<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647</id><updated>2026-03-23T04:21:12.685-03:00</updated><category term="Politica"/><category term="Ideias"/><category term="Negritude"/><category term="Reportagem"/><category term="Cultura"/><category term="Entrevista"/><category term="Traducao"/><category term="video"/><title type='text'>Afroências</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>49</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-6367167651308725286</id><published>2022-02-24T12:41:00.002-03:00</published><updated>2022-02-24T12:50:34.126-03:00</updated><title type='text'>Então, optamos pela extinção da vida na Terra</title><content type='html'>&lt;p style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;img src=&quot;https://i0.wp.com/covertactionmagazine.com/wp-content/uploads/2022/02/word-image-8.png?resize=696%2C233&amp;amp;ssl=1&quot; /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Capacetes de soldados ucranianos exibem insígnias nazistas. (Fonte: &lt;a href=&quot;https://www.nbcnews.com/storyline/ukraine-crisis/german-tv-shows-nazi-symbols-helmets-ukraine-soldiers-n198961&quot;&gt;nbcnews&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Acho que temos que ter cuidado com a falsa simetria. A questão da Ucrânia vai muito além do Putin. Lembrem-se que o pacto para a reunificação da Alemanha no final dos anos 80 incluía a não-expansão da OTAN para o leste; a não-inclusão dos antigos membros do pacto de Varsóvia, que era o acordo securitário estabelecido em torno da esfera de influência da União Soviética. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o fim da União Soviética, o Pacto de Varsóvia colapsou. Acabada a contra-parte ao Leste, era de se imaginar que a Otan seguiria o mesmo rumo, certo? Washington pensou diferente. No pós-queda do muro, a Otan tornou-se efetivamente o instrumento imperial que mantém os &quot;aliados&quot; europeus vassalos de Washington. Por meio da Otan, os EUA praticamente controlam a política de defesa de países como França e Alemanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os russos nunca foram trouxas e sabiam que o Império não abdicaria de um instrumento de controle desse porte. Por isso, exigiram à época do colapso que a Otan não se expandisse ao leste, incorporando Estados membros da antiga URSS. Reagan acatou a exigência e prometeu a Gorbachev que essa expansão não aconteceria. Antes que as mãos dos dois esfriassem, a Alemanha Oriental já era membro pleno. Menos de 10 anos depois, em 97, República Tcheca, Hungria e Polônia foram incorporadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiram-se Albânia, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Macedônia. Em 2020, jogando lenha na fogueira, a Otan passou a reconhecer Bósnia Erzegovina, Geórgia e Ucrânia como aspirantes a membros. Essa é a linha vermelha para Moscou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tem razão histórica pra isso: a extrema-direita ucraniana - que tem uma linhagem direta até o Euromaidan - foi a responsável pelos principais pogroms da segunda guerra. Não é a toa que foi a partir dali que o exército nazista invadiu o território russo, num movimento que causou a morte de 27 milhões de cidadãos soviéticos entre civis e militares. Existe um trauma histórico com nazistas de suástica em riste ameaçando aquela fronteira leste da Ucrânia. Gostem ou não do Putin, os EUA estão construindo uma ameaça naquela fronteira há três décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O objetivo é simplesmente manter o controle sobre o abastecimento energético da Europa, o controle econômico da região e o consequente controle da política de defesa europeia. O gasoduto Nord Stream 2 é a gota d&#39;água porque significaria a independência da Alemanha. A Rússia não depende desse projeto de infra-estrutura, mas a Alemanha, sim. Até porque a alternativa, infinitamente mais poluente e cara, é a importação de gás de xisto, adivinha da onde? Um sorvete pra quem falou Estados Unidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, por conta desse histórico, a Rússia, com Putin ou sem Putin, não tem alternativa senão proteger o Donbas, que é 80% culturalmente russo. Não tem alternativa, como não tinha alternativa quando anexou a Crimeia, único porto de águas quentes próximo da federação, que esteve sob risco de tomada pelas forças nazistas de Kiev. O que podemos torcer não é para um lado ou outro, mas para a ação militar russa ser tão rápida e decisiva quanto foi na Crimeia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque se essa guerra se estender, os dois lados (tanto a Otan quanto a Rússia) têm protocolos para o uso de armas nucleares. Uma ogiva de 500 kg seria o suficiente para matar mais de 100 mil pessoas em qualquer uma das duas capitais na primeira meia hora, colapsar o sistema econômico e sanitário. E os dois países têm mais de 1000 ogivas desse tipo cada um. Sabe o que 300 dessas poderiam fazer, atiradas em qualquer parte do mundo? Tapar a penetração de luz solar, extinguir todas as espécies desenvolvidas nos últimos 10 mil anos e colapsar a segurança alimentar do planeta, matando a humanidade de fome. Quem diz isso não sou eu, foi o nobel da paz de 1985, &lt;a href=&quot;https://www.democracynow.org/2022/2/23/the_threat_of_nuclear_war_ukraine&quot;&gt;Dr. Ira Helfand&lt;/a&gt;, que presidiu a organização internacional dos Médicos contra a Guerra Nuclear. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/6367167651308725286/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/6367167651308725286?isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6367167651308725286'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6367167651308725286'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2022/02/entao-optamos-pela-extincao-da-vida-na.html' title='Então, optamos pela extinção da vida na Terra'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-1134785855520617204</id><published>2019-07-26T17:09:00.005-03:00</published><updated>2019-07-29T19:41:44.639-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Cultura"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><title type='text'>&quot;O Rei Leão&quot; e a luta de classes</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;img alt=&quot;https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/2/23/LionKingCharacters.jpg&quot; height=&quot;224&quot; src=&quot;https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/2/23/LionKingCharacters.jpg&quot; width=&quot;400&quot; /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juca Kfouri postou uma piada em seu &lt;a href=&quot;https://blogdojuca.uol.com.br/2019/07/qualquer-semelhanca-e-mera-coincidencia/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;blog no UOL&lt;/a&gt;: &quot;Recorrendo a mentiras e traições, um velhaco covarde chega ao poder, convoca uma equipe de hienas para auxiliá-lo em seu desgoverno e em tempo recorde destrói todos os recursos naturais do território que comanda. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: left;&quot;&gt;
Calma, gente: é só a sinopse de &lt;i&gt;O Rei Leão&lt;/i&gt;.&quot;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
De fato, há uma semelhança divertida com a ascensão do bolsonarismo. Mas a piada do Juca me inspirou a analisar um pouquinho mais a fundo as relações de classe dentro de &quot;O Rei Leão&quot;. E para fazer isso dentro de uma perspectiva marxista, há um livro incontornável, publicado em espanhol por Armand Mattelart, em 1971. Chama-se &quot;Para ler o Pato Donald&quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nele, o sociólogo belga explica que &quot;O imaginário infantil é a utopia política de uma classe. Nas historinhas da Disney, nunca se encontrará um trabalhador ou um proletário, ninguém jamais produz nada industrialmente. Mas isso não significa que a classe proletária esteja ausente. Pelo contrário: está presente atrás de duas máscaras, como bom-selvagem e como lúmpen-criminoso. Ambos personagens destroem o proletariado como classe, mas resgatam dessa classe certos mitos que a burguesia construiu desde seu surgimento para ocultar e domesticar seu inimigo, para evitar a solidariedade [de classe] e fazê-lo funcionar fluidamente dentro do sistema, participando de sua própria escravização ideológica&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Concordo com a entrelinha do Juca, Scar é um líder carismático de traços fascistoides. E, como qualquer líder fascista, ele explora o ódio de classe do lúmpen-criminoso e reorienta esse ódio para um bode expiatório. No caso de &quot;O Rei Leão&quot; - e essa é a inversão fundamental em relação ao fascismo real - o bode expiatório não é o elo mais fraco da corrente (o imigrante, o judeu, o muçulmano etc.), mas a antiga classe dominante. Ou seja, o fascismo do filme não oprime o proletariado; ele é encampado pelo lúmpen-criminoso para oprimir a burguesia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa submissão temporária que a classe dominante sofre pela intentona fascista justifica o restabelecimento do domínio burguês sobre o resto da sociedade. Dentro do filme, a única alternativa à opressão fascista é a retomada da opressão burguesa, que, em &quot;O Rei Leão&quot;, se traveste de &quot;justiça&quot;. A trama macro-estrutural é, então, a história da restauração das posições pré-definidas de classe, que é eufemisticamente chamada de &quot;círculo da vida&quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os leões são um &quot;povo escolhido&quot; e o filme legitima sua dominação &quot;natural&quot; por sua superioridade moral, não pela exploração dos demais. Claro que isso só é possível porque, radicalmente anti-marxista como qualquer produção Disney, a trama elimina da equação um elemento fundamental das relações de classe no mundo real, que é o trabalho. Como não há extração de mais-valia, não há exploração. Sem trabalho, o restante do proletariado (o bom-selvagem encarnado por Timão, Pumba e sua turma) não vive sob a opressão dos leões, mas numa eterna orgia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim, qualquer ideia de revolução se torna absurda. A única justificativa para uma restruturação das relações do poder é o ressentimento de quem não tem a mesma qualidade moral da classe dominante. Esse caldo ideológico penetra o espírito do espectador porque, como diz o Mattelart, &quot;o imaginário infantil é a utopia política de uma classe&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quer dizer, ainda que seja divertida a piada do Juca - e faz sentido cômico, eu ri - uma análise mais profunda do filme acaba inviabilizando a metáfora do momento contemporâneo, simplesmente porque &quot;O Rei Leão&quot; é um produto burguês. E, como tal, ele vende a justificativa da existência da classe dominante. Você, que vai ao cinema ver &quot;O Rei Leão&quot;, vai chorar pelo Simba, vai rir de Timão e Pumba, vai se divertir. Afinal, é incrível a capacidade da burguesia, conquistada em séculos de colonização cultural, de ganhar nossa empatia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas, no fundo no fundo, &quot;O Rei Leão&quot; é o opressor mais uma vez fazendo o oprimido aceitar sua própria desgraça. Ou, nas palavras de Mattelart, participar da nossa &quot;própria escravização ideológica&quot;.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/1134785855520617204/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/1134785855520617204?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1134785855520617204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1134785855520617204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2019/07/o-rei-leao-e-luta-de-classes.html' title='&quot;O Rei Leão&quot; e a luta de classes'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-1796553537382514422</id><published>2018-11-21T13:01:00.002-02:00</published><updated>2021-05-04T22:33:10.105-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Quanta desigualdade somos capazes de tolerar?</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9-bcXSHeTd9oL0eMOC2yZTeTXi1_o_cP4U6dozi36fDYo_d1DOamBH1Q3kevOeTLq9uB-eY9pW4OW3sCuXiq5xTEZz8CiXBOb876PJp-s2XdE-rTsXs-tQ-pIVTiZTDFk1nNlKsjlbbY/s1600/desigualdade.jpg&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1424&quot; data-original-width=&quot;1142&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9-bcXSHeTd9oL0eMOC2yZTeTXi1_o_cP4U6dozi36fDYo_d1DOamBH1Q3kevOeTLq9uB-eY9pW4OW3sCuXiq5xTEZz8CiXBOb876PJp-s2XdE-rTsXs-tQ-pIVTiZTDFk1nNlKsjlbbY/s640/desigualdade.jpg&quot; width=&quot;512&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;&lt;i&gt;Cartoon contemporâneo à Revolução Francesa mostra o Terceiro Estado (proletariado) carregando a nobreza e o clero nas costas. Na legenda: &quot;Resta esperar que este jogo termine logo&quot;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;Para começar a
falar de desigualdade, é preciso determinar honestamente qual nível de
desigualdade estamos dispostos a tolerar. Em termos bem genéricos e
reducionistas, o nível de tolerância com a desigualdade econômica me parece ser
a diferença teórica fundamental entre a esquerda social-democrata e a
revolucionária. Os dois lados concordam que a desigualdade é estruturante do
capitalismo e está inscrita na sua história. Ou seja, nenhuma das duas
correntes esquematicamente hegemônicas da esquerda acredita que as
desigualdades possam ser eliminadas dentro de uma sociedade capitalista. Isso
nos coloca uma pergunta, anterior à definição da estratégia de combate à
desigualdade, seja ela qual for: no nosso horizonte utópico, somos pela redução
da desigualdade ou pela eliminação das estruturas de reprodução sistêmica da
desigualdade?&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;URSS, Angela Davis e a síndrome da moldura estreita&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O sistema está
em colapso. Mesmo assim, como diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek no
documentário &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Zizek! &lt;/i&gt;(2005) da
diretora canadense Astra Taylor, hoje imaginamos com mais facilidade o fim da
vida na Terra do que o fim do capitalismo. Do lado da esquerda, isso pode ter a
ver com o trauma da queda do muro de Berlim: talvez, tenhamos aderido
facilmente ao discurso conservador que assimilava o fim da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas ao fim do próprio socialismo. Como se tivéssemos engolido,
por osmose, a ideia do fim da história da escola de Chicago (por mais falha que
fosse do ponto de vista conceitual) e aceitado passivamente a redução do nosso
campo político à função de porteiro do edifício capitalista. Seríamos os
administradores preferenciais desta estrutura decadente e lutaríamos para que
mais gente conseguisse alugar seus quartinhos, abandonando completamente a
ideia de derrubar o prédio inteiro e usar o terreno baldio para abrigar todo
mundo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Em outras
palavras, deixamos de lado a perspectiva revolucionária – nosso horizonte utópico – para aceitar, com pragmatismo irracional, a ideia de
que a reforma perene gradualmente transformaria o capitalismo em algo mais
humano. A ruptura saiu de nosso &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;ethos &lt;/i&gt;político
e passamos a ver a história (ou pós-história em nossa sanha fukuyamesca) através
de uma lente positivista, como um processo progressivo contínuo. Para piorar,
ao aceitar a ideologia que assimilava a queda do muro ao fim da luta de classes,
parecemos ter passivamente nos investido, enquanto campo político, de uma culpa
católica pelo que houve de pior no stalinismo. Como se, humilhados pela derrota de uma
primeira experiência contemporânea inspirada em nossa perspectiva utópica, houvéssemos
encampado a série de analogias banais e empiricamente insustentáveis da Hannah Arendt: Stalinismo
= União Soviética = Socialismo = Nazismo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;A aceitação desta
radical redução epistemológica, deste logocídio&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn1&quot; name=&quot;_ftnref1&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn1;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 11pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;
dos conceitos históricos relacionados à construção política da esquerda, nos
torna presa fácil da propaganda neoliberal mais rasteira. Ficamos obrigados a
reagir, de forma também propagandista, dentro de um terreno lógico
propositadamente esvaziado de sentido. Ao invés de defender, de maneira crítica
e dialética, os avanços direta ou indiretamente decorridos da Revolução Russa –
desde a humanização panfletária da exploração capitalista sob Bretton Woods e o
Plano Marshall até a descolonização maciça da África negra pela via
revolucionária –, passamos a disputar o texto que ilustra a lápide da nossa
utopia. Talvez o fato de o campo progressista ter encampado a fragilíssima tese
do fim da história (sequer na perspectiva hegeliana, mas de Francis Fukuyama mesmo) seja
a grande vitória ideológica da direita pós-1989.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ainda que a
abundância de suposições confira a estes últimos parágrafos um tom de psicologia
social de botequim, é difícil não enxergar a nítida dificuldade do campo da esquerda
hegemônica em se desamarrar do que é lícito e possível dentro da lógica da
social-democracia representativa burguesa. É emblemático que, em seu livro mais
recente (&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Freedom is a constant struggle: Ferguson,
Palestine and the foundations of a Movement&lt;/i&gt;), a filósofa, professora e
ativista Angela Y. Davis reflita exaustivamente sobre a denominação “Movimento
pelos direitos civis” para se referir à ebulição social promovida pelos negros
estadunidenses nos anos 60. Em determinado trecho do livro, depois de defender
o Programa de Dez Pontos do Partido dos Panteras Negras&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn2&quot; name=&quot;_ftnref2&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn2;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 11pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;
como principal resumo das demandas populares daquela era, Davis comenta o
“desenvolvimento dialético do movimento de libertação negra”: “Existe este
movimento pela liberdade e, depois, uma tentativa de estreitá-lo para que caiba
em uma moldura muito menor, a moldura dos direitos civis. Não que direitos
civis não sejam imensamente importantes, mas liberdade é algo muito mais
expansivo que direitos civis” (DAVIS, 2016:71-2). &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Hoje, parece que
toda nossa construção ideológica enquanto campo político sofre desta “síndrome
de encolhimento da moldura”. Aceitamos a existência de um muro imaginário que
estreita a tal ponto nossa visão que não enxergamos mais utopia no horizonte. E
não é apenas do ponto de vista da ação. Via de regra, desde que colapsou a
União Soviética, não nos atrevemos sequer a &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;pensar&lt;/i&gt;
em termos revolucionários. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;É um paradoxo
terrível: pactuamos a desigualdade como empecilho central ao desenvolvimento
humano; aceitamos que, dentro deste sistema político e econômico, não existe perspectiva
de eliminação das desigualdades; mas não topamos discutir a derrubada do
sistema, porque a desestruturação de seus preceitos básicos está fora da
moldura artificial que nos foi imposta. Aceitamos a moldura por uma razão
exógena, moralista, que é a resignação dos derrotados numa batalha histórica pela
hegemonia política. Como se, com a queda do Muro de Berlim, assumíssemos uma
dívida sagrada com a humanidade, que só pode ser paga com um voto de silêncio
ideológico. Nosso medo de destruir a moldura – hoje, gravemente danificada,
não por ação nossa, mas pela insustentabilidade inerente ao&amp;nbsp; capitalismo –
nos leva a optar por eliminar de nosso vocabulário político a ideia de acabar
com todas as desigualdades. Enquanto a base da pirâmide afunda sob uma ofensiva
classista do topo e a desigualdade explode a níveis genocidários, naturalizamos
a disparidade de gênero, raça e classe ao defender “redução de desigualdades”. Tornamo-nos,
nós também, logocidas disputando uma mimese publicitária de nossas bandeiras
históricas, quando deveríamos nos dedicar a encontrar caminhos intelectualmente
honestos de aprofundar a democracia, contra a qual o capitalismo em crise
declarou guerra aberta, e pautar à esquerda a implosão do sistema.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;É necessário defender
claramente e agir para a promoção da diversidade e da inclusão política,
democrática e anticapitalista em todos os níveis, como caminho de acabar com as
desigualdades, de todas as ordens. Além de me parecer que o combate inegociável
à desigualdade seja o valor fundamental que nos une sob a bandeira da esquerda,
acredito que temos a oportunidade histórica, oferecida pela crise sistêmica
corrente, de radicalizar essa luta. Talvez seja hora de idealizar outro
mecanismo de mediação primária das relações humanas, diferente do dinheiro.
Diante do colapso do inimigo, é fundamental formarmos o repertório ideológico
para dar novo sopro de vida à utopia anticapitalista.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Caso contrário, nos
sobrará, se muito, um cargo de gerência do pós-capitalismo distópico proposto
pela direita. E, como costuma dizer o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis
Varoufakis, o épico apocalíptico &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Matrix &lt;/i&gt;parecerá
um documentário.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O mito de Adam Smith e o dinheiro como
sistema de opressão&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Adam Smith
imaginou uma sociedade baseada na barganha quando escreveu, que “não é da
benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso
jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses” (SMITH,
1996:50). Lembrando a historinha: José assava pão, mas queria sapato. João
produzia sapatos, mas queria peixe. E Pedro pescava, mas queria pão.
Basicamente, para possibilitar essa troca de interesses desiguais entre iguais
(membros de uma mesma comunidade), criou-se o dinheiro. Verdade? Pouco
provável... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Antropólogos
como o intelectual orgânico do Occupy Wall Street, o anarquista David Graeber,
constataram que esse tipo de relação de troca pautada na equivalência simbólica
de mercadorias diversas não existe em nenhuma sociedade pré-capitalista contemporânea.
E isso é indício de que essa sociedade provavelmente nunca existiu, já que a
troca nos termos smithianos pressupõe uma concepção mercadológica liberal
prévia. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Para viabilizar
seu comércio, os hipotéticos José, Pedro e João precisariam viver numa sociedade
em que já existissem: a) a operação mental de conversão da dívida em moeda; b)
a primazia do interesse particular do indivíduo sobre o interesse coletivo; c)
a radical especialização individual, que leva à atomização do trabalho, d) a existência
de uma lógica de troca que se sobreponha à lógica da doação de presentes (que,
como demonstra Graeber, a Antropologia constata ser muito mais comum nas relações
humanas). &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Em outras
palavras, a sociedade pré-liberal descrita por Adam Smith não é pré-liberal:
ela já tem o dinheiro operando como mediador das relações sociais; já é uma
sociedade de mercado, o que é muito diferente de uma sociedade com mercados
(GRAEBER, 2011:21). &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Graeber mostra
que o dinheiro não surge na relação entre vizinhos, amigos, aliados; neste tipo
de contexto comunitário, a ideia de retribuição é esdrúxula por si só. Entrego o
pão que sobra da minha refeição a meu vizinho não porque espero ganhar o
próximo sapato que ele produzir, mas simplesmente porque o pão sobrou. O
dinheiro, defende Graeber, é filho da desconfiança e da guerra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Por exemplo, o
soldo em metal era fornecido pelo Império Romano aos soldados em províncias
longínquas por duas razões simples: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;ol&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Como propaganda
política dos imperadores e generais que imprimiam seus rostos na moeda;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;como forma de
manutenção simbólica da propriedade dos soldados em terra estrangeira; o dinheiro funcionava como título precatório de propriedade em solo romano. E, por
isso, uma vez posto em circulação, ganhava rapidamente caráter especulativo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ol&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Se o mundo
antigo fosse uma sociedade de mercado, Adam Smith não teria escrito sobre a
barganha do padeiro com o sapateiro, mas sobre a crise do subprime em 76 a.C.,
quando a Gália tivesse tentado recuperar os títulos do Tesouro romano em
propriedade do exército ocupante. Quer dizer, o dinheiro nunca foi uma
commodity, ele sempre foi uma promessa de pagamento. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ao desconstruir o
mito de Adam Smith, Graeber defende que a dívida nasce das relações hostis
entre desiguais (ocupante e ocupado, opressor e oprimido etc.) e se materializa
no dinheiro. A dívida é, portanto, anterior ao dinheiro, que funciona como
ferramenta de dominação e não como um mecanismo de abstração de valores,
encarregado de gerar equidade entre interesses díspares numa relação amistosa de
troca. Resumindo, para Graeber a origem da desigualdade econômica está no
próprio dinheiro enquanto ferramenta de geração de dependência. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Hoje, atalhando
irresponsavelmente a longa história do capitalismo, depois do
metalismo, da comodificação dos corpos humanos no ciclo da escravidão capitalista
transatlântica, do fim do lastro do dólar e, mais recentemente, da reação
classista das elites político-econômicas à crise de 2008, parece que temos a
volta da dívida a essa condição etérea, pré-monetária. Quando ficou claro o
caráter estrutural da última crise e a política foi sequestrada pelas elites
financeiras, abriram-se as portas para uma inédita radicalização do processo de
financeirização que, de acordo com o economista grego Costas Lapavitsas, restruturou
profundamente o &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;modus operandi &lt;/i&gt;de
empresas, bancos e até da economia doméstica. Pesadas medidas de desarticulação
da produção e do trabalho deram protagonismo econômico sem precedentes ao
rentismo e ao extrativismo financeiro, gerando uma explosão de desigualdade de
renda.&lt;span style=&quot;mso-spacerun: yes;&quot;&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Conforme o
capital concentra a maioria dos esforços em sua própria reprodução, levando a atividade produtiva e, consequentemente, o
emprego à quase obsolescência, o dinheiro fica cada vez mais abstrato. Se desde 1971 ele já havia
perdido o lastro em qualquer coisa física, com a radicalização do processo de
financeirização, o dinheiro (entendido como ferramenta de manutenção da
opressão por meio da geração de dívidas injustas entre desiguais) está nu: ele
é dívida pura, lastreada única e exclusivamente no valor moral que a gente
atribui à dívida. Quer dizer, hoje mais do que nunca, ele é um sistema de
crença. Uma dívida deve ser paga não por ser lógica ou justa, mas por ser moralmente
sagrada.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Como chegamos a
este ponto? Como chegamos ao ponto de achar moralmente aceitável, no mundo
inteiro, que o Haiti siga pagando com carne humana por sua independência
revolucionária? Ou que a dívida externa de países colonizados, expropriados
contínua e violentamente há cinco séculos, seja natural? Por que achamos normal que
a Grécia seja estrangulada por tentar renegociar sua dívida, se até a
da Alemanha nazista foi anistiada? Talvez tenha a ver com o fato de
que o dinheiro é dívida pura e, do ponto de vista da psicologia social, a
materialidade do capital esteja fragilizada. Como se o grande capital,
consciente da inédita intangibilidade do dinheiro, tenha constatado que qualquer
recuo com relação à moralidade da dívida possa abalar sua hegemonia sobre a
psicologia social. Afinal, uma vez que o capital perdeu sua racionalidade e nos
empurra ao colapso econômico, social, político e ambiental, sua única tábua de
sustentação é a irracionalidade da crença em sua inexorabilidade. O discurso
ideológico tatcheriano de que “não há alternativa” é o que sustenta o capitalismo
em sua fase mais irracional e suicida. Não à toa, do fundamentalismo religioso –
islâmico ou sua imagem espelhada cristã – ao negacionismo do aquecimento
global, as ideologias que mais crescem no mundo contemporâneo são
apocalípticas. &lt;span style=&quot;mso-spacerun: yes;&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;A parcela da esquerda
que abdica da ideia de ruptura, transforma suas bandeiras em logomarcas
eleitoreiras e se rende passivamente à filosofia do fim da história entra
também num &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;ethos &lt;/i&gt;apocalíptico. E
pior, perde a oportunidade que emerge deste &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;frame&lt;/i&gt;
da história da sacralização do mercado como fiador da aristocracia burguesa:
enfrentar a naturalidade da dívida imposta ideologicamente pelas eternas elites
aos eternos oprimidos. Enfrentar, enfim, a utilidade social dos cunhadores de
moeda, que abdicaram da parede ideológica construída pela materialização do
dinheiro e investem todo seu trabalho e capital político na manutenção da
teologia da dívida. Enfrentar ideologicamente, a ideia autoritária de que
nascemos devedores; essa ideia fundamental que estabelece a desigualdade como
natural. Radicalmente falando, enfrentar a desigualdade depende de enfrentar a
ideia de dívida e sua materialização, o dinheiro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Mas como fazer
isso se abdicamos até da existência da luta de classes? Neste barco, estamos
sozinhos. Desde 2008, o inimigo mostrou sua verdadeira face e assumiu a
vanguarda da luta de classes. Os indícios estão no pano
de fundo de todas as decisões político-econômicas que se seguiram ao colapso do
sistema. Por mais diversas que fossem as justificativas ideológicas por trás
das chamadas medidas de austeridade fiscal (talvez “medidas de desintegração
social” fosse um nome mais adequado) aplicadas mundo afora no pós-2008, elas
efetivamente beneficiaram os perpetradores do caos ao reorientar a verba do
Estado ao topo da pirâmide e destruir (na prática e ideologicamente) o estado
de bem-estar social; atacaram frontalmente a classe trabalhadora ao acelerar o
desmantelamento do próprio trabalho e, consequentemente, estimular ideologias
políticas tóxicas; reduziram o Estado à função de aplicador do monopólio da
violência; criminalizaram e esvaziaram a representatividade política; centralizaram
as principais decisões políticas em órgãos não-eleitos, reduzindo a efetividade
e o valor da democracia na psicologia da sociedade; criminalizaram a pobreza e
a diversidade; reforçaram cartéis e a formação de monopólios nas atividades produtivas...
&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Poderíamos
elencar por páginas e mais páginas as consequências nefastas desta
contrarrevolução classista coordenada globalmente. Mas vamos nos concentrar no
aprofundamento radical da desigualdade econômica e em seu efeito na psiqué de
nossa era. Não é a toa que a palavra distopia, há meros cinco anos, uma completa desconhecida, se proliferou no vocabulário dessa segunda década do século XXI: as elites que, durante a
Guerra Fria, articularam ideologicamente a utopia liberal de ascensão social
por meio da ideologia meritocrática, hoje assumem abertamente que, dentro deste
sistema, o mundo é pequeno demais para todos nós. Entre mudar o sistema e
reduzir a quantidade de gente no mundo, elas optam claramente pela segunda
alternativa. E essa tática de extermínio acontece por meio da cobrança da
injustificada mas sagrada dívida dos pobres com os ricos, tanto na esfera
individual quanto na geopolítica.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Por que a Grécia
do Syriza foi pisoteada e humilhada pela Troika (Banco Central Europeu,
Comissão Europeia e FMI) ao tentar, timidamente, renegociar sua dívida
pública em 2015? Por uma questão puramente ideológica. O liberal John Maynard Keynes deve
ter se revirado no túmulo ao ver sua filosofia econômica rotulada de
“extremista” quando levada a Bruxelas pelo então chefe das Finanças gregas, o já
citado Yanis Varoufakis. No livro que lançou recentemente, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Adults in The Room&lt;/i&gt;, Varoufakis conta uma história reveladora do
compromisso ideológico das elites contemporâneas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Cansado, com dor
de cabeça, o ministro fez uma pausa pro café, depois de argumentar por cinco
horas com os credores que os bancos públicos gregos deveriam manter o controle
sobre a emissão de títulos da dívida soberana – função que a Troika queria transferir para Luxemburgo, um
paraíso fiscal –; que a força de trabalho pública não poderia ser cortada em
dois terços; e que o setor produtivo não poderia se converter num duto de
capital para o exterior por meio de uma política desenfreada de privatizações.
Quem o acompanhou para fora da sala foi o outro lado moderado da negociação,
Christine Lagarde.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Em um atentado
sincericida, a diretora-geral do FMI confessou que Varoufakis tinha razão: o
receituário da Troika carecia de racionalidade econômica, afundaria a Grécia em
recessão e inviabilizaria qualquer restruturação econômica, enterrando a
possibilidade de Atenas quitar sua dívida externa. Mas que o capital político
investido naquele receituário irracional era alto demais para que qualquer um
na sala recuasse. Foi quando o ministro grego se deu conta de que ele talvez
fosse o primeiro devedor da história a tentar pagar uma dívida a um credor que
não queria receber. O que estava em jogo era a manutenção da estrutura de
poder, por mais irracional que fosse. Estava em jogo a sinalização de Berlim a
Paris de que não haveria espaço para ideias minimamente emancipatórias em cabeças portuguesas, irlandesas
e espanholas. Que o cartel que formou a união monetária manteria sua forma de
cartel e não cederia a uma aventura democrática (VAROUFAKIS, 2017:28-30).&lt;span style=&quot;mso-spacerun: yes;&quot;&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Essa historinha
ilustra como as oligarquias, frente a uma crise sistêmica sem perspectiva de
fim, rifaram a própria lógica em nome de sua própria sustentação. Há prova
maior de que o mercado e a mão divina do Adam Smith são um sistema de crença? Como
disse um amigo economista de cerveja em riste, dificilmente os
historiadores do futuro chamarão de “capitalismo” isso que a vivemos hoje. Isso
aqui não é mais capitalismo porque carece dos preceitos ideológicos básicos
daquele finado sistema econômico: mito da ascensão social, mercado
auto-regulado, venda do trabalho em troca de mais-valia, centralidade econômica
do setor produtivo... Tudo isso evaporou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;A ascensão
social só acontece (moderadamente) entre classes médias. De um certo patamar
para cima ou para baixo, a sociedade é estamental, da Arábia Saudita aos Estados Unidos. O mercado é mais dependente do que nunca do Estado que, no pós-2008,
salvou o setor financeiro em detrimento do produtivo e, consequentemente, da
população. O trabalho é cada vez menos vendável, não apenas porque a
automação já substituiu a maior parte da base braçal e ameaça o setor
secundário, mas porque não há mais burguesia exploradora: com a
pulverização das companhias em sociedades anônimas, até o CEO é um funcionário.
Logo, não existe mais possibilidade de expropriação dos meios de produção. A
produção não é nem proprietária nem central na geração de lucro do sistema. A
ideia de comum ganhou penetração na sociedade, mas apenas entre as elites
econômicas. As S/As são propriedades compartilhadas dos meios de produção, que
ironia.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Necroeconomia: inempregáveis crônicos como lenha para
a fogueira do capital&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ou seja, o
inimigo já percebeu que estamos no pós-capitalismo. E está determinado a
ressuscitar patamares de desigualdade anteriores ao primeiro sistema de
organização econômica global a permitir o sonho da ascensão social. Com uma
diferença: desta vez, a base da pirâmide não tem função produtiva. Pelo
contrário, para que o sistema se autorreproduza em sua lógica cumulativa, para
que o lucro privado continue a guiar o desenvolvimento humano em seu desprezo
profundo pela finitude dos recursos naturais, é necessário reinventar a
existência econômica – e física – da maior parte da população. Talvez, nos
estertores do capitalismo, estejamos entrando na era da necroeconomia,
parodiando a necropolítica de Achille Mbembe. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Alguns indícios
da criatividade perversa das oligarquias para a sociedade pós-trabalho já podem
ser vislumbrados mundo afora. Um dos mecanismos de reciclagem econômica de quem
não cabe mais em nenhum ciclo produtivo é o complexo industrial prisional – que
a jurista negra estadunidense Michelle Alexander chama inteligentemente de
“nova Jim Crow”, em referência à lei de segregação racial que deu sobrevida à
escravidão no sul dos Estados Unidos.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Depois de
comentar o lucro recorde em 2008 da Corrections Corporation of America (CCA), a
principal administradora privada de presídios no mundo, Alexander lista os
setores que se beneficiam diretamente da explosão da população carcerária:
“Além das empresas privadas de administração carcerária, uma ampla gama de
exploradores do sistema prisional ficará órfã se o encarceramento em massa
recuar, incluindo as empresas de telefonia que extorquem as famílias dos
detentos cobrando presos exorbitantes para que se comuniquem com seus entes
queridos; fabricantes de armas que vendem rifles e pistolas não-letais para
carcereiros e policiais; prestadoras de serviços de saúde contratadas a valores
superfaturados pelo Estado para fornecer (parca) assistência médica aos presos;
o exército americano, que explora a força de trabalho dos detentos na fabricação
de equipamento militar para os soldados no Iraque; corporações que utilizam o
trabalho dos presos para evitar pagar salários dignos; e os políticos,
advogados e banqueiros que negociam as construções de novos presídios em
comunidades rurais predominantemente brancas – em acordos que prometem muito
mais do que entregam. Todos esses interesses políticos e corporativos apostam
todas as fichas na ampliação do encarceramento em massa” (ALEXANDER, 2010:231),
como forma de reciclagem daqueles que são economicamente inviáveis na atual
etapa de desenvolvimento do capitalismo financeirizado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ou seja, não
falamos só da volta da escravidão capitalista, a primeira modalidade de
servidão a reduzir corpos humanos a commodities. Falamos de uma evolução
conceitual da coisificação: se na era do metalismo, o corpo humano tinha um
peso em ouro (era lastreado em um objeto), na era da desmaterialização completa
da economia, o corpo se torna capital especulativo. A escravidão contemporânea
é baseada na coisificação sem coisa – o que deixa o ser humano mais descartável
do que nunca. A expectativa de encarceramento e, portanto, de geração de lucro
sobre a massa inempregável, economicamente morta, impacta as projeções das
empresas. Isso significa que, para que a promessa da geração de valor sobre o
corpo humano se concretize, é preciso projetar um prazo para que este corpo
torne-se produtivo, uma data de expiração no título de ganho futuro com o
trabalho escravo do preso. Em outras palavras, o lucro de hoje depende de metas
de quando e quanto se prenderá no futuro.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Isso obriga as
empresas envolvidas na especulação sobre o encarceramento em massa a se engajar
na caça ativa do lastro humano para os &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;subprimes&lt;/i&gt;
da nova escravidão. Não é a toa que a Califórnia tornou-se a Meca da privatização
carcerária: está colada no safári dos futuros presos. Cresce de forma alarmante
o número de pessoas que cumprem pena de até cinco anos em regime fechado por
reincidência no crime de tentativa de imigração ilegal para os Estados Unidos.
Latino-americanos recuperados pela polícia de fronteira ou por milícias
(privadas ou comunitárias, formadas por justiceiros) são entregues ao
Judiciário, que deporta os primários e coloca a barganha sobre a mesa dos
reincidentes: cumprir pena reduzida ou encarar, em solo estrangeiro com
advogado fornecido pelo inimigo, o peso completo da lei, que pode significar
até 30 anos de reclusão. Claro que a maioria aceita cumprir a pena menor e,
ironicamente, fazer exatamente o que sonhava fazer ao tentar a travessia:
trabalhar. Só que por um salário abaixo do preço de mercado e que, ao invés de
ser usado para construir um futuro melhor, servirá para financiar os custos de
sua própria deportação. Transformar mão-de-obra imigrante em capital escravo
especulativo. Esse é novo American Way de enfrentar a crise migratória.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Outra forma de
reciclagem do inempregável crônico (o termo “precariado”, ainda que útil para
definir quem não cabe mais nos mercados formais de trabalho, pode vir a soar
eufemista caso se concretizem os planos do sistema para a base da pirâmide) é a
indústria da morte, que pode ser um bom guarda-chuva para abrigar os setores
químico-farmacêutico e armamentista. O funcionamento dessa última dispensa
grandes explicações. Basta olhar para os brinquedos voadores de Barack Obama
&lt;a href=&quot;http://www.nytimes.com/2008/11/05/world/asia/05iht-afghan.3.17553439.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;explodindo um casamento no Paquistão&lt;/a&gt;
ou um &lt;a href=&quot;https://theintercept.com/2016/03/08/nobody-knows-the-identity-of-the-150-people-killed-by-u-s-in-somalia-but-most-are-certain-they-deserved-it/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;vilarejo na Somália&lt;/a&gt;;
para a relação do &lt;a href=&quot;https://www.thenation.com/article/blackwaters-buine/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Pentágono com a empresa de mercenários Blackwater&lt;/a&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn5&quot; name=&quot;_ftnref5&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn5;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;/a&gt;
(&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;rebranded &lt;/i&gt;Academi por excesso de
crimes de guerra) que não se abala por mais escabrosas que sejam as denúncias
de abuso de direitos humanos por seus funcionários; para a impressionante &lt;a href=&quot;https://theintercept.com/2014/09/25/defense-contractors-making-killing/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;curvaascendente no valor acionário da fabricante de armamentos Lockheed Martin&lt;/a&gt;
desde o início da chamada “Guerra ao Terror”; para a reclassificação
mercadológica dos equipamentos de controle de massas como as bombas de gás
lacrimogêneo e as balas de borracha de “armas de baixa letalidade” para
“não-letais”&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn7&quot; name=&quot;_ftnref7&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn7;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 11pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;; ou
para a curiosa tolerância ocidental com a Arábia Saudita, cujas diferenças para
o autoproclamado Estado Islâmico não vão muito além da vestimenta tradicional,
do fato de ter conseguido se constituir como estado e de ter se tornado o
principal comprador de armas do mercado internacional&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn8&quot; name=&quot;_ftnref8&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn8;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 11pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Em alguns
momentos da história, farmacêutica-química-bélica nem precisaram do mesmo
guarda-chuva, eram uma coisa só. A gente esquece que a Monsanto foi a
fabricante do agente laranja, arma química de produção baratíssima, que
transformou o sudeste asiático num &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/environment/2012/feb/24/monsanto-agent-orange-west-virginia&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;showroomde graves deformações genéticas&lt;/a&gt;.
Ou que, em 1942, o CEO da Monsanto &lt;a href=&quot;http://www.nytimes.com/1982/03/31/obituaries/charles-thomas-ex-chairman-of-monsanto.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Charles Allen Thomas&lt;/a&gt; chefiou o Manhattan
Project, pesquisa do Pentágono que culminou em Hiroshima e Nagasaki.
Não é a toa que, no mundo da guerra permanente, quando a indústria bélica perde
qualquer amarra ética ou política formal, quando recomeçam os testes com armas
químicas em Estados devastados como Síria e Líbia, a Monsanto está em vias de
ser &lt;a href=&quot;http://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/10/epoca-negocios-superintendencia-geral-do-cade-recomenda-impugnacao-de-compra-da-monsanto-por-bayer.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;comprada pela gigante farmacêutica alemã Bayer&lt;/a&gt;. Uma empresa que pesquisa
curas compra outra que gera doenças – e o Cade preocupado com o risco à
concorrência&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftn11&quot; name=&quot;_ftnref11&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn11;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;/a&gt;.
