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	<title>Eduardo O. Carvalho</title>
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	<title>Eduardo O. Carvalho</title>
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		<title>Estrada infinita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Apr 2026 19:44:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[A xicara ainda estava na pia. Sorriu; quem poderia tirá-la dali? Qual seria o fundo musical para o silêncio? Diana Krall começou a cantar “Alone again”*, abriu as janelas e deu uma olhada no piso. Adquiriu o hábito de não gostar de pisar em nada, chão limpo em primeiro lugar! Não era dia de seguir &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/estrada-infinita/"> <span class="screen-reader-text">Estrada infinita</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p></p>



<p>A xicara ainda estava na pia. Sorriu; quem poderia tirá-la dali?</p>



<p>Qual seria o fundo musical para o silêncio?</p>



<p>Diana Krall começou a cantar “Alone again”*, abriu as janelas e deu uma olhada no piso. Adquiriu o hábito de não gostar de pisar em nada, chão limpo em primeiro lugar!</p>



<p>Não era dia de seguir qualquer ritual, mas também não era domingo ou feriado. Invés de café com leite um suco. Também não de laranja, porque não uva?</p>



<p>Tinha duas horas até começar a trabalhar, não há pressa. Movimento lentos, fugindo do que se faz sempre, percebendo o tempo passar. Na parede, o badalo do antigo relógio segue seu ritmo, atrasando dois ou três minutos por semana. Não faz diferença, uma vez por mês empurra o ponteiro dos minutos, a força. Nem o relógio é dono do seu próprio tempo, ninguém é.</p>



<p>Olhando a agenda, lembrou dos rostos, histórias, medos e esperanças.</p>



<p>Deteve-se na própria imagem com o rosto lambuzado do creme de barbear; o tempo, ninguém é dono!</p>



<p>Passou os olhos pelo celular, para ver recados, as últimas notícias, os boletos do dia e entreteve-se com a tela rolando cheia de pessoas fazendo questão de mostrar felicidade, músculos e lábios novos. Mal sabem que a vida real é muito mais interessante, para que fugir?</p>



<p>No elevador, a vizinha sorria enquanto conversava com dois cachorros, arrumados para o passeio matinal. Lembrou-se, enquanto sorria para os pets, de uma reportagem que tratava da diminuição da natalidade em vários países. As novas famílias precisam de compreensão e perdão infinito, isso não é muito fácil para humanos. Saímos de casa (ou deveríamos), buscamos sonhos nem sempre aprovados, escolhemos parceiros que afetam a expectativa e, nem todos viram adultos. Eternas “crianças” de patas dão mais certo, afinal, nunca decepcionam e amam e troca de ração e biscoitos que, por mais caros e sofisticados, compensam em relação a universidades, carros, sushi ou combos <em>fast food.</em></p>



<p>No carro, Diana, com sua voz doce e sofisticada cantava “just the way you are”**. O Sol brilhava em uma manhã quente, ainda temperada pelo leve frescor do início do outono. Pessoas desfilavam pelas calçadas, indo para o trabalho ou fazendo uma caminhada para colocar o coração e as ideias em ordem.</p>



<p>Cada uma carregando seus pensamentos, imaginando como tudo seria diferente se&#8230;</p>



<p>Vidas não vividas são tão perfeitas! Nossa imaginação cria pessoas irreais, futuros só de alegria, relações de cinema e, é claro, finais felizes. O que seria dos grandes romances da literatura ou das telas sem a imperfeição de pessoas de verdade e o futuro sempre incerto em uma vida que nunca nos leva em conta? Adoramos continuar cultivando nossos sonhos esperançosos no conforto de casa.</p>



<p>Eric Clapton, um dia resolver deixar a guitarra de lado e fez um álbum de clássicos, colocou uma grava e saiu a cantar Nat King Cole. Fez uma versão (que nunca deixa de ser uma traição), de Autumn Leaves ***, que ficou, perigosamente melhor que o original. Acontece também quando aprendemos com o erro dos outros e desistimos de pensar que somos tão especiais que o mesmo roteiro terá um fim diferente conosco.</p>



<p>Janelas abertas, abro a porta e a vida real entra por ela. Mais um dia para aprender, viver histórias, pensar sobre elas, tentar mudar finais, melhorar o resultados e, quem sabe no final, aquele sorriso de quem foi além de si, ficou maior, mais confiante de saber que algum poder temos; de fazer o que nos cabe, mas o resultado?</p>



<p>É como o tempo, ninguém é dono!</p>



<p>É uma estrada sem fim, percorremos sozinhos, queiramos ou não!</p>



<p>No fim do dia, procurou lembrar se algum dia tinha lido uma crônica com fundo musical. Não lembrou de nenhuma então pensou; por que não?</p>



<p>Ligou o som no carro e a coincidência arrancou um sorriso! ****</p>



<p></p>



<p>_______________________________________________________________________________________________________________________</p>



<p></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://music.youtube.com/watch?v=ROoPStOJdQQ&amp;si=ncp4rfxDvTKNPvoc">https://music.youtube.com/watch?v=ROoPStOJdQQ&amp;si=ncp4rfxDvTKNPvoc</a>    *</li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://music.youtube.com/watch?v=RtbX7dZOsus&amp;si=roMUURX1AQuxgf4j">https://music.youtube.com/watch?v=RtbX7dZOsus&amp;si=roMUURX1AQuxgf4j </a>      **<br></li>



<li><a href="https://music.youtube.com/watch?v=npUK_dnv1VM&amp;si=cHsXhiN_AEFoF468">https://music.youtube.com/watch?v=npUK_dnv1VM&amp;si=cHsXhiN_AEFoF468</a>     ***<br></li>



<li><a href="https://music.youtube.com/watch?v=jLdAuGarfM0&amp;si=ewGFwbX3iuo4AGa8">https://music.youtube.com/watch?v=jLdAuGarfM0&amp;si=ewGFwbX3iuo4AGa8 </a>    ****<br> </li>
</ul>



<p></p>
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		<title>Tales e o buraco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 21:30:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<category><![CDATA[Tales de Mileto]]></category>
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					<description><![CDATA[Ouvi dizer: Tales* caminhava a noite olhando para as estrelas, querendo entender o universo. De repente, caiu em um buraco. Sem se ferir, mas bastante assustado ouviu a seguinte frase da serva que o acompanhava: “Nada adianta olhar para as estrelas se não consegue andar direito no próprio chão onde pisa”! Tales viveu de 624 &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/tales-e-o-buraco/"> <span class="screen-reader-text">Tales e o buraco</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p></p>



<p>Ouvi dizer:</p>



<p><em>Tales* caminhava a noite olhando para as estrelas, querendo entender o universo. De repente, caiu em um buraco. Sem se ferir, mas bastante assustado ouviu a seguinte frase da serva que o acompanhava: “Nada adianta olhar para as estrelas se não consegue andar direito no próprio chão onde pisa”!</em></p>



