uma boa razão para rejeitar que o universo tenha apenas dez mil anos de idade. É também um bom teste para qualquer criacionista que perceba minimamente o que a fotografia mostra. Se lhe ocorrer que a sua crença talvez não seja verdadeira – afinal, errar é humano – há esperança de o ajudar a perceber melhor a realidade. Mas se se arrogar da humildade de julgar que o criador do universo mandou uma saraivada de asteróides só porque Adão comeu a fruta errada, então está a ser parvo porque quer e só adianta continuar a conversa quando mudar de atitude.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Montagem de imagens da &lt;a href=https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Far_side_of_the_Moon&gt;Wikipedia&lt;/a&gt; e Google Maps&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- &lt;a href=http://scienceblogs.com/pharyngula/2011/12/nice_argument_for_the_age_of_t.php&gt;Nice argument for the ageof the earth&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PS: Bom ano novo.&lt;br /&gt;
PPS: E a &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2011/11/para-adoptar.html&gt;gata&lt;/a&gt; já tem família.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-2948302736150454226?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/ghiIjq0k_7k" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/lua-e-idade-do-universo.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>124</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-4856574198342291570</guid><pubDate>Thu, 29 Dec 2011 23:18:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-29T23:18:57.142Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ética</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><title>Treta da semana: direitos, graças a Deus.</title><description>No blog do Expresso, o Henrique Raposo escreveu esta semana que &lt;i&gt;«o Direito Natural precisa de uma base religiosa, precisa de uma comunicação com a transcendência divina. [Porque] sem uma noção de transcendência, sem algo que nos liberte da prisão do aqui-e-agora, o poder político fica com as portas abertas para limitar os direitos inalienáveis dos indivíduos.»&lt;/i&gt; Desta premissa conclui que &lt;i&gt;«os tais "direitos inalienáveis" (a base ética e constitucional das nossas vidinhas) têm uma raiz bíblica»&lt;/i&gt; pelo que há &lt;i&gt;«necessidade de Deus (e de Cristo)»&lt;/i&gt;(1). Que grande confusão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A inferência da “noção de transcendência” para “raíz bíblica” e, daí, para o Deus cristão e Cristo, apesar de costumeira neste tipo de argumentação, é obviamente inválida. Há muitas “noções de transcendência” que nada têm que ver com a Bíblia e, mesmo entre as que têm, muitos milhões de pessoas seguem aquelas que não incluem Cristo. Mesmo que os direitos naturais precisassem de uma transcendência divina, nada permitiria concluir que esta seria Cristo ou um deus como os cristãos imaginam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também não é preciso um deus desses para justificar direitos naturais. A ideia de que há um conjunto de direitos e deveres inerentes ao ser humano, independentes das leis que os humanos criam, é uma parte fundamental de muitas filosofias éticas que não dependem de um deus pessoal como o dos cristãos, desde as mais antigas, como o estoicismo grego e o dharma hindu, até ao libertarianismo moderno. O Henrique argumenta que é preciso essa transcendência cristã porque senão &lt;i&gt;«o poder político fica com as portas abertas para limitar os direitos inalienáveis dos indivíduos.»&lt;/i&gt; Mas só ignorando dois mil anos de cristianismo é que se pode julgar que a crença em Cristo impede o atropelo desses direitos que consideramos inalienáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, as teorias éticas mais influentes hoje em dia – utilitarismos e contractualismos – não se baseiam em direitos naturais. Nestas, os tais direitos que as leis devem respeitar são derivados de factores como a capacidade de sentir ou aquilo que agentes livres e racionais concordariam em estabelecer. A ética moderna não precisa de assumir direitos naturais. O que é uma vantagem porque, como premissa, sempre foram muito frágeis e facilmente descartados por quem estava no poder.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o Henrique tiver o cuidado de ler a Bíblia e a Constituição da Republica Portuguesa verá certamente que a relação entre as duas é muito mais de contraste do que de semelhança. O Novo Testamento tem pouco acerca de direitos, deveres, leis ou política. Como fundamento ético, “ama o próximo” tanto dá para lhe lavar os pés como para o queimar vivo para lhe garantir o Céu. Os Autos de Fé eram praticados no mais pio espírito de amor e compaixão. E as partes do Antigo Testamento que lidam com leis e deveres parecem um manual de ditadorismo escrito por facínoras ignorantes. Provavelmente porque são isso mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos primeiros dois artigos, a nossa Constituição declara que Portugal se baseia na &lt;i&gt;«dignidade da pessoa humana e na vontade popular»&lt;/i&gt; e que &lt;i&gt;«é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas»&lt;/i&gt;. Há de me dizer o Henrique quando é que o cristianismo, ou qualquer outra religião de peso, declarou basear-se na soberania popular, no pluralismo e na democracia. Depois temos o princípio da igualdade, que manda a lei tratar todos de forma independente de &lt;i&gt;«ascendência, sexo, raça, língua, […] religião, […] condição social ou orientação sexual.»&lt;/i&gt; Gostava que o Henrique mostrasse onde é que isso está na Bíblia, ou na prática das igrejas cristãs destes vinte séculos. Ou, por exemplo, &lt;i&gt;«Em caso algum haverá pena de morte. […] A integridade moral e física das pessoas é inviolável. Ninguém pode ser submetido a tortura, nem a tratos ou penas cruéis, degradantes ou desumanos»&lt;/i&gt;(2). Faz-me pensar se o Henrique alguma vez leu a Bíblia, nem que fosse de relance. Ou a história da Europa cristã. Ou sequer reparou no símbolo do cristianismo. Se os direitos humanos que hoje reconhecemos nos tivessem vindo dos tempos bíblicos, Jesus nem sequer teria sido preso, quanto mais torturado e morto na cruz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É verdade que a nossa cultura é cristã, entre muitas outras coisas. Aqui em Portugal já se vendeu escravos, já se proibiu mulheres de votar, já se prendeu muita gente só por discordar de quem estava no poder e já se torturou pessoas por terem a religião errada. A “nossa” cultura é uma mistura de actos e tradições de muita gente, com coisas boas e coisas más. A nossa noção de direitos humanos universais, acima de qualquer legislação ou governo, vem no seguimento de toda esta história. Isso é inegável. Mas é um disparate dizer que surgiu por causa do cristianismo. Mais correcto será dizer que surgiu apesar do cristianismo, e de muitas outras tradições também contrárias à igualdade, à liberdade e à democracia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Henrique Raposo, &lt;a href=http://aeiou.expresso.pt/a-necessidade-de-deus-e-de-cristo=f696847&gt;A necessidade de Deus (e de Cristo)&lt;/A&gt;&lt;br /&gt;
