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	<title>Ricardo Gondim</title>
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		<title>Carpe Diem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Mar 2017 08:42:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Meditações]]></category>
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					<description><![CDATA[Carpe Diem Ricardo Gondim Bitolas são desnecessárias para viver. Ninguém nasce para cumprir roteiro. Homens e mulheres não precisam de cabrestos. Engrenagem limita a vida. Uma existência presa à lógica da causa e efeito se apequena. Devemos ser protagonistas da nossa história e encarar cada dia como um leque de infinitas possibilidades. As pessoas chegam [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Carpe Diem</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Bitolas são desnecessárias para viver. Ninguém nasce para cumprir roteiro. Homens e mulheres não precisam de cabrestos. Engrenagem limita a vida. Uma existência presa à lógica da causa e efeito se apequena. Devemos ser protagonistas da nossa história e encarar cada dia como um leque de infinitas possibilidades.</p>
<p>As pessoas chegam a um presente que não escolheram. Seguiram por trilhas diferentes das que imaginaram, e aportaram em um futuro inédito. Ninguém antecedeu ninguém para abrir picada na mata virgem da história. Todos transgrediram bons conselhos e em algum ponto saíram do script que lhes foi preparado.</p>
<p>Além de tudo, ainda é necessário lidar com as escolhas de outras pessoas; elas também criam o imponderável. O escritor húngaro Sándor Márai afirmou: “<em>A estrada que vem do mundo até nós é longa e complicada, cheia desses desvios sofridos cujos sentidos, significados, identificamos somente depois de muito tempo</em>”.</p>
<p>Aprendemos nos tropeços que somos imperfeitos e incipientes. O passo seguinte está sempre encoberto pela neblina do tempo. O futuro torna indistinto o desdobramento que imaginamos certo. Engana-se quem acredita possuir a capacidade de resolver qualquer enigma, mapear qualquer labirinto, decifrar qualquer mistério.</p>
<p>Toda a decisão engravida o amanhã de alegrias e tristezas, de vida e morte. Não existe um único rumo certo. Paralelas perfeitas não passam de abstração. Cogitamos sobre o absoluto, todavia, mal entendemos o que a própria palavra transmite. A imperfeição está por toda parte. Existe desordem no universo. Contingência também faz parte indispensável da vida. Não há prognósticos infalíveis. Somos como o vapor, que os mínimos elementos tornam imprevisível (ninguém conseguiria predizer, com dois dias de antecedência, o desenho da fumaça de uma chaminé).</p>
<p>A existência finda antes que completemos os projetos que idealizamos. Não leremos todos os livros que gostaríamos. Não ouviremos todas as palestras que elucidariam a nossa curiosidade sobre Deus. Não acessaremos todas as bibliotecas, nem alcançaremos o saber humano já acumulado.</p>
<p>Tentar dar um propósito singular à vida não passa, portanto, de fantasia. É deprimente viver sob o imperativo de ter que encadear os eventos para um fim promissor. Ninguém jamais possuirá o total controle sobre o tempo. Mentira, pretender dominar as etapas da vida. Os espaços religiosos, científicos e acadêmicos que prometem isso são embustes.</p>
<p>A vida entorta e desentorta. Vamos, muitas vezes, ao sabor do acaso. Não adianta mentir para nós mesmos. Negação produz sorrisos postiços. Inútil anunciar que descobrimos a vereda do porvir esplêndido. Junto com o discurso do sucesso, é preciso disfarçar noites insones, a vontade súbita de chorar ou o desejo de fugir para os confins do universo. Auto-ajudas rasgam as pessoas por dentro; elas criam altivos e os empurram para a farsa.</p>
<p>Se a vida tem tantos altos e baixos, resta então amar o instante; sorver a eternidade que se esconde no breve hiato entre o futuro e o passado. Como fazemos isso? Basta guardar mais frases gentis, escolher com responsabilidade &#8211; sem se deixar patrulhar por gente mesquinha -, tirar mais fotos de quem amamos, lamentar as dores que afetam os frágeis, fugir dos ambientes falsos, rabiscar poesia, ler romances, cantar, degustar bons vinhos, sofrer com a sorte do injustiçado, falar de Deus com gentileza, não ter medo de ferir-se em nome do amor e esperar por quem anda devagar.</p>
<p>Somos mortais, mas guardamos a eternidade no peito. Somos finitos com a intuição do infinito. Contudo, a experiência de viver só acontece no agora, no já. E se em cada momento fugidio se esconde uma eternidade, convém experimentá-lo, intensamente.</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
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		<title>Ao Villy, nos seus 40</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Mar 2017 19:56:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Minha Vida]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao Villy, nos seus 40 Ricardo Gondim Viva. Não estacione em uma margem. Amor e delicadeza evitam extremos: ódio e estupidez, descaso e impulsividade, rigidez e acomodação. Os sábios mais antigos acertaram: a sabedoria prefere os moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, prefira o lugar que a vida lhe deu. Viva. Voe. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Ao Villy, nos seus 40</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Viva. Não estacione em uma margem. Amor e delicadeza evitam extremos: ódio e estupidez, descaso e impulsividade, rigidez e acomodação. Os sábios mais antigos acertaram: a sabedoria prefere os moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, prefira o lugar que a vida lhe deu.</p>
