<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645</id><updated>2024-11-05T18:46:28.828-08:00</updated><category term="ANALISE AS ILUSTRAÇÕES E DEIXE O SEU COMENTÁRIO"/><category term="Imagine e complete o texto"/><category term="Informação importante"/><category term="Muito bom"/><category term="TALENTO"/><category term="Você vai amar esse livro"/><category term="depois é só conferir."/><category term="qUER SABER O FINAL DA HISTÓRIA? LEIA O LIVRO. R"/><category term="qUER SABER O FINAL DA HISTÓRIA? LEIA O LIVROS. R"/><title type='text'>UMA JANELA CHAMADA LEITURA</title><subtitle type='html'>AS OBRAS POSTADAS AQUI NECESSITAM DA SUA LEITURA E DOS SEUS COMENTÁRIOS.&#xa;UM ABRAÇO</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>18</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-2469793445360857327</id><published>2012-02-13T10:40:00.001-08:00</published><updated>2012-02-13T10:40:46.588-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;
&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;
Trabalho proposto pelo Professor Jailson Almeida - Ainda sofrerá algumas mudanças &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O SERTÃO LINGÜÍSTICO DE ROSA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lúcia Maria Ferreira Santos*&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RESUMO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O
 texto visa apresentar a revalorização e recriação da linguagem contida 
na obra “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo em 
que pretende possibilitar contato com uma riqueza lingüística que 
transforma a linguagem sertaneja em pura arte, mesclando neologismos que
 proporcionam uma gama de novos vocábulos e aforismos pautados em falas 
ou expressões sertanejas que partem de um campo regional para uma 
linguagem universal, ao mesmo tempo em que suscita uma comparação com os
 aforismos criados por Platão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PALAVRAS-CHAVE: Linguagem; Neologismo; Aforismo; Platão&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considerado
 um marco da literatura “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é uma
 obra com elementos inesgotáveis, que pode ser lido com vários sentidos e
 diferentes objetivos: romance de aventura, relato do sertão brasileiro,
 invenção de um espaço quase mítico, uma chamada à realidade e ao mesmo 
tempo fuga dessa realidade, reflexão sobre o destino do homem, 
apresentação de expressões de angústia metafísica, movimento constante 
entre o real e o imaginário, mas, principalmente, como um originalíssimo
 dicionário de aforismos e neologismos.&lt;br /&gt;
A linguagem de “Grande 
Sertão: Veredas” cria outra realidade, a palavra na narração de  
Riobaldo ganha  uma espécie transcendência,&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
________________________&lt;br /&gt;
*Graduada
 em Letras pela UNEB, DCHT,  CAMPUS XVI - IRECÊ  BA -  PROESP. 
Pós-graduanda em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e suas 
Literaturas&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
transforma vocábulos em algo concreto que ganha estruturas verbais&lt;br /&gt;
autônomas
 e geradoras de si mesmas, durante a leitura é possível perceber que a 
dimensão temática é menos importante do que a dimensão lingüística, que 
apresenta um paradoxo, ao mesmo tempo em que é regionalista é também 
universal, não permitindo que o leitor faça uma leitura de forma 
passiva, visto que o mesmo apresenta um texto insólito, com ritmo e 
musicalidade  a fim de dar maior grandeza ao discurso, surgindo 
construções carregadas de ênfase, vocábulos expressivos, novos ou 
antigos, inventados ou já existentes, pertencentes a língua popular ou 
culta, além de apresentar múltiplas conotações que requer do leitor  um 
alto grau de concentração para associar a linguagem roseana  “floreada” 
de neologismos e aforismos aos vocábulos já apreendidos  ou para uma 
constante reinvenção. E, segundo (Cândido, 1957) “Há de tudo para quem 
souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado, cada um
 poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício: inventar.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1.  Aforismo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1.1-      Conceito&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aforismo
 (ou aforisma) (do latim aphorismu) é uma sentença que em poucas 
palavras compreende um princípio moral. Segundo Tarley Mota “aforismo 
significa explicar aforismo em poucas palavras”.&lt;br /&gt;
Segundo o 
dicionário de filosofia aforismo é uma proposição que exprime de maneira
 sucinta uma verdade, uma regra ou uma máxima concernente à vida 
prática, que com seus preceitos torna o homem feliz, ou menos infeliz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1.2-      Contribuições dos Aforismos&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os
 aforismos podem reverter certas estratégias lexicais, sintáticas e 
semânticas, contribuindo para a expressividade da mensagem, apresentado 
assim, um código de prescrição social para interpretação da realidade, 
este sempre foi um recurso utilizado por autores célebres como: Willian 
Shakespeare, Voltaire, Tarsila do Amaral, Rousseau, Nietzsche e Platão o
 qual pode ser considerado o pai dos aforismos, pois o mesmo utilizou-os
 e procurou conservá-los em seu significado de máxima ou regra para 
dirigir a atividade prática do homem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1.3-      Aforismos de Platão a Rosa&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De
 acordo com Platão, a compreensão do real é feita a partir da distinção 
entre o mundo sensível e o mundo inteligível ou das idéias. Assim sendo,
 também ressalta Aranha (p.85, 2002) que: “... uma coisa é aquilo que é e
 não outra.“ Além do que, para ele o mundo das idéias é regido pela 
ciência e é por meio de um movimento dialético que se chega à ordem da 
verdade, ou seja, sempre mostrando que um dos termos é aparência e 
ilusão e o outro é verdadeiro ou essência.&lt;br /&gt;
Segundo Platão não 
existe oposição entre homem e natureza, ao mesmo tempo em que afirma que
 um é parte integrante do outro e feito dos mesmos elementos. E para 
explicar essa relação homem e natureza usa diversos aforismos, tal como 
Rosa utilizou em sua obra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1.4-      Correlação de Aforismos Platônicos e Roseanos&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aforismo de Platão contido na obra Banquete   &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aforismo de Rosa contido na obra Grande Sertão: Veredas &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“O amor não é todo ele belo e digno de ser louvado” (p. 12)&lt;br /&gt;
“Amor é isso: O que bem quer e faz mal” (p. 566)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“A festins de bravos, bravos vão livremente” (p. 5)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“O senhor sabe: sertão onde manda quem é forte, com as astúcias”(p35)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Amor não comete nem sofre injustiças” (p. 27)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Perdoar é sempre o certo e o justo” (p. 92)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“A língua jurou, mas meu peito não” (p. 29)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Viver é muito perigoso” (p. 32); “Deus é paciência” (p. 33)&lt;br /&gt;
“a visão do pensamento&lt;br /&gt;
começa a enxergar com agudeza quando a dos olhos tende a perder sua força”. (p. 53)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver” (p. 76)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2.            Neologismo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2.1-      Conceito&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O
 termo neologismo é um composto de neo (novo) e de logos (palavra) e, 
surgiu no francês do século XVIII originariamente significando certa 
afetação na maneira de dizer alguma coisa. Os neologismos são o 
resultado do processo de neologia, ou seja, são definidos como palavras 
de criação recente ou emprestadas de outra língua, ou acepções novas de 
palavras já existentes e que estão em fase de aceitação pelos falantes 
de uma dada comunidade lingüística. São ligados a todas as inovações nos
 diversos setores da atividade humana.&lt;br /&gt;
Como a língua é dinâmica e 
se renova constantemente, muitas palavras tornam-se arcaicas e deixam de
 ser usadas, outras mudam de significado ou adquirem novas acepções e a 
criação de neologismos é um dos instrumentos de renovação da língua. Os 
neologismos podem ser criados na própria língua ou importado de uma 
língua estrangeira. Há neologismos de cunho popular ou literário, e na 
citada obra literária o autor faz uso constante dessa ferramenta. Deste 
modo, reforça Alves (2002, p.72) que: “a criação neológica faz parte da 
história das línguas e constitui uma evidência inequívoca de vitalidade,
 essencial para suprir as necessidades e as condições de comunicação do 
idioma.”&lt;br /&gt;
Portanto, é válido ressaltar que Guimarães Rosa usou esse
 recurso para enriquecimento de sua obra ao mesmo tempo em que procurou 
passar o enredo de forma poética e agradável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2.2-        Neologismos contidos em Grande Sertão: Veredas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O
 neologismo é um dos instrumentos de renovação da língua, por isso Rosa 
foi feliz em sua escolha, uma vez que, muitos dos neologismos presentes 
na obra em estudo foram incorporados ao léxico e ganhou força na 
linguagem falada. Sobretudo, vale destacar alguns neologismos presentes 
em Grande Sertão: Veredas como, por exemplo: (refalei, soflagrante, 
mamolência, descômodo, desdeixei, abobada, turvação, sovigia, desfechar,
 coraçãoados, desinquietação, esguedelhando, sobejidão, sobreveja, 
encarniçado, jagunçamas, ratragagem, escaravatar, animalada, 
desapartamos, palavreado, retentêia, mormaceira, dificultoso... (ps. 
165, 168, 171, 208, 211, 215, 225, 229, 235, 242, 246, 259, 318, 323, 
331, 355, 367, 377, 391, 409, 443).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3.            Diversidade Lingüística e Cultural literária&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3.1-      Enredo&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O
 Princípio fundamental do desenrolar do enredo se dar basicamente na 
linguagem, não é por acaso que o autor inicia o romance com o vocábulo 
“nonada”, que quer dizer: “nada, coisa alguma, o nada”. Seguida por essa
 vertente, o mesmo inova e revela uma visão global da existência de 
múltiplos elementos presentes no enredo da narrativa tais como: O 
materialismo, o religioso, a natureza, o bem e o mal, o divino e o 
demoníaco. Ao mesmo tempo em que narra lutas entre jagunços, vinganças, 
relação ambígua entre Riobaldo e Diadorim, chama a atenção do leitor 
para uma interpretação constitutiva dessa “nonada”.&lt;br /&gt;
Em síntese o 
que se observa é uma obra literária com fortes elementos da cultura 
popular e sertaneja que abarca um leque com vários elementos 
lingüísticos que ganha diferentes dimensões e significados durante a sua
 apresentação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3.2-      Tempo e Espaço&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O
 tempo e o espaço em “Grande Sertão: Veredas” apresenta uma ruptura com a
 hora cronológica e com o espaço geográfico convencional, em vez de 
seguir uma seqüência linear o tempo “volteia” seguindo o fluxo da 
memória do narrado.&lt;br /&gt;
No entanto, a trama ocorre no sertão mineiro 
(norte), sul da Bahia e Goiás, que, ganha um caráter universal devido 
apresentar inúmeras divagações e reflexões. Além disso, vale ressaltar 
conforme Rosa (2001, p.32) que: “O sertão é o mundo”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3.3-      Personagens&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Riobaldo,
 narrador-personagem e protagonista de “Grande Sertão: Veredas” busca em
 suas memórias e reflexões negar a existência do demônio, ao mesmo tempo
 em que conclui que o mal é uma característica intrínseca ao ser. 
Percebe-se que o mesmo sente dificuldade em narrar os fatos e sempre 
reafirmando o que diz usando a própria linguagem.&lt;br /&gt;
A personagem em 
discussão realiza três travessias: A primeira é exterior, quando vive em
 um sertão real, onde ele conhece a natureza, os bichos e as reações dos
 seus companheiros de “jagunçagem”, a segunda é interior, quando ele 
afirma que “o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente”,
 e é nesse momento que a personagem vive o seu maior conflito e suas 
noções são difusas e o mesmo não consegue diferenciar o bem e o mal. 
Ambição e ódio, que paradoxalmente surge a explosão de um amor 
impossível.&lt;br /&gt;
A terceira e última é uma travessia mítica 
(Riobaldo-jagunço) para uma travessia real (Riobaldo-fazendeiro). 
Diadorim é o jagunço Reinaldo, integrante do Bando de Joca Ramiro, 
durante o desenrolar do romance esconde sua real identidade (Maria 
Diadorim), travestindo-se de homem e deixando sua identidade à mostra 
somente após a sua morte, personagem que se mostra sensível ao 
contemplar uma bela paisagem, porém, capaz de matar a sangue frio.&lt;br /&gt;
Durante
 todo o enredo representa o amor impossível e proibido, causando grande 
conflito em Riobaldo como demonstra essa fala... “mas, dois guerreiros, 
como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação – por 
detrás de tantos brios e armas?” (Rosa, op. cit. p. 593).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CONCLUSÃO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conclui-se
 que a linguagem apresentada na obra de Rosa é bastante mítica, já que 
nos faz um convite a um universo de símbolos, do imaginário, de 
elementos amorfos e nos faz viajar por um mundo onde o significado está 
naquilo que se inventa – e Rosa fabrica um mundo de novos vocábulos, 
para entender e para expressar o universo lingüístico presente em 
“Grande Sertão: Veredas”. Nada mais significativo nesse contexto do que 
uma fala do próprio Guimarães Rosa a respeito da linguagem:&lt;br /&gt;
A 
linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho 
de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a 
linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como 
escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada 
palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a 
única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha 
de cinzas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Romance constrói uma nova dimensão para o 
ambiente e as pessoas do sertão, apresenta um amor proibido e seus 
conflitos psicológicos, faz referência a falta de comunicação entre as 
classes sociais, mostra uma realidade transformada e reinventada, mas, 
seu aspecto mais marcante e significativo é a diversidade lingüística, 
visto que o mesmo apresenta constantemente frases compostas de aforismos
 e neologismos, ao mesmo tempo em que recorre a vocábulos construídos 
com prefixos e  sufixos, percebe-se também que a obra referenda citações
 de diversos textos literários, religiosos e filosóficos, ao mesmo tempo
 em que suscita uma oralidade aparentada ao discurso platônico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
REFERÊNCIA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1988.&lt;br /&gt;
CASTRO, Nei Leandro de. Universo e Vocabulário do Grande Sertão. 20ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia: São Paulo: Ática, 2002.&lt;br /&gt;
COUTINHO, I. L. Pontos de gramática histórica. 5ª ed. Rio de Janeiro: Liv. Acadêmica, 1962.&lt;br /&gt;
DUBOIS, J. e col. Dicionário de lingüística (trad.). São Paulo: Ed. Cultrix, 1998.&lt;br /&gt;
FERREIR, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1986.&lt;br /&gt;
FIORIN, Luís José e SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto- Leitura e redação. 10ª ed. São Paulo: Ática, 1995.&lt;br /&gt;
RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: Dos primeiros Cronistas aos últimos Românticos. São Paulo: Edusp, 2002.&lt;br /&gt;
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/2469793445360857327/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2012/02/trabalho-proposto-pelo-professor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2469793445360857327'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2469793445360857327'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2012/02/trabalho-proposto-pelo-professor.html' title=''/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-8753416539153794983</id><published>2011-10-01T16:50:00.001-07:00</published><updated>2011-10-01T16:50:17.833-07:00</updated><title type='text'>visite</title><content type='html'>&lt;div dir=&quot;ltr&quot; style=&quot;text-align: left;&quot; trbidi=&quot;on&quot;&gt;&lt;br /&gt;
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&lt;span style=&quot;font-size:180%;&quot;&gt;PRIMEIRO DIA DE APRESENTAÇÃO &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color:#ff0000;&quot;&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;&quot;&gt;TURMA DO PRIMEIRO ANO A - 2009&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;color:#ff0000;&quot;&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;color:#ff0000;&quot;&gt;&lt;strong&gt;TRABALHO PROPOSTO PELA PROFESSORA LÚCIA.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 589px; DISPLAY: block; HEIGHT: 396px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360941516668019618&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7A4eARy2r69vQaOJVhvxpTtjJF_R1ousAcIeL2wszLXX8VppFM2NW8VHz88y4OX6pMxnIWys8pyej9EHe1lpjeZOXif7lc9eWZGxTLW3lpcc7rHIrY5zHjxpU6eUDbhUBARRVl2iUcZ8/s400/LLLLL+273.jpg&quot; 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ESTE GRUPO TEM!!!!! -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARABÉNS!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhNF206EJtath9ycy0GLmYK9rMHIwN0MnFs1R8VGVJQl9mcNXY7H2LfDp12SxzgqVSGGgZHjWEU1Cpylxca_OZbi92wryRH-sMbMj0XJv6xzcq53nEWLv9SqJZtMfr7MWwEs9c-Vx-gc_c/s1600-h/LLLLL+101.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 558px; FLOAT: right; HEIGHT: 352px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360936004866428418&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhNF206EJtath9ycy0GLmYK9rMHIwN0MnFs1R8VGVJQl9mcNXY7H2LfDp12SxzgqVSGGgZHjWEU1Cpylxca_OZbi92wryRH-sMbMj0XJv6xzcq53nEWLv9SqJZtMfr7MWwEs9c-Vx-gc_c/s400/LLLLL+101.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7FW4zX7eAFK4FS-rMK4B3IYkTy5Yxmil_7tRWAL69uoCd-mwpoEYBoXZ6wNDSmr2H1Gzre76J-pT4lCV7PeIi2WBY9BPAuQR2abtaI01c7j4w3xozp1brt5i2ERvm5x60lhAQydYYEvs/s1600-h/LLLLL+118.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 0px 10px 10px; 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WIDTH: 603px; FLOAT: right; HEIGHT: 343px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360935999556962866&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjXUcCxGzSZfOksgr-5rc562Jgw5bARUsppGG1bV76CozEt5OkolEyS-XCTcZQDRDWq7LO30KoUVPfLkDCe6Ix-lq5lIdjB3Dvl0DlcVw_sbggw8mdsYKGJJWwBPnmssIQew0W2VgO9_X0/s400/LLLLL+100.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-family:lucida grande;font-size:130%;color:#cc0000;&quot;&gt;Apresentação de fazer inveja!!!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgA9nOL-rExhhW4F1-x9iCG1lUe0zTOgH-gGYWBF1ja9eXOuB_aaGbjpSsrWNM93rnTl59t5msytchStOEqtkYrzGIVyI4pPwg5d4bvNe8O1QpN413tReoowkGayZnnuYYu2yUB8u_lZpw/s1600-h/LLLLL+141.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 616px; FLOAT: left; HEIGHT: 441px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360931078132964802&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgA9nOL-rExhhW4F1-x9iCG1lUe0zTOgH-gGYWBF1ja9eXOuB_aaGbjpSsrWNM93rnTl59t5msytchStOEqtkYrzGIVyI4pPwg5d4bvNe8O1QpN413tReoowkGayZnnuYYu2yUB8u_lZpw/s400/LLLLL+141.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARABÉNS GALERA!!!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTikZ7HTN8IfTUp4vZ7af6TR-o7wGn4HXCrzk-eyx1tOkCtKRjSoPVTHq_1j2uD92r6GFD2KBxgTfMxUWx9ZW2n4SsA3CZVMYRQekTSrTWNKx_4F9oqEw_EJvKn79eGTf4dE9jH0yiEc8/s1600-h/LLLLL+166.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 658px; FLOAT: left; HEIGHT: 329px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360931073567275202&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTikZ7HTN8IfTUp4vZ7af6TR-o7wGn4HXCrzk-eyx1tOkCtKRjSoPVTHq_1j2uD92r6GFD2KBxgTfMxUWx9ZW2n4SsA3CZVMYRQekTSrTWNKx_4F9oqEw_EJvKn79eGTf4dE9jH0yiEc8/s400/LLLLL+166.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;MUITO BOM!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnhU2EA8_k3vv9CwaQic0Atgi5zOZbqyGEza_6U_YiBg4N8dx4Y3HvLT3UUPHt9Z-VHc8o0CcSimeZT1B7cmS0Sc5abZzT1OU8mrJsjWb8w1T2b36cOXihphB1ZfsFN-MINwKMr1rzYSk/s1600-h/LLLLL+152.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 628px; FLOAT: left; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360931067712528194&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnhU2EA8_k3vv9CwaQic0Atgi5zOZbqyGEza_6U_YiBg4N8dx4Y3HvLT3UUPHt9Z-VHc8o0CcSimeZT1B7cmS0Sc5abZzT1OU8mrJsjWb8w1T2b36cOXihphB1ZfsFN-MINwKMr1rzYSk/s400/LLLLL+152.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SHOW DE BOLA!!!&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiwT88f_5iR8CDQU9S93o-O2iUxEv5P_SPcY15FOHxnVDeji5sCYIBtz7zpNlbPGbSY7PM20eyoPVMczR8LzUHL5vUctTyvoM1GT7Lvyf4HjYTES3TCF0kdWkDILo6oZ_l7kzfZ81M0_fg/s1600-h/LLLLL+144.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 630px; FLOAT: left; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360931065740924018&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiwT88f_5iR8CDQU9S93o-O2iUxEv5P_SPcY15FOHxnVDeji5sCYIBtz7zpNlbPGbSY7PM20eyoPVMczR8LzUHL5vUctTyvoM1GT7Lvyf4HjYTES3TCF0kdWkDILo6oZ_l7kzfZ81M0_fg/s400/LLLLL+144.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt; Casamento na peça!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRIATIVIDADE E TALENTO JUNTOS !!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg13sk46wJVBlgjA54TCItgcVBDlicrP2Y8Q8m2trsrLE_pl2ACPDcXRXXvAdTmjUxm9A3fpc6vZObwVL1xrnlsNYMzC_W0kMyJMjRlutw9XQyX6_YWOCrcWLT7Qn1XBl3qp6_V3oQBRw4/s1600-h/LLLLL+164.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 477px; FLOAT: left; HEIGHT: 445px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360931060372851506&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg13sk46wJVBlgjA54TCItgcVBDlicrP2Y8Q8m2trsrLE_pl2ACPDcXRXXvAdTmjUxm9A3fpc6vZObwVL1xrnlsNYMzC_W0kMyJMjRlutw9XQyX6_YWOCrcWLT7Qn1XBl3qp6_V3oQBRw4/s400/LLLLL+164.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LINDOS!!!!!!!!!!!&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjaF-hCyTcBikLzwl3xlbBxr3rZyOr8zZEXWMb0k2LnGO9R2Trv5ZdHb0GsB9ZRHtf5TyaVfAt8WAVDw720BLJMCZVeOvELY_HMhJUWagWLJiQUWd0bU8XOOvbbLnsYInLGR17jTooKzfs/s1600-h/LLLLL+163.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; 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CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360928690385120274&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-k4x3qoq3sIqU1-bYFLuUr0PPGAnoAaG92BFZv-l0VbVkeQ3P5MSLo5ldsmBByQFM-Tl6xOtg641ytpk0r9p6dvfmMKNZb7Xy1TS9J34txYZh_snZheu937pXxi95x_4X0z4-Y1MHm0Y/s400/LLLLL+114.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;LUZ EM TUDO QUE É FEITO COM AMOR E DEDICAÇÃO!!!!! &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8K8mdOXtJjDL98Qjw3PuFzn6OeypLm41GDob-8Bbfj-DHS_dihHm_mb712iqkJVa1mUjYMJ9E_aq3wYGUYxYHD2CspM6G89QITLPFh9w0Y2dhyKxiyfa62nGJ7aXxOu4X73YvfVxr49g/s1600-h/LLLLL+112.