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	<title>Paulo Vilela</title>
	
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	<description>Arquiteto Pós-moderno</description>
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		<title>O Passageiro</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 21:45:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aos pés de uma cruz de madeira ele se deitou sobre a minha mão. Tremia pela magreza, assustado com o que a vida lhe ensinara. Franzino, pêlo arrepiado, não era adulto e filhote também não era. Tinha uma perna entalada e um olhar daqueles que suplicam como quem olha a nada. Ofegante e cansado, fome [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aos pés de uma cruz de madeira ele se deitou sobre a minha mão. Tremia pela magreza, assustado com o que a vida lhe ensinara. Franzino, pêlo arrepiado, não era adulto e filhote também não era. Tinha uma perna entalada e um olhar daqueles que suplicam como quem olha a nada. Ofegante e cansado, fome acho que também não tinha. Talvez só quisesse mesmo uma companhia.</p>
<p>Fiquei minutos ali parado, quieto, sentindo aquele peso que não pesava e assobiei uma canção uma vez que ele não entendia mesmo o meu idioma, mas pedi ao universo que desse uma mãozinha àquela alma triste, pequeno trapo de vida sem vontade. Com calafrios repetidos olhava-me com um quê de carinho distante, como se soubesse que eu era só um passageiro apressado.</p>
<p>Por algum tempo, o tempo não existiu, e aquele instante eternizou-se na minha mente, quando sob a chuva fina ele se foi cambaleante. Levei parte daquele momento, substrato de um olhar único. Não sei bem o porquê, mas semanas depois retornei à minúscula aldeia, volteei a praça, olhei todos os cantos&#8230; A noite escondia as cores nas suas sombras e faz tudo se parecer, mas nenhum sinal daquele que carregava comigo no coração.</p>
<p>Perguntei ao guardador de carros, que me reconhecera da outra vez que ali estivera, que fim levara o cãozinho de perna entalada. O eminente inspetor de alunos da escola pública, também guardador de carros nos fins de semana, e falante conhecedor daquelas paragens, disse-me que aquele ia e vinha, alma livre e sem paradeiro.</p>
<p>Sob o enorme crucifixo que se ergue soberano no vazio dei uma última olhada&#8230; reiterei o pedido que fiz ao universo, ainda que isso fosse só uma bobagem, e me despedi daquele que nada quis, nada pediu, e me deixou uma sensação que não cabe em nenhum papel.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Ela é má…</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 05:12:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[A menina escreve no seu diário&#8230; Minha irmã é má! Por muito tempo, além disso,  nada mais havia nesse diário.  Linhas vieram com tempo, e antes de cada palavra sempre uma reflexão, uma indagação&#8230; Começou assim: &#8220;Você tem certeza?&#8221; &#8212; Sim ela me bate. &#8220;Deve ter um motivo&#8230;&#8221; &#8212; Não, não tem, ela gosta de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A menina escreve no seu diário&#8230; Minha irmã é má!</p>
<p>Por muito tempo, além disso,  nada mais havia nesse diário.  Linhas vieram com tempo, e antes de cada palavra sempre uma reflexão, uma indagação&#8230; Começou assim:</p>
<p>&#8220;Você tem certeza?&#8221; &#8212; Sim ela me bate.</p>
<p>&#8220;Deve ter um motivo&#8230;&#8221; &#8212; Não, não tem, ela gosta de me bater porque é má!</p>
<p>&#8220;Ninguém é mau assim à toa&#8230;&#8221; -– Ela é, outro dia quando limpava a sala me fez ficar horas sentada no sofá, nem podia me mexer.</p>
<p>&#8220;Por que fez isso?&#8221; &#8212; Pra eu não sujar enquanto varria.</p>
<p>&#8220;Mas isso não é bem uma maldade&#8230;&#8221; &#8212; Eu estava apertada e ela não deixava eu sair. Quando ela foi até a cozinha eu corri pro banheiro. Por causa disso me pendurou de costas pela camiseta no registro de água, e lá me deixou por um bom tempo.</p>
<p>&#8220;Não fez nada?&#8221; &#8212; Claro, gritei&#8230; Ela ficou furiosa e disse que se avisasse minha mãe me mataria. Também ela rouba minhas coisas e esconde. Ela é má.</p>
<p>&#8220;E sua mãe não faz nada?&#8221; &#8212; Ela não sabe, não posso contar ou apanho.</p>
<p>&#8220;Você não está exagerando um pouco?&#8221; &#8212; Não, ela é mesmo má, me trancou no banheiro e me fez tomar uma garrafa de cerveja porque disse que estava com sede. Quando viu que fiquei bêbada e desmaiei, e minha mãe estava chegando da feira, me carregou até a cama, me cobriu, e me fez prometer que dormia.</p>
<p>&#8220;Não creio&#8230;&#8221; &#8212; Mas desta vez minha mãe descobriu, porque vomitei, cheirava a cerveja. Desta vez ela apanhou.</p>
<p>&#8220;Não estou mesmo gostando das atitudes dela, alguma coisa você tem que fazer&#8230;&#8221; &#8212; Isso já faz tempo, mas nós crescemos, só que ela continua pegando minhas coisas. Tinha um brinquedo que eu adorava, ela veio com uma caixa de fósforos e quis trocar.</p>
<p>&#8220;Uma caixa de fósforos por um brinquedo?&#8221; &#8212; Sim, recusei.</p>
<p>&#8220;Ainda bem, tomou uma atitude..&#8221; &#8212; Mais ou menos porque ela insistiu que aqueles eram os únicos fósforos do mundo que tinham cabeças cor-de-rosa. É pegar ou largar. Disse.</p>
<p>&#8220;Não aceitou, não?&#8221; &#8212; Aceitei, ela tem um jeito que me assusta. Foi sempre assim, mas nós crescemos mais um pouco e nada mudou.</p>
<p>&#8220;Como nada mudou? Tudo muda&#8230;&#8221; &#8212; Não, ela não muda. Ela é má. No seu primeiro emprego me convidou pra ir com ela fazer o exame médico.</p>
<p>&#8220;Ora, isso é uma mudança&#8230;&#8221; &#8212; Quem me dera fosse, fiquei superfeliz, eu gostava dela, me arrumei toda e fui. Fiquei numa cadeira olhando uma revista quando a chamaram pelo nome.</p>
<p>&#8220;Ficou ali sentadinha esperando, não?&#8221; &#8212; Não, na hora ela disse que era pra eu ir, que tinham me chamado. Eu falei que chamaram ela, eu ouvi.</p>
<p>&#8220;Como assim, não era ela que foi fazer o tal exame?&#8221; &#8212; Era, mas ela me chamou de tonta, disse que eu não prestava atenção em nada, que tinham chamado a acompanhante&#8230;</p>
<p>&#8220;A acompanhante?&#8230;&#8221; &#8212; É, e eu boba fui.  A moça de uniforme e sapato brancos não me perguntou nada, só pediu o braço e tirou meu sangue. Eu sabia que estava errado, que ela só me convidou pra isso. Ela é má. Mas crescemos mais um pouco e um dia isso terminou.</p>
<p>&#8220;Ela mudou?&#8221; &#8212; Eu já trabalhava e comprei umas tiaras lindas, caríssimas, sempre adorei essas coisas. Dias depois sumiram. Não tinha mostrado à minha mãe com medo de levar bronca. Procurei por toda parte, perguntei a ela se não as tinha visto. Nada, sumiram mesmo.</p>
<p>&#8220;Mas não deve ter sido ela ou nunca poderia usá-las, não?&#8221; &#8212; Foi o que pensei.  Mas não estava passando bem no trabalho e meu chefe me mandou pra casa. Cheguei na hora que ela almoçava com minha mãe, e com a tiara no cabelo. Não acreditei, gritei com ódio pra me devolver.</p>
<p>&#8220;Devolveu?&#8221; &#8212; Que nada, se fez de desentendida. Levantou, passou a mão nos cabelos e disse cheia de trejeitos&#8230; Imagina se é sua..? E riu debochadamente.</p>
<p>&#8220;E sua mãe?&#8221; &#8212; Coitada, não sabia nada disso de tiaras, só olhou pra nós duas sem entender. Nessa hora enlouqueci, ela estava de costas, peguei-a pelos cabelos e num só golpe a derrubei. Bati sua cabeça contra o assoalho várias vezes até ela começar a chorar, e só parei quando me devolveu. Quero as outras, gritei furiosa, e ainda dei um chute no seu traseiro quando se levantava.</p>
<p>Ela se afastou arrasada e choramingosa e minha mãe pôs uns panos quentes na questão. Nunca mais fez nada comigo e depois desse dia também pouco nos falamos. Tudo doeu muito. Isso faz mais de trinta anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A FESTA</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jan 2012 19:25:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É raro, mas me convidaram para uma festa de inauguração da vida nova do casal, vida nova quer dizer ‘casa nova’. Casa que projetei e construí ao longo de 15 meses. Era uma sexta feira do fim de agosto estranhamente abafada (agosto não é um bom mês para se fazer nada, que dirá festas, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É raro, mas me convidaram para uma festa de inauguração da vida nova do casal, vida nova quer dizer ‘casa nova’. Casa que projetei e construí ao longo de 15 meses.</p>
