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	<title>Todoprosa - VEJA.com</title>
	
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	<description>Notícias, resenhas e comentários sobre o mundo da literatura</description>
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		<title>Que cena! O pacto com o diabo em ‘Grande sertão’</title>
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		<comments>http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/antologia/que-cena-o-pacto-com-o-diabo-em-grande-sertao/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 24 May 2013 18:13:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Antologia]]></category>

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		<description><![CDATA[O título acima exige uma explicação. Não fica claro se o jagunço Riobaldo, narrador da obra-prima “Grande sertão: veredas”, publicada em 1956 pelo mineiro Guimarães Rosa, chega realmente a vender sua alma a Satanás. O que sabemos é que certa noite, transcorridos três quartos da narrativa, ele se dirige a um lugar ermo e sinistro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/guimaraes-rosa.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/guimaraes-rosa-300x268.jpg" alt="" width="300" height="268" class="alignleft size-medium wp-image-49768" /></a>O título acima exige uma explicação. Não fica claro se o jagunço Riobaldo, narrador da obra-prima “Grande sertão: veredas”, publicada em 1956 pelo mineiro Guimarães Rosa, chega realmente a vender sua alma a Satanás. O que sabemos é que certa noite, transcorridos três quartos da narrativa, ele se dirige a um lugar ermo e sinistro até no nome, Veredas-Mortas, com tal intenção. A ideia é ganhar o poder que lhe falta para derrotar o arquivilão Hermógenes, vingando a morte do chefe Joca Ramiro – e de quebra agradar Reinaldo, também conhecido como Diadorim, seu querido colega de bando, que nada deseja na vida além dessa vingança.</p>
<p>A incerteza sobre a consumação do pacto faustiano atravessa todo o romance e não se desfaz nem mesmo quando o narrador parece descartá-la categoricamente no famoso encerramento do livro: “O diabo não há!&#8230; Existe é homem humano. Travessia”. O fato é que ele nunca mais será o mesmo depois desse encontro que não houve – mas talvez tenha havido – nas Veredas-Mortas. A cena é bela e estranha, com a estrangeirice erudita do português &#8220;sertanejo&#8221; inventado por Rosa contribuindo para o lusco-fusco do que &#8220;não é falável&#8221;. Uma coisa é certa: vindo do além ou bombeado de suas próprias entranhas de “homem humano”, o poder que Riobaldo buscava lhe é concedido.</p>
<blockquote><p>O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” – sofri um velho pensar. Mas, como era que eu queria, de que jeito, que? Feito o arfo de meu ar, feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez, caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. E em troca eu cedia às arras, tudo meu, tudo o mais – alma e palma, e desalma&#8230; Deus e o Demo! – “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!&#8230;” –; e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão. Do Hermógenes, mesmo, existido, eu mero me lembrava – feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona, em seus despropósitos, a formiguinha passeando por diante da gente – entre o pé e o pisado. Eu muxoxava. Espremia, p’r’ali, amassava. Mas, Ele – o Dado, o Danado – sim: para se entestar comigo – eu mais forte do que o Ele; do que o pavor d’Ele – e lamber o chão e aceitar minhas ordens. Somei sensatez. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. Cobra desfecha desferido, dá bote, se deu. A já que eu estava ali, eu queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopio do pé-de-vento – o ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de final, desses redemoinhos: &#8230;o Diabo, na rua, no meio do redemunho&#8230; Ah, ri; ele não. Ah – eu, eu, eu! “Deus ou o Demo – para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Eu esperava, eh! De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais-força, de maior-coragem. A que vem, tirada a mando, de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente. Como era que isso se passou? Naquela estação, eu nem sabia maiores havenças; eu, assim, eu espantava qualquer pássaro.</p>
<p>Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não queria existir? Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Remordi o ar:</p>
<p>– “Lúcifer! Satanás!&#8230;”</p>
<p>Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.</p>
<p>– “Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”</p>
<p>Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – o que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; e fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranquilidades – de pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas. Arquei o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Como Hilda Hilst virou Hilda Hilst, por Hilda Hilst</title>
