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	<description>A primeira e mais premiada agência de jornalismo investigativo do Brasil.</description>
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		<title>Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Josué Congo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 18:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>
		<category><![CDATA[Paraguai]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Na terça-feira, 3 de novembro de 2026, quase 3 milhões de paraguaios — cerca de metade da população — acordaram sem poder usar o seu dinheiro.</span> Às 3h24 da madrugada, o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou no X/Twitter o fechamento do Ueno Bank, banco digital ligado ao presidente Santiago Peña, por falta de solvência. As economias de milhares de famílias estavam depositadas ali, assim como 800 milhões de dólares em recursos públicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquele mesmo dia, o Ministério Público emitiu uma ordem de prisão contra oito dirigentes do banco, a partir de uma denúncia do Banco Central. <span class="highlighter">O principal apontado é Federico Miguel Vázquez, primeiro vice-presidente do Ueno e fundador e acionista majoritário do Grupo Vázquez</span> — um conglomerado de pelo menos 28 empresas que fazem parte de um suposto esquema de captação de recursos e fraude bancária. O empresário está sendo apelidado de “Vorcaro do Paraguai”, pelas semelhanças com o escândalo brasileiro do <a href="https://apublica.org/tag/banco-master/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Banco Master</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na quarta-feira, 4 de novembro, o Ministério Público imputou a 27 dirigentes do grupo os crimes de conduta indevida em situações de crise e lesão de confiança, incluindo os oito primeiros. À tarde, deputados da oposição apresentaram o projeto de impeachment contra Peña e, nas ruas da capital, a polícia reprimiu manifestantes com balas de borracha, gás lacrimogêneo e caminhões-pipa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às 10h da manhã de quinta-feira, 5 de novembro, a Câmara dos Deputados deu início ao processo de impeachment para destituir o presidente. Mas, às 13h30, Peña renunciou antes que fosse afastado. O Senado tentou aceitar sua renúncia, mas prevaleceu a linha do impeachment, que continua nesta sexta-feira. Paralelamente, um juiz decidiu pela prisão preventiva dos oito dirigentes do Ueno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na mesma manhã de quinta-feira, senadores da oposição apresentaram uma denúncia contra Peña ao Ministério Público especializado em crimes econômicos, o mesmo que investiga os dirigentes do Ueno Bank. “Que ele seja indiciado e tenha seus bens confiscados. O dinheiro que roubaram precisa ser recuperado e usado para pagar as pessoas”, afirmou a senadora oposicionista Esperanza Martínez. A denúncia também inclui integrantes da diretoria do BCP, como Carlos Carvallo Spalding, que foi dirigente do Ueno Bank antes de assumir a presidência do Banco Central durante o governo Peña.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Se a investigação do Ministério Público comprovar os crimes atribuídos aos dirigentes do Ueno e do Grupo Vázquez, assim como a cumplicidade de Santiago Peña e de integrantes do BCP, esse caso será tão grave quanto ou maior que o do Banco Master, no Brasil</span>, ligado a <a href="https://apublica.org/nota/flavio-bolsonaro-audio-vazado-com-vorcaro-cobra-r-134-milhoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Flávio Bolsonaro</a> e que afetou quase 2 milhões de brasileiros. Há, além disso, um temor latente de aprofundamento de uma crise social e econômica, com diversas ramificações a médio e longo prazo.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83250f&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83250f" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" fetchpriority="high" decoding="async" width="640" height="428" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=640%2C428&#038;ssl=1" alt="Miguel Vázquez, executivo do banco Ueno, está em prisão preventiva" class="wp-image-270253" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?w=1616&amp;ssl=1 1616w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=800%2C535&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=1600%2C1069&amp;ssl=1 1600w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=1536%2C1027&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Miguel Vázquez, executivo do banco Ueno, está em prisão preventiva</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>As manobras que permitiram um esquema de fraude com recursos públicos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O crescimento do Ueno Bank e do Grupo Vázquez foi meteórico. Em menos de cinco anos, o grupo alcançou uma carteira de milhões de clientes. <span class="highlighter">Mas esse aumento contou com o apoio do poder político a partir da chegada de Santiago Peña à presidência, em agosto de 2023.</span> Desde então, diversas manobras legais e políticas permitiram a expansão desse grupo econômico:</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Manipulação das normas do Instituto de Previdência Social em benefício do banco Ueno.</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Três meses depois da posse de Peña, o jornal ABC Color denunciou que o conselho da instituição de seguridade social havia <a href="https://www.abc.com.py/politica/2026/07/08/cambios-clave-en-el-ips-coincidieron-con-la-catarata-de-fondos-para-ueno-bank/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reduzido</a> as exigências para que um banco pudesse receber seus recursos, o que permitiu que o Ueno se qualificasse. Um ano depois, também foi eliminado o limite patrimonial que o IPS podia depositar em um banco.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">O Ueno ficou com cerca de 350 milhões de dólares do Fundo Comum de Aposentadorias e Pensões, aproximadamente 9% do dinheiro dos aposentados atuais e futuros. Agora, com o fechamento do banco, não se sabe qual será o destino desse dinheiro nem por quais mecanismos ele poderá ser recuperado.</span></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Alteração da lei de conflitos de interesses e das portas giratórias</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">No final de 2023, o Congresso enfraqueceu a lei de conflitos de interesses, o que <a href="https://elsurti.com/laprecisa/chequeo/2024/02/26/de-basa-y-ueno-a-cargos-publicos-estrategicos-que-manejan-la-economia-y-las-finanzas-del-pais/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">facilitou</a> a nomeação de ex-funcionários do banco Ueno e do Banco Basa — do ex-presidente Horacio Cartes — para cargos estratégicos na economia, além da distribuição de licitações ao Grupo Vázquez, no qual Peña tinha ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">O próprio Peña é um caso de porta giratória: foi integrante da diretoria do BCP, ministro da Fazenda no governo Cartes, posteriormente diretor do Banco Basa e, depois, presidente da República.</span></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O crescimento acelerado</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Em novembro de 2021, o Grupo Vázquez adquiriu a Financeira El Comercio, que estava havia mais de 40 anos no mercado. Um mês depois, com a aprovação do BCP, ela passou a se chamar Ueno. Na época, Carlos Carvallo Spalding era presidente da financeira e Federico Miguel Vázquez, seu CEO.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a posse de Peña na Presidência, em 2023, Carvallo Spalding assumiu a presidência do BCP. Em novembro do mesmo ano, o BCP, sob o comando de Carvallo, autorizou o Ueno a começar a operar como banco.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As ações do presidente na Ueno Holding</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2019, Peña era acionista da Credicentro, uma financeira do Grupo Vázquez que, em 2022, passou a se chamar Ueno Holding. <span class="highlighter">Em 2023, Peña quadruplicou sua participação acionária, chegando a ter 6 bilhões de guaranis na empresa (cerca de 1 milhão de dólares, na cotação atual)</span>, segundo publicou o <a href="https://elsurti.com/laprecisa/chequeo/2024/02/26/de-basa-y-ueno-a-cargos-publicos-estrategicos-que-manejan-la-economia-y-las-finanzas-del-pais/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">El Surti</a>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em março de 2025, após denúncias constantes na imprensa, o presidente anunciou a venda de suas ações.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Favorecimento do Grupo Vázquez em licitações públicas</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">De agosto de 2023 a agosto de 2026, o Grupo Vázquez venceu 145 licitações públicas, em um total de cerca de 40 milhões de dólares.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">O El Surti <a href="https://elsurti.com/oligarquia/reportaje/2024/12/04/tus-datos-el-negocio-del-grupo-vazquez/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">revelou</a>, em 2024, que apenas a ITTI, empresa de tecnologia do grupo, já havia sido beneficiada com mais adjudicações do que o governo anterior. Entre elas, estavam o desenvolvimento do sistema de internet banking do Banco Nacional de Fomento e a conexão das bases de dados financeiros do Che Róga Porã, uma política pública de acesso à moradia.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83312f&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83312f" class="wp-block-image alignfull size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="640" height="428" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=640%2C428&#038;ssl=1" alt="Os manifestantes afetados pelo fechamento do banco foram reprimidos pela polícia" class="wp-image-270254" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?w=1545&amp;ssl=1 1545w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=800%2C535&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=1536%2C1027&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Os manifestantes afetados pelo fechamento do banco foram reprimidos pela polícia</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>As consequências da crise recaem sobre milhares de trabalhadores</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Com a quebra do banco Ueno, as economias de 2,9 milhões que tinham contas no Ueno foram afetadas, entre eles, 32 mil aposentados.</span> O governo decidiu recorrer a um fundo garantidor — mecanismo de proteção das economias bancárias previsto em lei — para devolver o dinheiro aos correntistas com depósitos de até 75 salários mínimos, aproximadamente 37 mil dólares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Demissões em massa estão acontecendo no Grupo Vázquez e no Ueno Bank. Com o fechamento, o Grupo ficou sem capital. Todos os trabalhadores do banco e das empresas vinculadas recebiam seus salários por meio do Ueno. Ainda não há consenso, mas o número de afetados gira entre 4 mil e 6 mil trabalhadores. Entre eles, estão 200 profissionais da imprensa que ficaram desempregados e apresentaram uma ação coletiva contra o Grupo Vázquez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, trabalhadores no exterior estão à deriva. A empresa ITTI, do Grupo Vázquez, tem uma filial na Argentina, com cerca de 800 contratados pela empresa Kaitel SRL. Eles também não sabem o que acontecerá com seus empregos ou com suas indenizações.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83393b&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83393b" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" decoding="async" width="640" height="428" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/3-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=640%2C428&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-270255" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/3-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?w=1323&amp;ssl=1 1323w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/3-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=800%2C535&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/3-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">O Ueno Bank possuía uma carteira de 2,9 milhões de clientes que repentinamente perderam o acesso às suas contas</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como foi articulado o sistema que concentrou recursos públicos em um grupo econômico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre 2025 e 2026, a diretoria do Ueno autorizou empréstimos milionários a empresas que pertenciam ao mesmo grupo econômico que controlava o banco. Os empréstimos foram concedidos sem garantias e em valores muito superiores à capacidade de pagamento dessas empresas. O dinheiro acabava em outras companhias do Grupo Vázquez.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Para o Ministério Público, a figura central é Federico Miguel Vázquez, que era, ao mesmo tempo, o beneficiário final do banco, seu vice-presidente e a pessoa que controlava as empresas que recebiam os recursos.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">O controle do banco passava por uma cadeia de sociedades. O proprietário direto do Ueno Bank é a U Paraguay S.A., com 91,21% do capital, segundo a agência de classificação de risco FIX. Por sua vez, a U Paraguay pertence à U Holdings, uma sociedade que o Grupo Vázquez constituiu em Luxemburgo 45 dias depois de Santiago Peña assumir a Presidência do país. Nessa holding europeia, o Grupo Vázquez detinha 86,73% do capital, o banco OTP — o maior banco da Hungria — tinha 9,99%, e o restante pertencia a acionistas minoritários. Francisco Peña, irmão do presidente, tinha ações na sociedade de Luxemburgo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a intervenção, a Justiça determinou o bloqueio preventivo de bens no valor de 70 milhões de dólares e 1,62 trilhão de guaranis pertencentes a dirigentes e às empresas U Paraguay, U Holdings e Grupo Vázquez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além dessa cadeia, existe a Ueno Holding, na qual Santiago Peña tinha ações. Entre seus acionistas estavam o Grupo Vázquez, a Ueno Seguros e a ITTI.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No centro do circuito financeiro está a ITTI, empresa de tecnologia do grupo. Seus acionistas eram o Grupo Vázquez, a Ueno Seguros e o próprio Ueno Bank, que detinham quase 17% da empresa: cerca de 68 bilhões de guaranis ou 11 milhões de dólares na cotação atual. O banco não apenas repassava dinheiro à ITTI por meio dos empréstimos, como também era seu sócio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ITTI desempenhava três funções. Primeiro, era proprietária, junto com o Grupo Vázquez, de várias empresas que solicitaram os empréstimos, das quais se desfez pouco antes ou pouco depois delas receberem os créditos. Segundo, era o principal destino do dinheiro. Terceiro, era a empresa que pagava as dívidas, direta ou indiretamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Segundo o Ministério Público, o esquema era circular. As dívidas não eram pagas com o que as empresas devedoras faturavam, mas com dinheiro proveniente de outras empresas do mesmo grupo</span>, principalmente da ITTI e das processadoras de pagamentos Red Digital, por vezes obtido por meio de novos saques a descoberto no próprio banco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a acusação, o banco ocultou do órgão supervisor que havia ultrapassado os limites legais de crédito para partes relacionadas. Quando a Superintendência de Bancos insistiu, o Ueno vendeu uma carteira de 74,4 milhões de dólares a outra empresa vinculada, a Vinanzas S.A., que a pagou com recursos que, rastreados, vinham, em última instância, do próprio Ueno Bank.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Ministério Público calcula que ainda restam cerca de 167 milhões de dólares e 343 bilhões de guaranis a receber, com poucas possibilidades de recuperação. Isso coloca em risco o dinheiro dos correntistas e os recursos públicos depositados no banco.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<enclosure url="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa-Como-a-quebra-do-banco-Ueno-no-Paraguai-acabou-com-o-governo-do-presidente-Santiago-Pena.jpg" length="483464" type="image/jpeg" /><post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">270243</post-id>		<dc:creator><![CDATA[El Surtidor]]></dc:creator>
	</item>
		<item>
		<title>Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-europa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mei-Ling McNamara]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 16:55:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Inteligência Artificial]]></category>
		<category><![CDATA[Justiça]]></category>
		<category><![CDATA[segurança]]></category>
		<category><![CDATA[tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://apublica.org/?p=270216</guid>

					<description><![CDATA[Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Sandu Dumitrescu* olhou para o relógio. Ele estava terminando os últimos 15 minutos de seu turno em uma obra de data center do Google em Saint Ghislain, Bélgica, em março, quando recebeu uma ligação. Tinha acabado de realizar verificações elétricas nos ventiladores do <em>hall</em> quando seu gerente comunicou um pedido final: fazer dois testes rápidos antes de sair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O funcionário de 34 anos já havia trabalhado quase 10 horas. No ambiente altamente pressurizado de GBL-6, o sexto data center Google em um vasto campus avaliado em 5 bilhões de euros, pedidos de última hora como esse eram normais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu não tinha escolha&#8221;, diz Sandu. &#8220;Pessoas foram demitidas por dizer não.&#8221; Ele acreditava que os supervisores no local, da empresa irlandesa Dornan Engineering, não aceitariam bem uma recusa. Como ele dependia de seu contrato semanal, e tinha esperanças de conseguir ligar para sua esposa e filho pequeno na Romênia naquela noite, decidiu executar o trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era uma tarefa que ele havia feito muitas vezes antes e envolvia uma série de testes para medir a segurança e integridade da fiação elétrica. Era para ter levado cerca de uma hora. Sandu diz que o pedido lhe foi feito verbalmente, por um intermediário. Um traje protetor estava guardado em uma sala de equipamentos. Ir ao ocal para buscá-lo teria adicionado mais 15 minutos ao trabalho, diz ele, e havia pessoas esperando. <span class="highlighter">Na pressa, Sandu decidiu não ir pegar o traje.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sala de tensão, Sandu diz que os gerentes confirmaram que as linhas haviam sido desenergizadas. Na primeira rodada, tudo correu conforme o planejado. Mas, no segundo teste, enquanto segurava uma pinça isolada, ele conectou os cabos. Mas desta vez, os cabos de energia estavam ligados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A explosão foi imediata e catastrófica. Em milissegundos, 400 volts e 12 mil amperes atingiram o rosto de Sandu e atravessaram o lado direito de seu corpo. Um colega que estava embaixo da plataforma e presenciou o incidente contou à <em>Investigate Europe</em> ter &#8220;ouvido um barulho alto, muita fumaça e o visto [Sandu] gritando de dor&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Fiquei completamente cego&#8221;, relembra Sandu. &#8220;Disse aos gerentes três vezes que não conseguia enxergar. Mas nenhum deles respondeu”, diz ele. De acordo com a testemunha que procurou ajuda – enquanto desembaraçava Sandu dos cabos com seu corpo queimado – os gerentes fugiram, ao passo que Sandu se contorcia de dor no chão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores se apressaram para levar Sandu para a ambulância. Quando os médicos o receberam no Grand Hôpital de Charleroi, ele foi colocado em coma induzido por cinco dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Registros hospitalares acessados pela <em>Investigate Europe</em> mostram que o choque havia queimado 12% do corpo de Sandu, com queimaduras de segundo grau no rosto e pescoço, além de queimaduras de terceiro grau no ombro direito e nos dedos. Fotografias mostram orelhas queimadas e lábios inchados e em carne viva, com o braço cheio de hematomas e pele coagulada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Sandu acordou na unidade de tratamento intensivo uma semana depois da cirurgia, sua mulher estava à beira de sua cama. Ele diz que todo o seu corpo parecia uma &#8220;bolha branca e escaldante… Era tanta dor. O coração humano não consegue compreender&#8221;, relembra.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83696d&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83696d" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="600" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C600&#038;ssl=1" alt="Sandu fotografado em outubro de 2026, meses depois de a eletrocussão por arco elétrico ter queimado 12% do seu corpo" class="wp-image-270226" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=750&amp;ssl=1 750w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C600&amp;ssl=1 640w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/1-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C141&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Sandu fotografado em outubro de 2026, meses depois de a eletrocussão por arco elétrico ter queimado 12% do seu corpo</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Dois dias após acordar do coma, representantes do Google, da irlandesa Dornan e de uma agência de recrutamento holandesa, a Wanted, vieram visitá-lo. Sandu diz que enquanto estava deitado em uma maca de hospital, enfaixado, Google e Dornan tomaram declarações dele sobre o acidente. Segundo Sandu, <span class="highlighter">o funcionário do Google lhe disse que tinha sorte de estar vivo.