Ou seja, o que se prepara para o próximo capítulo da guerra de classes é um
recorte financeiro para determinar quem tem ou não o direito de viver. Basta
lançar a doença e determinar o preço da cura. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Fazer as pazes com a luta de classes e enfrentar a
guerra declarada pelas elites&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Talvez esses
acontecimentos sejam indícios de um movimento tectônico na história da luta de
classes e, consequentemente, da desigualdade. Retomando de forma esquemática,
os fatores macroscópicos que permitem essa leitura são:&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;ol&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;A reação classista
das democracias liberais à crise de 2008, quando governos de plataforma
humanista, liberal e social-democrata optaram por rifar o povo e salvar o poder
financeiro por meio da auto-intitulada austeridade fiscal – que de austera não
tem nada, já que saca recursos de setores com potencial de desenvolvimento
econômico e social para atirá-los no setor financeiro, o menos seguro de toda a
economia;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O consequente descrédito da democracia representativa, seu
enfraquecimento deliberado e derradeiro sequestro pelas elites econômicas;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O
inteligente apoio dessas elites a plataformas anti-humanas, anti-políticas, abertamente
fascistas, que encontram bodes expiatórios de todos os males do capital entre as
parcelas mais vulneráveis da população e prometem mudar tudo para deixar tudo
igual;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;A ressignificação ideológica da escravidão e do genocídio como
valores – repaginados, lógico, com nomes mais &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;market-friendly&lt;/i&gt;.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ol&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Em suma, as elites vêm com tudo para tentar vencer
a guerra encolhendo a população planetária para não ter que encolher o ritmo de
sua geração de lucro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Uma política
incapaz de enfrentar a ideia de que o lucro deva ser o motor da atividade
humana é uma política intrinsecamente tóxica, incapaz de enfrentar seu próprio
sequestro pelo poder financeiro. O inimigo está em guerra e a arma dessa guerra
é o aprofundamento genocida da desigualdade. E nós? Estamos em guerra? Ou vamos
deixar com eles o monopólio da violência?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Uma de nossas principais missões em um
mundo que se tornou irracional, no qual as elites admitem a inviabilidade do
sistema com determinação sanguinária, é demonstrar com todas as forças a
irracionalidade desse sistema e lutar para implodir os templos em que se cultua
o Deus-Mercado, como dizia o saudoso sonhador Eduardo Galeano. No plano das
instituições internacionais, esses templos são claros: paraísos fiscais e os
tribunais de arbitragem, respectivos mecanismos financeiro e jurídico da
financeirização.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Se algum dia voltarmos ao governo, temos de
estar preparados para responder em que medida toda e qualquer ação que tomemos
contribuirá para reduzir desigualdades de maneira radical e interseccional. Tudo
que fizermos, por menor que seja, terá de enfrentar, ao mesmo tempo e sem
concessões, o racismo, o patriarcado, a patologização das identidades de
gênero, o genocídio negro, periférico e indígena, a intolerância com as
religiões de matriz africana, o colapso ambiental, a deseducação política, a
concentração de renda, a financeirização do setor produtivo. Isso significa,
desde já, que um novo governo de esquerda terá de ter uma abordagem holística
sobre os problemas sociais, terá de enfrentar radicalmente a fragmentação das
esferas decisórias e a abordagem compartimentada sobre os problemas
estruturais. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Será necessário que cada ação tenha eco em
nosso horizonte utópico. É preciso que consigamos apontar com precisão como cada
mínimo movimento político nosso nos aproximará do nosso objetivo de eliminar
todas as desigualdades promovendo toda a diversidade. E é óbvio que, hoje, esta
é uma colocação utópica. Mas é preciso que comecemos a expressá-la para que, aos
ouvidos das próximas gerações, ela soe mais realista. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Já tivemos abordagens holísticas, que nos
aproximaram deste ideal interseccional. Em certa medida, foi o que fez o Bolsa
Família, um programa sócio-econômico-educacional claramente feminista. Só não
poderíamos chamá-lo de plenamente interseccional porque o programa contribuiu
para a financeirização ao inventar novo campo de exploração para os bancos, que
haviam visto encolher sua caderneta corporativa, conforme o setor produtivo
incorporava as finanças como atividade endógena. A financeirização dos pobres
me parece ter garantido, na cauda longa, a lucratividade de um setor
parasitário de multi-bilionários que tendia a encolher.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Enfrentar problemas de maneira holística foi
o que fez o BNDES nos governos do PT, ao transformar o Estado em agente
empreendedor, disposto a assumir, em nome do desenvolvimento nacional, riscos que
travariam investimentos já nos gráficos de projeção de lucro do setor privado.
Quer dizer, a década progressista nos aproximou do horizonte utópico. Mas, sem
crítica construtiva, mas honesta e radical, ele se afastará de novo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Agora que o inimigo declarou guerra de
classe, deu até golpe, a gente precisa aceitar essa premissa marxista da luta
de classes e incorporar, à la Angela Davis, todos os exércitos excluídos às
nossas trincheiras. Precisamos entender que ganha-ganha não existe mais. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O presidente Lula sempre fala,
orgulhosamente, que empresário nunca ganhou tanto dinheiro quanto no governo
dele. É verdade. Mas é uma verdade triste, pois, se a distância entre os
extremos da pirâmide não encolheu, é difícil determinar qual foi o real nível
de distribuição de renda. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Precisamos discutir qual nível de
desigualdade estamos dispostos a tolerar. Por mim, implodiria a pirâmide. Acho
que nenhuma desigualdade de berço é aceitável. Nascer inferior a outro ser
humano é imoral e não tem nada a ver com vontade divina. A não ser que a gente aceite
que Deus é o mercado, que o racismo é natural, que as mulheres são inferiores,
que as pessoas LGBT são doentes, que os povos originários são selvagens. A
única maneira de tolerar algum nível de desigualdade inata é acreditar nas duas
faces da moral neoliberal: darwinismo social e meritocracia. Logo, se a
eliminação das desigualdades desaparece de nosso horizonte utópico, o discurso
de redução das desigualdades é filosoficamente insustentável. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;No duro ciclo que se anuncia, a capacidade
de pensar em termos utópicos e interseccionais será determinante para a
sobrevivência da esquerda enquanto campo político. Em termos de imaginação política,
precisaremos ir muito além do possível.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Talvez seja o caso de criar não a
independência financeira, mas a independência do dinheiro como mecanismo de
sobrevivência. A independência da estrutura bancária. A independência do lastro
a uma moeda sem lastro. E talvez isso passe por lastrear o consumo ao próprio
consumo e não a uma entidade opressora e exploradora externa. Um novo sistema
econômico interno vai ter de ser criado. Ou sistemas econômicos independentes,
restritos às comunidades, que se comuniquem aos sistemas econômicos vizinhos em
uma segunda esfera. Talvez seja necessário gerar minilastros entre sistemas
econômicos, de forma que eles se balanceiem de maneira independente da exploração... Externamente, precisamos reconstruir os laços e prestígio internacional para
denunciar os paraísos fiscais e os tribunais de arbitragem. Pra evitar o caos
ambiental, a ascensão fascista, o crescimento de ideologias apocalípticas, precisaremos
estar dispostos a atacar o coração do sistema. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;O primeiro passo é dessacralizar o sistema,
expor a falácia do mito fundador smithiano e derrubar o véu da mão invisível do
mercado. Não há mão invisível porque o mercado só existe enquanto crença. Temos
que lembrar que a economia é uma ciência humana. Que o dinheiro é uma invenção
nossa, e talvez seja tecnologia obsoleta. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Para começar esse processo, é preciso trocar
a moeda da inclusão social. O custo da inclusão tem que ser o empobrecimento
dos ricos; o “desempoderamento” dos brancos; dos homens, dos héteros. A
democracia tem que ser paga em privilégio, não em dinheiro. Enquanto a
democracia for negociada a dinheiro, ela é uma finançocracia. Para juntar essas
duas palavras gregas - demos (povo) e kratos (poder) -, vamos ter que aprender
a expropriar privilégios. E, acima de tudo, nos permitir sonhar a construção do
impossível. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;mso-element: footnote-list;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b&gt;Notas&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;hr align=&quot;left&quot; size=&quot;1&quot; width=&quot;33%&quot; /&gt;
&lt;div id=&quot;ftn1&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;MsoFootnoteText&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftnref1&quot; name=&quot;_ftn1&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn1;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 10pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt; O conceito de “logocídio” é definido pelo jornalista, professor de
Princeton e ministro presbiteriano Chris Hedges como o processo de “assassinato
de palavras”. No livro &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;American Fascists:
The Christian right and the war on America&lt;/i&gt;, Hedges escreve que os dominionistas
(facção fundamentalista da direita evangélica estadunidense) “falam em termos e
frases que são familiares e confortáveis para a maioria dos americanos, mas
distorcem o significado original das palavras. Eles adotam um processo gradual
de “logocídio” [...]. Conceitos do velho sistema de crença são desconstruídas e
recebem significados diametralmente opostos [aos originais]. Palavras como
‘verdade’, ‘sabedoria’, ‘morte’, ‘liberdade’, ‘vida’ e ‘amor’ não têm mais o
mesmo significado originalmente atribuído no mundo secular. ‘Vida’ e ‘morte’
significam ‘vida em Cristo’ e ‘morte de Cristo’ e são usadas para sinalizar
crença ou descrença no Senhor. ‘Sabedoria’ tem pouco a ver com conhecimento
humano, mas se refere ao nível de compromisso e obediência ao sistema de
crença. ‘Liberdade’ [...] trata da liberdade que o sujeito encontra quando
aceita Jesus e se liberta do mundo para fazer Sua vontade. Mas talvez a
deturpação mais perniciosa seja de ‘amor’, a palavra utilizada para atrair ao
movimento pessoas que buscam uma comunidade calorosa e solidária para enfrentar
seu isolamento e alienação. O ‘amor’ é distorcido para significar uma sujeição
inquestionável àqueles que clamam falar em nome de Deus em troca da promessa da
vida eterna. O cego amor humano, a aceitação do outro, é atacado como uma forma
inferior de amor, perigosa e indigna de confiança” (HEDGES, 2006:14).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div id=&quot;ftn2&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;MsoFootnoteText&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftnref2&quot; name=&quot;_ftn2&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn2;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 10pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt; Davis especula que o programa-manifesto, elaborado na sede do
Partido em Oakland por Huey P. Newton e Bobby Seale, talvez seja “mais atual
hoje do que na época” (DAVIS, 2016:2). Uma boa tradução do Programa dos 10
Pontos pode ser encontrada online no caderno &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Panteras Negras: estratégia e revolução &lt;/i&gt;(p. 22-3), organizado pelo
coletivo Casa da Resistência [&lt;a href=&quot;https://gatopretocomunicacao.files.wordpress.com/2016/12/caderno-completo.pdf&quot;&gt;https://gatopretocomunicacao.files.wordpress.com/2016/12/caderno-completo.pdf&lt;/a&gt;].&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftnref7&quot; name=&quot;_ftn7&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn7;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 10pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt; Um relatório da ONG Who Profits, disponível em &lt;span class=&quot;MsoHyperlink&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://whoprofits.org/sites/default/files/weapons_report-8.pdf&quot;&gt;https://whoprofits.org/sites/default/files/weapons_report-8.pdf&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;
mostra o processo de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;rebranding &lt;/i&gt;deste
tipo de equipamento bélico, sobretudo as bombas de gás, que surgiram como armas
químicas durante a Primeira Guerra Mundial e hoje são usadas contra populações
civis. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div id=&quot;ftn8&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;MsoFootnoteText&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4210609985362647&amp;amp;pli=1#_ftnref8&quot; name=&quot;_ftn8&quot; style=&quot;mso-footnote-id: ftn8;&quot; title=&quot;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-special-character: footnote;&quot;&gt;&lt;span class=&quot;MsoFootnoteReference&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;font-size: 10pt; line-height: 115%;&quot;&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt; Sobre a ascensão de Riad ao atual posto de líder da OPEP e &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;proxy &lt;/i&gt;do Ocidente no Oriente Médio, ver
o episódio sobre o país da série documental &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;The
Empire Files&lt;/i&gt;, da rede Telesur English. Disponível em &lt;span class=&quot;MsoHyperlink&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=TmSRWXCosxc&quot;&gt;https://www.youtube.com/watch?v=TmSRWXCosxc&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.&lt;span style=&quot;mso-spacerun: yes;&quot;&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div id=&quot;ftn9&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;MsoFootnoteText&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight: normal;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: EN-US;&quot;&gt;Bibliografia&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: EN-US;&quot;&gt;ALEXANDER, Michelle.&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt; The New Jim Crow: Mass Incarceration in the
Age of Colorblindness&lt;/i&gt;. Nova York. The New Press, 2010.&lt;br /&gt;
DAVIS, Angela Y. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Freedom is a constant
struggle: Ferguson, Palestine and the foundations of a movement&lt;/i&gt;. Chicago.
Haymarket Books, 2016.&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt; &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
GRAEBER, David. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Debt, the first 5000
years&lt;/i&gt;. Nova York. Melville House Publishing, 2011.&lt;br /&gt;
HEDGES, Chris. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;American Fascists: The
Christian right and the war on America&lt;/i&gt;. Nova York. Free Press, 2006.&lt;br /&gt;
LAPAVITSAS, Costas. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Profiting without
producing&lt;/i&gt;. Londres. &lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Verso, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Panteras Negras: estratégia e revolução&lt;/i&gt;.
Casa da Resistência, 2016. Disponível em: https://gatopretocomunicacao.files.wordpress.com/2016/12/caderno-completo.pdf&lt;br /&gt;
SMITH, Adam. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;A riqueza das nações&lt;/i&gt;.
São Paulo. Editora Nova Cultural Ltda, 1996.&lt;br /&gt;
&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: EN-US;&quot;&gt;VAROUFAKIS, Yanis. &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;Adults in the room: My battle with Europe&#39;s
deep establishment&lt;/i&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Londres. Random House, 2017.&lt;br /&gt;
ZIZEK!. Direção: Astra Taylor, Produção: Lawrence Konner. Estados
Unidos/Canadá: Hidden Driver Productions, 2005.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div id=&quot;ftn11&quot; style=&quot;mso-element: footnote;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;MsoFootnoteText&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;
&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;font-family: inherit;&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;*Texto produzido em novembro de 2017, para o debate &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=7BcWDScj7I4&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Brasil que o Povo quer - Capitalismo e Desigualdades&lt;/a&gt;, promovido pela Fundação Perseu Abramo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/1796553537382514422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/1796553537382514422?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1796553537382514422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1796553537382514422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/11/quanta-desigualdade-somos-capazes-de.html' title='Quanta desigualdade somos capazes de tolerar?'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9-bcXSHeTd9oL0eMOC2yZTeTXi1_o_cP4U6dozi36fDYo_d1DOamBH1Q3kevOeTLq9uB-eY9pW4OW3sCuXiq5xTEZz8CiXBOb876PJp-s2XdE-rTsXs-tQ-pIVTiZTDFk1nNlKsjlbbY/s72-c/desigualdade.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-894151363109209620</id><published>2018-08-30T17:57:00.000-03:00</published><updated>2018-08-30T18:01:23.915-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><title type='text'>O apocalipse não será conservador, será reacionário mesmo</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZkEZB2JYdMGz4IelJCRT-p5v0P2ofluFq12C2Tp_CPAc0ubXVz6eoeOomTPqIbC1S0ydSg9IRt7uW5n9c57fxG_3CWm8V9UYzjTvd9WR0kAK3WO-93r3nUbMcKNp1pcStYovgNS1pc_U/s1600/ISIS+Statues+Mosul.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;438&quot; data-original-width=&quot;780&quot; height=&quot;359&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZkEZB2JYdMGz4IelJCRT-p5v0P2ofluFq12C2Tp_CPAc0ubXVz6eoeOomTPqIbC1S0ydSg9IRt7uW5n9c57fxG_3CWm8V9UYzjTvd9WR0kAK3WO-93r3nUbMcKNp1pcStYovgNS1pc_U/s640/ISIS+Statues+Mosul.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&amp;nbsp;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Em fevereiro de 2015, membros do autoproclamado Estado Islâmico destroem estátuas milenares no museu de Mosul, no Iraque, em nome da primazia de um único deus. Foto: captura de tela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Por volta de 1350 a.C., quando Akhenaton decidiu que Aton era o único deus existente e decretou a morte de todo o resto do panteão egípcio, 
pela primeira vez na história conhecida, sangue correu em rios por 
motivos estritamente religiosos. Antes disso, quando divindades diversas compartilhavam a atenção da espécie humana, não ocorria a ninguém matar outra pessoa por adorar um falso deus. Afinal, não havia a ideia de um deus totalitário, responsável por toda a criação. Deuses eram complementares, como pessoas. Quem se ocupa da pesca não pode caçar ao mesmo tempo; da mesma maneira que quem mantém a água sobre o oceano não pode providenciar que frutos germinem da terra. Quando, por decreto, Aton torna-se onisciente e onipotente, todos os outros deuses deixam de ser operários da harmonia cósmica e convertem-se em falsos ídolos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim nasce a intolerância religiosa, conta o egiptólogo alemão Jan Assmann, no livro &lt;i&gt;Moisés, o Egípcio&lt;/i&gt;, de 1997. A&amp;nbsp; intolerância religiosa é fruto e característica inalienável do monoteísmo. Esse é um vício de origem da nossa maneira de pensar. Fomos cognitivamente construídos em torno do monoteísmo e, consequentemente, da intolerância. Mais de 3 mil anos depois, nossa sociedade vive sob o postulado de Akhenaton: tudo que não é Deus é diabo. Logo, deve ser eliminado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta maneira de pensar não se restringe à religião, mas permeia toda a nossa estrutura de compreensão do mundo. Quando constituímos nossas relações sociais em torno de três faculdades, leitura, escrita e cálculo, relegamos todas as outras faculdades a um lugar de sub-existência ou existência indesejada. Abdicamos de uma série de capacidades humanas - que hoje, face à iminência de nosso colapso como espécie, podem guardar a chave de nossa sobrevivência, como especula o neurocientista Jeremy Lent em &lt;i&gt;The Patterning Instinct:&lt;/i&gt;&lt;i&gt;A Cultural History of Humanity&#39;s Search for Meaning &lt;/i&gt;(em tradução livre&lt;i&gt;, &lt;/i&gt;O Instinto de Padronização: Uma História Cultural da Busca da Humanidade por Sentidos)&lt;i&gt; &lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa sociedade em que o mercado, a mão invisível descrita por Adam Smith, é um substituto imediato de Deus, relegamos o que está fora do mercado a este mesmo lugar de existência indesejada. O que não pode ser calculado precisa se tornar calculável para poder reivindicar existência. É assim com a arte, por exemplo, cuja relevância deve ser avaliada em cifrões; é assim com a felicidade, a ser quantificada por terceiros, de acordo com o potencial de consumo que um indivíduo ostenta; é assim com a beleza, calculada a partir do grau de proximidade estética com modelos milimetricamente produzidos em Photoshop; é assim com a fé, medida segundo o peso do dízimo. Algo que insiste em permanecer fora do alcance de nossa matemática mercantil veste a máscara do diabo e deve ser eliminado. É assim que a filosofia, mais abrangente do que qualquer gaveta disciplinar e determinante de nossa condição existencial, passa a ser vista como um empecilho desconfortável, um cisco no olho do progresso econômico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso vale para ideias, mas também para pessoas. Uma vez que o lucro se estabelece como condutor da atividade humana, a sociedade se torna inerentemente incapaz de garantir à coletividade da espécie as faculdades necessárias à reivindicação de existência nesta mesma sociedade (ler, escrever e calcular), porque a educação foge à previsibilidade de curto prazo necessária ao lucro dentro de uma lógica competitiva global, que opera 24/7. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Cadeia é uma varinha de condão da burguesia, que transforma exclusão em lucro&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20Cadeia%20%C3%A9%20uma%20varinha%20de%20cond%C3%A3o%20da%20burguesia%20que%20transforma%20exclus%C3%A3o%20em%20lucro.%20https://bit.ly/2PRJJw3&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
É por isso que o número de prisões cresce de forma inversamente proporcional ao número de escolas. Quanto menos investimos na divinização dos seres humanos por meio da aquisição das faculdades utilitárias que elegemos como portadoras de existência potencial, mais diabos criamos. E, se criamos diabos, precisamos criar infernos que os comportem e tornem sua existência passivamente utilitária. &quot;Utilitária? Cadeia não serve pra nada!&quot; Claro que serve: serve para transformar em valor quem foi privado de gerar valor dentro da exploração capitalista. Se você não é capaz de agir dentro do sistema para gerar lucro ao 1%, o sistema age sobre você para garantir o lucro. Ou você acha que é pouca coisa uma licitação pra construção de presídio, outra pra alimentação, outra pra segurança privada, outra pra extorsão de parentes de presos, outra pra compra de armas e uniformes e outras tantas que nem imaginamos, tudo superfaturado? Cadeia é uma varinha de condão da burguesia, que transforma mão-de-obra recessiva, o exército de reserva do capitalismo, em dinheiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outras palavras, aqueles seres humanos que são economicamente inviabilizados pela precariedade educacional infligida em nome da manutenção da lógica da lucratividade são transformados em geradores passivos de valor por meio do encareceramento. Quem não se classifica para sofrer a mais-valia pseudo-voluntária proposta (pra cada vez menos gente) pelo mercado de trabalho é reduzido à total-valia dentro do inferno prisional. Quem não adquire as capacidades básicas para produzir commodities ou assets financeiros é diretamente transubstanciado em commodities e assets financeiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ou seja, aqueles para quem o Estado guiado pela lógica mercadológica não concedeu faculdades divinas têm seus corpos expropriados e convertidos em objetos especulativos descartáveis. Presos são ativos financeiros de curto prazo enquanto calculadores-leitores-escritores são ativos financeiros de médio prazo. No longo prazo, os dois se convertem em lucro para o topo da pirâmide.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Só que, frente à lógica da competitividade, onde cada capitalista mediano deve vencer seus concorrentes diariamente, o médio prazo é longo. Para manter-se numa fileira intermediária da cadeia alimentar, é necessário dosar poucos ativos de médio prazo com muitos ativos de curto prazo. Ainda mais quando o mercado de futuros está ameaçado pela desestruturação incontornável do mercado de trabalho, auto-infligida pela automatização (robôs, que não consomem, produzem mais do que podemos consumir, mas eliminam os empregos, expropriando o poder de compra dos potenciais consumidores).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste sentido, o monoteísmo mercadológico é tão totalitário quanto o teológico. Do mesmo jeito que o inferno só pode existir dentro da igreja, a exclusão da economia de mercado existe dentro da economia de mercado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como o sistema econômico é totalitário e a escolha é entre a forma de servir o lucro (se voluntária ou involuntariamente), é plenamente compreensível que os excluídos queiram inconscientemente converter-se em commodity antes que o sistema o faça. Uma das maneiras de fazê-lo é tornar-se veículo de propagação ideológica para a lucratividade de mega-corporações, como no caso da contribuição mecânica à engrenagem das redes sociais, por exemplo. Ao tornar-se um &lt;i&gt;digital influencer&lt;/i&gt; (ou outdoor humano) e entregar seu corpo ao Facebook, você gera valor de mercado para si próprio e evita ser transubstanciado em carvão para as fornalhas da indústria da morte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A profunda contradição é que as fornalhas - talvez por conta da tácita (ou nem tanto) inspiração nazista da sociedade contemporânea de mercado - servem não como propulsoras de uma máquina produtiva qualquer, mas como um fim em si próprias. Como acontece com batatas em sobressafra, é mais viável economicamente queimar excedentes do que distribuí-los. É mais viável economicamente matar pessoas do que integrá-las à própria sociedade de mercado por meio da educação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao invés de optar pela manutenção conservadora do nosso &lt;i&gt;ethos&lt;/i&gt; cognitivo, baseado no tripé cálculo-escrita-leitura, tomamos a saída abertamente reacionária, que é rentabilizar o descarte do geometricamente crescente excedente humano. Se ainda acreditamos que somos parte de uma mesma espécie e habitamos um mesmo planeta (no andar de cima, há quem conteste essas afirmações), alguma dúvida de que nosso sistema social, econômico e político é&amp;nbsp; biologicamente insustentável?</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/894151363109209620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/894151363109209620?isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/894151363109209620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/894151363109209620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/08/o-apocalipse-nao-sera-conservador-sera.html' title='O apocalipse não será conservador, será reacionário mesmo'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZkEZB2JYdMGz4IelJCRT-p5v0P2ofluFq12C2Tp_CPAc0ubXVz6eoeOomTPqIbC1S0ydSg9IRt7uW5n9c57fxG_3CWm8V9UYzjTvd9WR0kAK3WO-93r3nUbMcKNp1pcStYovgNS1pc_U/s72-c/ISIS+Statues+Mosul.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-1529828823002988243</id><published>2018-07-02T20:46:00.000-03:00</published><updated>2018-07-02T20:55:34.499-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Junho 2013: sinais do futuro que já começou</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-W-YrqUd2e_tBySRfJm4EaQf0Gzd_uFdI9v05WG5kZHNhSkUIN7KMjWYEHAp3-knnEtfFoELszi8y2NLkP90d0mMzwEEs7UoXESvu6dXI-QmUyFitdkt_ByDJKPer_3VXWRZFm2TiqCM/s1600/Se_a_tarifa_nao_baixar.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1060&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;420&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-W-YrqUd2e_tBySRfJm4EaQf0Gzd_uFdI9v05WG5kZHNhSkUIN7KMjWYEHAp3-knnEtfFoELszi8y2NLkP90d0mMzwEEs7UoXESvu6dXI-QmUyFitdkt_ByDJKPer_3VXWRZFm2TiqCM/s640/Se_a_tarifa_nao_baixar.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Junho de 2013 pode ter aberto possibilidades para um futuro que não chegou. Resta saber se, pela esquerda, este futuro está extinto ou apenas suspenso. O que chegou foi a múltipla e totalizante crise na qual estamos inseridos até o pescoço. Do levante dos &quot;coxinhas&quot; em 2013 à intervenção do exército contra a greve dos caminhoneiros em 2018, sobram sinais de um novo gênero de contrarrevolução preventiva que demonstram o quanto as elites brasileiras entenderam o espírito de junho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Por Fred Lyra* &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No seu livro de intervenção &lt;i&gt;O ano em que sonhamos perigosamente&lt;/i&gt;&lt;i&gt;, &lt;/i&gt;lançado em 2012, o filósofo esloveno Slavoj Zizek tenta pensar os diversos acontecimentos que haviam emergido por todo o mundo no ano anterior, 2011, ano este de: Revolução na Tunísia; Revolução no Egito, tendo as ocupações na praça Tahrir como o símbolo maior; Ocupação na praça Syntagma e motins por toda a Grécia; o movimento 15M dos Indignados na Espanha; Occupy Wall Street; motins por todo o Reino Unido; entre outros acontecimentos. Zizek observa que boa parte da dimensão emancipatória deste ano em que voltamos a sonhar de forma perigosa na busca de alternativas para sair do pesadelo do capital ao qual estamos subsumidos foi imediatamente anulada pela mídia que, entre outras coisas, passou a disseminar falácias quase delirantes que colocavam plataformas como o Facebook como os meios responsáveis por tais insurreições e revoluções. As grandes mídias cumpriram bem uma das suas funções de existir, a saber, a de serem meios contrarrevolucionários. Exatamente por isso, uma análise que busca vir pelo lado oposto, aquele da tradição dos oprimidos, não está autorizada a se comportar como neutra. Essa posição, argumenta Zizek, é inexoravelmente parcial e engajada, ou seja, para se pensar acontecimentos desta proporção apenas uma análise que não negue o seu ponto de vista parece ser consequente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao final do livro, Zizek observa que após um ano, se muito, todas essas explosões haviam sofrido um refluxo, quando não uma reação violenta. Seria, se pergunta o filósofo, “a única escolha que temos aquela entre a nostálgica-narcísica lembrança dos momentos sublimes de entusiasmo e a cínica-realista explicação do que dessas tentativas de mudar a situação iriam inevitavelmente falhar” (ZIZEK, p. 127)? Um primeiro sinal – de certa forma confirmado pelo futuro que é o agora – é que a raiva não acabou e que novas revoltas poderiam explodir. Um outro sinal é que nada poderia ser como antes e que as elites sabiam bem disso, estando consciente de que já não tem mais o mesmo controle da situação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tendo isto em mente, Zizek propõe então uma inversão da perspectiva historicista corrente que muda o ângulo de percepção desses acontecimentos, em vez de fazerem parte de uma linha que teria vindo do passado para o presente, eles deve ser lidos como: &lt;i&gt;sinais do futuro&lt;/i&gt;.

“Explosões radicais emancipatórias não podem ser compreendidas desta maneira: em vez de analisá-las como parte do contínuo do passado e presente, devemos trazer a perspectiva do futuro, tomando-as como limitadas, distorcidos (às vezes mesmo pervertidos) fragmentos de um futuro utópico que se encontra dormente no presente com o seu potencial escondido”. Estes acontecimentos são “elementos que estão aqui, no nosso espaço, mas cujo tempo é o de um futuro emancipado, o futuro da Ideia Comunista” (Zizek, p. 128).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, nada pode garantir de maneira nenhuma que este futuro chegará. Não há teleologia, apenas reconhecimento de uma potencialidade particular. “Enquanto aprendemos a assistir tais sinais, nos diz Zizek, devemos estar conscientes que o que estamos fazendo agora só se tornará legível quando o futuro estiver aqui” (ZIZEK, p. 128), e ele continua “o que é preciso, então, é um delicado equilíbrio entre a leitura dos sinais do hipotético futuro comunista e a manutenção da abertura radical do futuro” (ZIZEK, p. 128-29). A leitura desses sinais requer assumir plenamente uma posição engajada, seguir fielmente estes sinais para que só assim o futuro que eles anunciam possa talvez se tornar presente.&lt;br /&gt;
Todavia, isso não implica que este futuro deva ser imaginado positivamente, pelo contrário, a abertura para o futuro é negativa e o empenho deve ser em via da efetivação dessa negação. A palavra de ordem “não vai ter copa!” foi de certa forma, um sinal de um futuro que não chegou. A copa aconteceu, mas poderia não ter ocorrido. Os sinais são ambíguos, não são garantias de nada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De onde nossa hipótese de ler as Jornadas de Junho 2013 da mesma forma com que Zizek leu os acontecimentos que transcorreram em 2011 como: &lt;i&gt;sinais do futuro&lt;/i&gt;.

Junho teria sido uma abertura de possibilidades para um futuro que, no entanto, não chegou. Resta saber se ele não chegou ainda, ou se aquele futuro já foi extinto. Um outro futuro, que é o nosso presente, este sim chegou chegando e é a múltipla e totalizante crise na qual estamos inseridos até o pescoço. De certa forma, assim como as reações contra as insurreições e revoluções de 2011 continuam em marcha, o contínuo, que vai do levante dos “coxinhas” ainda nas ruas de Junho até a intervenção do exército contra a greve dos caminhoneiros, embora desorganizado, caótico e aleatório pode ser visto como um gênero novo de contrarrevolução preventiva que demonstra que as elites brasileiras entenderam aquele espírito de junho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como disse Mario Sérgio Conti, “a situação que se abriu é revolucionária” (apud, ARANTES, p. 424), mas isto não era garantia de que haveria de fato uma revolução. A hipótese de Paulo Arantes é de que as Jornadas seriam “um enigma, de cuja solução apenas encaminhada dispomos, desde Junho, de um ensaio geral. Fica a descoberta atônita de que a insurgência que vem, ou que está chegando, envolve um momento perturbador de desgoverno, de abalo sísmico do regime normativo dominante: &lt;i&gt;simplesmente não queremos mais ser governados, ou não mais assim&lt;/i&gt;” (ARANTES, p. 424). Que ele completa dizendo que “quase tudo consiste em saber decifrar retrospectivamente um tal ‘assim’. O novo se insinuou por essa brecha” (ARANTES, idem). Um outro futuro foi aberto nas ruas, e nenhum esforço para evitá-lo parece ser em vão e empenho. Se por um lado, na hipótese de Arantes as Jornadas de Junho teriam sido uma insurreição contra uma outra contrarrevolução que já durava mais ou menos 30 anos e que é normalmente conhecida como transição democrática, uma nova etapa de rebaixamento e agravamento deste processo talvez fosse o que ele tinha em mente quando nos disse que “Depois de Junho a Paz será Total”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo não é do futuro que chegou que nos propomos a falar. Mas de alguns sinais que parecem ter ficado lá atrás e que fazem parte do futuro que não veio. Decidir se ele pode vir é uma tarefa política. De forma que poderíamos adaptar, um pouco facilmente é verdade, a questão feita por Giorgio Agamben em relação a Auschwitz, e nos perguntar: O que resta de Junho de 2013? Se um por um lado, Agamben busca identificar o que é latente no presente daquela catástrofe maior que foram os campos de extermínio nazistas, a nossa questão é muito mais modesta e diz respeito a quais práticas e a qual dimensão do que aconteceu no Brasil podemos continuar fiéis? E fiéis no sentido badiousiano da necessidade de ser fiel a um acontecimento para poder de certa forma continuá-lo. Isso posto, é também verdade que mais recentemente o próprio Badiou parece ter esquecido esta dimensão da sua filosofia e tem feito uma leitura da primavera árabe e do que aconteceu na Grécia e Espanha de uma forma bastante historicista e paternalista. Como se as consequências reativas a tais acontecimentos revelassem as suas verdades, interditando de fato àqueles que continuam engajados em tais processos de os continuarem. Pensando os acontecimentos contemporâneos, ele não faz jus as suas análises da Comuna de Paris ou de Maio de 68 entre outros acontecimentos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A nossa hipótese é que devemos interpretar os sinais do futuro que anunciou Junho de 2013 através do que deles resta e, sendo fiel a este resto, tentar dar forma àquele futuro que não veio. Não se pode esquecer que um outro futuro de 2013 é o presente, é o agora, o futuro já é. Ele já está aí de certa forma. Então como reverter isso? Passo então a sugerir três sinais que creio ainda serem latentes. Sinais que de certa forma foram atualizados com a greve dos caminhoneiros: a ação direta dos black blocs; a negatividade que surgiu na rua com o “eu sou ninguém” e a dimensão nacional do acontecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Ação direta&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
A atuação dos &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt; em 2013 coloca algumas questões para se pensar o ressurgimento e se de fato existe uma necessidade crescente para pensar a ação direta. Mais do que os &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt; em si, é esse problema que me interessa mais. Antes de chegar no Brasil podemos iniciar com um desvio em torno de alguns fatos recentes aqui em Paris. A tradicional manifestação do 01 de maio deste ano de 2018, que é normalmente um inofensivo desfile dos tradicionais partidos e sindicatos franceses, foi impulsionada pelo &lt;i&gt;cortège de tête&lt;/i&gt; (linha de frente) dos &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt; e assim passou do estágio de ser apenas mais um desfile para vir-a-ser de fato uma &lt;i&gt;manifestação&lt;/i&gt;. Segundo a grande mídia havia entre 1200 e 1300 &lt;i&gt;casseurs &lt;/i&gt;(velha expressão francesa para designar a ação direta; em tradução literal, &quot;quebradores&quot;), a vanguarda combativa da manifestação e mais ou menos 20 mil no desfile tradicional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, o que mais chamou atenção foi o grupo intermediário nomeado pela mídia como ‘cortejo de pessoas radicalizadas’ e que segundo dados oficiais contabilizava 14500 pessoas. Pois foi este grupo que mais assustou o aparelho do Estado francês. Embora numerosos, os &lt;i&gt;casseurs&lt;/i&gt; eram esperados e já se sabe que os sindicatos vêm ano após ano definhando, não se esperava um terceiro grupo tão significativo. Uma certeza é a de que eles não fazem mais parte da esquerda mais tradicional, mas, por outro lado, eles também não são &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt;. No entanto, se quisermos avançar bastante o sinal poderíamos dizer que eles são potencialmente &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt;. E é essa, no fundo, a interpretação sugerida, pois estas 14500 pessoas estavam de certa forma protegendo e eram no mínimo simpatizantes daqueles outros. É este tipo de aliança que é temida, pois não está claro o que seriam e nem o que poderiam fazer 16000 mil &lt;i&gt;casseurs &lt;/i&gt;nas ruas Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um outro exemplo desse tipo de aliança ocorreu na manifestação do sábado 26 de maio 2018, quando pela primeira vez o &lt;i&gt;cortège de tête&lt;/i&gt; foi ocupado por uma organização de &lt;i&gt;banlieue&lt;/i&gt; (periferia, em tradução literal) – &lt;i&gt;La verité pour Adama&lt;/i&gt; – que por todo o trajeto – de Place de République à Place de la Bastille – foi escoltado por algumas centenas de &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt;. Estes em respeito à Adama, fugiram das suas praticas usuais, não agiram e desfilaram lado a lado do cortejo do &lt;i&gt;banlieue. &lt;/i&gt;Isto é, os &lt;i&gt;casseurs&lt;/i&gt; não quebraram nada, agiram contra a sua lógica comum, fugiram do confronto que estava previsto e ensaiaram constituir uma nova aliança ainda por vir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo desvio nos leva de volta ao Rio de Janeiro onde por alguns meses – entre junho e outubro – se constituiu uma aliança entre os &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt; e os professores que estavam em greve naquele momento, aliança esta simbolizada pela simbiose nomeada de: &lt;i&gt;black prof. &lt;/i&gt;Se não podemos afirmar que todos os professores do Estado do Rio de Janeiro se tornaram de uma hora para outra black blocs, com a constituição dos black profs fica claro que este poderia muito bem ter sido caso. E esta aliança foi construída na rua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como bem descrevem Mariana Côrrea dos Santos e Silvio Pedrosa, a ação direta e violenta havia conquistado uma certa legitimidade e demonstrado ser necessária naquele momento e assim havia ganho a adesão de parte da população que normalmente não apoiaria tais ações. Além do mais, segundo estes autores, naquele momento no Rio houve uma transversalidade de classe e raça na composição dos black blocs que não se encontrava em outros lugares, nem em São Paulo. Haviam mais negros e pobres do que o usual. Como alguns autores observam, foi esse tipo de convergência que permitiu às manifestações durarem tanto tempo nessa cidade. Assim, em uma interessante inversão observada por Rodrigo Nunes, os &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt;, em princípio contra qualquer tipo de representação, se tornaram os representantes maiores daquilo que estava acontecendo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enfim, se é verdade que essa tática mostrou os seus limites, e que talvez devamos imaginar outras táticas de ação direta dissociadas e para além dos &lt;i&gt;black blocs&lt;/i&gt;, essa aliança temporária com os professores constituindo o &lt;i&gt;black prof&lt;/i&gt; demanda que se pense seriamente as possibilidades abertas pela ampliação e de certa forma reaparição da ação direta urbana. Por exemplo, e se tivéssemos visto surgir os &lt;i&gt;black trucks&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;caminhoneiros blocs&lt;/i&gt; na greve dos caminhoneiros? Ou melhor, e se alguma nova tática tivesse surgido nesse momento? O sinal do futuro que é a aparição dos black profs, é a demonstração de que algo desse tipo não é de todo impossível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Des-identidade&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
“Anota ai, eu sou ninguém”. Muito já se discutiu em torno desse enunciado político que surgiu nas ruas de São Paulo. Guardada as devidas proporções, o que aconteceu com a aparição deste enunciado na rua é mais ou menos o que Foucault havia visto nas ruas de Teerã em 1979: uma ideia política nova que nasceu na rua, completamente imanente ao processo e que têm uma força particular pois surge e se transforma na rua, no encontro com o real. Por um lado, Peter Pal Pelbart sublinha a potência dessubjetivadora desse enunciado. Por outro lado, Giuseppe Cocco e Márcio Tascheto insistem na sua inerente multiplicidade. Porém, parece existir um aspecto prático pelo que no entanto tem sido pouco observado e que tentarei desenvolver brevemente prolongando a observação feita por Paulo Arantes que diz que a aparição do “ninguém” “ressalta a luta para tornar comum o que é comum ao contagiar o próprio nome comum de quem luta” (ARANTES, 462).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa não-identidade surgida nas ruas não nega necessariamente todas as identidades e nem pode ser facilmente invertida e se tornar: “eu sou ninguém, logo sou todo mundo”. “Eu sou ninguém” não pode ser invertido em “eu sou todo mundo”, como supõe João Marcelo Simões. O enunciado que surgiu nas ruas parece sobretudo essencialmente negar a identidade mais tradicional de esquerda, a versão brasileira dos partidos e sindicatos franceses que aludimos acima. Devido à situação política concreta do Brasil, outras identidades não parecem ser automaticamente negadas. Ao menos não imediatamente e nem tão pouco de forma necessária. Por estas identidades serem negativas quando se veem confrontadas às mais diversas situações, “eu sou ninguém” não dobra a negação, mas pelo contrário pode vir-a-ser algo como: “eu sou ninguém’ que você já não vê”. Uma maneira de assumir essa negatividade dando força política para ela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desta maneira, a nossa hipótese é de que essa não-identidade surgida na rua talvez possa ser um operatório capaz de articular a potência desidentificadora da figura do proletariado com as ditas pautas e luta identitárias especialmente as de gênero, raça e feministas. Quando a figura do proletariado é desidentificada da classe operária, passando a ter de volta o seu sentido original de despossessão volta a ser, de certa forma, capaz de reencarnar esse ninguém que pediu para ter o seu nome anotado. Em um país onde estas lutas acima referidas são tudo menos abstratas, tudo menos imaginárias, me parece que a única identidade que não parece ser capaz de se articular com esse enunciado é a da esquerda mais tradicional, essa está fadada a desaparecer ou se reificar. Falta saber como articular de fato essas pautas e o enunciado, pois eles em princípio parecem mutuamente se excluir. Algumas pistas parecem estar na heterogênea composição dos black blocs no Rio de Janeiro e no fato de que na França este mesmo grupo é cada vez mais composto por mulheres, além de mais e mais se reclamar de um feminismo libertário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Talvez o enunciado “eu sou ninguém” se pronunciado por militantes de gênero, raciais e feministas não deva ser visto como sendo uma negação dessas lutas, mas como uma forma particular de se assumir plenamente uma contradição, contradição esta que talvez seja capaz de criar uma abertura possível de reorganizar o campo militante radical a partir dessas lutas concretas. Possivelmente essa tensão constitutiva também seja simbolizada por Marielle: mulher, negra, lésbica, pobre e de esquerda. Diversos “ninguém” em um mesmo corpo. Dito de outra forma, quem sabe o sinal do futuro não esteja contido no paradoxo constituído entre a potência desidentificadora do enunciado “eu sou ninguém” e estas lutas concretas e urgentes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Nacional&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
