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<?xml-stylesheet type="text/xsl" media="screen" href="/~d/styles/atom10full.xsl"?><?xml-stylesheet type="text/css" media="screen" href="http://feeds.feedburner.com/~d/styles/itemcontent.css"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearch/1.1/" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" xmlns:feedburner="http://rssnamespace.org/feedburner/ext/1.0" gd:etag="W/&quot;CU4DRnY-fSp7ImA9WhRUEEo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526</id><updated>2012-01-20T13:39:37.855-02:00</updated><title>Refluxo Gástrico</title><subtitle type="html" /><link rel="http://schemas.google.com/g/2005#feed" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/posts/default" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/" /><link rel="next" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false&amp;v=2" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><generator version="7.00" uri="http://www.blogger.com">Blogger</generator><openSearch:totalResults>125</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="self" type="application/atom+xml" href="http://feeds.feedburner.com/RefluxoGastrico" /><feedburner:info uri="refluxogastrico" /><atom10:link xmlns:atom10="http://www.w3.org/2005/Atom" rel="hub" href="http://pubsubhubbub.appspot.com/" /><link rel="license" type="text/html" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/" /><logo>http://creativecommons.org/images/public/somerights20.gif</logo><entry gd:etag="W/&quot;DEYFQH84eSp7ImA9WhRVE0k.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-3475252028510168861</id><published>2012-01-11T17:11:00.000-02:00</published><updated>2012-01-12T03:28:31.131-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2012-01-12T03:28:31.131-02:00</app:edited><title>Abstinência</title><content type="html">&lt;span id="internal-source-marker_0.16767529809511006" style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Rolando
 na cama sem lençóis, sobre um colchão de idade desconhecida e um 
travesseiro sem fronha, tentava dormir há mais de 3 horas. Há uma semana
 não dormia bem. Não bastassem os tremores, a ansiedade, o nervosismo, a
 boca seca, agora passava os dias exausto, com fortes olheiras, apesar 
de menos inchado. Quando dormia tinha sonhos horríveis, e muito 
realistas. Neles via amigos há muito esquecidos, parentes mortos, ou que
 há muitos anos não via, e se via trabalhando em empregos de 20, 30 anos
 atrás. Mas os reencontros e as experiências nunca eram agradáveis, 
especialmente quando ele acordava e lembrava o que havia acabado de 
sonhar. Então sentia arrependimento, remorso, tudo o que ele jogou fora 
na vida estavam naqueles sonhos, o que ele poderia ser e onde poderia 
estar não fosse a vida que levou. Nessas horas era impossível voltar a 
dormir, e aquelas poucas horas de sono e suas consequências era o que 
ele carregava para o resto do dia. Saía para procurar emprego e as 
pessoas o olhavam com estranheza. Sentava atrás de uma mesa para uma 
entrevista mas não podia controlar o próprio rosto, tinha espasmos que o
 faziam parecer culpado, e mesmo que não estivesse se sentindo nervoso, 
era como se estivesse sendo interrogado por assassinato. Era rapidamente
 dispensado pelo entrevistador, pelos lojistas, pelos gerentes de 
sapatarias, donos de restaurante, que prometiam ligar se surgisse uma 
vaga, e ficavam com seu bom currículo, que há essa altura já não parecia
 valer mais nada. No estado em que estava, até um moleque com segundo 
grau incompleto teria mais chances. Entrou num ônibus para voltar para 
casa, enfiou a mão no bolso e não achou o dinheiro. Estava furado, as 
moedas contadas perdidas. Perguntou pro motorista se não dava pra 
quebrar o galho, ele ficaria em pé antes da roleta, mas o motorista 
educadamente o enxotou no próximo ponto. O jeito era voltar a pé, mais 
de uma hora de caminhada, as pernas nunca pareceram tão pesadas, apesar 
de ter emagrecido. O problema de andar é que te obriga a pensar, e ele 
não queria pensar. Mas pensou, no presente, no que seria do futuro, se 
aquele esforço valeria a pena, já que não parecia levar a lugar algum. 
Sentia os olhos nas ruas, pois andava de forma estranha, irregular, 
tinha as mãos trêmulas, suava e não estava calor, o rosto com leves 
contrações involuntárias. O calmante que o médico receitou de nada 
adiantava, além de continuar ansioso e com vontade de beber, só o 
deixava ainda mais cansado e desmotivado, sem conseguir dormir. Parou de
 tomar no segundo dia. Na esquina da rua onde morava estava o boteco 
habitual. Há um mês não entrava ali. Olhou para dentro e viu os rostos 
familiares.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ih, alá, o Fernando! Senta aí, porra, pra falar do seu vasquinho!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Deixa o cara, ele parou de beber...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Parei porra nenhuma! Cadê o Manel? Aí, Manel, uma cana aqui pra mim!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 16px; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E
 voltou às discussões sobre futebol de sempre, e às opiniões políticas 
bêbadas de sempre, e à euforia seguida de melancolia depois de muitas 
doses como sempre. Mas pelo menos momentaneamente a dor parecia ter ido 
embora. O bar fechou e ele pediu para pendurar a conta, prometeu que 
pagaria tudo o que devia no próximo mês. Chegou em casa cambaleante e 
mal conseguia abrir a porta, sentir aquela velha tontura novamente o 
deixou satisfeito. Procurou um isqueiro verde que havia deixado em cima 
da mesa e não encontrou, até que se lembrou que havia ganho aquele 
isqueiro em um sonho recente, de um tio já morto. Acendeu o cigarro no 
fogão, e se deitou para dormir. E finalmente conseguiu dormir, o sono 
profundo que o seu cansaço tanto pedia. Acordou com o sol nascendo, com 
uma fumaça densa pela casa, e o grito dos vizinhos do lado de fora. O 
fogo já havia tomado conta de tudo, se levantou, foi correndo para a 
porta e queimou os dedos virando a maçaneta. Tinha outras partes do 
corpo com algumas queimaduras também, mas leves. Saiu tossindo, os 
vizinhos o ajudando a caminhar, os bombeiros já haviam sido chamados. 
Sentou no meio da rua, olhando o fogo consumindo tudo o que tinha. Todos
 seus documentos, as fotos de infância, da juventude, de tempos 
melhores, as cartas, todas as lembranças destruídas. Começou a rir. Os 
vizinhos falavam com ele, e o sacudiam, mas ele não ouvia nem percebia a
 presença deles, apenas ria. Chegaram os bombeiros, para começar a 
controlar o fogo, mas já estava tudo perdido. Um policial apareceu e 
colocou a mão em seu ombro, perguntando alguma coisa, mas ele se 
desvencilhou, levantou, e, ainda rindo, começou a correr, apenas com a 
roupa que vestia no dia anterior no corpo e um isqueiro verde na mão. 
Nunca mais foi visto na cidade.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-3475252028510168861?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/0an5BqUNTEc" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/3475252028510168861/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=3475252028510168861&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3475252028510168861?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3475252028510168861?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/0an5BqUNTEc/abstinencia.html" title="Abstinência" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2012/01/abstinencia.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0QGRn86fSp7ImA9WhdUF00.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-5162369315585751811</id><published>2011-10-04T03:22:00.000-03:00</published><updated>2011-10-04T03:22:07.115-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-10-04T03:22:07.115-03:00</app:edited><title>O Telefonema</title><content type="html">&lt;br /&gt;
&lt;div style="background-color: transparent;"&gt;
&lt;span id="internal-source-marker_0.12005199259147048" style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Acordou num susto e olhou para o relógio, eram três e vinte e três da manhã. Levantou a cabeça irritada, pois estava tendo um sonho agradável, algo relacionado a ela e às tartarugas ninja correndo atrás de seu marido para matá-lo. Ou “só para dar um susto”, como ela disse para as tartarugas, que deram um sorriso irônico e pediram o pagamento em pizza. Mas não deu tempo das tartarugas terminarem o serviço, pois ela tinha acabado de ser acordada por um telefone. Num primeiro momento achou que fosse o de casa, mas não era, tanto que seu marido continuava dormindo. Babando e roncando mais alto que o toque do aparelho, porém foi o toque que a fez acordar. Se lembrou de quando os filhos ainda moravam em casa, e de como ficava apavorada quando eles estavam na rua de madrugada, e o telefone tocava, e ela quase enfartava. Nunca aconteceu de ser nada sério, normalmente eram trotes, ou alguém bêbado, uma vez foi o irmão avisando que sua mãe havia morrido, mas nada que tivesse relação com os filhos soltos pela noite. Mas o telefone continuava tocando, e ela não conseguiria voltar a dormir enquanto ele não parasse. Deitou a cabeça no travesseiro, de olhos ainda abertos, esperando ele parar de tocar para poder fechar os olhos novamente. Porém o telefone tocava incessantemente, nem ao menos dava o intervalo comum entre uma tentativa e outra. Passaram-se alguns minutos, e mesmo a contra gosto ela levantou-se da cama para tentar descobrir de onde vinha o barulho. Abriu a janela, e percebeu que vinha da janela de cima. Morava lá uma senhora idosa e o marido, tinham filhos e netos. E se o telefonema fosse para avisar de alguma urgência com um deles, e os velhos por algum motivo não acordassem com o toque do telefone? Talvez tomassem remédios muito fortes, sim, provavelmente, doses de ansiolíticos maiores que o necessário. Era melhor matar um pouco de tempo, talvez ele parasse de tocar. Foi ao banheiro, bebeu água, ligou a tv da sala, assistiu alguns minutos de um programa evangélico, pessoas dando opiniões sobre o estupro, 65% diziam que sim, 35% que não, mas o telefone não parava, e ela pensava nas possibilidades. Poderia ser um acidente de carro, até com alguma criança envolvida, deus que me perdoe. Ou um sequestro, um sequestro relâmpago, o dinheiro em cinco minutos ou a filha dos velhos morria. Estava indecisa, mas nervosa demais para ficar parada, precisava fazer alguma coisa, de qualquer forma não conseguiria dormir até que aquilo se resolvesse. Calçou os chinelos, abriu a porta com cuidado para que o marido não acordasse, e mesmo de camisola subiu pela escada para o apartamento dos velhos. Um toque na campainha, um minuto e ela colou o ouvido na porta, nenhum barulho a não ser o telefone ensurdecedor. Tocou a campainha novamente, dessa vez com mais veemência. Ainda nada. Bateu na porta com força, sem se incomodar com os vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Dona Carmem!? Dona Carmem, abre a porta, o telefone!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Ainda nada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Dona Carmem, por favor! Atende, Dona Carmem! Pode ser importante!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Será que eles estavam em casa? Claro, eles estavam sempre em casa a essa hora, o máximo que faziam era ficar fora até às dez, hora em que o mercado fechava. Então porque não atendiam? Voltou para casa, novamente abrindo a porta com cuidado, o marido ainda roncava como um porco, e ela cada vez mais preocupada. Poderia ligar para a polícia, mas até eles chegarem... Fatalmente seria tarde demais, já estariam todos mortos, deus que me perdoe. Precisava agir. Entrou no quarto, o marido em sono profundo. Olhou pela janela, tinha o ar-condicionado na altura da cintura. Poderia subir nele. Dava para ver que a janela dos velhos também estava escancarada. Então primeiro subiria no ar-condicionado, depois poderia se agarrar aos tijolos em cima da janela, para trepar no ar-condicionado dos velhos, e entrar pela janela. O barulho era cada vez mais alto, mais perturbador, não tinha tempo para pensar. Subiu no ar. O marido acordou, com o barulho do aparelho reclamando do peso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Janaína, o que você tá fazendo?! Vai se matar, pelo amor de deus!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- É o telefone...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;E o aparelho na penúltima prestação não aguentou os oitenta quilos e caiu do oitavo andar com a mulher, que enquanto caía não pensava na morte iminente, apenas lamentava ter de ficar sem saber o que dizia o telefonema. Com o barulho da mulher e do ar-condicionado se espatifando, e do marido gritando em desespero, finalmente os velhos acordaram, e a velha foi confusa atender o telefone.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- A-alô?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Setembro chove?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-5162369315585751811?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/cS8P7-xIZTo" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/5162369315585751811/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=5162369315585751811&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5162369315585751811?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5162369315585751811?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/cS8P7-xIZTo/o-telefonema.html" title="O Telefonema" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/10/o-telefonema.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0UMQn8-fip7ImA9WhdTF0w.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-4983089624752830995</id><published>2011-07-15T03:28:00.000-03:00</published><updated>2011-07-15T03:28:03.156-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-15T03:28:03.156-03:00</app:edited><title>O Ceguinho - Episódio 3</title><content type="html">&lt;span id="internal-source-marker_0.6234373927597453" style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Vinha  descendo a rua uma mulher razoavelmente nova, mas que parecia quase  velha pela gordura, os filhos, os trabalhos. No colo um bebê maltratado,  logo atrás um garoto pré-adolescente apagado, e ao lado, de mãos dadas  com ela, uma menina, criança de dez anos, a mais feliz de todas, um  imenso sorriso sem motivo, achando graça de tudo que via pela rua: os  postes, as casas velhas mal conservadas, os cachorros vira-latas. De  dentro dos ônibus era impossível os passageiros olharem para ela e não  darem um sorriso, que quando ela percebia eram sempre retribuídos. Na  rua todos paravam para falar com ela, e como ela era esperta, e  engraçadinha, e alegre, e simpática, e bonitinha. Paravam velhas, e  velhos, e outras crianças vinham brincar com ela, e todos a elogiavam, e  em nenhum momento ela parava de brincar, de sorrir, de pular, de se  divertir. Tinha uma beleza infantil graciosa, os dentinhos tortos, os  olhos um pouquinho vesgos, os cabelos presos com marias-chiquinhas.  Parou de sorrir quando viu um homem que estava na janela de um ônibus  parado. Ele usava óculos escuros, e apesar de não conseguir ver seus  olhos, ela sabia que ele olhava para ela, e ele sorria, mas ao contrário  do que ela sempre fazia, não pôde sorrir de volta. Seguiu andando com a  mãe e os irmãos, sentindo um certo mal-estar. O sinal abriu, o ônibus  seguiu, parou no ponto mais próximo, e de lá saiu o homem, segurando uma  sacola de compras em uma mão e uma bengala na outra. A menina, do outro  lado da rua, olhava assustada enquanto o homem atravessava para o seu  lado da calçada, sempre segurando o mesmo sorriso estranho no rosto. Ela  segurou mais forte a mão da mãe quando percebeu que ele andava em  direção a eles. E mesmo com os óculos muito escuros, ela tinha certeza  que ele olhava para ela, com um sorriso congelado. Quando ele estava há  uns três metros de distância, tropeçou e caiu, derrubando sua sacola  plástica, espalhando limões, laranjas, e outras frutas que se espalham  facilmente pela calçada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ô meu Deus, o ceguinho caiu... Vai lá, Cristiano, ajuda o moço! Vai você também, Luana, vai!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Mas  Luana apenas se agarrou mais ainda à saia da mãe, enquanto olhava com  medo seu irmão apagado ajudando aquele homem, que só agora ela sabia ser  cego.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que isso, Luana, que vergonha é essa? Vai ajudar o moço, vai!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não... Não quero...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- E desde quando... Ô moço, tá tudo bem com o senhor?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Sim, tudo bem, não foi nada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Aí, meu filho pegou as compras pro senhor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ah, obrigado filho, deus te abençoe. E essa menininha envergonhada aí atrás, quem é?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Luana  tentou se enconder atrás da mãe, se esconder de um cego, que ela não  entendia por que sentia dele um medo mortal. Parecia a ponto de chorar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que é isso, Luana?! Sai daí, fala aqui com o moço!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Mesmo segurando o bebê, a mãe a agarrou com o braço direito e a jogou para frente do cego.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que bicho te mordeu?, você não é assim! Essa menina não pára, moço, você precisa ver... Ai meu deus, desculpa!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que é isso, não se preocupe. Tudo bem, Luana?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E  estendeu a mão para que ela o cumprimentasse. Ela estendeu o bracinho  trêmulo, e teve que engolir o choro quando sentiu as mãos frias do cego  entre a sua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;-  Essa menina não pára nunca... Tá sempre rindo, correndo, não pára um  segundo... Fala com todo mundo, todo mundo fala como ela é bonita,  simpática... Né, Luana?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;A menina balançou a cabeça positivamente sem tirar os olhos do cego.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que bom. E é bom que ela aproveite, porque isso não vai durar pra sempre. Obrigado pela ajuda, até logo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tchau, moço. Dá tchau, Luana!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Mas  ela não conseguia se mover. Ficou paralisada olhando o homem ir embora,  com a imagem daquele sorriso congelado e da frase que ela não entendeu  bem na cabeça. Foi preciso receber um tapa da mãe para que continuasse  andando para casa. Seguiu de mãos dadas com a mãe, que segurava o bebê  no colo, e o irmão pré-adolescente apagado logo atrás. Mas agora não  conseguia rir, não achava mais graça nos carros velhos, nas barraquinhas  de comida, nas pessoas. E o mesmo parecia acontecer com os outros,  crianças passavam e não reparavam nela, não a chamavam para brincar.  Velhos e velhas pareciam a ignorar, um casal desses parou, conversou com  a mãe e brincou com o bebê, mas para Luana apenas um até logo por  simpatia obrigatória, o mesmo que faziam com seu irmão. Chegaram em  casa, e Luana se trancou no banheiro. Sentou na privada tentando  entender o que aquela frase significava, mas o sorriso largo e estranho  do cego não a deixava pensar direito. Primeiro chorou, deixou que as  lágrimas secassem e se olhou no espelho. Tinha a pele muito oleosa, os  dentes tortos que nunca receberam tratamento adequado, era ridiculamente  vesga, e a maria-chiquinha a deixava com cara de retardada. Arrancou os  elásticos do cabelo, lavou o rosto vigorosamente, mas não adiantava, se  olhava no espelho e continuava se sentindo asquerosa. Nunca se sentira  assim antes. Saiu do banheiro transtornada, mas com o maior sorriso que  conseguia fingir no rosto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que é isso, Luana, que cara é essa?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Nada, mãe! Tô feliz, como sempre! Posso ir na rua brincar, posso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não sei... Você tá bem? Tá com uma cara meio estranha...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Ao ouvir isso o sorriso se fechou imediatamente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Infelizmente é a única que eu tenho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E  saiu de casa batendo a porta, com sua mãe chamando seu nome. Colocou o  sorriso falso de volta, e cruzou com um casal de velhos. Parou no meio  da calçada os encarando, o sorriso maior que nunca, esperando carinhos,  elogios. Os velhos se assustaram, e passaram tentando desviar dela, pelo  cantinho da calçada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Espera! Vocês não vão dizer nada, nada?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Falar o quê, menina?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não sei... O que é que tá faltando? A maria-chiquinha, é isso? Ah, é isso, né? Eu vou pra casa colocar, eu vou!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ai meu deus, o que é que ela tá falando?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não sei... Deve querer dinheiro... Toma aqui, toma, vai embora, chispa!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E  o velho jogou umas moedas na direção de Luana, que sem saber o que  fazer as catou, segurando o sorriso, mesmo com vontade de chorar. Seguiu  andando, parou em frente a um camelô, que entre outras coisas vendia um  espelhinho, pendurado na frente da barraca. Ela parou e se olhou no  espelho, e parecia ter ficado ainda mais grotesca, os dentes ainda mais  tortos, e podres, a pele além de oleosa cheia de cravos e espinhas, os  olhos que pareciam não se decidir pra onde olhar, os cabelos  despenteados, de aparência suja, ela toda parecia suja. Chorava, mas  mantinha o sorriso largo no rosto. Andou até uma pracinha, onde crianças  brincavam com uma bola. Com os olhos e o rosto cheio de lágrimas  perguntou se poderia brincar também. As crianças se assustaram com ela,  com a pergunta, e pararam de brincar, ficaram sem reação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Eu... Não sei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não sabe? Por que não sabe? Dá aqui a bola, dá? Me deixa brincar!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Tentou  tirar a bola do menino, que se afastou. Andou novamente em direção a  ele, pedindo a bola. Ele começou a correr, e ela correu atrás.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Mãe, mãe, socorro! A menina, mãe, a menina!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E  o moleque se escondeu atrás da mãe, que olhou com estranheza e ódio  para Luana, que por sua vez se esforçava para manter o sorriso, agora já  completamente torto e fora do lugar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que é isso, menina, o que você quer com o meu filho?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Eu? Nada, eu só quero brincar, por que ele não me deixa brincar?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Você?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;A mulher olhou Luana da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, tentando entender aquela criatura.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tá louca, menina? Já se olhou no espelho?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;-  Eu.. Já! Já me olhei no espelho! E por que eu não posso brincar? Eu sou  bonitinha, e simpática, e graciosa, e inocente, e as pessoas gostam de  mim, e as crianças querem brincar comigo, e os velhos me dão  presentinhos... Então por que eu não posso brincar?! Eu quero brincar!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Calma, menina, mas você não pode...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Posso! Posso! Eu sou engraçadinha, quer ver, quer ver como eu sou engraçadinha?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;E  Luana começou a dançar uma dança perturbadora, as pernas e os braços  totalmente fora de sincronia, fora de qualquer ritmo conhecido. E quanto  mais as pessoas olhavam espantadas, mais ela se esforçava, dançando  mais rápido, com mais força, cada vez segurando menos o sorriso, até o  perder completamente, as lágrimas correndo livres, a dança cada vez mais  frenética, até o ponto em que não teve mais energia, e se deixou cair  no chão de terra batida. O rosto cheio de lágrimas e catarro se  misturava à terra, estava com a boca encostando no chão, ela nunca  esteve tão suja, os cabelos, o vestido. E seguia chorando, sem que  ninguém se incomodasse ou a incomodasse. Passaram-se quinze, vinte minutos, e ela  permanecia na mesma posição, o choro aos poucos indo embora. Meia hora e  viu um par de sapatos pretos parar à sua frente. Já sabia de quem era,  apesar de não ter reparado nos sapatos dele no primeiro encontro. Com o  mesmo sorriso congelado ele se abaixou, e ofereceu uma laranja, que ela  de pronto aceitou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Passou rápido, não passou?