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	<title>Atlântico expresso</title>
	
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Uma carta de desabafo</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 21:35:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.
Em Moçambique, ao contrário de Portugal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.<br />
<span id="more-1028"></span>Em Moçambique, ao contrário de Portugal um país muito, muito grande, a campanha eleitoral dura 45 dias. Começou dia 13 de Setembro e vamos agora entrar nas últimas duas semanas, aquelas que previsivelmente mais quentes serão.<br />
Mas não penses que isto tem sido fácil por aqui. São dezenas e dezenas as notícias sobre murros e pontapés, pedradas, pauladas e facadas, incêndios, empurrões, bofetões, agressões e palavrões, e isto só para rimar, que a lista seria interminável. É o costume, dizem-me por aqui, e é pena, digo eu, também por aqui.<br />
Ainda hoje, há pouco tempo, a RENAMO, partido da oposição, se queixava da FRELIMO, partido no poder, não deixar ninguém fazer a campanha descansado, porque mal sabe de um acção de campanha dos outros lá vai com umas bandeiras e uns apitos desestabilizar a coisa.<br />
Eu não sei o que se passa no resto do país mas aqui em Maputo já assisti por duas vezes a isso, não com RENAMO mas com o MDM, outro partido da oposição. Um belo destes sábados, quando o MDM se preparava para fazer um comício num campo de futebol, a FRELIMO encheu o local de crianças e mulheres com bandeiras, fazendo o máximo de barulho possível. Desconcertado, o MDM foi para outro sítio fazer o comício, depois mudou de ideias e acabou à frente de um supermercado, desmotivada e quase sem ninguém a assistir à coisa.<br />
Dias depois, em Boane, aqui perto também, a FRELIMO perseguiu a caravana do MDM por todo lado e a coisa, claro, descambou. Só à minha parte assisti a três rixas entre apoiantes, uma delas bastante feia, com gente rebolando pelo chão, paus de bandeira sem bandeira e a polícia a ver-se grega para separar o povo. Um tiro para o ar acalmou os ânimos. E desta vez foi mesmo para o ar, creio, porque há pouco tempo ainda, aqui em Maputo, numa perseguição, a polícia atirou para o ar e… matou um operário que trabalhava numa varanda. Tão verdade como eu estar aqui sentado num sofá a escrever-te, enquanto na televisão passa um filme com a Sigourney Weaver.<br />
Mas não é só a FRELIMO a má da fita, pelo que vejo nas notícias todos têm a tentação de calar os outros, um belo exercício de défice democrático, uma frase tão do agrado aí em Portugal. Há gente da FRELIMO ferida por gente da RENAMO, há gente do MDM com nódoas negras provocadas pela gente dos outros partidos, e assim caminhamos calmamente campanha acima.<br />
Nos últimos dias parece que melhorou. Por este andar, se a campanha em vez de ser 45 dias fosse três meses talvez os apoiantes de cada partido chegassem ao fim a perceber que a campanha eleitoral devia ser uma festa, e que imagens de pessoas ensanguentadas não os dignifica, nem a democracia, nem o país.<br />
É certo que a maioria, a grande maioria, da população não alinha nestes disparates. E condena-os. Mas da mesma maneira que umas porraditas em Algés ficam mal a Portugal, umas porraditas aqui, ainda que fossem só uma vez, também não ficam melhor a Moçambique. Nem ao ser humano.<br />
Mas pronto, porque desconfio que esta carta de consolo, para ti, está mais a servir de desabafo, para mim, ficamos por aqui, para ver se percebo porque é que aquela mulher está para ali aos tiros e a chorar.<br />
E prometo que na próxima carta não te falo de política. Vou falar-te da Susana, uma força da natureza, a esta hora por certo longe de campanhas e mais preocupada com valores tão altos como ela própria.</p>
<p>Um abraço, e domingo, ainda assim, não deixes de ir votar</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>História do homem que anda</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 09:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Perspicaz Fernando,
em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Perspicaz Fernando,</p>
<p>em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.</p>