2- Parlamento, &lt;a href=http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx&gt;Constituição da República Portuguesa&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-4856574198342291570?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/SGEL7ryki3U" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/treta-da-semana-direitos-gracas-deus.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>23</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-3901817336497286032</guid><pubDate>Wed, 28 Dec 2011 00:38:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-28T00:38:47.067Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">tecnologia</category><title>Portátil no forno.</title><description>Há umas semanas, felizmente só depois de terem acabado as aulas deste semestre, o meu portátil pifou. No arranque apareciam uns caracteres estranhos e linhas no ecrã, e ao fim de uns minutos bloqueava. O problema era obviamente na placa gráfica e, como neste portátil (um HLB2 da Compal*) a placa gráfica faz parte da motherboard, tinha poucas esperanças de o salvar. Mas uma pesquisa na 'net surpreendeu-me com uma solução. Os portáteis aquecem muito e as flutuações de temperatura vão causando pequenas fracturas nas soldaduras. Isto acontece geralmente no processador gráfico, que é a parte que aquece mais. E uma maneira de tentar resoldar estes circuitos é aquecer a placa no forno, a 200ºC, durante uns minutos (1).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porque havia o risco da cura não funcionar, porque mesmo que resultasse ficaria sempre com receio do bicho morrer em tempo de aulas, e porque estamos no Natal, comprei logo um novo**. Mas hoje tentei ressuscitar o defunto. Deu um bocado de trabalho, desmontar a cangalhada toda, mas tirei quase tudo da motherboard. Os cabos de alimentação não se desencaixam, por isso embrulhei-os em folha de alumínio para os proteger do calor. Fiz o mesmo com a pilha do relógio, que parecia estar colada, o que foi asneira. Como era de esperar, pilhas a 200ºC não sobrevivem. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de assar 8 minutos e arrefecer, encaixei os cabos do monitor e de alimentação, liguei, e nada. Só então me lembrei que não tinha montado o CPU. Com esse no sítio já funcionou. Apareceu o ecrã de arranque sem riscas estranhas nem gatafunhos. Depois de montar a tralha toda, fiquei com o portátil a funcionar como velho (que é o mesmo que funcionar como novo mas sem ter de instalar o software). Falta só comprar uma pilha para ter as horas certas no portátil e, à cautela, pasta térmica boa para ver se não frita outra vez tão cedo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Três vivas para a Internet!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;* Não a dos sumos. &lt;a href=http://www.compal.com/&gt;Esta&lt;/a&gt;.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;** Clevo W150HNM. Muito porreiro, para o preço, mas como a placa gráfica é uma NVIDIA Optimus, tive de instalar o &lt;a href=http://www.omgubuntu.co.uk/2011/05/bumbleebee-brings-nvidia-optimus-gpu-switching-to-linux-users/&gt;Bumblebee&lt;/a&gt;. Deixo aqui a dica porque perdi umas horas até descobrir por que raio não conseguia pôr o GLX a funcionar.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Addictive tips, &lt;a href=http://www.addictivetips.com/hardware/fix-your-graphics-card-by-baking-in-oven/&gt;Fix Your Graphics Card By Baking In Oven&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-3901817336497286032?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/unnUJzD26tM" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/portatil-no-forno.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>12</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-2779694093515432917</guid><pubDate>Sun, 25 Dec 2011 22:51:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-25T22:51:25.882Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ética</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><title>Treta da semana: adopção natural.</title><description>Num texto aparentemente publicado no Público de dia 16, Gonçalo Portocarrero de Almada apresenta um argumento fascinante contra a adopção por casais homossexuais. Fascinante por ser uma inferência falaciosa assente numa premissa falsa, maximizando assim a treta na argumentação. &lt;i&gt;«Na realidade, só há dois modelos para a adopção: o natural e o que, por ser o seu contrário, é não-natural. Só um homem e uma mulher podem "ser" pai e mãe […] A adopção não-natural é um mal maior, contrário ao bem do menor, que é o superior interesse que a lei deve tutelar.»&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A falácia, querida dos defensores de qualquer “é assim porque sim”, consiste em inferir uma norma moral a partir da mera constatação de um facto. É a falácia naturalista. Neste caso, o Gonçalo Portocarrero, assumindo que a forma natural de adopção é por um casal heterossexual, deriva daí a regra de que só estes casais devem poder adoptar. Isto faz tanto sentido como concluir que a violação é moralmente aceitável, ou que temos a obrigação moral de comer comida crua, apenas porque na natureza é assim que as coisas acontecem. A justificação normalmente invocada é que nem tudo na natureza é moralmente relevante, mas alguns aspectos da natureza são. Infelizmente, isto apenas substitui a falácia naturalista pela falácia da petição de princípio, continuando a faltar a justificação para decidir que este implica restrições morais. Seja por onde for, não se justifica restringir a adopção a casais heterossexuais só porque, biologicamente, é necessário os dois sexos para fazer um filho. Entre outras coisas, tal salto de fé implicaria ser também imoral a adopção por um casal infértil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, a premissa do Gonçalo é falsa. Ridícula, até. Não há nenhuma “adopção natural”. Ocasionalmente, pode acontecer a cadela amamentar um gatinho ou coisa do género mas, na natureza, há uma forte pressão selectiva contra o investimento em prole alheia, mais forte ainda do que contra o suicídio. A adopção é uma invenção humana, nada natural, que só se tornou prática generalizada recentemente e apenas em algumas culturas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O argumento invoca também premissas como &lt;i&gt;«Se a adopção tem por modelo a família natural»&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;«Se se entende que se deve proporcionar ao menor uma família análoga à que o gerou»&lt;/i&gt;. Mas não há razão nenhuma para assumir isto. O problema fundamental é decidir o que é melhor para a criança. Dada uma criança sem os pais biológicos, a viver numa instituição, e um conjunto de candidatos para a adoptar, é necessário avaliar qual a melhor opção para a criança. Segundo o Gonçalo, &lt;i&gt;«A questão não pode ser equacionada em termos casuísticos ou sentimentais, mas em função do fim a que tende a adopção: facultar uma verdadeira família à criança desvalida.»