<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:openSearch="http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/" xmlns:blogger="http://schemas.google.com/blogger/2008" xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr="http://purl.org/syndication/thread/1.0" version="2.0"><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723</atom:id><lastBuildDate>Fri, 01 Nov 2024 11:09:36 +0000</lastBuildDate><category>Contos</category><category>Parágrafos</category><category>A grande mãe</category><category>Diálogos</category><title>Contos e outras merdas.</title><description>Sabe aquelas pessoas que escrevem simplesmente pelo prazer em escrever? Que não relacionam literatura com uma expedição cósmica, interestelar? Então.</description><link>http://victornc.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>53</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-8105473398226959254</guid><pubDate>Fri, 22 Jun 2012 20:11:00 +0000</pubDate><atom:updated>2012-06-22T17:24:20.034-03:00</atom:updated><title>Cuspe.</title><description>&lt;style&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;font-family: inherit; text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Sentei no banco da praça e vi a vida passar. Cansado e esbaforido. Dor de amor, dor de corno, dor de cotovelo. Sentei no banco da praça e vi a porra da vida passar. Devagar e aos tropeços.&amp;nbsp; Dor de cabeça, dor de estômago, dor no cu. Sentei no banco da praça e simplesmente fiquei ali.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;E dali eu vi a criança que chorava pela mãe. E eu estava pouco me fodendo. E eu vi o casal que já não se ama mais e não aceita o fim. E eu estava pouco me fodendo. E eu vi o velho de bengala que já desistiu de viver. E eu estava pouco me fodendo. E eu vi o sonho americano desaparecendo no cachimbo do mendigo. E eu estava pouco me fodendo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;O jornal continuava cuspindo qualquer merda na televisão. As mulheres continuavam me ignorando e pisando sobre mim com seus saltos agulha. O meu emprego continuava a mesma merda de sempre. E cada vez mais eu era um cargo, um crachá. Eu era a pobreza das minhas ideias, a reunião cancelada às cinco da tarde, o e-mail que não chegou porque a minha caixa de entrada estava cheia. Alguns papéis amassados na lata de lixo e uma autosabotagem fodida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;O calor do sol derretia o meu sorvete de morango que escorria insolentemente sem querer pela minha camisa xadrez. O mesmo calor do sol que queimava a testa achatada do nordestino, que ardia a costela demarcada do gado, que esfumaçava a visão do catador de lixo mais preto que a própria madrugada e que esperava pelo último suspiro da criança africana.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Porque todos ao meu redor ganhavam menos do que eu. E eu era muito mais homem que o pai de família com cinco filho pra alimentar com trezentos reais. Minha conta bancária falava mais alto que os meus atos. Os meus sonhos brincando de sadomasoquismo com o meu dinheiro, calados por uma bola de metal na boca, subjugados com um pau de borracha enfiado no rabo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Eram vinte e três anos. Mais de duas décadas. Vinte e três aninhos de narizinho empinado, braçinho moldado na academia e roupinha da moda. Último botão da camisa aberto, combinando com o óculos RayBan. Tomando banho de sol na piscina do Hyatt enquanto olho pras bocetinhas cheirosas, só esperando o número mudar de sete pro oito para que elas possam receber meu bom e belo caralho sem que eu corra o risco de ser currado na prisão. Vinte e três aninhos e vinte e três centímetros de pica. Mentira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Todo o meu talento desperdiçado com pouca bosta, com porca miséria em uma sala grande com um monte de mesa e uma parede decorada. Criatividade e alegria. O colégio caro e os beijos de amor e afeto dos meus pais escorrendo pelo ralo, misturado a todo o vômito e bile que o meu corpo é capaz de produzir. Resto da noite de ontem, quando eu tentei comer a loirinha, a ruivinha, a moreninha, a japonesinha e a mulatinha. Tudo para acabar em casa me acabando em punheta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;E todas as vezes que eu não consegui gozar por estar bêbado demais, deprimido demais, viadinho demais. Todas as vezes que eu vi meu saco inchar e se desesperar aos poucos e todas as vezes que eu ignorei o seu clamor pelo alívio fácil, pela mão que sobe e desce, pela boceta que esquenta e desliza. De quando minha rôla perdeu a voz depois de passar uma semana na sarjeta por causa de uma única boceta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. Tentei. Mas aquilo não era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Terminei meu sorvete de morango, passei cuspe na camisa. A criança foi procurar sua mãe sabe-se lá Deus onde. O casal que não se ama mais foi procurar o amor. O velho de bengala não morreu. O cachimbo do mendigo se apagou. E eu estava pouco me fodendo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pensei em me levantar. E aquilo já era possível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Meu pau estava mole novamente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;/style&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2012/06/cuspe.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-6014937484484249782</guid><pubDate>Mon, 08 Aug 2011 03:22:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-08-08T00:25:43.705-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Primeiro assalto.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O inverno havia recém chegado à cidade. A noite lá fora era fria, densa, pesada. A neblina ofuscava a visão dos motoristas da madrugada e fazia doer as juntas daqueles que dormem em becos e vielas e sofrem por isso. E até mesmo as dos que não sofrem. Lei da selva. Da porta pra fora, a vida avançava calma e temerosa para os corajosos ou os loucos o suficiente de encarar os poucos graus e toda a praga que eles trazem consigo.&lt;br /&gt;Era algo após a meia-noite. Eu voltava do trabalho de cabeça quente e com as mãos pesadas e cansadas de tanto escrever. Parei em um supermercado pra comprar algumas cervejas. Amor enlatado. Um homem com bolsas embaixo dos olhos e andar exausto procurava alguma coisa nas prateleiras. Ele vestia meias e chinelos. E provavelmente sua mulher, grávida, ansiava por ele e pela realização dos seus pedidos. Apesar de tudo, era uma cena bonita. Eu sorri ao imaginar isso e pensei se a felicidade, de fato, era dona de um rosto. Não encontrei respostas, mas encontrei minha cerveja. O homem também encontrou o que procurava. Papel toalha, papinha de neném e uma garrafa de vinho.&lt;br /&gt;Eu, como de costume, tinha coisas demais na minha cabeça. Preocupações e futilidades e planos e sonhos. E todo o resto que vinte e um anos fossem capazes de acumular. Eu fazia vinte e dois alguns dias a partir dali, mas todos me olhassem como se eu tivesse vinte e nove ou algo do tipo. E eu sempre tinha alguma resposta engraçada e mal educada na ponta da língua para esses momentos. E era assim que eu fazia amigos.&lt;br /&gt;Paguei minhas cervejas e alguma coisa que, dizia a caixa, ser lasanha congelada. Crédito. Subi no carro, virei a chave. O calor do motor invadiu o carro e eu fiquei uns segundos aquecendo minhas mãos tão jovens e que já testemunharam tanta coisa e já escreveram sobre tanto sofrimento. E eu me lembrei de uma menina que dizia que eu merecia um soco por cada texto produzido por elas. Por cada palavra infeliz, para cada lamentação. Um soco. E eu pensei que essa era uma prova de carinho incrível. E, para ser sincero, aquela não era a primeira vez que eu pensava nessa menina. Mas eu buscava ignorar esse fato. O nome disso é “autopreservação”, uma palavra que eu nunca fui muito familiarizado. Sempre gostei mais da palavra “coração”. Antônimas, como fica claro.&lt;br /&gt;Engatei a primeira marcha e segui pelo trânsito de volta pra casa. E enquanto eu dirigia buscava alguma distração, algo bonito para se ver, alguma inspiração. Mas a madrugada, nessa cidade, nunca foi lá muito abençoada. Os sinais estavam sempre vermelhos e eu sempre parecia não ligar muito para isso. Teve aquela vez que eu fiz isso e quase morri. Mas também teve aquela vez que eu fiz isso e saí vivo e com uma nova história pra contar. Então, até então, fazer isso valia a pena.&lt;br /&gt;Cheguei, estacionei o carro e a distância da vaga me faria caminhar até em casa. Meus músculos reclamavam a cada passo. O frio os enrijecia e os esticava num ritmo constante. Num ritmo cruel até para o mais resistente dos músculos. Eu engolia a dor e não demonstrava nenhuma expressão. Morto de cansaço e de fome por dentro. E a carcaça do lado de fora a mesma coisa de sempre. Vinte e nove anos, vocês se lembram?&lt;br /&gt;Mas finalmente eu estava em casa. Aliviado, cansado, esfomeado. Abri o microondas, fechei o microondas. Catorze minutos. Liguei-o e ali começava a tortura. A espera, a famigerada espera. E nesse meio tempo mais uma vez pensava na menina do soco. Ela fazia aniversário dentro de uns dias e eu já havia decidido qual seria o presente dela há algum tempo. E embora o presente me parecesse uma boa ideia, ele ainda soava incompleto para mim. Como se ela merecesse mais, como se ela merecesse uma dedicação maior. E, pensando agora, definitivamente ela merecia.&lt;br /&gt;Foi quando eu comecei a escrever. Aquele era o primeiro assalto. As pessoas ao meu redor diziam que eu era dotado de uma certa habilidade para escrever, mas não era por isso que eu escrevia naquele momento. Eu escrevia simplesmente para provar pra ela que eu era capaz, sim, de escrever algo digno não de um soco, mas sim de um abraço ou qualquer outra manifestação pura e verdadeira de carinho. Eu escrevia simplesmente pra ver brotar um sorriso em seu rosto. Tudo o que eu precisava eram lembranças bonitas.&lt;br /&gt;Os catorze minutos se passaram. Os próximos catorze também. E os próximos e os próximos. E minhas mãos tão cansadas, tão machucadas, tão desobedientes tinham vida própria. Elas batiam nas teclas com uma agressividade suave. Aquilo eram as minhas mais belas lembranças acumuladas no último mês se manifestando. Pedindo pra sair. Pedindo para serem a causa do sorriso de uma outra pessoa, além do meu. E eu atendia aqueles pedidos com uma consideração quase paterna. Eu simplesmente sentava ali e deixava que elas fizessem seu trabalho. E elas, minhas mãos, eram felizes assim. E eu acredito que eu também.&lt;br /&gt;O processo se repetiu por uma semana inteira. Algumas noites de pouco sono e algumas manhãs de um curioso e agradável despertar. De certa forma, aquilo me fazia bem, como nos velhos tempos. Ao fim daquilo tudo, eu tinha um punhado de páginas, um punhado de inseguranças e um punhado de boas intenções. E o calendário insistia em atrasar a chegada do dia vinte e nove. E tudo o que eu queria era vê-la e fazê-la feliz. Mesmo com aquele soco que eu nunca levei.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2011/08/primeiro-assalto.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-5580143716120716178</guid><pubDate>Fri, 24 Jun 2011 02:37:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-06-24T10:58:20.429-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Sobre desperdiçar a vida.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu já havia passado o dia inteiro bebendo. Sozinho em casa e bebendo. Era feriado, provavelmente coisa de algum santo ou algo do tipo. E enquanto todo mundo tinha alguma coisa útil para fazer ou alguém para abraçar e beijar e amar a única coisa que eu tinha era um pouco de cerveja na geladeira e um monte de tempo livre e falta de juízo na minha cabeça de vinte e dois anos. Na noite anterior, haviam comentado que eu era um bebê. E eu, sinceramente, achei isso uma grande merda. Ó, olhem só para ele, tão jovenzinho, tão tadinhozinho... Olha só como ele é gordinho e fofo e grande e pequeninho ao mesmo tempo. Eu simplesmente estava cansado dessa porra desse olhar de piedade e dó das pessoas diante de mim. Vocês não imaginam o quão fodido eu sou, então nem comecem. NEM COMECEM.&lt;br /&gt;Mas, enfim, eu já havia bebido o dia inteiro. E como todas as coisas boas da vida, uma hora a bebida chegou ao fim. E eu não sabia mais o que fazer. Era como se a minha vida tivesse perdido o sentido no momento em que a última gota desceu pela minha garganta. Mas isso só hoje. Eu não tenho um problema, acreditem. É a questão da ocasião. A OCASIÃO É O QUE ME CONSOME. O VAZIO E TUDO MAIS. Mas fodam-se vocês e foda-se a minha sanidade e foda-se o que eu acredito ser um problema ou uma virtude. Foda-se essa porra toda e vamos voltar ao que interessa.&lt;br /&gt;Os escritores de verdade diriam que eu sôo repetitivo. É sempre a mesma lamúria, a mesma choradeira, a mesma frescura, a mesma bebida. Eu espero que vocês morram. Eu nunca disse que escrevo para me sentir bem. Eu nunca disse que escrevo me preocupando com vocês. Na verdade, eu escrevo pra mim e para eu não perder o pouco controle que ainda tenho sobre minhas atitudes. E quando isso não funcionar mais eu pararei de escrever e vocês precisarão criticar algum outro jovem babaca que acha que tem algum talento. Demolidores de sonhos, vocês não são nada. E olha só essa história perdendo o formato de novo e virando uma porra de um querido diário. Podem criticar isso à vontade. Isso aqui não se trata de Vito Beaumont, se trata de Victor Carvalho.&lt;br /&gt;Eu só sei que depois que a bebida acabou e a TV parou de passar algo interessante (como se em algum momento ela tivesse sido interessante de fato) eu saí de casa em busca de um pouco mais de bebida e quem sabe de um novo amor. Apesar de que o segundo item fazia parte do meu dia a dia. Eu sempre estava em busca de um novo amor ou algo do tipo. Obviamente, isso nunca funcionou. Mas dizem que é preciso desistir do amor para encontrar um novo amor. Até então, eu não havia desistido. E talvez assim eu fique melhor, alimentando falsas esperanças e sem nada concreto. Vocês sabem, eu não mereço ninguém nesse exato momento. E sabe-se lá DEUS se vou merecer algum dia.&lt;br /&gt;Eu só sei que fui até o supermercado e comprei um pouco mais de cerveja e alguns pães. Casais se beijavam na fila do caixa e eu achava aquilo tudo simplesmente nojento. É engraçado como todo mundo se ama nos fins de semana e nos feriados. Rolinhos e enrolações e grandes amores e tudo mais. Mas eu consegui um pouco mais de cerveja e alguns pães. Poucos minutos depois, a cerveja já havia acabado e os pães estavam intactos. Serei sincero, nem faço ideia do porquê de eu ter comprado aquelas merdas. Eu nem gosto tanto assim de pão. Mas isso não é da conta de vocês e na verdade isso nunca deveria ir para o papel. Tenho vergonha da minha ausência de talento literária. Muita vergonha. Bukowski, Fante, lamento mas eu decepcionei vocês. Mas, pensando bem, pelo menos eu ganho um pouco de dinheiro com essa merda aos vinte e dois anos. Superem isso, babacas.&lt;br /&gt;E eu estava de novo sem cerveja e sem vontade de parar de beber. Já era nove da noite ou algo assim e, sinceramente, eu não sei como havia suportado até aqui. Só sei que se funcionou até então, agora não é a hora de parar. Eu estava sentado em um banquinho qualquer na cozinha. A máquina de lavar berrava na área de serviço. Uma caneca cheia de cerveja, a última cerveja, nas minhas mãos. O olhar pra baixo, desesperançoso, fixo para o nada. E a máquina se esgoelando em um uníssono de limpeza e brancura. Dallas Green se dilacerava em canções mais bonitas do que o coração humano podia suportar e eu cantava aquilo tudo em plenos pulmões. E me achava o máximo. Ó, como eu me achava o máximo. Minha voz era música para os meus próprios ouvidos e aquilo era bom e lindo e me fazia mais forte. Era como se ele cantasse aquilo tudo pra mim e eu pegava aquela beleza toda e recriava e reinventava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;What have the demons done?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;What have the demons done?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se questionava e eu me esforçava para buscar uma resposta, mas nunca as encontrei nem nunca as encontrarei. É tudo uma parada retórica. Perguntas que a gente se faz sabendo que não há uma resposta ou solução. Que saudades do meu cachorro, do brilho nos meus olhos. Que saudade. A minha vizinha da frente está com um cara na área de serviço. Ele parece legal, parece que vai cuidar bem dela. Ela merece um cara legal. Eu nem sei o nome dela, mas ela merece. Afinal, eu não estou afim de ouvir gritarias e presenciar um ASSASSINATO nos próximos meses. Então é bom que esse cara seja legal nesse mundo onde todo mundo é doente e todo mundo só está em busca de foder os outros pelo cu. Depois da super valorização do pênis e da vagina, estamos vivendo a super valorização do cu. Todo mundo tenta foder o outro da forma mais dolorosa possível. E sem dúvidas algumas pessoas conseguiram isso comigo. Tanto é que ainda fico nessas de beber o dia todo e depois escrever sobre as merdas do dia. Já é quase um ano com a mesma ladainha, a mesma historinha. Mimimimi e o caralho a quatro.&lt;br /&gt;A cerveja havia se esgotado, a minha vontade de me manter firme também. Eu não tinha mais onde recorrer, embora eu ainda precisasse daquilo tudo. Ainda era nove e pouco da noite e eu ainda tinha umas boas horas pela frente. E sem aquilo não daria para seguir em frente tranquilo, com um sorriso no rosto. Não daria. Simplesmente não daria. Botei um casaco, uma calça decente e subi a rua. Vocês veem, graças a Deus Nosso Senhor eu moro perto de uma porrada de bares. É como se todo mundo tivesse os mesmos problemas que eu, as mesmas dores. Ou simplesmente é como se todo mundo gostasse de beber um pouco.&lt;br /&gt;Fui subindo a rua, confiante como Michelangelo ou como qualquer outro cara que SABE o que está fazendo. Eu pisava com firmeza, com orgulho, com honra. Como um nobre cavalheiro no caminho de encontrar sua donzela e salvá-la de uma torre escura e triste que já a aprisiona há tanto tempo. E várias donzelas desse tipo já passaram pelas minhas mãos. Mas nenhuma quis ser resgatada, nenhuma quis ser salva, nenhuma quis a felicidade. Azar o delas, azar o meu. Quem sofre sou eu. Eu aqui, pronto para dar o MUNDO para quem quer que aceite. Pronto e QUERENDO isso. E elas ainda se satisfazem com a falsa sensação de alegria que outro babaca qualquer é capaz de transmitir a elas. E eu fico aqui, escrevendo essas coisinhas. Quem está melhor, eu te pergunto? É, eu sei. Eu sei bem.&lt;br /&gt;Mas finalmente eu havia chegado lá. Bares e mais bares, um ao lado do outro. Pessoas e mais pessoas, grandes grupos de lindas pessoas amontoadas em mesas. Todos são só sorrisos, todos se abraçam e contam grandes histórias emocionantes e muito divertidas, aparentemente. É como se a vida de todos fizesse muito mais sentido que a porra da minha vida. O cenário era deprimente, se vocês querem saber. Aquele monte de gente, aquele monte de gente bonita. E eu. Eu. Sozinho e envergonhado com o ponto onde as coisas chegaram, simplesmente em busca de um pouco mais de bebida para ir até o fim do dia com tranquilidade e com a consciência limpa de que as coisas melhorariam depois de um tempo. As pessoas me olhavam com um certo peso no olhar. Peso e pêsame. Era aquele mesmo olhar de dó misturado com um ar de desdém. Todos ali eram melhores que eu em alguma coisa e isso definitivamente não me ajudava muito. Entrei na primeira porta que vi aberta logo que virei a esquina. Meu paraíso, meu objetivo primário, minha carga preciosa, minha Brigitte Bardot.