<p></p>



<p></p>



<p>Tales viveu de 624 a.C. e 546 a.C. e até hoje nada mudou. Exploramos o espaço, descobrimos o que Tales não imaginava, que o Universo é infinito, com buracos negros, galáxias que desaparecem, sóis que explodem e estrelas que aparecem e desaparecem. Pior, que o infinito se expande! Ele e os gregos imaginam que tudo era finito e funcionava harmoniosamente.<br>Nossa busca sobre o que existe além de nós, necessariamente não é só uma curiosidade, mas uma necessidade de encontrarmos nossa causa primeira, de onde viemos. Hoje, a tarefa contempla novas metas; onde poderão viver as futuras gerações quando terminarmos a obra de destruir o planeta onde vivemos.<br>Voltemos a Tales. Considerado o primeiro filósofo, ele exercitou o que move o princípio do pensamento filosófico; quando as explicações não satisfazem, precisamos buscar novas respostas. O que move o pensamento são as perguntas, afinal, pensamos o tempo todo sobre o que não sabemos, já percebeu?<br>Imagino que, enquanto se recuperava do susto, Tales ficou pensando sobre o que a serva lhe disse.<br>Nosso próprio chão não nos basta, mas deveria! Afinal, não temos condições de compreender a realidade que nos cerca totalmente devido a duas impossibilidades; a primeira, não temos sentidos aprimorados a tal ponto e a segunda, para nós é mais fácil imaginarmos o mundo do que, simplesmente observá-lo.<br>Já escrevi e fiz vídeos sobre isso (já se inscreveu no canal do You Tube?), mostrando que a potência da vida e sua forma nos é assustadora, já que não oferece a lógica que nossa mente medrosa precisa para se sentir segura. Dessa forma, precisamos preencher todos os buracos dessa realidade incompreensível com nossas crenças, das mais infantis as mais absurdas para fugir dessa sensação de abandono. A realidade é devastadora, surpreendente, incoerente e injusta. Lembrando que coerência e justiça, assim como outros conceitos são criações e necessidades nossas, a vida não os leva em conta e é por isso que precisamos crer que somos especiais e protegidos.<br>Todas essas ideias de buscar sentido onde não existe é, metaforicamente, o que Tales fazia enquanto olhava o céu. Para ele, e até hoje para a maioria, é lá que está a resposta!<br>E o “buraco” hoje, é a decepção que essa metafísica provoca diariamente! Porque comigo? Eu não mereço isso! O que fiz para que isso acontecesse? Isso é uma injustiça!<br>Na vida sem ilusões e seres celestiais, tudo acontece movido por três possibilidade. A primeira é o que acontece por <strong>necessidade</strong>, ou seja, os eventos naturais e tudo que tem uma causa que gera o acontecimento. Por exemplo, se largamos um objeto no ar, ele necessariamente cairá, já que a lei da gravidade é a causa. Da mesma forma que que desmatar e poluir a água terminará com a vida de quem precisa dos dois para manter-se. Parece óbvio, mas muitas vezes por crenças absurdas, desafiamos a natureza. Ela agirá necessariamente!<br>A outra forma de acontecimento é o que chamamos de <strong>contingência, </strong>que é aquilo que pode ou não acontecer, mas que também tem suas causas, mas não é necessário nem impossível. Para exemplificar; o fato de você estar lendo esse texto agora tem uma causa, mas você poderia estar fazendo outra coisa, se outra causa viesse primeiro. Pode ser que chova amanhã em Florianópolis, mas pode também não chover, caso um vento surja durante a noite e afaste as nuvens carregadas. Temos causas para chover e não chover, pode ou não acontecer.<br>A terceira forma é o <strong>possível</strong>, que é aquilo onde podemos agir na realidade para muda-la, mas também tem uma causa, só que agora somos autorais. Imagine que você deseje mudar de profissão. A causa pode ser a insatisfação com o que faz hoje. Então você escolhe um novo caminho. O quanto se dedicar e se aperfeiçoar é que poderá tornar mais possível que isso aconteça e o sucesso venha, ou seja, depende do seu esforço! Porém, ao contrário do que diz a autoajuda e quem observa pouco a realidade, essa possibilidade está inserida dentro da vida que pode ter movimentos imprevisíveis e mais fortes que a ação e impedir que ela aconteça. Quanto mais agirmos adequadamente, mais possível será nosso objetivo. Mas “certo” nada pode ser pela imprevisibilidade do mundo e suas forças. Por isso, quando você faz o seu melhor e não consegue, não é uma “mensagem” ou algum “carma”. Simplesmente as possibilidades, apesar de seu esforço foram contra. Como também acontece de fazermos pouco (gerarmos poucas possibilidades) e conseguirmos algo. No campo do possível, tudo é possível, mas ampliar as chances sempre é um bom prognóstico, tornando nossa meta mais provável que aconteça!<br>Isso não bastaria para vivermos melhor, sofrendo menos? Nossa inquietação não seria menor se entendêssemos que conviver com a falta de sentido também é um jeito de viver!<br>Somos seres de sentido e precisamos dele, mas isso é um problema nosso, a vida não está muito preocupada, até por não ser “alguém” para se preocupar, mas é somente um potente jogo de forças onde o necessário, a contingência e o possível convivem segundo a segundo atendendo as demandas de tudo que está vivo, tendo a natureza, as necessidades e causas de tudo que existe; dos ventos, das chuvas, dos animais, homens, insetos, etc.!<br>Tales deve ter levado a sério o conselho que ouviu. Nós, estamos caindo no buraco a todo momento, imaginando que alguém o colocou ali para nosso bem.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p></p>



<p></p>



<p>*Tales de Mileto é considerado um dos sete sábios da Grécia antiga. Fundador da Escola Jônica, era matemático e astrônomo. Buscava o princípio fundamental do Universo (arché). Dizia ser a água a substância fundamental. </p>



<p>A lenda que abre o presente texto foi extraída do livro: &#8220;Filosofia, um modo de vida&#8221; de Marilena Chaui.</p>
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		<title>O Tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Oct 2025 20:40:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[“Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento para envelhecer”. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Millôr Fernandes A notícia informava a morte de dois adolescentes afogados em uma praia, desrespeitando os avisos que o mar estava perigoso. Esse acontecimento disparou uma série de reflexões internas sobre a relação entre a juventude, o perigo e a brevidade da vida. &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/o-tempo-2/"> <span class="screen-reader-text">O Tempo</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p><em>“Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento para envelhecer”.</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Millôr Fernandes</em></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p>A notícia informava a morte de dois adolescentes afogados em uma praia, desrespeitando os avisos que o mar estava perigoso.</p>



<p>Esse acontecimento disparou uma série de reflexões internas sobre a relação entre a juventude, o perigo e a brevidade da vida.</p>



<p>Sabemos que, na verdade, a vida está sempre por um fio, que tudo pode acontecer e ninguém está realmente “a salvo” sob nenhuma circunstância. O que parece, em termos generalistas, que a ideia de perigo e até mesmo do valor do tempo está intrinsicamente ligada a idade e seus efeitos em nós.</p>



<p>Jovens não veem nenhum problema em passar o dia ou um final de semana deitados, dentro de suas casas, entretidos com jogos, televisão, celulares, ou mesmo dormindo a maior parte do tempo. O perigo da alta velocidade, de práticas radicais, de desafiar situações perigosas ou no exagero de abuso de substâncias está ligada a duas percepções comuns a essa idade; a de que existe tanto tempo pela frente que “perder” alguns dias não faz a menor diferença e que, quem morre, são os outros.</p>



<p>A partir da meia idade, com experiências de perdas de familiares e até de alguns amigos por acidente, somado a ideia que o tempo por vir é menor se comparado ao vivido, a percepção muda.</p>



<p>Como o tudo que é raro, o tempo passa a ter mais valor e as conhecidas “crises de meia idade” tem em um dos seus fundamentos tornar o tempo que resta mais valioso. Os valores mudam e até mesmo torna-se comum uma busca mais filosófica e religiosa para entender a questão da morte, principalmente. Nos últimos tempos tem sido cada vez mais comum separações na casa dos cinquenta anos, com objetivo de usufruir mais da vida e de buscar novamente emoções amorosas que ficaram interrompidas pela vida familiar de casamentos com mais de vinte e cinco anos de duração e da possibilidade de novas experiências, possíveis por uma situação financeira mais estável.</p>



<p>&nbsp;O “divórcio grisalho” como está sendo chamado esse fenômeno, normalmente está ligado a saída dos filhos de casa, quando o “ninho vazio” coloca em xeque as relações desgastadas, o tédio com a inevitável sensação que o tempo que resta não é grande (com autonomia e saúde) e uma nova vida vira sonho.</p>



<p>O cuidado de si torna-se mais precavido, na piscina só se entra pela escada, os saltos ficam a cargo dos irresponsáveis. Já as malas ficam maiores, a bolsa com remédios para mal-estares vira companheira obrigatória e até mesmo aparelhos portáteis de pressão, temperatura e outros são certos nas bagagens. Mesmo no verão, um agasalho não pode faltar, sabe como é&#8230;</p>



<p>Mas não é só isso!</p>



<p>Se nossos avós ou até mesmo pai e mãe nos deixaram, além das perdas inesperadas de pessoas da mesma idade ou jovens, seja por uma doença ou acidente, existem outras perdas significativas. Pessoas se afastam por diversos motivos, afinal, nunca paramos de mudar e as afinidades diminuem com o tempo e isso faz parte. De outro, vamos perdendo nossas possibilidades pelo natural envelhecimento do corpo e sua decadência física. Essa adaptação é sempre difícil e a vontade de permanecer jovem, além de ser uma tecnologia que custa caro, tem resultados cada vez menos eficientes com a passagem do tempo.</p>



<p>É comum uma mente jovem em um corpo desgastado e esse meio termo muitas vezes vem à custa de exageros que custam caro.</p>



<p>Naturalmente vamos ficando um pouco mais introspectivos e mesmo que uma cerveja ou taça de vinho sejam atrativos até o ultimo dia, um chá e os avisos do fígado cada vez por motivos menores, passam a ser vistos com bons olhos, os alarmes nessa fase são vistos como perigo de morte, o que nunca acontece aos vinte ou trinta anos. A moderação sempre é um aprendizado doloroso para muitos e os que não aceitam, pagam caro!</p>



