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	<title>alex castro</title>
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	<title>alex castro</title>
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		<title>Feminismo para homens, um curso rápido</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 16:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outrofobia]]></category>
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					<description><![CDATA[De homem para homem, algumas noções básicas e indispensáveis sobre feminismo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">De homem para homem, algumas noções básicas e indispensáveis sobre feminismo.</p>



<span id="more-13356"></span>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" fetchpriority="high" decoding="async" width="500" height="215" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/protesto-feminista.jpg?resize=500%2C215&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13368" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/protesto-feminista.jpg?resize=500%2C215&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/protesto-feminista.jpg?resize=768%2C330&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/protesto-feminista.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Você é a favor ou contra o feminismo?</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de tudo, vamos descobrir de que lado estamos, não? Existe um teste simples. Você concorda que:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Mulheres devem receber o mesmo valor que homens para realizar o mesmo trabalho?</li>



<li>Mulheres devem ter direito a votar e ser votadas?</li>



<li>Mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha de suas profissões, e que essa decisão não pode ser imposta pelo estado, pela escola nem pela família?</li>



<li>Mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?</li>



<li>Cuidar das crianças deve ser uma obrigação de ambos o pai e a mãe?</li>



<li>Mulheres devem ter autonomia para gerir seus próprios bens?</li>



<li>Mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?</li>



<li>Mulheres não devem sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou por desobedecer ao pai ou marido?</li>



<li>Tarefas domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?</li>



<li>Mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Se marcou sim em todas ou quase todas… sinto afirmar mas… você é pró-feminista! Naturalmente, praticar e viver e defender o feminismo não se resume a dizer &#8220;sim&#8221; a esses tópicos, mas já é um primeiro passo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(O teste foi adaptado de um original criado por <a href="https://semiramis.com.br/">Cynthia Semiramis</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="500" height="719" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-simbolo.jpg?resize=500%2C719&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13359" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-simbolo.jpg?resize=500%2C719&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-simbolo.jpg?w=556&amp;ssl=1 556w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Machismo vs feminismo, a falsa dicotomia</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres. Machismo é a dominação do homem sobre a mulher. Os dois termos não são, nunca serão, não podem ser análogos. É uma falsa simetria. É como reclamar de não haver um dia da Consciência Branca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Explicando rapidamente a diferença: uma camisa &#8220;100% branco&#8221; é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. &#8220;100% negro&#8221;, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O machismo, por definição, é antimulher mas o feminismo não é, nunca foi, nunca será antihomem. O inimigo do feminismo não é você, homem de carne e osso lendo esse texto, mas a estrutura machista da nossa sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia, um amigo me disse: &#8220;O feminismo levado ao extremo é pior do que qualquer machismo&#8221;. Mas quando é que o feminismo foi levado ao extremo? Vocês já viram mulheres pregando discurso de ódio aos homens, dizendo que os homens não deveriam poder trabalhar, votar, assinar contrato? Nunca vi ninguém nem mesmo defender isso, quanto mais aplicar no mundo real. Por outro lado, o machismo, em todas as suas vertentes, é aplicado todo dia, no mundo inteiro, em bilhões de mulheres. E, pior, o machismo mata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também tem gente que diz: &#8220;Não sou machista nem feminista, sou humanista!&#8221; Mas os três termos não tem literalmente nada a ver um com o outro: o machismo é um sistema de dominação, o feminismo é uma luta política por direitos iguais e o humanismo é o sistema filosófico materialista que coloca a humanidade em primeiro lugar — em oposição à deus e à metafísica. Não é nem que são termos opostos ou coincidentes, mas se referem a áreas completamente distintas. Seria como dizer: &#8220;Não sou nem paulista nem canhoto, sou engenheiro!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, falar que &#8220;as feministas são tão ruins quanto os machistas&#8221; só faz expor o machismo de quem fala. A feminista mais extremada não tem como ser pior do que o machista mais brando.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="480" height="480" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio.jpg?resize=480%2C480&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13374" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio.jpg?w=480&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 480px) 100vw, 480px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Homens e mulheres não são, nem nunca serão iguais!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">O feminismo não defende que homens e mulheres são biologicamente iguais, mas sim que devem ter direitos iguais. Muitas vezes, entretanto, só se alcança a igualdade ou equivalência de direitos justamente atentando para as diferenças. A expressão constitucional &#8220;todas as pessoas são iguais perante a lei&#8221; é mais corretamente interpretada: &#8220;tratar diferentemente as pessoas desiguais para que tenham acesso equivalente ao direito que a lei confere a todas as pessoas&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Vale a pena ler: <a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">Toda relação homem-mulher é assimétrica</a>)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="375" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?resize=500%2C375&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13360" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?resize=500%2C375&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-nao-mata-machismo-mata.jpg?w=1600&amp;ssl=1 1600w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O machismo mata</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Afirmar que as feministas são tão ruins quanto os machistas é como dizer que vítimas que clamam por justiça são tão incômodas quanto as criminosas. A principal diferença entre o machismo e o feminismo é bem simples: o feminismo pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele nunca matou ninguém. O machismo mata. Todos os dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil, colocando-o no 12º lugar no ranking mundial de homicídios contra a mulher. Uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parte de um homem, em 80% dos casos o seu próprio parceiro. Em 2011, o ABC paulista teve um estupro (reportado!) por dia. Na cidade de São Paulo, uma mulher é agredida a cada sete minutos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os homens, não basta simplesmente não estuprar: é preciso não alimentar a cultura do estupro. A violência contra a mulher não acontece num vácuo: ela é possibilitada por todo um contexto de piadas machistas, de objetificação feminina, de controle do corpo da mulher. Quem cria esse contexto somos todos nós, os homens. Somos todos cúmplices.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Fontes dos dados da violência: sites <a href="https://machismomata.wordpress.com/">Quem o machismo matou hoje?</a>, <a href="https://agenciapatriciagalvao.org.br/">Agência Patrícia Galvão</a> e <a href="https://homenspelofimdaviolencia.com.br/">Homens pelo fim da violência contra as mulheres</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="469" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mapa-do-feminicidio.jpg?resize=500%2C469&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13375" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mapa-do-feminicidio.jpg?resize=500%2C469&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mapa-do-feminicidio.jpg?w=639&amp;ssl=1 639w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Mas os homens morrem muito mais vítimas da violência que as mulheres!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, em números absolutos, os homens são a maioria das vítimas de homicídio. A diferença é que quem está matando os homens são os próprios homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma mulher sofre uma violência, o agressor é geralmente homem. Quando um homem sofre uma violência, o agressor quase sempre é um homem. Com uma grande diferença: as violências que sofrem as mulheres geralmente são por ser mulheres. As violências que sofrem os homens nunca são por serem homens mas sim por serem homens pobres, por serem homens negros, por serem homens homossexuais, por serem homens trans.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista. Quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica. Enfim, outrofóbica.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="482" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-guerreiras-amazonas-verdade.jpg?resize=500%2C482&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13361" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-guerreiras-amazonas-verdade.jpg?resize=500%2C482&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-guerreiras-amazonas-verdade.jpg?resize=768%2C740&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-guerreiras-amazonas-verdade.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Não minimize a dor da outra pessoa</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um amigo bate com o carro e se machuca gravemente, você…</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Minimiza o acidente dizendo que milhares de outras pessoas também batem de carro todos os anos?</li>



<li>Dá um esporro nele por não usar cinto?</li>



<li>Menospreza, dizendo, &#8220;ah, aposto que você estava correndo&#8221;?</li>



<li>Puxa a questão pra você, choramingando &#8220;pior fui eu que caí de bicicleta&#8221;?</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Se você não faz isso com seu amigo que bateu com o carro (estaria indo rápido demais?), que foi assaltado na rua (será que deu mole?) ou que tem câncer de pulmão (quem mandou fumar?), por que fala coisas semelhantes quando as mulheres reclamam das muitas violências que sofrem?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejo sempre: uma mulher junta toda sua coragem e determinação para falar e denunciar um estupro que sofreu e, imediatamente, diversos homens, consumidos por uma ansiedade latente para exculpar o estuprador, correndo para se colocar no lugar dele (&#8220;e se fosse comigo? e se eu fosse falsamente acusado de estupro?&#8221;) mas incrivelmente nunca no lugar da vítima, começam imediatamente a não só minimizar a gravidade do crime mas a também buscar maneiras de transferir parte da culpa para a vítima: &#8220;deve ter provocado&#8221;, &#8220;estava vestida de forma inadequada&#8221;, &#8220;se colocou em risco porque bebeu&#8221;, &#8220;não deveria ter ido à casa dele&#8221;, etc etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando mulheres reclamam de cantadas de rua, essa violenta e invasiva objetificação pública de seus corpos, os homens respondem com variações de:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;</em><em>Olha, essa coisa aí que você sente na pele e que diz que te incomoda e te apavora, eu, que nunca senti isso na pele, estou dizendo que é pura frescura sua, que isso não tem nada de mais!&#8221;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Machismo é isso: achar que você, homem, é quem vai determinar o que assusta ou não as mulheres. Que você sabe, mais do que elas mesmas, a verdadeira gravidade dos problemas que as afligem. Se você nunca fez diálise e tem os rins perfeitos, não critique a pessoa que reclama de ter que filtrar o sangue todo dia. Tenha empatia pela dor do outro — especialmente se for uma dor que você nunca experimentou e, teoricamente, nunca experimentará.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="823" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/women-are-so-hard-to-read-well-actually-we-just-19412383.png?resize=500%2C823&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13369"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Não devo nada ao feminismo!&#8221;</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Faz pouco tempo, Talyta Carvalho, filósofa e orientanda de Luiz Felipe Pondé, escreveu um texto chamado &#8220;<a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/29978-nao-devemos-nada-ao-feminismo.shtml">Não devemos nada ao feminismo</a>&#8220;. Em dado momento, ela afirma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;C</em><em>omo mulher e intelectual, posso afirmar sem pestanejar: nunca precisei &#8220;lutar&#8221; contra meus colegas para ser ouvida, muito pelo contrário. … De minha parte, afirmo: não devo nada ao feminismo.&#8221;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Eu também afirmo: nunca precisei lutar para viver no Rio de Janeiro. Nunca. Jamais disparei um único tiro para ser carioca. Mas isso é só porque, entre 1555 e 1565, meus antepassados travaram dez anos de guerra feroz contra os antepassados dos atuais franceses para decidir com quem ficaria essa baía tão linda. Eu, pessoalmente, não precisei brigar pelo Rio… <em>porque alguém, antes de eu nascer, brigou por mim!</em> Se não fossem essas pessoas, sabe-se lá se eu existiria ou onde teria nascido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talyta Carvalho, em pleno século XXI, não precisa brigar para ser ouvida na universidade&#8230; porque gerações de mulheres, ao longo dos últimos duzentos anos, brigaram ferrenhamente para que ela hoje pudesse votar, se divorciar, cursar ensino superior, ter propriedade — direitos que elas mesmas, lá no passado, não desfrutavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Feminismo é a ideia radical de que homens e mulheres devem ter direitos iguais. </em>Devemos muito a essa ideia, Talyta.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="523" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/andreza-delgado-no-Twitter-LUGAR-DO-HOMEM-NO-FEMINISMO%E2%80%A6-.png?resize=500%2C523&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13362" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/andreza-delgado-no-Twitter-LUGAR-DO-HOMEM-NO-FEMINISMO%E2%80%A6-.png?resize=500%2C523&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/andreza-delgado-no-Twitter-LUGAR-DO-HOMEM-NO-FEMINISMO%E2%80%A6-.png?w=544&amp;ssl=1 544w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Brevíssima história das conquistas femininas no Brasil</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Durante todo o século XIX, os direitos civis das mulheres são alvo de grandes discussões no Brasil — discussões que sempre terminam em escárnio por parte dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas datas das principais conquistas: Só em 1827 as brasileiras ganham direito a cursar educação elementar. A admissão nas faculdades vem em 1879, seguida de muito preconceito. Quando a primeira médica brasileira se forma, em 1887, ela não consegue encontrar emprego: quem iria se tratar… com uma mulher?! A primeira brasileira a obter o direito de advogar vem somente em 1899. O direito ao voto somente é conquistado em 1932. A primeira senadora, uma suplente, toma posse em 1976. A primeira senadora eleita seria apenas em 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso primeiro Código Civil, de 1916, é bastante específico ao explicitar na letra da lei a tradição de inferioridade feminina. Nas palavras da professora Lígia Quartim de Moraes:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;C</em><em>om o casamento, a mulher perdia sua capacidade civil plena. Cabia ao marido a autorização para que ela pudesse trabalhar, realizar transações financeiras e fixar residência. Além disso, o Código Civil punia severamente a mulher vista como ‘desonesta’, considerava a não virgindade da mulher como motivo de anulação do casamento (…) e permitia que a filha suspeita de ‘desonestidade’, isto é, manter relações sexuais fora do casamento, fosse deserdada.&#8221;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, enquanto fossem casadas e submetidas ao pátrio poder, as mulheres eram consideradas incapazes juridicamente, como crianças e deficientes mentais, e não podiam agir como cidadãs livres e adultas, nem mesmo para assinar um contrato. Ah, e a lei do divórcio passa apenas… em 1977. Antes disso, o casamento era pra sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A situação do esporte também é interessante, por ser outra área tipicamente masculina. A primeira partida de futebol feminino é disputada em 1921. Sete anos depois, as mulheres conquistam o direito de participar dos Jogos Olímpicos e o Barão de Coubertin, idealizador dos jogos, renuncia do comitê olímpico, revoltado com esse &#8220;absurdo&#8221;. Nas olimpíadas seguintes, em 1932, o Brasil manda sua primeira atleta, única integrante feminina da delegação, a nadadora Maria Lenk. Em 1964, acreditem ou não, o futebol feminino é proibido no Brasil, decisão que somente seria revogada em 1981!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse era o mundo antes do feminismo. Foi contra esse mundo que as feministas lutaram, e se insurgiram, e toleraram o escárnio e o deboche dos homens. Talyta Carvalho só pode cursar USP, votar e, caso seja casada, assinar um contrato ou terminar seu casamento, graças às conquistas dessas mulheres a quem não deve nada. Definição estranha de &#8220;nada&#8221;. Parece que deve muita, muita coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Referência: &#8220;<a href="http://www.nupemarx.ufpr.br/Trabalhos/Externos/BUONICORE_Augusto_-_As_mulheres_e_os_direitos_politicos_no_Brasil.pdf">As mulheres e os direitos políticos no Brasil</a>&#8220;, de Augusto Buonicore, publicado no site Vermelho, e &#8220;<a href="https://www.ufrgs.br/nucleomulher/movimento/o-movimento-feminista/">Movimento feminista</a>&#8220;, publicado do site do <a href="https://www.ufrgs.br/nucleomulher/">Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero</a> da UFRGS. Recomendo também o livro <a href="https://amzn.to/4fGecc6">O Voto Feminino no Brasil</a>, de Teresa Cristina de Novaes Marques.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://amzn.to/4fGecc6"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="368" height="533" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/o-voto-feminino-no-brasil.jpg?resize=368%2C533&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13373"/></a><figcaption class="wp-element-caption">Version 1.0.0</figcaption></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O direito à escolha</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Paradoxalmente, o foco do texto de Talyta Carvalho é liberdade de escolha:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;O ponto da discussão é: em que medida a consequência do feminismo, para a mulher contemporânea, foi o estrangulamento da liberdade de escolha? … Outro direito que a mulher do século 21 não tem, graças ao feminismo, é o direito de não trabalhar e escolher ficar em casa e cuidar dos filhos. … Na esfera econômica, é inviável para boa parte das famílias que a esposa não trabalhe. Na esfera social, é um <strong>constrangimento garantido</strong> quando perguntam &#8220;qual a sua ocupação?&#8221;. A resposta &#8220;sou só dona de casa e mãe&#8221; já revela o <strong>alto custo sóciopsicológico</strong> de uma escolha diferente daquela que as feministas fizeram por todas as mulheres que viriam depois delas.&#8221; (grifos meus)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei bem qual é o círculo de amizades de Talyta Carvalho, mas várias e várias mulheres do século XXI, de todas as cores e classes sociais, fizeram sim a escolha por ficar em casa e cuidar dos filhos. Algumas das mulheres mais preparadas e inteligentes que conheço, educadas nas melhores escolas e universidades para serem líderes e cidadãs, exerceram livremente esse direito de escolha que, segundo Talyta, o feminismo lhes tomou. Não foram impedidas. Ninguém lhes cerceou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talyta parece não perceber a enorme diferença entre:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>O mundo de hoje, onde <em>de fato há escolha</em>, onde as mulheres podem trabalhar ou não, podem ser &#8220;do lar&#8221; ou não, e a prova disso é que todas conhecemos várias mulheres que trabalham fora, cuidando de suas carreiras, e também várias mulheres que trabalham em casa, cuidando do lar e da família, e</li>



<li>O mundo antes do feminismo, onde as mulheres <em>de fato não podiam</em>, eram impedidas, não tinham o direito legal de cursar escola ou universidade, disputar esportes, votar e ser eleitas, advogar, clinicar, assinar contratos, etc. (Ninguém, no Brasil de 1880, conhecia mulheres médicas e mulheres não-médicas, porque não havia a possibilidade, entre outras coisas, de mulheres serem médicas — ou atletas, ou advogadas, etc.)</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">O feminismo não acabou com a escolha de ninguém. Pelo contrário, ele pegou um mundo onde a mulher não tinha diversas das escolhas acima e o transformou em um mundo onde a mulher pode escolher ser médica ou não, ser do lar ou não, ser nadadora ou não, ser orientanda de alguém como o Pondé ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, sim, como apontou Talyta, algumas vezes nossas escolhas geram <em>&#8220;constrangimento garantido&#8221;</em> ou tem um <em>&#8220;alto custo sóciopsicológico&#8221;</em> (sic) mas esse constrangimento e esse <em>&#8220;alto custo sóciopsicológico&#8221;</em> (sic sic) só existem porque existe a escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, no mundo imperfeito das pessoas adultas, não existe nunca uma liberdade perfeita nem escolha 100% livre. As mulheres antes não enfrentavam o custo de suas escolhas porque enfrentavam o ainda-mais-alto custo de não ter escolha alguma. A liberdade de escolher traz consigo o ônus de lidar com os custos sociais da escolha. Um amigo cursou Artes Cênicas em vez de Direito, como teria desejado seu pai, e encarou o <em>&#8220;alto custo sóciopsicológico&#8221;</em> (sic sic sic) da cara feia dele por vinte anos. Assumi meu ateísmo e encarei o <em>&#8220;constrangimento garantido&#8221;</em> criado pela cara fechada da minha avó carola. Outro amigo decidiu não ter filhos e responde com paciência aos questionamentos de amigos e parentes. Etc, etc. Mas antes a cara feia da avó carola do que ser queimado como herege.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talyta parece não perceber que o <em>&#8220;constrangimento social&#8221;</em> que ela aponta como prova do <em>&#8220;estrangulamento da liberdade de escolha&#8221;</em> é justamente a prova de que a liberdade de escolha não só existe como está sendo exercida em sua plenitude na arena social. Devemos tudo isso ao feminismo. Esses direitos não teriam sido conquistados sem luta, sem briga, sem sangue. Não vamos esquecer que, faz pouco tempo, um juiz absolveu um homem acusado de estuprar uma menina de doze anos &#8220;porque ela se prostituía&#8221;. (Ou seja, se a mulher aluga seu corpo por dinheiro a alguns homens, então sua sexualidade está livre pra todos! Mesmo se ela for menor de idade!)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nome da minha mãe, da minha irmã e da minha sobrinha, em nome de todas as minhas amigas, em meu próprio nome, que não tenho que viver na atmosfera sufocante do machismo do século XIX, eu agradeço ao feminismo.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="515" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mulher-cascavel-mesmos-direitos-rattlesnake-feminismo.jpg?resize=500%2C515&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13363" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mulher-cascavel-mesmos-direitos-rattlesnake-feminismo.jpg?resize=500%2C515&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/mulher-cascavel-mesmos-direitos-rattlesnake-feminismo.jpg?w=750&amp;ssl=1 750w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Não sou feminista: sou feminina! Sou vaidosa!&#8221;</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, muitas amigas com quem converso também fazem questão de rapidamente se esquivarem do &#8220;rótulo feminista&#8221;: &#8220;Não sou feminista, sou feminina.&#8221; Como se isso quisesse dizer alguma coisa!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma lenda de que ser vaidosa é antifeminista. Que uma mulher feminista não pode ser &#8220;feminina&#8221; — não sei bem o que quer dizer isso, ou como seria possível uma mulher não ser feminina, mas enfim. É mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem algumas feministas que preferiram abandonar alguns dos procedimentos tradicionais de beleza, por considerá-los imposição da sociedade patriarcal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, de fato, se você pára e pensa, muito do que é considerado parte intrínseca da beleza feminina, como saltos altos e unhas compridas, são nada mais que marcadores classistas de ociosidade. (Em outras palavras, ao usar saltos altos e unhas compridas, você está sinalizando que não trabalha nem com os pés nem com as mãos. Veblen explica.) Por outro lado, também existem muitas feministas que andam de saia, francesinha nos pés e bolsa de oncinha nos ombros. E por que não andariam?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto patricinhas depiladas de chapinha nos cabelos quanto ripongas peludas de sandália de couro podem ser feministas. Não existe nada no feminismo que seja necessariamente anti-esmalte nas unhas. O feminismo defende direitos iguais e maior liberdade de escolha para as mulheres — e isso inclui a liberdade de pintar as unhas ou não, de ser juíza ou ser puta, de depilar ou não depilar, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Sobre consumo conspícuo e sobre a função econômica de unhas compridas e saltos altos, recomendo muito ler um dos meus livros favoritos, o brilhante e engraçadíssimo, <a href="http://Teoria da Classe Ociosa">Teoria da Classe Ociosa</a> (1899), de Thorstein Veblen.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="409" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/gay-black-women-estudent-power-to-the-people.jpg?resize=409%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13370"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Essas feministas extremadas…!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Amigo leitor, se existe uma atitude que você gostava de ter, uma palavra que você gostava de usar, e hoje você não pode mais por causa das feministas… se o discurso feminista te incomoda, se você se sente patrulhado pelas (sic) &#8220;feminazis mal-comidas&#8221;, se você mudou seu comportamento por causa disso…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, sim, talvez sem nem saber, talvez contra a sua vontade, vamos encarar os fatos, faça um pouco de autorreflexão, seja o advogado do diabo de si mesmo… e admita: Não é porque elas são chatas, histéricas ou extremistas. Provavelmente, os seus comentários e atitudes é que eram sim machistas. Mas não precisa ficar assustado: tem cura. Sugiro um exercício em autoquestionamento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;Por que será que essa besteirinha que eu falo suuuuuper na boa incomoda tantas mulheres? Ok, é possível que elas sejam umas feminazis patrulheiras mal-comidas (sic sic sic!), mas também pode ser, quem sabe, que o problema seja comigo. Hmmm. <strong>*Mão no queixo para simular reflexão*</strong> Talvez as coisas que eu acho mais normais sejam altamente ofensivas para muitas pessoas. Talvez seria melhor se eu ouvisse mais os outros. Talvez eu devesse aproveitar essa oportunidade para refletir sobre mim mesmo, meu comportamento, minhas prioridades, minha vida…&#8221;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Entendo sua posição. É muito difícil ser subitamente acusado de machista. (E de racista, e de homófobo, etc, enfim, todas as vertentes da outrofobia.) Infelizmente, nesse momento, sob pressão, muitos homens simplesmente piram. Em vez de simplesmente baixar as orelhas, enfiar o rabo entre as pernas e ouvir, começam a falar uma besteira atrás da outra. Nada pode ser mais constrangedor do que ver um homem, até então sensível e sensato, se defendendo de acusações de machismo seja dando carteirada (&#8220;não posso ser machista porque escrevi isso ou fiz aquilo&#8221;) ou, pior ainda, acusando as feministas de serem extremadas, exageradas, doidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao reclamar da &#8220;patrulha das feministas extremadas&#8221;, por mais delicadamente que seja, você está apenas expondo seu machismo. E todo mundo está vendo.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="327" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?resize=500%2C327&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13376" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?resize=500%2C327&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?resize=768%2C502&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?resize=1536%2C1003&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?resize=1200%2C784&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?w=1805&amp;ssl=1 1805w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminicidio-latuff.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Teste o seu machismo</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Imagine que você tem um grupo de pessoas e quer descobrir quantas são alérgicas a uma substância. Pois bem, você pinga uma gotinha na mão de cada uma. Quem reagir à substância, ficar com coceira ou inchaço, é porque é alérgica. Por definição. Ser alérgico <em>é isso</em>: reagir a essa substância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensem no feminismo como essa substância. Se você é exposto ao feminismo e fica com inchaço ou coceira na mão, se sente incomodado e patrulhado, precisa mudar seu modo de agir e de falar, então é porque seus modos de falar e de agir eram machistas. Machismo é isso. Não tem outra definição.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="417" height="554" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-alergia.jpg?resize=417%2C554&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13364"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Se você acha que não, está em denegação. Mas a coceira na sua pele não te deixa mentir.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Poxa, não sou machista! Até ajudo na casa!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Estados Unidos, mesa grande, gente do mundo todo. O assunto: casa e filhos, homens e mulheres, machismo e feminismo. Então, um dos brasileiros, cheio de orgulho, afirmou: &#8220;Ah, eu sempre ajudo minha mulher com as tarefas domésticas.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para sua enorme surpresa, a outra brasileira da mesa, casada com um holandês e morando há trinta anos no exterior, carimbou: &#8220;Estão vendo agora porque eu sempre digo que o homem brasileiro é machista?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pobre brasileiro ficou transtornado. Não entendeu nada. Pensou até que fosse ironia. Que talvez ela não tivesse ouvido bem. Repetiu: &#8220;Está falando de mim? Mas acabei de dizer que ajudo minha mulher em todas as tarefas da casa!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondeu o holandês: &#8220;Pois é. Ao dizer que &#8220;ajuda&#8221;, o que você está dizendo é: essa obrigação é só dela, mas eu, olha como sou tão legal e tão magnânimo!, até desço aqui do meu pedestal e… ajudo!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E arrematou: &#8220;Lá em casa, nós dois dividimos igualmente as tarefas.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="746" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?resize=500%2C746&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13377" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?resize=500%2C746&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?resize=768%2C1147&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?resize=1029%2C1536&amp;ssl=1 1029w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?resize=1200%2C1792&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-because-shes-a-person.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Fábrica de machistas</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Estava eu na casa de uma amiga quarentona, profissional, independente, decidida. Passamos pelo quarto do seu filhão pós-adolescente, de barba e bigode, e ela vê sua toalha de banho embolada no chão. Vai lá, pega, estica na corda, e ainda comenta: &#8220;Tsc tsc, igual ao pai!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que coincidência!, pensei. E, como não consigo ficar calado, disse: &#8220;Você já considerou a possibilidade de simplesmente <em>não</em> pegar a toalha?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E quando ele chegar da universidade e quiser tomar banho, vai se enxugar com o quê?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Bem, é justamente esse o problema, não é? Você não está dando ao seu filho a menor chance de crescer um homem autossuficiente e organizado. Ele larga a toalha embolada no chão e, quando chega da aula, ela está pendurada, esticadinha e seca no box. É como se fosse mágica. Por que ele mudaria seu comportamento? Pra ele, a situação está perfeita e resolvida.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Mas, Alex, se eu não catar a toalha, ele vai chegar em casa, vai direto pro banho, e ainda vai gritar de lá: ‘manhêêêêê, cadê a minha toalha?!’ E aí?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Por que não responder: ‘filhôôô, a sua toalha deve estar onde você deixou!’? Deixa ele se enxugar um dia com o tapete do banheiro. Molda o caráter e só faz bem.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="375" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-homens-espaco.jpg?resize=500%2C375&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13365"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O machismo da nossa criação</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa sociedade machista e outrofóbica fala, existe, se perpetua através de nós, de nossos corpos, de nossa fala, de nossos preconceitos, da educação que todas nós, homens e mulheres, brancas e negras, ricas e pobres, damos aos nossos filhos e às nossas filhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um casal meu conhecido obriga a filha adolescente a manter seu quarto pronto para receber visita do Rajá da Índia, enquanto o quarto do filho parece um depósito de lixo. Eu já sabia a resposta, mas perguntei mesmo assim. E responderam: &#8220;Ué, Alex, ele é menino! Não precisa ser arrumadinho.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outra família, o filho de dezesseis pode trazer quantas namoradas quiser e ficar trancado com elas no quarto, estudando filosofia estruturalista, apreciando sua coleção de selos búlgaros ou transando como coelhos — os pais preferem nem saber. Já a filha, de dezessete, não pode nem falar em ter namorados. (Ou, pior, namoradas!) Dizem o pai e a mãe: &#8220;Ela ainda é muito jovem, os homens dessa idade não prestam, só querem saber da mesma coisa!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tenho vontade de perguntar: &#8220;Se não fossem irmãos, você aprovaria o seu filho como namorado para sua filha?&#8221; Se a resposta for negativa, é caso de reconsiderar a educação que estão recebendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, a grande maioria das mães e dos pais que conheço educa seus filhos e suas filhas exatamente assim. O estupro talvez seja o pior exemplo: estamos há séculos ensinando as meninas como se vestir e como agir – para a segurança delas, claro! Mas <em>talvez fosse a hora de ensinar os meninos como não-estuprar.</em> Quando ensinamos nossa filha a não usar saia tão curta, não é que estamos perpetuando uma prática milenar patriarcal de controlar o corpo das mulheres! Nãããão! É porque queremos o bem delas, pôxa!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, dentre esses pais e mães que controlam as saias das filhas com tanta ênfase e tanto afinco, quantos já usaram a mesma ênfase e o mesmo afinco para controlar os hormônios e os impulsos dos filhos? Para ter uma conversa franca e aberta sobre estupro e escolha? Para ensinar explicitamente aos seus filhos homens que uma mulher embriagada, drogada ou incapacitada não tem como dar consentimento legal e, portanto, que o sexo deve ser deixado para outra noite?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filhos e filhas vão levar para toda a vida as lições de machismo prático e outrofobia concreta que seus pais e suas mães lhes ensinaram. Alguns talvez consigam, a custa de muito esforço pessoal, apagar e superar esses ensinamentos perniciosos. A maioria, entretanto, em breve repassará as mesmas lições machistas para seus filhos e filhas e, assim, estarão perpetuando a cultura do machismo, do patriarcado, da violência contra a mulher, da desigualdade de gênero, da outrofobia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Sobre isso, leiam meus textos <a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">Toda relação homem-mulher é assimétrica</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/cavalheirismo/">Cavalheirismo é machismo</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="992" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/feminismo-perguntar-opiniao-liberdade.jpg?resize=500%2C992&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13378"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;As mulheres são as maiores machistas!&#8221;</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Nós todas, homens e mulheres, crescemos em uma sociedade profundamente machista e outrofóbica, que nos infectou desde cedo com seus valores e prioridades. Essa sociedade existe e fala através de nós: ela usa nossos corpos e mentes, nossa própria carne, para se perpetuar através do tempo e do espaço, e somos seus cúmplices e possibilitadores mesmo quando discordamos dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando escrevo sobre racismo, sempre aparece alguém para dizer (como se isso resolvesse a questão!) que os maiores racistas são os próprios negros. Idem com o feminismo: &#8220;Se as próprias mulheres são machistas, por que <em>eu</em> teria que deixar de ser?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devo mesmo entender tudo errado. Sim, muitas vezes, infelizmente, as próprias mulheres são cooptadas pelo machismo e se tornam porta-vozes de seus piores preconceitos. A outrofobia é tão forte que coopta até mesmo o objeto de sua fobia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, isso só comprova a gravidade e a urgência do problema: a mulher, quando se deixa infectar pelo machismo e se transforma em vetor da cultura machista, torna-se vítima e algoz, duplamente vítima. É como se o <em>Aedes aegypti</em> não só transmitisse a dengue, mas também morresse dela.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O machismo não é um problema individual</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca acusei nem jamais acusaria ninguém de machista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em primeiro lugar, porque é mal-educado apontar dedos. E, mais importante, porque o machismo ou não das pessoas individuais é irrelevante. Ninguém está inocente nesse tribunal, nem mesmo as próprias vítimas — que muitas vezes são algozes de si mesmas. Quem pode levantar a mão e jurar, de cara limpa, sua completa inocência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma típica tática do deixa-disso brasileiro é definir machismo de modo tão restrito que a palavra se esvazia. Se &#8220;machista&#8221; for só aquele homem que ativamente vai e dá na cara da mulher, então os machistas não somos nós, os cultos e bem-educados, os que estão agora lendo um livro como esse, mas só aqueles brutos e rudes, lá longe, distantes. Aqueles que não somos nós. <em>O machista é sempre um outro.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, instituir uma caça às bruxas aos &#8220;machistas&#8221; também acaba fazendo do machismo um pecado quase religioso, daqueles que se comete até em pensamento. Alguns homens vão dizer que não são machistas porque nunca bateram em mulher. Alguns vão dizer que são porque se sentem atraídos por mulheres que não consideram inteligentes. Dedos serão apontados para cá e para lá, e não estaremos perto de resolver a questão. Quem sou eu pra me arvorar em tribunal da inquisição e apontar meu dedo para dizer que Fulano ou Beltrano é machista?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema do Brasil não é o machismo individual de uma ou outra pessoa, mas o machismo estrutural, constitutivo, da nossa sociedade. Machistas somos todos nós, querendo ou não.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="379" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/his-dick-fell-off-because-a-woman-wrote-words-on-31576626.png?resize=500%2C379&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13371"/></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Como dizer para uma pessoa que ela soa preconceituosa</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto, posso imaginar homens e mulheres fazendo a seguinte objeção: &#8220;Pô, Alex, se somos todos machistas, então ninguém é machista, problema resolvido! É isso mesmo que você está falando?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, não. Deixando de lado minha sanha classificatória ontológica de apontar o dedo para as outras pessoas, ou até mesmo para mim, e rotular obsessivamente, &#8220;você é isso&#8221;, &#8220;eu sou aquilo&#8221;, etc, o que concluí foi o seguinte:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pouco importa o que a gente <em>é</em> (<em>sermos</em> machistas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, etc, ou seja, outrofóbicos): o importante é o que a gente <em>faz </em>(<em>termos atitudes</em> machistas, racistas, outrofóbicas, etc). Todas nós, homens e mulheres, crescemos em uma sociedade outrofóbica. Somos todas, homens e mulheres, potencialmente preconceituosas. Corremos todas, homens e mulheres, o risco de termos atitudes machistas, racistas, homofóbicas, transfóbicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, exatamente por isso, devemos sempre vigiar não nossa pretensa &#8220;essência&#8221;, mas sim nossas simples ações cotidianas. São essas ações que moldam e definem a pessoa que somos. Ao tentar educar ou esclarecer ou dialogar com pessoas que tenham atitudes outrofóbicas e preconceituosas, evito levar a conversa para o lado do &#8220;você-é-isso&#8221;. Se interpelo a pretensa &#8220;essência&#8221; de uma pessoa (&#8220;você é machista!), ela já se blinda, se fecha a todos os possíveis argumentos e vai defender com unhas e dentes sua identidade e individualidade, em suma, sua &#8220;essência&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas pouco importa quem essa pessoa &#8220;realmente-é&#8221;. Eu não tenho, nem nunca vou ter, acesso a quem ela &#8220;realmente-é&#8221;. Tenho acesso às ações e às palavras dessa pessoa e com essas ações e com essas palavras que vou dialogar: &#8220;Já se deu conta que esse seu comentário pode ser encarado como extremamente machista?&#8221;, &#8220;Percebe que ao fazer esse comentário está alimentando um clima homofóbico aqui na empresa?&#8221;, &#8220;Como acha que o Pedro, que é negro, se sente ao ouvir uma piada dessas?&#8221; etc. Ou seja, em vez de falar sobre o que a &#8220;pessoa-é&#8221;, tento falar sobre o que a &#8220;pessoa-fez&#8221;, sobre o impacto de suas ações no mundo, sobre o impacto de suas palavras em outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa tática não é, de modo algum, pegar leve com as pessoas preconceituosas e outrofóbicas. Pegar leve, pra mim, é se perder em uma discussão ontológica vazia de &#8220;você é isso&#8221; e &#8220;você é aquilo&#8221;, que gera ânimos exaltados e saliva derramada, mas raramente consegue mudar atitudes. Pelo contrário, eu procuro interpelar, criticar, chamar a atenção para <em>cada</em> fala ou atitude outrofóbica que vejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o foco do meu ataque é a <em>atitude</em> ou a <em>fala</em> preconceituosa, não a <em>pessoa</em> que a fez, ou, menos ainda sua pretensa <em>essência</em>. Para mim, nada poderia ser mais pró-ativo e combativo do que isso.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>&#8220;Feminismo é coisa de mulher&#8221;</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Não é verdade. A luta por direitos iguais entre homens e mulheres interessa a ambos os gêneros. Ao libertar as mulheres, o feminismo também liberta o homem da sufocante obrigação histórica de tomar sempre a iniciativa, de estar no comando, de ser o provedor, de ter que ganhar mais. O feminismo é antes de tudo uma luta por direitos <em>humanos</em>. A nossa espécie enquanto espécie não pode ir pra frente enquanto metade for escravizada pela outra metade.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O corpo é dela</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Se você esquecer tudo desse texto, lembre-se apenas disso. É a diretriz primeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pior que não poder votar, não poder trabalhar, não poder dar opinião, pior que tudo isso é não ter autonomia sobre seu próprio corpo. Na prática, autonomia sobre o próprio corpo é o que distingue, de um lado, as pessoas adultas racionais responsáveis e, do outro, os bichos, as crianças, as pessoas incapazes… e as mulheres!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós, homens, desfrutamos de total autonomia sobre nosso corpo. Ninguém nos diz o que fazer com ele. Podemos fazer ou não vasectomia, podemos ou não nos tatuar, podemos ou não sofrer o exame de próstata. E mesmo pequenas intrusões geram escândalo: recentemente, a Marinha teve que explicar na imprensa as razões operacionais de sua decisão de não aceitar pessoas com tatuagens visíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, cada vez que damos pitaco no que deve ou não ser feito com o corpo das mulheres, elas se sentem inferiorizadas, infantilizadas, objetificadas, invadidas. Com razão. Se não podem decidir nem isso, não podem decidir nada. Não são nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, vamos combinar. Sei que é difícil mas fique de boca fechada. Ok, o feto foi gerado por você, mas até ele sair lá de dentro, o útero é dela. A decisão é dela. O corpo é dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que estou te aconselhando a se submeter à sua mulher, uma verdadeira emasculação!, coitadinho de você!, mas só parece assim porque estamos muito acostumados a mandar nas mulheres. Não é submissão ao seu vizinho você <em>não</em> ir lá escolher o papel de parede dele: quando você escolheu o seu, ele também não interferiu. Estenda às mulheres a mesma cortesia que o mundo sempre lhe estendeu: não dê pitaco no corpo delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Repita comigo. Faça disso o seu mantra: <em>o corpo dela é dela.</em></p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Aprenda a hora de ficar calado</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Não diga às mulheres o que fazer. Nada pode ser mais intrinsecamente machista do que você, homem, mesmo ó tão pró-feminista e ó tão razoável, querendo dizer às feministas como devem se comportar. Que &#8220;seriam mais ouvidas se fossem menos agressivas&#8221;. Que &#8220;deveriam ser mais dóceis&#8221;. Que não entende porque estão brigando logo com você, que é tããão fofo, tão pró-feminista, tão amigo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem, deixa eu bater uma real: Se você, homem, a essa altura do campeonato, ainda se acha no direito de dizer pras mulheres como devem se comportar; se acha que cabe a você determinar qual é a melhor maneira do feminismo alcançar seus objetivos; se acha mesmo que é aceitável esse tipo de comentário ao mesmo tempo autoritário e condescendente, então, meu amigo, você não entendeu nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas tem conserto: fecha essa boca, abre esse ouvido. Para um homem, simplesmente ouvir as mulheres, sem interpelar grosseiramente nem minimizar as agressões sofridas, já é um grande, enorme, importantíssimo primeiro passo.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/conselho-homem-feminista.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13367" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/conselho-homem-feminista.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/conselho-homem-feminista.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/conselho-homem-feminista.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/conselho-homem-feminista.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>A inocência dos homens</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">As mulheres são tão responsáveis quanto os homens pela perpetuação da cultura machista, mas com uma grande diferença: <em>só os homens se beneficiam</em>. Nenhum homem é inocente dos crimes do machismo. Mesmo que nunca tenha feito nada de errado, todo homem se beneficia da estrutura de dominação criada pelo machismo. Cada vez que eu, um escritor, sou levado a sério por escrever algo que, se eu fosse escritora, teria caído em ouvidos surdos, estou me beneficiando do machismo estrutural da nossa sociedade, querendo ou não. Tanto homens quanto mulheres introjetam o machismo, mas se apropriam dele de forma assimétrica: para os homens, algumas desvantagens e várias vantagens; para as mulheres, praticamente só desvantagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das grandes diferenças entre homem e mulher está justamente na vasta gama de privilégios desfrutados pelos homens, muitas vezes sem nem se dar conta de que são privilégios. Se você pergunta a um homem quando foi a última vez que sentiu medo de morrer, vai ouvir alguma história sobre uma aventura ou um quase crime acontecida meses ou anos antes; se pergunta para uma mulher, ela vai contar algo que aconteceu hoje de manhã ou ontem à noite. Para nós homens, andar pela vida sem medo de morrer ou de ser estuprado é uma coisa tão normal que nem nos damos conta. Mas, do ponto de vista de uma mulher, esse é justamente um dos maiores privilégios masculinos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta é simples: você está no time dos que receberam mais do que a média e, portanto, pode abrir mão de algumas regalias em prol de quem não teve as mesmas oportunidades? Ou recebeu menos do que média e, portanto, ainda precisa de todas as vantagens que puder agarrar? O que acha? <em>Quem é você? </em>Será que nós, homens, podemos abrir mão de alguns dos privilégios, regalias e direitos que adquirimos ao longo de milênios de patriarcado ou será que vamos nos aferrar com unhas e dentes ao mundo de nossos avôs? Não basta simplesmente não ser machista: como a sociedade se estrutura de forma machista, é necessário agir individual e estruturalmente para abrir mão destes privilégios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a vida fosse um videogame, ser homem, branco hétero seria com certeza o nível de dificuldade mais baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Sobre perguntar para homens e mulheres quando foi a última vez que tiveram medo de morrer, recomendo o indispensável <a href="https://amzn.to/3Ve9tpN">A Virtude do Medo</a>, de Gavin deBecker.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3Ve9tpN"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="718" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/virtude-do-medo-gavin-debecker.jpg?resize=500%2C718&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13379" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/virtude-do-medo-gavin-debecker.jpg?resize=500%2C718&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/virtude-do-medo-gavin-debecker.jpg?resize=768%2C1103&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/11/virtude-do-medo-gavin-debecker.jpg?w=1044&amp;ssl=1 1044w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Texto originalmente publicado no site PapodeHomem em outubro 2012. Depois republicado no meu livro&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/outrofobia/">Outrofobia</a></em>, de 2015. Revisado e reescrito em 2019.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/outrofobia/"><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="800" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=500%2C500&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5987" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?w=800&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=59%2C59&amp;ssl=1 59w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h4 class="wp-block-heading">Textos relacionados</h4>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="http://alexcastro.com.br/cavalheirismo">Cavalheirismo é machismo</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">Toda relação homem-mulher é assimétrica</a></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostou?&nbsp;<a href="http://alexcastro.com.br/assine">Assina minha newsletter.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Cavalheirismo é machismo</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Nov 2024 15:23:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Só pode existir cavalheirismo em uma sociedade já profundamente, inerentemente machista. Não é possível ser cavalheiro sem ser machista.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Só pode existir cavalheirismo em uma sociedade já profundamente, inerentemente machista. Não é possível ser cavalheiro sem ser machista.</p>



<span id="more-13353"></span>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading">Black Friday Amazon</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Está rolando&nbsp;<a href="https://amzn.to/4fL4d5q">semana Black Friday da Amazon BR</a>&nbsp;e, de fato, de verdade, tem uns descontos fora do razoável. Então, se meus textos fazem a diferença na sua vida, uma maneira de me ajudar é&nbsp;<a href="https://amzn.to/4fL4d5q">clicando nos meus links da Amazon</a>&nbsp;e comprando qualquer coisa por lá.&nbsp;<em>(Eu ganho comissão de qualquer coisa que você compre, não precisa necessariamente ter sido o item que você clicou.)</em>&nbsp;E muito, muito obrigado.&nbsp;<a href="https://amzn.to/4fL4d5q">Entre por aqui direto nas promoções do dia</a>.&nbsp;<em>(Leia também:&nbsp;<a href="https://alexcastro.substack.com/p/40-livros-escritos-por-mulheres-ferrante">40 livros escritos por mulheres, escolhidos por Elena Ferrante e comentados por mim</a>&nbsp;e&nbsp;<a href="https://alexcastro.substack.com/p/minhas-autoras-mulheres-preferidas">Minhas autoras mulheres favoritas</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://amzn.to/4fL4d5q" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa0b26251-0e95-4929-a205-f03f8b69a7d0_1200x675.webp?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vamos começar definindo: Cavalheirismo é ser gentil <em>com mulheres</em>. Andar entre sua mulher e a rua, caso passe um caminhão por cima de uma poça. Abrir a porta para as damas. Se oferecer para ajudar quando vê uma moça carregando uma mala pesada. Pagar a conta do restaurante e, especialmente, a do motel. O machismo reside justamente em <em>só fazer essas coisas pelas mulheres. </em>O machismo é você ver um moço com dificuldade de carregar uma mala pesada… e nunca nem te ocorrer ir lá se oferecer pra ajudar.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Objeção nº1: &#8220;Alex, você está confundindo machismo com gentileza! Ajudo as mulheres porque são mais fracas!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Muita gente fala que cavalheirismo é só gentileza. Que é gentileza com alguém que é mais fraco. Mas não é verdade. Se você é gentil com todo mundo, e não só com as mulheres, então você não é cavalheiro: <em>você é gentil.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns homens me respondem que &#8220;o cavalheirismo ajuda preferencialmente mulheres porque elas são mais fracas&#8221; mas isso</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>É machismo, justamente por presumir que as mulheres são sempre mais fracas, e</li>



<li>É mentira, porque vejo esses mesmos homens ajudando mulheres que não são fracas e deixando de ajudar homens que são sim mais fracos.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Se o cavalheirismo fosse realmente um código de conduta que pregasse que, em qualquer situação, a pessoa mais forte e mais capaz e mais apta deve sempre ajudar a pessoa menos forte, menos capaz e menos apta, de qualquer sexo e de qualquer gênero, então, ele seria uma das coisas mais lindas e revolucionárias da história da humanidade e meu texto perderia totalmente a razão de ser. Além disso, se cavalheirismo significasse só &#8220;ajudar a pessoa mais fraca&#8221;, então não teria porque não dividir a conta do motel ou do restaurante. Ou, então, a conta seria sempre paga pelo &#8220;mais forte&#8221;, ou seja, por quem ganhasse mais, independente do gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que não é assim. Segundo o rígido código de conduta do cavalheirismo, o homem tem sempre que pagar a conta ganhando mais ou menos, tem sempre que carregar as malas sendo mais fraco ou mais forte. Sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque o grande problema do cavalheirismo é justamente partir da premissa que a mulher sempre vai ser a parte fisicamente, economicamente, emocionalmente mais fraca. O cavalheirismo jamais teria surgido, jamais seria nem conceitualmente possível, a não ser em uma sociedade que já tivesse como auto-evidente a submissão, a fraqueza, a inferioridade das mulheres. E, a cada ato cavalheiresco nosso, estamos mantendo vivas essas ideias detestáveis. Esse é o problema.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Apesar disso, claro, <a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">toda relação homem-mulher é sempre assimétrica</a>, mas esse é outro assunto, <a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">que trato aqui</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="480" height="480" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/02/feminismo-que-vai-fazer-esse-ano-desobedecer.jpg?resize=480%2C480&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8046" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/02/feminismo-que-vai-fazer-esse-ano-desobedecer.jpg?w=480&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/02/feminismo-que-vai-fazer-esse-ano-desobedecer.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/02/feminismo-que-vai-fazer-esse-ano-desobedecer.jpg?resize=59%2C59&amp;ssl=1 59w" sizes="auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px" /></figure>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Objeção nº2: &#8220;Alex, as mulheres são as maiores machistas! Elas é que exigem o cavalheirismo!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ler textos como esse, muitos homens ficam extremamente defensivos. Dizem que as mulheres é que são &#8220;as maiores machistas&#8221;. Que as mulheres com quem saem <em>esperam </em>que eles paguem a conta do restaurante, que paguem a conta do motel. Essas regras foram gravadas tão profundamente em nossas almas que, para muitos homens, é simplesmente impensável e intolerável sair romanticamente com uma mulher, ou levá-la ao motel, e não pagar tudo. Para ele, <em>ser homem é fazer essas coisas</em> e, portanto, ao não fazê-las, de maneira bem concreta e real, ele não seria mais homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, muitas mulheres também introjetaram os preconceitos da cultura machista e são prisioneiras do cavalheirismo, dessa definição tão mesquinha e limitante do que é &#8220;ser homem&#8221; e do que é &#8220;ser mulher&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já ouvi uma vez de uma moça: &#8220;Pois é, Alex, achei que você estava interessado em mim quando me chamou pra sair, mas então, quando não se ofereceu para pagar a conta e dividimos igualmente, concluí que éramos somente amigos.&#8221; Ela até tinha razão. Fiquei sim brevemente interessado e, por isso, a chamei para sair. Mas meu interesse implodiu no momento em que fez esse comentário tão machista. Entendo bem quais são os motivos estruturais e culturais que levam uma mulher a introjetar assim os piores pressupostos e preconceitos machistas, e tenho empatia por ela, e tento ajudá-la na medida da minha capacidade, mas eu não conseguiria me relacionar romanticamente com uma pessoa que acha que o homem &#8220;simboliza seu interesse pagando a conta&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouvi de outra moça: &#8220;Por que eu sairia com um homem se ele não me pagar tudo? Eu hein! Se for pra sair e dividir a conta, saio com as minhas amigas.&#8221; E eu, estupefato, perguntei: &#8220;Mas e se você gostar dele?&#8221; E ela: &#8220;Eu só gosto de homem de verdade, Alex, homem que me trata como eu mereço!&#8221; Ou seja, como um prêmio ou como uma mercadoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, uma outra amiga, liberada e independente, me confessou: &#8220;Eu já tive que transar no carro, porque ele não tinha dinheiro pro motel e não admitia que eu pagasse. Mas eu queria, então… Ou seja, machismo dá dor nas costas!&#8221; Se o cara tivesse perdido a transa por causa dessa palhaçada, talvez começasse a reconsiderar seus preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, quando os homens afirmam que agem de forma cavalheiresca <em>(leia-se: machista)</em> porque as mulheres exigem o cavalheirismo <em>(leia-se: o machismo)</em>, eu tenho que admitir que sim, muitas mulheres de fato compraram o pacote completo da ideologia machista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas e daí? Se a mulher é uma vítima da ideologia machista que domina nossa sociedade, se ela acabou não resistindo e internalizou seu status de inferioridade, de objeto, de mercadoria, se ela realmente acredita que só merece as migalhas que o sistema machista lhe oferece… isso é justificativa para que eu a trate como um ser inferior, como um objeto, como uma mercadoria? Sou obrigado a pisar em alguém só porque essa pessoa voluntariamente se deitou no chão?</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Objeção nº3: &#8220;Alex, cavalheirismo é como as mulheres chamam a parte do machismo que lhes convém!&#8221;</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns dos escandalosos números da violência sobre a mulher já foram dados no meu texto <a href="http://alexcastro.com.br/feminismo">Feminismo para homens</a>. Se os homens pensam que abrir uma porta ou carregar uma mala bastam para compensar esse circo dos horrores, estão muito enganados.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Sexo não se dá, se compartilha</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Em toda a minha vida, eu fui ao motel uma única vez com uma mulher que se recusou a dividir a conta. E aquilo me deixou um gosto ruim na boca. Senti que estava comprando seu corpo por meia diária de motel. Que eu deveria estar grato por ela ir comigo ao motel, mas que o oposto não era necessariamente verdadeiro. Mas eu não queria que ela &#8220;consentisse&#8221; no sexo, desde que eu pagasse o táxi e o motel. Não tenho interesse nessa sensação caçadora de ter &#8220;conquistado&#8221; uma &#8220;presa valiosa&#8221;. Eu queria uma mulher adulta e independente, que desejasse transar comigo tanto quanto eu desejava transar com ela, e que dividisse igualmente os custos necessários para que isso acontecesse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, se um dos dois não pode pagar, dá-se um jeito. <strong>Cada caso é um caso: paga mais quem tem mais condições. </strong>O cavalheirismo é machista justamente porque, independente das circunstâncias, impõe a um tipo de pessoa o ônus de sempre pagar e a outro, o bônus <em>(na verdade, também um ônus, como prova a minha amiga que teve que transar no carro)</em> de não poder pagar nunca.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Nada mais cavalheiro do que reconhecer o próprio machismo</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Um cavalheirismo mais verdadeiro não seria apenas abrir a porta e carregar a mala. Um cavalheirismo de verdade seria saber ouvir e respeitar as mulheres. Quando elas reclamam de ter sido violentadas, inferiorizadas, controladas, o verdadeiro cavalheiro saberia ouvir, saberia se colocar no lugar delas, saberia exercer sua empatia, saberia não minimizar a dor que elas sofreram. Em outras palavras, o cavalheiro de verdade… seria pró-feminista. Mas aí, claro, ele já não seria mais um cavalheiro.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Não existe almoço grátis</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">O homem-cavalheiro-que-tudo-paga, do motel ao jantar, como se estivesse comprando um serviço, e a mulher-dama-que-tudo-aceita, como se o seu sexo fosse uma coisa que vende em troca da melhor oferta, já embarcaram em uma relação comercial faz tempo, quer saibam, quer não. O homem-cavalheiro-que-tudo-paga é o mesmo que acha que a mulher-dama-que-tudo-aceitou tem a obrigação de lhe oferecer o serviço anunciado. E, quando esse homem é frustrado em suas intenções, ele ou a estupra ou sai dizendo que homem bonzinho só se fode, que foi colocado no <em>friendzone</em>, que as mulheres são canalhas e interesseiras. <em>(Na prática, o primeiro é somente mais predisposto à violência que o segundo, mas a lógica que os motiva é idêntica.)</em> O homem cavalheiro e o homem machista são o mesmo homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem verdadeiramente gentil não é cavalheiro: ele é só gentil. Com todos. E não espera nada em troca.</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Sempre chega a conta</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Recentemente, uma leitora perguntou à psicóloga e sexóloga Regina Navarro Lins:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;S</em><em>empre tive uma relação muito boa com o meu namorado, mas isso está se modificando… Desde o início me agradou a cortesia dele, sua atitude de super cavalheiro, que nunca me deixou botar a mão na carteira, sempre pagou tudo e sempre impediu que eu fizesse qualquer esforço. Ele se adianta para abrir as portas ou qualquer outra atividade que possa fazer por mim. Mas, após seis meses de namoro, começo a notar que ele se coloca numa posição de superioridade em relação a mim. Qualquer opinião que eu tenha sobre assuntos gerais, ele não leva em consideração, faz até cara de deboche. Fui prestando a atenção em sua postura e estou certa de que ele mantém uma atitude dúbia comigo: me mantém confortável e ao mesmo tempo me despreza.&#8221;</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Pois é. Sempre chega a conta. O homem que faz o seu imposto de renda pra você &#8220;não preocupar sua cabecinha linda com isso&#8221; é o mesmo que não está interessado nas suas opiniões… porque ele sinceramente te acha uma idiota! Ele não se transformou de príncipe em canalha da noite pro dia. Ele <em>já</em> te achava uma idiota quando galantemente se ofereceu para fazer seu imposto de renda. Aliás, ele provavelmente se ofereceu para fazer seu imposto de renda <em>porque</em> te achava uma idiota incapaz de fazer isso tão bem quanto ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fantasia de muitas mulheres, que quase nunca se realiza e muitas vezes tem consequências trágicas, é conseguir o-príncipe-que-faz-seu-imposto-de-renda sem levar junto o-canalha-que-não-se-interessa-por-suas-opiniões-porque-te-acha-uma-idiota. Infelizmente, quase sempre, eles não só vêm juntos, mas são o mesmo. Uno e indivisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Citando a Regina Navarro Lins:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;C</em><em>avalheirismo … [t]raz, de forma subliminar, a ideia de que a mulher é frágil e necessita do homem para protegê-la, até nas coisas mais simples como abrir uma porta. … [A]lgo que parece tão inocente pode ser profundamente prejudicial por reforçar inconscientemente ideias que já deveriam ter sido reformuladas. … Que tipo de homem deseja proteger uma mulher? Certamente não seria um que a vê como uma igual, que a encara como um par. Mas aquele que se sente superior a ela. E como disse a atriz americana Mae West em um dos seus filmes: &#8220;todo homem que encontro quer me proteger… não posso imaginar do quê.&#8221;&#8221;</em></p>
</blockquote>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O cavalheirismo é como o machismo premia as mulheres que &#8220;sabem o seu lugar&#8221;</strong><strong></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">O sexismo benevolente <em>(leia-se &#8220;cavalheirismo&#8221;) </em>e o sexismo hostil <em>(leia-se &#8220;masculinismo&#8221;)</em> são duas faces da mesma moeda: ambos só poderiam nascer e se manter em um contexto cultural machista. Por um lado, o sexismo benevolente parece ser uma coisa linda e fofa, portas são abertas e contas são pagas, etc etc. Entretanto, esse tipo específico de benevolência sexual só pode nascer em uma cultura que <em>já</em> vê as mulheres como inerentemente mais frágeis e incapazes, seres que sempre vão precisar da ajuda dos homens, ó-tão-mais fortes e ó-tão-mais capazes. Então, as crenças que dão suporte e possibilitam o sexismo benevolente são as mesmas que dão suporte e possibilitam o sexismo hostil: um não poderia existir sem o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo cavalheiro, que trata sua mãe e sua noiva de maneira gentil e benevolente <em>(porque &#8220;elas merecem&#8221;, porque são &#8220;dignas&#8221;, &#8220;direitas&#8221;, &#8220;honestas&#8221;)</em> é o mesmo que vai exercer sua dominância e seu machismo hostil sobre as mulheres ditas não-direitas, sobre as &#8220;vadias&#8221; e sobre as &#8220;vagabundas&#8221;, sobre qualquer uma que não conforme ao ideal tradicional de mulher. Quem é considerada &#8220;fácil&#8221; provavelmente não vai merecer as benesses do cavalherismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais ainda, o cavalheirismo é como o machismo premia as mulheres que são <em>da cor certa e da classe social certa. </em>O cavalheiro que se oferece para carregar a mala pesada de uma &#8220;dama&#8221; <em>(ou seja, da mulher que considera merecedora de seu cavalheirismo)</em> quase sempre é o mesmo que não se oferece para ajudar a faxineira que está fazendo serviços pesados. Afinal, &#8220;<em>elas</em> são fortes&#8221;, &#8220;esse é o trabalho <em>delas</em>&#8220;, &#8220;é pra isso que estou pagando&#8221;, e tantas outras justificativas outrofóbicas, racistas e elitistas. O cavalheiro que daria seu lugar no metrô para uma gestante da sua cor e classe é o mesmo que não se levantaria para uma trabalhadora negra com dois bebês no colo, &#8220;porque <em>essa gente</em> só sabe fazer filho&#8221;, etc etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não por acaso, uma das conclusões de <a href="https://www.sciencedaily.com/releases/2011/10/111004121314.htm">uma pesquisa sobre o assunto</a> foi que os países e culturas que mais reforçam o sexismo benevolente também são os que mais praticam o sexismo hostil. Em outras palavras, os mais cavalheiros são os mais machistas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;O</em><em> sexismo benevolente &#8220;recompensa&#8221; mulheres quando elas desempenham papeis tradicionais, enquanto o hostil pune as mulheres que não se comportam de acordo com os padrões ideais machistas.</em></p>
</blockquote>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>As flores do marido abusivo</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum marido abusivo é abusivo todo dia, o dia todo. O homem que hoje bate na sua cara amanhã traz flores. Essas flores são o cavalheirismo. O cavalheirismo é dizer:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;Desculpa eu te dominar há milênios, te impedir acesso ao mercado de trabalho, controlar seu corpo e te estuprar. Mas, ó, estou carregando sua mala, e ainda pago a conta do motel. Com todas essas vantagens, pôxa, você não tem do que reclamar!&#8221;</em> </p>
</blockquote>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left">Notas de leitura</h4>



<p class="wp-block-paragraph">Obrigado à Bárbara Lopes, que, durante uma conversa na lista das <em><a href="https://blogueirasfeministas.com/">Blogueiras Feministas</a></em>, me chamou atenção para o aspecto socioeconômico do cavalheirismo. As citações da <a href="https://amzn.to/4eOunD8">Regina Navarro Lins</a> são dos artigos <em><a href="https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2013/05/02/ele-e-super-gentil-mas-me-despreza-se-eu-fosse-voce/">“Ele é super gentil&#8230;.mas me despreza.” Se eu fosse você&#8230;&#8230;</a></em> e<em> <a href="https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2013/05/04/o-cavalheirismo-e-nocivo-as-mulheres/">O cavalheirismo é nocivo às mulheres!</a> </em>A pesquisa citada ao final é de Peter Glick e Susan T. Fiske e está no artigo “&#8217;<a href="https://www.sciencedaily.com/releases/2011/10/111004121314.htm">Benevolent sexism&#8217; is not an oxymoron and has insidious consequences for women, experts argue</a>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Texto originalmente publicado no site PapodeHomem em 2013. Depois republicado no meu livro <em><a href="https://alexcastro.com.br/outrofobia/">Outrofobia</a></em>, de 2015. Reescrito em 2019. </p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://alexcastro.com.br/outrofobia/"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5987" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?resize=59%2C59&amp;ssl=1 59w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2015/12/outrofobia-textos-de-luta.png?w=800&amp;ssl=1 800w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h4 class="wp-block-heading has-text-align-left">Textos relacionados</h4>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="http://alexcastro.com.br/feminismo">Feminismo para homens</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/toda-relacao-homem-mulher-e-assimetrica/">Toda relação homem-mulher é assimétrica</a> </li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Quais são as Prisões, uma por uma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jul 2024 19:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
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					<description><![CDATA[Todas as Prisões, explicadinhas, uma por uma.

As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido: ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Está começando em agosto de 2024 uma nova turma do&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>. Meu curso principal. Com o produto de mais de vinte anos de reflexões.&nbsp;<em>(<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Saiba mais sobre o curso aqui</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, afinal, o que são essas tais Prisões sobre as quais eu tanto falo, tanto escrevo, há tanto tempo?</p>



<span id="more-13217"></span>



<p class="wp-block-paragraph">Vamos lá, então.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Nova turma do Curso das Prisões" width="580" height="435" src="https://www.youtube.com/embed/cA7OmHAdy1s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>O que são As Prisões</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a></em><strong>,&nbsp;</strong><em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a></em><strong>,&nbsp;</strong><em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a></em><strong>,&nbsp;</strong><em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a></em><strong>,&nbsp;</strong><em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a></em><strong>,</strong><em>&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a>,&nbsp;</em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia"><em>Autossuficiência</em></a><em>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a></em>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a>&nbsp;</em>é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Prisão Monogamia</a></em>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Prisão Felicidade</a></em>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a></em>&nbsp;à&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a></em>, do&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a></em>&nbsp;à&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a></em>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="166" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/capa-facebook-twitter-titulo-curso-piscina.jpg?resize=500%2C166&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13218" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/capa-facebook-twitter-titulo-curso-piscina.jpg?resize=500%2C166&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/capa-facebook-twitter-titulo-curso-piscina.jpg?resize=768%2C256&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/capa-facebook-twitter-titulo-curso-piscina.jpg?resize=1200%2C399&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/capa-facebook-twitter-titulo-curso-piscina.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">As Prisões, uma a uma</h2>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">1. Prisão Verdade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para podermos nos libertar de nossas Prisões, precisamos primeiro&nbsp;<em>conhecê-las</em>. Como identificá-las com&nbsp;<em>certeza</em>? O que é uma Prisão de&nbsp;<em>verdade</em>? Infelizmente, a primeira Prisão é justamente a caixinha de ferramentas que utilizamos para apreender as Prisões: o conhecimento, a certeza e, enfim, a Verdade. Nossa pretensa certeza sobre o que sabemos é a primeira prisão que nos impede de enxergar todas as possibilidades da vida. O que é a verdade? Ela existe? Como descobri-la? Temos certeza do que sabemos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há mais de dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os quatro votos do Bodisatva e os três votos dos pacificadores zen. Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se libertarem, 2) enxergarem as ilusões que as limitam, 3) perceberem a realidade em sua plenitude e, assim, 4) agirem no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de não-saber, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando presente de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo amorosamente.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas. Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para transformar as ilusões e perceber a realidade, ou seja, para praticar o segundo e o terceiro voto do Bodisatva, precisamos primeiro determinar o que é ilusão e o que é verdade. Uma das maneiras de fazer isso é adotando uma postura de não-saber, ou seja, praticando o primeiro voto dos Pacificadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos o curso então pela&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Prisão Verdade</a></em>&nbsp;pois ela está no cerne de três dos sete votos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Prisão Verdade</a></em>&nbsp;acontece no domingo, 4 de agosto de 2024, e a aula, na quarta, 21.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="504" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-prisoes-poster-2024-nova-turma-agosto.jpg?resize=500%2C504&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13221" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-prisoes-poster-2024-nova-turma-agosto.jpg?resize=500%2C504&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-prisoes-poster-2024-nova-turma-agosto.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-prisoes-poster-2024-nova-turma-agosto.jpg?resize=768%2C774&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-prisoes-poster-2024-nova-turma-agosto.jpg?w=1072&amp;ssl=1 1072w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">2. Prisão Religião</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A religião, assim como ideologia, são as lentes pelas quais enxergamos o mundo, apreendemos a verdade, decidimos nosso caminho. Dependendo das lentes, entretanto, podemos não estar enxergando muitos caminhos possíveis. Não podemos enxergar o mundo a não ser por essas lentes, mas podemos pelo menos tentar enxergar as lentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Religião é ideologia, ideologia é religião. Não é que a religião seja&nbsp;<em>um tipo</em>&nbsp;de ideologia. Não é que a ideologia funcione&nbsp;<em>como se fosse</em>&nbsp;uma religião. É que&nbsp;<em>religião e ideologia são a mesma coisa</em>: teorias abrangentes que utilizamos para fazer sentido da realidade, sejam elas o cristianismo ou o candomblé, o liberalismo ou o marxismo, o método científico ou a psicanálise freudiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as pessoas, inclusive eu e você, enxergamos o mundo através de uma ou mais ideologias, e não há nada de errado nisso.&nbsp;<em>(Pelo contrário, é impossível ser a-ideológico.)&nbsp;</em>É só quando não conseguimos enxergar além das barras de nossa ideologia que ela pode se tornar uma prisão. Infelizmente, quase ninguém consegue: a gente não acredita no que quer, mas no que pode.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um telescópio pode ser usado para enxergar galáxias a milhares de anos-luz de distância, mas nunca poderá ser usado para enxergar a si mesmo. Toda ideologia/religião dá conta de explicar o universo, mas não dá conta de explicar a si mesma. Toda ideologia/religião pode questionar ou interpelar tudo, menos suas próprias certezas fundantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Prisão Religião</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 1º de setembro de 2024, e a aula, na quarta, 18.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="166" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-capa-facebook-twitter-titulo-curso-tijolos-galhos.jpg?resize=500%2C166&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13222" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-capa-facebook-twitter-titulo-curso-tijolos-galhos.jpg?resize=500%2C166&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-capa-facebook-twitter-titulo-curso-tijolos-galhos.jpg?resize=768%2C256&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-capa-facebook-twitter-titulo-curso-tijolos-galhos.jpg?resize=1200%2C399&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/00-capa-facebook-twitter-titulo-curso-tijolos-galhos.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">3. Prisão Classe</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa classe social determina nossa visão de mundo, normaliza nossos privilégios e nos impede de enxergar tudo o que vem das classes que consideramos inferiores. Daí, a música do Outro ser “barulho”, a fala do Outro ser “erro de português”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos algemadas à&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Prisão Classe</a></em>&nbsp;quando simplesmente nos recusamos a encarar e reconhecer nossos privilégios de classe, mesmo quando eles estão em nossa cara, gritando e bufando.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd15e0083-f537-4928-bf85-955e6363915a_859x859.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd15e0083-f537-4928-bf85-955e6363915a_859x859.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pergunto se as pessoas são ricas, elas ou dão respostas abstratas&nbsp;<em>(“sou rico em oportunidades”)</em>&nbsp;ou negam&nbsp;<em>(“olha, eu até ganho bem, mas não me considero rica porque não consigo comprar tudo o que eu quero.”)</em>. Ninguém acha que é rica, ou que é privilegiada, pois isso acarretaria obrigações sociais que queremos evitar, uma autoimagem da qual fugimos. O privilegiado é sempre um Outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais ainda, nenhum privilégio de classe é apenas um privilégio de classe. Pois a distinções de classe permeiam tudo nessa nossa sociedade tão desigual. As mulheres ganham menos que os homens. As pessoas negras ganham menos que as pessoas brancas. Todos os privilégios são, fundamentalmente, privilégios de classe, desfrutados com maior ou menor intensidade dependendo de nossa classe social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, é tão engraçado quando algum negacionista do racismo, já sem argumentos, diz: “Bem, mas isso não é uma questão racial, é uma questão econômica!” O que equivale a dizer: “Isso não é uma questão culinária, é uma questão gastronômica!” O racismo e a misoginia também são questões econômicas. Também são questões de classe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Prisão Classe</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 6 de outubro de 2024, e a aula, na quarta, 16.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">4. Prisão Patriotismo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Toda identidade é, por definição, exclusionária: somos algo&nbsp;<em>(aquarianas, brasileiras,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">classe alta</a>, etc)</em>&nbsp;porque não somos infinitas outras coisas&nbsp;<em>(leoninas ou arianas, uruguaias ou chinesas,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">classe média ou classe baixa</a>).</em>&nbsp;E tudo bem. O problema nunca é termos nossa identidade ou sermos quem somos. O problema é tudo aquilo que não enxergamos, que não percebemos, que não reconhecemos porque a posição que ocupamos nos impede, nos bloqueia a vista e nos embota a percepção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">identidade de classe pode ser uma prisão</a>&nbsp;porque ela é, antes de tudo, insidiosa: muitas vezes, não sabemos, ou nos recusamos a reconhecer, nossa classe social, e, mesmo assim, ou apesar disso, ela determina nossas amizades, nossas roupas, nossas leituras, nossos sotaques, nossos trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, se a nossa identidade de classe é insidiosa por ser tão esfumaçada, nossa identidade nacional é violenta por ser tão escancarada, por nos ser enfiada goela abaixo tão sem cerimônia, por sermos obrigadas até mesmo a jurar que morreremos por ela.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">As pessoas muitas vezes não sabem, ou não querem saber, sua classe social</a>, mas todas sabem sua nacionalidade.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3a37604-74a2-495b-9701-2092059ff45d_1500x500.png?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe3a37604-74a2-495b-9701-2092059ff45d_1500x500.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Prisão Classe</a></em>, vimos como nossa identidade de classe nos aprisiona; na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Prisão Patriotismo</a></em>, veremos que nossas muitas identidades tribais também. Mas faz sentido isso? Além da nossa criação, existe uma essência brasileira, baiana, carioca? Somos seres gregários que só sabem existir em grupos, mas como existir coletivamente sem xenofobia contra outros coletivos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Prisão Patriotismo</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 3 de novembro de 2024, e a aula, na quarta, 20.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">5. Prisão Respeito</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Autoridade sempre impõe não só o respeito e a obediência como virtudes autoevidentes, mas também um script da vida bem-sucedida. Acreditar nessa narrativa pode nos impedir de enxergar outras possibilidades, outros caminhos, outros scripts. Mas só temos como nos libertar dessa Autoridade quando percebemos que ela não é o Estado, ou nenhuma grande instituição, mas sim nós mesmas, infinitamente vigiando e punindo umas às outras.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-respeito-agh.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13219" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-respeito-agh.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-respeito-agh.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-respeito-agh.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-respeito-agh.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos nosso percurso na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Prisão Verdade</a></em>, onde concluímos que não existe essa Verdade assim com V maiúsculo: mais importante são as certezas que construímos nós mesmas. Depois, na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Prisão Religião</a></em>, problematizamos essas certezas, pois percebemos que foram determinadas pelas ideologias através das quais apreendemos a realidade. Até aqui, estávamos falando de epistemologia, ou seja, da teoria do conhecimento. Agora, começamos a falar de identidade: nas Prisões&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;</em>e&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a></em>, nos damos conta que essa ideologia pela qual apreendemos a realidade não foi escolhida por nós, nem, em larga medida, pode ser des-escolhida, mas é fruto dos grupos onde nascemos e crescemos, dos quais os mais importantes e influentes são nossa classe social e da nossa nacionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, na&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Prisão Respeito</a></em>, a pergunta é: o que devemos a esses grupos que nos circundam, nos possibilitam, nos moldam, nos limitam? Devemos respeito? Devemos obediência? O sucesso é um conceito social: ser bem-sucedido, em larga medida, é atingir os objetivos e parâmetros que nosso grupo determina como desejáveis.&nbsp;<em>(Em algumas sociedades, o ideal de beleza é ser magra, em outras, gorda, etc.)</em>&nbsp;Mas como podemos ser bem-sucedidas na vida se estamos em conflito aberto com as expectativas, com as regras, com os costumes de nosso grupo? Se desrespeitarmos os costumes ou se desobedecermos as leis do nosso grupo, qual é o preço que teremos que pagar? Vale a pena? Existe vida fora do grupo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos macaquinhas gregárias: a evolução não nos preparou para nada tão bem quanto para funcionarmos em grupo, eternamente catando piolhos umas das outras, mas também vigiando e fiscalizando nossos comportamentos. Todo grupo, por sua própria natureza, mesmo os melhores, os mais livres, os mais liberais, tende a consumir, deglutir, dominar os indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um primeiro momento, cabe a nós a disciplina de não atuarmos como polícia secreta do grupo. Uma pergunta que sempre vale a pena fazermos para nós mesmas: por que esse comportamento da outra pessoa me incomoda tanto? E daí que ela quebrou essa ou aquela regra social? E daí que ela escolheu viver diferente de mim? Isso me afeta? Isso me ameaça?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais ativamente, entretanto, cabe a nós termos não só a força de caráter para dizer “não” a algumas das demandas do grupo, estabelecendo assim um espaço inviolável para nossa individualidade, como também, depois disso, termos a serenidade de aceitarmos o preço que será inevitavelmente cobrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A potência de um “não” salva vidas, porque todo “não” também é um “sim”: falamos “não” (por exemplo) à obrigação social de sermos monogâmicas… para podermos falar sim para os novos tipos de relações não-monogâmicas que desejamos viver. Não temos como fugir dos nossos instintos gregários, da nossa necessidade de pertencimento ao grupo… mas podemos mudar de grupo. Dizer “não” a um grupo é dizer “sim” a outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa pequena, importantíssima, inalienável margem de manobra, está a nossa possibilidade de potência individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Prisão Respeito</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 1º de dezembro de 2024, e a aula, na quarta, 18.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">6. Prisão Trabalho</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O problema não é o dinheiro: todas precisamos de dinheiro, ele garante nossa liberdade e nos permite viver nossas vidas nos nossos próprios termos. O problema não é o trabalho: somos seres criativos, gostamos, precisamos trabalhar, produzir, criar. O problema é só trabalharmos em prol dos projetos de&nbsp;<em>outras</em>&nbsp;pessoas, ao invés ou dos nossos projetos pessoais ou de projetos coletivos que nos sejam importantes. O problema é fazermos isso por muito tempo e por pouco dinheiro, que modo que não nos sobra nem tempo nem energia para nossos próprios projetos. Então, sim, tanto o trabalho quanto o dinheiro podem se tornar prisões.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F060ad4fb-2236-4d0d-899e-2ba56e539adf_1080x1080.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F060ad4fb-2236-4d0d-899e-2ba56e539adf_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O dinheiro não é o vilão. Ele nos permite viver, realizar nossos sonhos, e até salva nossa vida quando precisamos. Ter dinheiro é uma das formas mais concretas de ser livre. Entretanto, se o colocamos no centro de nosso universo, ele pode sim se tornar uma prisão. Fundamentalmente, o dinheiro só serve para comprar tempo. Mas, se vendemos todo o nosso tempo em troca de dinheiro, então esse dinheiro não serve pra nada. Fundamentalmente, a vida não é cara: nossa vida, porém, pode ser cara se fizermos escolhas caras. Aliás, o que é uma escolha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho não é, por definição, aprisionante e terrível. Somos seres construtores, produtivos. Idealmente, o trabalho nos permite dar vazão ao nosso afã criador e, ao mesmo tempo, ganhar o dinheiro que precisamos para viver nossa vida e realizar nossos projetos pessoais. Muitas vezes, entretanto, o trabalho custa caro: ele suga quase toda nossa energia vital e nos dá somente uns míseros tostões em troca. Nesses casos, sim, o trabalho é uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Defender a meritocracia do trabalho, a acumulação de dinheiro, o crescimento econômico ilimitado, não são apenas decisões econômicas, mas também morais, que nos impedem de considerar alternativas de vida mais minimalistas, coletivas, sustentáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Prisão Trabalho</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 5 de janeiro de 2025, e a aula, na quarta, 15.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">7. Prisão Autossuficiência</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos motivos que nos leva a querer trabalhar tanto para juntar tanto dinheiro é uma busca desesperada pela pretensa segurança da autossuficiência. Afinal, ninguém quer depender dos outros, não é? Como posso ser livre se não sou independente?</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-autossuficiencia-1.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13220" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-autossuficiencia-1.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-autossuficiencia-1.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-autossuficiencia-1.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/prisao-autossuficiencia-1.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa ânsia por autossuficiência não é acidental: apesar de sermos uma espécie gregária, apesar de nosso maior superpoder ser nossa capacidade única de nos unirmos para trabalharmos juntas em prol de objetivos comuns, o capitalismo nunca para de nos vender a autossuficiência como uma das qualidades mais importantes da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é difícil de entender o porquê. Quem está bem inserida em sua comunidade, quem dispõe de uma extensa rede de apoio, pode resolver seus problemas comunitariamente – eu pinto sua parede, você me leva no aeroporto. Entretanto, se somos autossuficientes, ou seja, se estamos isoladas, todos os serviços precisam ser comprados, do&nbsp;<em>Uber</em>&nbsp;ao&nbsp;<em>Marido de Aluguel</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levado ao extremo, entretanto, esse anseio por autossuficiência pode se tornar uma ânsia, uma sofreguidão, uma avidez, que acaba por corroer nossos relacionamentos, minar nossas comunidades, destruir nosso planeta. A autossuficiência se torna uma prisão quando, por ser tão auto-evidente e inquestionável, deixamos de perceber que existem alternativas mais coletivas, mais comunitárias, menos egoístas para organizarmos nossas vidas, nossas economias, nossos amores. A autossuficiência também se torna uma prisão quando, por sermos tão constantemente oprimidas pelas outras pessoas, almejamos um modelo impraticável de autossuficiência emocional: queremos ser a mítica pessoa que não se importa com a opinião de ninguém, quando poderíamos facilmente escolher nos rodear por pessoas cujas opiniões nos importam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É desejável sermos tão autossuficientes? Aliás, é possível? E o que se perde nessa busca por uma impossível, indesejável autossuficiência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Prisão Autossuficiência</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 2 de fevereiro de 2025, e a aula, na quarta, 19.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">8. Prisão Monogamia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nada pode ser mais capitalista e individualista do que a família nuclear monogâmica, com pessoas fechadas em grupos cada vez menores, exclusivos, isolados. Falar em não-monogamia é destravar a possibilidade de criarmos novos tipos de relacionamento, inclusive não-sexuais. E não tem como falar de relações românticas ou sexuais, de monogamia ou não monogamia, sem encarar de frente o fato de que, em nossa sociedade misógina, toda relação homem-mulher é sempre assimétrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizer que a monogamia é uma prisão não é uma crítica às&nbsp;<em>pessoas&nbsp;</em>que escolheram viver relacionamentos monogâmicos, mas sim ao&nbsp;<em>sistema&nbsp;</em>institucional hegemônico quase-compulsório, vendido por nossa sociedade, pelas religiões, pelas famílias e pelas comédias românticas como a única opção possível e concebível para se relacionar e constituir família, tachando de imorais, doentes e antiéticos todo e qualquer arranjo amoroso-sexual não-monogâmico. Esse sistema nos convence de uma série de “verdades”. Entre elas, que só se pode amar uma pessoa de cada vez; que se amarmos realmente a-pessoa-que-está-conosco, nunca sentiremos tesão por outra; que as pessoas em um casal precisam suprir todas as necessidades afetivas, sexuais, emocionais, etc, uma da outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas&nbsp;<em>nem todas as pessoas são assim.&nbsp;</em>Existem pessoas que, de fato, só amam uma pessoa de cada vez (<em>e elas estão muito felizes em seus relacionamentos monogâmicos</em>) mas também existem muitas que amam mais de uma pessoa de cada vez (<em>e essas estarão mais felizes em relacionamentos não-monogâmicos</em>).</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/08-Prisao-Monogamia-2.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13223" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/08-Prisao-Monogamia-2.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/08-Prisao-Monogamia-2.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/08-Prisao-Monogamia-2.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/08-Prisao-Monogamia-2.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as pessoas entram em um relacionamento monogâmico não porque escolheram a monogamia entre um sem-número de possíveis arranjos não-monogâmicos que poderiam ter escolhido, mas simplesmente porque nunca se deram conta de que havia opções possíveis fora da monogamia, então, sim, nesses casos a monogamia pode ser uma prisão. Ou seja, a monogamia é uma prisão quando não é vista como uma escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo dessa aula não é falar contra a monogamia, ou criticar as pessoas que escolheram a monogamia, mas simplesmente mostrar que, ao contrário do que afirma o sistema monogâmico, existem outras maneiras igualmente válidas de organizarmos nossos relacionamentos. Temos a liberdade de escolher a monogamia&nbsp;<em>(sim, por que não?)&nbsp;</em>mas também precisamos ter a liberdade de escolher qualquer uma das outras infinitas formas de viver, de amar e de transar. A escolha é nossa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como em todas as aulas do&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>, o objetivo aqui não é te convencer de nada, mas te mostrar que você sempre teve uma escolha que talvez nunca tivesse se dado conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Prisão Monogamia</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 2 de março de 2025, e a aula, na quarta, 19.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">9. Prisão Liberdade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O começo necessário do nosso percurso pelas Prisões foram <em>Verdade </em>e <em>Religião</em>, onde questionamos nossa própria capacidade de enxergar e apreender a realidade. Não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, nossa própria mente. Depois, na parte central do percurso, falamos de <em>Classe </em>e <em>Patriotismo</em>, <em>Respeito </em>e <em>Trabalho</em>, <em>Autossuficiência</em> e <em>Monogamia</em>, cada uma explorando uma diferente faceta de nossas vidas contemporâneas. Agora, finalmente, estamos na reta final. Se não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, também não existe outro final possível que não problematizar nossas motivações e nossas ações. As últimas Prisões são <em>Liberdade</em>, <em>Felicidade </em>e <em>Empatia</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem busca um curso chamado de&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a></em>, quem tenta viver a não-monogamia na prática, entre muitos outros exemplos, tendem a ser pessoas com um interesse acima do normal em liberdade, ou, mais especificamente, em sua própria liberdade. Sentem-se tolhidas por amarras, cadeias, costumes — eu chamo de “Prisões” — e desejam ser mais livres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, a busca pela liberdade também pode ser uma prisão. A chave é lutarmos não pela liberdade de realizar nossos desejos, como uma vela que vai onde o vento sopra, mas sim pela liberdade de podermos escolher novos desejos, como o leme que determina o rumo a seguir. A verdadeira liberdade não é negativa, ou seja, estarmos livres de interferências externas, mas sim positiva: sermos livres para pautarmos nossos próprios atos.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/09-Prisao-liberdade.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13224" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/09-Prisao-liberdade.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/09-Prisao-liberdade.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/09-Prisao-liberdade.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/09-Prisao-liberdade.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A busca pela liberdade também pode ser uma prisão. A chave é lutarmos não pela liberdade de realizar nossos desejos, como uma vela que vai onde o vento sopra, mas sim pela liberdade de podermos escolher novos desejos, como o leme que determina o rumo a seguir. A verdadeira liberdade não é negativa, ou seja, estarmos livres de interferências externas, mas sim positiva: sermos livres para pautarmos nossos próprios atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Prisão Liberdade</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 6 de abril de 2025, e a aula, na quarta, 16.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">10. Prisão Felicidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo do&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;é tentarmos enxergar as mentiras que nos contaram, as alternativas que nos esconderam, os diferentes caminhos de vida que poderíamos ter seguido – se somente soubéssemos que existiam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um mundo que nos vende a nossa própria felicidade individual como fim último de nossas vidas. E quase todas nós aceitamos isso como algo intrinsecamente positivo. Quando uma mãe diz para uma filha, “tudo o que quero é que você seja feliz”, já pensamos que é uma boa mãe. O que mais uma mãe poderia desejar para sua filha que não a felicidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quando vendemos de forma unânime esse caminho como o único caminho possível e desejável, o que não estamos vendo? Quais outros caminhos alternativos nos foram ocultados? Quantos egoísmos, narcisismos, egocentrismos estão escondidos no simples desejo de querer o máximo de felicidade individual para mim e para os meus? Quando compramos a idéia de felicidade individual como fim último da existência, o que mais estamos comprando junto? Ser feliz vai me fazer levar uma vida mais correta? Ou ser feliz vai me tornar uma pessoa ainda mais egoísta e autocentrada?</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/10-Prisao-Felicidade-4.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13225" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/10-Prisao-Felicidade-4.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/10-Prisao-Felicidade-4.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/10-Prisao-Felicidade-4.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/10-Prisao-Felicidade-4.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Buscar a liberdade para ser feliz, colocar nossa felicidade pessoal como medida de sucesso, talvez seja a maior de todas as prisões. Perceber que a felicidade não precisa necessariamente ser nosso fim último nos permite destravar os múltiplos potenciais sentidos de nossa própria vida. Se não vivo para ser feliz, vivo para quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A felicidade é uma prisão quando ela se torna a régua incontestável pela qual meço o mundo, o valor acima de todos os valores, o valor a partir do qual todos os outros valores são medidos. Pois colocar nossa própria felicidade individual no centro da nossa existência é, antes de mais nada, uma decisão moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Prisão Felicidade</a></em>&nbsp;não é escolhermos a felicidade como o objetivo último de nossas vidas&nbsp;<em>(afinal, todas temos o direito de vivermos em função do que quisermos)&nbsp;</em>mas sim não conseguimos enxergar nenhum outro objetivo último possível para nossas vidas que não seja a nossa própria felicidade individual. Se não existe opção à felicidade, então a felicidade, automaticamente, por definição, é uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Prisão Felicidade</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 4 de maio de 2025, e a aula, na quarta, 21.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">11. Prisão Empatia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa sociedade tem recomendado “maior empatia” como antídoto à busca frenética, autocentrada e individualista por mais felicidade e mais liberdade. Entretanto, empatia, por si só, é um sentimento passivo, um capricho bem-alimentado, que quase sempre permanece dentro de nós mesmas sem maiores impactos no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, cultivar a empatia é uma habilidade fundamental, que pode e deve ser exercitada, mas, por outro lado, ela não é a panaceia que pregam os manuais de autoajuda: a empatia tem limitações severas, entre elas ser imediatista, passiva, seletiva, condescendente, bairrista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cultivar a empatia é como juntar os ingredientes para fazer um bolo: se queremos que o bolo exista, é imprescindível termos os ovos e o leite, o açúcar e a manteiga. Mas, uma vez comprados os ingredientes, ainda falta fazer o bolo. Comprar os ingredientes e nunca fazer o bolo é pior que nada: é desperdício.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/11-prisao-empatia-500x500.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13226" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/11-prisao-empatia.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/11-prisao-empatia.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/11-prisao-empatia.jpg?resize=768%2C767&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2024/07/11-prisao-empatia.jpg?w=1069&amp;ssl=1 1069w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a empatia se torna um fim em si mesma, quando simplesmente trocamos nossa antiga e egoísta &#8220;busca pela felicidade&#8221; por uma nova e bondosa &#8220;busca pela empatia&#8221;, quando nos satisfazemos pela complacência de um sentimento sem ação, de uma empatia sem altruísmo, então, sim, a empatia pode se tornar uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão prática é como transcender o paroquialismo imediatista da empatia e convertê-la em ações políticas concretas que modifiquem a realidade. Se já descobrimos que liberdade é podermos escolher como agir no mundo, e que nosso objetivo último na vida não precisa ser apenas nossa própria felicidade individual, então já estamos prontas para transcender a passividade do sentimento empático e partirmos para uma ação efetivamente altruísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa livre da&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Prisão Empatia</a>&nbsp;</em>acontece no domingo, 1º de junho de 2025, e a aula, na quarta, 18.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h1 class="wp-block-heading has-text-align-left">O Curso das Prisões</h1>



<p class="wp-block-paragraph">Todo primeiro domingo do mês, às 19h, teremos uma conversa livre no Zoom, que não ficará gravada, para darmos o pontapé inicial nas discussões sobre a Prisão do mês.&nbsp;<em>(A primeira acontece domingo agora, 4 de agosto, sobre a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Prisão Verdade</a>.)&nbsp;</em>É um espaço mais íntimo, para trocarmos, compartilharmos, ouvirmos experiências sobre como essa Prisão específica afeta nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, ao longo do mês, continuamos as conversas, trocando links e textos, no grupo de Whatsapp. Não tem leituras: é papo e pensamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, na terceira quarta-feira do mês, também às 19h, eu dou uma aula tentando juntar todas as minhas leituras, responder às principais dúvidas e questões de vocês, amarrar a teoria com a prática. Essas aulas acontecem ao vivo no Zoom e depois ficam disponíveis indefinidamente em um grupo privado no Facebook.&nbsp;<em>(A primeira aula acontece na quarta, 21 de agosto, sobre a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Prisão Verdade</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O curso, como tudo que eu faço, será exclusivo para&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>, que custa R$88 por mês e dá acesso não só a textos exclusivos e descontos em todos os meus livros e eventos, mas também a todos os meus cursos, passados, presentes, futuros, enquanto durar o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">seu apoio</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para saber mais, confira a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">ementa completa</a>, ou&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">compre agora</a>. :)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abaixo, tem mais detalhes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O Curso das Prisões</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para a&nbsp;<strong>2ª turma</strong>&nbsp;<em>(2024/25)</em>&nbsp;já estão abertas. As aulas começam em&nbsp;<strong>agosto</strong>.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F6b7172c2-aafb-4755-9203-b6f6cfb4e434_1072x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Curso em resumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, e uma aula, na 3ª quarta-feira.&nbsp;// Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F725e90f3-40ab-4405-aec7-a8006a6f30ec_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F725e90f3-40ab-4405-aec7-a8006a6f30ec_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que são As Prisões</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F19a804c6-f342-4660-9970-ea02f666bb07_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F19a804c6-f342-4660-9970-ea02f666bb07_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Funcionamento</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 19h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na terceira quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e3b0005-1415-4221-ad47-c761d589507a_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e3b0005-1415-4221-ad47-c761d589507a_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aulas gravadas indefinidamente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb91c1f3d-3315-40b7-aca0-ee5050a3d698_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb91c1f3d-3315-40b7-aca0-ee5050a3d698_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sem leituras</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8d2139d-ee2f-4685-913e-23c40fcd68bf_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fe8d2139d-ee2f-4685-913e-23c40fcd68bf_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;</strong><em><strong>Livro das Prisões</strong></em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F284b60e8-160c-4b6b-aae1-aabfbbd7094b_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F284b60e8-160c-4b6b-aae1-aabfbbd7094b_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Professor</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras-Espanhol por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/mentiras/">Mentiras Reunidas</a></em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve sobre literatura para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos">Folha de S.Paulo</a>,&nbsp;<a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-negra/a-voz-do-outro">451</a>,&nbsp;<a href="https://suplementopernambuco.com.br/artigos/3168-a-l%C3%ADngua-pretuguesa-enquanto-p%C3%A1tria.html">Suplemento Pernambuco</a>&nbsp;e&nbsp;<a href="https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas/as-atmosferas-e-dores-de-duras/">Rascunho</a>. Atualmente, é mestrando do PPGLEN<em>&nbsp;(Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas),</em>&nbsp;da UFRJ.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc1e9e3c3-f6a4-4ad1-bf63-d590c60bd0a8_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fc1e9e3c3-f6a4-4ad1-bf63-d590c60bd0a8_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Meus votos zen-budistas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e98d218-d445-4cf5-83b5-4cdcb8d30071_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4e98d218-d445-4cf5-83b5-4cdcb8d30071_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Compre</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>R$88 mensais</strong>, via&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>: comprando o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">plano Mecenas CURSOS</a>&nbsp;<em>(ou superior)</em>, você tem acesso a&nbsp;<strong><a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a></strong>&nbsp;<em>enquanto durar o seu apoio,</em>&nbsp;além de ganhar muitas outras recompensas, como textos e aulas avulsas exclusivas. Como bônus, coloco seu nome na lista das mecenas. Você pode cancelar o seu plano a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.&nbsp;<em>(O Apoia-se aceita todos os cartões de crédito e boleto).</em></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Dúvidas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9251de3a-f279-4610-b8f0-f7ceac2fddc3_500x500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9251de3a-f279-4610-b8f0-f7ceac2fddc3_500x500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aulas em resumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição da aula nessa página.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(agosto 24)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(setembro 24)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(outubro 24)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(novembro 24)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(dezembro 24)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(janeiro 25)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(fevereiro 25)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(março 25)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(abril 25)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(maio 25)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(junho 25)</em></li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Convencida?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Dúvidas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Linguagem não-sexista</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em meus textos, para chamar atenção para o sexismo de nossa língua, inverto a norma e uso o feminino como gênero neutro. Não porque troquei um sexismo por outro, mas porque o gênero da palavra “pessoa” é feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trocar “meus alunos não calam a boca” por “minhas alunas não calam a boca” só mantém o sexismo da língua. Pior: sugere que são apenas as minhas alunas mulheres que não calam a boca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, hoje, digo&nbsp;“minhas pessoas alunas não calam a boca.” Essa tem sido, pra mim, a maneira não-sexista de escrever.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais detalhes aqui:&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/sexismo/">Mini manual pessoal para uso não-sexista da língua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Calendário de aulas e atividades para 2024</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1º domingo</strong>, 19h: Conversa livre&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes">Curso As Prisões</a>&nbsp;(a partir de agosto)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2ª quarta-feira</strong>, 19h:&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Aula avulsa para Mecenas</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3ª quarta-feira</strong>, 19h: aula&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes">Curso As Prisões</a>&nbsp;(a partir de agosto)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Último domingo</strong>, 19h:&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Piquenique não-monogamia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Última quarta-feira</strong>, 19h: aula&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/cursos/grande-conversa-medieval/">Grande Conversa Medieval</a></em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Prisão Liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Nov 2023 15:23:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
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		<category><![CDATA[liberdade de expressão]]></category>
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		<category><![CDATA[livre-arbítrio]]></category>
		<category><![CDATA[prisão]]></category>
		<category><![CDATA[prisão liberdade]]></category>
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					<description><![CDATA[A busca por liberdade pode ser uma prisão. Talvez a verdadeira liberdade seja não uma liberdade para nossos desejos, mas uma liberdade dos nossos desejos. Ser o leme, não a vela.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Quem busca um curso chamado de <a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/"><em>As Prisões</em></a>, quem tenta viver a não-monogamia na prática, entre muitos outros exemplos, tendem a ser pessoas com um interesse acima do normal em liberdade, ou, mais especificamente, em sua própria liberdade. Sentem-se tolhidas por amarras, cadeias, costumes — eu chamo de “Prisões” — e desejam ser mais livres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, a busca pela liberdade também pode ser uma prisão. A chave é lutarmos não pela liberdade de realizar nossos desejos, como uma vela que vai onde o vento sopra, mas sim pela liberdade de podermos escolher novos desejos, como o leme que determina o rumo a seguir. A verdadeira liberdade não é negativa, ou seja, estarmos livres de interferências externas, mas sim positiva: sermos livres para pautarmos nossos próprios atos.</p>