<p>Era uma sexta feira do fim de agosto estranhamente abafada (agosto não é um bom mês para se fazer nada, que dirá festas, mas nada tenho a ver com isso), a Previsão dizia tempo estável, mas sinto no corpo como um barômetro quando a pressão atmosférica aumenta, prenúncio de chuva, e confio mais no meu mal-estar que no noticiário. Enfim, tomei banho, cortei as unhas, me vesti e fui. Fui como quem vai a um lugar desconhecido apesar de ter estado lá tanto tempo, sensação essa talvez como disse pela estranheza do convite ou pelas pessoas que não conhecia.</p>
<p>Dez horas da noite, lua redonda, jardim de sombras, manobrista na porta, parecia cena de filme noir. Casa cheia, mas exceto os proprietários não conhecia ninguém. Logo, extremamente gentis, me apresentaram a várias pessoas. Espalhados pelo jardim, ao redor da piscina, todos eram falantes e pareciam felizes com seus copos cheios ao som de um blues moderno.</p>
<p>Eu continuava perdido, e a noite de sonhos também não durou muito. Do nada uma nuvem negra cobriu a lua, e mesinhas, cadeiras, copos, tudo voava com a ventania. Todos correram para dentro, em instantes água caiu de baldes e a luz se foi.</p>
<p>Situação inusitada que só não foi pior porque a casa tinha luzes de emergência e alguma coisa se enxergava no breu, mas foi um corre-corre daqueles, ninguém está preparado para uma situação dessas. Sem música, enquanto se esperava pela volta da energia elétrica, o vozerio era só um grande ruído e por um instante tive a mesma impressão de estar num outro país que não se conhece a língua.</p>
<p>A chuva parou tão de repente quanto começou, mas nada de voltar a energia elétrica. Uma hora, duas horas&#8230; Os donos da casa sem graça, os convidados idem, ninguém ia embora. Os garçons arrumaram as mesinhas em volta da piscina, e ao prateado do luar voltaram a servir. Nunca vi ninguém olhar com tanta estanheza para o céu, estavam todos visivelmente incomodados, e penso que por solidariedade permaneciam na festa sem graça à espera da luz elétrica, mas festa sem música e sem luz não dá mesmo.</p>
<p>Meia noite, assim do nada tal como a chuva, na borda clara da piscina apareceu uma mancha negra. Começou um zum-zum-zum, ninguém estava entendendo o que era aquilo, que indefinida mal se via e crescia sem parar, e rapidamente tomou todo o jardim empurrando as pessoas para o escuro da sala. E a mancha não parava de crescer, e se movia para dentro da casa. Alguém se abaixou com o isqueiro aceso e aos berros gritou que eram formigas. Milhões, bilhões, sei lá, ao menos era algo conhecido.</p>
<p>Foi o pandemônio, mulheres com salto agulha subindo nas cadeiras, gente  gritando e correndo para a porta. Eram Formicas-correição, essas ciganas nômades e carnívoras que fazem o papel das dedetizadoras matando quaisquer insetos que encontram. Debandada geral, ninguém se despediu de ninguém. Até o manobrista sumiu. No escuro, mais confusão ainda na hora de pegar as chaves dos carros, ninguém achava a sua. Desespero, o que parecia um filme ‘noir’ virou de terror. Que noite aziaga, meu pai! Começo de vida nova? Deu dó!</p>
<p>Saí ileso, não choveu dentro da casa, o banheiro funcionou e ninguém culpou o arquiteto pela falta de luz ou pelo ataque das formigas.</p>
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		<title>Titã</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 02:23:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sou expert ou especialista em nada, menos ainda em mitologia, mas sei que Titãs foram divindades que de alguma forma desafiaram os deuses. Atlas e Prometeu (mas não cumpriu) eram Titãs, também há um planeta lá pelos lados de Saturno do fim do mundo&#8230; Tudo muito distante, seja pelo tempo ou pelos quilômetros. Só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sou expert ou especialista em nada, menos ainda em mitologia, mas sei que Titãs foram divindades que de alguma forma desafiaram os deuses. Atlas e Prometeu (mas não cumpriu) eram Titãs, também há um planeta lá pelos lados de Saturno do fim do mundo&#8230;</p>
<p>Tudo muito distante, seja pelo tempo ou pelos quilômetros. Só me fez lembrar quando li há alguns dias que um pequeno cão foi batizado de Titã, homenagem provável da veterinária à sua força interior, sua luta em seguir seu destino. Filhote de poucos meses, tão depauperado, que lembra mais um chacal sem pelos ou um animal de outra galáxia.</p>
<p>Lá bem pequeninho &#8212; em meio à quase totalidade de notícias sobre ministros e governadores bem cuidados, que usurpam dinheiro público &#8212; a foto chocante do Titã. Me chamou tanta atenção que passei a acompanhar a evolução da sua pouca saúde. Nem sei se vai conseguir, tamanha debilidade que tem que ser acordado pra comer e até pra urinar.</p>
<p>Por que num jornal a história de um cão me provocou mais que os habituais  ladrões de gravata ou a festa que não houve dos que queriam os novos Estados? Porque atrás dele está o retrato em cores dessa sociedade corrupta, podre e doente, a síntese da maldade &#8212; Titã ficou doze horas sob a terra porque seu prestimoso dono o enterrou vivo.</p>
<p>Desejo-lhe sorte, Titã! Se sobreviver há uma fila esperando pra adotá-lo. Pena que não possa escolher seu próximo amo, mas seguramente não será um vira-lata.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1019891-cao-que-foi-enterrado-precisa-ser-acordado-para-se-alimentar.shtml" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1019891-cao-que-foi-enterrado-precisa-ser-acordado-para-se-alimentar.shtml?referer=');">http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1019891-cao-que-foi-enterrado-precisa-ser-acordado-para-se-alimentar.shtml</a></p>
<p>﻿﻿</p>
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		<title>Camélia de quê?</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2011 03:46:46 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[alegria]]></category>
		<category><![CDATA[criação]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela tinha. Não, não é latinha. Ela transgredia. Nem bem mulher era, quinze anos, palavra ferina, dentes lindos, inteligente, debochada, desafiava os professores, fazia rir. Não tinha pra ninguém. Numa aula de educação física uma bolada acertou o olho de um marmanjo, que ele não enxergava nada. Ela se ajoelhou e ficou ali alisando sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela tinha. Não, não é latinha. Ela transgredia. Nem bem mulher era, quinze anos, palavra ferina, dentes lindos, inteligente, debochada, desafiava os professores, fazia rir. Não tinha pra ninguém.</p>
<p>Numa aula de educação física uma bolada acertou o olho de um marmanjo, que ele não enxergava nada. Ela se ajoelhou e ficou ali alisando sua testa como quem afaga um cãozinho até ele se levantar. Outra vez, pegou um gato atropelado na frente do colégio e fez o pronto-socorro de gente acudir o animal.</p>
<p>Filha de uma índia e um velejador norueguês, exceto pelos cílios e as pupilas negras, da mãe nada emprestou. Do frio herdou da flor bela e da neve a cor dos cabelos e da pele. O sotaque agradável não era nórdico, nem  indígena. Alquimia genética exótica, esdrúxula, loja de brinquedos, fada ou bruxa, quem saberia? E se era desbocada, sabida era mais ainda e besteira não falava nunca.</p>
<p>Quando sorria, bastava isso, quem não queria? Queria o quê? Dava vontade, dava paúra, era o inferno. Olhos grandes que cegavam, boca que mordia sem morder, pernas lindas, súcubo nos pesadelos.</p>
<p>Camélia de quê mesmo?</p>
<p>Um monte de consoantes embarcaram com ela e o pai num veleiro pra nunca mais ser vista.</p>
<p>Só ficou um ano no colégio e deixou sua marca pro resto da vida em não sei quantos. A escola que nunca teve graça, continuou sem graça.</p>
<p>E se a maioria passa invisível, alguns constroem muros e picham seu nome com todas as cores &#8212; ela teceu velas da cor da neve e pintou-as com sonhos.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>SAL, VINHO, ÁGUA E VINAGRE.</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Oct 2011 23:18:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>

