<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:blogger='http://schemas.google.com/blogger/2008' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd="http://schemas.google.com/g/2005" xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225</id><updated>2024-09-07T18:39:34.931-03:00</updated><category term="confissão"/><category term="#sartre"/><category term="#morte"/><category term="#confissão"/><category term="castidade"/><category term="castigo"/><category term="culpa"/><category term="má conciência"/><category term="sacerdote"/><title type='text'>Divagando</title><subtitle type='html'>sobre um leque variado de temas: umas vezes, com reflexões pessoais; outras, com temas de autores consagrados. Mais do que um blog, este deverá ser considerado um ficheiro divagante, sem preconceitos ou falsos pudores, na procura da desmi(s)tificação de &quot;verdades&quot; e certezas dogmáticas.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default?redirect=false'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;redirect=false'/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2716</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-4468175931214840812</id><published>2018-08-12T23:45:00.002-03:00</published><updated>2018-08-12T23:45:56.650-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O ÊXTASE DA VIDA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Sócrates estava próximo de seus últimos dias quando disse: “Só sei que nada sei.” Mas ele sabia muito, foi um dos maiores filósofos da humanidade. De fato, nem deveria ser chamado de filósofo, pois estes buscam compreender a vida através da mente, e ele, entretanto, era um homem da mais pura experiência; estudou muito, mas colocava em prática tudo aquilo que ensinava. E foi assim até seu último momento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Através de sua experiência de vida, Sócrates descobriu que o maior tesouro da existência vem de um estado de não mente: no momento em que o ego desaparece, que a personalidade se esvai, você se torna puro e integrado ao todo. São momentos de não mente, de pura sensação, que trazem o maior dos alimentos para a alma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Esse é o alimento supremo: o êxtase da vida, em estado de graça, de alegria, de comunhão com o todo. Nenhuma aflição, nenhum futuro, nenhum objetivo, somente a mais pura paz e integração com o universo. Todos já pudemos experimentá-lo, mas a maioria de nós não se conforma com a perda desta sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por isso tantas pessoas buscam as drogas, buscam o estado alterado de consciência, para fugir, mesmo que por alguns instantes, da escravidão de uma sociedade doentia. A intenção não é negativa, mas, sim, a forma, porque ao depender de um agente externo acabam se tornando ainda mais escravas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A Bíblia fala sobre o encontro e a perda desse estado de êxtase quando narra um momento de crise aguda na vida de Jacob: jurado de morte pelo irmão gêmeo, completamente dominado pela dúvida e pelo medo, afastado da família, a incerteza diante do deserto, enfim, um momento caótico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Ele estava ainda iniciando a solitária travessia pelo deserto, quando o forte calor, combinado à solidão existencial, o deixaram tomado pela fadiga. Resolve parar para descansar, deita no chão arenoso, ainda quente, colocando a cabeça sobre uma pedra, e sonha com anjos que sobem e descem por uma escada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Diante de tal revelação, Jacob descobre que grande parte do mal que apontava no irmão estava dentro dele mesmo. É sempre assim: só conseguimos enxergar no mundo aquilo que já temos dentro de nós. Mas agora ele se desprendera de tudo. Não havia qualquer planejamento de futuro, o passado ficara para trás, tudo o que lhe restava era o presente. Ao acordar, Jacob diz:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; “Deus estava aqui e eu não sabia!”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O DESPERTAR&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O “acordar” aqui é significativo, porque aponta para o primeiro grande despertar de sua vida. Ele estava no seu pior, como acontece eventualmente com cada um de nós, quando tudo parece dar errado, quando não enxergamos uma forma de vencer as barreiras impostas pela vida. Neste momento, ele redescobre o ensinamento fundamental do avô Abrahão: “Deus está em tudo e em todos.” Mesmo nos momentos mais difíceis, há algo de maravilhoso a ser revelado. Jacob estava diante do flash de seu primeiro despertar, que chegou exatamente quando parou de brigar e, exausto, se jogou ao solo. Então aconteceu!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O despertar de um homem é um momento de energia máxima, o clímax da existência. Quando acontece, surge um homem novo, inteiramente novo. A mente manipulada pelo ego deixa de existir, e, com sua ausência, o medo e a raiva desaparecem por completo. É o poderoso êxtase que vem com a plenitude do viver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por essa razão, os mestres orientais formulam quebra-cabeças sem solução para seus discípulos. Dizem: “Descubra o segredo da imortalidade oculto na sequência dos números primos.” O discípulo passa anos buscando a resposta, o mestre reclama, diz que ele não se esforça o suficiente e quando ele desiste, cria espaço para acontecer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Esse êxtase é comumente sentido em situações que envolvem grandes riscos ou mesmo perigo de morte. Uma vez, um sábio relatou sua experiência quando se via prestes a se afogar no oceano. No momento em que estava a ponto de perder a consciência e de deixar a vida, voltou à superfície e conseguiu uma respiração salvadora. Ele descreve então o supraestado de consciência que obteve simplesmente por se sentir vivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Vivo ele estivera desde seu nascimento, mas no momento em que sentiu o quanto, de fato, tudo pode se transformar a qualquer segundo, pôde experimentar a, até então, inédita sensação do estado de supraconsciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Ela vem no momento em que a mente se cansa, quando você joga a toalha e desiste de todas as alternativas racionais, de todos os métodos, porque descobre que a mente é incapaz de trazer a paz de espírito, esse sim, o néctar divino, a grande conquista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A alegria do êxtase surge com o total agradecimento pela vida. Ainda que não saibamos exatamente o motivo de estarmos neste mundo físico, com que finalidade, para onde vamos, de onde viemos, é certo que há um propósito mais profundo para tudo isso. Se você experimenta essa sabedoria, conhece o êxtase espiritual, que só acontece quando você desiste do controle da mente e coloca o foco da sua vida no aqui, agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; UM MODELO EM TRÊS ETAPAS&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Já senti algo assim. É difícil traduzir em palavras a energia que senti. Uma paz de espírito duradoura, um novo olhar para o mundo. Mas logo voltei a me deixar tomar por um padrão vibratório baixo. Por que esses momentos são tão rápidos?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Uma inspiração inicial, seguida da perda de toda a sensação e o desafio de voltar ao ponto de origem. Esse é um modelo que, se você observar cuidadosamente, constatará se aplicar a todas as situações da vida. Ele está codificado na Bíblia e fala de três etapas básicas da criação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A primeira é um ponto inicial, um infinito onde tudo existia. Na Bíblia é descrito como “dia um”. Diferentemente dos demais, que são descritos como “segundo dia”, “terceiro dia” etc., esse não foi descrito como “dia primeiro”. Um aparente detalhe, mas significativo porque indica que só o que existia era um “todo”. Não havia necessidade de mais nada. Tudo que havia era um grande estado de unidade, que se bastava, um estado de puro êxtase, alegria, amor, de total unidade entre todas as almas, entre todos os seres. Somente a pura energia criativa, que hoje chamamos Deus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Já a segunda etapa é totalmente oposta à primeira. Se na primeira tínhamos o todo, o uno, agora surge o fragmento; se só existia a imortalidade, agora temos a morte. São, de fato, completamente opostas: de um lado, o puro infinito, do outro, o finito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas há ainda uma terceira etapa, talvez a mais misteriosa, que cria um vínculo entre os primeiros dois estágios. Ela surge mediante um movimento em direção ao ponto inicial. Aqui é possível o retorno ao êxtase da vida, não como fruto de circunstâncias externas favoráveis, mas por meio de uma energia muito mais permanente, uma paz inabalável, que surge no reencontro do ser com o divino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Esse esquema pode ser aplicado a absolutamente tudo o que existe, porque tanto o micro quanto o macro respondem às mesmas leis físicas e espirituais. Fomos criados pelas mesmas leis que criaram o sistema maior da existência. Assim, não há como estudar o universo sem estudar o homem, nem como conhecer o homem sem conhecer o universo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Na procriação humana, por exemplo, a figura do pai aparece na primeira etapa. Sua contribuição é mínima se considerarmos a matéria, a substância envolvida, o microespermatozoide. Mas é quando ocorre o êxtase do clímax sexual, fruto de uma suprema união entre dois seres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Na segunda etapa, a mãe aparece com uma participação muito mais efetiva, quase total: o óvulo macro, todo o processo de gestação, culminando em um doloroso parto. Observe que nesta fase não há qualquer necessidade de participação paterna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A terceira etapa se caracteriza pelo surgimento de uma nova vida. Aqui, os dois primeiros estágios se fundem para criar algo totalmente novo. Por meio da união do ponto um com o ponto dois atingimos o milagre da criação, o novo ser, que se manifesta no terceiro estágio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O modelo se aplica igualmente aos relacionamentos afetivos. Em um primeiro estágio, o casal se conhece e se apaixona loucamente. Isto é muito inspirador, e quem já amou sabe do que estamos falando. A primeira semana de contato, a fusão de duas almas, é algo muito forte: os problemas desaparecem por completo, dando lugar apenas ao riso, à satisfação, à alegria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas com o passar do tempo, surgem os desafios, as questões envolvidas com o pacto. As neuroses de cada um aparecerão e muitas vezes o amor não conseguirá resistir a esta avalanche. O desafio do casal será a recuperação do ponto inicial, onde foi fecundado todo aquele amor. Uma fusão muito maior poderá acontecer, não mais uma paixão envolta por um vislumbre da sorte, mas algo conquistado pelos dois: um amor escolhido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O mesmo modelo se repetiu na vida de Jacob: um êxtase da revelação divina em pleno deserto, mas que duraria muito pouco, somente um flash. Após o sonho, ele seguiu em direção à cidade de Harã, onde foi morar com o tio, Labão, e suas filhas. Imediatamente se apaixonou pela prima Rachel e junto com a paixão se iniciaria seu calvário. Era o poderoso ciclo da vida se apresentando e trazendo, como de costume, o êxtase do despertar da alma, seguido de algo muito bom e, logo depois, uma grande provação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Havia pouco ele tivera a visão da eternidade, do paraíso, que é o momento vivido de forma intensa, generosa. O contato com essa qualidade de energia foi tão intenso que a atração de sua alma gêmea foi imediata. Mas uma grande luta seria necessária para consolidar aquela paixão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A provação começou quando o tio o obrigou a trabalhar de graça por sete anos para ter a mão de Rachel. Ao final do período estabelecido, o tio o ludibriou e lhe entregou sua outra filha, Lea, alegando ser ela a primogênita. Para entregar as duas, pediu mais sete anos, e assim foram catorze anos de trabalho gratuito. Quando ele pediu para retornar, o tio lhe disse: “Você pode ir, mas não levará nada do que temos aqui, nem um único boi.” Jacob teria que trabalhar mais seis anos para juntar algum patrimônio. Foram ao todo vinte anos, até que pudesse se separar do tio para encontrar um despertar mais definitivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O RETORNO AO PONTO INICIAL&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por que a vida é tão difícil? Não poderíamos simplesmente viver em êxtase?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A Bíblia explica que em algum momento era assim. Vivíamos em um estado de absoluta unidade: o “dia um”. Um momento anterior ao Big Bang da criação, quando todas as almas eram somente uma. Não havia disputa, um não precisava comer o outro para viver, não havia nem motivo para perdoar, simplesmente um puro êxtase, puro amor e paz de espírito governando o universo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por algum motivo, que transcende a capacidade de compreensão do intelecto humano, surge uma nova etapa, e a grande explosão acontece. Neste momento, o universo de uma só alma se fragmenta em trilhões de almas menores. Os novos seres surgem sem conhecer seu estado predecessor e, por isso, são acometidos por uma percepção dividida. É o que gera a ilusão do ego, onde eu sou um, você é outro, eu me preocupo com os meus problemas, você se preocupa com os seus problemas, como se isso fizesse alguma diferença. Cabe ao homem buscar o caminho de volta para casa, quando era possível viver continuamente de forma inspirada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Na vida humana, você encontra a infância intimamente ligada ao primeiro estágio, ao êxtase da criação. Nessa fase, a inspiração é muito presente, pois o contato com a unidade é grande. Como o ego ainda não está formado, há espaço para brincar, imaginar, entrar na fantasia, no lúdico. Isto explica por que as crianças costumam ser tão mais espontâneas, tão mais felizes, por que riem e choram tão mais facilmente que os adultos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas depois vem o desafio da segunda etapa: a adolescência e a fase adulta trazem provações, trabalho, conflitos emocionais e senso de responsabilidade. E, assim, toda a pureza se perde. Quase todos os seres humanos passam o resto de suas vidas nesta etapa, e, com isso, toda a inspiração é removida. Apenas uns poucos se permitem caminhar para o terceiro estágio para construir o elo com o estágio inicial, onde é possível reencontrar a pureza, a inocência e o êxtase.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Esse é o segredo da vida: uma pessoa é inspirada inicialmente, depois perde a inspiração, e o grande desafio é lutar para voltar ao ponto inicial. A sabedoria total está dentro de você. Ela está e sempre esteve com você. No entanto, isso será perdido muitas vezes e você terá que trabalhar para recuperar: lembrar que a força criadora está e sempre esteve em você. É uma questão somente de recuperar esta relação, o terceiro estágio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; LEMBRAR DE SI&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; De que forma podemos nos utilizar desse modelo para suportar a monotonia e os desafios e reencontrar os momentos maravilhosos que nos inspiraram inicialmente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O grande desafio da segunda fase, quando você enxerga de forma finita e limitada, e, assim, tudo se torna muito difícil, é lembrar da primeira. Essa lembrança é fundamental, é o combustível que permitirá que você não caia no total esquecimento, que pode causar a perda do estado de unidade, de êxtase.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Na vida de Jacob, após o primeiro flash do despertar, foram necessários anos de trabalho, prática meditativa e transformação de caráter. Durante este longo período, ele não teve outra revelação como aquela, mas não se importou. Criou laços, trabalhou, refez seu caráter, viveu intensamente cada momento de sua existência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Trabalhar de graça tantos anos só fez aumentar o amor que sentia por Rachel. Aprendeu a amar Lea também e a conviver de forma pacífica e harmoniosa nesta difícil relação triangular. Assim como seu pai, Isaac, e seu avô, Abrahão, Jacob prosperou, aumentando significativamente o número gados do tio. Gerou ainda muitos filhos, divididos entre as duas esposas e duas servas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Em seus anos de exílio, aprendeu a vencer essa força gravitacional que puxa o homem para baixo, que o impele em suas inclinações mais negativas e que se opõe à elevação de sua alma. Foi enganado, lidou com conflitos familiares, mas nada disso impediu-o de se tornar melhor a cada dia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Se pensasse a todo instante que ainda faltavam seis anos, cinco anos, para ter a mulher amada, seria uma pessoa imensamente infeliz. Mas não: vivia com intensidade cada momento. Fez amigos, formou seguidores, se tornou um personagem marcante, que influenciou a vida de toda uma comunidade, não por suas palavras, mas pelo exemplo de uma vida focada no presente. Mantinha viva a lembrança do flash de um grande despertar, quando lhe foi possível sentir a vida em toda a sua intensidade, diante do silêncio do deserto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; PRESENÇA: A CHAVE FUNDAMENTAL&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A lembrança não é também uma forma de apego ao passado?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Imagine se você estivesse perdido em uma floresta em uma noite completamente escura, sem poder ver o caminho de volta e, de repente, um relâmpago imenso surgisse do nada, iluminando o caminho completamente, ainda que apenas por alguns segundos. Logo após, volta a escuridão total, mas aqueles segundos de iluminação podem ter sido suficientes para você vislumbrar por onde deve caminhar. Assim funcionam esses momentos de breve despertar, são como uma orientação para uma luz muito mais permanente, o caminho para a plenitude da existência. Não se trata de apego ao passado, somente de manter vivas as experiências de êxtase supremo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A Cabala explica que há um registro deste estado de plenitude na alma de cada um de nós. É o que nos move e nos impulsiona a seguir em frente. Isso explica, por exemplo, por que as pessoas passam pelas situações mais trágicas e, ainda assim, continuam a seguir rumo a algo elevado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Os sobreviventes dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foram forçados a conviver um longo período com o ápice da barbárie humana. Sofreram as mais brutais dores físicas e emocionais, perdas familiares, e, nessa época, ainda não haviam sido inventados os modernos antidepressivos que hoje adormecem a alma do homem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Passados os anos de calvário, quase todos os que sobreviveram voltaram a lutar pela vida. Não se sabe com que força se reergueram. Parece que realmente temos um registro de uma vida em êxtase no paraíso, quando era possível viver em contínua inspiração. Você pode acessar esse registro agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Prática meditativa&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Encontre uma postura relaxada, abandone suas expectativas, descarte as tensões mentais e preste atenção à sua respiração. Torne-se mais consciente de tudo que acontece neste momento: o livro em sua mão, a temperatura, o ambiente a sua volta. Experimente, mesmo que apenas por poucos segundos, ficar nesse padrão de consciência e veja como isso traz algo inteiramente novo.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Em vez de longas meditações, procure se aplicar mais nesses curtos períodos de contato, várias vezes ao dia. Mesmo que sejam breves momentos, você sentirá o alívio que vem com a libertação do mundo das ilusões. Você pode fazer isso, também, enquanto caminha ou ao dirigir, prestando mais atenção a cada pequeno movimento, a seu padrão respiratório. Você se sentirá mais leve, presente e muito menos ansioso. Será gratificante fazer isso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O contato com o êxtase permite o surgimento de uma nova mente, não a sobrecarregada de lixo mental, mas a criativa, que é capaz de inventar, compor, brincar, sempre de forma relaxada. E isso só acontece quando você se entrega inteiramente ao tempo presente. Por viver inteiramente no presente, sem qualquer expectativa em relação ao futuro, ciente de que estava sempre comandado por uma força muito maior, Jesus disse: “Eu sou o caminho.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Essa frase precisa ser compreendida. Ele era um mestre da prática, por isso não ensinava pela erudição, mas por seu próprio exemplo de vida. Queria mostrar que não há caminho para Deus, exceto pelo encontro do ser. O “eu sou” denota grande entrega ao momento e à vida como ela é, sem qualquer necessidade de mudança. Essa pequena frase é capaz de quebrar todas as barreiras mentais e de trazer de volta o êxtase da vida, que, quando chega, transforma tudo: cada objeto, cada paisagem, cada pessoa, tudo se torna novo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas tenha atenção, porque isso pode decepcionar seu ego. Ele acreditava que era necessária uma solução complexa e, no entanto, trata-se de algo simples. Coloque seu foco no presente, e você criará grandes milagres. Experimente fazer isso AQUI, AGORA!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Sugestão de pausa&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Procure colocar em prática algo do que foi falado aqui. A aceitação do momento exatamente como ele é, sem qualquer necessidade de mudança, quebra das barreiras mentais e traz de volta o êxtase da vida.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Ian Mecler - Aqui, agora: Jesus, Moisés e Buda)&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/4468175931214840812/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/4468175931214840812?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4468175931214840812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4468175931214840812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/08/o-extase-da-vida-socrates-estava.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-4892229008418533776</id><published>2018-07-21T23:01:00.002-03:00</published><updated>2018-07-21T23:01:30.563-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Os que são amados pelos deuses&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; amadurecem sem envelhecer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; O FILÓSOFO DINAMARQUÊS SØREN KIERKEGAARD, que sem dúvida conhecia Oscar Wilde, refletiu, entre muitas outras coisas, sobre quais atitudes mantêm o espírito jovem e quais o desgastam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Amadurecer sem envelhecer é uma questão de se voltar para o momento presente, deixando de lado perspectivas que nos limitam e nos fazem sofrer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Kierkegaard expõe essa ideia a partir de uma lógica avassaladora:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quem só espera o melhor envelhece por causa das decepções que a vida lhe apresenta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quem espera sempre o pior envelhece depressa por conta do sofrimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Portanto, o segredo é não se entregar hoje a preocupações com o que ainda está por acontecer e dar atenção ao que se passa no momento. O aqui. O agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Allan Percy - Oscar Wilde para inquietos)</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/4892229008418533776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/4892229008418533776?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4892229008418533776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4892229008418533776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/os-que-sao-amados-pelos-deuses.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-6433061066706119876</id><published>2018-07-21T22:27:00.000-03:00</published><updated>2018-07-21T22:27:08.574-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Cada um de nós é seu próprio demônio e&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; faz deste mundo um inferno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; O BUDISMO NOS RECORDA QUE O QUE chamamos de realidade é de fato uma versão dela, vista através de nossos filtros. Assim, se uma pessoa encara o mundo sob o véu da desconfiança, tudo sempre lhe parece suspeito e imprevisível. Da mesma forma, aquele que espera o desprezo do vizinho acaba por ser de fato desprezado, porque se dispõe a receber esse tipo de reação negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas, assim como temos a capacidade de reproduzir nosso inferno pessoal fora de nós, também podemos colocar um filtro positivo entre nós e a realidade. Se encararmos os outros com amor e confiança, obteremos respostas positivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Dentro de uma empresa, por exemplo, essa lei funcionaria assim: “Trate-me como um funcionário de quinta categoria e eu me comportarei como um funcionário de quinta categoria. Trate-me como um funcionário excelente e eu me comportarei como um funcionário excelente.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Em boa parte, somos o que as pessoas esperam de nós. E elas acabam sendo o que esperamos que sejam. Portanto, vale a pena oferecer-lhes um espelho que mostre não só o que são, mas também o que podem vir a ser.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Allan Percy - Oscar Wilde para inquietos)</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/6433061066706119876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/6433061066706119876?isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6433061066706119876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6433061066706119876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/cada-um-de-nos-e-seu-proprio-demonio-e.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-134986313940794911</id><published>2018-07-21T12:36:00.002-03:00</published><updated>2018-11-22T17:12:44.608-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; A mente intuitiva é um presente sagrado e a mente racional é um servo fiel. Criamos uma sociedade que honra o servo, mas se esqueceu do presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O CHAMADO SEXTO SENTIDO, essa bússola interior que todos temos e que nos ajuda a tomar decisões, pode ser estimulado e treinado para ser aperfeiçoado e desenvolvido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Veja a seguir dois exercícios para desenvolver a intuição:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; • Medite. A meditação diária é muito útil para desenvolver a intuição, já que liberamos espaço mental para que ela possa florescer. Os mestres afirmam que 20 minutos por dia são suficientes para a evolução da intuição. Existem muitas técnicas, mas o importante é que estejamos em uma posição confortável, com as costas eretas, e em paz enquanto nos concentramos em nossa respiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; • Visualize. Esse poderoso exercício pode ser feito da seguinte maneira: feche os olhos e respire profundamente. Relaxe todos os músculos de seu corpo e concentre-se em um ponto imaginário entre os olhos. Visualize uma paisagem que o acalme, observe-a e concentre-se em cada detalhe – a cor do céu, a vegetação, os aromas e sons… Devagar, volte a respirar fundo para retornar à sua vida cotidiana, mais relaxado e inspirado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Allan Percy - Einstein para Distraídos, soluções atómicas para problemas relativamente graves)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/134986313940794911/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/134986313940794911?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/134986313940794911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/134986313940794911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/a-mente-intuitiva-e-um-presente-sagrado.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-1556626096383426416</id><published>2018-07-21T12:14:00.002-03:00</published><updated>2018-07-22T16:15:05.201-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&amp;nbsp; O dia em que a tecnologia superar a interação humana, o mundo terá uma geração de idiotas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; ESSE DIA CHEGOU! AS novas tecnologias nos oferecem um imenso leque de possibilidades. Elas permitem que tenhamos acesso a uma quantidade de informações quase infinita a qualquer momento e lugar e que estejamos conectados o tempo inteiro, mas, simultaneamente, geram um vício cada vez mais maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Segundo os sociólogos, nos últimos três anos, o número de viciados em tecnologia cresceu cerca de 30% e continua aumentando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Os viciados em tecnologia são cada vez mais jovens, porque as crianças já brincam com os tablets e smartphones, sofrendo uma autêntica síndrome de abstinência quando os dispositivos são retirados de suas mãos. Segundo um estudo realizado pelo International Center for Media &amp;amp; The Public Agenda (ICMPA) da Universidade de Maryland, depois de um período de 24 horas desconectados, os jovens explicaram que tinham sofrido de ansiedade e nervosismo em um grau patológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Os estudantes que se ofereceram para a experiência se mostraram incapazes de permanecer sem as novas tecnologias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Susan D. Moeller, diretora do estudo, se surpreendeu com o a força do vício apresentado pelos jovens, que chegaram a dizer que “odiavam perder suas conexões pessoais” e que, para eles, isso equivalia a “estar sem seus amigos e familiares”. Além disso, se queixavam de que qualquer deslocamento ou atividade era chata sem o dispositivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Esses jovens definiam a sensação de estar sempre conectados como um “sentimento de conforto” e a desconexão como uma sensação de “sentir-me isolado da minha vida. Mesmo indo à escola com milhares de alunos, o fato de não poder me conectar com ninguém por meio da tecnologia me pare ce quase insuportável”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Por esse motivo, o Dr. Richard Graham desenvolveu o primeiro programa para controlar esse tipo de vício em crianças e jovens, contando com alguns pacientes de apenas 4 anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Graham explica que as crianças viciadas apresentam os mesmos sintomas de abstinência que um alcoólatra ou um usuário de heroína, reagindo com birra e violência quando são privados de tecnologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; No entanto, a única coisa que essas crianças estão fazendo é copiar o drcomportamento compulsivo e doentio dos adultos. &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Allan Percy - Einstein para Distraídos, soluções atómicas para problemas relativamente graves)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/1556626096383426416/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/1556626096383426416?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/1556626096383426416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/1556626096383426416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/o-dia-em-que-tecnologia-superar.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-5784979305446516407</id><published>2018-07-18T15:36:00.001-03:00</published><updated>2018-07-18T15:36:37.630-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>ESCOLHA SEXUAL&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Não existe escolha sexual. Como dizia Freud, anatomia é destino. Você pode não se identificar com sua anatomia e percorrer o caminho necessário para viver com isso da melhor forma possível (e a sociedade deve ajudar você nessa tarefa, antes de tudo ensinando aos estúpidos que as pessoas podem viver a sexualidade como quiserem). Evidente que componentes culturais formam as representações tanto dos homens quanto das mulheres, mas dizer que alguém pode ser gay na segunda e hétero na terça, como se pode escolher ser católico ou budista (e olhe lá...), é puro desespero com sua desidentificação anatômica. Não se escolhe orientação sexual, assim como não se escolhe a carta do baralho quando se pega uma no meio do jogo, a menos que você queira roubar, como fazem aqueles que dizem que existe escolha sexual.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; (Luiz Felipe Ponde - Guia politicamente incorreto do sexo)&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/5784979305446516407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/5784979305446516407?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/5784979305446516407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/5784979305446516407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/escolha-sexual-nao-existe-escolha-sexual.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-6872156674845224163</id><published>2018-07-17T15:32:00.001-03:00</published><updated>2018-07-17T15:32:18.212-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>APRENDENDO A SUPERAR PRECONCEITOS&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Imagine você conversando com uma gostosa de uns 20 anos. Agora imagine que ela conta para você em tom desafiador que tem uma namorada, e não um namorado. Por ela ser uma gostosa, você pensa logo no desperdício e, em seguida, imagina como seria lindo estar com as duas numa cama larga. Mas como o mundo deve ser um lugar civilizado e, portanto, um espaço no qual aprendemos a atuar dentro dos limites sociais da hipocrisia, mesmo que no fundo estejamos em choque, a única coisa que você deve dizer é “legal, vocês estão juntas há quanto tempo?”, ou seja, você deve agir como se aquela confissão fosse na realidade algo banal como ela dizer que namora um corintiano. Na verdade, estranho é o tom desafiador. Afinal, a quem interessa se uma linda dorme com homens ou mulheres, a não ser a ela mesma, a sua parceira e a preconceituosos idiotas? Para mim, homossexuais devem ter o mesmo “direito à (in)felicidade” que todo mundo tem. O desejo de normalização de sua condição é algo saudável nas pessoas. Por isso, sempre fui a favor do casamento gay. Mas, quando você estiver numa situação como essa, aja de modo normal, sem nenhum susto, mesmo que você se assuste. Hábitos die hard. De qualquer forma, ainda que entendendo o combate moral nesse assunto (parece-me um crime submeter os homens à castração química, como era feito na Inglaterra na primeira metade do século 20, só porque dormiam com outros homens), tendo a sentir um certo bode quando meninas ou meninos gays acham que declarar seu desejo sexual homo significa um salto enorme para a humanidade, como o primeiro passo do homem na Lua. A ideia de que seja um ato político importante o simples fato de você homem gostar de outro homem me parece algo muito entediante. Nada no sexo pode ter significado político, a não ser que quem pensa isso seja um chato. Por exemplo, a exposição dos seios femininos como ato de rebeldia hoje me parece tão boba quanto foi nos anos 60 algumas pessoas não tomarem banho como forma de revolução. Aliás, a palavra “revolução” já foi apropriada pelos recursos humanos das grandes corporações e pelo branding, isso significa que já ficou careta há muito tempo. Só “assusta” menininhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; Outra coisa que valeria a pena dizer para essa gostosinha é que seria uma bênção deitar com ela e sua namorada linda.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; (Luis Felipe Ponde - Guia politicamente incorreto do sexo &amp;nbsp;)&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/6872156674845224163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/6872156674845224163?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6872156674845224163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6872156674845224163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/aprendendo-superar-preconceitos-imagine.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-7453151955753241492</id><published>2018-07-17T15:09:00.001-03:00</published><updated>2018-07-17T15:12:05.598-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O PROBLEMA DAS AMIGAS HETEROSSEXUAIS&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; A crítica de arte e literatura americana Camille Paglia costuma dizer que suas amigas heterossexuais esqueceram que homens não são mulheres, por culpa do que o feminismo se tornou com o passar dos anos e de seu ódio ao homem. Camille Paglia critica o feminismo do alto de sua condição de lésbica (ou transgênero, como ela mesma diz e que está mais na moda falar, apesar de os especialistas dizerem que não são a mesma coisa): nesses assuntos de sexo correto, quanto menos hétero, melhor para você, e quanto mais hétero, pior para você, porque maior é a suspeita contra você. Como tudo que é fascista e puritano, o politicamente correto opera a partir da presunção da pureza ideológica como critério de justificação moral e intelectual. Dito de forma simples: héteros não são dignos de confiança para os corretinhos do sexo. Por isso, como Paglia é gay, ela pode dizer o que todos nós sabemos: as histéricas das políticas do sexo complicam muito a vida afetiva entre homens e mulheres, enchendo os dois com suas paranoias de mulheres que só conhecem homens ruins. O resultado da emancipação feminina (necessária em vários planos da vida, sem dúvida) “em casa e na cama” é que as mulheres não conseguem mais enxergar o homem como um diferente dela com direito a essa diferença. Tudo que ele quer é machismo, tudo que ela quer é “direito”. As mulheres levam para casa a competitividade dos escritórios, instaurando o reino da vida sem afeto com seus parceiros. E exigem deles uma mente feminina que goste de falar de si mesmo o tempo todo, a famosa “DR”, discutir a relação. Como em todos os casos em que as políticas corretas do sexo aparecem, o resultado é uma cama vazia, com mulheres fingindo que são livres e alegres, quando mal conseguem ser vadias de fato. Uma vadia de fato (e não a v@dia do feminismo) é uma mulher sem rancor e acolhedora. Para o homem, a sorte é que a garota de programa continua sendo uma doce profissional da solidão e da generosidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;(Luís.Felipe Ponde - Guia politicamente incorreto do sexo)&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;,&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/7453151955753241492/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/7453151955753241492?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/7453151955753241492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/7453151955753241492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/o-problema-das-amigas-heterossexuais.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-4355367138391802187</id><published>2018-07-12T12:15:00.001-03:00</published><updated>2018-07-12T12:15:12.068-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O CORPO INTERIOR&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O SER É O SEU EU INTERIOR MAIS PROFUNDO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você falou sobre a importância de existirem raízes profundas dentro de nós, habitando nossos corpos. O que quis dizer com isso?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O corpo pode se tornar um ponto de acesso ao domínio do Ser. Vamos nos deter mais profundamente nisso agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Ainda não tenho certeza se entendi o que você quer dizer com Ser.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; “Água? O que você quer dizer com isso? Não estou entendendo nada.” É o que um peixe diria, se tivesse uma mente humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por favor, pare de tentar entender o Ser. Você já teve lampejos significativos do Ser, mas a mente vai sempre tentar espremê-lo dentro de uma caixa e colocar-lhe um rótulo. Isso não dá certo. O Ser não pode se tornar um objeto de conhecimento. No Ser, o sujeito e o objeto formam uma coisa só. O Ser pode ser sentido como o eternamente presente Eu sou, que está além do nome e da forma. Sentir e, em consequência, saber que você é e permanecer nesse estado profundamente enraizado é o que se chama iluminação, é a verdade que Jesus diz que nos libertará.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Libertará do quê?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Libertará da ilusão de que não somos nada mais do que o nosso corpo e a nossa mente. É nessa “ilusão do eu interior”, nas palavras de Buda, que está o erro central. Libertará dos inúmeros disfarces do medo, que é uma consequência inevitável dessa ilusão, o medo que não vai parar de nos torturar enquanto continuarmos extraindo o sentido do eu interior exclusivamente dessa forma efêmera e vulnerável. E libertará do pecado, esse sofrimento que inconscientemente infligiremos a nós mesmos e aos outros enquanto a ilusão governar aquilo que pensamos, dizemos e fazemos.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; OLHE ALÉM DAS PALAVRAS&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não gosto da palavra pecado. Ela pressupõe um julgamento e uma atribuição de culpa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Posso entender isso. Durante muitos séculos, foram se acumulando interpretações erradas em torno de palavras como pecado, devido à ignorância, à incompreensão ou a um desejo de controle, embora todas contenham um fundo de verdade. Se você não for capaz de olhar para além de tais interpretações e, por isso, não reconhecer a realidade para a qual a palavra aponta, então não a use. Não se prenda às palavras. Uma palavra nada mais é do que um meio para atingir um fim. É uma abstração. Tal qual um letreiro em forma de seta em um poste, uma palavra aponta para além dela mesma. A palavra mel não é mel. Você pode estudar e falar a respeito de mel pelo tempo que quiser, mas não vai saber o que é enquanto não prová-lo. Depois de provar, a palavra perde a importância e não ficamos mais presos a ela. De forma semelhante, podemos falar ou pensar sobre Deus, sem parar, pelo resto da vida, mas será que isso significa que conhecemos ou que tivemos uma rápida visão da realidade para a qual a palavra aponta? Ela não passa de um apego obsessivo a um letreiro no poste, um ídolo mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O contrário também acontece. Se, por alguma razão, não gostamos da palavra mel, pode ser que jamais o experimentemos. Se você tem uma forte aversão à palavra Deus, o que é uma forma negativa de apego, pode estar negando não só a palavra como também a realidade para a qual ela aponta. Você estará se privando da possibilidade de vivenciar essa realidade. Tudo isso tem, naturalmente, uma relação direta com o fato de estarmos identificados com as nossas mentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Portanto, se uma palavra não significa mais nada para você, jogue-a fora e use outra que signifique. Se você não gosta da palavra pecado, chame-a então de inconsciência ou insanidade. Essa atitude talvez o aproxime mais da verdade – a realidade que está além da palavra – do que um longo uso equivocado da palavra pecado, deixando pouco espaço para a culpa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Essas palavras também não me agradam. Elas pressupõem que existe alguma coisa errada comigo. É como se estivessem me julgando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Claro que existe alguma coisa errada com você e ninguém está julgando nada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Sem querer ofender, porventura você não pertence à raça humana que matou mais de 100 milhões de membros da própria espécie, somente no século XX?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você quer dizer que existe culpa por associação?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não é uma questão de culpa. Mas, enquanto a mente nos governar, fazemos parte da insanidade coletiva. Talvez você não tenha olhado profundamente para dentro da condição humana sob o domínio da mente. Abra os olhos e veja o medo, o desespero, a inveja e a violência que penetram em tudo. Atente para a crueldade e o sofrimento abomináveis, em uma escala jamais imaginada, que os homens infligiram e continuam a infligir a outros homens, assim como a outras formas de vida. Você não precisa condenar, apenas observe. Isso é pecado. Isso é insanidade. Isso é inconsciência. Acima de tudo, não se esqueça de observar a sua própria mente. Busque nela a raiz da insanidade.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; ENCONTRE A SUA REALIDADE INVISÍVEL E INDESTRUTÍVEL&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você disse que a identificação com a forma física faz parte da ilusão. Então como é que o corpo pode nos levar à realização do Ser?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O corpo que podemos ver e tocar não consegue nos conduzir para dentro do Ser. Mas esse corpo visível e palpável é só uma casca, ou melhor, uma percepção limitada e distorcida de uma realidade mais profunda. Em nosso estado natural de conexão com o Ser, essa realidade mais profunda pode ser sentida, a cada momento, como o corpo interior invisível, que é a presença viva dentro de nós. Portanto “habitar o corpo” é sentir o corpo bem lá no fundo, de modo a sentir a vida dentro dele e, assim, realizar que somos algo além da forma exterior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas isso é só o começo de uma jornada interior, que nos levará ainda mais fundo para uma região de grande serenidade e paz, embora também de grande poder e de vida palpitante. No início, talvez você só consiga ter rápidas visões dessa região, mas, através delas, começará a perceber que você não é apenas um fragmento sem sentido em um universo estranho, levemente suspenso entre o nascimento e a morte, com poucos momentos prazerosos de curta duração seguidos de dor e, no final, de devastação. Por baixo da forma exterior, estamos em conexão com algo tão grande, tão incomensurável, tão sagrado, que não pode ser concebido, nem compreendido através de palavras, embora eu esteja falando sobre ele agora. Estou falando não para dar a você alguma coisa em que acreditar, mas para mostrar de que modo você pode conhecê-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Enquanto sua mente absorver toda a sua atenção, você não conseguirá estar em conexão com o Ser. A mente absorve toda a sua consciência e a transforma em matéria mental. Você não consegue parar de pensar. O pensamento compulsivo se tornou uma doença coletiva. Tudo o que você achava que sabia a seu respeito passa a se originar da atividade mental. Sua identidade, como não tem mais raízes no Ser, se transforma em uma construção mental vulnerável e indispensável que cria o medo e este passa a ser a emoção oculta predominante. Fica faltando, então, a única coisa que realmente importa em sua vida, que é a percepção do seu eu interior mais profundo, a sua indestrutível e invisível realidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Para se tornar consciente do Ser, você precisa ter de volta a consciência aprisionada pela mente. Essa é uma das tarefas mais essenciais na sua jornada espiritual. Ela vai libertar grandes porções de consciência que antes estavam presas nos pensamentos inúteis e compulsivos. Uma forma eficaz de realizar essa tarefa é desviar o foco da atenção do pensamento e dirigi-lo para o interior do seu corpo, onde o Ser pode ser percebido, numa primeira etapa, como o campo de energia invisível que dá vida àquilo que você entende como seu corpo físico.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; CONECTE-SE COM O SEU CORPO INTERIOR&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Vamos fazer uma experiência agora. Talvez ajude fechar os olhos nesse exercício. Depois, quando o “estar dentro do corpo” se tornar algo fácil e natural, isso não será mais necessário. Dirija a atenção para dentro do seu corpo. Sinta-o lá no fundo. Está vivo? Há vida nas suas mãos, braços, pernas e pés, em seu abdômen, no seu peito? Você consegue sentir o campo de energia sutil impregnando todo o seu corpo e fazendo palpitar cada órgão e cada célula? Percebe o que está acontecendo em todas as partes do corpo ao mesmo tempo, como se fosse um só campo de energia? Mantenha o foco, por um momento, na sensação que passa pelo seu corpo interior. Não comece a pensar sobre ela. Sinta-a. Quanto mais atenção você der à sensação, mais clara e forte ela ficará. É como se cada célula se tornasse mais viva e, se você tiver uma forte percepção visual, talvez obtenha uma imagem do seu corpo ficando luminoso. Embora uma imagem assim possa ajudá-lo temporariamente, preste mais atenção ao que você está sentindo do que a qualquer imagem que possa surgir. Uma imagem, não importa quão bela ou poderosa seja, já tem uma forma definida e, por isso, deixa menos espaço para penetrar mais fundo.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A sensação dentro do nosso corpo interior não tem forma, não tem limites, não tem fim. Sempre podemos penetrar mais fundo. Se você não consegue sentir muito bem esse estágio, preste atenção ao que consegue sentir. Talvez perceba um leve formigamento em suas mãos e em seus pés. Já basta para o momento. Focalize apenas a sensação. O seu corpo está se tornando vivo. Praticaremos outras vezes, mais adiante. Por favor, abra os olhos agora, mas mantenha alguma atenção no campo de energia interior do corpo, mesmo que esteja olhando a esmo. O corpo interior está na fronteira entre a forma e a essência, que é a sua verdadeira natureza. Nunca perca o contato com ele.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DO CORPO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por que a maioria das religiões condena ou renega o corpo? Tenho a impressão de que as pessoas interessadas em uma busca espiritual sempre olharam o corpo como um obstáculo ou mesmo como um pecado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Por que tão poucas pessoas encontram o que procuram?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Os seres humanos são bastante semelhantes aos animais no que se refere ao funcionamento do corpo. Ambos têm as mesmas funções corporais básicas, como respirar, comer, beber, defecar, dormir, sentir prazer e dor, ter o impulso de buscar um parceiro e procriar e, é claro, nascer e morrer. Muito tempo depois de terem decaído do estado de graça e unidade para o estado de ilusão, os seres humanos repentinamente despertaram no que parecia ser um corpo animal e ficaram bastante alarmados. “Não se iluda. Você não passa de um animal.” Era uma verdade óbvia, mas bastante difícil de suportar. Adão e Eva perceberam que estavam nus e sentiram medo. A negação inconsciente de sua natureza animal acabava de acontecer. A ameaça de que poderiam ser dominados por impulsos instintivos poderosos e reverter ao estágio de total inconsciência estava muito próxima. A vergonha e alguns tabus em torno de certas partes e funções do corpo, especificamente quanto à sexualidade, passaram a existir. A luz da consciência dos humanos ainda não era forte o bastante para conviver com uma natureza animal, para permiti-la ser e até mesmo apreciar esse aspecto, muito menos para penetrar profundamente nela, para encontrar a divindade oculta em seu interior, a realidade dentro da ilusão. Os humanos, então, fizeram o que tinham de fazer. Começaram a se dissociar de seus corpos. Viam agora a si mesmos como possuindo e não simplesmente sendo um corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Essa separação ficou ainda mais acentuada quando as religiões surgiram, graças à crença de que “você não é o seu corpo”. Inúmeras pessoas do Oriente e do Ocidente, em todas as eras, tentaram encontrar Deus, a salvação ou a iluminação através da negação do corpo. Essa procura passou por uma negação da satisfação dos sentidos, em especial da sexualidade, e por jejuns e outras práticas ascéticas. Algumas pessoas infligiam até mesmo sofrimento ao corpo, numa tentativa de enfraquecê-lo ou puni-lo, porque ele era visto como cheio de pecado. No cristianismo, isso era chamado de mortificação da carne. Outras pessoas tentaram escapar do corpo entrando em estados de transe ou buscando experiências extracorpóreas. Muitas ainda adotam essas práticas. Conta-se que até Buda praticou a negação do corpo através do jejum e de práticas extremadas de ascetismo durante seis anos, mas ele só atingiu a iluminação depois que abandonou essa ideia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O fato é que ninguém jamais atingiu a iluminação negando ou combatendo o corpo, ou através de experiências fora dele. Embora uma experiência desse tipo possa ser fascinante e nos proporcionar um vislumbre do estado de libertação da forma material, no fim, sempre temos de voltar para o corpo, que é onde acontece o trabalho essencial de transformação. A transformação acontece através do corpo, e não distanciada dele. Essa é a razão pela qual nenhum dos verdadeiros mestres jamais defendeu lutar ou abandonar o corpo, embora seus discípulos, com base na mente, frequentemente o defendam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Dos antigos ensinamentos relativos ao corpo, somente sobrevivem fragmentos, como as palavras de Jesus “todo o seu corpo será preenchido pela luz”, ou mitos, tal como a crença de que Jesus jamais abandonou seu corpo, mantendo-se unido a ele e com ele tendo subido ao “paraíso”. Quase ninguém, até hoje, compreendeu esses fragmentos ou o sentido oculto de certos mitos. A crença de que “você não é o seu corpo” prevalece em todas as partes do mundo, levando a uma negação do corpo e a tentativas de escapar dele. Isso tem impedido que inúmeras pessoas alcancem a realização espiritual e encontrem o que procuram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; É possível recuperar os ensinamentos perdidos sobre a significação do corpo ou reconstruí-los a partir de fragmentos existentes?