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	<title>Sobre Palavras - VEJA.com</title>
	
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	<description>Nossa língua escrita e falada numa abordagem irreverente</description>
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		<title>O escrete de Felipão e a anglofilia brasileira</title>
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		<pubDate>Sat, 18 May 2013 12:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Palavra da semana]]></category>

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		<description><![CDATA[E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês scratch e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas de torcedores pelo país afora. O Google [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_26952" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/felipão-sérgio-moraes-reuters.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/felipão-sérgio-moraes-reuters.jpg" alt="" width="400" height="225" class="size-full wp-image-26952" /></a><p class="wp-caption-text">Felipão: equipe &quot;reunida às pressas&quot;? (Sergio Moraes/Reuters)</p></div>E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês <i>scratch</i> e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas de torcedores pelo país afora. O Google me informa que ainda é bastante empregado por aí, embora seu sabor de época seja inegável.</p>
<p>Trata-se de um dos muitos anglicismos que moldaram o vocabulário do futebol brasileiro. Alguns foram inteiramente abandonados, como quíper (goleiro). Outros caminham para a obsolescência, como beque (zagueiro) e córner (escanteio). Mas há também os que ainda gozam de ótima saúde, como craque. Todos, como escrete, são formas aportuguesadas de palavras inglesas.</p>
<p>O caso de escrete apresenta uma curiosidade ocasional. <i>Scratch</i>, como se sabe, quer dizer sobretudo “arranhão, risco”. Dicionários de inglês registram, além dessa, muitas outras acepções para o substantivo, inclusive em contexto esportivo, mas à primeira vista nada trazem que se encaixe bem ao nosso sentido de seleção. “Linha de largada numa corrida” não parece ser o caso. </p>
<p>No entanto, é exatamente a essa acepção que o Houaiss recorre para explicar nosso vocábulo, dizendo: “‘linha ou marca desenhada para servir de ponto de partida; linha de partida&#8217;, no sentido de que todos os competidores partem da mesma linha, do mesmo ponto, sem handicap”.</p>
<p>A explicação é claramente insatisfatória. Linha riscada no chão para servir de ponto de partida não tem nada a ver com futebol. Handicap, ainda menos. Volto aos dicionários de inglês e, revirando o <i>Webster’s</i>, encontro uma acepção meio obscura que enfim mata a charada: <i>scratch team</i> (com <i>scratch</i> no papel de adjetivo, não de substantivo) quer dizer equipe “reunida às pressas, sem muito critério”. </p>
<p>Sim, deu-se a transformação de um adjetivo em substantivo, mas isso é comum em nossa língua no caso de palavras vindas do inglês – o mesmo ocorreu com <i>shopping (center)</i> e <i>outdoor (advertising)</i>, por exemplo. O sentido também foi alterado de negativo (“equipe reunida de qualquer maneira”) para positivo (“equipe reunida para determinada ocasião, mas, ao menos em tese, criteriosamente”). Uma das especialidades da anglofilia brasileira – sincera, mas um tanto desajeitada – é produzir leituras originais desse tipo.</p>
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		<title>O que a gravidez tem a ver com a gravidade</title>
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		<pubDate>Thu, 16 May 2013 14:15:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consultório]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Olá, Sérgio! Sempre quis saber se os vocábulos &#8216;gravidez&#8217;, &#8216;grave&#8217; e &#8216;gravidade&#8217; possuem um parentesco etimológico. Na prática, desejada ou não, a gravidez é um dos momentos mais graves da vida de uma mulher. Esse estado também exige que ela se readapte à força da gravidade, senão cai e a situação fica mais grave!&#8221; (Sabine [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_26944" class="wp-caption alignleft" style="width: 360px"><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/leila-diniz-grávida-1971-joel-maia.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/leila-diniz-grávida-1971-joel-maia.jpg" alt="" width="350" height="297" class="size-full wp-image-26944" /></a><p class="wp-caption-text">Grávida, mas leve: Leila Diniz em 1971 (foto de Joel Maia)</p></div><br />
