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	<title>Atlântico expresso</title>
	
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	<description>Um mar de palavras e memórias</description>
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		<title>Breve relato de um apagão</title>
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		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/breve-relato-de-um-apagao/2009/07#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 16:29:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Discreto Fernando,
entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-982" title="escuridao" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/escuridao-300x225.jpg" alt="escuridao" width="300" height="225" />Discreto Fernando,</p>
<p>entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta não passava despercebida, embora fosse magra, pernas e braços finos. Andava em cima de umas sandálias muito altas e pretas também. Parecia muito elegante. Ele não encaixava ali. Usava fato claro sem gravata, camisa às riscas, semi-calvo como um frade franciscano, grisalho.</p>
<p><span id="more-983"></span>Levaram-lhes duas flutes com uma bebida que poderia ser vinho branco, champanhe. Sempre calados. Ela sabia estar, como costumam dizer. Ele não estava cómodo naquela farda. De repente apaga-se a luz, volta, desaparece de novo e o ambiente não se esvai também porque há umas luzes de presença. A penumbra instala-se.<br />
Quando finalmente aconteceu o que esperavam e vagou uma mesa, sentaram-se, e o silêncio também. Pareciam não ter nada para dizer, nem para olhar, nem para tocar. Deve ter sido quando ele reabasteceu pela segunda vez os copos de vinho tinto que se começaram a ouvir duas vozes opostas. Ela possante, projectada, fazendo-se ouvir com uma clareza e determinação invulgares. Ele a mastigar as palavras antes de as libertar, a comer-lhes quase metade antes de as dizer pelos lábios semicerrados. Aparentemente nervoso. Toca o telefone e ele  começa a falar de impostos, que lhe tinham feito um acerto no IRS e tinha que pagar 2.000 euros. Que era de há alguns anos. Falhou alguma coisa, ficaram facturas por entregar, porquê agora? Do outro lado devia estar o contabilista. A conversa enveredou por caminhos que pediam privacidade. Levantou-se e foi para a rua. O telefone dela toca. “Oi”, disse com sotaque inimitável. “Tou com ele. Você tá onde? Depois eu ligo, tá? Xau”. Ele regressa ainda a falar e com a mesma conversa do imposto, a sublinhar sempre o descontentamento com o desembolso.<br />
No espaço domina a falta de luz e as razões para tanto. Sem televisão, as conversas ganham outra visibilidade. Diz ele: “Eu só quero ser livre”. Responde ela: “Você precisa é ser amado&#8230;” e, uns instantes depois, toma definitivamente as rédeas da conversa: “Eu sou uma mulher resolvida!” Ele não, portanto. Já tinham andado pela religião, a debater quem foi o Adão e a Eva. O suposto empresário a tentar ser informal e a dizer que várias religiões reconheciam que tudo começou mesmo com o tal casal, ela a tentar contrariá-lo e a puxar a conversa para um terreno escorregadio: “É preciso acreditar, ter fé&#8230;”. Ele, homem de números e de contas, quase a estrebuchar, ela a fazê-lo cair “na real”: “Hoje lhe passei dez camisas”. E fez-se luz. O multibanco regressou e eles lá ficaram.</p>
<p>Um desinteressado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Dançando à beira do abismo</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Jun 2009 09:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que não se suicidam, e confesso-te que até perderam para mim uma certa magia. Voltei a lembrar-me deles aqui. Os moçambicanos fazem-me lembrar a história, a antiga, dos lêmingues. Só que sem magia.<br />
<span id="more-980"></span>Já aqui te falei das crianças de Marracuene, quase todas órfãs de vítimas de Sida. Já vi as novas curvas de mortalidade, como revelam esse fenómeno, já vi números aterradores, e acho que Moçambique dança à beira do abismo.<br />
Agora em Julho o governo vai lançar outro plano de emergência, porque os números continuam cada vez mais altos, especialmente aqui no sul do país, onde 21 em cada cem pessoas entre 15 e 49 anos está infectada. Imaginas o que isto é? E não penses que no resto do país a situação é muito melhor: 16 por cento.<br />
A primeira-ministra ainda há pouco mais de uma semana se confessava alarmada. E não é para menos. Segundo as projecções oficiais, Maputo cidade tem uma taxa de infecção de 23 por cento e deverá chegar aos 29 por cento. A província está com 26 por cento, com previsões de 34 por cento a curto prazo. A continuar assim não tarda nada metade da província de Maputo está com Sida.<br />
E a Sida não é um mal das cidades. Gaza, também aqui no sul, tem uma taxa de infecção por HIV de 27 por cento, número que segundo cálculos das autoridades sanitárias moçambicanas deverá chegar aos 35 por cento. E Inhambane vai pelo mesmo caminho.<br />