<p><span id="more-1021"></span>Augusto C. não tem a mais pequena queda para político, mal se lhe entendem as palavras da boca sumida e a sua capacidade de liderança nunca deve ter sido avaliada, para bem dele. O que lhe falta nestas matérias tão desenvolvidas pela ambição dos tantos que querem tomar nas mãos as rédeas da coisa pública, sobra-lhe em perseverança, que dispõe numa quantidade colossal, incalculável mesmo. E que faz o pequeno homem de tez quase negra, boné e uma dificuldade enorme em levantar os pés do chão? Anda! Mas não dá pequenos passeios. Percorre pelo menos uma dúzia de quilómetros diariamente. E porquê? Ao que me contam, costuma responder: “Tenho que ir às compras”. Ninguém acredita muito na explicação, tanto mais que costuma andar com a caixa que fixou por cima da roda traseira da bicicleta quase sempre vazia. Bicicleta? Não anda a pé?? Anda, mas sempre com a uma bicicleta ao lado, daquelas para aí com a idade do 25 de Abril. Em vez de uma bengala, apoia-se nas duas rodas, em cima das quais já deixou de se conseguir equilibrar há que tempos. Anda pela faixa de rodagem, encostado aos passeios, às bermas, e usa um colete reflector verde, igual aos que são obrigatórios para os automobilistas quando ficam empanados ou têm acidentes na estrada.Os dias correm quase sempre iguais: uma viagem de manhã para “ir às compras” com partida do bairro, passagem por outros dois até ao destino. Ali chegadao, bicicleta trancada num daqueles pinocos anti-carros em cima dos passeios. E o cão a guardar. Sim, Agusto C. tem um cão, pequeno como ele, que lhe segue os passos quando devidamente autorizado. Vai à solta, farejando aqui e ali, uma vezes atrás outras à frente, algumas correndo outras deslocando-se com preguiça. Feitas as “compras”, regressa a casa antes da hora do almoço. Quando a viagem decorre em locais com pouco trânsito, o cachorro ostenta um pose mais descontraída e solta, quando os carros surgem ameaçadores cola-se aos pés do dono. Ah, um pormenor nada irrelevante: cada uma destas tiradas é desenvolvida em etapas que terminam e começam metamaticamente nas diversas tabernas e cafés que existem no caminho. Depois de almoço a dose é repetida. E no dia seguinte e no outro e no outro&#8230;<br />
Dirás tu daí: então isso tudo não configurará alguma dependência das escalas nos balcões para “matar a sede” causada pela andança? Então mas se o podia fazer a dezenas de metros de casa, por que raio se sujeita a tamanha e estafante rotina? Uma vantagem tem seguramente: o exercício a que se impõe e que lhe impede a contemplação do mundo a partir de uma cadeira empalhada como é banal noutros reformados da sua geração. Para quem vê e ouve de fora, o resto afigura-se uma espécie de segredo à espera de ser revelado. Que também não deverá ter nada de extraterreno, mas apenas e só alguma necessidade do corpo ou da alma.<br />
Fica o exemplo da persistência e, recorrendo um pouco à imaginação, da convicção. Qual? Não faço ideia. Olha, deve ser porque sim&#8230;</p>
<p>Um insistente abraço</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Uma carta de consolo</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Sep 2009 12:26:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Tenho acompanhado de longe, claramente de longe, a campanha eleitoral aí mas imagino que a ti não te passa pela cabeça o que por aqui vai. A campanha começou no mesmo dia que por essas bandas mas só acaba a 25 de Outubro. E hoje, quase duas semanas depois, ainda não se sabe ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Tenho acompanhado de longe, claramente de longe, a campanha eleitoral aí mas imagino que a ti não te passa pela cabeça o que por aqui vai. A campanha começou no mesmo dia que por essas bandas mas só acaba a 25 de Outubro. E hoje, quase duas semanas depois, ainda não se sabe ao certo quantos são os partidos concorrentes. A política é uma coisa muito gira não é?<br />
<span id="more-1019"></span>A salgalhada por aqui mete a Comissão Nacional de Eleições, o Conselho Constitucional, 19 países e instituições que se fartam de dar para cá dinheiro e uma dezena, coisa pouca, de partidos.<br />
Em resumo, quando se anunciaram as eleições, presidenciais, legislativas e provinciais, que nisso os moçambicanos são mais inteligentes e poupados, apareceram 29 partidos e coligações a concorrer, alguns deles, como aí, só à procura de tempo de antena e de uns dinheiros para ir aguentando a época das chuvas, que está a chegar.<br />
Como é da lei, os partidos submeteram as candidaturas à CNE, que chegou ao fim do processo e chumbou 10. Antes já tinha chumbado uma carrada de candidatos a presidente, mas nisso ninguém ligou, ficaram três, que é uma bonita conta.<br />
Mas com os partidos a coisa fiou mais fina. A CNE disse que não fizeram nada correcto, os partidos que não, que entregaram tudo a tempo e horas, a CNE respigou, os partidos resmungaram e andamos nisto há que tempos.<br />
Acontece que entre os 10 partidos há um, o MDM, que é a coqueluche do momento. Liderado por Daviz Simango, o autarca da Beira tido como modelo, afastado da Renamo por quem tinha ganho, venceu as últimas autárquicas folgadamente, como independente, e fundou o novo partido. Vai a CNE e pimba, diz que concorre sim senhor mas só em quatro dos 11 círculos eleitorais, cortando de uma vez qualquer aspiração de Simango fazer mais uma bela faena.<br />