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		<description><![CDATA[Já aviso que não é um coquetel, nem uma receita fácil, nenhum remédio também. Os antigos diziam que pra se conhecer bem uma pessoa era preciso ter comido um saco de sal com ela. Conversa fiada, como manga com leite que fazia mal e outras milongas. Depois de sessenta quilos de sal seremos exatamente quem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já aviso que não é um coquetel, nem uma receita fácil, nenhum remédio também.</p>
<p>Os antigos diziam que pra se conhecer bem uma pessoa era preciso ter comido um saco de sal com ela. Conversa fiada, como manga com leite que fazia mal e outras milongas.</p>
<p>Depois de sessenta quilos de sal seremos exatamente quem somos&#8230;Ou quem fomos nas primeiras gramas, em uma ou duas semanas, numa pequena viagem, ou qualquer situação estressante. Fora o tempo, nada muda, exceto que em certos momentos só enxergarmos o que se deseja.</p>
<p>Essas viseiras são como filtros, que separam rapidamente qualidades de defeitos, conceitos esses que não são nem absolutos, nem universais. Freud que é bom nisso, eu não.</p>
<p>Se diante do novo (pode ser até um cão) sentimos alegria e felicidade, aceitamos sem restrições o que nos desagrada. Por puro interesse somos tolerantes. Ninguém que não seja louco deseja perder essa imaterial prazeirosa sensação de bem-estar.</p>
<p>Anos depois, diante realmente do saco de sal vazio, quem enxergamos na nossa frente? Ninguém que não conheçamos. Ali, o mesmo jeito, timbre de voz, e defeitos. Da água pro vinho ninguém muda, nem ao contrário.</p>
<p>Alguém sempre dirá que o tempo nos faz diferentes. Claro, envelhece-se, mas exceto por algum milagre não se altera nem a personalidade, nem o caráter.</p>
<p>Se o bem-estar permaneceu, sorte! A outra metade da laranja foi encontrada, mesmo que não exista nenhuma metade ideal da laranja. Mas se por paúra, compaixão ou soberba, penalizarmos o tempo enganando-o ao assistir os defeitos sobrepujando-se às qualidades, fez-se o vinagre, a mais absoluta solidão.</p>
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		<item>
		<title>Messieurs, avez un bon voyage</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Oct 2011 07:45:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[anacrônico]]></category>
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		<category><![CDATA[estética]]></category>
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		<category><![CDATA[obras públicas]]></category>
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		<description><![CDATA[De tédio aqui ninguém morre. Não há similar no mundo, é pura emoção e adrenalina.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se é a prefeitura de SP ou o DSV quem sinaliza as vias, mas seja quem for deveria usar mais um pouquinho do erário público e premiar seus funcionários com umas longas e merecidas férias pro Iraque ou pro Haiti.</p>
<p>Fretem dois ou três aviões, nem sai muito caro, eles merecem, e nós também. Afinal, a cada giro pela cidade de SP somos premiados por  uma vida não virtual cheia de surpresas.</p>
<p>Pensando melhor acho que um navio seria mais adequado, assim iriam juntos também os engenheiros que transformaram a marginal do Tietê num parque de diversões criativo e interessantíssimo, isso quando não chove; no verão também temos um parque aquático.</p>
<p>De tédio aqui ninguém morre, são mil entradas e saídas, subidas e descidas; com guard-rails, pistas paralelas em desnível que dão no mesmo lugar, demais! À noite então parece que estamos num vídeogame. Não há similar no mundo, é pura emoção e adrenalina.</p>
<p>Gente que não se satisfaz com nada, que tem medo ou gosta de rotina que fique em casa. Botou o pé na rua, quero dizer saiu de carro, é uma viagem à imprevisibilidade para testar nervos, coração e habilidades extra-sensoriais.</p>
<p>Dinheiro não falta, o prefeito e seus asseclas também podiam acompanhá-los, todos merecem umas férias. Ninguém é de ferro, a cidade é um organismo habituado às doenças crônicas, tem suas defesas e suportará suas ausências.</p>
<p>Um transatlântico daqueles cheio de janelinhas acho que se acomodam bem todos.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Três apara pela primeira da matança!</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 01:44:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não, não é um código secreto. Também não pode ser traduzido em nenhum idioma, e a maioria absoluta  desconhece o que seja. Ah&#8230; claro, o Google tem tudo – mentira, não tem tudo não, e isso também não tem. Putz, então que merda é isso? &#160; Calma&#8230; Tom, é meio complicado! E lembre-se que é um cão, apesar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não, não é um código secreto. Também não pode ser traduzido em nenhum idioma, e a maioria absoluta  desconhece o que seja. Ah&#8230; claro, o Google tem tudo – mentira, não tem tudo não, e isso também não tem. Putz, então que merda é isso?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Calma&#8230; Tom, é meio complicado! E lembre-se que é um cão, apesar de não achar que é. Isso é coisa de homem. Mulher e cão, sem chance!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O quê? Pára com isso. Falo do sexo masculino, não coisa de macho ou chauvinismo. Alíás, coisa de guri, não de guria, assim fica melhor. Mas que é encrencado, isso é: “Três apara pela primeira da matança” &#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não sei quem inventou, nunca me perguntei, mas repeti milhares de vezes, às vezes calmo, às vezes muito bravo e raivoso. Numas tantas matei o cara, em outras não tive habilidade ou sorte. Mas se em muitas vezes não matei na hora, matei depois. Na vida é assim, se nem sempre saímos vencedores, nem sempre também somos perdedores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tá entendendo, Tom? Tudo é jogo, ou de regras pré-estabelecidas ou do destino.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Três apara pela primeira da matança” é o grito de quem tem caráter, a suprema justiça (nada a ver com Supremo Tribunal da Justiça) pra fazer valer o que é correto no exato momento que a desonestidade mostra a cara. E se ainda assim dito não resolve, aí o “Três apara pela primeira da matança” é cumprido à risca,  é o tudo ou nada pra quem tá com a corda no pescoço. Qualquer menino do tempo que computador pesava uma tonelada sabia isso de cor, e todos que tem um mínimo de memória e não brincavam com bonecas ainda devem saber. Como o Google não pode resolver, explico por partes:</p>
<p><strong><em>Três</em></strong><em> </em>é três mesmo.</p>
<p><strong><em>Apara,</em></strong> terceira pessoa do singular do verbo aparar (no sentido de obstruir algo que se move)</p>
<p><strong><em>Primeira</em></strong> todo mundo conhece o que é.</p>
<p><strong><em>Matança</em></strong> é algo horrível mesmo, nunca associado à morte natural e ainda intimamente ligada ao mal. Ave! Guris viajam mesmo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É mesmo difícil entender essa junção estranha de palavras sem entender as regras de um jogo de bolinhas de gude (vidro).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não foi você que perguntou, Tom? Então preste atenção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Num dos muitos tipos de jogos de bolinhas de gude, chamado de <strong>“box”</strong>, cava-se com uma tampinha de lata, dessas de refrigerante,  4 semi-esferas na terra batida, distanciadas 4 palmos uma das outras, usando como medida a mão do menino que no momento tem a maior.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mão de gente, Tom! Não adianta olhar pras suas patas, não tem nada a ver!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O jogo consiste em ir embocando a bolinha nos 4 buraquinhos, ida e volta, duas vezes. Completado o percurso chega-se à matança, momento que a bolinha assassina mata as demais só encostando nas outras, o que se deduz que quem chega primeiro à matança tem mais chance de levar a dos outros pra casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas não é fácil não chegar lá. Todos trabalham contra pra impedir. Cada vez que a bolinha se aproxima, mas não cai no buraquinho, fica ali à espera da próxima vez, mas se o próximo jogador emboca tem o direito de “estecá-la” (esta nem no Houassis tem, verbo <strong><em>estecar</em></strong>, que se conjuga, mas não existe), que quer dizer mais ou menos dar uma estilingada com a bolinha de vidro soltando de uma vez o polegar preso no indicador. Há <strong><em>“estecadas”</em></strong> maravilhosas, que o som do vidro é igual pedrada em vidraça, que faz a bolinha do oponente ir a 5 ou 6 m de distância, e a do <strong><em>“estecador”</em> </strong> só roda em si mesmasem sair do lugar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Você quer entender tudo, Tom? Falei que era complicado&#8230; Cão tem que ser cão, catso!