<span id="more-12941"></span>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Liberdade. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão&nbsp;Liberdade é a nona, depois das Prisões&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Patriotismo</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia/">Autossuficiência</a> </em>e <em><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-monogamia/">Monogamia</a></em>.<em>&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Introdução</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">O começo necessário do nosso percurso pelas Prisões foram <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Verdade</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Religião</a>, onde questionamos nossa própria capacidade de enxergar e apreender a realidade. Não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, nossa própria mente. Depois, na parte central do percurso, falamos de <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Classe</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Patriotismo</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Respeito</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Trabalho</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Autossuficiência</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-monogamia" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Monogamia</a>, cada uma explorando uma diferente faceta de nossas vidas contemporâneas. Agora, finalmente, estamos na reta final. Se não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, também não existe outro final possível que não problematizar nossas motivações e nossas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As últimas Prisões são Liberdade, Felicidade e Empatia.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="299" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Break-Through-From-Your-Mold-By-Zenos-Frudakis-Philadelphia-estatua-mulher-liberdade-mecenato.jpg?resize=500%2C299&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8347" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Break-Through-From-Your-Mold-By-Zenos-Frudakis-Philadelphia-estatua-mulher-liberdade-mecenato.jpg?resize=500%2C299&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Break-Through-From-Your-Mold-By-Zenos-Frudakis-Philadelphia-estatua-mulher-liberdade-mecenato.jpg?resize=768%2C459&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Break-Through-From-Your-Mold-By-Zenos-Frudakis-Philadelphia-estatua-mulher-liberdade-mecenato.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que é liberdade</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro obstáculo para uma conversa frutífera sobre liberdade é definir sobre <em>qual</em> liberdade estamos falando. Assim como o ciúme, sobre o qual falei na Prisão Monogamia, não existe uma única liberdade, mas várias. Então, vamos começar a Prisão Liberdade tentando definir o que é isso que nos aprisiona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos em liberdade, podemos estar falando de liberdade de pensamento <em>(liberdade-de-dentro)</em> ou liberdade de ação <em>(liberdade-de-fora).</em> A liberdade de pensamento é geralmente chamada de livre-arbítrio, é estudada por psicólogos e neurocientistas e dizem que temos cada vez menos do que pensávamos. A liberdade de ação é geralmente chamada de liberdade política, é aquela garantida por nossa constituição e estudada por cientistas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A liberdade-de-dentro é a liberdade de eu, livremente, dentro de minha própria cabeça, decidir o que quero fazer. A liberdade-de-fora é a liberdade de eu, livremente, no mundo externo, agir conforme minhas decisões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ambos os tipos de liberdade só têm como existir juntos. Não faz sentido falar de uma liberdade sem considerar a outra. Não adianta eu ter liberdade de ação de fazer algo que nunca me ocorreu em pensamento que posso fazer. Não adianta eu ter a liberdade-de-dentro de decidir agir de determinada maneira se não tenho a liberdade-de-fora para fazer isso, ou seja, se sou física ou politicamente impedido de implementar essa ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser livre é ser responsável. Ação livre é aquela pela qual eu posso ser responsabilizado. O que faz uma pessoa ser livre para se responsabilizar? Sua liberdade-de-dentro <em>(ela era livre para decidir fazer)</em> e a sua liberdade-de-fora <em>(ela era livre para fazer).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se digo que alguém é livre, isso quer dizer que essa pessoa é responsável por suas ações. Mas se ela não tem livre-arbítrio, ou seja, liberdade de pensamento, como pode ser responsabilizada? Ou, inversamente, se ela não tem liberdade de ação de protestar contra o governo, ela pode ser responsabilizada por não fazer aquilo que era proibida de fazer, mesmo se tiver o livre-arbítrio, ou seja, a liberdade-de-pensamento para conceber tomar essa ação?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Livre-arbítrio, ou liberdade-de-dentro, ou liberdade de pensamento, só faz sentido se eu dispuser da liberdade política, ou liberdade-de-fora, ou liberdade de ação, para agir no mundo. Inversamente, a liberdade de ação só faz qualquer sentido se eu tiver a liberdade de pensamento para decidir como e quando quero agir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A história que nossa sociedade nos conta é que dispomos plenamente <em>(ou quase)</em> da liberdade-de-dentro. As poucas exceções <em>(crianças pequenas, pessoas com deficiência mental, etc)</em> são, por isso mesmo, inimputáveis, ou seja, não podem ser condenadas por crimes que cometam porque talvez não tivessem a liberdade de não os cometer. Nós, as demais pessoas, por outro lado, somos plenamente responsáveis por todas as nossas ações, tanto perante a lei dos homens quanto de Deus. <em>(Só podemos ser condenados a uma eternidade de torturas no Inferno por pecados mortais como a masturbação porque Deus nos deu o pleno livre-arbítrio de não os cometer.)</em> Como disse Nietzsche, o livro-arbítrio só foi inventado para que possamos ser punidos.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*“O livro-arbítrio só foi inventado para que possamos ser punidos, para que possamos nos sentir culpados”, diz Nietzsche em <a href="https://amzn.to/3tXHiRo"><em>Crepúsculo dos ídolos</em></a> (1888), na seção “Os quatro grandes erros”.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3tXHiRo"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="720" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/crepusculo-idolos-nietzsche.jpg?resize=500%2C720&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12944" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/crepusculo-idolos-nietzsche.jpg?resize=500%2C720&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/crepusculo-idolos-nietzsche.jpg?resize=768%2C1107&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/crepusculo-idolos-nietzsche.jpg?w=1041&amp;ssl=1 1041w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Já a liberdade-de-fora é quase definida sempre em termos negativos: liberdade seria não ser tolhido em minha liberdade. Todas nós teríamos o potencial de ser plenamente livres se somente não fôssemos tolhidos por pai ou mãe, costumes ou leis da sociedade. Nosso mundo político atual foi fundado no século XVIII com base nessa aspiração de liberdade: se o Estado somente não tolher as pessoas em sua busca natural pela felicidade, se garantir sua liberdade de expressão, de religião, de associação, etc etc, então o mundo naturalmente vai se resolver. Idealmente, todas as pessoas deveriam desfrutar da máxima liberdade-de-fora possível, restringida apenas pelas liberdades das outras pessoas. Não é à toa que outro dos princípios fundacionais de nossas leis é que tudo que não é explicitamente proibido está implicitamente permitido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No contexto da Prisão Liberdade, vou estar falando de ambos os tipos de liberdade. Quando quiser diferenciá-las, falarei de liberdade de pensamento, ou liberdade-de-dentro, e liberdade de ação, ou liberdade-de-fora.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Sempre me pareceu instintivamente óbvio que ambos os tipos de liberdade só podiam ser pensados juntos e me impressionava muitíssimo só encontrá-los sendo pensados em separado. Quem me ajudou a desatar esse nó foi o filósofo e cientista político Philip Pettit, em <a href="https://amzn.to/3FDtuy5"><em>A Theory of Freedom: From the Psychology to the Politics of Agency</em></a>, publicado em 2001 e escrito exatamente para propor uma nova teoria da liberdade que contemplasse ambas as esferas. Esse texto não existiria sem os insights de Pettit.]</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://amzn.to/3FDtuy5"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="295" height="445" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/41FgN6GIsEL._SY445_SX342_.jpg?resize=295%2C445&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12945"/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Somos mesmo tão livres assim?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando decido racionalmente ser não-monogâmico, mas não consigo, porque o simples pensamento da pessoa-que-está-comigo transando fora me enche de raiva, de ciúme, de medo, sentimentos avassaladores e incontroláveis que me oprimem e me impedem de viver o tipo de relacionamento que escolhi&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando decido racionalmente me alimentar de forma saudável, mas não consigo, porque sou bombardeado por todos os lados, na TV ou no cinema, no ônibus ou no metrô, por anúncios de carne prensada entre duas fatias de pão e, pior, ao passar pela lanchonete, ainda sou fisicamente atacado por aquele cheiro de carne grelhada e gordura quente, e, em todas as células do meu corpo, milhares de antepassados gritam “vai lá! por mim! eu teria matado por isso!”&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a Constituição Federal me garante liberdade de expressão, mas os meios de comunicação de massa do meu país de duzentos milhões de habitantes são controlados pelas mesmas seis famílias e, mais ainda, a escola pública onde estudei não me ensinou a escrever bem o suficiente para ser publicado neles, mesmo se houvesse essa oportunidade, que não existe&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a Constituição Federal me garante o direito de estudar em qualquer uma das muitas excelentes universidades federais, mas as escolas públicas onde estudei não me prepararam nem para passar no processo seletivo nem para acompanhar as aulas&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tenho o direito de ir e vir, e de consumir o que eu quiser, mas vivo com um salário mínimo que mal me permite sobreviver*&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*&#8230; pois se fosse maior quebraria o país, dizem os economistas liberais. Desenvolvi o tema na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Prisão Patriotismo</a>.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se não posso servir em um submarino, por ser mulher, ou doar sangue, por ser homossexual&#8230; posso me considerar realmente livre?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A busca por liberdade pode ser uma prisão</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Garantir mais liberdade-de-fora, ou seja, mais liberdade de ação, mais liberdade política, a todas as pessoas cidadãs, especialmente aos grupos subalternos e marginalizados, é uma das grandes lutas políticas de nosso tempo.* Mas quando a liberdade vira um objetivo por si só, um fetiche consumista e insaciável, ela pode se tornar uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Como vimos na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Prisão Classe</a>, uma das definições possíveis de privilégio é ter escolhas: quanto mais privilegiada a pessoa, mais escolhas ela tem, logo, mais livre ela é.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, quanta liberdade é liberdade o suficiente?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a pergunta nos soa tão <em>non-sense</em> é justamente por ser a liberdade insaciável por definição. <em>(A Felicidade é uma Prisão pelo mesmo motivo; será a próxima.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, de nada adianta liberdade-de-fora, ou seja, a liberdade de agir, se não houver liberdade-de-dentro, a liberdade de pensar, de conceber, de decidir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que também impede mulheres de servirem em submarinos — além, por óbvio, da regra que as proíbe — é o fato de terem sido educadas desde meninas para considerar que submarinos não são para elas, que serviço militar é coisa de homem. <em>(Se mulheres quisessem ser submarinistas nas mesmas proporções que querem ser médicas ou engenheiras, duas profissões nas quais também são sub-representadas, a pressão popular tornaria insustentável a proibição.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa liberdade-de-fora é muito mais restrita do que deveria ou poderia ser, especialmente se fazemos parte de grupos subalternizados: uma pessoa negra não tem as mesmas liberdades que uma branca, uma mulher não tem as mesmas liberdades que um homem.* <em>(Quem tem interesse em restringir minha liberdade de ação?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Desenvolvi esses temas na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Prisão Classe</a>.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa liberdade-de-dentro é muito mais restrita do que nos vendem, limitada não tanto por nossa genética quanto por nossa falta de imaginação. Uma falta de imaginação que não é natural ou espontânea, mas, pelo contrário, cuidadosamente cultivada. A melhor ferramenta de controle social que existe é uma ideologia que torna impensável o inconformismo, a rebeldia, a insatisfação — especialmente nos grupos subalternizados. <em>(Quem tem interesse em me fazer pensar que sou mais livre do que realmente sou?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são justamente essa ideologia: cada Prisão é uma “verdade” tão gigantesca, consensual e hegemônica que elas nos cegam às suas alternativas. O primeiro pré-requisito para poder des-escolher a Monogamia é conceber que essa é uma alternativa possível, e assim por diante. Somos tão pouco livres que não dispomos nem do vocabulário para articular nossa falta de liberdade.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa frase, hoje já quase proverbial e que poderia ser a epígrafe desse Livro das Prisões, é do filósofo esloveno e enfant terrible Slavoj Žižek, e está na introdução de sua coletânea de ensaios <a href="https://amzn.to/461diBe"><em>Bem-vindo ao Deserto do Real!: Cinco Ensaios Sobre o 11 de Setembro e Datas Relacionadas</em></a>, publicada no Brasil em 2003 pela Boitempo.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/461diBe"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="805" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/bem-vindo-deserto-real-zizek.jpg?resize=500%2C805&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12946" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/bem-vindo-deserto-real-zizek.jpg?resize=500%2C805&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/bem-vindo-deserto-real-zizek.jpg?resize=768%2C1236&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/bem-vindo-deserto-real-zizek.jpg?w=932&amp;ssl=1 932w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as classes dirigentes modificam a grade curricular do ensino médio público para substituir História e Geografia, Filosofia e Sociologia, por matérias profissionalizantes, o que estão revelando é exatamente o seu projeto de país. Nas escolas particulares, afinal, as crianças de elite continuarão estudando as disciplinas que vão expandir seus horizontes e prepará-las para gerir a nação. Já as filhas das classes baixas, bem, para quê enganá-las com um potencial ilusório que não tem como se realizar, ou melhor, que não queremos que se realize? Melhor que já saiam da escola como carpinteiras e eletricistas, encanadoras e mecânicas. Afinal, as nossas BMWs não vão se consertar sozinhas. Nada pode ser mais perigoso do que pessoas pobres com aspirações mais altas que sua classe social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos presas na Prisão Liberdade quando nós, pessoas privilegiadas aqui lendo esse livro sobre Prisões, colocamos nossa própria liberdade individual como meta de vida, uma meta impraticável e inalcançável, uma tentativa insaciável de realizar todos esses desejos infindáveis que surgem dentro de nós, ao mesmo tempo em que vivemos cercadas, e tenho minhas unhas feitas e meu chão varrido, por pessoas que mal possuem a liberdade de existir, cuja mera faculdade de sonhar com uma vida melhor foi propositalmente embotada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Como quantificar liberdade?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muito tempo atrás, quando eu ensinava Cultura Brasileira em uma universidade norte-americana, parte da aula incluía explicar como funcionava nosso sistema político.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E comentei que, apesar do mito local de que “os Estados Unidos eram a nação mais livre do mundo”, a partir de um certo nível de liberdade, todas as nações livres eram igualmente livres. A Austrália é mais livre que a França? A Argentina que o Japão? Afinal, não existe “liberdade” absoluta: politicamente falando, país livre é aquele onde a liberdade das pessoas cidadãs é limitada por leis que emanam delas e de seus representantes legitimamente eleitos. Naturalmente, por causa da variação nas leis, vão haver coisas, por exemplo, que as cidadãs do Brasil podem fazer que as dos Estados Unidos não podem, e vice-versa, mas, no geral, não faz sentido, nem existiria um critério mensurável objetivo, para afirmar que um desses países é mais livre que o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A turma ficou visivelmente desconfortável pelo estrangeiro cutucando sua vaca sagrada e uma menina bufou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Então, me diz uma, <em>uma</em> coisa, que você como brasileiro pode fazer que eu, como americana, não posso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Visitar Cuba.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficou um silêncio chato.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="375" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/eua-pais-livre.jpg?resize=500%2C375&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12943" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/eua-pais-livre.jpg?resize=500%2C375&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/eua-pais-livre.jpg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/eua-pais-livre.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Definindo liberdades</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Liberdade é quando eu poderia tanto ter concebido agir diferente, como também efetivamente agido diferente, tanto em relação às minhas travas internas e psicológicas quanto externas e políticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo: uma vez, passei dois meses dirigindo pelo Cone Sul, uma viagem particularmente tensa e triste. Durante esse período, pela primeira vez na vida, mesmo depois de ter morado no exterior por uma década, senti muita, muita falta de feijão com arroz. Aquilo para mim foi incrível porque nunca gostei tanto assim de feijão com arroz, e nem acho que é uma comida melhor do que a maioria das outras. Então, por que senti tanta falta? Me lembro de pensar: será então que esse é o <em>meu</em> gosto pessoal? Será que, na minha essência mais profunda, esse é o meu Eu: uma pessoa que não consegue passar dois meses sem feijão com arroz? Ou será que simplesmente sou uma pessoa brasileira, como duzentas milhões de outras, que passou a infância inteira comendo uma mesma comida e que, portanto, foi condicionada a apegar-se a ela, ainda mais em momentos de crise? Que não é um <em>gosto pessoal</em>, vindo das profundezas desse meu ó-tão-concreto Eu, mas sim um <em>gosto cultural</em>, contingente e construído, colocado em mim pelas circunstâncias da minha biografia, condizente com os hábitos alimentares da sociedade onde cresci?*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, eu não sou livre para não sentir essa saudade de arroz e feijão, mas sou totalmente livre para, se quiser, nunca mais comer arroz e feijão na vida. Não posso escolher não sentir essa saudade, mas posso escolher não comer esse prato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Esse exemplo é desenvolvido, em outra direção, na 18ª prática do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção.</em></a>]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Narrativas que me aumentam, narrativas que me diminuem</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando algo acontece ou deixa de acontecer na minha vida, seja bom ou ruim, passar ou não em um concurso público, ser preso ou ser promovido, esse evento ou não-evento terá que ser inserido em minha autonarrativa, ou seja, na história da vida conforme contada por mim para mim mesmo. E sempre posso escolher ou me diminuir <em>(ou seja, criar narrativas onde, quanto menor e mais impotente eu sou, menos responsável sou por minhas ações) </em>ou me aumentar <em>(ou seja, criar uma narrativa onde, quanto maior e mais potente eu sou, mais responsável sou por todas as minhas ações.)</em>* Posso acreditar que fui preso porque a sociedade já era um jogo de cartas marcadas contra mim ou porque sou uma pessoa má na minha essência e não presto ou porque cometi erros que não vou cometer da próxima quando for mais experiente, ou porque tive azares completamente inesperados e imprevisíveis: cada uma dessas autonarrativas, independente de ser verdadeira ou não, me aumenta ou me diminui em diferentes graus, me atribui maior ou menor liberdade, maior ou menor responsabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*De todos os livros sobre todos os tipos de liberdade citados nessa Prisão, se eu tivesse que recomendar somente um para a pessoa curiosa que deseja saber mais, certamente seria <a href="https://amzn.to/3MsEqlL"><em>Freedom evolves</em></a> (2004) do filósofo Daniel C. Dennett. A frase que ele mais repete e que talvez seja o melhor resumo do seu livro é: “se eu me diminuir o suficiente, consigo externalizar tudo”. Ou, em outras palavras, quanto mais indefeso, impotente e sem autonomia eu me imagino na narrativa que crio para mim mesmo, mais todas as minhas ações são fonte de estímulos externos alheios a mim, logo, menos responsável eu sou.]</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://amzn.to/3MsEqlL"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="296" height="445" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/41K3HwvtSL._SY445_SX342_.jpg?resize=296%2C445&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12947"/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A questão não é nem qual dessas narrativas é mais confortável <em>(todas conhecemos pessoas para quem nada nunca é culpa delas ou tudo sempre é)</em> nem qual me faz mais feliz*, mas sim qual fortalece e possibilita meu senso de autonomia para viver uma vida mais ética e mais compassiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Esse será o tópico da próxima Prisão, a Felicidade.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se acho que nada é minha responsabilidade e tudo é culpa do sistema, do mundo, da sociedade, do azar, das estrelas, da minha genética, da educação que recebi dos meus pais, etc, então, posso ou cair numa egotrip depressiva impotente <em>(de que adianta agir se não sou responsável por nada que faço?)</em> ou, se decidir agir, a ação mais provável será tentar mudar não eu mesmo <em>(de novo, de que adianta?)</em>, mas sim essa externalidade quase onipotente que me pauta. <em>(Mas como mudar o mundo se sou uma formiguinha totalmente impotente? Se nada é minha responsabilidade, então, como vou me responsabilizar por lutar por um mundo melhor?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, se acho que tudo é minha responsabilidade, como se não sofresse influência externa alguma, como se o mundo e a sociedade não me pautassem, como se eu estivesse fadado a ser a mesma pessoa independente de minha genética ou criação, então posso ou cair numa egotrip depressiva e paralisante de autoculpabilização e autoflagelamento <em>(de que adianta agir se sou responsável por tudo o que faço e, pior, só faço besteira?)</em> ou numa egotrip maníaca de potência meritocrática, onde, se decidir agir, a ação mais provável será tentar mudar não o mundo <em>(não se mexe em time que está ganhando!)</em>, mas a mim mesmo para me tornar uma pessoa melhor que toma decisões ainda melhores. <em>(Mas de que adianta, ou o que significa, ser uma pessoa melhor em um contexto individualista e meritocrático como esse? Melhor pra quem? Melhor em quê? Em pisar nas coleguinhas? Em passar por cima das liberdades dos outros?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um certo egocentrismo em quem sinceramente acha que vai mudar o mundo. Mas existe um outro tipo de egocentrismo em quem nem mesmo tenta. Como cavar um caminho do meio? Como viver e agir de forma ética, correta e compassiva sem cair em nenhum desses dois extremos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade e responsabilidade na esquerda e na direita*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*Nessa subseção, vou fazer algumas generalizações muito a grosso modo sobre a esquerda e a direita pautadas não por leituras, mas por meu trânsito entre esses grupos nos últimos, digamos, dez anos, de 2013 a 2023. Por favor, mesmo se discordarem violentamente das minhas generalizações, leiam fazendo os devidos descontos e até o final, para ver a qual conclusão eu estava cambaleando para chegar.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">É impossível falar de liberdade sem falar de responsabilidade. Sim, Nietzsche está certo quando diz que inventaram o livre-arbítrio para que pudessem nos punir. Mas uma outra maneira de dizer a mesma coisa é dizer que inventaram o livre-arbítrio para que nós nos tornássemos responsáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, nos círculos de esquerda onde eu mais transito, o tema liberdade/responsabilidade/escolhas é muito mal visto. Mais de uma pessoa já me disse que, quando começou a ler meus textos, minha ênfase nesses assuntos lhe deu a impressão que eu era de direita. Outras pessoas, as que não vieram falar comigo, devem ter concluído que sou um direitista infiltrado e pararam de me ler. Para muitas pessoas de esquerda, falar de responsabilidade <em>é</em> ser de direita:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Só um direitista falaria em liberdade individual quando poderia estar apontando para as desigualdades sistêmicas e estruturais do capitalismo tardio!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já eu defendo que todas nós perdemos, pessoas de direita e de esquerda e de todos os pontos do espectro ideológico, quando a pauta da liberdade e da responsabilidade vira monopólio de um único grupo, que pode fazer dela o que quiser, esgarçá-la até já não significar quase nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe hoje, na direita, um certo culto se não à liberdade absoluta, pelo menos à possibilidade da liberdade mais ampla que seria razoável defender. A grosso modo, em maiores e menores graus, desde YouTubers bolsonaristas histéricos até pensadores conservadores sérios, as pessoas de direita tendem a acreditar, e a agir no mundo, como se fosse possível ou desejável um certo ideal de liberdade absoluta, definido negativamente <em>(ou seja, liberdade é ninguém interferir comigo)</em>, e que tem como consequência uma forte responsabilização sobre o indivíduo. Se ninguém estava me obrigando a nada, logo, sou livre e, se sou livre, logo, sou responsável pelos meus atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu perguntar “A quem interessa manter viva essa ideologia da liberdade irrestrita e responsabilização absoluta?”, a resposta óbvia seria “os donos do mundo”. Porque essa visão da liberdade é hoje, na prática, para o bem ou para o mal, o senso comum da nossa sociedade, o <em>status quo</em> sob o qual vivemos. A sociedade de controle e a democracia liberal, o punitivismo e a meritocracia, nada disso faria sentido fora dessa concepção de liberdade individualista e quase irrestrita. Essa ideologia é literalmente o substrato da nossa vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos meios de esquerda, porém, começa a surgir um novo <em>status quo</em>: a partir da percepção, a meu ver correta, que a maior parte dos nossos problemas são estruturais e sistêmicos, as pessoas estão começando a dar cada vez mais passos em direção a uma autodiminuição radical. Esse movimento é não apenas politicamente condizente com nossa ideologia estrutural e anti-individualista, mas também pode ser bastante individualmente confortável e auto-complacente: afinal, acreditar na minha impotência absoluta diante da enormidade sistêmica das forças do mundo me poupa da angústia da liberdade e da responsabilização. <em>(Já dizia Sartre, pensador nada liberal : “somos condenados à liberdade”.*)</em> Pois se eu não era livre para fazer diferente, então não sou responsável nem pelo que fiz, e nem, talvez mais importante, pelo que deixei de fazer, seja por inação ou insegurança, por imperícia ou complacência</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa frase famosa de Sartre está na palestra “<a href="https://amzn.to/3SmSoJE">O existencialismo é um humanismo</a>”, realizada em Paris, em 1946.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3SmSoJE"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/677885.webp?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12948" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/677885.webp?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/677885.webp?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/677885.webp?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/677885.webp?w=1000&amp;ssl=1 1000w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, uma pessoa de direta, que acredita mais na meritocracia individual do que em problemas sistêmicos, poderia apontar que a presença de um juiz negro no Supremo Tribunal Federal demonstraria não existirem impedimentos legais, políticos, práticos para pessoas negras alcançarem posições de liderança no Brasil – e talvez acrescentasse:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se merecerem, claro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já uma pessoa de esquerda poderia olhar para o mesmíssimo ministro e chegar à uma conclusão diametralmente oposta: um único juiz negro em toda a história do STF, em um país majoritariamente pardo, é a confirmação do nosso racismo estrutural. Afinal, se não houvesse, de fato, enormes impedimentos se não políticos e legais, mas certamente práticos, estruturais e sistêmicos, para uma pessoa jurista negra ascender ao Supremo, a tendência seria que a proporção de pessoas juízas negras para brancas seria mais ou menos semelhante à da sociedade como um todo. E talvez ainda desafiasse a pessoa de direita:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se as pessoas negras são 56% da população, mas somente 2% das pessoas juízas*, e a explicação não é o racismo estrutural da sociedade, qual seria a outra alternativa que você sugeriria? Está sugerindo que as pessoas negras não têm capacidade mental ou mérito profissional para serem juízas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Os dados estão na matéria &#8220;<a href="https://www.cnj.jus.br/com-apenas-17-de-juizes-e-juizas-pretos-equidade-racial-segue-distante-na-justica-brasileira/#:~:text=De%20acordo%20com%20o%20mais,maior%3A%2012%2C8%25.">Com apenas 1,7% de juízes e juízas pretos, equidade racial segue distante na Justiça brasileira</a>&#8221; publicada pela Agência de Notícias do CNJ − Conselho Nacional de Justiça.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, pessoa confessadamente de esquerda, naturalmente concordo com a segunda posição, mas não deixo de enxergar o cerne de verdade da primeira: o fato de ser muito difícil para uma pessoa negra chegar ao STF significa, <em>por definição</em>, que é <em>possível</em>, ou seja, que essa possibilidade está aberta e que os critérios para que aconteça vão depender de vários fatores, entre eles e como defendem as pessoas de direita, mérito pessoal – e também, claro, sempre, sorte.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A dimensão moral da sorte, sobre a qual falei na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Prisão Classe</a>, é a lufada de vento que derruba todo o castelo de cartas da meritocracia.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para entender a diferença entre “difícil” e “impossível”, basta pensar que, até 1879, as mulheres eram <em>proibidas</em> de cursar o ensino superior no Brasil. Então, digamos, se na década de 1890, era difícil de encontrar uma mulher estudando nas faculdades brasileiras, na década de 1860 era impossível. Do nosso acomodado e complacente ponto de vista, porém, cidadãs que somos de uma democracia liberal e politicamente estável, pode até ser fácil de desprezar essa diferença como pequena e insignificante. Mas, para quem está presa nela, para a menina brilhante legalmente impedida de estudar, ela é do tamanho do universo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre racismo, o modo como direita e esquerda enxergam esse problema, que ambas reconhecem, é bem ilustrativo de suas estratégias discursivas. Pessoas de direita reconhecem que o racismo existe, mas como um problema individual, de total responsabilidade das pessoas racistas. Nesse contexto, definem racismo de maneira bem estreita e restrita, como apenas xingar ou agredir pessoas negras. Já pessoas de esquerda vêem no racismo um problema estrutural e sistêmico que inclusive independe da existência de pessoas efetivamente racistas. Um simpósio universitário com dezenas de palestrantes e nem uma única negra seria, por definição, um evento racista – independentemente da falta de ódio racial por parte das pessoas organizadoras. Seu próprio “distraído esquecimento” <em>(“Oops, esqueci que existem acadêmicas negras!”) </em>já seria um sintoma revelador do racismo estrutural da sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso, as pessoas de esquerda têm cada vez mais dificuldade de reconhecer e articular o próprio conceito de liberdade. A publicidade serve como um bom exemplo.* Já ouvi pessoas de esquerda argumentando, apaixonadamente e de boa fé, que não seríamos livres para comer o que desejamos por culpa da publicidade maciça:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Como falei na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho/">Prisão Trabalho</a>, poucas coisas que horrorizam tanto quanto a Publicidade.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Que liberdade eu tenho para comer uma saladinha verde e um copo d’água morna se para cada lado que eu olho tem outdoor de xarope açucarado de cola ou de dois hambúrgueres com molho especial? Ok, comi dois, mas não foi culpa minha, não! Acabou o livre-arbítrio!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o meu entendimento é radicalmente oposto: a publicidade, apesar de detestável, é uma boa notícia. A tentativa de influenciar nossa liberdade é literalmente a prova que ela existe. O palhaço escocês não veio até a minha casa, arrombou a porta e me enfiou goela abaixo resíduos de frango prensados e fritos: quem foi até a loja, ou pediu no aplicativo, fui eu — aliás, muito mais vezes do que seria razoável. Naturalmente, as maiores corporações do mundo gastam rios de dinheiro em publicidade não só porque somos livres para consumir ou não seus produtos, mas também porque <em>publicidade funciona</em>. Então, sim, por óbvio que a publicidade nos manipula a querer consumir aqueles produtos, mas, de novo, ela só se dá ao trabalho de fazer isso porque somos livres para não os consumir. Ninguém anuncia comida de bandejão numa penitenciária: as pessoas presidiárias comem o que está sendo servido, e pronto. Sem liberdade, não existe publicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por óbvio que não existe essa tal liberdade ampla e quase absoluta que as pessoas de direita ou acreditam ou, pelo menos, gostariam que existisse. Já sabemos o mundo que seria criado pela disseminação dessa ideologia: literalmente, o nosso mundo, a sociedade de controle, punitivista e meritocrática, onde vivemos. Por óbvio, igualmente, que também não somos tão pequenos e impotentes quanto muitas pessoas de esquerda parecem acreditar. Não sei que tipo de mundo seria criado pela disseminação dessa ideologia e, sinceramente, espero nunca saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do meu ponto de vista de pessoa de esquerda, a liberdade e a responsabilidade são pautas importantes demais para serem dadas de mão beijada para a direita. Qualquer tentativa de vivermos de maneira mais ética e mais compassiva começa necessariamente com uma reflexão sobre nossa autonomia para realizar esse projeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conceito de liberdade talvez seja também parecido com o conceito de raça em um último aspecto fundamental: ambos não existem em <em>teoria</em>, mas pode ser bom agirmos como se existissem na <em>prática</em>. Enquanto categoria objetiva, científica, mensurável, raça certamente não existe; o livre-arbítrio ainda está em debate. Mas, porque nós agimos como se existissem, então efetivamente, para todos os fins e efeitos práticos, eles existem. Políticas públicas baseadas em raça, como cotas raciais em universidades, por exemplo, podem ter um impacto positivo na sociedade, mesmo raça não existindo, mesmo baseadas em uma completa ficção, justamente porque buscam ajudar as pessoas cujas vidas são prejudicadas por serem vítimas dessa ficção. Da mesma maneira, ainda que o livre-arbítrio não exista, pode valer a pena vivermos como se existisse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o mundo é enorme e vasto, muito maior, mais poderoso, mais insondável do que podemos conceber, existe sim um pequeno cercadinho dentro do qual podemos ser livres, um cercadinho mental e político onde podemos pensar e agir livremente: um cercadinho bem menor do que diz o senso comum da direita, mas também, felizmente, muito maior do que diz o senso comum da esquerda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para vivermos vidas éticas e ativas, nosso desafio é determinar o tamanho do cercadinho onde podemos efetivamente ser donas de nossos pensamentos e de nossas ações, ou seja, da nossa liberdade. Nem egocêntricas ao ponto de achar que podemos mudar o mundo. Nem egocêntricas ao ponto de nem tentar.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="667" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?resize=500%2C667&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12796" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?resize=500%2C667&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>* * *</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sou livre para ter opiniões?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">De quem são as minhas opiniões? Quantas opiniões eu tenho só porque são as opiniões do meu grupo? A direita afirma que a Reforma da Previdência é necessária e a esquerda, que o rombo da Previdência é uma mentira — simplificando grosseiramente. Eu não sei nada sobre o assunto e não tenho tempo para me informar adequadamente. Então, como me auto-identifico como uma pessoa de esquerda, adoto a postura majoritária do meu grupo: sou contra. Mas sou realmente contra? Sei realmente do que estou falando? É intelectualmente sustentável ter uma posição em um debate tão importante somente por tribalismo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que tenhamos ilusões de individualismo, tudo em nós, até nossas opiniões mais pessoais, são na verdade coletivas. Nosso pensar é gregário. Temos <em>como</em> pensar fora do nosso grupo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Usando uma questão polêmica e divisiva como exemplo: se todas as pessoas que conheço são a favor do aborto, eu terei como até mesmo conceber a posição contrária? Tenho a liberdade de pensamento de ousar conceber uma opinião que, se verbalizada, me custaria simplesmente todo o meu círculo social? Tenho a liberdade de ação de, caso sim, efetivamente dobrar a aposta e articular essa heresia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas dúvidas que tenho, tentando ao máximo expor cada lado da questão parafraseando os argumentos de suas defensoras:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma mulher trans é “uma mulher que merece a proteção do feminismo”, como dizem as transativistas ou é “um homem colonizando o movimento”, como dizem as feministas radicais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A prostituição deve ser legalizada, para maior proteção das trabalhadoras sexuais, ou abolida, para maior proteção das trabalhadoras sexuais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O discurso de ódio deve ser tolerado e protegido, como parte de nosso compromisso com a liberdade de expressão, ou coibido e proibido, como parte de nosso compromisso com a liberdade de expressão? Nessa linha, como definir “discurso de ódio”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Liberdade de expressão” deve ser definida negativamente <em>(“liberdade de expressão é o Estado não se envolver”) </em>ou positivamente<em> (“o Estado se envolver para amplificar as vozes mais fracas”)</em>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em que momento começa a vida? Tem como saber? Ou qualquer ponto escolhido será sempre necessariamente arbitrário? Se a vida começa em algum ponto antes do nascimento, até que ponto o aborto pode ser considerado assassinato, ou talvez um tipo diferente de assassinato? Se o aborto é assassinato, ou algum tipo de assassinato, ele deve ser proibido em todas as circunstâncias, porque a vida é sagrada, ou deve ser qualificado, pesando a sacralidade da vida com questões de saúde pública e autonomia do corpo feminino?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos de ação política, não temos como mudarmos o mundo sem escolhermos um lado em cada uma dessas questões e lutarmos por ele. Mas, de certo modo, ao fazermos isso, simplificamos a conversa e deixamos de ver as enormes complexidades de cada uma delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eticamente, intelectualmente, conceitualmente, essas são algumas das questões filosóficas mais interessantes do nosso tempo. Nenhuma dessas questões é simples, banal, preto-no-branco. Todas as pessoas, de ambos os lados de cada questão, têm argumentos intensos e sinceros, racionais e importantes, que merecem ser ouvidos e respeitados e contraargumentados em seus próprios termos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tenho uma opinião formada sobre cada uma delas, muito bem. É meu direito e, de certo modo, meu dever. Mas se acho que “é simples”, então provavelmente é porque não pensei, li, me informei sobre o assunto a fundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelos últimos anos, não tenho pensado com tanta liberdade intelectual quanto poderia estar pensando, quanto já pensei em outras épocas, porque estava ou muito preocupado com a luta política, seus resultados concretos e suas consequências práticas, ou muito receoso de talvez chegar a alguma conclusão que ferisse a ortodoxia política do meu lado. Ou seja, minha ação política empobreceu minha ação intelectual. Terminando aqui O Livro das Prisões, que estou escrevendo há 22 anos, meu objetivo é começar a reverter esse processo, começando por escrever mais ficção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, uma amiga comentou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, esse seu texto não tá meio isentão demais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— O texto é justamente sobre o momento político atual, onde é possível surgir essa palavra com conotação negativa para descrever pessoas que não correm para se posicionar sobre todas as questões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Inato ou adquirido</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem nos influencia mais? Nossos genes? Ou a maneira como fomos criadas? Se duas pessoas gêmeas idênticas <em>(ou seja, mesma genética)</em> forem criadas em ambientes radicalmente diferentes&#8230; de que maneira elas se tornarão adultas iguais <em>(por influência da genética idêntica)</em> ou adultas diferentes <em>(por influência da criação distinta)</em>?*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Uma das grandes discussões do pensamento mundial, que sempre reaparece em todos os campos de saber sob os mais diversos nomes, é aquela que, em inglês, leva o perfeito nome de <em>nature versus nurture</em>. Em português, infelizmente, não temos ainda uma expressão consagrada. Talvez “natureza versus criação”, talvez “genética versus meio ambiente”. Até segunda ordem, vou aceitar a solução da Wikipédia e usar “<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Inato_ou_adquirido">inato ou adquirido</a>”.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por óbvio, nossa genética e nosso meio ambiente nos limitam de diversas maneiras. Podemos escolher olhar para todo o impacto dessas limitações sobre mim e nos diminuirmos cada vez mais&#8230; até de fato concluirmos que não somos nem jamais poderíamos ser livres. Afinal, sou um homem corpulento que nasceu no Brasil: não sou livre para ser ginasta olímpico nem para me tornar falante nativo de chinês. <em>(Se eu me encolher o suficiente, consigo externalizar tudo.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o mesmo biotipo pesado que me dificulta ser ginasta olímpico me facilita a performance em diversos outros esportes, como futebol americano ou várias lutas, ou mesmo é indiferente, como no arco e flecha. Não tenho a leveza para dançar balé clássico, mas tenho a precisão pra bailar tango bem decentemente. Quanto ao meio ambiente, se eu nunca “terei a liberdade” de ser falante nativo de chinês, eu posso sim decidir começar a aprender hoje e, se eu me dedicar, ser tão fluente quanto qualquer chinês, apesar de algum sotaque.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Prisão Patriotismo</a>, falo um pouco sobre as muitas vantagens de ser brasileiro.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A quem interessa esvaziar o conceito de “liberdade”?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se você diz que não é livre, ou que liberdade não existe, porque suas escolhas são restritas, ou porque todas as suas opções são ruins, eu responderia duas coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em primeiro lugar, bem vinda ao clube. Aqui, no mundo real das pessoas de carne e osso, nunca existiu escolha entre uma infinidade de alternativas perfeitas e maravilhosas. Toda escolha é sempre entre um número limitado de opções e, sim, infelizmente, muitas vezes todas são horríveis. Podemos escolher livremente entre dois ou mais empregos, mas não podemos escolher entre arrumar emprego ou nascer herdeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em segundo, o fato de suas escolhas serem restritas, ou todas suas opções, ruins não significa que “liberdade” não exista, porque ninguém nunca definiu o conceito de liberdade dessa maneira tão ampla, nem os mais alucinados libertários. Ou seja, essa liberdade que você diz que não existe não existe mesmo: ela nunca foi postulada por ninguém. Se liberdade fosse isso, então ela de fato não existiria. Mas, quando falamos em liberdade, estamos falando de outra coisa.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa é uma variação da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Fal%C3%A1cia_do_escoc%C3%AAs_de_verdade">Falácia do Escocês de Verdade</a>. Alguém diz que “todo escocês é perdulário”, outra pessoa retruca: “olha, o Scrooge McDuck é escocês e não é!” e o primeiro sentencia: “ah, mas ele não conta porque ele não é escocês de verdade: ele é um pato!”]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque se eu afirmo que não sou livre por causa das minhas muitas limitações físicas, mentais, políticas <em>(e vamos lembrar que todas nós temos diversas limitações físicas, mentais, políticas)</em>, então o que estou também afirmando é que a liberdade, a <em>verdadeira</em> liberdade, só existe, só pode existir, na ausência de limitações físicas, políticas, mentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, como todo ser vivo que já existiu, existe ou existirá só existe no espaço restrito possibilitado por suas muitas limitações físicas, mentais, políticas, o que estou dizendo não é nem que liberdade não existe, mas, pior, que jamais poderia existir nesse nosso mundo material limitado pelo tempo e pelo espaço. A liberdade, portanto, só pode existir para um Deus onipotente, onipresente, onisciente que fosse livre de toda e qualquer limitação biológica, temporal, existencial — e, por óbvio, só para quem acredita nele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pra quê serve esse conceito de liberdade, então? Só pra confundir? De que nos adianta um conceito de liberdade definido de forma tão restrita que só é aplicável em discussões teológicas? Qual é a <em>utilidade prática</em> que essa <em>impossibilidade teórica</em> tem na nossa vida real de pessoas humanas tentando decidir como viver de forma correta, compassiva, ética? Quando definimos uma palavra de forma tão restrita que ela deixa de ter qualquer utilidade ou aplicabilidade, quem ganha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho engraçado quando pessoas dizem, em tom depreciativo, “ah, essa palavra é inventada!”. Pois claro que é. Palavras não dão em árvore, não são fruto da natureza. Todo conceito foi inventado por alguma pessoa e só permaneceu sendo usado por outras porque se mostrou útil, seja como ferramenta descritiva, filosófica, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo. As pessoas vêm agindo de forma racista há meio milênio, talvez desde sempre, mas a palavra “racismo” é uma invenção do século XX — criada não pelas pessoas racistas, que estavam muito bem fazendo o que sempre fizeram sem sentir a menor necessidade de nomeá-lo, mas sim pelas pessoas que queriam poder descrever em uma única palavra algo que viam como um problema a ser combatido e solucionado. Nesse sentido, definir racismo de forma tão restrita que já mais quase nada é racista <em>(como fazem muitas pessoas de direita, para quem ser racista se restringe a xingar ou agredir pessoas negras) </em>é uma maneira de efetivamente bloquear a luta antirracista. Se nada ou quase nada é racista, então <em>“pra quê tanto alarde? Pra quê cotas raciais? Tudo tempestade em copo d’água para resolver um problema que já está resolvido&#8230;”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Entendo porque muitas pessoas de esquerda estão trabalhando, nem que apenas inconscientemente, para esvaziar o conceito de liberdade. Para elas, liberdade é uma ilusão utilizada pelas pessoas mais conformistas e conservadoras para justificar a pobreza, a desigualdade, a meritocracia: <em>“Olhaí, as universidades públicas estão abertas pra todos, não entrou quem não quis, quem não estudou!”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que estou sugerindo é que a liberdade não precisa ser instrumentalizada só para isso. O conceito de liberdade é uma ideia que podemos tomar, ou retomar, para nos possibilitar levar vidas mais éticas, mais deliberadas, mais corretas. Assim como raça não existe biologicamente, mas essa ficção conceitual nos permite descrever e combater os efeitos políticos nocivos que essa ilusão têm no mundo, a liberdade também pode ser vista como uma ilusão positiva, uma ilusão benéfica, uma ilusão verídica.* Se raça não existe, o racismo sim existe e, graças a ele, a luta antirracista também. Então, mesmo se eu achar que o meu livre-arbítrio é uma ilusão, minha ação correta e ética, no mundo real, não é.**</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3SuJMAH"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="753" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/illusion-conscious-will-wegner.jpg?resize=500%2C753&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12949" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/illusion-conscious-will-wegner.jpg?resize=500%2C753&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/illusion-conscious-will-wegner.jpg?resize=768%2C1157&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/illusion-conscious-will-wegner.jpg?w=996&amp;ssl=1 996w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa é uma das conclusões do livro <a href="https://amzn.to/3SuJMAH"><em>The illusion of conscious will</em></a><em>,</em> publicado em 2002 e escrito pelo psicólogo Daniel Wegner, que não acredita que o livre-arbítrio exista mas considera que pode ser útil como “uma ilusão benéfica”.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">[**Como expliquei com mais detalhes na penúltima prática de <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção</em>.</a> “Escolher agir com cuidado”, se eu ajudar a velhinha a atravessar a rua “ironicamente”, “zoando dela na minha cabeça”, etc, no final das contas, o resultado da minha ação é que uma pessoa que precisava de ajuda foi ajudada.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem é esse Eu que pretende ser livre?*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;[*A 18ª prática do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção</em>.</a>, “Desapegar do Eu”, é um longo desenvolvimento desse assunto. Aqui, vou tratar somente do ângulo da liberdade.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">As primeiras menções à palavra “Psicologia” vêm do século XV: enquanto a Anatomia estudava o corpo, a Psicologia estudaria a alma <em>(“psique” em grego).</em> Ou seja, a Psicologia surge como “Psicologia Cristã”, inseparável da dicotomia “corpo-alma” que caracteriza o pensamento cristão, voltada a estudar tudo o que acontece nesse espaço por definição etéreo e não-observável, escondido e misterioso, sublime e respeitável. Séculos depois, com o Iluminismo, o conceito de “alma” começa a perder sua força explicativa nos círculos intelectuais humanistas. Entretanto, apesar de nossa ânsia em fugir do cristianismo, ainda não tínhamos inventado ferramentas conceituais que nos permitissem superar os limites impostos pela dicotomia cristã “corpo-alma”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, apenas trocou-se “alma” por “mente”. O pobre “corpo”, tão concreto e tão observável, tão cheio de entranhas e tão pulsante de artérias, tão bestial e tão limitado, foi novamente posto em oposição a algo etéreo e não-observável, escondido e misterioso, sublime e respeitável: não mais “alma”, claro que não, somos <em>philosophes</em>, acha que acreditamos nessas crendices cristãs?!, mas, <em>voilá</em>, a “mente”!</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3Qt3eLN"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="724" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/historia-da-mente-humphrey.jpg?resize=500%2C724&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12950" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/historia-da-mente-humphrey.jpg?resize=500%2C724&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/historia-da-mente-humphrey.jpg?resize=768%2C1112&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/historia-da-mente-humphrey.jpg?w=1036&amp;ssl=1 1036w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O problema é que “mente”, apesar de ser um conceito que poderia ser debatido a sério por sofisticados intelectuais humanistas e agnósticos, sem a necessidade de passar por superstições cristãs simplistas, era, na prática, somente a “alma” com uma nova roupagem. Afinal, onde está a mente? Quanto pesa? Como funciona? Não só não sabemos como não temos como saber: a “mente” compartilha do mesmo mistério incognoscível da “alma”.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Uma das primeiras pessoas a rejeitar o conceito de “mente” da maneira como descrevi foi o filósofo britânico Gilbert Ryle, em <a href="https://amzn.to/47bd5g8"><em>The concept of mind</em></a>, de 1949. Mais tarde, em <a href="https://amzn.to/3Qt3eLN"><em>Uma história da mente: a evolução e a gênese da consciência</em></a>, de 1992, o psicólogo britânico Nicolas Humphrey dá prosseguimento ao argumento, defendendo a “função social no intelecto” e considerando que nossas capacidades cognitivas são adaptações evolutivas à nossa vida social, sendo assim um dos fundadores da “psicologia evolutiva”.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Freud, em sua criação da Psicanálise, leva esse processo ao seu limite lógico e expõe todas as suas contradições. Apesar de ter começado sua prática médica tratando de pessoas doentes que apresentavam sintomas físicos reais, ele logo se autoconverte em verdadeiro cartógrafo de uma geografia invisível da mente, mapeando a mente humana como os portugueses mapearam a costa do Brasil. A diferença, naturalmente, é que a costa do Brasil existe.*</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://amzn.to/47bd5g8"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="375" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/concept-mind-riley.jpg?resize=375%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12951"/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">[Em <a href="https://amzn.to/3FHKraC"><em>Por que Freud errou: pecado, ciência e psicanálise</em></a>, de 1995, especialmente capítulos 22 e 23, Richard Webster desenvolve o argumento que parafraseei nesse texto. É um dos livros mais impactantes que já li na vida, e recomendo para todas as pessoas que ou amam ou odeiam Freud. O livrinho <a href="https://amzn.to/40s1jLO"><em>Freud</em></a>, publicado pela UNESP em 2006, como parte da coleção “Grandes filósofos”, oferece um bom resumo e é mais fácil de encontrar. Vou dar só um exemplo de o quanto esse livrinho foi importante pra mim. Tenho um Kindle desde 2009 e, como dá pra ver por esse livro, eu não leio pouco. Pois esse livrinho de Webster foi a primeira e única vez em que o Kindle me impediu de continuar sublinhando: eu literalmente cheguei no limite de quantos por cento do livro eu podia sublinhar sem ferir os direitos do autor. Eu nem sabia que esse limite existia e nunca mais esbarrei com ele novamente.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abaixo, alguns dos conceitos teorizados ou cooptados por Freud para descrever fenômenos por definição não-observáveis, não-comprováveis, não-falsificáveis: Ego, Id, SuperEgo, catexia, decatexia, anticatexia, escolha objetal, modelo anaclítico, deslocamento, resíduo mnêmico, condensação, imago, princípio da constância, teoria da relação de objetos, etc etc. Esses conceitos não estariam em uso até hoje se não fossem úteis para pensar o comportamento humano. Muitos deles, entretanto, são apenas novas articulações, com roupagem científica, de velhos conceitos consagrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, falar que “os três mestres tirânicos do Ego são o mundo externo, o Super-Ego e o Id” é pouco mais do que dizer que a consciência do homem é governada por seu ambiente externo, por sua consciência e por seus instintos inatos. O Complexo de Édipo, por seu lado, é uma versão laica do Pecado Original: não interessa o quão virtuoso seja nosso comportamento, não há como fugir ou como superar o mal que trazemos dentro de nós, etc.*</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/40s1jLO"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="831" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/freud-webster.jpg?resize=500%2C831&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12953" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/freud-webster.jpg?resize=500%2C831&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/freud-webster.jpg?resize=768%2C1277&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/freud-webster.jpg?w=902&amp;ssl=1 902w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;[*A observação sobre “os três mestres tirânicos do Ego” é de Allen Esterson, citado em Webster, <a href="https://amzn.to/3FHKraC"><em>Por que Freud errou</em></a>, capítulo 13.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Freud começou sua carreira tratando pacientes com sintomas físicos, mas logo concentrou-se apenas em fenômenos psíquicos internos, tornando-se incrivelmente refratário a fatos externos observáveis. Para ele, o comportamento externo das pessoas, suas ações e suas palavras, são sempre fundamentalmente suspeitos, como se servissem apenas para ocultar ao mundo as profundas realidades psíquicas dos fenômenos mentais – que ele, como terapeuta, teria a função de desvelar, descobrir, desencavar. Em seus estudos de caso, Freud frequentemente toma como axioma que as pacientes querem dizer o oposto do que falam — com base em quê? — e articula hipóteses exploratórias que, na página seguinte, já se transformam em conclusões comprovadas sem nenhuma etapa intermediária. Tudo aquilo que Freud efetivamente vê e escuta não lhe desperta confiança e nem interesse: seu objeto de estudo é justamente a “realidade interna não-física”, aquele quarto secreto e não-observável onde ele pode especular à vontade sem jamais correr o risco de que provem que está errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ler um psicólogo brilhante como Freud escrevendo, especulando, viajando sobre a “mente” é como ler teólogos brilhantes, como <a href="https://amzn.to/463fsR3">Agostinho de Hipona</a> e <a href="https://amzn.to/464Jhkj">Bernardo de Claraval</a>, <a href="https://amzn.to/40pyIHe">João da Cruz</a> e <a href="https://amzn.to/49sKaWL">Mestre Eckhart</a>, escrevendo, especulando, viajando sobre a “alma”. Eles dizem “a alma sente”, “a alma vai”, “a alma procura”, e ficamos nos perguntando: como sabem?, o que viram?, de onde vem tanta certeza? Naturalmente, se Freud diria que não inventou nada e se baseou apenas sua própria mente, seu consultório e suas pacientes, os teólogos acima também diriam que não inventaram nada e se basearam apenas em suas próprias almas, suas igrejas e suas congregações. Na verdade, o maior choque é perceber que estão falando rigorosamente do mesmo objeto e utilizando a mesma metodologia. A única diferença é o projeto freudiano de apresentar esse conteúdo, religioso em sua essência, com uma nova roupagem científica mais palatável ao público do século XX.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/40pyIHe"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/06/noite-escura-vozes.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7316" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/06/noite-escura-vozes.jpg?w=500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/06/noite-escura-vozes.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/06/noite-escura-vozes.jpg?resize=59%2C59&amp;ssl=1 59w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Nada disso quer dizer que esse conteúdo deva ser jogado no lixo. Não acredito nem em Deus e nem em psicanálise, nem em alma e nem em Super-Ego, mas os cinco autores citados tiveram enorme impacto em minha vida, me informaram e me consolaram, me instigaram e me inspiraram. Mas o valor desses textos está justamente em sua tentativa mística de tocar o Mistério, não em seu rigor científico.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*<a href="https://alexcastro.com.br/misticismo/"><em>Noite escura</em></a>, de João da Cruz, e <a href="https://alexcastro.com.br/agostinho/"><em>As confissões</em></a><em>,</em> de Agostinho foram diretamente responsáveis pelo caminho religioso que estou trilhando até hoje, e do qual esse livro que você está lendo faz parte. Agostinho, pra mim, é como se fosse um irmão mais velho: autoritário e brilhante, carola e compassivo, moralista e articulado, turrão e companheiro.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, a Psicologia, como campo do saber, é muito maior do que a Psicanálise, como método terapêutico e técnica hermenêutica. Depois que Freud expôs ao mundo as contradições inerentes no seio de uma pretensa ciência humana que, na prática, se dedicava a estudar a “alma”, mas somente com um novo nome, logo surgiu a reação, como sempre violenta e radicalmente oposta: o Behaviorismo. Em um primeiro momento, um Behaviorismo mais radical acabou se constituindo em pólo oposto à Psicanálise: enquanto a segunda era completamente refratária ao comportamento externo, como se atos fossem irrelevantes em comparação à enormidade de fenômenos psíquicos, a primeira considerava <em>apenas</em> o comportamento externo, como se fôssemos seres sem vida interior e sem consciência. Hoje, quase um século depois, ambos os extremos, tanto o Behaviorismo quanto a Psicanálise <em>stricto sensu</em>, em suas formas mais puras e originais, já foram largamente desacreditados e sobrevivem apenas em versões mais <em>light</em> e mais ecumênicas, ao lado de outras escolas, métodos e tendências que foram surgindo ao longo do século XX.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><a href="https://alexcastro.com.br/agostinho/"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="422" height="650" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/06/confissoes-agostinho.jpg?resize=422%2C650&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7319"/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto a Teologia, desde sempre, quanto a Psicologia, em grande parte, associariam o comportamento externo dos seres humanos a uma “realidade interna não-física”, que chamariam de “alma” ou “mente”. Mas não existe esse quarto fechado misterioso para o qual precisamos encontrar uma chave, seja física, para abri-lo, ou metafórica, para interpretá-lo. Nosso comportamento externo não é uma pista que nos permite acesso àquilo de realmente importante e essencial que está acontecendo dentro de nós. Pelo contrário, nosso comportamento externo é quem realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto acreditávamos que existia essa tal “realidade interna não-física” que podia ser estudada <em>(ou, pelo menos, sobre a qual se poderia especular, seja chamando-a de “alma” ou de “mente”),</em> ela era o objeto de estudo da Psicologia. Mas, se não existe, se o objeto da Psicologia passou a ser o comportamento humano como um todo, então, qual é a diferença entre ela e tantas outras ciências que, fundamentalmente, fazem o mesmo, da Sociologia à História, da Economia à Antropologia? Ainda faz sentido falar em Psicologia?*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Não quero dar a impressão que sou contra a existência da Psicologia como campo do saber, mas certamente acho que, para continuar sendo útil, suas premissas precisam ser repensadas. O último capítulo de <a href="https://amzn.to/47bd5g8"><em>The concept of mind</em></a>, do Ryle é dedicado a essa discussão e convido as pessoas interessadas a lerem.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3FHKraC"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/porque-freud-errou-500x500.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12952" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/porque-freud-errou.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/porque-freud-errou.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/porque-freud-errou.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/porque-freud-errou.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Se a dicotomia “mente-corpo” não nos serve mais <em>(porque já percebemos que não existe “mente”),</em> uma solução possível seria simplesmente substituir “mente” por “cérebro”. Afinal, o cérebro existe, não? O cérebro tem peso, tem massa, dá pra pegar, dá pra cheirar. Mas, na verdade, não. Se a dicotomia “mente-corpo” é teológica, a “cérebro-corpo” é <em>non-sense</em>. Porque cérebro <em>é</em> corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um cérebro, por si só, fora de um corpo, em um pote de formol, é apenas isso: um troço esponjoso que tem peso e que tem massa, que dá pra pegar e que dá pra cheirar, mas que não possui nem consciência e nem pensamentos, nem cognição e nem emoções. Para isso, o cérebro precisa estar dentro de um corpo, dentro do corpo humano que evoluiu junto com ele, moldando e sendo moldado, repleto de terminações nervosas e reações neuroquímicas. Por isso, nossa alma e nossa mente, nossa consciência e nossa cognição, não acontecem em nosso cérebro, mas em nosso corpo inteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos seres inteligentes porque temos corpos inteligentes. Somos seres conscientes não porque temos “alma” ou “mente”, mas porque nossa consciência é uma das características selecionadas pela evolução de nossos corpos inteligentes. Só existe corpo.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Esse parágrafo é uma paráfrase do capítulo 23 de <a href="https://amzn.to/3FHKraC"><em>Por que Freud errou</em></a>, de Webster.]</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>* * *</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Livre-arbítrio existe?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem lê jornal já deve ter lido por aí que a “ciência provou que não temos livre-arbítrio”. Você leu isso por dois motivos. Em primeiro lugar, sim, alguns experimentos de fato apontaram nessa direção; vou descrever o principal deles mais abaixo. Em segundo, como o senso comum da nossa sociedade conservadora e direitista ainda é esse livre arbítrio quase irrestrito que justifica o punitivismo e a meritocracia, a ciência provar ou indicar que ele talvez não exista é literalmente notícia <em>(já dizia o velho repórter: “cachorro morde homem” não é notícia, “homem morde cachorro” sim)</em>, uma notícia importante que uma esquerda cada vez mais interessada em desmontar as narrativas da direita fez questão de amplificar. Mas, feliz ou infelizmente, as notícias sobre a morte do livre-arbítrio foram muito exageradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dos vários experimentos que parecem indicar a não-existência do livre-arbítrio talvez o mais famoso seja o conduzido pelo neurocientista Benjamin Libet em 1983.* Resumindo brutalmente, os participantes, com eletrodos na cabeça e sentados diante de um relógio de precisão, receberam as seguintes instruções: mover o pulso em algum momento aleatório e registrar o instante exato em que tinham tomado a decisão de fazer esse movimento. Libet descobriu que os cérebros das participantes já estavam se preparando para fazer o movimento cerca de meio segundo antes do instante em que <em>disseram</em> ter decidido fazer o movimento. <em>(A ênfase em “disseram” é minha.)</em> Escreveu Libet: “O início da ação voluntária parece começar no cérebro de forma inconsciente muito antes da pessoa conscientemente decidir que ela quer agir!”<em> (Já a exclamação é dele.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">[*O experimento é explicado em detalhes em todos os livros contemporâneos sobre livre-arbítrio, seja como prova cabal da não-existência desse unicórnio, seja para demonstrar que na verdade as coisas não são bem assim. Estou seguindo aqui o oitavo capítulo, “Are you out of the loop?” de <a href="https://amzn.to/3MsEqlL"><em>Freedom evolves</em></a>, do Dennett. A citação de Libet está nesse capítulo. No time contra, vale a pena ver também o segundo capítulo de <a href="https://amzn.to/46W5WQS"><em>Livre-arbítrio</em></a>, de Mark Balaguer. Já no time a favor, o primeiro capítulo,“The unconscious origin of the will”, de <a href="https://amzn.to/3QtlLrf"><em>Free will</em></a>, de Sam Harris, dá apenas uma versão muito resumida do experimento, talvez por presumir que ele já é decisivo e convincente por si só.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/46W5WQS"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="695" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/livre-arbitrio-balaguer.jpg?resize=500%2C695&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12954" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/livre-arbitrio-balaguer.jpg?resize=500%2C695&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/livre-arbitrio-balaguer.jpg?resize=768%2C1068&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/livre-arbitrio-balaguer.jpg?w=1079&amp;ssl=1 1079w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O experimento, portanto, parece indicar que um movimento físico começa a acontecer <em>antes</em> da mente tomar a decisão de se mover. Ou seja, não foi a pessoa conscientemente que decidiu fazer o movimento: o braço começou o processo de se mover e a consciência — como tantos dos melhores políticos, liderando a partir da retaguarda e correndo na frente para se fazer de líder de algo que já estava acontecendo sem ele — “decidiu” mover o braço que já estava em processo de se mover. Para alguns autores, o experimento demonstraria a existência de um apavorante “vazio moral” de meio segundo entre uma ação ser iniciada e a mente tomar consciência dela. Com base nesse experimento, e em outros similares, alguns autores, estudiosos e pensadores correram para decretar a morte do livre-arbítrio.* O tema, por ser espetacular e gerar cliques, ganhou destaque especialmente nas manchetes de jornal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Talvez o mais famoso seja <a href="https://amzn.to/3QtlLrf"><em>Free will</em></a><em>,</em> de Sam Harris, publicado em 2012, que nega radicalmente a possibilidade de existência do livre-arbítrio e que eu fiz o sacrifício de ler do começo ao fim. Considerando que Harris tem uma persona pública detestável, comprando brigas a torto e a direito, se comportando sempre de forma arrogante e debochada, talvez sua defesa seja singelamente que não tem escolha a não ser se comportar como um babaca. Na verdade, Harris é tão, mas tão babaca — perdoem o ranço — que ele consegue ser radicalmente contra o livre-arbítrio e ainda assim continuar agarrado a uma das piores e mais perversas excrescências humanas, o punitivismo, que só existe por causa desse livre-arbítrio. Para Harris, não é porque livre-arbítrio não existe que deveríamos parar de encarcerar pessoas — quando, na verdade, esse seria um dos poucos pontos positivos de uma sociedade que realmente se organizasse como se livre-arbítrio não existisse: <em>“Viewing human beings as natural phenomena need not damage our system of criminal justice. </em><em>If we could incarcerate earthquakes and hurricanes for their crimes, we would build prisons for them as well. We fight emerging epidemics—and even the occasional wild animal—without attributing free will to them. Clearly, we can respond intelligently to the threat posed by dangerous people without lying to ourselves about the ultimate origins of human behavior. We will still need a criminal justice system that attempts to accurately assess guilt and innocence along with the future risks that the guilty pose to society.”</em>]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3QtlLrf"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="706" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/free-will-harris.jpg?resize=500%2C706&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12955" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/free-will-harris.jpg?resize=500%2C706&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/free-will-harris.jpg?resize=768%2C1084&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/free-will-harris.jpg?w=1063&amp;ssl=1 1063w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Outros estudiosos e pesquisadores, porém, discordam. O filósofo Mark Balaguer, autor de diversos estudos sobre livre-arbítrio, afirma ser um exagero completamente não justificado utilizar experimentos como os de Libet para defender que não temos livre-arbítrio: quando muito, eles somente indicam que nosso livre-arbítrio talvez seja mais limitado do que gostaríamos que fosse. Se algumas de nossas decisões talvez sejam pré-determinadas por fatores biológicos ou subconscientes, muitas outras não são: nesse cercadinho está o nosso livre-arbítrio. Afinal, nenhum defensor do livre-arbítrio, nem os mais ferrenhos ou radicais, consideram que dispomos de liberdade total e irrestrita: os experimentos, na melhor das hipótese, apenas delimitam o tamanho do cercadinho, mas passam longe de provar que ele não existe.* Mas Balaguer basicamente concorda com os resultados do experimento de Libet, somente os interpreta de maneira a não negar a existência do livre-arbítrio: é mais uma operação retórica que científica. Aliás, o próprio Libet não considerava que seu experimento demonstrasse a não existência do livre-arbítrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*O argumento de Balaguer contra as conclusões de Libet está no sétimo capítulo, “Can we block the scientific argument against free will?”, de <a href="https://amzn.to/46W5WQS"><em>Livre-arbítrio</em></a>, publicado em 2014 na série <a href="https://amzn.to/47j3UtS">The MIT Press Essential Knowledge series</a>. É um resumão muito básico, acessível e disponível em português sobre as pesquisas recentes em livre-arbítrio.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filósofo Daniel Dennett, por outro lado, discorda radicalmente do experimento de Libet: das premissas, da execução e, principalmente, da conclusão que não teríamos livre-arbítrio. Eu não teria como reproduzir aqui a linha de raciocínio de Dennett – que começa, naturalmente, fazendo uma descrição do experimento de Libet muito mais detalhada do que caberia nesse livro aqui já enorme, para em seguida desmontá-lo ponto a ponto até não sobrar absolutamente nada. Para os fins da minha argumentação na Prisão Liberdade, basta dizer que eu, leitor de Dennett, fechei seu livro <a href="https://amzn.to/3MsEqlL"><em>Freedom evolves</em></a>, plenamente convencido de que o livre-arbítrio existe e passa bem, obrigado — mesmo que eu não seja igualmente capaz de convencer você, pessoa leitora do Alex Castro, a fechar <em>O livro das Prisões</em> igualmente convencida. Então, pela única vez nesse livro, vou passar o ônus da explicação adiante: quem estiver especialmente interessada em livre-arbítrio, por favor, leia o oitavo capítulo de <a href="https://amzn.to/3MsEqlL"><em>Freedom evolves</em></a>. Daqui em diante, continuarei a Prisão Liberdade considerando que a existência do nosso livre-arbítrio já foi demonstrada. Antes de encerrarmos essa subseção, porém, quero fazer um comentário pessoal e uma última paráfrase do Dennett.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muitos anos, nas décadas de 1990 e 2000, eu e minha amiga querida Isabel Löfgren, que fez a capa desse livro e de quase todos os meus livros, trabalhamos com usabilidade de websites no Brasil. Usabilidade é basicamente um método para tornar interfaces mais fáceis de usar, que sempre foi importante <em>(um vídeo-cassete precisava ter uma boa usabilidade)</em> mas tornou-se questão de vida e morte a partir do começo do <em>e-commerce</em>: afinal, se em 1988, a consumidora só descobriria que o vídeo-cassete era difícil de usar depois de comprá-lo, em 1999, se o site da livraria online fosse difícil de usar, se a consumidora não encontrasse o livro que procurava ou se não conseguisse pagar, a empresa não fazia a venda. Pessoas que trabalham com programação e design acabam tendo dificuldade em criar sites usáveis justamente por terem familiaridade demais com a interface: simplesmente não conseguem se colocar no lugar de uma velhinha perdida que quase nunca usou a internet. Nosso método, portanto, era ir às próprias velhinhas e descobrir <em>onde</em> estavam tendo dificuldades. E chegamos assim no motivo que me fez contar essa historinha aparentemente não relacionada. Seja por falta de memória ou por vontade de agradar, por confusão ou por insegurança, simplesmente perguntar para as usuárias não funcionava: todas, ou quase todas, diziam que o site era ótimo, fácil, incrível, etc, mesmo se não tivessem conseguido usá-lo para nada. Nosso trabalho era elaborar uma lista de tarefas para as participantes realizarem no site, sentar do lado delas enquanto navegavam e, então, observar <em>nós mesmas</em> onde estavam tendo mais dificuldades. <em>(O lema da nossa empresa era “Observe e aprenderás”.)</em> Depois, tomando café e biscoitos, era fatal: as usuárias que menos tinham conseguido fazer qualquer coisa eram as que mais elogiavam o site: <em>“ah, meu filho, adorei, é muito fácil de usar!”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, vocês me perdoem, mas não fiquei anos assistindo pessoas quebrando a cabeça pra achar o “fale conosco” de um site sem nunca conseguir e depois ainda elogiarem que o site era ótimo e fácil, para hoje confiar que participantes de um experimento vão conseguir determinar o milissegundo exato no qual formaram a decisão consciente de mexer o pulso. Uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco: o desse experimento é esperar demais de pessoas tão lentas e falhas, imprecisas e inexatas, quanto todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, uma última questão: quem é esse <em>eu</em> que decide mover o braço? Onde ele está fisicamente? O que Dennett argumenta — e eu não conseguiria nem <em>tentar</em> reproduzir sua cadeia de pensamento— é que Libet não demonstrou que a consciência está sempre atrasada em relação aos tais processos decisórios inconscientes, mas sim que o processo decisório <em>consciente</em> requer tempo para acontecer ao longo do espaço do nosso corpo. Todas essas etapas <em>(decidir; olhar o relógio; anotar horário da decisão) </em>não são nem pré, nem pós nada: elas são o <em>próprio</em> processo decisório acontecendo através do tempo e do espaço. Não existe separação entre o-que-eu-faço e quem-eu-sou: sou uma unidade que incorpora ambos. Não existe essa ação mental começada de forma <em>inconsciente</em> e depois percebida pela <em>consciência</em>, onde um Eu externo observa tudo e espera o momento de obter acesso <em>consciente</em> ao que já está acontecendo <em>inconscientemente</em> — como se o processo decisório fosse um trem onde o Eu embarca só depois de já começada a viagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não existe esse eu separado do meu braço que então decide mover o braço: eu sou esse braço que se move.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A 18ª prática do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção.</em></a>, “Desapegar do Eu”, é um desenvolvimento zen-budista dessa perspectiva.]</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>* * *</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade é ser o leme, não a vela*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa subseção incorpora alguns trechos da subseção “Não existe liberdade”, da 18ª prática do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção.</em></a>: “Desapegar do Eu”.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já ensinava Spinoza que liberdade não é reagir aos estímulos externos: “só é livre quem é causa de si mesmo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A liberdade é muitas vezes entendida como liberdade para realizar nossos desejos, ou seja, para fazermos o que quisermos sem que ninguém nos impeça. Mas de onde vêm esses desejos? Que desejos são esses? Eles nos pertencem? Pertencemos a eles? Somos nossos desejos? Existe esse Eu que deseja?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez essa liberdade que tanto desejamos seja apenas a liberdade da biruta, livre para soprar em direção sudoeste ou noroeste, dependendo desse ou daquele vento, mas sem nunca sair do lugar. Talvez precisemos nos libertar de nossas velhas definições de liberdade. Talvez a verdadeira liberdade seja não uma liberdade para nossos desejos, mas uma liberdade dos nossos desejos. Talvez a verdadeira liberdade seja não a liberdade de descobrir e nos entregar aos desejos que estão dentro de nós <em>(quais são? de onde vieram?)</em>, mas sim a liberdade de construir novos desejos e criar quem queremos ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quase sempre, as pessoas que vêm a um encontro chamado As Prisões estão em busca de se libertar de suas prisões e de realizar uma tal “liberdade verdadeira”. Mas como pode haver liberdade verdadeira se não existe nem mesmo um Eu verdadeiro para desfrutar dela? Minha liberdade é tão contingente e tão construída, tão desprovida de essência intrínseca e de existência autônoma, quanto o Eu a quem ela pertence.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A 18ª prática do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao"><em>Atenção</em>.</a>, “Desapegar do Eu”, é justamente sobre essa desconstrução do Eu.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a liberdade é simplesmente podermos realizar esses desejos que pipocam dentro de nós, vindos sabe-se lá de onde, então, a pessoa dita livre não passa de um veleiro à deriva, indo para lá e para lá ao sabor dos elementos. Mas a liberdade não está nas velas ou nas marés: está em não ser refém de nossos apegos e de nossas compulsões, dos ventos que nos sopram ou das correntezas que nos puxam. A verdadeira liberdade é podermos decidir para onde vamos navegar esse barco. A verdadeira liberdade é o leme.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Liberdade não é vermos uma foto impossivelmente deliciosa de carne prensada entre duas fatias de pão, e termos a renda e a disponibilidade de nos deslocar até um restaurante, comprar esse produto e consumi-lo. A verdadeira liberdade é não permitirmos que essa foto, por mais apetitosa que pareça, determine o que vamos fazer de nossa vida; não é adicionarmos mais uma camada de controle <em>(“preciso controlar minha gula!”)</em> em cima do controle que o anúncio já exerce sobre nós <em>(“você merece esse sabor!”) </em>mas simplesmente nos livrarmos do controle do anúncio; não mais autocontrole, menos autocontrole. A gula, a vaidade, a preguiça, se não cedermos a elas, também desaparecem: podemos sentar na estação e não precisamos embarcar em nenhum dos trens que passam.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>* * *</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Os muros internos e os muros externos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para muitas de nós, pessoas bem-alimentadas e bem-resolvidas, o maior inimigo da liberdade são os muros externos da prisão: queremos que ninguém nos impeça de viajar livremente, de casar livremente, de escrever livremente. Garantir essas liberdades fundamentais é uma das lutas políticas mais importantes de nosso tempo e de qualquer tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, a maioria das pessoas jamais será limitada pelos muros externos pois já introjetaram muros internos mais poderosos e mais eficazes. Na verdade, na prática, o maior obstáculo para que viajemos livremente, casemos livremente, escrevamos livremente somos nós mesmas, nossos próprios preconceitos e nossas próprias limitações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, o que <em>mais</em> impede pessoas do mesmo sexo de se casarem livremente é o fato de terem nascido e crescido, viverem e pensarem, em uma sociedade homofóbica em sua raiz, homofóbica em cada um de seus aspectos mais elementares, que representa negativamente pessoas homossexuais em todas as esferas políticas, religiosas, culturais. <em>(Todas crescemos “sabendo” que gostar de pessoas do mesmo sexo é pecado. Então, um dia, sentimos os primeiros desejos homossexuais e descobrimos, para nosso horror, que aquela pessoa tão ruim que todo mundo usa como xingamento…. somos nós!)</em> Em um contexto sociopolítico como esse, a proibição ao casamento homossexual pode ser vista somente como uma redundância do sistema, um quase desnecessário mecanismo de segurança, um distante muro externo para impedir a fuga das poucas radicais incorrigíveis que conseguem vencer o muro interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concretamente, o quê impede uma pessoa adolescente moradora em uma favela de estudar em uma universidade federal? O muro externo é a educação precária que recebeu na escola pública, que não lhe possibilita passar em um vestibular disputado. O muro interno, porém, é que entrar em uma universidade federal não é uma possibilidade concebível em seu horizonte de expectativas. Como não conhece ninguém que estudou em federal, então, “estudar em federal” é algo que não faz parte de seu mundo, é algo que está na categoria “coisas que outras pessoas fazem, mas não eu”, como ir à Lua ou se hospedar no Copacabana Palace. Para ajudar essa criança, não adianta apenas vencermos seus muros externos — lhe ensinarmos os conhecimentos necessários para passar no ENEM — se não vencermos seus muros internos — lhe convencermos que sim, ela <em>pode</em> estudar em uma federal. Ela precisa saber que essa possibilidade está aberta a ela também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se não derrubarmos os invisíveis e socialmente aceitos muros internos, a luta política para tentar derrubar o visível e imponente muro externo será irrelevante, praticamente um capricho bem alimentado para que a elite pensante e problematizadora se mantenha ocupada — “toma aí essa militância política pra você brincar”. A luta contra o muro externo é, em larga medida, irrelevante porque, na prática, o muro externo é irrelevante: ele só está lá como símbolo concreto do nosso conformismo, um monumento à nossa mansidão. Contra um povo que derrubou seus muros internos, não mais controlado pela publicidade, não mais refém de suas compulsões, não mais apegado aos seus preconceitos, o muro externo não duraria cinco minutos. Não era o Muro de Berlim que impedia ninguém de nada: era o medo. Quando acabou o medo, o muro caiu na mesma noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Liberdade não é se livrar de controles externos: é se livrar dos controles internos, das compulsões desse Eu tão cheio de vontades, e perceber que sempre fomos livres. Se a liberdade não fosse nosso estado natural, não seria necessário gastar tanto dinheiro para nos convencer que xarope de cola com açúcar é gostoso. Infelizmente, muitas das pessoas mais livres e destemidas da Alemanha Oriental foram fuziladas contra o Muro de Berlim. Ser livre pode ser perigoso, mas é sempre melhor do que ser escrava – mesmo que apenas escravas de nós mesmas, escravizadas pelos delírios e pelas compulsões desse Eu que inventamos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="307" height="499" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/09/meditacao-crista-main.jpg?resize=307%2C499&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10720"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade na clausura</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez, perguntaram ao monge beneditino John Main por que ele havia se tornado monge. Ele respondeu que foi por sua vontade de ser totalmente livre.* Os monges foram os primeiros revolucionários e os monastérios, as primeiras utopias. Em todas as sociedades, a maioria das pessoas vive no piloto automático, passivas e inconscientes, aceitando a narrativa hegemônica e jogando pelas regras do jogo, pensando pouco e questionando nada, mais preocupadas com o dia-a-dia cotidiano do que com as grandes questões existenciais e filosóficas. O monge, pelo contrário, é a pessoa que pensou e questionou, que não aceitou a narrativa corrente e recusou as regras do jogo, que escolheu criar uma nova sociedade sob novas regras e adotar um estilo de vida mais deliberado e mais refletido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A anedota de John Main está em seu livro, <a href="https://amzn.to/49pDp7O"><em>Meditação Cristã</em></a>.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="720" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=500%2C720&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10031" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=500%2C720&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=768%2C1106&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=1066%2C1536&amp;ssl=1 1066w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=1422%2C2048&amp;ssl=1 1422w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?resize=1200%2C1728&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2020/06/declinio-e-queda-do-imperio-romano-gibbon.jpg?w=1476&amp;ssl=1 1476w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O historiador britânico Edward Gibbon (1737-94) escreve sua obra-prima, <a href="https://amzn.to/47lc70S"><em>Declínio e Queda do Império Romano</em></a>, para demonstrar a tese radical de que o cristianismo havia sido o maior culpado pelo fim de Roma. E, dentro do movimento cristão, Gibbon considerava o surgimento do monasticismo, por volta do século IV, no Egito, como o seu ponto mais baixo. Todo o seu capítulo 37 é totalmente dedicado a detonar monges e monastérios, esses recém-chegados na história humana, com toda a verve insincera e brilhante de que só ele é capaz. <a href="https://amzn.to/47lc70S"><em>Declínio e Queda do Império Romano</em></a> é fácil um dos cinco livros mais importantes da minha vida*, eu não poderia recomendá-lo com mais empolgação e ênfase, mas discordo radicalmente do ranço de Gibbon. Para mim, o fenômeno social e religioso do monasticismo é das consequências mais inesperadas e positivas do cristianismo.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="390" height="410" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/x-kel-nit-scet.jpg?resize=390%2C410&#038;ssl=1" alt="mapa de onde ficavam os padres do deserto" class="wp-image-7517"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">[*Ninguém me perguntou, mas os cinco livros mais importantes da minha vida, além de Gibbon, são a <a href="https://alexcastro.com.br/category/grande-conversa/1a-aula-antigo-testamento/"><em>Bíblia</em></a>, a <a href="https://alexcastro.com.br/category/grande-conversa/2a-aula-gregos/iliada/"><em>Ilíada</em></a>, o <a href="https://alexcastro.com.br/category/grande-conversa-espanhola/aula-01-epica/poema-do-meu-cid/"><em>Cantar de meu Cid</em></a> e <a href="https://alexcastro.com.br/category/grande-conversa/7a-aula-reforma/paraiso-perdido/"><em>Paraíso Perdido</em></a>, de Milton.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, encerrando trezentos anos de perseguição e martírio, algumas pessoas consideraram que sua prática religiosa cristã era incompatível com essa nova religião de Estado que surgia, institucionalizada e poderosa, e decidiram simplesmente se internar nos desertos do Egito, sozinhas ou em pequenas comunidades. Essas pessoas, apesar de hoje lembradas como Padres e Madres do Deserto e de serem respeitosamente referidas como “monge” ou “abade”, em sua enorme maioria não eram religiosas ordenadas; não possuíam nenhum treinamento ou formação sacerdotal, teológica, litúrgica; não tinham nenhum apoio ou chancela das instituições cristãs oficiais da época. Eram só pessoas, imbuídas de uma fé profunda e quiçá enlouquecida, que se isolaram do mundo para poder viver mais livremente o tipo de vida que consideravam adequado. Não eram fofas. Não estimulavam visitas. Não tentavam convencer ninguém. Acreditavam com intensidade na força do momento-presente.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-style-default"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="567" height="850" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/padres-do-deserto-2.jpg?resize=567%2C850&#038;ssl=1" alt="padres do deserto" class="wp-image-7520" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/padres-do-deserto-2.jpg?w=567&amp;ssl=1 567w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/padres-do-deserto-2.jpg?resize=500%2C750&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez, um irmão perguntou a um dos padres: “Padre, caí em tentação! O que faço?” E ele respondeu: “Ué, levanta.” E o irmão: “Eu me levantei, mas caí novamente!” E o Padre aconselhou: “Então, levanta de novo, toda vez!” “Mas até quando?”, perguntou o irmão. “Até você ou aprender a não cair ou ficar confortável no chão.” Em outra ocasião, perguntaram a um dos monges porque tinha vendido sua Bíblia e ele retrucou: “Ora, se não foi esse mesmo livro que me instruiu a vender tudo que eu tinha para dar aos pobres!”*</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="306" height="450" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/padres-do-deserto.jpg?resize=306%2C450&#038;ssl=1" alt="padres do deserto" class="wp-image-7519"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">[*A primeira história está em <a href="https://amzn.to/3skFCkp"><em>A orientação espiritual dos Padres do Deserto</em></a>, de Anselm Grün, p.53, e a segunda em <a href="https://amzn.to/40FlGpj"><em>A sabedoria do deserto: ditos dos Padres do Deserto do século IV</em></a><em>,</em> de Thomas Merton, p.41. Ambos os livros são os melhores em catálogo atualmente no Brasil sobre os Padres do Deserto.]</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="393" height="640" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/padres-do-deserto-1.jpg?resize=393%2C640&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7550"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Na Idade Média, os Padres do Deserto foram celebrados; na Renascença, esquecidos; no século XX, recuperados. Um dos responsáveis por sua renovada popularidade é o monge trapista Thomas Merton (1915-68), que escreveu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“[Os Padres do Deserto] insistiam em permanecer humanos e ‘comuns’. … [F]ugir ao deserto para ser extraordinário é somente carregar o mundo como um padrão implícito de comparação. … Os homens simples que viveram suas vidas até uma idade avançada entre pedras e areia só o fizeram porque haviam ido ao deserto para serem eles mesmos, para viverem seu eu ordinário, e para esquecerem um mundo que os mantinha afastados de si mesmos. … O que ganhamos ao viajar à lua se não formos capazes de cruzar o abismo que nos separa de nós mesmos? … [D]eixar o mundo é … ajudar a salvá-lo, salvando-se a si mesmo. … Os eremitas cópticos que deixaram o mundo, embora estivessem escapando de um naufrágio, não pretendiam apenas salvar suas vidas. Eles sabiam que eram incapazes de fazer algum bem aos outros enquanto se debatessem no naufrágio. Porém, uma vez que conseguissem colocar os pés em terra firme, as coisas seriam diferentes. Nesse momento eles não apenas teriam o poder, mas a obrigação de trazer todo mundo a salvo atrás deles.”*</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">[Em <a href="https://amzn.to/40FlGpj"><em>A sabedoria do deserto</em></a>, pp.12, 24-25. Recomendo tudo de Thomas Merton.]</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="334" height="499" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/08/thomas-merton-sabedoria-deserto.jpg?resize=334%2C499&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10728"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, trilhando o caminho do zen, os atos, as falas, as histórias dos Padres e Madres do Deserto têm tido um impacto profundo. Diziam os Padres do Deserto que o Santo era uma farpa na carne da História.* Os monastérios também são farpas na carne da civilização, lembretes permanentes e incômodos, por sua própria existência e resistência, que nem todo mundo aceitou a narrativa hegemônica, que nem todo mundo está jogando esse mesmo jogo, que é possível uma outra vida, uma outra condição, uma outra liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A citação está em <a href="https://amzn.to/3sqZO3Z"><em>A montanha no oceano: meditação e compaixão no Budismo e Cristianismo</em></a>, de Jean Leloup, mas ele não diz a fonte e eu nunca encontrei a frase em nenhuma outra compilação dos Padres do Deserto que li. Leloup é padre grego ortodoxo e o livro fala, entre outras coisas, sobre o hesicasmo, técnicas de meditação dos padres ortodoxos de Monte Atos, na Grécia.]</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="323" height="499" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2017/09/montanha-oceano-leloup.jpg?resize=323%2C499&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10724"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Samvega</em> é uma palavra em língua páli e também em sânscrito para um sentimento difícil de descreve em português. É uma sensação de, ao mesmo tempo, choque, consternação e urgência: choque, ao perceber a falta de sentido e futilidade da vida como é vivida em nossa sociedade; consternação, ao reconhecer como nos entregamos com tanta cegueira e complacência a esse estilo de vida; e urgência, em buscar uma saída desse ciclo nocivo que agora enxergarmos. Sem <em>samvega</em>, dizia o Buda, não é possível nenhum tipo de mudança pessoal, de autoconhecimento, de autoconstrução. Sem <em>samvega</em>, também não existiriam monges nem monastérios. Sem <em>samvega</em>, eu não estaria escrevendo sobre Prisões e nem você me lendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Shantideva, o autor budista que mais me inspirou, agradecia aos seus desafetos, pois lhe ajudavam a cultivar sua <em>samvega</em>. Por outro lado<em>,“[e]logios e louvores me atrapalham e me distraem: / aumentam minha segurança e minha complacência. / Ao me sentir menos insatisfeito e menos deslocado, / diminui minha urgência em percorrer o caminho.”</em>*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*<a href="https://amzn.to/3Ms7U36"><em>Guia de estilo de vida do Bodisatva</em></a>, capítulo 6, estrofe 98. O terceiro e quarto versos são uma tradução adaptada para “sentir menos samvega”.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3Ms7U36"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="744" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/guia-estilo-vida-bodisatva-santideva.jpg?resize=500%2C744&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12956" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/guia-estilo-vida-bodisatva-santideva.jpg?resize=500%2C744&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/guia-estilo-vida-bodisatva-santideva.jpg?w=672&amp;ssl=1 672w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Sou escritor. Quem vive de escrever sabe que as palavras não valem nada. Livros, textos, artigos, resenhas, manifestos são perfumaria. O papel aceita tudo. O que conta é o que a gente faz: nossa conduta, nossa postura, nosso exemplo. O que conta é onde colocamos nosso corpo. Minha vida e meu corpo, minha existência e minha carne, são os únicos materiais brutos, verdadeiros, concretos que tenho para fazer arte, para colocar na mesa, para contribuir ao grupo, para apostar na roleta da História. Escolhi viver minha vida em público porque a vida de uma artista deve ser, antes de tudo, uma obra de arte. Desde viver relações não-monogâmicas até abrir a casa para visitas, desde aceitar dinheiro das mecenas até dar gratuidades em meus encontros, desde escrever dedicatórias apócrifas até incluir biografias fictícias em meus livros, nada do que eu faço é natural ou espontâneo: cada um desses gestos é um ato de criação artística deliberado e consciente. O objetivo de tanta evasão de privacidade em meus textos nunca foi me gabar ou convencer alguém de qualquer coisa, mas simplesmente mostrar que era possível viver outra vida, de outro jeito, com outras regras, pensando em cada escolha, com mais consciência, com mais reflexão. Vivi e vivo minha vida em público, o que Deus sabe que é um sacrifício, porque foi a maneira que encontrei de comunicar às ovelhas negras, às pessoas perdidas e insensatas, que elas não estavam sozinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as pessoas que me acompanham, que leem meus textos, que vêm aos meus encontros, estão tomadas por diferentes graus de <em>samvega</em>. Obrigada a todas vocês por estarem comigo nesse caminho. Afinal, ser uma pessoa bem-sucedida em um mundo canalha quase sempre é indicativo de nossa própria canalhice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O preço da liberdade</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia, no mercado, eu estava fazendo compras completamente descabelado e eis que encontro uma amiga bem intencionada que, com uma sinceridade digna de mim, me avisou do meu pobre estado e ainda perguntou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Como é que você se permite sair de casa assim, Alex?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bem, o primeiro passo é sinceramente cagar para a opinião dos outros. A partir do momento que você esteja firme e forte no primeiro passo, os passos seguintes se tomam sozinhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde então, ela tem estado fria comigo. Oras, a moça não estava nem um pouco errada, mas alguém que tem coragem de dizer o que ela disse não deveria também ter também a coragem de lidar com a humilde resposta? Sinceridade é sempre boa indo; vindo parece que o povo não gosta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas pessoas não entendem como posso, ao mesmo tempo, dizer que cago para as opiniões dos outros e também viver pedindo opiniões sobre os meus textos. Pra mim, são duas esferas tão distintas que às vezes esqueço a maioria das pessoas não enxerga a fronteira entre elas. Então, explico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma separação bem clara entre, por um lado, as pessoas terem opiniões sobre meu cabelo, minha aparência, minhas escolhas, ou seja, sobre elementos da minha vida que só existem em função de mim, e, por outro lado, terem opiniões sobre meus textos, ou seja, sobre obras que só existem e que foram literalmente criadas para que pessoas leitoras como elas os lessem e formassem opiniões sobre eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho todo interesse em saber tudo que qualquer pessoa acha sobre meus textos: suas dúvidas e críticas, seus comentários e questionamentos. Não tenho interesse algum em saber nada que nenhuma pessoa acha sobre minha vida e aparência, minhas escolhas e decisões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um outro amigo também bem-intencionado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, se você continuar falando tudo o que passa na sua cabeça e fazendo tudo do seu jeito, você nunca vai ser bem-sucedido na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Oras, falar tudo o que passa na minha cabeça e fazer tudo do meu jeito é minha definição de ser bem-sucedido na vida! Mas, afinal, por que <em>você</em> tanto quer ser bem-sucedido?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Você tem cada uma, Alex! Pra eu poder ter independência financeira pra não precisar mais medir minhas palavras ou puxar o saco da chefa, pra poder fazer o que eu quero do jeito que eu quero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bem, eu devo ter pulado uma etapa então, porque eu já vivo assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hora do meu amigo abrir os meus olhos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Pô, Alex, às vezes você não tem idéia do efeito que causa nas pessoas. Eu conheço gente que acha esse seu jeito muito inconveniente, te evita, não te chama pras coisas. Isso não te incomoda?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Olha, quando eu era adolescente, eu também tinha esse medo de que ninguém iria gostar de mim. Então, me envolvi em política estudantil e, mesmo sendo gordo, feio e inconveniente, eu consegui ser amado por quase todo mundo, ter entrada em todos os grupinhos rivais e vencer todas as eleições que disputei. Mas, depois, me dei conta que era tudo vaidade sob o sol, como diria um outro amigo meu. De que adiantava puxar o saco e ser legal com tanta gente que não me importava? O que aquelas pessoas me acrescentavam? Um belo dia, eu parei de falar o que as pessoas queriam ouvir e passei a falar o que eu queria dizer. Uma multidão de malas se afastou, é verdade, mas outras pessoas incríveis começaram a se aproximar. E eu me dei conta: se existe tanta gente que vai me amar por eu ser do jeito que eu sou, qual é o sentido de me reprimir pra ser aceito pelas outros? O que eu devo a esses outros, afinal?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não deve nada. Mas ontem teve festa na casa da Paulinha, sabia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu amigo bem-intencionado não desiste:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, não existe nada mais adolescente e imaturo do que querer fazer o que se quer na hora que se quer!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estranhamente, se não me falha a memória da minha adolescência e das pessoas adolescentes que ensinei e ainda ensino, nada mais adolescente que querer ser aceito a todo custo. Naturalmente, indo mais longe, ambas atitudes são francamente adolescentes. Paradoxalmente, eu pergunto: e daí? Ser adolescente é ruim? Toda criança é genial. Somos nós, as pessoas adultas, que perversamente as massacramos até extirparmos cada dose de individualismo e originalidade, para que se moldem ao que mediocremente chamamos de “o mundo”, “a vida”, “as coisas como elas são”, etc. As pessoas mais interessantes que conheci tinham quinze anos de idade. E depois se tornaram adultas chatas e caretas, cheias de filhos e de dívidas, fazendo hora extra e colocando dinheiro no fundo de pensão, misturando Viagra com tônico capilar, Centrum com óleo de peixe. Hoje em dia, minhas amigas de infância me são um eterno alerta contra os horrores da vida adulta. Aos 18 anos, eu era sério e responsável, presidente do grêmio e editor do jornal da escola, não usava drogas e obedecia todas as leis. Aos 48, felizmente, minhas prioridades já estão em ordem faz tempo: leio e escrevo, medito e acolho, tento viver uma vida mais ética, mais compassiva, mais deliberada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas meu amigo ainda tem um trunfo na manga:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bem, é muito fácil viver assim se você não tem filhos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">É verdade, tudo na vida é muito mais fácil se você não tem filhos – o que, aliás, é o principal argumento para <em>não</em> ter filhos. Minha vida é fácil? Comparada a do meu amigo, claro que é. Minha vida é fácil porque eu decidi não complicá-la tendo filhos e formando família. Minha vida é fácil porque eu abdiquei das vantagens de ser pai para não ter que sofrer as desvantagens. Minha vida é fácil porque eu, apesar de adorar crianças, não tenho um <em>mini-me</em> pra eu ensinar a gostar de <em>Senhor dos Anéis</em>, mas também não tenho dívidas e hipotecas, não pago escola particular nem curso de inglês. Cada pessoa com suas prioridades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, meu amigo balança a cabeça, põe a mão no meu ombro e diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Isso tudo é muito bonito, Alex, e vai dar um bom texto pra você incluir aí nesse <em>Livro das Prisões</em>, mas a triste verdade é que, um dia, você vai pagar o preço.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia?! Ora, estou pagando o preço hoje. Só eu sei as colegas que alienei, as oportunidades que me negaram, as costas que me viraram. E só eu sei as aventuras que vivi, as mulheres que amei, as amigas que conheci. Pago o preço feliz e ainda sobra troco. Já tracei meu caminho faz tempo: mais vale fracassar fazendo as coisas do meu jeito do que vencer só porque me anulei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Conclusão</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa própria felicidade individual é vendida de forma quase unânime por nossos pais, por nossa cultura, por nossa publicidade, até por grande parte de nossas filosofias e religiões, como sendo o mais importante objetivo último da vida de qualquer pessoa. Por isso, para muitas de nós, é extremamente difícil perceber que essa felicidade compulsória pode ser uma prisão, e ainda mais difícil conceber que podem existir outros objetivos de vida igualmente válidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga explicou que, para ela, sua felicidade individual era o critério que utilizava para saber se uma coisa era boa ou não. Por exemplo: “Ajudo ou não a minha amiga? Qual é a opção que me fará uma pessoa mais feliz? Acho que serei mais feliz se ajudá-la, logo ajudá-la é bom.” Do ponto de vista de minha amiga, se excluísse a felicidade como fim último, não teria como saber se uma ação possível a se tomar era boa ou não, ou se as consequências dessa ação eram desejáveis ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Prisão Felicidade é justamente isso: não é <em>escolhermos</em> a felicidade como o objetivo último de nossas vidas (afinal, todas temos o direito de vivermos em função do que quisermos) mas sim não conseguimos enxergar nenhum outro objetivo último possível para nossas vidas que não seja a nossa própria felicidade individual. Se não existe opção à felicidade, então a felicidade, automaticamente, por definição, é uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Buscar a liberdade para ser feliz, colocar nossa felicidade pessoal como medida de sucesso, talvez seja a maior de todas as prisões. Perceber que a felicidade não precisa necessariamente ser nosso fim último nos permite destravar os múltiplos potenciais sentidos de nossa própria vida. Se não vivo para ser feliz, vivo para quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Excurso III</mark></strong></h2>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left" id="liberdade-de-expressao"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade de expressão, uma defesa a partir da esquerda</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é verdade que a esquerda seja contra a liberdade de expressão, mas é verdade que muitas pessoas de esquerda consideram automaticamente que essa seja uma pauta da direita. O objetivo desse pequeno excurso é fazer uma defesa da liberdade de expressão a partir de uma perspectiva de esquerda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tem como falar de <a href="https://www.papodehomem.com.br/politicamente-correto-uma-defesa" target="_blank" rel="noreferrer noopener">politicamente correto</a> sem falar de liberdade de expressão. Dizem que o politicamente correto é inimigo da liberdade de expressão, mas não é verdade. O politicamente correto defende uma verdadeira liberdade de expressão, onde todos os grupos sociais possam ser ouvidos igualmente, ao invés daquele bom e velho uníssono de sempre das pessoas privilegiadas impondo sua voz e defendendo seus privilégios.*</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3QNwkqr"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-de-expressao-venicio.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12957" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-de-expressao-venicio.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-de-expressao-venicio.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-de-expressao-venicio.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-de-expressao-venicio.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">[*O texto inteiro é largamente caudatário, parafraseia livremente e faz amplo uso das ideias e argumentos do professor de comunicação Venício Arthur de Lima, especialmente seu livro <a href="https://amzn.to/3QNwkqr"><em>Liberdade de expressão vs Liberdade da imprensa: Direito à comunicação e democracia</em></a> (2010), e duas entrevistas: “<a href="https://www.ufmg.br/online/arquivos/027702.shtml">É preciso universalizar a liberdade de expressão”, defende o professor Venício Lima</a>, concedida ao site de notícias da UFMG, em 20 de março de 2013, e <a href="https://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/33323-liberdade-de-expressao-x-liberdade-de-imprensa-entrevista-especial-com-venicio-lima">Liberdade de expressão x liberdade de imprensa. Entrevista especial com Venício Lima</a>, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos, em 16 de junho de 2010. Muito obrigado ao André Pasti, por ter me apresentado ao Venício.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Toda expressão é uma ação*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*Essa subseção é uma paráfrase de vários trechos de <a href="https://amzn.to/3MyR2YK"><em>There&#8217;s no such thing as free speech, and that&#8217;s a good thing, too</em></a> (“Não existe isso de livre expressão, ainda bem”, 1994) de Stanley Fish. Em tempo: Fish é especialista em <a href="https://amzn.to/3MvTHSW"><em>Paraíso Perdido</em></a>, um dos meus cinco livros preferidos, e seu livro <a href="https://amzn.to/3MuzhJS"><em>Surprised by sin: the reader in Paradise Lost</em></a>, publicado em 1967, talvez seja também um dos meus livros favoritos de crítica literária de todos os tempos. Que privilégio poder ler um grande crítico extraindo novas camadas de sentido do grande poema de um grande artista. É uma aula de literatura, e sou grato por ela.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3MyR2YK"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="725" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/theres-no-such-thing-as-free-speech-fish.jpg?resize=500%2C725&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12958" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/theres-no-such-thing-as-free-speech-fish.jpg?resize=500%2C725&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/theres-no-such-thing-as-free-speech-fish.jpg?resize=768%2C1113&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/theres-no-such-thing-as-free-speech-fish.jpg?w=1035&amp;ssl=1 1035w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca houve, nem poderia haver, uma verdadeira liberdade de expressão. Não somos livres para gritar “fogo” em um teatro lotado, ou qualquer outra fala que possa causar dano imediato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos principais intelectuais a escrever em defesa do politicamente correto foi o iconoclasta Stanley Fish, ainda em 1994, quando o termo acabava de surgir. Fish argumenta que a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos protege o direito à livre expressão, desde que seja uma “expressão que não se torne ação”, uma expressão teoricamente separada da esfera da conduta. Ele considera porém que toda expressão, especialmente o chamado “discurso de ódio” contra minorias, seria por definição uma ação, inseparável de consequências concretas no mundo real. Portanto, conclui, “não há nada para a emenda proteger.” Em outras palavras, para Fish, em diferentes graus, todo discurso de ódio seria equivalente a gritar “fogo” em um teatro lotado, apenas com consequências mais ou menos imediatas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um famoso juiz norte-americano defendeu a liberdade de expressão dizendo que “a luz do sol é o melhor desinfetante”, ou seja, que deixar que essas opiniões ofensivas sejam ditas acaba expondo-as ao ridículo*, mas, segundo Fish, a História ensina que mesmo as piores ideias, quando entram em circulação, sempre atraem muitos aderentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Quem disse que “a luz do sol é o melhor desinfetante” foi Louis Brandeis, (1856-1941), juiz da Suprema Corte norte-americana.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pessoa racista não acorda de manhã e pensa, “hoje vou passar o dia vomitando opiniões racistas odiosas”; ele pensa, “hoje vou mostrar ao mundo a Verdade!” O discurso de ódio, portanto, não é uma anomalia, um deslize cognitivo, um erro corrigível, algo que possa ser diagnosticado e curado, mas sim a verdade de uma visão de mundo que desprezamos. Por isso, para Fish,“a única maneira de lutar contra o discurso de ódio é reconhecê-lo como o discurso do seu inimigo, e o que faz com o discurso do inimigo não é lhe receitar um remédio mas tentar erradicá-lo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A cultura do silêncio</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Liberdade de expressão é o direito de expressar o mundo, de criar e recriar, de decidir e de optar. Em nossa sociedade, ainda colonial e tão desigual, esse direito sempre pertenceu somente às pessoas privilegiadas e foi utilizado para manter a maioria da população proibida de expressar-se de forma autêntica, proibida de ser. Submetidas aos mitos inferiorizantes da cultura hegemônica, essas pessoas silenciadas têm dificuldade de perceber o potencial de sua ação transformadora, de se dar conta de que são seres criadores e recriadores, de fazer a conexão entre o não-dispor da palavra e o sistema de exploração no qual vivem. Para se defender, para se preservar, para sobreviver, acabam finalmente se amuralhando atrás da mudez: por isso, no grande debate nacional, a única voz que se escuta é a das pessoas privilegiadas.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3QMDlaY"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="742" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/acao-cultural-freire.jpg?resize=500%2C742&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12960" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/acao-cultural-freire.jpg?resize=500%2C742&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/acao-cultural-freire.jpg?resize=768%2C1139&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/acao-cultural-freire.jpg?w=1011&amp;ssl=1 1011w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O pedagogo Paulo Freire, de quem tomei emprestadas as palavras acima, chamava isso de a “cultura do silêncio”: “Na cultura do silêncio existir é apenas viver. O corpo segue ordens de cima. Pensar é difícil; dizer a palavra, proibido.”*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*O grande, luminoso Paulo Freire fala de “cultura do silêncio” em vários trabalhos, mas o conceito é articulado com mais detalhes em <a href="https://amzn.to/3QMDlaY"><em>Ação cultural para a liberdade e outros escritos</em></a> (1981), de onde tirei os trechos parafraseados. Seu livro <a href="https://amzn.to/3QLj0D8"><em>Pedagogia do oprimido</em></a> (1970) é uma das coisas mais lindas que já foram escritas em qualquer língua. Por favor, leiam.]</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3QLj0D8"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="793" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/pedagogia-oprimido-freire.jpg?resize=500%2C793&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12959" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/pedagogia-oprimido-freire.jpg?resize=500%2C793&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/pedagogia-oprimido-freire.jpg?resize=768%2C1218&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/pedagogia-oprimido-freire.jpg?w=946&amp;ssl=1 946w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade de expressão e discurso marginalizado*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*A subseção “Liberdade de expressão e discurso marginalizado” contém paráfrases de <a href="https://amzn.to/45XlfaM"><em>Sobre a Liberdade</em></a> (1859), de John Stuart Mill.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro <a href="https://amzn.to/45XlfaM"><em>Sobre a Liberdade</em></a> (1859), o filósofo britânico John Stuart Mill faz uma defesa apaixonada da liberdade de expressão. Afirmando que todo discurso deve ser livre, inclusive os mais radicais, ele acrescenta que aquilo que hoje chamaríamos de “discurso de ódio” é muito mais perigoso quando usado em defesa do <em>status quo</em>, pois desestimula outras pessoas de manifestarem opiniões contrárias (criando assim a cultura do silêncio descrita por Freire), do que quando usado por rebeldes, já marginalizados por definição. Por isso, continua Mill, no interesse da Verdade e da Justiça, se tivermos que reprimir a linguagem violenta de alguém, seria mais importante, digamos, evitar que o <em>status quo</em> religioso ataque as pessoas sem religião do que proteger a <em>(poderosa)</em> religião do <em>(fraco)</em> ateísmo. Mill usa esse exemplo em 1859 e, de certa maneira, ele continua atual.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/45XlfaM"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="832" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-mill.jpg?resize=500%2C832&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12961" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-mill.jpg?resize=500%2C832&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-mill.jpg?resize=768%2C1279&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/liberdade-mill.jpg?w=901&amp;ssl=1 901w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um mundo onde o discurso religioso está por todos os lados, hegemônico, dominante, não-questionado. As pessoas desejam “vai com Deus” umas às outras sem nunca perguntar se a outra acredita em Deus. <em>(Para recuperar a estranheza disso, imagine se você fosse rotineiramente cumprimentado por pessoas que simplesmente presumem que você torce pro Flamengo, nasceu em Pernambuco ou é de Capricórnio.) </em>Tribunais e escolas que deveriam ser laicos penduram crucifixos e celebram o Natal. Nas revistas da Turma da Mônica, temos um Anjinho e, ocasionalmente, Deus e santos, mas nunca um Golem ou um bodisatva. No Congresso, bancadas religiosas insistem em passar leis cujo fundamento é somente religioso, como se todas as pessoas brasileiras devessem viver sob a tirania da religião de algumas delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar disso, ouço frequentes críticas ao exagero e ao radicalismo do discurso&#8230; dos ateus militantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, sob qualquer métrica possível e mensurável, o discurso religioso é muito mais radical e exagerado, muito mais hegemônico e predominante, do que qualquer coisa que os tais ateus militantes possam conceber. Esse ateísmo-gota-d&#8217;água só pode parecer “radical” e “exagerado” em oposição ao oceano-da-religião para quem naturalizou de tal maneira o discurso hegemônico religioso que não consegue mais ver que ele está por todos os lados, violentamente invadindo nossa subjetividade e nos vendendo sua ideologia a cada momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão não é quem está certo ou errado, se Deus existe ou não, se os ateus militantes estão corretos ou não em suas táticas de luta. A questão é que, como aponta Mill, não faz sentido exigir o silêncio de quem já está na minoria marginalizada, interpelando o discurso hegemônico com todos os riscos inerentes a essa luta tão desigual. Não faz sentido exigir o silêncio de quem já vive na cultura do silêncio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns homens reclamam que “as feministas são radicais”, mas a pior coisa que fazem as feministas mais radicais é escrever textos; já o machismo <em>mainstream</em> mata milhares de mulheres todo dia, desde que o mundo é mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O discurso subalterno nunca é realmente radical e exagerado, pois ele não tem os meios para tanto: na prática, só o discurso hegemônico pode ser radical e exagerado. Não só isso: o discurso hegemônico é radical e exagerado por definição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas que mais mandam são as que se sentem mais acuadas pela “patrulha” de quem não manda nada. O discurso hegemônico age como se estivesse sempre na defensiva: homens reclamam da “histeria das feminazis”; pessoas cis, da agressividade das militantes trans; pessoas brancas, do “vitimismo” do movimento negro, pessoas hétero, da “ditadura gay”. Segundo muitas pessoas privilegiadas <em>(homens, brancas, cis, ricas, etc)</em>, as militantes de causas subalternas <em>(movimento negro, LGBT, trans, feministas, indígenas, etc)</em> seriam agressivas, defensivas, estressadas, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas é fácil ser uma pessoa calma e tranquila quando se está sentada no topo da pirâmide do privilégio. Quando se possui todas as vantagens, todos os direitos, todas as seguranças. Quando não se é diariamente encoxada no metrô ou revistada pela polícia. Quando suas comunidades não são invadidas ou remanejadas ou inundadas. O maior de todos privilégios é justamente poder viver uma vida calma e tranquila, sem nunca precisar refletir sobre privilégios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As militantes de causas subalternas quase sempre estão mais estressadas do que as pessoas privilegiadas porque, além de sofrer tudo o que sofrem todas as pessoas subalternas, elas também veem a opressão e a desigualdade, gritam contra elas com todas as suas forças e, para piorar, ainda são chamadas de “estressadas”. Se algum discurso precisa ser protegido, é o dessas pessoas. Se algum discurso não precisa de proteção, é o discurso hegemônico das pessoas privilegiadas, que já tem a seu favor todo o peso institucional da sociedade, da mídia, da igreja, da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pessoa homossexual jamais pode ignorar o discurso heteronormativo da nossa sociedade: ele está literalmente por todos os lados, opressivo, inquestionável. Já um dos principais privilégios de quem está no campo hegemônico é poder viver sua vida como se não existisse o contradiscurso às suas opiniões. Para essas pessoas, acostumadas ao privilégio de ser parte da opinião dominante e nunca interpelada, qualquer contradiscurso, mesmo marginalizado e quase impotente, soa ofensivo e intolerável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, reclamam tanto do “feminismo radical”, do “racismo reverso” e da “ditadura gay”: seu ideal é a “feminista feminina”, a “negra que sabe o seu lugar”, a “gay dentro do armário”. Não há postura mais privilegiada do que só tolerar o Outro se ele ficar caladinho no seu canto, nunca demonstrando sua alteridade. <em>(Entendo as pessoas privilegiadas defendendo seus privilégios, não entendo a militante negra reclamando das “feminazis”, a ateia se insurgindo contra o “racismo reverso”, a gay incomodada pelas ateias militantes. Falta espelho e falta solidariedade.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O comportamento paradoxal do discurso-dominante-que-se-pensa-perseguido talvez explique um dos maiores paradoxos da nossa época. Antigamente, eram os grupos minoritários que lutavam com mais afinco pela liberdade de expressão, pois seriam seus maiores beneficiários. Hoje, são eles que exigem leis criminalizando, por exemplo, manifestações de racismo e homofobia. Em resposta, grupos de extrema direita cooptaram para si a defesa da liberdade de expressão e agora exigem seu direito de continuar insultando e ofendendo as minorias que seus pais e avós já ofendiam e insultavam. Isso quer dizer que a liberdade de expressão deixou de ser uma bandeira da esquerda e passou a ser da direita? Quem é de esquerda agora deve ser contra liberdade de expressão? A liberdade de expressão agora pertence ao Bolsonaro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Stanley Fish responde que esse jogo é e sempre foi político: conceitos abstratos como “liberdade de expressão” não possuem um conteúdo “natural”, mas são preenchidos com o que conseguirmos enfiar neles. “Liberdade de expressão” é somente o nome que damos ao comportamento verbal que serve aos nossos interesses: não é um valor ou um princípio, mas um objetivo político e, se tiver sido capturado por nossos adversários políticos, se torna um obstáculo e precisa ser retomado. Ou, como diria Judith Butler, ressignificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Nós somos o que falamos*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*A subseção “Nós somos o que falamos” é uma paráfrase de vários trechos de <a href="https://amzn.to/46YRJTb"><em>Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade</em></a><em> </em>(1990) e <a href="https://amzn.to/3Mwv20p"><em>Discurso de ódio: Uma política do performativo</em></a><em> </em>(1997), de <a href="https://amzn.to/3SqRYSN">Judith Butler</a>.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se Stanley Fish afirma que não existe livre expressão, pois toda expressão é indissociável de uma ação, a filósofa Judith Butler argumenta que toda linguagem é performativa, ou seja, não apenas diz, mas também faz, age e constrói. Por isso, afirma, <em>toda linguagem violenta é uma violência</em>.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/46YRJTb"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="780" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/problmas-genero-butler.jpg?resize=500%2C780&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12962" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/problmas-genero-butler.jpg?resize=500%2C780&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/problmas-genero-butler.jpg?resize=768%2C1198&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/problmas-genero-butler.jpg?w=962&amp;ssl=1 962w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Até aí Fish concordaria. Entretanto, apesar de reconhecer que a linguagem violenta pode causar danos reais, Butler considera que censurá-la é impossível e contraproducente. “Discurso de ódio” será sempre algo muito difícil de definir e dependente do contexto: a mesma palavra pode ser carinhosa, se trocada entre duas pessoas negras, ou ofensiva, se dita por uma pessoa branca. Portanto, como o discurso de ódio só pode ser rotulado <em>a posteriori</em>, teríamos que delegar ao Estado o poder de defini-lo, às vezes à revelia de suas vítimas. E, por fim, qualquer tentativa de censurar um discurso só faz propagá-lo e torná-lo mais interessante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante disso, Butler propõe que as minorias se aproveitem dessa característica performática do discurso para transformar a realidade através da linguagem e ressignificar as palavras que lhes ofendem — como a comunidade homossexual fez com &#8220;<em>queer</em>&#8220;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Judith Butler, não existe nem essência masculina nem feminina. Os atributos de gênero não são expressivos, mas performativos e, portanto, esses atributos constituem de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, ser homem ou mulher, hétero ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existe uma essência, digamos, masculina que precede a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino é quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos <em>(e forçosamente determinados)</em> como masculinos. Nossa identidade de gênero é construída diariamente, através de nossos atos. Mas não só ela: a performatividade discursiva pode ser usada por qualquer identidade minoritária, tanto para se construir através da fala em um “ato de insurreição”, quanto para ressignificar palavras historicamente carregadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Liberdade”, por exemplo, um conceito tão defendido pelos homens brancos das Revoluções Americana e Francesa, explicitamente excluía as pessoas negras e as mulheres. Palavras encardidas como “liberdade”, “igualdade”, “justiça” não são propriedade de quem as sujou, nem estão tão podres que já não tenham utilidade: elas podem adquirir uma nova inocência, uma nova vida, um novo objetivo. O desafio é forçar essas palavras a abraçar as pessoas que antes excluíam, com a consciência de que esse abraço não será fácil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A atual polarização política causou uma separação cada vez maior entre a esfera política e a intelectual. Sintomas disso são a incapacidade de questionar nossas próprias convicções políticas e as tentativas de reprimir discursos que machucam e excitam, ameaçam e ofendem. Para Butler, porém, esse esforço de limitar o discurso público refrearia também o impulso político de explorarmos o potencial de insurreição da linguagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ser transferida de uma batalha para outra e perder seu teatro de guerra original, a palavra ofensiva (como <em>queer</em>) deixa de ser uma ferramenta de opressão e agora se torna uma arma de resistência. Mas o ato rebelde de usar palavras sem autorização tem um preço: ele coloca em risco o lugarzinho aconchegante que ocupamos dentro da própria língua e destrói a certeza de que nossas palavras sempre vão nos obedecer.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3Mwv20p"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/discurso-odio-butler.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12963" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/discurso-odio-butler.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/discurso-odio-butler.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/discurso-odio-butler.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/discurso-odio-butler.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A cada vez que abrimos a boca, estamos vulneráveis e arriscando mal-entendidos. Esse risco e essa vulnerabilidade são inerentes ao processo democrático: nunca sabemos o sentido que outras pessoas vão atribuir a nossas palavras, quais conflitos de interpretação vão surgir, como resolver as diferenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, Judith Butler dá o alerta: a possibilidade de ressignificação das palavras e de uma luta efetiva contra o discurso do ódio vem exatamente do significado aberto e da ambiguidade inerente à nossa fala. Sem essa abertura, avisa ela, não existe a possibilidade de apropriação e ressignificação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Qual liberdade de expressão defendemos?*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*A subseção “Qual liberdade de expressão defendemos?” contém paráfrases de <a href="https://amzn.to/3tVkuBB"><em>A Ironia da Liberdade de Expressão</em></a> (1994), de Owen Fiss.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos problemas do debate sobre liberdade de expressão é se dar sobre premissas diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma <em>concepção liberal da liberdade de expressão</em>, definida em termos negativos <em>(liberdade de expressão seria o Estado não tolher a liberdade de expressão de ninguém)</em>, tendo o Estado como seu principal potencial antagonista, priorizando a liberdade como valor máximo, e justificada em termos francamente narcisistas: a liberdade de expressão seria importante como meio de autoexpressão e autorrealização individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também existe uma <em>concepção republicana da liberdade de expressão</em>, definida de forma positiva<em> (o Estado seria promotor de um debate público livre e robusto)</em>, tendo o Estado como agente responsável por sua promoção e defesa, priorizando a igualdade como valor máximo, e justificada em termos coletivos: a liberdade de expressão seria importante como meio de autodeterminação coletiva de um povo.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><a href="https://amzn.to/3tVkuBB"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="776" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/ironia-liberdade-expressao-500x776.jpg?resize=500%2C776&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12964" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/ironia-liberdade-expressao.jpg?resize=500%2C776&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/ironia-liberdade-expressao.jpg?resize=768%2C1191&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/11/ironia-liberdade-expressao.jpg?w=967&amp;ssl=1 967w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, um debate entre pessoas que defendem duas concepções tão diferentes de liberdade de expressão pode logo se tornar inviável: aquilo que para uma é o maior problema <em>(o Estado se meter, ou o Estado não se meter)</em> para outra é a principal solução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não é necessário escolher entre liberdade e igualdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na primeira concepção de liberdade de expressão, a voz dos grupos mais fortes naturalmente se sobrepõe à voz dos mais fracos: há liberdade <em>(para algumas pessoas privilegiadas)</em>, mas não há igualdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na segunda concepção, ao garantir que a voz de todos os grupos possa ser ouvida igualmente, garante-se assim mais liberdade para todas as pessoas, uma verdadeira liberdade de expressão, uma liberdade através da igualdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O professor Venício Lima, especialista em liberdade de expressão, explica: O conceito republicano de liberdade de expressão se baseia nas noções de participação, espaço público e interesse coletivo. É uma liberdade fundamentalmente pública e anti-individualista, construída em conjunto com as outras pessoas no espaço democrático, moldada na participação ativa da gestão da sociedade, possibilitada por mecanismos que fomentem a ampliação dessa participação, associada à ideia de autogoverno. Sem um espaço aberto para a atuação de uma opinião pública realmente livre, a vivência democrática se corrompe. No Brasil, entretanto, nunca tivemos nada parecido. Nossa sociedade é marcada pela exclusão e pela cultura do silêncio, pela ausência de voz de grande parte das pessoas e por uma opinião pública viciada pela ideologia dos meios de comunicação de massa. O conceito liberal de liberdade de expressão, defendido violentamente por esses veículos e preocupado exclusivamente com as liberdades individuais, traz o risco de nunca fazermos a ponte entre a liberdade de expressão individual e a liberdade de expressão pública, de as pessoas privilegiadas continuarem sendo também privilegiadas no acesso aos meios de comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E conclui o professor Venício: “Há uma tensão entre o privado e o público, e a liberdade republicana é uma tentativa de resolver essa tensão ao supor a liberdade como construção coletiva. Na República, o sujeito é livre na medida em que constrói, junto com os demais, o que é melhor para todos, e <em>não apenas o que é melhor para si.</em>”</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade da imprensa, para quem?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O sujeito da liberdade de expressão é cada pessoa-cidadã individual. Mas quem é o sujeito da liberdade de imprensa? Em 2013, a associação de músicos <em>Procure Saber</em>, formada por artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento, Erasmo Carlos, Gilberto Gil e Roberto Carlos, se manifestou publicamente em favor da restrição às biografias não-autorizadas. No meio da polêmica que se seguiu, a presidente da associação, Paula Lavigne, <a href="https://gnt.globo.com/programas/saia-justa/materias/polemica-das-biografias-esquenta-em-entrevista-com-paula-lavigne-no-saia.htm">apareceu no programa &#8220;Saia Justa&#8221;, no GNT</a>, e desabafou: “As coisas foram deturpadas na imprensa, e nós fomos acusados de censores de uma maneira desrespeitosa. Ninguém deu espaço na mídia para a gente se explicar.” Gil é ex-ministro da cultura. Caetano tinha coluna fixa no jornal <em>O Globo</em>. Roberto é o dono da palavra &#8220;rei&#8221;. Será que essas pessoas realmente não tiveram espaço na mídia para se explicar? Uma das reportagens sobre a polêmica <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1352167-gil-e-caetano-se-juntam-a-roberto-carlos-contra-biografias-nao-autorizadas.shtml">informa</a>: “As assessorias de Djavan, Chico Buarque e Gilberto Gil confirmaram seu posicionamento à Folha.” Quantas de nós têm assessorias de imprensa que confirmem nossos posicionamentos à <em>Folha</em>? O jornal <em>O Globo</em> chegou a criar <a href="https://web.archive.org/web/20140206000501/http://oglobo.globo.com/infograficos/batalha-biografias/">um infográfico especial</a> reunindo as dezenas de artigos publicados pelos artistas da <em>Procure Saber </em>na grande mídia brasileira, editoriais assinados onde temos acesso direto às suas opiniões sobre o tema. E, apesar disso, a presidente da associação, falando em um programa de TV para milhões de pessoas <em>(e não em uma mesa de bar para meia dúzia de amigas próximas)</em>, desabafou sua frustração com a falta de espaço na mídia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paula Lavigne acertou no diagnóstico da doença — falta de espaço na mídia é um grave problema social — só não acertou quem são as pessoas doentes. Quem sofre desse mal não são eles: somos nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o Chico falar &#8220;imprensa&#8221; três vezes diante do espelho, aparece uma coletiva no seu banheiro. <a href="https://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL1363727-9798,00-CHICO+BUARQUE+COMPRA+BAGUETES+PARA+O+LANCHE+DA+TARDE.html">Até suas idas à padaria dão pauta</a>. Quando Roberto <a href="https://g1.globo.com/musica/noticia/2013/11/roberto-carlos-anuncia-saida-do-grupo-procure-saber.html">saiu da <em>Procure Saber</em></a>, seu comunicado foi reproduzido em todos os grandes veículos de imprensa e ele deu até uma entrevista ao Fantástico. Só uma gigantesca falta de autoconsciência, nascida de um privilégio midiático normatizado há décadas, pode explicar que esses artistas se considerem “sem espaço na mídia”. A pessoa privilegiada nunca vê seu privilégio, o peixe nunca vê a água.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o episódio também é emblemático por outro motivo: a mídia é tão, mas tão poderosa que até Chico, Caetano, Roberto se sentem pequenos e indefesos diante dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nós, que nem temos assessoras de imprensa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na guerra entre o “Estado censurador” e “as grandes empresas de mídia defensoras da liberdade de expressão”, as profissionais de imprensa quase sempre servem apenas de bucha de canhão: recebem o salário mais ou menos em dia enquanto reproduzem <em>(sinceramente ou não)</em> a ideologia do andar de cima, levam um passaralho na cara quando ousam praticar a liberdade de expressão que tanto defendem. Em 2010, o editor da revista <em>National Geographic</em>, do grupo Abril, foi <a href="https://www.portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/33157/jornalista+e+demitido+da+inational+geographic+i+por+criticar+iveja+i+no+twitter">demitido por fazer críticas à revista <em>Veja</em></a>, também do grupo Abril, no Twitter. Para não deixar dúvidas, o redator-chefe da <em>National Geographic</em> confirmou: “Foi demitido por comentário do Twitter com críticas pesadas à revista. A Editora Abril paga o salário dele e tomou a decisão.” Nas eleições de 2014, o colunista Xico Sá foi demitido da <em>Folha de São Paulo</em> por <a href="https://jornalggn.com.br/noticia/xico-sa-explica-demissao-da-folha-por-declaracao-de-voto-em-dilma">declarar o voto</a> em uma de suas colunas. Pouco depois das eleições, o jornalista João Paulo Cunha se demitiu de <em>O Estado de Minas</em> por ter sido <a href="https://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/12/jornalista-censurado-por-criticar-aecio.html">proibido de escrever sobre política</a> em sua coluna. Os exemplos poderiam continuar indefinidamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a tal liberdade de imprensa não vale nem para profissionais de imprensa, então ela vale para quem? Quem é o sujeito dessa liberdade de imprensa? Não somos nós, o público. Não são as jornalistas. Não são nem as celebridades, aparentemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobram apenas a meia dúzia de famílias que é dona de quase todos os meios de comunicação em nosso país. A liberdade de imprensa só é realmente garantida aos proprietários da imprensa.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A frase “a liberdade de imprensa só é realmente garantida aos proprietários da imprensa” é do jornalista norte-americano <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/A._J._Liebling">A. J. Liebling</a>.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Liberdade de imprensa vs liberdade de expressão</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conceito de liberdade de imprensa surge na Inglaterra do século XVII, muito antes de surgirem os primeiros jornais, como a simples “liberdade de imprimir”. Ou seja, cada cidadão teria o direito de escrever um texto, ir até uma imprensa, ou seja, uma máquina de imprimir, e então imprimir suas palavras para distribuí-las nas ruas. Portanto, nesse momento histórico, a liberdade de imprensa se referia a uma maneira concreta de fazer valer a liberdade de expressão, e o sujeito de ambas era a pessoa-cidadã individual. Ao longo do tempo, a situação se inverteu. A “imprensa” deixou de ser uma máquina que qualquer um poderia alugar por algumas horas para imprimir suas ideias e passou a ser formada por gigantescas empresas, mais poderosas do que muitos países, e concentradas nas mãos de meia dúzia de famílias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes, a liberdade de imprensa era o direito da pessoa individual de amplificar sua voz através de meios impressos. Hoje, é o direito de um punhado de famílias de nos impor sua ideologia e ainda lucrar com isso. E quando o Estado, representante eleito e legítimo das pessoas-cidadãs que não têm voz nessa imprensa, tenta regulamentar a mídia, essas empresas resistem, se enrolam na bandeira e se arrogam em defensoras da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa — como se fossem a mesma coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas essa liberdade de imprensa é para quem? A cidadã comum, a pessoa pobre, a moradora da favela, a pessoa homossexual, negra, trans&#8230; elas têm liberdade nessa imprensa? Elas têm liberdade de ter suas vozes ouvidas e amplificadas pelo <em>SBT</em>, pelo <em>Estadão</em>, pela <em>CBN</em>? Mesmo jornalistas têm liberdade de expressar suas opiniões nessa imprensa? Ao contrário do que tenta nos vender a grande mídia, liberdade de expressão e liberdade de imprensa não são a mesma coisa. Isso só faria sentido se essa liberdade de imprensa incluísse também o <em>direito à comunicação</em> de cada pessoa, individualmente, de se expressar através de qualquer meio, inclusive dessas grandes e lucrativas empresas. A Suprema Corte norte-americana, surpreendentemente menos conservadora do que a nossa, afirmou em 1969: em questões de liberdade de imprensa, a prioridade é o direito das telespectadoras e das ouvintes, não das empresas de comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Estado não é inerentemente mais confiável do que a mídia. O ideal é que um vigie a outra. Mas existe uma grande, enorme diferença entre ambos. O Estado brasileiro é nosso representante legítimo. Temos poder sobre ele. Podemos controlá-lo e influenciá-lo de diversas maneiras, diretas e indiretas. Para isso, elegemos vereadores, deputados, senadores, presidentes, que respondem diretamente a nós. Já as Organizações Globo só respondem à família Marinho. O máximo que podemos fazer é cancelar a assinatura de <em>O Globo</em>, ou trocar de canal da <em>Rede Globo</em>, ou cancelar a TV a cabo da <em>Globosat</em>, ou desligar a rádio <em>Globo</em>, ou não acessar o <em>G1</em>, ou não ver filmes da <em>Globofilmes</em>, ou não comprar CDs da <em>Som Livre.</em> <em>(O pior é que devo ter esquecido algum!)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma mídia realmente plural e inclusiva seria mais confiável do que o Estado. Entretanto, melhor um único Estado, mas que responde a nós, do que uma mídia monopolizada que só responde a seis famílias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A imprensa é livre, mas quem nos defende dela?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As grandes empresas de mídia não são apenas poderosas: elas também são fundamentalmente diferentes das empresas grandes e poderosas de outros mercados. Além de serem fonte de poder, elas também lutam por ainda mais poder sobre a sociedade, em benefício dos seus interesses e valores políticos, ao mesmo tempo em que rejeitam qualquer tentativa de regulamentação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Congresso de 2014, de acordo com o site <a href="http://donosdamidia.com.br/">Donos da Mídia</a>, 48 deputados federais e 20 senadores possuem empresas de mídia, em flagrante violação ao artigo 54 da Constituição. <em>(O nome disso é </em><a href="https://www.foracoroneisdamidia.com/"><em>coronelismo eletrônico</em></a><em>.) </em>Se a mídia fosse uma bancada, seria a quarta da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2mara_dos_Deputados_do_Brasil">Câmara de Deputados</a>, atrás somente de PT (70), PMDB (66) e PSDB (54), e a <em>primeira</em> no <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Senado_Federal_do_Brasil">Senado</a>, à frente de PMDB (17), PT (13) e PSDB (12). Nas eleições presidenciais de 2014, a grande mídia brasileira não só tinha se constituído abertamente em partido político, como também estava tão à direita que não tinha nenhuma candidatura factível que representasse suas posições. Na prática, as instituições mais próximas das grandes empresas de mídia são os partidos políticos.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A observação de que a mídia se tornou um partido político é de Perseu Abramo, em <em>Padrões de Manipulação na Grande Imprensa</em>, de 1988, e de lá pra cá, a situação só piorou.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo de nossa história, as pessoas privilegiadas tradicionalmente tomaram para si o “ônus” <em>(na verdade, privilégio) </em>de interpretar e articular o interesse público, em nome de um povo que pretensamente não teria capacidades intelectuais ou cultura refinada para tanto. Foram essas pessoas que, em diferentes momentos históricos, foram contra a Abolição e as eleições diretas. São elas que hoje batem no peito para defender sua própria liberdade de expressão de continuar dizendo ao povo silenciado o que esse povo deve pensar, o que deve vestir, em quais partidos votar, quais cervejas deve beber. John Stuart Mill, apesar de muito citado pelos ideólogos das liberdades individuais, afirmava que o maior inimigo da liberdade de expressão era não o Estado mas sim o poder dos costumes e a uniformidade do pensamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, no Brasil, esse poder é exercido por nossa mídia, inconstitucionalmente concentrada e criminosamente monopolizada. Ou, como <a href="https://www.ncep.ufpr.br/novo/?p=761">disse o jornalista Vito Gianotti</a>, as empresas de rádio e televisão </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“na verdade não são concessões públicas, são sesmarias que foram doadas a seus donatários, como na época da colônia. São as sesmarias do ar doadas a Roberto Marinho.”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Não é a imprensa que precisa de mais liberdade para se defender do Estado. Somos nós, as pessoas-cidadãs, que precisamos de mais liberdade para nos defendermos da imprensa. Vários países reconhecem, além dos direitos à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, o <em>direito à comunicação</em>, também chamado de direito de antena, ou direito de acesso ao espaço público. Os nomes variam de país em país, mas a definição é similar: “o direito à participação, em condições de igualdade formal e material, na esfera pública mediada pelas comunicações sociais e eletrônicas.”* Ou seja, qualquer pessoa-cidadã ou grupo legalmente organizado teria direito de exprimir suas ideias e mensagens através dos veículos de comunicação de massa, como rádio e televisão. Para tanto, o Estado se obrigaria a garantir a existência de uma imprensa livre e diversa e a impedir a concentração de propriedade nas mãos dos mesmos grupos de mídia. Mais igualdade e, assim, mais liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*A definição de direito à comunicação é do <a href="https://www.intervozes.org.br/direitoacomunicacao/?page_id=28545">Observatório do Direito à Comunicação</a>.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O discurso de ódio é silenciador</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade onde é senso comum, entre outras coisas, que pessoas negras são melhores em esporte e em dança, que mulheres nasceram para a maternidade, que homens gays são hiperssexualizados e vão pro inferno. O problema é que <em>esse discurso do senso comum é discurso de ódio. </em>E tem um profundo impacto negativo na autoestima dos seus alvos: essas pessoas não apenas se sentem menos dispostas a participar do debate público <em>(pois sabem que não têm como participar em pé de igualdade)</em> como, quando participam, suas palavras são menosprezadas: “deixa de ser feminazi”<em>, “você vê racismo em tudo”, “assim já é ditadura gay”</em>, etc. Pior, o discurso hegemônico lhes rouba até a autoridade de dar testemunho sobre suas próprias experiências, como quando um homem tenta convencer uma mulher que cantadas de rua não são ofensivas, ou uma pessoa branca tenta convencer uma negra que sua experiência de ser parada em todas as blitz não é racismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O discurso de ódio é silenciador. O discurso de ódio é o pai da cultura do silêncio. Portanto, para que as vítimas do discurso de ódio possam de fato exercer sua liberdade de expressão, é preciso limitar o discurso de ódio que as silencia. Já permitimos que o Estado imponha limites à nossa liberdade de ação para um bem maior, como nas restrições ao porte de armas e na lei seca nas estradas. No caso de limitar o discurso de ódio, o bem maior seria promover a existência de uma sociedade autenticamente democrática, onde a livre expressão das pessoas privilegiadas não silencie ou sufoque a livre expressão das desprivilegiadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não cabe ao Estado decidir quais discursos estão certos e quais estão errados. O que cabe ao Estado é garantir que a livre expressão de todos os grupos sociais tenha chances equivalentes de chegar ao grande público, promovendo assim as condições mínimas de autodeterminação coletiva da sociedade. Como fazer isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Regular a mídia não é censura, é atribuição constitucional*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">[*A subseção “Regular a mídia não é censura, é atribuição constitucional” deve muito, inclusivo o título, ao artigo <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/regulacao-da-midia-nao-e-censura-2340.html">Regulação da mídia não é censura</a>, por Pedro Ekman e Bia Barbosa, publicado no blog da Intervozes em 4 de junho de 2014.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma sociedade complexa como a nossa, não existe nenhum mercado ou indústria que não seja regulado. Ao regular o mercado de mídia, o Estado não está agindo como censor, mas apenas cumprindo seu papel constitucional. Hoje, a mídia brasileira não tem diversidade nem pluralidade de conteúdo, além de estar concentrada nas mãos de poucas famílias. Em termos de mercado desregulado, somos mais reais do que o rei: até nos Estados Unidos, meca do capitalismo e do livre-mercado, a empresa dona do jornal <em>The New York Times</em> não poderia ser dona de uma estação de rádio nesse estado e um canal de TV não poderia ter acima de um percentual máximo de audiência em uma região, para não exercer poder político demais. Enquanto isso, vivemos em um país que não tolerou que a Colgate dominasse o mercado de pasta de dente e quebrou a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Kolynos">Kolynos</a> para criar a Sorriso, mas que considera aceitável que as Organizações Globo tenham jornais impressos, rádios, emissoras de TV, empresas de TV a cabo, portais de internet, produtoras de filme, gravadoras de músicas e mais algumas que, de novo, devo estar esquecendo — porque são muitas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trinta anos depois de promulgada nossa constituição, nenhum artigo do capítulo sobre comunicação social foi regulamentado: O artigo 220 diz que não pode haver monopólio <em>(mas uma emissora controla 70% do mercado de TV aberta)</em>; o 221 diz que a produção regional independente deve ser estimulada <em>(mas 98% do conteúdo televisivo é produzido no eixo Rio-São Paulo pelas próprias emissoras)</em>; e 54 diz que congressistas não podem ser donos de concessionárias de serviço público <em>(mas já vimos que formariam a maior bancada do Senado!) </em>A proibição norte-americana de um jornal impresso também ser dono de uma estação de rádio é de 1934, no começo da Era do Rádio. Enquanto isso, já no século XXI, o Estado brasileiro é acusado de censor ao tentar implementar a Constituição de 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já disseram que tentar recuperar a reputação erroneamente destruída pela mídia é como tentar juntar as penas de um travesseiro atirado pela janela do último andar de um arranha-céu. Então, uma maneira de o Estado promover mais diversidade e inclusão na mídia é sendo mais agressivo na concessão dos direitos de resposta. Por exemplo, programas televisivos veiculados pela Rede Mulher e TV Record continham tantas ofensas às religiões afrobrasileiras que essas emissoras agora terão que veicular <a href="https://www.portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/4123/direito+de+resposta+coloca+umbanda+e+candomble+na+programacao+da+tv+record">sete dias de programação informativa</a> sobre essas religiões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra maneira é empoderando grupos minoritários. Em seu papel de alocador de recursos, o Estado pode distribuir megafones para amplificar as vozes das pessoas silenciadas. Entretanto, só isso não basta: também cabe ao Estado alocar recursos de modo a tirar megafones das pessoas que estão silenciando outros discursos com seu poder financeiro. Ou, no mínimo, abaixar o volume. Na hora de bibliotecas públicas assinarem periódicos ou de autarquias públicas comprarem espaço publicitário na mídia, por exemplo, uma parte significativa das verbas poderia ser garantida para veículos regionais e minoritários — que, ao contrário da grande mídia, de fato precisam de apoio estatal para sobreviver e adicionar suas vozes ao debate nacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao tomar essas iniciativas, o Estado não estará censurando nem reprimindo ninguém, somente utilizando seu poder alocador de recursos para garantir que a sociedade brasileira tenha acesso a uma maior diversidade de opiniões e ideias. Essa é a verdadeira liberdade de expressão, universal, coletiva, para todas as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem censura quem?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Estado não necessariamente é o <em>inimigo</em> da liberdade de expressão: pelo contrário, ele pode ser uma <em>fonte</em> de liberdade de expressão, ao promover a robustez do discurso social, tanto ao alocar recursos públicos para aquelas pessoas cujas vozes estavam sendo silenciadas, quanto ao não premiar com recursos públicos o discurso de ódio de quem as silenciava. Ao contrário do que dizem as defensoras das liberdades individuais, <em>quando o Estado simplesmente não interfere, a consequência não é mais liberdade de expressão, e sim menos</em>, pois a voz das elites, o discurso único da ideologia das famílias donas dos meios de comunicação, sufoca e emudece as vozes das minorias. Para garantir uma verdadeira liberdade de expressão a todas as pessoas brasileiras, a função do Estado é promover o debate aberto e integral, assegurando que a pluralidade de vozes da sociedade possa ser ouvida pelo público e garantindo que o alto volume do discurso dos poderosos não silencie a fala das minorias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se nossa Constituição garantisse a liberdade de expressão para que <em>Band</em>, <em>Estadão</em>, <em>Jovem Pan</em>, tenham mais liberdade para nos impor suas ideias e ainda lucrar com a venda de publicidade, então já estaria tudo resolvido. Mas, se o objetivo da liberdade de expressão é garantir a existência de um debate público democrático onde todas as vozes possam ser ouvidas, então, não, não está funcionando. Infelizmente, a cada vez que o Estado sinaliza o interesse de refletir essa questão junto com a sociedade e de cumprir seu papel de implementar e regular a Constituição, a grande mídia declara estado de sítio e grita “censura!”, como se qualquer tentativa de refletir o seu papel na sociedade fosse um gesto autoritário. Como se ela mesma, coitadinha, não percebesse o enorme tamanho do seu poder. <em>(Talvez, como os artistas do Procure Saber, até a grande mídia ache que ela não tem espaço na grande mídia!) </em>Para a grande mídia, a liberdade de expressão se tornou um fim em si mesmo. Liberdade de expressão porque sim. Porque é bom. Ponto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, no Brasil outrofóbico que vivemos, onde as velhas vozes de homens brancos politicamente incorretos continuam obtendo espaço desproporcional em relação às vozes das minorias sobre quem fazem piadas, cabe realmente perguntar: Para que serve essa liberdade de expressão? Para <em>quem</em> serve essa liberdade de expressão? Essa liberdade de expressão está funcionando? É essa liberdade de informação que queremos no futuro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, existe sim uma forte censura no Brasil de hoje, praticada não pelo Estado, ao tentar timidamente discutir um controle social da mídia, mas pela grande imprensa, ao abafar e silenciar a possibilidade desse debate sempre que surge. A quem interessa que a situação continue como está? Só à grande mídia, e a mais ninguém. Uma situação em que a grande mídia tenha o poder de completamente abafar e silenciar qualquer tentativa de discutir ela mesma é a verdadeira antítese da liberdade de expressão. É a prova de que não temos uma verdadeira liberdade de expressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>* * *</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O politicamente correto e a verdadeira liberdade de expressão</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas “politicamente incorretas” que estão se sentindo limitadas em sua fala têm uma certa razão. Foram mesmo. Mas porque sua fala era silenciadora. Nunca existiu nem poderia existir essa liberdade de expressão que pregam como ideal, de poderem falar o que quiserem e fodam-se as consequências. Quer dizer, para eles, para esse grupo humano bem específico, até existiu, mas em detrimento da liberdade de expressão dos grupos que silenciavam, grupos que sempre tiveram que lidar não apenas com as restrições inerentes à fala <em>(ou seja, o risco e a ambiguidade que Butler menciona)</em> mas também com a cultura do silêncio criada pelo discurso de ódio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, voltando à questão inicial, não, o politicamente correto não censura nem ameaça à liberdade de expressão. Pelo contrário, <em>o politicamente correto é a aplicação concreta dos ideais da liberdade de expressão republicana; </em>uma liberdade de expressão mais ampla, mais aberta, mais inclusiva; uma liberdade da expressão que contemple todas as vozes, e não somente aquelas mesmas velhas vozes de sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark><mark style="background-color:#ffffff" class="has-inline-color has-accent-color">Esse texto foi importante pra você?</mark></mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se meus textos tiveram impacto em você, se minhas palavras te ajudaram em momentos difíceis, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor. Assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou artista independente. Não tenho emprego, salário, renda, pai rico. Vivo exclusivamente de escrever esses textos que abriram seus olhos e mudaram sua vida. Dependo da sua generosidade. Se não você que me lê, então quem?</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>pix</strong>: eu@alexcastro.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://apoia.se/alexcastro">apoia.se/alexcastro</a></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdf71248c-e305-40c5-b47d-7172959c0df8_950x950.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Série “As Prisões”</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia">Autossuficiência</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-monogamia">Monogamia</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-liberdade">Liberdade</a><em> </em></li>