<blockquote>&#8220;Olá, Sérgio! Sempre quis saber se os vocábulos &#8216;gravidez&#8217;, &#8216;grave&#8217; e &#8216;gravidade&#8217; possuem um parentesco etimológico. Na prática, desejada ou não, a gravidez é um dos momentos mais graves da vida de uma mulher. Esse estado também exige que ela se readapte à força da gravidade, senão cai e a situação fica mais grave!&#8221; (Sabine Richter)</p></blockquote>
<p>Brincando, brincando, Sabine acabou por dar conta dos principais descendentes – sim, todas essas palavras são primas – do adjetivo latino <i>gravis</i>, que significava em primeiro lugar “pesado, carregado”.</p>
<p>Aquele <i>gravis</i> acabou por adquirir no próprio latim, figuradamente, sentidos um pouco distintos, mas todos ligados à ideia de peso, que nosso adjetivo grave conserva até hoje. Uma pessoa grave é séria, circunspecta, vergada ao peso de suas preocupações. Uma situação grave é pesada, dura, carregada de possibilidades funestas que demandam a maior seriedade.</p>
<p>De <i>gravis</i> tirou-se, ainda no latim, o substantivo <i>gravitas</i>, <i>gravitatatis</i>, que vinha a ser antes de mais nada o próprio peso. Como acepções secundárias, a palavra tinha, além de todas as que se ligavam aos sentidos expostos no parágrafo anterior, a de “gravidez, prenhez”, na definição do dicionário Saraiva. <i>Gravidus</i> queria dizer prenhe. <i>Gravidare</i> era emprenhar.</p>
<p>Como se chegou a isso? Não tanto porque se considerasse a gravidez uma situação grave no sentido de preocupante, mas pela própria ideia original de <i>gravis</i> – creio que o peso da barriga de uma mulher grávida fale por si. Curiosamente, gravidez é uma palavra relativamente recente em português, datada de meados do século XIX e formada em nossa língua mesmo, pela junção do adjetivo grávido ao sufixo <i>-ez</i>, para tomar (sobretudo quando se fala de seres humanos) o lugar do velho substantivo “prenhez”.</p>
<p>Das palavras citadas por Sabine, gravidade na acepção de “atração que a Terra exerce sobre um corpo material colocado sobre sua superfície, em seu interior ou em sua vizinhança” (Houaiss) é a única ausência no repertório dos nossos tataravós romanos. Também motivado pela ideia de peso que deu origem a tudo isso, tal sentido teria que esperar até o século XVII para nascer – cerca de trezentos anos após a chegada da palavra gravidade ao português.</p>
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		<title>A avacalhação, como o leite, vem da vaca</title>
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		<pubDate>Tue, 14 May 2013 14:16:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Curiosidades etimológicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O verbo avacalhar, de onde saíram o adjetivo avacalhado e o substantivo avacalhação, aparece no Houaiss com três acepções básicas: desmoralizar; espinafrar (repreender duramente); e fazer com desleixo. Em todas elas, trata-se de ações muito presentes no dia a dia da vida brasileira. Talvez por isso nossos dicionaristas afirmem com segurança tratar-se de um brasileirismo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/Pink-Floyd-Atom-Heart-Mother.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/Pink-Floyd-Atom-Heart-Mother.jpg" alt="" width="300" height="301" class="alignleft size-full wp-image-26939" /></a>O verbo avacalhar, de onde saíram o adjetivo avacalhado e o substantivo avacalhação, aparece no Houaiss com três acepções básicas: desmoralizar; espinafrar (repreender duramente); e fazer com desleixo. Em todas elas, trata-se de ações muito presentes no dia a dia da vida brasileira.</p>
<p>Talvez por isso nossos dicionaristas afirmem com segurança tratar-se de um brasileirismo. Não parece ser o caso. </p>
<p>Primeiro vamos à origem da palavra, sobre a qual não há discordância: avacalhar é um termo formado – consta que em meados do século XX – a partir do substantivo vaca. Significa algo parecido com “tratar como se trata uma vaca” ou “tornar(-se) semelhante a uma vaca”.</p>
<p>Sobre o caminho que levou a fêmea do boi a ir parar nesse papel pejorativo os etimologistas guardam silêncio. No entanto, uma boa pista pode ser encontrada no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.</p>
<p>Uma das acepções de vaca registrada por ele é “mulher muito gorda” – vizinha na constelação das palavras machistas, embora distinta, do sentido de “devassa, vagabunda” que vaca tem no português brasileiro. </p>