Por último gostaria de insistir na dimensão nacional de Junho de 2013. Estamos sempre observando que o Brasil é territorialmente maior do que a Europa, mas não parece que nos damos conta de que é efetivamente essa a dimensão territorial de junho, ou seja, é quase como se em um espaço de poucos dias tivéssemos tido manifestações de massa por toda a Europa. Desta forma, se estamos de fato numa Guerra Civil e a República acabou, como tem dito Vladimir Safatle, estas duas dimensões são bem nacionais, abarcam todo o território e não estão restritas a poucas localidades. Paulo Arantes observa que: as “mais diversas fontes oscilam entre 10 e 15 milhões de manifestantes em mais de quinhentas cidades. Enquanto não dispusermos de uma razoável coleção de relatos de todas as procedências, sobretudo das mais improváveis, continuará soterrada a memória viva do maior protesto de massa da história brasileira, com esta peculiaridade igualmente divisora de águas, a de que ele foi rigorosamente autoconvocado” (ARANTES, p. 378).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não por acaso, em um ensaio como o dele, que se detém nas suas mais de cem páginas essencialmente ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em São Paulo e que em uma nota assume que o seu ponto de vista é mesmo paulista – e isso não é nenhum problema em si, mas apenas um fato – confessa que o relato mais improvável de Junho do qual teve notícias até aquele momento não tinha ocorrido em nenhuma dessas cidades, mas em Fortaleza, quando por ocasião do jogo Brasil e México, pela copa das confederações, um “enxame de pivetes que capricharam num sem-número de manobras táticas, entre elas o sequestro de um ônibus, ato contínuo desviado na direção de um pelotão de cavalarianos da PM, não sem antes desembarcar os passageiros e confiscar-lhes os ingressos para o jogo. Mas como a barra da direção pesou mais do que podiam os braços do novo motorista, este pulou fora, deixando um saldo devedor atravessado na pista, um bagulho-dispositivo fora do uso oficial” (ARANTES, p. 409). Talvez este seja um outro sinal do futuro (e vale observar que até aqui o autor, pernambucano, também só havia falado de RJ e SP).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É verdade que o volume &lt;i&gt;Junho potência das ruas e das redes &lt;/i&gt;organizado por Alana Moraes, Jean Tible, Henrique Parra, Bernardo Gutierrez, Salvador Schavelzon e Hugo Albuquerque pareça ter sido o esforço que conseguiu ir mais longe nesta direção. No entanto, ele trata mais de movimentos que ocorreram em paralelo do que o que de fato aconteceu no Brasil afora. Por exemplo, o capítulo sobre o Ocupe Estelita em Recife, é mais um relato e análise crítica deste movimento do que sobre o que foram as Jornadas de Junho nesta cidade. No fundo ninguém ainda parece ter dado conta dessa dimensão e conseguido efetivamente sair do eixo Rio-São Paulo. Talvez passe por esse gesto um novo entendimento do que está efetivamente acontecendo neste que é o futuro de junho, o nosso presente. O sinal do futuro é que as jornadas abarcaram a integralidade do “gigante”, e temos que dar conta disso para reabri-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
AGAMBEN, Giorgio. &lt;i&gt;Auschwitz, L’archive et le Témoin, &lt;/i&gt;in &lt;i&gt;Homo Saces. L’intégrale. &lt;/i&gt;Paris: Seuil, 1998/2017.&lt;br /&gt;
ARANTES, Paulo. “Depois de junho a paz será total”, in &lt;i&gt;O novo tempo do mundo. E outros ensaios sobre a era da emergência. &lt;/i&gt;São Paulo: Boitempo, 2014.&lt;br /&gt;
BADIOU, Alain. &lt;i&gt;Éloge de la politique. &lt;/i&gt;Paris: Flammarion, 2017. &lt;br /&gt;
CORRÊA dos SANTOS, Mariana; PEDROSA Silvio. “Corps en mouvement&amp;nbsp;: les &lt;i&gt;Black Blocs&lt;/i&gt; à Rio et les représentations de la résistance”, in &lt;i&gt;Les Temps Modernes, &lt;/i&gt;n. 2 (678), 2014, p. 73-92. &lt;br /&gt;
COCCO, Giuseppe; TASCHETO, Márcio. “Eu (não) sou ninguém: a subjetividade sem nome”, in &lt;i&gt;Kalagatos&lt;/i&gt;, Fortaleza, v. 14, n. 2, maio-ago, 2017, p. 37-57. &lt;br /&gt;
MORAES, Alana; GUTIÉRRES, Bernardo; PARRA, Henrique; ALBUQUERQUE, Hugo; TIBLE, Jean; SCHAVELZON, Salvador. &lt;i&gt;Junho. Potência das Ruas e das Redes. &lt;/i&gt;São Paulo: Friedrich Ebert &amp;nbsp;Stiftung, 2014. &lt;br /&gt;
NUNES, Rodrigo. “Anônimo, vanguarda, imperceptível”, In Revista Serrote, 2016. n. 11. Disponível em: &lt;a href=&quot;https://www.revistaserrote.com.br/2016/11/anonimo-vanguarda-imperceptivel-por-rodrigo-nunes/&quot;&gt;https://www.revistaserrote.com.br/2016/11/anonimo-vanguarda-imperceptivel-por-rodrigo-nunes/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
PELBART, Peter Pal. “Anota ai, eu sou ninguém”, in &lt;i&gt;Folha de São Paulo&lt;/i&gt;, 19.07.2013. Disponível em: &lt;a href=&quot;https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/07/1313378-peter-pal-pelbart-anota-ai-eu-sou-ninguem.shtml&quot;&gt;https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/07/1313378-peter-pal-pelbart-anota-ai-eu-sou-ninguem.shtml&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
SAFATLE, Vladimir. “A nova republica acabou”, in &lt;i&gt;Carta Capital, &lt;/i&gt;15.03.2015. Disponível em: &lt;br /&gt;
&lt;a href=&quot;https://www.cartacapital.com.br/revista/841/a-nova-republica-acabou-2242.html&quot;&gt;https://www.cartacapital.com.br/revista/841/a-nova-republica-acabou-2242.html&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
________________. “Vivemos uma fase cada vez mais explicita de guerra civil”, in &lt;i&gt;Carta Capital&lt;/i&gt;, 28.03.2018. Disponível em: &lt;a href=&quot;https://www.cartacapital.com.br/politica/safatle-201cvivemos-uma-fase-cada-vez-mais-explicita-de-guerra-civil201d&quot;&gt;https://www.cartacapital.com.br/politica/safatle-201cvivemos-uma-fase-cada-vez-mais-explicita-de-guerra-civil201d&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
SIMÕES, João Marcelo. “Anota aí: Eu 
sou ninguém” As transformações no senso de coletividade e o uso tático 
das mídias no Brasil”. in. Anais Simpósio ABCciber, 2014. Disponível em:
 &lt;a href=&quot;http://www.abciber.org.br/simposio2014/anais/GTs/joao_marcelo_lima_simoes_140.pdf&quot;&gt;www.abciber.org.br/simposio2014/anais/GTs/joao_marcelo_lima_simoes_140.pdf&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
ZIZEK, Slavoj. “Conclusion: Signs from the future”, in &lt;i&gt;The year we dream dangerously.&lt;/i&gt; London-New York: Verso, 2012.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*Fred Lyra é mestre em Musicologia e doutorando em Filosofia da Arte na Universidade Lille 3&lt;br /&gt;
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Foto: Manifestação contra aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, 7 de junho de 2013 (Maria Objetiva/Wikimedia Commons)&lt;/div&gt;
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&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
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Texto publicado originalmente pela &lt;a href=&quot;http://uninomade.net/tenda/junho-2013-sinais-do-futuro-que-ja-comecou/&quot;&gt;Rede de Universidade Nômade&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
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&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75fT7Y1MOxvroxb9HIxZ-gCnYn6WzGJ64fAYlRUo8XRCCdfOdGDJpBLbklwKaOlSoIYJN6AHtIY3gKtdlyynqgLWJWaMxcuSb-1UrEhYZeyj2kR0yAO1Nhavw0ZnIyCbH9IrUoBLWq0o/s1600/hand-man-person-black-and-white-white-photography-489874-pxhere.com.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1068&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75fT7Y1MOxvroxb9HIxZ-gCnYn6WzGJ64fAYlRUo8XRCCdfOdGDJpBLbklwKaOlSoIYJN6AHtIY3gKtdlyynqgLWJWaMxcuSb-1UrEhYZeyj2kR0yAO1Nhavw0ZnIyCbH9IrUoBLWq0o/s640/hand-man-person-black-and-white-white-photography-489874-pxhere.com.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
&amp;nbsp; &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
Por Arape Sango*&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
É assustador quando começamos a fazer algumas comparações. Comparações entre a vida de pessoas que moram tão próximas de nós; e descobrimos o quanto são distantes da nossa realidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há pouco tempo, um amigo me contou sobre um assalto que sofreu. Estávamos os dois em uma mesa na calçada de um bar próximo à Consolação. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu, um homem negro de 30 anos, história comum. Ele um homem de 29 anos, branco, de classe média.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele me contou que tudo durou poucos segundos. Ele saiu do carro, um rapaz o abordou armado, pediu carteira e celular e saiu. Ele obedeceu, não reagiu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O monólogo do meu amigo nada teve a ver com o prejuízo. Nem com o transtorno de ter que tirar novos documentos. Teve a ver com o que ele sentiu nos poucos segundos em que esteve sob a mira de uma arma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Já tive uma arma apontada para a minha cabeça para cada beijo que eu dei na vida&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20J%C3%A1%20tive%20uma%20arma%20na%20cabe%C3%A7a%20para%20cada%20beijo%20que%20dei%20na%20vida.%20https://bit.ly/2MkLW1h&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Momentos em que alguém gritava com ele, e simultaneamente tinha o poder tirar a vida dele apenas com um gesto. De como ele se sentiu pequeno, com medo. De como ele sentiu raiva por ter sido roubado. Não pelo celular. Nem nela carteira. Mas pelo momento em que outra pessoa o despiu completamente de todo o poder que ele achava que tinha, e o deixou nu sob o chicote da escolha de obedecer ou perder a vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Num primeiro momento ao ouvi-lo eu me senti superior. Achei cômico o efeito devastador que estar frente a frente com um algoz armado causou nele. Durou pouco. A realidade caiu na minha cabeça com tanta força que me deu náusea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu tenho 30 anos. Não sou policial. Não sou criminoso. Não servi o exército, muito menos lutei uma guerra. Porém, eu já olhei o interior do cano de uma arma muito mais vezes que meu amigo branco. Eu já tive uma arma apontada para a minha cabeça para cada beijo que eu dei na vida. Já apontaram armas pra mim com mais frequência do que eu procurei emprego. Mais vezes do que eu viajei. Mais vezes do que eu namorei. Eu já tive armas diferentes apontadas para a minha cabeça no mesmo mês, na mesma semana, no mesmo dia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já estive tantas vezes sob a mira de uma arma que acabei criando um certo costume. O medo nunca foi embora, todavia eu criei pra mim mesmo uma falsa premissa de que, se eu disser as coisas certas, agir do modo ensaiado e não fazer algo brusco e idiota como espirrar, tossir ou ter um soluço, eu vou viver até o dia seguinte. Falso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Eu não sei como, mas já conheço os tipos de armas que me apontaram. Sei que geralmente estão engatilhadas e o portador tem quase sempre o dedo no gatilho, o que coloca a calma, equilíbrio e perícia dele dentro da equação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já levei uma coronhada. Não chegou a cortar. Só ostentei um galo enorme por alguns dias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A humilhação também é sempre a mesma. Um desconhecido armado que te encoxa, passa a mão por todo o seu corpo enquanto você prende a respiração com as mãos na parede, ou na cabeça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descobri que quando eu estou mais calmo eles param de gritar logo. Descobri também que se ele me matar, é possível que nem vá a julgamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estar sob a mira de uma arma, inutiliza você, te paralisa. Te faz menor que aquele que a segura. Não muda com o tempo. Todas as vezes foram iguais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fiquei ouvindo o peso que teve para o meu amigo, e tentando calcular o peso que isso trouxe para mim, o quanto isso molda as minhas ações e visão hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Meu amigo foi assaltado pela primeira vez aos 29 anos. Eu fui assaltado da minha dignidade por um sem número de vezes desde os 11 anos. Poderia escrever um manual sobre. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Me assustou perceber que essa realidade é minha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Me confortou saber que não somos todos fortes o tempo todo. E que sim, faz diferença na vida. E muita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*Arape Sango é cantor, compositor e escritor</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/5159269731080340893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/5159269731080340893?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/5159269731080340893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/5159269731080340893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/06/alvo.html' title='Alvo'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75fT7Y1MOxvroxb9HIxZ-gCnYn6WzGJ64fAYlRUo8XRCCdfOdGDJpBLbklwKaOlSoIYJN6AHtIY3gKtdlyynqgLWJWaMxcuSb-1UrEhYZeyj2kR0yAO1Nhavw0ZnIyCbH9IrUoBLWq0o/s72-c/hand-man-person-black-and-white-white-photography-489874-pxhere.com.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-1731139637790510623</id><published>2018-04-30T13:46:00.000-03:00</published><updated>2018-05-02T11:21:56.409-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Abandonar Lula é abandonar a luta de classes</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: left;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjxFFTdpMDDij97ob-dSk33OIu61kjzdeILMB6AyWuDeg5LGuI9-nJFYiLJ43RheMmxc90RvVlxYfICS1y9VqMcAV3QaVz9mtVoK-TTnGzX4QNh_gytWSSnA7lzbeQ42zCBPKoaPZnXlDc/s1600/40436934065_d02af76c99_o.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1067&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;425&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjxFFTdpMDDij97ob-dSk33OIu61kjzdeILMB6AyWuDeg5LGuI9-nJFYiLJ43RheMmxc90RvVlxYfICS1y9VqMcAV3QaVz9mtVoK-TTnGzX4QNh_gytWSSnA7lzbeQ42zCBPKoaPZnXlDc/s640/40436934065_d02af76c99_o.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
Foto (Mídia Ninja): Última Assembléia e Marcha Povo Sem Medo por Lula Livre, em São Bernardo do Campo, no dia 08 de abril de 2018.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Por Maria Fernanda Novo, Laura Luedy e Fábio Nolasco*&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Desde 8 de abril, subtraíram o corpo do ex-presidente Lula da cena política brasileira, aprisionando-o em Curitiba. Lula deixou de ser público, mas não deixou de participar do horizonte político que tem nas eleições de outubro o cenário menos previsível desde a redemocratização. Tal como anunciado na missa organizada em homenagem a Marisa Letícia, evento que iniciou o dia de sua prisão, os elementos de uma muito necessária transubstanciação já estavam à disposição. Lula se fez ideia. Aos líderes da esquerda, aos movimentos sociais e ao povo reunido em São Bernardo, é legada a responsabilidade pelo afrontamento da extrema direita e do liberalismo que se instala vertiginosamente pelo país. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao transubstanciar-se – não exatamente em pão e vinho, mas em churrasco, pagode e multidão – Lula se põe de acordo com o curso dos fatos: a ideia, o conceito e a forma da luta de classes no Brasil não cabe mais na singularidade Lula. Contudo, a nova figura representativa da luta de classes também não poderá, de maneira alguma, deixar de conter em si essa singularidade que lhe serviu de veículo por pelo menos três décadas. Isso porque o conceito e a realidade da luta de classes não operam por saltos bruscos, mas acumulam pacientemente, suspendem e conservam seu próprio caminho e história – porque, em suma, é memória acumulada da história dos oprimidos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A luta de classes no Brasil, em toda a complexidade da noção, não vai adiante sem Lula – e por isso é urgente que ele seja posto em liberdade. Isto é, para que a tal transubstanciação possa seguir seu curso e ir além do passe de mágica católico operado naquele sábado, na pia batismal de São Bernardo. Ela tampouco se dá, agora, apenas com o ex-presidente – e isso é incontornável, posto que estamos diante do restabelecimento do projeto brasileiro de luta de classes como um todo, a ganhar, enfim (e já tarde demais), nova figura quatro décadas depois.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas seria a luta de classes a única ideia na qual Lula se transformou? Duas são as possíveis respostas a essa pergunta - uma mais sombria, outra mais potente. Devemos ter coragem para encarar a resposta sombria como quem faz uma autocrítica, sem jogar pérolas aos porcos e sem nos constranger como se os equívocos grosseiros do desenvolvimentismo fossem um flagelo insuperável. Por outro lado, a necessária renovação se fará apenas se os processos de mudança não forem rifados à lógica da aliança com o atraso. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em primeiro lugar, não se pode negar que a história de Lula tenha feito dele uma personalidade. Ele próprio explora imensamente essa faceta na sua ação sobre o público. No discurso que precedeu a prisão, quem aparecia como o grande responsável por diminuir a mortalidade infantil e levar estudantes da periferia para as melhores universidades do país não era um conjunto de pessoas, mas uma pessoa só - o próprio Lula. Há, assim, o risco de que a ideia que Lula se tornou seja, em grande medida, a ideia da grande personalidade auto-suficiente e superpotente - e isso tem pouco valor para os fins reais da esquerda no país.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A segunda resposta e o outro lado da ideia correspondem, justamente, a Lula enquanto um indivíduo que carrega algo que o ultrapassa e faz dele uma potência incontornável da esquerda brasileira. Lula é, sem dúvida, uma figura efetiva da ideia da luta de classes. Diante de São Paulo, foi o imigrante nordestino. Diante do processo de favelização do polo industrial do ABC, produto do “milagre econômico” da ditadura, foi o articulador da resistência trabalhadora. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tratou-se, é certo, sempre de uma força que se mantinha no jogo porque também cedia. Isso se torna muito evidente, primeiro, em sua posição conciliatória no final crítico da greve do ABC de 1979. Como retratou o cineasta Leon Hirszman, no filme ABC da greve, Lula defendeu que os trabalhadores acatassem uma contraproposta da direção da fábrica, aquém das demandas grevistas. Para o então presidente do sindicato dos metalúrgicos, o aumento proposto pelos empresários representava uma vitória ao movimento sindical, que realizava uma greve sem precedentes em plena expansão da industrialização. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A figura conciliatória se manteve mais tarde, na administração da economia que fez em seu governo – administração que foi, em muitos aspectos, agradável ao neoliberalismo, embora haja sido também marcada por alguma intenção distributiva que apaziguou a miséria, mas não a exploração do trabalho e dos recursos naturais. De todo modo, ninguém que assista aos atuais desmontes da coisa pública e dos direitos básicos dos trabalhadores sob a administração do golpe deixará de olhar com saudades para a expansão do Bolsa Família, do salário mínimo e do ensino público no país. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Enquanto pessoa que carrega a figura da luta de classes, Lula é uma força da esquerda e não simplesmente enquanto personalidade. É isso o que justifica nossa mobilização contra sua prisão, e dificilmente tal fato é ignorado por Lula, pelo PT e pelos que se reuniram em torno dele no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos dias 7 e 8 de abril. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A deadline que Moro &amp;amp; Co. impuseram à história do país talvez tenha sido a maior responsável, aliás, por fazer disso que deveria ter sido um processo social de transubstanciação, um improviso carismático. A República de Curitiba, assim, tentou lançar veneno num processo de passagem essencial para nossa eterna tentativa de constituição enquanto povo diante do Estado e das forças da elite. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Trata-se do modus operandi tradicional que, desde sempre, desgoverna o Brasil, qual seja, a tática sempre vencedora de desarticular precisamente os momentos cruciais do passamento, adiá-los mediante violência e coerção, encarcerar ou assassinar covardemente (como no caso Marielle Franco) aqueles que portam e atuam a ideia da justiça social no país. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nossos processos de passagem sempre sofrem, nos momentos cruciais, interferências, interrupções abruptas, e daí que nossas reviravoltas tenham sido sempre saltos bruscos, no mais das vezes meramente nominais, sem passamento nenhum (vide a abolição da escravidão, a modernização no período ditadura e a própria redemocratização). Os momentos de passagem revelam sempre, especialmente no Brasil, a atuação antecipatória de elites exclusivamente preocupadas em impedir que as mãos “impuras” dos oprimidos imponham o sentido, o ritmo e a agenda do processo de alteração social.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Avançar um projeto de esquerda que não abandone Lula nem nos impeça de realizar mais amplamente a reconfiguração da luta de classes no Brasil é reivindicar o direito de operarmos nossa história a partir dos elementos que de fato a constituíram. É resistir e denunciar o golpe em curso.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp &lt;br /&gt;
Laura Luedy é doutoranda em sociologia pela Unicamp e feminista autônoma&lt;br /&gt;
Fábio Nolasco é doutor em filosofia pela Unicamp&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/1731139637790510623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/1731139637790510623?isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1731139637790510623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1731139637790510623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/04/abandonar-lula-e-abandonar-luta-de.html' title='Abandonar Lula é abandonar a luta de classes'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjxFFTdpMDDij97ob-dSk33OIu61kjzdeILMB6AyWuDeg5LGuI9-nJFYiLJ43RheMmxc90RvVlxYfICS1y9VqMcAV3QaVz9mtVoK-TTnGzX4QNh_gytWSSnA7lzbeQ42zCBPKoaPZnXlDc/s72-c/40436934065_d02af76c99_o.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-6222214940791072505</id><published>2018-04-27T10:17:00.000-03:00</published><updated>2020-06-08T13:43:05.611-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>A maior fake news do Brasil é a ideia de fake news</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjE2kMUnzKNaFXfZwdR9MJvCrEvOpPXAE4qSwCzE2g2m5dQoQbEnG-ds-YmU1IplpnVxJLcGdSJ2tpb8XOqZzPrkbB1DJ-Jh9fra3VY_hrel5cpGYqQZ_CpwS4SxnZhN4DfreGWZUpdLLU/s1600/Fux.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;731&quot; data-original-width=&quot;935&quot; height=&quot;500&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjE2kMUnzKNaFXfZwdR9MJvCrEvOpPXAE4qSwCzE2g2m5dQoQbEnG-ds-YmU1IplpnVxJLcGdSJ2tpb8XOqZzPrkbB1DJ-Jh9fra3VY_hrel5cpGYqQZ_CpwS4SxnZhN4DfreGWZUpdLLU/s640/Fux.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Ministério do Bom Senso adverte: este texto contém doses perigosas de ironia. Numa sociedade contaminada pelo fascismo, não existem níveis seguros para o uso dessa substância.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux, ameaçou suspender as eleições presidenciais durante um fórum sobre as chamadas &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt; promovido pela insuspeita revista Veja. De acordo com o ministro, &quot;uma propaganda que visa destruir o candidato alheio configura um abuso de poder que pode levar à cassação&quot;. É pra rir ou pra chorar?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Podemos começar rindo de uma cruzada contra fake news promovida pela Veja - a mesma revista que noticiou uma inexistente conta milionária do Romário, publicou fotomontagem do Lula abraçado com a Rosemary Noronha, atestou com convicção (mas sem provas) que Fidel Castro enviou US$ 3 milhões para o PT acondicionados em caixas de bebidas etc., etc., etc. É como se uma Câmara Legislativa presidida pelo Eduardo Cunha derrubasse o Poder Executivo em nome do &quot;combate à corrupção&quot;. Imagina só!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas a tragédia é tão profunda que não tem nem por onde rir. A começar pelo fato de que já tem gente falando em coibir &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt; sem que tenhamos sequer definido o que são &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;. Porque, se encararmos a tradução ao pé-da-letra (notícias falsas), pode ter certeza de que estamos atacando o problema errado. A promoção do desconhecimento como arma política não é nenhuma novidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quase 100 anos antes de Cristo, Julio César manipulou o medo generalizado de uma ameaça bárbara para justificar uma invasão da Gália e construir capital político para entrar em Roma como imperador. Hitler vestiu seus soldados em uniformes poloneses e atacou uma estação de rádio na fronteira com a Polônia para justificar a expansão nazista para o Leste. Bush jurou de pé junto que Saddam Hussein tinha armas químicas para justificar uma operação de assalto ao petróleo. No pós-crise de 2008, democracias liberais do mundo todo transformaram o crescimento da dívida interna na maior ameaça à segurança econômica mundial para garantir que os pobres pagassem pela farra financeira de bilionários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi um bom nacionalista alemão chamado Joseph Goebbels quem inventou a metodologia contemporânea de disseminação de fake news (também conhecida como propaganda), que ele definia cinicamente: uma mentira repetida à exaustão vira verdade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O comandante da &lt;i&gt;Luftwaffe&lt;/i&gt; (Força Aérea alemã) e inveterado viciado em morfina Hermann Göring, por exemplo, meteu o louco e soltou a seguinte pérola durante o tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes nazistas no pós-Segunda Guerra: &quot;o povo sempre pode ser forçado a se ajoelhar diante de seus líderes. Isso é fácil. Tudo que você tem que fazer é dizer que eles estão sendo atacados e denunciar os pacifistas como antipatriotas que estão colocando o país em perigo. Funciona assim em qualquer país&quot;. Imagino o então deputado Lyndon B. Johnson ouvindo o depoimento no rádio e pensando: &quot;alguém dá logo um tiro nesse filho da puta, antes que ele dê o spoiler completo da guerra que eu vou fazer no Vietnã!&quot; Quer dizer, a diferença entre os bons capitalistas liberais e os maus capitalistas fascistas é uma questão de etiqueta, não de respeito aos direitos humanos. Os liberais mastigam o povo de boca fechada e dispensam os restos no banheiro, enquanto os fascistas sujam a mesa com cadáveres. Fascistas matam fedido, liberais matam limpinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;&lt;b&gt;Fake news&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;, um slogan&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tá certo, mas o que isso tem a ver com o fato do Fux ameaçar cancelar as eleições em nome do combate às &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt;? Tudo. &lt;i&gt;“Fake news”&lt;/i&gt; são em si um conceito publicitário e como tal, não podem ser encaradas sem uma menção honrosa ao nazismo, que nos presenteou com a forma contemporânea de forjar e manipular vontades políticas. Com o ar de novidade com que são apresentadas, &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt; não passam de um slogan de pseudo-combate às estratégias de manipulação da vontade popular. Só que slogan funciona que nem o mito da caverna. Liga o Mito da Caverna? Aquela historinha do Platão: tinha uma galera presa numa caverna, que só via o mundo através das sombras projetadas por uma fogueira numa parede. O que acontecia do lado de fora da caverna aparecia como imagens chapadas na parede pra quem estava dentro. E a turma da caverna achava que as sombras tremulantes eram o mundo de fato e não uma imitação da realidade. Slogans são sombras de conceitos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ou seja, a maior &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt; que a gente tem é o próprio conceito de &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;. Obviamente, não estou negando a existência de notícias falsas. Pelo contrário. Elas são tão profundamente arraigadas na nossa cultura, que simplesmente proibi-las é tapar o sol com a peneira. É como proibir a corrupção. Ok, a corrupção é proibida, mas e daí? É preciso um rearranjo cultural e cognitivo para enfrentar este tipo de coisa. Rearranjo cultural dá trampo, altera estruturas que estão consolidadas pra quem tem muito poder, estimula a sociedade a se refletir e se reinventar, dissemina criatividade política.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quem tem poder e um mínimo de inteligência sabe disso. E sabe também que &lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/news/technology-41319683&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;92% dos brasileiros estão preocupados&lt;/a&gt; com isso. Pior, estão em pânico, que é o estado ideal para engolir medidas autoritárias que só beneficiam quem já tem dinheiro e poder. Como explica o psicólogo Roy Eidelson, no livro recém-lançado &lt;i&gt;Political Mind Games: how the 1% manipulates our understanding of what&#39;s happening, what&#39;s right and what&#39;s possible&lt;/i&gt; (trad. livre: Jogos Mentais Políticos: como o 1% manipula nossa compreensão do que está acontecendo, do que é correto e do que é possível), &quot;nossa preocupação com a vulnerabilidade é central para a maneira como vemos o mundo ao nosso redor. Quando nossa segurança está ameaçada, nada mais importa. A simples expectativa do perigo pode consumir todo nosso foco e energia. Portanto, não é à toa que o desejo de assegurar nossa segurança - e de nossos entes queridos - é uma força poderosa para determinar as políticas que apoiamos e as ações que tomamos. Por isso, os plutocratas de hoje trabalham duro para moldar nossa percepção da vulnerabilidade para seus próprios objetivos&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se a pesquisa da BBC mostrou que temos pânico de &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt;, hora de mistificar mais ainda as &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt;, transformá-las no bicho-papão das eleições, capaz de ameaçar a própria legitimidade da vontade popular. Para que este esforço dê frutos, é necessária uma construção anti-intelectual, anti-racional das &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt;. Ou seja, é necessário maximizar a sombra publicitária do fenômeno como meio de obscurecer o fenômeno em si. Em outras palavras, evitar fornecer às &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt; um corpo teórico. &lt;i&gt;“Fake news”&lt;/i&gt; só podem gerar medo, que é uma moeda política facilmente modelável; nunca pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que Fux começou a fazer ontem foi essa mistificação. Exatamente o contrário do que fez o Conselho Europeu. Ao invés de soltar ameaças vagas sobre a judicialização do processo eleitoral, este órgão - que não dá para chamar exatamente de antro de comunistas - encomendou à doutora em Comunicação e diretora de Redes Sociais da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) Claire Wardle e ao escritor e ativista iraniano Hossein Derakhshan uma pesquisa acadêmica séria que permitisse entender a complexidade do fenômeno e balizar a tomada de decisões políticas. O resultado foi a monografia &lt;a href=&quot;https://firstdraftnews.org/wp-content/uploads/2017/11/PREMS-162317-GBR-2018-Report-de%CC%81sinformation-1.pdf?x99899&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;i&gt;Distúrbio informativo: em direção a uma moldura interdisciplinar para pesquisa e formulação de políticas públicas&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, divulgada em 2017 pelo First Draft, centro de pesquisa de mídia de Harvard. Pra gente aqui no Brasil, pode parecer atrasado mas, em alguns lugares do mundo, políticas públicas ainda são baseadas em pesquisas e não em memes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira conclusão da pesquisa é justamente que o termo &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;, embora seja um slogan chiclete, não dá conta do fenômeno. Primeiro, porque a maior parte das narrativas que promovem e se alimentam do desconhecimento não é nem notícia nem necessariamente falsa. Muito mais frequentes do que &lt;a href=&quot;https://www.cartacapital.com.br/politica/facebook-tera-de-informar-se-mbl-pagou-para-impulsionar-2018fake-news2019-sobre-marielle&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;mentiras deslavadas à la MBL&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.forbes.com/sites/fruzsinaeordogh/2017/10/03/google-needs-to-blacklist-4chan-during-national-crises/#3bbdfad43dcd&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;4Chan&lt;/a&gt; são as imagens colocadas fora de contexto ou em arranjos semióticos que conduzem o leitor a interpretar aquilo que o autor da narrativa quiser.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Distúrbio informativo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De forma muito resumida, o estudo da Comissão mapeia este ecossistema a partir de algumas definições gerais de suportes de notícias, meios de propagação, tipos de autores e receptores, que se influenciam e se modificam mutuamente, de formas distintas. Para analisar uma &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;, é preciso primeiro saber se a informação é simplesmente falsa, simplesmente prejudicial a alguém ou se é os dois ao mesmo tempo. Ela pode ser o vazamento de uma escuta ilegal, por exemplo, que não traz nenhuma mentira intrínseca, mas tem o único objetivo de prejudicar alguém. Uma presidenta da República, para usar um exemplo aleatório, sem qualquer relação com o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em segundo lugar, temos que analisar quem propaga a narrativa, como propaga e qual seu grau de credibilidade diante do receptor, que pode ser passivo (não fazer mais do que receber o conteúdo) ou ativo, compartilhando o que recebe. E mesmo no caso do compartilhador ativo, há variáveis que têm de ser consideradas, uma vez que, no ecossistema da propagação de mensagens nocivas, a intencionalidade é fundamental. A pessoa compartilhou como apoiadora ou opositora da mensagem? Isso vai mudar a maneira como ela é redistribuída - sim, porque o conteúdo na comunicação em rede sofre diversas distribuições ao mesmo tempo, por razões e com objetivos inumeráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso significa que é essencial analisar também o processo de propagação: como a mensagem é criada, como é distribuída, como é recebida, eventualmente remixada e redistribuída. Como se tudo isso não bastasse, quem se aventurar a estudar esse problema tem que levar em conta o suporte de distribuição, já que ele influencia em todos os agentes anteriores. Embora a gente fale em &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;, as notícias falsas são a minoria absoluta do conteúdo nocivo. Em quantos dos seus grupos de WhatsApp, os &quot;textões&quot; são proibidos enquanto os memes circulam livremente? Dá para dizer que memes são necessariamente notícias falsas? Por outro lado, considerando que os &lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/portuguese/brasil-43797257&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;grupos de família são os principais vetores de difusão do caos informativo&lt;/a&gt;, dá para ignorar o papel dos memes na construção de narrativas ou destruição de reputações? &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa comunicação descentralizada, de intencionalidades múltiplas, altera o mapa da comunicação de uma maneira inédita na história. O emissor não é necessariamente conhecido ou respeitado, a credibilidade passa por critérios subjetivos obscuros e o receptor não é necessariamente passivo. Ou seja, estamos falando de um ambiente de poluição comunicativa que frequentemente escapa ao controle dos centros de poder e exige novos paradigmas conceituais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste sentido, o olhar reducionista sobre o slogan &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt; restringiu o debate ao plano textual. E pior: fez com que as empresas de tecnologia e pesquisadores do tema gastassem tempo demais desenvolvendo técnicas de localização textual de mentiras. Bom, deveríamos buscar as más intenções em vídeos, memes, gifs... Deveríamos, como sugere o estudo, neutralizar as incontáveis variáveis que resultam neste &quot;distúrbio informativo&quot; de proporções internéticas. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Enfrentar a disseminação de &lt;i&gt;fake news &lt;/i&gt;ou preparar o receptor?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas será que isso é possível? É possível proibir as más intenções e a influência delas em processos sociológicos, políticos, econômicos e culturais? É possível criar uma boa técnica que freie a subversão da democracia pelo mau uso da técnica? Ainda que não possamos nos dar ao luxo de buscar paliativos, é preciso ter a honestidade de encarar paliativos pelo que são e reconhecer que a resposta para as três perguntas anteriores é provavelmente não. Não tem jeito de conter tecnicamente o distúrbio informativo, como não tem jeito de avaliar objetivamente se alguém chegou ao poder por &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt; ou não. Afinal, todo mundo que chegou ao poder teve sua dose de notícias falsas, manipulações, propaganda. Isso deve ter começado no primeiro pilantra que resolveu marcar os dias com risquinhos num cajado, reparou que as estações do ano são cíclicas, previu um inverno e convenceu todo mundo de que era profeta. Quer dizer, a manipulação é um vício de origem, mas não é na origem da mensagem que devemos buscar a cura do vício. É no preparo do receptor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o ministro Fux, se a Veja, se quem quer que seja estiver interessado em de fato combater &lt;i&gt;&quot;fake news&quot;&lt;/i&gt;, não como uma estratégia publicitária de disseminação do pânico, não como um estigma a ser colado ao inimigo da vez, como &quot;corrupção&quot; ou &quot;terrorismo&quot;, mas como uma doença social que subverte a democracia, um bom começo pode ser estudar a literatura que está sendo produzida sobre isso no mundo. Traduzir a pesquisa encomendada pelo Conselho Europeu e distribuí-la amplamente pelos agentes envolvidos na execução e fiscalização do processo eleitoral pode ser uma boa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas mesmo isso é um paliativo. Porque no fundo, só existem três ferramentas capazes de atacar o problema de fato. E, como as três são medidas de longo prazo, nenhuma delas vai render fatias de poder pra ninguém. A mais importante de todas é a alfabetização crítica da população: preparar o nosso povo, desde cedo, para compreender as mensagens subliminares de qualquer discurso autoritário. E toda propaganda é autoritária, uma vez que o emissor se vale de um repertório psico-semântico que não está disponível ao receptor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo, é preciso politizar honestamente a sociedade inteira. As pessoas têm de saber se colocar num campo político, saber que querem o poder e porquê querem o poder. É preciso que a política não seja um clube VIP de engravatados, mas uma atividade cotidiana de promoção do bem-estar humano. Assim, as pessoas serão capazes de diferenciar as propostas políticas que de fato visam o bem coletivo daquelas que ideologicamente sequestram o poder da maioria para o benefício de poucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, é preciso que a mídia seja amplamente democratizada. E essa democratização não é simplesmente uma redistribuição de verba entre veículos midiáticos já existentes. Ainda que obviamente, uma mídia monopolista e oligárquica como a nossa seja um canhão na têmpora da democracia, a democratização é mais do que uma canetada. Ela é dependente da alfabetização crítica. Ela tem de ser um processo que quebre monopólios ao mesmo tempo em que eduque as pessoas para distinguir conteúdo informativo de melodrama sensacionalista. É preciso ensinar à sociedade os truques da construção ideológica da imagem, rompendo as diversas esferas de distinção entre emissor e receptor. Em outras palavras, a democratização da mídia implica ampla redistribuição do poder. Não apenas do poder de difundir, mas do poder de interpretar o que se recebe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sem essas três medidas educativas que busquem desconstruir o caráter autoritário da comunicação universalizando a democracia informativa, não há como efetivamente enfrentar &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt;, independentemente do quão sofisticado seja seu algoritmo de detecção e verificação. Nosso maior problema não é a criação de narrativas mal-intencionadas ou seus novos meios técnicos de propagação. O problema é que a gente está moldado pra acreditar em propaganda como se fosse informação. Ainda que estas soluções estejam no longo prazo, a simples tentativa de desmascarar a instrumentalização publicitária das &lt;i&gt;“fake news”&lt;/i&gt; e o compromisso com a racionalização do conceito frente à tentação reducionista já são vias de enfrentar o problema. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E, ao longo desta luta, temos que ter sempre na mente: ou aprendemos a nos comunicar fora da lógica da propaganda goebbeliana, que legitima a mentira e a manipulação, ou o distúrbio informativo terá vindo para ficar.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/6222214940791072505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/6222214940791072505?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6222214940791072505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6222214940791072505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/04/a-maior-fake-news-do-brasil-e-ideia-de.html' title='A maior fake news do Brasil é a ideia de fake news'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjE2kMUnzKNaFXfZwdR9MJvCrEvOpPXAE4qSwCzE2g2m5dQoQbEnG-ds-YmU1IplpnVxJLcGdSJ2tpb8XOqZzPrkbB1DJ-Jh9fra3VY_hrel5cpGYqQZ_CpwS4SxnZhN4DfreGWZUpdLLU/s72-c/Fux.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-7439233569755501578</id><published>2018-04-19T19:59:00.001-03:00</published><updated>2018-04-19T20:08:17.885-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Gleisi, al-Jazeera e a ignorância como estratégia</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpn-H0RgH8luI5hKK-DUZTDT5qOBKoNqN6T7UtkJ3AJBtyWhfRurqNeFLownpCwWBxsolL8E6saNX_8X4vdZHwVU2GD05E4ZVwwfr6kE_uEwJufLsMkbi23J7x19HzY8bP7eS3yZnS1JI/s1600/Gleisi.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1065&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpn-H0RgH8luI5hKK-DUZTDT5qOBKoNqN6T7UtkJ3AJBtyWhfRurqNeFLownpCwWBxsolL8E6saNX_8X4vdZHwVU2GD05E4ZVwwfr6kE_uEwJufLsMkbi23J7x19HzY8bP7eS3yZnS1JI/s640/Gleisi.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Cheguei atrasado na história do &lt;a href=&quot;https://www.google.com/url?sa=t&amp;amp;rct=j&amp;amp;q=&amp;amp;esrc=s&amp;amp;source=video&amp;amp;cd=6&amp;amp;cad=rja&amp;amp;uact=8&amp;amp;ved=0ahUKEwiMmMvir8faAhUJiJAKHTFJBQcQtwIIPDAF&amp;amp;url=https%3A%2F%2Fnoticias.uol.com.br%2Fultimas-noticias%2Fagencia-estado%2F2018%2F04%2F18%2Fapos-video-para-tv-arabe-gleisi-e-ana-amelia-trocam-acusacoes-no-senado.htm&amp;amp;usg=AOvVaw3TY0zvtxUYUOeockP0dWDA&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;vídeo&lt;/a&gt; que a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, gravou para a Al-Jazeera. Foram memes desencontrados sobre uma eventual confusão entre o gigante midiático catari e a Al-Qaeda (?) que me levaram a desenterrar a narrativa. Pensei que alguém tivesse de fato misturado alhos com bugalhos. Mistura houve. Mas foram outros alhos e outros bugalhos.