<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Templo Pantera Negra</title>
	<atom:link href="http://templopanteranegra.com.br/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://templopanteranegra.com.br</link>
	<description>templo espiritual caboclo exu pantera negra umbanda macumba omoloko omoloco ifa quimbanda kimbanda catimbó jurema</description>
	<lastBuildDate>Tue, 24 Jun 2025 20:37:33 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.8.3</generator>
	<item>
		<title>Sobre Sincretismo</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/sobre-sincretismo/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/sobre-sincretismo/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[George Cristo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jun 2022 23:13:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=1518</guid>

					<description><![CDATA[Do saudoso Prof. Dr. Afonso Maria Ligório Soares. &#160; Sociedades extremamente injustas, genocidas, escravocratas (como a nossa, por exemplo) exigem dos mais oprimidos a flexibilidade de fazer concessões à beira do abismo, da feijoada ao samba, das benzeções às missas exigidas pelos orixás. J. L. Segundo dizia que “mesmo as sociedades injustas constituem, no longo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Do saudoso Prof. Dr. Afonso Maria Ligório Soares.<br />
&nbsp;<br />
Sociedades extremamente injustas, genocidas, escravocratas (como a nossa, por exemplo) exigem dos mais oprimidos a flexibilidade de fazer concessões à beira do abismo, da feijoada ao samba, das benzeções às missas exigidas pelos orixás. J. L. Segundo dizia que “mesmo as sociedades injustas constituem, no longo prazo, ecologias, isto é, sistemas sociais de equilíbrio complexo. E hão de ser mudadas como tais”. E insistia: “Toda tentativa unilateral de grandes proporções, por melhor que seja sua finalidade, termina por destruir de alguma forma a relação básica entre o ser humano e seu ambiente (biológico ou social)”. Em miúdos: se eu pretender transformar essas sociedades a todo custo, sem levar em conta a devida dialética dos mecanismos que as articulam, terminarei por causar um estrago ainda maior.<br />
&nbsp;<br />
Meu pai me contava que, quando meninos (na década de 20 do século passado), ele e seus irmãos (tio Eli, tio Tarcísio&#8230;) corriam atrás das procissões da igreja de Lagoa Dourada (MG), de olho na inscrição do pálio vermelho protetor do Santíssimo, que trazia bordado o acrônimo S.P.Q.R. Para os garotos, numa versão teológica inculturada avant la lettre, aquilo significava Sopa-Pão-Queijo-Rapadura.<br />
&nbsp;<br />
Quem estava errado ali: os padres, que desfilavam com adereços que remontavam à Roma antiga (a tradução literal do acrônimo de Senatus Populus que Romanus é o Senado E o Povo Romano) ou a garotada, que explicitava, numa sociedade de pobreza e injustiça social, sua ideia de paraíso? Ademais, o que tem a ver com o Evangelho de Jesus essa frase inscrita nos estandartes das legiões romanas, e que era o nome oficial do Império Romano? Ponto para o sincretismo dos meninos; zero para o sincretismo dos padres.<br />
&nbsp;<br />
Outra: segundo as recordações de meu pai, nas procissões da sexta-feira santa e similares, o povo cantava com muita animação as rezas. Mas como ninguém entendia patavinas de latim, iam inventando frases que fizessem algum sentido. Por exemplo, as beatas puxavam: “Terra come os zoio de noooois” e todos: “Amém”. Enquanto isso, lá no começo da fila, o padre estava dizendo, sozinho, a frase original: “Te rogamus, exaudi nos” [Te pedimos, atende-nos!]. Quem tava certo? Numa procissão que leva Jesus morto pra tumba, faz todo sentido a gente se lembrar de que, no final, a terra há de comer tudo, até os zoio de nós! Então, se liga enquanto é tempo.<br />
&nbsp;<br />
Sincretismo é veneno, é droga, é fármaco. Na medida, cura; desmedido, mata. Que nem água pedida em dança da chuva. Que nem amor que surge do nada por mulher que do nada veio. Que nem santidade de teresas-dávilas fincada por anjo em devaneio. Sincretismo é a vida acontecendo. É a revelação de Deus em ato, dizendo-nos primeiramente não Quem ele é, mas quem nós poderíamos ser um dia. Sincretismo é o que vai sendo feito enquanto tateamos pelo Quem-das-coisas.<br />
&nbsp;<br />
Se Deus é Amor, por que apelar aos intermediários, santos e virgens-marias? Se o sacrifício de Cristo já quitou a dívida, por que precisa repeti-lo em todas as missas – sadismo nosso ou masoquismo dele? Se Deus já sabe do que precisamos por que precisa pedir? Se, para o budista, deuses não há, pra quem ele escreve aqueles bilhetes pendurados ao vento? Se o corpo ressuscitado será diferente deste, o que o muçulmano acha que vai fazer com tanta virgem no paraíso – jogar paciência? Se o padre católico não sabe tocar nem no corpo de uma mulher, como se sente tão seguro em tocar no corpo de Cristo? Se Deus queria mesmo que todos lêssemos a Bíblia, por que a ditou em línguas tão esquisitas? Se religião é coisa verdadeira mesmo, por que tantas?<br />
&nbsp;</p>
<p>Enfim, dizer que eu só acredito na Bíblia porque seu Autor é Deus e que eu sei que Deus existe porque tá escrito lá na Bíblia é apenas um círculo vicioso. Então, seja qual for a resposta que você der às perguntas acima, cuidado!, você pode estar cometendo sincretismo sem saber.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/sobre-sincretismo/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O caso de Luzia Pinta, torturada pela &#8220;Santa&#8221; Inquisição no Século XVIII</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-caso-de-luzia-pinta-torturada-pela-santa-inquisicao-no-seculo-xviii/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-caso-de-luzia-pinta-torturada-pela-santa-inquisicao-no-seculo-xviii/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[George Cristo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2022 12:44:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=1474</guid>

					<description><![CDATA[Texto de Robert Daibert &#160; &#160; &#160; &#8220;Na manhã do dia 12 de agosto de 1743, o Tribunal do Santo Ofício de Lisboa submeteu Luzia Pinta a uma sessão de tortura. Após ter seu vestido arrancado, ela foi deitada em um potro, espécie de estrado de madeira com saliências pontiagudas, sobre o qual seu corpo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Texto de Robert Daibert</strong></p>
<p style="text-align: left;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft wp-image-1477" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2022/06/284916200_5130036080377053_26198482101482308_n.jpg" alt="" width="289" height="225" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2022/06/284916200_5130036080377053_26198482101482308_n.jpg 397w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2022/06/284916200_5130036080377053_26198482101482308_n-300x234.jpg 300w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2022/06/284916200_5130036080377053_26198482101482308_n-250x195.jpg 250w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2022/06/284916200_5130036080377053_26198482101482308_n-380x297.jpg 380w" sizes="(max-width: 289px) 100vw, 289px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: left;"><em>&#8220;</em>Na manhã do dia 12 de agosto de 1743, o Tribunal do Santo Ofício de Lisboa submeteu Luzia Pinta a uma sessão de tortura. Após ter seu vestido arrancado, ela foi deitada em um potro, espécie de estrado de madeira com saliências pontiagudas, sobre o qual seu corpo foi amarrado com correias de couro. Como era de costume, nesse tipo de tortura, essas cordas eram puxadas com intensidade de modo a comprimir o torturado contra as pontas de seu leito (Dines, 1992: 1007).<em>&#8220;</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"><em>&#8220;</em>Luzia era natural de Luanda, Angola, onde viveu antes de ser levada para o Brasil pelo tráfico negreiro no início do século XVIII. Os inquisidores tentavam desvendar os significados dos serviços espirituais que ela prestava à população de Minas Gerais em um ritual identificado como calundu.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">O recurso à tortura era usado para descobrir possíveis evidências de um pacto demoníaco em suas práticas religiosas. Ao final, ela conseguiu escapar da morte, mas não foi considerada inocente. Na ausência de provas explícitas, seu pacto foi presumido. Sentenciada pela &#8216;abjuração de leve suspeita de ter abandonado a fé católica&#8217;, Luzia foi para sempre proibida de retornar a Sabará, e foi ainda condenada a quatro anos de degredo no Algarve.<em>&#8220;</em></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-caso-de-luzia-pinta-torturada-pela-santa-inquisicao-no-seculo-xviii/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Nenhuma herança é tão rica quanto a Honestidade</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/nenhuma-heranca-e-tao-rica-quanto-a-honestidade/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/nenhuma-heranca-e-tao-rica-quanto-a-honestidade/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[George Cristo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 May 2022 16:27:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=1403</guid>

					<description><![CDATA[Por Mário Filho &#160; Ifá nos ensina que a honestidade é a uma das maiores riquezas que existem, conforme podemos extrair de um dos  ẹsẹ do Odù Ògbè-Ìrẹ̀tẹ̀: &#160; Ènìyàn lósán pọ̀ ó jù&#8217;gbé Ẹni Ire é wọn, ó ju ojú lọ o Ka tóó rẹ́ni rere, ọ̀nà á jìn Dífá fún Ọ̀rúnmìlà Ifá n [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="https://templopanteranegra.com.br/sacerdote/">Mário Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ifá nos ensina que a honestidade é a uma das maiores riquezas que existem, conforme podemos extrair de um dos  <em>ẹsẹ</em> do<em> Odù Ògbè-Ìrẹ̀tẹ̀</em>:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ènìyàn lósán pọ̀ ó jù&#8217;gbé</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ẹni Ire é wọn, ó ju ojú lọ o</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ka tóó rẹ́ni rere, ọ̀nà á jìn</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Dífá fún Ọ̀rúnmìlà</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ifá n lọ rèé sọ́kọ́ Ayé</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ó n lọ rèé bá Olódùmarè pín áyé lógboogba</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Wọn ní kó sákáalè, ẹbọ ní síse</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ó gbé&#8217;bọ, Ó rúbọ</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tradução:</strong></p>
<p style="text-align: center;">Pessoas inúteis são tão numerosas como as folhas do bosque</p>
<p style="text-align: center;">Pessoas confiáveis são tão escassas como os olhos. [do rosto]</p>
<p style="text-align: center;">Encontrar uma pessoa boa é algo difícil.</p>
<p style="text-align: center;">Essa foi a divinação feita a Ọ̀rúnmìlà.</p>
<p style="text-align: center;">Quando ia se tornar o esposo de Ayé [Terra]</p>
<p style="text-align: center;">Quando ia dividir o comando da Terra em partes iguais com Olódùmarè.</p>
<p style="text-align: center;">Foi-lhe aconselhado a oferecer sacrifício.</p>
<p style="text-align: center;">Ele realizou o sacrifício.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Significado:</strong></p>
<p>Ọ̀rúnmìlà planejava ser o senhor do mundo, desposando Ayé, a Terra. Ele queria deixar a força que a Terra representa livre do mal, porém ele não tinha como livrá-la do mal por não possuir poderes sobre as pessoas malévolas. Ele reuniu, então, pessoas confiáveis, as poucas que encontrou, para entabular um plano que seria benéfico a todos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As pessoas sobre a qual Ọ̀rúnmìlà não conseguia se impor, alimentavam grande ambição neles, imprimindo às pessoas vários males: angústia, dor e agonia, objetivando manter essas pessoas sob o jugo deles. Ọ̀rúnmìlà começou a trabalhar, auxiliado pelas pessoas confiáveis, contra o mal, dando solução aos problemas das pessoas: ao faminto, deu o que comer; ao que não tinha filhos, deu grande prole; ao doente, deu-lhe a cura; sucessivamente continuou resolvendo problemas, assim a Terra foi sendo pacificada e as pessoas ficaram felizes e agradecidas a Ọ̀rúnmìlà.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Isto impressionou a Olódùmarè, dessa forma ele dividiu o mundo em duas partes e deu uma delas a Ọ̀rúnmìlà. Assim, Olódùmarè continuou a ser o Criador, porém Ọ̀rúnmìlà passou o ser aquele que organiza as coisas que existem na Terra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse Ìtàn nos lembra que as pessoas confiáveis são os Bàbáláwo honestos e verdadeiros, que utilizam do conhecimento e sabedoria que Ọ̀rúnmìlà lhes transmite para trazer paz, harmonia e felicidade ao mundo. Lembra, também, que as pessoas que só pensam em coisas ruins, são inúteis, devendo ser evitadas e afastadas de nosso convívio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Este é um claro recado aos criticadores, que só caluniam, acusam e atacam aos &#8220;Custódios da Tradição&#8221; de Ifá, os Bàbáláwo, mas, apesar dessas críticas, calúnias e ataques, permanecem trabalhando, obtendo triunfos e conquistas cada vez maiores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ọ̀rúnmìlà a gbè awa o, laílaí!</strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/nenhuma-heranca-e-tao-rica-quanto-a-honestidade/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Universo conspira a nosso favor?</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-universo-conspira-a-nosso-favor/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-universo-conspira-a-nosso-favor/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2020 12:26:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=988</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; “O Universo conspira a nosso favor”, porém se ficarmos parados, esperando que as pessoas façam algo por nós, continuaremos na mesma! &#160; Nossa vida é repleta de ensinamentos: a todo instante temos a oportunidade de avaliarmos o que é bom e o que é ruim, fazendo um balanço de nossas metas [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“O Universo conspira a nosso favor”, porém se ficarmos parados, esperando que as pessoas façam algo por nós, continuaremos na mesma!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nossa vida é repleta de ensinamentos: a todo instante temos a oportunidade de avaliarmos o que é bom e o que é ruim, fazendo um balanço de nossas metas e prioridades de forma a que foquemos nossos esforços para conquistar aquilo que nos é caro e valioso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entretanto, a maioria das pessoas creem que sua felicidade depende de outros e ficam esperando que esses lhes deem aquilo que desejam, acreditando que são merecedoras do esforço de outrem, que inevitavelmente foi muito grande. Esquecem-se, assim, que todos constroem seu destino e que a necessidade de lutar para conquistar “um lugar ao Sol” é diária e nada vem de “mão beijada”. Como diz o ditado: “Não existe almoço de graça!”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A ladainha pueril e ridícula do “mimimi” “eu mereço mais do que ele/a” tornaram-se discursos frequentes. Comparações baratas surgem, reclamações abundam e, ainda assim, continuam vivendo “à espera de um milagre”, exigindo que aquelas pessoas que creem serem aptas a realizarem seus desejos o façam, sem demora e, de preferência, sem nenhum custo ou comprometimento, permanecendo “deitados em berço esplêndido”, remoendo seus sentimentos mais vis, causados, geralmente, pela inveja que sentem daqueles que se esforçam para conquistar seus objetivos. Em vez de tentarem seguir o exemplo dessas pessoas que se esforçaram, preferem fazer futrica, chacota e, especialmente, menosprezar o empenho que elas tiveram. Em vez de louvar o esforço e reconhecer que “o outro” alcançou seus objetivos pelos méritos próprios, preferem dizer “Ah, ele/a conseguiu por que é puxa saco”, “é filhinho/a de papai”, “é bonito/a” etc. Enganam-se a si mesmos ao criarem uma “história de cobertura”, capaz de justificar suas próprias faltas e/ou de justificar sua incapacidade de lutar. Criam justificativas para seu “sofrimento”, desenvolvem teorias mirabolantes para provar que são “perseguidos”, “incompreendidos”, “deixados de lado”, mas são incapazes de usar, pelo menos um pouco, a energia empregada para criticar na construção de um futuro melhor para si mesmos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Realmente eu não entendo como algumas pessoas podem ser assim! “Todos querem ir para o céu, mas ninguém quer morrer” talvez seja o adágio que explica a incapacidade que se vê em “levantar a bunda do sofá e ir à luta”. Achar que terá alguma coisa por se considerar “merecedor” é uma grande idiotice e a confirmação que, na verdade, não “merece” coisa alguma!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E o mais incrível é que essas pessoas possuem a capacidade de se “juntar” para reclamarem, maldizerem e criticarem, usando uns aos outros como esteio, de forma a terem “mais força” e poderem continuar com o círculo vicioso ao qual estão presas, enredando artificiosas teorias que lhes fazem crer que são aquilo que são por culpa do alheio e não por sua incapacidade de fazerem “do limão uma limonada”!</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-989 aligncenter" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n.jpg" alt="" width="618" height="262" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n.jpg 618w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n-300x127.jpg 300w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n-250x106.jpg 250w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n-520x220.jpg 520w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n-545x231.jpg 545w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/11206081_853288538051850_6128291425617232479_n-380x161.jpg 380w" sizes="(max-width: 618px) 100vw, 618px" /></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-universo-conspira-a-nosso-favor/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Angeologia judaico-cristã e a Umbanda</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/a-angeologia-judaico-crista-e-a-umbanda/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/a-angeologia-judaico-crista-e-a-umbanda/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2020 12:22:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=983</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Não se pode esquecer que a Umbanda se desenvolveu, assim como a população brasileira, por meio de três grupos humanos: brancos (especialmente formada por portugueses e seus descendentes), indígenas brasileiros e africanos escravizados. &#160; Neste texto, ater-se-á exclusivamente às influências que a população branca brasileira imprimiu ao desenvolvimento da Umbanda, pois [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não se pode esquecer que a Umbanda se desenvolveu, assim como a população brasileira, por meio de três grupos humanos: brancos (especialmente formada por portugueses e seus descendentes), indígenas brasileiros e africanos escravizados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Neste texto, ater-se-á exclusivamente às influências que a população branca brasileira imprimiu ao desenvolvimento da Umbanda, pois foi essa que trouxe a angeologia judaico-cristã, no decorrer do período colonial, ao seio da Umbanda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sabe-se que o catolicismo popular português, com atividades consideradas “errôneas” do ponto de vista ortodoxo, como, por exemplo, excessivo apego aos santos e às práticas de benzimento, invocando-se as forças dos santos e anjos para fins diversos; uso de escapulários e cruzes como talismãs; jejuns ascéticos visando à limpeza corporal etc deu à Umbanda muitas das práticas realizadas até hoje. Desse mesmo grupo humano a Umbanda sofreu influências do espiritismo, ocultismo e da teosofia, que se destacavam na classe média brasileira, sob influência do que havia, na mesma época, na Europa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim, de alguma forma, a angeologia judaico-cristã acabou entrando na Umbanda, enviesada, é claro, que foi se desenvolvendo especialmente a partir dos anos 1950. Com o tempo essas associações foram ficando mais fortes, sendo criadas várias teorias, que tentavam associar os Orixás, divindades típicas do panteão religioso ioruba, com astrologia, magia medieval, cromoterapia e outras práticas estranhas ao universo afro-religioso do qual a Umbanda se afastou ao embranquecer as práticas das Macumbas cariocas, do Candomblé de Caboclo, dos Calundus e de outras manifestações religiosas de descendência africana, as quais não se encaixavam no ideal branco-europeu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para que a Umbanda fosse legitimada era necessário que ela quebrasse sua ligação com a África e, por consequência, com qualquer coisa que lembrasse os negros; ademais, era necessário um mito criacional que afirmasse, sem dúvida, essa legitimação: por isso a escolha do 15 de novembro, dia da proclamação da República, como data de sua “anunciação”, bem como a escolha de um Caboclo como porta-voz do “mundo espiritual”, em um momento em que a literatura romântica brasileira e o brasilianismo buscavam estabelecer, no Caboclo (indígena), o símbolo da nação. Para temperar esse caldo, o Caboclo que se manifestou no dia 15 de novembro de 1908 não era um simples índio, mas a reencarnação de um sacerdote jesuíta, o Padre Malagrida. Dessa forma, a Umbanda poderia se inserir, de forma legítima, no universo religioso brasileiro, pois estava totalmente de acordo com os anseios dos ideais brancos-europeus: era cristã, tinha as bênçãos da Igreja Católica e era espírita (por isso ela se chamava “espiritismo de Umbanda”, denominação pela qual foi conhecida por muitos anos).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nessa esteira, a angeologia judaico-cristã é inserida na Umbanda, com a tentativa de colocar os Orixás como parte integrante do mundo angélico, fazendo-se associações espúrias entre Orixás e anjos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De forma equivocada, como várias outras, autores umbandistas passaram a desenvolver teorias nas quais os Orixás deveriam ser “encaixados” na angeologia judaico-cristã, de forma a serem legitimados, assim como houvera sido feito com a própria Umbanda em seu desenvolvimento. Entretanto, ao se debruçar na hierarquização dos anjos do judaísmo vemos que há diferenças com o catolicismo, bem como com as funções que cada um deles possui na teologia de cada religião. Abaixo estão exemplos da hierarquia angélica, com seus respectivos autores, lembrando que ela está em ordem de importância, do maior para o menor:</p>
<p>&nbsp;</p>
<h2>Zohar (obra cabalista judaica, provavelmente do Séc. XI):</h2>