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		<pubDate>Wed, 22 May 2013 16:18:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida literária]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi assim: quando jovem, eu tinha uma vida muito tumultuada, turbulenta. Gostava muito das emoções. Gostava de me apaixonar muitas vezes (eu me apaixonei muitíssimas vezes). Gostava de viajar, essas coisas de que todo mundo gosta. Mas, aí, a vida foi ficando tão emotiva o tempo todo; aconteciam tantos dramas pessoais! Porque eu me apaixonava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/hilda-hilst-jovem.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/hilda-hilst-jovem.jpg" alt="" width="250" height="310" class="alignleft size-full wp-image-49751" /></a><br />
<blockquote>Foi assim: quando jovem, eu tinha uma vida muito tumultuada, turbulenta. Gostava muito das emoções. Gostava de me apaixonar muitas vezes (eu me apaixonei muitíssimas vezes). Gostava de viajar, essas coisas de que todo mundo gosta. Mas, aí, a vida foi ficando tão emotiva o tempo todo; aconteciam tantos dramas pessoais! Porque eu me apaixonava muito, mas, depois, me desapaixonava. Era uma coisa estranha. Às vezes a pessoa me via e dizia: “Puxa, eu encontrei a mulher da minha vida”. E eu repetia todas essas coisas que nós dizemos todos: “Eu te amo, meu bem”; “É para sempre?” “Para sempre”; “É até a morte?” “É, até a morte”. Mas então acontecia qualquer coisa química em mim. Eu ia, automaticamente, ficando tristinha. São Francisco diz que “o corpo é o nosso irmão burro”. Ele deseja uma coisa e, depois, deseja outra. Por causa dessa inconstância minha, as coisas iam ficando muito dramáticas: várias pessoas queriam me matar, era horrível. Não era algo que fazia para ofender a pessoa; era algo impossível mesmo de retomar.</p>
<p>Quando eu estava com 33 anos, um querido amigo que morreu, Carlos Maria de Araújo, poeta português, me deu um livro de [Nikos] Kazantzákis: “Carta a El Greco”. Eu o li e fiquei deslumbrada. Era um homem que ficava lutando a vida toda até terminar de uma maneira maravilhosa, escrevendo um poema de 33 mil versos, “A nova odisseia”, onde lutava com a carne e com o espírito o tempo todo. Ele desejava ao mesmo tempo esse trânsito daqui pra lá. Era o que eu queria: o trânsito com o divino. E também o trânsito com o homem e todas as maravilhas da vida, o gozo físico, a beleza física do outro. Era um consumismo meu, absolutamente terrível, porque ofendia muito as pessoas. Eu me impressionei tanto com a caminhada desse homem admirável, que resolvi ir morar num sítio. Achei que, longe e de certa forma me enfiando também (porque eu era uma mulher muito interessante), durante um certo tempo bem longo, eu pudesse trabalhar, escrever. E foi maravilhoso. Foi justamente nesse lugar, nesse sítio, que eu, longe de todas aquelas invasões e das minhas próprias vontades e da minha gula diante da vida, pude escrever o que escrevi. Acho que é verdade que qualquer pessoa que deseje realmente fazer um bom trabalho tem que ficar isolada, tem que tomar um distanciamento. É mais ou menos uma vocação. Você sente que aquele momento é o momento e que não há muito tempo. Às vezes, as pessoas dizem: “Eu vou quando estiver mais velhinho, ou mais velhinha. Ou quando eu estiver pior. Aí eu começo”. Mas acontece que não dá tempo. Então, aos 33 anos, fui para esse sítio onde moro até hoje, e me entreguei a um novo trabalho.</p></blockquote>
<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/fico-besta-quando-me-entendem.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/fico-besta-quando-me-entendem-209x300.jpg" alt="" width="188" height="270" class="alignleft size-medium wp-image-49755" /></a>“Difícil”, “louca”, “hermética”, “obscena”, Hilda Hilst (1930-2004) é provavelmente, entre os grandes nomes da literatura brasileira, o que carrega o maior número daqueles estereótipos que cumprem função vital no mundo do semi-intelectualismo – permitir que se julgue conhecer um autor sem ter lido uma linha do que escreveu (<a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/posts/comeos-inesquecveis-hilda-hilst/" target="_blank">leia aqui</a> sua participação na série <b>Começos inesquecíveis</b>, com a abertura da novela “Com os meus olhos de cão”). A própria escritora contribuiu para alimentar essa imagem pública. Ocorre que a poesia, a prosa e o teatro de Hilda, marcados por um personalíssimo misticismo carnal ou erotismo religioso, não são mesmo para principiantes – ou talvez, em sua radicalidade, sejam sobretudo para principiantes.</p>
<p>De uma forma ou de outra, é uma grande notícia o lançamento dessa coletânea de suas entrevistas, “Fico besta quando me entendem” (Biblioteca Azul, organização de Cristiano Diniz, 236 páginas, R$ 44,90). A edição é um luxo, equipada com capa dura e desenhos da própria Hilda, e traz vinte papos da autora com interlocutores do nível de Léo Gilson Ribeiro e Caio Fernando Abreu, ao longo de meio século. Em vários momentos – como o trecho acima, tirado de uma conversa de 1987 com a crítica literária Nelly Novaes Coelho diante de um auditório em Rio Claro (SP) – Hilda aparece aqui mais acessível do que nunca. A candura com que se expõe é perceptível até o fim, apesar de cada vez mais tingida de amargura à medida que os anos passavam e os leitores continuavam, no máximo, pingando. Mas se ela, a candura, não servir de convite para quem ainda não conhece Hilda, quem sabe um trecho como este – relato de um dos momentos em que baixou a “louca” – resolve a parada?</p>