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 501px; FLOAT: left; HEIGHT: 359px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360928687909817170&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8K8mdOXtJjDL98Qjw3PuFzn6OeypLm41GDob-8Bbfj-DHS_dihHm_mb712iqkJVa1mUjYMJ9E_aq3wYGUYxYHD2CspM6G89QITLPFh9w0Y2dhyKxiyfa62nGJ7aXxOu4X73YvfVxr49g/s400/LLLLL+112.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REFLEXÃO!!! FOI MUITO BOM!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgqWWAaILXb4i3ORZYlrsfBcs8XxJSYuVXEFRNxu7wpZBbAhWrsrJ8Q8G9ZX4ec9ALxhJrD2m-EKxCenYfjCGRDOejokLLdS6IYG5e13bqeyRK7Truh0bPTW4z9CjuqYdKZDz0jOV9PcLk/s1600-h/LLLLL+095.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 579px; FLOAT: left; HEIGHT: 357px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360928675587451010&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgqWWAaILXb4i3ORZYlrsfBcs8XxJSYuVXEFRNxu7wpZBbAhWrsrJ8Q8G9ZX4ec9ALxhJrD2m-EKxCenYfjCGRDOejokLLdS6IYG5e13bqeyRK7Truh0bPTW4z9CjuqYdKZDz0jOV9PcLk/s400/LLLLL+095.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARTISTAS!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GALERA MOSTROU QUE TEM TALENTO&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg__HWOmc2FhoawoAG52zzUTiPx1_L2HKQJoUph3wEZyoAzy3XYa5BdoJfIH1A2hTDTMFP-pYGUFBO3CehVBn0P2XKqepvZhaAkXjnLxINar1Y7huun0d9uNwXo-G__8GaJ5r_emdvtY_Q/s1600-h/LLLLL+101.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; 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/&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARABÉNS PELA CRIATIVIDADE E CORAGEM!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgREuKKjvrtuy-eNk0CzmLxRqyZ0_OwcQKt79uh0GPwo7ZPPrOp59BbttxrpxYw9AQ008mh_LyvA657yQ2LDIPJLIOcOJbW4gZCuiX4WH6xlFMmdAN9IusbxZpMChwPr0WWKsYkiNwHMKo/s1600-h/LLLLL+113.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 614px; FLOAT: left; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5360927305799989042&quot; border=&quot;0&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgREuKKjvrtuy-eNk0CzmLxRqyZ0_OwcQKt79uh0GPwo7ZPPrOp59BbttxrpxYw9AQ008mh_LyvA657yQ2LDIPJLIOcOJbW4gZCuiX4WH6xlFMmdAN9IusbxZpMChwPr0WWKsYkiNwHMKo/s400/LLLLL+113.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LINDA , INTELIGENTE E TALENTOSA!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEixmjnk5uzGThGFyJ0DJU3C2eLdLgpGvBQrWGiCs2HwnFqy3b2O3ly7aAxBRW1T3WxknPleWSvjNTrhjnL15rDwY7ryYxilae9rOe5hdoMANZn18JrdkL6rdt6oT307LFteUY0CXJh0Jdk/s1600-h/LLLLL+099.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;TEXT-ALIGN: center; 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&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color:#ff0000;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color:#ff0000;&quot;&gt;O caso do espelho &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size:180%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color:#ff0000;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size:130%;&quot;&gt;Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata. Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos: - Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui?- Isso é um espelho - explicou o dono da loja.- Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai. Os olhos do homem ficaram molhados.- O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante. O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira.- É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito? O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho. Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira. A mulher ficou só olhando. No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando.- Ah, meu Deus! — gritava ela desnorteada. - É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu!- Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida.- Que foi isso, mulher?- Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato?- Que retrato? - perguntou o marido, surpreso.- Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira!O homem não estava entendendo nada.- Mas aquilo é o retrato do meu pai!Indignada, a mulher colocou as mãos no peito: - Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa? A discussão fervia feito água na chaleira. - Velho lazarento coisa nenhuma! - gritou o homem, ofendido.A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa. - Que é isso, menina?- Aquele cafajeste arranjou outra!- Ela ficou maluca - berrou o homem, de cara amarrada.- Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher!A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato. Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada.- Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje!E completou, feliz, abraçando a filha: - Fica tranqüila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/2589908394174359526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/06/o-caso-do-espelho-era-um-homem-que-nao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2589908394174359526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2589908394174359526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/06/o-caso-do-espelho-era-um-homem-que-nao.html' title='Conto'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-2475223685827017268</id><published>2009-06-15T13:13:00.000-07:00</published><updated>2009-06-15T13:14:08.028-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'></content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/2475223685827017268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/06/blog-post.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2475223685827017268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/2475223685827017268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/06/blog-post.html' title=''/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-1109101463475118602</id><published>2009-04-24T13:48:00.000-07:00</published><updated>2009-04-24T13:52:57.134-07:00</updated><title type='text'>CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA</title><content type='html'>&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;Carta de Pero Vaz de Caminha&lt;br /&gt;Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado. E portanto, Senhor, do que hei de falar começo: E digo quê: A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto. Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser ! Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais ! E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos. E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças. E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa. A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber. Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata! Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram. Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças -- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças. E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d&#39;água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar. Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais. Dos que ali andavam, muitos -- quase a maior parte --traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos. E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d&#39;escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam. Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d&#39;água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo. Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós. E com isto nos tornamos, e eles foram-se. À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite. Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção. Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé. Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra. Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham. Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d&#39;água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram. Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem. E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados. E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar. E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos. E assim ficou determinado por parecer melhor a todos. Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos. Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas. E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum. Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza. Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles. Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado. E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima. E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares. E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia. Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos ! Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas. Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir. Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza. E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos. E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite. Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus. Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer. E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram. Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves! E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha. Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar. Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja. Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem. Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá. Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles. Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos. Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim! Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos. Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pagem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar. E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção. Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos! Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção. Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras. E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram. Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor. Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação. Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer. Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui. Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d&#39;agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé! E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d&#39;Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/1109101463475118602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/carta-de-pero-vaz-de-caminha.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1109101463475118602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1109101463475118602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/carta-de-pero-vaz-de-caminha.html' title='CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-8883776101688790594</id><published>2009-04-24T13:41:00.000-07:00</published><updated>2009-04-24T13:47:02.193-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="depois é só conferir."/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Imagine e complete o texto"/><title type='text'>Complete o texto</title><content type='html'>Seu -----------------de pulso tocou. Ainda zonzo pelas doses -----------------de da noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;anterior, e com gosto de ---------------na boca, Luís abriu os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviu o barulho do ----------------------elétrico vindo do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Opa, acho que me dei bem ontem, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou as peças de -------------------- espalhadas pelo chão. Que corpinho é esse, pensou. Viu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os ---------------de pingente, delicados. Que orelhinha é essa, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu o --------------------------de barbear... Peraí, ----------------de barbear?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que pernão é esse? Pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente o --------------------------------tocou. De dentro do banheiro uma voz grossa disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Atende pra mim, garanhão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode imaginar. Aqui tem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resopostas - relógio, uísque, cabo de guarda-chuva, chuveiro, roupas, brincos, aparelho (repetida), celular.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/8883776101688790594/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/complete-o-texto.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/8883776101688790594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/8883776101688790594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/complete-o-texto.html' title='Complete o texto'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-3196972907362139475</id><published>2009-04-21T12:13:00.002-07:00</published><updated>2009-04-21T12:19:06.143-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="qUER SABER O FINAL DA HISTÓRIA? LEIA O LIVROS. R"/><title type='text'>ATENEU</title><content type='html'>&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Este projeto conta com recursos da AT&amp;amp;T Foundation e Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo.&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.&lt;br /&gt;Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.&lt;br /&gt;Eu tinha onze anos.&lt;br /&gt;Freqüentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de alguns companheiros — um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberância calosa que tinha; outro adamado, elegante, sempre retirado, que vinha à escola de branco, engomadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam às mestras por duas iniciais como em monograma.&lt;br /&gt;Lecionou-me depois um professor em domicílio.&lt;br /&gt;Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. O internato! Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, — massa tempestuosa das antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos seculares ódios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providência Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau. Força era deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a sonolência morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência adamantina da água...&lt;br /&gt;Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.&lt;br /&gt;Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti.&lt;br /&gt;Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.&lt;br /&gt;Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.&lt;br /&gt;O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.&lt;br /&gt;Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as conde¬corações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sen¬tir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas — era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não vêem os cavados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, — teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.&lt;br /&gt;A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.&lt;br /&gt;Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.&lt;br /&gt;A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.&lt;br /&gt;Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício, exatamente a que servia de capela; paredes estucadas de suntuosos relevos, e o teto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos anjinhos, ostentando atrevimentos róseos de carne, agitando os minúsculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaza no ar. Desarmado o oratório, construíram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a maior concorrência preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco espaçosa; e o público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a imediata. Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pai ministrava-me informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa de grosso pano verde e borlas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do império, a comissão dos prêmios. Eu via e ouvia. Houve uma alocução comovente de Aristarco; houve discursos de alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas línguas. O espetáculo comunicava-me certo prazer repeitoso. O diretor, ao lado do ministro, de acanhado físico, fazia-o incivilmente desaparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se, elevado no seu orgulho como em um trono. A bela farda negra dos alunos, de botões dourados, infundia-me a consideração tímida de um militarismo brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem. A letra dos cantos, em coro dos falsetes indisciplinados da puberdade; os discursos, visados pelo diretor, pançudos de sisudez, na boca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon malfeito da burguesia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivela, ou exagerados, de voz cava e caretas de tragédia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sábias máximas do ensino redentor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres à frente, na investida heróica do obscurantismo, agarrando pelos cabelos, derribando, calcando aos pés a Ignorância e o Vício, misérrimos trambolhos, consternados e esperneantes.&lt;br /&gt;Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, O Venâncio, professor do colégio, a quarenta mil-réis por matéria, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independência, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certame das armas da inteligência; depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores de retórica a martelo; e a apologia da vida de colégio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarco e do Ateneu. “O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar cotidiano da sagrada profissão, o seu auxílio ampara-nos como a Providência na Terra; escolta-nos assíduo como um anjo da guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de sensação), e o espírito, é a força que impele, o impulso que triunfa, o triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a glória é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A família, é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável da vontade. Acima de Aristarco — Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus — Aristarco.”&lt;br /&gt;Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de eloqüência.&lt;br /&gt;Eu me sentia compenetrado daquilo tudo; não tanto por entender bem, como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes pintadas da ante-sala imitavam pórfiro verde; em frente ao pórtico aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar superior. Flanqueando a majestosa porta desta escada, havia dois quadros de alto-relevo; à direita, uma alegoria das artes e do estudo; à esquerda, as indústrias humanas, meninos nus como nos frisos de Kaulbach, risonhos, com a ferramenta simbólica — psicologia pura do trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da inocência. Eram meus irmãos! Eu estava a esperar que um deles, convidativo, me estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria o colégio, tradução concreta da alegoria, ronda angélica de corações à porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no ritual austero da virtude!&lt;br /&gt;Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio.&lt;br /&gt;O Ateneu estava situado no Rio Comprido, extremo ao chegar aos morros.&lt;br /&gt;As eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de novembro. Esta melancolia era um plágio ao detestável pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de Minas. Aristarco dava-se palmas desta tristeza aérea — a atmosfera moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior luxo da casa, como um apêndice mínimo da arquitetura.&lt;br /&gt;No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) não percebi a sensação de ermo tão acentuada em sítios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento faziam sorrir a paisagem. O arvoredo do imenso jardim, entretecido a cores por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de estranha alegria; os vistosos panos, em meio da ramagem, fingiam flores colossais, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos frutificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pai prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.&lt;br /&gt;Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante de mim, um sujeito mais próximo fez-me rir; levava de fora a fralda da camisa… Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão subia um cheiro forte de canela pisada; através das árvores, com intervalos, passavam rajadas de música, como uma tempestade de filarmônicas.&lt;br /&gt;Um último aperto mais rijo, estalando-me as costelas, espremeu-me, por um estreito corte de muro, para o espaço livre.&lt;br /&gt;Em frente, um gramal vastíssimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes, contentes no espaço, com o pitoresco dos tons enérgicos cantando vivo sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas de estrado com cadeiras quase exclusivamente ocupadas por senhoras, fulgindo os vestuários, em violenta confusão de colorido. Algumas protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, à altura da fronte, contra a rutilação do dia num bloco de nuvens que crescia do céu. Acima do estrado balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de bambu, projetando franjas longuíssimas de sombra pelo campo de relva.&lt;br /&gt;Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. “Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.” A princesa imperial, Regente nessa época, achava-se à direita em gracioso palanque de sarrafos.&lt;br /&gt;Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. Todos de branco, apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os quadris e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas livres. Ao ombro esquerdo traziam laços distintivos das turmas. Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras.&lt;br /&gt;Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais.&lt;br /&gt;Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor.&lt;br /&gt;Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema.&lt;br /&gt;Ao peito tilintavam-se as agulhetas do comando, apenas de cordões vermelhos em trança. Ele dava as ordens fortemente, com uma vibração penetrante de corneta que dominava a distancia, e sorria à docilidade mecânica dos rapazes. Como oficiais subalternos, auxiliavam-no os chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo à manga distintivos de fita verde e canutilho.&lt;br /&gt;Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade.&lt;br /&gt;O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava.&lt;br /&gt;Deram fim à festa os saltos, os páreos de carreira, as lutas romanas e a distribuição dos prêmios de ginástica, que a mão egrégia da Sereníssima Princesa e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam sobre os peitos vencedores. Foi de ver-se os jovens atletas aos pares aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o corpo, passo miúdo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes prodigalizando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação desengonçada de avestruz, chegando estofados, com placas de poeira na cara, ao poste da vitória.