Eu não sei se teve influência ou não mas o que é facto é que a comunidade internacional, os tais 19 países e instituições, não gostou nada. E uma bela manhã reuniu-se com a CNE e descascou forte e feio no presidente da dita. E foi depois ao Presidente da República e por estes dias deu uma conferência de imprensa a avisar que está atenta. Com que legitimidade? Pois com a legitimidade de quem contribui com mais de metade do orçamento de Estado deste país. Foram eles que disseram.<br />
A CNE mandou a batata quente para o Conselho Constitucional e ela por lá está, a arrefecer, ou aquecer. Até dia 28 será esse órgão que vai dizer quem vai concorrer afinal às eleições e onde.<br />
Avizinham-se dias cinzentos por aqui. Isto sem contar com as constantes notícias de agressões, prepotências, mal-entendidos e parvoíces que estão a rechear estes primeiros dias de campanha. Os feridos já são mais que muitos mas que saiba ainda não houve nenhum morto, embora ontem a imprensa tenha noticiado um, da Renamo, atacado por apoiantes da Frelimo, mas a própria Renamo veio dizer que afinal o homem só tinha desmaiado.<br />
Serve esta carta, portanto, para te desanuviar a tristeza que imagino que essa campanha aí te dá. Quer queiramos quer não, apesar de dizermos que com o mal dos outros podemos bem, sentimos sempre algum conforto em saber que não estamos sós no mundo.</p>
<p>Um abraço solidário</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Maputo de novo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 12:53:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Há um polícia com frio, as pêra abacate em flor e uma bomba de água que morreu durante as minhas férias. Um dia quente, outro cinzento e ventoso e um homem a quem os pais não tinham nome para lhe dar que anda no meu sótão às voltas com a tal bomba.
Maputo de novo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Há um polícia com frio, as pêra abacate em flor e uma bomba de água que morreu durante as minhas férias. Um dia quente, outro cinzento e ventoso e um homem a quem os pais não tinham nome para lhe dar que anda no meu sótão às voltas com a tal bomba.</p>
<p><span id="more-1017"></span>Maputo de novo. Quase como o deixei há um mês, um dia de calor e logo mais outro cinzento, a ameaçar chuva. Foi assim ontem, sem sol todo o dia e uma noite ventosa, tanto que obrigou um polícia a mandar-me parar na Costa do Sol para me dizer, imagina, que estava cheio de frio. E para me dizer também que precisava de tomar um café e que não tinha dinheiro!<br />
Maputo. Onde os polícias ganham miseravelmente e onde por vezes, à noite, fazem operações stop para se queixarem aos automobilistas do frio e da falta de café, sem olharem para o carro e da carteira quererem mais do que a carta de condução.<br />
Fico a pensar quantos cafés teria eu de beber, desde que cheguei a tomar banho de água fria porque a porcaria da bomba morreu na minha ausência e ninguém a avisou.<br />
Ontem mesmo, durante todo o dia, por aqui andou o Sousa, que trabalha cá há mais de 20 anos e que viu nascer dois dos filhos ali mesmo na delegação, no tempo em que ainda não tinha nome e quando um português decidiu que a partir daquele dia se chamaria Sousa, nome que mantém até hoje.<br />
Oficialmente o Sousa chama-se Fulano. Porque ao que parece quando nasceu ninguém estava com imaginação para um nome mais adequado. Ficou Fulano até um dia alguém achar que Fulano não era nome e passou a Sousa. É ele quem há dois dias anda às voltas com a bomba, embora eu ache que água só lá para a semana.<br />
Maputo. Do frio policial, dos cafés, da água e do champanhe. Ocorre-me falar dele porque ainda ontem imaginava que aqui algum ministro mais atarefado é capaz de chegar à hora de almoço já bêbado. Quantas mais coisas inaugurar, mais protocolos assinar e mais cerimónias presidir mais bêbado estará. Porque por aqui não há cerimónia que não termine com um brinde de champanhe.  Há tempos dizia-me um amigo, que nem é ministro nem secretário de Estado, que tem vezes que chega à hora de almoço com três ou quatro copos. Imagino um ministro, numa altura destas de eleições, com tantas coisas para inaugurar e tantas cerimónias para participar.<br />
Na próxima carta falo-te do álcool. Porque Maputo é também a cidade dos acidentes, das bebedeiras ao volante e da falta de civismo na estrada. Enquanto a polícia bebe cafés.</p>
<p>Um abraço</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Flash de um 15 de Agosto</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 15:33:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Refastelado Fernando,
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-1008" title="Tarde de Verão" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Tarde-de-Verão-225x300.jpg" alt="Tarde de Verão" width="305" height="406" /></p>
