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	<title>Sexualidade by géh</title>
	
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	<description>Sexualidade: artigos de pesquisa e entrevistas</description>
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		<title>O que sempre foi assim pode ser diferente</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jul 2009 14:33:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[neurose]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade e política]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">I Am A Bundle of Neuroses por Pauline Lim</p>
<p>A sociedade parece viver presa a crendices, muitos sequer sabem o motivo, pelo simples fato de que &#8220;sempre <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2009/07/07/o-que-sempre-foi-assim-pode-ser-diferente/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_533" class="wp-caption aligncenter" style="width: 334px"><img class="size-full wp-image-533" title="I Am A Bundle of Neuroses por Pauline Lim" src="http://gehspace.com/sexualidade/wp-content/uploads/2009/07/pauline_lin.jpg" alt="I Am A Bundle of Neuroses por Pauline Lim" width="324" height="434" /><p class="wp-caption-text">I Am A Bundle of Neuroses por Pauline Lim</p></div>
<p>A sociedade parece viver presa a crendices, muitos sequer sabem o motivo, pelo simples fato de que &#8220;sempre foi assim&#8221;.  Vejo pessoas vivendo dentro de uma caixinha de fósforo, amarradas a camisas de força, mal conseguem respirar e nem notam onde estão.</p>
<p>Jogam seus filhos desde cedo em creches e escolinhas. Crianças que deveriam brincar, usam uniformes e passam mais tempo com estranhos do que com a família. A escola muitas vezes pode se tornar uma instituição doentia. Acredito que toda a criança merece ter uma base emocional fortalecida antes de ser colocada em uma instituição de ensino.</p>
<p>Sei que muitos podem se sentir contrários a minha opinião. Mas decidi que quero que meus filhos estejam preparados antes de se verem obrigados a ir diariamente a escola com mais de 40 alunos por sala e uma professora, nem sempre qualificada e preparada psicologicamente. Sim todos temos traumas, neuroses, ninguém é livre delas.</p>
<p>Aos três anos meu filho mais velho já recebe aulas de natação para fortalecer o físico, renovando suas energias a cada vitória conquistada. Desde seu nascimento, em casa, utilizamos a música como meio de expressão. Prepará-lo para uma iniciação musical e expressão artística é outro recurso que encontramos para fortalecê-lo emocionalmente.</p>
<p>Assim ele aprende a conhecer a si mesmo e ao mundo brincando. Toda criança precisa brincar. Toda criança precisa de amor e se sentir protegida por seus pais.</p>
<p>Somente aos cinco anos, quando ele estiver se comunicando plenamente e confiante em si mesmo, apresentarei a ele a escola. Na escola ele irá encontrar outras crianças, pessoas com o todo o tipo de crenças, superstições, neuroses. Lá ele também aprenderá muitas coisas boas, mas estará fortalecido para saber como lidar com o que é diferente, em aceitar as limitações de outras pessoas que não pensam da mesma forma que ele, mas também saberá como expor suas ideias, seus sentimentos.</p>
<p>Recebo olhares de contrariedade quando me perguntam porque meu filho de três anos não está na escola ainda? Eu respondo: é por amor, ele é criança e quer brincar. É brincando e se divertindo que fortalecerá seu caráter, seu espírito criativo e indagador.</p>
<p>Também sei que nem todos tem a opção de cuidar de seus filhos. Eu tenho um escritório em casa, por isso posso passar mais tempo junto aos meus filhos.  Nossa relação enfatiza a confiança, a sinceridade e o carinho entre nós.</p>
<p>Paralelo a isso, vejo a cidade mudando, a verticalização chegando e todos parecem cegos deixando-se levar pelo burburinho &#8220;é o progresso&#8221;. Progresso? Onde?</p>
<p>Pois digo o que vejo: a morte de uma cidade, a instalação de uma prisão, de um hospício ao ar livre. Duplica-se a cada nova construção vertical a quantidade de habitantes de um bairro. Até um ano atrás, as ruas estavam limpas, você não encontrava lixo nas calçadas. Hoje vejo pessoas que fugiram de uma metrópole violenta recorrendo a uma vida em uma cidade mais ao sul, interior do Brasil em busca da &#8220;vida saudável&#8221;.</p>
<p>Parece bom, a princípio, se não fosse por um porém: elas trazem seus vícios e os implantam aqui. Estão tão acostumadas a falta de qualidade de vida, que não conseguem se livrar de sua neurose.</p>
<p>Trouxeram os traficantes, as favelas, os moradores de rua, a miséria, o lixo nas ruas e em pouco tempo implantarão aqui também o medo. Agora pergunto: a verticalização é o progresso?</p>
<p>Cidades do interior são mais propícias ao aumento contínuo da AIDS e outras doenças transmissíveis sexualmente. Passeio pelas ruas e vejo pessoas fumando cigarros de maconha como se fossem cigarros normais durante a luz do dia. Em uma das principais ruas da cidade, um rapaz fumando crack as 16:00 da tarde é manchete do jornal.</p>
<p>E os nativos da cidade parece não quererem ver, andam tão centrados em sua própria camisa de força que se esquecem de dar valor a vida. Novos prédios significam mais desmatamento, mais carros nas ruas, mais poluição, mais violência.</p>
<p>A sexualidade é outro tema tratado com muita naturalidade em nossa casa. A sexualidade é altamente relacionada a base emocional do ser humano. Por isso a necessidade de fornecer recursos para o fortalecimento emocional  de nossas crianças. Tudo para que estejam preparadas para conviver em uma sociedade repletas de neurose.</p>
<p>Precisamos aprender a respirar, a escutar os avisos transmitidos por nosso corpo, aprender a ter uma vida mais saudável. Comece com pequenos atos como um abraço, um carinho, dando amor e atenção as pessoas com que você convive. Diga um bom dia com um sorriso para o motorista do ônibus, para seu vizinho. Dance, cante, crie e encante a vida. Saia da rotina, da mesmice, do que sempre foi assim: trasnforme sua vida com alegria e amor ao próximo.</p>
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		<title>A peste emocional na maternidade</title>
		<link>http://gehspace.com/sexualidade/2009/02/11/a-peste-emocional-na-maternidade/</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Feb 2009 18:02:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[gravidez]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade]]></category>
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		<category><![CDATA[peste emocional]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quem acompanha o a história deste portal de arte, sexualidade e corporalidade, deve ter percebido que estamos alterando a estrutura do site estático e migrando todo o <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2009/02/11/a-peste-emocional-na-maternidade/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quem acompanha o a história deste portal de arte, sexualidade e corporalidade, deve ter percebido que estamos alterando a estrutura do site estático e migrando todo o conteúdo de mais de 500 mil palavras para uma estrutura de blog. Desta forma, facilitando a publicação de novos conteúdos e permitindo uma melhor interação com os leitores. </p>
<p>Iniciei este portal em 2005, nesse meio tempo tive um filho lindo, que hoje está com dois anos e dez meses, engravidei de meu segundo filho que nasceu a pouco mais de dez dias. O primeiro parto foi cesárea, já o segundo parto normal. </p>
<div id="attachment_522" class="wp-caption aligncenter" style="width: 303px"><img src="http://gehspace.com/sexualidade/wp-content/uploads/2009/02/lawrence-buttigieg-pregnante-girl-red-background.jpg" alt="Pregnante girl red background por Lawrence Buttigieg" title="Pregnante girl red background por Lawrence Buttigieg" width="293" height="440" class="size-full wp-image-522" /><p class="wp-caption-text">Pregnante girl red background por Lawrence Buttigieg</p></div>
<p>Neste artigo quero contar a experiência que tive com a gestação e parto do meu segundo filho. Foi uma gestação calma até os quatro meses, quando comecei a ter alguns desmaios súbitos. Fiz alguns exames e nada indicava o que poderia exatamente a causa. Durante dois meses esses desmaios continuaram acontecendo, principalmente quando eu caminhava em dia ensolarado. Minha pressão que sempre foi baixa despencava. Meu médico percebeu uma pequeno aumento de anemia, muito comum em gestantes. Aumentei a dose de sulfato ferroso e minha situação se nornalizou. </p>
<p>Fiz todo o pré-natal pelo SUS, apesar da desorganização geral do sistema único de saúde, fui razoavelmente bem atendida durante o pré-natal. O parto decidi que desta vez faria pelo SUS, na maternidade Darci Vargas, alguns anos atrás considerada a melhor do país, por possuir o menor índice de óbito fetal.</p>
<p>Quando completei 39 semanas e 5 dias de gestação senti minha primeira contração. Sabia que estava próximo, agora era só aguardar o nascimento tão esperado. Pouco sabia que passaria por emoções tão fortes e conflitantes. Reproduzo abaixo o diário das horas que passei desde a chegada a emergência até a alta do hospital.</p>
<p><strong>18:00hs &#8211; 30/01:</strong><br />
Fui a emergência da maternidade Darci Vargas, pois pela última ultra-som que eu havia feito já havia completado 40 semanas de gestação. Fui bem atendida na recepção da emergência, na triagem e pela médica de plantão. A médica me examinou e disse que aparentemente estava tudo bem com o bebê e que eu já estava com 1,5cm de dilatação. Pediu que eu retornasse na manhã seguinte e realizasse dois exames: eletrocardiograma e ultra-som.</p>
<p>04:00hs as 13:00hs– 31/01:<br />
Em casa comecei a sentir as primeiras contrações e percebi que havia “vazado” um pouco do líquido amniótico. Aguardei até as 05:30 quando resolvi voltar a emergência. Fui atendida novamente pela mesma médica da noite anterior, ela me informou que a dilatação havia aumentado, me aconselhou a voltar para casa e tomar um café da manhã reforçado e então retornar por volta das 8:00 para fazer os exames. Fiz o que me recomendou. Quando retornei a emergência, as contrações e as dores já haviam aumentado. Fui pessimamente atendida pela recepcionista (uma mulher de pele escura e cabelos curtos), que nem olhou para mim, me ignorou por 20 minutos no balcão de atendimento enquanto “conversava com os seguranças e fazia crochê”.  Finalmente perguntou meu nome, meu endereço, minha religião, meu grau de escolaridade&#8230; tudo e menos o que realmente importava: como eu estava me sentindo e o que porque eu havia procurado a emergência. Me fez aguardar na recepção. Fui atendida então pela triagem, que me recebeu bem e disse que retornasse até a sala de recepção. Somente as 10 horas, com as contrações cada vez mais doloridas e menos espaçadas, fui levada para fazer o eletrocardiograma. Novamente volto a recepção e aguardo até as 12:00hs para já me contorcendo de dor, quase sem conseguir caminhar, atravessar os corredores até a sala de ultra-som. Fiz a ultra-som e pediram que aguardasse novamente na recepção da emergência até uma médica poder atender. Várias gestantes percebendo o meu sofrimento, tentaram dar o seu lugar para que a médica me atendesse antes, sendo completamente ignoradas pela auxiliar de enfermagem. As 13:00 fui atendida pela médica de plantão. A médica, muito grossa, impaciente, indiferente a dor que eu estava sentindo,  me machucou ao tentar verificar com quanto de dilatação eu estava usando uma luva sem gel. Então finalmente resolveu me encaminhar para a sala de pré-parto, pois eu já estava com 4 cm de dilatação. </p>
<p><strong>13:30hs as 18:00hs aproximadamente &#8211; 31/01:</strong><br />
No pré parto fui muito bem recebida, com atenção e muito carinho por todos. O mesmo tenho a dizer do pessoal da analgesia e da obstetra na sala do parto. Foi um parto sem dor, a pesar da criança ter nascido com mais de 3,900 kg. A pediatra que acompanhou o parto me informou que a criança estava bem e que por nascer com o peso superior a 3,900kg ela teria que fazer alguns exames de controle de glicose nas primeiras 48 horas.  Após o parto, fui enviada ao berçário, recebi uma sopa como alimentação, já que não comia nada desde as 7:00 da manhã.</p>
<p><strong>A primeira noite de internação:</strong><br />