&lt;br /&gt;Caminhei devagar até o balcão. Apreciando cada momento daquilo tudo. Os olhares, a geladeira cheia, aquele garçom que salvaria o resto da minha noite, o velho do caixa que contava os minguados Reais. Alívio, um verdadeiro alívio. Parei de frente com o garçom atrás do balcão. Um cara de meia idade, uma tentativa de bigode acima dos lábios, os olhos um pouco confusos, o cabelo começando a cair. Esforçava-se secretamente para parecer jovem, talvez querendo esconder a tristeza de ser um senhor e ainda ser um garçom de bar de esquina. Enfim, parei diante dele.&lt;br /&gt;- Amigo, ô amigo.&lt;br /&gt;Ele me olhou em um profundo silêncio. Limpava um copo com certo cuidado.&lt;br /&gt;- Me vê uma cerveja, por favor. Uma não, duas cervejas. Me vê umas cervejas aí.&lt;br /&gt;Ele me olhou bem profundamente com aqueles mesmos olhos de antes.&lt;br /&gt;- Olha, amigo, eu acho melhor não. – foi o que ele disse.&lt;br /&gt;- Como assim “melhor não”?&lt;br /&gt;- Eu acho que você já bebeu o bastante.&lt;br /&gt;- Eu digo quando eu bebi o bastante. – foi o que eu disse.&lt;br /&gt;- Não. Sério. Você já bebeu o bastante. Eu sei como é a sensação e eu sei que agora é a hora de parar.&lt;br /&gt;- Olha, homem, só eu sei como é a sensação. Só eu sei como é ser tão fodido ao ponto de não conseguir seguir adiante de cara limpa. Só eu, e mais ninguém.&lt;br /&gt;- O mundo tem mais de sete BILHÕES de pessoas. Você realmente acha que você é o único?&lt;br /&gt;Eu não soube o que responder.&lt;br /&gt;- Não, você não é o único. Você é só um moleque com dózinha de si mesmo.&lt;br /&gt;Eu não soube o que responder.&lt;br /&gt;- Por isso que eu não vou te servir outra cerveja.&lt;br /&gt;Eu, de novo, não soube o que responder.&lt;br /&gt;- Sem contar que você está de pijama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei para baixo e percebi que ele tinha razão. Eu ainda estava de pijama. Era como um pesadelo. Um pesadelo dentro de outro pesadelo que eu chamo de VIDA. Um chinelo havia escapado do meu pé. O calcei novamente e voltei meus passos para casa, mais envergonhado do que nunca. Eu sabia que todos me olhavam enquanto eu voltava fracassado. Eu tinha plena certeza disso. Aquele monte de gente bonita, de gente divertida, de gente interessante, me olhando e comentando entre si e entre risadas e entre sorrisos brancos sobre o quão infeliz e imbecil eu era. Mas ainda assim, segui quieto, sem olhar para trás. De pijamas. Cheguei em casa, abri a geladeira novamente só para constatar de que a cerveja havia, de fato, acabado. Deitei e dormi. Para o bem ou para o mal, a vida seguia em frente.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2011/06/sobre-desperdicar-vida.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-5331296925934240401</guid><pubDate>Tue, 21 Jun 2011 05:21:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-06-21T14:53:26.728-03:00</atom:updated><title>Essa noite eu me olhei no espelho.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu não sei por que eu o fiz, mas eu o fiz. Eu fui até meu banheiro, coloquei-me em frente ao meu espelho e olhei pro meu deformado rosto. E tudo continuava da mesma forma. Nada lá era passível de ser apreciado ou até mesmo elevado a algum certo grau de importância. Nada naquela massa bagunçada era algo digno de ser comentado pelo sexo feminino ou por qualquer outra pessoa, ao menos não sob a luz intensa do sol e dessa porra toda descoberta e criada por Darwin. Absolutamente nada. Eu passava a mão sobre meu rosto, incrédulo. Sem entender. Perguntava-me: Por quê? Por quê? Não existe castigo maior do que ter nascido na minha pele, com a minha cabeça, com a minha memória. E talvez vocês citem a fome na África e o holocausto e todo o diabo de ruim que acontece diariamente no nosso planeta faminto e racista, mas eu continuo firme na minha posição. É uma merda ser o que eu sou. É uma merda ter que acordar todos os dias sendo o que sou. É uma merda respirar o ar que eu respiro, mesmo sabendo que eu não sou digno de nada disso. É uma merda, como tudo em mim. A começar pelos meus olhos. É, meus olhos. Eles já não funcionam direito há certo tempo, na verdade, eu nem me lembro mais sobre como é ter uma visão DECENTE e não usar esses óculos. Uma vadia certa vez disse que meus olhos eram tristes e sem graça. E ela não disse isso com um ar de compaixão ou algo do tipo. Era um ar de verdade, do alto da sua mais pura e divina capacidade de ser uma vadia. E eu engoli e digeri cada uma daquelas palavras, levando para mim como a verdade definitiva. Vadias são vadias, mas ainda assim são mais inteligentes que noventa por cento da população mundial. Fazer o mal, foder com corações que um dia foram bons e com algum resquício de alegria exige uma capacidade MONSTRUOSA, literalmente. Minha ex-mulher que o diga. Pensando bem, se eu pudesse eu furaria meus olhos, mas aí essa minha vidinha de bosta se tornaria numa grande mitologia bíblica e eu já sou problemático o bastante pra foder ainda mais com o que resta da minha HUMANIDADE. Mas se fossem só meus olhos o problema, tudo bem. Eu seria um homem e tanto e um homem feliz. American way of life e o cacete a quatro. O bom marido que um dia eu vou ser, porque eu simplesmente VIVO por elas. Passeio no Ibirapuera com piquenique e carinho no rosto. Porque eu simplesmente sou assim, cacete, algum problema? Mas eu também tenho as minhas bochechas eternamente caídas. Um dia elas foram vivas, para cima, como se eu estivesse constantemente sorrindo, aplaudindo o por do sol na areia fofa de uma praia deserta, segurando na mão do meu amorzinho. Mas hoje elas são caídas, apontam pro chão, apontam para o inferno. A vida e fodeção de pensamentos ruins que manda no meu consciente, no meu subconsciente, no meu id, no meu ego e no meu superego jogaram elas para baixo. O que, obviamente, não colaborou com a minha aparência, nem muito menos com a minha autoestima. Eu sabia muito bem que me olhar no espelho me faria mal. Eu sempre soube, eu nunca tive dúvidas disso. Mas ainda assim eu o fiz. Deve fazer parte do meu lado masoquista e outras coisas que aquele cara que atende pela alcunha de Freud explicaria de alguma maneira óbvia com alguma palavra besta, tipo “Batatas”. Mas Freud, no fundo, é um cara e tanto. Terapeutas são um cara e tanto, na verdade. A minha, por exemplo, deve me adorar. É a única explicação para uma pessoa aceitar escutar tamanha carga de merda e autopiedade nas primeiras horas da manhã. Nenhum dinheiro justifica essa merda. Nada. Mas ela deve me achar um cara interessante, ou melhor, um caso interessante. Embora ela ostente uma bela aliança, provavelmente sendo casada com um homem LINDO e INTELIGENTE e INTERESSANTE. Tudo o que eu nunca fui. Tudo o que eu nunca serei. Mas vale a reflexão sobre o quão fodida uma simples pessoa pode te deixar. Comigo, um passo pra frente sempre serão cinco para trás. E o piquenique no Ibirapuera cada vez mais distante. Eu não peço nada demais, vocês veem? Nunca pedi. Só quis ser uma pessoa decente o suficiente para fazer meus pais felizes e conseguir uma boa mulher que consiga ignorar TUDO o que há de FILHO DA PUTA sobre mim e sobre minha aparência e sobre tudo. Embora o fato de ter uma mulher ao meu lado faz tudo isso desaparecer. Minhas bochechas sobem, meus olhos se enchem de alegria. Talvez isso tenha se transformado num vício, como a bebida. E talvez eu não queira me livrar dessa merda desse vício tão cedo, até porque ele me persegue nos meus sonhos. Mas tudo o que eu sempre quis foi chegar aos pés do que meus avós foram e são e serão. Mas já vi que não vai dar. Vinte aninhos e alguma coisinha. Um prodígio, um geniozinho, uma fofura, um cara muito legal que sempre me aconselha e sempre é bem útil quando eu precise que ele seja útil. UM PUTA DE UM BABACA DE MERDA, ISSO SIM. O espelho nunca mente, vocês sabem. O que uma pessoa escreve enquanto caminha pelas trevas nunca mente, vocês sabem. São essas pequenas merdas que definem a gente. Não é carreira, não é coração, não é a capacidade que eu tenho de fazer os outros darem risada da MINHA desgraça. São esses toques, essas palavras e o que há de mais sujo e desprezível na minha mente que definem o que eu sou. Uma vergonha para a pessoa que menos esperava algo de mim: Eu mesmo. Até eu mesmo eu decepcionei. Logo eu, que nunca depositei alguma esperança na minha capacidade ou no meu talento para a felicidade. E eu só consigo escrever triste e talvez eu continue escrevendo meu livro e talvez eu fique famoso com isso e ganhe algum prêmio babaca e alguma estudante de filosofia da usp consiga olhar pra mim e enxergar alguma coisa que, na verdade, sempre esteve aqui. E talvez eu me force a amá-la e vá para os meus piqueniques no Ibirapuera, segurando naquelas mãos mal lavadas dela, acariciando aquele cabelo nojento. Nojo e desgosto em troca de amor. Eu busco algo de inteligente para dizer, mas não sai mais nada. A cerveja acabou e eu continuo no mesmo lugar. Está escuro, bem escuro. A única coisa que me ilumina é essa luz suja de computador. E lá fora, no mundo real, casais se amam e se abraçam em meio a declarações de amor, muitas vezes mentirosas e banais. Como todas aquelas que um dia eu escutei. E eu só tenho as minhas ceroulas, o que talvez seja o maior gesto de carinho que eu já fiz comigo mesmo. Enfim, essa merda já está indo longe demais, como todas as outras merdas da minha vida. Aparentemente, não há horizonte suficiente para todas as merdas da minha vida. E vocês sabem que, se não há horizonte, não há futuro, ou perspectiva, ou tudo de bom que o futuro e a perspectiva possam trazer. Eu saio da frente do espelho, deito a cabeça no travesseiro e tento dormir, sabendo com absoluta clareza, que o estrago já foi feito. E muito bem feito.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2011/06/essa-noite-eu-me-olhei-no-espelho.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-1265963431996247375</guid><pubDate>Tue, 19 Apr 2011 01:57:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-04-19T00:23:26.011-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>E então Jesus abaixou a cabeça e sorriu.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ele a espiava com o canto do seu pequeno olho. Atrás da escada, sem fazer barulho, prendendo a respiração. Estava completamente pronto. Sabia cada movimento dela, conhecia sua rotina de cor. Ela lá, sentada na melhor poltrona do mundo. De um vermelho que combinava perfeitamente com o carpete vinho. Os desenhos davam voltas em seus elefantes e seus deuses indianos que ela, no fundo, desconhecia completamente e faziam daquele estofado o melhor estofado do mundo. Ao menos aos olhos dela. Frente àqueles olhos que já viram de tudo, aquela era a melhor poltrona do mundo. E era um imenso orgulho passar suas tardes ali. A bíblia nas mãos suavemente manchadas. Manchinhas escuras que gritavam “Dever cumprido”. Ela passava saliva nos dedos e virava a página. Era um ritual. Página após página. Palavra após palavra. Rezando baixinho para si mesma, falando só para quem ela realmente queria que escutasse. A casa em um silêncio profundo que dizia muito mais do que se podia imaginar. Os cabelos vermelhos devidamente pintados na mesma cor das longas unhas. A mesma idade há anos e anos e anos. Sessenta e dois, ou algo assim.&lt;br /&gt;E ele ainda lá, embaixo da escada. Espiando e esperando o momento certo. Ela sabia muito bem que ele estava lá. E, na verdade, ele também sabia que ela sabia. Mas assim tudo ficava mais interessante. E seu mundo ainda era colorido demais e ingênuo demais e imaginário demais para que aquele momento fosse estragado por algo tão chato como a verdade. Oito anos recém completos. O corpo gordinho, o cabelo ruinzinho. Toda aquela inocência era material de sobra para os amiguinhos da segunda série. Mas ele não ligava. Contanto que momentos como aqueles continuassem a se repetir, ele não ligava. A vidinha era bonitinha, afinal. Mas ele permanecia com os olhos bem abertos. Alerta com toda a capacidade que sua pouca idade permitia. A respiração ainda devagar, os pés meio trêmulos de cansaço e as mãos nervosas apertando o canto da parede.&lt;br /&gt;Foi quando o momento chegou. Ele, o sinal. Ali, estampado no bocejo longo e de direito. A bíblia quase que fecha, tamanha a força daquela boca aberta e aquele som gostoso de ouvir. Uooooooon, pela sala mais calada que o mais calado dos lugares no mais remoto dos destinos. Até que ele, num só pulo, caiu bruscamente na frente dela. Os olhos brilhando, a língua nervosa pra falar o que vinha ensaiando há tanto tempo. As mãos meio que sem saber o que fazer, às vezes mexendo no estofado da poltrona, às vezes dando pequenos soquinhos no joelho dela. E ela lá, com aquele sorriso de sempre, meio tímido, meio sem graça, mas mais sincero do que qualquer outro gesto de qualquer outra pessoa.&lt;br /&gt;- Ô Vó... – disse ele.&lt;br /&gt;- Oi, querido... – disse ela.&lt;br /&gt;- Ô Vó, sabe o que é? É que eu to querendo ir lá pra cima.&lt;br /&gt;- Sei. Mas por que você não vai? – ela sabia a resposta, mas adorava aquele joguinho.&lt;br /&gt;- É o homem, Vó. O homem tá lá.&lt;br /&gt;- Mas, Victor, qual é o problema?&lt;br /&gt;- Poxa, Vó, você sabe, né... Ele fica lá, me olhando, com as mãos abertas. Eu não gosto. É estranho.&lt;br /&gt;- Mas, filho, ele não vai te fazer nada. Ele é bom, filho.&lt;br /&gt;- Vó! Ele tem aqueles olhos fundos, Vó! Eu não consigo olhar pra ele, Vó! Tira lá pra mim, por favor, por favor, por favoooooooor.&lt;br /&gt;E ele se debruçava nas suas pernas finas e ainda dispostas mesmos após tanto tempo. E ela dava a risada mais gostosa que aqueles fins de semana de quinze em quinze dias podiam proporcionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calçou devagar aqueles chinelos tão velhos. Não comprava um novo porque simplesmente não precisava. Por que gastar dinheiro com chinelos? Existiam coisas na vida mais importantes do que chinelos, como, por exemplo, resolver aquela situação tão urgente. Subiu as escadas, degrau após degrau. Com calma, sem pressa. Aproveitando aquela situação toda. Olhando para trás com o canto dos olhos para ver a sua cara apreensiva. Aquelas mãozinhas dele no peito, como se sua própria vida dependesse dela. E, ali, ela se sentia mãe mais uma vez. Quarenta longos anos depois, ela era mãe mais uma vez. A melhor sensação do mundo para qualquer avó. Ela chegou ao segundo andar e à fonte de todo aquele pavor. Toda aquela ansiedade. Lá de baixo, ele gritou.&lt;br /&gt;- VÓÓÓÓÓ, POSSO SUBIR? – perguntou, a voz trêmula de preocupação.&lt;br /&gt;- Pode. Sobe, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela mal respondia e ele passava correndo por aquelas escadas e por aquele terror todo direto para a televisão e aquele mundo de mentirinha dentro do seu próprio mundo de mentirinha, deixando-a livre para seus sorrisos sinceros e seu cheiro inesquecível e seus rituais vespertinos na melhor poltrona do mundo. E, em cima da estante, um quadro de Jesus Cristo coberto por um pano de prato não tão sagrado assim. Ele também sorria.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2011/04/e-entao-jesus-abaixou-cabeca-e-sorriu.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-5603065568120608514</guid><pubDate>Sun, 13 Feb 2011 14:33:00 +0000</pubDate><atom:updated>2011-02-13T15:42:16.708-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Que Deus me proteja do inferno que se abaterá sobre minha vida nas próximas horas.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu falei alguma coisa assim e comecei a beber. O relógio marcava alguma coisa entre as dez e eu bebia alguma coisa com pouco álcool por algum motivo que não devia significar alguma coisa pra mim. Era uma noite de incertezas e eu me comportava como se ainda tivesse idade para isso. Vinte e um anos. Eu bebia em casa, sozinho, me preparando para beber no mundo real, também sozinho. Até aí nenhuma novidade. Terminei, entornei mais algumas cervejas e de repente eu já me sentia pronto o suficiente para os outros seres humanos. Me sentia merecedor deles, me sentia &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;parte &lt;/span&gt;daquela massa toda. E era tão acolhedor e tão quente lá dentro. A sensação era boa e subia pelas minhas mãos, entrando pelas minhas veias e saindo pelos meus olhos em forma de brilho. Tudo isso por causa de seres humanos. Ratos e tudo mais. E eu numa festinha mental de quinze anos, dançando valsa, apaixonado e usando um vestido &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;lindo&lt;/span&gt;. E tudo vinha em ondas pra mim. Enfim, ganhei as ruas.&lt;br /&gt;Ser sozinho já não tinha a mesma graça de antes. Não me fazia melhor do que ninguém. Não transmitia aquela ideia de SUPERIORIDADE. Eu não era mais o cara misterioso sentado no canto do bar sozinho, tão sozinho, tão, tão sozinho. Eu era só o cara que talvez mate todo mundo aqui dentro, escrevendo o nome da ex-mulher na parede com sangue, antes de se suicidar. O que talvez fosse a resposta para meus problemas de falta de atenção. E vocês sabem bem que eu me alimento dessa porra. São os olhares que me fazem conseguir enxergar um caminho à frente. Se não for de outras pessoas, o do espelho já basta por algum momento. Um reflexo e um tanto de uma falta absurda de personalidade e uma autoestima estupidamente forçada e mais um monte de coisas que me classificariam como &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Lixo egoísta&lt;/span&gt; ou &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Porco &lt;/span&gt;para as meninas bocetudinhas desse mundo. Claro, como se elas não gostassem de homens assim. Estúpidos buracos. E eu ouço gritos vindo de algum lugar e esse talvez seja meu subconsciente me mandando parar antes que eu comece a falar sobre bocetas e amores novamente. Minha vida por continuar agindo como um porco e toda a imagem que construí pra mim. O que você talvez não perceba e elas não percebam e quem me ama não perceba é que a única coisa que eu faço é substituir coração por boceta. E eu não serei mais direto que isso. São as regras do jogo, minha linda subconsciência.&lt;br /&gt;Mas os gritos não vinham da minha subconsciência, mas sim de algum lugar não longe da onde eu estava, que eu também não fazia a mínima noção da onde era. Caminhei tranquilamente até lá. Se desse tempo, tudo bem. Se não desse tempo eu caminharia normalmente com um pouco de remorso fingido. Tudo para agradar Deus Nosso Senhor. Mas ser herói nos dias de hoje não vale a pena, vocês sabem e quando eu cheguei ela ainda gritava. No chão, do jeito que saiu do ventre divino de sua mãe, aquela santa. Tinha cabelos mais escuros que a noite e dentes mais claros que o dia. Era linda. Linda demais para o herói que teria nessa noite. Não diferente de todas as outras mulheres desse mundo. Nunca fui, nem nunca serei merecor delas. Ou talvez elas que não sejam merecedoras de mim. Enfim. Cheguei mais perto e ela ainda gritava, ainda mais alto dessa vez. Ninguém por perto.&lt;br /&gt;- Linda menina. Anjo de cabelos escuros e dentes brancos. Minha vida, minha existência. - essa foi minha abordagem maravilhosa. Ela olhou pra cima.&lt;br /&gt;- Sim? - os olhos piscavam num clamor desesperado demais até pra mim.&lt;br /&gt;- Cala a boca. Para de gritar e cala a sua boca. Você vai acordar os GATOS e CACHORROS e VIÚVAS.&lt;br /&gt;- BOA, VITO. MANTÉM A CARCAÇA. GRANDE BABACA. - essa foi minha consciência falando.&lt;br /&gt;- Ser sozinha é um inferno, sabe, Meu Homem? - essa foi ela falando.&lt;br /&gt;- E quem garante que o inferno seja muito pior que o paraíso?&lt;br /&gt;- Ninguém. Mas a gente precisa escolher entre um ou outro. Não existe meio-termo para essas coisas.&lt;br /&gt;- Não acredito que suas palavras sejam tão lindas quanto você.&lt;br /&gt;- Não acredito que seja você que a noite me reservou. - senti uma infelicidade por trás disso.&lt;br /&gt;Essa foi minha deixa. Segurei-a pelos ombros, olhei no fundo daqueles olhos tão tão tão pretos. E a ajudei a se levantar. Saí andando sem dizer mais nada. Alguns passos à frente, barulho de saltos apressados. Ah, aquele barulho maldito. E que Deus me proteja do inferno que se abaterá sobre minha vida nas próximas horas. Ela parou do meu lado, olhou para mim e bocejou o maior bocejo do mundo. E eu causo essa reação nas pessoas. Me diz você. Continuei andando. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Toc toc toc toc toc toc &lt;/span&gt;atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compramos algumas cervejas no caminho. Um brinde desperdiçado, como todos os outros. Bebemos normalmente. Sem pressão ou impressão. Sem dizer palavra alguma. Sem as estúpidas regras de bons modos da sociedade. Um pouco mais a frente, um lugar que talvez valesse a pena. Um lugar à altura da minha presença e toda a aura de mistério e sabedoria que há por trás disso e todo o meu intelecto e toda minha capacidade de terminar frases com algum palavrão e tudo o que eu nunca fui, mas sempre quis ser. A cerveja era barata e todo o resto caro demais. Ou talvez a única coisa que compensasse na vida fosse a cerveja e os amigos e falsas alegrias que ela nos traz. Dava pra ver o céu dali de dentro. Estrela nenhuma sobre a gente. Um beijo no rosto e ela foi viver a vida dela com alguém que fosse completamente o oposto de mim. Algo mais próximo do homem ideal, ou do ser humano ideal.&lt;br /&gt;Tocava Michael Jackson e Rage Against the Machine e mais algumas coisas que se fazem hoje em dia. E aquele negrão sujo ainda era superior a todo mundo. Eu pensava em milhares de coisas. Em ex-mulheres, antigas histórias, velhas risadas, lágrimas recentes demais, o amor da minha família e a falta de amor que eu tenho por mim mesmo. Mas tudo o que eu penso é lixo desde que eu nasci. Eu não valho a pena de forma alguma. Nem meus pensamentos mais lindos compensam. A música batia, eu me mexia de um jeito muito, mas muito estranho. Algumas pessoas olhavam e eu fingia não ligar, quando na verdade eu ligava até demais.&lt;br /&gt;A bebida seguia seu ritual de não fazer efeito algum por mais que eu bebesse e aquilo cada vez mais se manifestava como um imenso problema para meu convívio comigo mesmo e meu reflexo no espelho. Lixo egoísta, como diziam elas. Elas. Elas. Elas. Muitas delas ao meu redor. E eu sem coragem ou sem vontade alguma de falar alguma coisa. Cheiro de álcool, perfume, suor e boceta. Só mais uma noite normal num mundo que gira errado. Ou numa cidade que corre demais e acaba perdendo sua humanidade junto com seus milhões de almas irreparáveis por palavras ou qualquer outro gesto verdadeiro de carinho. Amor e amores correndo atrasados pro trabalho e o ônibus lotado de ódio demais. E minhas pernas velhas acusavam cansaço e eu precisava de uma cadeira mais uma cerveja barata e um pouco de espaço.&lt;br /&gt;Depois de um tempo, consegui. Encostei a cabeça pra trás e olhava pro céu. Ainda sem estrelas, nenhum sinal de vida lá em cima e, pensando bem, nem aqui embaixo. Um babaca esbarrou na minha cerveja e uma boa parte dela ficou pelo chão. Ele deu um sorriso sem graça, pediu desculpas, quis apertar minha mão. E tudo o que eu fiz foi apertar a mão dele de volta. Eu não era mais o mesmo. Aquela vontade toda, aquela necessidade em ser o mais forte, o mais ignorante, o mais homem. Aquilo tudo não existia mais ali. Eu só queria um pouco de humanidade, um cachorro, ficar bêbado novamente e aceitar o fato de que eu sou assim e ninguém gosta de quem é assim. Foi aí que eu ouvi mais uma vez. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Toc toc toc toc&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt; toc&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. Aquele barulho de novo, aquele cabelo preto e aquele sorriso branco.&lt;br /&gt;- Pra você se sentar do meu lado, sua noite deve estar &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;realmente &lt;/span&gt;um lixo.&lt;br /&gt;- Algo do tipo.&lt;br /&gt;- Me diz: por que chorar e gritar, sozinha, numa noite sem nenhum traço de esperança?&lt;br /&gt;- Me diz: por que você quer saber isso?&lt;br /&gt;- Quero medir o tamanho da minha besteira ao tirar você do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não me falou o motivo daquilo tudo, mas falamos sobre a vida e sobre Bukowski e a minha infeliz e mundialmente famosa literatura e mais algumas coisas que não faziam lá muito sentido, tipo amores perdidos, amor de mãe, amor de pai, amor de pau e todas as outras sensações que pudessem emanar de um coração tão perdido quanto o meu, o dela, o seu e o de Jesus Cristo em alma e carne e sangue. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito e do Santo e do Amém. Enfim, a conversa fluía de certa forma, embora eu nunca estivesse satisfeito com o que dizia. Tudo o que saía de dentro de mim parecia merda, parecia porra. E eu me esforçava demais pra corrigir isso e me complicava cada vez mais. Aquele não era eu. Esse não sou eu. E talvez você seja a única pessoa que saiba quem eu sou, mas você não me diria isso que eu sei. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Não faz isso com ele, tadinho&lt;/span&gt;. E aquele dó que todo mundo tem no olhar quando me vê.&lt;br /&gt;De qualquer forma, aquela inutilidade toda posta em prática me fez vê-la de outro jeito. Era como se ela tivesse me compreendido, ou ao menos tentado, ou ao menos cogitado. E na mesma velocidade em que eu tomei essa decisão ela se levantou e saiu de novo. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Toc toc toc toc&lt;/span&gt; pela noite e essa é a primeira vez que eu descrevo uma mulher andando sem usar a palavra rabo ou boceta ou tetas. Era um carinho diferente. Carinho de bonzinho, de babaquinha, de idiotinha. Eu vulnerável demais pro meu gosto. Eu sendo eu mesmo pela primeira vez em um bom tempo. Eu vivendo a vida. A vida de filho da puta.&lt;br /&gt;Tudo aconteceu quando eu fui procurá-la. Caçando uma pessoa só no meio daquela multidão de caras iguais e corpos que se mexem bem demais, porém demais. Bebendo e numa masturbação mental sobre o que dizer, como se comportar e todas as inseguranças que se abatem  sobre o homem a cada dia que ele acorda. Os olhos bem abertos, as pernas fracas e os joelhos teimosos. E ela já nas mãos de outro cara em algum canto qualquer. O paraíso dela, o meu inferno. E o gosto doce da frustração na minha boca me deixando bêbado. Saí de lá, ganhei as ruas mais uma vez e cambaleei até em casa. Dormi. Sonhei com meu avô. Foi lindo. Lindo demais pra mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2011/02/que-deus-me-proteja-do-inferno-que-se.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-6181525311318574322</guid><pubDate>Thu, 09 Dec 2010 17:54:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-12-09T19:49:48.075-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Anjos não existem.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E aí eu resolvi dirigir. Simplesmente tive o tal estalo. A tal luz divina. Epifania e o caralho a quatro. Desculpa de viciado em cogumelos que eu sei bem. Mas eu resolvi dirigir. Peguei meu Gol noventa e oito e sai por aí. Era um carro simpático. Nunca ganhei boceta nenhuma com ele, mas era simpático. Tinha cheiro de frango com boceta. Eu disse que não ganhei boceta nenhuma COM ele, mas ganhei algumas nele. Enfim, e lá tava eu nas ruas. De carro. Pelo incrível que pareça. Cruzei Rebouças, cruzei Faria Lima, cruzei Paulista. E porra nenhuma acontecia por ali. Umas mulheres desfilavam seus rabos entupidos de botox, uns engravatados corriam pra cá e pra lá. A gravata voando ao vento, sempre fingindo pressa. PRESSA, MUITA PRESSA. Pressa para voltar para o caralho do chefe e para a pica dura da mulher cansada de ser submissa. Promoção aos vinte e nove, demissão aos trinta e dois, suicídio aos trinta e três. Eu já escrevi sobre isso, vocês sabem.&lt;br /&gt;Enfim, era tudo  gente lixo. Paulista é tudo lixo. Carioca é tudo lixo. Você também é lixo, antes que eu me esqueça. E meu carro parecia cada vez mais inferior naquelas redondezas. Deus, como a riqueza é insuportável. Ela só funciona para quem a tem. O resto só sabe sonhar com ela, correr atrás dela. A riqueza é aquele sonho bom que nunca acontece. É aquela boceta cheirosa e impossível, como todas as outras. E aí eu fui baixando o nível e subindo minha vontade de respirar e me manter vivo. Usuários de crack, chupetas a dez reais, professoras de português, engraxates, alunos de teatro. O diabo em pessoa em cada sorriso já morto de cada esquina escura em plena tarde de segunda-feira. E eu escrevendo e sobrevivendo. Sobrevivendo, não vivendo, antes que eu me esqueça. A vida parece muito mais correta quando tudo ao seu redor é errado. Lindo de se ver. Eu abraço o demônio e Jesus Cristo ao mesmo tempo. Amigos de bar etc e tal.&lt;br /&gt;Eu dirigia com calma, apreciando a paisagem. Realmente muito devagar. Buzinavam atrás de mim e o mundo estava fechado ao meu redor. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;FILHO DE UM CARALHO&lt;/span&gt;, gritavam. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;PIIIII PIPIPIIIIII PIIIPIPIIIIII&lt;/span&gt;, eu quero mais é que eles se fodam. Sou eu e meu carro, meu carro e eu e todo o lixo aqui presente. Encostei e uma puta veio desfilando. Elas, sempre elas.&lt;br /&gt;- Oi, benzinho. Vamaê? - perguntou.&lt;br /&gt;- Hoje, não, babe. Hoje não quero escrever sobre vocês. Você sabe, eu falo muito de putas e punhetas. Ninguém gosta tanto de putas e punhetas assim. - concluí.&lt;br /&gt;- A punhetinha é dois real. Dois real a punhetinha.&lt;br /&gt;- Querida, minha linda querida, procure um adolescente, ok? Aquele abraço.&lt;br /&gt;Dei-lhe uma moeda e lá fui eu pelas ruas de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fazia a mínima ideia de onde estava e meu senso de direção continuava tão ruim quanto minha literatura. Mas enquanto as paredes brancas não fossem realmente brancas eu estaria bem. Me dou bem com os sujos (os realmente sujos). Só sei que eu não via um pobre coitado há um tempo. Mas eu sempre me senti bem sozinho, então tanto faz. O rádio tocava o lixo do lixo dos anos oitenta, o que fazia os anos noventa parecerem uma dádiva. E eu nem preciso dizer o quão ruim foram os anos noventa. E eu dirigia e até aí tudo bem.&lt;br /&gt;Foi aí que eu a vi. Eu tinha certeza que a havia visto. Pela graça de DEUS eu a vi. Cabelos loiros como o sorriso de uma criança inocente, pele branca como a do próprio Hitler, aquele judeu. Era um anjo, com toda a certeza. E a voz suave, mansa, me chamava para perto do seu seio, da sua graça. A única ideia correta naquele momento era ir de encontro a ela. Era abraça-la forte, na esperança de que aquilo tudo nunca se acabasse, a beleza nunca chegasse ao fim, e o amor nunca se transformasse em ódio. Algo impossível, no mundo de hoje, mas enfim. O fiz. E o monólogo mais estranho da minha vida começou. Você fala coisas inacreditáveis quando está com a pica dura.&lt;br /&gt;- Eu te amo. Eu simplesmente te amo. Eu não consigo ficar mais um dia da minha vida sem você. Cada segundo longe da sua boca é o pior segundo da minha vida. ME LEVE PARA O CÉU PELO AMOR DE DEUS. Eu quero escorregar para dentro de você. Eu quero DORMIR dentro de você. Caralho, você é a porra de um anjo. Eu tenho certeza disso. Você foi moldada pela porra do Michelangelo. Não. NÃO! Pela porra de Deus, aquele divino. Me leva, simplesmente me leva. Abra suas asas e me leva com você. Quer casar comigo, anjo da minha vida?&lt;br /&gt;- Cara... - meu anjo disse.&lt;br /&gt;- SIM, MINHA VIDA.&lt;br /&gt;- Você tá viajando.&lt;br /&gt;Entrei no carro e fui pra casa. O pau mais duro que pedra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/12/anjos-nao-existem.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-2981559156115512565</guid><pubDate>Tue, 16 Nov 2010 01:56:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-11-16T11:36:38.626-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Minha pica iluminada pelo luar.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu não me sentia um lixo há dias. O que era uma merda, uma vez que escrever estava se tornando cada vez mais difícil. E foi aí que eu descobri um dos meus pontos fracos era viver na miséria. Era na bosta que eu me sentia limpo e livre e completo e cidadão. Não há prosa em meio a alegria, não há narrativa em meio à euforia. Obviamente, esses são conceitos que só valem para a minha mente doentia, mas tudo bem. De qualquer forma, eu escutava músicas tristes antes de escrever. Vozes suaves, suicídios, música de macumba. Qualquer coisa que tornasse meu coração um lugar um pouco mais escuro faria efeito na hora de escrever, que, por sinal, começava tarde da madrugada, acabando poucos minutos depois. Eu escrevia da mesma forma que vivia: em pedaços.&lt;br /&gt;Mas, enfim, a ausência de tristeza prejudicava minha escrita, assim como a ausência de VIDA. O problema de passar meses sem sair da porra do sofá é que você esquece que tem um mundo lá fora. Esquece que existem outras pessoas, que existem diferentes línguas e, inclusive, um povo de olhos puxados que fala errado e suja as ruas. E o racismo extremo ainda é uma das melhores formas de chamar a atenção. Pois bem, eu precisava ficar bêbado e buscar alguma coisa passível de se transformar em história que vai se transformar em e-mails filhos da putamente educados de algum editor que toma pico na veia. E a música triste rolando. Ó, como a melancolia é linda. Amores frustrados são a única forma verdadeira de amor.&lt;br /&gt;Ignorei minhas reflexões acerca do amor e fui para as ruas. O sol queimava meus olhos. Eu sentia meus globos oculares em chamas. Respirar era pesado, doía. Cada tragada daquele ar de rua me tirava um pouco mais da vontade de viver. E a minha vontade de viver que nunca foi grande coisa. Resolvi encarar aquilo como o grande homem viril que sou. EU SOU VITO BEAUMONT E A PORRA DO SOL É SÓ UMA PORRA DE UMA ESTRELA QUE NÃO PODE BRILHAR MAIS DO QUE A MINHA PRÓPRIA PICA ILUMINADA PELO LUAR. Levei a cabeça o mais para trás possível, abri os olhos com todas as forças que minhas pálpebras eram capazes de suportar e fiquei ali. Sentindo a luz. Aquela forma de luz pura, branca, pálida. Invadindo minhas retinas como se aquela fosse a minha primeira vez. Doía. Ardia como um filho da puta. Mas eu encarei. Segui caminhando, com um infinito de pontos brancos a minha frente. E o mundo, subitamente, não parecia de todo mal.&lt;br /&gt;Passaram por mim uns seres estranhos. Em bando, obviamente. Falavam alto, com a boca pintada. Óculos escuros cobriam parte do rosto quase sempre. Não tinham graça alguma. Eram seres iguais. Um oceano de pernas que se movem ao mesmo tempo, cabelos penteados para o mesmo lado e outros fatores que não refletem personalidade alguma. Eu não via seres como aqueles há um bom tempo, mas sei que eles carregavam algo que me deixavam ouriçado. De rola dura, para ser sincero. Lembravam mulheres, mas talvez não fossem. Ou talvez fosse eu que não sabia distinguir mais nada além de dor e alegria. E eu soando cada vez mais clichê escrevendo tudo isso em uma madrugada quente, perdendo identidade, falando difícil. Agindo como ELES.&lt;br /&gt;Mas, enfim, muita coisa aconteceu nesse meio tempo. Uma puta de uma desconstrução do caralho. A começar pelo meu pau. Ele ardia como nunca. Sifilítico sem ter comido nenhuma boceta. Não me recordo exatamente a quantidade de punhetas que bati nesses meses, ou anos, ou espaço de tempo. E talvez seja hora de parar de escrever sobre punhetas e voltar a escrever sobre bocetas. Tudo o que eu preciso é de uma. Mas eu ainda estava na rua e não se arranja bocetas na rua a não ser que você pague. E eu não tinha dinheiro algum. Eu estou desempregado, vocês sabem. Ando comendo peixes que ganho em feiras de animais. Eles vão morrer mesmo, nascem predestinados a isso. Naqueles sacos plásticos com um pouco de água. Fritam maravilhosamente bem na frigideira. E rendem algumas boas refeições. Chupo-os até a espinha, no mesmo ritmo em que Mirisola fode-os no cu. Incrível.&lt;br /&gt;E eu andava pelas ruas sem dinheiro. Não conseguia mais pagar para ficar bêbado então eu juntava uns trocados e comprava álcool nos postos de gasolina. E era só um gole me distanciando entre as maravilhas de se estar bêbado e o inferno de se estar doente. Eu procurava ficar no meio-termo, mas caía para o inferno, nunca para o paraíso. A vida segue, after all. Andava mais um pouco e mais um pouco. Sentindo o calor. A vontade. A falta. E tinha uma mulher incrível parada por ali. Tão inocente quanto um anjo incapaz de voar. Parei para ver se ainda sabia como me comunicar.&lt;br /&gt;- Uga buga, sua puta. – disse eu.&lt;br /&gt;- Cara, você é louco. – falou ela.&lt;br /&gt;- Ao menos rimou, não é?&lt;br /&gt;E foi nessa hora que eu consegui extrair um sorriso dela. Dentes brancos.&lt;br /&gt;- Pois é.&lt;br /&gt;- Eu moro aqui e nunca te vi. Me explica como isso aconteceu?&lt;br /&gt;- Pois é. Sou nova. Comecei hoje.&lt;br /&gt;- E você me chama de louco?&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;- Eu acertei que você era uma puta. O que você tem a dizer sobre isso?&lt;br /&gt;- Eu digo que é cinquenta reais a hora.&lt;br /&gt;- CINQUENTA?!?!&lt;br /&gt;- Dez a chupeta.&lt;br /&gt;- DEZ!?!!?!?!?!?!?&lt;br /&gt;- O que foi? Tá barato, eu preciso ganhar a clientela.&lt;br /&gt;- Concordo.&lt;br /&gt;- Então?&lt;br /&gt;- Pois é.&lt;br /&gt;- E aí?&lt;br /&gt;- Não tenho dinheiro nenhum, topa?&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;br /&gt;- Não. Eu vou TE foder.&lt;br /&gt;E foi assim que eu ganhei a puta e o meu dia.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/11/minha-pica-iluminada-pelo-luar.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-3642495898986425490</guid><pubDate>Fri, 20 Aug 2010 22:35:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-20T19:45:33.277-03:00</atom:updated><title>Conselho.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A sociedade funciona mais ou menos assim: faça as pessoas gostarem de você. Foda-se como você o fará, mas faça. Arranjar uma boa boceta é bom, traz status. Mas, como provavelmente ela vai se cansar de você após alguns meses, não deposite suas esperanças na boceta. Aliás, não deposite nada, além do seu próprio caralho, em qualquer boceta. Elas são sugadoras de sonhos e esperança. Mas eu escrevo demais sobre bocetas, vocês sabem, então não considerem isso. Enfim. Ser gordo ajuda. Ser gordo ajuda porque assim fica mais fácil se auto depreciar. Se odiar. Querer a morte. E as pessoas gostam de pessoas que sabem &quot;rir&quot; de si mesmos. Ao falarem isso pra você saiba que ali mora um sádico. Naquele monte de merda depositada a sua frente, mora um filho da puta. Um carcereiro das coisas boas da vida. Por sinal, as coisas boas da vida são boas somente pra você. Aos olhos do mundo, O MUNDO CORRETO, O MUNDO PURO, as coisas boas da vida são as coisas erradas da vida. E isso, é Deus falando. E como Deus provavelmente sabe muito mais do que você sobre a vida, é melhor considerar. Deus será um cara legal enquanto você for um cara legal. Agora, experimente meter, cheirar, beber, fumar, dormir demais, não rezar todos os dias, usar seu dinheiro com coisas realmente úteis, falar demais, olhar para um rabo gostoso, espancar sua mulher etc. e sinta toda a fúria de Deus sobre o seu couro. Dilacerando o seu couro e deixando você com nada. Nada além da dor. E esse, meus amigos, é o meu conselho para vocês.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/08/conselho.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-2883774217670618977</guid><pubDate>Fri, 06 Aug 2010 20:19:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-08-16T17:33:25.229-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Poesia é chato pra caralho.