<p>Movimentos mais lentos, cuidado com a coluna, joelhos, glúten, lactose, vitaminas, hormônios, sais minerais e tantas outras necessidades aumentam o tempo do dia dedicado a sobrevivência.</p>



<p>Mas, se introspecção está muito ligada a sinais internos que temos mais interesse em ouvir, a solidão de pensar por mais tempo na própria existência; na finitude, se a vida valeu a pena e dos arrependimentos, principalmente. Como teria sido a vida se ela fosse outra? Nunca saberemos, mais essa vida nunca vivida, fruto da imaginação, será sempre melhor e mais emocionalmente interessante que a vida real, experienciada em seus conflitos e na crua realidade. Sonhamos errado, já que essa comparação é, no mínimo, uma injustiça, porque o que nunca vivemos é fruto da livre imaginação e não tem nenhum compromisso com a realidade.</p>



<p>Falar sobre a vida e o mistério da morte é necessário, mas os interlocutores próximos não tem interesse, seja por não quererem tratar desse assunto, como se fosse um testamento oral, aceitando que a morte se aproxima ou mesmo porque isso não é um assunto que interessa a quem tem cinquenta anos pela frente.</p>



<p>O genial Gabriel Garcia Marques acerta em cheio quando diz; “<em>O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão”. </em>&nbsp;</p>



<p>Porem, outras portas se abrem, essa mudança oferece um sem número de novos interesses só possíveis para quem tem mais tempo para dedicar-se a prazeres e sensibilidades mais profundas, conversas mais longas e a experiência que só quem viveu pode ter. Conhecimento é informação, sabedoria é experiência e é conveniente nunca esquecer. Não é à toa que a natureza premia com mais vida aqueles animais que tem menos pressa.</p>



<p>&nbsp;Ficamos melhores no ocaso e essa é a grande troca!</p>



<p></p>
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		<title>Alma</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Aug 2025 18:38:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexão]]></category>
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					<description><![CDATA[O olhar veio acompanhado de um sorriso tímido, buscando simpatia. Oferecemos um sorriso quando um estranho se aproxima para disfarçar nosso medo ou para mostrar que estamos felizes, que temos algo a dar para quem nos está conhecendo ou que estamos bem. Vale para ambos. Quando alguém nos apresenta, essa pessoa serve de avalista de &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/alma/"> <span class="screen-reader-text">Alma</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p></p>



<p>O olhar veio acompanhado de um sorriso tímido, buscando simpatia.</p>



<p>Oferecemos um sorriso quando um estranho se aproxima para disfarçar nosso medo ou para mostrar que estamos felizes, que temos algo a dar para quem nos está conhecendo ou que estamos bem. Vale para ambos.</p>



<p>Quando alguém nos apresenta, essa pessoa serve de avalista de que não representamos perigo, que esse primeiro contato pode ser promissor, seja para uma amizade, negócios ou para os mistérios que os encontros oferecem.</p>



<p>Mas não era o caso.</p>



<p>Nos conhecíamos desde sempre, décadas, mas só eu sabia.</p>



<p>Faltava naquele olhar o brilho da memória, de saber quem se é, o que se viveu, realizou e de todos os desejos não acontecidos, das surpresas, ganhos e perdas. Seja a demência ou Alzheimer, são doenças que roubam nossa alma que não é um corpo etéreo, é o conjunto de nossas histórias; experiências, pensamentos, dores e alegrias. A velhice que nada mais é do que o resultado de uma grande soma, traz a serenidade de saber como as coisas são, a grande lucidez de parar de esperar que tudo “deveria” ser de outro jeito é roubado pela doença.</p>



<p>Não há serenidade sem desilusão!</p>



<p>Sabedoria poderia ser sinônimo de desesperança.</p>



<p>&nbsp;Não fica nada de valor quando a memória das experiências, do pertencimento de ser quem somos pelo somatório do vivido não está mais presente. É só um corpo que ainda funciona na biologia dos seus processos mecânicos, só esperando que tudo mais morra, que as peças dessa máquina vão se desgastando naturalmente pela falta de vitaminas, aminoácidos, hormônios, etc. O que nos move e mata além do corpo não está mais lá.</p>



<p>Dizer que a vida é viver o presente é uma teoria rasa, para viver o presente preciso de passado e do futuro esperado ou temido. Podemos fazer um esforço de nos livrarmos das experiências e da expectativa, mas é esforço, dura pouco tempo se for tentado individualmente, mas pode durar mais, mas aí, precisa de um contexto, afetos e circunstâncias maiores que me carreguem para esse esquecimento que chamamos de “momentos felizes”.</p>



<p>Naquele corpo saudável, segundo os médicos, estava a pior das enfermidades, a ausência de significado. Tudo é vivido pela primeira vez, sem passado, como essas canetas que as crianças brincam, onde o rabisco vai se apagando segundos depois de deslizar pela tela ou papel.</p>



<p>Disse quem eu era, mas não havia mais brilho no olhar, não tinha mais nada com que ligar meu nome, meu rosto. Sorriu, só que agora envergonhada, como se uma lucidez se desculpasse por não lembrar, os olhos ficaram úmidos. Ela queria me convidar para entrar, mas não só não sabia quem era o visitante, mas a casa estava vazia, sem mobília nem porta-retratos.</p>



<p>A acompanhante nomeou quem era o que representava em sua vida. Ela ajudou a me criar e me acompanhou durante toda sua vida lúcida, mas agora ela estava me conhecendo, pela primeira vez.</p>



<p>Olhava para ela e pensava em mim, acontecerá comigo?</p>



<p>&nbsp;Imagino, e é só o que posso fazer, a dor de saber-se só. Diferente da solidão como conhecemos, essa é pior, é maior que alguém pode experimentar. Nem a saudade existe um uma memória vazia. Não tem dor, não tem medo, não tem esperança, não tem o que nos faz humanos. O espelho não nos engana, as rugas estão estampadas e quando não nos lembramos de nada, imagino que me faria a pergunta: O que vivi esse tempo todo? Por onde estive? Quem são essas pessoas? Onde morei? O que fiz durante minha vida? Tenho filhos? Alguém se importa?</p>



<p>Ficamos um tempo em silêncio, eu me imaginando nessa situação e ela, esperando que a ajudasse a lembrar. Tudo que dissesse não faria sentido e talvez a fizesse sentir-se pior. Naquele momento eu era um estranho, só restava começar do início, perguntando como estava se sentindo, falamos do tempo e da cidade.</p>



<p>Eu estava com saudade e ela estava na minha frente, mais longe do que nunca!</p>



<p>Por mais que os religiosos, espiritualistas e outros otimistas juvenis tenham suas teorias de outros mundos, vidas que se seguem, deuses amorosos e outros amuletos, nada disso resiste a neurônios, sinapses de um cérebro que simplesmente vai se dissolvendo antes da hora.</p>



<p>É simplesmente assim, e por ser assim fica difícil sem uma embriagues.</p>



<p>Quando saí o vento de outono ao fim da tarde estava frio. Eu estava vivo para sentir a tristeza da sua partida em vida. O velório terminou com um abraço e um pedido de desculpas por ser tão esquecida.</p>



<p>Ela continua na minha memória com sempre foi, enquanto eu lembrar de mim.</p>
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		<title>Amizades eternas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 May 2025 22:21:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexão]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Leitura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[realidade]]></category>
		<category><![CDATA[reflexão]]></category>
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					<description><![CDATA[Fechou o livro quando já amanhecia. Uma sensação agridoce voltava sempre que terminava uma leitura prazerosa ou que instigava seu pensamento. Estava mudado pelo livro, que é um tipo de afeto passivo de quem lê. Fora envolvido pela trama, pelas imagens que criou em sua mente, seja dos personagens, seus rostos, tom de voz, cenários &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/amizades-eternas/"> <span class="screen-reader-text">Amizades eternas</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p></p>



<p>Fechou o livro quando já amanhecia.</p>



<p>Uma sensação agridoce voltava sempre que terminava uma leitura prazerosa ou que instigava seu pensamento. Estava mudado pelo livro, que é um tipo de afeto passivo de quem lê. Fora envolvido pela trama, pelas imagens que criou em sua mente, seja dos personagens, seus rostos, tom de voz, cenários e até dos aromas e sons que o escritor habilmente trazia para a composição das cenas.</p>



<p>Sabia como o exercício da leitura faz bem, ao cérebro que trabalha potencialmente, como a seu bem-estar, do prazer de não caber mais em si, pelo que tinha vivenciado e aprendido com as centenas de páginas que, infelizmente, tiveram fim. Lembrou do amigo que havia emprestado a obra, na certeza que gostaria. Talvez essa seja a grande qualidade da amizade, esse sentimento tido por muitos filósofos como sendo o mais nobre. Em sua essência a amizade fraternal é desinteressada e em seu estado máximo quando vivida por pessoas livres, sendo, portanto, uma escolha não necessária. Atos desnecessários são aqueles que simbolizam a ideia de liberdade. Onde há necessidade e interesse, a liberdade deixou de pertencer a cena da ação.</p>