&lt;/i&gt; Mas não é bem isso. O propósito da adopção é dar à criança o melhor ambiente possível. Isso tem mesmo de ser avaliado caso a caso, e não conforme uma definição arbitrária de “verdadeira família”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas numa coisa dou razão ao Gonçalo. Há mesmo aqui &lt;i&gt;«Um Mal Maior Contra o Bem do Menor»&lt;/i&gt;. Só que não é a homossexualidade nem a adopção “não natural”. O mal maior é o crédito que se dá a preconceitos bacocos só porque têm origem religiosa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Real Associação do Médio Tejo, &lt;a href=http://nucleomonarquicoabrantes.blogspot.com/2011/12/um-mal-maior-contra-o-bem-do-menor.html&gt;Um mal maior contra o bem do menor&lt;/a&gt;, via &lt;a href=http://espectivas.wordpress.com/&gt;perspectivas&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-2779694093515432917?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/mKuwFC3FOTM" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/treta-da-semana-adopcao-natural.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>18</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-3186920229879357233</guid><pubDate>Sat, 24 Dec 2011 18:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-24T18:08:31.382Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ateísmo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ética</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><title>Caridadezinha.</title><description>No post sobre o conto do César das Neves mencionei, de passagem, o problema de &lt;i&gt;«adoçar [os] males com pós de caridadezinha para evitar a chatice de os corrigir»&lt;/i&gt;. Em resposta, o Nuno Gaspar criticou aos ateus a falta de &lt;i&gt;«engajar-se com os miseráveis, os mais frágeis, os deficientes»&lt;/i&gt;(1), e o João Silveira citou a história da viúva, no evangelho de Marcos (12, 41-44), que dá as duas únicas moedas que tem e, por isso, o acto dela vale muito mais do que o muito dinheiro que os ricos possam dar, pelo sacrifício que isso representa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje vemos a sociedade de uma forma única na história. Consideramos que todas as pessoas são iguais perante a lei; que não há escolhidos dos deuses, com mais direitos do que os outros. Reconhecemos a todos alguns direitos inalienáveis, independentes de serem nossos “irmãos”, da nacionalidade, sexo ou religião, ou até de gostarmos dessas pessoas. E compreendemos que a sociedade é um contrato colectivo para o qual todos devem contribuir. Isto tem duas consequências importantes. Leva-nos a encarar a injustiça, a miséria e a doença como problemas a resolver. Não são fatalidades nem desígnios misteriosos, mas sim algo que se deve prevenir ou remediar. E leva-nos a assumir, entre todos, o dever de os resolver. Não é por piedade que respeitamos os direitos dos outros, nem por caridade que pagamos os impostos, nem por santidade que toleramos diferenças ideológicas ou culturais. É por dever e decência. É o que esperamos de qualquer cidadão como parte do seu papel na sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cristianismo tem uma abordagem muito diferente. Assenta na premissa de que toda a existência terrena é um apenas um teste. Deus dá-nos vida, decide se nascemos ricos ou pobres, inteligentes ou burros, feios ou bonitos, e nós temos de viver assim até que ele nos tire de cá. Nem podemos sair mais cedo, porque é pecado. Conforme o nosso desempenho durante estas décadas, teremos uma eternidade de alegria ou de sofrimento. Por isso, o que importa é a devoção de cada um, porque as circunstâncias são só cenário. Como comentou há tempos o Miguel Panão, &lt;i&gt;«A grande diferença entre nós está [...] nas diferentes visões de uma cultura da ressurreição e cultura da morte. A implicação de uma criança que morre de um mal natural é mais problemática do ponto de vista da cultura da morte do que de uma cultura da ressurreição. [Se] em Deus a vida continua, onde está a morte?»&lt;/i&gt; (2).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isto tem também implicações importantes. A injustiça social, o sofrimento dos mais pobres, a doença ou a discriminação não são problemas a resolver. São a vontade de Deus, que cria pessoas em diferentes condições sociais, com diferentes sexos, nacionalidades, religiões e cores, e se o faz assim alguma razão terá. Nem se pode assumir que somos moralmente iguais e que, por exemplo, uma mulher pode dirigir a Igreja Católica ou celebrar missas. Portanto, aquilo que se faz por terceiros conta por quanto custa fazer e não pelo bem que faça aos outros. Isto vê-se claramente por todo o cristianismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A passagem da bíblia que o João Silveira citou enaltece a dádiva da viúva pelo sacrifício desta e não pelo parco benefício que as duas moedas tenham trazido a alguém. Perante qualquer desgraça, os cristãos rezam pelas vítimas. Para quem esteja soterrado nos escombros ou à deriva num bote salva-vidas, as vigílias, orações e promessas dos crentes não servem de muito. Mas o que conta é a devoção de quem reza. Afinal, se a vida continua em Deus, pouco importa que morra gente em terremotos, afogada, ou o que calhar. O que importa é que alguém se sacrifique por isso. Jesus é o melhor exemplo. Podia ter feito tanto por tanta gente, como ensinar noções básicas de medicina preventiva, abolir a escravatura, condenar o racismo e discriminação sexual ou defender a liberdade de crença e opinião. Nos séculos que se seguiram, isto teria poupado muito sofrimento a muitos milhões de pessoas. Mas não. Umas bem-aventuranças, umas parábolas irrelevantes, e depois deixou-se matar. Morreu por nós e deixou tudo na mesma.*&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A consequência disto é que a caridade cristã não se preocupa muito em resolver problemas e nem sequer é acerca de quem precisa. É uma caridade umbiguista, focada no sacrifício do caridoso em detrimento das carências do necessitado. A Madre Teresa é louvada pela sua dedicação aos pobres, por ter segurado a mão de quem morria e amado quem era miserável. Se tivesse organizado saneamento básico, campanhas de vacinação ou de medicina preventiva, salvando muita gente em vez de os amar até à morte, os cristãos não lhe ligavam nenhuma. Mas sacrificou-se e sofreu com quem sofria e, por isso, é uma santa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta divergência ideológica faz-me suspeitar que estaríamos melhor sem a caridade cristã. Em vez da esmola e do esforço despendido em gestos simbólicos, era preferível dedicarmo-nos a resolver os problemas da sociedade de uma forma justa e eficaz. Não por caridade ou pena dos pobrezinhos, mas porque é dever de todos mitigar as injustiças cometidas pela natureza. Uma natureza que não nos ama nem nos está a testar, mas que é indiferente ao que fazemos ou sofremos. As crenças na vida depois da morte, num deus bondoso, no valor do sacrifício pelo sacrifício e na premissa pouco pragmática de que o “amor” resolve tudo só atrapalham. Na melhor das hipóteses, levam a menosprezar os problemas e a avaliar incorrectamente as soluções. E, na pior das hipóteses, servem de desculpa para se aproveitarem da miséria alheia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;* Excepto para os judeus, que muito se tramaram com a desculpa de terem morto o deus dos cristãos.