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Voltando ao jogo&#8230; Cada um só tem direito a uma jogada por vez, exceto se embocar no buraquinho, momento que pode seguir ao próximo ou, se quiser antes de seguir pode afastar as bolinhas que estão por perto,<em><strong> &#8220;estecando-as&#8221;</strong></em>. Ora, imagine estar longe 5 ou 6 m dos buraquinhos quantas jogadas se atrasa em relação aos demais, e isso ninguém deseja, aí entra o “Três apara pela primeira da matança”, que tem que ser dito instantaneamente quando se emboca no buraquinho ou os outros jogadores poderão dizer <strong><em>“paradinha</em></strong>”, e interromper a “<strong><em>estecada” </em></strong>com os pés a poucos palmos de distância.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bem,Tom, isso de &#8220;paradinha&#8221; é uma grande sacanagem. Disso você não entende mesmo, mas o mundo é construído de sacanagem, deixa pra lá.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Agora, se mesmo dizendo antes a frase estranha, o cidadão, que ainda não era, e nem sei se seria, usar o pé&#8230;  Aí dançou. Na matança o <strong><em>“estecador”</em></strong> tem direito a três jogadas seguidas pra matá-lo, e normalmente o mata, exceto se for muito ruim de pontaria o<span style="text-decoration: underline">u se defrontar com alguma regra nova, que nunca se ouviu, inventada na hora pelos que não admitem morrer, digo perder</span>. E isso era o que mais tinha&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Compreendeu agora, Tom?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E tem gente que pensa que político aprendeu de grande.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A COISA</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Jul 2011 03:19:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sei se foram os drumus ou os antuás que vieram de madrugada atrás das rádias. Acordei com a latição, acendi as luzes e saí de casa para ver as plantações, mas nada havia além da lua cheia e os cães alucinados. Na semana anterior já quase não dormi, quando tranquei os cachorros na cozinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei se foram os drumus ou os antuás que vieram de madrugada atrás das rádias. Acordei com a latição, acendi as luzes e saí de casa para ver as plantações, mas nada havia além da lua cheia e os cães alucinados.</p>
<p>Na semana anterior já quase não dormi, quando tranquei os cachorros na cozinha e fiquei tocaiado num galho da figueira à espera deles, que tampouco apareceram.</p>
<p>Não sei quem deu esse estranho nome a esses animais, nem de onde eles vêm ou aonde dormem, se é que dormem. Ninguém os conhece de verdade, mas é voz corrente que só eles podem digerir a rádia, essa coisa amarga e cheia de espinhos utilizada na fabricação do remédio pra combater a doença de chília.</p>
<p>Tive um parente com essa doença, vi seu sofrimento, e mais tarde sua cura total com o remédio feito da rádia. Fiquei curioso e pesquisei sobre essa estranha planta. Li tudo que encontrei sobre o assunto e também descobri que só uma única região do país é que se a cultiva, e que como as plantações de cravos ela necessita de muita água e cuidados especiais.</p>
<p>Pra quem não conhece, a rádia lembra um cactus de tom amarelado, que quando amadurece desabrocha uma única flor branca, de pétalas triangulares no topo do caule. Mas só tem valor comercial seu fuste, os brotos têm que ser erradicados no momento que nascem, motivo dos cuidados diários. A produção média semestral por família não passa dos 100kg de rádia seca, mas poderia ser quase o dobro sem os ataques dos drumus e antuás.</p>
<p>Recordo de alguém ter me dito <span style="text-decoration: underline">“Se não tem no Google, é porque não existe&#8230;”</span> Pois não tem no Google nem drumus, nem antuás, e ninguém que é vivo os conhece. Não caem nas armadilhas, e não há espantalho, agrotóxico, cão ou arapuca que os impeça de levar as rádias, que simplesmente desaparecem. Metade da produção fica com eles e isso ninguém aceita nem se conforma.</p>
<p>Por alguma espécie de fascínio por essa planta (obviamente não ouvira falar desses animais), numas férias resolvi visitar o local. E acabei adquirindo de imediato a propriedade de um ancião que mudou-se para a cidade depois da morte da esposa.</p>
<p>E se larguei tudo com extrema facilidade, não foi por saudades da roça, que nunca encabei uma enxada nem fui agricultor. Há coisas que não se explicam, mas igual a qualquer outro daqui também não me conformei com esses roubos, que já me fazia pensar em coisas que nunca imaginei.</p>
<p>No dia que cheguei de mudança já fui convidado pelos vizinhos para as reuniões de sexta à noite aonde eles discutiam esse problema há anos. Na casa de um dos moradores, uma espécie de bar,  entre umas cervejas e outras, &#8220;causos&#8221; e risadas, vão surgindo as idéias.</p>
<p>Era minha primeira aparição e cogitei se não eram aves noturnas, já que pelo chão não deixavam pegadas ou rastros, mas todos caíram na risada. Não entendi o porquê, também não me importei e logo percebi que idéias pra combatê-los nunca faltaram e já se tentara toda espécie de armadilhas &#8212;  buracos disfarçados com folhas, redes, arapucas com grades&#8230;</p>
<p>Certa vez, um dos moradores, engenheiro cheio de nove horas, criou uma câmara fotográfica acionada pelo latido dos cães e montou a tramóia no meio da sua plantação. Dia seguinte quando viu as fotos&#8230;  nada de drumus ou antuás, só seus cães e o vazio aberto no meio da plantação das rádias que faltavam.</p>
<p>Com o passar do tempo fui conhecendo melhor cada um deles. Alguns achavam que era perder tempo qualquer tentativa de detê-los, que por algum motivo devia ser coisa da providência divina, afinal todos tinham saúde e eram felizes. Sem largar dos copos ouvi de um grupo que tudo indicava ser coisa de alienígenas.</p>
<p>Como morador novo não entendia direito essa história, mas tinha comigo que isso não era coisa de quadrúpede, E.T. ou alma penada. Ninguém, nem gente, nem cão, foi ferido ou abduzido, e as rádias sempre foram arrancadas pela raiz, sem marcas de dentes ou algo similar.</p>
<p>E fui analisando minuciosamente o que ouvia nas reuniões, que entre outras coisas, uma ao menos parecia certa: só atacavam durante a madrugada e nunca durante as chuvas. Cartesianamente logo concluí que fosse quem fosse não  gostava de se molhar, e sem comentar nada, como água não faltava ali, montei um sistema que puxava água do rio criando uma chuva fina todas as noites na minha plantação.</p>
<p>Deu supercerto. Os cães não latiam mais, eu dormia a noite toda e ninguém roubava mais nada. Guardei segredo por dois meses, pois nunca gostei de acusar ninguém sem provas, isso é calúnia, mas já vinha fazendo anotações sobre a produção de todos e me chamou a atenção a do velho solitário que produzia mais que qualquer um, bebia mais que qualquer outro, detestava tomar banho e tinha um estranho poder sobre os cachorros.</p>
<p>Era óbvio, tava na cara, e me senti o próprio Sherlock Holmes! Mas quando pensei em anunciar a descoberta, minhas rádias começaram a se curvar. Tarde demais, paradoxalmente elas que necessitavam tanto de água nas raízes não suportaram as chuvas que inventei. Matei-as pelo excesso! Graças à minha esperteza perdi toda a plantação, e pra não passar por ridículo pus a culpa em algum nematóide que se instalou invisível nas raízes. Na hora lembrei  do meu pai, que dizia que nem tudo que parece é. Envergonhado não fui à reunião daquela noite e em nenhuma mais.</p>