Em todo o país, que tem 20,3 milhões de habitantes, morrem em cada ano 16 mil funcionários públicos devido à Sida. Dos actuais 160 mil trabalhadores do aparelho de Estado 25 por cento estão infectados. E aqui mesmo, nesta cidade, em cada dia, surgem 500 novas infecções. Quinhentas.<br />
E que fazem os moçambicanos? Com estes números que achas que estão a fazer? Além do que estás a pensar não estão a fazer nada, parece-me óbvio.<br />
Num país onde jovens se prostituem por “um prato de comida”, onde às sextas-feiras, “noite dos homens”, eles saem “à caça” com o beneplácito das respectivas esposas, onde é normal um homem ter várias mulheres, onde é normal uma mulher ter amantes, onde o homem é incentivado a ter de preferência várias, onde uma dança numa festa de bairro leva a uma caso de ocasião numa esquina ou no banco de trás de um automóvel, ainda há quem pense que a Sida se cura tendo relações com uma mulher virgem. Ainda há quem troque os antiretrovirais pelos curandeiros.<br />
Dizia Nietzsche, aconselhava, que não se deve olhar muito tempo para dentro do abismo, porque o abismo começa a olhar para nós também. A sensação que tenho é a que os moçambicanos estão a dançar à beira do abismo e a olhar para ele. A dançar a cantar e a saltar.<br />
Os meus lêmingues não fariam melhor.<br />
Um abraço.<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Uma queda em Serralves</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 19:18:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Viajado Fernando,
fui ao Porto! À Invicta, isso mesmo. E nada de trabalho: foi mesmo passeio e contemplação puros. Num domingo encalorado, o Sol estava escaldante, como se pairasse ali logo por cima da Rotunda da Boavista.
 Era olhar em volta e ver as pessoas a entrar no Metro de calções, chinelos e toalha ao ombro. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-971" title="porto" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/porto1-300x199.jpg" alt="porto" width="300" height="199" />Viajado Fernando,<br />
fui ao Porto! À Invicta, isso mesmo. E nada de trabalho: foi mesmo passeio e contemplação puros. Num domingo encalorado, o Sol estava escaldante, como se pairasse ali logo por cima da Rotunda da Boavista.</p>
<p><span id="more-970"></span> Era olhar em volta e ver as pessoas a entrar no Metro de calções, chinelos e toalha ao ombro. Ignorante na geografia local, arrisco que iriam para a Foz ou para os areais de Matosinhos. Mas eu optei mesmo pela urbe quase deserta.<br />
Há 12 anos que estou encarregue de formar um homem e achei que estava na altura de ele conhecer uma terra cujos mistérios eu não domino. Ficámos os dois pela rama, mas outras incursões não são de excluir e o aprofundamento necessário há-de acontecer um dia. Deixa-me garantir-te, Fernando, que o Porto está uma cidade diferente da que conheci há mais de dez anos atrás. Para melhor. Em determinada altura, quando tinha disponibilidade profissional e acreditavam que eu tinha algum jeito para entusiasmar jovens estudantes que  queriam ser jornalistas, a segunda maior cidade do país era mais cinzenta. Embora mantenha as cores acastanhadas a que nós aqui pelo Sul não estamos habituados, mas que vincam a diferença e a diversidade que tanto nos enriquecem (e a mim muito me orgulham) quando viajamos no nosso país. Limpa, descontraída, suave no sentir, desejosa pela postura das pessoas. Não me vou alongar com os retratos da Ribeira, esplenderosa, apesar da plantação de antenas parabólicas, nem com os jovens que se atiram ao Douro da Ponte D. Luís. Os barcos, rio abaixo, rio acima, muito menos com as pataniscas de polvo que me caíram do prato, a estrear. Prefiro antes contar-te que estar na principal sala da Casa da Música, apenas a observar, remete a imaginação, com um estalar de dedos, para grandiosos espectáculos. A imensidão e a modernidade estão ali acasaladas de uma forma bem sugestiva. Tem alma aquele espaço. Gosto de edifícios arrojados, daqueles que nos trocam as voltas e nos surpreendem a cada ângulo. Ali quase não se respira por tanto arrojo. Bonita e desconcertante, garanto-te eu que é a Casa da Música. E por aqui me fico, que de arquitectura sei tanto como um sapateiro de pescar sardinhas.<br />
O resto teria que ser a Fundação de Serralves, obviamente. Mas aqui confesso-te que esperava mais aprumo, menos seguranças e mais profissionalismo numa visita que acabou atribulada. Verdade que as vacas da quinta estão bem tratadas, simpáticas até, proporcionando aquele som surdo e delicioso de quem saboreia palha desenchabida a dente queixal, o cavalo agradece as festas na testa, mas&#8230; há ali um abandono naqueles 18 hectares de verde que sobrevivem no meio da cidade que não me deixaram nada descansados. Pois, as exposições, os quadros, as esculturas, os traços de Siza Vieira&#8230;Só que aquele mundo de campo bem que podia estar mais cuidado. E quando se vai a uma instituição que quer ser emblemática, espera-se e exige-se mais aprumo, afirmação.<br />