<p>Refastelado Fernando,<br />
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo mais intenso do que no resto do ano. Registei o quadro que te envio.</p>
<p><span id="more-1007"></span>Nem tudo é samba, nem corridinhos, nem rock n´roll. Há quem se entregue às baladas ou ao swing, como no resto do ano. Na rua, no meio dos prédios. Com serenidade. Agosto não é só fugir para o caos ainda maior do que nos restantes meses. Pode ser assim, disfrutado com alma, no coração da capital. Se fosse fazer a comparação, a mulher ganhava destacada. Está a ler um livro sentada num banco de jardim, perna cruzada, jeans, ténis vermelhos a condizer com a camisola. Tem rabo de cavalo e os movimentos que faz resumem-se ao passar da página. Não me atrevo a tentar adivinhar que história lhe está a encher a alma. Seja qual for, é prazenteira, absorvente. Deixa-a quase inamovível. Está num banco de jardim, daqueles clássicos, de madeira. Virada a Norte, ao fresco, um acanhado relvado pela frente. O Verão que corra e que abrase. Uma tarde de estio há-de continuar a ser o que uma mulher quiser. Com o seu livro.<br />
Ele está a 20 metros mas não se vislumbram. A atenção recai-lhe em jornais de fim-de-semana. Há mais impaciência, um ler mais frenético, marcado pelas aspiradelas em cigarrilhas. Apaga-se uma e logo outra é acendida. O fumo entrai e sai logo, sem tempo para ser apreciado. Tudo decorre num ritmo mais nervoso do que do outro lado da esquina. Sentado num degrau de cimento, o homem parece cumprir um ritual apenas num local diferente. De calções, sandálias, seja lá como for, o mundo não pode passar ao lado. Os negócios, as eleições que se avizinham,  as guerras, a bolsa, jamaois poderão esconder segredos. Nem no dia em que o país mais romarias contabiliza e a acumulação de gente a tentar esquecer o resto do ano confirma uma vulgaridade:  a bela da vida não pára nem no 15 de Agosto.</p>
<p>Um despreocupado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Carne é…crime???</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 10:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Omnívoro Fernando,
anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-1003" title="3699569913_9698cd9d26" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/3699569913_9698cd9d26-300x225.jpg" alt="3699569913_9698cd9d26" width="406" height="303" /></p>
<p>Omnívoro Fernando,</p>
<p>anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso e andam a recolher assinaturas de…outras pessoas. Assim à primeira vista, parece meritório. Se tentarmos ver para além da cortina de fumo, não encontro benevolência na atitude.</p>
<p><span id="more-1002"></span>Há dias dei de caras com uma frase escrita que me causou perplexidade e se afigura como reveladora da intolerância que cada vez ameaça mais o grupo de animais que constitui a nossa civilização. Assim de rompante, aquilo até não se entendia, mas o local onde fora escrita com uma lata de spray esclarecia o alcance da coisa. “Carne é crime”, lia-se na caixa frigorífica de uma carrinha de onde um homem vestido de braço descarregava carcaças de porco para um talho, numa rua de Lisboa. Franzi a sobrancelha. Por outras palavras, o que estava ali dito era que quem come carne é criminoso. É o meu caso. Ora essa! Eu que sempre me considerei um zelador dos interesses dos muitos animais com que já convivi na vida estaria da iminência de ir parar à cadeia se o escriba daquela frase conseguisse arregimentar subscritores para o disparate com que esborratara a camioneta da distribuição de carne? Corro riscos se for apanhado a comer uma coxa de frango por perspectiváveis brigadas de zeladores famintos por encontrar uma proteína animal num prato, como talibã em busca de tornozelo feminino? Não posso crer, mas quem não quer ver mais do que a vista alcança cai nestes ridículos. Fundamentalismos não existem só lá para a Ásia ou aí em África, onde em nome dos bons costumes há uns senhores a reprimirem povos a seu belo proveito, em nome da moral deles. Aqui, assim, vamos pelo mesmo caminho. Defendo onde for necessário que quem tenha um cão ou um gato fechados num apartamento não gosta deles. Criou-se a “moda” dos animais domésticos, com o alto patrocínio dos fabricantes de rações – um dos grandes negócios legais da actualidade – e houve um grupo de bem pensantes que arranjou logo argumentos para justificar todas as torturas necessárias para suportar os ditos animais de companhia. A pior de todas é a castração: sem poderem procriar, animais transformados em peças decorativas perdem a sua principal razão de existir. Isto nunca ouvi da boca de um defensor dos direitos dos animais. Mas quero crer que haja quem o afirme, em nome da civilização, pelo menos. Implícito na atitude de quem diz que consumir