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O dia já começou sem necessidade. O céu mais sem vida que a minha alma, o sol mais envergonhado que minhas ex-mulheres. Foderam com a vida dela no dia em que foderam comigo. Meu pau é um destruidor de bocetas. Um destruidor de sonhos. E eu me orgulho disso. O que me resta de orgulho é isso. A vida vazia e a maneira errada que eu tenho de lidar com ela. Quando sua vida é um branco sem fim, o negócio é aceitar e deixar o nada te engolir, começando pelo seu coração. Mas eu não. Eu, o grande Vito Beaumont, desempregado e virgem, não. Eu busco uma maneira de dar sentido à minha vida. Passo o dia bebendo, batendo punheta e me arrastando pelos cantos. Vomito também. Vomito bastante, tentando me convencer de que isso é melhor do que nada. O  nada e toda sua relatividade do caralho. Eu escrevo sobre o nada, me alimento do nada e escuto o nada conversando comigo todas as noites. É quase um monólogo. Ele fala sozinho e eu escuto e obedeço e penso &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Caralho, isso é genial. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;&lt;/span&gt;E eu sou um filho da puta. Leio bastante E. E Cummings, também. É, isso mesmo. E. E. Cummings. É uma bosta, mas eu sigo lendo. Página após página, decepção após decepção. Poesia é a música dos fracassados. Dos que se autointitulam bons demais para escrever algo que não busque um sentido só na cabeça do próprio autor. Vocês sabem, todo poeta escreve com o único propósito de comer bocetas tolas e, supostamente, sensíveis. Expressar a dor e os sentimentos é a puta que pariu. É a boceta da santíssima mãe deles. Vocês sabem, poetas sempre têm aquela conversa de que a poesia é que os mantém vivos. De que se não fosse as palavras e todo o poder terapêutico e inútil delas eles não estariam mais aqui, nessa porra dessa Terra de merda. O grande caralho. Quem faz isso por eles é a metanfetamina. Crystal meth, filho da puta. Cheirei uma carreira de cocaína e me lembrei da última vez em que topei com um poeta. Era um bar como todos os outros. Não era sujo como Bukowski gosta de descrever todo santo bar em que ele já esteve na vida. Era só um bar. Tinha bêbados, mendigos, casais, putas e gordas com pouca roupa. Um bar de cidade pequena. O hábitat natural daqueles que não são porra nenhuma. O paraíso dos que querem ser mas nunca serão. A boceta da santíssima mãe deles, eu já disse.&lt;br /&gt;Eu estava lá, bebendo e não fazendo nada além disso. Eu já me encaminhava para o lixo que sou hoje. Eu estava lá, bebendo. E aí veio o poetinha. Pediu uma dose de martíni ou algo do tipo. Um daqueles drinks que vinha numa taça especial, com algum ingrediente secreto. Como se ele fosse melhor que todo mundo ali para beber em uma porra de um copo como todos os outros. Enfim, ele tomou aquele drink num gole só e olhou para mim com o canto dos olhos. Os olhos deles diziam &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Olha só como eu bebo. Eu pareço frágil por ser inteligente, mas por dentro sou um rio de dor que só se alivia bebendo dessa maneira autoafirmativa.&lt;/span&gt; Tudo isso naqueles olhos fundos e escuros. Eu realmente me incomodei, mas depois me senti aliviado. Antes ele falar com os olhos do que abrir a boca pra dizer algo. Ele pediu mais um ou dois drinks metidos, sempre repetindo o mesmo processo e dizendo as mesmas coisas. Eu bebia cerveja barata e lembrava da maneira nada romântica com que Hemingway deu fim na própria vida. Porra, espingarda na cara. É violento pra caralho. Realmente, o peso de ganhar (bem) a vida não fazendo nada além de escrever de pé deve ser insuportável. Todos têm a vida melhor que a minha. Eu gosto de imaginar o mundo assim para poder ter dó de mim mesmo à vontade. E foi aí que eu não gostei mais daquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Eu vou beber o que ele beber&lt;/span&gt;, disse o poetinha. O garçom atendeu prontamente, sem imaginar o erro que estava cometendo. Ele deu um gole no copo igual ao meu e a de todos os outros e se esforçou ao máximo para não demonstrar repulsa. Uma lágrima escorreu e eu sorri. Segui com minha cerveja e meu Hemingway com suas dezessete virgens aguardando por ele no paraíso. O presente dos desertores. A vida e seu regime militar.&lt;br /&gt;- Você é escritor, não é? - perguntou o poetinha.&lt;br /&gt;- Não. Sou só infeliz mesmo.&lt;br /&gt;- Um dos malditos, não é?&lt;br /&gt;- Não. Sou só sem talento mesmo.&lt;br /&gt;- Eu sabia. Escritores malditos deixam transparecer. Ó, doce ironia. Quanto mais tentam se esconder dos muros da sociedade e da verdade da humanidade, deixam transparecer a única e mais real das verdades. A escondida dentro de cada um.&lt;br /&gt;- Tá beleza.&lt;br /&gt;- De que lado você está? Um apaixonado como John Fante? Um rebelde como Charles Bukowski? Um lisérgico como Jack Kerouac?&lt;br /&gt;- Eu?! EU?! EU ESTOU DO LADO DA VERDADE. EU SOU A VERDADE PERMANENTE E DEFINITIVA.&lt;br /&gt;- Finalmente! Emoção de verdade! Isso é lindo! isso é o que você é! QUE COISA LINDA!&lt;br /&gt;- VOCÊ DUVIDA DA MINHA VERDADE? VOCÊ DUVIDA DO QUE EU TE DIGO?&lt;br /&gt;- MAIS! EU QUERO MAIS BELEZA!&lt;br /&gt;- VOCÊ DUVIDA, HÃN?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei meu pé em sua cara. Ele foi ao chão mais rápido que um negro sendo expulso de um ônibus há umas décadas atrás. Foi lindo. Ele chorava de emoção e seus olhos escuros oscilavam entre o encatamento e o pavor. Enfiei minha garrafa no meio de sua testa. Ela se abriu e a garrafa se partiu. Sentei em cima do seu peito e me dediquei única e exclusivamente a causar o máximo de danos possíveis naquele rostinho poético. A garrafa ia para cima, o sangue voava para baixo. A garrafa ia para baixo, o sangue voava para cima. E assim por diante. Soquei seu nariz até nao sentir mais nenhum osso inteiro por ali. Me levantei, cuspi em sua cara e mijei em seguida. Sangue, cuspe e mijo. Anteriormente, isso era um rosto. Deixei uns trocados no balcão, pedi outra cerveja e saí pela porta, aliviado por ter feito uma boa ação por aquele jovem aspirante a artista. Aquilo era poesia pura.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/08/poesia.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-293693096481977948</guid><pubDate>Sun, 27 Jun 2010 04:08:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-06-27T01:09:29.015-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Tudo o que eu não devia escrever.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Passei o dia fazendo absolutamente nada da vida. Passei o dia lutando para alargar o buraco no qual eu me enfiei há muito tempo e do qual eu não tinha a mínima intenção de sair. Bati aproximadamente quatro punhetas, cheirei cocaína e assisti a filmes de terror dos anos quarenta. E, por mais que tentem convencer você do contrário, eles são uma verdadeira bosta. Vocês sabem, quase não existem bocetas neles. E a única coisa que os velhos sabem fazer é mijar, cagar e rezar para que alguma divindade a vinte reais a hora consiga levantar aquela pica murcha sem que isso resulte em um infarto ou um AVC. Aí o telefone tocou. Do outro lado da linha, o mundo real.&lt;br /&gt;- Vito?&lt;br /&gt;- Não. Aqui não é o Vito.&lt;br /&gt;- Quem tá falando, então?&lt;br /&gt;- O que restou dele.&lt;br /&gt;- Eu posso deixar um recado?&lt;br /&gt;- Você que sabe. Eu duvido que ele receba.&lt;br /&gt;- Avise a ele que ele está demitido, ok?&lt;br /&gt;- Pode ser. Eu falei com quem?&lt;br /&gt;- A porra do chefe dele.&lt;br /&gt;- Eu sei. Senti o cheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora eu não tinha mais emprego, mas não dava a mínima para isso. Embora eu fosse realmente bom no que eu fazia, eu me sentia melhor no meu lugar, no meu buraco. Ao menos até eu morrer de fome, ou algo do tipo. Era a desculpa perfeita para passar o resto do dia no sofá, tentando continuar assim. Eu convivia com a infelicidade e a miséria há tanto tempo que a única maneira de eu me sentir bem comigo mesmo é quando eu me sentia mal, da mesma forma que as coisas só pareciam certas quando estava tudo errado. Era a vida que Deus tinha para me oferecer, aquele grande brincalhão. Sorri ao relembrar da ligação, fiquei puto por isso e resolvi escrever minhas merdas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Que tal falarmos hoje das mulheres? Sim, as mulheres, aquelas desgraçadas. Vocês sabem, elas já saem da maternidade premeditadas ao inferno. À filha da putisse. Mulheres, essas vagabundas. Elas são especialistas. Sabem como ninguém como entrar em você. Pois é. Você acha que é você que entra nelas, quando, na verdade, quem entra em quem são elas. Elas entram no seu coração, sugam tudo o que você tem de melhor e depois acham outra pica para sentar e ter orgasmos múltiplos. Aquelas vadias. Elas sugam o seu melhor, sugam a sua capacidade de ser um ser humano admirável. Tornam-se pessoas melhores, pessoas decentes, pessoas comíveis. E acham outra pica que as queira. Por mais que você a queira, elas não querem mais você. O seu melhor já está com elas, a missão delas já está cumprida. Elas agora querem algo diferente. Querem um caipira, um fazendeiro filho da puta dono de umas fazendas, um lixo da humanidade. Elas querem outra pica, outro coração infeliz, outra coisa que possa encher aquela porra daquela boca de porra. Porra. Caralho. Filhas de uma puta. Vocês sabem, as mulheres são uma necessidade. Deus, aquele grande cheirador de cocaína nos criou com uma rôla com o único pretexto de se divertir às nossas custas. De enxergar-nos, do seu trono e das suas virgens divinas, enquanto nós choramos, nos humilhamos, perdemos nossa cabeça, nossa identidade, em nome da boceta, aquele buraco causador de desgraça e inferno. Coma uma boceta e veja sua vida se tornar um grande inferno. Coma uma boceta e acabe em um relacionamento de quatro anos que vai te levar a horas de psicanálise e meses de abstinência sexual. Vocês sabem, eu estou chorando. Chorando e lembrando da minha menina. Agora ela senta em outra pica. Um fazendeiro, ou algo do tipo. E eu bato punhetas com a mesma velocidade que ela tem orgasmos na pica do fazendeiro. Dadôra de bunda. Vocês sabem, eu esmurro minha porta e chuto meu armário. Não resta mais nada no meu quarto, não resta mais nada no meu coração, não resta mais nada na minha alma. Vocês sabem, eu entendo perfeitamente as causas de crimes passionais. O coração sempre fala muito mais alto que o bom senso. O coração, essa grande bomba de bosta que irriga seu corpo com ódio, amor, ódio, amor, ódio, amor. Eu estou apaixonado, ela não. Eu sinto falta do seu toque, dos seus cabelos ruivos, das suas frustrações, das suas fraquezas. Sinto falta de fazê-la uma pessoa melhor, mesmo que seja para que ela cavalgue outro caralho. Balançando aquelas tetas deliciosas e pedindo desesperadamente para que o fazendeiro as chupe. Ela me pede favores e eu atendo prontamente. E esses favores resultam em sentadas e chupadas e orgasmos no cara. Eu preparando-a para outro. Ela está gostosa, não é? Imagino. Foi eu quem fez. E eu bato punheta e choro e saio todas as noites para beber num bar que fica a cinco quilômetros de casa. Vocês sabem, quem escreve aqui sou eu mesmo. Victor. Ou Vito. Vocês sabem. Eu não sei. Vocês sabem. A vida de filho da puta. E isso é tudo. Tudo o que eu não devia escrever.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/06/tudo-o-que-eu-nao-devia-escrever.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-4732422688086250240</guid><pubDate>Mon, 14 Jun 2010 05:17:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-06-14T02:27:21.822-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>A vida de filho da puta.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Começou como um erro. É assim que Bukowski começa o seu primeiro romance. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Cartas na Rua&lt;/span&gt;, e é mais genial do que qualquer coisa que eu posso escrever na minha vida. Meu livro tinha umas vinte e sete páginas há vinte e sete dias. Ou meses. E tudo era uma merda. O pior dos piores não limparia o cu com aquelas páginas. E eu aqui cogitando a possibilidade de inserir a palavra &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;merda&lt;/span&gt; no meio do título. Merda.&lt;br /&gt;Começou como um erro. Esse aqui sou eu, deitado no meu sofá há dois dias. Esse aqui sou eu, fedendo a vômito. E essa aqui é a minha sala, também fedendo a vômito. Passei mal depois de anos, passei mal depois de umas simples cervejas. Fraco. Foi ontem, ou antes de ontem. Eu não sei mais diferenciar o dia da noite uma vez que a minha vida não passa de trevas. O inferno do filho da puta. Mefistófeles me chamando para sentar na pica dele.&lt;br /&gt;- Vem, Vito, vem.&lt;br /&gt;- Nem rola, Mefistófeles.&lt;br /&gt;- Porra, você sabe que você quer.&lt;br /&gt;- Ainda não, Mefistófeles, eu preciso disso aqui um pouco mais.&lt;br /&gt;E eu ficando mais um tempo por aqui, na mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou como um erro, vocês sabem. Eu não sei o que se passava na minha cabeça naquele dia. Aquele dia em que eu acreditei que &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;realmente &lt;/span&gt;pudesse viver sem ela. Aquele dia em que eu acreditei que &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;realmente &lt;/span&gt;tinha uma vida própria. Algo além de mim, meu umbigo e toda a sujeira que eu varro pra debaixo do tapete. Eu só sei que fiz o que fiz. Tem alguns anos atrás. E, coincidência ou não, foi a partir dali que as coisas começaram a dar errado pra mim. E Mefistófeles começou a me chamar para a pica dele. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;CALMA AÍ, MEFISTÓFELES, PORRA. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Coincidência é o caralho. Coincidência é aquilo que as pessoas usam para justificar aquele trombão no meio da rua, numa terça-feira de chuva, que acabou em casamento. É só isso. A desculpa dos fracos e dos descrentes. É o que sustenta os ateus e todos aqueles caras que se acham mais inteligentes e mais interessantes por não acreditarem na existência de um cara de turbante barbado que dá ordens com aquele grande dedo branco fodedor de virgens. Deus é um cara gente fina, vocês sabem. Jesus é vacilão. Deus é gente fina. Tal pai, tal filho é a boceta da Madre Teresa.&lt;br /&gt;Eu só sei que tinha anos que eu não vivia. Que eu não brilhava. Eu me alimentando da escuridão e dos que se acham suficientemente corajosos para encará-la. Essa grande brincadeira chamada vida. Eu continuava deitado no sofá, na mesma posição há uns dois ou três dias, coçando meus bagos e passando mal pela sétima vez. O vômito já seco no canto do meu apartamento e o cheiro que nunca passa. E eu ainda tinha um emprego. E amigos. E eu continuava me enganando. As lágrimas começaram a escorrer. Eram dias daquela mesma situação. As lágrimas sempre vinham sem ser convidadas. E ficavam. As malditas ficavam.&lt;br /&gt;Eu chorava e socava tudo o que pudesse se partir e me causar dor. A punição dos fortes. A porta do armário em frangalhos, da mesma forma que meu coração e meus mais de vinte ossos em cada mão. E esse aqui sou eu, chutando a privada. E esse aqui sou eu, mostrando uma foto de mim mesmo chutando a privada para meus filhos.&lt;br /&gt;- Porra, pai, que grande babaca você foi.&lt;br /&gt;- Não fala assim, Vitinho. Eu não fui. Eu sou.&lt;br /&gt;- Cadê a mamãe, papai?&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;- Como assim, papai? Sinto falta da mamãe.&lt;br /&gt;- Eu disse que eu sou um babaca, não disse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ver era só isso que eu queria. Uma mãe para meus filhos. A mulher da minha vida de volta. A única coisa que me fazia ser alguém feliz por alguns minutos, antes que eu me tornasse um estúpido movido pela minha pica e por minha falta de tato para lidar com o amor. O amor incondicional. Aquela coisinha que corta sua visão e enche seu coração de vida. Aquela coisinha que deixa a vida melhor, e pior, e melhor, e pior. Aquela coisinha que me fez levantar depois de dois dias de sofá, vômito e lágrimas. Fui até o meu quarto, peguei um lápis, voltei para a sala e para minha parede. E eu precisando desesperadamente da minha ex-mulher. O nome dela é Lia e eu acho que vinha alguma coisa antes. Tipo Mary, Maria, ou Beatriz. Algo assim. E, pensando bem, vai ver que é por isso que hoje eu estou sozinho, precisando dela da mesma forma que um cachorro precisa desabotoar aquela ponta vermelha no meio das quatro patas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;O amor. Essa porra chamada amor. Quem aqui sabe o que é amor, porra? ALGUÉM AQUI AMA? Onde está seu Deus agora? Amamos de tudo um pouco. Protetor solar, bocetas, paredes, livros. Amamos até a nós mesmos, de vez em quando (como alguém tem a capacidade de se amar, sem estar batendo uma bela punheta?). Se eu alimentasse a mesma habilidade para amar que eu tenho para bater punhetas eu estava feito. Eu juro por tudo o que há de mais sagrado: eu tento amar. Eu me esforço. Meu coração se contorce, implorando por um pouco disso. Por um pouco de calor. Nada que venha de uma vagina, por mais quente e agradável que ela seja. Um pouco de calor que vem lá do fundo do coração. Que rasga as artérias e ventrículos no meio. Que sobe pela porra do seu estômago e faz você vomitar de paixão. E a gente olha pro chão e pensa na vida, e pensa na morte, e pensa em amar. A gente num diálogo insistente e entorpecente com nós mesmos, nos convencendo de que as coisas são assim. De que precisamos abrir mão de algo para vivermos em comunidade. Para vivermos com uma porra de uma mulher. A mulher, vocês sabem. As fêmeas, que têm aquele negócio chamado BOCETÃO. E essa é a quinta ou sexta vez que a palavra boceta aparece por aqui. E isso significa que eu não vou navegar em uma boceta pelos próximos meses. Um velho barbudo do caralho fino disse uma vez que navegar era preciso. E eu não faço a mínima ideia do que ele quis dizer com isso. O que eu sei, meus caros amigos, lambedores de piroca e adoradores de paredes, É QUE EU PRECISO DE UM BOCETÃO NA MINHA CARA. Vocês sabem, aqueles lábios grandes e duros, com o meu nariz no meio deles, dividindo-os e abrindo caminho para um outro mundo. Um lugar onde só existe o gozo, o êxtase. Cocaína é como boceta, vocês sabem. A diferença é que, se você exagera em uma, o seu nariz sangra, na outra é o seu coração.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava ficando bom nisso. Nessa história de escrever com o coração, com o sentimento, com a dor. De deixar meu instinto ser o meu guia e mover minha mão para cima e para baixo, formando letras e poesia e beleza literária. E eu não via a hora de ser convidado para algum evento cheio de bocetinhas metidas a intelectuais, de sentar numa mesa, segurar um microfone, ouvir perguntas como &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Você teve a ideia de colocar a palavra, abre aspas, merda, fecha aspas, no título do seu livro para ir contra as imposições do governo acerca da liberdade de expressão dos novos grandes artistas brasileiros? E Bukowski? O que ele significa para você e como os, abre aspas, malditos, fecha aspas, influenciam o seu processo de criação literária?&lt;/span&gt; e responder com algo como &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Eu bato cinco punhetas por dia&lt;/span&gt;. Ah, a vida boa. A vida de filho da puta. E agora eu precisava de um processo de criação literária. E agora eu precisava cheirar cocaína. Desci as escadas e fui viver.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/06/comecou-como-um-erro.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-8146388713781410703</guid><pubDate>Wed, 26 May 2010 03:26:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-05-26T00:32:45.530-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>A (falta de) carinho na minha vida.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu e a madrugada, a madrugada e eu. O céu totalmente preto e minha vida iluminada por uma porra de uma Philips quarenta watts. O meu cu doendo pelos motivos certos. Eu cagava com certa e dolorida frequência já há dias. Eu precisando de uma mulher desesperadamente. Não necessariamente de uma boceta, de uma mulher. Eu sempre me enganando, dizendo não para a realidade, &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Eu não preciso de vocês, eu sou um cara do caralho&lt;/span&gt;, dizendo. E a realidade cuspindo na minha cara um muco com cheiro de lubrificação vaginal. O resumo da minha vida, meus amigos. O resumo da minha existência.