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">A descarga elétrica sofrida por Sandu foi brutal e assustadora. <span class="highlighter">Até hoje, porém, não há registro de nenhuma multa ou sanção pelo incidente.</span> Inspetores federais do trabalho na Bélgica encerraram sua investigação sobre o acidente no final de outubro e não encontraram irregularidades. Sandu diz que nunca foi entrevistado diretamente pelas autoridades trabalhistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de ter pedido o relatório sobre seu acidente à Wanted e ao Google, ele ainda não recebeu o documento. Um mês após o acidente, o recrutador enviou uma mensagem a Sandu perguntando como estava. E perguntaram: <span class="highlighter">&#8220;[A empresa] está recrutando mais testadores (talvez você conheça pessoas?)&#8221;.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz do Google disse à <em>Investigate Europe</em>: &#8220;Nosso código de conduta de fornecedores e contratos exigem que todos os fornecedores cumpram as leis trabalhistas locais e mantenham condições de trabalho seguras e saudáveis. Mantemos diálogo ativo com líderes sindicais e grupos comerciais, e estamos comprometidos em fornecer informações transparentes sobre nosso local de trabalho.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Dornan informou ter apoiado autoridades belgas na investigação do caso. &#8220;Ficamos profundamente preocupados com esse incidente e apoiamos o indivíduo e sua família ao longo de sua recuperação. Estamos comprometidos em manter condições de trabalho seguras, cumprir as leis trabalhistas aplicáveis e aprender continuamente para ajudar a prevenir incidentes como este no futuro&#8221;, disse um porta-voz da empresa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já a Wanted, agência de recrutamento holandesa, disse: &#8220;Como empregador, podemos, devemos e seremos fiscalizados pelas autoridades competentes. <span class="highlighter">Embora concordemos que a liberdade de expressão e imprensa é um grande ativo, não podemos comentar sobre o conteúdo além do fato de que suas declarações ou alegações não estão corretas.&#8221;</span></p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83748e&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83748e" class="wp-block-image alignfull size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa-1600x1200.webp?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="O Google está desenvolvendo um centro de dados de € 6 bilhões em Saint Ghislain, na Bélgica" class="wp-image-270228" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=1600%2C1200&amp;ssl=1 1600w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=800%2C600&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=2048%2C1536&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=320%2C240&amp;ssl=1 320w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C113&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/2-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1920&amp;ssl=1 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">O Google está desenvolvendo um centro de dados de € 6 bilhões em Saint Ghislain, na Bélgica</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Uma investigação de cinco meses liderada pela <a href="https://www.investigate-europe.eu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Investigate Europe</a>, com organizações de jornalismo parceiras em nove países, sobre as condições de trabalho em data centers na Suécia, Noruega, Bélgica e Holanda revela que o caso de Sandu está longe de ser único.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em entrevistas com trabalhadores imigrantes em locais emblemáticos onde grandes empresas de tecnologia dos EUA estão operando, repórteres encontraram <span class="highlighter">evidências de lesões debilitantes, condições de vida precárias, um surto de doença não relatado, salários não pagos e práticas exploratórias de emprego.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores de projeto de grande porte da Microsoft descreveram uma cultura de medo e intimidação, na qual gerentes de construção &#8220;governam pelo terror mental&#8221;. Os testemunhos são apoiados por dezenas de registros médicos, recibos de salário, mensagens de telefone, fotografias e vídeos compartilhados com repórteres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A investigação encontrou um padrão recorrente no qual empresas de tecnologia e muitos de seus parceiros de construção irlandeses incorporam práticas de trabalho no estilo norte-americano, <span class="highlighter">frequentemente indo contra as normas de trabalho nos países onde estão.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Itália, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Bélgica, Holanda e Noruega, sindicatos disseram aos repórteres que tiveram dificuldade em acessar certas localidades para falar com trabalhadores e documentar condições. Um representante sindical na Dinamarca disse que <span class="highlighter">alguns complexos de data centers são &#8220;mais fechados que uma prisão estatal&#8221;.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">A indústria europeia de data centers está passando por um surto de infraestrutura que o continente não via há décadas, enviando dezenas de milhares de trabalhadores imigrantes para tornar realidade sua visão de soberania tecnológica.</p>


<div class="my-5 fs-6 fst-sans-serif position-relative block-bigquote" style="">
		<div class="d-flex">
				<div class="d-flex flex-column me-3"><i class="fas fa-quote-left text-primary fa-4x"></i><div class="flex-grow-1 border-end border-primary border-3"></div></div>		<div class=''>
			<div class='fs-4 fst-serif-alt mb-3'>Acordo às duas da manhã e consigo ouvir ratos comendo, se movimentando nas paredes. Esta casa está cheia de ratos.&#8221;</div>
			<div class='byline fst-italic fs-5 text-end text-lg-start lh-sm mb-3'>Adrian*</div>			<div class='job-title text-muted fs-6 mt-n2 text-end text-lg-start'>Trabalhador romeno em um projeto de data center da Microsoft na Suécia</div>		</div>
	</div>

	</div>


<p class="wp-block-paragraph">Um local de construção de data center pode ter até 2 mil trabalhadores e dezenas de funcionários subcontratados. Há uma estimativa de que 250 mil pessoas trabalhem em localidades desse tipo na Europa todos os dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A indústria é marcada por grandes orçamentos e sigilos ainda maiores. Empresas de construção geralmente são obrigadas a manter seu cliente de tecnologia em segredo, enquanto terceirizados e intermediários também são tipicamente mantidos fora de vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, o setor de construção continua sendo o setor econômico mais perigoso da União Europeia (UE). De acordo com os <a href="https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20260925-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dados mais recentes da Eurostat</a>, agência oficial de estatística da UE, <span class="highlighter">o setor registrou 776 mortes em 2024, representando quase um quarto de todos os acidentes de trabalho fatais na Europa.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Até 2030, a indústria <a href="https://www.eudca.org/state-of-european-data-centres-2025" target="_blank" rel="noreferrer noopener">prevê 100 bilhões de euros em investimentos</a> em data centers europeus. Com mais de 2.300 instalações alterando rapidamente a paisagem física e energética da Europa, e <a href="https://www.euronews.com/2026/04/27/which-country-in-europe-has-the-most-data-centres-driving-the-ai-boom" target="_blank" rel="noreferrer noopener">centenas de unidades planejadas ou em construção</a>, as prioridades da indústria parecem bem claras: onde construir, com que velocidade construir e quais empresas estão dispostas a construir com orçamento reduzido.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>&#8220;Obrigado por trabalhar com segurança&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Eu acordo às duas da manhã e consigo ouvir ratos comendo, se movimentando nas paredes. Esta casa está cheia de ratos. Quando coloco pizza no forno, eles estão correndo nas paredes perto de mim&#8221;, diz Adrian*, um trabalhador de 45 anos em uma obra de data center da Microsoft perto de Gävle, na Suécia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um vídeo que Adrian compartilhou com <em>Investigate Europe</em> mostra um rato grande correndo por um corredor e entrando em uma sala de armazenamento elétrico. Em uma série de mensagens de texto enviadas em agosto, Adrian suplicou ao gerente de alojamento para se livrar deles. A resposta volta: &#8220;Irmão, entendo. Mas preciso esperar que outras empresas venham e os removam, não consigo entrar sozinho e simplesmente puxá-los das paredes…&#8221;</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be8390fb&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be8390fb" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img loading="lazy" decoding="async" width="1280" height="720" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/3-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.gif" alt="Mensagens de texto entre um operário da construção civil e o gerente da Benbau sobre ratos nas moradias fornecidas pela empresa" class="wp-image-270229"/><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Mensagens de texto entre um operário da construção civil e o gerente da Benbau sobre ratos nas moradias fornecidas pela empresa</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A noroeste de Gävle, uma cidade a duas horas de Estocolmo, passando por casarões de madeira e uma densa floresta de pinheiros, uma placa aponta para uma estrada suave construída especificamente para a Microsoft. A clareira remota é parte de um plano de expansão de 130 hectares a um custo de 3 bilhões de euros iniciado em junho de 2024, para expandir a infraestrutura de um data center de IA da Microsoft no país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Placas que indicam a presença da Collen Construction estão alinhadas na entrada, com estandartes pendurados ao redor de grande perímetro. A Collen está entre as muitas empreiteiras irlandesas supervisionando construções de data centers no continente. Contratados por Big Techs para entregar projetos em um cronograma rigoroso, esses projetos englobam muitas empresas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À distância, para além da cerca de segurança, um prédio imenso, parecido com um aeroporto, aparece na paisagem. Em primeiro plano, uma catraca vermelha brilhante recebe trabalhadores em letras brancas: &#8220;Obrigado por trabalhar com segurança&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos subempreiteiros da Collen, a empresa de construção irlandesa Benbau, emprega centenas de trabalhadores na Europa, incluindo na Suécia, em tarefas como gerenciamento de obras, concreto e carpintaria. Os trabalhadores estão alojados a 20 minutos do local de trabalho em moradias modulares, gerenciadas pela Benbau.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por meses, Adrian e seus colegas trabalhando para Benbau sentiram crescente indignação. Eles denunciaram infestações de pragas, sistemas de ventilação quebrados e falta de aquecimento durante o inverno congelante da Suécia. Alegam que os problemas permanecem sem solução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um trabalhador romeno de 50 anos, diabético, compartilhou imagens dos dedos dos pés que perderam circulação após vestir botas de trabalho de má qualidade providenciadas pela Benbau. Ele acabou tendo que amputar o dedo do pé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adrian diz que há meses denunciou pela primeira vez a infestação de ratos. Os roedores se multiplicaram dentro da unidade de moradia, que possui 40 quartos. Outro vídeo de Adrian mostra um corredor estreito que leva a uma cozinha compartilhada e uma sala com câmeras de segurança nos cantos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Dentro dos alojamentos lotados, trabalhadores dizem que o estresse é alto: 24 pessoas para uma cozinha, 14 homens para um único banheiro</span>, com um buraco tapado com madeira por onde os ratos passaram e uma janela do banheiro lacrada, que não abre.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be839978&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be839978" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="360" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/4-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C360&#038;ssl=1" alt="Fotografias do interior das casas modulares fornecidas aos trabalhadores da construção civil para a Bebaue no empreendimento Microsfot em Gävle" class="wp-image-270230" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/4-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1204&amp;ssl=1 1204w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/4-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=800%2C450&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/4-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C84&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Fotografias do interior das casas modulares fornecidas aos trabalhadores da construção civil para a Bebaue no empreendimento Microsfot em Gävle</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Espaços lotados podem aumentar a chance de transmissão de doenças. Em fevereiro deste ano, após várias idas ao hospital, foi confirmado que um trabalhador romeno tinha tuberculose. A <em>Investigate Europe</em> teve acesso ao seu prontuário médico, confirmando o diagnóstico. Logo depois, outros apresentaram sintomas similares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o primeiro trabalhador que contraiu a doença ter ido ao hospital, outros colegas na acomodação ficaram preocupados que também pudessem ter pegado tuberculose.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um deles, que havia se mudado recentemente para um novo quarto, disse: &#8220;Comprei roupa de cama sozinho, lavei o colchão com cloro, esfreguei as paredes, deixei a janela aberta por muito tempo, e estava muito frio.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Benbau inicialmente informou apenas alguns dos homens que compartilhavam alojamentos próximos com o primeiro trabalhador infectado, e disse que testes eram opcionais, de acordo com sete trabalhadores que falaram com o Investigate Europe. Mas solicitações de acesso à informação às autoridades de trabalho da Suécia e à Agência de Saúde Pública revelaram que a empresa não reportou nenhum surto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Suécia, tuberculose é uma doença de notificação obrigatória que está sujeita a rastreamento de contatos, algo que trabalhadores alegam não ter acontecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oito trabalhadores da Benbau vivendo na mesma moradia e representantes sindicais disseram aos repórteres que acreditavam que pelo menos 10 a 12 homens também contraíram a doença infecciosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mihai*, um trabalhador de 60 anos, também testou positivo para tuberculose latente, revelaram registros hospitalares compartilhados com Investigate Europe. Ele diz que a Benbau se ofereceu para transferi-lo para outro prédio da Microsoft na Dinamarca, junto com outros que também teriam sido infectados. Considerando sua idade, Mihai decidiu não viajar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, em maio de 2026, testemunhas que viviam na moradia onde foram confirmados alguns casos positivos de tuberculose latente disseram que uma carreata de vans chegou para realocar trabalhadores para o prédio da Dinamarca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Duas testemunhas disseram que muitos dos que partiram naquele dia haviam testado positivo para tuberculose. Alguns homens foram diagnosticados com tuberculose latente, mas disseram aos repórteres que tiveram sintomas semanas antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros que partiram naquele dia, incluindo uma equipe inteira que trabalhou com concreto para a Benbau, relataram sintomas de tuberculose. No total, aproximadamente 40 homens foram para a Dinamarca naquele dia, de acordo com testemunhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o sindicato de construção dinamarquês 3F Byggegruppen, aproximadamente 45 trabalhadores chegaram às instalações da Microsoft em Høje Taastrup nessa época. Nenhum outro registro do que aconteceu com qualquer dos homens está disponível.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;galleryId&quot;:&quot;6aee2be839c12&quot;}" data-wp-interactive="core/gallery" class="wp-block-gallery alignwide has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83a36d&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83a36d" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270232" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/5-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="Sinalização do vasto empreendimento de data center da Microsoft em Gävle
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<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83aba1&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83aba1" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270231" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="A empresa irlandesa Collen Construction é a empreiteira geral da obra" class="wp-image-270231" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1600&amp;ssl=1 1600w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=800%2C600&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=320%2C240&amp;ssl=1 320w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C113&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/6-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">A empresa irlandesa Collen Construction é a empreiteira geral da obra</figcaption></figure>
</figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>&#8220;Eles governam pelo terror mental&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores dizem que, no começo, o ambiente de trabalho na Collen e na Benbau não era muito difícil. Mas, nos últimos dois anos, com a aceleração do desenvolvimento de infraestrutura de IA, o clima mudou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Agora parece que estamos no serviço militar&#8221;, disse um trabalhador romeno à Investigate Europe em uma chamada de vídeo. &#8220;Eles governam pelo terror, terror mental.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores alegam que são regularmente sujeitos a assédio e regras que mudam o tempo todo. Muitos dizem que a barreira linguística cria problemas recorrentes. Para monitorar a segurança do trabalho, a empreiteira principal, a Collen, introduziu um sistema de violação no estilo de futebol. Essas ordens, implementadas pela Benbau, consistem em &#8220;cartões amarelos&#8221; e &#8220;cartões vermelhos&#8221; para infrações percebidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores que receberam os &#8220;cartões&#8221; disseram ter sido interrogados por gerentes durante horas e depois forçados a escrever cartas admitindo culpa em incidentes de trabalho, mesmo que considerassem não ter feito nada errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Somos forçados a nos sentar em uma sala e confessar coisas que não fizemos&#8221;, alega um trabalhador. Depois de uma violação, eles são então enviados para participar de treinamento de &#8220;reinserção&#8221; em inglês, e não em seu romeno nativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob outro programa, chamado &#8220;Good Save&#8221;, os trabalhadores são obrigados a reportar problemas com o local de trabalho ou outros funcionários duas vezes por semana. O não cumprimento disso resulta em ameaças de deduções de salário adicionais e treinamento extra, segundo mensagens de textos vistas pela Investigate Europe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Estes são mecanismos de controle&#8221;, diz um dos trabalhadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Na sexta-feira, vem a primeira mensagem: &#8216;Você tem até meio-dia para terminar seu [relatório]&#8217;. Depois das 12h as ameaças começam: <span class="highlighter">&#8216;Você precisa fazer seu [relatório], quer trabalhar no sábado?&#8217; Então a última ameaça é: &#8216;Vamos cortar o [relatório faltante] de seu salário.'&#8221;</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">O Investigate Europe não encontrou evidências de que a Collen sabia da alegada prática de descontar salários de trabalhadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um ex-gerente romeno que trabalhou para a Benbau, que tinha moradia mais decente e trouxe esposa e filho pequeno ao local, contou à Investigate Europe que &#8220;se recusou a participar das sessões de interrogação&#8221; como tradutor. Ele acredita que as confissões escritas foram &#8220;projetadas para humilhar&#8221; outros colegas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Naquela atmosfera, não conseguia continuar vendo pessoas trabalharem assim&#8221;, diz. <span class="highlighter">&#8220;Não queria ter medo de alguém que estava forçando outros homens a trabalharem 13 horas por dia.</span> Conversei com minha mulher e disse: &#8216;Este é o momento em que precisamos voltar para nosso país.'