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Mais do que eu esperava.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://1.gvt0.com/vi/QA8-ZOuKetU/0.jpg"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/QA8-ZOuKetU&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/QA8-ZOuKetU&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-4983089624752830995?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/rWXRXfxa1Og" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/4983089624752830995/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=4983089624752830995&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4983089624752830995?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4983089624752830995?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/rWXRXfxa1Og/o-ceguinho-episodio-3.html" title="O Ceguinho - Episódio 3" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/07/o-ceguinho-episodio-3.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUcCQ3wyeCp7ImA9WhZSFU8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-7420342898193093640</id><published>2011-03-30T20:17:00.002-03:00</published><updated>2011-03-30T20:17:42.290-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-03-30T20:17:42.290-03:00</app:edited><title>No Meio Do Poço</title><content type="html">&lt;div style="background-color: transparent;"&gt;&lt;span id="internal-source-marker_0.24204536550678313" style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Já estava há três horas ali, imóvel, agarrado com todas as forças a uma corda que parecia razoavelmente resistente. Gritava por ajuda, mas ninguém parecia ouvir, apesar do poço estar em um lugar com certo movimento. Com a sede e o cansaço seus gritos já não eram mais tão altos ou intensos, mas mesmo assim uma cabeça surgiu no topo do poço.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Ei! Amigo, me ajuda, eu caí aqui no poço!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Caiu?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Caí, tô há mais de três horas aqui, gritando, ninguém me ouve!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Mas você tá no fundo? No fundo do poço?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Não... Na metade, mais ou menos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Tá machucado?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Não, acho que não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Tá com a corda aí, né? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Tô, tô agarrado nela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Então... Por que não sobe?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Porque não consigo! Não consigo sair!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Já tentou?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Claro que já tentei, mas não consigo, não consigo!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Acho que você deveria tentar mais. Você tem a corda aí, é só subir por ela. Rapaz novo, saudável... Força de vontade, rapaz!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Mas você não entende, eu não consigo! Simplesmente não consigo! Será que não dá pra me puxar pela corda?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;O homem pensou por alguns segundos, enquanto no meio do poço o desgraçado implorava baixinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Não... Não vai dar, não. Esse é o tipo de coisa que você tem que resolver sozinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Mas eu...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Boa sorte, tudo de bom, desculpa qualquer coisa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;O desespero aumentou e as forças diminuíram quando viu o homem indo embora. Tentava seguir seu conselho, tirar forças de algum lugar escondido, mas não subia sequer dois centímetros. A primeira noite foi muito difícil, mas por sorte choveu, o que o permitiu beber um pouco de água. A fome aumentava, mas não o incomodava muito, só conseguia pensar em porquê não conseguia sair do poço, e em como ele deveria pelo menos se manter no meio dele. Estava distraído, afundado nas próprias preocupações, quando sentiu uma cacetada na cabeça. Olhou para o alto e uma cabeça o olhava de volta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- O que foi isso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Uma bíblia, o livro da verdade, ali está tudo o que você precisa saber pra sair do fundo do poço.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Mas eu não estou no fundo, estou no meio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- E apenas aceitando a palavra do Senhor terá força para se reerguer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Mas a bíblia caiu no fundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Ah, sim... Quer que eu jogue outra?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Não! Se eu soltar a corda pra pegar a bíblia eu caio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Pois para Jesus nada é impossível, largue esta corda e agarre com ambas as mãos as escrituras, e sairás salvo!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Jogou a segunda bíblia com raiva, e ela bateu com força na cabeça do infeliz, que pouco se mexeu, mesmo com a pancada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Por favor, será que não dá pra me ajudar só puxando a corda?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Eu não tenho esse poder, sou apenas um servo do Senhor, só você pode aceitar Jesus no coração e se reerguer com a força da glória da unção da vitória de Nicodemo do...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;- Tudo bem, não precisa, obrigado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;Enquanto tentava controlar a dor das mãos feridas pela corda, e o cansaço físico e mental, pensava no que tinha feito para ficar ali, preso no meio do poço. Não conseguia se lembrar em nada de específico, um tropeção ou qualquer coisa do tipo, apenas numa sequência de erros ao longo da vida, e mesmo que bem intencionados, todos com uma forte dose de culpa. Essas indagações não deixaram muito espaço para ele pensar em como sair dali, e seguia apenas se segurando enquanto podia. Desistiu de pedir ajuda, mas ainda via algumas cabeças fazendo paradas rápidas, curiosas com sua situação. Alguns davam um suspiro de pena, outros de reprovação, outros apenas uma olhada rápida sem expressão por pouco se importarem. Um velhinho jogou umas pipocas, como fazia com os pombos, e crianças se divertiram zombando e balançando a corda. Já havia desistido de qualquer reação, ainda remoendo os próprios erros. Foram três dias até que corpo e mente não suportaram mais, e ele caiu. Se estatelou no fundo, todo quebrado, as dores físicas e mentais nunca foram piores, mas mesmo semiconsciente pôde ver uma multidão se aglomerando, assustados com o barulho, desesperados para ajudar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: 'Times New Roman'; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline; white-space: pre-wrap;"&gt;“Rápido, os bombeiros, polícia, uma corda, alguém vai descer?, já vamos te tirar daí, vai ficar tudo bem, parece que ele quebrou a coluna, fica tranquilo, etc.”&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-7420342898193093640?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/SXOtwfS3PpM" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/7420342898193093640/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=7420342898193093640&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7420342898193093640?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7420342898193093640?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/SXOtwfS3PpM/no-meio-do-poco.html" title="No Meio Do Poço" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/03/no-meio-do-poco.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEUMR3szcCp7ImA9Wx9WEEg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-1697133897756966745</id><published>2011-01-14T22:44:00.000-02:00</published><updated>2011-01-14T22:44:46.588-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-14T22:44:46.588-02:00</app:edited><title>P.S. Inútil</title><content type="html">Os comentários dos últimos textos foram apagados por acidente, não sei como nem porque, já que nem mexo nessas coisas. Não eram muitos, mas por favor não fiiquem ofendidos, juro que foi sem querer.&lt;br /&gt;
Trágico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-1697133897756966745?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/HBSmoJIUAEo" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/1697133897756966745/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=1697133897756966745&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1697133897756966745?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1697133897756966745?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/HBSmoJIUAEo/ps-inutil.html" title="P.S. Inútil" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/01/ps-inutil.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0ENRHo7eip7ImA9Wx9WEEg.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-4492195401387668820</id><published>2011-01-14T22:34:00.002-02:00</published><updated>2011-01-14T22:34:55.402-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-01-14T22:34:55.402-02:00</app:edited><title>Sem Título #2</title><content type="html">&lt;span id="internal-source-marker_0.138612141887835" style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Desde  o dia anterior estava com o telefone desligado, não queria qualquer  distração além das que já tinha. Pouco dormiu, percebeu que tinha as  mãos trêmulas quando pegou a xícara de café pela manhã. Seria a maior  oportunidade que já tivera, a grande chance de mudar de vida, começar  algo completamente novo, esquecer o passado, ser uma pessoa melhor,  chegar perto de ser feliz. Respirou fundo e tentou se controlar. Tentava  imaginar as coisas certas a se dizer, não sabia exatamente quais eram,  mas tentava decorá-las mesmo assim. Ainda tinha algumas horas para se  preparar. Separou a melhor roupa, colocou numa pasta tudo o que poderia  precisar, checou tudo duas vezes, repetiu milhares de dircursos e  possíveis diálogos na própria cabeça. Almoçou a comida do dia anterior,  comeu pouco, o nervosismo o deixou enjoado. Tomou banho, se arrumou com  calma e cuidado, queria estar perfeitamente alinhado, em frente ao  espelho aparou um por um os fios de cabelo desregrados, escovou os  dentes pelo menos três vezes, usou perfume, coisa que nunca fazia. O  tempo todo pensando na melhor maneira de se portar, de falar, de  cumprimentar, de rir. Tentava diminuir a ansiedade imaginando em tudo o  que viria se aquilo desse certo, a possibilidade dos sonhos e planos  improváveis darem certo. Estava mais de uma hora adiantado, era um bom  tempo para sair de casa sem se preocupar em se atrasar. Dentro do ônibus  seu corpo tentava tremer, ele tentava controlá-lo &amp;nbsp;respirando fundo e  fechando os olhos. Conhecia a rua, desceu do ônibus para procurar pelo  número a pé. Estava suando, mesmo andando devagar, passou a andar mais  devagar ainda, ainda tentando parar de tremer e parecer estranho. Andou  por uns quinze minutos, e a rua terminou. Nervoso e distraído, deve ter  passado direto pelo lugar, tudo bem, ainda tinha tempo. Andou mais um  pouco. Parou. Era para ser ali. Ali que o mapa apontava, ali que o  endereço dizia, mas não era ali. Talvez fosse a rua de trás. Deu a  volta, foi para a rua anterior, não achou. Andou a rua anterior inteira,  e voltou para a que estava. Agora já andava rápido, nervoso, manter a  calma não era mais algo a ser considerado. Voltou ao mesmo lugar para  onde o mapa indicava, mas não era ali. Parou duas pessoas na rua, uma  não conhecia o lugar, a outra nunca havia ouvido falar. Estava dez  minutos atrasado. Deu uma volta no quarteirão, voltou para o mesmo  lugar. Vinte minutos atrasado, era melhor voltar para casa. Voltou com a  cabeça explodindo com toda a angústia dos sonhos e oportunidades  perdidas, mas ao mesmo tempo aliviado por não precisar passar por  aquilo. Chegou em casa sem pressa, cozinhou um miojo, e assistiu  televisão até pegar no sono.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-4492195401387668820?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/AfuhBBvLPLQ" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/4492195401387668820/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=4492195401387668820&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4492195401387668820?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4492195401387668820?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/AfuhBBvLPLQ/sem-titulo-2.html" title="Sem Título #2" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/01/sem-titulo-2.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0IHQnc5fyp7ImA9WhZaF0g.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-3887202963396417785</id><published>2011-01-03T23:45:00.001-02:00</published><updated>2011-07-04T00:52:13.927-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-04T00:52:13.927-03:00</app:edited><title>O Ceguinho - Episódio 2</title><content type="html">&lt;span id="internal-source-marker_0.23172828870662798" style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Na  ceia de natal na casa dos pais ricos da esposa, César estava pensativo e  distraído, mas devido à sua natural habilidade de fingir simpatia  quando necessário, poucos perceberam. A casa estava cheia, duas grandes  mesas com muitos convidados, não só familiares. Mais da metade ele nem  conhecia, de nenhum ele gostava. Como sempre, a maior parte das  conversas girava em torno de dinheiro, presentes, presentes que se  compram com dinheiro, presentes que poderiam ser comprados com muito  mais dinheiro. As crianças bajulavam os avós pensando no que poderiam  ganhar, perguntavam o que estava dentro das caixas. Os adultos também  puxavam o saco dos velhos, mas não pelos presentes perto da árvore. Ele  que tanto fez para chegar e permanecer ali, agora se perguntava se valia  a pena. Sentado à mesa, sentiu um par de olhos o encarando. Era um  homem que ele não conhecia, do outro lado da mesa, há umas cinco  cadeiras de distância. César acenou com a cabeça e deu seu costumeiro  sorriso falso, mas o homem seguiu o encarando sem reação, apenas um leve  sorriso no rosto. César achou estranho, mas tentou ignorar. Voltou para  a conversa da esposa, mas continuou sentindo os olhos em suas costas.  Esperou uns instantes e voltou a olhar para o homem, que parecia não ter  se movido, e continuava o encarando. Dessa vez César não encenou,  fechou o rosto e balançou a cabeça como quem pergunta qual é o problema,  mas o homem seguia impassível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- …e é full hd, mas faz mais de um mês que eu comprei e até hoje não entregaram.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Valéria... Com licença, dona Sônia. Valéria, quem é aquele cara me encarando?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Te encarando?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- É, me encarando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tá maluco, César? Não tem ninguém te encarando.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Como não, porra, aquele ali do lado da Carol.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Do lado esquerdo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- É!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ai, César, brincadeira de mau gosto...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Hein?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ele é cego, não tá vendo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Arial; font-size: 11pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;César  sentiu um frio na espinha quando percebeu que o homem era mesmo cego,  ao mesmo tempo em que tinha certeza que ele continuava o encarando. E  permaneceu o encarando durante o resto da ceia, César mal tocou no peru.  E continuou sentindo aqueles olhos cegos o resto da noite inteira,  tentando se acalmar com vinho, tendo pouco resultado. Só no fim da  noite, quando o ceguinho estava indo embora, é que foram apresentados.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Ah, César, deixa eu te apresentar aqui um amigo nosso. Seu José, esse aqui é o César, marido da Valéria.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;De perto os olhos dele pareciam maiores, menos cegos, debochados, reprovadores.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Muito prazer, seu José...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;O cego apertou a mão de César, e lhe disse ao pé do ouvido:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Eu te manjo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Soltou  a mão e abriu um grande sorriso, e saiu com sua bengala de cego e  segurando no braço de sua acompanhante. Aquela frase ficou ecoando na  cabeça de César, e agora ele já não tinha mais a mesma facilidade para  esconder sua perturbação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tudo bem, César?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tá.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Tá estranho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não sei, deve ser o vinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- E você vai dirigir assim, né?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Vou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Vem, vamos nos despedir dos meus pais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Arial; font-size: 11pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Havia  uma espécie de fila informal para se despedir dos velhos, todos queriam  mostrar gratidão pela ceia, pelos presentes, e pelo fato deles serem  ricos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Papai, já estamos indo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Mas já, filha? Os moleques estão se divertindo, fica mais um pouco com eles... Escuta, você recebeu o envelope, né?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Recebi sim, papai, muito obrigada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- E você vai comprar o Toyota, mesmo? Aquele Toyota parece bom.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Nossa, adorei aquele Toyota, você tá certo, é lindo, vou lá essa semana com o César. Né, César? César!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Estava  olhando fixamente para a gravata borboleta do velho, sem nenhum motivo,  perdido nos próprios pensamentos. Pareceu assustado quando a mulher o  chamou. O velho e a filha também se assustaram, não era um comportamento  típico dele, &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; sempre atento e cheio de si.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Desculpa, eu... Estava distraído.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Haha, tô vendo que gostou do vinho, hein, César?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Sim, Seu Mário, muito bom vinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Português, encomendei vinte garrafas, já deve ter acabado tudo. Mas vem cá, já sabe onde vai investir aquele dinheiro?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Eu... Não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;-  Mas como não? E aquele negócio? Você não disse que era certo? Ficou  dois meses me convencendo... &amp;nbsp;Mas tudo bem, hoje é Natal. Vamos falar  sobre isso outro dia, não quero me estressar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Sim, e... Deve ser o vinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- É, é um bom vinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Voltou  dirigindo de forma automática, mal ouvindo o que Valéria dizia,  concordando com tudo, os filhos dormindo no banco de trás. Chegou em  casa com a mulher preocupada, ele seguiu culpando o vinho, uma noite bem  dormida e no dia seguinte já estaria bem. Foram se deitar. Esperou a  mulher dormir, pegou algumas cuecas, poucas camisas, chinelo, uma  bermuda, jogou tudo numa maleta e saiu de casa. Já dentro do carro  pensou que seria melhor passar no escritório antes. Parou num posto, e  pediu para o frentista encher uma garrafa pet com gasolina. Chegou no  escritório e pegou os maços de dinheiro no cofre, já era o suficiente  para pelo menos começar. Deixou o cofre aberto, deu comida para os  peixes, espalhou gasolina por tudo e acendeu um fósforo. De lá foi  direto para o aeroporto. Viu os vôos disponíveis, e o mais próximo que  conseguiu comprar saía em duas horas para Miami. Sentado em frente ao  portão de embarque , lembrou que ainda estava usando aliança. Jogou no  lixo junto com seu Rolex, que foi o suficiente para o faxineiro do  aeroporto passar a ir trabalhar de Fusca. Chegando em Miami, perguntou  se não havia algum vôo disponível pra uma ilha pequena qualquer do  Caribe. Estava com sorte, naquele mesmo dia sairia um vôo para uma ilha  dessas, que só recebia três vôos por mês, tinha menos de trinta mil  habitantes e sobrevivia principalmente de pesca. Era exatamente o que  César queria. Chegou na ilha próximo da meia-noite. Olhou dentro da  bolsa, ainda tinha dinheiro sobrando. Um único táxi parado em frente ao  aeroporto parecia o estar esperando, mas César preferiu andar. Andou, se  afastou da cidade, pegou uma pequena estrada, passou por campos, outras  cidades menores. Amanheceu e ele estava numa praia, ajudando os  pescadores a puxarem uma rede ou algo do tipo. Parecia um bom lugar para  ficar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Comprou  um barco e uma cabana. Se casou com uma nativa, bem mais nova. Teve  filhos, menos chatos e mais morenos que os que ele deixou no Rio de  Janeiro. O pouco que ganhava com a pesca era o suficiente para manter a  família, estava vivendo a vida simples que estava procurando. Fingia  para si e para os outros que não havia deixado nada nem ninguém no  Brasil, com ele próprio a mentira funcionava bem, com os outros nem  tanto. Os questionamentos da nova mulher acabavam sempre em brigas e  ameaças, ele fugiu justamente para não precisar mais dar satisfações a  ninguém, ter que se explicar a uma nativa de uma ilha que nem ao menos  ninguém conhecia de nome era inaceitável para ele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Com  o tempo a influência de César entre os pescadores aumentou. Fingia  falar línguas que não conhecia para impressionar os locais, e usava isso  para negociar com os estrangeiros. Sua escolaridade relativamente alta o  tornava respeitável e até temido pelos outros. De forma natural, se  tornou um líder local. Todas as vendas agora passavam por ele, que  conseguia preços melhores pelos peixes. Parou de pescar, e passou a  alugar o barco para outros pescadores. Em pouco tempo metade dos barcos  da pequena cidade eram dele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Foi  nessa época que o ceguinho voltou à sua cabeça. No começo apenas em  sonhos, ou pesadelos. Via o cego comendo sua mãe, já há anos morta,  enquanto ria para ele com os olhos cegos debochados. Em outros sonhos  espancava por diversão os filhos que César havia deixado no Brasil, e  parecia ficar especialmente satisfeito quando as crianças sangravam, ou  se cagavam de dor. Algumas vezes sonhava apenas com ele sentado, o  encarando, o mesmo sorriso torto no rosto. Acordava desses sonhos  bastante transtornado, raramente voltava a dormir. Começou a beber para  conseguir dormir, um rum local de muita qualidade. Então o cego passou a  aparecer durante o dia, com ele acordado. Eram visões rápidas, mas que  produziam forte efeito em César. Via o cego dançando Michael Jackson na  praia, jogando como goleiro na pelada dos pescadores, voando entre os  coqueiros, mudando números nos seus papéis. Duravam frações de segundos,  mas estavam cada vez mais realistas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;César  se livrou da cabana na praia, e comprou uma grande casa afastada dos  pescadores. Passou a andar pela cidade com um belo carro americano, que  ele podia parar onde quisesse sem ser incomodado. Sua mulher nunca  esteve tão feliz, se deliciava com os olhares de inveja das amigas  pobres, mesmo que o marido estivesse cada vez mais bêbado e paranóico. A  riquesa repentina de César causou uma desconfiança natural nos  pescadores, que a esse ponto já era quase uma certeza. Mas não entendiam  o que ou como ele fazia, por isso não sabiam como agir.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Após  um dia exaustivo de visões, rum, e discussões com pescadores, César  teve seu sonho mais realista. Sonhou em detalhes com o ceguinho comendo  sua mulher, de formas que ele mesmo nunca havia feito. Acordou a  sacudindo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que é isso, César, tá louco?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Um cego! Dando pra um cego!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Que cego?!