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+0000</lastBuildDate><category>animais</category><category>sexo</category><category>pepe</category><category>religião</category><category>sabor</category><category>cadernos</category><category>férias</category><category>leitura</category><category>relacionamento</category><category>contos</category><category>discurso</category><category>twitjogging</category><category>movimento</category><category>mar</category><category>multidão</category><category>imaginação</category><category>o céu hoje</category><category>voz</category><category>galiza</category><category>fragmentos</category><category>fotos</category><category>blogue</category><category>notícia</category><category>preconceito</category><category>fragmentos ao acordar</category><category>dedadas</category><category>história</category><category>chuva</category><category>automático</category><category>desejo</category><category>céu</category><category>baú</category><category>amizade</category><category>sono</category><category>banda 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Não gosto nada da ideia do meu corpo como um vaso. Um vasilhame, que recebe a alma, provisoriamente. Não gosto do imaginário cinematográfico, em que o espírito sai do corpo, como uma versão descolorida e imaterial do corpo, ainda com as mesmas roupas. Acho que não é nada assim. Acredito na reencarnação. É uma crença, obviamente. Não digo que acredito na gravidade. Há uma teoria científica que me explica a gravidade e me apresenta provas. E, apesar de a ciência avançar e muito do que agora se sabe sobre a gravidade poder evoluir, não há nada que nos faça acreditar que algum dia venhamos a pensar, "que tolos, acreditávamos na gravidade". A gravidade não precisa da minha crença. Provavelmente, a reencarnação, se for verdade, também não. Mas não creio, embora outros creiam que sim, ser possível para já apresentar provas científicas que a comprovem.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;
Embora acredite na reencarnação, não a imagino dessa forma cinematográfica: um espírito que sai do corpo-vasilhame, para ir ocupar outro corpo-vasilhame. A crença na reencarnação é comum nas religiões orientais, em que são também comuns os ensinamentos sobre como a dualidade corpo/mente, em que vivemos e acreditamos, é fruto da nossa imaturidade, é uma ilusão, que com o crescimento espiritual se desvanece. Não consigo imaginar melhor imagem para essa dualidade que a visão de um corpo humano reduzido a um simples vasilhame orgânico para um espírito. O corpo é um simples anfitrião, um veículo e a alma/mente/espírito o hóspede. O que aqui digo, embora possa usar várias referências, apenas reflecte as minhas próprias crenças, que são o produto de uma amálgama e de um percurso próprios.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eu, que sinto a necessidade de escrever sobre estas coisas porque, como toda a gente, tenho, acima de tudo, dúvidas, prefiro, para evitar a dualidade, escolher o corpo. Porque é aquilo que conheço, aquilo de que gosto, escolho o corpo. Porque para mim, até prova em contrário, a mente acontece no corpo, escolho o corpo. O pensamento acontece no corpo. Medita-se com o corpo. Qualquer exercício, por mais transcendental que seja, por mais elevado que seja o plano de consciência a que se queira chegar, usa o corpo. Escolho o corpo, porque é o templo e o sacerdote. Não há dualidade nenhuma assim. Porque sou ainda imaturo e só consigo ver ao perto, e mal, escolho esta linguagem simples: o corpo. O que consigo tocar, por enquanto, é aquilo com que poderei dialogar. A minha linguagem será esta, a do toque, do cheiro, do abraço, do calor. E sempre que a mente produzir demasiado ruído, viajar distraída para o passado, ou sofrer antecipando o futuro, basta juntar as mãos, passar a língua nos lábios, tocar a testa, sentir a pele, lembrar o corpo. Voltar ao corpo, sempre, lembrando a própria mente que também é corpo, para&amp;nbsp; que a lucidez tenha sempre alimento. Escolho o corpo, acima de todas as ilusões, acima de todos os prodígios e delírios que o pensamento queira vender. O corpo, sempre o corpo. Para que, um dia, sabendo falar esta linguagem copórea sem gaguejar, possa abrir finalmente os olhos da alma. Para já, não sei onde a transporto, se dentro do coração, se um pouco acima do esófago, se mesmo ao lado do cerebelo, se no citoplasma de cada célula. Mas não quero perder tempo a imaginar o seu lugar. Quero usar o meu tempo com este corpo que a luz há-de beber.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-38805780358398260?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/USbVZb-3sUg" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/USbVZb-3sUg/prefiro-o-corpo.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2012/02/prefiro-o-corpo.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-5485452432321212763</guid><pubDate>Wed, 25 Jan 2012 16:54:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-27T19:57:15.773Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">cidadania</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desporto</category><title>as minhas duas rodas</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
No últimos dias tenho andado de bicicleta. Fico feliz com isso. No inverno sou o que, no mundo do ciclismo, se designa pelo nome técnico de, digamos, mariquinhas. Caem dois pingos de água e eu volto para trás e deixo a bicicleta em casa. O que significa que no Inverno, com os primeiros dias seguidos de chuva, acabo por abandonar a bicicleta. Quando não é da chuva, acaba por ser do frio. Ando feliz por ter voltado a pegar na bicicleta e sinto-me grato por ter dias seguidos de um inverno solerango e macio.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A minha bicicleta é uma bicicleta de 180 euros, da marca da Decatlhon, com amortecedores à frente e atrás, uma bicicleta de montanha, embora dizê-lo assim, bicicleta de montanha ou btt, talvez seja lisonjeiro. Quando fui à inauguração da &lt;a href="http://www.velocultureporto.com/" target="_blank"&gt;Velo Culture&lt;/a&gt;, (a loja fabulosa que o Miguel Barbot abriu recentemente) estava a falar com uns amigos sobre as bicicleta utilitárias e disse algo que, ao escutar-me a mim próprio, me pareceu bizarro. Disse que gosto muito do estilo e que reconheço as qualidades e a eficência de uma bicicleta como &lt;a href="http://www.velocultureporto.com/?page_id=365" target="_blank"&gt;esta&lt;/a&gt; ou &lt;a href="http://www.velocultureporto.com/?page_id=107" target="_blank"&gt;esta&lt;/a&gt;, mas que a minha bicicleta de uso diário continuaria a ser a que tenho actualmente, ou uma do mesmo género mas melhor. Que para um uso muito específico, como ir ao pão, ou fazer um percurso em cidade em que o essencial fosse a eficiência, usaria uma&amp;nbsp;bicicleta&amp;nbsp;dessas (imaginando que teria dinheiro para adquirir duas), mas que para o uso diário iria preferir uma bicicleta de montanha com amortecedores à frente e atrás. Isto é absurdo.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O mais razoável é que uma bicicleta para um uso utilitário, para ser usada diariamente como transporte na cidade, seja mesmo uma bicicleta eficiente, sem amortecedores, leve, de pneus finos e com algumas adaptações (que dependem apenas do gosto de quem a usa) para conforto e conveniência, como guarda-lamas ou cestos de transporte. Uma bicicleta como a minha é que tem um uso específico, circunscrito, sai-se com ela quando se vai praticar desporto, ou se vai pedalar em terreno acidentado. Mas, a esta distância da conversa que tive, o que é curioso é que mantenho o que disse e apercebo-me que estou muito longe de ser um ciclista utilitário.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sempre que pego na bicicleta - &amp;nbsp;e isso ainda não se tornou algo frequente -, o que acontece emocionalmente, mentalmente, é que se acendem todas as memórias e todos os dispositivos mentais que fazem ligação com as horas que passei em cima de uma bicicleta, no passado. E que tiveram dois tipos de uso e de ambiente: lúdico e desportivo. Em criança a bicicleta era um brinquedo e durante a adolescência tornou-se uma ferramenta desportiva. Hoje, assim que desato a pedalar, sinto-me a praticar um desporto e também numa actividade lúdica. Mesmo quando ia para o emprego, vestido já com as roupas de trabalho e no trânsito matinal, era-me impossível não sentir a satisfação de miúdo que sempre senti numa bicicleta. No final de um passeio que subitamente percebo que é alto demais e não tem rampa, simplesmente salto. Eu, ao contrário de um ciclista utilitário, quando vejo que um passeio vai terminar assim, procuro-o, em vez de o evitar, porque vai dar um bom salto. Obviamente que um ciclista utilitário com uma preocupação activista nem sequer anda em passeios, quero deixar claro que tenho noção disso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Andar na cidade com a minha bicicleta, pelo menos por enquanto, é sentir que estou a percorrer um excitante campo de obstáculos. E os obstáculos são um desafio divertido, fazem parte da satisfação de pedalar. Quando penso na palavra eficiência, quando penso na eficiência que quero na minha bicicleta penso em versatilidade. Quero que a minha bicicleta se adapte a todos os tipos de pisos, que não fique danificada com um simples salto se eu encontrar um desnível de 30 centímetros, ou se, porque não sou nenhum artista das duas rodas, não conseguir evitar embater contra uma lomba ou um passeio, e não quero sentir que a bicicleta se desfaz se descer uma rua de paralelo com velocidade. E quero poder, a qualquer momento, passar do asfalto para a terra, para terreno com buracos. O meu ideal de bicicleta é, tem sido, nos últimos 20 anos, a bicicleta que tenho, com amortecedores atrás e à frente. Comprei esta, curiosamente, entusiasmado pelos meus amigos que usam a bicicleta diariamente como transporte. Mas quando fui a uma loja, nem me passou pela cabeça comprar outro tipo de bicicleta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Na minha cabeça a bicicleta é algo de romântico, que me traz liberdade, me amplia a capacidade de mover através do espaço. Quando pedalo não sinto que estou em cima de um meio de transporte, como num carro ou num comboio. Um comboio quer-se confortável, amigo do ambiente, eficiente. Os transportes, sim, penso neles como eficientes, a todos os níveis. Só muito recentemente percebi que há milhões de pessoas que pensam na bicicleta nesses termos. Pensava que só os ciclistas desportivos e os fabricantes de bicicletas é que pensavam na performance e usavam essa linguagem. Eu sempre vi a bicicleta como um meio de exercer esforço e, até, um pouco longe desse conceito da eficiência. Na minha adolescência, sempre que pegava na bicicleta o que eu fazia com ela deixava-me por vezes próximo da exaustão - &amp;nbsp;e absolutamente feliz. Quando comprei esta, foi ainda quando estava em processo de emagrecimento (agora estou mais ou menos estabilizado, embora queira perder mais uns quilos). E quando pensei que os pneus grossos e nada lisos iriam aderir ao asfalto e torná-la mais lenta e os amortecedores iriam criar um balanço nada eficiente, rapidamente fiz uma habilidade lógica para desculpar a minha compra ilógica - "porque vou ter de me esforçar mais, gasto mais calorias, e isso ainda é melhor, faço mais exercício". Estou longe, em resumo, de ver a minha bicicleta como um meio de transporte. Vejo o facto de ela me transportar como uma imensa vantagem. Pego nela porque me divirto imenso, porque me faz sentir bem. Poder sentir o que sinto, a caminho do sítio para onde tenho de ir, é um privilégio.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
É com alguma preocupação mas também sem grande alarme que vejo que não estou, por vocação, em sintonia com os meus amigos mais activistas nisto do uso consciente da bicicleta. Partilho das suas preocupações em relação à mobilidade das pessoas e eles&amp;nbsp;contribuíram&amp;nbsp;muito para a minha educação quanto ao que pode ajudar à melhoria da qualidade de vida nas cidades. Sei que procuram promover o uso das bicicletas, e um uso cívico e informado, porque conhecem o bem que fez, noutras cidades de outros países, que uma boa parte da população urbana adoptasse a bicicleta como meio de transporte principal. Eu, que sou dono de um veículo de duas rodas sem motor, para já, ainda sou como um puto a quem deram um brinquedo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-5485452432321212763?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/EcfPO3m7OjA" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/EcfPO3m7OjA/as-minhas-duas-rodas.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2012/01/as-minhas-duas-rodas.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-1132476322665702513</guid><pubDate>Mon, 09 Jan 2012 14:12:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-01-09T14:14:04.200Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">pensamento</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><title>falar demais, escrever de menos</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há uma solidão que é irremediável. Não havendo cura, há um paliativo: a escrita. Falo naturalmente muito. Em alturas em que escrevo pouco, falo demais. Esta solidão de que falo não tem a ver com estar-se só, com o abandono, com falta de amigos ou de companhia. E, no fundo, há um conflito interno que alimento: gosto dela, tenho-lhe afeição, mas quero acreditar que tem cura. Escrever é, ao mesmo tempo, alimentá-la e tentar derrotá-la.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Isto de querer ser escritor é, creio, querer ser lido. Quando digo que falo demais quando ando a escrever pouco é porque, creio, ando em fase em que tenho poucas oportunidades para me expressar. O que tenho dificuldade em explicar, nesta minha solidão, é que, mais importante do que as ideias que eu tenha para expressar, é a vontade, o impulso, a necessidade de me expressar. Isso faz toda a diferença. Numa conversa equilibrada, num diálogo com um amigo, os dois falamos e escutamos, damos e recebemos. Quando alguém tem o infortúnio de me apanhar numa dessas alturas em que estou verborreico e carente, eu só quero dar, quero expressar. E apenas isso: expressar, nada em particular - embora fale de coisas muito específicas. &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Num diálogo produtivo as duas pessoas querem transmitir mensagens específicas, geralmente com simplicidade, há menos ruídos, e os dois escutam-se. Mas, no fundo, a linguagem verbal é o menos importante. O que quer que digam, por palavras, são as emoções, os gestos, o tom de voz, as expressões faciais que estão realmente a comunicar. E dizem, tenho empatia por ti, escuto-te, sinto o que estás a dizer, escuta-me, percebo-te, isso tem piada. Passam mensagens muito simples, de teor sobretudo emocional, empático. Já num dos meus monólogos que despejo sobre alguém, o que quero transmitir é sobretudo a urgência que tenho em me expressar, é, no fundo, uma mensagem muito simples, preciso de dizer coisas, estou só, quero gritar, não ando a escrever e sinto que vou rebentar, não tenho quem me ouça, estás aqui à minha frente e não me aguento. Mas, o que acontece é que, ao contrário de um diálogo, em que há empatia e toda a linguagem não verbal liga as duas pessoas, perde-se essa ligação. A pessoa à minha frente está a enviar-me sinais de que não está interessada, através dos gestos, e emocionalmente não estamos em sincronia. O que passa é apenas verbal - com um&amp;nbsp; reforço emotivo, pela intensidade com que digo as coisas -, e trata-se de uma divagação minha sobre determinado tema. Para a outra pessoa é, penso, aborrecido e irritante e até bizarro que um tema, por vezes um tema claramente menor, possa provocar-me tão grande excitação. E a intuição dessa pessoa está correcta.