carne é crime está o sofrimento infligido pelos humanos aos seres vivos, em geral. E o mundo só não se tornará uma prisão gigantesca porque morreremos todos antes…à fome. Não posso crer que gente tão preocupada com o sofrimento alheio possa admitir que se “mate” uma couve ou permita que se cometa a barbaridade de arrancar uma maçã da árvore. Quando penso nisto tudo, ocorrem-me logo as centenas de mosquitos que se esmagaram (fui eu que os esmaguei!) contra a frente do meu carro. Atendendo ao número, não me livraria da pena máxima. É fraco o consolo, mas folgo saber que ninguém se livrará de tais grilhetas. Não haverá pobres nem ricos nesta justiça. Um exemplo: o que aconteceria ao Cristiano Ronaldo depois de passar 90 minutos a esmagar e arrancar a relva de um estádio?</p>
<p>Um sensato abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>A rainha e o artista</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 12:38:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Hoje venho falar-te de duas pessoas mas descansa que tenho aí, para breve, uns animais em que quero descascar. Mas hoje estes não. São pessoas pessoas, ele era deputado aqui na Assembleia da República de Moçambique, presidente da Comissão de Luta contra a Sida e cantor, entre mil outros afazeres. Ela também era deputada, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Hoje venho falar-te de duas pessoas mas descansa que tenho aí, para breve, uns animais em que quero descascar. Mas hoje estes não. São pessoas pessoas, ele era deputado aqui na Assembleia da República de Moçambique, presidente da Comissão de Luta contra a Sida e cantor, entre mil outros afazeres. Ela também era deputada, da bancada da oposição, a Renamo, e vive em Nampula, quando a Assembleia está fechada. E é a rainha de Nampula.<br />
<span id="more-999"></span>Encontrei-me com os dois há poucas semanas, em momentos diferentes porque Renamo e Frelimo são como cão e gato, na Assembleia, e estou hoje aqui a falar-te deles porque, cada um à sua maneira, são pessoas que me fizeram sentir um privilegiado de os conhecer.<br />
Ele veste bem, clássico, fato e gravata de bom gosto, corte moderno, sapatos bem engraxados. Ela de capulana e lenço na cabeça, roupa tradicional de Nampula, chinelos que se descalçam quando se senta no sofá de uma das salas da Assembleia, onde também existe um piano que ele toca.<br />
Ela cresceu em Nampula, filha de rainha, e ocupou o cargo quando a mãe morreu, numa terra onde ainda hoje o poder tradicional tem tanta importância que às vezes se sobrepõe às normas que Maputo dita. Ele nasceu na Beira, licenciou-se em Lisboa e é professor de sociologia na Universidade, além de ser dos mais conhecidos membros da Frelimo, porque também canta e toca, ainda que seja cego desde os seis anos.<br />
Isaú Menezes ele, Irene Joaquim ela, esta semana a última como deputados, porque a Assembleia fechou portas e há eleições em Outubro.<br />
Isaú já disse que não se importa, que aliás até pediu para não vir nas listas da Frelimo, porque quer dedicar-se mais à vida académica e porque quinze anos de Parlamento já chegam. Hoje com 47 anos, Isaú é regente da cadeira de Sociologia Urbana no Instituto Superior de Ciências Técnicas de Moçambique, quer escrever livros e ter tempo para fazer música e dar concertos, talvez gravar mais um disco, o sétimo.<br />
É um homem de bem com a vida e ser cego parece não o incomodar em nenhum destes afazeres. “Costumo dizer que cada um vê como pode. Há várias maneiras de me aperceber da natureza que me rodeia, das pessoas que lidam comigo, das tristezas, alegrias, amores. Dá para escrever, e depois de escrever dá para musicar o poema”.<br />
É assim o Isaú, desenrascado, mesmo quando foi para Lisboa estudar, horas e horas em transportes públicos, entre a Avenida de Berna e a Parede, passagem por Campo de Ourique onde aprendeu música.<br />
Hoje, quando lhe pergunto se nunca pensou em saber ao menos se a sua cegueira podia ser tratada, fica em silêncio um bom bocado. E depois responde-me assim: “Uma vez perguntaram-me se não queria ir fazer uma operação. Agradeci mas pelo tempo que fiquei sem ver, se passo a ver agora fico analfabeto, completamente. Passei a vida a ler em Braille, dos 12 aos 47 anos. Se passo a ver agora, do gatafunhado todo que se faz com a esferográfica não vou perceber nada. Ficaria muito difícil adaptar-me agora”.<br />
Pronto. Fico mudo a esta lógica.<br />
Irene. A Irene também não se importa de ficar por Nampula, até porque lá é bem tratada e respeitada e aqui, na Assembleia, diz que a até a pisam e empurram. Os deputados da Frelimo, claro está, e sem pedir desculpa.<br />