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não há necessidade disso. Todos os ensinamentos espirituais vêm da mesma Fonte. Nesse sentido, existe e sempre existirá somente um mestre, que se manifesta de vários modos diferentes. Eu sou esse mestre e você também é, desde que seja capaz de acessar a Fonte interna. E o caminho é através do corpo interior. Embora todos os ensinamentos espirituais tenham origem na mesma Fonte, no momento em que eles são verbalizados e escritos não passam de ajuntamentos de palavras, e uma palavra não passa de um letreiro em um poste apontando o caminho de volta à Fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Já comentei sobre a Verdade escondida dentro do nosso corpo, mas vou resumir, outra vez, os ensinamentos perdidos dos mestres. Portanto, aqui está um outro letreiro. Por favor, procure sentir o seu corpo interior enquanto ler ou ouvir.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O SERMÃO SOBRE O CORPO&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Aquilo que percebemos como uma estrutura compacta chamada corpo, que é sujeito às doenças, ao envelhecimento e à morte, não é real, não é você. É uma percepção errada da nossa realidade essencial, que está além do nascimento e da morte, cuja causa está nas limitações da nossa mente. A mente, tendo perdido o contato com o Ser, cria o corpo como uma prova da sua crença ilusória de separação para justificar o seu estado de medo. Mas não despreze o corpo, porque é no interior desse símbolo de não permanência, limitação e morte que está contido o esplendor da nossa realidade essencial e imortal. Não desvie a atenção para outro lugar em sua busca da Verdade, pois ela não pode ser encontrada em nenhum outro lugar que não no interior do seu corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não lute contra o seu corpo, porque, ao fazer isso, você está lutando contra a sua própria realidade. Você é o seu corpo. O corpo que você vê e toca é somente um delicado véu de ilusão. Debaixo dele encontra-se o seu corpo interior invisível, a porta de entrada para o Ser, para a Vida Não Manifesta. Através do corpo interior, estamos inseparavelmente conectados a essa Vida Não Manifesta – onde não há nascimentos nem mortes –, que é eternamente presente. Através do corpo interior, estamos sempre com Deus.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; FINQUE RAíZES PROFUNDAS NO SEU EU INTERIOR&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A chave é estar em um estado de conexão permanente com o nosso corpo interior, em senti-lo em todos os momentos. Essa prática vai se intensificar rapidamente e transformar sua vida. Quanto mais consciência direcionamos para o nosso corpo interior, mais cresce a frequência vibracional, tal qual a luz que vai ficando mais forte quando giramos o botão do dimmer, aumentando o fluxo de eletricidade. Nesse nível de energia mais elevado, a negatividade deixa de nos afetar e tendemos a atrair novas circunstâncias que refletem essa alta frequência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quanto mais concentramos a atenção no corpo, mais nos fixamos no Agora. Não nos perdemos no mundo exterior, nem na mente. Pensamentos, emoções, medos e desejos podem até estar presentes, mas não vão mais nos dominar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Verifique onde está a sua atenção neste momento. Ou você está me ouvindo ou está lendo minhas palavras em um livro. Aqui está o foco da sua atenção. Você também está percebendo o que está ao redor, as outras pessoas, etc. Além disso, pode haver alguma atividade mental em volta do que você está ouvindo ou lendo, algum comentário mental, embora não haja necessidade de nada disso absorver toda a sua atenção. Verifique se você consegue estar em contato com o seu corpo interior ao mesmo tempo. Mantenha parte da sua atenção no interior. Não permita que ela se disperse. Sinta todo o seu corpo, lá do fundo, como um só campo de energia. É quase como se você estivesse ouvindo ou lendo com todo o seu corpo. Pratique nos próximos dias e semanas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não desvie toda a sua atenção da mente nem do mundo exterior. Procure, por todos os meios, se concentrar naquilo que você está fazendo, mas sinta o corpo interior ao mesmo tempo, sempre que possível. Tenha as raízes fincadas dentro de você. Observe, então, como isso altera o seu estado de consciência e a qualidade do que você está fazendo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Sempre que você tiver de esperar, esteja onde estiver, use esse tempo para sentir o seu corpo interior. Assim, os engarrafamentos de trânsito e as filas vão se tornar mais agradáveis. Em vez de se projetar mentalmente para longe do Agora, aprofunde-se no Agora ao se aprofundar no seu corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A habilidade de perceber o corpo interior vai gerar um modo de vida novo, um estado de conexão permanente com o Ser, e trazer uma profundidade à sua vida que você jamais imaginou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; É fácil ficar presente como o observador da mente quando as raízes estão firmemente fincadas no corpo interior. Nada que aconteça do lado de fora pode nos abalar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A menos que você esteja presente – e habitar o corpo é sempre um aspecto fundamental dessa prática –, a mente vai continuar governando você. O script armazenado na mente, aprendido há tanto tempo, vai ditar o modo de pensar e agir. Podemos nos livrar dele por períodos curtos, mas dificilmente por um período longo. Isso se comprova facilmente quando alguma coisa “vai mal” ou quando existe alguma perda ou aborrecimento. Nossa reação condicionada vai ser então involuntária, automática e previsível, alimentada por uma emoção básica que está por baixo do estado identificado com a mente, que é o medo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Portanto, quando surgirem os desafios, como sempre surgem, adote o hábito de penetrar direto em seu eu interior e se concentrar o máximo que puder no campo da energia interna do seu corpo. Não leva muito tempo, só uns segundos. Mas isso tem de ser feito no exato momento em que o desafio acontece. Qualquer demora vai permitir que a reação condicionada mental e emocional apareça e domine você. Quando dirigimos o foco para o campo interno e sentimos o corpo interior, imediatamente ficamos serenos e presentes, porque estamos tirando a consciência do campo da mente. Se precisarmos de uma resposta durante essa situação, ela virá desse campo interior. Assim como o sol é infinitamente mais brilhante do que a chama de uma vela, há uma inteligência infinitamente maior no Ser do que em nossa mente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Enquanto mantivermos um contato consciente com o nosso corpo interior, somos como as árvores que estão enraizadas bem fundo na terra, ou como um edifício com fundações sólidas e profundas. Essa última analogia foi utilizada por Jesus na geralmente incompreendida parábola dos dois homens que construíram suas casas. Um deles construiu a sua na areia, sem fundações, e quando as tempestades e enchentes vieram, arrastaram a casa com elas. O outro homem cavou fundo até que alcançou a rocha, e só então construiu sua casa, que não foi arrastada pelas enchentes.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; ANTES DE PENETRAR NO SEU CORPO, PERDOE&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Tive dificuldade quando tentei concentrar minha atenção no corpo interior. Senti uma certa agitação e um pouco de náusea. Não fui capaz de vivenciar o que você está ensinando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O que você sentiu foi uma emoção retardada, da qual provavelmente não tinha consciência antes de passar a observar seu corpo. Se não der um pouco de atenção a essa emoção, ela vai impedir que você tenha acesso ao seu corpo interior, que está em um nível mais profundo. Dar atenção não significa pensar nela. Significa, apenas, observá-la, senti-la complemente, conhecê-la e aceitá-la do jeito que é. Algumas emoções são fáceis de identificar, como a raiva, o medo e o desgosto. Outras talvez sejam mais difíceis de rotular. Elas podem se manifestar como um leve desconforto, uma aflição ou um peso, um meio-termo entre uma emoção e uma sensação física. Em qualquer dos casos, o que importa não é se você pode dar um rótulo mental a essa emoção, mas sim se você pode tornar essa sensação consciente. A atenção é a chave para a transformação, e isso também envolve aceitação. A atenção é como um raio de luz: o poder concentrado da consciência que transforma tudo nela própria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Em um organismo que funcione perfeitamente, uma emoção tem vida curta. É como uma onda ocasional sobre a superfície do Ser. No entanto, se não estamos dentro do nosso corpo, uma emoção pode permanecer dentro de nós por dias ou semanas, ou se juntar a outras emoções de frequência similar, ou se tornar um sofrimento, um parasita que pode viver dentro de nós durante anos, alimentar-se de nossa energia, nos deixar doentes e tornar nossa vida infeliz. (Ver capítulo dois.)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Portanto, dirija sua atenção para a emoção e verifique se a sua mente está alimentando um padrão de mágoa, culpa, autopiedade ou ressentimento, que, por sua vez, está alimentando a emoção. Se esse for o caso, isso significa que você não perdoou. Quando se fala em perdoar, pensamos logo em perdoar alguém, mas o perdão também pode ser em relação a nós mesmos ou a uma situação do passado, presente ou futuro que a nossa mente se recusa a aceitar. Pois é, pode haver um não perdoar até em relação ao futuro. É a recusa da mente em aceitar a incerteza, em aceitar que o futuro está além do nosso controle. Perdoar é abrir mão dos nossos ressentimentos e deixar que eles se desprendam de nós. Isso acontecerá naturalmente quando você perceber que os seus ressentimentos não têm outro objetivo senão o de fortalecer o falso sentido do eu interior. Perdoar é não oferecer resistência à vida, é permitir que a vida aconteça através de você. As alternativas são as dores e os sofrimentos, um fluxo de energia altamente limitado, e, em muitos casos, doenças físicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; No momento em que você perdoar, terá retomado o poder que estava na mente. O falso eu interior construído pela mente, o ego, não consegue sobreviver sem discórdias e conflitos. A mente não consegue perdoar. Só você consegue. Você se torna presente, penetra em seu corpo, sente a paz vibrante e a serenidade que emanam do Ser. Essa é a razão pela qual Jesus disse: “Antes de entrar no templo, perdoe.”&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A LIGAÇÃO COM O NÃO MANIFESTO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Qual é a relação entre a presença e o corpo interior?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A presença é a consciência pura, a consciência que foi recuperada da mente, do mundo da forma. O corpo interior é a nossa ligação com o Não Manifesto e, em seu aspecto mais profundo, é o Não Manifesto, ou seja, a Fonte da qual a consciência emana, tal como a luz emana do sol. Perceber o corpo interior significa que a consciência está lembrando as suas origens e retornando à Fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O Não Manifesto é o mesmo que o Ser?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; É. A expressão Não Manifesto tenta, através de uma negativa, expressar Aquilo que não pode ser falado, pensado ou imaginado. Ela aponta para o que é quando diz o que não é. Por outro lado, Ser é uma palavra positiva. Mas não se prenda a nenhuma dessas palavras nem comece a acreditar nelas. Não passam de letreiros indicadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você disse que a presença é a consciência que foi retomada da mente. Quem faz essa retomada?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você. Mas, como em essência, você é consciência, podemos muito bem dizer que é a consciência despertando da ilusão da forma. Isso não quer dizer que a sua própria forma vai imediatamente desaparecer numa explosão de luz. Você mantém a sua forma atual, mas percebe que existe algo sem forma e sem fim lá dentro de você.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Tenho de admitir que isso está além da minha compreensão, mas, mesmo assim, em um nível mais profundo, parece que entendo o que você está falando. É mais como uma sensação do que qualquer outra coisa. Será que estou me enganando?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não é um engano. Sentir vai aproximar você da verdade muito mais do que pensar. Não sou capaz de contar nada que, no fundo, você já não saiba. Quando atingimos um determinado estágio de conexão interior, reconhecemos a verdade assim que a ouvimos. Caso você não tenha ainda atingido esse estágio, a prática de perceber o corpo vai fazer surgir o aprofundamento necessário.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; RETARDANDO O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Nesse meio-tempo, a percepção do corpo interior traz outros benefícios no campo físico. Um deles é uma significativa redução do processo de envelhecimento do corpo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Enquanto o corpo exterior, em geral, aparenta estar envelhecendo e murchando bem rapidamente, o corpo interior não muda com o tempo, exceto pelo fato de que podemos senti-lo mais profundamente e torná-lo mais completo. Se você tem 20 anos agora, o campo de energia do seu corpo interior vai se sentir do mesmo modo quando você tiver 80. Estará vibrantemente vivo. Assim que o nosso estado habitual passa do estar fora do corpo e preso pela mente para estar no corpo e presente no Agora, o nosso corpo físico fica mais leve, mais claro, mais vivo. Como existe mais consciência no corpo, a ilusão da materialidade diminui.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quando nos identificamos mais com o corpo interior do que com o corpo exterior, quando o estado de presença se torna o nosso modo normal de consciência, deixamos de acumular tempo na nossa psique e nas células do corpo. O acúmulo do tempo, tal como um fardo psicológico do passado e do futuro, prejudica a capacidade de autor-renovação das células. Portanto, se você ocupa o seu corpo interior, o exterior vai envelhecer em um ritmo mais lento. E, mesmo quando envelhecer, a sua essência eterna vai brilhar através da sua forma exterior, e você não dará a impressão de ser uma pessoa idosa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Existe alguma prova científica disso?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Experimente e você vai ser a prova.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; FORTALECENDO O SISTEMA IMUNOLÓGICO&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Um outro benefício dessa prática, no campo físico, é um grande fortalecimento do sistema imunológico. Quanto mais consciência tivermos do corpo, mais forte se torna o sistema imunológico. É como se cada célula despertasse e festejasse. O corpo adora a atenção que lhe damos. É também uma poderosa forma de se autoajudar. A maioria das doenças acontece quando não estamos presentes em nossos corpos. Se o dono não está em casa, todos os tipos suspeitos vão aparecer por lá. Quando você está presente, fica mais difícil que entrem tipos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não é só o nosso sistema imunológico físico que se fortalece. O sistema imunológico psíquico também se eleva bastante. Esse último nos protege dos campos de forças mentais e emocionais negativas emanadas de outras pessoas, que são largamente contagiosas. Ocupar o corpo nos protege não porque nos coloca um escudo, mas sim porque eleva a frequência vibracional do nosso campo total de energia, de forma que qualquer coisa que vibre em baixa frequência, como o medo, a raiva, a depressão, passa a existir naquilo que é, virtualmente, uma ordem diferente de realidade. Já não penetra no nosso campo de consciência, ou, caso penetre, já não precisamos mais oferecer resistência, porque ele passará através de nós. Por favor, não aceite ou rejeite simplesmente o que estou explicando. Faça um teste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Existe uma técnica de meditação simples e poderosa que pode ser usada sempre que você sentir necessidade de reforçar seu sistema imunológico. Funciona, em especial, quando usada assim que você sente os primeiros sintomas de uma doença, mas também pode surtir efeito em doenças que já se instalaram, se você usá-la a intervalos frequentes e com uma concentração intensa. Ela também vai neutralizar qualquer ruptura do seu campo de energia causada por alguma forma de negatividade. Entretanto, não se trata de um substituto da prática de estar no corpo, do contrário seu efeito será apenas passageiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quando você não tiver o que fazer por alguns minutos, “inunde” o seu corpo com a consciência. É um excelente exercício para fazer à noite antes de dormir e assim que acordar de manhã, antes mesmo de se levantar. Feche os olhos. Deite-se de costas. Escolha partes diferentes do corpo para dirigir a sua atenção por alguns momentos, como mãos, pés, braços, pernas, abdômen, peito, cabeça, etc. Sinta o campo de energia dessas partes tão intensamente quanto puder. Detenha-se mais ou menos por 15 segundos em cada ponto. Deixe sua atenção percorrer o corpo, como uma onda, dos pés à cabeça e da cabeça aos pés. Leva apenas cerca de um minuto. Depois disso, sinta seu corpo em sua totalidade, como um campo de energia único. Mantenha essa sensação por alguns segundos. Esteja intensamente presente em cada célula do seu corpo durante esse tempo. Não se preocupe se a mente, ocasionalmente, conseguir desviar a sua atenção para fora do corpo e se você se perder em algum pensamento. Assim que você perceber que isso aconteceu, retorne a sua atenção para o seu corpo interior.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; DEIXE QUE A RESPIRAÇÃO CONDUZA VOCÊ PARA DENTRO DO CORPO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Às vezes, quando minha mente está muito ativa, é quase impossível desviar a atenção dela e sentir o corpo interior. Isso acontece, especialmente, em momentos de muita ansiedade ou preocupação. O que fazer a respeito disso?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Se você encontrar dificuldade de entrar em contato com o seu corpo interior, é mais fácil, em primeiro lugar, concentrar a atenção no movimento da respiração. Tomar consciência da respiração, que já é uma meditação poderosa, irá, aos poucos, colocar você em contato com o corpo. Observe atentamente a respiração, como ela entra e sai do seu corpo. Respire e sinta o abdômen inflar e contrair-se levemente, a cada inspiração e expiração. Se você tiver facilidade para visualizar, feche os olhos e veja-se no meio da luz, dentro de um mar de consciência. Então, respire dentro dessa luz. Sinta essa substância luminosa preenchendo todo o seu corpo e tornando-o luminoso. Então, aos poucos, concentre-se nessa sensação. Você agora está dentro do seu corpo. Não se fixe em nenhuma imagem visual.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O USO CRIATIVO DA MENTE&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Caso você precise usar a mente para um propósito específico, use-a em parceria com o seu corpo interior. Só se conseguirmos estar conscientes sem que haja pensamentos é que seremos capazes de usar a mente de forma criativa, e o caminho mais fácil para entrar nesse estado é através do corpo. Sempre que for necessária uma resposta, uma solução ou uma ideia criativa, pare de pensar por um momento e focalize a atenção em seu campo de energia interior. Tome consciência da serenidade. Quando você voltar ao pensamento, ele será novo e criativo. Em qualquer atividade mental, habitue-se a ir e vir, de tantos em tantos minutos, entre o pensamento e uma espécie de escuta interior, uma serenidade interior. Poderíamos dizer: não pense apenas com a cabeça, pense com todo o seu corpo.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A ARTE DE ESCUTAR&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Quando você parar para ouvir uma outra pessoa, não escute só com a mente, escute com todo o seu corpo. Sinta o campo de energia do seu corpo interior enquanto escuta. Isso desvia a atenção do pensamento e cria um espaço de serenidade que possibilita a você ouvir realmente, sem que a mente interfira. Você está dando à outra pessoa um espaço para ela ser. É o presente mais precioso que você pode dar a alguém. A maioria das pessoas não sabe como ouvir, porque uma grande parte da atenção delas está dominada pelo pensamento. Prestam muito mais atenção a isso do que às palavras da outra pessoa e nenhuma atenção ao que realmente importa, ou seja, o Ser da outra pessoa que está debaixo das palavras e da mente. É claro que você não consegue sentir o Ser de uma outra pessoa a não ser através de você mesmo. Esse é o início da realização de uma união, que é o amor. No nível mais profundo do Ser, você está em unidade com tudo o que existe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A maioria das relações humanas consiste principalmente&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; na interação das mentes umas com as outras, e não de seres humanos se comunicando, ficando em comunhão. Nenhuma relação pode florescer por esse caminho, e essa é a razão de tantos conflitos nas relações. Quando a mente dirige a nossa vida, o conflito, as lutas e os problemas são inevitáveis. Estar em contato com o seu corpo interior cria um espaço de mente vazia dentro do qual a relação pode florescer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Eckhart Tolle - O poder do Agora)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/4355367138391802187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/4355367138391802187?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4355367138391802187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4355367138391802187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/o-corpo-interior-o-ser-e-o-seu-eu.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-3640217428743845034</id><published>2018-07-08T19:00:00.001-03:00</published><updated>2018-07-08T19:00:37.912-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>CIÊNCIA E RELIGIÃO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Como a teoria do hiperespaço criou novos e profundos vínculos entre a física e a matemática abstrata, algumas pessoas acusaram os cientistas de criar uma nova teologia baseada na matemática; isto é, rejeitamos a mitologia da religião apenas para adotar uma religião ainda mais estranha, baseada no espaço-tempo curvo, simetrias de partículas e expansões cósmicas. Enquanto os sacerdotes podem recitar fórmulas cabalísticas em latim que dificilmente alguém entende, os físicos cantam equações arcanas das supercordas que menos gente ainda entende. A “fé” num Deus todo-poderoso é agora substituída pela “fé” na teoria quântica e na relatividade geral. Quando cientistas protestam que nossas feitiçarias matemáticas podem ser verificadas em laboratório, a resposta é que a Criação não pode ser medida em laboratório, e portanto essas teorias abstratas como as supercordas jamais podem ser testadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Esse debate não é novo. Ao longo da história, cientistas foram muitas vezes convidados a debater as leis da natureza com teólogos. Por exemplo, o grande biólogo britânico Thomas Huxley foi o mais destacado defensor da teoria da seleção natural de Darwin contra as críticas da Igreja no fim do século XIX. De maneira semelhante, físicos quânticos compareceram a programas de rádio para debater com representantes da Igreja Católica se o Princípio de Incerteza de Heisenberg nega o livre-arbítrio, uma questão que pode determinar se as almas vão para o céu ou para o inferno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Mas os cientistas em geral relutam em se envolver em debates teológicos sobre Deus e a Criação. Um problema, eu descobri, é que “Deus” significa muitas coisas para muitas pessoas, e o uso de palavras carregadas, cheias de simbolismo oculto, só obscurece a questão. Para elucidar um pouco esse problema, descobri que é útil distinguir cuidadosamente entre dois tipos de significado da palavra Deus. Por vezes é útil diferenciar entre o Deus dos Milagres e o Deus da Ordem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Quando os cientistas usam a palavra Deus, geralmente têm em mente o Deus da Ordem. Por exemplo, uma das mais importantes revelações na infância de Einstein ocorreu quando ele leu seus primeiros livros sobre ciência. Compreendeu imediatamente que a maior parte do que lhe havia sido ensinado sobre religião não podia ser verdade. Ao longo de sua carreira, no entanto, ele se apegou à crença de que existia no universo uma Ordem divina, misteriosa. A vocação de sua vida, dizia ele, era desvendar-lhe os pensamentos, determinar se ela possuía alguma escolha ao criar o universo. Einstein se referiu repetidamente a seu Deus em seus escritos, chamando-o afetuosamente de “o Velho”. Quando topava com um problema matemático intratável, costumava dizer, “Deus é sutil, mas não malicioso”. A maioria dos cientistas, é seguro dizer, acredita que há alguma forma de Ordem cósmica no universo. No entanto, para os não cientistas, a palavra Deus se refere quase universalmente ao Deus dos Milagres, e isso é fonte de comunicação equivocada entre cientistas e não cientistas. O Deus dos Milagres intervém em nossos problemas, opera milagres, destrói cidades malditas, esmaga exércitos inimigos, submerge as tropas do faraós e vinga os puros e os nobres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Se cientistas e não cientistas não conseguem se comunicar sobre questões religiosas, é porque estão falando ao mesmo tempo, referindo-se a deuses inteiramente diferentes. Isso ocorre porque as fundações da ciência se firmam em eventos observáveis, reproduzíveis, mas os milagres, por definição, não são reproduzíveis. Acontecem somente uma vez na vida de uma pessoa, se tanto. Portanto, o Deus dos Milagres está, em certo sentido, acima do que conhecemos como ciência. Isso não quer dizer que milagres não possam acontecer, somente que eles estão fora do que é comumente chamado ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O biólogo Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, ficou intrigado com essa questão e indagou se há alguma razão científica para que os seres humanos se aferrem tão intensamente à sua religião. Mesmo cientistas formados, ele verificou, que são em geral perfeitamente racionais com relação à sua especialização científica, recorrem a argumentos irracionais para defender sua religião. Ademais, observa ele, a religião foi usada historicamente como um pretexto para se encetar guerras hediondas e cometer atrocidades indizíveis contra infiéis e pagãos. A crua ferocidade das guerras religiosas ou santas, de fato, concorre com o pior crime que qualquer ser humano jamais cometeu contra outro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; A religião, observa Wilson, é universalmente encontrada em todas as culturas humanas já estudadas na Terra. Os antropólogos descobriram que todas as tribos primitivas têm um mito de “origem” que explica de onde elas vieram. Além disso, essa mitologia distingue nitidamente entre “nós” e “eles”, fornece uma força coesiva (e frequentemente irracional) que preserva a tribo e reprime as críticas ao líder.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Isso não é uma aberração, mas a norma da sociedade humana. A religião, teoriza Wilson, é demasiado dominante porque forneceu uma vantagem evolucionária definida para aqueles primeiros seres humanos que a adotaram. Wilson observa que animais que caçam em bandos obedecem ao líder porque uma hierarquia baseada na força e na dominação foi estabelecida. Mas cerca de um milhão de anos atrás, quando nossos ancestrais simiescos se tornaram gradualmente mais inteligentes, as pessoas puderam começar a questionar racionalmente o poder de seu líder. A inteligência, por sua própria natureza, questiona a autoridade pela razão, e portanto podia ser uma força perigosa e dissipadora na tribo. A menos que houvesse uma força para neutralizar esse caos cada vez mais amplo, as pessoas inteligentes iriam abandonar a tribo, a tribo se desagregaria, e todos os indivíduos acabariam morrendo. Assim, segundo Wilson, uma pressão de seleção foi exercida sobre os macacos inteligentes para inibir a razão e obedecer cegamente ao líder e a seus mitos, já que outro comportamento colocaria em risco a coesão da tribo. A sobrevivência favorecia o macaco inteligente, capaz de pensar racionalmente sobre ferramentas e coleta de alimentos, mas favorecia também aquele que pudesse inibir essa razão quando ela ameaçasse a integridade da tribo. Havia necessidade de uma mitologia para definir e preservar a tribo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Segundo Wilson, para os símios que gradualmente se tornavam mais inteligentes, a religião foi uma força muito poderosa, preservadora da vida, constituindo uma “cola” que os mantinha unidos. Se correta, essa teoria explicaria por que tantas religões se apoiam mais na fé que no bom senso, e por que o rebanho é chamado a inibir a razão. Ajudaria também a explicar a ferocidade desumana das guerras religiosas e por que o Deus dos Milagres sempre pareceu estar ao lado do vitorioso numa guerra sangrenta. O Deus dos Milagres tem uma poderosa vantagem sobre o Deus da Ordem. Ele explica a mitologia de nosso propósito no universo; sobre essa questão, o Deus da Ordem silencia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; NOSSO PAPEL NA NATUREZA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Embora o Deus da Ordem não possa dar à humanidade um destino ou um propósito partilhados, o que pessoalmente acho mais assombroso nessa discussão é que nós seres humanos, que estamos apenas começando nossa ascensão na escala tecnológica, sejamos capazes de fazer afirmações de tamanha audácia sobre a origem e o destino do universo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Tecnologicamente, estamos apenas começando a escapar da atração gravitacional da Terra; apenas começamos a enviar toscas sondas ao espaço exterior. No entanto, aprisionados em nosso pequeno planeta, contando apenas com nossas mentes e uns poucos instrumentos, fomos capazes de decifrar as leis que governam a matéria a bilhões de anos-luz de distância. Com recursos infinitesimalmente pequenos, sem nem mesmo deixar o sistema solar, fomos capazes de determinar o que acontece nas profundezas das fornalhas de uma estrela ou no interior do próprio núcleo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Segundo a evolução, somos macacos inteligentes que mal acabamos de descer das árvores, vivendo no terceiro planeta de uma estrela menor, num braço espiral de uma galáxia menor, num grupo menor de galáxias próximo do superaglomerado de Virgo. Se a teoria da inflação está correta, todo nosso universo visível não passa de uma bolha infinitesimal num cosmo muito mais amplo. Mesmo nesse caso, dado o papel quase insignificante que desempenhamos no universo maior, parece espantoso que sejamos capazes de afirmar ter descoberto a teoria de tudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Certa vez perguntaram ao prêmio Nobel Isidor Rabi que evento inicial em sua vida o levara a encetar a longa jornada para descobrir os segredos da natureza. Ele respondeu que foi o exame de alguns livros sobre os planetas retirados da biblioteca. O que o fascinou foi que a mente humana seja capaz de conhecer tais verdades cósmicas. Os planetas e as estrelas são muito maiores que a Terra, portanto muito mais distantes que qualquer coisa já visitada pelos seres humanos, e no entanto a mente humana é capaz de entendê-los.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O físico Heinz Pagels descreveu sua experiência crucial quando, ainda criança, visitou o Hayden Planetarium de Nova York. Ele recordou:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O drama e o poder do universo dinâmico me esmagaram. Aprendi que uma única galáxia pode conter mais estrelas do que todos os seres humanos que jamais viveram... A realidade da imensidão e duração do universo causou uma espécie de “choque existencial” que abalou os fundamentos do meu ser. Tudo que eu havia experimentado ou conhecido parecia insignificante situado naquele vasto oceano de existência.[10]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Em vez de ficar esmagado pelo universo, penso que talvez uma das mais profundas experiências que um cientista pode ter, quase se aproximando do despertar religioso, é se dar conta de que somos filhos das estrelas, e de que nossas mentes são capazes de compreender as leis universais a que elas obedecem. Os átomos dentro de nossos corpos foram forjados na bigorna da nucleossíntese dentro de uma estrela em explosão eras antes do nascimento do sistema solar. Nossos átomos são mais velhos que as montanhas. Somos literalmente feitos de poeira de estrela. Agora esses átomos, por sua vez, fundiram-se em seres inteligentes capazes de compreender as leis universais que governam esse evento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O que me parece fascinante é que as leis da física que descobrimos em nosso minúsculo e insignificante planeta sejam as mesmas leis descobertas não importa onde no universo, e no entanto essas leis foram descobertas sem que jamais tivéssemos deixado a Terra. Sem portentosas naves tripuladas ou janelas dimensionais, fomos capazes de determinar a natureza química das estrelas e de decodificar os processos nucleares que têm lugar nas profundezas de seu cerne.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Por fim, se a teoria de dez dimensões das supercordas está correta, uma civilização que medra na mais longínqua estrela vai descobrir precisamente a mesma verdade sobre nosso universo. Também ela vai cismar acerca da relação entre mármore e madeira, e chegar à conclusão de que o mundo tradicional de três dimensões é “pequeno demais” para acomodar as forças conhecidas em seu mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Nossa curiosidade é parte da ordem natural. Talvez nós, como seres humanos, queiramos entender o universo exatamente como uma ave quer cantar. Como Johannes Kepler, o grande astrônomo do século XVII, disse uma vez, “Não perguntamos para que fim útil os pássaros cantam, pois a canção é seu prazer, já que foram criados para cantar. Da mesma maneira, não deveríamos perguntar por que a mente humana se dá ao trabalho de penetrar os segredos do céu”. Ou, como o biólogo Thomas H. Huxley disse em 1863: “A questão de todas as questões para a humanidade, o problema que jaz sob todos os outros e é mais interessante que qualquer deles, é o da determinação do lugar do homem na Natureza e sua relação com o Cosmo.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O cosmólogo Stephen Hawking, que falou em resolver o problema da unificação ainda no século XX, escreveu eloquentemente sobre a necessidade de explicar para o público mais amplo possível o quadro físico essencial subjacente à física:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Se de fato descobrirmos uma teoria completa, ela deve com o tempo ser compreensível em linhas gerais por toda gente, não apenas por um punhado de cientistas. Então seremos todos, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, capazes de tomar parte na discussão de por que o universo existe. Encontrar a resposta para isso seria o triunfo máximo da razão humana – pois então conheceríamos a mente de Deus.[11]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Numa escala cósmica, ainda estamos despertando para o mundo mais vasto à nossa volta. Contudo o poder mesmo de nosso intelecto limitado é tal que somos capazes de abstrair os mais profundos segredos da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Será que isso dá sentido ou propósito à vida?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Algumas pessoas buscam sentido na vida por meio do ganho pessoal, por relações pessoais ou mediante experiências pessoais. No entanto, a mim parece que ser abençoado com a capacidade de adivinhar os segredos últimos da natureza confere sentido suficiente à vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;(Michio Kaku - Hiperespaço)&lt;br /&gt;
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&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/3640217428743845034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/3640217428743845034?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/3640217428743845034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/3640217428743845034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/ciencia-e-religiao-como-teoria-do.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-1985309122926087327</id><published>2018-07-08T15:32:00.000-03:00</published><updated>2018-07-08T16:32:49.975-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A MENTE PODE SER CONTROLADA?&lt;br /&gt;
A mente é só o que o cérebro faz - Marvin Minsky&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um touro enfurecido adentra a arena vazia em Córdoba, na Espanha. Durante gerações, esses ferozes animais têm sido criados para maximizar seus instintos de matar. Então um professor de Yale entra calmamente na arena. Em vez de usar um paletó de tweed, ele está vestido como um toureiro corajoso, com uma vistosa jaqueta justa dourada. Ele abana a capa vermelha e provoca o touro. O professor não parece aterrorizado, mas sim tranquilo, confiante, até desligado. Para um observador, parece que o professor ficou maluco e quer se suicidar.&lt;br /&gt;
Enfurecido, o touro se depara com o professor e subitamente ataca, mirando-o com seus chifres mortais. O professor não sai correndo de medo. Ele tem uma caixinha na mão. Diante das câmeras, aperta um botão e o touro para no mesmo instante. O professor estava tão confiante que arriscou a vida para provar que dominava a arte de controlar a mente de um touro raivoso.&lt;br /&gt;
O professor de Yale era o dr. José Delgado, que estava anos à frente de seu tempo. Nos anos 1960, foi pioneiro em uma série de experimentos notáveis, porém perturbadores, com animais em cujo cérebro ele colocava eletrodos para controlar seus movimentos. A fim de fazer o touro parar, ele inseriu eletrodos no estriado do gânglio basal, na base do cérebro do animal, que é ligado à coordenação motora.&lt;br /&gt;
O professor fez uma série de experimentos com macacos, tentando rearranjar sua hierarquia social ao apertar um botão. Depois de implantar eletrodos no núcleo caudado (uma região associada ao controle motor) do macho alfa de um grupo, Delgado conseguiu reduzir a agressividade do líder. Os machos delta, sem a ameaça de retaliação, começaram a se impor, tomando o território e os privilégios normalmente exclusivos do alfa. Enquanto isso, o macho alfa parecia ter perdido o interesse em defender seu território.&lt;br /&gt;
Depois o dr. Delgado apertou outro botão e o macho alfa voltou ao normal instantaneamente, reassumindo o comportamento agressivo e o lugar de rei do pedaço. Os machos delta fugiram com medo.&lt;br /&gt;
Delgado foi o primeiro na história a demonstrar que era possível controlar a mente de animais dessa maneira. Tornou-se um titereiro, manipulando os cordões de marionetes vivas.&lt;br /&gt;
Como era de se esperar, a comunidade científica viu com desconforto o trabalho de Delgado. Para piorar a situação, ele escreveu um livro, em 1969, com o provocativo título Physical Control of the Mind: Toward a Psychocivilized Society, que levantou uma questão incômoda: se cientistas como o dr. Delgado estão manipulando as cordinhas, quem vai controlar os titereiros?&lt;br /&gt;
O trabalho de Delgado põe em foco os enormes perigos e promessas da tecnologia. Nas mãos de um ditador inescrupuloso, essa tecnologia pode ser usada para manipular e controlar seus infelizes subordinados. Mas ela também pode ser usada para libertar milhões de pessoas aprisionadas em doenças mentais, aterrorizadas por alucinações ou consumidas por ansiedades.&lt;br /&gt;
Anos mais tarde, um jornalista perguntou ao dr. Delgado por que ele tinha iniciado aqueles experimentos controversos. Ele respondeu que desejava corrigir os horrendos abusos sofridos pelos doentes mentais. Eles eram submetidos a lobotomias radicais, em que o córtex pré-frontal é dilacerado por uma faca pontuda, como um furador de gelo, e enfiada a marteladas no cérebro logo acima do olho. Em geral, os resultados eram trágicos, e alguns dos horrores foram expostos no romance de Ken Kesey, Um estranho no ninho, que virou filme estrelado por Jack Nicholson. Alguns pacientes ficavam calmos e relaxados, mas muitos outros se tornavam zumbis, letárgicos, indiferentes à dor e aos sentimentos, emocionalmente vazios. Essa prática era tão difundida que, em 1949, Antonio Moniz ganhou o Prêmio Nobel por aperfeiçoar a lobotomia. Em 1950, a União Soviética proibiu essa tecnologia, declarando-a “contrária aos princípios de humanidade”, e a acusando de transformar “um insano num idiota”. No total, estima-se que foram realizadas 40 mil lobotomias somente nos Estados Unidos, durante duas décadas.&lt;br /&gt;
O CONTROLE DA MENTE E A GUERRA FRIA&lt;br /&gt;
Outro motivo para a falta de receptividade ao trabalho do dr. Delgado foi o clima político da época. A Guerra Fria estava no auge, com lembranças dolorosas de soldados norte-americanos prisioneiros exibidos diante das câmeras durante a Guerra da Coreia. Esses soldados, com o olhar vazio, admitiam ser espiões em missões secretas, confessavam horrendos crimes de guerra e denunciavam o imperialismo dos Estados Unidos.&lt;br /&gt;
Para dar sentido a essas cenas, a imprensa usava o termo “lavagem cerebral”, com a ideia de que os comunistas tinham desenvolvido drogas e técnicas secretas para transformar soldados em zumbis manipuláveis. Nesse clima político carregado, Frank Sinatra estrelou, em 1962, o filme de suspense sobre a Guerra Fria intitulado Sob o domínio do mal, em que ele tenta expor um agente secreto comunista infiltrado cuja missão é assassinar o presidente dos Estados Unidos. Mas a trama dá uma virada. O verdadeiro assassino é um respeitado herói de guerra norte-americano que foi capturado e submetido a lavagem cerebral pelos comunistas. Nascido numa família muito bem relacionada, o agente secreto está acima de qualquer suspeita, e é quase impossível detê-lo. Sob o domínio do mal reflete o medo dos norte-americanos naquela época.&lt;br /&gt;
Muitos desses medos foram retratados no profético romance de 1931 de Aldous Huxley, Admirável mundo novo. Nessa distopia há grandes fábricas de bebês de proveta que produzem clones. Privando os fetos de oxigênio, seletivamente, conseguem produzir crianças com diversos graus de lesão cerebral. No topo estão os alfas, que não sofrem de lesões no cérebro e foram criados para comandar a sociedade. No nível mais baixo estão os ípsilons, que sofreram danos cerebrais consideráveis e são usados como operários obedientes e descartáveis. Nos níveis intermediários estão outras categorias de trabalhadores e os burocratas. A elite controla a população com drogas que alteram a mente, com amor livre e lavagem cerebral. Desse modo, a paz, a tranquilidade e a harmonia são mantidas, mas a história traz uma questão perturbadora, que tem ressonâncias até os dias de hoje: quanto da nossa liberdade e dos princípios básicos de humanidade queremos sacrificar em nome da paz e da ordem social?&lt;br /&gt;
EXPERIMENTOS DA CIA EM CONTROLE DA MENTE&lt;br /&gt;
A histeria da Guerra Fria chegou aos mais altos escalões da CIA. Considerando os soviéticos muito mais avançados no domínio da lavagem cerebral e de métodos científicos não ortodoxos, a CIA se dedicou a vários projetos sigilosos, como o MKULTRA, que teve início em 1953, para explorar ideias grotescas e marginais. (Em 1973, quando o escândalo de Watergate espalhou pânico no governo, o diretor da CIA, Richard Helms, cancelou o MKULTRA e mandou destruir imediatamente todos os documentos ligados ao projeto. No entanto, 20 mil documentos escondidos sobreviveram e foram divulgados em 1977, sob o Freedom of Information Act, revelando todo o alcance daquela ação.)&lt;br /&gt;
Hoje sabe-se que, entre 1953 e 1973, o MKULTRA financiou 80 instituições, inclusive 44 universidades e faculdades, vários hospitais, laboratórios farmacêuticos e presídios, e foram feitos experimentos em pessoas sem a autorização delas, em 150 operações secretas. A certa altura, 6% do orçamento de toda a CIA era destinado ao MKULTRA.&lt;br /&gt;
Alguns desses projetos de controle da mente eram:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
o desenvolvimento de um “soro da verdade” que faria os prisioneiros confessarem seus segredos;&lt;br /&gt;
apagamento de memória, num projeto da Marinha dos Estados Unidos chamado “Subproject 54”;&lt;br /&gt;
uso de hipnose e de várias drogas, principalmente LSD, para controle de comportamento;&lt;br /&gt;
pesquisa em uso de drogas de controle da mente contra líderes estrangeiros, por exemplo, Fidel Castro;&lt;br /&gt;
aperfeiçoamento de vários métodos de interrogatório de prisioneiros;&lt;br /&gt;
desenvolvimento de uma droga fatal de efeito rápido e sem vestígios;&lt;br /&gt;
alteração da personalidade por meio de drogas, para deixar as pessoas mais maleáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora muitos cientistas questionassem a validade desses estudos, outros prosseguiram nessa linha. Foram recrutados especialistas de diversas áreas, abrangendo físicos, médiuns e cientistas da computação, para investigar uma variedade de projetos não ortodoxos, desde experimentos com drogas que alteram a mente, como o LSD, até a missão dada a médiuns de localizar submarinos soviéticos patrulhando as profundezas do mar, entre outros. Num triste incidente, deram secretamente LSD a um cientista do Exército dos Estados Unidos. Segundo alguns relatórios, ele ficou tão desorientado e violento que cometeu suicídio, se atirando de uma janela.&lt;br /&gt;
A maioria desses experimentos era justificada pela ideia de que os soviéticos estavam mais avançados que os norte-americanos em termos de controle da mente. O Senado dos Estados Unidos recebeu um relatório secreto dizendo que os soviéticos estavam fazendo experimentos com radiação de micro-ondas diretamente no cérebro de cobaias humanas. Em vez de denunciar essa ação, os Estados Unidos viram ali um “grande potencial de desenvolvimento de um sistema para desorientar ou romper os padrões de comportamento de militares e diplomatas”. O Exército dos norte-americano chegou a afirmar que seria possível incutir palavras e até discursos inteiros na mente do inimigo: “Um conceito de isca e armadilha (...) é criar, por um meio remoto, ruídos na cabeça dos indivíduos, expondo-os a pulsos de micro-ondas de baixa potência. (...) É possível criar um discurso inteligível escolhendo-se adequadamente as características dos pulsos. (...) Assim pode ser possível ‘falar’ com determinados adversários de um modo que os desconcerte ao máximo”, dizia o relatório.&lt;br /&gt;
Infelizmente, nenhum desses experimentos foi verificado por especialistas, de modo que milhões de dólares dos contribuintes foram gastos em projetos como esse, que muito provavelmente violam as leis da física, pois o cérebro humano não pode receber radiação de micro-ondas e, principalmente, não tem capacidade de decodificar mensagens desse tipo. O dr. Steve Rose, biólogo da Open University, classificou essa trama esdrúxula de uma “impossibilidade neurocientífica”.&lt;br /&gt;
Apesar dos milhões de dólares gastos nesses “projetos escusos”, deles não resultou qualquer descoberta científica confiável. Na verdade, o uso de drogas para alterar a mente criou desorientação, e até pânico, nas cobaias, mas o Pentágono não atingiu a principal meta, que era controlar a mente consciente de outra pessoa.&lt;br /&gt;
Segundo o psicólogo Robert Jay Lifton, a lavagem cerebral realizada pelos comunistas tinha pouco efeito em longo prazo. A maioria dos soldados americanos que denunciaram os Estados Unidos durante a Guerra da Coreia recuperou a personalidade anterior pouco após serem libertados. Além disso, estudos com pessoas que sofreram lavagem cerebral em certas seitas mostram que elas retomam a personalidade original após se desligarem da seita. Tudo indica que, no final das contas, a personalidade básica não é afetada pela lavagem cerebral.&lt;br /&gt;
Certamente, os militares não foram os primeiros a fazer experimentos de controle da mente. No passado, feiticeiros e videntes davam poções para fazer com que os capturados falassem ou se voltassem contra seus líderes. Um dos métodos mais antigos de controle da mente foi o hipnotismo.&lt;br /&gt;
VOCÊ ESTÁ FICANDO COM SONO, MUITO SONO...&lt;br /&gt;
Lembro-me de, quando criança, assistir a programas de televisão sobre hipnose. Num dos programas, uma pessoa em estado hipnótico recebeu a sugestão de que seria uma galinha ao despertar do transe. O público ficou abismado ao ver a pessoa batendo os braços e cacarejando no palco. Por mais dramática que tenha sido essa demonstração, era simplesmente um exemplo de “hipnose teatral”. Livros escritos por mágicos profissionais e apresentadores de programas de televisão revelam que eles utilizam atores infiltrados na plateia, usam a força da sugestão, e até a disposição da vítima para fazer parte do estratagema.&lt;br /&gt;
Uma vez apresentei um documentário de TV da BBC/Discovery chamado Time, e surgiu o tema das lembranças perdidas há muito tempo. É possível evocar lembranças tão distantes através da hipnose? E se for, é possível alguém impor sua vontade sobre a outra pessoa? Para testar essas ideias, deixei-me hipnotizar para um programa de TV.&lt;br /&gt;
A BBC contratou um hipnotizador profissional muito competente. Ele pediu que eu me deitasse, numa sala escura e silenciosa, e falou comigo em tom suave, lentamente, fazendo-me relaxar. Em seguida, me disse para pensar em algo do passado, algum lugar ou incidente que ainda se destacava mesmo depois de tantos anos. Disse-me para reentrar naquele lugar, vivenciando tudo o que vi ali, os sons, os cheiros. Para minha surpresa, comecei a ver lugares e pessoas de que eu me esquecera havia décadas. Era como assistir a um filme desfocado que ia ficando nítido aos poucos. Mas então a recordação terminou. Em certo ponto, não consegui me lembrar de mais nada. Havia claramente um limite ao que a hipnose podia fazer.&lt;br /&gt;
Varreduras por EEG e IRM mostram que durante a hipnose o sujeito tem um mínimo de estimulação sensorial externa nos córtices sensoriais. Assim, a hipnose facilita o acesso a algumas lembranças já enterradas, mas certamente não muda a personalidade, os objetivos nem os desejos de alguém. Um documento secreto do Pentágono, de 1966, corrobora isso, explicando que o hipnotismo não é uma arma de guerra confiável. “É provavelmente significativo que, na longa história da hipnose, cuja aplicação potencial ao serviço de inteligência sempre foi conhecida, não existam relatos confiáveis de seu uso efetivo por um serviço de inteligência”, diz o documento.&lt;br /&gt;
Vale notar também que as varreduras cerebrais mostram que a hipnose não é um novo estado de consciência, como o sonho na fase REM. Se definirmos a consciência humana como um processo de construção contínua de modelos do mundo externo e então simularmos como esses modelos evoluem no futuro para atingir um objetivo, veremos que a hipnose não altera esse processo básico. A hipnose pode acentuar certos aspectos da consciência e ajudar a recuperar lembranças, mas não pode fazer alguém cacarejar como galinha sem o consentimento da própria pessoa.&lt;br /&gt;
DROGAS QUE ALTERAM A CONSCIÊNCIA E SOROS DA VERDADE&lt;br /&gt;
Uma das metas do MKULTRA era a criação de um soro da verdade que levasse espiões e prisioneiros a revelar segredos. Embora o MKULTRA tenha sido extinto em 1973, os manuais de interrogatório da CIA e do Exército dos EUA tornados públicos pelo Pentágono em 1996 ainda recomendavam o uso de soros da verdade (apesar de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos determinar que uma confissão obtida por esse meio é uma “coerção inconstitucional” e portanto inadmissível num julgamento).&lt;br /&gt;