<li>Felicidade <em>(em breve)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O Curso das Prisões</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Curso em resumo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que são As Prisões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Funcionamento</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 19h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aulas gravadas indefinidamente</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sem leituras</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12771" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Professor</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/46ucPbM">Mentiras Reunidas</a></em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>,&nbsp;<em><a href="https://suplementopernambuco.com.br/">Suplemento Pernambuco</a></em>,&nbsp;<em><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/home">Quatro Cinco Um</a></em>,&nbsp;<a href="https://rascunho.com.br/"><em>Rascunho</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Meus votos zen-budistas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="compre"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Compre</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>R$88 mensais</strong>, via&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>: comprando o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">plano Mecenas CURSOS</a>&nbsp;<em>(ou superior)</em>, você tem acesso a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos"><strong>todos os meus cursos</strong></a>&nbsp;<em>enquanto durar o seu apoio,</em>&nbsp;além de ganhar muitas outras recompensas, como textos e aulas avulsas exclusivas. Como bônus, coloco seu nome na lista das mecenas. Você pode cancelar o seu plano a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.&nbsp;<em>(O Apoia-se aceita todos os cartões de crédito e boleto).</em></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Dúvidas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aulas em resumo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12678" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/wp-admin/post.php?post=12861&amp;action=edit">EditarPrisão</a></li>
</ul>
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		<title>Prisão Monogamia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Nov 2023 18:15:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
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					<description><![CDATA[Falar em não-monogamia é destravar a possibilidade de criarmos novos tipos de relacionamento, inclusive não-sexuais. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nada pode ser mais capitalista e individualista do que a família nuclear monogâmica, com pessoas fechadas em grupos cada vez menores, exclusivos, isolados. Falar em não-monogamia é destravar a possibilidade de criarmos novos tipos de relacionamento, inclusive não-sexuais. E não tem como falar de relações românticas ou sexuais, de monogamia ou não monogamia, sem encarar de frente o fato de que, em nossa sociedade misógina, toda relação homem-mulher é sempre assimétrica.</p>



<span id="more-12888"></span>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="898" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.12.40.jpg?resize=500%2C898&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12893" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.12.40.jpg?resize=500%2C898&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.12.40.jpg?w=730&amp;ssl=1 730w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Monogamia. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão&nbsp;Monogamia é a oitava, depois das Prisões <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Patriotismo</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a> e </em><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia/"><em>Autossuficiência</em></a>. <em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Introdução</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Dizer que a monogamia é uma prisão não é uma crítica às <em>pessoas </em>que escolheram viver relacionamentos monogâmicos, mas sim ao <em>sistema </em>institucional hegemônico quase-compulsório, vendido por nossa sociedade, pelas religiões, pelas famílias e pelas comédias românticas como a única opção possível e concebível para se relacionar e constituir família, tachando de imorais, doentes e antiéticos todo e qualquer arranjo amoroso-sexual não-monogâmico. Esse sistema nos convence de uma série de “verdades”. Entre elas, que só se pode amar uma pessoa de cada vez; que se amarmos realmente a-pessoa-que-está-conosco, nunca sentiremos tesão por outra; que as pessoas em um casal precisam suprir todas as necessidades afetivas, sexuais, emocionais, etc, uma da outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas <em>nem todas as pessoas são assim. </em><a></a>Existem pessoas que, de fato, só amam uma pessoa de cada vez (<em>e elas estão muito felizes em seus relacionamentos monogâmicos</em>) mas também existem muitas que amam mais de uma pessoa de cada vez (<em>e essas estarão mais felizes em relacionamentos não-monogâmicos</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as pessoas entram em um relacionamento monogâmico não porque escolheram a monogamia entre um sem-número de possíveis arranjos não-monogâmicos que poderiam ter escolhido, mas simplesmente porque nunca se deram conta de que havia opções possíveis fora da monogamia, então, sim, nesses casos a monogamia pode ser uma prisão. Ou seja, a monogamia é uma prisão quando não é vista como uma escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo desse texto não é falar contra a monogamia, ou criticar as pessoas que escolheram a monogamia, mas simplesmente mostrar que, ao contrário do que afirma o sistema monogâmico, existem outras maneiras igualmente válidas de organizarmos nossos relacionamentos. Temos a liberdade de escolher a monogamia <em>(sim, por que não?) </em>mas também precisamos ter a liberdade de escolher qualquer uma das outras infinitas formas de viver, de amar e de transar. A escolha é nossa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como em todos os textos das Prisões, o objetivo aqui não é te convencer de nada, mas te mostrar que você sempre teve uma escolha que talvez nunca tivesse se dado conta.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não-monogamia: o que é</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Relacionamentos não-monogâmicos são quaisquer relacionamentos sexuais, românticos, amorosos ou afetivos consensuais, entre duas ou mais pessoas de quaisquer sexos e gêneros, que vão além da normatividade monogâmica da nossa sociedade e onde não exista a restrição aos envolvimentos com outras pessoas de fora do relacionamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Utilizo a expressão ampla “relacionamentos não-monogâmicos” <em>intencionalmente para evitar outras expressões mais específicas</em>, como poliamor, relações abertas, relações livres, anarquia relacional, etc. Todas essas, e outras mais, são variantes possíveis <em>dentro</em> de “relacionamentos não-monogâmicos.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse texto não é cisheteronormativo. Todos os casos se aplicam a relacionamentos entre pessoas de quaisquer identidade, sexo, gênero ou orientação, a não ser quando explicitamente mencionado. (<em>Alguns exemplos vão tratar especificamente das canalhices que alguns homens heterossexuais fazem com algumas mulheres heterossexuais.</em>)</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não-monogamia: o que não é</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O oposto de monogamia não é poligamia. </em>Poligamia, poliandria e poliginia são arranjos não-necessariamente consensuais e que, por isso, muitas vezes se convertem em sistemas de dominação tão potencialmente opressores quanto a monogamia também pode ser. Já nos relacionamentos não-monogâmicos, conforme definidos aqui, todas as participantes, homens e mulheres, pessoas cis e trans, pessoas hétero, homo e bissexuais, chegam e permanecem sempre em pé de igualdade: pessoas humanas adultas que podem usar e dispor de seus corpos livremente, consensualmente. Se não for livre, consensual e acordado previamente, não é uma relação não-monogâmica.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Swing não é não-monogamia.</em> Swing se refere a uma prática sexual entre casais onde, em uma situação bem específica e bem delimitada, ambas as pessoas de um casal podem transar com outras pessoas de fora do casal. Por isso, via de regra, o swing acontece em contextos monogâmicos, onde o tesão é justamente aquela “transgressão controlada”. Pessoas não-monogâmicas também podem frequentar o swing (<em>apesar de provavelmente não desfrutarem do prazer dessa pequena transgressão</em>) e praticantes do swing também podem ser não-monogâmicas, mas uma coisa não tem necessariamente nada a ver com a outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Relacionamentos não-monogâmicos não são (necessariamente) putaria desenfreada. </em>Quem quer transar com uma pessoa por noite normalmente prefere uma solteirice desimpedida a relacionamentos, mesmo se não-monogâmicos. Um relacionamento não-monogâmico é, antes de tudo, um relacionamento. Um relacionamento com pactos, compromissos, amor, planos — e o que mais as pessoas participantes consensualmente decidirem. O que não exclui, naturalmente, pactos de putaria desenfreada. (<em>O preconceito é achar que qualquer coisa que não seja monogamia é necessariamente putaria desenfreada.</em>)</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="501" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.13.33.jpg?resize=500%2C501&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12892" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.13.33.jpg?resize=500%2C501&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.13.33.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Imagem-do-WhatsApp-de-2023-09-03-as-13.13.33.jpg?w=761&amp;ssl=1 761w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A monogamia é um sistema</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga uma vez me perguntou se eu não tinha “períodos monogâmicos” na vida e respondi que não, que eu seria completamente incapaz de viver assim. Ela ficou impressionadíssima, como se eu tivesse dito que transava com uma pessoa diferente por dia, como se rejeitar a monogamia significasse algum tipo de obrigação ou compulsão de sair toda noite procurando alguém para fazer sexo! (<em>É cansativo só de imaginar uma coisa dessas!</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Monogamia não significa simplesmente “transar com apenas uma pessoa”. Se fosse, a monogamia não seria tão potencialmente nociva, e eu, e a maioria das pessoas não-monogâmicas, de fato teríamos sido monogâmicas por grande parte de nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a <em>monogamia é o sistema</em>. Não é apenas um pacto entre duas pessoas de só poderem se relacionar de forma amorosa, romântica, afetiva ou sexual uma com a outra, mas também um pacto público e socialmente aceito, vigiado e aplicado por toda a nossa civilização cristã-monogâmica, mantido pela família, pelos costumes, pela religião, pelas leis, inclusive pela polícia. (<em>Até pouco tempo atrás, quebrar o pacto monogâmico era crime tipificado no Código Civil, dava prisão, justificava divórcio, podia levar à perda de pensão alimentícia e guarda das crianças e até mesmo — se o homicida fosse homem, naturalmente — atenuava o homicídio.</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, se estou em um relacionamento não-monogâmico e passei um ano inteiro transando “apenas” com a pessoa-com-quem-estou (<em>como se fosse pouco ou insuficiente transar apenas com ela!</em>), ou mesmo se passei o ano inteiro sem transar com ninguém, isso não quer dizer que passei o ano monogâmico. Pelo contrário, passei o ano tão livre quanto sempre fui, primata adulto e sexual que sou, flertando, vivendo, namorando, dispondo da minha vida e das minhas vontades ao meu bel-prazer.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não existe segurança em nenhum relacionamento</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Relacionamentos não-monogâmicos são difíceis, trabalhosos, quase impossíveis. É duro encarar a verdade de que a pessoa-que-está-conosco é tão livre quanto nós. Que estamos sim o tempo todo competindo com todas as outras pessoas do mundo pela atenção e amor e afeto da pessoa-que-está-conosco. Que ela pode sim, a qualquer momento, escolher ser feliz, fazer amizade, confidenciar, se divertir, se apaixonar por outra pessoa e que isso não é errado, não é canalha, não é traição: é nosso direito inerente de primatas livres. Pode ser enlouquecedor aceitar a completa e inescapável falta de segurança e de estabilidade que define a condição humana, e aceitar com tranquilidade (<em>ou, ao menos, resignação</em>) o fato de que a pessoa-que-está-conosco pode sim ir embora qualquer momento. Mais difícil ainda é aceitar tudo isso ao mesmo tempo em que você ama de verdade essa outra pessoa (<em>ou pessoas</em>) com quem você está em uma relação compromissada, cúmplice, confidente, onde existem sonhos e planos compartilhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que a maioria das pessoas ignora é que todos esses perigos, sem exceção, se aplicam <em>igualmente </em>às relações monogâmicas e não-monogâmicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque a maior mentira da monogamia é vender uma falsa segurança: ela diz que, se apenas formos fiéis, as pessoas-com-quem-estamos não vão nos trair nem nos abandonar. E nós, pequenas e inseguras, carentes e temerosas, apesar de todas conhecermos centenas de histórias de relacionamentos monogâmicos onde isso não aconteceu, nos deixamos levar pela esperança de que conosco será diferente e, em troca dessa aconchegante miragem, abrimos mão de nossa liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em minha vida, pelo contrário, preferi encarar esses riscos: aceito a insegurança inerente a qualquer relacionamento. Não valeria a pena trocar liberdade por segurança nem se a segurança fosse possível. Mas não é. Não existe segurança.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sexo não é um jogo de soma zero</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se estou longe e a pessoa-com-quem-estou transa com alguém… por que isso é um problema? Se esse tal alguém foi à minha casa e comeu uma maçã, eu de fato fiquei com uma maçã a menos. Se transou com a pessoa-com-quem-estou… fiquei com menos o quê? Sexo não é um jogo de soma zero: essa transa a mais para a pessoa-que-está-comigo não significou uma transa a menos para mim. <em>(E, mesmo se significasse uma a menos, assim como a maçã, tem mais de onde saiu essa.) </em>Por que seria uma terrível traição a pessoa-que-está-comigo passar a tarde transando com alguém mas não, digamos, jogando tênis ou vendo tevê ou cozinhando com essa mesma pessoa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melhor resposta é “porque havia um acordo de não fazer isso” e eu concordo plenamente que os acordos, desde que estabelecidos de forma livre e consensual, devem ser mantidos. Mas por que <em>esse </em>acordo? Por que a possibilidade de as pessoas-que-estão-conosco transarem com outras pessoas é um problema tão grande que é necessário um acordo específico para evitar que isso aconteça? Aliás, não só um acordo específico, mas todo um sistema de leis, investigações, punições?</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A importância excessiva do sexo na monogamia</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma objeção comum aos relacionamentos não-monogâmicos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se a pessoa com quem estou puder sair com outras, então aumentam as chances de ela me largar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse comentário é repetido com tanta frequência que ele claramente deve soar até autoevidente para muitas das pessoas leitoras. Para os meus ouvidos, porém, soa tristíssimo. Tenho vontade de abraçar essa pessoa e dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Você é menos pior do que se imagina, e a pessoa-com-quem-está é menos leviana do que você pensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois, para fazer esse comentário, uma pessoa precisa presumir duas coisas. Em primeiro lugar, que ela é pior e menos desejável do que a média da humanidade. Logo, se a pessoa-com-quem-está sair com outras, será provavelmente com gente melhor que ela. E, em segundo, que a pessoa-com-quem-está é leviana e superficial, pois seria capaz de abandonar o relacionamento (<em>e toda sua cumplicidade conquistada e companheirismo compartilhado</em>) somente por ter encontrado alguém melhor de cama – como se fosse o sexo a única cola a unir o casal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bons relacionamentos, cúmplices, companheiros, carinhosos, são muito difíceis de encontrar. E vão muito além do sexo. Não quero de modo algum atacar a monogamia (<em>o raciocínio acima é perfeitamente válido</em>) mas apenas mostrar que existem outras lógicas de relacionamento, outras maneiras de pensar o afeto, outros jeitos de encarar as mesmas questões amorosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lógica <em>monogâmica</em> diz que não podia estar saudável um relacionamento que termina porque uma das pessoas transou fora – pois, se estivesse, não teria havido esse desejo sexual por uma terceira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lógica <em>não-monogâmica</em>, por sua vez, diz que não pode estar saudável um relacionamento que termina porque uma das pessoas transou fora – pois, se estivesse, não teria terminado por uma besteira dessas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na mídia, as pessoas não-monogâmicas são geralmente representadas como “libertinas insaciáveis que só se importam com sexo.” Mas, pelo contrário, são as leis e costumes das sociedades monogâmicas que colocam o sexo no centro dos relacionamentos, que legislam que um casamento pode ser anulado se não houver sexo, que consideram o sexo dito “impróprio” como justificativa válida para separar famílias e até mesmo atenuar homicídios – a famosa “legítima defesa da honra”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um relacionamento comprometido é um vasto mecanismo composto por histórias compartilhadas, planos futuros, famílias entreligadas, vivências comuns, etc. Entre tantas peças constitutivas do mecanismo, por que priorizar e quase sacralizar justamente o sexo?</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A importância relativa do sexo na não-monogamia</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda atividade que envolve pessoas, o sexo <em>pode ou não</em> ser importante, dependendo da importância que nós, pessoas humanas, damos a ele. A importância não está no ato, mas em nós. Ir na padaria da esquina pode ser a experiência mais rotineira e desimportante do mundo (<em>como o sexo pode ser rotineiro e desimportante</em>) e também a mais linda e transcendental do mundo, como no dia em que conheci a pessoa-com-quem-estou na fila da padaria e isso mudou nossas vidas (<em>assim como o sexo pode ser incrível e transcendental e mudar nossas vidas</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao atribuir ao sexo uma importância compulsória, o sistema monogâmico acaba estigmatizando tanto as pessoas que praticam relações de sexo mais casual, sem necessariamente envolvimentos amorosos ou sentimentais, quanto as que não sentem atração sexual e levam suas vidas em grande parte sem sexo, as hoje chamadas “assexuais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois se o sexo é algo importante e mágico por definição, se o sexo é o que define o companheirismo, o afeto, a cumplicidade, então essas pessoas, seus estilos de vida, seus relacionamentos, são todos de segundo escalão. É como se o sistema monogâmico tivesse arbitrariamente instituído uma quantidade ótima de sexo que cada pessoa deve fazer: quem faz mais é “vadia”, quem faz menos é “loser”, mas o número mágico em si nunca é revelado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afirmar que <em>sexo não é importante por definição</em> não é afirmar que o sexo não é possivelmente perigoso ou fatal. Dirigir também pode ser perigoso e fatal (<em>assim como o sexo</em>) e, por isso, precisamos de todo um aparato de segurança, como carteira de habilitação e cinto abdominal dianteiro (<em>ou camisinha e testes de HIV</em>), mas isso não quer dizer que dirigir seja “importante” – pelo menos, não do jeito que o sistema monogâmico vende que o sexo é “importante”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como afirmar que sexo <em>não é</em> importante por definição não quer dizer aprovar que as pessoas usem ou objetifiquem ou desrespeitem umas às outras durante o sexo. Não é necessário considerar uma atividade “importante” para agir de forma respeitosa com as pessoas que praticam essa atividade conosco. Toda atividade em que pessoas estejam envolvidas deve ser praticada com cuidado, com respeito, de forma consensual, reconhecendo a humanidade, os limites e a liberdade de escolha das outras pessoas que estão desenvolvendo essa atividade com você, seja abrir uma empresa, jogar vôlei ou fazer uma suruba.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver de forma plena a não-monogamia também significa reconhecer que todas as pessoas têm o direito de atribuir ao sexo a importância que desejarem, e que nada disso nos exime da obrigação de tratá-las com respeito.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não-monogamia também é para quem quer <em>menos</em> sexo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando andamos pela rua e vemos aqueles cartazes “trago a pessoa amada em três dias”, sempre nos colocamos no lugar na pessoa que traz: “hmm, quem eu mandaria trazer?” Mas eu sempre me coloco no lugar da pessoa trazida: “imagina que horror eu estar em casa de boa e, de repente, começar a sentir um desejo repentino, uma necessidade irreprimível por uma pessoa que já era página virada na minha vida?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O lugar comum da nossa sociedade é que as pessoas não-monogâmicas são sedentas por sexo, não se saciam com uma pessoa só, precisam de mais, mAIS, MAIS! E, de fato, essas pessoas existem. Para elas, a não-monogamia é uma maneira de resolverem ao mesmo tempo nossa necessidade humana compartilhada por conexão humana e sua necessidade individual por sexo. E tudo bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a não-monogamia também é um porto seguro para pessoas que precisam de <em>menos</em> sexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, por exemplo, durante muito tempo achei que tinha uma baixíssima libido. Certamente, bem mais baixa do que os homens a minha volta <em>diziam</em> ter. Hoje, porém, depois de considerar o quanto os homens se vêem socialmente obrigados a se <em>afirmarem</em> garanhões, concluí que não tenho como saber. Aliás, o que seria uma libido normal? Existiria um número mágico?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o fato é que, na minha vida, relacionamentos românticos, gostosos, cúmplices, compromissados, sempre foram muito mais importantes do que sexo. Então, em muitas e muitas ocasiões, o sexo foi muito mais algo que fazia para <em>manter</em> esses relacionamentos do que um fim em si. É como se para deixar minha namorada feliz e satisfeita eu tivesse que comer pizza com ela todo dia. Eu adoro pizza, e adoro comer pizza <em>com</em> ela, mas teria comido <em>tanta</em> pizza se não fosse essa obrigatoriedade? Certamente não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A regra monogâmica de “você só pode transar com uma única pessoa” é por definição limitante, mas a regra “a outra pessoa só pode transar <em>com você</em>” me parece ainda mais opressora, angustiosa até:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Benhê! Estou saindo do escritório, vai preparando o jantar porque vou chegar morta de fome!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas, amor, passei o dia escrevendo, estou muito cansado. Você não pode comer alguma coisa pela rua? Passar num restaurante?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não! Você sabe que só posso comer da <em>sua</em> comida! Se não quiser cozinhar, vou dormir com fome. E vou continuar passando fome até você querer cozinhar pra mim de novo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas&#8230; mas&#8230; Tem um árabe aí na esquina do seu trabalho. Você adorava esse árabe. Por favor, resolve sua fome no árabe. Só hoje. Estou exausto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ai, benhê, depois que provei da sua comida, não consigo nem sentir vontade de comer nenhuma outra. Tem que ser a sua ou é a <em>fome</em>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a maioria das pessoas, esse diálogo parece perfeitamente comum, talvez até ideal, algo romântico, um sonho. Para mim, ele soa obsessivo e doentio. Fico cansado só de imaginar uma pessoa que <em>toda vez</em> que quiser sexo <em>tem que ser</em> comigo. Só poder transar com uma única pessoa é ruim, mas ser o único supridor de sexo de outra é infinitamente pior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas das pessoas me lendo, especialmente as mulheres, já fizeram sexo contra a vontade, inclusive com pessoas que realmente amavam e desejavam, só por causa das obrigatoriedades sexuais monogâmicas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A não-monogamia também serve para nos libertar desse peso.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O risco de sermos trocadas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas monogâmicas me fazem o seguinte comentário:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se a pessoa-com-quem-estou transar com outra, aumentam as chances de eu ser trocada, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a pessoa-que-está-comigo sentir interesse, tesão, paixonite por alguém fora do nosso relacionamento e <em>transar com ela</em> dentro das regras do nosso pacto não-monogâmico, existe a possibilidade de ela me trocar por essa pessoa. Mas se a pessoa-que-está-comigo sentir interesse, tesão, paixonite por alguém fora do nosso relacionamento e <em>não transar com ela</em> por respeito às regras do nosso pacto monogâmico, também existe a possibilidade de ela me trocar por essa pessoa. A grande maioria das pessoas que escolhe a monogamia parece calcular que as chances de rejeição no primeiro cenário são autoevidentemente muito maiores do que no segundo cenário. Quanto a mim, confesso não ter dados para quantificar qual cenário é mais “arriscado”: dependeria das pessoas envolvidas, do momento que estão em suas vidas e em seus relacionamentos, de muitos fatores imponderáveis. Naturalmente, se não é possível saber <em>quais são as chances</em> de rejeição em cada tipo de relacionamento, também não é possível saber se uma transa fora do relacionamento por parte de uma pessoa <em>aumenta ou diminui as chances</em> da outra pessoa ser rejeitada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivo relacionamentos não-monogâmicos porque, na impossibilidade de determinar qual cenário é mais “arriscado”, prefiro sempre errar em prol de mais liberdade para mim e para as pessoas que escolhem se relacionar comigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos tantos fatores imponderáveis que tornam o cálculo desse risco impossível é como eu me comparo em relação às outras pessoas. Em certa medida, o medo que sentimos de ser trocadas se a pessoa-que-está-conosco transar fora do relacionamento é inversamente proporcional à nossa autoestima. Afinal, se me considero “abaixo da média” (<em>o que quer que isso seja!</em>), então, se a pessoa-que-está-comigo transar fora provavelmente será com alguém “melhor” que eu e, portanto, as chances de eu ser trocada são maiores. Por outro lado, se me considero “acima da média”, posso presumir o oposto: que ao transar com outras pessoas, ela vai dar ainda mais valor a mim, ao nosso relacionamento, a nossa cumplicidade, à nossa história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dos fatores imponderáveis é o quão leviana e superficial eu considero a pessoa-que-está-comigo. Pois, se tenho confiança nela, no nosso relacionamento, em nosso carinho, em nossa história compartilhada e em nossos planos futuros, então também tenho confiança de que não vai jogar fora tudo isso que construímos juntos só por uma foda – por melhor que seja a foda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabe também problematizar essas noções competitivas de “melhor foda”, “acima da média”, etc. O que seria isso? Quais seriam os critérios? Existiria uma medição assim tão objetiva? Muitas vezes, o que faz o sexo ser “melhor” ou “pior” tem pouco a ver com a mecânica em si do ato sexual e tudo a ver com as emoções, as expectativas, o carinho, o afeto, a confiança que trazemos para a cama. Além disso, um relacionamento é muito, muito mais do que sexo, bom ou ruim, acima ou abaixo da média. Nada impede a pessoa-que-está-comigo de transar com alguém “melhor de cama” do que eu e, ainda assim, continuar comigo, porque gosta do jeito como leio histórias para ela dormir, porque sente falta do meu toque, porque valoriza toda uma vida de casal que construímos juntos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, ela pode manter o relacionamento comprometido que tem comigo e, ao mesmo tempo, também continuar transando com a tal pessoa “melhor de cama” do que eu, estabelecendo com ela um outro relacionamento ou não. E, quem sabe, também pode sair com outra pessoa, “pior de cama” que todas, mas que faz aquela coisa com a língua que só ela sabe fazer. Ou, para não ficarmos apenas no sexo, também pode sair com uma pessoa com quem ela nem transa, mas com quem adora dormir agarradinha e assistir filme comendo pipoca no sofá. Ou pode não sair com ninguém. Por que não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, a maior dádiva que os relacionamentos não-monogâmicos nos oferecem é justamente, quando sentimos interesse romântico ou sexual por mais de uma pessoa, a possibilidade de <em>não ter que escolher:</em> podemos nos dar o direito de nos relacionar com ambas.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Nunca houve relacionamento bom que terminou</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Relacionamentos terminam porque uma ou mais pessoas estão infelizes ou insatisfeitas, e porque falta vontade ou capacidade para resolver essas questões. Então, se a pessoa-que-está-comigo não quiser mais ficar comigo, seja para ficar com outra pessoa ou para ficar sozinha, essa mudança, apesar de dolorosa, é provavelmente mudança positiva, ou para ela ou para mim, ou para ambos. Eu me sentiria a pessoa mais egoísta e menos generosa do mundo se quisesse manter ao meu lado alguém que já concluiu que sua vida estaria melhor sozinha ou com outra pessoa. Nada disso quer dizer que não vou sofrer como um cão, chorando na sarjeta, uivando para a lua. Mas o meu luto é problema meu, não da pessoa-que-esteve-comigo.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem não se ama não tem como amar ninguém</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Só quem ama a si mesma pode amar outra pessoa de peito aberto, de igual pra igual, com destemor e companheirismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pessoa que se odeia, que não se ama, que se acha indigna de ser amada&#8230; ela, por definição, não sabe amar. O que ela pode sentir por outras pessoas nunca vai ser amor, mas, no máximo, admiração por essas pessoas incríveis que, bem, não são ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem não ama a si mesma não ama ninguém, pois só sabe estabelecer relações de inferioridade e superioridade, dominação e submissão. Pois se a pessoa-que-não-se-ama se acha tão inferior, ruim, inadequada ao ponto de nem mesmo se amar, e se ela ama outra pessoa, ou seja, se acha que essa outra pessoa é tudo o que ela não é, superior, melhor, adequada&#8230; Então, não tem como ser uma relação de igualdade, pois a pessoa-que-não-se-ama já chega no relacionamento se colocando em posição subalterna a essa outra que, ao contrário de si mesma, ela acha que, sim, merece ser amada. Se eu não acho que mereço ser amada, mas amo alguém que acho que, sim, essa pessoa sim, merece ser amada, como eu não me colocaria em posição inferior a ela? Como pode ser verdadeiro, igualitário, companheiro um amor assim subserviente?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que enfatiza a importância de se amar, ainda mais eu sendo um praticante budismo que também fala muito de atenção e egocentrismo, alguém me pergunta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas se amar, ou se amar demais, não é narcisismo e autocentramento?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim. A solução para a baixa auto-estima não é fazermos o caminho inverso e chafurdarmos no autoamor exagerado. A pessoa que se odeia e a pessoa apaixonada pelo próprio reflexo são duas faces do mesmíssimo narcisismo autocentrado. Se amar demais, ou se amar de menos, são duas prisões que nos mantém sempre olhando para nosso próprio umbigo e tratando as relações humanas como se fossem uma contabilidade onde as entradas precisam bater com as saídas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho é justamente desapegar desse Eu. Não precisamos ficar tabulando nossos merecimentos para calcular se somos mais ou menos merecedoras. Ninguém é nem melhor, nem pior; nem mais, nem menos merecedora de amor. Todas as pessoas são merecedoras. Todas nós apenas somos. Só seremos livres para de fato enxergar as pessoas a nossa volta e amar sem barreiras quando nosso Eu deixar de ser uma questão tão absorvente. Só dá pra amar de verdade desapegando da Prisão Eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas, Alex, o que é pra você “amar a si mesma”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagina se vou ser juiz de um negócio desses! Aceito a autodeclaração das pessoas. Se ela diz que se ama, acredito. Talvez mais importante, se diz que não, acredito também.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Novas pessoas não tiram, só acrescentam</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, nas relações monogâmicas, um sexo quente e clandestino na hora do almoço pode fazer com que uma pessoa recupere o desejo há muito perdido por seu cônjuge. Pois o sexo e amor, como já foi dito, não são jogos de soma-zero. Quanto mais amamos, mais amor temos para dar. Nada desperta tanto o tesão quanto mais tesão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando eu ou a pessoa-que-está-comigo voltamos de estar com outras pessoas, além de trazermos novas experiências e novas histórias, talvez um novo jeito de dedar, talvez uma nova perspectiva sobre a vida, também estamos renovadas e cheias de tesão, livres e felizes. Trazemos uma <em>energia nova.</em> (Nos textos em inglês, <em>new relationship energy</em>.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as pessoas com quem as pessoas-com-quem-eu-estava já se relacionaram, longe de me “tomarem” algo ou de me prejudicarem de qualquer maneira, me adicionaram vivências lindas e incríveis. Muitas delas acabaram se tornando algumas das pessoas que mais gosto nessa vida, seja como amigas, amantes ou, por que não?, ambos. Afinal, já temos um enorme ponto de contato: o bom-gosto da pessoa que nos escolheu.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Como lidar com o ciúme</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">De vez em quando, algumas pessoas me dizem:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Adoraria viver relacionamentos não-monogâmicos, só que tenho muito, muito ciúme. Como lidar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não existe nada de errado com o ciúme. É uma emoção como outra qualquer. A questão é o que fazemos com ele. Vamos lidar com o nosso ciúme nós mesmas, como pessoas adultas e dotadas de autocontrole, ou vamos usá-lo para atormentar, controlar, violentar as pessoas com quem estamos nos relacionando?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— O que você faz quando sente muita, muita vontade de dar um tapa num colega de trabalho que foi cretino com você?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Nada, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Pois bem. A resposta é essa. Não tem atalho. Não tem simpatia onde você possa dar três pulinhos e a raiva ou o ciúme vão sumir. Se você acha que é errado dar tapas em colegas de trabalho ou submeter a pessoa-que-está-com-você aos seus ataques de ciúmes, a única solução é simplesmente não fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E cabe nos perguntarmos: de onde veio esse ciúme obsessivo que nos habita? Será que já nascemos pessoas naturalmente ciumentas? Ou será que esse ciúme é construído por toda uma cultura que nos ensina desde crianças a sermos possessivas, acumuladoras, egoístas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que construíram dentro de nós também pode ser desconstruído por nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que é o ciúme</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não existe somente um ciúme. Quando uma pessoa diz que sente ciúme e a outra responde “eu também&#8230;” podem estar falando de emoções vastamente diferentes. Então, quando o ciúme se torna um problema, a primeira conversa a se ter é: “De qual ciúme estamos falando?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu ciúme, por exemplo, pode ser <em>medo de rejeição (1)</em>, como se o mero fato da pessoa-com-quem-estou querer sair com outra já significasse uma perda pra mim. Mas será mesmo que essa possível conexão entre duas <em>outras</em> pessoas tem a ver <em>comigo</em>? Uma das premissas da não-monogamia é justamente que minha parceira ter interesse ou sair ou transar com outras pessoas não significa que perdi nada, ou que fui rejeitado. Muitas vezes, esse <em>medo de rejeição</em> é somente um resquício <em>(que pode ser forte)</em> de sentimentos que a monogamia nos condicionou a sentir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indo mais além, nessa mesma linha, pode ser um <em>medo de abandono (2)</em>: se minha parceira está saindo com outra pessoa, é porque estou a ponto de perdê-la, logo ela já não vai mais querer nada comigo, nosso relacionamento terminará, e ficarei sozinho, solteiro, abandonado. É possível? Sim, sempre é. A outra pessoa, afinal de contas, é livre. Mas uma das belezas da não-monogamia é justamente que nossa parceira pode se interessar por outra pessoa sem que isso signifique, necessariamente, que o relacionamento está em crise ou perigando terminar. Por isso, como tantos tipos de ciúme, o <em>medo de abandono</em> também pode ser um resquício de condicionamentos monogâmicos dos quais ainda não conseguimos nos livrar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No extremo dessa tendência, o ciúme pode nascer de uma baixa auto-estima e se transformar em um <em>medo de inadequação</em> <em>(3)</em>. É uma certeza insana e insistente de que minha parceira só está comigo porque <em>ainda</em> não sabe o quão todo errado eu sou, mas, se sair com mais e mais pessoas, será matematicamente impossível que não descubra em breve. Afinal, naquele canto da minha mente onde sempre são quatro da manhã, todo mundo é muito melhor que eu em quase tudo. Esse ciúme é uma mistura dos dois primeiros, pois une o <em>medo da rejeição</em> ao <em>medo do abandono</em>, como se minha parceira gostasse também de outra pessoa não porque <em>elas</em> duas têm uma conexão humana própria, mas sim porque <em>eu</em> sou feio, chato, bobo! Quando me pego olhando para esse abismo, e antes que ele me olhe de volta, procuro me lembrar que minha parceira é uma pessoa incrível. <em>(Todas as minhas parceiras foram pessoas incríveis.)</em> Se ela viu qualidades em mim que justificassem se relacionar publicamente comigo, tão errado assim eu não devo ser. Posso não confiar no meu discernimento, mas confio no dela. E dou um passinho atrás, para longe da borda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ciúme também pode ser uma variação de FOMO (do inglês <em>fear of missing out</em>), ou seja, <em>medo de ficar de fora (4)</em>, uma irritação comparativa ao pensar que minha parceira está se divertindo mais do que eu. Muitas pessoas, começando na não-monogamia, às vezes já superaram os condicionamentos monogâmicos acima, mas ainda caem presa de condicionamentos capitalistas como esse, um certo pensamento competitivo de contabilizar quem saiu com mais gente, quem foi a mais festas, etc. Um bom relacionamento, porém, é uma cooperativa igualitária, não uma bolsa de valores onde alguns títulos sobem e outros descem. Sim, se minha parceira saiu com uma pessoa, posso passar a noite mandando quantos “oi, sumida” forem necessários até arrumar uma companhia noturna, mas também posso aproveitar para ler um livro ou cozinhar, sair com amigas ou dormir. A vida não é uma competição – muito menos com a pessoa que eu amo e escolhi me relacionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa mesma linha, o ciúme pode ser uma simples <em>inveja</em> <em>(5)</em>: não tenho necessariamente nada contra o que minha parceira está fazendo com outra pessoa, exceto pelo fato de que gostaria de estar fazendo isso com ela também, seja ir à praia ou maratonar uma série, cozinhar juntos ou fazer o frango assado. De todos os ciúmes, esse é o mais fácil de resolver, às vezes com uma simples conversa. Aqui, a competitividade e a comparação podem até ser saudáveis: “não me incomodo de você ir à praia com ela, se combinarmos que vamos nós sempre à praia na sequência”, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, o ciúme pode ser um <em>medo de vergonha pública</em> <em>(6).</em> De todos os medos, certamente esse é o mais real: somos macaquinhas gregárias, vivemos em comunidade e dependemos de nossa reputação entre nossos pares: gostemos ou não, o comportamento das pessoas-que-estão-conosco sempre reflete, em alguma medida, em nós. Além disso, mulheres sempre pagam um preço maior por qualquer transgressão social. Nem todas as pessoas têm o privilégio de serem artistas para quem a não-monogamia pode se converter em bandeira pública. Aqui cabem conversas práticas sobre não só quem pode ser vista em público fazendo o quê com quem, mas também quais podem ser as consequências reais e concretas que podem resultar disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De qualquer modo, o ciúme é sempre uma manifestação de alguma questão <em>nossa</em> <em>(medo ou insegurança, inveja ou vergonha?)</em> que estamos projetando na <em>outra</em> pessoa. Por isso, de novo e sempre, uma maneira potencial de resolver quaisquer problemas de ciúme, seja o nosso ou da outra pessoa, é a pergunta salvadora: “<em>Exatamente</em> o que está <em>me/te</em> incomodando?” A resposta necessariamente ajuda a definir de qual ciúme estamos falando e, daí em diante, possíveis soluções podem ser conversadas e propostas, rejeitadas ou acordadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentir ciúme não é errado, porque nenhuma emoção é errada. Só o que pode ser errado é usarmos nossas emoções para atormentarmos umas às outras. Já abrir nossas emoções para as pessoas que escolheram viver a vida conosco é chamá-las para resolvermos juntas as emoções que estão <em>nos</em> atormentando.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Relacionamentos que funcionam</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Escuto muito:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ah, relação não-monogâmica não funciona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas vezes, de fato, quem diz isso são pessoas que experimentaram uma ou mais relações não-monogâmicas, tiveram variados problemas e, então, voltaram à monogamia. Respeito as opiniões e vivências dessas pessoas, mas gosto apenas de acrescentar que não é que “relações não-monogâmicas não funcionam”, e sim que relações não-monogâmicas não funcionaram <em>para elas</em> naquela fase <em>específica </em>de suas vidas. Senão, eu também poderia dizer, bastante convicta, que cursar faculdade de engenharia ou ter filhos também são coisas que não funcionam – somente por eu saber que são coisas que não funcionam <em>para mim</em>, por causa de minhas próprias limitações de temperamento e de experiência de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em grande parte das vezes, entretanto, quem diz que “relação não-monogâmica não funciona” são pessoas que nunca tiveram nenhuma vivência desse tipo de relacionamento, nem nas próprias vidas, nem nas vidas de pessoas próximas. De onde será que vem essa certeza de que um estilo de vida sobre o qual sabem tão pouco “não funciona”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas vidas das pessoas à minha volta, testemunhei um número literalmente incalculável de relacionamentos monogâmicos disfuncionais, violentos, abusivos e infiéis. Entretanto, nada disso me permite afirmar que “a monogamia não funciona” e sim que <em>esses</em> relacionamentos, entre <em>essas</em> pessoas, <em>nesses </em>contextos, eram disfuncionais, violentos, abusivos e infiéis. (Quando digo que a “monogamia é uma prisão” não é porque ela funciona ou não funciona, mas porque ela se apresenta como a única opção concebível para organizarmos nossos relacionamentos, relegando todos os outros tipos possíveis de relacionamentos à marginalidade.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que significa na prática dizer que um relacionamento, ou um tipo de relacionamento, não funciona? Um relacionamento que funciona com uma pessoa não funcionaria com outra. Um relacionamento que funciona em uma fase da nossa vida não funcionaria em outra. As variáveis são infinitas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fim das contas, porém, eu teria que dar o braço a torcer: sim, relacionamentos não-monogâmicos não dão certo. Mas os relacionamentos monogâmicos também não dão certo. Porque fundamentalmente nada dá certo: vivemos vidas repletas de dor e de confusão, eternamente buscando por conexões humanas sempre efêmeras, até que todas morremos, inclusive o sol e as estrelas, que vão se apagar uma a uma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão é outra: no pouco tempo que temos disponível para viver e amar, qual é o tipo de relacionamento que nos parece mais adequado para viver com aquelas pessoas específicas, naquelas situações específicas, naquelas fases específicas de nossas vidas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema da discussão sobre “relacionamentos que funcionam” é que ela confunde fins com meios. Um relacionamento não é um fim, um objetivo, uma destinação<em>. (Se chegamos, deu certo; se nos perdemos, deu errado, etc).</em> Pelo contrário, um relacionamento é um meio, uma prática, um dia-a-dia. Ele não está <em>indo</em> para lugar algum: só está <em>sendo</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que esperamos de nossos relacionamentos?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga querida veio reclamar comigo que estava saindo com um cara ótimo, budista, gente fina, grande pessoa, que só tinha um grande problema: ela mandava mensagem pra ele e o homem demorava horas, as vezes dias pra responder, e ela ficava doida, subia pelas paredes de ansiedade, como é que ele achava que era razoável fazer um negócio desses?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ele é uma pessoa ótima, budista, coordena um templo, lidera um grupo, tem uma filha, ele funciona num outro tempo, num outro ritmo. Ele provavelmente nem imagina que está te fazendo subir pelas paredes de ansiedade. Você já falou isso pra ele? Pediu pra responder mais rápido?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Claro que não, ué. Precisa explicar pra um adulto que não pode demorar dias pra responder uma mensagem?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela acabou terminando com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano seguinte, ela começou a namorar um outro cara, mais velho, pessoa boa toda vida, que só tinha um grande problema: mandava mensagens demais, e ela ficava doida, subia pelas paredes de raiva, como é que ele achava que era razoável fazer um negócio desses? E respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ele é uma pessoa ótima, executivo ocupado, paizão de adolescente, ativo e presente na vida dos filhos, apaixonado por ela. Ele provavelmente nem imagina que está te fazendo subir pelas paredes de raiva. Você já falou isso pra ele? Pediu pra não mandar tanta mensagem?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Claro que não, ué. Precisa explicar pra um adulto que não pode ficar mandando tanta mensagem durante o dia de trabalho?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela acabou terminando com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E perguntei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Você percebe que está se condenando à loteria de só poder ter relacionamentos com pessoas que calham de ter a mesma frequência de comunicação que você? Precisa explicar para uma adulta que ela tem que comunicar aos seus parceiros o que ela quer, o que precisa, o que espera?</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left" id="regras"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">As regras da não-monogamia</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo precisa de regras, mas existem regras e regras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas, começando relações não-monogâmicas, estabelecem regras que, na prática, servem de muleta psicológica para lhes dar um pouco mais de segurança e de apoio nessa transição, que pode ser assustadora, a um modelo mais aberto de relacionamento. Por exemplo, pode sair com outras pessoas, menos aos domingos, o domingo é só nosso; ou a regra oposta, só pode sair com outras pessoas no domingo; não pode passar a noite fora; não pode transar com outras pessoas na nossa cama; não pode viajar com outras pessoas; etc. Usualmente, as regras que vejo funcionar são as objetivas, como essas acima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tipo de regra que quase nunca funciona, e que sempre causa dor de cabeça, são as subjetivas, tipo “pode transar, mas não pode se apaixonar/gostar/se envolver”, justamente porque cada pessoa define essas coisas de maneira diferente, quase sempre as define de maneira a se beneficiar e, mais importante, quando a pessoa percebe, já está gostando, e aí já era.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na minha experiência, sempre que as regras entram em conflito com o mundo real, o mundo real tende a vencer, até que, pouco a pouco, elas acabam sendo abolidas em prol de, simplesmente, conversas caso a caso, mais abertas e mais empáticas em relação às necessidades e limitações da outra pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se estou num relacionamento e temos o pacto de nunca sair com outras pessoas na quarta, mas tem uma pessoa com quem a minha companheira quer muito sair e namorar e se relacionar, mas ela só está na cidade na quarta…. eu vou realmente preferir que minha companheira fique em casa, amuada e frustrada, olhando de rabo de olho pra mim, só pra respeitar uma regra arbitrária?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A felicidade, as vontades, os desejos da minha companheira, da pessoa que eu amo e em quem eu confio, são muito mais importantes que uma regra arbitrária que inventamos meses atrás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando existe um relacionamento não-monogâmico compromissado e leal, onde as partes se gostam e se confiam, conversam e compartilham, as regras acabam perdendo um pouco a razão de ser, em detrimento da única regra universal: quando você ama e confia em alguém de verdade, e essa pessoa também ama e confia em você, tudo o que vocês fizerem juntos, combinados, conversando, vai ser da lei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando existe esse tipo de relacionamento, com amor e confiança, conversa e compromisso, as pessoas acabam descobrindo que as regras são redundantes. Quando o relacionamento não tem esses componentes, nenhum empilhamento de regras vai poder salvá-lo.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="497" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/aula-prisao-monogamiade.jpg?resize=500%2C497&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12891" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/aula-prisao-monogamiade.jpg?resize=500%2C497&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/aula-prisao-monogamiade.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/aula-prisao-monogamiade.jpg?w=759&amp;ssl=1 759w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Para onde estão indo os relacionamentos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma pessoa que eu amo. Essa pessoa é um ser independente, livre para beijar (<em>e dançar</em>), transar (<em>e cozinhar</em>), amar (<em>e meditar</em>) com quem ela quiser. Para fins práticos, porque a nossa sociedade heteronormativa beneficia casais heterossexuais, assinamos um papel: ele significa, entre outras coisas, que somos dependentes uma da outra para fins de plano de saúde ou visto de residência. Mas somos livres para des-assinar esse papel a qualquer momento. Ela me acompanha em muitos momentos e não em outros. Quando ela está comigo, é sempre lindo. Quando ela não está comigo, somos felizes de outras maneiras, com outras pessoas, fazendo outras coisas. Então, quando ela escolhe voltar para os meus braços, ao invés de estar em qualquer lugar fazendo qualquer coisa com qualquer pessoa, eu me sinto amado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando me sinto amando muito, às vezes tenho rompantes de “levar o relacionamento para a próxima etapa”. Mas essa ânsia não resiste a três segundos de reflexão. Afinal, de onde vem essa minha certeza tão profunda de que relacionamentos sempre precisam progredir, avançar, evoluir, atingir metas? Progredir, avançar, evoluir… em direção a quê? Atingir metas… quais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confesso que ainda tenho dentro de mim essas vontades súbitas de “ir a algum lugar com o relacionamento”, mas, quando olho pra frente, não existe nenhum lugar para onde eu queira ir. Já estou no melhor lugar onde poderia estar. Eu quero apenas mais do que já temos.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O medo de perder pessoas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">De vez em quando me perguntam:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas, Alex, você não tem medo de perdê-la?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondo que sim. Claro. Muito. Eu me pélo de medo. Todo dia. Todo santo dia. Todo. Mas e daí? Qual seria a solução? Se tivéssemos uma relação monogâmica em vez de não-monogâmica, o risco de perdê-la seria o mesmo. Casadas ou solteiras, o risco de perdê-la é o mesmo. Morando juntas ou em casas separadas, o risco de perdê-la seria o mesmo. Quase todos os relacionamentos que conheço prendiam as pessoas umas às outras com todas as algemas ilusórias acima… e quase todos acabaram. Pior ainda, muitos dos que não acabaram (<em>teoricamente, os que deram certo</em>) deveriam ter acabado. As falsas algemas serviram não para garantir a felicidade do casal mas para prender um corpo morto a outro, duas pessoas quase estranhas hoje unidas apenas pelo cheiro de carne podre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, sim, tenho medo de perder a pessoa-que-está-comigo. Mas tenho ainda mais medo de eu me perder dela e ela se perder de mim, e continuarmos juntos… só porque assinamos um papel, só porque temos uma filha, só porque moramos no mesmo apartamento e não temos para onde ir, só porque daria muito trabalho desfazer a empresa que abrimos juntas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum grande amor merece virar um triste arremedo de si mesmo. É natural que tudo acabe. Nosso grande amor vai acabar, depois nossas vidas, depois nossas línguas, nossos países, nosso planeta, até nosso sol. (<em>Esse processo não é nem bom nem ruim, nem triste nem feliz, nem desejável nem indesejável. Ele só é. Ele é a definição do que é “natural”.</em>) É compreensível que tenhamos medo dessa entropia insaciável que, minuto a minuto, nos consome e também consome tudo o que conhecemos e que, finalmente, vai apagar todas as estrelas uma a uma. O que não é aceitável é nos escravizarmos, nos acorrentarmos, nos enlouquecermos umas às outras para fugir do medo e da entropia, da morte e do fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, sim, tenho medo de perder a pessoa-que-está-comigo. Mas isso não muda nada.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Precisar de pessoas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muito tempo atrás, a pessoa-com-quem-eu-então-estava me perguntou, em tom de desafio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Você precisa de mim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E dei a única resposta possível:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não. Não preciso de você e nem você de mim. Somos duas pessoas adultas e independentes que se sustentam. Eu te amo muito e estou com você por escolha própria. Quando nosso relacionamento fatalmente terminar, seja por iniciativa minha, sua ou mútua, eu vou sofrer e ficar triste (<em>porque te amo e escolhi estar com você, mesmo que tenha depois desescolhido ou sido desescolhido</em>) mas, em breve, a vida vai voltar ao normal, e vou conhecer outra pessoa, e vou dar outro primeiro beijo, e serei feliz novamente. Então, não, meu amor, não preciso de você para nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela não gostou da resposta e me acusou de “não ser nada romântico”, como se isso fosse uma falha de caráter. Hoje, às vezes, quando dá três da manhã na minha alma e bate uma insegurança avassaladora e constitutiva, eu sinto sim uma vontade louca de que a-pessoa-que-está-comigo de fato precise de mim, de maneira física e visceral, para que nunca, nunca vá embora!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, logo depois, eu me dou conta: como poderia ser saudável um relacionamento baseado em um desejo assim tão violento e doentio? Não quero que a pessoa-que-está-comigo precise estar comigo: quero que ela <em>queira </em>estar comigo. E, quando não quiser mais, quero que ela esteja onde ela quiser estar, não atrelada a mim porque <em>precisa</em>, porque sofre de algum tipo de carência patológica e paralisante que lhe faz não ver sentido na vida fora do nosso relacionamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, também tomei a decisão de não me envolver com pessoas que precisem de mim: quero a segurança de saber que a pessoa-que-está-comigo está comigo por vontade própria e que se sente livre e capaz de ir embora a qualquer momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Esperando pela amizade perfeita</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A relação de uma pessoa com qualquer outra é sempre pautada pelos limites e possibilidades de ambas. Por exemplo, escuto muito a seguinte reclamação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Tenho amigos que[nunca fazem um esforço … de vir à minha casa, ou a uma padaria perto da casa deles, que seja. Sempre eu quem tem que se deslocar à casa deles se quiser vê-los. Se não fizer esse deslocamento … não os vejo mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É verdade. Na minha vida, por exemplo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho amigas que são ótimas pra segurar a minha barra quando meu pai está com câncer, mas jamais sairiam comigo para dançar e badalar: “Ai, odeio lugar escuro, apertado, música alta! Deus me livre!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho amigas que não aguentam um minuto de conversa sobre câncer <em>(“Vira essa boca pra lá, falar sobre isso atrai, quero viver!”) </em>mas são as melhores companheiras para sair, dançar, beber, badalar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho amigas que me visitam sempre, mas que jamais me convidaram para conhecer suas casas: “Minha casa é um santuário, sabe? me sinto invadida quando recebo visitas.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho amigas que nunca me visitaram <em>(“Perdão, Alex, tenho um prazo estourando, tô com a minha filha hoje, não vai dar pra sair”),</em> mas que sempre me recebem em suas casas para dias deliciosos de conversa e coworking.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas são diferentes. Elas tiveram vidas, experiências, traumas diferentes, e, por isso, agem, oferecem, precisam de coisas diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada contra passarmos a vida esperando pela mítica amiga perfeita que vai sair para dançar conosco na sexta e nos acompanhar na quimioterapia do pai na segunda<em>. (De novo, pautadas por nossos traumas e experiências, agimos como precisamos e como podemos.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em minha vida, porém, essa atitude fazia de mim uma pessoa amarga e solitária, sempre esperando mais das pessoas do que podiam oferecer, sempre me frustrando, sempre pulando de amiga em amiga em busca da amiga ideal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, me sinto grato e privilegiado de poder ser o recipiente daquilo de melhor que as pessoas querem e podem me oferecer. Uma amiga que seja a amiga perfeita para passar um dia na praia é uma amiga perfeita para chamar para passar o dia na praia. Não espero que também seja a amiga que cozinha comigo, com quem converso sobre Doctor Who, que adora rodas de chorinho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha maior fonte de sofrimento eram minhas expectativas sobre o comportamento das outras pessoas. Quando consegui diminuí-las ou desligá-las, minha interação social passou a ser muito mais prazerosa e mais tranquila, menos egoísta e menos autocentrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, substitua “pessoa amiga” por qualquer uma das palavras que usamos para as pessoas com quem temos relacionamentos românticos-sexuais <em>(“marido”, “namorada”, “noivo”, “amante”, etc)</em> e o texto se torna automaticamente sobre relacionamentos não-monogâmicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas nós, ao longo da infância e adolescência, construímos um grupo de amigos e amigos que, se somente não fizermos nada, serão nossa rede de apoio por toda a nossa vida. Abraçar a monogamia, porém, é trocar essa rede de apoio por um único ponto de apoio. Simplesmente não vale a pena. Nós, macaquinhos gregários, não fomos feitos pra isso.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A ética das relações não-monogâmicas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A possibilidade de se viver abertamente relacionamentos não-monogâmicos é uma das grandes conquistas político-sociais das últimas décadas (<em>especialmente para as mulheres</em>). Entretanto, é importante ficarmos atentas para as pessoas (<em>especialmente homens</em>) que tentarão se utilizar desse discurso para justificar comportamentos desonestos e abusivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O principal fator que separa um relacionamento potencialmente abusivo, desonesto, infiel, etc, de um relacionamento não-monogâmico é um pacto prévio consensual articulado explícito. O que define que você está em um relacionamento não-monogâmico é <em>justamente </em>esse pacto prévio consensual articulado explícito. Se uma das pessoas acha ou jura ou afirma que está em um relacionamento não-monogâmico mas a outra não, se essa questão nunca foi explicitamente articulada e decidida, então, não, não estão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você tem um relacionamento, transa com outras, a pessoa com quem você está descobre e continua no relacionamento, e você continua transando com outras, mas vocês nunca tiveram uma conversa explícita sobre limites, segurança, pactos, etc, então, não, o que vocês têm <em>não </em>é um relacionamento não-monogâmico. (<em>Por mais que você ache que a outra pessoa aprove — senão, teria ido embora! — você é só uma pessoa que trai a pessoa com quem tem um relacionamento.</em>) Se existe qualquer possibilidade de mal-entendido sobre se ambas as pessoas estão em um relacionamento não-monogâmico, então não é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A razão disso é simples: os relacionamentos monogâmicos são a norma na nossa sociedade. Por isso, eles não precisam necessariamente ser articulados explicitamente. (<em>Embora é bom que sejam</em>.) Se duas pessoas se encontram, ficam, transam, transam de novo, transam de novo, começam a sair socialmente e encontrar as pessoas amigas umas das outras, e assim sucessivamente, pode bem ser que nunca articulem de forma explícita “sim, estamos namorando”, pois já terão entrado “naturalmente” nesse estado aos olhos delas mesmas e da sociedade que lhes rodeia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelo mesmo motivo, se uma delas faz tudo isso com a outra (<em>e continua transando com terceiras sem essa primeira pessoa saber</em>) então, sim, é infidelidade. Mentir não é só uma ação, mas também uma omissão. Eu me comportar de maneira a gerar uma impressão que sei ser errônea em outra pessoa também é mentira. Em nossa sociedade, tudo no comportamento acima presume que as duas pessoas estão em uma relação monogâmica. Então, é desonesto eu criar na outra pessoa essa “impressão de monogamia”, continuar transando com outras e depois ainda me autojustificar dizendo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ué, nós nunca combinamos que estávamos num relacionamento monogâmico!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A monogamia, como é o relacionamento default da nossa sociedade, não precisa ser explicitamente articulada. A não-monogamia precisa. Por isso, duas (<em>ou mais</em>) pessoas só estarão vivendo um relacionamento não-monogâmico se ambas souberem e afirmarem que estão vivendo esse tipo de relacionamento, se tiverem um pacto prévio consensual articulado explícito regulando os limites de cada uma e se houver uma constante disposição para conversá-lo, negociá-lo, redefini-lo.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Tudo que não for um “sim livre e empolgado” é “não”</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga, tentando entrar na não-monogamia, esbarrou no seguinte problema: como convencer as <em>outras</em> pessoas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, por que é tão difícil as pessoas aceitarem viver relações não-monogâmicas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Talvez uma melhor pergunta seria: quem somos nós para pressionar uma pessoa a “aceitar” algo que ela claramente não quer?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pilares de um relacionamento não-monogâmico são liberdade e responsabilidade. O pacto tem que ser prévio consensual articulado e explícito. Se uma pessoa está com medo de perder seu relacionamento, e tudo que investiu nele, e, por isso, aceita a pressão da outra para abrir a relação, então, seu consentimento já está em alguma medida viciado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ocasionalmente, homens me procuram, com suas mulheres a tiracolo, para convencê-las a “parar de caretice e abraçar a não-monogamia”. Por favor, evitem passar esse vexame: eu fico sempre do lado da mulher que está sendo pressionada e nunca do homem que está pressionando.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Reparem, por favor, que não usei “pessoa” no parágrafo acima. Pois essa situação de fato acontece e, sim, na minha experiência, sem exceção, é sempre um homem trazendo uma mulher.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um ladrão enfia uma arma na minha cara e me pergunta educadamente se consinto em lhe entregar minha carteira e meu celular, minha resposta é “sim, claro, faça bom proveito, obrigado!” Mas pode existir consentimento verdadeiro quando a pessoa não se sentiu livre para responder “não”?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que relacionamentos romântico-sexuais entre chefa e subordinada, orientadora e orientanda, líder religiosa e seguidora, psiquiatra e paciente, etc, sempre configuram assédio e abuso, mesmo se a parte subordinada jurar de pés juntos, e empolgada, que foi tudo consensual. Quando estamos arrebatadas pela transferência — esse amor misturado com admiração que a paciente sempre sente pela terapeuta e que é parte integrante do processo de cura — temos realmente condições mentais e emocionais de dizer “não”? A transferência que sentimos por figuras de autoridade, até mesmo chefas e orientadoras, faz com que nos apaixonemos <em>de verdade</em>. Por isso, mesmo se a iniciativa partir da subordinada, cabe à figura de autoridade reconhecer que aquele amor não é por ela, enquanto pessoa, mas sim ao lugar que ela ocupa naquele processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se há transferência, se uma parte pode demitir a outra, ou torpedear sua carreira acadêmica, ou lhe receitar remédios psiquiátricos, ou intermediar sua relação com o divino, então, não existe livre consentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na vida, no sexo, no amor, tudo que não é um “sim livre e empolgado” na verdade é um “não”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Um rápido pedido de ajuda. Só posso escrever esses textos com a ajuda material das pessoas que os leem e os valorizam. Mais especificamente, só posso escrever esses textos depois de ler muitos livros caros e importados! Se você mora no exterior e a taxa de câmbio é favorável, uma das maiores ajudas que pode me dar é depositando uns trocados nos meus cartões-presente da Amazon. Basta visitar os links abaixo, escolher o valor e enviar para&nbsp;</em><a href="mailto:eu@alexcastro.com.br" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>eu@alexcastro.com.br</em></a><em>: Espanha &lt;</em><a href="http://amazon.es/cheques-regalo" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>amazon.es/cheques-regalo</em></a><em>&gt; ou EUA &lt;</em><a href="http://amazon.com/gift-cards" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>amazon.com/gift-cards</em></a><em>&gt;. E muito muito obrigado! E de volta ao texto.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A não-monogamia oferece menos incentivo à mentira</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há mentiras em qualquer tipo de relacionamento, mas a não-monogamia retira grande parte dos incentivos para enganar, trair, se esgueirar. Outro dia, um homem me contou que estava acabando de sair de um casamento aberto de dez anos. Tinha tido várias relações fora do matrimônio e imaginava que a mulher também, mas ele não falava sobre os dele e ela não falava sobre os dela, e tinha sempre ficado por isso mesmo. Já no primeiro encontro com a futura esposa, aos dezesseis anos de idade, ele afirmou que nunca toleraria um relacionamento que fosse monogâmico. Segundo ele, a moça pareceu não gostar muito e desconversou (<em>era o primeiro encontro!</em>), eles nunca mais falaram nisso, continuaram saindo, depois namoraram, casaram, ficaram juntos dez anos. <em>(Tenho sempre alguma prevenção contra esse discurso do “eu sou assim, o mundo que se adapte!” O que poderia ser mais egocêntrico?) </em>Perguntei, para confirmar:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Que você saiba ela nunca teve outros relacionamentos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Vocês nunca mais falaram sobre relacionamentos não-monogâmicos depois daquela primeira menção em um primeiro encontro quando ambos tinham dezesseis anos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não, ué. Precisava? Eu já tinha dito que pra mim a monogamia era intolerável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E fui obrigado a dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Olha, o que você viveu não tem nada a ver com um relacionamento não-monogâmico. Você simplesmente passou dez anos traindo e mentindo para sua esposa. Aliás, como tantos homens.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Toda relação homem-mulher é assimétrica, monogâmica ou não</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens sempre tiveram o direito de pular a cerca à vontade e, quando são descobertos, a sociedade ainda cai de pau… nas mulheres!, dizendo que têm que perdoar, pelo “bem da família”, porque “homem é assim mesmo”, etc. Já as mulheres, quando transam fora do relacionamento, viram sinônimo de perversidade e, até pouco tempo atrás, podiam inclusive ser legalmente mortas, e isso tinha até nome, “legítima defesa da honra”, como se a honra do homem residisse no órgão sexual da mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, um dos objetivos da instituição “relacionamento não-monogâmico”, como foi concebida e estabelecida no século XX e praticada até hoje, é justamente virar esse jogo. As mulheres ganham o direito de também fazer aquilo que os homens sempre fizeram. &nbsp;Os homens continuam fazendo o que sempre fizeram, mas agora dentro do contexto de um pacto prévio consensual articulado explícito que reconhece a mulher como parceira igualitária e com poder de veto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para viver relacionamentos não-monogâmicos, é preciso muita empatia e muita alteridade, sempre se colocar no lugar do Outro, sempre articular nossas fraquezas e nossos limites, sempre acolher as fraquezas e os limites das pessoas-que-estão-conosco. Ou seja, é preciso pensar e agir de forma ética do começo ao fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma situação tristemente comum: duas pessoas estão na paquera e uma delas revela:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Olha, preciso te dizer que sou casada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E a outra diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não tem problema, não sou ciumento, hehe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ok, ótimo. Deixa então eu ligar pro meu companheiro e avisar que estou indo pro motel com você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Opa, como assim? Ele sabe? Ih, tô fora, ficou estranho!</p>