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PS: Boas festas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Comentários em &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2011/12/conto-de-natal.html&gt;”Conto de Natal”&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Comentário em &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2010/06/bondade.html&gt;Bondade&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-3186920229879357233?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/kzeUcXdyxw4" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/caridadezinha.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>79</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-161882964300485070</guid><pubDate>Fri, 23 Dec 2011 23:36:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-23T23:40:58.287Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><title>A cópia privada.</title><description>O PS vai propor alterações ao Código do Direito de Autor para &lt;i&gt;«atualizar os conceitos legais»&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;«garantir aos titulares de direitos uma razoável e justa compensação pelos danos sofridos pela prática social da cópia privada»&lt;/i&gt; e reforçar o &lt;i&gt;«combate às várias formas de pirataria»&lt;/i&gt;(1). Isto preocupa-me.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Preocupa-me, enquanto cidadão, que o Estado se intrometa na nossa vida privada para defender alguns interesses económicos. Esses “danos sofridos”, na pior das hipóteses, são apenas a perda de oportunidades para vender. Não se justifica legislar só por isso. E estas leis, que colocam actos privados de cópia e partilha sob a alçada de tribunais, advogados e polícia, criam um desequilíbrio injusto entre empresas e cidadãos. Mesmo que a lei ainda conceda ao cidadão alguns direitos de privacidade e de liberdade para usar o seu equipamento, para se exprimir e para partilhar informação, a dificuldade de defender esses direitos em tribunal contra quem tem muito mais dinheiro para processos e advogados torna esta legislação numa ferramenta de chantagem, de censura e de extorsão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Preocupo-me também como autor. Não sou um autor que a Sociedade Portuguesa de Autores reconheça, porque essa, sendo uma sociedade de cobrança, exige que os autores recebam por seu intermédio. Como eu ganho por contrato e não exijo pagamento se ninguém me encomenda o trabalho que faço, a SPA não deve querer nada comigo. Mas o que crio – material para aulas e avaliações, artigos, dissertações, software e até posts no blog – é, à luz desta lei, obra original e protegida. Nos tempos do analógico, a concessão de monopólios financiava a infraestrutura de produção, distribuição e revenda necessária para o acesso a obras publicadas. Agora, a adaptação das leis &lt;i&gt;«às novas realidades do mundo digital»&lt;/i&gt; tem o efeito contrário. Cada vez mais, a lei é um empecilho. Se um autor quer vender o seu trabalho directamente ao público, não só enfrenta uma máquina publicitária subsidiada por estes monopólios, como ainda é forçado a contribuir para a sustentar. Por exemplo, se eu quiser distribuir o que criei em CD, cobram-me um imposto para dar aos Tonys Carreira e afins. Este projecto de lei vai estender essa taxa aos discos rígidos, pendisks e cartões de memória. Até pelas fotografias das férias terei de pagar às editoras discográficas. E ainda me dizem que é para eu não “sofrer danos” por copiarem o que eu publico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, como professor acho isto tudo uma péssima ideia. Esta legislação assume que a cultura e a criatividade têm de ser protegidas restringindo o acesso, cobrando licenças e controlando a distribuição, mas isso é o pior que se pode fazer à cultura. A cultura protege-se divulgando-a o mais possível e integrando-a nas nossas formas de comunicar. E a criatividade precisa de acesso à cultura. Ninguém cria a partir do nada, e não são só as pessoas com dinheiro para pagar licenças que devem poder desenvolver e exprimir a sua criatividade. Isto transmite mensagens erradas às gerações mais novas. Que partilhar é imoral, que a cultura é um bem de consumo, e que quando compramos algo não ficamos seus donos, apenas detentores de uma licença provisória até alguém decidir cancelar o DRM. Pior ainda, isto ensina que a lei não merece respeito, ao criminalizar algo tão inofensivo e vulgar como copiar um ficheiro. Se estas leis fossem levadas a sério, quase não haveria ninguém fora das cadeias que soubesse ligar um computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- TEK, &lt;a href=http://tek.sapo.pt/noticias/computadores/ps_avanca_com_proposta_para_reforcar_direitos_1208400.html&gt;PS avança com proposta para reforçar direitos de autor&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-161882964300485070?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/4d-O9EGyGgg" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/copia-privada.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>6</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-3938960562519324858</guid><pubDate>Tue, 20 Dec 2011 11:29:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-20T11:29:14.477Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">argolada</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ateísmo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><title>“Conto de Natal”</title><description>No de Dickens, Ebenezer Scrooge transforma-se radicalmente. Aprende quanto pode fazer por si e pelos outros e, com isso, torna-se numa pessoa melhor. O João César das Neves não é um Charles Dickens, obviamente, mas também não era preciso fazer o oposto. Num texto apressado, conta como um tal André lida com a crise: &lt;i&gt;«Queres saber o segredo da minha calma? Queres saber como consigo não ficar desesperado? É que o meu Pai é dono disto! […] Estou a referir-me Àquele a quem digo todos os dias 'Paí Nosso', que é dono de tudo o que tenho e sou, de tudo o que vejo e existe no universo. Nada me preocupa porque Deus é dono da minha vida. A confiança em Deus é a melhor coisa da existência.»&lt;/i&gt;(1) A mensagem parece ser que, ao contrário do que se passou com Scrooge, o melhor para nós é aceitar tudo como é: &lt;i&gt;«esta crise tem me feito muito bem. Ao princípio assustou-me, mas um dia percebi que acima dela está Deus [e] desde que Lhe entreguei, mais uma vez, a minha vida senti uma liberdade e alegria profundas [...] 'Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus' (Rm 8, 28)»&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de promover a bovinidade, a historieta salienta algumas inconsistências do fatalismo cristão. O André não se preocupa porque o seu “Pai” está encarregue de tudo, mas também não estranha que o “Pai” trate os filhos de forma tão injusta. É difícil imaginar que um pai fique indiferente ao filho que passa fome numa cubata na Somália enquanto outro vive luxuosamente num chalé suíço. Pior, esse tal André diz-se descansado da vida porque &lt;i&gt;«se ao Seu Filho Deus deixou que nós O crucificássemos, tudo o que eu sofrer é pouco»&lt;/i&gt;. Chiça. Felizmente sou ateu e não acredito ser filho de um pai desses. Senão é que andava aterrorizado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isto de aceitar a injustiça com passividade e enaltecer o sofrimento absurdo já é treta antiga. Vê-se na história de Jó, na desculpa de que Jesus se sacrificou para nos “redimir”, na adoração dos mártires e no adoçar dos males com pós de caridadezinha para evitar a chatice de os corrigir. Como se o principal problema da pobreza fosse não ter uma sopa quente no Natal. Como somos intuitivamente sensíveis à injustiça, é preciso este barrete. Quem se diz infalível, vive num palácio e veste roupa bordada a ouro tem de louvar a humildade e a pobreza. Ponham a vida nas mãos deste deus, dizem, e dêem graças pelas migalhas que vos calham. Sobretudo, portem-se bem. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas nós somos pessoas, não somos ovelhas, e esta crise não é obra dos deuses. Não é o nosso destino nem um teste para ganhar uma nuvem mais fofa no céu. É um problema humano, de actos e de atitudes. É o problema de estar tudo a mando de Scrooges e não de um “Pai” que nos ama a todos. E nota-se nos detalhes. Quem enaltece os mártires com histórias da carochinha não se martiriza a si próprio; quem elogia a pobreza não vive na miséria; e quem exorta a que cada um aceite, sorridente, a sua condição goza geralmente de condições melhores do que as dos outros. É a estes que convém a crença generalizada do destino como obra divina em vez de tarefa humana. Caso contrário, teriam de se assumir responsáveis por terem ficado com a maior parte daquilo que é de todos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crença pessoal num deus, na vida depois da morte ou afins é um direito de cada um e não faz grandes estragos. Mas, à volta disso, há sempre quem invente religiões para controlar os outros, disfarçar injustiças e ir mantendo tudo como lhes convém. Promessas de paraíso além-morte, o pai celestial que criou o universo mas precisa que se gaste dinheiro em igrejas imponentes e luxos para os seus representantes, e a ideia de que os miseráveis têm muita sorte por sofrer, são tudo embustes. O ateísmo tem a grande vantagem de nos inocular contra tais aldrabices, e  encorajar-nos a enfrentar os fantasmas dos natais futuros como algo que temos o dever de tornar tão bom quanto pudermos. Se o André da historieta não se preocupa, isso não é sinal de fé. É sinal de irresponsabilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- João César das Neves, &lt;a href=http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2193848&amp;seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&amp;tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&amp;page=-1&gt;Conto de Natal&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-3938960562519324858?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/-7Jl1XSPvro" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/conto-de-natal.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>202</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-7858207448190277586</guid><pubDate>Sun, 18 Dec 2011 23:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-19T00:30:32.897Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">gozo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">cepticismo</category><title>Treta da semana: Transcomunicação Instrumental.</title><description>O Blog de Espiritismo tem uma entrevista com François Brune, um &lt;i&gt;«conhecido estudioso e teólogo francês [...] especialista em misticismo oriental e ocidental, sacerdote ordenado em 1960 […]  Graduado pela Sorbonne em Latim e Grego, com cinco anos de estudos de pós-graduação em Filosofia e Teologia no Instituto Católico de Paris e um ano adicional na Universidade de Tuebingen, na Alemanha, ele possui os mais altos graus de Teologia, Grego e Hebraico Bíblico, Hieróglifos Egípcios e Babilônicos da Assíria. E é, ainda, pós-graduado em Escrituras Sagradas pelo Instituto Bíblico de Roma.»&lt;/i&gt; É também o autor do livro “Os Mortos Nos Falam” e &lt;i&gt;«é desde 1987 considerado um observador atento da investigação psíquica e da chamada Transcomunicação Instrumental (TCI).»&lt;/i&gt;(1)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta curiosa disciplina &lt;i&gt;«estuda a comunicação entre vivos e mortos através de aparelhos eletrónicos como por exemplo rádio, televisão, telefone e computador»&lt;/i&gt;(2). É muito útil, esta capacidade de aparelhos electrónicos transmitirem comunicações de pessoas falecidas. Por exemplo, e infelizmente, sem algo como o computador e o YouTube os meus filhos hoje não teriam podido ver e ouvir a Cesária Évora a cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas os aficionados do espiritismo propõem algo mais assombroso, se bem que menos melodioso. A moderna TCI começou com Friedrich Jürgenson, em 1959, quando este gravou cantos de pássaros e, ao ouvir a gravação, notou que a fita começava com umas vozes gravadas e só depois tinha a sua gravação dos pássaros. Não lhe ocorrendo que alguém pudesse ter usado a fita antes e ele tivesse gravado os pássaros por cima, concluiu imediatamente que se tratava de espíritos do outro mundo, comunicando pela modulação cuidadosa do magnetismo na fita do gravador (3).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como qualquer técnica paranormal que se preze, a TCI dá para tudo. Segundo François Brune, &lt;i&gt;«a maior parte das vezes comunicamo-nos com os mortos, que vivem agora numa outra dimensão. Mas por vezes temos tido contactos também com extraterrestres, creio eu, até porque muitos pesquisadores o afirmam. Parece-me também possível o contacto com energias, simplesmente»&lt;/i&gt;. O testemunho é sempre a evidência mais importante para a teologia, pelo que, se os pesquisadores afirmam, então certamente que é verdade. Mortos, extraterrestres, ou até energias, tudo fala na gravação. Basta um pouco de imaginação. Ou, como se diz na gíria, fé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para que &lt;i&gt;«descubra o Espírito»&lt;/i&gt;, a ciência &lt;i&gt;«deve adaptar-se a uma realidade que lhe escapa neste momento. Podemos fazer uma comparação: se eu for à pesca, para apanhar peixes tenho de lançar a linha e tenho de adaptá-la à posição do peixe. Não posso pedir ao peixe que siga o atalho que corresponde à posição da linha! As linhas são as teorias científicas para “apanhar” a realidade. […] É, pois, necessário que a Ciência aceite mudar esses paradigmas»&lt;/i&gt; Também se podia fazer a comparação com gambuzinos em vez de peixe, mas acho que nem vale a pena.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, já tive uma experiência destas, e posso dar o meu testemunho. Os miúdos nasceram quando eu estava a escrever a dissertação, o que me levou a fazer muitas noitadas. Numa noite quente de Verão, enquanto escrevia, bocejava e suava, comecei a ouvir a Alanis Morissette a cantar “You oughta know”. Desliguei a ventoinha, pensando em quem seria o vizinho maluco a ouvir música tão alto àquelas horas, e a rapariga calou-se. Quando liguei a ventoinha, recomeçou a cantoria. O zumbido do aparelho, o adiantado da hora e as noites mal dormidas conspiraram para criar uma espantosa ilusão auditiva. Parvo, fui-me deitar e perdi a oportunidade de uma carreira na comunicação paranormal com cantoras canadenses. Seria até mais interessante do que falar com mortos, a julgar pelas banalidades que estes debitam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A quem quiser saber mais sobre isto, recomendo o artigo do James Alcock, &lt;a href=http://www.csicop.org/specialarticles/show/electronic_voice_phenomena_voices_of_the_dead/&gt;”Electronic Voice Phenomena: Voices of the Dead?”&lt;/a&gt; Tem até um exemplo de uma gravação misteriosa na qual se ouve uma alma do outro mundo a dizer fshsh fsshsh. A alma de um creeper, talvez...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Blog de Espiritismo, &lt;a href=http://blog-espiritismo.blogspot.com/2011/12/padre-francois-brune-autor-de-os-mortos.html&gt;Padre François Brune, autor de "Os Mortos Nos Falam"&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Wikipedia, &lt;a href=https://secure.wikimedia.org/wikipedia/pt/wiki/Transcomunicação_instrumental&gt;Transcomunicação instrumental&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