&#8221;</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83c1ad&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83c1ad" class="wp-block-image alignwide size-large wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="360" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa-1600x900.webp?resize=640%2C360&#038;ssl=1" alt="Mensagens de texto recebidas por trabalhadores romenos em Gävle sobre o programa &quot;Good Saves&quot; implementado pela gerência" class="wp-image-270233" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=1600%2C900&amp;ssl=1 1600w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=800%2C450&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=1536%2C864&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C84&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1680&amp;ssl=1 1680w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/7-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Mensagens de texto recebidas por trabalhadores romenos em Gävle sobre o programa &#8220;Good Saves&#8221; implementado pela gerência</figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sindicalismo europeu encontra Big Tech norte-americana</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As condições de vida e clima de trabalho são apenas parte da história. Mais de 30 trabalhadores compartilharam centenas de recibos de salário com a Investigate Europe, muitos dos quais mostram jornadas de trabalho de até 60 horas por semana sem pagamento de horas extras, em aparente violação da lei de trabalho sueca. Alguns trabalhadores alegam que não receberam férias remuneradas, conforme exigido pela lei sueca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Solidariska byggare (Trabalhadores em Solidariedade), um grupo sindical, tentou recuperar anos de salários atrasados para trabalhadores imigrantes no site de Gävle, que o sindicato alega terem sido pagos até 30% menos que seus colegas suecos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Historicamente, a Suécia operou sob um sistema de mercado de trabalho autorregulado, sob o qual sindicatos de classe e organizações de empregadores estabelecem salários e condições de trabalho através de acordos coletivos, em vez de leis forçadas pelo estado. Sindicatos agora dizem que, ao longo dos anos, este modelo começou a entrar em colapso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À medida que prédios de data center se espalham, a cadeia cada vez mais ampla de trabalhadores subcontratados se torna mais desafiadora de rastrear.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Documentos obtidos a partir de um pedido de informação à Autoridade de Ambiente de Trabalho sueca revelam um emaranhado de 148 empresas trabalhando sob a Collen no site de Gävle, incluindo 28 empresas terceirizadas – as quais podem ter mais de uma dúzia de empresas sob elas.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;galleryId&quot;:&quot;6aee2be83c3a4&quot;}" data-wp-interactive="core/gallery" class="wp-block-gallery alignwide has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83ca84&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83ca84" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="745" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270235" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/8-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C745&#038;ssl=1" alt="Operários da construção civil em Gävle ouvem um representante sindical em romeno e inglês" class="wp-image-270235" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/8-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=900&amp;ssl=1 900w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/8-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=515%2C600&amp;ssl=1 515w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/8-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C175&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83d238&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83d238" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="733" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270234" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/9-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C733&#038;ssl=1" alt="Folhetos numa reunião realizada pela Solidariska byggare para trabalhadores na unidade de Gävle" class="wp-image-270234" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/9-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=900&amp;ssl=1 900w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/9-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=524%2C600&amp;ssl=1 524w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/9-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C172&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Folhetos numa reunião realizada pela Solidariska byggare para trabalhadores na unidade de Gävle</figcaption></figure>
</figure>



<p class="wp-block-paragraph">Com a entrada acelerada de multinacionais dos EUA construindo na Europa, muitas empresas contratadas por elas estão dispostas a deixar de lado acordos coletivos, alertam os sindicatos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com trabalhadores estrangeiros que desconhecem as leis locais, e empreiteiros estabelecendo os termos do contrato, desigualdades podem surgir rapidamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;É um quadro muito claro&#8221;, diz Pelle Sunvisson, líder sindical na Solidariska byggare. Ele descreve o que vê ao distribuir panfletos fora do site da Microsoft em Gävle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Às 16h há uma onda de trabalhadores suecos. São eletricistas trabalhando com empresas suecas que têm acordos coletivos suecos. Se você esperar uma hora, aparece então um grupo menor de trabalhadores de escritório irlandeses saindo, e depois, por volta das 18h, você vê alguns trabalhadores poloneses, romenos, sérvios. Depois, às 19h ou 20h, todos os trabalhadores [de fora da Europa].&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dados obtidos via pedido de de informação à Autoridade de Ambiente de Trabalho Sueca mostram que a empresa irlandesa Winthrop foi multada 12 vezes nos últimos anos por não cumprir requisitos importantes em relatórios sobre trabalhadores estrangeiros em seus data centers na Suécia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Winthrop disse que seus terceirizados são responsáveis pelo não cumprimento e reembolsaram a empresa. As multas estavam relacionadas a &#8220;45 trabalhadores, de um total de aproximadamente 8 mil durante o período&#8221;, disse um porta-voz da Winthrop.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma inspeção não anunciada em 2021, autoridades anotaram 15 nacionalidades diferentes trabalhando na Winthrop no site da Microsoft em Sandviken.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De 2021 a 2026, a Autoridade de Ambiente de Trabalho abriu 50 inquéritos em prédios de data centers envolvendo a Microsoft e diversas empresas de construção irlandesas. Os registros, indicam vários riscos, incluindo sério perigo de trabalhadores serem atropelados por veículos em passagem e risco de queda de máquinas em escavações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outubro de 2021, um empilhadeira passou por cima do pé de um supervisor trabalhando para a Collen em Gävle. O trabalhador precisou de cirurgia. Um relatório de incidente enviado pela Collen às autoridades de trabalho constatou que uma máquina errada tinha sido usada e que o motorista não tinha certificação formal para operá-la. Ainda assim, a operação foi autorizada. Em um relatório de acidente, a empresa terceirizada listou ambos, o homem ferido e o motorista, como empregados autônomos. A Autoridade de Ambiente de Trabalho não viu motivos para denunciar o empregador aos promotores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando questionada, a Collen se recusou a tratar de questões específicas levantadas, mas um porta-voz disse que as alegações eram &#8220;totalmente inconsistentes aos valores, políticas e padrões da Collen aos quais nós e aqueles com quem trabalhamos aderimos.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Estamos comprometidos em garantir que cada sírio da Collen seja um lugar seguro, saudável e respeitoso para trabalhar, onde todos sejam tratados com dignidade e seus direitos humanos fundamentais sejam protegidos&#8221;, acrescentou o porta-voz. &#8220;Esperamos o mesmo em toda a nossa cadeia de suprimentos e temos tolerância zero para qualquer conduta inconsistente com estes princípios.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>&#8220;Além deste portão, não é a Holanda&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é apenas na Suécia que trabalhadores relataram problemas. Pyotr Zaitsev*, um gerente de engenharia, trabalhou em prédios de data centers para outra empresa de construção irlandesa na Alemanha até 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pyotr era experiente e suas tarefas diárias envolviam gerenciar instalações elétricas enquanto supervisionava grupos terceirizados. Mas, segundo ele, trabalhava frequentemente além de suas horas contratadas. Ele possuía &#8220;um contrato para 40 horas por semana no papel&#8221;, mas na realidade, &#8220;estava realmente trabalhando 60 horas no mínimo, até 80 horas de vez em quando.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ouvir que as condições de trabalho eram melhores na Holanda, ele foi trabalhar em projetos de data center para a empresa de construção irlandesa Winthrop Technologies.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após 18 meses, porém, a pressão na Winthrop começou a equivaler à de seu antigo empregador, diz ele, acrescentando que teve &#8220;burnout severo&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia, em 2021, após trabalhar um turno completo, Pyotr diz que desmaiou no prédio por exaustão. Em um email enviado ao departamento de RH da Winthrop na semana seguinte, ele informou à empresa que tinha ido ao hospital, sem especificar o motivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Winthrop disse que não tinha registro de tal incidente. &#8220;É política da empresa que todos os eventos adversos devem ser reportados, investigados e registrados de forma compreensiva.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pyotr também disse que tinha preocupações com a segurança do trabalho. Houve certa vez um incidente sério com um terceirizado romeno, conta: &#8220;Havia uma [plataforma de trabalho elevada móvel]&#8230; o [trabalhador] estava distraído e estava usando o controle remoto e dirigiu sobre sua própria [perna].&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Winthrop disse ter conduzido uma análise e que o funcionário retornou ao trabalho no dia seguinte, acrescentando que aderiu a todas as leis aplicáveis. &#8220;A Winthrop está comprometida em manter os mais altos padrões de saúde e segurança em seus projetos, garantindo que nossos funcionários, parceiros e clientes possam operar em um ambiente seguro e solidário&#8221;, um porta-voz disse. &#8220;Colocamos segurança no coração da entrega de projeto.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pyotr está em licença médica da empresa desde 2023. Em maio de 2025, um órgão do governo holandês ordenou extensão da licença médica remunerada até maio de 2026, após considerar que a empresa não tinha cumprido suas obrigações para ajudá-lo a retornar ao trabalho. A Winthrop deixou de pagá-lo em setembro de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz da Winthrop disse: &#8220;Apesar de esforços repetidos para reintegrar o funcionário desde que saiu em 2023 após um acidente não relacionado ao trabalho fora do local de trabalho, nenhum progresso foi feito em termos de o funcionário retomar o trabalho.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acessar locais de data centers para inspecionar condições de trabalho pode ser desafiador, de acordo com FNV, o maior sindicato dos Países Baixos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seus representantes alegam que tentaram acessar o sítio da Winthrop em Schiphol-Rijk em setembro para falar com trabalhadores. No portão, um funcionário Winthrop recusou a entrada, alegadamente dizendo a eles, &#8220;Além deste portão, não é a Holanda… Não sou autorizado a deixá-los entrar pela gerência superior.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A FNV alega que fez várias tentativas mal-sucedidas, incluindo uma solicitação por email em meados de 2026, para visitar as instalações da Winthrop-Microsoft.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz da Winthrop disse que representantes sindicais recebem acesso através de &#8220;protocolos pré-combinados&#8221;em seus data centers. &#8220;Qualquer alegação de que sindicatos têm acesso negado aos sítios é falsa e enganosa&#8221;, disse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A grande maioria das empresas de construção holandesas está vinculada a um acordo coletivo de trabalho que permite acesso de sindicatos aos canteiros de obras. Empresas estrangeiras não são automaticamente cobertas por esses acordos.</p>



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</figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>&#8220;Sítios mais fechados que uma prisão estatal&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sindicatos belgas, suecos, dinamarqueses, finlandeses e italianos disseram à reportagem que tiveram dificuldade em acessar data centers ou foram inteiramente deixados de fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lotta Sjölander, um representante no sindicato de comércio nacional Byggnads, na Suécia, o maior do país, diz que seus representantes não conseguiram acessar as instalações da Microsoft em Gävle e em Sandviken &#8220;desde o início&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jussi Sakari, do sindicato finlandês Rakennuslliitto, diz que sua organização é normalmente capaz de obter acesso aos canteiros de obras, mas, com empreiteiras que começaram a operar apenas recentemente na Finlândia, tem levado mais tempo. &#8220;As coisas foram mais difíceis com a Winthrop no começo&#8221;, diz Sakari.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sindicato tem visto diversos problemas relacionados a prédios de data centers em toda a Finlândia. &#8220;Além de roubo de salário, emprego autônomo forçado ou falso surgiu como uma questão maior nos últimos anos&#8221;, diz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um padrão semelhante pode ser encontrado em toda a Europa, diz James McCabe, um representante regional para Unite the Union, um sindicato irlando-britânico com mais de 1,2 milhão de trabalhadores. &#8220;Sempre que encontramos empreiteiros de data centers irlandeses em sites de data centers de gigantes de tecnologia, aprendemos sobre falta de acesso normal e significativo de sindicatos, dificuldades em acessar informações, assim como sérias preocupações de crimes trabalhistas e exploração de trabalhadores. Em todo lugar.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Pero, nos arredores de Milão, um data center da Amazon está sendo construído. A construção é dividida entre dois terrenos e envolve duas empreiteiras principais. Em um deles, sindicatos nunca foram autorizados a ter acesso para falar com trabalhadores. O Investigate Europe esteve presente em uma destas tentativas em setembro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Carlo Rioldi, da Confederação Italiana de Sindicatos de Trabalhadores, muitos trabalhadores têm medo de falar com os sindicatos sobre suas experiências em sítios de data center. &#8220;Trabalhadores não contam aos sindicatos sobre seus problemas por medo de represálias e porque frequentemente não conhecem seus direitos.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz da Amazon disse: &#8220;Esperamos que fornecedores de bens e serviços para a Amazon cumpram com nossos padrões de cadeia de suprimentos&#8230;. formado por padrões e estruturas internacionais líderes desenvolvidas pelas Nações Unidas e pela Organização Internacional do Trabalho.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os locais de construção de data centers europeu expõem uma grande lacuna de fiscalização. Com menos de <a href="https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2026/774755/EPRS_BRI(2026)774755_EN.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">140 funcionários</a> em 2025 para fiscalizar o cumprimento das leis de trabalho por toda a União Europeia, a Autoridade de Trabalho Europeia permanece sobrecarregada e incapaz de enfrentar problemas do tipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma resposta ao Investigate Europe, a agência reconheceu não ter &#8220;poderes independentes de inspeção ou aplicação de regras&#8221;, além de ser incapaz de &#8220;entrar em locais de trabalho para coletar evidências, investigar casos ou impor sanções&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos acidentes fatais foram reportados em instalações de data centers recentemente, incluindo no Reino Unido, onde um funcionário terceirizado <a href="https://www.datacenterdynamics.com/en/news/construction-worker-dies-at-site-of-london-data-center/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">morreu</a> durante o trabalho em Londres no ano passado. Outra fatalidade foi reportada <a href="https://www.datacenterdynamics.com/en/news/death-reported-at-new-london-substation-being-built-for-microsoft-data-center/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em 2024</a> em uma subestação elétrica sendo construída para um data center da Microsoft na capital. Acidentes sérios também foram registrados este ano em projetos na <a href="https://www.byggnadsarbetaren.se/foll-fran-hog-hojd-pa-microsoft-fordes-till-sjukhus/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suécia</a>, <a href="https://www.nrk.no/nordland/arbeidsulykke-i-bjerkvik-1.18000912" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Noruega</a> e <a href="https://www.sudinfo.be/id1191805/article/2026-09-10/nous-signale-un-homme-electrocute-les-secours-doivent-intervenir-ce-jeudi-matin" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Bélgica</a>. Práticas de trabalho exploratórias também foram registradas em projetos em outros países, <a href="https://www.opendemocracy.net/ais-data-centre-construction-boom-is-crushing-workers/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">inclusive no Brasil</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Regulando um problema europeu</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph">Em resposta a essas questões, a Comissão Europeia vai propor em breve uma legislação abrangente chamada <a href="https://www.europarl.europa.eu/legislative-train/theme-supporting-people-strengthening-our-societies-and-our-social-model/file-quality-jobs-act" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Quality Jobs Act</a>, com o objetivo de melhorar as proteções de trabalhadores e garantir melhor conformidade com regras de cadeia de suprimentos. A proposta de lei cria uma responsabilidade conjunta por toda a cadeia de terceirizados, ao mesmo tempo que tenta promover contratações diretas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz da Microsoft disse: &#8220;Microsoft está comprometida em garantir que todos que trabalham em seu nome sejam tratados justamente, de acordo com a lei de trabalho sueca e nosso Código de Conduta de Fornecedor. Em nossa construção de data centers, trabalhamos com empreiteiros e fornecedores, com quem estabelecemos requisitos claros de saúde e segurança, condições de trabalho, e liberdade de associação e direito de negociação coletiva.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dias antes da publicação desta investigação, o Solidariska byggare, sindicato representando os 78 trabalhadores romenos no sítio da Microsoft em Gävle, negociou um histórico acordo de 15 milhões de coroas suecas (R$ 8 milhões) com a Benbau.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Este será o primeiro acordo coletivo na história da Suécia por, e de trabalhadores imigrantes&#8221;, Sunvisson contou ao Investigate Europe. Trabalhadores receberão milhões em salários atrasados e indenizações, segundo o líder sindical, e agora têm &#8220;salários assegurados bem acima da média sueca&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O acordo também permite acesso sindical a todas as obras de data centers nas quais a Benbau trabalha. &#8220;A empresa também não pode mais realizar encontros separados com trabalhadores sem um representante sindical presente&#8221;, disse Sunvisson. Ao ouvir a notícia, ele disse ter presenciado uma atmosfera de alegria e alívio entre os homens. &#8220;Ninguém tem mais medo.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um porta-voz da Benbau disse que a empresa &#8220;leva todas as preocupações sobre o bem-estar, saúde e segurança de nossos funcionários muito a sério&#8221; e tem &#8220;procedimentos rigorosos para reportar, investigar e tratar de questões de trabalho&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A empresa acrescentou: &#8220;Cuidar de nossos funcionários é uma responsabilidade que levamos muito a sério. Investimos em seu bem-estar e colocamos valor considerável para reter nosso time&#8221;.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;galleryId&quot;:&quot;6aee2be83ebd5&quot;}" data-wp-interactive="core/gallery" class="wp-block-gallery alignwide has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-4 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex">
<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83f1e0&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83f1e0" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270239" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/12-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="Trabalhadores romenos nas instalações da Microsoft se reúnem com o sindicato para discutir o acordo coletivo no final de outubro de 2026." class="wp-image-270239" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/12-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=800&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/12-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=320%2C240&amp;ssl=1 320w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/12-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C113&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 2400px" /><button