<p>Precisava devolver o livro, mas como era domingo e o amigo comentou que estaria em viagem, colocou a obra em sua estante, junto a outros que fizeram parte de sua história. Alguns já tinham perguntado pelo motivo de guardar livros já lidos, já que espaço deveria estar à disposição dos que viriam; das novas aventuras, vidas vividas intensamente ou mesmo dos que se dedicavam a escrever sobre o que virá, ficção provisória na escrita, que o tempo tornará passado. Sua resposta era sempre a mesma; espero ter tempo de quem me tornarei possa lê-los novamente, com novo olhar, percebendo e sentindo que não consegui quando da primeira vez. Nem todas as experiências são marcantes, assim como não são todos os livros que marcam nossa experiência e nos fazem pensar diferente, ampliando quem somos, não cabendo mais em quem éramos.</p>



<p>Gostaria de ter mais tempo para ler, o trabalho, os compromissos e as necessidades cada vez maiores à medida que vida avançava tornavam esse desejo um anseio que um dia haverá calma e tempo. Balançou a cabeça, negativamente.</p>



<p>Tinha passado a noite tomado pelo livro, não percebeu o tempo, o sono foi vencido pela curiosidade. Menos mal, era domingo, poderia descansar agora. A história ainda o deixava com pensamento aceso, e voltou sentir o prazer ter podido experimentar a bela obra e a melancolia pelo seu término. Ler é viver outra vida, testemunhar sonhos que realizaram ou que a vida suplantou e nos faz pensar como seria o mundo se tivessem acontecido.</p>



<p>A cada momento a vida vai tomando rumos, somos levados por ventos mais fortes que nossas forças e nos resta a esperança de que a sorte ou uma mão invisível intercederá por nós, caso tenhamos mais méritos em nossa conta que débitos. Mas isso é pouco provável, não faz sentido, já que tudo é tão incerto e imprevisível que os bilhões de vidas lutam, cada uma, com mais ou menos força pelos seus sonhos e a realização de algum sempre custa a frustração de outro. Para isso, nunca saberemos, mas nos iludimos nos momentos de premência à espera do improvável.</p>



<p>Como das vezes anteriores não era mais o mesmo, precisava deixar assentar em si o que aprendera e pensara durante esses dias que esse livro esteve ao lado esperando que o tempo sobrasse e o corpo tivesse forças para manter os olhos abertos e o pensamento livre para mergulhar na história.</p>



<p>Qual seria o próximo? Não era hora de pensar nisso. Precisava vivenciar o luto da experiência para depois começar outra, de outra natureza para não buscar a mesma história e sensações em outras páginas. Pessoas fazem isso com animais e relacionamentos, onde procurar que outro ser traga o oposto se o sofrimento foi a causa da separação ou alguém parecido para continuar vivendo a mesma história se não se pode continuar sem ela. Seres vivos não são substituíveis, a interação gera resultados diferentes, mas sempre queremos a sensação, o meio importa pouco.</p>



<p>Despediu-se do livro e da experiência. Sentiu como se um grande amigo se fosse. Mesmo que seu corpo fique na estante, a lembrança dessa história agora está incorporada a seu ser e faz parte do que será no minuto seguinte.</p>



<p>Suas páginas já estavam amareladas pelo tempo, quantos olhos as percorreram?</p>



<p>Teve vontade de escrever sobre a experiência que tinha do hábito de ler. Agora a tela branca e o cursor piscavam a sua frente. &nbsp;Pensou nos escritores, para eles talvez fosse mais fácil começar. Resolver falar do prazer da leitura, do que representa para si. Muitas histórias começam pelo fim, pensou.</p>



<p><em>&nbsp;“Fechou livro quando já amanhecia” &#8230;.</em></p>



<p></p>
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		<title>O Grande Negócio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Apr 2025 01:50:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[“A eterna culpa do homem promovida pela moral e pela religião se dá pelo fato de não conceberem o homem como ele é, mas como gostariam que fosse”. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Spinoza – Ética “&#8230; e, sobretudo sê fiel a ti mesmo e não serás falso a ninguém”. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Shakespeare &#8211; Hamlet Se tudo tem sua causa, &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/o-grande-negocio/"> <span class="screen-reader-text">O Grande Negócio</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>“A eterna culpa do homem promovida pela moral e pela religião se dá pelo fato de não conceberem o homem como ele é, mas como gostariam que fosse”.</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Spinoza – Ética</p>



<p><em>“&#8230; e, sobretudo sê fiel a ti mesmo e não serás falso a ninguém”.</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </em>Shakespeare &#8211; Hamlet</p>



<p></p>



<p></p>



<p>Se tudo tem sua causa, somos só o que podemos ser, nunca outra coisa, já que não faria sentido uma causa produzir um efeito diverso de sua natureza. Grande parte da infelicidade e sentimento de inadequação surgem desse “modelo” de homem que, segundo as formas hábeis de controle, não conseguem atingir essa utopia. Quem consegue, se é que isso é possível, é sempre a custa de si mesmo, fazendo um negócio, em troca de paraíso, reconhecimento ou vida futura de bem-aventurança. Auto estelionato, é sempre o que acontece quando se renuncia à razão, trocando o que está à nossa frente pelo que queremos ver.</p>



<p>O ineditismo da biologia é negado quando se cobra que sejamos iguais uns aos outros em comportamento, pensamento e ações. A condição do livre arbítrio é a ignorância das causas, definição spinozana para “milagre” que serve muito bem aqui. Nos imaginamos donos de nossa vida, simplesmente por ignorarmos as causas que nos fazem agir e pensar.</p>



<p>Dessa forma, o mundo nos assombra com sua potência com o que chamamos de “falta de sentido”, ignorando que se alguma liberdade existir, ela só poderá ser posta em prática em um contexto destituído dele. Os paradoxos que vemos a cada instante, que fazem nossas esperanças de justiça, bem e mal sejam destruídas várias vezes ao dia atestam essa brecha de liberdade. A vida nunca nos levou em conta, são nossas ilusões de um mundo que possamos entender que criam essas ficções.</p>



<p>Assim, nunca estamos bem, já que não somos o que deveríamos ser e a vida joga nossas ilusões no lixo. Essa negação da realidade paradoxal, potente e irracional cria o medo e abre um enorme campo para quem tem a explicação do mundo ser como é, seja pelo nosso livre arbítrio de agirmos errado pela nossa natureza pecadora, seja por alguma linha torna, resposta final quando a razão esgota com suas possibilidades. Criados com medo, eternas crianças dependentes de vontades superiores, negamos o mundo como ele é pelas causas que tem, criando culpa, fraqueza e dependência. Foucault detectou bem esse mecanismo quando disse em “Vigiar e punir” que é mais fácil criar fracos do que punir fortes. Como ele mesmo diz, onde há poder, há resistência, onde há limitação há transgressão. A depressão, ansiedade, dificuldade para dormir, drogas e compulsões são sinais que estamos perdendo a capacidade de resistir, de transgredir esse sistema de pensamento que não está preocupado com o ser humano, mas com a produção e o consumo, como já escrevi em textos anteriores. Estamos, ao desistir, morrendo lentamente, aceitando esse destino. Tudo tem causa, nunca esqueça e elas não são divinas, a vida não existe para purificar, mas para viver em potência e alegria. Os estelionatários estão vencendo e não haverá reparação, os camelos estão passando pela agulha na frente dos nossos olhos.</p>



<p>Assim, vamos nos ocupando cada vez mais, produzindo sem parar, criando culpa para o ócio, sempre criativo e reanimador, em um sistema de produtos voláteis de curta validade, símbolos de poder e felicidade, que exigem uma vida dedicada à apreciação dos outros, vendo a cada minuto o celular, contanto as curtidas, quem está nos seguindo, nos vendo e, se possível, nos invejando. As curtidas em grande quantidade mostram que a vida está sendo bem vivida, que muitos queriam estar no nosso lugar. Quando a cabeça encosta no travesseiro, lidamos com a realidade.</p>