&lt;br /&gt;Minha ex-mulher continuava sendo minha ex-mulher. Eu lia Mirisola e Fante. Mirisola lambia azulejos e frequentava o quartinho da empregada, Fante alucinadamente apaixonado com a pica dentro da cueca. O filho morrendo e Bandini esperando a primavera. E nenhuma das ideias me era interessante. O trabalho a mesma merda de sempre. A vida de filho da puta. Eu marcava encontros atrás de encontros, discava no telefone com a mesma velocidade da minha primeira gozada. Coisa de segundos. E nenhuma das mulheres me era interessante. Eu tentando me manter forte. Eu me dando o direito de selecionar.&lt;br /&gt;Os encontros duravam a mesma coisa que a minha habilidade na hora de discar ou a minha inabilidade para bater punhetas.&lt;br /&gt;- Alô?&lt;br /&gt;- Quem fala?&lt;br /&gt;- É o Vito.&lt;br /&gt;- Que Vito?&lt;br /&gt;- Quer sair?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;E o silêncio. E isso era um encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me acostumava com o fracasso, me tornava ainda mais íntimo dele. Eu mandava ele se foder, lamber o cu da mãe e coisas desse calibre, mas ele insistia em manter contato. Insistente, esse tal fracasso. Eu pulava de bar em bar, sempre repetindo o processo. Buscar distância da multidão, beber o suficiente para sorrir, ficar imóvel, esperar as fêmeas se aproximarem. O processo sempre fluía até a quarta etapa. Ali empacava e ali ficava. Até o amanhecer, a dor e as lágrimas chegarem. O sofrimento como companhia. Eu chegando no bar e saudando o garçom. A estranha intimidade de novo.&lt;br /&gt;Eu e a madrugada, a madrugada e eu. Passava das três da manhã e o processo ia fluindo naturalmente. Perdi um tempo a mais na segunda etapa, mas tudo estava indo de acordo com o planejado por Deus ou qualquer outro cara barbudo de turbante que criou as &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;leis &lt;/span&gt;do homem e da humanidade e das outras pessoas que acompanham esses dois. O tal homem e a tal humanidade, inimigos até os ossos e o seu cálcio que revigora qualquer um.&lt;br /&gt;A dor já havia chegado, o banheiro já havia sido utilizado. Só faltava as lágrimas chegarem para a festa. A FESTA DA LAMÚRIA. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Beije-me, dor. Eu te quero, eu te desejo muito&lt;/span&gt;, eu dizia comigo mesmo, me divertindo com minha infelicidade. Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia, que considerava tudo uma porra de um paradoxo.&lt;br /&gt;- Professor, eu tô com um problema, sabe? – eu disse, certa vez.&lt;br /&gt;- Diga, Vito. Abra-se. – ele era viado.&lt;br /&gt;- Eu quero mais boquetes, mas minha namorada insiste em me beijar depois dos boquetes. EU NÃO QUERO GOSTO DE PICA NA MINHA CARA, EU QUERO BOQUETES. E agora?&lt;br /&gt;- Um paradoxo e tanto, diria o meu professor de filosofia. – ele respondia.&lt;br /&gt;Eu sempre aguardava uma conclusão, mas ela nunca veio. E ele saía, procurando algum calouro para chupar e um veterano para colocar o dedo no rabo dele. E eu até hoje não sei o que significa paradoxo, embora vivesse um nesse momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pensava na vida e sentia a porra do Nilo se agitando atrás dos meus olhos. A crueldade da realidade sempre surtia esse efeito em mim. Ao menos desde que decidi me afundar na própria merda. A garganta cheia de bosta. E logo estaria tudo pronto e eu liberado para a minha casa e a minha parede mais bela de todas. Fante tinha um braço, eu tenho uma parede. E uma pica, obviamente. Uma bela pica. Pedi uma garrafa do pior vinho da casa para viagem, já prevendo o meu futuro e o futuro dessa madrugada do dia que eu não sei qual é. E ela parando do meu lado.&lt;br /&gt;Cabelos castanhos, olhos finos e o sorriso mais divertido da minha vida tragicômica. A beleza do resto acompanhando a beleza do sorriso. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Convide-me para a sua casa ou saia de perto de mim&lt;/span&gt;, eu disse. Ela puxou minha mão e me guiou até seu lugar, que ficava há umas três ou quatro ou cinco quadras dali. Nenhuma palavra no caminho. A mulher perfeita. A boceta a ser fodida, embora eu sentisse falta só de uma mulher mesmo.&lt;br /&gt;Eu gosto de noites sem destino certo. A incerteza sempre foi minha grande paixão. Entramos em sua casa e tudo parecia de brinquedo. O sofá, a televisão, a geladeira. Tudo parecia de plástico, tudo parecia inflamável. E a minha cueca já apertada. Eu não sabia brincar e tinha minhas próprias necessidades. Desculpe, benzinho. Ela foi até a cozinha e trouxe um pouco de cerveja num copinho de brincar de casinha. Eu agradeci, tomei num gole só e depois me dediquei a acariciar o seu rosto com todo o cuidado do mundo. Os dedos passeando pela pele suave, ela sorrindo e eu apaixonado.&lt;br /&gt;Ficamos nessa por uns minutos. Os dedos, as bochechas, os toques. Tudo lindo. O meu coração aquecido, a sensação da vida lutando para manter sua natureza. Eu me tornava cada vez melhor em descrever sensações e cada vez pior em descrever aparências. Sinal de que as coisas não iam bem para mim. Eu me tornando um ser humano melhor e bondoso e vendo aquela porra que realmente importa guardada dentro das pessoas, junto com os órgãos, os fluídos e toda aquela merda. Eu indo pro céu, beijando a cara de Cristo. Eu um cidadão do bem. Eu pagando meus impostos e indo buscar uma criança gordinha e fofinha na escola, meu filho. Eu me suicidando aos trinta e três.&lt;br /&gt;Ela fechou os olhos e se entregou encarecidamente aos meus cuidados miseráveis. Tudo lindo. E eu ainda não sabia o nome da minha princesa, mas a apelidei de princesa.&lt;br /&gt;- Princesa, eu te amo, princesa.&lt;br /&gt;O silêncio e os olhos fechados.&lt;br /&gt;- Princesa, eu não preciso de mais nada quando estou com você, princesa.&lt;br /&gt;O silêncio e o corpo quente.&lt;br /&gt;- Princesa, eu quero fazer amorzinho gostosinho com você, princesa.&lt;br /&gt;O silêncio e o suicídio aos trinta e três.&lt;br /&gt;- Princesa, tira essa porra dessa roupa, princesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A campainha tocou, ela abriu aqueles olhos miúdos e, num pulo, deixou meu colo e todo o meu amor inconveniente e incondicional. O corpo quente tremendo de alegria. E eu lá sentado esperando e pensando &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Essa agora?&lt;/span&gt;. A cabeça jogada pra trás e a mão na testa, refletindo sobre o quão ruim minha noite terminaria, ou começaria. As coisas andavam estranhas, confesso, e eu já não sabia mais o que esperar das surpresas. Das surpresas da vida. Aquelas coisinhas que fazem você achar que ainda vale a pena levantar de dia e deitar de noite. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.&lt;br /&gt;A porta abriu e um cara entrou. O cabelo caído nos olhos, o andar arrastado. Camisa de flanela, bermuda anos noventa do Palmeiras, chinelo de dedo. A voz doce, de criança ainda. Os braços finos, sem pelos, de criança ainda. Não cumprimentou, só passou, devagarzinho, pra cozinha. Abriu uma caixa de suco de laranja de criança ainda e tomou no gargalo. Ela olhou pra mim, mostrou aqueles dentes simpáticos e foi pro outro sofá. Ele foi e sentou-se do lado. A mão nos cabelos castanhos, a boca cada vez mais próxima, as pernas se relando em sinal de carinho e aceitação. Ela na dele. Ele na dela. Aquelas coisinhas que fazem a sua barriga gelar como se você estivesse apaixonado. Porra nenhuma.&lt;br /&gt;Levantei, mijei na planta e saí. O silêncio e a juventude.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/05/falta-de-carinho-na-minha-vida.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-223021746288957257</guid><pubDate>Mon, 24 May 2010 04:31:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-05-24T01:33:39.734-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>A (falta de) boceta na minha vida.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Eu admirava a minha parede e a poesia era a coisa mais bela na minha vida, naquele momento. Me lembrei de quando vi a morte agindo, naquela tarde estranha há sei lá quanto tempo. O tempo passa rápido quando você está na mesma merda. Jack ainda não falava direito comigo, e eu não era idolatrado há uns bons meses. E a única coisa que me mantinha distante disso tudo era a preguiça. Eu abraçava a letargia, mordia-a bem no meio da espinha, colocando toda a força do mundo nos meus maxilares. Mas eu era isso mesmo. Eu era essa massa imóvel e ignóbil, e nem fodendo que eu iria mudar agora, há essa altura do campeonato, não tão longe da morte assim. Que ela venha, eu não tenho medo de caralho encapuzado nenhum.&lt;br /&gt;Mas eu me sentia só. No fundo, no lugar onde guardo os sentimentos mais imbecis, como compaixão, eu me sentia só. A solidão apertava meu peito ao mesmo tempo em que eu apertava minhas bolas, desejando uma boceta nova. Minha ex-mulher não lembrava de mim há um bom tempo e eu não tinha confiança para, simplesmente, buscar alguma boceta em algum lugar. Conseguir mulher é uma coisa, boceta é outra coisa. Abri uma garrafa de vodka e liguei no canal pornô. Um negro imenso enfiava tudo o que tinha em uma japonesinha. Peitos miúdos, olhinhos apertados, uma rôla gigantesca e lágrimas. E eu só conseguia pensar na mãe daqueles olhinhos apertados.&lt;br /&gt;Desliguei e me senti enjoado. Meu estômago se revirava em sinal de repulsa. A mãe daqueles olhos, agora cobertos de porra, não saía do meu alcance. E respirar doía e eu preferia estar morto a estar excitado. Corri para o banheiro e bati uma punheta com a porta aberta. Ao fim, soquei meu estômago quatro vezes, com toda a força que minhas mãos conseguiram conter. O impacto me fez vomitar, mas nada saía. Água, um pouco de bolachas e sangue. Quando você não tem nada para vomitar, o seu corpo leva um pouco do seu sangue mesmo. É como se ele dissesse &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Você ainda tem bastante dessa merda, foda-se você&lt;/span&gt;, enquanto exalava aquilo que mantém você vivo. Eu estava, oficialmente, no fundo do poço.&lt;br /&gt;Era domingo e eu não tinha porra nenhuma para fazer. Cogitei comprar um cachorro mas desisti assim que lembrei do meu primeiro animal de estimação. Era um coelho, e eu tinha sete anos. Lembrei do momento em que decidi abri-lo ao meio com uma faca, tirando o coraçãozinho, o pulmãozinho e todos aqueles outros órgãos tão pequenininhos. Lembrei que, logo em seguida, plantei-o nos fundos de casa. E reguei. E reguei. E reguei. Por três meses eu reguei o meu coelhinho todos os dias. Mas a minha árvore de coelhos nunca veio. E, hoje, isso me parece uma ideia um tanto quanto imbecil. Se ao menos eu tivesse tentado com um hamster.&lt;br /&gt;Deitei, fechei os olhos e fiquei nessa. A vida indo.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/05/falta-de-boceta-na-minha-vida.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-1056077712626659446</guid><pubDate>Mon, 10 May 2010 04:40:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-05-10T01:53:27.901-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Quando nem sua merda deseja você.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Eu estava sentado, fazendo força, de olhos fechados lendo alguma coisa e torcendo para a merda vir, mas ela insistia em permanecer dentro de mim. Toda a merda da minha vida habitava o meu estômago já a mais de uma semana e parecia gostar da vizinhança. Um fígado mal humorado, um coração maltratado, uns pulmões preguiçosos e o inútil do apêndice. Mas, apesar disso, eu não culpava minha merda. Ela só fazia o que era melhor para ela. Por pior que eu estivesse por dentro, eu estava melhor do que por fora. E o mundo por aqui já tem merda o suficiente, a concorrência seria desleal. Ela era, simplesmente, egoísta. Ela estava aprendendo a ser um ser humano. E por isso ela permanecia dentro de mim.&lt;br /&gt;Terminei as palavras cruzadas, passei o papel no rabo só para confirmar o meu fracasso e subi minhas calças. Olhei para o espelho e tive nojo do que vi. Eu já vinha me enganando há alguns meses. Lendo livros de autoajuda e pagando meu psiquiatra para ele falar tudo o que eu queria ouvir. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Você é um cara lindo, Vito. Você é um cara interessante, só precisa buscar isso dentro de você. Você é grande, Vito&lt;/span&gt;, ele dizia, seção após seção. Papo de quem quer foder alguma coisa. E com toda a certeza do mundo ele fazia muito mais sucesso que eu. Eu e minha mão direita. Minha amante e melhor amiga.&lt;br /&gt;Vesti uma camiseta fina e um jeans cheirando a talco. Coisas de centenas de reais em um mero pedaço de pano. Aquilo era autoestima por centímetro quadrado, mas eu só encontrava a minha auto-piedade. E o meu estômago doía e o meu coração apertava. Fui até a geladeira, virei uma garrafa de leite dentro de meia garrafa de vodka, chacoalhei, guardei no cantil, tomei um gole de quinze segundos e saí pela porta, fugindo do espelho da mesma forma que o homem moderno foge de casamento. E eu conjugava frases imensas na minha cabeça. Frases que precisariam de muitas vírgulas e muita paciência para serem escritas ou lidas. Mas elas insistiam em sair uma merda. Escrever era a única maneira de expelir a merda de dentro de mim. E o resultado eram textos de merda, assim como anúncios e títulos de bosta.&lt;br /&gt;Eu caminhava pela rua. Uma festa rolava não muito longe dali e aquele seria o meu destino da noite. Fui a pé por orientação do meu cardiologista, alguém que eu pago para falar tudo aquilo o que eu não quero ouvir. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Você está fodido, Vito. Você é um cara que não vai durar muito, só tem mais uns seis anos pela frente. Você é frágil, Vito&lt;/span&gt;, ele dizia, seção após seção. E eu ria, e rir fazia meu cérebro doer. Era uma sensação de estranheza. A felicidade era rara. Eu busquei uma explicação para meu riso e para minha alegria. Chacoalhei meu cantil e percebi que nada mais restava. E aquele era o fim do mistério.&lt;br /&gt;Cheguei ao meu destino. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;KropKrop&lt;/span&gt;. Um lugar escuro, do tipo que passa batido, que se camufla com a paisagem da cidade. O que todo mundo sabe não se tratar de algo bom. A garota da porta me cumprimentou com um beijo no rosto e uma intimidade um tanto quanto estranha, mas compreensível. Eu já havia passado várias noites por ali. Às vezes sozinho, às vezes acompanhado, sempre bêbado e sempre com um ar de superior que eu já não era mais capaz de sustentar. Mas foi bom sentir um pouco de afeto. Ela era loira, magra, com um rosto triste. E eu a amava, naquele instante. Paguei a metade do preço para entrar, pisquei para a outra garota da porta. Ela era loira, magra, com um rosto cansado. E eu a amava muito, naquele instante. A vodka com leite já havia acabado e me apaixonar era tudo o que me restava.&lt;br /&gt;Entrei e a música veio alto na minha cara, cuspindo nos meus ouvidos um monte de mensagens vazias e efeitos irritantes de guitarra. Eu conhecia muita gente ali. Eu cumprimentava com a cabeça e vez ou outra com uma das mãos, mas nunca me dando ao trabalho de ser agradável ou de deixar transparecer a minha simpatia. Meu peito estava estufado, meus ombros mais duros do que minha própria pica. E eu queria parecer alguém. Eu queria ser notado, só para poder reclamar do fato de ninguém me deixar em paz. Peguei três cervejas no bar, fiz minha melhor pose e me encaixei no balcão. O corpo esticado, a mão no bolso, bebendo uma cerveja atrás da outra. E a bandinha falando sobre bossa nova e labirintite.&lt;br /&gt;Eu vi um cara cair de tanto beber e fumar maconha e abrir um rasgo na mão. E eu o achei a pessoa mais incrível do mundo, morrendo de vontade de abraçá-lo. Isso porque ele conseguia sangrar, ele conseguia deixar sair a vida de dentro dele. E a bandinha falando de labirintite. A ironia era engraçada e o guitarrista um filho da puta. As melhores garotas da festa olhavam para ele, passando a mão pelo corpo, jogando o cabelo, sendo estúpidas, sendo mulher. Soquei a parede de raiva e eu estava oficialmente bêbado.&lt;br /&gt;Fui ao banheiro mijar. Tirei minha imensa pica de dentro da calça e segurei-a orgulhoso com a mão direita. Um cara de cabelo alisado, jaqueta de couro, calça número trinta e quatro e camiseta tamanho doze entrou e parou do meu lado. Ele abria o zíper quando deu uma conferida no meu pau. Fechou o zíper, abaixou a cabeça e saiu pela porta. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;SIM, MEU AMIGO, MEU PAU É ENORME E É MUITO MAIOR QUE O SEU, SEU BICHA&lt;/span&gt;, eu gritei as minhas verdades. Terminei de mijar, guardei o causador da discórdia, fechei o zíper e fui saindo sem lavar as mãos. Até que o segurança apareceu na minha frente. Uma parede preta. Dois metros e cento e quarenta quilos de fome, miséria e sete filhos para criar.&lt;br /&gt;- Não pode fumar maconha no banheiro. – disse ele.&lt;br /&gt;- No banheiro, não, mas na sua aldeia tá rolando maconha pra caralho, não é? – eu disse e depois sorri.&lt;br /&gt;- Eu tô falando sério. Não pode fumar maconha aqui.&lt;br /&gt;- Amigo, eu não estava fumando maconha. Eu simplesmente estava mijando, ok? Se eu quisesse fumar maconha você saberia. Eu compraria com você.&lt;br /&gt;- Cadê o baseado, seu filho de uma puta?&lt;br /&gt;- EU JÁ FALEI QUE EU TAVA MIJANDO. MIJANDO. MIJO. AMARELO. AMÔNIA.&lt;br /&gt;- Mão na parede e abre as pernas.&lt;br /&gt;Eu abri o zíper disfarçadamente e o fiz. Ele começou a me revistar. Começou pelo tronco, os bolsos do casaco, os bolsos das calças, olhava para mim como seu bisavô olhava para o seu senhor. Ele se ajoelhou e começou a revistar minhas pernas.&lt;br /&gt;- MEU AMIGO. MEU AMIGO. MEU AMIGO. – gritei para o meu amigo macaco.&lt;br /&gt;Ele, ajoelhado, olhou para cima.&lt;br /&gt;- PRESENTINHO PRA VOCÊ.&lt;br /&gt;Abaixei minha cueca e a minha pica caiu bem em cima daquela testa escura dele. Era como um segundo nariz. E era engraçado para caralho. Os olhos brancos arregalados, a pupila se confundia com o resto do rosto. E a cara de choque. E a piroca nariz. Fechei meu zíper pela segunda vez, ele respirou fundo, se levantou e saiu do banheiro. O cheiro que saía era de desejo. Desejo de homicídio. Ele tinha uma necessidade absurda de me matar, mas uma necessidade ainda maior de alimentar as vinte e sete boquinhas negras na aldeia dele. Senti um pouco de confiança novamente, lavei as mãos e saí do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu passava por aquele mar de gente, deixando meu ombro falar mais alto. De vez em quando levantava o queixo, era a mensagem, era o convite para a morte. Ninguém nunca aceitava. Eu era a porra do macho alfa, do leão dominante, do ditador. Eu era a porra do Adolf Hitler. Isso até alguém aceitar o meu convite para a morte e eu voltar a ser o pedaço de merda que sou. Mas, até lá, eu era tudo isso. E seguia solitário.&lt;br /&gt;Peguei mais três cervejas e tomei as três em três goles. Três mais três mais três é igual a nove e isso foi o suficiente para eu dar nove reais de gorjeta para a garota do caixa. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Compra um sutien novo, babe. Você tem peitos deliciosos, eles merecem algo melhor&lt;/span&gt;, eu disse. Ela sorriu e concordou com a cabeça, mas eu sabia que ela gastaria aquele dinheiro comprando um teste de gravidez ou algo do tipo.&lt;br /&gt;E agora eu estava alucinado, rangendo os dentes, procurando briga e boceta. Boceta e briga. Pedi mais duas cervejas e saí pela festa com uma em cada mão, decidindo minhas prioridades. Briga e boceta. Boceta e briga. Encontrei uma das meninas mais lindas do lugar e eu já sabia bem o que queria. Os cabelos eram ruivos e o rosto levemente redondo. E eu estava apaixonado pela terceira vez na noite. Ensaiei algumas frases e me aproximei.