<p>Viva. Voe. Solte seus barbantes. Você não é pipa. Tem hora que é bom viver sem propósito algum, ao mero sabor dos ventos. Sonhar exige liberdade. Evite agachar-se. Você não merece a companhia de quem se acovarda.</p>
<p>Viva. Mas não se leve a sério demais. Gente santarrona parece mala sem alça. Aprenda a amar as cigarras, não as formigas, que obedecem à rainha sem saberem o por quê.</p>
<p>Viva. Ouse desentrevar a espiritualidade de seus protocolos sisudos. Você perceberá uma paz que excede a razão. Como é bom considerar Deus “um cara muito legal”.</p>
<p>Viva. Perca a culpa de acordar tarde, comer chocolate, comprar perfume caro, brasear picanha. Sente para almoçar perto de quem você ama, sem hora para acabar. Leia romances. Cante mais no banheiro. Aprenda a recitar poemas com ritmo.</p>
<p>Viva. Transforme cada prece em convite para um maior compromisso com o pobre, com o excluído, com o perdido. Questione suas convicções e faça delas uma ponte na direção de quem pensa diferente.</p>
<p>Escrevi essas linhas porque sei que assim você perde o medo da morte. E dará a cada instante fugidio um gostinho de eternidade.</p>
<p>Feliz 40 anos.</p>
<p>Ricardo<br />
<em><strong>Soli Deo Gloria</strong></em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Creio no bem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Mar 2017 07:32:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Meditações]]></category>
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					<description><![CDATA[Creio no bem Ricardo Gondim Eu creio na existência do bem (sem desprezar a realidade do mal). Bem e mal não se confundem, entretanto. O mal é atabalhoado. O bem sabe esperar. É paciente. Não se afoba. Entende que o esforço de quebrar grilhões, demora. Poetas, os artesãos da beleza, não calam mesmo depois de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Creio no bem</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Eu creio na existência do bem (sem desprezar a realidade do mal).</p>
<p>Bem e mal não se confundem, entretanto. O mal é atabalhoado. O bem sabe esperar. É paciente. Não se afoba. Entende que o esforço de quebrar grilhões, demora. Poetas, os artesãos da beleza, não calam mesmo depois de mortos. Suas palavras permanecem por séculos, forjando espadas em arados.</p>
<p>Bem e mal não se parecem. O mal é bruto e o bem, delicado. Frágil. Vulnerável. Aceita apenas a proteção de humildes e mansos. O bem é simples. Depende de ambientes despretensiosos. Seu olhar repousa no indefeso. Ocupa-se do exilado. Procura abraçar o proscrito.</p>
<p>Bem e mal guardam sensações diferentes. O mal é odioso e o bem, longânimo. Suas origens se ligam às entranhas da alma. O bem surge com os afetos. O bem reside na medula do espírito. Para sobreviver, não precisa de estruturas poderosas. É discreto. Nunca rodopia nas pequenas chamas, como as mariposas.</p>
<p>Bem e mal não agem da mesma forma. O mal se impõe. O bem só interpela. Corteja. Insinua-se. Atrai. Seduz nas mãos delicadas da fisioterapeuta ao exercitar o ancião; no rosto da enfermeira quando pesa a criança subnutrida; no esforço do voluntário que distribui cobertor para o desabrigado.</p>
<p>Bem e mal têm concretudes distintas. O mal é vago, mas sua crueldade hipnotiza. O bem é concreto, mas pouco considerado; sua realidade goteja na bolsa de sangue doado. Não existe glamour na emergência do hospital da Faixa de Gaza. Poucos enaltecem jovem que marcha pela paz sob bombas de gás lacrimogênio.</p>
<p>O mal se dissolverá em nada. O bem permanecerá depois dos regimes, das ideologias, dos tiranos. O bem ressuscitou após o Calvário – e resistiu ao pelourinho. Se o ódio tentar extingui-lo, ele sempre renasce na esperança de meninas e meninos. O bem continuará a ser celebrado em catedrais  &#8211; bem como em bordéis. Ele se perpetua, simultaneamente, no divino e no humano, no angelical e no terreno.<em> </em></p>
<p><strong><em>Soli Deo</em></strong><strong><em> Gloria</em></strong></p>
<p><em><span style="text-decoration: underline;">PS: </span></em>[Entre o bem absoluto e o mal completo, existem inúmeros tons – que vão do cinza ao amarelo, do azul ao vermelho. A vida não estaciona nos opostos. Ela transita nas nuances. Caminha entre os extremos mais distantes. Como necessitamos algum ponto de referência para definir alto e baixo, quente e frio, não há como desprezar a média, o meio termo. Entre o tempestivo e o passivo, vive o moderado. Só o radicalismo se isola em algum extremo].<strong><em> </em></strong></p>
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		<title>Deus e o sofrimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2017 07:30:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estudos]]></category>