&lt;br /&gt;Aristarco arrebentava de júbilo. Pusera de parte o comedimento soberano que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a rapaziada, e chapéu-do-chile, distribuía-se numa ubiqüidade impossível de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os príncipes com o risinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e irônico, desfeito em etiquetas de reverente súdito e cortesão; viam-no bradando ao professor de ginástica, a gesticular com o chapéu seguro pela copa; viam-no formidável, com o perfil leonino rugir sobre um discípulo que fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver lutado em lugar úmido, gastando tal veemência no ralho, que chegava a ser carinhoso.&lt;br /&gt;O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria celerípede a frente dos estrados, cheio de cumprimentos para os convidados especiais e de interjetivos amáveis para todos. Perpassava como uma visão de brim claro, súbito extinta para reaparecer mais viva noutro ponto. Aquela expansão vencia-nos; ele irradiava de si, sobre os alunos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos estandartes de batalha. Roubava-nos dois terços da atenção que os exercícios. pediam; indenizava-nos com o equivalente em surpresas de vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro em roda, por ascensões cobrejantes de girândola, que iam às nuvens, que baixavam depois serenamente, diluídas na viração da tarde, que os pulmões bebiam. Ator profundo, realizava ao pé da letra, a valer, o papel diáfano, sutil, metafísico, de alma da festa e alma do seu instituto.&lt;br /&gt;Uma coisa o entristeceu, um pequenino escândalo. Seu filho Jorge, na distribuição dos prêmios, recusara-se a beijar a mão da princesa, como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho! Tinha já aos quinze anos as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter! Ninguém mostrou perceber a bravura. Aristarco, porém, chamou o menino à parte. Encarou-o silenciosamente e — nada mais. E ninguém mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o infeliz, cremado ao fogo daquele olhar! Nesse momento as bandas tocavam o hino da monarquia jurada, última verba do programa.&lt;br /&gt;Começava a anoitecer, quando o colégio formou ao toque de recolher. Desfilaram aclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando alegremente uma canção escolar.&lt;br /&gt;À noite houve baile nos três salões inferiores do lance principal do edifício e iluminação no jardim.&lt;br /&gt;Na ocasião em que me ia embora, estavam acendendo luzes variadas de Bengala diante da casa. O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora. Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha de coral flamante, como um cenário animado de safira com horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado à selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de luz elétrica, derivado de foco invisível, feria a inscrição dourada ATHENÆUM em arco sobre as janelas centrais, no alto do prédio. A uma delas, à sacada, Aristarco mostrava-se. Na expressão olímpica do semblante transpirava a beatitude de um gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da imortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim: — luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Panteão. A contemplação da posteridade embaixo.&lt;br /&gt;Aristarco tinha momentos destes, sinceros. O anúncio confundia-se com ele, suprimia-o, substituía-o, e ele gozava como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho. Naquele momento, não era simplesmente a alma do seu instituto, era a própria feição palpável, a síntese grosseira do título, o rosto, a testada, o prestígio material de seu colégio, idêntico com as letras que luziam em auréola sobre a cabeça. As letras, de ouro; ele, imortal: única diferença.&lt;br /&gt;Guardei, na imaginação infantil, a gravura desta apoteose com o atordoamento ofuscado, mais ou menos de um sujeito partindo à meia&lt;br /&gt;noite de qualquer teatro, onde, em mágica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do último quadro.&lt;br /&gt;— Conheci-o solene na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande diretor, foi aquele — o belo bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, fotografia estática, na aventura de um raio elétrico.&lt;br /&gt;É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pai que eu ia ser apresentado ao diretor do Ateneu e à matrícula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legítimo instinto da responsabilidade altiva; era uma conseqüência apaixonada da sedução do espetáculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender à comunhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empresa ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiência de dez anos.&lt;br /&gt;O diretor recebeu-nos em sua residência, com manifestações ultra de afeto. Fez-se cativante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espírito, evidenciou as faturas do seu coração. O gênero era bom sem dúvida nenhuma; que apesar do paletó de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apesar da bondosa familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destituí da altitude de divinização em que o meu critério embasbacado o aceitara.&lt;br /&gt;Verdade é que não era fácil reconhecer ali, tangível e em carne, uma entidade outrora da mitologia das minhas primeiras concepções antropomórficas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho, feiíssimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, carbonizando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarco, e o supunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagógica, óculos apocalípticos, carapuça negra de borla, fanhoso, onipotente e mau, com uma das mãos para trás escondendo a palmatória e doutrinando à humanidade o bê-á-bá.&lt;br /&gt;As impressões recentes derrogavam o meu Aristarco; mas a hipérbole essencial do primitivo transmitia-se ao sucessor por um mistério de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquela complicação imediata do paletó de seda e do sapato raso, fazendo aliança com Aristarco II contra Aristarco I, no reino da fantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Ele! Estremeci.&lt;br /&gt;“Como se chama o amiguinho?” perguntou-me o diretor.&lt;br /&gt;— Sérgio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o “seu criado” da estrita cortesia.&lt;br /&gt;— Pois, meu caro Sr. Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabeleireiro deitar fora estes cachinhos... Eu tinha ainda os cabelos compridos, por um capricho amoroso de minha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O diretor, explicando a meu pai, acrescentou com o risinho nasal que sabia fazer: “Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu colégio...”&lt;br /&gt;— Peço licença para defender os meninos bonitos... objetou alguém entrando.&lt;br /&gt;Surpreendendo-nos com esta frase, untuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do diretor, D. Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o talho folgado das pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria também a cor do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado; e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Esta aparição maravilhou-me.&lt;br /&gt;Houve as apresentações de cerimônia, e a senhora com um nadinha de excessivo desembaraço sentou-se no divã perto de mim.&lt;br /&gt;— Quantos anos tem? perguntou-me.&lt;br /&gt;— Onze anos...&lt;br /&gt;— Parece ter seis, com estes lindos cabelos.&lt;br /&gt;Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabelo nos dedos:&lt;br /&gt;— Corte e ofereça à mamãe, aconselhou com uma carícia; é a infância que ali fica, nos cabelos louros... Depois, os filhos nada mais têm para as mães.&lt;br /&gt;O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina música. Olhei furtivamente para a senhora. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras, lúcidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pai, formulou sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no internato.&lt;br /&gt;— Mas o Sérgio é dos fortes, disse Aristarco, apoderando-se da palavra. Demais, o meu colégio é apenas maior que o lar doméstico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilância são mais ativos. São as crianças os meus prediletos. Os meus esforços mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a família está fora, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os detratores...&lt;br /&gt;Enveredando pelo tema querido do elogio próprio e do Ateneu, ninguém mais pôde falar...&lt;br /&gt;Aristarco, sentado, de pé, cruzando terríveis passadas, imobilizando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como para um auditório de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiráveis, como um leiloeiro, e as opulentas faturas, desenrolou, com a memória de uma última conferência, a narrativa dos seus serviços à causa santa da instrução. Trinta anos de tentativas e resultados, esclarecendo como um farol diversas gerações agora influentes no destino do país! E as reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporais, o que já dava uma benemerência passável. Era preciso a introdução de métodos novos, supressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no sistema das recompensas, ajeitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraíso; adoção de normas desconhecidas cuja eficácia ele pressentia, perspicaz como as águias. Ele havia de criar... um horror, a transformação moral da sociedade!&lt;br /&gt;Uma hora trovejou-lhe à boca, em sangüínea eloqüência, o gênio do anúncio. Miramo-lo na inteira expansão oral, como, por ocasião das festas, na plenitude da sua vivacidade prática. Contemplávamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica — o homem sanduíche da educação nacional, lardeado entre dois monstruosos cartazes. As costas, o seu passado incalculável de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a réclame dos imortais projetos. &lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/3196972907362139475/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ateneu_21.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/3196972907362139475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/3196972907362139475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ateneu_21.html' title='ATENEU'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-3956676820859821994</id><published>2009-04-21T12:13:00.000-07:00</published><updated>2009-04-21T12:18:01.826-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="qUER SABER O FINAL DA HISTÓRIA? LEIA O LIVRO. R"/><title type='text'>ATENEU</title><content type='html'>&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http:&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Este projeto conta com recursos da AT&amp;amp;T Foundation e Secretaria de Estado da Cultura do Estado de São Paulo.&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.&lt;br /&gt;Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.&lt;br /&gt;Eu tinha onze anos.&lt;br /&gt;Freqüentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de alguns companheiros — um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberância calosa que tinha; outro adamado, elegante, sempre retirado, que vinha à escola de branco, engomadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam às mestras por duas iniciais como em monograma.&lt;br /&gt;Lecionou-me depois um professor em domicílio.&lt;br /&gt;Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. O internato! Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, — massa tempestuosa das antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos seculares ódios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providência Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau. Força era deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a sonolência morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência adamantina da água...&lt;br /&gt;Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.&lt;br /&gt;Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti.&lt;br /&gt;Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.&lt;br /&gt;Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.&lt;br /&gt;O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.&lt;br /&gt;Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as conde¬corações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sen¬tir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas — era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não vêem os cavados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, — teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.&lt;br /&gt;A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.&lt;br /&gt;Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.&lt;br /&gt;A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.&lt;br /&gt;Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício, exatamente a que servia de capela; paredes estucadas de suntuosos relevos, e o teto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos anjinhos, ostentando atrevimentos róseos de carne, agitando os minúsculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaza no ar. Desarmado o oratório, construíram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a maior concorrência preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco espaçosa; e o público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a imediata. Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pai ministrava-me informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa de grosso pano verde e borlas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do império, a comissão dos prêmios. Eu via e ouvia. Houve uma alocução comovente de Aristarco; houve discursos de alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas línguas. O espetáculo comunicava-me certo prazer repeitoso. O diretor, ao lado do ministro, de acanhado físico, fazia-o incivilmente desaparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se, elevado no seu orgulho como em um trono. A bela farda negra dos alunos, de botões dourados, infundia-me a consideração tímida de um militarismo brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem. A letra dos cantos, em coro dos falsetes indisciplinados da puberdade; os discursos, visados pelo diretor, pançudos de sisudez, na boca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon malfeito da burguesia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivela, ou exagerados, de voz cava e caretas de tragédia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sábias máximas do ensino redentor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres à frente, na investida heróica do obscurantismo, agarrando pelos cabelos, derribando, calcando aos pés a Ignorância e o Vício, misérrimos trambolhos, consternados e esperneantes.&lt;br /&gt;Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, O Venâncio, professor do colégio, a quarenta mil-réis por matéria, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independência, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certame das armas da inteligência; depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores de retórica a martelo; e a apologia da vida de colégio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarco e do Ateneu. “O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar cotidiano da sagrada profissão, o seu auxílio ampara-nos como a Providência na Terra; escolta-nos assíduo como um anjo da guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de sensação), e o espírito, é a força que impele, o impulso que triunfa, o triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a glória é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A família, é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável da vontade. Acima de Aristarco — Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus — Aristarco.”&lt;br /&gt;Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de eloqüência.&lt;br /&gt;Eu me sentia compenetrado daquilo tudo; não tanto por entender bem, como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes pintadas da ante-sala imitavam pórfiro verde; em frente ao pórtico aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar superior. Flanqueando a majestosa porta desta escada, havia dois quadros de alto-relevo; à direita, uma alegoria das artes e do estudo; à esquerda, as indústrias humanas, meninos nus como nos frisos de Kaulbach, risonhos, com a ferramenta simbólica — psicologia pura do trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da inocência. Eram meus irmãos! Eu estava a esperar que um deles, convidativo, me estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria o colégio, tradução concreta da alegoria, ronda angélica de corações à porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no ritual austero da virtude!&lt;br /&gt;Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio.&lt;br /&gt;O Ateneu estava situado no Rio Comprido, extremo ao chegar aos morros.&lt;br /&gt;As eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de novembro. Esta melancolia era um plágio ao detestável pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de Minas. Aristarco dava-se palmas desta tristeza aérea — a atmosfera moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior luxo da casa, como um apêndice mínimo da arquitetura.&lt;br /&gt;No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) não percebi a sensação de ermo tão acentuada em sítios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento faziam sorrir a paisagem. O arvoredo do imenso jardim, entretecido a cores por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de estranha alegria; os vistosos panos, em meio da ramagem, fingiam flores colossais, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos frutificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pai prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.&lt;br /&gt;Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante de mim, um sujeito mais próximo fez-me rir; levava de fora a fralda da camisa… Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão subia um cheiro forte de canela pisada; através das árvores, com intervalos, passavam rajadas de música, como uma tempestade de filarmônicas.&lt;br /&gt;Um último aperto mais rijo, estalando-me as costelas, espremeu-me, por um estreito corte de muro, para o espaço livre.&lt;br /&gt;Em frente, um gramal vastíssimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes, contentes no espaço, com o pitoresco dos tons enérgicos cantando vivo sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas de estrado com cadeiras quase exclusivamente ocupadas por senhoras, fulgindo os vestuários, em violenta confusão de colorido. Algumas protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, à altura da fronte, contra a rutilação do dia num bloco de nuvens que crescia do céu. Acima do estrado balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de bambu, projetando franjas longuíssimas de sombra pelo campo de relva.&lt;br /&gt;Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. “Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da princesa.” A princesa imperial, Regente nessa época, achava-se à direita em gracioso palanque de sarrafos.&lt;br /&gt;Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável. Todos de branco, apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os quadris e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas livres. Ao ombro esquerdo traziam laços distintivos das turmas. Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; segunda, as maças; terceira, as barras.&lt;br /&gt;Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais.&lt;br /&gt;Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor.&lt;br /&gt;Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correção suprema.&lt;br /&gt;Ao peito tilintavam-se as agulhetas do comando, apenas de cordões vermelhos em trança. Ele dava as ordens fortemente, com uma vibração penetrante de corneta que dominava a distancia, e sorria à docilidade mecânica dos rapazes. Como oficiais subalternos, auxiliavam-no os chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo à manga distintivos de fita verde e canutilho.&lt;br /&gt;Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade.&lt;br /&gt;O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava.&lt;br /&gt;Deram fim à festa os saltos, os páreos de carreira, as lutas romanas e a distribuição dos prêmios de ginástica, que a mão egrégia da Sereníssima Princesa e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam sobre os peitos vencedores. Foi de ver-se os jovens atletas aos pares aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o corpo, passo miúdo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes prodigalizando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação desengonçada de avestruz, chegando estofados, com placas de poeira na cara, ao poste da vitória.&lt;br /&gt;Aristarco arrebentava de júbilo. Pusera de parte o comedimento soberano que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a rapaziada, e chapéu-do-chile, distribuía-se numa ubiqüidade impossível de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os príncipes com o risinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e irônico, desfeito em etiquetas de reverente súdito e cortesão; viam-no bradando ao professor de ginástica, a gesticular com o chapéu seguro pela copa; viam-no formidável, com o perfil leonino rugir sobre um discípulo que fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver lutado em lugar úmido, gastando tal veemência no ralho, que chegava a ser carinhoso.&lt;br /&gt;O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria celerípede a frente dos estrados, cheio de cumprimentos para os convidados especiais e de interjetivos amáveis para todos. Perpassava como uma visão de brim claro, súbito extinta para reaparecer mais viva noutro ponto. Aquela expansão vencia-nos; ele irradiava de si, sobre os alunos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos estandartes de batalha. Roubava-nos dois terços da atenção que os exercícios. pediam; indenizava-nos com o equivalente em surpresas de vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro em roda, por ascensões cobrejantes de girândola, que iam às nuvens, que baixavam depois serenamente, diluídas na viração da tarde, que os pulmões bebiam. Ator profundo, realizava ao pé da letra, a valer, o papel diáfano, sutil, metafísico, de alma da festa e alma do seu instituto.&lt;br /&gt;Uma coisa o entristeceu, um pequenino escândalo. Seu filho Jorge, na distribuição dos prêmios, recusara-se a beijar a mão da princesa, como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho! Tinha já aos quinze anos as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter! Ninguém mostrou perceber a bravura. Aristarco, porém, chamou o menino à parte. Encarou-o silenciosamente e — nada mais. E ninguém mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o infeliz, cremado ao fogo daquele olhar! Nesse momento as bandas tocavam o hino da monarquia jurada, última verba do programa.&lt;br /&gt;Começava a anoitecer, quando o colégio formou ao toque de recolher. Desfilaram aclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando alegremente uma canção escolar.&lt;br /&gt;À noite houve baile nos três salões inferiores do lance principal do edifício e iluminação no jardim.