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ana Amélia, senadora pelo PP gaúcho, &lt;a href=&quot;https://www.google.com/url?sa=t&amp;amp;rct=j&amp;amp;q=&amp;amp;esrc=s&amp;amp;source=video&amp;amp;cd=6&amp;amp;cad=rja&amp;amp;uact=8&amp;amp;ved=0ahUKEwiMmMvir8faAhUJiJAKHTFJBQcQtwIIPDAF&amp;amp;url=https%3A%2F%2Fnoticias.uol.com.br%2Fultimas-noticias%2Fagencia-estado%2F2018%2F04%2F18%2Fapos-video-para-tv-arabe-gleisi-e-ana-amelia-trocam-acusacoes-no-senado.htm&amp;amp;usg=AOvVaw3TY0zvtxUYUOeockP0dWDA&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;disse em plenário&lt;/a&gt; esperar que a declaração da colega não fosse &quot;um pedido para o &#39;Exército Islâmico&#39; atuar no Brasil&quot;. Considerando que não existe uma entidade chamada &quot;Exército Islâmico&quot;, suponho que Ana Amélia estivesse se referindo ao&amp;nbsp; autoproclamado Estado Islâmico, aquela organização de extrema-direita que emergiu das ruínas do Iraque devastado pela também autoproclamada Guerra ao Terror e tentou erigir um califado sobre os escombros da Síria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seu discurso monocromático, que, por ignorância ou má-fé, divide o mundo ideologicamente entre bons cristãos e maus muçulmanos, Ana Amélia não desata um único nó da intrincada teia de interesses geopolíticos que cobre o Oriente Médio. A Al-Jazeera já foi &lt;a href=&quot;https://www.counterpunch.org/2017/07/27/free-speech-or-terror-tv-al-jazeeras-support-for-isis-and-al-queda/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;acusada de oferecer espaço para o fundamentalismo&lt;/a&gt;; e não é uma acusação completamente sem sentido. Entre as razões para desconfiança estão o fato de a emissora não usar, ao contrário da mídia europeia, o acrônimo pejorativo Daesh para se referir à milícia sunita, além do fato de ela ter oferecido palanque à Irmandade Muçulmana, antes e durante a conversão da primavera egípcia no longo inverno distópico de Abdel Fattah al-Sissi. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até aí, a Globo também não chama um Jair Bolsonaro de fascista e a Record é um palanque 24/7 para Igreja Universal, cujas declaradas aspirações totalitárias fazem o projeto teológico da Irmandade Muçulmana parecer uma democracia liberal. O que estou dizendo é que a Al-Jazeera, como qualquer império de mídia, não é um hub de ativismo midiático trabalhando pela revolução - embora seja acusada de ser exatamente isso pelas principais teocracias da região, &lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/voices/al-jazeera-saudi-arabia-israel-policy-terrorism-isis-iran-prince-mohamed-netanyahu-a7885851.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Israel e Arábia Saudita&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Al-Jazeera, em terra de cego&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A al-Jazeera é a maior rede de comunicação do mundo árabe, além de ser a única que se pauta pelos tímidos postulados liberais de &quot;liberdade de expressão&quot; e &quot;imparcialidade&quot;. Além da palpável aspiração de Doha em, no pós-guerra, controlar a &lt;a href=&quot;https://outraspalavras.net/posts/qatar-a-crise-e-seus-impactos-geopoliticos/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;bilionária reconstrução da Síria&lt;/a&gt; e, consequentemente, o abastecimento de petróleo via Turquia para a Europa, este compromisso da Al-Jazeera com o jornalismo livre foi uma das razões pelas quais os &quot;parceiros&quot; da OPEP romperam relações com o Catar em meados do ano passado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender a cena, basta olhar para o funcionamento da mídia nos demais países da região: toda informação que sai da monarquia wahabista saudita, seja pela agência oficial Sanaa, seja por um blog qualquer, passa pelo crivo da família real. E o crime de desobediência ou desrespeito à elite governante pode acarretar 10 anos de prisão, além de 1000 chibatadas, como aconteceu com o blogueiro &lt;a href=&quot;https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/saudiarabia/11349501/How-do-you-survive-1000-lashes.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Raif Badawi&lt;/a&gt;, que cometeu a heresia de defender, em termos moderadíssimos, a laicização do Estado, em 2012.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O vizinho Bahrein &lt;a href=&quot;https://www.hrw.org/news/2017/06/18/bahrain-only-independent-newspaper-shut-down&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;fechou o Al-Wasat&lt;/a&gt;, seu único jornal independente, em junho de 2017. Antes e depois disso, dissidência - física ou ideológica - ao emirado é caso de prisão perpétua e pena de morte. (Cuidado: terreno irônico a seguir) Pelo menos, o Bahrein ainda persegue a dissidência dentro de algum tipo de moldura legal, ao contrário do Egito, que desde 2013, tem tratado jornalistas com &lt;a href=&quot;http://www.liberation.fr/planete/2017/09/06/egypte-la-torture-des-detenus-politiques-probable-crime-contre-l-humanite_1594559&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;tortura e execuções sumárias&lt;/a&gt;. Do ponto de vista jurídico, Cairo determinou em 2015 que só a &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/news/2015/08/egypt-adopts-controversial-anti-terror-law-150817042612693.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;versão oficial&lt;/a&gt; de qualquer &quot;ato terrorista&quot; pode ser publicada. Nada como uma terminologia vaga como &quot;terrorismo&quot; para fantasiar a arbitrariedade de lei: até um jogador de futebol, Mohamed Aboutrika, já foi &lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/news/world-middle-east-38659473&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;considerado terrorista&lt;/a&gt; pelo regime al-Sissi, depois de declarar simpatia a adversários políticos do presidente-marechal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a href=&quot;https://rsf.org/en/oman&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Omã&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://rsf.org/en/united-arab-emirates&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Emirados Árabes Unidos&lt;/a&gt; não ficam atrás: nos anos que se seguiram à Primavera Árabe, os dois instauraram a leis de ciber-crimes, que preveem longas sentenças de prisão para jornalistas e blogueiros que &quot;insultem ou difamem&quot; o Estado. Na Turquia, o líder autocrata Recep Tayyip Erdogan está há 15 anos no poder demonstrando seu desprezo pela dissidência (ele chegou inclusive a &lt;a href=&quot;https://www.independent.co.uk/news/world/asia/facebook-twitter-whatsapp-turkey-erdogan-blocked-opposition-leaders-arrested-a7396831.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;proibir todas as redes sociais&lt;/a&gt; - &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2017/apr/29/turkey-blocks-wikipedia-under-law-designed-to-protect-national-security&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Wikipedia inclusa&lt;/a&gt; - e &lt;a href=&quot;http://www.elmundo.es/internacional/2016/05/20/573f6ed622601dd6368b4693.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;enquadrou como &quot;terroristas&quot; membros do HDP&lt;/a&gt;, partido pró-curdo que faz a única oposição de fato ao seu governo). Em 2016, ele aproveitou uma mal-ajambrada tentativa de golpe de Estado supostamente organizada por seu ex-aliado Fetullah Gülen, para promover a &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2017/mar/23/turkish-journalists-solitary-confinement-maltreatment-jail&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;censura em larga escala&lt;/a&gt;. De lá para cá, mais de 200 jornalistas foram presos, 25 mil demitidos e 120 veículos de mídia fechados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ou seja, o golfo não está para peixe no que diz respeito à liberdade de imprensa. O oásis neste cenário desolador, em que cartéis formados por bilionários do petróleo e líderes autoritários impõem sua narrativa para manter o fluxo de petrodólares livre de aspirações democráticas, é justamente a al-Jazeera. A rede foi criada em 1996 majoritariamente pela equipe editorial da unidade árabe da BBC britânica, que ficou a ver navios depois que a família real saudita decidiu dissolver a sucursal. Se, em 2001, três em cada quatro árabes tinham na al-Jazeera sua fonte primária de informação, este número cresceu exponencialmente durante a cobertura da Primavera Árabe, quando a emissora passou a replicar todos os matizes da revolta popular, em particular no Egito e na Tunísia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Não, a al-Jazeera não serve para convocar &quot;Exército Islâmico&quot;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A al-Jazeera é o oposto de tudo que o que chamamos genérica e ignorantemente de fundamentalismo islâmico defende. Pergunta se existe liberdade de imprensa na Dabiq, a revista do &quot;califado&quot;. Pergunta se diversidade de opinião é um valor encampado pelo &quot;califa&quot; Abu Bakr al-Baghdadi. Não é a al-Jazeera que tem capacidade de convocar o &quot;Exército Islâmico&quot; (sic) em defesa do ex-presidente Lula. Até porque o Daesh é uma seita totalitária, enquanto Lula é tão republicano, que continua acreditando nas instituições democráticas e na Justiça oligárquica, mesmo depois de a democracia ter sido esfacelada por um golpe encampado pelo Judiciário. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quem se aproxima do &quot;fundamentalismo islâmico&quot; - eu prefiro chamar de extrema-direita wahabista - é quem defende militarização da política, ingerência religiosa no Estado, pena de morte. É por esse tipo de coisa que luta o jihadismo wahabista radical, não pela pluralidade de informações. Tanto que, em seu auge, o grupo Estado Islâmico mantinha ótimas relações comerciais e militares com a Turquia de Erdogan, além do perfeito alinhamento ideológico com a Arábia Saudita, que financia diretamente a promoção desta leitura ultra-conservadora do Alcorão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A al-Jazeera, como qualquer grande veículo liberal, está longe de ser perfeita. Mas tachar um depoimento ao único órgão midiático plural do mundo árabe de &quot;convocação&quot; à extrema-direita fundamentalista em defesa de um líder social-democrata não pode ser só um contrassenso absurdo. Até porque, me recuso a acreditar que as pessoas que estão vendendo esta narrativa acreditem nela de fato. Me parece uma perigosa estratégia de promoção da ignorância, de instrumentalização do racismo e da xenofobia. É usar a premissa racista de que &quot;todo muçulmano é terrorista&quot; para dizer que quem fala com muçulmano é terrorista. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E, se é uma estratégia, é premeditada. A linha de construção desse pensamento seria mais ou menos a seguinte: &quot;quero classificar o PT de terrorista. Por quê? Porque &#39;terrorismo&#39; é um tipo jurídico impreciso, que causa pânico na sociedade e me permite imputar qualquer pena a qualquer pessoa ou organização&quot;. O escarcéu que a direita está fazendo em cima do vídeo da Gleisi Hoffmann tem muito mais de promoção do terror do que o fato de a presidenta do PT falar com a mídia liberal árabe. Afinal, como mostram claramente Turquia e Arábia Saudita, classificar adversários políticos de &quot;terroristas&quot; é um expediente recorrente das autocracias árabes para eliminar a diversidade política e fertilizar o terreno para o crescimento do chamado fundamentalismo islâmico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Que erva daninha brotará do totalitarismo brasileiro após o expurgo do PT?&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/7439233569755501578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/7439233569755501578?isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/7439233569755501578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/7439233569755501578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/04/gleisi-al-jazeera-e-ignorancia-como.html' title='Gleisi, al-Jazeera e a ignorância como estratégia'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpn-H0RgH8luI5hKK-DUZTDT5qOBKoNqN6T7UtkJ3AJBtyWhfRurqNeFLownpCwWBxsolL8E6saNX_8X4vdZHwVU2GD05E4ZVwwfr6kE_uEwJufLsMkbi23J7x19HzY8bP7eS3yZnS1JI/s72-c/Gleisi.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-6644289153601057639</id><published>2018-04-18T14:43:00.000-03:00</published><updated>2018-04-20T13:22:09.271-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Negritude"/><title type='text'>Violência policial é regra no eterno estado de exceção do Brasil</title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOwRZUaV1BiANv8yEhEbGGXpb8Tj1qs4_p9eJiix5Mn-g7mYiCvopVJgrcM60hg-7c3tCwAToVlfhIwnldpZTm42h8yMvTVPhqewyY4L562HHND26of9BW_MYh0_E4uGbwIzRUeXTZtMI/s1600/luiz_morier.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;545&quot; data-original-width=&quot;750&quot; height=&quot;465&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOwRZUaV1BiANv8yEhEbGGXpb8Tj1qs4_p9eJiix5Mn-g7mYiCvopVJgrcM60hg-7c3tCwAToVlfhIwnldpZTm42h8yMvTVPhqewyY4L562HHND26of9BW_MYh0_E4uGbwIzRUeXTZtMI/s640/luiz_morier.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;i&gt;Em nove meses de 2017, a polícia de São Paulo matou 687 pessoas, o que dá uma média de homicídios próxima do autoproclamado Estado Islâmico. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;Foto: &lt;/i&gt;Todos Negros&lt;i&gt;, feita por Luiz Morier, durante uma blitz no Rio de Janeiro, em 1982. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por &lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/profile/02406759242929430553&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Vanessa Oliveira&lt;/a&gt;, Maria Fernanda Novo* e&amp;nbsp; &lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/profile/03693301250331486876&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Gabriel Rocha Gaspar&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O roteiro da violência policial no Brasil chega a ser monótono: o soldado aborda o jovem pobre – quase sempre negro –, que morre numa suposta “troca de tiros”. Na primeira versão que emerge da corporação, o morto é reduzido a “bandido”, “suspeito” ou coisa que o valha, como se alguma coisa valesse para justificar assassinato extra-judicial. Geralmente, a história acaba por aí. Quando não, é porque vêm à tona imagens amadoras que colocam em xeque a versão da polícia. Se o contraditório é suficientemente midiatizado, as autoridades são impelidas a responder. E vêm com o padrão moralista de sempre, que isola a solução de sua causa estrutural: “vamos apurar e, se constatado que houve excesso por parte do policial, ele será responsabilizado”. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É a lógica da “laranja podre”. Para criar uma cortina de fumaça sobre a cultura violenta da corporação, assume-se a existência de “maus policiais”, que precisam ser expurgados pelo bem da sociedade. Nos primeiros nove meses de 2017, as “laranjas podres” da polícia de São Paulo fizeram 687 vítimas, segundo levantamento feito pelo UOL a partir de dados da Secretaria de Segurança Pública. Isso significa uma média de 76,3 mortos por mês, em um único estado brasileiro. Para se ter uma ideia do que isso significa, em novembro de 2017, o autoproclamado Estado Islâmico matou 114 pessoas. Se a média nacional for próxima da paulista, as polícias brasileiras são infinitamente mais mortíferas que a milícia wahabista. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A diferença é que o chamado Daesh está em guerra declarada, com o claro objetivo de erigir uma teocracia global sobre os cadáveres de todos que considera infiéis. A polícia brasileira não está em guerra declarada nem tem objetivo claro. Não carrega um slogan liberal como a norte-americana, que diz “proteger e servir”. Traz caveiras, armas e feras como símbolos, mas trata o assassinato extra-judicial como exceção à regra. Se a violência desmedida é excepcional, podemos supor que a regra da corporação se paute por um humanismo profundo, de caráter democrático, com compromisso social e institucional. Bom, não é o caso. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E seria uma aberração histórica se tivéssemos uma polícia liberal – no sentido iluminista clássico – num Estado colonial oligárquico como o brasileiro. Uma polícia minimamente democrática depende de uma concepção de coisa pública que não existe no Brasil. Desde que fomos batizados com esse nome de commodity, somos um país cuja máquina burocrática serve exclusivamente a interesses extrativistas privados. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nunca determinamos culturalmente que o Estado devesse servir para algo mais do que a administração da violência em defesa da propriedade, sempre conquistada à força (com escravização e genocídio) pelas elites dominantes. E as tímidas tentativas de se atribuir uma função pública ao Estado – com Vargas, Jango e o Partido dos Trabalhadores – foram respondidas com virulência golpista pelas oligarquias, sempre prostradas sob o estandarte do combate à corrupção.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Há uma ironia profunda na instrumentalização do discurso anti-corrupção como mecanismo de reversão das funções estatais à exclusiva manutenção violenta da propriedade privada. É que a propriedade privada existe no Brasil graças à corrupção inerente a este Estado orientado exclusivamente para a manutenção de privilégios de classe. O que é a chamada “Lei para Inglês Ver” (Lei Feijó, de 1831), que institucionalizou as vistas grossas do Império Brasileiro ao tráfico de africanos escravizados, senão a inscrição da corrupção das elites na Constituição? &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ou ainda os bandeirantes, milicianos contratados, oficial ou oficiosamente, pelo Estado para promover terror genocida pelos sertões em nome do interesse privado de grandes proprietários (de terras e pessoas)? As Bandeiras são ótimo exemplo do quanto está consolidada na concepção de Estado de nossas elites a ideia de que a manutenção e expansão da propriedade privada precisam ser feitas à margem da lei e da institucionalidade. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É uma concepção que admite uma contradição fundamental no discurso liberal: a ideia de que é possível confinar o capitalismo a limites legais. Se a acumulação é a força motriz do sistema, impor restrições de qualquer ordem à acumulação significa implodir a prazo as bases de reprodução do próprio sistema. A solução para o paradoxo é cínica: erguer fronteiras legais proto-humanitárias contra a exploração ao mesmo tempo em que se tolera que os maiores acumuladores terceirizem a violência necessária à expansão do lucro. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Exemplos abundam pela história. No século XVII, a Coroa inglesa comissionou piratas para assegurar suas colônias caribenhas, por exemplo; desde a década passada, Washington encarrega o exército mercenário da Blackwater da missão de garantir com violência facínora o fluxo de petrodólares do Oriente Médio para suas corporações; e o poder pseudo-público brasileiro sempre contratou – e contrata – milicianos para assegurar um Estado oligárquico, orientado exclusivamente para a exploração elitista. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se a cínica terceirização da violência é intrínseca ao divórcio entre discurso e prática no capitalismo liberal, a tendência é que este expediente cresça em escala num lugar como o Brasil, onde o Liberalismo se estabeleceu exclusivamente em sua fórmula econômica, esvaziado do repertório filosófico humanista. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Isto aqui é uma colônia escravocrata – o que significa que, ao contrário do que dita a historiografia oficial, a escravidão não foi utilizada para produção de mercadoria. A mercadoria era o negro em si, o que traz uma série de implicações políticas, econômicas e psicossociais. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para o filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe, a lógica da exploração total nas colônias exige um novo tipo de consciência e de análise econômica, que considere o escravizado, simultaneamente, como objeto, força de trabalho e mercadoria. Foi essa economia escravocrata, amparada na ficção metafísica do conceito de raça, que impulsionou o capitalismo mercantil e o posterior capitalismo industrial. O comércio transatlântico de africanos inaugura de uma só vez a geopolítica da exploração e a naturalização jurídica do sujeito sem direito. Não haveria condições para a ascensão da ordem burguesa não fosse pela violência do tráfico transatlântico de seres humanos. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Claro que o comércio de pessoas em si já implica uma violência objetiva inenarrável. Arrancar pessoas de suas terras, famílias, idioma, nome, cultura, qualidades afetivas, memória e histórias ancestrais é um processo que desfaz o corpo negro, desmonta sua identidade. A partir dessa violência, a razão colonial naturaliza a privatização dos lucros e os prejuízos econômicos, sociais e ambientais são assumidos pelo Estado e distribuídos entre a população segundo um critério de hierarquização racial.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas, além de toda violência objetiva, a sustentação da instituição escravocrata exige formas de violência mais gráficas, de maior impacto subjetivo, como estupro, tortura, assassinato e mutilações. De acordo com o psiquiatra e filósofo martinicano Franz Fanon, a fórmula de sucesso da colonização é a combinação dos usos físico e simbólico da violência.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pense no Haiti. Lá, influenciados pelos ventos de humanismo que emanavam da metrópole, negros escravizados e libertos se atreveram à revolução. Foi quando a Revolução Francesa se viu obrigada a estabelecer o exclusivismo do universalismo: “liberdade, igualdade e fraternidade, mas só entre nós”. E até hoje, o Haiti paga pela tentativa de colar ideologia e prática. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Nós também tivemos nossos arroubos afro-revolucionários. É o caso da confederação quilombola de Palmares, um Estado independente que sobreviveu por cem anos na mais próspera colônia açucareira do império português. Como a revolução haitiana, foi reduzido às cinzas. Não pelo exército regular, mas por bandeirantes e capitães do mato, uma outra variedade de mercenários, especializada na caça de negros fugidos. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Estas duas categorias são exemplos claros e duradouros – tanto do ponto de vista ideológico quanto prático – de como a gestão da violência pelo Estado brasileiro não se fez dentro de uma moldura legal em nome do interesse público, mas com o emprego de forças de exceção em nome do interesse privado. Não há uma preocupação legalista democrática na concepção elitista do que somos. Há, sim, a briga por quem vai conseguir estabelecer seus interesses particulares como prioridade do Estado e utilizar a máquina para impô-los violentamente. O Estado brasileiro não gere a legalidade, mas a ilegalidade. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E ilegal não é quem infringe, mas quem é ideológica e historicamente relegado a posições de anomia social. Não é à toa que negros compõem uma parcela desproporcional das populações pobre, encarcerada e desescolarizada. Se a pobreza é uma consequência do nosso peculiar processo de “abolição”, que indenizou o senhor de engenho e ocupou o mercado de trabalho com imigrantes europeus, é na cadeia que a escravidão sobrevive, como defendem a teoria e o ativismo da filósofa Angela Davis. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para Davis, a fundação de uma democracia real depende de reconhecer a continuidade da escravidão no sistema prisional – e entendê-lo como ferramenta essencial para a persistência do racismo num mundo que se anuncia livre e democrático. A migração dos investimentos do Estado da educação, moradia e saúde pública para a administração penitenciária é uma manobra para manter a população negra e pobre à margem do que é reservado para apenas uma classe e uma cor privilegiadas. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pior: o encarceramento leva à morte social e à privação vitalícia de direitos. Se a ideia do sistema fosse a ideologicamente propagada reinserção do preso, não existiria um documento como o atestado de antecedentes criminais, que nada mais é do que um dispositivo de exclusão social definitiva de egressos do sistema carcerário.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O aumento deliberado da população carcerária resulta de uma política de estado racista, que decide quem vai para a cadeia e quem vai para a universidade; quem é obrigado à anulação civil e quem tem o direito de legislar em causa própria. O que rege a política de encarceramento não é a ideia de obrigar infratores a uma reparação social, mas o controle da população que terá acesso aos direitos distribuídos pelo estado.&amp;nbsp; Angela Davis mostra que esta manobra operada no seio do Estado, com apoio interessadíssimo do capital privado, está longe de ser um boato. E é nefasta para a população negra, que vive no encarceramento o prolongamento do cativeiro da escravidão. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ostentamos o quarto lugar no ranking de população carcerária no mundo. Este é um entre muitos indícios das raízes escravocratas do Brasil contemporâneo, ao lado do apagamento (físico e simbólico) da população de rua, a ideia de guerra às drogas que não faz mais do que criminalizar a pobreza, as políticas de remoção forçada de populações precarizadas ou a parcialidade do Judiciário, que se apoia em sua posição de classe e raça para distribuir sentenças. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ou seja, somos um cadáver ambulante da colônia, vestido com o manto ideológico de um liberalismo político-social sem lastro histórico. A polícia, uma atualização de bandeirantes e capitães do mato, se assenta nestes dois zumbis coloniais, a escravidão (convertida em encarceramento); e a pseudo-abolição (convertida em pobreza), para honrar seu compromisso exclusivo de ostentar o monopólio oligárquico da violência. Nossas forças de segurança são um paradoxal mecanismo de exceção com existência jurídica, uma empresa fantasma do Estado oligárquico, que caça com adestrada precisão o inimigo interno da elite. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É necessário encarar nossa história de violência estatal e inaugurar a função pública do Estado, rompendo radicalmente com seu caráter oligárquico. Sem a expropriação de privilégios herdados do nosso formato de colonização, não há como expurgar a constituição miliciana e seletivamente arbitrária da polícia. Afinal, a exceção é regra em um Estado que se funda para garantir o parasitismo elitista sobre a coisa pública. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
*Maria Fernanda Novo é doutoranda em Filosofia pela Unicamp&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto publicado originalmente na edição de março de 2018 da &lt;a href=&quot;https://revistacult.uol.com.br/home/violencia-como-regra/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Revista Cult&lt;/a&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/6644289153601057639/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/6644289153601057639?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6644289153601057639'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6644289153601057639'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/04/violencia-policial-e-regra-no-eterno.html' title='Violência policial é regra no eterno estado de exceção do Brasil'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOwRZUaV1BiANv8yEhEbGGXpb8Tj1qs4_p9eJiix5Mn-g7mYiCvopVJgrcM60hg-7c3tCwAToVlfhIwnldpZTm42h8yMvTVPhqewyY4L562HHND26of9BW_MYh0_E4uGbwIzRUeXTZtMI/s72-c/luiz_morier.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-5610373119105881692</id><published>2018-03-27T23:37:00.000-03:00</published><updated>2018-03-27T23:37:05.442-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Democracia: na trincheira ou na vala</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
Duas semanas depois do assassinato de Marielle, atentado a tiros contra caravana do ex-presidente Lula deveria ligar o alerta vermelho do grau de violência política que enfrentamos&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNDj5vt1J2A4K5GXU3qqD0lRU7-kqLdb5H4RmnbLrwbtE5W3tygqG6sTWbiMaR-FpQeA7DC4Ex6KfBXpx25vLHZUPWGzELA6B1FA2fVj13iS7dkZGFCkjrLb3xZp5LhQ65DbznZgxOHWU/s1600/busao+baleado.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;331&quot; data-original-width=&quot;444&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNDj5vt1J2A4K5GXU3qqD0lRU7-kqLdb5H4RmnbLrwbtE5W3tygqG6sTWbiMaR-FpQeA7DC4Ex6KfBXpx25vLHZUPWGzELA6B1FA2fVj13iS7dkZGFCkjrLb3xZp5LhQ65DbznZgxOHWU/s1600/busao+baleado.jpg&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: xx-small;&quot;&gt;Perfuração de bala em ônibus onde estavam jornalistas que acompanhavam a caravana de Lula no Paraná. Foto: Daniel Giovanaz/Brasil de Fato
&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um ex-presidente da República foi vítima de um atentado a tiros. Essa notícia deveria, no mínimo, gerar calafrios em qualquer pessoa que preze pela democracia. O que aconteceu nesta terça-feira foi mais grave do que nossa capacidade de análise histórica, estreita pelo calor do momento, é capaz de apreender.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se a violência política começou a mostrar sua cara no golpe misógino e classista contra a presidenta Dilma, se o assassinato da vereadora Marielle Franco confirmou o grau de penetração institucional do estado genocida, o atentado contra Lula mostra que a infecção fascista já está alojada no corpo da sociedade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A história testemunha que, quando não reagimos à altura da violência política, o obscurantismo impera. Derretem-se as instituições, o medo vira moeda política, criminaliza-se a disputa de ideias e a criatividade política, abre-se o caminho para ideologias totalitárias. Estamos descendo um poço, cujo fundo é forrado com os cadáveres da diversidade, do diálogo, do contraditório.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O fascismo não é uma ideologia nem uma falha moral. É uma violenta doença antissocial, que penetra as mentes dos indivíduos, anestesia a empatia e desumaniza definitivamente as parcelas vulneráveis da população. Corrói o tecido social.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O fascismo começa por atuar por debaixo dos panos, matando quem ninguém lembrava que estava vivo. O intelectual negro W.E.B. Dubois enxergou com clareza as raízes do nazismo na colonização africana. Os congoleses do século XIX foram as primeiras vítimas do que se tornariam os campos de concentração do Leste ocupado, assim como as pretas e pretos das periferias e as pessoas trans são o campo de teste do fascismo do século XXI. Depois de varrer os esquecidos da sociedade, a máquina do genocídio passa a matar símbolos, como Rosa Luxemburgo ou Marielle Franco. É neste estágio que estamos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Perdemos a oportunidade de enfrentar o fascismo no ninho. Ele já está escancarado na manchete do Globo, que, de maneira leviana, trata o atentado como uma fábula petista; está no ímpeto moralista por procurar bodes expiatórios. O fascismo nos infecta como sociedade.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por isso, não esperamos apenas que os fatos sejam apurados. Esperamos e lutamos por um despertar de consciência contra a violência política, que nos permita dizer às próximas gerações que nós fomos capazes de matar o fascismo antes da metástase institucional.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O que aconteceu hoje exige reação coletiva à altura. Se apoiamos ou não uma nova eleição de Lula é irrelevante. Hoje, lutamos pela sobrevivência da democracia e dos símbolos que a constroem. Ou nos encontramos hoje nas trincheiras ou amanhã nos porões.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/5610373119105881692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/5610373119105881692?isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/5610373119105881692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/5610373119105881692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/03/democracia-na-trincheira-ou-na-vala.html' title='Democracia: na trincheira ou na vala'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNDj5vt1J2A4K5GXU3qqD0lRU7-kqLdb5H4RmnbLrwbtE5W3tygqG6sTWbiMaR-FpQeA7DC4Ex6KfBXpx25vLHZUPWGzELA6B1FA2fVj13iS7dkZGFCkjrLb3xZp5LhQ65DbznZgxOHWU/s72-c/busao+baleado.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-8943781101886723730</id><published>2018-03-18T20:38:00.000-03:00</published><updated>2018-03-19T10:41:06.281-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Negritude"/><title type='text'>&quot;Quem matou Marielle?&quot;, será que essa é a pergunta?</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0uH2eP38JtyGK4RGQY8WCwsg1iqhp-StzL5wDO8ArNBDmg4J-y-KDjZqBp-Sljbhy47UDdjstktw7VsOEBjjJ2o1J6pV9p4Vmx7GvPQt60kCLDI4NNw8Ch7OKi82j0vK2BZyXh7Qw3Bs/s1600/29053060464_16979c7f8e_o.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1067&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0uH2eP38JtyGK4RGQY8WCwsg1iqhp-StzL5wDO8ArNBDmg4J-y-KDjZqBp-Sljbhy47UDdjstktw7VsOEBjjJ2o1J6pV9p4Vmx7GvPQt60kCLDI4NNw8Ch7OKi82j0vK2BZyXh7Qw3Bs/s640/29053060464_16979c7f8e_o.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;
Por &lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/profile/02406759242929430553&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Vanessa Oliveira&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.blogger.com/profile/03693301250331486876&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Gabriel Rocha Gaspar&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Quem matou a Marielle Franco foi o racismo. Foi o fascismo. Foi a polícia. Foi o exército. Foi o golpe. Foi o estado de exceção. Todas essas frases estão certas, ao mesmo tempo, se acreditamos que os problemas estruturais da sociedade só podem ser vistos numa ótica interseccional, que não simplifique nem hierarquize formas de opressão. Se você está buscando uma resposta única, exclusiva e excludente para &quot;quem matou a Marielle?&quot;, você está analisando uma hashtag, um slogan, e não o profundo problema político, social e racial que este assassinato evidencia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Basta ler o título de Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis, pra invalidar a discussão se o racismo foi mais determinante do que a condição de classe ou de gênero. &quot;Mais determinante&quot; não é a questão. Se você achar que ela é &quot;só mais uma vítima&quot; do genocídio da juventude preta no Brasil, você perde de perspectiva o fato de que este assassinato é uma escalada inédita do estado de exceção. Se achar que foi só o estado de exceção, você não explica por que morreu Marielle Franco e não Marcelo Freixo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estado sempre foi de exceção pro nosso povo? Sempre foi. Mas quando foi que conscientemente executaram uma negra/o eleita/o no meio da rua? O fato de ela ter sido a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro não quer dizer nada? Ou não teve nenhuma relação com a morte dela? A busca por uma resposta monolítica para esse assunto complexo elimina a distinção entre o que é o funcionamento automático da máquina genocida e o que é a ideologia genocidária. A máquina do genocídio (de qualquer genocídio da história) mata tanto porque não só é automática, mas funciona em escala industrial e de forma transversalmente distribuída pelo corpo da sociedade; quer dizer, não é só a polícia ou justiceiros que matam, tem o sistema de saúde, de educação, o Judiciário etc.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;A máquina do genocídio x ideologia genocidária&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assassinato de Marielle não é automático, ele é um ato premeditado de apologia da ideologia genocidária. As mortes das outras vítimas do genocídio são políticas no plano objetivo, estrutural, macroscópico. O da Marielle, além de ser objetivamente e estruturalmente político, é subjetivamente político. Ou seja, ele impacta nossa retina para passar um recado direto: &quot;vocês, pretas e pretos, pobres, de esquerda, não venham brincar de democracia no nosso quintal, porque nem a sua instituicionalização vai te proteger do assassinato em massa&quot;. A gente PRECISA entender como este recado opera na esfera ideológica, se quiser enfrentar o genocídio de fato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nosso povo tem a esperança de que, como indivíduo, se a gente chegar positivamente a uma esfera institucional, as nossas chances de virar estatística diminuem. O assassinato de Marielle é um atentado contra essa lógica psicossocial do povo oprimido, é um tiro no peito da nossa capacidade de sonhar. É terrorismo de Estado contra a população preta e pobre na esfera institucional positiva, que é diferente do terrorismo de estado que atua na esfera institucional negativa, por meio de cadeia e polícia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E se a gente não for capaz de racionalizar isso, a gente vai absorver o terrorismo de Estado emocionalmente e não racionalmente. Ele vai ter cumprido seu objetivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se aceitarmos a complexidade da situação, se pararmos de desprezar a interseccionalidade - que é o que faz essa busca pela causa monolítica -, vamos provavelmente chegar à conclusão de que &quot;quem matou a Marielle?&quot; não é a pergunta política fundamental. Objetivamente, essa pergunta é pro Judiciário. Porque, do ponto de vista político, quem matou Marielle foi o avanço do reacionarismo simultaneamente racista, classista, misógino e homofóbico num contexto de estado de exceção. A questão fundamental é quem vai continuar matando a Marielle. Provavelmente, quem vai continuar matando a Marielle é a guerra publicitária pelo seu cadáver ou, como tem se colocado de forma eufemista, a disputa de narrativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;O autoritarismo da disputa de narrativa&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Infelizmente, ela não acontece no plano racional, é um conflito pelo monopólio da manipulação emocional da população. Todos os lados usam a razão de forma autoritária para ver quem consegue impactar mais fortemente o coração da sociedade. E todas as armas dessa guerra foram disponibilizadas pela direita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afinal, o caráter contemporâneo do uso autoritário da razão para manipular o inconsciente coletivo com fins políticos ou econômicos - processo também conhecido como &quot;publicidade&quot;, na faceta eufemista; &quot;propaganda&quot;, na mais literal - é uma invenção do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels. Enfrentar o fascismo exige brigar pelo restabelecimento do debate racional, usando, com profunda honestidade intelectual, o que a gente desenvolveu de teoria - neste caso, feministas negras como Angela Davis e Patricia Hill Collins caem como luvas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tanto quem diz que Marielle foi vítima exclusiva do racismo estrutural e do genocídio do povo preto, quanto quem diz que Marielle foi vítima exclusiva do golpe e do estado de exceção, está jogando um campeonato de várzea achando que é Copa do Mundo. Afinal, escreve a história quem vence. E a esquerda, preta ou branca, está perdendo. A narrativa sobre a Marielle vai ser escrita pela Globo, que já incorporou a pauta e parece querer esvaziar todo seu conteúdo político, com a construção do que eles chamam de &quot;drama humano&quot;: a redução de problemas estruturais a problemas individuais. Nossa disputa simbólica é contra a direita - Globo, MBL etc.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gente deveria estar se perguntando seriamente o que a Globo pretende com este &quot;Marielle Presente&quot; no intervalo da programação. Ou vocês esqueceram que, em junho de 2013, bastou um editorial pró-manifestações do Arnaldo Jabor para transformar uma legítima demanda por mais Estado em uma escalada fascista de dimensão nacional?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;E o inimigo quer o quê?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma coisa é óbvia: eles querem a razão fora do jogo. Querem reforçar o aspecto emocional, despolitizador. Querem individualizar o drama para transformar o Estado de exceção e o genocídio em pautas secundárias. Ou seja, a Globo tem o poder de, com uma única manobra de autoritarismo emocional, marginalizar as duas bandeiras da esquerda que estão se digladiando na arena semi-pública dos grupos de WhatsApp.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se este é o objetivo narrativo, a gente precisa se perguntar qual o objetivo político final deles. Eles querem um aprofundamento da intervenção militar, que leve à determinação de um estado de emergência, que suspenda as eleições e transforme o Brasil numa gestão militar de fachada civil? Ou eles pretendem botar o fardo nas costas do governo federal para esvaziar o movimento de sua potência política, criar uma espécie de &quot;sou da paz&quot; e capitanear uma volta da democracia neoliberal nos braços do povo? Uma combinação dos dois, com agendas de curto, médio e longo prazo? Estamos especulando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seja qual for a intenção do inimigo, é urgente que a gente aprenda a estabelecer uma comunicação social horizontal, de razão para razão, de cabeça para cabeça. A gente precisa conseguir acabar com esta forma de comunicação autoritária, que coloca a razão num lugar de privilégio para manipular a psicologia social pela emoção. A gente precisa romper com o formato nazista de comunicação. Afinal, se o meio é de extrema-direita, com base em quê vocês acham que o resultado vai ser favorável à esquerda, seja ela preta ou branca?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;&lt;i&gt;Foto: Mídia Ninja&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/8943781101886723730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/8943781101886723730?isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8943781101886723730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8943781101886723730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/03/quem-matou-marielle-sera-que-essa-e.html' title='&quot;Quem matou Marielle?&quot;, será que essa é a pergunta?'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0uH2eP38JtyGK4RGQY8WCwsg1iqhp-StzL5wDO8ArNBDmg4J-y-KDjZqBp-Sljbhy47UDdjstktw7VsOEBjjJ2o1J6pV9p4Vmx7GvPQt60kCLDI4NNw8Ch7OKi82j0vK2BZyXh7Qw3Bs/s72-c/29053060464_16979c7f8e_o.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-2567314048204720612</id><published>2018-01-29T14:43:00.000-02:00</published><updated>2018-01-29T14:43:36.953-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Reportagem"/><title type='text'>Por que não somos todos Somália?</title><content type='html'>&lt;table align=&quot;center&quot; cellpadding=&quot;0&quot; cellspacing=&quot;0&quot; class=&quot;tr-caption-container&quot; style=&quot;margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;&quot;&gt;&lt;tbody&gt;
&lt;tr&gt;&lt;td style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0XTxC4Xdn20LmymvEJFG8nsSSOKPWz3j8VCjZ39dASmhWBQ1j9K4NxaZPp21fkHBZA5yNXhWhuKmP9r7l98afB7enSvwBqCrODIWLQTmYVfVLlPilr2IffX73guNwzK_TBFWTBIvowUQ/s1600/37666122766_f44d0b8dd2_o.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;1065&quot; data-original-width=&quot;1600&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0XTxC4Xdn20LmymvEJFG8nsSSOKPWz3j8VCjZ39dASmhWBQ1j9K4NxaZPp21fkHBZA5yNXhWhuKmP9r7l98afB7enSvwBqCrODIWLQTmYVfVLlPilr2IffX73guNwzK_TBFWTBIvowUQ/s640/37666122766_f44d0b8dd2_o.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;&lt;td class=&quot;tr-caption&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #0000ee;&quot;&gt;&lt;u&gt;Homens vasculham escombros em Mogadíscio. Foto: Tobin Jones/Amisom&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;