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Você pensa que ele enxerga? Só porque ele olha pra você? Ele olha mas ele é cego, sua puta, cego!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Me larga, seu bêbado!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Sai os dois daqui!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;As  crianças entraram no quarto assustadas com o barulho. Assim que César  gritou os dois meninos saíram em disparadas, com o pai correndo atrás.  No corredor, conseguiu dar uma banda no mais novo, que caiu de cara no  chão e começou a chorar. Enquanto César ria da queda, sua mulher  escapava de casa. Ele percebeu, e foi atrás dela com uma garrafa de rum.  Quando saiu de casa ela já estava correndo a uns vinte metros de  distância, ele parou e jogou a garrafa o mais longe que pôde e, como num  desenho animado, acertou exatamente na cabeça da mulher. Foi motivo  para que ele sentasse na varanda e risse incontrolavelmente. A mulher se  levantou atordoada, com a cabeça sangrando, e seguiu para a vila dos  pescadores. Esses o encontraram na praça da cidade, tentando fugir de  carro. O fato dele ter batido na mulher era uma justificativa boa demais  para ser desperdiçada. O tiraram do carro, e começaram o espancamento.  Socos, chutes, ele caiu de costas e continuaram batendo. Em meio à surra  conseguiu sentir um toque leve de uma bengala na cabeça. Olhou para  cima, e mesmo contra a luz alaranjanda do poste reconheceu os olhos  debochados.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- Não disse que te manjava?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;- É... Manjava.&lt;/span&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://3.gvt0.com/vi/cuICVsaxJxc/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/cuICVsaxJxc&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266" src="http://www.youtube.com/v/cuICVsaxJxc&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-3887202963396417785?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/gWqAtPFDWO8" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/3887202963396417785/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=3887202963396417785&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3887202963396417785?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3887202963396417785?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/gWqAtPFDWO8/o-ceguinho-episodio-2.html" title="O Ceguinho - Episódio 2" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2011/01/o-ceguinho-episodio-2.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D0UFRXo-eyp7ImA9Wx9TFEo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-4442560422072425199</id><published>2010-11-22T23:20:00.000-02:00</published><updated>2010-11-22T23:20:14.453-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-11-22T23:20:14.453-02:00</app:edited><title>Síndrome do Paradoxo Catatônico</title><content type="html">&lt;span id="internal-source-marker_0.022449684631537292" style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;A  síndrome do paradoxo catatônico, ou SPC, é um transtorno caracterizado  pelo estado de ausência de respostas a estímulos externos e pela  repetição de pensamentos e movimentos de uma pessoa decorrente de uma  situação paradoxal. Ao contrário de outros transtornos, não está  associada a situações de estresse, depressão, ou demência, podendo se  manifestar em qualquer indivíduo, saudável ou não. É considerada uma  síndrome nova, já que o primeiro caso reconhecido surgiu em 1976.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Causas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Por  ter surgido pela primeira vez, aparentemente, apenas em 1976, debate-se  que substâncias ou hábitos modernos sejam os responsáveis pela SPC,  apesar de nada ter sido comprovado. Alguns itens sugeridos como  possíveis culpados são: Aspirina, alimentos industrializados,  refrigerantes, televisão, desenhos animados, forno microondas, luz  artificial de shopping-centers, macarrão instantâneo, transistors,  bateria de relógios de pulso, empregos inúteis, conforto, entre outros.  Em 1988, o cientista italiano Giacomo Panucci divulgou uma pesquisa em  que associava os casos de SPC com o crescimento do costume da  masturbação com revistas eróticas. Sua hipótese era que a tinta usada  nas revistas, quando em contato com os órgãos sexuais masculinos, a  longo prazo poderia provocar distúrbios mentais, em especial a síndrome  do paradoxo catatônico. A comunidade científica argumentou que isso não  explicaria os índices de SPC em mulheres, ao que o Dr. Panucci  respondeu, “Por que não?”, o que, por sua vez, estimulou pesquisas sobre  o uso de revistas pornográficas para fins masturbatórios por mulheres,  deixando a relação disso com a SPC e a improvável hipótese original do  Dr. Panucci de lado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Primeiros Casos e Outros Dignos de Nota&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;O  primeiro caso reconhecido da síndrome ocorreu em 1976, em São Paulo, e  ficou conhecido na imprensa como “Caso Luizinho”. Luiz Pacheco das  Neves, ou Luizinho, na época com 14 anos, sentou-se em frente à TV para  assistir seu desenho favorito, Os Flintstones, ao mesmo tempo em que  tomava um café com leite com biscoito maizena. Estava sentado no chão,  encostado no sofá, enquanto a caneca e os biscoitos descansavam sobre a  mesinha de centro da sala. Em uma das vezes em que foi molhar o biscoito  na caneca, distraído com o desenho, o biscoito amoleceu, se partiu, e  afundou na caneca, a outra parte ficando em sua mão. Porém, no momento  em que o biscoito quebrou, a impressão de Luizinho foi que seu próprio  braço havia se soltado, e por algum motivo caído na caneca de café com  leite. Desesperado, Luizinho enfiou a cabeça na caneca, e, com dois  dedos de cada mão, procurava freneticamente pelo braço perdido. Ao  perceber quase imediatamente que não poderia ter perdido o braço se o  estava usando, mas ao mesmo tempo com a certeza de que o braço havia  caído na caneca, Luizinho entrou em paradoxo catatônico. Ao menos essa é  a versão mais aceita, já que na hora não havia testemunhas. Luizinho  permanece até hoje no mesmo lugar, se alimentando e fazendo outras  necessidades através de tubos, como aliás acontece com todos os  portadores da SPC. Por motivos históricos e científicos, é colocado  todos os dias no mesmo lugar da sala, tem a mesma caneca à sua frente,  sempre reabastecida com café com leite, e continua com a cabeça abaixada  e os frenéticos movimentos para salvar seu braço. Na TV, episódios dos  Flintstones em dvd passam 24 horas por dia. Para manter os custos de  saúde de Luizinho, hoje com 38 anos, a família faz visitas guiadas pela  casa, e ganha dinheiro com a venda de ingressos, de fotos dos visitantes  ao lado de Luizinho, e de canecas iguais ao do perturbado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;O  primeiro caso feminino ocorreu em um subúrbio de Londres, três anos  mais tarde. Charlotte Curtis, na época com 21 anos, famosa na região por  sua beleza e pelo interesse que provocava nos rapazes, costumava passar  horas na frente de sua penteadeira, escovando seus cabelos escuros que  quase chegavam à altura da cintura. Numa dessas vezes, ao virar a cabeça  para a direita, Charlotte se assustou com o movimento de seu cabelo na  esquerda, o que a fez virar a cabeça, e, mesmo percebendo que era apenas  seu cabelo, se assustou novamente com o movimento dos cabelos, dessa  vez &amp;nbsp;os da direita, a fazendo virar a cabeça bruscamente novamente,  entrando em paradoxo catatônico. Sua mãe, Midge Curtis, argumenta a  possível causa da SPC na filha: “Charlotte sempre teve muito medo de  besouros, e aqui nós sempre tivemos muito besouros. Ela ficava apavorada  quando entravam besouros em casa, principalmente os grandes. Algum  tocar o seu cabelo seria o fim pra ela. Acho que isso que ela pensou que  seu cabelo fosse, um besourão.” Um documentário da BBC sobre a doença,  produzido na década de 90, tornou o caso de Charlotte conhecido  mundialmente, especialmente na internet, onde imagens dela virando a  cabeça freneticamente de um lado para o outro passaram a ser usadas como  uma forma irônica de dizer não, sendo esse considerado por muitos o  primeiro meme da internet.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;A  síndrome do paradoxo catatônico ganhou destaque recente na mídia com o  sucesso dos livros de Johnathan Richards. Richards afirma ter entrado em  paradoxo catatônico quando, deitado em sua cama assistindo televisão,  usou seu sapato para mudar de canal, e o canal mudou. Olhou para o lado e  percebeu que o controle estava em cima da cama, viu que havia mudado de  canal com o sapato e entrou em paradoxo catatônico, e assim ficou por  três meses, apertando um botão imaginário no sapato e olhando para a  televisão. Pela sua versão da história, foi despertado da SPC por seu  border colie, que, subindo em sua cama, usou a patinha para tirar o  sapato de sua mãe, e o despertou latindo e lambendo seu rosto. Pouco  depois, Richards descobriu que o cão estava com câncer, falecendo poucas  semanas mais tarde. Desde então, Richard ganhou fama e dinheiro  escrevendo sobre as reflexões que fez enquanto estava em paradoxo, e  sobre as reflexões que fez após sair do paradoxo. Muitos especialistas  questionam a veracidade da &amp;nbsp;SPC de Richards, como nesses trechos de um  artigo do Dr. Patrick Larson: “...deitado na cama vendo tv, a posição  mais confortável em que alguém já entrou em SPC.” “...dos poucos casos  de pacientes que saíram da SPC, todos afirmam que durante a catotonia  não pensavam em nada, e do momento que entravam ao momento que saíam da  síndrome era como se houvesse passado apenas uma fração de segundo,  mesmo que fossem anos, o que causa estranheza as reflexões do senhor  Richards durante a doença.” ”….duvido que alguém já tenha visto essa  porra de cachorro.” Mesmo com as denúncias de farsa, nunca comprovadas,  Richards continua sendo um dos escritores mais vendidos da atualidade, e  certamente a maior personalidade quando o assunto é SPC.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Tratamento&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 14pt; font-style: normal; font-weight: bold; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Não  existe comprovação científica para qualquer tratamento de SPC, porém  muitos são feitos em caráter experimental. Um dos primeiros foi o  eletrochoque, que falhou em todos os testados, que além de continuarem  com suas síndromes habituais, ainda adquiriram espasmos musculares  involuntários, tornando os movimentos repetitivos de suas SPCs piores e  caóticos. O uso de ansiolíticos é indicado por muitos médicos para a  redução dos sintomas da SPC, sem tirar o indivíduo do paradoxo  catatônico. Tem causado grande polêmica os métodos do mexicano Carlos  Mendes. Ele afirma que a única maneira de tirar alguém da SPC é a  viciando em crack. Um dos questionamentos que se faz ao Dr. Mendes é de  como ele chegou a essa conclusão, algo que ele nunca respondeu  apropriadamente. Mendes afirma já ter tirado mais de 20 pacientes da  síndrome, todos hoje altamente viciados em crack. A dúvida se vale a  pena trazer alguém de volta a realidade a viciando em crack é uma das  questões mais complexas da ciência moderna.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;Bibliografia:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;PANNUCI, Giacomo: Da toxidade das tintas de revistas pornograficas e da relação delas com a SPC.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;SUPLICI, Marta: Como se masturbar usando as revistas eróticas do seu marido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;NOGUEIRA, Esaú: A caneca de café-com-leite sem fundo - A história de Luizinho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;RICHARDS, Johnathan: Eu e meu sapato - Como meus três meses em paradoxo catatônico podem mudar a sua vida e os seus negócios.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;RICHARDS, Johnathan: Toby, um anjo encarnado em um Border Collie.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;LARSON, Patrick: A involução humana - Johnathan Richards e a burrice generalizada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="background-color: transparent; color: black; font-family: Times New Roman; font-size: 12pt; font-style: normal; font-weight: normal; text-decoration: none; vertical-align: baseline;"&gt;MENDES, Carlos: Crack é bom.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-4442560422072425199?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/y3e7po56Jw4" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/4442560422072425199/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=4442560422072425199&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4442560422072425199?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4442560422072425199?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/y3e7po56Jw4/sindrome-do-paradoxo-catatonico.html" title="Síndrome do Paradoxo Catatônico" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/11/sindrome-do-paradoxo-catatonico.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0ACQn04fyp7ImA9WhdTF0w.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-7408241468294988411</id><published>2010-09-12T00:17:00.001-03:00</published><updated>2011-07-15T03:36:03.337-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2011-07-15T03:36:03.337-03:00</app:edited><title>O Ceguinho - Episódio 1</title><content type="html">Acordou antes do despertador. Levantou da cama com cuidado, para que não acordasse sua mulher. Entrou no banheiro com o coração acelerado, agitado e com uma leve alegria. Foi para debaixo do chuveiro, tentando se acalmar e lembrar mais claramente do sonho. Lembrava do motivo principal da sua excitação, Helena. Helena estudou vários anos com ele na escola, a última vez que a viu deviam ter em torno de 15 anos. Era fascinado pela beleza de Helena, que nem todos consideravam tão bonita. A primeira vista diriam que era uma garota sem qualquer qualidade especial, e a segunda vista provavelmente também. Mas, talvez por também ser pessoa sem grandes qualidades, ele sentia grande atração por ela. Na época tentava disfarçar, desviava o olhar se ela por acaso olhasse para ele, tentava não fixar os olhos nas pernas dela durante as aulas, evitava sentar atrás dela para que não fosse pego cheirando seus cabelos, entre outras coisas. Naturalmente, Helena sempre o ignorou. Raramente trocavam palavra. Quando trocavam, era sempre breve e constrangedor, Helena parecia perceber a perturbação dele quando falava com ela, e a troca de olhares era rápida e estranha pelas duas partes. Há muitos anos não pensava nela, até ela aparecer naquele sonho. No sonho ela estava mais velha, naturalmente, agora era uma mulher. Estava ainda mais bonita, mais alta, os seios e a bunda maiores. Sabia que o sonho havia sido grande, mas só conseguia se lembrar de uma pequena parte. Estavam em uma espécie de reunião entre amigos. Era noite, em uma casa em que nunca havia estado, nem em sonhos. Estavam num sofá grande e confortável, do tipo que faz curva, os dois e mais algumas pessoas, talvez outro casal, ou duas mulheres. Helena usava uma roupa confortável, devia ser algo para dormir, um short bem curto, uma camiseta velha. Estava deitada de bruços, com os cotovelos apoiados no sofá. Ele ao seu lado, sentado de forma relaxada. Conversavam descontraidamente, de um jeito que nunca conversariam na realidade. Foi então que, entre uma risada e outra, ela vagarosamente levou o rosto em direção ao dele, e os dois ficaram com os rostos frente a frente, os lábios quase se tocando. Mas ele sabia, no sonho, que ela não fez isso para beijá-lo, havia algum motivo prático naquele gesto que ele não conseguia se lembrar qual, mas que dentro do sonho parecia fazer sentido. Não conseguia se lembrar de muita coisa além desse ponto. No entanto, mesmo tendo sido só um quase beijo de menos de um minuto de sonho, não se lembrava de ter se sentido tão bem alguma vez quanto naquele momento de sonho. E ficava repetindo aquele momento na mente, o rosto dela parado de frente ao seu, a linda bunda virada para o alto, os peitos quase aparecendo pela gola da camiseta velha. Era uma sensação doce de quase felicidade, que ele só lamentava não ter durado mais tempo, e com mais profundidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saiu de casa rápido, não queria esperar que a esposa acordasse. Tomou um café na padaria, pegou um ônibus, entrou no metrô, tudo de forma automática, estava completamente distraído, repassando o sonho, tentando lembrar momentos novos, ou até inventá-los. Sentou em uma cadeira especial no metrô, daquelas para velhos, grávidas e coisas do tipo, e acabou adormecendo. Só acordou três estações mais tarde, após sentir uma bengalada na canela. Abriu os olhos e viu um cego de óculos escuros parado à sua frente. Levantou-se na mesma hora, cedendo o lugar para o ceguinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
- Desculpe, senhor, é que eu acabei dormindo, eu...&lt;br /&gt;
- Tudo bem. Quando os sonhos são melhores que a vida, dá vontade de dormir o tempo inteiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cego disse isso ao mesmo tempo em que se sentava, e depois se calou, com um leve sorriso no rosto. Sentiu uma perturbação imediata com a frase do cego, e não conseguiu responder. Apenas disfarçou com um sorriso simpático, que infelizmente o cego não viu. Agora, além do sonho, não conseguia parar de pensar na frase do cego. A inquietação em sua cabeça aumentava, assim como a vontade de que o sonho durasse mais tempo. Chegou ao trabalho sem ouvir os bom-dias. Sentou em seu posto e não demorou muito para que caísse no sono. Acordou com um forte esporro do chefe, que improvisou um breve discurso o humilhando para que todos ouvissem. Em qualquer outra ocasião, ele mandaria o chefe tomar no cu e pediria demissão na mesma hora, mas naquele dia ele simplesmente não conseguia se importar. Voltou ao trabalho, e voltou ao sono. Dessa vez, o chefe foi ainda menos calmo e gentil, e o mandou para o olho da rua, usando essas mesmas palavras ridículas, “para o olho da rua”. Surpreendendo a todos, ele apenas respondeu que tudo bem, e saiu. Saiu sem saber para onde. Sentia uma inquietação cada vez mais forte, e não sabia como fazê-la parar. O que o fazia sentir melhor era a lembrança daquele momento de sonho, aquele quase beijo, e a cada lembrança pareciam surgir elementos novos, o cheiro de Helena, a luz da sala, a cor de seus olhos. Já conseguia ver aquele momento de ângulos diferentes, em primeira pessoa, de cima, por trás do sofá. Pegou um ônibus, sem se importar para onde o levaria. Adormeceu no banco, tentando sonhar com aquele momento de novo, com momentos melhores que aquele. Foi acordado com dificuldade no ponto final, sem saber direito onde estava. A vontade de dormir era cada vez mais forte, mal conseguia se manter de pé. Foi andando pela rua cambaleando, como um bêbado, quando viu uma velha gorda andando em sua direção. Era Helena. Nem de longe a Helena dos tempos de escola, muito menos a de seus sonhos, mas era Helena. Seus cabelos estavam secos, despenteados, usava um par de óculos gigante, sem maquiagem, a boca meio torta e emburrada, o corpo gordo e velho, ia levando um poodle preto e encardido por uma coleira. Ele parou no meio da calçada, atônito, e no momento em que ela passava trocaram os mesmos olhares estranhos de quando eram adolescentes. Helena, naturalmente, fingiu que não o reconheceu, e seguiu seu caminho, catando com um saco plástico o cocô que o poodle deixava pela calçada. Ele, mais perturbado que nunca, sem conseguir entender os próprios pensamentos, seguiu andando cambaleante até encontrar uma estação de metrô. Entrou e sentou no mesmo banco para pessoas especiais, mas dessa vez o sono em que caiu era profundo demais para que qualquer bengalada o acordasse, por mais forte que fosse.&lt;br /&gt;
&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://3.gvt0.com/vi/iqnU-dRGwTs/0.jpg"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/iqnU-dRGwTs&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/iqnU-dRGwTs&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-7408241468294988411?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/kz0LlKNYdwg" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/7408241468294988411/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=7408241468294988411&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7408241468294988411?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7408241468294988411?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/kz0LlKNYdwg/o-ceguinho-episodio-1.html" title="O Ceguinho - Episódio 1" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/09/o-ceguinho-episodio-1.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CkYNRn85fip7ImA9Wx5TEEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-8741494830061708164</id><published>2010-07-21T05:02:00.003-03:00</published><updated>2010-07-25T17:36:37.126-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-07-25T17:36:37.126-03:00</app:edited><title>O Entrevistado</title><content type="html">&lt;span xmlns=""&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&lt;i&gt;- ...Problema, amiga? Ah, Pastor... Minha vida, eu não sei o que acontece, parece que*click*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&lt;i&gt;- ...400 reais. Agora. Apenas mais um minuto. Você sabe a resposta. Ache três nomes de posições sexuais no quadro, apenas três. Tá muito fácil. Você precisa ligar. Pára o relógio, pára! Quanto, produção? Quanto? Não, não acredito... 500 Reais, 500, meu Deus, a produção enlouqueceu, aproveita, liga agora, agora, lig*click*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;&lt;i&gt;- ...Porque a mão direita está ocupada, ora pois!*Risos da platéia* Ai, ai... Bom, hoje teremos aqui, lançando o livro "O Canal", que conta as aventuras dele como técnico de futebol no Panamá, o ex-zagueiro do América, Machadinho! *Aplausos* Teremos também ele, que está fazendo grande sucesso no programa Zorra Total com seu personagem Pica-Suja, o ator e humorista Beto Peres! *Aplausos e assovios* Além deles, vou conversar também com o corretor de seguros Lúcio Bosco de Melo!*Aplausos, gritos e assovios*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Não, não era possível. Ele devia ter entendido errado. Como ele poderia estar na televisão? Nunca esteve em um estúdio de televisão na vida... Ora, mas era claro que fora apenas impressão, as poucas horas de sono diárias finalmente estavam provocando alucinações... Provavelmente nada que uma noite de sono bem dormida não resolvesse. De qualquer forma, ficou curioso, e esperou o programa voltar dos comercias. Após o entrevistador contar algumas piadas óbvias e sem-graças retiradas da internet, mas que misteriosamente faziam todos rir, anunciou a primeira e mais importante entrevista da noite.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Ele tem trinta e dois anos, nunca se casou, e há seis meses trabalha como corretor de seguros. Lúcio Bosco de Melo!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Seu corpo congelou, o controle remoto caiu de sua mão. Era ele se levantando, indo cumprimentar o apresentador, dando dois beijos em seu rosto, como se fosse um artista, algum ator de novela que gosta de forçar amizade. Continuou se olhando na Tv, sem acreditar, ainda com esperança de ser apenas alguém com o mesmo nome, e extremamente parecido com ele. O primeiro close, e era mesmo ele. Sentou na poltrona de entrevistado e cruzou as pernas como se fosse uma mulher, ou o Caetano Veloso. Cruza as pernas direito, pra que isso? Meu Deus, quase dá pra ver as bolas espremidas    na calça cáqui! Cruza as pernas que nem homem, pelo amor de Deus!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Lúcio de Melo, que prazer... Como você tá, querido?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Bem, bem, e você? Ah, que bom... Se importa se eu beber um pouco? Sempre quis saber o que tinha nessa caneca... É água, viu, gente? É água...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Não, ele não podia ter dito aquilo. A coisa mais idiota que alguém pode fazer num programa desses! Exatamente o tipo de coisa que ele evitaria falar o máximo possível, que ele evitaria até sob tortura, que quando ele ouvia alguém falando na tv tinha vontade de espancá-la, agora ele dizia ali, para que milhões de pessoas vissem!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;É, é água, as pessoas pensam que não é água, mas é água... Aliás, você tem uma história muito interessante com água, não tem?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;É, é verdade, essa história é muito boa...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Não! Não é!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Eu tinha uns dez anos, mais ou menos...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Em toda reunião familiar ouvia essa história, e sempre a odiou.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;... estava andando na rua com a minha mãe, e comecei a reclamar, porque estava com muita sede.