<blockquote><p>Acho que [a alma] é a consciência que vai sempre se manter. Parece que a gente constrói uma alma. Até sobre esse ponto há uma história engraçada. Fui, junto com [o físico] Mario Schenberg, dar uma aula inaugural na Unicamp. Mario achava que nós, eu e ele, havíamos nascido no Egito, que eu havia sido uma sacerdotisa amiga dele. É claro que ele não falava dessas coisas na universidade. “Tenho medo de perder o meu emprego”, ele dizia. Mas nessa aula, a que compareceram muitos físicos, por causa do Mario, comecei a falar desses assuntos. A certa altura, um físico meio gargalhante, que estava coçando o saco, perguntou: “Quer dizer então que a senhora acredita mesmo na imortalidade da alma?”. Respondi: “Acredito na imortalidade da minha alma. Mas o senhor, se continuar coçando o saco dessa forma, sequer constituirá uma alma!”</p></blockquote>
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		<title>McEwan, Zadie e o limite de quinze palavras por dia</title>
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		<pubDate>Mon, 20 May 2013 18:51:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida literária]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre as muitas delícias da longa entrevista (em inglês, acesso gratuito) que Zadie Smith fez com Ian McEwan em 2005, publicada pela revista The Believer, minha preferida aparece já no texto introdutório da autora de “Sobre a beleza”. Zadie conta que, ainda universitária e aspirante ao mundo das letras, foi levada por uma amiga enturmada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/mcewan-e-zadie.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/mcewan-e-zadie.jpg" alt="" width="416" height="222" class="alignleft size-full wp-image-49742" /></a>Entre as muitas delícias da <a href="http://www.believermag.com/issues/200508/?read=interview_mcewan" target="_blank">longa entrevista</a> (em inglês, acesso gratuito) que Zadie Smith fez com Ian McEwan em 2005, publicada pela revista <i>The Believer</i>, minha preferida aparece já no texto introdutório da autora de “Sobre a beleza”. Zadie conta que, ainda universitária e aspirante ao mundo das letras, foi levada por uma amiga enturmada à festa de casamento de McEwan, já então um escritor estabelecido (embora ela confesse que, na época, estava ocupada imitando Martin Amis, também presente à festa). </p>
<blockquote><p>“Parece”, disse minha amiga com ar de entendida, quando observávamos McEwan rodopiar com sua nova esposa pela pista de dança, “que ele escreve apenas quinze palavras por dia.” Eis uma informação infeliz para se dar a um escritor aspirante. Eu era terrivelmente suscetível ao poder do exemplo. Se me dissessem que Borges corria três milhas toda manhã e depois plantava bananeira numa tina de água antes de se sentar para escrever, eu me sentiria obrigada a tentar isso. O espectro do limite de quinze palavras ficou comigo por um longo tempo. Três anos depois, quando estava escrevendo “Dentes brancos”, lembro-me de pensar que todos os meus problemas se originavam do excesso de palavras que me sentia impelida a escrever todos os dias. Quinze palavras por dia! Por que você não escreve apenas quinze palavras por dia?</p></blockquote>
<p>Naturalmente, o tal limite de quinze palavras nunca existiu, era uma falácia que a amiga de Zadie tinha inventado ou, crédula, passava adiante. Quinze palavras correspondem de forma aproximada a uma linha e meia. É verdade que existem dias ruins em que o saldo do trabalho de um escritor não chega a tanto, mas limitar antecipadamente e de modo tão severo sua produção diária deixaria aleijado o mais conciso dos prosadores.</p>
<p>O que me agrada na historinha das quinze palavras é seu poder de retratar, com uma ligeira ampliação do grau de absurdo, essa armadilha em que caem multidões de escritores em seu caminho de aprendizado: como os grandes fazem? Na impossibilidade de escrever <i>o que</i> escrevem os autores que admira, o aspirante passa a se interessar por <i>como</i> eles escrevem, na esperança de que reproduzir em casa algum aspecto do método que produziu ou do ambiente que viu nascer obras-primas fará uma obra-prima se materializar em sua mesa. Acho que todo mundo já passou por isso – eu certamente passei. Chama-se pensamento mágico.</p>
<p>A história da literatura está repleta de métodos e idiossincrasias para todos os gostos. Consta que Hemingway descascava laranjas antes de começar a escrever. Faulkner contentava-se em descascar o lacre de uma garrafa de uísque. Sim, há quem trabalhe com limites diários – Saramago não gostava de passar de duas páginas, o que dá cerca de 650 palavras – e quem, como Balzac e Dostoievski, escreva o máximo de palavras na maior velocidade possível, ciente de que os credores não serão sensíveis ao argumento da contenção. Se procurarmos bem, vamos acabar encontrando quem diga que só o sedoso papel de carta do Algonquin, principalmente quando ferido pela pena de um pavão virgem alimentado com grãos orgânicos, é uma tela digna de sua inspiração.</p>
<p>Nada disso quer dizer que escritores não possam ter manias, rituais, métodos, superstições. Pelo contrário, tais coisas são, em certa medida, praticamente inevitáveis. Quer dizer apenas que cada um tem que descobrir por si – sozinho, na mais completa escuridão – quais são as suas. Como todo o resto, aliás.</p>
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		<title>Esses leitores espertos e suas capas cretinas</title>