&lt;br /&gt;- Você. É. Linda. – e isso foi o melhor que eu tinha pra dizer.&lt;br /&gt;- Obrigada. – e isso foi o melhor que ela tinha pra dizer.&lt;br /&gt;- Se eu te beijar você vai ficar muito brava?&lt;br /&gt;- Provavelmente. Eu tenho alguém.&lt;br /&gt;- E cadê ele?&lt;br /&gt;- Em outra cidade.&lt;br /&gt;- Isso significa que, aqui, você pode ser minha.&lt;br /&gt;- O problema não é poder, o problema é querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E TUDO VEIO ABAIXO. TODA A AUTOESTIMA QUE VIM CONSTRUINDO AO LONGO DA NOITE. O OMBRO DE PEDRA, O QUEIXO ERGUIDO, A PICA NARIZ, O MEU PSIQUIATRA. TUDO VIROU LIXO. TUDO VIROU MERDA E ENTROU NO MEU ESTÔMAGO, JUNTO COM AS OUTRAS MERDAS PATRIARCAS. Abaixei minha cabeça e fui saindo. Ela me chamou.&lt;br /&gt;- Meu, vem aqui.&lt;br /&gt;Eu parei em frente a ela. Só a carcaça de um ser humano.&lt;br /&gt;- Desculpa se fui grossa. Sério.&lt;br /&gt;- Tudo bem. A grosseria é algo intrínseco de vocês, mulheres, eu compreendo perfeitamente.&lt;br /&gt;- Olha, não foi minha intenção. É que eu realmente tenho alguém. Esse cara, sabe, eu sou apaixonada por ele há anos. Muitos e muitos anos. E não falo com ele a meses. Meses e muitos meses. E hoje, HOJE, ele me ligou. E eu tô radiante, meu. Eu sou uma porra de uma estrela no céu. Você não vê? Eu estou brilhando de alegria. Eu não consigo pensar em absolutamente mais nada.&lt;br /&gt;- Ele fez isso só pra te comer, você sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ignorou a minha estupidez e continuou falando por muito tempo. E nesse muito tempo eu fiz questão de expor toda a nojeira da raça masculina. Tudo o que há de pior sobre nós. Toda a nossa merda guardada na vizinhança do meu estômago, e no estômago de cada homem filho de uma puta como eu. E ela só ouvia, com aquele sorriso lindo no rosto. Ela ouvia e aceitava, e sabia que era verdade, e sabia que precisava daquilo para viver e sobreviver. E eu me sentia triste por mim e feliz por ela. Uma conformista. Uma linda conformista, capaz de conviver com um macaco albino como eu. Ela me abraçava e sorria. E fazia questão de ser linda a cada segundo. E eu sujo, desenvolvendo minha sujeira pela minha boca que só cuspia aquilo que deveria ficar guardado. E ficamos naquela por um tempo. O tempo passou, ela me abraçou, eu acabei com a minha imagem ou com o que restava da minha dignidade, ela me abraçou mais uma vez e se foi, antes que eu pudesse saber o nome dela. Ela com aquele cabelo vermelho e aquele rostinho.&lt;br /&gt;Fiquei parado olhando pro nada por quase uma hora. O sol nascia lá fora e não tinha quase mais ninguém ao meu redor. E eu me senti em casa e me senti solitário e deprimido. Abri a porta e saí, com a garota da porta me dando tchau com o mesmo beijo no rosto, o mesmo cabelo loiro, a mesma magreza e a mesma cara de triste. Mas eu já não era mais capaz de me apaixonar. Eu era um descrente e a paixão já não fazia mais parte do meu leque de sentimentos.&lt;br /&gt;Fui caminhando pelas ruas. A cabeça baixa e o coração em frangalhos. Chutando latas e pisando em anúncios e folhetos. E pisando no meu trabalho e no meu futuro. Cheguei em casa, escrevi alguma coisa na parede e fui para o banheiro. Abaixei minhas calças, sentei, fiz força e consegui. Finalmente. A merda saía. Eu conseguia expulsar parte da merda que estava dentro de mim a tanto tempo. Eu ouvia choros e despedidas. A merda dando adeus ao fígado, que resmungava de dor. O coração maltratado, chorando por ser tão pobrezinho. Os pulmões em casa, chorando por terem trabalhado. Eu chorando por dentro e por fora. Cagar era uma emoção. Ver a merda deixar meu corpo era uma emoção. E as lágrimas escorrendo na mesma proporção que a merda ia descendo. Fechei os olhos e senti a vida me deixar. O fim de semana tinha acabado e eu estava sozinho mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/05/quando-nem-sua-merda-deseja-voce.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-750636171977120916</guid><pubDate>Thu, 22 Apr 2010 05:05:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-04-22T02:17:10.125-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Porcos gostam de sujeira.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Nem se lembrava da última vez em que esteve tão feliz. Seu sorriso era incontrolável, ele simplesmente acontecia. Era como a fome na África. Já havia desabotoado os primeiros botões da camisa e tirado os sapatos. Queria parecer jovem. O cabelo cheio de gel, a cueca mais limpa que tinha no guarda-roupa. O bolso cheio de KY. Assobiava umas músicas do The Mamas and the Papas e tentava repassar mentalmente as posições que havia lido num livro. Coisa de contorcionista.&lt;br /&gt;Tocou a campainha e esperou. A porta continuava fechada, igual à cara do Gonçalves, o mais filho da puta dos filhos da puta da repartição. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Gonçalves, seu pé no cu&lt;/span&gt;, pensou e tocou a campainha de novo. Esperou mais uns segundos e seu sorriso já não era tão forte assim. Até que a porta se abriu, e ele se acendeu mais uma vez. A fome na África continuava lá, mas pelo menos ele sorria. Ela abriu a porta gargalhando e contorcendo-se de tanto que se divertia. Nem olhou em seu rosto, a alegria a havia cegado. E ele só ficou lá, parado, esperando ela parar de rir. Ela parou.&lt;br /&gt;- Entra logo, porra!&lt;br /&gt;- Não vou incomodar nada?&lt;br /&gt;- Vai me incomodar você aí, parado, com essa pica mole e essa cara de bosta. Vem se divertir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela o puxou pelo braço e o encaminhou para dentro do seu apartamento. Ele odiava quando ela falava daquele jeito. O cheiro era doce. A fumaça dançava por entre a pouca luz que saía do abajur. E aquilo era maconha, e aquilo era bom pra cacete, mas aquilo deixava ele de pau mole. E, naquela noite, especificamente, o pau dele precisava subir. Procurou uma garrafa ainda cheia em cima da mesa e encontrou um pouco de saquê. Tomou um gole, achou horrível, mas manteve o copo na mão. Sentou-se no sofá, cruzou as pernas, tomou mais um gole, achou ruim mais uma vez e, sem ela perceber, largou o copo num canto qualquer. E ela ainda não o havia beijado.&lt;br /&gt;Ouviu um barulho de descarga vindo de não muito longe dali. Sentiu-se incomodado, mas escondeu o sentimento. Aquela noite era dele e dela, e de repente tinha alguém fazendo merda no banheiro e ela ainda estava na cozinha fazendo um Bloody Mary, cujo sabor lhe dava náuseas. Contou os passos do sujeito do banheiro até a sala. Deram dois passos e meio. Ele já estava cansado de tentar tirá-la dali, de tentar levá-la para seu apartamento, com o quádruplo do tamanho daquele, o que não significava riqueza nenhuma. Até que seu algoz surgiu em sua frente.&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;É só isso? Essa porra aí?&lt;/span&gt;, pensou. A boca do sujeito estava suja de vômito. Ainda suja. Seus olhos estavam perdidos e sua voz era arrastada antes mesmo de ele se pronunciar. Usava uma camisa xadrez de flanela e a calça tinha furos nos joelhos. Sem sinal de sapatos. Que original. Ele veio, meio mole, meio morto, e se sentou ao seu lado.&lt;br /&gt;- O que te traz aqui? – perguntou, a voz arrastada.&lt;br /&gt;- Ela.&lt;br /&gt;- Sabe o que me traz aqui?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Meus pés, cara. Eu não preciso de mais nada, além da minha liberdade e dos meus pés. Um passinho, dois passinhos e eu vou onde eu quero. Esse porquinho aqui, do lado desse porquinho aqui, do lado desse e do lado desse e do lado desse. - disse, mexendo nos dedos dos pés, um a um - MEUS PORQUINHOS, CARA!&lt;br /&gt;- Legal. Belos porquinhos você tem.&lt;br /&gt;- Pois é. Sabe por quê? Porque eu não mantenho eles presos em sapatos. É! Eu sei que você usa sapatos, cara. Não adianta tirá-los e largá-los por aí. Porque eu sei que você usa sapatos. Belos sapatos, sapatos caros. Você não tem porquinhos. Você é um porquinho. Um porquinho capitalista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu com o canto da boca, tentando se manter superior e se esforçando para esconder o ciúme que tinha daquela situação toda. Ela voltou com três Bloody Mary e ele se sentiu aliviado e depois nauseado. Ela e o sujeito viraram aquele sangue de menstruação com gosto de tomate em poucos goles. Coisa de quem já tá na mesma há um bom tempo. Ele continuou segurando-o e esquentando-o. Assim pelo menos ele teria uma desculpa. Ele já imaginava o diálogo.&lt;br /&gt;- Porra, bebê, isso aqui tá quente. – ele diria.&lt;br /&gt;- Nossa, é verdade. Não precisa tomar mais não. Agora deixa eu chupar o seu pau. – ela responderia.&lt;br /&gt;E ele só imaginava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio sufocava. Muito mais do que a gravata ou os sapatos. Nesse ponto o sujeito tinha lá a sua razão. Sapatos eram uma merda. Ela abriu a boca e começou a falar frases aleatórias sobre Godard, Tolstoi e a fome na África. Mas aquilo não era ela. Ela forçava, queria impressionar de qualquer forma. Não a ele, mas ao sujeito. E o sujeito só consentia, mexia a cabeça para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda. O sujeito era a voz da razão sem voz, nem razão.&lt;br /&gt;Ele se mantinha calado e odiava tudo aquilo. O sujeito se virou para ele e começou a falar mais. E ele sumiu dali. Sabia que o sujeito falava algumas coisas sobre capitalismo, gel para cabelo, ternos e porcos. Os porcos voltavam toda hora. A boca parecendo um chiqueiro. Pelos porcos e pelo vômito. E ele em outro lugar, sem ser ali.&lt;br /&gt;Cansado de ouvir, ele se levantou. O copo ainda cheio de Bloody Mary na mão e as bolas bem guardadas na sua melhor e mais limpa cueca. Respirou fundo. Ela fazia silêncio, o sujeito falava sobre a ditadura, mesmo tendo nascido anos depois dela. Ergueu seu copo, homenageou os que já se foram e o estraçalhou na parede, gritando &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;ISSO SIM É ARTE! ISSO SIM É A REALIDADE, MEU CARO AMIGO HIPPIE. ESSA BOCETA NA PAREDE É O SEU SISTEMA SOCIALISTA DE MERDA. ELE É VERMELHO E ESCORRE, IGUAL ESSA PORRA DE RESTO DE VÔMITO NA SUA BOCA, SEU MERDA. AGORA LEVANTA E VAI LÁ LAMBER A SUJEIRA. POR QUE EU SEI QUE VOCÊ GOSTA DE SUJEIRA.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Fechou os primeiros botões da camisa, calçou os sapatos, agarrou-a pela cintura e a levou para o quarto. No meio do caminho, ela pedia para ser comida. Implorava e gemia, com aquele pau ainda muito longe dela. E ao fundo o sujeito lambia e grunhia. &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;Quem é o porco agora, seu filho da puta?&lt;/span&gt;, pensou. Fechou a porta do quarto e o mundo voltou à ordem do lado de fora, enquanto a bagunça começava do lado de dentro.&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/04/porcos-gostam-de-sujeira.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-1444508807100896823</guid><pubDate>Wed, 14 Apr 2010 02:30:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-04-13T23:36:47.371-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>O começo.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Las Vegas costuma ser uma cidade quente. Lembro-me bem de uns verões de quarenta e seis graus, coisa de país subdesenvolvido. Não sei se esse calor todo vem do jogo, da bebida ou das drogas. Mas sei que hoje a noite amanheceu especialmente fria. Ainda assim, nada insuportável. Só fria. O suficiente para me fazer pegar um casaco velho que meu pai me deu no verão de oitenta e nove. Puta que pariu ganhar um casaco de presente em pleno verão. Meu velho sempre foi fã de uma liquidação vagabunda. Sempre foi um bosta também. Pai de merda, eu tive.&lt;br /&gt;Estou bêbado, caminhando por uma calçada suja, lamacenta e cagada, equilibrando-me em portas fechadas, pichadas e mijadas. Meu hobby nessas horas é ler panfletos espalhados pelo chão. Às vezes, dá pra descolar umas horas de distração com eles. A minha vida é uma merda e eu sei disso, pelo menos por essa noite. Mas, tudo bem, sinto-me no lugar certo. Sinto-me em casa.&lt;br /&gt;Sigo pela escuridão. Até que, após quinze minutos de caminhada, ouço uns cochichos vindos bem de pertinho. Inclino a cabeça para escutar o que a moça semidesmaiada e seminua que carrego nas costas quer. Coitada, os panfletos estavam tão interessantes que me esqueci dela.&lt;br /&gt;- Alô... Que... É... Que... Onde? – tenta falar a jovem, desnorteada.&lt;br /&gt;- Faz silêncio. Tá tarde pra cacete. Amanhã eu te explico. – oriento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal mulher obedece e se cala. Desmaia, na verdade. Ainda assim, é ótimo saber que tenho algum controle sobre a situação. Seguimos bambos por essa cidade imunda. Eu tento desviar de poças de sonhos disfarçadas de vômito. Em vão. Na sola esquerda do meu New Balance noventa e sete um ator coadjuvante, e na direita uma bailarina acima do peso. Estou estranhamente agressivo hoje. Eu costumo ficar irritado quando tomo uísque, mas não agressivo. Vai ver é o frio. Sinto meus dentes rangendo e confirmo: É, é o frio, sim.&lt;br /&gt;Só mais três minutos andando (ou, pelo menos, tentando) e encontro-me na porta de casa. Eu e minha amiga desconhecida. Tem um Ford preto parado do outro lado da rua. É raro um desses por essas bandas. O lugar onde estou tentando viver é um edifício antigo, devidamente detonado pelo tempo. Já foi o lar de algumas estrelas emergentes da Broadway e de alguns traficantes poderosos. Hoje é o lar de umas putas velhas, uns viciados e uns veteranos do Vietnã. Não importa, esse é o meu lar. Pelo menos até algo tão ruim aparecer. Procuro bruscamente pelas chaves no bolso traseiro do meu jeans. Enquanto faço isso fico imaginando como seria maravilhoso encontrar uma nota de dez dólares esquecida. Como seria intenso sentir aquela sensação momentânea de esperança. Ô, que saudades dessa sensação.&lt;br /&gt;Merda! Encontro somente meu molho de chaves. Está escuro, mas eu sei que é o meu molho de chaves. Que eu saiba, só eu tenho um chaveiro do Darth Vader nesse prédio. Abro a porta e, como de costume, ela faz um barulho enorme, por mais cuidado que eu tome. Entro com o pé esquerdo e tomo um susto. Havia me esquecido como é nojento o hall de entrada do prédio. Lembro-me da casa dos meus pais.&lt;br /&gt;Com um pouco de sacrifício, começo a subir as escadas. Lá pelo quinto degrau, minhas orelhas começam a ficar vermelhas. Culpa do cansaço. Culpa da raiva de chegar até aqui. Para ser sincero, eu queria, mesmo, era ter desmaiado no boteco, como faço toda sexta-feira. Pena que hoje é sábado. Ainda faltam umas três dezenas de degraus. Explodo. “PORRA, SUA VACA! ACORDA!”. Ela nem se move. Tadinha, nem esperei ela acordar pra falar minhas asneiras. Foda-se.&lt;br /&gt;Alguns metros acima encontro um casal. Ou melhor, uma puta e seu cliente. Um lugar como esse há uma hora como essa não tem espaço para apaixonados. Eles nem se importam comigo ou com a minha amiga. Eu passo e comprimento com a cabeça. Não é porque eles tão se fodendo que eu vou pouco me foder pra eles. Sigo tentando chegar até meu quarto, pensando em como aquelas escadas devem estar geladas e desconfortáveis. Eu ando pensando muito ultimamente. Devo confessar que isso me preocupa.&lt;br /&gt;Lar doce lar. Finalmente estou em casa. Chego exausto demais para prestar atenção onde piso ou para fechar a torneira da pia, que pinga há dois dias. Alguns passos e estou frente a frente com minha cama. Jogo a desconhecida em cima do colchão sem lençol, cubro-a com um cobertor surrado e deito-me ao seu lado. Se não fosse tudo o que aconteceu, diria se tratar de um momento bonito, um começo.&lt;br /&gt;Essa noite eu só quero dormir. Dormir com as roupas do corpo, sem banho. Dormir do jeito que vivi o dia. Levar as lembranças pra cama. Começo a fechar os olhos, quando subitamente a individua desperta do seu sono profundo, da mesma forma que a Bela Adormecida acorda ao beijo do príncipe. Olho ao redor pra ver se acho algum príncipe misterioso. Só eu. E ela.&lt;br /&gt;- Que... On... Que horas são, porra? – pergunta ela, sem cerimônias.&lt;br /&gt;- Não acredito. Agora que é a hora de dormir você acorda. – observo, sem malícia.&lt;br /&gt;- Dá pra me responder? – da onde veio tanta hostilidade?&lt;br /&gt;- A hora não importa. Volta a dormir.&lt;br /&gt;- Dormir? Rárárá! Meu amigo, você sabe o quanto eu bebi essa noite?&lt;br /&gt;- Não tanto quanto eu. Isso eu posso te garantir.&lt;br /&gt;- Que bom que eu não preciso de tanto assim para ficar excitada.&lt;br /&gt;- Puta que pariu. Na boa? Estou começando a preferir você desma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deu pra terminar a minha frase. Já ela, ela, sim, terminou de tirar o tomara-que-caia preto que vestia. Sutiã eu não vi em nenhum lugar. Maravilha, assim fica mais fácil. Sutiãs sempre me atormentaram. Ela tem sede de sexo e, talvez, algo a mais. Abre o zíper da saia quase tão rápido quanto arranca os jeans do meu corpo. Sua boca procura a minha desesperadamente. Encontra, satisfeita. Estamos em chamas. Estamos bêbados. Eu seguro sua cintura com força, quase com raiva. Já não me lembro de quase nada do bar até aqui. Começo a me sentir um pouco mais pecador que o costume. Foda-se. A partir daqui, a noite promete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Nota imbecil do autor babaca&lt;/span&gt;: Esse é o primeiro capítulo de um livro que comecei a escrever ano passado e que, por motivos óbvios (qualé, é uma bosta, pode falar) nunca será concluído. Quem tem saco pra acessar esse blog percebeu que ando meio sumido. Bem, em primeiro lugar, estou ocupado com coisas que realmente poderão me dar um futuro, tipo TCC e trampo. Em segundo lugar, estou ocupado com outro livro, muito mais foda que essas linhas aí em cima. Vai demorar pra cacete pra ficar pronto, mas vai ficar. Mesmo que eu o use para limpar o meu rabo depois, eu o terminarei. Ah, se terminarei. Continuamos agora com nossa programação não tão normal assim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/04/o-comeco.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-5994453145727729601</guid><pubDate>Thu, 25 Mar 2010 19:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-03-25T16:44:17.302-03:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Diálogos</category><title>Desculpa.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Por onde você andou?&lt;br /&gt;- Por aí.&lt;br /&gt;- Mas por que tanto tempo?&lt;br /&gt;- Porque sim.&lt;br /&gt;- Vai se foder, eu mereço uma explicação.&lt;br /&gt;- Olha, eu andei ocupado, ok?&lt;br /&gt;- Ocupado com o quê?&lt;br /&gt;- Isso é uma porra de um interrogatório, por acaso? Eu já disse, andei ocupado. Agora faz o jantar.&lt;br /&gt;- Ou você me fala o que aconteceu ou você não come nada. Nem jantar, nem eu.&lt;br /&gt;- Olha, sério mesmo, vamos deixar isso pra depois.&lt;br /&gt;- Fala, filha da puta.&lt;br /&gt;- Andei ocupado. Ocupado demais. Ocupado com coisas que nunca me levarão a lugar nenhum. Ocupado com a minha própria merda. Ocupado substituindo minha auto-estima pela minha auto-piedade. Ocupado num canto, sozinho, por aí. Ocupado lendo Fante e pensando &#39;Ó, Deus, por que não sou tão bom assim? Ó, Senhor&#39;. Ocupado tentando me lembrar como é a sensação de entrar em uma mulher. Ocupado tentando fazer meu intestino funcionar. Ocupado com um trabalho que não me traz nada, nem dinheiro. Ocupado com coisas interessantes a mim e desinteressantes para o resto do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela deu as costas e foi fazer o jantar. Ele comeria um bom jantar naquela noite. Só o jantar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/03/desculpa.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-5112996030936346293</guid><pubDate>Thu, 18 Feb 2010 03:26:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-02-19T01:19:50.019-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Diálogos</category><title>Merda.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Diz pra mim, vai.