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					<description><![CDATA[Deus e o sofrimento Ricardo Gondim A narrativa bíblica reconhece o sofrimento humano como grosseiro, bárbaro, cruel. Em seus dois testamentos, episódios comuns  procuram descrever traição, alheamento, tolice e maldade como responsáveis por dores, angústias, perplexidades. Nos textos do Pentateuco, sofrimento tem a ver com bênção e maldição; e elas dependem fundamentalmente do cumprimento da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Deus e o sofrimento</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>A narrativa bíblica reconhece o sofrimento humano como grosseiro, bárbaro, cruel. Em seus dois testamentos, episódios comuns  procuram descrever traição, alheamento, tolice e maldade como responsáveis por dores, angústias, perplexidades.</p>
<p>Nos textos do Pentateuco, sofrimento tem a ver com bênção e maldição; e elas dependem fundamentalmente do cumprimento da lei. Deuteronômio 28 é central, pois atrela à obediência da lei toda espécie de bênção; como também afirma que males diversos virão caso os mandamentos sejam descumpridos.</p>
<p>Se algum judeu quisesse viver sem grandes problemas que cuidasse, então, de observar os pormenores mínimos da Torá. Obviamente, a garantia de que obedecer traria uma vida segura, não se sustentou. No Salmo 44 o escritor briga com Deus. Ele diz que o Senhor vendeu o seu povo por uma ninharia e nada lucrou com isso. Alega ainda: Israel vinha cumprindo a lei, mas não adiantou nada: <em>Tudo isso aconteceu conosco, sem que nos tivéssemos esquecido de ti, nem tivéssemos traído a tua aliança. Nossos corações não voltaram atrás, nem os nossos pés se desviaram da tua vereda. Todavia, tu nos esmagaste e fizeste de nós um covil de chacais e de densas trevas nos cobriste</em>. [17-19].</p>
<p>Após o exílio babilônico, várias teorias se espalharam em busca de explicar os motivos pelos quais Deus abandonou Israel nas mãos de seus inimigos. <em>A menina dos olhos de Deus </em>não podia ficar à mercê de povos idólatras. O livro de Jó foi escrito nesse período como uma tentativa de compreender porque o justo sofre; é uma poesia em que as pessoas erram por tentarem entender as decisões de Deus. A mulher de Jó, seus amigos e o próprio personagem buscam respostas, mas acabam sem alcançar as razões de Iavé. Por que ele age tão sem critérios na distribuição dos seus favores e castigos? O justo, temente a Deus, sofre. Seus filhos morrem sem que ninguém saiba ao certo os motivos. Por que o Senhor de toda criação apostaria com o adversário? Por que os filhos padecem na trama em que o pai está envolvido? Eles não eram a descendência de um justo?</p>
<p>Jó não se aquieta. Rebela-se, esperneia contra a sorte e depois de expor sua revolta, ouve Deus alongar um discurso, mas sem razoabilidade. Os porquês dos atos divinos continuam ilógicos.</p>
<p>Depois -ou simultaneamente &#8211; desse livro poético, começaram circular os textos que comporiam o livro do Eclesiastes; uma obra mais na linha sapiencial.</p>
<p>O Eclesiastes é pessimista; consequentemente, um texto fatalista. Em diversas ocasiões seus autores (biblistas consideram que o Eclesiastes é coletânea de textos e não a produção de uma só pessoa) se parecem precursores do niilismo moderno:</p>
<p style="padding-left: 60px;"><em>Refleti nisso tudo e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, e aquilo que eles fazem, estão nas mãos de Deus. O que os espera, se amor ou ódio, ninguém sabe. Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los. Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: O destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos</em> [9:1-3].</p>
<p>Para o Eclesiastes a vida é absurda. Deus não capitaneia os eventos já que a existência não distingue os bons cumpridores da Torá, dos ímpios.</p>
<p>Essas três respostas &#8211; obediência da Torá, Jó e Eclesiastes &#8211; podem ser consideradas esforços primitivos do que mais tarde Leibniz chamaria de teodiceia &#8211; a tentativa filosófica de responder ao impasse de &#8220;se Deus é bom e todo poderoso e não acaba com o sofrimento, então ele não é bom, ou não é todo poderoso&#8221;.</p>
<p>Depois de séculos, o sofrimento humano continua um mistério – sobretudo das crianças. Desde os textos mais primitivos, explicação alguma teve força de calar o lamento dos judeus. Ao olharem em retrospectiva as monumentais tragédias de pessoas, famílias e gerações, eles nunca se aquietaram. Daí Auschwitz representar um marco decisivo na espiritualidade judaica. Diz-se que depois dos fornos de cremação, concepções sobre Deus precisam ser revistas. Desde o exílio babilônico, passando pelos pogroms da Idade Média e por fim o holocausto nazista, não era mais possível pensar em Deus como um maquinista que insiste em pilotar o trem da história. Como continuar a imaginar Deus, querendo &#8211; ou permitindo &#8211; o holocausto?</p>
<p>Creio na necessidade de evitar pelo menos duas posturas diante do mal.</p>