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		<pubDate>Fri, 17 May 2013 13:12:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Pop de sexta]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje o Pop Literário de Sexta fica por conta dos leitores do Todoprosa. A ideia foi lançada aqui na segunda-feira, baseada numa lista de capas horrorosas (reais) preparada pela Flavorwire: imaginar como seria se clássicos da literatura brasileira viessem embalados em capas cretinas, mas de grande apelo comercial. O pessoal pegou direitinho o espírito da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capas-cretinas-dos-leitores-1.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capas-cretinas-dos-leitores-1-620x353.jpg" alt="" width="620" height="353" class="alignleft size-large wp-image-49725" /></a><br />
Hoje o Pop Literário de Sexta fica por conta dos leitores do <b>Todoprosa</b>. A ideia foi <a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/vida-literaria/livros-classicos-com-capas-cretinas-uma-proposta/" target="_blank">lançada aqui</a> na segunda-feira, baseada numa lista de capas horrorosas (reais) preparada pela Flavorwire: imaginar como seria se clássicos da literatura brasileira viessem embalados em capas cretinas, mas de grande apelo comercial. O pessoal pegou direitinho o espírito da coisa. Vinicius Linné lançou mão da boa e velha apelação sexual para vender Clarice Lispector. Wellington Santos preferiu, na promoção de Dalton Trevisan, usar o expediente – bastante em voga – de fingir ser o que não é, pegando carona no sucesso alheio a fim de fisgar o leitor desatento. Ivan Santos optou por João Ubaldo Ribeiro e uma mistura de falta de noção e cara-de-pau que descortina novos horizontes para o conceito de “capa cretina”, enquanto Guilherme Carvalhal – que só esqueceu o nome do autor de “O rei da vela”, Oswald de Andrade – ficou no terreno batido, mas sempre eficaz, da malhação de Judas. Bom fim de semana a todos.<br />
<a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capas-cretinas-dos-leitores-21.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capas-cretinas-dos-leitores-21.jpg" alt="" width="585" height="395" class="alignleft size-full wp-image-49729" /></a><br />
.</p>
<img src="http://feeds.feedburner.com/~r/TodoprosaVeja/~4/iFPrWEZyHc4" height="1" width="1"/>]]></content:encoded>
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		<title>‘A infância de Jesus’: o gesto primordial da literatura</title>
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		<comments>http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/resenha/a-infancia-de-jesus-o-gesto-primordial-da-literatura/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 15 May 2013 11:05:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[Em seu novo romance, “A infância de Jesus” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 44,00), J.M. Coetzee leva a investigação ética que sempre foi o principal motor de sua literatura a um plano de inédita rarefação. Descarnada e assumidamente alegórica desde o título, a narrativa desenha uma série de parábolas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/coetzee-infancia-de-jesus.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/coetzee-infancia-de-jesus-413x620.jpg" alt="" width="220" height="330" class="alignleft size-large wp-image-49707" /></a>Em seu novo romance, “A infância de Jesus” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 44,00), J.M. Coetzee leva a investigação ética que sempre foi o principal motor de sua literatura a um plano de inédita rarefação. Descarnada e assumidamente alegórica desde o título, a narrativa desenha uma série de parábolas provisórias e inacabadas que se corrigem e se negam o tempo todo, recusando ao leitor o prazer de fechar um sentido e dizer: “Ah, então é isso!” – prazer que se pode chamar de fácil, mas do qual é dificílimo abdicar por completo, sob risco de inviabilização não apenas da literatura mas da própria linguagem. O que confirma o sul-africano, no mínimo, como o mais corajoso dos grandes escritores vivos. </p>
<p>A história em si é tão simples, linear e desprovida de enfeites quanto a prosa em que é apresentada. Depois de atravessar o oceano, um homem de meia-idade, Simón, chega com um menino de cinco anos a uma terra desconhecida em busca de vida nova. O menino, David, é brilhante, mimado, voluntarioso, irritante. Não é parente do homem, mas uma alma desgarrada com a qual ele esbarrou no navio. Por razões pouco claras, Simón resolve responsabilizar-se por David e ajudá-lo a encontrar a mãe, que já estaria na nova terra. A tarefa beira o impossível: a carta que o menino trazia presa ao pescoço perdeu-se no mar e, para complicar, todos os recém-chegados ganham novos nomes e são incentivados a abandonar suas memórias. Seus nomes verdadeiros não são Simón e David.</p>
<p>Na nova terra, Novilla, onde se fala espanhol, a dupla é recebida por uma burocracia estatal tosca, ainda que benevolente, que após o desacerto inicial trata de suprir suas necessidades básicas: trabalho, casa, comida. Nesse cenário nu de peças esparsas – como numa montagem teatral moderna, aqui temos uma cadeira, ali uma porta, o resto fica por conta do freguês – entrevemos uma espécie de Estado socialista decente, mas pobre. Simón trabalha como estivador. Os dois se alimentam de pão, água e pasta de feijão sem tempero. Ninguém usa sal na comida ou ironia nas conversas. As pessoas são gentis e o mais perto que chegam de se divertir é frequentar cursos de filosofia em que se discutem questões como a cadeiridade da cadeira.</p>