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<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be83f95a&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be83f95a" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" data-id="270238" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/13-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="Trabalhadores se reúnem após a formalização do acordo histórico de 15 milhões de coroas suecas com a Benbau." class="wp-image-270238" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/13-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?w=889&amp;ssl=1 889w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/13-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=800%2C600&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/13-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=320%2C240&amp;ssl=1 320w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/13-Queimaduras-terror-psicologico-e-salarios-atrasados-em-data-centers-na-Europa.webp?resize=150%2C113&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Trabalhadores se reúnem após a formalização do acordo histórico de 15 milhões de coroas suecas com a Benbau</figcaption></figure>
</figure>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso, após seu acidente no sítio do Google na Bélgica, Sandu está confinado em sua casa no sudeste da Romênia. Ele é constantemente perturbado por ruídos e desenvolveu intolerância à luz solar. Sofre de ansiedade e tem memórias do incidente. Passou por numerosos enxertos de pele, e seu corpo é tão sensível que mal consegue ser tocado. Médicos dizem que ele pode recuperar apenas 70% do uso de sua mão e braço direito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele se preocupa com o futuro e como proverá para sua jovem família. Embora a Dornan tenha pagado por voos e hotéis de Sandu, sua empresa de recrutamento ainda não o reembolsou por despesas conforme inicialmente prometido, deixando-o com prejuízo na casa dos milhares de euros, diz ele. Ainda não apto o bastante para trabalhar, ele luta para pagar a escola de seu filho de seis anos: &#8220;Há tantas coisas que muitas pessoas não entendem.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Acho que é preciso pensar sobre estas pessoas trabalhando nesses sítios não apenas como trabalhadores, mas como seres humanos&#8221;, diz Sjölander, do sindicato sueco Byggnads. &#8220;Como pessoa, você tem que decidir: como você quer seus dados… baseados em dignidade ou construído às custas de vidas humanas?&#8221;.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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	</item>
		<item>
		<title>A democracia precisa chegar aos territórios indígenas, diz Maíra Pankararu</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/violencia-contra-indigenas-entrevista-com-maira-pankararu/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isabel Seta]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 13:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[povos indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[segurança]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://apublica.org/?p=270161</guid>

					<description><![CDATA[Advogada fala sobre violência nas eleições e que defesa dos direitos indígenas deve ser uma responsabilidade coletiva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Após o resultado, no segundo turno, das eleições presidenciais no Brasil, indígenas da etnia Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul denunciaram ameaças e violências contra a comunidade da região. Órgãos de proteção, organizações civis e canais oficiais se mobilizaram para dar visibilidade e combater as <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-10/indigenas-de-ms-denunciam-casos-de-violencia-e-ameacas-apos-eleicao" target="_blank" rel="noreferrer noopener">tentativas de assassinatos</a> e até ameaça de envenenamento da água que abastecia a população.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O rastro de violência já vinha de antes — povos de várias partes do Brasil denunciaram aumento de violência política durante as eleições. <a href="https://apublica.org/2026/10/ameacas-perseguicao-e-mortes-indigenas-denunciam-aumento-da-violencia-politica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Reportagem</a> da <strong>Agência Pública</strong> mostrou que no Rio Grande do Sul, a disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos. Na Amazônia, garimpeiros ameaçaram invadir o território se Flávio Bolsonaro vencesse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“No dia 29 de outubro, a casa de uma rezadeira Guarani Kaiowá, uma senhora de quase 90 anos chamada Roberta, foi incendiada na aldeia Jaguapiré, em Tacuru [&#8230;] Eu acho que é inadmissível e inacreditável que no Brasil, em 2026, uma anciã de 90 anos seja perseguida por exercer a sua espiritualidade”, conta a advogada indígena Maíra Pankararu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela é a entrevistada desta semana do podcast <strong>Bom dia, fim do mundo</strong>, que discute essa recente onda de violência contra indígenas. Pankararu atuou no julgamento do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal, compõe a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA). Na conversa com Isabel Seta e Ricardo Terto, a advogada fala também sobre as dificuldades enfrentadas por comunidades indígenas para exercer o direito ao voto, que é uma luta constante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A democracia precisa chegar aos nossos territórios. Isso significa garantir que o direito ao voto possa ser exercido independentemente da distância, da língua, das condições geográficas ou do povo ao qual pertencemos”, afirma. “Estamos falando de comunidades tradicionais que mantêm as florestas e as matas em pé”</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be8448fa&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be8448fa" class="wp-block-image alignwide size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_A-democracia-precisa-chegar-aos-territorios-indigenas-diz-Maira-Pankararu.jpeg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="Foto mostra a advogada indígena Maíra Pankararu, que atua no combate à violência contra indígenas" class="wp-image-270162" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_A-democracia-precisa-chegar-aos-territorios-indigenas-diz-Maira-Pankararu.jpeg?w=1536&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_A-democracia-precisa-chegar-aos-territorios-indigenas-diz-Maira-Pankararu.jpeg?resize=800%2C533&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_A-democracia-precisa-chegar-aos-territorios-indigenas-diz-Maira-Pankararu.jpeg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_A-democracia-precisa-chegar-aos-territorios-indigenas-diz-Maira-Pankararu.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Maíra Pankararu é advogada indígena e atuou no julgamento do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.</p>


	<div class="brick block-featuredpost py-3 h-100" style="">

		<div class="row pb-4 mb-2 fs-6 podcast-episode audio" data-init="0" data-id="270053" data-playing="0">
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		<h2 class="h4 fw-bold">
									<span class="d-inline-block border py-1 px-2 small border-primary border-2 me-2">EP 81</span>
											Como anda a democracia? Pergunte a um indígena &#8211; com Maíra Pankararu							</h2>
		<div class="">
			<p class="podcast-summary">
				<span class="post-date-actual">
					<span class="fst-italic">5 de novembro de 2026</span>
					&middot;
				</span>
				Advogada indígena fala sobre a onda de violência e outros desafios para os povos indígenas após as eleições</p>
									<div class='audioxxx' data-init='0' data-id="270053" data-playing="0">
					
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Isa: Logo depois do segundo turno, as organizações indígenas denunciaram várias ameaças e casos de violência, especialmente em Mato Grosso do Sul, contra comunidades Guarani-Kaiowá e Terena, a ponto do governo federal enviar uma comitiva de ministros e a Força Nacional para essa região no último final de semana. Quais foram as denúncias recebidas na APIB e como essas violências se inserem num contexto que vai além do período eleitoral?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa primeira semana, pós-segundo turno, foi extremamente difícil para a gente, principalmente nós advogados e advogadas indígenas porque aquelas mensagens já começaram a circular no dia 25. Então, no dia 26, pela manhã, já estávamos trabalhando para noticiar os órgãos oficiais a respeito dessas mensagens e ameaças que o povo Guarani Kaiowá e o povo Terena receberam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia 29 de outubro, a casa de uma rezadeira Guarani Kaiowá, uma senhora de quase 90 anos chamada Roberta, foi incendiada na aldeia Jaguapiré, em Tacuru. As denúncias que recebemos das lideranças, já diziam que ela já vinha sofrendo perseguições e acusações, e eu vou aqui deixar muito frisado, porque pra mim isso daí é inacreditável, ela estava sendo perseguida por feitiçaria, porque ela estava exercendo as práticas espirituais do povo Guarani Kaiowá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então eu acho que é inadmissível e inacreditável que no Brasil, em 2026, uma anciã de 90 anos seja perseguida por exercer a sua espiritualidade. A motivação do incêndio, a gente ainda está apurando, precisa ser esclarecida, mas as denúncias de intolerância religiosa precisam ser investigadas com rigor e porque elas acontecem com uma certa frequência também no Mato Grosso do Sul. E quando eu falo de uma anciã que sofre uma violência dessa natureza, eu acho que as consequências vão além da dimensão individual. Não foi só a Roberta que sofreu; estamos falando de mulheres que guardam conhecimentos, que preservam as nossas espiritualidades e transmitem as nossas memórias coletivas dos nossos povos. Esse é o trabalho de nós, mulheres indígenas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas então, voltando ao caso da aldeia Sassoró, em Tacuru, após o resultado das eleições do segundo turno, a gente recebeu denúncias de ameaças, áudios – que eu acho que a internet inteira escutou alguns –, principalmente relacionados ao envenenamento da água consumida pelos Guarani Kaiowá. E aqui eu faço um parêntese: o abastecimento de água potável, água para beber mesmo, para os Guarani Kaiowá, é muito restrito. Eles não têm a disponibilidade de água como nós aqui na cidade temos. A Polícia Federal identificou dois servidores municipais de Tacuru que reconheceram a autoria dos atos, mas disseram que estavam bêbados, embriagados e não iriam envenenar a água. Mas enquanto advogada, eu faço um esclarecimento: a ameaça, por si só, já configura crime, independentemente da concretização, desde que estejam presentes os requisitos previstos no Código Penal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não foram só os Guarani Kaiowá que foram atingidos por essas ameaças. Também no Mato Grosso do Sul, o povo Terena denunciou ameaças, intimidações e episódios de racismo durante e após o processo eleitoral, que incluíram tentativas de impedi-los do exercício de voto e, também, ameaças de restringir o acesso à água e à energia elétrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, diante dessas gravidades, dessas denúncias, o governo federal enviou, por determinação do próprio presidente Lula, uma força-tarefa interministerial, agora dia 31 de outubro, composta pelo Ministro dos Povos Indígenas, o doutor Eloy Terena, junto do Ministro da Justiça e Segurança Pública, a ministra de Direitos Humanos e Cidadania e as nossas duas deputadas federais indígenas, a Sônia Guajajara e a Célia Xakriabá para ouvir diretamente as comunidades indígenas e acompanhar as situações. Ainda durante a visita, foram anunciadas medidas como: o reforço da Força Nacional e a disponibilização de programas de proteção individual e coletiva para os indígenas que estavam e estão sendo ameaçados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Isa: Mas mesmo com o governo mandando uma equipe, os ministros, a Força Nacional, sabemos que não tem como manter esse tipo de presença para sempre. Então, na sua avaliação, o que poderia ser feito para garantir a segurança dessas comunidades no longo prazo – sem tirar a importância dessas medidas de agora – mas que poderia atacar o problema mais na raiz?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós precisamos acompanhar a implementação dessas medidas para que essas comunidades afetadas se sintam efetivamente protegidas. Também precisamos acompanhar os responsáveis pelos crimes – se eles forem comprovados –, sejam identificados, estejam responsabilidades. Mas a raiz do problema para nós que somos indígenas é a demarcação das terras. Se não houver demarcação, a gente não tem segurança jurídica para dar novos passos para a gente proteger os nossos territórios, as nossas comunidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os Guarani Kaiowá e os Terena enfrentam há décadas conflitos territoriais, expulsões, assassinatos de lideranças, ameaças, diferentes formas de racismo e essas violências estão profundamente relacionadas com a concentração fundiária no estado do Mato Grosso do Sul e essa resistência histórica de reconhecer os nossos direitos territoriais. Esse contexto eleitoral pode ter intensificado essas determinadas manifestações de hostilidade, mas eu acho que é um erro tratar esses episódios como um acontecimento isolado ou que está exclusivamente relacionado aos resultados das urnas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Repetindo, nós precisamos ter investigações rigorosas e continuar mapeando essas denúncias. Sobretudo, a gente precisa manter essas medidas efetivas de proteção das comunidades, principalmente das nossas mulheres e das nossas lideranças espirituais. A proteção de nossos povos indígenas exige que o Estado brasileiro – e eu não falo o governo, eu falo o Estado brasileiro –, assegure que os nossos direitos territoriais, de liberdade religiosa e o exercício dos direitos políticos sejam respeitados e garantidos porque estão na Constituição. Acima de tudo precisamos exigir do Estado que possamos viver com dignidade e segurança sem que a nossa identidade, sem que as nossas crenças ou as nossas escolhas políticas sejam motivo de violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Terto: Na questão da defesa dos direitos políticos, no episódio anterior do Bom Dia falamos sobre como depois do primeiro turno chegaram denúncias das comunidades tendo dificuldade de exercer o direito de votar. Mesmo assim, os povos indígenas foram em peso votar no segundo turno. Como foi essa mobilização, Maíra?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, depois do primeiro turno, recebemos casos de pessoas que não conseguiram votar por vários motivos, tanto o caso do deslocamento, quanto o caso de línguas indígenas que não foram compreendidas pelos mesários ou pelos presidentes de mesa e esses povos simplesmente foram embora sem poder votar. Mas eu acho que o caso que chamou mais atenção nacionalmente falando foi o caso do Vale do Javari, no Amazonas, que é um exemplo muito concreto do que nós, povos indígenas, ainda enfrentamos para exercer o direito fundamental do voto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, para o segundo turno a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, a Univaja solicitou apoio para garantir o transporte fluvial dos eleitores até o local de votação. Esse pedido, simplesmente, foi negado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, a 42ª Zona Eleitoral em Atalaia do Norte, sob o argumento de falta de prazo, pedido em cima da hora, ausência de recursos orçamentários e uma dificuldade logística.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obviamente quando falamos de Amazonas e Amazônia temos um enorme desafio geográfico, em que os deslocamentos podem exigir, inclusive, vários dias de navegação. Mas, essas dificuldades não surgiram em outubro de 2026. Elas já eram conhecidas. E aqui está o ponto central. Desde março de 2026, as Resoluções do Tribunal Superior Eleitoral já asseguravam o transporte de eleitores indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais, inclusive por meio de embarcações. Para ser exata, é a resolução de Nº 23.751, que determinou, inclusive, que os tribunais regionais eleitorais coordenassem essas medidas, mediante consulta prévia às comunidades. Então, cabe fazer uma pergunta muito séria aqui. Por que às vésperas das eleições, foi necessário mobilizar organizações indígenas e diferentes instituições para garantir o cumprimento de um direito que já estava expressamente previsto nas normas eleitorais? O que aconteceu?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de toda essa mobilização, houve sim a atuação do Ministério Público Eleitoral, das articulações institucionais e uma definição de medidas para viabilizar esse transporte, mas sabemos que na prática ainda houve dificuldades que precisam ser apuradas. Um grande professor de vida que eu tive, o Marcelo Zelic, dizia: “Quer saber como anda a democracia brasileira? Pergunte a um indígena”. Talvez essa frase nunca fez tanto sentido quanto nessas eleições – mesmo que para mim, ela sempre fez muito sentido. No dia 25 de outubro, o que vimos acontecer em Salvador e em São Paulo, com denúncias de restrições de transporte público e dificuldades de eleitores para chegarem nos seus locais de votações, os povos indígenas já estavam sofrendo antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença é que, para nós, essas barreiras frequentemente passam despercebidas para o restante do país, mas a democracia precisa chegar aos nossos territórios. Isso significa garantir que o direito ao voto possa ser exercido independentemente da distância, da língua, das condições geográficas ou do povo ao qual pertencemos. O direito de votar está assegurado na Constituição, no artigo 14, ou seja, cabe ao Estado brasileiro garantir que esse direito seja uma realidade de todos nós, e eu falo de todos nós, sociedade brasileira.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como saldo eleitoral tivemos um aumento de uma bancada mais ruralista, somada a um menor número de indígenas eleitos. No contexto atual, em que a ação do Poder Executivo se torna ainda mais importante diante de um Congresso majoritariamente anti-indígena e anti-ambiental – que vai ficar ainda mais a partir de janeiro – quais são as principais preocupações de vocês em relação ao Congresso?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós fizemos esse mapeamento e compreendemos que a nova composição da legislatura do Congresso Nacional, apresentou um cenário bastante preocupante não só para os direitos indígenas, mas para os direitos socioambientais. Estamos falando de povos quilombolas, povos de comunidades tradicionais que mantêm as florestas e as matas em pé. Nós teremos um parlamento com uma presença expressiva de setores políticos historicamente posicionados contra o reconhecimento dos nossos direitos territoriais e contra medidas de proteção ambiental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso exige muita atenção porque estamos falando de decisões que podem afetar diretamente nossos territórios, nossas formas de vida e o futuro das próximas gerações, mas também vai afetar a vida de toda a sociedade brasileira em relação aos direitos socioambientais. Precisamos reconhecer que esse Congresso, essa nova legislatura, vai se tornar um campo de batalha, um espaço de disputa política, de diálogo, de diplomacia e de conjuração de alianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, a nossa atuação vai ser focada, fundamentalmente, para fortalecer os diálogos com os parlamentares eleitos e reeleitos que tenham esse compromisso com os direitos dos povos indígenas, com o que está assegurado na Constituição e com a proteção do meio ambiente e precisamos que eles tenham uma atuação muito ativa, que eles deem visibilidade às nossas demandas, participem de debates e nos chamem junto para ampliar a discussão sobre os direitos socioambientais dentro e fora do Congresso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A defesa dos direitos dos povos indígenas não pode ser uma responsabilidade exclusiva dos povos indígenas. Nós estaremos mobilizados, sempre estivemos, estamos e vamos estar. Mas o apoio da sociedade, e isso é um apelo que eu faço aqui: o apelo da sociedade civil não-indígena vai ser fundamental para os próximos quatro anos. Aqui estamos falando de jornalistas e da mídia, mas também das universidades, organizações sociais, movimentos populares, pesquisadores, juristas, professores, antropólogos, assistentes sociais, e de todas as pessoas comprometidas com os direitos humanos e com a democracia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante que a sociedade acompanhe as decisões do Congresso. Eu sei que não é fácil acompanhar o Congresso, eu estou lá quase todo dia, sei que não é fácil, mas nós vamos precisar fazer esse exercício nesses próximos quatro anos. Vamos precisar participar ativamente desses debates e saber o que reivindicar, como eu falei, nós precisamos ser chamados sobre o futuro dos territórios indígenas e da proteção ambiental. Os próximos quatro anos vão exigir diálogo, articulação e mobilização permanente.</p>
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		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Terto]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Stela Diogo]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Sofia Amaral]]></dc:creator>
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		<title>Tsunami azul nas midterms: será o fim da era Trump? &#8211; com Tatiana Vargas-Maia</title>