3- Wikipedia, &lt;a href=https://secure.wikimedia.org/wikipedia/en/wiki/Electronic_voice_phenomenon&gt;Electronic voice phenomenon&lt;/A&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-7858207448190277586?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/b8COtBnvgPQ" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/treta-da-semana-transcomunicacao.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>11</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-5102131588065705953</guid><pubDate>Thu, 15 Dec 2011 23:17:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-15T23:17:55.357Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>Mais disparates...</title><description>Christian Noyer, director do banco central francês, diz que as agências de notação deviam baixar a classificação da dívida britânica antes da francesa porque o Reino Unido tem &lt;i&gt;«mais défice, a mesma dívida, mais inflação, menos crescimento»&lt;/i&gt;(1). Até pode ter esses problemas todos, mas o Reino Unido tem uma grande vantagem em relação à França. Pode imprimir as libras que quiser. Os credores sabem que, se o Reino Unido criar muitas libras, a moeda vai desvalorizar. Mas o valor nominal do empréstimo está garantido, e a inflação não é um problema que afectará apenas o credor; será um mal distribuído por todos. A França está à mercê do Banco Central Europeu, cuja prioridade é manter a inflação a 2% nem que destrua o Euro no processo. Neste momento, com a política kamikaze da austeridade, o Euro é um grande risco. Vê-se o mesmo efeito nas taxas de juro da dívida soberana da Finlândia e da Suécia, por exemplo (2).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É fácil de perceber que, se o banco central não empresta dinheiro aos Estados, assim que alguma coisa corre mal está tudo tramado. Não há pensamento positivo que convença “os mercados” a ter confiança numa coisa dessas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- BBC, &lt;a href=http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-16207748&gt;French banker says UK should be downgraded first&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Krugman, &lt;a href=http://krugman.blogs.nytimes.com/2011/11/27/the-euro-curse/&gt;The Euro Curse&lt;/a&gt;, e também Reuters, &lt;a href=http://uk.reuters.com/article/2011/11/24/uk-markets-britain-gilts-idUKTRE7AN0T420111124&gt;Gilts safer bet than Bunds for first time since 2009&lt;/a&gt; e Bloomberg, &lt;a href=http://www.bloomberg.com/news/2011-12-02/swedish-bonds-safer-than-german-debt-as-europe-crisis-upends-market-logic.html&gt;Sweden is Safest as Crisis Upends Bond Market&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-5102131588065705953?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/KE9zktUD5oc" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/mais-disparates.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>24</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-8576669003356432889</guid><pubDate>Sun, 11 Dec 2011 22:40:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-11T22:40:29.896Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>Treta da semana: o “Coelho da Merkel”.</title><description>Num blog do Expresso, o Tiago Mesquita escreveu que &lt;i&gt;«A subserviência do nosso Primeiro-ministro e da tropa instalada neste miserável governo à chanceler alemã e sua agenda privada só não se torna mais escandalosa porque é, em certa medida, um traço distintivo da nossa nacionalidade, uma característica tipicamente portuguesa»&lt;/i&gt;(1). Tenho visto várias vezes esta ideia de que o nosso governo está a instituir políticas de austeridade com grande empenho por mera subserviência ou parolice. É evidente que as medidas recessivas são um disparate, tal como a conversa de que temos de ficar com menos salários e pensões, ou trabalhar mais horas, porque andámos a viver à grande e a esbanjar dinheiro. Não foram os trabalhadores e os pensionistas que afundaram a economia, não é cortando nos rendimentos que o PIB vai crescer e se todos os países desatam a poupar ninguém vai conseguir pagar o que deve. Mas é um erro perigoso julgar que nos estamos a afundar por os políticos serem parvos. É precisamente o contrário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os próximos anos vão ser desnecessariamente difíceis para a grande maioria. Os salários vão baixar, o desemprego vai aumentar e muitos negócios vão falir porque haverá menos procura por esses bens ou serviços. Mas para aquela pequena minoria que vive de ter muito dinheiro e apostar as dívidas dos outros, vão ser anos de grandes oportunidades. A privatização de empresas públicas, o spread crescente das dívidas soberanas, os empréstimos para recapitalização dos bancos, a deflação causada pela austeridade, entre outros, trarão muito lucro a quem tenha capital e contactos para beneficiar disto. Como o Passos Coelho. Nestes últimos anos foi director, administrador, presidente ou vice-presidente de várias empresas. Catorze em sete anos, se não me enganei a contar (2). Ser administrador de uma empresa durante sete anos sugere alguma competência administrativa. Mas de catorze, só sugere bons contactos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É isto que se passa pela Europa. Na Itália trocaram o governo eleito – mau, mas eleito – por empregados dos banqueiros. Na Grécia quase houve um referendo, mas logo se deixaram de democracias. A Irlanda endividou-se até às orelhas para pagar as apostas falhadas dos bancos. E, por cá, somos “administrados” como se vê. Cortes, austeridade, emagrecimento e aumento da competitividade para, supostamente, se atingir o objectivo impossível de todos aumentarem as exportações sem ninguém importar. Economicamente, é óbvio que é a solução errada para o problema errado (3). Mas isto nem é economia, nem democracia, e muito menos parvoíce. É uma burla tão grande, tão arrojada e tão óbvia, que muita gente até prefere acreditar que os políticos são parvos só para não ver o barrete que enfiam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Tiago Mesquita, &lt;a href=http://aeiou.expresso.pt/obama-tem-um-cao-de-agua-portugues-merkel-tem-um-coelho=f690248&gt;Obama tem um cão de água português. Merkel tem um Coelho&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
2- Tretas.org (sem afiliação a este blog) &lt;a href=http://tretas.org/PedroPassosCoelho&gt;Pedro Passos Coelho&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
