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	<title>Quero um sanduíche de queijo</title>
	
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		<title>[ Conto ] Coma</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Feb 2012 02:23:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desperta de um coma induzida. Onde? Não sabe. Não sabe nem quem é.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/5065076167_e3f2c31404_z1-e1328580299262.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3270" title="5065076167_e3f2c31404_z" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/5065076167_e3f2c31404_z1-e1328580299262.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ao despertar de um coma induzido, descobre-se em outro lugar. Deitado em leito, a primeira visão que tem é a do céu &#8211; em sala de teto aberto. Um estranho teto. Quatro biombos grandes brincando de parede deixavam, ainda, transar os ramos de plantas sadias para dentro do espaço. Não haviam aparelhos ou sondas como ele se lembrava de existirem em memórias picotadas. Levantou e caminhou. Não era sonho, dada a realidade, mas poderia ser, dado a sensação. O primeiro que viu, logo o chocou. Era uma mulher. Não era uma mulher. Era uma criatura humanóide muito semelhante à mulher. Era negra e estava com um vestido longo levemente transparente e de cor indecisa, pois evoluia em tons em degradê que parecia responder ao tom de sua voz e também às movimentações das nuvens. Não disse uma palavra ao vê-lo fora da cama. Um cabelo pesado no rosto até o queixo, era difícil discernir suas linhas de face. Suas vozes, no entanto, eram super claras e embora múltiplas, não soavam como um coral que projeta o som multiplicado de uma só direção. O desperto escuta ela chamando, e o som parece vir de seus lábios, mas a voz se projeta também da pedra ao seu lado, do biombo aberto, das raízes e das folhas, todas em um dedo de momento diferente, mas com a mesma mensagem &#8211; ouve de uma dessas vozes, uma risadinha infantil ao final da frase, que certamente não estava na voz original, e nem nas demais que se seguiram ou transaram a ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Do alto do morro, o paciente vê as construções de uma cidade desordenada, feito ruínas, embora intacta. Lembra-se de prédios ladeando ruas antes de um coma. Aqui não há ruas, apenas prédios em que brilham janelas, de alturas diferentes, mas de cores indiferentes, de acabamento inexistentes. Não há ordem para os prédios, a não ser uma distância exata entre eles, seja para que lado for, a distância parece ser a mesma entre um e outro. A altura, embora varie, é geralmente tão alto quanto um prédio de quinze andares, portanto alto, e uns na exata metade da altura entrecortam a distância padrão pela metade, ficando, sempre que aparecem, exatamente no meio de dois prédios altos. É curioso e extremamente confuso, pois a bem da verdade não há ordem ou lógica senão de altura e de distância.<span id="more-3268"></span></p>
<p style="text-align: justify;">- Aonde vamos?<br />
- Ver o que será feito de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">A negra vira-se para responder, mas seus pés descalços continuam a marcha dura que seguia. O cabelo crispado descortinou-se com o movimento revelando uma estranha e inconcebível realidade, a que o paciente não pode deixar de notar entre o emaranhado de fios, e pontuou sem gaguejar:</p>
<p style="text-align: justify;">- Onde estão seus olhos?</p>
<p style="text-align: justify;">A marcha sofre uma vírgula, seguida de um parentese e a negra vira-se completamente. Sua cabeça pende para o lado em claro movimento de desconhecimento, mas prefere continuar sem responder maiores perguntas naquele momento. Havia pressa, ainda que calma. Ao nível dos prédios, a grama morria e começava uma pedra aplainada &#8211; que ele chamaria de calçada, durante sua estadia. E por onde andavam, nessa marcha lenta, dura, mas extremamente atenta, outros pares dessa negra sem olhos. E ninguém, ninguém, parecia possuir olhos. Somente ele &#8211; e, portanto, ninguém via o que ele podia ver.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que foi? &#8211; perguntou a negra, mas ele pode jurar que a voz se propalou de um homem um pouco barrigudo que passara por ele no exato momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele nada respondeu e a marcha se seguiu. As pessoas caminhavam, e os sons se propagavam com força &#8211; em que ecoavam de maneira profunda nesses prédios opacos e de entrada única. Se antes havia observado a lógica de altura e distância, o paciente talvez tenha vislumbrado a função daqueles monoblocos de matéria indecisa: a de amplificar os sons, e de ecoá-los e guiar aqueles habitantes sem olhos. Da ausência da visão, depreende-se que os demais quatro sentidos se agucem com precisão assustadora &#8211; tal qual a dos olhos do paciente que pode discernir tantos milhares de matizes e detalhes. Eis aqui uma cidade feita para um povo que vive no escuro &#8211; não, a ideia de escuro não pode existir para essas criaturas, pois não existe a luz ou a falta dela, simplesmente não existe deixar de ver, pois jamais existiu ver coisa alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">Entraram em um prédio menor. Doze criaturas ocupavam uma mesa &#8211; tudo muito limpo, embora sem a menor preocupação com estética. E ainda assim pequenos detalhes e cuidados que, de outra forma, seriam completamente desnecessários a cegos. Mas para aquele povo, qualquer curvinha ou detalhe já mudava a percepção sonora e táctil de uma sala ou de uma calçada, e por isso elas existiam: para corrigir ou aniquilar alguma intercepção.</p>
<p style="text-align: justify;">- Está tudo bem?</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntou a cadeira em que sentava, embora tenha ficado claro que apenas um dos homens tenha usado a boca &#8211; o dono da voz. O paciente confirmou e foi posto ao centro do círculo. Não tentou como tantos, fechar os olhos e acordar &#8211; pois desde que acordara, o que mais temia era dormir profunda novamente. Pois manteve-se acordado, e foi acordado que tentou laçar chifres de sua memória &#8211; mas nenhum touro antigo estava em sua mente, se estivessem, estavam todos adormecidos abaixo da superfície esperando aquele estouro de manada que os põe pra fora em desvario.</p>
<p style="text-align: justify;">- Onde estou?<br />
- Não sabemos onde está. Mas poupe suas forças, você está aqui para responder perguntas.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo falou.</p>
<p style="text-align: justify;">- Quem somos todos esses?</p>
<p style="text-align: justify;">Coma no diálogo.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não sabem quem são? Vim até aqui justamente para saber quem são vocês e o que querem comigo.<br />
- A única lembrança que temos é a de ouvir a sua respiração e construir toda essa vida ao seu redor esperando que você acordasse. E você acordou. E está diante de nós. Quem somos nós, portanto?<br />
- Não sei quem são&#8230; talvez, coisas de minha mente?<br />
- Somos vivos, como você. E não diga &#8216;vocês&#8217;, pois nós fazemos parte de sua dúvida, portanto somos &#8216;nós&#8217;. Quando souber quem somos, saberá quem é.<br />
- Tudo que sei é que&#8230; é que&#8230; fiquei desacordado, dormindo profundamente. Em algum canto tentando desesperadamente acordar. E agora parece que acordei, enfim.<br />
- Não, você apenas se levantou, ainda está perdido na mesma profundeza.<br />
- Por que nenhum de vocês tem olhos?</p>
<p style="text-align: justify;">Silêncio. Enquanto tudo ao seu redor falava e respondia e talhava diálogo, ao passo de uma pergunta &#8211; e ele não estava ali para perguntas &#8211; o auditório silenciou, desconhecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">- O que são&#8230; olhos?</p>
<p style="text-align: justify;">Não pode explicar. Como poderia? Tão simples, banal, e ainda assim a melhor explicação não encontraria qualquer significado dentro daquelas suas criaturas &#8211; não se trata apenas de um globo de carne que vê, é justamente o conceito de ver que lhe faltaria as palavras para fazer justiça. Tentou da melhor forma possível.<br />
- É um globo no rosto que te faz ouvir de uma forma completamente diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos, no salão, seguraram a respiração. Nesse momento foi que apareceu, enfim, aquilo que lhe causava estranheza na negra de cabelos encrespados e cobertos, a voz: pela primeira vez, silenciado o entorno, ela apareceu cristalina enfim e direta de sua boca, era um desses estouros que a manada de memórias precisa para emergir e estourar seu cérebro ao reconhecer, ou ao menos ligar aquele presente à um detalhe de um passado escondido: a voz de alguém. A voz de alguém. Que não sabia quem era, qual a relação com ele, ou absolutamente nada além do casamento de frequências.<br />
- Quem é você? &#8211; segurou-lhe a mão, a dela fria.<br />
- Eu sou você. &#8211; olhou para o conselho atrás da mesa como se confirmasse que a sua resposta estava correta.<br />
- Não me reconhece? Digo, não reconhece a minha voz, tente se lembrar de quem você realmente é&#8230;<br />
- Não escutamos a sua voz, meu anjo. Apenas sabemos o que quer falar.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele &#8216;meu anjo&#8217;, ele engoliu a seco. Sentiu a frase materializar-se logo depois de entrar por seus tímpanos, descer até a garganta e ali formar um bolo de remorso e lembrança que caminhou lentamente, mas queimando as entranhas, até depositar-se em se estômago, ardendo-lhe o umbigo &#8211; e ele não tinha o umbigo quando olhou para baixo e deu-se por nu. E aquela azia, aquela queimação no estômago, trouxe-lhe, rapidamente, uma resposta dentro de sua mente &#8211; um touro forte e terrível: a sensação de uma mãe. Não a imagem, nem o rosto. Mas o tom de sua voz. O mesmo tom dessa negra. Ao tomar nota de sua descoberta, ainda olhando seu corpo nu abaixo, percebeu, entre dores, como no meio de sua barriga brotou-lhe um umbigo. Era a sua avó.</p>
<p style="text-align: justify;">Fechou os olhos e esperou que a sua voz falasse novamente. E falou, e quando falou, seu umbigo doeu forte e fundo, confirmando o estourar de seu coração. E chorou, o único ali que tinha olhos, verteu lágrimas e a negra achou estranho o comportamento. Ao passar novamente, as mãos frias sobre ele, notou as lágrimas, que logo confundiu.<br />
- Está ferido, meu filho? O que aconteceu?<br />
- Não, vó. Nãe é nada, são só meus olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">E ao abrir os olhos, percebeu a frente de si, que a negra estava lentamente assustando-se com um processo escondido por seu tenso cabelo &#8211; o desperto afastou-lhe as franjas e descobriu, naquela face medonha, que abriam-se lentamente duas fendas horizontais no rosto para revelarem dois globos malformados que orbitaram lentamente em diversas direções até estabilizarem no centro e a íris, passando de um leque de tinta sem cor ir materializando-se e fixando naquele castanho pinheiro que ele tão bem conhecia.<br />
-Filho&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">E ele descobriu quem era. E naquele abraço forte banhado a choro, ele pôde perceber ao seu redor que todos haviam se descoberto enfim.</p>
<p style="text-align: justify;">E todos abriram os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Filme ] “Tintin” vai agradar. Mas legal mesmo é o capitão Haddock</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Feb 2012 02:44:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Calixto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Resenha do ótimo filme do Tin Tin, por Bruno Calixto!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/2011_the_adventures_of_tintin-normal1-e1328577665557.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3263" title="2011_the_adventures_of_tintin-normal" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/2011_the_adventures_of_tintin-normal1-e1328577665557.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Eu sempre fico com um pé atrás para adaptações de quadrinhos para o cinema, mas quando vi o trailler de &#8220;As aventuras de Tintin &#8211; o segredo do Licorne&#8221;, fiquei louco para ver o filme. E o longa não me decepcionou &#8211; acho até que ele consegue realizar uma façanha difícil para adaptações: deve agradar ao mesmo tempo o grande público e os fãs.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a dupla Steven Spilberg e Peter Jackson fez foi fundir três histórias de Tintin em uma só, usando a tecnologia de &#8220;Avatar&#8221; para manter a caracterização dos personagens, mas com uma cara mais realista. A estratégia funciona, e o filme não é exatamente igual ao traço de Hergé, o criador do personagem, mas parece funcionar perfeitamente na linguagem do cinema.</p>
<p style="text-align: justify;">O herói é bem conhecido aqui no Brasil &#8211; ao menos pela minha geração &#8211; pela série de desenho animado que passava na TV Cultura. Me lembro também de ter lido algumas HQs no SESC, que tinha um acervo interessante e sempre me chamavam a atenção, junto com as HQs de Asterix. Só recentemente fui saber que Tintin era <a href="http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2011/10/tintim-e-seus-inimigos.html" target="_blank">odiado por alguns críticos</a>. Explico: os primeiros livros de Tintin são carregados de preconceito. Em &#8220;Tintin no Congo&#8221;, por exemplo, os nativos e negros eram tratados como inferiores aos europeus. Felizmente, Hergé mudou completamente de ideologia nos anos 60, e fez uma extensa revisão nas suas obras, retirando as passagens preconceituosas.<span id="more-3259"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mas enfim, vamos ao filme. Spilberg fez questão de escolher, entre as HQs que iriam compor o primeiro filme, uma em que contasse com a participação do Capitão Haddock. Uma decisão acertada. Tintin é o herói exemplar. Paladino da justiça, careta, muito certinho. Em tempos cínicos como os nossos, em que os anti-heróis são idolatrados, é difícil imaginar um repórter bonzinho demais levando o filme nas costas. É aí que entra o capitão Haddock: ele é a antítese do herói: fracassado e bêbado, perdeu o rumo da vida e o controle da tripulação do seu próprio navio, enfrenta uma maldição de família e pragueja contra a vida o tempo todo.</p>
<p style="text-align: justify;">A dupla, como era de se esperar, dá certo, e é divertidíssimo acompanhar o capitão, que passa a maior parte do filme bêbado. Sério, literalmente: na queda do avião no Saara, por exemplo, Haddcok inclusive bebe os remédios do kit de primeiros socorros da aeronave. Foi preciso desmaiar no calor do deserto para ele ficar sóbrio, e a aventura só recomeça quando ele bebe mais um golinho da &#8220;marvada&#8221;. Achei corajoso a forma como Spilberg tratou o tema da bebida no filme, que tem um apelo ao público infantil muito forte que poderia fazer ele decidir recuar no alcoolismo do capitão. Talvez alguns pais reclamem. Mas o próprio Tintin censura os porres do capitão, então acho que o filme não faz apologia à bebida.</p>
<p style="text-align: justify;">Milu também é um personagem central e bem divertido da trama. A história começa com ele, e é ele que atua em momentos cruciais para fazer a história andar. O poodle mais legal do mundo protagoniza muitas cenas de ação, com tomadas rápidas e dinâmicas típicas de filmes de aventura. E é aí que entra minha crítica ao filme: tem cenas de ação demais, na minha opinião, e sequências de &#8220;resolução de mistérios&#8221; de menos. Umas das coisas que eu mais gostava das histórias do Tintin e a a expectativa da resolução de um mistério, quando acabava o episódio do desenho e ficava aquela sensação de suspense. Essa é uma sensação que o filme não te permite ter.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, talvez os diretores tenham se empolgado demais com as milhões de possibilidades da tecnologia de Avatar, e exageraram um pouquinho nas cenas. A perseguição na capital do Marrocos é divertida no começo, mas chega uma hora que cansa. E o duelo do capitão Haddock com o vilão, substituindo as espadas por guindastes de um cais, soa inverossímil demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso são detalhes e um pouco do meu gosto pessoal. Acho que no geral, o público vai gostar do filme, especialmente aquelas pessoas que não conhecem a HQ ou a série de desenhos. E fico na torcida para que o filme estimule a reedição das HQs por aqui, e quem sabe uma continuação &#8211; já prometida &#8211; nas telonas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Calixto</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=9ua_4ajpP58">www.youtube.com/watch?v=9ua_4ajpP58</a></p></p>
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		<title>[Dicas] Para aproveitar as palavras</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 21:57:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Calixto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Calixtão manda ótimas dicas sobre como aproveitar melhor as palavras. Blogues bons e dos bons!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/2177673263_a170c92fea_z1-e1328133377134.jpeg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3255" title="Palavras" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/02/2177673263_a170c92fea_z1-e1328133377134.jpeg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Usamos palavras o tempo todo, para falar, para escrever, se comunicar. Mas nunca prestamos muita atenção para o porquê de usarmos determinadas palavras, e não outras. Ou como as línguas mudam, aos pouquinhos. Pensar as palavras, as origens e usos, pode não ajudar muito na hora de escrever, mas é sempre interessante entender como funciona essa coisa maluca que é a língua. Por isso, para as indicações do Sanduba de hoje, selecionei uma série de blogs que falam exatamente sobre a língua.</p>
<p style="text-align: justify;">Um blog legal para começar a pensar as palavras é o <a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/" target="_blank">&#8220;Sobre Palavras&#8221;</a>, do jornalista Sérgio Rodrigues. O blogueiro fala de língua e gramática e tira as dúvidas de leitores, mas não é como aquela velha aula de português, em que &#8220;aprender&#8221; era sinônimo perfeito de &#8220;decorar&#8221;. Mas o mais interessante do blog é a seção &#8220;Curiosidades etimológicas&#8221;, onde o jornalista detona os &#8220;mitos&#8221; linguísticos que volta e meia aparecem por aí, como aquele que diz que a palavra <a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/forro-vem-de-%e2%80%98for-all%e2%80%99-conta-outra/" target="_blank">&#8220;forró&#8221; viria do inglês &#8220;for all&#8221;</a>, por exemplo.<span id="more-3249"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Para quem gosta de etimologia, uma boa pedida é o blog de Gabriel Perissé, professor da USP. <a href="http://palavraseorigens.blogspot.com/" target="_blank">&#8220;Palavras e Origens&#8221;</a> apresenta curiosidades das origens das palavras que estão na ordem do dia. Por exemplo, quando o furacão Irene passou pelos Estados Unidos, destruindo casas e cidades, Perissé escreveu um texto mostrando a curiosa relação dos danos causados pelo <a href="http://palavraseorigens.blogspot.com/2011/08/furacao-da-paz.html" target="_blank">furacão com a origem da palavra &#8220;Irene&#8221;, que significa &#8220;tranquilidade&#8221;</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Também recomendo a coluna do linguista Sírio Possenti, da Unicamp, no <a href="http://terramagazine.terra.com.br/ultimas/0,,EI8425,00.html" target="_blank">Terra Magazine</a>. Possenti é autor de &#8220;Por que (não) ensinar gramática na escola&#8221;, livro em que defende que os currículos escolares poderiam dedicar menos tempo para o estudo da análise gramatical das palavras, uma tese que, ao meu ver, faz muito sentido. Afinal, em vez de fazer os estudantes decorarem o que é uma &#8220;oração subordinada subjetiva objetiva direta reduzida por infinitivo&#8221; (!!), não seria muito mais proveitoso usar esse tempo para praticar mais as habilidades de leitura e escrita, que serão muito importantes para a vida dos alunos? Em sua coluna, Possenti analisa manchetes de jornais, propagandas, e apresenta ideias que contrariam o senso comum &#8211; mas que hoje já são teorias respeitadas no meio acadêmico. Além disso, ele não se limita a falar apenas de língua, e entre um artigo e outro arrisca uma análise política, geralmente levantando uma boa polêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">Para terminar a série de indicações, deixo um vídeo no YouTube com um trecho de uma palestra do ator e escritor Stephen Fry. É uma pena que o vídeo esteja em inglês, e por isso nem todo mundo consiga aproveitar, mas a mensagem serve, e muito, para nós aqui no Brasil, com o nosso português. No <a href="http://www.youtube.com/watch?v=J7E-aoXLZGY" target="_blank">vídeo</a>, o autor lamenta que as pessoas não sintam mais prazer em brincar com as palavras, e ataca aqueles que se consideram os guardiões da língua, que nos corrigem o tempo todo tentando nos convencer qual é o jeito certo de falar.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=J7E-aoXLZGY">www.youtube.com/watch?v=J7E-aoXLZGY</a></p></p>
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		<title>[ Filme ] Lolita, 97</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 01:37:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
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		<category><![CDATA[adrian lyne]]></category>
		<category><![CDATA[jeremy irons]]></category>
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		<category><![CDATA[lolita adaptação]]></category>
		<category><![CDATA[vladimir nabokov]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha do filme Lolita, adaptação de 97 - tanto melhor que a de Kubrick, ave!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita1-e1323658004172.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3208" title="lolita" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita1-e1323658004172.jpg" alt="" width="596" height="406" /></a>Resenha do filme Lolita, de 1997 dirigido por Adrian Lyne</em></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto lia <a title="Resenha" href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3179" target="_blank">Lolita</a> não era tarefa difícil imaginar os personagens, nem tampouco algumas passagens &#8211; muito pelo fato de que eu sabia de que havia já uma adaptação cinematográfica. Uma não. Duas: a segunda de 97, dirigida por Adrian Lyne (também dirigiu Flashdance, what a feeling!) e com Jeremy Irons no papel do professor Humbert Humbert.</p>
<p style="text-align: justify;">Um filme muito mais fiel ao original do que o de 62 <a title="Resenha Filme" href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3189&amp;preview=true" target="_blank">escrito pelo próprio autor do livro</a> (vai entender) e que é sim muito melhor que o de 62, tanto como filme como adaptação de uma obra-prima da literatura. A história, a mesma: europeu se muda para a América e encontra na casa de Charlotte Haze, a mulher que o hospeda, o objeto de seu amor e desejo: Lolita, a filha.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, Lolita.<span id="more-3202"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, a curiosa preocupação em trazer a história do Professor Humbert, mostrando um pouco do seu passado, quase como um pedido de desculpas antes de começar &#8211; enquanto no filme essa infância parece ser mostrada para salvar a alma do réu determinando um trauma infantil para sua desordem adulta; no livro, muito pelo contrário, o protagonista não coloca a culpa de seu demônio naquele fato infantil, mas justamente pontua que aquela foi a primeira vez que o desejo por uma ninfeta lhe assaltou. Em que gere a dúvida sobre o que pretendia o filme com isso, tanto não importa, pois de uma forma ou de outra acaba providenciando ao professor a profundidade que tanto lhe faltou no filme de Kubrick.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, Irons encarna de maneira muito mais interessante (e fiel) o personagem principal ao contrário do irascível e cheio de si feito por aquele de 62; durante o livro temos a certeza de que se trata de um homem terrivelmente reprimido e até tímido por saber justamente que seus desejos são repugnantes e o de um demônio &#8211; e a diferença entre o quase acuado Humbert de Irons para o impaciente de Mason logo quando chegam a Ramsdale, cidade americana, é o que torna o drama de 97 ainda mais interessante, se percebermos que no final da narrativa, Irons fez seu Humbert cometer loucuras e mudar completamente desde o início, se voltarmos a Mason, percebemos que ele apenas o piorou e tornou-se mais raivoso do que o inicial.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto que contribue para que esse filme se torne mais delicioso que seu antecessor e melhor como adaptação do romance, é a falta da censura moral. Principalmente no que toca à garota (ui).</p>
<p style="text-align: justify;">A menina, que agora sim, merece um parágrafo só seu. Ainda que pareça, fisicamente, um ou dois anos mais velha que a Lolita dos livros, o seu comportamento durante o filme é direcionado com perfeição aos de uma mocinha de 12 (no modo como seus pés são sujos, mal pintados e feios, no modo como toma leite deixando bigodes, ou se suja toda tomando sorvete, fazendo pirraças com balas ou com o rosto). Está ali uma menina de 12, que dá muito mais justiça ao nome do filme. Como no livro, oscila seu humor entre o da menina encantadora e o da menina exploradora, sem o menor pudor de usar seu corpo sobre o padrasto para conseguir o que ela precisa, ou simplesmente em momentos que desdenha da situação tipicamente como uma pré-adolescente (e é assustador como em determinada cena, mostrando a sua habitual cara de bocejo ante a aflição do protagonista, este lhe assalta com um tabefe no rosto).</p>
<p style="text-align: justify;">A cena mais marcante do filme é aquela sobre a mesma passagem lindíssima no livro e que tanto decepciona no pretobranco de Kubrick. O momento em que Lolita está entrando no carro para deixar Ramsdale para ir ao acampamento de garotas, enquanto Humbert observa pela janela de seu quarto. A passagem daí, é justamente a que encontra o tom mais sublime do livro, a cena de 97 capturou com perfeição esse momento. Se antes a isso não teve os minutos suficientes para tornar toda a relação do padrasto com a filha um ritual de não-me-toques escondidos e tensos para que, enfim, no momento que ela está deixando a casa, ela também o liberte de suas aflições apaixonadas, o filme, ao menos, consegue capturar o momento da explosão com muita habilidade. (Existem <a title="Cenas Deletadas" href="http://www.youtube.com/watch?v=z9NU0uI2uFQ&amp;feature=related" target="_blank">oito cenas</a> deletadas que amplificam o relacionamento entre os dois, ainda em casa, que são interessantes &#8211; nem todas, mas algumas poderiam ter sido mantidas, como aquela cena em que Humbert vê um cartaz de um bandido e lentamente vê a sua imagem como procurado, exatamente como Nabokov narra no livro como seria caso fosse feito um filme dele &#8211; e fizeram. Dois ainda.)</p>
<p style="text-align: justify;">Esse sim, pode carimbar, que o filme é legal. Tenha lido ou não o livro (lembre-se, o outro era apenas curioso para quem viu o filme). Dispa-se dos moralismos e veja um ótimo filme &#8211; se tiver lido o livro e lembrar-se bem dele, se deliciará em notar alguns diálogos que são mantidos ao original. Irons está ótimo, a menina é totalmente lolita, a trilha sonora é primorosa (esqueci de mencionar, mas é Ennio Morricone, que trilhou Bastardos Inglórios, Cine Paradiso entre outros (eu não sei de nada, mas o que sabe a Wikipédia, amigo.)).</p>
<p style="text-align: justify;">Alugue, baixe, veja. Lolita. E leia. Lo. Li. Ta.</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=-NQSaZohsSI">www.youtube.com/watch?v=-NQSaZohsSI</a></p>
</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Conteúdo adicional:</p>
<p style="text-align: justify;"><a title="Livro" href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3179" target="_blank">Resenha do Livro Lolita</a><br />
<a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3189" target="_blank">Resenha do filme Lolita, de 62 por Kubrick</a><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=-NQSaZohsSI" target="_blank">Trailer do filme de 97</a><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=z9NU0uI2uFQ&amp;feature=related" target="_blank">Cenas deletadas do filme</a></p>
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		<title>[ Planescape ] Troy Denning, e suas páginas da dor</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 02:43:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura de rpg]]></category>
		<category><![CDATA[literatura medieval]]></category>
		<category><![CDATA[pages of pain]]></category>
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		<category><![CDATA[rpg]]></category>
		<category><![CDATA[troy denning]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha do livro-rpg Pages of Pain de Troy Denning, best seller americano]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/Outlands_map-2600__1994__TSR_AD_D_2ed_Planescape_Campaign_Setting-e1326249578112.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3242" title="Outlands_map-2600__1994__TSR_AD_D_2ed_Planescape_Campaign_Setting" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2012/01/Outlands_map-2600__1994__TSR_AD_D_2ed_Planescape_Campaign_Setting-e1326249578112.jpg" alt="" width="600" height="384" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>Resenha do livro <a href="http://www.amazon.com/Pages-Pain-Planescape-Troy-Denning/dp/0786906715" target="_blank">Pages of Pain</a>, de Troy Denning.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A literatura de RPG. Coisa batida, mas sempre interessante, emocionante, fantasiosa, criativa. Me parece que todos os textos de RPG são feitos pelo mesmo cara que adora uma descrição minuciosa, comparativos, batalhas épicas, inglês corretinho, muito sangue, descrição de cada golpe desferido. É uma diversão à parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu nunca tinha lido, a bem da verdade, um livro de RPG &#8211; desses de histórias baseadas em algum mundo conhecido (como Forgotten Realms, Dragon Lance e etc.), portanto Pages of Pain, de Troy Denning foi minha primeira experiência &#8211; eu já estava acostumado com essa eloquência de tanto jogar os jogos de RPG, daí vem o meu &#8216;profundo&#8217; conhecimento dessa literatura sã.</p>
<p style="text-align: justify;">Baseado no incrível mundo de Planescape (uma das ambientações mais ricas e diferenciadas nesse mundo do RPG), o livro conta a história de um herói amnesíaco que aporta na cidade de Sigil (o centro do multiverso) para entregar à governanta dessa cidade uma ânfora dos deuses pois, em caso de sucesso, suas memórias poderiam ser recuperadas pelo remetente. E assim, o forasteiro chegando de um plano muito mais superior onde suas glórias são cantadas e reconhecidas, depara-se com uma sociedade completamente devassa e, pior, alheia aos seus feitos e pouco enlevada por seu visual limpo.<span id="more-3153"></span><img class="alignright" style="border-image: initial; border-width: 10px; border-color: #cccccc; border-style: solid; margin: 10px;" title="Pages of Pain" src="http://img.skoob.com.br/livros_new/2/33672/PAGES_OF_PAIN_1246195646P.jpg" alt="" width="160" height="246" /></p>
<p style="text-align: justify;">A grande questão da dificuldade do herói, é que a governanta da cidade (a tal Lady of Pain) não é simplesmente alcançável através de uma audiência, muito menos para receber um emissário dos deuses, criaturas que ela faz questão de manter longe do seu convívio e de sua cidade. Então a tarefa não era menos que impossível. E no trâmite de buscar essa audiência com essa senhora das dores, o aventureiro se vê em contato com outros personagens que integram a sua comitiva &#8211; e caindo no pior pesadelo para os habitantes de Sigil: em um labirinto inescapável.</p>
<p style="text-align: justify;">E a maior parte do livro se dá em que o herói busca uma saída quase impossível desse labirinto, embarcando em uma jornada atrás daquilo que o empurra adiante e enfrentando dilemas sobre sua vida e sua personalidade. E é no detalhamento e na construção do ambiente desse labirinto, que a pena de Denning sobressai de maneira incrível, já que não precisa somente recriar os personagens, mas também deixar claro e evidente para o leitor qual a natureza desse labirinto, o seu ambiente e como os protagonistas influenciam para que ele mude &#8211; sem essa precisão, o livro que se passa praticamente inteiro no labirinto, não funcionaria jamais.</p>
<p style="text-align: justify;">É um livro muito divertido, em que se divertirá melhor quem gosta de RPG e irá se encantar ainda mais quem já gosta de Planescape. Boa literatura, embora super nicho do nicho.</p>
<p style="text-align: justify;">Acho uma pena apenas que as pessoas não conhecem muito de Planescape, de RPG eu até compreendo, mas Planescape tem conceitos simplesmente maravilhosos para a vida, garotada. E é pano de fundo da história que originou a adaptação Tormenta, corrente no Sanduba. =D</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Filme ] not.Lolita: Quilty</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 12:47:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[filme lolita]]></category>
		<category><![CDATA[lolita]]></category>
		<category><![CDATA[lolita 1962]]></category>
		<category><![CDATA[lolita kubrick]]></category>
		<category><![CDATA[resenha de filme]]></category>
		<category><![CDATA[stanley kubrick]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha da melindrada adaptação de Kubrick para Lolita. Intenso, mas ainda tímido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita-1-10241-e1323654498918.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3196" title="lolita-1-1024" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita-1-10241-e1323654498918.jpg" alt="" width="600" height="292" /></a>Resenha do filme Lolita, de Stanley Kubrick, 1962</em></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto lia <a title="Resenha" href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3179" target="_blank">Lolita</a> não era tarefa difícil imaginar os personagens, tampouco algumas passagens &#8211; muito pelo fato de que eu sabia de que havia já uma adaptação cinematográfica. Uma não, duas. A primeira de 62, dirigida por Kubrick e escrita pelo próprio Nabokov e ainda com a gigante participação de Peter Sellers (sem dançar). Receita para a obra-prima, certo? Errado.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o filme abre os créditos com uma <a href="http://www.youtube.com/watch?v=zlUF_hJbUE4" target="_blank">cena</a> que é uma pancada na testa &#8211; tenha lido ou não o livro, o restante das horas não chega a ser tão empolgante como o original (ora, vá!). Um close nos pés tortinhos da menina e a mão caluda do pai pintando-a com vagar, botando algodão por algodão entre seus dedos para pintá-los preguiçosamente; o close inicial parece ser um dos poucos momentos geniais de Kubrick em cima da criação não menos genial de Nabokov.</p>
<p style="text-align: justify;">É um bom filme de 62. E só. Curioso apenas para quem gostou do livro. Como adaptação não é nada inspirada e aquilo que temi durante e ao final do filme, revelou-se verdade depois de fácil procura na interwebz: a <a title="Censura" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Lolita_(1962_film)#Censorship" target="_blank">censura</a> evitou cenas menos família, digamos assim. E o livro nem é tão baseado nesses momentos pesados, não. Foi mais aquela velha historinha americana dos bons costumes que deixa, dentro de casa, o pai se aproveitar da filha, mas no cinema, com todo mundo vendo, não se mostra nada, jamais!<span id="more-3189"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O filme limita-se a apenas sugerir que existe uma relação &#8216;estranha&#8217; entre padrasto e filha, mas de uma forma muito superficial (enquanto, na verdade, ela é incestuosa; palavras da protagonista do livro). Portanto a obsessão de Humbert Humbert (James Mason) é tão profunda quanto pires, o que torna essa criação de Kubrick extremamente passional, vibrante e irascível, mas sem causa alguma, quase apenas por ser &#8211; o que o aproxima do psicopata que o protagonista do livro tanto se exercita para nos fazer acreditar justamente do contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Parte dos motivos para o protagonista perder a sua força, é que objeto de sua adoração, a filha, tampouco é melhor aproveitada no filme. Começa que ela tem 14 e não 12 (fica quase gritante o esforço em tentar adequar o filme aos bons costumes), e a menina que dizem ter 14, parece ter quase 15 ou 16 (e as passagens do autor descrevendo os seios em botões mal formados, jamais caberiam em um filme que a protagonista está plenamente de uso de seus sutiãos). Perfeitinha e loirinha, ela tem poucos momentos de real toque com sua contrapartida original, em que mostra-se humorada e dominadora nos trechos finais do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem tornar Herbert ou Lolita personagens realmente ótimos como no livro, o filme de 62 faz um trabalho imenso para tornar Clare Quilty um coadjuvante muito mais interessante que as duas criaturas centrais da trama. Interpretado por Peter Sellers, o ator dá vozes e trejeitos a um personagem criativo que volta e meia reaparece na trama que abre e fecha sobre si. Impotente em poder desenvolver de maneira plena a paixão de Humbert por sua filha, Kubrick é muito mais habilidoso em criar a obsessão de Humbert para com Quilty.</p>
<p style="text-align: justify;">Esperava mil vezes mais do filme, ainda mais sendo dirigido por Kubrick (oi, Laranja Mecânica), e o que encontrei foi uma adaptação preto-branca claramente influenciado pela censura e, portanto, enfraquecido no cerne de sua discussão, uma vez que, em termos de longa metragem, embora longo, não é longo o suficiente para explorar aquilo que mais é vivo no livro: o amor e a paixão e o desejo desmoralizante de Humbert por sua filha. Não podendo desenvolver esse tema, o filme poderia se bastar pela superfície: o desejo de Humbert por Lolita, mas a censura evita que isso aconteça e, portanto, não chega a ser um filme forte nem como filme, tampouco como adaptação.</p>
<p style="text-align: justify;">(o que é incrível, se tomarmos que o autor do roteiro é justamente o mesmo autor do livro)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita_1962_dvd_front-e1323654548993.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3197" title="lolita_1962_dvd_front" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/lolita_1962_dvd_front-e1323654582997.jpg" alt="" width="600" height="176" /></a></p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=zRVqgvW8100">www.youtube.com/watch?v=zRVqgvW8100</a></p>
</p>
<p style="text-align: left;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: left;">Conteúdo adicional:</p>
<p style="text-align: left;"><a title="Trailer" href="http://www.youtube.com/watch?v=zRVqgvW8100&amp;feature=player_embedded" target="_blank">Trailer em HD do filme</a><br />
<a title="Abertura" href="http://www.youtube.com/watch?v=zlUF_hJbUE4" target="_blank">Cena de abertura do filme</a><br />
<a title="Resenha" href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3179" target="_blank">Resenha do Livro aqui no Sanduba<br />
</a><a title="Censura" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Lolita_(1962_film)#Censorship" target="_blank">Artigo da Wikipédia sobre a Censura no filme</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Filme ] Yippie-Ki-Yay, com pé nas letras</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 10:15:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[58 minutes]]></category>
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		<description><![CDATA[Análise da base literária por trás do Duro de Matar. Pois é, existe!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/t4es6c5f1-e1324267243421.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3229" title="t4es6c5f" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/t4es6c5f1-e1324267243421.jpg" alt="" width="600" height="369" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sou fã longevo de John McClane, o tough guy dos filmes de Duro de Matar &#8211; Bruce Willis no seu estado mais puro e um dos melhores papéis de um tira chuta-bundas nessa maravilha de cinema. Muita gente gosta, principalmente os que adoram umas explosões, perseguições, tiros, sangue, diálogos modafócas e toda sorte de situações impossíveis &#8211; onde, basicamente, o duro de matar, obviamente, nunca morre e se safa de maneiras cada vez mais incríveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas uma das coisas mais curiosas de Die Hard é que três, dos quatro filmes que foram lançados até agora da franquia, são baseados em publicações literárias (e você ainda acha que tem coisa original sendo feita no cinema); mais curioso ainda é notar que, na verdade, os livros não são exatamente sobre a franquia, nem utilizam do personagem McClane, muito pelo contrário, são romances de ação e thriller que passam longe do mundo vivido pelo detetive nova-iorquino e que, a bel prazer de roteiristas, acabam virando histórias em torno do personagem de Bruce Willies. Algo assim: poxa, que livro bacana esse aqui hein? Agora imagine o John McClane no papel principal. E isso é muito, mas muito comum em filmes por alá.</p>
<p style="text-align: justify;">E foi assim, que três dos filmes foram feitos. =D Veja abaixo uno-por-uno:<span id="more-3212"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Duro de Matar &#8211; 1988</em></p>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 130px"><a href="http://www.moviegoods.com/Assets/product_images/1010/264169.1010.A.jpg"><img class="  " title="Die Hard" src="http://www.moviegoods.com/Assets/product_images/1010/264169.1010.A.jpg" alt="Die Hard" width="120" height="178" /></a><p class="wp-caption-text">Die Hard</p></div>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 130px"><a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/2/29/Thorpe_-_Nothing_lasts_forever.jpg/200px-Thorpe_-_Nothing_lasts_forever.jpg"><img class="  " title="Die Hard" src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/2/29/Thorpe_-_Nothing_lasts_forever.jpg/200px-Thorpe_-_Nothing_lasts_forever.jpg" alt="Die Hard" width="120" height="178" /></a><p class="wp-caption-text">Nothing Last Forever</p></div>
<p style="text-align: justify;">O primeiro filme da franquia, comumente o mais idolatrado pela turma do &#8216;duro de matar moleque&#8217;, é, claro que é, sensacional. Do começo ao fim. Dos diálogos às ações. Ao desenvolvimento aos efeitos. Do protagonista ao antagonista. Se marca o início da carreira de Willis nas explosões do cinema (antes ele fazia Gato e o Rato, uma co-média), ele marca o dueto de Willis (foda) com o primeiro Gruber da série, um insirado Alan Rickman (para os xovens: ele fez o Snape em Harry Potter) que, como variaria, é genial como vilão. O ataque ao prédio corporativo Nakatomi Plaza em Los Angeles, debuta a série.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a ideia veio de um livro: <em>&#8216;<a href="http://www.amazon.com/Nothing-Lasts-Forever-Roderick-Thorp/dp/0345287819/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1324266079&amp;sr=8-1" target="_blank">Nothing Last Forever</a>&#8216;</em> (ou nada dura para sempre, em tradução tupinica) foi escrito por <em>Roderick Thorp</em> e lançado em 1979, em sequência ao seu super-vendido <em><a title="Amazon" href="http://www.amazon.com/Detective-Roderick-Thorp/dp/0848803752/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1324266122&amp;sr=1-1" target="_blank">The Detective</a></em> (de 1966) que, curiosamente foi adaptado para os cinemas em 1968 com nada mais nada menos que <em><a href="http://www.reelz.com/trailer-clips/48947/the-detective-trailer/" target="_blank">Frank Sinatra</a></em> no papel principal (já imaginaram Frank Sinatra no papel de John McClane?). A adaptação para os cinemas era para ser feito, primeiramente, como uma sequência do filme Comando com <em>Arnold Shwarzenegger</em> (mais uma vez, imaginem o governator no papel de McClane), mas o homem recusou o papel e a história virou, para todos os ótimos efeitos, Die Hard. E assim começou a franquia.</p>
<p style="text-align: justify;">Basicamente o filme é uma ótima transcrição do filme, mantendo diálogos e até o nome de alguns personagens (como Gennero, mulher de McClane que, no livro é sua filha Gennaro, e o antagonista Gruber, que não é Hans, mas Tony, Little Tony).</p>
<p style="text-align: justify;">Thorp ainda teria dois outros livros seus adaptados, mas agora apenas para filmes para a televisão: Rainbow Drive, de 1990 com Peter Weller (que fez Naked Lunch, também) e Devlin, em 1992.</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=-qxBXm7ZUTM">www.youtube.com/watch?v=-qxBXm7ZUTM</a></p>
</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Duro de Matar 2 &#8211; 1990</em></p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 120px"><a href="http://blog.booklistonline.com/wp-content/uploads/2011/02/58-minutes.jpg"><img class="   " title="Die Harder" src="http://blog.booklistonline.com/wp-content/uploads/2011/02/58-minutes.jpg" alt="Die Harder" width="110" height="163" /></a><p class="wp-caption-text">58 Minutes</p></div>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 120px"><a href="http://www.nordicposters.com/p2/die_hard_2_90_u.jpg"><img class="   " title="Die Harder" src="http://www.nordicposters.com/p2/die_hard_2_90_u.jpg" alt="Die Harder" width="110" height="163" /></a><p class="wp-caption-text">Die Harder</p></div>
<p style="text-align: justify;">O segundo filme traz John McClane no aeroporto esperando sua mulher (Holly Gennero) chegar de viagem para curtirem o Natal. Mas, olha só, é justamente nesse dia que terroristas escolhem para tocar o terror no aeroporto de Nova Iorque cortando a energia do aeroporto e toda forma de comunicação para com os aviões no céu. Tudo para resgatar um porto riquenho endinheirado. A consequência é simples: os aviões no céu, programados para pousar no aeroporto ficarão sem combustíveis e haverão catástrofes gigantescas se não forem atendidos em suas barganhas.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme foi baseado no romance <em><a title="Amazon" href="http://www.amazon.com/58-Minutes-Walter-H-Wager/dp/0812510038/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1324266307&amp;sr=1-1" target="_blank">&#8217;58 minutes&#8217;</a></em> escrito por Walter Wager (nem tão bom assim quando Thorp) em que a ideia é basicamente a mesma, mas difere um pouquinho &#8211; como diz o título, o protagonista tem 58 minutos para fazer algo antes que o avião de sua mulher caia por falta de combustível, enquanto McClane dispõe de, pelo menos uma hora e meia de película (hehe). Também difere o protagonista, no livro temos um loirinho bombadinho, almofadinhas, quarterback perfeitinho, e um tira da melhor estirpe caçando terroristas (que nunca tem chance alguma contra ele), este tal que é substituído por McClane, o cara errado, no lugar errado, na hora errada e que sempre acaba o filme jorrando sangue (e beijando sua mulher que lhe confessa, &#8216;amor, por que isso sempre acontece com a gente?&#8217; lembrando o capítulo anterior da franquia).</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=gUg4gWjOgXs">www.youtube.com/watch?v=gUg4gWjOgXs</a></p>
</p>
<p style="text-align: left;"><em>Duro de Matar 4 &#8211; 2007</em></p>
<div class="mceTemp" style="text-align: left;">
<dl id="" class="wp-caption alignright" style="width: 118px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://www.movieposter.com/posters/archive/main/59/MPW-29591"><img class="   " title="Live free or die hard" src="http://www.movieposter.com/posters/archive/main/59/MPW-29591" alt="Live free or die hard" width="108" height="161" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Live free or die hard</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Um John McClane divorciado, com filhos que mal falam com ele, cuja função na polícia já não é tão grandiosa, careca e desiludido (em certa cena, pergunta-se &#8216;de que adiantou ser um herói?&#8217;). É esse McClane que inicia o filme espionando sua filha e ensinando uma lição a um jovem rapaz que tenta bolinar com ela, e logo se vê envolvido em uma trama que foge completamente da sua especialidade em terroristas armados até os dentes. A trama está ao redor de um ataque terrorista basicamente virtual em que, somente com a internet, um homem obstinado e inteligente consegue trazer o caos para os EUA inteiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Baseado no mega artigo <em><a href="http://www.wired.com/wired/archive/5.05/netizen.html" target="_blank">&#8216;A Farewell to Arms&#8217;</a></em> escrito por John Carlin na revista Wired em 1997, que descreve basicamente o que acontece no filme: um cyber-terrorista decide aplicar o chamado &#8216;fire sale&#8217;, um ataque sistemático em três fases que derruba os transportes, as telecomunicações, as finanças e os sistemas de infraestrutura de um país &#8211; simplesmente para tocar o caos e alarmar as autoridades para quão frágil é a segurança de um país. O artigo foi como se fosse um alerta aos perigos da internê (ora, vá) e como as armas podem nem ser tão importantes em um ataque terrorista &#8211; mais de dez anos depois, ainda não tivemos situação semelhante ao filme, graças.</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=7UcpL45SZRM">www.youtube.com/watch?v=7UcpL45SZRM</a></p>
</p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 118px"><a href="http://www.movieposter.com/posters/archive/main/30/A70-15496"><img class="   " title="Die Hard with a vengeance" src="http://www.movieposter.com/posters/archive/main/30/A70-15496" alt="Die Hard with a vengeance" width="108" height="161" /></a><p class="wp-caption-text">Die Hard with a vengeance</p></div>
<p style="text-align: justify;">Portanto vejam, apenas o ótimo Duro de Matar: A Vingança (que tem o genial Samuel L. Jackson como um negro racista) não teve sua história baseada em alguma publicação ou livro. É de se parabenizar, uma vez que, tirando o primeiro filme, é pra mim o melhor da franquia com seu teor extremamente alarmante em uma Nova Iorque tomada pelo terror de bombas (ah, as velhas bombas). O roteiro consegue trazer para McClane esse tom de desespero que lhe faltou no segundo e no quarto filme e que era a grande marca do primeiro filme &#8211; em que ele é um policial improvisando meios de fazer existir alguma esperança para determinadas situações.</p>
<p style="text-align: justify;">Não somente competente quanto a isso, o roteiro ainda deixa em estado de permanente tensão o espectador principalmente por conta dos enigmas bolados por Simon Gruber apenas para foder com o protagonista e sua dupla dinâmica (so many fucks) sob pena de mais mortes caso não resolvam &#8211; além de trazer um ótimo Jeremy Irons como o irmão mais novo de Hans Gruber (o Snape do primeiro filme).</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=4xmYCSjuauY">www.youtube.com/watch?v=4xmYCSjuauY</a></p>
</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo os filmes que você mal imagina dentro de um livro (onde o som de explosões e tiros inexistem) às vezes te surpreendem ganhando vida somente por conta de alguma publicação.</p>
<p style="text-align: justify;">E vem aí o Duro de Matar 5 (A good day to die hard), com estreia prevista para 2013, em que McClane vai para a Rússia (oi, anos oitenta) resgatar o seu filho da prisão. E eu que gostei tanto da durona Lucy McClane queria muito que ela virasse um dueto do pai em algum filme, mas talvez nos próximos quando ela estiver mais velha.</p>
<p style="text-align: justify;">Yippie-Ki-Yay, mother fucker!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>| Fontes: Wikipédia, Google Books, Wired, iMDb</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Livro ] Lolita</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 01:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura americana]]></category>
		<category><![CDATA[lolita]]></category>
		<category><![CDATA[ninfetas]]></category>
		<category><![CDATA[vladimir nabokov]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha do livro de Nabokov que vai falar, entre muitas outras coisas, nesse amor sobre lolitas e ninfetas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Lolita-cover-e1323646466948.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3180" title="Lolita-cover" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Lolita-cover-e1323646466948.jpg" alt="" width="600" height="607" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Lo.li.ta. Nabokov começa na boca, detalhando todos os movimentos que o músculo de sua língua faz ao pronunciar o nome de sua pequena amada (perdoa o trocadilho).</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse detalhamento, nessa preocupação com pedaços menos usuais que Vladimir Nabokov faz passear a sua história. Esses detalhes, veja bem, que tanto tira o foco do narrador não são esses de prateleiras (como a ode à natureza morta ou aos olhos de um alguém), mas de pedaços determinantes como os pés amarelos de &#8216;macaquinha&#8217; ou a covinha que antecede o sorriso maroto de sua menina &#8211; são esses berloques que te pregam desprivinido.</p>
<p style="text-align: justify;">A contracapa de minha versão &#8211; aquela da Folha, diga-se &#8211; resume rasteiramente como um romance &#8216;boy meets girl&#8217;, ora seu editor, por favor. Muito além disso, o livro é um depoimento apaixonado e sincero de um homem que, trocando logo tudo em miúdos, é um pedófilo que se apaixona perdidamente por sua enteada. E a sinopse lhe desperta automaticamente aquele sentimento de repulsa que nos habita por conta de valores morais, embora o livro e a narrativa do autor aos poucos vai destruindo essa repulsa (!) &#8211; o que não nos torna a todos pedófilos ao final do livro, pelo amor de deus, mas apenas admiradores de uma literatura gigante.<span id="more-3179"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O personagem principal, o narrador Herbert Herbert (embora seu nome oscile cada vez que lhe chamam) é um europeu que, após um casamento fracassado em sua velha terra, vai à América como professor (desde o início deixando claro sua predileção por ninfetas) e é nessas circunstâncias que acaba se hospedando na casa de uma mulher, cuja filha, Lolita, torna-se alvo de seu amor incontrolável.</p>
<p style="text-align: justify;">A simples natureza desse relacionamento é repugnante, confesso. Mas o autor é habilidoso o suficiente para não encontrar nesse sentimento primário que nos desperta o centro e a matéria-prima de sua literatura (caso fosse, o livro orbitaria sobre ele para amplificar esse sentimento, óbvio e fácil demais), mas Nabokov escolhe o caminho contrário e mais difícil, e expõe as vísceras sentimentais de seu personagem central de forma que a relação carnal entre as duas criaturas nunca se dá de maneira explícita e com detalhes abjetos &#8211; nem nunca são narradas, apenas sugeridas entre uma vírgula torta ou outra. O ponto central não é justamente naquilo que mais nos horroriza na hipotética relação criança e adulto: o sexo. Embora não negue jamais isso em seu livro/depoimento, nem nega, inclusive, que a chantageava por certos mimos de criança (você faz isso, e o papaizinho lhe dá esse presente), e também ressalta diversas vezes ao júri imaginário que se trata, sim, de um monstro que guarda em si um demônio incontrolável.</p>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 183px"><img class="   " title="Lolita" src="http://4.bp.blogspot.com/-e_ousM4gIFI/TfhNO8AaltI/AAAAAAAAApQ/GCYkBTJCeEY/s1600/lolita.jpg" alt="" width="173" height="269" /><p class="wp-caption-text">Lolita</p></div>
<p style="text-align: justify;">Mas em defesa do protagonista, ele não é um estuprador, como se pinta normalmente um pedófilo &#8211; perceba como fugindo de um esterótipo, Nabokov constróe um personagem doze vezes mais interessante. Veja, o livro não é sobre um caso terrível e repugnante sobre um homem que come sua filha, mas é sobre um atentado contra os bons costumes pois o réu tenta nos convencer a legitimar seu profundo desejo irrefreável por aquela criaturinha. Não no fato de que esse adulto de 40 e tantos anos ocasionalmente come sua filha de 12, mas no fato de que ele a ama &#8211; e sim, come ela vez ou outra, mas veja que isso é secundário.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado do ringue, temos Lolita. A macaquinha do protagonista, geniosa, cheia de manias e birras &#8211; em nenhum momento o autor procura nela a simulação de prazeres adultos, pois é justamente nas reações e atitudes infantes da menina que encontra o desejo irrefreável de Humbert. E se no início ela é uma ponta tensa, provocativa e nada contrária aos desejos desse narrador (Humbert nunca tenta eximir sua própria culpa, mas vez ou outra nos faz prestar atenção sobre como essas ninfetas também não são flores que se cheiram), com o decorrer da história e da narrativa, você percebe que a garota desenvolve-se à sua maneira dominando a situação e tornando capacho aquele que, de certa forma, senta no banco dos réus como um vil aproveitador.</p>
<p style="text-align: justify;">Lolita é um puta livro. Leitura fácil, não oferece muitos obstáculos para um leitor casual e de toda forma revela-se interessantíssimo por encontrar diversas esquinas cegas dentro do texto em que nunca sabemos o que o autor dirá sobre os pés de Lolita ou sobre os carros na estrada. Sobre o tema: leia sem preconceitos, leia sorrindo que encontrará, chocado, uma ótima história bem narrada em cima de um tema ainda marginal e difícil de digerir. Os tapas na sua cara serão curiosos, vez ou outra você que for mais fraco vai fechar o livro e respirar fundo antes de retomar a leitura, mas nunca desista (como eu desisti de Proust).</p>
<p style="text-align: justify;">Pegue Lolita e, logo de cara, como eu fiz, diga Lolita pausadamente. Como o autor ensina no primeiro parágrafo. Lo. Li. Ta.</p>
<p style="text-align: justify;">Um abraço na filha de vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Just kidding.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Conto? ] Não, eu não te amo não</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Dec 2011 02:50:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[conto de amor]]></category>
		<category><![CDATA[crônica de amor]]></category>
		<category><![CDATA[dilema do amor]]></category>
		<category><![CDATA[literatura de amor]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<category><![CDATA[textos de amor]]></category>