&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A Somália sofreu em 14 de outubro de 2017 um dos atentados mais violentos da história. Na segunda-feira seguinte (16), o Twitter ferveu de questionamentos sobre a baixa cobertura midiática e a pouca comoção em torno das &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2017/oct/15/truck-bomb-mogadishu-kills-people-somalia&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;mais de 500 vítimas&lt;/a&gt; (entre mortos e feridos) do ataque ao centro da capital Mogadíscio. Representantes de ONGs, jornalistas e acadêmicos do mundo todo se perguntaram por que não surgiu rapidamente um &lt;a href=&quot;https://www.google.com.br/url?sa=t&amp;amp;rct=j&amp;amp;q=&amp;amp;esrc=s&amp;amp;source=web&amp;amp;cd=1&amp;amp;cad=rja&amp;amp;uact=8&amp;amp;ved=0ahUKEwiFiaHAh_fWAhVGHZAKHYnpCQ4QqUMIKjAA&amp;amp;url=http%3A%2F%2Fwww.aljazeera.com%2Fnews%2F2017%2F10%2Fdouble-standards-aren-somalia-171016105300793.html&amp;amp;usg=AOvVaw2FSmWfizUc3&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Je suis Somália&lt;/a&gt; ou coisa do tipo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Infelizmente, porque culturalmente naturalizamos o sofrimento de pobre, preto, muçulmano e africano. Mas ainda que houvesse forte resposta emocional a tamanha violência politicamente motivada, começaríamos a trilhar o caminho de evitar que ela se repetisse? Certamente, seria melhor do que a indiferença. Mas bastaria? Tendo a achar que precisamos de mais do que nossos corações; precisamos analisar, com a cabeça, como a violência sistêmica, objetiva e perene, se converte em banhos de sangue. Qual o efeito que cada modalidade de violência tem sobre nós e por quê?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A pouca manifestação solidária que houve seguiu um padrão de tentar formar uma corrente empática pela via da exclusão. Como se, incapazes de sentir empatia genuína pelo sofrimento daquelas pessoas histórica e ideologicamente construídas como sub-humanas, tentássemos estabelecer, na repulsa pelo assassino, a ligação com a vítima. Nas declarações de condenação da comunidade internacional – que, via de regra, chegaram com dois dias atraso, como se a empatia também tirasse folga no fim de semana – abunda a palavra “bárbaro”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Embora hoje, associemos o termo a violento, desumano e cruel, “bárbaro” tem uma etimologia reveladora: vem do grego bárbaros, que quer dizer “estrangeiro”. Ou seja, bárbaro é sempre o “outro”, nunca nós mesmos. Ao atribuir este adjetivo a um atentado ou seu perpetrador, inconscientemente (ou não), o colocamos fora da comunidade humana; ele incorpora a figura do “outro” que, como tal, não é digno de identificação e, logo, empatia. Ou seja, esta comoção opera em chave negativa: a solidariedade com a vítima brota da negação da humanidade do algoz.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Será que o algoz é “outro” de fato? Ou criar o outro é o recurso psicológico que temos para lidar com a violência absoluta e, assim, nos abstermos de procurá-la dentro de nós mesmos? Não estou evocando uma solidariedade cristã do tipo “ame seu inimigo” a quem perpetrou tão covarde ato de violência contra civis inocentes. Estou dizendo que precisamos buscar meios de solidariedade positiva com as vítimas. Por culpa de anos de desconstrução da humanidade dessas pessoas, é possível que ela não venha pela via emocional - o que significa que precisamos construir caminhos intelectuais de desenvolvimento da empatia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Este exercício depende de uma análise um pouco mais profunda das condições somalis – sabendo que não vamos conseguir, sequer minimamente, apreender a complexidade da colcha de retalhos de descaso, imperialismo, colonialismo, racismo, diplomacia falha, crueldade institucional, ganância e hipocrisia que compõe a história recente da Somália em particular e da África, de forma geral. Trata-se de tentar fazer a solidariedade ultrapassar a comoção inicial para buscar ressignificar intelectual e objetivamente o jogo geopolítico que nos trouxe ao ponto em que estamos agora. Até porque, são grandes as chances de percebermos que o “bárbaro” e sua violência são menos estrangeiros do que parecem.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Al-Shabaab e a marginalização da institucionalidade&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O governo local e a comunidade internacional apontaram como responsável pelo atentado a milícia Harakat al-Shabaab al-Mujahideen (“Movimento da Juventude Guerreira”, em tradução livre), conectada à Al-Qaeda no Maghreb Islâmico (Aqmi) e ao grupo nigeriano Boko Haram. Mas, estranhamente, a organização não assumiu a autoria do atentado. De acordo com a &lt;a href=&quot;http://www.npr.org/sections/thetwo-way/2017/10/16/558050667/somalis-grasp-for-answers-after-deadliest-single-attack-somalia-has-ever-faced&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;rádio pública estadunidense NPR&lt;/a&gt;, que tem um correspondente &lt;i&gt;in loco&lt;/i&gt;, há suspeitas de que a escala e a comoção causada pelo atentado tenham inibido o grupo, que não pode prescindir completamente das relações públicas em nome da hegemonização de sua leitura fundamentalista do Islã.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Isso porque, diferentemente do grupo Estado Islâmico, que apareceu como um relâmpago e dominou territórios distantes que eram estáveis até pouco antes, a Al-Shabaab foi um importante ator político dentro da precária institucionalidade de seu próprio país, onde a maioria da população nem se lembra do que é ter um governo de fato. Al-Shabaab foi um dos braços da União das Cortes Islâmicas, que governou e coordenou a &lt;a href=&quot;http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/17531050701452382&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;aplicação da &lt;i&gt;Sharia&lt;/i&gt;&lt;/a&gt;, (lei islâmica) na maior parte do sul do país durante o ano de 2006.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Claro que para nós, ocidentais, a palavra &lt;i&gt;Sharia&lt;/i&gt; causa calafrios. Imediatamente nos lembramos das decapitações, mãos decepadas, apedrejamento de mulheres “infiéis” etc. Mas há uma série de particularidades na história e na geografia da Somália que fizeram com que os tribunais religiosos fossem bastante populares entre a população do sul do país. A primeira, e mais óbvia, reside no fato de que a Somália vive em &lt;a href=&quot;https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/12/timeline-somalia-1991-2008/307190/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;guerra civil desde 1991&lt;/a&gt; – o que faz da lei (qualquer lei), um luxo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Depois da queda de Siad Barre – que, com &lt;a href=&quot;https://www.alternet.org/story/12253/the_long_and_hidden_history_of_the_u.s_in_somalia&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;apoio soviético&lt;/a&gt;, se aferrou ao poder por mais de 20 anos, até ser derrubado por uma coalizão de grupos armados em 1991 -, o controle político, econômico e militar se dividiu entre chefes de clãs guerreiros. Em meio ao caos, intelectuais, líderes políticos e juristas de cidades importantes como a própria capital Mogadíscio formaram as Cortes Islâmicas para estabelecer algum controle político e social. Uma vez que não existia burocracia que pactuasse uma Constituição legítima, a religião era um ponto de convergência natural.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como explica Stig Jarle Hansen, no livro &lt;i&gt;Al-Shabaab in Somália, The History and Idelogy of a Militant Islamist Group&lt;/i&gt; (Oxford University Press, 2013), o caldo do islamismo militante já vinha fervendo no país desde a crise petrolífera do início dos anos 70, que enriqueceu a Arábia Saudita o suficiente para que Riad financiasse a expansão internacional de sua filosofia jihadista radical, o wahabismo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esta vertente do islamismo militante sunita, fundada e financiada pela dinastia Saud, que comanda a Arábia Saudita desde a fundação do país, prega a submissão do planeta inteiro à mais estrita interpretação da lei do profeta. É uma leitura fundamentalista e expansionista da Jihad islâmica, que inspira todas as frentes sunitas radicais, desde a Al-Qaeda até o Daesh (&quot;Estado Islâmico&quot;). Ainda hoje, a &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=rezvemRMelQ&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Arábia Saudita financia&lt;/a&gt; qualquer imã (líder religioso) sunita que se disponha a abrir uma mesquita de linha wahabista, em qualquer parte do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E, claro, aplica sua filosofia domesticamente com precisão saudita – o que quer dizer que a família real e &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=rezvemRMelQ&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;os negócios&lt;/a&gt; estão à margem da ira divina. Duzentas chibatadas é a pena para o consumo de álcool. Homossexualidade e adultério são passíveis de pena de morte. Mas quando o príncipe Majed al Saud &lt;a href=&quot;http://www.dailymail.co.uk/news/article-3287084/Pervert-Saudi-prince-ordered-entire-staff-strip-naked-Beverly-Hills-mansion-s-pool-said-want-naked-p-court-papers-claim.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;infringiu todas as disposições da Sharia&lt;/a&gt;, não deu nada. Em setembro de 2015, ele promoveu uma festa regada a prostitutas, álcool e cocaína em Beverly Hills, que incluiu sexo gay, cárcere privado e ameaça de morte contra três funcionárias da mansão onde ele estava, que se recusaram a prestar-lhe favores sexuais.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Parêntese fechado, apesar da onipresença da doutrinação saudita, os petrodólares e o convite à guerra santa não foram suficientes para estabelecer na Somália, islamita milenar, a coesão em torno de uma corrente religiosa tão radicalmente exclusivista. A ainda mais antiga organização social em clãs impedia o pensamento monolítico.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Da estrutura política comunitária às afinidades pessoais, partes importantes da vida social somali passam pela relação patrilinear; pessoas que têm descendentes masculinos em comum se agrupam. Mas essa união em microestruturas é um obstáculo na formação da coesão macro-estrutural. Não à toa, tão logo conseguiu derrubar o presidente Barre, o movimento armado do início dos 90 se dissolveu nas lealdades familiares sem formar governo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Duas administrações civis frágeis foram estabelecidas e ficou claro que estouraria guerra civil por tempo indeterminado. Com ela, chegou a fome, o risco de genocídio e o êxodo populacional – que gerou no vizinho Quênia, um mar de barracas chamado &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=BVoaiQfOheY&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Dadaab&lt;/a&gt;, o maior campo de refugiados do mundo. Sob o pretexto de garantir a distribuição de alimentos da comunidade internacional à população e &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=tgCeFXeuE4U&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;fazer o trabalho de Deus&lt;/a&gt;, nas palavras do então-presidente George Bush (pai), Washington resolveu entrar em ação e comandar a Força Tarefa Unida da ONU no país.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Aproveitando que já estavam no terreno mesmo (e sem nenhuma relação com o fato de que a Somália possui a maior extensão costeira da África Oriental, com saída para o Oceano Índico e o Mar Vermelho), os Estados Unidos tentaram capturar um dos dois auto-proclamados presidentes do país, &lt;a href=&quot;http://www.aljazeera.com/programmes/insidestory/2013/10/black-hawk-down-20-years-201310316426169324.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Mohamed Farrah Adid&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O resultado dessa tentativa improvisada de mudança de regime foi a batalha de Mogadíscio, retratada no filme &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=tnV6wM-vd9s&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Falcão Negro em Perigo&lt;/a&gt; – que, aliás, merece outro parêntese. Para se ter ideia da carga de ideologia racista contida no longa, não há negros entre os &lt;i&gt;marines&lt;/i&gt;; dos negros somalis, ninguém tem nome. Todos respondem pela alcunha &lt;i&gt;skinny&lt;/i&gt; (magrelo), apelido no mínimo de mau gosto, em uma operação de combate à fome.&amp;nbsp; &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O fato é que a batalha de Mogadíscio, por mais heroica que pareça pela lente hollywoodiana, foi um fracasso retumbante, que custou dois helicópteros e 18 soldados às forças invasoras. Bill Clinton, que acabara de assumir a Casa Branca, aproveitou a comoção em torno do vexame para retirar as tropas, em março de 1994. Com calculada emoção, o &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=VmLGzZkTr5U&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;novo mandatário disse&lt;/a&gt; que os corpos de soldados que “só queriam dar de comer a pessoas com fome” foram “dessacralizados por gangues de somalis armados”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Durante o raro e breve período de ausência de ingerência militar externa que se seguiu, as milícias em guerra se dividiram em mais e mais facções, rachando de vez um país já ingovernável. Conforme alguns clãs tentavam criar um Governo Nacional de Transição (GNT), Mogadíscio sofria uma &lt;a href=&quot;http://dosfan.lib.uic.edu/ERC/democracy/1994_hrp_report/94hrp_report_africa/Somalia.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;onda descontrolada&lt;/a&gt; de estupros, assaltos, saques e assassinatos, que levou à formação de uma força de paz da União Africana, capitaneada pela Etiópia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por se tratar um ex-império regional e um rival histórico, a participação etíope foi vista com péssimos olhos pela população, bem como o fato de que o outro governo (Governo Federal de Transição, GFT), tinha sido formado no Quênia, à revelia da população. Apesar de reconhecida pela comunidade internacional, a administração não tinha qualquer legitimidade interna. Percebendo a inquietação do povo, os islamitas impuseram uma política de tolerância zero com o crime e ainda compraram a briga contra a ingerência externa patrocinada pela ONU.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mais do que a religião, foi este movimento institucionalista que empoderou os wahabistas. Formadas em meio a tamanho caos, as Cortes Islâmicas de aplicação da &lt;i&gt;Sharia&lt;/i&gt; conquistaram a população ao virar a coisa mais próxima de um governo, ainda que funcionassem como ditaduras aristocráticas de um Judiciário fundamentalista.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tão logo essas forças sentiram consolidada alguma hegemonia num país cindido pelos clãs, elas colocaram em prática a parte militante do wahabismo. Formou-se a União das Cortes Islâmicas (UCI). A nova organização engrossou a voz e declarou, no início de 2006, que as tropas de “manutenção da paz” &lt;a href=&quot;http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/4382311.stm&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;seriam tratadas com hostilidade&lt;/a&gt;, fossem quenianas, etíopes, estadunidenses ou europeias. Em poucos meses, a organização já tinha conquistado grande parte do sudeste do país, incluindo Mogadíscio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Depois de quase um ano de guerra total, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2006/dec/29/topstories3.mainsection&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;tanques etíopes &lt;/a&gt; marcharam sobre a capital. No último dia de 2016, a UCI se viu obrigada a recuar em direção à fronteira queniana. A guerra – que contou, já nos estertores, com &lt;a href=&quot;http://www.nytimes.com/2007/02/23/world/africa/23somalia.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;bombardeios norte-americanos&lt;/a&gt; – serviu para dissolver a ditadura das Cortes e restabelecer o Governo Federal de Transição.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas, já em fevereiro, ficou claro que, das sombras da clandestinidade, emergia uma guerrilha perigosa, quando cerca de &lt;a href=&quot;https://usatoday30.usatoday.com/news/world/2007-02-09-somalia_x.htm&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;800 manifestantes saíram às ruas&lt;/a&gt; da capital para queimar bandeiras dos Estados Unidos, Etiópia e Uganda. No mesmo ato, homens mascarados fizeram ameaças de ataques a bomba contra Quênia e Etiópia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Al Shabaab, precursor tático do grupo Estado Islâmico&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Era o primeiro sintoma do nascimento da Harakat al-Shabaab, que inauguraria uma nova tendência do wahabismo militante: espalhar o terror de forma transnacional, como estratégia publicitária para reunir muçulmanos sunitas hostilizados e humilhados do mundo inteiro em torno da luta pela formação de um governo islâmico universal. Um califado que limparia o mundo dos infiéis e imporia a toda a humanidade uma interpretação fundamentalista e apocalíptica da lei do profeta.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O sucesso da Al-Shabaab nas relações públicas é inegável e certamente serviu de inspiração para o grupo Estado Islâmico. Prova disso é que, apesar da invisibilidade midiática da jihad violenta na África – à época, ainda mais eclipsada pela Primavera Árabe e pela ascensão de outras milícias wahabistas no Oriente Médio -, sempre houve presença maciça de estrangeiros nas linhas da organização.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um pesquisador citado por Stig Hansen recenseou militantes feridos em um hospital de Mogadíscio em junho de 2011 e descobriu 38 ocidentais e asiáticos, 125 africanos de outros países, um estadunidense e dois sauditas. Entre os mortos, a diversidade era ainda maior, com gente de Bangladesh às Ilhas Comores, passando por Grã-Bretanha, Bélgica, Suécia e Noruega. Descobriu-se, ainda, que entre as lideranças do grupo, havia veteranos da primeira Guerra do Afeganistão – ou seja, moujahadins ultra-radicais treinados diretamente pelo Pentágono para enfrentar a invasão soviética no final dos anos 70.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Pela metade de 2008, o grupo já havia feito o que o autoproclamado Estado Islâmico faria em 2015, deixando o mundo inteiro boquiaberto: aproveitar o colapso de um Estado para tomar de assalto vastas franjas de território, aliando geopolítica, publicidade, tática de guerrilha e a divulgação de atos de extrema violência pelas redes sociais. No ano seguinte, depois de vários atentados extremamente cruéis e midiatizados, a al-Shabaab seria declarada organização terrorista pelos Estados Unidos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Apesar da clara ameaça que o grupo representava, apesar do fato de que suas táticas inspirariam outras jihads ultrarradicais, os Estados Unidos optaram por não declarar guerra. A força de ataque seria formada pela União Africana, supervisionada pela ONU e com “apoio tático” estadunidense.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Obama institui assassinato como política de Estado&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Só que este “apoio tático” se transformou numa completa subversão das leis internacionais – e mesmo estadunidense – sobre a hostilidade militar. De acordo com a Constituição dos EUA, um presidente não pode iniciar uma ação bélica sem o aval do Congresso; e consta no artigo 50 da Convenção de Genebra que, “se houver dúvida se uma pessoa é ou não combatente, ela deve ser considerada civil”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O departamento de Estado comandado por Hillary Clinton sob a gestão Obama aproveitou a situação somali – e a pouca atenção que o país desperta da opinião pública internacional – para tirar estes “empecilhos burocráticos” do caminho do império e da indústria armamentista que o sustenta. A Somália, junto com o Iêmen, outro semi-Estado esquecido, virou campo de testes da &lt;a href=&quot;https://theintercept.com/drone-papers/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;guerra secreta dos drones&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Embora o nome escolhido pela estratégia de relações públicas de Washington tenha sido clean target killings - ou mortes direcionadas, em tradução livre -, a prática transformou o assassinato em política do Estado americano. Conforme revelou &lt;a href=&quot;https://theintercept.com/drone-papers/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;The Intercept&lt;/a&gt;, a partir de documentos vazados da inteligência estadunidense, apenas 10% das vítimas dos drones eram alvos designados. Os outros 90%, são absolutos desconhecidos – ou melhor, civis, seguindo a terminologia de Genebra.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como se não bastasse, este tipo de assassinato é feito em um território contra o qual os Estados Unidos não declararam guerra. Ou seja, eles significam que, potencialmente, o presidente dos EUA pode matar qualquer pessoa do mundo como num jogo de videogame. Depois deste vazamento, Obama foi obrigado a se explicar. Contradizendo abertamente as estatísticas de sua própria administração, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/us-news/2016/jul/01/obama-drones-strikes-civilian-deaths&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;admitiu as mortes de 116 civis&lt;/a&gt; ao redor do mundo, entre 2009 e 2015. Mas &lt;a href=&quot;https://theintercept.com/2016/03/08/nobody-knows-the-identity-of-the-150-people-killed-by-u-s-in-somalia-but-most-are-certain-they-deserved-it/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;um único ataque &lt;/a&gt; em Mogadíscio matou 150.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Além das milhões de implicações éticas desta nova-velha tática de assassinar quem se bem entende, há a questão da imensa insegurança jurídica que ela acarreta. Levando em conta que a Al-Shabaab segue uma lei escrita – por mais cruel que seja sua aplicação da Sharia –, qual o efeito psicossocial do abandono deliberado da mais alta lei internacional (a que impediu o holocausto nuclear durante a Guerra Fria) pelo governo que invade com a promessa restaurar a ordem? E, pior, qual esse efeito no caso da Somália, cujo único período de supremacia do direito foi durante a ditadura das cortes islâmicas?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Movimentações suspeitas às vésperas do atentado&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A curto prazo, o efeito provável é o reforço da Al-Shabaab e da retórica wahabista radical. No longo prazo, corre-se o risco da obsolescência completa da legalidade por meio da consolidação da lei do mais forte. Talvez a Somália já esteja nesta segunda etapa, infelizmente. Talvez o silêncio da Al-Shabaab sobre o atentado de sábado seja de fato a constatação calada de um erro estratégico em um momento de possível consolidação social da sua ordem de contorno fascista.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ou talvez estas sejam duas suposições ingênuas, que perdem de vista – não por preguiça, mas por falta de elementos de análise – o verdadeiro jogo geopolítico em curso. Para quem quiser tentar caçar o pelo do ovo, talvez seja uma boa pesquisar dois acontecimentos aparentemente desconexos. O primeiro é que, na véspera do ataque, o ministro da Defesa da Somália, Abdirashid Abdullahi Mohamed, e o chefe do exército, genera. Mohamed Ahmed Jimale, pediram demissão.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E o outro, talvez mais conspiratório, mas também mais intrigante, é o fato de que a Turquia do autocrata Recep Tayyip Erdogan, primeiro país a disponibilizar leitos e transporte para as vítimas, abriu há apenas 15 dias sua maior base militar internacional, justamente em Mogadíscio.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Especialista em &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/commentisfree/2015/nov/18/turkey-cut-islamic-state-supply-lines-erdogan-isis&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;guerra de fachada&lt;/a&gt; contra organizações wahabistas, suspeito de ter &lt;a href=&quot;http://www.aljazeera.com/news/2015/10/peace-rally-bombing-raises-tensions-turkey-151012055313966.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;permitido atentados&lt;/a&gt; contra seu próprio povo em nome de interesses políticos e econômicos, Erdogan está investindo US$ 50 milhões no treinamento de 10 mil soldados somalis para enfrentar a Al-Shabaab – que hoje domina apenas 10% do território que já teve. Não há nenhuma insinuação aqui, mas o investimento só retorna se o inimigo existir.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Se a violência vem de todos os lados, por que não nossa indignação?&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A pergunta que surge de tudo isso é: se toda a geopolítica global se tornou uma teia de violência crua, por que nos incomoda a violência da Al-Shabaab, da Al-Qaeda e do tal Estado Islâmico enquanto ignoramos a da Arábia Saudita, dos Estados Unidos, da Europa e da Turquia, de onde emana a distopia? Por que vemos imundície completa nos massacres promovidos pelo “outro” imaginário, mas aceitamos que se varra para baixo do tapete a igualmente brutal violência daquele que identificamos como “um de nós”? Um palpite: por preguiça intelectual pré-determinada. Porque estamos exageradamente condicionados a uma leitura não-racional do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A violência que nos impacta é a que vem de forma subjetiva e sensorial; é aquela que a gente vê, que tem cheiro, que tem lágrima desesperada. Se vier acompanhada de violino, ainda melhor. Choca aquela violência que é ressignificada em nossa cabeça pela emoção e não pela razão. É óbvio que o Al-Shabaab não é o “outro”; a violência dele não está, de forma alguma, isolada deste mundo. Se, para nós ele é o “outro”, é de forma mistificada: estamos usando a existência do não-humano como parâmetro da nossa humanidade. E aí, necessitamos do “outro” como o Batman, aquele playboy fascista, precisa do lúmpen proto-anarquista Coringa. Precisa da desordem completa para justificar seu esforço paranoico-compulsivo de reorganização do mundo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por isso, criamos o “não-humano” o tempo inteiro.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Este longo texto pode parecer, mas não é insensível. É um apelo pelo compromisso com o potencial revolucionário da sensibilidade. Não basta que encontremos a melhor hashtag para expressar nossa solidariedade às vítimas do horror que assola a Somália. Precisamos buscar as raízes da nossa falta de compromisso com o estancamento do sangue. Só a partir daí, conseguiremos enfrentar objetiva e intelectualmente a barbárie que nos é inerente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto publicado originalmente no &lt;a href=&quot;http://justificando.cartacapital.com.br/2017/10/17/o-que-extrema-violencia-na-somalia-pode-nos-ensinar-sobre-empatia/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Justificando&lt;/a&gt;, a 17 de outubro de 2017&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/2567314048204720612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/2567314048204720612?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2567314048204720612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2567314048204720612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2018/01/por-que-nao-somos-todos-somalia.html' title='Por que não somos todos Somália?'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0XTxC4Xdn20LmymvEJFG8nsSSOKPWz3j8VCjZ39dASmhWBQ1j9K4NxaZPp21fkHBZA5yNXhWhuKmP9r7l98afB7enSvwBqCrODIWLQTmYVfVLlPilr2IffX73guNwzK_TBFWTBIvowUQ/s72-c/37666122766_f44d0b8dd2_o.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-929999848848630868</id><published>2017-09-29T15:06:00.002-03:00</published><updated>2017-09-29T15:08:25.917-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Reportagem"/><title type='text'>Como bilionários usaram as redes para colocar Trump na Casa Branca</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIF1LVEEiQkugFeN4-FodKSZ9BqchHyHBkIEFQdFlGgO7rzAWz4UVpwPlyPMVozV7KIVNkKKPaj_-L3wqAmp2e-PGtUKdTN5bPbNpG1yqDYu02wlrVSGn_Fz8C07FsjjXfS-mJk4z1_7w/s1600/trump-1915253_960_720.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;639&quot; data-original-width=&quot;960&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIF1LVEEiQkugFeN4-FodKSZ9BqchHyHBkIEFQdFlGgO7rzAWz4UVpwPlyPMVozV7KIVNkKKPaj_-L3wqAmp2e-PGtUKdTN5bPbNpG1yqDYu02wlrVSGn_Fz8C07FsjjXfS-mJk4z1_7w/s640/trump-1915253_960_720.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como um trollador do Twitter foi parar na Casa Branca? Quem compôs a base – e o teto – de Donald Trump? Este texto tenta ligar os pontos de uma trama que envolve a desconexão entre o &lt;i&gt;mainstream&lt;/i&gt; democrata e o contexto político dos EUA de 2016; a instrumentalização política de um grupo niilista de fãs de videogames e animes por megacorporações de finanças, tecnologia e inteligência militar; a inversão do fluxo de influência entre a grande mídia e a (a)política das redes. Este texto discute, enfim, como se desenvolveu esta nova cepa de infecção fascista que se alastra pelos Estados Unidos, do Vale do Silício a Wall Street, de Minneapolis à Casa Branca.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;A elite liberal
obsoleta e o feminismo conjuntural&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para entender o processo de primárias do Partido Democrata, é preciso analisar como a grande imprensa liberal gastou sua última fatia de credibilidade para enterrar a campanha de Bernie Sanders. Veículos como o &lt;a href=&quot;https://blogs.wsj.com/washwire/2016/02/08/bernie-sanders-on-sexist-commenters-i-dont-want-that-support/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Wall Street Journal&lt;/a&gt;, o &lt;a href=&quot;https://www.usatoday.com/story/news/politics/elections/2016/05/12/hillary-clinton-bernie-sanders-social-media-supporters/84284322/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;USA Today&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;http://www.latimes.com/nation/politics/la-na-bernie-sanders-supporters-20160415-story.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;LA Times&lt;/a&gt;, o inglês &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/feb/02/i-like-bernie-sanders-his-supporters-not-so-much-berniebro&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;The Guardian&lt;/a&gt; e até a &lt;a href=&quot;https://www.vice.com/en_us/article/yvx8gw/did-competitive-video-games-create-the-bernie-bros-719&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Vice&lt;/a&gt;, que tem um verniz contracultural, foram os principais promotores do termo pejorativo &quot;Bernie Bros&quot;, que classificava os homens jovens que seguiam Bernie Sanders como &quot;esquerdomachos&quot; brancos utópicos que, decepcionados com o &quot;realismo&quot; econômico de Barack Obama, apoiavam propostas “absurdas” como universidade gratuita e o salário-mínimo de US$ 15 por hora. A virulência anti-alternativa, que ia da infantilização à hostilidade aberta contra quem se posicionasse do autoproclamado lado socialista da disputa, chegou a patamares absurdos e até contraditórios como quando &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/us-news/2016/feb/06/bernie-sanders-gloria-steinem-women-voters-men-hillary-clinton&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Gloria Steinem&lt;/a&gt;, que foi pioneira do movimento feminista dos anos 60, disse que mulheres só seguiam Bernie Sanders pra impressionar seus companheiros esquerdomachos.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas até aí, era o establishment defendendo sua própria conservação com as armas publicitárias do seu tempo. Uma eleição de Hillary Clinton significaria uma manutenção dos mesmos lobbistas em Washington; asseguraria um controle estável sobre a Arábia Saudita; uma guerra militarmente fria, mas comercialmente quente com a China; a demonização da Rússia; a expansão da guerra pelo petróleo e os consequentes contratos militares e energéticos no Oriente Médio... Enfim, uma eleição da Hillary manteria o império fazendo seu &lt;i&gt;business as usual&lt;/i&gt;, vestido numa indispensável fantasia liberal. Hillary construiria o muro na fronteira sul, mas sem fazer propaganda; expulsaria mais imigrantes do que Obama (que, aliás, expulsou mais do que qualquer outro presidente), mas pregaria abertura de fronteiras por meio de tratados comerciais; continuaria pregando transparência e perseguindo &quot;whistleblowers&quot; como Edward Snowden, Julian Assange e Chelsea Manning; continuaria fazendo do assassinato, política de Estado com a guerra  e drones enquanto pregaria a necessidade de invadir países estrangeiros em nome da democracia; Em suma, Hillary manteria o &lt;i&gt;business as usual&lt;/i&gt;.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas governar do jeito democrata exige um grau de hipocrisia discursiva que Donald Trump não tem sequer sofisticação para desenvolver. Pelo contrário, ele é o cara que diz que a economia “tem que ser gerida pelos ricos porque, obviamente, eles são bons nisso”. Se você não tem empatia nenhuma, não tem porque ocultar suas intenções numa caixinha humanitária. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O caso de Hillary era diferente. Desde as primárias, o slogan de correção política e renovação sob o qual Hillary esconderia o velho pacote de maldades de Wall Street foi o “feminismo”. Mas, como ter a Arábia Saudita e o Goldman Sachs no topo da lista de doadores de campanha é o tipo da coisa que não combina com feminismo (ou com qualquer filosofia de empoderamento coletivo), foi preciso distorcer o conceito. Do feminismo; não do financiamento, é claro. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A distorção foi tirar do feminismo seu potencial revolucionário, popular, e apostar na ideia de representatividade: a substituição automática de uma coletividade (e dos anseios coletivos) por um indivíduo, com anseios individuais. Isso havia funcionado bem nas duas campanhas de Obama. Hillary apoiava sua retórica na ideia de que ser mulher a transformava em representante universal do sexo feminino e, portanto, sua eleição significaria uma inversão profunda e automática no sistema de opressão social.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esse argumento contraria 60 anos de experiência do movimento negro e do movimento feminista, que escancararam o quanto a estratégia de pescar um ou outro representante das massas oprimidas é eficiente para estancar convulsões sociais. Quem mais se renova com a representatividade concedida não é a condição do oprimido, mas o próprio sistema de opressão.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A estratégia da Hillary de se apresentar como representante universal e incontestável das mulheres tinha o objetivo de blindá-la. Colocá-la acima de críticas. Se criticar Hillary naquele contexto da disputa com o Bernie Sanders era criticar as mulheres, toda crítica a ela, fosse política ou não, seria tratada como misoginia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Foi neste contexto de desclassificação identitária da crítica política que a grande mídia estadunidense inventou esse termo Bernie Bros. Que não é uma ideia inédita também. Pouca gente lembra, mas nas primárias de 2008, a imprensa mainstream criou o termo Obama Boy pra definir a ala masculina dos apoiadores do Obama - e em vários casos, como aconteceu com os apoiadores de Sanders, era hipermasculinizada e misógina mesmo. Mas claro que era bem mais difícil colar com o Obama do que com o Sanders porque Obama tinha a carta racial na manga. E, apesar do discursoe aparência &lt;i&gt;outsiders&lt;/i&gt;, era um cara do campo majoritário do Partido Democrata.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Que fique claro que isso não é um manifesto contra a denúncia de comportamento misógino dentro da esquerda. É uma defesa de que ela seja feita seriamente, de maneira crítica e não publicitária. Em outras palavras, que seja feita com um interesse real emerradicar estruturas machistas. Caso contrário, isso não passa da instrumentalização de conceitos progressistas para fins conservadores. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Para quem usava linguagem publicitária para gerar slogans de desclassificação da crítica política à Hillary Clinton, o fim da opressão sistêmica contra as mulheres estava longe da pauta. “Mudança” era um conceito alheio à campanha porque Hillary Clinton &lt;i&gt;era&lt;/i&gt; o status quo.Foi um projeto conservador que mobilizou os slogans feministas. E aí, se o fundo é conservador, o discurso feminista é publicitário; ele é uma marca vazia de sentido político, cujo único objetivo é viabilizar comercialmente um determinado produto - no caso, Hillary Clinton.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma vez que a representação identitária, esvaziada de sentido revolucionário ocupasse o lugar da política e do embate de ideias, a candidatura do Sandersestaria enterrada. O que restariaseria uma disputa de imagens: um homem velho, com cara de velho e voz de velho, contra uma mulher que, apesar de velha – tanto no discurso quanto na política –, perto dele, parecia jovial,uma vez que havia feito da aparência de jovialidade, estratégia de campanha. Quer dizer, ao deixar a publicidade dar o tom da campanha, o &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt; liberal (mídia + campo majoritário do Partido Democrata) optou pelo esvaziamento da política. Sendo que só a honestidade do embate político poderia salvar uma candidatura democrata num contexto tão polarizado.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Um elefante na rede&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Só que, enquanto o “campo progressista” (haja aspas!) gastava todas as fichas nessa disputa publicitária; enquanto a esquerda repaginava sua marca para ver quem era mais &lt;i&gt;politicamente correto&lt;/i&gt;, a extrema-direita vinha captando a raiva de uma juventude que chegou à adolescência na era Obama e via a esquerda – e sua correção política – como status quo. Era uma juventude branca, silenciosa e anônima que, acima de tudo, entendia o &quot;multiculturalismo politicamente correto&quot;,tônica da falácia “pós-racial” da era Obama,como a ferramenta de repressão de seus desejos individualistas de violência física e simbólica.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Enquanto a esquerda disputava a primazia do politicamente correto, nas redes, o &quot;Politicamente correto&quot; virava alvo de chacota. Anos de desenvolvimento de uma cultura de escracho, humilhação, de humor irônico que vira e mexe degringolava para a crueldade e a violência...Tudo isso passou ao largo da esquerda. Passou ao largo da esquerda o 4Chan: um fórum niilista em que uma maioria de adolescentes geeks brancos, orgulhosamente misóginos, homofóbicos e racistas usava perfis anônimos para postar memes, fotos, vídeos e comentários que iam do humor politicamente incorreto à extrema violência pornográfica.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Enquanto permanecia enclausurado nas redes, o 4Chan não parecia muito mais do que uma fábrica de memes de mau-gosto. Mas essa comunidade começou a impactar o mundo real de maneira assustadora. Eles promoveram uma &lt;a href=&quot;http://www.independent.co.uk/news/people/jessi-slaughter-youtube-video-viral-troll-damien-leonhardt-2010-myspace-a6959436.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;campanha nacional pelo suicídio&lt;/a&gt; de uma menina de 13 anos que tinha postado um vídeo falando em gíria gangsta. Várias blogueiras - principalmente de videogames - viraram alvo de trollagem pesada, que ia de montagens em fotos pornográficas a ameaças de estupro e morte.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Até o momento em que crimes de ódio começaram a ser anunciados ou relatados orgulhosamente nos fóruns do 4Chan. Em 2014, pouco antes de ser preso, &lt;a href=&quot;http://time.com/3560718/david-kalac-4chan-murder-oregon/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;David Kalac&lt;/a&gt; postou no 4Chan fotos do corpo nu da namorada, que ele disse ter assassinado &quot;porque estava de saco cheio&quot;. Antes de entrar armado na faculdade e matar nove colegas em outubro de 2015, &lt;a href=&quot;http://www.dailymail.co.uk/news/article-3256735/Don-t-school-tomorrow-northwest-Disturbing-warning-message-appears-4Chan-night-shooting-Oregon-college.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Chris Mercer&lt;/a&gt; aparentemente alertou seus colegas de 4Chan a não irem para a Universidade de Roseburg no dia seguinte. Um mês depois desse caso, cinco ativistas do Black LivesMatter foram baleados em Minneapolis - um crime que também havia sido &lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2015/11/26/us/4-arrested-in-shooting-at-black-lives-matter-protest-are-identified.html?mcubz=0&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;anunciado no 4Chan&lt;/a&gt;.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A cada ataque a uma escola, cada foto de mulher agredida, cada tiro em um negro ou latino, alguém perguntava no fórum se a revolução &quot;beta&quot; havia começado. Bom, a revolução beta começou de fato quando um trollador do Twitter, abertamente misógino e racista, bully orgulhoso, anti-politicamente correto, revisionista histórico, apologista da ignorância, darwinista social – enfim, um cara que reunia todas as características dos anti-herois do 4Chan – venceu as primárias republicanas e iniciou sua campanha rumo à Casa Branca. Não foi &lt;span class=&quot;msoDel&quot;&gt;&lt;del cite=&quot;mailto:Vanessa%20de%20Souza%20Oliveira&quot; datetime=&quot;2017-09-15T12:16&quot;&gt;a&lt;/del&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;msoIns&quot;&gt;&lt;ins cite=&quot;mailto:Vanessa%20de%20Souza%20Oliveira&quot; datetime=&quot;2017-09-15T12:16&quot;&gt;à&lt;/ins&gt;&lt;/span&gt; toa que, em outubro de 2015, Donald Trump &lt;a href=&quot;https://twitter.com/realdonaldtrump/status/653856168402681856?lang=en&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;postou&lt;/a&gt; uma caricatura dele mesmo caracterizado como Pepe The Frog, o mascote do 4Chan.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7jvwuNmusRtR4N3yiYIcyOy_e-EOgjjHiuQ4YEcYkgh7Mx7wQ9vDFLoDF_V_kMDoxG_5ZCiQijqS7vjslapWudYFo2LRuMk464SMG3ETJqIW9tli9jkMof8Zypc4ZWEzkvjV7C1UvC-g/s1600/Trump+the+frog.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;588&quot; data-original-width=&quot;415&quot; height=&quot;400&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7jvwuNmusRtR4N3yiYIcyOy_e-EOgjjHiuQ4YEcYkgh7Mx7wQ9vDFLoDF_V_kMDoxG_5ZCiQijqS7vjslapWudYFo2LRuMk464SMG3ETJqIW9tli9jkMof8Zypc4ZWEzkvjV7C1UvC-g/s400/Trump+the+frog.jpg&quot; width=&quot;281&quot; /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;A politização do niilismo na era do autoritarismo 2.0&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas o 4Chan, embora seja a base de sustentação da distopia, não agiu sozinho. Outros sites e colunistas captaram e politizaram essa energia. O principal deles é o Breitbart News, fundado em 2007 por Andrew Breitbart e presidido por ninguém menos que Steve Bannon, que dirigiu a campanha do Donald Trump e foi estrategista-chefe da administração até o mês passado, quando foi demitido e voltou pro Breitbart.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Bannon é uma figura bem peculiar, como mostra o incontornável &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=HelSaMSy8HY&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;episódio&lt;/a&gt; sobre ele da série documental &lt;a href=&quot;http://theempirefiles.tv/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;The Empire Files&lt;/a&gt;, da Telesur. Veterano da marinha, fascinado por guerra, com histórico de abuso de mulheres, entusiasta do TeaParty, ex-articulador político no mundo virtual do game World ofWarcraft, ex-analista do Goldman Sachs... e cineasta. Quer dizer, se é que dá pra chamar de cineasta alguém que só faz filme apocalíptico de propaganda de extrema-direita.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Em um dos filmes dele, &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=OObHgFLcfrQ&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;OccupyUnmasked&lt;/a&gt;, ele denuncia os militantes do Occupy Wall Street como uma seita de criminosos “anarco-comunistas” que vieram para destruir a civilização; o mais recente (&lt;a href=&quot;https://vimeo.com/166032013&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Torchbearer&lt;/a&gt;, 2016), que é apresentado por um texano maluco em uniforme militar, explica como o Estado Islâmico nasceu do abandono da teoria criacionista pelos cristãos. Por causa desse currículo, ele chegou a &lt;a href=&quot;http://www.latimes.com/opinion/readersreact/la-ol-le-bannon-influences-20161214-story.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;se comparar&lt;/a&gt; a LeniRiefenstahl, a cineasta particular de Adolf Hitler. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas, além de usar seus contatos no meio financeiro para capitalizar o Breitbart e transformar esse hub de fakenews numa máquina midiática com mais de 18 milhões de acessos por mês, talvez o papel mais sinistro do Steve Bannon tenha sido como vice-presidente da Cambridge Analytica. A Cambridge Analytica é uma empresa de big data que tem como principal acionista um outro nome fundamental dessa trama: o bilionário Robert Mercer. Mercer é um cientista da computação, pioneiro da inteligência artificial e um gênio das finanças, dono de um fundo de investimentos que cresce quase 72% ao ano, de acordo com o jornal inglês &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/technology/2017/may/07/the-great-british-brexit-robbery-hijacked-democracy&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;The Guardian&lt;/a&gt;.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Coletar dados para mudar comportamentos&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Já a Cambridge Analytica talvez seja a maior ferramenta de subversão da democracia já inventada. No início dos anos 2010, quando ainda se chamava SCL Elections, o negócio da companhia era encontrar vácuos legislativos e aplicar estratégias militares de guerra psicológica (PsyOps) pra eleger seus clientes a cargos executivos em países periféricos como Gana e Quênia. Esse modelo de negócios evoluiu quando a filha do CEO da Alphabet (holding do Google), Eric Schmidt, promoveu o encontro da chefia da empresa com uma companhia do Vale do Silício chamada Palantir, especialista em coleta de dados online. A Palantir, cujo proprietário é Peter Thiel, co-fundador do PayPal e primeiro executivo do Vale do Silício a declarar apoio a Donald Trump, é uma das fornecedoras de informações pessoais nossas para a Agência estadunidense de Segurança Nacional (NSA), por exemplo.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Bom, depois deste contato, a Cambridge Analytica mudou não só de nome, mas de foco. Para fugir da legislação eleitoral dos países em que ela pretendia atuar, ela passou a usar uma companhia domiciliada no Canadá, a AggregateIQ, que tinha a missão de construir perfis psicológicos de eleitores a partir da combinação de dados retirados das redes sociais. Usando a experiência nas estratégias de guerra psicológica, a Cambridge rastreava eleitores ou grupos de eleitores suscetíveis a mudar de opinião.  
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A Cambridge – cujo slogan é “usar dados para mudar o comportamento do público” - descobriu que era possível determinar, a partir das curtidas de Facebook, se uma pessoa tinha tendência à paranoia, por exemplo. Se esse indivíduo fosse um potencial paranoico, bombardeá-lo com notícias de assaltos perto de seu endereço poderia estimulá-lo a defender uma pauta como a flexibilização da legislação armamentista, por exemplo. Assim, essa pessoa se encaixaria em uma agenda específica da direita - o que permitiria que a Cambridge construísse uma campanha personalizada para ela. E não se trata de uma campanha com informações e anúncios: é uma campanha que aprende a maneira da pessoa pensar e introjeta uma ideia externa como se fosse inata.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
O chefe de pesquisa de uma concorrente da Cambridge disse em entrevista ao &lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2017/03/06/us/politics/cambridge-analytica.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;New York Times&lt;/a&gt; que esse novo mercado de lobby político ultrapassa o compartilhamento de informações. Trata-se do &quot;compartilhamento do pensamento e do sentimento por trás da informação&quot;.  