Quem assiste a filmes de Hollywood sabe que o pentotal sódico é o soro da verdade predileto dos espiões (como nos filmes True Lies, com Arnold Schwarzenegger, e Entrando numa fria maior ainda, com Robert De Niro). A droga faz parte de uma classe maior de barbitúricos, sedativos e hipnóticos capazes de ultrapassar a barreira sangue-cérebro que impede substâncias químicas nocivas na corrente sanguínea de penetrarem no cérebro.&lt;br /&gt;
É por isso que drogas que alteram a mente, como o álcool, nos afetam tanto, pois atravessam essa barreira. O pentotal sódico reduz a atividade do córtex pré-frontal e a pessoa fica mais relaxada, falante e desinibida. No entanto, isso não significa que fale a verdade. Pelo contrário, as pessoas sob a influência da substância, tal como as que beberam demais, são perfeitamente capazes de mentir. Os “segredos” que saem da boca de alguém sob o efeito dessa droga podem ser grandes mentiras, e por isso até a CIA desistiu de usá-la.&lt;br /&gt;
Contudo, isso não exclui a possibilidade de algum dia descobrirem uma droga espetacular que possa alterar nossa consciência básica. Essa droga poderia alterar as sinapses entre as fibras nervosas, agindo sobre os neurotransmissores que operam nessa área, como a dopamina, a serotonina ou a acetilcolina. Se pensarmos nas sinapses como uma série de cabines de pedágio numa rodovia, certas drogas (estimulantes como a cocaína, por exemplo) poderiam abrir a cancela do pedágio, deixando passar livremente as mensagens. A súbita aceleração mental que os drogados sentem ocorre porque todas as cancelas são abertas ao mesmo tempo, provocando uma avalanche de sinais. Mas quando todas as sinapses disparam em uníssono, só podem ser ativadas de novo horas depois. É como se todas as barreiras de pedágio se fechassem, o que causa a súbita depressão que se segue à aceleração. O desejo do corpo de vivenciar novamente a aceleração é que causa o vício.&lt;br /&gt;
COMO AS DROGAS ALTERAM A MENTE&lt;br /&gt;
A base bioquímica das drogas que alteram a mente não era conhecida quando a CIA fez os experimentos em cobaias desavisadas, mas, desde então, a base molecular do vício em drogas tem sido muito pesquisada. Estudos com animais mostraram a força do vício em drogas: ratos, camundongos ou primatas, tendo oportunidade, usam drogas como cocaína, heroína e anfetaminas até caírem de exaustão ou morrerem em consequência do uso.&lt;br /&gt;
Para avaliar a extensão desse problema, considere que, em 2007, 13 milhões de norte-americanos, a partir de 12 anos (5% da população de adolescentes e adultos do país), experimentou ou se viciou em metanfetaminas. O vício em drogas não só destrói uma vida, mas destrói sistematicamente o cérebro. Varreduras por IRM de viciados em metanfetamina mostram uma redução de 11% do tamanho do sistema límbico, que processa emoções, e 8% de perda de tecido no hipocampo, que é o portal da memória. A IRM mostra que o dano é de certa forma comparável ao encontrado em pacientes de Alzheimer. Mas, apesar da destruição que a metanfetamina causa no cérebro, os viciados persistem no vício porque produz uma sensação até 12 vezes maior do que uma refeição deliciosa ou sexo.&lt;br /&gt;
Basicamente, o “barato” da droga deve-se ao fato de a substância capturar o próprio sistema de prazer/satisfação do cérebro, localizado no sistema límbico. Esse circuito de prazer/satisfação é muito primitivo, datando de milhões de anos de história evolucionária, mas ainda é extremamente importante para a sobrevivência humana, porque premia o comportamento benéfico e pune as ações prejudiciais. Quando esse circuito é assumido pelas drogas, o resultado pode ser devastador. As drogas furam a barreira sangue-cérebro e causam uma superprodução de neurotransmissores como a dopamina, que inunda o núcleo accumbens, um pequeno centro de prazer perto da amídala. A dopamina, por sua vez, é produzida por certas células cerebrais na área tegmentar ventral, chamadas células da ATV.&lt;br /&gt;
Todas as drogas funcionam basicamente da mesma maneira, bloqueando o circuito ATV−núcleo accumbens, que controla o fluxo de dopamina e outros neurotransmissores para o centro de prazer. As drogas diferem somente no modo pelo qual esse processo ocorre. Há pelo menos três drogas principais que estimulam o centro de prazer no cérebro: dopamina, serotonina e noradrenalina. Todas dão uma sensação de prazer, euforia e falsa confiança, além de produzir um surto de energia.&lt;br /&gt;
A cocaína e outros estimulantes funcionam de duas formas. Primeiro, estimulam diretamente as células da ATV para produzirem mais dopamina, provocando um fluxo excessivo da substância no núcleo accumbens. Segundo, evitam que as células da ATV voltem à posição “desligada”, mantendo-as numa produção contínua de dopamina. Além disso, impedem a absorção de serotonina e noradrenalina. O fluxo simultâneo desses três neurotransmissores nos circuitos neurais cria o grande “barato” associado à cocaína.&lt;br /&gt;
Em contraste, a heroína e outros opiáceos funcionam neutralizando as células da ATV que podem reduzir a produção de dopamina, gerando assim uma superprodução desta.&lt;br /&gt;
Drogas como o LSD operam estimulando a produção de serotonina, que induz uma sensação de bem-estar, determinação e afeição. Mas também estimulam áreas do lobo temporal a alucinações. (Bastam 50 microgramas de LSD para produzir alucinações. A absorção do LSD é tão intensa que aumentar a dose não surte maior efeito.)&lt;br /&gt;
Com o passar do tempo, a CIA percebeu que drogas que alteram a mente não eram a solução mágica que estavam procurando. As alucinações e os vícios que acompanham essas drogas as tornam muito instáveis e imprevisíveis, podendo gerar mais problemas do que benefícios em situações políticas delicadas.&lt;br /&gt;
Vale notar que somente nos últimos anos a IRM do cérebro de viciados em drogas indicou um novo meio de curar, ou pelo menos tratar, algumas formas de vício. Por acaso, viu-se que vítimas de derrame com lesão na ínsula (localizada no meio do cérebro, entre o córtex pré-frontal e o temporal) tinham uma facilidade maior para deixar de fumar do que a média dos fumantes. Esse resultado foi verificado em usuários de drogas como cocaína, álcool, opiáceos e nicotina. Se esse resultado for confirmado, pode significar que, amortecendo a atividade da ínsula por meio de eletrodos ou estimuladores magnéticos, seja possível tratar o vício. “É a primeira vez que vemos algo assim, uma lesão numa área cerebral específica que pode eliminar totalmente o problema do vício. É incompreensível”, disse a dra. Nora Volkow, diretora do National Institute on Drug Abuse. No momento, não se sabe como isso funciona, porque a ínsula está ligada a uma grande variedade de funções cerebrais, inclusive percepção, controle motor e consciência de si. Mas se o resultado for comprovado, pode mudar todo o cenário dos estudos sobre vício em drogas.&lt;br /&gt;
INVESTIGANDO O CÉREBRO COM OPTOGENÉTICA&lt;br /&gt;
Esses experimentos em controle da mente foram realizados principalmente numa época em que o cérebro era um grande mistério, com métodos de tentativa e erro que geralmente fracassavam. Entretanto, devido à explosão de dispositivos de sondagem cerebral, surgiram novas oportunidades que não apenas podem nos ajudar a entender o cérebro, mas também nos ensinar a controlá-lo.&lt;br /&gt;
A optogenética, como vimos, é um dos campos científicos que se desenvolve com maior velocidade nos dias de hoje. O objetivo básico é identificar precisamente qual percurso neural corresponde a qual tipo de comportamento. A optogenética começa com um gene chamado opsina, muito peculiar, porque é sensível à luz. (Acredita-se que o surgimento desse gene, centenas de milhões de anos atrás, tenha sido responsável pela criação do primeiro olho. Nessa teoria, um pedacinho de pele sensível à luz evoluiu para se tornar a retina.)&lt;br /&gt;
Quando o gene opsina é inserido num neurônio e exposto à luz, o neurônio pode ser acionado. Ligando um interruptor, pode-se reconhecer imediatamente o percurso neural para certos comportamentos, porque as proteínas fabricadas pela opsina conduzem eletricidade e disparam.&lt;br /&gt;
A parte mais difícil, porém, é inserir esse gene num único neurônio. Para isso, usa-se uma técnica tomada emprestada da engenharia genética. O gene opsina é inserido num vírus inócuo (cujos genes maus foram removidos) e, com instrumentos de precisão, é possível aplicar esse vírus num só neurônio. O vírus infecta o neurônio, inserindo seus genes nele. Quando se irradia luz no tecido neural, esse neurônio é ativado. Desse modo é possível estabelecer o percurso exato de determinadas mensagens.&lt;br /&gt;
A optogenética não se limita a permitir a identificação de certos percursos irradiando luz sobre eles, mas também permite aos cientistas controlar o comportamento. Esse método já mostrou ser um sucesso. Há muito tempo se suspeitava de que um simples circuito neural era capaz de espantar as moscas-das-frutas. Usando esse método, foi possível identificar o percurso exato por trás dessa fuga. Bastava acender uma luz nas moscas e elas saíam voando obedientemente.&lt;br /&gt;
Hoje, usando um feixe de luz, os cientistas podem até fazer minhocas pararem de se contorcer e, em 2011, fizeram outra grande descoberta. Em Stanford, eles conseguiram inserir um gene opsina numa região exata da amídala de um rato. Criados especificamente para serem tímidos, esses ratos ficavam encolhidos na gaiola, mas, quando um feixe de luz foi lançado no cérebro deles, perderam imediatamente a timidez e passaram a examinar a gaiola.&lt;br /&gt;
As implicações são enormes. Enquanto as moscas-das-frutas podem ter mecanismos de reflexo simples, envolvendo apenas alguns neurônios, os camundongos possuem um sistema límbico que tem contrapartes no ser humano. Apesar de muitos experimentos que funcionam com camundongos não se aplicarem a seres humanos, é possível que algum dia os cientistas encontrem os caminhos neurais exatos de certas doenças mentais, e que a partir daí seja possível tratá-las sem efeitos colaterais. Como disse o dr. Edward Boyden, do MIT, “Se quisermos desligar um circuito cerebral e a alternativa for a remoção cirúrgica de uma região cerebral, o implante de fibra ótica pode ser o mais indicado”.&lt;br /&gt;
Uma aplicação prática é o tratamento do mal de Parkinson. Como vimos, a doença pode ser tratada com estimulação cerebral profunda, mas, como falta precisão ao posicionamento dos eletrodos no cérebro, há sempre o perigo de derrame, hemorragia, infecção etc. A estimulação profunda do cérebro pode também causar efeitos colaterais como tontura e contrações musculares, porque os eletrodos podem, acidentalmente, estimular neurônios indevidos. A optogenética pode aprimorar a estimulação cerebral profunda, ao identificar exatamente os caminhos neurais que não disparam corretamente, no nível de neurônios individuais.&lt;br /&gt;
Vítimas de paralisia também podem se beneficiar dessa nova tecnologia. Como vimos no capítulo 4, alguns indivíduos tetraplégicos foram ligados a um computador para controlar um braço mecânico mas, como não têm o sentido do tato, podem derrubar ou quebrar o objeto que desejam pegar. “Ao enviar informação dos sensores, colocados nas próteses dos dedos, diretamente para o cérebro com o uso da optogenética, em princípio, é possível fornecer um sentido do tato bastante preciso”, disse o dr. Krishna Shenoy, de Stanford.&lt;br /&gt;
A optogenética pode também ajudar a esclarecer quais são os percursos neurais envolvidos no comportamento humano. De fato, já existem planos de experimentação dessa técnica com seres humanos, principalmente no caso de doenças mentais. É claro que haverá grandes dificuldades. Primeiro, a técnica exige abrir o crânio e, se os neurônios a serem estudados estiverem localizados lá no meio do cérebro, o procedimento será ainda mais invasivo. Além disso, será preciso inserir no cérebro fios muito finos que irradiem luz no neurônio modificado para ativar o comportamento desejado.&lt;br /&gt;
Quando esses percursos neurais forem decifrados, será possível estimulá-los, provocando comportamentos estranhos em animais (como, por exemplo, camundongos correndo em círculos). Embora os cientistas estejam apenas começando a traçar os percursos neurais que controlam comportamentos animais simples, no futuro também haverá uma enciclopédia de comportamentos humanos. Contudo, em mãos erradas, a optogenética pode ser usada para exercer controle sobre o comportamento humano.&lt;br /&gt;
No geral, os benefícios da optogenética superam em muito suas desvantagens. Ela pode literalmente revelar os percursos neurais a serem usados no tratamento de doenças mentais, e outras. Também pode dar aos cientistas instrumentos para reparar lesões, e talvez curar doenças consideradas incuráveis. No futuro próximo, os resultados serão todos positivos. E num futuro distante, quando todos os percursos do comportamento humano forem entendidos, a optogenética poderá ser usada também para controlar, ou pelo menos modificar, o comportamento humano.&lt;br /&gt;
O CONTROLE DA MENTE E O FUTURO&lt;br /&gt;
Resumindo, o uso de drogas e de hipnose pela CIA foi um fiasco. São técnicas muito instáveis e imprevisíveis para serem usadas pelo Exército. Podem ser utilizadas para induzir alucinações e dependência, mas não servem para apagar memória, tornar alguém mais manipulável, nem forçar ninguém a praticar atos contra sua vontade. Os governos vão continuar tentando, mas o resultado é duvidoso. Até o momento, as drogas são um instrumento muito agressivo de controle de comportamento.&lt;br /&gt;
Há até um conto de advertência: Carl Sagan fala de um cenário assustador e muito possível. Ele imagina um ditador colocando eletrodos nos centros de “dor” e de “prazer” do cérebro de crianças. Os eletrodos são ligados a um computador sem fio, de modo que o ditador pode controlá-las ao apertar um botão.&lt;br /&gt;
Outro pesadelo envolve a instalação de sondas no cérebro capazes de anular nossos desejos e assumir o controle muscular, nos obrigando a atos que não queremos fazer. O trabalho de Delgado é incipiente, mas mostra que rajadas de eletricidade aplicadas a áreas motoras do cérebro podem anular nossos pensamentos conscientes, de modo que os músculos fogem ao controle. Ele conseguiu identificar apenas alguns comportamentos de animais que podiam ser controlados por meio de sondas elétricas. No futuro, talvez seja possível encontrar uma variedade maior de comportamentos passíveis de serem controlados eletronicamente ao se apertar um botão.&lt;br /&gt;
Se você é a pessoa controlada, a experiência é bem desagradável. Enquanto você pensa que é dono do seu corpo, seus músculos podem ser ativados sem a sua permissão e você agirá contra vontade. O impulso elétrico enviado para o cérebro pode ser maior que seus impulsos enviados voluntariamente para os músculos, e você tem a impressão de que alguém tomou seu corpo. Seu próprio corpo se torna um objeto estranho.&lt;br /&gt;
Em princípio, um pesadelo desse tipo pode ser possível no futuro. Por outro lado, há vários fatores capazes de impedi-lo. Primeiro, essa tecnologia ainda está engatinhando, e não se sabe como será aplicada ao comportamento humano, portanto, ainda há tempo de sobra para monitorar seu desenvolvimento, e talvez criar salvaguardas para evitar o mau uso. Segundo, um ditador pode resolver que a propaganda e a coerção, métodos usuais de controle da população, são mais baratos e eficazes do que instalar eletrodos no cérebro de milhões de crianças, o que seria muito caro e invasivo. Terceiro, em sociedades democráticas, surgiria um feroz debate público sobre as perspectivas e limitações dessa tecnologia radical. Seriam aprovadas leis para evitar o abuso desse método, sem prejuízo para o uso visando reduzir o sofrimento humano. Em breve a ciência nos dará um saber inédito e detalhado sobre os percursos neurais no cérebro humano. É preciso distinguir as tecnologias que podem beneficiar a sociedade das que podem controlá-la. E a condição para fazer passar essas leis é manter uma sociedade bem informada.&lt;br /&gt;
Mas o verdadeiro impacto dessa tecnologia, creio eu, será a libertação, e não a escravidão, da mente. São tecnologias que dão esperança àqueles aprisionados por doenças mentais. Apesar de ainda não haver uma cura permanente da doença mental, essas novas tecnologias nos têm dado um conhecimento mais profundo da formação e evolução desses distúrbios. Um dia, combinando genética, remédios e alta tecnologia, encontraremos uma forma de controlar, e até de curar, essas antigas doenças.&lt;br /&gt;
Uma recente tentativa de explorar o novo conhecimento do cérebro é estudar personalidades históricas. Talvez as descobertas da ciência moderna possam ajudar a explicar os estados mentais de figuras do passado.&lt;br /&gt;
E uma das mais extraordinárias figuras analisadas hoje é Joana d’Arc.&lt;br /&gt;
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CONSCIÊNCIA QUÂNTICA?&lt;br /&gt;
Ainda somos senhores do nosso destino&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de todos os avanços miraculosos em varreduras cerebrais e alta tecnologia, alguns afirmam que nunca compreenderemos o segredo da consciência, que está além da nossa reles tecnologia. De fato, na visão delas a consciência é mais do que átomos, moléculas e neurônios, e determina a natureza da própria realidade. Para elas, a consciência é a entidade fundamental, a origem da criação do mundo material. E como prova, referem-se a um dos maiores paradoxos de toda a ciência, que desafia nossa definição de realidade: o paradoxo do Gato de Schrödinger. Até hoje sem consenso universal, cientistas premiados assumem posições divergentes sobre a questão. O que está em jogo é nada menos que a natureza da realidade e do pensamento.&lt;br /&gt;
O paradoxo do Gato de Schrödinger chega aos fundamentos da mecânica quântica, o campo que torna possíveis os lasers, as varreduras por IRM, o rádio e a TV, a eletrônica moderna, o GPS e as telecomunicações, dos quais depende a economia mundial. Muitas previsões da teoria quântica passaram em testes com margem de precisão de uma parte em cem bilhões.&lt;br /&gt;
Passei toda minha carreira profissional trabalhando com a teoria quântica. E ainda acho que é como areia movediça. É uma sensação desconfortável saber que o trabalho de minha vida inteira se baseia numa teoria que tem os próprios fundamentos baseados em um paradoxo.&lt;br /&gt;
Esse debate foi iniciado pelo físico austríaco Erwin Schrödinger, um dos pais da teoria quântica. Ele estava tentando explicar o estranho comportamento de elétrons, que pareciam exibir propriedades tanto de partículas quanto de ondas. Como pode um elétron, uma partícula pontual, ter dois comportamentos divergentes? Às vezes os elétrons agiam como uma partícula, criando rastros bem definidos numa câmara de nuvem. Outras vezes, os elétrons agiam como uma onda, passando por furinhos e criando padrões de interferência de onda, como as na superfície de um lago.&lt;br /&gt;
Em 1925, Schrödinger apresentou sua célebre equação de onda, que leva seu nome e é uma das equações mais importantes jamais escritas. Foi um sucesso imediato e lhe valeu o Prêmio Nobel em 1933. A equação de Schrödinger descreveu precisamente o comportamento do elétron como onda e, quando aplicada ao átomo de hidrogênio, explicou suas estranhas propriedades. Milagrosamente, a equação podia ser aplicada também a qualquer átomo, explicando quase todas as características dos elementos da tabela periódica. Parecia que toda a química (e, portanto, toda a biologia) era apenas soluções dessa equação de onda. Alguns físicos chegaram a afirmar que todo o universo, incluindo todas as estrelas, planetas e até nós, eram apenas soluções dessa equação.&lt;br /&gt;
Mas então os físicos começaram a se fazer uma pergunta problemática que ressoa até hoje: Se o elétron é descrito por uma equação de onda, então o que é a ondulação?&lt;br /&gt;
Em 1927, Werner Heisenberg propôs um novo princípio que dividiu os físicos. O célebre princípio da incerteza de Heisenberg afirma que não se podem saber ao mesmo tempo, com certeza, a localização e o momento (o produto de sua massa pela sua velocidade) do elétron. Essa incerteza não derivava da imprecisão dos instrumentos, mas era inerente à própria física. Nem Deus, nem ser celestial algum poderia saber com precisão a localização e o momento de um elétron.&lt;br /&gt;
Assim, a equação de onda de Schrödinger na verdade descrevia a probabilidade de se encontrar o elétron. Os cientistas tinham passado milhares de anos tentando a duras penas eliminar de seus trabalhos o acaso e as probabilidades, e agora Heisenberg os trazia de volta.&lt;br /&gt;
A nova filosofia pode ser resumida no seguinte: o elétron é uma partícula pontual, mas a probabilidade de encontrá-lo é dada por uma onda. E essa onda obedece à equação de Schrödinger, dando origem ao princípio da incerteza.&lt;br /&gt;
A comunidade da física partiu-se ao meio. De um lado, físicos como Niels Bohr, Werner Heisenberg e a maioria dos físicos atômicos logo adotaram a nova formulação. Quase todos os dias eles anunciavam descobertas quanto à compreensão das propriedades da matéria. Prêmios Nobel eram dados a físicos quânticos como Oscars. A mecânica quântica estava se tornando um livro de receitas. Não era preciso ser um mestre em física para fornecer contribuições estelares − bastava seguir as receitas dadas pela mecânica quântica para fazer descobertas espantosas.&lt;br /&gt;
Do outro lado, físicos já idosos, premiados com o Nobel, como Albert Einstein, Erwin Schrödinger e Louis de Broglie levantaram objeções filosóficas. Schrödinger, pai do trabalho desencadeador de todo esse processo, resmungou que, se soubesse que sua equação acabaria introduzindo a probabilidade dentro da física, jamais a teria criado.&lt;br /&gt;
Os físicos travaram um debate de oitenta anos, que persiste até hoje. Se Einstein afirmava que “Deus não joga dados com o mundo”, ouviu-se Niels Bohr responder: “Pare de dizer a Deus o que fazer.”&lt;br /&gt;
Em 1935, para arruinar os físicos quânticos de uma vez por todas, Schrödinger propôs seu famoso problema do gato. Coloque o gato numa caixa selada, com um frasco de gás venenoso. Dentro da caixa, há um pouco de urânio. O átomo de urânio é instável e emite partículas que podem ser detectadas por um contador Geiger. O contador aciona um martelo, que cai e quebra o vidro, liberando o gás, que pode matar o gato.&lt;br /&gt;
Como se descreve o gato? Um físico quântico diria que o átomo de urânio é descrito por uma onda, que tanto pode decair como não decair. Portanto, é preciso adicionar essas duas ondas juntas. Se o urânio decair, o gato morre, e isso é descrito por uma onda. Se o urânio não decair, então o gato vive, o que também é descrito por uma onda. Para descrever o gato, então, é preciso somar a onda do gato morto com a onda do gato vivo.&lt;br /&gt;
Isso significa que o gato não está morto nem vivo! O gato está num mundo do nunca, entre a vida e a morte, na soma da onda que descreve um gato morto com a onda do gato vivo.&lt;br /&gt;
Esse é o xis do problema, que vem reverberando pelo mundo da física por quase um século. E como se resolve esse paradoxo? Há pelo menos três maneiras (e centenas de variações dessas três).&lt;br /&gt;
A primeira é a interpretação original de Copenhague, proposta por Bohr e Heisenberg, citada nos livros didáticos do mundo inteiro (e por onde começo quando ensino mecânica quântica). Nessa interpretação, para se determinar o estado do gato é preciso abrir a caixa e fazer uma medição. A onda do gato (que é a soma do gato morto com o gato vivo) “colapsa” em uma onda só, de modo que agora se sabe que o gato está vivo (ou morto). Assim, a observação determina a existência e o estado do gato. O processo de medição é, portanto, responsável pela mágica dissolução de duas ondas em uma.&lt;br /&gt;
Einstein odiava isso. Durante séculos os cientistas combateram o chamado “solipsismo” ou “idealismo subjetivo”, ou seja, os objetos só existem se alguém os observa. Apenas a mente é real − o mundo material só existe como ideias na mente. Portanto, dizem os solipsistas (como o bispo George Berkeley), se uma árvore cai na floresta sem ninguém por perto observando, então talvez a árvore nem tenha caído. Einstein, que achava tudo isso pura bobagem, propôs uma teoria oposta, chamada “realidade objetiva”, dizendo simplesmente que o universo existe em um estado único, definido, independentemente de qualquer observação humana. É o conceito comum da maioria das pessoas.&lt;br /&gt;
A realidade objetiva remonta a Isaac Newton. Nesse cenário, o átomo e as partículas subatômicas são como bolinhas de aço, que existem em pontos definidos no espaço e tempo. Não há ambiguidade nem acaso para localizar a posição dessas bolinhas, que seguem as leis do movimento. A realidade objetiva teve grande sucesso na descrição dos movimentos dos planetas, estrelas e galáxias. Usando a relatividade, essa ideia também descreve buracos negros e o universo em expansão. Mas há um lugar em que ela infelizmente falha: dentro do átomo.&lt;br /&gt;
Os físicos clássicos, como Newton e Einstein, pensavam que a realidade objetiva finalmente eliminava o solipsismo da física. O jornalista Walter Lippmann resumiu: “A novidade radical da ciência moderna está precisamente na rejeição da crença (...) de que as forças que movem as estrelas e os átomos dependem das preferências do coração humano.”&lt;br /&gt;
Mas a mecânica quântica deixou entrar mais uma vez na física uma nova forma de solipsismo. Nesse quadro, antes que seja observada, uma árvore pode existir em qualquer estado possível (por exemplo, brotando, queimada, transformada em serragem, palitos de dentes, caída). Mas quando se olha para ela, a onda subitamente colapsa, e se vê a forma de árvore. Os solipsistas anteriores falavam em árvores caídas ou não caídas. Os novos solipsistas quânticos introduziram todos os estados possíveis da árvore.&lt;br /&gt;
Isso foi demais para Einstein. Em sua casa, perguntava aos convidados: “A Lua existe porque um ratinho olha para ela?” Para um físico quântico, em certo sentido a resposta pode ser sim.&lt;br /&gt;
Einstein e seus colegas desafiaram Bohr, perguntando como o micromundo quântico (com gatos simultaneamente vivos e mortos) coexistia com o mundo do senso comum que todos vemos? A resposta era a existência de uma “parede” separando nosso mundo do mundo atômico. De um lado da parede, rege o senso comum. Do outro, rege a teoria quântica. Mesmo que a parede se mova, os resultados continuam os mesmos.&lt;br /&gt;
Essa interpretação, por estranha que seja, é ensinada há oitenta anos pelos físicos quânticos. Recentemente, recaíram algumas dúvidas sobre a interpretação de Copenhague. Hoje temos a nanotecnologia, que permite manipular átomos um a um, à vontade. Na tela de um microscópio de tunelamento com varredura, os átomos parecem bolinhas de tênis difusas. (Para a BBC, tive a oportunidade de visitar o Almaden Lab da IBM em San Jose, na Califórnia, e, com uma minúscula sonda, realmente empurrei átomos, um de cada vez. Hoje é possível brincar com os átomos, antes considerados tão pequenos que jamais seriam enxergados.)&lt;br /&gt;
Como já discutimos, a Idade do Silício está chegando lentamente ao fim, e há quem diga que os transistores de tal material serão substituídos pelos moleculares. Se assim for, no futuro, os paradoxos da teoria quântica poderão estar dentro de cada computador. A economia mundial pode vir a depender desses paradoxos.&lt;br /&gt;
CONSCIÊNCIA CÓSMICA E UNIVERSOS MÚLTIPLOS&lt;br /&gt;
Há duas interpretações alternativas para o paradoxo do gato que nos levam aos domínios mais estranhos da ciência: o reino de Deus e os múltiplos universos.&lt;br /&gt;
Em 1967, a segunda resolução do problema do gato foi formulada pelo ganhador do Prêmio Nobel Eugene Wigner, cujo trabalho foi crucial para os fundamentos da mecânica quântica e também para a construção da bomba atômica. Ele disse que só uma pessoa consciente pode fazer uma observação que colapse a função de onda. Mas quem disse que essa pessoa existe? Não se pode separar o observador do observado, então talvez esta pessoa também esteja morta ou viva. Portanto, deve haver uma nova função de onda que inclua o gato e o observador. Para garantir que o observador esteja vivo, é necessário um segundo observador para vigiar o primeiro. Esse segundo observador, chamado de “amigo de Wigner”, é necessário para vigiar o primeiro, de modo que todas as ondas colapsem. Mas como se sabe que o segundo observador está vivo? O segundo observador deve ser incluído em uma função de onda ainda mais extensa, para garantir que ele está vivo, mas isso pode continuar indefinidamente. Como é necessário um número infinito de “amigos” para colapsar a função de onda anterior garantindo que estão vivos, acaba sendo necessária alguma forma de “consciência cósmica”, ou Deus.&lt;br /&gt;
Wigner concluiu que “não era possível formular as leis (ou a teoria quântica) de modo coerente sem fazer referência à consciência”. No fim da vida, ele chegou a se interessar pela filosofia vedanta do hinduísmo.&lt;br /&gt;
Nessa abordagem, Deus ou alguma consciência eterna observa a todos, colapsando nossas funções de onda, de modo que podemos dizer que estamos vivos. Essa interpretação fornece os mesmos resultados físicos que a de Copenhague; portanto, essa teoria não pode ser refutada. Mas sugere que a consciência é a entidade fundamental no universo, mais fundamental que os átomos. O mundo material pode ir e vir, mas a consciência permanece como o elemento definidor, significando que a consciência, de certo modo, cria a realidade. A própria existência dos átomos que nos rodeiam se baseia em nossa capacidade de vê-los e tocá-los.&lt;br /&gt;
Neste ponto, é importante notar que, para algumas pessoas, se a consciência determina a existência, então a consciência pode controlar a existência, talvez por meditação. Elas pensam que podemos criar a realidade de acordo com nossos desejos. Esse pensamento, por mais atraente que possa soar, contraria a mecânica quântica. Na física quântica, a consciência faz observações e assim determina o estado da realidade, mas a consciência não pode escolher com antecedência qual estado de realidade de fato existe. A mecânica quântica permite determinar a chance de encontrar um estado, mas não podemos curvar a realidade aos nossos desejos. Por exemplo, num jogo de pôquer, é possível calcular matematicamente as chances de se obter um royal straight flush. Contudo, isso não significa que, de alguma forma, seja possível controlar as cartas para recebê-lo. Não é possível escolher universos, assim como não podemos controlar se o gato está morto ou vivo.&lt;br /&gt;
MÚLTIPLOS UNIVERSOS&lt;br /&gt;
A terceira forma de resolver o paradoxo do gato é a interpretação de Everett, ou de muitos mundos, proposta em 1957 por Hugh Everett. É a teoria mais estranha de todas, afirmando que o universo está constantemente se dividindo em um multiverso de universos. Em um universo, temos um gato morto. Em outro, o gato está vivo. Essa abordagem pode ser resumida dizendo que as funções de onda nunca colapsam, apenas se dividem. A teoria de muitos mundos de Everett difere da interpretação de Copenhague somente por eliminar a última suposição − o colapso da função de onda. De certo modo, é a formulação mais simples da mecânica quântica, mas também a mais perturbadora.&lt;br /&gt;
Há profundas consequências dessa terceira abordagem. Significa que todos os universos possíveis talvez existam, mesmo os bizarros, aparentemente impossíveis (contudo, quanto mais bizarro o universo, mais improvável).&lt;br /&gt;
Assim, as pessoas que morreram no nosso universo ainda estão vivas em outro. E essas pessoas mortas insistem que o universo delas é o correto, enquanto o nosso (onde estão mortas) é falso. Mas se esses “fantasmas” de pessoas mortas ainda estão vivos em algum lugar, por que não conseguimos encontrá-los? Por que não podemos tocar nesses mundos paralelos? (Por incrível que pareça, dentro dessa perspectiva, Elvis ainda está vivo em um desses universos.)&lt;br /&gt;
Além disso, alguns dos universos podem estar mortos, sem vida nenhuma, enquanto outros podem ser exatamente como o nosso, exceto por uma diferença crucial. Por exemplo, a colisão de um único raio cósmico é um evento quântico minúsculo. Mas o que acontece se esse raio cósmico cai na mãe de Adolf Hitler, e o menino morre por aborto? Então, um evento quântico minúsculo, a colisão de um único raio cósmico, causa a divisão do universo ao meio. Em um universo, a Segunda Guerra Mundial nunca existiu e sessenta milhões de pessoas não morreram. No outro, temos a devastação da Segunda Guerra Mundial. Esses dois universos vão se afastando até ficarem bem diferentes, embora tenham sido separados por um evento quântico minúsculo.&lt;br /&gt;
Esse fenômeno foi explorado pelo escritor de ficção científica Philip K. Dick no romance O homem do castelo alto, em que um universo paralelo se abre por causa de um único evento: uma bala é disparada e Franklin Roosevelt morre assassinado. Esse acontecimento faz com que os Estados Unidos não se preparem para a Segunda Guerra Mundial. Os nazistas e japoneses vencem e acabam dividindo os Estados Unidos ao meio.&lt;br /&gt;
Porém, a bala dispara ou falha dependendo de uma faísca microscópica atingir ou não a pólvora que, por sua vez, depende de reações moleculares complexas envolvendo movimentos de elétrons. Assim, talvez as flutuações quânticas na pólvora determinem se a arma dispara ou não, o que determina, por sua vez, se são os aliados ou os nazistas que saem vitoriosos da Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;
Assim, não há “parede” separando o mundo macro do quântico. As características bizarras da teoria quântica podem penetrar em nosso mundo do “senso comum”. Essas funções de onda nunca colapsam − continuam se dividindo eternamente em realidades paralelas. A criação de universos alternativos não para nunca. Os paradoxos do micromundo (isto é, estar vivo e morto simultaneamente, estar em dois lugares ao mesmo tempo, desaparecer e reaparecer em outro local) agora entram também em nosso mundo.&lt;br /&gt;
Mas se a função de onda está sempre se dividindo, criando universos inteiramente novos nesse processo, então por que não podemos visitá-los?&lt;br /&gt;
Steven Weinberg, ganhador do prêmio Nobel, faz uma comparação com ouvir rádio na sala de casa. Há centenas de ondas de rádio simultâneas enchendo a sala, vindas do mundo inteiro, mas o rádio está sintonizado em uma só frequência. Em outras palavras, o rádio está em “decoerência” com todas as outras estações (coerência significa que todas as ondas estão vibrando perfeitamente em uníssono, como num feixe de raios laser; a decoerência se dá quando essas ondas ficam fora de fase, portanto, não vibram mais em uníssono). Todas as outras frequências continuam existindo, mas o rádio não as capta porque elas não estão vibrando na mesma frequência que foi sintonizada. Elas se desacoplaram, isto é, estão em decoerência com a frequência selecionada.&lt;br /&gt;
Do mesmo modo, as funções de onda do gato morto e do gato vivo entram em decoerência com o passar do tempo. As implicações são bastante perturbadoras. Na sala de casa, podemos coexistir com ondas de dinossauros, piratas, alienígenas do espaço, monstros. Mas ficamos tranquilos, sem ter a mínima noção de estarmos compartilhando o mesmo lugar com esses habitantes do espaço quântico, porque nossos átomos não estão mais vibrando em uníssono com eles. Esses universos paralelos não existem numa terra do nunca distante. Eles existem na sala da nossa casa.&lt;br /&gt;
A entrada em um desses mundos paralelos é chamada de “salto quântico” e é o artifício preferido da ficção científica. Para entrar em um universo paralelo, é preciso pular para dentro dele. (Houve até uma série de TV chamada Sliders – Dimensões paralelas, em que os personagens entravam e saíam de universos paralelos. A série começa com um menino lendo um livro. Na verdade, é um livro meu, Hiperespaço, mas não assumo nenhuma responsabilidade pela física por trás da série.)&lt;br /&gt;
E não é tão simples pular de um universo para outro. Um dos problemas que às vezes passamos aos alunos de doutorado é calcular a probabilidade de saltar contra uma parede de tijolos e ir parar do outro lado dela. O resultado é um balde de água fria. Seria preciso esperar mais que o tempo de vida do universo para vivenciar um salto através de uma parede de tijolos.&lt;br /&gt;
OLHANDO NO ESPELHO&lt;br /&gt;
Quando me olho no espelho, não me vejo como realmente sou. Em primeiro lugar, me vejo a cerca de um bilionésimo de segundo atrás, que é o tempo necessário para um feixe de luz sair do meu rosto, atingir o espelho e entrar nos meus olhos. Segundo, a imagem que vejo é na verdade uma média de bilhões e mais bilhões de funções de onda. Essa média certamente se parece com minha imagem, mas não é exata. Ao redor, múltiplas imagens minhas ondulam em todas as direções. Estou constantemente cercado de universos alternativos, ramificando-se eternamente em diferentes mundos, mas a possibilidade de deslizar de um para outro é tão ínfima que a mecânica newtoniana parece estar correta.&lt;br /&gt;
Neste ponto, alguns perguntam: Por que os cientistas não fazem logo um experimento para determinar qual interpretação é válida? Se fizermos um experimento com um elétron, todas as três interpretações darão o mesmo resultado. Portanto, as três são interpretações sérias e viáveis da mecânica quântica, de acordo com a mesma teoria quântica subjacente. A diferença está na forma de explicar os resultados.&lt;br /&gt;
Daqui a centenas de anos, físicos e filósofos talvez ainda estejam debatendo essa questão, sem chegar a nenhuma conclusão, porque todas as três interpretações dão os mesmos resultados físicos. Mas talvez haja um caminho nesse debate filosófico que passe pelo cérebro, e trata-se do livre-arbítrio que, por sua vez, afeta os alicerces morais da sociedade humana.&lt;br /&gt;
LIVRE-ARBÍTRIO&lt;br /&gt;
Toda a nossa civilização se baseia no conceito de livre-arbítrio, com impactos nos conceitos de recompensa, punição e responsabilidade pessoal. Mas existe realmente o livre-arbítrio? Ou é uma forma engenhosa de manter a sociedade unida, mesmo violando princípios científicos? A controvérsia chega ao cerne da própria mecânica quântica.&lt;br /&gt;
É seguro dizer que cada vez mais cientistas chegam à conclusão de que o livre-arbítrio não existe, ao menos no sentido usual. Se certos comportamentos estranhos podem ser atribuídos a defeitos identificados no cérebro, então uma pessoa não é cientificamente responsável pelos crimes que possa cometer. Ela pode ser perigosa demais para andar à solta nas ruas, e deve ser trancafiada em algum tipo de instituição; mas punir alguém por ter um derrame ou tumor no cérebro é injusto, dizem os cientistas. A pessoa precisa é de ajuda médica e psicológica. Talvez o dano cerebral possa ser tratado (por exemplo, removendo um tumor) e ela possa se tornar um membro produtivo da sociedade.&lt;br /&gt;
Quando entrevistei o dr. Simon Baron-Cohen, psicólogo da Universidade de Cambridge, ele me disse que muitos (mas não todos) assassinos patológicos têm alguma anomalia cerebral. A varredura do cérebro mostra que eles não têm empatia pelo sofrimento dos outros e de fato podem até sentir prazer em vê-los sofrer (nesses indivíduos, a amídala e o núcleo accumbens, o centro do prazer, se iluminam quando assistem a vídeos de pessoas sentindo dor).&lt;br /&gt;
A conclusão que se pode tirar daí é que essas pessoas não são realmente responsáveis por seus atos hediondos mas, mesmo assim, deveriam ser isoladas da sociedade. Elas precisam de ajuda, não punição, devido ao problema que têm no cérebro. Em certo sentido, não agem com livre-arbítrio quando cometem um crime.&lt;br /&gt;
Um experimento conduzido pelo dr. Benjamin Libet, em 1985, lança dúvidas sobre a própria existência de livre-arbítrio. Digamos que se peça às cobaias que observem um relógio e prestem atenção na posição exata do ponteiro quando decidirem mover um dedo. Usando varreduras por EEG, pode-se detectar exatamente quando o cérebro toma essa decisão. Comparando os dois instantes, encontra-se um descompasso. As varreduras do EEG mostram que o cérebro, na verdade, tomou a decisão cerca de 300 milissegundos antes que a pessoa fique ciente.&lt;br /&gt;
Isso significa que, de certo modo, o livre-arbítrio é falso. As decisões são tomadas com antecedência pelo cérebro, sem intervenção consciente, e depois o cérebro tenta encobrir o feito (como é seu costume), afirmando que a decisão foi consciente. O dr. Michael Sweeney conclui que “os resultados de Libet indicam que o cérebro sabe o que a pessoa vai decidir antes que ela o faça. (...) O mundo precisa reavaliar não só a ideia da divisão dos movimentos em voluntários e involuntários, mas também a própria noção de livre-arbítrio”.&lt;br /&gt;
Tudo isso parece indicar que o livre-arbítrio, a base da sociedade, é uma ficção, uma ilusão criada pelo cérebro esquerdo. Então somos senhores do nosso destino, ou meros peões numa fraude perpetrada pelo cérebro?&lt;br /&gt;
Há várias maneiras de abordar essa antiga questão. O livre-arbítrio contraria uma filosofia chamada determinismo, que simplesmente considera todos os eventos como sendo determinados por leis da física. De acordo com o próprio Newton, o universo é uma espécie de relógio, funcionando desde o início dos tempos, de acordo com as leis do movimento. Assim, todos os eventos são previsíveis.&lt;br /&gt;
A questão é: fazemos parte desse relógio? Todas as nossas ações são também determinadas? Essas questões têm implicações filosóficas e teológicas. Por exemplo, quase todas as religiões aderem a alguma forma de determinismo e predestinação. Como Deus é onipotente, onisciente e onipresente, Ele conhece o futuro e o determina com antecedência. Mesmo antes de você nascer, Ele sabe se você vai para o Céu ou para o Inferno.&lt;br /&gt;
A Igreja Católica se dividiu exatamente por essa questão, durante a revolução protestante. Segundo a doutrina católica na época, era possível alterar o destino obtendo uma indulgência, geralmente em troca de generosas doações financeiras à Igreja. Em outras palavras, o determinismo podia ser alterado de acordo com o tamanho da carteira. Martinho Lutero destacou especificamente a corrupção da Igreja com as indulgências em suas 95 Teses, que afixou na porta de uma igreja, em 1517, deflagrando a Reforma Protestante. Essa foi uma das razões básicas para a cisão da Igreja, que causou a morte de milhões e espalhou destruição em regiões inteiras da Europa.&lt;br /&gt;
Porém, depois de 1925, a incerteza foi introduzida na física pela mecânica quântica. De repente, tudo se tornou incerto; só se podia calcular a probabilidade. Nesse sentido, talvez o livre-arbítrio realmente exista, e é uma manifestação da mecânica quântica. Por isso alguns afirmam que a teoria quântica restabelece o conceito de livre-arbítrio. Os deterministas contra-atacaram, declarando que os efeitos quânticos são extremamente pequenos (no nível dos átomos), pequenos demais para dar conta do livre-arbítrio dos seres humanos.&lt;br /&gt;
A situação hoje, na verdade, está bastante confusa. Talvez a pergunta “Existe livre-arbítrio?” seja parecida com “O que é vida?”. A descoberta do DNA tornou obsoleta essa pergunta sobre a vida. Agora sabemos que a questão tem muitas camadas e complexidades. Talvez o mesmo se aplique ao livre-arbítrio, e há muitos tipos.&lt;br /&gt;
Se assim for, a própria definição de “livre-arbítrio” se torna ambígua. Por exemplo, uma forma de definir o livre-arbítrio é verificando se o comportamento pode ser previsto. Se existe o livre-arbítrio, então o comportamento não pode ser determinado com antecedência. Digamos que você está assistindo a um filme. A trama é completamente determinada, sem nenhum livre-arbítrio. Então, o filme é completamente previsível. Mas nosso mundo não pode ser como um filme, por duas razões. A primeira é a teoria quântica, como vimos. O filme representa apenas uma linha de tempo possível. A segunda é a teoria do caos. Embora a física clássica diga que todos os movimentos dos átomos são completamente determinados e previsíveis, na prática é impossível prever tais movimentos, porque há muitos átomos envolvidos. A mais leve perturbação em um só átomo pode ter um efeito cascata nos movimentos, criando enormes perturbações.&lt;br /&gt;
Pense na previsão do tempo, por exemplo. Em princípio, sabendo o comportamento de cada átomo no ar, seria possível prever o tempo de daqui a cem anos, caso tenhamos um computador grande o suficiente. Mas na prática, isso é impossível. Depois de apenas algumas horas, o tempo fica tão turbulento e complexo que qualquer simulação no computador torna-se inútil.&lt;br /&gt;
Isso cria o chamado “efeito borboleta” − até um bater de asas de uma borboleta é capaz de provocar pequenas ondulações na atmosfera, que crescem e podem causar uma tempestade. Assim, se até o bater de asas de uma borboleta pode causar tempestades, acreditar que se consegue prever o tempo com precisão é uma fantasia.&lt;br /&gt;
Voltemos ao experimento que Stephen Jay Gould me descreveu, sobre o pensamento. Ele me pediu para imaginar a Terra há 4,5 bilhões de anos, quando nasceu. Agora imagine que você conseguiu criar uma cópia idêntica da Terra e a deixou evoluir. Será que os humanos também teriam surgido nessa outra Terra depois de 4,5 bilhões de anos?&lt;br /&gt;
É natural pensar que, pelos efeitos quânticos ou pela natureza caótica do tempo e dos oceanos, a evolução jamais levaria a humanidade às mesmas características das criaturas daquela versão da Terra. Enfim, parece que a combinação de incerteza e caos torna impossível um mundo perfeitamente determinístico.&lt;br /&gt;
O CÉREBRO QUÂNTICO&lt;br /&gt;
Esse debate também afeta a engenharia reversa do cérebro. Se for possível aplicá-la com êxito, tornando o cérebro um conjunto de transistores, então o cérebro é determinístico e previsível. Para qualquer pergunta, ele sempre repetirá a mesma resposta. Dessa forma, os computadores são determinísticos, porque sempre dão a mesma resposta para todas as perguntas.&lt;br /&gt;
Parece que temos um problema. Por um lado, a mecânica quântica e a teoria do caos afirmam que o universo não é previsível e, portanto, é preciso existir o livre-arbítrio. Mas um cérebro construído por engenharia reversa, feito de transistores, por definição será previsível. Como esse cérebro teoricamente é idêntico ao cérebro vivo, então o cérebro humano também é determinístico e não há livre-arbítrio. É claro que isso contradiz a primeira afirmação.&lt;br /&gt;
Uma minoria de cientistas declara que não se consegue fazer uma engenharia reversa autêntica do cérebro, nem mesmo criar uma máquina que realmente pense, por causa da teoria quântica. Argumentam que o cérebro é um dispositivo quântico, não apenas um conjunto de transistores. Assim, esse projeto está condenado ao fracasso. Nesse campo atua o físico de Oxford, autoridade na teoria da relatividade de Einstein, dr. Roger Penrose. Ele afirma que os processos quânticos podem ser os responsáveis pela consciência do cérebro humano. Penrose começou dizendo que o matemático Kurt Gödel provou que a aritmética é incompleta; isto é, existem afirmações verdadeiras na aritmética que não podem ser provadas usando os axiomas da própria disciplina.&lt;br /&gt;
Analogamente, não só a matemática é incompleta, mas também a física. Ele conclui dizendo que o cérebro é basicamente um dispositivo mecânico quântico e que há problemas que nenhuma máquina resolve, devido ao teorema da incompletude de Gödel. Mas os humanos conseguem entender esses enigmas usando a intuição.&lt;br /&gt;
Do mesmo modo, o cérebro criado por engenharia reversa, por mais complexo que seja, não passa de um conjunto de transistores e fios. Em um sistema determinista como esse, pode-se prever exatamente seu comportamento futuro porque as leis do movimento são bem conhecidas. Em um sistema quântico, porém, o sistema em si é inerentemente imprevisível. Só é possível calcular a probabilidade de ocorrer um evento por causa do princípio da incerteza.&lt;br /&gt;
Se chegarem à conclusão de que o cérebro da engenharia reversa não consegue reproduzir o comportamento humano, então os cientistas podem ser obrigados a admitir que há forças imprevisíveis em ação (isto é, efeitos quânticos dentro do cérebro). Penrose argumenta que dentro do neurônio há minúsculas estruturas, chamadas microtúbulos, onde reinam os processos quânticos.&lt;br /&gt;
No momento, não há consenso sobre esse problema. A julgar pelas reações às ideias de Penrose logo que foram apresentadas, é prudente dizer que a maior parte da comunidade científica vê sua abordagem com ceticismo. Mas a ciência não é conduzida por pesquisas de popularidade, e seus avanços dependem de teorias que podem ser testadas, reproduzidas, ou provadas como sendo falsas.&lt;br /&gt;
De minha parte, acredito que os transistores não conseguem modelar de fato todos os comportamentos dos neurônios, que executam cálculos tanto analógicos como digitais. Sabemos que os neurônios são confusos. Podem vazar, errar, envelhecer, morrer, e são sensíveis ao ambiente. Para mim, isso indica que um conjunto de transistores consegue apenas se aproximar do comportamento dos neurônios. Por exemplo, vimos na discussão sobre a física do cérebro que se o axônio do neurônio ficar mais fino começa a vazar, e passa a não realizar as reações químicas como deveria. Alguns desses vazamentos e erros nos disparos são devidos a efeitos quânticos. À medida que imaginamos os neurônios mais finos, mais densos e mais rápidos, tais efeitos ficam mais óbvios. Isso significa que mesmo os neurônios normais estão sujeitos a vazamentos e instabilidades, e esses problemas existem tanto em relação à física clássica quanto à mecânica quântica.&lt;br /&gt;
Concluindo, um robô construído por engenharia reversa será uma aproximação boa, mas não perfeita, do cérebro humano. Discordando de Penrose, acho que é possível criar um robô determinístico feito de transistores, que aparente ter consciência, mas sem nenhum livre-arbítrio. E vai passar no teste de Turing. Mas acho que haverá diferenças entre um robô desse tipo e um ser humano, por causa desses minúsculos efeitos quânticos.&lt;br /&gt;
Por fim, acho que o livre-arbítrio provavelmente existe, mas não aquele defendido pelos individualistas radicais, que afirmam ser senhores absolutos de seu destino. O cérebro é influenciado por milhares de fatores inconscientes que nos predispõem a fazer certas escolhas com antecedência, mesmo acreditando tê-las feito por vontade própria. Isso não significa necessariamente que somos atores em um filme que pode ser rebobinado à vontade. O final do filme ainda não foi escrito, e o determinismo radical é destruído por uma combinação sutil de efeitos quânticos com a teoria do caos. Afinal, ainda somos senhores do nosso destino.&lt;br /&gt;