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		<description><![CDATA[Um puta dilema isso do amor. Isso de amar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.flickr.com/photos/soslaio/5512319313/in/photostream"><img class="aligncenter size-full wp-image-3171" title="Amor" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/5512319313_e353c4fb5e_b-e1323312146361.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Isso de amar é complicado. Todo mundo tá amando. Tá fácil amar. Aí se eu falo que te amo, nem parece que eu te amo. Por isso não digo. Eu guardo. Não solto. Não que eu te ame, também. Só estou falando de possibilidades. Eu poderia te amar, por que não? Não é questão de sentimento, parece mais de razão no caso &#8211; eu poderia te amar, mas não amo. Digo, não digo. Mas poderia. Mas se amasse, não diria. Todo mundo diz. Mesmo quem não ama. E quem não ama, mas diz, não sabe que não ama, pensa que ama. Aliás, tem certeza que ama. Até o sexo chamam de amor. Quem tá trepando, tá amando. Fazendo amor. Eu não faço amor &#8211; se faz o amor. O amor é sujeito oculto, não? Então ele observa a gente amando, transando. Eu amo, te amo, vc ama. É tudo cinco letras, estrela de cinco pontas. Pra baixo. Mas não te amo, se bem que&#8230; daria, né. Eu digo. Você é amável, eu te amaria fácil. Você é altamente amável. Mas você quer ser amada, aí que mora o bichano. Você fica esperando essa coisa de amor, de flores, de eu te amos. Aí tira o tesão de amar. Por que se eu te amo&#8230; digo, se eu te amar. Você vai esperar de mim um amor já prontinho, desses de novela. E às vezes eu nem te amo assim, eu te amo mais racha de carro, final de campeonato, e você espera uma novela das oito. Ou pior: você curte um amor rock n roll e eu te amo meio paulo coelho. Mas hoje ninguém ama também, pessoal só curte curtir. Cafona quem ama. Não, não, chega disso. Não, amor, eu não te amo. Embora&#8230; Bem. Você sabe né&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Blog ] Sabor de letra na rede</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 02:26:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Simon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros Sanduíches]]></category>
		<category><![CDATA[blog de literatura]]></category>
		<category><![CDATA[blog literário]]></category>
		<category><![CDATA[instituto moreira salles]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[moreira salles]]></category>
		<category><![CDATA[papos literários]]></category>

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		<description><![CDATA[Instituto Moreira Salles busca nos livrões a inspiração para uma troca de leituras e literaturas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/11/rio03_cristianomascaro1-e1322706073732.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3164" title="rio03_cristianomascaro" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/11/rio03_cristianomascaro1-e1322706073732.jpg" alt="" width="600" height="419" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Não seria a primeira vez que você leria uma troca de correspondências entre autores, nem seria novo um diário numa cidade estranha e totalmente diferente da sua de origem. A diferença está no meio. O que antes estava compilado e preso às páginas de livrões (amados livrões), ganha espaço também na internet.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, trata-se de um blog. Mais especificamente o Blog do Instituto Moreira Salles. Não é só um apanhado de historinhas, mas textos com muita “sustância literária”. Autores brasileiros participam de todo tipo de texto e fazem valer uma visita quase todo dia – ritmo de atualização do site.<span id="more-3155"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O grande destaque é para o <a href="http://blogdoims.uol.com.br/bernardo-carvalho-diario-de-berlim/" target="_blank">“Diário de Berlim”</a>, feito por Bernardo Carvalho (autor de “O Filho da Mãe”, entre outros). As narrativas estouram os limites da capital alemã e mostram recortes deliciosos de história, sociedade, arte e até as banalidades do dia-a-dia.</p>
<p style="text-align: justify;">A parte de <a href="http://blogdoims.uol.com.br/ims/sindrome-de-aeroporto-por-arthur-dapieve/" target="_blank">correspondências</a> começou com a troca de textos / confidências / memórias / protolivros / idéias / protoideias entre os autores Daniel Galera e André Conti. A seção deslanchou e trouxe outras duplas como Armando Freitas Filho x Maria Rita Kehl, Sérgio Sant’Anna x José Geraldo Couto e Aldir Blanc x Arthur Dapieve.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://blogdoims.uol.com.br/quatro-perguntas/" target="_blank">“Quatro Perguntas”</a> traz curtas entrevistas com autores como o vencedor do Prêmio São Paulo, Rubens Figueiredo, o cartunista Laerte e o escritor Joca Reiners Terron.</p>
<p style="text-align: justify;">Além das letras, o blog é um prato cheio para quem gosta de cinema, música, fotografia e tudo junto e misturado. Destaque para os textos das colaborações especiais http://blogdoims.uol.com.br/colaboracao-especial/.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem busca uma inspiração diária, uma leitura intensa sem ser densa ou uma fonte de diversão que abra a cabeça, esse blog é uma boa saída. É, sim, possível alimentar a cabeça guardando esse “WWW” entre as guias e planilhas da louca rede.</p>
<p style="text-align: justify;">Blog do Instituto Moreira Salles: <a href="http://blogdoims.uol.com.br/" target="_blank">http://blogdoims.uol.com.br/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Juliana Simon</strong></em></p>
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		<title>[ Livro ] Atíria, a Borboleta</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 17:37:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[borboleta atíria]]></category>
		<category><![CDATA[clássico infanto-juvenil]]></category>
		<category><![CDATA[coleção vaga-lume]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infanto-juvenil]]></category>
		<category><![CDATA[lúcia machado de almeida]]></category>
		<category><![CDATA[o caso da borboleta atíria]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha apaixonadinha de um livro gracinha daqueles tempos de vaga-lume. O caso da borboleta Atíria!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/11/Caligo-3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3133" title="Caligo" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/11/Caligo-3-e1320895495209.jpg" alt="" width="600" height="238" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O Caso da Borboleta Atíria é desses clássicos infanto-juvenis da linda e terna Coleção Vaga-Lumes, que me parece ter embalado a imaginação de muito petiz que hoje parelha a minha idade. Narra a desventurade uma borboleta, Atíria, que nasce com uma asinha defeituosa &#8211; que a faz ter severas dificuldades para voar, o que também a torna extremamente querida pelas demais criaturas da floresta (esse velho chavão delicioso da gentileza para com os deficientes, tão irreal, quanto saboroso na ficção).</p>
<p style="text-align: justify;">Não somente um nasce, vive e morre da insetinha. Mas Lúcia Machado de Almeida (que a floresta a tenha) usa a gracinha central como um vórtice para todo um mistério que começa a abalar as cercanias da floresta: um curioso e temível assassino serial de borboletas. Lembro bem (falo como se escrevesse sobre a minha leitura de 96, mas a bem da verdade reli não faz nem um ano o ótimo livrinho =), dizia eu que lembro bem, de como os mistérios desenvolvem em Atíria um espírito de perigosa aventura, um misto de princesa desavisada com a deficiente justiceira &#8211; a teoricamente vítima tornando-se a heroína da história.<span id="more-3132"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mas passando longe do peito estufado, dos brados, apenas se valendo da vontade quase adolescente de resolver a situação. Atíria é dessas.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura é mansa de tudo, o gosto é doce e saboroso. Dá pra ir tranquilo! Se não me engano, naquele acesso de loucura, doei meu livro a torto e a tuíter para alguém.</p>
<div id="attachment_3138" class="wp-caption alignleft" style="width: 161px"><img class="size-medium wp-image-3138 " title="O caso da borboleta Atíria" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/11/31095_48-216x300.jpg" alt="" width="151" height="210" /><p class="wp-caption-text">O caso da borboleta Atíria</p></div>
<p style="text-align: justify;">Entre outros clássicos jovens aí da Vaga-Lume esse talvez seja um dos mais bobinhos, mas um dos melhores. Nas mãos da Disney ou de Pixar, por exemplo, daria um filme poético e maravilhoso (e vejo os temas de Lúcia Machado, tratados na década de 70, serem resgatados pelas gigantes em filmes como Vida de Inseto e mesmo Procurando Nemo). Curioso ver essa relação, e como a autora já vislumbrava temas que nos encantaram recentemente tantos anos atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">Se está aqui, está indicado. Eu costumo falar de Proust, de Kafka, desses vislumbrados autores, de bustos por aí, reservo com muito maior alegria eu diria pra indicar esse que foi um dos livros que me fizeram começar a gostar muito dessa história de ler. E de escrever. E de viver. E de sonhar com livro aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">Avante, borboletas atírias!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Conto ] Sete e quinze</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Nov 2011 15:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[bruno portella]]></category>
		<category><![CDATA[chefe filha da puta]]></category>
		<category><![CDATA[conto de amor]]></category>
		<category><![CDATA[conto homossexual]]></category>
		<category><![CDATA[demissão]]></category>
		<category><![CDATA[miniconto]]></category>
		<category><![CDATA[paixão no trabalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Frente à demissão de um subalterno, o chefe canalha tem seus motivos para não aceitar a demissão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.flickr.com/photos/soslaio/5318789216/in/photostream"><img class="aligncenter size-full wp-image-3126" title="5318789216_a163886aa9_b" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/5318789216_a163886aa9_b1-e1319990167674.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No último nó de gravata ele vem, treme de longe o patético. Me pede demissão.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não se demite merda nenhuma. Você vai girar esse rabo, voltar pra sua mesa e terminar o relatório que eu pedi. Ora, era só o que faltava, um fodido como você com seus dois filhos sem dente em casa, uma gorda florida na cama, se atravessa todo o salão até a minha mesa querendo se demitir? Francamente. E vai fazer o que? Dar o cu pra ganhar dinheiro? E quem é que vai comer esse seu cu peludo, Beto? Esse seu rabo gordinho, hein? Vai morrer de fome se depender da Augusta. Você não tem nem força o suficiente pra parar de tremer antes de vir falar asneiras pra mim, quanto mais quando lhe montarem de quatro e te darem uns bons tabefes. Ora, saia da minha frente, pela santa inquisição. Volta pro seu chiqueiro, enfia essa cabeça no seu computador e termina aquela porra daquele relatório. Quero ainda pra hoje. Não, queria pra hoje, mas depois dessa sua atitude asquerosa, eu quero pra ontem. E falo alto mesmo. Pra todo mundo ouvir o merda que você é. Até a faxineira, aquela puta, se me pedir demissão, eu pago até o bônus dela. Você não. Você não tem espaço no mercado de trabalho, você é um velho acabado, você está gordo, você está ficando careca, os seus sapatos são imundos, você tem peitinhos, aquele botequim que você mora não vale o pino do meu roléx, seu pau não deve trabalhar há séculos; não deveria ser permitido uma barata como você sequer falar na minha presença. Então leva esses seus bolsos furados de volta pra&#8217;quela merda de repartição. Digite até sangrar seus dedos naquele relatório, e me entregue na minha mesa. Não. Peça para a Maria da recepção deixar aqui. Não vou aguentar ver você mais diante de mim. Não, não vou te demitir e nem você vai se demitir. Você vai continuar sendo o merda que é, e eu vou continuar sendo seu chefe como sempre. Eu vou continuar aqui na minha mesa gigante contando meu dinheiro e você vai continuar lá na sua mesinha de merda digitando meus relatórios. E sabe por que vai ser sempre assim, Beto? Sabe por que? Por que eu te amo, Roberto.</p>
<p style="text-align: justify;">Último nó de gravata. Perfeito no espelho.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>foto de Diógenes Muniz</em></p>
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		<title>[ Randômico ] Livro de graça, oba!</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Oct 2011 20:42:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Calixto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Randômico]]></category>
		<category><![CDATA[direitos autorais]]></category>
		<category><![CDATA[domínio público]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livros de graça]]></category>

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		<description><![CDATA[Obras que entram em domínio público. Ótima dica do Bruno Calixto.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/haus-der-kunst-picasso_minotaurus-copyright.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3115" title="haus-der-kunst-picasso_minotaurus-copyright" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/haus-der-kunst-picasso_minotaurus-copyright-e1319078707125.jpg" alt="" width="600" height="490" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Se você é uma pessoa que gosta de ler, já deve ter visto as máquinas de vender de livros &#8211; nas estações do metrô de São Paulo, por exemplo. Principalmente, deve ter notado que os livros vendidos ali são muito baratos: é possível achar títulos por R$3 ou R$5. Se uma obra em livraria custa hoje entre R$30 e R$50, qual é o segredo?</p>
<p style="text-align: justify;">Os direitos autorais, claro. Se prestar atenção, verá que as principais obras nessas máquinas já caíram em domínio público: clássicos da literatura, como Machado de Assis, ou textos bastante antigos, mas ainda atuais, como A Arte da Guerra (Sun Tzun) ou O Príncipe (Maquiavel).</p>
<p style="text-align: justify;">Pela lei brasileira, uma obra entra em domínio público apenas 70 anos após a morte do autor. O objetivo dessa lei é proteger os herdeiros, mantendo uma fonte de renda &#8211; os direitos autorais &#8211; para a família durante esse período. O prazo começa a valer um ano após a morte do escritor, o que significa que, se o autor morreu no ano 2000, seus livros passarão a ser livres de copyrights em 2071.<span id="more-3112"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, existem ótimos autores que faleceram antes de 1940, e portanto suas obras já estão livres de direitos autorais. Isso significa que editoras podem reduzir drasticamente o valor das obras. E o melhor: se você não se importa em ler na tela do computador, pode baixar esses livros sem pagar nada.</p>
<p style="text-align: justify;">Um bom lugar para encontrar esses livros é no site <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp">Domínio Público</a>, mantido pelo Ministério da Educação. Outra opção para livros em português é o <a href="http://www.ebooksbrasil.org/">eBooks Brasil</a>. Quem lê em inglês tem acesso a quase um milhão de obras no <a href="http://openlibrary.org/subjects/accessible_book">Open Library</a>, e o <a href="http://books.google.com.br/books">Google Books</a> apresenta uma série de livros gratuitos, entre outros pagos, tanto em português quanto em outras línguas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para fechar a série de indicações, deixo um link para a obra completa de <a href="http://www.hplovecraft.com/writings/fiction/">H. P. Lovecraft</a>, o famoso escritor norte-americano que escreve contos de fantasia e terror. Suas obras entraram em domínio público recentemente, e agora que os preços não assustam mais, podemos nos aterrorizar de verdade com as suas histórias de horror gótico.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Calixto</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>(nota: procurei &#8216;copyright&#8217; no Google e apareceu esse minotouro do Picasso em cima de uma menina. nada demais.)</em></p>
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		<title>[ Livro ] Renegado: Serafim Ponte Grande</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 18:16:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura modernista]]></category>
		<category><![CDATA[literatura nacional]]></category>
		<category><![CDATA[modernismo brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[oswald de andrade]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<category><![CDATA[serafim ponte grande]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha rápida minha do livro Serafim Ponte Grande do não menor Oswaldo de Andrade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/teatro-1990-a-volta-de-serafim-ponte-grande-1-elenco1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3104" title="teatro-1990-a-volta-de-serafim-ponte-grande-1-elenco" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/teatro-1990-a-volta-de-serafim-ponte-grande-1-elenco1.jpg" alt="" width="500" height="350" /></a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sobre Serafim Ponte Grande, Oswald de Andrade &#8211; 1933</em></p>
<p style="text-align: justify;">(Panorama histórico: fim da era Proustiana, começo do libertário período de ócio. 2011. Segundo semestre.)</p>
<p style="text-align: justify;">Acabo com Proust. Tiro as algemas. Estaco no peito. Estanco o tormento.</p>
<p style="text-align: justify;">Pego o primeiro fino que eu vejo na pilha: Serafim Ponte-Grande (assinalado como renegado pelo próprio autor), nome de anjo, composto, original. Oswaldo Andrada, du brasil. Lembro das relações com o Mario (que lembro só por causa do sobrenome). Semana da Arte Moderna, São Paulo mutcho loka em 22. Parecia uma escolha linda recomeçar a vida de leituras por um modernista tupiniquim, ora porra!</p>
<p style="text-align: justify;">Pulei trinta páginas de prefácio, um porre, e fui direto na jugular de Serafim Ponte Grande: sobre a vida do personagem-título, ponto. Ponto e vírgula. Um repartição bona-praça, brasileiro malformado, entregue no casamento, repreendido de tudo que é desejo &#8211; até que separa. Um antes e depois.<span id="more-3101"></span></p>
<p style="text-align: justify;">E foi chocante sair de um romancista francês alinhadinho no processo narrativo &#8211; coisinha por coisinha, bloco de narração, falas raras com travessões, tudo lindo e pontuadinho. Tão almofadinhas quanto o conteúdo. Aí vem Oswaldo e fode com tudo. Cada trecho num estilo diferente, ora tergiversa, depois polemiza, aí então dialoga, lista nomes, narra com ironia, come umas putas da República, apaixona-se por outras do velho continente. Cada trecho uma surpresa diferente &#8211; tanto para a história como para o texto.</p>
<div id="attachment_3105" class="wp-caption alignright" style="width: 269px"><img class="size-medium wp-image-3105" title="Oswald" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/retrato-de-oswald-de-andrade-259x300.jpg" alt="" width="259" height="300" /><p class="wp-caption-text">Oswald no pincel de Anita Malfatti</p></div>
<p style="text-align: justify;">O bicho desconstroe o formato tradicional do romance e faz um negócio novo. Ainda novo. E ele escreveu de 33 pra trás. E ainda parece novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Serafim é um cara de repartição, tem lá suas obrigações no trabalho, dentro da família, para com a mulher, para com os compadres de trabalho. E como todo fodido, enfrenta problemas em todas esferas. E como todo bom brasileiro, tem a putaria no sangue (nem vem me encher o saco com estereótipos nacionalistas, somos tropicais e cheio de gingado, sim senhor). Sobre a mulher, que erro!, o autor confessa: &#8220;tomada por engano de sensualismo num sofá da adolescência&#8221;. E o livro abre no diálogo curioso justamente entre a filha, o protagonista, os pais da menina e um delegado sobre o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">E daí vai adiante, personagem por personagem, amores por amores.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro se lê numa bundada como se diz, é extremamente ágil e recomendado para suceder qualquer tipo de leitura. Das piores até as mais incríveis, Serafim Ponte-Grande conseguirá surpreender pela originalidade, pelo humor do autor, pelos elefantes que caem do segundo andar e principalmente pela facilidade da pena. É isso. Simples, bem humorado, diferente. Um livro a se indicar. E está indicado.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O homem é um microcosmo! Por assim dizer, um resumo da terra e como tal é guiado por leis imutáveis e eternas. Estou de acordo com essas ideias provadas pela ciência. Porém, há as erupções, há os cataclismos!&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Verdade maior, não há de ser dita. Foi lá pelas tantas do começo. Ótimo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Obs.: Foto de uma montagem chamada <a href="http://www.arielmoshe.com.br/site/2008/06/1990-a-volta-de-serafim-ponte-grande/">&#8216;A volta de Serafim Ponte Grande&#8217;</a>, da companhia Ariel Moshe</em></p>
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		<item>
		<title>[ Conto ] Entrevistas: Confissões Nº 17</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Oct 2011 11:49:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
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		<category><![CDATA[conto curto]]></category>
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		<category><![CDATA[micro-conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma sessão de entrevista. Um fenônemo estranho. Um profissional. Um bombeiro, exatamente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/soslaio/5924241931/"><img class="aligncenter size-full wp-image-3096" title="5924241931_c2e2a45e5c_b" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/10/5924241931_c2e2a45e5c_b1-e1317784802604.jpg" alt="" width="600" height="451" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">(&#8230; Depois de uns cinco anos eu fui na terapia. Cê acha que é fácil?, não é fácio não. Ma vou confessar: fiquei uns seis meses afastado, só de boa, leléuzinho com a terapeuta, de boa em casa, fazendo compra, curtindo jogo na tevê, recebendo o migué, saindo com os amigos tudo. Nada. E me sentindo sozinho pra cacete. Aquela parada me fazia bem, velhinho. Claro, sempre foi perturbador, principalmente no começo, mas depois cê acostuma. Não sei o que é pior. Não pra se acostumar com aquilo. Lembro que quando caiu o avião ali no Morumbi fui participar do resgate. Era a primeira vez que acontecia algo grande; fazia pouco tempo que eu tava na companhia, nem dois meses. Até então, nada. Nem gato em cima de árvore. Sabe, dessas coisas. Aí fui. Corpo pra tudo que é lado, carbonizados, repartido, foi um pouco chocante. Geral falando comigo, pedindo ajuda, amigo meu me chamando, pedindo mangueira e o cacete. Dava pra ouvir a berraria toda, mas a gente nem se liga. Naquele dia mesmo, eu nem tchum, achei que fosse coisa da loucura toda, das pessoas de fora, imprensa, os curiosos. Hoje sim, quando lembro, sei que para que era, mas no dia &#8211; que isso, nem me passou pela cabeça. Foi noutro dia, numa quarta-feira, lembro por que foi num jogo de futebol, de noite. Batidona na avenida assim ó, de frente, matou dos dois lados. Aí foi a gente ajudar quem tava perto, nem era pra gente fazer nada, mas, bombeiro nem sempre tem o que fazer. Então fumo. Aí chegou lá, Leandrinho já foi vomitando de um lado, Biriba tonteou. Nego tava nas ferragem ainda vivo. Quer dizer, vivo vivo não tava. Mas eu achei que tivesse, pedindo ajuda, esperneando, berrando. Nada, tava durão.</p>
<p style="text-align: justify;">Aí que eu saquei né&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>[ Curta ] Vida aérea, Angélica Freitas</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 17:17:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Randômico]]></category>
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		<description><![CDATA[Gilberto Ferreira interpreta Vida Aérea, poema de Angélica Freitas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/Screen-shot-2011-09-28-at-1.02.38-AM1-e1317182767514.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-3084" title="Screen shot 2011-09-28 at 1.02.38 AM" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/Screen-shot-2011-09-28-at-1.02.38-AM1-e1317182767514.png" alt="" width="600" height="322" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A trupe criativa continua. Depois de interpretarem o ótimo conto &#8216;serial&#8217; de Ana Majorca, o nu Gilberto Ferreira interpreta o poema &#8220;Vida Aérea&#8221; de Angélica Freitas. Odeio poemas, mas, fácil, adivinhem &#8211; adorei! o poema e o vídeo claro. Gilberto Sussu fez um bom trabalho, esse é bom. O poema. Abaixo na íntegra o vídeo e mais abaixo o poema.</p>
<p style="text-align: center;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=p90yD3zI5BE">www.youtube.com/watch?v=p90yD3zI5BE</a></p>
<p><span id="more-3082"></span></p>
<p style="text-align: center;">vida aérea</p>
<p style="text-align: center;">o quanto você quer, me diga, com um frio na barriga,<br />
proclamar norte onde seu nariz aponte, se livrar do<br />
que não interessa, com força, abrir a cabeça,<br />
meter os pés pelas mãos, com pressa,<br />
não importa,</p>
<p style="text-align: center;">dinamitar a porta<br />
&amp; lamber a janela,<br />
sentar no escombro ombro a ombro<br />
com a obra</p>
<p style="text-align: center;">&amp; me diga me diga, com um frio<br />
na barriga, quanto tempo perdido,<br />
quantos reais no bolso,<br />
quantos livros não lidos, quandos minutos de espera,<br />
quantos dentes cariados,</p>
<p style="text-align: center;">me diga o quanto você quer isso tudo<br />
e para onde quer que envie,</p>
<p style="text-align: center;">se você quer que embrulhe.</p>
<p style="text-align: center;"><em><strong>Angélica Freitas</strong></em></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>[ Livro ] A Experiências de Sirius</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Sep 2011 14:23:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[argos]]></category>
		<category><![CDATA[as experiências de sirius]]></category>
		<category><![CDATA[canopus]]></category>
		<category><![CDATA[canopus in argos]]></category>
		<category><![CDATA[doris lessing]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[ficção-científica]]></category>
		<category><![CDATA[literatura inglesa]]></category>
		<category><![CDATA[resenha de livro]]></category>
		<category><![CDATA[sirius]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha minha do terceiro livro da série Canopus in Argos: Arquivos. Uma que só mudou a minha vida. =D]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/buddha1-e1315969246406.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3069" title="Buddha Statue" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/buddha1-e1315969246406.jpg" alt="" width="600" height="407" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Shikasta, o primeiro livro da série nos dá todo um panorama da colonização da Terra por Canopus (que ocupa o hemisfério norte), As Experiências de Sirius foca justamente no sistema planetário responsável por colonizar o Hemisfério Sul da Terra. Mas ao contrário de Shikasta que recontava a história através de relatórios oficiais e o diário da irmã de um dos emissários encarnados, esse livro foca nas aflições de uma personagem chamada Ambien II, uma embaixatriz do alto escalão de Sirius, que pouco a pouco começa a questionar o pensamento de seu próprio império.</p>
<p style="text-align: justify;">Dona de uma obsessão sobre tudo que envolve Canopus, o império rival, Ambien tem contato com diversos emissários canopeanos e o que é uma desconfiança no início do romance vai se desenvolvendo entre auto-críticas e análise póstumas para uma posição de questionamento acerca de tudo aquilo que sua nação fez e está para fazer. Escreve ela usando um tom extremamente questionador de todas as ‘verdades’ vigentes dentro de sua própria nação – idéias que dizem respeito à conduta humana adotada por eles, bem como a relação e a importância do trabalho de Canopus.<span id="more-3067"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Ouso dizer que Sirius é aquele que mais se adequa ao pensamento humano ocidental – ou até ao oriental. Um estado mental degenerado em que se acha muito mais importante do que realmente é – e busca em Canopus, seu rival, toda sorte de motivos para diminuí-lo e torná-lo insignificante, no mínimo inferior à Sirius. E o relato de Ambien vai contra as convenções e paradigmas criados.</p>
<p style="text-align: justify;">Este relatório das Experiências de Sirius feito por Ambien II, no entanto, vai tratar de como sua visão mudou sobre Canopus, sobre Sirius e sobre si mesma. É ela quem percebe que Sirius toma para si todo tipo de motivo para acusar Canopus; é ela quem enxerga que Sirius não compreende Canopus; é ela, em última instância quem percebe, tardiamente, as falhas de seu próprio Império no passado.</p>
<div id="attachment_3071" class="wp-caption alignright" style="width: 202px"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/28003_4.jpg"><img class="size-full wp-image-3071  " title="As Experiências de Sirius" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/28003_4.jpg" alt="" width="192" height="256" /></a><p class="wp-caption-text">Capa do Livro</p></div>
<p style="text-align: justify;">Tudo se relata de uma visão do passado, pois como ela mesmo conclue: é impossível se desprender desse sintoma terrível de perceber as coisas apenas quando elas já passaram. Rohanda, a nossa Terra, assim chamada pelos Canopeanos é o plano de ambiente para que o relato tenha ainda mais veracidade entre as relações dos dois impérios – e mais tarde, entre Shammat e seu planeta pirata, Puttiora.</p>
<p style="text-align: justify;">Sirius atravessa uma terrível crise existencial causada por sua avançadíssima tecnologia que leva seus milhões e milhões de habitantes no extremo ócio, inclusive, implorando por algum tipo de trabalho &#8211; já que a labuta se automatizou inteira. A ociosidade é tão profunda e o ‘avanço’ é tão forte, que estes mesmos homens que clamam por trabalho, não se vêem dignos a terem de trabalhar arduamente e mesmo os que se submetem aos planos de incentivo para acabar com a crise, não têm capacidade física para conseguirem êxito – e se afundam ainda mais na depressão por serem inúteis. O resultado: Sirius decide diminuir drasticamente o número dos habitantes de suas inúmeras colônias – embora Ambien saiba que isso não sanará o problema básico do Império, a Crise Existencial.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro complementa de forma plena o primeiro volume da pentalogia em que podemos verificar justamente a diferença ideológica de cada sistema colonizador e, ao contrário do primeiro volume, onde se vislumbra o &#8216;essencial&#8217;, talvez o lado certo &#8211; nesse, acabamos nos identificando com Sirius. Somos nós ali. Seremos esses?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Literato ] Meio-dia no Rio</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Sep 2011 02:46:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Simon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[encontro literário]]></category>
		<category><![CDATA[encontros]]></category>
		<category><![CDATA[juliana simon]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[machado de assis]]></category>

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		<description><![CDATA[Juliana Simon encontra-se com Machado de Assis. Imperdível!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/S%C3%89CULO-XIX-81-e1315449915992.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3061" title="SÉCULO XIX 8" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/09/S%C3%89CULO-XIX-81-e1315449915992.jpg" alt="" width="414" height="467" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“Engraçado te chamarem bruxo, sabe. Tem um outro que chamam mago e só leva paulada da crítica, mas vende feito água”. Seu Machado, que até então só me contava do passado, quis saber do futuro. Aquele mulato, apesar de elegante, falava muito mal e rápido e quis saber do tal Coelho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se era maresia ou os casarões do centro do Rio, a miragem parecia bem real. Decidi que não ia desperdiçar a oportunidade e falei tudo. “Sabe, Seu Machado, eu sempre quis que alguém fizesse aquela descrição da Capitu para mim&#8230;a dos olhos de ressaca. Eu tenho olhos de ressaca?”. Ele não tirava o olho do meu nariz. “Minha filha, tem algo brilhando no teu rosto”. “Ah, sim. Meu piercing”. Seu Machado arregalou os olhos e riu das moças que já não usavam saiões e anáguas.<span id="more-3057"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Com o jornal nas mãos, mostrei o hospício que era o mundo, sem nenhum Simão Bacamarte para recolher os loucos, “ou os excessivamente sãos, minha filha”. Contei que seus textos agora eram conhecidos por apavorar e chatear jovens forçados a escolher o tal rumo na vida. “É, seu Machado, banalizaram tua obra. Agora é um instrumento de tortura, mas não esquenta. Eu mesma fui recuperar teus livros pouco tempo depois e vi a beleza que os questionários de múltipla escolha não me deixavam ver”.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhando para o relógio pendurado no bolso, Seu Machado anunciava no olhar que era hora de partir. Agradeceu o café e já subia pela rua de pedra do Cosme Velho quando eu assoviei forte: “Seu Machado, Capitu traiu Bentinho afinal?”. Num momento de rara regularidade na fala, ele disse: “Essa dúvida levarás para a tumba. Como eu levei”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Juliana Simon</strong></em></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>[ Leitura ] Serial</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 12:33:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Randômico]]></category>
		<category><![CDATA[ana majorca]]></category>
		<category><![CDATA[curta-metragem]]></category>
		<category><![CDATA[felipe zacchi]]></category>
		<category><![CDATA[filmes]]></category>
		<category><![CDATA[leitura dramática]]></category>
		<category><![CDATA[sanduba de queijo]]></category>
		<category><![CDATA[serial]]></category>