&lt;br /&gt;Na ocasião em que me ia embora, estavam acendendo luzes variadas de Bengala diante da casa. O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora. Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha de coral flamante, como um cenário animado de safira com horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado à selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de luz elétrica, derivado de foco invisível, feria a inscrição dourada ATHENÆUM em arco sobre as janelas centrais, no alto do prédio. A uma delas, à sacada, Aristarco mostrava-se. Na expressão olímpica do semblante transpirava a beatitude de um gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da imortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim: — luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Panteão. A contemplação da posteridade embaixo.&lt;br /&gt;Aristarco tinha momentos destes, sinceros. O anúncio confundia-se com ele, suprimia-o, substituía-o, e ele gozava como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho. Naquele momento, não era simplesmente a alma do seu instituto, era a própria feição palpável, a síntese grosseira do título, o rosto, a testada, o prestígio material de seu colégio, idêntico com as letras que luziam em auréola sobre a cabeça. As letras, de ouro; ele, imortal: única diferença.&lt;br /&gt;Guardei, na imaginação infantil, a gravura desta apoteose com o atordoamento ofuscado, mais ou menos de um sujeito partindo à meia&lt;br /&gt;noite de qualquer teatro, onde, em mágica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do último quadro.&lt;br /&gt;— Conheci-o solene na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande diretor, foi aquele — o belo bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, fotografia estática, na aventura de um raio elétrico.&lt;br /&gt;É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pai que eu ia ser apresentado ao diretor do Ateneu e à matrícula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legítimo instinto da responsabilidade altiva; era uma conseqüência apaixonada da sedução do espetáculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender à comunhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empresa ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiência de dez anos.&lt;br /&gt;O diretor recebeu-nos em sua residência, com manifestações ultra de afeto. Fez-se cativante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espírito, evidenciou as faturas do seu coração. O gênero era bom sem dúvida nenhuma; que apesar do paletó de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apesar da bondosa familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destituí da altitude de divinização em que o meu critério embasbacado o aceitara.&lt;br /&gt;Verdade é que não era fácil reconhecer ali, tangível e em carne, uma entidade outrora da mitologia das minhas primeiras concepções antropomórficas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho, feiíssimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, carbonizando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarco, e o supunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagógica, óculos apocalípticos, carapuça negra de borla, fanhoso, onipotente e mau, com uma das mãos para trás escondendo a palmatória e doutrinando à humanidade o bê-á-bá.&lt;br /&gt;As impressões recentes derrogavam o meu Aristarco; mas a hipérbole essencial do primitivo transmitia-se ao sucessor por um mistério de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquela complicação imediata do paletó de seda e do sapato raso, fazendo aliança com Aristarco II contra Aristarco I, no reino da fantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Ele! Estremeci.&lt;br /&gt;“Como se chama o amiguinho?” perguntou-me o diretor.&lt;br /&gt;— Sérgio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o “seu criado” da estrita cortesia.&lt;br /&gt;— Pois, meu caro Sr. Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabeleireiro deitar fora estes cachinhos... Eu tinha ainda os cabelos compridos, por um capricho amoroso de minha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O diretor, explicando a meu pai, acrescentou com o risinho nasal que sabia fazer: “Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu colégio...”&lt;br /&gt;— Peço licença para defender os meninos bonitos... objetou alguém entrando.&lt;br /&gt;Surpreendendo-nos com esta frase, untuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do diretor, D. Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o talho folgado das pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria também a cor do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado; e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Esta aparição maravilhou-me.&lt;br /&gt;Houve as apresentações de cerimônia, e a senhora com um nadinha de excessivo desembaraço sentou-se no divã perto de mim.&lt;br /&gt;— Quantos anos tem? perguntou-me.&lt;br /&gt;— Onze anos...&lt;br /&gt;— Parece ter seis, com estes lindos cabelos.&lt;br /&gt;Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabelo nos dedos:&lt;br /&gt;— Corte e ofereça à mamãe, aconselhou com uma carícia; é a infância que ali fica, nos cabelos louros... Depois, os filhos nada mais têm para as mães.&lt;br /&gt;O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina música. Olhei furtivamente para a senhora. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras, lúcidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pai, formulou sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no internato.&lt;br /&gt;— Mas o Sérgio é dos fortes, disse Aristarco, apoderando-se da palavra. Demais, o meu colégio é apenas maior que o lar doméstico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilância são mais ativos. São as crianças os meus prediletos. Os meus esforços mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a família está fora, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os detratores...&lt;br /&gt;Enveredando pelo tema querido do elogio próprio e do Ateneu, ninguém mais pôde falar...&lt;br /&gt;Aristarco, sentado, de pé, cruzando terríveis passadas, imobilizando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como para um auditório de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiráveis, como um leiloeiro, e as opulentas faturas, desenrolou, com a memória de uma última conferência, a narrativa dos seus serviços à causa santa da instrução. Trinta anos de tentativas e resultados, esclarecendo como um farol diversas gerações agora influentes no destino do país! E as reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporais, o que já dava uma benemerência passável. Era preciso a introdução de métodos novos, supressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no sistema das recompensas, ajeitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraíso; adoção de normas desconhecidas cuja eficácia ele pressentia, perspicaz como as águias. Ele havia de criar... um horror, a transformação moral da sociedade!&lt;br /&gt;Uma hora trovejou-lhe à boca, em sangüínea eloqüência, o gênio do anúncio. Miramo-lo na inteira expansão oral, como, por ocasião das festas, na plenitude da sua vivacidade prática. Contemplávamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica — o homem sanduíche da educação nacional, lardeado entre dois monstruosos cartazes. As costas, o seu passado incalculável de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a réclame dos imortais projetos. &lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/3956676820859821994/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ateneu.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/3956676820859821994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/3956676820859821994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ateneu.html' title='ATENEU'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-6027764279800562620</id><published>2009-04-12T06:51:00.000-07:00</published><updated>2009-04-12T15:59:43.670-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="ANALISE AS ILUSTRAÇÕES E DEIXE O SEU COMENTÁRIO"/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;ILUSTRAÇÕES FEITAS DURANTE A REALIZAÇÃO DA OFICINA DE LEITURA MINISTRADA PELAS PROFESSORAS GRADUADAS EM LETRAS - GLÁUCIA E LÚCIA JUNTAMENTE COM OS ALUNOS DO CMEVD. BASEADO NA OBRA UM SONHO NO CAROÇO DO ABACATE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align=&quot;left&quot;&gt;&lt;img id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5323803942381770082&quot; style=&quot;DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 219px; CURSOR: hand; HEIGHT: 205px; TEXT-ALIGN: center&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjC1wMJfeRJBlkU2PP132V6Nr1hm-4MX7Nll5T8-BJbnHiHAHCUMz5NmRromBC8XVEPpN9DeXB7vGRmqQMGT7eu55ZIAWzNfUBZdQWh3ZYN-VmVBMtKCP7mHkwzl-odnU47wiIsxmuwox4/s320/DSC04064.JPG&quot; border=&quot;0&quot; /&gt;&lt;/p&gt;&lt;img id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5323806678983822050&quot; style=&quot;DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; CURSOR: hand; HEIGHT: 229px; TEXT-ALIGN: center&quot; alt=&quot;&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjtZzaqjQmt_AAzQe5hlRH4OQEVJXRvLifaWkc6IZA9r9Ea8hnwNH85XAD9XwHERdhTlK3CjeYOmHIJfrz-vz5mHuXmfHdcVaTiNwIxU9Q5iyazJzg5oHLZvQIk26dvipJUkmLG4V-138Q/s320/DSC04057.JPG&quot; border=&quot;0&quot; /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/6027764279800562620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ilustracoes-feitas-durante-realizacao.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/6027764279800562620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/6027764279800562620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/ilustracoes-feitas-durante-realizacao.html' title=''/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjC1wMJfeRJBlkU2PP132V6Nr1hm-4MX7Nll5T8-BJbnHiHAHCUMz5NmRromBC8XVEPpN9DeXB7vGRmqQMGT7eu55ZIAWzNfUBZdQWh3ZYN-VmVBMtKCP7mHkwzl-odnU47wiIsxmuwox4/s72-c/DSC04064.JPG" height="72" width="72"/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-6084754480274682025</id><published>2009-04-12T06:10:00.002-07:00</published><updated>2009-04-12T06:50:14.581-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Você vai amar esse livro"/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family:arial;&quot;&gt;Um Sonho no Caroço do Abacate&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style=&quot;font-family:arial;&quot;&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_0&quot;&gt;Moacyr&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_1&quot;&gt;Scliar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Organização&lt;br /&gt;Equipe Global Editora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilustrações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_2&quot;&gt;Mauricio&lt;/span&gt; Negro e César &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_3&quot;&gt;Landucci&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volume 3 – Novela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1a edição • São Paulo • 2003&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um sonho no caroço do abacate&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;left&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_4&quot;&gt;Moacyr Scliar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_5&quot;&gt;Moacyr&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_6&quot;&gt;Scliar&lt;/span&gt;, 1995&lt;br /&gt;1a Edição, 2003&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_7&quot;&gt;Diretor&lt;/span&gt; Editorial&lt;br /&gt;Jefferson L. Alves&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_8&quot;&gt;Seleção&lt;/span&gt; e Edição&lt;br /&gt;Cecília &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_9&quot;&gt;Reggiani&lt;/span&gt; Lopes&lt;br /&gt;Gerente de Produção&lt;br /&gt;Flávio Samuel&lt;br /&gt;Coordenação de Revisão&lt;br /&gt;Ana Cristina Teixeira&lt;br /&gt;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_10&quot;&gt;Projeto&lt;/span&gt; Gráfico&lt;br /&gt;Eduardo &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_11&quot;&gt;Okuno&lt;/span&gt;, Maurício Negro&lt;br /&gt;Ilustração de capa&lt;br /&gt;Maurício Negro&lt;br /&gt;Revisão&lt;br /&gt;Ana Cristina Teixeira Marina Mendonça&lt;br /&gt;São Paulo : Global, 2003. — (&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_12&quot;&gt;Coleção&lt;/span&gt; literatura em minha casa; v. 3. Novela)&lt;br /&gt;ISBN 85-260-0851-X&lt;br /&gt;1. Ficção — Literatura &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_13&quot;&gt;infanto&lt;/span&gt;-juvenil I. Negro, Maurício. II. &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_14&quot;&gt;Landucci&lt;/span&gt;,César. III. Titulo. IV. Série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresentação&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;br /&gt;Sempre me perguntam se os meus livros são &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_15&quot;&gt;autobio&lt;/span&gt;&amp;shy;gráficos — e eu sempre respondo a mesma coisa: todo &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_16&quot;&gt;escri&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_17&quot;&gt;tor&lt;/span&gt;, quando começa, é autobiográfico. Com o tempo ele &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_18&quot;&gt;aca&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_19&quot;&gt;ba&lt;/span&gt; se libertando de suas lembranças pessoais e aprende a criar personagens que adquirem existência autónoma. Isto não quer dizer que a gente não se volte para o próprio &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_20&quot;&gt;pas&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_21&quot;&gt;sado&lt;/span&gt; em busca de inspiração. Vale a pena, sim, lembrar a nossa própria história, quando há nela passagens que &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_22&quot;&gt;po&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_23&quot;&gt;dem&lt;/span&gt; interessar a todos.&lt;br /&gt;Minha infância e minha juventude foram marcadas pela sombra do preconceito — de vários tipos de preconceito. Há coisas que hoje parecem até incríveis, porque, apesar dos pesares, o mundo e o país melhoraram muito. Mas é &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_24&quot;&gt;sufi&lt;/span&gt;&amp;shy;ciente lembrar que até há alguns anos, nos Estados Unidos, os negros não podiam entrar em lugares frequentados pêlos brancos, para que nos demos conta da intensidade do racismo.&lt;br /&gt;Eu tive a sorte de nascer no Brasil. Se meus pais não tivessem emigrado, se tivessem ficado na Europa, como muita gente de nossa família, eu poderia nem ter nascido — ou poderia virar cinza num forno crematório, como aconteceu a muitas crianças. Escapei deste destino e por isso sou grato ao nosso país. Que, no entanto, não está totalmente livre da intolerância. Desde pequeno eu sabia que, por ser judeu, era diferente; fui ofendido algumas &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_25&quot;&gt;ve&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_26&quot;&gt;zes&lt;/span&gt;, meti-me também em brigas, bati, apanhei. &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_27&quot;&gt;Felizmen&lt;/span&gt;&amp;shy;te não passou disto. Contudo, o fato foi importante para sensibilizar-me para outros tipos de preconceito, mesmo no meu grupo familiar. Porque a tragédia da intolerância é esta: ela faz com que os perseguidos, pelo medo, se &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_28&quot;&gt;fe&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_29&quot;&gt;chem&lt;/span&gt; em seu pequeno círculo. A intolerância gera mais intolerância.&lt;br /&gt;Não estou só me referindo à religião ou à cor da pele. Estou me referindo a ideias, a sentimentos, a emoções. Mi&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_30&quot;&gt;nha&lt;/span&gt; geração, que não conheceu a ameaça da &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_31&quot;&gt;Aids&lt;/span&gt;, era, no entanto, muito reprimida sexualmente. Os jovens de hoje cor&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_32&quot;&gt;rem&lt;/span&gt; mais riscos — mas em compensação têm mais liberdade.&lt;br /&gt;Eu queria escrever sobre estas coisas. Não para dar li&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_33&quot;&gt;ções&lt;/span&gt;, mas simplesmente para compartilhar com os leitores estas experiências. E também pelo prazer de contar uma &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_34&quot;&gt;his&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_35&quot;&gt;tória&lt;/span&gt;. Que é feita de lembranças pessoais, e é feita também de confiança e esperança. E falando em esperança, espero que vocês gostem deste &quot;sonho&quot;.&lt;br /&gt;O autor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;color:#cc0000;&quot;&gt;A obra&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEUS FILHOS NÃO VÃO passar pelo que eu passei, costumava dizer meu pai, entre solene e divertido, entre amar&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_36&quot;&gt;go&lt;/span&gt; e esperançoso. Mais não falava, mas todos nós sabíamos a que ele se referia: a fome, a pobreza, a humilhação.&lt;br /&gt;Como muitos outros, meus pais, judeus lituanos, ti&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_37&quot;&gt;nham&lt;/span&gt; emigrado para o Brasil em busca de uma vida melhor. Embora muitas vezes falassem com terna nostalgia da aldeia em que ambos haviam nascido e se criado, as lembranças que de lá traziam não eram nada agradáveis. Gente pobre, eles haviam passado necessidade; meu pai lembrava um &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_38&quot;&gt;in&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_39&quot;&gt;verno&lt;/span&gt; rigoroso no qual todas as refeições do dia se resumiam em três batatas — podres, muitas vezes. E ainda havia a ameaça dos tanques dos anti-semitas, que periodicamente invadiam a aldeia, surrando, ferindo — e às vezes matando — os judeus. Tudo isto eles suportaram. Quando, porém, Hitler ascendeu ao poder, meu pai começou a achar que era hora de partir. Não conseguiu convencer os irmãos — eram sete, todos mais velhos que ele — e muito menos os pais.&lt;br /&gt;Isto vai passar, diziam, Hitler não é o primeiro maluco que chega ao poder; fala muito, mas não cumprirá suas ameaças. Depois de muita discussão, meu pai e minha mãe, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_40&quot;&gt;recém&lt;/span&gt;-casados, decidiram partir sozinhos: se acontecesse alguma coisa, e tinham certeza de que alguma coisa haveria de &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_41&quot;&gt;acon&lt;/span&gt;&amp;shy;tecer, teriam condições de receber os parentes na América.&lt;br /&gt;Emigrar foi bem mais difícil do que imaginavam. Os países relutavam muito em receber judeus; finalmente meu pai conseguiu—milagrosamente, como diria depois — vistos para um país do qual pouco sabia: o Brasil. Minha mãe não tinha a menor &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_42&quot;&gt;idéia&lt;/span&gt; de onde ficava este lugar, e achava que era habita&amp;shy;do por índios; meu pai, porém, mostrou-lhe fotos de grandes cidades, disse que teriam ali muitas oportunidades. Mas o que convenceu mesmo minha mãe foram o açúcar e as frutas.&lt;br /&gt;Açúcar para eles era uma coisa rara, e cara. Vinha em &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_43&quot;&gt;cubinhos&lt;/span&gt;, com os quais adoçavam o chá. Mas não colocavam um &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_44&quot;&gt;cubinho&lt;/span&gt; no chá, não; seguravam-no entre os dentes e iam tomando o líquido, que ia dissolvendo o açúcar pouco a &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_45&quot;&gt;pou&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_46&quot;&gt;co&lt;/span&gt;; desta forma, durava mais. Quanto às frutas, minha mãe simplesmente as adorava; mas eram ainda mais caras que o açúcar. De vez em quando, num dia de festa, compravam uma laranja, dividiam-na, e cada um saboreava lentamente o seu gomo. Uma vez convidaram o rabino da aldeia vizinha para um almoço. A sobremesa era uma laranja, dividida da forma habitual. Só que o santo homem, ignorando (ou fingindo &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_47&quot;&gt;ig&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_48&quot;&gt;norar&lt;/span&gt;) que deveria ser partilhada, comeu-a toda, deixando a família sem sobremesa. Com banana era a mesma coisa: cor&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_49&quot;&gt;tavam&lt;/span&gt;-na em fatias — e cada um comia uma fatia. O sonho de minha mãe, porém, era abacate. Que existia na Europa, claro; mas era tão caro que ela jamais o experimentara. O que excitava-lhe ainda mais a imaginação: deveria ser um manjar divino, o abacate, coisa para &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_50&quot;&gt;reis&lt;/span&gt; e rainhas.&lt;br /&gt;Quando meu pai disse que estas coisas todas no Brasil eram extremamente comuns, minha mãe ficou maravilhada.&lt;br /&gt;— É verdade? — perguntava, com os olhos brilhando. — É verdade que a gente lá pode comer laranja à vontade?&lt;br /&gt;— É verdade.&lt;br /&gt;— E banana?&lt;br /&gt;— Banana! — Meu pai riu. — Banana é coisa que até os pobres comem, às dúzias.&lt;br /&gt;— E — minha mãe mal ousava levantar a dúvida — abacate? Abacate dá para gente como nós comprar?&lt;br /&gt;Isso meu pai não sabia; mas, por via das dúvidas, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_51&quot;&gt;re&lt;/span&gt;&amp;shy;solveu optar por uma resposta positiva, encorajadora — na pior das hipóteses seria uma mentira piedosa que Deus sem dúvida lhe perdoaria.&lt;br /&gt;— Claro. E se você achar que o abacate não é &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_52&quot;&gt;bastan&lt;/span&gt;&amp;shy;te doce, pode colocar açúcar. É coisa que não falta lá.&lt;br /&gt;Com o que minha mãe se convenceu.&lt;br /&gt;Saíram, por assim dizer, na última hora, em &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_53&quot;&gt;agosto&lt;/span&gt; de 1939; um mês depois começava a Segunda Guerra. Tanto os familiares de meu pai como os de minha mãe morreram em campos de concentração.&lt;br /&gt;A viagem foi terrível. Eles viajavam no porão de um cargueiro, amontoados com dezenas de outros emigrantes. Grávida, minha mãe tinha de aguentar ainda o enjoo da via&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_54&quot;&gt;gem&lt;/span&gt;. Vomitava sem cessar; mas, neste duro transe, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_55&quot;&gt;susten&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_56&quot;&gt;tava&lt;/span&gt;-a uma visão mágica.&lt;br /&gt;O abacate.&lt;br /&gt;Quando chegarmos lá, dizia ela a meu pai, a primeira coisa que você vai fazer é comprar um abacate. Não tenha dúvida, dizia meu pai, ele mesmo passando mal, será a &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_57&quot;&gt;pri&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_58&quot;&gt;meira&lt;/span&gt; coisa. Finalmente chegaram ao porto de Santos, e mi&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_59&quot;&gt;nha&lt;/span&gt; mãe tornou a pedir: queria o seu abacate. Tão logo passaram pela emigração, meu pai saiu no encalço da sonhada fruta. Não falava uma palavra de português, e não tinha moeda do país — só uns dólares — mas entrou numa &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_60&quot;&gt;frutei&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_61&quot;&gt;ra&lt;/span&gt; e conseguiu entender-se com o dono, saindo de lá com um enorme abacate, que levou à minha mãe. Ela se atirou à fruta e comeu-a com casca e tudo — só deixou o caroço — diante do olhar assombrado de meu pai.