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(Michio Kaku - O futuro da mente)&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/4634311473835353055/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/4634311473835353055?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4634311473835353055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/4634311473835353055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/consciencia-quantica-ainda-somos.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-6697458260529902011</id><published>2018-07-06T21:47:00.003-03:00</published><updated>2018-07-06T21:47:48.669-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A NEGATIVIDADE E O SOFRIMENTO TÊM RAÍZES NO TEMPO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mas acreditar que o futuro será melhor do que o presente nem sempre é uma ilusão. O presente pode ser terrível e as coisas podem melhorar no futuro, e muitas vezes melhoram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O futuro, geralmente, é uma réplica do passado. É possível haver mudanças superficiais, mas as transformações reais são raras e dependem da possibilidade de estarmos presentes para dissolver o passado, acessando o Poder do Agora. O que percebemos como futuro é uma parte intrínseca do nosso estado de consciência do momento. Se a nossa mente carrega um grande fardo do passado, vamos sentir isso. O passado se perpetua pela falta de presença. O que dá forma ao futuro é a qualidade da nossa percepção do momento presente, e o futuro, é claro, só pode ser vivenciado como presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Podemos ganhar 10 milhões de reais, mas esse tipo de mudança é apenas superficial. Vamos simplesmente continuar a representar os mesmos padrões condicionados, em ambientes mais luxuosos. Os seres humanos aprenderam a dividir o átomo. Em vez de matar 10 ou 20 pessoas com um porrete de madeira, uma pessoa agora pode matar 1 milhão delas com um simples toque em um botão. Será que isso é uma mudança real?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Se é a qualidade da nossa percepção neste momento que determina o futuro, então o que determina a qualidade da nossa consciência? O nosso grau de presença. Portanto, o único lugar onde pode ocorrer uma mudança verdadeira e onde o passado pode se dissolver é no Agora.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Toda a negatividade é causada pelo acúmulo de tempo psicológico e pela negação do presente. O desconforto, a ansiedade, a tensão, o estresse, a preocupação, todas essas formas de medo são causadas por excesso de futuro e pouca presença. A culpa, o arrependimento, o ressentimento, a injustiça, a tristeza, a amargura, todas as formas de incapacidade de perdão são causadas por excesso do passado e pouca presença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Muitos acham difícil acreditar na possibilidade de existir um estado de consciência absolutamente livre de toda a negatividade. E, até o momento, esse é o estado de liberdade para o qual apontam todos os ensinamentos espirituais. É a promessa da salvação, não em um futuro ilusório, mas bem aqui e agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Talvez seja difícil reconhecer que o tempo é a causa do nosso sofrimento ou de nossos problemas. Acreditamos que eles são causados por situações específicas em nossas vidas, e, de um ponto de vista convencional, isso é uma verdade. Mas enquanto não lidarmos com a disfunção básica da mente – o apego ao passado e ao futuro e a negação do presente –, os problemas apenas mudam de figura. Se todos os nossos problemas, ou causas identificadas de sofrimento ou infelicidade, fossem milagrosamente solucionados no dia de hoje, sem que nos tornássemos mais presentes e mais conscientes, logo nos veríamos com um outro conjunto de problemas ou causas de sofrimento semelhantes, como uma sombra que nos seguisse aonde quer que fôssemos. Em última análise, o único problema é a própria mente limitada pelo tempo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não posso acreditar que algum dia venha a alcançar um ponto em que eu esteja completamente livre de problemas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Você tem razão. Você nunca poderá alcançar esse ponto porque você está nesse ponto agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Não há salvação dentro do tempo. Você não pode se libertar no futuro. A presença é a chave para a liberdade. Portanto, você só pode ser livre agora.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Eckart Tolle - O poder do Agora)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/6697458260529902011/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/6697458260529902011?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6697458260529902011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/6697458260529902011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/a-negatividade-e-o-sofrimento-tem.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-5968174743998212840</id><published>2018-07-06T20:15:00.002-03:00</published><updated>2018-07-06T20:15:20.200-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A CHAVE PARA A DIMENSÃO ESPIRITUAL&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Em situações em que a nossa vida está ameaçada pode ocorrer naturalmente essa mudança na consciência do tempo para o momento presente. A personalidade que tem um passado e um futuro retrocede e é substituída por uma presença consciente intensa, serena mas, ao mesmo tempo, alerta. Sempre que uma reação se faz necessária, ela surge desse estado de consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Muitas pessoas, embora não percebam, gostam de se envolver em atividades perigosas, como escaladas de montanhas, corridas de automóvel, voos de asa-delta, pela simples razão de que essas atividades as trazem para o Agora, livres do tempo, dos problemas, dos pensamentos e das obrigações pessoais. Nesses casos, desviar sua atenção do momento presente, nem que seja por um segundo, pode significar a morte. Infelizmente, essas pessoas passam a depender de uma atividade em particular para ficar nesse estado. Mas você não precisa escalar a face norte do Eiger.1 Você pode entrar nesse estado moagora.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Desde a Antiguidade, mestres espirituais de todas as tradições apontam o Agora como a chave para a dimensão espiritual. Mas parece que isso permaneceu um segredo. Com certeza, não é ensinado em igrejas ou em templos. Se você vai a uma igreja, pode ouvir passagens do Evangelho como “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”, ou “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”. A profundidade e a natureza radical desses ensinamentos não são reconhecidas. Parece que ninguém percebe que os ensinamentos foram formulados para serem vividos e, dessa forma, provocar uma profunda transformação interior.&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Toda a essência do zen consiste em caminhar sobre o fio da navalha do Agora, em estar tão absolutamente presente que nenhum problema, nenhum sofrimento, nada que não seja quem somos em essência, possa permanecer em nós. No Agora, na ausência do tempo, todos os nossos problemas se dissolvem. O sofrimento precisa do tempo e não consegue sobreviver no Agora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O grande mestre zen Rinzai, visando desviar a atenção de seus alunos do tempo, levantava o dedo com frequência e perguntava calmamente: “O que está faltando neste exato momento?” Uma pergunta poderosa, que não requer resposta no plano da mente. É formulada para conduzir uma atenção profunda para o Agora. Outra questão muito usada na tradição zen é: “Se não é agora, então quando?”&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O Agora é também um ponto central no ensinamento do sufismo, o braço místico do islamismo. Os sufistas têm um ditado que diz: “O sufista é filho do momento presente.” E Rumi, o grande poeta e mestre do sufismo, ensina: “Passado e futuro ocultam Deus de nossa vista, ponha fogo em ambos.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Mestre Eckhart, mestre espiritual do século XIII, resumiu tudo isso em poucas e belas palavras: “O que impede a luz de nos alcançar é o tempo. Não há maior obstáculo para Deus do que o tempo.”&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Eckhart Tolle - O poder do Agora )&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/5968174743998212840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/5968174743998212840?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/5968174743998212840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/5968174743998212840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/a-chave-para-dimensao-espiritual-em.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-2560953108845167785</id><published>2018-07-06T18:32:00.002-03:00</published><updated>2018-07-06T18:38:54.140-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Por que nos viciaríamos na outra pessoa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; O desejo de ter um relacionamento amoroso é universal porque as pessoas acreditam que a paixão, o “amor”, pode libertá-las do medo, da necessidade e do vazio que fazem parte da condição humana em seu estado de pecado e não iluminação. Existe uma dimensão física e outra psicológica para esse estado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; No nível físico, é obvio que não somos um todo, nem jamais seremos. Cada um de nós é homem ou mulher, o que equivale a dizer uma metade de um todo. Nesse nível, o desejo de ser completo, de retornar à unidade, se manifesta através da atração entre homem e mulher. É um impulso quase irresistível de união com a polaridade oposta de energia. A raiz desse impulso físico é espiritual, porque nele está o desejo ardente do fim de uma dualidade, de um retorno ao estado de completude. A união sexual é o mais perto que podemos chegar desse estado no nível físico. Essa é a razão pela qual ela é a experiência mais satisfatória que o reino físico pode nos oferecer. Mas a união sexual não passa de um lampejo breve de plenitude, um instante abençoado. Enquanto ela for inconscientemente vista como um meio de salvação, você a verá como o fim da dualidade no nível da forma, um lugar onde ela não pode ser encontrada. Você teve um lampejo do paraíso, mas não pode ficar ali e se percebe, de novo, em um corpo separado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; No nível psicológico, a sensação de falta, de não estar completo, é até maior do que no nível físico. Enquanto houver uma identificação com a mente, o sentido do eu interior é dado pelas coisas externas. Isso significa que você extrai o sentido de quem você é de coisas que não têm nada a ver com quem você realmente é, como o seu papel na sociedade, suas propriedades, sua aparência externa, seus sucessos e fracassos, seus sistemas de crenças, etc. Esse eu interior falso, o ego construído pela mente, sente-se vulnerável, inseguro e está sempre em busca de coisas novas com as quais se identificar, para obter a sensação de que ele existe. Mas nada é suficiente para lhe dar uma satisfação duradoura. O medo permanece. A sensação de falta e de necessidade permanecem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Então acontece aquele relacionamento especial. Parece ser a resposta para todos os problemas do ego, parece preencher todas as nossas necessidades. Todas aquelas outras coisas das quais você tinha extraído o sentido do eu interior se tornam relativamente insignificantes. Você agora tem um ponto focal que substitui todos os outros, que dá sentido à sua vida e até define a sua identidade: a pessoa por quem você se “apaixonou”. Você não é mais um fragmento isolado em um mundo insensível. Seu mundo agora tem um centro, a pessoa amada. O fato de que o centro está fora de você – e, portanto, você ainda tem um sentido de eu interior derivado das coisas externas – parece não importar muito num primeiro momento. O que importa é que aquelas sensações de medo, falta, vazio e insatisfação não estão mais presentes. Ou será que estão? Será que elas desapareceram ou continuam a existir por baixo da aparente felicidade?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Se em seus relacionamentos você vivenciou tanto o “amor” quanto o seu oposto, então é provável que você esteja confundindo o apego do ego e a dependência com amor. Não se pode amar alguém em um momento e atacar essa pessoa no momento seguinte. O verdadeiro amor não tem oposto. Se o seu “amor” tem oposto, então não é amor, mas uma grande necessidade do ego de obter um sentido mais profundo e mais completo do eu interior, uma necessidade que a outra pessoa preenche temporariamente. É uma forma de substituição que o ego encontrou e, por um curto período, ela parece ser mesmo a salvação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Chega então um momento em que o outro passa a se comportar de um modo que deixa de preencher as nossas necessidades, ou melhor, as necessidades do nosso ego. As sensações de medo, sofrimento e falta, que estavam encobertas pelo “relacionamento amoroso”, voltam a aparecer. Como acontece com qualquer vício, ficamos muito bem enquanto a droga está disponível, mas chega um momento em que a droga não funciona mais. Quando essas dolorosas sensações de medo reaparecem, nós as sentimos mais fortes do que antes e passamos a ver o outro como a causa de todos essas sensações. Isso significa que estamos projetando no outro essas sensações, por isso nós o agredimos com toda a violência que é parte do nosso sofrimento. Essa agressão pode despertar o sofrimento do outro, que é induzido a contra-atacar. Nesse ponto, o ego ainda está, inconscientemente, esperando que a agressão ou a tentativa de manipulação seja suficiente para levar o outro a mudar o comportamento, de forma que possa usá-lo, de novo, para encobrir seu sofrimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Todo vício surge de uma recusa inconsciente de encararmos nossos próprios sofrimentos. Todo vício começa no sofrimento e termina nele. Qualquer que seja o vício – álcool, comida, drogas legais ou ilegais, ou mesmo uma pessoa –, ele é um meio que usamos para encobrir o sofrimento. Essa é a razão por que, passada a euforia inicial, existe tanta infelicidade, tanto sofrimento nos relacionamentos íntimos. Eles não causam o sofrimento e a infelicidade. Eles trazem à superfície o sofrimento e a infelicidade que já estão dentro de nós. Todo vício faz isso. Todo vício chega a um ponto em que já não funciona mais para nós e, então, sentimos o sofrimento mais forte do que nunca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Essa é uma razão pela qual muitas pessoas estão sempre tentando escapar do momento presente e buscando algum tipo de salvação no futuro. A primeira coisa que devem encontrar, caso focalizem a atenção no Agora, é o próprio sofrimento que carregam, e é isso o que mais temem. Se ao menos soubessem como, no Agora, é fácil acessar o poder da presença que dissolve o passado e o sofrimento. Se ao menos soubessem como estão perto da própria realidade, como estão perto de Deus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Evitar se relacionar como uma tentativa de evitar o sofrimento também não é a resposta. O sofrimento está lá, de qualquer jeito. Três relacionamentos infelizes em alguns anos têm mais probabilidades de forçar você a acordar do que três anos em uma ilha deserta ou trancafiado em seu quarto. Mas, se você pudesse colocar uma presença intensa em sua solidão, isso também funcionaria para você&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Eckhart Tolle - O poder do Agora)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
.</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/2560953108845167785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/2560953108845167785?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/2560953108845167785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/2560953108845167785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/07/por-que-nos-viciariamos-na-outra-pessoa.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-1190914990465862281</id><published>2018-07-04T20:03:00.001-03:00</published><updated>2018-07-06T20:17:37.207-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Mente X Universo&lt;br /&gt;
Mente e alma, duas entidades separadas?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dois maiores mistérios de toda a natureza são a mente e o universo. Com a nossa vasta tecnologia, fomos capazes de fotografar galáxias a bilhões de anos-luz de distância, manipular genes que controlam a vida e sondar os redutos mais escondidos do átomo. No entanto, a mente e o universo ainda nos ludibriam e intrigam. São os rincões mais misteriosos e fascinantes da ciência.&lt;br /&gt;
Para apreciar a grandiosidade do universo, basta olhar para o céu à noite, iluminado por bilhões de estrelas. Desde que nossos ancestrais se extasiaram pela primeira vez com o esplendor do céu estrelado, somos confrontados com as eternas perguntas: De onde veio tudo isso? O que tudo isso significa?&lt;br /&gt;
Para contemplar o mistério da mente, basta nos olharmos no espelho e tentar imaginar o que se esconde por trás de nossos olhos. Isso desperta perguntas assombrosas, como: Temos alma? O que acontece quando morremos? Quem sou “eu”, afinal? E o mais importante é que nos leva à pergunta derradeira: Qual é nossa parte no grande esquema cósmico? Como disse o famoso biólogo vitoriano Thomas Huxley, “A questão das questões para a humanidade, o problema existente por trás de todos os outros e também o mais interessante, é a definição do lugar do homem na Natureza e sua relação com o Cosmos”.&lt;br /&gt;
Há 100 bilhões de estrelas na Via Láctea, aproximadamente o mesmo número de neurônios que temos no cérebro. Seria preciso viajar 39 trilhões de quilômetros até a primeira estrela fora do sistema solar para encontrar algo tão complexo quanto o que temos em cima do pescoço. A mente e o universo constituem o maior de todos os desafios científicos, mas também apresentam uma relação curiosa. Por um lado, situam-se em polos opostos. Um concerne à vastidão do espaço sideral, onde encontramos estranhos habitantes, como buracos negros, explosões de estrelas e colisões de galáxias. O outro concerne ao espaço interior, onde estão nossas esperanças e desejos mais íntimos. A mente está logo ali no próximo pensamento, mas quando nos pedem para defini-la ou explicá-la, não temos a menor ideia.&lt;br /&gt;
Entretanto, apesar de opostos nesse aspecto, a mente e o universo também compartilham de uma mesma narrativa. Ambos estão envoltos em superstição e magia desde tempos remotos. Astrólogos e frenólogos afirmaram encontrar o significado do universo em cada constelação do zodíaco e em cada protuberância do crânio. Adivinhos e videntes têm sido, ao mesmo tempo, enaltecidos e demonizados ao longo dos anos.&lt;br /&gt;
O universo e a mente continuam a se cruzar de várias maneiras, graças, em grande parte, a algumas ideias inovadoras que costumamos encontrar na ficção científica. Ao ler esses livros quando criança, eu sonhava em ser da Slan, uma raça de telepatas criada por A. E. van Vogt. Fascinava-me como um mutante chamado Mula era capaz de ativar seus vastos poderes telepáticos e quase dominar o Império Galáctico na Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov. E no filme O planeta proibido, eu tentava entender como uma civilização milhões de anos à frente da nossa conseguia canalizar seus enormes poderes telecinéticos para remodelar a realidade conforme seus anseios e desejos.&lt;br /&gt;
Quando eu tinha uns 10 anos, “O Incrível Dunninger” apareceu na televisão. O público ficava deslumbrado com seus espetaculares truques de mágica. Seu lema era: “Para quem acredita, nenhuma explicação é necessária; para quem não acredita, nenhuma explicação é suficiente.” Um dia ele declarou que iria enviar pensamentos a milhões de pessoas em todos os Estados Unidos. Fechou os olhos e se concentrou, dizendo que estava transmitindo o nome de um presidente do país. Pediu às pessoas que escrevessem num cartão-postal o nome que lhes viesse à mente e enviassem pelo correio. Na semana seguinte, anunciou, triunfante, que tinha recebido milhares de cartões com o nome “Roosevelt”, o mesmo que ele “transmitira” para todo o país.&lt;br /&gt;
Não fiquei impressionado. Na época, o legado de Roosevelt era muito forte para quem tinha atravessado a Depressão e a Segunda Guerra Mundial, portanto, não era surpresa. (Pensei que seria surpreendente se ele tivesse pensado no presidente Millard Fillmore.)&lt;br /&gt;
Ainda assim, aquilo alimentava minha imaginação e não resisti a fazer alguns experimentos de telepatia, concentrando-me o máximo possível para ler a mente das pessoas. Eu fechava os olhos, me concentrava intensamente tentando “ouvir” os pensamentos dos outros e mover por telecinesia os objetos do meu quarto.&lt;br /&gt;
Nunca consegui.&lt;br /&gt;
Talvez em algum lugar da Terra houvesse telepatas, mas eu não era um deles. No decorrer desse processo, comecei a perceber que provavelmente as incríveis façanhas dos telepatas eram impossíveis − pelo menos, sem ajuda externa. Mas, nos anos que se seguiram, também fui aprendendo outra lição: para penetrar nos maiores segredos do universo, não era necessário ter poderes telepáticos nem sobre-humanos. Era preciso apenas ter a mente aberta, determinada e curiosa. E sobretudo para saber se as fantásticas criações da ficção científica seriam possíveis, era preciso mergulhar na física avançada. Para identificar o ponto preciso onde o possível se torna o impossível, é necessário respeitar e entender as leis da física.&lt;br /&gt;
Duas paixões têm inflamado minha imaginação durante todos esses anos: entender as leis fundamentais da física e ver como a ciência vai configurar nossa vida no futuro. A fim de ilustrar isso e compartilhar meu entusiasmo em explorar as leis definitivas da física, escrevi os livros Hiperespaço, Para além de Einstein e Mundos paralelos. E para expressar meu fascínio pelo futuro, escrevi Visões do futuro, Física do impossível e A física do futuro. Durante a pesquisa e a escrita desses livros, fui constantemente lembrado de que a mente humana ainda é uma das forças mais poderosas e misteriosas desse mundo.&lt;br /&gt;
Na verdade, no curso da história, não fomos capazes de entender o que é a mente e como ela funciona. Os antigos egípcios, apesar de todas as grandes realizações nas artes e nas ciências, acreditavam que o cérebro era um órgão inútil e o jogavam fora quando embalsamavam os faraós. Aristóteles tinha certeza de que a alma residia no coração, e não no cérebro, cuja única função era resfriar o sistema cardiovascular. Outros, como Descartes, pensavam que a alma entrava no corpo através da minúscula glândula pineal, no cérebro. Mas, na falta de evidências sólidas, nenhuma dessas teorias pôde ser comprovada.&lt;br /&gt;
Essa “idade das trevas” persistiu por milhares de anos, e por bons motivos. O cérebro pesa apenas um quilo e meio, mas é o elemento mais complexo no sistema solar. Embora ocupe apenas 2% do peso do corpo, o cérebro tem um apetite voraz, consumindo 20% do total de nossa energia (em recém-nascidos, o cérebro consome 65% da energia), e 80% dos nossos genes são ativados no cérebro. A estimativa de neurônios existentes no crânio é de 100 bilhões, com quantidades exponenciais de conexões e caminhos neurais.&lt;br /&gt;
Em 1977, quando o astrônomo Carl Sagan escreveu o livro ganhador do Prêmio Pulitzer, Os dragões do Éden, ele resumiu o que se conhecia sobre o cérebro até aquele momento. O livro foi maravilhosamente bem escrito e buscou representar o que havia de mais desenvolvido na neurociência que, na época, se baseava fortemente em três fontes principais. A primeira era a comparação de nosso cérebro com os de outras espécies. Tal tarefa era enfadonha e difícil, porque envolvia a dissecação de cérebros de milhares de animais. A segunda metodologia era igualmente indireta, pois analisava vítimas de derrames e doenças, que passavam a apresentar um comportamento estranho. Somente após a morte, uma autópsia podia revelar qual parte do cérebro tinha alguma disfunção. Na terceira, os cientistas usavam eletrodos para investigar o cérebro e, lentamente e a duras penas, definiam qual parte do órgão influenciava determinado comportamento.&lt;br /&gt;
Mas os instrumentos básicos da neurociência não forneciam um modo sistemático de analisar o cérebro. Não se podia simplesmente recorrer a uma vítima de derrame com dano na área específica que se queria estudar. Dado que o cérebro é um sistema vivo, dinâmico, a autópsia quase nunca revelava os aspectos mais interessantes, como as formas de interação entre as diversas partes do órgão, ou como produziam pensamentos tão diversos quanto amor, ódio, ciúme e curiosidade.&lt;br /&gt;
REVOLUÇÕES GÊMEAS&lt;br /&gt;
Quatrocentos anos atrás foi inventado o telescópio e, praticamente de um dia para o outro, esse novo instrumento miraculoso passou a vasculhar os corpos celestes. Trata-se de um dos instrumentos mais revolucionários (e perturbadores) de todos os tempos. De repente, podíamos ver com nossos próprios olhos os mitos e dogmas do passado evaporando-se como a bruma da manhã. Em vez de exemplos perfeitos da sabedoria divina, a Lua tinha crateras acidentadas, o Sol tinha manchas escuras, Júpiter tinha luas, Vênus tinha fases, Saturno tinha anéis. Aprendeu-se mais sobre o universo nos quinze anos seguintes à invenção do telescópio do que em toda a história da humanidade.&lt;br /&gt;
Assim como ocorreu com a invenção do telescópio, em meados dos anos 1990 e 2000 a introdução dos aparelhos de imagem por ressonância magnética (IRM) e de uma série de equipamentos avançados de varreduras cerebrais transformaram a neurociência. Aprendemos mais sobre o cérebro nos últimos quinze anos do que em toda a história humana anterior, e a mente, antes considerada fora de alcance, está finalmente assumindo o lugar central.&lt;br /&gt;
O ganhador do Prêmio Nobel Eric R. Kandel, do Max Planck Institut de Tübingen, Alemanha, diz: “Os insights mais valiosos sobre a mente humana que emergiram nesse período não vieram das disciplinas tradicionalmente relacionadas com a mente – filosofia, psicologia, psicanálise. Vieram de uma fusão dessas disciplinas com a biologia do cérebro...”&lt;br /&gt;
Os físicos tiveram um papel essencial nesse empreendimento, produzindo uma avalanche de instrumentos e siglas, como IRM, EEG, TEP, TAC, EMT, EET e ECP, que mudaram radicalmente o estudo do cérebro. Com essas máquinas, passamos a conseguir ver os pensamentos se movendo dentro do cérebro vivo e pensante. Como diz o neurologista V. S. Ramachandran, da Universidade da Califórnia, em San Diego: “Todas essas questões que os filósofos têm estudado há milênios, nós, cientistas, podemos começar a explorar fazendo imagens do cérebro, estudando pacientes, e fazendo as perguntas certas.”&lt;br /&gt;
Olhando para o passado, vejo que algumas das minhas incursões iniciais no mundo da física se cruzaram com essas mesmas tecnologias que hoje abrem a mente para a ciência. No ensino médio, por exemplo, tomei conhecimento de uma nova forma de matéria, chamada antimatéria, e decidi realizar um projeto de ciências sobre o tema. Como se trata de uma das substâncias mais incomuns existentes, precisei apelar para a antiga Comissão de Energia Atômica e consegui uma quantidade mínima de sódio-22, uma substância que emite naturalmente um elétron positivo (antielétron, ou pósitron). De posse da minha pequena amostra, consegui fazer uma câmara de nuvens e um poderoso campo magnético que me permitiram fotografar o rastro de vapor deixado pelas partículas de antimatéria. Eu não sabia na época, mas o sódio-22 logo iria se tornar essencial numa nova tecnologia chamada tomografia por emissão de pósitrons (TEP), que desde então tem nos revelado um conhecimento surpreendente sobre o cérebro pensante.&lt;br /&gt;
Outra tecnologia que experimentei na escola foi a ressonância magnética. Assisti a uma palestra de Felix Bloch, da Universidade de Stanford, que recebeu o Prêmio Nobel de Física junto com Edward Purcell, em 1952, pela descoberta da ressonância magnética nuclear. O dr. Bloch ensinou a nós, jovens alunos, que dentro de um campo magnético forte os átomos se alinham verticalmente, como as agulhas da bússola. Se aplicamos a esses átomos um pulso de rádio numa frequência de ressonância específica, eles invertem o alinhamento. Quando retornam à posição inicial, eles emitem outro pulso, como um eco, que nos permite determinar a identidade desses átomos. Mais tarde, usei o princípio da ressonância magnética para construir um acelerador de partículas de 2,3 milhões de elétrons-volt na garagem da casa de minha mãe.&lt;br /&gt;
Poucos anos depois, quando eu era calouro da Universidade de Harvard, tive a honra de ser aluno de eletrodinâmica do dr. Purcell. Na mesma época, eu tinha um emprego de verão e surgiu a chance de trabalhar com o dr. Richard Ernst, que estava tentando generalizar o trabalho de Bloch e Purcell sobre ressonância magnética. Ele teve um sucesso espetacular, e acabou ganhando o Nobel de Física em 1991 por lançar as bases do aparelho moderno de IRM. Este, por sua vez, produziu fotografias detalhadas do cérebro vivo ainda mais precisas do que a varredura por TEP.&lt;br /&gt;
CAPACITANDO A MENTE&lt;br /&gt;
Eu me tornei professor de física teórica, mas minha fascinação pela mente permaneceu. Era sensacional ver que na última década os avanços da física possibilitaram algumas proezas do mentalismo que me extasiavam quando menino. Usando varredura por IRM, os cientistas conseguem ler os pensamentos que circulam em nosso cérebro. Podem também inserir um chip num cérebro totalmente paralisado e ligá-lo ao computador de modo que, apenas com o pensamento, o paciente consiga navegar na internet, ler e escrever e-mails, jogar videogames, controlar a cadeira de rodas, operar eletrodomésticos e manejar braços mecânicos. Por meio de um computador, esses pacientes podem fazer tudo o que faz uma pessoa normal.&lt;br /&gt;
Agora os cientistas estão indo ainda mais longe, conectando o cérebro diretamente a um exoesqueleto sobreposto aos membros paralisados do paciente. Um dia os tetraplégicos poderão ter uma vida muito próxima à normal. Esses exoesqueletos também podem nos dar superpoderes para lidar com emergências de vida ou morte. Talvez um dia os astronautas possam até explorar planetas, sentados confortavelmente na sala de casa, controlando mentalmente substitutos mecânicos.&lt;br /&gt;
Como no filme Matrix, talvez um dia possamos fazer o download de lembranças e habilidades usando computadores. Em estudos com animais, os cientistas já conseguiram inserir memórias no cérebro dos bichos. Talvez seja apenas uma questão de tempo para que nós também sejamos capazes de inserir memórias em nosso cérebro e aprender coisas novas, passar as férias em novos lugares, adquirir novas habilidades. E se for possível transferir capacidades técnicas para a mente de trabalhadores e cientistas, a economia mundial pode ser beneficiada. Poderemos até compartilhar essas memórias. Talvez um dia os cientistas possam construir uma “internet da mente”, uma “mentenet”, que envie eletronicamente pensamentos e emoções para o mundo inteiro. Até os sonhos poderão ser gravados e enviados por “mentemail”, via internet.&lt;br /&gt;
A tecnologia também pode nos dar o poder de aumentar a inteligência. Já há progressos no entendimento dos poderes extraordinários dos savants, cujas capacidades mentais, artísticas e matemáticas são realmente impressionantes. Além disso, os genes que nos separam dos macacos estão sendo sequenciados, dando-nos uma ideia sem paralelo das origens evolucionárias do cérebro. Já foram isolados genes que podem aumentar a memória e o desempenho mental de animais.&lt;br /&gt;
O entusiasmo e o futuro promissor criado por esses avanços surpreendentes são de tal magnitude que já atraíram a atenção dos políticos. De fato, a ciência do cérebro de repente se tornou fonte de uma rivalidade transoceânica entre as maiores potências econômicas do planeta. Em janeiro de 2013, tanto o presidente norte-americano Barack Obama como a União Europeia anunciaram que poderiam destinar verbas de bilhões de dólares a dois projetos independentes para desenvolver a engenharia reversa do cérebro. Decifrar os intricados circuitos neurais no cérebro, antes considerados completamente fora do alcance da ciência moderna, é hoje o foco de dois projetos arrebatadores que, como o Projeto Genoma Humano, irão mudar o panorama médico e científico. Além de nos oferecer um conhecimento incomparável da mente humana, irá gerar novas indústrias, promover atividades econômicas e abrir novos horizontes para a neurociência.&lt;br /&gt;
Quando os caminhos neurais forem decodificados, poderemos finalmente compreender as origens exatas das doenças mentais, o que talvez leve à cura desse sofrimento tão antigo. Essa decodificação também tornará possível criar uma cópia do cérebro, o que levanta questões filosóficas e éticas. Quem somos nós, se nossa consciência pode ser transferida para um computador? Podemos brincar até com o conceito de imortalidade. Nosso corpo pode se deteriorar e morrer, mas nossa consciência viverá para sempre?&lt;br /&gt;
Além disso, talvez um dia, num futuro distante, a mente possa se libertar das restrições corporais e viajar pelas estrelas, como vários cientistas já especularam. Podemos imaginar que, daqui a séculos, talvez seja possível lançar no espaço raios laser com nossos diagramas neurais completos – talvez a maneira mais conveniente de nossa consciência explorar as estrelas.&lt;br /&gt;
Surge hoje um cenário científico brilhante, que irá redefinir o destino humano. Estamos entrando na idade de ouro da neurociência.&lt;br /&gt;
Ao fazer tais previsões, tive a ajuda inestimável de cientistas que amavelmente me permitiram entrevistá-los, divulgar suas ideias em cadeia nacional de rádio, e até levar uma equipe de televisão a seus laboratórios. São esses cientistas que estão ditando as bases para o futuro da mente. Para incorporar suas ideias a este livro, fiz apenas duas exigências: (1) as previsões devem obedecer rigorosamente às leis da física, e (2) devem existir protótipos como prova de que as ideias funcionam.&lt;br /&gt;
ATINGIDO PELA DOENÇA MENTAL&lt;br /&gt;
Quando escrevi uma biografia de Einstein, intitulada O cosmo de Einstein, vi-me às voltas com detalhes minuciosos de sua vida privada. Eu sabia que o filho mais novo de Einstein sofria de esquizofrenia, mas não imaginava o enorme peso emocional que isso teve na vida do grande cientista. Einstein foi também afetado de outra maneira pela doença mental. Um de seus colegas mais chegados era o físico Paul Ehrenfest, que o ajudou a criar a teoria da relatividade geral. Após sofrer fases de depressão, Ehrenfest matou tragicamente o próprio filho, portador de síndrome de Down, e se suicidou. Com o passar dos anos, descobri que muitos colegas e amigos sofreram com doenças mentais na família.&lt;br /&gt;
A doença mental afetou profundamente a minha vida também. Muitos anos atrás, minha mãe morreu após uma longa batalha contra o mal de Alzheimer. Era de cortar o coração vê-la perder gradualmente a lembrança das pessoas amadas e olhá-la nos olhos e perceber que ela não sabia quem eu era. Eu via os resquícios de humanidade se extinguindo lentamente. Ela havia passado a vida inteira lutando para sustentar a família e, em vez de aproveitar a aposentadoria, todas as lembranças que valorizava lhe foram roubadas.&lt;br /&gt;
À medida que os baby boomers envelhecem, a triste experiência que eu e muitos outros tivemos se repetirá pelo mundo afora. Meu desejo é que o rápido avanço da neurociência possa um dia aliviar o sofrimento dos atingidos pela doença mental e pela demência.&lt;br /&gt;
O QUE ESTÁ CONDUZINDO ESSA REVOLUÇÃO?&lt;br /&gt;
Os dados provenientes das varreduras cerebrais estão sendo decodificados, e o progresso é impressionante. Várias vezes por ano, vemos manchetes nos jornais anunciando uma nova descoberta. Da invenção do telescópio à era espacial passaram-se 350 anos, mas faz apenas quinze anos que a IRM e os mapeamentos cerebrais avançados foram introduzidos, permitindo conectarmos ativamente o cérebro ao mundo externo. Por que tão rápido, e quanto ainda está por vir?&lt;br /&gt;
Parte desse rápido progresso ocorreu porque os físicos de hoje têm um bom conhecimento do eletromagnetismo, que rege os sinais elétricos que percorrem os neurônios. As equações matemáticas de James Clerk Maxwell, usadas para calcular a física de antenas, radares, receptores de rádio e torres de micro-ondas, formam os alicerces da tecnologia de IRM. Levou séculos para se desvendar o segredo do eletromagnetismo, mas a neurociência saboreia os frutos dessa grande conquista.&lt;br /&gt;
No Livro I, faço um levantamento da história do cérebro e mostro como uma infinidade de novos instrumentos saiu dos laboratórios de física e nos deu imagens coloridas dos mecanismos do pensamento. Dado que a consciência tem um papel central em qualquer discussão sobre a mente, dou também a perspectiva de um físico, oferecendo uma definição de consciência que inclui o reino animal. Na verdade, trago uma classificação de consciências, mostrando que é possível atribuir números a vários tipos delas.&lt;br /&gt;
Mas para dar uma resposta completa à pergunta de como essa tecnologia vai avançar, é preciso retomar a lei de Moore, que afirma que a capacidade do computador duplica a cada dois anos. As pessoas se surpreendem diante do simples fato de que um telefone celular tem hoje mais capacidade de computação do que a Nasa inteira quando pôs dois homens na Lua em 1969. Hoje os computadores têm capacidade suficiente para registrar os sinais elétricos emitidos pelo cérebro e para decodificá-los parcialmente numa linguagem digital conhecida. Isso torna possível uma interface direta do cérebro com o computador para controlar qualquer objeto próximo. Esse campo, que cresce rapidamente, é chamado ICM (interface cérebro-máquina), e a tecnologia chave é o computador.&lt;br /&gt;
No Livro II exploro essa nova tecnologia, que possibilita o registro de memórias, leitura da mente, gravação de sonhos em vídeo, e telecinesia.&lt;br /&gt;
No Livro III, investigo formas alternativas de consciência, desde sonhos, drogas e doença mental a robôs e alienígenas do espaço sideral. Também falo sobre o potencial de controle e manejo do cérebro para lidar com doenças como depressão, mal de Parkinson, de Alzheimer e muitas outras. Discuto ainda o Projeto Brain, anunciado pelo presidente Obama, e o Projeto do Cérebro Humano, da União Europeia, que deverão destinar bilhões de dólares para decodificar os caminhos cerebrais até o nível neural. Esses dois programas certamente abrirão áreas de pesquisa inteiramente novas, trazendo novas maneiras de tratar a doença mental e revelando os segredos mais íntimos da consciência.&lt;br /&gt;
Uma vez dada a definição de consciência, podemos usá-la para explorar também a consciência não humana (isto é, a consciência de robôs). Como serão os robôs avançados? Terão emoções? Poderão ser uma ameaça? E podemos explorar também a consciência de alienígenas, que podem ter metas totalmente diferentes das nossas.&lt;br /&gt;
No Apêndice, vou discutir a ideia talvez mais estranha de toda a ciência: o conceito da física quântica, de que a consciência pode ser a base fundamental da realidade.&lt;br /&gt;
Não faltam propostas para esse campo em expansão. Somente o tempo dirá quais delas são meras ilusões criadas pela imaginação fértil dos autores de ficção científica, e quais representam caminhos sólidos para a pesquisa científica. O progresso da neurociência tem sido astronômico e, em vários aspectos, a chave é a física moderna, que usa o poder total das forças eletromagnéticas e nucleares para investigar os grandes segredos ocultos em nossa mente.&lt;br /&gt;
É preciso enfatizar que não sou neurocientista. Sou um físico teórico com um interesse incansável pela mente. Espero que a posição vantajosa de um físico possa ajudar a enriquecer ainda mais nosso conhecimento e dar outra compreensão do objeto mais familiar e estranho do universo: nossa mente.&lt;br /&gt;
Mas em vista do ritmo alucinante em que estão sendo desenvolvidas novas perspectivas, é importante ter uma noção sólida da composição do cérebro. Portanto, vamos falar primeiro das origens da neurociência moderna, que alguns historiadores acreditam ter começado quando uma enorme haste de ferro atravessou o cérebro de um certo Phineas Gage. Esse acontecimento seminal gerou uma reação em cadeia que possibilitou a investigação científica do cérebro. Apesar de ter sido uma experiência infeliz para Gage, abriu o caminho para a ciência moderna.&lt;br /&gt;
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(Eleanor Roosevelt)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
EM SEUS SONHOS&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os sonhos podem determinar o destino.&lt;br /&gt;
Talvez o sonho mais famoso da antiguidade tenha ocorrido no ano 312 d.C., quando o imperador romano Constantino estava empenhado numa das maiores batalhas de sua vida. Ao encarar um exército inimigo duas vezes maior que o seu, ele percebeu que provavelmente morreria na batalha do dia seguinte. Mas naquela noite ele sonhou com um anjo trazendo a imagem de uma cruz e dizendo as proféticas palavras “Com este símbolo, vencerás”. Imediatamente, Constantino ordenou que todos os escudos fossem adornados com a imagem da cruz.&lt;br /&gt;
A história conta que ele saiu triunfante no dia seguinte, consolidando seu domínio à frente do Império Romano. Em vista dessa vitória, Constantino jurou pagar o débito de sangue que tinha para com a religião relativamente obscura chamada cristianismo, perseguida durante séculos pelos imperadores romanos, e cujos adeptos costumavam servir de alimento para os leões no Coliseu. Constantino assinou leis que iriam abrir o caminho para que o cristianismo se tornasse a religião oficial de um dos maiores impérios do mundo.&lt;br /&gt;
Durante milhares de anos, os sonhos intrigaram tanto reis e rainhas como mendigos e ladrões. Os antigos acreditavam que os sonhos eram presságios, e ao longo da história houve incontáveis tentativas de interpretá-los. A Bíblia relata, em Gênesis 41, a façanha de José, que interpretou corretamente o sonho do faraó do Egito, milhares de anos atrás. O faraó sonhou com sete vacas gordas, seguidas por sete vacas magras. Ficou tão aflito, que chamou escribas e místicos de todo o reino para encontrar o significado do sonho. Nenhum deles soube dar uma explicação satisfatória, até que José apareceu. Em sua interpretação do sonho, o Egito teria sete anos de boas colheitas e fartura, seguidos por sete anos de seca e fome. Assim, disse José, o Egito precisava começar a estocar os grãos e suprimentos, preparando-se para os anos de privação e desespero que viriam. Quando isso realmente aconteceu, José foi considerado um profeta.&lt;br /&gt;
Os sonhos sempre foram associados a profecia, mas em tempos mais recentes, são também conhecidos por estimular descobertas científicas. A ideia de que os neurotransmissores facilitam o movimento das informações por meio das sinapses, o que veio a ser a base da neurociência, surgiu num sonho do farmacologista Otto Loewi. Em 1865, August Kekulé sonhou com benzeno, uma molécula em que a ligação dos átomos de carbono forma uma cadeia que se fecha num círculo, como uma cobra mordendo o próprio rabo. Esse sonho desvendou a estrutura atômica da molécula de benzeno. Ele concluiu: “Vamos aprender a sonhar!”&lt;br /&gt;
Os sonhos também têm sido interpretados como uma janela para nossos verdadeiros pensamentos e intenções. Michel de Montaigne, o grande escritor e ensaísta da Renascença, escreveu: “Acredito que os sonhos são a verdadeira interpretação de nossas inclinações, mas é preciso ter a arte de classificá-los e entendê-los.” Mais recentemente, Sigmund Freud propôs uma teoria para explicar a origem dos sonhos. Em sua reconhecida obra A interpretação dos sonhos, ele afirma que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes, recalcados pela mente consciente, que se libertam durante o sono. Os sonhos não são apenas fragmentos aleatórios de imaginações inflamadas, mas revelam realmente segredos e verdades sobre o indivíduo. Na definição de Freud, “o sonho é a estrada real para o inconsciente”. Desde então, foram escritos inúmeros livros afirmando revelar o sentido oculto de qualquer imagem perturbadora sob a ótica da teoria freudiana.&lt;br /&gt;
Hollywood se aproveita de nossa eterna fascinação pelos sonhos. Uma cena predileta em muitos filmes é quando o herói tem um pesadelo aterrorizante e de repente acorda banhado em suor. No sucesso de bilheteria A origem, Leonardo DiCaprio é um ladrãozinho que rouba segredos íntimos do mais improvável de todos os lugares, os sonhos das pessoas. Munido de uma nova invenção, ele entra nos sonhos dos outros e os ilude para revelarem seus segredos financeiros. Corporações gastam milhões de dólares na proteção de segredos e patentes industriais. Bilionários escondem sua fortuna atrás de códigos complicados. E o trabalho dele é roubá-los. A trama se desenvolve rapidamente quando os personagens entram em sonhos nos quais uma pessoa adormece e sonha também. Assim os criminosos descem cada vez mais fundo nas múltiplas camadas do inconsciente.&lt;br /&gt;
Embora os sonhos sempre tenham nos causado fascínio e perplexidade, apenas na última década, ou pouco mais, os cientistas conseguiram penetrar nos mistérios oníricos. Na verdade, os cientistas realizam hoje algo que era considerado impossível: tiram fotos e gravam vídeos rudimentares de sonhos com aparelhos de IRM. Um dia você poderá ver um vídeo do que sonhou na noite anterior, e conhecer sua mente inconsciente. Com um treinamento adequado, você poderá fazer com que a consciência controle a natureza dos seus sonhos. E talvez, como o personagem de DiCaprio, uma tecnologia avançada permitirá que você entre no sonho alheio.&lt;br /&gt;
A NATUREZA DOS SONHOS&lt;br /&gt;
Por mais misteriosos que sejam, os sonhos não são um luxo supérfluo, ruminações inúteis de um cérebro ocioso. Na verdade, são essenciais para nossa sobrevivência. As varreduras cerebrais mostram que certos animais têm a atividade cerebral típica do sonho. Se forem privados do sonho, esses animais podem morrer mais depressa do que se sucumbissem à fome, porque essa privação prejudica seriamente seu metabolismo. Infelizmente, a ciência não sabe dizer exatamente por que isso acontece.&lt;br /&gt;
Sonhar é um aspecto essencial do ciclo do sono. Passamos cerca de duas horas por noite sonhando, e cada sonho dura de cinco a vinte minutos. Durante a vida, passamos cerca de seis anos sonhando.&lt;br /&gt;
Os sonhos também têm as mesmas características em toda a raça humana. Pesquisando diferentes culturas, os cientistas encontraram temas comuns. O professor de psicologia Calvin Hall registrou 50 mil sonhos num período de 40 anos. E complementou o registro com mil relatos de estudantes universitários. Como ele esperava, constatou que a maioria das pessoas sonhava com as mesmas coisas, como experiências dos dias ou semanas anteriores. Os animais, porém, parecem sonhar de forma diferente de nós. No golfinho, por exemplo, apenas um hemisfério adormece de cada vez para evitar afogamento, pois sendo mamíferos e não peixes, eles precisam de ar para respirar. Então, se sonham, provavelmente é com um hemisfério de cada vez.&lt;br /&gt;
Como vimos, o cérebro não é um computador, e sim uma rede neural que se atualiza a cada tarefa aprendida. Os cientistas que trabalham com redes neurais observaram algo interessante. Frequentemente, os sistemas ficam saturados quando aprendem demais e, em vez de processar mais informação, entram num estado de “sonho”, em que memórias aleatórias às vezes aparecem e se fundem enquanto a rede neural tenta digerir o novo material. Então os sonhos podem equivaler a uma “faxina” em que o cérebro tenta organizar a memória de forma mais coerente. Se isso for verdade, é possível que todas as redes neurais, inclusive as de todos os organismos capazes de aprender, entrem num estado de sonho a fim de fazer uma arrumação das lembranças. Nesse caso, os sonhos provavelmente servem a um propósito. Alguns cientistas especulam que isso pode significar que robôs que aprendem com a experiência também podem sonhar.&lt;br /&gt;
Estudos neurológicos parecem sustentar essa conclusão. Alguns estudos mostraram que um período de sono entre a atividade e um teste pode melhorar a retenção de memória. As neuroimagens indicam que as áreas cerebrais ativadas durante o sono são as mesmas que as envolvidas no aprendizado de uma nova tarefa. Talvez sonhar seja útil para consolidar novas informações.&lt;br /&gt;
Os sonhos podem também trazer acontecimentos de poucas horas atrás, logo antes de dormir, mas geralmente trazem lembranças de alguns dias antes. Por exemplo: experimentos mostraram que se alguém usa óculos com lentes cor de rosa, alguns dias depois os sonhos ficam cor de rosa.&lt;br /&gt;
VARREDURA CEREBRAL DOS SONHOS&lt;br /&gt;
A varredura cerebral está desvendando um pouco dos mistérios dos sonhos. Normalmente, o EEG mostra que o cérebro emite ondas eletromagnéticas uniformes enquanto estamos acordados. No entanto, quando adormecemos gradualmente, os sinais do EEG começam a mudar de frequência. Depois, quando sonhamos, ondas de energia elétrica emanam do tronco encefálico e sobem para as áreas corticais, especialmente para o córtex visual. Isso confirma que as imagens visuais são um componente importante dos sonhos. Por fim, entramos no estado de sonho, e as ondas cerebrais são representadas pelo movimento rápido dos olhos (REM, rapid eye movements). (Dado que alguns mamíferos também têm a fase REM no sono, podemos deduzir que eles sonham.)&lt;br /&gt;
Enquanto as áreas visuais do cérebro estão ativas, áreas ligadas a odor, sabor e tato são desligadas. Quase todas as imagens e sensações processadas pelo corpo são autogeradas, tendo origem nas vibrações eletromagnéticas do tronco encefálico, e não em estímulos externos. O corpo fica muito isolado do mundo externo e, quando sonhamos, ficamos mais ou menos paralisados. Talvez essa paralisia é que nos impeça de agir fisicamente conforme o sonho, o que poderia ser desastroso. Cerca de 6% das pessoas sofrem do distúrbio de “paralisia do sono”, em que despertam do sonho ainda paralisadas. Muitas vezes, essas pessoas acordam assustadas, achando que há criaturas prendendo seu peito, braços, pernas. Quadros da era vitoriana retratam mulheres acordando com um duende horroroso sentado em cima delas, encarando-as. Alguns psicólogos acreditam que a paralisia do sono pode explicar a origem da síndrome da abdução alienígena.&lt;br /&gt;
O hipocampo fica ativo quando sonhamos, o que sugere que os sonhos utilizam nosso estoque de lembranças. A amídala e o cingulado anterior também ficam ativos, o que significa que os sonhos podem trazer grandes emoções, inclusive o medo.&lt;br /&gt;
Ainda mais reveladoras, porém, são as áreas cerebrais que se desligam, como o córtex pré-frontal dorsolateral (que é o centro de comando do cérebro), o córtex orbitofrontal (que age como censor, ou verificador de fatos) e a região temporal-parietal (que processa os sinais sensório-motores e o senso espacial).&lt;br /&gt;
Quando o córtex pré-frontal dorsolateral está desligado, não podemos contar com o centro de planejamento racional. Então vagamos a esmo nos sonhos, com o centro visual fornecendo imagens sem o controle racional. Como o córtex orbitofrontal, que verifica os fatos, também está inativo, os sonhos fluem livremente, sem as restrições das leis da física ou do senso comum. E o desligamento do lobo temporal-parietal, que contribui para coordenar o senso de onde estamos por meio de sinais enviados pelo ouvido interno e pelos olhos, pode explicar as experiências fora do corpo quando sonhamos.&lt;br /&gt;
Já enfatizamos que a consciência humana representa principalmente o cérebro, sempre criando modelos do mundo externo e os simulando no futuro. Nesse caso, os sonhos representam um caminho alternativo de simulação do futuro, em que as leis da natureza e as interações sociais são suspensas temporariamente.&lt;br /&gt;
COMO SONHAMOS?&lt;br /&gt;
Mas as explicações acima não respondem à seguinte questão: Como os sonhos são gerados? Uma das maiores autoridades no assunto é o dr. Allan Hobson, psiquiatra da Harvard Medical School, que dedicou décadas de sua vida a desvendar os mistérios dos sonhos. Ele afirma que os sonhos, especialmente na fase REM, podem ser estudados em nível neurológico, e que eles surgem quando o cérebro tenta dar sentido aos sinais aleatórios que emanam do tronco cerebral.&lt;br /&gt;
Quando o entrevistei, dr. Hobson disse que, após décadas de catalogação de sonhos, ele encontrou cinco características básicas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Emoções intensas − isso se deve à ativação da amídala, provocando emoções como o medo.&lt;br /&gt;
Conteúdo ilógico − os sonhos mudam imediatamente de uma cena para outra, desafiando a lógica.&lt;br /&gt;
Supostas impressões sensoriais − os sonhos nos dão sensações falsas, que são geradas internamente.&lt;br /&gt;
Aceitação acrítica de eventos do sonho − aceitamos, sem crítica, a natureza ilógica do sonho.&lt;br /&gt;
Dificuldade de lembrar − os sonhos são logo esquecidos, minutos após o despertar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O dr. Hobson, junto com o dr. Robert McCarley, fez história ao propor o primeiro desafio sério à teoria freudiana dos sonhos, denominado “hipótese da ativação-síntese”. Em 1977, eles propuseram a ideia de que os sonhos se originam de disparos aleatórios de neurônios do tronco cerebral, subindo para o córtex que, por sua vez, tenta dar sentido a esses sinais aleatórios.&lt;br /&gt;
A chave dos sonhos está em nódulos localizados no tronco cerebral, a parte mais antiga do cérebro, que segregam substâncias químicas especiais, chamadas adrenérgicas, que nos mantêm alertas. Quando vamos dormir, o tronco cerebral ativa outro sistema, o colinérgico, que emite substâncias químicas que nos colocam no estado de sonho.&lt;br /&gt;
Quando sonhamos, os neurônios colinérgicos do tronco cerebral entram em atividade, emitindo pulsos erráticos de energia elétrica chamados ondas PGO (ponto-genículo-occipital). Essas ondas sobem pelo tronco cerebral e estimulam o córtex visual a criar os sonhos. As células do córtex visual entram em ressonância, vibrando centenas de vezes por segundo de maneira irregular, o que talvez seja responsável pela natureza incoerente dos sonhos.&lt;br /&gt;
Esse sistema também emite substâncias químicas que desativam as partes do cérebro responsáveis pela razão e pela lógica. A falta de verificação pelos córtices pré-frontal e orbitofrontal, juntamente com a extrema sensibilidade do cérebro a pensamentos errantes podem explicar a natureza estranha, errática, dos sonhos.&lt;br /&gt;
Estudos mostram que é possível entrar no estado colinérgico sem dormir. O dr. Edgard Garcia-Rill, da Universidade do Arkansas, afirma que meditação, preocupação, ou ficar num tanque de isolamento sensorial podem induzir ao estado colinérgico. Pilotos e motoristas, que passam muitas horas diante da monotonia do para-brisa, sem imagens, também podem entrar nesse estado. Em sua pesquisa, ele descobriu que esquizofrênicos têm uma quantidade incomum de neurônios colinérgicos no tronco cerebral, o que poderia explicar algumas das alucinações.&lt;br /&gt;
Para dar mais consistência a seu estudo, o dr. Allan Hobson mandou suas cobaias dormirem com uma touca especial que registra automaticamente os dados durante o sonho. Um sensor conectado à touca registra os movimentos da cabeça (porque os movimentos da cabeça geralmente ocorrem quando o sonho termina). Outro sensor mede os movimentos das pálpebras (porque o REM faz as pálpebras se mexerem). Quando os sujeitos acordavam, relatavam imediatamente o que tinham sonhado, e as informações da touca eram colocadas no computador.&lt;br /&gt;