&lt;br /&gt;- A verdade? Ou o que você quer ouvir?&lt;br /&gt;- O que lhe for conveniente.&lt;br /&gt;- A vida é uma merda.&lt;br /&gt;- Para.&lt;br /&gt;- Foi o que você pediu. É conveniente que a vida seja uma merda pra mim.&lt;br /&gt;- Isso não faz sentido.&lt;br /&gt;- Lógico que faz. Aceitar que as coisas são uma merda torna tudo mais claro. Se não vai dar certo, do que me vale tentar? Prefiro ficar aqui, sentado na minha própria merda.&lt;br /&gt;- Uma hora vai começar a feder. Aí você vai fazer alguma coisa. Não vai?&lt;br /&gt;- Não exatamente. Tudo tem a sua consequência. Você mete e pode ficar doente. Você ama e pode ficar louco. A consequência da merda é ir tão fundo nela ao ponto de perder a capacidade de percebê-la. Ao ponto daquilo tudo se tornar sua realidade. E, meu amigo, nós já sabemos que a realidade é uma merda.&lt;br /&gt;- E você já chegou lá?&lt;br /&gt;- Não sei ainda.&lt;br /&gt;- É só pensar. A vida ainda te surpreende?&lt;br /&gt;- E isso é critério? Desde quando a vida reserva alguma surpresa? Nascer, amar, sofrer, amar, meter, sofrer, sofrer, trabalhar, criar, trabalhar, sofrer, trabalhar, sofrer, trabalhar, morrer. Essa é a vida. A sua e alguns bilhões de pessoas.&lt;br /&gt;- Essa merda não é vida.&lt;br /&gt;- Merda. Vida. É tudo a mesma coisa. Você só tem que saber lidar com elas.&lt;br /&gt;- E o que você tem de tão especial para ser diferente dos outros?&lt;br /&gt;- Nada. Aí que tá. A merda me engoliu. Para quem quer viver acima dela, eu não existo.&lt;br /&gt;- Mas eu te amo.&lt;br /&gt;- Adapte-se.&lt;br /&gt;- Eu tenho outra escolha?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Vá à merda, seu merda.&lt;br /&gt;- Eu também te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminou seu monólogo, mudou de canal e se afundou no sofá.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/02/merda.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-849139084781504027</guid><pubDate>Fri, 12 Feb 2010 18:01:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-02-13T02:33:38.970-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Diálogos</category><title>Má influência.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- Eu vou fazer.&lt;br /&gt;- Uhum. OK. Vai sim.&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;br /&gt;- Na boa, admite.&lt;br /&gt;- Vou admitir o quê? Se eu falei que consigo é porque eu consigo.&lt;br /&gt;- Consegue merda nenhuma. Nem comer sua mulher você consegue.&lt;br /&gt;- Mas isso é diferente.&lt;br /&gt;- Diferente a puta que te pariu. Meter e trabalhar são, basicamente, a mesma coisa. A única diferença é que em um você fode e no outro você é fodido.&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;br /&gt;- De novo? Você já foi mais criativo, meu caro.&lt;br /&gt;- Vai tomar no cu.&lt;br /&gt;- Uau. Que mudança. O que que é? Perdeu seu senso de humor junto com suas bolas?&lt;br /&gt;- Qualé? Para de ofender minhas bolas, cara.&lt;br /&gt;- Então vai logo, porra! Termina essa merda logo pra gente encher a cara.&lt;br /&gt;- Eu não quero mais encher a cara. Meu médico falou que a bebida é a culpada pelos meus problemas.&lt;br /&gt;- Assim fica fácil.&lt;br /&gt;- Fica fácil o quê?&lt;br /&gt;- Você não percebe? Ele usa isso como desculpa pra esconder a incompetência dele. Na verdade, todo mundo usa a bebida como desculpa pra tudo. Um tsunami varre a Ásia, culpa da bebida. Uns malucos jogam uns aviões nums prédios, culpa da bebida. Sua mulher dá pro instrutor de yoga , culpa da bebida.&lt;br /&gt;- Minha mulher. Aquela piranha.&lt;br /&gt;- Aquela piranha o caralho. Ela é uma mulher boa. Gostosa, tem umas tetas simpáticas. Uma boca boa pra boquete. Você que é fraco. Um frouxo de merda.&lt;br /&gt;- Saindo daqui eu quero beber.&lt;br /&gt;- Vai de quê?&lt;br /&gt;- Uísque quase puro.&lt;br /&gt;- Quase puro? Que porra de &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;quase &lt;/span&gt;é essa? Você vive muito no quase, meu chapa.&lt;br /&gt;- É uísque com um dedo de água.&lt;br /&gt;- Tanto faz. O que importa é que ele desça bem, certo? O que importa é ele te levar pra longe desse lixo todo.&lt;br /&gt;- Falou bem. De vez em quando você manda umas frases boas. De vez em quando eu gosto de você.&lt;br /&gt;- Bora pro bar, meu amigo. Vamos celebrar a amizade. VAMOS CELEBRAR O AMOR.&lt;br /&gt;- O AMOR É O COMBUSTÍVEL DO MEU PAU.&lt;br /&gt;- E vice e versa.&lt;br /&gt;- Eu te amo, cara.&lt;br /&gt;- Bora pro bar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Terminou seu monólogo, deixou o trabalho por fazer e foi pro bar.</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/02/ma-influencia.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-9084683516943344390</guid><pubDate>Mon, 01 Feb 2010 02:02:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-02-05T15:34:08.168-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Antenas e papéis higiênicos.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Enxugo o suor que escorre na testa e olho para o relógio. Vinte e uma horas e vinte minutos, precisamente. Mais quarenta e eu estou fora daqui. Sinto uma vontade imensa de ficar deprimido. Olho ao meu redor e arranjo um motivo. A luz é artificial, a parede é cinza e é tudo frio. À minha frente, carros passam. Um a um, num ritmo interminável. No fim do meu expediente são alguns milhares de novos carros que inundam as ruas, mesmo que elas não os suportem mais. E o meu supervisor ainda vem com papo de consciência ambiental. O caralho.&lt;br /&gt;Olho para o relógio mais uma vez. Um minuto se passou. Agora só faltam trinta e nove. Mais perto do fim. Mais um carro. Com a mão direita, pego uma antena e a encaixo no teto do carro. Com a esquerda giro a antena no sentido anti-horário e termino o trabalho dando uma última fixada com as duas mãos. E é basicamente isso que eu faço o dia inteiro. Fico aqui. Punhetando antena. Bronhando teto de carro. São vinte e dois anos dessa merda. O que supostamente me faria o mestre da punheta. Mas, levando em consideração que uma punheta é a maior demonstração de amor próprio, acho que estou longe disso.&lt;br /&gt;- E o verdão, hein? - perguntou Carlos, meu parceiro de antena a quinze anos.&lt;br /&gt;- É foda. - retruquei seco.&lt;br /&gt;- Não ganha porra nenhuma.&lt;br /&gt;- E o seu time tá com tudo, né?&lt;br /&gt;- Ronaldão, caralho!&lt;br /&gt;- Ronaldão é o meu ovo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essas foram as únicas palavras que trocamos naquele dia. Depois de tanto tempo punhetando um ao lado do outro, não são necessárias muitas palavras. O silêncio fala muito mais. Olhei para o relógio mais uma vez e agora faltavam uns vinte e três minutos. Decidi ignorar o relógio e só esperar pela sirene. Isso sempre fazia o tempo ir mais rápido, mas eu não sabia como. Na verdade, eu não sei de quase nada. Faço poucas coisas e não as faço muito bem. Passou mais um carro e eu punhetei mais uma antena. As coisas seguiam devagar. Era sexta-feira e a semana tinha sido uma merda. Até que eu ouço um grito.&lt;br /&gt;- Que PORRA é ESSA?! Quem foi o FILHO DA PUTA que fez esse CU?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela voz fina eu sabia quem era. Jesus, o supervisor. Um homem baixinho do tipo invocado. Seus cabelos são finos e ralos, penteados com muito cuidado. Os óculos tem grossas armações negras, da mesma cor da sua gravata e sapatos, que parecem nunca sair daqueles pés número trinta e sete. Ironicamente, o cara era um grande filho da puta. E repetia.&lt;br /&gt;- ESSA ANTENA! QUE PORRA É ESSA AQUI? CADÊ? CADÊ MEU PAU!? EU QUERO O MEU PAU! - esperneava enquanto apertava as bolas com toda a força que tinha.&lt;br /&gt;Fui até lá. Com certeza tinha sido eu. O Carlos nunca errava.&lt;br /&gt;- Que foi, Jesus?&lt;br /&gt;- ME EXPLICA QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ FEZ.&lt;br /&gt;- Uma antena.&lt;br /&gt;- UMA ANTENA?&lt;br /&gt;- É. Uma antena. Tá encaixada.&lt;br /&gt;- OLHA MELHOR! OLHA MELHOR! MEU PAU?! CADÊ MEU PAU?!&lt;br /&gt;- Jesus, pelo amor de Deus. Me diz qual o problema.&lt;br /&gt;Ele deu uma respirada profunda e prosseguiu.&lt;br /&gt;- Não é a antena certa, José. Essa é do outro modelo.&lt;br /&gt;- É a certa sim, seu Jesus. A do outro modelo tem um detalhe em prata.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;- E você tá vendo algum detalhe em prata aqui?&lt;br /&gt;- É... Hum... Isso aqui... Não...&lt;br /&gt;- Eu vou voltar pro meu lugar, seu Jesus.&lt;br /&gt;- Não, José! Espera aí um pouco. Preciso falar com você.&lt;br /&gt;- Diz.&lt;br /&gt;- Você anda meio desmotivado. Eu imagino que depois de dez...&lt;br /&gt;- Vinte e dois anos. - interrompi, corrigindo-o.&lt;br /&gt;- Vinte e dois, que seja. Depois de vinte e dois anos punhetando antena, ganhando em um mês o que eu ganho em uma semana e não sendo valorizado por isso você pode acabar ficando meio &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;cansado&lt;/span&gt;. Eu até imagino e, inclusive, tento compreender. Mas eu preciso de mais animação. São carros que você faz! CARROS PRECISAM DE ALEGRIA.&lt;br /&gt;- Tudo bem. - respondi e dei o sorriso mais falso da minha vida.&lt;br /&gt;- Então tá joia. Não se esqueça. ALEGRIA!&lt;br /&gt;Dei as costas pra ele.&lt;br /&gt;- E O VERDÃO, HEIN?! -  berrou ele enquanto eu me distanciava e ignorava sua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei ao lado de Carlos. Ele me olhou com aquele olhar. Eu retribui com aquele outro olhar. A sirene tocou. Alívio. Guardei as antenas Corri até o armário, tirei as botas, as luvas, os óculos, o capacete e despejei tudo lá dentro. Em questão de segundos eu tava fora do galpão. Em questão de minutos eu tava fora da fábrica. O céu estava preto e sem estrelas. Quando cheguei estava azul e cheio de nuvens. Lá dentro isso não faz diferença. Aqui fora sim. O problema é saber qual dessas é a minha realidade.&lt;br /&gt;O ônibus esperava no mesmo lugar de sempre. Entrei primeiro e fui pro fundo. Abri um jornal de esportes. Cacete, o verdão tava mesmo uma merda. A única alegria da minha vida não me dá alegria tem tempo. Logo mais, logo menos, o ônibus vai estar infestado do que sobrou de dezenas de homens. Tem os que punhetam antenas, como eu. Tem os que pintam. Os que apertam. Os que entortam. Os que retorcem. Os que moldam. Os que soldam. E assim por diante. Dezenas de corpos e mentes vazios. Imprestáveis, com habilidades inúteis. Péssimos maridos e ótimos filhos. Fecho os olhos e desperto com Carlos me chamando. Nos saudamos e eu desço no ponto mais perto de casa.&lt;br /&gt;Ando uns oitocentos metros, viro algumas esquinas, subo algumas ruas e estou de frente com o meu portão. Branco, simpático e pequeno, serve de fachada para um lar infeliz. Abro a porta, tiro os sapatos e vou pra cozinha. Abro a geladeira. Um arroz de semana passada, um pouco de feijão enlatado, umas cenouras cruas e um resto de coxão mole de anteontem. Desisto. Abro uma lata de cerveja preta e a viro em dois goles. Depois disso, tiro a roupa e vou pra cama.&lt;br /&gt;Minha mulher aparenta estar dormindo há horas. Virada de costas pra mim, toda coberta, seu rabo continua atraente, mesmo trinta quilos mais gordo. Sinto uma movimentação estranha na minha samba canção. Ignoro seus cabelos terrivelmente presos, sua camisola dos anos trinta e sua lingerie bege com manchas de alvejante. Deito do seu lado. Começo a passar as mãos por aquele rabo gostoso e, furtivamente, escorrego a mão direita para dentro da sua calçinha.&lt;br /&gt;- Tira a porra da sua mão daí, José.&lt;br /&gt;- Mas, Maria...&lt;br /&gt;- Mas a puta que te pariu, José. Vai dormir. Tô cansada.&lt;br /&gt;- Mas sou eu quem trabalhou o dia inteiro.&lt;br /&gt;Sem resposta.&lt;br /&gt;- Maria?&lt;br /&gt;- O QUÊ, SEU MERDA? O QUÊ?&lt;br /&gt;- Que que eu faço, então?&lt;br /&gt;- Vai bater uma punheta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/02/antenas-e-papeis-higienicos.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-3913490505320582814</guid><pubDate>Fri, 22 Jan 2010 23:13:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-01-26T01:12:32.679-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Ups and downs.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Daqui de dentro o mundo parece uma grande e dura merda. Mas pelo menos é uma merda que passa rápida, com um aspecto borrado. O que me faz lembrar o resultado dos meus fins de semana, pulando de bar em bar. Não tem ninguém do meu lado. Para o alívio do infeliz que viesse a se sentar ao meu lado. Abro um Bukowski puro sangue e esqueço do tempo que insiste em avançar no relógio e escurecer lá fora. Uma gostosa conversa com um policial no banco atrás de mim. E o cara não sabe domar a cavala. E ser jovem era uma merda.&lt;br /&gt;O livro acaba. Adormeço. Acordo com o amarelo das luzes da rodoviária. Pego minha mochila e vou descendo. Atrás de mim, o policial permanece sentado. A gostosa vai na minha frente. Admiro seu incrível rabo, que se move num ritmo que faria o pau do Papa acordar. Ela olha para trás. Eu olho de volta. Sua expressão muda do desinteresse, para a repulsa. Foda-se aquela vadia.&lt;br /&gt;Desco as escadas do ônibus e agradeço o motorista. Não enxergo nenhuma reação na cara mole dele, mas perdôo. Pior que viver nas ruas, é viver nas estradas. Atravesso o enorme salão. Perdido. Centenas de pessoas passam ao meu redor. Correndo, caminhando, chorando, sorrindo, abraçando, beijando. Aquela massa toda não passa de uma infinita contradição. Um casal de jovens se abraça calorosamente a uns dez metros de mim. Ele diz pra ela que não quer deixá-la. E eu só consigo pensar nas outras que ele vai comer, onde quer que esteja indo. Ninguém é fiel hoje em dia, e só as mulheres não percebem isso.&lt;br /&gt;De repente, me lembro do que havia dito pra mim mesmo alguns minutos atrás. Antes de qualquer coisa, eu precisava ir ao banheiro. Logo na entrada do lugar tinha uma enorme placa com os valores. Uma mijada era um e vinto e cinco. UM E VINTE E CINCO POR UMA MIJADA. Fui até o caixa e fui ignorado completamente por uns trinta segundos. A mulher conversava sobre alguma imbecilidade com um homem tão imbecil quanto o assunto. Uma cavidade movia-se acima dos lábios secos e apagados da velha. Outro rombo reluzia em sua testa. Olhei para trás e um garotinho esperava ansioso, com as mãos no meio das pernas.&lt;br /&gt;- Tá vendo aqueles buracos ali na cara da velha? - perguntei pro muleque apertado.&lt;br /&gt;- Uhum.&lt;br /&gt;- Se você fumar crack, vai ficar que nem ela.&lt;br /&gt;- Crack? Que isso?&lt;br /&gt;- Ah, pergunta pro seu pai. Ele deve saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O muleque baixou a cabeça e eu levantei a minha. Era boa a sensação de ter livrado uma pobre alma de um possível vício. E ter fodido com a cabeça de um adulto. E ser jovem era uma merda. Entreguei o dinheiro na mão da mulher e ela me entregou uma ficha. Atrás da ficha lia-se TELESP. A ficha foi pra mão do homem que não podia trabalhar porque estava falando com a mulher que ele não deixava trabalhar. E assim eu entrei no banheiro, sem encontrar meus olhos com os olhos dos dois. Quem dera fosse sempre assim. Minha vida seria melhor. E o mundo, talvez, um lugar menos pior.&lt;br /&gt;Corri em direção ao mictório já com o zíper semi-aberto. O lugar ficava entre duas paredes de granito cinza e vagabunda. Até aí, tudo bem. Um lugar que serve pra mijar não precisa de luxo. O problema é que as paredes eram extremamente apertadas, o que, no fim das contas, tornou uma simples mijada um jogo de escolhas. Ou eu mijo com segurança e sofro com a incrível pressão que aquela parede fria proporcionava, ou eu me arrisco num mijo trêmulo à longa distância mas saio com minha integridade física intacta. Escolhi a opção número dois. Antes a minha integridade física sair ferida que a minha integridade moral.&lt;br /&gt;Eu fazia força e a urina saía sem parar. Trinta segundos. Quarenta segundos. Cinquenta segundos. Mijando. Desisti de contar e ela se esgotou. Minhas bolas doíam porque a minha namorada não queria dar pra mim. E ser jovem era uma merda. Fechei o zíper e admirei a porcelana branca manchada de amarelo. O cheiro subiu forte. Tão forte que era quase possível sentir o gosto. Corri para a pia e lavei o rosto com vontade. Queria me livrar da sujeira. Queria me livrar de mim mesmo. Enxuguei o rosto, olhei no espelho e me senti novo por alguns instantes. Sai dali, antes que a sensação passasse.&lt;br /&gt;Logo ao lado do banheiro tinha uma lanchonete. Uma lanchonete. Logo ao lado do banheiro. Eu sabia que isso não fazia sentido, mas ignorei o fato. Fui até o balcão e pedi o que tinha de mais fácil. Não passou trinta segundos e o lanche estava na minha mão. Instantâneo. Descartável. Como todo o resto da sociedade. Simpático, agradeci à caixa.&lt;br /&gt;- Obrigado, babe.&lt;br /&gt;- De nada, senhor.&lt;br /&gt;- Sabe de uma coisa?&lt;br /&gt;- Sim?&lt;br /&gt;- Você ficaria ótima lá em casa, com esse rabinho na minha cara.&lt;br /&gt;- Senhor, por que você não deita e morre, com o dedo no cu, senhor? Próximo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei o meu melhor sorriso, agradeci e fui em direção à mesa. De lá, pude ver algo que me deu nojo. Sentado num banquinho, um tipo fortinho tocava um violão velho e tentava cantar uma música de uma cantora que pagou boquetes para subir na vida. Sem sucesso. Nem isso o cara conseguia. Mordi meu lanche fácil e sem sabor. A música acabou. Respirei aliviado. A música voltou. Meu estômago embrulhou mais uma vez. Em duas bocadas, terminei meu lanche e me levantei, deixando o papel sujo em cima da mesa. Caminhei até o tipo fortinho.&lt;br /&gt;- Meu chapa, escuta, para com isso.&lt;br /&gt;- Dá licença. Tô tentando trabalhar.&lt;br /&gt;- É sério. Você não precia disso tudo, cara. Olha ao seu redor.&lt;br /&gt;Ele olhou.&lt;br /&gt;- Agora me diz: quantas pessoas estão &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;realmente &lt;/span&gt;prestando atenção em você.&lt;br /&gt;Ele calou.&lt;br /&gt;- Pois é. Desce desse banco e vai pagar um boquete para alguém.&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;br /&gt;- Porra. Só você não percebe. Os boquetes. São eles que &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;movem &lt;/span&gt;o dinheiro. São eles que &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;movem &lt;/span&gt;a porra do mundo. Os santos boquetes.&lt;br /&gt;- Eu nunca tinha pensado assim, mas faz sentido.&lt;br /&gt;- Eu sei que faz, tudo o que eu digo faz sentido.&lt;br /&gt;- E você?&lt;br /&gt;- Eu o quê?&lt;br /&gt;- Quer um boquete?&lt;br /&gt;- Vai se foder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei o tipo fortinho boqueteiro para trás e ganhei as ruas. Ah, como aquilo fez eu me sentir bem. Aquele bafo quente, fétido, direto na minha face. A realidade. A dura realidade. De repente eu havia me encontrado. Eu era um ex-esquizofrênico me conhecendo aos poucos. Eu era alguém. Um zé ninguém. Parei um táxi e fui de encontro ao meu destino.&lt;br /&gt;A próxima coisa da qual me lembro sou eu, num banco de ônibus, voltando para casa. Uma morena de lindas tranças, pescoço suave e peitos maravilhosamente grandes está sentada ao meu lado, lendo alguma coisa. Crime e Castigo, Dostoiévski. E ser jovem não era nais uma merda.&lt;br /&gt;- Bom gosto você tem, babe.&lt;br /&gt;- Vai tomar no seu cu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ser jovem era uma merda.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/01/ups-and-downs.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-3607829137746818150</guid><pubDate>Thu, 07 Jan 2010 03:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2010-01-07T22:40:38.539-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>Final inesperado.