<p class="wp-block-paragraph">É impressionante quantas pessoas estão dispostas a cornear “otários” ao mesmo tempo em que querem distância de relacionamentos não-monogâmicos consensuais e às claras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os homens, é muito fácil articular o discurso “relacionamentos não-monogâmicos” só para “sair pegando geral”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma moça solteira me contou ter terminado recentemente um relacionamento frustrante com um artista plástico inteligente, pretensamente pró-feminista, descolado, sensível, de esquerda, etc etc… e casado. Na hora de seduzi-la à distância, o assunto “monogamia” surgiu bastante. Que ele vivia um casamento aberto avançadinho, que ela era careta, que precisava se abrir, como podia uma mulher tão interessante ter ideias tão antiquadas, esse papinho. As barreiras da minha amiga foram caindo e ela se dispôs a ir visitá-lo em sua cidade. Naturalmente, estava esperando um pouco de atenção, que ele mostrasse a cidade, que passeasse com ela, essas coisas. Mas o moço ó-tão-importante, do alto de sua movimentada agenda, podia conceder a ela somente uma audiência de cinco horas no motel. O resto do tempo, infelizmente, estava tomado por trabalho ou pela família. (<em>Quando ela perguntou se iriam poder passear juntos no domingo, ele quase riu. Quando ela pediu para falar com a mulher dele, ele negou.</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de gastar mais de três mil reais pelo que foi, de fato, uma ida de cinco horas a um motel e um fim-de-semana de solidão em uma cidade estranha, minha amiga voltou pra casa frustrada mas ainda apaixonadinha. Demorou algumas semanas para se dar conta de que tinha caído em um golpe tristemente comum. Quando enfim terminou com o “grande artista”, ele ficou enraivecido e disse que ela era uma mulher coxinha e moralista que não tinha cacife para estar com um homem livre e arrojado como ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homem casado dizendo que seu relacionamento é aberto só para “pegar geral” já se tornou uma coisa tão comum que eu recomendo cautela para todas as pessoas querendo começar relacionamentos com homens que dizem isso. Naturalmente, todos os homens que de fato estão em relacionamentos não-monogâmicos também falam isso e não é o caso de jogar todo mundo no mesmo saco. Entretanto, como essa mentira em particular já está disseminada, é caso de acreditar-desacreditando e discretamente levantar a ficha do casal. Já escreveram ou se manifestaram publicamente falando de não-monogamia? Fazem parte de grupos ou associações de não-monogamia? Etc. No Brasil de hoje, onde <em>a canalhice é muito mais comum que a não-monogamia</em>, se um homem que diz que está em relacionamento não-monogâmico não puder, de alguma maneira, comprovar que está de fato em um relacionamento não-monogâmico, eu diria que o mais provável é que esteja mentindo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Houve época em que eu me envolvia com pessoas em relacionamentos monogâmicos, e ainda racionalizava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Minha relação é com ela, não sou responsável pelo seu compromisso com uma terceira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Namorei uma pessoa casada, linda e inteligente, que mentia e inventava, se virava do avesso e fazia muitos sacrifícios… para poder transar comigo. Como não me sentir lisonjeado? Afinal, ela deveria gostar muito de mim, não? Meu ó-tão carente ego só faltava ronronar de prazer quando ela entrava pela porta, estalando seus saltos altos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a verdade é que ela dormia todas as noites com outra pessoa. Mentia para a pessoa-que-estava-com-ela de forma perversa e descarada, mas, ainda assim, era com ela que sonhava sonhos, subia serra, assistia séries. E o meu ó-tão carente ego passava as noites uivando para a lua, triste e apaixonado, querendo falar com ela mas proibido de telefonar fora do horário comercial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, depois de muitos e muitos anos, apesar de ainda amá-la demais, apesar de ainda amá-la hoje, fiz o que tantos amantes na história fizeram: terminei eu mesmo o relacionamento. Porque percebi que nunca poderíamos construir nada. Eu jamais conseguiria confiar em alguém capaz de passar vários anos mentindo para a pessoa mais próxima a ela. Que aliás, tristemente, não era nem nunca fui eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Decidi que queria viver sem mentiras – e sem pessoas mentirosas. Hoje, as pessoas que caminham ao meu lado são donas dos seus desejos, capazes de assumi-los e articulá-los, livres para se colocarem publicamente no mundo como minhas companheiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paradoxalmente, depois dessa decisão, fui ameaçado de morte, acionei polícia e advogados, e tive até sair da cidade por uns tempos porque me relacionei com uma pessoa que disse que era solteira, mas na verdade tinha um relacionamento monogâmico com uma outra pessoa. Escaldado por esse caso, eu confio em todo mundo a priori, mas, para pular na cama com alguém, mesmo eu sendo homem, preciso antes dar uma excelente levantada na ficha da pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um homem em um namoro aberto estava se relacionando com uma mulher em um casamento aberto. Saindo do cinema, ele quis andar de mãos dadas, mas ela se recusou: mesmo estando em um cinema quase vazio, num dia de semana, do outro lado da cidade, tinha medo de ser vista, de ser falada. O homem me contou essa história indignado, achando que eu validaria sua indignação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Por que essas mulheres são tão reprimidas, Alex? De que adianta sermos os dois seres humanos livres, em um relacionamento não-monogâmico consensual, ambos em relacionamentos com outras pessoas que sabiam de tudo, se não podemos nem dar as mãos?! Não é um pedido justo a se fazer? Dar as mãos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se você é um homem que nunca se colocou na pele de uma mulher nem por um minuto e está somente vendo o seu próprio lado, sim, é um pedido justíssimo. Infelizmente, se calha de alguém ver vocês de mãos dadas no cinema, duas pessoas que estão em outros relacionamentos públicos, você vai receber high-fives na copa da empresa, por estar “pegando uma gatinha num cinema de subúrbio”. Já ela, provavelmente, vai ficar marcada para sempre como a “puta da contabilidade”. Daí o fato de ela estar um pouquinho mais preocupada com isso do que você…</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade profundamente machista, onde os direitos e os deveres de homens e mulheres são profundamente assimétricos. Um homem que queira se relacionar de forma ética e igualitária com mulheres precisa ter isso sempre em mente para não virar (<em>nem que por descuido</em>) um babaca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A assimetria está em tudo, inclusive na própria língua que todas falamos. Quase todos os xingamentos para homens são questionamentos de que não transam o suficiente com mulheres — provavelmente por serem homossexuais; por outro lado, quase todos os xingamentos para mulheres são questionamentos de que transam demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O “aventureiro” é o homem audaz que vive aventuras. A “aventureira” é a puta. “Pistoleiro” é um homem que atira com pistolas. “Pistoleira” é puta. “Vagabundo” ou “vadio” é um homem que não trabalha. A “vagabunda” ou “vadia” é uma puta. “Cachorro”, “galo”, “touro” são alguns dos animais mais importantes na história da humanidade. “Cachorra”, “galinha”, “vaca”? Puta, puta, puta. Por fim, “puto” é um homem indignado, irritado. Já “puta” é puta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as pessoas que querem se envolver em relacionamentos não-monogâmicos precisam ter sempre esses exemplos em mente. Porque, na nossa sociedade machista, quando se revela que um homem está em um relacionamento não-monogâmico, dependendo do grupo, ele pode ficar com fama de garanhão ou, em alguns casos, de corno. A mulher sempre fica com a mesma fama. De puta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, por um lado, é importante revelarmos nossos relacionamentos não-monogâmicos e sermos ativistas por uma maior desprivatização das relações humanas. Afinal, <em>a questão não é só pessoal, é política. </em>Mas, por outro lado, é fundamental lembrarmos que, em termos de danos à reputação social e possíveis sanções profissionais e familiares, o preço mais alto será sempre pago pela mulher. Por isso, em minha opinião, a decisão de sair em público como estando em um relacionamento não-monogâmico deve sempre ser da mulher.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/etica-nao-monogamia-01-10-b.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12890" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/etica-nao-monogamia-01-10-b.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/etica-nao-monogamia-01-10-b.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/etica-nao-monogamia-01-10-b.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/etica-nao-monogamia-01-10-b.jpg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A hora certa de revelar sua relação não-monogâmica</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem vive a não-monogamia, essa é uma questão ética fundamental. Em que momento revelar a uma possível paquera que, apesar de estarmos em um relacionamento, que ele é não-monogâmico? Existem várias teorias. Se a revelação vier muito cedo, pode assustar a maioria das pessoas: “Ih, não me mete nesse rolo, não!” Se vier muito tarde, a pessoa pode se sentir traída: “E você esperou até depois do sexo pra me contar isso, seu canalha?!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na minha experiência, a melhor hora é quando já aconteceu algo concreto que solidifica o interesse <em>(um olhar, um toque, uma promessa específica de sexo, etc)</em>, mas nada ainda de muito sério ou que possa significar compromisso <em>(troca de fluidos, beijo, sexo, boquete, juras de amor eterno, etc).</em></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">“Quem aguenta tanta falação?”</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, quando falo sobre essa importância do diálogo, alguém comenta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Meu Deus, quem aguenta tanta falação? Assim fica inviável ter um relacionamento!</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu respondo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ninguém disse que era fácil ter uma vida sexual e agir de forma ética ao mesmo tempo. Ainda mais quando se está querendo ir contra o padrão da sociedade. Se você quer só sair “pegando geral”, é mais fácil e mais eficiente ser solteiro. Mas, se está em um relacionamento (<em>e um relacionamento não-monogâmico é, antes de tudo, um relacionamento</em>) é preciso sempre pensar, agir, falar de forma ética em relação às necessidades, fraquezas, limites, desejos das pessoas que estão com você. Aliás, mesmo sendo solteiro, é bom agir do mesmo jeito com as pessoas com quem você transa, né?</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Mesa-Redonda do Sexo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Cléo e eu nos conhecemos pela internet. Conversa vai, conversa vem, bateu aquele clima e marcamos de sair. O primeiro encontro não foi dos mais promissores. Estávamos ambos nervosos. Apesar do papo interessante, nada rolou. Mais tarde, cada um em sua casa, já no nosso ambiente familiar, bate-papo rolando, começamos a analisar o encontro como se fôssemos comentaristas de futebol dissecando uma partida:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu queria muito ter te beijado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ué, e por que não beijou?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não senti abertura pra sair entrando com um beijo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Na garagem teria sido perfeito. Fiquei com a chave na mão dois minutos te esperando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Aquela garagem era perigosa. A gente não devia ter ficado lá dando bobeira nem dois minutos. A hora perfeita teria sido antes, naquele pátio interno, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Graças a essa conversa, nosso segundo encontro correu afinado como uma sinfonia e acabou na cama. Ainda assim, meia hora depois de chegarmos em nossas casas, já estávamos no chat de novo, comentando os melhores lances e vibrando com os replays dos gols:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Pôxa, estava tão bom aquilo que você fez com o joelho, mas parou tão rápido&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Achei que você não estava gostando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu? Eu estava amando!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas é que você fez um barulho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Aquilo é o som de “estou gostando, continua”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bom saber. E aquilo com a minha língua, hein?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Por favor, nunca mais enfia a língua ali. Aquela área me dá uma agonia terrível. Não viu como me retorci?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não era de gozo?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Cruzes, nunca! Mas, olha, eu adorei quando você guiou meu dedo até exatamente ali onde te dá tesão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Quase não fiz, tem gente que não gosta&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Comigo pode sempre. Adoro saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E assim em diante. Graças à essa “mesa-redonda do sexo”, nossa segunda transa já foi íntima como se fôssemos amantes de longa data. Na terceira, já parecíamos um casal plenamente sintonizado. A palavra tem poder.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Desejos, limites, possibilidades</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Existem vários tipos de conversas que são importantes em um relacionamento, tanto antes de começar como durante. Por exemplo, se duas pessoas estão se conhecendo e considerando se relacionar sexualmente, um excelente ponto de partida é listarem seus desejos e limites, sexuais ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na lista de desejos, ambas incluem aquelas práticas que lhes são muito importantes, desde as imprescindíveis até as muito desejáveis: “para ser meu companheiro, precisa se dar bem com meu pai e minha mãe” ou “pra mim, é fundamental conhecer as pessoas com quem minha parceira se relaciona”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lista de limites, por outro lado, é o oposto, pois aqui as pessoas incluem aquelas práticas que absolutamente se recusam a compartilhar: “me recuso a aturar família de marido” ou “faço questão de não conhecer as pessoas com quem minha parceira se relaciona”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, o possível relacionamento já morre aí: “sinto muito, mas esse seu imprescindível eu não topo de jeito nenhum”. Se sobreviver, porém, ambas já entram no quarto sabendo tanto aquilo que a outra mais deseja e espera que aconteça, quanto aquilo que ela odeia e não tolera. Em comparação às pessoas que transam completamente no escuro e na total ignorância uma da outra, o conhecimento prévio e mútuo dos desejos e dos limites permite um sexo mais seguro e mais consensual, mais íntimo e mais gostoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, como a maioria de nós não consegue nem mesmo articular verbalmente quais são nossos desejos, nossos limites, nossas possibilidades, é preciso, antes de mais nada, dar um passo atrás e aprender todo um novo vocabulário. Essa prática, por si só, é um aprendizado valiosíssimo, seja só para termos em mente quais os <em>nossos</em> desejos, limites, possibilidades, seja para compartilharmos com nossas parceiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além das listas de desejos e de limites, entretanto, existe a imensa, quase infinita lista intermediária de <em>possibilidades</em>. Porque tudo que não foi proibido está tacitamente permitido. Já fiz e já fizeram no meu corpo muitas coisas deliciosas que eu jamais teria concebido pensar, fazer, pedir. Mas era um desejo da outra pessoa e não era um limite pra mim, então, por que não? Afinal, o nome do jogo não é agradar minha parceira?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mantendo sempre em mente os desejos e respeitando todos os limites, daí em diante todas as possibilidades estão abertas.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Des-estigmatizar a DR</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando me perguntam qual é o “segredo” para relações não-monogâmicas “darem certo”, dou sempre a mesma resposta: des-estigmatizar a DR. (DR=Discutir a Relação)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pacto monogâmico é <em>pret-a-porter</em>. É um software fechado da Apple. Já vem prontinho, apoiado por milênios de bíblias, tias chatas, padres metidos e manuais sobre como “blindar seu casamento”. Não pode abrir, não pode olhar lá dentro, não pode mudar a programação. Por isso, é natural que a DR seja encarada com terror. Se o pacto está dado como fechado e indiscutível, qualquer tentativa de discuti-lo já indica, por definição, necessariamente, uma crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os relacionamentos não-monogâmicos, entretanto, com sua infinidade de pactos e arranjos possíveis, são um software livre por definição. Eles <em>precisam e esperam</em> a nossa interferência. Eles só funcionam se forem criados e recriados por cada pessoa todos os dias, sempre em parceria com as outras pessoas com quem estão se relacionando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez, uma pessoa me disse que tinha virado adepta de relacionamentos não-monogâmicos porque achava que assim tinha menos chances de perder a pessoa-que-estava-com-ela. Respondi que respeitava essa razão, mas que achava meio difícil de comparar esses riscos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não existe nenhuma segurança nesse mundo. A qualquer instante, podemos morrer, a esposa nos deixar, a chefa nos demitir, um meteoro bater na terra. Meu problema com a monogamia é que ela nos vende uma falsa segurança (<em>de que se formos fiéis, se mantivermos o sexo apimentado, se fizermos tudo direitinho, nunca vamos perder a pessoa com quem estamos</em>) enquanto os relacionamentos não-monogâmicos nos forçam a encarar de frente, abraçar, acolher, vivenciar essa falta de segurança primordial que define a condição humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por causa disso, mais ainda, é necessário muita DR. É preciso que tudo esteja muito bem acordado e comunicado. É preciso que não existam mal-entendidos. É preciso que ninguém saia da cama se sentindo uma vítima. É preciso estarmos abertas para conversar sobre o relacionamento sempre. É preciso conseguirmos articular nossas fraquezas e limitações. É preciso, muito mais difícil, conseguirmos <em>acolher as fraquezas e limitações das pessoas-com-quem-estamos</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Constituindo família em contextos não-monogâmicos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A escolha de ter ou não ter crianças e a escolha de viver ou não relações monogâmicas são duas esferas bem diferentes e têm pouco ou nada a ver uma com a outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As crianças não precisam saber, e geralmente não sabem, qualquer coisa da vida amorosa e sexual de pai e mãe. (<em>Ou de pai e pai, e mãe e mãe, ou quaisquer outros arranjos afetivos.</em>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como as crianças em geral não sabem quando o pai e a mãe transam um com o outro, elas também não precisam saber quando o pai e a mãe vão transar com outras pessoas. Ou, digamos, se o pai e a mãe, na privacidade do quarto, estão se chicoteando, fazendo sexo anal ou praticando qualquer fetiche.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como o papai e a mamãe muitas vezes saem com pessoas do seu círculo de amizades, para passear, jantar ou viajar, também poderiam estar saindo com essas mesmas pessoas para namorar ou transar, fazer swing ou suruba, e as crianças não teriam como saber e, aliás, não teriam nada a ver com isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos e muitos casais vivem e viveram longas e frutíferas vidas não-monogâmicas, ao mesmo tempo em que tiveram crianças e constituíram família, sempre cuidando tanto para suas relações amorosas e sexuais não interferissem na sua esfera familiar, mas também cuidando para que sua família não interferisse em suas relações amorosas e sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, papai e mamãe também precisam de privacidade para viver suas vidas de pessoas adultas livres e sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, não tem problema algum as crianças saberem que seus pais e mães vivem relacionamentos não-monogâmicos. As crianças vêm ao mundo livres de preconceitos e somos nós, as pessoas adultas, que enchemos suas cabeças com o lixo dos séculos. Quando pessoas conservadoras perguntam, preocupadas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Mas, se homem puder casar com homem, como vou explicar isso para minha filhinha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que as assusta não é a dificuldade de explicar a homossexualidade às crianças, mas sim a dificuldade de transmitir às crianças o <em>horror</em> que sentem pela homossexualidade. O que assusta as pessoas conservadoras é justamente o fato das crianças aceitarem o diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para uma criança, antes de ser educada nos preconceitos vigentes na nossa sociedade outrofóbica, nada poderia ser mais simples e fácil de entender do que o fato de que o tio Pedro e o tio João são tão casados quanto o tio Jaime e a tia Renata. Ou que o papai e mamãe se amam e constituíram família, mas que o papai também ama e namora a tia Clarice, assim como mamãe também ama e namora o tio Abraão, que é muito legal e me leva no estádio de futebol no domingo, porque ele gosta, e mamãe gosta, mas papai odeia, então papai aproveita o domingo pra sair com a tia Clarice!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a situação descrita acima te parece horrível, doente, complexa, etc, talvez seja apenas porque você não é mais criança. Para o bem ou para o mal, as crianças sempre naturalizam o mundo que recebem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As crianças precisam de paz, segurança, estabilidade, amor, carinho. Nenhuma criança será mais feliz do que aquela criada por pais e mães felizes, satisfeitos, cúmplices, amorosos entre si e com outras pessoas, em uma atmosfera de tranquilidade e confiança. O que traumatiza as crianças não é saber que a mamãe é capaz de amar duas pessoas diferentes <em>(pois elas ainda nem aprenderam que “só se pode amar uma pessoa de cada vez”</em>), mas sim testemunhar gritaria, ciumeira, violência, acusações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos e muitos casais vivem e viveram longas e frutíferas vidas não-monogâmicas enquanto educavam crianças que sempre souberam disso e encararam com naturalidade a não-monogamia, crianças que foram criadas para terem a maturidade emocional de não se deixar levar pelo ciúme e pela possessividade. Na verdade, em muitos casos, as parceiras amorosas e sexuais dos pais e das mães também acabaram criando ligações emocionais profundas com as crianças, e formando-se extensas redes familiares de relacionamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O dilema insolúvel dos relacionamentos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Prisão eterna ou monogamia serial: como existir entre dois extremos intoleráveis?</p>



<p class="wp-block-paragraph">De um lado, a geração de nossas avós, pessoas casadas há 50, 60 anos, que às vezes nem lembram mais o nome uma da outra, para quem terminar o casamento não era uma opção concebível, que aturaram tudo, engoliram todos os sapos, e estão juntos até hoje, dois cadáveres podres amarrados pela força do costume ou do ódio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do outro lado, nossa geração e de nossos pais e mães, pessoas educadas no mais profundo hedonismo e narcisismo, convencidas de que por serem tão especiais merecem uma tal &#8220;felicidade&#8221;, praticantes da mais perversa monogamia serial, que encontram o grande amor da vida a cada dois, três anos, compartilham tudo com essa pessoa e, quando a maquininha de felicidade pára de fornecer a quantidade de gozo que estávamos acostumadas, jogamos fora e vamos procurar a felicidade eterna na próxima maquininha (agora vai!), e assim sucessivamente, até morrermos ou desistirmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consigo conceber estar com alguém que já nem mais suporto, sem a liberdade de poder sair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consigo conceber trocar de &#8220;pessoa mais importante da minha vida&#8221; a cada três anos, como se essas relações fossem fungíveis e triviais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consigo encontrar uma solução. Esse texto é minha tentativa de compartilhar esse incômodo.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">As dificuldades do caminho menos trilhado</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem quer viver uma relação monogâmica tem todo o apoio da moral conservadora, encontros de casais em Cristo, colunas de relacionamento em jornais, livros de autoajuda, conselhos da vovó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem abre um novo caminho não tem esses luxos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas não-monogâmicas, quando temos problemas em nossos relacionamentos (<em>e são muitos, a vida na fronteira é dura e complexa</em>), não podemos usufruir da sabedoria acumulada das suas avós, a Bíblia não colabora, as colunas sentimentais e livros de autoajuda sempre presumem a monogamia e até as pessoas do nosso círculo de amizades, quando abrimos coração e expomos nossas vulnerabilidades e inseguranças, fazem comentários insensíveis e indesculpáveis como</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Viu, é por isso que não dá certo! Por que você não faz que nem todo mundo e pronto? Não seria mais fácil?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de todas as dificuldades do caminho menos trilhado, ainda querem nos puxar de volta para a estrada principal de onde fugimos conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas não-monogâmicas não temos quem nos diga o que é certo e errado, moral e imoral: precisamos escrever, todo dia, com nossa consciência e nossos atos, o nosso próprio livro de regras. Cada passo tem que ser dado como se o mundo tivesse sido criado ontem. Cada rodinha tem que ser reinventada do zero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De vez em quando, me acusam de ficar “reafirmando” meu estilo de vida, como se estivesse me gabando, como se fosse inseguro, como se quisesse convencer os outros. Mas todas as forças do mundo nos impelem a nos conformar, a nos transformar no padrão que exigem de nós, a nos moldar em pais de família trabalhadores, consumidoras monogâmicas, heterossexuais conservadoras. Ser quem queremos ser é uma luta diária, um exercício constante de batermos o pé, nos recusarmos a sermos coagidas, articularmos quem desejamos ser — e, então, e essa é a parte mais difícil, efetivamente <em>sermos </em>essa pessoa. Quem está sendo o que a sociedade espera que seja não precisa se autoafirmar. Quem está na contramão precisa. É necessário articularmos sempre o nosso caminho — justamente para não sair dele.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que querem as pessoas não-monogâmicas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nós, pessoas não-monogâmicas, não queremos “converter” as monogâmicas ao nosso estilo de vida. Queremos somente que não nos digam como viver. Que não minimizem e invalidem, marginalizem e invisibilizem nosso estilo de vida. Que não digam que nosso amor não é amor, que nosso compromisso não é compromisso. Que tenhamos o direito de escolher um outro tipo de vida, um outro tipo de relacionamento. Não somos anti-monogamia. Queremos apenas que a monogamia deixe de ser anti-nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A monogamia é, ou deveria ser, uma escolha</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Minha crítica ao fato de o sistema monogâmico não abrir espaço nem dar visibilidade a outros projetos alternativos de relacionamento não é de modo algum uma crítica às pessoas individuais que, usando de sua liberdade e autonomia de humanas adultas, escolheram viver relações monogâmicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo sobre estilos de vida alternativos não para convencer as pessoas que estão satisfeitas com sua opção perfeitamente válida pela escolha da maioria, mas para mostrar às pessoas insatisfeitas que a escolha da maioria é somente isso: uma <em>escolha</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que elas não precisam escolher aquilo que todo mundo escolheu. Que existem outras possiblidades, outros caminhos, outras opções. Que não estão sozinhas. Que não são as únicas que pensam assim. Que não são loucas por rejeitar o caminho mais trilhado. Que são livres. Livres.*</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A Prisão Monogamia tem uma bibliografia menor, pois é fortemente baseada nas minhas vivências e de outras pessoas que, como eu, escolheram viver relacionamentos não-monogâmicos. O livro mais importante, que eu não poderia recomendar mais enfaticamente, é <a href="https://amzn.to/3seeAew">Ética do Amor Livre</a>, de Dossie Easton e Janet Hardy. Artigos como “<a href="http://womensenews.org/story/commentary/010530/iconic-nuclear-family-work-fiction" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Iconic ‘nuclear’ family is a work of fiction” (“A família nuclear icônica é uma ficção</a>“) ou livros como <a href="https://amzn.to/3xejZC6" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O mito da monogamia</a>, traçam as origens culturais da monogamia pelas sociedades humanas e por outras espécies e primatas, e demonstram não que a monogamia está errada, mas sim que ela nunca foi nem unanimidade social nem biologicamente natural na nossa espécie. A monogamia não é a norma, e nem o normal: ela é um arranjo possível entre vários outros. Um arranjo basicamente patriarcal e capitalista, trazendo para a esfera dos relacionamentos afetivos uma lógica mercantil e acumulativa, onde quase sempre o homem é o acumulador e a mulher, o bem a ser acumulado. Recomendo também dois livros de Roberto Freire, <a href="https://amzn.to/38HZPGY">Sem tesão não há solução</a> (1987) e <a href="https://amzn.to/3tb3iVq">Ame e dê vexame</a> (1990). Ninguém escreveu sobre sexo e liberdade, amor e alegria, no Brasil como Roberto Freire. Ele é um dos meus mestres e um do grandes inspiradores de “As Prisões”. <a href="https://alexcastro.com.br/roberto-freire/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Clique aqui para ler os melhores trechos de ambos os livros</a>, selecionados por mim.]</em></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Conclusões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem busca um curso chamado de “As Prisões”, quem tenta viver a não-monogamia na prática, entre muitos outros exemplos, tendem a ser pessoas com um interesse acima do normal em liberdade, ou, mais especificamente, em sua própria liberdade. Sentem-se tolhidas por amarras, cadeias, costumes — eu chamo de “Prisões” — e desejam ser mais livres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, a busca pela liberdade também pode ser uma prisão. A chave é lutarmos não pela liberdade de realizar nossos desejos, como uma vela que vai onde o vento sopra, mas sim pela liberdade de podermos escolher novos desejos, como o leme que determina o rumo a seguir. A verdadeira liberdade não é negativa, ou seja, estarmos livres de interferências externas, mas sim positiva: sermos livres para pautarmos nossos próprios atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O começo necessário do nosso percurso pelas Prisões foram <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>, onde questionamos nossa própria capacidade de enxergar e apreender a realidade. Não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, nossa própria mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois, na parte central do percurso, falamos de <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito">Respeito</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia">Autossuficiência</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-monogamia">Monogamia</a>, cada uma explorando uma diferente faceta de nossas vidas contemporâneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, finalmente, estamos na reta final. Se não havia outro começo possível a não ser problematizar nosso próprio olhar, também não existe outro final possível que não problematizar nossas motivações e nossas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As últimas Prisões são Liberdade, Felicidade e Empatia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark><mark style="background-color:#ffffff" class="has-inline-color has-accent-color">Esse texto foi importante pra você?</mark></mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se meus textos tiveram impacto em você, se minhas palavras te ajudaram em momentos difíceis, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor. Assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou artista independente. Não tenho emprego, salário, renda, pai rico. Vivo exclusivamente de escrever esses textos que abriram seus olhos e mudaram sua vida. Dependo da sua generosidade. Se não você que me lê, então quem?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você mora no exterior e a taxa de câmbio é favorável, uma das maiores ajudas que pode me dar é depositando uns dólares nos meus cartões-presente da Amazon — preciso ler muitos livros importados para escrever esses textos! Basta visitar os links abaixo, escolher o valor e enviar para&nbsp;<a href="mailto:eu@alexcastro.com.br">eu@alexcastro.com.br</a>:</p>



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<p class="wp-block-paragraph">EUA:&nbsp;<a href="https://substack.com/redirect/f29a4698-b1f8-46fd-a469-3dced046a19c?j=eyJ1IjoiNjFwM28ifQ.LiHLr3aZ1gTn3XQCOIZbfDT9c0X7MsQFrSkKNaGbpWY">amazon.com/gift-cards</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>pix</strong>: eu@alexcastro.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://apoia.se/alexcastro">apoia.se/alexcastro</a></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdf71248c-e305-40c5-b47d-7172959c0df8_950x950.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Série “As Prisões”</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia">Autossuficiência</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-monogamia">Monogamia</a></li>



<li>Liberdade<em> (em breve)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O Curso das Prisões</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Curso em resumo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que são As Prisões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Funcionamento</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 19h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aulas gravadas indefinidamente</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sem leituras</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12771" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Professor</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/46ucPbM">Mentiras Reunidas</a></em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>,&nbsp;<em><a href="https://suplementopernambuco.com.br/">Suplemento Pernambuco</a></em>,&nbsp;<em><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/home">Quatro Cinco Um</a></em>,&nbsp;<a href="https://rascunho.com.br/"><em>Rascunho</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Meus votos zen-budistas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="compre"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Compre</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



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<ul class="wp-block-list">
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</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Dúvidas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aulas em resumo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12678" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
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		<title>Mentiras reunidas, um livro de Alex Castro</title>
		<link>https://alexcastro.com.br/mentiras/</link>
					<comments>https://alexcastro.com.br/mentiras/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2023 04:59:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[livros]]></category>
		<category><![CDATA[mentiras reunidas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://alexcastro.com.br/?p=12901</guid>

					<description><![CDATA[Trinta e dois anos da minha produção artística, em um único livro, só pra você.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Já está à venda meu novo livro, <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Trinta e dois anos da&nbsp;minha produção artística</strong>, os frutos de todos os meus maiores esforços, em um só livro, só para você.</p>



<span id="more-12901"></span>



<p class="wp-block-paragraph">A versão capa dura, de 430 páginas, com quatro contos exclusivos e mais a novela <em><a href="https://alexcastro.com.br/mulher/">Mulher de um Homem só</a></em>, foi vendida em 2021, como parte de um kit que incluía bookbag, caderno e dois marcadores. <em>(Essa edição não será comercializada em nenhum lugar, e tenho apenas mais alguns últimos exemplares que sobraram pra vender. Mais sobre isso abaixo.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A versão brochura, de 300 páginas, já está à venda nas melhores livrarias <strong>a partir de hoje</strong>. Não tem ebook.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ambas as edições ilustradas com gravuras de <a href="https://amzn.to/3u7Vibc" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Francisco Goya</a> <em>(minha ida à Madri em 2018 e&nbsp;</em><a href="https://alexcastro.com.br/um-retiro-em-um-hospital-espanhol/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>meu encontro com Goya</em></a><em>) </em>e belíssimo projeto gráfico da minha grande amiga, a artista plástica <a href="https://amzn.to/466Qj7V" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Isabel Löfgren</a>. E também blurbs dos queridos colegas escritores <a href="https://amzn.to/466QboX" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Luiz Biajoni</a> e <a href="https://amzn.to/47rE46Y" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sergio Leo</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Brochura</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>, em versão brochura, já está <a href="https://amzn.to/40ubz6q" target="_blank" rel="noreferrer noopener">à venda nas melhores livrarias</a>, por <strong>R$79</strong>.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59247009-c2c9-4343-8998-d5e57ad743ea_993x1500.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59247009-c2c9-4343-8998-d5e57ad743ea_993x1500.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="Mentiras reunidas, de Alex Castro: capa da edição brochura" title="Mentiras reunidas, de Alex Castro: capa da edição brochura"/></a><figcaption class="wp-element-caption">Mentiras reunidas, de Alex Castro: capa da edição brochura</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">São 300 páginas e treze contos: oito inéditos e cinco do meu livro <em><a href="https://alexcastro.com.br/category/livros/onde/"></a></em><a href="https://alexcastro.com.br/onde/"><em>Onde perdemos tudo</em></a>, de 2011. Não há planos de ebook por enquanto: então, <em>só impresso</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem quiser pagar o mínimo possível, a <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/40ubz6q">Amazon Brasil</a> está vendendo por <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/40ubz6q">R$69</a>. <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/40ubz6q">Clicando nos links aqui do meu site</a>, eu ainda ganho uma comissão e te agradeço demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem quiser <strong>comprar na minha mão e apoiar a literatura nacional</strong>, vendo por <strong>R$169</strong> e você ganha <em>(além da minha gratidão!)</em> uma <a href="https://alexcastro.com.br/dedicatorias-apocrifas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dedicatória apócrifa</a>, única e exclusiva, dois marcadores e um caderninho. Basta fazer um pix para eu@alexcastro.com.br e, depois, mandar o comprovante de depósito e o seu endereço para esse mesmo email. Se for <strong><a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas ativa</a></strong> do meu <a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, <strong>paga só R$149</strong>. Esse dinheiro você envia diretamente pra mim e eu mesmo faço sua remessa. Não tem erro. Frete incluso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tenho muitos exemplares pra vender, então, por favor, corre aí. Ou <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/40ubz6q">compra na Amazon, pagando menos</a> e, puxa, te agradeço demais também.</p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Capa dura</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobraram <strong>os últimos exemplares</strong> da exclusivíssima edição em capa dura.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa961276d-f84b-476f-96e9-5b221e86763b_971x665.png?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa961276d-f84b-476f-96e9-5b221e86763b_971x665.png?w=580&#038;ssl=1" alt="Mentiras reunidas, de Alex Castro: edição capa dura" title="Mentiras reunidas, de Alex Castro: edição capa dura"/></a><figcaption class="wp-element-caption">Mentiras reunidas, de Alex Castro: edição capa dura</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">São 430 páginas, dezessete contos e uma novela: além de todo o conteúdo do brochura, a edição em capa dura tem <em>mais </em>quatro contos e também a novela <em><a href="https://alexcastro.com.br/mulher/">Mulher de um Homem só</a></em>, talvez a melhor coisa que eu já escrevi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comprando na minha mão, você paga <strong>R$249</strong> e ganha <em>(além da minha gratidão!)</em> uma <a href="https://alexcastro.com.br/dedicatorias-apocrifas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dedicatória apócrifa</a>, única e exclusiva, dois marcadores e um caderninho. Basta fazer um pix para eu@alexcastro.com.br e, depois, mandar o comprovante de depósito e o seu endereço para esse mesmo email. Se for <strong><a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas ativa</a></strong> do meu <a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, <strong>paga só R$219</strong>. Esse dinheiro você envia diretamente pra mim e eu mesmo faço sua remessa. Não tem erro. Frete incluso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale a pena lembrar: <strong>a edição capa dura não será reeditada</strong> e não estará mais à venda em lugar nenhum. <strong>Quando acabarem esses meus exemplares, puff!, acabou <em>mesmo.</em></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Ambos os livros</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Se você é fã e colecionadora, e quiser comprar ambas as edições, saiba que eu te amo: você paga <strong>R$399</strong> reais, ou, se for <strong><a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas ativa</a></strong> do meu <a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, só <strong>R$349</strong>.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F94022bc8-10a6-42b1-9182-e6fc32a40e2e_827x1240.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F94022bc8-10a6-42b1-9182-e6fc32a40e2e_827x1240.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="Mentiras reunidas, de Alex Castro: contracapa e blurbs" title="Mentiras reunidas, de Alex Castro: contracapa e blurbs"/></a><figcaption class="wp-element-caption">Mentiras reunidas, de Alex Castro: contracapa e blurbs</figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Exterior</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem está no exterior, também aceito pagamento via vale-presente da Amazon EUA ou Espanha. Basta acrescentar mais R$50 de frete; fazer a conversão no câmbio do dia; visitar os links <em>(Espanha: </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://amazon.es/cheques-regalo"><em>amazon.es/cheques-regalo</em></a><em>; EUA: </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://amazon.com/gift-cards"><em>amazon.com/gift-cards</em></a><em>)</em>, preencher o valor e enviar para eu@alexcastro.com.br. Qualquer dúvida, fala comigo por esse mesmo email.</p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Comprou na pré-venda e ainda não recebeu?</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Se você comprou o seu kit do capa dura na pré-venda lá em 2021 e ainda não recebeu, antes de mais nada, minhas sinceras desculpas. Quem está cuidando disso é a <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://oficinaraquel.com.br/">Editora Oficina Raquel</a> e não tenho controle algum sobre o processo. Eles já enviaram a maior parte dos kits, mas ainda não conseguiram confirmar os endereços de algumas compradoras. Se você ainda não recebeu, <strong>pode ficar tranquila que não vai ficar sem o kit</strong>. Se tiver extraviado, enviamos de novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso ainda não tenha recebido, por favor, escreva para a editora Raquel Menezes no email &lt;raquel@oficinaraquel.com&gt;, com cópia pra mim &lt;eu@alexcastro.com.br&gt; e vamos garantir que esse kit chegue logo nas suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De novo, mil perdões e obrigado pela confiança.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Diferentes livros, diferentes narrativas</mark></strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Abaixo, os índices das duas versões de <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>, capa dura e brochura. Reparem como não só os contos são diferentes mas estão ordenados e agrupados de forma diferente também, formando assim narrativas diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color"><em>Mentiras reunidas</em>, índice (capa dura)</mark></strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Porque mentir<br>Primeiras mentiras<br><br>Mulher de um homem só <strong>(exclusivo capa dura)</strong><br><br>Onde perdemos tudo<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A morte do meu cachorro<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;De portas abertas<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Onde perdemos tudo<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Quando morrem os pêssegos<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A falta que nos fazem os figos<br><br>Depois da festa junina, em volta da fogueira&nbsp;<strong>(inéditos)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Moça de sorte&nbsp;<strong>(exclusivo capa dura)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Não adianta morrer&nbsp;<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Uma questão de fé<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A surdez do meu avô&nbsp;<strong>(exclusivo capa dura)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A menina do copo d’água&nbsp;<strong>(exclusivo capa dura)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Te espero no açougue<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Às vezes, morro<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Sangue e morte na noite de Natal&nbsp;<strong>(exclusivo capa dura)</strong><br><br>Mentiras avulsas&nbsp;<strong>(inéditos)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Como nos velhos tempos<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Grandezas de candura<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Uma cigarrilha apagada<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A cachorra atropelada<br><br>Títulos sem contos<br>Últimas mentiras<br>Biografia do autor<br>Mecenato</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color"><em>Mentiras reunidas</em>, índice (brochura)</mark></strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Porque mentir<br>Primeiras mentiras<br><br>Novas mentiras&nbsp;<strong>(inéditos)</strong><br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Como nos velhos tempos&nbsp;&nbsp; &nbsp;<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Uma questão de fé<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Te espero no açougue<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Às vezes, morro<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Não adianta morrer&nbsp;<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Grandezas de candura<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Uma cigarrilha apagada<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A cachorra atropelada</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde perdemos tudo<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A morte do meu cachorro<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;De portas abertas<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Onde perdemos tudo<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;Quando morrem os pêssegos<br>&nbsp;&nbsp; &nbsp;A falta que nos fazem os figos<br><br>Títulos sem contos<br>Últimas mentiras<br>Biografia do autor<br>Mecenato</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Orelha esquerda, por Sergio Leo</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Já no belo prefácio escrito para este livro, Alex honra o projeto literário que lhe rendeu admiração dos contemporâneos da chamada “Geração Rio 80”, de escritores que se reuniam na livraria Dazibao, em Ipanema, e renovaram a tradição brasileira do conto. Filho de Victor Leal, figura ímpar mas pouco conhecida do “grupo dos vintanistas” — de jovens escritores mineiros, todos na casa dos vinte anos, entre eles Fernando Sabino, Marques Rebelo, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende — Alex foi uma espécie de mascote do grupo, saudado por todos como uma grande promessa; um talento literário que se revelou muito cedo, com a publicação, aos 15 anos, do cultuado <em>As prisões e os ventres</em>. Com este <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>, o escritor interrompe um silêncio de vinte anos, encantando mais uma vez os apreciadores da boa literatura, com sua engenharia precisa e seu humor de contornos enciclopédicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Sérgio Leo, autor de Mentiras do Rio, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, 2008</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Orelha direita, por Luiz Biajoni</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro nasceu em Barcelona em 31 de março de 1948.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Suas obras são uma mescla de ensaio, crônica jornalística e novela. A sua literatura, fragmentária e irônica, dilui os limites entre ficção e antificção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desenvolveu uma ampla obra narrativa que se inicia em 1973 e já foi traduzida para 29 idiomas, agradando tanto à crítica quanto ao partido. Segundo Castro, “o artista deve ser não original”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2019, venceu por unanimidade o prêmio Elon Musk de dístico elegíaco. Seu wikiromance <em>É preciso não cuspir em D.Lourdes</em>, escrito em parceria com Michel Houellebecq, está sendo adaptado pelo Netflix e vai ao ar em 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a> é seu primeiro livro a sair em português.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Blurbs da contracapa</mark></h3>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“Como um sujeito com uma idade tão ridícula conseguira fazer uma obra tão perfeita? Nela havia a tragédia pura, não como nos gregos, um capricho dos deuses, mas como uma criação exclusiva dos homens. Ali estava tudo o que me interessava: o fracasso, o medo, a solidão, o desgosto, a corrupção, a covardia, o horror. O horror. O livro era tão bom, pensei, que certamente não seria reconhecido, nem pelos críticos, nem pelo público — por ninguém. Era mais um grande autor que morreria desconhecido.”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Rubem Fonseca, não sobre esse livro</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“Este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas no da força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça. Este livro é uma revolução. Tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura. Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da língua portuguesa.”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">José Saramago, certamente não sobre esse livro</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Porque mentir</mark></strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo é mentira nesse livro: não só os contos, mas os elogios da contracapa e o texto das orelhas, o prefácio e o posfácio, tudo, enfim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se esse exemplar na sua mão tiver uma dedicatória escrita por mim, ela também é mentira. (<em>Toda dedicatória que escrevo é sempre mentirosa: um microconto que invento na hora e escrevo ao vivo. Somente o nome da recipiente é real.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas por que mentir? Por que escrever dedicatórias apócrifas, orelhas fajutas, biografias falsas? Por que tanto desrespeito à pessoa que está lendo? Por que perder tempo em brincadeiras bobas? Por quê? Para quê? Ou, mais fundamentalmente, no meio de uma pandemia global, para quê escrever ficção?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos a Era da Mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, temos na presidência do Brasil e dos Estados Unidos dois homens eleitos na base de notícias falsas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, essas notícias falsas se tornaram um problema justamente porque as pessoas estão tão céticas que, em seu ceticismo crédulo, acreditam ingenuamente em qualquer teoria alternativa dos fatos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos grandes paradoxos dos tempos atuais é que foram exatamente as pessoas mais céticas e cínicas que se tornaram as maiores crédulas e ingênuas. <em>(Antes da pandemia, que roteirista teria incluído em seus filmes uma comunidade de “negacionistas do apocalipse zumbi”?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os dias, nas redes e aplicativos, somos bombardeadas por uma saraivada de mentiras, mas não apenas mentiras: mentiras que batem retumbantemente no peito para se proclamar verdades, mentiras orgulhosas de serem as únicas verdades, mentiras que insistem representar a verdadeira verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse mundo, o que pode ser mais subversivo do que uma mentira que se afirma mentira? Nesse contexto, o que pode ser mais revolucionário do que uma mentira que se gaba de ser mentira?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou bacharel em História. Fui treinado para pesquisar e investigar, descobrindo assim a verdade sobre os fatos do passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou escritor de ficção. Passei a vida inteira inventando histórias que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A verdade está no centro do meu trabalho, seja para buscá-la ou evitá-la. Tudo o que faço profissionalmente diz sempre respeito à verdade, seja reflexão ou discurso, ataque ou defesa, repúdio ou fuga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chamamos ficção de ficção porque não queremos chamá-la por seu nome verdadeiro. Ficção é mentira. Um livro de contos é um livro de mentiras. Mais importante, é um livro de mentiras que nunca te engana sobre ser um livro de mentiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">A leitora distraída, se abrisse esse livro na livraria e lesse somente uma orelha, talvez até se deixasse enganar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas bastaria ler a outra orelha para detectar a discrepância e sentir o estranhamento. Afinal, ambas se contradizem e se anulam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez pensasse que ou uma orelha ou a outra teria necessariamente que ser mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez se desse conta que poderiam as duas ser mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez<em> (quem sabe!) </em>percebesse até mesmo que toda orelha de todo livro é sempre mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, o que é uma orelha de livro senão uma narrativa ficcional para criar uma persona vendável ou prestigiosa para a pessoa autora? <em>(Com ou sem foto? Foto de rosto ou de corpo inteiro? Foto na praia ou na biblioteca? Melhor citar os títulos acadêmicos ou os títulos dos livros publicados? Os cônjuges ou os cachorros? As viagens ou as falências?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se as orelhas são mentira, o que dizer então dos prefácios e dos posfácios? Dos elogios da contracapa e dos agradecimentos finais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não só desse livro, mas de todos os outros que já li, pensaria a hipotética leitora: esses livros em quem tanto confiei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou, talvez, distraída e desinteressada, simplesmente colocasse o livro de volta na mesa e comprasse um Moleskine.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um editor se recusou a publicar esse livro <em>(chamado <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mentiras Reunidas</a>, vamos lembrar)</em> por causa do excesso de mentiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro é de ficção, respondi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, nas orelhas, na biografia, nos elogios da contracapa não pode.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas por quê? Se o livro é ficção, por que não ser tudo ficção?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A verdade é que é tudo mentira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mentira é que nada é verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Alex Castro,</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Copacabana, 6 de janeiro de 2021</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Primeiras mentiras</mark></h3>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>, antologia que sai agora pela editora Oficina Raquel, reúne trinta anos de produção ficcional, entre 1989 e 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abrindo o livro, a seção “Novas mentiras” traz oito contos inéditos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Como nos velhos tempos” apareceu no primeiro número da revista <em>Klaxon (terceira fase, 2000)</em>, cuja tiragem acabou sendo recolhida em circunstâncias embaraçosas que não preciso recontar. Em 2015, graças aos esforços do meu amigo e advogado Antonio Eduardo Ramires Santoro, o processo foi julgado extinto por inépcia e improcedente por litigância de má fé. O conto aparece aqui pela primeira vez com todos os nomes verdadeiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos sete anos entre “A cigarrilha apagada”, publicada em 2012 no site <a href="https://papodehomem.com.br/"><em>PapodeHomem</em></a>, e “A cachorra atropelada”, escrita em 2019 especialmente para <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>, não escrevi literatura. <em>(Os motivos do autoexílio estão narrados em meu <a href="https://alexcastro.com.br/atencao/">Atenção.</a>, publicado pela Editora Rocco.)</em> Muito obrigado a toda a sanga de Eininji — Templo do Cuidado Amoroso Eterno, pela acolhida durante meus anos de silêncio e recolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida, a coletânea <em><a href="https://alexcastro.com.br/onde/">Onde perdemos tudo</a></em> continua em casa: foi publicada por essa mesma Oficina Raquel em 2011 e reúne contos sobre o tema comum da perda, escritos entre 1994 e 2004. A capa de então foi assinada pela mesma artista plástica que assina a capa desse <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a>: minha querida amiga Isabel Löfgren. O último conto “A falta que nos fazem os figos” teve que ser modificado às pressas para incluir desenvolvimentos que acabavam de acontecer e que são referidos no próprio texto. Muito obrigado à minha querida editora Raquel Menezes pela paciência e flexibilidade. <em>(Os números de página citados no conto se referem à edição original de 2011.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja desnecessário afirmar, mas <a href="https://alexcastro.com.br/mentiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mentiras Reunidas</em></a> é um livro de ficção.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Alex Castro</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Copacabana, 10 de janeiro de 2021</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Redes sociais</mark></strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Site</strong>: <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/">alexcastro.com.br</a><br><strong>FB</strong>: /<a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://facebook.com/AlexCastroEscritor/">alexcastroescritor</a><br><strong>Twitter</strong>: @<a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://twitter.com/outrofobia">outrofobia</a><br><strong>Insta</strong>: @<a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://instagram.com/outrofobia/">outrofobia</a><br><strong>Goodreads</strong>: /<a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="http://goodreads.com/outrofobia">outrofobia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dúvidas? Fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Prisão Autossuficiência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Oct 2023 22:22:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
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					<description><![CDATA[É desejável sermos tão autossuficientes? Aliás, é possível? E o que se perde nessa busca por uma impossível, indesejável autossuficiência?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Um dos motivos que nos leva a querer trabalhar tanto para juntar tanto dinheiro é uma busca desesperada pela pretensa segurança da autossuficiência. Afinal, ninguém quer depender dos outros, não é? Como posso ser livre se não sou independente?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa ânsia por autossuficiência não é acidental: apesar de sermos uma espécie gregária, apesar de nosso maior superpoder ser nossa capacidade única de nos unirmos para trabalharmos juntas em prol de objetivos comuns, o capitalismo nunca para de nos vender a autossuficiência como uma das qualidades mais importantes da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é difícil de entender o porquê. Quem está bem inserida em sua comunidade, quem dispõe de uma extensa rede de apoio, pode resolver seus problemas comunitariamente – eu pinto sua parede, você me leva no aeroporto. Entretanto, se somos autossuficientes, ou seja, se estamos isoladas, todos os serviços precisam ser comprados, do <em>Uber</em> ao <em>Marido de Aluguel</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como parte da ideologia capitalista, a sociedade nos vende um ideal de autossuficiência individual que, além de impossível e indesejável, nos impede de enxergar a interdependência de todos os seres. Somos intensamente gregárias: não temos como não nos importar com a opinião das pessoas à nossa volta, não temos como não ser influenciadas e pautadas por elas. Mas temos sim como escolher quem serão essas pessoas que estarão a nossa volta.</p>



<span id="more-12861"></span>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12873" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?w=893&amp;ssl=1 893w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Autossuficiência. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão <em>Autossuficiência</em></em> <em>é a sétima, depois das Prisões&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Patriotismo</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Introdução</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O inferno são as outras pessoas*, dizem por aí, mas raramente acrescentam que elas também são o paraíso e o purgatório: são as outras pessoas que roubam nosso coração e que roubam nosso carro, que validam nosso diploma e que invalidam nossas opiniões, que estupram nossa filha e que operam nosso câncer. Não há como fugir dos suplícios e delícias de compartilhar uma pedra rodopiante com sete bilhões de outras pessoas tão únicas e tão egocêntricas quanto nós — egoístas ao ponto de se importarem mais com elas mesmas do que conosco!** Ao mesmo tempo, nenhum outro animal passa tantos anos tão completamente dependente quanto nós: para todos os fins e efeitos, por causa de nossos enormes crânios, nascemos de parto prematuro e demoramos quase duas décadas para conseguir atuar plenamente como pessoas adultas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, depois de uma infância de extrema dependência e nenhuma autonomia, nos sentindo sempre oprimidas e vigiadas pelas outras pessoas, poucos anseios são tão fortes quanto o de não precisar depender de ninguém. Por todos os lados, nas salas de cinema e nas salas de aula, nas bocas de amigas e nas bocas de parentes, a mensagem é sempre a mesma: assim como a liberdade e a felicidade, a autossuficiência é daqueles valores unânimes, auto-evidentes, inquestionáveis em nossa sociedade. <em>(&#8220;É evidente que é melhor não depender dos outros!&#8221;, &#8220;É óbvio que devemos sempre querer ser o mais independentes possível!&#8221;, etc.)</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Levado ao extremo, entretanto, esse anseio por autossuficiência pode se tornar uma ânsia, uma sofreguidão, uma avidez, que acaba por corroer nossos relacionamentos, minar nossas comunidades, destruir nosso planeta. A autossuficiência se torna uma prisão quando, por ser tão auto-evidente e inquestionável, deixamos de perceber que existem alternativas mais coletivas, mais comunitárias, menos egoístas para organizarmos nossas vidas, nossas economias, nossos amores. A autossuficiência também se torna uma prisão quando, por sermos tão constantemente oprimidas pelas outras pessoas, almejamos um modelo impraticável de autossuficiência emocional: queremos ser a mítica pessoa que não se importa com a opinião de ninguém, quando poderíamos facilmente escolher nos rodear por pessoas cujas opiniões nos importam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É desejável sermos tão autossuficientes? Aliás, é possível? E o que se perde nessa busca por uma impossível, indesejável autossuficiência?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A frase “o inferno são os outros” é do personagem Joseph — que, irresistível mencionar, é um canalha carioca — na peça <a href="https://amzn.to/3SnMdVR">Entre quatro paredes</a> (1944), de Jean-Paul Sartre, às vezes encenada no Brasil com o título original Huis clos. Não é, de modo algum, uma citação pessoal de Sartre. Joseph não estava sendo metafórico: a peça acontece no inferno, onde três pessoas estão presas em um quarto e são, literalmente, a tortura eterna umas das outras.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**Quem disse que “egoísta é a pessoa que se importa mais com ela mesmo do que comigo” foi <a href="https://amzn.to/3QE6DZg" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ambrose Bierce</a>, o escritor que <a href="http://heloisaseixas.com.br/textos-diversos/personagem-de-si-mesmo-o-misterio-de-ambrose-bierce/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">melhor soube morrer</a>, em seu delicioso <a href="https://amzn.to/3QE6DZg">Dicionário do Diabo</a> (1906). Um dia, se eu tiver coragem, morro como ele.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Pessoas que não ligam para a opinião de ninguém</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja um dos piores elogios que recebo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Ai, Alex, um dia quero ser assim que nem você, não ligar para a opinião de ninguém!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pessoa que não liga para a opinião de ninguém é uma sociopata, imersa em seus próprios problemas e necessidades, cega e surda a todas as pessoas à sua volta: eu não sou assim — espero! — e não acho desejável que ninguém seja. Não temos a escolha de não nos importarmos com a opinião das outras pessoas, mas temos a escolha de nos importarmos com a opinião de <em>quais</em> pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Existem outras tribos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A evolução nos fez animais gregários. Se havia de fato pessoas que não ligavam para a opinião de ninguém, elas ou foram expulsas de suas tribos ou saíram por vontade própria, e morreram sozinhas, no meio do mato, sem deixar descendentes — e, provavelmente, muito, muito felizes. Somos todas descendentes das pessoas que ficaram na tribo, que aceitaram suas regras quase sempre opressoras, que ajudavam umas às outras mesmo quando não tinham vontade, que morriam de medo de não estar adequadas à normalidade vigente, que sacrificavam sua individualidade para pertencer ao grupo.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, uma das tarefas mais difíceis na vida de qualquer pessoa é ir contra as expectativas do seu grupo. Nunca será fácil anunciar para nossa família heteronormativa que somos gays, ou para nossa família de médicas que vamos cursar geografia. Se já é difícil sair publicamente de um grupo de amigas de infância no <em>Whatsapp</em>, o que dirá então de sair publicamente de uma igreja, abandonar uma graduação, terminar um relacionamento, assumir a homossexualidade, fazer transição de gênero!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizer “não” às pessoas que nos cercam, às pessoas que nos viram crescer, às pessoas que rezam, estudam, transam conosco, vai contra os nossos mais profundos e arraigados instintos gregários, instintos selecionados por um milhão de anos de evolução, instintos responsáveis por nos tornar a espécie dominante desse planeta. Não é fácil negar esses instintos, mas é possível. E, se não quisermos ser escravas das expectativas do nosso grupo, é necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, a opção não é mais ou aceitarmos as regras da nossa tribo ou morrermos sozinhas no mato: existem <em>outras</em> tribos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*O livro <a href="https://amzn.to/3skh5vG">Teoria da classe ociosa</a> (1899), do economista norte-americano <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Thorstein_Veblen" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Thorstein Veblen</a>, sobre as dinâmicas sociais que fazem com que nos importemos tanto com a opinião das outras pessoas, foi uma das grandes inspirações para &#8220;As Prisões&#8221; e é um dos meus livros favoritos de todos os tempos, uma análise perceptiva e subversiva, quase sempre dolorosamente engraçada, do mundo em que ainda vivemos até hoje. Um trecho: “Somente indivíduos de temperamento aberrante podem continuar mantendo sua autoestima diante da desaprovação de seus pares. Exceções aparentes a essa regra são as pessoas de fortes convicções religiosas. Mas essas exceções aparentes na verdade não são exceções, pois essas pessoas geralmente dependem da aprovação putativa de alguma testemunha sobrenatural dos seus atos.”]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42-1.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12882" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42-1.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42-1.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42-1.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42-1.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem são meus ícones?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitos anos, eu odiava sair de casa todo dia de manhã, de barba feita e fantasiado de executivo, para trabalhar o dia inteiro vendendo minha energia vital para realizar os projetos de outras pessoas. Mas pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− O errado deve ser eu. Afinal, todo mundo faz isso. Se essas pessoas conseguem, também consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E lá ia eu me torturar mais um pouco. Um dia, uma pequena mudança de foco fez toda a diferença. Em vez de olhar para as pessoas que já tinham se acostumado a tolerar as torturas que ainda me atormentavam, desviei minha mirada para as pessoas que viviam vidas diferentes, mais livres, mais abertas, mais bonitas, e pensei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;− Se <em>elas</em> conseguem, eu também consigo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não existe lugar onde possamos fazer o que quisermos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando trabalhei em uma empresa de investimentos, o código de vestuário me oprimia: a chefa olhava feio até para barba por fazer. Finalmente, larguei tudo e fui fazer doutorado em literatura, pensando que lá poderia me vestir como quisesse. Mas não era verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O moço que ia de terno, gravata, sobretudo e pasta 007 <em>(uma roupa perfeitamente adequada à minha empresa anterior!)</em> era visto como um esquisitão. Um sujeito que um dia apareceu com uma camisa Lacoste foi zoado por uns seis meses. A moça que às vezes usava salto alto, cor-de-rosa e estampas de oncinha ganhou o apelido nada elogioso de <em>Barbie</em>. Tanto a empresa de investimentos quanto o doutorado em literatura tinham códigos de vestuário severos, cuja infração acarretava penas sociais imediatas. Com uma crucial diferença: o código de vestuário da empresa de investimentos <em>me</em> oprimia todos os dias; o código de vestuário do doutorado em literatura nunca me incomodou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mítico lugar “<em>onde podemos fazer o que quisermos</em>” simplesmente não existe. É uma fábula que contamos para nós mesmas, para tornar mais toleráveis os lugares cujas regras nos oprimem. Mas não precisamos nem tolerar os lugares que nos oprimem com suas regras, nem nos perder em uma busca vã pelo paraíso mítico da liberdade total sem regra alguma: podemos buscar lugares onde as regras não nos oprimam.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12881" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.42.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Nem todas as pessoas vão nos amar</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Existem poucas atitudes mais vaidosas do que autorizar a própria biografia. São sempre pessoas públicas que já enfrentaram escândalos, ataques e polêmicas, e que parecem pensar: “<em>Ah, Beltrana me odiava porque não me conhecia; Fulana fez campanha pra me destruir porque não entendeu minha mensagem</em>.” Afinal, ninguém que realmente as conheça, ninguém que realmente as entenda, poderia odiá-las, confrontá-las, atacá-las. Só essa certeza tão vaidosa justifica autorizar uma biografia e entregar todos seus arquivos ao escrutínio de uma outra pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vaidade é acreditar que se a biógrafa ler todas as cartas, consultar todos os documentos, falar com todas as amigas, então, será impossível não amar a biografada. A vaidade é não perceber que ninguém está ou esteve ou estará a altura dessa presunção, que ninguém é ou foi ou será amada por todas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas que não nos entendem, e que talvez nos odeiem, não é porque não nos conhecem direito ou porque não ouviram com cuidado nossa mensagem, e nem mesmo porque são canalhas ou mal-intencionadas. Mas sim porque são <em>outras pessoas</em>, que fizeram outras escolhas, que tem outras prioridades, que viveram outras vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Viver de aparências</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em meus eventos, sempre que falo da Prisão Autossuficiência, algumas participantes começam a criticar pessoas pretensamente fúteis, que vivem de aparências, que só se preocupam com status sociais e símbolos de prestígio, e assim por diante:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Por exemplo, Alex, tenho um amigo que você não acredita. Mora com os pais, nunca viaja, não faz nada, mas tem um carro de meio milhão que usa pra se exibir. Não é ridículo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sinceramente&#8230; não. Quem somos nós para julgar o que outra pessoa faz com seu próprio dinheiro, ou seja, com sua própria vida? Quase sempre, chamamos de fútil qualquer pessoa que tenha prioridades que não são as nossas. Além disso, falar de “aparências” como se fosse pouca coisa, como se fosse algo desimportante, como se não fosse uma questão de vida ou morte, é completamente não entender como funciona essa nossa espécie tão gregária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pra começar, talvez para essa pessoa ter esse carro seja sua própria recompensa. Vai ver ela trabalhou a vida toda, economizou, não viajou, não saiu da casa dos pais, etc, justamente <em>para</em> poder comprar <em>esse</em> carro. Quem tem autoridade moral pra dizer que gastar meio milhão num carro é melhor ou pior que comprar um apartamento ou um veleiro, que investir e viver de renda ou torrar tudo e viajar o mundo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, pode ser que, para ela, ter esse carro seja uma etapa necessária para conseguir <em>outros</em> objetivos. Nos círculos internacionais dos altos negócios, existem muitas conversas, muitos clubes, muitas reuniões onde você só entra se tiver (ou se acharem que você tem) um carro de meio milhão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu pai, em diferentes momentos da vida, já teve carros caríssimos por esses dois motivos. Já o vi mandar fazer ternos de vinte mil e alugar carros de meio milhão só para fazer uma boa primeira impressão em uma única reunião de onde planejava sair com cinco milhões. E, vou te contar, saía.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez, eu quis montar uma barraquinha na rua e vender limonada na rua, como tinha visto nos filmes estadunidenses, e meu pai sentou comigo e explicou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, entenda o seguinte. Papai ganha a vida investindo o dinheiro de pessoas muito ricas. E elas só me dão esse dinheiro porque acham que eu também sou muito rico. Se alguém vê o meu filho varão na rua vendendo suco e pensa, por um segundo, que talvez eu esteja falido, e conta isso pra outra e pra outra pessoa, no dia seguinte todo mundo sacou o dinheiro que têm comigo e aí a gente faliu mesmo, e vai vir o moço da Receita Federal levar todos os seus livros.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, eu, menino inconformista e rebelde, fiquei possesso e demorei décadas para dar razão ao meu pai. Eu nunca viveria a vida que ele escolheu viver e fugi para longe desse mundo assim que tive autonomia para tanto, mas errado ele não estava. E até mesmo eu, que sou pobre de marré-de-si mas cresci nesse mundo e sou fluente em códigos, continuo sabendo me fingir de rico para entrar em lugares onde já não tenho mais renda para estar, o que me rende negócios, contatos, oportunidades que eu infelizmente não existem cá fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, dinheiro é sim um tipo de liberdade, mas, por óbvio, só se servir para fazermos o que quisermos com ele. Se for pra outra pessoa escolher como devo gastar meu meio milhão <em>(assim e assado pode, assado e assim não pode)</em> aí não faz sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O principal exercício das Prisões é deixarmos nós mesmas de ser a polícia secreta do mundo, incansavelmente vigiando umas às outras e determinando como as pessoas devem se comportar. As pessoas que se interessam pelas Prisões tendem a ser o tipo de gente que acha que o ideal de vida é não se preocupar com as opiniões das outras, que viver de aparência é uma vida menor ou inferior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, não está aberta a nenhuma de nós, quer queiramos quer não, a opção de não viver de aparências. Somos uma espécie resolutamente gregária: a opinião dos outros macaquinhos sobre nós é literalmente uma questão de vida e morte, tanto na Pré-História quanto hoje. Não faltam exemplos de pessoas que morreram porque pareciam perigosas ou disponíveis aos olhos de Fulano ou Beltrano — essa é a triste motivação de muitas mortes por racismo ou feminicídio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A aparência é mais importante que a essência porque simplesmente não existe essência. A aparência é tudo que temos. Nosso sucesso, nossa felicidade, nossa liberdade, até mesmo nossa vida, depende muito mais de como somos percebidas pelos macaquinhos a nossa volta — ou seja, da nossa aparência — do que de nossa pretensa “essência”. Nossa essência, se é que existe, se manifesta através das máscaras que escolhemos vestir a cada diferente interação social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma possível definição da Prisão Autossuficiência: a ilusão de que é possível ou desejável <em>não</em> viver de aparências, ou seja, viver sem se importar com as opiniões dos outros macaquinhos sobre nós. Está presa na Prisão Autossuficiência quem está tão preocupada em ficar livre desse olhar do Outro que não enxerga que estamos todas necessariamente conectadas e que esse olhar do Outro é não só necessário como desejável. Não é à toa que um dos piores castigos que temos, em qualquer sociedade humana, é excluir a pessoa do olhar de qualquer outra, seja expulsando-a da tribo ou sentenciando-a à uma cela solitária. Nada pode ser pior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Sim, juro de pés juntos que esse era o bicho papão da minha infância: o moço da Receita Federal que iria levar todos os bens da família, inclusive meus livros.]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="889" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.36.06.jpg?resize=500%2C889&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12880" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.36.06.jpg?resize=500%2C889&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.36.06.jpg?w=737&amp;ssl=1 737w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Cultivar a excentricidade</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A filha de uma de minhas melhores amigas iria fazer aniversário e, por isso, perguntei a outra amiga: </p>