<ul>
<li style="text-align: left;">Malakhim</li>
<li style="text-align: left;">Erelim (ou Arelim)</li>
<li style="text-align: left;">Seraphim</li>
<li style="text-align: left;">Khayyot ha-Kodesh</li>
<li style="text-align: left;">Ophanim</li>
<li style="text-align: left;">Hashmalim</li>
<li style="text-align: left;">Elim</li>
<li style="text-align: left;">Elohim</li>
<li style="text-align: left;">Bene Elohim</li>
<li style="text-align: left;">Ishim</li>
</ul>
<h2>Maimônides (em Mishne Torah, obra jurisprudencial judaica, escrita provavelmente no Séc. XII):</h2>
<ul>
<li>Ḥayyot ha-Kodesh</li>
<li>Ophanim</li>
<li>Arelim (ou Erelim)</li>
<li>Hashmalim</li>
<li>Seraphim</li>
<li>Malakhim</li>
<li>Elohim</li>
<li>Bene Elohim</li>
<li>Kerubim</li>
<li>Ishim</li>
</ul>
<h2>Maseket Atzilut (obra cabalista judaica, provavelmente do Séc. XIV)</h2>
<ul>
<li>Seraphim</li>
<li>Ofanim</li>
<li>Cherubim</li>
<li>Shinnanim</li>
<li>Tarshishim</li>
<li>Ishim</li>
<li>Hashmalim</li>
<li>Malikhim</li>
<li>Bene Elohim</li>
<li>Arelim (ou Erelim)</li>
</ul>
<h2>São Clemente (em Constituições Apóstolicas, provavelmente Séc. I)</h2>
<ul>
<li>Serafim</li>
<li>Querubim</li>
<li>Aeons</li>
<li>Hostes</li>
<li>Potestades</li>
<li>Virtudes</li>
<li>Tronos</li>
<li>Arcanjos</li>
<li>Anjos</li>
<li>Dominação</li>
</ul>
<h2>São Jerônimo (em Epístolas, escritas provavelmente no Séc. IV)</h2>
<ul>
<li>Serafins</li>
<li>Querubins</li>
<li>Potestades</li>
<li>Dominação<br />
Tronos</li>
<li>Arcanjos</li>
<li>Anjos</li>
</ul>
<h2>Santo Ambrósio (em Apologia Profética, provavelmente do Séc. XI)</h2>
<ul>
<li>Serafins</li>
<li>Querubins</li>
<li>Dominação</li>
<li>Tronos</li>
<li>Principados</li>
<li>Potestades</li>
<li>Virtudes</li>
<li>Arcanjos</li>
<li>Anjos</li>
</ul>
<h2>São Tomás de Aquino (em Suma Teológica, escrita no Séc. XIII)</h2>
<ul>
<li>Serafins</li>
<li>Querubins</li>
<li>Tronos</li>
<li>Dominação</li>
<li>Virtudes</li>
<li>Potestades</li>
<li>Principados</li>
<li>Arcanjos</li>
<li>Anjos</li>
</ul>
<p>Como se pode observar não há um consenso na hierarquização dos Anjos, havendo discrepâncias, mesmo entre os autores que professam a mesma religião.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim, se não há consenso entre judeus e católicos como esperar que os umbandistas, em sua maioria cristãos, com pequeno conhecimento teológico dessa religião, podem categorizar os Orixás, colocando-os na hierarquia angélica judaico-cristã, fazendo associações impossíveis entre eles? Qual é o objetivo disso? O que se espera? Será que ainda se precisa legitimar as práticas umbandistas por meio das religiões ocidentais? Até quando o pensamento colonizador martelará a cabeça dos escritores umbandistas, fazendo-os buscar nas religiões ocidentais as respostas para suas dúvidas?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Precisa-se dar um basta! Se se quer falar em Orixá, deve-se buscar, incessantemente, o conhecimento vivo do povo ioruba, que fará compreender, sem dúvidas, o que eles são, como são cultuados, o que representam em nossas vidas e como se poderá trazer seu Axé para nós. Enquanto se permanecer preso na repetição dos dogmas judaico-cristãos, não será possível compreender a profundidade e a beleza que a Umbanda possui!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Observação: não foi trazida, ao texto, a associação dos Orixás com os Anjos baseada nos autores umbandistas, para não se reproduzir o que se está a evitar.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/a-angeologia-judaico-crista-e-a-umbanda/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pensamentos sobre Ordens Iniciáticas Ocidentais</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/pensamentos-sobre-ordens-iniciaticas-ocidentais/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/pensamentos-sobre-ordens-iniciaticas-ocidentais/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2020 12:15:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Kimbanda]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=980</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Esta é uma mensagem que escrevi, há alguns anos, a um querido Irmão, na qual falo sobre algumas Ordens Iniciáticas Ocidentais em especial o Martinismo: &#160; Caro Irmão, &#160; Acredito que não posso e não devo falar da Ordem Maçônica dos Elus Cohanin (Coën) do Universo, pois há muito tempo não [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esta é uma mensagem que escrevi, há alguns anos, a um querido Irmão, na qual falo sobre algumas Ordens Iniciáticas Ocidentais em especial o Martinismo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caro Irmão,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Acredito que não posso e não devo falar da Ordem Maçônica dos Elus Cohanin (Coën) do Universo, pois há muito tempo não pratico nada desta Ordem. Confesso-lhe que as Ordens iniciáticas ocidentais me desapontaram e continuam a me desapontar. Lendo as obras de René Guénon, com mais afinco, consigo entender o porquê dele ter abandonado todas as Ordens das quais fazia parte. Elas já não tinham lugar em sua vida. Creio que o mesmo aconteceu comigo. Foram anos e anos de práticas, várias noites de estudos, períodos enormes de abstinências e jejuns que não foram suficientes para minha completude. O encontro com La Chose, a grande busca dos Elus Cohanin, que muitos preferem ignorar e fazer de conta que não é a verdadeira busca da Ordem, aconteceu, entretanto, vi, com o tempo, que a busca pelo fenômeno era uma coisa sem sentido. Tem-se o fenômeno e depois? Para que o fenômeno serve? Quem aparecerá? O que que eu quero? Estas perguntas ficaram sem resposta dentro do contexto das Ordens iniciáticas ocidentais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu Irmão, fui iniciado na Ordem Martinista aos 18 anos, há trinta anos. Fui iniciado Elu Cohen aos 27 anos. Aos 34, Réau-Croix. Participei de inúmeras Ordens, muitas das quais você conhece, outras eu só sabia que existiam por livros, acreditava, inclusive, que elas não existissem realmente, eram apenas lendas. Entretanto, todas elas não descobriram, ainda, para que servem. Cavalaria espiritual, irmandade perfeita, último esteio da Iniciação, força desagregadora das trevas etc são frases de efeito muito bonitas para todas elas, mas elas realmente são o que dizem ser? Quem garante? À qual tradição, “guenoniamente” falando, pertencem? Cumprem o que prometem? Você sabe que as respostas a essas perguntas nos desapontam. Quantas Ordens Martinistas existem? Quantas Ordens Elus Cohanin? Quantas obediências maçônicas? Quantas linhagens? Não estou me referindo às Ordens que são criadas para acomodar pensamentos, mas àquelas que surgem em face a diversas brigas e contendas que permeiam todas elas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Ordem Martinista instalada no Brasil no início do Séc. XX virou o Instituo Neo-Pitagórico. A Ordem Martinista da América do Sul, em nosso país, se torna a Igreja Expectante. Nos anos 70, Ary Ilha Xavier, de Cachoeira do Sul, que havia sido iniciado na Ordem Martinista (a que se tornou o Instituto Neo-Pitagórico, mas a que ele não queria seguir), se dirige à França e consegue ser reconhecido como S.’.I.’.I.’. pelo filho de Papus, trazendo para cá a Ordem Martinista (conhecida como a Ordem Martinista de Papus), mais uma vez. Rapidamente essa Ordem se expande formando grupos em todo o Sul e Sudeste. Emilio Lorenzo vem ao Brasil, instala outras Ordens e Lojas, confere o grau de S.’.I.’.I.’. a muitos Irmãos e a coisa anda. Ary e seu maior amigo Otto morrem. A Ordem Martinista fica sem chão. Um outro S.’.I.’.I.’., o “Seo” Jaime, assume a Ordem e tenta mantê-la. Com “Seo” Jaime as coisas começam a mudar no entendimento da Ordem Martinista. Começa-se a pregar um novo e terrível conceito: a Ordem não inicia negros, pois estes não têm alma; as mulheres não podem alçar ao grau de S.’.I.’.I.’. pois não tem o Yud (num sentido esotérico não teria o princípio de criar, inerente ao sexo masculino, segundo o entendimento dele). Isso passa a ser uma verdade na Ordem Martinista e foi nesta Ordem Martinista em que fui iniciado. A Igreja Gnóstica, o Rito Escocês Retificado e o Antigo e Primtivo Rito de Memphis e Mizraim, entre outras Ordens, passam a ser Ordens internas da Ordem Martinista. No inicio dos anos 90 houve uma série de questionamentos a respeito dessa forma de conduzir a Ordem. Há um grande racha, com muitas brigas. Os Irmãos de São Paulo são os primeiros a se rebelar contra o que acontecia. Começa-se a busca por outras Ordens Martinistas pelo mundo. Encontra-se a Ordem Martinista dos Cavaleiros de Cristo, revivida por Remy Boyer. Ela é instalada em São Paulo. Vários grupos martinistas se afiliam a ela. Mudam-se os rituais e mudam-se os pensamentos: todos, agora, são iguais perante a lei!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pouco tempo depois há, novamente, em São Paulo, outro racha. Membros do grupo que iniciou a revolta disputam poder para ver quem comandaria a OMCC. Um deles, secretamente, faz o curso no International College of Esoteric Studies (ICES), em Barbados. Vai para lá e é iniciado como S.’.I.’.I.’.L.’. e recebe a consagração de Bispo Gnóstico. Quando retorna apresenta seus certificados ao seu contendor, dizendo que ele, agora, era, por direito, o verdadeiro líder. O pau come! Novo racha. Surge a Ordem Martinista &amp; Sinárquica (OM&amp;S), ou melhor, ela é estabelecida no Brasil pelas mãos do S.’.I.’.I.’.L.’. que estudou no ICES.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que queria liderar a OMCC, à exemplo do, agora, Grão-Mestre da OM&amp;S, viaja aos EUA em companhia de outro Irmão e ambos recebem o grau de S.’.I.’.I.’.L.’. e são consagrados Bispos Gnósticos. Tratativas são feitas para que um dos americanos venha ao Brasil para a instalação de uma Loja Elu Cohen. Isso é feito. Instala-se uma Loja Elu Cohen em São Paulo. Outras são instaladas no Sul, pois a grande maioria dos sulistas, graças à força de articulação que o grupo de São Paulo, em questão, tinha, cooptou a maioria das Lojas Martinistas que seguiam a Ordem Martinista, sendo que esta passa a ser denominada “do Ramo Brasileiro”. Isso causou uma dissenção enorme. Irmãos de sangue passaram a não se olhar. O “Seo” Jaime ficou tão triste, dizem, que ficou perturbado mentalmente com o abandono.</p>
<p>Outro golpe iria acontecer. O Grão-Mestre da OM&amp;S, não satisfeito com o chapéu que havia tomado no comando da OMCC vai à França, entra em contato com Remy Boyer e volta de lá com as Cartas Patentes todas: as possíveis e as impossíveis. Outro baque, novos rachas! Instalam-se por completo inúmeras Ordens no Brasil e o comando de quase todas elas está nas mãos de uma única pessoa. Remy Boyer vem ao Brasil, demonstrando que tudo está muito bem. Eleva ao Grau de Réau-Croix alguns Irmãos [último grau da Ordem Maçônica dos Elus Cohanin (Coën) do Universo].</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O grupo de São Paulo, aquele que originou a rebeldia, abandona a OMCC. Continua a praticar os rituais dela, mas sem se ligar a ela. O Grão-Mestre vai, num dia de reunião, até lá e, publicamente, abate as colunas da Loja, apresentando a Carta de abatimento de colunas da Loja. Nova celeuma. Mais problemas. Começam-se novas buscas. No início de 2000 a Ancient Martinist Order (AMO) é criada nos EUA. Esta não surge de nenhum racha anterior, mas de uma necessidade de se acomodar várias tradições e ritos sob um único guarda-chuva. Não houve um desvinculamento da OMCC, mas uma dupla pertença. O grupo de São Paulo, rapidamente, se associa à AMO.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A OMCC, a OM&amp;S e várias outras Ordens estão sob o comando de uma única pessoa. Como você bem sabe o poder corrompe. Há novos rachas de Lojas descontentes com a condução dessas Ordens. Muitas delas se filiam à AMO. Novos mal-estares.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Remy Boyer fica sabendo de tudo isso e abate as colunas da OMCC no Brasil (dizem que ela retornou às atividades, mas não posso confirmar, no Rio de Janeiro). Ficam, então, disputando, ou melhor dizendo, se degladiando para ver que manda mais e quem tem as verdadeiras iniciações. A OM “ramo brasileiro” se definha, tendo apenas duas Lojas no Sul.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Começam, então, outras desavenças. A AMO, no Brasil, é deixada de lado por vários grupos. Acontecem problemas e a direção da AMO nos EUA abate as colunas do Ordem no Brasil (dizem que esta também ressurgiu em nosso pais, mas não posso confirmar). Cria-se, então, a Ordem Martinista do Brasil e a Ordem Martinista Martinezista do Brasil, que acolhe grande parte das Lojas que haviam ficado sem a direção de um orgão central. Com a morte do “Seo” Jaime toda as Lojas do ramo brasileiro se afiliam às Ordens que citei neste parágrafo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por que, meu Irmão, fiz todo esse retrospecto? Simples, mostrar que as Ordens ocidentais não conseguem dar conta da condição humana. Você pôde observar que em 20 anos, aproximadamente, houve inúmeros rachas, batalhas e inimizades entre os que deveriam se considerar Irmãos. Ora, claro é que Irmãos brigam, mas houve coisas muito feias que não conseguiram ser dirimidas. Participei diretamente de todos esses fatos, não como observador, mas como parte do processo. Amargores existem até hoje. Não falo com a grande maioria dos membros das antigas Lojas martinistas, passei a ser mal-visto, como persona non grata, bem como muitos outros Irmãos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim, eu, Sâr Wladimir e Sâr Mejnour, todos com os últimos graus das Ordens que existiam no Brasil ou perto deles, resolvemos buscar o máximo possível de Ordens que pudéssemos encontrar. Quem fosse iniciado em uma delas transmitiria a iniciação aos demais. Tudo isso foi facilitado, é claro, por nossas Cartas-Patentes e Certificados de Grau, os quais eram reconhecidos pela grande maioria das Ordens ocidentais. Com isso colecionamos mais de 50 Ordens o que, para nós, passou a ser motivo de chacota. Não nos importava qual Ordem fosse, o importante era pertencermos a ela (algumas de fundo ético que não me apeteciam, como você bem sabe, e outras que não tinham nada a ver conosco, mas isso não nos importava muito). Pessoas vinham de outros países para trocar linhagens conosco, especialmente da Espanha, Estados Unidos e países da América Latina ou para terem suas linhagens reconhecidas por nós.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sâr Wladimir resolve trilhar seu próprio caminho e nos deixa. Sâr Mejnour não aprova isso e fica muito chateado. Continuamos, Sâr Mejnour e eu, a procurar por Ordens. Chegou uma hora que não encontrávamos nada de novo. Conhecemos muitas pessoas legais, estreitando laços com quem nem imaginávamos. Sâr Mejnour, então, estabelece o Soberano Santuário da Gnose, criado para acomodar as diversas Ordens que possuíamos. O SSG tem uma ascenção meteórica, graças ao alto poder pessoal que Sâr Mejnour detinha. Sâr Wladimir, após alguns meses afastado, retoma a ligação conosco, que não dura muito, sendo afastado por Sâr Mejnour. Infelizmente, dois anos após a criação do SSG Sâr Mejnour é assassinado. Com a morte de Sâr Mejnour eu coloquei o SSG em adormecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mesmo antes do trágico e fatídico acontecimento havido com Sâr Mejnour, as coisas começaram a ficar sem sentido. O “grande barato”, para nós, era a constante procura por algo novo, algo que não conhecêssemos, que fosse diferente daquilo que já tínhamos, porém os rituais eram quase todos idênticos, a doutrina parecidíssima, as práticas eram cópias da Golden Dawn. Assim, não havia mais interesse na procura, pois percebemos que nada de novo conheceríamos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De todas essas buscas que fizemos algo unânime nos tocou: a religiosidade afro-brasileira. Sâr Mejnour se tornou Babalorixá, sendo meu iniciador. Sâr Wladimir começa a se interessar pela Jurema e pela Obeah caribenha. Interessante é que um processo parecido aconteceu na Europa e nos EUA. Muitos martinistas de lá se iniciaram na Santeria, outros foram para a Nigéria e se iniciaram em Ifá. Alguns, mais uma vez, vieram para o Brasil e foram iniciados por Sâr Mejnour ou por outras pessoas, inclusive por mim, na Umbanda e na Kimbanda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Até mesmo o Grão-Mestre da OM&amp;S foi visto num Terreiro de Umbanda, se consultando com um Preto-Velho, o que foi motivos de muito riso entre nós, pois ele ficou muito constrangido ao ser surpreendido por lá. O Venerável da outra Loja, a primeira que se rebelou, solicitou um dia um contra-feitiço para Sâr Wladimir, pois ele havia sido vítima de um filtro de amor, feito por uma praticante da Wicca e ele não conseguia lidar com aquela energia, mesmo sendo Réau-Croix, Bispo Gnóstico, S.’.I.’.I.’.L.’. etc etc etc. Sâr Wladimir, disfarçadamente, lhe passou uma prática de Santeria. No entanto, dado ao sincretismo, o Venerável não sabia que estava fazendo algo de Santeria, mas acreditava que fazia algo da prática cristã. Ele ficou bem e até hoje não sabe que praticou uma “macumbinha”!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meu Irmão, retornando ao início da mensagem e à ideia principal dela, digo-lhe que não há porque divulgar minha ligação com a Ordem dos Elus Cohanin, pois não acredito em sua efetividade. Não vou oferecer algo em que não acredito, cuja eficácia é apenas fenomênica. Há alguns anos julguei muito mal Saint-Martin, que considerava a magia cerimonial de Pasqually sem sentido, preferindo a mística de Boehme. Hoje eu o entendo perfeitamente, assim como entendo René Guénon. Não estou querendo, com isso, desestimulá-lo de qualquer busca ou pertença a Ordens, ao contrário, estou apenas falando de mim, apresentando-lhe os motivos que tenho para não continuar algo que, para mim, repito, não tem sentido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar do tom funesto de minha mensagem, quero lhe dizer que estou muito feliz com a minha opção. Encontrei o que precisava, no sentido religioso, e nos cultos afro toda a magia que sempre busquei, magia esta sem cerimônias elaboradas, sem parafernálias, sem capa e espada, simples e humilde, mas que funciona. Com ela pude ajudar inúmeras pessoas que não tinham mais esperanças, que não encontravam apoio e compreensão em lugar algum, que estavam sendo perseguidas por espíritos trevosos, os quais haviam desestruturado suas vidas. Todo o meu ímpeto de cavaleiro da justiça de Deus pôde ser empregado, com resultados quase que imediatos. Isso me deixou e deixa muito feliz. Nesta nova fase mágica, bastante distante da tradição ocidental que tinha, busquei conhecer com profundidade o que estava fazendo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um TFA</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/pensamentos-sobre-ordens-iniciaticas-ocidentais/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Afastamento da Umbanda de suas raízes africanas!</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/afastamento-da-umbanda-de-suas-raizes-africanas/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/afastamento-da-umbanda-de-suas-raizes-africanas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 21:13:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=978</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Já escrevi, por diversas vezes, que o afastamento da Umbanda de suas raízes africanas tem obrigado ao errôneo uso de verbetes estranhos à cultura afro-brasileira. Um desses erros é o uso da palavra “Avatar”, termo típico da religião hindu, especialmente da linha Vaishnava dessa religião asiática. &#160; Avatar, na tradição hindu, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já escrevi, por diversas vezes, que o afastamento da Umbanda de suas raízes africanas tem obrigado ao errôneo uso de verbetes estranhos à cultura afro-brasileira. Um desses erros é o uso da palavra “Avatar”, termo típico da religião hindu, especialmente da linha Vaishnava dessa religião asiática.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Avatar, na tradição hindu, significa “descida de uma divindade à Terra”. Comumente é entendido como “encarnação de uma divindade”, que pode ser em um corpo humano ou em um animal. O conceito de avatar foi desenvolvido pelos devotos do deus hindu Vishnu (linha Vaishnava que citei acima), que creem que ele tomou a forma humana para auxiliar a humanidade. Para os Vaishnava, Vishnu teve dez encarnações, das quais posso destacar Krishna. Há outros exemplos do uso de avatar por outras divindades hindus.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Os hindus estabelecem diferenças entre os “avatares plenos”, os quais trazem, em sua encarnação, os poderes totais da divindade e os “avatares parciais” que não trazem os poderes totais da divindade, chamado de “anshavatar”.<br />
Assim, não é possível que alguém queira dar a si ou a outrem a alcunha de “avatar”, especialmente na Umbanda, religião afro-descendente que não possui nenhuma ligação com o hinduísmo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Preciso destacar, ainda, que é muita pretensão dar a si mesmo o “status” de avatar ou enviado! Para mim, é maucaratismo!</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/afastamento-da-umbanda-de-suas-raizes-africanas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A iniciação da mulher em Ifá e o posto de Iyánifá</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/a-iniciacao-da-mulher-em-ifa-e-o-posto-de-iyanifa/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/a-iniciacao-da-mulher-em-ifa-e-o-posto-de-iyanifa/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 21:11:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=974</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; O envolvimento da mulher na adivinhação de Ifá está explícito no “corpus” sagrado de Ifá, que é o depositário do sistema Yoruba de pensamento. &#160; O lugar da mulher na religião Yoruba em geral e na prática de Ifá em particular é significante. Na verdade, as mulheres são guardiãs das tradições [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-975 alignleft" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n.jpg" alt="" width="500" height="375" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n.jpg 500w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n-300x225.jpg 300w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n-250x188.jpg 250w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n-476x357.jpg 476w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/69572_653706808010025_288023289_n-380x285.jpg 380w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" />O envolvimento da mulher na adivinhação de Ifá está explícito no “corpus” sagrado de Ifá, que é o depositário do sistema Yoruba de pensamento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O lugar da mulher na religião Yoruba em geral e na prática de Ifá em particular é significante. Na verdade, as mulheres são guardiãs das tradições na Religião Tradicional Yoruba, bem como servem como Sacerdotisas de Ifá, as chamadas Iyánifá (que não devem ser confundidas com as Apetebii, as esposas dos Babaláwo, que são consagradas para auxiliá-lo em suas funções sacerdotais).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De fato, a visão de mundo que possuem os Yoruba dá preferência ao equilíbrio de gênero, que compele que o devido reconhecimento de sua atuação sacerdotal seja dado às mulheres e isso é exemplificado no papel que elas desempenham no culto a Ifá. Exemplo disso é o que está registrado no Odu Ejiogbe, onde lemos:</p>