 &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O primeiro campo de teste desta nova forma de atuar da Cambridge foi o referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit. De acordo com &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/technology/2017/may/07/the-great-british-brexit-robbery-hijacked-democracy&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;The Guardian&lt;/a&gt;, a principal frente pelo Brexit, Vote Leave, investiu 3,9 milhões de libras - mais da metade de seu teto de gastos de 7 milhões - na AggregateIQ, a subsidiária canadense da Cambridge. Os três outros blocos pró-Brexit pagaram mais 757 mil libras para a mesma companhia. Ao que parece, as frentes coordenaram seus investimentos sem declarar orçamento conjunto, o que é proibido pela lei eleitoral britânica.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Por isso a comissão eleitoral chegou a investigar o caso, como a &lt;a href=&quot;http://www.bbc.com/news/election-2017-39946801&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;imprensa britânica&lt;/a&gt; noticiou amplamente. Mas a companhia canadense informou que mantinha um acordo de confidencialidade com os clientes. Como estava fora da jurisdição britânica, ficou por isso mesmo.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
O fato é que o big data - e, principalmente, o que eles chamam de &lt;i&gt;personal messaging&lt;/i&gt;, que é a campanha personalizada para cada perfil psicológico - se mostrou muito mais eficiente do que a legislação britânica. Ainda assim, como a atuação dessas empresas é guardada a sete chaves, é muito difícil determinar qual foi o real impacto dessa estratégia na vitória do Brexit.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Mas o fato é que Steve Bannon que, em 2014, havia aberto um escritório londrino do Breitbart para reforçar a extrema-direita no Reino Unido, ficou muito satisfeito com o resultado. E apresentou a fórmula para o senador texano Ted Cruz nas primárias republicanas. Mas o &lt;a href=&quot;https://www.nytimes.com/2017/03/06/us/politics/cambridge-analytica.html?mcubz=0&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;sistema falhou em Oklahoma&lt;/a&gt;, quando metade dos eleitores que a Cambridge havia indicado como favoráveis aCruz votaram em outros candidatos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Essa parceria foi encerrada e a Cambridge se aproximou de Trump para a disputa contra Clinton. Como o Trump tinha uma retórica bem definida, um público-alvo muito específico e um discurso populista, pseudo-transgressor, muito mais forte do que o da oposição, a estratégia adotada não foi estimular o voto no candidato republicano, mas convencer o eleitor democrata a não sair de casa. Se deu certo ou não, é difícil saber porque, apesar de o comparecimento nas eleições de 2016 ter sido o menor em 20 anos, a abstenção se mostrou uma tendência global. Mas a Cambridge &lt;a href=&quot;https://ca-political.com/casestudies/casestudydonaldjtrumpforpresident2016&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;tem se vendido para os clientes&lt;/a&gt; como player &quot;fundamental&quot; para a construção do &quot;maior fenômeno político dos Estados Unidos&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Refluxo: a esquerda precisa enterrar cadáver da grande mídia&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se foi de baixo para cima, com os 4channers, os adolescentes dos fóruns de videogame; ou de cima pra baixo, com bilionários usando inteligência militar para sequestrar a democracia, o fato é que a mídia liberal tradicional perdeu completamente o controle sobre a formação de opinião. No livro “Kill all Normies” (de onde veio a maior parte das informações sobre o 4Chan contidas neste artigo), a socióloga especialista em extrema-direita Angela Nagle lembra que, há apenas dez anos, na primeira eleição de Barack Obama, a imagem mais compartilhada nas redes foi aquele cartaz oficial escrito Hope, que tinha um estêncil do Obama em azul e vermelho. O que aconteceu ali foi a viralização de um conteúdo oficial.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Desta vez, foram os memes criados anonimamente nos confins da internet que deram o tom da campanha. As fake-news, cujo principal propagador era o site administrado pelo chefe de campanha do candidato mais reacionário, tomaram a arena dos debates. E, de repente, Hillary Clinton estava defendendo em rede nacional que seu marido não é um estuprador em série. Barack Obama via-se obrigado a explicar que não foi o fundador do Estado Islâmico - e tudo isso para o deleite da turma da piada politicamente incorreta no 4Chan.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda é cedo para comensurar o impacto deste processo na cultura política. Mas uma coisa é certa: o fluxo de propagação da comunicação se descentralizou. O que antes vinha do mainstream para o underground passou a ir do underground para o mainstream. Esse tipo de subcultura horizontal anônima sempre existiu na internet e chegou a animar alguns teóricos ditos progressistas, como Manuel Castells, que anunciou a chegada de uma sociedade em que velhos modelos hierárquicos de produção cultural seriam substituídos pela sabedoria coletiva.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Quando estouraram as revoltas de massa descentralizadas (Occupy, Indignados, Primavera Árabe etc.) e o hackeamento politizado, do Anonymous ao Wikileaks parecia que esta utopia estava em vias de se concretizar. O problema é que o modelo organizacional e a ética do movimento são inter-relacionados, mas não são a mesma coisa. Se no Egito, a revolta foi parar na Irmandade Muçulmana e depois no golpe militar de Abdel Fattah al-Sissi; o movimento da praça Maidan, na Ucrânia, deu em uma alvorada neonazista. Sob o guarda-chuva da descentralidade das redes, da pseudo-isonomia das opiniões, do controle das massas pelas massas, emergiu uma cultura autoritária, de imposição de valores anti-humanos, racistas, homofóbicos, misóginos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Além do conservadorismo da esquerda (fazendo a concessão de chamar democrata de “esquerda”) – que não soube apresentar-se como esquerda, mas como um fantoche neoliberal travestindo bandeiras progressistas em slogans politicamente corretos –, a cooptação pela direita dessa inversão no fluxo de propagação ideológica foi fundamental para que o candidato mais autoritário e elitista conseguisse se vender como representante das massas. Claro que, quando o engomadinho de Wall Street fala nos confins do Texas &quot;Eu sou um de vocês&quot;, não há identificação imediata. A identificação passa pelo bullying nos fóruns da internet; pela absoluta falta de empatia (vista como uma qualidade transgressora na era do “multiculturalismo” excludente do obamismo); é uma identificação é com o niilismo dessa cultura ultra-autoritária que se livra não só das amarras narrativas dos &quot;formadores de opinião&quot; da mídia mainstream, mas também das restrições éticas e morais à propagação de informação e opinião.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;O que podemos começar a aprender com esse conto de terror?&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O empoderamento dos trolladores do 4Chan é a ideia de que em meio a uma coletividade anônima, cada indivíduo tem sua própria lei, isento de qualquer contrapartida social.E é isso que Trump promete: nenhum compromisso social. Em outras palavras, a radicalização da liberdade individual. No espaço anônimo da internet, esse conceito central da ética liberal despe sua última camada humanista, que era a ilusão de que ela poderia servir regular “natural” das interações entre as pessoas. Aquela velha máxima liberal atribuída ao filósofo individualista Herbert Spencer de que “minha liberdade acaba onde começa a do outro” não tem mais lugar. Agora, “minha liberdade termina com a eliminação do outro”.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Talvez essa concepção de coletividade como uma ferramenta de empoderamento de desejos individualistas seja uma das bases éticas do fascismo neoliberal. As coletividades, neste ambiente inóspito são conjunturais. Por isso, nosso combate tem necessariamente que refundar radicalmente a concepção de coletividade, em bases duradouras e inegociáveis. A formação da coletividade não pode depender da ocasião. Ela tem de ser um pilar indestrutível da nossa luta.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
E talvez isso passe por encarar o outro como parte de nós mesmos; encarar a representação não como um fim em si, mas como uma ferramenta de mudança radical. Se sobra uma lição do fracasso do Partido Democrata, é que o empoderamento individual e a correção política liberal não vão servir para esse fim.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Não só porque são conceitos desprezados pela juventude que vê a esquerda como &lt;i&gt;status quo &lt;/i&gt;e direciona sua rebeldia adolescente contra nossas bandeiras. Mas principalmente porque estes conceitos não têm densidade radical.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
A correção política não é uma ideia de eliminação da desigualdade (étnica, de classe, de gênero etc.); ela é a ferramenta de manutenção da aparência de normalidade dentro da macro-estrutura de opressão. Ser &quot;politicamente correto&quot; significa partir do pressuposto de que, em nome da harmonia da sociedade, você precisa conviver com pessoas que não te agradam. Em outras palavras, ter &quot;tolerância&quot;. Você tolera um cheiro ruim, tolera um vizinho que faz barulho, tolera coisas desagradáveis que não deveriam existir.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
É um absurdo que a gente fale de &quot;tolerância&quot; a minorias, por exemplo. A gente não tem que &quot;tolerar&quot; transexuais como se fossem uma espécie de mal inevitável da sociedade. Não, temos que integrar os direitos de transexuais à raiz de sua luta. Nossa política econômica, política de saúde, nosso ministério da Pesca, que seja, têm de considerar e integrar meios de promoção dos direitos trans. Dos direitos das mulheres, dos negros... Vale para
qualquer categoria oprimida.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Se acharmos que política econômica é uma coisa e política social é outra, isolaremos os meios de promoção da igualdade – o que significa que ela nunca será integral e integrada a todas as nossas ações. Para usar um termo da moda, temos que ser interseccionais - o que pressupõe que todas as lutas devem correr paralela e concomitantemente, sem hierarquia. Todas as ações devem considerar todas as lutas. É a partir daí que vamos constituir a coletividade inegociável que fará frente à atomização social que serve de combustível para o fascismo neoliberal.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
O jeito de enfrentar o fascismo é não ser hipócrita – e nos colocar como esquerda revolucionária que somos. E a honestidade revolucionária implica não adotar a lógica publicitária. Como ferramenta psicológica de ativar o sentimento de pertencimento social ao incutir necessidades inexistentes de consumo na cabeça população, a publicidade é intrinsecamente hipócrita e autoritária. Logo, este não vai ser o caminho: muito mais importante do que a aparência de mudança - a mulher no cargo X, o negro na propaganda da marca Y - é nosso compromisso real com essa mudança. Não bastauma mulher à frente de uma comissão parlamentar, precisamos de cota de 80% para mulheres no Legislativo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo que a gente não consiga fazer, entre nós, é hora de exigir tudo. Porque o risco de absorver e naturalizar o discurso publicitário, o risco do uso seletivo do individualismo, do apego a microprivilégios de classe, da instrumentalização oportunista das bandeiras emancipatórias. O risco, enfim, de nossa inconsistência ideológica é a consolidação de uma nova categoria de fascismo, em que o 1% instrumentaliza o niilismo da juventude, que deriva da obsolescência do &lt;i&gt;establishment &lt;/i&gt;liberal e do esgotamento, pela hipocrisia,das nossas bandeiras históricas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Claro que em se tratando de política (ou mesmo de sociedade humana, num sentido mais amplo) nenhum processo se transmuta automaticamente de uma realidade para outra. Mas a história das eleições estadunidenses de 2016 é um caso de estudo obrigatório para que nós, aqui no Brasil, nos armemos – em termos ideológicos, comunicacionais, políticos, tecnológicos e eleitorais – para enfrentar um mundo de demandas individualistas descentralizadas, que percebe rastros de hipocrisia nas nossas bandeiras e vê como ironicamente autêntica a hipocrisia da extrema-direita. Vencer o fascismo neoliberal passa por entender as condições que o fizeram florescer; ou seja, as condições que deram à luz Donald Trump.  
&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto originalmente publicado pela &lt;a href=&quot;https://fpabramo.org.br/2017/09/18/o-que-elite-dos-eua-nao-entendeu-sobre-bilionarios-fascistoides/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Fundação Perseu Abramo&lt;/a&gt;, em 18/09/2017&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/929999848848630868/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/929999848848630868?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/929999848848630868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/929999848848630868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2017/09/como-bilionarios-usaram-as-redes-para.html' title='Como bilionários usaram as redes para colocar Trump na Casa Branca'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiIF1LVEEiQkugFeN4-FodKSZ9BqchHyHBkIEFQdFlGgO7rzAWz4UVpwPlyPMVozV7KIVNkKKPaj_-L3wqAmp2e-PGtUKdTN5bPbNpG1yqDYu02wlrVSGn_Fz8C07FsjjXfS-mJk4z1_7w/s72-c/trump-1915253_960_720.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-8121125044610745379</id><published>2017-07-12T17:20:00.002-03:00</published><updated>2018-03-19T16:52:12.977-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>A caricatura da elite brasileira que a condenação de Lula revela</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgj9kcjXmGUvJhnhRCD6JVMXHzGJULrDskVENPjsXTdmIScKcRgsZJc9FTW00UxjriFJDcGqyXUtvnq9dWMdV7fy2wOopdprC0vb83VAiGgB_90WMD2XgqCSFyediooTi4e4RUa0fZhvok/s1600/1280px-Lula-ONU-23092008.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; data-original-height=&quot;853&quot; data-original-width=&quot;1280&quot; height=&quot;426&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgj9kcjXmGUvJhnhRCD6JVMXHzGJULrDskVENPjsXTdmIScKcRgsZJc9FTW00UxjriFJDcGqyXUtvnq9dWMdV7fy2wOopdprC0vb83VAiGgB_90WMD2XgqCSFyediooTi4e4RUa0fZhvok/s640/1280px-Lula-ONU-23092008.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Lula discursa na Organização das Nações Unidas, em 2008. Foto: Wikipedia&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se você é povo (em outras palavras, se não tem dinheiro em paraíso fiscal) e tá comemorando a condenação do Lula, você tá de chapéu. Não é uma pessoa física que Moro quer tornar inelegível e botar atrás das grades por quase dez anos. É um símbolo. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Quem precisa de provas para condenar um símbolo? A destruição violenta de ícones populares é prática inscrita no DNA das elites ao redor do mundo. Afinal, elas precisam de todo um conjunto simbólico - ora fornecido pela Igreja, ora pela publicidade, ora pelo Partido da Imprensa Golpista, ora por todos os anteriores - para sustentar sua hegemonia insustentável. Só uma ideia simbólica mística (como Deus, por exemplo) pode explicar porque a Paris Hilton merece nascer proprietária de um fundo de investimento de bilhões de dólares enquanto uma criança africana não merece herdar mais do que HIV.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É contra a ideia de que o pobre pode aspirar a algo além do servilismo, a cadeia e a cova rasa que conspira o Judiciário. A condenação do Lula, como a condenação de Rafael Braga, é um ato simbólico. Como foi simbólica a morte de Zumbi dos Palmares, cuja cabeça decepada com o pênis enfiado na boca apodreceu em praça pública no Recife. Ou as decapitações do bando de Lampião. Ou a condenação do líder da revolta da chibata, João Cândido, a ser enterrado vivo em cal, ao lado de outros insurgentes. São tentativas oligárquicas de construir na cabeça do povo o trauma da insurgência. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lula não é uma pessoa, é um símbolo de auto-estima do povo brasileiro, um símbolo de altivez, um símbolo de um Brasil que se coloca de igual para igual com as grandes potências globais. Esse é o problema. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lembrei de uma vez que fui cobrir, pela rádio pública francesa RFI, uma visita de Estado de Dilma Rousseff a Paris em 2013. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lula veio também para falar diante do Legislativo francês e de personalidades importantes da política local, como o ex-primeiro ministro Lionel Jospin e o então presidente socialista François Hollande, que dividia o antebraço da poltrona com seu antecessor conservador, Nicolas Sarkozy. Lula ia discursar por meia hora, já que a voz ainda estava combalida pelo câncer na garganta. Mas, graças a incontáveis copos d&#39;água, ele conseguiu falar por três horas. Como sempre, arrancou gargalhadas - inclusive da mesquinha imprensa brasileira, que cobria o evento como se fosse um fato cotidiano regional - e aplausos efusivos do público em geral. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Todo mundo escreveu suas matérias, sem dar uma linha sobre o discurso, priorizando o pseudo-escândalo do momento, que nem eu lembro mais qual era. Eu, que tinha certa liberdade editorial, falei de outra coisa, falei de como a má relação de Lula com imprensa dentro do Brasil se reproduzia também fora, em espaços onde ele teria a possibilidade de aventar outros temas que não a picuinha nossa de cada dia. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sei que, no dia seguinte, Lula daria mais uma palestra na Fundação Jean Jaurès. No intervalo pro almoço, conversamos brevemente com o então ministro da Fazenda Guido Mantega sobre algum assunto da economia que também não lembro mais qual era. Aumento da taxa selic, talvez. Sei lá, não lembro mesmo. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Os correspondentes foram todos almoçar juntos, eu fui pra outro lado. Não sou muito fã da conversa corporativista dos jornalistas fora do país. E sempre fico deslocado como único preto e único radical de esquerda. Almocei com um repórter da imprensa francesa. Ele tinha lido as matérias dos colegas brasileiros e estava intrigado. Não conseguia entender por que nossos jornalistas &quot;sabotavam o Brasil&quot;, como ele disse. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Não entendia por que davam importância desproporcional a um &quot;escândalo&quot; exageradamente local, inconsistente e sem provas, no dia seguinte a uma palestra em que o homem havia tocado os pontos mais importantes da agenda internacional, de solidariedade petrolífera e erradicação da fome à ausência de órgãos efetivos de regulação internacional da especulação financeira. Isso pra uma plateia de tarimbados dirigentes europeus, quietos e boquiabertos, diante de um peão de fábrica com mais diplomas honoris causa do que todos eles juntos.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O francês me falou uma frase que não esqueço: &quot;O Lula é um patrimônio do Brasil&quot;. Para ele, Lula era, internacionalmente, o farol de uma América Latina autônoma e autoconfiante que deixava de obedecer e passava a ensinar um mundo velho e viciado a se reinventar. Lula era o símbolo de um Brasil viável no cenário internacional. &quot;O Brasil não quer ser um ator internacional? Então, destruir o Lula é um boicote ao Brasil!&quot;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Talvez daqui seja difícil ver isso. Mas na Europa, as pessoas tinham a sensação de que o Brasil havia nascido com o Lula. Ninguém sabia o que acontecia por aqui antes do Lula. O Brasil não interessava nem importava pra ninguém, o príncipe que me desculpe. Antes do Lula, a maioria de quem cruzava o oceano Atlântico era playboy que preferia fingir que era europeu do que mostrar nossa cara pra eles. Era gente com vergonha do Brasil. Vergonha da nossa pele escura, do nosso suingue, do nosso sangue mestiço, vergonha até do sol quente que bate aqui. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao colocar o Brasil no mapa, Lula não foi sozinho, levou nosso Brasil mestiço na bagagem. E essa é uma diferença que se sente com muita clareza. A elite, com sua força policial capitã do mato e seu poder econômico desaculturado, obriga o pobre a andar cabisbaixo por aí. Mas fora do país, é incrível como a elite tradicional é que andou cabisbaixa nos últimos anos. De peito estufado pelas ruas de Paris estava o povo do Prouni, do Ciências sem Fronteiras, a rapaziada da era PT, que quer que se foda se o gringo vai achar ruim que a gente é preto. É o que a gente é mesmo. E adivinha? Foi aí que o gringo passou a respeitar a gente.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Porque nossa elite não tem o verniz da intelectualidade, que ostenta parte da elite europeia. É uma elite pré-iluminista. E, como tal, não tem mais do que seus próprios preconceitos e autoritarismos em que se aferrar. Quem condena o Lula sem provas, no fundo, é o dono da bola que resolveu acabar com o jogo porque estava perdendo de goleada. É o rico brasileiro que, sem o lastro do dinheiro, da mídia, do Judiciário, do poder político, não tem nada que o diferencie do povo. Só lhe resta lutar para manter essa máscara de branco, cravejada de diamantes para disfarçar sua real matéria-prima: racismo. Para manter a aparência de elite, a elite brasileira rifa o Brasil - devolve, com a reforma trabalhista, a economia nacional a patamares coloniais; encerra, com a submissão à agenda de potências decadentes, nossa perspectiva de autonomia internacional; mata a possibilidade da diversificação dos nossos saberes ao encerrar os programas que permitiam ao grosso da população conhecer o mundo. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Essa condenação de hoje é uma tentativa da elite de não parecer brasileira. Pois nada mais brasileiro do que tentar destruir líderes populares de envergadura histórica em nome de um projeto datado, mesquinho, fadado ao esquecimento. Daqui a 500 anos, Lula será lembrado como o presidente que erradicou a fome do Brasil. A Lava-Jato, se muito, será lembrada como uma operação policialesca com um erro de português no nome.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
#LulaInocente&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/8121125044610745379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/8121125044610745379?isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8121125044610745379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8121125044610745379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2017/07/a-caricatura-da-elite-brasileira-que.html' title='A caricatura da elite brasileira que a condenação de Lula revela'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgj9kcjXmGUvJhnhRCD6JVMXHzGJULrDskVENPjsXTdmIScKcRgsZJc9FTW00UxjriFJDcGqyXUtvnq9dWMdV7fy2wOopdprC0vb83VAiGgB_90WMD2XgqCSFyediooTi4e4RUa0fZhvok/s72-c/1280px-Lula-ONU-23092008.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-4658713015997556043</id><published>2017-05-23T16:59:00.000-03:00</published><updated>2017-05-23T17:29:47.662-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><title type='text'>Violência contra cracolândia é ódio de classe</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJTCy4r-R_41sAZgGELtJraMMS4AoDMqnfYck5EbBZdZzaKcNEYoLK7HhR5Eg6u5LR6QySkATHt_vIf4sFOO4x_hQjAtp0ojgbcZ0RNH38MW4WtceT1LQHA01BIvUVkubJK_zTvaIfwg/s1600/Fora+do+Eixo_Cracolandia.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;422&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJTCy4r-R_41sAZgGELtJraMMS4AoDMqnfYck5EbBZdZzaKcNEYoLK7HhR5Eg6u5LR6QySkATHt_vIf4sFOO4x_hQjAtp0ojgbcZ0RNH38MW4WtceT1LQHA01BIvUVkubJK_zTvaIfwg/s640/Fora+do+Eixo_Cracolandia.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;i&gt;O que resta de humanidade a alguém capaz de ordenar a demolição de um prédio com gente dentro?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Foto: Fora do Eixo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
Eu queria que só por um segundo pensássemos no fascismo/criminalização da pobreza/uso desmedido da força/hipocrisia no tratamento dado à região da famigerada cracolândia. Pra você, de classe média ou rico mesmo, eu tenho uma pergunta: como os viciados (ou, como vocês chamam os seus, &quot;dependentes químicos&quot;) são tratados no seu entorno? Quantos milhares de reais você já viu ser gastos em clínicas, terapias, viagens ao exterior?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Aos meus próximos (nem tão ricos para pagar clínicas de luxo nem tão pobres para ser largados nas ruas) também pergunto: O que fazemos pelos nossos? Pode deixar, eu mesma respondo: nós buscamos saída! Falamos com o pastor, líder espiritual, padre do bairro, juntamos dinheiro na família pra pagar o ônibus até a clínica, conversamos. Tentamos de tudo para que aquela pessoa tenha outra chance, veja as coisas de maneira distinta e possa se curar.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
O que explica que se trate doença com polícia?&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20O%20que%20explica%20que%20se%20trate%20doen%C3%A7a%20com%20pol%C3%ADcia?%20http://bit.ly/2rNz7Co&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O que explica que a única resposta da prefeitura de São Paulo para pessoas doentes (de alma, de corpo, de mente) seja polícia e não médicos; balas de borracha, bombas e cachorros e não remédios e atendimento psicológico? O que aconteceria se invadíssemos uma festa nos Jardins ou no Morumbi e chegássemos chutando as carreirinhas feitas com cartão de crédito gold sem limites, estourando bombas nos sofás milionários e salpicando balas de borracha nos pés dos viciados, fazendo-os dançar?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Dia desses, li um comentário de um moço que comparava as pessoas (sim, são pessoas) a baratas - o que explicaria, na visão dele, a necessidade de &quot;limpeza&quot; da Cracolândia. Caro amigo, &quot;baratas&quot; são pessoas como Dória e Alckmin que decidem que cidade linda é a cidade que empurra pra baixo do tapete suas mazelas. As mazelas que, por sermos tão pobres, não conseguimos esconder atrás de portões ultra-securitizados e em apartamentos de luxo. Elas acabam expostas assim, no meio da rua, pra quem quiser ver. Baratas são Dória e Alckmin que alimentam a miséria humana para usar os escombros de palanque.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/4658713015997556043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/4658713015997556043?isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/4658713015997556043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/4658713015997556043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2017/05/violencia-contra-cracolandia-e-odio-de.html' title='Violência contra cracolândia é ódio de classe'/><author><name>Unknown</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='https://img1.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJTCy4r-R_41sAZgGELtJraMMS4AoDMqnfYck5EbBZdZzaKcNEYoLK7HhR5Eg6u5LR6QySkATHt_vIf4sFOO4x_hQjAtp0ojgbcZ0RNH38MW4WtceT1LQHA01BIvUVkubJK_zTvaIfwg/s72-c/Fora+do+Eixo_Cracolandia.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-9069108896656729282</id><published>2017-05-16T16:16:00.000-03:00</published><updated>2017-05-23T17:20:04.255-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Freixo, Haddad e Quero Prévias são um passo pra quem precisa de um voo</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJPcljlO7g-r0zjzjdve7Cpz2GNoH6wNC10BfPiMWf9T44R4QgF4tVWtquASZb0o924e5QMkeVNLHEe8AVX0yi5_p4PAp3ujSY3LNCSlQvrUS3iFn94zB0_Rrmxhw4XeJyjgycoh_STvg/s1600/QueroPrevias.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;360&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJPcljlO7g-r0zjzjdve7Cpz2GNoH6wNC10BfPiMWf9T44R4QgF4tVWtquASZb0o924e5QMkeVNLHEe8AVX0yi5_p4PAp3ujSY3LNCSlQvrUS3iFn94zB0_Rrmxhw4XeJyjgycoh_STvg/s640/QueroPrevias.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;i&gt;&lt;br /&gt;É bom que possamos discutir um programa de esquerda. Mas ainda somos todos crentes - mais ou menos praticantes - da religião do capital&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ontem, saí satisfeito do debate promovido pelo movimento &quot;Quero Prévias&quot; sobre trabalho, na Casa do Povo, em São Paulo. Fiquei feliz de ver Marcelo Freixo e Fernando Haddad debaterem ideias sem as amarras partidárias, sem o compromisso com um processo eleitoral iminente. E feliz também de ver que o Quero Prévias está conseguindo se libertar de reivindicar lugar numa institucionalidade que desmoronou com o golpe de 2016 e se reinventar em uma coisa mais &quot;Quero programa de esquerda&quot;. Ainda me incomoda essa primeira pessoa do singular (&quot;Quero&quot;, como se coubesse a um singular &quot;querer&quot; pelo plural), mas acho que, com o debate, o coletivo deu um passo importante em direção ao descolamento entre essa marca imperativa e personalista e o objetivo de oxigenar o campo da esquerda com ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Eu estava satisfeito até com o conteúdo do debate. Aí, nesta mesma noite, Angela Davis apareceu pra mim num sonho e me convenceu de que o debate foi uma merda e nós somos as moscas. Ela me disse que nosso horizonte utópico está entrincheirado em um muro conservador capaz de fechar todas as fronteiras do mundo. Como nós podemos começar a discutir um programa - ou seja, ainda sem o compromisso com a sua realização - se não nos permitirmos sonhar? Este é o único momento na longa estrada do processo eleitoral em que temos direito a sonhos. Mas fazemos como jornalista pejotista da grande imprensa: nos autocensuramos antes que o sistema o faça. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Freixo falou de como o sistema carcerário é o depósito de uma parcela da população que fica mais e mais inempregável. Sem dizer, ele disse que o aumento da precarização deve ampliar a criminalização da pobreza e, consequentemente, a população carcerária. Ele esqueceu de dizer que o capital já tem solução pra isso: legalizar a escravidão. Um bom campo de testes tem sido os presídios privatizados da Califórnia. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Lá, uma parte expressiva dos detentos cumpre pena por reincidência em tentativa de imigração ilegal. Ou seja, pelo crime de tentar procurar uma vida melhor noutro lugar depois que seu lugar de origem foi destruído pelo Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte); ou pelas ditaduras financiadas com capital e poderio yankees; ou pela política neoimperialista de boicote às democracias progressistas do século XXI; enfim, por qualquer uma das consequências nefastas de ter como vizinho o maior império da história da humanidade. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sem conhecimento do inglês e muito menos do sistema jurídico estadunidense, essas pessoas são obrigadas a barganhar em tribunais fast-food, em que dezenas são julgados ao mesmo tempo. As opções na mesa são: 1) Enfrentar todo o peso da lei - e arriscar décadas de cárcere - ou; 2) aceitar cumprir uma pena menor antes da deportação e poupar o Estado americano de arcar com os custos do processo.
&lt;/div&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Sistema carcerário tende a legalizar escravidão&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20Sistema%20carcerário%20tende%20a%20legalizar%20escravidão.%20http://bit.ly/2qTmIg9&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Uma vez no sistema carcerário, que gera renda astronômica a empresas como Geo Group e CCA (Corrections Corporation of America), o preso pode optar por fazer exatamente aquilo que ele veio fazer nos Estados Unidos: trabalhar. Com a diferença que, preso, ele trabalha por uma fração do salário mínimo, com um único direito &quot;trabalhista&quot;: uma hora de banho de sol por dia.  O que é isso senão o restabelecimento do sistema escravocrata, com a sofisticação discursiva que só o neoliberalismo pode te oferecer?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas o que incomodou a Angela em mim não foi o fato de Freixo não ter entrado nos detalhes de como o boom carcerário tem reciclado a inempregabilidade crônica em fonte de renda. Foi o fato de que ele parou a discussão antes do horizonte utópico que, obviamente, é a abolição do sistema prisional - e lógico, da polícia. Pra que serve cadeia e polícia? No caso da estrutura social da contemporaneidade capitalista, são ferramentas de controle e gestão da não-distribuição de renda. Em termos de psicologia social, são resquícios da escravidão, cujo efeito mental - e físico - no corpo da sociedade é assustar os que correm o risco de voltar pro pelourinho e tranquilizar aqueles que vão segurar o chicote. Então, por que nem o Freixo, num ambiente favorável e descompromissado como aquele, é capaz de dizer com todas as letras que nosso objetivo na área de segurança pública é a extinção da cadeia e da polícia? &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Teve uma hora lá que alguém na roda (não tinha mesa, o que foi muito bom) debochou da renda básica de cidadania - Suplicy que o perdoe. Não porque é um dispositivo social-democrata meio conservador, que visa salvar o capital da sua implosão por meio de uma distribuição apaziguadora da renda que geramos coletivamente. Mas por uma chave moralista (&quot;vamos pagar pro cara ficar em casa jogando videogame&quot;).&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Sabe que uma organização anarco-feminista chamada FED (o banco central dos EUA) fez uma pesquisa interessante &lt;a href=&quot;https://www.thersa.org/globalassets/pdfs/blogs/rsa-lecture-dan-pink-transcript.pdf&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;(citada aqui por Daniel Pink)&lt;/a&gt; que mostra que as pessoas são mais eficientes em trabalhos intelectuais quando sua principal motivação não é externa. Ou seja, não é o dinheiro que faz com que exploremos o máximo de nossas capacidades humanas. E, em certos níveis de complexidade intelectual das nossas tarefas, o dinheiro chega a ser contraproducente. Se o trampo não é o divisor de águas entre ter ou não ter o que comer, o trabalho sai muito melhor. E daí que meia dúzia fique em casa jogando videogame, se você liberar o pintor que tá varrendo rua para pintar, o filósofo que tá pedindo esmola para pensar, o escritor que tá trampando de fogueteiro para escrever?
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Ah, mas da onde vai vir o dinheiro para isso?&quot; Bom, essa já é uma pergunta conservadora se estamos falando de utopia, mas vá lá: o setor privado não gera riqueza nenhuma sem o apoio do Estado. Seja por meio de incentivos fiscais, seja por meio da inovação que deriva dos institutos públicos de pesquisa ou pela apropriação direta da inteligência coletiva (como no caso de Google, Facebook etc). Por que essa gente que produz com nosso dinheiro, nossa inteligência e nossa força de trabalho não nos devolve nada? Essa seria uma resposta conservadora, ainda dentro das regras do capital. 
&lt;/div&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
O que dá valor ao dinheiro é a crença religiosa em seu valor&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20O%20que%20dá%20valor%20ao%20dinheiro%20é%20a%20crença%20religiosa%20em%20seu%20valor.%20http://bit.ly/2qTmIg9&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
A resposta sonhadora seria: foda-se da onde vem o dinheiro. Da taxação de grandes fortunas ou até da invenção de um dinheiro não-especulativo de mentirinha. Afinal, o que a gente chama hoje de dinheiro não tem lastro desde 1973 mesmo. A única coisa que dá valor ao dinheiro é a crença religiosa de que ele tem valor. Vamos começar a implodir as bases ideológicas do dinheiro? Se não diretamente, pelo menos em discurso.
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Isso me leva a uma outra parada. Quando o Haddad fala de internacionalismo, ele fala de integração dos mercados para o crescimento conjunto da América Latina. Certo. E o povo? Fazer crescer o mercado significa ampliar a atividade especulativa - uma atividade extrativista, altamente poluidora, que arranca o potencial de desenvolvimento humano das populações e não devolve nada -, ampliar o poder das elites estabelecidas e facilitar as condições de exploração do trabalhador. A não ser que você não esteja falando de competir no mercado Internacional - o que definitivamente não era o caso. Se sua ideia é entrar na briga para vencer dentro das regras do capital, integrar mercado significa socializar a exploração em nome do crescimento econômico.
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Crescimento econômico... &quot;Eu não vou me aventurar na economia com tantos economistas presentes&quot;, disse Freixo. Que traço imenso de ideologia neoliberal, achar que a economia pertence aos técnicos, a pessoas de saber supremo e inatingível. Economia é o primeiro conhecimento de todo mundo, que tá em todas as casas, de quem sabe ler e de quem não sabe. O grande trunfo do liberalismo foi convencer a maioria de nós de que esse é um assunto intocável, uma ciência exata complexa, filhote da matemática aplicada. Não é nem ciência nem exata. É uma invenção humana como qualquer outra, com enormes doses de superstição, misticismo, adivinhação e ideologia. 
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Por que a gente, como esquerda, precisa defender crescimento econômico, se a medição do crescimento é um índice conservador como o PIB, que aumenta quando acontecem catástrofes humanitárias? A gente devia era estar pensando uma nova maneira de medir riqueza, que levasse em conta a felicidade humana, o grau de realização coletiva, o grau de preservação da natureza. E nada disso se pode medir em números. Ou seja, os modelos matemáticos dos economistas não têm como medir riqueza de fato! Não consigo ver dinheiro como riqueza. As pessoas mais ricas que cruzaram meu caminho, as pessoas que mais me ensinaram nunca tiveram porra nenhuma. Vai dizer que minha vó não foi nada por que não teve nada? Foi a preta velha mais guerreira, mais sábia que conheci. E no atestado de óbito dela, tá lá: &quot;não deixa bem algum&quot;. É um atestado de óbito ideológico de direita.
&lt;/div&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Falar em redução da desigualdade é naturalizar a desigualdade&lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20Falar%20em%20redução%20da%20desigualdade%20é%20naturalizar%20a%20desigualdade.%20http://bit.ly/2gmwFNZ&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
E aí, eu penso o seguinte: o que aconteceu com a distribuição no discurso da esquerda socialista? Distribuição mesmo, destruição das desigualdades. O Freixo até flertou com isso, mas ainda fala em redução das desigualdades. Eu acho que a gente tem que arrumar um outro vocabulário. Quando falamos em &quot;redução das desigualdades&quot;, naturalizamos a desigualdade. O pressuposto dessa expressão é que é normal que haja desigualdade, mas não tanta. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Enfim, esse diabinho Davis aí atinou pra uma ideia simples: a gente perdeu a coragem de exigir o impossível, somos todos conservadores de alguma coisa, todos crentes - mais ou menos praticantes - da religião do capital. A gente pede o que acha que o sistema pode dar. Se o nosso sonho é feito de muros, quem vai construir pontes?