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Seus parentes pareciam fazer questão de contar essa história para qualquer pessoa quando ele estava presente.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Então ela parou numa lanchonete e comprou um copinho d'água, daqueles bem difíceis de abrir. Bom, então comecei a tentar tirar aquela tampa de alumínio, mas estava difícil, parece que tinha mais cola que o normal. Minha mãe se ofereceu para abrir, mas eu não quis, queria mostrar que era capaz de abrir um copo d'água sozinho. Aí comecei a puxar com força, toda minha força, até que a tampa saiu e, claro, toda a água caiu na minha calça.&lt;/i&gt;*&lt;i&gt;risos da platéia* Então eu estava ali, no meio da rua, andando como se estivesse todo mijado! Mas eu não podia deixar as pessoas pensando que eu mijei na calça, já tinha 10 anos, e por isso fui gritando para todos que passavam por mim: "Não é mijo, é água, é água! Parece que eu tô mijado, mas eu juro que é água!"*todos no estúdio riem muito*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Se lembrava muito bem daquele dia, que para ele nunca foi engraçado. Lembrava da dor que sentiu quando percebeu que as pessoas pensariam que ele havia mijado na calça. E de como começou a falar com as pessoas, coisa que ele não fazia com freqüencia, por desespero, desespero pelo que elas poderiam pensar. E aquela frase, que nunca o deixaram esquecer, ainda ecoava na sua cabeça. No entanto, agora estava na tv e contava a história rindo, se divertindo com a própria mocoronguice, mais uma vez se ridicularizando em público, mas dessa vez gostando.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Ai, que maravilha... "Não é mijo, é água, é água!" Ótima essa história, excelente... Agora, ô Lúcio, você nunca se casou não é verdade?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;É, é verdade.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;E já esteve perto de se casar?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Ah, sim, muito perto.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Não, essa não... Não para que todos ouçam...&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Foi a Jane, uma namorada que eu tive... Aliás, beijo, Jane!&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Não!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Nós ficamos juntos mais de três anos. E eu gostava muito dela, muito mesmo...  A verdade é que ainda gosto, ainda a amo.*platéia faz sons insinuantes* Calma gente, calma, agora ela é casada com meu irmão!&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Com seu irmão?!&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Pois é, veja você... Estávamos noivos, já há mais de três anos juntos, quando ela conheceu meu irmão, que havia voltado ao Brasil depois de ser deportado dos Estados Unidos. Se deram bem logo de cara. Poucas semanas depois, ela disse que queria terminar. Nunca deu motivos muito convincentes, na época disse que o relacionamento não era mais o mesmo, que o problema era ela, não eu, que precisava de um tempo sozinha, acho até que falou alguma coisa sobre nossos signos não combinarem... Moral da história, três meses depois começou a namorar meu irmão, hoje são casados e têm dois filhos, e eu sempre finjo que está tudo bem, e que eles não começaram a fuder enquanto nós ainda éramos noivos! *todos riem*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Já estava de pé, olhando perplexo para aquela cena. Algo que ele nunca sequer insinuou, algo que ele tinha medo até que desconfiassem que ele imaginava, agora exposto para todos, e apenas para fazer rir. Pior, exposto para Jane e seu irmão. Na época pensou em confrontá-los, pensou em agredi-los, em lavar sua honra com sangue, mas, claro, não conseguiu, sequer chegou perto disso. Não tinha coragem de cortar relações com seu irmão. Não tinha coragem de eliminar as chances de, quem sabe, um dia voltar com Jane. E, com o passar dos anos, com o nascimento dos sobrinhos, o arrependimento pela passividade só crescia.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Você está trabalhando com o que, mesmo?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;E quem se importa?!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;No momento, como corretor de seguros.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;No momento? Quer dizer que você já mudou de emprego muitas vezes?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Ah, sim, muitas... Infelizmente a classe dos idiotas não é muito reconhecida no Brasil...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Pois você poderia vir trabalhar na tv, temos muitos idiotas bem pagos aqui!*risos*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Preferia a morte!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Com certeza já trabalhei em lugares bem piores... Como nunca me formei, e não posso dizer que tenho uma profissão, por isso sempre pulei de trabalho ruim em trabalho ruim. Já fui caixa, office-boy, garçom... Na época em que namorei a Jane que consegui me estabilizar como bancário, mas claro que não durou muito depois que nos separamos...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Que se separaram ou que ela te deu um fora?*muitos risos*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Gordo escroto!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;É, isso, que ela me deu um fora... Numa época de aperto trabalhei até numa carrocinha de cachorro-quente, mas fui demitido...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;-&lt;i&gt; Você conseguiu ser demitido de uma carrocinha de cachorro-quente?*todos riem*&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Sim, conseguiu.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Pois é, consegui. Quer saber como?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Por quê? Pra que contar isso? Para que todos sintam mais nojo do que já sentem dele? É o tipo de história em que se suborna as pessoas para que não contem aos outros, que nunca se conta por vontade própria!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt; Foi num dia em que já havia errado bastante, o dono da carrocinha tinha passado o dia inteiro me dando esporro. Nessa hora ele havia saído para mijar, ou fumar, sei lá, quando derrubei o pote de ervilha. Aparentemente ninguém tinha visto, e eu, já de saco cheio das broncas, empurrei todas as ervilhas da calçada suja para dentro do pote. Algumas com a mão, outras com o pé, mesmo.*todos riem com nojo* Pois é, mas um cliente havia visto, me caguetou, e eu saí de lá tremendo, quase apanhando.&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Ainda evitava passar na região em que ficava a carrocinha, para não correr o risco de encontrar alguém que soubesse do episódio. De tempos em tempos tinha pesadelos com o cliente, o dono da carrocinha, ervilhas, no entanto estava na tv debochando dos próprios medos.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Que maravilha, Lúcio, maravilha... Bem, Lúcio, muito obrig...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Por favor, posso pedir uma coisa antes de acabar? Eu sempre tive uma vontade muito grande de cantar no seu programa...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Cantar?! Cantar?! Mas ele não sabia cantar! A entrevista já ia terminar! Não gostava de cantar nem sozinho, não suportava a própria voz... E a entrevista já ia terminar!&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Tim Maia, pode ser? Do Leme ao Pontal?&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Meu Deus... Por favor, meu Deus...&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;- &lt;i&gt;Do Leme ao Pontaaaaaaaaal... ...Tem nada iguaal... ...Mundôôô-ôôô...&lt;br /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: 12pt;"&gt;Lúcio estava de pé, quase encostado à tv, apavorado com o que via. O Lúcio entrevistado cantava empolgado em sua total desafinação, dançando, animando a platéia. Em casa, Lúcio estava a ponto de chorar. Mas o Lúcio da tv começou a desanimar. Foi cantando mais baixo, a dança foi ficando mais tímida. De repente largou o microfone, olhou para a câmera que o filmava e começou a andar em direção dela. À medida que chegava mais perto, seu rosto mudava. Os cabelos penteados foram se desarrumando sozinhos, o sorriso desaparecendo, a barba parecia ter crescido um pouco, olheiras apareceram. Parou bem de frente à câmera, com espuma na boca. Abaixou a cabeça, cuspiu na pia, guardou a escova, fez a barba, penteou os cabelos e saiu de casa para tentar vender seguros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-8741494830061708164?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/25OPl3O_zsw" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/8741494830061708164/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=8741494830061708164&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/8741494830061708164?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/8741494830061708164?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/25OPl3O_zsw/o-entrevistado.html" title="O Entrevistado" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/07/o-entrevistado.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkYDSH0zfyp7ImA9WxFSGUw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-7084221916845033068</id><published>2010-04-22T03:35:00.000-03:00</published><updated>2010-04-22T03:36:19.387-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-04-22T03:36:19.387-03:00</app:edited><title>Faísca</title><content type="html">Rebeca passeava com os filhos e o marido pelos corredores do shopping lotado, após assistirem no cinema a um desenho animado em 3d que a deixou enjoada. Ela ia de mão dada com o mais novo, Pedro, de cinco anos, e seu marido Otávio com o mais velho, Marcos, de nove. Ia andando distraída, com o pensamento solto, bem mais despreocupada que o normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, mãe, um urso!&lt;br /&gt;- É, é um urso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma mãe dedicada, muito preocupada com a família, o que exigia dela um alto grau de estresse diário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Urso fuma, mãe? Urso fuma?&lt;br /&gt;- Fuma, filho, urso fuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas naquele dia sua mente vagava enquanto andava no meio da multidão, desviando das outras famílias, mal ouvindo o que seu filho mais novo dizia. O relaxamento e a desatenção em que se encontrava pareciam de outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, mãe, um chapéu! Compra um chapéu pra mim, mãe, compra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para o chapéu na vitrine, era um chapéu branco, tipo cowboy, que a fez imediatamente lembrar do Beto Carrero. Lembrou dos anúncios na tv, que sempre terminavam com o nome dele escrito com um chicote. O barulho estranho daquele chicote ficou se repetindo em sua mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compra, mãe, por favor, mãe, compra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela continuou sem responder, ainda pensando no Beto Carrero, o som irritante ecoando em sua cabeça. Tentou lembrar por onde ele andava, já que há muito não o via na tv. Foi então que se lembrou: Ele havia morrido. Nesse momento, foi como se o sangue tivesse saído inteiramente do seu rosto, apertou fortemente a mão do filho, e ficou se segurando para não chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai, mãe! Minha mão!&lt;br /&gt;- Quê? Ah, desculpa.&lt;br /&gt;- Compra, mãe, compra o chapéu, mãe.&lt;br /&gt;- Não, filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele já havia morrido há alguns anos, e na época ela nem deu muita atenção, afinal, a afeição dela pelo Beto Carrero era a mesma da maioria das pessoas, nenhuma. Mas foi só ali que Rebeca se deu conta que nunca mais veria Beto na televisão, nunca mais poderia conhecê-lo pessoalmente se um dia fosse ao Beto Carrero World, e o pior, nunca mais ouviria o som estranho daquele chicote. Irritado pela mãe não ter se irritado com ele, Pedro começou a choramingar alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compra, mãe! O chapéu, mãe! Eu quero, mãe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebeca continuava sem conseguir se importar com o pedido do filho, com o olhar perdido, se segurando para não chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é isso, Rebeca? Porque esse moleque tá chorando?&lt;br /&gt;- Hein? Chorando? Não... Não é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parecia mais triste que o menino, que percebendo o jeito estranho da mãe parou de fazer manha em menos de um segundo. Rebeca não conseguia tirar a falta de Beto Carrero da cabeça, e não entendia por quê. Lembrou-se de quando a mãe morreu, o que aconteceu antes mesmo da morte de Beto, e de como foi ela que cuidou de tudo, consolando os irmãos, permanecendo a mais forte da família. Não se lembrava de ter derramado uma lágrima sequer pela mãe, que ela amava muito, mas agora precisava segurar as lágrimas por um homem que ela sequer conheceu. Aquilo parecia a entristecer e irritar mais ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tá bem, Rebeca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez que sim com a cabeça enquanto mordia os lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai, tô com fome.&lt;br /&gt;- Vamos, vamos comer... Vamos, Rebeca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Otávio deu o braço para que a esposa segurasse, como se ela fosse uma velha, e assim ela foi andando até que eles chegassem a uma mesa no Mc Donalds. Otávio deu dinheiro para que as crianças comprassem o lanche, e sentado com a esposa tentava descobrir o que ela tinha. Mas Rebeca parecia perdida, respondia com monossilábicos, o tempo todo tentando disfarçar a tristeza. As crianças chegaram com os lanches, e Otávio disfarçou a preocupação com a mulher. Pedro abriu a caixa do Mc lanche feliz e tirou o brinde: um cavalinho de plástico, apertava-se o rabo e ele dava um coice. E Rebeca lembrou do cavalo do Beto Carrero. Era um cavalo branco, lindo... Faísca, isso, Faísca, esse era o nome dele. Ele estava sempre com o Beto Carrero, pareciam companheiros inseparáveis. Foi quando o desespero de Rebeca aumentou: O que teria acontecido com Faísca? Onde ele estaria agora? Será que ele suportou a morte de Beto, seu mestre, seu herói? O que fizeram com o pobre animal? Oh, Faísca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faísca!&lt;br /&gt;- Que foi, Rebeca?&lt;br /&gt;- O Faísca, Otávio! O Faísca!&lt;br /&gt;- Mas que Faísca, Rebeca? Tá louca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, Rebeca já não pôde segurar. Caiu num choro desesperado, incontrolável, não conseguia entender a indiferença do mundo com aquele lindo cavalo branco. Levantou e praticamente se jogou em cima do filho, o sacudindo com as mãos em seus ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marcos! Pelo amor de Deus, Marcos, o Faísca! O que fizeram com o Faísca, Marcos, o que fizeram com ele!?&lt;br /&gt;- Eu não sei, mãe, eu juro!&lt;br /&gt;- Me ajuda, Marcos! Pelo amor de Deus, ajuda o Faísca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem ter mais forças, Rebeca caiu no chão, soluçando quase sem conseguir respirar. Otávio a pegou no colo, e foi correndo para o estacionamento, seguido pelas crianças. O shopping todo parou para vê-los passar, Otávio desesperado com a mulher em prantos no colo, Pedro chorando e berrando mamãe tá louca, Marcos branco e tremendo pela agressividade da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebeca passou um ano na cama, em depressão profunda, sem sair de casa. Otávio tentava de tudo, mas nada adiantava. As crianças tentavam falar com a mãe, tristonhas, ela tentava sorrir, mas não conseguia. Não enquanto não soubesse o que havia acontecido com o Faísca. Vários psiquiatras a visitaram, tentando todos os tratamentos possíveis, de Prozac a Effexor ela tomou todos os antidepressivos, nenhum funcionou. Amigos, família, vizinhos vinham conversar com ela, dar palavras de conforto, de carinho, mas só recebiam de volta perguntas sobre o Faísca, pedidos de socorro pelo animal, elogios ao único cowboy genuinamente brasileiro. Não era incomum ela se despedir fazendo o famoso som do chicote com a boca. Otávio então passou a se empenhar em descobrir o paradeiro de Faísca, se ela soubesse que o animal estava bem talvez melhorasse, era um último recurso antes de interná-la num hospício. Depois de várias ligações ao Beto Carrero World, descobriu que Faísca ainda estava no parque, estava bem e não sentia falta do dono, afinal, era só um cavalo. Pediu para falar com o tratador de Faísca, e passou o telefone para Rebeca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rebeca, escuta, é o tratador do Faísca no telefone, Rebeca. O Faísca está bem.&lt;br /&gt;- É mentira.&lt;br /&gt;- Toma, fala com ele.&lt;br /&gt;- Alô.&lt;br /&gt;- Dona Rebeca? Aqui é o tratador do Faísca.&lt;br /&gt;- Hã.&lt;br /&gt;- Ele tá bem, viu? Come bem, bebe água...&lt;br /&gt;- Sei.&lt;br /&gt;- E... Tá bem, faz as coisas que cavalo faz. E inclusive nem sente falta do seu Beto, porque... Porque... Bom, porque é cavalo, né? Bicho burro.&lt;br /&gt;- Quanto meu marido te pagou pra dizer isso?&lt;br /&gt;- Quê?&lt;br /&gt;- Você sabe onde o Faísca está? Você fez alguma coisa com o Faísca?&lt;br /&gt;- Eu? Bom, eu escovo ele, e...&lt;br /&gt;- Mentiroso! Cale a boca, mentiroso! Ele era um cowboy brasileiro, tá ouvindo?! Um cowboy brasileiro! E você, Otávio, o que você está escondendo? Você matou o Faísca, é isso? Matou o Faísca?!&lt;br /&gt;- Rebeca, por favor...&lt;br /&gt;- Sai do meu quarto! Sai do meu quarto!!!&lt;br /&gt;- Mas o quarto também é meu...&lt;br /&gt;- Aaaaaaaahhhhhhh!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia inútil, ela não confiava em mais ninguém. Ele só conseguia pensar em uma última solução antes do manicômio: Trazer o cavalo para que Rebeca o visse. Foram meses de negociações com o parque, gastou todo o dinheiro que tinha, vendeu carro e perdeu o emprego, mas conseguiu fazer com que o cavalo fosse transportado de Santa Catarina para o Rio de Janeiro, onde moravam. As crianças entraram correndo no quarto, e subiram na cama avisando a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mamãe, papai trouxe o Faísca, mamãe, papai trouxe o Faísca!&lt;br /&gt;- Deixa eu dormir.&lt;br /&gt;- É verdade, mamãe, é verdade, o Faísca tá lá embaixo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebeca já estava levantando a mão para dar um tapa nos moleques, quando ouviu seu marido a chamando na rua. Olhou pela janela do sexto andar, e de trás de um caminhão saiu um lindo cavalo branco. Ela não teve dúvida, era mesmo o Faísca. Não teve tempo de sorrir. Percebeu o que havia feito. Por um ano, ficou chorando por um homem que não conheceu, e por seu cavalo. E o tempo todo aquele cavalo estava bem, e agora estava ali. Era apenas um cavalo. Era tão cavalo quanto qualquer cavalo. E por causa de um idiota e seu cavalo, ela fez seu marido, seus filhos, seus irmãos, amigos, sofrerem por um ano. Imediatamente todo o sangue de seu corpo subiu para o rosto. Sentia como se fosse explodir. A extrema vergonha pelo papel ridículo, e a infinita dor da culpa pelo sofrimento que causou eram muito piores que a depressão que sentiu. Precisava de qualquer jeito algo para justificar aquele sofrimento, ou não agüentaria. Pegou o primeiro filho que viu pela frente e atirou pela janela. Teve sorte de ser o Marcos, que só tirava notas baixas na escola. Mas já foi o suficiente para justificar uma depressão maior ainda, dessa vez indiscutível, e Rebeca nunca mais precisou sorrir novamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-7084221916845033068?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/uXerSwFpKSY" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/7084221916845033068/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=7084221916845033068&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7084221916845033068?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7084221916845033068?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/uXerSwFpKSY/faisca.html" title="Faísca" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/04/faisca.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkUMRXY5eSp7ImA9WxBVEUw.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-4173818985734951387</id><published>2010-02-11T02:34:00.001-02:00</published><updated>2010-02-14T01:31:24.821-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-02-14T01:31:24.821-02:00</app:edited><title>Cheiro de Festa</title><content type="html">&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Oito da manhã de sábado, e tocou o telefone. Fazia pelo menos três dias que ele não recebia uma ligação, qualquer ligação, por isso despertou no primeiro toque, e levantou correndo para atender.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Alô?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ô, Ricardo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Como?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ô Ricardo, fala aí!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ricardo? Não, amigo...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Hein? Não é o Ricardo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não, amigo. Desculpa, acho que você ligou errado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ah... Ok.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Por nada, amigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Pensou em dormir de novo, mas não conseguiria. Estava ansioso demais pela festa à noite. Desde um mês antes, quando ela foi à sua mesa convidá-lo, não parava de pensar nisso. Foi uma grande surpresa quando ela o convidou. Em todos aqueles anos trabalhando juntos, ela nunca deu atenção a ele, enquanto ele sempre prestou muito mais atenção do que devia nela. Ela o tratava como se ele fosse inferior, apesar do salário dele ser até um pouco maior. Tocou novamente o telefone. Talvez fosse ela, confirmando a festa. Com as mãos um pouco trêmulas, atendeu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- A-alô?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- É... O Ricardo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não, amigo... Engano novamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ah... Ok.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Sem problema, amigo, sem problema!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;E como poderia se irritar? A última vez em que recebera mais de uma ligação no mesmo dia havia sido no seu aniversário. Voltando ao assunto, ele levou um susto quando a viu andando em direção à sua mesa, olhando em seus olhos, e sorrindo, mesmo que de leve e meio forçadamente, perguntando se ele gostaria de ir à sua festa. E ele se perguntava por que ela o convidou... Bem, ela convidou todos da firma, devia estar de olho em alguma promoção... Mas não importava, só o fato dela ter pensado nele já o enchia de alegria, e esperança. Talvez a partir daquela noite a relação deles mudasse, e ela deixasse de ignorá-lo. Talvez ela estivesse disposta a mudar. Mas para isso aquela noite precisava ser perfeita, e ele precisava causar uma boa impressão. E nisso ele considerava muito importante o presente. Passou dias inteiros pensando no que dar. Não poderia ser nada muito caro, pareceria assédio. Tampouco algo muito barato, pareceria desleixo. Ao mesmo tempo, queria algo que a fizesse lembrar dele. Acabou optando por um perfume. Falou com a irmã, que revendia Natura, e comprou um que cheirava a morango. Então todas as vezes que ela usasse o perfume se lembraria dele... Sim, era um grande presente. Olhou para o relógio, ainda eram onze horas. A festa só começaria às oito. Foi se barbear.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Agora eram sete e meia. Estava saindo do banho. Se olhou no espelho, e decidiu se barbear novamente. Sua roupa estava esticada na cama, já a havia escolhido há três dias. Queria algo que o deixasse elegante, sociável, mas que ao mesmo tempo não tirasse o brilho da dona da festa. Acabou escolhendo algo muito parecido com o que usava para trabalhar todos os dias, não tinha muitas roupas diferentes. Se vestiu com cuidado, deu uma engraxada rápida nos sapatos, pegou o presente e saiu. Não percebeu que estava chovendo antes de sair de casa, ficou cerca de três minutos na chuva esperando um táxi, se molhou um pouco. Cerca de quinze minutos mais tarde chegou ao salão de festas. A primeira coisa que notou ao entrar foi que as pessoas estavam vestidas bem mais casualmente do que ele. Continuou andando e a procurando com o olhar. A achou conversando em uma roda de amigos. Estava de pé, e um homem sentado tinha o braço ao redor de sua cintura. Ela nunca contou que tinha um namorado. Claro, ela nunca contava nada a ele, mas mesmo assim... Aquilo não estava nos seus planos. Não se deixou abalar, e continuou andando na direção dela. Ela estava bem mais bonita que de costume. Ele, por sua vez, tinha a roupa um pouco molhada pela chuva, as marcas dos pingos nos ombros, e a mistura de gel e água deixou seu cabelo com uma aparência estranha. Tinha algumas gotinhas de sangue no rosto pela última barbeada. Chegou ao grupo de amigos e parou do lado de fora da roda, esperando uma oportunidade para falar. Depois de cerca de um minuto ela percebeu a presença dele. Todos haviam parado de falar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Oi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Oi... Parabéns.