<blockquote><p>Arowo d’ifa<br />
Awo ‘le jegbe<br />
Agbagiwo nii s’oluwo<br />
Isalu orun<br />
Ifa pe ‘wo Orunmila<br />
N’ijo ti n t’orun bo w’aye<br />
Won ni yio ni obinrin<br />
Won ni obinrin na yio bimo<br />
Meji loojo<br />
Gege bi oro ifa<br />
Orunmila n’iyawo<br />
O loyun, o si bi b’eji<br />
Oka j’okunrin, okan j’obinrin<br />
Lati kekere ni awon mejeeji<br />
Ti n wo baba won bo ti ngbe ‘wo ifa<br />
Bi okunrin ti mo ‘fa i da<br />
Ni obinrin naa mo; fa ida<br />
Nigbati awon omo eniyan<br />
De isalaye awon awo<br />
Ni iwo awawonlaseri<br />
Omo re o k’ifa<br />
O dahun o ni obinrin ni<br />
Won ni ko leewo<br />
Sebi akobi Orunmila<br />
Naa t’o je obinrin ti k’ifa<br />
Lati igba yi l’obinrin<br />
Ti n k’ifa<br />
Won n yan ebo<br />
Won si n j’ewe ifa fun won.</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Tradução</strong><br />
Arowo consultou Ifá<br />
O segredo da casa de Jegbe<br />
É Agbagiwo que é o chefe dos Sacerdotes de Ifá<br />
Na morada celestial<br />
Ifa diz: “Olhe para Orunmila”<br />
O dia em que ele foi do céu para a terra<br />
Disseram-lhe que ele casaria com uma mulher<br />
Disseram-lhe que ela lhe daria filhos<br />
Duas crianças em um dia<br />
Conforme Ifa anunciara<br />
Orunmila possui uma esposa<br />
Ela engravidou e teve gêmeos<br />
Um menino e uma menina<br />
Desde tenra idade, ambos<br />
Viam seu pai praticar a divinação<br />
Assim como o homem podia divinar<br />
Também podia a mulher<br />
Quando os seres humanos<br />
Vêm à terra para viver<br />
Os divinadores disseram<br />
“Você, Awawonlaseri,<br />
Sua filha não pratica Ifá?”<br />
Ele responde: “ela é mulher”<br />
Eles lhe disseram: “isso não é uma proibição” [ewo]<br />
Desde que o primogênito de Orunmila<br />
Que é mulher, estudou Ifá<br />
A partir de então, a mulher<br />
Estuda Ifá<br />
Eles prescreveram o sacrifício<br />
E elas foram iniciadas para Ifá</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/a-iniciacao-da-mulher-em-ifa-e-o-posto-de-iyanifa/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fora da Tradição não há Iniciação</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-tradicao-nao-ha-iniciacao/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-tradicao-nao-ha-iniciacao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 21:07:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=969</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Meus amigos, &#160; Ando com o meu pavio cada vez mais curto. Quanto mais besteiras, idiotices, sandices, loucuras, absurdos, invencionices, charlatanismos etc. eu vejo, leio e ouço, mais esse pavio se encurta! &#160; Daí eu me pergunto: o que está acontecendo para existir tudo isso? Confesso que não tenho uma resposta [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meus amigos,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ando com o meu pavio cada vez mais curto. Quanto mais besteiras, idiotices, sandices, loucuras, absurdos, invencionices, charlatanismos etc. eu vejo, leio e ouço, mais esse pavio se encurta!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Daí eu me pergunto: o que está acontecendo para existir tudo isso? Confesso que não tenho uma resposta para dar, mas acredito que isso esteja acontecendo pela banalização do sagrado e pelo abandono da Tradição. Diariamente a Tradição é aviltada e esquecida, jogada no lixo como algo de “velhos” e “ultrapassados”. Sempre falo e escrevo, parafraseando o perenialista René Guénon, as seguintes frases: “Sem Tradição não há Iniciação”, “Fora da Tradição não há Iniciação” e “Sem a Tradição não há Salvação”; assim, é meu dever, como Sacerdote e defensor da Tradição, tentar esclarecer e evitar que isso se perpetue.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Além disso, há que pensarmos que enquanto há os pulhas que enganam, há os bobocas ou ingênuos de boa fé que são enganados. Como se diz por aí: “todos os dias nasce um trouxa e um esperto e eles vão se encontrar”. Ora, trouxa, neste mundo, todo mundo já foi, pelo menos uma vez; o duro é permanecer trouxa pelo resto da vida!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Contudo, onde quero chegar? O que quero dizer com essa introdução? É simples: quero evitar que as pessoas continuem sendo trouxas. Não se quer ou se deseja um monte de espertos, mas pessoas esclarecidas, de verdade!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sabe-se que com a modernidade, o pensamento cartesiano de René Descartes (considerado o “pai” da filosofia moderna), o positivismo de Augusto Comte e o niilismo de Nietzsche, influenciaram e influenciam o modo como as ciências e a vida são vistas; influenciaram e influenciam, do mesmo modo e na mesma proporção, a visão das religiões, das religiosidades e dos religiosos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vamos, então, fazer algumas análises sobre as três correntes de pensamento filosófico que citei:</p>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Cartesianismo:</strong> para René Descartes (um teísta cristão) um objeto só será analisado adequadamente pelo uso da razão, devendo-se decompor este objeto em partes isoladas e distintas, fragmentando-o e dividindo-o a fim de o compreender, estudar e criticar e, ao final, classificar as partes do objeto, “encaixotando-as” em categorias, colocando-as em ordem de importância hierárquica. Esta forma de pensamento nós vemos principalmente na Umbanda, que classifica, divide e estabelece as hierarquias do mundo espiritual, influência clara do espiritismo kardecista, sobejamente influenciado pelo pensamento cartesiano. Vemos, ainda, as classificações dos Exus, Caboclos, Orixás etc, na qual tudo deverá estar organizado hierarquicamente e nada pode estar fora disso. Tudo deverá ter seu lugar, arrumadinho, como se fosse numa bela estante de livros.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Positivismo:</strong> para Augusto Comte o objeto em análise só poderia ser observado verdadeiramente pelo uso da experimentação e de sua classificação a fim de obter os verdadeiros dados, tendo a ciência ou experimento científico como único recurso para investigação do objeto. O pensamento positivista é marcado pela ideia de que a humanidade avança de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida, em melhoramentos contínuos. Esta teoria influenciou enormemente o espiritismo kardecista e a Teosofia de H. P. Blavatsky que, por sua vez, também influenciaram grande parte das correntes umbandistas.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li><strong>Niilismo:</strong> para ARALDI (2008, p. 5) “o niilismo tem suas raízes na Antiguidade (em Sócrates, Platão e no cristianismo), devido a uma doença da vontade, fisiologicamente condicionada, a uma tendência negadora da vida que inventa o supra-sensível como um refúgio para sua incapacidade de viver”. Para Nietzsche, expoente desta corrente filosófica, os valores e a moral são inúteis, afirmando que nada é real e que tudo o que existe é porque os seres humanos dizem que é. Nietzsche se coloca como inimigo de qualquer forma de religião, em especial do Cristianismo e do Budismo, chamando-os de religiões da decadência. Nietzsche desenvolve um pensamento no qual afirma que a democracia e a igualdade entre os seres humanos é uma falácia, sendo que o homem precisa evoluir para algo além do próprio homem. A teoria niilista influencia enormemente os círculos ocultistas do Séc. XIX e XX, especialmente Aleister Crowley, cuja obra é permeada de conceitos oriundos daquela teoria, além do pensamento satanista contemporâneo, este também extremamente influenciado pelo niilismo.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim, o evolucionismo mascarado nestas três correntes de pensamento filosófico vai apoiar a ideia de que “nada é verdadeiro, tudo é relativo”. Desta forma não haveria nenhum valor absoluto ou verdade, moral, beleza, religião, dogma; nada seria estável, apenas a evolução, esta sendo a única ideia absoluta. Ora isto é uma falácia: se nada é absoluto, a evolução também não o é! Assim, o evolucionismo não pode prosperar! Notem, então, que há um paradoxo insofismável.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas, o que tudo isso tem a ver com o que estou discutindo? Bem, não podemos negar, em nenhuma hipótese, a influência que o espiritismo kardecista exerceu e exerce nas manifestações religiosas afro-brasileiras. O espiritismo kardecista é, por excelência, evolucionista, sendo que a premissa básica e fundamental do espiritismo está ancorada na crença “da imortalidade da alma e na evolução espiritual” (AURELIANO, 2011, p. 31) e, de acordo com Alan Kardec, “todos os espíritos foram criados por Deus imperfeitos e a todos foi dado o livre-arbítrio para fazerem as escolhas necessárias a sua evolução espiritual” (id., ibid.).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alan Kardec abusa da boa vontade de seus leitores! Como é possível a ele acusar Deus de fazer imperfeita a Sua criação por Seu bel-prazer? Então, segundo Kardec, podemos pensar que Deus, em um dia em que não tinha o que fazer, pensou assim: “Vou criar seres imperfeitos, para que eles evoluam à perfeição!” Deus, então, criou deliberadamente espíritos imperfeitos? Para quê? Ora, poupem-me!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esta noção de evolucionismo presente na obra de Kardec, especialmente a evolução espiritual, está relacionada, além das teorias presentes em algumas religiões orientais, tais como o hinduísmo e o budismo (apesar de haver diferenças doutrinais e teológicas gritantes e até antagônicas entre elas e o espiritismo), às “teorias evolucionistas que marcaram as ciências naturais e humanas na segunda metade do século XIX” (AURELIANO, 2011, p. 32), especialmente as doutrinas positivista e cartesiana. “Assim, a negação do sobrenatural e da magia como formas de explicação para as manifestações dos espíritos, a exclusão do sagrado e dos ritos na conformação da prática da doutrina e o uso de experimentos para comprovar a comunicação com o mundo dos mortos seriam meios de fazer do espiritismo uma forma de conhecimento, destinada ao estudo das relações entre o mundo físico visível e o invisível, pautada no raciocínio lógico” (id., p. 33). Nada mais racional e positivista, não é mesmo? Assim, pela influência que as religiões afro-brasileiras sofrem do espiritismo, os seguidores dessas religiões acabam por criar teorias que se enquadram no pensamento positivista e cartesiano no qual o espiritismo kardecista se estriba.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outra questão que não podemos nos esquecer é a influência que o ocultismo (abrangendo todo o movimento ocultista dos Séc. XVIII ao XX) e a teosofia de H. P. Blavatsky exerceram em religiões afro-brasileiras. Vemos, por exemplo, teorias do Marquês Saint-Yves d’Alveydre e de seu mestre Fabre d’Olivet, do abade Eliphas Levi e do médico Papus, entre outros, sendo adaptadas por alguns segmentos umbandistas, passando a fazer parte da doutrina deles. Outra influência que certos cultos afro-brasileiros sofreram foi da teurgia e da goetia, esta especialmente desenvolvida pelo poeta Aleister Crowley.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim, tudo ficou um balaio de gatos, sem levar em conta aquilo que a Tradição original, que deu início aos cultos afro-brasileiros, pregava, tornando-se esta Tradição algo ultrapassado e que teria que evoluir com o enxerto de inúmeras e estranhas teorias, totalmente diversas ao sentido original que aqueles cultos possuíam. Podemos observar, hoje, a Gnose de Samael Aun Weor e a teoria dos Mestres Ascensionados de H. P. Blavatsky (como a famosa chama violeta atribuída ao Conde de Saint Germain) se transformar em material doutrinário umbandista, por exemplo, havendo um rompimento total com aquilo que era proposto pelos primeiros praticantes dos cultos e religiões afro-brasileiras, especialmente a Macumba carioca e a Cabula (ambas extintas).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sempre ouço: “Ah, as coisas evoluem” e isso me arrepia, irrita e apavora! Como assim!? As coisas evoluem!? O que isto quer dizer!? Respondo: nada, pois a Tradição é Tradição e não nos compete mudá-la ou contradizê-la, mas seguí-la. Se não concordamos com algo da Tradição a qual seguimos, devemos abandoná-la, devemos deixá-la de lado e sermos honestos conosco mesmos e com os outros e, principalmente, com a própria Tradição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Exemplifico: se você é do Candomblé e não admite o sacrifício, palavra que vem da junção de duas palavras latinas sacrum (divino, sagrado) e officium (dever, serviço, cortesia, ocupação), ou seja, um “dever sagrado” com o qual não concorda, você deve abandonar o Candomblé. A mesma situação se deve à Kimbanda, se você não concorda com o sacrifício de animais não continue nela. Em ambos os casos você pode, muito bem, ir para a Umbanda que não sacrifica animais. Assim, você estará sendo verdadeiro e não abandonando a Tradição.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outro problema, oriundo do abandono da Tradição é a proliferação de “Sacerdotes” e “Sacerdotisas” auto-declarados, que não passaram pela experiência e formação de um lugar de culto afro-brasileiro, que não possuem a preparação adequada e que resolvem abrir sua Casa, mesmo não tendo nenhuma condição para isso. Como não têm experiência, nem mesmo base para exercerem o sacerdócio, começam a enxertar coisas (principalmente daquilo que leem em livros de outros enxertadores ou que aprendem em cursos, inclusive à distância). Como inserem assuntos que agradam ao público ignorante e malemolente, este passa a seguí-lo, tendo-o como pessoa “iluminada” e capaz de conduzi-los por um caminho espiritual. Ledo engano! São cegos conduzidos por outro cego (sem nem uma bengalinha para ajudar!).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Muito pior são aqueles que se acreditam “avatares” e “mestres”, que se arvoram de um conhecimento iniciático que não possuem, pois não passaram por nenhum rito iniciatório e se propõem a introduzir pessoas naquilo em que não foram iniciados. Acreditam, piamente, que possuem uma “autorização do astral” para fazerem o que bem entendem. Isto é um acinte, que afronta totalmente a Tradição. Neste sentido, vamos ver o que diz alguns mandamentos de Ifá (um dos sistemas filosófico-religiosos mais completos do mundo) sobre o assunto (extraídos do Odú Ìká-Òfún):</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>1º. Não digam o que não sabem!</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Interpretação: Um sacerdote não deve enganar ao seu semelhante acenando com conhecimentos que não possui. E jamais dizer o que não sabe, ou seja, passar ensinamentos incorretos ou que não tenham sido transmitidos pelos seus mestres e mais velhos ou adquiridos de formas legítimas. É necessário o conhecimento verdadeiro para a prática da verdadeira religião. Quem abusa da confiança do próximo, enganando-o e manipulando-o através da ignorância religiosa, sofrerá graves conseqüências pelos seus atos. A natureza se incumbirá de cobrar os erros cometidos e isto se refletirá em sua descendência espiritual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>2º. Não façam ritos que não saibam fazer!</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Interpretação: Não se podem realizar rituais sem que se tenha investidura e conhecimento básico para realizá-los. Não se pode fazer aquilo que não sabe ou que não aprendeu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(…)</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>12º. Não desrespeitem os mais velhos, a sabedoria está com eles.</p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>Interpretação: Deve-se respeitar e tratar muito bem aos mais velhos, principalmente os mais antigos nos cultos e religiões afro-brasileiras. O respeito aos mais velhos é um dos principais fundamentos de uma religião onde, reconhecidamente, antiguidade é posto. Faltar-lhes com o devido respeito e atenção é como lhes retirar o bastão em que se apóiam. Aquele que sabe respeitar, acatar e amar aos seus mais velhos, sem dúvida receberá o mesmo tratamento quando também caminhar apoiado no seu próprio bastão. Os mais velhos, pelas experiências vividas, representam verdadeiros mananciais de sabedoria onde cada um deve procurar beber um pouco, saciando a sede de saber. São livros sagrados, cujas páginas devem ser lidas com paciência e carinho. Religiões que, durante séculos incontáveis, tiveram seus fundamentos transmitidos oralmente, valorizam sobremaneira, aqueles que são depositários destes conhecimentos. Um velho, por mais obtuso que possa parecer à primeira vista, sempre terá algo, obtido nos longos anos vividos, a ensinar. Devemos lembrar sempre que, se antiguidade é posto, saber é poder!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>René Guénon (1946, p.9) nos esclarece sobre a iniciação e a tradição: “(…) a essência e a meta da iniciação são sempre e por toda parte as mesmas; só as modalidades diferem, por adaptação aos tempos e aos lugares; e agreguemos, em seguida, para que ninguém possa se equivocar, que essa adaptação, para ser legítima, não deve ser, nunca, uma ‘inovação’, quer dizer, o produto de uma fantasia individual qualquer, senão que, como a das formas tradicionais em geral, deve proceder sempre, em definitivo, de uma origem ‘não humana’, sem a qual não poderia haver realmente nem tradição, nem iniciação, mas algo dessas ‘paródias’ que encontramos tão frequentemente no mundo moderno, que não vêm de nada e que não conduzem a nada e que, assim, não representam verdadeiramente, se se pode dizer, mais que nada pura e simplesmente, quando não são instrumentos de algo muito pior”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como se pode ver, o afastamento da Tradição e do tradicional enfraquece a tudo e a todos. Se, por algum motivo, você não concorda com algo que se pratica em sua Casa espiritual ou que se faça em seus ritos e cerimônias, saia, encontre outro lugar tradicional, diga-se, para continuar seu trabalho. O que não se pode fazer é sair e inventar o seu próprio sistema e considerá-lo melhor e mais “evoluído” que o anterior e começar uma vida sacerdotal sem nenhum preparo para tanto. Diplomas de Sacerdote não habilitam ninguém a exercer o Sacerdócio. Somente anos de experiência e dedicação em uma Casa de tradição, aprendendo no dia a dia, habilitará alguém a ser, de verdade, um Sacerdote. Não seja mais um desses tantos pseudos Sacerdotes que existem por aí!</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-971 size-medium" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation-197x300.jpg" alt="" width="197" height="300" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation-197x300.jpg 197w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation-250x381.jpg 250w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation-276x420.jpg 276w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation-234x357.jpg 234w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/initiation.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 197px) 100vw, 197px" /></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-tradicao-nao-ha-iniciacao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que é a Tradição?</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-a-tradicao/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-a-tradicao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:59:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=966</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; O termo tradição foi profusamente usado anteriormente. É agora necessário defini-lo com tanta exatidão quanto possível de modo a evitar incompreensão sobre um conceito que reside no cerne da nossa preocupação para com o significado do sagrado na sua relação com o conhecimento. A utilização do termo tradição no sentido que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O termo tradição foi profusamente usado anteriormente. É agora necessário defini-lo com tanta exatidão quanto possível de modo a evitar incompreensão sobre um conceito que reside no cerne da nossa preocupação para com o significado do sagrado na sua relação com o conhecimento. A utilização do termo tradição no sentido que lhe é conferido no presente estudo surgiu para a civilização Ocidental no momento da fase final da dessacralização do conhecimento e do mundo que rodeava o homem moderno. A redescoberta da tradição constituiu uma espécie de compensação cósmica, uma bênção do Empíreo Divino e da sua misericórdia que tornou possível, num momento em que tudo parecia perdido, a reafirmação da Verdade que constitui o próprio coração e essência da tradição. A formulação do ponto de vista tradicional foi uma resposta do Sagrado, que é simultaneamente o alfa e o ômega da existência humana, à elegíaca sentença do homem moderno perdido num mundo deposto do sagrado e, por conseguinte, deposto de significado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“The First who comes Last”, a reafirmação da tradição nesta tarda hora da história da humanidade, tradição que é ela própria de carácter primordial e que possui continuidade ao longo dos tempos, tornou possível uma vez mais o acesso àquela Verdade segundo a qual os seres humanos viveram durante a grande parte – ou antes a quase totalidade – da sua história terrestre. Foi necessário que esta Verdade fosse novamente declarada e reformulada em nome da tradição, devido precisamente ao quase total eclipse e à perda daquela realidade que constituiu a matriz da vida da humanidade normal ao longo dos tempos. A utilização do termo e o recurso ao conceito da tradição tal como se efetiva no mundo contemporâneo são, de certa forma, uma anomalia tornada necessária pela anomalia em que consiste o mundo moderno.