Uma auxiliar de enfermagem de cabelos curtos pintados “ruivos”, veio buscar a maca onde me encontrava com meu filho recém nascido. Neste momento minha mãe estava ao nosso lado. Esta enfermeira grosseiramente exigiu que minha mãe empurrasse a maca para que ela guiasse pelos corredores. Minha mãe por ser deficiente auditiva, não entendia direito o que esta auxiliar de enfermagem resmungava. Até o momento que ela novamente ordenou que minha mãe empurrasse com mais força e de forma mais rápida a maca para que ela não precisasse fazer força. Foi quando chamei a atenção desta enfermeira dizendo que minhã mãe era deficiente auditiva. Simplesmente amarrou a cara e se quer pediu desculpas pela grosseria feita com minha mãe. Minha mãe estava somente me acompanhando naquele momento, não era funcionária da maternidade. Ao chegar ao quarto, esta mesma auxiliar de enfermagem “ruiva” começou a apertar minha barriga, dizendo que tinha que colocar no lugar e pediu que eu relaxasse, mas eu sentia uma enorme vontade de urinar e pedi para ir ao banheiro. Me ignorou. Outra enfermeira entrou esse momento e percebeu que minha bexiga estava cheia, de forma que eu não conseguiria “relaxar” para a outra enfermeira por meu útero no lugar ou seja lá o que ela pretendia. Me ajudou a sentar na cama e disse que isso facilitaria, pediu para esperar um pouco e se eu não estivesse me sentindo tonta que eu poderia ir ao banheiro e saiu do quarto.  Como estava realmente me sentindo forte e bem, e com muita vontade de urinar, pedi a minha irmã que me acompanharia a noite que me auxiliasse. Aproximadamente uma hora depois a mesma enfermeira “ruiva” volta ao quarto e perguntei se eu já poderia tomar um banho, disse que sim mas que eu não podia lavar a cabeça. Bom esse já é meu segundo filho, e minha primeira obstetra disse que banho e água limpa não fazem mal a ninguém. Com a ajuda da minha irmã, fui ao banho. Quando ainda me banhava a enfermeira abre o box do chuveiro e reclama que eu lavei a cabeça. Lavei-me, não sentia dor, nem tontura, somente um pouco cansada o banho me fez bem. (No dia seguinte questionei a obstetra e ela disse que não havia problema algum em tomar banho após o parto, que era extremamente saudável).  Já se passava das 21:00hs quando finalmente percebemos que não havia acomodação mínima para as acompanhantes no quarto onde estávamos (número 1). Havia três mães no quarto e três acompanhantes e somente uma cadeira. Como a maternidade nos proporcionava direito a um acompanhante, o mínimo esperado era uma cadeira para passar os próximos dias. Minha irmã foi ao posto de enfermagem perguntar onde poderia conseguir uma cadeira para ela e para a acompanhante do leito 2. A resposta que recebeu é que “não tinha cadeira disponível.”</p>
<p>Na volta para o nosso quarto 1 onde nos estávamos ela percebeu vários quartos desocupados com mais de uma cadeira disponível. Questionou as duas enfermeiras de plantão sobre a possibilidade de conseguir as cadeiras disponíveis nos quartos não utilizados e também foi ignorada. Até que finalmente a auxiliar de enfermagem “ruiva” disse que “a direção do hospital não permitia que fossem removida as cadeiras dos quartos, e se o nosso quarto não tinha ela não podia fazer nada. E se não bastasse fez o seguinte comentário: “Não sei pra que acompanhante, não deveria ter acompanhante”. A falta de humanidade com o trato com as pacientes era evidente. Onde estava o respeito ao próximo? Caso estivéssemos sozinhas ficaríamos reféns a esse tipo de ser humano? Passou-se algumas horas até que encontramos de passagem no corredor uma alma caridosa que nos conseguiu duas cadeiras. </p>
<p><strong>Os próximos dias:</strong><br />
A equipe responsável pela limpeza costumava entrar falando alto não respeitando o sono dos bebês. O pessoal responsável pela alimentação também deixava a desejar no trato com as pacientes, obrigava-nos a comer em menos de 30 minutos (principalmente na hora da janta) porque precisavam fechar a cozinha, sem se importar se estávamos ou não amamentando nossos filhos nesse momento. </p>
<p>Na manhã do dia 01 de fevereiro recebi a visita da obstetra que foi muito atenciosa e disse que se tudo ocorresse bem no que dependesse dela eu estaria de alta na manhã da segunda feira. No dia seguinte recebi a visita bem cedo da obstetra que me deu alta. Aguardei ansiosa a visita do pediatra para dar alta a meu filho. No dia do parto, como dito anteriormente me avisaram que meu filho faria os testes de controle de glicose, todos deram normais, a meu ver nada mais me impedia de ir embora, somente esperava a visita do pediatra para avaliação final. Horas depois o Dr. Marcelo, pediatra (nome este informado posteriormente por outra funcionária do hospital), um jovem pediatra veio examinar meu filho, disse que aparentemente estava tudo bem com o bebê e só precisava confirmar os dados referente ao peso, disse-me que iria até o pronto atendimento e voltaria em seguida para terminar a avaliação. Fiquei aguardando a volta que não aconteceu. Passou-se do meio dia e nada. Chegou ao final da tarde e nada dele aparecer, fui várias vezes indagar no pronto atendimento onde estaria o pediatra para terminar a avaliação do meu filho e nada. Sempre respostas do estilo “eu acho que ele está não sei a onde”, “assim que ele voltar ele vai provavelmente vai ao seu quarto”&#8230;  Até que me alterei, entrei em crise depressiva pois mais uma vez a funcionária que trazia a janta foi ríspida ao dizer que precisávamos comer em menos de 30 minutos porque ela viria recolher a bandeja. A comida já não descia, eu estava exausta, queria uma resposta e não “achismos” de vários funcionários que eu interpelei. Queria o direito de receber o parecer médico quanto a situação do meu filho. Porque ainda estavam nos mantendo lá? O que havia de errado? Então ao ver que eu não estava bem, enviaram outra pediatra que não podia “avaliar a situação do meu filho”, segundo ela somente o Dr. Marcelo poderia dar alta. E que provavelmente eu ficaria 72 horas no hospital, ou seja mais um dia inteiro naquela situação de stress. Meu marido chegou nesse meio tempo, contei a ele o que estava acontecendo, foi quando ele resolveu procurar a direção do hospital, que coincidentemente é o pediatra do meu outro filho: Dr. Paulo Furlanetto. O meu marido perguntou a ele qual o porcentagem considerada normal por perda de peso do recém nascido após 48 horas: ele prontamente respondeu 10%, ou seja, meu filho poderia perder até 390 gramas que seria considerado normal. Perguntou também como era o procedimento para dar alta e questionou que o médico não terminou a avaliação. Ele disse que o pediatra deveria passar no das 09:00hs até as 12:00hs obrigatoriamente. Passamos mais uma noite, eu e meu filho na maternidade. Nesta mesma noite recebemos duas visitantes: duas baratas, uma apareceu em cima da cama do leito 2 e outra no chão próximo a porta. Foi um susto danado e desagradável. Porque já estávamos aguardando as três mães internadas no quarto 1 a tanto tempo,  ansiosas pela visita dos pediatras para recebermos alta, o stress causado pelo péssimo tratamento por parte dos funcionários que trabalham na internação, que baratas só vinham a confirmar: aquele não era o melhor lugar para manter-nos saudáveis. </p>
<p><strong>05:40 do dia 03/02:</strong><br />
Comecei a sentir dor e cólicas, foi quando percebi que desde que havia “recebido alta” na manhã do dia 02 não havia mais recebido remédios. Fui procurar uma enfermeira e disse a ela que estava sentindo dor se podia me ajudar. A enfermeira em questão era uma mulher negra, de cabelos amarrados, me olhou com cara feia e disse que não podia fazer nada e que não era hora de “remédio”. Então eu disse que estava com muita dor, e não tomava remédio desde o dia anterior, provavelmente porque havia recebido alta. Então ela me disse você devia ter ido ao “postinho” quando recebi alta e pedir os remédios que o médico certamente havia receitado. Eu respondi, como poderia ter ido se meu filho ainda não recebeu alta? Me ignorou e seguiu seu caminho. Se não fosse uma acompanhante do quarto onde eu me encontrava, que tinha em sua bolsa um paracetamol, eu ficaria sentindo dor indefinitivamente. </p>
<p>Finalmente amanheceu e uma enfermeira, que não recordo o nome, muito querida e atenciosa apareceu para ajudar no banho dos bebês. Disse que logo o pediatra deveria aparecer para avaliar os bebês. Já eram 10:00hs da manhã e o pediatra ainda não havia aparecido. Meu marido já estava ao meu lado neste momento. 11:35hs a enfermeira chefe vem ao nosso quarto querendo saber qual o que havia acontecido, pois havia recebido informações da diretoria de insatisfação por parte de paciente. Escutou nossas insatisfações e nos aconselhou a responder ao questionário de avaliação dos serviços prestados pelo hospital. Uma pediatra chega logo após e da alta ao meu filho. Finalmente saímos da prisão, estávamos livres.</p>
<p><strong>A peste emocional na maternidade</strong>: um ambiente pós parto que era para ser de pura felicidade, pois concebemos uma vida nova, com muito amor, alegria e também esforço físico e emocional. percebo a misoginia de mulher contra mulher, a neurose embutida em cada ato, cada ataque verbal. Um ambiente que necessita de aconchego e carinho para mãe e o bebê, transformado aos poucos em cárcere privado. Pessoas não preparadas para trabalhar no trato com seres humanos, pessoas que não sabem o valor do amor ao próximo. </p>
<p>Hoje livre, cansada e feliz , 11 dias após o nascimento de meu filho fui ao pediatra efetuar uma consulta de rotina. Ele está ótimo e saudável. Mais uma ser iluminado, uma fonte de alegria para compartilhar nossas vidas.</p>
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		<title>Como reagi ao diagnóstico positivo (parte II)</title>
		<link>http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/como-reagi-ao-diagnostico-positivo-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:11:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[aids]]></category>
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		<category><![CDATA[dst]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Naquele momento autorizaria até minha decapitação. Rapidamente fui garroteado e o sangue colhido, e fui encaminhado para a internação. Passou-se um <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/como-reagi-ao-diagnostico-positivo-parte-ii/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Naquele momento autorizaria até minha decapitação. Rapidamente fui garroteado e o sangue colhido, e fui encaminhado para a internação. Passou-se um tempo até que eu acordasse de verdade, e me recordo de uma enfermeira que me dava café da manha com uma seringa de injeção (lágrimas) dizendo que se eu não comesse (muitas lágrimas) eu não ia “sarar”.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 410px"><img title="Loneliness por Ali Hammoud" src="http://gehspace.com/edicao%20110%20imagens/Loneliness-ali%20hammoud.jpg" alt="Loneliness por Ali Hammoud" width="400" height="320" /><p class="wp-caption-text">Loneliness por Ali Hammoud</p></div>
<p>Já faz tanto tempo isso, e na época tudo era tão diáfano. Mas consigo me recordar de seu rosto. No dia da alta, minha médica, doutora Guadalupe me chamou a sua sala e me disse assim, à queima roupa: “ Cláudio, preciso que você vá ao CRTA para fazer um exame confirmatório para o HIV, pois seu primeiro exame deu positivo. Eu, em choque, disse a seguinte pérola:</p>
<p>“-Tudo bem, eu já vivi bastante mesmo&#8230;”</p>
<p>Doutora Guadalupe então começou a falar que a AIDS não era mais uma sentença de morte, que a ciência tinha avançado muito e que&#8230; Mas eu já não podia não podia ouvi-la. O medo me arrastara para outras dimensões e lá, eu encontrei a culpa. Eu matei Verônica, pensei. Não me passou pela cabeça que eu poderia ter contraído de Verônica. Só entendia tê-la matado e a culpa por isso era avassaladora. Pensei em suicídio. Mas uma voz em mim disse-me que tivesse, ao menos, a decência de suportar as conseqüências de meus atos com dignidade. Isso realmente me deteve&#8230; Não sei como, mas cheguei ao centro de referência, que ficava na rua Antônio Carlos; cheguei lá visivelmente consternado. Tive de assistir uma palestra de quase uma hora, uma angustiante hora até fazer o exame. Pensei que o resultado saísse na hora.</p>
<p>Quinze dias. Foi aí que começou meu sofrimento. Sentindo-me culpado pela própria doença, envergonhei-me dela. Envergonhado, não consegui pedir ajuda para ninguém.</p>