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ah, obrigada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Eu... Trouxe um presente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Estou vendo, obrigada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Todos na roda olhavam para os dois, em silêncio. Ele continuou imóvel, olhando para ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Você... Quer que eu abra?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Bem, eu...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Vamos ver... É um perfume?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Sim, um perfume. Eu fiquei em dúvida em qual presente te dar, fiquei pensando no que você gostaria, tentando adivinhar... Aí lembrei que você anda sempre muito cheirosa, quer dizer, não que eu conheça... Bem, quando eu passo por você eu sinto um cheiro... Bom. Por isso imaginei que você gostasse de perfumes, e como vi você comendo morangos uma vez, achei que você gostasse de morango, então...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Nesse momento o namorado, que até então estava segurando o riso, não agüentou mais e o soltou, virando o rosto para o lado. Outros também riam disfarçadamente, ou nem tanto, com um copo na frente da boca, tapando o rosto com as mãos, ou mesmo abaixando a cabeça na mesa. Ela mesma estava claramente tentando se controlar, quase engasgada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Tudo bem, obrigada... Pelo perfume de morango.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Ele fingiu um riso amistoso, e se virou, e enquanto se afastava da mesa ouvia as risadas cada vez mais altas dos amigos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Puta que o pariu, perfume de morango!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Meu Deus, que idiota!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Chega a ser inacreditável!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Se sentou o mais longe possível dela, em um lugar do salão onde não podia vê-la. Pegou tremendo um copo de cerveja, ele que nunca bebia. Decidiu que ficaria ali, sozinho, até que a festa terminasse. De vez em quando passava algum conhecido do trabalho, e o cumprimentava, ou apenas acenava com a cabeça, às vezes uma conversa rápida, às vezes fingiam que não o conheciam. E ali ele ficou, bebendo, até que, na terceira cerveja, pôde vê-la de onde estava. Estava de pé com o namorado, conversando com uma pessoa que ele não conhecia. Decidiu ir até ela. O namorado o viu chegando, e a cutucou, já com um sorriso no rosto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Oi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Oi...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Se você quiser pode trocar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Oi?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- O perfume. Se você não gostou pode trocar, não tem problema. Minha irmã me vendeu, ela vende Natura, eu posso falar com ela, se você quiser, e...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Tá tranqüilo, Moranguinho!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Foi o namorado quem disse, rindo. A terceira pessoa riu também. Dessa vez ela não conseguiu se segurar, e riu tanto quanto os outros. Pelo menos ele não precisou disfarçar e se afastar, eles saíram de perto antes. Voltou para a mesa, e virou o quarto copo. No quinto estava na hora do parabéns. Foi com os outros para perto da mesa do bolo. Ele nunca a vira tão bonita quanto naquele momento, talvez pela ajuda do álcool que ele não estava acostumado a beber.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Parabéns pra você...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Ela estava muito feliz, ao lado dos pais e do namorado. Não parecia a moça que pouco ria no escritório.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- É big, é big...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Foi uma bela cena para ele vê-la fechando os olhos e assoprando as velas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Com quem será...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Percebeu, apesar do estado etílico, que o namorado e alguns amigos próximos pareciam olhar para ele, de um jeito debochado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- ...Vai depender, SE O MORANGUINHO vai querer...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Todos que entenderam a piada caíram na risada. Ela também, sem disfarçar. A reação dele foi acompanhar o riso, e riu muito, e alto, uma gargalhada estranha, descontrolada, que fez com que a maioria que estava na festa olhasse para ele, ela inclusive. Depois disso, não esperou que cortassem o bolo, e foi o primeiro a ir embora. Nunca se odiou tanto. Pensava em como era otário, um mês ansioso por aquela noite, por causa dela, um mês se preparando, preocupado para que tudo desse certo, procurando o presente perfeito, a roupa perfeita, as palavras perfeitas, para que ela lhe desse pelo menos um sorriso, talvez um abraço, na melhor hipótese um beijo. Mas ele fracassou, fracassou totalmente, como sempre fracassava, e o que era pra ser um sorriso virou deboche, escárnio, humilhação. Nunca se odiou tanto. Chegou na saída do salão de festas. Era uma espécie de portaria, mas sem porteiro. Apenas um corredor estreito e a porta de saída. Abaixou a braguilha da calça e começou a mijar. Mijou nas paredes, no chão, e depois de cinco cervejas, conseguiu formar uma bela poça. Então, quando aquela vaca passasse por ali, não teria como ignorar o cheiro dele. Passou anos o ignorando no escritório, o ignorou e o humilhou na festa, mas agora seria impossível ignorar o forte cheiro de urina, urina dele. E provavelmente ela pisaria no seu mijo, e, nas solas dos sapatos, o levaria para impregnar também a sua casa. Não importava se ela não soubesse que o mijão era ele, aquele ato já o deixou satisfeito. Deu um tapinha nas próprias costas e voltou para casa a pé, feliz, orgulhoso dele mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Ela não passou pela portaria, é verdade. Saiu de carro pela garagem, como a maioria dos convidados. Acho até que a única pessoa a reparar no mijo foi a faxineira, e só no dia seguinte. Mas não importava, pois naquela noite ele dormiu satisfeito consigo mesmo, como há muito não dormia, e teve uma noite cheia de sonhos bons, como há muito não os tinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-4173818985734951387?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/sw9uCmyXWgA" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/4173818985734951387/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=4173818985734951387&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4173818985734951387?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/4173818985734951387?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/sw9uCmyXWgA/cheiro-de-festa.html" title="Cheiro de Festa" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/02/cheiro-de-festa.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ak4MSH88fCp7ImA9WxBWFEo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-5374746816589918599</id><published>2010-02-06T15:55:00.000-02:00</published><updated>2010-02-06T15:56:29.174-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2010-02-06T15:56:29.174-02:00</app:edited><title>Metamorfonia</title><content type="html">&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;A metamorfonia é um transtorno mental delirante, em que o indivíduo acredita ter se transformado em algo ou alguém de forma espontânea. A doença pode durar de alguns minutos a uma vida inteira. As causas do transtorno são ainda desconhecidas, podendo afetar qualquer pessoa, apesar de estudos recentes indicarem que homens com mocoronguisse aguda são os mais afetados pelo transtorno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Manifestações do Transtorno&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;O transtorno surge quase sempre de forma espontânea e inesperada, tanto pelo indivíduo quanto pelos que estão à sua volta. Geralmente o objeto de transformação é algo no campo de visão da pessoa. É comum o sujeito estar sentado em casa, por exemplo, e acreditar ter se transformado em uma televisão, ou andando pela rua acreditar se transformar num carro, sair da calçada, ir para o meio da rua correndo de quatro e fazendo vrum-vrum com a boca. A metamorfonia automobilística é hoje a terceira maior causa de atropelamentos do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Tipos Mais Comuns de Metamorfonia&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Solar: Surge quase sempre ao ar livre, em dias quentes e de sol forte. Nessa metamorfonia, a pessoa acredita ser o sol e, com isso, ser a responsável por iluminar o planeta. É comum os que sofrem desse tipo de transtorno colocarem o relógio para despertar às seis da manhã, acreditando que se não acordarem podem ser os responsáveis pelo dia não começar. Ao amanhecer, saem pela rua na ponta dos pés, para ficarem mais perto do céu, e passam o dia inteiro andando e espalhando luz para todos, sempre de modo altivo e orgulhoso, esperando agradecimentos dos que passam por eles. Ao anoitecer, voltam para casa acreditando que foram eles que escolheram ficar no escuro até o dia seguinte. É freqüente o uso compulsivo de filtro solar, pelo medo das possíveis queimaduras de raios ultravioletas emanados do próprio corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Aviária: A mais comum das metamorfonias. Aqui, o sujeito acredita ter se transformado em um pássaro. Todos com esse tipo de metamorfonia acreditam voar, com algumas variáveis. Alguns correm batendo os braços ao mesmo tempo, às vezes mantendo eles abertos como se estivessem planando, e acreditam assim estar voando, mesmo que rente ao solo. Outros deitam-se no chão, com o rosto virado para baixo, e batendo os braços também acreditam estar voando, mesmo que num ultra rasante extremamente lento, ou parado. A ingestão de insetos e minhocas é comum, assim como a criação de ninhos para cuidar de pedras, bolas, moedas, ou mesmo ovos de galinha, como se fossem ovos colocados por eles mesmos. Por acreditarem voar, muitos se jogam de prédios ou precipícios, tornando a metamorfonia aviária a segunda maior causa de suicídio involuntário do mundo, perdendo apenas para a prática de esportes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Familiar: Aqui o sujeito acredita ter se transformado em um parente próximo, da própria mãe a avós, filhos, e até esposa ou marido. Esse tipo de metamorfonia costuma durar pouco tempo, pelo paradoxo de existirem, por exemplo, duas mães na mesma família, o indivíduo sendo mãe e filho ao mesmo tempo, esposa e filho do pai, mãe e irmão dos irmãos, etc. A convivência com pessoas com esse transtorno se torna muito desgastante, especialmente em casos de maridos se transformando na própria esposa, em que a imitação muitas vezes é tão perfeita que acaba sendo vista como escárnio pela mulher, o que quase sempre termina em divórcio, ou mesmo assassinato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Personalidades Com Metamorfonia&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Jack Hardy – Famoso bandido norte-americano do começo do século XX, acreditou ter se transformado em um crocodilo ao ver o animal da janela de sua cela. Por não reconhecer os próprios braços e pernas, os devorou em apenas uma noite, deixando apenas cotocos do tamanho dos membros do crocodilo. Encontrado sangrando muito pelos carcereiros no dia seguinte, foi levado para o hospital, e conseguiu sobreviver. Sua metamorfonia acabou pouco tempo depois, e seu caso se tornou comoção nacional, com todos pedindo pelo perdão de seus crimes e sua liberdade. Após alguns meses, recebeu o perdão oficial do governador, o que se mostrou um erro, pois no mesmo dia em que foi solto Jack Hardy devorou duas vacas e a filha do prefeito, sendo condenado à morte. A história de que o governador usou o couro de Jack Hardy para fazer uma bolsa e dar como presente de aniversário de casamento para a esposa nunca foi confirmada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Silvinha Flores – Atriz brasileira de fotonovelas na década de cinqüenta. Fez muito sucesso com as fotonovelas “A Namoradinha Atrapalhada”, de 1955, e “A Favorita do Patrão”, de 1956. Muito vaidosa, Silvinha era capaz de passar horas na frente do espelho, e sua vaidade só aumentava com o sucesso, até que, em 1957, acreditou ter se transformado em espelho. Foi encontrada pela família parada em frente ao espelho, refletindo a imagem que o mesmo refletia. A partir daí, imitava os movimentos de qualquer um que tentasse interagir com ela, exatamente como um espelho faria. Seu caso tornou-se famoso nas revistas de fofocas, e o número “Silvinha”, em que se copiava movimentos de outras pessoas, tornou-se comum entre os comediantes da época. Saiu do estado metamorfoníaco em 1960, e tentou retomar sua carreira de atriz, mas sem sucesso, há esse ponto ela já era uma piada nacional. Para sobreviver, passou a interpretar o quadro “Silvinha” em teatros e no largo da Carioca. Morreu aos 42 anos, em decorrência do forte alcoolismo, e em estado bastante deplorável, por nunca mais ter se olhado em um espelho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Johnny Jenkings – Guitarrista inglês da banda de rock dos anos 60 The Crashers. Durante um show em Londres, em 1967, Jenkings subitamente parou de tocar, colocou &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;sua guitarra no chão e se jogou na platéia, sendo carregado por praticamente todo o público. Ao ser colocado do volta ao palco, continuou deitado, de barriga para baixo, batendo os braços. Inicialmente todos continuaram aplaudindo, parecia ser a melhor noite da banda. Mas Jenkings não se levantava nem parava de bater os braços, e aos poucos o público foi parando de aplaudir, e a banda parando de tocar. Os integrantes do The Crashers foram acudir Jenkings, mas esse não respondia a nenhum estímulo. A platéia passou a se irritar, deixando o show e pedindo o dinheiro de volta, pensando que a situação de Jenkings era excesso de ácido, quando na verdade era metamorfonia aviária. A partir daí Jenkings foi substituído no The Crashers, e passou a viver isolado do mundo, até que, aos 27 anos, foi encontrado morto em casa, em cima de seu ninho, por overdose de heroína.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Tratamento&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight:normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Por ser um transtorno de diagnóstico relativamente difícil, a metamorfonia pode ser confundida com a esquizofrenia. Pacientes com metamorfonia tratados com remédios para esquizofrênicos costumam ter sua situação piorada, com a metamorfonia durando mais tempo, e até adquirindo dois ou mais tipos da condição de uma vez. Pelas causas desconhecidas da doença, não existem remédios próprios para a metamorfonia. Placebos costumam ser usados com certo sucesso, sendo a metamorfonia a única doença do mundo em que homeopatia realmente funciona, apesar de estudos recentes mostrarem que balinhas Tic-tac dadas como remédio terem efeito maior nos metamorfoníacos que remédios homeopáticos. O álcool também é usado por muitos médicos para a cura da doença. Nesse caso, sentam o paciente em uma mesa de bar e o obrigam a beber, até que, em meio a lágrimas e declarações de amor, o paciente percebe que não é o que pensa ser, e volta ao normal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-5374746816589918599?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/QT7uXv-0ltw" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/5374746816589918599/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=5374746816589918599&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5374746816589918599?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5374746816589918599?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/QT7uXv-0ltw/metamorfonia.html" title="Metamorfonia" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2010/02/metamorfonia.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEIFR3c5eip7ImA9WxNbF0k.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-3493817989387694892</id><published>2009-11-20T16:41:00.001-02:00</published><updated>2009-11-20T16:41:56.922-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-11-20T16:41:56.922-02:00</app:edited><title>O Velho e o Puma</title><content type="html">&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;O velho estava deitado em sua cama, virado para a parede, quando ouviu um barulho alto e próximo no matagal. Sentiu que algo entrou pela janela. Virou-se, e, ainda deitado, percebeu algo grande sentado à sua frente, apesar do escuro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- O que é isso? Uma onça?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não. Sou um puma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- O tênis?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não. O animal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Ah.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Estava quase virando para o outro lado para voltar a tentar pegar no sono, mas tinha um puma sentado em seu quarto, e ele achou melhor continuar a conversa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- E... O que você quer aqui?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Vim para lhe dizer a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Obrigado, mas eu já tenho minha verdade. Não preciso da dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Mas não existe verdade dos outros. Só existe uma verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Se a verdade não é minha, é dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Mesmo um pouco assustado, o velho continuava deitado de lado, olhando para o puma, apesar do escuro. O puma olhava para ele já um pouco irritado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Eu sou um puma e estou falando com você. Por acaso isso fazia parte da sua verdade?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Por que não? Minha mulher era uma jamanta e falou sem parar por mais de 60 anos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Haha...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;A piada sem graça e o riso do puma aliviaram um pouco a tensão, e por um momento era quase como se fossem amigos. Mas isso acabou depois de um período de silêncio constrangedor, e voltou a seriedade na voz do puma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Você sabe que, se eu quisesse, poderia te devorar agora mesmo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não pode, não.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Como não? Eu sou um puma!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Puma não mata ninguém. Onça mata, puma não mata ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- E de onde você tirou isso?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Em 71 anos, já vi muita onça atacar gente. Puma não. Puma é bichinho bicha que não ataca ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- E por acaso você já tinha visto um puma antes?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Então como pode dizer que...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Se puma matasse gente, depois de 71 anos de vida eu já teria visto um puma matando gente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Mais isso não é a verdade!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- É a minha verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Não era esse tipo de conversa que o puma esperava. Esperava mais veneração, por ser um puma falante que trazia a verdade. Estava perdendo a paciência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- E se eu te atacar? Sua verdade vai mudar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Você não vai me atacar, porque é bichinho bicha. Minha verdade não muda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;O puma abriu a boca para dizer alguma coisa, ou até para atacar o velho, mas desistiu. Continuou sentado, pensando no que dizer. O velho estava ficando cansado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Você vai ficar aí sentado?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Eu.. preciso dizer a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Eu já tenho a minha, já disse. Verdade dos outros não me interessa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não é dos outros. É a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Já disse que se não é minha é dos outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- E se eu te disser mesmo assim?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Não vai dizer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;E o velho puxou a pistola que guardava na gaveta da mesinha de cabeceira. O puma se assustou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Entendo... eu só achei que o senhor... Quer dizer, é a verdade...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Eu já sei a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Bem, quer dizer... Tudo bem, eu já vou. Sinto muito que o senhor...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Boa noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Boa noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;E, com um pulo sobre a cama do velho, o puma saiu pela mesma janela em que entrou. Enquanto o velho colocava a arma de volta no lugar, percebeu um cagalhão do tamanho de uma codorna no chão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;- Filhos da puta... Entram na sua casa para cagar no chão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="mso-ansi-language:PT-BR"&gt;Virou para o lado da parede, e dormiu com um lençol sobre o rosto para não sentir o cheiro da bosta, que deixou para limpar no dia seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-3493817989387694892?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/Y606evjaupM" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/3493817989387694892/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=3493817989387694892&amp;isPopup=true" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3493817989387694892?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3493817989387694892?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/Y606evjaupM/o-velho-e-o-puma.html" title="O Velho e o Puma" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/11/o-velho-e-o-puma.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ck8MRXo4cSp7ImA9WxNWGUo.