<p>Quando se junta essa “mulher muito gorda” à acepção de avacalhar como “deixar ou ficar descuidado, desleixado”, que o dicionário português registra e que também vale para o lado de cá do Atlântico, desenha-se um percurso coerente para o verbo.</p>
<p>Ele sugere que avacalhar pode ter nascido com um sentido semelhante ao nosso ainda não dicionarizado (e este sim brasileiríssimo) embarangar, isto é, “largar-se, descuidar da própria aparência”.</p>
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		<title>Tiquetaque, auau: viva a onomatopeia!</title>
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		<pubDate>Sun, 12 May 2013 12:00:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Onomatopeia é um nome feio: a alguns ouvidos, chega a sugerir vagamente uma erupção cutânea ou coisa parecida. Não é nada disso, como se sabe. Na verdade, trata-se de um fenômeno linguístico dos mais simpáticos, risonhos, democráticos: a formação de palavras pela imitação dos sons naturais. Exemplos de onomatopeia são as palavras tiquetaque, chuá, clique, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/tiquetaque-auau.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/tiquetaque-auau.jpg" alt="" width="350" height="350" class="alignleft size-full wp-image-26932" /></a>Onomatopeia é um nome feio: a alguns ouvidos, chega a sugerir vagamente uma erupção cutânea ou coisa parecida. Não é nada disso, como se sabe. Na verdade, trata-se de um fenômeno linguístico dos mais simpáticos, risonhos, democráticos: a formação de palavras pela imitação dos sons naturais. Exemplos de onomatopeia são as palavras tiquetaque, chuá, clique, atchim, pum, reco-reco.</p>
<p>São criaturas lúdicas, as onomatopeias. Com seus pés plantados na oralidade, dimensão mais primitiva de qualquer idioma, estão sempre a nos lembrar que uma língua não é só esse instrumento altamente sofisticado e abstrato sem o qual os adultos sérios não conseguiriam se relacionar direito com as coisas e suas representações.</p>
<p>Diante das onomatopeias, somos lembrados de que ainda vive em nós – e viverá para sempre – aquele bebê que, aprendendo a falar, chama cachorro de auau. (A própria palavra bebê, aliás, tem origem provável numa onomatopeia, como imitação – inicialmente francesa, <i>bébé</i> – da fala infantil.)</p>
<p>Nem sempre é fácil reconhecer uma onomatopeia à primeira vista. Algumas passam por um processo conhecido como gramaticalização, incorporando-se à corrente principal da língua de tal forma que dão origem a novas palavras e se integram à paisagem. Se o verbo tiquetaquear é evidentemente derivado de tiquetaque (também grafado como tique-taque e tic-tac), barulhinho feito pelos relógios pré-digitais, bem mais complicado é distinguir em chiar, por exemplo, o próprio shhh da chiadeira que a maioria dos etimologistas ouve nele.</p>
<p>Eis a grande beleza das onomatopeias: mesmo quando lidas, são ouvidas. Ainda que não se saiba de antemão o que querem dizer, adivinha-se. A arbitrariedade que mora no coração da maioria dos signos linguísticos (o que há de árvore na palavra “árvore” é rigorosamente nada) não se cria com elas.</p>
<p>Primitivas, moleques, subversivas, as onomatopeias comungam do princípio fundador da linguagem e são mais fortes do que parecem. Nossos dicionários se omitem sobre a possibilidade de um vocábulo como “ronco”, por exemplo, pertencer à família. Mas pertence? Bom, ronco tem linhagem nobre: descende do latim <i>rhonchus</i>, que por sua vez é filho do grego <i>rhogkhós</i>. Tudo certo, mas esse <i>rhogkhós</i> aí vem de quê? Cada um que julgue sua semelhança sonora com aquilo que nomeia.</p>
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		<title>Inflação: o sinistro retorno dos preços inchados</title>
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		<pubDate>Sat, 11 May 2013 12:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Palavra da semana]]></category>