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que me tem faltado é simples. Escrever. Acredito, quero acreditar que esta solidão, que se trata de saber que nunca, nunca terei um interlocutor, tem cura. Como todas as carências, o que é necessário é tratar de mim, para que eu deixe de sentir essa carência. E não ver a carência como se fosse uma sede natural e eu precisasse realmente de beber. Ou seja, eu, na verdade, por muito que me custe, por enquanto, aceitar isso, não preciso realmente de um interlocutor. Preciso é de crescer, para que não haja um turbilhão de ideias em guerra dentro de mim e a minha mente seja um lugar tranquilo de onde possam erguer-se pensamentos límpidos. A dificuldade que sinto é que me agradam estas tempestades mentais. A solidão de navegar através dessas tempestades é agreste, é verdade. Mas ainda tenho apego a uma ideia romântica de mim enquanto o escritor solitário que enfrenta o fardo e pensa o mundo, carregando o mundo turbolento do seu pensamento. Tenho medo de que se acabe a solidão e também o vento que impulsiona a vela. E fique o barco parado no meio de um belo mar calmo e desolado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-1132476322665702513?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/enjRuZGaV3I" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/enjRuZGaV3I/falar-demais-escrever-de-menos.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2012/01/falar-demais-escrever-de-menos.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-4396809473474811437</guid><pubDate>Tue, 27 Dec 2011 14:47:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-27T14:48:47.720Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desporto</category><title>desporto, competição e arte</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quem já me ouviu falar do que gosto muito no desporto, provavelmente já me ouviu falar do &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Chinlone" target="_blank"&gt;Chinlone&lt;/a&gt;, que é o desporto nacional da Birmânia. É um caso de estudo interessantíssimo para o contexto desta crónica. É que trata-se de um desporto de equipa com bola, com mais de 1500 anos, sem competição. Não existe equipa adversária. E não existe pontuação, nem vencedores, nem vencidos. As equipas sucedem-se, mas não existe nenhum sistema de classificação, que determine que uma equipa teve uma performance melhor que as outras. Este vídeo é um&amp;nbsp;excerto do filme &lt;a href="http://www.mysticball-themovie.com/" target="_blank"&gt;Mystic Ball&lt;/a&gt;, documentário sobre este desporto, e dá uma ideia sobre o tipo de movimentos dos praticantes e sobre a dinâmica que se estabelece entre os elementos de uma equipa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eu não tenho, espero, a atitude desconfiada e moralista de quem considera o desporto de competição inferior ao desporto que é praticado por outras razões. No surf, por exemplo, existe a expressão "soul surfer", amplamente discutida e rejeitada por muitos, para referir os que supostamente praticam surf por amor ao mar e à modalidade e por uma vocação quase espiritual, por oposição aos surfistas profissionais, "vendidos" ao circuito competitivo, aos patrocinadores e às exigências do calendário e dos sistemas de pontuação e de classificação de manobras e estilo. Eu, ao falar aqui de competição e de não-competição, não quero ir por aí. Da boca de surfistas que admiro, como o Laird Hamilton, que menciono muitas vezes, já escutei várias vezes que esse preconceito não faz sentido. Ele já surfou várias vezes com o Kelly Slater e com o Rob Machado (dois nomes grandes do circuito profissional) e garante que são dois surfistas apaixonados pelo mar e tão "soul surfers" como ele ou qualquer amante do mar e que o facto de competirem, no caso deles, permite-lhes fazerem o que mais gostam de fazer na vida.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Chinlone faz a ligação entre as artes marciais e os desportos de bola com equipa, que, nos dias de hoje, geralmente nos apresentam alguns dos atletas mais bem preparados, quer a nível físico, quer a nível mental, quer táctico, quer ao nível dos automatismos de equipa. Nas artes marciais, também encontramos atletas de um nível físico e mental excepcional. O que geralmente acontece é que não é necessário nenhum estímulo competitivo (no sentido de haver campeonatos organizados) para que surjam atletas com esse nível excepcional. No futebol, no basket, no râguebi, o que dizemos - e penso que com alguma razão - é que campeonatos competitivos produzem mais talento e estimulam bons níveis técnicos; sem eles não teríamos atletas como o Cristiano Ronaldo ou o Michael Jordan. No caso do Chinlone há uma ponte. Porque, embora não haja pontos, classificação, nem vencedores e vencidos, os praticantes estão expostos ao nível dos melhores. Já nas artes marciais, o caminho, a progressão, é mesmo individual. É uma aprendizagem de disciplina, de esforço do indivíduo, em que existe o apoio dos companheiros e a orientação do mestre, mas em que não é o ambiente competitivo (e muito menos o apoio dos adeptos ou a esperança do reconhecimento e da glória) que estimula o crescimento técnico. E a excelência acontece. Os melhores das artes marciais surpreendem-nos, mostram-nos que o corpo humano é capaz de coisas impensáveis.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Aqui interessam-me sobretudo as pontes. No surf, no skate, nas duas rodas, existem imensas pontes entre as competições e o que os praticantes fazem fora das competições. Uma competição tem sempre limitações. Já o disse, não vou falar de purismos, de vender a alma a patrocinadores. É mais do lado técnico. Quando se tem de inventar uma forma de classificar e atribuir uma pontuação a movimentos que começaram por ser muito livres, como movimentos com uma prancha de surf ou de skate, ou movimentos com uma bicicleta, está-se a condicionar o que o atleta vai fazer. Quando se tem uma estrutura e uma filosofia em termos de pontuação, todo o treino e a evolução técnica dos atletas é orientada para se encaixar nessa estrutura. No documentário &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0275309/" target="_blank"&gt;Dogtown and Z-boys&lt;/a&gt;, sobre a equipa de skaters Zephyr, dos anos 1970, é possível ver esse choque. Essa equipa reinventou o skate, ou quase se poderia dizer inventou o skate como o conhecemos hoje. No documentário podemos ver como foram recebidos os seus movimentos inovadores nas primeiras competições em que participaram. Tiveram pontuações péssimas, eram vistos como miúdos que não entendiam o que eram o skate e não queriam dar-se ao trabalho de fazer o que os melhores da actualidade faziam. As pontuações que recebiam (a princípio) eram de esperar. Não havia forma de classificar os movimentos que tinham inventado (e que agora são os movimentos clássicos do skate). O que eles trouxeram para as competições foi fruto de várias coisas: da sua experiência como surfistas - por isso andavam a tentar surfar no asfalto -, da sua experiência de andar de skate em condutas de água, na rua em em todo o tipo de percursos urbanos e de uma cultura de andar sempre com a prancha de skate e de um certo espírito competitivo entre eles, que os fazia querer apresentar aos colegas um movimento inovador. O que levaram às competições foi inteiramente novo. Não tentaram fazer os movimentos para os quais já havia nome e classificação - antes levaram o que tinham desenvolvido eles mesmo na sua experiência de skaters e - isto é muito importante -, cada um deles tinha uma técnica muito distinta, algo muito marcado numa altura em que a modalidade estava a dar os primeiros passos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nestas modalidades de perícia individual isto está sempre a acontecer. E.até é bom que os puristas&amp;nbsp;dêem&amp;nbsp;crédito às marcas. São os patrocinadores que ajudam, muitas vezes, a que isto aconteça. São eles que produzem vídeos, a anunciar um novo modelo de patins em linha, ou de sapatilhas para skate, ou de bmx, ou que pagam mesmo uma viagem ao Alaska, para a sua equipa de snowboarders ir descer uma encosta, ou uma semana numa montanha para a sua equipa de btt ir fazer freeride. Isto, que para as marcas é promoção, para as modalidades é ouro. Nestes fins-de-semana, nestas saídas, tal como em todos os momentos não patrocinados, e em todos os casos em que os atletas sem patrocínios (e até com dificuldades económicas) não estão a competir, é tudo liberdade e expressão. Surgem movimentos novos, que não são apenas, mas também são, manobras novas. São aperfeiçoadas a técnica, as transições, as combinações, a fluidez, a parte puramente física, e o que escapa sempre a qualquer sistema de pontuação mas que é, paradoxalmente o ADN destes desportos individuais, o lado artístico, o da expressão individual, próximo da dança, em que o que se faz com o corpo é único e se desenvolve ao longo da vida e continua sempre a fazer sentido, mesmo quando, em idade mais avançada, faltando algum vigor físico (que na competição é imperioso), ainda é possível expressar com uma linguagem tridimensional que não é puramente visual. Porque, para quem pratica, implica um corpo de sangue a ser bombeado, de músculos em actividade, de articulações, de cálculos infinitesimais de distâncias e subtilezas, de mediação entre esforço e graciosidade, de química entre intensidade e suavidade. E porque, para quem vê, é óbvio que o que está à nossa frente é um organismo vivo e não é um organismo vivo qualquer, é o corpo de um ser humano como nós; sabemos que alguns daqueles movimentos estão ao nosso alcance, outros estariam se treinássemos, outros dificilmente. Mas todos esses movimentos, quando deles somos testemunhas, deles participamos, não apenas como um espectáculo visual, plástico, mas como um evento físico, tridimensional e orgânico, químico, material. O nosso sistema nervoso central, os nossos neurónios espelho, o nosso coração mais acelerado, as nossas emoções, a nossa empatia, fazem com que façamos parte do que está a acontecer ali. Isto acontece pela expressão corporal, tal como acontece com a dança. E é, para mim, mais forte ainda do que as emoções de torcer para que a minha equipa ganhe.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-4396809473474811437?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/WL1hmB70Yds" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/WL1hmB70Yds/desporto-competicao-e-arte.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/12/desporto-competicao-e-arte.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-6371543724534538723</guid><pubDate>Mon, 19 Dec 2011 12:15:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-20T12:20:54.456Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">amizade</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">arte</category><title>der spleen</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
alguma coisa mudou dentro de mim. depois de apresentar o der spleen com a Sandra Andrade e o Hugo Loureiro no Museu Nogueira da Silva, alguma coisa mudou. só agora começo a perceber. 2010 foi um ano muito difícil. com salários em atraso e coisas para fazer depois do horário de expediente, mais importantes que o emprego, tive de enfrentar a minha habitual personalidade procrastinante. trabalho com amigos há alguns anos. trabalhar com outras pessoas é óptimo. sozinho é bem mais fácil desistir das coisas, porque não há responsabilidade partilhada. mas depois do der spleen, mudei, não sei bem como, nem em quê. há uma forma de enfrentar a execução das coisas, um ir em frente resoluto que não é novo, nem é fruto de nenhum tipo de revelação ou de algum tipo de epifania extraordinária. algo que sempre esteve cá, mas que precisava de ser acordado, ou de ginástica, ou de que eu lhe entendesse o mecanismo. a verdade é que eu não lhe entendo o mecanismo, nem sei se é um mecanismo. sei que não há spleen, boredom, ennui ou tédio que me pegue. e keine angst me tolhe os movimentos, desde me levantei da cadeira de rodas para caminhar de saltos altos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-6371543724534538723?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/W_1ioV5k87Y" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/W_1ioV5k87Y/der-spleen.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/12/der-spleen.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-891132211206348842</guid><pubDate>Thu, 15 Dec 2011 13:46:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-15T14:18:23.831Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">corpo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desporto</category><title>primeiro o corpo</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
isto talvez ajude a contextualizar a anterior crónica. para mim o ioga, o kung-fu, o bailado, o surf, o sexo tântrico, o sepaktakraw e o futebol fazem parte de uma mesma coisa. e quando falo de uma destas actividades em particular, é sempre ao mesmo que me refiro. ao prazer que tenho em falar do corpo humano, dos seus movimentos, dos seus músculos, da sua agilidade, da plasticidade com que atravessa o ar. e de uma sensualidade mais ou menos subtil que existe quando exercemos o nosso corpo em todo o seu esplendor físico, concreto.&amp;nbsp;é isto que me interessa, sobretudo, no desporto. e foi isto que tive em mente na crónica. como são os atletas que dedicam toda a sua vida à prática das artes do movimento do corpo humano, são apenas eles que me interessam. e interessam-me, obviamente, os movimentos que eu próprio faça com o meu próprio corpo. mesmo muito.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-891132211206348842?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
&lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:yIl2AUoC8zA"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?d=yIl2AUoC8zA" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:gIN9vFwOqvQ"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?i=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:gIN9vFwOqvQ" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:7Q72WNTAKBA"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?d=7Q72WNTAKBA" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:qj6IDK7rITs"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?d=qj6IDK7rITs" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:oV1tRVcCgu4"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?i=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:oV1tRVcCgu4" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?a=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:V_sGLiPBpWU"&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~ff/Troblogdita?i=4aT7gF6q6cE:i-owyZ0a7O0:V_sGLiPBpWU" border="0"&gt;&lt;/img&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/4aT7gF6q6cE" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/4aT7gF6q6cE/primeiro-o-corpo.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/12/primeiro-o-corpo.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-622354982060438931</guid><pubDate>Wed, 14 Dec 2011 18:01:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-12-15T13:33:01.922Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desporto</category><title>adepto, nunca</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Gosto de comparar o golfe com o remo e o skate com o râguebi. Começo assim para que saibam que absurdos são de esperar e saiam já sem mais escândalo. Se, algo intrigados, permanecerem, lembrem-se da frase inicial desta crónica - que, concedo, não me iliba de nenhuma opinião aqui apresentada.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Desde a adolescência que venho desenvolvendo um crescente gosto pelos desportos individuais de perícia. Como o surf e o skate. Mas fui praticante de desportos de equipa com bola, como o basket e o voley. Cresci a dizer, com alguma arrogância ingénua (que mais tarde continuou a ser arrogância mas já sem ingenuidade) que não gostava de futebol. Agora compreendo o alcance de quando se pergunta (e quando se responde a) "gostas de futebol?". Não é o mesmo que perguntar, "gostas de esgrima?". Pelo menos em Portugal.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando alguém pergunta, "gostas de futebol?", ou para que se perceba melhor, quando alguém responde "não gosto de futebol", não está a dizer, "não gosto daquele desporto em que duas equipas de 11 jogadores cada, num relvado de cerca de 100x70 metros, lutam pela posse de bola, tentando marcar mais golos que a equipa adversária". Não. O que quer dizer é que não gosta da cultura futebolística. E até se adivinha que naquele, "não gosto de futebol" há coisas específicas da dita cultura de que não gosta. A saber, do culto à volta dos jogadores de futebol e dos seus salários milionários, das cumplicidades entre dirigentes e poder político local, da demasiada importância que se dá ao fenómeno e até a uma certa narcose social em momentos de crise, da histeria nacionalista mais ou menos naif quando joga a selecção nacional e outras coisas. É como se não gostar de futebol fosse tudo menos não gostar de futebol. Não gostar de esgrima é simplesmente não gostar de esgrima. E isto é algo que pude verificar junto de alguns amigos. Tenho amigos que gostam de futebol e amigos que não gostam de futebol. E experimentei perguntar aos que não gostam de futebol o que queriam eles dizer com isso, e é como acabei de explicar: eles não têm nada, absolutamente nada contra o desporto. Num exemplo muito próximo, uma amiga minha, que não gosta de futebol, até jogou futebol quando era miúda. Ela não gosta de futebol nesse sentido da cultura do futebol. Quando perguntei aos meus amigos que gostam de futebol, eles concordaram que era assim, geralmente é disso que se trata, de uma rejeição do, digamos, mundo do futebol em geral, não do desporto. E no meu caso, era também isso que eu rejeitava, acima de tudo, com a minha arrogância. O que me aconteceu, entretanto, é que passei a gostar do desporto. Não estava nada à espera disso. Vi alguns jogos de futebol simplesmente sensacionais. E vi que ali, naquele relvado enorme, podiam acontecer coisas realmente incríveis.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas isto, enquanto cada vez gostava mais de desportos individuais. Desde miúdo que digo que sou do Sporting. Não levo isso muito a sério. Devo isso, e quando digo devo é porque me sinto mesmo grato, em dívida, aos meus pais, que são do Porto, sem o levarem muito a sério e nunca me fizeram aquela coisa irritante que se faz às crianças pequenas, "qual é o clube mai lindo do mundo, qual é?". Cresci sem ter adultos a educarem-me numa cultura clubista, em que um clube de futebol fosse coisa importante, parte da minha identidade, algo que me constituísse, que se me fosse retirado me deixaria incompleto. Estou imensamente grato aos meus pais por me terem educado com essa enorme liberdade. Devo dizer, em relação ao parágrafo anterior, que de toda a cultura do futebol e - porque esta crónica é sobre o desporto e não especificamente sobre o futebol - dos desportos de equipa é esta a parte que me aflige mais. Não os salários milionários. Não a corrupção dos dirigentes, que penso ser terrível mas é assunto da política e do poder económico e não coisa específica do desporto. Não o culto das celebridades, que, de novo, não é específico do desporto. É mesmo a parte dos adeptos. E é aqui que costumo pôr-me a jeito de apanhar porrada. Porque é costume dizer-se mal do avançado que ganha milhões e chuta ao lado, mas dizer mal do adepto que ganha o salário mínimo e paga a custo um bilhete caríssimo para ir ver o seu clube do coração e durante duas horas esquecer as agruras da vida e viver colectivamente toda uma palete de emoções com gente da sua cor... isso já parece coisa de quem não tem vergonha na cara ou noção do que está a dizer.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A minha intenção aqui não é dizer mal dos adeptos. É falar de desporto. Na minha visão romântica do desporto nem sequer há adeptos. Por isso, tudo o que possa dizer sobre os adeptos que existem, vai soar muito mal. Mas não posso, de maneira nenhuma, pedir desculpa por isso. Porque, usando linguagem romântica, me apaixonei por esse desporto chamado futebol há uns 10 anos, tenho de levar com a cultura do futebol. Porque sou o tal tipo que compara golfe com esgrima, não consigo mesmo evitar pensar em coisas absurdas, como futebol sem adeptos. Sim, esta é outra deixa para que, quem queira fazê-lo, se sinta compelido a abandonar o texto aqui. Seguem-se as minhas ideias peregrinas sobre desporto.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que quero dizer sobre futebol sem adeptos não é que o desporto não teria adeptos, idealmente. Isso seria muito triste e mesmo impossível, numa modalidade com momentos tão espantosos como o 4-1 do Porto - Lazio da era Mourinho para a Taça Uefa ou o 5-4 Do Barcelona contra o Atlético de Madrid de há uns 10 anos. Vou fazer uma das minhas comparações. Um dos meus atletas favoritos é o Laird Hamilton. Que eu saiba, nunca entrou em competições, mas não posso jurar porque isso não é importante e eu não sou fã, por isso não sei a história detalhada da vida dele. Mas é uma figura importante para o surf. Ajudou a criar e a desenvolver o tow-in surf, juntamente com o Keith MacNamara (que recentemente surfou uma onda gigantesca no Canhão da Nazaré) e mais alguns. Foi ele que inventou o foil-surf e nos últimos 15 anos tem feito pela modalidade no seu todo, pelo surf, e pelo surf em ondas grandes em particular, um trabalho incrível. Tem-no feito enquanto atleta, a surfar. Quero deixá-lo claro. Não o faz enquanto personalidade, ou conferencista, mas enquanto atleta. Ele impulsionou a modalidade, reinventou-a várias vezes. Nos últimos anos ressuscitou o stand-up paddle surf, por exemplo, tornou-o moda. Ele é um atleta incrível, tem 47 anos e tudo indica que tem ainda uma longa carreira à sua frente. O seu preparador físico, Don Wildman, já passou dos 75 anos e está rijo (fez tow-in surf pela primeira vez, depois de Hamilton o convencer, já depois dos 70 e os dois conheceram-se porque Hamilton viu Don Wildman a fazer snowboard e foi falar com ele para lhe elogiar a técnica). Eu admiro o Laird Hamilton. Mas nunca diria "eu sou do Lard Hamilton". No entanto eu digo "sou do Sporting". E digo-o com diferentes graus de admiração em relação à equipa de futebol do Sporting. Actualmente a equipa de futebol anda a jogar bastante bem. Mas nem sempre é assim. É este o ponto a que quero chegar. O adepto de um clube é adepto do clube. Não é adepto da modalidade, ou é-o, mas primeiro é adepto do clube e depois da modalidade, mas não é adepto da equipa, que é coisa transitória. É disto que não gosto. E é aqui que choco com a cultura à volta dos desportos de equipa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O desporto, e lembro que só estou a falar de desporto, é feito dos desportistas. Os adeptos dos clubes gostam imenso de fazer-lhes sentir que estão ali de passagem, quando as coisas correm mal, que o clube é centenário, que é coisa maior do que eles. É isto que me aflige. É que uma instituição como um clube é realmente mais importante que um médio ofensivo, por mais caro que seja, que um bota de ouro, que um Eusébio. E, escândalo dos escândalos - para mim - pertence aos sócios. Há toda a legitimidade em que uma associação desportiva, ou qualquer outra associação pertença aos seus sócios. A questão aqui, para mim, que estou a falar de desporto, é que tudo fica de pernas para o ar. São os adeptos que são os donos do clube. E eu, atenção, não estou a pôr isso em causa. Pelo contrário. Estou a dizer que é mesmo assim e que é essa a causa da minha aflição. Eu nunca poderia ser dono do Laird Hamilton. E ainda bem. Nunca poderia ser dono de um jogador de golfe, ou de um skater, ou de um par de patinadores no gelo. Mas os adeptos sentem-se e são, de facto, donos da equipa de futebol, do clube de que são sócios. Quando os jogadores da sua equipa jogam mal e, aparentemente, é porque não se aplicam, os adeptos/sócios sentem-se defraudados. Mais ainda do que um patrão. Porque não é simplesmente uma relação de empregador/empregado, um clube é uma instituição com um imenso valor simbólico, tem um passado, representa para os seus sócios uma série de valores, em que a honra, a combatividade, a coragem de enfrentar as adversidades, de ganhar os desafios contra adversários à partida mais fortes, de erguer a bandeira, de representar a região, do amor à camisola, de tudo isso está em jogo, sempre que se entra em campo. Não é&amp;nbsp;brincadeira&amp;nbsp;nenhuma&amp;nbsp;vestir a camisola do clube. Se o Laird Hamilton, ou um skater, ou um jogador de golfe tiver saído até mais tarde na noite anterior, ou estiver num dia mau, e a sua performance for má, e eu estiver a ver, posso ficar desiludido, mas não levo, nem eu nem ninguém, aquilo a peito. Não é algo que me fizeram a mim, à minha honra, à minha cor, à minha camisola. É isto que me aflige. Num desporto de equipa em que há uma legião de adeptos/sócios a seguir um clube - a constituir, como se diz com toda a propriedade, a "massa associativa" de um clube" - os jogadores apenas estão transitoriamente na equipa e os adeptos são infinitamente mais importantes que os desportistas. Fica tudo do avesso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Isto acontece em geral com os desportos de equipa. E acontece em particular com qualquer desporto de equipa que seja mais popular e que tenha um campeonato minimamente competitivo (bastam duas ou três equipas para haver já rivalidade e identidades bem definidas, por confronto). E é natural, até a mim me acontece. Eu projecto-me no que acontece dentro do campo. Os jogadores combatem por mim. É como se suassem por mim e eu vivesse por eles, emocionalmente, o que eles vivem fisicamente. Eles vestem a cor que simboliza o lado com que eu me identifico. É natural que, se isto se tornar um fenómeno de muita gente, a coisa adquira uma grandeza espantosa. Mas tudo isto tem muito pouco a ver com o desporto. Repito-o, porque, para mim é mesmo importante. Ver bailado tem pouco a ver com bailado. Ver um filme com o Lard Hamilton não é surf. Ir ao estádio Alvalade XXI não é futebol. Desporto é praticar desporto. Simples. Quem gosta de desporto (e penso que todos os adeptos gostam, à sua maneira, e a maioria até gosta muito), é porque vive intensamente (com a ajuda das emoções e dos neurónios espelho) o que a biomecânica e a inteligência dos atletas exprime, o que a estratégia e o colectivo estruturam e tornam complexo e o que o confronto entre as equipas torna tão interessante e entrópico, potencialmente caótico, no limite entre o aleatório e o previsível, sempre à beira da úlcera dos treinadores. Mas isso, ainda assim, não é desporto. É assistir, é emocionarmo-nos com o desporto dos outros. Desporto é praticar desporto.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não proponho que se acabe com os clubes. Pelo contrário. Que fique tudo como está. Mas sou um verborreico inveterado. E a maior fonte das minhas divagações é a minha lista de birras. Tenho uma birra com este assunto. Quem visita o blogue, já o sabe. E não foi a última vez que falei disto. Na próxima crónica provavelmente irei falar de como prefiro uma equipa, completamente orientada para e por atletas, e darei exemplos de modalidades em que isso acontece naturalmente - felizmente não preciso de inventar ou imaginar nada. Não gosto da figura do adepto (entenda-se, adepto do clube, como por exemplo eu, sportinguista). Gosto muito, muito de desportistas. Porque são quem pratica desporto, que é actividade de que gosto bastante. Não gosto nada de como os adeptos vêm os desportistas, num estádio, como macaquinhos amestrados, muito caros, que fazem habilidades muito elaboradas, que no entanto têm de ser eficazes, além de entreterem. E de como as equipas são apenas um aglomerados de talentos transitórios que representam uma instituição que é muito maior que os desportistas, e que agregam uma série de coisas simbólicas, que une toda uma nação de adeptos da mesma cor. Aliás, gosto pouco do simbólico. Gosto do concreto do suor, do movimento, da força dos músculos, da agilidade. E de que sejam, sempre, sempre os desportistas os protagonistas, sem dono.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-622354982060438931?