<p class="wp-block-paragraph">— Não entendo nada de criança. Tem problema se eu der um vale-presente?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E a amiga colocou uma mão carinhosa em meu ombro e respondeu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Imagina, Alex. Vindo de <em>você</em>, não tem problema nenhum! </p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas esqueci de dar o vale-presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser artista é sofrer em público para o benefício das outras pessoas e se abrir ao seu julgamento — às vezes impiedoso, muitas vezes surpreendentemente generoso. Se perguntamos a uma turma de jardim de infância quem é artista, todos os braços se levantam. Ao longo dos anos, os braços vão minguando. Lá pela sexta série, as autodeclaradas artistas são apenas uma ou duas, levantando o braço de maneira bem hesitante, olhando em volta, temendo o julgamento de seus pares, não querendo nunca se tornar as esquisitas da turma.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ocupar esse lugar da pessoa excêntrica e fora-do-padrão pode ser salvador: ele nos permite transgredir as regras com uma liberdade que teria custado caro às outras pessoas. Cultivar uma reputação de excentricidade foi uma das melhores coisas que fiz por mim mesmo. Na adolescência, o peso das regras de conformidade social da minha escola teria me esmagado. Ser excêntrico, ser artista, ser esquisitão, salvou minha vida e minha sanidade. Continua salvando até hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Quem ia de sala de aula em sala de aula perguntando quem eram as artistas era Gordon Mackenzie, citado por Tom Kelley no artigo: “<a href="http://theatlantic.com/health/archive/2014/06/in-kindergarten-everyone-identified-as-an-artist/373659/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Everyone was an artist in kindergarden</a>”, publicado na revista <a href="https://www.theatlantic.com/">The Atlantic</a>, 28 de junho de 2014.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem desejamos atrair?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao invés de me modificar pra atrair gente que não gosta da pessoa que me construí para ser, sempre preferi me expor — e, então, receber e amar as pessoas que se atraíssem pela minha construção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na escola, eu me oferecia para fazer massagens nos pezinhos das minhas amigas, elogiava quando apareciam com a unha pintada, demonstrava reparar. Sim, algumas não gostavam da atenção – e eu, naturalmente, por respeito e por cautela, nunca mais fazia comentários do gênero. Algumas deviam me chamar de mil nomes pelas costas – mas e daí?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O importante é que algumas outras se aproximavam, curiosas, instigadas, fascinadas, puxando assunto: “Nunca vi menino achar pé bonito”, “Gosto tanto de carinho na solinha”, “Ninguém reparou na minha tornozeleira nova, acredita?”, “Como é que você fez massagem no pé da Lívia e ainda não fez no meu?”, etc. E assim começaram praticamente todas as experiências sexuais da minha adolescência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas outras pessoas preocupadas tentavam me alertar:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Alex, vale mesmo a pena pagar de maluco pra todas as meninas da escola só pra beijar o pé de três ou quatro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu respondia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Claro. Tem quinhentas meninas na nossa escola. Se todas se interessassem por mim, seria um pesadelo! Eu não teria tempo de fazer mais nada. Melhor eu me mostrar como eu sou e atrair só aquelas poucas que ficam atiçadas e curiosas, que têm as mesmas taras, que gostam tanto de ter seus pés lambidos como eu gosto de lambê-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não quero todas as mulheres do mundo: quero apenas, dentre as que me querem, aquelas que eu também quero de volta. Muita gente me acha esquisito? Essa é a ideia: sou esquisito mesmo. Afinal, em um mundo tão canalha, a maior esquisitice seria não ser esquisito. E, naturalmente, eu sou muito mais que uma pessoa que gosta de pés e qualquer mulher é muito mais do que um par de pés, ou um par de qualquer coisa, mas essa era apenas a primeira fagulha de interesse que dava ignição à paquera.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada pode ser mais libertador do que se livrar da ilusão de que existe algo que possamos fazer para sermos amadas e desejadas por todas as pessoas. Ser rejeitado pelas pessoas certas só faz bem: me poupa o trabalho de ativamente espantá-las. Eu me revelo justamente para descobrir quem vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale a pena afastar mil bois pra atrair uma única leoa.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="895" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.38.03.jpg?resize=500%2C895&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12879" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.38.03.jpg?resize=500%2C895&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.38.03.jpg?w=735&amp;ssl=1 735w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Procurando por filé mignon na peixaria</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pessoa amiga, depois da separação, entrou na fase de querer transar com uma pessoa diferente por noite. Mas, depois de algumas semanas, ela me confidenciou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Só tem gente canalha nessa cidade!</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Olha, é uma questão de números. Nada contra transar com uma pessoa diferente por noite, mas o rigor do seu processo seletivo vai ter que ser necessariamente baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Porra, Alex, toda noite, saio com as amigas, dançamos, nos divertimos, eu encontro caras, às vezes levo um pra casa na hora da xepa, mas tudo cachorro!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Nada contra pessoas que saem para dançar e transam com as pessoas que conhecem na pista de dança, mas parece, pelo que você mesma diz, que não são esses caras que você quer. Só que o mundo está cheio de gente. Quem gosta de pessoas esportistas, pode paquerar na academia, na praia. Quem gosta de pessoas leitoras, na biblioteca, na livraria. Senão, é como ir todo dia na mesma peixaria, pedir sempre filé mignon e depois reclamar que não tem filé mignon <em>nessa cidade</em>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não existe gosto unânime</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma pessoa diz que se não se depilar<em> (ou qualquer outra coisa)</em> não conseguirá atrair ninguém, ela está confirmando uma ideia muito perigosa: que as pessoas são homogêneas em seus gostos e que existem expectativas tão unânimes que quem não as preencham vão purgar uma solteirice eterna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que não é verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos uma pessoa diferente por noite, aí sim talvez seja uma boa tática seguir o gosto médio. Mas não é isso que a maioria de nós quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em média, a pessoa brasileira têm doze parceiras sexuais ao longo da vida*, um número razoavelmente pequeno, que podemos selecionar com cuidado, cautela, carinho. Doze pessoas incríveis, doze pessoas tesudas, doze pessoas com quem vale a pena compartilhar nossa intimidade, ainda mais ao longo de toda uma vida, essas pessoas nós conseguimos encontrar em qualquer cidadezinha. Sem precisar nos moldar ao pretenso gosto homogêneo de uma maioria que nem mesmo existe. Sem precisar fazer nada que não queremos fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A <a href="http://bbc.com/portuguese/noticias/2010/11/101112_ivanlessa_tp.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa</a> que diz que as pessoas brasileiras, em média, transam com doze pessoas ao longo da vida foi realizada pelo Instituto Tendencias Digitales em 2010, sob encomenda do Grupo Diários America (GDA), do qual faz parte o jornal O Globo, e publicada no site da <a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2010/11/101112_ivanlessa_tp">BBC Brasil</a> em 12 de novembro de 2010. A metodologia da pesquisa é toda furada, mas o número verdadeiro deve ser próximo.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">As vantagens estratégicas de não depilar</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A indústria da depilação ganha a vida nos convencendo que todas as pessoas gostam de pessoas depiladas&#8230; Mas por que acreditamos tão facilmente em quem diz que somos fedidas e logo depois tenta nos vender sabonete?</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com minhas amigas que não depilam, não depilar tem uma grande vantagem estratégica na hora da paquera. Quando um homem dá em cima delas, ele nem sabe ainda, mas já passou em um disputadíssimo vestibular: ele provou que não é o tipo de cara que jamais daria em cima de uma mulher só porque ela tem a perna e as axilas peludas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez mais importante, também evita decepções futuras. Se fossem depiladas, talvez acabassem saindo com caras que só toleram mulheres depiladas e aí, algumas semanas depois, quando eles soltassem algum comentário ofensivo contra mulheres não-depiladas<em> (“olha só, parece uma macaca, essas mulheres não têm respeito próprio, não?”)</em>, elas ficariam revoltadas de ter perdido tempo com gente tão babaca. Mantendo-se cuidadosamente não-depiladas, elas nunca correm esse risco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não precisar gastar dinheiro nem passar dor é bônus.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="501" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.56.38.jpg?resize=500%2C501&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12878" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.56.38.jpg?resize=500%2C501&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.56.38.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.56.38.jpg?resize=768%2C770&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.56.38.jpg?w=1020&amp;ssl=1 1020w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A única maneira de descobrir quem gosta de cabelo azul</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se quero pintar o cabelo de azul, mas não pinto, por medo de que ninguém vai se interessar por mim se tiver o cabelo azul, então posso acabar saindo, namorando, casando, vivendo uma vida inteira com uma outra pessoa que também gostaria de ter pintado o cabelo de azul, e ficaremos lá, as duas, na cama, de madrugada, olhando uma para a outra e pensando:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Pôxa, e se eu tivesse pintado o cabelo de azul, hein? Será que não encontraria alguém legal que me amaria pelos meus cabelos azuis?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pintar o cabelo de azul, para quem quer pintar o cabelo de azul, já é uma recompensa por si só. Mas, além disso, também traz uma outra vantagem estratégica: ter cabelo azul é a única maneira garantida de atrair pessoas que gostam de pessoas de cabelo azul.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na roleta da vida, só temos nós mesmas para arriscar. Sim, arriscamos sofrer rejeições. Algumas pessoas de quem até gostávamos vão dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Cruzes, nunca levaria alguém de cabelo azul para conhecer vovó!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas também arriscamos o grande prêmio: ser a pessoa de cabelo azul que sempre quisemos ser e, ainda por cima, namorar uma pessoa incrível que adora nosso cabelo azul tanto quanto nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Qual é o nosso público?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer produtor de televisão pode confirmar: um programa para a TV aberta, que precisa atingir um público de dezenas de milhões, é um produto bem diferente de um programa de TV a cabo, que será um sucesso absoluto se atingir poucos milhões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o primeiro programa, é preciso continuamente aparar arestas <em>(tem gente que se ofende com beijo gay?, então não pode ter beijo gay, etc)</em> até que sobra um produto final razoavelmente homogêneo, pasteurizado, seguro, sem personalidade, que se anulou até não sobrar quase nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o segundo programa, por ter expectativas mais reduzidas, pode ousar mais, sabendo que cada ousadia tem seu custo-benefício <em>(um beijo gay tem o custo de afastar o público homofóbico e o benefício de atrair o público LGBT e simpatizantes)</em> até que sobra um produto final que certamente não agradará ao grande público, mas que agradará muitíssimo o público para o qual foi produzido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande paradoxo do nosso comportamento sexual-amoroso é sermos um programa de TV a cabo que passa às quartas-feiras de madrugada, mas agirmos como se passássemos no horário nobre da TV aberta. Nossa ansiedade por ser amadas e nosso pânico de ficar sozinhas é tamanho que nos comportamos como se precisássemos atrair sete bilhões de pessoas, mas, na verdade, só precisamos atrair uma dúzia para ter uma vida inteira de relacionamentos plenos e satisfatórios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Um rápido pedido de ajuda. Só posso escrever esses textos com a ajuda material das pessoas que os leem e os valorizam. Mais especificamente, só posso escrever esses textos depois de ler muitos livros caros e importados! Se você mora no exterior e a taxa de câmbio é favorável, uma das maiores ajudas que pode me dar é depositando uns trocados nos meus cartões-presente da Amazon. Basta visitar os links abaixo, escolher o valor e enviar para </em><a href="mailto:eu@alexcastro.com.br" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>eu@alexcastro.com.br</em></a><em>: Espanha &lt;</em><a href="http://amazon.es/cheques-regalo" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>amazon.es/cheques-regalo</em></a><em>> ou EUA &lt;</em><a href="http://amazon.com/gift-cards" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>amazon.com/gift-cards</em></a><em>>. E muito muito obrigado! E de volta ao texto.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Desapegar de pessoas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não faz muito tempo, eu acumulava pessoas. E dizia para mim mesmo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Todo mundo tem uma história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas aí, frequentemente, alguém fazia um comentário outrofóbico, mesquinho, fofoqueiro, e eu se pegava fingindo rir, às vezes até fazendo comentários similares pra não se sentir deslocado, ao mesmo tempo em que tinha vergonha de mim mesmo e de minha carência. E pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— O que estou fazendo aqui?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, comecei a desenvolver um trabalho constante de me desapegar de pessoas. Nada de brigar, riscar da agenda, trocar de mal: apenas um sutil afastar-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um belo dia, anos depois, cercado de pessoas que admirava e que tinham tudo a ver comigo, percebi há quanto tempo não me fazia a velha pergunta “o que estou fazendo aqui?” Ultimamente, o que me pegava pensando era:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Por que demorei tanto para estar aqui?</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="895" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-14.04.25.jpg?resize=500%2C895&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12877" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-14.04.25.jpg?resize=500%2C895&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-14.04.25.jpg?w=572&amp;ssl=1 572w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Só sabe a força da correnteza quem rema contra ela</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando estamos remando a favor da corrente, descendo o rio, sendo tudo aquilo que a sociedade espera de nós, a viagem é tranquila e agradável, o mundo parece livre e florido, a vida não exige esforço algum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, algumas amigas criadoras de caso reclamam da correnteza, denunciam que o rio é caudaloso e violento, mas nós nem entendemos direito o que querem dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Gente, o rio é tão tranquilo, tão gostoso de navegar, será que não são vocês que estão vendo coisas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um belo dia, entretanto, deixamos de ser uma ou mais daquelas coisas que a sociedade espera que sejamos. Pode ser um desvio pequeno ou grande, incidental ou ontológico, pode ser uma decisão de momento, pode ser revelarmos ao mundo aquilo que sempre fomos: abandonar celular ou abraçar o ateísmo, tornar-se feminista ou sair do armário. Agora, aquela mesma corrente de sempre não está mais nos levando para onde queremos ir: ela continua nos levando em direção a um emprego em tempo integral, mas queremos ser atrizes de teatro infantil. Para chegarmos ao nosso novo objetivo, para sermos quem queremos ser, teremos que remar <em>contra</em> a correnteza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento, quando enfiamos o remo na água para remar contra a corrente, é que percebemos tudo aquilo não percebíamos antes: que aquele rio que parecia tão agradável e tranquilo na verdade é forte, caudaloso, intolerante. Um rio que é tão violento quanto são violentas as margens estreitas que o limitam.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes sou acusado de ficar “reafirmando” meu estilo de vida, como se estivesse me gabando, como se fosse inseguro, como se quisesse convencer as outras pessoas. Mas a correnteza é forte, inapelável, constante: ela está sempre nos levando rumo ao padrão que a sociedade exige de nós, tentando nos transformar em pais e mães de família, trabalhadoras, consumidoras, monogâmicas, heterossexuais, conservadoras, religiosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ninguém é tão transgressora que não aceite grande parte dessas obrigatoriedades sociais: mesmo quando transgredimos algumas, acabamos aceitando a maioria das outras. Somos todas, em diferentes graus, transgressoras e conformistas. Mas basta querermos transgredir qualquer <em>uma</em> coisa e já teremos que remar contra a corrente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser quem queremos ser é uma luta diária, um exercício sissifeano de remar contra a corrente durante toda nossa vida; de parar e descansar e ser arrastada para trás e então remar tudo de novo; de manter o olho cravado em nosso objetivo, seja ele qual for; de recusar todas as coações e cooptações e seduções que surgirem ao longo do trajeto; de articular sempre quem somos e quem desejamos ser; e, finalmente <em>(e essa é a parte mais difícil)</em>, é um exercício de efetivamente <em>sermos</em> essa pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está remando contra a corrente precisa se autoafirmar: é necessário articularmos sempre o nosso objetivo — justamente para não nos desviarmos dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A metáfora de Bertolt Brecht sobre a violência do rio pode ser encontrada, com ligeira diferença, no poema “Sobre a violência” (circa 1933-38), disponível no livro <a href="https://amzn.to/3s7WI54">Poemas 1913-1956</a>, publicado pela Editora 34.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Ser ou não ser autossuficientes?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma aparente contradição no cerne da nossa sociedade. Por um lado, somos coagidas a seguir um mesmo script massificado <em>(monogamia, heterossexualidade, emprego integral, imóvel financiado, família de porta-retratos, etc)</em> ou pagar as mais severas penas sociais <em>(“o que vão pensar de você &#8230; não vai conseguir namorada &#8230; será demitida! etc etc ”)</em>. Por outro lado, a mesma sociedade que nos impõe sermos iguais a todo mundo também nos impele a buscar um nível de autossuficiência material que, segundo ela, seria não só possível <em>(não é)</em> como também desejável e imprescindível <em>(não é, não é)</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como o Deus de Israel só inventou o livre-arbítrio para que as pessoas judias pudessem “livremente” escolhê-lo <em>(e para punir quem não fizesse a escolha correta)</em>, nossa sociedade vende como possível e desejável e imprescindível um altíssimo nível de autossuficiência material, para que então, do alto dessa borbulhante liberdade, possamos livremente escolher comprar os <em>mesmos</em> tablets e ostentar os <em>mesmos</em> penteados, viajar para os <em>mesmos</em> parques e viver as <em>mesmas</em> vidas.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos sempre plena liberdade de fazer as escolhas que já estavam pré-escolhidas para nós. E Deus nos ajude se escolhermos errado! Ou, como diz a propaganda, sem um pingo de ironia: <em>“Seja rebelde. Use Converse.” (A Converse pertence à Nike, a marca de roupas mais valiosa do mundo, uma empresa de 60 mil funcionárias e faturamento anual de 30 bilhões de dólares.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, aquilo que à princípio parecia contraditório na verdade não é: quanto mais compramos o script conformista, mais ansiamos pela única autossuficiência que ainda nos é acenada como possível, a material. Impedidas de escolher quaisquer outras coisas, pelo menos sempre podemos escolher ser o mais ricas possível — ou trabalhar até morrer nessa tentativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*“O livro-arbítrio só foi inventado para que possamos ser punidos, para que possamos nos sentir culpados”, diz Nietszche em <a href="https://amzn.to/47dasKB">Crepúsculos dos ídolos</a> (1888), na seção “Os quatro grandes erros”.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A importância do pau-de-selfie</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em junho de 2013, enquanto o Brasil ardia em protestos, passei uma semana no <a href="http://www.inhotim.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Inhotim</a>, um parque-museu perto de Belo Horizonte. Algumas das interações humanas mais interessantes que travei começaram quando alguém me pediu para tirar uma foto sua ou de seu grupo. Três anos depois, em abril de 2016, enquanto o Brasil novamente ardia em protestos nas ruas, dessa vez pelo impeachment de Dilma, passei outra semana no Inhotim. Entre as duas visitas, em 2014, a revista norte-americana Time elegeu o pau-de-selfie como <a href="http://time.com/3594971/the-25-best-inventions-of-2014/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma das invenções mais importantes do ano</a>. Deve ser mesmo, pois em 2016, ele estava por todos os lados e, de fato, mudou tudo: ninguém mais me pedir para tirar fotos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que alguém compraria um pau-de-selfie? Mesmo sem entrar no mérito de nossa relação cada vez mais compulsiva e cumulativa com a fotografia, me parece que comprar um pau-de-selfie tem as seguintes três desvantagens:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desvantagem nº1: Você gasta dinheiro, se descapitaliza e fica um pouco mais longe de conseguir mandar seu emprego à merda. <em>(Falei sobre isso na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho/">Prisão Trabalho</a>.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Desvantagem nº2: Você adquire um novo objeto, produzido com matérias-primas que tiveram que ser mineiradas, escavadas, beneficiadas, transformadas, transportadas; um novo objeto que teve que ser desenhado, moldado, pintado, polido, empacotado, promovido, vendido; um novo objeto que tem massa, volume e profundidade, e que, por isso, agora precisa ser carregado, guardado, estocado, espanado; um novo objeto que terá que ser transportado em sua próxima viagem ou em sua próxima mudança de casa, colocando mais pressão em você para comprar malas maiores, carros maiores, casas maiores. <em>(Mais sobre isso abaixo.) </em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira desvantagem afeta seus planos futuros e sua potencial independência financeira. A segunda desvantagem afeta a sobrevivência de todas nós, tentando manter a cabeça para fora d&#8217;água em um planeta de recursos finitos e nível do mar crescente. Ainda assim, a terceira desvantagem talvez seja a pior:<em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Desvantagem nº3: Você agora precisa interagir com as outras pessoas <em>menos ainda</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Das diferentes maneiras de trocar um pneu</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma conversa sobre autonomia e autossuficiência, estávamos listando algumas das habilidades básicas que toda pessoa autônoma e autossuficiente deveria ter. Um dos homens mencionou trocar pneu e criticou as mulheres de modo geral por não saberem fazer uma coisa tão simples e tão necessária. Em resposta, uma das mulheres do grupo perguntou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— E você, qual é a <em>sua</em> técnica de trocar pneu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O moço contou seu passo-a-passo: ligar pisca-alerta, parar o carro, colocar triângulo, etc. Depois que terminou, ela quis confirmar:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— E o resultado final desse seu método é ter o pneu trocado, certo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Muito bem. Você sabe trocar pneu. Seu método funciona. Parabéns. Eu só queria dizer que eu também sei trocar pneu e que o meu método, apesar de um pouco diferente, também funciona: o resultado final é rigorosamente o mesmo. Eu saio e faço sinal para os carros que estão passando <em>(de preferência, levando famílias ou casais)</em>, até que um deles pára, salta um homem, a gente conversa por alguns minutos e, voalá, o pneu é trocado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—Isso não é ser nem autônoma nem autossuficiente, oras. Você está literalmente dependendo de outra pessoa!</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Essa é a questão. Você também. Não tem como não depender de outras pessoas. Você depende das pessoas que tiveram a ideia de colocar o estepe no porta-malas; das pessoas que conservam as estradas; das pessoas que pagam os impostos que vão para a conservação das estradas; das pessoas que inventaram a aritmética e a roda. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=7s664NsLeFM" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Para trocar um pneu é preciso antes criar o universo</a>.* Seria impossível enumerar todas as pessoas de quem você depende para poder, sozinho, do alto da sua máscula autossuficiência, trocar um pneu por conta própria. A única diferença entre o seu método e o meu é que uma das pessoas de quem eu dependo está ali, fisicamente presente, trocando o meu pneu.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A primeira frase do primeiro episódio da série <a href="https://amzn.to/47cOY0f">Cosmos </a>(1980), escrita por Carl Sagan (1934-1996), Steven Soter e Ann Druyan, é “Para fazer uma torta de maçã do zero, é preciso antes criar o universo”. Cito essa frase na primeira prática de atenção, &#8220;Sustentar uma gratidão permanente&#8221;, do meu livro <a href="https://alexcastro.com.br/atencao/">Atenção</a>.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A hiper-especialização da autossuficiência</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não faz muito tempo <em>(geologicamente falando)</em>, éramos de fato muito mais autossuficientes: tínhamos que construir nossas próprias moradias, costurar nossas próprias roupas, fabricar nosso próprio sabão. Aí, pouco a pouco, a pessoa que fazia o melhor sabão começou a fazer mais e mais sabão, em vez de ficar batendo testa tentando costurar suas próprias roupas e furando o dedo. Por outro lado, a pessoa que costurava as melhores roupas adorou não precisar mais fazer sabão, porque ninguém merece aquele cheiro de cinza e gordura empesteando a casa. Já no mundo de hoje, sabemos fazer cada vez menos coisas <em>(existem profissões que se resumem a poucos gestos mecânicos)</em> e, em troca delas, recebemos um símbolo quantitativo convencionado, de valor intrínseco zero, mas que pode ser trocado pelos produtos e serviços criados e executados por outras pessoas tão hiper-especializadas quanto nós. Ironicamente, apesar de não conseguirmos prover por nós mesmas quase nenhuma de nossas necessidades mais básicas, nos consideramos pessoas muito independentes e muito autossuficientes&#8230; justamente por usarmos dinheiro para resolver nossas muitas incapacidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Viver em sociedade é mais barato</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Digamos que eu trabalho muitas horas por dia, chego em casa sempre a ponto de exaustão, mal tenho tempo de manter as velhas amizades <em>(quem dirá fazer novas!)</em>, não conheço nenhuma das minhas vizinhas, mas recebo muitos milhares de reais por mês em troca de toda minha energia vital. Digamos então que preciso furar a parede para instalar uma estante. Meu estilo de vida me deixou em uma posição tão vulnerável e indefesa <em>(não tenho habilidades, não tenho tempo, não tenho energia)</em> que minha única ferramenta para resolver qualquer problema é jogar dinheiro nele até que desapareça debaixo de um montinho de notas de cem reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, digamos que eu trabalho menos e, por isso, tenho mais energia e mais tempo para aprender novas habilidades e cultivar novos relacionamentos. Eu saberia, por exemplo, que meu vizinho do 101 é um coronel da reserva, cheio de orgulho de sua caixa de ferramentas e cheio de carência depois da morte da esposa, que ficaria feliz de emprestar sua furadeira e, mais ainda, de vir ele mesmo instalar a estante para mim, em troca de um pouco de conexão humana <em>(&#8220;e esse novo síndico, hein?&#8221;)</em>, de uma conversa sobre interesses compartilhados <em>(&#8220;e essa Batalha do Riachuelo, hein?&#8221;)</em> ou mesmo de uma simples ajuda retribuída <em>(&#8220;e eu precisando tanto de uma carona pro aeroporto amanhã&#8230;&#8221;)</em>. Ou seja, eu até <em>ganharia menos dinheiro</em>, mas, participando mais ativamente da minha comunidade imediata, também <em>precisaria de menos dinheiro</em>.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-2.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12876" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-2.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-2.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-2.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-2.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Qual é o preço do dinheiro?*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O papel desagregador do dinheiro sobre as comunidades não é um defeito de percurso, é uma característica inerente do sistema: pode-se argumentar que o dinheiro foi inventado exatamente <em>para</em> isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dívida teria surgido antes do dinheiro: você presenteava seu cunhado com três sacas de milho e ele te presenteava com vinte litros de leite; ele te ajudava a forrar seu telhado e você o ajudava a limpar seu terreno. O que vale mais? Sem dinheiro para transformar essas trocas em unidades simbólicas convencionadas, era impossível saber. <em>(Justamente porque não dá para somar maçãs com laranjas!) </em>Em comunidades pequenas, onde todo mundo se conhecia, essa cadeia infindável de dívidas e obrigações, favores e retribuições, era uma das mais importantes colas que dava coesão e unidade ao grupo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das piores coisas que uma pessoa poderia fazer seria retribuir um presente de dez ovos&#8230; com exatamente dez ovos. Porque dar um pouco menos significaria continuar devedor, dar um pouco mais significaria passar a ser credor, mas dar exatamente o mesmo significa fechar a conta, encerrar o negócio, cortar a conexão. Você não quer mais nada com aquela pessoa. Adeus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, é essa uma das principais características do dinheiro: ele nos permite forrar o telhado e limpar o terreno, trocar o pneu e furar a parede, sem precisar pedir nada para ninguém, sem precisar cultivar nenhum relacionamento, sem precisar dever nenhum favor, sem precisar criar nenhuma conexão. Alguém cobra cem reais pelo serviço, pagamos exatamente cem reais pelo serviço e pronto. A situação foi resolvida sem que precisássemos aprender nenhum nome, demonstrar nenhum interesse, ter nenhum trabalho — a não ser, claro, o trabalho de vender nossa energia vital e os melhores anos de nossas vidas para empregadores e empregadoras que nos pagam nossos salários para também não precisar aprender nossos nomes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qual é o preço que pagamos por tamanha precisão em determinar os preços que pagamos? Qual é o preço do dinheiro?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A subseção “Qual é o preço do dinheiro?” depende de David Graeber, em seu sensacional <a href="https://amzn.to/3FGzk1B" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Dívida: os primeiros cinco mil anos</a> (2011), que ficou anos esgotado e acabou de sair em nova edição pela Zahar. Não posso recomendar nenhuma leitura mais enfaticamente.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Por uma economia mais comunitária*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Torna-se necessário criarmos comunidades mais fortes, mais integradas, mais resilientes, baseadas em uma interdependência mútua que seria um dos elementos mais agregadores de qualquer grupo social. Os exemplos são muitos: antes dos tratores, havia muitas tarefas agrícolas que eram realizadas em conjunto por toda a comunidade: hoje na fazenda de Fulano, amanhã na de Sicrana, todas as pessoas juntas, em mutirão. Com os tratores, surge a possibilidade de cada fazenda realizar internamente tudo o que precisava. Vizinhas que antes passavam boa parte do ano trabalhando lado a lado agora mal se veem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada pessoa recém-adulta, depois de tantos anos tão dependente, é sempre bom ser (<em>ou, na medida do possível, se sentir)</em> autossuficiente. Mas, depois de alguns anos usufruindo de tanta <em>(falsa)</em> autossuficiência, também é bom reconhecermos que vivemos sim em comunidade. Depender de outras pessoas, de nossas vizinhas e de nossas amigas, até mesmo de estranhos em um parque para tirarem nossas fotos, não é necessariamente um problema para ser resolvido. Pelo contrário, depender das outras pessoas pode ser até mesmo desejável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é o caso de cairmos em uma nostalgia ludita por um pretenso Jardim do Éden onde as pessoas faziam tudo no braço e, por isso mesmo, paradoxalmente, eram ó-mas-tão-felizes. Naturalmente, se fossem tão felizes, não teriam corrido para comprar tratores e, assim, não precisar mais depender de mutirões comunitários. <em>(Depender de outras pessoas é sempre muito, muito difícil.) </em>A questão é outra: o que foi perdido durante esse processo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do inevitável colapso material de nossa civilização, como criar economias mais comunitárias e mais sustentáveis, menos dependentes de um crescimento infinito que nosso pobre planeta finito já não consegue mais dar conta? A Prisão Crescimentismo poderia ter sido uma prisão separada. Mas como ela é inseparável dessa nossa ânsia capitalista por autossuficiência material, essa discussão está aqui, mais abaixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A subseção “Por uma economia mais comunitária” depende de Bill Mckibben, em seu <a href="https://amzn.to/3Mq83UG">Deep economy: the wealth of communities and the durable future </a>(2007). A história dos tratores, citada por Mckibben, vem de <a href="https://amzn.to/45Qcj6R" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Changing works: visions of a lost agriculture</a>, publicado em 2001 por Douglas Harper, uma história oral das mudanças acontecidas na agricultura do estado de Nova Iorque.]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-1.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12875" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-1.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-1.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-1.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41-1.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Prisão Crescimentismo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se você acredita em crescimento infinito em um planeta finito, você deve ser uma pessoa louca. Ou uma economista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passamos milênios devotando todas nossas energias para a simples tarefa de sobreviver, arranjar comida, nos proteger dos elementos. Então, com nossa engenhosidade, conseguir domar esses inimigos e tivemos, em algumas partes do mundo, uns duzentos anos de folga. Foram boas férias: tirando um holocausto aqui e outro genocídio ali, inventamos os direitos humanos, abolimos a escravidão, fundamos a ONU. Mas acabou. Temos que voltar ao trabalho, ao mesmo trabalho de sempre: precisamos desviar nossas energias criativas de inventar novos apps para inventar maneiras de não morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de &#8220;as prisões&#8221; são aqueles conceitos tão hegemônicos, tão poderosos, tão unânimes, que se impõem a nós como únicas opções e nos cegam à possíveis alternativas. A monogamia é uma prisão não porque ela seja ruim ou desaconselhável, feia, chata e boba, mas porque ela se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: &#8220;relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade&#8221;. A felicidade é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável, feia, chata e boba, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para a qual aspirarmos, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: &#8220;não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz&#8221;. Etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro dessa definição, capitalismo e comunismo, enquanto sistemas econômicos, não podem ser considerados &#8220;prisões&#8221;, pois mesmo a mais ferrenha defensora de um reconhecia a existência e os argumentos do outro, embora negasse sua validade. Já o Crescimento claramente é uma prisão: nossas líderes, à esquerda e à direita, em todo mundo, discutem como crescer melhor, como crescer mais sustentavelmente, como retomar o crescimento, mas ninguém questiona o crescimento, ninguém vê nenhuma alternativa a ele. Como um sapo de charuto na boca, não temos opção a não ser inchar até explodirmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lula contra Bolsonaro, capitalismo contra comunismo, Estados Unidos e China, são todas danças das cadeiras no convés do Titanic. Quando nosso maior risco de colapso civilizacional era o nuclear, pelo menos, havia um consenso: as líderes soviéticas e norte-americanas tinham, como uma de suas prioridades, evitar um holocausto atômico. Agora, nem isso. No país mais poderoso do mundo, de quem dependemos para liderar esse processo, metade do establishment político nega peremptoriamente o risco que estamos correndo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As cientistas já soaram o alerta desde a década de 1970: o tempo está acabando. Segundo algumas, já acabou. Mas suas descobertas vão contra fundamentos muito arraigados da economia política e da política econômica: dogmas difíceis de questionar, preconceitos difíceis de desconstruir. Deveríamos estar ativamente resolvendo o problema, mas a Prisão Crescimentismo é tão forte, tão envolvente, que nem conseguimos alcançar um consenso sobre a existência do problema, muito menos sobre qual seria a melhor solução. Falta planejamento econômico, falta liderança política.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes, nosso problema de sobrevivência era individual. Depois, passou a ser a sobrevivência de nossos pequenos grupos nômades: clãs, famílias, tribos. Mais tarde, nos assentamos para plantar batatas e começamos a nos preocupar com a sobrevivência de nossos grupos cada vez maiores: cidades, estados, nações. Hoje, gigantescos grupos de pessoas que não se conhecem, nem poderiam se conhecer, conseguem se unir sob um rótulo nacional para lutar por sua sobrevivência contra outros grupos unidos sob outros rótulos nacionais. Hoje, nosso desafio é dar o último passo: encontrar uma solução planetária para sobrevivermos juntas. Infelizmente, até hoje, nossa espécie nunca conseguiu alcançar nenhum consenso. Talvez não seja possível. Talvez ainda estejamos discutindo o aquecimento global quando as águas nos engolirem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A luta não é para salvar nem o planeta nem a espécie. O planeta não corre nenhum perigo: pelo contrário, estará muito melhor sem nós. Nossa espécie não corre nenhum perigo: nos mais apocalípticos dos cenários, sempre vão haver pequenos grupos isolados de pessoas humanas se virando para sobreviver nos bolsões afastados do mundo. Nossos genes egoístas vão dar seu jeito de sobreviver e, em algumas centenas de milhares de anos, talvez evoluam em novas e diferentes espécies. A luta é para salvar nossa civilização: a língua portuguesa e o funk, a Mona Lisa e o jogo de damas, a <em><a href="https://amzn.to/46u8ntQ">Crítica da razão pura</a></em> e <em><a href="https://amzn.to/46rNu2d">Seinfeld</a></em>, o YouTube e <a href="https://amzn.to/3ZSC3OP">Shakespeare</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, nossa civilização já está condenada: ela é, literalmente e matematicamente, insustentável — uma palavra forte cuja força se perdeu pelo excesso de uso. Se é insustentável que nossa civilização continue existindo, então, nossas escolhas são duas. Ou seguimos crescendo até o colapso e, então, cada sociedade se transformará em uma versão diferente de <em><a href="https://amzn.to/3tyHA0T">Mad Max</a></em>. Ou tomamos controle desse processo, freamos o consumo, buscamos alternativas para o crescimento, contraímos nossas economias de maneira ordenada e planejada, e vamos criar, juntas, a próxima, novíssima, possível civilização humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A luta é para evitar que nossas bisnetas, vivendo em cavernas e se alimentando de raízes, limpem o cu com a última página do último exemplar de <em><a href="https://amzn.to/3Fi7rwC">Dom Casmurro</a></em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Sobre decrescimentismo, recomendo <a href="https://amzn.to/48UsDGE">Pequeno tratado do decrescimento sereno</a> (2007), de Serge Latouche; <a href="https://amzn.to/48QGT36">Democracia econômica. Alternativas de gestão social </a>(2013), de Ladislau Dowbor; <a href="https://amzn.to/3LYMM4t" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Deep economy: the wealth of communities and the durable future</a> (2007) de Bill Mckibben; <a href="https://amzn.to/3EXnXBI">Prosperity without growth: economics for a finite planet</a> (2009), de Tim Jackson; <a href="https://amzn.to/3PX6XRj">Beyond growth. The economics of sustainable development</a> (1996), de Herman E. Daly. O grande clássico da área é <a href="https://amzn.to/3ZTU1Ak">Small is beautiful. Economics as if people mattered</a> (1973), de E. F. Schumacher. O pensador atual inescapável é Nicholas Georgescu-Roegen, seja em suas próprias obras, como a coletânea <a href="https://amzn.to/48Si5HW">O decrescimento. Entropia. Ecologia. Economia</a> (2008), ou em obras que expliquem suas ideias, como <a href="https://amzn.to/3SgthIL">A natureza como limite da economia. A contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen</a> (2010), de Andrei Cechin. Por fim, pode ser interessante ler sobre esses mesmos assuntos, mas a partir de uma perspectiva budista. Recomendo <a href="https://amzn.to/3LZHINl">Buddhist economics. An enlightened approach to the dismal science</a> (2017), de Clair Brown; <a href="https://amzn.to/3rVDjDU">Buddhist economics: a middle way for the market place</a> (1996), de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Prayudh_Payutto">Prayudh Payutto</a>, e toda a obra de David R. Loy, especialmente <a href="https://amzn.to/3rPCzQW">A Buddhist history of the West: studies in lack</a> (2002), <a href="https://amzn.to/3M2keXH">The great awakening: a Buddhist social theory</a> (2003), <a href="https://amzn.to/3Qj7bE1">Money, sex, war, karma: notes for a Buddhist revolution</a> (2008) e <a href="https://amzn.to/45vaxIc">A new Buddhist path: enlightenment, evolution, and ethics in the modern world </a>(2015).]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12874" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-23-13.34.41.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quais bens escolhemos valorizar?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Qual é o valor das coisas-sem-valor que destruímos para produzir as coisas-que-valorizamos? Será que vale a pena?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda produção é uma destruição.* Ao produzir um automóvel, quilos de metal, vidro, borracha, etc, deixam de existir, mas um novo objeto, o automóvel, passa a existir: vale a pena produzir um automóvel porque seu valor final <em>(não apenas o preço)</em> é visto como superior ao valor final da soma da matéria-prima que o compõe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não é só essa matéria que é destruída <em>(ou seja, utilizada)</em> para a produção do automóvel: o processo também utiliza capital natural, ou seja, nosso “estoque”, renovável ou não-renovável, de água, ar, florestas, minerais.** Em economia, externalidade é quando uma ação minha<em> (digamos, fabricar um automóvel)</em> gera efeitos externos que serão sentidos por terceiros que não participaram da minha ação (digamos, pessoas ficarem sem água potável porque a fabricação do meu automóvel poluiu um rio). Então, se utilizo uma tonelada de aço para produzir um automóvel, uma tonelada de aço foi destruída e um automóvel foi produzido. Assim, simplificando grosseiramente e fingindo que nada mais foi utilizado, se a tonelada de aço custava mil reais e o automóvel, trinta mil, gerei um valor de R$29 mil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas digamos que, para fabricar um automóvel, eu preciso poluir um rio. Como um rio não tem valor, eu não gastei nada, fabriquei um automóvel que custa trinta mil e gerei um valor de trinta mil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas economistas gostam de dizer que toda a ciência econômica pode ser resumida a uma única frase: “incentivos funcionam”. Hoje, de acordo com a maneira que <em>escolhemos </em>organizar nossa sociedade, a indústria tem todo o incentivo do mundo para fabricar um automóvel utilizando o mínimo possível de aço, mas não tem nenhum incentivo para utilizar o mínimo possível de capital natural. Quando escolhemos valorizar o aço mas não um rio, o que estamos incentivando?***</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como um exercício conceitual, um grupo de economistas estimou que o valor total do capital natural do planeta estaria, por baixo, em torno de 54 trilhões de dólares — em comparação, a economia mundial movimenta anualmente cerca de 18 trilhões de dólares.****</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com outros cálculos, se incorporássemos ao custo da gasolina todo o dano que a extração e o refino de petróleo fazem ao meio ambiente, o preço final do litro seria quatro vezes maior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, esses números são discutíveis e outro grupo talvez encontrasse estimativas muito diferentes: o principal objetivo do exercício é chamar atenção para a necessidade de<em> internalizarmos as externalidades.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se fossem levados em conta os custos de utilização do capital natural do nosso planeta, as principais indústrias do mundo não seriam lucrativas: o custo real da gasolina <em>(e de quase tudo mais que fabricamos)</em> não apenas é muito mais alto do que pagamos hoje, mas também é muito mais alto do que podemos pagar.*****</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perceberíamos, talvez, que o gigantesco e permanente <em>custo real</em> de produzir certos objetos<em> (quem sabe, a maioria)</em> simplesmente não compensa o pequeno e efêmero benefício que tiramos deles.******</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Quem diz que “toda produção é destruição” é o monge budista tailandês <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Prayudh_Payutto">Prayudh Payutto</a>, em <a href="https://amzn.to/3rVDjDU">Buddhist economics: a middle way for the market place</a>, cap. 3.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**A relação entre os conceitos de capital natural, manufaturado, cultural e cultivado pode ser encontrada no artigo <a href="https://www.researchgate.net/publication/268412202_CAPITAL_NATURAL_CRITICO_A_OPERACIONALIZACAO_DE_UM_CONCEITO">“Capital natural crítico: a operacionalização de um conceito”</a> (2005) de Valdir Frigo Denardin e Mayra Taiza Sulzbach.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[***Quem afirma que as principais indústrias do mundo não seriam lucrativas se fosse levado em conta o seu uso de capital natural é o relatório<a href="https://capitalscoalition.org/natural-capital-at-risk-the-top-100-externalities-of-business/"> “Natural capital at risk: the top 100 externalities of business”</a>, conduzido em 2013, pela empresa Trucost para o programa <a href="http://www.teebweb.org/">TEEB</a> (The economics of ecosystems and biodiversity) da ONU. Vale a pena ressaltar: de acordo com o estudo, a segunda atividade econômica mais destrutiva para o capital natural mundial é criação de gado na América do Sul (A primeira são as usinas termoelétricas a carvão chinesas.)]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[****A estimativa do valor total do capital natural do planeta está no artigo “<a href="http://www.esd.ornl.gov/benefits_conference/nature_paper.pdf">The value of the world’s ecosystem services and natural capital</a>” (1997), escrito por Robert Costanza e outros.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*****A estimativa do custo real do litro da gasolina está em<a href="https://amzn.to/3OYvvsl"> Deep economy: economics as if the world mattered</a> (2007), de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Bill_McKibben">Bill Mckibben</a>, cap. 1, onde o autor sugere que a estimativa veio de Costanza. De qualquer modo, o que importa para o argumento é que o custo real da gasolina é mais alto do que o preço que pagamos por ela.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[******Outros artigos em português sobre capital natural: “Capital natural na perspectiva da economia” (2002), de Valdir Frigo Denardin e Mayra Taiza Sulzbach; “Valorando o capital natural e os serviços ecológicos de unidades de conservação” (2004), de Irina Mikhailova e Francisco Antônio Rodrigues Barbosa; “Capital natural, serviços ecossistêmicos e sistema econômico: rumo a uma ‘economia dos ecossistemas&#8217;” (2009), de Daniel Caixeta Andrade e Ademar Ribeiro Romeiro.]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12873" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.08.jpg?w=893&amp;ssl=1 893w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quais atividades escolhemos valorizar?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher valorizar</em> algumas atividades e não outras, a sociedade está literalmente nos dizendo quais atividades <em>têm valor</em> e quais <em>não tem valor algum</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O produto interno bruto <em>(PIB)</em> é a soma dos bens e serviços trocados em uma sociedade. Se as pessoas dessa sociedade escolhem gastar seu dinheiro com esses bens e serviços é porque consideram que eles têm valor. Logo, são bons. Logo, quanto mais deles, melhor. Daí ser considerado autoevidentemente positivo o PIB ser maior do que menor. Na teoria, de fato, o PIB não faz nenhum julgamento de valor, nunca diz que essa atividade é desejável e aquela, indesejável: ele apenas soma tudo e apresenta o valor final. Na prática, entretanto, uma série de decisões prévias sugere que o julgamento de valor já foi feito:</p>



<p class="wp-block-paragraph">1. Quando <em>escolhemos </em>quantificar e valorizar algumas atividades e não outras <em>(fabricar um revólver tem valor econômico; lavar a louça depois que minha mãe fez jantar, não.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">2. Quando <em>escolhemos</em> levar em conta no PIB essas atividades valoráveis e quantificáveis, e não outras <em>(fabricar um revólver aumenta o PIB; lavar a louça depois que minha mãe fez jantar, não.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">3. Quando <em>escolhemos </em>calcular esses valores monetários como equivalentes <em>(fabricar um revólver de mil reais ou fabricar uma bicicleta de mil reais ambos aumentam o PIB igualmente em mil reais cada.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">4. Quando <em>escolhemos </em>utilizar o PIB como a medida final mais importante para comparar economias. <em>(o Brasil é o <a href="http://exame.abril.com.br/economia/noticias/pib-em-dolar-cai-25-e-brasil-cai-para-a-posicao-de-9a-economia-do-mundo">9º</a> país do mundo em PIB, mas é o <a href="http://www.valor.com.br/brasil/4493134/brasil-lidera-em-numero-de-homicidios-no-mundo-diz-atlas-da-violencia">1º</a> em homicídios, o <a href="http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-fica-em-75-no-ranking-do-idh--atras-do-sri-lanka,10000004754">75º</a> em desenvolvimento humano — IDH, e <a href="http://brasilescola.uol.com.br/geografia/indice-gini.htm">120º</a> em distribuição de renda — Gini).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós <em>escolhemos </em>nos organizar de acordo com um sistema que valoriza produzir armas, mas não cuidar de graça dos filhos da vizinha; que valoriza comprar um DVD de desenho animado de princesa, mas não contar para minha filha uma história que minha avó me contava; que valoriza tomar antidepressivos, mas não meditar no parque; que valoriza contratar uma empregada, mas não limpar a privada eu mesma; que valoriza comprar um novo fogão, mas não ouvir meu avô falando sobre a sua época enquanto conserta meu fogão antigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A decisão de organizar dessa maneira nossa sociedade, nossas trocas de serviços e nossas atividades produtivas, é uma escolha moral e cultural, que favorece algumas pessoas e desfavorece outras, e que traz consigo infinitas e imprevisíveis consequências éticas. Só o fato de nascermos em uma sociedade que tão obviamente escolhe valorizar algumas atividades e não outras já nos informa muito: não apenas sobre a escala de valores dessa sociedade, mas também, mais importante, sobre a escala de valores que essa sociedade espera que <em>nós</em> adotemos.*</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A discussão sobre o PIB é um dos temas principais de <a href="https://amzn.to/3EXnXBI">Prosperity without growth: economics for a finite planet</a> (2009), de Tim Jackson, especialmente caps. 1, 3 e 8.]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07-1.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12872" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07-1.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07-1.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07-1.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07-1.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A quem escolhemos responsabilizar?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ser humano é naturalmente moral: ninguém quer ser a vilã do filme que está protagonizando em sua própria cabeça. Para que nossos incômodos sentimentos morais não atrapalhem nossa busca pelo lucro, para chafurdar na ganância e nunca sentir culpa, a melhor solução é diluir nossa responsabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É mais seguro ter um ataque cardíaco diante de uma única pessoa do que no meio de uma multidão. Uma pessoa sozinha diante de um cardíaco necessitado se sentirá na obrigação de ajudar, pois se não fizer nada, não haverá fuga possível de si mesma: ela sempre será a pessoa que deixou outra morrer. A responsabilidade é dela. Já no meio de uma multidão, a responsabilidade se dilui: cada uma daquelas pessoas pensa que as outras também poderiam ter ajudado e essa justificativa serve para aliviar a culpa.<em> (na pior das hipóteses, sou tão ruim quanto todas elas.) </em>Pior, como sempre julgamos as outras pessoas com muito mais severidade do que a nós mesmas, enquanto passamos por cima do cardíaco agonizante ainda nos daremos ao direito de nos indignar: “Ok, eu estava atrasada para a missa das sete, não podia mesmo ajudar, mas caramba, como é que pode nenhuma daquelas outras pessoas ter ajudado?! É o fim do mundo! Acabou a empatia!”*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante alguns anos, fui empresário. Em uma empresa pequena, tudo é pessoal: se minha funcionária me pede duzentos reais de aumento e eu nego, é porque quero esses duzentos reais para mim e para o meu sócio — <em>nem que seja para que possamos escolher reinvestir esse dinheiro na empresa. </em>Na prática, o meu “não” está dizendo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu te recuso esses duzentos <em>reais (que ambos sabemos que representam 20% da sua renda e que fariam uma diferença significativa no seu conforto material e na sua qualidade de vida)</em> porque quero mais cem reais no meu bolso <em>(que você nem tem como saber quantos por cento da minha renda representam porque eu obviamente não compartilho essa informação!) </em>mas que ambos sabemos que não farão nenhuma diferença no meu conforto material ou qualidade de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas esse é um “não” muito difícil de dizer, justamente porque a minha funcionária e eu sabemos que tenho o poder de dizer “sim”. Então, eu, cobiçando aqueles cem reais <em>(apesar de não me significarem nada)</em>, ansioso para que o malvado da história não fosse eu <em>(naturalmente, a ansiedade é por saber que era)</em> e incapaz de reconhecer<em> (até para mim mesmo)</em> a pequenez do que estava fazendo, só me restava <em>passar adiante a responsabilidade</em> pela mesquinharia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Olha, por mim, eu te daria esse aumento, eu juro. Aliás, se dependesse da minha vontade, você ganharia cinco mil! Eu te daria a minha última camisa! Palavra! Mas, infelizmente, ó, não posso. Você sabe que não sou o único sócio, né? Imagina, deus me livre!, se te dou esses duzentos! É capaz do meu sócio malvado brigar comigo, dar na minha cara, desfazer a sociedade, queimar minha vila, estuprar minha irmã, matar meu cachorro, o horror, o horror! Você entende, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu problema, enquanto empresário, poderia ter sido articulado da seguinte maneira: “Como fazer para que meus incômodos sentimentos morais não atrapalhassem minha busca pelo maior lucro?” E a única solução que me permitia, ao mesmo tempo, 1) manter intacta minha autoimagem de pessoa boa e generosa, e 2) embolsar os cem reais; era <em>diluir a responsabilidade</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As empresas, ou seja, as pessoas jurídicas, foram inventadas<em> (entre outras coisas)</em> para limitar a responsabilidade das pessoas físicas que as compõem. Fala-se muito em empresas “Ltda”, abreviação de “limitada”, mas raramente menciona-se o <em>substantivo </em>ao qual o <em>adjetivo </em>“limitada” se refere: quem é limitada não é a empresa em si — pois, em princípio, uma empresa limitada não tem limites de tamanho, faturamento, número de funcionárias, etc — mas sim a responsabilidade das sócias. Seu nome técnico no Brasil, até o código civil de 2002, era “sociedade por quotas com responsabilidade limitada”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que significa exatamente falar em “responsabilidade era limitada”? Antes da responsabilidade ser limitada, se eu tinha uma empresa pessoa jurídica, e a empresa falisse deixando dívidas de, digamos, um milhão, eu respondia por essas dívidas com meu patrimônio pessoa física: tinha que vender tudo até pagar todos os credores ou até ficar sem nada. Naturalmente, esse risco limitava o número de pessoas capazes ou dispostas a abrir empresas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O surgimento das empresas limitadas, ao diminuir o risco dos empresários, ajudou a turbinar o capitalismo que já vinha nascendo. Mas ainda faltava alguma coisa. Pois apesar de as sócias terem <em>responsabilidade financeira limitada</em>, elas ainda têm <em>responsabilidade moral ilimitada</em>: literalmente assinam embaixo dos atos de sua pessoa jurídica. Dou um exemplo. Há muitos anos, minha vizinha de porta era dona de uma lanchonete na esquina da nossa rua: o prédio inteiro se encontrava lá, do cafezinho matinal à cervejinha noturna, passando pelo almoço e pelo jantar. Um dia, bateu fiscalização: as violações de higiene eram tão criminosas que a vigilância sanitária interditou o restaurante. Nunca mais encontrei a vizinha: segundo o porteiro, ela só voltou ao prédio mais duas vezes, sempre de madrugada, e depois pediu para a mãe fazer sua mudança. Foi uma decisão sensata: algumas moradoras mais exaltadas planejavam agredi-la no elevador. E eu fico me lembrando: ela me servia aquele misto quente, com queijo podre e presunto vencido, sorrindo e olhando no meu olho. Claro que minha raiva era <em>pessoal</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para resolver a <em>“pessoalidade”</em> das sociedades limitadas, a solução foi a <em>impessoalidade </em>das sociedades <em>anônimas</em><strong>,</strong> de capital aberto, cuja própria constituição justifica e possibilita, estimula e potencializa uma conduta corporativa amoral. Nesse tipo de empresa, 1) As pessoas executando as ações operacionais diárias <em>(as executivas)</em> não estão efetivamente no controle, libertando-se assim da responsabilidade moral pelas consequências dessas ações; e 2) As pessoas efetivamente no controle <em>(as acionistas)</em> estão afastadas das decisões operacionais diárias, adquirindo assim uma preciosa negação plausível sobre as ações cometidas em nome de seus dividendos. Em outras palavras, o que os olhos não veem, o coração não sente — e vice-versa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a pessoa executiva, o único imperativo moral é o lucro das acionistas e, para defendê-lo, passariam por cima do cardíaco agonizante sem nenhuma dor na consciência. E, caso uma de suas vítimas lhe interpelasse, a executiva ainda se justificaria, cheia de sinceridade e com o coração sangrando:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Se fosse por mim, eu não teria envenenado o rio que abastece de água a sua aldeia. Juro que não. Sou uma boa cristã, jamais faria isso. Mas, sabe como é, a multa por poluir o rio é oitenta vezes menor do que o custo de construir uma central de tratamento de água e eu tenho uma obrigação moral de fazer todo o possível, dentro da lei, para dar o máximo de retorno ao investimento das acionistas. Eu sei que você está sem água, sinto muito, mas veja o lado bom: graças a essa economia que fizemos, nossas trinta mil acionistas ganharam um bônus de quinhentos reais a mais esse ano!</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se o morador da aldeia sem água fosse procurar uma dessas trinta mil acionistas, ela provavelmente reagiria horrorizada, alegaria sincera ignorância e colocaria toda a culpa nas executivas sem coração… …mas continuaria embolsando os quinhentos reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece um exemplo absurdo e exagerado, mas não é. Henry Ford, longe de ser um santo altruísta, quando tentou abaixar os preços de seus automóveis para vender mais, foi processado por seus próprios acionistas: os lucros pertenceriam a eles e Ford não teria direito de “transferir” parte desse dinheiro aos consumidores na forma de descontos. Ford perdeu e o precedente estabelecido por sua derrota pauta a nossa vida até hoje: os executivos de uma empresa têm o dever legal de colocar os interesses dos acionistas acima de quaisquer outras considerações e, mais importante, não têm autoridade legal de servir quaisquer outros interesses, nem dos consumidores e nem mesmo do planeta.**</p>



<p class="wp-block-paragraph">O capitalismo é <em>uma ideologia de difusão de responsabilidade</em>. Sempre houve empresas e negócios, mercados e mercadores, compra e venda, importação e exportação, mas, se existe um único fato que possibilita o surgimento do capitalismo como nós o conhecemos, foi a criação das empresas de responsabilidade limitada e, especialmente, das sociedades anônimas de capital aberto. Não por acaso, as primeiras foram as companhias inglesa e holandesa das Índias Ocidentais, criadas especificamente para conquistar e rapinar, matar e roubar, em nome de civilizados lordes e liberais mercadores, totalmente inocentes do sangue derramado em nome de seus dividendos. A revolução capitalista — que começa com a criação das Companhias das Índias <em>(sécs. XVI e XVII)</em> e se consolida com a revolução industrial<em> (sécs. XVIII e XIX)</em> — tornou socialmente aceitáveis práticas que, até a idade média, transformariam qualquer pessoa em pária social. O debate é se já podemos falar de capitalismo no começo desse processo, ou só quando ele está consolidado, ou em algum ponto do meio do caminho.***</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">A nova ideologia, ao mesmo tempo em que nos estimula a chafurdar em alguns de nossos instintos mais baixos, na avareza e na mesquinharia, também nos oferece a perfeita justificativa para dormirmos tranquilas à noite. Afinal de contas, a “mão invisível”**** cuidará para que a “destruição criativa”***** gerada por nossa cobiça e competitividade traga progresso material para todas as pessoas. (<em>Em outras palavras, não é que sou um canalha ganancioso e insaciável: estou aquecendo a economia e gerando valor!)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Prisão Respeito</a>, falei mais sobre esse bem-documentado fenômeno da difusão da responsabilidade. Os conceitos de <a href="https://web.archive.org/web/20151120041407/http:/www.naopossoevitar.com.br/2009/06/experimentos-em-psicologia-latane-darley-e-a-paralisia-coletiva.html">“difusão de responsabilidade” e “apatia do espectador”</a> foram desenvolvidos pelos psicólogos norte-americanos John Darley e Bibb Latané, no artigo “<a href="https://www.neshaminy.org/site/handlers/filedownload.ashx?moduleinstanceid=34368&amp;dataid=51119&amp;FileName=Article%2010-%20To%20Help%20or%20Not%20to%20Help.pdf">Bystander intervention in emergencies: diffusion of responsibility</a>” (1968) enquanto estudavam o caso de Kitty Genovese, uma nova iorquina assassinada em 1964, aparentemente diante de dezenas de testemunhas — <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Murder_of_Kitty_Genovese">há controvérsias</a>.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**A História de como foram inventadas as corporações limitadas e anônimas está em <a href="https://amzn.to/3SlrYbe">The corporation. The pathological pursuit of profit and power</a> (2004), de Joel Bakan, especialmente os dois primeiros capítulos.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[***A comparação entre as corporações atuais e das Companhias das Índias está não só no livro de Bakan, citado assim, mas também em <a href="https://amzn.to/3OVGMJT">Dívida: os primeiros 5.000 anos</a> (2011), cap. 5, do antropólogo norte-americano <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Graeber">David Graeber</a>, no capítulo 11.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">[****A expressão “<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3o_invis%C3%ADvel">mão invisível</a>” foi utilizada pela primeira vez na <a href="https://amzn.to/3Ooruxs">Teoria dos sentimentos morais</a> (1759), de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Adam_Smith">Adam Smith</a>, e depois desenvolvida (mas não muito) em <a href="https://amzn.to/3qeMFtN">A riqueza das nações</a> (1776). Adam Smith se considerava, antes de tudo, um filósofo moral e é nessa chave que A riqueza das nações deve ser lido, um livro muito mais interessante e matizado do que lhe dão crédito tanto entusiastas quanto detratores.]</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*****O conceito de “<a href="https://amzn.to/3OQEJIZ">destruição criativa</a>” foi elaborado pelo economista austríaco <a href="https://amzn.to/3KrycBB">Joseph Schumpeter</a> em 1942.]</em></p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="239" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone.jpg?resize=500%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9394" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone.jpg?resize=500%2C239&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone.jpg?resize=768%2C367&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone.jpg?w=1150&amp;ssl=1 1150w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Nosso futuro por um iPhone</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como defendem quase todas as economistas, incentivos funcionam. De fato, quando consideramos os incentivos econômicos que nossa sociedade oferece, a atual situação do mundo deixa de ser surpreendente e se revela inevitável. Portanto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>não valorizar nosso capital natural <em>(água, ar, florestas, minerais, etc)</em>;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>valorizar os bens produzidos a partir desse capital natural;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>utilizar o PIB como medida básica de riqueza;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>calcular, para fins de PIB, o valor de um objeto manufaturado como um valor positivo;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>não calcular, para fins do PIB, o valor do capital natural utilizado na produção desse objeto como um valor negativo;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao <em>escolher </em>organizar nossa atividade produtiva com base em empresas constituídas explicitamente para diluir a responsabilidade das pessoas que as compõem;</p>



<p class="wp-block-paragraph">… era praticamente inevitável que destruiríamos nosso planeta produzindo objetos de consumo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma lenda de que as habitantes originárias das Américas teriam trocado seu continente, suas matas e seus rios, por espelhinhos e bugigangas. Não é verdade: essas pessoas foram violentamente conquistadas. Quem está voluntariamente trocando suas matas e seus rios por espelhinhos e bugigangas, seu futuro por um iPhone, <em>somos nós</em>, a humanidade inteira, hoje, agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não existem essas tais “leis econômicas” objetivas e amorais, tão científicas quanto a lei da gravidade ou a teoria da evolução. Existem pessoas, como eu e você, que escolhemos, todos os dias, valorizar algumas coisas em detrimento de outras. A decisão de organizar nossa sociedade de acordo com leis amorais é uma <em>decisão moral</em>. Ao escolher valorizar alguns bens e serviços e não outros, ao escolher responsabilizar algumas pessoas e não outras, ao escolher incentivar algumas atividades e não outras, estamos revelando nossa escala de valores e construindo um mundo à sua imagem e semelhança. Talvez afundemos com ele.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone-22.jpg?resize=500%2C333&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9393" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone-22.jpg?resize=500%2C333&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Mr.-Pynchon-and-the-Settling-of-Springfield-1937-Umberto-Romano-iphone-22.jpg?w=750&amp;ssl=1 750w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Conclusões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Prisão Autossuficiência começa falando de nossas origens evolutivas e termina expandindo o assunto para questões literalmente planetárias. Ambos os temas não existem em separado, pois é a nossa insegurança de macaquinhas gregárias extremamente carentes e conformistas que nos faz produzir tanto e consumir tanto. Mas não buscamos autossuficiência somente no consumo: o cinema, a igreja, nossas avós, tudo nos vende a ilusão de que um dia encontraremos essa outra super-pessoa que vai suprir todas as nossas demandas e que vai nos deixar autossuficientes em termos de sexo e companheirismo, amizade e romance. Está presa na Prisão Monogamia quem acredita nesse conto-do-vigário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas nós, ao longo da infância e adolescência, construímos um grupo de amigos e amigos que, se somente não fizermos nada, serão nossa rede de apoio por toda a nossa vida. Abraçar a Prisão Monogamia, porém, é trocar essa rede de apoio por um único ponto de apoio. Simplesmente não vale a pena. Nós, macaquinhos gregários, não fomos feitos pra isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas são nossas próprias inseguranças de macaquinhas gregárias, cuidadosamente trabalhadas pelo capitalismo, que nos impulsiona a essa escolha mal-informada. Nada pode ser mais capitalista e individualista do que a família nuclear monogâmica, com pessoas fechadas em grupos cada vez menores, exclusivos, isolados — ou seja, autossuficientes. Falar em não-monogamia é destravar a possibilidade de criarmos novos tipos de relacionamento, inclusive não-sexuais. E não tem como falar de relações românticas ou sexuais, de monogamia ou não monogamia, sem encarar de frente o fato de que, em nossa sociedade misógina, toda relação homem-mulher é sempre assimétrica.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07.jpg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12871" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2023-08-05-13.05.07.jpg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Esse texto foi importante pra você?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se meus textos tiveram impacto em você, se minhas palavras te ajudaram em momentos difíceis, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor. Assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou artista independente. Não tenho emprego, salário, renda, pai rico. Vivo exclusivamente de escrever esses textos que abriram seus olhos e mudaram sua vida. Dependo da sua generosidade. Se não você que me lê, então quem?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você mora no exterior e a taxa de câmbio é favorável, uma das maiores ajudas que pode me dar é depositando uns dólares nos meus cartões-presente da Amazon — preciso ler muitos livros importados para escrever esses textos! Basta visitar os links abaixo, escolher o valor e enviar para&nbsp;<a href="mailto:eu@alexcastro.com.br">eu@alexcastro.com.br</a>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Espanha:&nbsp;<a href="https://substack.com/redirect/90918c2f-f206-4b7c-b2a2-4e823bd874d6?j=eyJ1IjoiNjFwM28ifQ.LiHLr3aZ1gTn3XQCOIZbfDT9c0X7MsQFrSkKNaGbpWY">amazon.es/cheques-regalo</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">EUA:&nbsp;<a href="https://substack.com/redirect/f29a4698-b1f8-46fd-a469-3dced046a19c?j=eyJ1IjoiNjFwM28ifQ.LiHLr3aZ1gTn3XQCOIZbfDT9c0X7MsQFrSkKNaGbpWY">amazon.com/gift-cards</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>pix</strong>: eu@alexcastro.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://apoia.se/alexcastro">apoia.se/alexcastro</a></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdf71248c-e305-40c5-b47d-7172959c0df8_950x950.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt="" title=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Série “As Prisões”</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-autossuficiencia">Autossuficiência</a></li>



<li>Monogamia (em breve)</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O Curso das Prisões</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Curso em resumo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que são As Prisões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Funcionamento</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 19h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aulas gravadas indefinidamente</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sem leituras</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12771" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Professor</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/46ucPbM">Mentiras Reunidas</a></em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>, <em><a href="https://suplementopernambuco.com.br/">Suplemento Pernambuco</a></em>, <em><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/home">Quatro Cinco Um</a></em>, <a href="https://rascunho.com.br/"><em>Rascunho</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Meus votos zen-budistas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left" id="compre"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Compre</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>R$88 mensais</strong>, via&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>: comprando o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">plano Mecenas CURSOS</a>&nbsp;<em>(ou superior)</em>, você tem acesso a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos"><strong>todos os meus cursos</strong></a>&nbsp;<em>enquanto durar o seu apoio,</em>&nbsp;além de ganhar muitas outras recompensas, como textos e aulas avulsas exclusivas. Como bônus, coloco seu nome na lista das mecenas. Você pode cancelar o seu plano a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.&nbsp;<em>(O Apoia-se aceita todos os cartões de crédito e boleto).</em></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Dúvidas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aulas em resumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12678" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
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		<title>Prisão Trabalho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Aug 2023 16:28:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
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					<description><![CDATA[O trabalho não é, por definição, aprisionante e terrível. Mas quando suga quase toda nossa energia vital e nos dá somente uns míseros tostões em troca, aí sim ele pode ser uma prisão.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O problema não é o <strong>dinheiro</strong>: todas precisamos de dinheiro, ele garante nossa liberdade e nos permite viver nossas vidas nos nossos próprios termos. O problema não é o <strong>trabalho</strong>: somos seres criativos, gostamos, precisamos trabalhar, produzir, criar. O problema é só trabalharmos em prol dos projetos de <em>outras</em> pessoas, ao invés ou dos nossos projetos pessoais ou de projetos coletivos que nos sejam importantes. O problema é fazermos isso por muito tempo e por pouco dinheiro, que modo que não nos sobra nem tempo nem energia para nossos próprios projetos. Então, sim, tanto o <strong>trabalho </strong>quanto o <strong>dinheiro </strong>podem se tornar prisões.</p>