<p>Assim&#8230; desisti. E aquele lugar voltou a ser só deles, que tinham nas sextas-feiras o motivo das suas vidas.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>ARQUITETURA DO MACACO</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 23:30:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em quase toda minha vida de adulto tive cães, a maioria me achou. Alguns viveram muito, outros nem tanto.  Em todas as épocas apenas um deles era muito diferente, digo isso não porque não pareciam com um cão, mas porque não achavam que não eram um cão, o que é muito diferente. Assim foi com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em quase toda minha vida de adulto tive cães, a maioria me achou. Alguns viveram muito, outros nem tanto.  Em todas as épocas apenas um deles era muito diferente, digo isso não porque não pareciam com um cão, mas porque não achavam que não eram um cão, o que é muito diferente. Assim foi com a Luana, o Ernesto, e agora o pequeno Tom.</p>
<p>Nasci usando as palavras e tenho muita dificuldade de responder a um cão que faz perguntas sem precisar delas. O lado bom de não utilizarem o verbo é que não falam besteiras, não mentem nem fazem previsões estapafúrdias.</p>
<p>&#8212; A Terra era o centro do universo!</p>
<p>&#8212; No sec XVIII os físicos concluíram que um trem jamais passaria a barreira dos 100km/h.</p>
<p>&#8212; No início da fabricação dos automóveis um artigo descrevia como seriam as ruas do futuro. Superfícies lisas  como vidro e sem o mal cheiro do estrume dos cavalos.</p>
<p>&#8212; “Se Ícaro pôde voar eu também posso!” E o francês todo de preto, parecendo um morcego, lá nos anos 20, saltou do topo da torre Eiffel diante de milhares de curiosos e aprendeu que voar é com os pássaros, caiu como um martelo sem cabo se espatifando.</p>
<p>&#8212; O homem nunca pisará  na lua.</p>
<p>&#8212; Já no início dos anos 50, artigos em revistas médicas diziam que o leite ninho era mais saudável que o materno&#8230;</p>
<p>&#8212; Outros&#8230; que retirar as amídalas era um procedimento muito saudável mesmo que as ditas não estivessem com problemas (O filme Papai sabe tudo, mostrou num dos capítulos o Sr Young levando todas as filhas no mesmo dia para retirar as amídalas e em seguida lhes dando uma tonelada de sorvete).</p>
<p>&#8212; Apêndice, como marimbondos, não tem nenhuma função a não ser provocar dor.</p>
<p>Chegamos no sec XXI</p>
<p>&#8212; No governo Lula o Brasil terá uma verdadeira revolução na educação (será que é este dos nóis vai que chegou meio atrasado?).</p>
<p>Nem eu, nem o Tom sabemos muito coisa alguma, mas concordamos silenciosamente que o macaco “esperto” que experimentou um sapato só fez merda: dividiu a Terra, inventou os cartórios, os bancos, a justiça e a guerra&#8230; E pensamos neste macaco moderno &#8220;Eta macaco retardado, este que não late, que crê na eternidade, e pensa que pensa&#8221;.</p>
<p>Ora, vai te catar, bicho ruim!</p>
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		<title>CIDADE MALUCA</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 00:33:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[cidade maluca]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8211; Não, não é gozação! Lá pelos anos 80 fui morar na Rua José Gomes da Silva, casa que levei uns pares de anos pra fazer e mudei sem terminá-la, o que acabei fazendo nos quase 20 anos que ali vivi. Mas no início deste século mudei pra Rua Madre de Deus. Pedi as ligações [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Não, não é gozação!</p>
<p>Lá pelos anos 80 fui morar na Rua José Gomes da Silva, casa que levei uns pares de anos pra fazer e mudei sem terminá-la, o que acabei fazendo nos quase 20 anos que ali vivi.</p>
<p>Mas no início deste século mudei pra Rua Madre de Deus. Pedi as ligações de telefone e de energia, recebi minha correspondência sem nenhum problema durante anos, e só havia um pequeno probleminha &#8212; nos mapas da cidade no local constava a antiga rua que morava, a Rua José Gomes, e quem tentava chegar pelo Google, GPS etc. não achava meu endereço.</p>
<p>E aqui começa uma dessas coisas meio kafkniana.</p>
<p>Cansado de tanta reclamação fui à Prefeitura de S.Paulo dizer que o mapa da cidade estava errado.</p>
<p>&#8212; Não meu senhor, essa rua aí não é a José Gomes, é a Madre de Deus, moro nela há dez anos, tá aqui a conta de luz, documento do carro&#8230;</p>
<p>&#8212; Então o senhor vai reclamar na Geomapas, que é quem faz os mapas das ruas! Disse o fincionário da Regional.</p>
<p>Lá fui eu até o endereço da Geomapas, que é aonde o Google e o GPS, guia da cidade, se baseiam  para suas leituras. E outra vez:</p>
<p>&#8212; Não meu senhor, tá errado, podem ir até o local e verificar que a José Gomes da Silva é outra, tem placa da prefeitura no início e no final há mais de 30 anos, e isso eu sei bem porque vivi nesta rua muito tempo.</p>
<p>Umas semanas depois o geógrafo apareceu por aqui, constatou o equívoco e ficou de ver isso na prefeitura. Passou o tempo e nada aconteceu, aliás aconteceu. Dei uma festinha de S.João e uns amigos de infância vieram de longe seguindo o GPS. Dia seguinte o cara me liga e diz “Caí numas quebradas, ninguém te conhecia..! Fiquei rodando até meia-noite, só tem bêbado por aí&#8230; E o que eu faço com essas bandejas de quitutes?”</p>
<p>Coisa chata demais e lá foi o incauto novamente até a prefeitura, desta vez rangendo os dentes! Depois de horas esperando, a funcionária dedicada me traz um alfarrábio quase desmanchando num papel amarelado com furinhosde traças “Tá aqui meu senhor, com data e tudo! Essa foi a Lei que transformou a Madre de Deus na Rua José Gomes, proposta do vereador Fulano de Tal!</p>
<p>Putz, a minha rua atual era mesmo a José Gomes da Silva, estavam corretos os mapas, o GPS e o esquimbau, eu que morei na rua errada por vinte anos, depois novamente errado por outros dez, simplesmente porque o colocador de placas da prefeitura se confundiu e pregou a dita no local errado. Ufa!</p>
<p>Ufa? Ufa o cacete! ARua Madre de Deus não existe mais neste bairro segundo o site dos Correios que consertou o equívoco do colocador desastrado. Mas na AES Eletropaulo e na Telefonica continuo morando na rua fantasma, logo não recebo mais correspondência há meses, nem tenho mais prova de endereço, uma vez que para tal, Detran, Cia de Seguros, IR etc só aceitam contas no meu nome dessas duas companhias.</p>
<p>Então ligo pra uma, pra outra&#8230; “nada podemos fazer, dirija-se a uma loja física munido de documentos e prova de endereço!”</p>
<p>&#8212; O que serve como prova de endereço? Pergunto.</p>
<p>Uma das citadas diz que basta levar uma conta da outra. Quando digo que não possuo, me pedem IPTU, quando digo que aqui é INCRA&#8230; “nada podemos fazer&#8230;”</p>
<p>Mas não sou de desistir nem de pesadelo e ligo novamente pra AES Eletropaulo.</p>
<p>&#8212; Moça, vê aí pra mim com esse CEP XXXX-YY o que aparece?</p>
<p>Ela diz que o que consta no site da AES Eletropaulo é a Madre de Deus.</p>
<p>&#8212; Tá bom moça, agora dá pra vc ver no site dos Correios o mesmo CEP.</p>
<p>Ela diz que não tem acesso a este site.</p>
<p>&#8212; Tá bom moça, e eu posso receber minhas contas em outro endereço?</p>
<p>Ela diz que posso mediante o pagamento mensal de 5 reais, e me pergunta se eu concordo. Digo prontamente que sim, e ela me pede o novo endereço e CEP.</p>
<p>&#8212; Escreve aí, moça&#8230; CEP XXXX-YY</p>
<p>Ela me pergunta se está correto, Rua José Gomes da Silva, e pede pra aguardar instantes enquanto providencia a alteração.</p>
<p>&#8212; Ué, agora teve acesso ao site dos Correios? Pergunto.</p>
<p>Pra mudança do local da entrega da correspondência ela diz que tem acesso sim.</p>
<p>Arre! Agora recebo a conta na minha casa, na mesma rua que moro, no mesmo lugar que entregavam antes, mas que pra AES Eletropaulo é num outro endereço. E tem mais, mudei de casa depois de vinte anos morando na José Gomes da Silva e fui morar numa outra rua. Que rua mesmo? Claro, na R. José Gomes da Silva! Parece perseguição, coisa do destino. Que atrapalhada causou aquele colocador de placas, mas tudo bem.</p>
<p>Agora, quando meu cão, que seria demais se não achasse que não fosse um cão, olha pra mim com cara de quem quer saber que bagunça é essa, me salve! Isso foi demais pra mim e mandei ele ver se eu estava na esquina.</p>
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		<title>Arquitetura é coisa de arquiteto…</title>