&lt;br /&gt;— Era boa? — perguntou, quando ela terminou.&lt;br /&gt;— Mais ou menos — foi a desolada resposta. Pelo visto, as coisas no novo país não seriam tão fáceis como pareciam.&lt;br /&gt;De Santos, seguiram para São Paulo, onde meu pai tinha amigos. Eram pobres, também, mas os acolheram; &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_62&quot;&gt;du&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_63&quot;&gt;rante&lt;/span&gt; uns meses, o casal dividiu um quartinho com mais &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_64&quot;&gt;qua&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_65&quot;&gt;tro&lt;/span&gt; pessoas. Meu pai, que tinha facilidade para idiomas, logo aprendeu umas palavras em português e começou a &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_66&quot;&gt;traba&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_67&quot;&gt;lhar&lt;/span&gt;, vendendo gravatas na rua. Pelo que deduzo das fotos que guardou, as gravatas eram medonhas, mas ele não &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_68&quot;&gt;tar&lt;/span&gt;&amp;shy;dou a descobrir que, para vendê-las, tinha de se colocar &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_69&quot;&gt;es&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_70&quot;&gt;trategicamente&lt;/span&gt; em lugares onde pessoas precisam entrar de tal acessório: nas portas de bancos, de repartições, e, à noite (sim, porque o seu dia começava às sete da manhã e só ter&amp;shy;minava de madrugada), à frente dos teatros. Quem ia atrás de um empréstimo bancário, ou tinha de falar com um chefe de repartição, ou decidia de repente assistir a uma peça de teatro — todas estas pessoas encontravam no meu pai um vendedor solícito, e pronto a dar sugestões: compre esta, vai melhor com sua camisa. Sempre dava certo. Uma vez, um homem saiu tão contente de um banco — conseguira um excelente financiamento, segundo ele graças à gravata — que deu a meu pai uma enorme gorjeta, a título de agradecimento.&lt;br /&gt;(O mais engraçado é que meu pai nunca usou grava&amp;shy;ta. Vendia-as, sim, mas não ousava colocá-las. Um homem baixinho e feio como eu só desmoraliza uma gravata, dizia, suspirando, e eu não posso desmoralizar o meu ganha-pão.)&lt;br /&gt;Vender nas ruas não era uma ocupação sem perigo. Uma vez ele foi assaltado — entregou o dinheiro, mas não as gravatas —, outra vez foi atropelado por um ciclista. Minha mãe se inquietava, de modo que, logo que ele pôde, com&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_71&quot;&gt;prou&lt;/span&gt; uma &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_72&quot;&gt;lojinha&lt;/span&gt; no Bom Retiro. Agora já não vendia só &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_73&quot;&gt;gra&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_74&quot;&gt;vatas&lt;/span&gt;, mas também cuecas, meias, camisas, à vista, a prazo, de qualquer jeito. Minha mãe ajudava na loja e tomava &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_75&quot;&gt;con&lt;/span&gt;&amp;shy;ta da casinha que tinha alugado. &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_76&quot;&gt;Fazia&lt;/span&gt; milagres no orça&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_77&quot;&gt;mento&lt;/span&gt; doméstico; as sobras de comida, por exemplo, eram sistematicamente reaproveitadas. Havia coisas que eles não compravam, como lençóis. Minha mãe ia à padaria, ganhava de presente sacos de farinha. Desmanchava-os e, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_78&quot;&gt;costuran&lt;/span&gt;&amp;shy;do vários, fazia um lençol. Brancos eles eram, mas tinham também o &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_79&quot;&gt;logotipo&lt;/span&gt; do moinho que fabricava a farinha — o que, segundo minha mãe, mulher bem-humorada, era o &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_80&quot;&gt;equi&lt;/span&gt;&amp;shy;valente de uma &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_81&quot;&gt;grife&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Com muito sacrifício criaram os filhos. Éramos quatro, dois rapazes e duas meninas. Eu era o segundo. Meu irmão mais velho, David — Dado —, era uma fonte de desgosto per&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_82&quot;&gt;manente&lt;/span&gt;: não quis estudar; jogava, meteu-se com más com&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_83&quot;&gt;panhias&lt;/span&gt;, foi até preso. Desde pequeno era rebelde; aquele, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_84&quot;&gt;cons&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_85&quot;&gt;tatou&lt;/span&gt; meu pai, não seria o filho que realizaria os seus sonhos. De modo que tornei-me o depositário de suas esperanças.&lt;br /&gt;Esperanças que ameaçavam também se frustrar: eu era um péssimo aluno. Não que me faltasse inteligência; ao contrário, segundo todos os professores da pequena escola judaica que eu frequentava (frequentava em termos, por&amp;shy;que em matéria de faltar aulas poucos me batiam) eu era brilhante. Mas gostava muito mais de andar pelo centro da cidade, olhando as lojas e — isto é difícil de acreditar, mas é verdade — indo à biblioteca. Eu não gostava de estudar, não gostava de cumprir obrigações, mas gostava de ler. Aos quinze anos, já tinha devorado todo o Monteiro Lobato, todo o Jorge Amado, todo o Robert Louis &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_86&quot;&gt;Stevenson&lt;/span&gt;; mas &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_87&quot;&gt;amea&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_88&quot;&gt;çado&lt;/span&gt; de repetir o ano.&lt;br /&gt;Meu pai não sabia o que fazer. Brigava comigo todos os dias, chamava-me de vagabundo, de irresponsável, dizia que eu estava seguindo o rumo de meu irmão, e acabaria me tornando um marginal como ele. Eu &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_89&quot;&gt;retrucava&lt;/span&gt; que ele não tinha nada de se meter na minha vida, se quisesse que me mandasse embora de casa. Minha mãe tentava acalmar-nos, minhas irmãs pequenas choravam — era um &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_90&quot;&gt;pandemô&lt;/span&gt;-&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_91&quot;&gt;nio&lt;/span&gt;. Chega de barulho, gritavam os vizinhos.&lt;br /&gt;Meu pai achou que estava na hora de terminar com aquilo. Mas não sabia o que fazer. Foi então falar com seu França.&lt;br /&gt;Seu França era o gerente do banco em que meu pai descontava as &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_92&quot;&gt;duplicatas&lt;/span&gt; e fazia empréstimos. Era um &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_93&quot;&gt;ho&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_94&quot;&gt;mem&lt;/span&gt; de idade e tido, por seus clientes, como um sábio; mui&amp;shy;ta gente lhe pedia conselhos, não só em relação a dinheiro, como a problemas familiares.&lt;br /&gt;Olhos semicerrados, seu França ouviu em silêncio a história que meu pai contava. Pensou um pouco e deu seu diagnóstico:&lt;br /&gt;— Este garoto precisa de disciplina.&lt;br /&gt;Sugeriu que meu pai me colocasse no Colégio Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_95&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;O Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_96&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt; era famoso justamente por isso, pela disciplina. Seus alunos — não muitos, a &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_97&quot;&gt;seleção&lt;/span&gt; era rigorosa — obtinham as melhores notas nos vestibulares; de lá tinham saído empresários, profissionais liberais, políticos famosos. Era um colégio caro — e era um colégio católico. Normalmente, isto teria sido suficiente para fazer meu pai desistir, mas ele estava tão desesperado e confiava tanto no seu &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_98&quot;&gt;Fran&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_99&quot;&gt;ça&lt;/span&gt; que decidiu ao menos tentar.&lt;br /&gt;Voltando para casa, anunciou que eu iria mudar de colégio. Quando minha mãe soube que se tratava do &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_100&quot;&gt;Colé&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_101&quot;&gt;gio&lt;/span&gt; Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_102&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt;, teve um ataque. Meu pai não era um homem religioso, mas ela vinha de uma família de rabinos, e não podia suportar seu filho num colégio &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_103&quot;&gt;gói&lt;/span&gt;, não judaico. Porque &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_104&quot;&gt;gói&lt;/span&gt;, para minha mãe, era sinónimo de malignidade. Tendo vivido sempre nos restritos círculos de convivência judaica, e tendo passado por terríveis experiências, ela &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_105&quot;&gt;des&lt;/span&gt;&amp;shy;confiava de todos os estranhos; que, imaginava, passavam os dias maquinando meios de perseguir e exterminar judeus. Seu desespero, ainda que explicável, era impressionante:&lt;br /&gt;— Você quer me matar! — gritava. — Você me trouxe da Lituânia para me matar aqui, bandido! Você é pior que os nazistas!&lt;br /&gt;Correu para a cozinha, pegou uma faca, felizmente não muito afiada:&lt;br /&gt;— Eu me mato! Eu me mato!&lt;br /&gt;Ajudado pêlos vizinhos meu pai conseguiu, a custo, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_106&quot;&gt;contê&lt;/span&gt;-la. Levaram-na para o quarto, onde ela ficou &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_107&quot;&gt;choran&lt;/span&gt;&amp;shy;do. Voltando para casa, eu soube do que tinha acontecido e tive um ataque de fúria: não iria para o Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_108&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt; de maneira alguma. Preferia abandonar os estudos. Até meu irmão, que nem convivia com judeus, me apoiou.&lt;br /&gt;Mas meu pai mostrou-se inflexível, o que era até &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_109&quot;&gt;sur&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_110&quot;&gt;preendente&lt;/span&gt;, naquele homenzinho em geral cordato. O seu França tinha falado, e o seu França sabia o que dizia, não errava nunca. Eu iria para o Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_111&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;E eu fui para o Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_112&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Meu pai me acompanhou no primeiro dia de aula. Insisti em que ele não fosse, aquilo só iria me complicar. Mas ele insistiu. Provavelmente estava com sentimentos de culpa, e como todas as pessoas culpadas queria fazer algo para se redimir. Fomos.&lt;br /&gt;O Colégio Padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_113&quot;&gt;Juvêncio&lt;/span&gt;, o &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_114&quot;&gt;Juva&lt;/span&gt;, como era conheci&amp;shy;do entre seus alunos, ficava em &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_115&quot;&gt;Higienópolis&lt;/span&gt;, entre antigas mansões. Colégio quase centenário, funcionava num prédio maciço, cinzento, reformado várias vezes (e ficando mais feio a cada reforma).&lt;br /&gt;Entramos, passamos pelo grande pátio. Vários grupos de rapazes ali (o colégio era exclusivamente masculino), to&amp;shy;dos nos olhando: eu morria de vergonha. Foi um alívio &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_116&quot;&gt;che&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_117&quot;&gt;gar&lt;/span&gt; à secretaria onde nos recebeu o padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_118&quot;&gt;Otero&lt;/span&gt;. Ele era o responsável por minha turma, a 71. De imediato gostei da&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_119&quot;&gt;quele&lt;/span&gt; homem baixinho, troncudo, enérgico mas simpático; senti que teria nele um aliado e não me enganava. Tão logo meu pai se foi, ele voltou-se para mim:&lt;br /&gt;— Antes de você ir para a aula tenho uma coisa a lhe dizer.&lt;br /&gt;Hesitou um instante, e continuou:&lt;br /&gt;— Não sei se você sabe, mas você é o primeiro israelita a cursar este colégio, desde que ele foi fundado. Isto vai lhe causar problemas; aliás, discutimos muito na &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_120&quot;&gt;direção&lt;/span&gt; por causa de você. Alguns achavam que devíamos aconselhar você a procurar outra escola. Eu lutei para que você fosse aceito.&lt;br /&gt;Nova pausa. Olhou pela janela, de onde se via o pátio.&lt;br /&gt;— Nossos alunos são todos filhos da classe alta. &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_121&quot;&gt;Fa&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_122&quot;&gt;zendeiros&lt;/span&gt;, industriais, a nobreza do país. Está na hora de a gente abrir o colégio, foi o que eu disse na reunião da &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_123&quot;&gt;dire&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_124&quot;&gt;ção&lt;/span&gt;. Estes meninos só convivem entre si, não conhecem outras pessoas. Concordaram a contragosto. E acho que você terá problemas. Vão gozar com sua cara, vão lhe hostilizar, talvez tentem até bater em você. Uma coisa eu lhe peço: aguente. Não é só por você. É pelo colégio. É até por essa rapaziada, para que eles melhorem como pessoas. Você pro&amp;shy;mete? Promete que vai ficar firme?&lt;br /&gt;Sem muita convicção — que diabo, além de dar duro nos estudos, eu ainda teria de enfrentar os &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_125&quot;&gt;nojentinhos&lt;/span&gt; — prometi. Ele sorriu:&lt;br /&gt;— &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_126&quot;&gt;Ótimo&lt;/span&gt;. Agora vamos. Vou lhe levar até a aula.&lt;br /&gt;Quando lá chegamos, os alunos — havia quarenta e dois naquela turma — já estavam todos sentados, assistindo à primeira aula, que era justamente Religião. O padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_127&quot;&gt;Otero&lt;/span&gt; pediu licença para apresentar-me:&lt;br /&gt;— Este aqui é o novo colega de vocês. O &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_128&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;Pois é. Este é o meu nome, &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_129&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt; Stern. E &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_130&quot;&gt;ago&lt;/span&gt;&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_131&quot;&gt;ra&lt;/span&gt; vocês sabem por que eu não comecei a história dizendo &quot;Meu nome é &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_132&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;&quot;. &quot;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_133&quot;&gt;Call&lt;/span&gt; me &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_134&quot;&gt;Ishmael&lt;/span&gt;&quot;, diz Herman &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_135&quot;&gt;Melville&lt;/span&gt;, no começo de &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_136&quot;&gt;Moby&lt;/span&gt; &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_137&quot;&gt;Dick&lt;/span&gt;, mas &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_138&quot;&gt;Ishmael&lt;/span&gt; é um nome até aceitável perto deste estranho &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_139&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;. Que não nasceu do acaso. Meu pai queria homenagear a memória de meu avô, que se chamava &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_140&quot;&gt;Mordecai&lt;/span&gt;. Quando foi me registrar o homem do cartório achou estranho e sugeriu que ele mudasse para um nome mais parecido com os brasileiros. O resultado foi esse &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_141&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;. Em casa abreviado para &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_142&quot;&gt;Mardo&lt;/span&gt; — mas, na rua, as brincadeiras que tive de aguentar! &quot;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_143&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;, pior que o meu nome só o teu.&quot; &quot;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_144&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;, nunca ganhou, só perdeu.&quot;&lt;br /&gt;Naquela manhã foi uma gargalhada só. Os caras me olhavam e se &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_145&quot;&gt;cutucavam&lt;/span&gt;: &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_146&quot;&gt;Mardoqueu&lt;/span&gt;, isso é nome? O padre &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_147&quot;&gt;Otero&lt;/span&gt; optou por sorrir, mas era um sorriso amarelo. Ele ti&amp;shy;&lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_148&quot;&gt;nha&lt;/span&gt; razão: a coisa ia ser difícil.&lt;br /&gt;E não só por causa da &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_149&quot;&gt;gozação&lt;/span&gt;. &lt;span class=&quot;blsp-spelling-error&quot; id=&quot;SPELLING_ERROR_150&quot;&gt;Gozação&lt;/span&gt; era o de menos; bem ou mal, eu podia aguentar, já estava acostumado. Mas o pior estava por vir, eu sabia. Afinal, eu tinha atrás de mim a experiência de séculos de perseguição e sofrimen&amp;shy;to, à qual se acrescentava a minha modesta contribuição; vez por outra — no sábado de Aleluia, com certeza — éra&amp;shy;mos perseguidos por bandos de garotos que vinham de ou tros bairros não para malhar o Judas, para malhar a nós. E malhavam bem: numa dessas ocasiões fui parar no pronto-socorro com o braço quebrado.&lt;br /&gt;Estava claro que eles não riam só do nome. Estava claro que eles riam do judeuzinho. Mesmo sendo o primeiro dia de aula, todos sabiam — estes eficientes canais de co&amp;shy;municação que funcionam nos colégios — da novidade: ha&amp;shy;via um judeu no Juva. E, se fosse só riso, eu até me daria por satisfeito. Mas eu estava seguro, dolorosamente seguro, de que não perderia por esperar.&lt;br /&gt;Começou já no primeiro intervalo.&lt;br /&gt;Na minha aula havia um rapaz chamado Felipe. Filho de um riquíssimo industrial, era um líder nato, tanto que depois veio a fazer uma bem-sucedida carreira política. A seu redor havia sempre um cortejo de admiradores, prontos para obedecer às suas ordens. E mandar era uma coisa que ele sabia fazer: Fulano, vá ao bar e me traga um refrigeran&amp;shy;te. Beltrano, você vai fazer o trabalho de História para mim.&lt;br /&gt;Estávamos no pátio. Eu, temendo o pior, me refugia&amp;shy;ra num canto. De repente um garoto veio me chamar:&lt;br /&gt;— O Felipe quer falar com você. Ele está ali, perto da árvore.&lt;br /&gt;(A árvore era o lugar onde habitualmente ficava, ro&amp;shy;deado da corte, dando ordens e submetendo os seus coman&amp;shy;dados a pesados gracejos — que despertavam imediatas gargalhadas.)&lt;br /&gt;Fui. Por quê? Na escola do Bom Retiro eu não obede&amp;shy;cia a ninguém, nem mesmo aos professores (muito menos aos professores). Mas ali, no Juva, fora do meu território, eu me sentia intimidado, desamparado, acovardado. Fui.&lt;br /&gt;O Felipe era um rapaz bonito, rosto de artista de ci&amp;shy;nema, cabelos ondeados e muito bem penteados. Corpo de atleta — praticava vários esportes, era campeão juvenil de esgrima. Baixinho — mais baixo até do que eu, e nunca fui alto — mas isto não se notava, tão aristocrático era seu porte. Olhou-me de cima a baixo, em silêncio. Finalmente, sentenciou:&lt;br /&gt;— Não queremos judeus neste colégio. Você tem uma semana para desaparecer. Senão — fez um gesto significati&amp;shy;vo — vamos te capar.&lt;br /&gt;Os amigos riram, deliciados. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, antes que alguém pudesse dizer qual&amp;shy;quer coisa, a campainha soou.&lt;br /&gt;Voltamos para a aula, mas não é preciso dizer que eu não conseguia prestar atenção a nada. Para onde me voltasse, via olhares ameaçadores, ou debochados, ou am&amp;shy;bos. Quando finalmente as aulas terminaram eu corri para casa.&lt;br /&gt;Normalmente, o que eu faria? Entraria em casa como um tufão, apontaria um dedo acusador para meu pai, gritan&amp;shy;do, você é um idiota, você só arranja confusão. Ao invés, corri para o quarto, tranquei a porta, atirei-me na cama e chorei, chorei como há muito tempo não chorava. Meus pais, inquietos, batiam à porta: abra, Mardo, abra. Achavam que eu estava doente, e num certo sentido estavam certos: eu estava mesmo doente. Minha doença chamava-se medo. Minha doença chamava-se vergonha. Minha doença chama&amp;shy;va-se raiva.&lt;br /&gt;Raiva, sim. Eu estava com medo, eu estava com ver&amp;shy;gonha, mas estava principalmente com raiva. E foi a raiva que me deu forças. Foi a raiva que me fez ficar de pé, enxu&amp;shy;gar as lágrimas e decidir.- vou à luta, se eles pensam que vão me ganhar no grito, estão muito enganados. Podem me ca&amp;shy;par, mas vão ter que me matar primeiro.&lt;br /&gt;Respirei fundo, abri a porta: meu pai e minha mãe estavam ali, alarmados. O que aconteceu, perguntou meu pai. Nada, respondi, não aconteceu nada. Não insistiu. No fundo, sabia o que tinha se passado. Como a gente de sua aldeia que fingia ignorar o nazismo — não se deve falar no diabo, para que ele não apareça — ele optava por fechar os olhos. O que me deu pena; pobre homem, dominado por seus terrores, a única coisa que o sustentava era a esperança de uma vida melhor para os filhos. Não, eu não poderia parti&amp;shy;lhar meu sofrimento com ele — nem com minha mãe, ou meus irmãos, ou meus amigos do bairro. Eu tinha de enfren&amp;shy;tar aquilo sozinho. E enfrentaria.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando cheguei ao colégio, en&amp;shy;contrei Felipe e seu grupo no átrio de entrada. Seguramente estavam me esperando, porque um deles — uma iniciativa para agradar o chefe — barrou-me o caminho:&lt;br /&gt;— Você ainda está por aqui, judeu? O Felipe não dis-&#39; se que era para você desaparecer?&lt;br /&gt;— Não vou desaparecer — respondi, irritado com o tremor de minha voz — merda, eu não podia pelo menos fingir coragem? — Vocês vão ter de me aturar. E agora faça o favor de sair da frente.&lt;br /&gt;Ele não saiu, eu o empurrei. Perdeu momentanea&amp;shy;mente o equilíbrio, mas logo em seguida se recuperou, e veio para cima de mim como uma bala: ah, judeuzinho de bosta, eu mostro a você. Antes que nos atracássemos, porém, a campainha (bendita campainha, pelo jeito fora instalada para me salvar) soou, o bedel apareceu:&lt;br /&gt;— Que história é essa? Parem já com essa briga e entrem, senão eu chamo o diretor.&lt;br /&gt;De momento eu estava salvo, mas a guerra agora estava declarada. Não seria uma guerra aberta, que não in&amp;shy;teressava ao astuto Felipe. Ele sabia que o padre Otero me defendia; por outro lado, não queria me transformar numa vítima, num mártir. Não, ele acabaria comigo de outro jeito.