<span id="more-12783"></span>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="500" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-saleiro-marina.jpeg?resize=500%2C500&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12791" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-saleiro-marina.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-saleiro-marina.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-saleiro-marina.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-saleiro-marina.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Trabalho. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão Trabalho é a sexta, depois das Prisões&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Patriotismo</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em> </p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Introdução</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O dinheiro não é o vilão. Ele nos permite viver, realizar nossos sonhos, e até salva nossa vida quando precisamos. Ter dinheiro é uma das formas mais concretas de ser livre. Entretanto, se o colocamos no centro de nosso universo, ele pode sim se tornar uma prisão. Fundamentalmente, o dinheiro só serve para comprar tempo. Mas, se vendemos todo o nosso tempo em troca de dinheiro, então esse dinheiro não serve pra nada. Fundamentalmente, a vida não é cara: nossa vida, porém, pode ser cara se fizermos escolhas caras. Aliás, o que é uma escolha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho não é, por definição, aprisionante e terrível. Somos seres construtores, produtivos. Idealmente, o trabalho nos permite dar vazão ao nosso afã criador e, ao mesmo tempo, ganhar o dinheiro que precisamos para viver nossa vida e realizar nossos projetos pessoais. Muitas vezes, entretanto, o trabalho custa caro: ele suga quase toda nossa energia vital e nos dá somente uns míseros tostões em troca. Nesses casos, sim, o trabalho é uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Viver é mais barato do que parece</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Cresci menino rico de condomínio da Barra da Tijuca. Depois, a família teve a sensatez de falir, uma experiência educacional que recomendo para todas as pessoas que já foram ricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mundo onde me criei, água não era apenas água: era uma Perrier, garrafinha verde, de uma fonte naturalmente gasosa no sul da França; o relógio de pulso não era só um relógio de pulso, era um Hublot, lindo, discreto, minimalista, e assim por diante, da água mineral ao relógio de pulso, do carro à camiseta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para uma criança (que, como qualquer criança, só conhecia o seu próprio mundo), bastava um pouco de extrapolação e uma aritmética básica para concluir que viver era muito, muito caro. Eu precisaria ganhar uma quantidade abissal de dinheiro só para continuar vivendo como sempre tinha vivido. Só para ficar tudo igual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Buscando essa quimera, no final da década de 1990, caí de cabeça na primeira bolha da internet. Fui a seminários de <em>web marketing</em>, fiz <em>business plans</em>, levantei <em>seed money</em> com <em>venture capitalists</em>, fundei a minha própria <em>startup dotcom</em> onde era o <em>Chief Visionary Officer</em>&#8230; e fali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa época, minha família já não estava mais em condições de me ajudar financeiramente. Vendi o carro (e o Hublot) para pagar as dívidas e fiquei a pé pela primeira vez desde os dezessete anos. Depois, meti o rabo entre as pernas e fui morar com a esposa em um quarto na casa da minha mãe, pagando aluguel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, no primeiro domingo de 2002, abri os classificados e fui tentar descobrir um jeito de ganhar dinheiro. Aparentemente, minha única habilidade com demanda de mercado era falar inglês fluente, fruto da minha caríssima educação de primeiro mundo. Passei dois meses distribuindo currículos até receber a primeira resposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu nunca tinha andado de ônibus na vida. Segundo as histórias que circulavam no meu mundo, sempre contadas por pessoas que também nunca tinham andado de ônibus, você era obrigatoriamente assaltado a cada dez minutos, ou algo assim. Um horror.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, agora, aqui estava eu pegando nove ônibus por dia, para dar duas ou três aulas em pontos diferentes da cidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebi que não precisava ter medo da vida. Que não eram necessários quinze mil reais por mês para ter uma vida digna e ser feliz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com poucas horas de aulas em dias alternados da semana, eu já conseguia ganhar o suficiente para pagar as contas básicas. Se e quando eu precisasse de mais, bastava encher progressivamente os outros horários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em finais de 2002, eu e minha esposa já estávamos em nosso próprio apartamento alugado. Cozinhávamos em casa, andávamos de ônibus, baixávamos filmes da internet, tirávamos livros da biblioteca, íamos à praia, transávamos muito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela fazia mestrado de manhã e trabalhava de vendedora de loja de roupas à tarde e à noite. Eu chegava no shopping algumas horas antes de ela sair, ficava na mega livraria lendo de graça aqueles novos romances brasileiros de cento e poucas páginas que se termina rapidinho, e voltávamos juntos pra casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não consumíamos quase nada e, mesmo assim, apesar disso, talvez por isso, éramos felizes. Mais importante, éramos <em>viáveis</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas das pessoas mais felizes que conheci eram ex-ricas, escreveu uma vez o psicólogo Flávio Gikovate. Nossa sociedade é tão obcecada por dinheiro que pode ser libertador perdê-lo: percebe-se, de uma vez só, o quão pouca falta ele faz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, essa certeza de que conseguia me sustentar sozinho, com esforço mínimo, foi talvez a revelação mais importante da minha vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não precisava me escravizar dez horas por dia em um escritório sem janelas, realizando os projetos de outras pessoas, trocando a energia vital da minha juventude por água Perrier e por relógios Hublot.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebi que vender minha alma ao mercado de trabalho não era o único modo de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que se eu abdicasse da água Perrier e dos relógios Hublot, ou mesmo de água Petrópolis e de relógios Swatch, eu poderia trabalhar menos e ter mais tempo livre: criar mais, viver mais, dormir mais, transar mais, ir mais à praia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E também ser um melhor filho, um melhor marido, um melhor amigo. Ouvir mais, ajudar mais, me doar mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, bebo água de um filtro de cerâmica São João e, depois de vender o Hublot, nunca mais usei relógio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Viver é barato, nossas escolhas é que são caras</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Minha cidade conta com uma rede extensiva de transporte público, com passagens razoavelmente baratas. Se mesmo assim eu escolho ter carro, então, sim, a minha vida vai ser mais cara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Estado brasileiro me oferece (não de graça, mas em troca dos meus impostos) saúde e educação, do nascimento à morte. Se mesmo eu escolho pagar de novo por educação ou saúde particular, então, sim, a minha vida vai ser mais cara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem diversas bibliotecas públicas na minha cidade, uma na minha própria rua, cheias de livros que ainda não li e provavelmente até gostaria. Se mesmo assim eu escolho pagar por um livro, pelos preços absurdos que nosso mercado editorial cobra, só pra matar minha vontade de ler esse livro <em>agora</em>, então, sim, a minha vida vai ser mais cara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se escolho pagar quase oitenta reais pra ver no cinema um filme que poderia ver na TV aberta ou baixar de graça no computador, porque estou sentindo <em>desejo</em> de ver esse filme <em>agora</em>, então, sim, a minha vida vai ser mais cara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os exemplos poderiam se multiplicar <em>infinitamente</em>, mas só porque o capitalismo inventou maneiras infinitas de encarecer minha vida, de me fazer <em>querer</em> pagar por algo que poderia ter de graça, só porque alguém enfiou na minha cabeça (dica: publicidade) que preciso ter <em>aquilo, agora, daquele jeito!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Dinheiro só serve para comprar tempo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A única coisa que tem realmente valor, a única coisa que estamos sempre comprando, é tempo. Achamos que vale a pena pagar oitenta reais por um filme que vai passar mais tarde na TV aberta de graça porque queremos ver agora, porque não queremos esperar, porque não temos tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E só estamos dispostas a comprar tempo com dinheiro…. porque não temos tempo, mas temos dinheiro. E não temos tempo, somente dinheiro, porque escolhemos vender a maior parte do nosso tempo ao mercado de trabalho em troca de dinheiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O dinheiro, fundamentalmente, só serve para comprar tempo: mais tempo de vida, mais tempo de qualidade de vida, mais tempo com nossa família, mais tempo fazendo as coisas que queremos fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas mentiras são maiores que “tempo é dinheiro”. Porque o dinheiro perdido você pode até recuperar; o tempo perdido nunca mais volta. Porque o tempo é infinitamente mais precioso que o dinheiro. (Falar “tempo é dinheiro”, como se fossem equivalentes, é o mesmo contrassenso, digamos, que falar que “areia é diamante” ou que “bucho é picanha”.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, embora seja inevitável vendermos parte do nosso tempo por dinheiro, será sempre o pior negócio do mundo vendermos todo o nosso tempo, não importa por quanto dinheiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque, se não temos tempo, então, todo o dinheiro do mundo não serve pra nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os bilionários do submarino, quando perceberam que tinham um minuto de vida, eram as pessoas mais pobres do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O que é uma escolha</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga me respondeu, indignada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Você não entende, Alex! Eu escolhi sim pagar um plano de saúde particular mas é só porque o SUS está um caos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas escolher pagar um plano de saúde particular porque &#8220;o SUS está um caos&#8221; é a definição de escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No nosso mundo imperfeito, não existe escolha entre opções perfeitas. Nem faria sentido, aliás. Em toda e qualquer escolha, em maior ou menor grau, existem prós e contras em todas as opções e escolhemos uma por considerar as outras piores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não estou afirmando que o SUS é “bom” ou que “funciona como deveria” e nem que é “ruim” ou que “não funciona como deveria”. Essa é uma opinião subjetiva que depende dos critérios e expectativas e experiências de vida de cada pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou afirmando que escolher um plano de saúde pago por considerar que &#8220;o SUS está um caos&#8221; não faz dessa escolha menos uma escolha. Considerar que &#8220;o SUS está um caos&#8221; é somente a razão dessa escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, muitas pessoas que usam o SUS não escolheram usar o SUS: elas usam o SUS porque, de fato, concretamente, não têm dinheiro mesmo para pagar saúde particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para comprovar que as pessoas que escolheram pagar plano de saúde particular fizeram, de fato, de verdade, uma escolha… basta compará-las com as pessoas para quem essa escolha nunca esteve aberta. (Esse foi o tema principal da Prisão Classe: no Brasil, as duas principais classes sociais são as pessoas-que-têm-escolhas e as pessoas-que-não-têm.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não estou criticando as pessoas que escolheram ter carro, contratar plano de saúde, ou comprar livros, ou estudar em escola particular. Estou somente dizendo que essas escolhas são escolhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, se eu escolher encarecer minha vida, não faz sentido então reclamar que &#8220;a vida&#8221; está cara: é a minha vida que está cara, por causa das escolhas caras que eu fiz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas tudo que foi escolhido também pode ser desescolhido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se não, nem valia a pena escrever esse livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O texto é para quem está lendo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Viajei o Brasil inteiro fazendo encontros “As Prisões” e muitas das ideias que vocês estão lendo aqui foram primeiro articuladas e desenvolvidas em diálogo com as participantes. Muitas vezes, quando eu apontava que nossa vida era cara porque fazíamos escolhas caras, era bem comum algumas pessoas se sentirem incomodadas, até desrespeitadas, e ficarem reativas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E o moço da favela, hein? Hein? E o moço da favela ouvindo isso? Você diria isso para um moço da favela? Será que ele não iria se sentir desrespeitado? Você não pensa na situação dos mais pobres?? Hein? Hein?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E minha resposta era sempre mais ou menos a seguinte:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas eu não estou falando com o “moço da favela”: estou falando com você, que pagou caro para vir a esse evento (ou, no caso, ler esse livro!). Tudo que eu escrevo, tudo que eu estou falando, é pra você. Pra enfiar o dedo na <em>sua</em> ferida, pra <em>te</em> fazer colocar a mão na <em>sua</em> consciência, pra <em>te</em> fazer refletir sobre a <em>sua</em> vida e as <em>suas</em> escolhas. Quando o tal moço da favela vier me procurar, desrespeitado e emputecido, pode deixar que eu me resolvo com ele. A pergunta mais importante é: o que foi que eu disse que <em>te</em> deixou tão incomodado e tão ansioso que, ao invés de olhar para sua própria vida e para suas próprias escolhas, você achou necessário buscar refúgio nas críticas hipotéticas que poderia fazer um moço da favela hipotético?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, até completava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Quando cutuco as certezas das pessoas bem-nascidas e bem-alimentadas, as outras pessoas, as que não tiveram tanta sorte, não se sentem incomodadas. Pelo contrário, até se divertem. Elas sabem que o cutucão não é com elas, é com você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O privilégio de ter escolhas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um país injusto e desigual. Então, quando falamos em escolhas, não podemos nunca esquecer do seguinte: talvez a grande divisão da nossa sociedade seja entre as pessoas que têm todas as escolhas e as pessoas que têm escolhas bastante limitadas. &#8220;Meritocracia&#8221; e &#8220;liberdade de escolha&#8221; são dois dos grandes mitos que nossa direita gosta de propagar para justificar e proteger seus privilégios. Para as pessoas privilegiadas, ignorando sempre que nem todas as pessoas tiveram as mesmas possibilidades de escolha que elas, é muito fácil e muito tentador apontar para as pessoas oprimidas e exploradas&#8230; e afirmar que elas são oprimidas e exploradas porque escolheram ser assim! Porque não trabalharam duro!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, esse aqui é um texto escrito por uma pessoa privilegiada, que teve todas as escolhas e possibilidades, para outras pessoas privilegiadas que também tiveram todas as escolhas e possibilidades. Mas, enquanto estamos aqui falando entre nós dentro de nossa bolha de privilégio, é importante não esquecer que estamos cercados de pessoas que não tiveram as mesmas vantagens que nós. Mais importante, não tiveram e não têm as mesmas escolhas. Se existe alguma luta política digna desse nome, é para que todas as pessoas tenham as mesmas possibilidades de escolha, ou seja, de liberdade, de potência, de autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas temas são mais desenvolvidos na Prisão Classe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Aviso prévio sobre valores e moedas</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os textos das <a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Prisões</a> estão sendo escritos e reescritos há mais de vinte anos. No começo da Prisão Dinheiro, publicada originalmente em 2003 e hoje incorporada à Prisão Trabalho, eu abria as minhas contas pessoais. Por exemplo, na época em que um salário mínimo era R$240, minhas despesas fixas mensais eram de mil, ou seja, quatro salários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas entendo que, para leitoras jovens de hoje, e quem sabe do futuro, essa data, às vezes até antes de seu nascimento, pode estar em um passado longínquo e, portanto, esse valor não comunica nada. Corrigindo para valores de hoje, segundo o IGP-M, por exemplo, mil reais em 2003 equivalem mais ou menos a R$4.200 em 2023. Se formos pelo salário mínimo, quatro salários mínimos hoje somam R$5.280. Esses valores, entretanto, que hoje significam algo, em breve também já não vão significar mais nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não são só os valores que vão mudando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A minha vida mudou: entre 2003 e 2023, eu morei de aluguel, em república de estudantes no exterior, de favor em casa de amiga, em imóvel próprio, em imóvel alugado e pago por minha esposa, em imóvel do sogro. (Dá pra ver a história dos meus privilégios nessa breve lista, desde morar no exterior até herdar imóvel, desde ter uma esposa que ganha mais que eu até morar num imóvel da família dela, etc.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo também mudou: tanto na versão original, quanto nas diversas reescrituras posteriores, uma das minhas principais formas de economizar era não ter celular. Depois, abri uma exceção e comprei um burrofone, capaz apenas de fazer ligações telefônicas e mandar SMS. Em 2018, meu pai faleceu e comecei a usar o smartphone dele para testar. Quando pifou, considerei ficar sem, mas dois serviços bancários fundamentais pra mim simplesmente não têm como ser usados somente pela internet, então, em pleno 2023, comprei o meu primeiro smartphone, que ainda estou pagando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, minha vida só terá acontecido nessa época, que só vai ficar mais longe, nunca mais perto. Tentarei contar a história, localizada no tempo e no espaço, mas com o mínimo de valores monetários que ficariam rapidamente irrelevantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Minha vida, possível</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na virada de 2001 para 2002, fechei minha empresa, fui dar aulas em cursinhos de inglês e precisei diminuir radicalmente meus gastos. Cortei tudo, quase tudo, e conseguir reduzir minhas despesas mensais mínimas a um valor que parecia inacreditável a todas as pessoas do meu velho mundo. Elas me interpelavam:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas, Alex, vale a pena viver assim? Viver não é apenas sobreviver. E os prazeres da vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sexo é de graça. Passear em um parque, nadar no oceano (ou na represa), ver o pôr do sol no Arpoador (ou no mirante da sua cidade), tudo de graça. Livros podem ser lidos na biblioteca mais próxima ou baixados pirata pela internet – filmes e música, idem. Exercícios dá pra fazer em casa, na praia, no parque, na praça. Saúde, o Estado fornece de graça, inclusive meus remédios de pressão e diabetes. Arte, sempre tem peça, show, exposições gratuitas. Até mesmo a internet é fundamentalmente gratuita, pois qualquer café, shopping, quiosque oferece wi-fi – durante muitos anos, eu me recusava a ter em casa, para evitar distrações, e só usava assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, sem ser excessivamente explorador, daria até para comer todas as refeições na casa das pessoas amigas. <a href="https://amzn.to/3rLOHSQ">Henry Miller</a>, em sua fase mais pobre de autor marginal, fazia uma escala de almoço com dezenas de pessoas conhecidas. Com um mínimo de quinze, que nem é tanta gente assim, já dá pra marcar de aparecer na casa de cada uma em, digamos, terças-feiras alternadas e, assim, manter o papo sempre em dia e não explorar demais nenhuma única pessoa. Em troca, Henry se comportava como o artista marginal divertido e interessante que esperavam que fosse. Devia ser um excelente negócio para todas as pessoas envolvidas: eu com certeza alimentaria <a href="https://amzn.to/3rLOHSQ">Henry Miller</a> duas vezes por mês só para ouvir as novidades da sua vida de sua própria boca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não estou dizendo que essa vida é desejável ou detestável, bonita ou feia, digna ou indigna, nenhum adjetivo positivo ou negativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou dizendo que é <em>possível</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, quebrado em 2003, foi uma grande tranquilidade saber que me sustentava com mil reais – incluindo aí meu aluguel de R$600.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, se eu vivia e me mantinha com mil reais, sem me faltar nada de necessário, isso quer dizer que viveria muito bem (luxuosamente até) com dois mil reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na prática, esse foi o número que usei. Considerava que minha despesa mensal era de dois mil reais e meu objetivo financeiro era nunca gastar mais que isso por mês.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo bem sincero, me sentia até rico. Afinal, era o dobro dos meus gastos fixos. Mil reais de lambuja. Dava pra comprar uma geladeira novinha, o imprevisto dos imprevistos, e ainda ficar dentro do orçamento. Dava pra comprar aquele livro que não resisti. Dava pra pegar um táxi no dia em que estivesse carregando peso ou chovendo. Em suma, dava pra ser flexível na frugalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que sobrava, eu economizava.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Como sanitizei as minhas finanças</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre escuto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ai, Alex, você não acha que isso que você fez foi <em>meio</em> radical?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E sempre respondo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Claro que não. Acho que foi <em>totalmente</em> radical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que passei por catástrofes financeiras (e não foi só uma), as dicas abaixo me ajudaram a criar uma nova cultura de consumo, menos imediatista e mais ponderada. São dicas de guerra. Radicais mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, por não ser mais necessário, já não aplico a maioria delas. Mas continuam na minha caixinha de ferramentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale a pena sempre repetir: eu não estou dizendo o que você, ou ninguém, deve fazer, até porque não te conheço. As dicas abaixo são o que eu de fato fiz em uma época bem específica da minha vida. Você, hoje, lendo isso, faz o que você quiser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">1. — Cortei tudo o que podia ser cortado</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo mesmo. Terapia, aula de dança, e todos os serviços de assinatura, desde conteúdo impresso a TV a cabo ou streaming. Depois, a medida em que fui sentindo mais falta de uma ou de outra coisa, reativei alguns. Ou seja, joguei o ônus do trabalho em refazer o serviço, não em cancelar. Na despesa e não na economia. Muitos dos meus antigos gastos fixos não tinham nada de fixos: eram puro hábito, não fizeram a menor falta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao cancelar tudo, as prioridades ficam mais claras. Uma pessoa pode perceber que, sem a leseira do streaming, se sente mais livre e mais bem-disposta. Outra, que não consegue dormir sem ouvir o David Attenborough descrevendo a vida das formigas do Himalaia. Não existe resposta certa. Cada pessoa sabe de si. Ao cancelar tudo, descobrimos quais são as coisas que realmente fazem falta e quais só estavam ocupando espaço e gerando despesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa medida também inclui fazer algumas mudanças que a maioria das pessoas nem sabe que é possível. Por exemplo, toda pessoa brasileira tem direito a uma conta bancária a custo zero, chamada “serviços essenciais.” É só pedir ao seu banco. Se resistirem, reclame no Banco Central. Mas é importante ter cuidado: para esse tipo de conta, os bancos em geral cobram muito mais caro por qualquer outro serviço, então verifiquem o pacote de preços. As operadoras de telefone e de internet também oferecem planos básicos populares, a custos reduzidíssimos, que elas matreiramente nem listam em seus sites, mas que são obrigadas pelo governo a oferecer e que não podem negar. Informe-se e exija.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">2. — Deixei os cartões em casa</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Parei de andar com cartão de crédito. Levava o dobro de dinheiro vivo que precisaria em um dia comum e, antigamente, um cheque em branco dobradinho no fundo da carteira. Hoje, basta achar um caixa automático e tirar dinheiro com o polegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fazendo minhas compras em dinheiro, eu via as notas fisicamente sumindo. Sua perda era algo real, concreto, visível, táctil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, compras com cheques, cartões, pix são virtuais, abstratas, traiçoeiras. Os gastos se acumulam discretamente, sem percebermos. (É por isso que os shopping centers não têm janelas: para não vermos o tempo se escoando lá fora.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, um cheque voltou e liguei pro meu gerente de banco, indignado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− É impossível, tenho limite de dez mil no cheque especial!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dez mil reais me parecia um valor altíssimo, impossível de ser alcançado. Mas tinha sido alcançado. O bom de bater no chão é que a gente acorda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos tempos, com a ubiqüidade do smartphone e do pix, ficou cada vez mais difícil andar “sem cartão”. Entretanto, não deixa de ser importante para percebermos um fato importante: tanta gente trabalhou tão duro para esse tipo de comodidade ser tão ubíqua&#8230; justamente porque sabem que, assim, consumimos muito mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">3. — Nunca mais comprei nada por impulso</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eu experimentava a roupa, namorava o livro, visualizava o sofá na minha sala&#8230; e ia embora. Saía correndo da loja e não olhava pra trás. Antes mesmo de chegar em casa, eu já tinha esquecido quase todos aqueles irresistíveis objetos de desejo. De longe, me pareciam tão inúteis, tão desnecessários. Me lembro de pensar com alívio: &#8220;ainda bem que não comprei aquela porcaria!&#8221; Alguns, entretanto, continuavam na minha cabeça. Nesses casos, valia a pena o trabalho de voltar até a loja e comprar. E, se não valer, é porque não valia o custo de comprar. O ônus da ação era do ato de gastar. Uma dica adicional é se apagar de qualquer aplicativo que percebemos que favorece compras de impulso. No meu caso, por exemplo, foram os aplicativos da Amazon e do iFood.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">4. — Criei uma medida de conversão</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O real é muito abstrato, uma convenção que, no fundo, como todas moedas, não significa nada — ainda mais se você faz a maioria das suas compras virtualmente, com cartão ou pix. Boas medidas de conversão precisam ser concretas: ou uma hora de trabalho, ou alguma coisa que se compre com frequência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2002, o cursinho de inglês me pagava sete reais pela hora de aula. Para mim, nada poderia ser mais concreto, mais real, mais vivido do que aqueles sessenta minutos ensinando o <em>present perfect</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, quando eu via a belíssima nova edição de <em>Moby Dick</em>, da Cosac Naify, por cem reais, ficava cheio de tesão pra comprar, mas pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Será que essa edição é realmente tão incrível assim que vale mesmo a pena trabalhar por quinze horas pra comprar um livro cujo texto eu posso ler de graça na internet, ou pegar na biblioteca ou emprestar de algumas das minhas trocentas pessoas amigas que devem ter?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, eu conseguia desmascarar os luxos e os supérfluos (que adoram se disfarçar de &#8220;necessidades urgentes&#8221;) e, assim, colocava as minhas verdadeiras prioridades em perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra boa medida de conversão é algo que se precise comprar sempre e que seja essencial para a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na época, minha principal fonte de proteínas era filezinho de peito de frango congelado. Por coincidência, bons tempos aqueles, o quilo custava os mesmos sete reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− O que vale mais a pena: a nova edição de Moby Dick ou quinze quilos de filezinho de peito? Por quanto tempo eu posso ficar comendo esses quinze quilos de frango sem me preocupar mais com comida? Afinal, eu vou ler mesmo esse livro? Se eu comprar quinze quilos de frango, eu vou comer tudo com certeza. Afinal, o que é mais importante? Quais são as minhas prioridades?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas amigas achavam bizarro eu converter o preço de tudo para quilos de frango (&#8220;sério, não vou dar dez quilos de filezinho de peito pra ver essa banda tocar, não!&#8221;) mas o que importa é ser uma medida de conversão que faça sentido, que torne os gastos mais reais, mais concretos, mais mensuráveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">5. — Anotei todos os gastos em uma planilha</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Saber o que estamos fazendo é sempre bom. Para mim, foi importante descobrir exatamente por quais orifícios eu estava sangrando dinheiro. Por exemplo, minhas diversas paradas para lanches, sucos, cafés, etc, custavam mais do que as minhas refeições propriamente ditas. Além disso, muitas vezes eu tinha vergonha (logo eu, a pessoa mais sem-vergonha do mundo) de gastar só para não ter que anotar depois e, assim, articular e imortalizar aquela pequena falta de controle. No mínimo, fazia com que eu pensasse mais sobre o que estava comprando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas é importante não exagerar a importância desse passo. Saber o que estamos fazendo, por si só, não resolve nada. É como fazer exame de sangue todo ano, ver minha taxa de glicose subindo, e continuar comendo doce. É como aquele cara que estava estacionando e pediu ao outro, &#8220;avisa a hora que bater&#8221;, e daqui a pouco vem o estrondo da porrada e o grito lá detrás: &#8220;quatro e quinze!&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F49efd5dc-dda0-44f6-9f6b-943cae4239a1_2048x844.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho uma amiga que anotava fastidiosamente todas as porcarias inúteis que comprava mas era incapaz de parar de comprá-las. Quando conversávamos sobre isso, ela ainda tinha a cara-de-pau de puxar seu caderninho e mostrar:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas como pode, Alex? Olha: eu anotei <em>tudo</em>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caderno, naturalmente, era um <em>moleskine</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">6. — Passei a viver a vida à vista</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Só usava dinheiro vivo ou, no máximo, cartão de débito. Cortei meus cartões de crédito. Joguei fora os talões de cheque. Desabilitei o cheque especial da conta bancária. Nunca fiz crediário ou financiamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cheque especial, além de ter juros altíssimos, é psicologicamente traiçoeiro. Se tenho um limite de mil reais e <em>já</em> estou em quinhentos negativos, é difícil não pensar que <em>ainda</em> tenho mais quinhentos pra gastar. Naturalmente, <em>sei</em> que é o contrário, mas e daí? Assim como as tarefas tendem a se alongar até preencher todo o tempo disponível, as dívidas também tendem a aumentar até preencher todo o limite de crédito. Pagar minha dívida do cheque especial tornou-se a minha prioridade de vida. E, assim que cheguei ao zero, pedi para o meu gerente de banco cancelar meu cheque especial. Hoje, na minha conta, zero é zero. Abaixo disso não desce.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma amiga uma vez me perguntou, em tom de medo</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas, Alex, cancelar o cheque especial? E&#8230; e se eu tiver uma emergência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, − respondi, − se você tiver uma emergência, um dos piores modos de resolvê-la é se endividando. Você pode usar suas economias, apelar para a família ou pessoas amigas, vender alguma coisa, pegar mais um frila, ser criativa, pedir esmola em uma esquina movimentada com um cachorro fofo aos seus pés, literalmente qualquer coisa. No fim da lista, endividar-se no cheque especial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Continuei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Digamos que você tinha um limite de mil reais no cheque especial, cancelou o maldito e agora tem uma emergência? O que fazer? Eu diria então que o seu banco certamente lhe emprestaria no mínimo esses mil reais, talvez mais, a juros menores. A vantagem é que agora o processo é ativo e não automático (você tem que efetivamente correr atrás do empréstimo) e você não vai ter aquela falsa impressão (que o cheque especial sempre passa) que esse dinheiro é &#8220;seu&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E concluí:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Porém, se você me diz que todo mês tem uma emergência que te faz pegar dinheiro emprestado (e o cheque especial obviamente é esse estado permanente de emergência), eu diria que você está em seríssimos lençóis e precisa mudar radicalmente seu estilo de vida. Pra ontem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antigamente, na idade da pedra hiper-inflacionada, os cheques eram imprescindíveis. (Em 1993, logo antes do Plano Real, eu sozinho gastava um talão a cada duas semanas.) Fiquei no SPC por cinco anos, mesmo depois de completamente sanitizar minhas finanças, por causa de um cheque pré-datado de míseros cinquenta reais que minha ex-mulher passou e cujo credor eu nunca mais consegui encontrar. Hoje, perderam totalmente sua função. Deve ter leitor desse livro que nunca nem viu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crediários e compras parceladas são duas coisas que nunca, nunca, nunca se deve fazer. Recentemente, voltei a parcelar no cartão de crédito somente as minhas duas compras mais vultuosas e mais regulares: computador e óculos. Mas, via de regra, se não tenho dinheiro pra comprar à vista, então é porque não posso comprar. Crediários e compras parceladas são jeitos traiçoeiros de me convencer que de fato posso pagar (e mais caro, ainda por cima) por coisas que de fato não posso pagar. Se quero comprar e não tenho dinheiro, faço um bom e velho &#8220;crediário prévio&#8221;, ou seja, todo mês economizo um pouquinho e, quando juntei o suficiente, compro à vista e peço um desconto. (A geladeira que precisei comprar de improviso esse mês teve desconto de 12% à vista.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, se não consigo economizar pra comprar aquela TV tela plana que tanto desejo porque sempre acabo usando o dinheiro para pagar a conta de luz que está pra vencer, então, sinto muito, é porque realmente <em>não posso</em> comprar uma TV tela plana, nem se fosse parcelado. Aliás, se tivesse comprado parcelado, estaria hoje ainda mais no vermelho do que antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">7. — Percebi que viver no vermelho não era sustentável</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem deve dois mil no cheque especial, é insano gastar até mesmo cinco reais tomando um cafezinho na esquina. Quem deve dois mil no cheque especial <em>não tem</em> cinco reais para o cafezinho. Para todos os fins práticos, eu estaria me endividando, a juros escorchantes de 12% ao mês, pra tomar um café.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E comecei a me perguntar: vale mesmo a pena me endividar pra tomar um café? Pra almoçar? Pra ir ao cinema?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto existiu minha dívida no cheque especial, eu, realmente, de fato, pra todos os fins e efeitos, não tinha dinheiro pra nada. Como não podia deixar de sobreviver, eu era até obrigado a me endividar um pouco mais pra pagar as contas básicas. Mas só. Todo o resto foi cortado sumariamente. Para quem está pagando os juros escorchantes do cheque especial é loucura gastar dinheiro em qualquer outra coisa que não seja pagar a maldita dívida.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="444" height="553" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capitalismo-vendedores-will-work-for-food-prisao-classe-trabalho.jpg?resize=444%2C553&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12795"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">8. — Percebi que nem toda dívida precisava ser paga</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se uma amiga me emprestou mil reais durante o maior aperto da minha vida, fugindo de um furacão e sem acesso à minha conta bancária (valeu, Renata!), pagá-la de volta é uma questão de honra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se devo mil reais pro banco, bem, posso estar certo que ele não está perdendo o sono por isso. Aliás, ele não tem sono. Ele não é uma pessoa. Ele não se ofende, não se magoa, não fica decepcionado comigo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Poxa, não acredito que o Alex me deu o calote nessa dívida, não esperava isso dele, ele sempre foi tão bom correntista&#8230; chuif&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada que eu possa fazer contra um banco será tão anti-ético quanto, hmm, basicamente tudo que ele faz comigo diariamente só por ter feito a bobagem de abrir uma conta-corrente lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?, já se perguntou São Brecht.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas dívidas podem ser perdoadas em troca de parte do valor total à vista. Algumas dívidas (aquelas que não estão crescendo a 12% ao mês) podem simplesmente ser esquecidas e o pior que acontecerá é me colocarem no SPC.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alias, já me colocaram no SPC. Fiquei lá por cinco anos. Minha vida mudou em rigorosamente nada. Acendi a luz, escancarei a porta do armário e&#8230; o bicho-papão na verdade era só um ursinho de pelúcia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema é que nossa cultura capitalista trata a dívida como se fosse uma questão moral: “Temos que pagar nossas dívidas porque sim, porque somos pessoas honestas, porque é isso que se faz!” Mas todo o sistema financeiro se baseia justamente no fato de que não precisamos pagar nossas dívidas, que algumas dívidas simplesmente não serão pagas e que é esse risco inerente ao empréstimo que justifica a excrescência imoral que são os juros. Então, pelo contrário, não só as dívidas não precisam ser pagas como, se todos os devedores pagassem todas as suas dívidas no prazo, o sistema financeiro internacional quebraria no mesmo dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro <em><a href="https://amzn.to/474ffyD">Dívida: Os primeiros 5.000 anos</a></em>, do antropólogo norte-americano David Graeber, começa com a seguinte história: em um coquetel, conversando com a advogada de uma fundação que ele faz questão de enfatizar que era uma pessoa de esquerda, ativista internacional, militante antiglobalização, etc, Graeber comenta sobre sua campanha para impedir que o FMI imponha austeridade aos países do terceiro mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitas culturas, diz ele, inclusive na hebraica citada na Bíblia, havia leis que obrigavam o perdão periódico — de sete em sete anos, etc — de todas as dívidas, para garantir que nenhuma pessoa passasse toda sua vida endividada. (No Brasil, temos algo que segue o mesmo princípio, que é a proibição de qualquer pessoa ficar com o nome sujo nos serviços de proteção ao crédito por mais de cinco anos.) Ao ouvir isso, entretanto, a advogada-do-bem ficou horrorizada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas… mas… esses países de fato pegaram esse dinheiro emprestado! As dívidas precisam ser pagas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo na teoria econômica mais conservadora, porém, qualquer empréstimo traz em si um risco e, aliás, é a percepção desse risco que determina as taxas de juros. Apesar disso, essa ideia de que “as dívidas precisam ser pagas” é tão poderosa justamente porque não é uma afirmação econômica: é uma afirmação moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Graeber escreve todo o seu livro, um dos mais brilhantes que li nos últimos anos, justamente para contestar essa afirmação tão autoevidente e para demonstrar como o capitalismo, ao longo dos séculos, conseguiu transformar uma relação econômica em uma relação moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, enquanto escrevo isso, o terceiro Governo Lula está implementando o programa <a href="https://www.gov.br/fazenda/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/desenrola-brasil">Desenrola</a>, especificamente para des-endividar a população. Veremos como vai funcionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">9. — Parei de pagar por coisas que conseguia de graça</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns dos meus gastos mais aparentemente necessários eram, na verdade, coisas que eu poderia perfeitamente conseguir de graça. Sim, não seria tão fácil, rápido, cômodo (ou mesmo legal) quanto pagar por elas, mas era de graça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, se já tenho internet de graça no trabalho ou na universidade, será que realmente preciso pagar pra ter em casa também? Será que não dá pra chegar mais cedo ou sair mais tarde do trabalho/escola e fazer minhas coisas pessoais na internet de lá? Em minha época de trabalhar em empresa no Brasil (era uma empresa de internet!) ou de estudar nos Estados Unidos, eu fiquei sem internet em casa. Quando voltei para o Brasil, continuei sem internet em casa: usava a internet de cafés, casas de suco, shopping center, da casa de pessoas amigas. Até a orla de Copacabana tinha wi-fi gratuito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é realmente necessário pagar por academias de ginástica. Dá pra conseguir o mesmo efeito correndo, pedalando, fazendo exercícios no parque ou na orla, ou até mesmo em casa. Com um pequeno investimento inicial (muitas vezes pelo mesmo preço de uma ou duas mensalidades da velha academia), compra-se pesos, barras e aparelhos que permitem fazer em casa quase tudo o que se fazia na academia. Vários sites na internet ensinam como fazer essa transição. Além disso, várias pequenas mudanças no dia-a-dia têm um efeito cumulativo enorme. Não pegar mais elevador. Usar a escada pra tudo. Fazer a pé tudo o que pode ser feito a pé. (Eu caminhava uma hora por dia até a minha universidade. Conheço uma amiga que caminha duas. É um momento excelente pra estar sozinho consigo mesmo, meditar, relaxar, economizar.) Talvez não seja tão prático ou tão cômodo quanto a academia. Talvez exija mais disciplina e autocontrole. Mas é de graça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, parei de pagar por conteúdo que está disponível de graça na internet. Apoio a pirataria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você conseguir ler os meus livros sem pagar, leia. Se gostar, passe adiante. Se mudar a sua vida, visite meu site e <a href="https://alexcastro.com.br/mecenato">faça uma doação</a>. Eu vivo disso e agradeço. Para um escritor, ser lido é mais importante que ser vendido. Quem é muito lido, será muito vendido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma coisa é doar para artistas independentes que divulgam seu trabalho gratuitamente na rede. (Eu sou um deles: sobrevivo das doações que fazem os meus mecenas. Para doar, visite <a href="https://alexcastro.com.br/mecenato">minha página de mecenato</a>.) Uma coisa é doar para grupos sem fins lucrativos que produzem e mantém sites e softwares abertos que uso e que melhoram minha vida. (Faço questão de doar para o <a href="https://www.libreoffice.org/donate/">LibreOffice</a>, o genérico do Microsoft Office, para a <a href="https://www.wikipedia.org/">Wikipedia</a> e para o software de som e vídeo <a href="https://www.videolan.org/vlc/index.html">VLC</a>.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, quando um grande conglomerado de mídia escolhe disponibilizar seu conteúdo de graça pela internet, eu parto do princípio que foi uma decisão empresarial muito bem pensada e muito bem embasada, que tem como fim último trazer mais lucros aos sócios e acionistas. Na prática, não estão oferecendo nada de graça: se não estamos pagando é porque o cliente não somos nós. O cliente são os anunciantes. Nós somos o produto sendo vendido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">10. — Parei de gastar tanto dinheiro comendo e bebendo na rua</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sentar com pessoas queridas em uma mesa de bar não precisa custar quase nada: já passei longas e prazerosas noites só fumando, ou tomando uma ou duas águas, e deixando menos de dez reais na mesa. Bastava já sair jantado de casa. Para ficar o dia na universidade norte-americana, levava uma marmita com um tupperware de comida, frutas, iogurte; na brasileira, já cheguei muitas vezes um pouquinho mais cedo ou saí um pouco mais tarde para filar almoço ou janta quase de graça no bandejão. Hoje, sempre tenho um saquinho de nozes sortidas na bolsa — muitas vezes, ele me salva de comer porcarias engorduradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando passei a anotar todos os meus gastos, percebi que almoçar em restaurantes vagabundos tinha um custo desproporcional em relação à qualidade. Pelo custo de três refeições completamente banais, eu poderia ir a um dos melhores restaurantes da cidade e ter uma refeição sublime, memorável, que custaria o triplo mas seria vinte vezes melhor. Hoje, um almoço de trinta reais é um almoço que eu faria igual ou melhor em casa, por um terço do preço. Não vale a pena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">11. — Parei de comprar tanto livro</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como a maioria das pessoas meio intelectuais meio de esquerda do eixo Morumbi-Leblon, eu também adorava passar na Travessa da Vila mais próxima e gastar centenas de reais em lançamentos — todos com belíssimo projeto gráfico! Então, expunha orgulhosamente meus troféus na estante ou na mesinha de centro&#8230; e, no máximo, lia um ou outro. Mas é obsceno abrir mão de um dinheiro que faria falta em troca de livros que provavelmente não iria ler.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Passei então a comprar um livro de cada vez. E só se ele for passar na frente de todos os outros da minha lista. Só se for pra ser lido agora, assim que sair da livraria, hoje mesmo. Se é pra comprar a linda, divina, chiquerrérrima nova edição de <em>Moby Dick</em> da Cosac Naify por cem reais só para colocá-la na minha pilha de leituras futuras, entre <em>A Montanha Mágica</em> e <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, é melhor simplesmente colocar uma nota de cinquenta em cada um desses dois livros. Pelo menos, o dinheiro fica ali, líquido e disponível; pode ser usado como marcador de página; e, se e quando eu finalmente tiver aquela vontade súbita de ler agora, sempre posso pegar as duas notas e correr até a livraria mais próxima. Não faz sentido comprar hoje um livro que vou acabar lendo apenas daqui a dois anos. Melhor guardar o dinheiro e comprar o livro daqui a dois anos, no dia em que for lê-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, existem diversas bibliotecas públicas e universitárias na minha cidade, muitas das quais deixam até retirar livros. Dando alguns exemplos só do Rio de Janeiro: tanto o <a href="https://www.realgabinete.com.br/">Real Gabinete Português de Leitura</a>, no centro (a biblioteca mais linda do mundo) quanto o <a href="https://riodejaneiro.cervantes.es/br/biblioteca_espanhol/biblioteca_espanhol.htm">Instituto Cervantes</a>, em Botafogo, permitem o empréstimo de livros mediante uma baratíssima taxa anual; <a href="https://www.dbd.puc-rio.br/sitenovo/bibliotecas-puc.html">a biblioteca da PUC-RJ</a> idem, mas só para ex-alunas. Nenhum investimento se paga tão rápido quanto essas matrículas. Certamente devem haver bibliotecas assim na sua cidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, tenho pessoas amigas cujas estantes são verdadeira retrospectiva das listas dos mais vendidos dos últimos vinte anos: <em>1968 A Elite da Tropa que Não Acabou Marley, Olga e Eu na Estação Carandiru do Nome da Vinci do Mundo das Comédias da Vida Privada de Sofia da Arte da Felicidade do Queijo do Pai Rico</em>, etc etc. Então, nunca mais comprei esse tipo de livro. Não porque sou um intelectual esnobe que estava lendo a edição da Cosac Naify de <em>Moby Dick</em> — que, aliás, a editora faliu e nunca comprei. Mas porque não faz sentido comprar livros que metade das pessoas que conheço tem. Eu pego emprestado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que estou na livraria, com o livro na mão, na ânsia de comprar, eu me pergunto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Vou mesmo começar a ler esse livro hoje? Se não hoje, vou ler esse livro alguma vez na vida? Vale a pena gastar sessenta reais em um livro que provavelmente não vou ler? Alguma pessoa que conheço tem esse livro pra me emprestar? Vou ter onde guardar tanto livro? Vou ter dinheiro para pagar a mudança de tantos livros? Vale a pena?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acabo só efetivamente comprando os livros que pretendo usar para o trabalho. Que vou sublinhar, rabiscar. Senão, pego emprestado na biblioteca ou de um amigo, baixo uma cópia pirata, ou mesmo, se for curto, leio inteiro na própria livraria. Essa, aliás, é a principal função social da megalivraria de shopping, praticamente um programa de distribuição de renda: eu jamais seria capaz de sentar em uma livraria independente e ler um livro de cabo a rabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, tenho uma estante só para &#8220;livros que estão de saída&#8221;: aqueles que eu não quero mais e vou vender pro sebo na próxima oportunidade. Nos últimos dez anos, saíram muito mais livros do que entraram na minha casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas pessoas usam seus livros como caçadores usavam cabeças de animais:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Olha o antílope que eu cacei! Olha o <em>Quarup</em> que eu li!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho outra política: se já li o livro e não vou ler de novo, passo adiante. Vendo para um sebo. Doo para uma biblioteca. Repasso a um amigo. Qualquer coisa é melhor do que deixá-lo ocioso entre os meus troféus. Não tem sentido entupir minha casa com livros que não vou mais vai ler.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, mesmo depois de doar ou vender quase 90% dos meus livros, ainda assim vivo em uma casa cheia de livros. E, de vez em quando, alguém entra e diz, espantado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Puxa, você leu tudo isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não. Os que eu li já foram embora. Esses são os que eu não li ainda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">12. — Parei de ter celular</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa subseção fica aqui como um artefato arqueológico, para lembrar aos mais jovens que já houve época onde era possível decidir não ter celular.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Resisti bravamente ao meu primeiro celular. Só cedi, em 1998, quando fui contratado de assistente particular de um executivo norte-americano montando uma <em>start-up</em> de internet no Rio de Janeiro. Parte integrante do trabalho era estar sempre disponível para ele. Quando fui morar nos Estados Unidos, passei o primeiro ano sem celular. Na São Francisco de 2005, eu estava começando a sair com uma pessoa e ela simplesmente não acreditou em mim: &#8220;Pode me dar o número, vai. Juro que não sou grudenta. Não vou ligar todo dia!&#8221;<em> </em>Celular já era tão ubíquo que ela sinceramente achava mais provável eu estar lhe dando o cano do que ter escolhido não ter essa engenhoca. Minha rotina era simples: eu ou estava em casa, no meu fixo, ou estava em sala de aula, e não podia atender. Então, pra quê celular? No ano seguinte, já em Nova Orleans, acabei comprando um celular por outro motivo prático e bem específico: eu não tinha carro e, ainda mais logo depois do Furacão Katrina, era uma cidade com transporte público catastrófico, poucos táxis e quase nenhum orelhão. Sem um celular para chamar táxis, minha mobilidade ficava muito restrita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda assim, estava invicto de smartphones. Se alcoólatra não pode beber, muito menos carregar a garrafa no bolso. Se eu tivesse a internet comigo sempre, nunca mais olharia para cima. Me tornaria mais uma daquelas pessoas incapazes de qualquer interação humana que não seja mediada por um retângulo luminoso. Enfim, em um dia dos namorados particularmente feliz, em 2013, voltando de um passeio lindo com a pessoa que eu amava, esqueci o celular no táxi e, talvez influenciado pela alegria, decidi que pronto, não teria mais celular. Chega de andar com essa coleira no bolso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um amigo tentou me convencer que ele precisava sim, e muito de celular. Mas, conversando sobre sua rotina, apontei que ele passava quase todo o seu tempo ou no trabalho ou em casa (dois lugares onde havia telefone fixo), ou dirigindo entre esses dois pontos (e é proibido usar celular nessa situação). Nos fins de semana, ele passava 90% do tempo em casa, dormindo, vendo TV, fazendo churrasco, brincando com os filhos, transando com a esposa. Ou seja, ele precisava tanto de celular&#8230; exatamente <em>quando</em>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">As poucas horas em que ficava &#8220;descoberto&#8221; (como se não ter celular fosse um perigo de vida) justificavam mesmo não só o enorme custo financeiro de um celular, mas também, muito pior, o enorme custo psicológico de ter essa coleira sempre no bolso, sempre nos puxando, sempre nos chamando, sempre nos distraindo, sempre nos impedindo de estar plenamente no momento?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me disse outra amiga:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ai, Alex, você não entende! E se precisarem falar comigo numa emergência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondi:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Quantas vezes, de fato, de verdade, já te chamaram numa emergência? Você tem realmente tantas emergências assim na sua vida? Pense em quanto dinheiro você gastou em celulares desde que comprou o seu primeiro, quinze anos atrás. Some o custo do aparelho, da assinatura, das ligações adicionais, dos apps que comprou, das capinhas descoladas, etc. (Vai ser um número bem grande.) Agora, divida esse número pelo número de emergências nas quais você salvou a sua vida ou a vida de alguém por ter celular. No meu caso, não dá pra dividir cinquenta mil reais por zero. Já gastei cinquenta mil reais me preparando para estar preparado para essa pretensa emergência que nunca aconteceu. Desisti.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não estou criticando o celular. O celular é uma engenhosa invenção humana. Assim como a diálise. Mas eu também só filtraria meu sangue se fosse realmente necessário. Durante muito tempo, não foi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2018, morreu meu pai e acabei herdando o smartphone dele. Foi o meu primeiro. Usei quase nada, até que bateu a pandemia. Comecei a dar cursos online e organizar os grupos pelo Whatsapp. Pronto. Aí, infelizmente, virou ferramenta de trabalho. Hoje, infelizmente, duas ferramentas financeiras fundamentais para a minha vida só estão disponíveis para serem usadas pelo celular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aí, nesse momento, essa subseção perdeu a razão de ser. O que passou a ser verdade pra mim muito tarde já era verdade para muitas pessoas há muito tempo: subitamente, o capitalismo construiu nossas vidas em tamanha simbiose com essas geringonças que já não é possível viver sem elas. <em>Clang</em>, fez a armadilha, se fechando. A luta agora é para não deixar essa ferramenta nos dominar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">13. — Parei de ter carro</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, na universidade, uma colega me viu chegando de táxi e me chamou (brincando <em>ma non troppo</em>) de &#8220;riquinho&#8221;. Ela vivia com a mesma bolsa de estudos que eu, mas, como boa norte-americana, tinha carro. Sentamos para tomar um café e colocamos no papel os nossos custos com transporte: ela e seu carro, eu e meus táxis e carros alugados. Ao final de um ano, eu gastava 30% a menos que ela para fazer rigorosamente as mesmas coisas. Incluindo viagens de fim de semana para cidades próximas. Naturalmente, meus custos verdadeiros eram muito, muito menores, pois eu me deslocava preferencialmente de bonde ou a pé, e usava táxi somente em alguns poucos trajetos, na chuva, carregando peso, etc. (Em Nova Orleans, havia pouquíssimas linhas de ônibus e não me serviam de nada.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2023, um carro econômico, que custou R$50 mil e roda cerca de 1.200 quilômetros por mês, tem um custo médio mensal de R$1.500 − sem levar em conta seguro do carro, custo da documentação, taxa de juros de um financiamento e possíveis multas de trânsito. Em um ano, por baixo, são dezoito mil reais. (Existem vários <a href="https://classificados.folha.uol.com.br/veiculos/2013/09/1335217-gastos-com-carro-nos-3-primeiros-anos-de-uso-equivalem-ao-preco-de-outro-novo.shtml">links</a> e <a href="https://web.archive.org/web/20130705050654/https:/economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,brasileiro-gasta-por-ano-40-do-valor-do-carro-com-manutencao-e-despesas,145264,0.htm">estudos</a> sobre os <a href="https://web.archive.org/web/20140215020145/http:/economia.ig.com.br/financas/meubolso/2013-09-11/calculadora-do-carro-conheca-os-custos-invisiveis-de-manutencao-e-uso.html">custos ocultos</a> dos <a href="https://web.archive.org/web/20130726181631/http:/www.acidezmental.xpg.com.br/quanto_custa_ter_um_carro.html">automóveis</a> no Brasil. Os números pra 2023 <a href="https://www.zuldigital.com.br/blog/custos-manter-carro-2023/">eu tirei daqui</a>.) Eu, que durante muitos anos morei na Barra, Itanhangá ou Freguesia e trabalhei e estudei no centro do Rio, rodava só no trajeto casa-trabalho-escola cerca de 1.500km mensais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2012, na minha rua, em Copacabana, uma vaga de carro na garagem custava <a href="https://oglobo.globo.com/economia/imoveis/precos-chegam-10-do-valor-do-imovel-4686013">sessenta mil reais</a> – nem imagino quanto está custando em 2023. Os custos ocultos de ter um automóvel são numerosos: amortização, leasing, seguro, impostos, manutenção, consertos, gasolina, estacionamento, juros, multas. Pra não falar no custo mais importante: o <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Custo_de_oportunidade">custo de oportunidade</a> de tudo o que você poderia estar fazendo com dezoito mil reais por ano. Se você morar relativamente perto do trabalho e uma corrida de táxi nesse trajeto custar até R$37, você pode ir e voltar do trabalho de táxi todo dia por esses mesmos mil e quinhentos reais mensais. Sem ter precisado se descapitalizar previamente em cinquenta mil. Sem custos ocultos e imponderáveis, como estacionamento, roubo, batida e conserto. Sem nunca mais precisar procurar vaga ou fazer baliza. <em>(Aliás, se você mora somente a R$37 de táxi do seu trabalho, também poderia perfeitamente ir de ônibus ou a pé. Aliás, se mora mais longe, poderia vir morar mais perto — justamente para não precisar ter carro e poder ir a pé.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Alugar carros também é mais barato do que parece. Hoje, em Copacabana, usando agregadores de descontos como o <a href="https://www.rentcars.com/">rentcars.com</a>, alugo um automóvel por cem reais diários. Nos dias em que tenho compromissos em pontos extremos da cidade, ou em que terei que fazer compras ou transportar volumes, vale mais a pena alugar um carro do que pegar vários táxis. Ainda mais se for pra dividir o custo com minha companheira. Em fins de semana prolongados na serra ou na praia, sai muito mais barato irmos os dois de carro alugado do que de ônibus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, naturalmente, o mais barato mesmo é largar de mão o seu elitismo e utilizar o transporte público. Ando muito de ônibus no Rio e em São Paulo. Apesar do que dizem as pessoas que nunca andaram de ônibus, são cidades excepcionalmente bem servidas nesse quesito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, afinal, para que serve carro? Qual é a verdadeira função de um automóvel?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na primeira vez em que fiquei sem carro na idade adulta, eu não me senti preso, isolado, impedido de ir e vir. Nada disso. Pelo contrário, continuei livre e conectado e indo-e-vindo, só tendo um pouquinho mais de trabalho. Eu me senti <em>emasculado</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só fui perceber o quanto emasculado eu me sentia quando, nas primeiras vezes em que voltei a dirigir, senti meu corpo ser inundado por uma potência e uma hombridade como poucas vezes experimentara na vida. Minhas próprias sensações deixaram bem claro para mim qual era a função do automóvel na minha vida. Hoje, minha necessidade de ir-e-vir eu resolvo com ônibus ou com metrô. Minha hombridade e minha potência vão bem, obrigado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">14. — Vim morar mais perto</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Morar perto do trabalho é um dos principais e mais previsíveis indicadores de felicidade na vida de uma pessoa. Em minha encarnação empresarial, eu morava na Barra da Tijuca, trabalhava no centro do Rio e dirigia no mínimo 75km por dia. Assim que quebrei, vendi o carro e me mudei para o subúrbio de Jacarepaguá, no mesmo quarteirão do curso de inglês onde trabalhava. Depois, em Nova Orleans, morava a três quilômetros da universidade, uma caminhada tranquila de uma hora ida e volta todo dia. É uma questão de estilo de vida. Não quero perder minha vida no transporte. A vida é mais que isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma leitora reclamou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Alex, você fala como se fosse tudo muito fácil. No lugar onde eu moro, eu simplesmente não tenho como não ter carro!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas então a questão não é nem mais o carro: por que você escolheu morar em um lugar que lhe traz tantas despesas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, a gente toma decisões importantes com base num determinado contexto, e, então, o contexto muda, esquecemos de repensar as decisões. Uma amiga morava em um apartamento caro, muito maior do que precisava, que só alugou porque era do lado de um emprego estressante e muito bem pago. Um dia, o site que tinha sido seu hobby começou a lhe gerar uma renda tão boa que começou a pensar em largar o emprego, mas, disse ela, só ainda não fazia isso por medo de não conseguir pagar o aluguel. Ela demorou a entender porque eu estava gargalhando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Por que você está rindo, Alex? O aluguel aqui é super caro!</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Sim! Mas você só paga esse aluguel caro porque ele te permite ir a pé para o emprego que te estressa mas paga muito bem. O apartamento só existe por causa do emprego. Se você largar o emprego, pode também pode largar do apartamento e ir viver do seu site em qualquer lugar do Brasil, até em frente à praia em João Pessoa. Não largar o emprego por medo de não poder pagar o apartamento que só existe por causa do emprego é um contrassenso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De um modo bem concreto, se moro em um bairro barato e afastado onde pago um aluguel baixo (digamos, R$1500), mas que me força a ter um carro (que me custa R$1500 de manutenção mensal), eu estaria financeiramente na mesma se morasse em um bairro mais bem localizado, mais perto do meu trabalho, mais perto da vida cultural da cidade, onde o aluguel fosse o dobro mas não precisasse de automóvel. Aliás, provavelmente estaria melhor: sem perder tanto tempo no trânsito, menos estressado, mais perto das coisas importantes para mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se moro, digamos, na zona oeste de São Paulo e aceitaria um trabalho na zona norte, mesmo significando três horas por dia no trânsito, mas não aceitaria um emprego em Limeira, a 130km de distância, porque é longe demais, então claramente tenho um círculo imaginário dentro do qual é factível trabalhar. O problema é que o círculo da maioria das pessoas que conheço é inviavelmente grande. Para a pessoa que eu sou hoje, meu antigo trajeto casa-trabalho, entre a Barra e o centro, 75km e três horas diariamente, é tão inviável e intolerável quanto morar em Limeira e trabalhar em São Paulo. É uma questão de estabelecer prioridades: se gosto muito da minha casa e não abro mão dela, será que não vale a pena procurar outro trabalho mais próximo?; se gosto muito do meu trabalho e não abro mão dele, será que não vale a pena procurar outra casa mais próxima? (Naturalmente, quase nunca as questões são assim tão fáceis. Mas é importante pelo menos podermos articular essas questões e medir essas escolhas. Que são, repito, escolhas.)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://scienceblogs.com/cortex/2010/03/30/commuting/">Segundo um estudo do psicólogo holandês Ap Dijksterhuis</a>, ao optar por um trajeto casa-trabalho mais longo, as pessoas estariam cometendo um &#8220;erro de ponderação&#8221;, ou seja, uma escolha na qual não levariam em conta justamente as variáveis mais importantes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Suponha duas opções de moradia: um apartamento de três quartos localizado no centro da cidade, a dez minutos do trabalho, ou uma McMansão de cinco quartos no subúrbio, a 45 minutos. &#8230; A maior parte [das pessoas] escolherá a casa maior. Afinal de contas, um terceiro banheiro ou um quarto adicional são muito importantes para quando os avós vêm passar o Natal, e dirigir duas horas todo dia não é tão ruim assim. &#8230; [Q]uanto mais tempo as pessoas demorar para se decidir, mais importante parece aquele espaço adicional. Vão imaginar todo tipo de hipótese (uma grande festa, jantar de ação de graças, mais um filho) na qual aquela mansão no subúrbio seria uma necessidade absoluta. Enquanto isso, a ansiedade no trânsito parecerá mais e mais insignificante, ao menos quando comparada aos benefícios de mais um banheiro. Mas&#8230; o banheiro extra é um adicional completamente supérfluo durante pelo menos 362 ou 363 dias por ano, ao passo que um longo percurso rapidamente se torna um fardo diário.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se escolhi morar longe do trabalho por causa de um lindo jardim ou de espaçoso quarto de hóspedes, mas todo dia passo duas horas a mais no trânsito, será que vale mesmo a pena? Duas horas <em>a mais</em> no trânsito todo dia… por um quintal que uso quando? Um quarto de hóspedes útil quantas vezes por ano? Vale mais a pena morar num apartamento menor perto do trabalho. E, quando der vontade de curtir um jardim, vou ao Jardim Botânico; quando minha mãe visitar, lhe coloco em um excelente hotel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, a pandemia de 2020 nos ensinou que muitas das atividades que precisávamos ir de casa para o escritório para realizar… podem ser até feitas melhor de casa. Prevejo que isso vai causar mudanças sísmicas e imprevisíveis na natureza do trabalho e até mesmo no layout urbano das cidades — que foram desenhadas prevendo que grande parte da população se deslocaria para e do centro todos os dias. Se uma parte significativa das pessoas começar a trabalhar de casa, por exemplo, morar em apartamentos menores mas perto do trabalho vai deixar de ser uma vantagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">15. — Comecei a caminhar mais</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O artista plástico brasileiro Paulo Nazareth caminhou de Belo Horizonte a Nova York em seis meses e quinze dias. Durante o percurso, para levar um pouco da poeira da América Latina para os EUA, não lavou os pés: só quando chegou no rio Hudson. A caminhada de Nazareth é parte de um projeto artístico, mas as pessoas costumavam andar enormes distâncias simplesmente para chegar em seu destino. Caminhar é o mais antigo meio de transporte da humanidade. O <em>Homo sapiens</em> (provavelmente) chegou nas Américas pelo Estreito de Bhering e, em menos de mil anos, sempre completamente a pé, colonizou todas as Américas. O filósofo e escritor Jean-Jacques Rousseau morava em Genebra e caminhava até Paris — uma distância de quinhentos quilômetros, mas ladeira abaixo. A volta não sei se Rosseau fazia a pé também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sempre soube que poderia trocar o carro por metrô, ônibus ou táxi, ou até mesmo bicicleta, mas demorei muito até me dar conta de como é fácil, barato e saudável simplesmente&#8230; caminhar. O tempo que passamos presos no trânsito nos faz superestimar distâncias que, na verdade, são bem pequenas: Em São Paulo, de Perdizes até a Praça Roosevelt, no centro, são apenas 5km. Da USP para a Paulista, só 6km. Do Parque do Ibirapuera ao Estádio do Pacaembu, outros 6km. No Rio, em 4km se vai do Mirante do Leblon ao Arpoador. E, com mais 4km, se chega ao Leme, sempre pela orla. Tudo é mais próximo do que parece: do Shopping Rio Sul até o Aeroporto Santos Dumont, passando por boa parte da zona sul, são somente 5km. Percorrer seis quilômetros de carro na hora do rush pode levar mais de duas horas: caminhando, demora sempre apenas uma. Na primeira opção, você gasta dinheiro, se estressa e acumula gordurinhas na cintura. Na segunda, você economiza e emagrece.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="667" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?resize=500%2C667&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12796" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?resize=500%2C667&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fast-food-comida-armadilha-ratas-prisao-trabalho-respeito.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Por que queremos o que queremos?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pois então. Parei de comprar por impulso. Quando quero muito comprar alguma coisa, eu fico querendo. Quase sempre, passa. Se continuo querendo por vários dias, vou lá e compro. Até aí, tudo bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, um dia, comecei a me questionar: por que quero tanto comprar essa merda? Por que tenho esses súbitos desejos de consumir xarope açucarado ou carne prensada entre duas fatias de pão?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando estou andando pela rua e subitamente penso no meu avô, não é porque meu avô surgiu espontaneamente no meu cérebro, mas porque passei por uma loja onde estava tocando uma música que ele gostava. Às vezes, basta um acorde. Quase sempre, nem percebo de forma consciente. Ainda assim, fatalmente, alguns passos depois, sou tomado por uma súbita saudade do meu avô.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, se houvesse uma franquia do meu avô em cada esquina onde eu pudesse saciar esse desejo pelo meu avô por dez reais — ou quinze, com batata grande — eu não conseguiria mesmo resistir.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">[*Recomendo o livro <em><a href="https://amzn.to/3OnDhMp">Vamos às Compras</a></em>, de Paco Underhill, que destrincha todos os truques que o capitalismo usa para nos fazer consumir mais.]</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O horror da publicidade</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas coisas me horrorizam tanto quanto a publicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem coisas piores, como genocídio, escravidão, jornalismo esportivo, jiló, mas elas pelo menos são vistas como diabólicas. O que me horroriza na publicidade é o fato de ela ser socialmente aceita. Me horroriza existir toda uma disciplina, com universidades, livros, seminários, voltada exclusivamente para nos fazer passar a querer coisas inúteis que antes não queríamos. Me horroriza pessoas aparentemente honestas e decentes escolherem dedicar suas vidas ao aperfeiçoamento da lavagem cerebral. Me horroriza ver essas pessoas usando todas as mais recentes ferramentas da ciência para nos manipular tão abertamente. Me horroriza uma atividade tão intrinsecamente perversa estar no mesmo nível de aceitação popular que construir prédio e operar fígado, ensinar sociologia e jogar futebol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muito tempo, não assisto TV nem ouço rádio, não leio jornais nem revistas. A publicidade é como se fosse uma língua — cuja sintaxe é repleta de dedos apontados e pontos de exclamação, sorrisos brancos e hálito puro — e a minha fluência foi se enferrujando pela falta de uso. Agora, estou ressensibilizado. Qualquer merchandising me horroriza. Qualquer outdoor me agride.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="277" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/tenha-pernas-poderosas-1.png?resize=500%2C277&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12786" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/tenha-pernas-poderosas-1.png?resize=500%2C277&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/tenha-pernas-poderosas-1.png?resize=768%2C425&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/tenha-pernas-poderosas-1.png?w=840&amp;ssl=1 840w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">No vagão das mulheres, no metrô, uma intimidadora lâmina de barbear de dois metros de altura ordena: &#8220;Tenha as pernas mais bonitas do Brasil!&#8221; No mesmo vagão, na TV, uma empresa quer enviar amostras grátis de maquiagem e ainda cobrar por isso: &#8220;Seja uma mulher com muitos produtos de beleza&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo tudo me é tão chocante que eu olho em volta, buscando o contato visual com alguém, buscando por outra passageira tão indignada quanto eu, buscando com uma interlocutora para dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Caralho! Uma lâmina de barbear gigante dando ordens sobre nossas pernas! Você reparou na violência? No autoritarismo? Na ameaça velada?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não. As pessoas estão todas tranquilas e normais, esperando chegar a próxima estação. Nada ali é estranho ou fora do comum. Não se sentiram agredidas. Em um único comercial do Big Brother, veem meia dúzia de anúncios mais violentos e mais autoritários. Nem entenderiam o meu horror.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas a minha volta. A exploração, a desigualdade, o racismo, a misoginia. Tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror. Talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: <em>tornar contagioso o horror.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">&#8220;Ah, Alex, viver assim pode ser fácil pra você, mas na minha vida, não daria!&#8221;</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ler um texto como esse, muitas pessoas leitoras sentem uma ânsia irrefreável de ou apontar que a vida delas é diferente da minha <em>(&#8220;para quem trabalha fora de casa não dá pra só gastar tão pouco transporte&#8221;, etc)</em> ou de interpelar a minha vida pessoal <em>(&#8220;sendo dono de imóvel é fácil!&#8221;, &#8220;duvido que gaste só isso de luz, água, telefone!&#8221;, etc)</em>. Não tenho nada contra. Acho inclusive que estão certas. A questão é se essa atitude é a mais proveitosa para suas próprias vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque esse texto não é sobre a <em>minha</em> vida. A minha vida está apenas sendo utilizada como exemplo porque é a vida de quem escreveu o texto. Naturalmente, os exemplos específicos da minha vida não vão se aplicar às vidas das pessoas leitoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, sou dono de imóvel. Mas não era quando esse texto foi originalmente publicado em 2005, e muito menos nas duas vezes em que quebrei antes disso. Em 2004, por exemplo, eu e minha esposa pagávamos R$600 por um quarto e sala em Jacarepaguá, subúrbio do Rio. Em 2008, já sozinho, pagava trezentos e cinquenta dólares por um quarto em uma república de estudantes em Nova Orleans. O fato de eu ser dono ou não de um imóvel, hoje ou ontem, faz muito pouca diferença para a mensagem geral do texto e, mais importante, para o que o texto pode significar na sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo desse texto não é demonstrar que só dá para viver assim quem tem uma vida idêntica à minha ou que a minha vida é o máximo e todas devem me imitar. <em>(Que texto idiota seria esse!)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo desse texto é, através dos exemplos da minha vida, tão única e singular quanto a de qualquer pessoa, transmitir um novo jeito de pensar nossas despesas e nosso consumo, nossas necessidades e nossos prazeres, para que então cada um de nós possa decidir por conta própria o que quer fazer de nossas vidas tão únicas e tão singulares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você acabou de ler esse texto e escolheu passar os minutos seguintes pensando em como eu sou privilegiado e sem-noção, tudo bem. Eu certamente não discordo. Mas o <em>meu</em> objetivo ao escrever esse texto foi <em>te</em> fazer olhar para si mesma, repensar suas decisões e questionar suas certezas e, talvez, quem sabe, enxergar algumas das infinitas possibilidades que lhe estão abertas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só você pode decidir qual dessas duas atitudes <em>(questionar a mim ou se questionar)</em> é mais frutífera e transformadora na sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A decisão econômica de ter filhos</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica mais frequente a essas minhas reflexões é:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>− Ora, Alex, tudo é muito fácil se você não tem filhos!</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu respondo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Sim. Esse é o principal argumento para não ter filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha vida só é fácil porque eu, de forma consciente e consistente, fiz escolhas que simplificaram a vida. Porque, entre outras coisas, abdiquei das muitas delícias de ser pai para não ter que sofrer o peso dos muitos encargos. Então, por um lado, eu não tenho um mini-me para ensinar a gostar de poesia medieval <em>(até parece que iria dar certo!)</em> e para me olhar com orgulho de filho, e por outro, nunca vou me endividar pagando aparelho ortodôntico e escolinha de inglês. Fiz minhas escolhas e estou feliz com elas. Não reclamo das minhas escolhas e nem da vida que essas escolhas construíram. Minhas escolhas não são críticas às escolhas de outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando alguém que fez a escolha de ter filhos aponta para alguém que fez a escolha de não ter e diz – em tom de recriminação, como se fosse uma crítica − que a vida dessa pessoa é fácil&#8230; bem, talvez isso revele mais sobre sua própria ambivalência em relação à sua escolha do que qualquer coisa sobre a outra pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada escolha traz ônus e bônus que só sabe quem a escolheu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, naturalmente, quando lutamos pelo aborto, não estamos realmente lutando pelo aborto <em>(ninguém tem como sonho de vida ou plano de futuro realizar um aborto!)</em>: nossa luta é para que nenhuma mulher nunca mais tenha que levar a termo uma gravidez contra sua vontade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Roberto Rivera (1976-2009)</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando morei numa república de estudantes em Nova Orleans, um de meus colegas de casa foi um médico texano chamado Roberto Rivera, um homem aberto, inteligente, interessante, humano. Durante o Katrina, em agosto de 2005, trabalhava na Emergência de um dos maiores hospitais públicos da cidade e viveu momentos indescritíveis de intenso horror no pós-furacão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando morou comigo, no ano seguinte, estava terminando sua residência em Ortopedia. Sabia que não queria mais ser médico, sentia-se intelectualmente limitado na profissão, tinha cursado só para seguir os passos do pai, mas já não podia largar. Como pagaria suas enormes dívidas estudantis? Para o banco, o empréstimo para estudantes de medicina é de baixíssimo risco, mas para o estudante, o risco é alto: a medicina torna-se literalmente um caminho sem volta. Um empréstimo que se paga facilmente com um salário de médico em início de carreira torna-se sufocante e inviável para alguém em praticamente qualquer outra profissão. Roberto queria terminar sua residência, pegar seu diploma e fazer uma pós em literatura (já possuía graduação em cinema), mas com a bolsa de estudos que receberia por um doutorado ele não pagaria nem os juros de suas dívidas. Ou seja, simplesmente não podia mais voltar atrás. Suas dívidas efetivamente o impediam de recomeçar do zero, de tomar uma decisão radical, de seguir por um novo caminho. Por causa das dívidas, Roberto estava obrigado a permanecer na estrada já trilhada, a exercer a profissão que esperavam dele, a continuar tudo igual. Talvez tivesse sido bem melhor pra ele simplesmente nunca ter tido acesso a esse empréstimo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resolveu a questão do melhor jeito que pôde: conseguiu um emprego como médico do trabalho, fazendo avaliações funcionais; um serviço absolutamente burocrático que não lhe exigia nada, nem mesmo concentração. Graças aos excelentes salários médicos, somente dois dias por semana já bastavam pra ele ir pagando suas dívidas e vivendo frugalmente. No tempo livre, corria atrás dos seus projetos pessoais: lia, aprendeu piano, começou a fazer comédia <em>stand-up</em>. Vivia sua vida com liberdade.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="367" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger.jpg?resize=500%2C367&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12787" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=500%2C367&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=768%2C564&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=1536%2C1127&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=2048%2C1503&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=1200%2C881&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?resize=1980%2C1453&amp;ssl=1 1980w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Roberto-Oliver-Ginger-scaled.jpg?w=1740&amp;ssl=1 1740w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Em agosto de 2008, nos encontramos pela última vez na véspera do furacão Gustav.<em> </em>(Nada pode ser mais Nova Orleans do que esbarrar nos amigos fazendo compras para a evacuação forçada da cidade.)<em> </em>Ele tinha acabado de entregar seu apartamento e estava prestes a mochilar pela América Central<em>. </em>Não chegou a ir. No ano seguinte, em abril, me pediu para ser sua referência na adoção de um cachorrinho. Apoiei e dei força: ele era ótimo com o meu Oliver. Foi nossa última troca de emails. Ninguém entrou em contato comigo. Penso sempre nesse cachorrinho, que nunca conheci e que teria sido um grande companheiro do Oliver. Mas Roberto, ao invés de assumir um compromisso com a vida por mais quinze anos, preferiu morrer. Em julho, no Texas, cometeu suicídio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Não existe liberdade sem independência financeira</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O endividamento progressivo e irremediável de toda uma classe econômica é uma das mais perfeitas ferramentas de controle social jamais inventadas. Nos EUA, a maioria das pessoas (que não vêm de família rica e não ganham bolsa de estudos) precisa tomar dinheiro emprestado para pagar a universidade e se sustentar. Quando se formam, já estão sobrecarregadas com enormes dívidas, que passam muitos e muitos anos obedientemente pagando — como ovelhinhas bem-ajustadas e bem-comportadas que são, já tendo internalizado o código de ética capitalista que diz ser mais ético sacrificar suas famílias do que dar um calote num banco. Num banco! (No Brasil, com a ascensão da nova classe média e com a proliferação de novas linhas de crédito e novas universidades caça-níqueis, estamos indo pelo mesmo caminho.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma nação de pessoas endividadas é uma nação de pessoas escravizadas. Quem passa o primeiro terço da sua vida profissional afogada em dívidas vai ser muito menos apta a participar ativamente de sua comunidade como uma cidadã. Pior: quanto mais pobre, mais dívidas terá e menos poderá de fato participar, deixando, mais uma vez, a arena política e a vida pública nas mãos das pessoas mais ricas e mais ociosas. Jovens assim, sob o peso de tantas dívidas, tornam-se mais conservadoras e alienadas, mais avessas aos riscos, mais atraídas por empregos seguros e medíocres, menos propensas às atividades intelectuais, acadêmicas, artísticas, atléticas e também (para não dizerem que o argumento é esquerdista) empresariais e empreendedoras. (Aliás, o pensador que melhor desenvolve esse argumento é o canadense <a href="http://www.johnralstonsaul.com/eng/">John Ralston Saul</a>, de direita.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma nação de pessoas endividadas é uma nação de ovelhinhas mansas, de pessoas tão preocupadas em não serem despedidas ou em arrumar um jeito de pagar a próxima mensalidade escolar da filha, que simplesmente não têm tempo nem disposição para questionar o governo, exercer a cidadania, participar da comunidade, ajudar quem precisa. Uma nação de pessoas endividadas é uma nação de pessoas tão amedrontadas e acuadas que preferem abrir mão de seus direitos, de seus ideais, de seus princípios, autorizar o governo a filmar as ruas e a grampear os telefones, tudo o que quiserem fazer, se somente isso lhes fizer se sentir um pouco menos de medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parafraseando um velho ditado, quem tem dívida, tem medo. E quem tem medo, não é livre. A verdadeira liberdade apenas pode existir com independência financeira e sem medo.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd90730ec-d721-464b-b411-a26f80bc9351_720x938.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O melhor modo de conseguir dinheiro ainda é o trabalho</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas&#8230; e se você conseguir essa tal de liberdade aí? Sabe o que fazer com ela? Quando você não está vendendo seu tempo livre e sua energia vital para realizar os projetos de outras pessoas em troca de dinheiro&#8230; quem é você?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho não é, por definição, aprisionante e terrível. Somos seres construtores, produtivos. Idealmente, o trabalho nos permite dar vazão ao nosso afã criador e, ao mesmo tempo, ganhar o dinheiro que precisamos para viver nossa vida e realizar nossos projetos pessoais. Muitas vezes, entretanto, o trabalho custa caro: ele suga quase toda nossa energia vital e nos dá somente uns míseros tostões em troca. Nesses casos, sim, o trabalho é uma prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A segunda-feira é inocente</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu detesto a maldita segunda-feira&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A culpa não é desse período de tempo em que a Terra demora para girar em torno de si mesma que convencionamos chamar de segunda-feira, mas que também poderia se chamar paralelepípedo, clitóris ou Carlos Arthur. Mas das escolhas erradas que fiz ao longo da vida e me levaram ao ponto de detestar o dia em que volto à vida profissional que criei como o fruto cumulativo das minhas escolhas. E quem diz que essas decisões foram erradas é o meu desespero durante a semana, o meu porre de sexta à noite, minha ressaca de sábado, minha melancolia de domingo e meu mau-humor de segunda. Enquanto isso, a segunda-feira, coitada, fica lá paradona no calendário e nunca fez mal a ninguém. O que foi que <em>eu</em> fiz com a minha própria vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem são meus ícones?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitos anos, eu odiava sair de casa todo dia de manhã, de barba feita e fantasiado de executivo, para trabalhar o dia inteiro vendendo minha energia vital para realizar os projetos de outras pessoas. Mas pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− O errado deve ser eu. Afinal, todo mundo faz isso. Se essas pessoas conseguem, também consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E lá ia eu me torturar mais um pouco. Um dia, uma pequena mudança de foco fez toda a diferença. Em vez de olhar para as pessoas que já tinham se acostumado a tolerar as torturas que ainda me atormentavam, desviei minha mirada para as pessoas que viviam vidas diferentes, mais livres, mais abertas, mais bonitas, e pensei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;− Se elas conseguem, eu também consigo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Do que temos medo?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, jovens pessoas pré-universitárias me fazem uma variação do comentário:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, eu queria muito fazer ABC mas vou fazer XYZ, sabe como é, ABC não dá dinheiro&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morando com o pai e a mãe, vivendo de mesada, ainda nem sabendo quanto custa a vida&#8230; e já abdicando de fazer o que gosta por medo desse custo! E pergunto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Você tem medo exatamente do quê?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gosto muito de fazer essa pergunta. Quando pensamos concretamente sobre nossos medos, acabamos percebendo que o bicho-papão dentro do armário era só um ursinho de pelúcia caolho. E elas respondem algo como:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, sei lá, de não conseguir me sustentar, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem nos coloca tanto medo na cabeça justo na época em que estamos mais borbulhantes de potencial? Ser rico é difícil, mas se sustentar é fácil. Todo mundo que fez artes cênicas e oceanografia se sustenta. Quem não fez, de um jeito ou de outro, também. Talvez não dê pra comprar todas as porcarias que são anunciadas na televisão, carro do ano ou o novo iTralha, mas dá pra se sustentar sim. E ser uma pessoa plena e satisfeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, exatamente do quê temos medo? De não conseguir sobreviver ou de não conseguir consumir? De não conseguir pagar nossas contas ou de sermos a única pessoa da turma sem carro ou sem iPorra? Vale mesmo a pena abdicar de uma vida produtiva e significativa, trabalhando em atividades que fazem sentido pra nós, só para podermos comprar mais roupa de grife ou trocarmos de carro mais vezes?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Trabalhar para viver ou viver para trabalhar</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando larguei meus estudos nos Estados Unidos e voltei para o Brasil, meu plano era ser escritor em tempo integral. Viver de literatura. Tralálá. Como tantas pessoas escritoras antes de mim, resolvi ganhar a vida traduzindo e, enquanto isso, escreveria minha ficção literária. Se Machado e Clarice, Eça e Nelson, produziram suas obras assim, por que não eu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de um processo seletivo rigoroso que se arrastou por quase um ano, consegui uma colocação de tradutor de literatura na maior editora do Brasil. Pagavam vinte e cinco reais por página. Eu traduzia uma página por hora, em média. Então, trabalhando só pela manhã, das oito ao meio dia, conseguia ganhar cem reais por dia, quinhentos por semana, dois mil por mês – na época, o salário mínimo era R$545. Com esse valor, já conseguia sobreviver com folga na minha rotina espartana. Mais importante, teria o resto do dia e os fins de semana completamente livres para fazer o que quisesse: ler, dormir, transar, trabalhar nos meus projetos literários, até mesmo pegar frilas remunerados, se quisesse mais dinheiro. Ou seja, essas quatro horas diárias traduzindo, que poderiam ser feitas em casa ou mesmo viajando, me possibilitariam a liberdade de viver minha vida nos meus próprios termos. Ou seja, tudo o que um emprego saudável idealmente tem que ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só não antecipei um pequeno probleminha: Para mim, traduzir se revelou uma das atividades mais chatas, tediosas, enlouquecedoras da humanidade. Frequentemente, as quatro horas se transformavam em oito, nove, dez. Eu adiava o começo do trabalho tudo quanto podia. Limpava a privada, lavava a louça, esfregava o chão. “Deixa só limpar o filtro do ar-condicionado e já começo.” Minha casa nunca esteve tão limpa. Quando finalmente começava, bastava uma hora de tradução para liquefazer meu cérebro e eu implorava uma pausa para mim mesmo: “Deixa só eu dar uma olhadinha na internet por cinco minutinhos&#8230;” Três horas depois, tendo assistido todos os vídeos de gatinho disponíveis no ciberespaço, lá estava eu ainda tentando me esforçar para voltar ao trabalho. Para mais uma hora de tortura. No final do dia, eu estava exausto, cansado, sem energia para mais nada — e tinha produzido somente as tais quatro páginas (às vezes, menos) que deveria ter terminado até o meio dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de alguns meses, percebi que tinha caído na armadilha. Não por culpa do trabalho em si, reparem, mas por minha incompatibilidade com ele. O fato é que eu estava vivendo para trabalhar, não trabalhando para viver. A tradução não estava possibilitando que me dedicasse aos meus projetos pessoais: pelo contrário, ela estava sugando o tempo livre e a energia vital que dedicaria a esses projetos. Eu traduzia da manhã à noite e, quando ia dormir, era para descansar e estar desperto e atento e apto para traduzir o dia seguinte inteiro também. <em>Clang!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E, pior, estava me vendendo barato. Nem quinze mil reais, nem qualquer soma imaginável de dinheiro, valem todo o nosso tempo e energia vital. E estava me deixando escravizar por dois mil. (Suje-se gordo!, disse o personagem corrupto no conto de Machado de Assis.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resisti muito à decisão. Tinha quarenta anos e era praticamente inimpregável, com cada vez menos habilidades que o mercado valorizava e remunerava. Bem ou mal, traduzir literatura era minha área. Clarice Lispector vivia disso! Será que não podia me esforçar mais um pouquinho? Será que não podia me esforçar mais um pouquinho para ser como as pessoas que amavam aquilo que para mim era tortura? Pior, era a última atividade remunerada que eu podia exercer que meu pai entenderia, que acalmava um pouco o seu medo perene de que eu um dia acabaria mendigando nas ruas: “Sim, pai, estou traduzindo literatura para a maior editora do Brasil, ganho tanto, faço tantas páginas em tantas horas, consigo tirar tanto por mês, tudo vai ficar bem.” E agora, nem isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas vezes, as pessoas leem esses meus textos e comentam, revoltadas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, Alex, do jeito que você fala parece tudo muito fácil, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada do que falo aqui é fácil. Nadinha. Se fosse fácil, não precisa escrever esse livro. Demorei três anos e seis livros para tomar a decisão de sair da editora. Só eu sei como foi difícil. Mas, pra mim, foi necessário.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="465" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-cubiculo-armadilha.jpeg?resize=500%2C465&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12797" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-cubiculo-armadilha.jpeg?resize=500%2C465&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-cubiculo-armadilha.jpeg?resize=768%2C714&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-cubiculo-armadilha.jpeg?w=960&amp;ssl=1 960w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quanto nos custa o nosso trabalho?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Bruno, como tantos homens no começo dos trinta, vive pra sua carreira, trabalha demais e está sempre cansado. Chega em casa com o corpo tão moído e o cérebro tão entorpecido que não consegue fazer nada de útil ou produtivo a não ser se embatatar diante da TV e zapear entre seriados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2004, quando passei uma semana em sua casa, tinha acabado de comprar o DVD da primeira temporada da <em>Super-Máquina</em>, uma das séries mais idiotas da década de oitenta. Para assistir as aventuras de um agente secreto cabeludo que viaja pelos EUA resolvendo crimes com seu carro falante inteligente, Bruno pagou duzentos reais – na época, quase o valor de um salário mínimo, que era R$260.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd0e9d520-f62a-45ff-80f6-2f58e3193087_528x741.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Entre confidências de fim de noite, confessou admirar minha vida. Disse querer muito ver a vida como vejo, não dar tanta importância às coisas bobas, saber relaxar mais, viver de forma simples e serena. Respondi que viver a minha vida era muito fácil. Trabalhar menos, gastar menos, nada poderia ser mais simples. Mas tinha um preço: era preciso sair do circo de consumo. Abdicar de ser consumidor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o DVD da <em>Super-Máquina</em> era o exemplo perfeito. Ele tinha sido comprado com duzentos reais que Bruno ganhara trabalhando quinze horas por dia, às vezes seis dias por semana, em um emprego exaustivo e massacrante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, poxa, eu mereço uma diversãozinha leve! – disse ele, mais pra si mesmo do que para mim. Afinal, o DVD custara somente meia hora do seu trabalho, não era nenhum grande sacrifício. (Para fins de comparação, nessa época, eu ganhava sete reais a hora num cursinho de inglês do subúrbio e teria tido que trabalhar trinta horas para comprar o DVD.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, de fato, se Bruno trabalhasse menos e ganhasse menos, se não tivesse um trabalho com tanta pressão e com tantas responsabilidades, ele não teria duzentos reais dando sopa assim para gastar em besteira. Provavelmente, teria que investir esses duzentos reais em arroz, feijão, leite, batata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, por outro lado, se não trabalhasse quinze horas por dia, às vezes seis dias por semana, em um emprego escravizantes que lhe sugava a alma e lhe cuspia de volta em casa completamente incapaz de qualquer atividade remotamente produtiva, ele não estaria sempre exausto e não precisaria anestesiar sua consciência assistindo DVDs de seriados idiotas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É tudo uma coisa só, una, indivisível, duas partes inextricáveis do mesmo mecanismo: o mesmo mercado que nos <em>possibilita</em> os meios de consumir é o que nos faz <em>precisar</em> consumir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De um modo bem real, Bruno não tem “tempo livre”. Quando não está trabalhando, está descansando o cérebro de tanto trabalho e se preparando para poder trabalhar mais. Mesmo quando está longe do trabalho, seu tempo é sempre definido em função do trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O tempo livre não é livre</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O rabugento <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Theodor_W._Adorno">Theodor Adorno</a>, um dos principais expoentes da assim chamada Escola de Frankfurt, é um dos meus pensadores preferidos do século XX. Ao lado de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Max_Horkheimer">Max Horkheimer</a>, ele expôs uma das verdades mais incômodas da nossa civilização: como o projeto iluminista, tão secular e racional, desembocou (fatalmente?) no nazismo. Depois de sair de sua Alemanha natal, morou nos Estados Unidos pelo resto da vida, onde foi um dos principais observadores e teóricos da indústria de entretenimento em massa que começava a se consolidar. Adorno é daqueles poucos pensadores que é tão lúcido e interessante que se lê por prazer. Seu curto ensaio, <a href="https://web.unifoa.edu.br/portal/plano_aula/arquivos/04848/TEMPO%2520LIVRE.pdf">&#8220;Tempo livre&#8221;</a>, disponível no livro <em>Indústria cultural e sociedade</em>, é dos mais acessíveis de sua obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Adorno, antes de mais nada, o &#8220;tempo livre&#8221; não é livre, mas está acorrentado ao seu oposto. É uma paródia de si mesmo. A ética de trabalho capitalista teria contribuído para tornar o &#8220;tempo livre&#8221; cada vez mais vazio e irrelevante:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Por um lado, durante o trabalho, devemos estar sempre atentos e não fazer gracinhas. Essa é a base do trabalho assalariado e já internalizamos essas leis. Por outro, nosso tempo livre não deve ter nada a ver com nosso trabalho, presumivelmente para que possamos trabalhar de forma ainda mais eficiente depois. Por isso, a maior parte das atividades de lazer são vazias e inócuas.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Lendo os jornais, Adorno repara que os repórteres sempre perguntam às celebridades por seus hobbies e começa a refletir sobre a existência ou não de seus próprios hobbies:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Levo muito a sério todas as atividades que exerço fora dos limites da minha profissão. Ficaria horrorizado de imaginar que são hobbies — um passatempo, uma distração. Na minha vida, produzir música, ouvir música, ler com toda a minha atenção, são atividades fundamentais. Chamá-las de hobbies seria uma ofensa.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A própria onipresença da pergunta &#8220;qual é o seu hobby&#8221; indicaria uma presunção de que todas as pessoas têm um hobby e, consequentemente, que você seria uma excêntrica se não tivesse. Existiria até uma &#8220;ideologia do hobby&#8221;, criada pelo capitalismo para lucrar em cima do tempo livre, essa nossa &#8220;liberdade organizada e compulsória&#8221;. Por exemplo, continua ele, acampar costumava ser uma atitude anti-establishment, de quem não aguentava mais ser sufocado por regras sociais e queria somente ir para o meio do mato dormir sob as estrelas. Em breve, entretanto, essa necessidade começou a ser canalizada, estimulada e institucionalizada pela indústria do camping:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A indústria do camping, por si só, não teria como forçar ninguém a comprar tendas e trailers, e nem gigantescas quantidades de equipamento, se essa necessidade já não existisse nas próprias pessoas. Mas o que a indústria faz é pegar essa ‘necessidade de liberdade’ e funcionalizá-la, estendê-la e transformá-la em um negócio. Aquilo que as pessoas queriam é agora jogado de volta na cara delas. O tempo livre é tão facilmente cooptado porque as pessoas já internalizaram sua não-liberdade. Mesmo nos momentos em que se sentem mais livres, não têm noção de como são completamente não-livres.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para Adorno, a educação infantil efetivamente bloquearia o desenvolvimento da imaginação. E essa falta de imaginação, cultivada e inculcada pela sociedade, deixaria as pessoas inertes e indefesas em seu tempo livre. A própria pergunta &#8220;o que fazer com o tempo livre&#8221;, como se fosse uma questão de esmolas e não de direitos humanos, como se estivéssemos decidindo o que fazer com as sobras do jantar e não pensando uma questão humana fundamental, seria fruto dessa falta de imaginação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;As pessoas hoje em dia fazem tão pouco com seu tempo livre porque sua falta de imaginação as tornou incapazes de apreciar a liberdade. Tanto lhes negaram a liberdade, seu valor foi tão depreciado por tanto tempo, que elas não a querem mais. O que precisam agora é de diversão inócua, sempre fornecida com condescendência e desprezo pelo conservadorismo cultural, para que possam recuperar suas forças para trabalhar ainda mais. Afinal, de acordo com a organização social que o conservadorismo cultural defende, é só isso que se espera delas. Essa é a razão pela qual as pessoas continuam acorrentadas aos seus trabalhos, e ao sistema que as treina para sempre trabalhar, mesmo quando esse sistema já não precisa nem exige a sua força de trabalho.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O esporte, para Adorno, seria uma das principais arenas onde as pessoas treinariam, inculcariam e sublimariam muitos dos comportamentos exigidos e valorizados pelo mercado de trabalho, como raça, dedicação, competitividade, disciplina, etc:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Frequentemente é no esporte que as pessoas pela primeira vez infligem em si mesmas (ao mesmo tempo em que que celebram isso como um triunfo de sua liberdade) precisamente aquilo que a sociedade irá infligir neles depois e que eles precisam aprender a gostar.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, conclui ele, o tempo livre não é o oposto de trabalho. Em um sistema que idealiza o emprego em tempo integral, o tempo livre nada mais é do que uma continuação sub-reptícia do trabalho.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="159" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/dahmer-medico-que-curava-pessoas-para-sempre-prisao-trabalho.png?resize=500%2C159&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12798" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/dahmer-medico-que-curava-pessoas-para-sempre-prisao-trabalho.png?resize=500%2C159&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/dahmer-medico-que-curava-pessoas-para-sempre-prisao-trabalho.png?w=591&amp;ssl=1 591w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O tempo (realmente) livre não é lucrativo</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As atividades mais incríveis e prazerosas da vida são completamente (ou quase) gratuitas: estar com as pessoas que amamos, dormir, transar, se exercitar, passear, caminhar pela natureza, nadar no mar ou em uma lagoa, ler, escrever. Mas todas exigem que estejamos inteiras, atentas, capazes, aptas. E é justamente isso que a maioria dos empregos rouba de nós, em troca de uma compensação inadequada, em troca de uma compensação que não compensa tudo o que nos foi tirado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem trabalha menos, ganha menos e tem mais tempo livre, pode se dedicar mais a essas atividades (semi) gratuitas e naturalmente refratárias ao circo do consumo. Quem trabalha muito, ganha muito dinheiro e não tem mais quase nenhum tempo livre, acaba naturalmente resolvendo todas suas questões com dinheiro. Afinal, na falta de tempo e de energia, a única ferramenta que lhe sobrou em abundância é o dinheiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">David Cain ficou nove meses mochilando pelo mundo e, depois, voltou ao mercado de trabalho. No artigo <a href="https://papodehomem.com.br/o-seu-estilo-de-vida-ja-foi-projetado/">&#8220;Seu estilo de vida foi projetado&#8221;</a>, ele compartilha algumas coisas que percebeu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Faz poucos dias que voltei ao trabalho, e já percebi que as atividades mais integrais estão rapidamente sumindo da minha vida: caminhar, me exercitar, ler, meditar e escrever. A similaridade evidente entre estas atividades é que elas custam muito pouco ou nenhum dinheiro, mas exigem tempo. (…) Enquanto estava fora, eu não pensaria duas vezes antes de decidir passar o dia explorando um parque nacional ou parar por algumas horas para ler um livro na praia. Agora esse tipo de coisa está fora de questão. Fazer qualquer uma dessas coisas me tomaria um dia inteirinho do meu precioso fim de semana! (…) [O] dia de trabalho de oito horas é muito lucrativo para grandes empresas, não graças à quantidade de trabalho realizada nessas oito horas (o trabalhador médio de escritório trabalha de fato por menos de três dessas oito horas), mas porque faz com as pessoas se tornem mais propensas a comprar. Fazer com que as pessoas tenham pouco tempo livre significa que elas vão pagar bem mais por conveniência, gratificação e qualquer outro alívio que possam comprar. Faz com que elas continuem assistindo televisão, e os seus comerciais. As mantém pouco ambiciosas fora do trabalho. Fomos conduzidos a uma cultura projetada para nos deixar cansados, famintos por indulgência, dispostos a pagar muito por conveniência e entretenimento e, mais importante, vagamente insatisfeitos com as nossas vidas, a ponto de continuar querendo coisas que não temos. Nós compramos tanto porque sempre parece que tem alguma coisa faltando na nossa vida.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A escritora francesa <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Simone_Weil" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Simone Weil</a>, intelectual fundamental do século XX, trabalhou como operária metalúrgica por um ano e, mais tarde, escreveu sobre como a vida da fábrica humilha e oprime as pessoas trabalhadoras. Sobre a jornada de trabalho, ela disse:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;[Algumas reformas sociais] anunciam uma diminuição, aliás ridiculamente exagerada, da duração do trabalho; mas transformar o povo numa massa ociosa, escrava duas horas por dia, não é nem desejável — se fosse possível — nem moralmente viável, caso fosse materialmente realizável. Ninguém aceitaria ser escravo por duas horas; a escravidão, para ser aceita, deve durar por dia o bastante para quebrar alguma coisa dentro do homem.&#8221; (Em &#8220;Experiência da vida de fábrica. Marselha, 1941-1942&#8221;, disponível em <a href="https://www.buscape.com.br/condicao-operaria-e-outros-estudos-weil-simone-bosi-eclea-8577530493.html?pos=1%23precos" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&#8220;A condição operária e outros estudos sobre a opressão&#8221;</a>)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Pessoas inteiras, atentas, capazes, aptas, não são reféns do consumo. Portanto, o mundo inteiro foi projetado para que você nunca, nunca esteja assim — mas sempre buscando estar. Não tem problema. Basta tomar um <em>espresso machiato</em> de manhã, comprar um <em>day pass de luxe</em> no nosso <em>fitness spa</em>, beber um vinhozinho francês à noite, e então dormir no nosso colchão <em>super premium</em>, e garantimos que amanhã você estará inteira, atenta, capaz e apta. Se não estiver, bem, temos outros produtos que, <em>arrá</em>, esses sim vão resolver. Pode confiar.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="472" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-infeliz-boletos.jpeg?resize=500%2C472&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12799" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-infeliz-boletos.jpeg?resize=500%2C472&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-infeliz-boletos.jpeg?resize=768%2C725&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-infeliz-boletos.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O capitalismo é canalha, mas não te força a nada</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A humanidade sempre <a href="https://papodehomem.com.br/adam-curtis-dois-documentarios-imprescindiveis/">sonhou que o avanço tecnológico libertaria o nosso tempo</a>. No século XIX, demorava-se um mês pra fazer cem sapatos. Com os avanços da tecnologia, podemos fazer esses cem sapatos em um dia. Não é perfeito? Mais tempo para brincar, passear, andar sob o sol. Enquanto isso, o capitalismo nos acena com cada vez mais produtos interessantes (iTralhas, TVs de plasma, carros com GPS turbo de fábrica), que nos obrigam a trabalhar cada vez mais para poder ganhar cada vez mais dinheiro para consumir cada vez. E quanto mais consumimos, mais queremos consumir, e mais temos que trabalhar pra poder consumir ainda mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem estimular essa nossa ganância primordial, o capitalismo quebra. Seria desperdício, pensa o sapateiro, fazer cem sapatos em um dia e deixar o equipamento ocioso. É muito tentador fazermos três mil sapatos por mês. Podemos expandir os negócios, ganhar mais dinheiro, economizar, ter mais segurança. Sei lá, pode acontecer alguma coisa, o futuro a gente nunca sabe. É melhor aproveitar pra ganhar agora. <em>(Quase dá pra ouvir o clang metálico quando a armadilha se fecha.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de insidioso e perverso, de roubar pirulitos de criancinhas e repassar correntes, o capitalismo tem a grande qualidade de nunca forçar ninguém a comprar xarope açucarado ou retângulos luminosos chineses. Nós, os consumidores, escolhemos acreditar nos discursos que queremos acreditar. Tudo nos impulsiona a querer comer carne prensada entre duas fatias de pão, de anúncios na TV a outdoors. Inventaram toda uma disciplina para nos fazer comprar mais lixo. Desde a neurociência até a cromoterapia, essa indústria milionária contratou toda a ajuda possível para nos convencer a comprar desodorante para mascarar os cheiros que essa mesma indústria inventou que são ruins.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, ainda assim, incrivelmente, contra toda a lógica e contra toda a expectativa, é de fato incrivelmente fácil não-comprar dois hambúrgueres, alface, queijo e molho especial. O ônus da ação é completamente deles: tudo o que você precisa fazer é nunca entrar na casa do palhaço e pedir a carne prensada no pão. Para quebrar o escravizador paradigma capitalista de mais trabalho e mais consumo, mais consumo e mais trabalho, basta um simples ato de vontade. Basta você dizer para si mesma:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, eu não vou pegar esse emprego, porque ele vai me fazer passar dez horas por dia utilizando minha finita energia vital para realizar os objetivos de outras pessoas, e ninguém merece isso. Ele paga oito mil por mês e, sim, preciso de oito mil por mês se quiser comprar o DVD da <em>Super Máquina</em>, ou passar férias em Bonito, ou comprar um novo home theather, mas não preciso de oito mil pra viver. A minha vida vale mais. Oito mil não paga a minha vida. Oito mil não me compra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Uma vida inviável</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A baixa classe média, logo acima da pobreza, com medo de cair nela e precisando de símbolos de status visíveis para se distinguir dela a todo custo, é a principal vítima de um perverso jogo de aparências que inflige em si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu amigo João Carlos, jornalista formado por uma universidade topo de linha, trabalha de redator em uma grande cadeia varejista e ganha R$4 mil líquidos por mês. Seus empregadores esperam que ele esteja sempre inteirado das últimas novidades culturais, que seja lido e viajado, que conheça os últimos livros e filmes, que fale inglês e espanhol e que ainda trabalhe todo dia de roupa social. Fazendo um cálculo rápido, ver três filmes no cinema, comprar dois livros, assinar dois streamings e um grande jornal já custam quase um sexto do salário mensal de João Carlos — sem nem começar a levar em conta tudo o que gasta almoçando fora, pagando aluguel, renovando seu guarda-roupa e mantendo seu carro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">João Carlos precisa almoçar fora, pois não pode ser o único da equipe comendo uma marmita na copa. (O que pensariam dele? Poderia prejudicar sua futura ascensão na empresa!) Então, todo dia, ele vai com colegas para o restaurante mais barato das redondezas, onde o almoço executivo é quarenta reais e a conta final não sai por menos de sessenta. Sessenta reais por almoço vezes vinte e dois dias úteis no mês, e João Carlos gasta R$1.320 comendo fora. Quase um terço de sua renda líquida. Em única refeição. Sem contar café da manhã e jantar. Sem computar todas as vezes que ele e colegas escapam do escritório no meio da tarde pra tomar um <em>cappuccino doppio</em> de quinze reais na franquia de café da esquina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O custo anual de manter um automóvel no Rio ou em São Paulo é de dezoito mil reais por ano, sem nem levar em conta o valor do carro em si. Mas João precisa desse passivo anual de dezoito mil, pois não poderia jamais ir de ônibus pro trabalho. Os ônibus estão sempre cheios e apertados, ele chegaria suado e amarrotado — e teria que trabalhar ao lado de pessoas impecáveis, que vieram para o escritório dirigindo seus carros no ar condicionado. &#8220;Eu mereço esse pequeno luxo!&#8221;, ele me disse uma vez. (Não é pequeno, João: são dezoito mil reais por ano.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pela manhã, João Carlos não pode chegar arriscar chegar atrasado, pois o chefe olharia feio e ele seria o primeiro a rodar na próxima leva de demissões. Como o trânsito é imprevisível, ele sai muito cedo, dirige tenso por todo o trajeto com medo do imprevisto fatal que lhe atrasaria e quase sempre acaba chegando bem antes da hora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fim do expediente, entretanto, ele nunca, nunca saiu às cinco. A única outra funcionária que fazia questão de sair sempre às cinco — sabe como é, parece que tinha família e outras prioridades de vida — foi demitida na primeira leva de &#8220;reestruturamento de pessoal&#8221; logo depois de contratada. Disse o chefe: &#8220;Essa daí não vestia a camisa&#8221;! Então, João Carlos sai do escritório lá pelas sete, oito. Quando não acontece uma emergência profissional, claro. Nas muitas noites em que fica realmente até tarde (como &#8220;oito da noite&#8221; virou horário normal, &#8220;até tarde&#8221; passou a significar &#8220;até de madrugada&#8221;), a empresa compra pizzas para todos e João Carlos, sem nenhuma vergonha ou autoconsciência, até com orgulho, ainda posta nas redes sociais a marca da sua escravidão, com a legenda: &#8220;Eba! Dia de pizza de firma!&#8221; Postado às 22:30. Ontem. E anteontem também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">João Carlos, que é pago por quarenta horas semanais, passa cerca de sessenta no escritório. Sem contar o tempo que passa realizando atividades que só existem em função do trabalho, como se arrumando de manhã, almoçando fora e se deslocando entre casa e escritório. (Quantas horas será que sobram?) A empresa desconversa sobre horas extras e João Carlos nem fala no assunto, não quer parecer chato ou insistente: &#8220;Hora extra é coisa de peão, eu vou ser gerente&#8221;. João Carlos poderia doar essas vinte horas de trabalho semanais para alguma instituição de caridade, ensinar inglês na periferia ou servir sopa no abrigo, mas escolhe doá-las para uma grande empresa multinacional cujo lucro, ano passado, foram alguns bilhões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando chega em casa, João Carlos também não está livre. Os chefes e os colegas ligam, mandam mensagens e emails. Tem sempre algum dever de casa, alguma coisa pra fazer, algum texto pra ler.&nbsp; Se o chefe passa o link de um artigo relacionado ao trabalho às nove da noite, pergunta sobre ele às nove da manhã do dia seguinte e João Carlos não leu, pega supermal. Cadê o comprometimento? Teve um sábado em que deu um chabu e toda a equipe foi reconvocada correndo para a firma. Só uma moça não apareceu: parece que estava passeando com a família e não levou o celular. Como disse o chefe de João Carlos enquanto entrevistava novas pessoas para o cargo dela: &#8220;Ninguém é insubstituível!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">João Carlos não tem renda suficiente para pagar um plano de saúde que considere decente mas foi educado para se achar acima do SUS, que seria somente para pessoas pobres e miseráveis que morrem na fila do hospital, etc. Então, acaba fazendo um sacrifício financeiro desproporcional para pagar um plano de saúde de baixa qualidade, que não dá direito a quase nada e provavelmente vai jogá-lo nos braços do SUS se precisar de atenção médica intensa. Tomara que isso nunca aconteça: seria fatal para sua autoestima e para sua autoimagem se ver ou ser visto como uma &#8220;dessas pessoas&#8221; que usam o SUS.</p>



<p class="wp-block-paragraph">João Carlos ainda não tem filhos ou filhas mas também faria um sacrifício financeiro excepcional para colocá-las todas em escola particular. Imagine o que pensariam dele se vissem sua filhinha saindo do prédio para pegar o ônibus (!) vestindo um uniforme da rede pública! Sua esposa pediria o divórcio e o juiz, entendendo a seriedade da situação, talvez até considerasse que matricular a filha em escola pública quando se tem recursos (mas tem mesmo?) para uma particular qualifica como maus-tratos e negligência. Perigava de João Carlos perder a guarda e ainda ir preso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalmente, talvez o mais cruel. Os bancos, sabendo do inviável estilo de vida que João Carlos impôs a si mesmo, lhe oferecem crédito facilitado e pré-aprovado, cheques especiais e cartões de crédito, e ele, que não pode ser o único da empresa que não passa o verão em Ubatuba, que não almoça com o chefe em restaurante, que não tem carro, acaba aceitando. <em>(*CLANG*)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, João Carlos não tem como morar sozinho: a conta não fecharia. Aliás, a conta já não fecha, mas morando sozinho seria inviável até se endividando. Portanto, aos trinta e seis anos, ele ainda mora com os pais, ainda no mesmo quarto onde cresceu, ainda cercado por muitos dos brinquedos da infância, ainda tomando o chocolate quente da mãe, ainda sem nunca ter lavado sua própria roupa, esfregado sua própria privada, cozinhado sua própria comida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">João se acha muito maduro, muito adulto, muito independente. Diz que na casa dos pais ele vive com toda a liberdade e independência, e que ainda está economizando. &#8220;Um dia, vou comprar um apartamento.&#8221; Enquanto isso, os pais, funcionários públicos aposentados, morrem de orgulho do filhão e seu emprego prestigioso em uma sólida multinacional que conhecem desde criancinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dei aulas em uma universidade norte-americana por vários anos. Um dia, o João Carlos me perguntou se os meus alunos eram assim tão imaturos quanto parecia nos filmes. Respondi que não. Sim, as pessoas que eu ensinava tinham dezoito anos, estavam morando sozinhas pela primeira vez, bebiam demais e faziam muita, muita merda. (Eu sei bem. Minha universidade era considerada a melhor <em>party school</em> dos EUA.) Apesar das bebedeiras e das fraternidades, meus alunos norte-americanos, aos dezoito, eram mais maduros, mais autônomos, mais independentes do que certamente todos os meus amigos-brasileiros-classe-média-morando-com-os-pais aos dezoito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concretamente, de fato, na ponta do lápis, João Carlos paga para trabalhar. O emprego de prestígio na verdade não é nem mesmo um subemprego: é um trabalho voluntário. O que o conglomerado multinacional lhe paga não é um salário: é um pró-labore que cobre alguns dos custos (mas não todos) que ele incorre em seu voluntariado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se João saísse da casa dos pais toda manhã e passasse o dia mendigando, ele gastaria menos com despesas fixas, teria mais liberdade de ir e vir ao ar livre e, certamente, no fim do mês, ainda lhe sobraria mais dinheiro para gastar no que quisesse.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="444" height="553" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capitalismo-vendedores-will-work-for-food-prisao-classe-trabalho-1.jpg?resize=444%2C553&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12800"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O aumento de padrão de vida é uma armadilha</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não somos movidos a dinheiro: somos movidos a status. Quando vamos entrando na classe média, quase sempre pela porta de trás, tímidas ainda, nem reparamos nas aves de rapina começando a circular sobre nossas cabeças. Subitamente, aos olhos do deus-mercado, nos vemos transformadas em consumidoras em potencial, futuras correntistas, prováveis investidoras, escravas predestinadas. Lá adiante, dentro de uma gaiola dourada, incríveis brinquedinhos reluzentes com os quais nunca tinham nos deixado brincar. Como resistir? Finalmente, estamos tão entretidas com o joguinho do celular que nem ouvimos quando fecham a gaiola e jogam a chave fora. <em>*Clang*</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheço pessoas amigas que ralaram anos a fio em empregos terríveis, sofreram todo tipo de privação, aguentaram tudo estoicamente: pagaram suas contas com sufoco, mantiveram sua dignidade com esforço, não se deixaram corromper. E, no entanto, bastou começarem a ganhar um pouco a mais para se perderem completamente. O labirinto só tem porta de entrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Funciona mais ou menos assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro, você arruma um trabalho. Fica quase envaidecido de alguém achar que merece o salário que lhe ofereceram e se promete fazer um excelente serviço! É o começo da sua vida profissional. Uau! Aí vem a fase da demanda reprimida: começa a consumir todas aquelas coisas que não podia comprar quando ainda não tinha o trabalho. Seus gastos fixos crescem: leasing de carro, aluguel de apartamento maior, mais serviços de streaming, plano de previdência privada, etc. &nbsp;Talvez por descontrole, talvez por uma emergência, se endivida pela primeira vez. Mas tudo bem, você paga até o final do ano. Tem o seu salário certo, é só questão de se organizar. Percebe subitamente que precisa manter aquele emprego, senão não conseguirá pagar o leasing, a previdência, as parcelas da viagem do ano passado, etc. Pensa nos seus gastos mensais antes do emprego e simplesmente não consegue entender como sobrevivia com tão pouco. Vida sem carro, sem restaurante, sem iTralha, etc, não é vida! Sente medo. Trabalha ainda mais duro pra não perder o emprego. Fica estressado de tanto trabalhar, de tanto se preocupar, de tanto ter medo. Começa a tomar remédios. Brocha pela primeira vez. Mais e mais cabelos na escova. Cansado física e emocionalmente, consome ainda mais. Séries idiotas, pornografia japonesa, livros que não vai ler nunca, qualquer coisa pra descansar sua cabeça e desacelerar seus nervos, de modo que possa acordar no dia seguinte capaz de trabalhar mais quinze horas. Ou então, livros sobre seu trabalho, quem mexeu no queijo do meu chefe, inglês pra executivos apressados, para tornar-se ainda mais eficiente e não ser — deus me ajude — demitido. Já não tem mais tempo livre, pois todo o seu tempo, mesmo quando não está no trabalho, gira em torno do trabalho. Ninguém é insubstituível, diz seu chefe. (Um mês depois, o chefe é demitido!) De tanto consumir nervosamente, suas dívidas crescem, espalhadas por tantos lugares que nem dá pra acompanhar. Graças ao seu alto salário, o banco lhe deu um limite gigantesco no cheque especial, que você achou que jamais atingiria, e fica chocado ao atingir. Mal sabe quantos pagamentos parcelados ainda vão bater no cartão de crédito. E o leasing do carro, meu deus? Se arrepende de ficar pagando por dez meses por uma viagem de cinco dias que nem foi tão legal assim, mas todo mundo do escritório estava indo, você não poderia ser o único que não conhecia a Europa. A cada compra, você se pergunta: “qual é o melhor cartão de crédito pra usar? qual é mesmo o dia do vencimento do Visa? será que já estourei o Mastercard?” Desespero no trabalho. Horas extras, frilas, puxação de saco desenfreada. A economia está em crise, se for despedido agora é o fim de tudo. É tudo ou nada. Mais e mais remédios, menos e menos libido. Tudo o que pode fazer agora com as mulheres é dedá-las rapidinho. Você nem liga: quem precisa de mulher se tem a pornografia japonesa na internet? Dívidas crescem. Tenta pegar um empréstimo rápido em uma financeira e descobre que seu nome está sujo na praça por causa de um cheque pré-datado que nem lembra mais pra quem foi. Sem esse empréstimo, a financeira (outra) vai tomar seu carro! E como vai chegar no trabalho sem carro? Seu bairro de rico não tem serviço de transporte público decente. Com que cara vou ficar na empresa se souberem que não tenho carro? É o fim de tudo, etc. E assim vai indo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei como termina. O final é sempre diferente, mas nunca é bonito.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="567" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-somos-uma-familia-aqui.jpeg?resize=500%2C567&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12801" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-somos-uma-familia-aqui.jpeg?resize=500%2C567&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-somos-uma-familia-aqui.jpeg?resize=768%2C871&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-somos-uma-familia-aqui.jpeg?w=903&amp;ssl=1 903w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Viver fazendo tanta economia já não é uma prisão?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Amanda começou a ganhar bem depois de anos ganhando pouco. Naturalmente, bateu a demanda reprimida. Precisava de um novo sofá pra sala, consertar o carro e refazer a fiação do banheiro — e agora podia pagar! Até aí, tudo bem. O importante é não cair na armadilha do “aumento do padrão de vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ela antes passava o mês com R$3 mil, hoje continua podendo. Se está ganhando R$8 mil, não precisa aumentar o padrão de consumo para oito: pode continuar gastando três e economizar cinco. Consertar o carro, comprar o sofá e refazer a fiação do banheiro não saía por mais de dez, quize mil reais, ou seja, apenas dois meses do novo salário para satisfazer suas demandas mais reprimidas. Ela podia pode até se dar um aumento: agora, em vez de viver com R$3 mil, podia se permitir viver com quatro mil e economizar metade do seu salário líquido. Um excelente negócio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Amanda, depois de anos de contenção de gastos, sentia que tanta austeridade não era justa e resolveu usar meus próprios termos contra mim:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Pôxa, Alex, vou ter que continuar vivendo nessa prisão, nessa vida monástica, nessa pobreza absoluta sem poder consumir nada? Logo agora que tenho a renda pra comprar e sou livre pra consumir? Não posso ser livre? Tenho que continuar presa? Não é você que fala tanto em liberdade?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amanda já estava com o corpo todo dentro da gaiola, faltava só trancar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você ganhar oito mil reais por mês e consumir oito mil reais por mês, expliquei, você não vai ser livre. Pelo contrário, se tornará prisioneira do seu emprego, pois precisará dele pra manter esse novo padrão de consumo. Seu trabalho logo vai tomar conta de todos os aspectos de sua vida e te dominar completamente. Por mais que goste dele, em breve você se tornará uma trabalhadora chata e medíocre: não terá nem mais coragem de tomar uma atitude diferente, ter uma nova ideia, criticar o chefe. Afinal, se for despedida, como continuaria morando nesse novo apartamento, dirigindo esse novo carro, pagando essa dúzia de streamings? Ganhar oito mil reais por mês e consumir oito mil reais por mês é praticamente a definição de não-liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, se você se der um pequeno aumento e passar a viver com quatro mil reais por mês, vai poder economizar a mesma quantia. Sua vida vai continuar quase tão boa ou tão ruim quanto sempre foi, só um pouco melhor (ao menos, você sabe que é sustentável) com um benefício: vai estar construindo um lastro. Ao final de um ano, terá R$48 mil economizados. Com esse dinheiro, mesmo se for demitida, mesmo se pedir demissão, ou mesmo se só te der na telha sair do emprego, você sabe que vive por um ano, sem precisar trabalhar nem mudar nada no seu estilo de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segurança que terá é o exato oposto do medo sufocante de quem ganha oito e gasta oito. Agora, não é você que precisa do emprego, é o emprego que precisa de você. Se quiser, pode parar de trabalhar e procurar outra colocação melhor. Se quiser, pode ficar um ano sem fazer nada e, depois disso, estará exatamente onde está hoje, sem perder nada e tendo ganho um ano de ócio — um bem precioso que não tem preço. Ou melhor, tem: R$48 mil. (Quem disse que &#8220;tempo é dinheiro&#8221;, mentiu. Tempo é muito mais importante que dinheiro. O dinheiro que perdemos volta. O tempo, nunca.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em meros quatro anos, a duração de um curso universitário, você junta duzentos mil reais, que é um tipo de liberdade por si só: uma poupança que pode te permitir abrir um negócio, começar uma carreira, mudar de rumo, se enfiar em um pequeno sítio no interior, comprar um veleiro usado. Não precisará ter medo do chefe, medo de arriscar, medo de perder o emprego. Pelo contrário, vai poder amar seu trabalho e se dedicar a ele de maneira mais saudável, sem precisar lhe hipotecar sua subjetividade ou colocá-lo no centro da sua vida. Não ter medo de perder o emprego vai te tornar uma profissional melhor, mais criativa, mais eficiente, mais original — especialmente se comparada às suas colegas bundonas e apavoradas — e, provavelmente, diminuirá as suas chances de acabar realmente perdendo o emprego. (Como se isso fosse uma grande tragédia, aliás!)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais importante, vai viver livre do medo, e não sentir medo já é uma recompensa por si só.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Você veste a camisa da empresa, mas ela não veste a sua</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento, em um dos encontros &#8220;As Prisões&#8221;, uma moça se levantou e apontou para o marido:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− O fulano aqui é igualzinho. Ele trabalha de designer numa agência de publicidade, ganha bem, economiza tudo, e todo mês ameaça se demitir. Outro dia, essa semana mesmo, a agência ganhou uma nova conta de um cliente que sempre humilha os subalternos. Meu marido chegou pro chefe e disse, o mais delicadamente possível: olha, se for pra trabalhar nesse projeto, eu vou preferir procurar outra agência. O chefe sabia que não era blefe. Resultado: os colegas dele não tiveram escolha, ele teve.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A relação entre funcionária e empresa é sempre um jogo de poder. Ninguém está fazendo favor a ninguém. A funcionária que se auto-ilude e &#8220;veste a camisa&#8221; da empresa precisa saber que a empresa nunca vestirá a camisa dela: será demitida, sem hesitação e sem dó, assim que essa for a decisão economicamente mais acertada. O único poder de barganha da funcionária é a possibilidade de levar sua força de trabalho e energia vital para outra empresa. E a funcionária só pode exercer esse ínfimo poder (que é tudo o que temos) se tiver um lastro financeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cada vez que você cede e se permite comprar alguma porcaria cara, é uma tripla rasteira que está se dando: vende mais um pouco da sua energia vital ao mercado de trabalho para pagar por isso hoje; alimenta e estimula o mecanismo consumista que te tritura e te escraviza; e deixa de adicionar mais um tijolinho no edifício das suas economias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse mundo regido a dinheiro, nossas economias são a nossa liberdade.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="494" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-so-seus-filhos-vao-lembrar.jpeg?resize=500%2C494&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12802" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-so-seus-filhos-vao-lembrar.jpeg?resize=500%2C494&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-so-seus-filhos-vao-lembrar.jpeg?resize=768%2C759&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/prisao-trabalho-so-seus-filhos-vao-lembrar.jpeg?w=1079&amp;ssl=1 1079w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">&#8220;Ninguém é insubstituível!&#8221;</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muito tempo, em uma galáxia muito distante, eu era um funcionário insolente, que achava que merecia respeito e vivia pedindo aumento. Um dia, a chefa olhou para mim e disse:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Olha aqui, menino, o seu trabalho eu arrumo vinte que fazem igual. Ninguém é insubstituível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo calou fundo. A chefa estava coberta de razão. O mais sensato seria ter tomado consciência da minha insignificância, metido o rabinho entre as pernas e nunca mais pedido aumento. Mas nunca fui uma pessoa sensata: pelo contrário, decidi que nunca mais seria substituível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, já faz décadas que não tenho nenhum vínculo empregatício ou institucional. Ganho meu dinheiro exclusivamente vendendo meu serviço e minha experiência, minha produção e meu conhecimento, para pessoas que me acompanham e me admiram, que querem consumir o meu trabalho porque é o meu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar dos meus imensos privilégios, não cheguei nesse ponto por ser um gênio da raça ou por ter herdado uma fortuna. Foi um longo processo, uma pequena decisão atrás da outra, algumas temerárias, todas necessárias: abdiquei de atividades que, apesar de pagarem bem, qualquer outra pessoa poderia fazer (como a tradução) e me concentrei naquelas pequenas coisas, talvez nem tão lucrativas, onde eu poderia fazer uma verdadeira contribuição pessoal, original, única.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, de manhã cedo, quando acordo com preguiça, quando não estou com vontade de levantar, quando imploro ao universo para me deixar dormir mais um pouco, eu me autorespondo sempre a mesma resposta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não dá pra você não ir. As pessoas pagaram para te ver. Pelo seu trabalho. Você é insubstituível. Agora, aguenta!</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Trabalhar no que se ama</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É hipócrita e elitista defender que &#8220;<a href="https://papodehomem.com.br/em-nome-do-amor/">temos que trabalhar no que amamos</a>&#8220;. Essa possibilidade está aberta para pouquíssimas pessoas. A enorme maioria da população humana, todas pessoas tão incríveis e complexas como eu e você, com um cérebro poderoso e subjetividade profunda, estão fadadas a trabalhar em empregos chatos e repetitivos, entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones. A questão não é se amamos ou não essas atividades remuneradas que executamos, mas se o salário que nos pagam em troca das horas de trabalho é maior ou menor do que tudo que esse emprego nos suga em termos de tempo e energia vital. A questão é se nos resta tempo (realmente) livre e energia vital produtiva para viver nossas vidas plenas de pessoas humanas quando não estamos entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Como ficar rica</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na imprensa internacional, o uruguaio Pepe Mujica era conhecido como &#8220;o presidente mais pobre do mundo&#8221;, por causa de seu estilo de vida simples. Mas, segundo ele, pobres são aqueles que precisam de muito para viver. Sua vida austera teria como objetivo se manter livre:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu não sou pobre. Pobre são aqueles que precisam de muito para viver, esses são os verdadeiros pobres, eu tenho o suficiente. Sou austero, sóbrio, carrego poucas coisas comigo, porque para viver não preciso muito mais do que tenho. Luto pela liberdade e liberdade é ter tempo para fazer o que se gosta. O indivíduo não é livre quando trabalha, porque está submetido à lei da necessidade. Deve-se trabalhar muito, mas não me venham com essa história de que a vida é só isso.&#8221;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Pessoa rica é quem pode comprar tudo o que quer. Existem duas maneiras de conseguir isso: A difícil (e que não é garantida) é trabalhar muito durante toda a vida, vender a alma ao mercado, passar boa parte do tempo realizando os objetivos de outras pessoas em troca de dinheiro, e assim por diante. A fácil (e garantida) é decidir se tornar o tipo de pessoa que não quer comprar quase nada.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="347" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/8-horas-prisao-trabalho.jpeg?resize=500%2C347&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12792" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/8-horas-prisao-trabalho.jpeg?resize=500%2C347&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/8-horas-prisao-trabalho.jpeg?resize=768%2C533&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/8-horas-prisao-trabalho.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A armadilha das oito horas diárias de trabalho</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Oito horas para trabalhar, oito horas para dormir, oito horas para a sua vida pessoal. Parece um trato razoável. Faz sentido. Durmo as oito horas necessárias, dou metade das horas acordadas para o trabalho e, com o dinheiro que recebo, faço o que quero da minha vida com a outra metade. Pena que quase nunca funciona assim, não é?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pra começar, o tempo em que estamos nos preparando para trabalhar e o tempo em que estamos nos recuperando de ter trabalhado é todo subtraído das nossas horas pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Digamos que eu trabalhe das oito às cinco. Preciso acordar às cinco da manhã, para poder preparar meu café da manhã, comer, fazer a barba, tomar banho, me arrumar. Depois, pego a condução às seis. O trajeto demora no mínimo uma hora, às vezes uma hora e meia, às vezes duas. Para garantir que não vou chegar atrasado, tenho que sair duas horas antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só então começam a contar as tais oito horas. Na verdade, nove. Mais um roubo. Aquela hora de almoço também é trabalho. Não posso fazer o que quiser. Estou longe da minha casa, com uma roupa que normalmente não usaria, nada nesse cenário é livre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalmente, cinco da tarde. Agora é hora de esperar mais duas horas, no mínimo, ou vou ser o vagabundo descomprometido que corre pra sair quando acaba o expediente. Saindo do escritório às sete, consigo chegar em casa entre oito e nove da noite. Quase sempre às nove. Aí é hora de tirar a roupa, tomar banho, fazer o jantar, comer, lavar a louça. Tudo isso, feito enquanto me arrasto de cansado, demora cerca de duas horas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às onze da noite, finalmente, estou limpo e bem-alimentado, mas ainda, e cada vez mais, exausto. Eu me deixo cair em frente à televisão e vou assistir alguma série idiota, e meu cérebro vai lentamente se entorpecendo. Antes da meia-noite, eu durmo. Para acordar cinco horas depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada no cenário acima é incomum. Não é uma rotina que seria vista como anormal ou particularmente desagradável. Para a maioria das pessoas trabalhadoras assalariadas, essa é a vida como ela é, a vida como deve ser. A vida é isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, é um cenário de horror. As oito horas que essa pessoa deveria trabalhar simplesmente lhe ocupam o dia inteiro e ainda lhe roubam três horas de sono. Além de não dormir as oito horas necessárias (algo que vai destruir sua saúde a curto, médio e longo prazo), essa pessoa simplesmente não tem nenhuma hora livre. O tempo que ela tem para si mesma não existe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha definição de tempo livre é simples: tempo livre é quando somos capazes de ser produtivas para nós mesmas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, se chegamos do trabalho tão exaustos que não conseguimos fazer nada, a não ser passivamente ver TV, esse tempo não é livre. Esse tempo é do trabalho. Esse tempo é consequência direta e continuação necessária das horas que passamos trabalhando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se saio do trabalho às cinco, caminho meia hora até em casa, onde chego bem-disposto, e depois de comer e tomar banho, e talvez até tirar um cochilo, lá pelas sete eu estou limpa e livre e descansada e pronta para compor uma ópera ou jogar uma partida de tênis, fazer mais uma posição do kamasutra com a esposa ou ler poesia, então sim, esse tempo é livre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo livre é aquele no qual estamos aptas e capazes e atentas para trabalhar nos nossos projetos pessoais, e não mais estamos trabalhando nos projetos pessoais dos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, para isso, precisamos ter um projeto pessoal. Qualquer que seja. Então, quando não estamos realizando os projetos pessoais-jurídicos da empresa para a qual trabalhamos, quais dos nossos projetos pessoais estamos realizando? Aliás, temos projetos pessoais? E, se não temos, por que não temos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, a vida passa muito rápido. Estudo, escola, carreira, vestibular, casamento, filhas, promoção. Nunca temos tempo para parar e pensar. Para ficar meia hora que seja, sozinhas, caladas, pensando. Para descobrir&#8230; quem somos? O que queremos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas&#8230; por quê? Por que nunca temos esse tempo? Por que tudo no mundo em que vivemos é feito para que nunca tenhamos a oportunidade de parar e pensar e descobrir quem somos? As pessoas que sabem quem são e o que querem usam o seu trabalho como uma ferramenta para realizar seus sonhos e projetos. As pessoas que sabem quem são e o que querem são muito, muito mais difíceis de escravizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O pacto do trabalho</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O pacto do trabalho funciona mais ou menos assim. Eu, uma pessoa física, quero fazer muitas coisas. Escrever um romance, morar num barco, conhecer Vancouver. Para fazer essas coisas (vamos chamá-las de &#8220;projetos pessoais&#8221;), eu preciso de dinheiro. Infelizmente, não tenho dinheiro. A ACME, uma pessoa jurídica, quer fazer muitas coisas. Fabricar, vender, anunciar seus produtos. Para fazer essas coisas (vamos chamá-las de &#8220;projetos pessoais-jurídicos&#8221;), ela precisa de corpos. Infelizmente, ela é uma entidade incorpórea.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, fazemos um acordo. Durante algumas horas por dia, em vez de utilizar meu próprio corpo para os meus próprios projetos pessoais (como seria o mais razoável), eu me comprometo a utilizar meu corpo para realizar os projetos pessoais-jurídicos da ACME — como, por exemplo, ter textos bem escritos em seu site, atraindo assim clientes e vendendo mais produtos. Em troca, a ACME me fornece dinheiro para que eu possa realizar os meus próprios projetos pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tem nada de errado com esse pacto. É uma troca complementar na qual ambas as partes saem ganhando. Em um mundo ideal, a ACME consegue o seu site bem escrito e eu fico mais próximo de comprar o meu barco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o pacto <em>só</em> faz sentido se me restar tempo livre o suficiente para realizar também os meus objetivos pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se passo o dia inteiro realizando os projetos da ACME, ou me preparando para realizar os projetos da ACME, ou descansando depois de passar o dia todo realizando os projetos da ACME, ou dormindo para poder no dia seguinte realizar mais projetos da ACME, então&#8230; Para quê estou fazendo isso? Em que momento vou realizar os meus próprios projetos? Se não tenho tempo para realizar meus próprios projetos, de que adianta então realizar os projetos da ACME?</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Se minha vida virou apenas sobrevivência, se eu trabalho só para poder trabalhar mais, então melhor largar tudo e viver de esmola. Sim, eu ganharia menos, mas gastaria menos também. E seria infinitamente mais livre e potente.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando não sou o corpo que a ACME usa para realizar o seu projeto de ter textos bem escritos no site&#8230;. <em>quem</em> eu sou? E se, no próximo dia útil, eu não tivesse mais que realizar os projetos da ACME? E se tivesse o dia só todo para mim, para realizar os MEUS projetos? Quando não estou vendendo minha energia vital para realizar os objetivos da empresa em troca de dinheiro… quem sou eu? Se a minha energia vital e meu tempo fossem subitamente meus (dica: são), o que eu faria? Quais são meus projetos pessoais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quem somos quando não estamos trabalhando?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para muitas pessoas, essa pergunta é difícil. Elas simplesmente não têm a resposta. Não sabem. Nunca pensaram nisso. Estavam ocupadas demais passando no vestibular, cursando medicina, trabalhando sessenta horas por semana, trocando fraldas da filha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse caso, faço uma outra pergunta: Por que não sabemos? Em quais outras coisas ficamos pensando durante toda nossa vida? O que foi que tanto ocupou nosso tempo, nossa cabeça, nossa energia, que nós nunca, nunca tivemos a oportunidade de simplesmente parar e pensar: Quem somos? O que queremos? Quais são nossos projetos? Faz sentido vivermos toda uma vida, cheia de idéias e pensamentos, mas nunca termos pensado <em>nisso</em>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes, basta pensar durante uma hora para resolver essa questão. Não uma hora por dia, ou uma hora por semana, mas <em>uma hora em toda uma vida.</em> Em menos de uma hora, você decide que quer ser padre, ir a lua, fazer todas as posições do kamasutra, ganhar Wimbledon. Em menos de uma hora, você traça por alto um plano para seguir por toda a vida: entrar na melhor escolinha de tênis da cidade; se federar; treinar o backhand o dia inteiro; tentar entrar em uma universidade norte-americana com bolsa de tênis, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, aos doze anos de idade, eu decidi que não queria mais ser desenhista de quadrinhos e sim escritor. Desde então, todas as minhas decisões tem sido em função desse objetivo — por exemplo, não cursei jornalismo, talvez a carreira inevitável para mim, porque pensei que se passasse o dia inteiro escrevendo para um periódico, não teria saco nem energia para meus próprios textos. Depois de tomar minha decisão, nunca mais precisei pensar no assunto. Eu já sabia quem era e onde queria chegar. O resto foi só questão de ir ajustando o GPS um pouco mais pra cá, um pouco mais pra lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A moral da história não é que sou uma pessoa incrível que sabe o que quer. (Não sou.) A moral da história é que não é preciso muito tempo, nem muita maturidade, nem nada, de fato, para se saber o que se quer. Basta sentar, quietinha, um minutinho, em um cantinho&#8230; e <em>se ouvir</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas às vezes vivemos vidas inteiras sem nunca, nunca fazer isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Se pudesse fazer qualquer coisa&#8230; o que você faria?*</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">James Martin se formou no curso de Administração mais prestigiado dos Estados Unidos, em Wharton, e trabalhava de executivo para a GE.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Era tudo muito circular. Eu trabalhava para ter comida, roupas e abrigo, e eu comia, me vestia e dormia para então poder trabalhar mais. Um dia, sentado na minha mesa de trabalho, me lembro de pensar: &#8216;Ninguém em Wharton nunca me perguntou o que eu queria fazer da minha vida ou se tinha mesmo certeza que esse era o caminho.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="327" height="154" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/our-job-is-to-love-other-merton.jpg?resize=327%2C154&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12793"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, assistiu a um documentário sobre a vida do monge trapista Thomas Merton, e, instigado, leu sua autobiografia.** Martin considera esse o momento do seu chamado religioso, da sua vocação eclesiástica. Mas parecia loucura demais. Afinal, ele era um executivo em uma grande empresa! Virar padre lhe soava tão implausível quanto fugir de casa e entrar para o circo. A ideia ficou incipiente. Cada vez mais insatisfeito, com dores de estômago de tanto estresse e ansiedade, começou a fazer terapia. No segundo ano de tratamento, o psicólogo lhe fez uma pergunta :</p>