<p><strong>1</strong>. Não podemos fugir. Colocar o sofrimento na conta dos mistérios insondáveis da divindade, não resolve. Quando nos vemos em acidentes trágicos [aleatórios], evitar a realidade parece ser um consolo. Dizer que infortúnios são mistérios, e que a melhor resposta é resignar-se, acaba cobrando um preço alto anos depois. Fé não significa aceitar o inaceitável. Em muitos casos, o sofrimento nos vem como resultado da ação de pessoas, governos e sistemas perversos. A passividade de afirmar que Deus tem seus motivos, pode perpetuar a maldade. Demolir sistemas que promovem a morte requer ousadia. Jó ensina e indagar e a resistir, internamente, o sofrimento. Alguém já me provocou: “De onde vem sua petulância de querer repensar o que a teologia já sistematizou? Não me considero petulante. Creio, apenas, que não é pecado enfrentar o que dava uma falsa sensação de segurança. Nossas convicções devem ser testadas, exatamente, na dor. Fé suporta questionamentos difíceis. Se alguma certeza não se sustentar diante do feroz inquiridor, talvez ela não mereça continuar. Perguntas podem suscitar novas perguntas e com elas, mais dúvida. A dúvida fortalece a fé. Mesmo que continuemos sem respostas definitivas, vale aprofundar nossas angústias. Leibniz afirmava que a percepção de um Deus que encobre seus atos, o torna pior do que Calígula. O imperador romano escrevia suas leis em letras minúsculas e mandava publicá-las em lugares tão altos que ninguém as conseguisse ler.</p>
<p><strong>2</strong>. Não podemos tentar camuflar nossas dúvidas com frases piedosas. Repetidas vezes o debate sobre o sofrimento humano se esvazia antes que se consiga expor os conteúdos que nos inquietam. Alguns têm medo de magoar Deus e se encolhem. Outros evitam brigar por temerem que a indagação mais aguda os fará apostatar da fé. As verdades continuam, assim, estabelecidas por mero sentimentalismo. Essa piedade também pode acalmar diante da dor, mas ferverá por anos até explodir como ódio contra Deus.</p>
<p>Jesus, ciente dos primitivos arranjos teológicos do judaísmo, descartou a lógica de que só os obedientes eram abençoados. Ele admitiu que bons e maus são alvos do amor de Deus. Ele também advertiu os discípulos sobre tribulações, perseguições e traições. Se lírios e pardais lembravam o cuidado de Deus, guerras e fome não deixariam esquecer o tamanho da iniquidade humana. Ele mostrou Deus não como o castigador celestial, mas como nosso amigo. Com ele aprendemos que viver é ao mesmo tempo magnífico e perigoso.</p>
<p><em><strong>Soli Deo Gloria</strong></em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O legado que vou deixar</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Feb 2017 05:30:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Minha Vida]]></category>
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					<description><![CDATA[O legado que vou deixar Ricardo Gondim Quisera poder fatiar os pensamentos. Eu os desdobraria em porções compreensíveis. Quem sabe explicaria o emaranhado de ideias que me assombram; e que nem eu próprio decifro. O fluxo de minhas reflexões não para &#8211; meu novelo de perplexidade. Continuo inquieto diante da vida como uma criança na [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O legado que vou deixar</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Quisera poder fatiar os pensamentos. Eu os desdobraria em porções compreensíveis. Quem sabe explicaria o emaranhado de ideias que me assombram; e que nem eu próprio decifro. O fluxo de minhas reflexões não para &#8211; meu novelo de perplexidade. Continuo inquieto diante da vida como uma criança na véspera do aniversário. Navego no rio do tempo, enquanto resisto ao seu fluir.</p>
<p>Com a idade, dou-me ao luxo de não precisar me mostrar sempre lúcido. Almejo tão somente alcançar a bem-aventurança de ser bondoso. Estou cansado das ideias exatas. Eu as respirei por anos. Elas prometeram galardoar com a verdade derradeira, mas foram desalmadas. Envelheço. Sei que sequer arranho a superfície da sabedoria.</p>
<p>Não tenho mais estômago para tentar costurar a ideia de Deus com discriminação, racismo, misoginia, ganância, individualismo. Gastei tempo demais com pessoas simpáticas ao ódio. Prescindo delas. Não quero aprender nada de quem desrespeito.</p>
<p>Na madureza, anelo respirar o divino na sensibilidade do poeta, na compaixão do solidário, na impertinência do justo. Os minutos são poucos para quem tem sede de saborear a beleza. Perto de gente simples desejo lavar, com as minhas lágrimas, o sofrimento que me rodeia. Anelo transformar as palavras em refúgio. Anseio me tornar uma hospedaria para o estrangeiro.</p>
<p>Quisera descobrir o segredo de transformar as dores em ânimo. Eu ajudaria o fadigado. Vez por outra desço até os porões pouco iluminados da alma em busca da minha fragilidade. Revisito tropeços. Vou lá onde não brilham as falsas luzes do sucesso, sei da minha condição de quebradiço. Minhas cinzas podem adubar novos projetos e ajudar quem precisa a ressuscitar como Fênix.</p>
<p>Reluto para não permitir que o cinismo destrua os meus sonhos. Chegou o tempo não de novas conquistas, ou de mais conhecimento, mas de pensar no legado que vou deixar. Breve voltarei ao pó. Sigo o caminho dos mortais. Teimo, entretanto, em desejar outro mundo para a próxima geração.</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Como desaprendi a minha teologia</title>
		<link>https://ricardogondim.com.br/estudos/como-desaprendi-a-minha-teologia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Feb 2017 02:10:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estudos]]></category>
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					<description><![CDATA[Como desaprendi a minha teologia Ricardo Gondim Aprender começa com a disposição de desaprender. Depois vem o segundo passo: o destemor. Como todo o saber implica em perdas e ganhos, quem ousa a continuar com perguntas se despede da ingenuidade, enquanto se lança no desconhecido. Teologia, uma disciplina por demais contida seja por escrúpulos piedosos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Como desaprendi a minha teologia</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Aprender começa com a disposição de desaprender. Depois vem o segundo passo: o destemor. Como todo o saber implica em perdas e ganhos, quem ousa a continuar com perguntas se despede da ingenuidade, enquanto se lança no desconhecido.</p>