		<link>https://apublica.org/podcast/2026/11/podcast-pauta-publica/tsunami-azul-nas-midterms-sera-o-fim-da-era-trump/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Andrea DiP]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[Donald Trump]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Cientista política analisa as causas e as possíveis consequências da vitória democrata nas eleições legislativas dos EUA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A vitória democrata nas eleições de meio de mandato indica tendências de mudança para a disputa presidencial de 2028 e revela uma certa vitalidade democrática nos Estados Unidos. É o que afirma Tatiana Vargas-Maia, convidada do Pauta Pública desta semana. O episódio discute o resultado das midterms, divulgados na última terça-feira, 3 de novembro, e seus possíveis impactos no cenário político norte americano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na conversa com Andrea Dip, a cientista política e professora de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Tatiana Vargas-Maia propõe uma reflexão sobre o que muda, de fato, nos dois anos que restam do mandato de Trump. A entrevistada também analisa o que esse recado das urnas pode significar para a extrema direita no resto do mundo e para o Brasil, que acaba de sair de uma eleição em que a relação com os Estados Unidos também esteve em jogo.</p>
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		<dc:creator><![CDATA[Stela Diogo]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Sofia Amaral]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Natália Perez]]></dc:creator>
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		<title>PEC da Segurança Pública leva “populismo penal” para a Constituição, aponta professor</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/pec-da-seguranca-publica-leva-populismo-penal-para-a-constituicao-aponta-professor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maira Escardovelli]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 07:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[Justiça]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[segurança]]></category>
		<category><![CDATA[segurança pública]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
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					<description><![CDATA[Rodrigo de Azevedo, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, vê risco em incluir o punitivismo no texto constitucional]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Apesar de representar um avanço na construção de uma estrutura institucional mais integrada entre as forças de segurança, a PEC da Segurança Pública, aprovada na última terça-feira, 3 de novembro, pelo Senado Federal, uma das principais apostas do governo federal, incorporou termos que reforçam o “populismo penal”, considerando a inserção na Constituição Federal do aumento de penas e a criação de novos tipos penais. A avaliação feita à <strong>Agência Pública</strong> é de Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.</p>



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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Rodrigo de Azevedo aponta avanço institucional com a aprovação da emenda constitucional, mas vê trechos da proposta como “contraditórios” ao artigo 5° da Carta Magna</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Azevedo, os mecanismos de endurecimento penal previstos na Emenda à Constituição aprovada “reforçam um caminho que o Brasil já vem trilhando”, com uma “opinião pública punitivista” que demanda maior segurança. Para o professor, essas medidas, inclusive, são consideradas “contraditórias” em relação ao artigo 5º da Constituição, que estabelece a presunção de inocência e a individualização da pena, o que poderia resultar em um questionamento da própria constitucionalidade de dispositivos previstos no texto. O professor reconhece, porém, que essa “dimensão mais negativa” do texto não “inviabiliza os avanços do ponto de vista do arranjo institucional da segurança pública” conquistado com a emenda constitucional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi em abril de 2025 que o governo federal, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, enviou a primeira versão da PEC à Câmara dos Deputados. A matéria ganhou a relatoria do deputado federal Mendonça Filho (União Brasil-PE), que modificou o texto, adicionando normas mais punitivistas e retirando o objetivo inicial da matéria, que era o de coordenar a atuação das forças da União, estados e municípios, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Estaduais e Guardas Municipais. À época, passou a tramitar o PL Antifacção, também enviado pela pasta da Justiça, que teve relatoria do deputado Guilherme Derrite (PP-SP).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Nós já estávamos num momento eleitoral, em que deputados como o Derrite e o Mendonça Filho claramente estavam com o objetivo de se aproveitar da agenda parlamentar de reformas de matéria penal e de segurança pública para obter dividendos eleitorais. Por isso, eu digo que se estabeleceu uma competição entre eles para verificar qual era o mais duro no combate ao crime, do ponto de vista dessas medidas de aumento de pena, do enriquecimento da execução penal, que não tem uma eficácia comprovada”, explica Azevedo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o professor, essas medidas defendidas pelos deputados, “pelo contrário, vão produzir um aumento do superencarceramento, da superlotação carcerária e, portanto, do ambiente propício para o crescimento das facções criminosas, mas que agradam a uma [parcela da] opinião pública”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A aprovação da PEC foi colocada como condição para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criasse o Ministério da Segurança Pública, uma de suas propostas de campanha desde a eleição de 2022. Sobre a nova pasta, Azevedo aprova a sua criação e afirma que ela terá um “papel político importante de coordenação da reestruturação” do que foi proposto na matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Destaca, também, a importância de que a direção do Ministério tenha “capacidade política para construir com os governadores”, principalmente os de oposição, para que a questão não se torne um “entrave” para a implementação do sistema de segurança pública.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre as ações destacadas pelo professor que devem ser implementadas pelo novo Ministério estão a reestruturação da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Com a ampliação da estrutura da PRF permitida pelo novo texto, os governadores poderão acioná-la em casos de calamidade pública, como uma força de policiamento ostensivo, além de apoio para os sistemas penitenciários estaduais e na estrutura dos presídios federais de segurança máxima.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando o texto da PEC foi enviado ao Congresso Nacional pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve muita resistência dos governadores e a matéria mudou na Câmara. Mas a proposta ainda prevê a integração da União com os Estados. Com a aprovação, como ficará essa articulação?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto original dava à União o papel de coordenação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Esse termo incomodou os governadores e isso foi uma contaminação do debate pelo contexto eleitoral, de polarização política. Essa contrariedade vem de governos ligados ao bolsonarismo, que queriam evitar justamente que o governo federal assumisse o papel de maior protagonismo. O que foi feito, e não acho que seja algo tão grave, foi tirar a expressão de “coordenação&#8221;, e se passou a trabalhar com a ideia de integração, no sentido de cooperação. Para que isso aconteça, o governo federal vai ter que manter o papel de indução de políticas, de financiamento, inclusive, das políticas de segurança, tanto dos municípios quanto dos estados. Isso, de alguma forma, é um papel de coordenação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, se uma prefeitura quiser implementar políticas de prevenção ao crime e quiser obter recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, provavelmente vai passar por um encaminhamento de um projeto para que seja aprovado e para que o governo federal possa repassar esses recursos. Então, o governo federal vai ter que estabelecer os critérios para isso, como também os mecanismos de formação da segurança pública de uma forma mais unificada. A ideia, inclusive, é a criação de uma escola nacional de formação. Todas essas coisas passam por um papel mais importante e mais protagonista da União, e a PEC, embora não tenha dito expressamente que significa uma coordenação, na prática, não impede que a União desempenhe esse papel de principal ator, nesse contexto de uma maior integração entre União, estados e municípios.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O senhor vê possibilidade dessa coordenação acontecer efetivamente, considerando que em 2027 teremos a maioria dos estados governados por políticos de oposição ao governo federal e até de extrema direita?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma dificuldade na política, mas isso não impede uma atuação mais integrada. A ideia da PEC, do Sistema Único de Segurança Pública, é replicar o Sistema Único de Saúde (SUS). Tratando-se de um sistema único, de uma política pública, o que nós precisamos é de algo que não dependa de qual é o governo e de qual é a sua ideologia, que esteja pautado por princípios que sejam não de governo, mas de Estado. E que garantam aquilo que a PEC, de alguma forma, incorpora. [Incluindo] a necessidade de controle da atividade judicial, mas também de uma formação qualificada e toda uma série de outros requisitos que tanto estão na PEC quanto na lei do SUSP, que já estabeleceu quais seriam esses critérios e como se dá essa articulação entre os diferentes entes federativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão é colocar isso em funcionamento. Eu acredito que esse é o grande ponto positivo de fato da PEC: ela legitima a atuação mais protagonista do governo federal, prevê também o fortalecimento do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Nacional Penitenciário. Essa é uma ferramenta de governança que vai permitir que mesmo que os governos sejam de oposição ao governo federal, eles acabem tendo tanto interesse quanto a necessidade de participarem das instâncias de governança do SUSP para que possam obter também esses recursos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como se daria essa integração, na prática?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desse fortalecimento da integração e da coordenação dos esforços, é muito importante, por exemplo, que se passe a obrigar os estados a seguirem certos parâmetros entre os quais a utilização de câmeras corporais em atividades de policiamento ostensivo. Não haveria mais, digamos, como recusar a utilização. Pelo contrário, agora nós podemos estabelecer, como já tem acontecido, diretrizes nacionais de como essa utilização precisa ocorrer. A ideia de uma padronização de atuação é o que se pretende a partir dessa ideia de uma integração, onde o governo federal, evidentemente, vai cumprir um papel fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é importante que seja um governo comprometido, inclusive com a democracia, porque, quando se trata de segurança pública e a atuação das polícias, esse é um elemento chave para que a gente possa reconhecer a existência de um Estado Democrático de Direito. Não é só votar e ser votado, também é como a segurança pública é exercida, como ela é colocada em prática e como se dá essa relação do cidadão com a polícia, que em critérios e padrões democráticos deve ocorrer sempre dentro da lei e dos direitos e garantias fundamentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Há alguma questão que a PEC deixou de lado e poderia ser fundamental para solucionar os problemas nacionais da segurança pública?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A PEC é o que era necessário para que haja um arranjo institucional mais articulado, mais integrado, mais coordenado. Parece-me que ela realmente representa um avanço. Mas, claro, toda lei não é algo que funcione de forma abstrata. Agora é preciso colocar em prática justamente todas essas reestruturações institucionais, começando pela criação do Ministério, passando pela organização da Polícia Federal, a articulação também dos municípios, que poderão converter as suas guardas municipais em polícias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelo menos, agora, nós temos uma estrutura que permite que tudo isso seja colocado em prática. Todas as demais questões que a PEC incorporou, que eu acho que são muito negativas, elas apenas reforçam um caminho que o Brasil já vem trilhando, que é o do populismo penal, que é o aumento de penas, a utilização dessas reformas de forma demagógica, buscando ganhar apoio eleitoral. Isso passa tanto pela criação de novos tipos penais, quanto também de medidas, digamos, espetaculares, com algum apoio social, como redução da maioridade penal e a castração química de estupradores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coisas que a gente sabe que não tem nem evidências de que funcionem, mas que acabam agregando uma opinião pública punitivista, que demanda maior segurança. É muito negativo que os mecanismos de endurecimento penal estejam agora na Constituição. Eles são, na minha opinião, até bastante contraditórios em relação, por exemplo, ao artigo 5º da Constituição. Me parece até que se poderia questionar a própria constitucionalidade de algum desses dispositivos, o que é algo realmente muito complexo, porque há uma reforma constitucional que coloca na Constituição essas coisas. Mas, de qualquer maneira, digamos que essa dimensão mais negativa daquilo que foi aprovado, não inviabiliza os avanços do ponto de vista do arranjo institucional da segurança pública a partir de agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como o senhor analisa a criação do Ministério de Segurança?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sou um defensor da criação desse Ministério. Todas as políticas públicas de responsabilidade da União têm ministérios próprios. A segurança pública é uma política pública central na atual agenda política do Brasil, especialmente porque a criminalidade organizada atingiu níveis que precisam ser enfrentados de forma articulada pela União, Estados e Municípios. Então, esse é o principal papel desse Ministério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele terá que ordenar os esforços do governo federal nessa área, o que envolve especialmente a reestruturação da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, a Escola Nacional de Formação, a questão do sistema penitenciário que também vai ficar, pelo que tem sido discutido, no âmbito do Ministério da Segurança Pública. Isso envolve tanto o apoio para os sistemas penitenciários estaduais, quanto a garantia da estrutura dos presídios federais de segurança máxima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, me parece muito importante também que o ministro [dessa nova pasta] seja alguém que, além de capacidade gerencial, tenha capacidade política para construir com os governadores. [Dessa forma] o fato de que há vários governadores de oposição não acabe sendo um entrave para que esse sistema de segurança pública seja implementado. É preciso ter capacidade de articulação com o órgão que reúne os secretários estaduais de segurança pública de todos os estados, os comandos e chefias de polícia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A PEC prevê alguma mudança na atuação da Polícia Federal? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em relação à Polícia Federal, não há grandes alterações. A PEC torna explícito o fato de que a Polícia Federal tem como competência atuar em casos que envolvem crime organizado, facções criminais, milícias e que sejam de âmbito interestadual ou internacional, mas isso já estava na lei, agora coloca-se na Constituição.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E na Polícia Rodoviária Federal?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A alteração mais importante é a da Polícia Rodoviária Federal, porque ela amplia a sua competência de atuação para além das rodovias federais, chegando às hidrovias e ferrovias. Além disso, a PEC prevê que a PRF, a pedido dos governadores, possa ser convocada para atuar em contextos de calamidade e emergência. Ela consolida um papel de polícia ostensiva federal, o que a PF não é, já que ela é uma polícia judiciária e investigativa. Por essa ampliação, a Polícia Rodoviária Federal acaba assumindo um papel que é um pouco o papel que a Força Nacional de Segurança vinha cumprindo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<enclosure url="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_PEC-da-Seguranca-Publica-leva-populismo-penal-para-a-Constituicao-aponta-professor-1.jpg" length="77099" type="image/jpeg" /><post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">270171</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Todos os erros do presidente</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/donald-trump-todos-os-erros-do-presidente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[James Green]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 20:40:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[Donald Trump]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[Tsunami democrata foi ampliado por apostas erradas de Trump, que pode deixar família Bolsonaro em segundo plano]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O tsunami democrata que varreu os Estados Unidos no dia 3 de novembro minou completamente o futuro político de Donald Trump, bem como o do movimento MAGA (Torne a América Grande Novamente, em inglês). Os resultados surpreenderam até mesmo os consultores de campanha democratas mais otimistas. A <a href="https://www.nbcnews.com/politics/2026-elections/senate-results" target="_blank" rel="noreferrer noopener">NBC News</a> projeta que os democratas terão uma maioria estimada de 259 cadeiras na Câmara dos Representantes, contra 176 dos republicanos — um ganho de 45 parlamentares. No Senado, os democratas contarão com uma maioria de, pelo menos, cinco cadeiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">A derrota eleitoral foi tão contundente e devastadora para o partido de Trump que o presidente não encontrou espaço político para alegar fraude eleitoral ou tentar interferir nos resultados em estados-chave, como muitos observadores previam que faria.</span> Em suma, os eleitores enviaram uma <a href="https://apublica.org/2026/11/eleicoes-nos-eua-derrota-republicana-tem-mais-a-ver-com-economia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mensagem</a> clara de repúdio às políticas e práticas da Casa Branca durante a administração de Trump.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Trump cometeu muitos erros de cálculo político na preparação para as eleições. Convencido de que sua popularidade entre sua base levaria os candidatos republicanos à vitória, Trump insistiu em fazer campanha em estados conservadores</span> como Iowa, Mississippi, Ohio, Kansas e Texas, onde venceu a eleição presidencial de 2024 por margens de dois dígitos. A presença de Trump nesses estados provou ser o canário na mina de carvão, um aviso prévio de que os republicanos temiam a derrota que, de fato, ocorreu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos comícios do presidente, com participação menor do que em 2024, ele implorou aos seus apoiadores mais leais que imaginassem que ele estava na cédula e votassem de acordo com isso. No entanto, candidatos republicanos em disputas acirradas pediram ao presidente que não fosse aos seus estados, temendo que isso influenciasse os eleitores a favor de seus oponentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estratégia de Trump, em 2025, de insistir que os republicanos redesenhassem os mapas dos distritos eleitorais, conhecida como <a href="https://apublica.org/2025/08/gerrymandering-o-plano-de-trump-para-as-eleicoes-2026/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>gerrymandering</em></a>, para diluir o poder de voto dos democratas, dividindo esses eleitores em distritos recém-criados com maioria republicana, também saiu pela culatra. <span class="highlighter">Em parte, os republicanos redesenharam as fronteiras dos distritos com base em uma mudança de voto entre latinos, homens negros e jovens nas eleições presidenciais de 2024, que passaram a apoiar Trump. No entanto, os três grupos <a href="https://www.pbs.org/newshour/show/how-the-latino-shift-to-democrats-helped-turn-texas-blue" target="_blank" rel="noreferrer noopener">retornaram</a> ao Partido Democrata.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os latinos, que eram a favor do controle governamental na fronteira sul, se opuseram à forma como o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) realizou prisões e assassinatos em massa em todo o país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Decisões da Suprema Corte apoiadas por Trump, que diluíram o poder de voto dos negros, desagradaram eleitores, especialmente no Sul, que retornaram ao campo democrata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os jovens, alarmados com o alto custo de vida e com a sensação de que suas oportunidades futuras eram limitadas, também viraram as costas para Trump.