&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/9069108896656729282/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/9069108896656729282?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/9069108896656729282'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/9069108896656729282'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2017/05/freixo-haddad-e-quero-previas-sao-um.html' title='Freixo, Haddad e Quero Prévias são um passo pra quem precisa de um voo'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhJPcljlO7g-r0zjzjdve7Cpz2GNoH6wNC10BfPiMWf9T44R4QgF4tVWtquASZb0o924e5QMkeVNLHEe8AVX0yi5_p4PAp3ujSY3LNCSlQvrUS3iFn94zB0_Rrmxhw4XeJyjgycoh_STvg/s72-c/QueroPrevias.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-2453067109029717248</id><published>2016-11-23T16:21:00.002-02:00</published><updated>2016-11-23T18:11:23.532-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Negritude"/><title type='text'>Um negro chamado ninguém</title><content type='html'>&lt;i&gt;Não deixo de ser negro ao falar de temas que não tocam diretamente o negro. Só deixo de ser ouvido.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjU9ZXbUEBZKarlZCf58M0mppLFnnlhShohCcLT9s6PyuSJeInGRIwBs853HKof55HAxHIc5okOFh6b-rlWh-TK3TXgVRPOeLW4OrGD7Iv5hX8yNREFO5_EXz2_FgiZkB5Fv4DBx2jlBr4/s1600/Microphone.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;400&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjU9ZXbUEBZKarlZCf58M0mppLFnnlhShohCcLT9s6PyuSJeInGRIwBs853HKof55HAxHIc5okOFh6b-rlWh-TK3TXgVRPOeLW4OrGD7Iv5hX8yNREFO5_EXz2_FgiZkB5Fv4DBx2jlBr4/s400/Microphone.jpg&quot; width=&quot;387&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Primeiramente, além do #ForaTemer, meu lugar de fala: sou negro, sou de esquerda, homem heterossexual (até onde eu sei), de classe média, trabalhador da notícia (para me diferenciar do que se convencionou chamar de jornalista), mestre em literatura, descendente de escravos e nordestinos, vítima de racismo direto e institucional, culturalmente brasileiro, politicamente apátrida e antinacionalista. E escrevo para exigir o direito de não-ser. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não falo da obrigação de não-ser imposta verticalmente àqueles cuja voz a sociedade descarta, mas do direito de me manifestar fora de meu lugar de fala. O nome do meu site é a reivindicação populista de um lugar de fala, é uma leitura radical da formação afrodescendente de minhas influências. &quot;Afroências&quot; é um clamor por aceitação, é a contradição primordial, fundadora, deste espaço. É o fóssil de minha tentativa de pertencer a um lugar de fala, um lugar negro, que me colocasse ao lado daqueles que tenho como ídolos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ser negro é não ter lugar nem fala; não por opção, mas por imposição. Nos impuseram o não-lugar da cultura, arrancada pela escravidão; o não-lugar dos nomes vilipendiados; o não-lugar dos corpos dilacerados; o não-lugar do desemprego, da ausência de direitos. É apenas normal que reivindiquemos um &quot;lugar&quot;. O problema é que reivindicamos um salvo-conduto para os espaços tradicionalmente ocupados pelo branco liberal. Eu quero implodir o próprio lugar e sobrar só com a fala - desta vez, por opção e não por imposição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso significa destruir os espelhos, a representatividade, a própria individualidade e exigir o direito de ser ninguém, de ser um problema real para um sistema cuja torre de opressão é fundada na construção do indivíduo e de seu direito inalienável de propriedade. Não quero propriedade de nada, nem do meu próprio nome. Quero ser um pirata de mim mesmo, um ninguém que gera pensamentos. Se nosso sistema econômico foi fundado na escravidão, quero a abolição não só da escravidão, mas da própria lógica que a possibilita. Ou seja, quero revogar a ideia de propriedade, seja de uma pessoa, seja de um discurso. Exigir um &quot;lugar de fala&quot; significa exigir a propriedade sobre um discurso. Quero que o discurso não pertença a ninguém. Quero o direito de ser ninguém.&lt;br /&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
&quot;Ponha-se no seu lugar&quot; é &quot;reivindico meu lugar de fala&quot; conjugado no imperativo. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=%20Ponha-se%20no%20seu%20lugar%20%C3%A9%20reivindico%20meu%20lugar%20de%20fala%20conjugado%20no%20imperativo.%20http://bit.ly/2gmwFNZ&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;br /&gt;
Essa posição é perigosa: é muito mais fácil se legitimar a partir de seu lugar de fala. Todo mundo conta com a propriedade de um lugar. Se o branco de direita quer nossa volta à senzala, o branco de esquerda espera que nosso lugar legitime a fala dele. Nos dois casos, &quot;ponha-se no seu lugar&quot; é &quot;reivindico meu lugar de fala&quot; conjugado no imperativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quero falar sem lugar, quero falar sem gueto e quero cota não de 10%, mas de 100% no lugar de fala do branco. Quero que os homossexuais tenham cota de 100% no lugar de fala dos heterossexuais. Quero que as mulheres tenham cota de 100% no lugar de fala dos homens. Quero que o lugar de fala se exploda e ceda espaço ao direito verdadeiramente democrático de falarmos de qualquer lugar, de qualquer assunto - mesmo daquele que pertence à esfera de quem nos oprime.&amp;nbsp; Nós, oprimidos sob diversos prismas, só seremos verdadeiramente perigosos quando enxergarmos primeiro a opressão e depois o prisma. Do contrário, vamos virar a &lt;i&gt;black face&lt;/i&gt; do &lt;i&gt;white power&lt;/i&gt;, como foi Barack Obama. Porque, no fundo, quando se diz &quot;lugar de fala&quot;, a palavra-chave é &quot;lugar&quot; e não &quot;fala&quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por isso, nossa arma é falar de tudo, ocupar todos os lugares e não nos restringir ao que se espera de nós. Não quero denunciar só o racismo, muito menos numa perspectiva individual. Não quero falar que apanhei da polícia pela primeira vez aos dez anos nem dizer que, tantos idiomas e diplomas depois, ainda me mandam subir por elevador de serviço. Quero discutir política europeia, sim. Quero discutir filosofia clássica, sim. Quero discutir macroeconomia, sim. Sim, quero discutir tudo sem que o filtro seja esse nada que é tudo que cabe em &quot;meu lugar de fala&quot;. Não deixo de ser negro ao falar de temas que não tocam diretamente o negro. Só deixo de ser ouvido. Mas prefiro a surdez dos opressores ao sectarismo dos oprimidos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PS.: Esse texto é contraditório em si. Ele só possibilita criticar o lugar de fala porque reivindica o lugar de fala. E eu tenho certeza que ele vai funcionar não por causa da crítica radical, mas por causa da reivindicação do lugar de fala. Todo mundo vai ler o texto e entender o manifesto porque sou um negro negando meu lugar de fala. &lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/2453067109029717248/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/2453067109029717248?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2453067109029717248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2453067109029717248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/11/um-negro-chamado-ninguem.html' title='Um negro chamado ninguém'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjU9ZXbUEBZKarlZCf58M0mppLFnnlhShohCcLT9s6PyuSJeInGRIwBs853HKof55HAxHIc5okOFh6b-rlWh-TK3TXgVRPOeLW4OrGD7Iv5hX8yNREFO5_EXz2_FgiZkB5Fv4DBx2jlBr4/s72-c/Microphone.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-2573198922276645953</id><published>2016-11-04T03:46:00.006-02:00</published><updated>2022-11-10T18:09:06.619-03:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Túnel no fim da luz</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;i&gt;Como se enfrenta a depressão intelectual que emana da fumaça narcótica da fogueira de livros? Como se descobre a beleza do pensamento em meio aos escombros do sonho democrático? Onde se busca o pedestal da Justiça, quando a liquidez da exceção se sobrepõe às fundações do direito?&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7wI9JXX_sCIZ49og-Wnha5QCHlzNu7N2stclNpRhPDe2ZNJcG3SFLYxtOiuIbyIuCLQXyJ7exopisrkb27LLA7Z3Kh5eQ0hBTWPGVttV0OfPrMOvlDpqW9fkdMOIeOthQEbgZHCCGnPE/s1600/corridor-1097151_1920.jpg&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;422&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7wI9JXX_sCIZ49og-Wnha5QCHlzNu7N2stclNpRhPDe2ZNJcG3SFLYxtOiuIbyIuCLQXyJ7exopisrkb27LLA7Z3Kh5eQ0hBTWPGVttV0OfPrMOvlDpqW9fkdMOIeOthQEbgZHCCGnPE/s640/corridor-1097151_1920.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
É impressionante o Museu Histórico da Alemanha, em Berlim. Ele retraça a vida cotidiana e política de uma cidade que viveu múltiplas fundações, uma cidade obrigada a se reconstruir de baixo a cima pelos canhões e canetas de autoritarismos diversos. Quando entramos na sala modernista que introduz o século XX, nos deparamos com a ebulição de uma sociedade que se acreditava, pela força da tecnologia e da explosão criativa, destinada a grandes feitos. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Um primeiro fio de gelo corre a espinha quando nos deparamos com o Manifesto Futurista de Filippo Marinetti, exposto em sua impressão original e na versão francesa, que se tornaria célebre na capa da edição de 20 de fevereiro de 1909 do diário conservador Le Figaro. Olhos treinados como os nossos, que as trincheiras, campos de morte e gulags do século XX se encarregaram de engolir, captam rapidamente as palavras-chave do texto, como se fossem hyperlinks para o holocausto: &quot;guerra&quot;, &quot;patriotismo&quot;, &quot;higiene militar&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;border-right: 3px double rgb(220, 20, 60); float: left; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 20px 5px 5px; padding: 10px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Conforme descemos a espiral do autoritarismo, multiplicam-se as legendas: &quot;desaparecido&quot;, &quot;exilado&quot;, &quot;executado&quot; &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Conforme%20descemos%20a%20espiral%20do%20autoritarismo,%20multiplicam-se%20as%20legendas:%20desaparecido,%20exilado,%20executado%20http://bit.ly/2fWxzk5&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;
Depois de glorificar o &quot;escarnecer da mulher&quot;, Marinetti promete destruir &quot;os museus, bibliotecas, academias de todo tipo&quot;. Poderia ter sido mais um entre os muitos manifestos artísticos daquela era profícua, se não caísse em triste circunstância histórica. Mal sabia ele o quão suja e rápida se faria a higiene militar. Primeiro, na mais mortal de todas as guerras, em que uma geração jovem (não só europeia, mas do planeta inteiro) foi literalmente afundada em lama tóxica. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Apesar da importância histórica da Primeira Guerra, a curadoria do Museu é sagaz ao atalhá-la em uma sala curta, encerrada pelo tratado de Versalhes, que colocou a Alemanha de joelhos. Apresenta-se então um soldado austríaco do fronte alemão, popular entre seus combalidos camaradas de trincheira. Seguro de seu dote para a retórica, ele estuda o texto da rendição e passa a pregar a reascensão mística de um espírito alemão original, purgado do que ele patologicamente acusa todos os males: o &quot;lobby judeu&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Amplamente menosprezado pelas demais forças políticas, o ex-soldado Hitler chega ao posto de chanceler e seu partido Nacional Socialista vira força majoritária no Parlamento alemão. E aí, temos que mudar de andar no museu. Seguem-se quatro lances de escada descendente. A parede frontal do primeiro lance é decorada de artistas, filósofos, empresários, políticos, juristas, poetas e intelectuais da cena berlinense no início dos anos 30. Conforme descemos a espiral do autoritarismo, os retratos começam a escassear, substituídos por legendas: &quot;desaparecido&quot;, &quot;exilado&quot;, &quot;executado&quot;. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Ao chegar no térreo, já não sobram mais do que meia dúzia de retratos. A sinfonia wagneriana que nos acompanhava desde a primeira guerra cede lugar a uma ambientação sonora de murmúrios, palavras de ordem militares e crepitações. Estamos num túnel escuro, cuja única luz, lá no fundo, repousa sobre o último retrato: Adolf Hitler nos encara de cima pra baixo, imponente. Conforme nos aproximamos do führer, percebemos que, debaixo das grades que cobrem o chão, há um interminável lençol de sapatos. Estamos em pleno Holocausto. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O pensamento morreu ou foi exilado. O Judiciário, missionário, serve à causa paranoica do expurgo nacional de judeus, comunistas, deficientes, homossexuais. A indústria produz para a guerra e desenvolve tecnologias de assassinato em massa. A ciência torna-se tóxica e misantrópica. A política padece sob a voz de um homem só. Estamos no porão da história alemã, estamos no porão da humanidade. Somos insensíveis, somos contra-humanos, somos coletivamente suicidas e distópicos. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;border-left: 3px double rgb(220, 20, 60); float: right; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 0px 5px 20px; padding: 15px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Não estamos face a um novo Holocausto. Mas vivemos uma ruptura histórica impulsionada por uma Crise comparável a 29 &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=N%C3%A3o%20estamos%20face%20a%20um%20novo%20Holocausto.%20Mas%20vivemos%20uma%20ruptura%20hist%C3%B3rica%20impulsionada%20por%20uma%20Crise%20compar%C3%A1vel%20a%2029%20http://bit.ly/2fWxzk5&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;
Prever um genocídio em escala industrial no horizonte atual seria colocar o carro na frente dos bois. Por mais que a crise migratória tenha transformado o Mediterrâneo no tumbeiro do século XXI; por mais que o Oriente Médio tenha sucumbido às ruínas sob as ambições de seitas apocalípticas e neoliberais sedentos de petróleo; por mais que o assassinato de minorias seja o &lt;i&gt;modus operandi&lt;/i&gt; das polícias americanas (do Brasil aos Estados Unidos, com uma longa escala mexicana); por mais que o Estado turco tenha se convertido na ferramenta genocidária de um financista fanático como Recep Erdogan; por mais que Israel faça da Faixa de Gaza um showroom de aparatos repressivos para exportação; por mais que fundamentalistas cristãos norte-americanos tenham se convertido em lobistas pelo assassinato de homossexuais em Uganda; por mais que uma grave distorção da luta anticolonial nigeriana tenha gerado o Boko Haram... Por mais que possamos, enfim, elencar incontáveis signos de misantropia mundo afora, não estamos face a uma máquina de morte das proporções e do rigor metodológico do Holocausto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mas não podemos ignorar que vivemos um momento de ruptura histórica impulsionado por uma crise econômica com C maiúsculo cujo único paralelo na história do capitalismo foi o crash de 1929 - justamente aquele que reuniu as condições para a ascensão democrática do fascismo. E, como naquela época, é inegável que a paixão política está nas mãos da direita mais raivosa. Quem, em sã consciência, pode esperar que, hoje, o tão sonhado colapso do capitalismo abra espaço para um mundo mais justo, solidário e igualitário? Como diz o sempre preciso Yanis Varoufakis, o que se vislumbra hoje pela janela do futuro &quot;faz o filme Matrix parecer um documentário&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No Brasil pós-golpe, sintomas de uma infecção fascista, que se alastra dos três poderes à população em geral (e vice-versa), são claros e evidentes. Das prisões arbitrárias à normalização do assassinato de negros, jovens pobres e mulheres sob a narrativa fluida do inimigo interno, é evidente que nossa insensibilidade atinge níveis perigosos. Some-se a isso a descrença na representação política, simbolizada pela abstenção calamitosa às eleições municipais de outubro de 2016. Descrença que é retroalimentada por um governo que, não-eleito, sequer se preocupa em fingir alguma representatividade: enterra goela abaixo da população as mais impopulares de todas as pautas da Nova República.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Temos coragem de exigir, para além do fim da PM, o fim do sistema prisional? Temos coragem de pedir mais impunidade? &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Temos%20coragem%20de%20exigir,%20para%20al%C3%A9m%20do%20fim%20da%20PM,%20o%20fim%20do%20sistema%20prisional?%20Temos%20coragem%20de%20pedir%20mais%20impunidade?%20http://bit.ly/2dVBlwv&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Se não bastasse, a representatividade política não foi a única - e talvez nem a maior - vítima do golpe parlamentar. As próprias instituições da República parecem se desmilinguir. No domingo que antecedeu as eleições municipais, um homem que se apresenta como ministro da burocracia parasitária que se autodenomina governo subverteu princípios básicos da Justiça para anunciar a perseguição de seus adversários políticos pela Polícia Federal. A prisão de Antonio Palocci, na mesma cidade e apenas um dia depois do pronunciamento do pseudoministro, deixou evidente que a Justiça e o aparato repressivo se fundiram numa coisa só. Se não dá mais para falar em independência do Judiciário, não dá mais para falar em independência entre os poderes. Logo, não dá mais para falar em Estado democrático de direito no Brasil. O que vivemos é uma psicopatologia coletiva auto-imune, que cria um ciclo em torno de si mesma ao transformar o próprio tecido social em seu principal inimigo, assim como fez a Alemanha nos anos 30. E a população reage entre punitivismo e apatia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Precisamos tirar o Brasil da letargia da insensibilidade, um desafio hercúleo se considerarmos que este povo foi obrigado à insensibilidade por 500 anos da mais cruel opressão. Depois de tanta brutalidade, é natural a população ser mais seduzida pela promessa de vingança que pela promessa de Justiça. É missão nossa tirar lenha dessa fogueira. Precisamos nos indignar juntos por todos os injustiçados, por todos os oprimidos, por todos os presos. Não podemos pedir mais punição para nossos inimigos e menos para os nossos amigos; precisamos pensar uma sociedade capaz de se reeducar eticamente, alforriada da catarse moralista da punição. Temos coragem de exigir, para além do fim da PM, o fim do sistema prisional, como defende a neo-abolicionista Angela Davis? Temos coragem de pedir mais impunidade?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Precisamos repensar nossos conceitos mais elementares: o que é riqueza? Por que medimos nossa produção a partir do PIB, um índice que despreza a contrapartida social dos investimentos? &lt;span style=&quot;border-right: 3px double rgb(220, 20, 60); float: left; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 20px 5px 5px; padding: 10px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Temos muito estudo pela frente. Não podemos nos contentar com a comunicação por memes e textos de 140 caracteres. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Temos%20muito%20estudo%20pela%20frente.%20N%C3%A3o%20podemos%20nos%20contentar%20com%20a%20comunica%C3%A7%C3%A3o%20por%20memes%20e%20textos%20de%20140%20caracteres.%20http://bit.ly/2fWxzk5&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;Para que(m) serve o crescimento econômico, num momento em que nossa atividade ameaça a própria sobrevivência da Terra? Por que não distribuímos riqueza, já que produzimos mais excedentes que todas as gerações anteriores? Por que todas as pessoas não têm uma renda mínima? Por que se explora petróleo? Existe ecologia, feminismo, movimento negro e LGBT dentro do capitalismo? O que é liberdade econômica? Qual o fundo ideológico e geopolítico da nossa posição atual? Por que existem paraísos fiscais? Por que existem bancos? Por que nunca abolimos a escravidão? &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Temos muito estudo, muita troca de ideias pela frente. Não podemos nos contentar com a comunicação por memes e textos de 140 caracteres. Esses veículos funcionam tão bem para a publicidade porque são intrinsecamente capitalistas. Faz parte da nossa missão civilizatória desconstruir a absorção publicitária da realidade porque ela é acrítica em si. Mais do que isso, ela é anti-crítica, já que faz suas acepções com base em estudos que determinam com muita precisão os preconceitos médios da sociedade. Não me impressiona nada o fato de que um terço dos nossos homens acha que a vestimenta de uma mulher pode justificar um estupro; como mostram as propagandas de cerveja, feitas sob rigoroso targeting, a maioria dos homens vê as mulheres como objetos descartáveis. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esse processo se retroalimenta: a propaganda publiciza a mediocridade, que retorna à sociedade como um valor. Quando um conceito crítico é incorporado à sociedade ao ponto de ganhar viabilidade mercadológica, a publicidade trata de subtraí-lo de seu componente crítico e explorar seu potencial comercial. É o que acontece com a representação do negro ou do homossexual, por exemplo. Como hoje eles têm valor mercadológico, eles são engolidos, despidos de suas contradições (as contradições são essencialmente críticas) e atirados de volta ao público no formato de commodities sem alma. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Precisamos ter alma. Precisamos gerar dúvidas e não certezas. É hora de estudar e gerar contradições. Afetos e contradições são o antifascismo em si. Um fascista é aquele cuja certeza paranoica bloqueia a empatia. Só se chega a esse grau de certeza, a esse nível de desconstrução de contradições, por meio do pensamento dogmático. É por isso que, para se instaurar, o fascismo exige um alto grau de transcendência. O pensamento fascista tem de ter estrutura religiosa. Adolf Hitler sabia disso tão bem, que construiu uma poderosa mística em torno de objetos e rituais sagrados. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Tinha, por exemplo, o ritual da Fahnenweihe (algo como &quot;consagração da bandeira&quot;), quando o führer pessoalmente benzia todas as novas insígnias nazistas com uma bandeira ensanguentada. Em tese, o sangue pertencia a um dos homens da SA mortos durante a tentativa fracassada de golpe de estado comandada por Hitler em novembro de 1923. Nunca se soube se a bandeira era mesmo original, mas isso tanto fazia: o importante era a sacralização e ritualização do objeto.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
O Brasil de hoje, que é descrente na política e tem no discurso publicitário um filtro preferencial de leitura do mundo, oferece o repertório cultural e a configuração mental acrítica perfeitos para a instalação de uma teologia política fascistoide&lt;span style=&quot;border-left: 3px double rgb(220, 20, 60); float: right; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 0px 5px 20px; padding: 15px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Se alguém teve a ilusão de que o golpe reforçaria a coesão das esquerdas, pode esquecer. Retrocesso gera retrocesso. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Se%20algu%C3%A9m%20teve%20a%20ilus%C3%A3o%20de%20que%20o%20golpe%20refor%C3%A7aria%20a%20coes%C3%A3o%20das%20esquerdas,%20pode%20esquecer.%20Retrocesso%20gera%20retrocesso.%20http://bit.ly/2fWxzk5&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt; - complementada pelo discurso maniqueísta de uma influente franja das igrejas neopentescostais de matriz estadunidense. Memes que representam a direita como Jesus e a esquerda como o demônio exemplificam um processo de re-significação teológica dos antagonismos políticos. Certas igrejas evangélicas transmutam analogicamente ideologia neoliberal - empreendedorismo, desconstrução do Estado, individualismo - em discurso religioso. Elas leram Eduardo Galeano melhor do que nós e teorizaram o Deus-mercado. Dentro da lógica dogmática, isso significa que a justiça social, a diversidade, o igualitarismo etc. foram literalmente para a casa do diabo. Como vamos lutar contra Deus?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Essa representação binária do mundo funciona justamente porque a vida não é binária, mas contraditória o tempo todo. Você é morto pelo Estado sem ter cometido crime; você ganha um salário mínimo e paga mais imposto que um bilionário; a parte que você paga não se reverte em nada e você ainda tem que pagar uma segunda taxação pra milícia ou crime organizado; você terceiriza sua saúde para um médico que não te atende; seu filho rouba uma bolacha e é linchado; o filho do Eike Batista explode um trabalhador e sai de boa. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Sem a possibilidade de um desenvolvimento teórico e intelectual profundo, é apenas natural que surja na sociedade a necessidade de uma explicação atenuante de contradições tão radicais. É necessária uma estrutura transcendente que ordene esse repertório tão vasto de paradoxos. Contradições são terreno fértil para utopias. O problema é que esse espaço é atualmente cooptado pela extrema-direita. É preciso entender como o niilismo pós-morte da representatividade se converte nessa psicopatologia fascista e administrar à sociedade uma bela dose de utopia.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Novos horizontes de sonho são nosso antídoto, já que só a flor do fascismo brota da distopia. Se alguém teve a ilusão de que o golpe no Brasil reforçaria a coesão das esquerdas, pode esquecer. Retrocesso leva a mais retrocesso. E temos uma burguesia, armada de meios de comunicação de massa num país semi-alfabetizado, que promete eleger presidente um homofóbico misógino orgulhosamente favorável à implosão do Ministério da Cultura. Ou seja, precisamos nos levantar antes que o autoritarismo arranque nosso direito à imaginação. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
No imaginário social, há campo para o resgate da utopia. Afinal, as únicas duas forças ideológicas que crescem entre os brasileiros hoje são absolutamente utópicas (ou distópicas, já que são o anverso reacionário da utopia): o discurso anticorrupção, envenenado por ideologia neoliberal; e o religioso, que prega vida depois da morte, a maior de todas as utopias.&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
Google, Twitter, Facebook - Quem produz o conteúdo deles? Por que não temos todos uma gorda parcela de suas ações? &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Google,%20Twitter,%20Facebook%20-%20Quem%20produz%20o%20conte%C3%BAdo%20deles?%20Por%20que%20n%C3%A3o%20temos%20todos%20uma%20gorda%20parcela%20de%20suas%20a%C3%A7%C3%B5es?%20http://bit.ly/2dVBlwv&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Esse avanço distópico tem boa dose de culpa nossa. Não só no Brasil, mas no mundo, a esquerda majoritária abandonou a ideia de transformação radical da sociedade. Aceitamos o consenso de Washington e a teoria do fim da história e passamos a nos ver como gerentes privilegiados de um futuro inexoravelmente capitalista. Acreditamos que a social-democracia era o sinal de que o capitalismo poderia ser mais ou menos humano, se reduzíssemos gradualmente as contradições, se varrêssemos a luta de classes pra baixo do tapete. Faltou dialética no nosso olhar. Faltou encarar a social-democracia como uma ferramenta econômica, política e ideológica do capitalismo para disputar corações e mentes com o bloco comunista. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Com a queda do muro de Berlim, o capitalismo se desonerou de seu compromisso com o ser humano. Aceitou que tudo funcionaria melhor se dois terços da população simplesmente desaparecessem. Sem o contraponto ideológico comunista, o &quot;lado humano&quot; do capitalismo ficou obsoleto; virou propaganda sem público alvo. Começou um processo enlouquecido de concentração de renda, a financeirização criou mecanismos virtuais de geração de lucro sem valor, surgiram formas sofisticadas de escravidão, como a praticada por empresas como Google e Facebook - afinal, quem produz o conteúdo deles? Por que nós não levamos todos uma gorda parcela de suas ações?&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Mesmo diante de tudo isso, achamos que conseguiríamos domar a besta por meio de um precário equilíbrio entre interesses classistas. Bastou uma crise econômica para que o equilíbrio implodisse e os ricos colocassem de volta na mesa a nossa principal carta: a luta de classes. Se a gente esqueceu desse conceito marxista básico, eles não. E querem aproveitar esse momento para ganhar de vez. &lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
Como se enfrenta esse tipo de depressão intelectual, que emana da fumaça narcótica da fogueira de livros? Como se descobre a beleza do pensamento em meio aos escombros do sonho democrático? Onde se busca o pedestal da Justiça, quando a liquidez da exceção se sobrepõe às fundações do direito? Vamos ter que encontrar essas respostas. Ou seremos tragados pelo ralo do fascismo.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/2573198922276645953/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/2573198922276645953?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2573198922276645953'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/2573198922276645953'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/11/ralo-fascista-ameaca-tragar.html' title='Túnel no fim da luz'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7wI9JXX_sCIZ49og-Wnha5QCHlzNu7N2stclNpRhPDe2ZNJcG3SFLYxtOiuIbyIuCLQXyJ7exopisrkb27LLA7Z3Kh5eQ0hBTWPGVttV0OfPrMOvlDpqW9fkdMOIeOthQEbgZHCCGnPE/s72-c/corridor-1097151_1920.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-361924349260860213</id><published>2016-11-04T00:27:00.000-02:00</published><updated>2016-11-17T13:56:28.955-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Temer na ONU: até que nem tanto esotérico assim</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;i&gt;Temer fingiu que somos o país do futuro. Só quem vê futuro no Brasil pós-golpe é o capital improdutivo. Mas talvez esse seja o público alvo de Temer. Fingir que está tudo bem, quando todo mundo vê que não está, significa relegar a democracia ao papel secundário de administradora de aparências.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhmYZ1VnqmRjm61VGMK1YpdwfIrYvRBO16Zup1ytaJiOdSbIOrQmnhqoD_1eeWiGSRQM__DvpLFDYLXENWWJgkYJeksHHS_fSQKP3ax_IF7OoFAnxhyphenhyphenM_wlvTx2CbkU-qXvxle-pD95xyo/s1600/discurso_temer.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;372&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhmYZ1VnqmRjm61VGMK1YpdwfIrYvRBO16Zup1ytaJiOdSbIOrQmnhqoD_1eeWiGSRQM__DvpLFDYLXENWWJgkYJeksHHS_fSQKP3ax_IF7OoFAnxhyphenhyphenM_wlvTx2CbkU-qXvxle-pD95xyo/s640/discurso_temer.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Foto-ilustração de Joana Brasileiro sobre imagens de Ricardo Stuckert/ Instituto Lula; Beto Barata/PR/fotospublicas &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O discurso de Michel
Temer na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas na terça-feira (20) mereceria
um estudo profundo. Não vale a pena discorrer longamente sobre a incoerência
estrutural do conteúdo, porque isso já foi muito bem feito pela &lt;span lang=&quot;FR&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://theintercept.com/2016/09/20/ao-criticar-demagogia-intolerancia-e-nacionalismo-na-onu-temer-ataca-sua-propria-base/&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot; style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Helena Borges no Intercept&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;. Basta dizer que ele tenta vender a ideia de que
tudo está normal e o Brasil cumpre, internacionalmente, o mesmo programa que
nos colocou no mapa da diplomacia durante os governos petistas. &lt;/span&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Michel Temer parece
querer recuperar a credibilidade política na esfera internacional à la
Pollyana, fingindo que tudo vai bem. Suponhamos (apenas suponhamos) que o autor
deste texto refutasse a tese do golpe, pensasse que o Judiciário brasileiro faz
um trabalho isento de combate à corrupção, que a imprensa é livre e
comprometida com a imparcialidade. Ainda assim, se o mundo suspeita que há algo
de podre no reino da Dinamarca, cabe aos dinamarqueses se explicar. E pesam
muito mais suspeitas sobre o Brasil do pós-golpe que sobre a Dinamarca
shakesperiana. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Quem falou? Pra ficar na França, Le Monde, Le Figaro (diários conservadores franceses viraram
leitura trotskista perto da grande mídia brasileira), Libération, membros
diversos do Legislativo francês e daí por diante. Até o New York Times&lt;span style=&quot;border-left: 3px double #dc143c; float: right; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 0px 5px 20px; padding: 15px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Temer trata a ONU como extensão do quintal midiático onde os golpistas amarraram seu cavalinho de Troia. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Temer%20trata%20a%20ONU%20como%20extens%C3%A3o%20do%20quintal%20midi%C3%A1tico%20onde%20os%20golpistas%20amarraram%20seu%20cavalinho%20de%20Troia.%20http://bit.ly/2g0vFj3&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt; olha de
rabo de olho para esse &quot;impeachment&quot;. Na China, ele fingiu que tudo
andava normal no G20, fez cara de paisagem para a foto oficial, como se não tivesse sido
colocado de canto, como mau aluno de escola sem partido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Diante de delegações
que deixavam a sala em denúncia a sua ilegitimidade, Michel Temer subiu à
Tribuna da ONU para falar do Brasil atual como se estivéssemos na era Lula,
quando os problemas mais graves se passavam porta afora e o mundo via nossa
jovem democracia com esperança. Dizer hoje que, &quot;aí na terra de vocês, tem
guerra, xenofobia, nacionalismo &#39;exacerbado&#39; (como se nacionalismo &quot;contido&quot;
não fosse uma dinamite com o pavio apagado)&quot; e posar como um farol de
distribuição de renda, acesso à habitação, educação inclusiva e relações
externas altivas é tratar a classe política internacional como uma extensão do
quintal midiático onde os golpistas amarraram seu cavalinho de Troia. Em casa,
ele pode falar o que quiser, que &quot;umas 40 pessoas&quot; querem vê-lo pelas
costas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Lá fora, a coisa muda.
O mundo político não vê o Brasil com os olhos esperançosos da década passada.
Basta reparar no grau de hesitação de chefes de Estado de todo o planeta em
reconhecer isso que a gente está obrigado a chamar de &quot;governo&quot;. Só quem
vê futuro no Brasil pós-golpe é o mais distópico dos setores econômicos: o
capital improdutivo. Mas talvez esse seja o público alvo de Temer quando trata
a mais alta esfera da política mundial como um palco em que se encena a
normalidade. Fingir que está tudo bem, quando todo mundo vê que não está,
significa relegar a democracia ao papel secundário de administradora de
aparências. E assim, sinalizar ao &quot;mercado&quot; (que opera por meio de
aparências esotéricas de normalidade) que não há razão para se preocupar com a
instabilidade gerada pela pluralidade de opiniões. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Não é novidade. Essa
hipocrisia se aproxima do &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;modus operandi &lt;/i&gt;dos
gerentes &lt;span style=&quot;border-right: 3px double #dc143c; float: left; font-size: 1.1em; font-style: oblique; margin: 5px 20px 5px 5px; padding: 10px; text-align: center; width: 200px;&quot;&gt;Rigor fiscal é impopular? Para um corpo político que só se vê como gerente de interesses privados, o povo tanto faz. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=Rigor%20fiscal%20%C3%A9%20impopular?%20Para%20um%20corpo%20pol%C3%ADtico%20que%20s%C3%B3%20se%20v%C3%AA%20como%20gerente%20de%20interesses%20privados,%20o%20povo%20tanto%20faz.%20%20http://bit.ly/2fWxzk5&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;  &lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;(chamar de chefes de Estado é exagero) da União Europeia que, contra
toda e qualquer lucidez, seguem impondo cinicamente, por meio de medidas de
austeridade, o 
ônus da crise financeira aos mais pobres. Só os bancos,
responsáveis pela quebra da economia global, se beneficiam dessa política. E a
população em geral é abertamente contrária. Mas para um corpo político que não
se vê como mais do que administrador eleito de interesses privados, tanto faz o
que pensa a população em geral. Bom exemplo disso é a
maneira como a Comissão Europeia esmagou a tentativa da Grécia sob o Syriza de
adotar medidas anticíclicas como forma de assegurar, no médio prazo, a
renegociação e eventual pagamento de sua dívida astronômica. Nas excelentes
palestras que faz pelo Velho Continente para promover seu Movimento pela
Democracia na Europa (DiEM25), o ex-ministro grego das Finanças Yanis
Varoufakis conta algumas anedotas elucidativas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Em sua primeira
reunião com a Troika de credores da Grécia (FMI, Banco Mundial e Comissão
Europeia), Varoufakis fez uma proposta moderada que, como ele mesmo diz,
&quot;qualquer advogado de falências de Wall Street faria&quot;. Ele sugeriu duas
medidas para evitar um novo empréstimo, cujas contrapartidas draconianas
reduziriam o PIB do país em 28% e obviamente impediriam que a dívida fosse
quitada: a reestruturação das formas e prazos de pagamento e a retomada do
investimento produtivo, de onde viria a renda para reembolsar os credores. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Varoufakis construiu a
argumentação de forma igualmente moderada: &quot;Existe um programa que foi
assinado pelo governo anterior e sei que um Estado exige continuidade. Um novo
governo não pode simplesmente chegar e começar do zero [viu, seu Michel
Temer?]. Mas o povo grego nos deu o mandato justamente para contestar este
programa. Então, temos dois conceitos que se chocam de frente aqui:
continuidade e democracia. Nessas circunstâncias, o que podemos fazer? Encontrar
um campo comum para as negociações. Em outras palavras, fazer concessões&quot;.
Antes de terminar a frase, o chefe das Finanças gregas foi interrompido pelo
seu colega alemão, Wolfgang Schauble, que soltou a seguinte pérola: &quot;Não
podemos permitir que votos mudem um programa econômico&quot;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;blockquote class=&quot;tr_bq&quot;&gt;
O golpista busca lugar à mesa global. Não pela porta da frente, mas pelos fundos - o que não é novidade para Temer. &lt;a href=&quot;http://twitter.com/home/?status=O%20golpista%20busca%20lugar%20%C3%A0%20mesa%20global.%20N%C3%A3o%20pela%20porta%20da%20frente,%20mas%20pelos%20fundos%20-%20o%20que%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20novidade%20para%20Temer.%20http://bit.ly/2g0vFj3&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicfpbb40WxwzPeOQR37QipW3qNf1mWwIg-ksP_V_FvTGWZlkb_SFvWTdBItmr7-I1kuZGFe4msZRIJ4MJZyhk7YQum9xcMTFjP93cEZ9E_CkSOFU53YdqL60En_ryLUTEMcTTrtq6z6A/s1600/Tweet.png&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Quer dizer, não
podemos permitir que algo tão insignificante quanto a democracia contrarie
interesses do capital financeiro. Como diz o próprio Varoufakis, eles querem
tirar o &quot;demos&quot; (povo) da democracia. Em outra ocasião, tomando café
depois de longas horas de reunião, o ministro grego ouviu da chefona do FMI,
Christine Lagarde: &quot;Você tem razão, nosso programa vai agravar a crise
grega e não vai recuperar a capacidade de investimento do país. Mas você tem
que levar em conta que investimos muito capital político para convencer todo
mundo a aceitar a austeridade fiscal&quot;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Talvez, com seu
discurso de normalidade, o eterno interino tente se aproximar deste grau de
hipocrisia para encontrar seu lugar à mesa dos &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style: normal;&quot;&gt;players&lt;/i&gt; globais. Não pela porta da frente, como fizemos nos bons
tempos de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, mas pelos fundos - o que, cá entre
nós, não é novidade para Michel Temer. Ele se ausenta de oferecer a resposta
política que a desconfiança internacional exige porque sabe que seu único
lastro com o poder - e quiçá com a própria política - é o capital. Assim, Temer
faz uma mímese esvaziada do Brasil que encantou o planeta nos últimos anos. Por
trás, oferece ao capital improdutivo exatamente o que ele quer: a política como
farsa necessária à primazia de interesses privados. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;Esse tipo de
esquizofrenia é muito comum a quem chega ao poder pela via golpista. O problema
é que a doença virou epidemia em 2008, quando o capital improdutivo iniciou sua
ofensiva para sequestrar as esferas executivas da política. E, como se vê pela
triste deriva europeia, não são só governos ilegítimos que sofrem dela. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;mso-ansi-language: PT-BR;&quot;&gt;A nossa única arma
contra essa ofensiva da distopia, da ideia de que apenas uma parte privilegiada
da sociedade tem direito a ter direitos, é a utopia da distribuição, tanto de
poder quanto de renda. Como bem percebeu Varoufakis, é reinserir o demos na
democracia, em todos os lugares, em todas as esferas. Entramos em uma luta pelo
direito à participação. O discurso de Temer, por mais absurdo que pareça,
mostra que este governo está consciente de que a guerra pelo controle da
política está em curso. Eles escolheram um lado e estão tentando divorciar
poder e povo. E nós? Estamos dispostos a radicalizar a democracia?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div class=&quot;MsoNormal&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
Matéria publicada pelos &lt;a href=&quot;https://jornalistaslivres.org/2016/09/o-discurso-esquizofrenico-de-michel-temer-na-onu/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Jornalistas Livres&lt;/a&gt;, a 22 de setembro de 2016&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/361924349260860213/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/361924349260860213?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/361924349260860213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/361924349260860213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/11/temer-na-onu-ate-que-nem-tanto.html' title='Temer na ONU: até que nem tanto esotérico assim'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhmYZ1VnqmRjm61VGMK1YpdwfIrYvRBO16Zup1ytaJiOdSbIOrQmnhqoD_1eeWiGSRQM__DvpLFDYLXENWWJgkYJeksHHS_fSQKP3ax_IF7OoFAnxhyphenhyphenM_wlvTx2CbkU-qXvxle-pD95xyo/s72-c/discurso_temer.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-1331268969380954588</id><published>2016-11-04T00:17:00.003-02:00</published><updated>2016-11-04T00:18:11.026-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Reportagem"/><title type='text'>Porque a comparação que Veja faz de Lula e Khadaffi não tem sentido</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUQ8yNZgxZ0Y7ioHDR9mS6jjGMqXQvX1OT7kOk3_Cdk1FvVGtb8Hxpz0n2AbEsIDYnh96HIi7TrNx7i37y0bycsXP_dxFJD_BLGAahyLWEdqZGcSlhU_FWaP5BBj3gpPgUEniIhImDEpU/s1600/imagem+lula+khadaffi.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;409&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUQ8yNZgxZ0Y7ioHDR9mS6jjGMqXQvX1OT7kOk3_Cdk1FvVGtb8Hxpz0n2AbEsIDYnh96HIi7TrNx7i37y0bycsXP_dxFJD_BLGAahyLWEdqZGcSlhU_FWaP5BBj3gpPgUEniIhImDEpU/s640/imagem+lula+khadaffi.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vinte de outubro de 2011. As forças da Otan, lideradas por uma esquadra de Rafales franceses, atacam a cidade líbia de Sirte, onde se esconde Muammar Khadaffi, panafricanista convertido em ditador sanguinário. Khadaffi tenta fugir em um comboio de carros mas, mal cruza a fronteira da cidade, é interceptado por rebeldes que, auxiliados pela Otan, formariam a base de um tal de governo de transição que hoje continua lá, mas não é transição nem governo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante os próximos quatro dias, o corpo destroçado de Khadaffi apodreceria em praça pública. Autoridades internacionais, do então presidenciável francês François Hollande à então secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, festejariam o fim do &quot;reinado de terror&quot;. A notícia parecia boa para a comunidade internacional: Khadaffi havia sido morto em fogo cruzado. Não soava estranho que seu corpo fosse vilipendiado, considerado o sofrimento que o autocrata de 125 bilhões de dólares (era essa sua fortuna estimada) causara a sua própria população. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se três anos antes, Nicolas Sarkozy fechava as margens do Sena pra que Khadaffi pudesse passear tranquilo pelas águas de Paris, desde que ficou decidida a desastrada intervenção internacional na Líbia, a grande mídia se empenhou na construção de um monstro. Surgiram relatos de câmaras de tortura para opositores políticos em porões de Benghazi; todo mundo tinha a certeza de que o ditador havia estabelecido o estupro de crianças como arma política. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Matérias de outrora, como as que discorriam longamente sobre a habilidade de Khadaffi em usar programas sociais para converter o lucro de suas enormes reservas petrolíferas no maior Índice de Desenvolvimento Humano do continente africano, simplesmente desapareceram. Sumiram também os elogios ao fato raro de que, sob a ditadura, negros migrantes da África subsaariana encontravam vida digna em solo líbio. As contradições, que são o tecido de qualquer relação social humana, deixaram de interessar ao consórcio político-corporativo-midiático internacional. Emergiu uma narrativa uníssona, cujo objetivo - também uníssono - era destronar o caudilho, custasse o que custasse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E uma guerra civil de poucos meses, agora concluída com o cadáver de Khadaffi, parecia um baixo preço a se pagar. O problema é que, na era digital, as narrativas simplistas têm cada vez menos fôlego. Celulares do que a imprensa já chamava de &quot;freedom fighters&quot; - o conglomerado de jihadistas que paradoxalmente instauraria a democracia na Líbia - gravaram os últimos momentos do ex-líder &quot;populista&quot;.&amp;nbsp; Primeiro, morreu a história do fogo cruzado. Khadaffi foi retirado de seu comboio com vida e executado com uma bala na cabeça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Detalhes de novos vídeos deixavam a história mais macabra. Antes de morrer, ele foi linchado. Coberto de sangue, arrastado pela paisagem desértica da periferia de Sirte, ele recebe uma chuva de socos, pontapés e empurrões. E o mais perturbador ainda estava por vir: Khadaffi foi estuprado seguidas vezes com uma faca de combate BKT, de fabricação americana. Tudo filmado por regozijantes &quot;defensores da democracia&quot;. A ONU pediu uma investigação sobre as circunstâncias da morte de Khadaffi, conforme a comunidade internacional começava a se questionar sobre a real possibilidade de uma transição democrática na Líbia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O questionamento, como sempre, se mostrou mais frutífero do que a certeza de que a ditadura tinha de cair, fosse como fosse. Cinco anos depois e cada vez mais afundado na guerra civil, o não-Estado líbio é porto de partida da mortal migração mediterrânea, além de terreno fértil para a Al-Qaeda do Magreb Islâmico e seu filhote fascista, o autoproclamado Estado Islâmico. A economia não existe, a política morreu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Qualquer comparação da tragédia líbia com a situação do Brasil é absurda, certo? Menos para a revista Veja que, na capa de sua edição mais recente, acaba de relacionar Muammar Khadaffi e Luís Inácio Lula da Silva. O cientista político Reginaldo Nasser foi o primeiro a atentar para a gritante semelhança entre a imagem frontal de Veja, que mostra em preto e vermelho o derretimento da cabeça decapitada de Lula, à de uma edição de Outubro de 2011 do hebdomadário estadunidense Newsweek, dedicada à morte de Khadaffi. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aos fatos: Khadaffi detinha um patrimônio de US$ 125 bilhões; Lula é acusado, sem provas, de ser o dono de um apartamento de R$ 3 milhões no Guarujá que, ironicamente, poderia ser pago com meia dúzia de suas palestras. Khadaffi chegou ao poder via golpe de Estado e manteve o governo a mão de ferro por mais de quatro décadas; Lula disputou cinco eleições presidenciais, foi eleito duas vezes e, quando tinha a maior popularidade da história do cargo, se recusou a mudar a Constituição para poder permanecer à frente do país. Khadaffi foi transformado em réu pelo Tribunal Penal Internacional, acusado de crimes contra a humanidade; Lula foi eleito pela revista Time dos líderes mais influentes do ano de 2010 e deixou a presidência sob especulações de que posto assumiria na ONU.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dito isso, de onde a Veja tirou a ideia esdrúxula dessa comparação? Seria esquisito especular sobre o perfil psicológico de um panfleto fascistoide, mas eu arriscaria dizer que a capa desta semana, além de uma dose cavalar de irresponsabilidade, tem um componente narcísico. Talvez a Veja esteja tão autocentrada em sua cruzada paranoico-persecutória, que começou a acreditar em seu próprio discurso uníssono: que Lula é um monstro sanguinário passível de, à imagem de Muammar Khadaffi, ocupar o banco dos réus no Tribunal Penal Internacional. Ou pior (eis a razão deste texto dedicar-se a assunto tão abjeto quanto a capa da Veja): de ser linchado, estuprado e executado em praça pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa pior hipótese parece mais passível de cruzar o espírito do Civitismo do que a de enviar Lula para Haia. O TPI, com todos os seus defeitos e impotências - a começar pelo fato de que os países que mais geram criminosos de guerra não ratificaram o tratado de Roma - ainda é um espaço de soberania do direito. Por ali, não se chega ao banco dos réus sem provas contundentes. Pois não foi a toa que a Veja publicou sua capa mais abertamente fascista na semana em que o Estado democrático de Direito brasileiro deu seu segundo grande passo rumo ao abismo da arbitrariedade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De maneira oportunista, a revista aproveitou que a força missionária da Lava-Jato decidiu se comportar como tribunal da Inquisição e substituir prova por convicção para defender linchamento no lugar de julgamento, vingança no lugar de justiça. Em outras palavras, Veja defende que o Brasil retroceda no processo civilizatório e se coloque, como sua musa inspiradora Líbia, na indigência da comunidade internacional. Se ainda houver no Judiciário brasileiro algum resquício de respeito pelo país e pela nossa posição aos olhos do mundo, esta apologia à tortura, ao estupro, ao linchamento e ao assassinato tem de ser sancionada com as mais altas penas previstas na lei. Impressa como está, a prova dispensa convicção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Matéria publicada pelos &lt;a href=&quot;https://jornalistaslivres.org/2016/09/veja-o-horror-o-horror/&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Jornalistas Livres&lt;/a&gt;, a 20 de setembro de 2016</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/1331268969380954588/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/1331268969380954588?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1331268969380954588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/1331268969380954588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/11/porque-comparacao-que-veja-faz-de-lula.html' title='Porque a comparação que Veja faz de Lula e Khadaffi não tem sentido'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUQ8yNZgxZ0Y7ioHDR9mS6jjGMqXQvX1OT7kOk3_Cdk1FvVGtb8Hxpz0n2AbEsIDYnh96HIi7TrNx7i37y0bycsXP_dxFJD_BLGAahyLWEdqZGcSlhU_FWaP5BBj3gpPgUEniIhImDEpU/s72-c/imagem+lula+khadaffi.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-8072040704291598012</id><published>2016-11-04T00:07:00.001-02:00</published><updated>2016-11-04T00:08:11.060-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Publicidade não existe, isso é propaganda que botaram na sua cabeça</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgI6JrqxrfOJysj1EpQdtAzBb9uvHWA0-wTy_R8kS5liUCjOs3LDy5z_P8Jd8y3d1B03fODQzTlMEPgytixy70YeETrM8iLoVMJtxEb2Cy1kwFY0bbM8WYPj6P3x6GTA4Vl0QmrnY6Jrgk/s1600/Daesh.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;425&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgI6JrqxrfOJysj1EpQdtAzBb9uvHWA0-wTy_R8kS5liUCjOs3LDy5z_P8Jd8y3d1B03fODQzTlMEPgytixy70YeETrM8iLoVMJtxEb2Cy1kwFY0bbM8WYPj6P3x6GTA4Vl0QmrnY6Jrgk/s640/Daesh.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Foto: Propaganda de AK47 na Síria, trazida a você pela Wikipedia&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: left;&quot;&gt;