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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Haja dinheiro para pagar uma renda e comprar comida. Se houvesse já casa e alguma comida se arranjasse da que se plantasse, então talvez nem fosse preciso tanto dinheiro. Haja o dinheiro necessário para se pagar as contas. A vida neste século é negociar-se o tempo. Quanto tempo queremos, podemos, temos de abdicar para ganhar o dinheiro que precisamos para usufruir do tempo que nos sobra.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quanto a ocupar o tempo, geri-lo, sabê-lo e fazê-lo precioso, é comigo. Dos que lidam com o dinheiro, dos que estão dispostos a comprar-me o tempo, em troca do meu trabalho, só preciso que me digam quanto tempo querem e que tarefas precisam, que até sou moço bastante versátil, experiente e com uma aptidão enorme em aprender coisas novas.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há muito que me deixei de dramas. Não preciso que o tempo gasto a ganhar dinheiro coincida com o tempo em que acontecem os grandes momentos da minha vida. Em que me realizo plenamente e sinto o fulgor da felicidade. Sei aplicar-me e atingir objectivos. Sei fazer coincidir a minha necessidade de sobreviver e ganhar sustento, essa imensa motivação, com a necessidade de quem me emprega em ver cumprida a tarefa e os objectivos contratados.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A vida, simples ou complicada, acontece a cada instante, seja qual for a filosofia com que a expliquemos. Hajam amigos, eventos e ferramentas com que exercer a criatividade. Haja tempo, não o gastemos todo no afã de ganharmos dinheiro para podermos viver. Haja onde dormir e o que comer. Cuidadas as necessidades primárias, podemos passar à conjugação da felicidade.&amp;nbsp; Financeiramente frugais, mas abastecidos de vigor, temos afiada a atenção ao momento ali presente, ao instante em que vivemos. Porque não estamos na precariedade de quem faz tarefa ingrata que só tem sentido uma vez por mês, mas, muito pelo contrário, executamos algo que se realiza em si mesmo, e nos satisfaz inteiramente. O que Csíkszentmihályi chama &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Flow_%28psychology%29" target="_blank"&gt;Flow&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-8722211480159027942?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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Talvez não seja tão estranho assim. No que toca à criação artística, 2011 tem sido o melhor ano da minha vida. Dizê-lo assim, numa frase clara e inequívoca, sabe-me particularmente bem porque em 2011 trabalhei sobretudo fora da área em que poderia sentir-me mais confortável, a escrita. Apresentei, com a Sandra Andrade e o Hugo Loureiro, o espectáculo "Der Spleen". Com o Rui Almeida e a colaboração da Maria Oliveira, editei o álbum "glass over water under light". Com estes dois amigos, vou apresentar no próximo dia 17 o espectáculo sonoro "Vidro Água", que terá já consideráveis evoluções em relação ao espectáculo original que foi apresentado na Casa do Professor. Organizo com o Nuno Gomes Lopes, e anteriormente também com o Afonso Pimenta, as Conversas no Tanque.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Estas são algumas das acções públicas de maior fôlego, os projectos com rosto mais visível. Mas desde há dois anos que se tem concretizado, de forma deliciosamente fragmentada, a natureza irrequieta da minha criatividade. Ter amigos com uma imaginação que se traduz de forma prática ajuda-me muito a passar à acção, em vez de me ficar só pelo rebuliço mental das ideias. Elencar, no parágrafo anterior, algumas das coisas que tenho feito, é muito importante para mim. 2010 foi um ano desastroso em termos financeiros, em que acumulei salários em atraso, e o que ganhava, se me pagassem, era o salário mínimo. E 2011 o ano em que tudo culminou num despedimento, sem que tenha direito ao subsídio de desemprego. Estes dois anos foram também o culminar de um percurso de uma década de transição, desde o curso de jornalismo, do desejo vago de escrever e do contacto cada vez maior com pessoas ligadas à expressão artística. Principalmente nos últimos quatro anos, fui muito estimulado por esse contacto com a criatividade dos outros. Se fui perdendo capacidade de me sustentar, e no emprego tudo se foi degradando, fora do emprego as coisas iam melhorando, o trabalho foi sempre surgindo, de um projecto nascia outro, um amigo apresentava-me outro, de uma ideia que não resultava surgia a ideia de experimentar uma solução diferente.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não, não é assim tão estranho. O dinheiro não me comanda a vida. O dinheiro paga as contas. E é só. A vida não me corre mal. Sou precário, se pensar nessa parte da minha vida, e trata-se de uma parte importante. Mas tudo o resto é robusto e saudável. A minha rede de afectos e as minhas relações familiares não são precárias. Tenho uma vida estimulante. E o ano de 2012, ainda falta mais de um mês para começar, já está bastante preenchido. Acredito que será um ano muito bom, de facto, não me lembro de ter, antes de um ano começar, tão bons motivos para estar optimista. Pode parecer estranho, mas não é. Fui despedido, mas acaba por ser um pormenor. É um pormenor preocupante, mas é um pormenor.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-1957156758331978534?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/VkfsPDgRQtc" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/VkfsPDgRQtc/o-pior-e-o-melhor.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/11/o-pior-e-o-melhor.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-8621362342534601399</guid><pubDate>Fri, 25 Nov 2011 13:29:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-11-25T16:15:13.507Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>quero não ter por que lutar</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não quero uma ditadura, uma guerra, uma crise, para ter então por que lutar, para me poder então unir ao meu semelhante e, juntos, resplandecermos no nosso melhor. Não quero descobrir, na miséria, a gloriosa capacidade de partilhar o último naco de pão, a generosidade de quem não tem nada, a empatia pelo que sofre a mesma opressão que me aflige. Não quero sentir na pele a urgência de ter que lutar para sobreviver.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
E nunca vi na política nenhum vestígio de emoção, dessa emoção de coisa que nos alimenta o espírito, nos lambe as feridas da existência, nos dá sentido às questões mais incómodas e um rumo para as batalhas inadiáveis. A política é um veneno que me contamina. Tudo o que faço, todas as decisões que tomo em sociedade e as que, por descuido ou falta de cidadania, omito, são políticas. A política é inevitável. Não é coisa desejável.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A miséria há-de sempre surpreender-nos a meio do conforto e o sofrimento é uma das verdades fundamentais da existência. Nunca me hão-de apanhar a fazer a apologia do guerreiro, só porque ele luta pela paz. Faço a apologia da paz e não a exaltação das virtudes do guerreiro -&amp;nbsp; que defendo dever ser o mais temporário possível. Se temos de lutar, que o incómodo, a dor que nos causa ter de o fazer, nos motive ainda mais para que sejamos eficazes e ferozes. Não vejo esta crise como uma oportunidade, detesto esse tipo de linguagem. Estar numa caverna não é uma oportunidade de encontrar uma luz ao fundo do túnel. É estar na merda de uma caverna, à procura de uma saída. E a vida é lá fora. Procurar a saída, bater com a cabeça no escuro, não é ainda vida. Sei que os combatentes, muitas vezes, recordam os momentos em que lutaram como os melhores da sua vida. Tenho todo o respeito do mundo por isso. A questão é que a humanidade deve mostrar a sua gratidão aos guerreiros das boas causas; mas a vocação da humanidade não é - parece-me natural - ser toda ela guerreira, a toda a hora, para toda a eternidade. Os que ocupam Wall Street, os que fazem greve, os que fizeram o 25 de Abril, os que pegaram em armas para derrubar uma ditadura, de certeza que não queriam que todos os dias de todos os seres humanos, para sempre, fossem assim, por muito que ali vivessem a solidariedade em abundância e a luta pelo bem comum. O que eu digo é que a luta de todos eles é para que não seja sequer preciso lutar, para que não haja motivos para se lutar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O que eu quero não é a luta por um mundo melhor. O que eu quero é um mundo melhor. Quero a paz. E a prosperidade. E a justiça para todos. Duvido muito que seja nestas lutas tão urgentes e inadiáveis (e os adjectivos do costume) que venha ao de cima o nosso melhor. Isso acontecerá com alguns. Creio até que é com a energia de algumas das nossas partes mais obscuras que às vezes encontramos forças para lutar. Eu acredito que o nosso melhor só acontece, só vem ao de cima, quando vivemos em paz e todos são tratados com justiça. Sinto-me grato porque cresci e vivo numa sociedade democrática e em paz. Há tanto que está mal e tanto que preciso de fazer. O que quero é poder contribuir para que os que venham a seguir se possam sentir gratos por não ter que viver com os venenos da política actual a contaminar tudo o que fazem.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Para o meu país desejo décadas de o mais ininterrupta possível boa gestão dos recursos que temos, de um rumo de prosperidade e desenvolvimento em que a economia seja uma base de viabilidade e sustentabilidade e não o santo dos santos e o fim último. Desejo que se chegue a um ponto em que seja quase (repito, quase) indiferente quem ganhe as eleições, porque as instituições funcionam e há justiça social. Um ponto em que, finalmente, a democracia é exercida pelos cidadãos, que participam activamente em todas as esferas da vida em sociedade, no seu bairro, na sua cidade, na sua região. Quero que o meu país deixe de ter cidadãos que precisem de olhar para os políticos com este misto de repulsa, inveja, esperança, masoquismo, complexo sebastianista e sentimento de fillhinho pródigo. Que os passe a ver como funcionários públicos. Que, sei que pode parecer aberrante desejá-lo, o discurso político se esvazie, deixe de pertencer aos políticos, que estes sejam acima de tudo funcionários públicos, bem pagos e extremamente competentes. E, nas associações cívicas, o discurso político seja vibrante, que ali as opiniões e as vontades de decidir colidam e se concretizem. Espero, obviamente, que haja sempre vigilância, que as urnas e as ruas 
sirvam para se derrubar a incompetência, a fraude e o abuso de poder. Quando digo que espero que os políticos sejam funcionários públicos é porque os quero ver a executar os programas e os orçamentos e não me interessa que me comovam com os seus discursos - esses quero vê-los nos meus bairros, escutá-los dos meus concidadãos. Quero isso, para que a política não seja esta coisa que nos provoca emoções fortes mas que sentimos que é suja e com a qual tantas vezes não queremos ter nada - estou convencido que nos deveríamos apoderar dela inteiramente. Os governantes devem governar. Tudo o resto, que é imenso, tem de ser feito por nós, antes durante e depois de cada eleição. &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Sei que nunca poderemos baixar os braços, porque nunca teremos a sombra da utopia para dormir a sesta. quando o Joaquim Sapinho exibiu os Diários da Bósnia num festival de cinema na Coreia do Sul - contou -, foram ter com ele, muito interessados no filme e fizeram muitas perguntas. Ao contrário de outros países, ali a reacção foi, muito claramente, a de que aquilo poderia acontecer ali, na Coreia do Sul, num futuro mais ou menos próximo. O filme não foi visto simplesmente como um documento histórico sobre um outro povo, uma outra realidade. Os coreanos tiveram uma guerra, como povo ficaram separados. Os dos sul têm uma democracia capitalista que podemos considerar próspera, razoavelmente confortável. Seria de esperar que vissem aquele filme com distanciamento, com a empatia que se pode ter por ver seres humanos a passar por algo tão terrível. Mas o que aconteceu foi que tiraram dali a lição de que aquilo que aconteceu nos balcãs poderia repetir-se no seu país, um país próspero, democrático, rico. É isso que espero - não que veja a sociedade sul-coreana como um modelo a seguir - espero que nunca percamos a memória. Que possamos ver o passado como um catálogo dos horrores de que somos capazes, a qualquer momento, de cometer. O que pretendo, do presente, é torná-lo uma página desse catálogo. Para que o futuro tenha mesmo futuro. E não se gastem demasiadas páginas num capítulo tão desnecessário e aberrante da história da submissão dos povos à economia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-8621362342534601399?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/X1m2ua1Ma08" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/X1m2ua1Ma08/quero-nao-ter-por-que-lutar.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/11/quero-nao-ter-por-que-lutar.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-7877200316232308809</guid><pubDate>Tue, 22 Nov 2011 14:04:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-11-23T09:44:32.529Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>a minha primeira greve</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não basta mostrarmo-nos descontentes porque nos fazem mais pobres, hão-de dizer-nos que não entendemos que é preciso fazer sacrifícios. Não basta protestar porque reduzem prestações sociais, respondem que é preciso repensar o Estado Social, que se não cumprimos com os nossos compromissos, num instante ficamos sem dinheiro para pagar aos funcionários públicos. Não é suficiente dizer que são sempre os mesmos a pagar a crise, vão sempre responder que todos somos chamados, em momento tão grave, a trabalhar com mais empenho e sentido de responsabilidade, para que a nação se volte a erguer. É como se não nos escutassem, como se o discurso da austeridade com que justificam tudo não admitisse diálogo. Não podemos ir de mão estendida, dando azo a que nos pintem o retrato de proletários cuja única preocupação é ter menos dinheiro para consumir. Não, companheiros, a nossa luta tem de ser mais consistente, fundamentada em argumentos que impliquem uma resposta, para que, não havendo resposta, fique claro que a não houve, ou que foi evitada. Ou para que haja mesmo resposta, de uma vez.