E quero que acredites, porque é a pura da verdade, que já tinha pensado nisto tudo quando me aconteceu um acidente impensável. Fomos matar a sede que resistia à água da torneira da casa de banho na quinta quando caí da cadeira. Assim mesmo, como o Salazar que nos amesquinhou neste jeito em que sobrevivemos de nariz de fora. Um rapaz corpulento e com cara de poucos amigos anuiu à possibilidade de nos servir na esplanada, escolhemos as únicas duas cadeiras que garantiam sombra e ainda não se tinham cumprido 30 segundos e já eu sentia o mundo a desabar-me debaixo do traseiro. A cadeira esparrameirou-se por completo debaixo dos meus magros 78 quilos, e eu, sem rasgo de pára-quedista, fiz como o pintor que quando sente o escadote a resvalar se agarra com força ao pincel. Acabei com uma mão entatalada e pressionada pelo meu próprio peso. Não entrei em pânico, apesar de só ter ouvido gargalhas à minha volta e ver o meu filho a ficar branco como a pintura da parede. Eu, que costumo agradecer com muito convicção a quem ajuda desinteressadamente, acabei a erguer-me, pelos meus próprios meios. Houve depois um folhetim menos agradável e não recomendo a ninguém que arrisque cair das cadeiras da Fundação de Serralves. Temi ter um dedo partido pelo que senti. Felizmente, não aconteceu. Deixo-te o recado: se fores a Serralves, vê bem onde te sentas.</p>
<p>Um tripeiro abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Forbidden</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 09:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[
Caro amigo,
a coisa começou por ser de vez em quando mas agora piorou. Quanto tento entrar na nossa página de correspondência a Internet não me deixa.
Já não me bastava o computador cheio de vírus, desde que cá cheguei. Já não me bastava ter instalado um sistema wireless e passada uma semana em vez de páginas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1 style="margin-left: 0pt; margin-right: 0pt;"><span style="font-family: 'Times New Roman';"><span style="font-size: small;"><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-963" title="forbidden" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/forbidden-300x89.jpg" alt="forbidden" width="300" height="89" /></span></span></h1>
<p>Caro amigo,<br />
a coisa começou por ser de vez em quando mas agora piorou. Quanto tento entrar na nossa página de correspondência a Internet não me deixa.</p>
<p><span id="more-961"></span>Já não me bastava o computador cheio de vírus, desde que cá cheguei. Já não me bastava ter instalado um sistema wireless e passada uma semana em vez de páginas da Internet aparecem-me coisas com piada como “você não tem inteligência para aceder a esta página” ou “a Internet fechou”, graças a um cavalito de tróia bem humorado, que se instalou e agora não quer sair.<br />
Percebes tu alguma coisa disto? Que achas que devo fazer quando quero ver as tuas cartas e me aparece esta mensagem?<br />
Forbidden</p>
<p>You don&#8217;t have permission to access / on this server.</p>
<p>Additionally, a 403 Forbidden error was encountered while trying to use an ErrorDocument to handle the request.</p>
<p>Apache Server at atlantico-expresso.net Port 80</p>
<p>E agora? Parto o computador à cabeçada? Corto os pulsos?</p>
<p>Vou ao Kruger no fim-de-semana. Trago-te um elefante, se tiveres jardim para ele. Um crocodilo? Banheira? Uma simples girafinha? Levo-te um hipopótamo até. Tens é de me prometer que falas aí com Apache Server e lhe perguntas porque é que eu estou proibido de entrar na nossa página. É como se me proibissem de entrar na minha casa. E já agora pergunta-lhe se não está a precisar de um cavalinho.</p>
<p>Um abraço, bom fim-de-semana</p>
<p>Fernando Peixeiro</p>
<div class="feedflare">
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</div><img src="http://feeds.feedburner.com/~r/atlantico-expresso/~4/OJRWqk8kiks" height="1" width="1"/>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Um grande monte de bosta</title>
		<link>http://feedproxy.google.com/~r/atlantico-expresso/~3/d8R7pSnN-1U/06</link>
		<comments>http://atlantico-expresso.net/mocambique/um-grande-monte-de-bosta/2009/06#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2009 13:41:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://atlantico-expresso.net/?p=959</guid>
		<description><![CDATA[Caro amigo
Sabias tu que, no futuro, a linha de costa em Moçambique pode recuar até 500 metros? E que a barragem de Cahora Bassa pode ficar sem água suficiente para produzir energia? Que os portos da Beira e de Quelimane podem estar em risco? Que a baixa de Maputo pode desaparecer? São previsões catastróficas, parecem, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Sabias tu que, no futuro, a linha de costa em Moçambique pode recuar até 500 metros? E que a barragem de Cahora Bassa pode ficar sem água suficiente para produzir energia? Que os portos da Beira e de Quelimane podem estar em risco? Que a baixa de Maputo pode desaparecer? São previsões catastróficas, parecem, mas quem entende disso garante que são antes realistas.<br />