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		<description><![CDATA[“Apatia do governo extingue chances de controle da inflação no curto prazo”, anunciava na quarta-feira o título da reportagem assinada por Adriano Lira aqui em Veja.com. Sinal claro de que, infelizmente, eu tinha encontrado não só a Palavra da Semana como uma forte candidata, dentro de mais alguns meses, a Palavra do Ano. A inflação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_26919" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/inflação-matthew-dixon-getty-images-iStockphoto.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/inflação-matthew-dixon-getty-images-iStockphoto-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" class="size-medium wp-image-26919" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Subindo!&quot; (Matthew Dixon/Getty Images/iStockphoto)</p></div>“Apatia do governo extingue chances de controle da inflação no curto prazo”, anunciava na quarta-feira o título da <a href="http://veja.abril.com.br/noticia/economia/apatia-do-governo-extingue-chances-de-controle-da-inflacao-no-curto-prazo" target="_blank">reportagem</a> assinada por Adriano Lira aqui em <b>Veja.com</b>. Sinal claro de que, infelizmente, eu tinha encontrado não só a <b>Palavra da Semana</b> como uma forte candidata, dentro de mais alguns meses, a <b>Palavra do Ano</b>. A inflação – flagelo econômico que meu filho de 16 anos teve a felicidade de, até hoje, praticamente ignorar – está de volta ao centro das preocupações nacionais.</p>
<p>Quando se fala da origem da palavra inflação, é preciso mencionar duas etapas separadas por muitos séculos: na primeira nasceu o próprio vocábulo, vindo do latim; na segunda, por influência americana, nasceu a acepção econômica que hoje é dominante na linguagem comum. </p>
<p>A palavra foi registrada pela primeira vez em português em 1563, tendo como matriz o latim <i>inflationis</i> (“inchaço, edema, distensão gasosa”). Esse sentido médico foi o único que teve por muito tempo. No século XVIII, por metáfora, o substantivo inflação passou a ser empregado também como sinônimo de vaidade, presunção, falta de modéstia. Vem de longe a imagem do vaidoso como um indivíduo inchado.</p>
<p>No entanto, foi só no século XX – mais precisamente em 1926, segundo a datação do Houaiss – que pela primeira vez se registrou entre nós a acepção, destinada a se tornar sombriamente familiar para gerações de brasileiros, de “desequilíbrio que se caracteriza por uma alta substancial e continuada no nível geral dos preços, concomitante com a queda do poder aquisitivo do dinheiro, e que é causado pelo crescimento da circulação monetária em desproporção com o volume de bens disponíveis”. </p>
<p>Tudo indica que tal acepção tenha nascido – também por metáfora, como no caso da vaidade – no inglês americano, idioma em que há registro dela já em 1838, segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper. Em francês essa expansão semântica só chegaria em 1919. </p>
<p>Por trás da ideia de inchamento ou expansão gasosa, tanto de partes do corpo quanto de preços, percebe-se o verbo latino <i>flare</i> (soprar). Sua carga genética – bem como a de seus filhos <i>inflare, sufflare, insufflare</i> – pode ser vislumbrada num grande número de palavras do português, da flauta à flatulência, de soprar a insuflar. E, claro, também no verbo inflar, forma culta da qual inchar é a variante vulgar.</p>
<p>Uma curiosidade adicional é que, embora o sentido econômico de inflação tenha demorado séculos para surgir, como se viu acima, seu antepassado mais remoto já tinha uma acepção secundária estranhamente próxima dele, numa espécie de sinistro prenúncio. <i>Flare</i>, “soprar”, também podia ser usado com o sentido de “fundir metal (para cunhar moeda)”. </p>
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		<item>
		<title>As palavras democracia e demônio têm algo em comum?</title>
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		<comments>http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/as-palavras-democracia-e-demonio-tem-algo-em-comum/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 09 May 2013 18:58:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consultório]]></category>

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		<description><![CDATA[“Olá, Sérgio. Tenho uma dúvida que, desde bem novo, nunca tirei. O radical grego ‘demo’, de democracia, tem alguma coisa a ver com o de ‘demônio’? Também reparei recentemente na palavra ‘demonstrar’, que pelo sentido que a gente usa não tem nada a ver com povo, mas, vi que, em alemão, ‘demonstrieren’ significa reclamar ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“Olá, Sérgio. Tenho uma dúvida que, desde bem novo, nunca tirei. O radical grego ‘demo’, de democracia, tem alguma coisa a ver com o de ‘demônio’? Também reparei recentemente na palavra ‘demonstrar’, que pelo sentido que a gente usa não tem nada a ver com povo, mas, vi que, em alemão, ‘demonstrieren’ significa reclamar ou protestar. Será que é o mesmo ‘demo’ também? Obrigado.” (Paulo Hora)</p></blockquote>