<p>Simón reluta em abrir mão dos valores da velha terra. A falta de conforto e prazeres mundanos o deixa cada vez mais incomodado, mas não parece ser um problema para os demais. O ideal ético da harmonia universal foi atingido em Novilla à custa da negação dos apetites humanos, uma supressão tão bem internalizada que nunca explode (com uma única exceção) em violência. A essa ética Simón opõe a estética do mundo sensível, como a compreendia Kierkegaard. Aferrado à ambivalência irredutível da condição humana, ele poderia dizer, citando o filósofo dinamarquês e sem destoar do tom geral do livro: “O desespero da infinitude é carecer de finitude, o desespero da finitude é carecer de infinitude”. Elena, sua vizinha, teria a resposta pronta: “Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo mais que está faltando, é o jeito de pensar de que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião”.</p>
<p>Depois de alguma insistência, Simón consegue levar Elena para a cama, mas o sexo que fazem é tão desprovido de sabor quanto a onipresente pasta de feijão. Outra personagem, Ana, recusando suas investidas, acusa-o de querer “me abraçar apertado e enfiar uma parte do seu corpo dentro de mim”. O jeito pueril de falar, como se a linguagem tivesse que ser tateada em busca de sentidos ainda tenros numa espécie de aurora do mundo, perpassa todo o livro e desemboca nas discussões filosóficas que os personagens travam a propósito de tudo. Sem deixar de ser inteligentes, os debates são frequentemente ingênuos e até cômicos, deixando o leitor em dúvida sobre as reais intenções do autor. Tais dúvidas vão se somando a outras, em efeito cumulativo. Se não existe apetite sexual em Novilla, por que o Estado mantém um burocratizado serviço de prostituição? Se ninguém mais come carne, como acontece de alguns comerem carne? Se a parca riqueza é distribuída fraternalmente, por que há ricos? Se não há crime e todo mundo tem o coração cheio de boa vontade, como se explica um personagem como Daga, o canalha?</p>
<p>Sem esboçar resposta a nada disso, a estranha alegoria de Coetzee desafia o leitor, negando-lhe de forma sistemática uma interpretação unívoca que aplaque sua fome – mais ou menos como o pão de Novilla não aplaca a de Simón. Não se trata apenas de uma história passada em espaço “puramente” ficcional, mítico, que pode ser compreendido como arcaico, atemporal, pós-nuclear ou além-morte. Isso não seria novo em Coetzee. Trata-se também de uma história que recusa tanto o paralelo historicamente claro de “À espera dos bárbaros”, romance decodificável como parábola do apartheid sul-africano, quanto o pós-modernismo metalinguístico de um livro esquisito como “Foe”, história sobre a história por trás da história de Robinson Crusoé, em que a obscuridade da narrativa se refugia no álibi estetizante de uma certa “linguagem poética”. </p>
<p>Em “A infância de Jesus” não há o que se costuma entender por “linguagem poética”. O mundo é concreto e a linguagem, despojada até a mais básica referencialidade. Só não se pode afirmar ao certo a que ela se refere. Se não for apenas uma pista falsa, a chave cristã que o título fornece – e que parece confirmada por uma série de situações e imagens como pão, vinho, tentativas de ressuscitar os mortos, a mãe virginal (e arbitrária) que Simón acaba encontrando para David – é sem dúvida parcial, incapaz de abrir todas as portas. Vale pelo menos tanto quanto a chave literária oferecida pelo “Dom Quixote”, livro com o qual Simón ensina David a ler – e que na implacável máquina de estranhamento do romance não foi escrito por Cervantes, mas por “um homem chamado Benengeli”. Ou mesmo quanto a chave matemática da imagem recorrente dos números como ilhas de ordem no caos, em cujas frestas David tem medo de despencar.</p>
<p>Alegoria filosófica, moral, política, religiosa, metalinguística, “A infância de Jesus” pode ser tudo ou nada disso, dependendo do leitor. O autor parece seguir à risca o conselho daquele seu alter ego, JC, em “Diário de um ano ruim”: “Nunca tente se impor. Espere a história falar por si mesma. Espere e torça para que ela não nasça surda, muda e cega”. Essa abertura radical deixará furiosos alguns leitores, mas fará a delícia de outros. Aqui do meu lado, terminei a leitura atônito, com a cabeça zumbindo de possibilidades e certo de ter encontrado um belo romance que tenta – como tentou Samuel Beckett, autor que Coetzee admira – flagrar a literatura e a linguagem em seu gesto mais primordial e desesperado: o de atribuir sentido àquilo que não tem nenhum.</p>
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		<title>Livros clássicos com capas cretinas: uma proposta</title>