<p>Quando Nietzsche nos convidou a dizer Sim ao mundo, a tudo que nele acontece pelo jogo de forças que é feito, é levar-se quem se É até o fim. Podemos tudo? Claro que não, temos escolhas, dizer sim e não sempre tem no que abandonamos um preço que não conseguimos muitas vezes pagar, afinal, somos sentimento, empatia e responsabilidade. Pequenas vitórias diárias, que sejam maiores que as escolhas que não conseguimos fazer, já irá nos mudando, nos trazendo aquela liberdade possível; agirmos de dentro para fora, movidos pelo que somos e não ao contrário, do que esperam de nós. Deleuse define bem essa escolha quando diz que “ser quem se é sempre será um ato revolucionário”. A história mostra que os revolucionários em todas as áreas sempre são idolatrados bem mais tarde, já que sua coragem, mostra a covardia dos demais. Normalmente são punidos, ironizados ou desprezados pelos que se recusam a sair de dentro da caverna, afirmando, aos gritos (eles sempre gritam em nome de alguém), que a realidade são as sombras que veem.</p>



<p>O deus imaginário morrerá no mesmo instante da morte do último homem, o Sol que mantém o planeta vivo, dizem os cientistas, em centenas de milhares de séculos se extinguirá. Nada é eterno, mas as montanhas ainda intocadas, o oceano que hoje agoniza, as florestas que sobrevivem são o mais próximo de eterno que temos. Interessante observar que as pessoas diante deles, dessa potência gigantesca que Kant chamava de “sublime”, mostram- se reverentes e buscam momentos de paz e contemplação. Na verdade, somos insignificantes em nossa breve transitoriedade diante deles e essa paz que dizemos sentir, nada mais é que a indiferença do que está a milhares de séculos, a mesma que demonstramos pelos insetos a quem vamos pisando sem notar.</p>



<p>Em algum momento, se chegarmos lá, as forças não existirão mais em nós, a vida estará se desprendendo e não será uma boa hora para arrependimentos. Na existência, também se sai pela porta dos fundos.</p>



<p>__________________________________________________________________________________________________________________________</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>O presente texto acompanha e busca completar o anteriormente publicado “O Grito do Silêncio”</li>
</ul>



<p></p>
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		<title>Cada vez menos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Oct 2024 20:29:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[]]></description>
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<p></p>



<pre class="wp-block-code"><code>“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”.

                                    Byung-Chul Han





Na década de oitenta o sociólogo urbano Ray Oldenburg desenvolveu a ideia do “terceiro lugar”. A casa onde moramos é o primeiro, o trabalho é o segundo. Esse terceiro lugar seria onde encontraríamos interação com outras pessoas, informalidade, troca de ideias e lazer compartilhado. Lugares como clubes, livrarias, cafeterias, bares entre outros, atenderiam essa demanda.

Hoje, esse conceito que se explica pela nossa condição de “animais sociais”, onde a interação é sempre rica, na medida em que, conversas e trocas de ideias sempre são importantes pelos pensamentos novos que temos ao entrar em contato com outras pessoas, pelas afinidades e até mesmo pela oposição de ideias que sempre tem a vantagem de nos permitir revisar conceitos e atualizá-los. Se essa já era uma necessidade detectada pelo sociólogo há quarenta anos, sua importância só aumenta pela maneira que vivemos hoje.

Desde antes da pandemia, o trabalho remoto já existia e, depois dela, aumentou consideravelmente o número de pessoas que trabalham em suas casas. Para elas, o segundo lugar deixou de existir. Mesmo hoje em dia, com o aumento da cobrança por produção em todas as profissões, a empresa ou escritório não deixa de ser um local de convivência, onde pode-se ou não estabelecer bons vínculos, mas sem dúvida nos coloca em contato com outras pessoas.

Com o advento e crescimento exponencial das redes sociais, elas passaram, para milhões de pessoas a ocupar o espaço que Ray Oldenburg defendia ser uma necessidade para nossa qualidade de vida. Podemos perguntar: redes sociais são sociais?

A resposta obviamente é não! Não frequentamos redes sociais, estamos rolando a tela e fazendo parte das telas dos demais, sozinhos. Curtir, fazer um comentário ou compartilhar vídeos de todos os tipos também não corresponde ao conceito de convivência e jamais substituirá uma boa conversa. Estamos cada vez mais sós com milhares de “amigos” em um mundo virtual, onde fazemos cada vez mais força para mostrar o quanto estamos felizes, tendo domingos “perfeitos”, e demonstrando amores eternos cada vez mais fugazes. Busca-se a saúde em corpos perfeitos, luta-se contra a passagem do tempo com artifícios cada vez mais tecnológicos. A felicidade é ser belo, ter sucesso e ser admirado. O preço? Pergunte a si mesmo.

Hannah Arendt, já na mais ainda distante década de cinquenta em seu livro “A condição humana”, separava o “Homo Laborans” do “Homo Sapiens”. O primeiro fazia ou trabalhava e o segundo aparecia nos momentos de descanso, quando praticava atividades interessantes para seu bem-estar, onde fazia o que lhe dava prazer. Já nessa época a filósofa detectava que estávamos trabalhando demais e “sendo” de menos, e via nisso um problema. Mal sabia ela o quanto isso iria piorar!

Já o filósofo coreano Byung-Chul Han em seu livro “A sociedade do cansaço” mostra que hoje o trabalho e a produção de resultados ocuparam praticamente toda dimensão da vida atualmente. Como ele diz em seu livro: <em>“De fato, o que causa a depressão pelo esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão do desempenho. Desse modo, a síndrome de Burnout não expressa o ‘si mesmo’ esgotado, mas, antes, a alma consumida. Na sociedade do desempenho, o depressivo é um animal laborans, um animal trabalhador – que explora a si mesmo, sendo agressor e vítima ao mesmo tempo. ...O sujeito do desempenho encontra-se em uma guerra consigo mesmo, e o depressivo é o inválido dessa guerra internalizada”.</em>

Em outras palavras, nossa cultura, assim como nos fez internalizar as culpas religiosas, por exemplo, nos impõe a necessidade de produzir cada vez mais, de resultados crescentes, de mais e mais entrega pelas metas. Tudo que fazemos precisa estar ligado a nosso desempenho de busca desse resultado. Nunca nos desconectamos do trabalho e como como diz o filósofo, ninguém precisa nos cobrar nós mesmos fazemos isso. Nas férias, dê uma olhada no email, atenda uma ligação de trabalho e, é claro, leve um livro para ler que aumente seus resultados, que o torne um líder mais eficaz etc. No aeroporto, enquanto espera o voo, por que não conhecer os cinco passos para a felicidade? Mesmo que você já tenha lido a publicação anterior onde os passos eram só quatro, todos precisam faturar, o escritor, a editora e a livraria, então surgiu um novo passo. Agora sim, mesmo que tenha tudo sido feito nos quatro passos anteriores e a felicidade não tenha vindo, com o quinto, não tem erro!

Tudo que fazemos precisa ter um objetivo, não há muito espaço para cultivar relacionamentos e experiências que não tragam resultados financeiros ou na carreira. Impossível não adoecer, pela total ausência de ser! É justamente nesse “ser” que está nossa identidade, quem realmente somos, o que nos distingue dos demais.

No dia 13 de Maio de 1888, foi abolida a escravidão no Brasi. Não foi por compadecimento com a abominação que era, mas por ter se feito umas contas e descobriram que pagar salários era mais barato que abrigar e alimentar os escravos. O que chamamos hoje, nessa sociedade doente de “comprometimento” não deixa de ser uma escravidão gourmetizada. Tudo perde valor rápido e precisa ser reposto ou atualizado, a necessidade de se manter o que se tem exige cada vez mais e subir a escala custa mais tempo, saúde e relacionamentos.  Quando não aguentar mais, a saída não é a revolta, mas a resiliência, ou seja, continuar aceitando tudo isso em troca de uma cenoura que nunca virá. Na escravidão, o chicote e o tronco para os desobedientes, na sociedade pós-moderna, resiliência, antidepressivos e remédios que garantem o sono.

Vive-se sob a égide do medo de não conseguir, de perder e diminuir. Esse medo, obviamente, aumenta a angústia, dorme-se mal, exagera-se para compensar, os remédios não visam cura, mas apenas evitar que se pare de produzir, o futuro é uma ameaça, crianças e adolescentes se suicidam em níveis nunca vistos e por aí vai.

Como já escrevi em textos anteriores, se a finalidade é a produção e o consumo, o humano é o meio por onde se atinge esse objetivo, portanto sua saúde e realização são irrelevantes. 

Esse pensamento está globalizado, a humanidade agoniza e não há nenhuma recompensa ou paraíso para os que sofrem, não se iluda, essa é a cenoura da fé!