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		<description><![CDATA[Leitura dramática do conto serial de Ana Majorca (ps). Ótimo!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/Screen-shot-2011-08-31-at-9.22.00-AM-e1314793854332.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-3050" title="Screen shot 2011-08-31 at 9.22.00 AM" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/Screen-shot-2011-08-31-at-9.22.00-AM-e1314793854332.png" alt="" width="600" height="327" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Um exercício de leitura dramática dos amigos que foram fundo no conto Serial, já publicado aqui anteriormente sob o pseudônimo de Ana Majorca (pff).</p>
<p style="text-align: justify;">Um execício muito interessante que só se utiliza de elementos originais, desde o conto, ao ator e até à trilha sonora &#8211; composta por Felipe Zacchi, o narrador (que teve a preguiça de decorar o texto). Afora com essa situaçãozinha do serial ler o conto numa folha de papel, o exercício ficou simplesmente foda.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam &#8211; em HD, se possível:</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=TmQpu5FVuw8">www.youtube.com/watch?v=TmQpu5FVuw8</a></p>
</p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo segue o conto na íntegra:<span id="more-3047"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>serial</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tinhoso, coisa-ruim, tranca-rua, cão, capeta, diabo, demônio, zebú, exú, demo, chifrudo, belzebú, príncipe das trevas, lúcifer, satã, satanás, ferrabrás, pai do rock, 14-linha, infernal, cramulhão. Seguir uma pessoa na rua é como tentar nomear o lá de baixo. Muito mais fácil do que não fazê-lo. Caso ainda não tenha notado, estamos falando de um jogo de acesso. Uma brincadeira de controle sobre um desconhecido que acabamos de ver a solta, não importa o motivo que cada um tenha para segui-lo. E há regras para tanto. São tão detalhadas quanto numa partida de xadrez ou na feitura de um bolo -o que, pensando bem, é o que torna a modalidade algo divertida.</p>
<p style="text-align: justify;">À receita?</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de começar, rastreie. Detenha-se no universo de ícones a ser interpretado entre o asfalto e quem pisa nele. Celulares em riste, crachás do trabalho, pulseirinhas do senhor do Bonfim. Eis alguns objetos que eliminam aproximação a boa parte do que se tem como bípede na calçada. Sorvetes, fones de ouvido e cães de pequeno porte, por outro lado, devem ser enxergados como sinais verdes.</p>
<p style="text-align: justify;">Siga em frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Menos é mais quanto à forma de se vestir da vítima. Pessoas muito arrumadas geralmente têm aonde ir –e um horário mais ou menos rigoroso a ser cumprido. Que quem persegue esteja melhor trajado do que quem é perseguido, é o que costumo dizer. Se o nado é crawl, borboleta ou costas, pouco importa. Em não podendo começar o acossamento pela lateral ou por trás –fora do campo de visão do alvo–, evite cruzar de frente, na mesma calçada. E ultrapasse-o sempre que puder. Abordagem em becos escuros, em quebradas e que tais, deixamos para os filmes de suspense. A ideia não é assustar, mas hackear uma mise-en-scène social baseada no medo do desconhecido –aproximar-se. Fazê-lo perto de um posto policial, portanto, não é mais do que sensato. (Essa regra não vale para quem anda armado, muito menos para aqueles que não possuem registros de suas armas e/ou ostentam pendências com a lei). Se houver chance de sedução –repare que agora verso sobre contato verbal–, realce ser sua primeira vez neste tipo de approach. Que horas são? Você sabe onde fica a avenida X, a rua Y? Me desculpe, mas… oras, para o inferno, que belos olhos você tem! Descubra-se constrangido. Deixe que ela ou ele coloque a desconfiança em algum lugar, talvez caiba dentro de três letras (“sei&#8230;”). Peça o número do telefone, finja estar anotando. Mas, lembre-se: à meia-noite você ganha classe (magnoliopsida), ordem (cucurbitales) e família (curcubitaceae): vira abóbora. Ou alguém acabará sabendo que vocês se conheceram. Você não quer que isso aconteça, acredite.</p>
<p style="text-align: justify;">Cumprido o script, o que fazer?</p>
<p style="text-align: justify;">Dependendo do caso -quero dizer, vamos encarar os fatos aqui- a essa altura já estamos decidindo que fim daremos a um corpo. Supondo, no entanto, que haja aqui uma dúvida sincera e que ela seja deste quilate. Que nada tenha sido feito com a caça até então. Pois bem: sugiro a cada qual tirar sua própria conclusão por meio de uma verdade semântica.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, é tão fácil nomear Deus quanto o Diabo?</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, nunca é.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Blogue ] História &amp; Quadrinhos</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 12:23:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros Sanduíches]]></category>
		<category><![CDATA[caio ferraro]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[ensino fundamental]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[história e quadrinhos]]></category>
		<category><![CDATA[hq]]></category>
		<category><![CDATA[quadrinhos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3035</guid>
		<description><![CDATA[Caio mistura o ensino de História com Quadrinhos. Genial, o blog vira indicação no Sanduba. =D]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-3036" title="História &amp; Quadrinhos" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/historiaquadrinhos1.jpg" alt="" width="600" height="367" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse mês a indicação tem a ver com histórias em quadrinhos. Ou história nos quadrinhos. Caio Ferraro estudou comigo no colegial, é exímio jogador de futebol &#8211; daqueles de pernas tortas, chatos para tirar a bola, dos que abusam do chapéu só por que você não tem altura suficiente. Mas o boleiro talvez seja sua faceta lado B &#8211; ainda que seja tão dominante, além de craque ele tem um ótimo blog de História. E quadrinhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Utilizando tirinhas e diversas referências do mundo particular das HQs, ele traz sempre um texto temático sobre algum assunto no mínimo curioso em que analisa o papel dos quadrinhos na formação de pessoas. E não deixa de ser curioso, já que nunca começamos a ler a partir de Kafka, Platão, Shakespeare ou Paulo Coelho, começamos sempre nos menos pretensiosos como Chico Bento, Harold e tantos heróis de cuecão.<span id="more-3035"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Mas não para por aí, Caio também é professor da rede pública e frequentemente tenta utilizar os quadrinhos em sua metodologia dentro das salas de aula. O que é fantasticamente louvável, dada a defasagem do sistema de ensino atual &#8211; usar uma linguagem que as crianças entendem e aceitam bem como método de formação delas próprias é ótimo. Eu apoio. Eu indico. Podia ser assim.</p>
<p style="text-align: justify;">A dica de hoje, portanto é o ótimo História &amp; Quadrinhos, pra quem acredita que as páginas de um bom gibi podem ser muito mais &#8211; e são, sem dúvida alguma &#8211; do que mero entretenimento. Leiam, por exemplo, o post de Maio sobre a polêmica da linguagem coloquial.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.historiaequadrinhos.com.br/2011/05/polemica-da-linguagem-coloquial-turma.html">Clique aqui, bonitinho.</a></p>
<p style="text-align: justify;">(Depois de reler)</p>
<p style="text-align: justify;">É simplesmente ótimo esse conteúdo. Original, muito criativo e extremamente relevante. Mais gente deveria ler o blog do Caio.</p>
<p><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p>Caio Ferraro escreve no História &amp; Quadrinhos. <a href="http://www.historiaequadrinhos.com.br/">&lt;&lt; Link &gt;&gt;</a></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>[ Fora dos Livros ] Vale a pena comprar livros na Amazon?</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/SandubadeQueijo/~3/z7h56R8_ris/</link>
		<comments>http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=3027#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 17 Aug 2011 11:54:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Calixto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Randômico]]></category>
		<category><![CDATA[amazon]]></category>
		<category><![CDATA[comprar livro na amazon]]></category>