Dessa maneira, o dr. Hobson acumulou uma grande quantidade de informação sobre os sonhos. Mas qual é o significado dos sonhos?, perguntei. Ele descarta o que chama de “interpretação mística do tipo biscoito da sorte chinês”. E não vê nos sonhos nenhuma mensagem oculta vinda do cosmos.&lt;br /&gt;
Ele acredita que, após as ondas PGO subirem pelo tronco cerebral para as áreas corticais, o córtex tenta dar sentido aos sinais erráticos, e inventa uma narrativa a partir deles: o sonho.&lt;br /&gt;
A FOTOGRAFIA DE UM SONHO&lt;br /&gt;
No passado, quase todos os cientistas evitavam estudar os sonhos, porque são muito subjetivos e têm uma longa história associada ao misticismo e ao psiquismo. Mas com a IRM, os sonhos estão revelando seus segredos. De fato, como os centros cerebrais que controlam o sonho são quase idênticos aos que controlam a visão, é possível fotografar o sonho. Esse trabalho pioneiro está sendo feito em Kioto, no Japão, por cientistas do ATR Computational and Neuroscience Laboratories.&lt;br /&gt;
Os sujeitos são colocados no aparelho de IRM, onde lhes são apresentadas 400 imagens em preto e branco, cada uma consistindo em um conjunto de pontos num quadro de 10x10 pixels. As imagens são projetadas uma a uma e a IRM registra a resposta do cérebro a cada coleção de pixels. Assim como outros grupos que trabalham nessa área de interface cérebro-máquina, os cientistas criam uma enciclopédia, onde cada imagem corresponde a um único padrão de IRM. Dessa maneira, os cientistas podem trabalhar no sentido inverso para reconstruir corretamente as imagens autogeradas na varredura por IRM enquanto o sujeito estava sonhando.&lt;br /&gt;
Yukiyasu Kamitani, cientista chefe do ATR, disse: “Essa tecnologia pode também ser aplicada a outros sentidos além da visão. No futuro, pode até ser possível ler sentimentos e estados emocionais complicados.” Assim, qualquer estado mental pode ser transformado em imagem, inclusive os sonhos, desde que se faça um glossário dos estados mentais e imagens de IRM correspondentes.&lt;br /&gt;
Os cientistas de Kioto se concentraram em analisar fotografias geradas pela mente. No capítulo 3, vimos uma abordagem semelhante, introduzida por Jack Gallant, em que, com ajuda de uma fórmula complexa, os vóxels da varredura por IRM em 3D podem ser usados para reconstruir a imagem vista pelo olho. Um processo similar permitiu ao dr. Gallant e sua equipe criar um vídeo rudimentar de um sonho. Quando visitei seu laboratório em Berkeley, conversei com um membro da equipe de pós-doutorado, dr. Shinji Nishimoto, que me permitiu assistir ao vídeo de um sonho, um dos primeiros a serem feitos. Vi uma série de rostos tremulando na tela do computador, significando que a cobaia (nesse caso, o próprio dr. Nishimoto) estava sonhando com pessoas, e não com animais ou objetos. É extraordinário. Infelizmente, a tecnologia ainda não é suficientemente boa para se ver com exatidão os traços das pessoas que aparecem no sonho, portanto, o próximo passo será aumentar o número de pixels, para que as imagens fiquem mais complexas. Outro avanço será reproduzir imagens em cores em vez de preto e branco.&lt;br /&gt;
Fiz ao dr. Nishimoto a pergunta crucial: Como você sabe que o vídeo é fiel? Como você sabe que o aparelho não está inventando coisas? Ele ficou um pouco encabulado ao responder que esse era um ponto fraco da pesquisa. Normalmente, o registro do sonho só é possível durante alguns minutos após o despertar. Depois disso, muitos sonhos se perdem nas névoas da consciência, e não é fácil verificar os resultados.&lt;br /&gt;
O dr. Gallant me disse que essa pesquisa sobre gravação de sonhos estava em desenvolvimento e que ainda não tinha condições de ser publicada. Resta um longo caminho a percorrer antes que possamos assistir a um vídeo do sonho da noite anterior.&lt;br /&gt;
SONHOS LÚCIDOS&lt;br /&gt;
Os cientistas estão investigando também uma forma de sonho que já se pensou ser um mito: o sonho lúcido, ou sonhar em estado consciente. Parece uma contradição de termos, mas foi verificado em varreduras cerebrais. No sonho lúcido, a pessoa sabe que está sonhando e pode, conscientemente, controlar a direção do sonho. Embora a ciência só tenha começado a fazer experimentos com sonhos lúcidos recentemente, há referências de séculos anteriores a esse fenômeno. No budismo, por exemplo, existem livros que citam sonhadores lúcidos e até ensinam a se tornar um deles. No decorrer do tempo, várias pessoas na Europa escreveram relatos detalhados de sonhos lúcidos.&lt;br /&gt;
Varreduras cerebrais de sonhadores lúcidos mostram que o fenômeno é real. Durante a fase REM, o córtex pré-frontal dorsolateral dessas pessoas, geralmente adormecido quando alguém normal sonha, continua ativo, indicando certa consciência enquanto ele sonha. De fato, quanto mais lúcido é o sonho, mais ativo fica o córtex pré-frontal dorsolateral. Como esse córtex representa a parte consciente do cérebro, o sonhador deve ter consciência de que está sonhando.&lt;br /&gt;
O dr. Hobson me disse que qualquer pessoa pode aprender a ter sonhos lúcidos com a utilização de certas técnicas. Especialmente quem tem sonhos lúcidos deve manter um caderno para anotar o que sonha. Antes de dormir, devem se lembrar de que irão “acordar” no meio do sonho, sabendo que estão se movimentando num mundo de sonhos. É importante ter isso em mente antes de pôr a cabeça no travesseiro. Como o corpo fica bem paralisado na fase REM, é difícil enviar ao mundo externo um sinal de que se começou a sonhar, mas o dr. Stephen LaBerge, da Universidade de Stanford, estudou sonhadores lúcidos (inclusive ele próprio) que conseguem sinalizar para o mundo externo que estão sonhando.&lt;br /&gt;
Em 2011, cientistas usaram pela primeira vez sensores de IRM e EEG para medir o conteúdo de sonhos, e até fizeram contato com uma pessoa sonhando. No Max Planck Institute, em Munique e Leipzig, cientistas tiveram ajuda de sonhadores lúcidos equipados com sensores de EEG para determinar o momento em que entravam na fase REM. E então eram colocados no aparelho de IRM. Antes de adormecer, os sonhadores concordaram em fazer uma série de movimentos de olhos e respiração, como um código Morse, enquanto sonhavam. Quando começassem a sonhar, deveriam cerrar o punho direito e depois o esquerdo durante dez segundos. Era o sinal de que estavam sonhando.&lt;br /&gt;
Os cientistas observaram que quando as cobaias começavam a sonhar, o córtex sensório-motor (responsável pelo controle de ações motoras, como apertar os punhos) era ativado. A IRM captava que os punhos estavam sendo cerrados, e qual punho era cerrado primeiro. Depois, usando outro sensor (um espectrômetro quase infravermelho), confirmaram que havia maior atividade na região cerebral que controla o planejamento de movimentos.&lt;br /&gt;
“Nossos sonhos, portanto, não são um ‘filme do sono’, ao qual apenas assistimos passivamente; eles exigem atividade em regiões cerebrais relevantes para o seu conteúdo”, diz Michael Czisch, líder de um uma equipe de pesquisa no Max Planck Institute.&lt;br /&gt;
ENTRANDO NUM SONHO&lt;br /&gt;
Se podemos nos comunicar com uma pessoa que está sonhando, então é também possível interferirmos no sonho de alguém? Sim, provavelmente.&lt;br /&gt;
Como vimos, os cientistas já deram os primeiros passos na gravação de imagens de sonhos, e nos próximos anos será possível obter fotos e vídeos com uma precisão muito maior. Como os cientistas já conseguem estabelecer um canal de comunicação entre o mundo real e um sonhador lúcido no mundo da fantasia, em princípio, os cientistas serão capazes de modificar o curso do sonho. Digamos que cientistas estejam assistindo ao vídeo de um sonho usando um aparelho de IRM enquanto o sonho se desenrola em tempo real. Enquanto a pessoa vaga pelo mundo dos sonhos, os cientistas podem dizer para onde ela está indo e orientá-la sobre uma direção diferente.&lt;br /&gt;
Assim, num futuro próximo, talvez seja possível assistir ao vídeo de um sonho e influenciar seu curso. Mas no filme A origem, Leonardo DiCaprio vai muito além. Ele é capaz não só de assistir ao sonho de outras pessoas, mas de entrar no sonho delas. Será possível?&lt;br /&gt;
Já vimos que ficamos paralisados quando sonhamos, portanto, não colocamos em prática as fantasias do sonho, o que seria desastroso. Contudo, os sonâmbulos geralmente andam dormindo com os olhos abertos (embora o olhar pareça embaçado). Desse modo, eles vivem num mundo híbrido, meio real, meio sonho. Há muitos casos documentados de pessoas andando em volta da casa, dirigindo carro, cortando lenha, e até cometendo homicídio nesse estado de sonho, onde os mundos da realidade e da fantasia se misturam. Assim, é possível que as imagens físicas que o olho enxerga possam de fato interagir livremente com as imagens fictícias que o cérebro fabrica durante um sonho.&lt;br /&gt;
A maneira de entrar no sonho alheio, portanto, deve ser colocar na cobaia lentes de contato que projetem as imagens diretamente em sua retina. Protótipos de lentes de contato conectadas à internet já estão sendo desenvolvidos na Universidade de Washington em Seattle. Assim, se o observador quiser entrar nesse sonho, ele precisa ficar num estúdio sendo filmado por uma câmera de vídeo. Sua imagem será projetada nas lentes de contato do sonhador, criando uma imagem composta (a imagem do observador superposta à cena imaginária que o cérebro está produzindo).&lt;br /&gt;
O observador pode então ver realmente o mundo sonhado onde ele agora está presente, porque ele também está usando lentes de contato conectadas à internet. A imagem em IRM do sonho da cobaia é decifrada pelo computador e enviada diretamente para as lentes de contato do observador.&lt;br /&gt;
Assim, o observador pode mudar a direção do sonho em que ele entrou. Andando pelo estúdio vazio, o observador poderá ver o sonho se desenrolar em suas lentes de contato e interagir com os objetos e pessoas que aparecem nele. Será uma experiência incrível, pois o cenário muda de repente, imagens aparecem e desaparecem sem motivo algum, e as leis da física estão suspensas. Vale tudo.&lt;br /&gt;
Num futuro ainda mais distante, talvez seja possível entrar no sonho de alguém conectando dois cérebros em estado de sono. Cada cérebro teria que ser conectado a um aparelho de IRM ligado a um computador central, que iria fundir os dois sonhos num só. Primeiro, o computador teria que transformar a varredura cerebral de cada um em imagem de vídeo. Depois, o sonho de um deles seria enviado para as áreas sensoriais do cérebro do outro, de modo que o sonho do segundo se fundisse com o do primeiro. Entretanto, a tecnologia de gravação de vídeo e de interpretação de sonhos terá que avançar muito até isso se tornar uma possibilidade real.&lt;br /&gt;
Mas isso levanta outra questão: Se é possível alterar o curso do sonho de alguém, então é possível controlar não só o sonho, mas também a mente de outra pessoa? Durante a Guerra Fria, isso foi um tema de extrema gravidade, com os Estados Unidos e a União Soviética empenhados num jogo mortal, tentando usar técnicas psicológicas para controlar a vontade do outro.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
Vez ou outra, nos brejos contaminados por pesticidas dos estados do oeste norte-americano, aparecem sapos com deformidades grotescas. Muitos têm até oito pernas traseiras, saindo dos quadris, e alguns simplesmente não têm nenhuma. Eles se esforçam para nadar e saltar, mas costumam ser capturados por pássaros antes de estarem plenamente crescidos. Essa anormalidade no desenvolvimento não é uma mutação genética, e sim obra de um micróbio: um verme trematódeo parasita. As larvas desse verme, tendo sido expelidas de seu hospedeiro anterior – um tipo de caracol –, procuram os sapos quando ainda são girinos. Enterram-se nos membros em formação e formam cistos que comprometem o desenvolvimento das pernas, às vezes fazendo-as se duplicarem e depois voltarem a se duplicar.&lt;br /&gt;
Para os sapos, essa deformação costuma ser fatal, pois eles não são capazes de escapar das garças famintas que os perseguem em busca de uma refeição fácil. Quanto ao trematódeo, o membro extra ajuda na continuação de seu ciclo de vida. Uma garça pode capturar esses sapos deformados com facilidade e digeri-los junto com os trematódeos que moram neles, inadvertidamente se tornando o próximo hospedeiro do parasita – que logo é devolvido à água nas fezes da garça, onde volta a se instalar no caracol. Uma estratégia inteligente, ao que parece – não que a inteligência desempenhe qualquer papel na jornada do trematódeo. É anu seleção natural que traz o infortúnio aos sapos, já que os trematódeos capazes de criar espécimes vulneráveis à predação são os que sobrevivem e podem transmitir seus genes deformadores de membros, perpetuando seu ciclo de vida.&lt;br /&gt;
Alterar o corpo do hospedeiro é uma forma de melhorar sua aptidão evolutiva – sua chance de se reproduzir –, mas existe outra possibilidade: alterar o comportamento do hospedeiro.&lt;br /&gt;
Ao revirar as folhas mais ou menos à altura da cabeça nas florestas tropicais de Papua-Nova Guiné, ocasionalmente vemos carapaças de formigas mortas, suas mandíbulas fixadas nos veios centrais, mantendo seus corpos sem vida no lugar. De cada formiga brota uma longa haste, inclinada pelo peso de sua bolsa cheia de esporos. Essas hastes são fungos Cordyceps, que mataram as formigas e estão se alimentando de seus corpos e liberando esporos que caem no solo da floresta. Crescer dentro das formigas é uma forma inteligente de conseguir a energia necessária para se reproduzir, mas, para os fungos, elas servem a outro propósito.&lt;br /&gt;
Uma vez infectada pelo Cordyceps, a formiga vira um zumbi. Ela passa a ignorar suas tarefas do dia a dia em sua colônia no solo da floresta e cede ao impulso de subir em uma árvore. Ali, encontra um veio de folha no lado norte do tronco, uns 150 cm acima do solo, e morde-o com força, ancorando-se no lugar. Pouco depois, o fungo rouba a vida da formiga. Após alguns dias, o fungo germina, faz brotar uma haste e libera seus esporos. Eles caem no solo, cobrindo os detritos folhosos embaixo e infectando uma nova tropa de formigas. O Cordyceps muda o comportamento da formiga, controlando-a de uma forma incrivelmente específica para ajudá-lo a dar origem à próxima geração de fungos.&lt;br /&gt;
Não se trata do único micro-organismo capaz de modificar o comportamento do hospedeiro. Cães infectados pela raiva, em vez de se enroscarem para morrer, tornam-se extremamente agressivos. Com a boca espumando uma saliva cheia de vírus, eles vão atrás de briga, loucos para morder outro cão. Ratazanas infectadas pelo parasita Toxoplasma perdem o medo de espaços abertos e luz e passam a ser atraídas pelo odor da urina do lince – efetivamente indo ao encontro de seu maior predador. Insetos infectados por um nematomorfo parasita parecem cometer suicídio ao saltar na água, onde o parasita consegue emergir do inseto morto.&lt;br /&gt;
Todos esses comportamentos controlados por micro-organismos se desenvolveram porque os ajudam a se espalhar para novos hospedeiros. Os vírus da raiva que fazem os cães morderem os outros são transmitidos para mais um ou dois cães, onde continuam se reproduzindo. Os parasitas Toxoplasma, capazes de direcionar ratazanas para felinos, podem continuar seu ciclo de vida quando a ratazana é morta e comida. Os nematomorfos precisam encontrar uma fonte de água para achar parceiros e se reproduzir. Conseguir controlar o comportamento do hospedeiro aumenta a capacidade de sobrevivência e reprodução dos micróbios, que são favorecidos, dessa forma, pela evolução. O espantoso é quão preciso esse controle pode ser.&lt;br /&gt;
Os efeitos de vírus, bactérias e fungos sobre o comportamento não se limitam à vida selvagem. Os seres humanos também podem ser expostos aos caprichos deles. Tomemos o caso de uma menina belga, Senhorita A, que até os 18 anos havia sido feliz e saudável e estava se preparando para os exames da faculdade. No decorrer de poucos dias, tornou-se agressiva, não quis mais se comunicar e perdeu as inibições sexuais. Foi enviada a um hospital psiquiátrico, onde lhe prescreveram medicação antipsicótica e ela recebeu alta. Três meses depois, Senhorita A retornou ao hospital com um comportamento ainda pior, acompanhado de vômitos e diarreia incontroláveis. Seus médicos decidiram por uma biópsia do cérebro, o que revelou a origem de seu problema psiquiátrico. Ela tinha a doença de Whipple, uma infecção rara causada por uma bactéria que ocasionalmente anuncia sua presença através do comportamento de seu hospedeiro.&lt;br /&gt;
É interessante notar que Senhorita A apresentou sintomas gastrointestinais – vômitos e diarreia – junto com os comportamentais que a levaram ao hospital psiquiátrico. Pessoas que sofrem da doença de Whipple normalmente chegam ao médico com rápida perda de peso, dor abdominal e diarreia – todos sinais de infecção gastrointestinal. Na Senhorita A, a infecção havia afetado não apenas o intestino, mas também o cérebro, desviando a atenção dos médicos de sua verdadeira origem. De fato, sintomas gastrointestinais são surpreendentemente comuns em pessoas com distúrbios neurológicos e mentais, embora costumem ser vistos como irrelevantes quando comparados com o comportamento alterado.&lt;br /&gt;
Para uma mulher extraordinária, porém, a diarreia de seu filho autista mostrou-se uma pista que valia a pena seguir.&lt;br /&gt;
Ellen Bolte já era mãe de três filhos quando o quarto, Andrew, nasceu em fevereiro de 1992, em Bridgeport, Connecticut. Ele era, como sua filha Erin e seus dois outros filhos haviam sido, um bebê feliz e saudável, atingindo todos os marcos de desenvolvimento. Na época de seu check-up de 15 meses no pediatra, Andrew parecia bem, mas, para a surpresa de Ellen, o médico ficou horrorizado com o estado dos ouvidos de Andrew. Estavam cheios de líquido, constatou – Andrew tinha uma infecção grave nos ouvidos e precisava de antibióticos. “Fiquei surpresa, porque ele não tivera nenhuma febre e estava comendo, bebendo e brincando normalmente”, disse Ellen. Porém dez dias depois, quando Ellen retornou para uma revisão, o líquido não havia desaparecido. Um segundo tratamento de dez dias foi prescrito, dessa vez com um antibiótico diferente. Por fim, os ouvidos de Andrew sararam.&lt;br /&gt;
Mas a cura se mostrou temporária, e a saga continuou. Andrew recebeu um terceiro e depois um quarto tratamento de antibióticos para tentar curar seus ouvidos de uma vez por todas – com medicamentos diferentes para atacar grupos de bactérias distintos. Àquela altura, Ellen passou a questionar a necessidade de mais remédios, já que seu filho não parecia ter nenhum incômodo nem qualquer problema de audição. Mas o médico insistiu: “Se você dá valor à audição do seu filho, é melhor lhe dar esses antibióticos.” Ellen cedeu e seguiu a recomendação médica. Foi aí que a diarreia começou. E como esse é um efeito colateral comum de tratamento com antibióticos, o médico, em vez de interrompê-lo, prescreveu mais trinta dias de medicação para manter a infecção longe.&lt;br /&gt;
Durante a última sequência de medicamentos, o comportamento de Andrew mudou. De início parecia um pouco bêbado, sorrindo e cambaleando. “Como um bêbado feliz”, disse Ellen. “Brinquei com meu marido dizendo que da próxima vez que déssemos uma festa poderíamos batizar o ponche com seus antibióticos, para animar o ambiente. Achamos também que os ouvidos de Andrew deviam lhe estar causando tanta dor que agora ele estava delirando de felicidade por ter se livrado dela.” Mas isso durou pouco, e após uma semana Andrew começou a ficar retraído. Tornou-se arredio e mal-humorado, e depois muito irritável, gritando o dia todo. Novos sintomas gastrointestinais surgiram – a diarreia de Andrew piorou e estava cheia de muco e comida não digerida. “Antes dos antibióticos, eu não tinha um filho doente. Agora tenho um filho muito doente.”&lt;br /&gt;
O comportamento de Andrew piorou. “Ele começou a ter todos aqueles comportamentos estranhos – andar na ponta dos pés e evitar olhar para mim. As poucas palavras que sabia, esqueceu”, contou Ellen. “Ele nem sequer respondia quando eu o chamava pelo nome. Foi como se tivesse partido.” Os pais então levaram Andrew a um otorrino, que inseriu tubos minúsculos para ajudar na drenagem dos líquidos. O especialista disse que não havia infecção e recomendou que parassem de dar leite de vaca ao filho. Nesse ponto, seus ouvidos estavam curados. Ellen ficou esperançosa: “Pensei, certo, agora que conseguimos curar os ouvidos, seu comportamento voltará ao normal. Mas logo ficou claro que isso não ia acontecer.”&lt;br /&gt;
Àquela altura os sintomas gastrointestinais de Andrew eram terríveis e, embora ele antes tivesse um peso saudável, tornou-se uma criança esquelética com a barriga inchada. Seu comportamento também ficou mais estranho. Andava na ponta dos pés sem dobrar os joelhos, ficava à porta, acionando o interruptor para acender e apagar a luz durante meia hora, preocupava-se com objetos – como potes com tampas –, mas não se interessava por outras crianças. Acima de tudo, gritava. Àquele ponto, desesperado por ajuda, o casal começou a levá-lo a vários médicos em busca de respostas. Aos 25 meses, foi diagnosticado o autismo.&lt;br /&gt;
Para muitas pessoas, inclusive Ellen Bolte na época do diagnóstico de Andrew, o filme Rain Man, de 1988, em que Dustin Hoffman representa um personagem autista, era a única referência que tinham sobre autismo. No filme, apesar de graves dificuldades nas interações sociais e sua insistência em manter a rotina diária, o personagem de Hoffman possui uma memória extraordinária, sendo capaz de lembrar anos de dados da liga americana de beisebol. Ele é um autista portador da síndrome de savant, ou seja, tem dificuldades cognitivas, mas é superdotado. Apesar do interesse da mídia, as habilidades musicais, matemáticas e artísticas notáveis do savantismo são raras. Na realidade, o autismo engloba um amplo espectro de sintomas, que vão daqueles com inteligência média ou acima da média – conhecida como síndrome de Asperger – àqueles com autismo grave e incapacidade de aprendizado, como Andrew Bolte.&lt;br /&gt;
O que todos os autistas têm em comum, no entanto, são dificuldades no comportamento social. Essa foi a característica que levou o psiquiatra americano Leo Kanner a identificar o autismo como uma síndrome distinta em 1943. Em seu artigo seminal sobre o tema, descreveu os casos de onze crianças que compartilhavam uma “incapacidade de se relacionarem de forma normal com pessoas e situações desde o início da vida”. Kanner pegou emprestada a palavra autismo – que significa “ensimesmamento” – da constelação de sintomas associados à esquizofrenia. “Existe desde o princípio”, escreveu ele, “uma extrema solidão autista que, sempre que possível, despreza, ignora, bloqueia qualquer coisa que venha de fora”. Os portadores podem não conseguir entender entonação, talvez não captando as piadas ou levando sarcasmo e metáforas ao pé da letra. Podem ter dificuldade em mostrar empatia por outras pessoas e compreender as regras sociais implícitas que as outras pessoas aprendem durante a infância. Além disso, podem preferir uma rotina fixa ou tornar-se obcecados por uma ideia ou objeto.&lt;br /&gt;
Na década de 1990, quando o autismo de Andrew Bolte foi diagnosticado, acreditava-se que todas as crianças com autismo já nasciam com a doença – como Leo Kanner havia observado. Para Ellen, aquilo significava que o diagnóstico tinha que estar errado. “Eu sabia, no fundo da alma, que Andrew não tinha nascido daquele jeito. Eu havia tido quatro filhos – ele estava bem, absolutamente bem.” Mas apesar de suas afirmações, os médicos apenas insistiam que ela não devia ter percebido os sinais e que Andrew era autista desde que nasceu. Sua convicção de que isso não era verdade significava que seu filho ainda não tinha recebido o diagnóstico correto. Foi essa convicção que levou Ellen à pesquisa que acabaria levando a uma hipótese revolucionária sobre a causa do autismo.&lt;br /&gt;
Antigamente, o autismo era raríssimo, afetando cerca de uma em cada 10 mil pessoas. No momento em que as primeiras pesquisas foram realizadas, no final da década de 1960, cerca de uma em cada 2.500 crianças eram afetadas. No ano 2000, Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos começaram a manter registros – de início indicando que o transtorno do espectro autista afetava uma em cada 150 crianças de 8 anos. Esta cifra aumentou rapidamente nos dez anos seguintes, atingindo uma em 125 em 2004, uma em 110 em 2006 e uma em 88 em 2008. Na época da última contagem, em 2010, os números estavam em uma em cada 68 crianças. A frequência dos casos mais que dobrou nos últimos dez anos.&lt;br /&gt;
Representadas num gráfico, essas cifras parecem extremamente preocupantes, já que o aumento mostra poucos sinais de que vai ceder. Se essa tendência persistir no futuro, teremos o quadro de uma sociedade bem diferente. As estimativas conservadoras sugerem que uma em cada 30 crianças poderá ser autista em 2020, e alguns chegaram a sugerir que toda família nos Estados Unidos terá uma criança no espectro autista em 2050. O transtorno do espectro autista tende a afetar mais os meninos do que as meninas, e mais de 2% dos meninos agora se enquadram no espectro autista. Embora alguns digam que o aprimoramento do diagnóstico levou a um falso aumento e que a maior consciência sobre a questão sem dúvida deve ter contribuído para os números atuais, os especialistas concordam que o aumento nos casos de autismo é genuíno. Mas, até recentemente, poucos concordavam sobre sua causa.&lt;br /&gt;
Na época em que Ellen Bolte começou sua pesquisa, a teoria predominante para a causa do autismo era genética. Apenas uma década antes, muitos psiquiatras acreditavam na hipótese da “mãe-geladeira”, que havia sido inadvertidamente apresentada por Leo Kanner em 1949. Ele escrevera que crianças autistas estavam expostas desde o início da vida à “frieza, obsessão e um tipo de atenção mecânica dos pais, somente às necessidades materiais [...]. Eram deixados de maneira impecável em geladeiras que não degelavam. Seu retraimento parece ser um ato de afastamento de tal situação, em busca de conforto na solidão”. Mas Kanner também escrevera que o autismo era uma doença inata, começando antes do nascimento, e desde então disse que nunca acreditou que os pais fossem responsáveis por deixar seus filhos doentes. Na década de 1990, embora a ideia da mãe-geladeira persistisse em algumas regiões do mundo, havia sido em grande parte refutada, e a atenção se voltara, talvez seguindo a moda, ao papel da genética na causa do autismo.&lt;br /&gt;
Claro que Ellen não tinha intenção de resolver o enigma da causa do autismo. Pelo contrário, estava apenas em busca da possibilidade de que um acontecimento súbito – uma doença ou exposição de algum tipo – pudesse ter feito seu filho adoecer. Ela começou sua busca por respostas com o equilíbrio perfeito entre mente aberta e ceticismo próprio dos melhores cientistas. Sua carreira como programadora de computadores ajudou, à medida que ela percorria uma série de passos lógicos para chegar a uma hipótese. Começou, embora não tivesse formação em medicina nem em ciência, pelo início: pela observação. “Eu o observei e indaguei o que fazia Andrew se comportar daquele jeito. Ele comia cinzas da lareira e papel higiênico, embora recusasse a comida que eu oferecia. O que o fazia agir assim? Ele reagia como se sentisse dor quando era tocado ou quando havia sons altos. Por quê?”&lt;br /&gt;
Começando pela biblioteca pública, Ellen leu tudo o que pudesse oferecer alguma pista. E continuou consultando diferentes médicos em busca de um diagnóstico alternativo ou de alguém que se interessasse o suficiente para não dar as costas a ela e Andrew. Um médico interessou-se pelo caso e disse a ela que, se quisesse realmente fazer a pesquisa, tinha que começar a ler a literatura científica. Por mais que isso a intimidasse, Ellen foi à luta e se familiarizou com o jargão médico. Após vários falsos inícios, ela começou a se perguntar se o antibiótico prescrito para o ouvido de Andrew poderia ter causado todo o problema. Então se deu conta de que cada vez mais pesquisas tratavam de infecções por Clostridium difficile, bactéria responsável por causar diarreia grave e incurável após tratamentos com antibióticos. A relação com os sintomas gastrointestinais de Andrew era óbvia, e Ellen quis saber se uma bactéria similar poderia não apenas causar diarreia, mas também liberar uma “toxina” que pudesse ter afetado o cérebro em desenvolvimento de seu filho.&lt;br /&gt;
Nesse momento Ellen encontrou sua hipótese: Andrew devia estar infectado com uma bactéria chamada Clostridium tetani, que é “parente” da C. difficile. Mas em vez de entrar na corrente sanguínea do menino e causar uma infecção de tétano, como costuma fazer, a C. tetani pode ter chegado a seu intestino. Seu palpite era de que os antibióticos que Andrew recebera para a infecção no ouvido haviam matado as bactérias protetoras que vivem no intestino, permitindo que a C. tetani assumisse o controle. Dali, a neurotoxina produzida pela bactéria devia ter se deslocado de algum modo, chegando ao cérebro de Andrew. Ellen ficou muito empolgada e resolveu apresentar sua conclusão ao médico.&lt;br /&gt;
“Ele foi bem receptivo. Disse que testaríamos tudo que pudéssemos.” Fizeram um exame de sangue em Andrew em busca de sinais de que o sistema imunológico dele houvesse lidado com uma infecção de C. tetani. Como a maioria das crianças pequenas, Andrew havia sido imunizado contra tétano, de modo que era inevitável encontrar em seu sangue algum sinal de contato com a bactéria. Mas o resultado do exame de sangue chocou até a equipe do laboratório: o nível de proteção imunológica de Andrew estava lá em cima, bem diferente da encontrada em crianças após a imunização. Após meses de exames de sangue sem resultado, Ellen Bolte enfim tinha algum sinal de que estava no caminho certo.&lt;br /&gt;
Pôs-se a escrever para médicos, pedindo que levassem sua teoria em conta e tratassem Andrew com mais um antibiótico, a vancomicina, para livrá-lo da C. tetani em seu intestino. Todos rejeitaram as ideias de Ellen. Por que Andrew não tinha contração muscular extrema, como é típico do tétano? Como a neurotoxina transpusera a barreira sangue-cérebro e penetrara neste último? Como Andrew podia estar infectado por uma bactéria contra a qual tinha sido imunizado? Mas, depois de meses de pesquisa, Ellen estava convencida de que estava certa.&lt;br /&gt;
Após cada rejeição, Ellen mergulhava mais fundo na literatura científica, buscando respostas para seus questionamentos. Descobriu que contrações musculares ocorriam após a infecção através de alguma ferida na pele, o que permitia à neurotoxina encontrar nervos que iam até os músculos, mas uma infecção no intestino poderia afetar nervos que chegam até o cérebro. Ela ficou sabendo de experimentos em que o percurso da neurotoxina do tétano havia sido rastreado, indo do intestino ao cérebro via nervo vago – uma ligação importante entre os dois órgãos –, vencendo a barreira sangue-cérebro. Ela também desencavou casos de pacientes que haviam contraído infecções clássicas do tétano depois de terem sido adequadamente imunizados. Com o passar do tempo, Ellen já aceitara o diagnóstico de autismo de Andrew e sua pesquisa deixara de ser uma busca pessoal e trouxe uma nova perspectiva sobre uma doença cuja causa é um mistério.&lt;br /&gt;
Na época em que Ellen abordou o 37o médico da lista, já estava minuciosamente familiarizada com cada aspecto de sua hipótese. O Dr. Richard Sandler, gastroenterologista pediátrico do Hospital Infantil Rush, em Chicago, passou duas horas ouvindo-a contar a história de Andrew e expor suas ideias. Quando ela terminou, o doutor pediu duas semanas para pensar sobre sua proposta de tratar Andrew com mais uma leva de antibióticos – desta vez para matar a C. tetani. “Por mais absurdo que parecesse”, disse ele, “era cientificamente plausível. Eu não podia descartar a ideia.”&lt;br /&gt;
O Dr. Sandler concordou em fazer um teste de oito semanas com antibióticos para Andrew, na época com 4 anos e meio. Antes do tratamento, ele foi submetido a uma bateria de exames de sangue, urina e fezes. Além disso, um psicólogo clínico realizou uma série de observações do comportamento de Andrew, de modo a ser possível avaliar quaisquer mudanças que pudessem ocorrer durante o tratamento. Alguns dias depois de começar a tomar os antibióticos, o menino ficou ainda mais hiperativo do que de hábito. O que aconteceu em seguida surpreenderia o Dr. Sandler, justificaria a batalha de dois anos de Ellen contra a comunidade médica e transformaria o perfil das pesquisas sobre autismo.&lt;br /&gt;
Sempre observador, Charles Darwin escreveu em seu livro de 1872, A expressão das emoções no homem e nos animais, que: “A maneira como as secreções do canal alimentar [...] são afetadas por emoções fortes é outro excelente exemplo da ação direta do sensório sobre esse órgão, independentemente da vontade.” Ele se refere, é claro, à sensação de intestino solto que acompanha a chegada de más notícias, ao estômago revirado quando você percebe que não ouviu o despertador e está atrasado para a prova, ao frio na barriga quando nos apaixonamos. O cérebro e o intestino, apesar de sua distância e de desempenharem funções totalmente diferentes, têm uma ligação íntima – e de mão dupla. Não apenas as emoções afetam o funcionamento do intestino, mas a atividade intestinal pode afetar seu estado de humor e seu comportamento também. Pense na última vez que você esteve mal da barriga – sem dúvida não foi apenas seu sistema digestivo que ficou irritado.&lt;br /&gt;
Para as vítimas de distúrbios persistentes como a síndrome do intestino irritável, as emoções têm uma influência apavorante sobre seus sintomas. Quando os níveis de estresse estão altos, a SII pode se manifestar, tornando a situação mais estressante ainda. O nervosismo de um primeiro encontro ou de uma apresentação importante no trabalho é intensificado pelo mal-estar da SII, provocando um círculo vicioso de sintomas e estresse cada vez piores. Sabendo que essa doença está ligada a alterações na flora intestinal, será possível que a ligação intestino-cérebro inclua um terceiro protagonista? Será que deveríamos pensar então em uma ligação intestino-microbiota-cérebro?&lt;br /&gt;
Os cientistas médicos Nobuyuki Sudo e Yoichi Chida foram os primeiros a fazer essa pergunta já em 2004. Eles conceberam um experimento simples com camundongos para descobrir se a flora intestinal afetava a reação do cérebro ao estresse. Usando camundongos livres de germes e camundongos comuns, colocaram-nos em um tubo. Os dois grupos produziram hormônios do estresse, mas, nos livres de germes, as concentrações eram o dobro. Sem microbiota, os camundongos acharam a situação muito mais estressante.&lt;br /&gt;
Sudo e Chida então quiseram saber se podiam reverter essa reação excessiva ao estresse nos camundongos livres de germes, colonizando-os com uma microbiota normal quando atingissem a fase adulta. Ao que se revelou, era tarde demais: sua reação ao estresse já estava consolidada. Eles descobriram que, quanto mais cedo os ratinhos eram colonizados, menos estressados ficavam. Surpreendentemente, colonizar os camundongos livres de germes jovens com apenas uma espécie bacteriana, Bifidobacterium infantis, já bastou para impedir que ficassem mais estressados que seus primos de microbiota normal.&lt;br /&gt;
Esses experimentos abriram a possibilidade de uma nova forma de pensar. Os micróbios do intestino alteravam não apenas a saúde física, mas a saúde mental também. Além disso, parecia que esses efeitos podiam começar ainda na infância se a flora intestinal fosse perturbada muito cedo. Nosso cérebro passa por um período intensamente concentrado de desenvolvimento quando somos bebês. Ao nascermos, cada um de nós já tem seus 100 bilhões de células nervosas – os neurônios – prontas em nosso cérebro. Mas elas são apenas a matéria-prima, como uma pilha de ripas de madeira. A construção de algo significativo exige um cuidadoso trabalho de marcenaria por meio de conexões – chamadas sinapses – que interligam os neurônios. As experiências de uma criança pequena determinam quais sinapses serão formadas, bem como quais são importantes e devem ser reforçadas, e quais são insignificantes e devem ser descartadas. Um bebê, cuja vida diária está repleta de novos estímulos, forma cerca de 2 milhões de sinapses por segundo, cada uma oferecendo um novo potencial de aprendizado e desenvolvimento. No entanto, cérebros saudáveis precisam de um equilíbrio cuidadoso entre a lembrança e o esquecimento, de modo que a maioria dessas novas sinapses serão descartadas durante a infância. Com as sinapses, nessa idade, é “usar ou perder”– aquelas que não são regularmente reforçadas serão podadas para o cérebro ficar bem arrumadinho.&lt;br /&gt;
Se os micróbios do intestino são capazes de influenciar o cérebro nesse período crucial de seu desenvolvimento, no início da vida, será que isso poderia respaldar a ideia de Ellen Bolte de que o autismo de seu filho se deveu a uma infecção intestinal? O autismo regressivo afeta crianças antes dos 3 anos, a época em que ocorre a maior parte do desenvolvimento do cérebro e que coincide com o período de estabelecimento de uma microbiota intestinal estável, como a dos adultos. O tratamento precoce de Andrew com antibióticos para o que parecia uma infecção no ouvido devia ter perturbado o processo, permitindo que a C. tetani tomasse o controle. Ellen esperava que um novo tratamento de antibióticos pudesse destruir essa bactéria, detendo o dano que estava causando àquele cérebro tão jovem.&lt;br /&gt;
Dois dias de calma profunda vieram após os episódios de hiperatividade de Andrew no início do tratamento. “Foi um milagre”, disse Ellen. “Poucas semanas depois do início do tratamento, os resultados começaram a aparecer. Comecei a lhe ensinar a usar o penico – ele já estava com 4 anos! – e em poucas semanas ele já havia aprendido. Pela primeira vez em três anos ele estava entendendo o que eu dizia. Andrew se tornou carinhoso, atento e calmo, e até aprendeu a falar mais do que as poucas palavras que aprendera antes de ficar doente. Deixava que o vestissem e conseguíamos chegar ao fim do dia sem que ele tivesse comido parte da camiseta. O psicólogo até preparou um relatório sobre o comportamento de Andrew durante o tratamento com antibiótico, mas as mudanças foram tão profundas que o Dr. Sandler nem precisou vê-lo.&lt;br /&gt;
Por mais espetacular que tenha sido sua melhoria, uma amostra unitária – apenas Andrew – jamais poderia provar sem sombra de dúvida que a fonte do autismo estava no intestino. Felizmente, um microbiologista de grande reputação havia sido atraído pelas ideias de Ellen após o bem-sucedido teste dos antibióticos de Andrew. Dr. Sydney Finegold dedicara sua carreira ao estudo das bactérias anaeróbicas – que sobrevivem sem oxigênio. Ele foi descrito como “possivelmente o pesquisador de microbiologia anaeróbica mais influente do século XX ou talvez de todos os tempos”. Era a esse grupo de bactérias que os membros do gênero Clostridium, incluindo a C. tetani, pertenciam. Com o cacife e o conhecimento científico de Finegold, a hipótese do autismo de Ellen estava em boas mãos.&lt;br /&gt;
O Dr. Sandler, junto com Finegold e Ellen, estendeu o teste do antibiótico a onze crianças com autismo de início tardio e diarreia. O objetivo não foi ver se antibióticos seriam um tratamento adequado para o autismo, mas usá-lo como prova de conceito. Se esses medicamentos pudessem fazer com que as crianças melhorassem ainda que parcial ou temporariamente, então os micróbios vivendo no intestino – fosse a C. tetani ou algum outro – poderiam ser responsáveis por sua condição. Assim como ocorreu com Andrew, o resultado do teste em outras crianças foi substancial. Elas começaram a fazer contato visual, brincar normalmente e usar a linguagem para se expressar. Ficaram menos obcecadas com um único objeto ou atividade e se tornaram mais amáveis. Infelizmente, essa melhora vista durante o tratamento não foi duradoura nem para Andrew, nem para as outras crianças. Mais ou menos uma semana após o fim dos antibióticos, a maioria das crianças já haviam regredido ao estado anterior. Mas pela primeira vez desde que a doença fora descrita, o mistério do autismo tinha uma nova e promissora pista: os micro-organismos do intestino.&lt;br /&gt;
Em 2001, seis anos após Ellen Bolte desenvolver sua hipótese de que a C. tetani no intestino era a causa do autismo, ela enfim poderia descobrir se tinha razão. Sydney Finegold organizou um estudo dos micróbios presentes no intestino grosso de treze crianças com autismo e oito crianças saudáveis como grupo de controle para comparação. As técnicas de sequenciamento do DNA ainda eram caras demais para que uma pesquisa completa da microbiota das crianças fosse realizada, mas a habilidade de Finegold em cultivar bactérias em condições livres de oxigênio tornava possível que as espécies pertencentes ao gênero Clostridium fossem contadas. Embora a bactéria C. tetani propriamente dita não tenha sido encontrada, algo estava errado. Em comparação com as crianças saudáveis, as autistas tinham, em média, dez vezes mais bactérias desse gênero em seus intestinos. Talvez, como a C. tetani, aquelas espécies também estivessem produzindo uma neurotoxina capaz de causar danos ao cérebro das crianças. A hipótese de Ellen Bolte não havia acertado na mosca, mas errara por muito pouco.&lt;br /&gt;
Será realmente possível que o simples fato de ter uma coleção diferente de bactérias no intestino possa fazer as crianças agitarem as mãos, se balançarem para a frente e para trás e gritarem durante horas, como fazem muitas crianças autistas? A resposta é sim. Acontece que o parasita Toxoplasma – o mesmo que faz as ratazanas perderem o medo de espaços abertos e serem atraídas pelo odor da urina de felinos – também muda o comportamento dos humanos. Tendemos a nos infectar devido ao nosso amor pelos gatos – mesmo os domésticos podem portar o parasita, e é fácil pegá-lo de um arranhão ou da caixa de areia. Tão fácil que a enorme cifra de 84% das mulheres parisienses testadas durante a gravidez se mostraram infectadas. Em outros lugares, a cifra tende a ser um pouquinho menor: cerca de 32% das mulheres grávidas na cidade de Nova York e 22% em Londres, por exemplo. Para um bebê em desenvolvimento, uma infecção nova com Toxoplasma pode ser muito perigosa, daí o teste nas mulheres grávidas. No entanto, na população adulta, a toxoplasmose raramente causa distúrbios de saúde, só que o parasita deixa sua marca com uma alteração da personalidade.&lt;br /&gt;
Por estranho que pareça, a infecção por Toxoplasma tem efeitos quase opostos em mulheres e homens. Homens infectados tendem a se tornar menos agradáveis, ignorando as regras sociais e perdendo o senso de moralidade. Relativamente falando, ficam mais desconfiados, ciumentos e inseguros. Já para as mulheres, os efeitos da infecção parecem quase desejáveis, pois elas se tornam mais descontraídas, calorosas e confiantes. Também tendem a ser mais seguras de si e determinadas do que mulheres não infectadas. É intrigante pensar no potencial de promiscuidade aqui, com mulheres reduzindo suas defesas e homens agindo com menos consideração pelos outros, com a moralidade recém-afrouxada. Fundamentalmente, como acontece com as ratazanas, os seres humanos de ambos os sexos parecem ficar mais abertos ao risco: as mulheres por causa do aumento de sua confiança e os homens pela impulsividade social.&lt;br /&gt;
Mas mudança de personalidade não é o único efeito da infecção por Toxoplasma em humanos. Uma vez infectados, tanto homens quanto mulheres ficam com reações mais lentas e perdem a concentração com mais facilidade. Esses efeitos, apesar de terem sido avaliados como leves em testes de laboratório, podem ter consequências sérias. Comparando a frequência da infecção por Toxoplasma em 150 pessoas hospitalizadas em Praga após causarem acidentes de trânsito com a de cidadãos que não causaram nenhum acidente, uma equipe de pesquisadores da Universidade Charles calculou que essa infecção aumenta em três vezes as suas chances de causar um acidente. Um estudo semelhante na Turquia descobriu que motoristas envolvidos em acidentes tinham quatro vezes mais chances de estarem infectados.&lt;br /&gt;
Ao contrário das ratazanas, os humanos são os últimos hospedeiros do parasita Toxoplasma, já que nossas chances de sermos comidos por um felino selvagem são bem pequenas. Devido a nossa história evolutiva, quando ser morto por uma onça talvez fosse tão provável quanto ser morto em um acidente de carro nos tempos atuais, esse pequeno parasita ainda consegue mudar nossa personalidade e comportamento. Uma explicação alternativa é que o parasita não tinha o objetivo de nos infectar e que o mecanismo que o Toxoplasma desenvolveu para passar da ratazana ao felino simplesmente funciona tanto no cérebro humano quanto no do roedor. Qualquer que seja a explicação, é suficiente para deixar você em dúvida se seu corpo hospeda esse pequeno intruso e quais calamidades pessoais você poderia atribuir a ele.&lt;br /&gt;
Afora as mudanças um tanto divertidas da personalidade causadas pela toxoplasmose, essa infecção também tem um lado mais sombrio. Já em 1896, a revista Scientific American publicou um artigo intitulado “A insanidade deve-se a um micróbio?” Na época, a ideia de que micro-organismos podiam causar doenças era novidade, sendo portanto natural que o conceito pudesse se estender aos distúrbios psiquiátricos. Uma dupla de médicos de um hospital do estado de Nova York fez um teste, injetando o líquido raquidiano de pacientes esquizofrênicos em coelhos, que subsequentemente adoeceram. Isso os fez indagar quais micróbios poderiam estar à espreita em doentes mentais.&lt;br /&gt;
Embora carecesse de rigor científico, esse miniexperimento despertou uma onda de interesse pelos micróbios como causadores de problemas mentais. Apesar do grande potencial da ideia, a obra de Sigmund Freud logo levou ao seu súbito abandono, algumas décadas depois, a favor de sua teoria psicanalítica. Em vez de uma causa fisiológica para os distúrbios neurológicos, Freud propôs uma causa emocional, enraizada nas experiências da infância. Sua teoria perdurou até o lítio se mostrar uma cura melhor para o transtorno bipolar do que conversas num consultório.&lt;br /&gt;
Na primeira metade do século XX, à medida que se descobria que doença após doença era causada por micro-organismos, os transtornos ligados a apenas um órgão foram considerados livres da influência microbiana: o cérebro. Dada a inutilidade de tentar evitar a insuficiência renal ou uma parada cardíaca na base da conversa, é incrível o esforço dedicado a curar os distúrbios do cérebro por meio do diálogo. Quando qualquer outro órgão entra em colapso, buscamos causas externas para isso, mas quando é o cérebro – a mente! – que se comporta mal, nos apressamos a supor que a culpa seja do indivíduo, de seus pais ou de seu estilo de vida.&lt;br /&gt;
Talvez por ocupar lugar especial em nosso senso de individualidade e livre-arbítrio, o cérebro só voltou a ser alvo do escrutínio de microbiologistas nos últimos anos do século XX. Nessa época, muitos micróbios logo foram associados às doenças mentais, mas o parasita Toxoplasma se mostrou o maior suspeito de vários transtornos. Ocasionalmente, quando infectadas pela primeira vez com o parasita, as pessoas desenvolvem sintomas psiquiátricos, como alucinações e delírios – que levam a um falso diagnóstico inicial de esquizofrenia. Na verdade, entre aqueles que sofrem de esquizofrenia, a prevalência do Toxoplasma é três vezes maior do que na população em geral – uma conexão bem mais reveladora do que quaisquer associações genéticas encontradas até hoje.&lt;br /&gt;
O intrigante é que os esquizofrênicos não são os únicos doentes mentais entre os quais a infecção por Toxoplasma é comum. Descobriu-se também seu envolvimento no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), no transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e na síndrome de Tourette, que se tornaram cada vez mais frequentes nas últimas décadas. A velha ideia de que distúrbios psiquiátricos possam ser causados por micróbios está de volta, mas desta vez com um toque novo, mais sutil. Em vez de inimigos conhecidos, como o Toxoplasma, levarem a culpa, e se os micro-organismos que moram em nós forem os responsáveis por causar problemas?&lt;br /&gt;
Se membros da nossa microbiota são realmente capazes de influenciar nosso comportamento, será que o transplante de micróbios do intestino poderia causar mudanças na personalidade, como com os camundongos que receberam a microbiota de espécimes obesos e engordaram? Os ratinhos não podem responder a questionários de personalidade, mas raças diferentes podem ter comportamentos característicos. Uma raça de camundongo de laboratório conhecida como BALB destaca-se por ser particularmente tímida e hesitante – o total oposto de outra raça, confiante e gregária, conhecida como suíço. Tão diferentes quanto o gordo e o magro, esses camundongos foram as cobaias perfeitas de um experimento de troca de personalidade em 2011.&lt;br /&gt;
Uma equipe de cientistas da Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá, descobriu que alterar a flora intestinal de camundongos dando-lhes antibióticos deixava-os menos ansiosos na hora de explorar um ambiente novo. Isso nos levou a questionar: seria possível transferir a ansiedade dos camundongos BALB para o tranquilo camundongo suíço transplantando micróbios do intestino? Eles inocularam as duas raças com os micro-organismos da raça oposta e submeteram todos os animais a um teste simples. Eles foram colocados sobre uma plataforma dentro de uma caixa e o tempo que levaram para ganhar coragem de descer e explorar foi cronometrado. Os camundongos suíços – normalmente corajosos – levaram três vezes mais tempo que o normal para descer após receberem a microbiota dos camundongos ansiosos. De forma semelhante, os BALB, que costumam ser nervosos, ficaram mais corajosos e desceram mais rápido após receberem micróbios do camundongo suíço.&lt;br /&gt;
Se a ideia de sua personalidade não ser fruto de sua criação, mas produto de seus genes, deixa você inquieto, que tal a noção de uma personalidade composta pelas bactérias vivendo em seu intestino? Camundongos livres de germes são antissociais, e preferem ficar sozinhos a desfrutar a companhia dos outros. Enquanto um camundongo com uma microbiota normal optará por saudar e ir conhecer qualquer novo animal colocado em sua gaiola, camundongos livres de germes costumam se ater aos companheiros que já conhecem. O simples fato de ter micróbios no intestino parece ser suficiente para torná-los mais amigáveis. E vai mais longe: é possível que sua microbiota tenha influência até sobre quais pessoas lhe despertam atração.&lt;br /&gt;
Existe um grupo de morcegos que parece ter um corte aberto no alto de cada asa, perto do ombro. Não são feridas, mas pequenas bolsas que os morcegos machos enchem de secreções corporais: urina, saliva e até sêmen. Eles cuidam dessa poção com cuidado, limpando-a a cada tarde e voltando a preenchê-la para assegurar que tenha exatamente o cheiro que desejam. Depois, na hora certa, voam diante de um grupo de fêmeas penduradas no poleiro e gentilmente voltam seu conteúdo na direção delas. O efeito, como seria de esperar, é sedutor.&lt;br /&gt;
O perfume perfeito é, ao que parece, cultivado obtendo-se a mistura bacteriana certa. Cada macho mantém uma ou duas cepas de bactérias nos sacos em suas asas, aparentemente “escolhidas” dentre uma seleção de 25 espécies disponíveis aos morcegos machos. Essas bactérias se alimentam de urina, saliva e sêmen nas bolsas das asas e liberam como refugo uma mistura inebriante de feromônios sexuais, que convencem as fêmeas a se juntarem ao harém do macho.&lt;br /&gt;
O tipo específico de feromônios que um animal produz parece importar mesmo naqueles que não têm uma bolsa especial para preparar sua própria poção do amor. As drosófilas, moscas cujo corpo é um pouco maior que a cabeça de um alfinete, são muito exigentes quando se trata de acasalar. Vinte e cinco anos atrás, uma bióloga evolucionista chamada Diane Dodd estava indagando se manter duas populações de uma mesma espécie separadas e interferir em sua capacidade de procriarem entre si as transformaria em duas espécies diferentes. Ela dividiu as drosófilas em dois grupos com duas fontes distintas de comida – maltose e amido – por 25 gerações. Depois as recolocou juntas, mas as moscas dos dois grupos se recusaram a acasalar. As moscas só acasalavam com outras do mesmo grupo alimentar.&lt;br /&gt;
Naquela época, a causa não ficou clara, mas, em 2010, Gil Sharon, da Universidade de Tel Aviv, teve uma ideia do que poderia ter causado aquela reação. Ele repetiu o experimento de Dodd e obteve o mesmo resultado: as moscas repeliram umas às outras após apenas duas gerações com alimentação diferente. Sharon suspeitou que a dieta vinha alterando a flora intestinal das drosófilas, modificando o cheiro de seus feromônios sexuais. Ele então lhes ministrou antibióticos e, conforme esperava, elas pararam de se importar com quem se acasalavam. Sem microbiota, as moscas não produziam seu cheiro característico, mas inoculá-las outra vez com a microbiota de um dos dois grupos dietéticos foi suficiente para restaurar o comportamento seletivo de antes.&lt;br /&gt;