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-5401859342946028593</id><published>2009-10-19T04:33:00.002-02:00</published><updated>2009-10-19T14:48:04.439-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-10-19T14:48:04.439-02:00</app:edited><title>A Batida</title><content type="html">Um era um Corcel 78. Ele era o 2º dono. Comprou o carro em 81, quando se aposentou, com o dinheiro do fundo de garantia. Era um Corcel I, Luxo, na época um grande carro. Foi boa parte do dinheiro do fundo nele. Lembra a primeira vez que chegou em casa com o carro, e como sua mulher quase o matou. A casa caindo aos pedaços, e ele gastando dinheiro em carro? Mas, para ele, comprar aquele carro era indispensável. Muitos anos num trabalho duro que pagava pouco, que para ele parecia totalmente inútil, e para o resto do mundo também. Não era o trabalho que ele queria, sempre sonhou com algo que o deixasse rico, feliz, mas aquele era um emprego estável, apesar do salário medíocre, e com mulher e filhos para bancar não podia arriscar. Quando se aposentou, os filhos já estavam crescidos, todos com vida própria, todos com empregos melhores que o dele, morando longe, alguns já com família. Ele precisava gastar aquele dinheiro com ele mesmo. E gastou no Corcel, na época um grande carro. Tinha bancos de couro. Mas a mulher por muito tempo não o deixou em paz por isso. Na verdade ela nunca o deixava em paz. Desde que ele se aposentou, e começou a passar os dias em casa, a convivência ficou bem mais insuportável. Para a mulher também. Estava acostumada a passar as tardes sozinha, e agora aquele velho ficava o dia inteiro ali, estático, na frente da tv. Então o que ela fazia era falar. Falar de tudo, o tempo todo. Foi quando ele começou a beber. No início comprava cerveja e levava para casa, para beber enquanto assistia tv e ouvia a velha tagarelar. Depois passou a não suportar mais a velha falando o tempo todo, e começou a ir beber fora. Isso só fez aumentar as reclamações, o que só fez com que ele bebesse ainda mais. E é isso que ele passou a fazer desde então, beber. O que mais ele tinha a fazer? Foi ele quem sustentou aquela família por mais de trinta anos, era ele quem sustentava aquela velha, e era com o dinheiro da aposentadoria dele que pagava a bebida, não devia satisfação a ninguém. E todos ficavam contra ele, a velha, os filhos, cunhadas, sobrinhos. Mas qual era a outra opção? Ficar em casa? Sóbrio? Pra quê? Ele sabia que isso só pioraria tudo. Ele só passaria a se irritar mais ainda com ela, e sem o alcoolismo ela perderia o principal motivo para reclamar dele. E sem poder reclamar ela cairia em depressão, ela provavelmente precisava mais disso do que ele da bebida. E agora, só porque ele reclamou, com razão, mesmo que bêbado, de como a macarronada que ela havia feito no dia anterior estava grudenta, seca e sem gosto, ela ameaçava o expulsar de casa? Mesmo que ele tenha dito gritando, avisando que não comeria aquela merda requentada no microondas, ela não tinha o direito de o querer tirar de casa. Foi ele quem construiu aquela casa, com o salário de merda do emprego que ele odiava, que ele sabia que nunca o levaria a lugar nenhum, mas em que permaneceu para sustentar aquela família. Saiu de casa depois da discussão e foi beber mais. Voltou tarde e dormiu no sofá. Quando acordou, no dia da batida, tomou o café que a velha preparou, sem ao menos olhar em seu rosto, e saiu logo em seguida. Pegou o Corcel e estava indo a um bar de um amigo no centro. Precisava beber, desabafar, para não explodir. Nunca sentiu tanta vontade de beber como naquela manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro era um carro japonês. Mas não desses pequenos, econômicos e quase baratos. Era um daqueles exageradamente grandes, nada econômicos e ridiculamente caros. Havia comprado há dois meses, depois de muitas discussões em família sobre qual carro substituiria a Mercedes, que ele teve por seis anos, e que gostava muito. Por ele não trocaria tão cedo aquele carro, mas a mulher e os filhos viviam reclamando de como estava velho, ultrapassado, de como ele não trocava nunca o carro, era quase vergonhoso ir para os mesmos lugares há seis anos com o mesmo carro. Mesmo sem concordar, ele aceitou a decisão familiar. Não gostava daquele carro japonês. Sentia ter pagado um preço gigantesco por pedaços de plástico. Além de não se sentir bem naquela espécie de jipe bicha. Não parecia um carro de verdade. Mas não podia dizer não à família. Se eles não se sentiam bem perante os amigos andando em um carro de seis anos, era seu dever de pai trocá-lo, mesmo que não quisesse. Não conseguia dizer não principalmente à mulher. Era trinta e cinco anos mais nova. Ele não disse não quando, após seis meses de casamento, ela quis fazer inseminação artificial. Já estava tentando engravidar a algum tempo, mas não conseguia. Ele aceitou, pagou um preço mais alto que por seu carrinho japonês pelo tratamento, e alguns meses depois nasceram os gêmeos. Agora, pelos filhos, a herança estava garantida, não tinham como tirar isso dela. Herança para dividir com a outra filha que ele tinha, mais velha que a esposa. Raramente a via. Sentia falta dela, mas ela e a sua esposa não se davam bem, então ele evitava contato o máximo que podia, para evitar brigas em casa. Depois que os gêmeos nasceram as despesas aumentaram bastante. Tanto com as crianças quanto com a mulher. Tinham aulas de tudo. Tênis, inglês, balé, futebol, natação, bafo, pique-esconde. O professor de futebol de botão ia a sua casa duas vezes por semana. Lembrava de quando era criança, e só o que precisava era de um pedaço de pau e insetos para se divertir. E uma caixa de fósforos. Mas agora parecia que as crianças não podiam se divertir com nada que não fosse pago, de preferência caro. E a mulher precisava de ainda mais. Um carro trocado anualmente, motorista, roupas novas sempre, o clube, o almoço diário em restaurantes com as amigas, as plásticas. A consciência que ele tinha de que ela estava com ele apenas por seu dinheiro, era a mesma que ela tinha de que ele só estava com ela por sua beleza. Portanto, ele não podia reclamar do dinheiro gasto com plásticas. Apesar da cara dela estar ficando cada vez mais estranha. Quando a via tinha sempre a impressão de que ela tinha acabado de sair de uma cirurgia com anestesia geral, as bochechas meio inchadas, os olhos sem expressão, a pele sem vida. O silicone tornou os peitos dela mais duros que o pau dele. A juventude e a beleza eram as únicas coisas que ela tinha a oferecer a ele, e as duas coisas já estavam quase totalmente destruídas. Por outro lado, só o que ele tinha a oferecer era dinheiro, e seus negócios não estavam nos melhores dias. Ela não fazia a menor questão de esconder o quanto o dinheiro era importante, nem de mostrar o quanto seria trágico se desfazer de qualquer um de seus luxos. Muitas vezes antes de dormir ela rezava alto, e pedia a quem quer que fosse para ajudar seu marido a fechar aquele lucrativo negócio, a fazer com que ele prosperasse cada vez mais, era muito necessário que os maus tempos financeiros acabassem de vez, por favor, amém. E ele sentia vontade de matá-la. Mas não dizia nada, ao invés trabalhava ainda mais, e se estressava ainda mais, e fazia qualquer coisa necessária para conseguir mais dinheiro. Não ousava pedir para a mulher e os filhos que cortassem qualquer gasto que fosse. Nunca dizia não quando o assunto era dinheiro, mesmo que estivesse no vermelho. Cada vez mais tinha a certeza de que nenhum deles se importaria se ele morresse, desde que deixasse a herança e investimentos seguros para que seguissem com seus luxos. E sua mulher não demoraria muito para achar outro marido. Um mais velho e mais rico se o dinheiro estivesse apertado, um novo e não necessariamente rico se estivesse sobrando. E ele se perguntava por que se casou com ela. E se lembrava de como quase não se preocupava com dinheiro depois que se divorciou da primeira mulher e ficou solteiro por um tempo. Pouco tempo. Foi quase feliz naquela época, mas não aguentava viver sozinho. Não se sentia bem sozinho. Mesmo que agora o único sentimento que tivesse pela família fosse de obrigação. E de raiva por quase todo o resto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi numa rua muito movimentada que os dois bateram. Eram 7:45 da manhã, e havia muita gente indo para o trabalho. O carro japonês deu uma freada brusca quando o sinal ficou vermelho, e o freio de 30 anos do Corcel I luxo não foi forte o suficiente para evitar a batida. Foi uma batida leve. Só uma pequena amassada no pára-choque de metal do corcel, e uma pequena rachadura no pára-choque de plástico do carro importado. Os dois saíram furiosos dos carros. O do Corcel perguntou por que o do japonês freou daquele jeito se o sinal ainda estava amarelo, o do japonês respondeu que amarelo era o caralho, estava no vermelho, que a culpa era o do Corcel por andar com aquela merda velha pelas ruas, dando prejuízo para os que andavam em carros decentes, o do Corcel argumentou que não trocaria seu carro velho por aquele jipe de bicha que custava muito mais do que valia, carro de bicha é a puta que o pariu, puta que o pariu é o caralho, você vai pagar essa porra, pagar porra nenhuma, vai se fuder. Os dois se olharam, e, numa decisão simultânea, entraram em seus carros, abriram o porta-luvas e sacaram cada um sua arma. Uma velha e enferrujada, a outra nova e brilhosa. Até aí já havia muitos que pararam na rua para assistir a cena. Todos olhando, das calçadas, das janelas dos prédios, espremidos nas janelas dos ônibus. Alguns escolhiam um lado para torcer, a maioria torcendo pelo Corcel, que era um carro mais simpático, engraçado, até. E um apontava a arma pro outro, e se entreolhavam e ameaçavam atirar, quando de repente ouviram um barulho muito alto, como uma explosão de gás. Imediatamente todos desviaram os olhos deles, e viraram para o lado dos prédios, olhando para baixo. Uma roda se formou na calçada. Todos se esqueceram completamente dos dois. Eles imediatamente perceberam a situação, e, sem se olharem ou trocarem palavra, entraram em seus carros, guardaram as armas e foram embora, cada um pro seu destino. É difícil competir com um suicida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-5401859342946028593?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/wD3Yk-4hz4E" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/5401859342946028593/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=5401859342946028593&amp;isPopup=true" title="4 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5401859342946028593?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5401859342946028593?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/wD3Yk-4hz4E/batida.html" title="A Batida" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>4</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/10/batida.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUMCR3w4eSp7ImA9WxNRF0U.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-1702990113354311823</id><published>2009-09-12T14:47:00.003-03:00</published><updated>2009-09-12T17:31:06.231-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-09-12T17:31:06.231-03:00</app:edited><title>Angústia^^</title><content type="html">&lt;p&gt;Ah, aquele sentimento mágico, lugar nenhum pra ir...&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O quase-grito que não sai, a falsa dor de barriga , o cérebro querendo sair pelos olhos... É a angústia, amigos, essa sensação que todos conhecemos tão bem. Quer dizer, nem todos. Por isso trago com exclusividade essa bonita seleção de embrulhar o intestino delgado(e ele já não é embrulhado?). Do (então) destruído John Frusciante ao bipolar Frank Sinatra, 13 músicas para estragar seu fim de semana, ou o resto de sua vida. Um bom placebo para os perturbados, um curioso passatempo para os normais e os felizes, e certamente algo educativo para as crianças, que poderão aprender como os derrotados se sentem. Professores, sintam-se livres para tocar esse arquivo em sala de aula.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sem mais, não divirtam-se.&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;John Frusciante - Enter a Uh&lt;/li&gt;&lt;li&gt;The Beatles - Yer Blues&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Bukka White- Fixin' To Die Blues&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Neil Young - Mellow My Mind&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Mad Season - Wake Up&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Son House - Death Letter&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Jimi Hendrix - Machine Gun&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Charley Patton - Poor Me&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Iggy Pop - Mass Production&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Syd Barrett - Dark Globe&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Charlie Parker - Lover Man&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Slint - Good Morning, Captain&lt;/li&gt;&lt;li&gt;Frank Sinatra - Where or When&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://fpdownload.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=8,0,0,0" width="335" height="28" id="divplaylist"&gt;&lt;embed src="http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=8484559-f89" width="335" height="28" name="divplaylist" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://www.divshare.com/download/8484559-f89"&gt;Download&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-1702990113354311823?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/F_58J32c9jM" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/1702990113354311823/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=1702990113354311823&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1702990113354311823?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1702990113354311823?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/F_58J32c9jM/angustia.html" title="Angústia^^" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/09/angustia.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CEYBQXw-eSp7ImA9WxNTGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-7249497372041441597</id><published>2009-08-20T17:53:00.006-03:00</published><updated>2009-08-20T18:02:30.251-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-08-20T18:02:30.251-03:00</app:edited><title>Gaivota</title><content type="html">&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_7wM1osmSgj8/So25cW7kOoI/AAAAAAAAAEk/fWNIUDVV-hI/s1600-h/Untitled-2.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 135px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_7wM1osmSgj8/So25cW7kOoI/AAAAAAAAAEk/fWNIUDVV-hI/s400/Untitled-2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5372153827365763714" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-7249497372041441597?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/XrGAq-Yg-R0" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/7249497372041441597/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=7249497372041441597&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7249497372041441597?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/7249497372041441597?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/XrGAq-Yg-R0/gaivota.html" title="Gaivota" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://1.bp.blogspot.com/_7wM1osmSgj8/So25cW7kOoI/AAAAAAAAAEk/fWNIUDVV-hI/s72-c/Untitled-2.jpg" height="72" width="72" /><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/08/gaivota.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DEQMQHo5eCp7ImA9WxJbGEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-5239146672246907887</id><published>2009-07-29T16:38:00.001-03:00</published><updated>2009-07-29T16:39:41.420-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-07-29T16:39:41.420-03:00</app:edited><title>Eu Estou Apodrecendo</title><content type="html">- Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo. Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, eu, apodrecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou dizendo isso involuntariamente junto com o primeiro bocejo. Confuso, foi ter com sua mulher na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Querida, eu estou apodrecendo! Eu, eu, apodrecendo! Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo!&lt;br /&gt;- Eu sei. Café?&lt;br /&gt;- Apodrecendo... Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo! A-po-dre-cen-do!&lt;br /&gt;- Eu sei, querido, eu sei... São 8:30, melhor sair agora eu vai chegar atrasado no trabalho. Falou sobre aquele aumento com seu chefe?&lt;br /&gt;- Apodrecendo...&lt;br /&gt;- Pois é... Café?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi trabalhar naquele dia. Se vestiu e foi ao psiquiatra, sem tomar o café. No caminho não conseguia parar de repetir que estava apodrecendo. Apodrecendo. E pela rua alguns ouviam e o olhavam com certa estranheza, algumas com nojo, outras achando graça, mas a maioria com indiferença, concordando com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor tem hora marcada?&lt;br /&gt;- Eu... Eu estou apodrecendo, apodrecendo!&lt;br /&gt;- Certo... Plano de saúde ou particular?&lt;br /&gt;- Apodrecendo...&lt;br /&gt;- Ok. Aguarde que o doutor já vai atendê-lo.&lt;br /&gt;- Apodrecendo...&lt;br /&gt;- Por nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado na sala de espera, ao lado dos outros pacientes, continuava repetindo a mesma coisa. E os bipolares, suicidas, esquizofrênicos, olhavam para ele e concordavam com o que dizia, sem darem maior importância. A revista veja de 2003 tremia em suas mãos, e enquanto a fingia ler tentava dizer seu mantra mais baixo, sussurrando, mas não podia. Saía sempre num tom suficientemente alto e claro para que todos pudessem ouvir, principalmente ele mesmo. Cerca de uma hora depois o doutor o mandou entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia, senhor.&lt;br /&gt;- Apodrecendo.&lt;br /&gt;- E qual é o seu problema.&lt;br /&gt;- Apodrecendo, doutor, apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo!&lt;br /&gt;- Entendo...&lt;br /&gt;- Eu, eu, apodrecendo, eu, apodrecendo! Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo!&lt;br /&gt;- Certo. Bem senhor, isso é a verdade. Não tem nada que eu possa fazer. Dizer a verdade não é doença.&lt;br /&gt;- Apodrecendo...&lt;br /&gt;- Pode ir, está liberado. Não precisa pagar a consulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O doutor apertou sua mão com certa irritação por ter perdido seu tempo à toa com aquele homem perfeitamente saudável. Ou perturbados da sala de espera também o olharam com reprovação, por aquela espécie de gente normal estar ocupando o lugar deles no psiquiatra. Voltou para casa se sentindo confuso. Sua mulher havia saído, estava sozinho. Foi ao banheiro e se olhou no espelho. Estava ficando careca. Seu corpo parecia mais fraco. Seus olhos já não enxergavam tão bem. Parecia cada vez mais curvado para frente. E apesar disso tudo não ter acontecido de um dia para o outro, mas lentamente através dos anos, teve que concordar consigo mesmo, estava apodrecendo. Deitou na cama e ligou a tv, enquanto apodrecia. Lembrou que faltou ao trabalho, e ligou para o escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apodrecendo.&lt;br /&gt;- Bom dia, senhor Pacheco.&lt;br /&gt;- Apodrecendo, apodrecendo. Eu estou apodrecendo.&lt;br /&gt;- Todo bem, eu aviso ao doutor Charles.&lt;br /&gt;- Apodrecendo.&lt;br /&gt;- Até amanhã, senhor Pacheco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desligou o telefone e continuou assistindo tv. Estava no programa do Ratinho, e ele riu de algumas piadas do Xaropinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí para frente sua vida não mudou muito. Continuou bem casado, conseguiu o aumento que merecia no emprego, seus amigos continuaram rindo de suas piadas, mesmo que fossem sempre com ele apodrecendo. Morreu cerca de vinte anos mais tarde, apodrecendo, e no enterro todos concordaram que ele sempre esteve certo, agora mais do que nunca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-5239146672246907887?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/1N2J4p4va2Y" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/5239146672246907887/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=5239146672246907887&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5239146672246907887?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/5239146672246907887?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/1N2J4p4va2Y/eu-estou-apodrecendo.html" title="Eu Estou Apodrecendo" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/07/eu-estou-apodrecendo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;A0EHQXw5cCp7ImA9WxJVGEQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-3613417403548390453</id><published>2009-07-05T19:53:00.002-03:00</published><updated>2009-07-06T14:00:30.228-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-07-06T14:00:30.228-03:00</app:edited><title>O Lagarto de Seringüela</title><content type="html">O lagarto de seringüela (Lagartus Seringüelus) recebe esse nome por ser característico do deserto de Seringüela, que por sua vez foi batizado assim por ser o único habitat dos lagartos de seringüela. Por seu tamanho relativamente pequeno (chegam a no máximo 55 cm.), por muito tempo pensou-se que se tratassem de lagartixas (Lagartixius Seringüelus), o que foi provado errado quando estudos mostraram que seus rabos não cresciam de volta quando eram cortados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alimentação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lagarto de seringüela é um animal onívoro, e se alimenta tanto de cactos quanto de cobrinhas de seringüela (Cobrinhus Seringüelus), a única espécie de animal existente no deserto de seringüela fora o próprio lagarto. Seu predador natural é a águia, apesar de não existirem águias no deserto de seringüela. Seus olhos são localizados na parte de cima da cabeça, o que o ajuda a perceber a aproximação de águias, que não existem no local. Isso acaba tornando os filhotes e os ovos dos lagartos de seringüela presas fáceis das cobrinhas de seringüela. Pelo medo que têm do que vem do céu, quando percebem que estão tendo seus ovos e filhotes atacados, os lagartos de seringüela se juntam e formam uma proteção contra ataques aéreos, que não existem na região, tornando a vida das cobrinhas de seringüela muito mais fácil. Ser ao mesmo tempo a presa e o predador da mesma espécie acaba criando um ciclo alimentar de canibalismo por tabela, que pode ser o responsável pelo elevado número de casos de esquizofrenia e elefantíase do lagarto de seringüela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hábitos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem por hábito passar o maior tempo possível parado, e só costuma se mover para procurar comida ou se reproduzir. A preguiça e o medo exagerado de tudo explicam porque o lagarto de seringüela nunca saiu da região do deserto de seringüela, que tem apenas 7 km2. O vínculo familiar do lagarto de seringüela é muito forte, especialmente a relação mãe-filhote. A mãe é a responsável pela alimentação do filhote até o momento em que ele se reproduz e tem sua própria cria. O lagarto de seringüela só mexe os músculos das patas pela primeira vez quando sente vontade de se reproduzir, o que acontece por volta dos 18 anos. Quando os filhotes se tornam independentes e têm seus próprios filhotes, as mães perdem a vontade de buscar comida e vão para o local conhecido como “cemitério das mamães seringüelas”, onde ficam paradas até morrerem de fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reprodução&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto maior o rabo de uma lagarta de seringüela, maior o interesse dos machos por ela. Quando chega a época de acasalamento, os machos se postam de frente à lagarta que lhes interessa, deitam de costas no chão, e com as patas inferiores puxam e esticam seus pênis o máximo que podem. O escolhido pela fêmea será o que tiver o maior pênis. Muitas vezes, os que não são escolhidos, movidos por forte sentimento de fracasso e humilhação, prendem seus pênis embaixo de pedras, tentando esticá-los para deixá-los maiores, e acabam decepados, o que deixa muitas fêmeas sem machos, e ajuda a tornar o lagarto de seringüela um animal em eterno risco de extinção. Tanto as fêmeas solteironas quanto os machos eunucos voltam a ser alimentados pelas mães, que ficam contentes por não terem que ir ao “cemitério das mamães seringüelas” para morrer.&lt;br /&gt;As fêmeas enterram seus ovos para protegê-los das águias, que não existem na região, o que torna a vida das cobrinhas de seringüela, que vivem em tocas debaixo da terra, muito mais fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Culinária&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pênis de lagarto de seringüela esmagado, encontrado debaixo de pedras, é considerado uma iguaria por moradores de vilarejos próximos ao deserto de seringüela. Eles acreditam que o pênis esmagado tenha propriedades capazes de curar erisipela e aids, apesar de estudos recentes comprovarem que, além de não curar, ele dá câncer. O pênis de lagarto de seringüela esmagado é tradicionalmente servido com ovos mexidos e refresco de groselha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-3613417403548390453?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/S-JMA_lIsok" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/3613417403548390453/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=3613417403548390453&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3613417403548390453?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/3613417403548390453?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/S-JMA_lIsok/o-lagarto-de-seringuela.html" title="O Lagarto de Seringüela" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/07/o-lagarto-de-seringuela.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;C0UGSXozeCp7ImA9WxJVE04.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-2621290037054491487</id><published>2009-06-30T00:04:00.001-03:00</published><updated>2009-06-30T00:07:08.480-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-06-30T00:07:08.480-03:00</app:edited><title>Cego, Surdo ou Mudo</title><content type="html">Talvez se eu fosse cego tocasse violão como o Blind Willie Johnson.