&lt;br /&gt;Partiu para o terror. Depois daquele dia, cada vez que eu voltava do intervalo, encontrava meus livros rasgados, meus cadernos riscados. Uma vez colocaram uma lagartixa na minha pasta, outra vez um camundongo. Nas aulas de educação física era quase certo de que alguém — por aci&amp;shy;dente — esbarraria em mim me derrubando. No futebol, mi&amp;shy;nhas canelas eram um alvo predileto. Passei a jogar como goleiro — e mais de uma vez fui chutado quando, agarrando a bola, caía no chão. Não adiantou mudar para o basquete: no jump, recebia cotoveladas que quase me quebravam as costelas.&lt;br /&gt;Mas eu resistia. Eu cerrava os dentes e resistia. Não só isto, como surpreendentemente comecei a me tornar um bom aluno. Não faltava mais às aulas, estudava sem parar, caprichava nos trabalhos — para satisfação de meu pai que, ignorando o que se passava, atribuía tudo ao efeito mágico da disciplina. Você viu?, ele dizia triunfante à minha mãe, você viu como eu tinha razão? Ela não respondia; talvez des&amp;shy;confiasse de alguma coisa, mas, como tinha sido vencida na disputa com meu pai, permanecia num silêncio ofendido. Enquanto isso, eu ia progredindo. Minhas notas eram as me&amp;shy;lhores, os professores me elogiavam — até mesmo o de Re&amp;shy;ligião: eu sabia tudo sobre o Novo Testamento. O que deixa&amp;shy;va Felipe possesso. Sua fúria chegou ao auge com o concur&amp;shy;so de desenho.&lt;br /&gt;Era uma tradição do Juva, uma homenagem ao padre Juvêncio, que tinha sido excelente ilustrador de livros infantis.&lt;br /&gt;Todos os anos havia um concurso de desenhos. Os melho- &#39; rés trabalhos eram expostos no salão nobre, e o primeiro lugar ganhava um trofeu. Desenhar era uma coisa que eu sabia fazer bem, e eu tinha muita vontade de ganhar o con&amp;shy;curso: seria uma humilhação para os meus inimigos. O tema me perturbava, contudo: Cristo na cruz. (Bem, mas o que queria eu? Jeová criando o mundo? Não resolveria: eu não era muito chegado à divindade judaica, distante, misteriosa, imprevisível — e que, ademais, não admitia ser retratada.)&lt;br /&gt;Desenhar Cristo não me seria fácil. No Bom Retiro, Jesus era uma figura pouco presente, mas ali, no colégio, fazia parte do cotidiano. Para mim, um penoso cotidiano; constantemente eu era lembrado de que meus antepassa&amp;shy;dos tinham acusado Cristo, que meus antepassados tinham pedido a morte de Cristo. Uma culpa que insensivelmente eu ia assumindo — e ampliando: eu era o réu. Eu tinha ven&amp;shy;dido Jesus por trinta moedas, eu o tinha conduzido preso, eu o havia crucificado. Aqueles imensos cravos que o fixavam na cruz? Eu os pregara, manejando a marreta com cruel di&amp;shy;ligência. E a dor terrível que ele sentira, quando o ferro lhe transfixara as carnes, essa dor fora eu quem lhe infligira. E não adiantava fingir inocência. Cada vez que, em aula, se falava na morte de Cristo, olhos acusadores voltavam-se para mim: foi você, judeu Mardo, foi você quem matou o Divino Mestre, você queria se livrar dele porque preferia a usura à verdadeira fé. Forno crematório era pouco para os meus cri&amp;shy;mes; eu tinha de queimar para sempre nas chamas do infer&amp;shy;no — onde o meu lugar estava reservado, o próprio diabo esperando-me, impaciente.&lt;br /&gt;Como poderia eu desenhar o rosto de Cristo? Como poderia eu atrever-me a tanto? O chão sem dúvida se abriria a meus pés, o teto cairia sobre minha cabeça. Eu brincava com isso, mas no fundo tinha medo, o milenar terror que her&amp;shy;dara de meus antepassados. Foi, contudo, a astúcia — tam&amp;shy;bém milenar — desses antepassados que me ajudou a resol&amp;shy;ver o dilema. Um dia, em casa, olhando o álbum da família (e não deve ter sido por acaso que eu fui procurar o tal álbum) ocorreu-me a solução. Eu desenharia Cristo, sim — mas usan&amp;shy;do como modelo uma foto de meu avô quando era jovem: a barba e o olhar melancólico tornavam-no muito parecido com Jesus. Trabalhei dias e noites, mas o resultado me deixou sa&amp;shy;tisfeito: Cristo e meu avô, a síntese perfeita estava ali.&lt;br /&gt;Ganhei o concurso. O prémio me foi entregue no sa&amp;shy;lão nobre. Lotado: o comparecimento era obrigatório. O di-retor fez um pequeno discurso, salientando a importância do evento, depois chamou-me, apresentou-me como ven&amp;shy;cedor e entregou-me o prémio, uma estatueta representan&amp;shy;do o padre Juvêncio. Soaram alguns educados aplausos. O diretor perguntou se alguém queria fazer uso da palavra.&lt;br /&gt;— Eu — disse o padre Otero, levantando-se.&lt;br /&gt;Foi até o microfone. Estava obviamente feliz com o resultado do concurso; elogiou-me, disse que a minha premiação mostrava o quanto o colégio tinha avançado no caminho da tolerância e da compreensão. A mensagem de Cristo, bradou, não se dirige só aos cristãos, dirige-se a to&amp;shy;dos. Os alunos ouviam em silêncio.&lt;br /&gt;De repente avistei Felipe. Sentado numa das primei&amp;shy;ras filas, ele me olhava fixo. A expressão de seu olhar me deu, confesso, um calafrio. Era ódio, ódio mortal que eu via em seus olhos. Estava terminada a fase de escaramuças: agora ele faria qualquer coisa para vingar-se do que consi&amp;shy;derava uma afronta pessoal. Eu não perdia por esperar.&lt;br /&gt;No dia seguinte, meu desenho tinha desaparecido da exposição no salão nobre. Em seu lugar havia um bilhete:&lt;br /&gt;Havia um garoto novo na aula. Chamava-se Carlos. Era negro e usava óculos.&lt;br /&gt;Como eu, Carlos fora admitido graças ao padre Otero. O pai dele, consultor jurídico de uma grande estatal, tinha sido transferido de Salvador para São Paulo. Era um homem que ganhava bem, e queria colocar o filho num bom colégio, mas encontrava dificuldades — por razões óbvias. Chegara ao Juva sem muita esperança. Por acaso o padre Otero esta&amp;shy;va na secretaria no dia em que o doutor António viera em busca de uma vaga. Na realidade, não havia lugar para o garoto; mas mexendo daqui, mexendo dali, o padre deu um jeito. E lá estava o Carlos.&lt;br /&gt;(A mim chamava a atenção não só o fato de ser ne&amp;shy;gro, como de usar óculos. Tínhamos um jogo, na minha in&amp;shy;fância: colecionávamos finais de placas de automóvel. Co&amp;shy;meçávamos pelo um e tínhamos de chegar até o cem. Um torneio de absoluta confiança: valia a palavra do coleciona-dor. Que, em contrapartida, tinha de aceitar uma estranha penalidade: se avistasse um negro de óculos era obrigado a começar de novo. Por que um negro de óculos? Porque eram raros. E por que eram raros? Ora, porque eram pobres. Por&amp;shy;que não liam. Mas disso eu só me daria conta mais tarde. Quando Carlos entrou na aula, a única lembrança que me ocorreu foi a do jogo infantil. Mal podia eu imaginar que a curta visão do rapaz desempenharia um papel importante na minha vida.)&lt;br /&gt;Como tinha feito comigo, padre Otero veio apresentá-lo à turma. Nesse momento olhei para Felipe. Sua expressão agora não era de ódio, mas de frio desprezo. Vi-o murmurar qualquer coisa ao ouvido de um de seus amigos. Não era difícil adivinhar o que tinha dito: este colégio está cada vez pior, até negros aceitam.&lt;br /&gt;Carlos não começava, portanto, sob o melhor dos signos. Outros problemas viriam juntar-se à — de início — surda animosidade. Ele tinha dificuldades em acompanhar o puxado curso: o colégio de Salvador não lhe dera muita base. Sentava-se a meu lado (por acaso? Não tão por aca&amp;shy;so?) de modo que eu podia constatar o esforço que fazia para entender as explicações dos professores. Era um me&amp;shy;nino magro, franzino, cuja expressão de permanente so&amp;shy;frimento antecipava sempre uma tragédia. Que acabou acontecendo.&lt;br /&gt;Foi na prova de História. O professor era o padre Ata-násio, conhecido como ralador. Exigia que soubéssemos de minúsculos detalhes: datas de todas as batalhas, nomes com&amp;shy;pletos de todos os personagens. A prova constava de cin&amp;shy;quenta perguntas, dificílimas.&lt;br /&gt;Estávamos ali, quebrando a cabeça, quando de re&amp;shy;pente levantou-se o Pedro (conhecido como Pedro Cacete, porque de cada três palavras que usava uma era &quot;cacete&quot;: a minha bicicleta é do cacete — conheci uma menina do cace&amp;shy;te), apontou para o Carlos:&lt;br /&gt;— Padre Atanásio, olha ali o cara colando.&lt;br /&gt;Feito o quê, sentou-se, e de imediato voltou-se para o Felipe — de cuja turma fazia parte. O chefe sorriu aprovadoramente.&lt;br /&gt;Irritado — era chato como professor, mas não gosta&amp;shy;va de delatores — o padre Atanásio dirigiu-se para Carlos que fitava-o assustado. Num gesto rápido, o padre introdu&amp;shy;ziu a mão sob a carteira do rapaz e tirou de lá o livro de História. Aberto.&lt;br /&gt;— Como é que você explica isto? — indagou, severo. Carlos estava agora aterrorizado. Não conseguia se&amp;shy;quer falar.&lt;br /&gt;— Não sei — balbuciou por fim. — Não sei por que o livro está aberto.&lt;br /&gt;— Vou ter de recolher sua prova — disse o padre. Felipe e seus amigos aplaudiram, deliciados. Aí eu me pus de pé.&lt;br /&gt;Eu sabia que Carlos não estava colando. E sabia tam&amp;shy;bém o que tinha acontecido: o rapaz estudara até o último segundo, e quando o padre entrara, simplesmente colocara o livro sob a carteira — aberto. E foi isto que eu disse ao padre. Que vacilou, sem saber o que fazer. Voltou-se para o Pedro Cacete:&lt;br /&gt;— Você viu o Carlos colando?&lt;br /&gt;Pedro Cacete agora já não estava tão senhor de si. Seguramente queria agradar ao Felipe, e a muitos outros ali, humilhando publicamente o negro; mas não tinha a cara-de-pau suficiente para sustentar a acusação.&lt;br /&gt;— Acho que vi — gaguejou.&lt;br /&gt;— Acha? — O padre insistia. — Acha ou tem certeza?&lt;br /&gt;Fez-se um pesado silêncio. Pedro Cacete estava tão tenso que até suava.&lt;br /&gt;— Não — disse por fim — não tenho certeza.&lt;br /&gt;Sentou-se, arrasado — e não faltaram vaias para sau&amp;shy;dar sua derrota: a hostilidade de Felipe e seus comandados estava longe da unanimidade.&lt;br /&gt;A partir daquele dia ficamos amigos, Carlos e eu. Não foi só o incidente que nos uniu; foi a consciência de pertencermos ambos à categoria dos perseguidos. E vinha bem na hora, aquela amizade, porque eu andava um boca&amp;shy;do sozinho: no Bom Retiro, já não tinha mais turma — era considerado ovelha desgarrada, e não faltava quem me con&amp;shy;siderasse traidor. O mesmo valia para meu pai, a quem os amigos censuravam: você não deveria fazer isso com seu filho. Até fregueses ele tinha perdido por causa disto. Mas, homem teimoso, permanecia firme em sua determinação: coloquei o meu filho num bom colégio, pouco me importa se é de padres, de freiras, de rabinos ou da umbanda.&lt;br /&gt;Carlos e eu nos ajudávamos nos deveres de casa, estu&amp;shy;dávamos juntos para as provas. E trocávamos confidências: ele se queixava muito da hostilidade de nossos colegas. Como eu, tinha pensado em abandonar o colégio; como eu, decidira resistir: esses caras têm de aprender que negro é gente.&lt;br /&gt;— Como é que com você não tenho problemas? — perguntava.&lt;br /&gt;Mas havia problemas. Por incrível que pareça, eu, membro de um grupo vítima do preconceito, tinha de lutar contra o meu próprio preconceito, contra a sensação de es&amp;shy;tranheza e até de desconforto. Hesitei muito, mas acabei con&amp;shy;tando isto a ele. Não se zangou, ao contrário: se você tivesse me dito que nunca notou a cor da minha pele, eu não acre&amp;shy;ditaria, disse.&lt;br /&gt;— Você é honesto comigo, Mardo — disse, com os olhos úmidos. — E eu lhe agradeço.&lt;br /&gt;Um dia convidou-me para ir almoçar em sua casa. Aceitei o convite, que mudaria a minha vida.&lt;br /&gt;A família morava num apartamento em Pinheiros. Edifício antigo, mas bem conservado. O apartamento era grande, e todo decorado com objetos do folclore baiano, estatuetas, quadros, e até uma foto impressionante, mos&amp;shy;trando uma moça em transe.&lt;br /&gt;— Sua gente é do candomblé? — perguntei.&lt;br /&gt;Carlos sorriu: não, meu pai não acredita nisso, acha que é superstição, mas como gosta de folclore, trouxe estas coisas.&lt;br /&gt;O pai e a mãe estavam no living, o pai lendo jornal, a mãe tricotando. Carlos apresentou-me:&lt;br /&gt;— Este é o amigo de quem falei a vocês, o Mardo.&lt;br /&gt;Grato por ele não ter mencionado o meu nome, sen&amp;shy;ti-me imediatamente à vontade. O pai, o doutor António, era um homem alto, forte, de rosto enérgico ainda que agradá&amp;shy;vel. Como o filho, usava óculos; aliás, a mãe também: para os colecionadores de números do Bom Retiro, a família se&amp;shy;ria um desastre.&lt;br /&gt;Convidaram-me a sentar, ofereceram-me refrigerantes. Eu estava intimidado, mas eles eram pessoas agradáveis, sabiam como pôr o visitante à vontade. A conversa girou sobre ameni&amp;shy;dades; perguntaram se eu conhecia Salvador, eu disse que não. O doutor António apanhou um livro sobre a cidade, mostrou-me fotos-, isto aqui é o Pelourinho... Esta é a igreja do Bonfim...&lt;br /&gt;— Você precisa conhecer Salvador — dizia Carlos, en&amp;shy;tusiasmado. — Você vai ver que lugar espetacular.&lt;br /&gt;Estava feliz por eu ter vindo. Um sentimento com&amp;shy;partilhado pêlos pais: o fato de Carlos ter um amigo eviden&amp;shy;temente aliviava as apreensões deles quanto ao colégio. O pai mostrava-se particularmente satisfeito; falou muito, lem&amp;shy;brou seus tempos de estudante, contou histórias engraça&amp;shy;das. Lá pelas tantas olhou o relógio:&lt;br /&gt;— Desse jeito, Luiza, o nosso convidado vai morrer de fome. Vamos almoçar?&lt;br /&gt;Ela pediu que esperássemos um pouco; faltava Ana Lúcia.&lt;br /&gt;Da irmã, dois anos mais velha que ele, Carlos não tinha me falado muito. Mesmo porque eu não perguntava: por alguma razão, não tinha curiosidade em conhecê-la. Mas quando a porta se abriu — é ela, disse a mãe, agora pode&amp;shy;mos almoçar — fiquei galvanizado.&lt;br /&gt;Era linda. Oh, Deus, era linda, a Ana Lúcia. Tipo mignon, rosto belíssimo, corpo sensacional. A custo disfar&amp;shy;cei minha perturbação enquanto Carlos dizia, este aqui, mana, é o Mardo, de quem lhe falei.&lt;br /&gt;Como vai, disse ela, sorrindo. Aproximou-se e me beijou. Juro por Deus, qualquer Deus, o do Antigo, do Novo ou do Novíssimo Testamento, que quase desmaiei.&lt;br /&gt;Fomos todos para a mesa, mas eu, fascinado, nem tocava no prato. A mãe de Carlos, preocupada, perguntou se eu não gostava de comida baiana; quem sabe eu queria um bife, ela poderia fazer num instante. Gaguejei uma explica&amp;shy;ção qualquer, embaraçado; como podia dizer à boa senhora que era sua filha que me perturbava? Que tinha, instantane&amp;shy;amente, me apaixonado: ninguém notou nada, ou, se nota&amp;shy;ram, fingiram não notar. Eu voltei para casa — felizmente não havia ninguém — tranquei-me no banheiro, e lá a pos&amp;shy;suí, em imaginação, uma, duas, três vezes, em variadas cir&amp;shy;cunstâncias e posições.&lt;br /&gt;Devo dizer que, até aquele momento, meus contatos com mulheres restringiam-se a semanais incursões a bordéis. Na verdade, minha iniciação deu-se relativamente tarde — e eu podia agradecê-la a meu irmão: meu pai não sabia nem como falar sobre sexo comigo. Mas o Dado, graças àquilo que meus pais, revoltados, chamavam de &quot;vida de malandra&amp;shy;gem&quot;, era experiente; corria um boato no Bom Retiro, aliás, segundo o qual ele era sustentado por uma mulher. Tentou ajudar o irmão mais moço; levou-me a um bordel elegante que funcionava numa mansão frequentada por gente fina. A experiência, infelizmente, não foi das melhores. A moça que ele me apresentou, e que era muito gentil e bem-educada, tratou-me com a maior sensibilidade — mas a minha ejaculação não foi precoce, foi precocíssima, a ponto de ela se espantar:&lt;br /&gt;— Já? — perguntou, admirada. E preocupada: só fal&amp;shy;tava o Dado irritar-se com ela por causa de uma suposta inabilidade. Eu disse que não tinha importância, que era rá&amp;shy;pido no gatilho, mas que isto não diminuía o meu prazer. Mentira: saí dali frustrado. E o pior ainda estava por vir.&lt;br /&gt;Dias depois notei uma ardência ao urinar. Falei ao meu irmão, que não quis acreditar: não é possível, será que você pegou gonorréia?&lt;br /&gt;— E eu paguei uma nota para a vagabunda! — grita&amp;shy;va, indignado. — Uma nota!&lt;br /&gt;Mas não se preocupe, acrescentou, eu sei como re&amp;shy;solver este problema. Levou-me a uma farmácia no centro, e tentou explicar o caso em voz baixa ao velho farmacêuti&amp;shy;co. O homem, infelizmente, era surdo:&lt;br /&gt;— O quê? Arde quando mija? Claro que é gonorréia. Quando é que ele esteve com a mulher? Há quatro dias? Pois então: gonorréia no duro.&lt;br /&gt;As três ou quatro pessoas que estavam ali me olha&amp;shy;vam, mal contendo o riso. Uma senhora de idade, contudo, mostrava-se ultrajada: pouca vergonha, resmungava, pouca vergonha.&lt;br /&gt;— Nem numa farmácia a gente está protegida desses tarados.&lt;br /&gt;A história, felizmente, terminou bem; apesar dos modos bruscos, o farmacêutico era competente. O antibióti&amp;shy;co que nos vendeu curou-me rapidamente da doença.&lt;br /&gt;Contudo, eu estava traumatizado. Não, traumatizado não; eu estava decepcionado. Tinha planejado entrar na vida sexual ao som de sublimes melodias, e só ouvia acordes desafinados. Dado, sentindo-se culpado, insistia: eu deveria repetir a experiência, ele sabia de um bordel onde as moças passavam por exame médico, lá seguramente não haveria problemas. Eu disse que precisava um tempo. E de fato, só meses depois fui procurar uma mulher. Aí já tinha aprendi&amp;shy;do a usar camisinha e meu desempenho não só era bom, como entusiasmava algumas das chamadas meninas da casa.&lt;br /&gt;Contudo, depois de um certo tempo aquela rotina já não me satisfazia. Eu queria me apaixonar. Eu queria ir para a cama, sim, mas com a mulher dos meus sonhos. E quem era essa mulher dos meus sonhos? Bom, não tinha aparecido.&lt;br /&gt;Não faltavam garotas no Bom Retiro, e várias me lançavam olhares significativos; feio eu não era, ao contrário, era um garoto bonito, e, se não era um atleta como o Felipe, tam&amp;shy;bém não dava para desengonçado.&lt;br /&gt;Agora, porém, eu estava apaixonado. Irremediavel&amp;shy;mente apaixonado. Antecipava as complicações que viriam? Não sei. Naquele momento eu só pensava em minha paixão.&lt;br /&gt;Terminado o almoço, ficamos todos sentados no living. O doutor António despediu-se — estava na hora de voltar para o escritório — a mãe foi descansar e ficamos os três ali conversando. Conversando é modo de dizer; só o Carlos falava. Ana Lúcia era quieta; sorria, apenas, ouvindo as engraçadas histórias do irmão. Seu sorriso, Deus, ilumi&amp;shy;nava a sala; simplesmente não podia tirar os olhos dela.&lt;br /&gt;— O que é que você vai fazer no sábado à noite? — perguntou Carlos, quando levantei para ir embora.&lt;br /&gt;Eu não tinha programa algum, mas mesmo que ti&amp;shy;vesse, renunciaria a qualquer coisa, se fosse para sair com a Ana Lúcia. E era:&lt;br /&gt;— A gente vai ao cinema. Você quer vir junto?&lt;br /&gt;Claro que eu queria. Ela então se levantou, disse que tinha de ir para o colégio; beijou-me de novo e se foi.&lt;br /&gt;Quando voltei para casa, naquele dia, ia saltando e cantando pelas ruas, as pessoas me olhando como se eu estivesse maluco (e estava. Maluco de paixão.). Minha mãe estranhou, quis saber por que eu estava tão contente. Para ela, o estado natural do ser humano erao sofrimento; sofria desde que acordava de manhã até o momento em que ia dormir. Dormir, modo de dizer: ela nunca dormia. &quot;Dormiu bem, mamãe?&quot; &quot;Nada. Não dormi nada. Não preguei olho a noite inteira.&quot; Sofria durante a semana e no fim de semana, sofria no inverno e no verão, sofria, sofria. A imagem que eu tenho dela ern minha infância é esta: pano amarrado na ca&amp;shy;beça, queixando-se de enxaqueca — mas varrendo a casa ou lavando os pratos. Sofria, mas não se entregava.&lt;br /&gt;Eu não podia dizer à minha mãe que estava apaixo&amp;shy;nado; &quot;paixão&quot; era uma experiência desconhecida para ela. Sabia do que se tratava, claro; via a novela de tevê todos os dias — era um ritual sagrado — e derramava abundantes lágrimas, mas tinha bem clara a diferença entre novela e vida real. Galãs e mocinhas apaixonados, só na tevê; o coti-diano era feito de pratos a lavar e chão a varrer. Se eu falas&amp;shy;se do que estava sentindo, da emoção que me invadia, ela me julgaria doente e me levaria imediatamente ao doutor Finkelstein, que escutava com paciência as queixas das mães do Bom Retiro. Com meu pai a mesma coisa. Ele e minha mãe se amavam, mas à maneira deles; não podiam passar um sem o outro, mas jamais dariam vazão às suas emoções. Quanto ao meu irmão, imediatamente perguntaria, olhos bri&amp;shy;lhando, sorriso safado: &quot;E você já trepou?&quot;. Trepar era, ao fim e ao cabo, o que importava. O resto era conversa fiada, era cantada.&lt;br /&gt;Foi para minha irmã de seis anos, Ruth, que eu con&amp;shy;tei o que se passava: estou apaixonado, eu disse. Ela quis saber quando era a festa de casamento e se haveria bolo de chocolate. Quando eu disse que ainda não estava pensando no assunto, se desinteressou.&lt;br /&gt;Isto foi na quinta-feira e eu comecei a contar as ho&amp;shy;ras que me separavam da noite de sábado. As horas, não: os minutos. Muito antes de o cinema começar, eu já estava na porta — tínhamos marcado encontro ali — esperando, an&amp;shy;sioso. O tempo passava, eles não apareciam, e eu rezava (a quem? A Cristo? A Jeová?) para que nada tivesse acontecido. Finalmente apareceram e ela estava linda, num vestido verde.&lt;br /&gt;Cumprimentamo-nos timidamente e — eu, claro, já tinha comprado os ingressos — entramos. Carlos, que enxergava mal, queria sentar na frente, ao passo que ela preferia as fileiras de trás. Então vocês dois fiquem aí, ele disse (casual&amp;shy;mente? Com alguma intenção?) que eu vou procurar um lu&amp;shy;gar mais adiante.&lt;br /&gt;Sentamos. Que calor, eu disse. Não estava calor, mas eu tinha de dizer alguma coisa (e talvez estivesse me refe&amp;shy;rindo a meu calor interior, não sei). Saquei o pacote de balas azedinhas, ofereci-lhe. Ela serviu-se de uma, colocou-a um instante de encontro aos lábios — ah, como eu invejei aque&amp;shy;la bala — e introduziu-a delicadamente na boca. Neste mo&amp;shy;mento a luz se apagou.&lt;br /&gt;Que filme era? Já não lembro. O que sei é que, vinte minutos depois, dei início a uma série de complicadas ma&amp;shy;nobras.&lt;br /&gt;Primeiro, passei o braço por trás do encosto de sua cadeira (um gesto que provocou um resmungo impaciente do homem sentado atrás de nós). O encosto era de metal — frio contato, pouco romântico — mas a sensação era o que importava; e a sensação que eu tinha era, bem, de posse: abraçando-a, ela era minha.&lt;br /&gt;Meu braço foi subindo pelo encosto. Lentamente. Quando eu digo &quot;lentamente&quot; é &quot;lentamente&quot;: lentidão ca&amp;shy;paz de fazer um caracol parecer campeão de corrida. O que aconteceria quando eu a abraçasse? Como reagiria? Eu sa&amp;shy;bia de um amigo que tentara uma investida semelhante e recebera um tapa na cara em pleno cinema. Ana Lúcia não tinha jeito de quem iria me esbofetear; mas, e se fosse toma&amp;shy;da de súbita e sacrossanta indignação? Se de repente se pu&amp;shy;sesse de pé, gritando, transtornada, cai fora, judeuzinho sem-vergonha?