Antes que você me acuse de ser um exagero comparar moscas e seres humanos, é melhor colocar a questão em perspectiva. A microbiota das moscas (na verdade, composta de uma única espécie: Lactobacillus plantarum) havia aparentemente alterado as substâncias químicas que cobrem a superfície de seu corpo – em essência, feromônios sexuais. Os seres humanos também são influenciados por essas substâncias. Em um experimento lendário, alunas da Universidade de Berna receberam camisetas usadas por alunos na cama, e pediu-se que avaliassem os meninos em ordem de atratividade. As mulheres preferiram as camisetas dos homens cujo sistema imunológico era mais diferente de seu próprio. A teoria sustenta que, ao escolherem seu oposto genético, as moças estariam dotando sua prole de um sistema imunológico capaz de enfrentar duas vezes mais desafios. Por meio de seu sentido do olfato, as moças estavam examinando o genoma dos rapazes em busca da melhor opção como pai de seus filhos.&lt;br /&gt;
Os odores deixados pelos meninos na camiseta foram produzidos por ninguém menos que a microbiota de sua pele. Vivendo sob as axilas, esses micróbios convertem o suor em cheiros que se soltam no ar – para o bem ou para o mal. É provável que a transpiração das axilas e da virilha, e provavelmente os pelos que brotam nesses locais, não sejam um mecanismo de resfriamento. Pelo contrário, o suor seria o equivalente humano às bolsas de perfume dos morcegos, retendo e preparando a fragrância perfeita. Se aprendemos algo com os camundongos, a comunidade particular de micro-organismos na pele de cada aluno, ao menos em parte, é determinada por seus genes – inclusive aqueles que definem o tipo de seu sistema imunológico. As moças inconscientemente estavam usando a microbiota como um sistema de mensagens, alertando-as para a união genética mais benéfica.&lt;br /&gt;
É impressionante pensar nos inúmeros relacionamentos desastrosos que poderiam ter sido causados por desodorantes e antibióticos, sem falar nos hormônios contraceptivos. No experimento da camiseta, as alunas que estavam tomando pílula aparentemente reverteram seu superpoder subliminar, já que preferiram as camisetas dos homens cujo sistema imunológico mais se assemelhava aos delas.&lt;br /&gt;
Se os feromônios sexuais influenciados pelos micro-organismos oferecem um primeiro passo no processo de seleção do parceiro, considere o beijo a avaliação química que vem a seguir. Pode parecer uma ideia exclusivamente humana – talvez um fenômeno cultural para exibir a posse aos observadores sem ser animalesco demais –, mas na verdade não somos a única espécie a encostar os lábios uns nos outros. Os chimpanzés, outros primatas e muitos outros animais fazem o mesmo, o que dá ao propósito do beijo uma inclinação mais biológica.&lt;br /&gt;
Parece um negócio bem arriscado trocar saliva e germes para se conectar ao outro, especialmente porque o beijo na boca e o toque das línguas ocorre entre pessoas sem parentesco, que poderiam estar sofrendo de sabe-se lá o quê. Mas talvez seja exatamente este o objetivo. É uma boa ideia descobrir quais micróbios o pai potencial de sua prole está portando antes que você e seus futuros filhos se tornem ainda mais vulneráveis a eles. Não apenas isso, mas beijar nos oferece outra amostra, mais profunda, da microbiota de cada um. E com isso vem um gostinho dos genes subjacentes e da capacidade imunológica da outra pessoa. Quando nos beijamos, estamos decidindo em quem depositar nossa confiança em termos emocionais e biológicos.&lt;br /&gt;
Por mais estranha que pareça a ideia de seu comportamento ser influenciado por bactérias e fungos, isso levanta a possibilidade do autoaperfeiçoamento por meios biológicos. Para que psiquiatras caros, que esperam que você mergulhe nas profundezas sombrias de suas decepções infantis, se os micróbios podem lhe poupar todo esse dinheiro e sofrimento? Num teste clínico realizado na França, 55 voluntários normais e saudáveis – humanos desta vez – receberam uma barra de cereais contendo duas cepas de bactérias vivas ou uma barra igual, mas sem as bactérias (um placebo). Após um mês comendo uma barra por dia, os voluntários que receberam as bactérias vivas se mostraram mais contentes, menos ansiosos e menos zangados do que antes do teste – e as mudanças foram além do efeito placebo. Em comparação com outros testes, este foi pequeno e curto, mas ofereceu um vislumbre do que as novas pesquisas podem explorar.&lt;br /&gt;
Como é que comer bactérias vivas faz você ficar mais feliz? Um dos possíveis mecanismos parece estar ligado a uma substância química notoriamente envolvida na regulação do humor: a serotonina. A maior parte desse neurotransmissor se encontra no intestino, onde mantém tudo funcionando direitinho. Mas cerca de 10% da serotonina fica no cérebro, regulando o humor e até a memória. Seria tão prático se as bactérias ingeridas se estabelecessem no intestino e começassem a produzir serotonina! Mas é claro que a coisa não é tão simples assim. Pelo contrário, a introdução de bactérias vivas aumenta os níveis de outro composto químico no sangue, o triptofano. Essa pequena molécula é da maior importância para a felicidade, já que é convertida diretamente em serotonina. De fato, pacientes deprimidos tendem a apresentar baixos níveis de triptofano no sangue, e países cuja população como um todo tem uma dieta mais pobre nessa substância (encontrada nas proteínas) têm maiores taxas de suicídio. É até possível provocar depressão profunda (embora temporária) através da privação dos suprimentos de triptofano. Menos triptofano significa menos serotonina, e menos serotonina significa menos felicidade.&lt;br /&gt;
O fascinante, porém, é que as bactérias novas aumentam os níveis de triptofano não porque o produzam, mas porque impedem o sistema imunológico de destruí-lo. Isso aponta para uma ideia extraordinária, que vem ganhando espaço não só entre os microbiologistas, mas entre profissionais de outros campos também. Está ficando cada vez mais claro que, assim como as alergias e a obesidade, é possível que a depressão seja causada pelo mau funcionamento do sistema imunológico. Mas voltaremos a isso.&lt;br /&gt;
Antes gostaria de falar sobre outro mecanismo pelo qual as bactérias podem deixá-lo feliz que envolve o nervo vago – um nervo importante que se origina no cérebro e desce até o intestino, ramificando-se em diferentes órgãos pelo caminho. Os nervos são como fios elétricos – transportam impulsos elétricos minúsculos que carregam instruções ou percebem mudanças. No caso do nervo vago, os impulsos transportam informações sobre o que o intestino está fazendo – o que está sendo digerido, se está ativo, e assim por diante. O que esse nervo tem de especial, porém, é que ele leva ao cérebro nossos sentimentos mais básicos. O frio na barriga, aquela pontada na boca do estômago nos dizendo que algo está errado e o intestino solto em situações de nervosismo de fato têm origem no intestino – o cérebro simplesmente é informado disso pelos impulsos elétricos que sobem pelo nervo vago.&lt;br /&gt;
Assim talvez não seja nenhuma surpresa dizer que os impulsos elétricos que sobem pelo nervo vago até o cérebro também possam deixá-lo feliz. Os médicos conseguem até tratar pacientes com depressão profunda – incurável por substâncias químicas ou terapias comportamentais – sequestrando esse sistema. Nesse tratamento, chamado estimulação do nervo vago, um dispositivo minúsculo é implantado no pescoço do paciente. Desse dispositivo estendem-se fios que o cirurgião cuidadosamente enrola ao redor do nervo vago. Um gerador movido a pilha fica no tórax, fornecendo os impulsos elétricos que vão estimular o nervo. Durante semanas, meses e anos, os pacientes se tornam mais alegres, ajudados por seus marca-passos da felicidade.&lt;br /&gt;
A ligação desse marca-passo elétrico ao nervo vago pode oferecer o impulso necessário para regular a atividade do nervo e o humor. No entanto, sob circunstâncias normais, esses impulsos elétricos têm uma origem química – como uma pilha comum. Essas substâncias que desencadeiam impulsos nervosos são chamadas de neurotransmissores – e você já deve ter ouvido falar de muitos deles. Substâncias como serotonina, adrenalina, dopamina, epinefrina e oxitocina são na maior parte sintetizadas pelo nosso próprio corpo, capazes de criar uma minúscula centelha elétrica na extremidade do nervo. Mas os neurotransmissores não são produzidos apenas por células humanas. A microbiota desempenha seu papel nesse processo, sintetizando substâncias químicas que agem da mesma forma, estimulando o nervo vago e comunicando-se com o cérebro. Os micro-organismos que produzem essas substâncias agem como um estimulador natural do nervo vago, enviando impulsos elétricos nervo acima e turbinando o humor. Ainda não está clara a exata causa desse efeito no humor, mas não há dúvida de que ele existe.&lt;br /&gt;
Uma hipótese é a de que, ao influenciar o humor, nossa microbiota consiga controlar nosso comportamento para se beneficiar dele. Imagine, por exemplo, uma cepa de bactérias que se alimentam de um composto químico específico encontrado na nossa alimentação. Se comemos essa comida, alimentando essas bactérias, e elas conseguem nos “recompensar” com uma dose de felicidade química, melhor para elas. As substâncias químicas que elas sintetizam podem fazer com que as pessoas tenham desejo de comer aquilo que as alimenta, ou mesmo com que se lembrem de onde encontraram esse alimento. Isso nos faria retornar ao mesmo local – talvez uma árvore frutífera em nosso passado evolutivo ou uma confeitaria específica nos dias de hoje – para comer mais e, consequentemente, estimular aquele grupo de bactérias, que, por sua vez, vai produzir mais substâncias químicas e mais desejos.&lt;br /&gt;
Agora voltemos ao impacto do sistema imunológico sobre o cérebro. Quando as forças armadas do corpo são colocadas em alerta máximo na iminência de um ataque, mensageiros químicos chamados citocinas voam por todos os lados, às vezes causando danos desnecessários. Essas citocinas deixam os soldados do sistema imunológico agitados e prontos para lutar, mas, se o inimigo não vem, tudo que lhes resta é o fogo amigo. A depressão não parece ser o único resultado neurológico dessa belicosidade imunológica exagerada. Pessoas que sofrem de muitos dos outros distúrbios mentais de que falamos também mostram sinais de hiperatividade imunológica – o que é apenas outro nome para nossa velha conhecida inflamação. O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, o TOC, o transtorno bipolar, a esquizofrenia e até o mal de Parkinson e a demência parecem envolver uma reação imunológica exagerada. E, como ficou demonstrado no estudo francês das barrinhas de cereais, ingerir bactérias benéficas tem um efeito calmante sobre o sistema imunológico. Elas não apenas são capazes de impedir a destruição do triptofano e aumentar os níveis de felicidade, como também podem reduzir a inflamação.&lt;br /&gt;
Em pacientes autistas, o sistema imunológico também parece estar ocupado, enviando citocinas para aumentar seu nível de agressividade. Alguma ameaça percebida pela flora intestinal alterada parece ser o catalisador desse processo, mas a pergunta que não quer calar é: Como?&lt;br /&gt;
Aos estudos de Sydney Finegold sobre as diferenças entre a flora intestinal de crianças autistas e saudáveis, seguiu-se uma série de outras tentativas de atribuir toda a culpa a determinadas espécies. Ele até resolveu nomear o suspeito bacteriano mais comum em crianças autistas com o sobrenome de Ellen Bolte: Clostridium bolteae. Com certeza, algo está alterando o equilíbrio entre as diferentes bactérias, e com frequência os espécimes desse gênero afloram entre os culpados. Mas o que essas bactérias estão fazendo para modificar tão profundamente o cérebro dessas crianças?&lt;br /&gt;
Na Universidade de Western Ontario, em London, no Canadá, está o homem com a formação e a experiência necessárias para desempenhar um importante papel nesse novo estágio científico em que cérebro e intestino se encontram. O Dr. Derrick MacFabe se formou em neurociência e psiquiatria. Durante o ensino médio, lidara com crianças com deficiência, muitas das quais eram autistas e tinham problemas gastrointestinais. Mais tarde, trabalhando em um hospital, MacFabe deparou com pacientes com problemas gastrointestinais que tinham sido considerados loucos ou neuróticos e enviados à ala psiquiátrica por engano. Ele também tratou de um paciente que, como a Senhorita A na Bélgica, foi admitido devido a uma psicose súbita e considerado esquizofrênico. Mas seus sintomas gastrointestinais revelaram a causa verdadeira de sua doença: doença de Whipple mais uma vez. Como as crianças autistas de quem o Dr. MacFabe cuidara quando adolescente, aquele jovem era extremamente insistente, chamando “Dr. MacFabe! Dr. MacFabe! Dr. MacFabe!” o dia inteiro. Em uma semana, os antibióticos já o haviam curado, devolvendo-o à sua antiga personalidade. Mais tarde, esse paciente contou que o Dr. MacFabe parecia um personagem de sonho que ganhou vida.&lt;br /&gt;
Na mente de MacFabe, essas experiências associaram firmemente o intestino e o cérebro. A ideia de que substâncias químicas produzidas por um único micróbio pudessem induzir a loucura num paciente o cativou. Ao ouvir falar da descoberta de Sydney Finegold – de que crianças autistas melhoraram sob tratamento com antibióticos, como aconteceu com o paciente da doença de Whipple –, MacFabe começou a ligar os pontos. Nessa mesma época, ele estava estudando como ocorriam os danos no cérebro durante derrames e pesquisando os efeitos de uma molécula chamada propionato.&lt;br /&gt;
Essa molécula faz parte de um grupo de substâncias químicas importantes produzidas pela flora intestinal que resultam da decomposição dos restos não digeríveis de nossas refeições. Conhecidos como ácidos graxos de cadeia curta, os três principais são o acetato, o butirato e o propionato. Todos desempenham vários papéis e são fundamentais para nossa saúde e felicidade. Mas o que impressionou MacFabe foi que, apesar de o propionato ser um composto químico importante do corpo, essa substância também era usada como conservante em produtos de padaria – exatamente o tipo de alimento que muitas crianças autistas desejam. E, ainda por cima, sabe-se que as bactérias do gênero Clostridium produzem propionato, que, em si, não é algo “ruim”. No entanto, o Dr. MacFabe começou a se perguntar se as crianças autistas estavam com overdose de propionato.&lt;br /&gt;
Será que a flora intestinal alterada no autismo estaria produzindo propionato em excesso? E será que essa substância é capaz de afetar o comportamento? MacFabe iniciou uma série de experimentos a fim de descobrir as respostas. Através de uma cânula minúscula posicionada na coluna vertebral de ratos vivos, injetou quantidades ínfimas de propionato no fluido que chega ao cérebro. Após alguns minutos, os ratos começaram a se comportar de forma estranha, girando no mesmo lugar, fixando-se num só objeto e correndo por todo lado. Quando dois ratinhos foram colocados na mesma gaiola e receberam propionato, não pararam para cheirar um ao outro e interagir, como fariam normalmente. Em vez disso, se ignoraram e ficaram correndo em círculos.&lt;br /&gt;
Não havia nada de sutil na reação deles, e a semelhança com comportamentos autistas é impressionante – você pode encontrar os vídeos dos ratinhos na internet. Preferência por objetos em vez de pessoas, ações repetitivas, tiques, hiperatividade – tudo isso sintomas do autismo – ficaram evidentes enquanto o propionato agia no cérebro. Dentro de meia hora o efeito passou e os ratos voltaram a seu comportamento normal. Os animais que receberam soro fisiológico como placebo não apresentaram nenhuma mudança no comportamento. Injetar propionato sob a pele ou alimentar os ratinhos com ele produziram o mesmo efeito.&lt;br /&gt;
O cérebro daqueles ratos havia sido sequestrado por essa molécula minúscula, forçando os animais a se comportarem de forma anormal. Será que o propionato causou nos roedores o mesmo tipo de dano que se vê no cérebro de pessoas autistas? Comparando o cérebro dos animais que haviam recebido propionato com o de pacientes autistas que haviam morrido e passado por uma autópsia, MacFabe e sua equipe ficaram fascinados ao descobrir que tanto um quanto outro estavam repletos de células imunológicas. Havia inflamação – como acontece na esquizofrenia e no TDAH.&lt;br /&gt;
É normal que exista certo nível de inflamação no cérebro, já que sinapses desnecessárias são devoradas pelas mesmas células imunológicas responsáveis por lidar com patógenos. O aprendizado é um equilíbrio delicado entre lembrar e esquecer. Fazer conexões e distinguir padrões é um marco da inteligência, mas se levados longe demais ambos os processos se tornam prejudiciais. Quando MacFabe pôs ratos tratados com propionato num labirinto, descobriu que eles conseguiam descobrir o caminho sem problema. Só que depois não conseguiam “desaprendê-lo” – se o caminho fosse alterado, persistiam com sua lembrança do caminho inicial, batendo com a cabeça nas paredes recém-instaladas.&lt;br /&gt;
Isso nos lembra a memória e o amor à rotina de alguns autistas. Flo e Kay Lyman são as únicas autistas savant gêmeas no mundo e já apareceram em vários documentários de TV. Apesar das dificuldades nas interações sociais e da incapacidade de cuidarem de si, elas possuem uma memória extraordinária. As duas são capazes de lembrar, para qualquer dia do passado, que tempo fazia, o que comeram e o que o apresentador de seu programa favorito de TV vestia. Elas também sabem o nome e o cantor de todas as músicas que chegaram às paradas de sucesso, assim como sua data de lançamento. Suas lembranças, uma vez formadas, ficam permanentemente fixadas, como se as sinapses que as mantêm nunca pudessem ser descartadas. Enquanto isso, outras sinapses, como aquelas contendo os passos para se preparar uma refeição, não sobrevivem no cérebro delas.&lt;br /&gt;
Quando Leo Kanner estava descrevendo o autismo, observou o mesmo fenômeno. Depois de aprender uma definição qualquer, as crianças que participaram de seu estudo pareciam incapazes de adaptá-la. O mais perturbador foi que muitas das crianças referiam-se a si próprias como “você”. Ao lhes dizerem “Você quer sair para brincar?” e “Você quer um café da manhã?”, os pais inadvertidamente ensinaram aos filhos que o nome deles era “você”. Essa memória era inflexível. Uma criança no estudo de Kanner chegou a chamar os pais de “eu” e a si própria de “você”.&lt;br /&gt;
Derrick MacFabe descobriu que os ratos tratados com propionato, incapazes de esquecer o caminho original pelo labirinto, apresentaram um aumento nos compostos químicos do cérebro envolvidos na formação da memória. Por mais problemático que pareça, MacFabe acredita que isso tem um propósito evolutivo. Se as bactérias são capazes de liberar um composto químico que faz o cérebro se lembrar, elas podem assegurar que seu hospedeiro – o corpo humano – vai se lembrar de onde encontrar o alimento que permite que elas se reproduzam. Será que no autismo, ele indaga, “a superativação desse caminho pode levar ao ‘esquecimento deficiente’, a comportamentos obsessivos, interesses alimentares e aumento de lembranças restritivas?” De fato, a microbiota parece crucial para a formação da memória. Camundongos livres de germes colocados num labirinto têm dificuldade para achar o caminho devido a deficiências em sua memória operacional – sua capacidade de reter informações sobre os caminhos que já testaram ao se deslocarem. Se MacFabe estiver certo, alterações simples na composição da microbiota poderiam estar inundando o corpo com propionato, afetando a capacidade do cérebro de formar e romper sinapses durante o desenvolvimento infantil.&lt;br /&gt;
Mas como o propionato e outros compostos químicos, capazes de causar danos em grandes concentrações, saem do intestino e chegam ao cérebro? A Dra. Emma Allen-Vercoe é uma microbiologista britânica que trabalha na Universidade de Guelph e foi apresentada à ideia de que a causa do autismo estaria no intestino por Sydney Finegold durante um almoço. Assim como MacFabe, Allen-Vercoe suspeita que a combinação de micro-organismos no intestino da criança é capaz de produzir compostos químicos que afetam a função cerebral, o sistema imunológico e os genes humanos.&lt;br /&gt;
Em vez de buscar uma única espécie responsável pelos danos, ela resolveu adotar uma abordagem holística, encarando a flora intestinal como um ecossistema, à semelhança de uma floresta tropical. Retirar qualquer espécie da floresta e estudar seu comportamento isoladamente, em uma gaiola, não revelará muito sobre sua natureza real. Isso se aplica também aos micróbios, que são influenciados pela presença de outros micro-organismos e pelos compostos químicos produzidos por eles. Assim, em vez de estudar cada espécie individualmente, Allen-Vercoe recriou o lar da microbiota, com todos os seus habitantes – só que fora do intestino. Uma massa borbulhante e fedorenta de tubos e garrafas, esse lar artificial dos micróbios é carinhosamente chamado de Robogut, que poderia ser traduzido como intestino-robô.&lt;br /&gt;
Usando o Robogut, Allen-Vercoe causou uma reviravolta: dos dias em que cultivar bactérias em laboratório era a única forma de estudá-las, passando pela revolução do sequenciamento do DNA, e de volta à cultura. Ela discorda da ideia de que os micróbios do intestino são impossíveis de cultivar: “É um total absurdo. Você precisa de muito equipamento, de uma grande dose de paciência e de um olho bem apurado. Agora temos pilhas e pilhas dessas espécies ‘incultiváveis’ guardadas no congelador.”&lt;br /&gt;
Allen-Vercoe suspeita de que a flora intestinal alterada no autismo está danificando as células que revestem o cólon, mas em vez de perguntar quais bactérias são culpadas, ela está perguntando quais substâncias químicas produzidas pela microbiota são responsáveis. A microbiota de uma criança com autismo grave é extraída, em forma de fezes, e recebe um novo lar na Robogut. Numa semelhança um tanto grosseira com nosso próprio tubo interior, o robô possui um tubo pelo qual é alimentado e outro pelo qual libera gases nocivos. Um terceiro tubo permite que parte do líquido em que os micróbios vivem seja filtrado. É esse “ouro líquido” que conserva as substâncias químicas – conhecidas como metabólitos – que a microbiota produziu.&lt;br /&gt;
A esperança é que, testando o efeito do ouro líquido nas células do intestino em uma placa de Petri, a equipe de pesquisa de Allen-Vercoe seja capaz de descobrir quais metabólitos estão causando danos ao cérebro de crianças autistas e o que fazem exatamente. Uma de suas alunas de pós-graduação, Erin, vem pesquisando a ideia. A moça tem um interesse pessoal em solucionar o enigma do autismo porque um membro de sua família foi afetado: seu irmão, Andrew Bolte.&lt;br /&gt;
Em 1998, Ellen Bolte produziu seu primeiro artigo científico. Intitulado “Autismo e Clostridium tetani”, foi publicado na revista Medical Hypotheses. Nele, ela expõe sua teoria de que o autismo resultaria da invasão de C. tetani no intestino de uma criança após sua microbiota protetora normal ter sido exterminada por antibióticos. O artigo de Ellen é uma obra-prima de síntese epidemiológica e microbiológica, reunindo indícios de dezenas de estudos para respaldar cada aspecto de sua hipótese. Um grande trabalho de retórica científica, a primeira contribuição de Ellen ao seu novo campo de pesquisa atesta seu passado como programadora na área da computação, em que cada pensamento deve se seguir logicamente do anterior. Ela teve a coragem de abrir a caixa de Pandora das possibilidades médicas – citando inclusive a ideia de que a alteração dos micróbios do corpo humano pode ter consequências comportamentais. Essa realização atesta não apenas a inteligência e a determinação de Ellen, mas também a que ponto pode chegar uma mãe que precisa proteger seu filho.&lt;br /&gt;
Mas, como observa Derrick MacFabe – cuja pesquisa foi influenciada pelo pioneirismo de Ellen: “Hipóteses, apesar de essenciais, não são suficientes. Elas precisam ser testadas.”&lt;br /&gt;
Felizmente, Ellen Bolte transmitiu tanto sua hipótese quanto sua noção inata de lógica científica para sua filha, Erin – que descobriu sua vocação e tenta solucionar o mistério da doença que mudou a vida de seu irmão mais novo, Andrew, cerca de vinte anos atrás. Ela começou sua carreira científica sob a orientação da Dra. Emma Allen-Vercoe, na Universidade de Guelph, em Ontário, no Canadá. Usando o Robogut, seu objetivo é testar a hipótese de sua mãe em seu sentido mais amplo.&lt;br /&gt;
Erin quer entender exatamente o que aconteceu no intestino do seu irmão e das onze outras crianças cujo autismo melhorou durante o teste com antibióticos de que participaram. Ela também quer saber por que pais de crianças autistas relatam uma melhora nos sintomas quando retiram certos alimentos da dieta dos filhos. O Robogut lhe permite ver exatamente o que muda na flora intestinal dos autistas quando ela acrescenta antibióticos, glúten e caseína (proteínas do trigo e do leite) à mistura. Já sabemos que os autistas podem melhorar quando tomam certos antibióticos, mas quais metabólitos deixam de ser produzidos quando Erin dá ao Robogut os mesmos medicamentos? E, como os autistas costumam piorar quando comem artigos de padaria e confeitaria, quais metabólitos são produzidos em maior quantidade quando ela alimenta o Robogut com glúten?&lt;br /&gt;
Os experimentos de Erin vão lançar uma base não apenas para entendermos o papel desempenhado pela microbiota no autismo, mas também para descobrirmos como ela influencia muitos outros distúrbios neuropsiquiátricos. Sua mãe, Ellen, foi bem além de sua obrigação, aplicando sua lógica detetivesca no exame de uma doença muito complexa e abrindo um caminho extraordinário na área da pesquisa científica quando ninguém queria lhe dar ouvidos. Agora Erin recebeu o bastão e está aplicando sua própria inteligência e determinação para achar respostas às perguntas que cada vez mais pais estão precisando fazer. Para Andrew, cuja janela de desenvolvimento da infância já se fechou, é provável que o autismo continue limitando sua vida. Para Erin, Derrick MacFabe e Emma Allen-Vercoe, a esperança é impedir que essa doença insidiosa afete, conforme o previsto, todas as famílias americanas e outras ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
Quando se trata de saúde, gostamos de pensar que somos produto de nossos genes e experiências. Muitos de nós atribuímos nossas virtudes aos obstáculos que superamos, às tribulações de que escapamos e aos triunfos pelos quais lutamos. Consideramos nossa personalidade uma entidade fixa – “não sou de correr riscos” ou “gosto das coisas organizadas” –, como se fosse resultado de algo intrínseco a nós. Alcançamos nossas realizações através de nossa determinação, e nossos relacionamentos refletem a força de nosso caráter. Bom, é assim que gostamos de pensar.&lt;br /&gt;
Mas o que significa para o livre-arbítrio e nossas conquistas a ideia de que não somos senhores de nós mesmos? O que isso significa para a natureza humana e para nosso senso de individualidade? A ideia de que o Toxoplasma – ou qualquer outro micro-organismo que habita o seu corpo – possa influenciar seus sentimentos, suas decisões e suas ações é bem desconcertante. Mas se isso não deixa você perplexo o suficiente, pense no seguinte: micróbios são transmissíveis. Assim como o vírus da gripe ou uma infecção bacteriana na garganta podem ser transmitidos de uma pessoa para outra, a microbiota também pode. A ideia de que a configuração de sua comunidade microbiana possa receber contribuições das pessoas que você encontra e dos lugares aonde vai dá novo sentido à ideia de expansão cultural da mente. O ato de compartilhar comida e toaletes com outras pessoas representa uma oportunidade à troca de micróbios – tanto para o bem quanto para o mal. A possibilidade de que alguém contraia micro-organismos que encorajam o empreendedorismo numa escola de negócios, ou um gosto aventureiro pelo motociclismo numa pista de corrida, não seria surpresa. Mas a ideia de que traços de personalidade possam ser transmitidos de pessoa para pessoa é mesmo capaz de abrir novíssimos horizontes.&lt;br /&gt;
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Em 2005, Jeremy Nicholson, professor de química biológica do Imperial College de Londres, apresentou uma ideia polêmica: de que os antibióticos estavam por trás da epidemia da obesidade. Os experimentos anteriores de Fredrik Bäckhed, mostrando que a microbiota desempenhava um papel importante na absorção e no armazenamento de energia provinda dos alimentos, abriram a mente dos cientistas para a possibilidade de que o aumento de peso pudesse ser controlado pelos micróbios. Se os micróbios do intestino podiam fazer os camundongos ganharem peso, será que a alteração na composição de sua flora intestinal provocada pelos antibióticos poderia estar ligada à obesidade humana?&lt;br /&gt;
Embora apenas na década de 1980 o número de pessoas acima do peso e obesas tenha aumentado de verdade, a tendência rumo à epidemia atual começou na década de 1950. Nicholson se perguntou se a época da introdução dos antibióticos para uso público em 1944 – apenas poucos anos antes do início do aumento inexorável nos casos de obesidade – foi mais do que mera coincidência. Suas suspeitas não se deveram simplesmente à correlação cronológica. Ele já sabia que havia décadas os fazendeiros vinham usando antibióticos para engordar o gado.&lt;br /&gt;
No fim da década de 1940, cientistas americanos descobriram por acidente qunue ministrar antibióticos a frangos aumentava seu crescimento em até 50%. Os tempos eram difíceis, e a crescente população urbana dos Estados Unidos estava farta do alto custo de vida. Eles já haviam sofrido privações demais, e carne mais barata estava no alto de sua lista de desejos do pós-guerra. Os efeitos dos antibióticos nos frangos pareciam nada menos que milagrosos, e os fazendeiros esfregaram as mãos, satisfeitos ao descobrirem que bois, porcos, carneiros e perus apresentavam a mesma reação a pequenas doses diárias desses medicamentos: um enorme aumento de peso.&lt;br /&gt;
Embora não tivessem ideia de como os antibióticos promoviam o aumento nem de quais poderiam ser as consequências, a comida estava em falta e os preços andavam altos. Era espetacular alcançar ganhos de produção daquela magnitude pelo custo de ração de frango. Desde então, a chamada dosagem subterapêutica de antibióticos tem sido uma parte essencial da agropecuária. As estimativas são vagas, mas é possível que, nos Estados Unidos, até 70% desses medicamentos sejam usados em animais de fazenda. Além disso, o benefício adicional de mais animais poderem ficar espremidos em um espaço menor sem sucumbirem a infecções apenas aumentou seu uso. Sem esses artifícios, esse país teria que criar 452 milhões de frangos, 23 milhões de bois e 12 milhões de porcos extras a cada ano para produzir o mesmo peso de carne.&lt;br /&gt;
A preocupação de Nicholson foi que, se os antibióticos podiam deixar os animais muito mais gordos, que prova tínhamos de que não estavam fazendo o mesmo conosco? O sistema digestivo humano não é tão diferente assim do dos porcos. Tanto porcos quanto seres humanos seguem uma dieta onívora, têm um estômago simples e um grande cólon, cheio de micróbios que se utilizam das sobras do nosso próprio processo digestivo no intestino delgado. Os antibióticos podem aumentar as taxas de crescimento dos leitões em cerca de 10% ao dia. Para os fazendeiros, isso significa que podem abatê-los com dois ou três dias de antecedência – um grande ganho se levarmos em conta criações de milhares de animais. Será possível que os humanos também estejam sendo engordados pelo consumo voraz de antibióticos?&lt;br /&gt;
O maior desejo de muitas pessoas que lutam contra o excesso de peso é emagrecer, mas, por mais que tentem, elas não conseguem. Esse desejo é tão poderoso que, em um estudo, pacientes obesos mórbidos que perderam muito peso declararam que preferiam perder uma perna ou ficar cegos a retornar à obesidade. Todos os 47 pacientes disseram que preferiam ser magros a obesos multimilionários.&lt;br /&gt;
Se as pessoas estão tão desesperadas para emagrecer, por que é tão fácil ganhar peso e tão difícil perdê-lo e se conservar assim? Mesmo as estimativas mais otimistas indicam que apenas 20% das pessoas com excesso de peso conseguem perdê-lo e mantê-lo assim por mais de um ano a certa altura da vida. Além disso, algumas pessoas que conseguiram perder peso relataram que, para se conservarem magras, passaram a ingerir um quantidade muito menor de calorias do que seria o normal numa dieta típica de manutenção de peso para sua altura. Emagrecer é tão difícil que algumas campanhas do governo desistiram de tentar fazer com que as pessoas percam peso. Elas simplesmente pedem que evitemos engordar ainda mais. A campanha americana “Mantenha, não ganhe” segue esse princípio. Muitos locais de trabalho agora oferecem cursos e orientações para ajudar os funcionários a não engordarem durante épocas tradicionais de comilança, como as férias e o Natal.&lt;br /&gt;
Trata-se de uma suspeita que está de acordo com nossa compreensão crescente da obesidade como doença. Se, como expliquei no capítulo 2, o Professor Nikhil Dhurandhar está certo ao pensar que não se trata de uma simples questão de desequilíbrio entre calorias ingeridas e calorias gastas, mas de uma doença complexa com muitas causas possíveis, os antibióticos poderiam se revelar um importante fator que estaria contribuindo para a epidemia. Isso forneceria uma boa explicação para alguns dados extraordinários associados à obesidade. O mero fato de 65% da população de certos países desenvolvidos apresentarem sobrepeso ou obesidade seria suficiente para nos apresentar uma visão desconcertante do comportamento humano. Será que somos mesmo tão preguiçosos, tão gulosos, tão ignorantes e tão desmotivados assim a ponto de existirem mais membros de nossa espécie com excesso de peso do que magros? Ou será que as razões para nosso excesso de peso são mais profundas do que havíamos pensado?&lt;br /&gt;
Uma epidemia de obesidade induzida ou facilitada por antibióticos não apenas nos absolveria de parte da responsabilidade por nosso excesso de peso, como também poderia nos oferecer um meio de derrotá-lo sem recorrer a tantas dietas aparentemente inúteis.&lt;br /&gt;
Em 1999, Anne Miller, ex-enfermeira nascida em Nova York, morreu aos 90 anos, tendo vivido 57 anos a mais do que deveria. Em 1942, quando tinha 33 anos, Miller sofreu um aborto. Ela então desenvolveu uma infecção estreptocócica que a deixou à beira da morte num leito de hospital em Connecticut. Quando a temperatura de Miller se aproximou dos 42oC, seu médico pediu à família permissão para uma medida drástica, numa tentativa de salvar sua vida.&lt;br /&gt;
O médico queria testar um novo medicamento, nunca testado em paciente algum, que vinha sendo desenvolvido por uma empresa farmacêutica de Nova Jersey: a penicilina. Miller estava delirando de febre havia um mês, quando, às três e meia da tarde de 14 de março, recebeu a injeção de uma colher de chá do remédio – metade de todo o antibiótico que havia no mundo. Às sete e meia da noite sua febre tinha baixado e sua doença se estabilizara. Alguns dias depois, já estava plenamente recuperada. A vida de Anne Miller foi a primeira a ser salva pelos antibióticos.&lt;br /&gt;
Desde então, os antibióticos impediram a morte de milhões e milhões de pessoas, começando pelos soldados da Segunda Guerra Mundial feridos nas praias da Normandia no Dia D, em 1944. À medida que os relatos das recuperações milagrosas alcançavam o público, a demanda pelo medicamento cresceu. Em março de 1945, o ritmo da produção da penicilina se acelerara e, nos Estados Unidos, qualquer pessoa podia comprar um tratamento completo na farmácia local. Em 1949, o preço caíra de US$20, por 100 mil unidades de penicilina, para apenas 10 centavos. Nos 65 anos desde então, outras vinte variedades de antibióticos foram desenvolvidas, cada uma combatendo as bactérias de forma diferente. Entre 1954 e 2005, a produção de antibióticos nos Estados Unidos disparou, passando de 900 toneladas anuais para 23 mil toneladas. Essas drogas maravilhosas mudaram o modo como vivemos e morremos. Sua invenção é um dos maiores triunfos da humanidade, impedindo o sofrimento e a morte nas mãos de nosso mais velho e mortal inimigo. É difícil imaginar agora, mas os antibióticos já foram considerados um remédio milagroso. Seu uso estava reservado para os casos mais desesperadores – e literalmente salvava vidas.&lt;br /&gt;
Agora, para o bem ou para o mal, seu uso é pandêmico. Eu o desafio a encontrar um único adulto num país desenvolvido que não tenha tomado antibiótico ao menos uma vez na vida. Na Grã-Bretanha, as mulheres fazem, em média, setenta tratamentos com antibióticos no decorrer da vida. Setenta. Isto não está muito longe de um tratamento por ano. O homem médio, talvez por sua relutância em ir ao médico ou devido a diferenças em seu sistema imunológico, passa por cinquenta tratamentos. Na Europa, 40% das pessoas tomaram antibióticos nos últimos doze meses. Na Itália, a cifra é de 57%, equilibrada por proporções menores na Suécia (22%). Os americanos empatam com os italianos: cerca de 2,5% deles estão tomando antibióticos em um dado momento.&lt;br /&gt;
Na verdade, encontrar uma criança com menos de 2 anos que já não tenha tomado antibiótico se mostrará uma tarefa difícil. Cerca de um terço das crianças recebem antibióticos aos seis meses, e esse número aumenta para quase metade com 1 ano, e três quartos com 2 anos. Aos 18 anos, as pessoas nos países desenvolvidos já terão feito de dez a vinte tratamentos com antibióticos em média. Cerca de um terço de todos os antibióticos prescritos por médicos são consumidos por crianças. Nos Estados Unidos, há uma taxa anual de novecentos tratamentos com antibiótico para cada mil crianças. As crianças espanholas tomam assustadoras 1.600 séries de antibioticoterapia por cada mil crianças ao ano.&lt;br /&gt;
Cerca de metade dessas prescrições infantis são indicadas para infecções do ouvido, às quais as crianças pequenas estão particularmente propensas. O pequeno canal que liga o ouvido à garganta – aquele que entope com a mudança de pressão – é quase horizontal nos bebês e vai se inclinando com a idade. Por isso, nas crianças, o catarro não é tão facilmente drenado para a garganta, e o canal tende a entupir com detritos. Crianças que chupam chupeta têm uma chance duas vezes maior de contrair infecções no ouvido – ou seja, quase todas. Essas infecções são levadas a sério pelos médicos graças a dois riscos, ambos bem pequenos: o primeiro é que crianças com infecções repetidas podem ter dificuldade de audição, numa idade crucial para aprenderem a falar, e o segundo é que essas infecções podem se agravar caso penetrem mais fundo e afetem o osso mastoide atrás do ouvido. Conhecida como mastoidite, essa infecção bacteriana pode causar danos permanentes à audição ou mesmo levar à morte. Embora sejam ínfimos, esses dois riscos são suficientes para persuadirem muitos médicos a adotarem a abordagem que consideram mais segura.&lt;br /&gt;
Como seria fácil prever, nem todo esse consumo de remédios é estritamente necessário. O instituto de saúde pública norte-americano – o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças – estima que metade dos antibióticos prescritos no país são desnecessários ou inapropriados. Muitas dessas prescrições são feitas para pessoas que estão passando por um resfriado ou gripe, desesperados por uma cura, e concedidas por médicos exaustos demais para lhes negar algo que possa acalmá-los. Isso sem mencionar que tanto resfriados quanto gripes são causados não por bactérias, mas por vírus, que não são afetados por antibióticos, ou que a maioria dos resfriados desaparece sozinho em dias ou semanas, sem grandes consequências.&lt;br /&gt;
Com o agravamento gradual do problema da resistência aos antibióticos, a pressão recai sobre os médicos para que se tornem mais sensatos em seus hábitos de prescrição. Há muito que melhorar. Nos Estados Unidos, em 1998, três quartos de todos os antibióticos prescritos pelos clínicos gerais foram indicados para cinco tipos de infecções respiratórias: infecções do ouvido, sinusite, faringite (garganta inflamada), bronquite e infecções do trato respiratório superior (ITRS). Dos 25 milhões de pessoas que procuraram um médico para tratar alguma ITRS, 30% delas receberam antibióticos. Não é tão ruim, você pode pensar, até perceber que apenas 5% dessas infecções são causadas por bactérias. O mesmo vale para gargantas inflamadas. Quatorze milhões de pessoas foram diagnosticadas com faringite, e 62% receberam antibióticos. Somente 10% das infecções eram bacterianas. No todo, cerca de 55% das prescrições de antibióticos naquele ano foram desnecessárias.&lt;br /&gt;
Como guardiões dos produtos farmacêuticos, parece que a responsabilidade pelo uso excessivo de antibióticos em última análise acaba recaindo sobre os médicos, mas a ignorância dos pacientes pode representar uma pressão esmagadora. Numa pesquisa realizada em toda a Europa, em 2009, com 27 mil participantes, 53% acreditavam falsamente que os antibióticos matavam vírus, e 47% acreditavam que fossem eficazes contra resfriados e gripe – que são causados por vírus. Para muitos médicos, o medo de mandar um paciente doente embora de mãos abanando, correndo o risco de voltar depois com uma complicação grave de uma infecção bacteriana, é suficiente para persuadi-los a prescrever antibióticos como medida de segurança. Sobretudo os bebês podem ser assustadores para um médico inexperiente: podem estar chorando porque querem carinho ou porque estão com muita dor; podem estar quietos e indiferentes graças a algum remédio que provoca sonolência ou por estarem gravemente doentes. Para um médico jovem, o seguro morreu de velho. Mas será que vale a pena?&lt;br /&gt;
Em alguns casos, vale. Infecções do tórax, por exemplo, muitas vezes acabam se transformando em pneumonia, especialmente em pessoas mais velhas. Para cada idoso com sintomas a quem um tratamento com antibióticos vai evitar uma pneumonia, cerca de quarenta pessoas terão sido tratadas sem qualquer benefício. Mas em várias outras doenças os antibióticos são desperdiçados em muitos pacientes para impedir uma complicação grave em apenas um. Mais de 4 mil pessoas com a garganta inflamada e infecções do trato respiratório superior receberão antibióticos sem motivo, para evitar complicações que atingiriam apenas um paciente. O risco é ainda menor para crianças com infecções no ouvido. Estima-se que cerca de 50 mil crianças precisem ser tratadas com antibióticos para impedir um único caso de mastoidite. Mesmo assim, a maioria das crianças que chega a desenvolver mastoidite se recupera sem problemas, e o risco é de cerca de uma morte em 10 milhões. A resistência aos antibióticos que se desenvolve como resultado do tratamento de todas essas crianças é sem dúvida mais perigosa à saúde pública que o risco ínfimo da própria infecção.&lt;br /&gt;
Está claro que nos países desenvolvidos tomamos grandes quantidades de antibióticos – na maioria das vezes desnecessários. O contraste com o uso desses medicamentos no mundo em desenvolvimento, onde doenças infecciosas ainda são comuns e eles são capazes de salvar vidas, foi vivamente ilustrado numa entrevista da Rádio 4 da BBC com o professor Chris Butler, médico de família e professor de Atenção Primária à Saúde na Universidade de Cardiff, no País de Gales. Ele diz:&lt;br /&gt;
Antes de vir para o Reino Unido eu trabalhava num grande hospital rural na África do Sul, onde o fardo das doenças infecciosas era pesado e pessoas normalmente aptas e saudáveis chegavam com pneumonia e meningite em grande quantidade. Elas estavam à beira da morte e, se ministrássemos o antibiótico certo em tempo hábil, em poucos dias costumavam se pôr de pé e sair andando. Estávamos fazendo os mortos se levantarem e caminharem com o milagre dos antibióticos. Quando vim para o Reino Unido, comecei a trabalhar como clínico geral. Aqui, estávamos usando os mesmos antibióticos que haviam salvado tantas vidas na África do Sul, mas para tratar o que eram efetivamente apenas crianças com nariz escorrendo.&lt;br /&gt;
Então por que não tomar antibióticos assim mesmo? Que dano poderiam causar? A preocupação de Butler com o uso desses remédios para tranquilizar pacientes ligeiramente doentes se baseia sobretudo no desenvolvimento da resistência aos antibióticos. Ele, como muitos outros cientistas e médicos, prevê que logo chegaremos a uma era pós-antibióticos – bem parecida com a era pré-antibióticos, em que as cirurgias representavam um alto risco de vida, e até os menores ferimentos podiam matar. Essa previsão é tão antiga quanto os próprios antibióticos. Sir Alexander Fleming, após descobrir a penicilina, alertou repetidas vezes que usar uma dose pequena demais por um tempo curto demais ou sem um bom motivo iria provocar a resistência aos antibióticos.&lt;br /&gt;
Ele estava certo. Vez por outra, as bactérias desenvolvem resistência aos antibióticos. As primeiras resistentes à penicilina foram descobertas poucos anos após seu lançamento. É simples assim: os indivíduos suscetíveis morrem, deixando para trás aqueles que, por acaso, têm uma mutação que os torne resistentes. Então as bactérias resistentes se reproduzem, dando origem a toda uma população imune ao antibiótico. Na década de 1950, a Staphylococcus aureus se tornou resistente à penicilina. Alguns membros dessa espécie tinham um gene que produzia uma enzima chamada penicilinase, que quebra a penicilina, tornando-a inócua. Como todas as bactérias sem esse gene eram mortas, aquelas que o possuíam logo se tornaram dominantes.&lt;br /&gt;
Em 1959, um antibiótico novo – a meticilina – foi lançado no Reino Unido para tratar as infecções de Staph. aureus resistentes à penicilina. Mas apenas três meses depois, uma nova cepa dessa espécie surgiu num hospital em Kettering. Resistente não apenas à penicilina, mas à meticilina também, ela é agora conhecida como Staphylococcus aureus resistente à meticilina (SARM). Essa infecção mata dezenas ou centenas de milhares de pessoas por ano, e não é a única bactéria resistente a antibióticos.&lt;br /&gt;
As consequências são não apenas sociais, mas também individuais: “Sabemos que o maior fator de risco para contrair uma infecção resistente é ter tomado antibióticos recentemente.” Como diz Chris Butler:&lt;br /&gt;
Portanto, se você tomou antibióticos, ao contrair sua próxima infecção as chances de que esteja resistente são bem maiores. E isso é um problema, porque mesmo as infecções comuns como as do trato urinário, se forem causadas por um organismo resistente, se estendem por mais tempo, as pessoas precisam tomar mais antibióticos adicionais, o custo aumenta para o sistema público de saúde e os sintomas dos pacientes ficam muito piores. Dessa forma, o uso desnecessário de antibióticos afeta não apenas a sensibilidade futura das bactérias, mas também a qualidade de vida dos pacientes.&lt;br /&gt;
A resistência aos antibióticos, porém, parece não ser o único ponto negativo de nosso uso excessivo desses medicamentos. Chris Butler levanta outra preocupação: os efeitos colaterais nocivos. Ele e sua equipe realizaram um grande teste clínico para avaliar os benefícios dos antibióticos no tratamento de pessoas com tosse de início súbito.&lt;br /&gt;
Descobrimos que tínhamos que tratar trinta pacientes para que um se beneficiasse em termos de evitar um sintoma novo ou pior, mas ao mesmo tempo, para cada 21 pessoas tratadas, uma foi prejudicada. Assim você vê que o número de pessoas tratadas que alcançam benefícios é mais ou menos contrabalançado pelo número daquelas que são prejudicadas pelo mesmo tratamento.&lt;br /&gt;
Esses efeitos colaterais desagradáveis costumam assumir a forma de erupções cutâneas e diarreia.&lt;br /&gt;
Nos setenta anos desde o desenvolvimento da penicilina, vinte novos tipos de antibióticos já foram sintetizados. Eles estão na lista dos medicamentos mais prescritos, e os esforços para descobrir ainda mais compostos químicos de ação antibiótica para combater a ameaça sempre renovada das bactérias em evolução prossegue. Porém, nosso triunfo sobre nosso maior adversário natural – as bactérias – tem ocorrido à custa dos danos colaterais que os antibióticos vêm causando ao longo do caminho. Pois esses poderosos medicamentos destroem não apenas as bactérias que nos fazem adoecer, mas também aquelas que nos mantêm saudáveis.&lt;br /&gt;
Os antibióticos não conseguem mirar em uma única cepa de bactéria. Como a maioria é de “amplo espectro”, mata uma grande variedade de espécies, o que é muito útil para os médicos, pois significa que as pessoas podem receber tratamento para todo tipo de infecções sem que se saiba exatamente qual bactéria está causando o problema. Ser mais preciso significaria ter que fazer uma cultura e identificar o culpado, um processo lento, caro e às vezes impossível. Até os antibióticos mais restritos, de “espectro reduzido”, não destroem apenas a cepa bacteriana causadora da doença. Quaisquer outras bactérias pertencentes à mesma família sofrerão o mesmo destino. As consequências desse bactericídio em massa são bem mais profundas do que qualquer um previu – inclusive Sir Alexander Fleming.&lt;br /&gt;
Essas duas desvantagens do uso de antibióticos – resistência e danos colaterais – combinam suas forças em uma doença terrível: a infecção por Clostridium difficile. Essa bactéria, mais conhecida como C. diff, se tornou um grave problema na Inglaterra em 1999, quando matou quinhentas pessoas – muitas delas após o tratamento com antibióticos. Em 2007, cerca de 4 mil pacientes morreram pelo mesmo motivo.&lt;br /&gt;
Não é uma forma agradável de morrer. A C. diff vive no intestino, onde produz uma toxina que causa uma diarreia contínua, fedorenta e aquosa. Com ela vem a desidratação, uma terrível dor abdominal e a rápida perda de peso. Ainda que as vítimas da C. diff escapem da insuficiência renal, talvez tenham que sobreviver também ao megacólon tóxico. Um megacólon é isso mesmo que a palavra diz: o excesso de gases produzidos no intestino faz o cólon inchar e atingir proporções muito acima de seu tamanho normal. À semelhança da apendicite, o risco é de que estoure, com consequências ainda mais mortais. Com a matéria fecal e todo tipo de bactérias liberadas para dentro do ambiente estéril da cavidade abdominal, as chances de sobrevivência caem drasticamente.&lt;br /&gt;
A incidência crescente da C. diff e sua taxa de mortalidade resultam em parte da resistência aos antibióticos. Na década de 1990, essa espécie desenvolveu uma cepa nova e perigosa que se tornou cada vez mais comum em hospitais. Além de mais resistente, era mais tóxica. Mas uma causa subjacente coloca nosso uso excessivo de antibióticos sob uma perspectiva assustadora. A C. diff vive no intestino de algumas pessoas, não causando grandes problemas, mas tampouco trazendo benefícios. No entanto, ela se torna nociva quando tem a menor oportunidade – que fica a cargo dos antibióticos. Normalmente, quando a flora intestinal está saudável e em equilíbrio, a C. diff é mantida sob controle, ficando restrita a pequenos bolsões onde não pode causar nenhum dano. Com o uso de antibióticos, porém, sobretudo os de amplo espectro, a microbiota normal é perturbada e essa espécie consegue se estabelecer.&lt;br /&gt;
Se os antibióticos são capazes de permitir o florescimento da C. diff, a pergunta é: será que a ingestão de antibióticos muda a composição de nossa microbiota? E, se muda, quanto tempo esse efeito dura? A maioria das pessoas terá experimentado o inchaço e a diarreia decorrentes de um tratamento com antibióticos. Trata-se do dano colateral mais comum do uso desses medicamentos, a perturbação da microbiota: a disbiose. Em geral, esses sintomas desaparecem alguns dias depois do fim do tratamento. Mas como ficam os micróbios sobreviventes? Será que eles recuperam seu equilíbrio normal?&lt;br /&gt;
Uma equipe de pesquisadores na Suécia fez essa mesma pergunta em 2007. Estavam particularmente interessados no que acontece com as espécies do gênero Bacteroides, que são especializadas em digerir os carboidratos vegetais e, como vimos no capítulo 2, têm grande impacto sobre o metabolismo humano. Os pesquisadores dividiram alguns voluntários saudáveis em dois grupos, dando à metade deles o antibiótico clindamicina por sete dias e deixando a outra metade sem nenhum tratamento. Os micróbios do intestino dos pacientes que receberam clindamicina foram drasticamente afetados logo após a medicação. A diversidade das Bacteroides em particular caiu muito. A microbiota dos dois grupos foi avaliada a intervalos de poucos meses, mas, ao final do estudo, as populações de Bacteroides do grupo da clindamicina ainda não haviam retornado à sua composição original. O tratamento havia acabado dois anos antes.&lt;br /&gt;
A ingestão de ciprofloxacina – um antibiótico de amplo espectro que pode ser usado para tratar infecções do trato urinário e sinusite – durante apenas cinco dias tem um efeito semelhante. Ele tem um impacto “profundo e rápido” sobre a microbiota, alterando a composição da flora intestinal em apenas três dias. A diversidade bacteriana cai e o tamanho de cerca de um terço das populações presentes muda com o tratamento. Essa mudança persiste por semanas – e algumas espécies jamais se recuperam. As consequências do uso de antibióticos em crianças pequenas podem ser ainda mais drásticas. Num estudo para avaliar as mudanças na microbiota de crianças ao longo do tempo, um tratamento com antibióticos deixou um bebê com tão poucas bactérias que os pesquisadores sequer conseguiram detectar qualquer DNA.&lt;br /&gt;