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não pertenço a um sindicato. Dia 24 de Novembro espero encontrar-me com portugueses e portuguesas que também não estão sindicalizados, bem como trabalhadores que ali foram integrados na estrutura dos sindicatos a que pertencem. Espero encontrar-me com desempregados. Com aqueles que não figuram nas estatísticas. Os que já não têm direito ao subsídio de desemprego e os que nunca tiveram. Os que se identificam com a esquerda política, os que se identificam com a direita e os que não se revêm nem numa nem noutra. Os que têm tido algum contacto com os movimentos mais ou menos informais de protesto, como os indignados ou a geração à rasca. Todas estas pessoas estarão juntas numa greve geral. As duas centrais sindicais reúnem e representam as sensibilidades e os interesses dos sindicatos que agregam. E estes por sua vez representam os trabalhadores que a eles pertencem. CGTP e UGT têm falado ao país e farão o balanço da greve geral. Têm capacidade para intervir, para convocar, e para elaborar um discurso coerente. Mas isso não nos deve, a nós indivíduos, descansar. A nossa cidadania não se esgota no papel que os sindicatos desempenham por nós. E para fortalecermos a luta contra o que aí vem, devemos fortalecer-nos, num esforço que ninguém fará por nós.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Tenho notado, até em mim, um crescente cansaço em relação às notícias e à linguagem da economia e da crise. Mas não vejo outro caminho que não seja o do estudo da situação. Ainda que seja segundo as capacidades de cada um, é necessário que procuremos perceber o que está em jogo. Como funciona a dinâmica de financiamento da zona euro. Qual é o papel do Banco Central Europeu. Que modelo de sociedade nos propõe este governo. Onde devem ser feitos os cortes na despesa. Como pagar a dívida se a receita diminui. E outras questões que, sendo muito difíceis de analisar para nós, cidadãos comuns, é nossa responsabilidade exigir que sejam prioritárias para o governo da república. Sim, as questões europeias também. Há pistas importantes nas declarações do primeiro ministro e do ministro das finanças. Este afirmou que, mesmo com estas medidas de austeridade, não há nenhuma garantia de que consigamos recuperar da crise. Isto tem de nos fazer questionar sobre a utilidade do caminho que estamos a seguir. Há também a célebre e muito citada frase do primeiro ministro que anunciou que estas medidas vão empobrecer o país, aumentar o desemprego e o número de falências de empresas.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Quando sairmos para a rua, é com estas questões sobre a viabilidade deste projecto tão importante para todos nós, chamado Portugal, que nos devemos unir. É difícil de aceitar que seja um sistema criado por nós, humanos, que nos tenha colocado a nós, europeus, num tal estado de vulnerabilidade (financiar países na banca comercial). Não foi uma catástrofe natural, nem uma guerra, nem uma escassez em larga escala, que causou esta crise. E, a muita gente de vários quadrantes políticos, começa a ser difícil de engolir a leitura simplista que foram décadas de um Estado Social gordo e gastador que nos levaram a sobreendividar-nos. O que não podemos fazer é culpar os outros. Fomos nós europeus que criámos esta situação. Quando nos encontrarmos na rua, sabendo que em Portugal não é ainda dia de eleições, é bom que tenhamos bem presente que a nossa ignorância, o nosso fechar de olhos, o nosso enjoo em relação ao tema económico, a nossa submissão ao sacrifício inútil, tudo isto contribui imensamente para a perpetuação das políticas que construíram esta Europa que parece que vai continuar a tentar apagar o fogo com gasolina até à implosão final. Se nos encontramos na rua, na greve geral, é porque já o sabemos, já sabemos que não podemos ficar calados. Todos juntos, vamos encontrar o que dizer a estes políticos que se têm convencido que basta repetir-nos meia dúzia de chavões sobre austeridade, para que apertemos o cinto e amordacemos a dignidade até virem melhores dias.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-7877200316232308809?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/MbGsiRmV-W4" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/MbGsiRmV-W4/minha-primeira-greve.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/11/minha-primeira-greve.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-6337673474181146193</guid><pubDate>Thu, 17 Nov 2011 16:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-11-17T17:41:38.645Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">filosofia</category><title>moderadamente burro</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Isto é uma descoberta recente, sobre mim mesmo, fruto das minhas deambulações racionais, que eu também cedo muitas vezes ao pecado da gula mental. Tendencialmente, dou mais importância a saber "o quê" do que "o porquê". Demorei muito tempo a conseguir sintetizar a coisa assim. Quem me conhece, sabe quem entre os meus parcos talentos, não se encontra o poder de síntese. Talvez por ainda me ser ainda tão difícil manejar a prática de sintetizar, ao comprimir o significado do que descobri naquela expressão, ficou tudo muito hermético. Vou tentar explicar-me.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não me pergunto tantas vezes, "porque é estou a fazer isto?" como "o que é que estou&amp;nbsp; fazer?". Não é tão interessante, para mim, a pergunta, "porque é que existem estrelas e planetas?" como "o que são estrelas e planetas?". Aliás, se for mesmo honesto, considero a pergunta "porque é que existem estrelas e planetas?" imbecil. Sei que nos documentários televisivos aparecem simpáticos e sorridentes cientistas com frases que começam precisamente por "então, porque é que existe a via láctea?". Mas a mim parece-me uma pergunta mal feita. Própria de uma criança. Numa criança não tem mal escutar-se "mãe, porque é que existem pessoas más?". Quando uma criança começa a perceber que há pessoas que fazem as outras pessoas sofrer de propósito, é normal e saudável que sintetize o seu aturdimento num vago e carente "porquê?". De um adulto o que eu espero é que ele se interrogue de forma profunda, "o que são pessoas más?"&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eu, o que quero é perceber a natureza das coisas, não é perceber porque é que há coisas ou porque é que elas têm natureza. Ou melhor, não tento evitar saber os porquês, não fujo deles. Só não acho que posso explicar uma coisa antes sequer de saber que coisa afinal tenho à minha frente. Tenho tido alguns desentendimentos que são fruto desta abordagem diferente. Outros serão apenas fruto da minha teimosia e outros ainda do voluntarioso entusiasmo com que falo mesmo dos assuntos de que não percebo nada, o que não abona nada em favor de quem acabou de escrever a frase anterior à frase antes desta. &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O meu interesse pelo funcionamento das coisas não é igual ao interesse de quem busca as grandes explicações, isso é claro. Quando eu me interesso pela libertação de um químico no cérebro, e eu interesso-me infinitamente por coisas como a libertação de químicos no cérebro, não estou à procura das mesmas coisas de alguém que quer saber se existe ou não livre arbítrio ou que está interessado em saber porque é que os seres humanos, sendo tão evoluídos, deixaram o planeta neste estado. Eu, quero deixar bem claro, tenho curiosidade pelos grandes temas. Mas como a minha tendência é olhar para os pequenos fenómenos, dou por mim a falar com grande entusiasmo e a dar a entender a quem me escuta que penso que os pequenos fenómenos oferecem de bandeja as grandes explicações.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
De qualquer forma, estudar aturadamente os aspectos funcionais da, por exemplo, fisiologia humana, não é de forma nenhuma tarefa menor, que deva ser encarada como se os seus resultados fossem meramente medições e pesagens. Há um exemplo que gosto de dar: a mera existência do clítoris é um tratado sobre a sexualidade. É que a única função (e usar o nome função já é explicar, porque o corpo não se designa a si mesmo) desse órgão é mesmo proporcionar prazer - e depois ficamos nós a debater-nos com todas as implicações disso, terá o prazer uma função? Terá a evolução dado uma ajuda para favorecer o coito? Quando, ao estudar mais o corpo, alguns sugerem que o clítoris se trata de um pénis que, nos indivíduos de sexo feminino, não se desenvolve totalmente, ainda há mais dados para discutir. Toda essa discussão só é possível porque houve primeiro uma observação. Primeiro "o quê", só depois "os porquês". Quando a biologia, depois de muitos anos de estudo, finalmente estabelece que a oxitocina, por exemplo, desempenha determinada função, isso, só por si, sendo um pequeno fenómeno, não é coisa menosprezável. Eu, que sou bipolar, estou muito grato a que se saiba uma série de coisas que se passam quimicamente dentro do meu corpo, graças a isso, tenho uma vida funcional. Isso não dá um sentido ulterior à minha vida, pois não, cabe-me a mim, encontrá-lo. Mas não é coisa pouca. Por isso, olhar atentamente para um corpo humano, conhecê-lo, não é apenas mera tarefa matemática e contabilística de medição e inventariação. É consciência no sentido da palavra inglesa awareness, de se ter noção do que nos rodeia (e do que está dentro de nós e do que constitui a matéria).&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Outra forma de traduzir a hipertrofiada síntese do «dou mais importância a saber "o quê" do que "o porquê"», é dizer que valorizo mais a lucidez que a sabedoria. Ou que, arriscando usar conceitos que podem baralhar um pouco as coisas, que valorizo mais a consciência que o conhecimento. No fundo, ficaria aqui muito tempo, a fazer o que habitualmente faço, que é o contrário da síntese - a minha clássica verborreia que de uma ideia simples faz nascer uma miríade de variações. Eu quero é sentir, estar mesmo presente no momento presente, ter consciência do que me acontece e do que sou e, por extensão, do que é um ser humano, do que é a matéria, do que são as coisas, a vida. Muito mais do que compreender e explicar, ter uma visão do futuro, saber de cor as versões do passado. Atenção que disse "muito mais do que" - é uma preferência apenas, eu gosto mais de courgetes do que de cenouras, mas não quero banir as cenouras. Fica sempre bem dar um exemplo estúpido, para demonstrar a estupidez que a seguir se defende. É que quero concluir dizendo que prefiro ser moderadamente burro e bastante lúcido a ser sábio e louco.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-6337673474181146193?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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o primeiro magusto em que estive foi em buarcos, andava eu na primeira classe. o último foi em ourense. para ser preciso, o primeiro não foi bem em buarcos, já foi a caminho do cabo mondego, ali quem desvia por uns atalhos que vão dar, para quem for aventureiro e gostar de subidas íngremes, à serra. e o último já não foi bem em ourense, mas à saída, numa zona alta, a que me falta toponímia. para chegar ao sítio onde magustámos, é preciso fazer um carreiro pelo meio das árvores e, de noite, à vinda, viam-se lá em baixo as urbanas luzes aurienses. foi preciso passarem muitos anos, ir subindo a norte, e mais a norte, primeiro para o porto e depois para braga, para perceber como a galiza completa portugal. atravessando o rio, percebe-se que o minho, o alto minho, não acabou ainda, que a cultura de que viemos não se cortou abruptamente. ainda assim, sabe bem ir ao encontro das diferenças, da infatigável sede de baile, e, quando não há baile, que nem sempre há gaitas tocando e nem sempre se está com gente que gosta de bailar, das ruas cheias, das conversas longas, que se cruzam, e das tapas e de que nos tratem por tu, e de que, se acham que somos culturetas, nos digam na cara, sorrindo, com meiguice e descaramento.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-8029338292518047594?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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sinto-me atraiçoado por este governo. não como eleitor, porque não votei no partido que chegou ao poder. e também não estou aqui a pôr em causa o patriotismo dos governantes, que até é atributo que pouco me interessa.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
eu não me sinto como o cidadão que vê como um traidor aquele soldado que, num momento decisivo para a nação, desobedeceu e se negou a premir o gatilho ou a largar a bomba. não. eu sinto-me como aquele cidadão que, nesse momento decisivo, se sente atraiçoado exactamente porque o soldado decidiu obedecer.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-4537103665589518439?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/tDJSSK1kxns" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/tDJSSK1kxns/traicao.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/11/traicao.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-4051241790563660208</guid><pubDate>Thu, 10 Nov 2011 13:55:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-11-10T17:46:32.691Z</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><title>indignados do mundo, uni-vos!</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Este texto vai ser mais curto do que o tema exigia, vim a casa almoçar e tenho pouco tempo. No emprego que tinha, fico até final do mês. Tudo indica que começo o ano de 2012 desempregado. Como nos últimos dois anos a empresa que me empregava quis poupar uns tostões e não pagou o que devia à Segurança Social, provavelmente não vou ter direito ao subsídio de desemprego. Amanhã, na loja do cidadão, espero esclarecer isto. A minha situação não é dramática. A minha família, de classe baixa, apoia-me totalmente e não vou passar fome. Além disso, tenho uma rede de amigos que me apoiam imensamente e nunca me deixariam ficar a viver na rua. Muitos portugueses nem sequer aparecem nas estatísticas, nem têm o "estatuto" de desempregado. E estão muito mais vulneráveis do que eu.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dizia o frei Fernando Ventura que esperava que os indignados, que estas pessoas que agora estão numa fase em que nem sabem bem o que querem dizer, de que coisas se querem queixar, embora sintam uma enorme necessidade de protestar, dizia ele que esperava que estas pessoas passassem à acção. Dizia ainda que é preciso que a revolução pacífica se antecipe à revolução violenta. Pois bem, as minhas armas, que se resumem à minha voz e à minha firme determinação, estão prontas. Venha a austeridade. Não me rendo. Não serei pobre no que toca à capacidade de me expressar, não serei pobre no exercício da democracia, não deixarei empobrecer a minha cidadania. Indignados, sejamos mobilizados, participativos, empreendedores e insolentes. Que a raiva ainda sem discurso ou rumo ganhe consistência numa energia construtiva colectiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu, português e europeu, não devo nada a ninguém, quero que saibam. Não contraí empréstimos nem vícios e os escassos bens que possuo cabem todos no meu quarto. Ando há muitos anos a viver abaixo das minhas possibilidades, abaixo de vários limiares, e acabo o ano a receber 481 euros por mês, antes de ser despedido e não ter sequer direito ao subsídio de desemprego. Sinto que me devem muito, pela forma desastrosa como têm conduzido politicamente o país e a europa e como, perante problemas tão graves, aplicaram cura tão venenosa. E não me resigno a morrer da cura.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-4051241790563660208?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/slvLmjh7LlI" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/slvLmjh7LlI/indignados-do-mundo-uni-vos.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/11/indignados-do-mundo-uni-vos.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-8208156663048087995</guid><pubDate>Thu, 20 Oct 2011 21:51:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-10-20T22:51:34.142+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">emoções</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">comboio</category><title>sobre a arte de chorar em público I</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