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os republicanos do Texas iniciaram essa manobra de redistribuição de distritos, na esperança de ganhar cinco cadeiras adicionais na Câmara. É provável que percam todos os cinco distritos recém-redesenhados. A Califórnia respondeu também redesenhando seus mapas de distritos congressionais e obtendo a aprovação esmagadora da proposta em um referendo. Ao contrário dos republicanos, eles conquistaram todos os cinco novos distritos da Califórnia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esforços semelhantes, porém, mais modestos, de redistribuição de distritos em outros estados também não favoreceram os republicanos. Em resumo, mais um <a href="https://www.cbsnews.com/news/dummymander-republican-redistricting-congress-trump/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">erro de cálculo</a> político da Casa Branca.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Uma eleição de muitos ‘pela primeira vez na história dos EUA’</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Embora alguns resultados ainda estejam sendo contabilizados, parece que os democratas também obterão ganhos significativos nas eleições estaduais e locais em todo o país.</span> <a href="https://www.nbcnews.com/politics/2026-election/democrats-gain-full-control-five-state-governments-expand-power-rcna607433" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pela primeira vez</a> em muitos anos, os democratas controlarão as legislaturas estaduais em estados-chave, como New Hampshire, Minnesota, Pensilvânia, Texas e Wisconsin. Isso lhes permitirá, por exemplo, aprovar legislação para enfrentar o alto custo de vida, reduzindo os impostos estaduais e locais sobre gasolina e diesel, a fim de reduzir os preços recordes dos combustíveis, impulsionados pela guerra no Irã.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Contudo, lideranças democratas já deixaram claro que, se não reduzirem o custo de vida, poderão perder rapidamente, na eleição de 2028, o voto daqueles que romperam com o Partido Republicano para apoiar candidatos da oposição nesta temporada eleitoral.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">É significativo notar que os democratas <a href="https://www.nbcnews.com/politics/2026-elections/senate-results" target="_blank" rel="noreferrer noopener">venceram disputas parlamentares</a> em estados cruciais que, tradicionalmente, apoiavam os republicanos — Geórgia, Iowa, Kansas, Maine, Carolina do Sul e Texas —, redesenhando o mapa político do país. Os democratas também derrotaram candidatos republicanos ao cargo de governador em &#8220;estados decisivos&#8221; (<em>swing states</em>) — aqueles em que o eleitorado oscila entre os dois partidos a cada eleição —, o que torna mais difícil para Trump manipular o processo eleitoral presidencial de 2028, no qual o candidato que conquista a maioria dos votos em um estado obtém a totalidade dos votos do Colégio Eleitoral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após dois anos de esforços da administração Trump para desmantelar os programas de “<a href="https://www.usatoday.com/story/news/politics/elections/2026/11/05/dei-americans-vote-diversity-inclusion-midterm-elections/92610470007/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">diversidade, equidade e inclusão</a>”, a eleição marcou várias “primeiras vezes”, ampliando a composição racial, étnica e religiosa dos funcionários eleitos, tanto federais quanto estaduais. Nas eleições para o Senado, os eleitores escolheram Abdul El Sayed, de Michigan, um muçulmano de esquerda, para servir naquela casa, e Chris Pappas, de New Hampshire, será o primeiro senador abertamente gay. Os eleitores elegeram Gina Hinojosa, do Texas, a primeira latina a se tornar governadora do estado. Keisha Lance-Bottom será a primeira mulher negra a assumir esse cargo na Geórgia, e a nativa americana Deb Haaland, do Novo México, será a primeira mulher indígena nessa posição. Além disso, Xavier Bessera é o primeiro latino a se tornar governador da Califórnia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Nos meses que antecederam as eleições, as pesquisas de opinião mostraram que, em média, 65% da população registrava ampla rejeição às políticas de Trump, desde as tarifas até a guerra no Irã.</span> Os resultados eleitorais confirmaram essa avaliação. De acordo com entrevistas da <a href="https://www.ms.now/elections" target="_blank" rel="noreferrer noopener">MSNow</a> com eleitores que saíram das urnas ou votaram por correspondência antes do dia da eleição, 90% dos entrevistados disseram que seus dois principais motivos para votar foram o estado deplorável da economia e a corrupção desenfreada em Washington. A oposição à guerra não ficou muito atrás entre as preocupações dos eleitores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claramente, as <a href="https://www.npr.org/2025/12/11/nx-s1-5639957/trump-affordability-hoax-economy-midterms">insistentes a</a><a href="https://www.npr.org/2025/12/11/nx-s1-5639957/trump-affordability-hoax-economy-midterms" target="_blank" rel="noreferrer noopener">l</a><a href="https://www.npr.org/2025/12/11/nx-s1-5639957/trump-affordability-hoax-economy-midterms">egações</a> de Trump durante a campanha de que a questão da &#8220;acessibilidade financeira&#8221; (<em>affordability</em>) é uma farsa e que os Estados Unidos têm &#8220;a melhor economia de todos os tempos&#8221; soaram falsas, mesmo entre muitos apoiadores de Trump que ficaram em casa ou apoiaram candidatos democratas. Ao avaliar os resultados eleitorais, analistas republicanos argumentaram que o problema de seu partido não foi a participação, mas sim o fato de que muitos que apoiaram Trump em três eleições anteriores votaram nos democratas desta vez.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Até mesmo alguns dos candidatos mais proeminentes que Trump apoiou nas primárias republicanas altamente disputadas não conseguiram vencer a eleição geral.</span> Entre os candidatos notoriamente controversos apoiados pelo presidente que acabaram derrotados, estavam o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, que concorria contra James Talarico para o Senado, e o governador Greg Abbott, que cumpriu três mandatos; a candidata da Carolina do Sul, Darlene Graham, irmã do senador Lindsey Graham, apoiador de Trump e falecido recentemente; e candidatos republicanos fracos nas disputas para o Senado na Geórgia e na Carolina do Norte. Eles foram derrotados pelos democratas por margens de 10 pontos percentuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que a nova frente no Congresso pode fazer contra Trump</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Controlar a Câmara dos Representantes e o Senado com margens amplas é a principal arma que os democratas têm à disposição no momento. <span class="highlighter">Embora possuam maioria em ambas as casas para aprovar leis que beneficiem aqueles que acabaram de apoiá-los, Trump ainda detém poder de veto sobre todas as leis aprovadas. O Congresso precisaria de uma maioria de dois terços para derrubar o veto do presidente.</span> Isso exigirá encontrar republicanos que temam perder seus assentos em 2028 e que estejam dispostos a oferecer apoio bipartidário à legislação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre as primeiras <a href="https://abc7ny.com/live-updates/midterm-elections-2026-live-updates-election-results-key-races-us/20001292/entry/20014359/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">prioridades</a> declaradas da nova maioria no Congresso, estará a realização de audiências sobre questões que os republicanos haviam impedido de serem discutidas. Isso provavelmente incluirá novas investigações sobre os &#8220;arquivos Epstein&#8221;, resoluções que invocam a Lei de Poderes de Guerra (<em>War Powers Act)</em> para forçar Trump a encerrar a guerra no Irã, e apurações sobre a corrupção na família Trump. Os democratas terão o poder de intimar autoridades governamentais e outras testemunhas a depor sob juramento sobre esses assuntos, com consequências graves caso prestem informações falsas às investigações do Congresso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quais seriam, então, os próximos passos políticos de Trump? Dado o seu comportamento errático, é sempre difícil prever o que ele fará a seguir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o segundo debate presidencial de 2016 entre Donald Trump e Hillary Clinton, o político britânico <a href="https://time.com/4524705/donald-trump-nigel-farage-hillary-clinton-debate-gorilla/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nigel Farage</a> comentou que Trump — assim como Flávio Bolsonaro no debate da Globo em 2026 — rondava Hillary Clinton enquanto ela falava, agindo como um gorila de dorso prateado. Agora que Trump apresenta sinais cada vez mais claros de deterioração mental — e tendo em mente essa comparação com primatas —, soube recentemente que gorilas-das-costas-prateados, ao envelhecerem, não se tornam passivos ou dóceis; pelo contrário, tornam-se mais agressivos à medida que sua saúde declina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora Trump tenha admitido a derrota eleitoral, ele, como de costume, está culpando os outros, argumentando que, se estivesse na cédula, os republicanos teriam vencido. Embora ele afirme que precisará buscar entendimento com os democratas para aprovar novas leis, dado o seu comportamento passado, é difícil levar suas palavras a sério. Sua necessidade de denegrir oponentes, defender suas políticas tarifárias irracionais — que continuam a causar estragos na economia — e jamais admitir um erro ou fracasso não deixa margem para acreditar em qualquer possibilidade de mudança na personalidade de Trump.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resta saber como isso afetará o Brasil. <span class="highlighter">Com a derrota eleitoral avassaladora de Trump, é provável que os irmãos Bolsonaro sejam deixados em segundo plano por enquanto, para serem trazidos de volta à cena quando a sorte política do presidente estiver mais favorável.</span> Além disso, a insistência de Flávio Bolsonaro em exercer seu direito a voto no Senado, mesmo tendo deixado o Brasil sem autorização do Congresso, torna mais difícil sustentar o mito de que o Brasil vive sob uma ditadura — especialmente quando a oposição detém a maioria no Legislativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O eleitorado americano frustrou os planos de Trump durante seus dois últimos anos de mandato. Trump reconhece que questões econômicas e a guerra no Irã foram fatores determinantes, mas, até o momento, não recuou na defesa de nenhuma dessas políticas. Enquanto isso, os republicanos entraram no “jogo de culpar o outro”. O vice-presidente <a href="https://www.pbs.org/newshour/politics/vance-blames-iran-war-for-gop-midterm-losses" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vance</a> deu o primeiro passo ao atribuir a guerra no Irã à derrota eleitoral. Vance sempre se opôs a “incursões estrangeiras desnecessárias”, embora tenha abandonado essa postura para se tornar o fiel escudeiro de Trump. Agora que a temporada de campanha para a eleição presidencial de 2028 começou, ele parece tentar se distanciar do presidente. O “<a href="https://www.nbcnews.com/politics/2026-election/republicans-begin-grappling-lost-badly-trump-midterms-rcna607359" target="_blank" rel="noreferrer noopener">banho de sangue</a>” parece ter começado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, nas ruas de Nova York, o desempenho surpreendentemente forte dos democratas despertou um sentimento de alívio e euforia — não muito diferente daquele sentido em <a href="https://apublica.org/2026/10/exercito-de-lula-presidente-consegue-virada-inedita/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">25 de outubro</a>, quando o presidente Lula venceu o segundo turno das eleições com uma vitória expressiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<enclosure url="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_Derrota-eleitoral-marca-o-inicio-do-fim-da-era-Trump-e-os-muitos-erros-do-presidente-1.jpg" length="597910" type="image/jpeg" /><post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">270141</post-id>	</item>
		<item>
		<title>A desinformação da extrema direita sobre queimadas</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/a-desinformacao-da-extrema-direita-sobre-queimadas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gustavo Faleiros]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 15:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[desmatamento]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[queimadas]]></category>
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					<description><![CDATA[Fogo na Amazônia se agrava, mas informações falsas circularam no segundo turno para questionar o combate ao desmatamento]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Ligando os pontos, enviada toda quinta-feira. Para receber as próximas edições, <a href="https://newsletter-ligando-os-pontos.gr-site.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">inscreva-se aqui</a>.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a campanha eleitoral do segundo turno, duas proeminentes vozes da extrema direita, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, <a href="https://apublica.org/tag/tarcisio-de-freitas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP)</a>, difundiram deliberadamente desinformação sobre os incêndios florestais na Amazônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto a população de Manaus sofria com a má qualidade do ar, que levou ao cancelamento de aulas em escolas e universidades, os dois políticos, acompanhados por influenciadores bolsonaristas, produziram vídeos com informações falsas em busca de ganhos eleitorais para Flávio Bolsonaro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez bebendo na experiência do vídeo fabricado no Nordeste por Nikolas, o governador de São Paulo entrou no campo da produção fraudulenta de conteúdo. Acusou o governo federal de negar apoio ao governo do Amazonas no combate aos incêndios, o que foi <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/10/tarcisio-politiza-incendios-na-amazonia-contra-lula-envia-bombeiros-e-posta-videos-semelhantes-a-filmes-de-acao.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">desmentido pela administração estadual</a>. E até o que se pretendia real – o envio de bombeiros paulistas para apoiar o combate às chamas – se revelou uma farsa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De maneira a confundir as audiências das redes sociais, os vídeos da extrema direita tratavam queimadas e desmatamento como a mesma coisa. A questão que levantavam era: como poderia o Ministério do Meio Ambiente apresentar dados com as taxas de desmatamento mais baixas da história se estávamos vendo enormes nuvens de fumaça saindo da floresta? O objetivo era questionar a efetividade da política e combate ao desmatamento do governo Lula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desinformação de Nikolas e Tarcísio veio à tona porque as queimadas no Amazonas não indicam que o desmatamento está fora do controle. É exatamente o contrário. Nos últimos anos, as tendências são inversas: queimadas em alta e desmatamento em baixa. Se olharmos a taxa de desmatamento na Amazônia de 2024, vemos que ela foi reduzida mesmo sendo um ano de queimadas recordes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquele ano, como este, foi afetado pelo El Niño, fenômeno climático que causa mais seca na região Norte. É provável que neste final de ano grandes incêndios ocorram sem que represente mais desmatamento. Isto é especialmente verdade no momento em que a seca na Amazônia se acentua a cada dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma informação bastante preocupante divulgada pelo <a href="https://www.oraotca.org/pt/noticias/chuvas-abaixo-da-media-atingem-69-da-amazonia" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia</a>, iniciativa da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), indicou que, em setembro de 2026, as chuvas nas bacias dos principais rios amazônicos ficaram 69% abaixo da média histórica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">/Temos sim um grave problema com as queimadas na floresta, sejam elas causadas pela situação climática ou pelos criminosos ambientais. Há um impacto na saúde da população e muitas cidades da Amazônia e do Cerrado devem ser afetadas ainda este ano. Mas há também o fato de que, com mais queimadas, a mudança climática está sendo exacerbada. Mais biomassa em chamas significa mais emissões de carbono.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Círculo vicioso</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A bióloga Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, estuda há anos a situação das queimadas na Floresta Nacional do Tapajós, onde agora também os focos de calor começaram a aparecer. Ela tem demonstrado através de suas pesquisas que, com o aumento da frequência dos eventos extremos climáticos, a floresta se torna cada vez mais suscetível ao fogo. É um círculo vicioso: com mais calor, mais vulnerável se torna a Amazônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://lnkd.in/p/dtyaW7tx" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Em um vídeo publicado no LinkedIn</a>, Berenger explicou muito bem a diferença do que se considera o desmatamento a corte raso, aquele feito para abrir clareiras em meio à floresta, e as queimadas que atingem a vegetação por baixo das copas ou usadas para a limpeza de pastagens. Seu recado é claro: sem enfrentar as mudanças climáticas, o fogo será cada vez mais comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já as queimadas associadas a atividades ilegais de desmatamento e grilagem precisam ser investigadas, como no caso dos incêndios recentes do Amazonas. Não podemos esquecer que uma das séries de queimadas mais intensas, a de 2019, no primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, foi sim causada por um esforço coordenado e criminoso de desmatamento no período da seca. Assim, ao mesmo tempo em que as reduções de emissões de gases estufa terão que ocorrer, o combate ao crime ambiental deve seguir como prioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra questão que a ser colocada é que o combate às queimadas e a autorização para as queimas controladas, assim como o que ocorre com a segurança pública e os planos de manejo florestal, são responsabilidades dos estados. Existe, portanto, necessidade de coordenação entre os entes da federação e o governo federal não apenas para ajuda financeira, mas para a atuação do Prevfogo em casos mais graves ou quando unidades de conservação são atingidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, o problema das queimadas exige uma integração muito grande não só de órgãos de governo. A questão envolve atores privados, organizações não governamentais e academia. Um dos exemplos mais inspiradores é a resposta que foi dada no Pantanal após as queimadas recordes de 2020. Surpreendidos pela violência do fogo naquele ano, proprietários rurais, ONGs, indígenas e governos se uniram para estabelecer protocolos comuns de combate a incêndios e sistemas de alerta antecipados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como no Pantanal, a principal necessidade neste momento é investimento consistente em educação ambiental, equipes e ferramentas. Será preciso também um aporte muito maior em ciência e pesquisa aplicada para continuar a entender como as mudanças climáticas estão transformando fenômenos pontuais em catástrofes de grande escala.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Como anda a democracia? Pergunte a um indígena &#8211; com Maíra Pankararu</title>
		<link>https://apublica.org/podcast/2026/11/bom-dia-fim-do-mundo/como-anda-a-democracia-pergunte-a-um-indigena/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isabel Seta]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 09:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[povos indígenas]]></category>
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					<description><![CDATA[Advogada indígena fala sobre a onda de violência e outros desafios para os povos indígenas após as eleições]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Bom dia, fim do mundo</strong> da semana recebe Maíra Pankararu, advogada indígena que atuou no julgamento do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal e que compõe a <a href="https://apiboficial.org/" data-type="link" data-id="https://apiboficial.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Articulação dos Povos Indígenas do Brasil</a> (APIB) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na conversa com Isabel Seta e Ricardo Terto, Maíra fala sobre a onda de violência contra indígenas ocorrida após as <a href="https://apublica.org/especial/republica-nas-eleicoes/" data-type="link" data-id="https://apublica.org/especial/republica-nas-eleicoes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">eleições</a>, em especial no Mato Grosso do Sul, e sobre as dificuldades enfrentadas por comunidades indígenas para exercer o direito ao voto. O episódio também aborda a participação indígena na democracia de forma mais ampla e como isso só é possível tendo o direito ao território assegurado, uma luta que é dos povos indígenas, mas é fundamental para toda a sociedade e para manter a floresta em pé. Ouça agora.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong>E MAIS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No quadro “Se é pra falar de economia…”, Clara Marinho pede: demarcação já.</p>
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<enclosure url="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_Tocadores-Site-copiar-1.png" length="2996533" type="image/png" /><post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">270053</post-id>		<dc:creator><![CDATA[Marina Amaral]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Terto]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Stela Diogo]]></dc:creator>
		<dc:creator><![CDATA[Sofia Amaral]]></dc:creator>
	</item>