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		<pubDate>Wed, 04 May 2011 01:07:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<description><![CDATA[E no mundo atual só há três tipos de arquitetos, aliás quatro. &#8211; Os que fazem os megaprojetos cheios de tecnologia, que enchem as mídias e encantam o mundo moderno, quase sempre financiados pelo dinheiro público ou de algum esdrúxulo magnata;. &#8211; Os que, funcionários de grandes escritórios ou autônomos, projetam edifícios comportados para incorporadoras, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E no mundo atual só há três tipos de arquitetos, aliás quatro.</p>
<p>&#8211; Os que fazem os megaprojetos cheios de tecnologia, que enchem as mídias e encantam o mundo moderno, quase sempre financiados pelo dinheiro público ou de algum esdrúxulo magnata;.</p>
<p>&#8211; Os que, funcionários de grandes escritórios ou autônomos, projetam edifícios comportados para incorporadoras, e vez por outra enfiam umas firulas e brilhos, que os tornam super originais, iguaizinhos à maioria;</p>
<p>&#8211; Aqueles que se esforçam pra serem percebidos nos seus arrojados projetos, mas limitados pela timidez dos investimentos fazem pequenas obras comerciais ou residenciais e não raras vezes ficam nos sonhos dos rascunhos ou maquetes;</p>
<p>&#8211;  Por fim, habilidosos ou não, criativos ou não, talentosos ou não&#8230; o resto, a grande maioria da multidão que escolheu como profissão a arquitetura, ou é empregado público e passa a vida pondo e tirando o paletó da cadeira, ou gasta a vida fazendo o que não deseja numa empresa; ou é autônomo e faz o que aparece, se aparece.</p>
<p>Claro que essa divisão não é exata, nem há nenhuma novidade nisso, com a medicina, p.ex. é mais ou menos a mesma coisa, onde os expoentes não saem da mídia e o resto é empregado dos Planos de Saúde ou servidor público, e por aí vai. Mas com arquitetura é diferente, é arte que envolve literalmente o ser humano, é desafio, e não creio que alguém que tenha escolhido esta profissão, cuja característica principal não é a repetição se sinta equilibrado fazendo nada, ainda que esse nada não seja verdadeira e exatamente o vazio.</p>
<p><span style="color: #888888"><span style="text-decoration: underline"><span style="color: #000000">Vai construir, comprou uma casa velha, um apartamento caindo aos pedaços&#8230; consulte sempre um arquiteto! </span></span></span> Vi isso escrito em algum lugar que não era o para-choque de um caminhão, talvez no vidro traseiro de quem andava na minha frente, não importa, aviso inútil que não vai mudar nenhum destino.</p>
<p><em>“Pra que gastar uma grana se eu posso fazer sozinho?”</em></p>
<p><em>“Ops, eu tenho um amigo que é engenheiro e vem dar uma olhada&#8230;&#8221;<br />
</em></p>
<p><em>“Minha prima já mexeu com obra, ela leva jeito&#8230;”</em></p>
<p><em>“Nem morto! Na última vez que usei um arquiteto quase saímos no tapa&#8230;”</em></p>
<p><em>“Jo soy un arquitecto nacido&#8230;”</em></p>
<p>Se os autônomos escapam disso, dão graças aos céus que têm <span style="text-decoration: underline">algo</span> pra fazer e poderão dar de comer aos cães ou filhos, caso os tenham, mesmo que esse <span style="text-decoration: underline">algo</span> seja um quase nada em arquitetura.</p>
<p>Isso são elocubrações, mas dia desses conversando com um cara que vendia tumbas&#8230; Ops, tumbas? Não, não é bem isso, vendia coordenadas de um novo cemitério. Falei que deixei uma ordem para ser cremado, que só precisava de uma urna, e temporária. Ele riu e disse que urna ele não vendia. Isso foi por telefone, nem vi a cara do sujeito, mas era um tipo simpático, falou que era corretor da morte, mas pra eu não confundir com “corretor de morte”, que ele era arquiteto e cansou de não fazer nada durante anos numa construtora e pensou que estava na hora de fazer alguma coisa útil.</p>
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		<title>A HISTÓRIA DO NIL</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 04:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral. No alto da Serra do Mar, nas nascentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra quem não sabe,  Embu-Guaçu significa cobra grande na linguagem dos aborígenes. A cidade nasceu pelos santistas que no início do século passado subiam a serra de trem para ares mais frescos, e até hoje é cortada pela ferrovia que vem do interior do estado e segue para o litoral.</p>
<p>No alto da Serra do Mar, nas nascentes da Represa de Guarapiranga, Embu-Guaçu não há tanto tempo foi considerada a menos violenta das cidades da Grande S.Paulo. Também não há tanto tempo chegou a ser a segunda mais violenta. No presente, pela mesma estatística, situa-se numa escala intermediária .</p>
<p>Sem fugir à regra, a cidade cresceu muito nos últimos anos. Se não era um deslumbre,  era graciosa e calma.   Cresceu, mas quando me perguntam &#8220;Tem MacDonald?&#8221;  Não, não tem, mas agências bancárias não faltam.  Cinema também não tem, em compensação tem uma espécie de Panteòn mal copiado, idéia de não sei quem, que abriga as Secretarias de Esportes e Cultura e sei lá mais o quê.</p>
<p>Coisas intrigantes, isso tem! Não conheço nenhum lugar com mais lojas de sapatos  “per capta” e igrejas evangélicas ou protestantes, que não protestam nada evidentemente. Ah&#8230; quase esqueci do descomunal supermercado só de carnes, aonde os cachorros vira-latas da região se encontram pra longos bate-papos na hora do fechamento, quando lavam os pisos e a água corre pela calçada até o meio fio. Do meio fio, com espuma de sabão,  segue disfarçadamente por caminhos tortuosos até o primeiro corpo d´água, cujo destino final é sempre a Represa de Guarapiranga, esta totalmente desprotegida, digo protegida, por uma série de Leis sobre os Mananciais desde 1975.</p>
<p>Não sei se chega a ser intrigante também o fato de que vizinho do super-açougue, além dos cães tem a Delegacia Municipal de Polícia, que em certa ocasião perguntei à policial feminina, ali estacionada na porta, se aquilo podia. Ela me olhou como se eu fosse um ET&#8230; &#8212; Ahn? Fiz então a mesma pergunta formulada de outra maneira, mas com cara de não muitos amigos ela me disse pra eu procurar a Secretaria de Saúde se não estivesse satisfeito.</p>
<p>Não estava nem estou, mas também não era isso que pensei em escrever quando comecei dizendo que era uma cidade graciosa e calma, onde era quase um prazer o ir a um banco ou postar uma carta, por exemplo. Mas, com base nas idéias utilizadas pelas metrópoles, eles conseguiram transformar a cidade numa meleca. Eles quem? Ora, os especialistas!  Começaram pelas lombadas&#8230;. uma aqui, outra acolá&#8230; Encheram a cidade de morrinhos; depois, a cada nova administração, como tudo era ótimo e não havia o que fazer, tinham que inventar, aliás copiar, e copiaram de S.Paulo a modernidade! Pronto, uma, duas, três ruas&#8230; que só vai pra um lado e tudo virou contra-mão! Então, perdidos, todos se juntam em voltas enormes pra passar nos mesmos lugares, assim os gênios do urbanismo conseguiram criar &#8220;trânsito&#8221;,  e a cidade outrora calma já se equipara à estupidez das metrópoles.</p>
<p>Semáforo não tem, ufa! Aliás, ganharam um do governo do estado, mas logo quebrou e assim ficou. Sem coragem de retirar o inútil, este ainda permanece altivo, mas só pisca há mais de ano. Agora, todo esse preâmbulo foi  pra situar no tempo e no espaço a história do meu amigo, que vive na beiradinha da cidade, e que resolveu ir de carro comprar um remédio na farmácia a cinco quadras da sua casa.</p>
<p>Era hora do almoço, o cheiro da comida impregnava paredes. A empregada na porta: &#8212; Não vai comer antes de sair,  Seu Nil? A comida está pronta! Ele faz um gesto com a mão de zapt-zupt, e diz que em cinco minutinhos estaria de volta.</p>
<p>Abriu o portão, pôs o carro pra fora, desceu, fechou o portão, entrou novamente no carro e seguiu para a farmácia. Dois minutos e já estava na Botica, quer dizer, passou em frente, porque vaga não tinha pra estacionar. Desceu pela transversal, virou à esquerda (uma volta no quarteirão depois das modernizações com as contra-mãos significa sempre uns quatro). Repetiu o caminho e nenhuma vaga.</p>
<p>Insistente e conhecedor das pairagens, passou pro outro lado da avenida, mais umas voltas gigantes e nada de uma vaguinha&#8230; Assim, de lá pra cá, foi indo e indo e acabou achando uma bem apertadinha entre uma caminhonete e uma caçamba de obra. Bom manobrista que é, depois de umas tentativas encaixou o veículo como uma luva. Saiu do carro, olhou com certo orgulho a quase proeza! &#8212; Putz, enfim..! Falou pra si, já com o saco cheio. &#8212; Aonde é mesmo a farmácia? Pensativo, tentando se nortear, tonto que estava. Olhou novamente para o carro, o muro de um colégio todo pichado, pôs os óculos&#8230;</p>