<p>Voltando às boates onde eu trabalhara, descobri que corria á boca miúda que eu morrera, e morrera de AIDS; isso se deu porque foi bem prolongada a minha permanência no hospital.</p>
<p>Na noite, um boato se transforma em verdade em menos de uma hora. E quando eu cheguei, quarenta quilos mais magro, confirmou-se que eu tinha AIDS. Estava vivo, mas tinha AIDS. Fui enxotado da Rua Bento Freitas como um cão sarnento e uma das coisas que me lembro ter ouvido foi, some daqui lixo aidético (&#8230;) Fui ao hotel onde eu morava e, naturalmente, meu quarto fora desocupado. O dono do hotel me devolveu minhas coisas sem me cobrar as diárias e eu passei a perambular pelas ruas com uma mala pesadíssima de roupas, sem saber o que fazer. Tudo o que eu tinha na mente era que em poucos meses eu morreria, eu secaria como uma samambaia num xaxim abandonado, morte lenta, angustiante e dolorosa, eu nada sabia sobre a AIDS.</p>
<p>Eu sentia que as pessoas, nas ruas de São Paulo, ao olharem para mim, percebiam que eu tinha HIV. Isso criou uma sensação de paranóia, como se eu pudesse ser “denunciado” a qualquer momento. Enfim lembrei-me de uma gerente de uma casa GLBT em que trabalhei e que ela era envolvida nestas causas, na causa de apoio a portadores de HIV e me ocorreu procurá-la, mas isso só poderia ser feito na quarta feira, pois a casa em que trabalháramos juntos só abria de quarta a domingo.</p>
<p>Não lhe porei nome, ela me recebeu, me ouviu, enxugou minhas lágrimas e disse que havia uma solução. Pediu-me alguns minutos, mandou servissem-me um lanche e foi dar um telefonema. Voltou com o sorriso que lhe era natural e disse–me que fosse até a rua tal, número Y que havia um leito à minha espera, mas que eu fosse rápido.</p>
<p>Assim consegui uma vaga numa casa de apoio, que pode não ser a melhor alternativa, mas era tudo o que me restava. Era um bom lugar. Cinco refeições por dia, roupa lavada, TV a cabo, todo o conforto que alguém pode desejar. Mas as saídas para a rua só eram permitidas aos sábados ou nos dias de consulta. De certa forma, era uma prisão. Tirem-me tudo, pois tudo eu posso recuperar, mas não me tirem a liberdade, eu vos imploro. Mesmo assim dei graças a Deus quando tive assegurada a minha permanência ali, pois de uma forma ou de outra, eu me conheço, eu encontraria meios de me reerguer. E enquanto isso, eu me alimentava, recuperava peso, ganhava forças, preparava o espírito.</p>
<p>Mas tinha um problema: Verônica. Eu pensava que se eu tinha possibilidades de tratamento, era justo que ela tivesse também, em se confirmando o diagnóstico positivo&#8230; Para isso, eu tinha de contar a ela.<br />
Mas como? Como é que você olha nos olhos de sua ex e diz: Verônica, você precisa fazer um exame para HIV. O meu deu positivo.</p>
<p>É a certeza de uma tempestade e o mais reservado dos locais não poderá esconder o escândalo, o dramático escândalo. Como era fim de ano deliberei que deixaria ela ter um natal tranqüilo, ninguém tem o direito de estragar o natal de alguém assim.</p>
<p>Seriam cerca de 50 dias de agonia e, se houve natais em que senti-me só, nenhum deles foi povoado por tantas lágrimas, fantasmas e medos como aquele, Verônica, me perdõe. Passou o natal, passou o ano novo chegou o dia de reis e eu não tomava coragem de fazer o que tinha de ser feito.</p>
<p>Mas tinha de ser feito e um amigo fez por mim. Conta-me ele que a reação dela foi tão avassaladora que um segundo depois de ter dito ele já estava arrependido. Ela disse que não faria exame, que se fizesse e desse positivo ela não ia se cuidar, desfiou o rosário do desespero. Fez o exame e deu negativo. Diz-se que ela fez mais de dez exames até o responsável pelo laboratório se recusar a fazer outros, dizendo que, “se não deu positivo até agora, não vai mais dar”.</p>
<p>Eu soube por telefone que o exame dela deu negativo, foi num sábado e toda a tensão acumulada em mais de cinqüenta dias explodiu, e eu comecei a chorar. Um choro convulso, de criança, que durou por todo o sábado (eu adormecia e acordava chorando) até o fim do domingo.</p>
<p>Mas, mas para que se diga toda a verdade e que o homem se mostre como ele é, faz-se preciso dizer que, embora houvesse um grande alívio por minha parte por ela não ter contraído HIV, uma parte de mim lamentava o fato, pois tinha ciência que tal circunstância abria um abismo de proporções cósmicas entre nós, que eu jamais a veria e jamais a teria em meus braços novamente.</p>
<p>Sou apenas um homem, tenho tendências egoísticas , como qualquer um de vós, que me ledes. Perdoai minha fraqueza de caráter. “A gente, por amor, põe a mão em cumbuca&#8230;”</p>
<p>Na casa de apoio as coisas iam mais ou menos no esquema de hospital prisão, até que me pediram para fazer um serviço: Acompanhar um doente ao hospital. Eu aceitei. Era uma possibilidade de sair à rua, ver gente e ser útil. O paciente chamava-se Walter* e estava pesando pouco mais que trinta quilos.</p>
<p>Minha missão era levá-lo até o hospital e acompanhá-lo, velar por ele enquanto ele estivesse lá. Walter não dava trabalho nenhum. Eu só tinha de lhe dar água, comida, trocar suas fraldas (aprendi muito em matéria de humildade, tocar num pênis que não o meu não me fez menos homem).</p>
<p>E sobrava-me tempo para visitar os doentes dos outros quartos e, assim, ter o privilégio de servir mais. Depois de algum tempo as enfermeiras confiavam em mim, me davam tarefas, me ensinavam procedimentos de segurança e tudo o que fosse útil à minha proteção. Acabei fazendo parte, tacitamente, do corpo de voluntários do hospital, sem nunca descuidar do Walter.</p>
<p>Numa manhã, por volta das 8h30m ouvi o choro de uma moça e corri para lá. Era um problema que hoje eu conheço bem: Depois de anos levando picadas nas veias (em dez anos creio ter tomado mais de 4500), elas ficam difíceis de serem acessadas e o trabalho de alcançar uma delas era particularmente doloroso.<br />
Corri ao lado da moça e perguntei o que ela tinha. Ela: “- Me ajuda, ta doendo&#8230;”</p>
<p>Eu a abracei e disse calma, relaxa, ó, tem um homem grande e bonito ao seu lado (delírios de narcisista) e você não pode chorar na frente dele. Ela relaxou e, Acréscimo de Misericórdia Divina, ficou mais fácil achar a veia. E eu passei a ter um compromisso com aquela moça e todos os dias, ás 8h30m eu estava lá, a postos, para ajudá-la a receber remédios.</p>
<p>Walter é que não melhorava, ao contrário, piorava. Durante três meses eu vivi na ilusão que poderia ajudar aquele homem a se reerguer, retomar a vida e vivê-la em sua plenitude. Mas todo este trabalho, que se constituía em lhe dar banho, alimentá-lo, trocar suas fraldas era um trabalho estafante e me deram uma “folga”, um final de semana inteiro para eu ir onde quisesse. Eu fui. E quando voltei na segunda feira cheguei perguntando por ele, quando uma daquelas dementadas de lá me disseram que ele estava nas últimas, que “até as coisas dele já tinham sido divididas”.</p>
<p>Corri para o CRTA. Quarto andar, internação. Quis entrar e o segurança me deteve. Chamei a médica de plantão e ela me negou a visita. Entrei à viva força. Deparei-me com uma das visões mais tristes de minha vida. Aquele homem não me via mais, sua atenção estava voltada para outra esfera onde eu não tinha o menor significado. Depois de ter entrado à viva força entendi o porquê de tentarem me deter. Ninguém me puniu. Minha dor me bastava.</p>
<p>Cuidei de seu funeral, simples, e a cada pá de terra que caía surdamente sobre o sarcófago de papelão, frágil como a própria vida, mais certeza eu tinha que não faria o menor sentido se tudo acabasse ali, tinha, tem, de haver um propósito maior para tanto sofrimento, inaceitável que acabe tudo sob um amontoado de terra.<br />
Depois disso seria impossível voltar a ser prisioneiro da casa de apoio e eu preferi as ruas a ficar lá.</p>
<p>Como me levantei já é outro processo, que não vou contar aqui, pois não faz parte do ponto; mas me levantei e acredito que qualquer um se levantaria. Não é um simples vírus que vai me derrotar, se toda a sociedade, agindo veladamente e em conjunto não o conseguiu. É certo que morrerei um dia, mas de vós que me ledes, não creio haveis de escapar ao menos um.</p>
<p>Anos depois percebi que havia uma grande falta de informações na Internet sobre HIV. Então me decidi a criar um site e por nele tudo o que eu pudesse encontrar sobre a AIDS. Eu pesquisei, traduzi, aprendi HTML, depois ASP, procurei, eu mesmo, compreender melhor a doença, a aceitá-la melhor, para amparar outras pessoas que me procuram em momentos de medo e de dúvida, enfim, eu me coloquei á disposição.</p>
<p>Não recebo amparo ou suporte material de quem quer que seja e vivo com recursos pífios e inconstantes. Mas até aqui Deus tem sido pródigo comigo e nada me tem faltado. Foi assim, então, que reagi ao HIV.<br />
Com medos, com dúvidas, com vergonhas, com culpas. Mas durante todo o processo era clara a minha opção pela vida e eu sobrevivi, Deus sabe como, eu sobrevivi!</p>
<p>Se morrer amanha, sei que terei dado o melhor de mim e partirei da Terra com certa tristeza (amo este planetóide) mas com a consciência em paz relativa. Mas acho que não terminei de reagir ao diagnóstico positivo para AIDS. Eu continuo reagindo todos os dias e estarei a reagir por todos os dias, enquanto me houver forças.</p>
<p>Escolhi o computador como meio de trabalho e expressão baseado no seguinte raciocínio: “Enquanto eu tiver um braço, um olho que funcione e um cérebro, poderei ir em frente”. E foi assim que sobrevivi a uma embolia pulmonar, um enfarto e mais três meningites. No caminho houve perdas amorosas, algumas por conta do preconceito, outras porque eu sou mesmo um caso perdido.</p>
<p>Hoje estou casado, e a minha esposa é a maior Mulher que encontrei na vida; também ela, é soropositiva, mas nos já nos conhecemos assim, pela Internet. Em suma eu fiz uma opção pela vida e pedi muito a Deus que me permita ser útil, peço o tempo que for possível, que meus méritos de hoje possam representar algumas horas a mais no futuro, pois eu preciso continuar reagindo à sorologia positiva para HIV, ajudando outras pessoas, que são surpreendidas e que não sabem a quem procurar; é comum que deus as mande para mim.<br />
Espero que meu site, www.soropositivo.org possa ser útil a você que me lê, com já foi para quase um milhão e meio de pessoas.</p>
<p>E espero também que www.amorpositivo.eti.br também possa ser um pólo de reunião de pessoas vivendo com HIV e outras que não vivem com HIV, e que de lá nasçam namoros, noivados, casamentos, filhos, famílias.<br />
Se este site que estou acabando de por no ar gerar uma só família, eu terei pago muitos, mas muitos de meus pecados. Milito em causa própria, pode ser, mas os resultados são bons para todos.</p>
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		<title>Como reagi ao diagnóstico positivo (parte I)</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:07:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Quando fundei a comunidade Soropositividade e Sexualidade sabia que estava começando a lidar com um assunto complexo. Sexo é complexo até <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/como-reagi-ao-diagnostico-positivo-parte-i/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Quando fundei a comunidade Soropositividade e Sexualidade sabia que estava começando a lidar com um assunto complexo. Sexo é complexo até entre duas pulgas. A primeira pergunta que lancei foi a seguinte: O exame está feito. Deu positivo. O que você faria?</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 376px"><img title="Loneliness por Sergei Chepik" src="http://gehspace.com/edicao%20109%20imagens/loneliness-sergei%20chepik.jpg" alt="Loneliness por Sergei Chepik" width="366" height="466" /><p class="wp-caption-text">Loneliness por Sergei Chepik</p></div>
<p>Chovi no molhado. A maioria ali é soropositiva e já sabe como reagiu.  Então resolvi contar como eu reagi, quanto tempo isso custou. Não vou contar a luta pela sobrevivência material, um caso à parte, e que a Adriana conhece bem. Vou contar apenas as coisas que pensei, vivi e senti.</p>
<p>Penso que para as pessoas soronegativas ou sorointerrogativas isso pode ser de grande valia, pois ainda me recordo de uma amiga que suspeitou ter contraído HIV e que me disse, com todas as letras: “se der positivo me jogo aqui do décimo oitavo andar”</p>