		<item>
		<title>Brasileiro eleito nos EUA: Trump ajuda Flávio, que foge da Justiça, e deporta domésticas</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/felipe-sousa-lazaballet-brasileiro-eleito-pela-florida-critica-trump/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dyepeson Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 07:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[Filho de cearense, congressista da Flórida Felipe Sousa-Lazaballet vê incoerências na política anti-imigrantes dos EUA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Mais do que um nome na política, Felipe Sousa-Lazaballet, 40, também quer ser símbolo de representatividade. Ele se tornou o primeiro brasileiro eleito representante (um deputado estadual, para nós) na Flórida, nos Estados Unidos (EUA). O estado é reduto político do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, principal responsável pela expansão do movimento nacionalista <em>Make America Great Again</em> (MAGA) na América Latina. Na Flórida também está localizada a Mar-a-Lago, uma espécie de Casa Branca secundária utilizada por Trump como centro de deliberações políticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Filho de empregada doméstica, Felipe nasceu em Duque de Caxias (RJ) e, aos 14 anos, migrou para os EUA. É ativista comunitário, militante do movimento LGBTQIA+ e agora também é o primeiro imigrante abertamente gay a integrar a Florida House of Representatives (a Assembleia Legislativa da Flórida).</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em entrevista à <strong>Agência Pública</strong>, ele reforçou que teve a campanha pautada pela igualdade de direitos sociais e comentou a controversa política trumpista que, ao mesmo tempo, deporta imigrantes que fortalecem a economia americana, enquanto ajuda figuras como o Flávio Bolsonaro (PL). O senador deixou o Brasil dois dias depois de ser derrotado na eleição à Presidência da República apesar da determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para que ele entregasse o passaporte à Polícia Federal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Primeiro, queria dizer que, pra mim obviamente, o Brasil é um país soberano e a Justiça do Brasil deve ser respeitada. <span class="highlighter">Pra mim não faz sentido nenhum que os Estados Unidos estão aceitando uma pessoa que está literalmente fugindo da Justiça no Brasil e, enquanto isso, está deportando uma empregada doméstica, ou seja, não faz sentido nenhum”</span>, declarou o deputado eleito. Flávio Bolsonaro é investigado, entre outros crimes, por lavagem de dinheiro e organização criminosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de Felipe, outros seis brasileiros foram eleitos deputados estaduais nos EUA. Em Massachussets, foram quatro: Danillo Sena, Lorena Betts, Priscila Sousa e Rita Mendes. Em Connecticut, foi eleito Farley Santos e, em Nevada, Elaine Marzola.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A eleição americana representou uma grande derrota ao presidente Donald Trump com a vitória avassaladora de candidatos do partido Democrata, que agora tem a maioria no Congresso Nacional americano. <span class="highlighter">Na Câmara, dos 435 membros votantes, haverá 231 democratas, 139 republicanos e 65 nomes ainda em definição devido às disputas acirradas em alguns estados, que podem levar semanas para contabilizar todos votos.</span> Os Democratas também terão 54 das 100 vagas do Senado. Os republicanos garantiram 44. Duas vagas ainda estão em definição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As eleições de meio de mandato são chamadas de “midterms” e marcam a metade da gestão de Donald Trump. Nos EUA, o sistema de votação e apuração dos votos ocorre de forma descentralizada e cada estado tem autonomia para definir as regras do pleito na região, diferentemente do modelo adotado no Brasil, onde as normas são regidas pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">“Por muito tempo, os democratas não estavam tão focados nos assuntos que realmente estão impactando mais a classe trabalhadora aqui, que é o custo de vida, ter oportunidade de poder ter um imóvel próprio, que é o caminho mais comum e tradicional de conseguir chegar ao sonho americano”</span>, frisou Sousa-Lazaballet.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confira os principais trechos da entrevista:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como foi a sua inserção na política partidária americana?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu fiz parte de uma marcha que foi de Miami até Washington D.C., que foram 1.500 milhas [2,4 mil km] a pé até lá. E foi assim que a gente conseguiu, na época, mudar a maneira que o presidente Obama pensava sobre a instituição da imigração e quem deveria ou não deportar. E dessa maneira conseguimos conquistar grandes coisas para o movimento. Ao mesmo tempo, também batalhei bastante para o movimento LGBT+. E sempre tive essa atuação política mais no sentido do lado de fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não do lado de dentro, não da parte partidária, como você mesmo disse. Mas, mais ou menos uns dois anos atrás, quando o presidente Trump foi reeleito pela segunda vez, eu lembro que eu estava no meu carro pensando “uau, a gente vai acabar vivendo nesse mundo com o presidente Trump e o governador DeSantis”, que é o governador daqui da Flórida – um governador muito anti-imigrante, muito contra a comunidade LGBT +, mas muito de direita, que tem realmente criado vários problemas para as comunidades que vivem aqui. E naquele momento eu pensei: “nossa, a gente tem que realmente se expandir, se sacrificar, fazer coisas que a gente nunca fez antes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Políticos de outros países, como na Argentina, estão se baseando na mobilização digital e popular do Brasil para enfrentar candidaturas apoiadas por Donald Trump e Marco Rubio. Diante disso, Você percebeu reflexos da eleição brasileira também nos formatos e estratégias de campanha nos EUA?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Um impacto que teve foi uma maneira de “ver diferente” – que a gente pode ganhar contra a direita e que o voto funciona. Ou seja, as pessoas que não votam, saindo para votar, podem realmente criar uma mudança social e foi dessa maneira que a gente conseguiu tantas conquistas eleitorais pelo país inteiro e aqui na Flórida.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a gente tenha perdido as eleições estaduais para os cargos estaduais, nós conseguimos mudar 16 cadeiras da legislatura da Flórida de republicano para democrata.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Flávio Bolsonaro escolheu a Flórida para viver o seu autoexílio porque tem uma rede de apoio. Paulo Figueiredo, por exemplo, doou US$ 10 mil para Maria Elvira Salazar nas últimas eleições, meses antes de ela propor uma lei para penalizar Alexandre de Moraes. O que um representante como você pode fazer para esclarecer se as autoridades dos EUA ajudam ou acobertam ações golpistas contra o Brasil promovidas por este grupo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro, queria dizer que, pra mim, obviamente o Brasil é um país soberano e a Justiça do Brasil deve ser respeitada. Pra mim não faz sentido nenhum que os Estados Unidos estejam aceitando uma pessoa que está literalmente fugindo da Justiça no Brasil e, enquanto isso, está deportando uma empregada doméstica, ou seja, não faz sentido nenhum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, como deputado estadual, os assuntos de migração são federais. Então, eu não tenho uma linha direta para poder realmente causar uma mudança nesse cenário. Porém, eu ainda assim posso reivindicar que os nossos congressistas, que nos representam aqui na Flórida, principalmente em Orlando, tomem essa bandeira – o que, na verdade, já está acontecendo: o nosso congressista Maxwell Alejandro Frost é um congressista muito progressista, muito a favor da democracia do Brasil e já está atuando nisso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin [Agência Brasileira de Inteligência], fugiu para os EUA com o apoio de um minerador ilegal que o hospedou na Florida. Ramagem foi condenado pela tentativa de Golpe de Estado e tem extradição pedida pelo governo brasileiro. Mesmo assim, quando foi preso pelo ICE, por seus laços criminais, ele foi solto em menos de 24 horas por pressão, segundo vários políticos, da Casa Branca. É possível a casa legislativa buscar esclarecer o que houve?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O ICE é uma entidade federal. Bom, claro que a gente pode fazer perguntas. Mas não é a mesma coisa de falar “não, não, não, estou aqui usando o meu poder como congressista para ver o que você está fazendo”. Porém, voltando ao assunto do ICE, aqui no estado da Flórida passaram várias leis anti-imigrantes que estão fazendo com que a polícia local esteja ajudando o ICE. E essa é a razão principal que está causando a quantidade de deportação na Flórida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Na verdade, a Flórida lidera em número de pessoas que estão sendo deportadas. Por isso que eu digo: a gente tá aqui deportando um pedreiro, ou seja, mandando uma empregada doméstica para uma detenção, que é uma prisão para imigrantes.</span> E, ao mesmo tempo, tem pessoas que cometeram crimes que estão sendo investigadas no Brasil e em outros países também. Não é só o Brasil, ou seja, essas pessoas estão recebendo, na minha opinião, uma ajuda ou até mesmo uma maneira diferente de trabalhar com eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No Brasil, alguns políticos cresceram e se elegeram por visões violentas contra a participação de mulheres na política, por exemplo. Isso lembra muito o discurso propagado por Charlie Kirk, que segue sendo referência para políticos aqui do Brasil. E tem brasileiro nos EUA, como o blogueiro Paulo Figueiredo, que tem a mesma narrativa, e é contra o voto feminino. Embora esse tipo de discurso tenha apoio, ele também causa medo. E isso foi importante na mobilização contra a candidatura de Flávio Bolsonaro. Esse medo da perda de direitos básicos, de perda de espaço político, deve ser usado como munição pelos democratas contra o trumpismo?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Olha só, foi tentado dois anos atrás, quando houve a eleição do Trump, onde teve uma conversa muito grande sobre os direitos civis das pessoas que são parte de minorias. Enfim, e não foi o que realmente fez com que as pessoas fossem votar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">O que realmente está fazendo as pessoas votarem aqui é o custo de vida, essa essa ideia de que o sonho americano cada vez está mais difícil de conseguir. O desemprego entre as pessoas jovens, por exemplo.</span> Antigamente você saía da faculdade, você conseguia um emprego, assim, dessa maneira. Hoje em dia você não consegue emprego – ou seja, está tendo uma revolução econômica que está beneficiando os bilionários e está deixando a classe trabalhadora cada vez mais pobre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, isso é o foco principal. E as pautas que realmente estão criando essa “mudança”, né? Que a gente chama desse “tsunami azul” que aconteceu.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sua mãe é do Ceará. Bem, o Nordeste foi essencial pro resultado eleitoral aqui no Brasil. Você vê influência nordestina, da política no Nordeste e da vivência de quem é de lá, na sua formação política?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem dúvida, sem dúvida. Eu cresci no Rio de Janeiro, porém, a minha mãe é cearense, a minha família inteira é cearense, ou seja, cresci comendo baião de dois. E a minha mãe é uma pessoa muito trabalhadora, humilde, e ela me ensinou a diferença do que é o certo e o errado. É daí que vem essa minha vontade de ajudar o próximo, essa vontade de fazer diferença na vida das pessoas que não estão vivendo uma vida muito difícil, essas injustiças sociais que acontecem muito, com certeza. Eu me chamo de “cearoca&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ela mora aqui no Brasil ainda?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ela comentou com você sobre as eleições do Brasil?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Olha, não falou muito, né? Porque ela não fala muito, ela não é tão politizada como eu sou. <span class="highlighter">Mas quando eu decidi me candidatar, eu lembro que liguei pra ela, falei o que eu tava pensando em fazer e ela me disse: “meu filho, você não se esquece que nós viemos da poeira”, que é como dizer “não se esquece das suas raízes”. E claro que eu nunca esquecerei</span>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<enclosure url="https://apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/Capa_Brasileiro-eleito-na-Florida-diz-que-Trump-ajuda-quem-foge-da-Justica-e-deporta-domesticas.jpg" length="97202" type="image/jpeg" /><post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">270090</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Derrota dos Republicanos nos EUA tem mais a ver com economia que democracia, diz socióloga</title>
		<link>https://apublica.org/2026/11/eleicoes-nos-eua-derrota-republicana-tem-mais-a-ver-com-economia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Martha Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Nov 2026 21:48:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Português]]></category>
		<category><![CDATA[Donald Trump]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[Apesar da proximidade com eleições brasileiras, derrota de partido de Trump traz recados diferentes das urnas nos EUA]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Com a vitória avassaladora do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos (as chamadas <em>midterms</em>), o “recado das urnas”, na opinião da socióloga e cientista política Gisele Agnelli, foi a economia. <span class="highlighter">A promessa central que elegeu Donald Trump em 2024 — a <em>affordability</em>, ou recuperação do poder de compra — “não se materializou na percepção de grande parte dos eleitores”.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro do Hoosier Women Forward, um dos movimentos de lideranças femininas do Partido Democrata, ela afirma que o resultado não aponta para um alinhamento da população com o partido. Para Agnelli, os eleitores reprovaram o mandato do presidente republicano e cobraram o não cumprimento da principal promessa de campanha, a redução do custo de vida das famílias norte-americanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, antes de apontar semelhanças entre a vitória de Lula e a derrota de Trump, ela ressalta que os motivos que moveram os eleitores em ambos os países foram distintos, embora a ameaça antidemocrática estivesse em jogo nos dois pleitos: <span class="highlighter">“Não acredito que a defesa da democracia tenha sido o fator decisivo das <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/parabens-aos-democratas-como-trump-reagiu-as-derrotas-nas-midterms/" data-type="link" data-id="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/parabens-aos-democratas-como-trump-reagiu-as-derrotas-nas-midterms/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>midterms</em></a>&#8220;.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">No futuro, ela vislumbra oportunidades para o Brasil e um cenário exige “reflexão estratégica do governo Lula e, particularmente, do PT”. Com os canais diplomáticos oficiais quase monopolizados pelo bolsonarismo instalado nos EUA, ela aponta a chance do governo estabelecer contato com o próprio Congresso norte-americano, agora com maioria democrata no Senado e na Câmara dos Representantes (equivalente à nossa Câmara dos Deputados).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A esquerda brasileira precisa distinguir a crítica histórica ao intervencionismo dos EUA da capacidade de construir alianças institucionais dentro da própria democracia americana”, analisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E antes de que muitos se empolguem com os resultados, Agnelli destaca que as dificuldades para Trump não necessariamente se traduzirão no desmonte da poderosa estrutura administrativa e política montada por ele. Gisela também não acredita “que veremos menos agressividade” por parte do presidente. “Um presidente com menos espaço no Legislativo pode recorrer ainda mais aos instrumentos unilaterais no Executivo”, aponta.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Qual sua avaliação geral sobre as <em>midterms</em>?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande derrotado foi Trump, mas não necessariamente o vencedor foi o Partido Democrata. O presidente acabou se tornando o principal alvo do descontentamento expresso nas urnas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As eleições confirmaram, de forma contundente, uma máxima clássica da ciência política: as <em>midterms</em> funcionam como um referendo sobre a popularidade presidencial, a percepção do desempenho econômico e o desejo do eleitorado de contrabalançar o poder do partido que ocupa a Casa Branca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora Trump também tenha se consolidado como um fator de desestabilização institucional, <span class="highlighter">o recado mais significativo das urnas foi econômico.</span> A promessa central de sua campanha de 2024 — a <em>affordability</em>, ou recuperação do poder de compra das famílias americanas — não se materializou para grande parte dos eleitores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os democratas exploraram essa frustração com uma campanha essencialmente pragmática, concentrada no custo da alimentação, da moradia, dos combustíveis e dos serviços de saúde. <span class="highlighter">Em vez de restringir a disputa à defesa abstrata da democracia ou à condenação moral do trumpismo, conseguiram traduzir o descontentamento em questões concretas do cotidiano.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">A contradição entre promessa e governo foi agravada pelas próprias escolhas da administração Trump. A guerra contra o Irã, com seus efeitos sobre os preços da energia, e a política tarifária, que pressionou custos, contribuíram para alimentar a percepção de perda de poder aquisitivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há também uma contradição política fundamental: Trump foi eleito prometendo “America First”, a priorização dos interesses domésticos e o fim do envolvimento americano em guerras externas custosas. No entanto, <span class="highlighter">seu governo dedicou enorme energia política e recursos à agenda internacional, em detrimento das promessas econômicas para o eleitor americano.</span> Essa ruptura desgastou sua popularidade e também aprofundou divisões dentro do próprio campo republicano.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Que aspecto da eleição mais chamou sua atenção?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro é o <a href="https://apublica.org/2025/08/gerrymandering-o-plano-de-trump-para-as-eleicoes-2026/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">limite do redistritamento eleitoral</a> como instrumento de preservação do poder. Mesmo diante de mapas distritais redesenhados para favorecer candidaturas republicanas, em alguns casos com consequências especialmente negativas para a representação de minorias, <span class="highlighter">a insatisfação do eleitorado mostrou capacidade de superar vantagens estruturais.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo é o limite do dinheiro na competição eleitoral. O protagonismo de Elon Musk como grande financiador individual, os gastos republicanos de centenas de milhões de dólares e o volume extraordinário de recursos mobilizados em disputas em estados como Texas, Michigan e Kansas demonstraram que <span class="highlighter">nem mesmo campanhas financeiramente poderosas conseguem neutralizar um eleitorado muito insatisfeito.</span></p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be85029f&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be85029f" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2025/08/Capa_Os-homens-sul-africanos-que-mudaram-o-rumo-da-democracia-dos-EUA.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="Elon Musk na Casa Branca em contexto das eleições nos EUA" class="wp-image-197465" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2025/08/Capa_Os-homens-sul-africanos-que-mudaram-o-rumo-da-democracia-dos-EUA.jpg?w=1536&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2025/08/Capa_Os-homens-sul-africanos-que-mudaram-o-rumo-da-democracia-dos-EUA.jpg?resize=800%2C533&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2025/08/Capa_Os-homens-sul-africanos-que-mudaram-o-rumo-da-democracia-dos-EUA.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2025/08/Capa_Os-homens-sul-africanos-que-mudaram-o-rumo-da-democracia-dos-EUA.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">O bilionário americano Elon Musk teria despejado quase meio bilhão de dólares na campanha de republicanos no Texas, que perderam no estado</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O dinheiro pode ampliar a exposição de um candidato, financiar publicidade e fortalecer estruturas partidárias. Mas não é capaz, por si só, de transformar frustração econômica em aprovação política.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro elemento decisivo foi o comportamento dos eleitores independentes. Eles funcionaram como fiéis da balança, aproximando-se dos democratas não necessariamente por identificação ideológica com o partido, mas pela disposição de derrotar Trump.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">O eleitorado latino também merece atenção especial.