</code></pre>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p></p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p></p></blockquote></figure>
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		<title>O maior de todos os crimes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jul 2024 13:18:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; O Descobrimento &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Em 1492, os nativos descobriram que eram índios, &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#160;descobriam que viviam na América, &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#160;&#160; descobriram que estavam nus, &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#160;&#160; descobriam que deviam obediência a um rei e uma &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; &#160; rainha de outro mundo e a um deus de outro céu, &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; e que esse deus havia &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/o-maior-de-todos-os-crimes/"> <span class="screen-reader-text">O maior de todos os crimes</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                               O Descobrimento</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                      Em 1492, os nativos descobriram que eram índios,</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                       &nbsp;descobriam que viviam na América,</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                       &nbsp;&nbsp; descobriram que estavam nus,</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                       &nbsp;&nbsp; descobriam que deviam obediência a um rei e uma</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                       &nbsp; rainha de outro mundo e a um deus de outro céu,</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                          e que esse deus havia inventado a culpa e o vestido</em></p>



<p><em>                                                                                   e que havia mandado que fosse queimado vivo quem adorasse</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                       &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp; o Sol e a Lua e a Terra e a chuva que molha essa terra.</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;                                                                                         &nbsp; Eduardo Galeano</p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p>Aprendemos com Michel Foucault que todo discurso é um elo entre o saber e o poder, e, que o discurso cria instâncias de realidade e de verdade, obviamente impactando a vida das pessoas de modo a atender os interesses desse poder. Da mesma forma Nietzsche diz que todo discurso é uma fraude, já que é movido pelo interesse do controle e do poder, além de reduzir a realidade, já que toda palavra reduz, encurta e diminui aquilo que é vasto.</p>



<p>Como mostra Eduardo Galeano no cruel, sensível e genial texto de abertura, partiu-se do ponto que os habitantes da América vivam de maneira errada para os colonizadores, ou, em outras palavras; viviam de uma forma que não atendia seus interesses e objetivos. O que fazer? Simples, mostrar que estavam errados e que precisavam aprender o “jeito certo” de viver, pensar e adorar. Para isso, a força!</p>



<p>A América nunca foi descoberta, já que tinha seus habitantes há milhares de anos. Ela foi descoberta pelo conjunto de conceitos e crenças que chamamos de civilização, onde existe a maneira certa de viver, comer, se vestir etc.</p>



<p>Aconteceu somente na descoberta da América e em outras colonizações? Obviamente que não, mas a má notícia é que aconteceu comigo, com você, acontecerá com quem está nascendo hoje e aconteceu com quem já viveu e morreu.</p>



<p>Estamos imersos em uma cultura, que, como todas as outras, nos disse através da boca de quem nos criou e do sistema cultural que estamos submetidos, o que é um deus (quais as versões permitidas), o que é certo, errado, moral, imoral, belo, feio, justo, injusto etc. São esses conceitos tidos como “certos” que nos fazem interpretar a realidade e tomar nossas decisões na vida.</p>



<p>O que vivemos dia a dia é resultado desse sistema de crenças que se movimenta de acordo com os interesses dos detentores do discurso, assim, nunca fomos livres para escolher. As opções são as permitidas, fora delas, está a patologia, o crime e o desprezo social.</p>



<p>Como diz Foucault na sua aula transcrita “Ordem do discurso”:</p>



<p><em>“Suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certos procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seus acontecimentos aleatórios, esquivar sua pesada e terrível materialidade” (pg 9).</em></p>



<p>Nosso pensamento, portanto, também é limitado pelo nosso vocabulário, da maneira que nomeamos o mundo através do significado das palavras. Nas culturas, por exemplo, onde não existe o conceito de casamento monogâmico, onde as pessoas são livres para se relacionarem sexualmente sem a ideia de compromisso, não existe a palavra “ciúme” no seu vocabulário. Assim, não existindo a palavra, não existe o sentimento de posse em relação a outra pessoa. Poderia dar outros exemplos, mas esse já é suficiente para entendermos como funciona o mecanismo. Falar livremente, dizer o que se quer, será sempre um risco que pode abalar a realidade. Portanto, atribuir um nome e um significado, é, em última instância, determinar como aquilo não só é chamado, mas interpretado!</p>



<p>O mundo ou a vida, não é como pensaríamos se não nos tivesse sido imposto as palavras que o descrevem. Até pouco tempo atrás, não havia vocabulário, não existiam palavras, o que não era necessário já que a vida, trinta ou quarenta mil anos atrás era muito simples. Na medida em que a complexidade foi aumentando, por agrupamentos cada vez maiores, a palavra tornou-se necessária e foi aí que toda grande “colonização” aconteceu. Começamos a precisar de mais regras, de limites, de atribuir valor e conceito a realidade. O poder que é natural em qualquer agrupamento, passou a ser disputado, e as ideias simples e únicas, passaram a ser discutidas e negociadas. Surgiram política e religião; a primeira para organizar as sociedades saídas do primitivismo e a segunda para atribuir um sentido à vida e explicar a morte, com a finalidade de, como a história mostra, estar ao lado da política, chancelando as imposições com o selo divino.</p>



<p>Os índios, incultos e sem alma, como defendiam os religiosos, descobriram que era errado viver seminus em um clima quente e que a água que nutria a terra, o sol que trazia a vida, rio e as árvores que lhes mantinham não eram deuses. Os deuses ou deus era outro, que nunca tinham ouvido falar e que não fazia parte da natureza. Em outras palavras; foi dito que seus deuses que eram concretos e faziam parte da sua vida diária não eram verdadeiros, o verdadeiro passou a ser uma ficção, alguém nunca visto nem sequer por quem dizia que Ele existia.</p>



<p>Eu não sei como viveria se me dessem outras palavras e outros significados, quantas realidade são possíveis? Infinitas!</p>



<p>Julgamos nosso jeito de viver como certo e outros como errados, somente por serem diferentes. Imagina comer os cachorros! Tranquilo na Indonésia, assim como abater vacas e bois é inimaginável onde são sagrados. Quem está “certo”? Ninguém, assim como não existe “erro”, só uma maneira de pensar passada de geração em geração que discutimos pouco, até que ela seja prejudicial economicamente, aí a revisão se faz sem atropelos.</p>



<p>Em um mundo sem palavras, existiria alguma liberdade de sentir o mundo individualmente e nem dava para discutir quem estava com a razão, já que até isso é uma imposição que precisa de palavra; o que é ter razão?</p>



<p>Mas como sempre a violência, em suas diversas formas, impõe suas “verdades” em nome do interesse, chamado de “maioria”, sempre comandado pela “minoria”.</p>



<p>Toda palavra é, e sempre será uma ficção, condenada a ser verdade pela repetição e pelo medo. Os gregos diziam que a palavra veio para substituir a espada, não era necessário matar quando se poderia conversar. Erraram, mesmo com a palavra a violência e guerra nunca deixaram de existir, simplesmente porque toda palavra reduz, torna comum o que é raro e irrepetível e cria possibilidades que nunca interessaria a quem quer que tudo seja sempre do mesmo jeito.</p>



<p>A palavra pode matar, seu significado gera conflito entre quem tem significados diferentes, todos brigando para impor seu mundo aos demais. Todos tem razão e ninguém tem, pois nada pode ser igual para seres diferentes entre si. Quantos já morreram e mataram em nome de seu deus? Em nome da “liberdade”? Em nome de uma fronteira?</p>



<p>Nomear é uma forma de poder, toda palavra é arbitrária pois se não aceita, gera uma disputa de força para impô-la.</p>



<p>Atualmente a globalização quer que todos tenham o memo idioma, é “importante” saber falar o grande idioma, conhecer o significado das palavras de quem detém o poder. No Brasil, liquidação é “sale”, mas como o poder nunca se mantém porque sempre tem alguém que pode tomá-lo, não se surpreenda se daqui a pouco for “折扣”.</p>



<p>Somos os índios da pós-modernidade e nada mudou sob o sol.</p>



<p>_______________________________________________________________________&#8211;</p>



<p>Para saber mais:</p>



<p>Michel Foucault – A Ordem do Discurso</p>



<p>Nietzsche – Verdade e Mentira no sentido extra moral</p>
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		<title>O grito do silêncio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Dec 2023 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160;&#160;&#160; “Ser amaldiçoado é saber que tua fala não pode ter eco, porque não há ouvidos que te entendam. Nisso se assemelha à loucura”. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Rosa Monteiro &#160;&#160;&#160; “É impossível conviver com a realidade sem um mecanismo de fuga”.                                                                               Freud &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Há quem diga que nosso maior mal é sabermos coisas demais; que morremos, caminhando &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/o-grito-do-silencio/"> <span class="screen-reader-text">O grito do silêncio</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “<em>Ser amaldiçoado é saber que tua fala não pode ter eco, porque não há ouvidos que te entendam. Nisso se assemelha à loucura”.</em></p>