<span id="more-959"></span>A questão das alterações climáticas não são um entretenimento de países ricos, não penses. Aqui em Moçambique o tema está na ordem do dia e sucedem-se reuniões e estudos sobre como é que o país será afectado, porque será, dizem, e muito.<br />
Um deles, “Impactos das Mudanças Climáticas nos riscos de Desastres Naturais em Moçambique”, feito por académicos e cientistas entre Maio do ano passado e Janeiro deste ano, foi apresentado há dias pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) do governo moçambicano. E não é nada meigo.<br />
Diz por exemplo que até ao fim do século vão aumentar os riscos de cheias, de secas e de tempestades violentas, sem contar com a subida descontrolada das águas do mar, especialmente lá para 2050.<br />
Uma coisa é certa e entra olhos dentro. Moçambique já está a sofrer os efeitos das alterações climáticas. De 1960 a 2005 a temperatura aumentou entre 1,1 e 1,6 graus centígrados, há menos noites frias, e a estação chuvosa começou a surgir cada vez mais tarde, passando de Outubro para Novembro e até Dezembro.<br />
Os números, caro amigo, são como o algodão, não enganam. De 1980 a 1993 Moçambique foi atingido por quatro ciclones. De 1994 a 2007 foram onze.<br />
E a violência também aumentou. Segundo o mesmo relatório os ventos que pouco ultrapassaram os 100 quilómetros por hora até 1993 chegaram quase aos 200 quilómetros no período posterior.<br />
Rui Brito, um dos responsáveis pelo estudo, disse que as previsões sobre o que vai acontecer no fim deste século não são “hipóteses improváveis”. Ou seja, em 2050 a cidade da Beira pode ser uma ilha e Maputo pode ter perdido o porto, as linhas de caminho de ferro, parte da baixa da cidade e a zona litoral, onde hoje se situam estabelecimentos hoteleiros mas também casas luxuosas.<br />
Depois, a redução de chuvas no Zimbabué e na Zâmbia podem levar à redução do caudal dos rios, especialmente a Zambeze e Save, o que pode ter implicações na produção de energia em Cahora Bassa.<br />
Pois é. E isto sem falar da salinidade dos estuários dos rios e as implicações que isso terá na agricultura. E isto sem falar de outros países. Porque só nos últimos 20 anos, Moçambique, as Comores, Madagáscar e Malawi perderam 10.000 vidas devido a desastres naturais, que afectaram mais 42 milhões e pessoas.<br />
E o pior é que o pior está para vir. A frase não fica bonita mas é mesmo assim. E o pior, acho eu, é que já fizemos tanta porcaria que agora por mais que a tentemos limpar já é impossível. Estamos atolados na nossa própria bosta e continuamos, com ar preocupado, é certo, a fazer, literalmente, merda. Já imaginaste, por exemplo, quantas árvores foram precisas para produzir os milhares de estudos já feitos sobre a necessidade de preservar a floresta e sobre as alterações climáticas? E achas que alguma coisa está a mudar? Eu não sei mas se tirares um bocadinho de um grande monte de bosta o que é que fica? Um grande monte de bosta.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>TERRA</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Jun 2009 14:47:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Consciente Fernando,
confesso que me propunha vir aqui falar de algo que achava importante desabafar contigo. Distraído, e mais desatento do que devia, andava ali a saltitar de canal em canal na televisão quando dei de caras com o documentário que faço questão que vejas. Em vez de todas as palavras e de todas as cartas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/imagem_planeta_terra.jpg"><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-947" title="imagem_planeta_terra" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/imagem_planeta_terra-300x298.jpg" alt="" width="300" height="298" /></a>Consciente Fernando,<br />
confesso que me propunha vir aqui falar de algo que achava importante desabafar contigo. Distraído, e mais desatento do que devia, andava ali a saltitar de canal em canal na televisão quando dei de caras com o documentário que faço questão que vejas. Em vez de todas as palavras e de todas as cartas, ignorando que amanhã, domingo, vou convictamente votar (espero que já o tenhas feito&#8230;), ainda mais importante é o que este doumentário vem repetir. Se nos resta algum laivo de inteligência, se persiste algo mais importante na nossa consciência do que o dinheiro e  se queremos que os nossos filhos sobrevivam, assentemos de vez os pés nesta <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tCVqx2b-c7U">Terra</a>.</p>
<p>Um preocupado abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>Três mãos pequeninas</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 09:04:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Tinha pensado hoje falar-te de alterações climáticas e desastres naturais em Moçambique mas uma mãozinha meteu-se pelo caminho. Um não. Três mãozinhas, pequeninas, ávidas de calor, de um carinho, de um sorriso que fosse. De um abraço que não acabasse nunca. Emocionei-me. Acho que a Francisca Paulo percebeu.