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		<description><![CDATA[O Bruno Calixto fez uma compra na Amazon. Livro. E fez o balanço: bom ou ruim? Confira!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/amazon-by1-e1313539972523.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3029" title="amazon-by" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/amazon-by1-e1313539972523.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No começou de julho, me deparei com uma dessas coincidências da vida: na mesma semana que descobri que tinha um cartão de crédito internacional, soube que dois amigos diferentes faziam compras nos Estados Unidos pela internet. Para quem é fã de literatura, como os leitores do Sanduba, comprar livros no exterior pode ser uma boa ideia, já que livros não pagam impostos. Embalado por essa coincidência, pensei: porque não testar os serviços de compras nos EUA para os sandubeiros?</p>
<p style="text-align: justify;">(Ok, talvez muitos de vocês já fazem isso há muito tempo e eu que sou ultrapassado. Se for o caso, ignorem esse texto!)</p>
<p style="text-align: justify;">Fui fazer o teste na Amazon.com, por ser a mais famosa empresa de vendas online no mundo. Minha primeira dificuldade foi, ora, escolher o livro. Nunca fui muito fã das listas de recomedações de lojas online, prefiro passear entre prateleiras das livrarias. No fim, acabei escolhendo &#8220;The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark&#8221;, de Carl Sagan, um livro que eu já li (em português), mas tenho vontade de reler. Não quis escolher nenhum lançamento porque, afinal, vai que a compra não dá certo e eu fico na mão?<span id="more-3027"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Livro escolhido, vamos ao que interessa: o preço. A compra tem que ser feita em dólar, claro. Isso significa que você precisa de um cartão de crédito internacional. Não é difícil conseguir um, mas é sempre bom pensar antes de adquirir, já que as taxas costumam ser um pouco mais caras do que a de um cartão comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A minha compra custou US$ 9,76 &#8211; certamente mais barato do que a média de livros aqui no Brasil. No entanto, é bom não esquecer que eu escolhi uma edição de baixa qualidade: papel jornal, sem capa dura. Aí tem o frete. Eles enviam os livros por navios, e você pode escolher se quer um que chega com urgência ou não. Eu escolhi o frete padrão, que saiu mais caro do que o próprio livro: US$ 9,98. Valor total, US$ 19,74.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto isso dá em reais? Depende da cotação do dólar no momento em que a fatura do seu cartão de crédito for fechada. A boa notícia é que o dólar está muito barato &#8211; há umas semanas, chegou a R$ 1,55, o menor valor desde 1999.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao todo, minha compra saiu por R$ 34,40 &#8211; eu tive que pagar R$2,07 de imposto de operação financeira (IOF) na conversão real-dólar, que veio na fatura do cartão. Fui comparar o preço no submarino. A edição que li, na época do colégio, estava indisponível, e tinha uma versão pocket de R$ 29,00. Se eu tivesse o cartão do Submarino, sairia por R$20,00 (não, não tenho). De toda forma, não tinha nenhum exemplar em inglês. Então acho que minha compra não foi tão ruim assim.</p>
<p style="text-align: justify;">A compra foi feita em um domingo, dia 17 de julho, e eles prometeram a entrega para entre 12 e 31 de agosto. Ou seja, até um mês e meio depois! No dia seguinte, segunda-feira, recebo um e-mail automático da Amazon dizendo que o meu livro foi embarcado com sucesso, e que a entrega estava prevista para 12 de agosto. Mesmo assim, o dia 12 passou e, até o momento (escrevo este texto no dia 16 de agosto), nada do meu livro chegar. Torço para não ter que esperar até o dia 31 ou, pior, ter que gastar meu inglês para reclamar de não ter recebido o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha avaliação final é de que, na maioria dos casos, não vale a pena comprar no exterior. O livro demora muito para chegar, passa por muitos intermediários, e isso acaba aumentando consideravelmente o preço. Mas em algumas situações a compra pode ser proveitosa: em caso de livros que não estão no mercado brasileiro, por exemplo, ou ao comprar uma quantidade maior de livros, diluindo o valor do frete. Outra opção é ser usuário do Kindle, eliminando assim o tempo de espera e a necessidade do frete.</p>
<p style="text-align: justify;">De toda forma, tudo indica que a Amazon tem planos de se lançar no mercado brasileiro em 2012. Se isso acontecer, importar livros pode ficar mais rápido e barato. Veremos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Calixto</strong></em></p>
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		<title>[ Quente ] Oficinas Culturais em São Paulo!</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Aug 2011 01:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não é de hoje que sou fã das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo (leitores de fora, morrei de inveja). AS Tudo de graça (ainda não verifiquei, então qualquer erro fica na conta do Papa), tudo lindo, em várias partes da cidade, com profissionais competentes e turmas sempre plurais. Eu mesmo já mandei minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter" src="http://nossabarra.agenciacomunitaria.org.br/wp-content/uploads/2011/05/CASA-MARIO-DE-ANDRADE.jpg" alt="" width="400" height="266" /></p>
<p>Não é de hoje que sou fã das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo (leitores de fora, morrei de inveja). AS</p>
<p>Tudo de graça (ainda não verifiquei, então qualquer erro fica na conta do Papa), tudo lindo, em várias partes da cidade, com profissionais competentes e turmas sempre plurais. Eu mesmo já mandei minha aplicação ára uma Oficina de Literatura com ninguém menos do que Nelson de Oliveira (minha terceira com o homem) lá na Casa Mário de Andrade (a casa do Mário, de fato).</p>
<p>Alguns cursos podem pedir algum tipo de exemplo vocacional, como um currículo relacionado, fotos ou textos para seleção por terem vagas limitadas.</p>
<p>Abaixo separei o que pra mim parece ser super bacana lá na Mário de Andrade, mas fica a dica para entrarem no site das Oficinas e verem a programação completa!</p>
<p><a href="http://www.oficinasculturais.org.br/">http://www.oficinasculturais.org.br/<span id="more-3010"></span></a></p>
<p>Enquanto isso, na Casa Mário de Andrade:</p>
<p><strong>LITERATURA</strong></p>
<p><strong>OFICINA DE CRIAÇÃO LITERÁRIA: PROSA E POESIA</strong><br />
Coordenação: Nelson de Oliveira.<br />
5/10 a 21/11 – segundas e quartas-feiras – 19h às 22h.<br />
Público: interessados em iniciar a carreira literária, a partir de 18 anos.<br />
Inscrições: 8/8 a 30/9.<br />
Seleção: análise de três textos de autoria do candidato, que podem ser contos, poemas ou um capítulo de romance.<br />
15 vagas.</p>
<p>A oficina buscará o aprimoramento da atividade literária individual, por meio da produção de textos (prosa e poesia) a partir de exercícios dados em sala de aula e da análise do trabalho dos participantes, à luz do que de melhor se produziu na literatura mundial.</p>
<p>Nelson de Oliveira é doutor em Letras pela USP e escritor. Publicou mais de 20 livros, entre eles: <em>A oficina do escritor</em> (ensaios, 2008) e <em>Poeira: demônios e maldições</em> (romance, 2009). Dos prêmios que recebeu, destacam-se o da Fundação Biblioteca Nacional (2007), duas vezes o da APCA (2001 e 2003) e o Casa de las Américas (1995).</p>
<p><strong>PALESTRA: CRIAÇÃO LITERÁRIA – UMA TRAJETÓRIA</strong><br />
Palestrante: Marcelino Freire.<br />
21/11 – segunda-feira – 19h.<br />
Público: interessados em geral.<br />
Inscrições: 8/8 a 19/11.<br />
Seleção: ordem de inscrição (primeiros inscritos).<br />
25 lugares.</p>
<p>Marcelino Freire falará sobre seu processo criativo e os desafios que enfrentou para se integrar à produção literária nacional.</p>
<p>Marcelino Freire é escritor e editor. Recebeu o prêmio Jabuti de 2006, na categoria Contos, pelo livro <em>Contos Negreiros</em>. Participou das antologias <em>Geração 90 – manuscritos de computador</em> (2001) e <em>Os transgressores</em> (2003); idealizou e organizou a antologia <em>Os cem menores contos brasileiros do século </em>(2004). É o criador do Balada Literária, evento anual que acontece no bairro de Vila Madalena.</p>
<p><strong>CURSO: ANÁLISE DAS OBRAS LITERÁRIAS DO VESTIBULAR USP E UNICAMP</strong><br />
Coordenação: Alex Dias.<br />
6 a 22/9 – terças e quintas-feiras – 19h às 21h.<br />
Público: interessados a partir de 17 anos, em fase pré-vestibular, e professores de Literatura.<br />
Inscrições: 8/8 a 1/9.<br />
Seleção: carta de interesse.<br />
15 vagas.</p>
<p>A cada encontro, um dos livros exigidos nos exames vestibulares será examinado de modo dinâmico, traçando paralelos com outras linguagens. Entre as obras analisadas, estão: <em>Antologia poética</em>, de Vinícius de Moraes; <em>Vidas secas</em>, de Graciliano Ramos; <em>Capitães da areia</em>, de Jorge Amado e <em>Dom Casmurro</em>, de Machado de Assis.</p>
<p>Alex Dias é poeta, escritor e gestor de projetos culturais, artísticos e educacionais. Formou-se pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto e trabalhou com Educação a Distância no Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração. Foi arte-educador, pesquisador e curador do Museu de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto.</p>
<p><strong>OFICINA DE CRIAÇÃO LITERÁRIA: A SUBVERSÃO DA REALIDADE</strong><br />
Coordenação: José Geraldo Neres.<br />
12 a 27/9 – segundas, terças e quintas-feiras – 19h às 22h.<br />
Público: interessados em literatura contemporânea e criação literária.<br />
Inscrições: 8/8 a 6/9.<br />
Seleção: análise de textos (contos ou poemas) de autoria do candidato.<br />
15 vagas.</p>
<p>A oficina trabalhará com as relações entre escrita/narrativa e a cidade, estimulando a criatividade, a análise crítica e o diálogo com os principais representantes da literatura contemporânea.</p>
<p>José Geraldo Neres é poeta, ficcionista e roteirista. Publicou: <em>Pássaros de papel</em> (2007),<em>Outros Silêncios</em> (2009, realizado com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional e do ProAC) e <em>Olhos de barro </em>(2010, menção especial na 3ª edição do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura).</p>
<p><strong>OFICINA: SEMEADORES DE HISTÓRIAS: DESDOBRAMENTOS DA ARTE DO CONTADOR DE HISTÓRIAS</strong><br />
Coordenação: Fabiana Prando.<br />
7 a 28/11 – segundas e quartas-feiras – 18h às 21h.<br />
Público: professores, bibliotecários e estudantes de licenciaturas.<br />
Inscrições: 8/8 a 31/10.<br />
Seleção: carta de interesse.<br />
15 vagas.</p>
<p>A oficina desenvolverá a habilidade dos participantes para narrar histórias de modo lúdico, criativo e estimulante, por meio de histórias ouvidas, contadas e inventadas, canções, brincadeiras e referências teóricas e bibliográficas.</p>
<p>Fabiana Prando é formada em Letras pela USP. Educadora há 20 anos, escritora, criadora do projeto Casa na Árvore e contadora de histórias em escolas, hospitais e livrarias.</p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo XVI – A tumba de mortos imortais</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 12:12:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Insone reencontra-se em sua própria tumba. E chora pela primeira vez.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://anti-praxe.deviantart.com/art/writing-115827510?q=boost%3Apopular%20writing%20on%20the%20wall&amp;qo=10"><img class="aligncenter size-full wp-image-2994" title="A tumba de mortos imortais" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/tormenta16.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Um túnel escuro, úmido; ossadas no caminho estreito, o bafo quente de qualquer coisa maligna me fungando no cangote. Uma porta selada de muito tempo, mas frágil ao toque de forma que eu mal preciso me esforçar para entrar nessa tumba escondida, peculiar, e tão minha. Como tantas coisas nesse mundo me eram caras: o labirinto, o mortuário&#8230; e esse lugar de mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Adentra o imortal sua própria tumba. ]</p>
<p style="text-align: justify;">Eco. A minha bota soca o chão que responde uma, duas, quatro vezes. O som é como uma ferida para esse lugar extremamente silente. Imperturbável. Quanto tempo terá estado esse lugar na solidão? E no entanto, existem algumas chamas que ainda queimam nos lampiões levantados &#8211; a ideia de que talvez esse fogo nunca se apague me é aparentemente normal, aceitável. Um dia elas se apagarão, mas esse dia será o dia que eu morrerei, e aqui poderá descansar a todos nós em paz. Mas por enquanto não, o fogo vela.<span id="more-2992"></span></p>
<p style="text-align: justify;">[ Um tiro no escuro. Cadáver vai ao chão. Ainda vive, e seu urro ecoa. Dois passos cambaleantes mais e outra rajada o atinge na orelha. Mas continua, e não demora até pisar em algo errado - de forma que seu corpo é içado violentamene pelos pés e cai refém de gravidade quebrando vértebras no chão. Ao passo do rastejo, cai-lhe, misteriosamente, um relâmpago chicoteado nas costas. Seu grito e seu choro de dor são as únicas coisas a serem ouvidas. Pelo mundo. ]</p>
<p style="text-align: justify;">Desperto.</p>
<p style="text-align: justify;">Respirar é caro. Me dóe. O chão não é mais frio, não é mais seco. É quente, é úmido, é de sangue. O meu sangue. Deitado lambendo minha própria vida, escura, em que a falta de mortalidade torna o sangue mais grosso, carregado, uma vez que as células não se dispõem a morrer &#8211; nem a envelhecer. Ainda que exista toda essa quantidade de sangue onde deito, todas as feridas, claro, já não passam de novas cicatrizes. O dom que eu certamente poderia ter, e ainda não tenho, é o de evitar a dor. O homem que, alguma vez, desejou ser imortal ou que tivesse essa porra de regeneração no corpo, não considerou o fato da dor. É, engraçado. Não é tão engraçado ser alvo de tantas armadilhas; essa porra de lugar não foi feita para morrer, mas para matar.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Apoia-se no esquife de mármore. Levanta-se. Cambaleia, apoia-se na parede mais próxima. ]</p>
<p style="text-align: justify;">Ranhuras. Regulares. Em baixo-relevo, linha por linha. A parede está cheia de dizeres em que meu coração esfria ao chegar à conclusão de que meus dedos tocam tão somente as minhas falas, os meus pensamentos. Mas não posso ver. <em>Imortal. Um de Muitos.</em> São inscrições, parecem&#8230; nomes.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Cadáver toma na mão uma das tochas imortais e, enfim, lê as inscrições na parede. ]</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Então disseram &#8211; você foi dividido. Você é um de muitos homens. Você carrega muitos nomes, e cada um deixou suas cicatrizes na sua carne. Perdido. Imortal. Malencarnado. Homem de Milhares Mortes. Aquele Amaldiçoado a Viver. Um de Muitos. Aquele Cuja Vida tem Prisioneiro. O Conjuro de Sombras. O Ferido. Miserável. Yemeth.</em> Insone. <em>Estou exausto.</em> Respirar me é caro. Também estou exausto; creio inclusive que essa seja a palavra mais adequada para nós. Estamos&#8230; quer dizer, estou exausto. <em>Tema os nomes. Os nomes tem o poder de rotular. Os nomes podem ser usados como armas. Os nomes são como pistas que podem ser usadas para lhe encontrar em qualquer lugar do mundo. Permaneça inomeável e você estará seguro. Eu não tenho nome.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Está cheio de dizeres, mas as palavras parecem embaralhadas, não parece ser a mesma pessoa que as escreve sempre &#8211; é quase como se houvesse personalidades em cada linha que leio. E continua. <em>Que forma de vida ínfima existe nesse mundo que está drenando esse buraco em meu corpo. O mundo pode queimar, a cidade pode queimar, só me deixe viver! Irei destruir essa vida tão profundamente, quebrá-la, socá-la, e gravá-la com sangue e fezes, de forma que você não viverá também. Que tudo exploda, já que não posso morrer.</em> E é curioso entrar em contato com essas demais encarnações de mim mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Suspeito que continuaremos a morrer e a reviver até que finalmente &#8216;endireitemos&#8217; a nossa vida. Eu não sei o que precisamos fazer para que isso aconteça, no entanto. E é aí que jaz a frustração. Será algum tipo de ciclo cármico? Até onde sei, algumas encarnações cometeram crimes terríveis, mas há também um número de encarnações em que trabalhamos em fazer tão somente o bem. Estarão essas encarnações sob o jugo de punições? Eu não sei. E essa é a única verdade real que eu posso oferecer nesse diário: eu não&#8230; sei. Em que ponto o &#8216;eu&#8217; se separa do &#8216;nós&#8217;. Em que ponto estarei livre dos atos de outras encarnações? Em que ponto me será permitido ser &#8216;eu&#8217;, sem o peso dessas vidas passadas?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Aqui está um homem que soube traduzir a minha aflição. Um nó imenso na gargante. De pena. De todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Cadáver chora. Ajoelhado em frente à suas próprias palavras. ]</p>
<p style="text-align: justify;">São minhas mãos e foi a minha mente que escreveu tudo isso. E ainda assim, nem um nem outro eu reconheço como sendo minhas palavras.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Perdi vidas inteiras por causa de meu assassino.</em> Um assassino? <em>Não posso enganá-lo, então preciso matá-lo. Tentei tirá-lo de minha trilha. Deixei corpos falsos, trabalhei de tal forma para despistá-lo. Viajei para lugares ermos, usando a distância como escudo. Construi essa tumba com armadilhas para tentar matar o assassino.</em> As sombras. Será que&#8230; <em>Me escondi. Tudo que consegui foi tempo. Os ataques recomeçaram inevitavelmente, com mais fúria do que antes. Decepções inúteis. De alguma forma, o assassino sempre saberá que eu vivo. E não importa em que mundo eu me esconda, ele me encontra&#8230; eventualmente.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Tenho um assassino à solta atrás de mim. Não é a toa que morro seguidas vezes, mas o que quer, como será possível que alguém tem como principal alvo um imortal? Essa parece ser a última parede com inscrições. <em>Não há nada que possamos fazer. As memórias se vão, talvez para nunca voltar. A cada morte, eu perco um pedaço de mim. Como pode alguém ser imortal e ainda assim morrer? Ele me disse que a minha mente enfraquece a cada morte.</em> Quem? <em>Perguntei a ele como isso poderia ser, mas ele não pode responder. Era inútil. Então cortei sua cabeça para que nenhuma outra incarnação jamais se beneficie de sua inutilidade.</em> Filho da&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essa parte eu já li, há pouco tempo. Curioso estar aqui. Mas eu me lembro de ter lido isso. <em>Eu sei que você se sente como se tivesse tomado um gole do mais podre esgoto da cidade, mas você precisa se CENTRAR. Você tem com você um DIÁRIO que vai iluminar a negrura de suas dúvidas. ESSIEN pode te ajudar a completar o resto da história. Isso se ele já não estiver no livro dos mortos. Não perca seu diário ou estaremos perdidos de novo. E, aconteça o que acontecer, NÃO fale pra ninguém QUEM você é ou O QUÊ aconteceu com você ou irão te colocar numa peregrinação para o crematório. Faça o que eu te digo: leia o diário e, então, ache Essien.</em> Mas não termina aqui, tem uma linha a mais, uma linha que Morte não havia lido para mim então. Uma linha fina.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não confie na caveira.</p>
<p style="text-align: justify;">[ O cadáver deixa a tocha cair. Ela se apaga. ]</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2839">&lt;&lt; Capítulo XV</a></td>
<td style="text-align: center;">Capítulo XVII &gt;&gt;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| imagem de <em><a href="http://anti-praxe.deviantart.com/">anti-praxe</a></em></p>
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		<title>[ Livro ] Sodoma e Gomorra</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 16:02:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura francesa]]></category>
		<category><![CDATA[marcel proust]]></category>
		<category><![CDATA[resenha em busca do tempo perdido]]></category>
		<category><![CDATA[resenha sodoma e gomorra]]></category>
		<category><![CDATA[resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[textos literários]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha de Sodoma e Gomorra, uma cidade comportada demais. Ou sobre como abandonei Marcel Proust.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://kimhunter.ca/murals.htm"><img class="aligncenter size-full wp-image-2987" title="Control, de Kim Hunter" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/sodoma.jpg" alt="" width="600" height="384" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quarto livro da septologia proustiana se abre para analisar as relações de Marcel com a sociedade de Balbec; sim, o moço volta pra cidade de veraneio insuportável, bem como suas relações com a amiga Albertina na flor da idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se querem saber, com um título desse, eu confesso ter esperado um pouco de sodomia, sacanage, ação, fricção, sempre na elegância de Proust, claro. E isso tornava o livro extremamente interessante na minha cabeça, já que seriam cenas dantescas com a língua extremamente densa e elegante de Proust, portanto como seria? Nunca será, pois nada acontece no livro, para variar. A tônica do livro são essas reuniões da alta sociedade, grupelhos que se juntam para jantar, jogar cartas e falar mal de outros grupelhos &#8211; já que existe uma certa rivalidade de círculos (que coisa, olha o Google aí trazendo isso de volta pra sociedade =D).<span id="more-2986"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O começo do livro é fantástico, simplesmente um dos melhores momentos dos quatro livros que li até aqui; ele abre fazendo um estudo aprofundado sobre o que chama de &#8216;invertidos&#8217;, os homossexuais e como eram vistos na França daquela época e como se comportavam em geral e, especificamente, como se comportava um dos personagens mais interessantes dos livros até então e que era, para espanto, um invertido. O termo, embora soe estranho, na mitologia do livro se aplica muito bem e é extasiante ver como um autor que teoricamente frequentou a alta e fina sociedade, sinta-se tão a vontade de tratar do assunto sem os costumeiros tíques preconceituosos que esperamos desse tipo de gente. Nada. Proust é um simpatizante, diríamos hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas passa o primeiro momento de encanto, o livro retorna à sua marcha lenta. Ao seu arrasto. As reuniões em casa dos Verdurin refletem a sociedade e são, não nego, maravilhosamente descritas e desempenhadas, de forma que para quem está interessado em estudar a sociedade francesa da época tem um prato cheio (já disse isso). Mas como os outros livros, esse também é uma pipoca de canjica, você tem que pegar várias porcarias para encontrar uma deliciosa no meio do pacote, a pérola no lamaçal &#8211; nem tudo presta, e eu não espero que tudo preste num livro, mas a raridade de boas pipocas cansam qualquer ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou lendo faz tempo os livros de Proust e a impressão que tenho (que é a mesma de quem me conhece) é a de que sofro demais para ler as páginas, de que não estou satisfeito. E a ideia da literatura é entreter, é ser algo prazeroso pra quem está lendo, e não tem sido para mim. Tem sido uma tarefa árdua e pesada &#8211; toda vez que passo pela pilha de livros em casa, é como chicotadas não poder largar o meu livro e ler coisas menores e mais prazerosas. Pois bem, eu estava travando uma inútil luta com os galhos, como diria Raul. E decidi largar. O livro é numa marcha lenta demais, e eu preciso de algo violento, um elefante caindo do segundo andar, como diria Marcelino Freire.</p>
<p style="text-align: justify;">Procurando pelo elefante caindo do segundo andar no meio da avenida, eu larguei Proust. Um dia voltarei, com certeza. E lerei tudo novamente, mas numa época em que o ritmo de minha vida e do meu coração cantem no mesmo ritmo do livro. Só não vale fazer a brincadeira de que só lerei no leito de morte, hein!</p>
<p style="text-align: justify;">(Se aparecer alguém aqui dizendo que eu não estava preparado para um Proust, eu mando enfiar o monóculo no cu, já advirto. Não é questão de preparo para os clássicos &#8211; haha, dó dessa gente &#8211; é simplesmente que o livro é chato mesmo. Ponto.)</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo XV – A conversa com mortos</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 12:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nas catacumbas, Insone reconhece em si a capacidade de falar com aqueles muito mortos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://twoscoopsofraisins.deviantart.com/art/Pool-52422330?q=boost%3Apopular%20blood%20pool&amp;qo=83"><img class="aligncenter size-full wp-image-2976" title="A conversa com mortos" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/tormenta15.jpg" alt="" width="600" height="297" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">- Ah, chefe, estamos aqui há dias. Não vamos encontrar essa porra nunca!<br />
- Acabamos de entrar, Morte, pelo amor&#8230;<br />
- Cuidado onde pisa, Insone. &#8211; velho insolente.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver é atingido por uma clava de espinhos no peito. Seu grito ecooa pelas catacumbas.]</p>
<p style="text-align: justify;">Filho da mãe, que dor filha da puta! Céus, arranca fora meu corpo, tira de mim isso que não me pertence, caralho! Esse lugar tá cheio de armadilhas, já deve ser a terceira vez que uma dessas porras me pega. Vou por essa caveira na frente. E não adianta me olhar assim, seu velho, você pode me avisar quinze vezes que não lhe darei ouvido. O sangue escorre pelo meu peito. Como poucas vezes me sinto humano, e nunca é assim &#8211; um homem que não pode morrer se sente um pária, e isso eu posso afirmar plenamente. [Respira fundo.] E o sangue escorrendo assim de meu peito até parece que sou normal, que sou como todos. Uma mentira breve, claro, pois pouco tempo passa até que esse corpo maldito, esse corpo maldito começa a cicatrizar tudo com uma força de hércules, começa a trancar as feridas e a dor é proporcional ao tamanho delas. Não sei se prefiro ela aberta ou fechada. Mas não tenho escolha, e logo não sangro mais. Deixo de ser humano.<span id="more-2971"></span></p>
<p style="text-align: justify;">-/-</p>
<p style="text-align: justify;">[ Chegam a uma galeria mais iluminada, mas aparentemente vazia. Descobrem um alçapão que leva a um andar ainda mais inferior. Exclusivo. ]</p>
<p style="text-align: justify;">- Morte, minha senhora&#8230; Dê graças aos céus por não ter mais nariz, você não consegue ter ideia do cheiro que&#8230; Puta que pariu.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma sala reservada, um pouco de claridade; uma porta no chão, daqueles alçapões com uma escadaria abaixo. Foi só abrir para levantar uma nuvem invisível de morte. Uma mistura muito forte de vômito adormecido, bosta humana úmida &#8211; daquelas que ficam curtindo ao ar livre, quando parece que cheiram ainda mais forte &#8211; e o perfume da putrefação cadavérica, junto de lixo, do xorume e toda sorte de aromas do inferno. Não dá pra ficar um segundo ali, mas por outro lado, me parece um bom lugar para esconder certas coisas. Eu é que&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah, chefe. Que nojo. Já não está fedendo o suficiente aqui? Você precisa mesmo&#8230; ah, meu santo naco de carne, vai vomitar pro outro lado, olhe pra você.<br />
- Vai se foder e desce essa merda, Morte.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Todos descem. O ambiente é iluminado com uma estranha luz alaranjada. ]</p>
<p style="text-align: justify;">Uma piscina. Uma piscina de sangue viscoso e grosso com pedaços mil de corpos humanos flutuando. Pernas e braços distantes de seus donos, donos que podem flutuar torsos e cabeças espalhados para qualquer lado. Não há qualquer organização e, a bem da verdade, parece um açougue de carne dispensável deixada ali para curtirem no líquido e se decomporem para dar ainda mais sustância ao suco do demônio. Chega a ser de uma figura bizarra o modo como braços e pernas se precipitam na superfície da piscina de sangue, jogando-se para todos os lados; e como se não ficassem parados, ainda dançam lentamente conforme se tocam. Passam dias e dias parados, mas então um dos braços cai para o lado e todo o resto se movimenta junto, dando a estranha impressão de que estão todos vivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre esses membros nadando na piscina de sangue, me chama a atenção um tecido duro, forte, rígido. É um pedaço grande do maior órgão do corpo, a pele. Como um lençol, ele cobre uma parte pequena dos membros à deriva. Pedaços de carne ainda se grudam nesse lençol de pouca finesse. Tatuagens e inscrições em sua superfície. A visão me dá calafrios. Aquela mesma na ponta da nuca.<br />
- E vai fazer o que com essa nojeira, chefe. Você não veio procurar um ovo?<br />
- Essa pele&#8230; é minha, Morte.<br />
- Sua!?</p>
<p style="text-align: justify;">Cicatrizes, tatuagens que espiralam. Não tenho dúvida alguma, é pele minha. Não minha, claro, mas de alguma encarnação passada, de um desses antigos eus &#8211; e é extasiante como se encontra o presente e o passado ali, na sua frente, nas suas mãos. Certamente meu corpo perdera todo esse tecido em algum tipo de traquinagem terrível, mas a habilidade de se recompor me refez o pedaço inteiro. As tatuagens são bastante diferentes das que tenho no corpo, mas é somente por elas que trago a tira colo meu antigo braço inútil.<br />
- Sabe, chefe. Isso aí parece um pouco com letras, deve ter algo escrito aí.<br />
- Você não sabe ler, Morte? E você, velho? Não? Mas você sabe ler o que tem nas minhas costas, oras, como não&#8230;<br />
- É diferente, vai por mim. Talvez aquele cara das tatuagens possa dar um jeito nisso pra você. Mas eu que não entro naquele antro de novo.<br />
- Boa ideia, Morte&#8230; Você às vezes me surpreende demais, sabe. Não, agora cala a boca, por favor, vam&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">[ Dobra feito o papel a pele, guarda, mas é interpelado do além. ]</p>
<p style="text-align: justify;">- Imortal&#8230; saudações. Eu sou&#8230; Grivo. Terei&#8230; algumas palavras com você.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma voz. Ecoada, mas nítida de uma forma impossível.<br />
- Você ouviu isso, Morte?<br />
- Ouviu o quê?<br />
- Você não ouviu?<br />
- Ouviu o quê cacete?<br />
- Uma voz me chamando e&#8230;<br />
- Hahaha. Sai daqui, chefe. Você tá variando.<br />
- Quieto&#8230;<br />
- Estou&#8230; aqui, imortal. Na piscina&#8230; de desmembramento.<br />
- Como sabe que sou imor&#8230; Cala a boca, Morte, pelas criaturas da noite!!! Como sabe que sou imortal?<br />
- Eu vejo&#8230; um propósito queimando&#8230; dentro de você. Eu vejo&#8230; muitas coisas na poeira&#8230; caída desses&#8230; túneis. Você não tem&#8230; algo essencial&#8230; e é isso que lhe deixa longe&#8230; do doce abraço da morte.<br />
- E o que quer comigo?<br />
- Escute: Este lugar guarda&#8230; muito perigo a você. A traição lhe aguarda&#8230; na superfície&#8230; e o seu caminho é&#8230; longo e sinuoso. No final&#8230; encontrará&#8230; o que procura&#8230; mas talvez&#8230; não irá desejar mais ter encontrado.<br />
- Você é algum tipo de oráculo?<br />
- Oráculo? Não&#8230; eu observo. Isso é tudo.<br />
- Então talvez saiba onde eu posso encontrar um ovo de bronze que eu procuro, será que você viu algo por aí? Ei. Grivo&#8230; Grivo?<br />
- Você enlouqueceu de vez.<br />
- Tu fala muito, Morte. Calado!<br />
- O que foi isso, chefe?<br />
- Eu acho que eu falo com os mortos.<br />
- Fico feliz que me considere vivo, mas tenho estado morto desde que nos conhecemos, chefe.<br />
- Você é&#8230; diferente. Estou falando dos que realmente estão mortos, sabe?<br />
- Não&#8230; Mas ele disse algo da bolinha de bronze?<br />
- Não, sumiu depois que eu perguntei.<br />
- E o que disse, afinal de contas?<br />
- Não interessa.<br />
- Então por que não vai chupar a cabeça de um pinto, chefe? Puta papinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não. Eu estou certo. Eu converso com os mortos; na verdade, eu consigo conversar com todos eles. Morte não se enquadra nessa situação, pois é misteriosamente mais vivo do que muito ser humano, mas tenho plena consciência de que Grivo não poderia jamais se comunicar de outra forma que não fosse com um fodido como eu que carrega o signficado da vida e da morte encerrado em minha pele. Não somente posso trazer aqueles que se foram brevemente para o exílio da morte de volta à vida, como também posso escutar e ser escutado por aqueles que eu jamais poderei trazer de volta. Me é impedido conceder-lhes o azar de viver novamente, mas me é permitido escutá-los do além. Não deveria me espantar com isso, uma vez que já me comuniquei com o espectro de uma mulher apaixonada.</p>
<p style="text-align: justify;">[ O grupo deixa a piscina, cadáver armado de seu terceiro braço. Caminham pelas catacumbas sempre buscando os andares inferiores até que chegam, enfim, à uma zona alagada, com água podre até a altura dos calcanhares. ]</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah, céus, chefe. Eu vou morrer de fome se continuarmos aqui por mais tempo. Vamos voltar pra superfície e a gente faz essa busca um outro dia, que tal?<br />
- Você, por acaso, sabe o caminho de volta, Morte? Não, né. Como imaginei.</p>
<p style="text-align: justify;">Há dias que estamos nessa pocilga. Encerrados na escuridão dos trens da cidade procurando um berloque ridículo para um velho três vezes mais ridículo. E eu o que sou nesse enredo de merda? Um merda. Morte fala muito, o velho fala de menos e eu não suporto as dores do corpo, embora o corpo as suporte muito bem. É a minha mente que não as suporta mais. Me lembro bem agora, na escuridão, das palavras daquela fantasma de bosta, que me jogou na cara a fragilidade de minha mente e como ela sofre feridas muito mais profundas que essa pele que uso.</p>
<p style="text-align: justify;">[ O cadáver titubeia e quase desmaia frente à uma bocarra escura. ]</p>
<p style="text-align: justify;">- Você está bem, Insone?<br />
- Sai, velho&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Uma entrada. Uma sensação de fundo do poço, de solidão instantânea. Do meu lado direito se abria um abismo escuro para o fundo, não exatamente para baixo, mas adiante de uma escadaria curta em que se abria uma bocarra negra de onde saia um ar terrivelmente familiar. Eu tinha que entrar ali. Eu tinha que caminhar sozinho até aquele beco escuro. Vozes na minha cabeça como serpentes silvavam coisas para mim, e eu tinha que ir. Compelido a andar. E fui.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2839">&lt;&lt; Capítulo XIV</a></td>
<td style="text-align: center;">Capítulo XVI &gt;&gt;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| imagem de <em><a href="http://twoscoopsofraisins.deviantart.com/">twoscoopsofraisins</a></em></p>
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		<item>
		<title>[ Conto ] Perfume de colarinho (blues paulistano)</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 11:27:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[blues paulistano]]></category>
		<category><![CDATA[conto de sexo]]></category>
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		<description><![CDATA[A moça que frequenta o bar em busca do pinto perfeito. Todo dia ela está lá. Nem todo dia com um entre as pernas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/cyberslayer/3893801178/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2962" title="Perfume de colarinho (blues paulistano)" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/blues.jpg" alt="" width="600" height="365" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Toda segunda-feira ela vem, a mocita que desfila sua saia de pintos pelo bar, mas vem também todos os outros dias. Mas segunda é diferente, estão todos bem cuidados, preocupados e ainda estafados com o começo da semana. De alguma forma isso a inspira, esse ar empresarial, o cenho franzido e quem sabe até as alianças (mas esse é fetiche de toda mulher, dizem). Não é puta, bem se vê; não é atirada, pelo contrário, é elegante e dona de si até um certo ponto em que não perde-se dentro de um desses ternos. Tem apenas um fetiche, como temos todos. A sua maior virtude é não se calar diante dele, e entregar-se piamente aos prazeres dessa sua disfunção carno-sexual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ponto justo seja feito, tão curioso, é que nunca saiu com qualquer um desses homens &#8211; ao contrário de muitas de suas críticas, madames da vida &#8211; claro que todos tentam, pagam bebidas, drínques, descem a mão pela coxa &#8211; a dela na deles, sempre. Todos os sinais ali, evidentes, estampados na cara. O sortudo, precoce, avisa a mulher em casa que chegará tarde por conta de um projeto, mas o projeto nunca vira e eles sempre acabam chegando mais cedo que o esperado em casa para assaltar suas esposas na cama com um projeto pessoal dessas. Já ela, com sua saia de pintos também acaba a noite sempre se masturbando. Entra com tantos mil paus na saia e sai dali com os mesmos pintos do quadril para baixo, mas nenhum entre as pernas.<span id="more-2961"></span></p>
<p style="text-align: justify;">E todos desacreditam, pois está claro que ela gosta, e está claro que todos querem. Ainda assim. Ela não sai do bar com um pinto a mais que seja. As más línguas dizem que é das mulheres que ela gosta, mas são somente as línguas ferinas das madames que, desgostosas de suas críticas iniciais pouco operarem efeito sobre o desejo dos homens, só fazem crer que são elas o objeto de desejo &#8211; tontas que são. Mas o motivo real fiquei sabendo somente depois de quatro ou cinco noites entrando e saindo sozinha; um desses colegas desiludidos, que já havia passado pelo estágio do flerte, do drínque, da mão na coxa e até uma assinadinha na bundinha redonda, confessou-me que lhe faltava somente o essencial: o perfume certo no colarinho. Papinho, besteira, pensei. Esse mesmo amigo encheu das suas nesse dia de confissão e como tantas outras, fiz a vez do pároco.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela sempre bebia o mesmo: tequila. Pouco, não muito. Nunca saiu carregada no vexame, ser um alvo fácil não faz seu tipo e nem teria a mesma graça se não tivesse de puxar a gravata como num filme do Tarantino. O que vale é seduzir um homem preocupado com tabelas, dados e números &#8211; confesse que nem é tão difícil, talvez por isso ela se faça de tão difícil, dada a facilidade de sua tarefa. Só vale quando ela desata o nó da gravata enquanto rebola-goza em cima deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje está aqui, como sempre. Como se nada tivesse acontecido. Ontem, por exemplo, ofereci tequila, como tantos outros e como todos os outros ela aceitou, como todo o sempre. Tarde naquela noite, surpreendeu-me deixando o banheiro e me arrastou de volta para dentro só pra dar por uns vinte minutos: ela segurando os gemidos baixos, menos preocupada em ser ouvida e mais safada em parecer preocupada, trepando gostoso encostada na porta do banheiro, de costas, um quatro à improvisada. Abaixou apenas a saia de pintos e largou a meia das pernas. Salivou aspirando meu colarinho que eu só percebi possuir naquele instante e somente naquele dia por circunstâncias diversas (uma entrevista cedo da tarde). Ali, perguntei o que eu tinha feito de certo para que desse para mim e não para todos os outros, bobos os homens. Ao que ela suspirou &#8216;perfume&#8217; no pé do meu ouvido, de ré, mal se virando, incapaz de largar o pau entre as bandas. Sorri, pois o perfume sempre fora o certo: a tequila no avental; me faltava apenas o substancial: o colarinho.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">| montagem sobre foto de <em><strong id="yui_3_3_0_3_13123365866831029"><a href="http://www.flickr.com/photos/cyberslayer/">Cyberslayer</a></strong></em></p>
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		<item>
		<title>[ Tormenta ] Capítulo XIV – O excêntrico cavalheiro, uma ratazana</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/SandubadeQueijo/~3/CWjSwuF_x9I/</link>
		<comments>http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2951#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 29 Jul 2011 11:41:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[black isle]]></category>
		<category><![CDATA[bruno portella]]></category>
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		<description><![CDATA[Cadáver desce à república e encontra, enfim, Essien. O nome em suas costas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://trogdor211hsr.deviantart.com/art/Pile-of-Trash-50421258?q=boost%3Apopular%20pile%20trash&amp;qo=91"><img class="aligncenter size-full wp-image-2953" title="Tormenta 14" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/07/tormenta14.jpg" alt="" width="600" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Algumas barracas montadas no pé de paredes ou coladas em grandes blocos de pedra do chão ao teto, como sustento. Placas e sinaleiras &#8211; tudo muito toscamente montado. Tudo muito improvisado. Não há motivos aparentes para que, mesmo os ratos, queiram montar toca aqui. Mas cá está uma centena de moradores de rua. Mendigos, fedegosos, cães da sociedade. Todos, sem exceção, coletores &#8211; feito uma verdadeira sociedade de pilheiros. Gordos, pretos, esquálidos, japoneses, sujos. Não sei por que julgo já que meu trio não difere tanto assim de saúde desses monstros subterrâneos. De qualquer forma ali está uma tenda guardada. Maior. Opulente, se em torno dela fossem joias e não puro lixo. Mas se estou em um reino de trapos, ali está o castelo senhorial sem sombra de dúvidas. Ainda que seja patético o modo como tomaram essa antiga estação de trem subterrânea e a transformaram em um vilarejo bem sucedido (se eu levar em conta que em nada se parece com a antiga estação).</p>
<p style="text-align: justify;">Uma andada de leve, os coletores e nativos do lixo cuidando de suas coisas &#8211; mal parecem ligar que alguém de fora, ainda mais vivo, apareça em sua pequena toca; pouco me fodo para eles, mas breve aconteceu de quase ninguém estar por perto e à minha frente, enfim, essa tenda patética que só poderia ser daquele rato, provedor das regras do lugar, o sultão do lixo, o rei dos trapos: Essien.</p>
<p style="text-align: justify;">- Vamos direto nesse rato. Sem animosidades, por obséquio. Preciso tirar o canto desse verme, portanto não dêem motivos para a escolta dele se picar com a gente.<br />
- E como pretende passar pelos guardinhas, chefe? Vai conversar, pedir por favor?<br />
- Vou oferecer meu crânio predileto se me deixarem passar, o que acha?<br />
- Acho que é um cretino. Mas talvez seja uma boa oferecer alguma coisa&#8230; De qualquer forma. É o seu problema, não?<span id="more-2951"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Fato. Doeu essa, Morte. O velho, mais inteligente, largou moedas na mão dos safados que apenas escoltavam a porta &#8211; talvez não sejam lá muito simpatizantes de Essien ou não teriam deixado as coisas acontecerem tão facilmente. Ou simplesmente, compunham pose, não tendo qualquer motivo de salvaguardar a entrada. O fato é que estamos dentro. Teto alto. O chão e as paredes forradas de cortiça e saco de estopa coloridos &#8211; a menor preocupação com o estilo &#8211; o que só torna o lugar ainda mais quente e insuportável. Falta luz, o que aproxima esse lugar à uma toca. De um rato que mora por aqui. E o rato logo aparece debaixo de uma luz bastante específica, sentado no que parece ser um trono no formato da palma de uma mão. Velho de tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">[ Essien levanta apoiando-se em uma bengala. Uma de suas pernas torcidas. ]</p>
<p style="text-align: justify;">Nojo de como anda com essa perna torta. Aliás é todo moribundo dos pés à cabeça, tem uma pele mais castigada do que a desse meu velho de viagem e está muito mais velho que a cabeça do meu pau. É tão patético ser assombrado por um nome em suas costas a que tanta gente pelas ruas dá um valor desprezível e até um certo respeito, e quando ele aparece não passa de um desgraçado de um velho perdido do asilo, mugindo coisas baixinho e se babando inteiro. Eu quero é matá-lo de uma vez. Safado.<br />
- Velho&#8230;<br />
- Aha! &#8211; os olhos como se tivessem retornado de longe. &#8211; Se não é a minha colheita preferida retornando para os braços de Essien novamente. Saudações, cadáver. &#8211; sorri para mim, o puto. E cospe uma bolota de ranho no chão. &#8211; Veio pedir a Essien por outra visita às paredes do mortuário? &#8211; um gelo no estômago que é o puro ódio de tentar esganá-lo ali mesmo.<br />
- Quem sou eu?<br />
- Mas que pergunta mais curiosa, cadáver. Será que&#8230;<br />
- Diga-me, Essien! Quem sou eu, cacete! Eu quero respostas!<br />
- Ah, quer? &#8211; seus olhos amortecem, ele me estuda resmugando. &#8211; Um cadáver&#8230;? Sim? Não? Ah! Não&#8230; Isso não é um jogo de adivinhas, cadáver. Não posso com jogatinas, não há tempo para Essien brincar de roda&#8230;<br />
- Sei que tem as respostas que procuro.<br />
- Eh&#8230; &#8211; lambendo os beiços. &#8211; E quem teria te dito coisa semelhante, cadáver?<br />
- E fará alguma diferença? Você não é Essien?</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver sorri, como se vencesse uma partida.]</p>
<p style="text-align: justify;">- Ah&#8230; fala tão pouco, mas diz tanta coisa. &#8211; ele silencia, apenas para me dissecar como um corpo na maca. &#8211; Sei muito do que gostaria de saber. Muito, sim. Muito, de fato&#8230; &#8211; isso, sorria, filha da puta.<br />
- Então&#8230;?</p>
<p style="text-align: justify;">Lambe os beiços novamente e se apoia na bengala feito a porra de um abutre.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não, não&#8230; não é de graça a pergunta que me faz. Muito posso lhe dizer, mas o conto tem um custo.</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver foge o olho para seus companheiros. No fundo quer matar o velho.]</p>
<p style="text-align: justify;">Quero matar esse velho. Eu vou matar esse velho. Não me faz passar por tudo isso. Vir até esse cu de mundo e me pedir um trocado para me contar quem eu sou. Eu vou matar esse velho.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ré. E o que um fodido como você ainda pode querer dessa vida? &#8211; mal consigo olhar.<br />
- Esta vila não é tudo que jaz enterrado debaixo da República. &#8211; bate com a bengala no chão.<br />
- &#8230;<br />
- Câmaras, galerias, corredores&#8230; cheio de cadáveres adormecidos em seus caixões. Em algum lugar nestes salões, em algum lugar jaz algo perdido. Algo meu.<br />
- E o que&#8230; é? &#8211; seu cretino, seu filho de uma égua, seu pedaço de carne podre.<br />
- Algo pequeno, um berloque, quase um capricho&#8230; Uma esfera. De bronze. Feia. Parece um ovo, mas não é, tem o cheiro do enxofre. &#8211; sua voz deixou a imbecilidade para se tornar clara e ávida. &#8211; Busque para mim, um favor tão pequeno e então um favor eu lhe farei, cadáver.<br />
- Por que não manda um desses seus fodidos atrás dela?<br />
- Por que os corredores não precisam de mais mortos dessa vila. Força, agilidade e inteligência&#8230; são qualidades que os vilões daqui não têm. Eles vão e não retornam. &#8211; seu olhar brilha sobre mim. &#8211; Talvez os mortos sejam mais cordiais com alguém de sua natureza, hmm? Isso é o que &#8216;eu&#8217; penso, cadáver.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou matar ele.</p>
<p style="text-align: justify;">- E se eu te torturar aqui mesmo até que me conte tudo ou até que morra miseravelmente?<br />
- Então todo o meu conhecimento morrerá junto de mim.<br />
- Filho da puta&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver continua paralisado e Essien sorri.]</p>
<p style="text-align: justify;">- Duvido que tenha algo que preste para mim, Essien.<br />
- Aprendi um dedo de inteligência que não tem preço&#8230; a você, dou-lhe de graça: um homem está frequentemente &#8216;errado&#8217; sobre muitas coisas, e um cadáver é um homem que já esteve errado por muitas vezes. Muito eu tenho a lhe dizer que consideraria de grande valia.<br />
- Muito bem&#8230; vou atrás dessa porra para você&#8230;<br />
- Ótimo. Trato feito é trato cumprido. Uma esfera por uma espiada dentro de meu cérebro. Agora, cadáver &#8211; não há tempo a se perder. Vá para o portão ao final do trilho e diga àquelas tolos para abrir para você. Vamos, vamos!</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver estava prestes a deixar a presença fétida de Essien, quando retornou.]</p>
<p style="text-align: justify;">- Não, você vai sim me dizer algo, ou não vou a lugar algum. Prove-me que sabe de algo. Quando cheguei, perguntou se eu não queria que você me ajudasse a entrar no Mortuário novamente. Que merda foi aquela?<br />
- Você que me diga, cadáver &#8211; talvez os padres que vivem lá sejam mais atraentes a você do que estas madames da rua? Uma pena pelos padres, que te deixam entrar e sair como quiser, ao mesmo tempo que você não tem a decência de ficar no livro-dos-mortos de uma vez.<br />
- Mas&#8230; por quê?<br />
- Cadáver, você queria tanto estar lá dentro, e agora me cospe que não faz nem ideia do porque queria estar lá em primeiro lugar? Penso que seja um milagre a forma como as coisas te acontecem&#8230; Agora saia daqui, você tem mais o que fazer, não?</p>
<p style="text-align: justify;">[Cinco segundos foi o tempo que o cadáver reservou para encarar Essien antes de dar as costas e sair da corte.]</p>
<p style="text-align: justify;">Então agora eu serei mais um desses capachos de Essien. A habilidade dessa cobra de dobrar os homens me espanta. Ele sabe que eu poderia ter comido aquela perna nojenta dele se eu quisesse, e ainda assim não hesitou um instante sequer &#8211; não me deu espaço qualquer para ameaçá-lo ou amedrontá-lo. A sessão me deu tanta dor de cabeça, que eu preciso parar um segundo só para esperar que essa martelada &#8211; causada principalmente pela expectativa criada e o pífio resultado &#8211; se encerre até que eu possa, inclusive, andar novamente. Vá ver as putas vocês dois que eu já alcanço. Na precisão de desviar minha cabeça, nem que fosse por um instante, dessa situação pedreira que eu me enontrava, que eu notei o diário pequeno, ainda guardado no bolso da calça &#8211; de longe, me lembrou de um labirinto, mas longínquo como se outra existência tivesse estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Abri.</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver distrae-se com o diário recém descoberto. O tempo passa e ele finalmente reencontra seus seguidores horas depois, exatamente no caminho para o fundo do poço.]</p>
<p style="text-align: justify;">Eu não estava preparado para o nível de filha-da-putice de Essien, que mesmo velho me gastou os ácidos do estômago de tanto me segurar de torcer seu pescoço. Seria fácil. Simples. Mas não seria inteligente. Morreria ali a única resposta para a única pergunta que me existe. Não pode ser à toa que seu nome está cravado em minhas costas, mas eu realmente duvido que tenha algo de útil para me dizer. No fundo me sinto apenas usado como mais um de seus capachos sem vida. Mas não tenho escolha, tenho Morte?<br />
- Vamos mesmo às catacumbas, não vamos? E vamos vasculhar os mortos atrás desse ovo de bronze, não é? Você não consegue deixar de ser idiota, não é?<br />
- Vou falar mais uma vez. Vocês dois não precisam&#8230; O que foi, Morte?<br />
- Chefe, você vai fazer esse discurso toda vez que tiver que entrar em algum lugar novo? Pare com isso e vamo logo pra essa merda antes que eu desista.<br />
- Mas aí que está o ponto, Morte. O bacana seria se você desistisse.<br />
- Você não aguentaria dois passos sem mim.<br />
- Vamo fazer um teste?<br />
- Rá! Eu vi como sentiu minha falta na casa daquela preta. Ficou falando meu nome durante o sonho, Morte pra cá, Morte pra lá. Quê isso cara.<br />
- Cale a boca e vamo entrar nessa porra de uma vez. O quê? Seu chefe pediu pra me deixar passar. É. Essien.</p>
<p style="text-align: justify;">Pouco abaixo do que aquele puto usa de tenda senhorial, está uma rua reta com uma grande parede de um lado. Os limites da vila. A rua segue por um túnel iluminado porcamente até desembocar no que parece um aglomerado de bêbados cuidando de um portão. Além dali, nada. Malemá a luz chega e, após alguns metros, de fato ela se extingue por completo deixando toda a minha turma na escuridão. Andamos longamente apenas com a companhia do barulho incessante dos passos abafados no lixo que, pouco a pouco, iam rarefazendo e dando lugar ao piso original, de pedras e ferro. Até a luz foi retornando aos poucos, mas não a mesma. Uma azulada.</p>
<p style="text-align: justify;">Morcegos voam. Ratos escrutinam. Mas a sensação é de que um dedo de vento acalma os mortos, uma lufada de ar vinda não sei de onde que nos recepciona, enfim. E a visão, acostumando-se com a pouca luz azulada, já pode distinguir uma nova velha estação, antiga todavia e mais uma dessas construções em que houve uma reviravolta em suas funções primordiais &#8211; aqui já não se carrega o povo de ponto a ponto, mas se guardam os cadáveres da superfície. As catacumbas. Se a escuridão é gigante, o eco de nossos passos e, principalmente, a voz de Morte me causa a impressão de que aquele lugar é de um tamanho que eu mesmo não conseguiria precisar. Como poderia haver um lugar tão grande cavado na terra profunda é um mistério do qual eu jamais inventaria de ir atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">Fato é que tem iluminação, um luzeiro de vidro ensebado e azulado &#8211; pois eu mesmo não posso admitir a existência de um fogo que não seja dourado. Camas e camas de mortos espalhados de forma até ordenada, o cheiro da morte pura, aquela mistura de ferro e fezes, de rato e umidade mórbida. A zanzura dos insetos que comem os cadáveres na impossibilidade das larvas da terra fazerem sua limpa. Muitos, mas muitos caixões de pedra abertos revelando esqueletos inteiros ainda vestindo seus trajes fúnebres.<br />
- Agora pode escolher até a roupa que quiser usar, Morte.<br />
- Vai se&#8230; Chefe, você precisa procurar um ovo? Olha o tamanho disso, chefe. Você só nos arranja.</p>
<p style="text-align: justify;">Tem razão. Mas pelo desespero daquele pedaço de bosta, ele já deve ter enviado centenas de fodidos aqui pra baixo vasculhar tudo sem sucesso algum de encontrar &#8211; e já vem de tempo essa sua busca errante, certamente o que quer que seja essa esfera não estará aqui nem em qualquer outro lugar em que aqueles idiotas possam alcançar. Os sinais de vasculho e mexilhão desses caixões são justamente as marcas evidentes dos lacaios de Essien procurando seu berloque. Foi o que disse aos dois imbecis, certo de os tranquilizar um bocado. E certo de os ter tranquilizado, caminhamos escuridão adentro. Atrás, não de um berloque pequeno, mas daquilo que era essencial para mim: respostas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2839">&lt;&lt; Capítulo XIII</a></td>
<td style="text-align: center;">Capítulo XV &gt;&gt;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| imagem de <em><a href="http://trogdor211hsr.deviantart.com/">trogdor211hsr</a></em></p>
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		<title>[ Blogue ] Acepipes saborosos</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 01:39:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros Sanduíches]]></category>
		<category><![CDATA[acepipes escritos]]></category>
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		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura moderna]]></category>
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		<description><![CDATA[Blogue literário servido no sabor de guloseimas, guisados. Contos curtos, ótimos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter" title="Acepipes" src="http://lh6.ggpht.com/_Nw_cubkHzDk/TBaJA6iIQrI/AAAAAAAAAGQ/g5iGJ1metfU/casinha.gif" alt="" width="390" height="230" /></p>
<p style="text-align: justify;">Indicação do além &#8211; provavelmente da Marina, que me indica tantas coisas boas. Mas que se perdeu a origem nesse tempo de pouca coisa no blogue.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas assim que abri o documento de textos futuros do Sanduba, notei que na parte salva para os próximos Sanduíches indicados estava o blogue desse <a title="Twitter" href="http://twitter.com/#!/brunopalma" target="_blank">Bruno Palma</a>, o tal <a title="Acepipes escritos" href="http://acepipesescritos.blogspot.com/" target="_blank">acepipes escritos</a> (a.ce.pi.pe<br />
sm (ár az-zibîb) Guisado bem feito, guloseima, iguaria delicada e apetitosa, petisco, pitéu. &#8211; descrição que ele mesmo faz questão de mencionar). Estamos diante de um blogue literário com sabor carregado de guloseima. Natural, portanto, que sirva-se um bom guisado na casa de sanduíches. Não?<span id="more-2941"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Leio sempre que posso no reader; contos curtos, sempre com uma temática leve, de linguagem tranquila de passar o olho sem parar e pensar &#8211; não é como o doce sortido que se tenta apreciar milhões de sabores, sem precisar nenhum deles. É como o salmão, que comemos inteiriço e o sabor dele está o mesmo em todas as partes, sem nos confundir um segundo sequer, mas nos entregando a mesma porção de prazer do começo ao fim. Esse acepipe talvez seja assim, como um salmão laranja. Pra mim, claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Em conversa com o diabo, perguntei se a literatura dá fome (sanduba, acepipe, receitas mil no blogue da Ivana, cultivo de raízes no blogue da Índigo, vernissages). {a conversa nunca aconteceu, portanto o parágrafo carece de fontes.}</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, por exemplo, indico <a title="Tititaca" href="http://acepipesescritos.blogspot.com/2010/10/titicaca.html" target="_blank">Tititaca </a>- talvez o primeiro do Bruno que li. Não sei qual ele indicaria.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">| acesse o acepipes escritos clicando <a href="http://acepipesescritos.blogspot.com/2010/10/titicaca.html" target="_blank">aqui</a>.</p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo XIII – Na condicional eterna</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 11:18:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
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		<description><![CDATA[Livre da prisão, Insone embriaga-se no bar e curte um pouco de sua própria condicional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://shreyas-panambur.deviantart.com/art/Prison-186361881?q=boost%3Apopular%20prison&amp;qo=178"><img class="aligncenter size-full wp-image-2914" title="Na condicional eterna" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/07/tormenta13.jpg" alt="" width="600" height="380" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">— Desce mais uma pro amigo aqui.<br />
— Esqueça, seu rato.<br />
— Isso são modos, seu cretino?<br />
— Não vou te servir que você já bebeu umas vinte canecas e eu não to vendo o brilhinho das moedas em lugar nenhum, seu bosta!</p>
<p style="text-align: justify;">Filho da puta.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você vai ficar mesmo quieto?</p>
<p style="text-align: justify;">Vai ficar. Parece uma múmia; não move um músculo sequer. Nem parece que respira esse canalha — fica simplesmente parado. Seus olhos, meus céus, seus olhos nem existem e no lugar fica este buraco no meio da cara como se fosse oco por dentro. Mas vejo que há um vazio infinito, olhar pra esse maldito me dá náusea, tontura, uma sensação horrível sem limite algum, como se eu olhasse para dentro da própria eternidade. Horas e horas de conversação e somente agora vejo-o se mover. Olha para mim. Horrores me comam, que não há qualquer músculo se torcendo no pescoço com o movimento.<br />
— Muito bem, viajante. Você se esqueceu, não foi?<br />
— Cruzes. Você me conhece, fi?<br />
— Eu já conversei com você antes, e você sempre se esquece. Sua interminável missão para descobrir quem você é termina sempre em sua amnésia. Você chega perto da verdade e então retorna. Vamos torcer para que você tenha a força para continuar existindo. — aquela sensação de infinito. Dentro de sua boca não há língua, dentes, nada. Só o nada. Somente o infinito.<span id="more-2909"></span><br />
— Como&#8230; Que porra é essa?<br />
— Sei que você, como uma vespa, se levanta de sua velha carcaça, zanza por aí por um tempo, se recolhe e morre na janela da verdade. Você fica ali batendo no vidro, procurando a luz sem qualquer fundamento de de suas ações, e cai exausto quando falha. Você se junta a outros pra se alimentar deles por um tempo, e então segue em frente sem o menor pesar por eles. Tenho visto você vir aqui, tenho escutado suas palavras, e visto você sair daqui nem um pouco mais inteligente. Será que um dia vai aprender com seus erros?<br />
— Ei, ei. É bom você tomar muito cuidado como fala comigo, seu&#8230;<br />
— Sua resposta para todos seus problemas é a luta cega? Você vai ser sempre este inseto a picar ou vai iluminar um pouco de pensamento nessa sua existência pífia.</p>
<p style="text-align: justify;">Respiro. Por que a falta de ar nos torna mil vezes mais violento, um homem que respira ou um homem de pulmão cheio não violenta ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">— Quem, em nome desses vagabundos ao meu redor, pelos céus, quem diabo você pensa que é?<br />
— Eu sou O.</p>
<p style="text-align: justify;">Não. Estranho. Ainda que seu nome seja &#8216;O&#8217; como soa, na minha cabeça significam mil coisas a mais do que apenas uma letra solitária — como se o seu nome contivesse incontáveis possibilidades e nuances que ecoam e vibram dentro da minha cabeça. Mas tudo isso pode ser o álcool já me derrubando. Nenhuma língua humana poderia criar semelhante som. Ele sintetiza tudo em uma palavra, mas a palavra dita é apenas um fonema externo, quando na verdade ele está dizendo seu nome completo dentro de sua cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">— É o meu nome. É o nome de uma porção da eternidade. Sou uma letra no alfabeto divino. Me compreender te levará ao entendimento da existência. Sou escrito nos nomes de quase todas as coisas. Meu ser cerca a verdade. Sou matemático, orgânico, metafísico.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver olha suplicante para o barman, sem entender.]</p>
<p style="text-align: justify;">— O alfabeto divino está escrito em tudo que existe, da semente nos corações dos elementos ao núcleo do Universo. Meus irmãos/ãs (a palavra é impronunciável, mas se traduz das duas formas em minha mente) e eu alcançamos tudo que é, foi, ou algum dia será. Somos pensamento, e realidade, e conceito, e o inimaginável.<br />
— E o que tá fazendo aqui bebendo umas comigo? — mentira, somente eu tenho bebido.<br />
— Observando o declínio da mortalidade.<br />
— E&#8230;?<br />
— Vocês mortais são como vespas. — sorrio. — Constróem suas vidas/ninhos no mais fino dos galhos, e quando o vento chacoalha seu lar/vida, procuram ferroar o vento até a morte. Ao invés de notarem seus erros tolos, tentar reparar os danos que possam ter causado a vocês mesmos e aprender com suas experiências, vocês trazem dor e danos a qualquer um que tenha a má sorte de, por acaso, passar por sua vida em seu tempo de dor e aflição. Meu conselho para você — e para todos os mortais: Parem de agir como um inseto e comecem a agir com a habilidade de sentir.<br />
— Isso tudo quer dizer que você sabe tudo sobre existências, não é? — engatilhando a pergunta, ébrio.<br />
— Sei de pedaços de várias partes dela. Sem a conexão com meus irmãos/ãs, eu sou apenas uma letra. Sozinho, sou um símbolo. Junto, somos linguagem e poder.<br />
— Então você não sabe os segredos da existência? — desapontado.</p>
<p style="text-align: justify;">[Bêbado.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu não disse isso. Uma letra ainda é uma força poderosa, mesmo por si só. Deixa-me demonstrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua boca abre-se lentamente, mas sem parar. É um nojo de criatura, sua boca não deixa de abrir mesmo que, humanamente, fosse impossível permanecer vivo com essa abertura da cabeça. É curioso e ao mesmo tempo enigmático como, ao abrir os lábios com tem feito, ele se revela enfim, ao mesmo tempo que parece fagocitar a si mesmo, consumir a casca que o guardava e revelar-se por completo naquele dedo de eternidade que vislumbrei pouco antes dentro de seus olhos. Perco-me à deriva. Uma parte dele. Ao retornar a mim, percebo que o homem desapareceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso foi incrível.</p>
<p style="text-align: justify;">Não, garçom. Não. Quero nada. Seu&#8230; verme.</p>
<p style="text-align: justify;">-/-</p>
<p style="text-align: justify;">Aquela velha viagem interna. Acostumo com o fato de que minha jornada atrás de respostas sobre a minha pessoa não contempla somente os passos que dou neste mundano pedaço de terra ao lado daquela caveira e daquele velho, mas também é um mergulho cada vez mais profundo dentro de minha própria consciência cada vez que me apagam as luzes da noite; cada vez que durmo ou desmaio ou ainda morro uma segunda morte. Deixo de caminhar e prosseguir fisicamente, para, ao invés de descansar a mente, mergulhar e vagar à deriva de um inferno que habita somente e unicamente a circunferência de minha cabeça. Mas sempre sou tragado violentamente do fundo do poço, sem compreender qualquer gota.</p>
<p style="text-align: justify;">O barulho oco da garrafa posta na mesa com fúria. A menor lembrança de eternidade. O cheiro da sujeira no corpo. Não no meu corpo.<br />
— Ahhh&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">[O velho sentado à frente do cadáver.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Onde esteve todo esse tempo?<br />
— <em>Saiba</em> que tenho feito esta mesma pergunta sobre você.<br />
— Como sabia que eu estaria aqui?<br />
— Só tem dois lugares que eu imagino que poderia estar.<br />
— E a caveira, onde está?<br />
— Está no Mortuário.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem engraçado, seu velho. Você vem aqui, me vê todo vomitado, afogado em dúvidas e me joga na cara que sou um vagabundo de um ébrio dos infernos e na mesma moeda me põe de amaldiçoado, filho do ódio do pulha que não pode morrer; eis aí os dois únicos lugares que eu poderia estar: no bar ou à beira da morte. Faz sentido. É inteligente. Mas não morri. Posto que me lembro de tudo; lembro do velho e lembro da caveira. Talvez fosse a ótima chance de deixá-la para lá. Mas eu não aguentaria partir somente com esse escroto me seguindo sem dizer uma palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">Essien. Sim. Fui pego indo atrás daquele bandido. E vou continuar indo atrás até enfiar essa faca no pescoço do rato e tirar todo o canto desse filho de uma puta.<br />
— Ei, chefe! Rá. Sabia que não tava morto.</p>
<p style="text-align: justify;">Ai, minha senhora.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que está fazendo aqui, não deveria estar esperando eu chegar num carrilho no Mortuário?<br />
— Sabe, chefe. Às vezes é bom dar um voto de confiança nas pessoas.<br />
— Vai pro inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">-/-</p>
<p style="text-align: justify;">- Então você foi preso, hein. Bom nem tocarmos nesse assunto mais, ou pode dar problema pra qualquer um de nós.<br />
- E o que você sabe sobre isso, Morte?<br />
- Sei que ela não gosta de ser desafiada. Melhor ficar na sua.<br />
- Mas eu não fiz nada.<br />
- Devem ter feito por tabela, chefe. &#8211; e essa foi a primeira vez que alguém me falou, claramente, que eu já vivi muito nessa vida, e grande parte dela eu mesmo não fazia parte, outros a viviam nesse corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">E fomos atrás de Essien sem mais tocar no assunto.</p>
<p style="text-align: justify;">A cabeça de um ser vivo que toma das suas mal consegue dormir, pois quando deveria sonhar está, na verdade, à deriva de um infinito sem poder pregar os olhos, ainda que o corpo cerre as pálpebras, não tem passado, não conhece o futuro, mal distingue o presente, começa a funcionar a cortes. Há pouco estava preso, ou tomando umas com um retardado, e aqui estou na República novamente. Eu posso piscar e acordar no Mortuário, ou então, deitar na cama de uma dessas putas de chupar-lhes o cu. O olho, feito uma claquete, vai cortando minha vida. Retalhando. Ou é efeito da memória que se degrada. Sim, pode ser. Ainda lembro daquela gostosa me dizendo que quanto mais eu morro, mais eu enfio a pica na minha memória. Não consigo lembrar o nome dela, no entanto.</p>
<p style="text-align: justify;">Ruas cheias de lixo, a passarela estreita e longa, o arco de entulho no preciso lugar onde eu fora espancado por fodidos e, na segunda tentativa, capturado pelos vermes. E aqui estamos, no cair da noite, alguns lampiões de óleo luzindo, vozerio baixo de dentro da construção antiga e ninguém, ninguém fora pra nos impedir de tocar o inferno dentro dessa merda. A cor amarela da construção larga e imponente é bela, luzidia, convidativa para um bom banho de sangue. Algo terrível aconteceu das duas vezes que pisei nessa merda. Não vai ser dessa vez que vão me impedir de entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Lembra disso, velho? É. Caí por uns quinze aqui. E sabe o que a gente vai fazer dessa vez? Você sabe? Aposto que não. Nós vamos lim-par essa bodega. Não quero que sobre uma única alma viva, vocês estão me entendendo? Vocês estão&#8230; me entendendo? Se eu souber que você deixou um filho da puta desses vivo, Morte, eu vou servir sopa no seu crânio.</p>
<p style="text-align: justify;">[O trio subiu a escadaria. O cadáver chutou a porta central escancarando-a e a primeira coisa que fez foi disparar sua faca com violência na testa do último homem do salão. Certeiro.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Cheguei&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">[O trio se separou; o cadáver seguiu em frente dobrando pescoços, o velho de um lado retalhava corpos feito manteiga e o crânio quicava mortalmente entre os demais.]</p>
<p style="text-align: justify;">Aprendi a identificar a espada do velho repartindo corpos; é um som tranquilizador e ao mesmo tempo incentivador. É silencioso e não encontra rival entre substância alguma, nem os ossos desses fodidos oferecem algum problema para que ela dispare de um lado e saia do outro. E Morte, esta caveira doida que mais parece uma esfera maluca batendo em todos, rápido como um raio, batendo e batendo e batendo, o quíque nunca para. Esses fodidos não precisam nem de meu ensinamento &#8216;artístico&#8217; com Margô, suas cabeças se torcem facilmente. Um, dois, cinco, dez. Todos caem. Todos. Morrem.</p>
<p style="text-align: justify;">[Finda a batalha.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Seu&#8230; cretino.<br />
— Pra onde fica a toca de Essien?<br />
— Não vou&#8230;<br />
— Corta o braço dele.<br />
— Não adianta gritar. Onde fica? Hein? Velho, arranca o pé dele, por favor. Isso, muito obrigado. Cala a boca. Sem gritar. Onde é que fica?<br />
— Ah senhoraaa&#8230; fica ali&#8230; vá pelo túnel, mas me deixe em paz&#8230; Céus&#8230;<br />
— Ótimo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não me dá prazer esse masoquismo e essa crueldade toda, mas esses caras mereceram afinal de contas. Eu não posso apanhar feito um gordo bêbado e esses caras viverem pra contar história, mas este viveu, me contou direitinho como fazia pra chegar lá. Um túnel cavado no chão, mas um túnel digno. Velho, óbvio, já que tinha pavimentação, iluminação, estantes. Tudo. Um caminho comum para estes ratos. Serpenteia para dentro da terra e para longe da República.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas havia mais gente.</p>
<p style="text-align: justify;">[A luz cai para o vermelho. Dez capangas guardam a saída. Insone alerta seus comparsas.]</p>
<p style="text-align: justify;">Sem lutinha, pessoal.</p>
<p style="text-align: justify;">- OPA! Pó parar. Sou Bert. Quem cê é?<br />
- Adam. &#8211; minto.<br />
- A-oquê? &#8211; me olha com esses olhos brancos, mas é a violência de sua cabeça que os fazem tremer. &#8211; Eu nunca te vi aqui antes e Essien não me alertou de nenhum Adam passando perto. &#8211; A mão direto na faca. Ah, essas facas. &#8211; Melhor cê me dizer que é que veio fazer aqui, parvo.<br />
- Bem. &#8211; finjo o sorriso. &#8211; Talvez a confiança de Essien em você não se extenda tanto quanto você imagina. &#8211; ele anuvia, derrotado.<br />
- Bem, você diga a ele pra repensar esses pensamentos se ele espera que eu e os rapazes aqui continuem vigiando essa porra de buraco.<br />
- Justíssimo.</p>
<p style="text-align: justify;">[O capanga deixa a presença de 'Adam' e abre um alçapão atrás de todos. Revelando uma escada grande.]</p>
<p style="text-align: justify;">- Já deu com você. Sai.</p>
<p style="text-align: justify;">-/-</p>
<p style="text-align: justify;">Quente. A única palavra que define.</p>
<p style="text-align: justify;">Um teto alto, o chão escuro. Muitas pessoas ao redor. Parece uma praça, mas debaixo da terra. Uma luz branca e baça, algumas placas ainda remanescentes da construção anterior. Pixações, grafites, sangue, manchas para todos os lados. Pilares e mais pilares retangulares sustentam aquele lugar abafado. O cheiro é impressionante. O cheiro está além das capacidades humanas de adquirir semelhante perfume do inferno. As pessoas andam com um pano na boca, cobrindo o nariz, mas não posso imaginar que isso ajude alguma coisa. Existe um qualquer cheiro mentolado no ar. Bem raro.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem raro. De qualquer forma, é evidente que somente um lugar pode estar Essien. E é tão evidente, que mal estamos aqui e eu já sei onde é.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2839">&lt;&lt; Capítulo XII</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2951">Capítulo XIV &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| imagem de <em><a href="http://shreyas-panambur.deviantart.com/">Shreyas-Panambur</a></em></p>
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		<title>[ Sanduba ] Enfim, o novo</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jul 2011 11:07:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um parecer sobre tudo isso. Eu de volta. Sanduba de volta. Todos volta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2891" title="Enfim, o novo" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/07/sandubanovo.jpg" alt="" width="600" height="250" /></p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, eu retorno.</p>
<p style="text-align: justify;">Após mudanças gravíssimas na vida profissional que simplesmente me impossibilitaram dar o devido carinho ao sanduíche de queijo que eu mais gosto, enfim eu posso voltar. Tornei-me um Googler e entrei de cabeça no projeto até poder desafogar um pouco de minhas loucuras aqui novamente. Mas eis-me aqui novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Mal falei, por exemplo, do lindíssimo novo layout, todo urbano e queijístico idealizado pela Paula Rúpolo, designer também responsável pelo não menos saboroso pavê musical do André Medeiros (o tal do Música Pavê, de se ouvir). Com motivos da cidade, um queijo meio sujo, meio do chão, daquele bom de comer, que não mata nem engorda.<span id="more-2883"></span></p>
<p style="text-align: justify;">No limbo, a única coisa que tem funcionado é a Tormenta, pois a tormenta ninguém consegue frear, essa é a grande verdade (e ainda assim com algumas intempéries de ordem do servidor, só eu te largar que você faz isso comigo né, UOL?). Además, que essa seja uma reestréia de artigos novos mil. A frequência diminuirá, já que nem eu nem meus comparsas Juliana Simon ou Bruno Calixto temos o braço para manter aquela loucura de dantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto fica verificado para fins universais: toda quarta-feira, um post novo no blog seguindo a seguinte ordem: dentro dos livros, literatos, fora dos livros, outros sanduíches e assim em diante. Quatro quartas a cada mês, a certeza de um post novo. Além, claro, da série Tormenta que continuará com a postagem incessante toda nova sexta-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Fica reiterado novamente que o blogue não atende as normas gramaticais (novas ou velhas) e que o calendário pode mudar a qualquer momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos entendidos?</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo XII – Preso dentro desse labirinto</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 12:17:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Insone é preso. Isolado em solitária e seu único pecado, mentira, é o de não poder morrer.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://dakann.deviantart.com/art/Barbed-Wire-34279026?q=boost%3Apopular%20barbed%20wire&amp;qo=31"><img class="aligncenter size-full wp-image-2866" title="tormenta12" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/06/tormenta12.jpg" alt="" width="600" height="446" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Preso.</p>
<p>Pela Dama das Dores e seus lacaios; uns putos sem a fala que se comunicam em sinais, um detalhe pequeno que não precisei ficar muito com todos eles para perceber. A verdade é que até agora espero os dentes de Morte ou a espada do velho retalharem esses fodidos, mas ficaram lá parados, boquiabertos, amedrontados. Motivos devem ter. Não os culpo. Mentira. Como podem me deixar ser levado assim com tanta facilidade, o mínimo que eu esperava era ver o corpo dessa vagabunda retalhada e cheia de mordidas. Eu mesmo, forte como sou, não consegui me desvencilhar dos mudinhos e dar um bom sopapo naquela máscara dela. Motivo deve ter. Senti meu corpo nulo, leve, plumoso, incapaz de fazer qualquer coisa. Deve ser a arte. Ou a &#8216;Arte&#8217;, como dizem.</p>
<p>Preso.<span id="more-2839"></span></p>
<p>E no meio das contas, preso é uma condição eterna para mim. Me encarcerar nesta cela peculiar, não significa privar-me de qualquer liberdade. Tire a possibilidade de morrer de um homem, e aí sim ele se sentirá privado de qualquer liberdade. Aquilo era uma piada. Um atraso do qual até agora não entendo sob qual acusação me submeteram. Preso. E são criativos. A primeira noite passei em uma cela comum, mas sozinho. Podia ouvir a algazarra geral da prisão, mas me mantiveram sozinho, ainda que a própria cela da frente estivesse abarrotada de braços.</p>
<p>Mas no dia seguinte&#8230; E lá estava eu. Na minha própria prisão.</p>
<p>-/-</p>
<p>Digo minha, pois era justamente minha. Feita para mim. Sete dias que acordo debaixo desse céu estranho. E a única companhia que tenho são as sombras que aparecem para me picar e comer todo santo dia, sem falha, mas sempre em momentos distintos. Ora quando acordo (e sou desperto por suas navalhas), ora num passo em falso, ora no fim de uma subida de escadas, ou na descida. Nunca posso prever o ataque, motivo pelo qual, desisti de tomar guarda. Elas sempre adivinham um instante que seja que eu esteja desarmado de minha atenção.</p>
<p>Mas que serão estas demônias? Diabos que terei de lidar com elas para sempre? Por que será que me perseguem? Será alguma penalidade por ser imortal? Ser retalhado por sombras imateriais, mas igualmente perigosas? Algo como aquela história antiga de um homem que toda noite era mordido por um corvo por ter roubado o fogo divino. Será que sou uma reedição daquela história? Roubei a mortalidade, e então sou picado pelas sombras. Hmm. Eu gosto.</p>
<p>-/-</p>
<p>Um coliseu.</p>
<p>Imagine um coliseu. Coliseu. Co-liseu. Por que a palavra me vem tão fácil à mente, sendo que o seu significado está tão longe na história. Veja que não somente a palavra me vem fácil para comparar à esta prisão, bem como todo o histórico dela: o lugar onde os imperadores da antiguidade assistiam batalhas mortais entre homens e animais. O Coliseu. Como pode a memória funcionar assim e não me rememorar de meu próprio nome. Meu próprio nome, porra.</p>
<p>De qualquer forma, o coliseu é a imagem que me vem à mente quando estou lá no epicentro do lugar e levantam-se cinco níveis de anéis, um mais alto que o outro. Escadas, abismos, falhas geográficas, tudo. Mas nada se compara à movimentação dos anéis e de como cada dia ele está configurado de maneira diferente. Outro dia mesmo, eu estava na ponta extrema do quinto anel, quando fui surpreendido pela movimentação. Feito uma balança, a parte que eu estava foi para baixo bruscamente e do outro lado ela se levantou. Passei o dia inteiro dependurado no degrau para não cair abismo adentro. Não sei se por piedade ou sorte, sombra nenhuma apareceu para me retalhar a carne. Vagabundas.</p>
<p>-/-</p>
<p>Aos poucos você acostuma na gangorra. A pergunta que se fixa no sétimo dia é que nada tenho feito até aqui a não ser brincar de sobe e desce. Como é que saio desse caralho de lugar, eu me pergunto. E a pergunta fica no ar, pois não há qualquer menção de saída. Mas sempre há. Toda prisão tem sua porta de saída, todo labirinto tem sua resposta. E é por isso que eu comecei a prestar mais atenção. Principalmente em alguns arcos nos anéis superiores, quero dizer, no começo eles me davam náusea: você passava por um e de repente estava da outra ponta. E eu pensava, mas que merda é essa?</p>
<p>Não faço mais que existir. Mas muito mais pobre é aquele que esperava me ver morto.</p>
<p>-/-</p>
<p>O centro do labirinto, engraçado, tem um símbolo rasgado na pedra. Grande. Deitado ali, como fiz às vezes, eu jamais perceberia figura alguma, mas aqui de cima. Não tenho dúvidas, é a lâmina gêmea que tenho tatuada no ombro, curta, quase circular. Quase como esta prisão. Será possível que esse cacete foi feito à medida do que precisam pra me manter longe do que quer que queiram me manter longe?</p>
<p>-/-</p>
<p>Oito dias. Não há comida. Não há água. Apenas sol, chuva e sombras. O caso é que um dia antes encontrei um acampamento toscamente montado. Lenha queimada, cinza não datava de muito tempo (algo como meses, talvez). Um livro. Duro, longo. Ruim. Um tomo negro radiante de um cheiro nauseabundo, e uma capa extremamente desagradável ao toque &#8211; como a pele humana ressecada do sol de muitos dias. Mas antes que eu pudesse ler qualquer coisa dentro, na menção de abrir sua spãginas, caiu uma folha retesada em seu conteúdo. Algo assim:</p>
<p>&#8220;PREso prESO VONTADE DA VACA concedida ESCApar de seu labirinto&#8230; muitos MATEI, muiTOS estrangulei e matei para parar RESPIRAR de suas gargantas&#8230; tem uma SAÍDA EU SEI e então vou rir da cara Dela &#8230; UM dos ARCOZ tem a saída, UM deles tem, UM deles tem a saída, não pode simples IR arco a arco um por vez, talvez — talvez eu deva ir por um, ENTÃO retornar para o mesmo arco sem&#8230;&#8221;</p>
<p>Fiquei com aquilo na cabeça, sabe. Esqueci até o livro. Uma letra doida, o cara que escreveu certamente não devia ter a melhor das cabeças, mas aos poucos aquilo foi fazendo sentido. Veja, sempre que eu passava por um arco, eu acabava indo para um canto diferente, não necessariamente oposto. E aquela folha parecia dizer que eu precisava passar por um arco e então passar pelo mesmo arco de novo. Aquilo bateu. Eu não tinha tentado isso. Passar pelo mesmo arco duas vezes, que tipo de idiota tentaria, já que o caminho era longo e a movimentação dos anéis me deixava maluco.</p>
<p>Mas tentei. E&#8230; é isso aí.</p>
<p>-/-</p>
<p>- Você não tem nada pra me dizer, caralho?</p>
<p><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2791" target="_blank">&lt;&lt; Capítulo XI</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2909" target="_blank">Capítulo XIII &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| ilustração de <a href="http://dakann.deviantart.com/art/Barbed-Wire-34279026?q=boost%3Apopular%20barbed%20wire&amp;qo=31" target="_blank">Dakkan</a></p>
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		<item>
		<title>[ Tormenta ] Capítulo XI – Entre os paralelos da Arte</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 11:39:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Picado de batalha, Insone trabalha errante para educar-se internamente e domar a Arte. Mas entao e surpreendido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://thistrace.deviantart.com/art/untitled-12-199583765?q=boost%3Apopular%20magic%20abstract%20painting&amp;qo=100"><img class="aligncenter size-full wp-image-2818" title="tormenta-11" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/06/tormenta-11.jpg" alt="" width="600" height="472" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A sensação já experimentada de estar em um poço muito, mas muito fundo. Tão fundo que a pressão já não parece ser a mesma de quando estou na superfície. E desse abismo, você é tragado com violência em uma velocidade alucinante, por quilômetros e quilômetros de distância ou de altura, eu nem sei bem. Não parece ter fim o trajeto, nem a força motriz que me puxa. Aumenta a pressão, a velocidade, e a subida não parece chegar a lugar algum. A parede do poço é construída de memórias recentes e fantasmas antigos, como Diana, como a caveira, como o velho, como o sangue, como a dor, como o vazio. Como as sombras.</p>
<p>[Acorda o cadáver em desespero de berro.]</p>
<p>— Calme, filho. Calme. É só um chá de ervas, só um chá de ervas. Se debater não vai te ajudar em nada. Fique calmo. Descanse. Descansar.</p>
<p>Um trapo de mulher encarquecido pelo tempo, esquecido pela limpeza e já avariado da inteligência, quem seria? Quem é a velha!? Que lugar mau-cheiroso é esse, que cama estranha, que teto estranho é esse? Será possível que não me lembro de mais nada; que, assim como sempre, eu morri e a memória ficou no último momento vivo antes que a consciência não tivesse a capacidade de transpor os dois mundos e retornasse ao dos vivos? Onde está a caveira e o que pode ter acontecido com todos aqueles homens. Mas&#8230; vá. Que se me lembro desses problemas, certamente não morri naquela batalha. Nem a minha memória se desfaleceu no processo vida ou morte.</p>
<p>— Tome mais um pouco, ó pah! Vai te fazer bem. Já te fez acordar, não?<span id="more-2791"></span></p>
<p>E essa velha agora, com estas tetas caídas quase na cintura. Negra de tudo, mas lhe falta tanta cor que até mesmo o negro da pele se ressecou em tons de cinza. Não só sua pele, mas tudo nela se diagrama em tons pastéis, como se houvessem retirado a vida por inteiro. Desde as suas calças rotas à sua fita nojenta que segura os cabelos encrespados. Se morri mesmo, é uma falta de piedade acordar no purgatório me recordando de tudo, se logo mais acordarei em vida já não me lembrando de nada.<br />
— Quem é você, velha!?</p>
<p>— Cê nunca ouviu falar de sinhá Margô então, a parteira da Praça? Não? — seu espanto é uma tristeza diante de minha falta de memória. É injusto com ela. — Bem, agora cê ouviu, eu: Margarida. E você, meu filho, o nome?</p>
<p>A pergunta mais dolorida de todas. E a resposta mais tonta.<br />
— Eu&#8230; eu sou Adam.</p>
<p>— Eaí, chefe&#8230; É. Os caras te pegaram de jeito. Não fosse o velhote, você tava perdido. Te pegaram de jeito.</p>
<p>— E cadê ele?</p>
<p>— Por aí.</p>
<p>— Ele usou aquilo de novo, não usou? Aquele velho é uma aberração&#8230;</p>
<p>— Te salvou, não te salvou? Mal agradecido.</p>
<p>— Achei que não quisesse ele no grupo.</p>
<p>— Bem, tenho que fingir o contrário. Da próxima vez, posso ser eu no meio de quinze vagabundos.</p>
<p>— Acredite, Morte. Você não é assim tão interessante.</p>
<p>— Ora, seu&#8230;</p>
<p>[A noite cai na cidade. O cadáver ainda sob os cuidados de Margarida. Aquela técnica ainda viva na cabeça do imortal, incapaz de decifrar no pouco de sua mente a natureza de sua força.]</p>
<p>Essa velha não é uma qualquer. Eu estava seriamente morto e se não morri, caminhava a passos largos para lá, ou não dada minha óbvia incapacidade de partir. Como não morri, o fundo daquele poço é exatamente o local onde se espalham minhas memórias para se perderem, enquanto meu corpo e mente retornam à vida. E ela não permitiu que eu o tocasse o fundo, e tenho certeza que um chá qualquer não traz um morto à vida assim tão facilmente. Sinto perto dela a mesma sensação de quando estou perto do velho e aqui, com os dois, isso fica ainda mais evidente que há algo a mais em torno e dentro desses dois miseráveis. Ele usou de seus&#8230; de seus. De sua arte. De suas forças? Não, não lhe cabe bem; forte também eu sou, mas não posso afastar quinze eqüinos só chacoalhando o braço de um lado pro outro, não. É como se ele tivesse sensações. Não. Poderes&#8230; sim! Poderes. O velho tem poderes. Além dos meus. Se é que eu tenho algum. Mas me parece estranho como não parece estranho o que ele faz, e ao mesmo tempo parece de outro planeta.<br />
— Que será&#8230;</p>
<p>— Ele conhece a &#8216;Arte&#8217;.</p>
<p>A velha entre espremer umas ervas e bater uma vitamina, entra na conversa. Sorrateira.<br />
— Por que chamam de &#8216;Arte&#8217;?</p>
<p>— Por que é a arte de se expressar. Um pintor usa a tela, nós usamos o próprio ar.</p>
<p>— Você é uma bruxa? — era a caveira, pra variar. As maiores sandices são dela.</p>
<p>— Aaaá! — mostra os dentes podres em reprovação. — Digo nada sobre o que sou ou não, mas querem saber tolices tão ruins sobre uma velha senhora latindo e rosnando por um pouco de fofoca?</p>
<p>— Vai perdoar essa caixa miserável! — tento.</p>
<p>— Minha única bruxaria é com a &#8216;Arte&#8217;! Nada mais que isso. Nada mais que esse seu amigo.<br />
Sinto-me mal. Não por Morte tomá-la por bruxa — é, você mesmo, seu cretino; nem por ela doer-se. Mas por me tratar amigo daquele velho.<br />
— Então você também conhece essa&#8230; &#8216;Arte&#8217;.</p>
<p>— Oh, sim, sim.</p>
<p>[O cadáver precipita-se e segura a velha pelo braço.]</p>
<p>— Você&#8230; me ensinaria? — está rindo na minha cara. Velha! Tenho de dominar esta tal &#8216;Arte&#8217;. É uma daquelas sensações inexplicáveis que somente podem datar de uma vida passada, e a se tratar pelo número de inimigos que tenho, é melhor que eu saiba fazer mais do que esfaquear ou&#8230; morder os vagabundos. Mas só no segundo passo da fala é que se percebe a imbecilidade do que ela significa.<br />
— Pah! Não sou mestra, nenhuma professorinha toda vestida para ensinar como aqueles no Grande Salão! Tem outros poraí que tenho certeza que vão tirar o escuro pra você&#8230; cê perderia tempo com a velha Margô, isso sim.</p>
<p>— Que ideia, também, chefe. Não é só por que o velho sabe fazer truques, que você precisa também.</p>
<p>— Cale a boca, Morte! Ora, sinhá Margô. Não se faça&#8230;</p>
<p>— Aye? &#8216;Porque&#8217; quer aprender essas coisas?</p>
<p>— Guardarei os motivos para mim&#8230;</p>
<p>— Assim, então? Bem, inda que os motivos sejam seus, então o &#8216;conhecimento&#8217; é meu. Não vou ensinar alguém que se esconde do mestre&#8230; somente o mal pode vir deste caminho. — Vagabunda!</p>
<p>— Muito bem. Quero aprender a Arte, porque eu posso precisar para desvendar o mistério de quem eu sou.</p>
<p>— A Arte pode ajudar, ou não, e &#8216;cê não deve confiar nela para resolver todos os seus problemas. Criança, é muito mais provável que coloque somente mais um bolinho na sua pilha de perguntas&#8230;</p>
<p>-/-</p>
<p>E ela concordou em ensinar. Morte discordou plenamente de seu método, já que nos fez andar por Colmeia feito idiotas entregando, pedindo, fazendo coisas que, claramente, eram tarefas que ela precisava fazer, mas que nos colocou em seu lugar para ficar no conforto do lixo fazendo chás. Feito mensageiros. E eu podia sentir, embora não houvesse qualquer reclamação da parte daquele velho, que ele estava ofendido com aquela escolástica errante; no fundo no fundo, pensava ele que poderia ensinar. Um velho desse. Mas eu não duvido que pudesse, de fato. Foram três dias de andanças pela cidade onde aprendi as suas ruas, seus personagens e, principalmente, a essência da Arte. Pois a essência da Arte está justamente nas ruas, na existência. Quando o velho afasta quinze asnos movendo os braços, ele está concentrando em um determinado ponto um poder mental que só é possível por que este mundo, este planeta, está torto, está distorcido — falho, como gosta de lançar. E então essas manifestações acontecem. Não são exatamente um dom, mas o desenvolvimento de uma falha dentro da existência humana. É explorando uma falha na sensibilidade do planeta, que ele pode controlar quinze homens e lançá-los pelo espaço. Esta é a Arte: manipular o ambiente a seu favor e distorcê-lo em suas falhas mais miseráveis. Não. Não é uma dádiva nem uma predestinação; qualquer um pode tentar, embora os mais rasteiros não tenham semelhante capacidade por simplesmente não compreenderem esta falha nem terem o preparo mental que um velho e uma velha como Margô possuem. Morte mesmo, não consegue afastar uma moeda na sua frente, mas não há como culpá-lo se pouco lhe resta do cérebro dentro daquela caixa branca de ossos.</p>
<p>Em três dias, sentia-me completamente diferente do imbecil que acordou no Mortuário. Memória alguma emergiu, mas conhecer um pouco mais da natureza daquele lugar em que eu vivia fazia-me sentir menos perdido, embora continuasse tão perdido quanto antes. Ela não me ensinara truque algum, cada um desenvolve seu modo para tocar a Arte de forma própria; mas consegui balir algumas latas de lixo simulando o movimento do velho na batalha, e pude sentir — já que ele não sorri em satisfação, de que ele estava satisfeito vendo-me copiá-lo. Lancei-o no ar, sem que o avisasse.</p>
<p>-/-</p>
<p>— Óquei, filho&#8230; não se demore mais aqui. Alguém como você tem outros assuntos a tratar do que ficar aqui com a velha Margô.<br />
— Ora, que isso, Margô. Você não é assim tão velha. — mentiroso, réré. E ela sorri; velha danada.<br />
— Pá&#8230; seu patife. Sua língua é tão venenosa que enganaria o próprio demônio. Tome teu caminho! E&#8230; filho, se precisarem de um lugar pra descansarem, a velha Margô é parideira, mas serve de estalagem, também.</p>
<p>— Agradeço, Margô. E desculpa qualquer inconveniência que esses dois babacas possam ter lhe causado.</p>
<p>Finalmente deixamos a casinha patética de Margô para pisar no lixo atrás do rato mais imundo das redondezas. No fundo eu sei que teremos de voltar àquela tocaia de bandidos e lidar com as serpentes. Quando digo lidar, é encher de cacete mesmo. E toda vez que olho para o velho, sinto como se ele me falasse: você é um filho de uma égua, vai procurar faca pra se roçar de novo. Mas ele diria isso mais polidamente. Mais educadamente. E eu bem preferiria que Morte fosse do tipo, cai pra dentro, vamo lá dar um jeito neles. Mas se tivesse pele na caveira, seria aquela expressão de &#8216;você não aprende, não é, dá uma olhada pra você. Idiota!&#8217;. E ele consegue expressar tudo isso só com sua respiração patética e o pouco de movimento que tem no naco de carne que lhe resta. Mas é preciso chegar à toca de Essien. Não tatuariam isso nas minhas costas apenas para me fazer bancar o tolo&#8230; Ou será que. MERDA!</p>
<p>[Sai o cadáver e sua gangue, mas mal contornam a praça até o pontilhão de lixo, são abordados novamente. Dessa vez por alguém importante.]</p>
<p>— Han! A&#8230; Dama das Dores!!!<br />
— O que você fez, Insone. O que é que você fez?</p>
<p>A exclamação desesperada e pálida de Morte não era páreo para o descompasso do velho, sempre tão calmo; fora uma advertência viril, mas ainda assim fora de seu temperamento, de seu controle. Naquele momento ele talvez não &#8216;soubesse&#8217; de nada ou, pelo contrário, &#8216;soubesse&#8217; demais. E vinha esta mulher destemida; nua, branca feito um diabo; nua não, mas num vestido de tecido transparente, gostosa, mas feia. Feia, não, pois está de máscara — não posso fazer juízo sobre uma louca de máscara. A Dama das Dores se revela, e eu nem havia ouvido falar nessa diaba, vem com serviçais atrás que só lhe faltam abanar o rabo.<br />
— Que&#8230; que quer comigo?<br />
[O bando da Dama circunda o cadáver e o toma em custódia.]<br />
— O que querem comigo!? O que foi que eu fiz, sua vaca!? O que é isso? Que porra é essa!!! Morte, o que tá acontecendo?<br />
— Cale-se, criatura. Será preso e erradicado da existência por contato irregular com prisioneiro de máxima pena.<br />
Preso? Mas&#8230;</p>
<p><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2725" target="_blank">&lt;&lt; Capítulo X</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2839" target="_blank">Capítulo XII &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em></em>| ilustração de <a href="http://thistrace.deviantart.com/art/untitled-12-199583765?q=boost%3Apopular%20magic%20abstract%20painting&amp;qo=100" target="_blank">~thistrace</a></p>
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		<item>
		<title>Boletim #12 – Abril/2011</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/SandubadeQueijo/~3/35IoHKs08pE/</link>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 23:42:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boletins]]></category>