em comboios. no caso de ser um desses lugares em que não temos ninguém virado para nós, as luzes estão baixas por ser de noite e se estar num pendular, basta fechar os olhos e deixar as lágrimas escorrer, sentindo-lhes o sal no cantos dos lábios, enquanto o rosto se refresca ao longo dos dois pequenos rios. resulta bem se não se soluçar muito e conseguirmos evitar gestos dramáticos e sons de agonia. alguém mais atento pensará que não será nada de grave e poderá até ficar na dúvida se aquilo é mesmo choro; ou se perceber que as lágrimas são mesmo a sério, o mais certo é que nos deixe em sossego, admirado com, ou admirando o nosso discreto carpir, vendo nele, quem sabe, sinais de alguma nobreza ou candura.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-8208156663048087995?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/zHrnptzQj78" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/zHrnptzQj78/sobre-arte-de-chorar-em-publico-i.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><thr:total>0</thr:total><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/10/sobre-arte-de-chorar-em-publico-i.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-7394946914435457095</guid><pubDate>Wed, 19 Oct 2011 09:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-10-19T10:53:25.164+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">política</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">sociedade</category><title>bem-vindos a urras</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
qual darwinismo social, qual quê, qual selva, qual inferno, qual cada um por si. isto é estado de direito, é lei, é rumo, é determinação, é agora ou nunca. qual país que não é para velhos, para fracos, para inadaptados, qual quê. isto é a realidade, o futuro, os erros do passado, a pesada herança. qual passo em frente à beira do abismo qual quê, qual cegueira ideológica, economicismo, qual quê. isto é a travessia do deserto, a receita amarga, a reforma inadiável. qual empobrecimento qual quê, qual desumanização, qual desastre social, qual destruição de conquistas, qual cinismo podre, qual palas no olhos, qual cortar a direito, qual morrer da cura, qual emenda pior que o soneto, qual quê. isto é oportunidade, é casa em ruínas com janela aberta para um futuro radioso, é o sacrifício que leva à salvação, é patriotismo, é responsabilidade, é honra. qual repensar o sistema qual quê, qual injustiça social, qual jogo viciado, qual soberania do sistema financeiro, qual quê. isto é reconhecer o problema, é não ser eleitoralista, é não ter medo, é enfrentar a verdade, é assumir os compromissos. qual hipocrisia qual quê, qual situacionismo, derrotismo, provincialismo, oportunismo, qual sismo social, qual quê. isto é ser sério, corajoso, afirmativo, empreendedor. qual morrer de fome, qual quê. qual caminho de catástrofe. qual escravidão. qual miséria. qual retrocesso civilizacional. qual alternativa, qual quê.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-7394946914435457095?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/j4cRiF-vhBw" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/j4cRiF-vhBw/bem-vindos-urras.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/10/bem-vindos-urras.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-4964803216132873234</guid><pubDate>Mon, 17 Oct 2011 15:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-10-17T16:08:56.216+01:00</atom:updated><title>8 anos</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;a href="http://www.nunomirandaribeiro.com/2003/10/as-palavras-acompanham-liberdade.html" target="blank"&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;Na passada sexta-feira, passaram oito anos desde a publicação do primeiro post aqui.&lt;/span&gt; &lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-4964803216132873234?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/AFrGWoJ9f-c" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/AFrGWoJ9f-c/8-anos.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/10/8-anos.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-250839295082740460</guid><pubDate>Fri, 14 Oct 2011 13:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-10-19T11:00:34.573+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">trabalho</category><title>o presente, a mim pertence</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Dizia eu ontem a uma amiga, talvez ainda tentando convencer-me a mim próprio, que a situação é tão instável e as promessas de que piore tão consistentes, que de uma forma perversa e surpreendente, isso até era libertador. Quero lá saber do futuro. Que se foda. Despeçam-me, tirem-me o salário. Já não me sinto ameaçado por isso. Tenho a felicidade de contar com uma família e com amigos que não me deixariam passar fome. De resto, retiro todo o poder a quem me queira contratar o medo. Abandono-o, a como a um dejecto. Posso dar-me ao luxo, é necessário referi-lo, de me sentir livre perante a precariedade, porque não tenho filhos nem pessoas a meu cargo. Mais ninguém depende do meu salário, além de mim.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Já que não controlo tanta coisa, que me concentre naquilo que depende de mim. Posso trabalhar com honestidade e profissionalismo. Posso cuidar das minhas relações pessoais. Posso avançar com projectos pessoais e colectivos. Tudo isto posso continuar a fazer, mais focado ainda no essencial, agora que não me sinto amedrontado. Venha a crise, esta crise de valores (finalmente, uma situação em que uso esta expressão que tanto desprezo), uma crise de valores em que os seres humanos perderem o seu valor, deixaram de estar no centro da construção da sociedade. Claro que sempre estivemos nesta crise. Mas, depois do século XX, tudo parecia encaminhado. Escrevemos os &lt;a href="http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm" target="blank"&gt;direitos humanos&lt;/a&gt;. Passou a existir uma noção de que os estados são o garante (outra expressão que nunca usei) da justiça social, que são mesmo o último reduto dos mais desfavorecidos e que têm como vocação estabelecer as bases para a dignidade dos cidadãos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Chegámos a uma altura em que Estado Social é palavrão. Proferir Estado Social é trazer quem nos oiça para um imaginário em que há preguiçosos e indigentes a querer viver às custas dos outros e toda a espécie de gente sem nenhum espírito empreendedor que acha que tem direito a que lhe paguem tudo e nem sequer vestígios de responsabilidade e sentido de equilíbrio. Eu, sinceramente, não percebo qual a alternativa a um Estado Social. Um Estado Anti-Social? Deve ser discutido o que é gratuito ou não, o que é da conta do Estado e o que não é, em que medida e por que formas devem ser protegidos os cidadãos. Mas que um Estado democrático do século XXI não tenha Social como principal atributo, parece-me de loucos. O certo é que ultimamente o Estado Social tem sido apresentado como coisa do passado, um arcaísmo, uma utopia em que só os saudosistas mais crédulos ainda acreditam &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Eu, repito, deixei de me angustiar pelo futuro. Vou fazer o que possa para melhorar a minha situação e, à minha escala minúscula, a do país. Mas não há patrão, medida de austeridade, imperativo do mercado ou o caralho, que me faça continuar amarrotado e pobrezinho, no meu cantinho, rezando para merecer, pela minha submissão, a migalha que sobrar. Nem pensar nisso. Venham o futuro e as troikas. Cá estarei.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-250839295082740460?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/1IQaQKOHp_A" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/1IQaQKOHp_A/o-presente-mim-pertence.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/10/o-presente-mim-pertence.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-4488839647760243263</guid><pubDate>Fri, 14 Oct 2011 10:43:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-10-14T11:43:33.094+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">desejo</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">baú</category><title>amanhã não estarei sozinho</title><description>&lt;div class="post-header"&gt;


&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
alimenta-nos, a nós os apaixonados 
ainda por corresponder, esta matreirice do coração, que, quando lhe 
convém, sabe ser racional e manhoso. acreditamos que tão grande desejo 
se converteria em laboriosa competência na felicidade alheia. pensamos, 
intrigados e revoltosos: como é possível que se desperdice este 
potencial, esta capacidade de amar, esta aptidão para instigar o prazer 
em interposto corpo, esta proficiência nas artes amorosas? como é 
possível que, tão perto da mais absoluta alegria, tudo fique incompleto,
 irrealizado? a paixão é como um vírus, um microorganismo mutável, que 
sobrevive às mais inclementes temperaturas, aos ambientes mais adversos;
 um vírus que toma de assalto as células do coração, para fazer delas as
 bases para o seu domínio. parece interessar-se apenas na procriação da 
sua prole, no perpetuar das suas maquinações. e demonstra uma 
preferência por organismos não apaziguados, desprotegidos e suplicantes.
 é como se suspeitasse que a consumação a poderia aniquilar. ainda não 
sabe mudar de hospedeiro. e assim que fique exposta&amp;nbsp; a anticorpos de 
corpo desconhecido, adquiridos em festiva troca de fluídos, 
desintegra-se. devo lembrar-me: a paixão é bicho que gosta de metáforas,
 aliás, prefere receber a realidade pelo filtro da simbolização, ou 
através da lupa da mistificação. não lhe interessam as coisas simples, 
as simples alegrias dos corpos nus. não lhe interessa habitar mente que 
sinta que a dor é dor e a alegria é alegria. à paixão interessa-lhe 
alegrar-se na dor, intensificar-se na frustração, chafurdar na solidão. 
pois eu gosto mais de beijos, do sal do suor, do calor entre corpos 
despidos, do que da paixão. há até outros sentimentos, outras atitudes 
do eu amoroso, a que se pode chamar paixão, com toda a propriedade. e 
que começam, precisamente, quando se consuma o desejo e duas vontades se
 fundem na partilha do prazer de viver.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-4488839647760243263?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/SsP0GpcdNpo" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/SsP0GpcdNpo/amanha-nao-estarei-sozinho.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/10/amanha-nao-estarei-sozinho.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-7544448873522834078</guid><pubDate>Thu, 22 Sep 2011 16:12:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-09-23T09:11:00.275+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">contos</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">trabalho</category><title>a morte da intermitência</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
no dia seguinte ninguém foi trabalhar. durante as primeiras horas da madrugada, as ruas ficaram vazias. nem pessoas, nem carros, nem transportes públicos. um vazio que até os pombos pareciam estranhar. alguns cães começaram mesmo a uivar, num coro lúgubre de que, mais tarde, muita gente assegurava lembrar-se. quando as pessoas saíram à rua, perceberam que não havia jornais para comprar, nem cafés abertos, nem comércio, nem autocarros ou comboios. logo se começaram a juntar grupos de pessoas que discutiam hipóteses de explicações para o que estava a acontecer. a hipótese de uma greve geral, explicação mais óbvia, foi, por isso mesmo, das primeiras a ser posta de lado. ficaram apenas as explicações mais improváveis. uma guerra, algum país vizinho que fosse invadir a nação e, por algum motivo extraordinário, apenas algumas pessoas não receberam o aviso. alguma epidemia que tivesse morto a maior parte da população, a que, por algum motivo, as que sobreviveram eram imunes. o assombro misturou-se com um sentido de humor delirante. muitos, perante a ausência de sentido, a que nem o uso mais sistemático da razão parecia acudir, ensaiaram, em jeito de desafio, as explicações mais mirabolantes de que se conseguiram lembrar. é uma invasão de extraterrestres. com uma arma secreta, fizeram desaparecer todos os humanos. nós estamos aqui, porque certamente somos da raça alienígena que levou a cabo a invasão. devemos ser agentes adormecidos. não tarde nada, começamos a lembrar-nos de tudo, da nossa proveniência, da missão secreta que desempenhámos, e até, quem sabe, nos aparecem umas antenas, ou mais dois braços, ou mudamos de cor ou tamanho. gargalhadas. mais pessoas se juntavam, grupos pequenos aglomerando-se em grupos grandes, pessoas sozinhas que se aproximavam, ainda bocejando de sono e intrigadas com tanto riso a temperar dia tão estranho. os autores das hipóteses mais inventivas recebiam louvores, pancadas nas costas, eram arrastados pelo braço, para ir contar aos outros a sua história. logo, vieram pessoas à janela, talvez porque julgassem que o alarido na rua fosse a causa da paralisação de que já se começavam a aperceber. não havia televisão, nem rádio, embora a internet funcionasse como sempre, aparentemente. em algumas casas a electricidade faltou, provavelmente por alguma avaria comum, mas que, suspeitavam os afectados, não teria agora quem a reparasse. por esta altura, oito, oito e meia da manhã, muitos dos que saíam à rua, juntando-se à crescente multidão, eram os que estariam a essa hora a trabalhar, condutores de autocarros, advogados, canalizadores, lojistas, todos os trabalhadores da cidade, do país. cada um se espantava, não por estar ali, mas por estarem ali todos os outros. quase instantaneamente, na verdade assim que o primeiro o disse, se começou a perceber o que acontecera. alguém disse, logo recebendo eco, eu, hoje decidi não ir