3- Por exemplo, Krugman, &lt;a href=http://www.nytimes.com/2011/12/02/opinion/krugman-killing-the-euro.html?partner=rssnyt&amp;emc=rss&gt;Killing the Euro&lt;/a&gt;; O'Rourke, &lt;a href=http://www.project-syndicate.org/commentary/orourke1/English&gt;A Summit to the Death&lt;/a&gt;) mas ; Haldane &amp; Madouros, &lt;a href=http://www.voxeu.org/index.php?q=node/7314&gt;What is the contribution of the financial sector?&lt;/a&gt;; Sachs, &lt;a href=http://www.aljazeera.com/programmes/talktojazeera/2011/12/2011121074125944352.html&gt;Jeffrey Sachs: 'That's not a free market, that's a game'&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-8576669003356432889?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/_T2XFjan2Aw" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/treta-da-semana-o-coelho-da-merkel.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>15</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-7857031859380588667</guid><pubDate>Sat, 10 Dec 2011 23:16:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-10T23:16:59.668Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">gozo</category><title>Interlúdio: como (não) minar ferro.</title><description>Especialmente dedicado aos fãs, mas quem não conhecer este jogo e não tiver paciência de ver tudo, pode saltar para os 7m30s e ver a parte dos creepers. Ssssssss....&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object style="height: 390px; width: 640px"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/0OBS5p9cyAo?version=3&amp;feature=player_profilepage"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowScriptAccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/0OBS5p9cyAo?version=3&amp;feature=player_profilepage" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" allowScriptAccess="always" width="640" height="360"&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-7857031859380588667?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/1IYF3v3VBbY" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/interludio-como-nao-minar-ferro.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-2312999274960690217</guid><pubDate>Fri, 09 Dec 2011 22:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-09T22:02:00.788Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">religião</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">ciência</category><title>Compatibilidade, agora com aspas.</title><description>No De Rerum Natura, o Carlos Fiolhais publicou há dias um texto sobre ciência e religião. É pena que não tenha abordado este tema com o rigor com que normalmente escreve. A ciência, começa, &lt;i&gt;«trata do conhecimento do mundo natural»&lt;/i&gt; enquanto a religião &lt;i&gt;«trata da relação do homem com o “transcendente”, com o qual ele toma conhecimento através da “revelação” ou “graça”.»&lt;/i&gt; (1) Pôs as aspas, mas não tocou no problema de sabermos se existem tais coisas como as religiões assumem, cada uma à sua maneira e sem consenso. Além disso, as religiões também dizem conhecer o mundo natural. Quase todas as religiões têm alguma versão de criacionismo, relatando como e porquê o universo foi criado, e alegações acerca do nascimento de Jesus, milagres ou a assunção de Maria não são estritamente sobre o “transcendente”. Têm implicações acerca do mundo natural também. E, em rigor, também não podemos dizer que &lt;i&gt;«Na nossa cultura, [o transcendente] é o Deus da Igreja Católica.»&lt;/i&gt; O máximo que se pode dizer é que muita gente acredita que seja, mas daí a ser verdade ainda falta um bom bocado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois, aponta que a ciência e a religião têm, em comum, &lt;i&gt;«a procura de um sentido»&lt;/i&gt;, o que também é pouco rigoroso. A ciência é uma procura por modelos que correspondam aos aspectos da realidade que visam modelar. É verdade que podemos encontrar sentido nisso, tal como podemos encontrar sentido na pintura, na literatura, no desporto, na família ou em qualquer aspecto da nossa vida. Até numa religião. Mas as religiões, que são muitas, não são necessariamente uma procura. Algumas, como o hinduísmo, deixam em aberto as questões fundamentais e toleram abordagens diversas. Outras, como o catolicismo ou o cristianismo evangélico, são mais dogmáticas e, por livros sagrados, inspiração divina ou líderes infalíveis, declaram que o essencial já está encontrado. E ai de quem procurar alternativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Carlos Fiolhais aponta que &lt;i&gt;«a observação e a experimentação permitem decidir se uma dada hipótese a respeito do mundo está errada. O reconhecimento do erro logo que haja evidência suficiente para ele tem assegurado à ciência uma notável capacidade de progressão ao longo dos tempos»&lt;/i&gt;. Mas, depois, alega que &lt;i&gt;«a religião não assenta no mesmo tipo de racionalidade, nem na observação e na experimentação, mas sim na fé, a crença que é obtida pela “graça” ou “revelação”»&lt;/i&gt; e que &lt;i&gt;«existem diversas religiões, com diferentes verdades, cuja unificação é na prática impossível»&lt;/i&gt;. Não me parece que recusar admitir a possibilidade de erro e o hábito de chamar “verdades diferentes” a alegações contraditórias mereça o rótulo de “racionalidade”, seja de que tipo for. O panteísmo hindu afirma que todos somos Brahman, enquanto o monoteísmo (triteísmo?) católico diz sermos criação do Pai-Filho-e-Espirito-Santo mas separados deste(s). Parece-me que o mais racional é chamar a isto crenças e admitir que não há razão objectiva para as considerar verdadeiras. Se chamamos a ambas “verdades” ficamos a precisar de uma palavra nova para designar a verdade a sério.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois, o Carlos Fiolhais parece confundir correlação com causalidade quando afirma que &lt;i&gt;«Importa sublinhar que a ciência moderna surgiu no contexto do pensamento cristão e católico. Não se deu no quadro cultural do judaísmo ou do islamismo, nem no quadro de outras religiões»&lt;/i&gt;. Antes da maturação da ciência nos dar alternativas persuasivas, todo o mundo estava dominado pelo pensamento religioso. O instante exacto em que a ciência começou é arbitrário. Há com certeza bons candidatos entre os arquitectos egípcios, filósofos gregos, engenheiros romanos e matemáticos árabes. Mas, onde quer que se ponha o “surgir” da ciência moderna, calhará sempre “no contexto” de uma religião qualquer. Ter calhado no cristianismo não nos diz se isso foi uma vantagem, desvantagem ou irrelevante. À partida, isto é tão importante como os primeiros cientistas serem todos homens, viverem em climas moderados ou saberem latim.