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		<description><![CDATA[Sanduba de Queijo em manutenção Nesse mês de Maio, estaremos fazendo algumas alterações capitais no blogue, incluindo todo uma nova identidade visual que eu ficarei muito feliz de apresentar assim que for implantada. Não haverá postagens nesse mês de Maio e a série Tormenta entrará em recesso até Junho, quando o site voltará ao normal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/01/07/tormenta-a-nova-serie-do-sanduba/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2572" title="tormenta-4-destaque" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/destaque-site.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> Sanduba de Queijo em manutenção </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse mês de Maio, estaremos fazendo algumas alterações capitais no  blogue, incluindo todo uma nova identidade visual que eu ficarei muito  feliz de apresentar assim que for implantada.</p>
<p style="text-align: justify;">Não  haverá postagens nesse mês de Maio e a série Tormenta entrará em  recesso até Junho, quando o site voltará ao normal e muito mais lindo.</p>
<p style="text-align: justify;">=)</p>
<p style="text-align: justify;">Quando ficar pronto, todos ficarão sabendo, claro.</p>
<p style="text-align: justify;">Abraços, <em>Bruno Portella</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="../2011/01/07/tormenta-a-nova-serie-do-sanduba/"><img class="aligncenter" title="tormenta-4-destaque" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/destaque-tormenta.jpg" alt="" width="560" height="100" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="../2011/01/07/tormenta-a-nova-serie-do-sanduba/" target="_blank">Tormenta</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Do ataque das sombras materiais que o levam ao chão, nosso cadáver se  embebeda e aceita a ajuda de um estranho velho que o observava no bar.  Tão estranho que no auge de uma batalha, baliu seus oponentes com a  força da mente, para maior desespero do cadáver que nada entendeu. A  primeira vez que Insone entra em contato com a Arte.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="../2011/04/01/tormenta-capitulo-6-tatuado-o-simbolo-do-sofrimento/" target="_blank">[ Tormenta ] Capítulo 6 &#8211; Tatuado o símbolo do sofrimento<br />
</a> <a href="../2011/04/28/tormenta-10/" target="_blank">[ Tormenta ] Capítulo 7 &#8211; Da pedra ao cadáver em chamas<br />
[ Tormenta ] Capítulo 8 &#8211; O velho no fundo do bar<br />
[ Tormenta ] Capítulo 9 &#8211; &#8220;Seu caminho é o meu caminho&#8221;<br />
[ Tormenta ] Capítulo 10 &#8211; Por sobre entulhos e retalhos</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-2733"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/07/poema-te-construo/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Bagunça" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/liter_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/07/poema-te-construo/" target="_blank">Te destruo de Marilia Ohlson &#8211; Literatos</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu te construo,<br />
com os pés quentes de Bernardo<br />
feitos de pães amanhecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu te construo,<br />
com os braços fortes de Pedro<br />
feitos de agulhas de tricô.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/07/poema-te-construo/" target="_blank">Leia o poema completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/12/livro-o-casamento-canopeano/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Kinema" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/livro_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/12/livro-o-casamento-canopeano/" target="_blank">O casamento canopeano &#8211; Dentro dos Livros</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Resenha do livro ‘<a href="http://www.cienciamao.usp.br/tudo/exibir.php?midia=fic&amp;cod=_oscasamentosentreaszonas34e5" target="_blank">Os Casamentos entre as Zonas 3, 4 e 5</a>‘ de Doris Lessing</em></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo volume da série “Canopus em  Argos: Arquivos” eleva e desafia a relação matrimonial entre dois reinos  antagônicos; uma fábula sobre a existência humana no seu mais básico  relacionamento, aquele entre um homem e uma mulher. (&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/12/livro-o-casamento-canopeano/" target="_blank">Leia o artigo completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/18/filme-mochileiros/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Anjo" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/fora_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/18/filme-mochileiros/" target="_blank">O filme dos mochileiros das gal&#8217;axias  &#8211; Fora dos Livros</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">O “Guia do mochileiro das galáxias” é um  dos livros mais divertidos que já li. Por isso, fiquei contente quando,  esses dias, vi que estava passando uma adaptação da obra na TV a cabo.  Para falar a verdade, eu nem sabia que existia uma adaptação para o  cinema – aparentemente há mais de uma. A que eu vi é de 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não conhece, o “Guia…” é um  livro inglês, escrito por Douglas Adams. Era inicialmente uma série, em  capítulos, na rádio BBC, e se tornou um best seller quando publicado em  livro, em 1984. O “Guia…” conta a história de um humano (Artur Dent) que  descobre que a Terra está prestes a ser destruída e que seu melhor  amigo é um alienígena que viaja entre diversos mundos escrevendo o Guia  do mochileiro das galáxias, o livro mais vendido do universo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/18/filme-mochileiros/" target="_blank">Leia o artigo completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img class="aligncenter" title="Quentes - Fevereiro" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/12/quente_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As quentes do Fevereiro no Sanduba</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/01/quente-ilustracoes-de-mansur/" target="_blank">Oficina de Criação Literária com Marcelino Freire [ Ainda quente! ]<br />
Kínesis na Paulista para paulistano ver [Ainda quente!]</a></p>
<p style="text-align: justify;">……………………………………………………………………………………………………………………….</p>
<p style="text-align: justify;">Para receber o boletim no seu e-mail, cadastre-se no formulário do menu lateral.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo X – Por sobre entulhos e retalhos</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 12:22:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[bruno portella]]></category>
		<category><![CDATA[chris avellone]]></category>
		<category><![CDATA[distopia]]></category>
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		<category><![CDATA[pós apocalipse]]></category>
		<category><![CDATA[praça da república]]></category>
		<category><![CDATA[retalhos]]></category>
		<category><![CDATA[série de fantasia]]></category>

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		<description><![CDATA[Cadáver e caveira caminham junto ao velho que mostra mais um dos mistérios irreconhecíveis: a Arte!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/22/tormenta-9/" target="_self"><img class="aligncenter size-full wp-image-2730" title="Tormenta" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-10.jpg" alt="" width="600" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">[Acorda subitamente. Não está agitado, está tranquilo.]</p>
<p style="text-align: justify;">A dor latejante da cabeça. Admito: bebi demais. Ainda há pouco estava morto e não me recordo bem dos próprios limites do corpo; muito por que não me recordo de absolutamente nada que anteceda a visão daquela fantasma em meus sonhos. Mal compreendo como compreendo as palavras. Que demônio faço eu no banheiro é um mistério; ao menos não estou sozinho. Se toda vez que eu acordar operar em minha mente esta dor lancinante, como se retornasse à vida toda manhã, eu prefiro ficar sem dormir um segundo sequer. Merda de dor de cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver levanta-se, lava o rosto.]</p>
<p style="text-align: justify;">As minhas cicatrizes&#8230; são tão determinantes em meu rosto, devo ser um tipo fácil de reconhecer e é claro que sou. Mal pisei fora daquela catedral de merda e já uns dois me abordaram por assuntos mal resolvidos, mas que eu mesmo não tenho poder algum para resolver. A impressão é de que todos me conhecem, de que todos interpretam uma peça ao meu redor, em que apenas eu não tenho conhecimento do roteiro. Por isso que sinto falta de minha memória, falta de algo que, particularmente agora, nunca tive. Mas não deixa de ser curioso como, assim como qualquer coisa de real valor, só nos damos conta dela quando a perdemos. Quanta fofura. Por falta de significativos no mundo real, eu morreria facilmente. A falta que me falha, no entanto, parece ser aquela interna e particular. Vejo um espelho à minha frente e sei que é um espelho, pois o vejo, pois posso tocá-lo. Quanto às memórias que não podemos tocar, muito menos ver, não posso recolhê-las no veio de prata de minha mente.</p>
<p style="text-align: justify;">É bom que eu vá logo até aquele cretino retomar o resto de minhas memórias.<span id="more-2725"></span></p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver deixa o banheiro; a primeira pessoa que vê é o velho, de costas.]</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, meu céu escuro. Tinha me esquecido desse. Vou dar uma na nuca e cair fora, mas&#8230; ei. Morte. O que a caveira tá fazendo ali?</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Eaí, chefe! Tirou o sono da bela adormecida?</p>
<p style="text-align: justify;">— Vocês se conhecem?</p>
<p style="text-align: justify;">— Desde que você nos apresentou, sim. — eu ainda vou bater nesse velho e quebrar essa ossada.</p>
<p style="text-align: justify;">Já é dia na cidade e melhor não me sentar. Tanto faz quantas horas escureci. Já é dia pois luzes fortes entram no bar e latejam ainda mais a ressaca de minha cabeça, somente por isso sei que o dia está na cidade: nem tanto pela luz clara, muito mais pela dor intermitente.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vamos logo.</p>
<p style="text-align: justify;">[Sai cadáver, velho e caveira do bar, tomam a fronte do antigo anfiteatro.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Pra onde fica República, caveira?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não é muito longe daqui, mas se quer a minha opinião o rato do Essien não deve gostar da luz do sol.</p>
<p style="text-align: justify;">— Talvez. E você? Conhece, Essien? Você <em>conhece</em> Essien?</p>
<p style="text-align: justify;">— Este homem não está em meu <em>conhecimento</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Inútil. Calado, Morte!</p>
<p style="text-align: justify;">É curioso andar em bando. Mas não é raro. Raro é o trio de cicatrizes, uma caveira flutuante e um velho espadachim, isso sim é incomum, e por isso mesmo atraímos tanto as atenções dos demais passantes. Por que a bem da verdade, a maioria anda em bando, tanto para se proteger como para cometer seus delitos. Os passantes solitários atravessam as ruas tão depressa que fica óbvio o estado de atenção naqueles homens. Mas eu ando mesmo é a esmo, e sem qualquer reclamação; estes dois idiotas seguem-me sem transpor qualquer correção, mas como pode se, dos três aqui caminhando, o que menos está apto a liderar sou justamente eu, cuja memória não consegue nem remontar o próprio nome, quanto mais as linhas destas ruas antigas.</p>
<p style="text-align: justify;">[Seguem por uma rua estreita.]</p>
<p style="text-align: justify;">Apinhada de gente. Reduziram o mundo a alguns vilarejos patéticos, mas pra todo lugar que eu vou, parece que a mesma urbe se movimenta, sempre barulhenta e presente. Aposto como a Catedral, a Praça do Sino e até mesmo o bar devem estar completamente vazios, e as pessoas me seguem pra todo santo lugar que eu vou. É um grande mercado aberto, é isso que é. Mercantes berrando suas mercadorias, cantando o produto pra quem quiser comprar, coletores-da-morte espreitando o primeiro ataque de coração fulminante, ratos e ladrões em becos só esperando a primeira vovó desatenta. A velhota vende peixes e uma outra ainda coleta mendicâncias; de forma geral é um povo que está mais ocupado em existir do que existir para qualquer outra coisa. O contador de histórias vira a esquina, gritando a plenos pulmões: &#8220;Nomes, nomes&#8230; quem você é, quem você é&#8230;&#8221; E a sua cabeça parece sacudir cada vez que se repete. &#8220;Nomes&#8230; são perigosos, perigosos!&#8221; E percebe que eu to ouvindo ele; ferrei. Como fede este endiabrado. Céus o livre.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei, chefe. Agora, aqui entre nós. Esse velho que você recrutou no bar. Eu não confio nele.</p>
<p style="text-align: justify;">— E por que não? Ele parece tranquilo, inteligente, fede pra caramba, mas não vejo motivos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sei, eu tenho um mau pressentimento.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você não tem nem corpo pra ter pressentimento caveira, e de qualquer forma, ele tem uma espada; melhor do que você ficar mordendo quando nos pegam.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei! Eu poderia te morder até a morte.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ele tem uma boa espada ali&#8230; e agora fica quieto, que ele tá voltando.</p>
<p style="text-align: justify;">— He-ei! Grande espadachim! — a vontade é de matar a caveira, já perdi as contas de quantas vezes quis.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cuidado.</p>
<p style="text-align: justify;">O velho nos alerta calmamente; não muito longe daqui, uns homens — muitos deles — bem mal-encarados não tiram os olhos da gente. Vai dar merda. Ou passamos por eles, ou retornamos. E o caminho é por ali, só pode ser por ali. Ou é por ali, ou é por voltar. Não vou desviar por causa de uma meia-dúzia de fodidos, é bom que essa espada humorada sirva pra alguma coisa, por que a coisa vai feder aqui. Ai, aiaiai.</p>
<p style="text-align: justify;">[O trio é atacado. A urbe se afasta em gritaria, os mercantes afastam suas mercadorias. Uma roda se forma de pessoas que tanto não querem tomar parte quanto querem assistir. Os assaltantes atacam com suas facas e vão direto ao cadáver, alvo mais evidente. Ele usa de sua pura força e derruba um deles, ainda sem saber muito bem como reagir — as picadas de facas na carne são sentidas.]</p>
<p style="text-align: justify;">Filhos de uma eqüina! Prefiro que me trespassem uma espada do que me piquem com uma faquinha ridícula dessas!</p>
<p style="text-align: justify;">[A caveira morde, cabeceia, xinga e é um alvo tanto mais difícil de ser domada pelos atacantes. É o velho, no entanto, quem, calmo feito oceano, retalha três deles com facilidade num pulo atacante — a espada no peito de um, na coxa de outro e o braço fatiado de um terceiro, o suficiente para que se acovardem e deixem a cena para o fundo de um beco. Estende a mão para os demais três sujeitos que atacam e, de longe, sem mover um músculo aparente os afasta como se balidos por um vento muito forte. Debandam todos, enfim. O cadáver ofegante se levanta, suas feridas se fecham e ele vai direto ao velho.]</p>
<p style="text-align: justify;">— O que é que você fez?</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha só&#8230; não é que o velho tem uns segredinhos, chefe!</p>
<p style="text-align: justify;">— Que truque foi aquele?</p>
<p style="text-align: justify;">— <em>Saiba</em> que há muito mais força na mente de um homem do que em seus punhos.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que é&#8230; que foi aquilo!?</p>
<p style="text-align: justify;">— É a &#8216;Arte&#8217;, chefe. O velho aí não é bom só de espada.</p>
<p style="text-align: justify;">— Que porra de arte?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não é arte. É &#8216;Arte&#8217;. Mas este não é o momento adequado. — merda. Ele tem razão. Só me resta respirar e interrogá-lo na primeira oportunidade. Mas com quantos diabos que eu tenho certeza de ter visto este velho alquebrado jogar longe três miseráveis com a força do pensamento, ou seja lá de onde tira essa força, se é do cu, ou se é do pensamento. Esse cara&#8230; faz milagres, eu sei lá. Que palavra será possível pra esse tipo de coisa. Foi tudo muito rápido, mas tenho certeza que o velho não chegou nem perto deles, e ainda assim, eles pareciam ter sido atropelados por uma manada inteira. E ninguém. Ninguém! além de mim ficou espantado, deve ser mais comum quanto mijar na vala.</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver e seu bando deixam a viela mercante e finalmente desembocam na República. Uma praça ampla, de muitas árvores altas e antigas, construções envelhecidas e destruições habitadas.]</p>
<p style="text-align: justify;">República. E o velho soprando aqueles três ainda não me sai da cabeça. É. Você mesmo, seu velho; que tipo de truque é esse.</p>
<p style="text-align: justify;">Dane-se. Uma vila; simplesmente isso. Uma vila feita de trapos, de lixo, de ferro-antigo, pedaços inúmeros e muitas árvores escuras. Fora essas árvores, nada parecia inteiriço que não fosse remendado. Mesmo a rua é por cima de lixaria onde se estende uma cortiça, ora um pano grosso remendado, serpenteando pelas árvores. O cheiro é do xorume mais escuro possível, anulando, inclusive, o estranho mau cheiro de velho filho de uma puta que andava ao meu lado. E por mil demônios, que porra foi que esse fez naquela briga? Tsc. Nah. Enfim&#8230; não há nada que conecte a praça habitável da Catedral com esse entulho a céu aberto. Somente ratos e coletores moram aqui. Sempre uns longes dos outros, intocáveis, sorumbáticos e solitários, encostados na lugubridade das árvores ou andando lentamente, como uma procissão de um homem só. Uma classe suja, coberta pelo capuz, talvez para não revelar uma face enfeitada de pecados.</p>
<p style="text-align: justify;">— Que lugar horrível.</p>
<p style="text-align: justify;">— É um lugar safado, isso sim, chefe&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns casebres levantados, mas tão pequenos que devem ser apenas postos avançados. Apenas uma casa reside no meio destas árvores atoladas em lixo: uma casa que está, inclusive, colada à um grande tronco largo, o maior deles talvez. Sobe uma escada até sua porta. Parece ser o único lugar habitável, em que o resto se estende como uma campina, onde ao invés de grama e ramagem, se estenda a maior variedade de lixo que eu já vira — réré, óbvio. Não é de se espantar que tantas árvores estejam mortas, e os esqueletos de suas copas se joguem na paisagem juntando-se ao lixo. Pura madeira podre.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei, chefe. Lembra daquele catapora fora do Mortuário? Aquele carinha nojento de capuz que queria te por pra dentro. Pois muito bem. Ele falou de um tal de Covas. Ele deve estar por aqui, deve saber onde o vagabundo de Essien se encontra.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você não é de todo inútil, sabia, Morte.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu tenho certeza, chefe. Alguém tem que pensar aqui, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">Grande merda, não vou ficar perguntando pra esses canalhas coisas, coisas e mil coisas. O jeito é fingir-se de conhecido. Um perdido é um alvo fácil demais em terra de ratos, e se você quer entrar num buraco de rato, amigo&#8230; de rato você tem que transar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vem cá, meu chapa. Vim recolher o meu com Covas, sabe onde tá o cretino?</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver interpela um sentinela posto em guarda. Ele apenas apontou a direção de um posto avançado. Um dos casebres. Não recebeu qualquer agradecimento.]</p>
<p style="text-align: justify;">Covas. Alto e magricela, me lembra de longe o velho&#8230; este velho filho de uma puta que ainda vai me falar o que é que fez naquela hora. Ah, vai. Pálido, mas de autoridade; esquisito, pois esquálido desse jeito não passa muito a sensação de liderança. Tem a orelha arrancada onde lhe sobrara apenas uma cicatriz que não passa de uma porção disforme de carne. Olhos curtos. Perigosos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Covas&#8230;?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não te conheço, asno. O que você quer? Responda rápido, antes que eu chame alguns caras pra te tirar o canto rapidinho.</p>
<p style="text-align: justify;">— Pora mandou que eu te procurasse.</p>
<p style="text-align: justify;">— Pra que?</p>
<p style="text-align: justify;">— Conhece Essien?</p>
<p style="text-align: justify;">[Silêncio tenso. Covas retoma a palavra.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Veja só, que coisinha curiosa pra sair perguntando, não? O que quer saber do velho camarada Essien?</p>
<p style="text-align: justify;">— Ele roubou a gente, e nós vamos até a cova se precisar pegar de volta.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah, vai caveira? Você, esse retalho de homem e o velho vão atrás de Essien? Rárá! Esse aí nos rouba a todos, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">— Parece que alguém aqui também tem assuntos a tratar com&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Pode apostar que eu tenho, seu merda! Eu e os rapazes aqui tiramos um qualquer levando corpos pro Mortuário. — são coletores, óbvio. — E quanto mais gente fazendo isso, menos grana pra todo mundo, sabe como é. É. É! Essien também vende, acontece que simplesmente do nada o desgraçado achou uma senhora fonte de cadáveres e eu não ouvi falar de nenhum massacre ultimamente em Sigilo. Vocês ouviram rapazes? Porra, que não!</p>
<p style="text-align: justify;">— Posso descobrir o que se passa, se me disser onde o rato está.</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230;por um preço. — a caveira, mais inteligente, e realmente afim de morrer. Só quer me foder.</p>
<p style="text-align: justify;">— Então a caveira quer umas moedas pra quê? Gastar com putas?</p>
<p style="text-align: justify;">— Quem sabe, não, alguém tem que dar algum prazer pra&#8217;quelas belezinhas. Vocês estão ocupados demais trepando com cadáveres.</p>
<p style="text-align: justify;">— Filho da&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei! Ei! É uma caveira, Covas&#8230; você vai mesmo atacar uma&#8230; caveira?</p>
<p style="text-align: justify;">[Covas desvencilha-se do cadáver com fúria e deposita sua faca na mesa, cravada.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Te darei as moedas. Mas honestamente, é só de brincadeira. No primeiro momento que você pisar no território de Essien, ele vai vender você e seus amigos por um bom preço no Mortuário. De qualquer forma, siga a plataforma ali, o sangue aqui vai te levar; vai encontrar um pórtico que leva até a entrada da cova de Essien. Entrar e pegar a informação. Essa sua missão. Se alguém perguntar, você nunca me viu, nem ouviu meu nome e não tivemos essa conversa, está claro?</p>
<p style="text-align: justify;">Está. Filho da puta.</p>
<p style="text-align: justify;">[O sentinela os escolta até a plataforma, que não passa de uma travessa ladeada de ferro, estreita e longa. O trio percorre toda a distância e desemboca em um pórtico de pedra.]</p>
<p style="text-align: justify;">Que será todo esse lixo depositado. Devem ter carrilhos e carrilhos de lixo de toda a cidade sendo despejado aqui, não é possível que um punhado desses fodidos produzam semelhante pilhéria.</p>
<p style="text-align: justify;">— Muita calma nessa hora vocês dois&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— <em>Saiba</em> que não há lugar mais hostil nesta cidade do que a Praça da República.</p>
<p style="text-align: justify;">[O trio ao passar o pórtico, tomando uma curva em cotovelo, desembocam em uma grande construção antiga, destruída, mas ocupante de todo um lado daquela praça.]</p>
<p style="text-align: justify;">Não vai dar certo. Muito mais gente aqui; todos muito mau encarados, alguns tão parecidos com aqueles assaltantes que não duvidarei se não forem os mesmos. Muitos coletores, muita bebida. E eu devo ter ficado desacordado mais tempo que do que o que imaginava naquele bar, já que a tarde vai se morrendo no céu meio cinza. A entrada é ali, só pode ser aqui onde o rato se esconde; mas o rato se cerca de outros muitos ratos antes, o que só vai dificultar a nossa passagem. Segura a espada velho, não crie animosidades. Vamos fingir que estamos de passagem e como se fosse a coisa mais normal do mundo entrar no&#8230; cativeiro deles. É tão óbvio que tudo está parado, que as risadinhas são sobre a minha nuca. Me apontam e o ar torna-se mais pesado por conta de seus olhares. No mínimo uns vinte.</p>
<p style="text-align: justify;">— Chefe do céu&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Morte já treme na sua caixa de ossos. Uma voz.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu&#8230; não te conheço.</p>
<p style="text-align: justify;">Um grisalho, meia-idade. Um coletor.</p>
<p style="text-align: justify;">— Só de passagem&#8230; — mas ele continua me encarando. O bando contrai o ar perto de nós. — Algum problema?</p>
<p style="text-align: justify;">— O problema que vejo aqui, seu asno&#8230; é que cê continua respirando na minha frente. — a cospida no chão. A velha cospida no chão.</p>
<p style="text-align: justify;">— Então eu deixarei a tua presença, asno&#8230; — eaí, amigo. O som é perfeito: ele tirou a faca da cintura.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sei no que tava pensando vindo aqui embaixo, mas o único lugar pra onde cê vai é o Mortuário, seu merda.</p>
<p style="text-align: justify;">E deu merda.</p>
<p style="text-align: justify;">[O trio atacado novamente, mas agora o contingente é muito maior que o anterior. Os vinte e tantos homens pularam pra cima, e pouco tiveram que fazer para domar o trio — pegos de surpresa de todos os lados. A espada humorada até retalhou alguns membros, feriu alguns, afugentou uns quatro; as mordidas e embates da caveira derrubaram ainda uns outros, mas pelo menos uns dez caíram pra cima do cadáver. Ao chão imediatamente. Pontapé de um lado, picadas de outro — daqueles que tinham uma faca. Cusparadas na cara. Socos. Pancadaria covarde com o cadáver já indefeso. Morte mal teve o que fazer. E foi o velho quem socorreu o cadáver espancado. Juntou as mãos — seu robe laranja tremendo sob um vento interno — e delas surge um orbe cromático, que cresce até o tamanho de um pomo gordo. Brilhante, em que estourava um vendaval próprio dentro da esfera e, fora dela, revoluteavam anéis em cores diversas e mutantes. Um pó cósmico parecia circundá-la lentamente. O velho a lançou sobre os quinze e tantos que se debruçavam sobre o cadáver. A esfera atingiu o bando e, como se explodisse, fez com que todos voassem repelidos e queimados pelo ataque. No centro, o cadáver parcialmente morto. Com queimaduras. Desacordado.]</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2708">&lt;&lt; Capítulo IX</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2791">Capítulo XI &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em><br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/04/22/tormenta-9/" target="_self"><em>| imagem por </em></a><em><a href="http://aziznatour.deviantart.com/art/Golden-Orb-60352149?q=boost%3Apopular%20magic%20orb&amp;qo=1" target="_blank">aziznatour</a><strong><br />
</strong></em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://sandubadequeijo.com.br/site/?feed=rss2&amp;p=2725</wfw:commentRss>
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		<item>
		<title>[ Tormenta ] Capítulo IX – “Seu caminho é o meu caminho”</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Apr 2011 15:51:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[distopia]]></category>
		<category><![CDATA[insone]]></category>
		<category><![CDATA[mundo pós apocalíptico]]></category>
		<category><![CDATA[planescape torment]]></category>
		<category><![CDATA[tormenta]]></category>