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		<pubDate>Mon, 13 May 2013 17:52:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida literária]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei, mas acho que posso ter encontrado um jeito simples de aumentar os índices de leitura da população brasileira (clique na imagem para ter melhor resolução). A inspiração veio dessa seleção de piores capas de títulos famosos da literatura &#8211; sexistas, sensacionalistas, caras de pau, sem noção, comicamente literais ou todas as alternativas anteriores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capa-grande-sertão-1.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/capa-grande-sertão-1-620x256.jpg" alt="" width="620" height="256" class="alignleft size-large wp-image-49694" /></a></p>
<p>Não sei, mas acho que posso ter encontrado um jeito simples de aumentar os índices de leitura da população brasileira (clique na imagem para ter melhor resolução). </p>
<p>A inspiração veio dessa <a href="http://flavorwire.com/378513/20-embarrassingly-bad-book-covers-for-classic-novels" target="_blank">seleção de piores capas</a> de títulos famosos da literatura &#8211; sexistas, sensacionalistas, caras de pau, sem noção, comicamente literais ou todas as alternativas anteriores &#8211; feita pela Flavorwire. Atenção ao primeiríssimo lugar ocupado por uma capa da Record para &#8220;O iluminado&#8221;, já comentada <a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/pelo-mundo/capas-melhoradas-impossiveis-de-piorar-e-outros-links/" target="_blank">aqui</a>. </p>
<p>A temporada de capas cretinas começa agora: se você tiver um Paint (ou programa melhor) na mão e uma ideia na cabeça, o <b>Todoprosa</b> está de portas abertas à sua criatividade pelo email sobrepalavras@todoprosa.com.br. Apenas arquivos em jpg, por favor.</p>
<p>*</p>
<p>Agora falando sério, é um primor de abrangência e lucidez o artigo &#8220;Literatura brasileira no exterior: problema das editores?&#8221;, de Felipe Lindoso, publicado em seu blog, <a href="http://oxisdoproblema.com.br/?p=1744" target="_blank">aqui</a>. Quem se interessa de forma profissional ou diletante pelo assunto tem muito a ganhar encarando a longa extensão do texto. Uma amostra:</p>
<blockquote><p>&#8230;seja através das editoras – ou, principalmente, dos agentes literários – as negociações internacionais usam, no maior limite do possível, a predominância do inglês nessa etapa atual da República Mundial das Letras precisamente para valorizar seus autores.</p>
<p>As editoras brasileiras são, como as de outros países, os alvos disso. Por essa razão e pelo fato do português ser uma língua de menor expressão nessa constelação, os editores brasileiros participam do mercado literário internacional principalmente como compradores, não como vendedores.</p>
<p>Nesse contexto, querer que sejam os editores os que façam a promoção da literatura brasileira no exterior é tão somente uma manifestação de wishful thinking. Não funciona. </p></blockquote>
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		<title>‘Temperamento imperatriz’: a revolução da spam-literatura</title>
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		<pubDate>Fri, 10 May 2013 14:22:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Recebi ontem, de um endereço comercial no Japão, este spam assombroso: Grandes meios, elementar 財布 メンズ bolsa desimpedido, sem muita modificação, feminilidade esplêndida flor, uma força aliada, é manifestar a propensão pessoal メンズ 財布 e bondade, ela pode imediatamente invertido o seu リュック メンズ imagem. Modelagem atmosférica, queda de galante, este pep-se, não há pintura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/japanese-bags.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/japanese-bags.jpg" alt="" width="380" height="353" class="alignleft size-full wp-image-49682" /></a>Recebi ontem, de um endereço comercial no Japão, este spam assombroso: </p>
<blockquote><p>Grandes meios, elementar 財布 メンズ bolsa desimpedido, sem muita modificação, feminilidade esplêndida flor, uma força aliada, é manifestar a propensão pessoal メンズ 財布 e bondade, ela pode imediatamente invertido o seu リュック メンズ imagem. Modelagem atmosférica, queda de galante, este pep-se, não há pintura unblended, o simples primordial refere ainda, notar ser adepto de extraordinariamente todas as vezes para manter 财 布メンズ volta ótimo! Porque você não discernir a próxima segunda-lhe propósito colisão em encontro com quem! Temperamento imperatriz, linda interpretação quixotesca do discreto auto-indulgência リュック レディース posição pessoa, elegância de design polido, para fazer uma fuga através das necessidades avançadas de em voga 財布 メンズ as mulheres.</p></blockquote>
<p>Todo mundo que tem uma vida online – ou seja, todo mundo – já terá esbarrado com casos semelhantes de algaravia produzida por tradutores automáticos sem noção (com perdão da redundância). No entanto, como tendemos, e não sem razão, a tratá-los como lixo, desconfio que não seja tão comum a epifania que experimentei quando, no início da manhã e ainda não completamente desperto, liguei o computador e fui atropelado.</p>
<p>Será delírio meu, ou achados verbais como “queda de galante”, “interpretação quixotesca do discreto” e o sublime “temperamento imperatriz” são rasgos poéticos selvagemente sintéticos, comentários de lucidez rara sobre a mercantilização da feminilidade (“feminilidade esplêndida flor”, na formulação irônica do poeta incorpóreo) na sociedade pós-industrial? Não creio ser por acaso que o texto termine com um substantivo e enigmático “as mulheres”.</p>