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, o &lt;i&gt;«facto de que se pode ser crente e ao mesmo tempo cientista»&lt;/i&gt; e a alegação de que basta &lt;i&gt;«abandonar a ideia de que a Bíblia é um livro de ciência»&lt;/i&gt; para que a ciência seja compatível com “a religião”. Isto não serve. A incompatibilidade não está na pessoa. Está no método. A ciência progride pela correcção de erros e, por isso, não pode aceitar como verdadeira uma proposição que não se possa testar ou à qual falte evidências que o justifiquem. Não me parece que o Carlos Fiolhais considere compatível com a ciência a alegação de que, pela “revelação” e fé, eu possa saber verdades transcendentes sobre os duendes invisíveis que habitam os núcleos dos átomos ou as fadas da quinta dimensão. A possibilidade um cientista acreditar nestas coisas – ou no criacionismo, ou nas pulseiras com hologramas – também não prova que estas crenças sejam compatíveis com a ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estes argumentos pela compatibilidade entre religiões e ciência mostram bem como estas são incompatíveis. Porque, invariavelmente, para argumentar isto é preciso abdicar do rigor e da exigência de fundamento que caracterizam a ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Carlos Fiolhais, &lt;a href=http://dererummundi.blogspot.com/2011/12/em-busca-de-sentido-ciencia-e-religiao.html&gt;EM BUSCA DE SENTIDO: CIÊNCIA E RELIGIÃO&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-2312999274960690217?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/5kem-71YZKM" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/compatibilidade-agora-com-aspas.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>48</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-29251019.post-7904891859420655560</guid><pubDate>Mon, 05 Dec 2011 23:05:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-05T23:05:29.269Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">sarcasmo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">copyright</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">eu</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">gozo</category><title>“ludwigs asquerosos”</title><description>Alguém assinando “Nuno Pereira , Acapor” comentou isto no Público, a propósito do vandalismo electrónico do site do PS:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;«Do que está o PS á espera para propor ao Governo a erradicação de todo o tipo de criminosos e piratas da internet portuguesa? Do que está o Governo á espera para erradicar "partidos pirata", tugaleaks, anonymous adolescentes ou adultos, de paulas não sei quantas e ludwigs asquerosos cujas mentes apenas servem para desestabilizar a nossa muito fragilizada sociedade uma vez que são eles os mentores da criminalidade informática que aterroriza o nosso País? Esses animais precisam de ser punidos exemplarmente. Senão é o descalabro declarado. Quem manda em Portugal afinal?»&lt;/i&gt;(1)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sinto-me honrado por este comentador me agrupar com o partido pirata e “as paulas”, que presumo ser a Paula Simões (2). Também concordo com os princípios defendidos pelo Tugaleaks (3), se bem que não conheça o suficiente deste grupo para avaliar o que fazem. E, se for mesmo o Nuno Pereira da ACAPOR, fico satisfeito por ter causado uma impressão tão forte, e aproveito para lhe deixar um abraço, na esperança de causar ainda mais asco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas não me parece competência legítima do governo erradicar partidos políticos nem impedir que os cidadãos os formem. E erradicar adolescentes anónimos não é muito prático. Quanto a ser mentor de criminosos, isso depende do que consideramos crime. Por exemplo, quando distribuíram os emails da ACAPOR, eu escrevi que &lt;i&gt;«Concordo que a ACAPOR se queixe de quem lhes copiou e partilhou a correspondência, violando a privacidade das pessoas envolvidas.»&lt;/i&gt;(4) e até defendi a imoralidade desse acto no Torrentfreak, onde muitos manifestavam aprovação por esta violação dos direitos de pessoas (5). Afinal, não considero que pessoas como o Nuno Pereira sejam &lt;i&gt;«animais [que] precisam de ser punidos exemplarmente»&lt;/i&gt;, mesmo que queiram ganhar dinheiro à custa dos direitos dos outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também não concordo com esta moda dos ataques indiscriminados. Há dias divulgaram dados pessoais de uma centena de polícias sem haver razão para castigar aqueles indivíduos em particular. Mais útil, e justo, seria divulgarem os detalhes, as ordens e os responsáveis por mandar para as manifestações polícias à paisana bater na polícia de choque (6). No entanto, ao contrário do que alega o Nuno Pereira, não é esta &lt;i&gt;«criminalidade informática que aterroriza o nosso País»&lt;/i&gt;. Mais preocupante é o desrespeito, irresponsabilidade e abuso da parte de quem tem o poder. Como o chefe da PSP que tinha a lista com os contactos dos polícias num documento Word no seu portátil, provavelmente numa pasta partilhada e sem firewall (7), à mercê de qualquer pessoa com conhecimentos básicos de informática. Desculpam-se dizendo que os “piratas” “invadem” os computadores, mas quem deixa o computador configurado para dar acesso a qualquer um também devia ser responsabilizado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestas coisas não sou mentor de criminalidade nenhuma. Mas, a julgar pela conversa que tive com o Nuno Pereira, para ele o crime mais asqueroso é o de lesa-videoclube. É isso que está a &lt;i&gt;«desestabilizar a nossa muito fragilizada sociedade»&lt;/i&gt;. Não é a ganância, nem os lobbies, nem os abusos de poder, nem a corrupção, nem a burocracia opaca, nem as leis feitas à medida de interesses como os do Nuno. Claro que não. O grande problema é a privacidade dos cidadãos e a partilha gratuita de ficheiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- Público, &lt;a href=http://www.publico.pt/Tecnologia/socrates-e-o-alvo-de-hackers-em-ataque-ao-site-do-ps-1523733&gt;Site do PS atacado, Sócrates é o alvo&lt;/a&gt; (primeiro comentário, último da lista). Obrigado pelo email com a deliciosa notícia.&lt;br /&gt;
2- &lt;a href=http://paulasimoesblog.wordpress.com/&gt;Blog&lt;/a&gt; da Paula Simões.&lt;br /&gt;
3- Tugaleaks, &lt;a href=http://www.tugaleaks.com/sobre&gt;Sobre&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
4- &lt;a href=http://ktreta.blogspot.com/2010/12/treta-da-semana-passada-acapor-partilha.html&gt;Treta da semana (passada*): A ACAPOR, a partilha e a pirataria.&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
5- Comentários no Torrentfreak, &lt;a href=http://torrentfreak.com/movie-rental-outfit-hacked-emails-leaked-redirected-to-the-pirate-bay-101018/&gt;Movie Rental Outfit Hacked, Emails Leaked, Redirected to The Pirate Bay&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
6- 5 Dias, &lt;a href=http://5dias.net/2011/12/02/o-dilema-do-macedo-demitir-ou-demitir-se-direccao-nacional-da-psp-reage-em-entrevista-as-provas-apresentadas-na-rede-relativas-a-violencia-policial-e-a-existencia-de-agentes-provocadores-na-manif/&gt;O DILEMA DO MACEDO: DEMITIR OU DEMITIR-SE!&lt;/a&gt;, via &lt;a href=http://esquerda-republicana.blogspot.com/2011/12/admissao-da-psp.html&gt;Esquerda Republicana&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
7- I Online, &lt;a href=http://www.ionline.pt/portugal/chefe-da-psp-violou-seguranca-facilitou-vida-aos-piratas&gt;Chefe da PSP violou segurança e facilitou a vida aos piratas&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29251019-7904891859420655560?l=ktreta.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/QueTreta/~4/nyg8Z6eFJPA" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://ktreta.blogspot.com/2011/12/ludwigs-asquerosos.html</link><author>noreply@blogger.com (Ludwig Krippahl)</author><thr:total>11</thr:total></item></channel></rss>