<p>As semelhanças que Paulo aponta entre as palavras democracia, demônio e demonstrar existem apenas na superfície. São casuais, meras coincidências, sem nenhuma sustentação etimológica. Vamos dar uma olhada na origem de cada um desses vocábulos.</p>
<p>Democracia, como pouca gente ignora, é um termo nascido no grego <em>demokratía</em> pela junção de <em>demos</em> (“povo”) e <em>kratía</em> (“força, poder”). Antes de desembarcar no português fez uma escala no latim tardio <em>democratia</em> e, provavelmente, também no francês <em>démocratie</em>, palavra existente desde o século XIV (o primeiro registro da nossa data de 1671).</p>
<p>A raiz das palavras demo e demônio, dois dos muitos nomes do diabo, também deve ser buscada na Grécia, mas o termo em questão aqui não é <em>demos</em> e sim <em>daimon</em> (“divindade, gênio”). Seu sentido entre os gregos antigos, bem diferente do atual, era o de espírito que atuava como mensageiro entre deuses e homens. A acepção de “espírito do mal, diabo” colou-se à palavra latina <em>daemon</em> na era cristã.</p>
<p>Já no verbo demonstrar, que o português foi buscar no latim <em>demonstrare</em> (“fazer ver, dar a conhecer, indicar, comprovar”), o caráter fortuito da semelhança com os termos democracia e demônio fica evidente quando se sabe que foi formado pela junção da preposição <em>de</em> com o verbo <em>monstrare</em>, de onde tiramos nosso “mostrar”, que aliás é seu sinônimo. O prefixo neste caso apenas reforça o sentido original, indicando o ato de mostrar de forma cabal, decisiva.</p>
<p>Quanto à acepção política de “protestar publicamente” que Paulo encontrou no alemão, e que também está presente no inglês <em>demonstrate</em>, trata-se de uma extensão de sentido tardia (ocorrida em inglês em meados do século XIX) baseada na ideia de “fazer ver, dar a conhecer” ao público o apoio que tem uma ideia: <em>demonstration</em>, nesse caso, é aquilo que por um processo de evolução semântica praticamente idêntico nós chamamos de manifestação. O fato de ser necessária alguma participação do povo (demo) para haver uma verdadeira <em>demonstration</em> não passa de coincidência.</p>
<p>*</p>
<div>Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: <a href="mailto:sobrepalavras@todoprosa.com.br"><strong>sobrepalavras@todoprosa.com.br</strong></a></div>
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		<title>Troço? Que troço é esse?</title>
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		<pubDate>Tue, 07 May 2013 16:52:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Curiosidades etimológicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Troço é uma palavra brasileira informal que – como negócio, coisa e, no mineirês, trem – pode ser empregada em lugar de uma infinidade de coisas, sejam elas concretas ou abstratas. Dá-se a vocábulos de sentido tão abrangente e difuso o nome de palavras-ônibus. O curioso é que o popular troço (pronuncia-se tróço) surgiu como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Troço é uma palavra brasileira informal que – como negócio, coisa e, no mineirês, trem – pode ser empregada em lugar de uma infinidade de coisas, sejam elas concretas ou abstratas. Dá-se a vocábulos de sentido tão abrangente e difuso o nome de palavras-ônibus.</p>
<p>O curioso é que o popular troço (pronuncia-se <i>tróço</i>) surgiu como variante de troço (<i>trôço</i>), uma palavra portuguesa antiga e respeitável, prima do espanhol <i>trozo</i>, de onde tiramos o verbo destroçar e o substantivo destroço – que nada têm de informal e podem frequentar os discursos mais elegantes sem contraindicações.</p>
<p>Esse troço (<i>trôço</i>), de sentidos variados, caiu em desuso na acepção militar de “cada uma das divisões de uma tropa”, que o espanhol <i>trozo</i> conserva, mas permanece vivo como nome de certa peça de canhão. Também pode ser encontrado em Portugal para designar “trecho de caminho”, entre outras acepções.</p>
<p>Já se vê que a ideia comum por trás de tudo isso é a de pedaço, trecho, fragmento de um todo. O filólogo catalão Joan Corominas diz em seu <i>Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana</i> que a matriz de <i>trozo</i> e troço é o catalão <i>tròs</i>, “pedaço”, ligado ao francês antigo <i>trous</i>, “fragmento de lança ou tronco”. Todas essas palavras são descendentes do substantivo latino <i>thyrsus</i> (“haste, talo das plantas”).</p>