<p>Teologia, uma disciplina por demais contida seja por escrúpulos piedosos ou por controle institucional, pode condenar à superficialidade. Basta ao teólogo abraçar o receio de desaprender ou a timidez de insistir nas novas indagações.</p>
<p>Várias pessoas me questionam sobre o caminho em que enveredei. Alguns querem saber como reconfigurei o pensar teológico. Fiz um dever de casa. E nessas inquietações lidei com:</p>
<p>1. <strong>A autonomia da natureza</strong>. Questiono se eventos trágicos são da tutela direta ou do controle de Deus. Discordo que terremotos, furacões, inundações ou quaisquer outros acontecimentos naturais sejam explicados como castigo ou bênção. Deixei de aceitar que haja alguma necessidade – permissiva ou diretiva – nos eventos do universo. Caso morram multidões ou caso alguma vida seja poupada em um tsunami, não correlaciono com castigo ou milagre. Descarto que haja um controle divino sobre mim e sobre a história. Por que Deus é amor não existem cabrestos, trilhos, anzóis.</p>
<p>2. <strong>A heteronomia</strong>. A palavra é incomum. Explico. A expressão heteronomia possue duas palavras gregas, <em>heteros</em> que significa diferente e <em>nomos</em>, lei. Em síntese, heteronomia significa que alguém <em>lá fora</em> dita as normas da vida com seus valores éticos e com seu sentido existencial. E que o ordenamento da vida pertence a Deus e não a mulheres e homens. Desisti de acreditar que tanto as leis que regem o mundo físico como as que orientam os comportamentos éticos e morais venham de fora.</p>
<p>Abandonei a crença de que Deus habita em algum lugar <em>lá em cima</em> e que ele regula <em>de lá</em> todos os aspectos da vida. Verdade, a Bíblia se refere a Deus morando nas-alturas, mas o faz a partir de uma visão primitiva do mundo. A ideia de que sua moradia fica nas alturas está ultrapassada. (Ela pode preservar um sentido metafórico bonito). Na antiguidade, o mundo se dividia em diferentes camadas. O trono de Deus se situava no céu, bem acima, para revelar que ele se distinguia de tudo e de todos. O subterrâneo se destinava aos mortos para mostrar a crueldade da morte.</p>
<p>Na Idade Média, com o surgimento da astronomia, a ideia de que existe uma dimensão <em>lá em cima</em> minguou. Também acabou o pensamento de que os mortos vivem em algum sítio <em>debaixo da terra.</em> Depois dessas concepções, passou-se a acreditar que deve haver um lugar “<em>lá fora”</em> para explicar a existência de Deus. A ideia de uma dimensão <em>além</em> ficou conhecida como metafísica tanto na filosofia como na teologia. Heteronomia implica, portanto, que as leis que regem a vida venham do céu &#8211; <em>lá de cima.</em> Ela se origina, igualmente, da ideia de que o plano sobrenatural influencia, ou controla, o mundo físico.</p>
<p>Rejeito a heteronomia. Prefiro a autonomia. Creio que a responsabilidade da defesa da justiça repousa no colo de homens e mulheres. Os parâmetros que preservam a vida são conquistas humanas. As normas que reconhecem a dignidade de todos brotam de avanços sociais. Deus, que não é um enorme títere ou maquinista, celebra a solidariedade e lamenta a guerra. Nesse ponto concordo com a teologia de Bonhoeffer: <em>O transcendente não é o infinitamente distante, mas a realidade que está mais próxima de nós</em>.</p>
<p>3. <strong>Diferença entre espiritualidade e religião.</strong> Entendo que, modo geral, religião busca a Deus como recurso para solucionar os problemas da vida. Afinado com Bonhoeffer, repenso o papel da minha espiritualidade. Bonhoeffer, preso em um campo de concentração nazista, teve que resignificar sua expectativa de milagre. A realidade do sofrimento, a brutalidade do ódio e a frieza do preconceito o levaram a questionar a teologia. Em uma carta escrita na prisão, ele afirmou: <em>Mais uma vez ficou bem claro para mim que não devemos fazer com que Deus figure como o tapa-furos do nosso conhecimento imperfeito</em>. Mais tarde, Bonhoeffer confessou:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>“Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Marcos 15.34)! [&#8230;] Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, ele está conosco e nos ajuda. Em Mateus 8.17 está muito claro que Cristo ajuda não em virtude da sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento. Neste ponto reside a diferença decisiva em relação a todas as religiões. A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo. Este Deus é o deus ex-machina. A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar”. </em></p>
<p>Parei de lidar assim com a espiritualidade como técnica. Já não almejo alcançar socorro, ajuda, promoção, cura, ou qualquer outro livramento, vindos de Deus. Sustento a fé na busca incessante de viver nele, porém sem ele.</p>
<p>Me sinto mais de Deus quando assumo a humanidade &#8211; com todas as consequência (boas e trágicas). Constrangido por um amor eterno, sei que fui criado para a liberdade. E com essa liberdade, quero me achegar a Deus. Imensamente.</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O imperativo de viver</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Jan 2017 20:23:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Minha Vida]]></category>