trabalhar. soaram centenas, milhares, de eu-também. durante alguns instantes, o rumor de risos parou, milhares de mentes atoladas numa grande confusão, não porque afinal algo de impensável ou sobrenatural tivesse ocorrido, mas simplesmente porque a coincidência de tantas decisões, em si banais, era um facto impossível de apreender. até que alguém soltou uma gargalhada, que se ouviu durante uns segundos, sem que encontrasse eco. cães começaram a uivar de novo, garantem os que lá estavam. e alguns adolescentes resolveram uivar também. mais pessoas uivaram, ladraram, fizeram estardalhaço, como se fossem crianças eufóricas e um murmúrio constante de conversas e gargalhadas voltou a instalar-se. foi passando a manhã e as ruas encheram-se como não havia memória de ter acontecido. passado algum tempo, toda a gente desistiu de ligar o rádio ou procurar sintonizar a televisão, sendo evidente que os jornalistas e os técnicos, todo o pessoal dos meios de comunicação tinha, claramente, decidido também não ir trabalhar. por algum motivo, poucos pegaram no carro, na mota ou na bicicleta, para ir até às localidades mais próximas averiguar se isto seria coisa nacional. em vez disso, e como sempre acontece, as notícias viajaram à velocidade da luz, de boca em boca, de telemóvel em telemóvel. e parecia evidente que não valia a pena esperar por uma confirmação oficial. ninguém no país tinha, sabia-se agora, ido trabalhar. as primeiras anedotas sobre o sucedido começaram a circular. falava-se muito, com à-vontade e geralmente com boa disposição, apesar de haver quem estivesse num estado de espírito próximo do pânico. este, ainda assim, não alastrou, não se tornou colectivo. como crianças, que faz sentido insistir na comparação, quase todos aceitavam o estado presente das coisas simplesmente porque lhes estava a saber bem. as questões filosóficas ficavam para depois, atormentando apenas os mais pessimistas. é preciso dizer que os pessimistas foram ganhando terreno, à medida que alguns casos de urgência médica interrompiam o estado geral de folia lúdica e despreocupada. começaram a circular alguns carros, com os piscas ligados e velocidade acima do costume e logo, por entre a multidão, se ouviram gritos pedindo a ajuda de algum médico que estivesse presente. muitos acorreram aos hospitais, ou regressaram a casa para ter a certeza que um familiar doente não ficava sozinho num momento em que ninguém, nem os que conduziam ambulâncias, tinham ido trabalhar. o hospital e os centros de saúde encheram-se, portanto, de curiosos e de pessoas que se preparavam para ser voluntários para o que fosse preciso. dizem os que viveram aquele dia que nessa altura tudo pareceu afinal muito pouco divertido e houve várias pessoas que previram uma calamidade, pior do que as calamidades conhecidas por ser tão vazia. era como se tão grande vazio pudesse encher-se das maiores atrocidades. várias pessoas se fecharam em casa, quando as primeiras montras foram partidas, outros juntaram-se à pilhagem. mas cedo, e porque, não tendo ido trabalhar ninguém, estava quase toda a gente nas proximidades de onde vivia, se juntaram grupos de pessoas dispostas a defender o seu bairro. alguns identificaram-se como polícias ou militares, mesmo se poucos tivessem ido buscar a farda. as horas seguintes perderam muito do entusiasmo colectivo inicial. havia uma sensação de liberdade, mas quase sempre acompanhada pela ameaça do perigo, um perigo sem nome nem cheiro, mas que era o suficiente para que muitos não tivessem a mínima vontade de celebrar. de qualquer forma, voltou a tranquilidade às ruas, por força da ocupação dos habitantes de cada bairro, cada urbanização. há relatos de desacatos, de salteadores que foram apanhados por uma multidão que não se limitou a espantá-los, bem como de assaltos de grupos a pessoas que andavam por zonas mais desabitadas, quer para roubar quer para violar. algumas pessoas, depois da hora do almoço e aproveitando uma certa calma que parecia erguer-se das digestões, subiram a bancos, começaram a discursar à maneiras dos sindicalistas, tentando organizar as pessoas em grupos que pudessem contribuir para a segurança de todos. por esta altura, bastantes locais públicos estavam já abertos, além dos hospitais e centros de saúde, que contavam com pelo menos metade da sua força de trabalho habitual, vários cafés e restaurantes foram abrindo. uns oferecendo refeições, outros vendendo-as pelo triplo do preço habitual, julgando ser esta uma excelente oportunidade de facturar um pouco mais. até anoitecer, houve pessoas na rua. e a presença de meios de comunicação estrangeiros, que, pelas oito horas da noite, era descomunal, dava a tudo um colorido muito estranho, difícil de definir, como se ali houvesse a cobertura jornalística de uma guerra, mas não houvesse guerra para cobrir. emergiram embriões de movimentos populares. às dez da noite, haveria já mais de duzentos movimentos, ou pelo menos os seus nomes: movimento 23 de Setembro, hoje-não, partido absentista, associação dos ex-trabalhadores, sindicato informal do lazer, movimento dos parados, plataforma, união do dia eterno, e um sem número de proto-associações, proto-partidos, proto-sindicatos. as associações, os partidos e os sindicatos já existentes tentavam também exercer a sua influência nas ruas. mas, a julgar pelas histórias que sobreviveram desse dia, quase se diria haver mais gente a querer influenciar e a liderar os outros  do que gente disposta a ser influenciada ou liderada. a meia-noite ia chegando e uma certa nostalgia perfumava já o ar e as conversas em muitas casas e nos estabelecimentos que, inicialmente fechados, iam agora prolongando a hora do fecho, como se esperassem a passagem de ano. milhares de propostas, de todos os proto-líderes, estavam na mesa. derrubar o governo, antecipar eleições, abolir os sindicatos, substituir os partidos pelos sindicatos. não ir, simplesmente, trabalhar nos dias seguintes, e muitas outras propostas, mais bizarras e absurdas. poucos dormiriam às 23h59. muitos, ansiosos, olhavam o relógio como um hominídeo ancestral que procurasse o sol, durante um eclipse, temendo que ele não surgisse novamente. outros, tinham os rádios e as televisões a postos, para voltar a receber as notícias e perceber finalmente, se não o que se tinha passado, pelo menos o que se iria passar. muitos dos que tinham passado o dia no computador, a comentar em tempo real os acontecimentos aos quais não tinham tempo de assistir, ali continuavam. veio a meia-noite. mas o que se passou a seguir, nós, seres do futuro, já bem o sabemos. este relato serve para apenas para procurar transformar em factos o pouco que foi possível apurar, de entre tantos mitos épicos e fantasiosos sobre o dia que tudo mudou.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;#quer o título, quer a primeira frase, quer a construção da história tiveram inspiração no livro do Saramago. poderia dizer que são uma homenagem, mas não me atrevo a isso, já que dificilmente um texto meu serve de homenagem a um escritor maior e, além disso, não foi a vontade de homenagear o que quer que fosse que me motivou a escrever.&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;i&gt;Isto é uma ressalva. Estava a meio do segundo parágrafo, quando me lembrei disto. Na verdade, eu comecei a ler ficção científica no início da minha adolescência, uns anos antes do que conto já a seguir. Na altura era um frequentador assíduo da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz. Já não sei bem porquê, houve uma altura em que li uma série de livros do Isaac Asimov. De todos, o que gostei mais foi "O Fim da Eternidade", em que são explorados todos os paradoxos que não sabemos resolver ao imaginar que as viagens no tempo são possíveis. Embora tenha gostado de Asimov em geral e muito d' "O Fim da Eternidade", na altura não procurei mais autores do género. Por isso, considero ser verdade o que digo no capítulo que se segue.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Foi um amigo do meu pai que, ao descobrir que eu gostava muito de ler, me iniciou na ficção científica. Assim mesmo, iniciou-me. Escolheu a dedo os livros que me veio a emprestar, depois de me falar entusiasmado dos seus méritos. Entre eles estavam "Terra: Campo de Batalha", do Ron Hubbard (fundador da cientologia, vim a saber mais tarde), "Estranho em Terra Estranha" (que depois percebi ser um clássico importante), do Heinlein e "Rebelde do Tempo Suspenso", do Philip José Farmer, de que vim a ler a série toda do Tempo Suspenso (que no original tem o belo título "Dayworld"). Dos três, o único que não quis conhecer melhor foi o Ron Hubbard. A sua trilogia (que foi adaptada num filme pavoroso) li-a quase de seguida, fazendo directas, incapaz de dormir até chegar à última página, completamente agarrado aos livros. Mas ao perceber como os temas sociológicos e políticos eram centrais aos autores de ficção científica de que descobria gostar mais, a aventura de "Terra: Campo de Batalha" pareceu-me apenas isso, uma aventura, épica, é verdade, mas sem grandes implicações, sem levantar grandes questões.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
O Robert Heinlein tornou-se, rapidamente, o meu autor favorito. Os livros que me tinham sido emprestados eram, na maior parte, da colecção de ficção científica da Europa-América. Em feiras dos livros, passei a entrar e ir directo à banca dessa editora, que, geralmente, tem os livros dessa colecção todos juntos, a preços baixos e vendendo três por um preço ainda mais em conta. Há lá traduções pavorosas, é certo, mas o preço é convidativo. Nessa colecção, encontrei vários livros do Heinlein. O segundo que li, se não estou em erro, foi "Os Filhos de Matusalém". Depois disso, ia sempre procurando livros do Heinlein que ainda não conhecesse. Nenhum, lamento, me pareceu tão interessante como "Estranho em Terra Estranha". Numa dessas idas a uma Feira do Livro, vivia eu no Porto e estava, por algum motivo, de visita a Braga, comprei seis livros (3 + 3, com desconto). Dois eram da Ursula K. Le Guin. Por algum motivo, A Europa-América tinha separado "Os Despojados" em dois volumes. Comprei os livros pela capa, sem fazer ideia de quem era a autora. Nessa colecção muitas capas são maravilhosas, com aquele retro-futurismo irresistível de algumas décadas atrás.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
"Os Despojados" marcou-me, mudou-me. Até aí, ao fazer listas dos meus livros e autores favoritos, a ficção científica não aparecia. No máximo, fazia uma referência a "Estranho em Terra Estranha". Mas com a Ursula K. Le Guin tudo mudou. Deixei de ter um parêntesis nos meus gostos literários. O Heinlein era o meu autor favorito de ficção científica. Mas se me perguntassem, diria que o Lobo Antunes era o meu escritor favorito. Agora, digo que a Ursula K. Le Guin é a minha autora favorita, sem ter de pensar muito. Percebi que gosto deste artifício que a ficção científica usa, e que a ela explica tão bem no prefácio ao "The Left Hand of Darkness", a criação de um contexto distante do nosso, para que melhor se isolem os temas e as questões que se querem abordar e que são uma reflexão sobre o momento presente. Nesse sentido, não é de estranhar que a minha autora favorita mencione o Saramago quando lhe perguntam quais são os seus escritores de ficção científica favoritos. E se a península ibérica se separasse do continente europeu?, e se houvesse uma epidemia que tornasse toda a gente cega?, e se a Morte deixasse de querer matar as pessoas? Estão são, claramente, premissas de uma obra de ficção científica, segundo a definição da Ursula K. Le Guin, que é também a minha. Outra mudança que esta autora trouxe, ou melhor, confirmou, foi que deixei de ler traduções de livros escritos originalmente em inglês. Há excepções, mas poucas. É uma mudança que me tem preocupado, porque, sendo tão bons os preços dos livros no BookDepository.com, passei a ler muito mais em inglês do que em português. E, como quero escrever em português, isso é um problema.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Desta autora, li todos os livros do seu "Hainish Cycle". Ando há algum tempo a alimentar o sonho de a anterior frase estar incorrecta e me faltarem ainda algumas obras que não conheço. Mesmo assim, não li sequer um terço da sua obra, que vai muito para além da ficção científica. Há vários anos que tenho um romance de ficção científica parado. Escrito, tenho apenas algumas páginas. Mas a cronologia, o contexto, os nomes das personagens, a estrutura da narrativa e até alguns contos de um segundo livro, está tudo planeado e anotado e escrito. Tornou-se algo tão megalómano que quase me esmagou, mas não desisti ainda. O último livro que li dentro do género foi o "Flatland", numa excelente tradução de Hélder Moura Pereira, para a colecção "O Imaginário", da Assírio e Alvim. Há alguns livros assim, pioneiros e muito bem escritos, como "Frankenstein", da Mary Shelley, Gulliver's Travels, do Jonathan Swift, vários romances do Júlio Verne e outros e que são essenciais a quem se quiser iniciar no género - uso a palavra género de forma muito descontraída, porque não lhe tenho qualquer tipo de alergia. Fiquei, ao fazer uma consulta à Wikipedia, muito curioso em relação a &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/True_History" target="blank" title="Wiki de uma história do século II, de Luciano de Samosata"&gt;este livro&lt;/a&gt;. Vou continuar a procurar histórias de ficção científica e, espero, finalmente, acabar o meu romance encalhado. Foi aí que encontrei algumas das narrativas mais interessantes sobre as grandes questões que a antropologia, a sociologia e a política procuram debater. A minha imaginação gosta muito desses mundos (não tão) distantes (assim), criados para melhor nos fazer interrogar o mundo em que vivemos.&lt;/div&gt;