Consola-a saber que deputada é uma vez mas rainha será toda a vida. Mulher de olhar doce, uma voz suave suave, Irene representa o poder tradicional de Nampula, uma província outrora gerida por régulos e rainhas, que se hoje não têm qualquer poder formal ainda são ouvidos e respeitados pela populações.<br />
Irene tem seis filhos lá para o norte, terra onde deve estar agora que o Parlamento fechou. Imagino-a já, aparência calma e ar frágil, sentada numa sala, rodeada de gente, dando conselhos, escutando opiniões, discutindo sobre a maneira de melhor educar as crianças, ou talvez sobre como a Renamo pode ganhar as próximas eleições, essa uma tarefa mais difícil.<br />
Filha e neta de régulos e rainhas, nos tempos em que eram eles quem detinha a autoridade, Irene ainda se lembra: “A minha mãe, o meu avô, resolviam os problemas em casa deles. Agora as pessoas pedem opinião e eu indico a maneira de fazer, mas se é uma coisa que custa muito encaminho para esquadra ou para o tribunal. Mas resolver problemas só os secretários de bairro”.<br />
Em províncias rurais, como a de Nampula, o poder tradicional ainda é muito influente, apesar de o governo comunista o ter tentado destruir. Com a abertura política foram retiradas as acusações de conluio de régulos com o colonialismo e hoje é de novo notória a influência desse pequeno poder. É a própria rainha de Nampula quem me diz que hoje o seu poder é nulo, que apenas pode aconselhar e que as autoridades locais na província, embora respeitem o poder tradicional, não se reúnem com ele nem “o deixam trabalhar à vontade”.<br />
Mas é “rainha até morrer”, pelo poder que lhe vem dos tempos de antes dos colonos, do régulo Napula, que deu os terrenos aos portugueses para eles construírem uma cidade. E uma das suas filhas vai continuar a tradição.<br />
Sobre o futuro não sabe. Pode ser que volte ao Parlamento mas não está preocupada. “Depois da campanha, se Deus quiser posso voltar para aqui, se não quiser vou sentar a capinar. Tenho machamba grande. Trabalho como outros, para ser respeitada não posso me exibir como uma rainha”.<br />
Pronto. Fico outra vez mudo a esta lógica.<br />
É assim, caladinho, que te mando um abraço.</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Nós e bichos</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jul 2009 17:44:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Racional Fernando,
histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-991" title="Gaivota" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/Gaivota-300x225.jpg" alt="Gaivota" width="243" height="183" /><img class="alignleft size-medium wp-image-992" title="pardal3" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/pardal3-300x225.jpg" alt="pardal3" width="243" height="182" /></p>
<p style="text-align: left;">Racional Fernando,</p>
<p style="text-align: left;">histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em cortar a relação porque eles não estão interessados nisso.</p>
<p><span id="more-989"></span>- Manhã de domingo, Bairro de Campanhã, no Porto. Pouca gente na rua. Há um movimento anormal de gaivotas naquele local da cidade. Andam agitadas, com aquele ar faminto de sempre, de quem não há peixe que as sacie. Uma poisa no meio da rua. Estranho. Reparo melhor e a ave está no centro de um triângulo imaginário. Passam carros à direita à esquerda e por trás. Mas onde ela está, não. Se o fizessem colidiam uns com os outros ou contra as paredes das casas. E o pássaro parece plenamente consciente disso. Não se assusta. Domina aquela situação de uma forma que só não é perfeita porque denota algum nervosismo. Mas o que a deixa intranquila não são os carros que passam a dois ou três passos de distância. O motivo da agitação que revela está em cima do passeio. Dois alguidares com sardinhas pequenas vigiados pelas respectivas peixeiras. São aquelas vasilhas reluzentes que levam a ave a procurar a segurança no meio do trânsito, para onde não vão nem carros nem pessoas e a deixam a meia dúzia de metros do alvo. Não vi, mas não me espantaria nada que se uma das mulheres virasse a cabeça uns instantes o alguidar seria alvo de um ataque picado e ficaria sem uma sardinha, pelo menos. As outras gaivotas que se agitam são menos ousadas. Não desgrudam das sardinhas, mas fazem-no pousadas em candeeiros da rua, beirais de telhados. De lá de cima até aos alguidares o voo acaba por ser mais demorado e exige mais perícia do que estar ao nível do alvo e bastar um bater de asas para anular os poucos metros de rua que separam o pássaro das sardinhas. Tirei uma fotografia que te mostro ao lado.<br />