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					<description><![CDATA[O imperativo de viver Ricardo Gondim A vida acontece também na desobediência. Nem toda a engrenagem precisa ser cumprida. Os transgressores da simetria, os contestadores das margens, os desafiadores das certezas nos levaram para o mais belo, o mais longe, o mais verdadeiro. Há alguns anos, deitado na cama de um hospital, resolvi sair do [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O imperativo de viver<br />
</strong>Ricardo Gondim</p>
<p>A vida acontece também na desobediência. Nem toda a engrenagem precisa ser cumprida. Os transgressores da simetria, os contestadores das margens, os desafiadores das certezas nos levaram para o mais belo, o mais longe, o mais verdadeiro.</p>
<p>Há alguns anos, deitado na cama de um hospital, resolvi sair do meu pacotinho. Eu precisava transgredir, desafiar, contestar. Ali notei, precisava fazer alguma coisa caso não quisesse continuar preso à mesmice.</p>
<p>Primeiro, constatei que nem sempre sofremos os efeitos de alguma causa. Nossas dores não se explicam, necessariamente, na lei da semeadura (ela estabelece que colhemos o que plantamos). Há o imprevisível. Decepções chegam, igualmente, para justos e injustos. Os desgostos não escolhem portas para bater. O infortúnio nivela a todos.</p>
<p>Cara a cara com essas constatações, e com a brevidade da vida, decidi não esperar. Eu não permitiria que os anos escorressem iguais uns aos outros. Em meio à dor, determinei viver diferente &#8211; nada como a fragilidade para provocar novas atitudes.</p>
<p>Para ressurgir, precisei bagunçar a <em>quadradice</em> de antigas certezas. Intui, uma nova espiritualidade só nasceria se desistisse de tentar espremer o divino nas pautas do meu catecismo. Caso insistisse em desenhar sobre as linhas pontilhadas do caderno, empobreceria meu conhecimento de Deus. Eu carecia de poesia ou  quem sabe da <em>não-resposta</em> dos místicos. Na perplexidade do imperceptível, eu poderia degustar o Eterno.</p>
<p>Desisti de antecipar as iniciativas de Deus. Desobriguei-me da capacidade de controlar a existência com atos piedosos. Larguei de lado o controle de gerenciar cada desdobramento de minhas escolhas. Rasguei planilhas. Como considerar os resultados matemáticos de cada decisão?</p>
<p>Já não tento aplainar as estradas que se alongam diante de mim. Frustrei-me na busca de domar a vida. O Eclesiastes ensina que nem sempre os fortes vencem e nem sempre os justos sentam à mesa com paz. Experimentei a dor de ver ideais virarem insultos, arrojos, fadigas e pressupostos, anátemas.</p>
<p>Consciente da vulnerabilidade de existir, não confundo quietude com covardia. Proponho a mim mesmo encarar cada nova esquina com determinação. Parei de resmungar diante das consequências do lado que escolher. O conceito de vida plena esconde-se nos riscos que ousamos correr.</p>
<p>Sentencio não viver um saudosismo triste. O carrossel da vida não anda para trás. O tempo se mostra indelével; e ele mastiga quem reluta em resisti-lo. A recusa de largar o que se foi, adoece &#8211; e esse mal se chama melancolia. Minha esperança renasce até dos escombros da memória.</p>
<p>Desisto de aplacar o ódio de quem não me conhece. Não tenho meios de reverter antipatias. As agulhas que tentam me ferir são mais numerosas do que imagino; já não tenho fôlego para quebrar cada uma delas. Prefiro continuar indefensável. Me contento com poucos amigos.</p>
<p>Me reinvento. Não me deixo patrulhar por escrúpulos alheios. Largo mão de me mostrar competente diante de auditórios austeros. Me desvisto do esforço de impressionar quem jamais seria meu amigo.</p>
<p>Decido exorcizar a rispidez como um demônio. Quero que bondade esteja na raiz das minhas iniciativas. Garimpo verdades que geram candura. Desejo aprender a reverenciar o próximo e o estrangeiro. Almejo redescobrir Deus no rosto da criança sofrida, na mão suplicante do miserável e no olhar do ancião abandonado. Vou celebrá-lo nas iniciativas solidárias e na obstinação dos que defendem os oprimidos. Que eu jamais confunda franqueza com insolência; e que graça tenha o primeiro lugar em meu coração.</p>
<p>Me mantenho obstinado em ler. Me disciplino no amor à poesia. Sonho em aprender a apreciar os mestres da pintura. Anseio apurar os ouvidos para a sutileza da sinfonia clássica. Tempero o dia que se mostra insípido.</p>
<p>Me recuperei de um tempo difícil e não posso alucinar sobre mim mesmo. Meu tempo se chama agora. Estou comprometido ao contentamento com a simplicidade para curtir cada instante. Considero melhor ser íntegro que herói.</p>
<p>Resta torcer para que o espantalho da morte se atrase e não frustre tantos planos.</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
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		<title>O futuro não chega, nós o criamos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Jan 2017 19:19:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Meditações]]></category>