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		<title>Português, a língua mais difícil do mundo? Conta outra</title>
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		<pubDate>Sun, 05 May 2013 16:16:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Alguns mitos resistentes rondam como mosquitos chatos a língua portuguesa falada no Brasil. Diante deles, argumentações fundadas em fatos e um mínimo de racionalidade são tão inúteis quanto tapas desferidos às cegas no escuro do quarto em pernilongos zumbidores. Os tapas acertam o vazio, os zumbidos continuam lá. A lenda de que se fala no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/português-difícil.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/português-difícil-300x229.jpg" alt="" width="330" height="259" class="alignleft size-medium wp-image-26895" /></a>Alguns mitos resistentes rondam como mosquitos chatos a língua portuguesa falada no Brasil. Diante deles, argumentações fundadas em fatos e um mínimo de racionalidade são tão inúteis quanto tapas desferidos às cegas no escuro do quarto em pernilongos zumbidores. Os tapas acertam o vazio, os zumbidos continuam lá.</p>
<p>A lenda de que se fala no estado do Maranhão o português mais “correto” do Brasil é uma dessas balelas aceitas por aí como verdades reveladas – e nem os tristíssimos índices educacionais maranhenses, nem o domínio linguístico pomposamente medíocre exibido há décadas por José Sarney podem fazer nada contra isso. Tapas no vazio.</p>
<p>Outra bobagem de grande prestígio é aquela que sustenta ser o português “a língua mais difícil do mundo”. Baseada, talvez, na dor de cabeça real que acomete estrangeiros confrontados com a arquitetura barroca de nossos verbos, a afirmação é categórica o bastante para dispensar a necessidade de uma prova. O sujeito erra o gênero da palavra alface e pronto, lá vem a desculpa universal: “Ah, também, como é difícil a porcaria dessa língua! Ah, se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses!”</p>
<p>Não, claro que isso não quer dizer que o queixoso saiba falar holandês. É justamente na imensa parcela monoglota da população que a crença na dificuldade insuperável da língua portuguesa encontra solo mais fértil. Não é uma conclusão a que se chegue depois de estudar judiciosamente latim, alemão, húngaro, russo e japonês. Ninguém precisa ter encarado um idioma em que se use declinação – vespeiro do qual a gramática portuguesa nos poupou – para sair deplorando em altos brados o desafio invencível da crase.</p>
<p>Não há dúvida de que o mito das agruras superlativas do português diz muito sobre a falência educacional brasileira, cupim que rói as fundações de qualquer projeto de desenvolvimento social que vá além da promoção de um maior acesso da população a shopping centers. Temo, porém, que suas raízes sejam mais profundas. Percebe-se aí uma mistura tóxica de autocomplacência, autodepreciação, ufanismo, fuga da realidade e desculpa esfarrapada que pode ser ainda mais difícil de derrotar do que nosso vicejante semianalfabetismo.</p>
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		<title>Bayern: Baviera ou Bavária?</title>
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		<pubDate>Sat, 04 May 2013 12:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Palavra da semana]]></category>

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		<description><![CDATA[A humilhação a que o excelente time do Bayern submeteu a mitificada equipe do Barcelona numa das semifinais da Liga dos Campeões, chegando a uma estonteante goleada de 7 a 0 na soma das partidas dentro e fora de casa, é um bom pretexto para falarmos da controvérsia que cerca a tradução em português do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><div id="attachment_26889" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/robben.jpeg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/files/2013/05/robben-300x168.jpg" alt="" width="300" height="168" class="size-medium wp-image-26889" /></a><p class="wp-caption-text">O holandês Robben comemora: os bávaros estavam bravos (Alejandro García/EFE)</p></div>A humilhação a que o excelente time do Bayern submeteu a mitificada equipe do Barcelona numa das semifinais da Liga dos Campeões, chegando a uma estonteante goleada de 7 a 0 na soma das partidas dentro e fora de casa, é um bom pretexto para falarmos da controvérsia que cerca a tradução em português do topônimo alemão Bayern.</p>