Esse impacto de longo prazo na flora intestinal tem sido observado em ao menos meia dúzia de nossos antibióticos mais comuns, cada um apresentando um efeito diferente. Mesmo o tratamento mais curto e a menor dose podem ter consequências que em muito superam o problema original. Talvez isso não deva ser tão ruim, afinal, uma mudança não necessariamente é para pior. Mas pense na ascensão das doenças do século XXI. Diabetes tipo 1 e esclerose múltipla na década de 1950, alergias e autismo no final da década de 1940. A epidemia de obesidade tem sido atribuída ao advento dos supermercados de autosserviço e aos prazeres sem culpa associados do consumo anônimo. Mas quando foi que esses males começaram a se proliferar? Nos anos 1940 e 1950. Essas datas coincidem com outro acontecimento importante: a recuperação de Anne Miller, ou, mais precisamente, os desembarques do Dia D em 1944, quando os antibióticos se tornaram disponíveis em grandes quantidades.&lt;br /&gt;
Seu emprego nesse dia histórico foi logo seguido pela liberação de seu uso público. A sífilis foi o alvo principal, já que afetava 15% dos adultos em algum ponto de suas vidas. Em pouco tempo, a produção de antibióticos ficou barata e esse medicamento passou a ser prescrito com frequência. A penicilina permaneceu um grande favorito, mas cinco outras classes de antibióticos foram lançadas no espaço de uma década, cada uma tendo como alvo um ponto fraco específico de alguma bactéria.&lt;br /&gt;
No entanto, houve uma ligeira demora entre 1944 e o início da ascensão das doenças do século XXI, o que pode sugerir um desencontro. Mas esse intervalo é previsível. Levou tempo até que o uso de antibióticos se tornasse generalizado, que novos tipos de antibiótico fossem desenvolvidos, que as crianças crescessem sob a influência desses remédios em seu corpo e que as doenças crônicas se desenvolvessem. Também levou tempo para os efeitos se tornarem evidentes em populações, países e continentes inteiros. Se o lançamento dos antibióticos em 1944 é de algum modo responsável por nosso estado de saúde atual, os anos 1950 são o período exato em que devemos esperar notar o surgimento de seu impacto.&lt;br /&gt;
Mas não vamos nos precipitar. Como qualquer cientista se apressaria em observar, correlação nem sempre significa causa. A relação entre o momento da introdução dos antibióticos e o aumento das doenças crônicas pode ser tão irreal quanto a ideia de que os supermercados de autosserviço são responsáveis pelo aumento da obesidade. Associações isoladas, embora funcionem como guias úteis, nem sempre proporcionam um vínculo causal.&lt;br /&gt;
Para encontrarmos um real vínculo causal, precisamos de duas coisas. A primeira são indícios de que essa ligação seja real. Será verdade que o uso de antibióticos é responsável por um risco maior de desenvolver alguma doença do século XXI? A segunda é a criação de um mecanismo que explique como o primeiro fato poderia causar o segundo. Como tomar antibióticos provoca alergias, autoimunidade ou obesidade? A ideia de que antibióticos são capazes de alterar a microbiota, mudar o metabolismo (obesidade), atrapalhar o desenvolvimento do cérebro (autismo) e afetar o sistema imunológico (alergias e doenças autoimunes) precisa ser respaldada por mais do que a mera coincidência temporal.&lt;br /&gt;
Desde a década de 1950 sabemos que, além do impacto na engorda do gado, os antibióticos também podem causar aumento de peso em seres humanos. Naquela época – antes do início da epidemia da obesidade –, os antibióticos eram intencionalmente usados em seres humanos por suas propriedades de promoção do crescimento. Alguns médicos pioneiros, conhecedores do impacto recém-descoberto dos antibióticos no crescimento dos animais, experimentaram tratar bebês prematuros e desnutridos. Para os recém-nascidos, os resultados foram espetaculares – eles se beneficiaram com um aumento no peso que os resgatou das garras da morte. Mas da perspectiva das massas atuais de pessoas obesas, esses experimentos deveriam ter soado como um alerta.&lt;br /&gt;
Os resultados não se limitavam aos bebês. Em 1953, um tratamento experimental com antibiótico conduzido pela Marinha americana começou como um teste para descobrir se a aureomicina profilática era capaz de reduzir a ocorrência de infecções por estreptococos. Com a meticulosidade militar típica, a altura e o peso dos recrutas que iriam participar foram registrados, o que levou a equipe de pesquisadores a uma observação surpreendente. Aqueles que receberam antibióticos estavam ganhando bem mais peso do que os que ingeriram um placebo com a mesma embalagem. Como no caso dos bebês, o resultado inesperado do tratamento foi visto em termos do valor nutricional que poderia oferecer, não como um indicador alarmante dos tempos modernos.&lt;br /&gt;
Com a epidemia da obesidade a pleno vapor e nossa nova compreensão do banquete microbiano oferecido em nosso intestino, aqueles experimentos pioneiros apresentam uma visão alternativa do papel dos antibióticos no ganho de peso. É chocante que um efeito tão conhecido sobre animais e até seres humanos tenha sido negligenciado como uma via de pesquisa dadas as proporções dessa epidemia hoje. Sabíamos que os antibióticos causavam aumento de peso porque fizemos uso deles para engordar o gado e melhorar a nutrição das pessoas que mais precisavam, mas ignoramos esse efeito colateral no contexto de uma catástrofe de saúde global.&lt;br /&gt;
Com certeza a nossa população de micro-organismos desempenha um papel importante no aumento de peso, mas será que os antibióticos são capazes de transformar uma microbiota “magra” em “obesa”?&lt;br /&gt;
Essa é uma pergunta difícil: dar antibióticos a grandes números de pessoas saudáveis para ver se elas engordam é algo que passa longe da ética, de modo que os cientistas precisam depender de suas observações e de um ou outro camundongo. No entanto, alguns pesquisadores em Marselha, na França, reconheceram a oportunidade de testar a teoria de que os antibióticos estão engordando as pessoas, usando adultos que vinham sofrendo de uma perigosa infecção nas válvulas cardíacas. Esses pacientes precisavam desesperadamente de grandes quantidades de antibióticos para melhorarem, o que proporcionava uma ótima chance para os cientistas examinarem o ganho de peso associado. Os pesquisadores compararam mudanças em seu Índice de Massa Corporal (IMC) no ano seguinte com as de um conjunto de pessoas saudáveis que não receberam antibióticos. Os pacientes ganharam bem mais peso do que as pessoas saudáveis, mas apenas aqueles com uma combinação específica de antibióticos – vancomicina + gentamicina – foram afetados. Os que tomaram outras variedades de antibióticos foram poupados, não ganhando mais peso do que o grupo de controle.&lt;br /&gt;
Examinando a flora intestinal dos dois grupos, os pesquisadores teriam a chance de ver se alguma espécie particular poderia ser responsável pelo aumento de peso. Descobriram que uma bactéria, chamada Lactobacillus reuteri (um membro do filo Firmicutes), era bem mais abundante no intestino dos pacientes que haviam recebido vancomicina. Como é resistente a esse antibiótico, ela podia se espalhar feito erva daninha, enquanto outras espécies eram dizimadas pelas drogas. Através da guerra biológica, os antibióticos tinham dado uma vantagem injusta ao inimigo. Além disso, a própria L. reuteri produz algumas substâncias químicas antibacterianas. Conhecidos como bacteriocinas, esses compostos podem impedir que outras bactérias voltem a crescer, assegurando o domínio da L. reuteri no intestino. Espécies semelhantes de lactobacilos vêm sendo dadas ao gado há décadas: elas também fazem os animais ganharem peso.&lt;br /&gt;
Outro estudo aproveitou o tesouro de informações da Coorte Nacional de Nascimentos da Dinamarca. Os pesquisadores analisaram dados de saúde de quase 30 mil pares de mãe-filho e descobriram que os antibióticos tinham diferentes efeitos nos bebês, dependendo do peso da mãe. Os filhos de mães esguias se tornavam mais passíveis de ficarem com excesso de peso, enquanto as crianças de mães obesas ou com sobrepeso tiveram o efeito inverso: um risco reduzido de desenvolver excesso de peso. É difícil saber ao certo por que os antibióticos estão tendo o resultado contrário nesses bebês, mas é intrigante pensar que talvez estejam, por um lado, “corrigindo” uma microbiota obesa e, por outro, destruindo uma microbiota magra. Em outro estudo, descobriu-se que 40% das crianças com excesso de peso receberam antibióticos em seus primeiros seis meses – número que, nas crianças cujo peso é normal, cai para apenas 13%.&lt;br /&gt;
Por mais persuasivos que pareçam, esses experimentos não provam que os antibióticos podem causar aumento de peso nem que isso seja consequência de uma microbiota alterada, não um efeito direto do próprio medicamento. Uma equipe da Universidade de Nova York liderada por Martin Blaser – médico infectologista e diretor do Projeto Microbioma Humano – resolveu descobrir precisamente o que os antibióticos podiam causar à microbiota e ao metabolismo. Em 2012, a equipe havia demonstrado que doses baixas de antibiótico perturbavam a composição da microbiota de camundongos jovens, modificavam seus hormônios metabólicos e aumentavam sua massa de gordura, embora não afetasse o ganho de peso em geral. Uma de suas suspeitas era de que a idade fosse fundamental e de que quanto mais cedo dessem antibióticos aos camundongos, mais substancial seria o efeito encontrado. Estudos epidemiológicos já haviam mostrado que bebês humanos que receberam antibióticos nos primeiros seis meses eram mais passíveis de desenvolver excesso de peso do que os que chegavam ao primeiro aniversário sem terem sido expostos ao medicamento. O mesmo vale para animais de fazenda: para obter o melhor efeito de aumento do peso, é importante começar a ministrar os antibióticos o mais cedo possível.&lt;br /&gt;
Num segundo conjunto de experimentos, o grupo de Blaser ministrou doses baixas de penicilina em ratinhas grávidas pouco antes de darem à luz e continuou com os medicamentos durante a amamentação. Como era de esperar, durante o tempo em que eram amamentados, os camundongos machos que ingeriram penicilina cresceram bem mais rápido que os do grupo de controle. Quando chegaram à fase adulta, tanto machos quanto fêmeas ficaram mais pesados, com um percentual de gordura maior que os camundongos que não receberam remédio algum.&lt;br /&gt;
A equipe ficou curiosa em saber o que aconteceria se, além da penicilina, os camundongos fossem submetidos a uma dieta rica em gorduras. As fêmeas com uma dieta normal desenvolveram cerca de 3 gramas de gordura dentro de seus corpinhos até atingirem trinta semanas, independentemente de terem recebido ou não o antibiótico. A massa gorda de um conjunto idêntico de fêmeas que recebeu uma dieta rica em gorduras aumentou em cerca de 5 gramas – elas não ficaram mais pesadas, mas tinham menos massa magra e mais massa gorda. Mas incluir uma dose baixa de penicilina à dieta rica em gorduras fez com que outro grupo de ratinhas desenvolvesse 10 gramas adicionais de massa gorda. De algum modo, a penicilina havia amplificado os efeitos de uma dieta rica em gorduras, fazendo as camundongas armazenarem uma parcela ainda maior das calorias a mais que vinham ingerindo.&lt;br /&gt;
Para os camundongos machos, a dieta rica em gorduras teve um efeito maior, elevando sua massa gorda de 5 gramas com uma dieta saudável (com ou sem penicilina) para 13 gramas. Mais uma vez, a combinação de uma dieta rica em gorduras com uma baixa dose de penicilina aumentou o ganho de gordura, levando a uma massa gorda de 17 gramas. Fica claro que apenas a dieta rica em gorduras já vinha causando obesidade nos camundongos, mas os antibióticos estavam tornando uma situação ruim ainda pior.&lt;br /&gt;
O transplante da comunidade alterada de micróbios produzida pela baixa dose de antibióticos em camundongos livres de germes induziu as mesmas mudanças no peso e no percentual de gordura, indicando que a composição microbiana era a responsável pelo aumento de peso nos camundongos, não os próprios remédios. O preocupante foi que, embora a interrupção do tratamento permitisse a recuperação da microbiota, seus efeitos metabólicos perduraram. A penicilina é a classe de antibiótico mais receitada a crianças e, se podemos nos basear nos camundongos, o tratamento muito precoce com esses medicamentos poderia causar alterações permanentes em seu metabolismo.&lt;br /&gt;
Está cedo demais para sabermos ao certo se os antibióticos causam obesidade ou quais variedades poderiam ser as responsáveis, mas dada a escala grande e crescente da epidemia de obesidade, esses sinais tentadores de uma causa mais profunda do que a gula e a preguiça deveriam nos deixar vigilantes contra o abuso desses complexos e preciosos remédios. Martin Blaser alerta que entre 30% e 50% das mulheres americanas recebem antibióticos como procedimento de rotina durante a gravidez ou no parto, na maior parte penicilina – como os camundongos. Embora muitos deles sejam sem dúvida necessários, é importante avaliarmos os custos e benefícios dessa prática à medida que novos dados vão surgindo.&lt;br /&gt;
Quanto ao gado, evidências de que a resistência aos antibióticos dados aos animais passavam para os seres humanos colocaram fim ao seu uso para promover o crescimento – ao menos na Europa. Desde 2006, os fazendeiros na União Europeia estão proibidos de usar antibióticos exclusivamente para engordar o gado, embora continuem sendo permitidos para curar doenças, é claro. Nos Estados Unidos e em muitos outros países, antibióticos promotores do crescimento continuam sendo usados. Portanto, é normal que você se pergunte: ainda que consiga evitar tomar antibióticos por conta própria, será que não está sendo inadvertidamente drogado quando devora um bife ou bebe leite no café da manhã? Afinal, muitos antibióticos são absorvidos pelo sangue, pelos músculos e pelo leite de um animal, e alguns podem resistir ao processo de cozimento e chegar ao seu intestino depois de ingeri-los. A boa notícia para quem vive nos países desenvolvidos é que existem regras rigorosas proibindo as fazendas de abaterem ou ordenharem animais recentemente tratados. Por outro lado, em muitos lugares menos rigorosos, testes revelam alimentos contaminados por resíduos de antibióticos que ultrapassaram os níveis seguros. Dependendo de onde você mora e para onde viajou, há grandes chances de ter absorvido ao menos alguns antibióticos por meio da alimentação.&lt;br /&gt;
Os veganos podem estar se considerando sortudos após lerem isto, mas, apesar das virtudes de seu estilo de vida, não estão livres dessa ameaça específica. Apesar de legumes, frutas e verduras não receberem doses diretas de antibióticos, muitas vezes esses produtos crescem em solo fertilizado com esterco animal – que não é apenas uma fonte rica de nutrientes, mas também de drogas: cerca de 75% dos antibióticos dados aos animais passam direto e saem nas fezes. Para alguns tipos de antibióticos, pode haver até uma dose do medicamento para cada litro de esterco. Isso equivale a borrifar o conteúdo de uma ou duas cápsulas de antibióticos a cada 10 metros quadrados de terra cultivada.&lt;br /&gt;
Alguns desses antibióticos permanecem “ativos” quando penetram no solo – mantendo a mesma capacidade de matar bactérias que teriam se estivessem na embalagem. Isso significa que a concentração pode aumentar ainda mais a cada aplicação de esterco. Tudo isso não importaria se os antibióticos permanecessem no solo, mas não é o que acontece. Legumes, frutas e verduras, do aipo ao coentro e ao milho, contêm resíduos de antibiótico – quantidades ínfimas em cada planta, mas que vão se acumulando no decorrer de semanas e anos. Existem regras para ministrar antibióticos aos animais antes de serem mortos e levados para a mesa de jantar, mas nenhuma regra determina a aplicação de esterco à terra cultivada.&lt;br /&gt;
Apesar de sua forte ligação, ainda não se sabe ao certo se resíduos de antibióticos na comida podem ser a causa subjacente da epidemia de obesidade, mas essa questão suscita muitos debates científicos. Nossa cintura começou a crescer na década de 1950, pouco depois que os antibióticos se tornaram disponíveis para o público em geral. No entanto, a década de 1980 testemunhou um grande aumento no número de pessoas com excesso de peso – a mesma época em que as operações agropecuárias passaram a ser superintensivas. Existem cerca de 19 bilhões de frangos vivos na Terra a qualquer dado momento (são cerca de três por pessoa!), muitos deles espremidos em gaiolas de vários andares. Muitos antibióticos são necessários para manter os frangos nessas condições sem que adoeçam. O Dr. Lee Riley, especialista em saúde pública, observa que, nos anos 1980 e 1990, o maior aumento dessas granjas modernas ocorreu na região sudeste dos Estados Unidos – o epicentro exato da epidemia da obesidade, onde a população americana é mais gorda.&lt;br /&gt;
Se os antibióticos podem nos engordar, por quais outros danos poderiam ser responsáveis? Diversas outras doenças que parecem estar associadas à disbiose no intestino já foram mencionadas aqui: alergias, autoimunidade e transtornos mentais. Como os antibióticos são capazes de destruir a microbiota, em teoria, todas essas doenças poderiam ser provocadas pelo tratamento com esses medicamentos.&lt;br /&gt;
Você se lembra de Ellen Bolte, do capítulo 3, cujo filho Andrew desenvolveu autismo quando bebê? Ellen atribuiu a regressão súbita de Andrew aos repetidos tratamentos com antibióticos prescritos para o que parecia ser uma infecção do ouvido da criança. Como a obesidade, o autismo também já foi raro, e sua incidência vem aumentando desde os anos 1950, afetando hoje uma em cada 68 crianças. Os meninos são os mais atingidos, e cerca de 2% deles se encaixam em algum ponto do espectro autista aos 8 anos. A culpa já foi atribuída a vários fatores – entre os quais o mais polêmico foi a vacina combinada para sarampo, caxumba e rubéola (MMR). Porém nunca foram encontradas evidências que indiquem a validade desse vínculo causal, e a atenção das pesquisas se voltou para a flora intestinal.&lt;br /&gt;
Crianças com autismo parecem abrigar uma comunidade desequilibrada de micro-organismos. Essa disbiose afeta o cérebro em desenvolvimento dos nenéns, tornando-os irritáveis, retraídos e repetitivos. Será que Ellen Bolte tem razão sobre a causa do autismo de Andrew? Os antibióticos são claramente capazes de alterar a microbiota, mas será que eles foram mesmo responsáveis por deixar Andrew tão mal? Seu diagnóstico constante de infecções no ouvido nos oferece uma pista. Acontece que 93% das crianças com autismo sofreram de infecções no ouvido antes de completarem 2 anos, em comparação com 57% das crianças saudáveis. Como mencionei, nenhum médico está disposto a deixar uma infecção de ouvido infantil sem tratamento, com medo de que o bebê não aprenda a falar ou seu quadro piore e se torne algo perigoso como febre reumática. Assim, acaba recorrendo aos antibióticos – o seguro morreu de velho.&lt;br /&gt;
A associação entre infecções no ouvido e antibióticos resiste. Um estudo epidemiológico mostrou que crianças com autismo normalmente receberam três vezes mais antibióticos do que aquelas sem o distúrbio. As que recebem antibióticos antes dos 18 meses parecem correr o maior risco. Além disso, esta é uma conexão real. Não podemos culpar um estado precário da saúde em geral, que tenha levado a mais doenças, entre as quais o autismo, porque antes desse diagnóstico, as crianças autistas nesse estudo não haviam visitado o médico nem tomado mais medicamentos do que as que apresentaram desenvolvimento normal. Ainda são necessários novos estudos com mais crianças para termos certeza dessa ligação, além de ser crucial decifrarmos um mecanismo claro que explique seu funcionamento. Mas, como já estamos sendo alertados para reduzir o consumo de antibióticos, a ameaça de que esse medicamento aumenta o risco de autismo só torna essas advertências mais pertinentes.&lt;br /&gt;
Um vínculo bem mais claro, e talvez mais intuitivo, é o que pode ser visto entre antibióticos e alergias. Já vimos no capítulo anterior que crianças tratadas com antibióticos antes dos 2 anos têm o dobro de chance de desenvolver asma, irritações de pele e febre do feno. Quanto mais medicamentos receberam, maiores são as chances de se tornarem alérgicas. Quatro ou mais tratamentos significam o triplo de chance.&lt;br /&gt;
A trama se complica quando levamos em conta as doenças autoimunes. Elas também aumentaram ao mesmo tempo que o uso de antibióticos, mas até recentemente as infecções levavam a culpa por essas doenças. A diabetes tipo 1 é um clássico. Por décadas, os médicos têm visto um padrão: um adolescente vai a uma consulta com um resfriado ou gripe, para voltar semanas depois com uma sede desesperadora e um cansaço insuportável. As células beta de seu pâncreas começaram a falhar, recusando-se a continuar liberando insulina. Sem esse hormônio crucial para convertê-la e armazená-la, a glicose no sangue aumenta. Dentro de dias ou semanas, as coisas podem ficar graves, levando ao coma ou à morte na falta de tratamento. Mas o intrigante é a associação entre um resfriado ou uma gripe e a diabetes. Uma infecção viral costuma ser vista como o desencadeador – não apenas da diabetes, mas de muitas outras doenças autoimunes.&lt;br /&gt;
Mas um exame das estatísticas revela um quadro diferente. O risco de contrair diabetes tipo 1 não é maior nas crianças que tiveram infecções. Além disso, enquanto os casos de diabetes tipo 1 têm aumentado na ordem de 5% ao ano nos Estados Unidos, a prevalência de doenças infecciosas diminuiu. Então por que o vínculo aparente? Por que os médicos sistematicamente veem os adolescentes desenvolverem diabetes depois de uma infecção?&lt;br /&gt;
Este é o ponto onde termina a ciência e começa a especulação. Já sabemos que os médicos prescrevem antibióticos em excesso, mesmo para doenças que provavelmente são causadas por vírus, não por bactérias. Seria possível que a diabetes começasse não devido a uma infecção, mas como consequência do tratamento para aquela infecção – antibióticos? Para as famílias e os médicos, pareceria que um resfriado, uma gripe ou um surto de gastroenterite desencadeou a diabetes. O antibiótico pareceria um personagem inocente, mas seria possível que o próprio remédio – ou uma combinação das duas coisas – tenha desencadeado a diabetes.&lt;br /&gt;
Infelizmente, por enquanto a resposta não está clara. Em um estudo dinamarquês sobre antibióticos ministrados a crianças, não foi encontrado qualquer vínculo com o risco de desenvolver diabetes depois. Mas, em outro estudo que contou com a participação de mais de 3 mil crianças, houve uma tendência de associação do uso de antibiótico com a diabetes. Além dessa, outras doenças autoimunes mostram ligações mais claras com os antibióticos. Entre adolescentes e adultos usando um antibiótico chamado minociclina por meses ou anos a fio como tratamento da acne, o risco de desenvolver lúpus foi 2,5 vezes maior do que para aqueles que não tomavam o remédio. Essa doença autoimune, que afeta muitas partes do corpo, atinge sobretudo as mulheres, mas aquela cifra incluía os homens, que não têm tendência a desenvolver lúpus. Examinando apenas as mulheres, o risco de contrair lúpus após tomar minociclina (mas não outros antibióticos do grupo das tetraciclinas) torna-se cinco vezes maior do que para aquelas que não tomam antibióticos. O mesmo ocorre com a esclerose múltipla – uma doença autoimune que causa danos aos nervos –, que tende mais a atingir aqueles que tomaram antibióticos recentemente. Mais uma vez, é difícil saber se os antibióticos, as infecções ou uma combinação dessas duas coisas estão na raiz dessas doenças.&lt;br /&gt;
Embora os problemas da resistência aos antibióticos e dos efeitos colaterais nocivos à microbiota sejam graves, esses medicamentos não são de todo ruins. Não podemos esquecer as incontáveis vidas que eles salvaram e o sofrimento que impediram. Reconhecendo que têm tanto custos quanto benefícios, podemos avaliar melhor seu valor em certas situações. Cabe a cada um de nós – médicos e pacientes – reduzir nosso uso de antibióticos desnecessários, para o bem de nosso ecossistema interno e de nosso próprio corpo.&lt;br /&gt;
Embora a ideia por trás da hipótese higiênica – que as infecções nos protegem de alergias – tenha se revelado falsa, um elemento dela persiste. Somos uma sociedade obcecada por higiene, e, como isso tem um impacto sobre os micróbios benéficos que abrigamos, estamos nos prejudicando. A maioria das pessoas nos países desenvolvidos lava o corpo inteiro ao menos uma vez por dia, cobrindo a pele com sabão e água quente. Costuma-se dizer que a pele é a primeira linha de defesa contra patógenos, mas não é bem assim. A microbiota da pele, seja uma comunidade de Propionibacterium no nariz, seja uma de Corynebacterium nas axilas, forma uma camada adicional de proteção na epiderme. Como no intestino, essa camada benéfica expulsa patógenos potenciais e regula as reações do sistema imunológico a possíveis invasores.&lt;br /&gt;
Se os antibióticos conseguem alterar drasticamente a composição da flora intestinal, qual o efeito dos sabonetes sobre a microbiota da pele? Olhando as estantes dos supermercados hoje em dia, é difícil achar um sabonete líquido ou produto de limpeza que não contenha bactericidas. Somos assolados por propagandas que dão a entender que germes mortais estão à solta em nossa casa e recomendam que mantenhamos nossas famílias seguras usando sabonetes e limpadores de superfícies contendo agentes antibacterianos – que matam 99,9% das bactérias e vírus. O que esses anúncios não contam é que o sabonete normal faz um serviço igualmente bom, sem prejudicar você nem o meio ambiente no processo.&lt;br /&gt;
Quando você lava as mãos de maneira correta, com água quente e sabonete normal, não está matando os micróbios potencialmente nocivos. Você os está removendo. O sabão e o calor da água não os exterminam – apenas facilitam a remoção das substâncias a que os micro-organismos estão agarrados: suco da carne, gorduras, sujeira ou o próprio acúmulo de óleos e células mortas da pele. O mesmo vale para limpadores de superfícies – limpar a bancada da cozinha remove os restos de alimentos que podem atrair bactérias nocivas. Não chega a matar os micróbios nem precisa disso. Acrescentar bactericidas não faz diferença alguma.&lt;br /&gt;
Quando produtos antibacterianos alegam matar 99,9% das bactérias, não estão se referindo a testes nas mãos das pessoas nem em superfícies da cozinha, mas em tubos de ensaio. Os examinadores põem um grande número de bactérias direto no sabão líquido e, após um período de tempo – bem mais do que o sabão ficaria em contato com a pele –, veem quantos continuam vivos. Alegar uma taxa de morte de 100% é impossível, porque é impossível provar uma ausência completa de algo com uma amostra tão pequena. Como dizem os cientistas: ausência de evidências não é evidência de ausência. Ninguém nunca declara exatamente quais cepas de bactérias esses sabonetes matam. Os 99,9% se referem à proporção de indivíduos mortos, não que 99,9% das espécies bacterianas do mundo possam ser eliminadas. Vale a pena lembrar que muitas bactérias patogênicas conseguem formar esporos e hibernar até o perigo passar, independentemente das substâncias químicas usadas.&lt;br /&gt;
Os produtos antibacterianos são um triunfo da publicidade e da pseudociência. Como muitas substâncias químicas em nosso cotidiano, sua segurança nunca foi examinada de verdade. As agências reguladoras, em vez de exigirem que se prove a segurança e a eficiência dessas substâncias antes de começarem a ser vendidas, como ocorre com os medicamentos, precisam provar, depois de terem sido colocadas à disposição do público, que são perigosas para que aí então sejam proibidas. Das 50 mil ou mais substâncias químicas que usamos no Ocidente, apenas umas trezentas tiveram sua segurança testada. Cinco tiveram seu uso restrito. Isso é 1,7% das que foram testadas. Supondo-se que apenas 1% das outras 50 mil são nocivas, isto dá quinhentas outras que não deveriam estar em nossa casa.&lt;br /&gt;
É fácil ficar indiferente – afinal, se essas substâncias fossem mesmo perigosas, as pessoas não iriam adoecer? – mas a natureza traiçoeira da acumulação química e os efeitos sutis e graduais que essas substâncias possam causar não são necessariamente tão fáceis de captar. Além disso, as pessoas estão adoecendo. Como a nossa memória é fraca e a rede de fatores potenciais, suficientemente confusa, temos dificuldade em decifrar o que é perigoso ou não. Tomemos o amianto, por exemplo. Essa substância química que existe na natureza era usada na área da construção civil no mundo inteiro antes de ser proibida. Centenas de milhares de pessoas morreram em razão da exposição a essa substância química, antes corriqueira, e continuam morrendo.&lt;br /&gt;
Não estou querendo dizer que os bactericidas sejam tão perigosos quanto o amianto, mas que o fato de estarem em milhares de produtos – de produtos de limpeza a tábuas de corte, de toalhas a roupas, de recipientes de plástico a sabonetes líquidos – não garante que sejam seguros. Um composto químico antibacteriano particularmente comum, conhecido como triclosan, entrou na mira dos pesquisadores nos últimos anos. Seus efeitos são preocupantes o suficiente para que o governador de Minnesota assinasse uma lei proibindo seu uso em produtos de consumo a partir de 2017. Tenho quase certeza de que você possui ao menos um produto em casa que contenha triclosan, se não dezenas. Mas seria melhor não ter.&lt;br /&gt;
Para começo de conversa, não há nenhuma prova de que o triclosan seja mais eficaz em reduzir a contaminação bacteriana em casa do que os sabonetes comuns. Mas, enquanto as pessoas continuam a usá-lo, essa substância vem contaminando nosso suprimento de água, onde, aí sim, consegue matar bactérias e acabar com o equilíbrio dos ecossistemas de água doce. Como se isso não fosse preocupante, o triclosan também impregna nosso corpo e pode ser encontrado em tecido adiposo humano, no sangue do cordão umbilical de bebês recém-nascidos, no leite materno e em quantidades significativas na urina de 75% das pessoas.&lt;br /&gt;
A literatura científica ainda não foi capaz de chegar a uma conclusão sobre o potencial nocivo do triclosan, mas o que sabemos até agora é que existe uma correlação clara entre os níveis dessa substância na urina de uma pessoa e a gravidade de suas reações alérgicas. Quanto mais triclosan no corpo, maiores as nossas chances de termos febre do feno e outras alergias. Se esse é um efeito direto do dano à microbiota, uma forma de toxicidade ou um reflexo da redução da exposição aos micro-organismos benéficos, não se sabe.&lt;br /&gt;
Há até indícios de que o triclosan aumenta suas chances de contrair uma infecção. Estamos literalmente impregnados dele: é encontrado até nas “secreções nasais” – no catarro – dos adultos. Mas essa impregnação nasal com antibacterianos não ajuda a combater as infecções. Descobriu-se que, quanto maior a concentração dessa substância no catarro, maior a colonização pelo patógeno oportunista Staphylococcus aureus. Ao usarmos esse bactericida, na verdade estamos reduzindo a capacidade de nosso corpo de resistir à colonização e facilitando a permanência dessa bactéria, que mata dezenas de milhares de pessoas a cada ano (sob a forma do SARM).&lt;br /&gt;
Como se tudo isso não bastasse, descobriu-se também que o triclosan interfere na ação dos hormônios da tireoide e bloqueia a ação do estrogênio e da testosterona em células humanas em placas de Petri. Por enquanto, a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana, simplesmente desafiou os fabricantes a provarem a segurança da substância ou enfrentarem sua proibição. Como mencionei, o governador de Minnesota tomou a iniciativa, proibindo o uso do triclosan em produtos de consumo a partir de 2017, mas não por esses motivos que acabei de mencionar. Sua preocupação, bem como a de muitos microbiologistas, é que expor bactérias a esse bactericida permite que elas desenvolvam resistência. Embora ninguém queira remover todas as bactérias benéficas vulneráveis de suas mãos, deixando apenas as nocivas e resistentes, a preocupação se concentra na resistência aos antibióticos. Pegue um nariz humano, soltando meleca embebida em triclosan – que possivelmente propicia o desenvolvimento de resistência aos antibióticos –, acrescente alguns Staphylococcus aureus, espere alguns dias, e o que você obtém? Uma fábrica móvel de SARM completa, que já tem até um mecanismo de dispersão eficaz.&lt;br /&gt;
E tem mais... Quando o triclosan se combina com a água clorada da torneira, se converte no agente incapacitante favorito dos escritores de romances policiais, que além de tudo é um composto cancerígeno: o clorofórmio. Espere pela proibição se quiser ou, se preferir, leia sempre o rótulo.&lt;br /&gt;
Porém é importante lavar as mãos – com sabonete normal e água morna por quinze segundos. Essa é a base da saúde pública e comprovadamente faz toda a diferença quando se trata de impedir a transmissão de infecções, sobretudo as gastrointestinais. Mas além de remover micróbios “temporários” – os não residentes com que você entra em contato no ambiente –, esse hábito de higiene também acaba com a microbiota das suas mãos. O intrigante é que diferentes espécies têm uma capacidade diferente de resistir à lavagem ou se recuperar logo depois. Membros dos gêneros estafilococos ou estreptococos, por exemplo, estão em maioria imediatamente após a lavagem das mãos, mas gradualmente se tornam menos dominantes entre as lavagens.&lt;br /&gt;
Digo que isso é intrigante porque traz à lembrança o transtorno obsessivo-compulsivo. Em uma das manifestações desse distúrbio de ansiedade, as vítimas se sentem contaminadas por germes e desenvolvem “obsessões” com limpeza e a “compulsão” por lavar as mãos. As causas dessa afecção estranha, que ameaça a qualidade de vida das pessoas afetadas, são difíceis de detectar, apesar das diversas teorias. Um conjunto de pistas aponta para uma origem microbiana.&lt;br /&gt;
Quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim, uma doença misteriosa se espalhou pela Europa. No inverno de 1918, já havia alcançado os Estados Unidos e, no ano seguinte, o Canadá. Nos anos seguintes, a doença varreu o globo, atingindo Índia, Rússia, Austrália e América do Sul. A pandemia persistiu por uma década inteira. Conhecida como encefalite letárgica, seus sintomas incluíam letargia extrema, dores de cabeça e movimentos involuntários, um pouco como no mal de Parkinson. Com frequência, a doença se manifestava como um distúrbio psiquiátrico – muitas vítimas se tornavam psicóticas, deprimidas ou hipersexualizadas. Entre 20% e 40% das vítimas morreram.&lt;br /&gt;
Muitos sobreviventes da pandemia de encefalite letárgica não se recuperaram por completo, ficando com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) como sequela. De repente, um distúrbio comportamental raro estava se espalhando como se fosse uma infecção. Os médicos da época discutiam se a doença tinha uma origem freudiana ou “orgânica”, mas seriam necessários setenta anos até que a verdadeira causa fosse descoberta.&lt;br /&gt;
Na década de 2000, dois neurologistas britânicos se interessaram pela causa da encefalite letárgica. O Dr. Andrew Church e o Dr. Russell Dale haviam tratado um grupo de pacientes cujos sintomas se enquadravam no perfil dessa estranha doença. A notícia se espalhou pela comunidade médica, e seus colegas passaram a encaminhar casos semelhantes para Dale, até que ele tivesse vinte pacientes diagnosticados com uma doença que supostamente havia desaparecido décadas antes. Junto com Church, ele se pôs a buscar semelhanças entre os pacientes, esperando encontrar pistas que os levassem a uma causa e, com sorte, a algum tratamento. Felizmente, havia um padrão: muitos desses pacientes haviam sofrido de infecção na garganta na fase aguda da doença.&lt;br /&gt;
Inflamações de garganta com frequência são causadas por bactérias do gênero Streptococcus. Church e Dale acharam que essa espécie podia ser a culpada. Ao examinarem os pacientes, descobriram que todos os vinte haviam sido infectados por estreptococos, conforme esperavam. Em vez de se aquietarem após algumas semanas, os estreptococos tinham desencadeado uma reação autoimune que atacou um grupo de células no cérebro conhecidas como gânglios basais. Como resultado, o que normalmente seria uma infecção respiratória se transformou em distúrbio neuropsiquiátrico.&lt;br /&gt;
Os gânglios basais estão envolvidos na “seleção da ação”. Essa parte do cérebro nos ajuda a decidir qual ação dentre várias possíveis devemos escolher realizar. Eles parecem ser capazes de subconscientemente aprender quais ações nos trarão uma recompensa: você deve frear ou acelerar? Deve pegar a xícara de chá ou coçar a cabeça? Continuar apostando ou desistir? Quanto maior sua prática nessas coisas, de mais informações seus gânglios basais dispõem para selecionar entre as alternativas que ocorrem à sua mente consciente.&lt;br /&gt;
Mas se essas células cerebrais são atacadas, o processo de seleção da ação se complica. Os músculos, que deveriam seguir as instruções do cérebro de imediato, parecem receber várias ordens diferentes, e, em vez de ações decisivas e tranquilas, produzem tremores como o sintoma do Parkinson. As rotinas também ficam prejudicadas: acender a luz, trancar a porta, lavar as mãos. Isso leva a uma possibilidade intrigante para as vítimas de TOC que compulsivamente lavam as mãos. Eu já mencionei que alguns grupos de bactérias se tornam mais abundantes após a lavagem das mãos, talvez porque aproveitem a oportunidade de florescer na ausência de seus colegas mais vulneráveis. Entre eles estão os estreptococos. Não há nenhuma explicação definitiva, mas talvez esses patógenos oportunistas ganhem terreno nas mãos e no intestino de tal forma que, após uma boa lavagem das mãos, conseguem persuadir o hospedeiro – por meio dos gânglios basais que reforçam hábitos e oferecem recompensas – a não pararem de lavá-las.&lt;br /&gt;
Talvez não seja nenhuma surpresa que uma série de “distúrbios mentais” – mais apropriadamente denominados distúrbios neuropsiquiátricos – estejam ligados à disfunção dos gânglios basais e à presença de estreptococos. Pense nos tiques vocais e físicos da síndrome de Tourette, que podem ser o resultado da incapacidade dos gânglios basais de suprimir a ideia de uma travessura da mente consciente. A infecção por estreptococos desempenha um papel nessa síndrome. Crianças que sofreram várias infecções de uma cepa particularmente desagradável de estreptococo no último ano têm uma chance quatorze vezes maior de desenvolverem esse distúrbio. O mal de Parkinson, o TDAH e transtornos de ansiedade também estão ligados aos estreptococos e a danos aos gânglios basais.&lt;br /&gt;
Não estou sugerindo que, para evitar o domínio do estreptococo, não devamos lavar as mãos. Um resultado bem pior seria transmitir micróbios comuns dos lugares a que pertencem (as fezes, por exemplo) para lugares a que não pertencem (boca ou olhos). Não se sabe se o sabonete antibacteriano piora o domínio temporário de estreptococos nas mãos, mas, como um oportunista tenaz acostumado a resistir ao ataque de outros micro-organismos, é bem possível que tenha sido mais rápido em desenvolver resistência aos antibacterianos do que os micróbios benéficos da pele. Existe, porém, uma ocasião em que usar substâncias químicas para matar bactérias parece válido e eficaz – que é esfregar álcool nas mãos. O álcool destrói os micro-organismos num nível tão fundamental que eles parecem não conseguir desenvolver resistência. Além disso, pode ser eficaz contra cepas resistentes aos antibióticos, como o SARM, e ser aplicado de maneira rápida e fácil tanto por profissionais de saúde quanto por pessoas comuns.&lt;br /&gt;
Enquanto está ocupado conferindo todos os rótulos de seus produtos de higiene pessoal, talvez você se impressione com o número de substâncias químicas de que nunca ouviu falar que parecem necessárias para fazê-lo se sentir limpo e cheiroso. Claro que sua pele cuidaria de si, mesmo sem gel para banho, hidratantes e desodorantes. Se perambular por florestas tropicais ensina algo, é que quem cheira mal são os forasteiros, que se lavam uma vez por dia e se cobrem de antitranspirantes – não as pessoas locais. Embora não se lavem com frequência e nunca usem desodorantes nem loções de limpeza, os povos tribais que moram nos lugares mais rudimentares não sofrem de mau odor corporal.&lt;br /&gt;
Gita Kasthala, antropóloga e zoóloga que trabalha em áreas remotas de Papua Ocidental e da África Oriental, observou que os habitantes de sociedades tribais podem ser divididos em três grupos quando se trata da higiene pessoal. No primeiro grupo estão aqueles que tiveram pouquíssimo contato com a cultura ocidental. “Essas pessoas costumam incorporar a higiene pessoal a outras atividades, digamos, quando vão pescar. Mas não usam sabonete, e muitos dos tecidos que usam para se cobrir são naturais”, diz ela. O segundo grupo é formado por pessoas de aldeias remotas que foram expostas à cultura ocidental até certo ponto – muitas vezes por missionários religiosos – e tendem a usar trajes ocidentais, em geral tecidos sintéticos de segunda mão dos anos 1980. “Este grupo costuma ter um odor incrivelmente forte. Eles se lavam de vez em quando, e usam sabonete, mas têm pouca compreensão de por que se lavar e usar roupas. Apenas sabem que em certo momento isso deve ser feito, seja uma vez por semana, por mês ou mais raramente.” O grupo final mergulhou na cultura ocidental, talvez trabalhando numa base petrolífera ou para alguma madeireira, e se lava diariamente com cosméticos. “Esse grupo não costuma ter cheiro, a não ser que faça um trabalho pesado ou o dia esteja muito quente”, Kasthala explica. “Mas o primeiro grupo, que nunca usa sabão, nunca fede, nem mesmo quando faz um trabalho pesado.”&lt;br /&gt;
Então por que a maioria das pessoas nas sociedades urbanas fica malcheirosa e sebenta após um ou dois dias sem se lavar, a ponto de se tornar socialmente inaceitável, enquanto aquelas que vivem sem sabão nem água quente nos trópicos conseguem permanecer limpas?&lt;br /&gt;
De acordo com a recém-criada empresa chamada AOBiome, a resposta está num grupo bem sensível de micróbios. Seu fundador, David Whitlock, era engenheiro químico e estudava os micro-organismos encontrados no solo. Ao coletar amostras de solo de um estábulo em 2001, alguém lhe perguntou por que os cavalos adoravam rolar na terra. Ele não sabia a resposta, mas a questão o intrigou. Whitlock sabia que o solo e as fontes de água natural continham muitas bactérias oxidantes de amônia (BOAs). Ele também sabia que o suor contém amônia, e se perguntou se os cavalos e outros animais usavam as BOAs do solo para controlar o nível de amônia na pele.&lt;br /&gt;
A maior parte do cheiro do suor humano não vem dos líquidos ricos em amônia liberados por nossas glândulas écrinas, mas das glândulas apócrinas – ou glândulas do odor. Confinadas às axilas e à virilha, elas são de natureza sexual e só se tornam ativas na puberdade. Os cheiros que passam a produzir agem como feromônios, informando ao sexo oposto sobre nosso estado de saúde e fertilidade. Mas o suor liberado pelas glândulas apócrinas também não tem cheiro – que só aparece quando os micróbios da pele entram em ação e o convertem em toda uma série de compostos químicos voláteis fedorentos. Os exatos odores produzidos dependem da composição da comunidade de micro-organismos que você abriga.&lt;br /&gt;
Ao nos lavarmos e aplicarmos desodorantes, que tendem a funcionar removendo ou mascarando as bactérias produtoras de odor, alteramos a microbiota da pele. As BOAs são um grupo de bactérias particularmente sensível, além de serem lentas na hora de restabelecer sua população, sendo portanto as mais afetadas pelo furacão de substâncias químicas com que as bombardeamos todos os dias. De acordo com Whitlock, o problema é que, sem BOAs, a amônia que liberamos no suor não é convertida em nitrito e óxido nítrico, substâncias que desempenham um papel fundamental não apenas na regulação do funcionamento das células humanas, mas também no controle dos micróbios da pele. Sem óxido nítrico, a população de corinebactérias e estafilococos que se alimentam de nosso suor pode crescer descontroladamente. Mudanças na quantidade de corinebactérias em particular parecem ser responsáveis pelo mau cheiro corporal que tanto nos esforçamos por evitar.&lt;br /&gt;
O paradoxo é que, ao nos lavarmos com substâncias químicas e usarmos desodorantes para garantir um cheiro agradável, desencadeamos um círculo vicioso. O sabonete e o desodorante matam nossas BOAs. A ausência de BOAs significa desequilíbrio de nossas outras bactérias da pele. A composição alterada da microbiota faz com que nosso suor fique com mau cheiro. Assim, precisamos usar sabonete para limpar essa bagunça e desodorante para mascarar o odor. O que a AOBiome sugere é que repor nossas BOAs poderia romper esse ciclo sem fim.&lt;br /&gt;
Claro que você poderia conseguir isso rolando na lama ou nadando diariamente em alguma fonte de água não tratada nem poluída (se conseguir achá-la), mas o que Whitlock e o resto de sua equipe na AOBiome propõem é que você se borrife diariamente com a Névoa Cosmética Refrescante AO+. A aparência, o cheiro e o sabor são de água, mas esse produto contém Nitrosomonas eutropha vivas – BOAs cultivadas do solo. No momento, o AO+ é vendido como cosmético – portanto a AOBiome não tem obrigação de provar sua eficácia, apesar de esse ser seu próximo objetivo. Mas no teste piloto, a aparência, a maciez e a firmeza da pele de voluntários melhoraram em comparação com aqueles que usaram um placebo.&lt;br /&gt;
Embora as pessoas que não se lavam não tenham o cheirinho de flores ou sabonete que passamos a apreciar em nossa pele, muitos dos voluntários no teste do AO+ acharam seu cheiro natural igualmente bom – até para as outras pessoas. David Whitlock, fundador da AOBiome, deixou de se lavar doze anos atrás e nos assegura de que não fede. Muitos outros membros da equipe da AOBiome também reduziram o uso de sabonetes e desodorantes, e a maioria se lava poucas vezes por semana ou mesmo poucas vezes ao ano.&lt;br /&gt;
A ideia de não se lavar com sabonete – ou ao menos de fazê-lo com menos frequência – provavelmente parecerá repugnante à maioria das pessoas. Na verdade, parece surreal que, por ser um hábito tão entranhado em nossa cultura, seja quase um tabu admitir não usar sabonete todos os dias. É provável que seja bem mais surreal que, após não nos lavarmos com sabonete por 250 mil anos da história da nossa espécie, agora tenhamos que depender tanto de uma ducha e um sabonete a ponto de não conseguir imaginar a vida sem eles.&lt;br /&gt;
Assim como os antibióticos, os bactericidas têm seu lugar. Mas esse lugar não é o seu corpo. Já dispomos de um sistema de defesa contra micro-organismos: chama-se sistema imunológico. Talvez seja bom tentar usá-lo.&lt;br /&gt;
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A saúde no século XXI&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1917, o Rei George V, do Reino Unido, enviou telegramas a sete homens e dezessete mulheres em reconhecimento e celebração de seu centésimo aniversário. Assim começou uma tradição que dura até hoje, mas é a neta do Rei George quem assina os cartões. Porém a Casa Real tem mais trabalho agora, pois a Rainha Elizabeth II precisa assinar mais cartões de aniversário para centenários por dia do que seu avô assinava por ano. Hoje o número de cidadãos no Reino Unido que chegam à idade avançada de cem anos deixou de contar com dois dígitos e atinge a marca de 10 mil pessoas.&lt;br /&gt;
No século XX, nossa espécie encontrou os meios para controlar nosso mais velho e temido adversário. Com o advento das vacinações, das práticas médicas higiênicas, do saneamento da água e dos antibióticos, estendemos nossa expectativa de vida, que antes era de, em média, 31 anos. No mundo desenvolvido, onde essas quatro inovações estão mais amplamente disponíveis, o tempo de vida médio hoje se aproxima dos oitenta anos. Grande parte das mudanças que adiaram nossa morte se concentrou num período de uns cinquenta anos, da década final do século XIX ao fim da Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;
Agora, no século XXI, estamos começando um novo capítulo na atenção à saúde de nossa espécie. Viver muitos anos – como é costume no mundo ocidental – não é o único indicador de saúde. Mesmo quem chega aos 80 ou mais tem que conviver com a qualidade de vida que sua saúde física e mental permite. Para criancinhas aprisionadas no tormento do autismo, para os milhões de crianças sofrendo de irritações de pele, febre do feno, alergias alimentares e asma, para adolescentes que recebem a notícia de que terão que tomar injeções de insulina pelo resto da vida, para jovens adultos enfrentando a destruição progressiva de seu sistema nervoso e para os muitos milhões que estão com excesso de peso e sofrem de depressão e ansiedade, sua qualidade de vida é pior do que deveria.&lt;br /&gt;
A boa notícia é que, no mundo desenvolvido, já não temos que enfrentar a varíola, a pólio ou o sarampo – fato que representa um grande salto à frente. Mas as doenças do século XXI de que sofremos em lugar daquelas não são uma alternativa necessária, como implicava a hipótese higiênica original. Nossa busca por uma vida mais longa se transformou na busca por mais qualidade de vida. O dogma da hipótese higiênica e seu princípio central que defende que as infecções nos protegem de alergias e outros distúrbios inflamatórios precisam ser postos de lado na mente do grande público e da comunidade médica. Não é das infecções que estamos sentindo falta, mas dos Velhos Amigos. Agora sabemos que o apêndice, antes considerado um vestígio inútil de nosso passado evolutivo, é na verdade um refúgio microbiano, responsável por “educar” o sistema imunológico do corpo. A apendicite, longe de ser um aspecto inevitável da vida, é a consequência da perda de diversidade de nossa comunidade microbiana – dos Velhos Amigos que deveriam protegê-lo de patógenos invasores. Está ao nosso alcance redespertar essas antigas amizades, as mais velhas que nosso corpo conhece.&lt;br /&gt;
No capítulo 1, adotei uma abordagem epidemiológica para tentar desvendar a causa das doenças do século XXI, indagando onde ocorriam, quem afetavam e quando começaram. As respostas a essas perguntas refletiram as mudanças em nosso modo de vida proporcionadas pela riqueza e a engenhosidade do mundo desenvolvido, onde tomamos antibióticos para tudo, do resfriado mais simples às piores infecções. Onde a agroindústria depende desses mesmos medicamentos para turbinar o crescimento de seus animais e permitir que quantidades enormes de indivíduos geneticamente semelhantes fiquem apinhados em espaços pequenos e, mesmo assim, resistam às doenças. Onde nossa ingestão de fibras é a menor de que se tem registro. Onde, em vez de nascerem de maneira natural, tantas crianças são cirurgicamente removidas do nosso corpo. E onde milênios de leite materno foram abandonados a favor da fórmula infantil.&lt;br /&gt;
Essas mudanças se concentraram na década de 1940, quando os antibióticos se tornaram disponíveis, o fim da Segunda Guerra Mundial transformou nossa alimentação e as cesarianas e as mamadeiras se popularizaram. O que estava invisível até agora era o impacto dessas mudanças no nível microscópico. Milhares de gerações de evolução conjunta e cooperação com nossos parceiros simbióticos chegaram a um fim involuntário no dia em que declaramos guerra aos micróbios.&lt;br /&gt;
As doenças do século XXI afetam todos nós, de recém-nascidos a idosos, tanto homens quanto mulheres de todas as etnias. As mulheres enfrentam o impacto de muitas delas, sobretudo as doenças autoimunes, embora nunca tenha ficado claro por quê. Um belo experimento mostra que mesmo essa diferença entre os sexos está ligada à microbiota. Numa raça de camundongos geneticamente propensa a contrair diabetes tipo 1 conhecida como camundongos diabéticos não obesos (CDNOs), as fêmeas têm o dobro de chance de desenvolver a doença. Essa diferença entre os sexos deve estar ligada ao impacto dos hormônios no sistema imunológico. Castrar camundongos machos deixa-os mais vulneráveis, por exemplo. Mas em CDNOs criados livres de germes, a diferença entre os sexos desaparece. A microbiota parece controlar o risco da doença. Transferir a microbiota de camundongos machos para fêmeas protege-as de desenvolver diabetes, aparentemente por elevar seus níveis de testosterona. Mas essas diferenças específicas aos sexos só são evidentes após a puberdade, o que explica por que a diabetes tipo 1 nos seres humanos não tem diferença entre os sexos, já que tende a se desenvolver antes desse período. Em outras doenças autoimunes, como esclerose múltipla e artrite reumatoide, a disparidade entre mulheres e homens declina quanto mais tarde na vida a doença aparece.&lt;br /&gt;
Depois de onde, quem e quando, passei a perguntar por que e como as doenças do século XXI surgiram. Resumindo: nós danificamos nossa microbiota. Em termos simples, o desequilíbrio de nossas comunidades microbianas – em particular as do intestino – causa inflamação, e inflamação causa doença crônica. Esperávamos que o genoma humano se mostrasse uma mina de informações sobre as causas dos nossos problemas de saúde, mas a pesquisa de nossos genes revelou menos doenças determinadas pelos genes do que havíamos previsto. Pelo contrário, estudos de associação ampla do genoma só revelaram genes que afetam nossa predisposição a diferentes doenças. Essas variantes genéticas não são necessariamente erros, mas variações naturais que sob circunstâncias normais poderiam não levar a problemas de saúde. Mas num ambiente particular as diferenças genéticas podem tornar algumas pessoas mais propensas do que outras a desenvolverem uma doença específica. Foi revelador descobrir que muitas das variantes genéticas associadas às doenças do século XXI dizem respeito a genes ligados à permeabilidade da mucosa intestinal e à regulação do sistema imunológico.&lt;br /&gt;