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					<description><![CDATA[O futuro não chega, nós o criamos Ricardo Gondim Não acredito na sorte. Não tenho medo do azar. Não vivo esperando que &#8220;tudo se ajuste no fim&#8221;. Creio que o Deus maquinista, aquele que conduz a história pelos trilhos de sua vontade soberana, é um ídolo. Gente tem força de definir rumos. Nós estabelecemos destinos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O futuro não chega, nós o criamos</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Não acredito na sorte. Não tenho medo do azar. Não vivo esperando que &#8220;<em>tudo se ajuste no fim&#8221;</em>. Creio que o Deus maquinista, aquele que conduz a história pelos trilhos de sua vontade soberana, é um ídolo.</p>
<p>Gente tem força de definir rumos. Nós estabelecemos destinos &#8211; somos pedra no caminho ou ponte que emenda rupturas; somos o fim de picada ou a avenida da possibilidade; somos péssima memória ou saudade sorridente; somos um ombro amigo ou a causa da úlcera.</p>
<p>Responsáveis de alguma forma por rostos felizes, curamos. Geradores de angústia, enfermamos. Nossa companhia carrega a possibilidade de fortalecer a autoestima ou de traumatizá-la. Ensinamos o como de dar a volta por cima ou empurramos para a lama.</p>
<p>Fomos criados para ser criadores. Na breve história humana sobram registros do processo como culturas ultrapassaram seus obstáculos. Se morder carne crua era difícil, aprendemos a cozinhar. Se a visão dos mortos apodrecendo a céu aberto aumanetava a dor, aprendemos a enterrá-los. Se mover um fardo levava tempo e desperdiçava energia, criamos a roda.</p>
<p>A história também teve o lado. escuro. Quando os movimentos de ir e vir pareciam incentivar a liberdade e ameaçar a autoridade do líder, inventamos as cercas. Para aumentar o domínio territorial e preservar a riqueza, organizamos exércitos. Para perpetuar o poder da tribo, refinamos a arte da guerra. Para fazer valer a chacina, colocamos Deus na equação da barbárie.</p>
<p>O futuro não chega apenas, nós o criamos. Redesenhamos o amanhã inédito. Evitamos o que considerávamos inevitável. O futuro chegou, por exemplo, para Maria, que os amigos feririam na escola. Por onde ela andará, o que sofre atualmente?</p>
<p>Quando o pai de Antônio o decepcionou, que futuro preparou para o filho? Os meninos, que o líder religioso navalhou, vivem qual destino? Em que medida a professora foi responsável pela sensibilidade, ou pela desgraça, do poeta? Como a mulher  resolve hoje o trauma de sofrer um abuso sexual na adolescência? Alguém pode rir, ou padecer, como resultado das ações de outras pessoas.</p>
<p>A palavra falada, a reação impensada, o elogio espontâneo, o comentário despretensioso, tudo serve de argamassa para a construção do amanhã. Fatalismo paralisa. Ingenuidade e passividade se confundem. Desdém e covardia mascaram. Deixar “<em>rolar para ver o que acontece</em>” pode ser apenas fuga. Crer que <em>“Deus tem tudo sob seu controle e tudo acabará em bem&#8221;</em>, desfigura a esperança. Não há escapatória: &#8220;<em>o que será, será</em>” legitima as aberrações históricas.</p>
<p>As estrelas não afetam a vida (elas estão longe demais). Se a lei da gravidade está certa, a massa das pessoas que nos rodeia exerce uma força tremendamente maior. O Deus enxadrista, que mexe com vidas como se fossem peões em um tabuleiro, não existe. Eis a questão essencial: em nossa liberdade, somos fator de sorte ou de azar?</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Meu último trecho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jan 2017 20:11:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Minha Vida]]></category>
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					<description><![CDATA[Meu último trecho Ricardo Gondim Chegou o tempo de repetir o que parece obviedade: a vida é curta. Envelheci como roupa usada. O sol dissipou a maioria dos meus anos como neblina. Já não consigo esconder o desgaste do tempo. Mostro rugas. Não disfarço no olhar as cicatrizes da alma. Noto uma grossa camada de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Meu último trecho</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Chegou o tempo de repetir o que parece obviedade: a vida é curta. Envelheci como roupa usada. O sol dissipou a maioria dos meus anos como neblina. Já não consigo esconder o desgaste do tempo. Mostro rugas. Não disfarço no olhar as cicatrizes da alma.</p>
<p>Noto uma grossa camada de poeira cobrindo pessoas, eventos, instantes. Entristeço. Os anos não me deixam rever o semblante de quem já se foi. A saudade tortura. Não sei como reviver momentos especiais. O tempo soterrou a vida.</p>
<p>Posso também me valer de uma metáfora comum: a vida é uma estrada. Desde muito, meu caminhar foi íngreme. Na adolescência, me vi obrigado a enfrentar as ladeiras de grandes montanhas. Me senti constrangido tantas vezes só por ser filho de preso político. Em época de muito preconceito, eu precisava admitir publicamente que papai era “<em>subversivo</em>”. Nessas trilhas, me vi obrigado a encarar dificuldades maiores do que a minha resiliência. Ainda menino, carreguei fardos. Compreendi: não existem estradas fáceis. E o aceno da porta larga não passa de alucinação. Hoje convivo com uma certeza: se o meu itinerário nunca foi fácil, o de ninguém também não é.</p>
<p>Ainda revivo o desconforto da mamãe, grávida e obrigada a voltar a morar na casa dos pais. Ela sofreu demais. O cárcere político nos empobreceu da noite para o dia. Não tenho como avaliar sua humilhação.</p>