Foi esta semana que agora passou, quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Tinha pensado hoje falar-te de alterações climáticas e desastres naturais em Moçambique mas uma mãozinha meteu-se pelo caminho. Um não. Três mãozinhas, pequeninas, ávidas de calor, de um carinho, de um sorriso que fosse. De um abraço que não acabasse nunca. Emocionei-me. Acho que a Francisca Paulo percebeu.<br />
<span id="more-943"></span>Foi esta semana que agora passou, quando visitei um centro de acolhimento de crianças, a maior parte órfão, a maior parte de vítimas da Sida. Crianças de dois anos, três, até 15, de Marracuene, aqui ao lado de Maputo.<br />
Porque amanhã é o Dia Mundial da Criança combinei com a responsável pelo Projecto Esperança, Francisca Paulo, e lá fomos, um largo recinto vedado e três árvores a servir de sombra a grandes mesas onde todos tomavam na altura o pequeno-almoço.<br />
Foi por ali que ela me explicou o que era o projecto, tudo anotado no meu bloco enquanto o Pedro Sá da Bandeira tirava fotografias.<br />
O Projecto Esperança é apoiado pela organização Padrinhos de Portugal, uma associação humanitária fundada pela jornalista Catarina Serra Lopes em 2002, hoje a apoiar crianças em Marracuene e na Beira, centro de Moçambique.<br />
Esse apoio, só em Marracuene para 270 crianças, vem de portugueses, gente anónima que se dispõe a ser padrinho de um destes meninos e lhe manda 85 euros de três em três meses. Para saúde (aqui os miúdos sofrem muito de tinha, por exemplo), para material escolar, para roupas, para brinquedos, para festas de aniversário até.<br />
Muitos não têm ainda sequer ideia de onde lhe vem tanta fartura, habituados que estavam a passar os dias sozinhos, a cuidar de avós, a trabalhar nas hortas o dia inteiro quando os sete ou oitos anos antes os deviam levar para a brincadeira.<br />
Para Portugal enviam por vezes desenhos, alguns escrevem cartas, algumas com fotografias. Aqui, de tempos a tempos, há um padrinho mais endinheirado que visita o afilhado. Francisca Paulo cita o exemplo de uma família que trocou as férias nos Estados Unidos por uma viagem ao encontro do afilhado moçambicano. E que saiu de cá com mais quatro afilhados.<br />
O Jorge Custódio, a Safira, o Aires, o Armando José, a Filomena ou já sabem ou vão saber que a milhares de quilómetros daqui há alguém que contribui para as suas duas refeições, para as aulas, para o bibe verde que trazem vestido. Alguém que mesmo assim de longe consegue transmitir um carinho qualquer, tão importante para quem não tem nenhum.<br />
“Há padrinhos que se preocupam mais com os meninos do que os próprios familiares”, diz-me a Francisca. E acrescenta: “Temos lindas histórias de amor. Há padrinhos que mandam prendas, vestuário, calçado, alguns que mandam dinheiro e tudo o necessário para fazer a festa de aniversário, como quando dois meninos fizeram anos, em Março, e os padrinhos mandaram tudo, até os balões… há uma grande relação de afecto”.<br />
Porque é ele que mais falta ali. Nota-se nas caras sorridentes, nos olhos puros que o buscam em quem chega. Rodeiam-nos quando falo com a Francisca, bloco e caneta numa mão e a outra ali esquecida, até que uma mãozinha vem por detrás, silenciosa, e se aninha nela. Outra mão pequenina vem pelo outro lado, sorrateira, encontra um bloco e dá a volta. São agora duas mãos pequeninas e uma terceira a quem só sobra um dedo, discretamente a tentar afastar alguma das outras.<br />
São mãos na busca de um afecto, nem que ele dure alguns minutos apenas, o tempo de uma conversa para uma peça sobre o Dia Mundial da Criança. São corpos que se aninham à espera de um carinho, de um abraço, e que ficam tristes quando te vais embora, assim que encheste o bloco de letras e números.<br />
Não consigo escrever no meu bloco o sentimento que trago dali. Não sei agora, também, como colocá-lo aqui em palavras que tu entendas. Não sei explicar-te o sentimento de gratidão que senti em relação a esses padrinhos todos aí de Portugal. Não sei dizer-te da minha angústia de imaginar quantas crianças vão passar amanhã e tantos dias sem ninguém que lhes dê um sorriso que seja, quanto mais 85 euros de três em três meses.<br />
Se me permites, esta minha carta dedico-a ao Jorge Custódio, à Safira, ao Aires, ao Armando José, à Filomena…<br />