<p>É preciso recolocar que fui DJ. As condições que me levaram a ser DJ na noite paulista eu vou eclipsar. Como DJ eu tinha facio acesso às mulheres e, em virtude de carências da infância e da adolescência eu buscava nestas mulheres algo que jamais poderia encontrar: O amor sonegado de minha mãe.</p>
<p>A cada desencontro uma troca, a cada troca lágrimas de uma mulher ferida, mas eu segui à frente. MOVE ON!!!</p>
<p>Eu me tornei um adicto do sexo. Um sexólatra. Precisava de sexo mais do que cigarro, e olhem que fumo à bessa. Toda noite uma mulher. Às vezes duas. E outra de dia.<br />
Quando eu falhava na sedução, pagava uma garota de programas. Nunca me preocupei com DST e não vou enumerar nem listar as que tive. Mas foram muitas, o suficiente para eu pressentir que era vulnerável ao HIV; mas quanto a isso, eu não me importava.</p>
<p>Minha personalidade foi formada de uma forma torta e eu tinha pouco ou nenhum apego à vida e absolutamente nenhum medo de morrer. Na minha ignorância, acreditava que contrair HIV era simplesmente condenar-se à morte e morrer em pouco tempo.</p>
<p>Esta proposta me parecia ótima!</p>
<p>Posso dizer sem medo de errar que não foi apenas uma, nem apenas duas, as vezes em que, ao penetrar a garota eu me lembrava do HIV e pensava assim. Se pegar, f&#8230;-..</p>
<p>Eu estava completamente equivocado sobre o que era, ou no que vinha se tornando a infecção por HIV e a AIDS e esta ignorância custou-me caríssimo mais adiante.</p>
<p>Esta minha corrida pelo sexo foi arrefecendo na mesma medida em que eu percebia que a minha busca era inútil (esta percepção era subjetiva) e que a vida de DJ já não me agradava tanto.</p>
<p>Perto do melancólico final de minha carreira de DJ trabalhei numa casa que já não existe, como quase todas as em que eu trabalhei (as que existem lembram filmes do Stephen king), o Club de Paris.  Ali conheci uma morena muito faceira, muito esperta, bonita e, para que ela possa ter um nome e estar morta em paz, eu a chamarei de Veruska*. Foi amor à primeira vista. E como todo amor à primeira vista queimou como um rastilho de pólvora e acabou alguns meses depois.</p>
<p>Eu não sabia, ela não sabia, mas dela, eu traria comigo bem mais que boas e más lembranças. Eu traria uma pequena capa protéica, que protege uma seqüência de RNA, e não DNA, chamada HIV. Sei disso porque fui comunicado do passamento dela em virtude de complicações da AIDS.</p>
<p>Juntei lé com cré e conclui isso. Sei bem que posso estar errado, mas quero poder me reservar o direito de, em tendo sido tão irresponsável e descuidado comigo, que eu tenha contraído o HIV numa relação em que o que contava era o amor.</p>
<p>Por favor, aceitem isso sem questionamentos. Eu me basto para me questionar. Sou meu juiz mais severo&#8230;</p>
<p>Depois que perdi Veruska andei um tempo meio ao leo, sem saber bem o que fazer de mim e de minha vida até que encontrei uma outra moça, Verônica*. Verônica não era da noite. Era diferente. E o diferente naquela altura da vida era fascinante. Vinha, ela, de uma decepção amorosa. Eu, idem.</p>
<p>Fizemos um acordo silencioso e, como dois bêbados encostados um ao ombro do outro, começamos a longa caminhada para a sobriedade.  Pelo caminho exploramos a sexualidade com pujança e nem mesmo o coreto da Praça da República e o nicho entre as colunas de uma certa estação do metro escaparam. Loucos seria uma palavra que nos definiria, mas definiria mal, pois loucos não sabem o que estão fazendo, e nós sabíamos.<br />
Mas eu não soube cumprir a minha parte do trato e a cada dia que se passava eu gostava mais dela. E não parava para mensurar se havia reciprocidade de sentimentos.</p>
<p>Grave engano que me custou uma terrível decepção quando ela, finalmente, recuperou a sobriedade e me disse adeus por telefone. Fiquei muito mal, mal de verdade. Mas nem chorar eu chorava, eu simplesmente comecei a definhar. Meu sofrimento por Verônica era silencioso, não havia lágrimas. Havia uma indizível sensação de perda irreparável.</p>
<p>Como DJ, eu havia chegado ao fundo do poço e estava trabalhando de porteiro numa casa da boca do lixo chamada Barroco. Não que houvesse algo de barroco lá como rios de fogo que congelam ou geleiras que queimam, o maldito lugar se chamava barroco por mera coincidência.</p>
<p>Eu não tinha mais vontade de nada. Acho que duas perdas emocionais em seis meses foram mais do que eu poderia agüentar. Importa dizer que Verônica quis me abrir portas a outro mundo e me apresentou esta entidade fantástica, o computador; e importa dizer que eu não me interessei muito com planilhas e editores de texto mas, sim, com a maneira com que este engenho diabólico funciona. Mas isso teria de ficar para outros tempos.</p>
<p>O fato é que definhei, definhei até que acabei adoecendo.</p>
<p>Uma bela manha eu acordei com uma dor de cabeça infernal e pedi a uma das moças, uma que me olhava com outros olhos, mas que eu não tinha condições de corresponder, que me levasse a farmácia para tomar alguma injeção para a dor.</p>
<p>A injeção teve o efeito de um copo de água com açúcar e eu acabei indo para o hotel onde morava.<br />
Na manhã seguinte fui a um hospital famoso por atender qualquer pessoa, tendo ela documentos ou não. Era uma instituição de caridade que diagnosticou meu caso, como um “quadro gripal”. Esperei uma semana e o quadro gripal não melhorou, aliás, piorou, e voltei ao hospital.</p>
<p>Outra médica, outra residente e o mesmo diagnóstico, que se repetiu ainda por uma terceira semana, até que um amigo me disse: “Ei, ai não ta dando certo, vá ao hospital tal que lá é “batata”; Neste ponto me cabe inquirir o leitor sobre o por que de lar ser batata? Eu não entendo nada de batatas, mas creio que elas não são boas em diagnósticos, acho que o House é melhor nisso.</p>
<p>Bem, cheguei lá e a atendente olhou para mim com olhos de pânico, pediu eu me sentasse, coisa que não fiz e voltou com uma médica, que ao olhar para mim teve dois vocábulos: “Meu Deus!” Colocou-me em observação por algum tempo e veio com um neurologista, para o Licquor.</p>
<p>Por conta da minha semi inconsciência, e dados os riscos do exame, foram necessárias seis pessoas para me segurar, dentre elas uma enfermeira de quadris generosos que ficou bem à frente dos meus olhos, e que me deu toda a tranqüilidade para fazer o exame (uma vez flamengo, sempre flamengo&#8230;)</p>
<p>Um tempo mais tarde uma médica me disse assim: Claudio&#8230; Você está com meningite. Uma meningite viral, e não seria tão sério, mas parece que você andou muito tempo com ela. Estou internando você. Mas, Cláudio, você é um homem da noite, solteiro, sem residência fixa e tudo isso se encaixa num padrão que pede um exame para HIV. Você autoriza este exame?</p>
<p>(continuação na próxima edição)</p>
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		<title>Sexualidade</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 20:02:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/sexualidade/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Claudio Santos de Souza<br />
Editor do www.soropositivo.org</p>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando a falar sobre sexo.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 380px"><img title="Hermel Orozco" src="http://gehspace.com/edicao%20104%20imagens/22.jpg" alt="Hermel Orozco" width="370" height="460" /><p class="wp-caption-text">Hermel Orozco</p></div>
<p>Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando a falar sobre sexo.</p>
<p>Às vezes parece-me que o sexo é uma coisa feia, suja, de gente de baixo nível&#8230;</p>
<p>“Troca de fluídos?&#8230;</p>
<p>Argh&#8230;”</p>
<p>Mas transar, fora uns loucos, todo mundo transa.</p>
<p>Minha sogra, 70 anos, disse a meu cunhado, 42 anos, pai de três filhos, um deles já adolescente, que é necessário falar sobre sexo com “as crianças”.</p>
<p>“Nããããooo! Eles aprendem na rua mesmo.</p>
<p>Quando eu era um púbere disseram-me que passar bosta de galinha no pênis faria os pelos pubianos crescerem mais depressa&#8230; Não fosse o nojo, bem, pode se imaginar o rebosteiro.</p>
<p>Veiculei hoje uma notícia que diz que 75% das idosas contaminadas com HIV foram contaminadas por seus maridos.</p>
<p>Dizem que a envelhescência é igual a adolescência e vai me parecendo que é verdade.</p>
<p>Os velhinhos pulam a cerca e acreditam-se imunes ao HIV, ou não sabem o quão perigoso ele é. Daí a não usar camisinha é só um passo e, daí para a contaminação, é roleta russa.</p>
<p>Sexo é uma coisa boa, que deveria ser praticada todos os dias por todas as pessoas.</p>
<p>Mas parece que não é assim; parece-me, mais, que as pessoas têm pudores com relação ao sexo, a velha noção de pecado (com minha mulher não) que tanto fez e faz sofrer mulheres neste orbe.</p>
<p>Muitas mulheres morreram, e muitas morrerão, sem saber com certeza o que é um orgasmo.</p>
<p>Sexo devia ser matéria de currículo escolar a partir da quarta ou quinta série. Mas currículo sério, falando de masturbação, caricia, sexo oral, preliminares, coito interrompido (falácia), Doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite para que as “crianças” cresçam sabendo.</p>
<p>Sabendo que é bom, mas traz perigos e que, nos dias de hoje, o sexo desprotegido não é a melhor alternativa e que as conseqüências disso podem ser funestas&#8230;</p>
<p>A mídia precisa ser mais responsável, produzir campanhas e apresentar no horário diurno, para que crianças vejam, para que crianças aprendam e que idosos também.</p>
<p>Não é porque fez sessenta anos que a vida sexual acaba.</p>
<p>Pode ser até que ela ganhe novos contornos, outras emoções, mas ela existe.</p>
<p>Assim, de modo discreto, “o estimulo prostático” faz milagres muito superiores ao do Ciallis.</p>
<p>Pediram-me que escrevesse sobre sexualidade e sexualidade é coisa complicada até entre pulgas.</p>
<p>Não sei se logrei êxito na missão, pois estou em dúvida se falei claramente sobre sexo oral, anal, vaginal, inversão, sado-masoquismo, BDSM com a desenvoltura necessária.</p>
<p>Mas tenho uma comunidade no Orkut, Soropositivodade e sexualidade.</p>
<p>Dezoito membros.</p>
<p>Dezoito mudos.</p>
<p>A chamada da comunidade é esta:</p>
<p>&#8220;Não importa a sua orientação sexual. Homo, Hetero, Bi, Pan-sexual, Domme, Sub&#8230; Na vida você sempre poderá encontrar uma pessoa soropositiva para HIV. O que você faria? Fugiria? O portador de HIV não merece carinho, atenção e prazer? Ele deixou de ser humano? Você é soronegativo(A)? Tem certeza? Já fez o exame? Se não fez é sorointerrogativo. Você tomaria as precauções óbvias e deixaria rolar a transa? E você, soropositivo contaria antes? Esconderia pelo medo da rejeição? E se a transa virar caso? E se o caso virar compromisso? E se a camisinha estourar? E se ela(e) se apaixonar? Como resolver o problema da omissão da informação? A &#8220;tal hora de contar&#8221; é uma barra pesadissima e se a relação começou fundamentada em mentiras o caso é crítico&#8230; Minha proposta é discutir estes assuntos.&#8221;</p>
<p>Como se vê, a questão é repleta de outras questões.</p>
<p>E você, faria amor com alguém com HIV?</p>
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		<item>
		<title>Energia e consciência – sobre a violência doméstica contra a mulher</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:55:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Dayse Mara Bortoli
Psicoterapeuta

A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/energia-e-consciencia-sobre-a-violencia-domestica-contra-a-mulher/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Dayse Mara Bortoli<br />
Psicoterapeuta<br />
</em><br />
A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e através de atitudes de comportamento procure ser feliz e ter prazer.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 406px"><img title="A limited independence por Ni Ketut" src="http://gehspace.com/edicao%20106%20imagens/A%20limited-independence_%20NI_Ketut.jpg" alt="A limited independence por Ni Ketut" width="396" height="330" /><p class="wp-caption-text">A limited independence por Ni Ketut</p></div>