<p>Reconheça-se que a “elegância de design polido” não é o forte da obra, nem poderia ser, dadas as condições de sua produção. Pelo contrário: suas arestas incomodam, machucam. É nos sobressaltos de sua sintaxe transgressiva, convulsa e consciente (“propósito colisão”) e no enigma dos ideogramas que para o público-alvo permanecem indecifráveis que o texto encontra sua revolucionária “modelagem atmosférica”. O efeito estético buscado – e corajosamente explicitado perto do fim – é o de uma “fazer uma fuga através das necessidades avançadas”. O que mais restaria ao homem contemporâneo, perdido e paradoxalmente solitário em sua rede universal e infinita de conexões solipsistas?</p>
<p>Que tão acachapante obra-prima tenha sido engendrada ao acaso pelo desejo de vender bolsas de couro sintético fabricadas do outro lado do mundo é apenas mais um dos mistérios que a cercam. Talvez os ideogramas expliquem.</p>
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		<title>Quero ser lido em Marte e outros links</title>
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		<pubDate>Wed, 08 May 2013 17:40:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pelo mundo]]></category>

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		<description><![CDATA[A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num concurso de mensagens poéticas para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/planeta-marte.jpg"><img src="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/files/2013/05/planeta-marte.jpg" alt="" width="350" height="196" class="alignleft size-full wp-image-49675" /></a>A notícia que começou a circular há alguns dias parece piada, mas não é. Trata-se apenas de um concurso literário do outro mundo: a Nasa, agência espacial americana, vai escolher três haicais num <a href="http://www.nasa.gov/home/hqnews/2013/may/HQ_13-125_MAVEN_Name_to_Mars.html" target="_blank">concurso de mensagens poéticas</a> para Marte e gravá-los num DVD a ser levado ao Planeta Vermelho na missão Maven, com lançamento marcado para novembro (<a href="http://www.guardian.co.uk/books/2013/may/03/message-mars-nasa-haikus" target="_blank">via <i>Guardian</i></a>).</p>
<p>Como se sabe, haicai (também chamado <i>haiku</i>) é um poema de apenas três versos, de origem japonesa. As inscrições são abertas a todos e vão até 1º de julho. Uma votação online apontará os vencedores.</p>
<p>Não, ninguém espera encontrar em Marte um público leitor para os poeminhas. A mensagem é dirigida aos próprios terráqueos, em busca de apoio popular para a contestada causa da exploração espacial. Isso é tornado mais evidente pela promessa de que os nomes de <i>todas</i> as pessoas que entrarem em contato com a missão manifestando esse desejo também serão gravados no tal DVD. </p>
<p>Depois de refletir longamente sobre tudo isso, pensei em enviar minha modesta contribuição:</p>
<blockquote><p>Nada de arte, Marte:<br />
A Terra é feita de terra<br />
Água e marketing.</p></blockquote>
<p>Mas desconfio que desclassifiquem textos em português.</p>
<p>*</p>
<p>O cineasta Steven Soderbergh, de “Sexo, mentiras e videotape” e “Traffic”, está publicando desde 28 de abril uma novela policial no Twitter (<a href="https://twitter.com/Bitchuation" target="_blank">twitter.com/Bitchuation</a>). Chama-se <i>Glue</i> e tem o apoio de fotografias. O décimo quarto dos capítulos curtinhos acaba de chegar ao fim (<a href="http://www.salon.com/2013/04/29/steven_soderbergh_is_writing_a_novella_on_twitter/" target="_blank">via Salon.com</a>). </p>
<p>Se eu estou gostando? Não exatamente. Ficções mais longas servidas como picadinho no Twitter ainda estão naquela fase que se chama de “experimental”, em que os melhores esforços costumam merecer, no máximo, adjetivos como “interessante” ou, pior, &#8220;válido&#8221;. </p>
<p>O principal desafio é impedir que o limite de 140 caracteres soe arbitrário e gratuito, características que costumam ser hostis à qualidade literária, principalmente quando se trabalha com formas sucintas. </p>
<p>Embutir na própria história um sentido para a forma soluçante é algo que, na minha opinião, ninguém fez melhor até agora do que Jennifer Egan em seu já clássico <a href="http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/pelo-mundo/o-twitter-quem-diria-pariu-uma-obra-prima-caixa-preta/" target="_blank">Blackbox</a>. Talvez Soderbergh concorde, pois usa uma voz narrativa (em segunda pessoa) que tem semelhanças com a da novelinha de Egan. </p>
<p>*</p>
<blockquote><p>Será que você devia, como autor de ficção, permitir que seus personagens tenham sonhos? Algumas pessoas acham uma má ideia, mas não há nada que o impeça: as pessoas sonham mesmo, sonham todas as noites, e ter personagens que não sonham de jeito nenhum é como ter personagens que não comem. Mas isso também não é um problema: algumas histórias não tratam de sonhos nem de comida. Ficaríamos chocados se Sherlock Holmes, James Bond ou Miss Marple começassem de repente a contar seus sonhos, embora novas gerações de heróis de thrillers e romances policiais sejam autorizados hoje – eu percebo – a ter mais vida pessoal. O que pode incluir mais sonhos. Mas não muitos mais. Você não vai querer que os sonhos atravanquem o caminho dos cadáveres.</p>