<p>A uns trinta metros dali, no portão da sua casa, a prestimosa empregada grita: &#8212; Ô Seu Nil, por que não parou na garagem? A comida está esfriando!</p>
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		<title>ARQUITETURA RESIDENCIAL</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Apr 2011 02:10:40 +0000</pubDate>
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		<title>AS QUE SAÍRAM DO PAPEL – Vídeo em alta definição</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Apr 2011 23:23:46 +0000</pubDate>
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		<title>Arquitetura pós-moderna</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Mar 2011 14:41:53 +0000</pubDate>
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		<title>SENHOR CARDEAL</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Mar 2011 04:48:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Senhor cardeal]]></category>

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		<description><![CDATA[No filme 8 ½ do Fellini me lembro do senhor na sauna, quando o Mastroiani, na sua confusão interior sem saber bem o que falar, só consegue dizer o “eu não sou feliz”,  e ouve do senhor a célebre frase “quem lhe disse que viemos aqui para ser felizes?” Viemos aqui então pra quê? Por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No filme 8 ½ do Fellini me lembro do senhor na sauna, quando o Mastroiani, na sua confusão interior sem saber bem o que falar, só consegue dizer o “eu não sou feliz”,  e ouve do senhor a célebre frase “quem lhe disse que viemos aqui para ser felizes?”</p>
<p>Viemos aqui então pra quê? Por causa de uma réles maça e um cara desobediente todo o futuro foi condenado a pagar sua pena? Que criador seria este, cujo nome já contém sua intenção? Quem escreveu suas leituras, senhor cardeal?</p>
<p>Pense que o último século não é mais que uma fração de um instante na existência do universo. Ponha-se, pois, no que lhe cabe dentro desse instante com todas suas cores e dores, e tente encaixar tudo o que viveu. Multiplique isso pelos bilhões de instantes e de espécies&#8230; Haveria uma memória capaz de ter dado uma particular atenção à sua insignificância?</p>
<p>Sabe que há estrelas que nunca vimos nem vamos ver no nosso tempo, porque sua luz ainda está a caminho, e as que vemos nem temos certeza se ainda existem&#8230; Então Sr. Cardeal, se o tempo nos faz duvidar até do que vemos, confundir vivos com mortos, aonde busca a convicção do que prega?</p>
<p>Sei que vai dizer que o que mais importa os olhos não podem ver, também sei que vai dizer que sou atrasado espiritualmente.  Pode achar o que quiser de mim, não me importo. Materialista não sou, só tenho muitas dúvidas, e  achei engraçado o que disse. A propósito, também achei o senhor muito abatido e magrinho, mesmo sabendo que não lhe faltou o que comer.</p>
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		<title>O remédio do século!</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Mar 2011 00:03:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Alguém disse que cortizona era o remédio do séc XX , mas este tanto ‘desincha’ como ‘incha’. Outro alguém disse ser o Lítio. Outros ainda elegeram o Viagra ou similares. Tem os que falam dos calmantes, relaxantes, reguladores disso ou daquilo, até antibióticos de última geração entra nas preferências&#8230; No fundo não há um consenso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguém disse que cortizona era o remédio do séc XX , mas este tanto ‘desincha’ como ‘incha’. Outro alguém disse ser o Lítio. Outros ainda elegeram o Viagra ou similares. Tem os que falam dos calmantes, relaxantes, reguladores disso ou daquilo, até antibióticos de última geração entra nas preferências&#8230; No fundo não há um consenso sobre a grande invenção do século.</p>
<p>Pra mim remédio bom é o esparadrapo, esse de pano. Não é de engolir, não tem cheiro ou gosto ruins, não arde nem pica. Não precisa de receitas, dispensa visitas ao médico, não tem bula, nem contra-indicações, e é baratinho. Gruda melhor que fita crepe, durex e congêneres, serve pra fazer ponto falso num ferimento, e em tirinhas colocadas paralelas à coluna engana as terminações nervosas nas dores das costas. E é muito melhor que ‘band-aid’ no calcanhar que o sapato esfolou.</p>
<p>Além das propriedades citadas ainda tem outras indicações: quebra o galho no lugar da fita isolante nas emendas dos fios elétricos, evitando choques e queimaduras; do teflon, nas roscas das tubulações. Também pode ser usado  com vantagens sobre cordinhas ou fios que machucam, quando se pretende amarrar as mãos nas costas de um azarado, e ainda cala com eficiência absoluta a boca do coitado!</p>
<p>Se disserem que isso não é o escopo de um remédio, direi que se enganam. Claro que é,  esparadrapo não só remedia como tem função preventiva impedindo queimaduras, ferimentos, enfim&#8230; dores desnecessárias.</p>
<p>Isso é que é remédio, não droga. Pra mim&#8230; ele  é o “the best”!</p>
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		<title>PONTES</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Feb 2011 02:04:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[tenacidade]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8211; Você não pode entrar! Cadê o Visto? No balcão do posto aduaneiro, perguntou o policial boliviano ao Menino. &#8211; Tem que voltar ao Peru, em Puno há um consulado da Bolívia&#8230; &#8211; Ninguém me disse nada, Senhor, não estou entendendo&#8230; &#8211; Eu estou dizendo! Sem o Visto ninguém entra na Bolívia, pelo menos não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8211; Você não pode entrar! Cadê o Visto? No balcão do posto aduaneiro, perguntou o policial boliviano ao Menino.</p>
<p>&#8211; Tem que voltar ao Peru, em Puno há um consulado da Bolívia&#8230;</p>
<p>&#8211; Ninguém me disse nada, Senhor, não estou entendendo&#8230;</p>
<p>&#8211; Eu estou dizendo! Sem o Visto ninguém entra na Bolívia, pelo menos não por Copacabana. Qualquer um pra entrar no país precisa do Visto do consulado antes de chegar à fronteira.</p>
<p>&#8211; Mas fui até a Guiana, Senhor &#8230; ninguém me pediu esse tal Visto&#8230;</p>
<p>&#8211; Aqui na Bolívia é assim! Falou o irritado policial.</p>
<p>Do lado oposto da ponte que liga os dois países, o policial peruano explica porque ele não pode entrar no Peru.</p>
<p>&#8211; Só entra aqui quem vem de lá (apontando com o dedo para a Bolívia). Você não acabou de sair daqui agorinha, não fui eu mesmo quem pôs o carimbo no seu passaporte?</p>
<p>&#8211; Foi, mas preciso voltar a Puno&#8230;</p>
<p>&#8211; Sinto muito, não é possível&#8230; Você já saiu do Peru e não pode entrar novamente sem o carimbo de Copacabana. Você está vindo de Copacabana?</p>
<p>&#8211; Não, o Sr. sabe que não, mas eles estão me pedindo o Visto&#8230; não me deixam entrar lá também&#8230;</p>
<p>Novamente na aduana boliviana, do lado de lá da ponte.</p>
<p>&#8211; Não tem outra maneira, Seu guarda? Eles dizem que só entro novamente no Peru se tiver saído daqui!</p>
<p>&#8211; Já disse e vou repetir: sem o Visto do consul da Bolívia, por aqui ninguém passa!  Falou o irado policial sem tirar o radinho de pilha do ouvido.</p>
<p>O Menino observa que o policial não usa meias, tem uma farda desbotada, um velho par de tênis, e escuta atentamente algum jogo de futebol. Sai dali olhando o desfiladeiro pela balaustrada da ponte, caminhando lentamente como quem sem pressa sabe o que não vai encontrar. Olha para os seus pés machucados e limitados, e inveja as aves que cruzam a fronteira dispensando as pontes e a burocracia. Ele fecha os olhos &#8212; os semblantes dos policiais lhes surgem na retina. Tampa os ouvidos &#8212; escuta-os dizendo “não”. Lembra então da avó, dos amigos que deixou e chora, não um choro de dor ou de medo, mas de ódio.</p>
<p>Novamente na aduana peruana.</p>
<p>&#8211; Você de novo, Menino!</p>
<p>&#8211; Por favor, Seu guarda, já é quase noite, estou aqui desde às dez da manhã e não consigo sair desta ponte. Tenho que voltar pra casa, minha avó está doente e mora muito longe daqui.</p>