&lt;br /&gt;Não. Não foi isto o que fez. Quando nossas peles fi&amp;shy;nalmente se tocaram, o calor dela subitamente me invadin&amp;shy;do e se apossando de mim, ela continuou imóvel; não, até se aconchegou a mim, ou pelo menos foi esta a impressão que eu tive. De qualquer jeito, até ali tudo estava indo bem. -VDesencadeei então a operação pegar-a-mão. Minha mão esquerda — ela estava à minha direita — começou a avançar em direção a seu braço. De novo, a progressão lentíssima; felizmente, tratava-se de um filme de longa metra&amp;shy;gem, eu tinha tempo. Finalmente, a polpa de meus dedos tocou seu braço — que não se afastou. Minha mão desceu, e isto já era uma carícia, ao longo do braço, chegou ao ante&amp;shy;braço {braço, antebraço: com esta nomenclatura eu estava familiarizado, tinha estudado o corpo humano em Ciências) è finalmente a mão. E então a mão dela agarrou a minha, e de mãos dadas ficamos.&lt;br /&gt;Tínhamos nos tornado namorados. Fazíamos parte da imensa cadeia de apaixonados que, desde o começo dos tempos, se sucede sobre a face da terra: homens e mulheres que se descobrem, se amam, e depois desaparecem, não sem passar adiante a tocha flamejante da paixão, para outros que também vão se descobrir e se amar.&lt;br /&gt;Ela me olhou. Eu a olhei. Na semi-obscuridade os seus olhos luziam. Ela aproximou seu rosto do meu, sua boca da minha, e eu a beijei. Foi um beijo rápido, fugaz (e se o ho&amp;shy;mem atrás berrasse, vamos parar com este agarramento?), mas era o meu primeiro beijo... Oh, Deus, era o meu primei&amp;shy;ro beijo.&lt;br /&gt;As luzes se acenderam e ficamos ali, sentados lado a lado, nós dois sorrindo e de vez em quando — mas só de vez em quando — nos olhando... Carlos apareceu:&lt;br /&gt;— Então? Gostaram?&lt;br /&gt;— Muito — ela disse, e riu. Ri também. Carlos nos olhava, meio surpreso; naquele momento não sabia ainda o que estava acontecendo, mas, é claro, já desconfiava; aliás, naquela mesma noite Ana Lúcia contou-lhe. Eram muito pró&amp;shy;ximos, os dois, não tinham segredos. De início ele ficou muito contente, mas logo em seguida teve de confessar sua apre&amp;shy;ensão: vocês vão ter de brigar muito para manter o namoro, disse.&lt;br /&gt;Não deu outra, como se pode imaginar. Um jovem judeu do Bom Retiro, uma jovem mulata baiana: não é um par que deixe de chamar a atenção.&lt;br /&gt;Mas nós nada víamos de estranho, um no outro. A cor da pele? Há coisas que os olhos apaixonados não vêem, e aquela era uma delas. Do mesmo modo, ela não via em mim o membro de um grupo estranho, muito menos o des&amp;shy;cendente de usurários ou dos matadores de Cristo. Eu era o Mardo; aliás, ela conseguia o milagre de transformar este medíocre apelido numa palavra de som doce e melodioso (de Mardoqueu nunca me chamou. Felizmente.).&lt;br /&gt;Passeávamos pela cidade, de mãos dadas, íamos to&amp;shy;mar sorvete, ficávamos conversando até tarde. E sobre o que falávamos? Sobre tudo. Ela me contava sobre Salvador: as praias, o Carnaval, o trio elétrico, Jorge Amado:&lt;br /&gt;— Adoro os livros dele. Tenho vários, todos autogra&amp;shy;fados. Muitas vezes falei com ele... E com o Caymi, e uma porção de gente.&lt;br /&gt;Comparado com a Bahia, o Bom Retiro não podia ser um cenário muito esplendoroso. Mas ela me fazia perguntas, queria saber como era a vida numa comunidade judaica:&lt;br /&gt;— A minha vizinha dizia que os judeus têm parte com o demónio...&lt;br /&gt;— E eu tenho?&lt;br /&gt;— Não sei — ela ria. — Mas se você tem, eu quero ter também.&lt;br /&gt;Pensou um pouco e acrescentou:&lt;br /&gt;— Se a gente por acaso casar, eu me converto ao ju&amp;shy;daísmo. Se você quiser, claro.&lt;br /&gt;Casar? Bem, ainda era uma coisa distante. Havia ain&amp;shy;da um longo caminho a percorrer. Longo e difícil.&lt;br /&gt;Um domingo tomamos o ônibus e fomos à Praia Gran&amp;shy;de. Fazia tempo que eu não pegava sol e estava mais branco do que de costume. O contraste com o corpo dela era ainda mais visível. E então tivemos a primeira evidência de que, ao contrário do que diz o provérbio, nem todos amam os que se amam.&lt;br /&gt;Estávamos caminhando na praia, quando um homem, que estava sentado na areia conversando com amigos, le&amp;shy;vantou-se e veio ao nosso encontro. Estava bêbado; o andar era vacilante, ele mal se mantinha sobre as pernas. Mas o olhar que nos lançou estava cheio de ódio, de rancor:&lt;br /&gt;— Branco com mulata, que história é essa? — gritou, numa voz pastosa, arrastada. — Hein? Que história é essa?&lt;br /&gt;Deixa disso, gritavam os amigos, volte para cá, você não tem a ver com esse assunto.&lt;br /&gt;— Como, não tenho a ver com esse assunto? — Ele, cada vez mais furioso. — Isto é falta de respeito! Onde é que já se viu? Você...&lt;br /&gt;Não terminou a frase: no instante seguinte eu já estava sobre ele. Derrubei-o, esmurrei-o com vontade. Era um homem grande e gordo, mas bêbado como estava, e sur&amp;shy;preso com meu ataque, não teve condições sequer de reagir. Perdão, choramingava, perdão.&lt;br /&gt;A custo me arrancaram dali. Voltei-me para Ana Lú&amp;shy;cia, que com o rosto oculto nas mãos, soluçava. Vamos em&amp;shy;bora, eu disse.&lt;br /&gt;Entramos num bar, sentamos. Um rapaz veio pergun&amp;shy;tar o que queríamos. Pedi uma água mineral. Ele ficou me olhando. Levantei-me, já alterado:&lt;br /&gt;— O que foi? Não está gostando de alguma coisa?&lt;br /&gt;Por favor, gemia Ana Lúcia, por favor.&lt;br /&gt;Eu só queria saber se vocês vão comer alguma coisa, disse o rapaz, assustado, e foi-se.&lt;br /&gt;Tornei a me sentar, abracei Ana Lúcia. Por algum tem&amp;shy;po ficamos ali, em silêncio. De vez em quando ela soluçava.&lt;br /&gt;Já não tínhamos vontade de ficar na praia. Vestimo-nos e voltamos para São Paulo.&lt;br /&gt;A partir daí as coisas se precipitaram.&lt;br /&gt;Um dia, no colégio, Carlos entregou-me um bilhete. Era do pai dele. Precisava falar comigo, pedia que passasse em seu escritório depois das aulas.&lt;br /&gt;— O que é que ele quer? — perguntei. Carlos desviou o olhar:&lt;br /&gt;— Não sei.&lt;br /&gt;— Mas você não tem ideia?&lt;br /&gt;— Já disse que não sei — atalhou ele, e surpreendeu-me sua irritada secura. Era claro que ele sabia do que se tratava, e eu sabia que ele sabia; mas não queria conversar comigo a respeito. O que me deixou magoado. Porra, ele era meu amigo.&lt;br /&gt;Não consegui mais me concentrar. Na aula de Mate&amp;shy;mática, o professor chamou-me a atenção duas vezes; tinha me chamado para o quadro-negro, eu nem escutara. Você está no mundo da lua, disse, impaciente. O que provocou risos na turma. O judeuzinho está ficando meio biruta, disse Pedro Cacete, em voz suficientemente alta para que eu ou&amp;shy;visse. Felipe sorriu, aprovador. Ele e seu grupo tinham nos dado uma trégua, a mim e a Carlos — o padre Otero amea&amp;shy;çara-os com suspensão. Sem dúvida, porém, sabiam o que estava acontecendo; esperavam só uma oportunidade para atacar de novo. Mas eu não tinha cabeça para pensar nessas coisas. O bilhete do pai de Ana Lúcia enchera-me de maus pressentimentos.&lt;br /&gt;Mal terminaram as aulas, corri até o centro. O escri&amp;shy;tório ficava situado no último andar de um elegante prédio. Na recepção, uma secretária atendeu-me, comunicou-se pelo interfone com o doutor António. Ele veio até a porta e me recebeu cordialmente, mas sem efusão. Fez-me entrar em sua sala — grande, bem decorada — mandou que eu sentas&amp;shy;se. Fiquei ali, vendo-o dar ordens pelo telefone: sem dúvida era importante, ele.&lt;br /&gt;Quando finalmente terminou, chamou a secretária, disse que não queria ser interrompido. Voltou-se para mim:&lt;br /&gt;— Venha, vamos sentar ali no sofá.&lt;br /&gt;Perguntou-me sobre os estudos, disse que estava muito satisfeito pelo fato de Carlos e eu trabalharmos jun&amp;shy;tos: eu também estudava com um colega, isto desde o pri&amp;shy;mário, era mais que um amigo, era um irmão. Hesitou um instante:&lt;br /&gt;— Era judeu. Como você.&lt;br /&gt;Fiquei surpreso: judeus, em Salvador. Riu: a sua gen&amp;shy;te anda por toda a parte, você não sabia?&lt;br /&gt;— A propósito...&lt;br /&gt;Tinha chegado o momento. Ele estava visivelmente embaraçado; quanto a mim, &quot;agoniado&quot; é o termo que des&amp;shy;creve melhor a minha ansiedade. Mas o doutor António era homem de ir direto ao assunto — e direto ao assunto ele foi:&lt;br /&gt;— Escute, Mardo, sei que você e a Ana Lúcia estão namorando. E antes de mais nada quero deixar uma coisa bem clara: gosto muito de você. Eu diria que gosto de você... como um filho. É, como um filho. Fico contente que meus filhos sejam seus amigos. Agora, essa história de namoro...&lt;br /&gt;Agarrou-me o braço, olhou-me bem nos olhos:&lt;br /&gt;— Acredite, isto não vai dar certo. Eu não duvido dos sentimentos de vocês; mas sou mais velho, tenho experiên&amp;shy;cia da vida. Aos olhos de todos, você será sempre um bran&amp;shy;co, ela sempre uma mulata. E vocês vão sofrer muito por causa disso. Há muito preconceito neste país, Mardo. Não parece, mas é verdade. Você sabe disto. A Ana Lúcia me con&amp;shy;tou o que aconteceu na praia. Pois bem, isto é brincadeira perto do que vocês terão de enfrentar: as piadinhas de mau gosto, as ofensas, o isolamento. Meu conselho é que vocês terminem com o namoro, antes que se transforme numa coisa séria. Vocês são jovens ainda, logo esquecerão. Não me queira mal pelo que estou lhe dizendo. É para o seu bem e para o bem dela.&lt;br /&gt;Calou-se. Por algum tempo o silêncio reinou na sala, um silêncio incómodo, opressivo.&lt;br /&gt;— O que é que você me diz?&lt;br /&gt;O que é que eu poderia dizer? &quot;Muito bem, doutor António, estou de acordo, vou terminar o namoro?&quot; Não. Eu amava Ana Lúcia, e não a deixaria por nada no mundo. Nem precisei dar esta resposta; ele a adivinhou. Suspirou, sorriu:&lt;br /&gt;— Está bem. De qualquer modo, estaremos ao lado de vocês.&lt;br /&gt;Levantou-se, levantei-me também. Estendeu-me a mão, que eu apertei com força. E sem mais nada dizer fui embora.&lt;br /&gt;Foi penoso, o encontro. Mas o pior ainda esta&amp;shy;va por vir.&lt;br /&gt;Cheguei em casa no fim da tarde. Meu pai estava ali, o que me surpreendeu: ele costumava vir da loja bem mais tar&amp;shy;de. E também minha mãe. Os dois sentados na sala de visitas, os dois de cara fúnebre — o que não antecipava nada de bom. Onde estão as meninas, perguntei, em parte porque queria saber — àquela hora elas sempre estavam por ali, brincando ou vendo tevê — em parte para romper o silêncio tumular. Estão na vizinha, foi a seca resposta de meu pai. Não adianta&amp;shy;va indagar por meu irmão: há três dias não dava as caras.&lt;br /&gt;— Sente — disse meu pai, mal conseguindo disfarçar o tremor na voz.&lt;br /&gt;— Vou tomar banho.&lt;br /&gt;— Depois. Depois você toma banho. Agora sente. Queremos falar com você.&lt;br /&gt;Sentei. Imaginei que iam me perguntar que história era aquela de andar com uma mulata, se eu não tinha juízo etc. Mas não, não diziam nada. Não se olhavam entre si, não me olhavam. Era uma coisa surrealista; se eu estivesse vendo esta cena num filme, certamente pensaria em comé&amp;shy;dia. Mas não era filme. Infelizmente não era filme.&lt;br /&gt;O tempo passava. O silêncio era só quebrado pelo ruído dos carros que passavam na rua e pelo tique-taque do grande relógio de pêndulo — uma das primeiras coisas que eles tinham comprado no Brasil e que, por alguma obscura razão, era então considerado símbolo de status.&lt;br /&gt;Finalmente minha mãe falou. E sua voz tremia ainda mais que a do meu pai.&lt;br /&gt;— Meus pais morreram num campo de concentração — ela disse. — Meus pais, minhas irmãs, todos morreram num campo de concentração.&lt;br /&gt;Pausa.&lt;br /&gt;— Muitos morreram em campos de concentração — continuou ela. — E muitos foram queimados nas fogueiras da Inquisição. E outros foram perseguidos, humilhados.&lt;br /&gt;De novo se calou. Mexi-me na cadeira, inquieto:&lt;br /&gt;— Escute, mamãe, quem sabe a gente... Ela pôs-se de pé, completamente fora de si.&lt;br /&gt;— Os góim! Os góim nos perseguem, os góim nos atacam, os góim não nos deixam em paz!&lt;br /&gt;Oh, Deus. Fazia tempo que ela não falava nisto, nos inimigos que via em toda a parte: os góim, os gentios.&lt;br /&gt;— E agora — voltou-se lentamente para mim — o meu filho, o meu próprio filho, a carne de minha carne, o sangue de meu sangue, quer abandonar a sua gente e juntar-se aos góim!&lt;br /&gt;Ergueu os olhos para o teto:&lt;br /&gt;— Mas por quê, Deus meu? O que fiz para merecer este castigo, Deus meu? Eu não fui, por acaso, uma boa mãe?&lt;br /&gt;Eu não cuidei desse filho? Eu não lhe dei de comer? Eu não passei noites em claro junto à cama dele quando estava com pneumonia e o doutor Finkelstein disse que ele precisava de muita atenção? Hein, Deus? Eu não fiz tudo que uma boa mãe deve fazer? Responda, Deus! Se eu errei, diga onde er&amp;shy;rei, Deus! Diga!&lt;br /&gt;Sem levar muita fé naquela tentativa de comunica&amp;shy;ção com as altas esferas, meu pai correu para ela:&lt;br /&gt;— Por favor, Ida. Ela repeliu-o, furiosa:&lt;br /&gt;— Por favor, nada! Por favor, nada! Não me toque, você! Você pensa que é inocente? É isto que você pensa? Que você não tem nada a ver com o que está acontecendo — é isto o que você pensa?&lt;br /&gt;Riu, teatral.&lt;br /&gt;— Ele pensa que me engana. Ele vem com os seus &quot;por favor, Ida&quot;, e pensa que me engana. Quem é que colo&amp;shy;cou esse rapaz no colégio dos góim? Hein? Quem foi que fez isto? Fui eu? Responda. Fui eu? Hein? Fui eu?&lt;br /&gt;— Ida... — Meu pai não sabia o que fazer.&lt;br /&gt;— Não — ela, saboreando o amargo triunfo. — Eu não fiz isso. Podem me acusar de qualquer crime, menos desse. Eu queria que meu filho cursasse a escola judaica aqui no Bom Retiro. Queria que ele aprendesse nossa religião, nossas tradições. Muito bem, ele não era bom aluno, era indisciplinado. E daí? Por causa disso precisava tirar ele da escola, uma boa escola, e colocá-lo lá naquele Juva, Juba, Buba, sei lá como se chama? Precisava atirá-lo nos braços dos góim? Ah, mas é esperto, esse daí. Muito esperto. Tão esperto que ficou milionário. Ele é dono de uma cadeia de lojas, vocês sabiam? Ah, não é dono de uma cadeia de lojas? De que ele é dono, então? De uma lojinha? Uma lojinha no Bom Retiro? Ah, mas decerto é porque foi mal nos negócios. O que fazia antes? Vendia gravatas? Não pode ser. Esse gé&amp;shy;nio, essa inteligência gloriosa, vendia gravatas?&lt;br /&gt;Deteve-se, ofegante, para logo em seguida continuar:&lt;br /&gt;— Bem, então ele vendia gravatas. Não é qualquer um que pode vender gravatas, vocês sabiam? É preciso ter uma inteligência especial para isso. E foi com essa mesma inteli&amp;shy;gência que ele escolheu o colégio para o filho. Escolheu como quem escolhe uma gravata: hum, esta eu não gosto muito... Hum, esta me parece melhor... Foi assim que ele chegou ao Buba, Juba, Juva — nunca me lembro do maldito nome.&lt;br /&gt;— Mas você sabe que o seu França... — Meu pai ten&amp;shy;tava desesperadamente salvar-se da avalanche de críticas.&lt;br /&gt;— O seu França! Ah, é verdade! Como é que eu es&amp;shy;queci do seu França? Ah, sim, o seu França disse que o Mardo tinha de ir para o Buba, o Juba, sei lá o quê. O seu França disse. Mas, esperem um pouco: quem é o seu França, mes&amp;shy;mo? É um grande professor? É um sábio, como o rei Salomão? Ah, não é? Mas o que ele é, então? Um gerente de banco? Ouvi bem? Gerente de banco? Não, estou enganada: deve ser o dono do banco. Não? Não é o dono? É o gerente mes&amp;shy;mo? E o que é que gerente de banco entende de colégio, podem me dizer? O que é que gerente entende de colégio?&lt;br /&gt;A essa altura, até eu já estava nervoso com aquela gritaria: ,&lt;br /&gt;— Mamãe, pare com isso. Os vizinhos vão pensar que você enlouqueceu.&lt;br /&gt;Olhou-me, com deliciado, doloroso espanto-.&lt;br /&gt;— Ah, os vizinhos vão pensar isto? Mas não é de ad&amp;shy;mirar que eles pensem. Sabe por quê? Porque eu enlouqueci mesmo. Eu não entendo mais nada. Mais nada. Sabe o que é nada? Nada é nada. Eu não entendo mais nada. Não enten do por que seu pai tinha de ouvir o seu França. Não entendo por que ele tinha de tirar você da escola e colocar você lá no Buba, ou Juba, ou sei lá. Não entendo. E se eu não entendo, é porque eu fiquei louca. Antes, eu entendia alguma coisa. Da vida, eu entendia alguma coisa, afinal não foi pouco o que aprendi, a custa de muito sofrimento. Eu aprendi a valo&amp;shy;rizar o judaísmo. O judaísmo representa alguma coisa, você sabe? Representa alguma coisa. Se não para você, pelo me&amp;shy;nos para os nazistas. Eles mataram milhões por causa do judaísmo. Eles queriam matar a mim, e a seu pai, por causa do judaísmo. Então eu queria conservar esse judaísmo. Mas seu pai, essa grande inteligência, pensava diferente. Ele acha&amp;shy;va que você precisa de disciplina. Por isso você mudou para um colégio caro, um colégio de góim. E só podia dar no que deu. Você tem professores góim, você tem amigos góim, e agora tem uma namorada gói.&lt;br /&gt;Ah, chegávamos ao ponto.&lt;br /&gt;— Todo o mundo já veio me contar. Viram você na praia com ela, viram você na rua com ela. E todos não es&amp;shy;queceram de mencionar o detalhe: ela é mulata. Mulata. Oh, Deus.&lt;br /&gt;Deixou-se cair numa poltrona soluçando. Ajoelhei-me diante dela:&lt;br /&gt;— Mamãe, pelo amor de Deusl Ergueu a cabeça, como se tivesse sido atacada por uma serpente:&lt;br /&gt;— Deus? Não fale em Deus, ouviu? Você não é digno de falar em Deus! Você renegou o nosso Deus! Oh, Senhor, uma mulata. Já não bastava ser gói, tinha de ser mulata.&lt;br /&gt;Olhou-nos:&lt;br /&gt;— Já sei. Vocês devem estar achando que eu sou ra&amp;shy;cista. Pois não sou racista, fiquem sabendo! Não sou racista.&lt;br /&gt;Adoro a Teresa, gosto de conversar com ela, considero-a amiga, irmã.&lt;br /&gt;Teresa era a moça da farmácia, uma mulata risonha que aplicava injeções em nossa família. Em matéria de me&amp;shy;dicamentos, minha mãe só confiava em injetáveis; e em matéria de injeções, só confiava na Teresa.&lt;br /&gt;— Agora: ela lá, eu aqui. Aliás, é a própria Teresa, quem diz, a gente deve conhecer o nosso lugar. Isto é o que diz a Teresa, que é uma moça simples. Ela não é o seu Fran&amp;shy;ça, nem a maravilha de inteligência que é o meu marido. Ela — Levou a mão ao peito:&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus, estou me sentindo mal. Meu Deus, como eu estou me sentindo mal, meu Deus!&lt;br /&gt;Aquilo também era previsível. Cada vez que minha mãe se aborrecia, passava mal. No começo, chamávamos sempre o doutor Finkelstein, e ele sempre dizia que eram os nervos. Mas, e se um dia não fosse ataque de nervos? Se um dia fosse o coração? Era uma ameaça permanente. Que meu pai não estava disposto a enfrentar: vou chamar o médico, anunciou. Ela deteve-o com um gesto:&lt;br /&gt;— Não. Não precisa. Já estou melhor. Não é desta vez que eu vou. Não é desta vez. Talvez vocês quisessem me ver morta, mas terão de esperar um pouco mais. Não muito, eu prometo. Se esse aí — apontou-me um trémulo dedo — con&amp;shy;tinuar namorando a mulata, logo vocês terão um velório para se divertirem.&lt;br /&gt;Dirigiu-se, vacilante, para a porta. Antes de sair, vol&amp;shy;tou-se:&lt;br /&gt;— Não digam que eu não avisei. Vocês têm de esco&amp;shy;lher: ou eu ou a mulata.&lt;br /&gt;Saiu, batendo a porta. Meu pai voltou-se para mim-.&lt;br /&gt;— Viu? Viu que confusão você criou?&lt;br /&gt;Suspirou e acrescentou:&lt;br /&gt;— Logo hoje. Você não sabe o dia que eu tive. De manhã recebi de volta dois cheques sem fundos; à tarde, esteve um fiscal na loja e me multou, sei eu lá por quê. Aí sua mãe telefona, dizendo para eu voltar urgente para casa... Meu Deus, esse é um dia que eu gostaria de esquecer.&lt;br /&gt;Nesse momento — e era só o que faltava — estava chegando meu irmão, com uma cara de quem tinha passado na farra os últimos três dias.&lt;br /&gt;— Onde é que você esteve? — indagou, brusco, meu pai.&lt;br /&gt;— Viajando — replicou ele. — Uns negócios que eu tenho aí no interior.&lt;br /&gt;— Eu conheço seus negócios — replicou meu pai, aze&amp;shy;do. — Os seus negócios eu conheço bem.&lt;br /&gt;— Então não se meta — Dado, de bom humor. — O que é que houve, que está todo o mundo com cara de velório?&lt;br /&gt;Meu pai hesitou, mas acabou contando. Meu irmão ouvia-o deleitado: era a primeira vez, em muito tempo, que ele tinha companhia no papel de vilão. Mas optou pela ima&amp;shy;gem de compreensivo:&lt;br /&gt;— Ora, papai, deixe o Mardo. Se ele gosta da menina, qual é o problema? Você e a mamãe estão exagerando.&lt;br /&gt;Meu pai não estava a fim de debater o assunto. Ale&amp;shy;gando dor de cabeça foi para o quarto. Meu irmão voltou-se para mim, com um sorriso condescendente:&lt;br /&gt;— Qual é a sua, mano? Você não está agindo com a cabeça. Se você quer comer a garota, coma logo e largue de mão. Periga a velha ter um treco qualquer, um enfarte, uma porra dessas — e aí você vai ter remorso pelo resto da vida. Olhe, vou lhe contar um caso parecido que aconteceu comigo.&lt;br /&gt;Mas eu não queria ouvir o caso que ele tinha para me contar. Não queria ouvir mais nada. Peguei a jaqueta e saí.&lt;br /&gt;Andei horas pelas ruas, confuso e amargura&amp;shy;do. Parecia um pesadelo, aquilo, o encontro com o doutor António e depois a gritaria de minha mãe. Que merda, por que não nos deixavam em paz? Por que tinham de se meter daquele modo em nossa vida?&lt;br /&gt;Era quase meia-noite quando cheguei ao prédio da Ana Lúcia. Pedi ao porteiro que a chamasse. O homem hesi&amp;shy;tou — não é meio tarde? — mas eu insisti, e cinco minutos depois ela aparecia. Desfeita, olhos vermelhos, abraçou-se a mim, sem dizer palavra. O abelhudo porteiro nos mirava, sorridente; vamos sair daqui, eu disse, vamos conversar em algum lugar.&lt;br /&gt;Fomos para um bar ali perto, sentamos numa mesa do fundo. Ela simplesmente não conseguia falar; soluçava, às vezes. Parecia ter subitamente envelhecido, uma coisa que notei com consternação — e vergonha. Até então eu não tinha dado bola para a diferença de idade entre nós, mesmo porque eu aparentava mais do que tinha. O fato é que eu agora a via como uma estranha, o que me deixou alarmado: será que a amava mesmo? Será que o pai dela, e minha mãe, não tinham razão, que aquilo era apenas uma atração passageira? De novo, tive nojo de mim próprio: você não passa de um verme, Mardoqueu. Neste momento ela sorriu e a couraça de gelo que ameaçava me envolver ins&amp;shy;tantaneamente se derreteu; era como se o sol brilhasse, na&amp;shy;quele escuro bar. Nós estaremos sempre juntos, eu disse, e era do fundo do coração que saíam minhas palavras.&lt;br /&gt;Era madrugada quando eu a deixei na porta do edifí&amp;shy;cio. Depois fui para casa. E não ia cantando ou assobiando. Ia cheio de maus presságios. Que, como logo descobri, se realizaram.&lt;br /&gt;Uma surpresa me esperava no colégio: nova carta de Jesus Cristo. Desta vez não se tratava de um único exemplar afixado em lugar visível. Não, centenas de folhe&amp;shy;tos tinham sido impressos, e o bedel — prestativo e sádico ao mesmo tempo — tinha me guardado um. &quot;Não posso mais tolerar esta situação&quot;, começava a &quot;carta&quot;. E prosseguia: &quot;O judeu e o negro se uniram. O judeu defendeu o negro, o ne&amp;shy;gro retribuiu: entregou sua irmã à luxúria do outro. É um pacto, um pacto diabólico. Devem estar tramando a entrada de outros judeus e outros negros. Nosso colégio será toma&amp;shy;do por eles, com a cumplicidade do padre Otero&quot;. Seguiam-se várias diatribes e a conclusão: &quot;Quero que vocês os ex&amp;shy;pulsem, como eu expulsei os vendilhões do templo, a chico&amp;shy;te. Antes do fim do ano eles têm de estar fora do colégio&quot;. Não terminei a leitura: alguém me bateu no ombro. Sobres&amp;shy;saltado, voltei-me, pronto para brigar. Mas era o bedel:&lt;br /&gt;— O padre Otero disse para você ir direto à sala dele.