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É fácil pensar que a única solução é ter um emprego, sujeitarmo-nos às condições que ali encontrarmos e irmo-nos aguentando, mesmo se sobra pouco tempo e pouco dinheiro para viver, depois do tempo que se gasta a trabalhar e do dinheiro que se gasta para sobreviver. Difícil, pelo menos para mim, é imaginar outra forma de viver. É fácil fantasiar sobre ter uma quinta, sobreviver com o que a terra dá, ser autónomo e livre. Difícil, pelo menos para mim, é sair da segurança estagnada para o relento da liberdade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Porque faço a pergunta a mim próprio, muitas vezes, "afinal, porque continuo, porque me sujeito a isto, todos os dias da semana?", pergunto-me porque continuam as outras pessoas, porque se sujeitam todos os dias as pessoas a uma escravidão suave, em que recebem dinheiro e não são chicoteadas, mas em que tudo está feito para a sua subjugação, tudo conspira para manter as pessoas com rédea curta, obedientes e acéfalas. Porque me sujeito eu, porque nos sujeitamos nós?&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Não é suficiente a resposta mais óbvia e sensata: porque não nos podemos dar ao luxo de ficar sem emprego e sem sustento. Não é suficiente. Há-de haver qualquer coisa nas entranhas, no profundo da nossa psique, algures dentro de nós, algum impulso para a procura de felicidade e bem-estar. Não quero aceitar que tenhamos tão grande, que eu tenha tão grande, capacidade para fazer da insatisfação um ofício e do engolir de raiva uma arte. Não quero acreditar que não haja uma criança, um rebelde, um sonhador, algo de luminoso e exigente, dentro do que somos, que esteja disposto ao risco de ser feliz - muito mais do que à garantia de infelicidade.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/J16WJjKnv5Y" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/J16WJjKnv5Y/nem-saude-nem-sustento.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/09/nem-saude-nem-sustento.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-9121143212851328046</guid><pubDate>Thu, 25 Aug 2011 11:16:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-08-25T14:18:49.324+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">música</category><title>o fim do regabofe</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Muito graças ao meu amigo Afonso, tenho sido obrigado a considerar as (enormes) desvantagens que os downloads ilegais acarretam. Ia acrescentar, "para quem cria e quer viver do trabalho que faz". Tradicionalmente, tenho tentado uma ponte por aí, dizendo ao Afonso que percebo e estou solidário com a situação de um músico que se quer dedicar exclusivamente à música e, hoje em dia, dificilmente consegue fazê-lo. E depois, tradicionalmente, digo: mas a partilha global de música beneficia claramente a música, ainda que não beneficie quem esteja a tentar viver segundo um modelo que já não funciona há uns 10 anos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Mas tenho de admitir a possibilidade de os downloads prejudicarem, de forma mais alargada, a própria música. Custa-me fazê-lo, e parece-me artificial, como se procurasse pensar segundo um tipo de raciocínio que não é o meu. Na minha forma de ver as coisas, a música é das actividades artísticas mais ancestrais, muito anterior à possibilidade de se gravar som para reproduzir mais tarde, muito anterior à capacidade de se produzir em massa uma fita magnética, um vinil, uma cassete, um mini-disc, um CD, etc. Costumo dizer que nós é que já só conseguimos pensar na música enquanto indústria da música e não enquanto arte. Insisto que não se consegue ser dono da música, que sempre se reproduziu e partilhou, antes mesmo de se poder registar. Que uma melodia escutada era uma melodia tocada de ouvido noutra situação. Que basta ter uma pauta para tocar uma obra com centenas de anos. Uso um outro argumento que considero o mais importante - e que é, sem dúvida, aquele que tem mais peso para mim.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Nas últimas décadas, quase o século XX inteiro, foi a indústria da música que comandou as operações, em relação ao que se ouve, ao que é popular, ao que é entendido como moda e até ao que é entendido como contracultura. O que mudou mais foi esse paradigma: uma editora sabia, com um nome como a Madonna ou o Michael Jackson, que gastava bastante dinheiro na produção do próximo álbum e mais dinheiro ainda na sua promoção mas que tinha retorno quase garantido. Havia, sempre havia, flops, álbuns que não vendiam, que davam prejuízo. Mas sabia-se que, feitas as contas, no final havia lucro, muito lucro. O argumento que uso é que isso ter ficado em ruínas é maravilhoso, é óptimo para a música. E continuo a acreditar nisso.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Uma das coisas que gosto mais nisto de se poder, por enquanto, fazer o download de tudo e partilhar tudo é que as editoras perderam muito do poder de influenciar o que se ouve. Por muito dinheiro que gastem no novo vídeo dos Tokio Hotel ou da Lady Gaga, não é garantido que vendam. E não é a parte de não venderem que me agrada (não tenho nenhum ódio de estimação às editoras), é mesmo a parte de não se escutar o que as editoras querem que me agrada imenso. Não há campanha publicitária que garanta que determinada música irá ser escutada pelas massas e adoptada como seu hino. Isto, repito, vejo como algo de maravilhoso. Ninguém sabe o que irá ser escutado, nem como influenciar (com resultados garantidos) a fugidia dinâmica que o estabelece.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Também repito que não me parece mal, pelo contrário, que quem está a começar na música não tenha ilusões e saiba que dificilmente terá uma banda que será os novos Rolling Stones. Não me parece que à música, a arte, não a indústria, façam realmente falta fenómenos como os Rolling Stones ou os Beattles. Tenho até uma visão negativa desses fenómenos, de bandas que foram absolutamente influentes - porque se tornaram fenómenos de sucesso. Isto faz com que as bandas a seguir sejam influenciadas pelo sucesso que determinada fórmula teve e não, como antes da indústria e da possibilidade de gravar e distribuir em massa, pela música em si. Isto foi bom para as editoras, que sempre procuraram o novo filão (o rockabilly, o punk, o post-rock, o grunge, o nu-metal, etc.) e ajudaram a produzir fileiras de bandas a reproduzir um género de sucesso. E a história da música popular do século XX foi feita assim, e contamo-la com ignorância ou hipocrisisa: como se a influência de uma banda fosse sobretudo mérito artístico, e não resultado de marketing e estratégia empresarial. O fim disto, como podem adivinhar, vejo-o com muito bons olhos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
A questão que me preocupa é que há, de facto, uma crise grave, que dura pelo menos há 10 anos e se vem agravando continuamente, na indústria da música e que, isso é que é terrível, pode mesmo prejudicar quer os músicos quer os que escutam música. Não porque seja, para mim, um problema que uma banda não se possa tornar nos próximos Beattles. Mas porque se perdeu quase por completo a noção de que o trabalho de um músico tem valor e deve ser pago. E isso, inevitavelmente, afasta da música pessoas que poderiam fazer um trabalho de grande qualidade. Eu gasto mais dinheiro em música do que nunca. E quanto mais downloads faço, mais música conheço e mais dinheiro gasto. Mantenho, em relação a alguns músicos, a excitação de ter saído um novo álbum, e vou à loja comprar. Em alguns casos, depois de já ter a música no computador, vou à loja comprar, porque quero dar dinheiro àquele músico. Mantenho o prazer de me perder numa loja de música e acabar por sair de lá com um álbum que não fazia ideia que ia comprar. Ou melhor, o correcto é dizer, descobri estes prazeres com os downloads, já que quando era adolescente gastava zero em música, copiava tudo em cassete. E escutava meia-dúzia de bandas, e agora estou sempre a descobrir música nova, que é potencialmente música que quero comprar. Quando falo de dowloads, não falo apenas em obter música de graça. Nem é isso a parte melhor. A parte melhor é ter facilmente acesso a música rara, é, a partir de um artista ou um álbum, descobrir todo um género ou uma década ou um movimento, ou um instrumento. A parte melhor é essa possibilidade de navegar pela história da música e - acima de tudo - poder escutar mais música. Isto funcionaria mesmo sem downloads gratuitos. Bastava que a música estivesse online, se pudesse escutar antes de comprar e fosse muito barata. Não, não me digam que isso acontece já. Nem todos estão no Myspace. Talvez até por causa dos downloads ilegais, ou por vontade de contrariar a aceleração da tecnologia, muita música boa só está mesmo disponível em downloads ilegais, que megalómanos partilham com o mundo. Tentem encontrar música do Keith Rowe, por exemplo, ou do Fennesz, ou das Afrirampo. É estranho e terrível, a tecnologia que permite que se conheçam os músicos mais incríveis que existem no mundo, não lhes dá, a seguir, meios de se sustentarem. É triste e não há, de momento, uma solução que seja boa para os músicos, para a música e para quem escuta.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Esta crise, começo a temer, vai cair em cima dos que escutam música, depois de já ter abalado os que a fazem. Não acredito que isto se mantenha assim indefinidamente. Não me parece possível acabar com os downloads. Há até, nos últimos anos, quem se ande a dedicar a criar programas mais blindados, com sistemas de encriptação muito difíceis de contornar, como o OneSwarm, projecto de uma universidade americana, porque se prevê que o tráfego dos utilizadores de internet seja espiado, à procura de ilegalidades. Quando a lei se tornar persecutória (e temo que se vá tornar persecutória), haverá tecnologia (já existe) para escapar à vigilância. Mas, parece-me, não será possível fazer downloads com a facilidade que se fazem agora. O medo levará a que não se partilhe e que fique muito pouco disponível - e, tragicamente, só os nomes mais conhecidos e comerciais é que estarão disponíveis, prevejo.&amp;nbsp; Tenho receio quanto ao futuro. Não tanto por achar que grandes músicos não vão poder ter uma vida de rock star, como desejariam, mas porque me parece que no futuro não vou poder escutar tanta música como escuto agora. E isso prejudica os músicos, não os grandes nomes, mas os outros. Comprei música das OOIOO graças aos downloads. Num futuro sem downloads, eu nem sequer ouvirei falar de uma banda como as OOIOO. Estou já triste pelo futuro adivinhado. É terrível pensar que, num futuro próximo, não me vai acontecer o que aconteceu no passado recente: descobrir um Zakir Hussain, um Derek Bailey, uns tUnE-YarDs, uns Hella, uns Hanatarash, umas Afrirampo. Estou triste e preocupado. Um futuro em que só os ricos se podem dar ao luxo de ser melómanos é um futuro feio.&lt;/div&gt;
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&lt;/div&gt;&lt;img src="http://feeds.feedburner.com/~r/Troblogdita/~4/1I0oA82VQlg" height="1" width="1"/&gt;</description><link>http://feedproxy.google.com/~r/Troblogdita/~3/1I0oA82VQlg/o-fim-do-regabofe.html</link><author>noreply@blogger.com (Nuno Miranda Ribeiro)</author><feedburner:origLink>http://www.nunomirandaribeiro.com/2011/08/o-fim-do-regabofe.html</feedburner:origLink></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-3185971145106344076.post-3690771847824609274</guid><pubDate>Mon, 25 Jul 2011 16:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-07-25T17:50:35.623+01:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">crónicas</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">amizade</category><title>daqui até ao futuro</title><description>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há pouco, tive de escrever uma biografia, que me foi solicitada a propósito de umas traduções. Uma autobiografia, convém especificar. O currículo que apresento normalmente numa entrevista de emprego é curto, cabe numa página. Não estão lá todos os empregos que tive. Escolhi apenas aqueles, e vou mudando, que penso ser mais vantajoso mostrar. Por vezes sinto-me um pouco embaraçado por ver e apresentar a minha vida assim tão resumida, como se ali se esgotassem as minhas experiências e os meus talentos.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ora uma biografia não é um currículo. Os elementos pessoais contam. Como não tenho um emprego na minha área há bastante tempo, mais de dez anos, habituei-me a separar a minha vida assim. Uma coisa é o que um empregador quer saber, outra coisa é a pessoa que sou verdadeiramente, as coisas que sei fazer, as que quero fazer e as que já fiz. Ultimamente, tem estado mais presente o CV que uma (possível) Bio. Afinal, percebi ao elaborar esta, já fiz bastantes coisas que sinto prazer em apresentar e que constatam, para mim mesmo, que a experiência da minha vida não se resume, nem de perto nem de longe, aos três ou quatro empregos que costumo exibir num curriculum vitae.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Há vários momentos importantes na minha vida, que vieram a alterar rumo, motivações e atitude. O último grande momento de mudança é também dos mais importantes. Há uns quatro anos, estava eu a trabalhar em Braga, inscrevi-me e frequentei um curso de escrita criativa com o valter hugo mãe. Vim a conhecer alguns dos amigos mais importantes da minha vida. Essas pessoas não só cuidaram dos meus afectos como me estimularam a ser o que sou e que sozinho me custa mais descobrir. Na Censura Prévia, companhia de teatro que existia junto à Estação da CP em Braga, ousei, porque me desafiaram ao colocar em mim uma inesperada confiança, participar em várias peças de teatro. Aquele E S P A Ç O seria terreno da afirmação e do exercício dos meus afectos e da minha criatividade, junto de quem inspirava e acolhia o melhor de mim.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
As amizades que nasceram no curso de escrita criativa consolidaram-se na frequência do E S P A Ç O. Ali fiz várias coisas pela primeira vez: conceber uma peça de teatro, trabalhar num bar, expor uma instalação feita de desenhos pendurados do tecto. Mais recentemente, com a Sandra Andrade e com o Hugo Loureiro, voltei a trabalhar de forma intensa na concepção de um espectáculo, Der Spleen, que teve apresentação única no Museu Nogueira da Silva.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Ao escrever a minha bio, incluí andar de patins e tocar guitarra. Desde o curso, repetiu-se um fenómeno maravilhoso: alguns dos meus amigos tornaram-se amigos de amigos meus e os amigos deles meus amigos também. Isto aconteceu em todas as direcções, formando uma verdadeira rede social analógica, biológica, material e muito importante. Um dos amigos que fiz, que conheci por ser amigo de uma amiga, cometeu a proeza de me inspirar a voltar a tocar guitarra. Resgatou o prazer de tocar com outras pessoas, e tenho trabalhado com ele e também sozinho.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify;"&gt;
Isto que se passou comigo, perceber que a minha vida é uma história complexa com pessoas dentro, passa-se, creio, com qualquer pessoa que olhe de forma atenta para as suas memórias durante uns minutos. Ninguém nos consegue resumir a um CV. Não somos apenas o emprego, nem o curso, nem o nome de família, nem a terra em que crescemos ou vivemos. E nem sequer somos só o nosso passado. As memórias, tão importantes, servem apenas para saber de onde vimos. O resto, daqui até ao futuro, é connosco e com o momento presente.&lt;/div&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3185971145106344076-3690771847824609274?l=www.nunomirandaribeiro.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="feedflare"&gt;
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