<p>Olhando nos olhos do Menino, o policial fala &#8212; Enquanto eu estiver neste Posto não posso deixar você passar, às vezes preciso ir ao banheiro que fica ali fora (aponta para uma casinha esverdeada). Quantos policiais você vê aqui? Então&#8230; quando eu não estiver é porque não há ninguém, compreende?  Agora me dá licença que preciso ir ao banheiro (e sai em direção a tal casinha).</p>
<p>Pelas palavras não ditas o Menino encontrou o jeito de entrar no Peru. Em Yonguyo não há linhas ônibus ou trens. Só se parte ou se chega em caronas pagas, a pé ou de barco pelo Titicaca. Horas depois, por 30 soles adiantados, num pequeno caminhão que ia a Cusco aguardou sentado na carroceria até que cholas, caixas, cabras e galinhas ocupassem totalmente o pequeno engradado de madeira. O caminhão passou por Puno quando amanhecia. O Consulado da Bolívia abria às 11hs.</p>
<p>Às 11 hs em ponto.</p>
<p>&#8211; Bom dia, minha Senhora. Preciso falar com o Cônsul.</p>
<p>&#8211; Hoje não é possível, ele está doente e não pode atender ninguém.</p>
<p>&#8212; Mas minha avó também está doente e preciso voltar pra casa, tenho de pegar o Visto, já estava lá em Copacabana, não dormi nada, passei a noite num caminhão pra chegar até aqui, por favor Senhora&#8230;</p>
<p>&#8211; Vou tentar&#8230; Mas não prometo nada&#8230;</p>
<p>Minutos depois o Cônsul Geral da Bolívia aparece de pijama na ante-sala, cabeleira branca, barba por fazer, tossindo, pálido como os mortos, e aos berros dizendo que ganhava uma “mierda” e não tinha nem o direito de ficar doente.</p>
<p>&#8211; De quem é o passaporte? Praguejou o velho.</p>
<p>&#8211; É meu, é meu, Senhor.</p>
<p>Sem uma palavra pegou o documento e voltou para o fundo da casa.</p>
<p>Uns dez minutos depois.</p>
<p>&#8211; Está aqui seu Visto, você tem sorte. Disse a Senhora.  &#8211; O cônsul está muito nervoso, ontem ao telefone brigou com um general da Capital e parece que vão mandá-lo para algum lugar lá no Atacama.</p>
<p>Por outros 20 soles o Menino conseguiu um barco de pesca que ia até a fronteira. 4hs sobre o Titicaca, já era noite quando chegou novamente à fronteira. Sentou-se sobre a mochila e ficou observando o posto policial do Peru, lendo no ar as palavras mágicas. Era quase meia noite quando a luz da casinha externa à guarita acendeu. Ele passou. Passou rápido pela escuridão da lua nova, mal enxergando onde pisava. Talvez  devido ao cansaço a ponte lhe pareceu bem mais longa que a primeira.</p>
<p>Na Aduana boliviana.</p>
<p>&#8211; Boa noite, Sr. guarda, pode carimbar meu passaporte?</p>
<p>&#8211; É raro alguém vir a essa hora. Vamos ver&#8230; Sim, está correto, tem o Visto. Ora, ora&#8230; mas temos um problema. Aqui diz que saiu anteontem de Yonguyo&#8230; Como chegou aqui, veio voando?</p>
<p>&#8212; Bem que gostaria, Seu guarda, como disse faz dois dias que saí de Yonguyo e quando ia entrar em Copacabana o seu companheiro, aquele que usa tênis e tem um radinho de pilha, me disse que não podia entrar sem o Visto. Voltei então até Puno para falar com o Cônsul, depois peguei um barco que vinha para a fronteira, passei pelo posto peruano e aqui estou em Copacabana. Assim eu vim.</p>
<p>&#8211; Mas Copacabana é do outro lado do lago Titicaca. Ali (apontando com o dedo ao fim da ponte) é Desaguadero, não Yonguyo&#8230; Vou ter que falar com a chancelaria em La Paz, não sei se posso deixar alguém que saiu por Yonguyo entrar por aqui&#8230; Amanhã, no horário comercial, o meu substituto fará essa consulta, se quiser pode dormir aí no banco. Disse burocraticamente o policial.</p>
<p>Às 9hs da manhã o militar que o substituiu, devidamente informado sobre o caso, liga para a chancelaria em La Paz.</p>
<p>&#8211; Alô, alô? Aqui é do posto de fronteira P21, tenho um problema e preciso falar com o Coronel Luma.  Como? Não estou ouvindo direito, fale mais alto!  Não, não, tem que ser mesmo o Luma! O quê? Como ele não chegou ainda? São nove horas&#8230; então chama o coronel Chaves. Como? Não foi ninguém hoje, estão todos vendo pela TV a Raquel Welch no &#8220;Café com o presidente&#8221;?  Ok&#8230; então ligo depois do almoço.</p>
<p>&#8211; Minha avó está doente, Senhor policial, ainda tenho mais de três mil quilômetros até a minha casa, faz três dias que não saio do mesmo lugar, tive de voltar a Puno para pegar o Visto, meu dinheiro está acabando, deixa eu passar, por favor releva esse probleminha&#8230;</p>
<p>&#8211; Você não ouviu? Todos estão vendo a Rachel, mas até a tarde vamos resolver isso, faz aí o seu lanchinho e vamos aguardar. Tenho que falar com o Luma ou com o Chaves, com um ou com o outro, ninguém mais pode resolver esse problema.</p>
<p>&#8211; Desculpe-me, Seu guarda, mas por que a Rachel Welch está falando com o presidente?</p>
<p>&#8211; Ora, porque ela é boliviana. Veio nos visitar por ocasião do seu aniversário, e  agora mesmo está com o nosso presidente, o general Hugo Banzer, no seu programa matinal. Pena mesmo não ter uma TV aqui, hoje é quase feriado na Bolívia. Concluiu o policial.</p>
<p>À tarde&#8230;</p>
<p>O  policial da manhã explica ao companheiro, que o policial da noite havia lhe exposto o que ocorria, e ele já ligara à chancelaria. Diz ao companheiro que essa situação confusa só pode ser resolvida com a anuência da chancelaria da capital, tanto o coronel Luma como o Chaves não trabalharam no período da manhã porque estavam assistindo pela TV o &#8220;Café do presidente&#8221; com a Raquel Welch.</p>
<p>Depois de assinar um livro,  o novo policial liga novamente à chancelaria.</p>
<p>&#8211; Alô? Preciso falar com o Luma&#8230; Quem? Ah&#8230; sim, desculpe Sr. coronel, é o senhor, boa tarde! Aqui é o cabo Esteves do  P21. O que se passa é que o cidadão não tinha o Visto e&#8230; eu sei coronel, eu sei que sem Visto ninguém passa, mas agora ele já tem.  Alô? Como? Desculpe coronel, é o telefone&#8230; o quê? Qual é então o problema? Bem, coronel, é que ele saiu por Yonguyo faz três dias e&#8230; sei, sei, entendi sim Sr.coronel&#8230; é só ele pagar a multa então, ok. Sr. coronel, obrigado, passe bem.</p>
<p>O policial acende um cigarro:</p>
<p>&#8211; Você é um rapaz de muita sorte, são só 140 pesos para os selos da multa e a questão tá resolvida.</p>
<p>&#8211; Multa? Só tenho 300 pesos&#8230;</p>
<p>&#8211; Muito bom, bom mesmo, aqui você só paga 140 pesos e está liberado&#8230;</p>
<p>Inconformado o Menino paga e começa sua longa viagem de volta dentro das boléias ou sobre as carrocerias dos caminhões, e tanto lhe vinham imagens da avó, como das areias do Atacama, das águas negras do Pacífico, das escadarias de Pizarras. Lembrava dos amigos se lamentando da última derrota do Urano (seu time do coração), como das crianças descalças com os pés dentro da água nas ilhas de palha do Titicaca.</p>
<p>Quase congelou no alto da carga de arroz de um caminhão na Sibéria do Altiplano. Depois, no Trem da Morte, na selva boliviana, viu nuvens de borboletas inesquecíveis, mas por esconder sob as saias latas de leite em pó cholas com crianças no colo foram arrastadas e espancadas por soldadinhos de chumbo numa estação sem nome.</p>
<p>Toda volta é difícil e o Menino chegou tarde para ver a avó.</p>
<p>Mas foi naquele tempo, exatamente naquele tempo, naquelas pontes, exatamente naquelas pontes, que ele ganhou um relógio sem marca, sem forma, sem enfeites, e começou a morrer.</p>
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		<title>Ticha</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 02:11:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulovilela</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou te chamar Ticha</p>
<p>porque não sei o teu nome.</p>
<p>Ficaste calada quando perguntei,</p>
<p>mas teus olhos falaram pela tua boca</p>
<p>e me contaram coisas terríveis.</p>
<p>Se ainda vives, menina guarani,</p>
<p>espero nunca te encontrar,</p>
<p>quero lembrar a inocência sem infâmias,</p>
<p>que certamente fez-te criança</p>
<p>por mais algum tempo.</p>
<p>Se ainda vives, menina crescida,</p>
<p>deves ter aprendido a rezar, a chorar.</p>
<p>E também que nesse mundo</p>
<p>uma flecha só vale um mac donald</p>
<p>e não cabe mais índios como tu e teus irmãos.</p>
<p>E se guardei tua foto tão bem guardada</p>
<p>foi pra nunca mais encontrar-te,</p>
<p>mas essa noite sonhei contigo, fiz as contas&#8230;</p>
<p>Deves ter quase quarenta</p>
<p>e tua aldeia quase nenhum.</p>
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