&lt;br /&gt;Foi o que fiz. O inusitado movimento nos corredores mostrava que todos tinham lido a carta — e estavam à espe&amp;shy;ra do que ocorreria. À porta mesmo da sala do padre Otero havia um grupo, gente de minha turma e de outras. Um ra&amp;shy;paz, que eu conhecia só de vista, pegou-me pelo braço:&lt;br /&gt;— Não tenha medo, cara. Tem muita gente aqui de saco cheio com o Felipe e seus amiguinhos. Se precisar de ajuda, conte conosco.&lt;br /&gt;Agradeci e entrei. Carlos já estava ali, falando com o padre Otero. Assustei-me; habitualmente calmo, ele estava agitadíssimo, os olhos esbugalhados, suando abundantemen&amp;shy;te, embora fosse um dia frio. Padre Otero mandou que eu sentasse. Carlos de repente se calara, e em silêncio perma&amp;shy;necemos por alguns incómodos segundos. Finalmente, o padre Otero levantou-se, abriu os braços:&lt;br /&gt;— O que posso dizer para vocês? É um horror, isto. Um horror. Sou professor há vinte e dois anos, vi muita briga entre alunos, mas algo assim nunca tinha visto, palavra.&lt;br /&gt;Levantou-se, pôs-se a andar de um lado para outro, na ampla sala. Parou, voltou-se para nós:&lt;br /&gt;— Volto a dizer: não percam a calma. Nós vamos to&amp;shy;mar providências. Sabemos quem fez isto, claro, mas vamos obter provas — e aí chamar os pais. Estamos preparados para expulsar meia dúzia, se for o caso. Mas, por favor, não rea&amp;shy;jam, não briguem. Ignorem. Nós vamos brigar por vocês.&lt;br /&gt;Olhou o relógio:&lt;br /&gt;— Agora, vão para a aula. No intervalo, não saiam. Eles tentarão provocar vocês para criar uma situação qual&amp;shy;quer. Não saiam.&lt;br /&gt;A campainha soou, ele nos segurou um instante, de&amp;shy;pois disse que podíamos ir. Seguimos pelo corredor em si&amp;shy;lêncio. Eu tinha tanta coisa a contar para o Carlos, queria falar sobre o encontro com o pai dele e a explosão de minha mãe; precisava ouvir a sua opinião de amigo, mas não havia a menor condição para isto. Ele nem falava comigo, tão ten&amp;shy;so estava. Antes de entrar na sala de aula, respirou fundo, e, mandíbula cerrada, entrou. Fui atrás.&lt;br /&gt;Fez-se silêncio, enquanto nos sentávamos. O profes&amp;shy;sor, homem discreto, não fez comentário algum; aguardou que nos acomodássemos para continuar a aula. Olhei para os la&amp;shy;dos. Pedro Cacete, nervoso, tamborilava os dedos sobre o tam&amp;shy;po da carteira, mas Felipe exibia o ar de enfado de sempre.&lt;br /&gt;Seguiu-se outra aula — a atmosfera sempre carrega&amp;shy;da — e, por fim, o intervalo. Todos saíram. Carlos e eu fica&amp;shy;mos, como o padre Otero nos pedira. Eu estava cada vez mais preocupado, não com a carta, com ele: seu olhar era francamente alucinado, ele resmungava qualquer coisa para si mesmo, não respondia às minhas perguntas. De súbito, pôs-se de pé, num salto:&lt;br /&gt;— Vou lá fora.&lt;br /&gt;— Você está louco? — eu, alarmado.&lt;br /&gt;— Louco porra nenhuma. Eu vou lá fora.&lt;br /&gt;— Mas o padre Otero...&lt;br /&gt;— O padre Otero não tem nada a ver com isto. A de&amp;shy;cisão é minha. Vou lá fora. Você fica, se quiser. Eu vou.&lt;br /&gt;— Mas os caras...&lt;br /&gt;— Os caras que se fodam. Se pensam que vou passar o resto da vida me escondendo, estão enganados. Vou lá fora. Você vem?&lt;br /&gt;Não pensei duas vezes:&lt;br /&gt;— Vou.&lt;br /&gt;E de repente me deu uma alegria selvagem, uma es&amp;shy;pécie de vertigem, a vertigem que deve preceder o salto do pára-quedista no vazio. Nós íamos lá enfrentar as feras — agora que tínhamos resolvido, não tínhamos mais nada a perder, a não ser o medo. Foi o que eu disse ao Carlos. Ele riu, aprovador:&lt;br /&gt;— Isto: nada a perder, a não ser o medo.&lt;br /&gt;Abriu a porta.&lt;br /&gt;Eles estavam ali, Felipe e seus amigos, e muitos, muitos outros: quase todo o colégio, eu diria. Evidentemen&amp;shy;te estavam esperando que saíssemos. Para fazer o quê? Difí&amp;shy;cil saber, mas confesso que me deu um calafrio. O próprio Carlos vacilou, mas foi um momento apenas: logo em segui&amp;shy;da ele estava no corredor.&lt;br /&gt;— Onde vai o nosso amigo crioulo?&lt;br /&gt;Era o Felipe, e de novo aquilo me causou um sobres&amp;shy;salto. Normalmente ele teria mandado um capanga interpe&amp;shy;lar o Carlos; mas se ele mesmo estava tomando a iniciativa, era porque tinha algo em mente.&lt;br /&gt;— Não é da sua conta — respondeu Carlos, seco. Felipe voltou-se para o Pedro Cacete:&lt;br /&gt;— Pedro Cacete, você viu como ficou saliente esse crioulinho? É o que eu digo sempre-, fizeram mal em abolir a escravidão.&lt;br /&gt;Gargalhada geral.&lt;br /&gt;Carlos dominou-se a custo.&lt;br /&gt;— Deixem-me passar — disse por fim.&lt;br /&gt;— E onde é que você vai? — perguntou Pedro Cacete — agora que o chefe tinha se dirigido a ele, sentia-se na obri&amp;shy;gação de prestar serviço.&lt;br /&gt;— Não é de sua conta. Deixe-me passar, senão...&lt;br /&gt;— Senão o quê, crioulo? Carlos não respondeu. Puxou a faca. Eu conhecia aquela faca: fazia parte de seu equipa&amp;shy;mento de pesca (como o pai, ele se orgulhava de ser bom pescador. Aprendi na Bahia, dizia). Era uma faca grande, mas ele tinha conseguido escondê-la sob a jaqueta. Agora esta&amp;shy;va em sua mão. E tão ameaçador ele parecia que todos — Felipe inclusive — recuaram, dando passagem. Ele avançou... Foi seu erro. Esqueceu a retaguarda. Ou talvez pen&amp;shy;sasse que a retaguarda estava protegida por mim, não sei. Só sei que de repente vi um cano de ferro nas mãos do Mas&amp;shy;sa Bruta, um grandalhão particularmente temido pela cruel&amp;shy;dade; ele ergueu o braço, baixou-o — e um instante depois Carlos estava caído no chão do pátio, o sangue correndo-lhe da cabeça.&lt;br /&gt;Veio a ambulância, levaram-no às pressas para o Hospital das Clínicas.&lt;br /&gt;É um caso grave, disse o médico ao padre Otero, é melhor chamar a família já. O próprio padre telefonou ao doutor António. Pouco depois chegava toda a família. Ana Lúcia abraçou-se a mim, a mãe sentiu-se mal e teve de ser socorrida.&lt;br /&gt;Durante dias praticamente não saímos do hospital. Eu só ia a minha casa para trocar de roupa. Não quis contar a meus pais o que tinha acontecido — estava muito zangado com eles — mas no terceiro ou quarto dia tive uma surpresa. De repente apareceram no hospital: vinham visitar o amigo de seu filho. Apresentaram-se, o doutor António convidou-os a sentar na sala de espera. Não falaram muito, mesmo por&amp;shy;que não havia muito a dizer, mas eu me senti grato a eles. Estava comovido — e surpreso. Minha mãe, decentemente vestida, não parecia a mesma; meu pai também tinha muda&amp;shy;do, e não me refiro só à aparência. Foram muito afetuosos com todos, inclusive com Ana Lúcia, particularmente com Ana Lúcia; mais do que isto, voltaram ainda duas vezes ao hospi&amp;shy;tal, minha mãe sempre trazendo maçãs (maçã para ela cura&amp;shy;va qualquer problema, incluindo traumatismo craniano).&lt;br /&gt;Aos poucos Carlos foi melhorando. Recobrou a cons&amp;shy;ciência; e, para alívio de todos, não havia sequelas. Logo estava conversando conosco; não lembrava bem o que acon&amp;shy;tecera mas, surpreendentemente, não tinha raiva do Felipe (àquela altura já expulso), nem do Pedro Cacete, nem de nin&amp;shy;guém. O que me deixava indignado: porra, mas os caras quase mataram vocêl Ele sorria, não dizia nada.&lt;br /&gt;Logo depois que Carlos teve alta o doutor António convidou a mim e a meus pais para um almoço na casa deles. Encarregou-me de transmitir o convite, o que fiz com certo receio: hospital era uma coisa, a casa, outra. Poderiam reagir com suspeição e até mesmo com desagrado: você está que&amp;shy;rendo nos envolver com aquela gente. De novo me surpreen&amp;shy;di: aceitaram de imediato, minha mãe até com entusiasmo.&lt;br /&gt;No domingo lá estavam. Minha mãe admirou-se com o belo apartamento; meu pai parecia intimidado pelo doutor António, que era bem mais alto, elegante — e culto — do que ele. Conversamos um pouco, e então Ana Lúcia anun&amp;shy;ciou que o almoço estava servido: comida baiana preparada por ela e pela mãe.&lt;br /&gt;Era a primeira vez que meus pais comiam acarajé. Experimentaram com certo receio, gostaram, repetiram. Mas o clímax viria com a sobremesa, que era sorvete.&lt;br /&gt;— Que coisa boa I — maravilhou-se minha mãe — É sorvete de quê?&lt;br /&gt;— De abacate — disse Ana Lúcia. — Uma receitinha simples, da minha avó.&lt;br /&gt;— Receitinha simples? Eu nunca experimentei um sor&amp;shy;vete tão delicioso. Nem sabia que se faz sorvete de abacate.&lt;br /&gt;— É simples. Você pega dois ou três abacates, amas&amp;shy;sa bem, coloca seis colheres de açúcar e o suco de meio limão, adiciona um litro de leite, cento e cinquenta gramas de creme e leva ao congelador. Depois é só servir.&lt;br /&gt;— Uma delícia — repetiu minha mãe. — Uma delícia. Vou querer esta receita.&lt;br /&gt;Estava encantada, e eu também: era só de umas pou&amp;shy;cas amigas que mamãe aceitava receitas — para ela, trata&amp;shy;va-se de um ato de cumplicidade, não apenas um intercâm&amp;shy;bio culinário. O que ela estava dizendo a Ana Lúcia era exa-tamente isto, aceito seu sorvete e aceito você também.&lt;br /&gt;Ana Lúcia sorriu, piscou o olho para mim. Quanto à minha mãe, agora mexia-se na cadeira, inquieta. Eu sabia que ela estava com vontade de contar a história do abacate, e não deu outra, mas no final acrescentou um detalhe que eu não conhecia:&lt;br /&gt;— Quando terminei o abacate, e só Deus sabe como consegui engolir aquilo com a casca, fiquei com o caroço na mão. E aí tive uma dúvida: quem sabe o bom do abacate estava ali, no caroço? Quem sabe eu deveria comer o caroço também?&lt;br /&gt;Olhou-nos, e havia lágrimas nos seus olhos:&lt;br /&gt;— Não tive coragem. Aquele caroço enorme? Não tive coragem.&lt;br /&gt;Pôs-se a chorar, meu pai consolando-a como podia, eu olhando a cena, constrangido, mas sobretudo comovido. De repente eu compreendia minha mãe. Sabia por quem chorava: pelos que tinham morrido nos campos de concentração,&lt;br /&gt;pelos que tinham sido perseguidos e humilhados. Mas cho&amp;shy;rava também por si mesma, pêlos sonhos perdidos — pelo abacate de sua imaginação, que pendia, promissor, de algu&amp;shy;ma árvore, no longínquo território de sua infância. Chorava pelo caroço; o que conteria, aquele caroço? Que segredos revelaria a quem o comesse? Agora era tarde para saber e por isso ela derramava suas sentidas lágrimas.&lt;br /&gt;Ana Lúcia, ao lado dela, passou o braço por seus ombros, abraçou-a. E naquele momento eu tive a certeza de que a nossa história, diferente de tantas outras, teria um fi&amp;shy;nal feliz.&lt;br /&gt;E final feliz foi o que esta história teve. Carlos e eu terminamos o curso no Juva, um colégio que hoje recebe negros e brancos, católicos, judeus, protestantes e budistas, rapazes e garotas. Fizemos ambos vestibular, ele para Direi&amp;shy;to, eu para Arquitetura — afinal, como eu disse antes, sem&amp;shy;pre fui bom no desenho. Ana Lúcia e eu nos casamos; ela não se converteu ao judaísmo, porque eu não pedi, mas, for&amp;shy;mada em Letras, dedicou-se a estudar literatura judaica e tornou-se autoridade no assunto. Temos dois filhos, dois excelentes garotos que fazem a alegria de minha mãe: des&amp;shy;de que meu pai faleceu, vem nos visitar sempre. Gosta de cozinhar para nós e sua sobremesa preferida é, claro, sorve&amp;shy;te de abacate.&lt;br /&gt;Meus filhos não vão passar pelo que eu passei, dizia meu pai, e estava certo. Não tivemos de passar fome, nem fomos ameaçados de extermínio. Mas de uma certa manei&amp;shy;ra eu repeti sua trajetória. Também eu tive de atravessar um oceano, também eu tive de descobrir um país que não conhecia. Ao qual, se tivesse de dar um nome, chamaria de O País dos Sonhos Improváveis. Sonhos que se ocultam no caroço de algum inocente abacate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O AUTOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moacyr Scliar (1937) é de Porto Alegre, no extremo sul do Brasil. Descendente de imigrantes judeus russos, sua temática é influenciada pelo judaísmo e pela experiência da imigra&amp;shy;ção, bem como pela visão social resultante de sua experiên&amp;shy;cia como médico de Saúde Pública. Tem cerca de 30 livros - romances, contos, ensaios, crónicas. Suas principais obras (O centauro no jardim, A estranha nação de Rafael Mendes, O exér&amp;shy;cito de um homem só, romances, e A orelha de Van Gogh, contos) foram publicadas nos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Israel e em outros países, despertando a admiração da crítica. É detentor dos seguintes prêmios, entre ou&amp;shy;tros: Prêmio Guimarães Rosa, Prémio Brasília, Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Casa de Ias Américas, Prêmio Pen Clube do Brasil. Colabora em vários periódicos da imprensa nacional e estrangeira, já teve obras adaptadas para cinema, teatro e televisão; viaja frequentemente ao exterior para conferências e encontros. Seu livro mais recente é O imaginário cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/6084754480274682025/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/um-sonho-no-caroco-do-sbacate-moacyr.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/6084754480274682025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/6084754480274682025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/um-sonho-no-caroco-do-sbacate-moacyr.html' title=''/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-1230922178994580593</id><published>2009-04-12T05:51:00.000-07:00</published><updated>2009-04-12T06:09:59.200-07:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Informação importante"/><title type='text'>Persépolis</title><content type='html'>&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;Persépolis&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;Retrato em branco e preto&lt;br /&gt;Marjane fugiu criança do Irã. Em quadrinhos, contou sua história - que hoje vale um Oscar&lt;br /&gt;Flávia Guerra - O Estado de S.Paulo&lt;br /&gt;Componentes.montarControleTexto(&quot;ctrl_texto&quot;)&lt;br /&gt;Reuters&lt;br /&gt;Iraniana, criança, em cena no filme autobiográfico&lt;br /&gt;SÃO PAULO - &quot;É um sonho. Jamais pensei em ser indicada para o Oscar com um filme que é a minha própria história e a do país em que cresci&quot;, declarou a iraniana radicada em Paris Marjane Satrapi ao Estado, após muita insistência para que a autora-diretora-personagem falasse de Persépolis, o longa-metragem que ela dirigiu com Vincent Paronnaud e concorre hoje ao Oscar de Melhor Longa de Animação. Persépolis era o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas não entrou entre os cinco finalistas. Muito justamente, concorre nesta outra categoria nobre da maior premiação do cinema mundial. Não é o favorito. O fenômeno infantil Ratatouille deve mesmo pegar os votantes da academia pelo estômago e levar a estatueta. Mas Marjane, ainda que saia de mãos abanando do Kodak Theatre, em Los Angeles, conclui de forma vitoriosa uma das últimas fases de seu périplo animado. Foi um longo caminho até que essa filha de uma família da elite esquerdista iraniana pudesse desfilar seu humor cáustico no tapete vermelho de Hollywood. A peregrinação cinematográfica de Marjane já passou por Cannes, Berlim (onde recebeu há 13 dias o prêmio Cinema pela Paz 2008, da Unicef) e por dezenas de festivais pelo mundo, incluindo a Mostra de São Paulo, na qual levou o prêmio do público. Ainda que seja uma produção francesa, um filme que fala da realidade islâmica ser escolhido como o representante da França na festa do Oscar pode ser interpretado como uma espécie de bandeira branca cultural diante das tensões entre imigrantes islâmicos e o governo daquele país. Pois bem. Ponto para Marjane, que fez ela mesma sua revolução em nanquim. Mas convém lembrar que nem tudo foram glórias na trajetória desse filme e dessa diretora. Recentemente, Bangcoc decidiu cancelar, em cima da hora, a sessão de Persépolis que abriria seu festival anual de cinema. Motivo: o boicote do governo iraniano, que credita ao filme a propagação de uma imagem distorcida e denigre os valores do Irã - e do Islã. Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência &quot;aprendendo&quot; a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. &quot;Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?&quot;, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: &quot;Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este&quot;. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano. Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. &quot;Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou.&quot;Mas, afinal, o que de tão ameaçador há nessa mulher e em sua obra? Uma animação belíssima em branco e preto, que consegue, nos traços arredondados, porém cortantes de Marjane, contar séculos de história e costumes de um dos povos mais ricos econômica e culturalmente do Oriente Médio? O ato mais subversivo do mundo ainda é pensar com a própria cabeça. E em voz alta, dizia Coco Chanel (não por acaso uma das mulheres - e francesas - mais influentes e admiradas do mundo). Pois bem, é exatamente isso que Marjane tem a coragem de fazer - e publicar - quando se fala em Persépolis. O poder de seu pensamento e de seus traços em p&amp;amp;b é tamanho que antes de virar filme a vida de Marjane já havia virado um dos quadrinhos (ou graphic novells) mais cultuados do mundo. &quot;Sou iraniana. E tenho orgulho de ser&quot;, brada ela em uma das cenas mais dramáticas do filme. Mas não foi o que o atual governo iraniano entendeu. E já não havia entendido nos anos 70, quando a família de Marjane resolveu mandar sua única filha para a Áustria, onde ela estaria longe da vigilância severa dos bedéis do Islã. Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história. Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava &quot;Punk is not dead&quot;, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia. Ela devia usar roupas que jamais marcassem o quadril e o hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas). No lugar de ouvir bandas como Iron Maiden, Abba ou James Brown, deveria prestar atenção aos cânticos dos muezins chamando os fiéis para rezar nas mesquitas. Namorado? Jamais. Se optasse por seguir a cartilha do aiatolá, estava fadada a encontrar um pretendente que a beijaria só depois de casada. Andar pelas ruas de mãos dadas e sentir o vento nos cabelos? Crime grave! Era esse o cotidiano em que cresceu a cartunista. Um Irã pós- Revolução Islâmica, quando, em 1979, o regime ditatorial do aiatolá Khomeini tomou o país de assalto e a antiga Pérsia se tornou a República Islâmica do Irã. Grosseiramente, pode-se dizer que, na época, os iranianos saíram da frigideira para cair na panela. Em vez de melhorar, as condições de liberdade de expressão, que com o regime dos xás já não eram ideais, pioraram. O país passou a ter uma verdadeira polícia para zelar pelos bons costumes. Marjane, em vez de se render ou de virar guerrilheira, criou Persépolis, sua graphic novell cheia de textura e bom humor. &quot;Nunca pensei que queria ser cartunista. Simplesmente, queria contar minha história. Eu amo meu país. Lá tem gente boa e gente ruim, como em todos os países. Quando cheguei à Áustria, também sofri muito. Eu mentia, dizendo que era francesa, para ser aceita, para que os garotos não me evitassem. Quem ia sair com uma iraniana? Me sentia péssima. As outras garotas me ridicularizavam. Fiquei deprimida, passei dois meses com frio, perambulando pelas ruas de Viena, até que um dia acordei em um hospital&quot;, conta ela, provando que seus quadrinhos são femininos, mas estão longe de serem gibi da Luluzinha. &quot;Quando me curei, lembrei do que minha avó dizia. Jurei nunca mais mentir sobre minha origem. Tenho muito orgulho dela.&quot;Com seu traço e sua visão tão particular das raízes de um mundo cada vez mais dividido entre as culturas do Ocidente e do Oriente, Marjane não poupa ninguém, não deixa de falar de temas como guerra, tortura, injustiças, machismo, violência de toda espécie, imperialismo e, assunto tabu dos tabus no Oriente, comunismo. Ela endurece. Mas não perde a ternura. Nem descuida do cajal (este sim, secular item da nécessaire de toda mulher oriental que preze sua vaidade). Sua história começa com ela ainda garotinha e evolui, num flash back, para a História com H maiúsculo do que se tornou o Oriente nestas últimas décadas. Marjane hoje está no topo do cinema e das discussões que cercam temas tão delicados como o respeito às diferenças e o abuso do absolutismo religioso. Mas se diz feliz com sua tarefa, ainda que involuntária. E mais ainda com seu filme. &quot;Eu, que sou tão enérgica, teria feito um filme do Godard. Vincent é o parceiro ideal, que me ajudou a equilibrar tantas palavras e expressões. Ele, que é tão introvertido, já teria feito um filme do Scorsese, cheio de cenas de ação. Juntos, fizemos um terceiro filme.&quot; Os produtores de Persépolis concordam: &quot; Nunca podíamos imaginar que teríamos esta nominação ao Oscar, uma honra imensa para a nossa primeira produção. Estamos tão orgulhosos e felizes por Marjane e Vicent&quot;, declararam ao Estado Marc Antoine Robert e Xavier Rigault. &quot;Ela cumpriu sua missão.&quot; Nada mal para uma garota que aos 9 anos ouvia as histórias de seus tios comunistas presos e torturados na prisão, conversava com Deus e sonhava em ser profeta para melhorar o mundo. Em vez de sermões da montanha, hoje ela prega com palavras e nanquim. &lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;SEM BEIJOS&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;ua sina era encontrar um pretendente que só a beijaria depois do casamento&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;SEM MEDO&lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;Teve a coragem de falar de temas que levam a ameaças de morte por radicais islâmicos &lt;/div&gt;&lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;SEM SOM Em vez de Iron Maiden, Abba e ames Brown, tinha de ouvir o canto dos muezins&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/1230922178994580593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/persepolis.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1230922178994580593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1230922178994580593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/persepolis.html' title='Persépolis'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7230660637597934645.post-1341027243254346956</id><published>2009-04-11T13:24:00.000-07:00</published><updated>2009-04-11T13:31:46.870-07:00</updated><title type='text'>UMA JANELA CHAMADA LEITURA</title><content type='html'>SE QUISER ABRIR É SÓ VISITAR!!</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/feeds/1341027243254346956/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/uma-janela-chamada-leitura.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1341027243254346956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7230660637597934645/posts/default/1341027243254346956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://umajanelachamadaleitura.blogspot.com/2009/04/uma-janela-chamada-leitura.html' title='UMA JANELA CHAMADA LEITURA'/><author><name>Professora Lúcia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16727085996662294360</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyooM-HQSL6O24IIn53SwhAYeXwZUu-9qQCcmiTFT6iIKPk4liQi3hEtfoFJrUpqTDPsU7AbbLaYaJV5F9hgrO6g1aEfCwnhrogIs5pTAPW3u-aPzT1XJa0G4_gfUwTA/s220/DSC01925.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>