<p>É certo que esse prazer não é o mesmo que prazer imediato, aquele alheio ao respeito e necessidades do outro. Para tal, o funcionamento natural do ser humano é o da aprendizagem através de relações afetivas sobre valores éticos e morais. O ego ideal é formado através da construção do superego, no dia a dia da criança com adultos de referência, sendo valorizado, respeitado como ser em desenvolvimento, onde suas pulsões naturais de vida são livremente expressas. Com esse desenvolvimento imbuído de relações afetivas de liberdade e respeito às pulsões naturais, se desenvolve a saúde e o investimento energético da pessoa é canalizado para projetos de vida e busca de felicidade.</p>
<p>Por outro lado quando essas pulsões são proibidas como coisas más ou imorais, a criança não entende que seu desejo não é adequado, retrai-se ou torna-se uma agente de agressões. A saúde e a doença estão intimamente ligadas ao nível de energia ou pulsão que o individuo se apropria para si, de forma consciente, com poder quanto a sua própria vida e felicidade.</p>
<p>Quando essa energia não está disponível para nossos projetos e nossa vida, de forma consciente, fica a mercê do que é necessário para a proteção do sistema, sistema esse vulnerável às feridas emocionais. É como se a não apropriação da própria energia, o não assumir seus desejos e pulsões o levassem a um caminho onde se fica vulnerável a projeções, e todo tipo de defesas por não suportar a intensidade desses mesmos desejos. O caminho então se torna antinatural e o leva para longe de si mesmo, perdido nas brumas entre o eu e o outro.</p>
<p>Vemos Milhares de mulheres no Brasil, vítimas de violência doméstica. Mulheres que não conseguem sair de relações destrutivas ou se fortalecerem como pessoas humanas devido à percepção inadequada que tem de si mesmas. A energia diária de suas vidas que seria utilizada para projetos pessoais, é consumida no sentido de poderem sobreviver em relações de dor e frustração. Utilizam forças internas na tentativa de permanecerem na relação acreditando que se “se esforçarem”, e “serem boazinhas” as coisas melhoram. Essa situação cotidiana, que tira a mulher da sua naturalidade e espontaneidade é de muito esforço energético e libidinal.</p>
<p>Projetam as suas força no homem que as violentam dia a dia, sem se darem conta que se eles assim o fazem é em função de sentimentos de insegurança, menos valia fracasso. Esses homens precisam ser violentos para provarem alguma força, algum valor.</p>
<p>Mulheres que não se dão conta que são elas que têm a responsabilidade do cuidado com os filhos, com a casa, com o aluguel, água, luz, etc., que são competentes perante suas vidas. Mulheres que projetaram naquele relacionamento o sonho do amor romântico, do príncipe encantado e esperam, com esperança que esse príncipe reapareça e que tudo em seu mundo de violência se transforme em amor. Amam quem também é o agente da violência, projetam para sobreviverem.</p>
<p>Atualmente vemos que já houve uma mudança no feminino. Temos ministras, governadoras, ativistas e também presidenciáveis. Mulheres, inteligentes, senhoras de seu destino e cientes de que o feminino e masculino interiores são polaridades que podem coexistir harmonicamente. As potencialidades interiores podem ser colocadas a serviço das transformações sociais, econômicas e políticas de nosso tempo. Mulheres que se identificam com seu animus, com suas qualidades de planejamento, força, racionalização, objetividade e lógica. O problema é que ainda essas mulheres são uma minoria. A maior massa da população ainda se enquadra no modelo chauvinista, misógino e machista dos séculos anteriores e por essa razão se deixam escravizar e violentar facilmente, e não conseguem saídas desse ciclo de violência que passa de geração a geração.</p>
<p>Há a necessidade de mulheres que conheçam a si mesmas, seu interior, seu animus, enquanto sistemas de proteção à vida que devem ser trabalhados de forma pedagógica e terapêutica. Somente a proteção social da mulher e a responsabilização do homem não mudam o quadro violento que se amplia diariamente em nosso país.</p>
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		<title>Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente?</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:49:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade e política]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/aspectos-politicos-da-sexualidade-curar-a-sociedade-ou-remendar-o-doente/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. Sou brasileira, nasci no sul do país, morei algum tempo no Rio de Janeiro e hoje estou em Santa Catarina.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 400px"><img title="Circe por Cassandra Tiffin-Lavers" src="http://gehspace.com/edicao%20104%20imagens/Circe.jpg" alt="Circe por Cassandra Tiffin-Lavers" width="390" height="492" /><p class="wp-caption-text">Circe por Cassandra Tiffin-Lavers</p></div>
<p>Nasci em uma cidade onde as mulheres são criadas para namorar, casar, ter filhos e ser dona de casa. Algumas para estudar&#8230; mas nunca se espera que elas sustentem a família. O homem é educado para o papel de provedor. Muitos homens casados acham que sentir prazer e fazer sexo &#8211; com todas as fantasias possíveis – é algo que só deve fazer no prostíbulo na esquina. Com a mulher, em casa, o “correto” limita-se ao &#8220;papai-mamãe&#8221;. Se a mulher pede algo a mais, ou tenta inovar, o homem já acha que está sendo traído: onde ela aprendeu tudo isso se não foi com ele?</p>
<p>Há muitas mulheres que ultrapassam os &#8220;limites impostos pela sociedade&#8221;. Estudam, ampliam os horizontes, querem ser independentes. Algumas conseguem um espaço. A maioria acaba saindo da cidade, em busca de &#8220;ar&#8221; ou de pessoas com outro tipo de pensamento. As mulheres, em sua maioria, são mais evoluídas do que os homens, mas muitas param ou se acomodam no cumprimento do papel que se espera delas.</p>
<p>A isso chamo de “educação tradicionalista”.</p>
<p>Mas essas definições rígidas dos papéis sexuais acontece somente em cidades tradicionalistas? Não. Esse é um fenômeno universal, que afeta a toda a humanidade, principalmente nas sociedades ocidentais. A diferença está no modo como essas neuroses são “revestidas”.</p>
<p>Em uma cidade metropolitana como o Rio de Janeiro, por exemplo, parte dessa moralidade funciona às avessas, mas de forma igualmente terrível. Se uma mulher quer se casar virgem, a moralidade vigente grita: “Mas você ainda é virgem”? O policiamento sobre o comportamento do outro e a exclusão quando se quebra as “sagradas regras sociais” são constantes, mas assumem forma de “bom humor”, através de piadinhas tão depreciativas quanto uma acusação direta. O carioca “tem” que gostar de pagode, de carnaval e de torrar na praia. Porque é isso que se espera dele. Ele precisa ignorar solenemente o que está debaixo de seu nariz: as praias poluídas, as calçadas imundas, a violência verbal e física a cada esquina, a falta de educação, gentileza e cordialidade&#8230; Mas o Rio é lindo!</p>
<p>“Em política cada um culpa os demais, nunca a si mesmo. É hora de parar de culpar o bode expiatório. Já é mais do que na hora de ver o que divide a humanidade. É a peste emocional, chamada “pecado” na Cristandade, que fragmenta a humanidade. É a couraça que torna o homem desamparado e prostrado. É novamente a couraça que é o terror da Vida viva, fluente, que cria os portadores da peste, que se tornam os sargentos dos exércitos de nações cruéis” (Reich, 1995 p.206).</p>
<p>Demos o exemplo da mulher, mas a culpa é somente dos homens? Não. A culpa é da sociedade e de suas “regras morais”. Qualquer pessoa que infringir as regras é crucificado. Quem faz a sociedade? O Zé Ninguém e a Maria Ninguém, ou seja, nós. Vivemos em uma sociedade que produz neurose, uma sociedade em que desde que se nasce, já se é doente. Será que a solução se encontra em “remendar” o problema em consultórios de psicoterapias? Ou será que Reich estava certo ao defender que era preciso “produzir” saúde? Por que, mesmo nas comunidades auto-intituladas “reichianas”, pouco se fala sobre seu importantíssimo trabalho político?</p>
<p>Além de editora, sou artista plástica, e abordo na arte a corporalidade e a sexualidade humana. Daqui a duas semanas, farei uma exposição cujo o tema é uma homenagem aos 50 anos de morte de Wilhelm Reich, chamada “Função do Orgasmo”.</p>
<p>Imaginem agora, nesse momento estou enviando convites para o coquetel da exposição. Muitos me perguntam qual é a reação das pessoas ao verem que o tema é relacionado com sexualidade. Não espero ser recebida com flores, aplausos e confetes. Procuro tratar o tema com a maior naturalidade, já que é assim que sempre deveria ser tratado.</p>
<p>Fui muito bem recebida pela mídia até o momento e tenho certeza de ter despertado pelo menos a curiosidade de alguns: “quem é esta artista que fala sobre sexo”? Essa estranheza vem de que muitos limitam sua idéia de sexualidade ao ato sexual, sem perceber que o termo se refere a toda nossa existência.</p>
<p>As obras que preparei para essa esposição retratam a mulher desde o matriarcado, quando ainda podemos dizer que havia uma “sexualidade natural”, até a mulher contemporânea. Com a passagem do matriarcado para o patriarcado, surge o “pecado original” e também a “peste emocional”, quando a sociedade começa a reprimir e anular no corpo tudo o que é o belo e natural.</p>
<p>É isso que a psicologia corporal nos mostra, ao ensinar-nos a ler a corporalidade, as expressões corporais. Reich foi o fundador da psicologia corporal. Ele e seus contemporâneos mapearam o corpo humano e nos mostraram que há possibilidade de libertar essa energia represada no que chamou de couraça muscular. Mas Reich foi mais além, nos instigando a não somente remendar os estragos sociais através da terapia, incitando-nos.a mudar todo o pensamento político e ideológico que nos mantém nessa prisão sem muros que é a sexualidade amordaçada.</p>
<p>Voltando ao nosso inimigo contemporâneo, a AIDS, sinto que devo lutar contra esse monstro aqui em Santa Catarina. A idéia que se transmite na mídia sobre o &#8220;Coquetel anti-AIDS&#8221; como solução para o problema, sem abordar os graves efeitos colaterais da medicação antiretroviral, ou as dificuldades do dia a dia de um HIV positivo. Uma pessoa que desenvolveu a doença precisa de apoio diário: psicológico, atividade física, massoterapia, terapias de grupo e outras atividades em que os pacientes possam dar e receber apoio mútuo.</p>
<p>A AIDS, assim como as outras DSTs, são conseqüências diretas da &#8220;Peste Emocial&#8221;, do desconhecimento e intolerância com relação à própria sexualidade. Na década de 1960, explode a &#8220;liberação sexual&#8221;, o lema &#8220;sexo, drogas e rock and roll&#8221;. Nos anos 1980 surge a AIDS, e a tal “liberação” sem liberdade de fato cobra o seu preço. Onde está a liberdade real?</p>
<p>Não vou mudar o mundo. Mas se eu puder alertar e fazer alguma diferença no pensamento e atitude de quem estiver próximo, eu o farei, e a arte estará a meu lado.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Reich, Wilhelm. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.</p>
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		<title>Você sabe se é portador do vírus HIV?</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:44:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[edições 101 a 105]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Inicio esse artigo com uma indagação: Você            sabe se é portador do vírus HIV?</p>
<p <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/voce-sabe-se-e-portador-do-virus-hiv/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Inicio esse artigo com uma indagação: <strong>Você            sabe se é portador do vírus HIV</strong>?</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 238px"><img title="Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers" src="http://gehspace.com/edicao%20101%20imagens/fearfuture_cassandra.jpg" alt="Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers" width="228" height="500" /><p class="wp-caption-text">Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers</p></div>
<p>Por favor não responda! Quero apenas que você, leitor, reflita sobre os sentimentos que emergiram a partir dessa pergunta, pois trata-se de uma pergunta extremamente intrusiva, que envolve uma série de pressupostos relativos à sua intimidade: atividade/inatividade sexual, com parceiros estáveis ou ocasionais, com uso ou não preservativos durante o ato sexual, questionamentos sobre a fidelidade no casamento/relacionamento, entre muitas outras questões sensíveis.</p>