Tenho o meu bloco cheio de letras e números e na minha mão três mãos pequeninas.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
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		<title>Arena</title>
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		<pubDate>Thu, 28 May 2009 10:52:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[
Cinéfilo Fernando,
o início de uma campanha eleitoral que vai durar quase cinco meses ofuscou um facto que nos deve orgulhar bem mais do que as prestações de quem foi para a rua pedir que nos lembremos deles nas urnas de voto, que eles prometem esquecer-se de nós nos quatros anos que se seguem. Pela primeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/cannes.jpg"><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-936" title="cannes" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/cannes.jpg" alt="" width="250" height="130" /></a></p>
<p>Cinéfilo Fernando,</p>
<p>o início de uma campanha eleitoral que vai durar quase cinco meses ofuscou um facto que nos deve orgulhar bem mais do que as prestações de quem foi para a rua pedir que nos lembremos deles nas urnas de voto, que eles prometem esquecer-se de nós nos quatros anos que se seguem. Pela primeira vez, um filme português ganhou um primeiro prémio (Palma de Ouro) do Festival de Cannes. Certo que é uma curta-metragem de 15 minutos, mas como os filmes não se medem aos palmos e os prémios também não, fiquei orgulhoso. Mais ainda por “Arena” ter sido a estreia profissional de um realizador de 26 anos, chamado João Salaviza. Já vi e gostei.<br />
<span id="more-937"></span>Não sei quantificar o quanto me agradou. Reparo apenas que nesta nossa longa correspondência, ao que me é dado recordar, nunca te falei de um filme. Achei que este merece. Antes de tudo porque é bonito, esteticamente. Tem tons quentes, uma luz mediterrânica, fazendo jus às origens (desculpa lá, mas o Atlântico não monopoliza as minhas preferências). Há uma cena que gostaria de ver nos anais da história do cinema feito em Portugal. É filmada de longe, quase em contra-luz e decorre numa daquelas passagens aéreas que ligam dois prédios e costumam existir nos chamados bairros sociais. A câmara não se mexe. Uma discussão, violência, e uma bicicleta que é deixada cair para um chão que apenas se ouve e adivinha.<br />
Pois, e a história, perguntas-me tu. Bem, tenho que começar por te deixar claro que não sou cinéfilo encartado nem aspiro a isso. Daí que olhe para um filme com os filtros que se me foram instalando no “olhar” ao longo do tempo e que nada têm a ver com as credenciais exibidas por quem se dedica a “mostrar” filmes aos outros. Eu vi lá uma história com forte cariz homossexual, que está a longa distância de ser tema que me entusiasme. Um adulto jovem, que faz tatuagens e mora num bairro pobre está em prisão domiciliária, com pulseira electrónica &#8211; é roubado por rapazes vizinhos. Pese embora a diferença de idades e de vivências, o líder desse grupo manifesta um anormal ascendente sobre o protagonista. Desrespeita-o de uma forma afrontosa. Parece saber dele mais do que nos é mostrado. A vítima parte para a vingança, consegue passar à situação de domínio sobre o assaltante, mas cede. Nunca se percebe claramente porquê, mas há algo que o trava. E nem chega a reaver o dinheiro. Depois há sempre muitos corpos no filme, sempre masculinos. Nunca se vê nem se adivinha  qualquer presença feminina.<br />
Em minha defesa, deixa-me dizer-te que escrevo isto sem ter lido uma linha de crítica sobre a obra de João Salavisa e que vi a curta-metragem uma única vez. Uma certeza: fico à espera do seu próximo filme e gostaria que não demorasse.</p>
<p>Um luminoso abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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		<title>As pedras preciosas do uzbeque Akil</title>
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		<pubDate>Sun, 24 May 2009 17:26:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Peixeiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Caro amigo
Akil Askarhodjaev é professor de física nuclear e física atómica. Dá aulas aqui em Maputo na Universidade Eduardo Mondlane. É um tipo de olhar vivo, cabelos brancos, um pouco atarracado de corpo, simpático e uma pronúncia engraçada. É uzbeque e faz quadros de pedras preciosas. Achei interessante e hoje falo-te dele.