<p>Nasci canhoto. Em tempos passados, os canhotos sofriam discriminação. A professorinha, que me ensinou o be-a-bá, tentou me forçar a escrever com a direita. Não conseguiu. As feridas ficaram, todavia. Sempre que refaço o trajeto, olho de baixo para cima. Eu era <em>&#8220;desastrado&#8221;. </em> Por isso, jamais me vi capaz de ultrapassar o sarrafo dos campeões.</p>
<p>Cedo aprendi que jamais teria competência para triunfar sozinho. Muitas vezes só encarei desafios na carona da coragem alheia. Eu me esforçava só para acompanhar a valentia das pessoas que me rodeavam. Nunca me distanciei da imaturidade. Embora procurasse evitar, cresci consciente das minhas inadequações. A idade não me ajudou a superá-las todas. Permaneço incipiente.</p>
<p>Cresci tímido, introspectivo. Enfrento melhor grandes auditórios que uma conversa cara-a-cara. Sempre dependi da iniciativa dos outros para começar algum diálogo.</p>
<p>Alguém detectou que os homens passam pela vida sem desistir de reencontrar o colo materno. Dizem que nossa existência não passa de uma viagem ao passado. Buscamos sem cessar a mulher que nos saciou, abrigou e protegeu. Admito, anelo sem parar o regaço da Glícia, minha mãe.</p>
<p>Sigo assim no último trecho da estrada. Não nego a <em>“noite escura”</em> da minha alma. Encaro meus desertos. Atrelo o destino a uma cruz. Guardo no peito um clamor parecido com o do Nazareno: “<em>Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? “</em></p>
<p>Caso a jornada se alongue por mais alguns anos, sei que vou enfrentar novos perigos. Tenho certeza, porém, do amor de meus queridos. Creio que através deles, perceberei a voz de Deus. E ela soará como a da mulher que um dia me fez adormecer. Em meu pavor infantil, mamãe me acalmava só em dizer: <em>“Estou aqui”</em>.</p>
<p><em><strong>Soli Deo Gloria</strong></em></p>
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		<title>Nasci no mês de Janus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ric_gon_bet]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Jan 2017 20:34:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Minha Vida]]></category>
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					<description><![CDATA[Nasci no mês de Janus Ricardo Gondim Nasci em janeiro, um mês que transita entre o ano que acabou e o que ainda engatinha. Mantenho um pé no passado, o outro pertence ao futuro. Sou um milagre. Mamãe me carregava na barriga e o avião, que decolou em São Paulo rumo a Fortaleza, caiu. Esse [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nasci no mês de Janus</strong><br />
Ricardo Gondim</p>
<p>Nasci em janeiro, um mês que transita entre o ano que acabou e o que ainda engatinha. Mantenho um pé no passado, o outro pertence ao futuro.</p>
<p>Sou um milagre. Mamãe me carregava na barriga e o avião, que decolou em São Paulo rumo a Fortaleza, caiu. Esse acidente marcou a minha infância. Em cada desafio, em cada percalço, em cada decisão, eu fui lembrado do dever de honrar o livramento que Deus &#8211; a vida, o universo, ou a perícia do piloto &#8211; me brindou. Meu passado excepcional serviu de argumento para que eu me desdobrasse; âncora que jamais me deixou esquecer as minhas raízes.</p>
<p>Vim ao mundo no dia anterior à primeira quinzena do primeiro mês do ano. Janeiro, no paganismo romano, era dedicado a Janus: o deus dos começos, dos portões, das transições. Janus vigiava os portais e as passagens; também presidia sobre os fins. Em suas imagens, ele tinha dois rostos. Um semblante mirava o passado e o outro, o futuro.</p>
<p>Como pertenço ao mês de Janus, encaro a vida em constante passagem. Vejo-me ligado ao passado. Meu rosto se volta para realidades que já não existem. Daí eu manter essa saudade irremediável. Não consigo fugir da melancolia. Sou nostálgico. Gosto de ambientes intimistas, calmos. Aquieto-me com músicas suaves. O silêncio me é sagrado. Sinto-me bem em museus. Leio história.</p>
<p>Meu rosto, igual ao de Janus, também se volta para o porvir. Tenho esperança. Sei desse perigo. Insistir em um futuro melhor faz sofrer. Idealistas se angustiam. Esperançar é verbo dolorido. Nenhuma crença se mostra tão frágil quanto a que aposta no que ainda não aconteceu. Tudo pode abortar a fé no amanhã. A maldade humana e os imprevistos da natureza são pedras que impedem o caminho dos idealistas. Não consigo, porém, curar-me. Por mais que tente fugir, semeio pequenos gestos. Acredito na colheita abundante e generosa que a próxima geração fará.</p>
<p>Semelhante a Janus, meu olhar existencial mantém-se retrospectivo e prospectivo. Nos dias que se foram, experimento a morte; nos que ainda não aconteceram, vivo a ressurreição.</p>
<p>Janus também supervisionava a trégua, já que presidia o começo e o fim dos conflitos; construía pontes. Ele era o patrono das reconciliações. Desisti das expectativas espetaculares em minha vida. Já obtive os meus 5 minutos de fama (e não me encantei). Estou consciente de que nunca serei capa de jornal. Jamais ganharei prêmio literário. Não fundarei escola de pensamento. Se conseguir, todavia, estender pontes, caso mereça fazer parte da bem-aventurança do pacificador (portanto, um filho de Deus), honrarei o milagre do meu nascimento e a coincidência de pertencer ao mês de janeiro.</p>
<p><strong><em>Soli Deo Gloria</em></strong></p>
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