<p class="wp-block-paragraph">— O que você faria se pudesse fazer qualquer coisa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E Martin respondeu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu seria um padre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bem, e por que não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até aquele momento, Martin tinha somente uma vontade, vaga e difusa, ali no fundo da sua cabeça, no lugar onde os sonhos impraticáveis são escondidos até morrerem de inanição. Mas a pergunta do psicólogo tornou a questão mais imediata e mais concreta. Começou a pensar sobre quais seriam os passos concretos que precisariam ser tomados para tornar-se padre. Se informou e pesquisou. No dia seguinte, já estava no telefone com os jesuítas locais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, o padre James Martin, com seu talento natural para contar histórias, é reconhecido como um dos melhores comunicadores da Igreja. Pregando em um país marcado por um cristianismo economicamente conservador e politicamente retrógrado, o jesuíta é uma das poucas vozes institucionais cristãs a promover mais tolerância religiosa e mais inclusão social. E tudo começou com uma simples pergunta. Que qualquer pessoa pode se fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A história do padre&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CSWGzA">James Martin</a>&nbsp;está em seu&nbsp;<a href="https://amzn.to/434CWUh">In Good Company: The Fast Track from the Corporate World to Poverty, Chastity, and Obedience</a>, publicado em 2010. O&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CSWGzA">Padre Martin</a>&nbsp;é um dos melhores contadores de histórias que conheço, então, recomendo&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CSWGzA">literalmente tudo</a>&nbsp;dele. Até listando seu rol de roupa suja ele é interessante. Atualmente, tem sido a principal voz defendendo direitos LGBT na Igreja Católica. Seu&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CWJREA">novo livro</a>, de 2018,&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CWJREA">Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity</a>, está sacudindo o conservadorismo da Igreja. Meu favorito pessoal é&nbsp;<a href="https://amzn.to/3NXEIm3">My life with the saints</a>, onde ele conta a relação pessoal que tem com os santos de sua devoção.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**Não foi à toa que o monge trapista Thomas Merton virou a vida de James Martin de cabeça pra baixo: ele também é um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos, capaz de tornar qualquer assunto interessante. Eu adoro seus livros sobre o&nbsp;<a href="https://amzn.to/3PERKFZ">zen</a>, sobre&nbsp;<a href="https://amzn.to/3PK7N5L">misticismo</a>, sobre os&nbsp;<a href="https://amzn.to/3CWKgqA">Padres do Deserto</a>. Ainda quero ler sua autobiografia,&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/439LglV">A montanha dos sete patamares</a></em>, que dizem ser sua obra-prima. Ele morreu eletrocutado por um ventilador de chão na Tailândia em 1969.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">A gente não quer o que a gente quer</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, largar um mundo corporativo canalha e ganancioso (mas que paga super bem!) e entrar em uma ordem religiosa (que exige votos de castidade, obediência e pobreza) é muito difícil. Por outro, também não queremos ser como todos os nossos colegas, que parecem chafurdar felizes e satisfeitos na ganância corporativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, nossos egos escolhem um instável meio-termo: nos tornamos aquelas pessoas que vivem e trabalham no mundo corporativo ganancioso e canalha, operando de acordo com as prioridades desse mundo e recebendo as recompensas que esse mundo oferece, ao mesmo tempo em que sonhamos com um outro mundo, esse sim o nosso mundo verdadeiro, esse sim o mundo onde estaríamos vivendo agora, sabe&#8230; se tivéssemos escolha!</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Um dia, eu vou, hein! Vocês vão ver! Largo essa podreira aqui e entro pra um mosteiro! Enquanto isso, deixa eu calcular qual será o meu bônus anual para o próximo exercício&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não queremos ser padres, ou escalar o Himalaia, ou escrever um romance.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Queremos ser o executivo que quer ser padre, a médica que quer escalar o Himalaia, a jornalista que quer escrever um romance.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Queremos é estar satisfeitas com nossos egos e, ao mesmo tempo, evitar qualquer mudança efetiva de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Queremos é construir uma auto-identidade que seja confortável e não dê trabalho.</p>



<figure class="wp-block-image size-medium"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="332" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/its-a-trap-2023-prisao-trabalho.jpg?resize=500%2C332&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12794" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/its-a-trap-2023-prisao-trabalho.jpg?resize=500%2C332&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/08/its-a-trap-2023-prisao-trabalho.jpg?w=649&amp;ssl=1 649w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Quais sapos queremos engolir?</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No encontro &#8220;As prisões&#8221;, sempre faço essas perguntas. Quem somos. O que queremos. O que faríamos se pudéssemos fazer qualquer coisa. E uma moça um dia respondeu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Eu queria ser bióloga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perguntei de volta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E por que não? O que está te impedindo de ser bióloga agora?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela contou sua história: trabalhava como assistente pessoal de uma juíza, um emprego sem criatividade alguma, mas que pagava bem, vinte mil reais por mês, e lhe permitiu juntar boas economias. Os filhos já estavam criados. O salário do marido sozinho segurava a barra das contas da casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Então, − insisti, − o que te impede de entrar pra uma faculdade de biologia agora?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No instante depois de articular o seu sonho — ser bióloga — ela começou a sistematicamente torpedeá-lo por todos os lados, listando literalmente tudo que poderia dar errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, você não entende. O meu marido consegue segurar as contas da casa, mas eu teria que parar a ioga, e adoro a ioga. A melhor faculdade da cidade — eu só faria se fosse essa — é longe, eu teria que pegar dois ônibus. Ou ir de carro, mas odeio dirigir. Teria que estudar um pouco de matemática, sempre fui péssima em matemática, não sei se consigo. − Etc, etc. E concluiu: − Acho que é impraticável pra mim ser bióloga&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E quais são as coisas que você não gosta no seu emprego?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, porra, passo o dia inteiro correndo atrás da juíza, organizando a vida da juíza, levando patada da juíza, recebendo telefonemas da juíza nas piores horas. É como se eu fosse mãe de uma bebê de sessenta anos de idade que tem cólica o dia todo e reclama por tudo. Uma merda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu disse:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, acho que é impraticável pra você ser assistente pessoal de juíza, então&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos todas, ao mesmo tempo, tanto a dentista entediada quanto também a artista plástica que poderíamos ter sido; ou a artista plástica pobretona e também a dentista que poderíamos ter sido. Conheço muitas dentistas (e contadoras e bancárias e etc) que adoram fantasiar sobre a vida livre e interessante que estariam levando se tivessem mergulhado de cabeça nas artes plásticas (ou na poesia ou no teatro ou etc). Conheço muitas artistas plásticas (e atrizes e poetisas e etc) que também adoram fantasiar sobre a vida segura e confortável que estariam levando se tivessem mergulhado de cabeça na odontologia (ou na contabilidade ou nas ciências atuariais ou etc). De fato, algumas dentistas teriam sido excelentes poetisas. De fato, alguns poetisas talvez devessem ter se dedicado à odontologia. Mas quais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo dia, comparo minha vida incerta à das amigas que desfizeram a banda da pós-adolescência e se dedicaram à estatística, e penso: de fato, eu não trocaria minha vida pela delas. Entretanto, antes de cair naquela tentação tão vaidosa de me gabar de minha ó-tão-interessante &#8220;vida de artista&#8221;, faço questão de me lembrar do seguinte: Se eu não trocaria a minha vida pela delas&#8230; elas também não trocariam suas vidas pela minha. Cada escolha de vida tem delícias e custos que só conhece quem as escolheu. Toda escolha tem ônus e bônus que só sabe quem a escolheu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o preço de ser bióloga é largar a ioga ou pegar dois ônibus, o preço de ser assistente de juíza é aturar uma bebezona de sessenta anos. De um modo ou de outro, pagamos sempre o preço das nossas escolhas. A conta sempre vem. Cabe a nós escolher: Queremos engolir os sapos de termos encampado os nossos sonhos, de termos seguido a carreira que sempre desejamos? Ou queremos engolir os sapos da carreira chata &#8220;que papai mandou&#8221;, porque &#8220;dava dinheiro&#8221; e era &#8220;a mais segura&#8221;?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Engolir sapos não é opcional. Mas, sim, podemos escolher quais sapos queremos engolir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">Conclusões</mark></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos motivos que nos leva a querer trabalhar tanto para juntar tanto dinheiro é uma busca desesperada pela pretensa segurança da autossuficiência. Afinal, ninguém quer depender dos outros, não é? Como posso &nbsp;ser livre se não sou independente?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa ânsia por autossuficiência não é acidental: apesar de sermos uma espécie gregária, apesar de nosso maior superpoder ser nossa capacidade única de nos unirmos para trabalharmos juntas em prol de objetivos comuns, o capitalismo nunca para de nos vender a autossuficiência como uma das qualidades mais importantes da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é difícil de entender o porquê. Quem está inserido em sua comunidade, quem dispõe de uma extensa rede de apoio, pode resolver seus problemas comunitariamente – eu pinto sua parede, você me leva no aeroporto. Entretanto, se somos autossuficientes, ou seja, se estamos isoladas, todos os serviços precisam ser comprados, do Uber ao Marido de Aluguel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como parte da ideologia capitalista, a sociedade nos vende um ideal de autossuficiência individual que, além de impossível e indesejável, nos impede de enxergar a interdependência de todos os seres. Somos intensamente gregárias: não temos como não nos importar com a opinião das pessoas à nossa volta, não temos como não ser influenciadas e pautadas por elas. Mas temos sim como escolher quem serão essas pessoas que estarão a nossa volta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levado ao extremo, entretanto, esse anseio por autossuficiência pode se tornar uma ânsia, uma sofreguidão, uma avidez, que acaba por corroer nossos relacionamentos, minar nossas comunidades, destruir nosso planeta. A autossuficiência se torna uma prisão quando, por ser tão autoevidente e inquestionável, deixamos de perceber que existem alternativas mais coletivas, mais comunitárias, menos egoístas para organizarmos nossas vidas, nossas economias, nossos amores. A autossuficiência também se torna uma prisão quando, por sermos tão constantemente oprimidas pelas outras pessoas, almejamos um modelo impraticável de autossuficiência emocional: queremos ser a mítica pessoa que não se importa com a opinião de ninguém, quando poderíamos facilmente escolher nos rodear por pessoas cujas opiniões nos importam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É desejável sermos tão autossuficientes? Aliás, é possível? E o que se perde nessa busca por uma impossível, indesejável autossuficiência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é o tema da próxima Prisão, Autossuficiência.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd35c567c-7731-485d-af25-13eb435bcaed_595x562.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Série “As Prisões”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-trabalho">Trabalho</a></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left">O Curso das Prisões</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Curso em resumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que são As Prisões</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Funcionamento</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 19h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Aulas gravadas indefinidamente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sem leituras</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12771" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Professor</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em>Mentiras Reunidas</em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong>Meus votos zen-budistas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="compre"><strong>Compre</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list">
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</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Dúvidas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aulas em resumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12678" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
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		<title>Prisão Respeito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Jul 2023 03:12:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
		<category><![CDATA[obediência]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[prisão respeito]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://alexcastro.com.br/?p=12757</guid>

					<description><![CDATA[Ser uma pessoa adulta é finalmente aprender a impor limites e dizer “não”. Não apenas ao pai e à mãe, mas à Autoridade de modo geral. Ao Mundo.

]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A Autoridade sempre impõe não só o respeito e a obediência como virtudes autoevidentes, mas também um script da vida bem-sucedida. Acreditar nessa narrativa pode nos impedir de enxergar outras possibilidades, outros caminhos, outros scripts. Mas só temos como nos libertar dessa Autoridade quando percebemos que ela não é o Estado, ou nenhuma grande instituição, mas sim nós mesmas, infinitamente vigiando e punindo umas às outras.</p>



<span id="more-12757"></span>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Respeito. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão Respeito é a quinta , depois das Prisões&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a>,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo/">Patriotismo</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em></p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Introdução à Prisão Respeito</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos nosso percurso na<a> </a><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Prisão Verdade</a>, onde concluímos que não existe essa Verdade assim com V maiúsculo: mais importante são as certezas que construímos nós mesmas. Depois, na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Prisão Religião</a>, problematizamos essas certezas, pois percebemos que foram determinadas pelas ideologias através das quais apreendemos a realidade. Até aqui, estávamos falando de epistemologia, ou seja, da teoria do conhecimento. Agora, começamos a falar de identidade: nas Prisões <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a>, nos damos conta que essa ideologia pela qual apreendemos a realidade não foi escolhida por nós, nem, em larga medida, pode ser des-escolhida, mas é fruto dos grupos onde nascemos e crescemos, dos quais os mais importantes e influentes são nossa classe social e da nossa nacionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, na Prisão Respeito, a pergunta é: o que devemos a esses grupos que nos circundam, nos possibilitam, nos moldam, nos limitam? Devemos respeito? Devemos obediência? O sucesso é um conceito social: ser bem-sucedido, em larga medida, é atingir os objetivos e parâmetros que nosso grupo determina como desejáveis. (Em algumas sociedades, o ideal de beleza é ser magra, em outras, gorda, etc.) Mas como podemos ser bem-sucedidas na vida se estamos em conflito aberto com as expectativas, com as regras, com os costumes de nosso grupo? Se desrespeitarmos os costumes ou se desobedecermos as leis do nosso grupo, qual é o preço que teremos que pagar? Vale a pena? Existe vida fora do grupo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos macaquinhas gregárias: a evolução não nos preparou para nada tão bem quanto para funcionarmos em grupo, eternamente catando piolhos umas das outras, mas também vigiando e fiscalizando nossos comportamentos. Todo grupo, por sua própria natureza, mesmo os melhores, os mais livres, os mais liberais, tende a consumir, deglutir, dominar os indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um primeiro momento, cabe a nós a disciplina de não atuarmos como polícia secreta do grupo. Uma pergunta que sempre vale a pena fazermos para nós mesmas: por que esse comportamento da outra pessoa me incomoda tanto? E daí que ela quebrou essa ou aquela regra social? E daí que ela escolheu viver diferente de mim? Isso me afeta? Isso me ameaça?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais ativamente, entretanto, cabe a nós termos não só a força de caráter para dizer “não” a algumas das demandas do grupo, estabelecendo assim um espaço inviolável para nossa individualidade, como também, depois disso, termos a serenidade de aceitarmos o preço que será inevitavelmente cobrado.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/faddd661-d146-453e-9531-934dd4fe285c_853x853.jpg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12758" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/faddd661-d146-453e-9531-934dd4fe285c_853x853.jpg?w=853&amp;ssl=1 853w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/faddd661-d146-453e-9531-934dd4fe285c_853x853.jpg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/faddd661-d146-453e-9531-934dd4fe285c_853x853.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/faddd661-d146-453e-9531-934dd4fe285c_853x853.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A potência de um “não” salva vidas, porque todo “não” também é um “sim”: falamos “não” (por exemplo) à obrigação social de sermos monogâmicas&#8230; para podermos falar sim para os novos tipos de relações não-monogâmicas que desejamos viver. Não temos como fugir dos nossos instintos gregários, da nossa necessidade de pertencimento ao grupo&#8230; mas podemos mudar de grupo. Dizer “não” a um grupo é dizer “sim” a outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa pequena, importantíssima, inalienável margem de manobra, está a nossa possibilidade de potência individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Somos as vítimas e somos as algozes</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://alexcastro.com.br/roberto-freire/">Roberto Freire</a> era médico psiquiatra. Uma vez, ao tratar um paciente homossexual, ele se deu conta de que nada adiantava curar os danos psíquicos que a sociedade homofóbica fizera àquela pessoa somente para depois soltá-la no mesmo mundo homofóbico que tinha lhe adoecido. De uma maneira bem real, a única maneira de curar a doença daquele único paciente era curar a doença de toda a sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois, em sociedade, existem regras. Todas sabemos que o ideal é que sejamos heterossexuais, monogâmicas, religiosas; que tenhamos casa própria, automóvel na garagem, emprego em tempo integral; que mulher deve usar cabelo longo e homem, curto; que pelo entre a boca e o nariz do homem se chama bigode e é bonito, na mulher, o <em>mesmo</em>pelo se chama buço e é feio; e etc etc literalmente infinitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sabemos quem foi o tirano ditador que inventou essas regras<em> (que não deixam de ser concretas por não serem escritas) </em>mas sabemos perfeitamente quem é a polícia secreta dessa ditadura, quem são os agentes repressores encarregados de implementar essas regras opressivas e aleatórias: somos nós mesmas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tirano ditador, por não ter existência concreta, não tem como fisicamente impor sua vontade sobre nós. Para exercer sua opressão, ele precisa nos converter, ao mesmo tempo, em vítimas e algozes, eternamente julgando e condenando umas às outras, sempre implementando suas regras, seus julgamentos, suas leis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso maior desafio de pessoas éticas e de cidadãs responsáveis é, em primeiro lugar, deixarmos de trabalhar para a polícia secreta desse ditador <em>(ou seja, pararmos de oprimir as pessoas a nossa volta)</em> e, em segundo lugar, escaparmos nós mesmas de seu controle opressivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo sobre esse tirânico ditador há vinte anos. Escolhi chamar suas diferentes manifestações de <a href="https://alexcastro.com.br/prisoes">Prisões</a>: são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem-sentido. Tudo que é quase unânime em nossa cultura provavelmente sempre foi ou se converteu em uma “prisão”: Dinheiro, Trabalho, Monogamia, Religião, Patriotismo, Respeito, Felicidade, Autossuficiência, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os grandes crimes da humanidade, as piores crueldades, os genocídios e os massacres, foram todos cometidos por pessoas obedientes e cheias de certezas. As pessoas rebeldes, as pessoas incertas, as pessoas do contra, as pessoas confusas, essas podem até fazer muita besteira, mas não marcham em uníssono ao som de tambores. Desde o Julgamento de Nuremberg, &#8220;estar só obedecendo ordens&#8221; já não é mais defesa para ninguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Autoridade (Estado, família, escola, etc) sempre vai querer decidir o que é melhor para nós. Mas temos sim a liberdade de dispor de nossas vidas como quisermos. A opção é entre viver a vida que escolheram pra nós, e pagar o preço, ou viver nossa vida nos nossos próprios termos, e pagar o preço. A ilusão que nos imobiliza é enxergarmos muito claramente o preço que pagamos pela segunda, mas naturalizarmos o preço da primeira. Se já parto do princípio que ficar horas em deslocamento para passar quase todo meu dia num cubículo realizando objetivos que não são meus em troca de um dinheiro que mal dá para eu sobreviver em uma vida na qual nunca sobra tempo para os meus projetos é a “vida normal”, então todas as dificuldades de qualquer modelo alternativo a esse, ou seja, de uma “vida anormal”, serão vistas como irrazoáveis e intoleráveis. Todo mundo sabe quais são as dificuldades da vida de artista: ninguém fala das dificuldades de vida de não-artista. Naturalmente, as opções não são só “se escravizar num escritório” ou “ser artista”. Cabe a cada uma de nós explorar as infinitas possibilidades que nos estão abertas entre ambos extremos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Um “não” desmonta o mundo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como dizia o <a href="https://amzn.to/3XtkFPg">Oscar Wilde</a> apócrifo que trago introjetado dentro de mim: &#8220;Adoraria ir a sua festa, mas, infelizmente, não quero.&#8221;*</p>



<p class="wp-block-paragraph">A novela <em><a href="https://amzn.to/3NQKEgs">Bartleby, o escrevente</a></em>, de <a href="https://amzn.to/42WN9SM">Herman Melville</a>, o mesmo autor de <em><a href="https://amzn.to/43Z0Q55">Moby Dick</a></em>, mostra um funcionário que finalmente aprende a dizer&#8230; não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bartleby, pode ficar até mais tarde?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Prefiro não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bartleby, pode ir buscar uma coisa ali na esquina?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Prefiro não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gavin deBecker, em seu livro <em><a href="https://alexcastro.com.br/virtudes-medo-de-gavin-de-becker-minha-mais-urgente-recomendacao-de-leitura/">As virtudes do medo</a></em>**, enfatiza que &#8220;não&#8221; é uma frase completa. Um &#8220;não&#8221; sozinho já se basta. Reparem a diferença entre:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Quer sair comigo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, hoje estou ocupada&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ok, então, quando desocupar, rola?</p>



<p class="wp-block-paragraph">ou</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, peguei uma gripe&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Assim que sarar, então, tá valendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">e</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Quer sair comigo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, obrigado, prefiro não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como rapidamente aprendem as mulheres nesse nosso mundo machista, qualquer coisa dita depois do &#8220;não&#8221; já transforma sua negativa em negociação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já faz muitos anos, parei de dar desculpas. Sou adulto, vacinado, pago minhas contas. Portanto, tirando uma ou outra obrigação, me parece natural que eu só faça o que eu quero. E, consequentemente, se me convidam para algo e eu digo &#8220;não quero&#8221;, isso deveria encerrar qualquer discussão, sem eu precisar me explicar, apelar para outros compromissos, inventar justificativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, nada disso é natural, pois cada vez que eu recuso um convite dizendo simplesmente &#8220;não, obrigado, não quero&#8221; isso é uma quebra tão grande das expectativas que parece que as pessoas à volta ficam totalmente sem resposta, não acreditam, acham que não ouviram direito, pedem pra repetir. E eu repito, sempre no tom mais bem educado possível:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Quer ver uma foto linda da minha netinha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, não quero, não, obrigado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Aaahh, da próxima vez que você for à praia me chama pra gente ir junto!</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ahh, nah, quero não, mas obrigado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou então:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Alex, quer traduzir esse texto aqui pra mim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Pô, cara, quero não, mas obrigado por perguntar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E também:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Meu filho, vamos visitar seu avô?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Valeu pelo convite, mãe, mas não quero não. Boa visita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, quase sempre, a pessoa fica tão desarticulada pela negativa que insiste:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, tem certeza? Vamos sim. Vai ser legal. Deixa de ser chato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aí quem fica chocado sou eu e respondo em um tom um pouco mais duro:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Perdão, mas dado que eu manifestei claramente que não quero, qual é o sentido de insistir? Você quer realmente que eu te acompanhe contra a minha vontade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse nosso desrespeito pelo não alheio, mais brasileiro que jaboticaba, é algo que muitas pessoas estrangeiras morando no Brasil demoram a se acostumar. Como me contou um amigo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Na minha terra, digo &#8216;não, obrigado, não quero&#8217; e todo mundo respeita. Aqui no Brasil, todo e qualquer &#8216;não&#8217;, mesmo se falado da maneira mais delicada possível, é sentido como uma ofensa, a pessoa fica ferida, magoada, pode até afetar a amizade. A única maneira de evitar o insulto é efetivamente convencendo a pessoa de que minhas razões são fortíssimas, inadiáveis, inapeláveis. É uma coisa muito louca: eu me pego, todo dia, argumentando para pessoas que eu às vezes nem conheço que eu tenho sim o direito de não ir aos lugares onde eu não quero ir!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é questão de ser sincero. Às vezes, eu não quero ir porque não estou a fim, porque estou num dia ruim, qualquer um de mil motivos pessoais. Noutras vezes, eu não quero ir porque me será um sacrifício passar horas com aquela pessoa que considero chata, desagradável, tediosa. De um modo ou de outro, não me considero obrigado a dar satisfações sobre os motivos de eu estar livremente exercendo meu direito de ir e vir. Se considero algumas pessoas insuportáveis, nunca vou magoá-las com essa triste verdade, mas também não vou lhes oferecer meu corpo e meu tempo em holocausto no altar da sua chatice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é questão de não ser empático ou de não dar atenção. Existem sete bilhões de pessoas no mundo. Não tem como dar atenção para todas: é preciso escolher, os critérios sempre serão pessoais e cada pessoa terá os seus, baseados em suas vivências, em seus traumas, em suas biografias. O mais importante é eu ter claro para mim que o meu tempo só pertence a mim e que é o meu bem mais precioso, o único bem realmente não-renovável. Ninguém tem direito ao meu tempo: eu o compartilho com quem eu quiser. As pessoas confundem muito &#8220;ter empatia&#8221; com &#8220;se deixar subjugar&#8221; ou &#8220;obedecer&#8221;:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ai, Alex, como você pode dizer não assim na lata pro Fulano? Você não sabe como ele é carente? Você não sabe como ele vai sofrer?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu ter empatia por ele, eu conhecer sua biografia e as circunstâncias familiares que lhe tornaram carente, eu saber a dor da pequena rejeição que estou lhe causando&#8230; nada disso quer dizer que eu tenha obrigação de lhe ceder meu tempo. Talvez eu tenha decidido que tem outras pessoas que eu posso ajudar mais. Talvez eu ache que ele precise de ajuda mas que eu não sou a pessoa certa. Talvez eu só não esteja a fim, porque ninguém é de ferro. Todo assassino em série teve uma infância difícil. Imaginem quanto sofreram os filhos do Bolsonaro. Nada disso justifica nos entregarmos a essas pessoas em sacrifício.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, alguém sempre me fala:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Se você falar não pra tudo, vai perder todos os seus amigos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas de que servem amigas que não respeitam as minhas vontades? Quanto mais velho eu fico e quanto mais pessoas chatas eu vou deixando pelo caminho, mais eu me encontro cercado por pessoas verdadeiramente incríveis, pessoas com as quais eu me sinto plenamente visto, ouvido, contemplado, respeitado. Isso não tem preço.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Juro que me lembro de ter lido essa boutade do Wilde em algum momento, mas não consegui encontrar. Se alguém descobrir, por favor, me fale.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**O livro <a href="https://alexcastro.com.br/virtudes-medo-de-gavin-de-becker-minha-mais-urgente-recomendacao-de-leitura/">As virtudes do medo</a>, de Gavin deBecker, sobre como se prevenir contra violência, já salvou a minha vida e a de algumas pessoas queridas também. É o livro que mais presenteei ao longo dos anos. Se você só aceitar uma recomendação minha de leitura, aceite essa. Vale em dobro para quem é mulher.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color"><em>On the road</em>, de Jack Kerouac: a celebração de um “não”</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O livro <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a></em> (1957), de Jack <a href="https://amzn.to/3Pzl5C2">Kerouac</a>, é um dos clássicos mais deslidos de todos os tempos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A coisa mais cruel que se pode fazer com <a href="https://amzn.to/3Pzl5C2">Kerouac</a> é relê-lo aos 38,” zoou o escritor britânico <a href="https://amzn.to/3CNSiC7">Hanif Kureishi</a>, em <em><a href="https://amzn.to/3CReECM">O Buda do subúrbio</a></em>. Eu, por acaso, reli <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a></em> aos 38. Minha primeira leitura tinha sido aos 29, quando já não estava mais na idade de acampar, pegar carona ou outras coisas que aliás nunca fiz, nem aos dezoito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando temos dezoito, ainda não sabemos fazer nada direito, nem ler, nem transar, nem coisa nenhuma. <em>(Dica: já que não podemos voltar no tempo e retransar nossas transas toscas dos 18, podemos ao menos reler os livros que lemos.) </em>Então, aos 18, quando fazemos tudo de forma superficial e apressada, quando estamos loucas para pegar o carro e sumir, é fácil ler o romance de <a href="https://amzn.to/3Pzl5C2">Kerouac</a> como uma celebração desse espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais tarde, aos 38, quando a vida já sugou nosso espírito e nossa energia, quando olhamos com pena e escárnio para nossa <em>persona</em> de dezoito, quando fazemos pouco de seus sonhos e esperanças sem nos dar conta que não conseguimos acrescentar melhores sonhos e esperanças nesse meio tempo, então, é fácil lembrar somente de nossa desleitura adolescente de <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a> </em>e usar isso para menosprezar o livro:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Rá, só um livro bobão e pueril sobre jogar pro alto as responsabilidades e pegar a estrada! Não tenho mais tempo pra isso! Minha vida hoje é muito melhor! Tenho três filhos de dois casamentos, uma hipoteca da casa, trabalho dezesseis horas por dia e devo dez mil no cartão de crédito, mas, se Deus quiser e meu coração deixar (estou com a pressão meio alta, sabe?), em vinte anos eu consigo minha aposentadoria, vou comprar aquela casinha em Iguaba Grande e, aí sim, vocês vão ver, eu vou ser feliz!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, justamente, <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a></em> é um clássico da literatura universal por não ser apenas isso. Sal Paradise e Dean Moriarty, os personagens principais, são da geração de nossos avós e bisavós. Nós, as gerações seguintes, com tanta coisa melhor pra fazer, com iPorras e iPulhas, não continuaríamos lendo sobre as farras de nossos bisavós se elas também não dialogassem diretamente com a nossa experiência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A intenção de <a href="https://amzn.to/3Pzl5C2">Kerouac</a> provavelmente era sim fazer uma celebração da estrada. Se tivesse sido bem-sucedido, provavelmente não estaríamos falando dele hoje. Porque todo grande livro é mais inteligente que seu autor. Toda grande obra contém em si o seu próprio contradiscurso. Toda grande narrativa sempre se constrói em torno de uma fratura estrutural que ameaça lhe demolir. É essa tensão que atrai os leitores, que nos faz voltar ao livro sempre renovados, que nos faz ler e reler, emprestar e resenhar, recomendar aos filhos e aos alunos. Esse é o ciclo de vida de uma obra. Só os livros que causam esse tipo de engajamento conseguem sobreviver de uma geração para a outra, e se tornar clássicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, por um lado, <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a> </em>é a história de Sal Paradise, um escritor certinho de Nova Iorque, que encontra o malucão Dean Moriarty, e sai loucamente com ele pelas estradas da América do Norte. É a celebração da estrada, um elogio à liberdade, um chamado para que todos saiam de suas casas e sumam por aí. Eba!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, por outro lado, <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a> </em>é exposição, progressiva e sistemática, desse exato contradiscurso. Apesar de idolatrar Dean, até mesmo Sal vai percebendo que ele é um canalha, egocêntrico, narcisista que só se preocupa consigo mesmo; que usa as pessoas como se fossem objetos – carteiras, especialmente; que não tem pudor nenhum em descartá-las quando lhe dá na telha. Ao longo do livro, várias pessoas, inclusive o narrador, são atraídas pela energia e força vital de Dean&#8230; até perceberem que essa energia e força vital está sendo sugada delas mesmas: como um vampiro, Dean se alimenta dos seus fãs. Suga até o caroço e depois cospe fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, Sal diversas vezes larga a estrada e volta para Nova York, para o rabo de saia da mãe, para o ambiente familiar e seguro onde pode viver e trabalhar. A estrada pode até ser boa, parece dizer o livro, mas não por muito tempo: bom mesmo é uma casa tranquila e uma mãe companheira. Até que, mais uma vez, Sal fraqueja, fica de pau duro por Dean, ambos pegam a estrada, Sal quebra a cara, volta pra Nova York. O livro acontece nesse movimento pendular. Na prática, como <em><a href="https://amzn.to/3CS7tde">O processo</a></em>, de <a href="https://amzn.to/46o70x3">Kafka</a>, <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a></em> poderia continuar <em>ad eternum</em>, em uma infindável sucessão de idas e vindas, mas o livro só termina mesmo quando Sal finalmente supera Dean.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O final de um livro revela seu enredo. Por isso, é sempre interessante reparar onde as narrativas começam e terminam, pois essas balizas nos revelam qual é a história sendo contada – algo nem sempre óbvio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo: o que os últimos seis capítulos do <em><a href="https://amzn.to/46oK5BO">Senhor dos Anéis</a></em> revelam sobre o plano geral do livro? Afinal, a história poderia ter acabado com a destruição do anel e a vitória sobre Mordor, não? Seria até um final natural&#8230; Por que então o autor escolheu não terminar o livro ali? Se o <em><a href="https://amzn.to/46oK5BO">Senhor dos Anéis</a></em> não é a história da vitória sobre Sauron&#8230; é a história do quê? A adaptação cinematográfica de Peter Jackson é incrível, quase um milagre, na verdade, mas <a href="https://amzn.to/3NPYmQH">Tolkien</a> teria odiado – como <a href="https://amzn.to/3CMhwAN">Stephen King</a> odiou a adaptação de Kubrick para <em><a href="https://amzn.to/46nsIkT">O iluminado</a></em> – porque, ao omitir o final que <a href="https://amzn.to/3NPYmQH">Tolkien</a> considerava dar sentido à toda obra, Jackson estava efetivamente contando <em>outra</em> história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a> </em>começa com Sal conhecendo Dean e termina no momento em que ambos se esbarram na rua, em Nova York, Dean chama “vem”, e Sal, escaldado, responde “não, obrigado, estou com amigos, a gente se vê.” Em literatura, tudo é contexto. Então, cabe ressaltar que essa cena não é mostrada como “a derrota de Sal” ou “vejam como Sal ficou careta”, “a vida derrotou Sal”, “o bobão do Sal ficou pra trás enquanto Dean ganhou o mundo”, etc. Pelo contrário, o que a cena mostra é: Dean está só, depois de passar a vida usando e abusando de todos; e Sal, nosso alter-ego, está sábio o suficiente para não mais se deixar vampirizar. E, nesse momento, termina o livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, <em><a href="https://amzn.to/3JBdFKr">On the road</a></em> é não uma celebração da estrada <em>(se fosse, o livro terminaria com todos alegremente ainda dirigindo pelo país) </em>mas sim a história do amadurecimento de Sal Paradise. De como ele finalmente aprendeu a dizer “não”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">&#8220;Minha vida toda teria sido outra. Bastava ter dito não.&#8221;</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um amigo, contando sobre suas escolhas profissionais:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Eu queria fazer Artes Cênicas, mas meu pai, que nunca me obrigou a nada, ficou insistindo pra eu fazer Direito, que Direito dava dinheiro, que Direito era mais seguro, que com Direito eu poderia fazer muitas coisas, e falou e falou, argumentou e insistiu, sem parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E o que você fez? − perguntei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Cedi. Fiz Direito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− É uma tática, falei. Ele encheu seu saco e você, pra se livrar da chateação, cedeu e fez o que ele quis. Funcionou?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, eu queria fazer penal, mas meu pai, que é super compreensivo e bem intencionado, ficou insistindo pra eu fazer Direito Tributário, porque Tributário é que dava dinheiro, porque Penal tem que ficar lidando com bandidos, que Tributário todas as empresas precisam, que ele tinha amigos nessa área, etc etc, falou e falou, argumentou e insistiu, sem parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E o que você fez? − perguntei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Cedi. Fiz Tributário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− É uma tática, falei. Ele encheu seu saco e você, pra se livrar da chateação, cedeu e fez o que ele quis. Funcionou?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, eu queria trabalhar no Tributário de uma ONG, ajudar o mundo e coisa e tal, mas meu pai, que sempre só quer o meu bem e me ajuda muito, ficou insistindo para eu trabalhar no escritório do amigo dele, que era muito maior e mais sólido, onde eu teria um plano de carreira, onde eu prestaria serviços para as maiores e mais lucrativas multinacionais do mundo, etc etc, falou e falou, argumentou e insistiu, sem parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E o que você fez? − perguntei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, aí eu rodei a baiana, né? Eu disse, porra, pai, já tenho 30 anos, sou formado em Direito, vou trabalhar onde eu quiser, caralho!</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E aí? Ele te deserdou? Deu na sua cara? Cometeu suicídio de tanto desgosto?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não. Ele falou, tá bem, meu filho, claro, é a sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficamos um pouquinho em silêncio e ele mesmo continuou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E eu pensei: putz, se tivesse falado isso dois anos antes, teria feito Penal e não Tributário. Se tivesse falado isso cinco anos antes, teria feito teatro e não Direito. Se eu soubesse que podia dizer não, nunca teria terminado o namoro com a Paulinha, nunca teria me forçado a ir à igreja, nada disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E completou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Minha vida toda teria sido outra. Bastava ter dito não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Respeito é uma via de mão dupla</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando escrevo sobre obediência, muitas pessoas respondem com uma variação de:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Eu obedeço meu pai/meu professor/minha esposa/etc&#8230; por respeito!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em algumas hierarquias, já entramos voluntariamente e de olhos bem abertos: ao aceitar o emprego de gerente do Banco do Brasil, ou me alistar tenente da Marinha, sabemos que teremos que obedecer ao vice-presidente e ao vice-almirante, etc. Além disso, reconhecendo ou não o <a href="https://amzn.to/3Jp66Xs">Contrato Social</a>, obedecemos ao policial militar porque ele de fato tem o poder de nos matar ou nos prender. Fora dessas situações bem específicas, ninguém tem o direito de mandar em nós. Apesar disso, todo dia, o dia todo, é surpreendente a quantidade de ordens, implícitas e explícitas, que recebemos de nossas mães e de nossos maridos, dos seguranças de shopping e das colegas de trabalho. Então, quando alguém me dá uma ordem, eu até poderia &#8220;obedecer por respeito&#8221;. Mas uma pessoa que me dá uma ordem que ela não tem direito de dar é uma pessoa que não me respeita. E não obedeço quem não me respeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também sempre escuto variações da seguinte história:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não pude fazer faculdade de Letras porque meu pai me obrigou a fazer Engenharia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse caso, existem duas alternativas: ou o pai aceita as escolhas do filho e fica feliz por ele, seja cursando Artes Cênicas ou Direito; ou o pai não respeita as escolhas do filho e só lhe amará e aceitará se fizer o que ele quer. Nesse último caso, como o pai não respeita o filho, eu diria que o filho está automaticamente liberado de respeitar o pai. Afinal, respeito é uma via de mão dupla.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Ser adulto é dizer “não” e pagar o preço</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ser uma pessoa adulta é finalmente aprender a impor limites e dizer “não”. Não apenas ao pai e à mãe, mas à Autoridade de modo geral. Ao Mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que falo de pai não estou falando realmente de pai. Nosso pai e nossa mãe são apenas as primeiras autoridades com as quais temos que lidar. Depois, vêm professoras, chefas, coleguinhas, revistas femininas, padres, comédias românticas, etc, todas sempre tentando nos impor o mesmo roteiro preestabelecido: temos que ser monogâmicas, heterossexuais, religiosas, fazer universidade, trabalhar em tempo integral, namorar, casar, ter filhos, comprar casa, etc etc. Muitas vezes, basta uma única discordância para sentirmos todo o peso da reprovação social sobre nós. <em>(Perguntem a qualquer mulher que siga todo o acima mas que, pasmem!, não tenha filhos.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, só nos tornamos adultas quando finalmente aprendemos a impor limites e dizer “não”: que aceitamos, por exemplo, que o mundo nos diga que temos que vestir gravata no tribunal ou usar cinto de segurança no carro, mas que não aceitamos que nosso pai nos imponha uma carreira, ainda que tenha nos sustentado no passado, ou que nosso chefe nos imponha trabalho no fim de semana, ainda que nos sustente hoje. É estabelecer, com serenidade e sem rebeldia, que aceitamos ingerência externa somente até certo ponto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O preço da desobediência</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1846, o escritor norte-americano <a href="https://amzn.to/3PAqOYe">Henry David Thoreau</a> foi preso por não pagar impostos. O dinheiro seria usado para financiar a Guerra Mexicano-Americana — talvez o maior crime da política externa dos Estados Unidos, uma disputa acirrada. <a href="https://amzn.to/3PAqOYe">Thoreau</a> escreveu, em <em><a href="https://amzn.to/3XAqP0g">Desobediência Civil</a></em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu me recuso a jurar lealdade ao Estado. Custa menos pra mim suportar a punição do que obedecer. Eu valeria menos se obedecesse.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na cadeia, <a href="https://amzn.to/3PAqOYe">Thoreau</a> percebeu a total impotência do Estado contra ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Então, é só isso que podem fazer contra mim por quebrar suas leis? Eles me trancam aqui dentro mas meu pensamento, que é o verdadeiro perigo, continua livre. Como estou fora do seu alcance, decidiram punir meu corpo, como se fossem meninos que não podendo atacar um desafeto chutam seu cachorro.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou como escreveu Nelson Mandela em uma carta da prisão, publicada em <em><a href="https://amzn.to/43ZIz7y">Conversas que tive comigo</a></em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;São apenas minha carne e meu sangue que estão trancados nessas paredes apertadas. Permaneço cosmopolita na esperança. Em meus pensamentos, sou tão livre quanto um falcão. A âncora dos meus sonhos é a sabedoria coletiva da humanidade.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">A impotência do capitalismo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os outdoors com <a href="https://www.businessinsider.com/fast-food-ads-vs-the-real-thing-2012-1?op=1">fotos cada vez mais apetitosas de produtos cada vez mais distantes de serem comida</a> são um bom sinal: querem dizer que as empresas de fast-“food” (sic) ainda precisam de nossa cumplicidade na ingestão do seu lixo. Mesmo diante de todo o gigantesco poder econômico da empresa escocesa, é de fato incrivelmente fácil não-comprar dois hambúrgueres, alface, queijo e molho especial. O ônus da ação é completamente deles: tudo o que preciso fazer é nunca entrar na casa do palhaço e pedir a carne prensada no pão. Eles só lucram se formos todas cúmplices dos nossos próprios ataques cardíacos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="418" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/e034d995-86bb-4867-a582-394618add73f_700x505.jpg?resize=580%2C418&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12759" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/e034d995-86bb-4867-a582-394618add73f_700x505.jpg?w=700&amp;ssl=1 700w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/e034d995-86bb-4867-a582-394618add73f_700x505.jpg?resize=500%2C361&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Não basta que todos os meios de comunicação afirmem que &#8220;homem tem que ser macho&#8221; ou que &#8220;mulher tem que ser recatada&#8221;: é preciso também que todas as pessoas vigiem infindavelmente a masculinidade de uns e a sexualidade de outras. Para exercer sua opressão, a Autoridade precisa converter as pessoas oprimidas em pessoas opressoras, ao mesmo tempo vítimas e algozes, eternamente julgando e condenando, sendo julgadas e condenadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Felizmente, a Autoridade não pode obrigar ninguém a se prestar a esse papel. Ela sempre precisa que sejamos suas cúmplices. Como na frase atribuída a Paulo Freire, tão linda que virou merecidamente um clichê, quando a educação não é libertadora, o sonho da pessoa oprimida é tornar-se uma opressora.* Mas nós podemos dizer &#8220;não&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Paulo Freire, que se saiba, nunca falou isso. Não encontrei essa citação em nenhum de seus livros. A primeira vez que aparece é <a href="https://amzn.to/44gRZex">num livro de citações de 2009</a>, atribuída a ele. Mas a frase se popularizou, e nunca foi corrigida, porque, apesar de apócrifa, resume perfeitamente o espírito da <a href="https://amzn.to/3Xq8K4T">Pedagogia do Oprimido</a>, certamente um dos livros mais lindos que já li na vida.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">A impotência da Autoridade</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Autoridade pode nos obrigar a muito pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pai pode deserdar o filho que escolheu ser ator de teatro infantil, mas é completamente incapaz de fisicamente impedi-lo de subir no palco ou obrigá-lo a frequentar as aulas de Penal I. A chefa pode demitir a funcionária recalcitrante, mas não pode fisicamente obrigá-la a assinar um relatório mentiroso ou a vender um produto defeituoso. A mãe pode expulsar de casa a filha lésbica, mas não pode fisicamente obrigá-la a se casar com um homem ou a sentir tesão por machos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez mais importante, nenhuma autoridade é onipotente: elas também pagam um preço por usar seu poder. O pai que deserda o filho, a mãe que expulsa a filha, a chefa que demite a funcionária, vão todas sofrer pelas escolhas que escolheram tomar. Com certeza, teriam preferido (a Autoridade sempre prefere) que a vítima tivesse &#8220;ido por bem&#8221;, que não tivesse sido necessária a traumática aplicação do castigo. Afinal, como não amar o capacho que lambe a bota que lhe pisa?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos casos extremos, os castigos são piores, mas a impotência é a mesma. Um Estado pode proibir a homossexualidade e mandar matar pessoas homossexuais, mas não pode fisicamente obrigá-las a sentir um desejo sexual diferente do que sentem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é a impotência constitutiva da Autoridade: ela pode nos matar e nos estuprar e nos torturar, mas, apesar de tudo, não pode nos obrigar a ir contra nós mesmas, a abandonar nossos sonhos, a abdicar de nossos princípios. Ela pode até nos matar mas, se recusarmos abaixar a cabeça, é completamente incapaz de nos vencer. Sua impotência é só conseguir punir, e nada mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas minhas madrugadas mais difíceis, esse é sempre um grande consolo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Uma ressalva socioeconômica: privilégio &amp; desigualdade</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao refletirmos sobre obediência, rebeldia e respeito, é sempre importante termos em mente que nem todas as pessoas têm os mesmos direitos de interpelar as autoridades constituídas. Quando a Autoridade não pode obrigar, ela demoniza (literalmente) quem desobedece. Escreveu Tulio Vianna, em <em><a href="https://amzn.to/42RSZVu">Transparência pública, opacidade privada</a></em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Não há uma conduta que possa ser considerada crime ou mesmo imoral em qualquer cultura. Somente a desobediência à norma possui a universalidade necessária para tamanha popularização do mito. … Lúcifer não foi um homicida serial, um sádico torturador ou um maníaco sexual. Nenhuma destas condutas o teria tornado o símbolo da maldade. Lúcifer desobedeceu a uma norma; desafiou o poder hegemônico; recusou-se a obedecer àquele que tudo vê, tudo sabe, tudo pode. É isso que faz dele o símbolo da maldade. … A rebeldia se transforma em maldade. Paralelamente a esta transformação simbólica do arquétipo da resistência em símbolo da maldade, ocorre também a transformação do arquétipo do controle no símbolo da bondade. Deus é bom, por inventar as normas. A bondade é corolário do poder, do saber e do ver. O mito da queda de Lúcifer é a passagem simbólica que marca a invenção da ética nas sociedades ocidentais. O bem se confunde com o controle; o mal com a resistência. O mito de Lúcifer é também o mito da legitimação do poder.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, se o rebelde é demonizado, ele também é desumanizado. E quem não é humano é bicho, é coisa. Pode ser morto. Ou como disse <a href="https://vazamentomental.wordpress.com/tag/helio-luz/">Hélio Luz</a>, então chefe de polícia civil do Rio de Janeiro, no documentário <em><a href="https://vazamentomental.wordpress.com/tag/helio-luz/">Notícias de uma guerra particular</a></em> (1999). <em>(<a href="https://www.youtube.com/watch?v=kBNIU3n4BDE">A íntegra da entrevista de Luz pro filme é imperdível.</a>)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">“A sociedade não quer uma polícia honesta, porque no dia em que a polícia for honesta, o filho do banqueiro e do juiz será preso da mesma maneira que o jovem favelado. A polícia é corrupta porque convém à sociedade. Deseja-se uma polícia honesta? Então, o que vale para a favela passa a valer para o Posto 9. Não pode cheirar em Ipanema. Vai ter pé na porta na Delfim Moreira. A sociedade vai conseguir segurar isso?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um truque simples para saber se você é uma pessoa privilegiada. Digamos que está em um bar e comece algum tipo de confusão, briga, violência. De repente, ao longe, uma sirene. A polícia está chegando!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você já sente alívio, pois a polícia vai chegar e tudo vai se resolver&#8230; Então é porque faz parte do grupo de pessoas consideradas &#8220;cidadãs de primeira classe&#8221;, que a polícia foi criada para proteger e defender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você já tira a identidade do bolso, coloca em cima da mesa, põe as duas mãos bem visíveis ao lado do documento e pensa que, se fizer silêncio e nenhum movimento brusco, pode ser que consiga voltar pra casa levando só uns safanões&#8230; Então é porque faz parte do grupo de pessoas consideradas &#8220;cidadãs de segunda classe&#8221;, que a polícia foi criada para reprimir e oprimir em nome da segurança e paz de espírito do grupo acima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, só a elite é inocente até prova em contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, incorporando o espírito de Thoreau, já peitei a truculência da PM do Rio de Janeiro algumas vezes. Mas, antes que eu queira me dar tapinhas nas costas pela minha &#8220;coragem&#8221;, eu repito para mim mesmo que sou branco, hetero, pósgraduado. Uma daquelas pessoas que parece ter pai juiz ou avô senador, cuja morte violenta O Globo estamparia na primeira página. Um jovem negro morador de favela que interpelasse a PM rigorosamente como eu fiz estaria arriscando a própria vida. Já eu arrisco apenas alguns tabefes ou, quem sabe, passar uma noite na cadeia em nome dos meus princípios. E ainda pensaria: &#8220;Olha!, que heróico, que nem Thoreau!&#8221; Aliás, Thoreau ficou rigorosamente uma única noite preso, até sua tia pagar os impostos que ele devia. Enquanto isso, na mesma época, o Estado norte-americano estava matando, torturando e escravizando pessoas por terem feito muito menos do que se recusar a pagar impostos. Todas pessoas que, ao contrário de Thoreau, não eram nem brancas, nem escritoras, nem formadas em Harvard.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, nossa luta é para viver em uma sociedade mais democrática e republicana, onde todas as pessoas sejam cidadãs plenas e tenham o mesmo direito de interpelar os poderes constituídos sem medo de serem torturadas, mortas, desaparecidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Espaço público vs espaço privado</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo nosso processo de socialização tem como objetivo nos deixar mais dóceis, mais obedientes, mais domesticadas. E funciona: quando vemos uma guarita, nós paramos, abaixamos a cabeça, nos identificamos, esperamos permissão de passar. Mas essa guarita tem direito de estar ali? Essas pessoas têm direito de nos fazer perguntas e negar passagem?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Teoricamente, um condomínio pode escolher designar suas ruas internas de públicas ou privativas: no segundo caso, abre-se mão de uma série de serviços públicos (entrega de correios, coleta de lixo, transporte coletivo, iluminação pública, etc) em troca do direito de só permitir a entrada ou passagem de quem se quer. Caso decida que suas ruas internas são públicas, o condomínio pode desfrutar desses serviços também públicos mas, em contrapartida, não pode negar entrada ou passagem a ninguém. Afinal, a rua é pública. Entretanto, cada vez mais condomínios tentam malandramente conseguir o melhor dos dois mundos: apesar de suas ruas internas serem públicas, ainda assim colocam uma cancela e seguranças armados na porta. Ou seja, o condomínio <a href="https://vitimasfalsoscondominios.blogspot.com.br/2011/11/clamor-popular-contra-fechamento-de.html">não só bloqueia uma via pública</a> como ainda obriga as pessoas a parar e se identificar para poder exercer seus direitos de cidadãs de transitar por uma via pública.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/c082fbac-4f59-4f2f-921d-67709b07d61d_960x720.jpg?resize=580%2C435&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12760" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/c082fbac-4f59-4f2f-921d-67709b07d61d_960x720.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/c082fbac-4f59-4f2f-921d-67709b07d61d_960x720.jpg?resize=500%2C375&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/c082fbac-4f59-4f2f-921d-67709b07d61d_960x720.jpg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2007, meu pai morava no Condomínio Península, na Barra da Tijuca, onde foi tirada essa foto: em primeiro plano, a placa que avisa “Logradouro público. Livre acesso e utilização por todos os cidadãos”. Logo atrás, duas cancelas, bem guardadas e fortificadas. Eu morava a cinco minutos dali mas a dois universos de distância, na Estrada do Gabinal, logo depois da entrada para a Cidade de Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia 19 de junho de 2006, moradores revoltados da Cidade de Deus <a href="https://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL607469-5606,00-MANIFESTANTES+INCENDEIAM+ONIBUS+NA+CIDADE+DE+DEUS.html">bloquearam a Estrada do Gabinal</a>, colocando fogo em pneus, madeiras e até mesmo em um ônibus para protestar <a href="https://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL605769-5606,00-MORADORES+PROTESTAM+POR+MENINO+BALEADO+NA+CIDADE+DE+DEUS.html">mais um inocente morto sumariamente pela polícia</a>, em uma operação que também deixou baleada uma criança de oito anos. Foram violentamente reprimidos <em>(felizmente, sem perda de vidas)</em> e logo aprenderam a lição: os ricos da Barra podem bloquear uma via pública na maior cara-de-pau; eles, não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Instinto de Obediência</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como socorrista, nossa primeira tarefa é não deixar as pessoas bem-intencionadas terminarem de matar a vítima. Em uma ocasião, se chego dez segundos atrasado, dois bons samaritanos teriam levantado um menino do asfalto e acabado de quebrar sua coluna. Para manter as pessoas ocupadas e se sentindo úteis, eu passo a me comportar como um general no campo de batalha, tomo o controle da tropa e começo a delegar tarefas aos subordinados: você, de vermelho, liga pra polícia, 190; você, de verde, liga pros bombeiros, 193; você, de rabo de cavalo, consola a motorista e diz que não foi culpa dela; você, com a pasta, pega o triângulo no meu porta-malas pra desviar o trânsito, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pior lugar para se ter um ataque cardíaco fulminante é no meio de uma multidão. A <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Diffusion_of_responsibility">responsabilidade se dilui</a> e as pessoas nem se sentem culpadas por não lhe ajudar: pensam que as outras também poderiam ter ajudado. Aliás, se ninguém ajudou, vai ver nem era tão sério assim. Melhor continuar andando, não se meter. E, à noite, todas aquelas santas pessoas que passaram por cima de você enquanto estrebuchava até a morte <a href="https://taimologia.blogspot.com/2008/05/inrcia-social.html">vão botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono das justas</a>.<em> (Esse mesmo processo mental nos permite conviver confortavelmente em meio a tanta miséria: afinal, eu não dei esmola ao mendigo mas qualquer um também poderia ter dado!) </em>Se pudéssemos escolher, seria melhor ter nosso ataque cardíaco diante de uma única pessoa. Ela vai ter sobre si todo o peso da responsabilidade. Sabe que, se não lhe ajudar, você vai fatalmente morrer. Não há mais ninguém para repartir esse fardo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das maneiras de quebrar a chamada &#8220;difusão de responsabilidade&#8221; é delegando tarefas. Ao invés de gritar um socorro genérico, experimente dizer: &#8220;Você aí, de bigode loiro, <a href="https://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2008/12/difus%25C3%25A3o-de-responsabilidade.html">vem aqui me ajudar agora!</a>&#8221; Para o homem do bigode loiro, já não existe mais o conforto da diluição de responsabilidade. Ele foi especificamente convocado. Se não atender, aquilo pesará em sua consciência pra sempre. Se ele não ajudar, há uma boa chance de alguém na multidão, revoltada com a covardia do homem do bigode loiro, que absurdo!, fazer algo para corrigir esse abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento, uma leitora de bom coração e fé na humanidade poderia refutar:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− As pessoas obedecem porque querem ajudar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim e não. Nós obedecemos porque fomos treinadas desde cedo pra obedecer. Nesse exemplo, salvar uma vida é só a feliz consequência. Todo nosso sistema escolar, toda a educação que recebemos dos pais, tudo o que todas as autoridades nos dizem, é um longo processo de quebrar nosso espírito para nos tornar mais obedientes e mais dóceis. A mensagem &#8220;obedeça as autoridades&#8221; é infinitas vezes mais enfatizada do que &#8220;ajude as outras pessoas&#8221;. Não é de espantar, então, que para a maioria de nós, obedecer é um ato muito mais automatizado do que ajudar. Obedecer, afinal, significa evitar o conflito, agradar, pertencer. Quer coisa melhor que isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando controlo a cena de um acidente, meu único receio é que minha interpretação de “pessoa que sabe o que está fazendo” seja tão boa que desestimule alguém que realmente saberia o que fazer de se apresentar. Por isso, sempre pergunto se há algum médico ou enfermeiro presente. Talvez seja esse o segredo da obediência. As pessoas, nós todas, nunca sabemos nada de nada, mas temos uma fé profunda e inabalável que alguém, em algum lugar, sabe. A chave pra controlar qualquer multidão, seja para salvar um atropelado ou invadir a Polônia, é convencê-los de que você é esse alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Contra as soluções fáceis</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acontece sempre. Seja na sala de aula, ensinando racismo e desigualdade, seja nos textos sobre outrofobia e privilégio. Depois de uma longa exposição de um problema complexo, alguém pergunta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ok. Entendi. Mas e agora? O que fazemos? Qual é a solução?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas sentem a mesma ansiedade. É compreensível. Em um primeiro momento, parecem pessoas práticas e de bom-senso, de saco cheio de tanta punhetação intelectual acadêmica, e que querem simplesmente sair na rua e resolver o problema, oras. Vivas pra elas! Mas, se você pára e pensa, pode concluir que o que falta a essas pessoas é justamente parar e pensar. Um comentário que parece positivo (apesar de inócuo) acaba se revelando perigoso, ao sugerir incapacidade ou indisposição para discussão, reflexão ou diálogo, ou seja, para buscar suas próprias conclusões, ou ansiedade por respostas prontas e simples, e por ações concretas e fáceis de realizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vai chegando o final da aula, e estão todas ali me olhando ansiosos, de lápis em punho, esperando pela resposta certa, querendo saber “afinal o que devem fazer!”, e a impressão que tenho é que aceitariam qualquer besteira que eu falasse, desde que coubesse em uma frase e fosse fácil de decorar. As maiores tragédias da história foram perpetradas por pessoas angustiadas para resolver um problema (real ou imaginário) marchando atrás de quem ofereceu uma solução simples e direta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando respondo que não existe solução, que não sei a resposta certa e que não vou lhes dizer o que fazer, outro alguém sempre retruca:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Então, de que adiantou? Pra que ficamos duas horas aqui perdendo nosso tempo? Isso [querendo dizer essa aula, minha matéria, a disciplina, a própria universidade, a vida, sei lá] não serve pra nada!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E respondo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mas se eu lhes dissesse o que fazer, então serviria pra alguma coisa? Pior do que não servir pra nada, não seria extremamente perigoso? É pra isso que vocês vêm à universidade? Para que uma pessoa qualquer, só porque tem um doutorado e passou num concurso, lhes diga o que fazer? Não querem chegar às suas próprias conclusões?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Parece piada, mas depois desse longo discurso sempre tem alguém de cara sonolenta − vocês vão achar que estou zoando − que levanta o braço lá detrás e pergunta, de verdade, na lata: “Tá, professor, mas afinal, o que é que é pra colocar no teste?”)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O prêmio por obedecer é ser a mais obediente</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pior, mesmo se fizermos tudo direitinho e se nunca desobedecermos nenhuma ordem, ainda assim nosso prêmio será apenas a satisfação de sermos &#8220;a melhor escrava&#8221;. Em 2010, Erica Goldson, a primeira aluna de sua turma no ensino médio, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=9M4tdMsg3ts">fez um discurso de formatura</a> que rodou o mundo. Aqui vai um trecho:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Estou agora cumprindo esse objetivo [de me formar]. Deveria ver isso como uma experiência positiva, especialmente tendo sido a melhor da turma. No entanto, em retrospecto, não posso dizer que sou mais inteligente que os meus companheiros. Posso atestar que sou apenas a melhor a fazer aquilo que me dizem e a trabalhar dentro dos limites do sistema. Mesmo assim, aqui estou, e deveria estar orgulhosa por ter completado este período de doutrinação. Vou agora para a próxima fase que é esperada de mim, de modo a receber um documento que me certifica como apta para trabalhar. Eu contesto, entretanto, que sou um ser humano, uma pensadora, uma aventureira – não uma trabalhadora. Um trabalhador é alguém que está preso numa repetição – um escravo do sistema que foi posto perante ele. Mas a verdade é que demonstrei com sucesso que eu fui a melhor escrava. Fiz o que me disseram até o extremo. Enquanto outros desenhavam durante as aulas, para mais tarde se tornarem grandes artistas, eu anotava tudo, para me tornar a melhor &#8220;fazedora de provas&#8221;. Enquanto outros vinham para as aulas sem os trabalhos de casa feitos porque tinham passado a noite lendo algo do seu interesse, eu nunca deixei de entregar um trabalho. Enquanto outros estavam criando músicas e compondo letras, eu estava trabalhando em tarefas escolares adicionais para aumentar ainda mais minha nota, mesmo nunca precisando disso. Daí, eu me pergunto: por que quis tanto ser a melhor aluna? Sim, eu mereci essa posição. Mas e daí? Quando eu sair do sistema institucional educativo, serei uma pessoa de sucesso ou perdida para sempre? Não tenho ideia do que quero fazer com a minha vida. Não tenho interesses porque sempre vi todo objeto de estudo como um trabalho a ser cumprido. Fui a melhor em todas as matérias só pelo propósito de ser a melhor, não para aprender. E agora, sinceramente, estou assustada.”</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="505" height="2560" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?resize=505%2C2560&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12761" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?w=505&amp;ssl=1 505w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?resize=197%2C1000&amp;ssl=1 197w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?resize=768%2C3894&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?resize=303%2C1536&amp;ssl=1 303w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/300e1fc5-4bf0-4653-87b6-0199630f4c91_980x4969-scaled.jpg?resize=404%2C2048&amp;ssl=1 404w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*O texto completo, em português, está em&lt;sinais-dostempos.blogspot.com/2010/08/melhor-aluno-critica-sistema-escolar-em.html&gt;]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O sucesso é uma decisão</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas buscam fugir da mediocridade e ambicionam o sucesso. Mas&#8230; fugir de qual mediocridade? Ambicionar qual sucesso? Quando nossa definição de mediocridade é externa, quando nossos critérios de sucesso não foram escolhidos por nós, então até mesmo ser bem-sucedida pode ser uma prisão. Talvez as pessoas mais bem-sucedidas sejam justamente as mais medíocres. Talvez a resposta seja transcender essa dicotomia cartesiana entre sucesso e mediocridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem decide os critérios para eu me considerar bem-sucedido sou eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">A raiva do Betão</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Era uma vez, digamos, o Betão. Betão queria fazer X da sua vida. (Substitua X pelo sonho da sua infância.) Mas o pai, a mãe, a sociedade, a mídia, as professoras, o Zé do 502, etc, disseram que Betão iria se dar muito mal se fizesse isso. Não ganharia dinheiro, jamais teria segurança, as mulheres não olhariam pra ele, viraria um pária social, o horror, o horror. Aí, moço de bom-senso que sempre foi, Betão sacrificou seu sonho, recalcou suas vontades e viveu exatamente a vida que aconselharam ele a viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, apareceu o Claudio Gustavo. Claudio Gustavo vivia exatamente a vida que o Betão sempre quis viver e, pasmem, Claudio Gustavo não se fodeu, se sustentava, tinha uma vida sexual e amorosa, etc — nenhum daqueles medos se realizou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, quando o Betão toma chope com outros homens que também viveram as vidas que lhes mandaram viver, a repulsa geral ao Claudio Gustavo é tão autoevidente que não precisa nem mesmo ser articulada ou justificada. Como não odiar esse grandessíssimo babaca?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quem é o dono do dom?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando tinha doze anos, tomei a primeira decisão estratégica da minha vida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="418" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/93a26cf0-87e4-46bc-af69-c2755e4d2841_620x447.jpg?resize=580%2C418&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12763" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/93a26cf0-87e4-46bc-af69-c2755e4d2841_620x447.jpg?w=620&amp;ssl=1 620w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/93a26cf0-87e4-46bc-af69-c2755e4d2841_620x447.jpg?resize=500%2C360&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Desde pequeno, eu gostava de contar histórias. Antes mesmo de saber escrever, eu mandava minha mãe desenhar os personagens e ditava o que um estava dizendo para o outro. Na sexta série, eu escrevia e desenhava gibis, xerocava, coloria as capas uma a uma e vendia assinaturas entre colegas. Cheguei a ter 16 assinantes. Ninguém tinha mais orgulho desse meu &#8220;dom do desenho&#8221; do que minha mãe, artista formada em Belas Artes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ajudar a refinar o meu &#8220;dom&#8221;, ela me enviou para passar uma temporada em Nova Iorque com um amigo da família. Na época, o querido Goot, pseudônimo de <a href="https://www.guiadosquadrinhos.com/artista/gutemberg-monteiro-goot/2526">Gutemberg Monteiro</a> (1916-2012), recentemente falecido aos quase cem anos, desenhava a tirinha do <em>Tom &amp; Jerry</em>. Durante um mês, vivi como novaiorquino, pegando trens e metrôs, indo ao sindicato entregar as tiras, comendo bagel com suco de grapefruit, conhecendo os maiores cartunistas dos anos oitenta, aprendendo todos os truques do nanquim.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="207" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/4b4b912c-c2f5-4bc3-b5c6-f26a8eef357e_620x221.jpg?resize=580%2C207&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12762" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/4b4b912c-c2f5-4bc3-b5c6-f26a8eef357e_620x221.jpg?w=620&amp;ssl=1 620w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/4b4b912c-c2f5-4bc3-b5c6-f26a8eef357e_620x221.jpg?resize=500%2C178&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando voltei ao Brasil, larguei o desenho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi uma decisão intempestiva ou rebelde. Percebi que gostava de contar histórias, não de desenhá-las. Eu só desenhava porque, para um menino de doze anos, era o único jeito de passar minhas histórias. Mas todo o tempo que gastasse no lado mais técnico e braçal da ilustração seria menos tempo para criar meus personagens, burilar meus enredos, transmitir minhas mensagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A decisão não foi bem recebida. Para minha mãe, era um desperdício e um pecado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Você tem um dom, meu filho, e não pode desperdiçá-lo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas se não tenho a liberdade de desperdiçar meu &#8220;dom&#8221;, então não sou eu que tenho o &#8220;dom&#8221;: ele é que me tem, escravizado, em seu poder, condenado a ganhar a vida como desenhista só porque, ó que sina, eu tinha um &#8220;dom&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">História de uma dominatrix</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eu não era o único desperdiçando minha vida: tinha também a Andréa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudamos na mesma escola de elite e fomos colegas de grêmio e de jornal. Com suas atividades extracurriculares e excelentes notas, Andréa ganhou uma bolsa de estudos para Princeton, uma das melhores universidades do mundo, onde estudou psicologia. Durante a graduação, conheceu o mundo do sadomasoquismo e se descobriu dominadora. Em pouco tempo, já estava namorando uma garota submissa e andavam juntas pela universidade, vestidas a caráter e apelidadas de “whips &amp; chains” <em>(chicotes e correntes)</em>. Com orçamento apertado, começou a fazer uma dominaçãozinha por fora e percebeu que gostava dessa vida. Além de satisfazer seu lado dominador, também utilizava conhecimentos de psicologia. <em>(Não é à toa que um encontro com uma dominadora tem o mesmo nome que um encontro com uma psicóloga: sessão. O trabalho de Andréa também era cuidar da saúde mental de seus pacientes e ajudá-los a conviver melhor com seus próprios desejos.)</em> Depois de formada, casou com um australiano e foi pra terra dele. Durante três anos, viveram um casamento aberto e se separaram bons amigos. Em 2002, foi selecionada para participar da primeira edição do Big Brother australiano. Imaginem o escândalo: uma estrangeira, alta, ruiva, exótica e dominatrix. Lá dentro, Andréa comportou-se de forma tão sexualmente desinibida quanto cá fora. Resultado: tornou-se a primeira eliminada. Passou todo o ano seguinte viajando pela Austrália, vivendo do seu status de celebridade instantânea, abrindo eventos, sendo jurada de concursos, essas coisas.*</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="773" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/baace6ec-be1e-426a-a0ab-adf618cbb093_600x800.jpg?resize=580%2C773&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12764" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/baace6ec-be1e-426a-a0ab-adf618cbb093_600x800.jpg?w=600&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/baace6ec-be1e-426a-a0ab-adf618cbb093_600x800.jpg?resize=500%2C667&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa mesma época, depois de implodir minha empresa no último dia de 2001, passei o ano seguinte à deriva. Um ano de repensar, reelaborar, replanejar, redefinir. De mergulhar fundo nas minhas próprias contradições, limitações, desejos. Então, reencontrei a Andréa através de uma reportagem do Fantástico, sobre uma tal dominatrix brasileira no Big Brother Austrália. Na vida, não enxergamos o que queremos: enxergamos o que podemos, a partir do momento em que estamos preparadas para enxergar. Talvez, se eu não estivesse passando por esse processo, teria enxergado na Andréa somente uma curiosidade: &#8220;olha só, é a minha ex-coleguinha de escola! que exótico!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, em 2003, quando ela veio ao Rio por algumas semanas, aproveitei para procurá-la e passamos uma noite na Lapa, conversando, perambulando. Andréa ainda era a mesma pessoa inteligente e articulada que publicara no jornal da escola uma bombástica reportagem-investigativa sobre os malefícios de dar água com açúcar aos beija-flores <em>(não façam isso em casa, crianças!) </em>mas também havia se metamorfoseado em uma mulher empoderada, autoconfiante, independente. Recém-separada, estava nômade, pulando de continente em continente, se divertindo, chicoteando seus submissos, recebendo tributos, praticando liberdade. O único modo de saber onde estava era <a href="https://www.kalyssmercury.com/">acompanhando seu site</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já naquela época, uma parte do <em>Livro das Prisões</em> estava parcialmente escrita, mas eu ainda não tinha mostrado para ninguém. Minha querida amiga Isabel, capista de todos os meus livros e hoje professora de Estudos Multimídia na Suécia, já vinha insistindo há meses para eu criar um “blog” – sabe Deus o que era isso. Mas, se Isabel sugeriu a nova plataforma, o encontro com a Andrea sugeriu o tema. Poucos dias depois de nosso passeio pela Lapa, em março de 2003, finalmente tomei coragem, criei o meu primeiro blog, coloquei no ar as prisões e dei o primeiro passo em direção a escrever esse texto aqui que você está lendo. O encontro com Andréa foi talvez o último estímulo que faltava para eu finalmente&#8230; mudar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagino que muitas de nossas antigas colegas mais certinhas consideravam a Andréa completamente louca. Mas, se ela era louca, então eu seria também. Decidi que seria uma pessoa adulta, livre, independente, capaz de me assumir sem medo. Estava na hora de eu também colocar minha cara a tapa pelas minhas ideias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Para ler a própria Andréa contando sua história, leiam <a href="kalyssmercury.com/about-mistress">a bio de seu site</a>: &lt;kalyssmercury.com/about-mistress&gt; Vejam também esse vídeo dela <a href="youtube.com/watch?v=WxSuRv6IFsQ">discursando</a> na Slut Walk de Brisbane, em 2012: &lt;youtube.com/watch?v=WxSuRv6IFsQ&gt;]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Escolher a mediocridade</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aos olhos do mundo, entretanto, o que eu e a Andréa mais temos em comum é nossa mediocridade: estamos ambos vivendo abaixo de nosso <em>(pretenso)</em> brilhantismo, desperdiçando nosso <em>(suposto)</em> potencial, jogando nossas ó-tão-incríveis vidas fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma menina brilhante. Formada por Princeton. Nota máxima em todas as matérias. Como pode se contentar em ganhar a vida chicoteando os outros? É isso que você quer fazer, Andréa? É assim que você se vê daqui a dez anos? Será que foi pra isso que você teve uma educação de nível internacional? Não tem vergonha de desperdiçar as oportunidades que deus lhe deu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, a maioria dos nossos colegas de escola já está ocupando os lugares de destaque que a sociedade fatalmente destina aos homens brancos de classe média-alta oriundos as melhores escolas: donos de empresas, diretores de multinacionais e capitães de indústria, cheios de filhos criados por babás uniformizadas, fazendo leasing de carros e financiando apartamentos, investindo em portfólios diversificados de ações e contribuindo para sólidos planos de aposentadoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso, recém-falido na malfadada tentativa de viver a vida empreendedora que me tinha sido traçada, eu estava sobrevivendo de dar aulinhas de inglês em um curso de subúrbio, em Jacarepaguá. O trabalho não pagava quase nada, mas ficava no mesmo quarteirão do meu apartamento, não me estressava, não ocupava a minha cabeça. Os três anos nos quais trabalhei nesse curso foram os anos em que mais pensei, flanei, escrevi, transei, passeei. Nunca fui tão feliz, tão tranquilo, tão produtivo, tão contemplativo. Foi nessa época que me reinventei no homem que sou hoje.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estranhamente, nada disso parecia ser suficiente para as pessoas que me amavam. Amigas e parentes faziam questão de dizer quase todo dia que eu não tinha direito de desperdiçar assim meus talentos <em>(sic)</em>, logo eu, uma pessoa tão brilhante <em>(sic!)</em>, que poderia estar fazendo qualquer coisa <em>(sic sic!!)</em>, em qualquer lugar do mundo!! <em>(SIC SIC SIC!!)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que não era verdade: claramente eu não podia dar aulas de inglês num cursinho de subúrbio. Eu podia fazer qualquer coisa&#8230; que se enquadrasse na noção preconcebida que tinham de mim. Eu era livre&#8230;. para preencher suas expectativas, não para viver minha vida nos meus próprios termos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos dos elogios mais efusivos que recebemos são tentativas de nos controlar e nos manipular. Hoje, fujo ativamente de pessoas que me elogiam. Busco sempre ser a pessoa menos interessante de qualquer recinto: quando sou a pessoa mais interessante da sala, <a href="https://alexcastro.com.br/a-outra-sala/">eu troco de sala</a>. Escolhi não ser mais refém de aspirações e expectativas alheias em relação à minha pretensa ó-genialidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha vida aparentemente causava uma grande tensão entre amigas e parentes, um desconforto que sentiam necessidade de verbalizar de forma frequente, espontânea e nunca, nunca requisitada. Por que se achavam no direito de ter opinião sobre minhas escolhas? Por que verbalizavam essas opiniões de maneira tão invasiva? Por que minhas escolhas as incomodavam tanto?** Diziam que eu estava desperdiçando a caríssima educação que recebi. Que tinha feito uma opção pela mediocridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, de que vale tanta educação se, em vez de me dar asas, ela me serve de âncora? Se em vez de ampliar, ela limita minhas escolhas?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Nesse cursinho, fiz algumas das minhas melhores amigas até hoje, conheci um grande amor que alimentou minha vida e a dona do curso ainda é, até hoje, uma das minhas mecenas mais generosas. Não tenho realmente palavras para enfatizar a importância desses anos na minha vida. Das minhas aventuras nos mundos da consultoria e do empreendedorismo, não sobrou ninguém.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**Esse é o tema da décima prática, “Exercer a não-opinião” do meu livro Atenção.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quem define nossa vida somos nós</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um belo dia, casei. Alguns anos depois, ao descobrir que era um casamento não-monogâmico e fetichista, uma amiga comentou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Aaah, entendi. Você sempre tinha sido contra o casamento e, quando casou, achei que tinha mudado de ideia. Agora entendi: o que você mudou foi a sua definição de casamento!</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Exatamente. Só quem tem direito de definir o que é o nosso casamento somos eu e minha esposa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia, em uma mesa de bar, amigos homens estavam listando todas as coisas que tinham feito para agradar seus pais, cursar direito ou frequentar igrejas, até se darem conta de aquele não era o seu caminho. E apontaram para mim:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Só o Alex nunca endeusou o pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não sou um superhomem precocemente bem-resolvido: eu só tive sorte. Na juventude, meu pai foi tenista federado. Depois, fez faculdade de economia e trabalhou no mercado financeiro. Desde pequeno, ele me levava para acompanhar campeonatos de tênis e para conhecer sua mesa de open market. E eu só queria saber de acompanhar peças de teatro e conhecer clássicos da literatura. Minha irmã caçula, bendita seja ela, louvada entre as mulheres, logo assumiu o manto de filho varão <em>(se federou tenista e se formou economista, herdando assim não só os contatos esportivos e profissionais, mas principalmente o ethos de vida do meu pai)</em> e me deixou assim livre para definir o meu sucesso pessoal de maneiras diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se meus critérios de sucesso na vida fossem troféus de tênis e portfólio de ações, eu viveria eternamente preso às ambições e expectativas de meu pai. Cabia a mim, e a mais ninguém, criar os meus próprios critérios de sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quem são meus ícones?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitos anos, eu odiava sair de casa todo dia de manhã, de barba feita e fantasiado de executivo, para trabalhar o dia inteiro vendendo minha energia vital para realizar os projetos de outras pessoas. Mas pensava:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− O errado deve ser eu. Afinal, todo mundo faz isso. Se essas pessoas conseguem, também consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E lá ia eu me torturar mais um pouco. Um dia, uma pequena mudança de foco fez toda a diferença. Em vez de olhar para as pessoas que já tinham se acostumado a tolerar as torturas que ainda me atormentavam, desviei minha mirada para as pessoas que viviam vidas diferentes, mais livres, mais abertas, mais bonitas, e pensei:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;− Se elas conseguem, eu também consigo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">“Vou mudar de vida&#8230; mas não hoje!”</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se o meu filme ou livro preferido é sobre largar tudo e ir morar no mato, mas nunca larguei tudo e fui morar no mato… o que isso diz sobre mim?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="333" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/e6a2e581-33dc-4283-a0c9-dee4c196e176_500x333.jpg?resize=500%2C333&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12765"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Um gênero narrativo que deveria ter nome mas não tem: “Obras protagonizadas por personagens pretensamente rebeldes e subversivas, feitas sob medida para se tornarem as obras favoritas de pessoas reprimidas e cooptadas que dizem amar a obra acima de tudo, mas nunca mexem a bunda da cadeira para fazer nada parecido com as personagens rebeldes e subversivas que tanto dizem admirar.”</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="332" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/2519cf07-59dc-4286-a41a-15397e981abe_500x332.jpg?resize=500%2C332&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12766"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu consumo uma obra sobre enfiar o dedo na tomada e levar choque, e digo adorar tudo, é minha obra preferida!!, mas depois disso nunca mais na vida eu enfio o dedo na tomada (pois já sei que vou fatalmente levar um choque!), então essa é uma obra profundamente conformista e conservadora. Se ela é vendida e recebida, percebida e celebrada, como uma obra “rebelde” e “original”, “corajosa” e “libertadora”, etc e etc, então além de conformista e conservadora, ela é perigosa e traiçoeira.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="335" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/80aea14e-6659-40b9-99c0-36b901adf6f9_500x335.jpg?resize=500%2C335&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12767"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo final de qualquer jornada significativa, seja ela artística ou espiritual, é sempre virar nossa vida de cabeça pra baixo. Se fiz uma viagem espiritual ao Tibete, trouxe de volta uma estátua de Buda pra minha sala (que daria pra alimentar uma família por meses), e depois minha vida continuou igual… sinto muito, mas não funcionou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antigamente, quando alguém me dizia “o livro tal mudou a minha vida!!”, eu, que adoro histórias de mudança de vida, perguntava, empolgado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Mudou? Puxa, que legal. Exatamente o quê você mudou?&nbsp; Como você está vivendo de forma diferente?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="327" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/caacaa28-3cf2-438c-aa13-a1248567744d_500x327.jpg?resize=500%2C327&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12768"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Para minha surpresa, as pessoas reagiam com horror ao meu questionamento. Não tinham resposta. Ficavam constrangidas. Algumas se sentiam atacadas. Claramente, eu estava quebrando um script muito bem ensaiadinho. Hoje em dia, para não causar constrangimento, não faço mais essa pergunta. Já sei a resposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mudar a vida” tornou-se um produto como outro qualquer, para aquecer a economia e impressionar as amigas, afagar o Eu e manter tudo como está,</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que sair da casa dos pais, abdicar do circo de consumo, não sacrificar a vida em holocausto ao mercado de trabalho, parar de comer cadáveres, ser menos egocêntrico, praticar a generosidade e a empatia, etc etc, são todas atitudes que demandam tempo, trabalho, esforço, determinação. Mas nós não queremos mudar nossas vidas. Nosso narcissismo (e somos todas narcissistas) é refratário a qualquer mudança. Mudar dá trabalho. O que a gente quer é comprar uma identidade através do nosso consumo. Queremos continuar morando em Pinheiros na casa de mamã (que traz café da manhã pra gente na cama), continuar indo sozinho num jipão utilitário até a agência em Moema (os ônibus são péssimos nessa cidade), continuar convencendo os outros a consumir mais em troca de quinze pau por mês (na agência tem até pebolim!), e então, à noite, na TV tela plana de mil polegadas, ver e rever meu filme favorito, sobre o moço que largou tudo e foi morar no meio do mato: “Ah, um dia… Um dia, eu vou, hein!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo não para convencer ninguém, mas para mostrar às pessoas que pensam como eu que não estão sozinhas. Que é possível ser livre. Mas ser livre não é fácil. Fácil é assistir filmes sobre pessoas livres.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="500" height="281" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/97af76ef-09b0-4e34-b9b0-6369bf4e0536_500x281.jpg?resize=500%2C281&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12769"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Por que precisamos destruir nossos ídolos?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos clichês mais batidos e mais populares das artes narrativas: pessoa excepcional obtém sucesso fora de escala em sua área de atuação e se autodestrói de forma retumbante. Como uma criança pedindo à mãe para contar e recontar a mesma história, parecemos ter um apetite insaciável por essa narrativa. Mas por que gostamos tanto de ver nossos ídolos se fodendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, enfrentamos uma pressão social enorme para nos enquadrar: manter uma só cônjuge e sempre do sexo oposto, criar a prole, fazer o dever de casa, respeitar pai e mãe, amar a deus acima de todas as coisas, pagar impostos, etc etc. Em suma: ser boas pessoas cidadãs. Mas ninguém fica famosa por ser uma filha obediente, ninguém enriquece por respeitar a mãe, ninguém ganha medalha por ser boa esposa. As recompensas são difusas e, às vezes, quase invisíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, paradoxalmente, a sociedade parece premiar com fama e sucesso os bad boys e bad girls que quebram todas essas regras. Comportamentos que transformariam qualquer um em pária social fazem sensação no <em>Big Brother</em>, geram convites para o camarote da Brahma e Ilha de Caras. As mesmas pessoas que assistem empolgadas <em>House</em> não tolerariam uma colega de trabalho que fizesse um décimo do que ele faz. Artistas, atletas e celebridades de modo geral parecem desfrutar de uma liberdade muito maior do que a média da população. Por quê? Porque sempre vem a conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diz o dogma cristão que Jesus morreu por nossos pecados. De fato, nunca mais perdemos esse hábito de viver indiretamente através das outras pessoas. Condenamos nossos ídolos a morrer por nós, pois só assim podemos suportar nossas vidas de não-ídolos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se passamos a vida inteira nos sacrificando para seguir as regras e, enquanto isso, outra pessoa quebra todas essas regras, e ainda por cima se dá bem, ganha mais dinheiro, parece viver de orgia em orgia, é como se toda a nossa vida tivesse sido uma mentira. Como se tivéssemos recalcado nossos desejos, mutilado nossa liberdade, reprimido nossa sexualidade, por nada. Otárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, quando o ídolo voa tão alto que derrete as asas e se espatifa no solo, nós todas, a sociedade inteira, soltamos um suspiro de alívio coletivo. Agora, podemos dormir tranquilas: nossa decisão de desfazer a banda e cursar ciências atuariais foi mesmo a mais acertada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A queda do ídolo redime todos os nossos desejos recalcados. A narrativa arquetípica da queda do herói cumpre uma importantíssima função social. O cidadão contribuinte, hetero, monogâmico, careta, bom pai, etc, etc, pode sair do cinema aliviado, e ainda se auto congratular:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Bem, eu não danço como o Michael Jackson, não componho como o Raul Seixas, não canto como a Elis Regina, mas, porra, pelo menos eu consigo segurar minha onda, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, assim, uma vida que talvez fosse chata e sem sentido, torna-se tolerável. Quem sabe até feliz.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="435" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/eb66e67f-d0ae-4eda-9569-eb60c2bbb21c_620x465.jpg?resize=580%2C435&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12770" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/eb66e67f-d0ae-4eda-9569-eb60c2bbb21c_620x465.jpg?w=620&amp;ssl=1 620w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/eb66e67f-d0ae-4eda-9569-eb60c2bbb21c_620x465.jpg?resize=500%2C375&amp;ssl=1 500w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Somos tudo o que poderíamos ter sido</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de um concerto, a fã aborda a pianista e diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Eu daria minha vida para tocar tão bem assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E ela responde, simplesmente:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Eu dei.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos todas, ao mesmo tempo, tanto a dentista entediada quanto também a artista plástica que poderíamos ter sido; ou a artista plástica pobretona e também a dentista que poderíamos ter sido. Conheço muitas dentistas <em>(e contadoras e bancárias e etc)</em> que adoram fantasiar sobre a vida livre e interessante que estariam levando se tivessem mergulhado de cabeça nas artes plásticas <em>(ou na poesia ou no teatro ou etc)</em>. Conheço muitas artistas plásticas <em>(e atrizes e poetisas e etc) </em>que também adoram fantasiar sobre a vida segura e confortável que estariam levando se tivessem mergulhado de cabeça na odontologia <em>(ou na contabilidade ou nas ciências atuariais ou etc)</em>. De fato, algumas dentistas teriam sido excelentes poetisas. De fato, alguns poetisas talvez devessem ter se dedicado à odontologia. Mas quais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo dia, comparo minha vida incerta à das amigas que desfizeram a banda da pós-adolescência e se dedicaram à estatística, e penso: de fato, eu não trocaria minha vida pela delas. Entretanto, antes de cair naquela tentação tão vaidosa de me gabar de minha ó-tão-interessante &#8220;vida de artista&#8221;, faço questão de me lembrar do seguinte: Se eu não trocaria a minha vida pela delas&#8230; elas também não trocariam suas vidas pela minha. Cada escolha de vida tem delícias e custos que só conhece quem as escolheu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevi, escrevi, escrevi. Todo dia. Às vezes, o dia todo. Não peguei empregos rentáveis, não aceitei mais um frila, não fiz aquela viagem – porque não me sobraria tempo pra escrever. Preferi sempre ajustar meu nível de consumo pra baixo, gastar menos, para poder trabalhar menos, viver com menos – e escrever mais. Escrevo profissionalmente há trinta e cinco anos. Se tiver outros trinta e cinco, não tenho dúvidas de que vou passá-los escrevendo. Sabe por quê? Porque essa vida é <em>minha</em>. Só tenho ela pra arriscar. Só tenho a mim mesmo para sacrificar. Se não jogar minha vida na roleta dos meus sonhos, quem vai fazer isso por mim?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Essa parábola não é de minha. Já ouvi tantas vezes, em tantas variações, que já se tornou patrimônio da humanidade.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Não existe sucesso, não existe fracasso</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez estudar em uma escola de elite e depois dar aulinhas de inglês <em>(ou chicotear pessoas)</em> seja mesmo medíocre. Mas existem várias outras definições possíveis de mediocridade e de sucesso. Talvez mediocridade seja essa nossa busca eterna por uma felicidade inatingível.* Talvez mediocridade seja tentar preencher nossos vazios existenciais com consumo desenfreado. Talvez a maior de todas as mediocridades seja justamente esse raciocínio hierárquico e utilitarista que divide as pessoas em medíocres e bem-sucedidas, e, mais ainda, esse nosso pânico egocêntrico de sermos vistas como <em>losers</em> e não como <em>winners</em>. Afinal, ser bem-sucedida em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Esse será o tema da Prisão Felicidade, não por acaso a penúltima, e clímax desse nosso trajeto pelas Prisões.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">É mais fácil pedir perdão do que permissão</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma velha parábola. Da época em que fumar ainda era socialmente aceitável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sala de espera. O homem puxa um cigarro e, antes de acender, pergunta à recepcionista:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Posso fumar aqui?</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Não, senhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele está guardando o maço quando percebe todas aquelas guimbas a sua volta, fumadas até o fim. E questiona:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− E essas guimbas? De quem são?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E a recepcionista, imperturbável:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Ah, sim, são das pessoas que não perguntaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Não temos como calar o mundo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por todos os lados, vejo pessoas mudando suas vidas, abdicando de seus sonhos, se virando ao avesso, só porque não aguentam mais os constantes comentários, críticas, questionamentos de parentes, colegas, amigas. Mas talvez exista uma maneira diferente de encarar a questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Autoridade, e todos os seus representantes, sempre tentarão determinar nossa conduta, mandar em nossa vida, julgar nossas escolhas. Não há nada que possamos fazer para calar suas vozes. Assim como o lado bom da publicidade é que o capitalismo ainda não pode nos obrigar a consumir, esses comentários invasivos e violentos significam que estamos de fato vivendo a vida que gostaríamos de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o pai do ator de teatro infantil menciona, pela centésima vez, que o filho largou o curso de Direito <em>(de Direito!!)</em> para fazer teatro <em>infantil (logo teatro infantil!), </em>o ator pode escolher ouvir aquilo como uma crítica, como uma intrusão, como uma violência <em>(e não estaria errado, claro), m</em>as também pode escolher ouvir aquilo como uma confirmação, uma afirmação do fato de que ele fez suas próprias escolhas e que está vivendo sua vida nos seus próprios termos. Ele pode escolher ouvir isso e pensar, satisfeito e aliviado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">− Sim, estou ouvindo isso, mas hoje sou ator de teatro infantil como eu sempre quis. Pior seria que tivesse feito Direito, como papai mandou, e hoje estaria ouvindo igual, por alguma outra coisa qualquer, por trabalhar no escritório errado ou por ter perdido uma causa, mas nunca teria realizado meu sonho de ser ator de teatro infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como não existe a possibilidade de calarmos o mundo, nossa melhor hipótese possível é fazermos o que quisermos de nossas vidas e que o Mundo fale o que quiser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Série “As Prisões”</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li>