<p>Deixe o personagem sonhar se for preciso, mas tenha em mente que os sonhos dele – diferentemente dos seus próprios – terão um significado atribuído a eles pelo leitor. Seus personagens terão sonhos proféticos, prevendo o futuro? Terão sonhos sem consequência, como na vida real? Usarão os relatos de seus sonhos para irritar ou agredir ou iluminar outros personagens? Muitas variações são possíveis. Como em tantos outros aspectos, não é uma questão de fazer ou deixar de fazer, mas de fazer bem ou fazer mal.</p></blockquote>
<p>Numa série que vem sendo publicada pelo blog da “New York Review of Books” sobre o papel dos sonhos na ficção, é a vez das considerações práticas e caseiras da escritora canadense Margaret Atwood (em inglês, <a href="http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2013/may/06/my-psychic-garburator/" target="_blank">aqui</a>).</p>
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		<title>O jogo</title>
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		<comments>http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/sobrescritos/o-jogo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 06 May 2013 18:02:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro era o prazer infantil de pôr uma palavra depois da outra, encaixes de dominó. Depois que os encaixes em si perderam a graça, fáceis demais, veio a ambição de usar as sequências de peças para desenhar coisas no chão: bichos, casas, cidades. Ainda era uma ambição infantil, mas já continha o germe da fase [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro era o prazer infantil de pôr uma palavra depois da outra, encaixes de dominó. Depois que os encaixes em si perderam a graça, fáceis demais, veio a ambição de usar as sequências de peças para desenhar coisas no chão: bichos, casas, cidades. Ainda era uma ambição infantil, mas já continha o germe da fase seguinte, quando os desenhos começaram a parecer bobos, constrangedores, esquemáticos em sua bidimensionalidade de criança. Do lado de fora do jogo ficava o mundo inteiro com seus bichos de verdade, casas de verdade, cidades de verdade. Para desenhar o mundo em sua profundidade enigmática era preciso criar novos encaixes, superpor as peças do dominó rumo a uma nova dimensão: aspirar ao teto. Isso abriu uma fase de dificuldades imensas, torres penosamente empilhadas desabando sob o peso daquela última peça chamada ponto final, e com ela a temporada da frustração permanente &#8211; o fracasso como modo de vida &#8211; que só não provocou o abandono do jogo porque descobria-se na própria persistência uma nova e perversa modalidade de prazer infantil. Muitos anos depois, quando as torres começaram a se sustentar em pé e o espaço entre o chão e o teto se encheu de formas belas com suas sutis perspectivas, suas passagens secretas entre planos impensáveis, seus terraços recendentes a jasmim dando para lagos lisos de cobalto ao pôr do sol, só então nasceu a certeza de que tudo aquilo, não sendo mais obra ao alcance de uma criança, era ainda, e sempre, nada além de um prazer infantil. Foi um momento terrível. O mundo fora do jogo voltou a pulular, sua profundidade mais enigmática do que nunca, e agora sobrepunha-se a ele o mundo dentro do jogador. Fundi-los era um desafio tão invencível quanto a morte, mas já não havia escolha. Primeiro foi preciso derrubar aquela beleza toda &#8211; torres, terraços, jasmim, pôr do sol. Depois, uma palavra depois da outra, criança encaixando peças de dominó, recomeçar.</p>
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		<title>Admirável mundo sem livros</title>
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		<pubDate>Fri, 03 May 2013 12:33:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sergiorodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pop de sexta]]></category>

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		<description><![CDATA[www.youtube.com/watch?v=jPfThpelv48 O Pop Literário de Sexta volta com o curta-metragem inglês The last bookshop (“A última livraria”), de Richard Dadd e Dan Fryer, produção independente recém-saída do forno que imagina um futuro distópico com toques de “Admirável mundo novo” e “1984”. Resta no mundo uma única – e maravilhosa – livraria. Essa notável resistência comercial [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=jPfThpelv48">www.youtube.com/watch?v=jPfThpelv48</a></p>
<p>O Pop Literário de Sexta volta com o curta-metragem inglês <i>The last bookshop</i> (“A última livraria”), de Richard Dadd e Dan Fryer, produção independente recém-saída do forno que imagina um futuro distópico com toques de “Admirável mundo novo” e “1984”.</p>
<p>Resta no mundo uma única – e maravilhosa – livraria. Essa notável resistência comercial se deve exclusivamente à teimosia do velho dono, que não vê um cliente cruzar a porta da loja há vinte e cinco anos. Até que um dia aparece por lá um garoto e&#8230; </p>
<p>Um alerta: com vinte minutos de duração, o filme tem diálogos e não está disponível em versão legendada. Atenção para o nome do Grande Irmão, que é revelado perto do final triste e pessimista (mas não completamente): GamaZone. (Via <a href="http://www.theparisreview.org/blog/2013/04/26/a-world-without-books/" target="_blank">Paris Review</a>.)</p>
<p>Bom fim de semana a todos.</p>
<img src="http://feeds.feedburner.com/~r/TodoprosaVeja/~4/cUHgsKpbnvw" height="1" width="1"/>]]></content:encoded>
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