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ela abriu a porta do escritório e lá estava ele, para variar. O roupão azul, o cabelo cheio de nó, o óculos de farmácia e aquela caneta com a tampa mastigada, ainda na boca. Sentado no escuro, brincava de sombras com a pouca luz que saia da luminária. Ele disse em alguma conversa cotidiana de uma tarde sem graça de quarta-feira que aquilo dava uma agitada nas suas ideias. E ainda brincou, falando que dava uma luz para ele.&lt;br /&gt;O momento ficou marcado para ela. Ele não é de brincar. Ela é. Brincou, inclusive, quando escolheu a camisola que vestia naquele momento.&lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt; Definitivamente, eu não vou ganhar um lugar no céu com isso aqui&lt;/span&gt;, disse rindo consigo mesma.&lt;br /&gt;- Vem pra cama, bem, vem. - convidou, cheia de segundas intenções.&lt;br /&gt;- Agora não. - respondeu, sem desviar o olhar da folha em branco.&lt;br /&gt;- Meu bem, você não tá entendendo. Eu &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;preciso &lt;/span&gt;de você.&lt;br /&gt;- Não. É você que não está entendendo. Eu &lt;span style=&quot;font-style: italic;&quot;&gt;preciso &lt;/span&gt;escrever.&lt;br /&gt;- Que nada. Seus leitores não ligam de esperar mais um dia.&lt;br /&gt;- Meus leitores, não. Meus editores, sim. Malditos engravatados.&lt;br /&gt;- A gente tira o telefone do gancho. A gente fecha o registro da água. A gente desliga a TV. Só vem pra cama, por favor.&lt;br /&gt;- Eles estão em todos os lugares. São onipotentes, onipresentes e oniscientes.&lt;br /&gt;- Então vamos para todos os lugares. Se não me engano, a cozinha ainda é virgem.&lt;br /&gt;- Você não lembra o que aconteceu da última vez que atrasei?&lt;br /&gt;- Disso eu lembro. A nossa caixa de correio ainda cheira a merda e a expressão daquele coelho enforcado na nossa janela ainda me traz um nó na garganta.&lt;br /&gt;- Acho que não preciso falar mais nada.&lt;br /&gt;- Eu só não me lembro de uma coisa.&lt;br /&gt;- O que é, meu Deus?! O que é?!&lt;br /&gt;- A última vez que senti minhas pernas tremerem.&lt;br /&gt;- ME DEIXA TRABALHAR, CLARICE. VÊ SE PA...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para trás. E o incansável escritor resolveu ser, mesmo que só por uma noite, um incansável amante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2010/01/ela-abriu-porta-do-escritorio-e-la.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><thr:total>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-2346804468547891702</guid><pubDate>Tue, 29 Dec 2009 04:57:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-29T03:10:16.864-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">A grande mãe</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>A grande mãe. Capítulo VI: Conclusão.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;a onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot; href=&quot;http://4.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SzmMXDmszqI/AAAAAAAAARI/BSr_pRTfsAo/s1600-h/grandemae6.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 200px;&quot; src=&quot;http://4.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SzmMXDmszqI/AAAAAAAAARI/BSr_pRTfsAo/s400/grandemae6.jpg&quot; alt=&quot;&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5420517954249608866&quot; border=&quot;0&quot; /&gt;&lt;/a&gt;- Você lê, Bohr?&lt;br /&gt;- Só o catálogo de prostitutas, por quê?&lt;br /&gt;- Eu sempre li bastante. Depois que minha santa mãe se foi, meu pai colocava um livro no meu colo, ordenava que eu o lesse até o fim e saia de casa. E ele nunca parava em casa.&lt;br /&gt;- E eu pensei que a MINHA infância tinha sido uma merda.&lt;br /&gt;- Mas a questão não é essa. O que eu quero dizer é que tudo isso que aconteceu do carro até aqui me lembrou muito um cara. Um escritor.&lt;br /&gt;- Escritores são todos uns babacas.&lt;br /&gt;- O cara chamava-se Chales Bukowski. Um americano fodido que virou o fodão depois de velho. Bebeu, fumou, apostou e meteu. Até morrer com seus setenta e algo.&lt;br /&gt;- Olha só. De repente, ele não parece tão babaca assim.&lt;br /&gt;- De fato ele não era. Na verdade, ele me lembrava muito você. A única diferença é que ele escolheu uma arte diferente da sua.&lt;br /&gt;- Não me compare com um escritor, seu merda. Todo mundo curte beber, fumar, apostar e meter. E não é porque um americanozinho de merda fez disso o ganha-pão dele que eu tenho algo em comum com esses tipos.&lt;br /&gt;- Acontece que, esse cara, meu chapa, tinha um talento que só você, na Família inteira, tem. A capacidade de apressar as coisas. Explodir. Dar um fim em tudo, de uma hora pra outra. Interromper tudo e mudar o curso das coisas. Pelo simples fato de ter considerado isso uma boa ideia.&lt;br /&gt;- Não sou eu que dito o fim. É o sangue no chão.&lt;br /&gt;- Se for assim, o fim dessa merda toda está próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei admirado para o rosto de Sergey. Estava diferente. Parecia um homem, realmente. Transpirava confiança, coragem, sabedoria. Comecei a pensar numa resposta, mas me perdi em um sentimento confuso. Respeito, talvez. Ele se levantou, olhou para mim, fez sinal de positivo com a cabeça e foi até a porta. Admirei o cenário ao meu redor. E, como o novo homem com o qual conversava a pouco disse, decidi dar um fim em tudo. Num pulo, me pus de pé, limpei a sujeira das minhas roupas, com uns tapas coloquei meu cabelo no lugar. Armas e colhões. Ambos nos lugares certos.&lt;br /&gt;Me virei em direção a porta, tendo como destino a incerteza. Ouvi uma risada distante. O som das risadas foi se intensificando. E lá do fundo, vi dois homens caminhando. Me senti no corredor da morte. Imóvel, em minha cela, esperando pelos meus capatazes. Sergey vinha acompanhado do Pai, seu novo melhor amigo, aparentemente.&lt;br /&gt;- Bohr! Eu estava falando de você com meu amigo Sergey aqui!&lt;br /&gt;Antes que eu pudesse reagir, Sergey sacou sua arma e enfiou quatro balas nos meus braços e mãos.&lt;br /&gt;- Acho que você não vai precisar disso aqui, não é? – disse o Pai, tomando posse da minha arma.&lt;br /&gt;- Já isso aqui pertence à Família. – disse novamente, tomando a Magnum dourada de Yuri.&lt;br /&gt;- Você sabe o que eu acabo de fazer? Acabo de levá-lo de volta ao dia em que te encontrei. Com medo, desamparado, sozinho. Só mais uma criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem era bom no que fazia. Melhor que eu. Muito melhor que eu. Anos depois, corpos depois, vidas depois, eu estava de volta às minhas origens. E eu não gostava disso. Definitivamente, não gostava. Tentei me manter em pé, mas minhas pernas fraquejaram. Fui ao chão e lá fiquei, olhando para cima e tentando decifrar cada movimento dos dois.&lt;br /&gt;Do chão vi Sergey deitar-se de bruços aos pés de Ludwig. Era um ritual. Eu fiz a mesma coisa aos dezesseis anos, quando entrei pra Família. Agora, para quem já faz parte dela, esse ritual significa um lugar garantido na mesa da Tríplice, um grupo seleto que pega as melhores faxinas e, consequentemente, as melhores remunerações. E lá, deitado com o peito para baixo, Sergey não teve a chance de ver Ludwig sacar a Manum de Yuri e enfiar três balas em sua nuca.&lt;br /&gt;- Hahahahaha. Você é um verdadeiro covarde filho da puta, não é, Ludwig? E eu precisei matar o viado do seu filho pra poder descobrir isso. Veja como é a vida.&lt;br /&gt;- Covardia foi o que vocês fizeram com o Tristan. O que eu estou fazendo é vingança.&lt;br /&gt;- Vingança. Por que tudo tem que girar em torno da vingança, dessa pequena palavra de merda?&lt;br /&gt;- Tá vendo porque eu estou aqui, de pé, e você aí, no chão? Você é só um garoto, Bohr. Substituível em qualquer função e em qualquer lugar. Agora, entenda de uma vez por todas. A guerra move o mundo, a vingança move as guerras. Faça as contas. Homens, mulheres, crianças, velhos, a humanidade. Tudo é movido pela vingança.&lt;br /&gt;- Olha só que mundo maravilhoso nós vivemos. A vingança move a porra da humanidade, e eu aqui achando que ela só movesse mais grana para a conta bancária da Família. Pode confessar. Foi isso que te colocou onde está hoje.&lt;br /&gt;- Isso o que?&lt;br /&gt;- Isso que você faz! Pegar uma merdinha, algo insignificante, sem sentido algum e, com um discurso planejadinho e alguns gestos cansados, tornar em algo grandioso. Tornar a PORRA DO COMBUSTÍVEL DA HUMANIDADE.&lt;br /&gt;- Homens pequenos enxergam as coisas como elas são. Homens grandes enxergam as coisas como eles são.&lt;br /&gt;- Quem disse isso? Foi o tal de Bukowski? O americano fodão?&lt;br /&gt;- Não, acabei de criar. É isso o que eu faço, não é? Eu só não sabia que você lia Bukowski.&lt;br /&gt;- Eu não leio. O cara que você acabou de matar me falou dele uns minutos atrás.&lt;br /&gt;- Por acaso você lê, Bohr? – perguntou Ludwig, enquanto ajustava a arma de Yuri.&lt;br /&gt;- De novo essa pergunta?&lt;br /&gt;- Simplesmente responda e depois cale a boca.&lt;br /&gt;- Só Bukowski e o catálogo de prostitutas, por quê?&lt;br /&gt;- Se você lesse, ia perceber que a maioria dos autores torna a morte algo romântico, extremamente elaborado e dramático. É como um tique nervoso literário que só não atinge uma privilegiada parcela desses babacas das palavras.&lt;br /&gt;Comecei a prestar atenção e ele continuou.&lt;br /&gt;- O que não faz sentido nenhum, você não concorda? Eles colocam a morte como o clímax, enrolando por páginas e páginas só para perder mais páginas descrevendo minuciosamente o ato de morrer. Quando na verdade ela não é porra nenhuma, além do fim. Colocam a morte como o estopim para o sofrimento em sua mais pura forma. A essência da decadência. Quando na verdade ela não é porra nenhuma, além de uma bala e um punhado de pólvora. Sabe o que eu acho? Que esses escritores apaixonados pela morte e seus personagens falecidos deveriam largar suas canetas e segurar uma dessas belezas aqui. Ver como ela torna toda essa ladainha de morte e sangue simples. Quase sem graça, se não fosse todo o processo até chegar a um momento como esse. Quando isso acontece, aí sim, teremos grandes obras.&lt;br /&gt;Ludwig parou, ajustou a gravata e prosseguiu.&lt;br /&gt;- O que eu vou te falar em seguida é um segredo sagrado. Você consegue guardá-lo?&lt;br /&gt;- Acredito que não.&lt;br /&gt;- Tudo bem, em breve não fará mais a diferença mesmo.&lt;br /&gt;- Fala logo, caralho.&lt;br /&gt;- Eu sempre quis ser escritor. Sério.&lt;br /&gt;- Se você escrever tão bem quanto discursa, porra, eu compro tudo o que você escrever.&lt;br /&gt;- Hahaha, assim você quase me faz pensar duas vezes, meu filho. Mas, não. Não faço o tipo babaca. Eu prefiro viver. Eu faço da minha vida uma grande obra. E, advinhe, esse é um momento daqueles que os escritores adoram.&lt;br /&gt;- Isso daria uma história e tanto, Pai.&lt;br /&gt;- Meus setenta e tantos anos até aqui, sim. Esse momento, não. Esse momento será como eu acho que ele deve ser. Sem romance, sem glamour, sem exageros.&lt;br /&gt;- Sem graça.&lt;br /&gt;- É. Sem graça.&lt;br /&gt;Vi Ludwig pressionar o gatilho. Depois disso não lembro de mais nada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2009/12/grande-mae-capitulo-vi-conclusao.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://4.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SzmMXDmszqI/AAAAAAAAARI/BSr_pRTfsAo/s72-c/grandemae6.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink="false">tag:blogger.com,1999:blog-1599313430532633723.post-3628125798676051815</guid><pubDate>Thu, 17 Dec 2009 03:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-12-17T02:01:24.044-02:00</atom:updated><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">A grande mãe</category><category domain="http://www.blogger.com/atom/ns#">Contos</category><title>A grande mãe. Capítulo V: Reação.</title><description>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;a onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot; href=&quot;http://2.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SymshIZSfPI/AAAAAAAAARA/_rWsaIEttjM/s1600-h/grandemae5.jpg&quot;&gt;&lt;img style=&quot;margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 200px;&quot; src=&quot;http://2.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SymshIZSfPI/AAAAAAAAARA/_rWsaIEttjM/s400/grandemae5.jpg&quot; alt=&quot;&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5416049712078945522&quot; border=&quot;0&quot; /&gt;&lt;/a&gt;Enquanto eu avançava em direção aos dentes de Boris, me deleitava com seu semblante aterrorizado. As pupilas estavam completamente dilatadas, dando aos seus olhos um ar espectral. Seu nariz aberto borbulhava sangue, revelando uma respiração desesperada. Aquele era o segundo nariz que eu havia partido ao meio em um único dia. Era um bom saldo. Há um centímetro de seus dentes, seus olhos se fecharam e eu parei. Queria me divertir mais.&lt;br /&gt;- PUTA MERDA!&lt;br /&gt;- Que sustinho, hein?!&lt;br /&gt;- Bohr, PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXA IR!&lt;br /&gt;- Tá bom, eu te deixo ir. Deixa só eu cortar as cordas.&lt;br /&gt;- Eu sabia que ainda restava bondade em você. EU SABIA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei até a ponta inferior esquerda da mesa, peguei o machado já afiadíssimo, mirei bem a corda e, com toda a minha força, fiz o corte. Pouco abaixo do joelho esquerdo de Boris.&lt;br /&gt;- Ops. Errei.&lt;br /&gt;- AAAAAAAAAAAAAAAAH, DEUS DO CÉU! QUE DIABOS É ISSO?!?! PUTA! QUE! PARIU!&lt;br /&gt;- Desculpe. Sério.&lt;br /&gt;Não ouvi nenhuma resposta. Me aproximei de seu rosto ensaguentado.&lt;br /&gt;- Bohr... Bohr... Por tudo que é mais... Bohr... Por quê? – escorria sangue de sua boca.&lt;br /&gt;- Você não entende, não é? VOCÊ SIMPLESMENTE NÃO ENTENDE, SEU MERDA.&lt;br /&gt;- Bohr...&lt;br /&gt;- Eu não tenho absolutamente NADA a perder. Não sei quanto tempo vou durar. Um dia, um mês, um ano, um século. O futuro não pertence a mim, nem a ninguém. Deus é o caralho. Buda é a puta que pariu. Stalin que se foda. Eu só quero aproveitar o agora, o instante. Por isso, meu camarada, a pergunta que você deve se fazer não é ‘por que’, mas sim ‘rápido ou devagar’.&lt;br /&gt;- Rápido... Por favor... Rápido.&lt;br /&gt;- Resposta errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boris começou a gritar desesperadamente. Tão, mas tão alto, que seus gritos chegaram ao ponto de incomodar. Eu. Incomodado. Com gritos de dor e desespero. Muito estranho. Fui até a porta dar uma espiada em Sergey. Sentado no chão, segurava os joelhos com toda a força, chacoalhando-se para frente e para trás. Cochichava algo, parecia uma oração ou uma canção de ninar. Meus lábios se contraíram espontaneamente. Era um sorriso. Realmente muito estranho.&lt;br /&gt;Os gritos cessaram. Fechei a cara e voltei ao trabalho. Limpei o machado na camisa, caminhei até o lado direito da mesa e larguei-o sobre a perna direita. Corte perfeitamente simétrico com a perna esquerda. Eu estava ficando bom naquilo. Não houve reação sonora dessa vez. Mas, a expressão... Ah, a expressão! O horror, o horror!&lt;br /&gt;- Ô, Boris! Como eu gostaria que você visse isso. Eu pareço a porra de um cirurgião! Cara, eu sou foda.&lt;br /&gt;- Bohr... Vem...&lt;br /&gt;Atendi seu pedido.&lt;br /&gt;- Sabe o que é o mais engraçado ni-nisso? O Pai ia pa-passar a ca-cade-cadeira para você.&lt;br /&gt;Puxou o fôlego, engasgou, cuspiu sangue e continuou.&lt;br /&gt;- VOCÊ! VOCÊ, PAI! VOCÊ! VOCÊ! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As risadas ecoavam incessantemente pelo galpão. Batiam nas paredes, tropeçavam nos membros apodrecidos, mergulhavam no sangue. Mas sempre encontravam o caminho de volta aos meus tímpanos. Doía. Me senti fraco e não tive vergonha de demonstrar. E, como todo homem fraco, eu agia sem pensar. Sem aproveitar. Sem compromisso.&lt;br /&gt;A passos largos, fui até a mesa. Martelo na mão esquerda, machado na mão direita. Eu me movia como um insano. Como quem eu realmente sou. Reduzi suas duas pernas a um monte de pedaços desordenados e aleatórios. Grandes, pequenos. Triangulares, quadrados. Com o martelo, esmigalhei suas mãos e braços, até eles ganharem a consistência de gelatina. Ao fim, enlacei-os com o cuidado e o prazer que uma mãe ensina o filho a amarrar os cadarços.&lt;br /&gt;Boris não falava absolutamente nada. Só tremia e tentava manter os olhos abertos. Estava catatônico. Queria estar morto. Implorava em silêncio pela morte. Olhei no fundo dos seus olhos confusos.&lt;br /&gt;- Camarada, você não sabe o quanto é bom. Eu nasci pra isso. Eu simplesmente nasci pra isso. Eu vou desamarrar você aqui para você ver o que eu fiz. Olha, vou ser sincero com você. Acho que você é a minha obra prima.&lt;br /&gt;Desamarrei sua cabeça e puxei seus cabelos, dando-lhe uma boa visão da tragédia que ele havia se tornado.&lt;br /&gt;- Vê só. O nó perfeito nos seus braços. O mosaico que fiz com suas pernas. Por sinal, esse tal mosaico se parece bem com a nossa bandeira, né? Tudo vermelho, coisa e tal. Eu, se fosse você, estaria orgulhoso.&lt;br /&gt;Boris não movia um músculo da boca.&lt;br /&gt;- QUAL É, BORIS? NÃO VAI COMENTAR NADA? NÃO VAI ELOGIAR?! SE VOCÊ NÃO FALA, TEM BOCA PRA QUÊ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei o martelo e soquei bem no meio dos seus dentes. Em duas tacadas, seus dentes haviam desaparecido. Sua boca era um grande negro sem fim, como minhas memórias. O desmaio foi quase instantâneo. De repente, aquilo não tinha mais graça nenhuma. Olhei para minhas mãos sujas de sangue e me senti um covarde, um carnívoro filho da puta, uma madame consumidora de peles. Peguei a Magnum de Yuri no meu bolso traseiro e coloquei uma bala na cabeça de Boris. Aquele foi o meu pedido de desculpas. Envergonhado e cabisbaixo, fui até o lado de fora e me sentei ao lado de Sergey.&lt;br /&gt;- Qual o seu segredo, Sergey?&lt;br /&gt;Não houve resposta.&lt;br /&gt;- Sergey? Responde, porra. Qual o seu segredo?&lt;br /&gt;- QUE SEGREDO?! SEU DOENTE DO CARALHO! QUE SEGREDO?!&lt;br /&gt;- Como você convive dia após dia com a vergonha? Como você consegue se olhar no espelho?&lt;br /&gt;- E quem disse que eu convivo? – ele parecia disposto a ajudar.&lt;br /&gt;- Eu falo sério. Qual é. Você deve ter algum segredo.&lt;br /&gt;- Na verdade, sim.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;Sergey levantou a camisa e mostrou sua barriga. Cortes a cobriam por inteiro.&lt;br /&gt;- Sempre que termino uma faxina, eu faço isso. Pego um pedaço de vidro e vejo até onde aguento. Tento tirar a sujeira de dentro de mim. A vergonha. Essa merda toda. Adianta pouco, mas adianta.&lt;br /&gt;Cavoquei o bolso esquerdo do paletó e ainda estava lá.&lt;br /&gt;- Tá vendo isso aqui, meu chapa?&lt;br /&gt;Estendi a Sergey uma foto antiga, amarelada e corroída pelo tempo.&lt;br /&gt;- Bonita. Quem é?&lt;br /&gt;- Minha mãe. Ela é sueca.&lt;br /&gt;- É? Isso quer dizer que...&lt;br /&gt;- Sim, ela ainda está viva. Pelo menos é o que diziam as cartas dos meus irmãos, três anos atrás.&lt;br /&gt;- E por que você só olha pra ela numa foto, e não em carne e osso?&lt;br /&gt;- Ela tentou me abortar, sabe? Não conseguiu. Depois, aos cinco anos, ela tentou me trocar por um quilo de carne. Também não conseguiu. Aos nove ela tentou me matar. Por pouco obteve sucesso. Depois disso, não lembro de mais nada. Fugi. Fui pulando de reformatório em reformatório. De beco em beco. De viela em viela.&lt;br /&gt;- Essa é a pior história que eu já ouvi.&lt;br /&gt;- Pois é.&lt;br /&gt;- Então me diz por que guardar essas lembranças no bolso do paletó?&lt;br /&gt;- Não sei, ela simplesmente me dá força. Me dá uma razão para viver.&lt;br /&gt;- É. O amor é algo realmente incrível.&lt;br /&gt;- O amor, não. O ódio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://victornc.blogspot.com/2009/12/grande-mae-capitulo-v-reacao.html</link><author>noreply@blogger.com (Victor Carvalho)</author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="http://2.bp.blogspot.com/_BndnyNEsfHk/SymshIZSfPI/AAAAAAAAARA/_rWsaIEttjM/s72-c/grandemae5.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></item></channel></rss>