- “Vai ver o rio, porque a água lava tudo”. Vindo de quem veio, o conselho foi cumprido de imediato. Estava uma bela tarde de Verão, sem muito calor nem muita gente perto do Tejo. Levo leitura e entro numa esplanada semi-fechada, com cobertura, vidros à volta. Entra o cheiro mas não se sente o vento, abunda a luz mas o sol fica lá fora. O olhar dirigido para a leitura pressente algo a mexer-se no chão, junto aos meus pés. Terei visto mal? Foi uma daquelas sugestões falsas que nos podem ocorrer? Estarei com visões? Não…Mal precisei desviar o olhar para a direita para perceber o que vera mexer junto aos meus sapatos: um pardal. Vai saltitando por ali e olha-me quando me mexo lentamente para tirar do bolso a máquina fotográfica. Estancamos os dois. Ele desconfiado, eu a pedir-lhe que me deixe registar o momento. Recusou e voou por cima das cabeças das poucas pessoas na esplanada e pousa ao fundo, na divisória que separa o espaço da rua. Esqueço o pássaro e regresso aos jornais ou ao livro, não me recordo. Não teriam passado cinco minutos e…ops! Algo atravessa o ar e pisa em cima da minha mesa, na outra ponta. O mesmo pardal. Um macho com penas de quem já criou muitas ninhadas e sabe que por ali costuma haver migalhas. Fica quieto, dá um salto e poisa nas costas da cadeira que está à minha frente, alsa as penas do rabo e pimba! Uma cagadela branca fica a escorrer por ali abaixo à espera que cliente distraído a vá limpar com as costas. E voa de novo. Atrevido! Fotografias nem pensar…Só quando regressou à terceira vez é que lá me deixou fazer uns disparos tremidos e com pouca luz. Mesmo assim, deixo-te ao lado o retrato possível daquele momento.<br />
- A manhã está serena, e até ali naquele local ventoso nem as folhas mexem. Sabe sempre ver-se o Atlântico dali de cima. Até há umas mesas com vista sobre o oceano. Outras estão encobertas pela vegetação, que não deixa ver o azul. Entre o que está em cima da mesa encontra-se um sumo de laranja natural. Ainda só tinha ocorrido o gole de estreia quando se aproxima a grande velocidade uma vespa, rodopia uma ou duas vezes, à lai de reconhecimento, certifica-se que tem ali um alvo agradável e poisa no bordo do como. Gritos, sustos, aquela reacção comum que muitos humanos têm a insectos minúsculo se pouco mais do que inofensivos. “Uma abelha, uma abelha”. A vespa não se ofende por a confundirem com as suas parentes que nos dão mel nem se importa nada com a reacção ruidosa que causou. Vira a cabeça para dentro do copo, rabo alçado e ali vai ela, num rápido mergulho fica a barafustar à tona do sumo de laranja. As asas molhadas impedem-na de voar e deixam-na quase indefesa. Tudo o que conseguiria fazer era dar uma ferroada se alguém se pusesse a jeito. Mas não. Agarra-se à ponta de um guardanapo que lhe deitam traiçoeiramente e desconhece que está ser levada para a morte. Uma sacudidela atira-a para o chão e um pé rápido termina a história do insecto atrevido.<br />
- Julgo que eram uns besugos grelhados que estavam a deixar deliciado a horas tardias para almoçar. O restaurante singelo estava quase vazio como gosto. Pressinto outra vez pelo canto do olho que algo de menos normal anda ali pelo chão. Ergui a cabeça e lá a vi: uma pomba a limpar o chão do estabelecimento em altura de arrumações. Bica quase tudo o que distingue no chão claro. Nada lhe distrai o olhar, no que parece ser uma corrida contra a tempo. Até que algo lhe faz disparar o alarme e de um salto já está voar por cima das cabeças em direcção à porta. Passa à tangente, guina como aqueles aviões das corridas aéreas, para acertar na saída. Escasso minutos depois regressa a pé. Continua a tarefa de recolher do chão tudo o que possa ingerir. “Que bela empregada de limpeza aqui tem! A seco e sem levantar pó…”. A patroa sorri mas não arrisca qualquer resposta. Animais em restaurantes têm que entrar já mortos.</p>
<p>Um abraço voador</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Breve relato de um apagão</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:29:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Discreto Fernando,
entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-982" title="escuridao" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/escuridao-300x225.jpg" alt="escuridao" width="300" height="225" />Discreto Fernando,</p>
<p>entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta não passava despercebida, embora fosse magra, pernas e braços finos. Andava em cima de umas sandálias muito altas e pretas também. Parecia muito elegante. Ele não encaixava ali. Usava fato claro sem gravata, camisa às riscas, semi-calvo como um frade franciscano, grisalho.</p>
<p><span id="more-983"></span>Levaram-lhes duas flutes com uma bebida que poderia ser vinho branco, champanhe. Sempre calados. Ela sabia estar, como costumam dizer. Ele não estava cómodo naquela farda. De repente apaga-se a luz, volta, desaparece de novo e o ambiente não se esvai também porque há umas luzes de presença. A penumbra instala-se.<br />