<p>Bayern é como se chama, no idioma local, o estado alemão situado no sudeste do país, cuja capital é Munique. Acredita-se que a palavra tenha ligação com os boios, nome do povo celta que vivia na região desde antes de sua anexação ao Império Romano. Os mesmos boios estão por trás do nome da região vizinha da Boêmia, hoje parte da República Tcheca. </p>
<p>Bayern, no latim medieval, virou <i>Bavaria</i>. No entanto, foi só após uma tabelinha com o francês <i>Bavière</i> que a palavra chegou ao português – como também ao espanhol. A região ficou conhecida entre nós como Baviera, sendo “bávaro” o gentílico correspondente a ela. Ponto final?</p>
<p>Não tão depressa. Ocorre que há cerca de três décadas, provavelmente mais, tem sido comum encontrar na língua brasileira das ruas – e até mesmo na imprensa – a forma alternativa Bavária. Será que se trata de um retorno às nossas raízes latinas?</p>
<p>Tudo indica que não: se retorno houver, será do tipo acidental. O mais provável, dada a atual correlação de forças geolinguísticas, é que uma parcela dos falantes brasileiros esteja trocando Baviera por Bavária por influência do inglês, isso sim, língua que foi buscar diretamente no latim medieval a forma <i>Bavaria</i>. O empurrãozinho dado pela cerveja homônima não é desprezível, mas não contraria – pelo contrário – a hipótese anglófila.</p>
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		<title>Por que dizemos ‘obrigado’ quando agradecemos?</title>
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		<pubDate>Thu, 02 May 2013 19:03:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Consultório]]></category>

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		<description><![CDATA[“Por que a língua portuguesa obriga a gente a usar a palavra ‘obrigado’ na hora de agradecer alguma coisa? Não é esquisito, quando paramos para pensar nisso? Acho até grosseiro, pois dá a entender que a pessoa só fica grata porque é forçada. Onde está a obrigação? E outra dúvida: uma mulher pode dizer ‘obrigado’ [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“Por que a língua portuguesa obriga a gente a usar a palavra ‘obrigado’ na hora de agradecer alguma coisa? Não é esquisito, quando paramos para pensar nisso? Acho até grosseiro, pois dá a entender que a pessoa só fica grata porque é forçada. Onde está a obrigação? E outra dúvida: uma mulher pode dizer ‘obrigado’ ou deve sempre dizer ‘obrigada’?” (Viviane Assis)</p></blockquote>
<p>O sentido de obrigado como fórmula de agradecimento é literal. O que faz com que Viviane o estranhe – no que tem a companhia de muita gente – é o fato de que a palavra, inicialmente um adjetivo, vem ganhando nesse caso uma autonomia de interjeição. Perde-se na memória coletiva a construção que a levou a ser empregada em tal papel.</p>
<p>O particípio do verbo obrigar (do latim <em>obligare</em>, “ligar por todos os lados, ligar moralmente”) expressa o reconhecimento de uma dívida entre quem recebe um favor ou gentileza e quem o faz – ambos, dessa forma, ligados, atados, presos por um laço moral.</p>
<p>A frase completa seria “fico-lhe obrigado”, ou seja, “passo, a partir deste momento, a ser seu devedor”. Na linguagem jurídica, obrigado é também um substantivo que significa “sujeito passivo de uma obrigação”, isto é, de uma dívida ou outro compromisso contratual.</p>
<p>Sobre a segunda dúvida de Viviane, farei aqui um resumo <a href="http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/mulher-que-diz-%E2%80%98obrigado%E2%80%99-deve-ser-obrigada-a-mudar/" target="_blank">do que respondi</a> em 2010 a um leitor impressionado com o número de mulheres que dizem “obrigado”. Do ponto de vista da tradição, trata-se simplesmente de um erro, um sinal de desleixo com o idioma. Se obrigado é um adjetivo, exige que se apliquem a ele as flexões cabíveis de número e gênero: obrigada, obrigados, obrigadas.</p>
<p>Ocorre que o papel de adjetivo, como eu disse acima, vem se perdendo na palavra quando a empregamos com o sentido de “grato”. Hoje o termo costuma ser usado como interjeição, o que torna natural que seja compreendido como invariável. Aquilo que de certo ponto de vista é um erro indiscutível também pode ser encarado como uma mutação linguística em curso.</p>
<p>*</p>
<div>Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: <a href="mailto:sobrepalavras@todoprosa.com.br"><strong>sobrepalavras@todoprosa.com.br</strong></a></div>
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