<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </em>Rosa Monteiro</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; “<em>É impossível conviver com a realidade sem um mecanismo de fuga”.</em></p>



<p><em>                                                                              </em>Freud</p>



<p></p>



<p></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Há quem diga que nosso maior mal é sabermos coisas demais; que morremos, caminhando para a morte a cada dia pela inevitável deterioração do corpo, que somos frágeis demais diante da natureza sempre insana e caótica. Que sentimentos que gostaríamos que durassem a vida toda podem terminar a qualquer momento, sem que nada possa ter feito para isso e que pessoas  importantes em nossas vidas nunca tem prazo de permanência e mais outras tantas inseguranças em todos os aspectos.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que fazemos com tudo isso? Pensamos, imaginamos possibilidades, sofremos pelo que pode acontecer mais pelo que realmente ocorre. Somos atormentados pelo descontrole que se passa em nossa cabeça, invadida por pensamentos e desejos que parecem(?) não serem nossos, ou da ideia que temos de nós.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Angústia.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Disfarçada de desejo, a angústia (soma dos nossos medos), nos ilude dizendo que poderá ir embora se algo acontecer, ou pior, se for comprado. Toda uma cultura subsiste desse sofrimento, conforme já escrevi em textos anteriores. O fim da angústia é sempre uma falta, por isso lutamos e esperamos. Como lidamos com isso, com nossos pensamentos e medos que nossa mente transforma em imagens de um futuro de dor ou em vídeos retro de um passado que gostaríamos de poder recontar?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pensamos muita coisa para poder conviver com a incerteza na tentativa desesperada de poder encontrar uma saída que ofereça conforto. Mas que conforto? Uma certeza das previsões ruins não se realizarem, mas mesmo que conseguíssemos, o que faríamos com a morte?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Queremos entender, queremos viver para que a morte seja esquecida. Se Epicuro estiver certo, vida e morte nunca se encontram e não há o que temer e sentir-se vivo é nosso antídoto. &nbsp;Odiamos as rotinas pois elas são a ampulheta por onde vemos escorrer na areia nossos poucos dias. Se nos iludem que temos algum controle, é também a antessala das limitações, perdas e dores que o tempo inevitavelmente trará. Quem sabe uma vida sem rotinas com novidades diárias? Nunca esqueça que o medo sempre fala do desconhecido, do que não conseguimos imaginar ter algum controle. Se rotina, portanto, diminui o medo com a falsa sensação de previsibilidade, novidades (mudanças) diárias nos assombrariam. E agora?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como queremos entender, somos sufocados por pensamentos que temos medo de compartilhar e esse medo vem de querermos controlar (sempre isso), o que pensam a nosso respeito. Nossa imagem será uma pequena marca que podemos deixar nos outros, mesmo que não seja tão verdadeira assim. Se existimos no olhar do outro, que seja uma boa visão, pelo menos. Mas esses pensamentos profundos, que nunca compartilhamos, até por não os entendermos direito, não levam isso em conta, e, por não serem expressos e metabolizados se tornam algo que precisa sair de nós, para não nos envenenarmos de medo e sofrimento. Freud está certo!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não podemos dizer o que pensamos, não podemos fazer o que queremos em um cerco que se fecha rapidamente.&nbsp; Tudo começa quando temos nosso primeiro desejo e precisamos negociar com o mundo para obtê-lo.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se pudéssemos conversar, trocar e perceber que não estamos sós, que esse tormento é de todos que pensam e veem a vida sem preenchimentos ilusórios? Nunca teremos respostas, nunca saberemos e como conviver com isso?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sentir-se “louco” é sentir-se só, apartado, alucinando internamente em um mundo em que nos sentimos totalmente sós. Historicamente os loucos são retirados do convívio e como nos conta Foucault em seu livro obrigatório “A História da Loucura” ser louco é ser diferente, é agir e falar o que muitos querem, mas tem medo. Buscamos como Diógenes, um homem com quem conversar e compartilhar nossa loucura. Ser louco não é estar errado, ninguém nunca está, se cada um tem seu mundo. Mas ser diferente, ver outro mundo, mas principalmente, sentir-se fora do mundo onde estão os outros. &nbsp;Cabe lembrar que, se todos enlouquecessem o louco seria o são.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Comemos e bebemos exageradamente, geramos compulsões demais para esquecer nossa loucura que é nossa verdade. A solidão mais profunda é nossa lucidez, aquela que ninguém quer ver, nem nós. Procuramos alguém para nos relacionarmos afetivamente ou uma amizade para podermos compartilhar e nem sempre conseguimos, por termos preconceito contra nós, afinal, o senso comum é régua para todos e ninguém está verdadeiramente nela, mas temos medo da exclusão, como os loucos. Nos comparamos com esse modelo idealizado e doente, que regula e separa os loucos dos normais. Na verdade, somos todos loucos que precisamos parecer normais e daí vem todo o sofrimento, até que um rompimento surja, descontrolado pela repressão.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ansiedade, pânico, a somatização que destrói o corpo internamente é não aceitar, pela normatização, que sempre estivemos sós, que nunca podemos nos expressar e sem perceber procuramos externamente os culpados e as soluções pela dor de nunca poder Ser.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estamos inexoravelmente abandonados à nossa loucura. O mundo é percebido individualmente pela natureza irrepetível, o que vemos só nós vemos, e procuramos quem veja os mesmos culpados e as mesmas soluções. Se loucura é solidão, alucinar junto é uma espécie de verdade.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A necessidade da padronização do diferente atende a definição Cartesiana da verdade, como algo que seja fruto de um acordo, porém todos os acordos visam algum interesse; no caso da civilização, a convivência possível dos diferentes que usam o uniforme dos costumes vigentes.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não são só os policiais, estudantes e trabalhadores que usam uniformes para parecerem todos iguais, escondendo suas diferenças, é uma metáfora que serve para todos. A grande mentira: somos todos iguais, ou “irmãos”!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A &nbsp;globalização está cada vez mais insuportável pois agora o mundo pensa e age igual, o “sucesso” em qualquer lugar tem os mesmos símbolos, assim como os remédios psiquiátricos tratam as dores orientais e ocidentais da mesma forma.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nunca tantas pessoas estão pensando em sair da vida, dos mais jovens até os de meia idade. O mundo está cada vez mais insuportável, pois não há mais lugar para a loucura de viver individualmente.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando, ao invés de ensinar matemática ou química, vamos falar da loucura, da angústia, da morte e da vida? Dessa sombra que nos segue o tempo todo cada vez que não conseguimos escapar dos nossos pensamentos?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por mais que alguém “chegue lá” e seja um sucesso, nunca escapará de si próprio, das perguntas sobre o medo e da história que sempre só saberemos a metade e que, parece, nunca tem um final feliz justamente por nunca terminar. O descanso ou a paz é aceitar que nunca saberemos tudo, que sempre teremos um mundo só nosso e que a falta de lógica e sentido é muito mais um charme da vida do que algo que valha a pena ficar preocupado.</p>



<p>                                                                  Se loucos todos somos pela nossa individualidade,&nbsp; podemos dizer que nos dividimos em dois grupos; os loucos que preenchem os espaços vazios da razão com as superstições,&nbsp; que vendem explicações&nbsp; normalmente impossíveis da razão aceitar, vivendo na esperança (sempre acompanhada do medo) que o improvável possa acontecer. Esse tipo de loucura dói mais, já que a razão mesmo deixada de lado, sussurra que o improvável nunca acontece.&nbsp; De outro lado, temos o Louco, que vive sua solidão sabendo que as grandes perguntas nunca serão respondidas e entra em acordo com os limites da razão e vive sua vida sem esperanças do improvável. Sua luta sempre será fazer o melhor possível com sua vida com o que tem diante de si. Nada mais solitário que isso!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Shopenhauer com sua lucida acidez, chegou bem perto quando disse: “Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que dizer: não nos deixe ver como realmente somos!”</p>
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		<title>O fim da Teleologia*</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Eduardo O. Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Oct 2023 15:59:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[“A mente encontra mistérios porque busca por instinto um objetivo e uma finalidade para toda coisa. Parece que lhe é proibido conceber as coisas tais como são – pelo menos tais como se mostram.” &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Paul Valery Para a Teleologia tudo tem um fim, tudo ruma para um fim e esse fim é resultado de &#8230;<p class="read-more"> <a class="" href="https://eduardocarvalho.net/o-fim-da-teleologia/"> <span class="screen-reader-text">O fim da Teleologia*</span> Leia mais &#187;</a></p>]]></description>
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<p></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“A mente encontra mistérios porque busca por instinto um objetivo e uma finalidade para toda coisa. Parece que lhe é proibido conceber as coisas tais como são – pelo menos tais como se mostram.”</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paul Valery</p>
</blockquote>