<sup>3</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Várias línguas anteriores aos tempos modernos não utilizavam um termo que correspondesse exatamente ao da tradição já que a humanidade pré-moderna se caracterizava ela própria por aqueles que aceitavam o ponto de vista tradicional. O homem pré-moderno estava demasiado imbuído no mundo criado pela tradição para que tivesse a necessidade de ver este conceito definido de modo exclusivo. Este homem era como os peixinhos que, de acordo com a parábola Sufi, se aproximaram de sua mãe um dia pedindo que lhes fosse explicada a natureza da água de que tanto haviam ouvido falar, mas que jamais haviam visto ou lhes tinha sido definida e descrita. A mãe respondeu que se alegraria em revelar-lhes a natureza da água desde que primeiramente encontrassem algo que não fosse água. De igual modo, as humanidades normais viviam em mundos tão impregnados com aquilo a que agora chamamos de tradição que não reconheciam sentido em chamar tradição a um conceito isolado, tal como foi necessário definir e formular no mundo moderno. Os homens pré-modernos tinham uma percepção da revelação, da sabedoria, do sagrado e também conheciam os períodos de decadência das suas civilizações e da sua cultura, mas nunca tinham tido a experiência de um mundo totalmente secularizado e anti-tradicional que viesse a necessitar de uma definição e formulação da tradição, tal como foi o caso dos dias de hoje. Num certo sentido, a formulação do ponto de vista tradicional e a reafirmação da perspectiva tradicional total, a qual se equipara à recapitulação de todas as verdades manifestadas no atual ciclo da história da humanidade, não poderia senão surgir no crepúsculo da Idade Negra que marca de uma vez o fim e a véspera que precede um novo amanhecer de esplendor. Apenas o fim de um ciclo de manifestação torna possível a recapitulação da totalidade do ciclo e a criação de uma síntese que possa então servir como a semente para um novo ciclo.<sup>4</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O conceito da tradição teve que ser evidenciado e os ensinamentos tradicionais expressos na sua totalidade; e é exatamente isto que tem acontecido durante esta última etapa da história da humanidade. Mas os escritos tradicionalistas estão longe de ser amplamente conhecidos no mundo moderno. Na realidade, tivessem-se tornado bem conhecidos os escritos daqueles que partilham o ponto de vista tradicional e quase não seria necessário redefinir, aqui e agora, o significado da tradição à qual tantas páginas, artigos e até mesmo livros se têm devotado.<sup>5</sup> Um dos aspectos mais significativos da vida intelectual deste século, contudo, é precisamente o omissão deste ponto de vista em círculos cuja função oficial é a de cuidarem aspectos de ordem intelectual. Se esta omissão é deliberada ou acidental não é a nossa preocupação aqui. Seja qual for a causa, o resultado é que sessenta ou setenta anos depois do aparecimento no Ocidente de trabalhos com carácter tradicional, a tradição ainda é incompreendida em muitos círculos e é confundida com costume, hábito, padrões de pensamento herdados, entre outros. Daí a necessidade de aprofundar uma vez mais o seu significado, apesar de tudo o que já foi escrito sobre o assunto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No que concerne a linguagens tradicionais, estas não possuem, pelas razões já mencionadas, um termo que corresponda exatamente à tradição. Existem termos fundamentais com o dharma Hindu e Budista, o al-dīn Islâmico, o Tao Taoísta, entre outros que estão inextricavelmente relacionados com o significado do termo tradição, mas que não são idênticos a este ainda que os mundos ou civilizações criados pelo Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, Judaísmo, Cristandade, Islão, ou para este contexto por qualquer outra religião, sejam obviamente mundos tradicionais. Cada uma destas religiões é também o coração ou origem da tradição que prolonga os princípios da religião para domínios diferentes. Tradição também não significa exatamente traditio na forma em que é usado no Catolicismo, apesar de incluir a ideia da transmissão de uma doutrina e práticas de uma natureza inspirada e enfim revelada que são implicadas pelo termo traditio. Na realidade, a palavra tradição está etimologicamente relacionada com transmissão e, no âmbito do seu significado, contém a ideia de transmissão de conhecimento, práticas, técnicas, leis, formas, e muitos outros elementos de natureza oral e escrita. A tradição é como uma presença viva que deixa impressa a sua marca, mas que não é redutível a essa marca. Aquilo que transmite pode-se parecer com palavras escritas sobre pergaminho, mas pode também consistir em verdades gravadas nas almas dos homens, de uma forma tão subtil como o murmúrio ou mesmo o relance do olho através do qual certos conhecimentos são transmitidos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A tradição utilizada no sentido técnico deste trabalho, tal como em todos os nossos outros escritos, designa verdades ou princípios de origem divina revelados ou desvendados à humanidade e, de facto, todo um sector cósmico por meio de várias figuras encaradas como mensageiros, profetas, avatares, o Logos ou outros agentes de transmissão, a par com todas as ramificações e aplicações destes princípios em domínios vários que incluem a lei e estrutura social, a arte, o simbolismo, as ciências, e abrange evidentemente o Conhecimento Supremo bem como os meios para a sua obtenção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No seu sentido mais universal, tradição pode ser considerada como inclusa de princípios que ligam o homem ao Céu, e por conseguinte de religião, enquanto tomando um outro ponto de vista a religião pode ser considerada na sua essência como aqueles princípios que são revelados pelo Céu e que ligam o homem à sua Origem. Neste caso, tradição pode ser considerada num sentido mais restrito como sendo a aplicação destes princípios. A tradição implica verdades de um carácter supra individual enraizadas na natureza da realidade como tal, porquanto, conforme foi afirmado, “A tradição não é uma mitologia infantil e fora de moda, mas uma ciência terrivelmente real”.<sup>6</sup> A tradição, tal como a religião, é de uma vez verdade e presença. Concerne o sujeito que conhece e o objeto que é conhecido. Surge da Fonte da qual tudo se origina e para a qual tudo retorna. Por conseguinte, engloba todas as coisas tal como o “Respiro do Compassivo” que, de acordo com os Sufis, é precisamente a raiz da própria existência. A tradição está inextricavelmente relacionada com revelação e religião, com o sagrado, com a noção de ortodoxia, com autoridade, com a continuidade e regularidade da transmissão da verdade, com o exotérico e com o esotérico e bem assim com a vida espiritual, a ciência e as artes. As cores e nuances do seu significado tornam-se deveras clarificadas uma vez que a sua relação com cada um destes e de outros conceitos e categorias pertinentes é elucidada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para muitos dos que foram atraídos ao chamamento da tradição durante as parcas últimas décadas, o significado da tradição tornou-se relacionável acima de tudo com a sabedoria perene que reside no coração de cada religião e que não é outra que não a Sophia cuja posse foi considerada como o objetivo supremo da vida humana, no Ocidente bem como no Oriente, segundo a perspectiva sapiencial. Esta sabedoria eterna da qual a ideia da tradição não pode ser dissociada e que constitui um dos componentes principiais do conceito da tradição é nenhum outro que a sophia perennis da tradição Ocidental a que os Hindus chamam sanatāna dharma<sup>7</sup> e os Muçulmanos al-ḥikmat al-khālidah (ou jāvīdān khirad em Persa)<sup>8</sup>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Num certo sentido, sanatāna dharma ou sophia perennis estão relacionadas com a Tradição Primordial<sup>9</sup> e, por conseguinte, com a Origem da existência humana. Mas esta visão não deve de modo algum desviar ou anular a autenticidade das últimas mensagens do Céu na forma das várias revelações, cada uma das quais começa com uma origem que é a Origem e sinaliza o começo de uma tradição que é de uma vez a Tradição Primordial e a sua adaptação a uma humidade particular, sendo esta adaptação a Possibilidade Divina manifestada no plano humano. A atracção do homem do Renascimento pela quimera das origens e a “Tradição Primordial” que levou Ficino a desprezar a tradução de Platão em favor do Corpus Hermeticum, que era então considerado como mais antigo e primordial, atracção esta que passou também a fazer parte da visão do mundo e do Zeitgeist do século dezenove<sup>10</sup>, provocou muita confusão em torno da questão do significado da “Tradição Primordial” na sua relação com as várias religiões. Cada tradição, e portanto Tradição, estão profundamente relacionadas com a sabedoria perene ou ‘Sophia’, não devendo esta ligação ser considerada como apenas temporal e nem como uma causa para a rejeição daquelas outras mensagens do Céu que constituem as diferentes religiões e que são, claramente, interiormente relacionadas com a Tradição Primordial sem que sejam somente a sua continuidade histórica ou temporal. A genialidade espiritual e a particularidade de cada tradição não podem ser negligenciadas em nome da sempre presente sabedoria que reside no coração de cada e de todas as descendências celestes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A.K. Coomaraswamy, um dos mais relevantes expositores das doutrinas tradicionais no período contemporâneo, traduziu sanatāna dharma como philosophia perennis, ao que adicionou o adjetivo universalis. Sob a sua influência, muitos identificaram tradição como a filosofia perene com a qual está profundamente relacionada.<sup>11</sup> Mas o termo philosophia perennis, ou a sua tradução Inglesa, é de alguma forma problemático em si mesmo e carece de definição prévia para que a tradição possa ser compreendida por referência àquela. Contrariamente ao que Huxley afirma, o termo philosophia perennis não foi empregue pela primeira vez por Leibniz, ainda que este o tenha citado numa célebre carta escrita a Remond em 1714.<sup>12</sup> Mais propriamente, o termo foi provavelmente primeiramente empregue por Agostino Steuco (1497-1548), o filósofo e teólogo Augustiniano da Renascença. Apesar do termo ter sido associado a muitas e diferentes escolas, incluindo a Escolástica, especialmente a escola Tomista<sup>13</sup>, e o Platonismo em geral, estas são associações mais recentes, enquanto que a associação do termo com Steuco foi identificada a respeito da sabedoria perene que abrangia a filosofia e a teologia e não apenas pela relação com uma escola de sabedoria ou de pensamento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O trabalho de Steuco De perenni philosophia foi influenciado por Ficino, por Pico e ainda por Nicolas de Cusa, especialmente pelo De pace fidei que fala da harmonia entre as várias religiões. Steuco, que conhecia Árabe e outras línguas Semitas e que era bibliotecário da Biblioteca do Vaticano, o que lhe concedeu acesso à “sabedoria dos tempos” com a profundidade que era possível no Ocidente naquela altura, seguiu as ideias destas figuras antigas no que respeita à presença de uma sabedoria ancestral que tinha existido desde o despertar da história. Ficino não falou de philosophia perennis mas aludiu sim por diversas vezes à philosophia priscorium ou prisca teologia, que pode ser traduzida como antiga ou venerável filosofia e teologia. No encalço de Gemisthus Plethon, o filósofo Bizantino que escreveu sobre esta sabedoria ancestral e enfatizou o papel de Zaratustra como mestre deste conhecimento ancestral de ordem sagrada, Ficino enfatizou a significância do Corpus Hermeticum e dos Oráculos Caldeus, os quais considerava terem sido compostos por Zaratustra e que teriam sido estes as origens desta sabedoria primordial. Steuco acreditava que Platão herdara esta sabedoria<sup>14</sup> e que com este a verdadeira filosofia tinha sido originada, tal como a verdadeira teologia teria tido origem na Cristandade. Esta verdadeira filosofia, vera philosophia, era para ele o mesmo que religião e, a verdadeira religião, o mesmo que esta filosofia. Para Ficino, tal como para tantos outros Cristãos Platonistas, Platão teria conhecido o Pentateuco e teria sido um “Moisés greco-falante,” este Platão a quem Steuco chamou Platão divinus e que muitos sábios Muçulmanos, de modo semelhante, titularam de Aflāṭūn al-ilāhī, o “Platão Divino.”<sup>15</sup> Ficino, de certa forma, reformulou a visão de Glemithus Plethon relativamente à perenidade da verdadeira sabedoria.<sup>16</sup> O compatriota de Ficino, Pico della Mirandola, adicionaria ainda às fontes da philosophia priscorium consideradas por Ficino, não Cristãs e especialmente Greco-Egípcias, o Corão, a filosofia Islâmica e a Cabala, ainda que tenha dado seguimento à perspectiva de Ficino e que tenha enfatizado a ideia da continuidade de uma sabedoria que é essencialmente uma ao longo das várias civilizações e períodos da história.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A philosophia perennis de Steuco era nada mais que esta philosophia priscorium, mas sobre uma outra designação.<sup>17</sup> Steuco afirmou que a sabedoria era originariamente de origem divina, um conhecimento sagrado dado por Deus a Adão que, para a maioria dos seres humanos, foi gradualmente esquecido e se tornou num sonho sobrevivente apenas e quase integralmente na prisca teologia. Esta verdadeira religião ou filosofia, cujo objetivo é a theosis e a obtenção do conhecimento sagrado, existiu desde o começo da história humana e é obtenível através da expressão histórica desta verdade nas suas várias tradições ou pela intuição intelectual e contemplação “filosófica”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de severamente atacada por muitos sectores por expressar ideias tão opostas ao humanismo da Renascença e às interpretações um tanto exotéricas e sectárias da Cristandade que prevaleciam naqueles tempos, o termo utilizado por Steuco continuou a sobreviver e ficou célebre devido à utilização que lhe foi dada por Leibniz, este que tinha uma certa simpatia com as ideias tradicionais. Mas, algo curiosamente, o termo apenas ganhou popularidade generalizada no século vinte. Se a sabedoria perene ou antiga for de facto compreendida tal como Plethon, Ficino e Steuco o fizeram, então está relacionada com a ideia da tradição e pode mesmo ser empregue como uma tradução de sanatāna dharma, desde que o termo philosophia não seja tomado apenas de maneira teórica mas que abranja também a realização<sup>18</sup>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A tradição contém o sentido de uma verdade que é simultaneamente de origem divina e perpetuada ao longo de um importante ciclo da história da humanidade através, quer de transmissão, quer da renovação da mensagem por meio de revelação. A tradição também implica uma verdade interior que reside no coração das diferentes formas sagradas e que é única porquanto a Verdade é una. Em ambos os sentidos, a tradição está intimamente relacionada com a philosophia perennis se este termo for entendido como a Sophia que sempre foi e sempre será e que é perpetuada juntamente por meios de transmissão horizontal e de renovação vertical através do contacto com aquela realidade que o era “no início” e que o é aqui e agora.<sup>19</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Antes de abandonar o assunto da philosophia perennis, parece apropriado dedicar um momento ao destino dado a esta ideia pela tradição Islâmica, em cuja relação com o conhecimento sagrado e o seu significado como uma verdade perene revivida em cada revelação é bastante evidente e mais enfatizada do que na tradição Cristã. O Islão não só vê a doutrina da unidade (al-Tawḥīd) como a essência da sua própria mensagem, mas também como o coração de todas as religiões. Para o Islão, a revelação significa a afirmação da al-Tawḥīd e as religiões são todas vistas como várias repetições da doutrina da unidade em diferentes regiões e línguas. Mormente, onde quer que a doutrina da unidade seja encontrada, é considerada como sendo de origem divina. Logo, os Muçulmanos não faziam distinção entre religião e paganismo, mas sim entre aqueles que aceitavam a unidade e aqueles que a negavam ou a ignoravam. Sábios da antiguidade tais como Pitágoras e Platão eram, para eles, “unitarianos” (muwaḥḥidün) que expressavam a verdade que reside no coração de todas as religiões<sup>20</sup>. Por conseguinte, eles pertenciam, e não eram considerados estranhos, ao universo Islâmico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A tradição intelectual Islâmica viu nos ensinamentos de profetas tão antigos como Adão, nos seus aspectos juntamente gnósticos (ma’rifah ou ‘irfān) e filosóficos e teosóficos (falsafah-ḥikmah)<sup>21</sup>, a fonte desta verdade única que é a “Religião da Verdade” (dīn al-ḥaqq) e considerava o profeta Idrīs, que era associado a Hermes, como o “pai dos filósofos” (Abu’l-ḥukamā’)<sup>22</sup>. Muitos Sufis, para além de chamarem “divino” a Platão, relacionaram também Pitágoras e Empédocles, este último associado com um importante corpo que influenciou certas escolas de Sufismo, entre outros, à sabedoria primordial associada com a profecia. Já filósofos Peripatéticos (mashshā’ī) anteriores, tais como al-Fārābī, tinham visto a relação entre filosofia e profecia e revelação. Figuras posteriores, tal como Suhrawardī, expandiram esta perspectiva para incluir a tradição da Pérsia pré-Islâmica<sup>23</sup>. Suhrawardī falava frequentemente da al-ḥikmat al-laduniyyah ou Sabedoria Divina (literalmente a sabedoria que está perto de Deus) em termos praticamente idênticos aos do significado tradicional da Sophia e também da philosophia perennis, incluindo o seu aspecto de realização<sup>24</sup>. Uma figura Islâmica posterior, do século oitavo/décimo quarto (Islâmico/Cristão), o gnóstico e teólogo Sayyid Ḥaydar Āmulī, não se coibiu em apontar a correspondência que existia entre o pleroma “Maomediano” das setenta e duas estrelas do universo Islâmico e as setenta e duas estrelas do pleroma compreendido por aqueles sábios que teriam preservado a sua natureza primordial, mas pertencido a um mundo exterior ao especificamente Islâmico.<sup>25</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ṣadr al-Dīn Shīrāzī identificou o conhecimento verdadeiro como sendo a sabedoria perene que existira desde o início da história da humanidade<sup>26</sup>. A concepção Islâmica acerca da universalidade da revelação apresentava paralelismo com a ideia de uma verdade primordial que sempre existiu e sempre existirá, uma verdade sem história. O al-dīn árabe, que é provavelmente a palavra mais adequada para traduzir o termo tradição, é indissociável da ideia de sabedoria permanente e perpétua, a sophia perennis que também pode ser identificada com a philosophia perennis tal como uma personalidade como Coomaraswamy a entendeu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para melhor compreender o significado da tradição também é necessário abordar com maior profundidade a sua relação com a religião. Se por um lado tradição está etimológica e conceptualmente relacionada com transmissão, por outro lado, a raiz do significado de religião implica “ligar” (do Latim religare)<sup>27</sup>. Tal como mencionado anteriormente, é o que liga o homem a Deus e simultaneamente o que os liga entre eles como membros de uma comunidade sagrada ou de um povo, ou o que o Islão apelida de ummah. Compreendida neste sentido, a religião pode ser considerada como a origem da tradição, como o início celeste que através da revelação manifesta certos princípios e verdades em cujas aplicações se encerra a tradição. Mas, tal como indicado anteriormente, o significado pleno da tradição inclui esta origem bem como as suas ramificações e desdobramentos. Neste contexto, a tradição é um conceito genérico que abrange a religião tal como o termo Árabe al-dīn significa de uma vez tradição e religião no seu sentido mais universal, enquanto a religião tal como é utilizada num sentido mais lato é compreendida por alguns como inclusa da aplicação dos seus princípios revelados e do seu desenvolvimento histórico posterior, a ponto de encerrar ela própria aquilo que entendemos por tradição ainda que este ponto de vista tradicional difira do religioso como resultado da intrusão do modernismo e das forças anti-tradicionais no seio da própria religião.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mormente, o significado limitado que o termo religião ganhou nas línguas Europeias induziu autores tradicionalistas como Guénon na certeza de cingir a utilização deste termo exclusivamente às religiões ocidentais, especialmente nas suas expressões exotéricas, distinguindo-as do Hinduísmo, do Taoismo, e de outras como estas a que chamou de tradição em vez de religião. Contudo, não existe qualquer limitação de princípio no termo religião nem nenhuma razão para excluir o Hinduísmo da categoria de religião desde que este termo seja entendido como o que liga o homem à Origem através da mensagem, da revelação, ou da manifestação que provem da Realidade Última.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A limitação da religião aos seus aspectos mais externos, na história recente do Ocidente, também levou a que termos tais como arte religiosa ou literatura religiosa se tornassem tão desprovidos do sentido do sagrado e desviados da tradição, considerada como a aplicação dos princípios de ordem transcendente, que aquilo que é atualmente apelidado de arte religiosa, literatura religiosa, etc., apresenta muitos vezes um carácter não-tradicional ou até mesmo anti-tradicional. Tornou-se, por conseguinte, necessário distinguir o tradicional do religioso em contextos como estes. Mas logo que o termo religião seja ressuscitado para significar o que descende da Fonte, naquelas manifestações objetivas do Logos chamadas de revelação no caso das religiões Abraâmicas ou de avataricas no caso do Hinduísmo, a religião poderá então ser vista como o coração daquela ordem plena e totalmente abrangente que é a tradição. Obviamente, este entendimento da religião em toda a sua amplitude e universalidade é apenas possível quando o ponto de vista tradicional é reavivado e quando a realidade é admirada segundo a perspectiva do tradicional e do sagrado, e não do profano.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para discutir a relação da tradição para com a religião é necessário aprofundar o problema da pluralidade das religiões. Fala-se da Tradição Primordial ou da Tradição como tal, porém também que a multiplicidade das formas religiosas implica a multiplicidade das tradições, do mesmo modo que existe uma sophia perennis mas várias religiões onde se pode encontrar em diferentes formas. Existe necessariamente um confronto com a questão fundamental da Tradição e das tradições, uma questão sobre a qual muito tem sido escrito e que tanta confusão tem provocado. Tomando um determinado ângulo, não existe senão uma Tradição, a Tradição Primordial, a que é sempre. É a verdade única que é de uma vez o coração e a origem de todas as verdades. Todas as tradições são manifestações terrenas de arquétipos celestes que se relacionam enfim com o arquétipo imutável da Tradição Primordial, do mesmo modo que todas as revelações se relacionam com o Logos ou com a Palavra que foi o início e que é de uma vez um aspecto do Logos Universal e o Logos Universal como tal.