<p>Note como é diferente perguntar se “você sabe se é portador de diabetes”?</p>
<p>O diabetes não é uma doença sexualmente transmissível. Logo, tende a não ser sentida como uma pergunta tão “íntima” ou “intrusiva”.</p>
<p>O que me leva a outra questão, extremamente grave: algum médico, já pediu a você um exame de HIV? De minha parte, respondo que o assunto nunca veio à baila no consultório médico até que eu ficasse grávida! Por quê? Será que, talvez, a pergunta não seja feita justamente para não provocar o “mal-estar” e todos os sentimentos que acarreta?</p>
<p>Ou será que os médicos que me atenderam ainda trabalham com a idéia superada de “grupo de risco” e, conseqüentemente, julgaram improvável que eu pudesse ter contraído a doença?</p>
<p>Os profissionais de saúde são unânimes em afirmar que não existem mais “grupos de risco”. Cito, como exemplo, o caso de uma senhora a quem entrevistei, portadora de HIV/AIDS, que acaba de celebrar 80 anos de idade.</p>
<p>Ela afirmou que seu clínico achava que “idosos não pegam AIDS.” Ela teria se infectado aos 70 anos de idade, com seu namorado. Ela atribui à “pílula azul” e às próteses de silicone um aumento na atividade sexual do idoso – grupo definido pelo IBGE como a população a partir dos 60 anos de idade – o que os teria deixado tão expostos ao risco de infecção pelo HIV quanto os mais jovens.</p>
<p>Segundo Parker e Aggleton (2001) “ao longo de duas décadas, enquanto os países, em todo mundo, lutam para dar resposta à epidemia de HIIV/AIDS, as questões do estigma, da discriminação e da negação vêm sendo alguns dos dilemas mais mal entendidos e mais persistentes enfrentados pelo desenvolvimento dos programas de saúde e educação públicas”.</p>
<p>Porque a realidade do HIV/AIDS parece tão fora do nosso círculo “familiar”? É importante enfatizar que, quando o assunto abrange AIDS, o corte na pirâmide socioeconômica é vertical. A AIDS atinge todos os segmentos da população, por qualquer crítério que se queira adotar: sexo, idade, profissão, classe social, grau de instrução, etnia, religião.</p>
<p>Nesses últimos dois anos, realizei entrevistas com psicólogas, profissionais de saúde, jornalistas e pacientes soropositivos. Uma das declarações mais freqüentes é a de que a desinformação mata e ainda é uma das principais causas do assustador crescimento da epidemia de AIDS.</p>
<p>Por exemplo, é alarmante a seguinte declaração de Cláudio Oliveira, assessor de comunicação da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”: “É importante ressaltar que não há &#8216;cura&#8217; para a AIDS. Um grande problema é que muitas pessoas, não tão bem informadas, ao receberem fragmentos de informação na mídia, ficaram com a impressão de que a AIDS se tornou uma doença crônica, parecida com o diabetes. As pessoas pensam que você passa o resto da vida tomando o remédio e tudo bem, não vai morrer da doença. Só que, em nenhum momento, recebe o devido destaque a realidade das infecções oportunistas, dos efeitos colaterais fortíssimos dos medicamentos&#8230; Há casos de pessoas que vêm a falecer em função desses efeitos colaterais”.</p>
<p>É importante entendermos como o processo de estigmatização, descriminação e negação funciona no meio social. O Brasil é considerado país-modelo no terceiro mundo em combate a epidemia de AIDS. Então porque a epidemia continua crescendo assustadoramente, não só no Brasil, como em outros países?</p>
<p>Gaiarsa (2006) sugere que a “abstração e a generalização” podem ser tidas como defesas neuróticas coletivas, e que a generalização, mais vezes sim do que não, “existe a serviço da agressão”, ela é um mecanismo neurótico coletivamente criado e aceito para permitir agressão sem culpa. Um mecanismo gerador de preconceitos. O autor cita como exemplo: “os negros” (todos os negros) “não prestam”, “os judeus” (todos os judeus) “só pensam em dinheiro”, “os americanos”, “os árabes”, e assim por diante. O autor continua: “a raiz do fanatismo é esta: o agarrar-se a uma interpretação da realidade como se ela fosse a única”. Seguindo essa linha de raciocínio, a generalização pode ser a causa “inconsciente” do preconceito contra o que é diferente.</p>
<p>Marshall (segundo Parker e Aggleton, 2001) afirmaria que os primeiros sociólogos viam a discriminação como uma expressão de etnocentrismo ou, em outras palavras, um fenômeno cultural de “não gostar dos diferentes”. Já análises sociológicas mais recentes sobre a discriminação concentram-se em padrões de dominação e opressão, vistos como expressões de busca de poder e privilégio.</p>
<p>Em resumo, pode-se afirmar, segundo Parker e Aggleton (2001), que a natureza do estigma é contextual, histórica, empregada estrategicamente para produzir e reproduzir relações e desigualdades sociais.</p>
<p>Quando falamos da relação de sexualidade, cultura, poder e noções de diferença, parece não ser possível deixar de citar Foucault. Para Parker e Aggleton (2001), “os estudos mais influentes que Foucault fez sobre o poder, Vigiar e Punir e A História da Sexualidade, volume I: A Vontade de Saber, enfatizavam o que ele definia como novo regime de conhecimento/poder que caracterizou as sociedades européias modernas durante o final do século dezenove e começo do século vinte. Dentro desse regime, a violência física ou a coerção foram cada vez mais dando lugar ao que ele descreveu como &#8217;sujeição&#8217;, ou controle social exercido não através da força física, e sim pela produção de sujeitos adestrados e corpos dóceis. Ele explicou como a produção social da diferença está ligada aos regimes estabelecidos de conhecimento e poder”.</p>
<p>Os autores afirmam ainda que é possível ver a estigmatização desempenhando um papel-chave na transformação da diferença em desigualdade, e pode funcionar, em princípio, em relação a qualquer dos eixos principais da desigualdade estrutural interculturalmente presente: classe, gênero, idade, raça ou etnia, sexualidade ou orientação sexual, e assim por diante. Segundo, e mais importante ainda, “o estigma é empregado por atores sociais reais e identificáveis que buscam legitimar o seu próprio status dominante dentro das estruturas de desigualdade social existentes”.</p>
<p>Resumindo, a estigmatização está diretamente relacionada às desigualdades de poder; ela faz com que as desigualdades sociais pareçam ‘razoáveis’ e, por fim, criam e reforçam a exclusão social.</p>
<p>“Um foco sobre as relações entre cultura, poder e diferença na determinação da estigmatização motiva um entendimento da estigmatização e discriminação ligadas ao HIV e à AIDS como parte do que talvez possa ser descrito da melhor forma como economia política da exclusão social presente no mundo contemporâneo” (Parker e Aggleton, 2001).</p>
<p>Desde o início da epidemia de HIV e AIDS, mobilizou-se uma série de metáforas poderosas para reforçar a estigmatização: morte, horror, punição, crime, guerra, vergonha, acontece com “o outro”. É importante enfatizar que, antes do surgimento do HIV/AIDS, já existiam outras formas de estigmatização que, hoje, interagem com a estigmatização da epidemia de HIV/AIDS, tais como a de gênero, orientação sexual, posicão no sistema socioeconômico e raça.</p>
<p>Atrevo-me, então, a supor que, se essas outras formas de estigmatização já estivessem superadas, o portador do vírus HIV, poderia ser encarado como uma pessoa com diabetes ou câncer. O estigma, caso existisse, seria muito menor.</p>
<p>Em entrevista com a psicóloga Mariceli Bernini que trabalha no IPrA como portadores do vírus HIV, ela atesta que, como o fato de que a principal via de transmissão do virus da AIDS é o contato sexual, criam-se muitos problemas adicionais, advindos de questões culturais relacionadas à sexualidade. Se é uma mulher a portadora do HIV, ou é rotulada como “a promíscua” ou como “a traída”; se é um homem, já está previamente rotulado como “homossexual”, se o caso envolve uma pessoa idosa, trata-se de uma “velhinha ou velhinho safado”. Dessa maneira todo soropositivo já se sentiria socialmente pré-rotulado para a exclusão.</p>
<p>Outro estigma relacionado propriamente com a AIDS, é o medo da infecção e o medo da morte. Muita desinformação sobre os meios de contágio, apesar das diversas campanhas realizadas nos últimos 20 anos, ainda transforma os doentes em “Infames” pela sociedade. A desinfomarção continua gerando preconceito, vitimando e culpando os portadores de HIV/AIDS.</p>
<p>Agora, podemos ter uma visão mais ampla dos motivos por trás desses “sentimentos confusos” despertados na indagação quanto a ser ou não portador do vírus HIV. Imagine então como é dificil para uma pessoa portadora do vírus HIV lidar com seus próprios sentimentos, exorcizar os medos, viver um dia de cada vez. E ainda, o quanto é importante o auxílio dos amigos, dos familiares e de profissionais que lidam diretamente com os portadores de HIV para que esse “viver um dia de cada vez” possa ser feito com o máximo de harmonia possível.</p>
<p>A AIDS não acontece somente nos “centros urbanos”. Outra questão de pesquisa gravíssima é o fenômeno da interiorização da AIDS, isto é, a migração da epidemia dos grandes centros urbanos para cidades médias e pequenas do interior do país. Segundo relatos individuais, que pretendo investigar mais a fundo, há casos de pessoas residentes em centros urbanos que, ao se descobrirem com HIV, decidiram “mudar de vida” e migraram para uma cidade menor, tentando “apagar o passado”, mas levando o vírus com elas. E, chegando lá, namoram, casam-se, muitas vezes sem avisar o parceiro(a) que é portador do HIV.</p>
<p>Você sabe com quem seu namorado/parceiro(a) manteve relações sexuais? Sabe que um vírus HIV pode ficar anos incubado sem se manifestar?</p>
<p>“Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002, publicado pelo Ministério da Saúde, o número de mulheres contaminadas com o vírus da Aids tem crescido a cada ano e, na maioria dos casos, através de relações heterossexuais. Entre as décadas de 80 e 90 as mulheres maiores de 13 anos, contaminadas pela relação heterossexual, perfaziam um total de 61,1%. No ano de 2002 esta porcentagem elevou-se a 93,5%”. (Giacomozzi, 2004).</p>
<p>A autora afirma ainda que “os dados revelam um aumento desta epidemia, principalmente entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo, em regime de conjugalidade”.</p>
<p>Então lembre-se: AIDS é problema seu também. AIDS é um problema da humanidade!</p>
<p>O HIV não é transmitido por beijos, abraços, suor, saliva, lágrimas, pelo uso comum de piscinas, copos, talheres ou roupas. O contágio é feito por relações sexuais sem protenção (camisinha), transfusões de sangue, pelo uso de agulhas e seringas contaminadas, de mãe soropositiva ao filho durante a gestação, o parto ou a amamentação.</p>
<p>Então agora que você já sabe, seja solidário, converse com seus familiares e amigos, e faça essa pergunta: Você já fez um teste de HIV? Sabe como se prevenir? Com o avanço assustador da epidemia, você pode ser o próximo a precisar de apoio. Pense nisso.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e coporal. São Paulo: Ágora, 2006.</p>
<p>Giacomozzi, Andréia Izabel. Confiança no parceiro e proteção frente ao hiv: estudo de representações socias. Florianópolis, 2004. Dissertação (Mestrado em Psicologia) &#8211; Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em:</p>
<p>Parker, Richard. Aggleton, Peter. Estigma, discriminação e AIDS. Rio de Janeiro: ABIA, 2001.</p>
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		<title>Cem edições de “Sexualidade” – escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:37:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[moralidade]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Trajetória Pessoal:</p>
<p>Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/cem-edicoes-de-sexualidade-escolhas-riscos-e-vitorias-no-continuo-processo-de-libertacao/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Trajetória Pessoal:</p>
<p>Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por ter sido criada no seio de uma família com descendência italiana; meu pai um pouco mais fechado por pertencer a uma família de origem alemã. Ambos tiveram papéis fundamentais para minha criação: positivos e negativos, como em toda família.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 400px"><img title="Nus em movimento por Géssica Hellmann" src="http://gehspace.com/GaleriaGeh/nus%20em%20movimento.jpg" alt="Nus em movimento por Géssica Hellmann" width="390" height="577" /><p class="wp-caption-text">Nus em movimento por Géssica Hellmann</p></div>