“Sou natural do Uzbequistão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro amigo</p>
<p>Akil Askarhodjaev é professor de física nuclear e física atómica. Dá aulas aqui em Maputo na Universidade Eduardo Mondlane. É um tipo de olhar vivo, cabelos brancos, um pouco atarracado de corpo, simpático e uma pronúncia engraçada. É uzbeque e faz quadros de pedras preciosas. Achei interessante e hoje falo-te dele.<br />
<span id="more-934"></span>“Sou natural do Uzbequistão mas fui convidado para vir para Moçambique para ajudar na formação, por acordo com a antiga URSS”. Akil Askarhodjaev termina assim a conversa quando o visito no laboratório de Gemologia da Universidade, onde passa os dias rodeado de aparelhos estranhos mas também de diamantes, turquesas, topázios, turmalinas, quartzos, rubis, ametistas, opalas&#8230; São pedras preciosas ou semi-preciosas em sacos de plástico, em sacas de papel, em cestos, em montes displicentes como se daquelas pedrinhas não saíssem, por exemplo, anéis de diamantes, alguns mostrados pelo professor, numa caixinha forrada a veludo.<br />
Mas o orgulho de Askarhodjaev é mesmo os quadros espalhados por ali. De longe nem se nota que são só feitos de pequenos pedaços de pedras preciosas. Coisa pouca.<br />
A ideia surgiu-lhe há uns anos, forma de aproveitar as pedrinhas que estudava mas também de rentabilizar o laboratório, porque “a investigação exige meios financeiros”, porque “é impossível fazer ciência de alto nível sem o financiamento suficiente”.<br />
E pronto, contratou cinco jovens desempregadas, ensinou-lhe tudo sobre pedras preciosas, e hoje elas lá estão, ordenados acima da média, tão acima que o professor não os revela, para não suscitar invejas, e uma paciência de Job, para colar milhares de pedrinhas e disso fazer flores, casas, pessoas, animais e tudo o que a inspiração lhe ordene.<br />
Moçambique tem uma grande variedade de pedras preciosas, tanta que alguns “curiosos” dos países vizinhos de vez em quando são apanhados com os bolsos cheios, para não dizer com os carros cheios. Askarhodjaev está agora a preparar, a pedido do governo, um projecto de criação de uma fábrica de lapidação em Nampula, no norte do país, além do trabalho diário de investigação, de colaboração com as alfândegas (a identificar o valor do contrabando), e, claro, de fazer quadros, vendidos por cerca de 250 euros cada um.<br />
Parece-me que são eles a sua menina dos olhos. E os quadros, garante, embora demorados, até são fáceis de fazer, mais fáceis do que dizer o seu nome.<br />
É quando fala deles que os seus olhos brilham, mais, muito mais, do que quando lembra o seu Uzbequistão, de onde saiu com a mulher há 20 anos.<br />
Saí de lá com essa certeza mas hoje, confesso, talvez me tenha enganado. Estive a pensar&#8230; Não sei se os seus olhos brilhavam de paixão ou se era apenas o reflexo dos diamantes.</p>
<p>Um abraço<br />
Fernando Peixeiro</p>
<p class="MsoNormal">
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		<item>
		<title>As modernas casas de palha</title>
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		<comments>http://atlantico-expresso.net/portugal/as-modernas-casa-de-palha/2009/05#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 22 May 2009 09:00:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>António Martins Neves</dc:creator>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Tradicional Fernando,
sabes que casas de palha, como já deves ter visto muitas aí, podem ser as habitações do futuro? Feitas de modo diferente, é claro, mas casas como há cá, vivendas mesmo, feitas com fardos de palha, com maior conforto que as construídas em tijolo e muito mais baratas? É verdade. Há algum tempo fui [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/casa-de-palha.jpg"><img rel='domelhor'  class="alignleft size-medium wp-image-929" title="casa-de-palha" src="http://atlantico-expresso.net/ficheiros/casa-de-palha-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Tradicional Fernando,<br />