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		<description><![CDATA[O velho observador, uma fala calculada, cheiro terrível e uma espada curiosa. Um novo caminho.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://sandubadequeijo.com.br/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-9.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2712" title="tormenta-9" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-9.jpg" alt="" width="600" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sensação estranha ouvir a sua voz. Uma sensação que é somatória da calmaria de sua língua aliada à aberração de suas roupas coloridas, do nariz aquilino ao cheiro imundo que exala — não que eu esteja mais limpo que esse diabo, não, não sou nenhum <em>davene</em>, mas o malcheiro que tenho é o mesmo que fede em qualquer outro cidadão que não se banha por muito tempo. Já este aqui fede de um jeito totalmente diferente e é curioso como o malcheiro é tão genérico, que basta federem de uma forma distinta que nos sentimos confusos e atraídos, onde antes o comum é tornar-se arredio e repelido. Mas é a sua espada e o modo como ela mimetiza suas expressões, principalmente as do olhar, que me desesperam de curiosidade. É como se ela tivesse um líquido lento e denso feito lava que se movimenta dentro da lâmina, sempre no ritmo de seu humor. E os olhos oscilantes. Ora vivos. Ora como carvão. Mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8216;Salve&#8217;. — falo como um idiota e a culpa é toda da bebida.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você&#8230; eu não <em>conheço</em>. Carrega o peso nos olhos de quem viajou muito longe para estar aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Seus olhos me revisam antes de responder. Mas não é uma simples resposta dada com naturalidade, pois está carregada de uma indagação toda particular de alguém que por algum motivo não possa fazer perguntas sem que lhe permitam, e as esconde em afirmativas tão vacilantes quanto bobas. E estou tão certo sobre isso que seu semblante se contrai, a lâmina de sua espada move-se com mais sutileza, quase temerosa. Mas a mente que formula essas teorias em minha cabeça não parece ser a mesma que, tonta, alivia as rédeas da língua — cuja traição é, para os olhos de um ouvinte especial, até patética já que nela reside a única real preocupação a que devo me alertar.<span id="more-2708"></span></p>
<p style="text-align: justify;">— Eu mesmo não me conheço. — posso sentir a graça de um sorriso dolorido que já se deposita de um tempo na minha boca.</p>
<p style="text-align: justify;">— Para um andarilho, isto vem para o melhor: ao <em>conhecer </em>a si mesmo, pouco no Mundo resta que valha a pena <em>conhecer</em>. — silêncio. Ele não parece acreditar muito no que diz. E diz tudo com lentidão e dicção perfeita em cada vírgula utilizada. — <em>Saberei </em>por que veio a esta cidade. — uma afirmativa.</p>
<p style="text-align: justify;">— Respostas&#8230; Como, por exemplo: o que é você? Não parece normal&#8230; — não quero ofendê-lo, apenas ser franco.</p>
<p style="text-align: justify;">— <em>Saiba </em>que são consequências de uma vida de muita batalha.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você fala estranho. E por que &#8216;tava me encarando?</p>
<p style="text-align: justify;">— Cada palavra que digo, digo com o certo sentido que ela precisa ser dita. Acredito na mente e na força que ela pode exercer. — ele pausa, me olha; vai responder, é um safado. Fácil de ler. — Não te encarava. Apenas meus olhos estavam apontados na sua direção.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você não parece normal&#8230; — vaticinou o imortal.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não lhe interessa <em>saber </em>mais do que isso. <em>Saiba </em>apenas que venho de um povo que <em>sabe </em>forjar e dar forma à matéria onde vivemos com as nossas mentes. Forjamos cidades inteiras apenas com nossos pensamentos. — ou ele está mais embriagado do que eu, e o fato de ficar me olhando sem me ver até joga a favor dessa teoria, ou então realmente, nesta noite, está além da minha compreensão. É interessante fingir que ele realmente pode fazer as coisas com o poder da cabeça e se eu estivesse mais sóbrio, poderia aproveitar melhor o conhecimento deste velhaco. Mas no momento, mais absorto em pensamentos do que afiado em perguntar, dou justamente vazão para que o fluxo prateado da mente escorra sem piedade. E isso é um erro, pois o fluxo prateado não segue lógica alguma e pode desviar-se por completo do que, até segundos antes, nos era a coisa mais importante do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que é essa sua espada que não para de se mexer?</p>
<p style="text-align: justify;">— É uma &#8216;<em>karach</em>&#8216;. — &#8216;Cararr&#8217;: a pronúncia termina em um gutural, um ronronar de gato, uma derrapada de érres abafada, ou qualquer coisa parecida. Notoriamente de uma língua que não a minha.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ela é feita de um metal estranho&#8230; é quase hipnótico o jeito que ela se movimenta. — ele silencia, como se procurando as palavras corretas dentro de sua cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">— Em sua língua, a tradução mais próxima seria a &#8216;substância do caos&#8217;. Podemos dar forma à ela com nossos pensamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hum-hum&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8216;Karach&#8217; não é forjada por fogo, mas pelo <em>conhecimento</em> de si mesmo. É um espelho que reflete a força de vontade de seu dono em sua superfície e em sua lâmina. Quando o dono <em>conhece</em> a si mesmo, a lâmina é mais forte e dura que o aço. Quando ele não <em>conhece</em>&#8216;a si mesmo, a lâmina é como água — sem forma e fraca. — tão lento falando.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você parece se preocupar demais em &#8216;conhecer&#8217;, o &#8216;conhecido&#8217; o &#8216;conhecimento&#8217;&#8230; O que&#8230; O que quer dizer com isso? — existe um sorriso em meu rosto que é pura criação de um desentendimento genuíno somada à impressão de que estamos sendo alvo de alguma chacota. Aí sorrimos, como um escudo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Todas as coisas, seja uma estrutura ou a carne — as suas existências são definidas pelo <em>conhecimento</em> de si mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">— E se um homem&#8230; não &#8216;conhece&#8217; a si mesmo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Quando um homem não <em>conhece</em> a si mesmo ele está quebrado, dividido, inválido. Quando a mente está rachada, o homem está dividido. E quando um homem está dividido, tudo aquilo que toca estará com falhas, com imperfeições. É dito que o que o homem falho vê, suas mãos quebram.</p>
<p style="text-align: justify;">Me olha com esse olho de carvão preto líquido e tudo que eu quero é socar seu nariz. Quebrá-lo e então levantar, ainda meio bambo por conta da bebida e da força repentina dispendida, sentar no lugar de antes e pedir uma outra coisa qualquer com a finalidade única de desmaiar e acordar somente quando já me lembrasse de tudo o mais. Mas não quebrei seu nariz. Seu olho de carvão preto líquido oscila, é verdade, mas ele continua na minha frente; agora recostado com menos tensão na cadeira, em que antes eu não havia observado seu estado de atenção com a minha presença. Serviu-nos o garçom ainda pelas duas horas que ficamos ali apenas em silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">[Uma algazarra toma parte no banheiro ao lado da mesa.]</p>
<p style="text-align: justify;">Que será que fazem com o pobre coitado, réré. Veja só este diabo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não! Não, por favor, não! Me deixem em paz, aie! A porta não! A porta não!!!</p>
<p style="text-align: justify;">— Ora, vamos Alex, uma portinha de nada. É só passar pro outro lado e voltar, rárárá!</p>
<p style="text-align: justify;">O vagabundo tem medo de passar pela porta. Nada mais verei neste mundo que poderá equiparar-se à esta patética fobia, e falo no sentido mais idiota de todos. Empurrem logo esse diabo para vermos como chora feito criança. Que será&#8230; como entender o homem que tem medo de uma porta. Não, minto. Não é nem uma porta, é apenas a moldura. Ele simplesmente tem medo do batente, pelos céus. Ei, o que é que Morte faz ali.</p>
<p style="text-align: justify;">— Arruaceiro de merda.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era ele? Não posso confundí-lo com qualquer outro. Sumiu o demônio. E esse outro&#8230; o que a bebida não faz com um homem, de que natureza vem este medo que o álcool apenas o rememora, ou amplifica, ou, muito pior, o trai ao permitir que a língua espalhe pelo balcão seu medo mais íntimo. E os outros, não são culpados, pois também bebem, não resistem à risada e à chacota de um medo tão bobo. E então lá estão eles. Empurrando, rindo, blasfemando e xingando apenas para que o homem atravesse uma porta. Nada mais. Simples. Para todos os outros, coisa banal. Para ele, o medo mais íntimo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Olhe pra isso&#8230; Como é que pode.</p>
<p style="text-align: justify;">[Os ébrios desistem da prenda e o prisioneiro larga-se no desespero mal contendo-se de pé. Cai na mesa do cadáver.]</p>
<p style="text-align: justify;">— As portas&#8230; — soluça. — As portas. Não atravesse as portas. Vão te levar pra outro lugar, pra lugares terríveis. Não dá pra confiar em porta nenhuma. Você entra no banheiro e cai no inferno, passa pra cozinha e está no interior, nem as janelas, nem os alçapões, fique longe, fique longe! E pior! Tem as que nunca vemos, não podemos ver, mas estão lá, no meio do ar, no meio do ar! Estão lá! Você atravessa e nem percebe e quando percebe não está mais lá, está em outro lugar, está longe, está sozinho, perdido, não sabe voltar. Cuidado com as portas. A cidade está louca, não passe pelas portas! Cada pedacinho de ar é uma porta. Cuidado! Elas se movem, elas mudam toda hora, desaparecem!!!</p>
<p style="text-align: justify;">— Sai daqui&#8230; seu cão! Sai! Veja que diabo&#8230; veja se pode.</p>
<p style="text-align: justify;">— Alex tem medo de portas e portais.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não me diga&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— É dito que esta é a Cidade das Portas, cada fronteira, cada porta, pode te levar a lugares completamente distintos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você tá me dizendo que acredita nesse maluco?</p>
<p style="text-align: justify;">— Apenas disse o que é dito sobre a cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">— E o que é essa cidade?</p>
<p style="text-align: justify;">— É <em>conhecida</em> como Sigilo, mas já foi nome de santo, de Colmeia. Bem ainda a chamam assim. Entre aqueles que são como eu, é <em>conhecida</em> como a cidade que não <em>conhece</em> a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Lá vem você de novo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Curioso que seja Sigilo, no entanto. Si-gilo. Segredo. Algo assim, até onde minha memória remonta o significativo da palavra. Será possível que tem relação? Deve ter. O velho passou o resto da meia-hora falando de Sigilo mesmo assim. O papo: a cidade não se conhece e então está quebrada, existe sem querer existir. Dividiu-se do mundo e ainda assim parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Eu não precisaria estar limpo de bar para cercar de loucuras tudo que me diz, e na situação atual só consigo demonstrar um sorriso tonto, mas ele não parece ligar quase nada ao meu fingido desinteresse. Somente no acento de minha expressão ele deriva todas as perguntas de minha mente. Em suma me diz frase a frase, na sua mais precisa sonolência que esta cidade é construída de portais, ou de portas — cada hora ele diz uma coisa, mas o sentido parece ser o mesmo. E diz que elas estão em todos os lugares da cidade, por toda a parte mesmo. Pff.</p>
<p style="text-align: justify;">— Imagine a porta deste banheiro. Remova a porta. A moldura permanece, o espaço que ali sobra continua sendo uma porta.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você tá concordando com o louco.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tento entender de onde vem tanto medo. Deve ter-lhe acontecido algo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu te digo o que aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver bebe e oferece ao velho um gole.]</p>
<p style="text-align: justify;">Prove! Quero que prove, mas não tenho nada além de preguiça na cabeça pra lhe pedir qualquer teste de veracidade — não que a história toda não seja interessante, muito pelo contrário: é justamente a preguiça de cortar o meu fluxo de pensamento acerca daquilo que me falou até então o motivo pelo qual não testei sua verdade. Melhor assim. Ele está mais à vontade, prefiro assim, mais excitado do que travado. Tome mais uma, velho. Dê uminha pra espada também, quem sabe. Mas, sabe&#8230; Talvez.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tudo que me diz é muito bonito. Mas&#8230; e se a cidade &#8216;não&#8217; está falha, dividida, rachada, quebrada como diz? Uma coisa não precisa estar em ordem e ter um propósito para conhecer a si mesma. E se essas contradições forem justamente as forças da cidade que você não pode ver?</p>
<p style="text-align: justify;">— À sua pergunta, uma outra: e se a cidade é falha, e você vê essas contradições ao &#8216;seu&#8217; redor?</p>
<p style="text-align: justify;">— À &#8216;sua&#8217; pergunta, uma pergunta: você diz que a existência desta cidade é falha. Você aceitou isso ao invés de explorar a possibilidade de que algo maior possa existir. Que sugere que você é um homem falho&#8230; e que não procura por conhecimento, mas por uma resposta conveniente.</p>
<p style="text-align: justify;">[Ele silencia.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Não há&#8230; respostas para o que perguntamos aqui. Ainda assim, a cidade existe. Isto é tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ainda assim, mantenho que &#8216;conhecemos&#8217; a nós mesmos pelos questionamentos que fazemos e pelos que não fazemos. Se pararmos de fazer perguntas e aceitar apenas o que sentimos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230; então não mais <em>conheceremos</em> a nós mesmos. — Seu olhar morre um pouco ao chegar à minha conclusão. Mas essa morte repentina de seu olhar não se opera como antes, em que se assemelhava a um animal que de fato agonizava, mas muito pelo contrário, agora é como um animal que se redescobre e a falta de movimento de seu olho é justamente o momento breve em que sua visão aguarda a movimentação calcificante de sua mente petrificando aquele momento. — Estas palavras já foram ditas anteriormente. Eu as <em>conhecia</em> como as <em>conheço</em> agora. — aquela pedra branca de gelo no estômago estoura novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">— Onde as ouviu?</p>
<p style="text-align: justify;">— As palavras são minhas. De um tempo anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">— Bom que as relembre&#8230; Aqui a você.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver bebe em memória do velho e levanta-se.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Nada mais há pra ser dito, me embriagou demais com sua conversa, velho. Não reclamo, mas já me demoro.</p>
<p style="text-align: justify;">— Muitas das palavras aqui ditas eu mesmo as havia esquecido. Já as <em>conheci</em> antes e tinha o <em>conhecimento</em> do que significavam. E muitas só me recordei ao conversar com você, sicário&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">[O velho aperta a empunhadora de sua espada.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Tomarei o teu caminho. — o velho quer vir comigo. Carente. Cacete.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu aceito. — e só posso estar louco, como se verá muito mais pra frente em que me odiarei tê-lo aceito naquela noite sigilosa. — Uma espada não vem nada mal a calhar. — ele parece sorrir, mas só parece, talvez não seja um sorriso.</p>
<p style="text-align: justify;">— O seu caminho é o meu caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Um eco distante, como se tivesse falado de fato de uma distância muito longínqua, e ainda aqui à minha frente. E daqui pra frente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Bruno Portella</strong></em></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2674">&lt;&lt; Capítulo VIII</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2725">Capítulo X &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>[ Quente ] Kínesis na Paulista para paulistano ver</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 11:51:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quentes]]></category>
		<category><![CDATA[casa das rosas]]></category>
		<category><![CDATA[grupo sensus]]></category>
		<category><![CDATA[kinema]]></category>
		<category><![CDATA[kinema2]]></category>
		<category><![CDATA[thereza piffer]]></category>
		<category><![CDATA[virada cultural]]></category>

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		<description><![CDATA[Errata: o espetáculo Kinema2 tem seu nome mudado para Kínesis. No final do post, o novo flyer do grupo. O Grupo Sensus, aquele de quem eu falo tanto por aqui, finalizou sua temporada no intimista Del Gusta com sua performance Kinema, que levava literatura para dentro da cachola dos que se aventuravam em suas tendas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2688" title="kinema_2" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/kinema_2.jpg" alt="" width="600" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Errata: o espetáculo Kinema2 tem seu nome mudado para Kínesis. No final do post, o novo flyer do grupo.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O Grupo Sensus, aquele de quem eu falo tanto por aqui, finalizou sua temporada no intimista Del Gusta com sua performance Kinema, que levava literatura para dentro da cachola dos que se aventuravam em suas tendas. Aliada à falta da visão e as inesperadas guinadas de cada passo vi o grupo trazer sorriso para os mais diversos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">E pra quem não pode conferir o trabalho maravilhoso do grupo, tem uma chance ainda mais interessante a partir do dia seis de Maio. A estreia de Kínesis, a sequência do primeiro espetáculo, será abrigado na belíssima Casa das Rosas, no coração da Paulista, pertinho do gargalo e tão distinta do resto da avenida.</p>
<p style="text-align: justify;">Renovando seus textos e suas performances, o grupo apresenta a sequência do primeiro Kinema e é uma ótima escolha pra quem ainda não conhece o grupo (sempre é uma ótima escolha) e pra quem já cansou de ir (eu, por exemplo).</p>
<p style="text-align: justify;">Vale demais conferir o grupo nesse espaço maravilhoso!<span id="more-2687"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Release:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Kínesis, textos de Leonardo da Vinci, Dante Alighieri, Juliano Hollivier  entre outros.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Novos poemas e com um trajeto modificado, a sequencia KÍNESIS dessa vez convida os espectadores a percorrer uma instalação sensorial dentro do Casarão conduzido pelos personagens que os estimulam sensorialmente através do tato, olfato, audição e paladar. O espectador é vendado na entrada. Com o Grupo SENSUS. Dir. Thereza Pìffer.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>CASA DAS ROSAS Sex, 19h, 20h e 21h. R$40 (inteira) R$ 20,00 (meia) livre. Estréia 06/05.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>CASA DAS ROSAS Av. Paulista, 37 &#8211; Bela Vista &#8211; SP &#8211; Tel.  3285.6986 / 3288.9447 / 6034.1600. Metrô Brigadeiro.<br />
Bilhet. sex, 18h.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>SOBRE A PERFORMANCE </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>KÍNESIS² &#8211; Sobre o movimento, o tempo e alguns recomeços&#8230;.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Porque tudo que começa, começa se movendo.  Movimento é ação, aprendizado, mudança, representação e reestruturação.  O Grupo SENSUS em Kinema, propõe essa temática à medida que percebe que o homem contemporâneo precisa cada vez mais se mover de forma mais ampla. A harmonia com os outros seres e o coletivo e em direção às suas vontades e ambições particulares em cada segundo de sua experiência na vida. Kinema é para que as pessoas literalmente, se dêem ao trabalho de prestar atenção, com calma e discernimento naquilo que fazem pois muito movimento gera confusão, caos.<br />
Pouco ou nenhum, gera acomodação e desistência.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>É preciso que as coisas estejam em harmonia. Hoje, o homem em si, é um “acidente ambulante” , sob a ilusão de uma vida regrada com movimentos de horários, afazeres e compromissos, cada um vive internamente uma completa desordem, sem saber ao certo o que fazer, o que fazer primeiro, ou o que fazer depois. A vida humana tem sido um acidente pelo qual estamos nos movendo, ou sendo movidos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> Esta performance, mais do que contemplar essa harmonia, irá atentar para o quanto faz diferença tê-la sempre.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Como é característico na maioria dos trabalhos do SENSUS, logo na entrada do espetáculo, o público é vendado e convidado a percorrer um trajeto conduzido pelos atores que, além de guiá-los, interpretam textos e os estimulam sensorialmente através do tato, olfato, audição e paladar, e interpretando a obra literária de Leonardo da Vinci, Dante Alighieri e Juliano Hollivier.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Um espetáculo que permanece “acontecendo” por três horas, permitindo que o público tenha liberdade de entrar na hora que desejar de maneira ininterrupta.<br />
Kinema é movimento&#8230;&#8221;</em></p>
<p style="text-align: center;"><em><img class="aligncenter" title="Kinesis" src="http://1.bp.blogspot.com/-RYUp--Qop_s/Ta2IOMpljrI/AAAAAAAABKI/LB6TGHpTuTY/s1600/GRUPO%2BSENSUS_CONVIDA_K%25C3%258DNESIS_FLYER_WEB_02.jpg" alt="" width="570" height="382" /></em></p>
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		<title>[ Filme ] O filme dos mochileiros da galáxia</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Apr 2011 11:42:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Calixto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[42]]></category>
		<category><![CDATA[don't panic]]></category>
		<category><![CDATA[douglas adams]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[guia do mochileiro das galáxias]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha de Bruno Calixto da adaptação do livro o Guia do Mochileiro das Galáxias!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2696" title="guia-destaque" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/guia-destaque.jpg" alt="" width="600" height="240" /></p>
<p style="text-align: justify;">O &#8220;Guia do mochileiro das galáxias&#8221; é um dos livros mais divertidos que já li. Por isso, fiquei contente quando, esses dias, vi que estava passando uma adaptação da obra na TV a cabo. Para falar a verdade, eu nem sabia que existia uma adaptação para o cinema &#8211; aparentemente há mais de uma. A que eu vi é de 2005.</p>
<p style="text-align: justify;">Para quem não conhece, o &#8220;Guia&#8230;&#8221; é um livro inglês, escrito por Douglas Adams. Era inicialmente uma série, em capítulos, na rádio BBC, e se tornou um best seller quando publicado em livro, em 1984. O &#8220;Guia&#8230;&#8221; conta a história de um humano (Artur Dent) que descobre que a Terra está prestes a ser destruída e que seu melhor amigo é um alienígena que viaja entre diversos mundos escrevendo o Guia do mochileiro das galáxias, o livro mais vendido do universo.<span id="more-2695"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A graça do livro &#8211; do filme também &#8211; não são os alienígenas ou viagens espaciais ou a &#8216;ficção científica&#8217; propriamente dita, mas o humor sarcástico da narrativa. Como quando descobrimos que a única função do &#8220;presidente da galáxia&#8221; é atrair a atenção para que as pessoas não saibam quem realmente tem poder, ou quando o alienígena que visita a Terra adota o nome de Ford, porque pensa que os carros são a forma dominante de vida no planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme não é 100% fiel ao texto do livro. Algumas cenas simplesmente foram inventadas, não existiam na história original, como em um trecho da história que se passa no planeta dos alienígenas &#8220;burocráticos&#8221;, os Vongons. Mas bem se vê que aquelas cenas não estão ali de graça, mas servem para ressaltar, ironicamente, é claro, a burocracia desses alienígenas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode desagradar fãs, e de certa forma o filme é realmente mais fraco que o livro. Por outro lado, essas mudanças não farão diferença para quem quer apenas assistir uma história e se divertir. Aliás, nesse ponto a novas cenas até fazem mais sentido, e nós sabemos que é impossível adaptar um livro para o filme e ser totalmente fiel à história.</p>
<p style="text-align: justify;">De resto, está tudo lá: os ratos e os golfinhos, a resposta definitiva para o sentido da vida, do universo e tudo mais (quarenta e dois!), e até o Marvin, o robô maníaco depressivo. Que, nesta adaptação, está baixinho e redondo, parecendo um simpático robozinho japonês.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, o filme não vai mudar a sua vida &#8211; a não ser que você conheça a pergunta definitiva para a resposta da vida, o universo e tudo o mais, é claro. Mas é bem superior a maioria das comédias que vi recentemente, é divertido, e rende alguma risada e reflexão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Calixto</em></strong></p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo VIII – O velho no fundo do bar</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2011 11:30:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
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		<category><![CDATA[mundo pós apocalíptico]]></category>
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		<category><![CDATA[tormenta]]></category>

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		<description><![CDATA[Após ser escorraçado por sombras, Insone se entrega à bebida. E ao bar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-2677" title="tormenta-8" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-8.jpg" alt="" width="600" height="381" /></p>
<p style="text-align: justify;">A fala aborrecida, tediosa e robótica de uma mulher interfere na minha observação minuciosa do tormento daquele homem. O fogo é tão forte que distorce o ar em redor; faíscas saltam dele e da grelha, principalmente nos momentos dispersos em que se contorce de dor. — Esses infelizes adoram ver as pessoas sofrerem, e vêm aqui somente para observá-lo pegar fogo. — a vagabunda parece reclamar de minha própria admiração. E na minha própria cara. Aí eu torço o pescoço das pessoas, e elas ficam putas.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você parece conhecer o demônio. — seu olho lasca e aí eu tenho certeza que conhece.</p>
<p style="text-align: justify;">— Humph. É Ígnus. Um dos maiores que já vieram pra esse cu de lugar. Ninguém sabe por que não para de queimar. Uns dizem que foi pego por seres realmente estranhos e que lhe abriram uma passagem no próprio corpo para o plano elemental do fogo, mas isso é besteira, crendice desse povo&#8230; Ele está vivo por forças próprias unicamente, nem a merda do oceano inteiro seria capaz de abrandar-lhe as chamas.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você&#8230;<span id="more-2674"></span></p>
<p style="text-align: justify;">— Fui sua mulher. Sua amante. Mas ele adorava mesmo era sua &#8216;Arte&#8217; mais do que a mim&#8230; e agora ele está aí, consumido por sua própria paixão, suponho eu.</p>
<p style="text-align: justify;">Está muito bem. Ela não fala comigo, fala consigo mesmo. Tanto que mal repara se eu largo ela ou não falando sozinha — fica ali olhando como quem não trepa há muito tempo. Não a culpo, provavelmente uma pessoa normal e sem amnésia lhe dedique apenas um ou dois segundos de atenção para então lhe pedir qualquer coisa, ou passar a mão em sua calcinha — e na frente do homem, meu céu, não é à toa que ele se debate tanto. E Morte. Onde foi parar essa caveira?</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver, por ora só, caminha um pouco perdido pelo bar. Decide sentar no balcão.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Hei, olha só quem está aqui. Rá! Não acredito que voltou. O qui é que cê quer desta vez? — A noite é pesada; então o reconhecimento, que talvez no começo dela soasse interessante, no preciso momento apenas me cansa. O bicho tentou demonstrar alguma graça quando somente lhe queimavam os olhos de raiva. Sem se entregar, Insone. Sem. Se. En. Tre. Gar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem, vim pagar uma visita&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Uma visita!? Rá. Você vem aqui, toma todas, quebra meu bar inteiro na pancadaria, deixa uma pilha de moedas ridículas, um olho nojento como pagamento e 15 anos depois me aparece pra &#8216;pagar uma visita&#8217;? — O que dizer pra esse gordo? Que estou feliz em revê-lo? Besteira. Penso enquanto formulo algo pra falar, pois pouco sei o que dizer, na realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">— Nada como suas bebidas, cadáver&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Cadáver!? Rárá. Cá entre nós, você já se parecia com um zumbi naquela época, hoje então, até o Posto está melhor que você. Sabe? Aquele &#8216;um&#8217; lá que fica paradão com uns recados colados? Rárá! O Posto! Tá melhor que você, sicário. — E todos riem. De mim. Mas acho graça.</p>
<p style="text-align: justify;">— E esse olho aí que falou. Deixa de ser mentiroso, eu nunca te deixei olho nenhum.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah não!? — ele quase some na altura do balcão, mas reaparece logo em seguida: uma cumbuca e um globo ocular flutuando lá dentro, em conserva já suja — o líquido denso e escuro. A espinha esfria. Pelos demônios todos que aquele, sinto apenas, é o meu próprio olho.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu próprio olho, repito mentalmente. Tenho certeza disso. Como, eu jamais saberei; este já é outro problema. Mas está ali, em líquido escuro e denso, o meu próprio olho — isso somente atrapalha e me confunde. Se tenho um olho flutuando ali à minha frente, que dois são esses que tenho no rosto. Chego ao absurdo de conferir, disfarçando, se tenho mesmo os olhos debaixo da pálpebra. Positivo que tenho.</p>
<p style="text-align: justify;">— E vai me devolver o presente, ou costuma usar nos temperos daqui?</p>
<p style="text-align: justify;">— Cinco mil reales, meu querido.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sei nem quanto é isso. Pode continuar usando ele nos seus temperos. Alô, você. Sim, você aí com o sanduba. Sabe o que esse homem usou aí? Dá uma olhada nesse olho em conserva. Gostoso, né?</p>
<p style="text-align: justify;">— Seu filho de uma puta, não vá espalhando boatos por aí, seu cretino.</p>
<p style="text-align: justify;">— O olho.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cinco mil.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tenho uma faca. Vale quase isso. — e se valesse, os Sorumbatas estariam ricos. Ele riu.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tire essa piada da minha frente.</p>
<p style="text-align: justify;">— É um &#8216;olho&#8217;, seu demente. Vai fazer o que com um olho? Esperar mais 15 anos pra eu voltar e tentar comprá-lo com uma colher? Dê pra cá essa merda.</p>
<p style="text-align: justify;">Sou convincente, pois o barman titubeia. Me olha com esse olho bravio e vencido. Tira a mão da cumbuca, mas saca um martelinho de carne, daqueles de amaciar o mion; quebra o vidro e o líquido se espalha na mesa deixando o olho ali, exposto.</p>
<p style="text-align: justify;">— Pegue seu olho e saia da minha frente!</p>
<p style="text-align: justify;">O cheiro acre me dá náuseas.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver, somado ao olho, vai ao banheiro. Curiosamente distinto como toilette no letreiro.]</p>
<p style="text-align: justify;">Não errei uma curva. A memória é realmente impressionante como nos guarda coisas triviais que o corpo atende como se nada houvesse acontecido — como se eu não tivesse morrido milhares de vezes. O olho na palma da mão. O instinto age: a mão direto no olho direito, e o olho direito direto na mão: arrancado à força. A dor não calculada é incalvulável. O sangue lava a louça branca do banheiro. O instinto coloca o olho em conserva em minha órbita vazia, e posso sentir perfeitamente as conexões neurais e físicas construindo-se novamente, costurando as veias e as fontes do olho. E então, tudo escurece.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Um vasto e extenso campo se retorce sobre mim. Um grupo de predadoras humanóides negras, ou apenas sombras, me golpeiam em fúria. E então, três inimigos movem-se na minha direção; num piscar observo minha mão em cicatrizes e sei que os três morrerão em sangue. Um Anjo&#8230; e a imagem morre.</p>
<p style="text-align: justify;">No susto, os olhos se abrem outra vez. O rosto molhado em sangue. A cabeça latejando em uma dor de cabeça realmente cretina. Que ideia a minha de trocar os olhos. Melhor que isso vá para o lixo.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver, de olho novo, limpo até onde podia, retorna ao bar e senta-se longe do balcão.]</p>
<p style="text-align: justify;">Não é a primeira vez que sou assaltado por visões. E todas remanescentes de alguma coisa passada, que já toquei, que já estive. Um olho, uma sombra, um fantasma. É como se cacos de memória povoassem minha mente, cada caco tem um ímã particular. E quando em contato com estes ímãs, eles puxam esse pedaço ridículo da memória à superfície. Respiro. Respirar me faz bem.</p>
<p style="text-align: justify;">E Morte, onde será que se meteu? Passar a noite por aqui seria realmente algo a se considerar, mas se o dono for o homem que me guardou o olho por 15 anos, então pouca ou nenhuma chance eu tenho de conseguir uma cama. Melhor que eu encoste aqui e descanse do que pedir um travesseiro ao vagabundo; o que me chama a atenção nesse lugar são os tipos apressados. Essa espelunca está lotada, e o que tem de puta fazendo clientela não tá escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ora, vejam se você não é algo interessante, caro. Nunca vi tanta cicatriz cobrir um tipo tal, como elas te cobrem. Por onde tem se metido — andou se esfregando em agulhas!? — sua risada louca e divertida. — Oh, qué isso. Estou só trolando, rapaz, sem ofensa querida e espero que sem ofensa sentida. Sou Ebb.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua mão gorda e grossa na minha direção e, afinal de contas, por que não? Tem humor, parece um bom tipo. É velho e carrega uma barba hirsuta e toda grisalha de tempo. Está vestido com o que parece ser uma armadura um pouco tosca, feita de couro duro e pouca coisa metálica; na mesa em que se senta com outro demônio, um elmo-diadema. Fuma um cachimbo e carrega na cintura uma caixa de tabaco. Compleição fortíssima, está aqui um homem que deve dar trabalho numa luta.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sou do tipo que se ofende facilmente. Pelo menos não mais.</p>
<p style="text-align: justify;">— Está feito. Mas diante da brincadeira, o que acha se eu lhe pagar um quarto de bebida?</p>
<p style="text-align: justify;">— Por que não, não é?</p>
<p style="text-align: justify;">Ao lado desse diabo, um fantasma. De cara você nem percebe, ele está ali normalmente, joga uma coisa ou outra na conversa, mas pouco tempo se passa até que reparo que o tonel de cerveja atrás dele pode ser visto por sua cabeça, bem levemente, mas tem algo faltando nesse cara, literalmente. Tem a aparência leve, sem trocadilhos, e um olhar distante e gentil. Carrega pelo corpo toda sorte de quinquilharias como se fosse um escoteiro da floresta, sempre preparado, cordas, pregos, pequenos frascos. Respondeu-me, pois:</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu acabo de retornar da negação, e estou tentando restaurar a minha essência antes que ela se separe de mim de uma vez. — diante de minha face de curiosidade e falta de qualquer compreensão, o grande beberrão olhou divertido na direção do homem e apenas comentou que eu era novo na cidade. Ele continuo sua narrativa. — Viajei fundo para descobrir a minha verdadeira essência. Cometi o erro de visitar o mais profundo dos lugares, um plano negativo, para compreender essa ânsia de se decompor de meu corpo e o ciclo da morte dentro da vida. Pensei que estivesse protegido contra os efeitos doentios, mas estava errado. A escuridão do infinito nada pressionou minha alma com força, e fui atacado por sombras que procuravam tão somente me separar dela. Perdi-me por um tempo — uma eternidade — e por pouco não perdi a minha existência. Pude sentir minha essência fluir para longe de mim, e mesmo agora estou parcialmente completo. Nunca serei mais completo.</p>
<p style="text-align: justify;">— E como sobreviveu?</p>
<p style="text-align: justify;">— Como sobrevivi? — sorri. — Com um pedaço de nada que afastava o vazio. O nada pode parar o nada, você sabe, e então carreguei nada em minha mão para me proteger. Planeja viajar para a máxima negação você mesmo? Você tem o perfume do desespero em você, e por isso te garanto este presente. Segure foret em sua mão quando as sombras aparecerem, deverá proteger você e os seus amigos de alguma forma, se estiverem perto de você.</p>
<p style="text-align: justify;">A insígnea não carrega dimensionalidade alguma e não reflete a luz de forma nenhuma, é apenas um disco negro que parece sugar toda e qualquer fonte de luz, incapaz de tocarem-lhe a superfície. O presente vem um pouco tarde, faria muito bem algumas horas atrás, não?</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">A cabeça até raciocina direito as ideias, é apenas a ordem dela à língua que chega mais bamba, e falar torna-se engraçado ao mesmo tempo que desafiador. Não somente essa ligação falha entre cérebro e boca me causa o álcool, mas o órgão censor também, talvez, tira um cochilo no éter. De cara. Ponho isto, pois meus olhos, a que julguei traidores no evento das sombras, me atenta para um homem que me olha tentando disfarçar seu embaraço em me encarar — a quinta cerveja, termino eu esvaziando a caneca. Vou ter com esse diabo. Que será que tanto me olha?</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver se levanta, atravessa o bar e senta-se frente ao homem observador.]</p>
<p style="text-align: justify;">É um &#8216;velho&#8217;. Sua pele é seca e de tom doentio, parece que não descansa muito, tem algumas cicatrizes por aí — não tantas como eu, claro. Tem o rosto oblongo e angular, careca e brincos na orelha. Veste-se em laranja sujo e tenho, sinceramente, vontade de vomitar em cima dele. Mas o mais estranho de tudo é a&#8230; a espada que ele carrega cruzada nas costas. Não há bainha e sua lâmina brilha de forma peculiar, como se refletisse um certo tipo de luz que inexiste no bar, ou até mesmo que emita sua própria luz. A superfície da lâmina de metal parece uma folha de óleo em tanque. Eternamente em movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">[O homem observa o cadáver.]</p>
<p style="text-align: justify;">E esse olho opaco que parece carvão. Será possível que é cego? Seu olho não parece transmitir nada além de imbecilidade. E sua espada parou o movimento que tinha e tornou-se tão morta quanto seu olhar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você&#8230; tá bem? — não diz nada, mas seus olhos me procuram.</p>
<p style="text-align: justify;">— Salve&#8230; andarilho. — a voz quieta e sombria, como o sopro do vento entre galhos de uma árvore. Aqui um tipo safado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2648">&lt;&lt;   Capítulo VII</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2708">Capítulo IX   &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><em></em>| imagem de <a href="http://wandermedia.deviantart.com/art/Eyeball-148627427?q=boost%3Apopular%20eyeball&amp;qo=120" target="_blank">~wandermedia</a></em></p>
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		<item>
		<title>[ Livro ] O casamento canopeano</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 15:27:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dentro dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[canopeano]]></category>
		<category><![CDATA[canopus]]></category>
		<category><![CDATA[canopus in argos: arquivos]]></category>
		<category><![CDATA[doris lessing]]></category>
		<category><![CDATA[fábula]]></category>
		<category><![CDATA[império galático]]></category>
		<category><![CDATA[literatura inglesa]]></category>
		<category><![CDATA[os casamentos entre as zonas 3 4 5]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha minha do segundo livro da série Canopus in Argos: Arquivos. A maior de todas!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/wp-content/uploads/2011/04/casamentos-destaque.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2666" title="casamentos-destaque" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/casamentos-destaque.jpg" alt="" width="600" height="240" /></a></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2009/02/17/livro-shikasta/" target="_self">&lt;&lt;   Shikasta (Livro 1)</a></td>
<td style="text-align: center;">As experiências de Sirius (Livro 3)   &gt;&gt;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"><em>Resenha do livro &#8216;<a href="http://www.cienciamao.usp.br/tudo/exibir.php?midia=fic&amp;cod=_oscasamentosentreaszonas34e5" target="_blank">Os Casamentos entre as Zonas 3, 4 e 5</a>&#8216; de Doris Lessing</em></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo volume da série &#8220;Canopus em Argos: Arquivos&#8221; eleva e desafia a relação matrimonial entre dois reinos antagônicos; uma fábula sobre a existência humana no seu mais básico relacionamento, aquele entre um homem e uma mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Contado a partir da visão de um cronista do reino da Zona Três (sim, o reino se chama assim), o livro narra o casamento obrigado entre sua rainha, Al Ith., e o rei Ben Ata da Zona Quatro. Dois reinos distintos e distantes, mas fronteiriços, com a única finalidade de salvarem a fertilidade (sob todos os aspectos) de seus reinos. Um casamento ordenado por necessidades maiores (Provedores) obriga dois povos, duas culturas, dois estilos de vida a se unirem em matrimônio, mas na figura de seus soberanos.<span id="more-2662"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A Zona Três representa uma cultura fértil, livre e comandada por mulheres (Doris Lessing é famosa por sua bandeira feminista), em que tudo vive em harmonia durante séculos, e mesmo a relação entre homens e mulheres, se dá de maneira bastante pacífica e comunitária (apenas como exemplo, uma mulher pode ter mais de um marido e os filhos, mais de um pai). Já a Zona Quatro é um reino guerreiro, comandado pelo bronco Ben Ata que vê na guerra a única salvação de seu reino e nas mulheres um mero objeto sexual. Mas por ordem dos Provedores (e se você já leu Shikasta, SABE que se trata de uma mente canopiana), os dois são obrigados a se casarem para salvarem a fertilidade de seus reinos (onde não nascem mais crianças, crias ou pasto e tudo passa a morrer lenta e misteriosamente).</p>
<div class="wp-caption alignright" style="width: 210px"><img src="http://www.cienciamao.usp.br/dados/fic/_oscasamentosentreaszonas34e5.jpg?110411100903" alt="" width="200" height="293" /><p class="wp-caption-text">Capa do livro</p></div>
<p style="text-align: justify;">E é com essa premissa que Doris Lessing põe dentro de uma casa construída especialmente para o casal, representantes bastante característicos de reinos completamente distintos. Os questionamentos acerca dessa estranha união e todos os seus intangíveis porquês dão lugar à uma relação descrita garbosamente por Lessing, não se deixando levar por situações crônicas de um quotidiano qualquer de um casal comum. Al Ith. e Ben Ata, Rei da Zona Quatro, são exatos símbolos de comportamento, cultura e pensamento de suas respectivas Zonas, ou reinos, e a convivência entre os dois revela-se a cada página uma verdadeira troca de experiências e antagonismos de ambas as partes &#8211; os dois se alimentando de costumes e idéias típicas de suas terras natais construindo um novo ser, completamente distinto daquele que iniciou o casamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Inteligente, Doris Lessing dosa com tranquilidade a narrativa para que o leitor entenda os reais intentos daquela união jamais imaginada, embora a clareza com que exprima as diferenças de cada Zona seja tão gritante, que a sensação de incompreensão de ambos os reinos refletem-se perfeitamente no leitor refém dessa imaginação ululante da autora. Somos convidados a vivenciar a relação na sua parte mais íntima: suas percepções e pensamentos sobre o outro e sobre o ambiente em que estão e em que momento estejam.</p>
<p style="text-align: justify;">É o trabalho de evidenciar uma sintonia interpessoal que vai além do contato corpóreo ou de golpes de vistas, mas que trabalham dentro de cada realidade e percepção para que haja uma harmonia em grupo. Mas não deixa de ser, também, o exato exemplo de como um pessoa ao se relacionar com outra completamente diferente de sua realidade, sofrerá mutações e miscigenar-se-á a partir da realidade e das percepções dessa outra pessoa; e Al Ith. e Ben Ata se mostrarão, ao fim do livro, personagens inadmissíveis no começo dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contrário de Shikasta em que se lançava na missão de remontar a humanidade e expôr feridas abertas ao leitor, &#8220;O Casamento das Zonas 3, 4 e 5&#8243; analisa de forma mais próxima a relação de pessoa à pessoa, de reino à reino e converge com seu antecessor ainda na profunda análise comportamental do ser humano e na anacrocidade da obra que talvez seja uma característica presente em toda a série.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo VII – Da pedra ao cadáver em chamas</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Apr 2011 16:36:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[planescape torment]]></category>
		<category><![CDATA[pós apocalipse]]></category>
		<category><![CDATA[série de ficção]]></category>
		<category><![CDATA[tormenta]]></category>

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		<description><![CDATA[Um ataque na esquina, levantam-se as sombras e retalham o Insone. A única cura: a bebida.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2652" title="tormenta-7" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-71.jpg" alt="" width="600" height="381" /></p>
<p style="text-align: justify;">[Ao fim de árvores ordinárias, uma rua para a esquerda. Caveira e cadáver seguem por ali. Tudo está mais escuro.]</p>
<p style="text-align: justify;">Que rua do cacete, vazia até de moscas. Quase alma nenhum indo nem vindo. Não me amedronta, muito longe disso, só é muito estranho sairmos de uma praça cheia e cair nesta passagem longa — até onde consigo ver, não vejo fim — onde ninguém caminha. Vêm junto apenas estes postes luzeiros que correm muito a nossa frente até onde consigo ver, até pelo menos o limite do horizonte onde se encontram nesse efeito único e perfeito de perspectiva. É curioso como dois destes aqui do meu lado, não passam de um falo logo muito mais a frente. A luz já começa a falhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro num ou outro destes postes que se apaga pra não voltar mais, mas já faz uns bons dois quarteirões que andamos dentro da escuridão — guiados unicamente pela nossa sombra que, quanto mais nos afastamos de luzes últimas, maiores elas ficam. À minha frente, longas. Começo a temer, inclusive, as ameaçadoras formas que agigantam-se em cima de mim — um puro truque barato de luz e sombra. Ainda assim curiosamente ameaçador.<span id="more-2648"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Não sem sombra de dúvidas que meu olho me trai, pois a sombra à minha frente e todas as outras que me acompanham ao redor estão a mover-se por pernas próprias; sem que eu, ou a caveira, ou o objeto que o valha esteja, de fato, dando movimento real para que as meras projeções possam mimetizar. Não. Estão vivas. Não somente vivas em superfície, mas, e aqui tenho certeza da traição de minha visão: destacam-se da rua para se avolumar no espaço físico. Escorrem pelo chão de pedra movendo-se feito vestido de cetim. E emergem do mármore como se a rua inteira fosse um rio parado e elas, criaturas abissais. E vêm a mim.</p>
<p style="text-align: justify;">[Levantam as Sombras.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Morte, você está&#8230; Ugh!</p>
<p style="text-align: justify;">[Atacam as Sombras.]</p>
<p style="text-align: justify;">E me acertam. Uma. Duas vezes. E com que acertam, mal posso identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceira beligerância de uma criatura que mal enxergo consigo barrar no braço, por instinto apenas já que a mente está perdida em tentar entender o que sombras podem querer comigo, mas suas extremidades afiadas me carcam e retalham. O braço, por exemplo, ganha nova cicatriz. Outras sombras se agrupam. É uma verdadeira comitiva banqueteando de minha carne. E como revido? Como suplanto as sombras? Procuro um jeito de apenas ferir-me o menos possível. Se possível. Os braços, ou cabelos, ou o que for que usam para me açoitar é dotado de fúria; e posso ouvir seus sussurros que são, na realidade, berros furiosos, mas contidos com ainda mais violência.</p>
<p style="text-align: justify;">— A faca, seu idiota. Usa a faca! — a voz longe. O som abafado de ataque, de um soco oco.</p>
<p style="text-align: justify;">No bolso, a arma branca sugerida. E que os céus te louvem caveira, pois a primeira sombra some assim que atinjo a sua jugular — ou o que desejei que fosse. Outras duas, três, quatro senhoras que me assaltam na escuridão caem da mesma maneira. Ao cair a terceira, pouco antes de tombar a quarta, revela-se no espaço vazio criado a imagem da caveira ao fundo investindo furiosamente a cabeçadas contra uma desgarrada que se debandou do grupo.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver vence as sombras. Mas vai ao chão.]</p>
<p style="text-align: justify;">Finda a batalha, as sombras que restam são somente aquelas que projeto. E as vejo muito de perto. O olho colado na pedra se fecha, o gosto férreo de sangue, a dor nas feridas, a voz de Morte — bem longe. Pronto. Morri novamente. Já não me lembrarei de nada e provavelmente não terei a sorte desta caveira estar por lá para me ajudar. A ler a porra do livro nas minhas costas, a orientar para a saída do Mortuário, nem ao menos me lembrarei de conversar com o espectro que me ama. Pelos céus, ela me ama, réré. Como pode isso? Sim. Já vejo agora o Mortuário, a mesma sala de antes, a mesma mesa metálica de antes, as mesmas ferramentas, a mesma estante de caveiras. Mas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Estranho. Não há ninguém na maca; eu, que deveria estar ali, estou&#8230; voando? Flutuando acima e olhando o lugar que deveria estar. A visão de cima. As sombras do lugar precipitam-se do chão, como fizeram agora menos, antes de me matarem; avolumam-se, flutuam e rondam a minha mesa metálica. Onde eu deveria estar. Como se me procurassem. Recuam enfurecidas, por não me encontrarem ali. A visão chacoalha. Chacoalha e some.</p>
<p style="text-align: justify;">— Chefe! Ô, seu escarrado. Acorda!</p>
<p style="text-align: justify;">Um susto. Sonhei? Não. Nem ao menos dormi. Tive uma visão apenas. Sim. Uma visão. Me falta o ar, mas me sobra a dor. Percebo que não é somente das feridas abertas, justamente o contrário: é a dor delas se fechando, costurando-se por força própria, estancando o sangue à força, queimando-se para que não sangrem mais, marcando meu corpo com mais uma e ainda outra medalha de batalha. Me regenero. Me curo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Morte!? Você viu essa porra? Que merda aconteceu?</p>
<p style="text-align: justify;">— Sombras, chefe. Eram sombras. Acredite em mim. Aquelas vacas estavam louquinhas pra te comer vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Mas&#8230; — Como podem sombras querer-me morto? Pior: como podem levantar da pedra e me atacar como se fossem feitas puramente de aço afiado?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não me surpreende, chefe. O mundo tem coisas realmente loucas.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver se levanta apoiando-se em um monte de entulho.]</p>
<p style="text-align: justify;">Respiro um, respiro dois, respiro três. Abro os olhos. O olho se acostuma e devo achar sempre curioso, cada vez que me recupero de uma morte, o modo como os olhos sofrem a se acostumar com a visão. Principalmente com a luz. Recomposto, e por descanso, observo um pouco ao longe uma construção amarelada, destacada, enorme. Não tem retorno mais, não faz sentido algum retornar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei&#8230; Aonde tá indo? Pro &#8216;Cadáver&#8217;?</p>
<p style="text-align: justify;">— Cadáver?</p>
<p style="text-align: justify;">— O Cadáver em Chamas. É o bar mais podre da região, todos os mau caráter estão lá. Vai gostar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei do que fala essa caveira, mas ela não parece tão tiritante de ir à farra como estava por sair a noite procurando meu algoz. Tranquilamente, aquilo parece até uma boa ideia para tomar melhor o fôlego antes de continuar em frente. A construção vai crescendo, óbvio, enquanto chego mais perto. Um pouco destruída, é verdade, mas ainda assim muito bonita — de longe tudo que vejo é que se ilumina das luzes amarelas. A rua estreita e escura torna-se um viaduto com um vale peludo embaixo; pouco iluminado, mas com certeza povoado a julgar por vozes baixas e passadas trepidantes nas folhas secas — e valha-me os céus querer saber que tipo de criatura ronda as sombras noturnas daquele vale.</p>
<p style="text-align: justify;">A rua abre-se e a iluminação melhora, até o ar habita com mais tranquilidade no espaço. Quando à noite, as luzes artificiais são ligadas e a construção baixa ganha uma iluminação muito semelhante ao fogo, como se em chamas estivesse de fato. O bar é muito mais imponente do que a minha falta de memória poderia aceitar, corpo e função não se conversavam neste que Morte chamava de o Cadáver em Chamas. Alguns transeuntes, já ébrios de fogo, bebem nas sacadas do segundo andar, putas juram o canto buscando seu trocado no térreo — de onde saiam suas vítimas já bem mais &#8216;amorosos&#8217; com a vida. O bar é tão interessante e diferenciado entre função e construção quanto a própria Catedral em que acordei. E tão grandiosa, quanto. Se havia ali mesmo um bar, ele haveria de ser gigântico, com salas e alas e balcões colossais.. O mais curioso de tudo é a abóbada que se levanta do centro do bar. Estranho demais. Somente mais tarde saberia que o térreo servia as bebidas e os andares acima todas as putas.</p>
<p style="text-align: justify;">— Chique esse bar, não?</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha, chefe. Lá dentro vai ver que não passa de uma espelunca. Até acho bonitinho aqui de fora.</p>
<p style="text-align: justify;">Um lance largo de escadarias e a entrada, enfim. &#8216;Cadáver em Chamas&#8217; escrito em um letreiro improvisado, letras de madeira. Tudo por cima de um outro, mais antigo, raspado e hoje ilegível. Quatro hercúleos seres humanos no lugar de pilastras comuns sustentam a fachada em uma obra de escultura impressionante; o artista tomou o cuidado perfeito em traduzir a tensão do músculo humano àquelas pedras como se, de fato, eles sofressem em carregar eternamente aquele prédio nas costas. De qualquer forma, me era de ridículo aceitar essa construção como um bar — e não posso precisar que tipo de resquício de memória me dá tanta certeza de que sua função não era a de oferecer a noite aos ébrios loucos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Reza a lenda de que foi um teatro há muito tempo atrás. Pff. — tá explicado a estranheza.</p>
<p style="text-align: justify;">— Venham! Venham ver o homem-chamas! Tente tirá-lo dessa prisão de fogo. Pague uma birita pra ele. Ele está com sede. Vermelho-quente! Venham ver&#8230; Vejam com seus próprios olhos. — um animador repete a chamada eternamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentro do bar, o ar esquenta. Sobe uma escada para um único andar superior: é bonita, mas antiquada. Abaixo dela, duas entradas escancaradas para o coração daquilo que Morte insistia em chamar de bar. E só podia ser, pois barrando a entrada está um gordo bastardo que só não tardou mais na passagem, por que o álcool no sangue derrubou seu corpo feito esgoto no chão. Passamos por cima.</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha aí, chefe! A diversão!</p>
<p style="text-align: justify;">— Cala a boca, Morte.</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha só, escarrado. Dá pra passar a noite aqui a preços módicos. Aí saímos pra procurar o vagabundo que te pintou pela manhã. Eu não vou ficar dando cabeçada em sombra na noite por aí.</p>
<p style="text-align: justify;">Sinto querer matar esta caveira, muito mais por que, no íntimo, concordo com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">— E eu pago com o quê, demônio? Posso lhe quebrar os dentes e fazer de moeda? Vamo tomar uma ou duas e cair o fora daqui.</p>
<p style="text-align: justify;">[A caveira se cala.]</p>
<p style="text-align: justify;">Nada me chama mais a atenção do que aquilo que dá nome ao estabelecimento: a porra de um cadáver em chamas. É curioso como tudo neste mundo parece ser literal, como se tivessem as palavras e as ideias que delas temos uma força própria — essa espelunca que o mundo chama de Cadáver em Chamas realmente tem um cadáver em chamas dentro; da mesma forma que uma criatura que atende por Insone não consegue, de fato, pôr-se a dormir o sono eterno.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre uma grelha incandescente de fogo, flutua misteriosamente um corpo que muito bem pode ser definido como um homem queimando em chamas, como se sua carne fosse o próprio tição que alimenta o fogo. Se vivo ou morto, só sua consciência poderia dizer, pois embora eu duvidasse da capacidade de qualquer criatura sobreviver a essa prova, o diabo se contorcia em momentos aleatórios, atormentado sabe-se lá pelo quê.</p>
<p style="text-align: justify;">[Interrompe o cadáver uma mulher. Vestida de azul, mas seios de fora.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Seja bem-vindo ao Cadáver em Chamas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2625" target="_blank">&lt;&lt;   Capítulo VI</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2674" target="_blank">Capítulo VIII   &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
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		<title>[ Poema ] Te construo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Apr 2011 12:27:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Convidados</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[Poema]]></category>
		<category><![CDATA[marilia ohlson]]></category>
		<category><![CDATA[te construo]]></category>