<p>Fui condicionada desde cedo a tirar &#8220;boas notas&#8221; na escola, estudar bastante para conseguir um &#8220;bom emprego&#8221;&#8230;. Assim como a ser responsável, educada, não aceitar coisas de estranhos, ir à missa aos domingos&#8230;</p>
<p>Pelo menos até minha crisma, a missa dominical rotineira. &#8220;Crisma&#8221;, para os que não conhecem o ritual católico, é a &#8220;Confirmação&#8221;, um sacramento da Igreja Católica em que o fiel recebe através do bispo uma unção com óleo, reafirmando a submissão à fé à qual se afiliou no sacramento do batismo.</p>
<p>Como era esperado, cedo comecei a trabalhar em &#8220;escritório&#8221;, como se dizia então. Na verdade, meu cargo era &#8220;auxiliar de caixa&#8221; em uma indústria, em regime de oito horas por dia, em troca de um mísero salário mínimo. Lá, aprendi várias coisas positivas, que se refletem no meu caráter. Mas também foi lá que comecei a ver o mundo de uma forma &#8220;quadrada&#8221;. Ao sair dessa indústria, logo fui trabalhar para outra empresa, também na área financeira. Tive de trabalhar 13 anos com finanças para descobrir que eu tinha medo da felicidade. Mantinha-me nesses empregos porque era seguro, mas não era feliz.</p>
<p>Já na faculdade, observava a &#8220;fauna&#8221; ao meu redor. Foi lá que comecei a transgredir alguns conceitos &#8211; ou melhor, a mostrar minha vida interior, o que as pessoas aparentemente ignoravam. Lembro-me do furor quando apresentei um projetos de fotografia com um ensaio fotográfico extremamente sensual.</p>
<p>Que surpresa! Aquela garota que só tirava notas boas e parecia viver enfiada em livros era, na verdade, uma mulher, e corria em suas veias uma energia sexual, como em todo mundo.</p>
<p>Enquanto isso, avós e tios cobravam daquela mesma menina-mulher o &#8220;namorado oficial&#8221;. Eu tinha &#8220;ficantes&#8221;, é obvio, mas nenhum que me interessasse apresentar à família. Irritava-me a cobrança, como se fosse uma obrigação social: TER UM NAMORADO.</p>
<p>Admito, isso machucava muito. Algo haveria de errado comigo? Por que tantas cobranças?</p>
<p>Foi nessa mesma época que mergulhei no mundo virtual. Conheci pessoas e, muitas delas, trouxe para a minha vida real. Foi lá que todas aquelas idéias, que aparentemente não deveriam ser ditas no meio social em que eu vivia, foram florescendo, despertando paixões. Comecei a questionar tudo o que era dado como certo &#8220;porque sempre foi assim&#8221;. Toda a hipocrisia da social em relação à sexualidade, eu a trazia à tona em discussões acaloradas.</p>
<p>Sair do ninho e enfrentar a incredulidade dos normopatas.</p>
<p>Eu buscava a liberdade, buscava a verdadeira felicidade.</p>
<p>Como Freire e Brito (1987) afirmaram: &#8220;Risco é sinônimo de liberdade. O máximo de segurança é escravidão&#8221;. É preciso, segundo os autores, viver o presente através das coisas que nos dão prazer.</p>
<p>Nesse momento, fiz uma lista: as coisas que gostaria de fazer e as que eu não queria mais na minha vida. Surgiram duas decisções importantes: queria sair de casa para abrir meus horizontes e fazer mestrado em uma área que me libertasse da necessidade de trabalhar em um curral, digo, &#8220;escritório&#8221;. Durante essa busca, surgiram duas propostas interessantes e, ao mesmo tempo, dois caminhos diferentes: Florianópolis e Rio de Janeiro.</p>
<p>Escolher Florianópolis apresentava várias vantagens: eu já conhecia a cidade, amigos meus moravam lá, fica a apenas duas horas de Joinville, mas faltava alguma coisa&#8230;. Foi quando recebi a proposta para fazer um projeto editorial inesperado: falar sobre a sexualidade humana. Isso sim, envolveria risco: mexer com a libido humana. Foi a busca dessa realização, desse sonho maluco, que me fez seguir o caminho do Rio de Janeiro.</p>
<p>Lembro do olhar assustado das pessoas quando souberam que larguei o meu tão &#8220;seguro emprego&#8221; para viver um sonho. Gaiarsa (2006) explica essa reação: &#8220;Os normopatas vêem bem pouco do que os cerca, vêem bem pouco de si mesmos. E esse pouco é sempre o mesmo&#8230; O normopata mantém-se boa parte do tempo formulando para si mesmo não-razões (desculpas) para não-ações, pensando em tudo que não fez e em tudo que devia ter feito. Vive buscando de quem é a culpa &#8211; ou quem deveria responder por ela&#8221;.</p>
<p>Somente uma das minhas irmãs estava sabendo dos meus projetos e, recebi total apoio dela. Só avisei minha mãe de minha decisão uma semana antes da viagem. Comprei passagem aérea, malas prontas, encaixotei o essencial e enviei pelo correio. Havia chegado a hora.</p>
<p>Projetar o sonho em realidade:</p>
<p>Inicialmente com um formato editorial simples, com muita fé e persistência, dei inicio, assessorada pelo Alexei, a essa revista semanal: o GÉH. Erros e acertos, aprendizagem constante, muita pesquisa e muita dedicação transformou aquele projeto inicial em uma realidade.</p>
<p>Nesses dois anos que se passaram, construímos uma família e conquistamos muitas vitórias. Cresci como mulher, me libertei de várias amarras, ampliei meus horizontes e agora me sinto madura para finalmente ingressar no mestrado tão desejado. Preferi vivenciar o que eu pesquisava e estava aprendendo: é preciso vivenciar para fazer sentido.</p>
<p>Essa pesquisa sobre o comportamento humano, a sexualidade, a corporalidade, tudo isso alterou minha forma de ser. Principalmente, foi extremamente importante na minha vida ter acesso aos escritos de Reich. Foi com ele que aprendi a olhar o mundo, as pessoas e a mim mesma de uma forma mais completa. Comecei a entender meus bloqueios, e acima de tudo, me libertar deles. Aprendi a perdoar mágoas antigas, que delas nem me lembrava, mas compuseram toda a minha trajetória, influenciando diretamente a minha personalidade.</p>
<p>Como afirmam Freire e Brito (1987), &#8220;conhecer, sem dúvida, é descobrir por nós mesmos, no ato de viver e de se relacionar como próprio corpo, a nossa identidade. Mas é também, ao mesmo tempo, ir além dos limites pessoais, conviver com a natureza social do homem: ser os outros, através da necessidade de comunicação, de relação, de integração e de associação, além da de reprodução. Quando amamos alguém, apesar de tudo o que essa pessoa representa para nós, ainda estamos presos à nossa identidade. A sensação mais pura e perfeita da existência do outro (além da evidência física) é quando alguém nos ama de verdade e nos certificamos, disso, pasmos, gratos e deslumbrados&#8221;.</p>
<p>Com o melhoramento da minha percepção corporal pude exorcizar bloqueios antigos. E foi através da arte que desenvolvi o exercício da percepção, é através da arte que expresso as conclusões de meus estudos. Minhas pinturas são uma maneira não-verbal de expressar o que penso e sinto. O teatro e a dança também foram fundamentais para o desenvolvimento da liberdade corporal, para melhor &#8220;administrar minhas energias&#8221;, como diria Reich.</p>
<p>Ética: o que não aceitei fazer nesse percurso e por quê.</p>
<p>Nesses dois anos surgiram várias sugestões para a linha editorial do GÉH, assim também como propostas de trabalho, algumas aceitei outras não. Mas o que isso tem a ver com o assunto em questão?</p>
<p>No inicio, recebi várias críticas, olhares estranhos: &#8220;Uma mulher abordando a sexualidade? Quem é ela? No mínimo, é &#8220;fácil&#8221; e só pensa em sexo; talvez seja garota de programa, prostituta ou vai ver que só quer dar&#8221;!</p>
<p>Sim, eu podia ler esses pensamentos nas mentes e nos olhares das pessoas a quem tentávamos explicar o conceito da revista, pensamentos e olhares que se confirmava, hipocritamente, com piadinhas e &#8220;ótimas&#8221; sugestões: &#8220;Site de garota de programa dá dinheiro sabia? Por que vocês não procuram sex-shops e motéis para patrocinar o seu site?&#8221;.</p>
<p>Tentar abrir mentes tão encarceradas parecia um trabalho impossível. A solução foi ignorar e seguir em frente.</p>
<p>Recebi propostas para fazer websites, em boa hora admito, pois a nossa situação econômica naquele período estava no vermelho. Aceitei e fiz com prazer esses trabalhos. Mas surgiram outras propostas também, em que o conflito ético falou mais alto do que a necessidade de dinheiro, por mais desesperadora que fosse. E eu: disse NÃO.</p>
<p>Uma das propostas foi uma oferta para trabalhar como representante em uma área que poderia me abrir vários portas no mercado gráfico. Aceitei pela manhã e recusei logo ao anoitecer. A mesma pessoa que havia me convidado publicou um texto extremamente machista, com agressões verbais violentas a &#8220;mulheres loiras&#8221;, como se a cor dos cabelos nos transformasse imediatamente em prostitutas. Por mais que precisasse do dinheiro, eu não suportaria trabalhar com uma pessoa que me tratasse como um ser inferior.</p>
<p>No inicio deste ano de 2007, recebi duas propostas quase simultâneas. Uma a de trabalhar em uma instituição não-governamental de apoio a soropositivos. Outra, a de fazer um website, que envolveria um bom retorno financeiro, mas que, na verdade, era um site de agenciamento de garotas de programa. Há quem faça o trabalho, existem muitos profissionais que não se importariam em fazer esse projeto.</p>
<p>Trabalhar voluntariamente contribuindo para fazer o bem, um ato de solidariedade ou ganhar dinheiro fazendo um projeto que apoiaria um trabalho ilegal? Não foi moralismo que me fez declinar a segunda proposta, e sim o fato da &#8220;ilegalidade&#8221;. Não sou contra nem a favor da prostituição. Sou contra a exploração sexual. Impedir que exista uma &#8220;profissão&#8221; tão antiga quanto essa, é hipocrisia, pois sabemos que existe desde o inicio do patriarcado e do casamento monogâmico. E se ela existe há uma razão para isso.</p>
<p>Mas acima de tudo sei da importância de cada ato, escolha ou caminho que percorri e continuo percorrendo. Abordar a sexualidade sem cair na promiscuidade, identificar cada &#8220;Zé ninguém&#8221;, fazê-lo olhar-se no espelho e se reconhecer é uma tarefa enriquecedora. Libertar-se e ajudar outros a se libertar é uma missão de vida.</p>
<p>Centésima edição de sexualidade: conquista de novas oportunidades</p>
<p>Aqui estamos, na centésima edição dessa revista. Com um enriquecimento cultural, intelectual e vivencial. Sentimos novamente &#8211; agora falo no plural, porque formamos uma equipe &#8211; a necessidade de estar em movimento. De continuar crescendo como seres humanos, de continuar em constante aprendizagem.</p>
<p>Nada é mais como fora ontem. Tudo é mutável. E nós precisamos continuar evoluindo. Brindamos essa edição com novos projetos para esse período de nossas vidas: Mestrado, Doutorado, novos trabalhos em uma nova morada. Aceitando o risco como parte do contínuo processo de liberdade.</p>
<p>O Géh com 40 mil visitações mensais (estimado), com um banco de dados de mais de 500 mil palavras, 2 mil imagens é referência nos temas que se propôs: Arte, Sexualidade e Corporalidade. Fruto de muito trabalho e dedicação.</p>
<p>Posso dizer que hoje sei qual é o gosto da liberdade, da felicidade e do prazer. Essas conquistas foram importantes para meu o amadurecimento. Valorizo tudo o que tenho, o que aprendi, o que mudei, o que conquistei, o que vivi. Cada erro e cada acerto fizeram parte desse processo de libertação.</p>
<p>Viver é um eterno caminhar, é estar sempre em movimento. Como diria Gaiarsa (2006) &#8220;o próprio caminho é feito a cada passo&#8221;. E é assim que nos movemos rumo a novas realizações.</p>
<p>Bibliografia</p>
<p>Freire, Roberto. Brito, Fausto. Utopia e Paixão: A política do cotidiano. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.</p>
<p>Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e corporal. São Paulo: Ágora, 2006.</p>
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		<title>Mutações da sexualidade feminina – Uma introdução ao matriarcado</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 19:26:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[antropologia]]></category>
		<category><![CDATA[edições 96 a 100]]></category>
		<category><![CDATA[matriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade feminina]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Géssica Hellmann</p>