<sup>28</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todavia, cada tradição está fundada numa mensagem direta do Céu e não é apenas o resultado da continuidade histórica da Tradição Primordial. Um profeta ou avatar nada deve a ninguém exceto o que recebe da Origem. Certos ocultistas e círculos pseudo-esotéricos do mundo moderno que reclamam ser tradicionais falaram de um depositário efetivo da Tradição Primordial na terra, geralmente identificando tal local com uma qualquer região na Ásia Central ou até mesmo reclamando o contacto com representantes do centro<sup>29</sup>. Muitos aspirantes vaguearam pelas montanhas do Hindu Kush ou pelos Himalaias em busca de um tal centro e criou-se toda uma ficção científica em torno de uma geografia sagrada que foi interpretada de modo literário na vez de simbólico. Do ponto de vista tradicional, a realidade da Tradição Primordial e do “Centro Supremo” é veementemente confirmada, mas esta afirmação em nada diminui ou aniquila a autenticidade ou completa originalidade de cada religião e tradição que conforma com um arquétipo particular e que representa uma manifestação direta da Origem, marcando a ruptura da dimensão horizontal e temporal pela vertical e transcendente. Existem juntamente Tradição e tradições sem que uma contradiga a outra. Falar de Tradição não significa rejeitar a origem celestial de qualquer uma das religiões e tradições autênticas, mas significa antes o confirmar do sagrado em cada mensagem “original” do Céu<sup>30</sup>, enquanto se permanece ciente daquela Tradição Primordial que é confirmada não apenas nas doutrinas e símbolos de cada tradição mas também através da preservação da uma “presença” que é inseparável do sagrado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A perspectiva tradicional está de facto tão intimamente ligada com o sentido do sagrado que é necessário dizer algo sobre o sagrado e tentar “definir” o seu significado. Até certo ponto, o sagrado, tal como a verdade, a realidade, ou o ser, é demasiado principal e elementar para que seja delimitado na forma lógica de definir um universal por meio de género e de diferenças específicas. O sagrado reside na natureza da própria realidade, e a humanidade normal possui um sentido para o sagrado tal como o tem para a própria realidade, que se distingue naturalmente do irreal<sup>31</sup>. Mas a condição do homem humano é tal que até mesmo este sentido natural se tornou quase esquecido, provocando a necessidade de providenciar uma “definição” do sagrado. É muito interessante denotar que tentativas como as de R. Otto em relacionar o sagrado com o irracional atraíram a maior atenção durante este século. Este facto implica que a relação com a verdade intelectual ou conhecimento para com o sagrado tenha sido ignorada precisamente devido ao esvaziar do conteúdo sagrado do conhecimento. Mormente, num mundo secularizado, chegou-se a um ponto em que o sagrado é visto segundo a perspectiva de um mundo profano para o qual o sagrado é então o totalmente outro<sup>32</sup>. Este ponto de vista é perfeitamente compreensível porquanto muitos homens vivem efetivamente num mundo de esquecimento em que a lembrança de Deus é totalmente “outra”; estes homens vivem num mundo de indiferença e trivialidade em que a grandeza do sagrado representa uma radical “outrês”. Mas o que é excepcional no mundo moderno é que a perspectiva sapiencial, que reside no sagrado e vê o profano em termos do sagrado e que foi desde sempre uma presença viva no seio de civilizações normais, tornou-se tão esquecida que a visão do sagrado como completamente estranho ao que aparenta ser uma vida humana “normal” se tornou a única visão, se o sagrado é sequer aceite de todo como uma possibilidade. Na medida em que a realidade do sagrado é aceite pelo menos em círculos religiosos, esta está conectada com o poder de Deus na vez de com a Sua sabedoria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez a forma mais direta de abordar o significado do sagrado seja a de o relacionando com o Imutável, com aquela Realidade que é simultaneamente o Movedor Inmovido e o Eterno. Aquela Realidade que é imutável e eterna é o Sagrado como tal, e a manifestação desta Realidade no rio do devir e na matriz do tempo é o que possui a qualidade da sacralidade. Um objeto sagrado ou um som sagrado é um objeto ou um som que sustenta o cunho do Eterno e do Imutável naquela realidade física que externamente contém o objeto ou o som. O sentido do sagrado de um homem é não outro que o seu sentido para o Imutável e para o Eterno, a sua nostalgia para com o que ele realmente é, pois ele transporta o sagrado dentro da substância que perfaz o seu próprio ser e, acima de tudo, dentro da sua inteligência que foi criada para conhecer o Imutável e para contemplar o Eterno.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como tal, O Sagrado é a fonte da Tradição e o que é tradicional é inseparável do sagrado. Aquele que não tem o sentido do sagrado não pode percepcionar a perspectiva tradicional, e o homem tradicional nunca está separado do sentido do sagrado. Contudo, o sagrado é sobretudo como o sangue que flui nas artérias e veias da tradição, um aroma que impregna totalmente uma civilização tradicional<sup>33</sup>. A tradição prolonga a presença do sagrado para todo o mundo, criando uma civilização em que o sentido do sagrado é ubíquo. Pode ser dito da função de uma civilização tradicional que não é outra senão a de criar um mundo dominado pelo sagrado, mundo este no qual o homem está a salvo do terror do niilismo e do cepticismo que acompanha a perda da dimensão sagrada da existência e a destruição do carácter sagrado do conhecimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A abrangência plena que caracteriza a tradição torna-se possível em cada tradição integral pela presença de, e retornando à religião que se situa na origem da tradição, não uma mas várias dimensões, vários níveis de significado ou vários tipos de ensino correspondentes aos diferentes tipos de capacidades espirituais e intelectuais e às necessidades da humanidade escolhida como o veículo terreno da tradição em questão. Apesar da multiplicidade de dimensões ou níveis e de muitas tradições falarem de sete, catorze ou qualquer outro número simbólico de níveis, estes podem ser reduzidos na etapa inicial às duas dimensões básicas que são o exotérico e o esotérico: a primeira, concerne aquele aspecto da mensagem do Céu que governa toda a vida de uma humanidade tradicional; a outra, as necessidades espirituais e intelectuais daqueles que procuram Deus ou a Realidade Última aqui e agora. No Judaísmo e no Islão estas duas dimensões são claramente delineadas, tal como a Talmúdica e a Cabalística ou a Sharī’ah e a Tarīqah, ainda que mesmo nestes casos existam regiões intermédias e um espectro longe de ser abruptamente separável<sup>34</sup>. Relativamente ao Cristianismo, ainda que este seja essencialmente um eso/exoterismo com uma dimensão esotérica menos bem definida do que as outras duas tradições Abraâmicas, também possuía uma mensagem distintamente esotérica no início, a qual se manifestou em diferentes maneiras durante a história recente do Cristianismo.<sup>35</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar dos mundos Indiano e do Oriente Longínquo terem estruturas tradicionais diferentes das Abrâamicas, existem, contudo, realidades que correspondem no seu contexto específico às dimensões exotérica-esotérica da tradição, tais como o Código de Manu que complementa o Advaita Vedanta, o Confucionismo que complementa o Taoismo ou as escolas Theravada e Mahayana do Budismo. Apesar da nossa preocupação neste estudo ser para com o conhecimento sagrado, e, portanto, especialmente para com a dimensão esotérica que mais diretamente se relaciona com o conhecimento sagrado, é importante realçar a importância da dimensão exotérica e a necessidade da mesma para uma tradição integral e viva. É particularmente significativo mencionar este ponto em particular à luz das pretensões de tantos grupos pseudo-esotéricos de hoje em dia, que reclamam estarem para além da necessidade do exotérico, em contraste com os grandes sábios de tempos volvidos que por entre as mais intensas expressões de realização espiritual, permaneciam fieis às formas e ensinamentos exotéricos das suas religiões, sendo as raras excepções aquelas que provam a regra.<sup>36</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O esoterismo é aquela dimensão interna da tradição que aponta ao homem interior de São Paulo. Está escondida devido à sua própria natureza e está acessível apenas a uns poucos porque nesta fase da história humana apenas esse número limitado permanece ciente da dimensão interior da sua própria natureza; os restantes vivem na periferia do círculo da sua própria existência, absortos do Centro que está ligado à circunferência ou periferia pela dimensão esotérica da tradição<sup>37</sup>. O esotérico é o raio que providencia os meios para ir da circunferência para o Centro, mas não está disponível para todos porque nem todos estão dispostos ou qualificados, nesta vida, para enveredar na jornada que conduz ao Centro. Seguir a dimensão exotérica da religião é, ainda assim, permanecer na circunferência e por conseguinte num mundo que tem um centro, e permanecer qualificado para levar a cabo a jornada para o Centro na vida posterior, sendo a visão beatífica apenas uma possibilidade póstuma do ponto de vista exotérico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O esotérico autêntico está sempre contido numa tradição total e integral. É apenas no Ocidente moderno, e possivelmente durante a decadência da antiguidade mais recente, que os ensinamentos esotéricos se tornaram distintos da tradição em cuja matriz o esotérico é verdadeiramente o esotérico. Como resultado deste fenômeno, que no que respeita ao mundo moderno remonta ao século dezoito, o esotérico fez-se parecer na sua grande parte como sendo oposto à tradição Cristã, enquanto que o que sobreviveu da tradição Cristã desprezou em muitas instâncias a exata ideia de esotérico de modo similar ao de grande parte das igrejas Cristãs dos dias de hoje que desconsideraram a gnose ou o conhecimento sagrado na exposição da sua mensagem. Devido à disjunção para com uma tradição viva, este denominado esoterismo degenerou num ocultismo inoperativo ou até mesmo prejudicial e o invólucro do conhecimento sagrado permaneceu mas tornou-se deposto do sagrado. Grande parte do esoterismo ostentado no mundo moderno tornou-se desunido do sentido do sagrado em pleno contraste com o esoterismo genuíno, tal como é percebido tradicionalmente, este que está naturalmente relacionado com o sagrado e que é o meio por excelência para obter acesso ao sagrado naquele aqui e agora que é o reflexo do Imutável e do Eterno.<sup>38</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Independentemente de se considerar no seu aspecto exotérico ou esotérico, tradição implica e é indissociável de ortodoxia. A existir algo como verdade, então também existe erro e normas que permitem ao homem distinguir entre eles. Ortodoxia, no seu sentido mais universal, é nada mais do que a verdade em si mesma e em relação com a homogeneidade formal de um universo tradicional específico. A perda do carácter multidimensional da religião e a redução da mesma a um único nível provocou também o estreitamento do entendimento da ortodoxia, a ponto do esotérico e do místico terem sido recorrentemente punidos como não ortodoxos. A ortodoxia tornou-se identificável com mera conformidade e adquiriu um sentido quase pejorativo entre os que se preocupavam com a intelectualidade, e muitos dos desconhecedores sedentos pela ortodoxia no seu sentido mais universal reclamaram-se a si mesmos como heterodoxos vis-à-vis a redutora concepção e formulação dessa ortodoxia que não deixou espaço para o voo libertador do intelecto santificado. O estreitamento do significado do termo ortodoxia não está, na realidade, desligado da perda do significado original da intelectualidade e da sua redução ao racionalismo. Ao contrário, o significado autêntico da intelectualidade não pode senão estar relacionado com ortodoxia.<sup>39</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Se a ortodoxia for entendida no seu sentido mais universal, como a qualidade da verdade no contexto de um universo espiritual e religioso específico e também como a verdade como tal, então precisa ser interpretada em níveis diferentes, tal como a própria tradição. Existem certas doutrinas que são extrinsecamente heterodoxas, vis-à-vis uma tradição universal específica, mas intrinsecamente ortodoxas. Um exemplo seria a Cristandade vista segundo o Judaísmo ou o Budismo segundo o ponto de vista do Hinduísmo. Mesmo dentro de uma tradição singular, uma escola esotérica específica pode aparentar ser não ortodoxa do ponto de vista da dimensão exotérica ou até mesmo segundo o de outra escola esotérica da mesma tradição, tal como se verificou em certas escolas do Budismo Japonês. Em todos estes casos, o conceito de ortodoxia tem uma importância capital no julgamento do carácter dos ensinamentos envolvidos, do ponto de vista tradicional, e é quase sinônimo do tradicional no que concerne à conformidade para com a verdade. Não existe qualquer possibilidade de tradição sem ortodoxia nem de ortodoxia fora da tradição. Mormente, ambas são exclusivas de todas as imitações, aberrações, e desvios de origem puramente humana ou por vezes sub-humana, as quais tanto reclamam abertamente serem exteriores às tradições como implicam tais pontos de partida do universo tradicional que tornam impossível a obtenção do acesso às doutrinas, práticas, e àquela presença espiritual única que confere ao homem a possibilidade de ultrapassar o seu ser limitado e atingir a enteléquia que é a sua raison d´être. Em qualquer dos casos, uma árvore é avaliada pelo fruto que sustenta e este princípio é em lado algum mais aplicável do que no julgamento do que é ortodoxo e do que se aparta ou desvia da ortodoxia em todos os níveis da vida religiosa do homem, incluindo não apenas a lei e a moralidade mas também, e especialmente, o domínio do conhecimento e da intelectualidade. A obtenção plena do conhecimento sagrado, incluindo o seu aspecto realizado, está tão relacionada com o conceito chave da tradição como com ortodoxia; e não é possível compreender a significância da tradição sem uma apreciação da sua relação para com a ortodoxia, percebida no seu sentido mais universal.<sup>40</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Falar da verdade e de ortodoxia no contexto tradicional é, também, falar de autoridade e de transmissão da verdade. Quem ou o que é que determina as verdades religiosas e garante a pureza, regularidade e perpetuidade da tradição? Esta é uma questão chave à qual todas as tradições se dedicaram de diferentes formas. Mormente, estas providenciaram respostas que garantem a autenticidade da tradição sem que tenham recorrido simplesmente a uma solução. Existem tradições que possuem um magisterium e outras uma comunidade sagrada que garante ela mesma a pureza e a continuidade da mensagem<sup>41</sup>. Algumas enfatizaram a continuidade de uma função sacerdotal e, outras, uma cadeia de transmissão através de instrutores cujas qualificações foram determinadas e definidas pela tradição em questão. Por vezes, foram utilizados vários meios dentro de uma tradição singular, mas a autoridade tradicional permanece inseparável do significado da própria tradição em qualquer dos casos. Existem aqueles que são autoridades em assuntos tradicionais e outros que não o são; existem aqueles que sabem e os que não sabem. Seja em que circunstância for, o individualismo não desempenha nem pode desempenhar um papel na transmissão e na interpretação daquilo que é por definição supra-humano, mesmo que deixe um vasto campo para a elaboração e interpretação humanas. A autoridade intelectual e espiritual é inseparável daquela realidade que é a tradição e os escritos tradicionais autênticos sempre possuem uma qualidade inata de autoridade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Similarmente, tradição implica a regularidade da transmissão de todos os seus aspectos, desde a regulação e preceitos legais e de ética até ao conhecimento esotérico. Todos os diferentes meios de transmissão, que incluem transmissão oral, iniciação, transferência de poder, técnicas, conhecimento de mestre para discípulo, e a perpetuação de um perfume espiritual e de uma presença sagrada, estão relacionados e são inseparáveis daquela realidade que é a tradição. Viver no mundo tradicional é respirar num universo em que o homem está relacionado com uma realidade que está para além dele mesmo, e a partir da qual recebe aqueles princípios, verdades, formas, atitudes e outros elementos que determinam a própria textura da existência humana. E esta recepção é tornada possível através da transmissão que traz a realidade da tradição para as vidas dos membros de cada geração em conformidade com as suas capacidades e que destina e garante a perpetuação desta realidade sem a corrupção que caracteriza tudo o que é afetado pela influência debilitadora do tempo e do devir.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A natureza totalitária da tradição é também uma peculiaridade que carece ser realçada. Numa civilização caracterizada como tradicional, nada permanece fora do reino da tradição. Não existe nenhum domínio da realidade que possua o direito a existir fora dos princípios tradicionais ou das suas aplicações. Por conseguinte, a tradição concerne não apenas o conhecimento, mas também o amor e as obras. É a fonte das leis que governam a sociedade, mesmo nos casos em que as leis não derivam diretamente da revelação<sup>42</sup>. É a fundação da ética. Na realidade, a ética não tem qualquer significado fora do quadro estabelecido pela tradição. Também estabelece os princípios e normas para o aspecto político da vida e da sociedade, e a autoridade política está relacionada com a da espiritual apesar da relação entre as duas estar longe de ser uniforme nas diferentes tradições<sup>43</sup>. De igual modo, a tradição determina a estrutura da sociedade aplicando os princípios imutáveis à ordem social, daí resultando estruturas tão divergentes externamente como são o sistema de Castas Hindu e a “democracia dos monges casados” Islâmica, tal como alguns caracterizaram a sociedade teocrática Islâmica, nas quais existe ainda assim uma igualdade perante Deus e perante a Lei Divina, mas obviamente não segundo o sentido quantitativo moderno.<sup>44</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Tradição também governa os domínios da arte e da ciência, com os quais lidaremos nos capítulos seguintes, e está especialmente centrada no conhecimento principial ou naquela ciência suprema que é a metafísica e que foi por diversas vezes confundida no Ocidente com filosofia. Sendo a nossa preocupação o conhecimento na sua relação com o sagrado e menos a totalidade dos aspectos da tradição, é necessário pausar aqui e destrinçar os tipos de conhecimento que existem numa civilização tradicional. Para além das várias ciências cosmológicas, existem, tal como já foi referido, três modos de conhecimento que lidam com os princípios que se podem distinguir num mundo tradicional, especialmente aqueles que são governados por uma das religiões Abraâmicas: sendo estas três a filosofia, a teologia, e a gnose ou, num certo contexto, a teosofia. O mundo moderno distingue apenas dois modos ou disciplinas: filosofia e teologia, em vez das três que existem no mundo tradicional de não apenas a Cristandade, mas também do Islão e do Judaísmo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na tradição Islâmica, após vários séculos durante os quais as diferentes perspectivas se formaram, surgiu uma situação que demonstra plenamente o papel e a função da filosofia, da teologia e da metafísica ou gnose num contexto tradicional. Existiam escolas tal como a dos Peripatéticos (mashshā’ī) que podiam ser consideradas filosóficas no sentido tradicional. Existiam escolas de teologia (kalām) tais como a dos Mutazilitas, dos Acharitas, dos Maturiditas, dos Ismailitas, e dos Xíitas dos Doze Imãs. Depois existia a gnose ou a metafísica associada com as várias escolas do Sufismo. No que respeita ao mundo Islâmico, também apareceu gradualmente uma escola associada com Suhrawardī e a sua escola da iluminação (al-ishrāq) que era simultaneamente filosófica e gnóstica e que deveria ser chamada, apropriadamente falando, de teosófica,<sup>45</sup> enquanto que nas terras ocidentais do Islão, contemporâneo com este aparecimento, a filosofia cessou de existir como uma disciplina distinta e tornou-se ligada com a teosofia, por um lado, e com a gnose, por outro. De igual modo, o Judaísmo medieval conseguia distinguir entre os mesmos três tipos de perspectivas intelectuais, representadas por individualidades tais como Judas Halévy, Maimonides, Ibn Gabirol, e Luria. Escusado será dizer, na Cristandade medieval era também possível distinguir entre e teologia de São Bernardo, a filosofia de Alberto Magno e a gnose de Meister Eckhart, para não mencionar Roger Bacon ou de Raymond Lull, que correspondem mais à escola de ishrāq de Suhrawardī do que a qualquer outra se a comparação for feita com a tradição Islâmica.<sup>46</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todas as três disciplinas têm um papel e uma função a desempenhar na vida intelectual do mundo tradicional. Existe um aspecto da “filosofia” que é necessário para expor certas ideias teológicas e gnósticas assim como existem elementos da teologia e da gnose que estão presentes em toda a expressão autêntica da filosofia merecedora do nome. Pode-se, na realidade, dizer que todo o grande filósofo é também em certa medida um teólogo e um metafísico, no sentido gnóstico, assim como todo o grande teólogo é em certa medida um filósofo e um gnóstico e cada gnóstico em algum grau um filósofo e teólogo, tal como se verificou nos casos de Ibn ‘Arabi e Meister Eckhart.