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		<description><![CDATA[A solidão e a urgente necessidade da pessoa perfeita. Poema construído por Marilia Ohlson.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://sandubadequeijo.com.br/wp-content/uploads/2011/04/construo-destaque.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2645" title="construo-destaque" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/construo-destaque.jpg" alt="" width="600" height="240" /></a><br />
<br />
Eu te construo,<br />
com os pés quentes de Bernardo<br />
feitos de pães amanhecidos.</p>
<p>Eu te construo,<br />
com os braços fortes de Pedro<br />
feitos de agulhas de tricô.</p>
<p>Eu te construo,<br />
com o peito aconchegante de Renato<br />
feito de almofada bordada.</p>
<p>Eu te construo,<br />
com o rosto perfeito de Ricardo<br />
feito de prato de papel.</p>
<p>Eu te construo,<br />
com o sorriso fácil de Marcelo,<br />
feito com fino traço de caneta.</p>
<p>Mas teus pés não me aquecem,<br />
teus braços me machucam,<br />
teu peito não me aninha,<br />
teu rosto não reconheço,<br />
teu sorriso me deprime.</p>
<p>Então te destruo.<br />
E a casa volta a ficar vazia.</p>
<p><strong><em>Marília Ohlson<br />
</em></strong> 22/11/2008</p>
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		<title>[ Quente ] Oficina de Criação Literária com Marcelino Freire</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Apr 2011 16:33:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quentes]]></category>
		<category><![CDATA[b_arco]]></category>
		<category><![CDATA[centro cultural b_arco]]></category>
		<category><![CDATA[marcelino freire]]></category>
		<category><![CDATA[oficina de criação literária]]></category>

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		<description><![CDATA[O porreta Marcelino Freire &#8211; que anda dando umas patadas lindas no senso comum da literatura nos eu próprio blogue &#8211; vai ministrar uma dessas oficinas de criações literárias que eu tanto acho interessantes. Tem quem fale contra, achando uma bosta, mas todas que participei (duas com Nelson de Oliveira e uma com esse mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O porreta Marcelino Freire &#8211; que anda dando umas patadas lindas no senso comum da literatura nos eu próprio blogue &#8211; vai ministrar uma dessas oficinas de criações literárias que eu tanto acho interessantes. Tem quem fale contra, achando uma bosta, mas todas que participei (duas com Nelson de Oliveira e uma com esse mesmo Marcelino) não tenho do que reclamar e, pelo contrário, só faço indicar quando acontecem.</p>
<p>Estimulando a criação, a percepção, dando material e saídas, discutindo lugares-comuns, praguejando contra os pacotinhos de prateleira, buscando sempre a esquina da palavra, o sexo doido dos verbos, a orgia dos adjetivos, a depressão das vírgulas. Marcelino vai tentar espremer o que tu tem de melhor.</p>
<p>Do dia 9 de Abril a 2 de Julho <a href="http://www.obarco.com.br/cursos/literatura/oficina-de-criacao-literaria.html" target="_blank">Centro Cultural b_arco</a>.</p>
<p>Fica a dica do Sanduba. Vá, meu filho.</p>
<p>Release original:<span id="more-2635"></span><br />
<br />
<strong><em>&#8220;OFICINA DE CRIAÇÃO LITERÁRIA</em></strong><br />
<br />
<em>Trata-se de uma oficina de criação que abordará desde mini-contos até romances e poemas, chamando a atenção para o cuidado que se deve ter com a linguagem &#8211; como fazer para “enxugar” o texto, preparar um livro, como exercitar a síntese, entre outras técnicas.</em></p>
<p><em>Todo o trabalho será feito, principalmente, em cima dos textos apresentados pelos participantes, realizando um acompanhamento de cada projeto literário.</em></p>
<p><em>Além disso, o curso proporcionará um contato direto com alguns dos mais renomados autores nacionais.</em></p>
<p><em><strong>DESTINADO A</strong><br />
Aspirantes a escritores e poetas, estudantes, professores e todos aqueles que amam a literatura.</em></p>
<p><em><strong>NÚMERO DE ENCONTROS: </strong>12</p>
<p>*Não haverá aula no dia 23/abr por conta do feriado de Páscoa&#8221;</em></p>
<p><em>Serviço:</em><br />
<br />
<strong>Oficina de Criação Literária</strong><br />
De 9 de abril a 2 de julho<br />
Aos sábados das 14h30 às 17h30<br />
Valor: 4x de R$ 355,00<em> </em></p>
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		<item>
		<title>[ Tormenta ] Capítulo VI – Tatuado o símbolo do sofrimento</title>
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		<comments>http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2625#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 01 Apr 2011 11:47:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[adaptação]]></category>
		<category><![CDATA[black isle]]></category>
		<category><![CDATA[chris avellone]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[literatura fantástica]]></category>
		<category><![CDATA[planescape torment]]></category>
		<category><![CDATA[tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[zumbis]]></category>

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		<description><![CDATA[A galeria de peles, o tatuador renegado e uma parada insólita antes da caça ao rato.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2628" title="Tormenta" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/04/tormenta-6.jpg" alt="" width="600" height="381" /></p>
<p style="text-align: justify;">Estou acostumado com a preguiça do mortuário, não com a molecagem das ruas. Os passantes estão sempre ávidos, atentos demais e corridos, ou então falando alto criando esse burburinho incessante que me aborrece três vezes mais que a boca de Morte abrindo e fechando sem parar como tem feito. Ainda que seja começo de uma noite (longa), estão esses miseráveis espalhados pela calçada sem ter muito o que fazer em vida, e certamente encontrando na rua algo muito mais interessante do que dentro de seus lares. Quando têm algum.</p>
<p style="text-align: justify;">As luzes da cidade acesas. Iluminam o suficiente para mantê-los assim irrefutáveis de tocar a boiada para suas casas, e seria tão mais fácil caçar um rato se as ruas não estivesse apinhada de cães e prostitutas. Mas é o que temos para a noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Não bastasse a diversidade mundana das calçadas, encontro um homem — gordo e baixo — chorando num canto da calçada, diante de uma árvore podre. Não é somente a falta de memória isolada que me atrapalha a vida, mas os efeitos curiosos que ela me causa. Sobretudo quando me encantam situações marginais (nem tanto por sua beleza e, nesse caso, por sua patetice) que me tornam um observador atento e demais demorado diante desses. O problema é a sociedade ansiosa e atenta que me acolhe; poucos segundos de observação diante de um qualquer é o suficiente para que ele sobressalte-se e nos enfie o dedo na cara. Sem faltar com a razão. Este gordo chorava por conta de uma árvore que morria e ninguém dava a menor atenção; lamentou que ninguém realmente &#8216;queria&#8217; que ela sobrevivesse.<span id="more-2625"></span></p>
<p style="text-align: justify;">— Você é novo por aqui, chefe. Não sabe como as coisas funcionam. O que o gordinho diz é verdade. A crença, a convicção que se quer uma coisa é tudo por aqui&#8230; tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que soa bastante absurdo quando se ouve tamanha sandice enquanto o gordinho segura as lágrimas, mas esse não era o único motivo que me atiçou a curiosidade nele ou sua árvore. O que realmente tornou-me ouvidos a ele foi o fato de um outro fator ajudar para que a flora morra sem chances naquela região — lacaios ou serivçais da governanta, responsáveis por manter a ordem e o funcionamento de todas as coisas da cidade, inclusive das árvores, não frequentam aquele beco única e exclusivamente devido à um único homem que fixa residência nas proximidades. Um tatuador. Um desertor desses. Caio, esse o tatuador, que antes trabalhava para a governanta era homem local, conhecido, porém largamente evitado não somente por seus antigos pares, mas também pelos comuns que evitavam contato com medo de serem repreendidos por Ela. Caio. Tatuador.</p>
<p style="text-align: justify;">Parece valer a pena pagar uma visita à esse pária da sociedade. Primeiramente, confesso, tão somente pelo fato de sermos igualmente (mente, mente) marginalizados por todos — eu, que me sinto assim, ele, que de fato está. Morte não concorda em primeira instância, mas ele nunca concorda e assim mesmo não me larga.</p>
<p style="text-align: justify;">[Caveira e cadáver chegam à frente da construção onde a galeria de Caio, o tatuador, toma lugar. Está escuro na rua e poucos transeuntes passam por ali. Entram os dois.]</p>
<p style="text-align: justify;">A galeria é coberta de peles esticadas no teto, parede e até recostados no chão com exemplos de tinta, formas e desenhos que esse estranho cidadão pode pôr à pele. A sensação mais curiosa é a de suspeitar que todas essas peles esticadas não são de animais abatidos, mas talvez de homens e mulheres mortos; Caio está no centro, trabalhando em uma tela esticada com sua caneta barulhenta. Pouco interessado em quem entra, apenas observa quem está ali depois de um segundo qualquer. Ao me ver, tenho certeza que deu aquela titubeada. Estranho Morte, estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">[Caio termina seu desenho e vai recepcionar seus visitantes. Olha fixo para o cadáver, mas de sua boca não sai palavra alguma. São suas mãos que se comunicam com um gestuário preciso. É velho, o olho profundo, calcificado, os cabelos brancos ensebados lhe caindo no rosto.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Er&#8230; Morte?</p>
<p style="text-align: justify;">— São mudos, chefe. Eles falam com as mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sim, mas&#8230; você não sabe&#8230; traduzir?</p>
<p style="text-align: justify;">— Prefiro ser arrastado no intestino de uma puta do que tentar entender o que esse cabeça de bode tem pra dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">— Seu grosso.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentar conversação com um mudo quando não se sabe, a princípio falar a língua deles é como se você também se tornasse mudo durante esse período; há momentos em que até a gagueira doentia você se percebe repetindo. Mas esse nem isso, de tão velho e conhecedor, imagino, não emite som algum e perfeitamente pensa e se expressa com as mãos hábeis de tatuador. Mas na verdade a tarefa acaba revelando-se muito mais fácil do que eu podia esperar e, é claro, fica evidente de onde vem tanta facilidade: eu já conheço sua língua, seus gestos, eu sei de muitas coisas que só precisam de um estalo para que retornem à memória. Apenas o estalo certo e elas emergem à superfície com naturalidade, como se jamais tivessem abandonado o campo de minhas recordações. E ainda assim, tanta coisa relaxa no abismo de minha consciência. Me diz de seu nome, quem é e o que faz. Nada novo, ponto que o gordo chorão de fora já havia me adiantado. Morte ao meu lado morre de tédio talvez por não compreender. O que eu duvido no íntimo. Aquele repetida sensação de que já o conheço. Mas dessa vez de uma forma diferente. Besteira, é sempre diferente na minha cabeça. Mas poderia jurar que esse diabo é realmente diferente, que, de fato, já estive em sua presença.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sinto que já o conheço, Caio. — faz uma reverência e com as mãos forma um círculo girando em sentido horário e anti-horário, está claro que me diz que essa não é a primeira vez que apareço diante dele, embora saiba que mesmo assim, é a primeira vez para mim. — E me conhece?</p>
<p style="text-align: justify;">(Sim. Mas não posso lhe contar a sua história). — suas mãos ágeis e rápidas e seu significado igualmente preciso em minha mente. O que me desespera quando o peito alude explodir com a força do coração exaltado.</p>
<p style="text-align: justify;">— Como assim, não pode?! — Morte exalta do meu lado. Ele demora a responder, mas com um pesar me dirige as mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">(Desculpa, eu não posso. Eu não posso mudar a natureza de um homem.) — não consigo explicar o porquê, mas seu gestual final cai feito um gelo seco dentro de minha cabeça. Eu quase posso ouvir uma voz repetindo aquela sentença no fundo de meu oceano.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que foi, chefe? O que é que ele tá falando?</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver, sem tirar os olhos estupefatos de Caio, cala a boca de Morte com um dedo no ar. Sem mais palavras.]</p>
<p style="text-align: justify;">— O que&#8230; quer dizer com isso?</p>
<p style="text-align: justify;">— (Minhas desculpas. Não posso dizer.) — estou tanto mais estupefato, dada a sensação que me ataca, do que irado com a teimosia desse palerma. Mal consigo diagramar alguma ameaça mortal para lhe arrancar verdades pelo braço. Só quero processar um pouco desse peso, que deve significar alguma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">[Cadáver senta em um tamborete.]</p>
<p style="text-align: justify;">Respiro. Nunca havia experimentado uma sensação tão forte e&#8230; sim, Morte, estou bem. Só me deixe um pouco. Aqui está um homem curioso que; não, não é somente o fato desse arrebatamento profundo que me impede de colocar a faca em sua garganta e tirar o canto rapidinho, não. Ele tem uma certa presença impossível de se tornar indiferente; não que me impeça uma barreira transparente de matá-lo, não é isso. É como se eu soubesse, através dos arrepios de minha carne, que esse homem não pode ser morto, ainda que não possa me dizer absolutamente nada que preste.</p>
<p style="text-align: justify;">(Eu te admiro. Estou entristecido por você.) — não sei se perdi o começo de seu gestual, mas&#8230; me aponta o ombro. (A marca do tormento jaz sobre sua pele. Tragédias e perdas se construíram em cima dela, como pedras de uma fundação. Você suportou grandes dores. É o &#8216;tormento&#8217;. É o que guia todas as almas atormentadas, que sofrem, para você. A carne sabe que sofre ainda que a mente tenha se esquecido. Então você usará a tatuagem para a sempre.)</p>
<p style="text-align: justify;">— E por que me admira por isso?</p>
<p style="text-align: justify;">(Admiro porque você nunca se entregou ao peso dessas perdas, ainda que acorrentadas, ainda que elas fiquem dependuradas em você. Essas perdas cobriram sua vida e todas as suas vidas passadas. Você abriga vidas como uma serpente que muda de pele. Você está explorando os infinitos caminhos da vida. Leve com você isto: cada uma de suas vidas projetam uma sombra na existência. Você tem de viajar ao lugar onde essas sombras enlouqueceram e os remorsos cicatrizaram na terra.) — descansou os braços.</p>
<p style="text-align: justify;">Um remedo daquela profecia dita na voz de Alice, aquela gostosinha. Pena que tenha morrido. Está evidente que aquela sensação que tive antes, de o conhecer, era a mais pura realidade passada, ponto que me adiciona pontos nessa constelação de minha vida que reforçam o que Alice já havia me dito, não pode ser coincidência. O que só me faz ter ainda mais certeza de confiar toda vez que me arrepia os pêlos duros da pele quando alguma sensação dispara de minha mente. Mas é preciso tempo de recolher. De sair à caça das demais estrelas.</p>
<p style="text-align: justify;">— Algo mais? Não tem nada mais pra me dizer?</p>
<p style="text-align: justify;">(Não&#8230; assine nada.) — Morte. Seu filho. De uma puta.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que foi chefe, o que esse desgraçado tá falando de mim?</p>
<p style="text-align: justify;">— Esqueça, caveira do inferno. Vamos embora, Caio&#8230; mas, uma última coisa. Você disse que não pode me dizer quem eu sou, mas sabe me dizer pelo menos como eu morri?</p>
<p style="text-align: justify;">(Sombras.)</p>
<p style="text-align: justify;">— Sombras?</p>
<p style="text-align: justify;">(Muitas sombras. Vieram das trevas, se aglomeraram em você, te retalharam, e deixaram para que morresse.)</p>
<p style="text-align: justify;">Que bom.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ele disse que fui morto por sombras, pode acreditar nisso?</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem, se ele tá dizendo, deve saber de alguma coisa. Mas, ei. Aqui vai uma ideia. Pergunta pra ele de suas tatuagens. Ele é um tatuador, deve saber melhor o que significa essas coisas horríveis que você tem.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sabe Morte, às vezes&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Pergunta logo.</p>
<p style="text-align: justify;">(Posso escutar plenamente.) — um leve sorriso do mudo. — (Conheço elas. Nenhuma foi feita por minha mão. Essas na sua costas foram feitas por uma mão cuidadosa e por uma mente que esqueceu-se de si mesma. O símbolo no seu ombro esquerdo é a marca do tormento.)</p>
<p style="text-align: justify;">A marca me lembra um olho que jamais se fecha, sempre me guardando. Até mais, monstro. Fim.</p>
<p style="text-align: justify;">[Após alguns gestuais de despedida, cadáver e caveira saem da galeria de Caio e rumam, um pouco desorientados, para a rua escura.]</p>
<p style="text-align: justify;">Contei tudo a Morte que, entrerisos, achou a grande maioria um absurdo, embora fosse evidente no modo nervoso com que discordava que talvez estivesse temeroso em concordar com tudo aquilo que o tatuador havia me falado. Me gestualizado, no caso. Tempo de relembrar pra quê saí às ruas. Eu tenho um rato pra caçar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2599" target="_blank">&lt;&lt;   Capítulo V</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2648" target="_blank">Capítulo VII   &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
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		<title>Boletim #11 – Março/2011</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Mar 2011 12:41:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boletins]]></category>
		<category><![CDATA[boletim sanduba de queijo]]></category>

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		<description><![CDATA[Tormenta Insone e Morte deixam, enfim, o mortuário. Não sem antes passarem por provações curiosas, como uma velha irmã que aplica uma mini-cirurgia no imortal e o fantasma de um amor antigo deste protagonista que não pode morrer. Somente então, pisando fora da Catedral, é que se encontram no centro da cidade. (Tormenta passará a ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/01/07/tormenta-a-nova-serie-do-sanduba/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2572" title="tormenta-4-destaque" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/tormenta-4-destaque.jpg" alt="" width="600" height="240" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/01/07/tormenta-a-nova-serie-do-sanduba/" target="_blank">Tormenta</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Insone e Morte deixam, enfim, o mortuário. Não sem antes passarem por provações curiosas, como uma velha irmã que aplica uma mini-cirurgia no imortal e o fantasma de um amor antigo deste protagonista que não pode morrer. Somente então, pisando fora da Catedral, é que se encontram no centro da cidade. <em>(Tormenta passará a ser publicada semanalmente, toda sexta-feira).</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/04/tormenta-3/" target="_blank">[ Tormenta ] Capítulo 3: Interlúdio na casa dos mortos<br />
</a><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/18/tormenta-4/" target="_blank">[ Tormenta ] Capítulo 4: Alguém que tem a bênção e a maldição<br />
</a><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/25/tormenta-5/" target="_blank">[ Tormenta ] Capítulo 5: O cadáver que deixa a catedral dos mortos</a><span id="more-2615"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/08/livro-guermantes/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Bagunça" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/livro_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/08/livro-guermantes/" target="_blank">Seguindo o caminho de Guermantes - Dentro dos Livros</a></strong></p>
<p><em>Resenha de ‘O Caminho de Guermantes’, o terceiro livro da septologia ‘Em busca do tempo perdido’ de Marcel Proust</em></p>
<p>Depois de viajar a Balbec (livro 2), a avó do protagonista adoece obrigando a família a se mudar. Assim se inicia a vivência entre a alta sociedade através de jantares na casa dos Guermantes, uma tradicional família francesa (no caminho de Guermantes, portanto). Mas esse é somente o tema superficial; a grandeza do livro está, como até então, nos momentos brilhantes do autor que emerge suas paixões e seus terrores para fora como nenhum outro que já li conseguiu. (&#8230;)</p>
<p><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/08/livro-guermantes/" target="_blank">Leia o artigo completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/03/conto-o-cachorro/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Kinema" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/liter_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/03/conto-o-cachorro/" target="_blank">O cachorro - Literatos</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu estava conversando com minha filha que dizia que tinha ganhado um cachorro e estava muito feliz porque havia muito tempo ela nos pedia um cachorro, a mim e ao pai, mas nós achávamos melhor ela ter um cachorro quando estivesse com mais idade e pudesse cuidar dele. Ela dizia que ia cuidar do seu cachorro, dar banho, ração, catar as pulgas, e levá-lo pra passear.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/03/conto-o-cachorro/" target="_blank">Leia o conto completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/11/hq-so-na-sacanagem/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Anjo" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/outro_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/11/hq-so-na-sacanagem/" target="_blank">Só na sacanagem  - Outros Sanduíches</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uso pela segunda vez a palavra “sacanagem” em um título aqui do Sanduba. Imagino que minha reputação de boa garota está indo mesmo para o espaço. Eis que numa dessas vasculhadas pela rede, encontro um site de tirinhas bem, digamos, sacanas. Em <a href="http://www.asofterworld.com/index.php" target="_blank">“A Softer World”</a>, a dupla canadense Emily Horne e Joey Comeau misturam fotos e textos no formato HQ para destilar todo tipo de sacanagem. As atualizações acontecem com uma boa freqüência e são tiro-e-queda para arrancar risadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/11/hq-so-na-sacanagem/" target="_blank">Leia o artigo completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/24/conto-pintura-de-guerra/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="João Bona Fonte" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/liter1_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/24/conto-pintura-de-guerra/" target="_blank">Pintura de Guerra - Literatos</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Entrou dois pontos depois de mim e se alojou no banco ao lado. Cruzou as pernas finas e começou. Abriu o espelho guardado na bolsa e sacou uma melequinha sem graça, sem cor… passou no rosto com o ônibus em movimento. Isso que é thriller.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/24/conto-pintura-de-guerra/" target="_blank">Leia o conto completo.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/21/randomico-no-pau-de-arara/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Ladrão de Cadáveres" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/fora1_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/21/randomico-no-pau-de-arara/" target="_blank">No pau-de-arara - Fora dos Livros</a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ler é, talvez, a única instância livre da literatura. Afinal, você escolhe o que quer ver e tem o poder de fechar o livro na hora em que quiser. Nessa linda e erudita ilha das letras, porém, se escondem as mais cruéis torturas. As letras doem.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/21/randomico-no-pau-de-arara/" target="_blank">Leia o artigo completa.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/14/filme-dorian-gray/" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Maria Alice" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/fora_post.jpg" alt="" width="600" height="40" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/14/filme-dorian-gray/" target="_blank">Dorian Gray - Fora dos Livros</a></strong></p>
<p>O Retrato de Dorian Gray é um dos meus livros prediletos. Lembro de tê-lo lido pelo menos duas vezes e já programado outras três (mentira, mas já imagino que lerei mais desse clássico na vida).</p>
<p>A história, pra quem nunca leu, é sobre um jovem que, obcecado pelas ideias de um espirituoso colega passa a venerar a juventude, a beleza e as experiências que elas proporcionam. Dessa forma, num ato impulsivo, acaba trocando de papéis com um retrato pintado por um outro amigo seu. O trato é simples: Dorian vive e o retrato envelhece e calcifica todos seus pecados na tinta. Muito se diz sobre um pacto com o diabo nesse ponto, mas confesso não me lembrar de ter diabo algum na história. Enfim.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/14/filme-dorian-gray/" target="_blank">Leia a resenha completa.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img class="aligncenter" title="Quentes - Fevereiro" src="http://www.sandubadequeijo.com.br/site/news/11/quente_post.jpg" alt="" /></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As quentes do Fevereiro no Sanduba</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/01/quente-ilustracoes-de-mansur/" target="_blank">Ilustrações de Mansur<br />
</a><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/02/quente-meme-literario/" target="_blank">Meme Literário<br />
</a><a href="http://sandubadequeijo.com.br/2011/03/15/quente-pulp-books/" target="_blank">Publicidade da Pulp Books </a></p>
<p style="text-align: justify;">……………………………………………………………………………………………………………………….</p>
<p style="text-align: justify;">Para receber o boletim no seu e-mail, cadastre-se no formulário do menu lateral.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo V – O cadáver que deixa a catedral dos mortos</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2011 13:40:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
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		<description><![CDATA[Caveira e cadáver saem do mortuário para cair dentro de uma colmeia a procura de um rato.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.flickr.com/photos/graduale/2475060378/"><img class="size-full wp-image-2603 aligncenter" title="Tormenta" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/tormenta-5.jpg" alt="" width="600" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Me intriga Morte não ter visto Alice, mas em todo caso se ele tivesse visto também a veriam todos os outros presentes no andar — e isso daria um bom tormento. Não faço ideia os motivos, mas só posso agradecer pelo evento particular, me poupa de problemas maiores. A luz de vela ainda vela à meio-pavil e a brisa aleatória já não ameniza o mal estar. A melhor opção é deixar o andar dos memoriais. Uma escadaria, pouco além da fonte seca, sobe para a saída em degraus de pedra branca por onde também desce essa essa brisa sorrateira.[As costas ao memorial do fantasma.]</p>
<p style="text-align: justify;">[Um padre guarda a saída. Observa bem os dois companheiros ao vê-los chegarem. Abre sem cerimônia.]</p>
<p style="text-align: justify;">A saída fica exatamente abaixo de uma sacristia onde as honrarias e ritos há muito deixaram de ser religiosamente seguidos e difundidos. Para a esquerda se levanta um órgão de tubos gigânticos ordenados por toda a parede, diferentes apenas na sua largura e na sua altura, conforme as notas que devem soar. O pátio da catedral, à frente — sim, pois a palavra &#8216;catedral&#8217; saltou de alguma boca por aí e só agora, na nave principal, é que tenho a total certeza de que até então estava perambulando nas vísceras de uma — o pátio se estende vazio e nu de qualquer coisa que não sejam os passantes, padres e alguns mendigos.<span id="more-2599"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A luz entra fatiada em cores diferentes, tudo por que o dia escorre para dentro da catedral filtrada por vitrais antigos, e ilumina todos os pilares carregadores dessa construção antiga, dessa abóbada gorda no topo e de todo o restante. A portaria de madeira escura guarda o lado oposto ao altar a saída da igreja, no final dos pilares onde, quase morto, um sentinela guarda a entrada e a saída das almas.</p>
<p style="text-align: justify;">[Abre a portaria final para que, enfim, o 'visitante' possa sair.]</p>
<p style="text-align: justify;">Assim eu e Morte, esta caveira maldita, deixamos esse lugar em que, se a vida personificada existisse, fugiria com todas as suas forças. Sai o filho de casa.</p>
<p style="text-align: justify;">— ~ —</p>
<p style="text-align: justify;">Sair; doer-se a luz, enfim. Nessa Catedral a presença da morte é muito mais sufocante que a da vida e portanto é mais sensato chamá-la de mortuário — sua função mais evidente — do que qualquer outra coisa. No alto, santos esculpidos e umas dezenas deles danificados; um pátio curto à frente até despencar em escadarias largas. Não sei de que mal sofro ao prestar atenção primeiro aonde estou e não ao ar que me inspira. O simples fato de não ser aquele ar rastejante e pouco menos morno que meu próprio corpo já é um ataque aos pulmões, que sofrem como se inspirados de menta. A tosse me diverte, pois me recordo imediatamente daquele escriba incontinente prestes a morrer desse mal — e que certamente não irá me tirar a vida. Antes fosse.</p>
<p style="text-align: justify;">Levantam-se uma dúzia de árvores de palma em fila indiana logo em frente — duas filas, pra ser exato e distantes por bons metros entre elas, dão sombra para um pátio comprido e apinhado de gente. As árvores seguem até misturar-se com outras mais ordinárias ao fundo. É um dia claro, sem sol, mas de nuvens laranjas talvez alegando pôr-se o sol diurno. Muito além, nada se vê, apenas nuvens longínquas e céu. Uma ou outra construção se ergue, sempre muito baixa ao lado de montes em entulho, desconstruções ou mesmo ossadas de antigos prédios.</p>
<p style="text-align: justify;">A praça da catedral é bastante povoada. De um povo que anda apressado, talvez alarmado a todo instante. Correm crianças, esgueiram-se bandidos, berram os profetas, mendigam os miseráveis, vendem-se as putas, debatem os padres; é uma praça, sobretudo, quente. O tíque de tiritar os dentes, muito mais uma mania do que uma evidência de frio:</p>
<p style="text-align: justify;">— Essa é Colmeia. Uma cidade destruída de forma tão absurda quanto sua capacidade de voltar da morte, chefe. Já foi gigante. Hoje é isso. Só ossada, cara. Hoje é coisa pequena, as pessoas se concentraram por aqui&#8230; Pra se ajudar? Pff. Que nada. Pra ser mais fácil roubar uns aos outros. Raramente chove, e antes diziam que aqui era a terra da chuva, da garoa incessante e fina.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvir a voz desta caveira se tornou extremamente natural — claro, foi a primeira coisa realmente viva a que tive contato logo que estreei. Não sei como posso pensar no bem melhor para Morte, e na realidade, sendo bastante sincero, não estou; apenas pensando em dar-lhe uma chance diferente e talvez um descanso maior a mim mesmo ofereci para que seguisse seu caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não me venha com esse papo de preocupado, chefe. Agora vai ter que me aguentar&#8230; E também, você pode ter os braços e as pernas que não tenho, mas eu tenho a cabeça que lhe falta, escarrado.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sei bem, caveira&#8230; Mas já que insiste, não vou fazer o papel de herói bonzinho. Talvez eu precise de uma mãozinha&#8230; digo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Rá. Muito engraçado, chefe.</p>
<p style="text-align: justify;">Já que tanto quer ir, abro mão de meu descanso maior. Vou mesmo precisar de uma conexão qualquer com o mundo dos que sabem de alguma coisa. Ou acabarei como estes mendigos na escada, gemendo e se humilhando por uma comiseração de cobre — e eu bem me vejo mendigando puramente conhecimento. Mesmo eles, a poeira do estamento mais baixo da sociedade, olham-me nestes olhos enjoados, estranhos em ver alguém como eu ainda poder se mover — é, sem dúvida, muito curioso a reação dos terceiros com minhas cicatrizes pelo corpo e a flutuante caveira do lado.</p>
<p style="text-align: justify;">[Desce o cadáver as escadarias da catedral. Ao povo. Uma das mulheres que passam se detém diante dele.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Depois de todo esse tempo&#8230; seu cretino. Que os demônios do inferno te levem daqui&#8230; Um dia vai se arrepender do que fez a Erin&#8230; Juro pela Senhora!</p>
<p style="text-align: justify;">Sou realmente um fantasma para ela. Ela some. Me fica o embaraço, milhares de olhos plantados em mim — e nenhum comiserado pela senhora, comprando sua briga; tanto melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Quantas pessoas como essa mulher eu não encontrarei com reações tão semelhantes à da louca, sem que eu possa ter ao menos a mais ínfima ideia do que diabo eu possa ter feito em vida passada. Nem ao menos a chance de poder, sei lá, me desculpar, se fosse o caso, claro. No caso desta, não sinto qualquer vontade de remediar qualquer erro antigo. Isso só deixa claro o quanto estou perdido.</p>
<p style="text-align: justify;">— Éé, chefe. Isso que dá ficar abandonando mulher por aí. — tento censurar esta caveira, mas quase sorrio.</p>
<p style="text-align: justify;">— Caveira, caveira minha. Que faço eu agora.</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha. De onde vejo fica claro que é melhor você ir atrás desse tal de Essien de uma vez por todas. Pelo menos é o que consigo ler nas suas costas, escarrado. Deve significar algo, não? — concordo, e não se lembrar de nada te faz sentir impotente tendo de concordar com uma criatura como essa.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as filas de árvores de palma, noto um dedo negro esticado no céu, encerrado em um quadrilátero perfeito, mas a curiosidade não passa disso, pois a Caveira infernal me chama a atenção para um sujeito andrajoso ao pé da escada sacra.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ei, veja. Ali, escarrado. Aquele de capuz. Está vendo? Muito bem. É um vagabundo de um coletor-dos-mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Como pode ter certeza disso?</p>
<p style="text-align: justify;">— Você fede tanto, chefe, que não consegue sentir o cheiro desse vagabundo. Além do mais, está usando um capuz em plena luz do&#8230; bem, do fim do dia. Só os coletores embrulham por aí assim.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hm. Deve saber quem é Essien. — a velha lógica de que uma mosca conhece outra qualquer, por simplesmente não conhecermos o modo como se organizam.</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem, eu certamente sei de outras caveiras, deve ser natural que esse safado conheça gente de sua laia.</p>
<p style="text-align: justify;">Não custa nada ir até lá. Sua face obscurecida pelas sombras do capuz&#8230; do pouco que banha-se da pouca luz é possível notar que seu queixo está coberto de sujeira e por uma terrível alergia. Morte me sugere para que faça parecer trivial a conversa. Eu tento.</p>
<p style="text-align: justify;">— Er&#8230; com licença.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada de reação, como se morto estivesse e de pé não reclamasse. Só então, após um silêncio constrangedor, ele responde com essa voz muito mais para uma menina de dez anos do que para um homem a que se atribue a função de colher os mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai?</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem, meu nome é&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Pora sou eu, hai&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Meu prazer Pora&#8230; Bem, você sabe de Essien? — prefiro soar um pouco menos perdido, como se já conhecesse Essien e estivesse à espera ou à procura dele; ao mesmo tempo em que admitia e tinha absoluta certeza de que não somente ele era um coletor-dos-mortos como também conhecia meu alvo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, Essien. Coletor, grande, nome tem peso, projeta longa sombra, isso sim, hai. — preocupado em que ninguém nos ouça:</p>
<p style="text-align: justify;">— Marquei com ele aqui, mas parece que não vem. Sabe onde posso encontrar o homem?</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, em Colmeia aqui, ele está. Alguns lugar, hai.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tem como ser mais específico, catapora? — Morte chega na conversa, já escutando de muito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, alguns lugar em Colmeia, ele está. Essien esconde, sim. Muito difícil de achar, ele é. Não vale o trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">— Como se não soubéssemos que ele não vale o cascalho. — o comentário de Morte é para mim, mas não compreendo o que quer dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, muitos odeiam ele, outros Coletores, até. Covas odeia ele, não gosta de Essien de jeito nenhum, hai</p>
<p style="text-align: justify;">— Covas?! — Nomes, nomes e mais nomes.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, Covas nome grande, tem peso, projeta longa sombra, isso sim. Diz a Pora o que fazer, e ele faz.</p>
<p style="text-align: justify;">— Esse seu chefe&#8230; Covas&#8230; Saberia onde o rato se esconde? — ele observa a poeira do chão, um tempo considerável para processar a alusão, mas que talvez, por tão usual em seu meio, acaba por compreender.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai, Covas sabe dos escuros, isso ele sabe. Sabe o esconderijo-Essien, sabe. Covas na Praça República, algumas ruas daqui, hai. Diga Covas que Pora te mandou, diga. — Surpreendo-me por ter aqui um exemplar incrivelmente solícito; olho para Morte incrédulo e o mais espantoso é notar que este coletor-dos-mortos cheio de vícios e alergias me parece mais simpático do que alguns dos transeuntes normais.</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem. Fico agradecido, Pora. Se estiver com Covas antes de mim, avise-o que chegarei nele.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não quer que Pora te faça morto de novo?</p>
<p style="text-align: justify;">A pergunta estranha fica no ar. Na minha nuca pra ser mais exato, posto que já estava de saída.</p>
<p style="text-align: justify;">— Uh&#8230; de novo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai. Pede muitas vezes, Pora sempre faz.</p>
<p style="text-align: justify;">— Quantas vezes, pra ser mais exato?</p>
<p style="text-align: justify;">— Muitas, hai.</p>
<p style="text-align: justify;">— Então já nos conhecemos antes?</p>
<p style="text-align: justify;">— Hai.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que sabe de mim? — sempre que desobedeço às ordens básicas de minhas costas é somente por que a força de saber quem sou é mais forte do que a disciplina.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você um morto que não fica morto por muito, hai. Joga limpo com Pora, sim.</p>
<p style="text-align: justify;">— E o que fazia? Me matava!?</p>
<p style="text-align: justify;">— Nah, longe de Pora! Joga limpo com Pora.</p>
<p style="text-align: justify;">— Chefe, o único jeito de entrar no Mortuário é morto. Talvez esse carinha aí tenha te ajudado a&#8230; voltar pra lá.</p>
<p style="text-align: justify;">— Talvez. Quem sabe pra ver aquela moça louca. Bom, de qualquer forma, muto obrigado Pora! Se eu precisar morrer, eu falo contigo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não faça isso com o rapaz, chefe. Vai acabar com seus sentimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma construção logo na cara da catedral, um bar, uma taverna, não sei como chamam. De qualquer forma, chega a ser irônico que exista um bar exatamente defronte à catedral sagrada. E quando entra eu e a caveira dentro desse prostíbulo, a ironia se torna ainda maior pois os frequentadores não são outros senão os próprios padres sorumbatas, curadores do mortuário. Você só pode estar de brincadeira. Tanto estou com a devida razão, que o que se espera de um bar não se encontra por aqui. Todos sentados, uns nos cantos, outros nos balcões conversando quietamente em tom baixio. Morte fica na entrada, mas me passa uma dica.</p>
<p style="text-align: justify;">— Seguinte, chefe. Esse mundo é movido a comuns, a grana, reales, queridão. Tenho certeza que um desses caras vai querer &#8216;te comprar&#8217;. Pega minha dica: assine o que tiver pra assinar e saímos daqui ricos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Assinar o que, diabo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não ligue pra isso. Apenas assine. — parece uma cilada.</p>
<p style="text-align: justify;">Dobro o balcão e uma velha mulher do cabelo branco e duro está olhando em reprovação toda essa urbe catedrática; ao me ver, brinca com a situação de que eu talvez tenha fugido de alguma cova, ao que retruco que não passava de mentira e apenas estava ali procurando um bom lugar para morrer. Faceira, me sorri. Mas me interrompem a aproximação com este belo pedaço de carne humana, um padre jovem, bocó, que faz questão que vá ver seu superior. Chego lá, mas que vergonha. O homem é tão velho e mirrado, que parece um anão nestas robes muito maiores que ele. Sorri esse sorriso amarelo e têm sobre ele outros cinco jovens aprendizes, presumo. Faz por que faz questão que eu assine um contrato, diz que é ótimo, que não irei me arrepender.</p>
<p style="text-align: justify;">— Do que está falando?</p>
<p style="text-align: justify;">— Você vê&#8230; um contrato que nos dá a garantia de usar seu corpo depois que morrer.</p>
<p style="text-align: justify;">— Depois que eu morrer? Você vai usar o meu corpo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Sim. Quero dizer, que uso te terá de qualquer forma? Estará morto. Eu mesmo assinei e com o dinheiro que tirar daqui, pode curtir essa vida, já que não poderá fazer nada quando passar dessa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele tem um bom ponto, e de qualquer forma o que mais me anima o sorriso é a audacidade de Morte, esta caveira maldita que, é óbvio, já sabia da natureza destes contratos e, também a par de que não posso morrer, me incentivou, sabendo que tal profecia jamais se concretizaria, a assinar esse contrato, cujo único ônus está justamente na minha maior incapacidade: a de morrer. Dinheiro fácil, portanto. Boa, Morte.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cem comuns, estamos bem?</p>
<p style="text-align: justify;">— Estamos ótimos, chefe! — seu cretino.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.flickr.com/photos/wmandrade/3818958806/"><img class="size-full wp-image-2604 aligncenter" title="Tormenta" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/tormenta-5-1.jpg" alt="" width="600" height="351" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Cai a noite na cidade. Ainda aquela luz, no entanto, de indecisão, entre dia e entre noite, pouco a pouco muito mais noite — luzeiros amarelos começam a ser acesos. São postes marrons com três globos encerrados em alturas diferentes na ponta. Para a direita da Catedral um grande espaço aberto com uma construção curiosa logo atrás de um monumento de pedra. Como um ponto, bem à frente do monumento, uma mulher cansada vestida toda de couro com a finalidade única de lhe realçar as curvas da carne. O odor de perfume barato está em volta dela feito nuvem e sua face coberta com uma máscara crua de maquilagem. Ela sorri ao me ver.</p>
<p style="text-align: justify;">— Por quê não fica e papeia um pouquito comigo, amoreco? — o carregamento daquela língua arrastada de quem vive na rua. Mede-me melhor e continua seu encanto. — Cê parece o tipo de sangue que &#8216;perdeu&#8217; alguma coisa. Quem sabe eu não possa ajudar a encontrar, sicário?</p>
<p style="text-align: justify;">— Que grande fortuna a nossa! Provavelmente perdemos o que estamos procurando dentro da sua saia, moça. — Morte interrompeu a conversa, excitado como se seus olhos redondos e grandes lhe fizesse as vezes de bagos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vamo sair daqui, cabeça-oca!</p>
<p style="text-align: justify;">— Qualé, chefe! Eu só tava me divertindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Fica essa vaca onde está. Melhor que eu vá logo a essa Praça República ter com o tal de Covas e descobrir a toca do rato. Morte galanteia nas mulheres e ele só pode estar de brincadeira, será que não vê que, pelos céus, lhe falta um corpo inteiro para que possa se deitar com a mais desdentada de todas?</p>
<p style="text-align: justify;">— Parece que os padres perderam um de seus zumbis.</p>
<p style="text-align: justify;">O comentário salta de um desses demônios da praça. Evidente que a zombaria se dirige à mim e, procurando, não é difícil encontrar a dona do maldoso chiste. Cá está uma incrível mulher — completamente distante das rampeiras que se jogam sujas a vender-se se tomarmos pela beleza, mas ainda assim entre elas. Veste couro brilhante na cintura que vai, com muita sorte, até a metade da coxa carnuda, delineando seu bonito rabo, pra não falar do bife bochechudo entre as pernas. As pernas, então, estas sim completamente nuas, morenas e fortes, não como as de um lutador — coisa feia — mas como as de uma senhorita que não passa fome. Nos pés um coturno opaco até a altura das canelas. Barriga de fora, peitos quase à mostra em uma camisa rasgada e branca. Atrai, como era de se esperar, a atenção da maioria dos homens, embora lhe reservem admiração de muito mais longe do que poderiam: respeito. Mas o que mais chama atenção nesta broaca é o cabelo vermelho vulcão, pois &#8216;ruivo&#8217; somente já não lhe faz justiça, tal a força da chama que lhe queima na cabeça — e a luz amarelada a inflama ainda mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez tenha sido um disparate gratuito, mas o que impede dessa puta ruiva feito fogo não ter-me conhecido de um passado qualquer? É com esse segundo pensamento feito âncora que decido entalhar conversa. Mas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Pica daqui! — a voz forte, embora ainda muito feminina. Morte se aproxima. O curioso é que ela carrega na cintura um chicote amarrado que lhe cai das costas e balança de forma hipnótica — como um rabo de animal.</p>
<p style="text-align: justify;">— Qui é que tá olhano? Por que não volta pro buraco d&#8217;onde saiu e me deixa em paz? Nem eu, nem meu &#8216;rabo&#8217; tão à venda, imbecil.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tanto melhor que nem você nem seu rabo estão à venda&#8230; não ia conseguir nada com eles, de qualquer forma. — comenta Morte não deixando barato para esta puta, que puta fica.</p>
<p style="text-align: justify;">— Qualé a sua, seu osso di merda?! Repete!</p>
<p style="text-align: justify;">— Ele disse que você ia morrer de fome se tivesse que vender o corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">— É uma putinha, chefe. Deve ter sangue de demônio nela, o que a deixa paranóica e defensiva&#8230; belo rabo, de qualquer forma. Uma pena que tá grudado num corpo tão feio.</p>
<p style="text-align: justify;">— É melhor cê fechar tua matraca, teu mímir boca-de-demônio, &#8216;nts que eu te parta no meio sua mandíbula, visse&#8217;?</p>
<p style="text-align: justify;">— Por que não &#8216;tenta&#8217; e parte minha mandíbula, vaca? Tudo que eu ouço é muito papinho de um pedaço de lixo de Colmeia. Vem! Me acerta. Vem! Te mordo as pernas até cair!</p>
<p style="text-align: justify;">— Chega! — melhor assim, antes que cheguem às vias de fato — nada pode ser mais bizonho que uma prostituta e uma caveira flutuante se pegando. Os demais sorumbatas, já altos do álcool, e demais passantes ameaçavam formar rodinha de insultos e apostas.</p>
<p style="text-align: justify;">— Aye, tá bem. Cala seu mimir, &#8216;tardado, ou vou enterrar ele, visse&#8217;? Deve dar algumas moedas, por aí. Vendo corpos e você parece prontinho pra fornalha, caveira! — tento controlar a boca incontrolável de Morte e truco rapidamente.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você vende corpos? — eis aqui outro coletor. — Deve conhecer Essien, então. — ela soltou uma gargalhada na minha cara.</p>
<p style="text-align: justify;">— Aye. Quem não conhece, Essien?</p>
<p style="text-align: justify;">— Bom, tô procurando o diabo, sabe onde ele tá?</p>
<p style="text-align: justify;">— Claro. E o jin-jin? — olhei para minha enciclopédia ambulante.</p>
<p style="text-align: justify;">— Dinheiro, chefe. A vagabunda quer dinheiro pra falar. — desisto, então.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vai&#8230; pro inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">[O cadáver dá as costas à puta ruiva.]</p>
<p style="text-align: justify;">Um absurdo. Um dedo de conhecimento custa quase tanto quanto palmas de um bom pão por aí. Largo a puta e as putas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas que demônios que realmente os Sorumbatas perderam um de seus zumbis. Ei, Morte, veja só. Olha como está sujo esse terrível; mas ainda de pé, sempre de pé e duro — meio tombado, é verdade. Os ombros caídassos e uma das pernas quebrada faz com que ele se incline para o lado. Tem manchas de sujeira pelo corpo inteiro e a julgar pelo cheiro e texturas, elas vão de frutas podres a lama e merda de pássaros. Como se não bastasse para sua dignidade inexistir, havia ainda grafituras no corpo e muitos, mas muitos recados e notícias atachadas em seu estômago, nas suas costas e na sua cabeça a puro prego.</p>
<p style="text-align: justify;">— Dê uma olhada nisso, mas já não se têm respeito algum com os mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">— E eu pensei que &#8216;eu&#8217; estava mal. Esses pregos não doem, não? — sempre tento. Outra olhada no cadáver, a luz da praça permitia a leitura somente de coisas em contraste e mal escritas. Os grafites iam de obscenidades e falos desenhados a slogans baratos sobre o &#8216;amor&#8217;. Mas um pedaço, no braço esquerdo e podre daquele corpo chama minha atenção: o nome &#8216;Essien&#8217; escrito com um grande &#8216;X&#8217; sobre ele.</p>
<p style="text-align: justify;">— Essien!? — Morte, ao me ouvir comentar o nome do safado, chega mais perto para olhar. E, ainda mais absurdo, a minha voz comentando a anotação com Morte reanima o morto — o zumbi imediatamente movimenta o braço esquerdo de forma lenta, mas apontando à uma direção clara e evidente. Difícil é entender quando sua mão gira no pulso e seu dedão aponta repentinamente para baixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Olho para Morte. Ele olha para mim. Eu olho na direção. Olho para Morte, ele olha pra mim.</p>
<p style="text-align: justify;">— Jura!? Agora!?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não tenha dúvidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2570">&lt;&lt;   Capítulo IV</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2625">Capítulo VI   &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em>| imagens de <a href="http://www.flickr.com/photos/graduale/" target="_self">graduale</a> e <a href="http://www.flickr.com/photos/wmandrade/" target="_blank">w andrade</a></em></p>
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		<title>[ Conto ] Pintura de guerra</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2011 11:42:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Simon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatos]]></category>
		<category><![CDATA[contos no ônibus]]></category>
		<category><![CDATA[contos urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[juliana simon]]></category>
		<category><![CDATA[maquiagem no ônibus]]></category>
		<category><![CDATA[pintura de guerra]]></category>