sabes que casas de palha, como já deves ter visto muitas aí, podem ser as habitações do futuro? Feitas de modo diferente, é claro, mas casas como há cá, vivendas mesmo, feitas com fardos de palha, com maior conforto que as construídas em tijolo e muito mais baratas? É verdade. Há algum tempo fui descobrir essa técnica que está a agora a tentar dar os primeiros passo cá, mas que já é usada há muito nos Estados Unidos e até aí na tua vizinha África do Sul, onde <a href="http://www.didimala.co.za/">um dos mais luxuosos hotéis</a> do país foi erguido com 10 mil fardos do natural e renovável material.</p>
<p><span id="more-928"></span>Um vivenda com 100 metros quadrados por 25 mil euros, eis o que me garantem custar um casarão que não precisará de arrefecimento no Verão nem aquecimento no Inverno, com a consequente poupança de energia. A largura dos fardos de palha e a massa com que são barrados depois da estrutura erguida isolam o espaço interior das temperaturas externas. Precisa apenas de uma base plana em betão, onde uma estrutura em madeira é montada, as paredes são erguidas colocando os fardos em cima uns dos outros. Depois é montada uma estrutura de madeira em cima, que vai fazer o travamento de toda a construção, dando-lhe rigidez, e onde assentará o telhado. A casa é depois rebocada com materiais tradicionais como a cal e a areia ou mesmo com cimento. Que se fixam usando uma rede metálica para dar sustentação ao revestimento e pronto! nem se fica a saber do que é feita a vivenda.Tive oportunidade de ver duas aplicações distintas: o estábulo para um burro, imagina tu&#8230;se o animal descobre onde está metido, em tempos de crise alimentar arreia dois coices, destrói o reboco e atira-se à palha que nem um jumento; a outra é uma casa, ou melhor duas, do mais confortável e original que já pude observar, construídas por um alemão que foi viver para a serra de Marvão quando entregou aos filhos a indústria que tinha lá no seu país. Duas porque mora numa e tem a outra destinada aos hóspedes que o visitam. São as duas construídas com palha rebocada a cal. A principal, onde mora com a mulher, é circular: sala de estar, cozinha e casa de banho no piso térreo, a cama lá em cima, acessível por umas escadas. Tudo em espaço aberto. Energeticamente autónoma. A habitação para hospedar as visitas assenta no mesmo princípio mas tem ainda a originalidade de estar construída em redor de um penedo em cima do qual está a cama&#8230;Contou-me Horst Belding que nunca fez bem as contas à casa principal, mas a outra terá ficado por uns cinco mil euros. E o conforto é quase absoluto, posso-te garantir eu que estive lá dentro. Nem ruídos externos, nem calor nem frio, luz com fartura sem raios solares a entrarem pelo espaço&#8230;Se não está perfeita, anda lá a rondar.Esta técnica começou a ser desenvolvida há mais de uma centena de anos no estado norte-americano do Nebraska, terra de muito cereal e pouca floresta que é o mesmo que dizer onde abunda a palha e escasseia a madeira. Quando apareceram as enfardadeiras mecânicas a largar fardos de palha, ocorreu às gentes de lá que poderia estar ali a solução para as difuculdades que sentiam quando era necessário erguer mais uma residência. Assim foi. Nunca mais pararam. Perguntarás tu porque razão a técnica não é aplicada por cá. Deve ser pela mesma razão porque não há quase carros a gás. Os interesse dos respectivos grupos económicos. Estás a ver o filão que perdiam os construtores civis a erguer e a vender casas por 30 mil euros quando transaccionam as actuais por valores cinco vezes superiores, contas por baixo. E os bancos, que emprestam 200 mil euros, iam passar a emprestar só os 30 mil? E as cimenteiras e&#8230;os impostos que as autarquias e o Governo arrecadam com o negócio de betonizar o país em tudo onde se imagina? Tás a ver&#8230;Bem, e se pensarmos aí em África, a coisa então ganha outra dimensão. Seria seguramente uma forma de conseguir casas dignas por preços irrisórios. Aqui havia outra desvantagem: o preço da palha subia e isso ia beneficiar os alentejanos que semeiam as searas.<br />
Pensa bem no assunto, Fernando. Quando tiveres o teu mealheiro cheio, compras uma carrada de palha e constróis uma casa. Feita por quem sabe, levará para aí uns 15 dias até poder ser inaugurada, garantem-me. Eu ando a pensar seriamente no assunto&#8230;</p>
<p>Um barato e confortável abraço.</p>
<p>António Martins Neves</p>
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