<sup>47</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de, devido à completa depleção do que passa, no mundo moderno, como filosofia da verdade tradicional e do sagrado, autores tradicionais como A. K. Coomaraswamy e F. Schuon e especialmente R. Guénon terem atacado severamente a filosofia no sentido de clarificar o terreno de apresentação da metafísica e de precaver quaisquer distorções ou desvios que pudessem ser causadas pela confusão entre a filosofia profana e o conhecimento sagrado<sup>48</sup>, não há qualquer dúvida que existe tal coisa como a filosofia tradicional ou a filosofia no contexto tradicional<sup>49</sup>. Apesar de toda a depreciação que o termo filosofia sofreu no mundo moderno, nela ainda ressoa algo da concepção Pitagórica e Platônica da filosofia. É possível ressuscitar o significado desta disciplina e da sua função desde que o carácter sagrado do conhecimento seja estabelecido novamente. Em qualquer dos casos, o mundo intelectual tradicional implica a presença de diferentes dimensões e perspectivas, incluindo o que na tradição Ocidental se chamaria não apenas de teologia e filosofia, mas também de gnose e teosofia<sup>50</sup>. O desaparecimento da gnose na corrente principal do pensamento Ocidental não poderia senão resultar na trivialização do significado da filosofia, a dissolução da substância da teologia e, finalmente, no aparecimento de uma espécie de inversão do conhecimento tradicional, o qual desfilou durante o século passado como “teosofia”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de que a essência da tradição seja eterna presença in divinis, a sua manifestação histórica pode tanto desaparecer completamente do plano terrestre como tornar-se parcialmente inacessível ou “perdida”. Nem toda a tradição é uma tradição viva. A tradição Egípcia, por exemplo, que é uma das mais notáveis conhecidas ao homem, não pode ser praticada nem vivida ainda que tenham sobrevivido as suas formas de arte, símbolos, e mesmo uma certa presença de um tipo mais psicológico do que espiritual a ela pertencente. Aquela vida espiritual que avigorava e animava o corpo terrestre da tradição, partiu para a permanência da origem de todas as religiões e a tradição não pode ser dita como estando tão viva como pode, deixemos dizer, o Hinduísmo ou o Islão. Também existem certas tradições que estão apenas parcialmente acessíveis ou “vivas” no sentido de que apenas estão disponíveis determinadas das suas dimensões ou ensinamentos. Neste caso, existe sempre a possibilidade do rejuvenescimento e regeneração do que foi perdido ou esquecido, porquanto as raízes e os canais de transmissão da tradição se mantenham intactos. Similarmente, as civilizações criadas pelas várias tradições podem tornar-se enfraquecidas, decair, ou morrer sem que decaiam ou morram a religião e certos aspectos da tradição que fez nascer a civilização em questão. Tal é, na realidade, o caso das civilizações tradicionais da Ásia de hoje, as quais decaíram em diferentes graus enquanto as tradições que as fizeram nascer permanecem vivas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Relativamente aos símbolos tradicionais, uma vez que eles têm a sua raiz no mundo arquetipal do Espírito, é possível ressuscitá-los desde que exista uma tradição viva que possa absorver símbolos, imagens, e até mesmo doutrinas de outro mundo tradicional, sendo que esta absorção implica muito mais do que mero empréstimo histórico<sup>51</sup>. Em qualquer dos casos, símbolos e ideias de tradições não vivas ou alienígenas não podem ser adoptados ou absorvidos legitimamente noutro mundo que não seja ele próprio tradicional, como tantos atentam fazer no mundo moderno. Aquele que tenta executar tal processo independentemente da tradição está a fazer nada menos do que a usurpação da função de um profeta ou daquele a quem os Muçulmanos chamam o Mahdī e os Hindus o Chavkravartin. A adopção de qualquer elemento de outra tradição deve seguir as leis e princípios que determinam o modo de existência da tradição que está a adoptar os elementos em questão. Caso contrário, a adopção de elementos, mesmo de uma origem com carácter tradicional, pode resultar na difusão de forças de dissolução que podem provocar grandes lesões ou mesmo a destruição de uma tradição já viva, para não falar de organizações de origem puramente humana que jogam com forças muito para além do seu horizonte de conhecimento ou poder de controlo.<sup>52</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Estes e outros numerosos perigos, obstáculos, e precipícios, com que se depara o homem moderno que decidiu viver apenas do pão, forçaram aqueles que visavam ressuscitar o ponto de vista tradicional no mundo moderno a expressar a sua oposição categórica ao modernismo, o qual não identificam de todo com o mundo contemporâneo como tal mas com a revolta contra o Céu que se iniciou na Renascença no Ocidente e que presentemente invadiu praticamente a totalidade do mundo. Noutros tempos, teria sido possível falar sobre o que constitui a tradição sem discutir as forças do secularismo, mas tal possibilidade não existe num mundo já influenciado e, do ponto de vista tradicional, contaminado pelo modernismo. Falar da tradição é estar preocupado com a verdade e por conseguinte com o erro, e estar perante a necessidade de avaliar o mundo moderno à luz daquelas verdades que constituem os próprios princípios da tradição. A oposição inflexível dos autores tradicionalistas ao modernismo decorre primeiramente e sobretudo da sua dedicação à verdade tradicional e depois da compaixão e caridade para com uma humanidade enredada num mundo tecido com os fios de meias-verdades e de erros.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nos dias de hoje o criticismo contra o mundo moderno e o modernismo tornaram-se um lugar-comum, desde o trabalho de poetas até mesmo às análises de sociólogos<sup>53</sup>. Mas a oposição da tradição ao modernismo, que é total no que respeita aos princípios, não deriva da observação de factos e de fenômenos ou do diagnóstico dos sintomas da enfermidade. Baseia-se num estudo das causas que trouxeram a doença. A tradição opõe-se ao modernismo porque considera as premissas sobre as quais o modernismo se baseia como sendo erradas e falsas em princípio<sup>54</sup>. Não negligencia o facto de que algum elemento de um sistema filosófico moderno possa ser verdade ou que alguma instituição moderna possa possuir características positivas ou ser boa. Na realidade, a falsidade ou o mal completos não podiam existir já que todo o modo de existência implica algum elemento daquela verdade e bondade que na sua pureza pertencem à Fonte de toda a existência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aquilo que a tradição critica no mundo moderno é a visão do mundo como um todo, as premissas, as fundações que, do seu ponto de vista, são falsas a ponto de que qualquer bem que apareça neste mundo seja acidental e não essencial. Poder-se-á dizer que os mundos tradicionais são essencialmente bons e acidentalmente maus, e que o mundo moderno é essencialmente mau e acidentalmente bom. A tradição é por conseguinte oposta ao modernismo em princípio. Deseja assassinar o mundo moderno<sup>55</sup> no sentido de criar um mundo normal. O seu objetivo não é destruir o que é positivo mas remover o véu de ignorância que permite que o ilusório aparente como real, o negativo como positivo e o falso como verdadeiro. A tradição não se opõe a tudo o que existe no mundo hoje e, de facto, recusa-se a comparar tudo o que existe hoje com o modernismo. Apesar de tudo, ainda que sejam dados epítetos tais a esta era como a o da era do espaço ou o da era atômica porque o homem viajou até à lua ou dividiu o átomo, de igual modo e através da mesma lógica poder-se-ia ter chamado era dos monges, já que os monges continuam a existir juntamente com os astronautas. O facto desta era não ser chamada a era do monasticismo mas antes do espaço é em si o fruto do ponto de vista modernista que equipara o modernismo com o mundo contemporâneo, enquanto a tradição distingue contundentemente entre os dois, procurando destruir o modernismo não com o propósito de destruir o homem contemporâneo mas para o salvar da prossecução do caminho cujo fim não pode ser se não a perdição e a destruição. Deste ponto de vista, a história do homem Ocidental durante os últimos cinco séculos é uma anomalia na longa história da raça humana, tanto no Oriente como no Ocidente. Ao opor-se ao modernismo em princípio e de maneira categórica, aqueles que seguem o ponto de vista tradicional desejam apenas possibilitar ao homem Ocidental a união com o resto da raça humana.<sup>56</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A ênfase dos autores tradicionais contemporâneos sobre o Este ou o Oriente deve-se na verdade à situação histórica em que o modernismo e a rebelião contra a tradição emergiram no Ocidente. Mais precisamente, a tradição abarca ambos o Oriente e o Ocidente uma vez que derivam de não outra que a “Abençoada Oliveira” ou eixo central da existência cósmica a que o Corão se refere ao declarar não pertencer ao Oriente nem ao Ocidente<sup>57</sup>. É verdade que durante este século aqueles que falaram da tradição enalteceram os três maiores universos espirituais do Este, considerando o Oriente Longínquo, a Índia e o mundo Islâmico, com as suas características distintas e os seus diferentes pontos de interpenetração. Também é verdade que alguns pensaram até que civilização tradicional significa simplesmente civilização Oriental. Mas mesmo neste século, desde que um trabalho como “East and West” de R. Guénon foi escrito, muitas foram as mudanças na própria Ásia que dão ainda mais razão em não identificar a tradição apenas com o Oriente geográfico, embora o que é tradicional ainda sobreviva mais no Oriente do que no Ocidente geográficos e apesar destes termos não terem perdido completamente o seu sentido geográfico.<sup>58</sup></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Enquanto a histórica trágica destas décadas se desenrola, contudo, torna-se cada vez mais necessário identificar a tradição do Este ou Oriente que pertencia à geografia sagrada, e que é simbólica em vez de literal. O Oriente é a fonte da luz, o ponto onde o dia se rompe e o sol se ergue arremessando a sua luz sobre os horizontes, removendo a escuridão e lançando o calor que vivifica. O Oriente é a Origem, bem como o ponto para onde nos voltamos ao longo da jornada na vida, o ponto sem o qual não haveria orientação, sem o qual a vida se tornaria desordem e caos e a nossa jornada um caminhar sinuoso no labirinto daquilo a que os Budistas chamam de existência samsárica. A Tradição identifica-se com este Oriente. Esta, igualmente, advém da Origem e providencia orientação para a vida humana. Providencia um conhecimento que é de uma vez Oriental e iluminante, um conhecimento que é combinado com amor tal como a luz do sol se combina com o calor, um conhecimento que parte do Precinto do Sagrado e que conduz ao Sagrado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na medida em que as sombras da terra do sol poente cobrem o espaço habitado pela espécie humana e que o Oriente geográfico se torna devastado pelas várias formas do modernismo, nessa medida o Oriente transforma-se num polo sustentado no coração e na alma dos seres humanos onde quer que eles estejam. Na medida em que o Oriente físico deixa de ser, pelo menos externamente, a terra da tradição tal como o foi ao longo de milênios <sup>59</sup>, nessa medida a tradição alastra-se uma vez mais para o “Ocidente Longínquo” preparando simbolicamente o terreno para o dia em que “o Sol se erguerá no Ocidente.” Identificar a tradição com o Oriente nos dias de hoje é identificá-la com aquele Oriente que é o local do nascer do Sol do nosso próprio ser, o ponto que é de uma vez o centro e a origem do homem, o centro que ilumina e santifica e sem o qual a existência humana, tanto a nível individual como colectivo, se torna como um círculo sem centro, um mundo privado da luminosidade iluminadora e vivificadora do Sol nascente.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-a-tradicao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Nem sempre o que parece é!</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/nem-sempre-o-que-parece-e/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/nem-sempre-o-que-parece-e/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:38:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=962</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Meus amigos, o Inzo Tumbansi postou um texto bastante duro em sua página, cujo título é: “Ser muzenza não é vergonha! Se dizer “Mam’etu” sem ser, sim!”, o qual compartilhei em meu perfil, por considerá-lo de extrema pertinência. &#160; A fim de esclarecermos aos nossos amigos é necessário que expliquemos alguns [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-963 alignleft" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/inzo-tumbansi-2.jpg" alt="" width="119" height="205" />Meus amigos, o Inzo Tumbansi postou um texto bastante duro em sua página, cujo título é: “Ser muzenza não é vergonha! Se dizer “Mam’etu” sem ser, sim!”, o qual compartilhei em meu perfil, por considerá-lo de extrema pertinência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A fim de esclarecermos aos nossos amigos é necessário que expliquemos alguns dos termos utilizados no texto. “Muzenza” é o nome que se dá a pessoa iniciada no Candomblé de vertente (nação) Angola, ou seja, aquela que passou pelos rituais iniciatórios. “Mam’etu” é o termo utilizado para se referir à Sacerdotisa, ou seja, pessoa que passou por todos os rituais que a qualificam como tal. O processo de Muzenza a Mam’etu é longo, sendo necessário, no mínimo 07 anos de práticas e ensinamentos vários, calcado na confiança ao Iniciador/a e devotamento à Casa em que a pessoa foi iniciada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O texto publicado faz uma crítica a “alguns sacerdotes umbandistas inconformados com seu culto, querendo iniciar-se no candomblé para obter um ‘status’ e/ou aval para legitimar rituais e atividades já executadas dentro de suas casas, verdadeiras sandices, estelionatos e charlatanismo.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O texto faz uma acusação muito grave e atinge todos os umbandistas, os quais convido para reflexão. A “sacerdotisa umbandista” que motivou essa postagem de desagravo é conhecida no mundo da Umbanda paulista. Há muito tempo ela tem feito práticas de Candomblé em sua casa de Umbanda, arvorando-se de um conhecimento que não possui. Quando se iniciou em tradicional Casa de Candomblé Angola passou a se comportar como Sacerdotisa (Mam’etu), apesar de ainda ser Muzenza (iniciada). O Sacerdote que a iniciou chamou-lhe a atenção, mas em vez de respeitar seu Iniciador e parar de se comportar como Mam’etu, continuou com as mesmas atitudes, o que, nas religiões afro-brasileiras, é inadmissível, culminando em seu afastamento da Casa em que foi iniciada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Umbanda é maravilhosa, possui muitos ensinamentos que acalentam a alma das pessoas, dando-lhes conforto e palavras amigas. Sei que a Umbanda, como religião afro-brasileira, possui limites, dada a sua própria construção histórica, o que obriga vários de seus Sacerdotes procurarem o Candomblé para “completarem” algumas deficiências. Essa é uma prática antiga e realizada por vários Sacerdotes de Umbanda conhecidos, destacando-se, por exemplo, Jamil Rachid, Ronaldo Linares, Milton Aguirre, entre outros. Entretanto, há que se saber que ser Sacerdote de Umbanda não é o mesmo que ser Sacerdote de Candomblé. São coisas distintas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entretanto, não posso deixar de observar que alguns Sacerdotes de Candomblé têm realizado rituais de Umbanda, sem nunca terem sido preparados para isso, o que traz inúmeros problemas aos umbandistas em geral, especialmente as famosas “festas de Exu e Pomba Gira”, entidades próprias do universo da Umbanda que são descaracterizados, tendo suas características levadas a um descompasso terrível. Vemos famosos Terreiros de Candomblé fazerem “festa de Preto Velho”, para a qual acorrem muitas pessoas, que ficam imaginando que Candomblé e Umbanda são uma coisa só, o que é totalmente diverso da realidade. Não há nenhuma autorização automática para um Sacerdote de Candomblé fazer rituais típicos de Umbanda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um Sacerdote de Umbanda pode ser Sacerdote de Candomblé e vice-versa, não há nenhum impeditivo nisso, mas para que ele o seja precisa passar pelos rituais, preceitos e obrigações típicos de cada uma das religiões afro-brasileiras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Axé!</strong></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/nem-sempre-o-que-parece-e/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Pessoas más destroem pessoas boas</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/pessoas-mas-destroem-pessoas-boas/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/pessoas-mas-destroem-pessoas-boas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:34:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=959</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Meus amigos, &#160; Muitas pessoas criticam-me em razão de meu comportamento, especialmente minha chatice em querer tudo correto, sendo, muitas vezes, mal visto pelo meu excesso de cuidado e zelo. &#160; No ẹsẹ̀ (verso) do Odù Ìká-Òfún, Ifá diz como deve ser o comportamento de um Sacerdote, no qual coloca uma [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Meus amigos,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Muitas pessoas criticam-me em razão de meu comportamento, especialmente minha chatice em querer tudo correto, sendo, muitas vezes, mal visto pelo meu excesso de cuidado e zelo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>No ẹsẹ̀ (verso) do Odù Ìká-Òfún, Ifá diz como deve ser o comportamento de um Sacerdote, no qual coloca uma série de regras que deverão ser compulsoriamente observadas. Essas regras de conduta é que norteiam a forma como ajo no meu dia a dia, portanto minha chatice, como Sacerdote, advém daí.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na verdade eu não deveria me preocupar com as críticas que me fazem, pois como diz um provérbio Yorùbá “Èèyàn búburú bà èèyàn jẹ́” (Pessoas más destroem pessoas boas) (Owomoyela, 2005:331), ou seja, pessoas de má índole sempre tentarão destruir a reputação de seus “inimigos”, que para eles são os que não concordam com seus pensamentos e dificilmente terão outra forma de se comportarem. Sobre essas mesmas pessoas, há outro provérbio que diz: “Èèyàn búburú pọ̀ ó jùgbẹ́; ẹni rere wọ́n ju ojú lọ” (Pessoas más são tão sem valor quanto são as fezes; pessoas boas são tão preciosas quanto os olhos) (id., p. 477). Assim, preciso dar valor apenas às pessoas que me são preciosas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Surpreendo-me com aqueles que dizem que as afirmações do Odù Ìká-Òfún foram influenciadas pela tradição judaico-cristã e, por isso não devem ser levados em conta, pois reafirmam o colonialismo africano ao submeter a tradição Yorùbá à tradição do estrangeiro. Ora isso é uma falácia, um grande erro!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Qualquer Sacerdote, seja de qual tradição pertença, deve ter a retidão de caráter como mola mestra de sua vida: não fazer o que não sabe, não enganar as pessoas, não ser falso, não revelar ou mudar os ritos sagrados, não usar aquilo que sabe para prejudicar inocentes etc. é o mínimo que se exige de um Sacerdote. Não há outra forma de pensar!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para terminar essas minhas considerações, trago um excerto do texto do filósofo Omotade Odegbindin, no qual ele analisa o ponto de vista do povo Yorùbá sobre a retidão de caráter:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Os Yorùbá crêem que Ìwà (caráter) pode alterar uma escolha do Orí [cabeça ou destino] para melhor ou destruí-la. Em outras palavras, eles creem que Ìwà ou retidão moral traduz ‘a essência do ser’ (Abimbola, 1975:93). Ìwà é usada para avaliar a prática da ética de uma pessoa [ou seja, a moral] e, por essa razão, usada para determinar os valores de vida que ela possui. Os Yorùbá, entretanto, creem que um bom caráter pode alterar um mau Orí ou mau destino e mudá-lo para um bom Orí ou bom destino e não ao contrário. É por isso que os Yorùbá frequentemente dizem: ‘Orí kan ki í burù l’Ótu, ìwà nìkan ló ṣòro’ (Por pior que seja o destino de alguém, a moral e a retidão poderão corrigi-lo). Isso é ampliado por um verso do Odù Ogbè-‘Gundá que diz:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Òbèlènke Abínúyooró<br />
A dífá fún Olóríire ìgbà ìwásẹ̀<br />
Ẹni l’órí rere ti kò ní ìwà rere<br />
Ìwà l’ó máa bà Orí rẹ̀ jẹ́. (Ogundale, Bàbáláwo)</p></blockquote>
<p style="text-align: center;">Òbèlènke Abínúyooró (nome do Bàbáláwo do temperamento)<br />
Consultou Ifá para o primordial Olóríire (aquele que escolheu um bom destino)<br />
Aquele que escolheu um bom destino, mas não tem bom caráter,<br />