<li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li>



<li>Respeito</li>



<li>Trabalho</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-accent-color">O Curso das Prisões</mark></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Curso em resumo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O que são As Prisões</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Funcionamento</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 17h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Aulas gravadas indefinidamente</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Sem leituras</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12771" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/07/puxandoo-bola.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Professor</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em>Mentiras Reunidas</em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Meus votos zen-budistas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left" id="compre"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Compre</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>R$88 mensais</strong>, via&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>: comprando o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">plano Mecenas CURSOS</a>&nbsp;<em>(ou superior)</em>, você tem acesso a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos"><strong>todos os meus cursos</strong></a>&nbsp;<em>enquanto durar o seu apoio,</em>&nbsp;além de ganhar muitas outras recompensas, como textos e aulas avulsas exclusivas. Como bônus, coloco seu nome na lista das mecenas. Você pode cancelar o seu plano a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.&nbsp;<em>(O Apoia-se aceita todos os cartões de crédito e boleto).</em></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Dúvidas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-left"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Aulas em resumo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li>



<li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12678" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/corrente-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>
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		<title>Prisão Patriotismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[alexcastro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 May 2023 00:57:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[prisões]]></category>
		<category><![CDATA[brasil]]></category>
		<category><![CDATA[nacionalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[prisão]]></category>
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					<description><![CDATA[Se nossa identidade de classe nos aprisiona, nossas muitas identidades tribais também. Somos seres gregários que só sabem existir em grupos, mas como existir coletivamente sem xenofobia contra outros coletivos?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Se nossa&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">identidade de classe nos aprisiona</a>, nossas muitas identidades tribais também. Mas faz sentido isso? Além da nossa criação, existe uma essência brasileira, baiana, carioca? Somos seres gregários que só sabem existir em grupos, mas como existir coletivamente sem xenofobia contra outros coletivos?</p>



<span id="more-12709"></span>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Essa é a versão final completa da Prisão Patriotismo. Como parte do&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a>&nbsp;e para futura publicação pela Editora Rocco, estou revisando e reescrevendo todos os textos da série&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As Prisões</a>. A Prisão Patriotismo é a quarta, depois das Prisões&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a>, <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a> e <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">As inscrições para o curso estão abertas</a>.)</em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F95d36f0f-afae-46ab-adc9-fbae29c8b7e7_1080x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>* * *</em></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Introdução à Prisão Patriotismo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Toda identidade é, por definição, exclusionária: somos algo&nbsp;<em>(aquarianas, brasileiras,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">classe alta</a>, etc)</em>&nbsp;porque não somos infinitas outras coisas&nbsp;<em>(leoninas ou arianas, uruguaias ou chinesas,&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">classe média ou classe baixa</a>).</em>&nbsp;E tudo bem. O problema nunca é termos nossa identidade ou sermos quem somos. O problema é tudo aquilo que não enxergamos, que não percebemos, que não reconhecemos porque a posição que ocupamos nos impede, nos bloqueia a vista e nos embota a percepção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">identidade de classe pode ser uma prisão</a>&nbsp;porque ela é, antes de tudo, insidiosa: muitas vezes, não sabemos, ou nos recusamos a reconhecer, nossa classe social, e, mesmo assim, ou apesar disso, ela determina nossas amizades, nossas roupas, nossas leituras, nossos sotaques, nossos trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi à toa que, no&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/43hncxV">Manifesto Comunista</a></em>, o grito de guerra era para que os “trabalhadores de todos os países” se unissem. Pois, para Marx e Engels, um trabalhador inglês e um trabalhador belga tinham mais em comum, desde interesses até traumas, do que um trabalhador espanhol e seu patrão espanhol. Mais ainda, ambos escreveram nesses termos pois sabiam estar nadando contra a corrente: a partir da ascendência do nacionalismo em começos do século XIX, a tendência ideológica das pessoas européias era sempre se identificarem, e se unirem, em nacionalidades e não em classes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, se a nossa identidade de classe é insidiosa por ser tão esfumaçada, nossa identidade nacional é violenta por ser tão escancarada, por nos ser enfiada goela abaixo tão sem cerimônia, por sermos obrigadas até mesmo a jurar que morreremos por ela.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">As pessoas muitas vezes não sabem, ou não querem saber, sua classe social</a>, mas todas sabem sua nacionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Prisão Classe</a>, vimos como nossa identidade de classe nos aprisiona; na Prisão Patriotismo, veremos que nossas muitas identidades tribais também. Mas faz sentido isso? Além da nossa criação, existe uma essência brasileira, baiana, carioca? Somos seres gregários que só sabem existir em grupos, mas como existir coletivamente sem xenofobia contra outros coletivos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Qual é a nossa tribo?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É deliciosa a sensação de irmandade que nos acolhe quando estamos em nossa terra, cercadas de iguais, praticando nossos costumes, ouvindo nossa língua, nosso sotaque.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É reconfortante fazermos parte de um estado-nação que nos reconhece como pessoas cidadãs, que garante nossos direitos humanos fundamentais, que nos fornece um passaporte aceito por outras nações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, essa nossa sensação de comunidade, que não é menos real, concreta e verdadeira por ter sido imaginada, fabricada, construída, muitas vezes nos leva a odiar ou desprezar as outras pessoas que não nasceram no nosso chão, que têm outros costumes, outras línguas, outros sotaques.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, se amamos exaltadamente essas abstrações políticas imaginárias, com seus simbolozinhos e musiquinhas; se nos dispomos a matar e morrer por elas; se engolimos acriticamente o discurso nacionalista-excludente do &#8220;ame-o ou deixe-o&#8221;, então, sim, o patriotismo pode ser uma prisão.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F171d074f-11d1-4f20-ae59-b27762f9fa52_1080x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo das leoninas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como pessoas humanas, nossa tendência é sempre naturalizar o mundo que recebemos. As coisas são assim porque sempre foram assim porque sempre serão assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para nós, é tão normal esse mundo onde as pessoas se dividem e se identificam com base no pedaço de chão onde nasceram que mal conseguimos perceber o quanto esse sistema é arbitrário e convencionado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não criarmos outras irmandades?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se existem duas pessoas competindo, o natural, o normal, o esperado, o óbvio, é que eu torça pela pessoa brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas por que me identificar com linhas arbitrárias traçadas no chão e com as pessoas que compartilham comigo o acidente histórico e fortuito de ter nascido no espaço compreendido dentro dessas linhas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não traçar outras linhas arbitrárias para definir nossas lealdades?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao invés de traçar linhas arbitrárias no espaço, por que não traçar, digamos, linhas arbitrárias no tempo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não torcer para a pessoa que é aquariana como eu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não torcer pelas pessoas que têm o mesmo sexo? A mesma cor? A mesma profissão? A mesma classe social? O mesmo tipo sanguíneo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que todas essas opções nos soam tão estranhas, insólitas, injustificadas, mas torcer pela pessoa que nasceu no mesmo país que nós, por outro lado, nos parece tão autoevidentemente natural?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será mesmo que quaisquer duas mulheres, quaisquer dois metalúrgicos, quaisquer dois leoninos não têm mais em comum entre si do que, digamos, um amapaense branco rico e uma gaúcha canhota faxineira, uma sergipana capricorniana recém-nascida e um mato-grossense loiro mudo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que o fato de terem nascido no mesmo estado-nação parece compensar e superar todas as outras diferenças?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem foi que nos convenceu que, apesar de suas inúmeras, óbvias, gritantes diferenças étnicas, linguísticas, religiosas, etc, que uma paranaense e uma baiana têm mais coisas em comum do que diferenças?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os gaúchos dos pampas argentinos e riograndenses, apesar de, na prática, fazerem parte de uma mesma nação, de terem os mesmos hábitos, costumes, estilos de vida, etnias, etc, ficaram séculos se matando ferozmente, alegremente, seguindo as ordens de metrópoles com as quais não tinham nada em comum, que pelo contrário desprezavam, derramando seu sangue para defender seus compatriotas da Terra do Fogo e da Amazônia, que nem conheciam e com quem não tinham nada em comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que força é essa capaz de fazer esses homens ignorarem sua óbvia irmandade e se prontificarem a abrir mão de suas vidas em nome de uma outra irmandade, mais etérea e mais abstrata?</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Não existe essência*</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de entrar no efeito de nossas identidades tribais em nossa própria identidade pessoal, cabe perguntar: existe isso de identidade pessoal? O que é esse Eu que tanto nos orgulha e nos envergonha? Temos uma essência imutável? Nascemos com características fixas que nos acompanharão por toda a vida? Ou somos seres maleáveis, capazes de nos criar e nos construir a cada dia, uma ação de cada vez?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma caneta Bic, se tiro a tampa, é uma caneta sem tampa, de um lado, e uma tampa, do outro. Mas, se abro o corpo da caneta e tiro a carga, a caneta ainda é uma caneta? Agora, tenho três objetos: (1) uma tampa (2) uma carga, com ponta, e (3) um tubo transparente e oco. Qual desses três objetos é a caneta? Nenhum deles? Todos eles? Em que momento passaram a ser uma caneta? Em que momento deixaram de ser? Onde está a essência da caneta?**</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, se perder um braço, continuaria sendo eu, só que sem um braço. Mas, e se tivesse estudado engenharia ou ido morar na Austrália, eu teria sido eu, apenas com uma vida diferente? Se meus pais tivessem feito sexo cinco minutos depois, eu teria sido eu? Se tivesse nascido na década seguinte, em Manaus, loiro e geminiano, ou na década anterior, em Porto Alegre, ruivo e leonino, eu teria sido eu? Em que momento haveria tantas e mais tantas condições fortuitas e circunstâncias contingentes que eu deixaria de ser eu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez, passei dois meses dirigindo pelo Cone Sul, uma viagem particularmente tensa e triste. Durante esse período, pela primeira vez na vida, mesmo depois de ter morado no exterior por uma década, senti muita, muita falta de feijão com arroz. Aquilo para mim foi incrível porque nunca gostei tanto assim de feijão com arroz, e nem acho que é uma comida melhor do que a maioria das outras. Então, por que senti tanta falta? Me lembro de pensar: será então que esse é o meu gosto pessoal? Será que, na minha essência mais profunda, esse é o meu Eu: uma pessoa que não consegue passar dois meses sem feijão com arroz? Ou será que simplesmente sou uma pessoa brasileira, como duzentas milhões de outras, que passou a infância inteira comendo uma mesma comida e que, portanto, foi condicionada a apegar-se a ela, ainda mais em momentos de crise? Que não é um gosto pessoal, vindo das profundezas desse meu ó-tão-concreto Eu, mas sim um gosto cultural, contingente e construído, colocado em mim pelas circunstâncias da minha biografia, condizente com os hábitos alimentares da sociedade onde cresci? Esse meu Eu, ó-tão-uno-e-concreto, que morre de saudade de feijão com arroz, se meu pai tivesse conseguido aquela bolsa para estudar em Londres, não estaria hoje morrendo de saudade de <em>fish &amp; chips</em>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nos damos conta de que nós mesmas não temos uma essência fixa individual, faz ainda menos sentido pensar que teríamos uma pretensa essência tribal, seja de classe, como vimos na Prisão anterior, seja como gaúchas, librianas ou médicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo é contingente, ou seja, acidental e incerto: somos pessoas únicas não porque temos uma pretensa essência metafísica (o Eu!) qualitativamente diferente da essência metafísica das outras entidades que não são-o-meu-Eu, mas sim porque surgimos a partir de condições únicas e de circunstâncias irrepetíveis.***</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Essa subseção parafraseia trechos da 18ª prática, “Desapegar do Eu”, do meu livro Atenção., onde desenvolvo essa questão detalhadamente.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**Existem várias metáforas possíveis para explicar essa mesma ideia, que é o conceito budista do vazio ou vacuidade. A da caneta, especificamente, está em Budismo sem crenças (Palas Atena, 1997), capítulo 11, de Stephen Batchelor.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[***Frase de Stephen Batchelor, em Intuitions of the sublime (2000), seu comentário aos Versos fundamentais do Caminho do Meio, de Nagarjuna, traduzidos por ele sob o título Verses from the center.]</em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F5d66b2a1-6b29-4228-b739-e4515c13f734_1080x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>* * *</em></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">&#8220;Esses gringos burros que acham que falamos espanhol!&#8221;</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos sintomas do patriotismo arrogante brasileiro é a nossa irritação irrefreável diante de qualquer ignorância estrangeira sobre nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas das pessoas leitoras com certeza já ficaram indignadas com &#8220;gringos burros&#8221; que achavam que no Brasil se falava espanhol ou que nossa capital era o Rio de Janeiro ou Buenos Aires.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quantas dessas pessoas leitoras indignadas sabem qual é a capital da Mongólia ou que língua falam na Nigéria?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para não ir tão longe, quantas sabem qual é a capital do Suriname ou que língua falam na Guiana?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ficamos somente na nossa própria abstração política, quantas sabem qual é a capital de Roraima, Tocantins, Sergipe?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas pessoas leitoras talvez até saibam a resposta para essas perguntas, mas isso não quer dizer que:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>outras pessoas tenham obrigação de saber, ou que;</li><li>essas pessoas-que-sabem, por mérito de seus &#8220;conhecimentos superiores&#8221;, tenham adquirido assim o direito de hostilizar quem não sabe.</li></ul>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas atitudes são mais narcisistas do que essa constante naturalização do nosso conhecimento: considerar óbvio e obrigatório que todas as pessoas têm que saber aquilo que sabemos, ao mesmo tempo em que achamos que ninguém tem obrigação de saber aquilo que não sabemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois é óbvio que todos têm que saber a língua falada no México (<em>afinal, até eu sei!</em>) mas é igualmente óbvio que ninguém tem obrigação de saber a língua falada na Guiana <em>(afinal,&nbsp;nem&nbsp;eu sei!).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A maioria das pessoas brasileiras, entretanto, não sabe responder essas perguntas. Não sabem a capital da Guiana Francesa nem o idioma oficial do Congo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ficam, inclusive, ainda mais indignadas quando chamo a atenção para esse fato: retrucam que não é a mesma coisa. Que não dá pra comparar o Brasil com a Indonésia ou com a Costa Rica. Que Roraima é um estado desimportante. Que ninguém tem obrigação de saber essas coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, suas respostas indignadas expõem e exemplificam justamente o lado mais mesquinho do nosso narcisismo patriótico arrogante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois o que torna o patriotismo uma prisão é justamente incutir em nós essa certeza absoluta e peremptória que o Brasil é intrinsecamente mais importante que a Mongólia ou que a Jamaica. Que as pessoas do mundo têm que saber a língua falada no Brasil&nbsp;<em>(ou senão são burras)</em>&nbsp;mas que, francamente, ninguém têm obrigação de saber a língua falada na Malásia.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F64e58d07-d8a5-43b2-ace6-39cb472e1306_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Nosso país não importa, e nem nós</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas coisas são mais importantes do que encararmos de frente nossa suprema desimportância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos desimportantes enquanto pessoas individuais, primatas mamíferas de vidas curtas, uma entre sete bilhões. Somos desimportantes enquanto pessoas nacionais, cidadãs de um estado nacional recentíssimo e periférico. Somos desimportantes até como planeta, um entre&nbsp;<a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Sagan%23Sagan_units">bilhões e bilhões</a>, orbitando uma estrela mediana e medíocre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dá para qualquer pessoa passar a vida inteira sem jamais pensar no Brasil e isso não faria dela uma pessoa inferior, inculta, ignorante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, grande parte das pessoas humanas mais incríveis, generosas, inteligentes, que já existiram nos últimos duzentos anos jamais dedicaram mais do que poucos minutos, ou mesmo segundos, para reconhecer o fato de que, em algum lugar, existia uma nação chamada Brasil. Não saberiam que língua falamos, ou qual é a nossa capital. E daí?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sejamos sinceras: quantas de nós, pessoas leitoras brasileiras, já dedicamos muito tempo para pensar sobre a Romênia, ou sobre o Zaire, ou sobre Honduras?<a target="_blank" href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" rel="noreferrer noopener"></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>* * *</em></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Amar o Brasil faz tão pouco sentido quanto odiá-lo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas leitoras percebem nesse texto uma crítica ao Brasil e correm para concordar:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>&#8220;É isso aí. O Bananão é mesmo uma bosta. É por isso que essa merda não vai pra frente. Foda-se o Brasil mesmo! etc.&#8221;</em></p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Mas meu texto não está fazendo nenhuma afirmação qualitativa sobre o Brasil. Não ataca, nem defende. O Brasil não é pior nem melhor que outros Estados-Nações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse texto sobre patriotismo, os exemplos são brasileiros somente porque o público-alvo é brasileiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Odiar o Brasil por seus muitos defeitos faz tão pouco sentido quanto amá-lo por suas muitas qualidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil, essa entidade abstrata incorpórea inanimada, não tem como perceber nem retribuir nossos ó-tão humanos sentimentos, sejam eles de lealdade ou de desprezo, de gratidão ou de raiva.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F993a2928-43a0-45d0-8ade-6566824724c7_1024x1024.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F993a2928-43a0-45d0-8ade-6566824724c7_1024x1024.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Orgulho de ser brasileiro</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eu respeito e valorizo o Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Brasil é o estado nacional que garante os meus direitos humanos básicos. Foi o Brasil que me deu a segurança, a saúde, a educação públicas, a paz social e a estabilidade institucional, a água potável e o esgoto tratado, etc etc, que permitiram meu desenvolvimento e sobrevivência como pessoa humana. Seria eu capaz de escrever um livro complexo como esse sem minha graduação e mestrado na maior universidade federal do país? Estaria eu vivo para escrever esse livro se, diabético e hipertenso, não tivesse sido um dos primeiros a ser vacinado contra Covid pelo SUS, sem ter que pagar nem um centavo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada disso quer dizer que eu vá amar, ou mesmo me orgulhar, dessa abstração política abstrata inumana incorpórea chamada Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em troca de tudo o que ele me ofereceu e ainda oferece, o Brasil me exige ou pede algumas obrigações, como ser reservista das Forças Armadas, ser mesário, pagar impostos, obedecer leis – obrigações que eu, em larga medida e de acordo com a minha consciência, cumpro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, gostando eu ou não do Brasil, sendo eu grato ou não ao Brasil, essa não é uma relação afetiva: é uma relação contratual&nbsp;<em>(o tal&nbsp;<a href="https://amzn.to/45qQ3Sa">Contrato Social</a>)</em>, regulamentada pela Constituição da República.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu amor eu reservo para seres animados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo é uma apropriação indevida</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ginasta treinou a vida inteira desde a infância. Fez todo tipo de sacrifício. Não se divertiu. Castigou seu corpo. Enfrentou todos os entraves institucionais em seu caminho. Então, coroou todos esses esforços conquistando a medalha de ouro nos jogos olímpicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tudo para que, no dia seguinte, milhões de pessoas que nunca lhe ajudaram em nada, que nunca nem lhe levaram uma aguinha durante os treinos, possam dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Levamos o ouro na ginástica olímpica!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levamos?&nbsp;<em>Nós</em>? Nós quem?</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F508b9bcf-7456-42c6-9321-1e73643c689e_1920x1278.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F508b9bcf-7456-42c6-9321-1e73643c689e_1920x1278.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quem conquistou essas conquistas?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://amzn.to/3MRRYbg">Um dos meus escritores favoritos</a>, judeu norte-americano, conta a seguinte história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele estava conversando com um amigo, também judeu, que disse, em tom de orgulho e confidência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Sabia que nós judeus somos zero vírgula quase nada da humanidade mas ganhamos dezenas por cento dos prêmios Nobel? Não é de se orgulhar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O escritor pensou um pouco e respondeu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— E você sabia que nós judeus somos zero vírgula quase nada da população dos Estados Unidos mas somos quarenta por cento dos estelionatários?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amigo ficou chocado:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Sério?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Sério. Chega a dar vergonha de ser judeu, né?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o amigo foi veemente:</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Claro que não, ué! Eu nunca cometi estelionato, por que teria vergonha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Bem, esse número eu acabei de inventar agora, mas aqueles prêmios Nobel também não foi você que ganhou. Por que tem orgulho deles?*</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9170db45-1690-4aca-be81-d55fe40c1ae7_1500x500.png?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9170db45-1690-4aca-be81-d55fe40c1ae7_1500x500.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Quem conta a história sobre judeus e prêmios Nobel é Isaac Asimov, em sua autobiografia&nbsp;<a href="https://amzn.to/3q6JbcD">I, Asimov</a>. Obrigado a Eduardo Wachter por me achar essa referência.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quem é o sujeito de “ganhamos o Penta”?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eu, Alex, não tenho orgulho de ser canhoto. De ter 1,83 de altura. De ser libriano. De ter olhos e cabelos castanhos. Por que teria orgulho de ser brasileiro? Ser brasileiro, assim como ser destro, não é mérito meu, não é nada que eu fiz. É uma circunstância fortuita totalmente fora do meu controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ter orgulho de nossas afiliações coletivas é tão comum e normatizado que nunca nem pensamos a respeito. Vivemos cercados de pessoas que têm orgulho de ser brasileiras, católicas, cariocas, flamenguistas, mangueirenses.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É normal e aceitável um torcedor brasileiro qualquer falar que somos fodas no futebol, que vamos arrasar todos os outros times, que ninguém joga bola como nós, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, quem nunca?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, um astro de futebol&nbsp;<em>(uma dessas pessoas que está&nbsp;de fato&nbsp;em campo trabalhando duro para ganhar as partidas)&nbsp;</em>que diga qualquer coisa que demonstre auto-consciência de o quão foda ele é vai enfrentar uma ojeriza generalizada. Será chamado de arrogante, vaidoso, soberbo.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9db88f21-d0ff-4879-87b0-ce0bd97c4ffc_1260x710.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9db88f21-d0ff-4879-87b0-ce0bd97c4ffc_1260x710.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O pecado supremo do vaidoso é justamente quebrar o pacto de silêncio que sustenta nossa auto-estima coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para viabilizar nossas vidas, tantas vezes chatas e vazias, precisamos de conquistas coletivas das quais possamos nos apropriar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou, em outras palavras, &#8220;ganhamos o penta!&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que poderia ser mais intolerável do que sermos rudemente lembrados, e, pra piorar, por uma pessoa mais rica, mais famosa, mais sarada, mais bonita, que, na verdade, foi&nbsp;<em>ela</em>&nbsp;que ganhou o penta, não nós?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É claro que vamos odiar esse babaca.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F294b7d14-e56b-4f9a-9133-90201e813221_979x979.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F294b7d14-e56b-4f9a-9133-90201e813221_979x979.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo é uma comunidade imaginada</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somos uma espécie em busca de padrões. Talvez nossa maior habilidade enquanto espécie seja olhar para o mundo a nossa volta, buscar padrões e, em cima deles, criar narrativas. Desde a pré-história, já levantávamos os olhos para o céu, víamos um punhado de pontos de luz e logo já criávamos a constelação de escorpião ou de touro, cada uma decorada com longas e elaboradas historinhas de morte e traição, que terminavam sempre com os deuses transformando alguém em estrela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, o jornalismo esportivo durante a Copa do Mundo é pura literatura, onde longas e épicas narrativas nacionais se entrecruzam ao infinito. A seleção de Mordor não ganha da Latvéria desde 1963! O maior jejum na história das Copas foi de Oz, que ficou sem ganhar um jogo entre as Copas de 1133 e 1345!! Hoje é dia da revanche: vai ser a oportunidade de Avalon se vingar das duas derrotas que sofreu nas mãos da Ciméria, em 1928 e 1969!!! Sempre que Asgard enfrenta Westeros em um dia par, ela perde: será que o padrão vai se repetir hoje também, Galvão?! Etc, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada contra o futebol e nada contra essas narrativas épicas, que não são menos reais e eletrizantes por serem imaginadas. Afinal, não fossem essas narrativas simbólicas, que nos colocam dentro de uma tradição centenária de dramas emocionantes e inacreditáveis reviravoltas, uma partida de futebol seria apenas uma hora e meia de milionários brincando de bola para nos distrair do fato de que nunca, nunca teremos o estilo de vida privilegiado que eles têm.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas existe uma diferença. Acompanhamos a novela, e odiamos a vilã, e amamos a mocinha, ou vice-versa, e aqueles fatos que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram realmente nos fazem sentir emoções fortes e verdadeiras, choramos, gargalhamos, odiamos. Depois que desligamos a TV, porém, por mais que tenhamos nos emocionado profundamente, sabemos que nada daquilo era verdade, e que nem a obra e nem nossas emoções deixaram de ter valor por causa disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema do patriotismo é que, por mais que saibamos da sua ficcionalidade inerente, temos muita dificuldade em desligá-lo.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90a6d561-d4e3-4463-acde-9274109e96af_1080x1080.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F90a6d561-d4e3-4463-acde-9274109e96af_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Nosso chão é mais concreto que nossa nação</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra país veio do italiano&nbsp;<em>paese</em>. No original, não quer dizer somente país ou pátria.&nbsp;<em>Mio paese</em>&nbsp;também quer dizer minha vila, minha cidade, meu bairro. Onde quer que eu me sinta em casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma norte-americana morando no Rio uma vez me contou que ficou no ponto por horas esperando o ônibus parar e nada. Até que percebeu que, aqui no Brasil, você precisa chamar o ônibus, senão ele não para no ponto. Ser uma pessoa estrangeira é isso: perder horas da sua vida por desconhecer uma regrinha boba. Algo que nunca aconteceria no seu&nbsp;<em>paese</em>.&nbsp;<em>Mio paese</em>&nbsp;é onde sei todas as regras, onde eu sei me virar. Pombo de cidade grande não morre atropelado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No meu passaporte, legalmente, sou brasileiro, mas seria muita presunção minha me pensar brasileiro. Não conheço o Brasil. Não sei como as coisas funcionam no Amapá. Não imagino como seja a realidade do Acre. Na verdade, minha própria cidade é grande demais para ser minha: existem bairros com costumes e realidades que também desconheço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não vou dizer que amo esse chão. Chão não se ama. Chão é chão. Pedra, terra. Mas sinto, de maneira profunda e real e concreta, que esse chão é meu. A geografia nos ensina que o o chão, ou seja, o espaço, não é simplesmente um espaço, mas também é produto, condição e meio das relações humanas. De um modo bem real, eu&nbsp;<em>sou</em>&nbsp;essas ruas, essas praias, essas montanhas, essas lagoas. Minha vida e minha subjetividade foram moldadas pelo aterro do Flamengo, pela favela do Vidigal, pela lagoa de Marapendi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo é cheio de problemas: assisto&nbsp;<em>Juno</em>&nbsp;e fico comovido com toda a questão da gravidez infantil, aborto e adoção, mas assisto&nbsp;<em>Tropa de Elite</em>&nbsp;e o filme&nbsp;<em>me</em>&nbsp;aponta um dedo direto na cara: esse é o problema da minha época, da minha terra, da minha geração. Na loteria da História, foi essa batata quente que me coube. O bônus é meu, o ônus também.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcbe719d4-3a8e-4efb-a761-b569f4b93505_2048x1365.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fcbe719d4-3a8e-4efb-a761-b569f4b93505_2048x1365.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo não é menos real por ser imaginado</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não quero inocentar a metrópole: se o noticiário brasileiro finge que o Equador e a Nigéria não existem, o noticiário europeu e norte-americano também. Como vimos na <a href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Prisão Classe</a>, o pecado de não olhar quase nunca para baixo<em> (ou seja, de quem consideramos, do alto de nossos preconceitos, que está abaixo de nós)</em> é um dos mais disseminados do mundo. Somente olhamos, e consumimos a cultura, e imitamos as tendências, e nos interessamos pelas últimas notícias, de quem percebemos como nossos iguais, ou de quem respeitamos e tememos como nossos pretensos superiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença é que o Brasil se considera acima do Equador e da Nigéria. Já os Estados Unidos e a Europa, por seu lado, colocam Brasil, Equador e Nigéria no mesmo saco. Para o arrogante patriotismo brasileiro, é justamente essa a maior humilhação.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Feb04c12a-c53e-4c18-a0fc-aff3397c598c_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O Brasil, visto de fora</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Morei em Nova Orleans por seis anos. Trabalhei no Departamento de Espanhol e Português considerado o segundo mais produtivo do país. A biblioteca da minha universidade tinha o segundo maior acervo latino-americano dos Estados Unidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas minhas aulas, ensinadas em português, pessoas alunas norte-americanas <em>(mas não somente)</em> liam, no original, autores como Carolina Maria de Jesus, José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Dias Gomes, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, entre outros. Apaixonadas pela língua e pela cultura brasileira, minhas pessoas alunas não eram somente estudantes de literatura voltadas para uma carreira acadêmica. Em minha sala de aula, havia médicas estudando doenças tropicais, advogadas se especializando em direito internacional, empreendedoras querendo fazer negócios com o Brasil, ativistas buscando trabalhos em ONGs brasileiras. Minhas pessoas alunas viam o Brasil como uma economia pujante e uma cultura exuberante. Achavam que o Brasil iria longe e queriam fazer parte disso. Consideravam que, no futuro, onde quer que estivessem, falar português e entender o Brasil iria lhes trazer oportunidades pessoais e profissionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de sair do Brasil, eu não via nada disso. No exterior, aos poucos, comecei a perceber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na universidade norte-americana, eu estudava e trabalhava ao lado de colegas de todos os países da América Latina. Por falta de oportunidades em seus países, iam ficando, ficando e, quando percebiam, tinham feito a vida e a carreira nos Estados Unidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos colegas era um homossexual salvadorenho com uma tese brilhante sobre o discurso machista e as imagens fálicas nas eleições latino-americanas. Ele gostaria muito de voltar para El Salvador – mas pra fazer o quê? Nos EUA, ele em breve seria um professor universitário merecidamente bem pago. Em El Salvador, além de sofrer forte preconceito, suas perspectivas profissionais eram minúsculas – e ainda menores por sua orientação sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de estudar a América Latina e morrer de saudades de seus países, muitas das minhas colegas latino-americanas tinham simplesmente se resignado de que a única maneira de terem vidas dignas como acadêmicas era morando nos Estados Unidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso, no Brasil, foram criados 110 novos campi de universidades federais em 27 estados brasileiros somente entre 2003 e 2009 – isso pra não falar da explosão de universidades particulares que, apesar de não terem pesquisa de primeira, oferecem não só capacitação para centenas de milhares de alunas mas também empregos para outras centenas de milhares de professoras universitárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebi então que eu, pessoa brasileira, tinha escolhas. Como tantas colegas, eu poderia fazer a escolha perfeitamente válida de ficar nos Estados Unidos e construir ali uma carreira. Mas, ao contrário da maioria delas, eu tinha a escolha de voltar para um país com um campo universitário amplo, livre e bem-pago, onde poderia desenvolver as mesmas pesquisas que desenvolveria nos Estados Unidos, onde também poderia construir uma carreira próspera. E eu tinha essa escolha, ao contrário do meu colega salvadorenho, não por mérito meu ou demérito dele, mas porque éramos ambos herdeiros de milênios e milênios de decisões acumuladas de nossas pessoas antepassadas, que nos trouxeram a esse momento histórico no qual a cidadania brasileira, de fato, oferece uma gama de escolhas que a cidadania salvadorenha não oferece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para bem ou para mal, essas abstrações políticas imaginadas que nos dão passaportes e garantem nossos direitos constitucionais também nos limitam e nos possibilitam de diversas maneiras diferentes.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40bda8f5-e69e-40ec-91f8-f7eeb32106d2_1080x1080.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F40bda8f5-e69e-40ec-91f8-f7eeb32106d2_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Um lembrete: não estou acima de nada que critico</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os países que mencionei acima, estão o Congo e o Zaire. Na verdade, como fui saber depois, existem dois Congos: a República Democrática do Congo <em>(cujo nome anterior era Zaire) </em>e a República do Congo <em>(também chamada de Congo-Brazzaville ou Congo-Brazavile).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu, do alto da minha arrogância patriótica brasileira, salpiquei esses países no meu texto como quem espalha cebolinha no macarrão, como se fossem cidades em Westeros ou na Terra-Média, apenas uns nomes sem existência concreta. Afinal, Honduras ou Nicarágua, esse Congo ou aquele Congo, que diferença faz, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem me chamou atenção para esse ponto foi Elisa Maia, coordenadora do Programa de Estudante-Convênio de Graduação (PEC-G), do Governo Federal, que diariamente lida com estudantes do mundo inteiro, e de ambos os Congos, que desejam estudar no nosso país, graças às condições educacionais que oferecemos. Muito obrigado, Elisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando escrevo denunciando um tipo de comportamento, quando escrevo sobre ser prisioneiro do padrão de beleza da mídia, sobre narcisismo e autocentramento, sobre patriotismo e preconceito, não estou nunca escrevendo de cima para baixo, como um guru intocável que conseguiu atingir um comportamento ilibado falando para as pobres coitadas lá embaixo que ainda não chegaram ao seu nível de iluminação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelo contrário, estou falando a partir dos subterrâneos, do meio da multidão, como mais uma rota entre tantas esfarrapadas; estou falando justamente da batalha diária que travo comigo mesmo, todo dia, o tempo todo, para ser uma pessoa menos escrota, menos conformista, menos egoísta, menos superficial, menos vaidosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O único dedo que aponto é para mim mesmo. Sempre. Se a carapuça que escrevi para mim também servir em vocês, melhor ainda. Quem sabe não conseguimos juntos virar pessoas humanas menos desagradáveis?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sou guru, não sou perfeito, não sou generoso. Sou profundamente egoísta, patologicamente vaidoso, intrinsecamente autocentrado, fundamentalmente preguiçoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, e essa é minha esperança, talvez não para sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *<a target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F294b7d14-e56b-4f9a-9133-90201e813221_979x979.jpeg" rel="noreferrer noopener"></a></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Quando nossa pátria nos humilha, fugir pra onde?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz alguns anos, a Espanha começou a deportar pessoas brasileiras, causando um certo alarde na nossa imprensa.&nbsp;<a href="https://m.extra.globo.com/noticias/mundo/brasileiros-denunciam-dificuldades-maus-tratos-ao-tentarem-entrar-em-outros-paises-721978.html">Uma jogadora de vôlei</a>, mesmo tendo sido convidada por um clube espanhol, não pôde entrar no país e ainda foi humilhada pela imigração. Depois de voltar, desabafou:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Não quero mais sair do Brasil. Aqui, pelo menos, eu não sou humilhada da forma que fui lá na Espanha.”</p></blockquote>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F7ed1c292-fe34-4261-983e-4fa273214579_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns anos antes, passando pela imigração do aeroporto JFK em Nova Iorque, estou com o sobretudo em um braço, a mochila no outro, coisas penduradas por todo corpo. Quando o oficial da Imigração pede meus papéis, eu estico a mão até ele, documentos dobrados entre os dedos, mas sem desgrudar o antebraço do meu corpo, pra não cair tudo. Ele faz que vai pegar o papel: quando eu solto, ele tira a mão. Os documentos deslizam vagarosamente até o chão e ele diz:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>— Can’t you even unfold it, you lazy sac of shit? (&#8220;Não consegue nem desdobrar o papel, seu saco de merda preguiçoso?&#8221;)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Lentamente, eu deposito todas as minhas coisas no chão, me abaixo, pego o papel, desembrulho e dou pra ele. Não foi nem a primeira nem a última vez em que fui humilhado entrando nos Estados Unidos. Engoli calado. Engolir calado dói. Talvez essa seja a essência da humilhação: quando me xingam, seja um leitor babaca nos comentários ou um mendigo bêbado na rua, eu posso escolher responder ou não – geralmente, não respondo. Mas é uma escolha. Quando um oficial da imigração me ofende e não posso responder, aquilo é humilhante.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fb2ec32b2-d76f-4ce1-a565-67b9d9cd7e67_1920x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A pessoa brasileira que tem condições financeiras de ser humilhada no exterior, porém, costuma ser aquela que nunca é humilhada no Brasil. Na minha terra, sou dotô, sou sinhozinho. Até nas duras, me tratam com respeito. Do Galeão afora, entretanto, sou só mais um, com cara de latino nas Américas e de árabe na Europa. Não sabem como sou especial, que sou único, que tenho pai rico, que faço doutorado, que escrevo livros, esses estrangeiros ignorantes!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, reagir à vergonha voltando correndo para um Brasil idealizado onde não se humilha ninguém é pura ilusão. Quando me humilham no exterior, tento me colocar no lugar daquelas pessoas brasileiras que são humilhadas todos os dias, em seu próprio país, em todos os seus encontros com o Estado, e não apenas durante as viagens que escolhem fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o oficial da imigração norte-americana me humilha, eu posso fugir de volta para o Brasil. Quando um policial militar humilha um cidadão brasileiro, carioca, negro, na favela onde mora, ele vai fugir para onde? Quando uma mulher brasileira é sexualmente assediada e depois desacreditada pela polícia ao tentar dar queixa, ela vai fugir para onde?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, eu, homem, branco, hétero, cis, classe média, sou uma das poucas pessoas verdadeiramente tratadas como cidadãs. Enquanto isso, vivo cercado de pessoas mulheres, negras, trans, pobres, homossexuais, sem-teto, com deficiência, etc, parte de um enorme exército de cidadãs de segunda classe, desfrutando de ainda menos direitos do que eu desfrutava como imigrante latino nos Estados Unidos. A questão, portanto, não é ser patriota ou antipatriota, estar em nossa terra ou em outra terra. A questão é outra: se não somos respeitadas como pessoas e como cidadãs, de que adianta estar em nossa pátria? Aliás, para que serve essa pátria? A quem essa pátria serve? Nossa pátria é onde nos respeitam. Só uma pátria que nos respeita tem o direito de nos pedir para arriscar a vida por ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Verás que um filho teu não foge à luta</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No ano em que completei dezoito anos, prestei o juramento à bandeira, ali no primeiro distrito naval, às margens da baía de Guanabara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mesmo grupo, havia vários jovens negros, magros, aparentemente favelados. Na hora de jurar que protegeriam a nação mesmo com a própria vida, mais de metade deles simplesmente riu e pulou esse trecho. O sargento ficou possesso, esbravejou, exigiu respeito. Finalmente, os meninos falaram lá as tais palavrinhas mágicas que os militares tanto queriam ouvir e pudemos todos ir embora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu fui direto para o Galeão, onde a família estava me esperando para passarmos o mês esquiando na Áustria. No caminho, me lembro de pensar coisas como &#8220;que falta de respeito&#8221;, &#8220;é por isso que o Brasil não vai pra frente&#8221;, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Demorei muito para entender que o Estado tinha significados diferentes para mim e para aqueles meninos. Mais importante, que o Estado se comportava de forma diferente comigo e com aqueles meninos. Que as forças de proteção e repressão do Estado tinham sido criadas justamente para proteger a mim e reprimir a eles. Sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Existe um teste simples para saber se você é privilegiado. Digamos que está num bar, começa uma confusão e, de repente, soa a sirene da polícia, você fica aliviado, pois está salvo e tudo vai se resolver; ou fica tenso, segura a identidade entre os dedos e evita movimentos bruscos?)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Falta de respeito não era aqueles jovens brasileiros se negarem a morrer pelo Brasil. Falta de respeito era o Brasil, depois de dezoito anos tratando-os como pivetes e bandidos, ainda ter o descaramento de pedir que morressem por ele.*</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A história do juramento à bandeira é do leitor Allan Cutrim.]</em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F2f10684c-0731-4a9e-9777-b46222bae417_1024x1024.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Para quem serve essa pátria?*</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Minha primeira esposa, Diane, nasceu em uma pequena e próspera cidade no interior da Amazônia. Veio morar comigo no Rio e se deparou, pela primeira vez, com a população de rua em nossas calçadas. Para minha imensa surpresa de carioca, a mera visão de uma criança de rua já era o suficiente para levá-la às lágrimas. Para ela, era como se uma única criança dormindo ao relento já fosse uma enorme tragédia. <em>(E é!) </em>Com o tempo, para não enlouquecer, para poder funcionar como ser humano, minha ex-esposa foi criando a mesma couraça de insensibilidade social que quase todas as cariocas já trazem do berço. É uma educação do olhar: você se treina para não ver, para não se importar, para não cair de joelhos paralisada pelo horror. Mas, se precisamos ser insensíveis para funcionar em sociedade, talvez essa sociedade é que não devesse funcionar. Talvez fosse o caso de derrubar e fazer outra.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff38b07a7-051a-467d-8d82-692f191e25bc_1920x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, economistas admitem que o salário mínimo é desumano e indigno, mas argumentam, com resignação, que o país iria à falência se pagasse um salário mínimo humano e digno. Ontem, cafeicultores admitiam que a escravidão era desumana e indigna, mas argumentavam, com resignação, que o país iria à falência se as lavouras fossem plantadas por pessoas assalariadas. Seja na época colonial ou no governo Lula, o consenso entre as pessoas brasileiras que vivem em condições humanas e dignas é sempre o mesmo: o Brasil só pode existir enquanto entidade política viável se mantiver grande parte das outras pessoas brasileiras em condições desumanas e indignas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas é viável uma entidade política que não consegue nem mesmo garantir condições humanas e dignas para a maioria de sua população? Nesse caso, existir para quê? Existir para quem?</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F0f78f5d9-30a9-4a22-9eb1-b8c449c7f015_1080x1080.png?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ver a bandeira brasileira servindo de proteção a navios negreiros, bradou Castro Alves:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Antes tivesse sido destruída na batalha do que servindo a um povo de mortalha.”</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Essa subseção parafraseia alguns trechos da introdução do meu livro Atenção. A citação foi adaptada do poema “Navio Negreiro” (1868), de Castro Alves (1847-71), um dos primeiros a clamar que, se a nação brasileira era tão injusta e tão desigual, tão criminosa e tão escravista, talvez não fosse ruim se deixasse de existir. É uma pergunta sempre atual: hoje, é uma coisa boa que o Brasil exista?]</em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F3fa0a8ad-2a6e-4ad2-9873-2119336ddeb1_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Patriotismo e história</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo em que vivemos não é o único que poderia ter sido. A História tende a apagar a própria História: de tanto ser repetida e estudada pelas novas gerações, ela se transforma em predestinação e nos apresenta o mundo de forma naturalizada, como se tudo tivesse acontecido exatamente como tinha de acontecer. O castigo pela derrota é a exclusão retroativa da existência. Quem esteve a um triz da vitória total desaparece como se nunca houvesse nem mesmo competido. Os &#8220;laterais possíveis&#8221; desaparecem.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o mundo foi construído para ser do jeito que é hoje. Ele poderia facilmente ter sido construído de maneira diferente. E pode, ainda hoje, ser desconstruído e reconstruído.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para isso, entretanto, precisamos conhecer as pessoas coadjuvantes, as derrotadas, as esquecidas da História. Os grupos jacobinos que não conseguiram tomar o poder durante a Revolução Francesa. Os grupos anarquistas que não conseguiram fazer frente aos bolcheviques. As rebeliões regionais que não conseguiram separar o Brasil durante a Regência. Os franceses protestantes que não conseguiram fazer da Baía de Guanabara um novo lar para exercerem sua religião.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez suas causas fossem até erradas. Talvez estivessem mesmo na contramão da História. Com certeza, fracassaram de forma espetacular em seus objetivos. Mas vale a pena falar nelas nem que apenas para sempre lembrar que nada estava predestinado.**</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A observação sobre &#8220;os laterais possíveis&#8221; da História está em &#8220;Violência Simbólica e Lutas Políticas&#8221;, nas </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/3IO9FWO"><em>Meditações Pascalianas</em></a><em>, de Pierre Bourdieu.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**O chamado para recuperar os perdedores da História está na introdução do maravilhoso </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/3IN6YVd"><em>A Formação da Classe Operária Inglesa</em></a><em>, de E. P. Thompson.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo é o culto aos vencedores</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A História, disciplina criada para validar e dar arcabouço ideológico aos jovens estados nacionais do século XIX, já nasceu do lado dos vencedores. Não existe patriotismo possível sem uma História Nacional renovando-o e naturalizando-o de geração em geração. Os atuais grupos dominantes são herdeiros dos antigos conquistadores. O discurso patriótico que canta as vitórias nacionais passadas sempre beneficia os atuais poderosos. Todos os vencedores, de todos os tempos, participam da mesma procissão triunfante, na qual os dominantes de hoje pisam e passam por cima das massas derrotadas, confirmando, ilustrando e validando sua superioridade, e trazendo nas mãos seu botim de guerra: a cultura. Os pretensos tesouros culturais da humanidade. Por isso, não pode existir nenhuma obra de arte que não seja ao mesmo tempo um inventário e um testamento de barbárie. Que não esteja ensopada de sangue. Que não seja cúmplice dos poderosos. O desafio é utilizar nossa boa, velha e ensanguentada História nacional para promover um novo tipo de patriotismo, um patriotismo que subverta e quebre a continuidade histórica da narrativa dos vencedores, que recupere as tradições revolucionárias dos vencidos, que exponha a mentira da naturalização do mundo, que nos convide a todas a recriar esse mundo de acordo com desejos e aspirações mais igualitários e mais humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Davi, de Michelângelo, não é inocente dos crimes dos financistas florentinos. “Dom Casmurro” não é inocente dos crimes da escravidão. Nós não somos inocentes da Marielle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O patriotismo é um documento da barbárie</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A subseção anterior é uma paráfrase das &#8220;<a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/43apxLt">Teses sobre o conceito de história</a>&#8221; de Walter Benjamin, escritor brilhante cuja morte ilustra dolorosamente a Prisão Patriotismo. Com a ascensão do nazismo, todas as pessoas judias alemãs como Benjamin tiveram sua cidadania revogada: seu próprio país se voltou contra elas. Se Benjamin não podia ser cidadão nem de sua própria pátria, então, de onde? Tentando chegar ao Novo Mundo, ele sai de Paris na véspera da ocupação e foge para a Espanha, então sob o comando do ditador fascista Franco. Na fronteira, as autoridades espanholas negam passagem ao grupo. Para Benjamin, aquilo significava repatriamento à Alemanha — mas como ser repatriado ao país que se negava a ser sua pátria? Desesperado, longe de casa, sem poder seguir adiante, sem ter para onde voltar, sozinho em quarto de hotel em um país estrangeiro, Benjamin comete suicídio. No dia seguinte, as autoridades franquistas autorizaram o grupo a passar. Sua lápide, na cidade de Portbou, na costa da Catalunha, cita sua famosa frase:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>&#8220;Não há nenhum documento de civilização que não seja ao mesmo tempo um documento de barbárie.&#8221;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">A pátria é uma desmemória coletiva</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A essência de uma pátria é a memória coletiva de suas integrantes.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das principais diferenças entre pessoas uruguaias e brasileiras é que todas as uruguaias sabem quem foi Artigas <em>(feroz inimigo do Brasil, maior herói nacional, &#8220;Jefe de los Orientales&#8221;, &#8220;Protector de los Pueblos Libres&#8221;, etc)</em> e aqui, quase ninguém. Por outro lado, aqui sabemos quem foi Tiradentes e lá, não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo: a batalha de Tacuarembó, em 1820, foi a última e mais decisiva do conflito que chamamos de “Guerra contra Artigas” — um nome interessantemente personalista, como se o Brasil estivesse lutando só contra um homem e não contra o desejo de independência de todo um povo. A derrota dos uruguaios em Tacuarembó sepultou seu sonho de autonomia por dez anos, selou o domínio luso-brasileiro do país e foi a última batalha de Artigas, que se retirou para o Paraguai e nunca mais voltou para a sua terra. O comandante português que derrotou decisivamente o maior herói uruguaio foi José Maria Rita de Castelo Branco, Conde da Figueira. Mas, do ponto de vista luso-brasileiro, essa batalha é tão insignificante que <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Maria_Rita_de_Castelo_Branco">a página da Wikipédia em português dedicada a ele</a> nem mesmo menciona sua vitória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez ainda mais importante, a essência de uma pátria é a desmemória coletiva do seu povo, um gesto ativo de esquecimento de um saber compartilhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas uruguaias são as que esqueceram a guerra civil fratricida que passou para a História com o sugestivo nome de Guerra Grande, entre 1836 e 1852, deixando o país enfraquecido e destruído <em>(e, aliás, novamente dominado pelo Brasil)</em> enquanto as brasileiras são as que esqueceram que o seu país matou quase todos os homens adultos do Paraguai e ocupou o país por onze anos, um período no qual, entre muitas coisas, foi legalizada a poligamia. <em>(Não é por acaso que, se você buscar na internet sobre os crimes do Brasil no Paraguai, a imensa maioria das fontes estará em espanhol.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ignorar é bem diferente de esquecer. Ignorar é não possuir um conhecimento, e muitas vezes reflete apenas as prioridades do nosso olhar. A pessoa brasileira média ignora a história da Nigéria simplesmente porque nunca voltou os olhos para ela, nunca a considerou digna de interesse. O Brasil esteve profundamente envolvido na Guerra Grande uruguaia e pode-se argumentar que foi inclusive o seu maior vencedor e beneficiário. Mas ela já se perdeu completamente no nosso imaginário nacional. Não é nem mencionada nas salas de aula e nos livros didáticos. A pessoa brasileira média não esqueceu essa Guerra: ela nunca soube que ela existiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já esquecer presume um conhecimento prévio que foi ativamente esquecido, colocado de lado, enterrado. A escravidão, o massacre das pessoas indígenas e a Guerra do Paraguai, para citar apenas três exemplos, são coisas que praticamente qualquer pessoa brasileira sabe, nem que apenas esfumadamente. Sabemos que nossos antepassados brancos mataram quase todas as nossas antepassadas indígenas. Sabemos que nossos antepassados brancos escravizaram quase todas as nossas antepassadas negras. Sabemos que nosso país ganhou uma guerra contra o Paraguai e que fizemos coisas terríveis por lá. Às vezes, não sabemos mais nenhum outro detalhe. Mas sabemos o suficiente para saber que precisamos ativamente esquecer o que sabemos todos os dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que uma pessoa brasileira branca cruza com uma pessoa negra na rua, ou vai opinar contra as cotas raciais, ela precisa esquecer ativamente a escravidão. Sempre que uma pessoa brasileira urbana lê uma matéria jornalística sobre Belo Monte, ela precisa ativamente esquecer o massacre dos indígenas. Sempre que falamos no caráter pacífico do povo brasileiro, precisamos ativamente esquecer a Guerra do Paraguai. E não só essa guerra, aliás, mas todos os outros massacres e violências dos quais já tomamos conhecimento, de Canudos a Carandiru, enfiando-os todos em um hiperlotado porão de horrores da memória nacional, sempre torcendo para o porão não explodir em nossa cara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem que nunca esquecia nada, Funes, o Memorioso** <em>(por acaso, uruguaio),</em> nos ensina que para lembrar todos os detalhes de um dia é preciso perder um outro dia inteiro recordando-o. Um custo alto demais. A questão, portanto, é outra: como a História é a arte de esquecer algumas coisas e lembrar outras, então o que queremos lembrar e o que queremos esquecer? Qual é o nosso patriotismo?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A citação sobre a desmemória coletiva das nações é do historiador francês Ernst Renan e está mencionada no primeiro e, depois, desenvolvida no décimo capítulo de </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/3MZgTJZ"><em>Comunidades Imaginadas</em></a><em>, de Benedict Anderson, o melhor livro que conheço sobre nacionalismo e patriotismo. Muitas das ideias desse meu texto vêm de Anderson, apesar de ele ter uma visão bem mais positiva desses fenômenos do que eu.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[**Conto do escritor portenho Jorge Luis Borges (1899-1986), disponível em seu livro </em><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://amzn.to/3WGEvWP"><em>Ficções</em></a><em> (1944). Na história, o personagem Funes é uruguaio.]</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Por um patriotismo das vítimas, das derrotadas, das esquecidas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É fácil celebrar os vencedores da História do Brasil, os homens poderosos que construíram o país onde vivemos hoje. Mas por que não celebrar suas vítimas? Por que não celebrar quem foi morta, atropelada, deixada de lado na estrada pelo projeto de Brasil que acabou vencendo? Por que não celebrar quem era monarquista durante república e republicana durante a monarquia? O anarquismo foi derrotado na Revolução Russa, na Guerra Civil Espanhola, na Hungria, nas barricadas de Paris, em maio de 1968. Apesar disso, talvez por saber que as derrotas ensinam mais do que as vitórias, são elas que as pessoas anarquistas comemoram, são essas histórias que as inspiram. Talvez essas pessoas, mortas e derrotadas há tanto tempo, ainda tenham lições valiosas a ensinar às anti-consumistas que se opõem à sociedade de consumo, ou às militantes LGBT em uma sociedade heteronormativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a década mais movimentada e mais esquecida de nossa História, entre os reinados de Pedro I e II, a falta de um governante central com legitimidade inquestionável fez explodirem diversos conflitos regionais antes recalcados. O Brasil, como hoje o conhecemos, quase se desfez. Só no Pará, a repressão à Cabanagem fez 20 mil vítimas. <em>(Para efeitos de comparação, a população de Belém no início da rebelião era de 12 mil.) </em>Talvez vivêssemos hoje em diversas repúblicas sul-americanas lusófonas. Teria sido melhor? Teria sido pior? Quem sabe. Depende para quem. Sempre depende pra quem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas os vencedores — como sempre fazem, como sempre esteve predestinado que aconteceria — venceram. Seu legado (nosso legado) é esse Brasil uno, grande e poderoso que derramaram tanto sangue para construir em nosso nome. Graças a esses vencedores, durante todo o século XIX, desfrutamos de poder militar suficiente para roubarmos território de todas as repúblicas vizinhas. Algumas vezes, usamos de força bruta. Em outras, usamos intimidação e diplomacia para ratificar os territórios que os bandeirantes já haviam roubado por meio de força bruta nos séculos anteriores. Hoje, o Brasil tem mais que o dobro do tamanho que deveria ter de acordo com o Tratado de Tordesilhas. <em>(Por trás de todo território, há sempre no mínimo um ato fundacional de violência.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem sabe, se não fossem por esses bandeirantes, por esses militares, por esses diplomatas, por todos esses vencedores que exploraram, mataram, roubaram, estupraram em meu nome, eu não teria a variedade de opções profissionais que meu colega salvadorenho não tem. Quem sabe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas sou ingrato. Não quero celebrar quem construiu esse país pujante que tantas escolhas me deu. Meu patriotismo não é o patriotismo de Borba Gato, do Duque de Caxias, do Visconde do Rio Branco. Quero celebrar as vítimas desse projeto nacional. Quero celebrar quem morreu em meu nome. Meu patriotismo é o patriotismo de Eduardo Angelim, de Zumbi dos Palmares, de Chico Mendes. Dos bolivianos do Acre e dos paraguaios do Guairá. Dos parakanã de Belo Monte e dos tamoios da Guanabara. Minha pátria é a pátria dos cabanos e dos canudenses, dos quilombolas e dos favelados.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/f_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd8874afc-8bbb-4b62-b903-d1c055e1490d_1080x1080.jpeg?ssl=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/substackcdn.com/image/fetch/w_1456%2Cc_limit%2Cf_auto%2Cq_auto%3Agood%2Cfl_progressive%3Asteep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd8874afc-8bbb-4b62-b903-d1c055e1490d_1080x1080.jpeg?w=580&#038;ssl=1" alt=""/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* * *</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Conclusões</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nas primeiras duas Prisões, <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/"><strong>Verdade</strong></a> e <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/"><strong>Religião</strong></a>, consideramos questões epistemológicas: o que é a verdade? Como chegar a ela? Como as ideologias influenciam nossa percepção da realidade? Nas duas Prisões seguintes, <a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/"><strong>Classe</strong></a> e <strong>Patriotismo</strong>, viramos essa mirada já problematizadora para nós mesmas: quem somos nós? Qual é a nossa essência? Ela existe? Pode ser apreendida? O que nossas muitas identidades, de classe ou de nacionalidade, nos escondem? Se somos seres gregários que não podem evitar de se congregar em grupos <em>(se temos alguma essência, é essa)</em>, como fazer para não perpetuarmos desigualdades e opressões? Como existir coletivamente sem xenofobia contra outros grupos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Prisão <strong>Respeito</strong>, em seguida, falaremos sobre poder e obediência e, também, como não poderia deixar de ser, sobre rebeldia e resistência. Em nossa sociedade, existe uma Autoridade que não só exige ser obedecida e respeitada, como também vende a obediência e o respeito <em>a ela</em> como as maiores e mais importantes virtudes morais. Além disso, ela também nos impõe um certo modelo de vida bem-sucedida <em>(conseguir um diploma, ter um emprego fixo em tempo integral, casar com o sexo oposto em uma relação monogâmica, constituir família, comprar imóvel, etc) </em>que nos impede de enxergar outras possibilidades, outros caminhos, outros modelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro passo para enfrentarmos essa Autoridade, entretanto, é nos dar conta que, na verdade, ela não emana das grandes instituições repressoras, do Estado ou da Igreja, mas sim que existe e reside, é praticada e exercida, por nós mesmas contra nós mesmas, infinitamente vigiando e punindo umas às outras. A Prisão <strong>Respeito</strong> é para deixarmos de trabalhar para a polícia secreta dessa ditadora.</p>



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<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Excurso II</span></strong></h2>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Politicamente correto</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso uso da língua é e sempre foi político. Não existe, nem poderia existir, linguagem apolítica, aideológica. O politicamente correto serve para destruir essa ilusão: seu grande mérito é escancaradamente politizar a palavra, permitindo que pessoas desprivilegiadas e grupos subalternos possam, enfim, se autonomear.</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Escancarando a vida política das palavras</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Até pouco tempo atrás, uma pessoa brasileira desatenta poderia até pensar que a palavra &#8220;presidente&#8221; era neutra. Em 2010, entretanto, elegemos uma mulher para a presidência da República e ela manifestou seu desejo de ser chamada de &#8220;presidenta&#8221;, palavra dicionarizada em nossa língua desde o século XIX. Somente para espezinhá-la, entretanto, uma parcela significativa de pessoas brasileiras, todas coincidentemente do lado oposto do espectro política, desenvolveram uma súbita e inexplicável ojeriza a uma palavra que elas, quase com certeza, nunca tinham nem pensado. Até hoje, se referir a Dilma como “presidente” ou “presidenta” é uma maneira quase infalível de descobrir se a falante se inclina mais à esquerda ou mais à direita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Dilma foi eleita, Barack Obama era tão presidente dos EUA quanto Raul Castro de Cuba, mas grande parte da imprensa brasileira chamava o primeiro de &#8220;presidente&#8221; e o segundo, de &#8220;ditador&#8221;, como se o uso da palavra &#8220;presidente&#8221; conferisse alguma legitimidade que queriam negar ao cubano, como se um presidente não pudesse ser ao mesmo tempo um ditador, como se o mais correto não fosse usar o termo oficial, “presidente”, e não um termo que, certo ou errado, implica uma avaliação subjetiva, “ditador”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, ninguém mais pode se enganar que escrever &#8220;a presidente Dilma&#8221; ou &#8220;a presidenta Dilma&#8221; é uma mera questão de escolha de palavras. É uma decisão política. Como, aliás, sempre foi. Agora, às claras.</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Nossa língua é a história dos nossos crimes</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma marciana perceptiva conseguiria deduzir toda a história de machismo, racismo, homofobia <em>(ou seja, outrofobia) </em>da cultura lusobrasileira simplesmente lendo algumas poucas páginas escritas em português.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela encontraria expressões como &#8220;não seja xiita&#8221;, &#8220;pára de judiar do gato&#8221; e &#8220;não passa um cristão aqui essa hora&#8221; e se perguntaria: por que as pessoas membros de <em>uma</em> religião viraram sinônimos de intransigência, de <em>outra</em> de maldade, e, de uma terceira, de pessoa humana genérica? <em>(Ninguém precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual é a religião dominante dessa cultura.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa marciana perceberia que quase todos os xingamentos feitos contra homens se referem a uma suposta homossexualidade <em>(&#8220;mariquinha&#8221;, &#8220;viadinho&#8221;, &#8220;puto&#8221;)</em>, como se ser homossexual fosse a pior coisa que um homem pudesse ser. <em>(Ninguém precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual é a orientação sexual dominante nessa sociedade.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa marciana perceberia que quase todos os xingamentos feitos contra mulheres se referem a um suposto excesso de sexualidade <em>(&#8220;puta&#8221;, &#8220;galinha&#8221;, &#8220;vadia&#8221;),</em> como se dispor livremente de seu corpo fosse a pior coisa que uma mulher pudesse fazer. Mais ainda, ela perceberia que muitas e muitas palavras que são neutras no masculino significam variações pejorativas de mulher-que-faz-sexo-demais quando no feminino: aventureira, pistoleira, cachorra. <em>(Ninguém precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual é o gênero dominante nessa sociedade.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa marciana perceberia que quase todas as variações de &#8220;negro&#8221; e &#8220;preto&#8221;<em> (&#8220;enegrecer&#8221;, &#8220;empretecer&#8221; etc) </em>são negativas e, de branco, positivas. Se estivesse lendo textos cariocas, talvez se deparasse com a expressão &#8220;neguinho&#8221; e, a princípio, talvez, pensasse que é um sinônimo de &#8220;pessoa genérica&#8221;, até perceber que quase sempre é &#8220;neguinho só faz merda&#8221; e quase nunca &#8220;neguinho ganhou o Jabuti de ficção&#8221;. <em>(Ninguém precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual é a cor dominante nessa sociedade.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa História não acabou: ela vive e pulsa e se reproduz nas entrelinhas da nossa língua. Mas a História não é uma prisão, nem um destino: ela é uma prática. Que pode e deve ser mudada. No nosso dia-a-dia. Uma palavra de cada vez.</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Breve história do politicamente correto</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, a esquerda se definiu por um certo economicismo, que via nas questões econômicas, como desigualdade social e luta de classes, a contradição principal da sociedade capitalista e fonte de todos os seus conflitos. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, vários movimentos identitários dentro da esquerda começaram a adquirir mais visibilidade e relevância, politizando questões antes vistas como apolíticas <em>(raça, gênero, orientação sexual, currículo escolar, literatura infantil, comida, moda, etc)</em> e trazendo-as para a arena privada, para os cenários do dia-a-dia, para a esfera da interação social. Como dizia o novo slogan feminista, &#8220;o pessoal é político&#8221;. Não apenas os &#8220;proletários do mundo&#8221;, mas também pessoas negras, gays, feministas, etc, estavam se unindo politicamente em torno de suas identidades sociais compartilhadas. Com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, enquanto a direita festejava sua <em>(aparente) </em>vitória e a esquerda fazia uma autocrítica de algumas de suas premissas econômicas, houve uma mudança de paradigma dentro da própria esquerda, onde as questões econômicas, apesar de sempre fundamentais, perderam terreno para essas novas &#8220;políticas de identidade&#8221;, cada vez mais proeminentes. Ao longo dos anos, a vitória dessa tendência foi tão completa que é fácil esquecer que muitas pessoas de esquerda criticavam essas preocupações identitárias como triviais e irrelevantes <em>(especialmente quando comparadas às &#8220;verdadeiras questões da esquerda&#8221;, como pobreza, desigualdade, luta de classes)</em> e que foram essas pessoas que inventaram o termo &#8220;politicamente correto&#8221;, para fazer pouco do que enxergavam como um zelo exagerado nas militantes das causas identitárias.*</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Essa subseção se baseou no livro <a href="https://amzn.to/3MHAzAP">It&#8217;s a PC world. What it means to live in a land gone politically correct</a>”, do jornalista britânico Edward Stourton, de 2008, e no artigo &#8220;<a href="https://medium.com/@stuarthall1994/some-politically-incorrect-pathways-through-pc-653ce8110f6d">Some politically incorrect pathways through PC</a>&#8220;, de 1994, . do pensador britânico Stuart Hall.]</em></p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O que é então o &#8220;politicamente correto?&#8221;</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos saber quem são os socialistas, podemos começar lendo o que escrevem as pessoas que se dizem socialistas, como agem na esfera política os partidos ditos socialistas, como se definem as organizações ditas socialistas. Mas como definir um movimento que não existe de forma concreta, que não tem textos ou cânones que lhe definam, que não possui autoproclamadas líderes ou defensoras? Na falta dessas pessoas, só quem pode definir o politicamente correto são suas inimigas, mas elas também nem tentam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O jornalista Leandro Narloch, em suas histórias politicamente incorretas, escritas explicitamente para &#8220;jogar tomate na historiografia politicamente correta&#8221;, nunca se preocupa em definir politicamente correto e parece simplesmente equacionar &#8220;politicamente correto&#8221; com &#8220;esquerda&#8221;. Paradoxalmente, ele ainda enfatiza que está se referindo a uma esquerda que enxergaria tudo pelo lado econômico: &#8220;nessa estrutura simplista [do politicamente correto], o único aspecto que importa é o econômico.&#8221; Mas, como vimos, ironia das ironias, foram justamente os defensores dessa esquerda &#8220;que enxerga tudo pelo lado econômico&#8221; que inventaram o termo &#8220;politicamente correto&#8221; para fazer pouco da esquerda &#8220;que enxerga tudo pelo lado da identidade&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até bem pouco tempo atrás, ainda circulavam pelo Brasil representantes dessa espécie dinossáurica, o esquerdista politicamente incorreto, mas, ironia das ironias de novo, foi provavelmente o sucesso dos livros de Narloch, ao fortalecer a associação entre &#8220;politicamente incorreto&#8221; e &#8220;direita&#8221;, que causou sua extinção definitiva. Hoje, aos nossos ouvidos, uma pessoa de esquerda se afirmando &#8220;politicamente incorreta&#8221; parece uma contradição em termos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o politicamente correto é aquilo que as pessoas que odeiam o politicamente correto dizem que ele é, sua definição será sempre falha, parcial e pejorativa. Então, uma primeira definição pode ser: politicamente correto é o nome daquele desconforto que tanto incomoda as pessoas que se dizem &#8220;politicamente incorretas&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o que incomoda essas pessoas? Sua principal crítica parece ser em relação a uma pretensa &#8220;patrulha&#8221; que lhes impede de falar algumas coisas que estavam acostumadas a dizer. Será que o politicamente correto é isso? Uma censura? Um atentado à liberdade de expressão?</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Mudando o mundo, uma piada de cada vez</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pergunta de um leitor:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Alex, meu tio sempre fez piadas homofóbicas e racistas. Sempre. Agora, depois de levar umas broncas da chefa no escritório, ele parou. Quer dizer, parou lá. Em casa, ele continua fazendo as mesmas piadas e agora reclamando dessa patrulha do politicamente correto. Mas, sério, de que adianta? Meu tio continua o mesmo racista homofóbico que ele sempre foi. O que mudou?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu respondo que mudou tudo. O tio é um adulto que gosta de contar piadas homofóbicas e racistas porque cresceu e se formou em um mundo, em uma sociedade, em uma família, onde contar piadas homofóbicas e racistas era aceitável e esperado. Esse comportamento, além de não ter custo social algum, ainda trazia vários benefícios, como ser percebido como uma pessoa divertida, bem-humorada, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o seu filho está crescendo em um mundo radicalmente novo. Na melhor das hipóteses, o filho concorda com a chefa do pai que piadas racistas e homofóbicas são inaceitáveis, está feliz do pai não estar mais contando esse tipo de piada e, naturalmente, quando tiver suas próprias filhas e filhos, não vai lhes contar essas piadas, quebrando assim a corrente de transmissão. Na pior das hipóteses, mesmo que esteja revoltado do pobre pai estar sendo oprimido pela patrulha do politicamente correto, esse filho também está crescendo no mundo radicalmente novo onde essas piadas não são aceitáveis nem esperadas nem recompensadas, mas sim tem um custo social real. Por mais que esse filho ache que contar piada homofóbica não tem nada demais, amanhã, quando estiver no primeiro dia de trabalho em uma nova empresa, não vai contar uma piada homofóbica (como talvez o pai fizesse sem nem pensar vinte anos antes), porque, mesmo se nenhum colega for homossexual, ele pode estar se queimando severamente no escritório. A corrente de transmissão não se quebra, mas se enfraquece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa pequena diferença, acontecendo milhões e milhões de vezes todos os dias, é o que muda o mundo.</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Hospedeiras, não vetores</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O racismo e a misoginia, a homofobia e o capacitismo, e todas as vertentes possíveis e imagináveis da outrofobia, não têm existência concreta. Elas precisam de nossa cumplicidade para existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos todos crias da mesma sociedade outrofóbica. Já &#8220;sabemos&#8221; que ser homossexual é pecado, que pessoas negras têm &#8220;cabelo ruim&#8221;, que mulheres foram feitas para a maternidade, muito antes de sentirmos em nós mesmas os primeiros desejos homossexuais ou de termos qualquer noção de nossa identidade negra ou feminina. Então, nada mais natural do que existirem pessoas negras racistas, homossexuais homofóbicas, mulheres machistas: elas não são <em>bugs</em> do sistema, mas sim <em>features</em>. Quando uma pessoa escuta por toda a sua vida que o seu &#8220;cabelo é ruim&#8221;, nada mais compreensível que ela acredite e nada mais árduo do que vencer essa programação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos todas hospedeiras da cultura outrofóbica. Trazemos dentro de nós todos os xingamentos homofóbicos, todas as piadas racistas, todos os lugares-comuns machistas<em>. (Por isso também ninguém está livre, nem mesmo a mais politizada militante, de escorregar e deixar escapar uma atitude ou fala outrofóbica.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o meu amigo Grafite realmente não se importe de ser o Grafite em um escritório de Cláudios e Felipes. Talvez o Grafite considere que, para seus objetivos profissionais, é melhor não virar &#8220;o chato do escritório&#8221; <em>(“Pô, Grafite, você vê racismo em tudo!”)</em> e decidiu lutar outras batalhas. Não cabe a mim julgá-lo, ainda mais que nunca vou saber a pressão e o preconceito que sofrem um homem negro no Brasil. Mas eu posso escolher não chamá-lo de Grafite. Pra mim, ele é o Paulo Roberto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se não temos escolha de sermos hospedeiras da cultura outrofóbica, temos escolha sim de sermos vetores. A escolha de passar adiante esses horrores do passado é só nossa. A homofobia é um conceito abstrato. Ela não tem existência concreta. O que existe são pessoas que contam piadas homofóbicas. E posso escolher não ser uma delas.</p>



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<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O poder da palavra</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das principais lições que a filosofia nos ensinou no século XX é que a palavra molda o mundo. Nomear é poder. Nossa relação com a realidade é sempre mediada pela palavra: todas as relações de poder passam, em algum momento, pela palavra. Quem nomeia dá o tom, dita as regras, efetiva a posse. <em>(Não foi à toa que os navegantes portugueses do século XVI subiram e desceram a costa brasileira colocando nome de santo em cada acidente geográfico de uma terra onde mal tinham pisado.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas sentiam-se insultadas e diminuídas ao serem chamadas de &#8220;deficientes&#8221;, uma definição baseada em um diagnóstico médico. <em>(Seria como chamar alguém de &#8220;canceroso&#8221; ao invés de simplesmente dizer que &#8220;ela tem câncer&#8221;.)</em> O movimento &#8220;people first&#8221; <em>(pessoas primeiro)</em> defende que se coloque as pessoas antes das doenças e que se descreva o que elas têm e não o que são. Por isso, hoje, o termo mais usado é &#8220;pessoa com deficiência&#8221; &#8212; daí o nome da <a href="https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/pessoa-com-deficiencia/">Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência</a>. Faz sentido ser contra? Quem teria o direito de exigir chamá-las de &#8220;deficientes&#8221;, &#8220;cadeirantes&#8221; ou o que seja? <em>(E, aliás, como as pessoas com deficiências não são um bloco homogêneo de opiniões unânimes, também existem algumas que criticam essa expressão e propõem outras.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Respeitar o modo como as pessoas querem ser tratadas deveria ser uma simples questão de empatia, quando não de boas maneiras: é triste precisar ser um movimento político, e polêmico ainda por cima. Se podemos falar dos &#8220;princípios&#8221; de algo que nem existe, como o politicamente correto, um deles seguramente seria: nomear a si própria. Aliás, como as pessoas privilegiadas sempre foram donas do discurso e se autonomearam, na prática estamos falando de estender esse direito também às minorias marginalizadas e desprivilegiadas. Ou seja, de tirar das pessoas privilegiadas esse poder de nomear o Outro e garantir às pessoas desprivilegiadas o poder de nomear a si mesmas. Portanto, quando as pessoas privilegiadas reclamam da &#8220;patrulha politicamente correta&#8221; estão reclamando da perda desse privilégio nomeador.</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Uma verdadeira liberdade de expressão</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O politicamente correto não oprime, nem patrulha. &#8220;Patrulha&#8221; são soldados armados por um governo que lhes dá poder de matar. &#8220;Opressão&#8221; é quando instituições, públicas ou privadas, impõem suas regras sobre pessoas comuns. Só quem tem poder de oprimir e patrulhar são as instituições, o estado, as grandes empresas. Só quem tem poder de oprimir e patrulhar são as ideologias hegemônicas: o racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo, a intolerância religiosa; enfim, todas as vertentes da outrofobia. Como pode ser &#8220;opressor&#8221; e &#8220;patrulhador&#8221; algo tão abstrato, tão minoritário, tão fraco quanto o politicamente correto? Como pode ser &#8220;opressora&#8221; e &#8220;patrulhadora&#8221; uma gota de discurso homoafetivo em um mar cultural de homofobia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O politicamente correto é uma nova ética, resultado de uma maior participação social de minorias até então silenciadas; um código de conduta não-escrito, autodefinido por cada uma de nós, pessoas comuns que não têm poder de impor suas vontades às outras, através do qual tentamos agir e falar da forma que nos parece mais empática e mais generosa. O politicamente correto somos todas nós decidindo não assistir mais o comediante que faz piada de estuprar grávida, não dar mais às nossas crianças os livros infantis do autor racista, não mais chamar uma minoria pela palavra que ela acha ofensiva. Como podem acusar esse processo de opressão, patrulha, censura?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um comediante ter a liberdade <em>(assegurada na constituição) </em>de fazer piada de estupro e nós, pessoas comuns, termos a liberdade <em>(assegurada na constituição) </em>de escrever textos criticando-o e propondo boicotes ao seu show&#8230; é a essência da liberdade de expressão em uma sociedade democrática. Se não isso, o que queriam? Poder falar o que quiserem e nunca ser criticados? Isso não seria liberdade de expressão, seria privilégio: o privilégio do qual sempre desfrutaram as classes dominantes, o privilégio que o politicamente correto — ao defender uma verdadeira liberdade de expressão, uma liberdade de expressão aberta a todas as pessoas, privilegiadas ou não — lhes tirou. Nada poderia ser mais anti-censura, anti-patrulha, anti-opressão do que isso.*</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*Desenvolvo a fundo essa questão dos limites do humor na “<a href="https://www.papodehomem.com.br/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil/">Carta aberta às humoristas do Brasil”</a>, no meu livro Outrofobia, publicado pela editora Publisher Brasil em 2015.]</em></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Em qual time queremos estar?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, as militantes de causas identitárias são muitas vezes radicais e cometem excessos. Mas é porque estão na vanguarda. Quase sempre, só as pessoas mais radicais, aquelas que veem o mundo em branco-e-preto, são as que conseguem efetivamente romper a inércia dos tempos e tomar as atitudes que mudam o mundo, enquanto as pessoas acomodadas olham de longe, balançam a cabeça, fazem &#8220;tsc tsc&#8221; e têm filhas que vão colher os frutos desse radicalismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, apesar de todas as ferozes brigas internas, apesar dos <em>(pretensos) </em>radicalismos e dos <em>(ditos)</em> excessos, quando as balas de borracha começam a voar, precisamos decidir se estamos com quem defende respeito e dignidade para as pessoas trans ou com quem exige o direito de fazer &#8220;piada de travesti&#8221;. Se o segundo grupo orgulhosamente se autoproclama &#8220;politicamente incorreto&#8221;, então não faz sentido as pessoas do primeiro fugirem da pecha de politicamente corretas. Proponho tomarmos para nós, também com orgulho, esse termo. Pois eu tenho orgulho de estar do lado oposto dessa gente.</p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Ressignificando o politicamente correto</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há muito tempo, nos Estados Unidos, as pessoas homossexuais eram chamadas pejorativamente de &#8220;queer&#8221;, um adjetivo que significa &#8220;estranho&#8221;. Em um dado momento, a comunidade homossexual tomou o termo para si, criou slogans como &#8220;I&#8217;m queer and proud of it&#8221; <em>(&#8220;Sou estranho e tenho orgulho disso!&#8221;)</em> e, em poucos anos, conseguiu ressignificar a palavra. Hoje, &#8220;queer&#8221; não é mais um termo pejorativo: ele pertence à comunidade homossexual.*</p>



<p class="wp-block-paragraph">O termo &#8220;politicamente correto&#8221; hoje é usado pela direita para fazer pouco das prioridades linguísticas e políticas de uma parte da esquerda — como, por exemplo, utilizar o termo &#8220;pessoas com deficiências&#8221; e não &#8220;deficientes&#8221; — mas não existe um movimento &#8220;politicamente correto&#8221;, ninguém bate no peito pra se dizer &#8220;politicamente correta&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, se você acha, como eu, que faz todo o sentido do mundo chamar as &#8220;pessoas com deficiências&#8221; pela expressão que lhes deixa mais confortáveis, então talvez seja a hora de cooptarmos para nós a expressão &#8220;politicamente correto&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ser &#8220;politicamente correta&#8221; é se importar com o efeito que nossas palavras têm nas outras pessoas, em especial nas pessoas marginalizadas, então, sim, talvez devêssemos bater no peito e nos afirmar &#8220;politicamente corretas&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[*A filósofa norte-americana Judith Butler, uma das pensadoras mais importantes da nossa era, fala de &#8220;ressignificação&#8221; em Problemas de gênero (1990) e Excitable Speech (1997), entre outros.]</em></p>



<h2 class="has-text-align-left wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">E a liberdade de expressão?</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não tem como falar de politicamente correto sem falar de liberdade de expressão. Afinal, a principal acusação de seus detratores é que o politicamente correto é inimigo da liberdade de expressão. O assunto será tratado na Prisão Liberdade.</p>



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<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Série “As Prisões”</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui estão os textos já reescritos, revisados e finalizados em 2023:</p>



<ol class="wp-block-list"><li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-verdade/">Verdade</a></li><li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-religiao/">Religião</a></li><li><a target="_blank" rel="noreferrer noopener" href="https://alexcastro.com.br/prisao-classe/">Classe</a></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-patriotismo">Patriotismo</a></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisao-respeito/">Respeito</a></li><li>Trabalho</li></ol>



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<h2 class="wp-block-heading"><span class="has-inline-color has-accent-color">O Curso das Prisões</span></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um curso para nos libertar até mesmo da busca pela liberdade.&nbsp;<strong>O que está em jogo é nossa vida.</strong></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12667" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/moleque-descricao-completa-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Curso em resumo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curso de&nbsp;<strong>filosofia prática</strong>, com ênfase em&nbsp;<strong>liberdade pessoal</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>consciência política</strong>: como viver uma vida mais livre e significativa sem virar o rosto ao sofrimento do mundo. // As Prisões: Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia //&nbsp;<strong>Sem leituras</strong>, com muita conversa, debate, polêmica. // Um tema por mês, durante onze meses: uma conversa livre, no 1º domingo, para abrir o mês de conversas sobre o tema, e uma aula, na última quarta-feira, para fechar.&nbsp;<strong>Até 27 de dezembro</strong>&nbsp;de 2023. // Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. //&nbsp;<strong>R$88</strong>&nbsp;mensais, no&nbsp;<a href="http://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>, por&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos">todos os meus cursos</a>.&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#compre">Compre agora.</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12668" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/autofalante.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">O que são As Prisões</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As Prisões são as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal explicadas, os costumes sem sentido:&nbsp;<strong>Verdade, Religião, Classe, Patriotismo, Respeito, Trabalho, Autossuficiência, Monogamia, Liberdade, Felicidade, Empatia</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chamo de As Prisões são sempre prisões&nbsp;<em>cognitivas</em>: armadilhas mentais que construímos para nós mesmas, mentiras gigantescas que nunca questionamos, escolhas hegemônicas que ofuscam possíveis alternativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Monogamia</strong>, por exemplo, é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção concebível de organizar nossos relacionamentos, consignando todas as outras alternativas à imoralidade, à falta de sentimentos, ao fracasso: “relacionamento aberto não funciona, é coisa de quem não ama de verdade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;<strong>Felicidade</strong>&nbsp;é uma prisão não porque seja ruim ou desaconselhável em si, mas porque se apresenta como sendo a única opção de fim último para nossas vidas, consignando todas as outras alternativas à condição de suas coadjuvantes e dependentes: “não é que o seu fim último seja ser virtuosa, mas você quer ser virtuosa para ser feliz, logo o seu fim último é ser feliz”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Monogamia</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de viver relacionamentos monogâmicos, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, vive relacionamentos monogâmicos por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é viver a Monogamia, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está “presa” na&nbsp;<strong>Prisão Felicidade</strong>&nbsp;não é a pessoa que fez a escolha livre e consciente de colocar sua própria felicidade individual como fim último de sua vida, mas sim aquela que, por ignorar a opção de não fazer isso, por nunca ter percebido a verdadeira gama de diferentes alternativas que lhe estavam abertas, busca sua própria felicidade por default, como se essa fosse a única possibilidade concebível. Sua prisão (<em>cognitiva</em>) não é buscar a Felicidade, mas ignorar a realidade que existe além dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada uma das Prisões, da&nbsp;<strong>Verdade</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Empatia</strong>, do&nbsp;<strong>Trabalho</strong>&nbsp;à&nbsp;<strong>Felicidade</strong>, é sempre, antes de mais nada, uma prisão cognitiva,&nbsp;<em>uma percepção incompleta da realidade</em>. Por trás de todas as Prisões está sempre a mesma inimiga: a ignorância.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12670" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/prisao-de-tinta.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Funcionamento</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda Prisão é uma verdade tão inquestionável que nos impede de perceber outras alternativas, nossas aulas começam sempre por analisá-la e desconstruí-la, para entender como nos limitam, e podermos então enxergar as alternativas que ela esconde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada mês será dedicado a uma Prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No 1º domingo do mês, às 17h, damos início às discussões com uma conversa livre no Zoom. Não é uma aula expositiva, mas uma sessão de troca e de escutatória. Sem a interlocução de vocês, sem ouvir como essa prisão afetou as&nbsp;<em>suas</em>&nbsp;vidas, eu não teria nem como começar a pensar a aula. Aqui, tudo é prático, nada é teórico. O que está em jogo são nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do mês, continuamos conversando sobre essa Prisão em nosso grupo do Whatsapp, trocando histórias e experiências. Para quem quiser, vou compartilhando as leituras que estou fazendo sobre o tema, mas&nbsp;<strong>nenhuma leitura é obrigatória</strong>, nem necessária para a compreensão da aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última quarta-feira do mês, às 19h, fechamos as discussões com uma aula, também pelo Zoom. Essa aula será expositiva, mas também teremos bastante espaço para debates e conversas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12671" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/carregando-bloco.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Aulas gravadas indefinidamente</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A gravação em vídeo das aulas expositivas fica disponível em um grupo fechado do Facebook.&nbsp;<em>(É preciso se inscrever no Facebook para ter acesso ao grupo)&nbsp;</em>Mas, juridicamente falando, como não posso garantir “indefinidamente”, garanto que as aulas estarão acessíveis às compradoras do curso, se não no Facebook em outro lugar, no mínimo até 31 de dezembro de 2027. As conversas livres, por serem mais pessoais, não ficam gravadas: são só para quem vier ao vivo. As aulas gravadas só estarão disponíveis para as&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">mecenas do plano CURSOS</a>&nbsp;enquanto durar o apoio. Você pode cancelar seu plano de mecenato a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12672" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/abelha-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Sem leituras</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso As Prisões não é um curso de leituras: nenhuma leitura é obrigatória ou recomendada. É um curso de conversas livres e de trocas de experiências, de escutatória e de debates, de reflexão sobre nossas vidas e sobre como viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para cada Prisão, eu listo uma pequena bibliografia, para que vocês saibam quais livros&nbsp;<em>eu</em>&nbsp;utilizei na preparação da aula e para que possam correr atrás das leituras que mais lhes interessem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não precisa ler nada para participar das aulas, das conversas, das trocas, das discussões.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/noruegas-estranhos.png?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12673" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/noruegas-estranhos.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/noruegas-estranhos.png?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/noruegas-estranhos.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/noruegas-estranhos.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Sejam as primeiras leitoras do&nbsp;<em>Livro das Prisões</em></span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;<em>Livro das Prisões</em>&nbsp;foi contratado pela Rocco em 2017 e eu ainda não consegui escrever. Um de meus objetivos para esse curso é, com a inestimável ajuda da interlocução de vocês, finalmente terminar o livro. Então, junto com a aula, também pretendo disponibilizar o texto dessa Prisão em sua versão final, já pronta para publicar. Todas as alunas do curso serão citadas nos agradecimentos do livro, pois ele certamente nunca teria sido escrito sem a participação de vocês. Já de antemão, agradeço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12674" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/garrafa-ao-mar.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Professor</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alex Castro é formado em História pela UFRJ com mestrado em Letras por Tulane University&nbsp;<em>(Nova Orleans, EUA)</em>, onde também ensinou Literatura e Cultura Brasileira. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ. Tem oito livros publicados, no Brasil e no exterior, entre eles&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/2Ayhksf">A autobiografia do poeta-escravo</a></em>&nbsp;(Hedra, 2015),&nbsp;<em><a href="https://amzn.to/3dVF6gh">Atenção</a></em>. (Rocco, 2019) e&nbsp;<em>Mentiras Reunidas</em>&nbsp;(Oficina Raquel, 2023). Escreve para a&nbsp;<a href="https://search.folha.uol.com.br/?q=%22alex+castro%22&amp;site=todos"><em>Folha de São Paulo</em></a>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12675" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/mergulhadoras.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Meus votos zen-budistas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pratico zen budismo há dez anos. Todo dia, pela manhã, refaço meus votos: os&nbsp;<strong>quatro votos do Bodisatva</strong>&nbsp;e os&nbsp;<strong>três votos dos pacificadores zen</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente, eu me comprometo a ajudar as pessoas a 1) se&nbsp;<em>libertarem</em>, 2)&nbsp;<em>enxergarem</em>&nbsp;as ilusões que as limitam, 3)&nbsp;<em>perceberem</em>&nbsp;a realidade em sua plenitude e, assim, 4)&nbsp;<em>agirem</em>&nbsp;no mundo de acordo com essa percepção. E me proponho a fazer isso a partir de 1) uma posição de&nbsp;<em>não-saber</em>, me abrindo às novas situações sem certezas prévias, 2) estando&nbsp;<em>presente</em>&nbsp;de forma plena a cada interação humana, sem virar o rosto nem à dor nem à alegria, e 3) agindo&nbsp;<em>amorosamente</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse curso é minha humilde tentativa de agir no mundo de acordo com meus votos. De ajudar as pessoas, minhas alunas e minhas leitoras, a enxergarem suas prisões, se libertarem delas, perceberem a realidade e agirem amorosamente no mundo, questionando suas certezas e nunca virando o rosto nem à dor nem à alegria das outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dar esse curso, portanto,&nbsp;<em>é</em>&nbsp;minha prática religiosa. Se eu tiver algum sucesso em caminhar ao lado de vocês nesse percurso, minha vida terá sido uma vida bem vivida, e sou grato por tê-la vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os Quatro Votos do Bodisatva:&nbsp;</strong>As criações são inumeráveis, faço o voto de libertá-las; As ilusões são inexauríveis, faço o voto de transformá-las; A realidade é ilimitada, faço o voto de percebê-la; O caminho do despertar é insuperável, faço o voto de corporificá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os três votos da Ordem dos Pacificadores Zen:&nbsp;</strong>Praticar o não saber, abrindo mão de certezas prévias; Estar presente na alegria e no sofrimento, não virando o rosto à dor alheia; Agir amorosamente, de acordo com essas duas posturas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12676" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/trabalho-.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="compre"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Compre</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Curso das Prisões é exclusivo para as mecenas dos&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">planos CURSOS ou MIDAS</a>&nbsp;do meu Apoia-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer o curso completo&nbsp;<em>(11 aulas expositivas + 11 encontros livres + grupo no Facebook + grupo de Whatsapp):</em></p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>R$88 mensais</strong>, via&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">Apoia-se</a>: comprando o&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">plano Mecenas CURSOS</a>&nbsp;<em>(ou superior)</em>, você tem acesso a&nbsp;<a href="https://alexcastro.com.br/cursos"><strong>todos os meus cursos</strong></a>&nbsp;<em>enquanto durar o seu apoio,</em>&nbsp;além de ganhar muitas outras recompensas, como textos e aulas avulsas exclusivas. Como bônus, coloco seu nome na lista das mecenas. Você pode cancelar o seu plano a qualquer momento, mas aí perde acesso aos cursos.&nbsp;<em>(O Apoia-se aceita todos os cartões de crédito e boleto).</em></li></ul>



<p class="wp-block-paragraph">Não são vendidas aulas individuais. Não existem outras formas de pagamento. Quem estiver no estrangeiro e não tiver cartão de crédito ou conta bancária brasileira, fale comigo: eu@alexcastro.com.br</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Dúvidas</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente por email: eu@alexcastro.com.br</p>



<figure class="wp-block-image"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="580" height="580" src="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=580%2C580&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12677" srcset="https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=500%2C500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/alexcastro.com.br/wp-content/uploads/2023/05/cerca-passaros-PB-2.jpeg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><span class="has-inline-color has-accent-color">Aulas em resumo</span></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Links levam para a descrição de cada aula na ementa do curso.</p>



<ol class="wp-block-list"><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#verdade">Verdade</a>&nbsp;<em>(fevereiro)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#religiao">Religião</a>&nbsp;<em>(março)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#classe">Classe</a>&nbsp;<em>(abril)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#patriotismo">Patriotismo</a>&nbsp;<em>(maio)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#respeito">Respeito</a>&nbsp;<em>(junho)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#trabalho">Trabalho</a><em>&nbsp;(julho)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#autossuficiencia">Autossuficiência</a>&nbsp;<em>(agosto)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#monogamia">Monogamia</a>&nbsp;<em>(setembro)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#liberdade">Liberdade</a>&nbsp;<em>(outubro)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#felicidade">Felicidade</a><em>&nbsp;(novembro)</em></li><li><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/#empatia">Empatia</a>&nbsp;<em>(dezembro)</em></li></ol>



<p class="wp-block-paragraph">As inscrições para o&nbsp;<em><a href="https://alexcastro.com.br/prisoes/">Curso das Prisões</a></em>&nbsp;estão abertas: é só fazer&nbsp;<a href="https://apoia.se/alexcastro">o plano CURSOS no meu Apoia-se.</a></p>



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