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		<description><![CDATA[Dentro do ônibus, aquela paixão curiosa de personagem. Conto de Juliana Simon.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-full wp-image-2593" title="pintura-guerra" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/pintura-guerra.jpg" alt="" width="600" height="287" /></p>
<p style="text-align: justify;">Entrou dois pontos depois de mim e se alojou no banco ao lado. Cruzou as pernas finas e começou. Abriu o espelho guardado na bolsa e sacou uma melequinha sem graça, sem cor&#8230; passou no rosto com o ônibus em movimento. Isso que é thriller.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdi os outros atos todos quando desceu três pontos antes do meu e a esqueci por uma semana ou duas.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa terça de manhã, eu no banco de velhinhos e deficientes e ela se equilibrando na barra perto da porta. A novidade era um pincel gordo e peludo, cheinho de pó rosa que ela passava nas maçãs do rosto e as partículas contra o sol fazendo dança. Nesse dia pude mais. Com o famigerado espelhinho, agora puxava os cílios num reboque preto. Pessoa com aquela eterna cara de frescor, como se tivesse um vidro de perfume pendurado em cada célula. Desceu. Desci.<span id="more-2592"></span></p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, nem a vi entrar. Céu horrível, motorista desnorteado (daqueles que você pensa em anotar o número para “foder aquele filho da puta”, mas deixa pra lá). Seu cabelo preso num coque desarrumado estava lá no banco mais baixo na minha frente. Começava mais uma vez seu ritual: cara, olho, boca.</p>
<p style="text-align: justify;">A buzina desafinou e a freada foi mesmo brusca. Saltei pra frente com as mãos nas barras, mas não teve muito jeito, a toquei com violência o ombro. “Desculpa”. “Imagina, tudo bem”. “Desculpa mesmo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Me encolhi no banco de tanta vergonha. Ela sacou o maldito reflexo e recomeçou a arte no rosto. Vi que agora a imagem era minha e de Narciso fiquei lá olhando aquele circulinho mínimo que pegava um pedaço do meu rosto. Fechou, virou e me perguntou: “Oi. De que cor é seu batom?”</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Juliana Simon</em></strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>[ Randômico ] No pau-de-arara</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Mar 2011 11:38:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliana Simon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Randômico]]></category>
		<category><![CDATA[dramas literários]]></category>
		<category><![CDATA[editor]]></category>
		<category><![CDATA[escritor]]></category>
		<category><![CDATA[juliana simon]]></category>
		<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[publicação]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pouco de consideração antes mesmo de abrir um livro. Podem ter morrido por isso. Dica de Juliana Simon]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img class="aligncenter size-full wp-image-2584" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/paudearara-destaque.jpg" alt="" width="600" height="240" /></p>
<p style="text-align: justify">Ler é, talvez, a única instância livre da literatura. Afinal, você escolhe o que quer ver e tem o poder de fechar o livro na hora em que quiser. Nessa linda e erudita ilha das letras, porém, se escondem as mais cruéis torturas. As letras doem.</p>
<p style="text-align: justify">Vamos supor que resida nas sinapses uma idéia brilhante e que esta urja (soluço parnasiano, hic hic) em ser colocada no papel. Um: o sujeito senta em frente a um bloco, computador ou máquina de escrever para os mais nostálgicos. Dois: com alguma sorte, ele pula sobre os bloqueios criativos e vomita um punhadinho de palavras. Nunca vai estar a seu gosto. Três: lê, relê, apaga, reescreve. Quatro: exausto, berra um “não tem tu, vai tu mesmo”.</p>
<p style="text-align: justify">Com MUITA sorte alguém vai achar os escritos coisa que preste e, traindo as estatísticas, o autor em questão não vai ter aquele fetiche pela aura “maldita” e “invendável”.<span id="more-2583"></span></p>
<p style="text-align: justify">“Ah, você precisa entender que sou uma pessoa fora do meu tempo. Talvez só as próximas gerações, os ETs e os aborígenes entendam a real intenção dos meus textos, you know what I mean?”</p>
<p style="text-align: justify">O autor conheceu, deu, comeu ou nasceu da pessoa certa e está lá sua cria circulando por uma editora. Eles gostaram, eles o amam, eles confiam nesse novo talento lindo e cheiroso da tia!</p>
<p style="text-align: justify">Publicado est.</p>
<p style="text-align: justify">Lancemos numa livraria cool, num boteco sujo, no quintal de casa? Façamos um bom barulho para atrair uma galerinha boa, mezzo amigos, mezzo reais interessados, mezzo loucos por uma boca-livre, mezzo marias-moleskine. Feito. Temos um espaço nas estantes. Vitória.</p>
<p style="text-align: justify">Há algum tempo, o escritor voltaria cem casas no jogo caso os jornalões metessem o pau em seu livro. Hoje a coisa mudou de figura. Vale mais o boca-a-boca que as estrelinhas dos chatérrimos cadernos literários. O problema é que essas são afiadíssimas para dilacerar qualquer ego, mas isso é a vida, esse eterno concurso de talentos de high school americana.</p>
<p style="text-align: justify">Ok. Vendeu legal. Mas faz um tempo já. Cadê sua próxima obra? Você vai manter o tema, o estilo, as influências? Agora é acender vela para que a idéia brilhante da primeira vez tenha deixado ovinhos.</p>
<p style="text-align: justify">Sendo assim, pense muito bem antes de abrir o próximo livro. Alguém pode ter morrido ou matado para que ele esteja aí encadernadinho nas suas mãos santas-ingratas, caro algoz-leitor-salvador.</p>
<p style="text-align: justify"><strong><em>Juliana Simon</em></strong></p>
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		<title>[ Tormenta ] Capítulo IV – Alguém que tem a benção e a maldição</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Mar 2011 11:27:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[adaptação]]></category>
		<category><![CDATA[black isle]]></category>
		<category><![CDATA[chris avellone]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[literatura fantástica]]></category>
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		<category><![CDATA[tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[zumbis]]></category>

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		<description><![CDATA[Insone depara-se com uma aparição de uma vida passa que clama seu próprio amor.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/anna_caroline/5195889682/sizes/l/in/photostream/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2571" title="Tormenta 4" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/tormenta-4.jpg" alt="" width="600" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Nos recepciona, assim que aberta a porta, uma estátua de mármore talhada feito anjo catequizador; o vozerio das pessoas é bem baixo, como se rezassem no particular, mas são tantas que o sussurro do coro completo se torna, na verdade, um cântico macabro. Muitas pessoas por aqui; não exatamente uma multidão, mas o suficiente para me desconfortar. Onde a porta esbarra, um grupo sentencia pragas a mim e ao crânio flutuante. Prestam contas ao falecido.Morte ao meu lado. O fim da escada leva a uma saleta pequena e a outra porta de vidro e ferro, idêntica a todas as outras, entreaberta. Levanta-se um certo vozerio abafado do além-porta, e esgueira-se pela fresta uma brisa um pouco mais fresca — a intervalos aleatórios, mas sempre a mesma porção de sopro. A certeza de haver companhia viva — veja, até então tenho tratado apenas com zumbis, uma caveira falante e um escriba à beira da falência dos órgãos — me dá uma certa náusea, não sei bem ao certo se por ansiedade ou, o que é ainda mais absurdo, por medo. O ar mais fresco me faz peculiar; ao oferecer um pouco de vida ao que respiro, automaticamente me recorda da morte e de como é podre a sensação de estar entre cadáveres. Fico dividido entre o que prefiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Velas, o cheiro de pavil e cera derretida por toda a parte; um halo de fumaça baila no ar e dança cada vez que a lufada de brisa invade o salão, no seu costumeiro e estranho intervalo. O chão escuro é opaco, não reflete a luz amarela e, a meio-pavil dos lustres do teto baixo, tudo está mergulhado em uma certa escuridão.<span id="more-2570"></span></p>
<p style="text-align: justify;">— Vamos tentar falar menos com esses caras, tranquilo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Como quiser. Mas tem muita gente aqui. Deve ser o memorial que o escriba comentou.</p>
<p style="text-align: justify;">— O jeito é fingir que viemos prestar conta pr’algum morto, escolhe aí alguma tumba e fica rezando baixinho.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sabe, Morte. Uma coisa que eu reparei aqui é que ninguém traz a tira-colo a sua própria caveira falante. — comento, pois um certo grupo me olha estranho e divide a má impressão a respeito da caveira.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vergonha por vergonha, não me sinto tão à vontade andando do seu lado também, escarrado.</p>
<p style="text-align: justify;">[Um sorumbata desvia de seu curso e vai até os dois. Homem médio, cabelo militar grisalho e bata escura; braços cruzados nas costas.]</p>
<p style="text-align: justify;">Encrenca. O olho levemente cinza. Mas não está morto. E vem nos encher os bagulhos.</p>
<p style="text-align: justify;">— Está perdido?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não.</p>
<p style="text-align: justify;">— Se não está perdido, o que está fazendo aqui? — desgraçado.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vim para um enterro, mas, pelo jeito, deve ter havido um engano. — e, cá entre nós, o engano aqui sou &#8216;eu&#8217;, que não posso ser enterrado.</p>
<p style="text-align: justify;">— Quem estava sendo enterrado? Talvez os procedimentos estejam sendo feitos em outro lugar do Mortuário.</p>
<p style="text-align: justify;">— Pode ser. Onde ficam esses outros locais? — é Morte quem fala, e fico estarrecido quando o homem não se surpreende com um crânio falante. Tanto melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">— Bem, aqui é o memorial. No andar superior, fica o batistério e, no segundo andar, o crematório. Sabe o nome do falecido? — pergunta ele, jogando uma armadilha de minha própria privação.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sim, claro&#8230; — o Sorumbata permanece em silêncio, obviamente esperando o nome do dito morto. — Ele se chama&#8230; eh, Adam.</p>
<p style="text-align: justify;">— Esse nome não é familiar para mim. — como poderia ser familiar?, mas não dou trela ao pensamento. — Veja com um dos guias do portão principal. Eles talvez possam te ajudar melhor do que eu.</p>
<p style="text-align: justify;">— Está bem. Faremos isso. Passar bem.</p>
<p style="text-align: justify;">[Afasta-se o padre.]</p>
<p style="text-align: justify;">— Não adianta ficar me olhando, Morte. Dos dois, você é o mais encrenqueiro.</p>
<p style="text-align: justify;">— Vamos dar o fora daqui antes que a gente não tenha mais nomes pra inventar. Adam. Onde já se viu essa.</p>
<p style="text-align: justify;">— Preciso encontrar o túmulo da garota.</p>
<p style="text-align: justify;">— Que garota, chefe. Aquele velho tava dopado de tanto remédio.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou em um corredor. Só percebi porque, enquanto andava, cheguei ao centro do salão memorial: uma fonte redonda que não jorra água e que em nada combina com o restante da arquitetura — certamente implantada depois de uma revolução qualquer das funções daquele lugar, a mesma revolução que plantou um mortuário no ventre da construção original. A fonte é seca de água, mas centenas de velas acesas ali pagam penitência enquanto derretem chorando aos antepassados. Noroeste, noroeste. E que norte tomo parte para me orientar, pelos demônios?!</p>
<p style="text-align: justify;">Nem preciso. Apenas um memorial não recebe visitante algum. Mas dizer que ele ocupa a ala noroeste é gentileza do escriba incontinente, pois esse lindo memorial estende-se por toda ala norte. Leio um letreiro em alto relevo: Aqui jaz Alice Diana. Ou somente Alice.</p>
<p style="text-align: justify;">Fico obcecado pelo nome inscrito e absorto em pensamentos. Alice Diana. Alice. Busco uma qualquer lembrança que se encaixe perfeitamente com a inscrição; nada me ocorre, nada emerge à superfície de minha mente. Surpreende-me, enquanto tento divagar sobre aquele nome, o frio repentino, a temperatura despencando e, sobretudo, a fumaça branca que se levanta do memorial e toma a forma de uma aparição etérea e cândida de um fantasma insubstancial. Dou dois passos para trás, vacilante, os olhos três palmos à frente, incrédulos. A forma se revela: uma mulher vestida em retalhado e moderno vestido, sem muitas prendas ou algum pudor em esconder-lhe as pernas. É linda, brilha onde o branco é forte o suficiente em não ser transparente e transluz onde falha o branco em negar passagem à luz. Tem os olhos fechados e uma longa cabeleira em constante movimento, traduzindo seu humor.</p>
<p style="text-align: justify;">[Um fantasma. Uma aparição. Uma mulher.]</p>
<p style="text-align: justify;">Já a vi antes. Tenho absoluta certeza disso, nem tanto por qualquer memória de seu rosto, mas muito mais por sua presença e a sensação que dela se desprende. É a mulher e também o fantasma de meu sonho último; ela que me atormentara antes de acordar uma última vez da morte. Seus olhos se abrem e ela revela estar um pouco confusa quanto à sua condição. Olha para os lados, procurando encontrar-se, e quando pousa lívida sobre mim, o perturbador de seu inquieto sono, ela entreabre os lábios em claro sinal de que não pode acreditar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você! O que é que traz você aqui? Veio confirmar a miséria que causou? Ou talvez eu ainda tenha alguma utilidade para você depois de morta&#8230; — sua voz ecoa como se do além viesse, apenas um leve dedo em eco e uma palma inteira de aborrecimento. Sua voz cai para um sussurro apaixonado: — &#8230; meu amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua presença me é completamente irreal, mas se sou eu aquele que não pode morrer, isso torna menos impossível que um fantasma me fale com tanta providência. Na realidade, estou encantado com a mulher e completamente impossibilitado de desviar a atenção dela. Não me escapa o detalhe em me tratar por “meu Amor”, mas o frio na espinha é tão alarmante que procuro me desviar dessa esquina perigosa. Me assoma a única e infame pergunta a ser feita — a melancólica e óbvia questão que qualquer ser, mortal ou não, faria àquele espectro. Talvez a pergunta que perdurará até o fim de minha jornada, como uma triste sina incompreendida; e só no evento de pronunciá-la, sinto que ela faz parte do que há de mais essencial na minha natureza. Mal percebo enquanto a faço.</p>
<p style="text-align: justify;">[Quem é você?]</p>
<p style="text-align: justify;">— Como podem os ladinos da mente continuarem a roubar meu nome de sua memória? — ela responde de maneira súbita. Uma mudança no comportamento do espírito branco benevolente que parece mendigar a mim. — Não se lembra de mim, meu Amor? — seus braços me atacam com leveza, impossibilitados de me tocar unicamente por sua falta de substância. — Pense&#8230; O nome Alice deve evocar algo dentro de você.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua voz é tão maravilhosa, tão encantadora. É incomum e, de fato, fossem esses ladrões da minha memória mais astutos, conseguiriam roubar muito mais do que a lembrança que se encerra em minha mente. Pois perdura a sensação de sua presença, que me arrepia; talvez devido a uma antiga convivência longínqua que possamos ter tido, eu e esse fantasma, enquanto ela ainda vivia — uma reação muito mais em meu corpo do que dentro de minha mente. Como se a minha pele estivesse acostumada àquela voz, àquele timbre de canto, àquele tom de fala.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sim, talvez&#8230; — indeciso se excitado ou se mentiroso. — Fale mais. Talvez suas palavras possam apagar as sombras de minha mente, Alice. — ao que geme ela, em desesperada alegria.</p>
<p style="text-align: justify;">— Enfim o destino se mostra misericordioso! Nem a morte pode apagar-me de sua mente, meu amor! Não vê? Suas memórias vão voltar!</p>
<p style="text-align: justify;">Espero, fantasma. Realmente espero.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sabe quem eu sou?! — a terrível pergunta, veja bem, e talvez a pergunta errada, como sempre. Perceberei, no futuro, que, talvez, ao viver perguntando a todos sobre a minha própria existência, estou desobedecendo à instrução mais básica que trago nas costas, a qual diz que não devo revelar a ninguém a doença que me acomete. Ainda que seja ela a única instrução em que me disciplino a seguir.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você é alguém que é abençoado e amaldiçoado, meu amor. E é alguém que nunca está longe de meus pensamentos e de meu coração. — diante do meu silêncio, óbvio, ela advinha os pensamentos meus: — A natureza de sua maldição é evidente, meu amor. Olhe para você. — seu dedo branco-transparente vem na minha direção. — A Morte te rejeita. Suas memórias te abandonam. Não se pergunta por quê?</p>
<p style="text-align: justify;">— Talvez, mas&#8230; Por que uma maldição? — tão natural para mim quanto ser imortal (entenda, não sofro tanto por ser imortal, mas justamente pelo fato de me ser tão natural não poder morrer) é o pensamento de que a imortalidade esteja longe de ser uma maldição para o ser humano rasteiro. Como quem desconhece um monstro hediondo em uma caixa que se deseja com todas as forças.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu não duvido de sua habilidade de se levantar da morte. Acredito que cada encarnação sua enfraquece seus pensamentos e suas memórias. Quem sabe não seja o efeito colateral de suas incontáveis mortes? Se assim for, o que mais perderá, se continuar a morrer e a ressuscitar desse modo? Perderá a cabeça, a mente&#8230; Não irá nem ter consciência o suficiente para descobrir que não pode morrer. Você é amaldiçoado, não há dúvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Já não é a primeira vez que me jogam na cara que tenho morrido e morrido e morrido por aí. Sem perceber, Dhall enumerou centenas e milhares, mas isso pode ser loucura dos remédios e da enfermidade; essa outra agora me conta das incontáveis mortes.</p>
<p style="text-align: justify;">— Desde quando isso tem acontecido?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não sei bem ao certo. Exceto que já tem acontecido tempo o suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">— Fale mais, Alice!</p>
<p style="text-align: justify;">— Oh, meu amor&#8230; — por demônios, meu tom pode ter parecido pedinte, mas não apaixonado. — Sei que certa vez disse que me amava e que me amaria até que a morte nos levasse. Acreditei nisso sem nunca conhecer a verdade sobre o que você é e o que foi.</p>
<p style="text-align: justify;">— E o que sou? O que quer dizer?</p>
<p style="text-align: justify;">— Você&#8230; Eu&#8230; Não posso&#8230; — subo um degrau a mais. Mais perto dela, menos de mim. — A verdade é essa: você é aquele que morre diversas mortes. Essas mortes lhe concederam o conhecimento de todas as coisas vivas, e em sua mão reside a centelha da vida&#8230; e da morte. Aqueles que morrem perto de você carregam um rastro de si mesmos que você consegue trazer à tona novamente&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela fala e meu sangue explode nas veias, tornando-se frio. Reação automática: os olhos quase fogem da órbita, o coração dispara, em evidente descompasso; o frio, que antes corria nas veias, sobe forte dos pés à nuca, feito raio. Impulsionado por qualquer coisa, atento à minha própria mão esquerda. Como quem acabara de descobrir os cinco dedos; contra a vela no chão, a mão falha em lhe negar visão, e a luz tremeluz e transluz a própria pele, o músculo, o vermelho-sangue, os ossos e, sem muito esforço, posso ver o detalhe rasgado do vestido de Alice através de minha própria mão. Oscila a transparência, em que ora posso ver apenas o contorno, ora apenas os ossos; ora somente as veias cascateando sangue, ora os músculos tensionados. Sei que Alice está certa. Lembro-me perfeitamente agora, como se isso fizesse parte de meu ser, como se encontrasse a mais ínfima centelha de vida em um corpo recentemente morto&#8230; E trazê-lo de volta da morte para a luz, que é a existência, novamente. A descoberta tanto me horroriza como me intriga. Posso dar vida aos mortos. Silencio.</p>
<p style="text-align: justify;">— É maravilhoso tê-lo novamente aqui, meu Amor. Como nos tempos em que a vida era algo que nós dois dividíamos. Agora, é a fronteira eterna que nos separa. Essa barreira que, temo eu, jamais poderei ultrapassar, meu amor. A barreira entre sua vida e o que restou da minha&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Por que me trata com tanto carinho&#8230; Alice?</p>
<p style="text-align: justify;">— Oh, meu amor&#8230; — um sorriso no rosto. O meu não aparece. — Você me amava. E eu te amo.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebo estar olhando para a barra de seu vestido. Seus pés não aparecem em momento algum. Todo o esplendor e o susto do início da aparição me levaram à absoluta hipnose perante ela, mas então as esquinas perigosas do amor e, sobretudo, sua cegueira diante de mim desviaram minha atenção, principalmente o meu desejo em permanecer ali. Eu desejaria, com todas as forças que me restam, sentir o mesmo por Alice, mas é tão pouca a existência em um fantasma que pouco me reage no peito — muito mais no resto do corpo, de que onde bombeia o amor. Está claro que esse fantasma dividira uma vida ou parte dela comigo no passado, mas, e não posso culpá-la por isso, essa indecisão entre partir para a morte e ficar para me reencontrar talvez tenha condicionado seu pensamento a uma utopia que meu coração não corresponde. Como se acordasse, tenho a certeza de que não saberei mais nada sobre mim por essa mulher, a não ser o profundo amor que ela ainda me nutre. Cega. Um anjo. Mas cega. Me dói — não tanto quanto gostaria de confessar — ter de encarar o fato de que não posso mais me deter com suas declarações. A necessidade maior é sair e fugir do Mortuário, antes que me pusessem, parafraseando o costado, a uma “peregrinação ao Mortuário”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais claro que do que eu estar perdido na vida é o fato de que não posso abandoná-la simplesmente com um acenar ou um despedir dos olhos. O trato tem de ser delicado, ou as consequências podem ser, uma vez mais, trágicas para Alice. Claro que não consigo imaginar algo trágico acontecendo com alguém já morto; de qualquer forma, esse espectro sem vida, sem substância, transmite muito mais sentimento e paixão que qualquer um desses viventes que fingem pagar penitência quando, na realidade, apenas se resolvem com a própria consciência.</p>
<p style="text-align: justify;">— Alice, preciso partir, mas&#8230; — veja só que falta de tato.</p>
<p style="text-align: justify;">— Partir?! — a sua voz de fantasma torna-se mais grave, sem, porém, perder sua feminilidade, e repete: — Par-tir!? Vem a mim, que está presa nesse lugar por sua culpa, e diz-me apenas que quer partir daqui?! — tão claro como suar me parece ser é o erro de contrariar uma mulher apaixonada.</p>
<p style="text-align: justify;">— Alice&#8230; Eu estou em perigo e preciso deixar esse mortuário. Certamente retornarei assim que puder para&#8230; para, te ajudar. Para te ouvir! — enfim, minto.</p>
<p style="text-align: justify;">— Em perigo, meu amor? — ela reage exatamente da maneira que eu imaginava (esperava) que reagisse. Uma brisa sopra, e o ar atravessa seu corpo etéreo; somente quando a linha de ar cessa, ela torna a falar. — Está muito bem, mas antes de ir&#8230; Espere um minuto. Aprendi muito quando viajei com você, meu amor. E o que você perdeu, eu tenho guardado. Ainda não lhe dei tudo que sei. Minha visão é clara&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— E o que seus olhos veem que os meus não alcançam?</p>
<p style="text-align: justify;">— O próprio tempo abranda sua prisão quando a sensação de esquecimento nos governa, meu amor. Lampejos de momentos que ainda estão por vir atravessam minha visão. Eu posso ver, meu amor. Te vejo como és agora e&#8230; — ela emudece. Sinto apreensão de sua e de minha parte, mas o desejo de saber, de conhecer a plenitude de sua visão, é mais forte.</p>
<p style="text-align: justify;">— O que vê?!</p>
<p style="text-align: justify;">— Vejo o que está guardado para você. — nesse ponto, olha ela para longe, como se olhasse, de fato, para o futuro, e então deita seus olhos transparentes sobre mim. — Devo dizer o que vejo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Sim&#8230; por favor&#8230; — o desespero de um homem que nada sabe só é comparado ao desespero daquele que tem certeza de sua morte próxima.</p>
<p style="text-align: justify;">— Primeiro, quero que prometa uma coisa para mim. Que irá encontrar alguma maneira de me salvar, ou de se juntar a mim.</p>
<p style="text-align: justify;">— Juro. Juro que irei encontrar um jeito de te salvar ou de me encerrar ao seu lado, Alice. — jamais saberei que impulso foi esse, mas sei que serei forçado a cumprir meu juramento. Tudo que ela pedira, entretanto, fora uma promessa. E é tão diferente uma promessa de um juramento.</p>
<p style="text-align: justify;">— Isso é o que meus olhos veem, meu amor, livres das algemas do tempo&#8230; “Irá encontrar três inimigos, mas nenhum mais perigoso do que você em sua completa glória. São sombras do mal, do bem e do perfeito equilíbrio entre uma coisa e a outra. São seres cujas existências foram distorcidas pelas tragédias e leis do universo&#8230; Deverá vir para uma prisão construída de remorso, dor e tristeza; onde as próprias sombras enlouqueceram. Lá, será forçado a fazer um terrível sacrifício, meu amor. Para, enfim, poder deitar em descanso, deverá destruir aquilo que te mantém vivo e ser imortal nunca mais”.</p>
<p style="text-align: justify;">— “Destruir aquilo que me mantém vivo”? — tento guardar as suas palavras.</p>
<p style="text-align: justify;">— Sei que deve morrer&#8230; enquanto pode. O círculo deve fechar, meu amor. Você não foi feito para essa vida. Deve encontrar aquilo que foi tirado de você e viajar para o além, para as terras dos mortos. E lá irei te aguardar, nos salões da morte, meu amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela sorriu. Sua voz some em uma súplica etérea e prolongada ao finalizar seu último e carinhoso chamado como se a paixão lutasse contra o silêncio. Compreendo o que fala; é como uma profecia que precisa acontecer, pois é uma visão de um futuro distorcido, que ganhara aquela versão fantasmagórica na voz de Alice Diana. Fica na minha mente a curiosidade sobre essa mulher, mas, mais do que qualquer coisa, sobre minha missão enquanto caminhante. Destruir aquilo que me mantém vivo? O que poderia significar isso? Meus olhos morrem na lápide com aquele nome e torno a Morte. Perplexo. Atônito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Tá de volta comigo? Você quase me matou de susto.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não, não. Estou bem. Sabe algo sobre aquela mulher? — mas Morte continua confuso.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eh.. mulher?</p>
<p style="text-align: justify;">— É. O espírito, fantasma, espectro que eu estava conversando. Alice Diana.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você tava tagarelando com uma mulher? Onde? Como era?</p>
<p style="text-align: justify;">— Estava bem ali, perto da lápide. Você não viu?</p>
<p style="text-align: justify;">— Não, cara. Você meio que apagou ali. Ficou feito estátua. Achei que tinha enlouquecido e esquecido tudo de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não viu nada essa caveira, não mente, e sua lhaneza me intriga.</p>
<p style="text-align: justify;">[Intriga demais.]</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<table style="text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2512">&lt;&lt;   Capítulo III</a></td>
<td style="text-align: center;"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2599">Capítulo V   &gt;&gt;</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><em>Veja o índice dos capítulos <a href="http://sandubadequeijo.com.br/site/?p=2114" target="_blank">nesta postagem</a>.</em></p>
<p><em>| imagem de <a href="http://www.flickr.com/photos/anna_caroline/" target="_blank">Ana Caroline</a></em></p>
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		<title>[ Quente ] Publicidade da Pulp Books</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Mar 2011 13:39:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Quentes]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma campanha bastante curiosa da rede de livrarias Pulp Books, da África do Sul. Para incentivar a compra de livros, eles chegaram neste conceito que, traduzindo livremente seria algo como: Leia algo interessante (Read yourself interesting, embora tenha uma jogada com a leitura de si mesmo interessante que fica difícil traduzir né galera, haha). Algo como, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma campanha bastante curiosa da rede de livrarias <a href="http://www.pulpbooks.co.za/site.html?q=/cgi-bin/static.cgi!dynamic=1:d=pulp_browse:page=static:pid=home:t=pulp.load:cms=pulp">Pulp Books</a>, da África do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Para incentivar a compra de livros, eles chegaram neste conceito que, traduzindo livremente seria algo como: Leia algo interessante (Read yourself interesting, embora tenha uma jogada com a leitura de si mesmo interessante que fica difícil traduzir né galera, haha). Algo como, quanto mais você ler, mais interessante se tornará. Uma ideia interessante que eu partilho. Algumas das cenas publicitárias inclusive mostram bem isso, evidenciando um personagem que leu muito (com a estantezinha cheia) em destaque enquanto os que não lêem tanto (estante vazia) ou aplaudem ou seguram as coisas, num papel secundário.</p>
<p style="text-align: justify;">É um apelo forte, mas talvez válido. Eu gosto das soluções.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ver maior.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://adsoftheworld.com/files/images/bar_1_0.jpg"><img class="aligncenter" src="http://adsoftheworld.com/files/images/bar_1_0.jpg" alt="" width="590" height="380" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://adsoftheworld.com/files/images/boardroom_1.jpg"><img class="aligncenter" src="http://adsoftheworld.com/files/images/boardroom_1.jpg" alt="" width="590" height="381" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://adsoftheworld.com/files/images/lunch_1.jpg"><img class="aligncenter" src="http://adsoftheworld.com/files/images/lunch_1.jpg" alt="" width="590" height="382" /></a></p>
<p><em>Agência: Lowe Bull, Johannesburg, África do Sul<br />
Diretor Criativo: Rui Alves<br />
Direção de Arte: Juliet Honey<br />
Redator: Lee Naidoo<br />
Fotógrafo: Clive Stewart<br />
Estilista: Mia Widlake<br />
Retocador: Rob Frew<br />
Veiculação: Outubro de 2010</em></p>
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		<title>[ Filme ] Dorian Gray</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2011 12:04:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bruno Portella</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filmes]]></category>
		<category><![CDATA[Fora dos Livros]]></category>
		<category><![CDATA[adaptação]]></category>
		<category><![CDATA[ben barnes]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
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		<category><![CDATA[resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[Resenha da adaptação cinematográfica do Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://sandubadequeijo.com.br/wp-content/uploads/2011/03/dorian-destaque.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2553" title="dorian-destaque" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/dorian-destaque.jpg" alt="" width="600" height="376" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O Retrato de Dorian Gray é um dos meus livros prediletos. Lembro de tê-lo lido pelo menos duas vezes e já programado outras três (mentira, mas já imagino que lerei mais desse clássico na vida).</p>
<p style="text-align: justify;">A história, pra quem nunca leu, é sobre um jovem que, obcecado pelas ideias de um espirituoso colega passa a venerar a juventude, a beleza e as experiências que elas proporcionam. Dessa forma, num ato impulsivo, acaba trocando de papéis com um retrato pintado por um outro amigo seu. O trato é simples: Dorian vive e o retrato envelhece e calcifica todos seus pecados na tinta. Muito se diz sobre um pacto com o diabo nesse ponto, mas confesso não me lembrar de ter diabo algum na história. Enfim.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro foi originalmente lançado em 1890 pelo escritor irlandês Oscar Wilde e até hoje, precisamente hoje, eu não tinha visto uma adaptação boa para o cinema (um cinema cada vez mais dependente dos livros e ainda assim tão cego para os clássicos). Algumas das adaptações que me lembro agora de cabeça remetem ao estranhíssimo &#8216;Fantasma do Paraíso&#8217; que junta Dorian Gray com fantasma da Ópera e outras citações num filme absurdamente peculiar, a horrível adaptação de 2001 &#8216;Dorian&#8217; (ou &#8216;Pacto com o demônio&#8217;) que tentaram dar uma modernizada no conto sem o menor sucesso. Sem dizer na infame participação de Dorian na &#8216;Liga Extraordinária&#8217; (Jesus me guarde). Além de não encontrar uma boa adaptação no cinema, já me desiludi com o teatro em uma montagem de dois-mil-equalquercoisa que tinha no elenco o cavaleiro de Atena Francisco Brêtas (Hyoga de Cisne) no papel de Basil Halward. O único ponto forte da montagem.<span id="more-2552"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Com grande satisfação que então aluguei esta novíssima adaptação com o talentoso Colin Firth no papel do genial Lorde Henry Wotton, além de Ben Barnes (xis) como Dorian e Ben Whatever como Basil Halward. Todos muitíssimo bem sucedidos nos seus papéis, devemos dizer, embora eu sempre me lembre de Henry Wotton como um personagem dentro de si, enquanto este de Colin Firth, diversas vezes demonstra uma certa fraqueza, até inferioridade a partir da parte final da trama.</p>
<div id="attachment_2554" class="wp-caption alignright" style="width: 203px"><a href="http://sandubadequeijo.com.br/wp-content/uploads/2011/03/Lippincott_doriangray1.jpg"><img class="size-medium wp-image-2554" title="Publicação original" src="http://sandubadequeijo.com.br/site/wp-content/uploads/2011/03/Lippincott_doriangray1-193x300.jpg" alt="" width="193" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Publicação original de Dorian Gray</p></div>
<p style="text-align: justify;">O filme remonta a época tratada no livro, bem como não deixa passar qualquer elemento original que dá tamanha beleza e singularidade à obra. Graças aos atores, claro, que fazem dessa película digna de elogios já que Ben Barnes inicia o filme muito insosso (tal qual Dorian no começo do livro) bem como aquele seu Príncipe Caspian (seu papel em Crônicas de Nárnia, e é incrível ver o que a mão de um bom diretor pode fazer com o ator) e com o decorrer da trama (e da influência do genial Colin Firth como Harry/Henry) demonstra um misto de charme com crueldade incríveis.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme é de um cuidado muito grande e é notável perceber quando um bom tempo se passa na trama e os montadores cuidam para que os objetos de casa se modernizem, os carros substituam os coches e até a maneira de se vestir se torna ligeiramente diferente. Sem contar na maquiagem e na interpretação de determinados personagens que precisam compor uma versão muito mais envelhecida de seus personagens para ficar bem clara a longa passagem de tempo (por que o diretor é corajoso o suficiente de não colocar uma tarja branca, como nas novelas: vinte anos se passaram). O trabalho é bem feito, e nem tanto importa quantos anos exatos se passaram, somente que se passaram tempo o suficiente.</p>
<p style="text-align: justify;">A única pulga na orelha deste leitor fica para a dinâmica do próprio retrato que se torna um tanto quanto vivo, podemos assim dizer. O que me fascinava enquanto lia o livro era justamente a maneira como as mutações se formavam no quadro até que se tornasse horrendo no final da obra. Sempre imaginei que fossem detalhes pequenos que se alteravam sem que ninguém visse, e a cada olhada, uma linha torta e sinuosa quebrava o charme daquele Dorian Gray retratado. Talvez essa quieta mutação pudesse ser respeitada, o que não tira o brilho do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">A dica fica para todos vocês. Aluguem, comprem, dêem um jeito de ver essa boa adaptação de um dos melhores livros já escritos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Bruno Portella</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Elenco</p>
<p style="text-align: justify;">Ben Barnes como Dorian Gray<br />
Colin Firth como Lord Henry Wotton<br />
Rebecca Hall como Emily Wotton<br />
Ben Chaplin como Basil Hallward<br />
Emilia Fox como Victoria, Lady Henry Wotton<br />
Rachel Hurd-Wood como Sibyl Vane<br />
Fiona Shaw como Agatha<br />
Maryam d&#8217;Abo como Gladys<br />
Pip Torrens como Victor<br />
Douglas Henshall como Alan Campbell<br />
Caroline Goodall como Lady Radley<br />
Michael Culkin como Lord Radley<br />
Johnny Harris como James Vane</p>
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	<media:credit role="author">Quero um sanduíche de queijo</media:credit><media:rating>nonadult</media:rating><media:description type="plain">depois do sanduíche eu quero um beijo!</media:description></channel>
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