Destruirá o destino escolhido por ele.” (Owomoyela, 2005:10)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não me considero símbolo de retidão, pois, como humano, erro e muito; entretanto, tento basear minha vida, em geral, naquilo que considero correto, ou seja, na ética e em sua prática, a moral. Se estou certo ou errado, não posso dizer, deixo o julgamento de minha forma de ser e agir apenas a Olódùmarè, que é o único que vê e sabe o que há em meu coração.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/pessoas-mas-destroem-pessoas-boas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fora da Caridade há salvação?</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-caridade-ha-salvacao/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-caridade-ha-salvacao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:27:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=956</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Há alguns dias atendi a um telefonema e a pessoa que ligava me perguntou: “Ai é uma Terreiro de caridade?” Sem entender, pois estava muito atarefado, respondi: “Não entendi sua pergunta, o que a Senhora quer dizer?” A pessoa me respondeu: “Eu quero saber se é cobrado algum valor para fazer [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há alguns dias atendi a um telefonema e a pessoa que ligava me perguntou: “Ai é uma Terreiro de caridade?” Sem entender, pois estava muito atarefado, respondi: “Não entendi sua pergunta, o que a Senhora quer dizer?” A pessoa me respondeu: “Eu quero saber se é cobrado algum valor para fazer a consulta.” Respondi: “Não, não cobramos nada. As consultas em nosso Terreiro são gratuitas.” Ela disse, então: “Obrigada, vou visitar sua casa!” Despedi-me, com um “até logo”, mas ela não veio nos visitar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entretanto, a pergunta inicial dessa pessoa me deixou encafifado. Sempre fui avesso a entender um Terreiro de Umbanda como uma Casa de caridade apenas por não cobrar nada daquelas pessoas que o frequentam. O conceito de caridade, grosso modo, é ajudar as pessoas sem esperar nada em troca. Entretanto, numa forma mais elaborada, a caridade é dar a outrem aquilo que lhe fará falta. Por exemplo: estou com muita fome e só tenho um pedaço de pão para aplacá-la; de repente surge uma pessoa, aparentemente com muita fome também, e me pede o pão. Eu o dou à pessoa, que satisfará sua fome, enquanto eu permanecerei faminto e agradecerei por isto, não esperando recompensas ou agradecimentos por isso. Temos, assim, a verdadeira caridade!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desta forma, imaginar que a caridade da Umbanda é não cobrar por algum atendimento é um enorme erro, pois mesmo se houver algum tipo de cobrança, tais como velas, a caridade continuará existindo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Deixe-me explicar: o médium de um Terreiro de Umbanda passa anos se preparando para exercer, de forma satisfatória, sua mediunidade. Ele faz oferendas; toma banhos e mais banhos de ervas; passa por rituais, desde os mais simples aos mais elaborados; faz períodos constantes de resguardos (nos quais não come carne, não pratica sexo, não entra em cemitérios, velórios e hospitais) e jejuns; troca uma ou mais noites de sua semana para ficar no Terreiro, limpando-o, arrumando-o, ajudando na elaboração de rituais, atendendo as pessoas etc, em vez de estar com sua família ou fazendo algo para si mesmo; faz diversos cursos sobre ervas, velas, pedras etc; compra livros e mais livros e os lê, buscando seu aprimoramento intelectual; decora músicas, cantigas, rezas, uso litúrgico e religioso de ervas, sementes e raízes; compra velas, charutos, material para as oferendas, roupas brancas, adereços que vão enfeitá-lo quando sua entidade se manifesta etc, enfim ele gasta do dinheiro dele, do tempo dele, da vida dele para se aprimorar e dar conta daquelas pessoas que vão a um Terreiro. Essa é a verdadeira caridade que o médium de um Terreiro exerce, não há outra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando se cobra algo para passar em consulta, na verdade, esse algo não é destinado ao médium, mas à Casa, de forma que esta tenha condições de continuar existindo, pois não é fácil para o Sacerdote ou Sacerdotisa manter uma Casa de Umbanda sozinho ou contar com a colaboração dos seus médiuns, que, com poucas exceções, pensam como aquela pessoa que me ligou, ou seja, acreditam que tudo deve ser de graça e azar do ou da Dirigente, que deve arcar com as despesas, sejam elas quais forem!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como disse no início desta postagem, não cobramos para atendimento com as entidades, mas só por isso não posso dizer que nosso Terreiro seja uma Casa de caridade. Posso afirmar, no entanto, que o Templo Espiritual “Caboclo Pantera Negra” (Ilé Mímọ́ Àmọ̀tẹ́kùn Dúdú), o qual dirigimos, É UMA CASA DE CARIDADE, pois possui pessoas que oferecem seu tempo, sua vida, seus momentos de lazer e sua relação com a própria família para serem veículos de entidades, para serem seus porta-vozes, de forma a oferecerem acalanto, palavras amigas, conforto e bem estar a pessoas que nem ao menos conhecem. Isto é caridade!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É por esse motivo que discordo do adágio espírita: “Fora da caridade não há salvação”, que afirmam ser este um adágio cristão. Apesar de entender o quanto a doutrina espírita influenciou e influencia a Umbanda, essa afirmação não corresponde ao próprio cristianismo, pois, na verdade, a salvação vem somente de Deus, como se pode ver nos seguintes versículos bíblicos:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“A minha alma espera somente em Deus; Dele vem a minha salvação.” (Salmos 62:1);</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“A salvação vem de Deus; sobre o Teu povo seja a Tua bênção.” (Salmos 3:8);</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“Mas a salvação dos justos vem do SENHOR; Ele é a sua fortaleza no tempo da angústia.” (Salmos 37:39);</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“Mas eu te oferecerei sacrifício com a voz do agradecimento; o que votei pagarei. Do SENHOR vem a salvação. (Jonas 2:9);</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;">“Certamente em vão se confia nos outeiros e na multidão das montanhas; deveras no SENHOR está a salvação.” (Jeremias 3:23)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Da mesma forma, no conceito bíblico, as obras não são, por si, elementos de salvação, pois as obras sem a fé não levam ninguém à salvação! Assim, é um absurdo achar que sem caridade não há salvação. A salvação só existe por Deus e Ele salva quem quiser e não há modo de nós, humanos, medirmos ou quantificarmos os meios que Ele usa e dispõe para salvar-nos ou não. Dessa forma, é necessário que o conceito de caridade tão propalado pelas Casas de Umbanda seja revisto, que seu contexto seja modificado, a fim de que se observe que os médiuns são, em princípio, caridosos por si só, pois dedicam-se, em todos os sentidos, como já explicitei anteriormente, para ajudar sem esperar nada em troca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p>Umbanda não é espiritismo, portanto, não podemos nos aferrar em conceitos espíritas para afirmarmos o que fazemos ou não!</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/fora-da-caridade-ha-salvacao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Santa Morte em terras brasileiras</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/a-santa-morte-em-terras-brasileiras/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/a-santa-morte-em-terras-brasileiras/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:24:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Kimbanda]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=952</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Santa Morte (La Santa Muerte ou La Santisima Muerte) &#160; Propomo-nos a discutir, neste artigo, o culto à Santa Morte que passou, nos últimos anos, a permear o universo esotérico, ocultista e religioso brasileiro, tornando-se um culto popular entre alguns adeptos da Umbanda, que acabaram por incluir entre suas práticas o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Santa Morte (La Santa Muerte ou La Santisima Muerte)</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Propomo-nos a discutir, neste artigo, o culto à Santa Morte que passou, nos últimos anos, a permear o universo esotérico, ocultista e religioso brasileiro, tornando-se um culto popular entre alguns adeptos da Umbanda, que acabaram por incluir entre suas práticas o culto à Santa Morte.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h2>A morte como figura de adoração nas populações autóctones mexicanas</h2>
<p>Antropólogos afirmam que as tradições indígenas mesoamericanas tiveram como característica comum o culto aos mortos por meio de elaborados ritos funerários e festas religiosas, tais como o miccailhuitontli e o ueymicailhuitl, respectivamente dedicadas às crianças e aos adultos mortos, nas quais se recordava, por meio de oferendas e procissões. O Império mais poderoso desta região, composto pelos mexicas, havia desenvolvido um elaborado culto aos deuses da guerra e da morte devido à sua natureza militar e expansionista. A imagem descarnada se encontrava presente nas representações de algumas divindades relacionadas com a morte e com o mundo subterrâneo, das quais se destacavam Mictlantecuhtli (masculino) e Mictlantecacíhuatl (feminino), cujas naturezas não eram, essencialmente, malignas, mas de característica dual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para as culturas pré-hispânicas em geral a concepção da morte não era, como no judeu-cristianismo, a do final definitivo da vida, mas parte de um ciclo de renovação constante<sup>1</sup>, pelo qual mais de uma divindade estava associada a ela, as quais personificavam forças destrutivas e criadoras ao mesmo tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em inscrições e esculturas pré-hispânicas é possível encontrar representações do deus Mictlantecuhtli, nas quais aparece com o corpo coberto por ossos humanos e com uma máscara em forma de crânio. Quando os europeus se encontraram com as caveiras pré-hispânicas interpretaram seu sentido sob a concepção medieval que possuíam desta imagem. Assim, os conquistadores espanhóis transladaram a consolidada iconografia medieval da morte, com seus atributos mais característicos, como a ampulheta, a foice, o globo terrestre e a capa à Colônia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Antes da conquista pelos espanhóis, a territorialidade da morte era a passagem a outro mundo, a qual não estava influenciada pela educação cristã. Assim, não era o fracasso da vida, nem uma tragédia grega que atingia o limite do imaginário romântico medieval, nem tampouco a base da consciência da vida moderna. De todo modo, há alguns anos um debate acalorado sobre a procedência do culto à Santa Morte, tentando-se decifrar se é uma continuação dos cultos pré-hispânicos ou se é, fundamentalmente, um sistema de campos ritualísticos que se fundem na Colônia, como forma de refúgio, de esperança e fé ante às dificuldades do dia a dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O culto à Santa Morte tem como base ritual e como núcleo de crença elementos litúrgicos e míticos do catolicismo popular; ainda assim, muitos dos fieis praticam a multirreligiosidade, sendo especialmente vinculados a outras religiões populares, tais como a santeria e o espiritismo. Ainda que o rosário constitua o rito central em torno do qual se desenvolve o culto à Santa Morte, a celebração mensal realizada nos espaços dos altares é um momento de celebração vital. Antes e depois dessa cerimônia há festividades de vital importância, que fortalecem os laços sociais entre os adeptos. Nessas festividades se trocam presentes, conhecem-se pessoas, com as quais se socializam, compartilhando problemas, e lhes pedem ou lhes dão conselhos, tudo regado a muita comida e bebida, exercendo a comunhão plena entre os devotos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Crê-se que o culto à Santa Morte, no México, se desenvolve com mais intensidade a partir dos anos 1960, tendo em vista as dificuldades pelas quais os mexicanos passam, especialmente a pobreza e falta de perspectiva de ascensão social. Nos anos 1990 outro elemento se junta, que é o crescente domínio do tráfico de drogas e o temor às gangues que o controla. Nesses casos, o culto oferece apoio a dois públicos distintos: às pessoas do povo, que buscam na Santa Morte proteção contra os traficantes; e os traficantes que buscam proteção contra as forças do Estado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Seu dia principal de devoção, além do 15 de agosto, é o dia 02 de novembro. Em seu altar podemos ver velas, maconha, flores, comida, tabaco, bebidas etc. A Santa Morte é vista como uma santa cristã, que recebe “seus poderes diretamente de Deus, sendo que a aceitação de sua ascendência católica logra que os crentes não a considerem contrária a outras devoções afins, tais como São Judas Tadeu ou Nossa Senhora de Guadalupe. O que a diferencia destes outros é que a Santa Morte é ‘mais forte’, pois cumpre favores de maior peso. Normalmente oferece soluções em um amplo aspecto que vai de problemas cotidianos a existenciais e não é raro que se a relacione com petições mal-intencionadas, grupos criminais, especificamente o narcotráfico”. (DEGETAU, 2010:32)</p>
<p>&nbsp;</p>
<h2>A Santa Morte no Brasil</h2>
<p>Um dos precursores da “Iglesia de la Santa Muerte” em solo brasileiro foi o Bispo da Igreja Brasileira, Don Lúcio de Jerusalém (Lúcio Evandro Paneque de Oliveira), que recebeu autorização para estabelecê-la no Brasil. Don Lúcio, um célebre ocultista, manteve a “Iglesia de la Santa Muerte” restrita a um pequeno número de pessoas, a maioria seus discípulos. No final de 2004 ele abre mão da chefatura da “Iglesia de la Santa Muerte”, delegando-a a Don Wladimir de Magdala, que ficou responsável pela Igreja.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desde então, o culto da Santa Morte passou a fazer parte do já imenso caldeirão de tradições místico-esotérica-ocultista-religiosas brasileiras. Don Lúcio, que além de ocultista, era Sacerdote de religiões de tradição afro-brasileira e de matriz africana, acabou por incluir em sua práticas alguns elementos do culto à Santa Morte, à exemplo do que havia acontecido no México, quando o culto foi sincretizado com práticas da santeria e do espiritismo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Don Wladimir, outro ocultista, que ganha a vida ministrando cursos sobre as tradições afro-ameríndias, passou a oferecer, também, a iniciação a “Iglesia de la Santa Muerte” aos interessados, que em sua maioria são adeptos da Umbanda, fazendo com que o culto à Santa Morte acabasse, como afirmei anteriormente, sendo acrescentado ao universo umbandista de algumas Casas de Umbanda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em paralelo, círculos esotéricos e ocultistas, formado essencialmente sob os auspícios de Don Lúcio e Don Wladimir, passaram a render culto a “La Santa Muerte”, buscando sua assistência para enfrentar as mazelas diuturnas, sendo mais um componente amalgamado ao que já existia nesses círculos.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/a-santa-morte-em-terras-brasileiras/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O tal do Vodu (Vudu, Voodoo) Gnóstico</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-tal-do-vodu-vudu-voodoo-gnostico/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-tal-do-vodu-vudu-voodoo-gnostico/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:17:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=949</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Essa é uma mensagem que escrevi a um Irmão que me questionava sobre as práticas do Vodu (Vudu, Voodoo) Gnóstico, que é baseado no livro de Michael P. Bertiaux, The Voudon Gnostic Workbook (1988), relançado por Weiser em 2007. &#160; Caro Irmão, &#160; Olha, na verdade não gosto das práticas do [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essa é uma mensagem que escrevi a um Irmão que me questionava sobre as práticas do Vodu (Vudu, Voodoo) Gnóstico, que é baseado no livro de Michael P. Bertiaux, The Voudon Gnostic Workbook (1988), relançado por Weiser em 2007.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caro Irmão,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Olha, na verdade não gosto das práticas do Voodoo Gnóstico, Umbanda Esotérica, Umbanda Gnóstica etc. Aprendi, com o tempo, que são adaptações que foram feitas sem critério nenhum. Essa licenciosidade que foi dada ao “mercado religioso” é, em minha opinião, e fazendo eco a René Guénon, práticas da Contra-Iniciação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sou tradicionalista e, por isso, penso da seguinte forma: as coisas devem ser realizadas dentro de cada tradição. Não basta mudarmos os nomes dos seres nos rituais, é preciso que saibamos muito bem com quem ou o com o quê estamos lidando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Essas misturas (ou hibridismo, bricolage, amalgamento etc) foram feitas, forçosamente, pelos ocultistas, mormente os que foram influenciados por Crowley, que, em minha opinião, não é exemplo iniciático para ninguém. A história contada por Bertiaux a respeito de Jean-Maine há algum tempo está sendo questionada. É só olharmos a importância que a Magia Sexual tem no contexto dos livros de Bertiaux sobre a OTOA (Ordo Templi Orientis Antiqua), M7R (Monastério dos Sete Raios) e LCN (La Couleuvre Noire). Essa importância não existe em nenhuma prática africana tradicional, pois para os africanos o sexo não é tabu, como o é para o ocidental de formação judaico-cristã. Na tradição afro o sexo faz parte da vida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outra observação é que os rituais que normalmente se repetem (Cruz Cabalística, fechamento do círculo mágico, invocação de forças nos quadrantes etc) são cópias e/ou adaptações dos rituais da Golden Dawn.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando se trabalha com seres angélicos (Miguel, Rafael, Uriel etc) a coisa é fácil, pois eles são seres sem livre-arbítrio, portanto não podem nos prejudicar. Ao se trabalhar com outras potências não é assim. Esses seres deverão ser chamados dentro de um contexto com o qual já estão acostumados, que lhes seja familiar. Se não for assim eles não serão tão amigáveis como se espera deles. Se dermos sorte eles simplesmente nos ignorarão, porém pode não ser assim. Por exemplo, há seres na tradição Yorubá, que são chamados de Ajogun, os quais não apreciam os seres humanos. Eles podem ser manipulados por um Sacerdote que deverá ser uma sumidade em conhecimentos de ervas, rezas, oferendas etc para poder manipulá-los, sob pena de ficar doente ou vir a ser morto pelos Ajogun no caso de não saber como lidar com eles.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Recomendação de ordem prática que posso lhe dar é procurar fazer as coisas dentro de seu conhecimento. Se não sabe, não faça! Se não conhece o ser que está invocando/evocando não o chame! Se quiser enveredar pelo caminho dos Vodun, Inkice ou Orixá deverá estar sob a tutela de um Vodunon, Tata ti Inkice ou Babalorixá, não dá para ser diferente!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu, por exemplo, há anos, não faço nenhum tipo de prática adaptada, a não ser que ela esteja num contexto específico da tradição com a qual estou trabalhando. É por isso que damos tanta importância ao Ifaísmo (para os Yorubá) ou Faísmo (para os Fon, de onde veio o Voodoo), pois são práticas tradicionais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por mais que os espanhóis queiram tirar o Michael Bertiaux da jogada, dizendo que a NOTO (Novus Ordo Templi Orientis) ou a OTOA Latina (Ordo Templi Orientis Antiqua Latina) é um “revival” da tradição gnóstica original de Jean Maine, isso não se sustenta. Ao comparar o material disponível da NOTO ou OTOA Latina com os ensinamentos originais do Bertiaux, veremos que são idênticos. Nem as vírgulas foram mudadas. É por isso que Bertiaux e Courtney Willis processaram L.. Para evitar problemas a OTOA Latina foi fechada. Agora eu lhe pergunto: um sistema mágico, baseado quase que exclusivamente em práticas de magia sexual, notadamente as práticas homossexuais, é confiável? Em minha opinião, não! Se fosse uma prática tântrica, exclusivamente baseada no hinduismo, ótimo, estaria tudo bem. Ao misturá-la com o panteão Voodoo o negócio fica diferente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Courtney Willis, Supremo e Absoluto Grão Mestre da OTOA, que não é bobo nem nada, se iniciou em Ifá e está estudando, verdadeiramente, a tradição a qual se ligou. Se não me engano ele foi, no ano passado (2010), para a Nigéria e para o Benin para se iniciar lá. O Benin é o país onde a prática do Voodoo nasceu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caro Irmão, é necessário que estejamos atentos com a contra-iniciação. René Guénon e os demais tradicionalistas sempre foram unânimes em nos alertar sobre isso. Tive muitas experiências desagradáveis com minhas práticas, acreditando que elas eram para minha melhora. Como disse anteriormente fui vítima. Não gostaria que ninguém mais o fosse!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tenho muito carinho e apreço pelos Irmãos que foram ou são membros das Ordens Martinistas, por isso faço esse alerta. Não sou dono da verdade, ao contrário! Apenas sou bom observador. Olho as pessoas que estão há mais tempo do que eu nesse caminho e vejo como elas estão hoje. A maioria abandonou essas práticas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você pode fazer as práticas da OTOA e da LCN? Claro que pode, elas são bacanas. No entanto, elas precisam estar inseridas num contexto afro. É necessário que se use gin, as pembas, as oferendas, as invocações etc. Só assim, em minha opinião, é possível abrir os portais de comunicação entre nós e o mundo dos espíritos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Grande abraço</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-tal-do-vodu-vudu-voodoo-gnostico/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista com a melhor idade</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/entrevista-com-a-melhor-idade/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/entrevista-com-a-melhor-idade/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:13:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=945</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Alberto é um homem de 83 anos. Apesar de sua excelente compleição física, está doente. Alberto sofre de depressão, que lhe causou uma série de outras doenças: diabetes e pressão alta, para exemplificar. Mas o que o levou a ficar assim? A morte de sua querida esposa, Fabrícia, carinhosamente chamada de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alberto é um homem de 83 anos. Apesar de sua excelente compleição física, está doente. Alberto sofre de depressão, que lhe causou uma série de outras doenças: diabetes e pressão alta, para exemplificar. Mas o que o levou a ficar assim? A morte de sua querida esposa, Fabrícia, carinhosamente chamada de Cici.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A morte de Cici foi um acontecimento bastante sofrido. Estava acamada há mais de ano, acabando por ficar três meses internada, sendo o último deles no CTI do Hospital São Gabriel. Cici foi definhando e com ela Alberto. Ele ficava todo o dia no Hospital, só voltava para casa para dormir, quando conseguia. Os filhos vinham quando podiam, o que não era constante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Uma das filhas de Alberto, que morava no apartamento debaixo do dele, havia desaparecido um pouco antes de Cici ter sido transferida para o CTI. Nem pôde ser informada da morte da mãe, pois se mudou como fugitiva, sem se despedir, nem informar para onde ia. Apenas foi embora com os dois filhos adultos. Isso não espantou Alberto, ela sempre foi assim. Teve uma excelente educação, com amor e dedicação dos pais, porém nunca foi boa coisa. Mudou-se devendo três anos de condomínio. O apartamento dela só foi pago graças a Alberto e Cici que a ajudaram a quitar as prestações em atraso. Pagar o condomínio também já era demais!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alberto teve outras decepções, além da filha. Andréia, uma sobrinha, morou com Alberto e Cici por dez anos. Teve tudo do bom e do melhor, pôde estudar, o que não fez; pôde encontrar um bom emprego, que não o fez, também; tinha outras preocupações, especialmente os namorados. Nunca conseguia manter-se com um por muito tempo. Era uma boa menina, mas desajuizada. Casou-se aos 38 anos, grávida, com um rapaz de 19. Foi há seis anos e estão juntos até hoje. Alberto e Cici ajudaram no enxoval, e deram muito presentes à netinha “torta”. Andréia não foi ao enterro de Cici, mesmo avisada. Não a visitou nenhuma vez no hospital. Decepção!