<p>Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente <a href="http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/10/mutacoes-da-sexualidade-feminina-uma-introducao-ao-matriarcado/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Géssica Hellmann</em></p>
<p>Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente artigo. Estudar o matriarcado é conhecer a história feminina, uma história que pode mudar a visão de como as mulheres se vêem e como a sociedade as projeta.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><img title="Como eu me vejo por Géssica Hellmann" src="http://gehspace.com/edicao%2099%20imagens/como_eu_me_vejo2.jpg" alt="Como eu me vejo por Géssica Hellmann" width="300" height="473" /><p class="wp-caption-text">Como eu me vejo por Géssica Hellmann</p></div>
<p>Sanz (2007), em sua extensa pesquisa sobre os escritos de Bachofen, afirma que ele foi o grande iniciador dos estudos sobre as origens do matriarcado, da &#8220;cultura ginecocrática&#8221; na antiguidade. Pensador e investigador do século XIX, docente colega de Nietzsche, Bachofen distinguiu três momentos importantes na constituição do período matriarcal no passado grego e sua passagem para o patriarcado:</p>
<p>- Primeiro estágio: Dominado pela deusa Afrodite, a vida se encontrava então em plena de símbolos do feminino e da natureza. O direito natural que prevalece aqui é o da fecundidade. Da terra, sua capacidade criadora. A terra é a grande mãe.</p>
<p>- Segundo estágio: Predomina o culto à deusa Deméter, na qual o feminino aceita a mediação do matrimônio num plano social e na agricultura como uma forma essencial, contudo, em unidade com a natureza.</p>
<p>- Terceiro estágio: Triunfo de Apolo, o deus-sol. Aqui inicia-se o predomínio masculino e o desprezo ao feminino, produzindo-se, assim, a passagem do sistema matriarcal para o patriarcal. A sociedade patriarcal privilegia o racional, a individualidade, a guerra, a autoridade, a dominação.</p>
<p>Segundo a autora, Bachofen &#8220;converte&#8221; sua investigação em uma antropologia histórica das representações simbólicas que configuram a memória coletiva de um povo e, em ultima instância, sua identidade.</p>
<p>Seguindo a linha dos antropólogos evolucionistas, Morgan defendeu, ao estudar as tribos dos Iroqueses, a visão de que as relações de parentesco eram matrilineares. Afirmou também que, na sucessão para a filiação patrilinear, depois do aparecimento da propriedade, o parentesco passou a ser constituído por um homem, considerado o antepassado comum, pelos seus filhos, pelos filhos dos seus descendentes masculinos e assim sucessivamente. (Morgan, 1976)</p>
<p>Na opinião de Götner-Abendroth (2007), o trabalho de Bachofen situa-se no campo da história das culturas e encontra-se em paralelo perfeito com o trabalho de Morgan no campo da antropologia/etnologia. Mas a crítica avaliou muito diferentemente o trabalho desses estudiosos: Morgan foi considerado o pai da etonologia/antropologia; já a Bachofen, não foi-lhe dada a devida importância.</p>
<p>Segundo a autora a razão é simples: &#8220;se fosse feito um exame minucioso de seu trabalho, isso causaria o começo da ruína da visão patriarcal, da ideologia e do mundo. Marca o início do desenvolvimento de um novo paradigma da história humana: por isso é tão &#8220;perigoso&#8221; estudá-lo adequadamente&#8221;.</p>
<p>Götner-Abendroth (2007) afirma que, por mais importante que tenham sido &#8211; e o foram realmente &#8211; os primeiros textos sobre o matriarcado, foram escritos por homens que viviam e estavam completamente inseridos em uma sociedade machista e patriarcal. O trabalho da autora, assim como de outros contemporâneos, procura revisar o conhecimento sobre a estrutura do matriarcado numa visão menos preconceituosa.</p>
<p>Para Bachofen, as sociedades humanas, em seus primórdios eram, seguramente, sociedades matriarcais. &#8220;As mulheres&#8221;, assegurou, &#8220;dominavam o mundo de então&#8221; (Existiu, 2007).</p>
<p>Götner-Abendroth (2007) discorda do termo &#8220;dominar&#8221;, ela reformula o próprio siginificado do termo matriarcado: &#8220;Nós não somos obrigadas a seguir a noção machista do termo matriarcado significando: dominação pelas mães&#8221;. A autora afirma que a palavra grega &#8220;arché&#8221; tem um duplo sentido, significa tanto &#8220;começo&#8221; quanto &#8220;dominação&#8221;. A definição mais precisa de matriarcado seria então: &#8220;as mães do princípio&#8221;, enquanto o patriarcado, por outro lado, seria traduzido corretamente como &#8220;domínio dos pais&#8221;. Segundo a autora, a redefinição do termo matriarcado tem relevância política, pois ele não evita discussão com colegas profissionais e com a audiência interessada.</p>
<p>Como a sociedade matriarcal era estruturada, social, cultural e economicamente? Götner-Abendroth (2007), em suas pesquisas, procura responder a essas questões:</p>
<p>- No nível econômico, são sociedades em sua maioria agrícolas. As tecnologias agrícolas desenvolvidas vão desde simples jardinagem (horta) à uma agricultura completa com arado (no começo do Neolítico) e, finalmente, aos sistemas de grandes irrigações das primeiras culturas urbanas as mais adiantadas. Os bens não são acumulados por uma pessoa ou por um grupo específico, a sociedade é igualitária e não-acumulativa. Cada vantagem ou desvantagem a respeito da aquisição dos bens é mediada por regras sociais. Por exemplo, nos festivais da cidade, os clãs mais ricos são obrigados convidar todos os habitantes. Organizam o banquete, no qual distribuem sua riqueza para ganhar a honra.</p>
<p>- No nível social, o parentesco é matrilinear, no qual todos os títulos sociais e políticos são transmitidos através da linhagem materna. Este tipo de matri-clã consiste pelo menos em três gerações das mulheres &#8211; a clã-mãe, suas filhas, seus netas &#8211; e os homens diretamente relacionados &#8211; os irmãos da mãe, de seus filhos e de netos. As mulheres vivem permanentemente e nunca saem da casa do clã de sua mãe, quando se casam. A isso se chama matrilocalidade. As mulheres têm o poder de controlar as fontes nutrição: campos e alimento. Os clãs são auto-suficientes e se relacionam com outros clãs através da união do casamento. Esse casamento não é uma união individual, mas uma união comunal que conduz ao matrimônio comunal. Por exemplo, os homens novos da casa do clã A são casados à casa do clã nova B das mulheres, e os homens novos da casa de clã B são casados às mulheres novas na casa de clã A. Isto é chamado uma união mútua entre dois clãs em uma aldeia matriarcal. Os homens jovens, que saíram das casa de suas mães após seu casamento, não têm que ir muito longe. Realmente, ao anoitecer vão à casa vizinha, onde suas esposas vivem, e voltam muito cedo &#8211; no alvorecer. Os homens matriarcais nunca consideram os filhos de sua esposa como seus, porque não compartilham de seu nome de clã. A paternidade biológica não é conhecida, nem a ela se dá atenção. Os homens matriarcais cuidam de seus sobrinhos e sobrinhas num tipo de paternidade social. Mesmo o processo de tomada de decisão política é organizado ao longo das linhas do parentesco matriarcal. Os delegados de cada casa de clã encontram-se com no conselho da aldeia, onde todos os assuntos são discutidos. Estes delegados podem ser as mulheres mais velhas dos clãs (as matriarcas), ou os irmãos e os filhos que escolheram para representar o clã. Nenhuma decisão a respeito da aldeia pode ser feita exame sem o consenso de todas as casas de clãs. Um fato importante: os delegados, que estão discutindo a matéria, não são aqueles que tomam a decisão, os delegados possuem a função simplesmente de porta-vozes.</p>
<p>Pessoas que vivem em uma determinada região tomam decisões na mesma maneira: os delegados de todas as vilas encontram-se com para trocar as decisões de suas comunidades. Em contraste aos erros etnológicos freqüentes feitos sobre estes homens, elas não são os &#8220;chefes&#8221; pois não depende deles a decisão. A decisão é tomada em nível regional, um consenso entre todas as casas de clãs. Conseqüentemente, do ponto de vista político, as sociedades matriarcais são sociedades igualitárias ou sociedades do consenso. Exatamente neste sentido, estariam livres de dominação, desprovidas de uma classe de dominadores e uma classe excluída, isto é, não possuem os aparelhos repressivos necessários para estabelecer a dominação.</p>
<p>- No nível cultural, é preciso esclarecer que não são sociedades caracterizadas por &#8220;cultos à fertilidade&#8221;, mas que desenvolveram complexos sistemas religiosos. O fator comum seria crença no renascimento, não como a idéia abstrata da transmigração de almas, mas em um sentido muito concreto: todos os membros de um clã sabem que, após a morte, vão renascer &#8211; por uma das mulheres de seu próprio clã, em sua própria casa de clã, em sua aldeia natal. As mulheres em sociedades matriarcais são grandemente respeitadas, porque elas garantem o renascimento. Assim como na natureza, cada planta, resseca no outono e renasce na próxima primavera, a terra é a grande mãe que concede o renascimento e a nutrição a todos os seres. No cosmos e na terra, os povos matriarcais observam este ciclo da vida, da morte e do renascimento. De acordo com o princípio matriarcal da conexão entre o macro-cosmo e o micro-cosmo, vêem o mesmo ciclo na vida humana. A existência humana não seria diferente dos ciclos da natureza, mas seguiria as mesmas regras. Da perspectiva matriarcal, a vida traria a morte e a morte traria a vida, cada coisa em seu próprio tempo. Da mesma maneira, a fêmea e o macho também seriam uma polaridade cósmica. Nunca ocorreria a um povo matriarcal considerar o outro sexo como mais fraco ou inferior ao outro, como é comum em sociedades patriarcais.</p>
<p>&#8220;O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e as pseudociências racistas e sexistas da época&#8221; (Buonicori, 2007).</p>
<p>Segundo Buonicori (2007), Engels afirmaria que a monogamia teria sido fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, na qualidade de herdeiros diretos. Mas somente ao homem, garantido pelos costumes, é concedido o direito da infidelidade conjugal, já a mulher infiel é punida severamente pela sociedade.</p>
<p>Em outras palavras, podemos afirmar que, com a monogamia, instituiu-se a prostituição e o adultério. A mulher é condenada caso não aceite a condição monogâmica, enquanto o homem pode carregar uma &#8220;leve mancha moral&#8221; mas, ainda assim, é aceitável, até nos dias de hoje, principalmente pelas próprias mulheres, que o homem se relacione com prostitutas.</p>
<p>Pensamos agora na neurose coletiva, que tanto abordamos nos últimos artigos, ou nos indivíduos normopatas, como diz Gaiarsa, ou nos Zés ninguéns, como prefere Reich. Ao reprimir a sexualidade, ao criar esta idéia do &#8220;sexo frágil&#8221;, da &#8220;inferioridade feminina&#8221;, defendida durante séculos por estudiosos do comportamento humano e da sexualidade, ao negar o feminino proclamando um único Deus masculino, ao negar a sexualidade sadia de Cristo, ao tornar Maria um ser assexuado &#8211; ao fazer tudo isso, a quem estamos agredindo, a não ser a nós mesmos? O que tanto tememos? A liberdade? A felicidade?</p>
<p>Com o advento da sociedade patriarcal, com o casamento monogâmico, criamos o quê? Guerras, genocídios, a negação do prazer e da felicidade. Por isso considero importantíssimo um mergulho no passado, em nossos ancestrais mais longínquos: a sociedade matriarcal. É preciso entender o a estrutura, esse processo de transformação: da sociedade matriarcal para a patriarcal e todas as suas conseqüências.</p>
<p>Bibliografia:</p>
<p>Buonicori, Augusto C. Engels e as origens da opressão da mulher. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/070/70esp_buonicore.htm. Acessado em 10/08/2007.<br />
Existiu o matriarcado? Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/matriarcado4.htm. Acessado em 10/08/2007.<br />
Götner-Abendroth, Heide. Matriarchal society: definition and theory. Disponivel em: http://www.hagia.de/documents/position.pdf Acessado em: 01/07/2007<br />
Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.<br />
Sanz, Marta Silvia Dios. El matriarcado. Disponível em: http://www.temakel.com/texmitmatriarcado.htm. Acessado em 10/08/2007.</p>
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