Em 1900, as três principais causas de morte no mundo desenvolvido, ceifando a vida de um terço das pessoas, foram pneumonia, tuberculose e diarreia infecciosa. A expectativa média de vida era de aproximadamente 47 anos. Em 2005, as três principais causas de morte, tirando a vida de metade das pessoas, foram doença cardíaca, câncer e derrame. A expectativa média de vida estava em torno de 78 anos. Gostamos de pensar que essas são doenças típicas da velhice, uma consequência inevitável de viver mais. Mas as pessoas que moram em partes não ocidentalizadas do mundo, que sobreviveram às doenças infecciosas, a acidentes e à violência e chegaram à idade avançada, não tendem a morrer devido a essas três grandes categorias de doenças. O que estamos percebendo agora é que o coração não enrijece, as células não se multiplicam descontroladamente nem os vasos sanguíneos estouram só porque estão velhos. A visão emergente entre os cientistas médicos é que não se trata de doenças próprias da velhice, mas de uma consequência da inflamação crônica. Se existe um efeito da idade avançada, é que os insultos modernos que lançamos contra o nosso corpo tiveram o tempo necessário para gerar inflamação até o ponto da catástrofe. Se este é o caso, é possível termos uma velhice maravilhosa, sem décadas de inflamação acumulada.&lt;br /&gt;
Assim como a decodificação do genoma humano deu início a uma nova era da biologia, o reconhecimento da microbiota como um órgão oculto anunciou uma nova era na medicina. As doenças do século XXI trouxeram novos desafios para pacientes que chegaram a uma idade avançada, médicos que desejam oferecer cura e empresas farmacêuticas que estão criando drogas para consumo crônico. As terapias convencionais estão num beco sem saída no que tange a muitos distúrbios que nos afligem hoje. Tratamos a longo prazo, em vez de encontrarmos uma solução abrangente: anti-histamínicos para alergias, insulina para diabetes, estatinas para doença cardíaca e antidepressivos para doenças mentais. A busca pela cura desses distúrbios crônicos nos desconcerta – porque até recentemente não éramos capazes nem de localizar sua causa. Agora, com o reconhecimento de que a microbiota não é um mero espectador no funcionamento de nosso corpo, mas um participante ativo, temos uma nova oportunidade de enfrentar as doenças do século XXI em sua origem.&lt;br /&gt;
Então o que devemos fazer? O relacionamento com nossos micróbios está sendo ameaçado por três fatores: nosso consumo de antibióticos, a falta de fibras em nossa alimentação e as mudanças na maneira como semeamos e cultivamos a microbiota de nossos bebês. Podemos mudar cada um deles em termos coletivos e individuais.&lt;br /&gt;
Mudanças sociais&lt;br /&gt;
O princípio central da ética médica é “Não prejudique”. Cada tratamento traz o risco de efeitos colaterais indesejados, e os médicos precisam pesar esses riscos em relação aos benefícios do medicamento. Até agora, as consequências indesejadas do consumo de antibióticos eram vistas como pequenas e insignificantes. Ao reconhecermos a importância da microbiota para a saúde humana, precisamos aceitar também que tomar antibióticos às vezes pode fazer mais mal do que bem. Mesmo quando tratam com sucesso alguma infecção, podem causar danos que deveríamos evitar. Já temos um bom motivo para reduzir o consumo de antibióticos: a questão da resistência. Apesar desse risco, o problema não tem se mostrando suficientemente preocupante para persuadir médicos e pacientes a fazerem esforços significativos para reduzi-lo. Mas, se levarmos em conta as consequências profundamente pessoais do dano colateral à microbiota, talvez possamos passar a tratar os antibióticos como tratamos a quimioterapia: um conjunto de medicamentos com graves consequências para as células saudáveis, a que só devemos recorrer quando os benefícios superem os custos.&lt;br /&gt;
A sociedade pode tomar algumas providências para reduzir a dependência dos antibióticos e o impacto desses medicamentos quando não houver alternativa. Sabemos que os médicos os receitam em excesso, mesmo quando é provável que a doença do paciente seja viral, não bacteriana. O problema é que, em geral, um médico não tem como dizer quais pacientes estão doentes devido a um vírus e quais devido a uma bactéria. Na situação atual, descobrir o patógeno causador de uma infecção qualquer envolve enviar amostras para exame ou cultura e esperar vários dias pelo resultado. Para muitos pacientes – e muitas infecções –, isso é demorado demais. Portanto, o primeiro passo na redução do consumo desnecessário de antibióticos seria desenvolver biomarcadores rápidos, capazes de identificar a fonte de uma infecção em questão de minutos ou horas, a partir de amostras de coleta fácil, como fezes, urina, sangue ou mesmo o hálito.&lt;br /&gt;
Atualmente, o fato de muitos antibióticos serem de amplo espectro é visto como uma vantagem. Os médicos nem sequer precisam saber qual espécie bacteriana é a responsável por uma infecção para poder tratá-la – é provável que uma droga de amplo espectro já seja eficaz. Mas, num mundo ideal, seríamos capazes de identificar depressa a bactéria por trás de uma infecção para poder atacá-la usando um antibiótico preciso. Descobrindo moléculas específicas a cada patógeno, poderíamos criar antibióticos que destruíssem somente aquele patógeno, poupando a microbiota benéfica que normalmente sofreria com os danos colaterais. Justificar a despesa extra de desenvolver tais medicamentos – um para cada patógeno – dependeria de uma mudança: deixaremos de pagar mais à frente pelas consequências dos danos colaterais para pagar logo no início por uma cura menos arriscada para as infecções.&lt;br /&gt;
Reconhecer a importância da microbiota não se resume à redução no consumo de antibióticos. Poderíamos aproveitar alguns micróbios benéficos como aliados na luta contra patógenos. Ao resistir à colonização por patógenos como Staph. aureus, C. diff e Salmonella, nossa microbiota nos presta um grande favor. Estimular suas defesas com o uso de probióticos melhores nos ajudaria a combater infecções e reduzir inflamações.&lt;br /&gt;
Entender e manipular a microbiota de um indivíduo para melhorar os resultados dos medicamentos seria o próximo passo na medicina personalizada. O remédio digoxina, para problemas cardíacos, por exemplo, necessita de uma abordagem individual. No momento, os médicos precisam fazer um jogo de adivinhação para decidir que dose prescrever aos pacientes. Durante semanas ou meses, precisam ajustar a dosagem de cada paciente tratado, equilibrando custo e benefício. A variação na reação do paciente não se deve a diferenças genéticas, mas à composição de sua flora intestinal. Pacientes que abrigam uma única cepa da bactéria Eggerthella lenta reagem mal à digoxina, porque esse micróbio comum do intestino desativa o medicamento, tornando-o ineficaz. Se os cardiologistas soubessem quais pacientes portam E. lenta, poderiam recomendar a eles o aumento da ingestão de proteína, já que o aminoácido arginina impede a desativação da digoxina por essa bactéria.&lt;br /&gt;
As reações aos medicamentos estão longe de serem previsíveis. Os 4,4 milhões de genes extras da microbiota, em parte herdados e em parte adquiridos, desempenham um papel importante na reação de um indivíduo a uma medicação. Os micróbios conseguem ativar, desativar os remédios ou torná-los tóxicos. Em 1993, a interferência do microbioma a tratamentos custou caro a dezoito pacientes japoneses que haviam desenvolvido herpes-zóster enquanto sofriam de câncer. Sua flora intestinal normal havia transformado o medicamento contra herpes-zóster num composto químico que tornava seu tratamento anticâncer letalmente tóxico. Os perigos da interação já eram conhecidos quando o remédio contra herpes-zóster foi aprovado, e o rótulo dele trazia uma advertência contra sua ingestão junto com remédios anticâncer. Infelizmente, na época, os médicos japoneses costumavam não revelar o diagnóstico de câncer a seus pacientes e prescreviam remédios sem grandes explicações.&lt;br /&gt;
É fácil imaginar que poderíamos começar o sequenciamento genético dos micróbios dos pacientes, não apenas para ajudar no diagnóstico, mas também para assegurar que recebam a medicação mais apropriada nas doses corretas. Manipular a microbiota pelo acréscimo ou remoção de espécies específicas poderia ajudar a reduzir os efeitos colaterais, melhorar os resultados e garantir a segurança. Como o sequenciamento do DNA está ficando cada vez mais barato, a ideia de que poderíamos monitorar o microbioma para avaliar os riscos à saúde e mapear melhorias torna-se cada vez mais realista.&lt;br /&gt;
Nosso abuso dos antibióticos estende-se à agropecuária. Na União Europeia, os fazendeiros não estão mais autorizados a usar antibióticos com o único intuito de promover o crescimento do rebanho, mas acabam simplesmente utilizando-os como “tratamento”. Os Estados Unidos estão bem atrás no que diz respeito à proibição do uso de antibióticos para promover o crescimento, embora o Food and Drug Administration tenha anunciado sua intenção de limitar seu uso. Não são apenas os produtos animais que são afetados pelo uso de antibióticos, já que o esterco contaminado por essas drogas pode ser usado legalmente para fertilizar mesmo horticulturas orgânicas. No final, a agropecuária sem antibióticos (nem pesticidas, hormônios ou outros medicamentos cuja segurança é questionável em seres humanos) custará mais, mas onde você prefere pagar: no caixa do supermercado ou dia após dia, com problemas de saúde, custos médicos extras e altos impostos para manter os serviços de cuidado à saúde funcionando?&lt;br /&gt;
Quando se trata de nossa alimentação, estamos cercados de controvérsias. O que é pior: manteiga ou óleo? Quantas calorias diárias deveríamos ingerir? Nozes fazem bem ou mal? Devemos reduzir os carboidratos ou as gorduras se queremos perder peso? Nem mesmo os especialistas conseguem concordar nas respostas a essas perguntas, mas será difícil achar algum que diga que não deveríamos comer mais fibras.&lt;br /&gt;
Na Grã-Bretanha, foi lançada a campanha Five-a-Day, para fazer com que as pessoas comam ao menos cinco porções de frutas e verduras por dia, em 2003. Ela agora está tão entranhada na consciência dos britânicos que as pessoas brincam quando falam sobre vinho, geleia e doces com sabor de fruta, chamando-os de “um dos meus cinco por dia”. Na Austrália, a mensagem de saúde pública é “Go for 2&amp;amp;5”, ou seja, duas porções de frutas e cinco de legumes. Parece que essas mensagens tiveram algum impacto sobre os hábitos alimentares das pessoas, mas o problema é que o foco tem recaído sobre vitaminas e minerais, não sobre as fibras. Assim, os fabricantes de alimentos aproveitam a oportunidade para divulgar seus produtos, alimentos diferentes como purê de tomate e suco de fruta obtiveram o selo de aprovação como contribuintes para essa quota. As frutas, muitas vezes em forma de suco ou passadas no liquidificador, recebem mais atenção que os legumes, e outros alimentos vegetais como cereais, sementes e nozes são totalmente ignorados. As fibras, ao que parece, não ganharam o foco que deveriam. Uma mensagem melhor? Coma mais plantas.&lt;br /&gt;
Talvez a maior dificuldade que enfrentamos coletivamente quando se trata de alimentos seja o ritmo apressado da vida. A falta de tempo costuma ser responsável pela falta de fibras. Quando o tempo de preparação é escasso, em geral recorremos a refeições congeladas que não se destacam pelo alto teor de legumes, requentadas às pressas em algum micro-ondas. Mesmo as frutas são embaladas para a conveniência e rapidez – transformadas em suco ou passadas no liquidificador e depois engarrafadas –, eliminando a necessidade de descascar e cortar. Para uma cultura tão focada na comida, dedicamos muito pouco esforço ao ato de comer.&lt;br /&gt;
Finalmente, chegamos aos bebês. Nos últimos cem anos, fizemos grandes avanços nos cuidados pré-natais e na redução na mortalidade infantil, sobretudo de bebês prematuros. E, após décadas de uma alimentação focada na mamadeira, avançamos bastante, ao menos nos países desenvolvidos, para restabelecer o leite materno como o principal alimento para os lactentes. Mas em outros sentidos estamos retrocedendo. Depositamos muita confiança na ciência e na medicina, e damos um valor enorme à liberdade de escolha. Como resultado, em muitas cidades, as cesarianas são mais comuns do que os partos normais. Deveríamos ser cuidadosos com essa intervenção: há pouca pesquisa sobre os impactos à saúde das mulheres e crianças, particularmente em circunstâncias de “boa saúde”, como durante a gravidez, o trabalho de parto e o nascimento.&lt;br /&gt;
Obstetras e parteiras precisam conhecer as consequências microbianas das cesarianas e das fórmulas infantis – e as mães merecem conhecê-las. As técnicas usadas para trazer os bebês ao mundo se baseiam em nosso conhecimento em constante evolução do que é melhor para a mãe e o bebê. O resultado é que as cesarianas demonstraram não ser tão seguras quanto julgávamos: a comunidade microbiana alterada que um bebê recebe pode afetar sua saúde por dias, meses e anos a fio.&lt;br /&gt;
A consequência é que transformamos uma geração inteira de crianças em cobaias de um enorme experimento. O que acontece quando você retira bebês cirurgicamente, muitas vezes dias ou semanas antes de estarem preparados para nascer, em vez de deixar que eles determinem o momento certo de sua passagem pelo canal vaginal? Micróbios à parte, o que acontece quando você priva um bebê dos hormônios liberados durante o trabalho de parto ou da pressão de ser empurrado para o mundo? O que acontece com o corpo de uma mãe quando ela passa de grávida a não grávida pelo mero corte do bisturi de um cirurgião, em vez das horas de preparação química e física do parto? Estamos apenas começando a descobrir as respostas a essas perguntas. Em termos coletivos, devemos reservar as cesarianas para bebês e mães que realmente precisem, deixando a natureza seguir seu curso com os outros.&lt;br /&gt;
A geração anterior de crianças também serviu de cobaia em outro experimento: o que acontece quando você alimenta os bebês com o leite da mãe de um bezerro, em vez do seu próprio? Esse experimento persiste para cerca de um quarto dos bebês nascidos nos países desenvolvidos atualmente. Claro que existe um pequeno número de mulheres (segundo as estimativas, menos de 5%) incapazes de produzir o leite necessário para satisfazer as necessidades de seus bebês. Outras têm dificuldades reais em fazer a amamentação dar certo para si e seu recém-nascido. Apoiar essas mulheres e fornecer alternativas de boa qualidade ao leite materno direto do seio, seja por meio de leite extraído, leite humano doado ou fórmula infantil, é crucial. Nossos conhecimentos crescentes sobre os oligossacarídeos presentes no leite humano e os micróbios supridos pelo leite materno são uma importante contribuição para o desenvolvimento de leites em pó melhores, dando um verdadeiro apoio às mães incapazes de amamentar e às que optam por não fazê-lo.&lt;br /&gt;
Se parteiras, obstetras e trabalhadores da área de saúde comunitária estiverem atualizados sobre as mais recentes descobertas sobre leite materno, poderão oferecer melhores conselhos e apoio aos pais no momento de avaliarem as opções e equilibrarem as exigências da vida sobre eles e seus bebês.&lt;br /&gt;
Mudanças individuais&lt;br /&gt;
No mundo desenvolvido, temos a sorte de nossa saúde depender em grande medida das escolhas que fazemos. Ao contrário dos genes que seus pais lhe deram e das infecções a que o ambiente o expõe, você pode moldar, cultivar e cuidar dos micróbios que abriga em seu corpo. Na idade adulta, a comida que você come e os medicamentos que toma determinam os micróbios que possui. Trate-os bem que eles vão retribuir o favor. Se estiver planejando ter filhos, a microbiota deles depende dos pais, especialmente se você vai ser mãe.&lt;br /&gt;
Sou a favor da liberdade de escolha – que ao mesmo tempo marca sua presença e torna a liberdade possível. A escolha está no centro de uma sociedade civilizada e capacita os indivíduos a melhorarem a própria vida. Mas não há sentido em tomar decisões ignorando as informações disponíveis. As pesquisas científicas dos últimos cinquenta anos sobre a microbiota revelaram uma nova camada de complexidade e controle no corpo humano, oferecendo uma nova visão sobre como nosso corpo – na verdade, um superorganismo – está programado para funcionar. As opções que você faz com essas informações cabem a você. Tudo o que sugiro é que você tome essas decisões de forma consciente.&lt;br /&gt;
Estou defendendo que você assuma o controle consciente sobre sua alimentação.&lt;br /&gt;
Muitos de meus amigos médicos estão sobrecarregados e contam que uma das maiores frustrações de seu dia a dia é a dificuldade em ajudar pacientes que não querem se ajudar. O que com frequência gostariam de prescrever é um estilo de vida ativo e uma dieta saudável – pobre em gorduras, açúcar e sal e rica em fibras. Alguns pacientes não querem ouvir isso e simplesmente preferem resolver seus problemas com remédios. Eles não entendem que a comida é um remédio.&lt;br /&gt;
Nós, os seres humanos, evoluímos para sermos onívoros. Nosso corpo espera receber muitas plantas e um pouco de carne. Só que muitos de nós comemos um monte de carne e umas poucas plantas – além de um montão de alimentos que mal sabemos dizer se são de origem animal ou vegetal. Se você optar por aumentar sua ingestão de fibras comendo mais alimentos vegetais, faça-o devagar e de forma gradual, para dar à sua microbiota tempo de se adaptar. Uma avalanche de fibras num intestino povoado por micróbios mais habituados a uma dieta rica em gorduras, proteínas e carboidratos simples pode produzir alguns efeitos indesejados. Lembre-se de que verduras, sementes e leguminosas (ervilhas, feijões e assemelhados) tendem a conter mais fibra e menos açúcar do que as frutas, e de que passá-las pelo liquidificador ou transformá-las em suco pode reduzir o teor de fibra e aumentar o acesso a calorias digeríveis por enzimas humanas que serão absorvidas no intestino delgado. Se você já sofre de algum distúrbio gastrointestinal, fale com seu médico antes de mudar sua alimentação.&lt;br /&gt;
Ingerir alimentos de origem vegetal que estimulem um equilíbrio microbiano benéfico será a base para uma boa saúde. Faça a escolha consciente de comer mais plantas.&lt;br /&gt;
Defendo que você tome uma decisão consciente sobre o uso de antibióticos.&lt;br /&gt;
Vou ser clara: os antibióticos são medicamentos capazes de salvar vidas e, em muitas situações, seus benefícios ultrapassam seus riscos. Sim, precisamos levar a microbiota em consideração em nossas escolhas sobre quando tomar antibióticos, mas, sem eles, não poderíamos sequer nos dar ao luxo de cuidar de nossos micróbios benéficos. A questão não é que os antibióticos sejam “ruins” – eles são uma arma crucial em nosso arsenal contra bactérias patogênicas. Só não precisamos usar granadas para matar uma barata.&lt;br /&gt;
Os médicos não são os únicos que devem ser responsabilizados pelo uso excessivo de antibióticos. Com frequência, um clínico geral atenderá até vinte pacientes antes de conseguir fazer uma pausa para o almoço. Com menos de dez minutos para ouvir um relato, fazer um diagnóstico, aconselhar o paciente preocupado e prescrever um remédio adequado, o médico muitas vezes acaba receitando ao paciente insistente o que ele deseja apenas para conseguir passar para a próxima consulta, igualmente importante, de dez minutos. Faça uma escolha consciente: você quer ser esse paciente insistente?&lt;br /&gt;
Existem alguns passos para ajudá-lo a decidir se precisa de antibióticos. Primeiro, considere esperar um ou dois dias para ver se seus sintomas melhoram. Observe que eu disse considere – use o bom senso. Segundo, se seu médico oferecer antibióticos, sugiro que faça estas perguntas a ele:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;Com que grau de certeza você pode afirmar que esta infecção é bacteriana, não viral?&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;Os antibióticos vão me deixar muito melhor ou farão com que minha recuperação seja mais rápida?&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &amp;nbsp;Quais os riscos de não tomar o antibiótico e deixar meu sistema imunológico combater a infecção por conta própria?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com frequência não há uma resposta clara sobre qual alternativa deveríamos escolher quando se trata de tomar antibióticos, mas tome uma decisão consciente, sabendo que os antibióticos tanto podem fazer mal quanto ajudar. Avaliar se os benefícios superam os custos é a função de um paciente informado que vai se consultar com um médico igualmente informado.&lt;br /&gt;
Por fim, se o tratamento de sua doença pode incluir uma boa dieta capaz de ajudar sua microbiota, pense em adotá-la. Isso sempre será uma boa base para melhorar sua saúde. Lembre-se de que não se trata de uma ciência exata. A constituição de sua microbiota, sozinha, não é capaz (ao menos por enquanto) de revelar quais doenças você pode ter.&lt;br /&gt;
Quer opte por tomar antibióticos ou não, faça sua escolha de maneira consciente.&lt;br /&gt;
Defendo que você faça uma escolha consciente sobre como vai dar à luz e alimentar seu bebê.&lt;br /&gt;
Recebemos tantas informações e conselhos sobre gravidez e criação dos filhos hoje em dia que às vezes temos a sensação de que nossos instintos naturais foram sufocados. A boa notícia é que nossa compreensão cada vez maior da microbiota nos fornece uma base direta para tomarmos decisões quanto ao que é melhor para nossos filhos: se tudo correr bem, fique com o que é natural. Se não correr bem, cesarianas e mamadeiras estão aí para ajudar.&lt;br /&gt;
O melhor é estar preparado e atento. Faça uma escolha consciente sobre como vai dar à luz, criando um plano de nascimento que inclua dotar seu bebê com as sementes de uma microbiota saudável. A melhor forma de fazê-lo é por meio de um parto normal. Se optar pela cesariana ou ela for inevitável, pense em adotar as técnicas de transferência microbiana de Maria Gloria Dominguez-Bello. Compartilhe seu plano com seu parceiro, seu médico e sua parteira.&lt;br /&gt;
Tome uma decisão consciente sobre como vai alimentar seu bebê, lembrando que o leite materno fortalece as sementes de microbiota que ele recebeu durante o nascimento. Se quiser amamentar, acumule conhecimentos, apoio e determinação antecipadamente – várias dicas podem ser encontradas na internet, inclusive no site da Organização Mundial da Saúde, que oferece, junto com informações e conselhos, recomendações para a duração ideal da amamentação que vai determinar a saúde e a felicidade dos bebês. Mas não se desespere se não funcionar – existem várias maneiras de cultivar a microbiota de seu filho.&lt;br /&gt;
Há mais boas notícias para você e sua prole. Podemos relaxar quanto aos “germes”. A maioria dos micróbios que os bebês encontram no dia a dia não lhe farão mal. Na verdade, vão contribuir para uma microbiota diversificada e ajudar a educar o sistema imunológico das crianças. Usar sprays, sabonetes e lenços antibacterianos provavelmente fará mais mal do que bem.&lt;br /&gt;
Quaisquer que sejam suas escolhas, faça-as de forma consciente.&lt;br /&gt;
Em 2000, alguns dos membros mais inteligentes de nossa espécie decifraram o código de DNA responsável por criar quatro novos seres humanos por segundo. Foi um momento decisivo para a espécie, com uma importância toda especial para mim, que embarcava na carreira da biologia. Passeando pela London’s Wellcome Collection anos depois e observando os volumes impressos de As, Ts, Cs e Gs que constituem o genoma humano, ainda sinto um arrepio pela natureza grandiosa dessa realização. Fiquei encantada com o fato de aqueles 120 volumes conterem a alma da humanidade e de termos sido capazes de captar essa essência no papel, reforçando meu fascínio pela carreira que escolhera.&lt;br /&gt;
Difícil imaginar que a decifração do microbioma, mesmo representada numa obra de arte tão icônica, pudesse ter o mesmo impacto mágico da decodificação do genoma. Mas nossa percepção nos últimos dez ou vinte anos de que os micróbios do corpo são parte de nós e de que seus genes fazem parte de nosso metagenoma pode ser algo ainda mais significativo para a vida dos seres humanos. A microbiota é um órgão – o órgão esquecido e oculto – do corpo humano e contribui para nossa saúde e felicidade como qualquer outro. Mas esse novo órgão não é imutável como os outros e, ao contrário dos nossos genes humanos, os genes microbianos não são fixos. Tanto as espécies que abrigamos quanto os genes que contêm são nossa propriedade – estão sob nosso controle. Você não pode escolher seus genes, mas com certeza pode escolher seus micróbios.&lt;br /&gt;
O conhecimento do relacionamento íntimo que temos com a nossa microbiota joga uma nova luz sobre nosso corpo e nosso estilo de vida. Trata-se de uma ligação inevitável com nosso passado evolutivo, que liga nossa vida moderna em macroescala – rica em tecnologia e pobre em natureza – às suas raízes. Desde que Darwin escreveu A origem das espécies, debatemos os papéis desempenhados pela natureza e a criação sobre o estabelecimento de nossa identidade. Um homem é alto porque seu pai também é alto ou porque cresceu com uma abundância de comida saudável à sua disposição? Uma criança é inteligente porque sua mãe é inteligente ou porque teve os melhores professores? Uma mulher desenvolve câncer do seio por causa dos genes que possui ou porque tomou hormônios sintéticos? Trata-se de uma falsa dicotomia, é claro. Tanto a natureza quanto a criação influenciam a grande maioria dos nossos traços distintivos e de nossas doenças. Se o Projeto Genoma Humano nos ensinou algo, é que os genes – a natureza – podem nos predispor para uma série de doenças, mas se vamos desenvolvê-las ou não é algo que depende de nosso estilo de vida, da nossa alimentação e das coisas a que somos expostos. Em suma, do nosso ambiente: a criação.&lt;br /&gt;
Agora temos um terceiro personagem, situado de forma incômoda entre natureza e criação. Embora o microbioma a rigor seja uma força ambiental que está agindo sobre nossas características finais, ele, ao mesmo tempo, é genético e herdado. Não através de óvulos, espermatozoides e genes humanos, mas uma boa parte do microbioma é transmitida pelos pais, especialmente pela mãe, à prole. Muitos pais esperam transmitir o melhor de si aos seus filhos, além de proporcionar a eles o ambiente mais feliz e saudável possível. O microbioma – com sua influência genética e um controle ambiental – dá aos pais o poder de fazer as duas coisas.&lt;br /&gt;
Apesar de toda a badalação, nosso genoma humano não correspondeu às nossas expectativas de se tornar um projeto e uma filosofia de vida. “Está no nosso DNA”, costumamos dizer ao lidarmos com nossa humanidade e nossas idiossincrasias, mas na verdade sabemos que nosso próprio código genético oferece poucas instruções para nossa vida diária. Aqueles outros 90%, porém – aqueles outros 100 trilhões de células e 4,4 milhões de genes –, também fazem parte de nós. Nós evoluímos lado a lado e não podemos viver sem eles. Pela primeira vez, a teoria da evolução de Darwin e nossos outros 90% estão nos mostrando como viver.&lt;br /&gt;
Acolher os micróbios que viajaram conosco por milhões de anos é o primeiro passo para aprendermos a valorizar quem realmente somos e, no fim, nos tornarmos 100% humanos.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. &quot;Fabricou Salomão um palácio...&quot; E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais — tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é — não — a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. A minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu veto manto régio, pelo qual é senhora e rainha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Fernando Pessoa &amp;nbsp;- Livro do Desassossego )</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/2275745364450503907/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/2275745364450503907?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/2275745364450503907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/2275745364450503907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/06/minha-patria-e-lingua-portuguesa-gosto.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-7846052655250007127</id><published>2018-06-29T14:20:00.001-03:00</published><updated>2018-06-29T14:20:19.828-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O dilema da escolha&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ter tocado nos pés de Cristo não é desculpa para defeitos de pontuação’.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Livro do Desassossego)</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/7846052655250007127/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/7846052655250007127?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/7846052655250007127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/7846052655250007127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/06/o-dilema-da-escolha-o-ter-tocado-nos.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-3352212946171487735</id><published>2018-06-29T13:59:00.001-03:00</published><updated>2018-06-29T13:59:45.556-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Alucinações coletivas&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas- a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros – os grandes segredos que são os caboucos do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Porque não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações coletivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível, é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Porque há o comércio com os demónios ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, porque não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever, já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver? Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um acto de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar, ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;nbsp; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Fernando Pessoa - Livvro do Desassossego )</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/feeds/3352212946171487735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment/fullpage/post/3095215671398122225/3352212946171487735?isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/3352212946171487735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3095215671398122225/posts/default/3352212946171487735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://divagacoesligeiras.blogspot.com/2018/06/alucinacoes-coletivas-tive-sempre-uma.html' title=''/><author><name>Thynus</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08327955844478289394</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='//blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY-nunUWPE-XMxhRBs-KWDGl-DCxYOwz6S7tzds9DCeUMsghe2GFVtR3Icbi9kt9hTM8_ofilUHNOC9obGbr21iAmv9AgXCJVGzI4TfMcT53rgRwyMbOc4oNr6mwPquCM/s220/3666.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3095215671398122225.post-8189640159893843625</id><published>2018-06-28T22:25:00.001-03:00</published><updated>2018-06-28T22:25:18.998-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A cura&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto caminhava de volta pela floresta naquela noite, no verão de 2005, com vinte morcegos dentro de bolsas de algodão penduradas em meu pescoço e todo tipo de inseto disputando a luz da minha lanterna de cabeça, percebi que meus tornozelos estavam coçando. Eu havia enfiado minha calça ensopada de repelente nas meias reforçadas contra sanguessugas e colocado outro par de meias por baixo, como proteção extra. A umidade, aquele suor todo, as trilhas lamacentas, meu medo de tigres e os mosquitos já eram inimigos suficientes durante as rondas para coletar morcegos de armadilhas nas trevas da floresta úmida. Mas algo transpusera a barreira de tecido e produtos químicos que protegiam minha pele. E estava coçando.&lt;br /&gt;
Aos 22 anos, passei três meses na Reserva de Vida Selvagem Krau, na Malásia. Isso marcou a minha vida. Durante a graduação em biologia, eu ficara fascinada pelos morcegos. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar como assistente de campo de um cientista britânico que estava pesquisando esses animais, me candidatei imediatamente. Tínhamos que dormir em uma rede e tomar banho num rio repleto de lagartos-monitores, mas os encontros com langures-obscuros, gibões e uma diversidade extraordinária de morcegos fizeram tudo isso valer a pena. Só que acabei descobrindo que as adversidades da vida na floresta tropical podem ir além da própria experiência.&lt;br /&gt;
De volta ao acampamento, numa clareira à beira do rio, removi todas as camadas de roupa para descobrir a origem do meu desconforto: não eram sanguessugas, mas carrapatos. Uns cinquenta, alguns cravados na minha pele, outros escalando minhas pernas. Passei uma escova para retirar os que estavam soltos e fui cuidar dos morcegos. Tinha que medi-los e registrar alguns dados científicos sobre eles antes de soltá-los. Depois, com a floresta escura feito breu, dominada pelo canto das cigarras, aninhei-me em minha rede, que mais parecia um casulo, e, com uma pinça, sob a luz de minha lanterna de cabeça, removi todos os carrapatos.&lt;br /&gt;
Alguns meses depois, já em casa em Londres, a infecção tropical que os carrapatos me transmitiram se manifestou. Meu corpo entrou em parafuso e o meu dedão do pé inchou. Sintomas estranhos iam e vinham, assim como os exames de sangue e médicos especialistas. Minha vida ficava em suspenso por semanas e meses a cada crise. Surtos de dor, fadiga e confusão mental me dominavam sem avisar e depois desapareciam, como se nada tivesse acontecido. Na época em que recebi o diagnóstico, muitos anos depois, a infecção já havia se consolidado. Então fui submetida a um tratamento longo e intenso com antibióticos que seriam suficientes para curar um rebanho inteiro. Enfim voltaria a ser eu mesma.&lt;br /&gt;
A história terminaria aí, não fosse por uma reviravolta inesperada: eu estava curada, mas não somente da infecção transmitida pelos carrapatos. Parecia que eu tinha sido curada como um pedaço de carne. Os antibióticos haviam funcionado, mas comecei a ter novos sintomas, tão variados quanto os de antes. Minha pele ficou estranha, meu sistema digestivo ficou delicado e eu parecia propensa a contrair todas as viroses do mundo. Suspeitei dos antibióticos: eles tinham erradicado não apenas as bactérias que estavam me deixando doente, mas também aquelas que pertenciam ao meu corpo. Foi como se eu tivesse me tornado inóspita aos micróbios, e assim descobri que falta faziam as criaturinhas amigáveis que, até recentemente, faziam de mim seu lar.&lt;br /&gt;
Você é apenas 10% humano.&lt;br /&gt;
Para cada célula que compõe o recipiente que você se acostumou a chamar de “meu corpo”, existem nove células impostoras pegando carona. Você não é formado só de carne e sangue, músculo e osso, cérebro e pele. Há também bactérias e fungos. Você é mais “eles” do que “você”. Somente seu intestino abriga 100 trilhões deles, como um recife de coral no leito escarpado que é o seu intestino. Cerca de 4 mil espécies diferentes criam seus próprios pequenos nichos, aninhados entre as dobras do seu cólon, que, com 1,5 metro de comprimento, tem a área correspondente a uma cama de casal. No decorrer da vida, você vai ter abrigado o peso de cinco elefantes africanos em micro-organismos. Eles estão por toda a sua pele, e existem mais de 50 milhões deles só na ponta de seu dedo.&lt;br /&gt;
Repugnante, não é? Com certeza somos sofisticados demais, limpinhos demais, evoluídos demais para sermos colonizados desse jeito. Não deveríamos ter deixado para trás os micróbios da mesma forma que fizemos com os pelos e a cauda quando saímos da floresta? Não é verdade que a medicina moderna dispõe de ferramentas para expulsá-los? Assim teríamos uma vida mais limpa, saudável e independente... Desde que descobrimos que os micro-organismos habitam o nosso corpo e não nos fazem mal, nós os toleramos. No entanto, ao contrário dos recifes de coral e das florestas tropicais, ninguém pensou em protegê-los – muito menos em acolhê-los.&lt;br /&gt;
Como sou bióloga evolucionista, fui treinada para procurar a vantagem, o sentido, na anatomia e no comportamento dos organismos. Em geral, características e interações prejudiciais são combatidas ou se perdem no tempo. Isso me levou a pensar: nossos 100 trilhões de micróbios não poderiam ter transformado nosso corpo em lar se não tivessem trazido alguma contribuição para a festa. Se nosso sistema imunológico combate os germes e nos cura de infecções, por que deixou que fôssemos invadidos desse jeito? Tendo sujeitado meus próprios invasores – tanto os bons quanto os maus – a meses de guerra química, eu queria saber mais sobre os efeitos colaterais que isso havia causado.&lt;br /&gt;
Ao que se revelou, eu estava fazendo essa pergunta bem na hora certa. Após décadas de esforços científicos esporádicos para aprendermos mais sobre os micróbios do nosso corpo, tentando cultivá-los em placas de Petri, a tecnologia enfim poderia matar nossa curiosidade. A maioria dos micro-organismos que vivem dentro de nós morrem quando são expostos ao ar porque estão adaptados a uma vida livre de oxigênio nas profundezas do nosso intestino. Por isso, cultivá-los fora do corpo é difícil e fazer experimentos com eles é mais complicado ainda.&lt;br /&gt;
Mas, na esteira do Projeto Genoma Humano, em que cada gene humano foi decodificado, agora os cientistas são capazes de sequenciar quantidades enormes de DNA de forma extremamente rápida e barata. Até os micróbios expelidos do corpo nas fezes podem ser identificados porque, apesar de mortos, seu DNA permanece intacto. Achávamos que os micro-organismos presentes no corpo não tinham importância, mas a ciência está começando a revelar uma história diferente, na qual nossa vida está ligada àquelas criaturinhas que pegam carona em nós, controlam nosso corpo e tornam possível que sejamos saudáveis.&lt;br /&gt;
Meus problemas de saúde foram a ponta do iceberg. Descobri através das evidências científicas que estavam surgindo que perturbações aos micro-organismos do nosso corpo estavam por trás de distúrbios gastrointestinais, alergias, doenças autoimunes e até obesidade. E não era apenas a saúde física que podia ser afetada, mas a mental também – de ansiedade e depressão a transtorno obsessivo-compulsivo e autismo. Muitas das doenças que aceitamos como parte da vida aparentemente não se devem a falhas em nossos genes ou em nosso corpo. Elas não passam de novas condições provocadas pelo fato de não sermos capazes de valorizar a velha extensão de nossas próprias células humanas: nossos micróbios.&lt;br /&gt;
Com a minha pesquisa, eu pretendia não apenas descobrir quais danos havia causado à minha colônia microbiana com os antibióticos, mas como isso me deixara doente e o que eu poderia fazer para restaurar o equilíbrio anterior às mordidas dos carrapatos – e já fazia oito anos. Para aprender mais, dei um grande passo na minha jornada de autodescoberta: o sequenciamento de DNA. Mas em vez de sequenciar meus próprios genes, preferi conhecer minha colônia de micróbios – meu microbioma. Sabendo quais espécies e cepas de bactérias eu continha, eu teria um ponto de partida para meu autoaperfeiçoamento. Empregando os conhecimentos mais recentes sobre os seres que deveriam estar vivendo dentro de mim, eu poderia avaliar a dimensão do dano e tentar repará-lo. Para isso, procurei um projeto científico civil, o American Gut Project (Projeto Americano do Intestino), que funcionava no laboratório do professor Rob Knight, na Universidade do Colorado, em Boulder. Com seu serviço disponível a qualquer pessoa do mundo em troca de uma doação, o AGP faz o sequenciamento de amostras de micro-organismos presentes no corpo humano para aprender mais sobre as espécies que abrigamos e seu impacto sobre a nossa saúde. Quando enviei a eles uma amostra de fezes contendo os micróbios do meu intestino, recebi uma “fotografia” do ecossistema que fazia do meu corpo seu lar.&lt;br /&gt;
Fiquei aliviada ao saber que, após anos de antibióticos, ao menos alguma bactéria ainda vivia dentro de mim. Foi bom descobrir que os grupos que eu abrigava eram semelhantes aos de outros participantes do American Gut Project, e não criaturas mutantes tentando sobreviver na desolação tóxica. Mesmo assim – e isso era previsível –, os remédios pareciam ter prejudicado a diversidade de minhas bactérias. No nível mais alto da hierarquia taxonômica, os micro-organismos não eram tão variados em comparação com o intestino das outras pessoas. Mais de 97% de minhas bactérias pertenciam aos dois grupos bacterianos principais, enquanto, na maioria dos outros participantes, esses dois grupos correspondiam a cerca de 90% do total. Talvez os antibióticos que tomei tenham exterminado as espécies menos abundantes, restando apenas as mais resistentes. Isso me deixou intrigada. Agora eu precisava saber se essa perda estava ligada a algum dos meus problemas de saúde mais recentes.&lt;br /&gt;
Mas, assim como a comparação de uma floresta tropical com um bosque de carvalhos pela proporção de árvores para arbustos ou de aves para mamíferos pouco nos diz sobre o funcionamento desses dois ecossistemas, comparar minhas bactérias em uma escala tão ampla não revela muito sobre a saúde de minha comunidade interior. No outro extremo da hierarquia taxonômica estavam os gêneros e as espécies dos micro-organismos que moravam em mim. O que a identidade das bactérias que haviam resistido ao tratamento – ou retornado depois que ele terminou – poderiam revelar sobre meu estado de saúde atual? Ou talvez seja mais pertinente perguntar: o que a ausência das espécies que podem ter sido vítimas da guerra química que eu travara significava para mim agora?&lt;br /&gt;
Quando decidi aprender mais sobre nós – meus micróbios e eu – comecei a pôr em prática tudo o que havia aprendido. Eu queria recuperar as bactérias boas, e sabia que precisava fazer mudanças em minha rotina diária para ter de volta a colônia que trabalharia em harmonia com minhas células humanas. Se meus sintomas mais recentes eram resultado do dano colateral que eu inadvertidamente infligira à minha microbiota, será que eu seria capaz de reverter esse quadro e me livrar das alergias, dos problemas de pele e das infecções quase constantes? Minha preocupação não era apenas comigo, mas também com os filhos que esperava ter nos anos vindouros. Como eu transmitiria não só meus genes mas igualmente meus micro-organismos, queria me certificar de que tinha algo que valesse a pena ser passado adiante.&lt;br /&gt;
Tomei a decisão de colocar meus micróbios em primeiro lugar e alterar minha dieta para que ela se adequasse melhor às necessidades deles. O plano era mandar sequenciar uma segunda amostra depois que a alteração em meu estilo de vida tivesse tido tempo de surtir efeito. Eu nutria a esperança de que meus esforços pudessem ficar evidentes na mudança da diversidade e do equilíbrio das espécies de que sou anfitriã. E, acima de tudo, esperava que meu investimento rendesse frutos, abrindo a porta para uma vida mais saudável e feliz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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(Alanna Collen - 10% humano)&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
No inverno de 2010, quando sentia uma dor quase constante e lutava para permanecer acordada por mais de dez horas ao dia, eu estava disposta a tentar qualquer coisa para ficar boa. A possibilidade de que antibióticos pudessem me curar das infecções que vinham infernizando a minha vida era um sonho que eu mal podia acalentar. Sempre serei grata por essas drogas poderosas terem devolvido minha saúde e a plenitude da vida.&lt;br /&gt;
Elas me deram algo mais: a consciência dos 100 trilhões de amigos com os quais compartilho meu corpo. Aprender sobre a contribuição que eles dão à minha saúde e à minha felicidade me deu uma perspectiva inteiramente nova, tanto sobre a minha vida quanto sobre a vida no sentido biológico: a existência e coexistência de seres vivos. Na raiz de minha pesquisa para este livro estava uma busca pessoal. Eu queria saber se havia involuntariamente danificado minha saúde ao causar danos à minha comunidade de micróbios, porém, mais que isso, eu queria saber se seria capaz de reconstruir uma microbiota que pudesse me ajudar a ter uma saúde melhor.&lt;br /&gt;
A beleza da microbiota é que, ao contrário de nossos genes, temos certo controle sobre ela. Quando comecei minha pesquisa para este livro, enviei uma amostra dos micróbios do meu intestino para o American Gut Project. Ao sequenciarem seções do DNA de minhas bactérias, os pesquisadores do projeto puderam me informar quais espécies eu abrigava. Embora eu tenha ficado satisfeita por saber que restavam ao menos alguns micro-organismos após tantos antibióticos, fiquei preocupada com a predominância de dois filos – Bacteroidetes e Firmicutes – em detrimento dos outros. Parecia que a diversidade era algo importante. Eu me perguntei se conseguir alguns micróbios adicionais poderia ser bom para mim e se comer bem poderia me ajudar a obtê-los.&lt;br /&gt;
Entre os grupos detectados em minha amostra, fiquei fascinada ao constatar uma proporção excepcionalmente alta de um gênero chamado Sutterella. Durante a doença, eu havia desenvolvido uma tendência a apresentar “tiques nervosos” quando ficava cansada: os músculos do rosto e do pescoço se contraíam de forma involuntária. Aquilo era irritante e um tanto perturbador. Descobri que bactérias desse gênero também eram abundantes em pessoas com autismo – das quais muitas sofrem de tiques bastante parecidos com os meus. Será que as Sutterella extras eram responsáveis por meus tiques? Por enquanto, é impossível saber ao certo, já que restam ainda muitas pesquisas por fazer, mas aquilo com certeza foi instigante. Claro que vale a pena lembrar que esse campo da ciência ainda está engatinhando. Levaremos um tempo para descobrir exatamente quais papéis os genes, as espécies e as comunidades microbianas desempenham em nossa saúde e felicidade, além de ainda não dispormos dos conhecimentos necessários para diagnosticar problemas de saúde a partir da configuração de nosso microbioma.&lt;br /&gt;
Antes de tomar conhecimento da existência da microbiota – da minha microbiota – eu pensava pouco no que comia. Eu não acreditava na ideia de que “você é o que come” e era cética em relação à noção de que os alimentos pudessem ter um impacto de curto prazo na minha saúde e em meu bem-estar. Eu me alimentava de forma relativamente saudável, nunca exagerava no fast food ou nos doces, mas não estava muito interessada nos legumes, frutas e verduras, comendo apenas uma ou duas porções diárias. Além disso, não tinha ideia do escasso teor de fibras de minhas refeições. Sempre fui magra, o que considerava um sinal de que minha alimentação era saudável. Agora, porém, penso na comida de forma totalmente diferente. Penso não apenas na nutrição que as células humanas podem extrair, mas também no que minhas células microbianas vão comer.&lt;br /&gt;
Não precisei fazer muitas mudanças para me adaptar à minha microbiota – minhas refeições continuam parecidas, apenas com um maior teor de fibras. Meu desjejum, por exemplo, deixou de ser uma tigela de cereal matinal – embalado, com conservantes, açucarado e pobre em fibras – e se transformou numa tigela de aveia, trigo e cevada integrais misturados com nozes, sementes, frutas vermelhas frescas, iogurte natural vivo e leite. É mais gostoso, mais barato e uma festa para os meus micróbios. Continuo comendo uma fritura ou outra nos fins de semana, mas me certifico de que venham acompanhadas de feijões ou uma porção de cogumelos. O arroz branco deu lugar ao integral. Lentilhas substituem as massas de vez em quando. Pão de centeio denso, com nozes, ocasionalmente substitui as fatias torradas de pão branco macio. E, qualquer que seja a comida no almoço, acrescento uma tigela de ervilhas descongeladas no micro-ondas ou espinafre ao vapor. Pelos meus cálculos, aumentei meu consumo de fibras de uns 15 gramas diários para cerca de 60, e foi surpreendentemente fácil. O desjejum sozinho costumava conter apenas 2 gramas de fibras e agora vem abarrotado com 16 gramas – a mesma quantidade que eu comia em um dia inteiro antes.&lt;br /&gt;
Então o que essas mudanças alimentares fizeram com minha microbiota? Mandei uma segunda amostra para ser sequenciada depois que passei a ter uma dieta mais amigável com os micróbios. Pode não ser muito científico, mas definitivamente é gratificante ver meus esforços refletidos na minha população microbiana. No topo da lista de mudanças está um florescimento de ninguém menos que nosso velho amigo Akkermansia, cuja associação com a magreza foi mostrada no capítulo 2. A segunda amostra continha uma quantidade sessenta vezes maior dessa espécie. Consigo até imaginá-las gentilmente persuadindo minha mucosa intestinal a produzir uma bela e espessa camada de muco, protegendo meu corpo da invasão das moléculas de LPS que perturbam o sistema imunológico e alteram a regulação de energia.&lt;br /&gt;
A equipe responsável por produzir butirato, formada por Faecalibacterium e Bifidobacterium, também ficou muito mais numerosa após minha intervenção dietética. Gosto de pensar nelas ajudando as células da mucosa intestinal a permanecerem coesas, acalmando meu sistema imunológico. Até aqui tudo bem, mas houve algum impacto sobre a minha saúde? Parece que as coisas estão melhorando – minha fadiga diminuiu e minhas erupções cutâneas cessaram, ao menos por ora. O tempo dirá se foi por sorte, efeito placebo ou um resultado genuíno de passar a comer mais fibra, mas não é algo de que eu vá desistir. É claro que as mudanças em minha microbiota após adotar uma dieta rica em fibras não são permanentes. Para sustentar indefinidamente os micróbios que ela alimenta, tenho que manter o teor de fibra das minhas refeições no nível apropriado.&lt;br /&gt;
Agora, comer de modo a beneficiar minha microbiota tem uma relevância que vai além da minha própria saúde. Ao considerar a ideia de me tornar mãe, acho que tenho mais motivos do que nunca para cuidar de todas as minhas células, tanto humanas quanto microbianas. Supondo que os antibióticos mudaram para pior minha microbiota, devo recuperá-la ao máximo antes de transmiti-la aos meus futuros filhos. Se comer plantas me ajuda a conseguir isso, então essa é a escolha consciente que faço.&lt;br /&gt;
Até recentemente, eu tinha poucas convicções no tocante ao nascimento e à criação de bebês. Eu apenas confiava que a medicina moderna forneceria os melhores cuidados para mim e meu filho. Hoje continuo confiando – mas somente se as coisas derem errado. Se não – se tudo correr bem – fico com a natureza: o processo de parto usado pelos mamíferos por milhões de anos e o leite que evoluiu de forma a ser perfeito para aquele humano em crescimento. Transmitir uma microbiota que não consista nos micróbios da pele de minha barriga e das mãos dos obstetras e enfermeiros é agora uma prioridade para mim. Se a cesariana for a única opção, pretendo imitar a natureza, esfregando meu bebê com micróbios vaginais como sugere Maria Gloria Dominguez-Bello. Quanto à amamentação, sinto-me preparada para conseguir o máximo de informações, força e apoio para enfrentar dias difíceis de dor, exaustão e inexperiência com um novo bebê. E espero ser capaz de dar de mamar de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde: seis meses de amamentação exclusiva, com amamentação adicional até os dois anos ou além. Este é meu objetivo e minha escolha consciente.&lt;br /&gt;
Finalmente chegamos aos antibióticos. Essas drogas extraordinárias me fizeram dar uma volta completa, deixando para trás um passado de doença infecciosa e passando a um presente de doenças do século XXI. Elas me devolveram uma qualidade de vida que eu temia jamais recuperar, mas ao longo do caminho me levaram a um território novo que eu nunca antes experimentara. A lição não é que os antibióticos sejam ruins. Eles são preciosos, imperfeitos e cobram um preço. Desde a última dose do meu tratamento, tive a sorte de não precisar mais tomá-los. Se eu, ou meus filhos, precisássemos deles de novo – se precisássemos mesmo – eu não hesitaria. Eu os tomaria junto com probióticos, na esperança de reduzir o risco e os danos colaterais. Mas se tivesse a opção de esperar para ver se meu sistema imunológico conseguiria enfrentar a infecção sozinho, essa seria a minha escolha consciente.&lt;br /&gt;
Quanto a mim e meus micróbios, estamos reconstruindo nossa relação aos poucos. Sem antibióticos, minha vida seria bem diferente, mas, agora que estou recuperada, de uma coisa eu sei: meus micróbios devem vir em primeiro lugar. Afinal, sou apenas 10% humana.&lt;br /&gt;
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(Alanna Collen - 10% humano)&lt;br /&gt;
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