<p></p>



<p>Para a Teleologia tudo tem um fim, tudo ruma para um fim e esse fim é resultado de uma trama inteligente, que sabe onde tudo vai terminar e por que, além de saber tudo que acontecerá. Discutir esse assunto é uma ofensa, afinal essa “inteligência” tem um nome e todos os predicados já citados. Mesmo que pareça óbvio que a Teleologia não se sustenta diante da realidade, dizer que ela não existe é atacar as religiões, é dizer que não há, nunca houve ou haverá alguém por nós. Em outras palavras, é destruir a raiz de todas as superstições.</p>



<p>Spinoza e Nietzsche enfrentaram essa questão com o preço que paga quem ousa discutir o estabelecido e, principalmente, a quem interessa que se pense assim. Para não deixar esse texto longo, me deterei nas razões de Spinoza para negar a tese Teleológica, deixando a visão de Nietzsche (que tem vários pontos comuns), para outro momento.</p>



<p>Ao aceitarmos que as coisas “são assim”, que tudo tem um fim ou propósito, mesmo que ininteligível, em primeiro lugar tendemos a não nos rebelarmos e a vermos acontecimentos contra quais deveríamos procurar suas causas para erradicá-los de nosso futuro, como algo que faz parte de um desígnio. Ao invés, curvamo-nos para não desobedecer a ordem divina que nos impôs o acontecimento e, logicamente, essa revolta teria um preço a ser pago, seja alguma punição nessa ou em alguma futura existência.</p>



<p>Pelo desconhecimento das causas (princípio spinozista da ignorância), desejamos preencher o vazio do não entendimento que gera agonia, para isso nos escondemos do enfrentamento, apoiados na causa na <em>vontade divina, </em>que sempre sabe o que faz, como o pai que nos protege dos riscos ignorados pela infância com suas ordens que, mesmo não fazendo sentido, trazem a ilusão da segurança pelo poder da autoridade.</p>



<p>Para assegurar que esse poder seja eterno e indiscutível, a construção teórica oferece uma explicação para todas as coisas, mesmo as mais absurdas, onde a fé aceita sem discutir linhas tortas ou desígnios que estão além do cognoscível. A inteligência e a razão são tratadas como falta de fé, ou desqualificadas pela nossa “pequenez” diante do poder do “absoluto”.</p>



<p>Assim, por exemplo, nos momentos de decisões sobre nossa vida, nos sentimos impotentes pela incerteza do que virá, afinal não temos essa “inteligência” que tudo sabe, principalmente o futuro. Sem saída, a ela entregamos nossas escolhas, e com medo do futuro incerto, ficamos dispostos a acreditar em qualquer coisa que nos explique que esse futuro está nas mãos dessa divindade que, hoje, gerencia oito bilhões e meio de destinos. Abrigar-se no poder divino, diz Spinoza, torna a ignorância o grande e real poder.</p>



<p>Toda crença, lembrando que a condição do credo é a ignorância, ou, só acreditamos no que não sabemos, acontece pelo medo diante do desconhecido, que é aplacado pela esperança de que tudo esteja sob controle dessa divindade a quem obedecemos e tememos. A razão é uma só; queremos uma segurança que é incompatível com a impermanência e devir de tudo que coexiste com naturezas e necessidades diferentes e antagônicas. Diante da mudança constante e imprevisível, facilmente constatáveis, verdades e seres eternos são um bálsamo e um abrigo seguro para quem permanece na infância da realidade. Antes de Deus ter criado o homem a sua semelhança, imaginar Deus semelhante ao homem foi o princípio de tudo, afinal quem escreveu essa “verdade” foi um homem, como eu e você, convém nunca esquecer.</p>



<p>Questionado sobre os milagres em uma correspondência, Spinoza responde com brevidade: <em>milagre é o desconhecimento das causas</em>! O que foi considerado milagre anos e séculos atrás hoje sabemos perfeitamente suas causas e ninguém mais usa esse nome para o que sabemos como acontece. Essa brecha pelo desconhecimento de como acontece tem no milagre o preenchimento dessa ignorância. Eclipses foram milagres, pessoas ditas mortas voltarem a vida também, pestes que dizimaram milhares foram vistas como punição etc. Hoje a ciência explica sem esforço as causas e nada disso é considerado intervenção divina e poderia dar centenas de outros exemplos. Citando Spinoza no <em>Tratado Teológico Político: “um milagre[&#8230;]é um fato que não pode explicar-se pela causa, isto é, um fato que ultrapassa a compreensão humana&#8230;Estão completamente enganados os que invocam a vontade de Deus sempre que não sabem explicar uma coisa. Que maneira mais ridícula de confessar a ignorância!</em></p>



<p>A Natureza é imprevisível, uma força de vida destituída do que chamamos de inteligência, tendo a humana como parâmetro. Se furacões, pestes, enchentes e terremotos fazem parte, alguns com causas conhecidas e outras não, a vida em si mesma é uma potência onde cada ser singular, busca o que lhe é necessário dentro de sua natureza. Cada ser é irrepetível, mesmo dentro de sua espécie e age dentro de contextos que estão em constante impermanência e imprevisibilidade, sempre mais forte que cada um em particular, e isso torna o que chamamos de “vida”, acontecimentos que não respeitam nosso medo que sempre pede previsibilidade e controle para nos sentirmos seguros. Nunca saberemos as causas de tudo e conviver com isso seria a maneira melhor de vivermos o <strong>possível</strong> (aquilo que está a nosso alcance), juntamente com o <strong>necessário</strong> (aquilo que acontece pelas causas que tem, sendo, portanto, inevitável) e o <strong>contingente</strong> (aquilo que acontece movido por contextos externos, que podem ou não acontecer).</p>



<p>O que chamamos de “Deus” é, infelizmente, resultado do nosso medo e a “Fé” tem a mesma origem; acreditar que tudo tem um propósito inteligível, estando sob controle, que o improvável acontecerá e se não acontecer, isso será bom da mesma forma, que em algum momento fará sentido. &nbsp;Não há como prever o futuro, já que tudo está imerso no possível, necessário e contingente.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;Spinoza via Deus sob outra ótica, Ele poderia ser alcançado pela razão, pela observação racional da vida. Somente Deus é causa de si mesmo e tudo que vive são modos desse Deus, suas expressões, sempre finitas e movidas por causas exteriores, não sendo, portanto, possível a teleologia assim como a vemos. Deus não está em algum lugar ele é tudo que existe e acontece. Não está fora observando e julgando, é a própria realidade, está acima do que chamamos bem, mal, certo, errado, justo ou injusto. Esses conceitos criamos pelo nosso medo de uma vida imprevisível, de quem se recusa a viver na instabilidade, infância que nunca termina e que sempre precisará de um “pai” protetor que nos diga o que devemos fazer para que ele nos proteja em troca de obediência cega e inquestionável.</p>



<p>Nada ruma para algum fim específico ou determinado. Não existe lugar para chegar ou terminar. Tudo é Vida, tudo são possibilidades, deliciosamente incertas. Estamos sós, por nossa conta, nada depende só de nós, tudo é sempre inédito na impermanência em circunstâncias ou contextos muito potentes. Nossas ações mudam a vida a vida nos muda a todo momento!</p>



<p>Somos mamíferos cientes da morte e isso explica nosso medo diante do imprevisível. A saída da maioria é sobreviver, obedecer e confiar que a recompensa chegará, uma troca. Para quem vive essa imprevisibilidade, viver é um mundo de oportunidades.</p>



<p>Queiramos ou não, estamos escolhendo e arcando com a decisão de como pensamos que seja viver!</p>



<p>Não há fim, tudo é percurso.</p>



<p></p>



<p>____________________________________________________________</p>



<p>*Teleologia, da palavra grega “télos”, que significa propósito ou fim, é o estudo dos objetivos, fins, propósitos e destinos. Na teleologia acredita-se que os seres humanos e outros organismos têm finalidades e objetivos que orientam seu comportamento&nbsp;.</p>



<p>&nbsp; * [Filosofia] Capaz de relacionar um acontecimento com seu efeito final. Que diz respeito à teleologia, à ciência que tem a finalidade (causas finais) como essencial na explicação das modificações que ocorrem na realidade.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bibliografia:</p>



<p>Ética – Baruch Spinoza</p>



<p>A negação da Teleologia e das causas finais – Christophe Miqueu – O mais potente doa afetos: Spinoza e Nietzsche, André Martins (Org.)ed. Martins Fontes</p>
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