&lt;br /&gt;Porque os cegos ouvem o que ninguém mais ouve. Para quem enxerga não adianta apenas fechar os olhos quando se está ouvindo alguma coisa, nunca vai ouvi-la da mesma forma que um cego. Sem imagens acompanhando os sons é bem mais fácil ouvir a beleza. É bem mais fácil ver a beleza quando não se pode enxergar. Qualquer mulher pode ser a mais linda do mundo para um cego, é só imaginá-la assim. Tudo pode ser bonito, e a beleza pode durar para sempre, ele não precisa aceitar a feiúra do mundo se não quiser, é só imaginá-lo bonito e bonito ele será, a não ser que ele aceite a descrição do mundo que os que enxergam dão a ele. Esse é o problema, o cego precisa confiar no que dizem a ele sempre como a verdade, porque não pode ver o contrário. Se alguém diz 2 a 0 Santos ele precisa acreditar, pois não pode ver se o Kléber Pereira fez o gol ou atirou a bola para fora da Vila Belmiro. E se alguém diz que existe uma montanha na paisagem ele acredita, ou teria que escalar todas as montanhas que não pode ver para comprovar se elas realmente estão lá, seria um esforço grande demais só para descobrir se as montanhas existem ou não. A verdade de um cego precisa ser a mesma verdade que os que enxergam contam a ele. Por isso todo cego acredita em Deus, como o Blind Willie Johnson. Se dizem a um cego que Deus existe ele acredita, pois ele não vê Deus da mesma forma que não vê todas as outras coisas, e a maior parte delas está lá, a maior parte das que ele pôde sentir ou ouvir realmente estava lá. Por isso não existem cegos ateus, pelo menos não os de nascença.&lt;br /&gt;Acho que prefiro ser ateu que cego, por enquanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia ser surdo.&lt;br /&gt;Os surdos não conhecem a beleza dos sons, mas tampouco a feiúra e a raiva que eles podem produzir. Se eu fosse surdo faria questão de não aprender a ler lábios, para que todas as louras do mundo fossem para mim como suecas sem legendas. Desse jeito, assistir o movimento dos seus lábios sempre seria algo bonito, sem importar se estivessem produzindo uma declaração de amor ou um discurso neonazista. É verdade que eu perderia em comunicação, mas poderia conversar com os eventuais amigos surdos que soubessem linguagem de sinais, já bastaria. No mais, sempre teria os livros. E se para os cegos os sons ganham força, com os surdos são as imagens. As cores, os movimentos, as expressões, tudo para eles deve ser mais claro, mais forte e bonito do que para os que ouvem. E deve ser muito mais fácil perceber o que alguém está sentindo apenas olhando o seu rosto. Perdem em sons mas podem ganhar em empatia. Os surdos devem ter grande talento para a fotografia. Claro, eles não podem ouvir música. Isso deve ser ruim.&lt;br /&gt;Se precisasse escolher entre ser cego e surdo, o que escolheria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolheria ser mudo.&lt;br /&gt;E não teria como me arrepender de tudo o que eu disse, e ficaria livre da culpa por tudo que deixei de falar. E mesmo passando a vida toda sem dizer uma palavra, todos me considerariam um gênio. Parece ser isso o que acontece com pessoas como os autistas, ficam calados em seus cantos, com ar indiferente, e muitos os consideram como superdotados, mesmo os que forem completos idiotas, simplesmente porque nunca abrem a boca para provar o contrário, o que qualquer um com o dom da fala inevitavelmente faria. Mas os mudos não parecem ser muitos. Digo os que são apenas mudos, não os surdos-mudos, pessoas com problemas mentais, etc. Os apenas mudos são poucos se compararmos com os cegos e os surdos. A televisão, o rádio e a internet ajudam a comprovar que o número de pessoas mudas é bem menor do que deveria ser. Se existisse um Deus, e uma justiça Divina, talvez houvesse mais mudos no mundo.&lt;br /&gt;E, como prova este texto, não seria de todo injusto se eu fosse um dos muitos escolhidos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-2621290037054491487?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/155StBhq1BE" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/2621290037054491487/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=2621290037054491487&amp;isPopup=true" title="0 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/2621290037054491487?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/2621290037054491487?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/155StBhq1BE/cego-surdo-ou-mudo.html" title="Cego, Surdo ou Mudo" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/06/cego-surdo-ou-mudo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;D08AQnk8cCp7ImA9WxJTGE0.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-8656472872621539080</id><published>2009-04-27T01:16:00.000-03:00</published><updated>2009-04-27T01:17:23.778-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-04-27T01:17:23.778-03:00</app:edited><title>Repelente de Gente</title><content type="html">Adriano era uma criança que não gostava de gente. Isso desde muito pequeno, quando ainda usava fraldas. Odiava quando alguma velha chegava perto, quase encostando o rosto ao dele, com um sorriso assustador, dizendo que bonitinho, que gracinha, qual o sexo?, apertando suas bochechas com mãos cheirando a igreja e Monange, e chamando outras velhas iguais para que fizessem a mesma coisa. Odiava também os velhos bêbados, falando muito mais alto que o necessário, cuspindo em cima dele, e perguntando pra que time ele torce?, e se a resposta fosse um time que não o deles eles vaiavam, gritando que não, ele tinha que ser flamenguista, e se o time fosse o mesmo era pior ainda, o pegavam no colo, gritando esse é campeão ou qualquer coisa parecida. E o deixavam fedendo a Brahma, ele que mal sabia o que era cerveja, ou futebol. Com as outras crianças não era muito diferente. O irritava como elas estavam sempre falando, balbuciando, correndo, pareciam não conseguir ficar sentadas um minuto sequer, matando insetos e comendo minhocas, como ele gostava de fazer. E choravam à toa, tudo era motivo, se ele puxava o cabelo de alguma, se socava outra por ter olhado para ele de jeito estranho, tudo terminava num berreiro insuportável. E ele evitava todas elas o máximo que podia, mas com a pouca idade que tinha era difícil evitar pessoas. Pai, mãe, família, desconhecidos, sempre tinha alguém por perto, vigiando para que ele não colocasse nada na boca e morresse sufocado, parece que isso acontece muito, crianças colocando controles-remotos na boca e morrendo sufocadas, porque sempre que ele enfiava o controle-remoto na boca vinha alguém desesperado para tirar. Por que ele não podia botar o controle na boca? Porra, ele gostava de colocar o controle-remoto na boca, que mal tinha nisso? Por que não o deixavam em paz? Era essa falta de liberdade que matava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando dormia Adriano sonhava sempre os mesmos sonhos, ele sozinho, num gramado cheio de minhocas, sem ninguém por perto, principalmente velhas, ele odiava especialmente as velhas, e ele lá ficava, desenterrando minhocas e comendo, e a vontade que tinha era de ficar ali para sempre, sem nunca mais ver outra pessoa na vida. Até que batia a fome, ele acordava e chorava, e vinha sua mãe, o pegava no colo, colocava um seio pra fora e na boca de Adriano. Aquele era o único momento em que ele se sentia feliz e confortável com outra pessoa, quando mamava em sua mãe. Até que ficava satisfeito, largava o seio materno, e a presença dela já começava a incomodar, só o que queria era ser deixado sozinho novamente. Talvez a única pessoa que ele gostasse fosse mesmo a sua mãe, mas gostava dela principalmente em dois momentos: quando o estava amamentando, e quando o colocava de volta no berço e o deixava sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano começou a buscar formas de afastar as pessoas dele. Uma era o choro. Qualquer um que vinha para falar, brincar, tocar nele, ele instantaneamente começava a berrar, e parava como se nada tivesse acontecido quando a pessoa se afastava. Uma técnica falha, já que seu choro não parecia afastar a maioria das pessoas, apenas fazia com que elas o tocassem ainda mais, o pegando no colo, assoprando seu rosto, fazendo sons estranhos com a boca, pedindo para que ele parasse de chorar. Além do que odiava crianças chorosas, e não queria se tornar o que odiava. Outra técnica era o xingamento. Mal sabia falar, mas fez questão de aprender apenas palavras que pareciam ofender os outros. A principal era babaca, foi a que ele aprendeu mais rápido. Funcionava com algumas crianças, ele olhava sério para o rosto delas, e dizia vagarosamente para que fosse bem compreendido: ba-ba-ca. Então elas diziam babaca é você, vai tomar banho, feio, e saíam de perto, algumas até chorando. Mas a maioria das crianças não entendia o que babaca queria dizer, portanto o efeito era nulo. Com os adultos também não funcionava bem, ele queria ofender mas todos achavam que ele só estava sendo engraçadinho. Ele se esforçava, fazia a cara mais séria e cheia de ódio que podia, olhava no fundo dos olhos do adulto e dizia: ba-ba-ca. Mas todos caíam na gargalhada, como se quem tivesse dito fosse o Ronald Golias, o que só o deixava mais irritado ainda, e assim desistiu dos xingamentos. Parecia cada vez mais difícil ser deixado sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez estava sentado em casa, tranqüilamente brincando com a poeira do carpete, quando chegou uma tia para visitá-lo. Ou era sua avó, ou tia-avó, não sabia, para ele todas as velhas eram iguais, com suas bolsas gigantes e vestidos de viscose. Ela foi correndo falar com ele, com um sorriso gigante e uma voz muito mais fina que o necessário, o pegou no colo e o cobriu de beijos, e Adriano desesperançoso suportava aquilo resignadamente, sem esboçar qualquer reação, apenas torcendo para que a velha fosse embora o mais rápido possível. E estava ele no sofá, no colo da velha, ela brincando o tempo todo com ele, mexendo com seus braços, esfregando sua barriga, quando sentiu uma vontade incontrolável de cagar. Nessa idade toda vontade de cagar é incontrolável, portanto ele apenas relaxou e deixou que saísse, sem pensar muito no assunto. Qual não foi sua surpresa quando a velha se levantou num susto, segurando Adriano afastado de seu corpo, e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai, fez cocô no meu vestido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele foi um momento revelador para Adriano. Nunca mais esqueceu aquelas palavras. Imediatamente sua mãe o pegou no colo, pedindo desculpas para a velha, dizendo que não sabia porquê a fralda tinha vazado, e a velha respondia que tudo bem, acontece, mal conseguindo esconder a irritação por ter que voltar para casa fedendo a cocô de neném. Enquanto a velha foi ao banheiro amenizar a sujeira, sua mãe o levou para o quarto, trocar sua fralda. E era justamente isso o que ele queria, se livrar da velha, e conseguiu fazendo o que para ele era a coisa mais natural do mundo, uma das poucas coisas que ele sabia fazer. Sua mãe voltou com ele para a sala, a velha estava sentada no sofá ainda passando um papel toalha úmido no vestido, e a mãe disse para ela que agora sim ele estava limpinho, e a velha o pegou de novo no colo, um pouco preocupada, dizendo nossa, que menino cheiroso. Então ele se concentrou, juntou suas forças, e com muito esforço conseguiu dar outra cagada. Dessa vez não escorreu para o vestido, mas era impossível não sentir o cheiro. E como mágica o que ele queria aconteceu de novo: foi tirado do colo da visita e levado de novo para o quarto para ser trocado, aos sons de esse menino tá impossível, o que ele comeu?, nada de mais, eu acho. Nunca imaginou que algo tão simples pudesse ser a chave para sua liberdade. Por que aquilo afastou tanto a velha, se tudo o que ele fazia era adorável para ela e para todos? Se bocejava era bonitinho, se choramingava era uma gracinha, se xingava todos riam, então porque quando cagava, algo que era produzido inteiramente por ele, que era só ele, mais ninguém, a sua obra mais individual, por que aquilo não era bonitinho também? Para ele não fazia sentido, por isso nunca pensou nessa possibilidade, mas agora isso não tinha importância, o importante é que finalmente havia achado um jeito de se livrar das pessoas, de afastar todos dele, e estava disposto a usar isso sempre que possível. Isso foi antes de completar dois anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente aprendeu a controlar a vontade de cagar, era capaz de acumular bosta por dias, apenas para soltar no tempo certo. No seu aniversário de três anos, por exemplo. Nas semanas antes do aniversário seus pais comentavam com ele como fariam uma grande festa, e todos viriam, muita gente, tudo o que ele menos queria. E ele dizia para eles que não queria, queria ficar sozinho, não gostava de muita gente, mas os pais ignoravam, tinham certeza que na hora ele adoraria, e passaria o dia brincando e correndo com seus primos e amiguinhos. Foi o que fizeram. Alugaram um grande salão, decoração de power rangers, convidaram mais de duzentas pessoas, familiares, amigos, vizinhos, gastaram um dinheiro que não tinham, tudo pela alegria do filho, um filho estranho que raramente parecia alegre. Decidiram que seria uma festa surpresa. O levaram para o salão quando a maioria dos convidados já estava presente. Lá dentro tudo escuro, todos em silêncio, seus pais abrem as portas do salão, acendem a luz e todos gritam surpresa! Ele pára assustado, olha para aqueles rostos, todos conhecidos, todos de quem ele queria ficar afastado o máximo possível, e agora estão todos juntos, e todos iriam falar com ele, um a um, era o seu pior pesadelo. Não teve dúvidas, antes que o primeiro familiar chegasse até ele para entregar um presente e dar um beijo carinhoso, ele se livrou da mão da mãe, subiu na mesa, arriou a bermuda e descarregou sua bosta acumulada de vários dias, guardada exatamente para aquele tipo de emergência. Caiu tudo sobre o bolo, bem em cima do power ranger vermelho e da vela de três anos. O bolo era de chocolate, o que só deixou tudo mais confuso e grotesco. Na festa muitos gritavam, algumas crianças vomitavam, bêbados riam descontroladamente, as avós de Adriano estavam desesperadas, e choravam com o fato que comprovava que o neto delas realmente era doente, ou doentinho, por se tratar de uma criança. O pai correu para a mesa para bater em Adriano, mas a mãe não deixou, era a única que parecia calma, pegou o garoto no colo, e o levou para o banheiro para lavá-lo. De dentro do banheiro dava para ouvir a confusão na festa do lado de fora, as avós inconsoláveis, chorando, qual é o problema desse garoto, meu Deus?, e dentro do banheiro sua mãe o lavava, tentando manter a calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que você fez isso, meu filho?&lt;br /&gt;- Eu não gosto de gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela abriu a boca para uma resposta, mas nada saiu, abaixou os olhos lacrimosos e o continuou lavando. Quando ela levantou o rosto para limpar o rosto dele, não sabia como aquilo tinha ido parar até no rosto, ele olhou nos olhos dela e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu gosto mais assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entendeu de certa forma o que ele queria dizer, e pareceu reconfortada, dando nele um forte abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não vou voltar lá.&lt;br /&gt;- Eu sei, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o levou dali direto para casa, sem falar como ninguém. Foi a última festa de aniversário que fizeram para ele, como ele queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso o levaram para um psicólogo, para muitos psicólogos, mas de nada adiantava, ele não respondia a nada que os psicólogos perguntavam, apenas um eventual porque eu não gosto de gente, e boa parte dos psicólogos simplesmente desistia, e durante a consulta o deixavam lá sentado no divã, desenhando, brincando sozinho, até que a hora da consulta acabasse e eles recebessem o pagamento. Em pouco tempo seus pais se separaram, o pai os abandou, não suportou a situação do filho, e ficaram só ele e sua mãe em casa. Aos cinco anos o colocaram na primeira escola, e a idéia de ter que passar o dia inteiro convivendo com crianças grudentas o apavorava. Mas não criou caso com a mãe quando ela o arrumou para o primeiro dia de aula, o uniforme limpinho, o cabelo penteado. Ele entrou na escola, subiu para a sala acompanhado da diretora, ela o apresentou à turma, e todos o olhavam, ele odiava quando todos o olhavam, a professora o cumprimentou carinhosamente, e o levou para sentar no fundo da sala. Se sentou, e quando a criança que estava à sua frente se virou e perguntou amistosamente qual o seu nome?, ele simplesmente se pôs de cócoras sobre a cadeira, e uma menina deu um grito, alto o suficiente para toda a escola ouvir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tia, ele tá fazendo cocô!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia veio, viu a cena, soltou um ai meu Deus, pegou Adriano pela mão e o levou para o banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é que houve, Adrianinho? Dor de barriga?&lt;br /&gt;- Não, eu só não gosto de gente.&lt;br /&gt;- Mas por que não? Poxa, a gente não te tratou bem? Não foi legal com você, e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sobre o chão do banheiro, Adriano cagou ainda mais quando ela disse aquilo. A professora olhou para o seu rosto e ele estava com a expressão mais séria que conseguia fazer, uma expressão que não se costuma ver em crianças. Ela também fechou o rosto, se calou e continuou limpando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Moleque escroto filho da puta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi expulso de muitas escolas, estudava em mais ou menos três por ano, mas ainda assim passava de ano, não entendiam bem como. Parecia indiferente, distante a tudo, mas sabia de muito, sabia mais que todas as crianças de sua idade. À medida que foi ficando um pouco mais velho parou de cagar no chão, ou nas calças, aquilo já parecia nojento e grotesco demais para ele. Com oito anos criou um método novo. Pegava um pedaço de pau, ou um cabo de vassoura, e esfregava em um cocô de cachorro. Colocava aquilo dentro de um saco plástico e dentro da mochila. Então, quando alguém na escola, ou na rua, o importunava de qualquer forma, o tirando de sua solidão, ele simplesmente puxava o pau cagado e o agitava na direção da pessoa, como se agita uma tocha acesa na direção de um animal selvagem. Sempre funcionava. Claro, tinham as gozações, os gritos de cagão, comedor de bosta, mas poucos se atreviam a chegar perto dele, e manter as pessoas distantes era só o que ele precisava, não se importava com as conseqüências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foram se passando os anos, e as escolas. Nessa época tinha em torno de doze anos, e Adriano sempre voltava para casa de ônibus, sentado em um banco sozinho, porque fazia questão de ficar sempre segurando na mão o cabo de vassoura cagado quando estava no ônibus, para que ninguém sentasse ao seu lado, mesmo que isso significasse muitas vezes a sua expulsão do ônibus, às vezes de forma violenta, e ainda que muitos motoristas já nem o pegassem mais no ponto, mesmo com outras pessoas fazendo sinal ou querendo parar ali. Mas certo dia, entrou um homem estranho no ônibus em que ele estava. Um homem sujo, barbudo e cabeludo, que pareceu não dar importância ao pedaço de pau cagado de Adriano, e se sentou bem ao seu lado, com o ombro direito tocando o esquerdo de Adriano. Adriano, que como sempre estava distraído, se assustou quando percebeu a presença do mendigo. Olhou para o homem, que sorria para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você está fazendo?&lt;br /&gt;- Nada. Só estou sentado.&lt;br /&gt;- Mas não está vendo o pedaço de pau cagado na minha mão?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;- Não me incomoda, também estou sujo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela resposta preocupou Adriano, nunca a havia recebido de ninguém. Então virou novamente para o homem, e soltou sua frase:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não gosto de gente.&lt;br /&gt;- Gosta. Gosta sim. – disse o mendigo com um sorriso.&lt;br /&gt;- Não... Não gosto!&lt;br /&gt;- Gosta. E eu gosto de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E colocou a mão direita na perna de Adriano, com um olhar e sorriso carinhosos, piedosos, que encheram o espírito de Adriano com uma alegria, um amor e uma esperança que ele nunca havia sentido antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse homem era Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem, é mentira, não era Jesus, era um mendigo sujo e bêbado, que como todo mendigo bêbado estava meio bicha, e tinha o pênis meio ereto quando colocou a mão sobre a coxa de Adriano, que não percebeu isso, e para ele não importava, pois aquele homem o fez perceber que ele nunca deixou de gostar de ninguém, pelo contrário, ele amava a todos, ninguém amava mais as pessoas do que ele, se as espantava era por medo, por medo do próprio sentimento, que era tão forte que para ele parecia antinatural, e que por isso ele sempre o reprimiu o máximo que pôde, e por isso ele sempre quis as pessoas o mais distantes dele possível. Mas agora não tinha mais volta, o mendigo despertou nele algo incontrolável, um amor acumulado de doze anos, que agora jorrava dele como nenhuma merda acumulada dele já jorrou. E ele abraçou o mendigo, e o beijou, mesmo com o gosto podre que aquilo deixou em sua boca. Saltou do ônibus e foi correndo abraçar a primeira velha que viu. Ah, como gostava das velhas! Do cheiro de naftalina que tinham, das balinha de menta, e dos vestidos de viscose que usavam, poderia passar um dia inteiro abraçando uma velha num vestido de viscose. Todos na rua olhavam para ele assustados, a velha não entendeu e começou a gritar por socorro, que era um tarado, e homens começaram a correr em sua direção, e Adriano fugia deles rindo, rindo como nunca riu antes, gritando para os mesmos que o perseguiam eu amo vocês, que, confusos, pararam de perseguí-lo. Chegou em casa e deu o abraço mais demorado de sua vida em sua mãe, dizendo eu te amo, e chorando, os dois chorando. Pegou o caderno de telefones da mãe e ligou para todos da família, de Ana a Zelda, e para todos pedia desculpas, e dizia como os amava, e os elogiava sempre de forma certeira, dizia qualidades de pessoas que mal conhecia que nem as que conviviam com elas há trinta anos percebiam. Passou a organizar festas, para compensar todas as que não foi e todas as que não teve, e nas festas falava com todos, e passava horas com a mesma pessoa, e o tempo da festa para ele não era suficiente, pois ele queria dar mais atenção a cada um, passar mais tempo com eles. Muitas vezes aparecia de surpresa na casa das pessoas, primos distantes, vizinhos, conhecidos, e era capaz de ficar até ser expulso, e se não fosse expulso era capaz de dormir na casa da pessoa, tamanho o amor que sentia. Agora ele era para todos muito mais louco do que antes, muitos diziam mesmo que preferiam quando ele era o garoto-bosta, mas ele não se importava, não era isso que diminuiria o amor que sentia por todos. Parecia mesmo o homem mais feliz do mundo, e apesar dos outros começarem a evitá-lo, para Adriano o importante é que, não importava quem fosse, nunca mais afastou ninguém dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dizer, isso até os vinte e poucos anos, quando começou a fumar cachimbo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-8656472872621539080?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/IH7uAaYPxSg" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/8656472872621539080/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=8656472872621539080&amp;isPopup=true" title="6 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/8656472872621539080?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/8656472872621539080?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/IH7uAaYPxSg/repelente-de-gente.html" title="Repelente de Gente" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>6</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/04/repelente-de-gente.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;AkEFQHw4fyp7ImA9WxVVGE8.