</span> Longe de ser um bloco homogêneo, esse segmento apresentou oscilações importantes nos últimos ciclos eleitorais. Em 2024, preocupações econômicas aproximaram parte significativa desses eleitores do Partido Republicano, rompendo padrões tradicionais de identificação com democratas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, a combinação entre frustração econômica e a política migratória agressiva do governo, especialmente a atuação do ICE, contribuiu para penalizar candidaturas republicanas. A experiência concreta com as políticas de governo voltou a pesar mais do que as identificações partidárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, <span class="highlighter">seria precipitado interpretar os resultados como uma transformação estrutural do eleitorado americano em direção ao Partido Democrata.</span> O próprio partido enfrenta problemas de popularidade, identidade e capacidade de mobilização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que as urnas revelaram foi menos uma adesão entusiasmada aos democratas do que uma rejeição contundente ao trumpismo no exercício do poder. Essa distinção é fundamental. <span class="highlighter">O eleitor que ajudou a eleger Trump em 2024 não necessariamente se tornou democrata em 2026.</span> Em muitos casos, simplesmente concluiu que as promessas que justificaram seu voto não foram cumpridas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata necessariamente de uma guinada ideológica à esquerda. Trata-se de um eleitorado cobrando a conta de um governo que prometeu melhorar sua vida — e que, na sua percepção, falhou em entregar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">O eleitor que ajudou a eleger Trump em 2024 não necessariamente se tornou democrata em 2026. Em muitos casos, simplesmente concluiu que as promessas que justificaram seu voto não foram cumpridas.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>As eleições no Brasil, com a virada de Lula e o exército de Janones, tiveram impacto na vitória democrata nos EUA?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu acho impossível fazer essa análise, porque o processo eleitoral dos EUA começa com o voto antecipado e o calendário é diferente por estado. Esse voto vem por correio e já estava acontecendo há muito tempo, tanto que em muitos lugares de votação não tinha nem fila na terça-feira, o último dia em que se poderia votar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que, nesse meio do caminho, aconteceram as eleições do Brasil. Como que a gente separa as coisas? Não dá. De fato, o exército de Janones teve ressonância aqui na Flórida. [&#8230;] As organizações que eu sigo, muitas delas organizadoras do No King’s Day, os protestos que levaram milhares de pessoas às ruas contra Trump, se interessaram muito pelo caso do Brasil. Eu vi muitos cards com o passo a passo “do que o Brasil fez”, como lutar contra o extremismo, e dicas muito básicas do Janones traduzidas para o inglês. Isso se intensificou no final de semana antes das eleições.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não dá pra dizer que não houve interferência. A própria fuga do Flávio pra cá ajudou a alavancar a questão do Lula e do que está acontecendo no Brasil [&#8230;] Mas eu acho que foi muito no finalzinho do processo de eleição americana e agora é impossível medir o impacto disso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quais as implicações das <em>midterms</em> para os bolsonaristas que moram nos EUA?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 30 de outubro, 25 congressistas democratas, liderados por Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus, solicitaram explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, sobre a eventual participação de autoridades americanas na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e em sua entrada nos EUA, apesar das restrições judiciais brasileiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Uma maioria democrata poderia aprofundar essa fiscalização</span>, examinando decisões migratórias, comunicações diplomáticas, eventual assistência de órgãos governamentais e utilização de recursos públicos. Isso não permitiria ao Congresso determinar unilateralmente uma extradição ou deportação. Mas poderia transformar uma controvérsia bilateral em uma investigação institucional sobre a conduta do próprio governo americano.</p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be850c5f&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be850c5f" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="640" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?resize=640%2C640&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-270064" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?resize=600%2C600&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/01_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.jpg?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Agnelli ressalta a limitação do poder econômico na campanha: &#8220;Nem mesmo campanhas financeiramente poderosas conseguem neutralizar um eleitorado muito insatisfeito&#8221;.</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Com a derrota de Trump e dos Bolsonaro em eleições tão distintas e com menos de dez dias de intervalo, você identifica algum tipo de “recado das urnas” similar em ambos os países?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É difícil estabelecer uma comparação direta entre uma eleição presidencial no Brasil e uma eleição de meio de mandato nos EUA. São disputas de naturezas diferentes. Mas há elementos importantes a considerar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, a eleição ocorreu em um contexto no qual a estabilidade democrática e institucional estava diretamente em disputa. A candidatura de Flávio Bolsonaro representava a continuidade de um projeto político familiar associado às tentativas de ruptura democrática e à contestação das instituições brasileiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos EUA, apesar da instabilidade institucional produzida por Trump, da deterioração dos mecanismos democráticos e do avanço de um projeto de concentração de poder que considero autocrático, não acredito que a defesa da democracia tenha sido o fator decisivo das <em>midterms</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O eleitor americano me parece ter agido de maneira muito mais pragmática. A eleição foi, sobretudo, um julgamento da incapacidade de Trump de cumprir uma de suas principais promessas de 2024: melhorar o custo de vida da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">O eleitor está punindo Trump porque sente que sua vida piorou, não necessariamente porque compreendeu a dimensão do processo de erosão democrática em curso.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejo ainda um certo ceticismo da sociedade norte-americana em relação à possibilidade de uma autocracia se consolidar nos EUA. A força histórica das instituições democráticas talvez contribua para a percepção de que elas seriam capazes de resistir indefinidamente às investidas autoritárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que a defesa da democracia esteja ausente da sociedade. As mobilizações populares, particularmente os protestos do movimento “No Kings”, demonstraram que existe uma resistência social expressiva à concentração de poder e às práticas autoritárias da administração Trump.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">As duas eleições revelam formas diferentes de reação a projetos políticos associados à erosão democrática.</span> No Brasil, a ameaça institucional ocupou um lugar mais explícito na disputa presidencial. Nos EUA, a reação eleitoral parece ter sido impulsionada principalmente pela frustração econômica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O eleitor americano pode ter imposto uma derrota política importante a Trump sem necessariamente ter rejeitado, de maneira consciente e definitiva, o projeto de poder que ele representa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading">Embora cargos no Executivo federal, onde estão importantes aliados do bolsonarismo, como o secretário de Estado Marco Rubio, não estivessem em jogo, o resultado das <em>midterms</em> pode trazer alguma mudança na interlocução entre Brasil e EUA?</h3>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um paradoxo especialmente interessante. O Brasil iniciará 2027 com um presidente de centro-esquerda e um Congresso de maioria conservadora. Os EUA devem apresentar uma configuração quase inversa: um presidente da direita radical e um Legislativo controlado pelos democratas, cuja coalizão reúne desde progressistas até liberais moderados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa assimetria cria oportunidades de interlocução que ultrapassam as afinidades entre governos. <span class="highlighter">Brasília e Washington poderão encontrar convergências institucionais entre seus respectivos Executivos e Legislativos, mesmo quando as maiorias parlamentares de cada país estiverem ideologicamente distantes de seus presidentes.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outubro de 2025, cinco senadores republicanos já se uniram aos democratas para aprovar uma resolução contra as tarifas impostas ao Brasil. O precedente é importante porque demonstra que determinadas políticas de Trump podem produzir coalizões bipartidárias, especialmente quando seus custos econômicos atingem consumidores, empresas e produtores norte-americanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">Para o Brasil, a mudança mais significativa não seria necessariamente encontrar um Trump mais moderado, mas um Trump com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse cenário exige uma reflexão estratégica do governo Lula e, particularmente, do PT.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A esquerda brasileira mantém uma desconfiança histórica em relação aos EUA, compreensível diante do intervencionismo americano na América Latina. Essa memória histórica é legítima e não deve ser relativizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, <span class="highlighter">seria um erro transformar essa experiência em uma interpretação estática dos EUA como um ator político homogêneo. A política americana não se resume ao presidente.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2026, encontramos novamente parlamentares democratas questionando iniciativas da administração Trump relacionadas ao Brasil, incluindo o tratamento conferido à embaixadora brasileira [os EUA <a href="https://apublica.org/nota/daniel-perez-e-aprovado-como-embaixador-por-senado-dos-eua/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">revogaram</a> o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, em agosto deste ano] e as circunstâncias da entrada de Flávio Bolsonaro nos EUA. Esses episódios revelam que existem interlocutores americanos interessados na preservação da relação bilateral e no respeito às instituições brasileiras, mesmo quando o Executivo norte-americano adota uma orientação distinta.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><span class="highlighter">A esquerda brasileira precisa distinguir a crítica histórica ao intervencionismo dos EUA da capacidade de construir alianças institucionais dentro da própria democracia americana.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">A soberania brasileira não depende de manter distância dos EUA. Depende de preservar autonomia decisória enquanto o país amplia seus interlocutores e suas possibilidades de negociação. Nesse sentido, uma eventual maioria democrata pode oferecer ao Brasil uma oportunidade política que não deveria ser desperdiçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A política doméstica brasileira passou a integrar disputas e redes de influência nos EUA. Nesse contexto, seria limitado que o governo brasileiro concentrasse sua atuação exclusivamente na interlocução com Trump. <span class="highlighter">O Brasil precisa desenvolver uma diplomacia parlamentar e política mais ativa em Washington</span>, preservando a diplomacia oficial conduzida pelo Itamaraty.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Como isso poderia ser feito na prática?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa ampliar o diálogo entre os congressos de ambos os países, entre dirigentes partidários e seus interlocutores internacionais, além de fortalecer a comunicação institucional com comissões que acompanham comércio exterior, relações internacionais, direitos humanos e segurança nacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O PT e outras forças democráticas brasileiras também podem desenvolver canais transparentes com diferentes correntes do Partido Democrata, desde sua ala progressista até os parlamentares mais moderados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O aspecto essencial é preservar uma divisão institucional clara. Lula deve continuar negociando com Trump como chefe de Estado. O Itamaraty precisa manter relações com o Departamento de Estado e os demais órgãos da administração americana, independentemente da orientação partidária do governo. Paralelamente, o Congresso brasileiro pode aprofundar relações com seus equivalentes americanos, enquanto partidos e organizações políticas desenvolvem suas interlocuções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há, contudo, uma complexidade: o novo Congresso brasileiro será majoritariamente conservador e não necessariamente compartilhará as prioridades internacionais do governo Lula. Por isso, a diplomacia parlamentar brasileira também dependerá da capacidade de construir convergências internas em temas como tarifas, investimentos, exportações e autonomia nacional. O objetivo não deve ser substituir a interlocução com republicanos pela interlocução com democratas, mas impedir que a relação entre os países fique monopolizada por uma única corrente política.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trump poderá preservar sua disposição para exercer pressão comercial e diplomática, mas vai enfrentar restrições políticas crescentes para sustentá-la. Isso pode ampliar a margem de negociação brasileira, sobretudo em questões que também produzam resistência entre empresários, produtores agrícolas e parlamentares americanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, <span class="highlighter">considero estrategicamente relevante a possibilidade de que negociações sensíveis sobre tarifas, minerais críticos e controvérsias diplomáticas sejam conduzidas em um ambiente posterior às <em>midterms</em></span>, quando a correlação de forças em Washington estiver mais clara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na agenda de minerais críticos, essa mudança poderá ser especialmente importante. Na competição entre EUA e China por recursos estratégicos, o Brasil pode encontrar oportunidades para ampliar a discussão sobre as condições econômicas e tecnológicas desses investimentos. A existência de diferentes centros de influência em Washington pode ampliar os interlocutores brasileiros em negociações sobre financiamentos, cadeias de suprimentos e compromissos de longo prazo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que acontece com as ações que tentaram frear medidas do governo Trump, diante da nova configuração do Senado e da Câmara?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante os dois primeiros anos do segundo mandato de Trump, a maioria republicana no Congresso ofereceu ao Executivo um ambiente politicamente favorável à expansão de seus poderes. Isso ficou evidente na utilização da lei International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) para justificar tarifas internacionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Constituição atribui ao Congresso americano competência sobre tarifas e comércio exterior. A Suprema Corte precisou intervir, em fevereiro de 2026, para estabelecer que a IEEPA não autorizava o presidente a impor aquelas tarifas. O episódio demonstrou os limites jurídicos da autoridade presidencial, mas também a fragilidade dos contrapesos políticos quando o Legislativo não contesta o Executivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma maioria democrata pode modificar substancialmente esse cenário, respondendo mais rapidamente a medidas semelhantes, convocando autoridades e promovendo investigações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não seria, entretanto, um poder absoluto. <span class="highlighter">Trump conservaria o direito de vetar legislação, e a derrubada de um veto exige dois terços dos votos nas duas Casas.</span></p>



<figure data-wp-context="{&quot;imageId&quot;:&quot;6aee2be851915&quot;}" data-wp-interactive="core/image" data-wp-key="6aee2be851915" class="wp-block-image size-full wp-lightbox-container"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="368" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/02_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.png?resize=640%2C368&#038;ssl=1" alt="Foto da rede social de Trump, o Truth Social com postada após derrota nas eleições nos EUA" class="wp-image-270063" srcset="https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/02_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.png?w=1300&amp;ssl=1 1300w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/02_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.png?resize=800%2C460&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/apublica.org/wp-content/uploads/2026/11/02_Derrota-dos-Republicanos-nos-EUA-tem-mais-a-ver-com-economia-que-democracia-diz-sociologa.png?resize=150%2C86&amp;ssl=1 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 2400px" /><button
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		</button><figcaption class="wp-element-caption">Após derrota nas urnas, Donald Trump sinalizou que vai usar o poder de veto para frear democratas</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Há, porém, limites institucionais decisivos. Os democratas não conquistaram 60 cadeiras no Senado, número geralmente necessário para encerrar o debate. Isso significa que a nova maioria precisará negociar votos com republicanos para aprovar parte de sua agenda. Também não dispõe de dois terços em cada Casa para derrubar sozinha vetos presidenciais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso do impeachment, é importante fazer uma distinção: a Câmara pode aprovar a acusação por maioria simples, mas a condenação e remoção de um presidente exigem dois terços dos senadores. <span class="highlighter">Portanto, a vitória democrata não equivale a um poder irrestrito de legislar ou destituir Trump.</span></p>



<p class="wp-block-paragraph">O principal instrumento será o <em>congressional oversight</em>, a prerrogativa de fiscalização do Executivo com as comissões parlamentares. Com uma maioria democrata, essas comissões poderão conduzir investigações, emitir intimações, convocar autoridades e exigir documentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma frente particularmente sensível envolve os possíveis conflitos entre interesses públicos e privados na administração Trump. Os negócios da família presidencial, suas relações com investidores e decisões que possam ter beneficiado interesses particulares poderão ser examinados com maior profundidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro campo de fiscalização será a política externa. <span class="highlighter">As operações militares americanas no Caribe, por exemplo, poderão enfrentar maior escrutínio.</span> Os parlamentares não conseguirão necessariamente impedir cada ação militar, mas poderão aumentar significativamente os custos políticos e institucionais de sua continuidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa formulação expressa um paradoxo da Presidência americana: <span class="highlighter">a perda de capacidade legislativa não implica necessariamente redução da iniciativa presidencial.</span> Pode produzir um deslocamento do exercício do poder para as áreas em que o Executivo preserva maior autonomia. Diante de um Congresso hostil, Trump poderá ter mais dificuldades para aprovar reformas, ampliar programas e modificar estruturalmente a legislação. Mas continuará controlando instrumentos significativos nas áreas de diplomacia, segurança nacional, imigração, sanções e política comercial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso pode estimular uma dependência ainda maior de ordens executivas, decisões administrativas e instrumentos de pressão internacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A derrota republicana acentua sua condição política de <em>lame duck</em> [pato manco], o presidente que se aproxima do fim de seu ciclo sem poder disputar uma nova eleição presidencial. Ele continuaria sendo presidente até janeiro de 2029, mas poderia enfrentar uma redução progressiva de sua capacidade de disciplinar a coalizão republicana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse enfraquecimento eleitoral não significa, contudo, que Trump tenha deixado de ser um Executivo poderoso. Nos dois primeiros anos do Trump 2, ele construiu e consolidou uma presidência extraordinariamente fortalecida. <span class="highlighter">A derrota nas urnas não desmonta automaticamente essa estrutura administrativa e política.</span> Por isso, não acredito que veremos necessariamente menos agressividade. Um presidente com menos espaço no Legislativo pode recorrer ainda mais aos instrumentos unilaterais no Executivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, vejo a condição de <em>lame duck</em> como uma inflexão favorável ao Brasil e ao mundo. Um Congresso politicamente forte na oposição pode diminuir a perspectiva de consolidação e continuidade, para além de Trump, de um projeto de extrema direita que, na minha análise, ameaça a democracia norte-americana. Ele continua poderoso até o fim do mandato, mas o horizonte de longo prazo desse projeto passa a enfrentar obstáculos institucionais maiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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