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alberto disse que ficou muito feliz quando me conheceu em 2004 ao visitar meu Terreiro; nesta época Cici já estava doente: tinha insuficiência cardíaca, seu coração estava três vezes maior do que o normal (quando faleceu estava cinco vezes maior); possuía um grave problema de coagulação, que tornava uma ferida na perna constantemente aberta; aliado a isso tinha uma grave insuficiência renal. Para controlar esses problemas tomava vários remédios diariamente. Alberto lembra que em uma consulta com um guia espiritual que trabalhava com cura este lhe recomendou uma série de chás e banhos nas pernas. Com eles a ferida se fechou. Após sua melhora Cici passou a fazer parte do corpo mediúnico de meu Terreiro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Cici era uma médium excelente, possuía extraordinários guias espirituais. Alberto fala muito do principal deles: o Caboclo Jibóia. Emociona-se ao lembrar deste guia. Constantemente, durante os últimos dias de vida de Cici, Alberto via o Caboclo Jibóia ao lado da cama de Cici. Alberto tem o dom da visão. Para ele o Caboclo Jibóia nunca abandonou Cici, protegeu e cuidou dela até os últimos dias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 2008 os problemas de Cici se agravaram. Ela foi internada no CTI e desenganada pelos médicos. Alberto foi aconselhado, secamente, pelo médico que a assistia a contratar os serviços de uma funerária, pois ela não duraria muito. Alberto se desesperou. Foi ao Terreiro e conversou com o Chefe Espiritual de meu Terreiro, Caboclo Pantera Negra. Este lhe recomendou que reunisse algumas roupas usadas de Cici e fosse ao Terreiro no dia seguinte, no domingo. Foi realizado um trabalho com as roupas de Cici. Alberto se emociona muito neste momento. Na segunda-feira Cici saiu do CTI e três dias depois teve alta. Alberto lembra que no dia do trabalho os guias espirituais que se manifestaram foram os Exus, sendo que o Exu Asa Negra lhe disse que o trabalho que estava sendo feito não resolveria os problemas de Cici, pois a saúde dela estava muito debilitada, eles só poderiam oferecer um alívio ao seu sofrimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Alberto e Cici continuaram freqüentando o Terreiro esporadicamente. A saúde dela não lhe permitia que continuasse trabalhando como médium, o que a fazia sofrer muito, pois gostava de trabalhar com seus guias espirituais e oferecer seus préstimos aos que iam ao Terreiro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na metade de 2010 pararam de ir ao Terreiro. Cici já não conseguia se locomover direito. A idade e os problemas de saúde pesaram muito. Ela passava a maior parte do tempo deitada, com um cansaço constante e extremado. Em duas diferentes ocasiões o Caboclo Jibóia se manifestou em Cici e disse para Alberto que a hora de “sua filha” estava chegando e que era para ele se preparar para o momento de sua ida para o mundo espiritual. As palavras do Caboclo Jibóia o consolavam, mas não dirimiam sua tristeza, que procurava não demonstrar a ninguém. Afinal ele era o homem, não podia demonstrar fraqueza.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não tentei fazer perguntas a Alberto. Apenas ouvi o que ele tinha a dizer. Respeitei sua dor. Durante nossa conversa houve momentos de muita emoção para nós dois. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que foi uma enorme catarse. Ao nos despedirmos Alberto me pediu para que não me esquecesse de Cici e que continuasse a cuidar dela, agora no mundo espiritual.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-946 aligncenter" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici.jpg" alt="" width="598" height="514" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici.jpg 652w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici-300x258.jpg 300w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici-250x215.jpg 250w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici-489x420.jpg 489w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici-416x357.jpg 416w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/dona-cici-380x326.jpg 380w" sizes="auto, (max-width: 598px) 100vw, 598px" /></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/entrevista-com-a-melhor-idade/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O sacrifício de animais num contexto das Ordens Iniciáticas Ocidentais e nos Ritos Afro-brasileiros</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-sacrificio-de-animais-num-contexto-das-ordens-iniciaticas-ocidentais-e-nos-ritos-afro-brasileiros/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-sacrificio-de-animais-num-contexto-das-ordens-iniciaticas-ocidentais-e-nos-ritos-afro-brasileiros/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 20:07:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Umbanda Omolokô]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=943</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Gostaria de compartilhar algumas mensagens que troquei a respeito da condenação, sem conhecimento, das práticas sacrificiais. &#160; Primeira mensagem: &#160; “Tenho um restaurante e todos os funcionários estão envolvidos com magia. Qual é a cidade? É a cidade em que existe um dos mais belos templos maçônico em estilo gótico que [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Gostaria de compartilhar algumas mensagens que troquei a respeito da condenação, sem conhecimento, das práticas sacrificiais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Primeira mensagem:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Tenho um restaurante e todos os funcionários estão envolvidos com magia. Qual é a cidade? É a cidade em que existe um dos mais belos templos maçônico em estilo gótico que já vi: a Augusta e Respeitável Sesquicentenária Gran Benemérita e Mui Excelsa Loja Simbólica União Constante. Iniciados nessa mesma maçonaria participam desse festival de magia religiosa. Em cada rua desta cidade há animais mortos em sacrifício, misturados com velas e envoltos em folhas de papel preto, vermelho e branco. Não entendo como membros de uma ordem que deveria combater a superstição e o fanatismo podem se envolver com isso.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Resposta minha à mensagem acima:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Qual a diferença entre o que você descreveu e os ritos sacrificiais elencados no Levítico ou com aqueles descritos no Cabala Prática de Robert Ambelain? São todos superstição, ou não?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Para exemplificar, transcrevo o que Ambelain publicou: “Escolher-se-á uma pomba-rola ou um pombo macho, branco e se degolará com um cutelo de cobre, novo, após ter consagrado o animal e o cutelo ao Anjo em questão. Far-se-á, então, a ‘libação’ e a oferenda de Sangue, depois se aspergirá no traçado do Triângulo e em cada um dos três objetos ritualísticos com ele. Colocar-se-á o restante [recolhido quando da sangria, em um Copo de Cristal puro] no centro do Triângulo e dos três Objetos.” (AMBELAIN, Robert. Practical Kabbalah. pág. 255). Pode-se observar que há sacrifícios em outras tradições, além das afro-brasileiras. Todas são superstição?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Xenofonte, um dos discípulos de Sócrates, dizia que seu mestre oferecia sacrifícios em casa e nos templos públicos. Para Sócrates, segundo Xenofonte, ainda, esse era um modo de se agradecer os deuses. Será que um dos pais da filosofia ocidental, que influenciou sobremaneira a tradição cristã, era um simples supersticioso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Elaborar um pantáculo, cheio de inscrições inteligíveis (geralmente hebraico ou enoquiano), que nem sempre sabemos se são corretas ou não, num dia o horário pré-determinado, consagrado a um determinado ser, que nós sequer sabemos de onde vem e o que é, não é superstição? Ou por ter caracteres cabalísticos deixa de ser supersticioso e se torna religioso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Acreditar em Magia, Teurgia, Goetia, Viagem Astral, Tarô, Runas, Búzios, Cristais etc é superstição ou não? Ou algumas coisas são menos supersticiosas que outras por terem um viés judaico-cristão ou serem praticados por uma comunidade eurocêntrica, caucasiana?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“São questões que me surgem ao ler sua mensagem.”</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-sacrificio-de-animais-num-contexto-das-ordens-iniciaticas-ocidentais-e-nos-ritos-afro-brasileiros/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que é Àràbà?</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-araba/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-araba/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 19:19:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=931</guid>

					<description><![CDATA[Por Mario Filho &#160; Muitas pessoas têm me indagado sobre o significado da palavra Àràbà, já que uso muito esse termo e, às vezes, me esqueço de explicar. &#160; Bem, a palavra Àràbà designa uma árvore, cujo nome científico é “Ceiba pentandra”, conhecida no Brasil como Mafumeira, Samaúma, entre outros. É típica das Américas Central [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por <a href="/panteranegra/sacerdote/">Mario Filho</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-1081 size-large" src="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-498x1024.jpg" alt="" width="498" height="1024" srcset="https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-498x1024.jpg 498w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-146x300.jpg 146w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-532x1094.jpg 532w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-190x390.jpg 190w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-204x420.jpg 204w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-174x357.jpg 174w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-284x583.jpg 284w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o-245x504.jpg 245w, https://templopanteranegra.com.br/wp-content/uploads/2020/09/117233924_3280892345311962_8951025647424549591_o.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 498px) 100vw, 498px" /></p>
<p>Muitas pessoas têm me indagado sobre o significado da palavra Àràbà, já que uso muito esse termo e, às vezes, me esqueço de explicar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bem, a palavra Àràbà designa uma árvore, cujo nome científico é “Ceiba pentandra”, conhecida no Brasil como Mafumeira, Samaúma, entre outros. É típica das Américas Central e do Sul e parte da África Ocidental.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em sua fase adulta pode atingir 80 metros, sendo que seu tronco alcança 03 metros de diâmetro, possuindo grande copa e, por isso, produz muita sombra.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na Religião Tradicional Yorùbá o vocábulo Àràbà se refere ao líder de uma comunidade formada pelos seguidores do culto de Ifá, especialmente os Babaláwo, de uma cidade. Assim, todas essas comunidades possuem um Àràbà que os lidera e os representa. Ele é escolhido pela comunidade e, normalmente, essa escolha recai não somente sobre o mais velho e experiente Sacerdote, mas sobre o mais capacitado para conduzi-la ao sucesso. Dessa forma, não é possível ser Àràbà se não for por escolha direta de seus futuros liderados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Assim como “Àràbà-árvore” produz muita sombra e protege todos aqueles que estão sob sua copa, o “Àràbà-Sacerdote de Ifá” deve colocar sob sua proteção a comunidade, dando-lhes condições a terem uma vida mais adequada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando da morte de um Àràbà o conselho de Babaláwo se reúne para fazer a escolha de um novo. Em primeiro lugar se ouvirá o Babaláwo mais velho, para ver sua opinião e se ele possui alguma indicação ou se ele mesmo não deseja ser o novo Àràbà. É comum indicar-se o filho mais velho, desde que este seja Babaláwo, do Àràbà falecido, mas não é uma regra absoluta. Depois da indicação um dos Babaláwo do conselho fará a divinação para saber se Ifá aprova ou não a escolha do novo Àràbà. Havendo a concordância, marca-se a data para a cerimônia de posse. Se não houve faz-se um novo escrutínio. O Rei da cidade é quem preside a cerimônia de posse, auxiliado pelas autoridades locais, especialmente os dirigentes da Sociedade Ògbóni.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Existe, na Religião Tradicional Yorùbá, a figura do Àràbà dos Àràbás, chamado de Àràbà Agbáyé, função exercida atualmente pelo Oloyé Àdìsá Mọkọranwalé Awóreni Awóyẹmí, da cidade de Ilé-Ifẹ̀, Estado de Ọ̀ṣun, Nigéria, cuja fotografia ilustra essa postagem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como se pôde verificar neste texto não é possível existir um Àràbà sem que este seja escolhido por um conselho de Babaláwo, que ficará sob sua administração.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/o-que-e-araba/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>25 de maio. Bênção, Mamãe África</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/25-de-maio-bencao-mamae-africa/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/25-de-maio-bencao-mamae-africa/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 18:51:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=927</guid>

					<description><![CDATA[Por Maria Stella de Azevedo Santos  &#160; Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Maria Stella de Azevedo Santos </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz dos africanos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, dia 25 de maio de 2011, o Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá está recebendo uma média de cinqüenta professores da rede municipal, juntamente com seu secretário, para conosco comemorar este dia, que se constitui em uma tentativa de que os olhos e os corações do mundo se preocupem e se ocupem de cuidar do povo desse continente, mas também de aprender e apreender sua sabedoria, que como neta de africana e iniciada em uma religião que tem em África sua matriz, foi a mim transmitida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Oportunidade que tudo faço para não desperdiçar. Muitas sementes da sabedoria dos africanos, em mim plantadas, ainda não encontraram terreno fértil para germinar, mas não desisto e, por isso, cuido desse terreno em todo momento. Outras há, no entanto, que cresceram e até deram frutos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi assim refletindo que resolvi homenagear o berço da humanidade – a África -, aproveitando esse precioso espaço de comunicação que a mim foi concedido para, humildemente, tentar espalhar essas sementes, na esperança que elas caiam em terrenos férteis.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Foi através da tradição oral, chamada na língua yorubá de ìpitan, que entrei em contato com a maravilhosa arte de viver do africano, que tem na alegria um de seus fundamentos. Entretanto, nós brasileiros, que temos nesse povo uma de nossas descendências, não devemos correr o risco de sermos megalomaníacos e considerar a filosofia africana a melhor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Todo povo possui sua sabedoria, mas Sabedoria, assim como Deus, é uma só. A mesma base, os mesmos fundamentos, apenas transmitidos de acordo com a cultura e o lugar de viver correspondente. Se foi através da tradição oral que aprendi, é agora na escrita, ìwe-kikó, que encontro condições favoráveis para transmitir, para um maior número de pessoas possível, os ensinamentos absorvidos e os quais ainda pretendo assimilar, de maneira profunda.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Conheçamos, então, um pouco do muito que possui a filosofia do povo africano: É na alegria e na generosidade que se encontra a força que se precisa para enfrentar os obstáculos da vida: “Lé tutu lé tutu bó wá” = “Sigamos em frente alegremente, sigamos em frente iluminados, dividindo o alimento adquirido”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A palavra tem o poder de materializar o que existe em potencial no universo, por isso os africanos falam muito e alto, quando precisam canalizar sua energia em direção ao que é essencial, mas silencia nas horas necessárias. Um orin nos faz entoar: “Tè rolè… Mã dé tè rolè. Báde tè role” = “Eu venero através do silêncio… Eu pretendo cobrir meus olhos e calar-me. Ser conveniente, respeitando através do silêncio”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nosso maior inimigo (como também nosso maior amigo) somos nós mesmos: “Dáààbòbò mi ti arami” = “Proteja-me de mim mesma”. O cuidado com o julgamento do outro e também com o instinto de perversidade: “Bí o ba ri o s’ikà bi o ba esè ta ìkà wà di méjì” = “Se vir o corpo de um perverso e chutá-lo, serão dois os perversos”. O respeito às diferenças: “Iká kò dógbà” = “Os dedos não são iguais”. A necessidade de um permanente contato com a Essência Divina que cada um possui: Eti èmí óré dé ìyàn. Àroyé èmí óré dé ìyà” = “Na dificuldade de decisão e no debate, a Essência Divina amplia a visão para argumentar”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como se vê, o corpo da tradição oral africana, que é composto de itan – mito, oriki – parte do mito que é recitada em forma de louvação e evocação, orin – cântico de louvação, adurá – reza, ówe – provérbio serve para nos disciplinar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Entretanto, nenhuma sabedoria tem mais valor do que a filosofia do ìwà, palavra que pode ser traduzida como conduta, natureza, enfim, caráter. Devemos estar atentos aos nossos comportamentos. Pois, como falam os africanos após enterrar um amigo, “ó kù ó, ó kù ó ìwà ré”, querendo dizer, “não podemos lhe acompanhar no resto de sua viagem, agora só fica você e seus comportamentos”.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/25-de-maio-bencao-mamae-africa/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A guerra nossa de cada dia</title>
		<link>https://templopanteranegra.com.br/a-guerra-nossa-de-cada-dia/</link>
					<comments>https://templopanteranegra.com.br/a-guerra-nossa-de-cada-dia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luana Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 18:48:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cultura yorùbá / Ifá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://templopanteranegra.com.br/?p=923</guid>

					<description><![CDATA[Por Maria Stella de Azevedo Santos  &#160; Quem conseguiu driblar a morte e viveu para poder assistir a virada do século, não deixa de se assustar com as constantes ameaças de guerra. Muitos destes sobreviventes sentiram, de forma mais leve ou mais intensa, as conseqüências da primeira e da segunda guerra mundial, sem falar da [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Maria Stella de Azevedo Santos </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quem conseguiu driblar a morte e viveu para poder assistir a virada do século, não deixa de se assustar com as constantes ameaças de guerra. Muitos destes sobreviventes sentiram, de forma mais leve ou mais intensa, as conseqüências da primeira e da segunda guerra mundial, sem falar da guerra fria entre as duas maiores potências do século vinte, que deixava nossos corações realmente congelados de medo, a perguntar: será que o mundo se acabará com uma explosão atômica? Não, o mundo não acabou!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O homem continua a assistir não apenas ameaças de conflitos armados, mas também guerras realmente concretizadas. Uma análise mais profunda, no entanto, demonstra que o instinto guerreiro faz parte da natureza de todo ser vivo: no reino vegetal, presenciamos quando uma planta ataca a outra para sugar sua seiva; no reino animal, os animais lutam para demarcar seus espaços e conquistar parceiros; no reino hominal, os conflitos apresentam causas e conseqüências com maior nível de complexidade. A sobrevivência é a causa intrínseca de todas as lutas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O homem guerreia para que seu corpo físico sobreviva. Ao mesmo tempo, busca incessantemente a paz, visando à imortalidade de sua alma. A alma que, para se manter encantada como os Encantados, necessita possuir elevadas virtudes, as quais conduzem à aquisição de axé – poder espiritual, que propicia o alcance da sublime sabedoria, que por sua vez se utiliza do bem e da verdade para conduzir o homem pelo caminho da paz. Digo caminho porque creio ser a paz não uma condição, mas uma busca, que se existe enquanto instinto, com certeza existe de fato. E se digo ser a paz uma busca, porque coloco-me como guerreira da paz, preparando meus filhos espirituais para serem também guerreiros fortalecidos pela fé, capazes de enfrentar grandes desafios e superar muitos obstáculos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É comum se falar muito mal da guerra e, acima de tudo, temê-la. Se a guerra existe é porque ela é necessária, por mais estranho que isto possa parecer quando dito por uma religiosa. Entretanto, o Candomblé enxerga a guerra como algo tão natural e necessário, que a tem como um de seus dogmas, fazendo um ritual específico para este assunto, o Olorògún – Ritual para o Senhor da Guerra, através do qual os Omorixás -“Filhos de Santo” – são treinados para serem guerreiros da paz. É quando eles aprendem, entre outras coisas, a não começarem uma guerra que não tenham condições de terminar, nem parem no meio do caminho, pois correm o risco de serem atingidos pela negatividade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A preparação de um bom guerreiro da paz implica, a princípio, na existência interior desse desejo. A partir daí o treino começa. Ele precisa adquirir algumas virtudes a fim de vencer “A Guerra Nossa de Cada Dia”. Para qualquer guerreiro, a maior de todas as virtudes é a coragem. É ela que impulsiona para a superação da inércia e, principalmente, do medo de ser julgado e condenado pelos deuses e homens.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para um guerreiro da paz, a coragem sem a benevolência gera crueldade, que quando usada com o intuito de ganhar ou manter o poder sobre os outros, apresenta consequências extremamente desastrosas. O poder do guerreiro da paz é o poder sobre si mesmo! Tudo o que foi dito acima nos leva a perguntar: afinal, qual é a verdadeira guerra santa? Depois de muito estudo da Filosofia Yorubá e de muita reflexão sobre o tema, creio que posso dizer: a verdadeira guerra santa é aquela que destrói o que precisa ser destruído, a fim de construir o que precisa ser construído. E, assim, a vida se mantém em eterno movimento.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://templopanteranegra.com.br/a-guerra-nossa-de-cada-dia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