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-1450896239534908460</id><published>2009-03-12T00:27:00.001-03:00</published><updated>2009-03-12T00:30:11.237-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-03-12T00:30:11.237-03:00</app:edited><title>A Tia-Avó</title><content type="html">Sentada quieta em sua cadeira, Dona Marlene via sua jovem parenta dançando com o noivo. Devia ser sua sobrinha-neta, não tinha certeza. Neta de Dulce? Achava que sim, neta de Dulce, filha de Ronaldo. Ronaldo era filho de Dulce? Devia ser, não lembrava direito. Mas lembrava que esteve no casamento de Ronaldo. E de Dulce, provável mãe de Ronaldo. Foram muitos casamentos nos seus noventa anos. Começou criança, indo aos casamentos das tias e tios, primos distantes. Depois foram as irmãs, as oito, uma a uma. Ela, a mais velha, era sempre a que mais ajudava, com conselhos, mesmo sem nunca ter casado, e penteados, e a comida era sempre ela quem fazia, ninguém fazia quitutes melhor que ela, sempre arrumava a mesa com muito capricho, todos elogiavam. Sempre chorava na igreja, no final recebia um abraço apertado e um agradecimento sincero da irmã, e a via ir embora com o noivo, para uma casa nova, uma vida nova, para ter filhos, ser quase feliz. Assim foram com as oito, uma a uma. Depois em casa restaram apenas ela e a mãe, a mãe doente, de quem Dona Marlene cuidou com muito carinho até a morte, quase sempre com paciência. Em alguns dos ataques causados pela doença ela chegou a usar certa violência com a mãe, sacudidas, empurrões, muitas vezes a trancava no quarto, até que ela parasse. Mas quando a mãe parava e Dona Marlene já se achava mais calma, ela entrava no quarto, a pegava do chão com todo o carinho e a colocava delicadamente na cama, passando uma toalha pelo rosto da mãe para enxugar o suor, acariciando seu cabelo olhando ela dormir. Depois viu nascerem os sobrinhos, foram muitos, e muitos ela ajudou a criar, principalmente os das irmãs que trabalhavam fora, algo que ela em seu catolicismo não podia aceitar, mas procurava não reclamar muito, pois gostava de ficar com as crianças. Era ela quem cuidava da educação religiosa dos sobrinhos, e foi ela mesma quem decidiu que seria ela a responsável pela educação religiosa das crianças, e as levava a missa todos os dias, sempre que elas estavam em sua casa, e ensinava como era o pensamento de Deus. O Deus vingativo, que olhava a todos todo o tempo, que puniria qualquer criança que respondesse aos mais velhos, que tivesse pensamentos pecaminosos, sujos, que tocassem partes do corpo que não deviam, que tocassem partes do corpo que não deviam em outras crianças, o que era muito pior, o que deixava Deus muito zangado. E a deixava triste ver como a maioria dos sobrinhos não pareciam ter medo da raiva de Deus, e agiam como se ele não existisse, e faziam tudo que era errado, não respeitavam nada, eram todos mimados, não recebiam educação dos pais, ela não podia ensinar tudo sozinha. E se revoltou no dia em que pegou um casal de sobrinhos, primos, fazendo coisa errada, brincando de um jeito pecaminoso, se tocando, e quando Dona Marlene contou para as irmãs elas apenas acharam graça, como se fosse apenas coisa de criança, como se elas quando criança tivessem feito a mesma coisa. A partir daquele dia Deus passou a ser mais importante ainda para ela, e a igreja também, não faltava a uma missa, não importava o que acontecesse, e rezava muito por eles, todos eles, todos os que ela amava, todos tão cheios de pecados. E assim os sobrinhos foram crescendo, e se afastando de sua casa. Muitos se casando, muitos não. Muitos se casando mais de uma vez, o que ela não compreendia como era permitido. Mas ela ia sempre às cerimônias, e ajudava sempre que possível, não fazia mais toda a comida, mas fazia questão de preparar alguns de seus quitutes, que eram servidos juntos à comida do buffet, e eram sempre muito melhores que a comida contratada. E assim acabaram os sobrinhos para criar, os sobrinhos já começavam a ter filhos, esses filhos tinhas as próprias tias e avós, ela não era mais necessária para tomar conta deles. E Dona Marlene ficou sozinha, ela e Deus, indo à missa sempre,todos os dias, sua principal atividade, importantíssima aos seus olhos. Muitos sobrinhos iam visitá-la, alguns por pena, outros por gratidão, a maioria por obrigação, alguns quase toda semana, a maioria uma vez por ano. Não conseguia se lembrar a quanto tempo estava sozinha em casa, sem as irmãs, sem a mãe, sem sobrinhos para criar. Foram muitos anos passados sem muitas atividades, a não ser as missas de sempre, dias sempre iguais são difíceis de contar, anos mais ainda. E durante esses anos continuou vendo casamentos, dos sobrinhos mais novos, dos sobrinhos netos, ou de pessoas que ela nem reconhecia, mas que deviam ser seus parentes, e para os quais ela era levada pelas irmãs, ou por algum sobrinho, e era sempre tratada com muito carinho, sendo ela a mais velha da família, a velha beata sozinha que nunca se casou. E ela pensava na vida que teve enquanto via a neta de Dulce dançando, como era linda, toda pessoa jovem para ela parecia linda, o noivo também. E como eles pareciam felizes, o casal, e como os que dançavam em volta também pareciam felizes, todos, dos mais velhos aos mais novos, para ela todos novos. E de repente, pela primeira vez na vida, sentiu uma vontade incontrolável de ser feliz. Levantou-se, e foi andando para a pista de dança. Parou entre os dançarinos, sem saber o que fazer, e os que perceberam a sua presença acharam graça, e diziam dança tia, dança vovó. Ela não sabia como e começou a girar. Deixou os braços soltos e começou a rodar. Todos riam, muitos gravavam a cena com suas câmeras de celular, e ela continuava a girar, cada vez mais rápido, e estava feliz, pela primeira vez sentia uma genuína alegria, e se perguntava porque nunca girou antes, devia ter passado a vida toda rodando, noventa anos desperdiçados. Começou a gritar. O gritou passou para uma gargalhada incontrolável, e as pessoas já pareciam assustadas, algumas não riam mais, e diziam pára tia, pára Marlene, mas ela não quis parar, perdeu o equilíbrio e caiu, o corpo frágil não agüentou e ali mesmo ela morreu, com a expressão fixa, o rosto ainda gargalhando, um riso agora sem utilidade, mas dessa vez para sempre, sem culpa ou pecado para atrapalhar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-1450896239534908460?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/lbSKjfDhUEc" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/1450896239534908460/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=1450896239534908460&amp;isPopup=true" title="5 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1450896239534908460?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1450896239534908460?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/lbSKjfDhUEc/tia-avo.html" title="A Tia-Avó" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>5</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/03/tia-avo.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;Ck4HR3c6eSp7ImA9WxVWFks.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-1419305445624769502</id><published>2009-02-26T02:56:00.002-03:00</published><updated>2009-02-26T12:08:56.911-03:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-02-26T12:08:56.911-03:00</app:edited><title>Sonhos Sonhados: Sonho de 25/02/2009</title><content type="html">Essa noite sonhei que o mundo ia acabar. E que eu fui o escolhido por Deus para ser o único homem a ser salvo. Esquema meio Noé, mas sem precisar salvar os animais, ou construir uma arca, ou qualquer obrigação. Aparentemente o mundo ia acabar só pelo meu prazer, quer dizer, não que eu sentiria prazer se o mundo acabasse, mas enfim, era sonho, porra. Então Deus, que na verdade não era Deus, era só meu pensamento falando comigo, me ordenou que eu escolhesse alguma coisa para ser salva comigo. De tudo que existe no mundo, apenas uma coisa poderia ser salva. A música, a literatura, a Guinness, a aurora boreal... Mas eu não precisei de dois segundos para pensar, respondi na lata: A Ellen Rocche. A Ellen Rocche?, minha consciência-Deus perguntou. Sim, a Ellen Rocche, eu respondi, com tanta certeza que meu pensamento se assustou.&lt;br /&gt;- Mas, meu amigo...&lt;br /&gt;- Eu não sou seu amigo! – Respondi bruscamente, e minha consciência teve que concordar que era uma verdade.&lt;br /&gt;- Ok, desculpe... Mas, colega, – Decidi não retrucar essa – pense bem... Vai acabar tudo, tudo... Tem certeza que só o que você quer que sobre é a Ellen Rocche? De tudo no mundo, na vida?&lt;br /&gt;- É. – Para mim era uma escolha tão óbvia que era até difícil criar argumentos. Era como tentar explicar porque beber água é legal.&lt;br /&gt;- Tudo bem! Mas aviso, eu lavo as minhas mãos, o que acontecer no novo mundo será de responsabilidade sua, apenas sua!&lt;br /&gt;- Ellen Rocche.&lt;br /&gt;- Ellen Rocche!&lt;br /&gt;E tudo ficou branco, o vazio total, um minuto depois aparece bem na minha frente a Ellen Rocche, a própria, com dois éles e dois cês, em toda sua glória, vestida na fantasia de madrinha de bateria. Ela olhou para os lados, viu o nada, o branco infinito, voltou para mim e perguntou:&lt;br /&gt; - O que é isso?&lt;br /&gt;- Acabou o mundo, Ellen.&lt;br /&gt;- Acabou?&lt;br /&gt;- Acabou.&lt;br /&gt;Ela pareceu bastante decepcionada, abaixou o rosto e se calou. Depois de alguns minutos resolvi quebrar o gelo:&lt;br /&gt;- Sabe... De tudo que existia no mundo, tudo, a música, a televisão, a literatura, tudo, o que eu escolhi para salvar foi você.&lt;br /&gt;Ela levantou o rosto, me olhou meio confusa, e enojada, virou-se, andou alguns metros, deitou com o rosto virado para o chão, os braços sob os olhos, e disse:&lt;br /&gt;- Quero ir embora.&lt;br /&gt;Assim se passaram vinte anos. E depois de vinte anos eu estava começando a ficar ligeiramente cansado de olhar para a Ellen Rocche deitada com a bunda para cima numa fantasia de madrinha de bateria. Decidi ir falar com ela.&lt;br /&gt;- Sabe?, Ellen, eu...&lt;br /&gt;- Eu quero o divórcio. – Respondeu, sem levantar o rosto.&lt;br /&gt;- Mas Ellen, nós não somos casados...&lt;br /&gt;- Não?&lt;br /&gt;- Não...&lt;br /&gt;Ela levantou o rosto, me olhou surpresa e gritou:&lt;br /&gt;- Então vai se fuder!&lt;br /&gt;Eu ia responder que era exatamente isso o que eu fiquei fazendo pelos últimos vinte anos enquanto olhava a sua majestosa bunda, mas aparentemente o sonho acabou. Pelo menos é só até aí que me lembro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-1419305445624769502?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/_kCEZlS5jWQ" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/1419305445624769502/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=1419305445624769502&amp;isPopup=true" title="2 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1419305445624769502?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1419305445624769502?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/_kCEZlS5jWQ/sonhos-sonhados-sonho-de-25022009.html" title="Sonhos Sonhados: Sonho de 25/02/2009" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>2</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/02/sonhos-sonhados-sonho-de-25022009.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;DUQERH0_eyp7ImA9WxVQEkQ.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-393564778412634795</id><published>2009-01-30T04:28:00.001-02:00</published><updated>2009-01-30T04:35:05.343-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2009-01-30T04:35:05.343-02:00</app:edited><title>O Maquinista</title><content type="html">Aparecia sempre à mesma hora, próximo do fim do expediente. Ciro começava a se sentir feliz, mais um pouco e seria menos um dia de trabalho, daria boa noite para a secretária, ligaria o ar condicionado do carro novo, o som bem alto para que o barulho dos outros não o incomodasse. Depois do estresse do engarrafamento chegaria em casa, para sua tv gigante e seu home-theather cheio de siglas, mesmo que não conhecesse filmes interessantes para assistir, mesmo sem conhecer música boa para ouvir. Lá também estaria sua mulher, cara mas valiosa, linda como nenhuma outra, mesmo depois de todas as plásticas e plásticos implantados. E ele sabia que ela seria para sempre sua, para sempre enquanto durasse o seu dinheiro, ou a beleza dela. Sua filha pediria dinheiro assim que o visse, mais dinheiro para mais roupas, a moda muda toda dia, e ela precisa estar na moda, porque na moda é só onde ela está, e suas roupas são só o que ela tem para mostrar. Sabia que sua importância para ela era apenas dar dinheiro, se ela fingia algo além era para não perder os mimos, precisava do pai enquanto não arrumava um marido rico, e por isso eventualmente fingia que o amava, mesmo que com esforço, um beijo e uma gravata no dia dos pais e estavam quites. Era para tudo isso que ele trabalhava, e era isso que o fazia voltar para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era há essa hora que ele aparecia. Tocava o apito com antecedência, e várias vezes. Ciro inevitavelmente olhava pela janela do sexto andar, e via o trem aparecer fazendo a curva suavemente com todas as suas toneladas, e sem pressa, provando que é possível fazer o tempo passar mais devagar. Ciro voltava para sua mesa e suas coisas, guardando papéis e assuntos importantes, apenas para voltar para a janela e ver o trem vindo vagarosamente, como que esperando ele terminar. Já com tudo arrumado, pasta na mão e paletó vestido, voltava mais uma vez para a janela, com a desculpa de fechar as persianas, e o trem já estava bem próximo, e lá estava o maquinista. Olhava fixamente para Ciro, sorrindo, mas sorrindo com deboche, com escárnio. Ciro fingia não perceber, fechava as persianas, a porta do escritório, boa noite para a secretária e carro. Mas nesse dia, mais que em qualquer outro, o deboche do maquinista o afetou. De que ele debochava? Tinha a aparência de homem sujo, a barba por fazer, roupas velhas, e Ciro sempre impecável, barbeador elétrico, terno italiano, ou chinês de marca italiana, não importa, era caro. E certamente aquele homem ganhava pouco, um maquinista? O que ele precisou estudar para ser maquinista? E Ciro não, anos afundado em livros, estudando teorias inventadas, desinteressantes mas importantes, bolsa no exterior, muito esforço para chegar aonde chegou, conhecia poucos que tivessem um salário maior que o dele, com um carro maior que o dele. No entanto, aquele homem o zombava. O que o dava direito a zombar? A liberdade das viagens de trem? Mas como, se ele estava limitado ao caminho dos trilhos? Mesmo que extenso, mesmo que atravessasse o país, continentes, estava sempre preso aos trilhos. Ciro tinha seu carro, seu ar condicionado e som alto, com ele poderia ir para onde quisesse, apesar de fazer sempre os mesmos caminhos, casa trabalho casa de campo nos finais de semana, o carro sempre parado nos engarrafamentos, milhares de homens sozinhos em seus carros parados no engarrafamento, ele mais um, com seu carro e sua liberdade, cumprindo a função de ter um carro e usá-lo, sempre que desnecessário. E poluir, quanto mais alto o cargo maior o carro para poluir, a fumaça como indicador social. Tinha também uma família, que pelo menos se não o amava fingia, fingia relativamente bem, e ainda era bonita, de alguma forma bonita, por enquanto. E o maquinista não poderia ter mulher mais bonita que a dele, mesmo que mais bonita certamente não teria a mesma classe, modos, confortos, privilégios, esnobismo... Com que direito ele zombava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou o dia seguinte como todos os outros, o café da manhã servido pela empregada, esposa e filha ainda dormindo, carro com ar condicionado contra o calor irrealista do lado de fora, engarrafamento, bons dias, reuniões, decisões importantes, pessoas importantes, todas facilmente substituíveis aos olhos dos mesmos que os nomeavam importantes. Estresse, e mais um dia vinha chegando ao fim. Ouviu o apito. Dessa vez parou de frente à janela, e ficou olhando. Viu o trem fazendo a curva, suavemente com todas as suas toneladas, sem pressa, provando que é possível fazer o tempo passar mais devagar. Se aproximava, e Ciro sem desviar o olhar, e lá estava o maquinista, o mesmo olhar zombeteiro. Foi quando o trem passava por bem debaixo de sua janela que Ciro pulou, da janela para o trem, abriu os olhos e já era ele o maquinista, com a barba por fazer, maltrapilho, o suor escorrendo pelo rosto. E foi passando por um cruzamento, tocando o apito do trem, os carros parados, impossibilitados de passar, obrigados a esperar. E eles olhavam para Ciro, e Ciro de dentro da cabine olhava para eles, todos sozinhos em carros para cinco pessoas, ar condicionado e o som alto, e Ciro ria, ria debochadamente, mesmo que nenhum deles entendesse, com uma satisfação que nenhum salário seu poderia jamais ter comprado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-393564778412634795?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/zgOU7IoK-Cs" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/393564778412634795/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=393564778412634795&amp;isPopup=true" title="1 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/393564778412634795?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/393564778412634795?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/zgOU7IoK-Cs/o-maquinista.html" title="O Maquinista" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>1</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2009/01/o-maquinista.html</feedburner:origLink></entry><entry gd:etag="W/&quot;CU8ASHozfip7ImA9WxVTEU4.&quot;"><id>tag:blogger.com,1999:blog-36098526.post-1830845718060055571</id><published>2008-12-24T00:36:00.002-02:00</published><updated>2008-12-24T13:50:49.486-02:00</updated><app:edited xmlns:app="http://www.w3.org/2007/app">2008-12-24T13:50:49.486-02:00</app:edited><title>Especial Semi-Anual de Natal: O Verdadeiro Espírito Natalino</title><content type="html">Sempre viu o natal como a melhor oportunidade para desfrutar de sua vida de homem bem-sucedido. Era a ocasião perfeita para dar os presentes mais caros para todos que amava, e deixá-los contentes, ao mesmo tempo em que mostrava como tinha dinheiro. Inveja e satisfação juntas, que época mágica. Os presentes que dava nem sempre eram úteis, isso é verdade, mas o importante não era a intenção, era o valor.&lt;br /&gt;No natal de 2001 deu para a avó um sistema de home-theater completo, televisão gigante e o caralho a quatro, uns trezentos mil watts de potência. Treze mil reais, esqueceu de tirar a etiqueta. Quando abriu a caixa a velha não se mostrou muito contente, porque não tinha a menor idéia do que era aquilo, não sabemos se por desconhecimento tecnológico ou pelo Alzheimer, mas foi só ver a etiqueta com o preço que quase enfartou. Abriu um sorriso de orelha a orelha, e foi chorando abraçá-lo, como as pessoas choram na televisão quando ganham coisas, dizendo que não precisava, Ricardinho, não precisava, mesmo sem saber que merda era aquela. Dias depois ele instalou o home-theater na casa da avó, colocou para tocar o único dvd que ela tinha, Padre Marcelo live in Maracanã, e ela quase ficou surda. Vendeu o home-theater, comprou uma cce 14 polegadas, muito mais do seu agrado, e usou o que sobrou do dinheiro para pagar o próprio funeral. Foi um enterro lindíssimo, todos concordaram.&lt;br /&gt;Também gostava de dar carros importados para os sobrinhos, mas só para os que ainda eram crianças. Natal passado deu um Audi zero quilômetro para o sobrinho de cinco anos. O sobrinho ficou muito contente, claro, mas o pai quase desmaiou. Foram para a ceia de ônibus, e iam voltar de Audi! Que alegria. Mas Ricardinho deixou bem claro que o caro era para o sobrinho, e o levou para o estacionamento para ensiná-lo a dirigir. E como se divertiram, Ricardinho com o moleque em seu colo, este controlando o carro como se fosse um carrinho de bate-bate, raspando a lataria contra a parede, batendo de frente nas pilastras, e de lado, e de ré, e rindo o tempo todo. E Ricardinho rindo ainda mais da reação do cunhado, desesperado a cada batida, a cada arranhão, vendo peças de milhares de reais de um carro que inevitavelmente seria seu indo embora numa brincadeira de criança. Como era bom, como era bom.&lt;br /&gt;Era com essas felizes lembranças que ia andando na direção do shopping de rico em que fazia suas compras, quando foi interceptado por um moleque de rua.&lt;br /&gt;- Tio, dá um dinheiro, por favor?&lt;br /&gt;- Não tenho. – Mentira, era a única coisa que tinha.&lt;br /&gt;- Por favor, tio, também quero comprar um presente de natal pra mim e pra minha família.&lt;br /&gt;Aquelas palavras atingiram em cheio o coração de Ricardinho, logo ele que nunca ouvia o que os pedintes diziam. Não deu dinheiro pro moleque, lógico, não sabia quem era, vai que ele gastasse tudo em drogas? Mas ficou reflexivo. Não foi ao Shopping, estava confuso, e como bom cristão que era foi a uma igreja. A igreja estava completamente vazia, como geralmente fica em antevésperas de natal, ele se ajoelhou de frente ao altar, e começou a rezar.&lt;br /&gt;“Ó, pai, estou confuso. Me considero um bom homem, batalhador, sempre lutei muito pra conseguir tudo o que tenho. Sempre usei o natal para fazer o bem para as pessoas que eu gosto, dando presentes caros, como um ato de caridade, e sempre me orgulhei disso. Mas e quanto às pessoas que não tem nada? Que não têm dinheiro para comprar os próprios presentes, às vezes nem a própria comida? Será que eu não deveria ajudá-los também? Não seria esse o verdadeiro espírito de natal? Ó, pai, estou confuso.”&lt;br /&gt;E, em meio à luz que atravessa os vitrais da igreja, surgiu na frente de Ricardinho algo como um anjo.&lt;br /&gt;- Q-quem é você?&lt;br /&gt;- Eu sou o espírito de natal.&lt;br /&gt;- O espírito de natal?&lt;br /&gt;- Sim, Ricardinho, o espírito de natal.&lt;br /&gt;- Ah... Não sabia que o espírito de natal era realmente um espírito. Achei que fosse só uma expressão para representar os sentimentos das pessoas em relação a essa época do ano.&lt;br /&gt;- Não, nada disso. Sou um espírito, mesmo, e me chamo Emmanuel.&lt;br /&gt;- Emmanuel?&lt;br /&gt;- Sim, Emmanuel. Vim para lhe mostrar o verdadeiro espírito de natal.&lt;br /&gt;- Que é você?&lt;br /&gt;- Não, dessa vez estava me referindo ao sentido que tem essa época do ano, e tal.&lt;br /&gt;- Ah, tá.&lt;br /&gt;- Sabe, Ricardinho, o natal não é uma época para repartir riquezas, distribuir presentes vagabundos para os pobres, ou servir sopas para mendigos alcoólatras.&lt;br /&gt;- Não? Porque era isso que eu tava pensando em fazer esse ano.&lt;br /&gt;- Não, Ricardinho, não. Não é isso que vai te fazer uma pessoa melhor.&lt;br /&gt;- E o que vai, então?&lt;br /&gt;- A culpa, Ricardinho. É isso que separa as pessoas boas das ruins, as que vão das que não vão para o céu. Não é a caridade, a solidariedade, o amor, nada disso, isso é tudo coisinha de hippie, com seus incensos e deuses elefantes. A verdade é que o mundo se divide entre os que sentem e os que não sentem culpa.&lt;br /&gt;- E culpa por quê?&lt;br /&gt;- Por tudo. Por todos os que não têm o que você tem, pelos famintos, pelos desgraçados, por todos os que você passou por cima para chegar aonde chegou, por todos que só com uma fraçãozinha da sua riqueza já teriam um natal muito melhor. Mas você não vai ajudá-los, não...&lt;br /&gt;- Não?&lt;br /&gt;- Não... Você vai sentir culpa. Veja a igreja onde estamos, por exemplo. Veja todo o ouro à sua volta. Você não acha que se todo esse ouro fosse vendido seria o suficiente para fazer o natal de milhares de pessoas mais feliz?&lt;br /&gt;- Sim, certamente.&lt;br /&gt;- Mas a igreja não vai fazer isso. Ela usa o ouro para construir um abrigo seguro, para que seus padres e fiéis possam se isolar do resto do mundo e sentir culpa, muita culpa, e rezarem pelos que não têm o que eles têm. Isso é ser bondoso, isso é ser santo.&lt;br /&gt;- Sim, sim, agora eu percebo, agora eu percebo... Oh, espírito Emmanuel, muito obrigado, você salvou o meu natal!&lt;br /&gt;- Ora, por nada. Para mais informações é só comprar uns livros do Chico Xavier, ele tem vários livros psicografados meus.&lt;br /&gt;- Oh, eu vou! Vou comprar todos os livros do mundo, trancá-los em casa e não deixar ninguém ler, e rezar cheio de culpa no coração!&lt;br /&gt;- Esse é o espírito, garoto!&lt;br /&gt;E fez a maior ceia que já havia feito, e comprou os presentes mais caros que já havia comprado. Dessa vez não foi um Audi que ele comprou para o sobrinho, mas uma Ferrari. E com um taco de baseball de brinde, para a destruição ficar mais eficiente. Mas enquanto o sobrinho destruía o carro e seu cunhado ficava a um passo da loucura, ele não ria. Chorava. Chorava pela culpa de fazer seu cunhado tentar suicídio, pela culpa de dar para seu sobrinho destruir um carro de valor suficiente para pagar a ceia de milhares de famílias. E logo após terminar com um peru inteiro e beber algumas garrafas de vinho francês, foi se deitar mais cheio de culpa que de comida, com a certeza definitiva de que era a melhor pessoa do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um natal cheio de culpa, e um ano novo repleto de arrependimentos é o que nós desejamos a você, seja quem for.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/36098526-1830845718060055571?l=refluxogastrico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/RefluxoGastrico/~4/nr4p6oMQKJQ" height="1" width="1"/&gt;</content><link rel="replies" type="application/atom+xml" href="http://refluxogastrico.blogspot.com/feeds/1830845718060055571/comments/default" title="Postar comentários" /><link rel="replies" type="text/html" href="http://www.blogger.com/comment.g?blogID=36098526&amp;postID=1830845718060055571&amp;isPopup=true" title="3 Comentários" /><link rel="edit" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1830845718060055571?v=2" /><link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://www.blogger.com/feeds/36098526/posts/default/1830845718060055571?v=2" /><link rel="alternate" type="text/html" href="http://feedproxy.google.com/~r/RefluxoGastrico/~3/nr4p6oMQKJQ/especial-semi-anual-de-natal-o.html" title="Especial Semi-Anual de Natal: O Verdadeiro Espírito Natalino" /><author><name>LP</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13353147331957165158</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel="http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail" width="16" height="16" src="http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif" /></author><thr:total>3</thr:total><feedburner:origLink>http://refluxogastrico.blogspot.com/2008/12/especial-semi-anual-de-natal-o.html</feedburner:origLink></entry></feed>