Sabe por que temos medo de terrorismo? Pelo mesmo motivo que temos medo do diabo. Porque é uma entidade imaginária, manipulada pelos mais diversos poderes, da Igreja ao Ministério da Justiça, para instrumentalizar o mais desmobilizador de nossos sentimentos: o medo. Talvez, palavra melhor para &quot;terrorismo&quot; fosse propaganda. Em linhas gerais, a propaganda contemporânea busca forçar que façamos escolhas (não só de consumo, mas de vida) com base em nossas emoções e não na razão. Ela subverte o percurso intelectual de tomada de decisões e transforma em ímpeto consumista sentimentos como a esperança, a carência, o vazio existencial ou o próprio medo, entre vários outros. Ou seja, ela canaliza nossas emoções e determina o consumo como única via de satisfação pessoal. &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Pra isso, o próprio consumo perde sua esfera objetiva - consumir é comprar coisas - e é convertido em um sentimento (subjetivo, claro) de plenitude: felicidade, realização, superação do próximo. A única esfera, aliás, em que o &quot;próximo&quot; ser humano existe dentro da lógica da propaganda é como parâmetro do nosso próprio sucesso. Se o sucesso é individualizado a partir da comparação com o próximo, o insucesso também é; ou seja, não existe esfera social para o fracasso ou o sucesso. Isso que é meritocracia: tudo que te acontece é culpa sua, ainda que você tenha nascido sem pai, sem mãe, sem casa nem educação enquanto o próximo veio com tudo isso mais uma viagem à Disneylândia por ano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É simples introjetar essa lógica. Afinal, os sentimentos que foram canalizados pela máquina propagandística não são invenções, estavam dentro de nós o tempo todo. Com todos os maus sentimentos dentro de você e todos os bons, fora, problema seu se você é incapaz de se satisfazer. Como diz o Slavoj Zizek, vivemos em uma sociedade do pré-gozo, muito bem simbolizada pelas absurdamente contraditórias propagandas de bebidas e cigarros. A propaganda de cerveja te diz beba, com uma tarja preta embaixo dizendo: não beba. A de cigarro diz: fume. E a tarja preta: mas você vai morrer. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É um estado constante de tensão pré-orgasmo. Alguém te estimula até o limite e quando você está pra gozar, essa mesma pessoa para tudo e diz: &quot;se você gozar, você vai morrer&quot;. E em seguida, conta que todo mundo está gozando, menos você. Aí, só te resta buscar a auto-ajuda pra que você possa continuar vivendo como o único que não goza. Estamos completamente formatados por essa lógica de substituição do racional pelo sensorial. Aguardamos que nos forneçam as emoções que vão ditar nossas próximas ações, em vez de decidir com nossa cabeça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Daesh, que se autoproclama Estado Islâmico e que, no Brasil, chamamos ridiculamente pela sigla em inglês ISIS, entende a lógica de nossos tempos. Ao menos a da propaganda. Quem já viu a revista ou os videoreleases deles sabe do que eu estou falando. Eles estão muito longe de projetar uma imagem de fanáticos religiosos - até porque, não são fanáticos religiosos, são um grupo ultraliberal de coloração política fascista. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;table cellpadding=&quot;0&quot; cellspacing=&quot;0&quot; class=&quot;tr-caption-container&quot; style=&quot;float: left; margin-right: 1em; text-align: left;&quot;&gt;&lt;tbody&gt;
&lt;tr&gt;&lt;td style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEheIBauLeJBLGzHeJkXBisB9JF2u9p-wTadQ_S6DT4i6AQkbQAVWIoPjc_B6W9iziWotABhmOvciF0K_KAJQfxOm53bGmjIN3tHFgIYOf7qE7Cpt0cwzRQ454IEXXT5_SNq7e6YUuN6Rzo/s1600/Dabiq-English-number-one.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;320&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEheIBauLeJBLGzHeJkXBisB9JF2u9p-wTadQ_S6DT4i6AQkbQAVWIoPjc_B6W9iziWotABhmOvciF0K_KAJQfxOm53bGmjIN3tHFgIYOf7qE7Cpt0cwzRQ454IEXXT5_SNq7e6YUuN6Rzo/s320/Dabiq-English-number-one.jpg&quot; width=&quot;222&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;&lt;td class=&quot;tr-caption&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;Primeira edição da revista do Daesh &lt;/td&gt;&lt;td class=&quot;tr-caption&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;td class=&quot;tr-caption&quot; style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;
&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;
A Dabiq, publicada em inglês, parece a revista da Gol, com dicas de consumo e estética, belas paisagens ultraurbanizadas, coisas desse tipo. E os vídeos têm estética hollywoodiana: os combatentes aparecem em treinamentos à la Rambo, com trilha sonora à la Rambo, tem até aquela imagem clássica da câmera na ponta da arma, deliberadamente inspirada pelos jogos de videogame em primeira pessoa. No final - inexplicavelmente pra quem não é familiarizado com a lógica ultraliberal do Daesh -, surge uma paisagem urbana hi tech, tipo Dubai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ataques terroristas, como os que vi no bairro em que vivia em 13 de novembro de 2015, em Paris, fazem obviamente parte dessa mesma lógica. Digamos que os vídeos e as revistas são a propaganda direta ao público consumidor; já os atentados têm uma dupla função: são a propaganda institucional - que tem o efeito de médio prazo de reforçar as filas de combate - e, paralelamente, o único instrumento diplomático que esse tipo de pseudo-Estado consegue utilizar à luz do dia. Quando uma grande derrota militar abala a credibilidade de seu projeto expansionista, o &quot;califado&quot; dispara esse tipo de ação portátil, que não depende de grande aparato militar, mas tem um impacto simbólico tão profundo que influencia a tomada de decisões diplomáticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pouca gente lembra mas, naquele mesmo dia, o Daesh sofreu um enorme revés simbólico e estratégico, com a perda da cidade de Sinjar, no Iraque, para os peshmergas (forças ligadas ao partido democrático do Curdistão Iraquiano, apoiadas pelos Estados Unidos). Sinjar era duplamente importante: do ponto de vista estratégico, funcionava como rota de ligação entre as duas principais cidades sob controle total da organização - Mossul, no Iraque; e Raqqa, na Síria. Por ali, passavam combatentes, armamentos e muito petróleo. Do ponto de vista simbólico, foi em Sinjar que o Estado Islâmico exerceu toda sua crueldade. Durante a tomada da cidade, mais de cinco mil homens de minorias curda e yazidi foram assassinados. Mulheres e meninas de cinco, seis anos, foram reduzidas à escravidão sexual. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante de tamanha derrota, a sobrevivência do &quot;califado&quot; e de sua capacidade de recrutamento, exigia um choque propagandístico de diplomacia não-convencional. Naquela mesma noite, noticiários do mundo inteiro falariam dos atentados contra o Bataclan, o Petit Cambodge, dos bares nos arredores do Canal St. Martin, o coração boêmio da Cidade Luz. Mas claro que a diplomacia convencional é muito mais efetiva e cotidiana do que a dos atentados. Por baixo dos panos, o Daesh negocia com outros governos, obviamente. Afinal de contas, sempre se disse que ele se financia pelo tráfico de petróleo - eu, pelo menos, nunca conheci ninguém que comprou uma latinha de petróleo na padaria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Turquia, por exemplo, tem uma relação no mínimo dúbia com o grupo. A cerradíssima fronteira com a Síria, que sempre travou a circulação da população curda, virou uma peneira desde 2014, quando os islamitas começaram a colonizar a região. Armas, óleo e combatentes wahabistas circulam por ali à vontade. Wahabistas, aliás, é um termo importante. O Ocidente, de maneira deliberadamente preconceituosa, e a grande mídia brasileira, creio que por pura ignorância, se acostumaram a chamar os wahabistas de jihadistas. Mas jihadista quer dizer muito pouco. Se tomarmos a palavra jihad ao pé da letra, todo mundo que acorda de manhã e dorme de noite, todo mundo que enfrenta o dia a dia, é um jihadista. Jihad é a luta do quotidiano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A particularidade de organizações sunitas violentas, como o Daesh e a Al-Qaeda (além, claro, de ter recebido muito apoio de Estados ocidentais interessados em uma mão forte no Oriente Médio pra garantir o fluxo petrolífero) é seguirem a doutrina wahabista. A criadora e grande promotora mundial desse ramo fundamentalista do islã é a petromonarquia saudita, principal compradora de armas e grande aliada do Ocidente na região. Absolutamente todos os combatentes europeus do Daesh se radicalizaram em mesquitas financiadas pelos sauditas. Ou seja, os grandes pontos de sustentação do grupo são os aliados do Ocidente: Arábia Saudita, pelo lado ideológico, e Turquia, pelo lado financeiro e logístico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas a mais &quot;surpreendente&quot; das ligações externas do Daesh é o fato de que toda a comunicação do grupo passa pela Europa. Todos os vídeos, comunicações, tuítes, decapitações, tudo que o grupo publica passa pelos satélites de duas empresas, a francesa Eutelsat e a britânica Avanti. E a internet por satélite é muito facilmente rastreável, já que as antenas simplesmente não funcionam sem coordenadas precisas de GPS. Ou seja, duas empresas europeias podem causar um apagão em toda a comunicação do Daesh e, basicamente, anular o grupo, como denunciou a revista alemã &lt;a href=&quot;http://www.spiegel.de/international/world/islamic-state-uses-satellite-internet-to-spread-message-a-1066190.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Der Spiegel&lt;/a&gt;, no fim de 2015. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por que não fazem? Porque isso seria anticapitalista: o lançamento de satélites é caro e a vida útil dos aparelhos não ultrapassa dez anos. Uma vez que eles estão em órbita, é preciso vender rapidamente os pacotes de dados para que eles se paguem. O problema é que a cobertura mundial de internet wireless é grande demais, falta mercado. O mercado de maior demanda hoje é justamente nos territórios ocupados pelo Daesh, em que a infra-estrutura de rede foi reduzida a zero. No fundo, o capitalismo financeiro global e o Daesh estão no mesmo jogo ultraliberal, cujas tintas políticas têm diferentes matizes de fascismo. Muda a peça, o produto anunciado e o grau de violência do anúncio, mas a lógica de substituição da razão pela emoção como maneira de vender um produto - seja o wahabismo, seja a cerveja - é a mesma desde Goebbels.&amp;nbsp; </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/8072040704291598012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/8072040704291598012?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8072040704291598012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/8072040704291598012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/11/publicidade-nao-existe-isso-e.html' title='Publicidade não existe, isso é propaganda que botaram na sua cabeça'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgI6JrqxrfOJysj1EpQdtAzBb9uvHWA0-wTy_R8kS5liUCjOs3LDy5z_P8Jd8y3d1B03fODQzTlMEPgytixy70YeETrM8iLoVMJtxEb2Cy1kwFY0bbM8WYPj6P3x6GTA4Vl0QmrnY6Jrgk/s72-c/Daesh.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-4427146404285249062</id><published>2016-10-25T18:10:00.001-02:00</published><updated>2016-10-25T18:10:15.162-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Negritude"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Comentário sobre a mística da revolução afroculturalista</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh6bviRKOJUoRc62cvBHLRaMPJOm2LIJxjOJkETVmE2nOPzP1FKzubjkqqXrRtf3gRhe3xXjgF7rKEQ-tLzIVsliS7EnqwLK2WhDVGDrJMEtY-5lVFvRM-bRCC6PO8ghaZhpHibwCuLDpg/s1600/Huey+Newton.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;640&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh6bviRKOJUoRc62cvBHLRaMPJOm2LIJxjOJkETVmE2nOPzP1FKzubjkqqXrRtf3gRhe3xXjgF7rKEQ-tLzIVsliS7EnqwLK2WhDVGDrJMEtY-5lVFvRM-bRCC6PO8ghaZhpHibwCuLDpg/s640/Huey+Newton.jpg&quot; width=&quot;436&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Em seu mais famoso retrato, Huey Newton ressignifica símbolos tribais como ameaça de uma revolução futura&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
Culturalistas e revolucionários constituíram duas correntes ideológicas antagônicas no movimento negro americano da segunda metade dos anos 60. Enquanto os culturalistas acreditavam que tínhamos de pregar um retorno simbólico a uma África idealizada, incorporando &quot;africanismos&quot; à lógica capitalista, movimentos revolucionários como os Panteras Negras e o Move achavam que não existia emancipação dentro do capitalismo. Para eles, o processo de criar uma estética pseudo-africana não faria mais do que substituir os opressores brancos por opressores pretos. Eu, que sou mais fã de Malcolm X e Angela Davis que de Beyoncé e Kanye West, não acho que o culturalismo possa levar à &quot;implosão da Casa Grande&quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso caberia à revolução, que perdeu a luta pelo coração dos negros americanos. Símbolo dessa derrota é o fato de que Beyoncé, ícone culturalista por excelência, apareceu no Super Bowl fazendo uma ode ao capital fantasiada de Pantera Negra. Huey Newton se revirou no túmulo com essa apresentação, tenho certeza. Porque ela significou a incorporação da estética revolucionária pela ética culturalista. Um golpe duro no pensamento radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O culturalismo, como faceta &quot;afrofriendly&quot; do mau e velho capitalismo, devora a dimensão utópica da revolução e vomita apenas o &quot;visual&quot; Pantera Negra, sem nenhuma força mobilizadora. Transforma o punho cerrado em um Che Guevara com orelhas de Mickey. O tradição radical do pensamento afroamericano ensina que o racismo é um subproduto indispensável do capitalismo pós-escravista. Então, ao esvaziar a jaqueta preta de sentido, Beyoncé X quebrou uma fronteira simbólica para a dominação do culturalismo sobre a utopia de extinção do racismo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O intelectual negro W.E.B Dubois já tinha constatado, antes mesmo de existirem culturalistas, que o reformismo negro prestaria um serviço ao capitalismo e, consequentemente, à ideologia racista. Insisto: é um erro achar que o culturalismo possa levar à implosão da Casa Grande. Se é assim, como se explica o fato de que a Casa Grande não só não implodiu como se sofisticou no país do afroculturalismo? &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não podemos esquecer que o &quot;presidente negro&quot; executou extra-judicialmente mais não-brancos ao redor do mundo do que qualquer branco que ocupou a Casa Gran... digo, Branca. O Estado comandado por Obama mata mais negros do que matava com Bush. Mas isso passa despercebido graças à lógica culturalista, que confunde um símbolo estético individual com um progresso social real, impedindo que esse avanço coletivo de fato aconteça. No Brasil, a gente também teve esse fenômeno. O fato de o movimento negro de São Paulo ter apoiado em massa o Celso Pitta foi perfeitamente coerente com a lógica culturalista. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que não é coerente com a lógica culturalista é achar que, por meio dela, se possa chegar a um fim anticulturalista. Se implodir a Casa Grande é mesmo o que a gente quer, nossa cara é começar a pensar de verdade em como afundar de vez o capitalismo. Não me parece que seja se integrando a ele, ficando rico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto escrito em 1º de abril de 2016 </content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/4427146404285249062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/4427146404285249062?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/4427146404285249062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/4427146404285249062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/10/comentario-sobre-mistica-da-revolucao.html' title='Comentário sobre a mística da revolução afroculturalista'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh6bviRKOJUoRc62cvBHLRaMPJOm2LIJxjOJkETVmE2nOPzP1FKzubjkqqXrRtf3gRhe3xXjgF7rKEQ-tLzIVsliS7EnqwLK2WhDVGDrJMEtY-5lVFvRM-bRCC6PO8ghaZhpHibwCuLDpg/s72-c/Huey+Newton.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-6241498996644384079</id><published>2016-10-25T14:20:00.003-02:00</published><updated>2016-10-25T14:20:38.605-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Ideias"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Politica"/><title type='text'>Estado francês condecora o terrorismo e isso tem a ver com a Petrobras</title><content type='html'>&lt;div class=&quot;separator&quot; style=&quot;clear: both; text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqOAeCwsNFbSiFbIhRU5YLXh-tJ2KjlxxbzYyXWtKuWX4rofZ_KSaA1VgppG64lUHbuzmqIC4moesrbu52b0ygrj1G7oXM-2ZkBOTWhOBz8pebiInnyxa6DbB55SZMeDL6mDIXk3-VJow/s1600/Hollande+Saudita.jpg&quot; imageanchor=&quot;1&quot; style=&quot;margin-left: 1em; margin-right: 1em;&quot;&gt;&lt;img border=&quot;0&quot; height=&quot;498&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqOAeCwsNFbSiFbIhRU5YLXh-tJ2KjlxxbzYyXWtKuWX4rofZ_KSaA1VgppG64lUHbuzmqIC4moesrbu52b0ygrj1G7oXM-2ZkBOTWhOBz8pebiInnyxa6DbB55SZMeDL6mDIXk3-VJow/s640/Hollande+Saudita.jpg&quot; width=&quot;640&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&amp;nbsp;Hollande, praticamente no lavabo do Eliseu, entrega a Legion d&#39;Honeur ao príncipe Saoud &lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
É muito louco como o mundo das elites é pequenininho. Lembro da minha velha avó dizer que quem sai na porrada na rua é pobre; rico negocia a portas fechadas e sempre se entende. Sábia, negra e pobre Dona Zica. No Senado brasileiro, &quot;esquerda&quot; e direita se dão as mãos e entregam o patrimônio nacional enquanto a militância se arrebenta na rua pra defender a ordem democrática. E a gente ainda corre o risco de virar terrorista por uma lei proposta pelo &quot;nosso&quot; governo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Brasil ainda é um tijolo intermediário da pirâmide global. Conforme se aproxima do topo, o cimento da solidariedade elitista tem mais liga. Se liga o que aconteceu aqui na França esses dias: ninguém viu, mas na última sexta-feira, o presidente &quot;socialista&quot; François Hollande - aquele mesmo que quer inscrever o Estado de Exceção na Constituição - condecorou o príncipe saudita Mohammed bin Nayef bin Abdelaziz Al Saoud com a Legião da Honra, a principal medalha do Estado francês. Foi tão na encolha que a imprensa daqui ficou sabendo pela agência de notícias saudita SPA. Todo mundo ligou pro Palácio do Eliseu e veio uma confirmação meio desbaratinada: &quot;a gente dá isso aí pra todo mundo&quot;, respondeu a &lt;i&gt;entourage&lt;/i&gt; do Hollande em francês melhor que o meu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, por que a condecoração causa constrangimento, se somos todos &quot;potes&quot; (camaradas)? Se, felizes e contentes, bombardeamos juntos o Estado Islâmico na Síria e assinamos contratos bilionários de vendas de armamentos? Por que o constrangimento, se a Arábia Saudita é idônea ao ponto de presidir o Conselho de Direitos Humanos da ONU? É que a Arábia Saudita promove e financia abertamente a internacionalização do fundamentalismo islâmico. E isso pega meio mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles dizem com todas as letras que quem não é muçulmano sunita tem que morrer. E, como falar gíria bem até papagaio aprende, eles colocam o plano pra funcionar, financiando a petrodólares a internacionalização da ideologia fundamentalista wahabista, base da jihad radical. Em casa, os sauditas seguem a mesma cartilha do Estado Islâmico: roubo, ranca a mão fora; pra ofensa ao rei, heresia e homossexualidade, a pena é decapitação; mulher adúltera morre apedrejada; um gorozinho é punido com 200 chibatadas em praça pública. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso se o infrator não for da família real, porque o príncipe Majed al Saud não precisou de mais do que umas poucas horas para infringir todas as disposições da sharia e tá de boa. O Daily Mail denunciou que, em setembro do ano passado, ele promoveu uma festa regada a prostitutas, álcool e cocaína em Beverly Hills, que incluiu sexo gay, cárcere privado e ameaça de morte contra três funcionárias da mansão onde ele estava, que se recusaram a prestar-lhe favores sexuais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o fato de eles curtirem uma sacanagem misógina, não darem a mínima para os direitos humanos e financiarem terroristas não tem tanta importância quanto o peso político-econômico de seus petrodólares. A Arábia Saudita tem tanto petróleo que consegue dar o tom do mercado energético global. É isso que faz com que a CIA atrele a proteção da família real saudita à segurança dos próprios Estados Unidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, a atual relação entre os aliados históricos Riad e Washington talvez seja o melhor exemplo do amigos, amigos; negócios amigos que impera no neoliberalismo transnacional. Eles vivem em uma simbiose esquisita: os sauditas têm medo que os americanos deixem o Oriente Médio e transformem a China em seu novo foco de interesse estratégico. Esse afastamento abriria espaço para o Irã xiita, principal inimigo da petromonarquia sunita. O petróleo a baixo custo impede a exploração comercial em larga escala do gás de xisto e obriga os Estados Unidos a continuarem sentados no elefante branco da guerra ao terror, uma briga ineficaz e já pouco rentável, resquício da década passada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paradoxalmente, pros Estados Unidos, é muito interessante ter um aliado capaz de controlar o mercado internacional de petróleo e calar a boca de inimigos na guerra energética que se anuncia, como Venezuela e Brasil. O preço historicamente baixo do petróleo é um tiro de drone na Petrobras e na PDVSA. Sorte dos EUA que a gente é gente é boa e não quer ser inimigo de ninguém: o governo Dilma já articulou com o PSDB a venda do pré-sal. Optamos por declarar W.O., num momento em que o preço do petróleo está artificialmente baixo, justamente para que a gente declare W.O. E tem fulano que acha que a crise na Petrobras é um problema interno. Falô. Petróleo? Problema interno?! Vai dizer também que foi o PT que inventou a corrupção e o Lula, a luta de classes? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta de classes é tão radical hoje quanto já foi no passado. A diferença é que a globalização ampliou as distâncias entre pobres e encurtou entre os ricos. É por isso que a França, defensora dos direitos humanos, das liberdades individuais, do direito dos homossexuais e da integração dos povos, festeja um ano dos atentados contra o Charlie Hebdo condecorando a monarquia que inventou - e sustenta por todos os meios possíveis - a doutrina wahabista, que forma todos os terroristas islâmicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num jogo de elites neoliberais mui amigas, o governo só tá ali para servir de boi de piranha do interesse privado. O presidente absorve o impacto popular do injustificável, deixando o empresariado, invisível e anônimo, livre para barganhar vidas humanas. E a Arábia Saudita fica a vontade para continuar a ostentar o status de melhor mercado no Oriente Médio para os equipamentos militares ocidentais. Ainda que frequentemente, as armas vão parar na mão de grupos como a frente Al-Nusra, braço da Al-Qaeda na Síria, e até do próprio Estado Islâmico, o importante é fazer a indústria girar. Então, se a arma francesa terminar matando um francês, e daí? Com certeza, bala nenhuma vai atravessar a cabeça de um rico. Afinal, como dizia minha velha avó, só pobre briga mesmo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto publicado originalmente em 9 de março de 2016</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/6241498996644384079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/6241498996644384079?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6241498996644384079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/6241498996644384079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/10/estado-frances-condecora-o-terrorismo-e.html' title='Estado francês condecora o terrorismo e isso tem a ver com a Petrobras'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhqOAeCwsNFbSiFbIhRU5YLXh-tJ2KjlxxbzYyXWtKuWX4rofZ_KSaA1VgppG64lUHbuzmqIC4moesrbu52b0ygrj1G7oXM-2ZkBOTWhOBz8pebiInnyxa6DbB55SZMeDL6mDIXk3-VJow/s72-c/Hollande+Saudita.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4210609985362647.post-940083779954431409</id><published>2016-10-24T20:37:00.001-02:00</published><updated>2016-10-24T22:00:40.239-02:00</updated><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Cultura"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Entrevista"/><category scheme="http://www.blogger.com/atom/ns#" term="Negritude"/><title type='text'>O que pensava Flávio Renegado quando lançou seu primeiro disco</title><content type='html'>&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjL1evg8rHQN5_kw9DaMXbDSmTOkoMxwGscgOM0I6_56jRutO1MVVXMVCrZ8mE8xX3egtIKHHpLm8gzuX8vRRy91QhO-hLghyHJ_bAMsHvNWatzEKZI-p63es9xo0eAd73eVq7We9Gs3xc/s1600-h/renegadobarbara.jpg&quot; onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5372525231019638658&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjL1evg8rHQN5_kw9DaMXbDSmTOkoMxwGscgOM0I6_56jRutO1MVVXMVCrZ8mE8xX3egtIKHHpLm8gzuX8vRRy91QhO-hLghyHJ_bAMsHvNWatzEKZI-p63es9xo0eAd73eVq7We9Gs3xc/s400/renegadobarbara.jpg&quot; style=&quot;cursor: pointer; display: block; height: 267px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 400px;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 85%;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: x-small;&quot;&gt;Renegado, em foto de Bárbara Dutra&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&quot;Nunca tive muito contato com meu pai&quot;, conta o rapper &lt;a href=&quot;http://www.arebeldia.com.br/site/home.html&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Renegado&lt;/a&gt;, constatando em si próprio a realidade de milhões de crianças de periferia. &quot;Nas vezes que ele aparecia, sempre aparecia malandrão, né? Chapado e com o Bezerra da Silva debaixo do braço&quot;. A mãe, que &quot;limpou muito chão de playboy&quot; para criar os filhos, era solteira aos 21 anos e já alimentava duas bocas. Ao seu redor, surgiam exemplos e mais exemplos do que há de pior: bêbados, bandidos, traficantes, armas. O roteiro é a tragédia clássica do negro pobre. Mas, aos 27 anos, esse mineiro da comunidade Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, contraria as estatísticas: &quot;Não tenho nenhuma perfuração de bala no corpo, nenhuma cadeia e tenho uma perspectiva de vida palpável na música&quot;, despeja o rapper.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Perspectiva é modéstia e rapper é pouco para defini-lo. Com sua mistura indiscriminada de samba, reggae, ragga, MPB e o que mais lhe vier à cabeça, Renegado é hoje a maior revelação da música de Minas: ganhou dois prêmios Hutuz em 2008 (revelação e melhor site), lançou um disco independente (&lt;i&gt;Do Oiapoque a Nova York&lt;/i&gt;) e outro demo, gravou em Cuba com Cubanito e Alayo, virou garoto-propaganda do programa &lt;a href=&quot;http://www.vozesdomorro.mg.gov.br/Home/Default.aspx&quot;&gt;Vozes do Morro&lt;/a&gt; do Governo Estadual, flertou com a MPB de Aline Calixto e já é figurinha carimbada dentro do movimento hip hop. Por fora, é ativista social e presidente da ONG Negros da Unidade Consciente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&quot;Eu não tenho gravadora, não tenho grandes investidores, não tenho nada do tipo. Tenho é muita vontade de trabalhar e pessoas que acreditam no mesmo sonho que eu&quot;. Apoiado pelos &quot;parceiros de caminhada&quot;, Renegado quer ir além - e não só na música. O que ele deseja mesmo é um país mais justo, mais igualitário e com mais oportunidades. E o rap é um dos caminhos para isso porque é a &quot;música da verdade. Pra quem tem verdade a ser transmitida, ele é um mecanismo de libertação&quot;. Se o papo lhe parece sério demais até aqui, meio sisudo até, é porque você não conhece o cara ainda: Renegado é todo sorridente. &quot;A gente escuta: &#39;Tem que ser homem mau pra vencer essa guerra&#39;. Muito pelo contrário, mau é quem nos oprimiu até agora. Nós estamos aqui mostrando que não queremos viver em guerra; queremos alcançar a paz&quot;. Por isso, ele garante que sua música não carrega o peso de quem mora na periferia, mas a esperança de mudar. E tudo isso sem perder a ginga, o suíngue e o &lt;i&gt;flow&lt;/i&gt;, como ele gosta de dizer. Com vocês, Renegado:&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjna86aZqIqcnsv1mrbzXr4PMD-PdD8fGm2NeDqhYxrGoQQ9dte4alu7knmUhEWAzw8OcITNC8KGTedfRQOwnKgxdRSoBheoaPd4dYjE9uqv3guusn35Fflfk2D37xx1r7wTr1H_99SHpU/s1600-h/dooiapoque.jpeg&quot; onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5372526863837586850&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjna86aZqIqcnsv1mrbzXr4PMD-PdD8fGm2NeDqhYxrGoQQ9dte4alu7knmUhEWAzw8OcITNC8KGTedfRQOwnKgxdRSoBheoaPd4dYjE9uqv3guusn35Fflfk2D37xx1r7wTr1H_99SHpU/s400/dooiapoque.jpeg&quot; style=&quot;cursor: pointer; display: block; height: 335px; margin: 0px auto 10px; text-align: center; width: 493px;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 85%;&quot;&gt;Reprodução da capa do CD &quot;Do Oiapoque a Nova York&quot;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Afroências: Você prefere ser chamado de rapper, cantor ou prefere não ser chamado de nada?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado:&lt;/span&gt; (Risos) Mano, acho que eu sou músico, tá ligado? E, acima de tudo, rap é a música que eu escolhi cantar. Hoje no meu trabalho, o rap é uma opção de música. Não é a única alternativa; meu trabalho dialoga o tempo inteiro com várias vertentes da música. Busco trazer isso pra dentro do rap. Eu me identifico muito com o rap porque ele é a música da verdade. Pra quem tem verdade a ser transmitida, ele é um mecanismo de libertação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Renegado era apelido na quebrada ou é nome artístico?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;A princípio, foi um apelido que eu ganhei - eu não curtia muito, não. Minha mãe sempre foi muito sistemática com a nossa criação em casa, ela nunca gostou muito desse esquema de ter vulgo. Depois de um tempo, comecei a refletir melhor sobre esse nome e percebi que várias pessoas da quebrada são renegadas: às vezes, não temos condição de ter uma casa legal, de ter saneamento básico, de ter uma condição de vida digna de dizer que somos cidadãos, tá ligado? São bens comuns de sobrevivência que foram negados e re-negados. Por isso que eu adotei esse nome; para poder falar que, mesmo com todo o descaso e toda a revolta, a opção que nós temos não é portar arma como forma de vida. E é uma palavra forte, né, mano?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;E ela tem o &quot;nego&quot; no meio, né? Todo mundo fala negação, mas ninguém fala brancação...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;É... Negação, mas não brancação (risos). Boa! Essa daí eu não tinha pensado, essa foi ótima. E é louco porque, ao mesmo tempo em que é uma palavra que traz essa vibe de ser algo negativo...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Outra palavra com nego...&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Tem várias! Se a gente for levantar assim, tipo... Denegrir, mano. Denegrir é f... Vamos denegrir tudo pra ver se fica um pouquinho mais preto. Mas então, essa parada do nome: também tem uma força, tem uma musicalidade dentro dele, que me atraiu muito.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;iframe allowfullscreen=&quot;&quot; frameborder=&quot;0&quot; height=&quot;315&quot; src=&quot;https://www.youtube.com/embed/o_nc_LicJaM&quot; width=&quot;560&quot;&gt;&lt;/iframe&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 85%;&quot;&gt;&quot;Bênção&quot;, de Renegado&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;A Dona Regina (mãe) acabou aceitando o vulgo?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Ah, hoje ela já fala. Quando ela atende o telefone lá em casa, ela diz: &quot;Aqui quem está falando é a mãe do Renegado!&quot; (risos). Ela já se identifica. E a parada é a seguinte: nessa sociedade em que a gente vive, todo mundo tem que ser bonzinho o tempo inteiro, tem que ser heroi, cara. A gente tem que trabalhar um pouco a questão do anti-heroi, da contracultura... Até pra gente poder refletir um pouco, sair do lugar. Se a gente fica aceitando tudo o que está pronto e acabado, a gente não muda, né? Vamos ver se os renegados acordam aí pra poder escrever a própria história, né, irmão? Porque o tempo inteiro fica essa parada de gente dizer que nós somos descendentes de escravos... Meu ancestral não foi escravo, ele foi escravizado; é diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Ninguém nasce escravo, né?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Ninguém nasce escravo, como ninguém nasce Madre Tereza de Calcutá e ninguém nasce Fernandinho Beiramar, tá ligado? É tudo uma questão de sensibilidade e referencial. Nosso referencial, o tempo inteiro, é o cara da quebrada portando fuzil, o pai alcoólatra. Esses são os referenciais do nosso povo. Então, a gente tem que mudar um pouco essa perspectiva. Quando um moleque na quebrada me vê fazendo um comercial ou um show, ele fala: &quot;Pô, aquele mano da quebrada está lá na televisão&quot;. E fala pra mim: &quot;Continua aí, o trabalho tá legal&quot;. Ele começa a ter ourtas referências sendo construídas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Você mistura samba, rap, reggae, tem um site muito louco, de alta tecnologia, não tem qualquer barreira. De onde vem essa força pra desbravar culturas?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;A primeira coisa que a gente tem que ter é acreditar que sempre é possível sonhar. Se a gente acha que tudo é difícil... Tudo é difícil mesmo, mas se a gente entrar no jogo achando que já perdeu, melhor nem entrar em campo. Eu não tenho gravadora, não tenho grandes investidores, não tenho nada do tipo. Tenho é muita vontade de trabalhar e pessoas que acreditam no mesmo sonho que eu. Então, eu vou colhendo parceiros no decorrer da caminhada e, com isso, o trabalho vai se construindo e se consolidando também. Nessas, tivemos em 2008 a felicidade de ganhar o prêmio de melhor site de hip hop no Hutuz... Também ganhei o prêmio de Rapper Revelação em 2008. Então, saí de Belo Horizonte, ninguém me conhecia e já pude alcançar outro patamar. Hoje, nós estamos circulando o país, fazendo show em Brasília, Goiânia, Cuiabá, São Paulo, Rio, Campinas... O trabalho está se sustentando. E o tempo inteiro, a gente recebe palavras de &quot;desincentivo&quot;: &quot;Isso é difícil, isso não dá...&quot;. Esse pensamento nós temos que mudar. Eu não construí nenhuma fronteira, você construiu?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Não.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Então, mano... Minha palavra de ordem é quebrar fronteiras e estabelecer diálogos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Como foi seu primeiro contato com a música?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Meu primeiro contato com cultura de uma forma geral foi quando eu entrei num grupo de capoeira lá na minha comunidade. Fiquei nesse grupo durante cinco anos. Quando eu tinha 13 anos de idade, eu estava na casa de um amigo e estávamos nós dois ouvindo uma rádio comunitária que tocou &quot;Fim de semana no parque&quot;, dos Racionais MCs; e &quot;Corpo fechado&quot;, de Thaíde e DJ Hum, na sequência. Aí eu falei: &quot;É essa parada que eu quero fazer&quot;. Me identifiquei na hora. Mas eu sempre tive contato com a música. Minha mãe ouvia aquelas rádios que tocam música romântica no final da noite. Era Roberto Carlos, Tim Maia... E gravava num gravador que a gente tinha em casa. Meu pai sempre foi muito ausente, nunca tive muito contato com ele, mas nas vezes que ele aparecia, sempre aparecia malandrão, né? Chapado e com o Bezerra da Silva debaixo do braço (meio riso). Essas coisas que foram me pautando pra que, quando eu tive oportunidade de conhecer o rap, eu pudesse aplicar tudo isso dentro da minha música.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Então sua formação foi pelo rádio?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Sim. A vida inteira, né, mano? E hoje o meu som toca na rádio também. Então, eu tô sendo referencial pra outros moleques também.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;E como é que é essa história de Nova York?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Quando eu fui fazer o disco, eu quis trazer a questão da mistura e do diálogo pra dentro do trabalho. Pô, nós temos aqui um rico histórico musical nacional e, naquele momento, o rap nacional ainda não tinha aprendido a se tornar um rap brasileiro. Eu resolvi fazer mistura; e peguei a referência do rap como a música pop do mundo - Nova York como pilar dessa globalização. Eu pensei: &quot;Vou falar do Brasil aos Estados Unidos&quot;; e escolhi esse nome, mais brasileiro e mais world music possível: &lt;i&gt;Do Oiapoque a Nova York&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;object height=&quot;340&quot; width=&quot;560&quot;&gt;&lt;param name=&quot;movie&quot; value=&quot;http://www.youtube.com/v/tz7VFtwE0vs&amp;amp;hl=pt-br&amp;amp;fs=1&amp;amp;&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowFullScreen&quot; value=&quot;true&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowscriptaccess&quot; value=&quot;always&quot;&gt;&lt;embed src=&quot;http://www.youtube.com/v/tz7VFtwE0vs&amp;amp;hl=pt-br&amp;amp;fs=1&amp;amp;&quot; type=&quot;application/x-shockwave-flash&quot; allowscriptaccess=&quot;always&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; height=&quot;340&quot; width=&quot;560&quot;&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 85%;&quot;&gt;&lt;br /&gt;Conexão Alto Vera Cruz/Havana, no Estúdio Show Livre&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Entre Oiapoque e Nova York tem Havana, né (uma das músicas de Renegado, chamada Conexão Alto Vera Cruz/Havana, tem participação de músicos cubanos)?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Tem América Latina inteira, irmão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Falo especificamente da música Conexão Alto Vera Cruz/Havana: começa com batida de terreiro, cita o candomblé, cita a santeria. Quer dizer, é uma música panafricanista. A mensagem que ela me passa é que todos os negros são filhos de uma mesma mãe África.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Sim. Irmão, eu acho que a África é o grande berço de tudo, tá ligado? Quando eu comecei a produzir o disco, ouvi muita coisa do Senegal, do Quênia. Queria uma referência de por onde transitar com o trabalho. Quando a gente busca nossas raízes, a gente tem perspectiva de enxergar o futuro. Quando eu entendi essa parada, falei: &quot;Opa, &#39;pera aí&#39;. Vamos lá na África, vamos em Nova York, vamos entrar em conexão com tudo que existe&quot;. Isso abriu o diálogo. E raiz é isso. Fiz essa música em 2004, quando fui a Cuba. E ela continua atual. Acho que se a gente ouvir daqui a cinco anos, ela vai continuar atual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Como foi a viagem para Cuba?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Ficamos 15 dias lá. Nossa, mano, é uma ilha mágica. Você vê o povo sobrevivendo em condições precárias, por causa do embargo e da própria ditadura. Claro que a revolução é bacana, mas ditadura tem suas desvantagens. Mas o povo é igual ao povo brasileiro! Eu fiquei em Vedado (bairro de Havana). Eu andava Vedado, achei que estava no Alto Vera Cruz. Tranquilo: povo rindo, a vibe boa, mulheres bonitas, andando com a auto-estima em alta. Que da hora aquele lugar! Lá não tem essa questão de preconceito racial igual ao que tem aqui: o pessoal lá é cubano e tá tudo certo. Não tem essa vibe, tudo é energia; tranquilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Por falar em preconceito racial, o candomblé tem sido muito judiado, principalmente por algumas igrejas evangélicas que têm, inclusive, convertido muitos negros. Você é um cara que fala livremente do candomblé na sua música. Esse é um caminho pra salvar essa parte cultura negra de tanto preconceito?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;A base de tudo no mundo é a educação. Enquanto a educação no nosso país for ineficiente, nós vamos ter esse retrocesso no sentido de respeitar outras etnias, outras crenças e os outros indivíduos da nossa sociedade. O nosso povo aceita essa coisa das outras religiões serem impostas porque nossa história foi queimada. Ela não foi estudada quando a gente era criança e continua não sendo estudada agora, com a gente um pouco maior. Hoje, nós temos construções que ajudam a melhorar esse processo, como a lei que (obriga) o estudo da história africana nas escolas. Então, daqui a pouco, nós vamos ter uma outra mentalidade sendo construída em torno das religiões de matriz africana - o povo vai começar a entender a nossa história. Porque o povo que não tem história não tem auto-estima, não tem conhecimento, não tem perspectiva. É disso que nosso povo está precisando: conhecer quem são nossos ancestrais e entender para onde o mundo está nos guiando. Acho que aí a gente vai ter a tranquilidade para respeitar a religião e a cultura do outro sem precisar impor a nossa. A fase de colonização já passou, mas a gente ainda vive ela quando liga a televisão ou quando vai a um culto religioso. Mas com o tempo, isso tudo vai ser vencido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Foi com essa ideia na cabeça que você criou a ONG Negros da Unidade Consciente?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Foi com a ideia de ter perspectiva de vida e atuação na comunidade... Tudo isso sem perder o &lt;i&gt;flow&lt;/i&gt;, né (risos)? Porque isso nós temos que ter o tempo inteiro: nossa ginga e o nosso suíngue.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Por falar em não perder o flow, você é um rapper que não tem vergonha de sorrir - quem vê a capa do seu disco demo não fala que é rap. Cara feia no&lt;/b&gt;&lt;b&gt; rap é coisa do passado?&lt;/b&gt;&lt;a href=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMcA3znzFmvL9FCMXMmiZKdE30SNamQ20nGO9pbIkUiqTaCgLJkKPzwKtTSI2fIGYoZChdGf1MY7MFF3QoYPo_6svQ6k7gfzhEipmwr_i2ivOZKeuPwq1rD3dWR4mBl-N_UWtJBWm3A4U/s1600-h/renegadodemo.jpg&quot; onblur=&quot;try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}&quot;&gt;&lt;img alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; id=&quot;BLOGGER_PHOTO_ID_5372516962727403218&quot; src=&quot;https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMcA3znzFmvL9FCMXMmiZKdE30SNamQ20nGO9pbIkUiqTaCgLJkKPzwKtTSI2fIGYoZChdGf1MY7MFF3QoYPo_6svQ6k7gfzhEipmwr_i2ivOZKeuPwq1rD3dWR4mBl-N_UWtJBWm3A4U/s400/renegadodemo.jpg&quot; style=&quot;cursor: pointer; float: right; height: 300px; margin: 0pt 0pt 10px 10px; width: 300px;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Não vou nem dizer que é coisa do passado. Só acho que o rap está passando por uma fase de transição. A gente escuta: &quot;Tem que lutar, tem que ser homem mau pra vencer essa guerra&quot;. Muito pelo contrário, mau é quem nos oprimiu até agora. Nós estamos aqui mostrando que não queremos viver em guerra; queremos alcançar a paz. Por isso, mano, a gente tem que ter sorriso, tem que ter verdade, tem que ter tranquilidade pra poder guiar esse momento. Acho que a minha música não tem o peso de quem mora na periferia; ela tem é a perspectiva de melhora pra quem mora na periferia. Se a gente ficar na bad trip o tempo inteiro, é complicado demais. Nosso povo é batalhador, é guerreiro, mas se diverte também: faz música boa, joga muito futebol, faz samba, tá ligado? É nossa história, é nossa raiz. Não tem como a gente negar isso daí.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Você já teve bastante contato com a mídia?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Tive sim. E vou te falar que o meu trabalho é muito bem aceito pela mídia, principalmente a impressa. O pessoal tem uma atenção muito grande, observa e respeita muito. Eu sou muito feliz por isso. Mas eu acho que ainda é pouco. Temos que ter quatro &lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Manos &amp;amp; Minas&lt;/span&gt; (programa da TV Cultura), temos que ter vários jornais e várias revistas para divulgar os nossos feitos. E acho que a gente tem que ocupar mesmo a mídia porque são mais de 60 milhões de negros que assistem a TV no domingo à tarde, tá ligado? A gente tem que estar lá pro cara poder olhar e falar: &quot;Opa, olha a gente lá!&quot;.&lt;/div&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;object height=&quot;344&quot; width=&quot;425&quot;&gt;&lt;param name=&quot;movie&quot; value=&quot;http://www.youtube.com/v/s7ahDAlu0Ww&amp;amp;hl=pt-br&amp;amp;fs=1&amp;amp;&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowFullScreen&quot; value=&quot;true&quot;&gt;&lt;param name=&quot;allowscriptaccess&quot; value=&quot;always&quot;&gt;&lt;embed src=&quot;http://www.youtube.com/v/s7ahDAlu0Ww&amp;amp;hl=pt-br&amp;amp;fs=1&amp;amp;&quot; type=&quot;application/x-shockwave-flash&quot; allowscriptaccess=&quot;always&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; height=&quot;344&quot; width=&quot;425&quot;&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: center;&quot;&gt;
&lt;span style=&quot;font-size: 85%;&quot;&gt;Renegado canta &quot;Do Oiapoque a Nova York&quot; no Manos &amp;amp; Minas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;
&lt;b&gt;Então dá para fazer da mídia uma aliada?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Eu não diria aliada. A mídia é uma ferramenta que a gente precisa aprender a utilizar, como utiliza hoje Twitter, Facebook, Orkut, email.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Falando especificamente desse show de sexta-feira, o que você vai apresentar para o público de São Paulo?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;Vou apresentar o repertório do disco, com algumas músicas inéditas também e algumas releituras - tô começando a trazer isso pra dentro do universo do rap. Acho que está na hora de a gente estabelecer um diálogo maior com a música brasileira. Então, vou cantar Tim Maia, Chico Buarque e vou ter essa participação maravilhosa do Marcelinho da Lua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Quando você era moleque lá no Alto Vera Cruz, qual era seu maior sonho?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;(Silêncio) Essa é boa (risos). Eu ainda sonho demais quando eu estou lá no Alto Vera Cruz, tá ligado? Acho que ali eu sou moleque. Mas uma coisa que eu sempre quis fazer foi transformar aquela comunidade de verdade. Hoje a gente já conseguiu várias obras de orçamento participativo, estamos abrindo as ruas na comunidade, canalizando; estamos mudando o cotidiano das pessoas que estão lá. O meu sonho era ser referência na minha comunidade. Acho que até comecei a extrapolar, começamos a quebrar as fronteiras do Alto Vera Cruz e ir pra outras - pra cidade, pro estado...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;Pra BH, pro Brasil, pro Oiapoque, pra Nova York?&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
&lt;span style=&quot;font-weight: bold;&quot;&gt;Renegado: &lt;/span&gt;(Risos) Por exemplo, né, mano? A próxima tentativa é isso. Acho que é isso, bicho, acho que a cada dia o sonho se renova. E isso é o mais importante: a gente sempre tem que sonhar para alcançar um outro sonho.&lt;/div&gt;
</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.afroencias.com.br/feeds/940083779954431409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/4210609985362647/940083779954431409?isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/940083779954431409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4210609985362647/posts/default/940083779954431409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.afroencias.com.br/2016/10/o-que-pensava-flavio-renegado-quando.html' title='O que pensava Flávio Renegado quando lançou seu primeiro disco'/><author><name>Gabriel Rocha Gaspar</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03693301250331486876</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpmKy04j2FOfIOKAmAdEZZ93WqmAj0P2zn37Uh2fRWoLCYypWRQDhUy7LQzZE-hLCp7oht62rpImBixuZZoaswofzn9n_VFaIVTg7oX87Wsjtq5MV3TLk8iSYVV0JBJw/s150/297543_1476779017167_89241_n.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjL1evg8rHQN5_kw9DaMXbDSmTOkoMxwGscgOM0I6_56jRutO1MVVXMVCrZ8mE8xX3egtIKHHpLm8gzuX8vRRy91QhO-hLghyHJ_bAMsHvNWatzEKZI-p63es9xo0eAd73eVq7We9Gs3xc/s72-c/renegadobarbara.jpg" height="72" width="72"/><thr:total>1</thr:total></entry></feed>