Quando finalmente aconteceu o que esperavam e vagou uma mesa, sentaram-se, e o silêncio também. Pareciam não ter nada para dizer, nem para olhar, nem para tocar. Deve ter sido quando ele reabasteceu pela segunda vez os copos de vinho tinto que se começaram a ouvir duas vozes opostas. Ela possante, projectada, fazendo-se ouvir com uma clareza e determinação invulgares. Ele a mastigar as palavras antes de as libertar, a comer-lhes quase metade antes de as dizer pelos lábios semicerrados. Aparentemente nervoso. Toca o telefone e ele  começa a falar de impostos, que lhe tinham feito um acerto no IRS e tinha que pagar 2.000 euros. Que era de há alguns anos. Falhou alguma coisa, ficaram facturas por entregar, porquê agora? Do outro lado devia estar o contabilista. A conversa enveredou por caminhos que pediam privacidade. Levantou-se e foi para a rua. O telefone dela toca. “Oi”, disse com sotaque inimitável. “Tou com ele. Você tá onde? Depois eu ligo, tá? Xau”. Ele regressa ainda a falar e com a mesma conversa do imposto, a sublinhar sempre o descontentamento com o desembolso.<br />
No espaço domina a falta de luz e as razões para tanto. Sem televisão, as conversas ganham outra visibilidade. Diz ele: “Eu só quero ser livre”. Responde ela: “Você precisa é ser amado&#8230;” e, uns instantes depois, toma definitivamente as rédeas da conversa: “Eu sou uma mulher resolvida!” Ele não, portanto. Já tinham andado pela religião, a debater quem foi o Adão e a Eva. O suposto empresário a tentar ser informal e a dizer que várias religiões reconheciam que tudo começou mesmo com o tal casal, ela a tentar contrariá-lo e a puxar a conversa para um terreno escorregadio: “É preciso acreditar, ter fé&#8230;”. Ele, homem de números e de contas, quase a estrebuchar, ela a fazê-lo cair “na real”: “Hoje lhe passei dez camisas”. E fez-se luz. O multibanco regressou e eles lá ficaram.</p>
<p>Um desinteressado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Dançando à beira do abismo</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Jun 2009 09:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que não se suicidam, e confesso-te que até perderam para mim uma certa magia. Voltei a lembrar-me deles aqui. Os moçambicanos fazem-me lembrar a história, a antiga, dos lêmingues. Só que sem magia.<br />
<span id="more-980"></span>Já aqui te falei das crianças de Marracuene, quase todas órfãs de vítimas de Sida. Já vi as novas curvas de mortalidade, como revelam esse fenómeno, já vi números aterradores, e acho que Moçambique dança à beira do abismo.<br />
Agora em Julho o governo vai lançar outro plano de emergência, porque os números continuam cada vez mais altos, especialmente aqui no sul do país, onde 21 em cada cem pessoas entre 15 e 49 anos está infectada. Imaginas o que isto é? E não penses que no resto do país a situação é muito melhor: 16 por cento.<br />
A primeira-ministra ainda há pouco mais de uma semana se confessava alarmada. E não é para menos. Segundo as projecções oficiais, Maputo cidade tem uma taxa de infecção de 23 por cento e deverá chegar aos 29 por cento. A província está com 26 por cento, com previsões de 34 por cento a curto prazo. A continuar assim não tarda nada metade da província de Maputo está com Sida.<br />
E a Sida não é um mal das cidades. Gaza, também aqui no sul, tem uma taxa de infecção por HIV de 27 por cento, número que segundo cálculos das autoridades sanitárias moçambicanas deverá chegar aos 35 por cento. E Inhambane vai pelo mesmo caminho.<br />
Em todo o país, que tem 20,3 milhões de habitantes, morrem em cada ano 16 mil funcionários públicos devido à Sida. Dos actuais 160 mil trabalhadores do aparelho de Estado 25 por cento estão infectados. E aqui mesmo, nesta cidade, em cada dia, surgem 500 novas infecções. Quinhentas.<br />
E que fazem os moçambicanos? Com estes números que achas que estão a fazer? Além do que estás a pensar não estão a fazer nada, parece-me óbvio.<br />
Num país onde jovens se prostituem por “um prato de comida”, onde às sextas-feiras, “noite dos homens”, eles saem “à caça” com o beneplácito das respectivas esposas, onde é normal um homem ter várias mulheres, onde é normal uma mulher ter amantes, onde o homem é incentivado a ter de preferência várias, onde uma dança numa festa de bairro leva a uma caso de ocasião numa esquina ou no banco de trás de um automóvel, ainda há quem pense que a Sida se cura tendo relações com uma mulher virgem. Ainda há quem troque os antiretrovirais pelos curandeiros.<br />
Dizia Nietzsche, aconselhava, que não se deve olhar muito tempo para dentro do abismo, porque o abismo começa a olhar para nós também. A sensação que tenho é a que os moçambicanos estão a dançar à beira do abismo e a olhar para ele. A dançar a cantar e a saltar.<br />
Os meus lêmingues não fariam melhor.<br />
Um abraço.<br />
Fernando Peixeiro</p>
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